Contador:
Última atualização: 22/07/2020

I: “Propriedade de

Nunca pensei que demoraria tanto para eu conseguir alcançar meu objetivo do momento. Fiquei dois anos tentando lutar contra a ansiedade e a depressão e conseguir entrar na faculdade. Cada dia não indo para o cursinho, cada dia que eu não conseguia levantar da cama, cada dia que eu não consegui estudar, não foi totalmente perdido. Eu estava lutando bravamente para poder aceitar o meu estado atual e assim conseguir viver e superar esses problemas. Não ir para o cursinho por um semestre foi uma das melhores e piores escolhas que eu já fiz, perdi o contato social, mas ganhei disciplina. No fim, consegui o que eu queria.
Consegui.
Mas a felicidade não é algo constante, ela é algo que te aparece em alguns momentos, para te dar ânimo para continuar a experimentar viver até que o seu fim chegue. Foi aí que eu recebi a notícia de que minha avó por parte de mãe tinha falecido.
A minha história não é exatamente muito interessante, ela é igual a todas as histórias de pessoas da classe média brasileira, só diminui a semelhança quando eu só tenho a minha mãe.
Minha mãe conheceu meu pai dando aulas para ele no último ano da faculdade de medicina. Meu pai é dez anos mais novo que minha mãe e, quando minha mãe me teve, assim como ela, ele tinha planos para o seu futuro que não incluíam um bebê - pelo menos não por enquanto. Bom, o resto vocês já devem imaginar: ele deixou-a assim que descobriu que ela estava grávida, se mudando para Goiás, enquanto minha mãe tinha que lidar com o fato de que outro ser humano estaria dentro dela crescendo por alguns meses. Ela já tinha quarenta anos, sabia se virar, mas ela não queria exatamente uma criança na sua vida. Minha avó foi uma mulher muito maravilhosa, ela ajudou a minha mãe, que é incrível também, a cuidar de mim. Nunca conheci meu avô também: parece que a minha família era amaldiçoada em relação ao outro que ajudou a fazer o filho.
Éramos nós três, minha avó , minha mãe Débora e eu, Julia. Nosso sobrenome era bem comum também: . Era da minha avó, que passou para minha mãe e depois para mim. A gente era bastante próxima, posso assim dizer. Inseparáveis, desde o momento que eu nasci. Não tenho uma lembrança que não esteja nós três juntas. Até agora.
Minha avó estava já muito idosa, ela tinha 93 anos quando ela não acordou naquele dia do ano de 2093. Eu que a encontrei, tinha ido chamá-la para acordar para tomar o café, tinha achado estranho que ela não tinha levantado antes de mim, mas também eu estava de pé desde as quatro, porque o cão do vizinho passou a noite latindo. Eu não tinha conseguido dormir, portanto acordei e fiquei desenhando, esperando o horário para ir para faculdade. Quando deu seis horas, ouvi o despertador da minha avó tocar, logo fiquei atenta para ouvir os passos dela indo para o banheiro. Mas isso não aconteceu.
Aguardei por uma hora, até que resolvi levantar da cadeira e me arrumar para o meu dia. Aproveitei e fui até o quarto dela, para chamá-la, mas ela não se mexeu. Achei estranho, e quando a toquei para se levantar, senti sua pele gélida. Chamei minha mãe com muito medo e ela veio correndo para o quarto. Minha mãe era médica, mas não era preciso ter feito seis anos de medicina para constatar o óbvio: minha avó já não respirava mais.
Choramos muito, eu me senti completamente desolada, abandonada, longe de alguém que eu amava demais e que nunca mais iria voltar para mim.
Os dias seguintes eu faltei na faculdade, conversei com a coordenadora do curso e ela me deu essa licença de no máximo duas semanas, pois era o que ela conseguia deixar eu faltar, sem eu repetir em absolutamente todas as matérias. O velório foi no dia seguinte do ocorrido.
Era sábado quando eu e minha mãe estávamos arrumando a casa que era da minha avó. Minha mãe morava lá desde que nascera, assim como eu. Então tirar as coisas da vó era algo que estava a matando. Eu disse para ela descansar, enquanto eu terminava o trabalho daquele dia.
Voltei para o escritório e comecei a empacotar tudo que era da minha avó, e minha mãe tinha ido para o quarto dormir um pouco. Eu estava na metade do trabalho quando eu descobri uma caixa que estava no topo do armário. O armário era muito alto chegava quase até o teto, então eu nunca tinha notado aquela caixa ali.
Estranhei e subi em cima da cadeira para a pegar. Vários cadernos estavam jogados ali dentro, com algumas outras coisas que pareciam ser souvenires de outro país. Sentei-me na própria cadeira e coloquei a caixa em cima da escrivaninha. Passei a vasculhar tudo, cada objeto presente naquela caixa. Havia alguns cartões postais, um colar, uns cinco cadernos e mais algumas outras velharias. Todos os cadernos estavam com um cadeado. Eu logo deduzi que poderiam ser diários, mas por que minha avó guardaria esse segredo de mim?
Não tinha a chave para eles, então procurei no meu quarto um grampo. Não sabia se isso daria realmente certo, tinha visto na televisão várias vezes eles utilizarem o grampo para abrir cadeados e fechaduras. Mas não tinha nada a perder.
E deu certo, abri todos os cadernos.
Joguei o grampo em cima da mesa e comecei a folheá-los, dando certeza para a minha dúvida: eram diários sim. Agora, descobrir a cronologia deles foi outra tarefa difícil. Mas assim que eu consegui, os separei em ordem.
Peguei o primeiro caderno e abri na primeira página.
“Propriedade de

— Hum. — Eu soltei e virei a página.
Tinha no canto direito uma data: 12 de julho de 2019. Minha avó tinha uma letra muito bonita, mas ali no diário conseguia estar ainda mais. Aconcheguei-me na cadeira e comecei a ler.

II: Vamos repetir isso algum dia

Querido diário,
É estranho para mim começar a escrevê-lo, mas meu pai, que era professor de inglês, me inspirou a ter o meu próprio registro de vida. Não sei exatamente até quando eu vou manter isso, mas eu sinto que está sendo estritamente necessário no momento.
Por onde começar?
Essa é uma pergunta muito difícil. Como decidir qual momento da história seria plausível colocar aqui para que eu futuramente entenda onde que tudo começa? Acho que podemos começar quando eu me mudei para Holmes Chapel, em 2009.
Eu era uma criança de apenas nove anos, quando meu pai me levou para a Inglaterra. Ele tinha conseguido um novo emprego na escola Holmes Chapel Comprehensive School como professor. Eu era muito nova para entender que mudar de país nessa idade poderia deixar marcas na minha própria personalidade, mas para mim, naquela época, era como se tudo fosse uma grande aventura.
Eu era a única brasileira na minha escola. As pessoas não ligavam muito para mim, mas ao mesmo tempo os professores, sim. Eles se importavam tanto para que eu não me sentisse excluída que obrigaram um dos alunos a ser meu amigo, Charles. Eu achava que estava apaixonada por ele, tinha até escrito um cartão para o dia de São Valentim, decorado com várias lantejoulas e purpurina. Um desenho de mim dando a mão para ele em um parque com um arco-íris no fundo. Eu tinha achado que estava um máximo. Desci as escadas de casa, passando pelo escritório de meu pai, que deveria estar corrigindo algumas provas, e corri para fora.
Andei até o fim da rua, não era muito longe da minha casa, e coloquei na caixa de correio. Eu estava muito nervosa, mas achava que eu iria conseguir conquistá-lo com o meu desenho. Então voltei saltitante para minha residência, quando eu vi um garoto andando em direção a uma casa. Ele não era exatamente o garoto mais bonito do mundo, Charles era mil vezes mais, porém ele era mais velho. Ah, bem mais velho. Deveria ter uns quinze anos, enquanto eu só tinha meus humildes nove.
Ele não chegou a olhar para mim, mas eu fiquei o observando até ele entrar em sua casa. Foi aí que eu soube que estava apaixonada. Droga, não devia ter mandado o desenho para Charles!, pensei.
Eu não fazia ideia de quem ele era, então tentei arrancar isso de meu pai. Acabei descobrindo que meu pai era professor dele, e que seu nome era Harry.
Harry.
Já soa apaixonante, não? Era o nome do príncipe. Isso fez com que meu coração acelerasse ainda mais.
Bom, Harry nunca descobriu quem eu era. Nem chegou a falar comigo, mesmo quando meu pai convidou a família dele para jantar na minha casa. Ele era bem mais velho, então porque ele iria olhar para uma criança de nove anos, não é mesmo? Não o culpo. Mas vê-lo ainda de mais perto era simplesmente magnífico.
Um ano se passou e eu me sentia mais adulta. Harry tinha uma banda que eu adorava ficar ouvindo tocar. Eu me encostava na janela, escondida atrás das cortinas, e escutava eles que tocavam do outro lado da rua. Eu amava a voz dele. Eu amava tudo nele.
Charles se mudou e eu nunca mais o vi. Tive que arranjar um novo amigo para que eu não me sentisse completamente sozinha, e essa pessoa foi Georgia. Ela também era aluna de outro país, Itália. Ficamos inseparáveis, e eu nunca contei a ela sobre a minha paixão secreta, mesmo quando ela foi em casa e eu me encostei na janela para escutar a banda dele tocar. Agora pensando, ela provavelmente desconfiava de algo, mas não queria me perguntar nada.
Descobri mais tarde que Harry estava participando de um Reality Show, chamado The X Factor. Eu torcia para ele conseguir ser aceito e passar das fases. Mas quando ele se juntou a outros garotos que eu nunca tinha visto, eu me desanimei um pouco. Como seria possível as pessoas apreciarem a música dele, se agora ele tinha que dividir o palco com mais quatro rapazes?
Tudo estava até que bem, então eu descobri que ele estava tendo um caso com uma mulher mais velha. Isso me deixou tão arrasada que resolvi nunca mais saber de Harry Styles de novo. Meu pai até chegou a perguntar para mim o que estava acontecendo, por que eu não estava mais assistindo meu Reality Show favorito, mas eu respondia sempre que tinha perdido o interesse. Ele não sabia que Harry estava lá, e muito menos da minha paixonite por ele.
No fim, Harry e sua boy band não ganharam o reality, ficaram em terceiro, mas acabaram fazendo mais sucesso que os outros vencedores. Eu tinha, já com meus doze anos, esquecido completamente dele – ok, não completamente – até que minhas amigas da escola apareceram cantando uma música chamada What Makes You Beautiful. Eu tinha amado essa música e quando eu fui pesquisar de quem era, quase caí de costas: lá estava Harry novamente.
Bom, a partir daí, tentei ignorar o máximo possível a One Direction, foi uma tarefa difícil, eles estavam por toda parte. A memória de Harry me deixava um pouco mal, lembrar que ele estava morando perto de mim e que eu era só uma criança, além dele ter tido um caso com aquela mulher, tudo, todas as lembranças que eu tinha me deixavam um pouco abalada.
Foi com 15 anos que eu me mudei para Londres e oficialmente eu tinha esquecido de tudo isso. Eu estava longe dessas notícias, estava mais concentrada em viver minha vida do que naquela boy band. Foi ótimo por um tempo, cresci bastante, amadureci bastante. Sofri um pouco de bullying na escola no ensino médio, eu era muito magricela e tinha uma cabeça maior, nada proporcional com o meu corpo. Gostava muito de estudar, mas meus colegas achavam isso muito estranho, combinado com a minha aparência. Meu apelido era “estranha ” e eu odiava muito esse apelido, só consegui me libertar dele quando eu me formei na escola.
Entrei em Oxford em Psicologia, e foi o ano mais intenso e legal da minha vida. Encontrei um namorado que era ótimo para mim, seu nome era Steven. Ele amava as mesmas coisas que eu: andar de bicicleta, filé a parmegiana e Beatles. Não tinha como ser mais perfeito do que isso.
Eu e Stevie éramos inseparáveis. Todas as minhas primeiras vezes foram com ele, desde as mais simples e fofas, até as mais, hã, pessoais.
Durou pouco, nos separamos no começo desse ano de 2019, eu voltei para Londres e me transferi para a faculdade King´s College London. Meu pai me recebeu de braços abertos e ele sempre dizia que foi a melhor decisão que eu já tinha tomado. Acontece que em Oxford eu tinha muita liberdade, mas ter que ver Steven todos os dias estava me deixando muito mal.
Eu estava de férias, no mês de julho, e passeava pela cidade que eu mais amava no mundo. É verdade que eu não tinha as melhores memórias de lá, mas estar junto do meu pai, e poder ter um recomeço, era maravilhoso.
Parei em uma sorveteria em uma das esquinas e pedi o meu sabor favorito: cookies. Esperei para que o moço pegasse meu sorvete e enquanto isso fiquei batucando de qualquer jeito na bancada.
— Você até que tem ritmo, hein.
Uma voz disse ironicamente isso atrás de mim, e eu logo a reconheci.
Harry Styles.
Eu fingi demência, obviamente, e o ignorei completamente. Não era possível, eu estava vivendo alguma fanfic por caso? Deus, eu gostaria muito que a minha vida ficasse normal, por favor. Bom, também eu já estava emocionada demais, pensando que essa única frase poderia mudar a minha vida toda. Era óbvio que não, pensei. Eu não iria me casar com ele só porque ele disse que eu não tinha qualquer senso de ritmo e essa frase não era um pedido de casamento. O que me fez pensar se ele estava solteiro ou não.
Peguei sorrateiramente o celular e busquei por seu nome no google. Várias informações inúteis estavam lá. The X fator, blá blá blá, One Direction, blá, blá, blá… Espere. One Direction acabou?
Cliquei em uma matéria que falava sobre isso e fiquei absolutamente chocada. Fazia anos que eles tinham se separado. O quê, Zayn saiu primeiro? Ele disse que não era amigo deles de verdade? Nada me surpreende, sempre o achei meio na dele mesmo. Vejamos, Harry está agora em uma carreira solo, já lançou um álbum, seu maior hit é Sign Of The Times. Cliquei para ver a letra da música, e enquanto isso o sorveteiro estava com dificuldades para pegar o meu sorvete.
Um piano começou a tocar bem alto do meu celular, e a voz de Harry na música apareceu. Eu estava com o coração acelerado demais, tentando desligar aquela música de todas as maneiras. Pude ouvir uma risada debochada dele, o que me fez sentir ainda mais ódio por ter clicado sem querer para tocar a música.
— Aqui, senhorita. — O sorveteiro estava com o meu sorvete na mão. — Cuidado, está derretendo um pouco. Tome, pegue esse pote e coloque nele. Isso, assim.
Eu coloquei o sorvete no pote enquanto a música ainda tocava, então eu só desliguei meu celular e tudo parou.
— Obrigada. — Eu disse, e corri para fora de lá.
Meu Deus, que VERGONHA.
Não quis nem olhar para trás, eu estava apressada demais. Procurei meu celular que eu tinha deixado no bolso. Meu sorvete derreteu muito, então eu parei de andar e me sentei em um banco na rua. Respirei fundo e tentei controlar a menina de dez anos dentro de mim.
Não encontrei em nenhum dos meus bolsos o meu celular e entrei em pânico. Ótimo, além de tudo eu agora tinha o perdido.
— Maldito Harry Styles.
— Ei, calma aí, eu só vim devolver seu celular.
Virei rapidamente para minha esquerda de onde tinha vindo a voz e lá estava ele de novo, com óculos de sol no rosto e um sorvete de um sabor aleatório na mão — a cor era amarela. Na outra mão ele tinha meu celular e estava com um sorrisinho no rosto.
— Ah. — Eu disse e estiquei a mão para receber meu pertence. Ele me entregou e eu enfiei o celular no bolso da calça jeans. Pude ouvi-lo respirar fundo e então ele se sentou ao meu lado no banco. Minha boca começou a ficar seca e meu coração estava disparado.
— Eu estava esperando um “obrigada pela gentileza, Harry”. Ou quem sabe “Valeu, camarada!”. Não, essa última ficou muito comunista, não acha? — ele disse e eu me mantive quieta, não porque queria, mas porque se eu abrisse a boca não iria conseguir falar absolutamente nada. Harry esperou alguns segundos e riu. — Caramba, minha aparição te deixou mesmo sem palavras.
Eu olhei para a minha direita e tentei ignorá-lo o máximo possível. Pigarreei e tentei molhar os meus lábios passando a língua por eles, mas nem isso estava fazendo com que minha boca voltasse ao normal.
— Ok, vou embora. — Ele disse e se levantou. Eu o olhei começando a caminhar, até que ele olhou para atrás. Harry Styles sorriu de lado e parou de andar. — Tudo bem?
— Ér... Hum... — eu tentei dizer, mas nada saía. Fale alguma coisa, sua anta!, foi o que eu pensei.
— Uau. Poético.
— Olha, você está atrapalhando meu momento. — Eu consegui dizer atropelado depois de muito esforço. Ele estranhou.
— Poxa, desculpa. Só achei que você era mais uma fã e que ficaria feliz em me acompanhar nesse sorvete.
— Querido, como você bem viu, eu tive que pesquisar no google quem você era. Acho que eu não sou uma fã. — Menti essa última parte. Eu era fã dele desde que eu o ouvi pela primeira vez, do outro lado da rua.
— Você me é muito familiar. — Ele disse e deu um passo para frente, meio incerto. — Qual é o seu nome?
. — Eu disse, sem acreditar que ele poderia mesmo se lembrar da pirralha que eu era.
— Ok, e o sobrenome?
Fiquei em silêncio. Então respondi.
.
Harry bateu na perna e sorriu.
— Sabia que te conhecia! Você é a filha do meu professor de inglês do colegial, não é? — Ele voltou a se sentar do meu lado. Fiz que sim e até a minha respiração estava trêmula. Não estava acreditando que isso estava acontecendo. — Você...
— Com licença. — Uma garota que parecia ter uns dezessete anos parou na nossa frente. — Você é o Harry, não é?
— Esse sou eu! — ele disse sorrindo para ela, um sorriso amigável. Ela esticou a mão com o celular para mim.
— Você poderia tirar uma foto nossa, por favor? — ela se virou para ele. — Eu sou muito a sua fã. Caraca, tô muito feliz de ter te encontrado!
Harry olhou para mim e arqueou a sobrancelha, como se dissesse “Viu, só?”.
Eu me levantei e tirei a foto para eles. Harry abraçou a menina e ela disse obrigada muito emocionada. A garota seguiu seu caminho e eu peguei meu sorvete que tinha deixado no banco. Voltei a tomá-lo, agora de pé, e ele deu uma lambida no seu.
— Então — ele começou — você e seu pai estão morando agora em Londres?
— Sim. — Respondi.
— Legal. — Ele deu outra lambida. Harry olhou para distante de mim e continuou a tomar o sorvete.
— Você está morando aqui? — Perguntei dando alguns passos para direita. Ele voltou seu olhar momentaneamente para mim.
— Nah, eu moro no mundo. — Ele respondeu, agora andando para a sua direita, e percebi que estávamos começando a andar em círculo. Ficamos em silêncio a partir daí. Eu estava terminando meu sorvete quando olhei para distante dele, o mesmo local que ele olhou anteriormente, e vi um homem atrás de um arbusto com uma câmera. Dei risada e virei de costas rapidamente. — O que foi?
— Paparazzo. — Eu respondi e ele deu de ombros.
— Qual o problema?
— Nada, eu só não quero ficar famosa. — Respondi, e ele e eu andamos em círculo de novo.
— Fique tranquila, eu converso com todo mundo o tempo inteiro e nem por isso todos ficam famosos. — Ele disse meio debochado e eu involuntariamente olhei para ele com os olhos semicerrados. Esse não era o garoto que eu me lembrava de gostar quando eu era pequena.
Terminei meu sorvete e joguei o pote no lixo ao lado do banco. Harry me olhou de relance.
— Você está com o queixo sujo. — Ele disse e eu não sabia aonde enfiar a minha cara de tão envergonhada que eu estava, acredite. Passei a mão no queixo e limpei o sorvete de lá.
— Bom, a conversa foi muito legal. Vou indo. — Eu disse e sorri amarelo para ele. — Boa sorte aí.
— Ah, obrigado. — Ele disse e eu comecei a sair de lá. — Ei!
Eu me virei para ele.
— Qual é o seu nome mesmo?
. — Disse com ar indiferente.
. Legal. — Ele deu uma última mordida na casca do sorvete. — Vamos repetir isso algum dia. Foi maneiro.
E assim foi meu reencontro com Harry Styles. Vamos repetir isso algum dia. Ah, você não sabe o quanto que eu fiquei repetindo essa conversa na minha cabeça, diário. Muitas vezes. Tipo, muitas, mesmo.

