Trono de Sangue

Última atualização: 04/02/2018

Prefácio

Onde há grandes impérios, há também rastros de dor e de sangue. Ninguém chega ao seu objetivo sem a abdicação de si próprio. Lutas e batalhas travadas, longas guerras incisivas, tudo em troca de um ápice: o poder.
O desejo do poder sempre cegou os homens. Por causa dele pessoas foram feitas escravas, mulheres foram arroiçadas, crianças exploradas e muito sangue derramado. Debaixo de cada grande pedra do castelo, sempre há uma história, se as paredes falassem, elas gritariam por socorro e liberdade.
Um reino subjugando o outro, todos querendo sempre mais. Longas guerras foram travadas até que se pudessem utilizar uma palavra que parecia tão distantemente esquecida, a paz.
A coroa fornece o poder ao homem, lhe dá a capacidade de agir ou exercer influência aos indivíduos depostos a ela. Com a coroa vêm grandes responsabilidades. Mas, quem garante que todos estão aptos a utilizá-la?
Dizem que a coroa deveria selecionar os seus utilitários, isso impediria que homens gananciosos, egoístas e sem escrúpulos governassem o mundo. Infelizmente não é assim. Um símbolo de tamanha força sendo passada de geração em geração até ser arrancada brutalmente, em sangue, por aqueles que a ambiciam.
Os impérios que dividem o mundo finalmente estão em trégua, sendo o Rei de Ílac o grande pioneiro da paz mundialmente hoje instituída. Não foi fácil, mas o poderoso abriu os olhos dos demais para a destruição em derredor. Da forma que todos eles se destruíam, nada sobraria quando a guerra acabasse. Como poderiam exercer o poder sobre alguma coisa se nada restasse?
E foi com essa fala que a guerra cessou, com muita persuasão e após alguns anos de tratados, enfim, o povo poderia andar livremente pelas ruas sem o medo do ataque repentino.
Sempre que um acordo é feito, há um símbolo que representa a aliança, desta forma, os dois maiores impérios do combate selaram o seu acordo com uma promessa. Uma aliança que não seria apenas simbólica, mas física. Ílac e Medroc unidos pelo sangue.
Uma geração nascida através desse pacto, sabendo todas as responsabilidades que deveriam seguir para manter a paz. de Ílac e Henrique de Medroc. Dois nomes, duas coroas, dois sangues diferentes, mas que se tornariam um.
Tudo poderia dar certo se no coração pudesse mandar, a ganância do homem pudesse impedir e a morte se pudesse deter.



Prólogo

A garota empunhava sua espada e lutava ferozmente. Um, dois, três golpes falhos. Direita, esquerda... A espada rival vinha em sua direção e ela lançou-se para o lado desviando enquanto era tempo. Arregalou os olhos surpresa com o ataque repentino. Franziu a testa enquanto colocava-se em posição novamente, segurando a espada com as duas mãos. O suor já escorria do lado da sua testa fazendo pregar em seu rosto os fios de cabelos que escapavam do amarro. Correu alguns passos em direção ao adversário, erguendo a espada na tentativa de atingir-lhe a barriga, mas seu oponente conseguiu ser mais rápido e com um golpe, girou e bateu em sua espada lançando-a para longe.
A menina ficou vulnerável e quando a espada rival foi em sua direção abaixou-se rapidamente rolando para a direita.
- Já não é o suficiente? - gritou ela exasperada. Sabia que ele não a feriria, mas seus golpes eram tão certeiros que sua adrenalina ficava incontrolável e sofria para desviar dos arremetes.
- Seu verdadeiro inimigo nunca achará que é o suficiente, , não até ter sua cabeça em mãos. - disse, lançando um golpe novamente nela e fazendo-a ter que rolar no chão para desviar.

- Eu já não vou casar com o Henrique? Não é esse o acordo? – disse arfando quando desviava dos golpes – A paz foi instaurada já faz dez anos. Qual o sentido disso tudo? - disse ela tentando correr até aonde sua espada havia caído. Pegou a espada e conseguiu entrar em formação novamente aplicando um golpe de direita.
- Você nunca sabe o dia de amanhã, . Um governante sempre deve estar preparado para tudo. - dizia o homem enquanto eles batalhavam. - Há uma linha tênue entre a guerra e a paz. Hoje estamos em paz, o amanhã nunca se sabe. O coração do homem é um terreno que ninguém pode desvendar, nunca confie plenamente em ninguém, nem mesmo no seu futuro marido. Abra os olhos, seja atenta e esteja preparada para o que vier. - Deu uma rasteira na garota, aproveitando a sua distração com a conversa, derrubando-a de costas no chão.
A menina sentiu seu lombo arder com o impacto e suas mãos espalmaram-se no chão junto com a sua espada enquanto o homem inclinava-se em sua direção, a fim de dar o golpe final.
A garota, em um movimento rápido, ergueu a mão que estava colada ao chão, segurando firmemente a espada. Ergueu-a imediatamente, levantando-a no momento que o homem lançava-se para aplicar o golpe sobre ela. A espada foi em direção ao abdômen do senhor finalizando o golpe que, enfim, declararia a vitória da menina.
- Sou sempre atenta e preparada, papai! - Levantou-se vitoriosa com um sorriso largo no rosto.
Adorava quando seu pai a subjugava. O seu treinamento era sempre pesado. Por ser mulher, seu pai pegava mais pesado ainda com ela. Ela possuía um dos melhores guerreiros para treiná-la desde que aprendeu a andar, porém, às vezes, seu pai queria testá-la pessoalmente, para ver a evolução com seus próprios olhos. Surpreendê-lo era questão de honra.
Só tinha 13 anos, para aquele mundo, não era jovem demais, não havia crianças nos impérios. A infância era algo completamente roubado dos herdeiros. Criança só era considerada àquelas que não sabiam andar ou que ainda mamavam. Para eles, já era uma jovem, quase adulta. Já estava quase apta a assumir os compromissos reais. Só faltava uma coisa para que marcasse o início da sua nova vida e a garota temia que esse dia chegasse, só faltava virar mulher.
Ela levantou-se e ergueu a mão para ajudar seu pai ficar de pé também. Ele deu um sorriso de canto, orgulhoso da própria filha. A pontinha da espada de madeira utilizada nos treinos de combate havia batido com força e ele impunha a mão na barriga gemendo um pouco pela dor, mesmo que estivesse de colete no momento. Levantou-se e deu dois tapas nas costas da sua filha parabenizando-a pela vitória.
Ela estava pronta. Estava preparada para assumir o governo, embora ainda não fosse o tempo.
Olhou para trás quando ouviu os passos da sua mãe se aproximando da sala de treinos.
- Sabia que encontraria vocês aqui. - disse com um sorriso. - Miles, eu tento feminizar essa menina e você só sabe colocá-la nesses treinos, levá-la pra floresta caçar, subir em árvores... Vê se isso é coisa para uma princesa fazer!? - disse a mulher com uma expressão fechada, disfarçando o sorriso. Ela sempre reclamava, mas achava bem divertido o fato da sua filha poder fazer muito mais coisas que ela poderia. Se uma invasão acontecesse, a menina, tão nova, saberia se cuidar muito melhor do que ela, que seria apenas um peso morto, um estorvo.
- Fique tranquila, mamãe, também sou uma menina muito dedicada as suas aulas, veja só! - falou fazendo uma reverencia bem desengonçada para provocá-la mais ainda, o que acabou arrancando uma risada do seu pai.
- Essa menina é meu orgulho. - falou ele quando passava o braço em seus ombros a abraçando.
- Não sei o que eu faço com você. - A mãe rolou os olhos e chamou-os para se juntar a ela no almoço. - Não vejo a hora da Menarca chegar, aí você não será mais problema meu, Henrique lhe dará um jeito. - disse em tom de brincadeira, mas fazendo o estômago de gelar.