III: Não sabia que você lembrava dessa música assim

Terminei esse primeiro dia e virei a página. Harry Styles não era aquele cantor que morreu ano passado? Minha avó tinha conhecido ele? Caramba, e ela nunca me contou isso. Consigo até ver ela se vangloriando dessa história... Bom, não deve ter passado disso, pois ela realmente não mencionou isso em nenhum momento.
— Querida? — Minha mãe apareceu na porta do escritório. Eu fechei o diário e olhei para ela.
— Oi. — Respondi.
— Vou pedir o almoço, tudo bem? Não consegui descansar. Pode ser comida chinesa?
— Claro. — Eu disse e ela lançou um sorriso solidário para mim, logo saindo dali. Eu estava pronta para começar outro dia do diário, mas meu celular apitou. Era uma mensagem de Diego.
Como explicar quem é Diego? Diego era meu melhor amigo do momento. Meu ficante. Meu amigo colorido. Eu o conheci no cursinho e ele entrou na mesma faculdade que eu, então nos mantivemos muito próximos um do outro. Quando teve a primeira festinha universitária, eu fui com ele e mais alguns amigos, e, aleatoriamente, nos beijamos. A partir dai toda vez que a gente se encontra nós ficamos. Mas não somos nada um do outro, além de amigos que se beijam.
“Como você está? ☹”
Olhei para os diários em cima da escrivaninha e suspirei. Comecei a digitar.
“Tentando. Está difícil. :´(“
Esperei alguns segundos e logo a resposta estava lá.
“Qualquer coisa eu estou aqui, você sabe.”
Sorri. Outra mensagem.
“Quer que eu vá até a sua casa te ajudar?”
“To te esperando.”
Resolvi tomar um banho e passar um perfume para tentar tirar aquele ar de cansada e acabada que eu estava; estava jogada no sofá quando ele me manda mensagem dizendo que chegou. Vou até o portão da minha casa e abro para ele. Lá estava Diego, cabelos encaracolados. Barba. E aquela barriguinha que era uma delícia de apertar.
Ele se aproximou para dar um abraço em mim e eu aproveitei e apertei sua barriga.
— Ei! — Ele reclamou, mas eu sempre fazia isso, então apenas nos abraçamos e o convidei para entrar. Minha mãe estava também no sofá da sala lendo um livro, enquanto esperava a comida chinesa chegar. Ela desviou o olhar do livro para Diego e sorriu.
— Ah, oi, querido! Puts, acabamos de pedir comida! Ainda bem que eu e Julia não conseguimos comer tudo — minha mãe riu e ele a acompanhou.
— Fica tranquila, Débora! Eu já almocei! — Ele disse e eu o puxei para o corredor.
— Estaremos no meu quarto! — Eu disse por cima do ombro.
— Porta aberta! — Minha mãe respondeu.
Ele logo se sentou na minha cama, enquanto eu me sentava na cadeira giratória da bancada. Liguei a caixa de som da JBL e escolhi uma playlist aleatória do spotify. Só você do Dennis DJ, uma música dos anos 2010’s, começou a tocar, e eu e Diego nos olhamos rindo.
— Não acredito que você tem salvo essa música. — Ele disse e eu girei a cadeira para de costas a ele.
— Não é minha a playlist, é uma qualquer do aplicativo.
— Ah, tá. E é coincidência a música que a gente se pegou naquela primeira festa estar no seu celular? — ele disse e pude ouvi-lo sorrir.
— Não sabia que você lembrava dessa música assim. — Eu respondo me virando para ele e Diego revira os olhos. Eu já tinha dito a ele que essa era a música que me lembrava dele, mas ele estava bêbado demais para se lembrar disso. Aparentemente, ele não estava.
Diego puxou a minha cadeira de rodinhas para perto dele, segurando na base entre as minhas pernas e pegou o celular da minha mão. Ele trocou a música para outra e a brincadeira terminou. Eu estava gostando dessa tensão sexual que estava se formando entre mim e ele, mas parece que ele não estava muito afim hoje disso.
— Então... Como está sendo para você desmontar a casa e vasculhar todas as coisas da sua avó?
— Ah — suspiro. — Não sei... Estranho, eu diria. Caramba, você não vai acreditar! — me lembrei rapidamente da caixa que eu encontrei no escritório. — Minha avó morou na Inglaterra.
— Você já tinha me dito isso.
— Eu sei, mas agora eu sei das histórias dela por lá! — eu disse e ele me olhou estranho. Balancei a cabeça. — Eu encontrei os diários da minha vó de quando ela morou por lá.
— Sério? Caceta, deve ser muito legal! Ela escreveu em português?
— Claro, besta! — Eu bati no seu braço. — E tem mais. Sabe aquele artista que faleceu ano passado?
— Qual deles?
— Harry Styles. — Eu disse e ele arqueou a sobrancelha. — Ele e minha avó foram vizinhos, acredita?!
Ele começou a rir.
— Tem certeza que você não está lendo uma fanfic? — Diego disse e eu fiz que não.
— Tenho! Quer dizer, não sei... Agora você me deixou em dúvida.
Arrastei a cadeira para longe dele e me apoiei na mesa. Diego manteve silêncio comigo por um tempo. Será que aquilo não são diários, são apenas histórias inventadas por minha avó? Ela não é de mentir, nunca foi. Mas se for verdade, por que ela escondeu isso de mim?
Diego se levantou e me abraçou por cima dos ombros, me dando um beijo no topo da cabeça.
— Eu estava brincando. Pode ser real, sim. — Ele disse e eu assenti. Levantei-me e ele me abraçou direito. Comecei a chorar. Estava sendo muito difícil de viver sem ela por perto, sem ela me dando carinho, sem ela me dando conselhos... Minha avó é uma pessoa incrível. — Chore, bota para fora.
Foi o que ele disse. Já estava molhando a manga da sua camisa quando eu ouvi os passos da minha mãe. Tentei me recuperar rapidamente, mas apenas me virei de costas para a porta, deixando para ele falar com ela.
— Pessoal, a comida chegou. Vamos comer? — ela disse e Diego assentiu. Minha mãe foi para a cozinha e ele se voltou para mim. Eu apenas fiz que sim e ele esticou a sua mão para mim, logo eu a segurei.
Almoçamos todos, contando histórias da minha avó, mas deixei de lado o que eu li no diário dela. Ainda não tinha certeza se era real aquilo ou não, mas eu logo descobriria.
Di e eu ficamos arrumando o resto do escritório, enquanto minha mãe estava na sala, organizando os CDs da vó . A noite chegou e minha mãe disse que ia tomar um banho. Ficamos eu e ele com a casa só para nós, mas eu não estava com vontade de safadeza no momento.
Conseguimos arrumar tudo, menos os diários, e ele se sentou na minha cama, comigo ao seu lado, eu com o primeiro dos cadernos na mão.
— Você pode ler para mim, se quiser. — Ele disse e eu o encarei. Não era algo muito pessoal da minha avó para compartilhar com ele? Bom, eu nunca menti para ele, nem escondi nada...
— Ok. — Eu respondi. Abri o diário.

IV: Socorro

Querido diário,
Você já deve ter percebido que eu não escrevo todos os dias, apenas os dias que eu considero que foram importantes, certo? Então vou atualizá-lo sobre tudo.
Desde aquele dia que eu encontrei Harry, eu mantive segredo. Não contei para o meu pai, não disse a ninguém. Realmente, nenhuma foto foi publicada comigo, acho que o paparazzo não achou relevante. Eu achei ótimo. Mas...
Vamos repetir isso algum dia. Como eu escrevi, isso ficou por muito tempo na minha cabeça. Eu andava sempre atenta pelas ruas de Londres, verificando se algum cantor famoso apareceria de repente para conversar comigo sobre o passado. Secretamente eu desejava que isso acontecesse, não podia esperar para esse “algum dia” acontecer, mas por duas semanas nada aconteceu.
Um dia estava chovendo muito, precisava comprar algumas coisas no supermercado, e meu pai estava muito cansado, então ele me disse para que eu fosse e tomasse cuidado. Consegui comprar tudo que faltava, então voltei para a casa, com o guarda-chuva na mão e as sacolas de papel na outra. Eu estava incrivelmente fazendo malabarismos para manter tudo equilibrado, até que eu deixei uma das sacolas cair no chão. Suspirei e desejei que não fosse a dos ovos e, por um milagre, não era, era apenas do pão.
Não sabia como fazer para pegar a sacola, agora toda molhada, sem largar o guarda-chuva. Equilibrei-o entre meu pescoço e ombro, e com a mão livre peguei a sacola do chão.
— Quer uma ajuda?
Tinha que ser ele, obvio que tinha. Eu olhei para frente e lá estava Harry parado com um guarda-chuva transparente em uma das mãos. Eu realmente pensei em recusar, mas eu não estava exatamente em um bom lugar para fazer isso.
— Por favor. — Eu disse e ele pegou a sacola da minha mão. Eu me levantei e segurei o guarda-chuva normalmente. Arrumei a barra da minha blusa que tinha subido, e ele desviou o olhar.
— Onde que é o destino? — ele me perguntou e eu comecei a caminhar com ele ao meu lado. — Você me é familiar...
— Ah, não, isso de novo? — eu respondi e ele riu.
— O quê? Eu já disse isso? — ele perguntou.
— Harry. Eu não vou nem te responder.
— Estou brincando. , certo? — atravessamos a rua correndo e chegamos do outro lado, quase na minha casa.
. — Por que eu realmente achava que ele conseguiria se lembrar de mim, mesmo? Ele é muito arrogante para isso.
Minha casa estava na nossa frente e eu fechei o guarda-chuva assim que chegamos na varanda de casa. Ele fez o mesmo, e eu entreguei as outras compras para ele, procurando em seguida a chave no meu bolso. Ouvi alguma coisa e quando olhei para ele, Harry estava deixando as sacolas ao meu lado no chão.
— Bom, acho que é isso. Tenha um bom dia, ! — Ele disse e eu fiquei muito decepcionada que ele não iria entrar, mas orgulhosa do jeito que sou, não iria convidá-lo. Portanto, eu apenas fiquei olhando para o seu rosto e minha expressão devia estar muito engraçada porque ele deu uma risadinha. — O que foi?
— Eu é que te pergunto.
— Como assim?
— O que tem de tão engraçado? — eu disse e quando ele estava prestes a responder, meu pai abriu a porta, dando-me um grande susto. Olhei para ele que me devolveu o olhar e depois encarou Harry.
— Tudo bem, posso saber quem é esse aí? — Meu pai questionou. Harry sorriu.
— Sou eu, professor ! Harry, lembra?
Meu pai ficou alguns segundos processando, até que ele pareceu se lembrar.
— Ah, Harry Styles? — ele disse de repente e Harry fez que sim, ainda sorrindo. — Caramba, e a que devo a ilustre visita? Você não é um popstar agora ou algo do tipo?
Harry riu tímido.
— É, tipo isso.
— E como está a sua banda? Como chamava mesmo...?
— White Eskimo. — Harry respondeu.
— Não, não essa, a que te tornou famoso.
— One Direction. Mas eles não estão mais juntos. — Eu disse e meu pai me repreendeu com o olhar.
— Ah, certo. — Ele se aproximou de mim. — E você, vamos conversar mais tarde.
Juntei meus lábios em uma fina linha e assenti.
— Harry já estava de saída. — Eu disse e Harry fez que sim, se preparando para virar as costas e partir. Meu pai o interrompeu levantando a mão.
— Imagina! Entre, Harry! Que tipo de reencontro seria esse se eu não te convidasse para entrar?
Harry olhou para mim e eu olhei para ele, os dois com uma expressão de “socorro”.

V: Socorro; 2093

— Querida, eu já saí do banho! — minha mãe apareceu na porta do meu quarto, me interrompendo. Ela olhou para o caderno nas minhas mãos. — O que é isso?
— Ah — eu olhei para Diego pedindo ajuda. — É só...
— Uma história que eu escrevi! — Ele respondeu.
— Não sabia que você gostava de escrever. — Minha mãe desencostou da porta e sorriu.
— É, pois é! Eu estou começando! — Ele passou a mão por detrás da cabeça e eu respirei aliviada. — Ju estava lendo para mim...
— Ele queria ver como estava soando, sabe? — Eu disse rapidamente. Minha mãe assentiu.
— Que legal! Eu vou terminar de organizar os CDs da sua avó, querida, e depois vou dormir, ok? Não fiquem muito tempo acordados! E, Diego, - ela se virou para ele — se você quiser dormir aqui, querido, pode sim, tá? Essa Julia aí, se depender dela, demoraria anos para fazer essa simples pergunta.
— Mãe! — Eu disse e ela riu, acenando.
— Ok, já estou indo. Até mais! — E assim ela desapareceu pelo corredor. Olhei para meu amigo e a mesma expressão de socorro que minha avó descreveu no diário tinha aparecido nos nossos rostos.
— Por que você não quer contar a ela? — ele perguntou, enquanto brincava com o cordão do casaco. Dei de ombros.
— Eu só acho que ainda não é a hora. — Eu respondi e ele assentiu. — OK, onde estávamos?