3 meses atrás

A menina corria pela floresta que ficava ao lado leste do castelo, seus cabelos escuros estavam soltos. adorava sentir o vento o balançar e fazer ele refutar para um lado e para o outro. Era apenas mais um treino, queria testar sua resistência, contava o tempo com o pensamento para saber se estava mais rápida ou não. Ela se desafiava a cada dia, adorava a adrenalina. Não gostava de se sentir inferior porque era do sexo feminino. Não era comum ver no exército de Ílac mulheres, mas ela queria ser a exceção, queria liderar, por mais que, talvez, poderia nunca precisar colocar em prática tudo aquilo. Mas uma coisa era certa, ninguém nunca a subjugaria, qualquer situação que tivesse, ela saberia se impor.
Havia começado a correr há uns dez minutos quando sentiu uma pontada na região pélvica, fazendo-a parar instantaneamente. Achou que fosse a dor comum que se sente quando se faz muito exercício físico, mas lembrou-se que desde o dia anterior que ela sentia esse incômodo na região inferior do abdômen.
Pousou a mão no local onde sentia a dor e fechou os olhos em sofrimento com aquela pontada aguda que irradiava daquele ponto. Sentia-se mal. Suas pernas pareciam mais cansadas e seus pequenos seios, ainda não totalmente desenvolvidos, estavam sensíveis.
Sentou-se no chão, a fim de esperar que a aquela dor passasse. Desta vez o incômodo tinha vindo com tudo, crescendo e cada vez mais forte. A menina deitou em meio a terra, sem nenhuma delicadeza, ficando em posição fetal, gemendo de dor.
...
Não sabia quanto tempo tinha passado enquanto estava na mesma posição, quando ouviu a voz de ao longe. Poderia ser uma miragem devido tamanha dor que sentia, mas quis se arriscar chamando-o até la, mesmo que tenha saído mais um resmungo do que o próprio nome do garoto em si.
- Estou aqui. - disse gemendo.
O garoto que estava em busca da menina, a pedido de sua mãe, devido à demora dela na floresta, assustou-se ao ver aquela situação. aproximou-se do local e correu ao ver naquela posição se contorcendo em dores. Ele abaixou-se preocupado com sua amiga e tocou seu rosto que estava úmido de suor.
- O que você tem, ? - disse ele preocupadamente.
- Dor... Sinto uma pontada muito forte no abdômen. Não há posição que eu fique que alivie. Dói muito, ... - disse ela virando para um lado e para o outro a fim de achar uma posição mais confortável.
- Calma, , eu vou te levar para casa, consegue levantar?
A menina tentou esticar-se, mas a dor só se alastrava mais. O garoto ajudou-a a levantar-se, apesar dela continuar meio encurvada para aplacar a dor. Passou o braço da menina em seus ombros e o seu braço por baixo para sustentá-la. Vendo que a menina não conseguiria andar nem com seu apoio, passou o braço por suas pernas erguendo-a em seu colo. A menina passou os membros pelo pescoço de deitando a cabeça em seu peito. Sua respiração estava rápida, nunca havia sentido uma dor daquele modo.
Um pouco aliviada, devido a posição que era mais confortável, conseguiu notar o coração do garoto que batia freneticamente. Não sabia se era por preocupação ou pelo contato, mas conseguiu em meio ao sofrimento esboçar um sorriso escondido no peito de , ao saber que ela mexia com ele da mesma forma que ele mexia com ela.
Podia ser bobagem de criança, mas sentia um pequeno sentimento esquisito toda vez que estava com ele. Seu coração batia mais forte e sempre queria chamar sua atenção de alguma maneira. Eram amigos desde sempre, não havia preconceito em sua casa por brincar com o filho de um serviçal.
Era filha única e se sentia muito sozinha. Seu parente novo mais próximo era seu tio que era apenas cinco anos mais velho do que ela. Poderia parecer pouco, mas cinco anos fazia uma enorme diferença naquela época. Enquanto ela acabava de entrar na infância, seu tio já estava aprendendo se educando sobre assuntos reais, quando ela finalmente participava das aulas, ele já participaria das reuniões do conselho.
era o que ela tinha de mais próximo, a pessoa que ela poderia ver todos os dias e fazer parte da sua vida, era o seu confidente.
Os outros, por mais amigos que fossem, sempre seriam mais distantes. O próprio Henrique, seu prometido, ela não via com tanta frequência. Só uma data era certa para rever os filhos dos reinos... Na conferência da paz, que ocorria anualmente.
Ao mesmo tempo que sentia aquele friozinho na barriga quando estava com , sabia que não poderia passar daquilo. Ela estava prometida, ela era um acordo que selaria a paz entre os Impérios. Não queria se envolver e quebrar seu coração. Queria doá-lo somente para Henrique.
Henrique era um menino bom, mas não fazia seu coração bater ou suar frio como fazia com ela. Ela cria piamente que poderia ser feliz com Henrique, era isso que seus pais diziam, o amor vem com o tempo. Não que ela soubesse de fato o que era amor. Não tinha experiência, tinha apenas 13 anos, o que uma menina poderia pensar? Só que, ela já sentia que seria mais do que ela via no filho da terra de Medroc e mais parecido com o que o filho do serviçal fazia com ela.
carregava em seus braços, mas precisou parar um instante quando parou de sentir o sangue correr em seus vasos devido o peso da garota. Já sentia a dormência alastrada pelos seus membros superiores, precisava de uma pausa.
- , podemos parar um pouco? - disse diminuindo seus passos.
- Hum... - resmungou. - Acho… acho que sim.
abaixou a menina com cuidado, colocando-a sentada, escorada em uma árvore. Não faltava muito para chegar ao castelo, ele só precisavam recuperar um pouco do fôlego.
Quando os braços do garoto deixaram seu corpo, a menina ergueu seu olhar para ele e assustou-se ao ver o sangue que estava espalhado em seu braço direito. Arregalou os olhos abruptamente e segurou a mão dele firme para que chegasse mais perto para que pudesse ver melhor.
- ... Você está machucado!? - disse ela espantada.
- O quê!? - O garoto assustou-se com a fala dela e olhou para o seu braço sem entender. Não sentia dor, não sentia nada, como havia se machucado?
Passou a mão pelo sangue do seu braço, mas não notou nenhum arranhado, nem nada.