VI: Cantar é uma habilidade secreta minha

Harry, eu e meu pai jantamos sanduíches de atum, enquanto Harry contava sobre sua vida de famoso para nós. Ele parecia bem empolgado enquanto dizia quantos famosos se tornaram amigos dele, ele não mencionou as namoradas que teve — Aliás, nota: pesquisar as namoradas de Harry Styles durante esses anos — e disse que sentia falta dos seus parceiros de banda, mas que estava adorando se aventurar sem eles.
— E ano que vem fazemos dez anos de banda — ele jogou o guardanapo amassado em cima do prato e juntou as mãos. — Não sei ainda o que vamos fazer, mas com certeza será algo bem especial.
— Ah, entendi — meu pai disse. Papai deu um gole em seu vinho e depois pigarreou. — E como anda a sua mãe? E sua irmã, Gemma, certo?
— Ah, elas estão bem. — Foi só o que ele disse. Ficamos em silêncio, eu chutei sua perna embaixo da mesa e ele continuou. — Muito contentes como eu, vendo aonde eu estou chegando.
— Certo. Que ótimo! — meu pai limpou o bigode no guardanapo. — E como você encontrou a minha filha, mesmo?
— A gente está em um relacionamento secreto já faz dois anos. — Ele respondeu e eu dei outro chute na sua perna.
— Claro que não, pai, ele está brincando. — Eu disse observando o rosto do meu pai mudar de preocupado para outra expressão não identificável. — Eu o vi passando por aí enquanto eu voltava do supermercado e ele só me ajudou a carregar as compras. Nada demais.
— Hum. — Ele olhou para Harry, que sustentou o olhar até se sentir intimidado e olhar para mim.
— Bom, foi um jantar maravilhoso! Adorei passar um tempo com vocês, revê-los, e ainda colocar o papo em dia, mas, ah, olha só, eu tenho que ir! — Ele disse arrastando a cadeira para trás, e eu fiz o mesmo, me levantando junto a ele.
— Ah, o que é isso, Harry, pode ficar mais tempo se quiser! — Meu pai respondeu e ele só sorriu.
— Eu realmente gostaria, senhor , mas eu tenho um compromisso. — Harry disse e eu assenti.
— É melhor assim, pai. — Eu disse. — Vou levá-lo até a porta.
— Claro. Obrigada, mais uma vez, senhor!
Meu pai apenas assentiu e eu puxei Harry, tomando essa liberdade, para em direção ao corredor que dava na porta de casa. Paramos em frente a porta, eu olhei para dentro da cozinha para ver se papai estava lá a espreita. Respirei fundo e voltei meu olhar para Harry Styles. Caramba, Harry Styles. Ele estava mesmo na minha casa, depois de dez anos.
— Bem, isso foi bem estranho — ele cantarolou a última palavra e eu só coloquei o dedo indicador na minha boca, dizendo para ele ficar quieto. Harry levantou as mãos. — Desculpe.
— Escuta, seria ótimo se você parasse de aparecer de repente e tentar participar da minha vida a todo custo... — eu comecei, mas foi ele que agora fez o sinal para que eu calasse a boca.
— Você está sedenta por atenção, não é mesmo, garota? — Ele me disse um pouco bravo.
— Ok, diga o que você quiser, só, por favor, não apareça mais aqui, e tente ficar o mais longe o possível de mim, tá? — Eu destranquei a porta. Harry arqueou a sobrancelha.
— Duas coisas: primeiro, esta cidade é grande, mas nem tanto. Talvez nos encontremos de novo, não há como saber. E segundo, qual é o problema disso? — Ele riu.
— Eu só não quero te encontrar, tudo bem? — eu respondi.
— Tá, mas isso não faz sentido. O que foi que eu fiz para você? Te ofendi de alguma forma? — ele parecia preocupado. Eu só balancei a cabeça e abri a porta.
— Não!
— Então o que foi? — ele perguntou e eu me exasperei.
— Olha, você não é exatamente a companhia que eu estou querendo para minhas férias.
— Calma! — ele soltou. Comecei a respirar calmamente e ele me acompanhou. — Assim está melhor?
Eu não respondi.
— Olha, eu posso te provar que eu sou uma pessoa boa, se você deixar. — Ele disse e eu o encarei com uma expressão de louca provavelmente, porque ele deu um passo para trás.
— Eu não quero.
— Vamos lá, que tal se a gente sair um pouco? Conversar e quem sabe tomar alguma coisa? — ele passou a língua entre os lábios.
— Você não estava de saída, Harry? — Meu pai apareceu e eu tomei um susto.
Harry olhou para mim e depois para ele, e disse que sim. Ele fechou a porta atrás de si e eu estava olhando para o chão, pensando que eu sempre quis que ele me notasse, sempre. Aquilo devia ser uma porra de um sonho, não era possível. Eu devia imaginar que ele só queria uma coisa de mim, provavelmente. E eu daria isso a ele?
— Pai, só um minuto, acho que eu esqueci um negócio lá fora. — Eu disse e abri a porta, fechando-a atrás de mim, sem dar chance para que meu pai dissesse algo. — Ei!
Vi Harry já com seu guarda-chuva em mãos, caminhando para o fim da rua. Ele parou e olhou para mim. Eu assenti para ele e Harry sorriu. Diário, aquele sorriso poderia matar qualquer um, eu juro. Mas eu me mantive plena e caminhei ao encontro dele, assim como ele fez também. Ficamos a dois passos de frente um para o outro.
Harry estendeu a mão para mim e eu não entendi.
— Celular. — Ele disse e eu procurei no meu bolso meu aparelho. Entreguei a ele e observei Harry Styles gravar seu número no meu celular, em seguida tirando uma foto com a língua de fora para provavelmente colocar no contato. Ele me devolveu o celular e entregou o seu junto. Olhei para o celular e coloquei o meu número no dele. — Foto.
Eu olhei para ele estranha, mas ele apenas fez com a mão para que eu continuasse. Abri a câmera e pude ver como eu estava horrorosa aquele dia. Deixei esse pensamento ir embora e sorri para a foto. Depois entreguei o celular de volta ao dono e ele sorriu, colocando-o no bolso de trás da calça.
— Espere eu mandar a mensagem, ok? — Ele disse e bagunçou meus cabelos com a mão. Eu empurrei a mão dele para longe como reflexo.
— Se você quer que eu te ache uma pessoa legal, não faça isso. Odeio que mexam no meu cabelo. — Eu disse e ele estava apenas sorrindo.
Harry foi embora e eu voltei correndo para casa. Deixei o guarda-chuva na varanda e assim que eu entrei, meu pai estava parado, me encarando.
— Encontrou o que você procurava? — ele perguntou e eu parei. Fiz que sim. Meu pai suspirou. — Ele é encrenca, . Se eu fosse você ficaria longe desse rapaz.
— Qual é pai, eu já sou bem grandinha, não acha? Além do mais, eu só o encontrei na rua, nada demais.
Meu pai ficou me observando mentir.
— Certo.
Depois disso corri para o quarto. Os dias que se seguiram foram os mais torturantes possíveis. É claro que eu estava criando grandes expectativas para essa mensagem, se ela acontecer mesmo. O que ele estava em mente? Tudo bem, eu sei que ele quer me levar para cama, e isso é só um joguinho besta que ele está fazendo, mas precisa me torturar dessa maneira?
Passei os dias sem saber como prosseguir sem pensar em Styles, uma tarefa muito difícil. Eu estava jogada na minha cama, olhando o facebook, quando eu me lembrei de pesquisar sobre as namoradas de Harry. Eu estava obcecada, queria conversar com alguém sobre, mas eu estava sem amigos naquele momento e não podia contar ao meu pai, pois eu tinha certeza que ele iria excluir o contato de Harry e o bloquear no meu celular. Abri o site de pesquisa e joguei ali, esperando as informações aparecerem.
Descobri que ele namorou Taylor Swift e Kendall Jenner, saiu com algumas outras famosas. Encontrei também várias fanfics sobre ele e um dos acompanhantes de banda, Louis. Eu acabei me distraindo com uma das fanfics, lendo-a, e pensando “quem era eu na fila do pão?”. Tanta gente mais bonita e mais interessante nesse mundo que ele já ficou e eu aqui, já planejando nosso casamento. Parei de ler a história e abri meus contatos do celular. Fui até a letra H, e encontrei-o ali. Olhei para a sua foto e pensei em como ele era simplesmente um sonho. Será que eu devia mandar uma mensagem primeiro? Lógico que não, , se é ele que quer tanto te impressionar, deixe-o fazer. Mas como ele estava pensando em me impressionar, se ele já me impressionava desde meus nove anos?
Eu tomei um susto quando o celular vibrou e na parte superior apareceu uma notificação das mensagens. Cliquei e abriu na conversa com Harry.
“Lucky Voice. Sábado a noite. O que acha? Xx H.”
Meu coração batia muito rápido. Minha respiração estava pesada, e queria gritar, mas meu pai já estava dormindo. Tentei normalizar a minha respiração pensando na resposta.
“Karaokê? Esse é o jeito que você vai me provar quem você é: música?”
Por que eu achei que ele fosse responder essa mensagem? Era óbvio que eu o tinha ofendido, burra, burra, burra! Meu celular vibrou.
“Claro, cantar é uma habilidade secreta minha. E aí, o que me diz?”
Não preciso nem dizer para você o que eu respondi, não é?

VII: Nunca corte seu cabelo

— E aí? Cadê a continuação? — Diego disse e eu fiz sinal para que ele se acalmasse. — Qual é, lê logo!
— Di, fica calmo, eu já vou ler... — Eu ri um pouco e ele revirou os olhos tirando o diário da minha mão. — Ei!
— Você demora muito. — Ele disse, e eu tentei pegar o caderno de volta, mas ele era mais alto que eu e conseguiu esticar o braço para bem longe de mim. Eu me joguei em cima dele e consegui recuperar o diário, enquanto ele ria. — Calma, não sabia que você me queria tanto assim.
— Não sabia que você me queria tanto assim — imitei-o com uma voz fina — Ah, dá licença, né! Minha avó, minha casa, minhas regras.
Diego riu e me puxou dando um beijo na minha bochecha. Olhei para ele e como ele era irresistível, merda. Ele não era a pessoa com o melhor físico da vida, mas esses cachinhos, ah, como o deixavam lindo.
— Me faz um favor. — Eu disse e ele estava atento. — Nunca corte seu cabelo, ok?
Diego riu e me abraçou.
— Até parece que você manda em mim assim. Meu cabelo, minhas regras.
Diego me beijou e eu cheguei até a largar o diário ao meu lado na cama para aproveitar o beijo. Porém ele parou e pegou o diário de volta.
— Vamos ou não?

VIII: Boa noite,

Querido diário,
Eu estou muito elétrica nesse momento. Eu achei que era um bom momento para eu...
[“O que está escrito aqui?” — Diego disse e eu tive que ler. Como que ele não conseguia entender a letra da minha avó? “Escrever” — eu disse e ele voltou a leitura. Panaca.]
... escrever o que aconteceu hoje. Bom, chegou o grande dia de sábado. Desculpe a demora para voltar a escrever, achei que meu pai tinha me escutado, mas ele não o fez. Enfim, como eu estava dizendo, chegou o grande dia de sábado. Eu tentei ao máximo manter a calma durante os dias, mas eu devo admitir que não dormi nada da noite passada para hoje.
A noite foi se aproximando e eu fiquei pensando em uma desculpa para dar ao meu pai. Então eu pensei em uma e disse a ele que eu iria ao centro essa noite encontrar uma amiga de Oxford que estava passando as férias aqui. Papai apenas disse que tudo bem, mas que era para eu não estender muito a noite. Ele avisou que iria ficar em casa e assistir uma maratona de “De volta para o futuro” e eu disse que queria muito ficar com ele, mas que eu já tinha combinado com essa amiga que eu iria a encontrar.
Eu coloquei um sutiã preto e por cima uma blusa um pouco transparente preta também, uma calça jeans escura e uma bota de cano baixo. Eu enrolei o cabelo, passei rímel e blush. Um batom vermelho era sempre bem-vindo, mas eu fiquei em muita dúvida se eu o usava ou não. Que imagem eu iria passar para Harry Styles com um batom vermelho?
Ah, quer saber? Que se dane ele, eu vou passar porque eu quero.
Eu estava pronta e avisei ao meu pai que estava saindo. Ele já estava preparado para a maratona quando eu deixei a casa, e estava pronta para ir até o karaokê. Pedi um Uber e cheguei até que mais rápido do que eu imaginava. Fiquei em frente ao local, e mandei uma mensagem para ele, perguntando se ele tinha feito uma reserva.
“Claro que fiz. Dê o nome de Haz. H”
Foi o que eu fiz e logo eu estava em uma das salas do karaokê. Eu estava entrando na sala quando Harry apareceu atrás de mim e sussurrou “Oi!” perto de mim. Tomei um pequeno susto, mas só olhei para ele, que sorriu e acenou para mim.
— Legal aqui, né? — ele disse e eu me sentei no sofá.
— Tá, qual é a parte que você me deixa louquinha por você? — eu disse olhando o cardápio de bebidas e Harry riu.
— Olha, pelo visto, essa será uma tarefa muito complicada — ele levantou o dedo indicador no ar e sorriu, se dobrando e aproximando de mim. — Mas não disse impossível.
— Blá blá blá, impossível. Foi só o que eu ouvi. — Sorri para ele de volta e ele riu voltando a ficar ereto. Escolhi uma bebida de frutas vermelhas com limão e ele pediu uma Margarita. — Ok, qual será a primeira música... Ah, eu não acredito que tem Harry Styles aqui!
Eu o olhei fingindo surpresa e Harry riu novamente.
— Vamos ver, qual música... Espera, hã, essa daqui parece boa: Two Ghosts. — Eu escolhi e a música apareceu. Um som gostoso começou a tocar, não acredito que ele escreveu essa música.
Tentei acompanhar, mas eu não sabia qual era o ritmo então cantei tudo errado, aparentemente, fazendo Harry rir o tempo todo. Então ele pegou o microfone e começou a cantar no meu lugar.
— Música bonita. — Eu disse quando acabou. — Foi para quem essa? Kendall ou Taylor?
Ele riu olhando para os próprios sapatos.
— Chegou a minha vez de escolher a música. — Harry clica em uma música e You’re Still The One começa a tocar. Essa eu conhecia, eu era muito pequena quando ela foi lançada, mas eu achava o ritmo simplesmente maravilhoso. É claro que vê-lo cantar comigo me deixou toda derretida, isso estava nos planos dele. E era engraçado como a minha voz desafinada não combinava nada com a voz dele, que era maravilhosamente rouca e no tom.
Harry cantava olhando para a tela e as vezes me lançava um olhar. Eu tentei ao máximo não babar, mas era quase uma missão impossível. Então não olhei para ele em nenhum segundo. A parte mais dura era o refrão que ele ficava me olhando e eu olhava para o chão e para a tela. Na última frase ele olhou para mim e eu nem percebi, mas estava olhando para ele de volta enquanto ele dizia “Look how far we've come my baby”. Meu olho devia estar entregando tudo o que eu estava sentindo, não era possível, pois ele sorria e se aproximava a cada milissegundo. Mas fomos salvos pelo garçom que apareceu com a nossa bebida.
— Então — eu disse me sentando no sofá e ele me acompanhou sentando-se do outro lado — eu sempre quis saber quem era Harry Styles de verdade.
Harry sorriu contra o copo. Meu deus, garoto, pare de sorrir, senão eu morro.
— E se eu disser que é um homem que está tentando se descobrir ainda?
— Eu não acreditaria. — Eu respondi. — Você sabe muito bem quem você é, Harry.
— A única coisa que eu sei é que eu sou alguém que está aproveitando muito a noite. E você?
Harry pendeu a cabeça para seu ombro direito, sorrindo amigavelmente.
— É. — Eu disse olhando para a tela. — Acho que você desafinou um pouco no último refrão.
Harry riu.
[“Caraca, sua avó era dura na queda, hein” — Diego diz e eu pego o caderno dele, mesmo ele protestando. Volto à narrativa.]
— Você não relaxa nunca? — Ele se levantou e colocou seu coquetel na mesa redonda no canto da sala. Harry pegou o microfone e me entregou. — Escolhe aí a próxima, então.
— Hã... — eu começo a olhar a lista de músicas e encontro uma da Taylor Swift que eu sabia que era para ele. — E essa aqui chamada Style?
Harry tentou conter um sorriso, desviando o olhar. Ele voltou seus olhos para mim e assentiu. A música começou a tocar e eu cantei ela inteirinha, sem que ele participasse. Achei estranho isso, pensei que ele quisesse cantar comigo e eu até disse a ele isso quando acabou a canção.
— Acho que é a minha vez de escolher, não é? — ele apenas disse isso. Fiz que sim e a próxima música era uma da Ariana Grande chamada Just a little bit of your heart. Ele cantou essa sozinho, pois dessa vez minha cabeça estava muito distante pensando em se eu o ofendi de alguma maneira. Provavelmente tinha, ele nem quis conversar sobre e cantou como se ninguém estivesse ali com ele.
Até que Harry cantou as palavras “Just a little bit of your heart is all I want” me esticando a sua mão e eu a peguei, começamos a dançar cada um no seu lugar enquanto ele cantava, nossas mãos ainda entrelaçadas. Dançamos o final da música e me puxou para perto sem eu perceber. Eu quase cai quando ele fez isso e soltei um “Harry!” mal humorada, fazendo-o dar risada, mas nossas mãos ainda não estavam separadas. Eu percebi que eu tinha começado a suar e que não estava preparada para essa aproximação com ele. Bom, o que eu esperava, ele iria fazer a sua jogada alguma hora da noite, não é mesmo? Eu não queria soltar, pois eu sabia que seria bem estranho, mas ao mesmo tempo eu não queria soltar porque eu simplesmente não queria.
— Podemos estender a noite em outro lugar? — ele disse, o que me fez soltar de sua mão.
— Pensei que você iria me convencer de que era uma boa pessoa. — Eu disse e ele não entendeu. — A gente mal se conhece e você já quer...
— ... Tomar um ar fresco e conversar com você um pouco sobre a vida? É, é isso o que eu quero, você me pegou.
Arqueei a sobrancelha, em dúvida de acreditar nele ou não.
Saímos depois dessa música e ele e eu começamos a caminhar pelas ruas de Londres. Estava uma noite gostosa, eu já estava um pouco alterada e acho que ele também. Bem, eu ainda estou alterada enquanto eu escrevo em você, diário. Mas eu precisava contar o que aconteceu hoje enquanto eu ainda tinha a memória inteira na minha mente.
Estávamos eu e ele lado a lado pela calçada. Chegamos na sorveteira que eu o tinha encontrado da primeira vez e nos sentamos no degrau em frente ao estabelecimento que estava fechado. Eu estava morrendo de frio, torcendo para que ele me desse seu casaco de seu terno. Aliás, eu nem comentei sobre isso quando o vi, mas ele está sempre vestido de maneira elegante, misturada com estampas incríveis. Ele inventava a própria moda.
[“Pausa para pesquisar Harry Styles no ano de 2019” — eu disse para Diego, que pegou seu celular e pesquisou o que eu pedi. Eu me aproximei do celular e fiquei boquiaberta. “Uau, sua avó estava com esse cara?” — Diego disse e eu assenti.]
Harry finalmente me entregou seu casaco que não era tão grosso assim. Colocou-o por cima de meus ombros e voltou seus braços para apoiá-los em seus joelhos.
— Tudo bem aí? — Ele perguntou.
— Com certeza. — Eu disse e ele ficou olhando para a paisagem que tínhamos ao redor. Londres era uma cidade apaixonante, não importa o que dizem. Viver aqui é um sonho, eu mal me lembro de como era viver no Brasil, mas a Inglaterra era agora o meu lar. Agora não, há muito tempo. — Se você pudesse escolher um lugar para acordar amanhã, que lugar seria?
Harry olhou para mim com um sorrisinho.
— Que pergunta mais de Tinder.
— Harry! — eu disse e ele riu, assentindo.
— Tudo bem. Hã, não sei, acho que em um palco. Fazendo o que eu mais gosto.
— Entendi. — Eu respondi. Ele olhou para mim, enquanto eu tentava esquentar inutilmente minhas mãos.
— E você?
Olhei para as árvores mais distantes antes de responder. Eu não fazia ideia.
— Não sei. Nunca parei para pensar nisso.
— Ah, mas assim você estraga a brincadeira, . — Ele disse colocando as mãos em sua cintura e piscando um olho. Sorri involuntariamente. — Isso foi um sorriso verdadeiro?
Revirei os olhos ainda sorrindo.
— Não... — comecei, mas ele me interrompeu.
— Ah, não me venha com essa! Eu tenho certeza que isso foi um sorriso sincero! Finalmente, hein?
— Sorriso sincero não significa que eu já me decidi em relação a você. — Eu disse e ele riu.
— E eu não esperava nada de diferente de você. — Harry respondeu. Encarei-o e ele, quando percebi, estava devolvendo o olhar. Você sabe quantas vezes eu quis beijar esse homem só hoje? Muitas.
— Você ficaria com uma fã? — eu disse sem pensar.
— Depende. Se a fã for você... — ele sorria. — ... Então não.
Soltei todo o ar de dentro de mim e dei um tapa de leve em seu braço.
— Eu não estava falando de mim, sua besta. Aliás, quem disse que eu sou sua fã mesmo?
— Até parece que você não se lembra de ser obcecada por mim e pela minha banda quando você era só uma criança. — Ele disse, vitorioso.
— O quê? — tentei disfarçar, mas ele estava rindo.
— Tudo bem, . Você foi a minha primeira fã de verdade, depois da minha mãe. — Ele respondeu e fez um bico. — Apesar de ser totalmente estranho.
— Ok, eu preferia que você mudasse de assunto agora. — Eu devia estar um pimentão naquela hora, tinha certeza. Levantei-me e o puxei junto. — Vamos, eu tenho que ir para casa agora.
Harry me levou a pé até a minha casa, enquanto conversávamos sobre vários tópicos mundanos. Como, por exemplo, ter um animal de estimação sempre foi o meu sonho, ele também amava os Beatles — o que fez meu coração acelerar muito, admito — e como família significava muito para nós dois. Estávamos nos aproximando de casa, então eu disse para nos despedirmos ali.
— Não posso te levar até a porta? — ele pergunta assim que paramos. Olhei para o relógio do celular.
— Bem, acho que tudo bem, a essas horas meu pai já deve ter caído no sono durante a sua maratona de filmes.
Puxei-o para minha casa e paramos em frente da minha porta. Olhei para ele, já dizendo que tinha sido uma noite até que agradável, mas que muito provavelmente seria uma única noite. Harry não estava nem me ouvindo e ele se aproximou de mim.
— Você vai tentar me beijar agora? — eu disse baixo e ele só sorria. Ele fez um carinho na minha face esquerda e puxou meu queixo para perto dele. — Você sabe que se você me beijar, tudo vai acabar aqui, não é?
. Você quer mesmo estragar o momento, não é? — ele respondeu olhando para meus lábios. Eu olhava para os do dele.
— Se você só queria isso de mim, você poderia ter pedido antes. — Eu disse e ele sorriu de lado. Harry soltou meu rosto e colocou as mãos nos bolsos da calça.
— Boa noite, . — Ele disse e começou a caminhar para longe dali. Fiquei observando Harry Styles olhar para mim andando de costas para a rua, até que ele se virou e foi embora. Meu coração estava disparado. Mordi o lábio inferior, sem saber como prosseguir.
Juro, diário, eu até agora não entendi por que eu não quis deixá-lo me beijar, quer dizer, ele. Estava. Bem. Ali!
Só quando eu entrei em casa notei que estava com o casaco dele por cima de meus ombros. Meu pai roncava no sofá, então eu aproveitei e subi correndo para meu quarto, fechando a porta atrás de mim. Guardei o casaco dele no meu guarda-roupa, prendi meu cabelo e me sentei para escrever. Já sabia com o que eu iria sonhar essa noite.

IX: O que você teria feito?

Olhei para Diego, que devolveu o olhar. Abri a boca para dizer algo, ele me imitou, mas não dissemos nada. Ficamos em silêncio por alguns segundos.
— O que você teria feito? — eu perguntei, quebrando o clima. Di olhou para mim e balançou a cabeça.
— Beijaria, foda-se. — Ele respondeu e eu ri. — Sério. Eu não sei se ele iria me encontrar de novo, essa poderia ser a única chance de ficar com ele.
Observei-o colocar sua tese, mas ao mesmo tempo fiquei pensando que minha avó deveria estar com medo de se apaixonar por ele no primeiro beijo. E sim, talvez eu esteja dizendo isso porque foi o que aconteceu comigo em relação a Diego, mas eu ainda não tenho certeza.
— E você? — Ele pergunta me cutucando. Volto meu olhar para ele.
— Ah — começo, meio incerta do que eu estava prestes a dizer. — Acho que ela fez isso para se proteger.
— Proteger? — ele ficou um pouco confuso. — Proteger de quê?
— Ah, sei lá, talvez de começar a gostar dele.
— Ele só queria um beijinho sem comprometimento. Nada de mais. E antes que você diga — ele me interrompeu antes mesmo de eu conseguir falar — que ele estava errado de querer isso dela, eu não concordo. Pelo o que eu já li do começo do século XXI, Bauman tinha dito que as relações estavam cada vez mais líquidas. Era próprio da época ser assim. E ela deveria saber, como ela mesma coloca, que ele só queria isso dela.
— Não sei, não, hein. — Eu respondo. — Eu acho que quem estava errado era ele, sim, porque ele só queria se aproveitar dela.
— Você tá pensando com a cabeça de hoje em dia, Ju.
— Tá, mas ele não a beijou de qualquer jeito.
— É, mas isso só deve ter dificultado as coisas, porque, pelo o que sua avó escreve, ela devia estar caidinha por ele naquele momento e ele só a deixou com vontade de mais.
Fiquei olhando para Diego que estava acenando com a cabeça.
— Então você admite que ele está errado? — eu disse e Diego riu. Logo em seguida bocejou — ou fingiu um bocejo.
— Acho que está na hora da gente dormir, não acha?
Eu preparei o colchão que sempre ficava embaixo da minha cama para ele, enquanto ele usava o banheiro. Assim que Diego voltou, ele se jogou no colchão já pronto e depois de alguns minutos já roncava. Eu não estava conseguindo pregar o olho de qualquer maneira, tentando entender o porquê de tudo isso ter acontecido com a vó e ela nunca ter me contado isso. Será que minha mãe sabia? Eu não queria arriscar por enquanto, eu queria viver um pouco a história da minha avó, ver até aonde ela foi e então eu estarei preparada para saber a verdade e se era verdade mesmo tudo isso.
Eu estava me revirando na cama, até que virei de barriga para cima e fiquei olhando para o teto. Virei-me em direção a mesa e fiquei encarando o diário. Eu queria muito saber a continuação, talvez eu não estivesse conseguindo dormir porque eu estava muito ansiosa e ler o que aconteceu em seguida provavelmente iria me acalmar. Olhei para Di dormindo ao meu lado. Acho que ele não se importaria se eu continuasse sozinha, não é? É a minha avó, afinal.
Tentei manter o maior sigilo possível e estiquei meu braço até a mesa. Peguei o diário, o abri e virei a página, tirando o marcador que tínhamos colocado. Aconcheguei-me na minha cama e comecei a leitura.

X: Você ainda é única

Querido diário,
Harry nunca mais me mandou mensagem. Pelo menos não por alguns dias. Eu ficava repetindo aquela última conversa que tivemos sobre o beijo toda vez antes de dormir, analisando as possíveis respostas que eu poderia ter dado ou feito. Para me distrair, fiquei lendo um pouco, jogando Wii — Mario Kart, para ser mais precisa — e fazendo palavras cruzadas. Eu saia durante o dia e passava a tarde em uma cafeteria qualquer de Londres, sempre desejando que aqueles olhos esverdeados me encontrassem. Isso não aconteceu.
Então chegou um dia que eu estava sentada em uma das mesas de uma cafeteria perto de casa lendo Orgulho e Preconceito, quando eu notei que duas garotas sentadas mais a frente estavam dando gritinhos emocionados enquanto compartilhavam fones de ouvido e olhavam a tela do celular. Eu consegui as ignorar por algum tempo, até que eu não pude deixar de prestar atenção quando uma delas disse “Ai, meu Deus, como o Harry é lindo!”. Eu obviamente estiquei meu pescoço para ver o que elas estavam vendo e era um vídeo de um dos shows dele. O título era “You’re Still The One”.
Meu coração acelerou e eu o vi cantar com uma outra cantora chamada Kacey Musgraves. Não sabia como reagir, então pigarreei para ver se elas me escutavam, mas não obtive respostas. Tentei novamente, sem sucesso. Então me levantei e cheguei até a mesa delas, chamando toda a atenção das meninas para mim. Sorri.
— Olá, tudo bem?
— Hã, oi. — Uma delas disse e a outra ficou apenas me encarando. — Tudo sim.
— Eu não pude deixar de prestar atenção no vídeo que vocês estavam vendo... É o Harry Styles cantando You’re Still The One?
Uma delas olhou para a outra e sorriu.
— Sim. Você também gosta dele?
Querida, se eu te dissesse como eu gosto dele...
— Sim! — eu ri e elas me acompanharam.
— Ele é um sonho, não é? — a primeira disse e eu assenti. — Eu amo esse cover que ele fez com a Kacey.
— Sim! Eu achava tanto que ele devia gravar uma versão dele dessa música! — a outra respondeu e eu só sorria, sem saber o que dizer.
— Sim, sim. — Eu disse e olhei para o celular, pensativa. — E você sabe da música Just A Little...
—... Bit Of Your Heart? — a outra completou. — Ele também cantou no show! Ah, ele é demais.
Eu estava perplexa. Quer dizer então que as músicas que ele cantou para mim, e comigo, no karaokê eram todas planejadas? Ele realmente só queria uma coisa de mim, não é?
[Eu não acredito que minha avó está realmente pensando isso. Caraca, ela não vê que não tem problema as músicas serem as mesmas?!]
— Obrigada, meninas, pelo papo, eu já tenho que ir. — Eu disse e elas assentiram, acenando para mim.
Diário, se você soubesse como eu fiquei transtornada aquele dia... Eu não sei como eu consegui chegar em casa, só sei que cheguei e me enfiei no quarto. Vários pensamentos rondavam na minha cabeça, mas um deles era de alívio por eu não ter o beijado. Não dei o que ele queria, mesmo que fosse o que eu quisesse também. A verdade é que eu tinha certeza que eu iria me machucar se eu desse aquele beijo nele. Eu sempre tive essa obsessão por Harry Styles, admito! Beijá-lo poderia ser a minha libertação ou a minha prisão, e eu não queria arriscar.
Estou agora esperando meu pai sair do banho para que eu entre e possa chorar em paz. Faz dois dias que eu descobri tudo e desde então eu não penso em outra coisa. Bom, me deseje sorte para esquecer esse tal de Harry Styles.

XI: Harry Styles. Ele era mesmo alguém real?