- , esse sangue não é meu! - disse ele preocupado olhando para a menina e notando uma mancha de sangue que estava em sua região inferior até um pouco abaixo na região da coxa. - você está sangrando!- abaixou-se imediatamente até a menina fitando-a com preocupação.
abaixou a cabeça e viu o sangue que manchava sua calça e engoliu em seco.
Começou entender tudo aquilo que estava acontecendo. As dores, a sensibilidade, a indisposição, e agora o sangue... Lembrou de toda a conversa que sua mãe já havia lhe dito, o tão aguardado dia para Ílac e Medroc. O dia da menarca. A data que a tiraria do rol de meninas e a elevava para mulher. Agora ela estaria pronta para se casar. Não tardaria para que as famílias preparassem tudo e, logo, Henrique viria morar com ela para sempre.
Todos aguardavam ansiosamente esse dia, Ílac e Medroc se preparavam para isso há 10 anos. Porém ela não estava pronta. Não ainda. Ela sabia o que deveria fazer e não tinha ressalva quanto a isso, mas não agora. Não hoje.
Olhou no fundo dos olhos de e viu todo o futuro que ela poderia sonhar, mas não poderia ter, isto é, se os sentimentos do garoto fossem os mesmos que o seu.
Ao ver que a garota estava pálida e não respondia nada, começou compreender sua aflição.
- Chegou à hora, não é? - Perguntou aflito. Sentia uma pontada no coração ao pensar em perder a menina tão cedo.
assentiu com a cabeça e seus olhos se embargaram de água.
- Eu não posso ainda, ... Não estou pronta – sussurrou. - O que eu faço? - Perguntou mais pra si do que para ele.
Ela sabia que esse dia chegaria, já tinha toda noção. Mas quando o dia enfim chegou, sentiu-se desesperada.
- Eu vou te dizer o que você não vai fazer. – falou o garoto com uma determinação súbita. Pegou a menina de uma vez em seus braços, sem nem se importar com a sujeira. - Você não precisa contar a ninguém.
- Como assim? - disse ela perplexa sem entender nada fazendo uma careta pela dor que ainda sentia. O garoto não respondeu nada, apenas continuou caminhando, mas logo ela percebeu que não era o caminho do castelo, mas sim, um pequeno lago que ficava naquela região.
- Tire a roupa. - disse firme.
A garota assustou-se com o pedido de . Olhou atordoada para ele sem entender. Estava ainda envergonhada e constrangida por ele estar vendo-a naquela situação e ainda por cima por ter o sujado, mas o garoto parecia não se importar.
só queria ajudar a garota de alguma forma. Se ela havia dito que não estava pronta, mal sabia que ele também não estava. Não queria deixá-la. Ele sabia que a partir do momento que casasse, ele teria que se afastar, mas ele não estava pronto para deixar aquela criaturinha pequena e forte tão antecipadamente.
- Não vou fazer nada, , apenas tire a roupa, eu juro que não vou olhar. - rolou os olhos, impaciente. O garoto virou de costas para que ela pudesse ficar nua, enquanto ele mesmo tirava a sua roupa.
não entendeu nada, mas fez o que ele havia pedido, envergonhada, mas com confiança nele. Virou rapidamente de costas também para não ver o garoto nu e torcia para que o mesmo não a visse naquela situação, pelada.
Quando já estava nua, sentiu a blusa do garoto atingir- lhe as costas, ela abaixou-se e a pegou sem entender muito o que ele queria.

- Não a vista ainda. – ouviu a voz de ao longe enquanto também escutava o barulho da água.
O garoto havia entrado no lago e ficava cada vez mais confusa.
- Não vista ainda, , entre aqui.
- Você quer que eu entre no lago com você pelado? Nós dois? Temo não te compreender, ... - Disse a garota com os olhos fechados temendo ver o garoto nu.
riu do desespero da garota e continuou de costas da forma que havia entrado, sem ver nem um pedaço da garota, era uma pessoa de palavra, integro e honrado.
- Calma, , eu quero que venha aqui para se lavar, eu já estou imerso na água, e estou virado para o outro lado, não vou te ver.
A garota mordeu o lábio ainda insegura se deveria entrar ou não. Estava tão constrangida que até esqueceu, por um momento, o incômodo que ainda jazia em sua região pélvica.
Percebendo a demora da garota, tratou de tranquilizá-la, imaginava que ela estivesse sem graça, coisas de garotas, pensou ele. Ele não se importava, ele só queria ajudá-la de qualquer forma.
- Vem, ...- disse carinhosamente, naquele tom que sempre a convenceria de qualquer coisa. - Não precisa ficar tímida. Você vai entrar, imergir, eu não vou te ver porque você estará com o corpo debaixo da água. Agora venha, lave-se.
- Mas você está ai dentro – murmurou ela. - Tem sangue em mim.
- E daí? Quer pior do que sentir o seu sangue no meu próprio braço. – riu ele gracejando dela.
O garoto logo sentiu uma pedrinha atingir-lhe.
Ai...
- Cale a boca, ! - sentiu seu rosto ruborizar. - Eu vou entrar. Não olhe.
- Já disse que não vou olhar. – rolou os olhos novamente com impaciência.
A garota entrou imergindo o corpo na água e deixando apenas uma pequena porção dos ombros para o lado de fora. A garota autorizou o menino a se virar e ele engoliu em seco quando a ficha lhe caiu que estavam os dois nus em um lago... sozinhos.
Ele tinha 15 anos, honrado ou não, estava em um corpo cheio de hormônios e foi bem difícil concentrar em outra coisa além daquele pequeno corpo ali tão perto dele. Mentalizava qualquer coisa para que seu corpo entendesse que não deveria agir instintivamente da forma que queria.
- Por que você entrou assim aqui, sendo que, quem precisava se banhar era eu? - Perguntou curiosa apontando para ele e depois para ela.
O garoto abriu um sorriso de lado, esperto, ansioso para contar o plano mirabolante que tinha na cabeça.
- O que eu ganho por ser um gênio? - arqueou a sobrancelha para ela em forma de desafio.
A garota riu da petulância do garoto.
- Não deveria me exigir nada, Senhor , sabia que sou a princesa e posso pedir sua cabeça imediatamente por me obrigar a ficar nua aqui? -riu ela jogando uma porção de água no rosto do menino.
O garoto fez uma careta de desagrado, em forma de brincadeira e uma guerra de água começou até que ele segurou as mãos da menina para que ela parasse de jogar mais jatos em seus olhos. Eles riam divertidamente, ele molhava o rosto dela enquanto ela virava tentando escapar do garoto.
Continuaram nessa briga até se esbarrarem de uma maneira estranha e se afastarem imediatamente constrangidos.
- Desculpe – falou em um tom estranho com o rosto corado enquanto olhava o tom da pele de mudar para um vermelho pimentão. O garoto viu que precisava falar alguma coisa para quebrar aquele momento constrangedor.
- Então... - Coçou a garganta para voltar ao assunto. - Serei recompensando?
olhou pra ele de maneira duvidosa, mas abriu um sorriso singelo ao ter uma ideia.
- Sim, mas eu que vou escolher sua recompensa. - sorriu.
- Por mim tudo bem. - riu ele acompanhando a princesa.
- Então, vai me dizer agora seu plano mirabolante? - indagou ela dando um pequeno peteleco na água, fazendo espirrar apenas pequenas gotas nele.
- Sim. Antes que você pense que eu sou um pervertido - disse um pouco sem graça. - Então... - começou - Você vai sair desse lago e vestir a minha camiseta, eu sou mais alto que você, então deve bater no meio das suas coxas, provavelmente. Se alguém te perguntar alguma coisa, diga que fomos nadar no lago, isso não será novidade pra ninguém. Fale que suas roupas molharam. – já que você precisará lavá-las aqui – Precisei entrar também se não a história que estávamos nadando não ia rolar, por isso entrei nu. Vou te ceder minha blusa e minha cueca. Eu não sei bem como funciona essa coisa das mulheres, mas creio que você não parará de sangrar agora – disse ele enquanto corava envergonhada – portanto, pode usar minha roupa íntima, sei que não é higiênico, mas se não usar nada, isso vai escorrer pelas suas pernas e vão ver. Acho bom você pegar um pedaço de tecido nesse meio de tanto pano que você usa e colocar entre as pernas também, em cima da minha cueca para não vazar.
- , dá para ser menos inconveniente!? - gritou para ele envergonhada tampando o rosto.
O garoto riu da sua timidez, mas continuou o seu discurso.
- É serio, , não podemos vacilar. Isso deve funcionar até que você possa chegar no seu quarto. Como eu sempre ajudo meu pai nos serviços do castelo, não deve ser difícil roubar para você uma daquelas coisas que vocês usam pra evitar que todo mundo veja isso saindo. – apontou para baixo indicando do que falava e levou outro jato de água na cara da menina furiosa. - Enfim, isso vai dar pra protelarmos o assunto por enquanto, o que acha?
- Eu acho formidável, ! – disse ela com os olhinhos brilhando em felicidade apesar de toda vergonha que sentia. Queria ir direto para o garoto e dar um abraço em agradecimento, mas a situação em que se encontravam a impedia disso.
Os dois amigos fizeram tudo conforme o plano, e como o próprio garoto havia dito, não foi difícil achar as toalhinhas higiênicas para Evelyn. Sentiam-se verdadeiros transgressores, mas a energia de conseguir o sucesso era maior do que tudo. O que ele não esperava, era que o seu plano fosse tão incrível aos olhos da princesa, a ponto da garota usá-lo como assaltante de banheiros por um longo tempo ainda.
postergaria àquela situação o máximo que fosse possível. Todo o seu lixo íntimo era ensacolado escondido para que pudesse dar um fim nele. Depois da cena do lago, foi inevitável ela ir perdendo a vergonha aos poucos. À vontade de adiar aquele momento temível na sua vida era maior que qualquer timidez que poderia ter.
Henrique não era um garoto ruim, só não era o garoto dela. E cada detalhe que fazia por ela, cada gesto e atitude, só fazia com que ela tivesse mais certeza que adiaria aquilo o tanto quanto possível.
Sua vida já estava fadada de qualquer forma a seu destino, então ela aproveitaria o que teria antes do dia fatídico. Adiaria ao máximo esse casamento e viveria o que tivesse que viver nesse intervalo. Ela não correria de suas obrigações, ela sabia o que tinha que fazer, mas isso não a impediria de arriscar coisas novas. E este dia, a menarca, não era só o dia que ela estaria, aos olhos de seus pais, pronta para casar, ela esteve pronta pra dar um passo que mudaria todo seu relacionamento dali pra frente.
- Obrigada por tudo que fez por mim, . Você pode não saber, mas eu precisava muito disso, eu não estava pronta ainda. - disse se aproximando do garoto, ficando bem próximo a ele. Quando já estava bem perto levantou-se nas pontas dos pés, sentindo a respiração rápida do garoto devido à proximidade inesperada. Inclinou-se para ele e deu um rápido selinho nos lábios do garoto, que talvez, não tivesse durado nem 2 segundos, mas foi suficiente para que ela sentisse toda a agitação em seu ser.
- Sua recompensa - disse ao se afastar com um sorriso tímido no rosto e saiu correndo do local que estavam deixando-o sozinho.
O garoto, extasiado, não soube o que dizer. Estava atônito, parecia que sentia ainda a pele da menina sobre a sua, mesmo que tão rapidamente. Levantou sua mão e tocou com os dedos a sua boca antes de suspirar, sem acreditar no que havia acontecido. Estaria ele sonhando?
Você é que não sabe... Eu que não estou pronto, não estou preparado para te perder .