Querido diário,
Talvez você esteja me julgando previamente pelo o que eu vou dizer, pois você já deve imaginar o que virá a seguir, mas direi mesmo assim: não estou mais brava com Harry. E tudo isso foi parte de um grande mal-entendido. Acho que você já estava imaginando isso, não é? Sim, eu reagi mal e exagerei na reação. E agora está tudo bem. Vou explicar o que aconteceu.
Bom, Harry me enviou mensagem coincidentemente no mesmo dia que eu escrevi em você, mas eu o ignorei. Ele mandou mais algumas mensagens, mas como eu não respondi, Harry desistiu de mim. Em um primeiro momento eu achei isso ótimo para eu conseguir superá-lo de vez. Essa história de conhecer um popstar era muito distante de mim e nunca tinha visto isso acontecer, só em histórias fictícias mesmo.
No começo eu estava evitando sair, não queria correr o risco de encontrar alguém e ter que socializar, mas fui melhorando de humor e já um tempo breve depois eu tinha conseguido até sair para fazer o que eu mais gostava: comprar discos de vinil.
Eu amava com todo o meu coração discos de vinil, ganhei minha primeira vitrola quando eu tinha 13 anos e desde então eu tenho cultivado esse hábito de ouvir preferencialmente as minhas bandas favoritas por meio desse aparelho antigo e mágico. Então lá estava eu, já explorando a loja, procurando algum álbum que eu ainda não tinha do Queen ou dos Beatles. Estava um dia engraçado, o céu não sabia se deixava o sol brilhar ou a chuva cair. Meio que os dois se complementavam e fizeram naquela tarde aparecer um arco-íris. Estava bem bonito.
Andei pelas fileiras de discos, tocando em cada um, lendo algumas considerações. Eram discos de segunda-mão, e fiquei imaginando as histórias que eles deviam carregar em cada um.
Estava toda distraída, quando eu levantei um dos discos para ver melhor sobre o que era. Quando eu o abaixei, dei de cara com meu querido Harry do outro lado da estante, mexendo nos discos enquanto olhava para mim. Coloquei o disco de volta e comecei a caminhar para minha esquerda, tentando me afastar dele, mas ele me acompanhava no mesmo ritmo. Eu nem estava prestando atenção no que estava tocando na loja, mas a próxima música que se iniciou era inconfundível. Harry olhou para o alto e depois para mim e me entregou um olhar sugestivo, como se ele fizesse as palavras da música, dele. Justin Bieber já estava na parte em que falava “You know I try but I don't do too well with apologies” e Styles sorria para mim com a linha da boca. Balancei a cabeça negativamente, mas ele não desistia. Harry começou a dublar a música e eu tentei não olhar, mas era impossível, uma vez que ele saiu de trás da estante e parou na minha frente, me impedindo de andar, mesmo eu tentando continuar.
Ele foi me acompanhando até quase tropeçar e cair de costas no chão. Eu o segurei e ele não chegou a cair, mas foi por muito pouco.
— Você é uma besta, mesmo, não é? — eu disse soltando seu braço. Ele puxou a blusa que tinha subido um pouco e fez que não, sorrindo. — O que você quer?
— Eu quero saber o que aconteceu, claro. — Ele disse e eu cruzei os braços na altura do busto. — Por que não respondeu minhas mensagens?
Eu olhava com tédio para ele, o que não correspondia com o meu estado interno naquele momento, é óbvio. Harry apoiou o braço na estante mais próxima.
— Porque não quis.
Harry estranhou.
— Eu não quero parecer convencido...
— Você é convencido.
—..., mas você não me parecia não querer ter contato comigo na última vez que nos encontramos. — Ele disse. Não estava acreditando que aquilo estava mesmo acontecendo.
— Olha, só me deixa em paz, ok? — eu voltei a caminhar para longe dele, mas Harry me acompanhou no meu encalço.
— Qual é, , vai me dizer que eu te tratei mal aquele dia?
— Não é isso...
— Então!
— Justamente por você ter me tratado bem!
— O quê? — ele disse sem entender nada.
Eu parei de andar e me virei para ele.
— Escuta, senhor Styles, rockstar do mundo inteiro. Não pense que eu não sei o que você quer de mim. Eu só não sei se eu quero mesmo entrar nessa furada.
— E o que eu quero de você? — Ele se aproximou. Não pude responder, porque uma fã apareceu e pediu licença para tirar uma foto com ele. Ela me entregou o celular e eu, com muita má vontade, tirei a foto para a garota. Depois que ela foi embora eu só suspirei e dei as costas para Harry. — Ah, qual é, !
Eu saí da loja e a chuva continuava com o sol raiando. Coloquei o capuz e logo percebi que Harry estava atrás de mim.
— Não vai me dizer mesmo? — ele disse e eu, a alguns passos dele, parei de andar. Virei-me em sua direção.
— Por que insistir nisso? — eu balancei a cabeça. — Eu sei que tudo foi uma jogada só atrás de uma única noite.
— Hã?
— Olha, eu sei que você cantou as músicas na sua turnê “maravilhosa” do ano passado, mas saiba que eu realmente não sou uma das suas fãs que aceitariam de tudo para ficar com você. — Eu disse para ele. Foi como se um peso saísse de mim. Harry ficou me encarando por alguns segundos e desatou a rir. — Do que você está rindo?
— Nada, é que... — ele riu mais um pouco — ... qual é o problema de eu ter cantado essas músicas na minha turnê?
— Ora, porque...
— E outra, você mesma ficou escolhendo músicas minhas para cantar, além de tocar aquela música que eu detesto da Taylor. Não acha que quem deveria estar não muito contente aqui seria eu?
Eu estava muito confusa. O que ele dizia fazia muito sentido. De repente toda a mágoa que eu sentia sumiu e no seu lugar sobrou apenas vergonha. Acho que ele notou isso em mim, pois ele se aproximou alguns passos e passou a fazer carinho no meu braço. Ele estava muito cheiroso.
— Desculpe, eu não quis ser grosso. Só queria te mostrar que não tinha nada para se preocupar.
Olhei para seus sapatos muito chiques que deviam ter custado uma nota. Levantei o olhar para ele que sorriu para mim.
— Aquela música Just A Little Bit Of Your Heart realmente era bonita. — Eu disse apenas o que o fez soltar uma risada.
— Gostou? Eu a escrevi há alguns anos.
Demorei para entender que quem era o autor da música era ele, mesmo ele dizendo com todas as letras isso. Assenti e ele segurou meu cotovelo.
— Estamos de bem?
Respirei fundo.
— Não. — Eu disse e ele soltou o ar de dentro dele, pendendo a cabeça para seu ombro direito. — Eu realmente não sei se quero ser... Sei lá, não sei se quero ser...
— O quê? — ele não estava conseguindo entender.
— Não sei se quero mesmo ter contato com você. — Eu disse e ele fez um bico. Logo em seguida sorriu.
— Tem certeza? Eu ainda não mostrei tudo o que eu sou para você. — Ele disse apenas, me fazendo revirar os olhos. — Eu estou falando sério, !
Fiquei encarando Harry Styles. Ai meu Deus, como é estranho escrever isso, diário! Harry Styles. Ele era mesmo alguém real?
— Tá. — Foi o que eu respondi e Harry soltou uma risada breve.
— Você é uma mulher de muitas palavras, adoro isso! — Ele disse e eu não tinha percebido antes, mas ele já tinha parado de segurar meu braço. De repente queria aquele carinho de volta. A chuva começou a apertar mais ainda, Harry estava sem seu guarda-chuva, seus cachos estavam todos molhados, e seu rosto pingava. Só naquele momento eu me dei conta de que eu estava judiando dele.
Puxei Harry para um local com um teto para nossas cabeças e esse local foi a loja de bolos mais próxima. Tateei meu bolso em procura do meu celular e o encontrei. Ele estava a salvo, ainda funcionava bem. Harry balançou seus cabelos, me molhando toda. Obviamente eu protestei, mas ele não ligou. Ele apenas pegou o seu celular e abriu no aplicativo do Uber.
— Vou pedir um Uber, minha casa é perto daqui, podemos ir lá nos secar. — Ele disse ainda olhando para o celular. Uma parte de mim não queria ir para a casa dele, sei lá o que poderia acontecer ali. Mas a outra parte...
— Ah. — Soltei e ele lançou um rápido olhar para mim.
— O que foi?
Olhei para o tecido da lona que nos abrigava.
— Não era isso que eu tinha planejado quando saí de casa. — Eu respondi e Harry riu. Olhei para ele. — É sério, meu pai está me esperando.
— Ah, é? E como ele está? Está bem? — Harry não tirava os olhos do celular e eu me irritei. Estalei os dedos na frente de seu rosto, chamando atenção. Ele parou e olhou para mim. — Ok. Você quer que eu chame um Uber para te levar para sua casa?
É aí que eu sei que você me julga, diário. Porque eu disse que não. Entenda, era difícil resistir essa tentação. Não é todo dia que Harry Styles te convida para a casa dele.

XII: Sempre, sempre é assim

Percebi Diego se remexer na cama e automaticamente eu escondi o diário embaixo do travesseiro. Fiquei olhando para o teto ouvindo-o roncar. Estava muito tensa e não sabia o porquê, mas acho que a história da minha avó estava me deixando cada vez mais ansiosa. Será que o melhor era eu não ler mais? Realmente nada irá mudar na minha vida se eu parar de ler, já que tudo isso já foi — se for real, é claro.
Caí no sono assim, com o diário escondido no meu travesseiro. E tive o sonho mais louco que é possível ter. Eu era a minha avó, e Harry e Diego estavam no sonho. Diego era meu marido e Harry meu amante. Mas não fazia o menor sentido, porque eu queria o tempo todo passar com o Di e não com o Harry. Tanto que no sonho toda vez que Harry tentava me levar para algum lugar eu passava o tempo reclamando e dizendo que queria Diego de volta. Acordei com ele me olhando, o que me fez tremer de susto.
— Cara, que susto! — eu disse passando a mão por meu cabelo todo bagunçado e me esticando. Diego soltou uma risada tímida.
— Dormiu bem? — ele estava dobrando o cobertor e o lençol do colchão dele. Fiz que sim, e assim que eu parei de me esticar, deixei o diário cair da minha cama. Soltei um palavrão e ele parou o que estava fazendo para olhar o objeto caído no chão. Diego olhou para mim e eu olhei para ele. Ele abriu a boca para dizer algo, mas a fechou em seguida. Então abriu de novo. — Você leu mais?
Hesitei em responder, mas balancei a cabeça confirmando. Diego não acreditou.
— Achei que iriamos ler juntos. — Ele disse largando o cobertor dobrado em cima do colchão. Sentei-me na cama rapidamente.
— Di...
— Qual é, Julia. Você sempre faz isso! — Ele reclamou e eu estranhei.
— Isso o quê? — Eu perguntei. Ele balançou a cabeça negativamente.
— Você sabe o quê.
— Não, eu não sei, e ficaria muito grata se você...
— Você não consegue cumprir um combinado nosso! — Ele soltou e eu fiquei o encarando. Como assim?!
— Como assim?! — eu disse exasperada.
— Sempre, sempre é assim. A gente combina de fazer algo juntos, mas você acha que é melhor fazer sozinha ou simplesmente desiste.
— Do que você tá falando, Dieg...?
— Lembra-se da festa de aniversário de Marcos, que a gente iria juntos e você ia me buscar na minha casa? Você se lembra de não ter feito nada disso, se lembra do porquê?
— Eu...
— Ou então lembra-se do dia da sua matrícula? Tínhamos combinado que eu iria junto e depois iríamos almoçar no seu restaurante favorito. Lembra-se do que aconteceu no fim?
— Eu fui com a minha avó. — Eu disse e ele se calou. Eu olhava para o chão e ele continuava a me encarar, com um ar pesado no rosto.
— Desculpe, eu...
— Escuta, Diego. Por que você não só... Vai embora? — Eu disse levantando o olhar para ele.
— Julia...
— É sério. — Eu disse e ficamos em silêncio. Então ele começou a andar na direção da porta.
— Ah. — Eu disse o impedindo de continuar. Diego se virou para mim. — Você não acha que eu tenho o direito de querer continuar a ler a história da minha avó sozinha? Pense sobre isso.
— Julia, eu...
— Tchau, Diego. — Eu disse e ele assentiu. Diego saiu do meu quarto e esperei ele sair de casa, ouvindo a porta bater, para me jogar de volta na cama. De novo, queria dormir e esquecer que eu estava passando por tudo isso.

XIII: Petit gateau de doce de leite

Passei a manhã na cama, sem vontade de fazer nada. Dormi mais um pouco, acordei e depois dormi mais. Minha mãe veio ver se estava tudo bem, e eu assegurei a ela que sim, só tinha tido um mal entendido com o Diego, mas que logo mais tudo ficaria bem — eu não tinha certeza sobre essa última parte, mas não quis transparecer isso a minha mãe.
Eu e minha mãe estávamos deixando para o final o quarto da minha avó, essa seria com certeza a parte mais difícil de todas. Por enquanto estávamos evitando aquele local, então voltei para o escritório, pois tinha ainda muito a se fazer ali.
Comecei a tirar tudo da primeira prateleira, estava cheia de papéis aleatórios que eu não tive paciência para ler no momento, eu estava mais preocupada em limpar as prateleiras em si. Peguei o pano e comecei a passar pela madeira. Ao mesmo tempo, fiquei de ouvido antenado no meu celular, na esperança de que Diego mandasse mensagem pedindo desculpas e dizendo que, sei lá, ele era um idiota. Mas isso não aconteceu, é claro.
Terminei a primeira prateleira já eram três da tarde. Perguntei para minha mãe se eu poderia sair um pouco de casa e ela disse que tudo bem, que iria continuar com o trabalho de arrumar a sala de televisão com as coisas da minha avó. Peguei o diário e saí de casa, em busca de um lugar diferente para eu ler.
Encontrei uma cafeteria com ar do século passado e resolvi me sentar um pouco. Coloquei o diário em cima da mesa e estava procurando meu celular na bolsa para deixá-lo junto ao caderno, até que a garçonete apareceu e perguntou se eu queria o cardápio. Levantei o olhar para ela e era como se tudo de repente ficasse em silêncio. Observei a garçonete de cabelos castanhos me olhar de volta e estar com o cardápio nas mãos. Meu coração parou por um segundo e começou a acelerar muito rapidamente quando ela disse “E então?”. Foi o momento mais bizarro da minha vida.
— Ah... Eu... — olhei para seus olhos que me olhavam com curiosidade e pigarreei, olhando para o cardápio que ela estava me entregando. — Quero sim. Obrigada.
A garota sorriu para mim depois que me entregou-o e foi embora em direção ao balcão da cozinha. Fiquei a observando, até que me dei conta de que estava a olhando por muito tempo e voltei meu olhar para o cardápio agora em minhas mãos.
Fiquei pensando muito em que pedir, fiquei pensando em Diego, fiquei pensando nessa garota. Senti seu olhar em cima de mim, meu coração a mil. Ela se aproximou.
— Sabe, se eu fosse você, eu escolheria o petit gateau de doce de leite. É realmente uma maravilha. — Ela sorriu para mim, eu não conseguia desviar o olhar de seus olhos. Eu soltei uma risada depois de muito tempo de constrangimento.
— Hã, certo, acho que vou querer o petit gateau de doce de leite então. — Eu respondi sorrindo e ela fez o mesmo. Entreguei o cardápio a ela e a garçonete se virou para ir embora, mas eu a impedi. — Hã... Você me parece familiar. Já nos vimos antes?
Eu queria muito dizer a ela que a vi nos meus sonhos, mas me segurei.
— Ah, pode ser...
— Aonde você estuda? — eu perguntei me projetando para frente.
— Na PUC. — Ela disse colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. Eu estudava no Mackenzie.
— Ah, então acho que não. Talvez nos vimos em alguma festa? — eu tentei mais uma vez. A menina olhou para o lado e então pareceu se lembrar de algo.
— Você conhece a Lisa? Lisandra Oliveira? — Ela disse e eu fiz que sim.
— Não brinca! Você conhece a Lisandra? Caramba, que massa! Da onde?
A garota sorriu.
— Ah, então você a conhece. Ela é minha colega de sala. Nos conhecemos pelo grupo da calourada e agora somos amigas. — Ela segurou um dos braços. — Fomos juntas na Filhos da Puc.
— Ah, é claro! Então a gente se conhece de lá, eu também fui à Filhos da Puc, mas com outros amigos.
Lisandra era minha colega de cursinho, junto com Diego e outras pessoas.
— Poxa, que maneiro. — Ela disse sorrindo e eu concordei.
— Qual é o seu nome, mesmo? — eu perguntei.
— Sofia. E o seu?
— Julia. Prazer em te conhecer, Sofia. — Eu sorri para ela estendendo a minha mão e ela a apertou sorrindo também.
— Bom, eu vou voltar aqui a trabalhar, mas se precisar de mim, é só chamar! — Ela disse prontamente e começou a se afastar. Fiquei a observando até que ela bateu sem querer em um cara que estava voltando da cozinha. Ela pediu desculpas e olhou para mim segurando o riso. Sorri para ela.
Fiquei com esse momento na minha cabeça durante a meia hora seguinte, enquanto desfrutava do petit gateau. Achei que esses minutos que tinham se passado me deixaram muito com o coração disparado, então me lembrei de que estava com o diário de minha avó ali. Pedi um café e voltei para onde eu tinha parado.

XIV: Quase beijo

— Bela casa... — Eu deixei sair quando o carro nos deixou na frente de um casarão branco. Harry me levou até a entrada da casa, e pediu para que eu deixasse os sapatos ao lado da porta. Foi o que eu fiz. — Ainda não acredito que o cara do Uber nos deixou entrar mesmo molhados.
Harry se virou para mim enquanto tirava o casaco todo encharcado e sorriu.
— Esse é um segredinho meu. — Ele piscou para mim e se virou de costas para entrar na cozinha. Eu fiquei encantada com os quadros e a decoração de sua casa. Fiquei com muita inveja naquele momento e me questionei se algum dia eu teria tanto dinheiro assim.
— Para quê? — eu disse baixo.
— O quê? — ele gritou lá de dentro.
— Ah, nada! — eu respondi e percebi a grande janela que dava para o jardim. Caminhei até lá e comecei a olhar para fora, apreciando a paisagem daquele dia já não tão chuvoso, mas que ainda continuava com o sol.
— Aqui. — Harry me entregou um copo quente e uma bebida escura o preenchia. Hesitei. Harry riu. — Relaxa, quando eu quiser te embebedar, eu te aviso.
Não achei a brincadeira nem um pouco engraçada, mas aceitei o copo e tomei um gole: era chá preto.
— Já coloquei biscoitos no forno, venha que vou te mostrar o banheiro para você tomar um banho...
— Ah, acho que uma secadora já é o suficiente, obrigada. — Eu disse dando uma pausa na bebida. Harry ficou me olhando.
— Tem certeza? — assenti. — Bom, me deixe pelo menos te emprestar umas roupas enquanto você espera estas secarem.
Eu concordei e Harry desapareceu pelos corredores. Fiquei o esperando na própria sala, tomando o chá em silêncio. Ele me entregou em seguida uma blusa gigante e um moletom. Disse que deveria caber em mim, eram roupas antigas dele. Fui ao primeiro banheiro que encontrei e me troquei ali, em seguida saí e procurei a lavanderia, encontrando a secadora. Não sabia muito em mexer em coisas tecnológicas, mas eu não era tão atrasada em relação a secadoras. Logo estava trabalhando a máquina e eu voltei para a sala, esperando a ilustre presença de meu anfitrião.
Encontrei o controle da televisão e a liguei. A televisão era enorme, eu nem sabia que era possível ter uma TV daquele tamanho. Rodei pelos canais até que larguei em um de notícias, enquanto olhava as mensagens no meu celular. Meu pai tinha me mandado uma mensagem dizendo “Me liga assim que puder”.
—... e Harry Styles foram vistos no sábado em um bar karaokê. Pelo visto eles não notaram que foram vistos. Veja agora a imagem que nossa fonte conseguiu deles dois juntos onde provavelmente deveria ser a casa de sua amiga.
Eu olhei para a tela assim que eu ouvi a palavra “Harry”. E inacreditavelmente eu estava na televisão. A imagem era de mim e de Harry na frente da minha casa, eu com o casaco dele sobre os ombros e ele conversando comigo. Meu coração acelerou e eu esperei a imagem do nosso quase beijo aparecer, mas isso não aconteceu. Quem quer que tenha tirado a foto ou não esperou para isso acontecer ou apenas estava aguardando o momento certo para nos expor.
— Calma. Fica tranquila. — Ouvi a voz de Harry atrás de mim que estava no sofá. Respirei fundo. — Veja, mal dá para ver o seu rosto. E outra, eles dizem “amiga” ...
— Isso é um desastre, Harry. — Eu disse. Não estava conseguindo normalizar a minha respiração. — Não importa se não dá para ver o meu rosto, eles sabem aonde eu moro! E se meu pai ver isso, aí com certeza estaremos ferrados!
— Ei, fique calma! É tão ruim assim ser amiga de Harry Styles? — ele apenas disse isso e eu soltei um grunhido, me virando em sua direção. Fui pega de surpresa quando o vi com uma calça de moletom e uma camisa aberta, mostrando todas as tatuagens em seu tronco — inclusive uma de borboleta e dois pássaros. Fiquei sem palavras e ele notou, o que o fez sorrir.
Grunhi de novo e caminhei até a cozinha, Harry começou a me seguir.
— O que foi, ?
— Agora temos apelidos? — eu disse irônica e ele parou de andar. Eu parei em frente ao forno, já sentindo o cheiro dos biscoitos. Respirei fundo.
— Você não está me contando alguma coisa, não é?
Era óbvio que eu não estava te contando alguma coisa, querido! Meu pai disse para eu não me relacionar com Harry, e o que eu estou fazendo? Estou na casa dele, usando suas roupas, enquanto uma matéria sobre nós dois passa no canal de fofoca da televisão.
— Quanto tempo ainda para a secadora terminar o serviço? — eu perguntei e ele suspirou.
— Escuta, . Você tem que relaxar! Você acha mesmo que seu pai vai ver esse canal de fofocas? Pelo pouco que eu conheço e me lembro dele, ele não é muito de fazer isso.
Ele até que tinha razão. Comecei a me acalmar. Minha respiração foi se normalizando e eu pude sentir Harry se aproximar de mim. Então aquele carinho de mais cedo apareceu novamente em meu braço.
— Fique tranquila, ok? — ele disse e eu assenti, mas me desvencilhei dele. Harry estranhou.
— Tá, tudo bem. — Eu disse apenas e caminhei um pouco para ficar longe dele e há uma distância segura, para eu me virar e olhá-lo. Aquele homem era um imã.
Diário, os momentos seguintes foram realmente adoráveis. Nos servimos de biscoitos quentinhos, conversamos enquanto tomávamos chá sobre a sua vida na escola e como ele não sentia mais tanta falta de ser menor.
— E você, como foi a escola para ? — Ele sempre falava com dificuldade o meu sobrenome. Era até que fofinho. Dei um gole no meu chá e me acomodei na cadeira.
— Ah, foi... horrível, para falar a verdade. Principalmente o ensino médio. — Eu disse rindo, mas ele não achou engraçado, apenas pendeu a cabeça para o seu ombro esquerdo. — Sofria um pouco. E, com um pouco, quero dizer bastante.
Harry riu soltando o ar de dentro de si.
— Ah é? E como era isso, se você me permite perguntar? Não consigo te imaginar sofrendo. — Ele disse e eu suspirei.
— Diga isso para a “estranha ”. — Eu disse já bebericando o final do meu chá. Harry não entendeu. Terminei de beber para explicar. — Quando eu era menor me chamavam de “estranha ” porque eu tinha a cabeça enorme desproporcional ao meu corpo magrelo.
Pude vê-lo segurando a risada o que me fez me sentir um pouco pequena.
— Pode rir, eu sei que você quer. — Eu soltei desviando o olhar e ele balançou a cabeça.
— É claro que eu quero rir! Quem diria uma imbecilidade dessa? Sua cabeça é exatamente proporcional ao seu corpo e qualquer um que não aceite isso é apenas um invejoso. — Ele disse acenando para mim com a cabeça e eu fiquei o encarando. Até que sorri. Eu sabia que não era isso o que ele realmente pensava — ou pelo menos a minha baixa autoestima me sabotava ao ponto de eu achar isso. Enfim.
— Bom, acho que está na hora de eu pegar as minhas roupas. — Eu disse me levantando e ele me acompanhou.
— Não quer dormir aí? — ele disse olhando pela janela. — Já está tarde para você voltar.
— Não, é melhor eu ir mesmo. — Fiz que não, agradecendo. Harry suspirou e pareceu ter uma ideia.
— Então eu já sei: vou te levar para casa! — Ele disse como se tivesse acabado de achar um tesouro. Eu ri.
— Mas é claro que não! Eu já fiquei paranoica com a parada do quase beijo aparecer na televisão...
— Do quê?
Olhei para Harry que estava sorrindo de lado para mim. Revirei os olhos.
— Esquece.
— Repete aí, vai. — Ele disse cruzando os braços e rindo.
— Você é um patético, sabia disso? — Eu disse e fomos em direção a lavanderia pegar minhas roupas. Quando estava me trocando senti uma última vez o cheiro de suas roupas e as dobrei, depois de pronta as entreguei para ele que as deixou em cima da mesa.
Eu esperei meu Uber dentro da casa dele, e, assim que o carro chegou, eu não fazia ideia de como me despedir de Harry. Ele se aproximou para me abraçar, mas eu não me sentia exatamente próxima dele — apesar de ter quase o beijado naquele dia. Mas aquele dia não vale, porque estávamos todos alcoolizados e, por assim, muito soltos. Não era eu.
Então eu corri para a porta e acenei para ele, o que foi uma cena mais patética ainda. Peguei o Uber para casa sem parar de pensar nele, é claro. E em como essa última parte tinha sido ridiculamente constrangedora. Para completar tudo, o cara do Uber deixou em uma rádio que tocava Sign Of The Times. Perfeito, eu diria.
Cheguei em casa e meu pai estava me esperando na sala de jantar. Ele tomou um susto quando me viu e saiu correndo em minha direção.
— Caramba, eu pedi para você me ligar, e você nada?! — ele disse bravo me abraçando. Ele se desgrudou de mim enquanto eu pensava em uma desculpa.
— Ah, é que... Eu estava ocupada.
— Ocupada? É isso o que você tem para dizer? — ele me acompanhou enquanto eu caminhava para as escadas.
— Sim, pai. Está tudo bem?! — eu perguntei me virando para ele que parou de andar. Meu pai me observou por um tempo e fez que sim.
— Está sim. Pode ir agora. — Foi só o que ele disse e foi se sentar no sofá.
— Pai... — eu comecei, mas ele ligou a televisão bem alto no canal de esportes — e ele nem era tão vidrado assim em esportes. Suspirei.
É difícil para meu pai só me ter, minha mãe morreu quando eu era muito jovem, é claro que eu me lembro dela, foi uma época bem difícil para todos nós, mas acredito que foi mais ainda para meu pai. Ele era órfão e só tinha a minha mãe e a mim. Agora só lhe sobrou uma pessoa e essa era eu. E para melhorar tudo eu estava o decepcionando, sei que sim. Pois é, diário, eu disse que estava tudo bem, mas eu quis dizer em relação unicamente a Styles. Minha vida com o meu pai parece que só vai piorar se eu continuar essa brincadeira.

XV: Ansiedade

Querido diário,
Eu continuei com a brincadeira.
Sim, eu me sinto muito mal por isso. Esconder essa relação de meu pai tem me deixado um pouco mal. Eu tenho me questionado o motivo disso acontecer, ele parece óbvio, não é? Mas ele não é.
Eu estava em momento da minha vida que amigos seriam de bom agrado, mas como a faculdade ainda não tinha começado e eu tinha acabado de me transferir, isso não estava acontecendo... Tirando, é claro, Harry. Começamos a ficar próximos, o que me surpreendeu de uma maneira incrível. Ao ver a banda dele — a boy band — crescer de longe, pelas matérias e pelas pessoas que ele já se envolveu, bem, que não faziam exatamente o meu tipo de amigos, sempre achei que ele tinha se tornado alguém arrogante. Ok, ele era mesmo alguém arrogante. Mas que tinha suas virtudes também.
Algo de ruim aconteceu esses últimos dias. Eu estava pensando demais sobre meu pai, enquanto Harry escolhia um sorvete para dividirmos — algum com banana. Eu estava parada em frente a sorveteria, olhando para a rua, observando as pessoas passarem, irem e virem, até que notei uma banca de revistas do outro lado. Eu comecei a ver as manchetes penduradas, passeando com os olhos pelas revistas e jornais, até que percebi algo que não queria que estivesse ali: uma foto minha de frente para Harry em uma das revistas teen. Meu coração parou naquele instante e eu engoli totalmente a seco, sem perceber que a minha respiração estava se tornando cada vez mais rarefeita. Pensei tudo muito rápido e o dono da banca nem teve tempo de me impedir quando eu comecei a tirar todas as revistas de vista e as virar ao contrário. Ele me perguntou se estava tudo bem, mas eu não conseguia responder, foi como se eu estivesse fora do meu corpo.
Eu estava descontrolada, não estava mais prestando atenção no que eu estava fazendo, só sei que quando eu percebi, Harry estava tentando me segurar e o cara da banca estava me xingando por eu ter jogado as revistas no chão. Pude ouvir o sussurro de Styles dizendo “Eu estou aqui, você está aqui, calma”. Aos poucos ele foi conseguindo me abraçar e eu cedi, o abraçando de volta. Olhava desesperada para o moço dono da banca, mas ele só me devolvia com um olhar bravo enquanto pegava as revistas e as colocava de volta, me deixando cada vez pior. Então Harry me tirou dali e me levou para um local mais restrito, atrás da banca, para eu me acalmar. Ele disse para eu respirar com calma e foi me ajudando assim, até que eu recuperei a respiração normal. Toquei meus olhos e os senti molhados, não tinha notado que eu tinha chorado. O que estava acontecendo?
— Você está melhor? — Ele perguntou encostando com a mão no meu ombro. Fiz que sim e encostei na parede atrás de mim. Fiquei observando seus sapatos chiques, mantendo o silêncio entre nós. — Você sabe qual foi o gatilho?
— Gatilho? — perguntei sem entender e ele fez que sim. Dei de ombros. — Não sei, eu estava olhando e vi nossa... Nossa... — eu tentei continuar, mas aquela sensação ruim começou a voltar.
— Calma. Eu já entendi. Eu te trouxe sorvete, você quer? — ele estava com um pote com uma banana cheia de chantili e sorvete em cima. Assenti e ele me entregou o pote. Peguei a colher e comecei a comer. Parei e entreguei de volta a ele, assim Harry segurou o pote com uma mão e com a outra ele segurou a minha. Styles me levou pela rua, até encontrar um local com muitas árvores e alguns bancos. Nos sentamos.
Eu e ele ficamos em silêncio, até que eu apoiei a cabeça em seu ombro e ficamos olhando as pombas passarem por ali. Com uma das mãos ele começou a fazer carinho nos meus cabelos e me entregou o sorvete. Voltei a tomá-lo.
Eu não sabia o que tinha acontecido naquela hora, diário, mas sei que depois de terminar o sorvete eu estava conseguindo conversar melhor. Agora eu noto que tudo aquilo era porque eu estava com medo de meu pai descobrir que eu estava o enganando. Harry agiu surpreendentemente bem em relação ao que aconteceu, o que me surpreendeu. Aliás, eu já volto, vou mandar uma mensagem para ele perguntando como que ele fez isso.
Ok, ele me respondeu agora, ele disse isso:
“Minha irmã tem ansiedade. Tenho experiência em sair de crises. Xx H.”
Ansiedade? Eu estava com ansiedade? Eu devia ter notado mesmo, ora essa, eu faço psicologia! Mas eu não sabia que ele tinha isso também, ele conseguiu sair muito bem da crise. Fiquei impressionada e contei isso a ele. Harry disse para eu conversar com o meu pai antes que ele descubra por outro caminho. Acho que ele tem razão, mas não sei se eu tenho certeza se eu estou pronta para isso. Eu nunca tinha enganado meu pai antes — pelo menos não intencionalmente. Agora eu me deitei um pouco na cama e fiquei ouvindo Conan Gray. Ele era um ótimo cantor e eu queria alguma música que não me fizesse pensar em Harry e nessa situação: mas parece que eu falhei, pois é sobre exatamente isso que eu estou pensando.
Sentei-me e voltei a escrever em você, para conseguir tirar todo o peso de dentro de mim, mas não está funcionando. Logo mais começam as aulas novamente e eu não sei mais como viver. Ai meu Deus, eu estou pirando!

XVI: Macarrão com queijo

Querido diário,
Então eu finalmente decidi contar ao meu pai sobre meu mais novo amigo. Foi uma decisão difícil, mas eu estava pirando, como eu tinha escrito da última vez.
Meu pai tinha ido no centro para fazer compras, e eu fiquei em casa, arquitetando como eu faria isso. Eu tinha que preparar o terreno, então eu preparei o jantar preferido dele: macarrão com queijo. Peguei o vinho tinto e derramei sobre as taças em cima da mesa. Coloquei os pratos e talheres, fiquei monitorando a chegada dele pela janela da cozinha, e quando eu notei que ele tinha chegado, coloquei a panela com o macarrão no centro da mesa.
Meu pai abriu a porta e eu estava parada de pé, o esperando. Ele chegou já dizendo que tinha comprado algo para mim, mas eu apenas o ajudei com as sacolas e então o disse que tinha sua comida favorita em cima de mesa.
— Macarrão com queijo? — Ele perguntou esperançoso e eu fiz que sim. Meu pai deu um gritinho de alegria e fomos para a cozinha jantar. Até eu me surpreendi como estava gostoso a refeição, eu tinha feito muito preocupada, mas parece que meu carinho se sobressaltou.
Ele terminou de comer, limpando sua boca com o guardanapo de pano, e sorriu para mim, segurando minha mão.
— O que está acontecendo, filha? — ele perguntou. Estranhei.
— Como assim, pai? — ele sabia que algo estava acontecendo? Como?
, eu tenho escutado você com seus pesadelos a noite. Tenho notado você mais ansiosa, mais estressada, e nem começou o ano letivo. O que está acontecendo?
Fiquei o observando por um curto período e suspirei, olhando para meu prato já vazio, apenas com o molho do macarrão.
— Pai... — Eu comecei, mas eu tinha muito medo de continuar. Não queria desapontá-lo.
— Tudo bem, filha. Pode falar. — Ele voltou a fazer carinho na minha mão. Assenti e mordi o lábio inferior.
— Eu... Eu tenho uma nova pessoa como amiga. — Eu disse e meu pai fez que sim.
— Nova? Não é sua amiga de Oxford que veio passar as férias aqui? — Ele perguntou, mas aí eu notei que ele já sabia. Ele já sabia, diário, ele só queria ouvir de mim. O que me deixou um pouco preocupada.
— É... Não. Pai, não é ela a minha nova amiga. — Eu disse e ele assentiu. Ele soltou minha mão e apoiou os braços na mesa.
— Harry Styles, certo? — Ele disse e eu demorei para fazer que sim. Ele repetiu meu gesto. Meu pai respirou fundo e segurou novamente a minha mão. — Querida, eu só disse para você não se aproximar dele, porque eu conheço o tipo. Ele pode parecer um cara incrível, charmoso, enfim. Mas ele não é flor que se cheire.
— Pai, eu acho que essa visão que você tem dele é ultrapassada...
— Filha. — Ele me interrompeu. — Acho que eu já vivi um pouco mais que você, não é?
Isso me irritou profundamente. Como assim, isso significava que ele era blindado de errar?!
— Pai. Eu estou te dizendo que eu já o conheço um pouco mais do que aquela imagem que você tinha dele quando ele era só um adolescente...
...
—... E ele é realmente uma pessoa incrível. — Eu terminei, o cortando. Meu pai estava me encarando e então ele começou a balançar a cabeça negativamente. — Pai, eu estou falando sério. Ele até me ajudou inclusive com essas crises que eu estou tendo.
— Filha, você está tendo essas crises justamente por estar falando com ele! Antes você não era assim! — Ele disse meio bravo. Fiz que não, e meu pai riu irônico. — É logico que sim, !
— Pai! Me escuta! — Eu disse e ele virou o rosto. Não estava acreditando que estava sendo difícil assim. — Ok, então você quer que eu pare de falar com ele?!
— Quero! — Ele respondeu.
— Mas isso não vai acontecer, pai! — Eu disse e ele já estava irritado. Meu pai se levantou da mesa e saiu da cozinha. Eu não quis ir atrás dele, porém ele voltou com papel na mão todo dobrado. Meu pai me entregou o papel e eu fiquei olhando para ele, sem entender nada.
— Abra. — Ele ordenou e eu o fiz. Era uma foto minha abraçando Harry. — Eu joguei a revista fora para você não a encontrar.
Olhei para ele.
— O quê?
— É isso mesmo o que você ouviu. Eu já sabia que você estava o vendo, mas namorar ele, filha?!
— Pai! Eu não estou namorando o Harry!
— Não ainda! — Ele devolveu. Fiz cara de quem não entendeu, mas acho que isso estava lá no fundo do meu coração: esse desejo de quando eu era criança de tê-lo para mim. — Filha, você já está ficando famosa pelos motivos errados! Quero dizer, eu sempre soube que você iria conseguir a fama, por ser uma cientista famosa, ou uma grande matemática, ou quem sabe uma grande artista! Mas não por namorar alguém!
Engoli a seco e senti o desespero voltar.
— Pai. — Respirei fundo de olhos fechados. — Não adianta. Eu vou continuar a o ver. Não há nada que você possa fazer, e... — Eu disse antes que ele pudesse continuar — ... Caso você não queira participar disso, eu entendo completamente, mas, realmente, ele é a única pessoa que eu estou tendo contato que não é você desde que eu voltei para Londres!
— Filha, você que não está me entendendo! Vou ter que te colocar de castigo?! Eu nunca fiz isso, vou ter que fazer agora?!
— Pai! — Eu respondi e ele ficou me fitando com o olhar totalmente bravo. Respirei fundo e me levantei da mesa, colocando o guardanapo em cima dela. — Se é isso o que você quer, eu vou ficar então de castigo. Por mil anos, que seja! Mas isso não vai me impedir de nada, acredite no que eu estou dizendo.
!
Eu já estava subindo as escadas e me joguei na cama. Comecei a chorar e a chorar sem parar com o travesseiro apertado contra meu rosto. Isso não podia ter saído pior! Agora estou mais calma, mas não quero ver o rosto do meu pai por enquanto.