Capítulo 1

Havia chegado novamente o evento anual que marcava todos os reinos, a Conferência da Paz. Após o tratado que cerrou as guerras, essas reuniões sempre foram frequentes para manter de pé os acordos estabelecidos. Reunião pela manhã, festa à noite. Após os deveres sempre vinham às comemorações, que por sinal, eram bem apreciadas por todos. Cada reunião ocorria anualmente em um império diferente, como forma de sempre manter a paz, um símbolo da união entre eles, em que, cada país responsável, fornecia uma festa e recepção para os seus convidados. Para os filhos dessa geração, era o momento de rever os amigos, amores, repor as conversas e ignorar os mais velhos, esquecendo-se por um instante que, futuramente, seriam eles nas mesmas posições.
já estava pronta para receber seus convidados, seu vestido esmeralda combinava com seus belos olhos e realçava ainda mais seus cabelos escuros brilhantes. Estava belíssima para receber seu amigo e futuro marido Henrique. adorava essas reuniões, pois poderia sanar a saudade que sentia dos seus amigos como Sarah de Fortance. Em meio a tantos príncipes e princesas metidas e sem graças, tinha feito também magníficas amizades. Somente uma coisa a angustiava, ao mesmo tempo em que sentia uma alegria imensa em revê-los, uma tristeza súbita invadia seu coração por saber que estava mais perto de assumir a aliança que seus pais haviam proposto.
sabia o que tinha que fazer e o preço a ser pago por isso. Sua vida nunca poderia ser trilhada da forma que seu coração mandava. Seu interior só dizia o nome de , mas seu destino estava traçado junto a Henrique. Ela foi criada sabendo de todas suas responsabilidades e jamais se negaria a elas, mas nem por isso deixaria de sofrer. Abdicaria a si própria para manter o reino em paz. Era isso que princesas faziam, se doavam por um bem maior. E ela estava pronta para tal.
Enquanto pensava e olhava-se no espelho, ouviu um som vindo pela portinhola secreta, atrás do grande espelho em seu quarto. Duas batidas, um tapa e uma batida. Seu coração palpitou instantaneamente, aquele toque era mais do que um som. Era uma sinfonia que derretia seu coração, um acordo secreto que a fazia esquecer por um instante todos os seus deveres. Naquele momento não era mais a princesa, era apenas , uma garota agora com 16 anos, comum, sensível e que amava. Sim, o amor, ele tinha nome e sobrenome. . Para os olhos de todos era apenas mais um filho de serviçal qualquer do palácio. Mas não para . Para ela, ele era a personificação de todos os sentimentos que alguém poderia ter um dia, sentimentos estes que ela teria que esquecer, mas não agora. Neste instante era alguém que ela queria amar.
O garoto dos cabelos dourados e olhos azuis entrou após recepcioná-lo. Em instantes a comitiva dos impérios aliados chegaria, teriam pouco tempo. não esperou nem mais um segundo, passou uma mão pela cintura de colando seu corpo ao dela, enquanto com a outra fechava a porta. Suas bocas já eclodiam uma na outra como se fossem seus últimos momentos juntos. A sincronia era perfeita. Durante os beijos levava sua mão aos cabelos do garoto fazendo carinhos ternurosos, enquanto acariciava seu rosto e apertava sua cintura de forma possessiva, como se naquele instante ela fosse somente dele. Não precisava lembrar de Medroc, nem de Henrique, nem de ninguém. Ali era só ele e vivendo em uma bolha inerte a qualquer coisa que pudessem os atingir.
- Eu senti tanto a sua falta. - suspirou o garoto no ouvido de após cessar o beijo por uns segundos. O arrepio foi instantâneo, o rapaz conhecia muito bem o seu corpo e sabia o quanto tremia quando fazia estas coisas. A garota riu timidamente em resposta e lhe deu um selinho terno.
- Ora, Senhor , o que quer de mim? Achas que esqueci que ontem mesmo nos vimos?
- Vim trazer aquelas encomendas. - respondeu ao seu riso. A garota arqueou a sobrancelha em desafio para ele, a fim de saber se realmente era só isso que ele viera fazer ali. O garoto riu da expressão que a menina fazia e não se conteve em derramar para ela tudo o que sentia de verdade.
- Eu só quero você, e um dia não é suficiente quando, na verdade, eu quero passar a eternidade contigo. - falou selando os lábios da princesa novamente.
- Também gostaria disso – suspirou em meio ao beijo. Seu coração se apertou ao lembrar que não teriam todos os dias, muito menos um futuro.
Ficaram alguns minutos imersos ao romance até a princesa lembrar-se que em poucos instantes as comitivas chegariam e ela teria que descer para recepcioná-los. Se seus pais notassem a sua falta poderiam subir para procurá-la e não seria nada bom. Uma coisa era permitirem a sua amizade com ele, outra era ser pega em seus braços.
- , eu preciso descer – disse a princesa se separando dele tristemente.
- Odeio essas reuniões, você sabe, né? - falou o garoto franzindo a testa, irritado. - Não suporto ver você de braços dados com aquele rapaz como se fossem o casal mais apaixonado da terra, quando eu sei que na verdade o seu coração pertence a mim. - continuou dando um passo em sua direção e segurando-lhe a mão.
- Eu sei amor, é difícil para mim também, mas é necessário. Nós sempre soubemos que nossos dias aqui estariam contados. Entramos nessa e nos arriscamos sabendo que nossa história teria um início, meio e fim. - suspirou a garota sentindo as lágrimas brotarem em seus olhos. - Sou uma princesa, , tenho responsabilidades reais e não posso jogar fora a paz mundial por causa de um capricho meu.
Dito isto à feição do garoto mostrou-se extremamente irritada. Não gostava quando lembrava-lhe que viviam apenas um amor platônico e que tudo estava prestes a acabar.
- É isso que eu sou pra você? Apenas um capricho? Um capricho da grande princesa onde ela queria alguém para sair do marasmo da sua vida e escolheu o primeiro bobo apaixonado que lhe apareceu? - Falou irritado, soltando a mão da garota. Ele sabia dos seus sentimentos, sabia do que viviam, porém ouvi-la dizer tudo isso sempre o machucava. Queria somente sair dali, fugir com ela para qualquer lugar que pudessem ir. Já havia proposto várias vezes e em todas ela recusara-se.
A garota jamais largaria tamanha responsabilidade, nem que para isso ela sacrificasse o seu próprio coração. O amor entre eles poderia ser muito grande, mas não era superior aos deveres que estava proposta a seguir. Ela jamais faria isso. Ele sabia, mas não custava tentar. colocaria qualquer coisa à frente das suas próprias vontades desde que garantisse a tranquilidade e ascensão do seu reino. Seria uma grande rainha e era muito egoísmo dele querer tirá-la do seu povo. Ele sabia disso.
- , não diga isso. - falou com os olhos marejados. - Se fosse em qualquer outro universo e eu pudesse escolher outra vida, eu escolheria você. Mas... Não posso. Eu nasci uma princesa, nasci com o peso da responsabilidade em meus ombros e eu não posso fugir disso. Eu cresci sabendo de todos os trilhos da minha vida, , poderia ter me poupado de qualquer decepção se apenas tivesse pisados em passos seguros, mas eu não pude. Meu único desvio foi você e eu não me arrependo disso. Prefiro sofrer o resto da minha vida pela lembrança de um amor não concretizado do que ter vivido uma vida simplória e vazia longe dos seus braços. Todos merecem saber o gosto do amor um dia e eu pude, com você. Se um dia eu for uma pessoa melhor, longe de qualquer frieza que cerca os comandantes dos impérios, é porque eu pude provar este sentimento contigo. - Falou tocando-lhe o peito em direção ao coração.
- Desculpe... Eu sei, mas dói. – disse o garoto fechando o espaço entre eles e recostando sua testa na dela.
- Dói em mim também. – murmurou a menina.
O garoto, ouvindo isso, tomou-a em seus braços novamente dando-lhe um beijo recheado de paixão e sentimentos. As lágrimas escorriam no rosto de ambos. Sabiam o que estava por vir. E ele só conseguiu responder: - Então me deixe mostrar tudo que este amor pode proporcionar pelo tempo que nos resta.

***

As comitivas estavam perto de chegar e o palácio estava em polvorosa para deixar tudo pronto para receber os visitantes. Helena estava afoita, cada dia que passava ela ficava mais ansiosa. Sua filha já estava na idade da puberdade, era claro que a qualquer momento as regras da sua filha chegariam, a tão esperada menarca. Ela esperava que tivesse chegado mais cedo, já que teve a sua aos doze anos. Toda vez que ela e seu marido encontravam-se com Rory Buckhaim, de Medroc, havia pressão para a consumação do matrimônio. Era difícil que, ele sendo homem, entendesse que cada mulher tinha seu organismo e seu dia para tornar-se mulher.
Helena temia que aqueles tempos de guerra voltassem. Tremia só de lembrar a dor que sentia toda vez que se despedia do seu marido com medo que ele não voltasse mais. Pensava que ficaria vulnerável com uma filha pequena, exposta aos lobos que se levantariam para tomar o poder. Se pudesse fazer algo que adiantasse esse matrimônio, ela faria. Não poderia sequer imaginar em estremecer o acordo que Miles , seu marido, conseguiu com tanto árduo.
Tentava achar uma maneira de qualquer forma, quando finalmente teve uma ideia. Uma luz acendeu em sua mente e precisava ir rapidamente até sua filha contar as boas novas. Andava rapidamente pelos corredores do palácio e acabou encontrando seu cunhado Cameron . Era um rapaz vistoso, 21 anos, responsável e braço direito do rei. Por mais que fosse o irmão mais novo de Miles, sua maturidade o igualava e colocava tão responsável quanto seu marido. O irmão de um rei sempre deveria estar preparado e pronto caso algo grave acontecesse. Seria ele a assumir o trono se algo acontecesse ao seu marido ou a sua filha . Se as crianças imperiais naturalmente não tinham infância, Cameron muito menos. Nascido em meio aos tempos de guerra, não soube o que era brincar, correr ou pular. Foi empurrado para saber governar tanto quanto seu irmão, mesmo que, talvez, nunca chegasse a tal feito.
- Olá, Cameron. - disse a Rainha para o rapaz.
- Olá, Majestade, está cada dia mais graciosa. - respondeu-lhe fazendo uma reverência.
- Sem formalidades, Cam, você é meu cunhado e não tem ninguém por aqui, não precisa ser tão correto sempre, não comigo pelo menos. - disse lançando-lhe um sorriso confortável para ele.
- Desculpe, Helena, são os ossos do ofício. - falou ele ainda sério. Era difícil sair do papel e relaxar. Cameron sempre pareceria anos mais velho com toda a áurea fechada que carregava.
- Cam, Cam... - murmurou a rainha aproximando-se. - Sempre tão quieto e com palavras exatas. Seu corpo exala o mistério. Nunca deixa ninguém se adentrar em sua vida por completo, além do meu marido é claro. O melhor no que faz... Seria um futuro rei perfeito, só lhe falta uma mulher à altura. - terminou dizendo quando ficou cara a cara com ele.
Cameron não se movia, da mesma forma que estava antes de Helena iniciar o assunto, permaneceu.
- Eu não preciso casar para mostrar o que eu sou capaz, Majestade.