XVII: Te vejo no próximo diário

Querido diário,
Voltei para escrever em você apenas para atualizar o meu registro do dia anterior. Acabei de acordar e na noite passada meu pai passou pelo meu quarto antes de dormir para se desculpar. Eu chorei mais ainda, ele me abraçou e disse que estaria ali para mim e que só não queria que eu me machucasse nessa história toda. Eu fiz um acordo com ele de nunca mais esconder nada dele e ele me prometeu fazer o mesmo, mas não senti muita firmeza dele. Achei estranho, mas fingi que não achei nada, e ficamos de bem.
Estou percebendo que estou nas últimas páginas desse caderno, por isso eu irei hoje mesmo comprar mais um. Quero continuar com isso até achar necessário e vou deixar essas duas páginas restantes em branco para eu não sentir que tudo acabou, portanto, te vejo no próximo diário!

Xx, .



XVIII: Chuva

Terminei a leitura do primeiro diário. Fui olhar no relógio as horas e tomei um susto quando vi que eram já sete horas da noite. Eu tinha que voltar para ajudar a minha mãe.
Procurei Sofia para pedir a conta, mas não a encontrei e, no lugar, um garoto de cabelo rosa me atendeu. Paguei e me levantei para sair. Estava fora já do estabelecimento, quando começou a chover. Pelo menos eu tinha um casaco com capuz e eu o coloquei. Estava puxando as mangas para proteger minhas mãos e alguém sem querer bateu em minhas costas, me projetando para frente. Olhei para a pessoa e lá estava Sofia.
— Ah, desculpa! — Ela riu, sem graça, e eu sorri. — Não tinha te visto parada aí.
— Tudo bem. Seu turno acabou?
— Sim! Ele terminou agora! — Ela estava colocando um casaco também e pegou seu guarda-chuva para abri-lo. Sofia não estava tendo sucesso com aquilo, então eu me ofereci para ajudar.
— Está emperrado. — Eu observei, e ela pediu o guarda-chuva de volta para tentar. Então ela o abriu, mas na minha cara.
— Ah, meu Deus, desculpa! — Ela disse, se aproximando com a mão erguida para tocar no meu nariz dolorido. — Está tudo bem? Ah, é claro que não está tudo bem! Me desculpa, Julia!
Eu comecei a rir, o que depois de um tempo a levou a fazer o mesmo. Sofia estava muito próxima de mim, eu pude observar seus olhos castanhos escuros de perto e constatei cada traço de seu rosto delicado. Ela parecia fazer o mesmo, nos mantivemos em silêncio enquanto nos registrávamos uma a outra.
— É... — Ela quebrou o silêncio dizendo, olhando para o chão e colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Você mora para que lado?
Eu sorri e apontei. Sofia sorriu para mim também.
— Eu tenho que pegar o metrô.
— Ah, então é para o mesmo lado! — Eu respondi, e ela assentiu. — Podemos ir juntas uma parte do percurso, o que acha?
— Eu acho uma ótima ideia! — Ela disse, colocando uma das mãos dentro do bolso e a outra carregava o guarda-chuva. Ela me ofereceu um espaço embaixo dele e eu aceitei. Andamos uma do lado da outra, conversando coisas bobas, como o tempo, nossas faculdades que eram rivais e outras coisas.
— E o que você estava lendo ali no café? — Ela perguntou, de repente.
— Ah... — eu não sabia como continuar. — É... — Tentei sentir se me sentia confortável para dizer a uma completa estranha sobre os diários de minha avó. — Era um diário. Da minha avó.
— Poxa, sério? Que legal! Eu queria ter esse hábito de escrever minhas memórias, mas eu tenho tanta preguiça! — Sofia riu. — E como está a sua avó?
Engoli a seco, me sentindo muito sozinha naquele momento.
— Ela... Faleceu. Há alguns dias.
— Ai meu Deus, eu sinto muito! — Sofia se exasperou. — Sinto muito, de verdade! Tenho certeza de que ela está em um lugar melhor agora.
Eu não sei se acreditava em algum lugar além dessa vida que vivemos, mas agradeci mesmo assim.
— Vocês eram muito próximas? — Sofia continuou.
— Hã, sim. Ela era uma das minhas melhores amigas. — Respondi.
— Nossa, ela devia ser uma mulher incrível. — Ela disse. Eu assenti, sorrindo. — E o diário?
— O que tem?
— Como está a leitura?
— Ah, está bem interessante. Minha avó tinha uma letra muito bonita! — Eu disse, sorrindo. — Ela era muito bonita também.
— Imagino. — Ela disse, e chegamos ao ponto em que nos separaríamos. — Bom, é aqui que eu me despeço.
— Ah, certo. — Eu disse, e ela sorriu com a linha da boca para mim. — Obrigada, aliás, pela carona.
Sofia riu.
— Não há de quê! — Ela disse, e ficamos nos observando mais alguns segundos, até que eu me aproximei para nos despedirmos e ela esticou a mão. Então trocamos de papel e eu estiquei a mão e ela se aproximou. Rimos e ela me deu um beijo na bochecha. — Até mais, Ju!
— Até, So! — Eu sorria de lado quando me virei e comecei a caminhar rua acima. Olhei para trás e a vi caminhando em direção ao metrô. Uau. Eu estava impactada com aquele momento.
Cheguei em casa encharcada e fui para o banheiro tomar um banho. Minha mãe estava deitada no sofá, lendo algum artigo no computador quando me disse oi. Eu retribuí o oi, e entrei no banho. Tudo o que eu conseguia pensar era naquele pequeno momento que eu tive com a minha mais nova amiga. Por que estava me deixando sem respirar toda vez que eu me lembrava dela? Nunca tinha sentido aquilo antes.
Terminei o banho e fui para a cozinha jantar as sobras da comida do dia anterior Comer aquela comida chinesa me lembrava Diego, fiquei muito chateada por ele não ter me procurado. Mas, por enquanto, eu não falaria nada.
Perguntei para minha mãe se ela iria continuar o trabalho de arrumar a casa e ela disse que eu podia descansar. Aceitei o que ela me disse e eu fui atrás da caixa no escritório. Eu a tinha deixado em cima da mesa, mas ao colocar o primeiro diário ali e trocar pelo segundo, pensei que era melhor devolver no lugar, assim minha mãe não descobriria que eu os estava lendo.
Peguei o segundo diário e me sentei em minha cama, com as pernas esticadas. Deixei apenas o abajur ao lado para iluminar a leitura e retomei, abrindo na primeira página.


XIX: Ela

Querido diário,
Minha vida parecia estar muito boa para ser verdade. Ela continuou boa... Até hoje.
Tudo começou quando Harry me convidou para ir, na última sexta-feira das minhas férias, ao seu estúdio, vê-lo gravar algumas músicas que estavam sendo preparadas para soltar no novo álbum dele. Até aí eu disse que tudo bem, eu iria. O problema foi encontrar uma roupa.
O que se usa em um... (não vou chamar de encontro, porque não estamos namorando e ele nem disse que era um encontro) momento desses? Fiquei enrolando os dias todos anteriores para decidir qual roupa eu deveria usar. Cheguei até a me perguntar por que eu estava tão preocupada com isso, mas não quis ir muito a fundo — você já deve saber a resposta para essa pergunta.
Então a decisão chegou ao seu limite de tempo e eu escolhi uma roupa qualquer: calça jeans e camiseta. Era o que estava tendo para o momento. A beleza estava nos detalhes, então eu me maquiei — nada muito forte, óbvio — e prendi a parte da minha franja dividida no meio, com presilhas da cor da minha blusa branca. Fiquei uma gracinha.
Harry disse que iria mandar um carro me buscar, fiquei esperando em frente de casa. Dessa vez, meu pai sabia de tudo, então em relação a isso eu estava aliviada. Mas esse alívio não duraria muito tempo e logo mais você saberá o porquê.
O carro chegou — eu não fazia ideia da marca, não sou boa com carros — e eu entrei. O motorista era bem bonzinho e perguntava se o clima estava bom para mim o tempo todo. Ele me deixou em frente à gravadora Sony. Desci e entrei no local, perguntando para a recepcionista onde que Harry Styles estaria gravando. Ela ficou relutante em me deixar entrar, então eu pedi para ela ligar para ele. Harry, por sorte, estava entrando no prédio. Ele estava de fone de ouvido e os tirou quando me viu, me dando um beijo na bochecha.
— Ela está comigo, Barbara. — Ele disse, e ela assentiu. Subi com Harry até o andar certo.
— Então... — eu comecei e ele nem se virou para mim. — Eu escutei o seu último álbum.
— Sério? — Ele disse, e eu assenti. — E o que achou?
Dei de ombros e então sorri.
— Melhor do que eu esperava. — Eu disse isso, mas eu realmente estava achando um álbum muito bom, que fez jus a quem Harry era. Ele me deu outro beijo na bochecha e achei bem esquisito esse comportamento dele, mas eu já devia imaginar que ele iria começar a ser mais carinhoso ao decorrer daquela amizade.
Entramos e eu fiquei do lado da mesa de controle, enquanto Harry entrou no estúdio. Eu me sentei e fiquei o observando, por um tempo, conversar com as pessoas da sua banda. Tinham três mulheres e dois homens além dele. Ele fez sinal para o cara que comandava a mesa e ele começou a gravar, enquanto a banda de Harry começava a tocar.
Uma música bem bonita se iniciou e depois descobri que seu nome era “She”. O ritmo era bem sensual e a música em si dizia como a mulher que Harry mencionava era querida por todos e vivia em grande perigo ao seu lado. Achei bem interessante, a voz dele era muito boa.
Em seguida, eles tocaram outra música que chamava “Lights Up” e eu simplesmente amei o ritmo. As músicas foram correndo, mas ele não chegou a tocar todas do novo álbum – pelo menos foi o que ele me disse mais tarde.
Harry e sua banda terminaram de gravar as músicas e ficaram conversando entre si, enquanto eu estava olhando tudo de fora. Estava me sentindo um pouco sobrando, comecei a questionar o motivo dele ter me chamado ali, até que Harry fez sinal para que eu entrasse no estúdio. E foi o que eu fiz, mesmo morrendo de vergonha.
— Pessoal, essa aqui é a . esses são Mitch, Sarah, Ny Oh, Adam e, por último, mas não menos importante, Charlotte. — Ele disse, e ela riu.
— Prazer em conhecê-la, . — Sarah disse, e eu acenei para eles.
— Oi. — Eu respondi, e um silêncio constrangedor se instalou entre nós.
— Harry disse coisas maravilhosas sobre você. — Ny Oh disse, e eu estranhei.
— Harry? Esse Harry? — eu apontei para ele e ela riu, fazendo que sim. Harry deu um sorriso infantil. Olhei para ele. — Você está muito carinhoso esses dias, o que está acontecendo?
— Nada. — Ele deu de ombros, ainda sorrindo daquele jeito. — Só estou feliz, não posso?
— Hum. — Eu respondi.
— Eu estava aqui dizendo para o pessoal como você canta maravilhosamente bem.
Eu comecei a rir e ele me acompanhou, deixando o pessoal sem entender nada.
— Eu não canto bem, ele está brincando com vocês.
— Ah. — Charlotte respondeu, e riu. — Que brincalhão esse Harry, hein.
Eu notei ironia na voz dela, não entendi o motivo, mas resolvi ignorar. Eles começaram a conversar sobre o álbum e me perguntaram qual música eu mais tinha gostado. Eu respondi que aquela primeira que eles tocaram foi a mais instigante e eles se entreolharam, concordando.


XX: Dia nublado

Acordei com o barulho do aspirador de pó. Minha mãe deveria estar limpando a casa naquele horário, mas não entendo o motivo de ser tão cedo. Olhei para o relógio do celular e já eram duas da tarde! Ok, talvez não era tão cedo assim.
Me espreguicei toda e me levantei da cama. Tinha dormido no meio da leitura, portanto nem lembrava onde eu tinha parado. Troquei-me as roupas e me arrumei, pois iria para aquela cafeteria de novo — não sei o que estava me levando tanto a querer ir para lá, mas acho que o ambiente me deixou bastante confortável para ler os diários.
Perguntei à minha mãe se ela queria ajuda, mas ela disse que iria dar uma pausa na arrumação e que iria trabalhar um pouco. Minha mãe também estava de licença e ela aproveitou e já pegou férias de quinze dias. Acho que ela também queria passar um tempo sozinha para refletir e quem sabe se sentir melhor.
Aquela tarde estava muito bonita: estava nublado. Eu adorava dias nublados; ensolarados eram bonitinhos, mas nublados eram maravilhosos.
Estava caminhando enquanto pensava muito em Diego. Ele ainda não tinha me mandado nenhuma mensagem. Será que era o momento para eu mandar?
Ah, não seja boba, Julia! Se ele quiser se desculpar, ele que fale com você, você não tem nada para pedir perdão. É.
Sentei-me à mesma mesa que eu tinha sentado ontem e coloquei meu celular em cima dela. Abri o caderno e olhei por cima dele, em busca de Sofia. A encontrei de costas para mim, atendendo uma das mesas mais à frente. Sorri e voltei o olhar para o diário.