- Já lhe disse para não me chamar assim – disse Helena tocando em seu ombro. - Você bem sabe que em nossa sociedade, um homem para ser respeitado precisa de uma boa mulher ao seu lado. - levantou a mão para tocar no rosto do cunhado.
Cameron rapidamente segurou a mão da Rainha, impedindo-lhe que o tocasse. A Rainha riu da audácia do rapaz e não se sentiu intimidada por isso, gostava de provocar.
- Mas... Se não quer se casar, Cameron, nada te impede de ter uma mulher ao seu lado mesmo assim, ou melhor... Na cama. - piscou para ele e puxou seu braço a fim de soltar-se. Sorriu ao perceber que havia conseguido deixar o rapaz sem palavras e atônito. Era gostoso brincar com o poder que tinha. Deu um sorriso em forma de flerte para ele e virou-se em direção ao corredor seguindo seu caminho.
Continuou a andar, sorrindo em seus pensamentos por provocar Cameron, o rapaz era tão bonito, mas tão sério, fanático no aprendizado e no servir. Seria bom tentá-lo a sair de sua conduta perfeita, adorava desafios. Estava tão entretida em seus planos mirabolantes que havia esquecido da sua proposta inicial, ir até falar a novidade que havia concluído.
Precisava prepará-la antes, se desse o anúncio na noite de hoje e a pegasse desprevenida poderia fazer um escândalo. Ela sabia que sua filha toparia de qualquer forma, mas não queria nem um mínimo de desentendimento no seu rosto quando dissesse suas palavras no evento.
Quando era mais nova, Helena preocupou-se com as tentativas de Miles em querer ensinar a menina as artes da guerra. A menina lutava quase de igual para igual com o pai e ela temia que isso tirasse os traços delicados que uma boa mulher deveria ter. Para sua sorte e alívio, era tão dedicada nas aulas com o pai quanto com a mãe, por mais que desse trabalho para Helena. No fim, ela faria tudo com louvor, pois não iria querer sobre suas costas o peso de ter sido renegada pelo marido por não cumprir corretamente com as suas funções. não concordava com esse sistema, mas o que poderia fazer sozinha? Nada, pelo menos não enquanto fosse princesa. Esperava poder mudar as coisas quando fosse Rainha, Helena pressentia as tramoias da garota, mas enquanto fosse princesa, a mãe poderia exercer o domínio que queria sobre ela.
Helena já estava perto do quarto de e nem imaginava o que estava passando-se por lá. e se deleitavam em seu romance, vivendo cada minuto como se fossem os últimos. As respirações entrecortadas, as mãos que passeavam em seus corpos e os beijos apaixonados, tudo transmitia o amor que sentiam um pelo outro. Não queriam se afastar, na verdade nem podiam estar ali, mas era tão difícil.
Cada dia que passava, era um dia mais velha que ficava, o que significava que a areia da ampulheta da vida corria contra eles. Logo não pertenceria mais a , ela seria de Henrique. O garoto não conseguia imaginar como ficaria quando não a tivesse mais e a única coisa que o consolava era que – por mais que não admitisse - Henrique parecia ser uma boa pessoa, provavelmente cuidaria da princesa de uma forma que nunca poderia. Ele era apenas um funcionário qualquer do palácio, nunca estaria à altura dela. Mas o amor não tem preço, posição e nem tamanho. Para amar basta sentir, basta abrir o coração e deixá-lo se guiar por esse sentimento maravilhoso que é capaz de teletransportar as pessoas para uma realidade completamente alternativa, esquecendo tudo que está ao seu redor.
Estavam imersos nesse mundo só deles, quando ouviram a maçaneta da porta se remexer. Alguém tentava entrar no quarto, porém a porta estava trancada, método este que havia adquirido desde quando começou a encontrar-se escondida com .
Ouviram batidas fortes e uma voz que a chamava lá fora.
- É a minha mãe! - Levantou-se a garota apressada derrubando de cima dela, empurrando-o com toda força.
- Calma, eu vou voltar pela portinhola – disse ele em tom baixo, catando sua blusa que já estava jogada por algum canto daquele quarto.
- , abra essa porta! - ouviu sua mãe exclamar do lado de fora impaciente.
- Já vou, mãe, estou indo. - gritou ela agitada, tentando ajeitar-se de forma que sua mãe não desconfiasse que o rapaz estivera ali.
O garoto pegava suas coisas rapidamente enquanto corria para fora do quarto para escapar. Passou pela passagem e foi pelos becos escuro dos esconderijos do castelo, ao mesmo tempo em que fechava a porta secreta novamente. Olhou-se no espelho ligeiramente e viu sua boca inchada e pequenos pedaços do seu pescoço avermelhados por causa da pequena barba do rapaz que havia roçado por ali. A única coisa que pôde fazer foi passar as mãos pelos cabelos rapidamente, numa tentativa falha de se recuperar, e correr até a porta para destrancá-la.
- Eu já lhe disse que não tenho paciência para essas coisas, – disse Helena irritada pela demora da filha em abrir-lhe a entrada.
- Desculpe, mãe, estava deitada e você sabe como eu fico quando estou sonolenta. - deu uma desculpa esfarrapada.
olhou bem para a expressão da garota, desconfiou que algo estivesse errado. Porém, ela tinha coisas mais importantes a tratar, portanto procurou logo adiantar o que havia vindo fazer ali.
Helena não aguentaria esperar mais nem um segundo em selar o acordo da sua filha. Estava decidida a casar a garota, independente da menarca ou não. Faria um acordo com Medroc para que esperasse a menina se tornar mulher até a consumação do casamento, mas não impediria de assinarem de uma vez esse acordo maldito que o império vizinho tanto lhe importunava. Anunciaria a novidade na festa de hoje, após a Conferência da Paz. Todos ficariam extremamente satisfeitos e teriam motivos a mais para comemorar.
Estava pronta para contar a novidade para , quando seus olhos se depararam com um pacote estranho na escrivaninha da garota. Ateve seu olhar por lá e a princesa quando percebeu aonde sua mãe mirava, congelou em pânico.
Com a sede de ter em seus braços e depois com a correria para fugir dali, se esqueceu do que o garoto havia trazido para ela. A prova da sua farsa, o sinal que sua menarca já havia chegado. Estava ali, à mostra. Nunca havia dado um vacilo como aquele. Ela estava em choque sem saber o que fazer. Não poderia correr até ali e tirá-lo da vista da sua mãe, pois ela já havia o notado. Pensou em mentir e dizer que não era dela, mas não havia motivo algum para ela ter algo como aquele ali no quarto. Além do que, sua mãe não era burra. Se ela dissesse tal feito, ela faria de tudo para investigar, além do mais, bastaria ela ir até o banheiro e saquear seu lixo para saber a mentira que estaria contando.
A pressa de mandar embora fez com que ela esquecesse os lenços no mesmo local que ele depositara quando chegou, não havia dado tempo nem de entregar-lhe o lixo que ele buscava todas as manhãs naquele período. Estava acabado. A farsa estava em ruínas e não havia nada que ela fizesse que mudaria isso.
- O que é isso? - Perguntou a rainha atônita. Ela notara a menina ofegante quando entrou, a cara dela declarava que era culpada de alguma coisa. Ela havia percebido, só não saberia dizer o quê. Quando viu os lenços higiênicos sobre a mesa, ela entendeu.
O silêncio de respondia mais do que qualquer palavra. Viu o olhar de pânico da garota e a palidez que tomava seu rosto.
Um ódio subiu em Helena, incontrolável. Virou-se abruptamente para para confrontá-la. Queria descarregar toda a sua raiva naquele instante. Sua filha havia a enganado. Estava possessa. Não admitiria ser passada para trás por ela.
- Sua salafrária! - falou Helena pausadamente, mas com toda raiva descarregada em sua voz. - Eu não acredito que pôde esconder isso de nós. Como ousa, garota? Como ousa colocar a perder todo um reino por um capricho? Esperava mais de você, ... – disse com pesar.
- Mãe, calma, não é isso...- tentava explicar quando foi interrompida com o berro da sua mãe.
- NÃO É ISSO O QUE, !? - bradou - O que tem a me explicar? Há quanto tempo você está escondendo isso de mim?
- Mãe...
- Mãe coisa nenhuma! Há quanto tempo, ? Diga-me? Anda! - gritava Helena sobre a menina que estava de pé em sua frente.
- Três anos – sussurrou bem baixo, estava com medo. No ímpeto não conseguiu nem mentir mais. Já estava desmascarada, talvez se fosse verdadeira agora, sua mãe lhe confiaria de novo.
- Diga mais alto, eu não estou escutando! - pediu a rainha colocando a mão ao lado do ouvido em sinal para que ela repetisse. - Você não foi corajosa o suficiente para esconder isso de nós? Então tenha coragem agora para abrir essa maldita boca e me dizer!
- T-tr- ê-ês anos. - disse ela tremendo, porém agora um pouco mais alto.
Ao ouvir isso, a ira tomou conta de Helena de tal forma que ela não hesitou em proferir um tapa na cara da filha, fazendo cambalear e cair sentada sobre a cama com a mão no rosto.
- Filha imunda, ingrata e ordinária! Céus, três anos! Você é louca? Você sabe o quanto eu tentei contornar nossa situação perante Medroc quando eles achavam que estávamos tentando fugir do acordo?
- Mãe, eu iria cumprir...
- CALE A BOCA! - bradou Helena – Agora só eu falo aqui! Queria jogar fora tudo o que seu pai conquistou? Você tem noção de quantas pessoas morreram antes desse acordo ser firmado? Sabe quantas vezes eu senti medo porque seu pai saía por aquele portão e eu não sabia se ele voltaria? Você tem noção da porção de coisas que eu tive que fazer nessa época para que as pessoas não se aproveitassem da ausência dele para tomar este castelo? VOCÊ TEM NOÇÃO, ???
A princesa chorava copiosamente com a culpa que sentia por ter postergado - por tempo demais - essa decisão. Ela tinha plena certeza que assumiria a aliança pré-estabelecida, ela só estava lhe dando um tempo a mais. Não havia pensado na possibilidade de alguém de Medroc descobrir tudo isso.
- O que você tem a me dizer sobre isso, menina? Fale! Eu lhe ordeno agora, com o poder de rainha que é conferido a mim. Não estou pedindo como sua mãe, você perdeu esse direito quando mentiu para mim.
- Mãe! Não era minha intenção. Eu juro. Nunca quis burlar ou fugir dos meus deveres, pelo contrário, eu sei o que tenho que fazer e vou fazer. - dizia atropelando as palavras enquanto chorava e tentava se explicar. - Eu só queria um tempo maior, eu não me sentia pronta para casar, eu queria um pouco mais.
- Um pouco mais, ? É isso sua desculpa? Você acha que Medroc ia dar um pouco mais para nós se decidissem declarar guerra por quebra de contrato? Você acha que eu tive um pouco mais quando me casei com seu pai? Você acha que eu tive um tempo maior quando me pressionaram para ter você? - disse apontando para ela – Não, , não dá para ter um pouco mais quando temos responsabilidades nas costas. Você teria até UM ano para se preparar após a menarca, era tempo suficiente. Mas você escolheu esconder isso e ofender a todos nós.
- Mãe, me desculpa. Eu não fiz por mal. Não era a intenção causar transtorno algum. - suplicou o perdão da sua mãe na tentativa que ela entendesse o que a levou àquilo.
- Não era a intenção... - remendou a rainha rindo ironicamente. - Não é a intenção de muita gente fazer muita coisa e mesmo assim, aqui estamos nós. - ergueu os braços parando de falar por um momento, deixando um vazio de palavras, enquanto só se ouvia o choro de e a respiração pesada de Helena.
- Quem te ajudou com isso?
- O quê!? - perguntou assustada.
- Você me ouviu bem. Quem te ajudou? Você não teria como esconder isso por tanto tempo assim sozinha, você teve ajuda nesse palácio e eu quero saber quem foi, AGORA!

- Não teve ninguém mais nisso, mãe – a garota interpelou desesperadamente a fim de proteger o seu amado.
- Para de mentir para mim de uma vez por todas, ! CHEGA de mentiras! - a rainha colocou as mãos sobre as têmporas massageando-as, estava cansada de ouvir as palavras que sua filha dizia. Fitou-a com um olhar severo e logo sua mente se iluminou.
- Não precisa me falar mais, para falar a verdade eu não quero ouvir mais nada de você. Eu sei quem foi. Foi aquele seu amiguinho ridículo, pobre, filho do serviçal. - constatou a rainha.
- não teve nada a ver com isso, mamãe! – gritou aflita. - Não fale dele dessa maneira!
- Hum... - Helena analisou as feições da garota e o pânico no seu olhar – Não é o que parece - debochou. - Todos seus sinais só me dão mais certeza que aquele garoto teve a ver com tudo isso que aconteceu. Não sei por que seu pai permitiu essa proximidade, por mim eu tinha mantido ele bem distante de você, mas o Miles não se importa, então nada pude fazer. Mas agora... O que seu pai diria ao saber que o seu queridinho ajudou-a nessa farsa toda, ? - riu ela sarcasticamente - Ah, ele vai adorar saber!
- Mãe, não faz isso, o não tem culpa, a culpa é minha, eu quis esconder, eu optei por isso. - a menina gesticulava apontando para si mesma, tentando a todo custo convencer sua mãe da inocência do rapaz.
- Eu quero esse garoto morto, , você está me entendendo? Não há perdão para tamanho feito contra o reino. Você pode não ter noção da proporção que isso poderia acarretar, mas isso poderia ter acabado com tudo que planejamos. Não posso fazer nada contra você, mas o garoto vai pagar por isso, um atentado dessa forma não sairá impune! - disse ela duramente.
- Não, mãe! – correu e ajoelhou perante ela abraçando suas pernas em desespero. Não poderia pensar em perder . Sabia que não poderia tê-lo ao seu lado, mas não saberia lidar se ele morresse, ainda mais por algo em que ela era a detentora da culpa. - Por favor, mãe, eu faço qualquer coisa, eu juro, juro pelo que estiver nos céus, pela minha vida, por tudo que tem de sagrado, não faça nada contra ele, por favor. Qualquer coisa...
chorava copiosamente enquanto Helena não transparecia nem uma gota de compaixão pela menina. Ela estava irada e mandaria matar o garoto apenas para mostrar para que algo como aquilo não ficaria daquela maneira, ela teria que lidar o resto da vida com a culpa do seu feito.
Olhou para baixo vendo a situação humilhante que a garota havia se colocado e pensou em algo que, talvez, não seria tão bom quanto sua ideia inicial, mas a faria sofrer também.
- Levante-se – disse para secamente.
A garota olhou para cima fitando o olhar duro da sua mãe e começou a se erguer, tremendo e com medo, pensando no que aconteceria agora. Ela fechou suas mãos em um punho porque seus dedos batiam um contra o outro, sua carne inteira vacilava só de imaginar o seu amado perdendo a vida.
- Não irei matar o garoto – a menina suspirou aliviada e suas pernas quase vacilaram com o peso que esvaía – Porém... Você fará algo. Caso contrário eu mudarei de ideia imediatamente e você sabe que seu pai estará de acordo comigo quando eu o contar.
sabia o quão persuasiva sua mãe saberia ser e apenas consentiu para que ela continuasse e dissesse de uma vez o que seria necessário que ela fizesse para salvar a vida de .
- Eu o quero fora desse castelo! Para sempre. Não quero sentir o cheiro desse garoto, nem ao menos seus rastros. Eu não quero imaginar nem um fio de cabelo desse infeliz no nosso quintal. Mande-o levar também aquele velho a quem ele chama de pai e que já não presta para muita coisa por aqui.
O coração da menina doeu, mas ainda era uma opção melhor que a morte. Sua mãe o expulsaria dali, mas estaria vivo. Preocupou-se em como ele sobreviveria para sustentar ele e seu pai, que já estava velho e doente, mas não poderia fazer nada. Essa saída era melhor do que ver sua cabeça ser decapitada.
- Quando o fará partir? - perguntou em tom baixo pensando em como faria para se despedir do rapaz.
- Eu? - riu Helena em desdenho. - Querida... Não será eu quem vai expulsá-lo. Será você! - soprou contra . - Você fez a cagada e terá que se limpar sozinha. Eu o quero longe daqui, mas você que fará isso. E eu não quero um pedido, , eu quero que você o afugente desse lugar... Como um cachorro. Está me ouvindo? – disse chegando perto da menina para enfrentá-la. - E eu saberei, , se você não cumprir, eu caço esse garoto onde quer que ele esteja, mas eu o encontrarei e trarei a cabeça dele na bandeja para você.
A menina estava em apuros. Ela partiria o coração de da pior maneira possível. Ela morreria por dentro, o magoaria da pior maneira. Teria que fazer isso. Ela acabaria com a imagem de si mesma para manter longe dali e salvar a sua vida. Faria qualquer coisa para preservá-lo e não importa o que ele acharia dela depois disso, somente que ele estaria vivo.
- Eu farei isso. - disse a princesa respirando fundo e engolindo todas as lágrimas.
Seu rosto ainda estava banhado, mas ela não queria mais jorrá-las em frente à sua mãe, já havia se humilhado demais e ver aquele lado tão cruel dela incitava um ódio dentro de si que não saberia explicar. Nunca imaginava sentir tanta raiva da pessoa a quem lhe deu a vida. Sabia que sua mãe era impetuosa e às vezes até um pouco difícil, mas aquele lado dela, nunca havia visto sendo tão expressivo.
- Muito bem – Helena sorriu como se tivesse ganhado um presente. - Agora enxugue essas lágrimas, querida – aproximou-se passando a mão em seu rosto como se nada tivesse acontecido e fossem melhores amigas. - Arrume-se e coloque uma bela maquiagem para disfarçar essas olheiras. Encene seu melhor sorriso porque, hoje na festa, comemoraremos algo especial. Enfim teremos o noivado de Ílac com Medroc. Beberemos e festejaremos, pois a grande união será selada. - disse por fim com um sorriso largo, beijando o rosto da filha e saindo do quarto feliz e exultante, enquanto deixava para trás uma menina arrasada e um coração quebrado.