XXI: Coloque um pouco de amor em mim

Depois de muita conversa jogada fora, Harry disse que me levaria para casa. Todos se despediram, saímos antes de todo mundo e ele me levou até o carro. Entramos nos bancos de trás, os vidros eram muito escuros, então era bem difícil de alguém adivinhar que Harry estava ali comigo. Pelo menos isso.
— O que achou? Diga a verdade agora. — Ele disse, olhando para a janela do motorista. Olhei para Harry e depois para frente.
— Eu adorei! De verdade. Foi maneiro, consegui conhecer você um pouco melhor... — comecei a viajar, quando ele me interrompeu e ficou falando sobre o seu novo álbum, Fine Line. Eu estava pensando naquela Charlotte, em como ela era bonita e em como ela tinha me respondido. — E você e Charlotte?
O interrompi e Harry parou, me encarando.
— O que tem?
— Você sabe o que tem. — Eu disse, ainda sem olhar para ele, continuando a observar a paisagem que passávamos.
— Está com ciúmes, ? — Ele me cutucou, mas eu não respondi. — Ah, eu estou noivo dela.
— Harry! — Olhei-o agora, mas ele desatou a rir. Balancei a cabeça negativamente. — Acho que ela gosta de você.
— Nah. — Ele jogou a mão no ar. — Ela só trabalha comigo. Somos profissionais.
Lembrei daquela mulher mais velha que trabalhava no X Factor e que ele teve um caso. Só assenti.
Percebi que não era o caminho da minha casa, então estranhei.
— Aonde estamos indo? — eu perguntei, e Harry sorriu.
— Você verá.
Fiquei tentando adivinhar o caminho inteiro, mas só quando o motorista parou em frente que eu adivinhei: Hyde Park.
— E por que estamos aqui? — Eu disse, enquanto saíamos do carro. Harry falou com o motorista e depois ele se virou para mim, pegando na minha mão. Naquele momento, aquele choque passando por meu corpo todo e fazendo meu coração acelerar feito louco aconteceu. Tentei deixar a minha respiração normal, estava difícil, vou admitir, sua mão grande envolvia a minha pequena.
— Só queria passar um tempo com você. Esses dias têm sido malucos por conta dos retoques no álbum novo. E eu sei que daqui a três dias começam as suas aulas, o que significa que você não vai ter tanto tempo assim para mim.
— Ah, Harry Styles está tristinho que eu vou voltar às aulas? — eu perguntei, com um sorriso no rosto, olhando para ele. Ainda estávamos de mãos dadas. Ele balançou a cabeça, sorrindo.
— Deixa de ser chata. Eu não posso querer passar um tempo com a minha amiga? — ele disse, se virando para mim e soltando a minha mão. Ele estava andando na minha frente, de costas para o caminho. Coloquei as mãos nos bolsos da calça.
— Se for com a Charlotte... — comecei, e Harry riu. Sorri para ele. Olhei distraída para o lado e percebi um paparazzo. Harry olhou para onde eu olhava.
— Quer apostar corrida? — ele disse.
— E voltamos para o jardim de infância. — Eu respondi, e ele balançou a cabeça, já se virando e se projetando para frente.
— Vamos! Quando eu disser já.
— E o que eu ganho com isso? — Eu perguntei.
— Bom, ficar longe deles. — Ele apontou com a cabeça na direção do cara com a câmera. Sorri e falei:
— Quando eu disser já.
— O quê? Eu que ia falar...
— Já! — Saí correndo na frente de Harry, mas logo ele já estava quase ao meu lado. Ele tinha pernas mais longas que as minhas, portanto corremos muito e ele me ultrapassou rapidinho. Chegamos cansados em um lugar que eu nunca tinha visto dentro do parque: era um caminho coberto por folhas e plantas até o céu.
Parei ao seu lado, ele apoiando suas mãos em seus joelhos e eu me sentei no chão, encostando as costas nas plantas. Harry tentava normalizar a respiração, assim como eu, e ficou olhando para longe dali.
— Acho que ninguém vai nos ver aqui. — Ele disse, se jogando ao meu lado. — Estamos sozinhos.
Eu e ele ficamos em silêncio até estarmos com o fôlego recuperado. Então eu tive uma ideia. Estava com o meu celular em um dos bolsos e o peguei. Tinha os fones de ouvido também e coloquei um deles no ouvido esquerdo. Entreguei a um Harry cansado e ainda respirando desengonçadamente ao meu lado, que o pegou e o colocou, em seguida perguntando o que iríamos ouvir.
— Calma, estou colocando. — Abri o celular e fui ao Spotify. Encontrei a música “Are You Bored Yet?” e botei para tocar. Harry começou a mexer a cabeça no ritmo da música, eu ri e o empurrei para o lado, o fazendo sorrir. Depois começamos a prestar atenção na letra.
Fiquei pensando que eu estava tentando passar uma mensagem para ele subliminarmente com essa música, só não sei se ele repararia. Eu estava com medo dele se sentir entediado comigo em algum momento e então me descartar, aquele medo era muito grande, mas eu estava tentando me conter durante aquele tempo todo e no tempo seguinte, até quando aquilo durasse. Era estranho tê-lo como amigo, era gostoso, mas ao mesmo tempo meio perigoso, eu não queria ser “a amiga de Harry Styles” para o mundo, como meu pai tinha dito que eu viraria. Eu queria ser .
Harry estava olhando para o chão em frente enquanto ainda ouvíamos a música. Fiquei olhando para ele, esperando uma reação. Meu coração estava aceleradíssimo só por estar a essa pequena distância dele e poder sentir seu cheiro de tão perto. A música terminou e uma outra qualquer que o Spotify colocou começou a tocar. Harry estava ainda em silêncio, então ele pediu licença e pegou meu celular. Eu li o título “Put a Little Love On Me” do Niall Horan e a música começou a tocar. Eu fiquei ouvindo a música, mas no começo eu viajei no pensamento de que era de um dos integrantes da boyband dele. Achei bonitinho da parte de Harry me apresentar uma música de seus amigos.
Então quando Niall cantou a parte “I've still got so much love hidden beneath this skin” eu voltei a prestar atenção. A música dizia para a pessoa perceber que o eu lírico gostava dela e que ela devia se contentar com isso. Harry tinha respondido à minha música com aquela, só que aquela música dizia muito mais do que eu estava esperando, dizia como Harry estaria possivelmente apaixonado por mim. Eu sei que não poderia ou não deveria questionar se aquilo era verdade, porém a minha baixa autoestima me dizia que eu estava viajando. Viajando ou não, eu estava acreditando. E não queria me achar naquele momento, mas se fosse realmente verdade, então eu tinha Harry Styles apaixonado por mim. A minha eu de nove anos estaria gritando de alegria.
Niall cantou as palavras “Last night I lay awake stuck on the things we say” e eu me virei para Harry para dizer que aquela era a música mais bonita que me mostraram naqueles últimos tempos, mas ele já estava olhando para mim. Estávamos muito próximos um do outro, meu coração aceleradíssimo e se ele não estivesse tão alto, eu poderia escutar o dele. Harry começou a olhar para meus lábios e eu já sabia o que estava por vir. Daquela vez, eu não iria impedi-lo, inclusive até fechei meus olhos, preparada.
?
Abri meus olhos e Harry estava olhando para cima. Eu fiz o mesmo e não acreditei no que eu vi: Steven estava ali, me encarando.
— S-Steven? — eu gaguejei, e ele olhou para Harry antes de sorrir para mim.
— Você não vai me cumprimentar? — Ele disse, e eu assenti, me levantando em um pulo.
— E aí, como você está? — Abracei-o, tentando parecer surpresa e feliz, o que não deixava de ser verdade... A parte da surpresa, já a da feliz, não. — Quanto tempo, hein!
— Pois é! — ele disse, me soltando, e notei que Harry estava ao meu lado de pé. Steven ficou olhando para Harry e Harry para Steven.
— Ah, esse é... — Comecei, mas Steven me interrompeu.
— Harry Styles! É claro! Quem não reconheceria Harry Styles? — Ele disse, ainda olhando para Harry.
— Ah, certo. Harry, esse é... — Eu disse, mas foi a vez de Harry me interromper.
— Steven. — Ele disse, e eu não entendi como ele sabia o nome dele. Harry lançou um olhar rápido para mim e voltou a olhar para ele. — Você acabou de dizer.
— Ah, é! — Eu disse, e ri, mas nenhum deles me acompanhou. — É... Que bom, agora todos se conhecem!
Eu disse, numa tacada desesperada.
— Como você conhece a ? — Harry perguntou para Stevie. Steven sorriu naquele momento.
— Eu era o namorado dela em Oxford. — Ele respondeu. — E você?
— Eu sou o namorado dela em Londres. — Harry disse, e eu dei uma cotovelada nele.
— Ele está brincando! — Eu disse, rindo desconfortavelmente. Harry sorria vitorioso para Steven, que devolveu o sorriso, porém bem falso.
— Ah, entendi. Eu ouvi falar que você era bem brincalhão, mesmo. — Stevie deu uma risadinha por educação e Harry devolveu com outra bem irônica. Eu estava surtando, diário.
— E, Stevie, o que você está fazendo aqui? — Eu perguntei para Steven.
— É, Stevie, o que você está fazendo aqui? — Harry perguntou também. Steven olhou para Harry rapidamente e voltou a me encarar.
— Eu posso conversar com você... A sós? — Ele disse, e eu me espantei.
— A sós? — Eu me virei para Harry, que ainda o encarava. Então ele olhou para mim.
— Ah, claro, eu preciso falar com o motorista para voltar mesmo, eu tenho um compromisso logo mais. Com licença, vou ligar para ele. — Ele disse, já pegando o celular e se afastando um pouco. Eu estava olhando para Harry e Stevie pegou em minhas mãos, me fazendo olhar para ele.
. — Ele disse. — Você não sabe o quanto eu pensei em você nesse último mês.
— Hã... Certo. — Eu disse, desconfiada. — Steven, muito bonito da sua parte, mas nós terminamos e eu fui embora justamente para não pensar em você.
, eu sei disso, mas é que eu realmente não parei de pensar em você e — ele continuou, antes de eu conseguir o interromper. — Vim até Londres para te dizer que eu te quero de volta.
Suspirei. Ele não tinha o direito de querer reatar comigo depois de tantas brigas de ciúmes e o término, não tinha o direito de me fazer duvidar de não gostar mais dele.
— Stevie — comecei, e ele não me deixou terminar.
— Você não precisa dar sua resposta agora, teremos pelo menos um semestre para você decidir se quer ou não.
— O quê? Você...?
— Me transferi para a King’s! — Ele disse, animado, e eu não sabia como reagir àquela notícia. — Mas fique tranquila, não é por você exatamente que eu fiz isso, minha mãe e meu pai estão se separando e eu já te contei que eu detesto meu pai, certo? Ele era tóxico para minha mãe, a tratava muito mal e ela se mudou para Londres por conta da psicóloga. Daí ela pediu para que eu morasse com ela durante um tempo. Cá estou!
Eu me senti um pouco aliviada por não ser “exatamente” por quem ele fez isso, mesmo assim eu estava preocupada. Eu ainda tinha sentimentos por ele, não havia me recuperado totalmente da nossa última conversa em que dissemos que não estava indo para frente a nossa relação, não queria ter que passar por aquilo de novo. Mas acho que poderíamos ser amigos, não?
— Entendi. — Eu disse, e ele soltou as minhas mãos.
— Vamos, é uma chance de darmos novas risadas! — Ele ainda estava animado e eu só assenti e olhei para Harry, que estava falando no celular. Harry olhou para mim. — Vocês são mesmo namorados?
— O quê?
— Você e o Harry Styles. — Olhei para Steven e ele parecia tímido.
— Não! Não acredite em tudo o que ele fala, Harry gosta de brincar o tempo todo. — Eu disse, colocando as mãos nos bolsos da frente da calça.
— Certo. — Ele disse, e continuou a me olhar. Eu sempre amei aqueles olhos dele.
— Oi. Vou ter que interromper, mas Jeremy, o motorista, já está aí. Vamos, ? — Harry apareceu, colocando sua mão nas minhas costas, o que fez um arrepio percorrer por todo o meu corpo. Um arrepio bom.
Stevie disse, sem emitir um som, ?” e eu só sorri, me despedindo dele. Ele disse que me mandava mensagem e eu disse que tudo bem.
Harry ficou mudo a viagem inteira. Mas ele não podia me culpar se Steven do nada apareceu e interrompeu nosso momento. Poxa, se ele quer tanto me beijar, por que não me beija agora? Que droga, diário.
O carro parou em frente à minha casa. Tirei o cinto e respirei fundo.
— Harry, está tudo bem? — eu perguntei, e ele sem me olhar respondeu:
— Está sim.
— Harry... — Eu disse, e ele começou a olhar para a sua janela. Suspirei. — Então tchau.
Eu saí do carro e não olhei para trás, diário. Se ele queria ficar irritado comigo por aquele motivo besta, não podia fazer nada.


XXII: Não existem coincidências

— É o diário?
Olhei para cima e Sofia sorria para mim. Sorri de volta, assentindo.
— Sim! — Disse, empolgada. Ela estava olhando para o caderno em minhas mãos e depois levantou o olhar para mim.
— Esse não é o mesmo caderno de ontem, não é? — Ela disse, e eu me surpreendi por sua perspicácia. Fiz que não.
— É a continuação.
— Ah! — Ela disse, e sorriu. — Que demais!
— Sim. — Eu concordei. — E está tudo bem com você?
— Hã? Ah, está sim! Trabalhando, sabe como é. Voltei agora pouco da faculdade.
— E qual curso você faz? — eu perguntei.
— Psicologia.
— Não brinca! Minha avó também fez psico! — Eu estava sorrindo. — Que coincidência.
Sofia riu e olhou para suas mãos, antes de olhar para mim de novo, um pouco envergonhada.
— Eu sempre acreditei que não existem coincidências. — Ela disse, o que me fez pensar. Um dos funcionários a chamou e ela teve que se despedir de mim por enquanto, voltando a trabalhar. Naquele mesmo momento, meu celular tocou. O peguei e olhei para a tela: uma foto de Diego distraído estava lá, enquanto o telefone ainda tocava. Fiquei em dúvida se eu atendia, mas logo a dúvida foi embora. Era óbvio que eu devia atender.
— Alô?
Ju?
— Oi. — Eu olhei para o diário na mesa. — Tudo bem?
Ju, eu te liguei, porque eu quero que você me escute.
— Tudo bem. — Eu disse, e olhei para Sofia, que estava atendendo uma das mesas. — Pode falar.
Julia, eu esqueci de te falar uma coisa ontem. Você é a mulher mais incrível que eu já conheci. É destemida, tem personalidade marcante, sem falar que é a mulher mais linda do mundo. Mas, principalmente, quando precisamos de verdade de você, você está sempre lá. Eu exagerei quando eu surtei ontem. Não devia ter falado que você nunca cumpre com o que combinamos, você não faz porque quer, você faz porque precisa. Eu sei que isso não significa que você não gosta de mim, só significa que naquele momento você precisava ajudar outra pessoa — e eu fico muito feliz quando essa pessoa é você mesma, porque mostra como você sabe cuidar de si e se valorizar. Desculpa de verdade por ser um grande babaca! Eu prometo que estou mudando, você me faz querer ser alguém melhor.
Suspirei. Era tudo o que eu queria ouvir dele.
— Diego...
Você me perdoa?
— É claro, sua besta! — eu disse, e ele riu. — Por favor, só não faça mais isso. Eu...
Eu sei, eu sei, me desculpa. Eu te amo, tá? — Ele disse, e meu coração parou. Olhei para o chão em frente à mesa. Ficamos em silêncio por alguns segundos e, antes que ele pudesse falar qualquer coisa, eu disse:
— Eu também.
Diego soltou uma risada gostosa. Eu estava dizendo a verdade, só não sabia se era da mesma maneira que ele estava dizendo. Então eu escutei alguém batendo no vidro ao meu lado da janela e eu olhei. Lá estava Diego, com um buquê de flores na mão. Fiquei em choque, não acreditei na hora, mas logo desliguei o celular, peguei minhas coisas e saí do café, indo encontrá-lo.
— Não acredito. — Eu disse, a alguns passos dele. Diego sorria. — Ah, meu Deus, você é um ridículo!
Diego riu e eu fui até ele para abraçá-lo. Diego me deu um beijo daqueles de cinema, me deixando caidinha por ele. Ele se desgrudou de mim, dando mais um selinho, e me entregou as flores. Eu as peguei e dei risada, ele me acompanhou.
— Estamos de bem? — Ele perguntou, e eu assenti, olhando para as flores. — Ótimo.
Diego esticou a mão e eu a peguei, começamos a andar lado a lado para longe dali. A alguns metros de distância, enquanto ele falava alguma coisa que eu não estava prestando atenção, eu olhei para trás para ver a cafeteria. Voltei o olhar para ele e continuamos a andar.
— E a leitura? Como está? — Ele perguntou, e eu dei de ombros, um pouco decepcionada.
— Minha avó quase beijou o Harry.
— Mas isso já tinha acontecido, não? — Ele olhou para mim e eu fiz que não.
— Dessa vez ela disse que estava pronta para beijá-lo, mas o ex dela apareceu e disse que a queria de volta.
— Uau, que filme. — Ele olhou para frente.
— Filme foi você aparecer com um buquê para mim. Aliás, como sabia onde eu estava?
— Bom, primeiro eu fui até a sua casa e só encontrei sua mãe. Ela tinha dito para mim que você foi a uma cafeteria perto daqui e eu comecei a andar a esmo procurando por ela, só que eu não estava me aguentando de ansiedade para conversar com você. Eu te liguei e quando reparei, estava no lugar certo.
— Caramba! — Eu disse, impressionada.
— Coincidência, não? — Ele me disse, sorrindo, e eu sorri de volta. Eu sempre acreditei que não existem coincidências, a voz de Sofia disse, na minha cabeça. — Então... Para onde você quer ir?
— Hã, acho que podemos ficar por aqui mesmo. — Estávamos em uma praça. — Acho que aqui é gostoso para continuar a leitura.
— Tudo bem, eu vou ler um livro então. — Ele disse, e eu o encarei. — O que foi?
— Você vai ler comigo, ué. — Eu disse, e ele sorriu, empolgado.
— Sério?
— Claro. Se prometer não pirar de novo... — Eu comecei, e ele riu.
— Culpado. Bom, vamos nos sentar aqui? — Ele se aproximou de uma árvore e se sentou em frente a ela. Eu afirmei com a cabeça e me sentei entre suas pernas, apoiando a cabeça em seu peito, ele me abraçando por trás. Peguei o caderno, abri onde eu tinha parado e voltei a ler, agora em voz alta.


Continua...



Nota da autora: Olá, pessoal, tudo bem? Como estão? Gostaram da atualização? Vou atualizar de pouco em pouco agora. Dei a louca e coloquei os dezessete primeiros capítulos na primeira atualização, porém agora vou atualizar aos poucos, daí terá uma atualização frequente hehehe. O que estão achando da história da Julia, Diego e Sofia? E da avó da Julia com o Harry? Só digo que foi um choque para todos nós a volta de Steven... Porém, vamo que vamo continuar a história! Hahaha. Obrigada por lerem, fico feliz de verdade! Comentem bastante para eu saber o que vocês estão achando da história! Beijooosss de luz :*
Ass: Giulia M.

Outras Fanfics:
Como sobreviver na Faculdade [Restritas - Bandas - Em Andamento]
Faz parte do Esquema [Restritas - Originais - Em Andamento]
15. You Wish You Knew [Ficstape Zayn - Icarus Fall]
A culpa não é das estrelas [Especial Extraordinário]
Aprendendo a falar a língua da matemática [Challenge 012]

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.


comments powered by Disqus