Capítulo 2

O dia estava favorável para a chegada dos visitantes, o sol brilhava, não havia ameaças de ventanias, os convidados teriam uma ótima e tranquila viagem. O castelo preparava-se para recepcioná-los com as melhores das iguarias. Todo ano essas reuniões aconteciam para renovar a aliança entre os Impérios. Por mais que a rixa sempre fora mais forte entre Ílac e Medroc, os outros reinos, temendo que a união destas duas potências pudessem se virar contra eles, decidiram entrar em um acordo também. Havia trocas de favores, tributos, compras e vendas de mercadorias, liberação de passagem nos mares e o mais importante e diferente de todos, o futuro casamento dos herdeiros ilackianos e medrockianos.
Todos os demais impérios já haviam chegado e a família Buckhaim, de Medroc, estava a caminho, eles seriam os mais bem recepcionados. Era uma família anteriormente conhecida por ser irracional e sanguinária. O próprio rei Miles, por vezes, não acreditava que havia conseguido tamanha proeza em enlaçar essa trégua entre eles, ainda mais por ter que esperar anos para que, de fato, ela se efetivasse.
O império de Medroc era governado pelo grande Rory Buckhaim, também conhecido como “O Impiedoso”. Sua face amedrontava qualquer um que o visse, ainda mais depois que perdeu a esposa no nascimento do seu último filho. Deixou os seus cabelos e sua barba crescerem, no qual havia algumas tranças loiras que iam até a região do peito, acarretando uma aparência muito mais medonha. Henrique, Jeffrey e Garret eram seus filhos, três homens, todos na linha da sucessão ao trono medrockiano. O mais velho, na verdade, assumiria com o trono de Ílac. Sendo assim, o trono do seu império ficaria com Jeffrey, seu irmão do meio.
Quando a família Buckhaim chegou, todo o castelo se silenciou. A presença deles sempre era poderosa e amedrontadora. O único que possuía uma feição mais amena era o mais velho, que possuía 25 anos.
Helena, ao ver a família real chegando, alargou o sorriso e foi em direção a eles para recebê-los. Estava feliz, pois teria um grande anúncio para fazer no final da noite que iria satisfazer o grande Rory Buckhaim, com certeza. Nem se incomodava com a discussão que tivera com sua filha momentos antes, sabia que tudo sairia como planejara.
- Que bom que chegaram, Rory. Estávamos ansiosos, principalmente a – falou o nome da filha olhando diretamente para Henrique que abriu um sorriso para a rainha. – Ah, Henrique, cada vez que te vejo está mais forte e belo, minha filha deve ter orgulho de se casar com um ótimo partido como você – ela elogiou.
- O prazer é meu de poder desposar de uma princesa tão linda e graciosa. – respondeu o mais velho educadamente.
- Querida Helena, sempre tão educada. – Rory pegou a mão da rainha e beijou-a. – Te garanto que meu filho está bem ansioso e não vê a hora deste dia chegar.
- Talvez então esse dia esteja mais perto do que imaginamos – disse Helena misteriosa para eles.
- Esperamos! Onde está o Miles? – perguntou Rory.
- Meu marido está com os outros que chegaram, estão no salão onde ocorrerá à conferência. Acho que te aguardam. Vou encaminhá-los para seus aposentos e em seguida estará liberado para ir.
- Muito obrigado, Helena. Já vou então, antes que uma guerra seja feita por causa do meu atraso. – gracejou ele, mas no fundo havia uma pintada de verdade que remexia o estômago de Helena.
Quando se mexe com poderosos e egos diferentes, não se deve vacilar. Nunca se sabe o motivo ínfimo que podem utilizar para justificar os atos de uma rebelião.
Helena terminou de cumprimentar os outros garotos e encaminhou-os para os aposentos onde ficariam hospedados até o outro dia.
Henrique, logo depois de instalado, foi dar uma volta pelos corredores do castelo. Havia ido lá com mais frequência que seus irmãos, já que estava prometido a princesa de Ílac. Apesar de saber da promessa, não conseguia sentir pela garota nada que não passasse de uma amizade pura e verdadeira, porém ambos sabiam os deveres que tinham e a melhor forma de acalmar os ânimos seria mostrando a todos o quanto estavam satisfeitos com aquela proposta.
Parou em frente à porta do quarto da garota e bateu pedindo a entrada no recinto. Ao ter acesso, assustou-se ao notar os olhos vermelhos inchados da garota.
- O que houve, ? Posso entrar?
- Sim. – murmurou a princesa abrindo o restante da porta e dando espaço para que o rapaz entrasse em seu quarto. – Sente-se ai – apontou para o sofá que ficava na lateral do seu quarto.
- E aí, vai me dizer o que aconteceu, pequena? – perguntou e chocou-se quando jogou-se em seus braços e lhe deu um abraço apertado. Não sabia o que dizer, porém colocou os membros em volta das costas da garota, fazendo que ela recosta-se em seu peito.
Não sabia o que se passava na cabeça dela, mas ver daquela forma o deixava transtornado. Estava acostumada com a garota alegre, divertida, impetuosa e forte. E aquela menina que estava na sua frente parecia quebrada e frágil.
Deixou que ela ficasse naquela posição até que pudesse se acalmar e contar o que estava acontecendo.
- Henrique, você está bem com tudo isso relacionado a gente? - perguntou a menina depois de um tempo, se afastando levemente do rapaz.
- Como assim, ? Por que está perguntando isso agora? – retrucou vendo a garota engolir em seco.
- Não é nada – mentiu – Hoje me bateu um desespero, como consegue se mostrar sempre tão tranquilo em relação a tudo?
- ... Nós sabemos o porquê de fazer isso. Nossos pais já contaram todas as histórias, quantas pessoas morreram nas batalhas e como tudo faz parte do acordo. Crescemos sabendo que esse dia chegaria, não é? – falou docemente tocando o queixo dela. – Vai ficar tudo bem, nós vamos cumprir a aliança e vamos continuar os tempos de paz que por décadas ficaram esquecidas. Milhares de anos depois estaremos nos livros sendo lembrados pela coragem de entregar nossas vidas por um bem maior.
em um ímpeto se inclinou sobre Henrique lhe dando um beijo casto nos lábios. O príncipe, em primeiro instante, tomado pelo susto, ficou parado, mas logo depois, tocou na bochecha de e retribuiu-lhe o beijo. Foi questão de segundos até se afastarem.
- Desculpe, eu precisava saber se sentia alguma coisa. Você sentiu? - perguntou ela com expectativa.
- ... Não faz isso. – Henrique murmurou. Desviou o olhar da menina, sem saber como respondê-la.
- Você não sentiu, não é? Não precisa ficar constrangido, Henrique. Eu sei que o que sente por mim não passa de uma amizade. Mas não tem mais do que isso, não é? – perguntou-lhe novamente. Não estava triste, na verdade, estava grata por saber que estavam no mesmo barco.
- Desculpe, , mas um dia eu acredito que possamos construir algo juntos.
- Não tem porque se desculpar, grandão – falou seu apelido carinhosamente. – Eu também não senti nada, e isso me deixa aliviada de certa forma. – confessou.
- , você está tendo sentimentos por alguém?
A menina engoliu em seco e olhou para baixo, em seguida, levantou a cabeça vagarosamente e fitou o rapaz.
- Você não? – devolveu a pergunta - Em todos esses anos, nunca teve alguém que fez seu coração bater mais forte, que te fez perder a linha e pensar em jogar tudo para o buraco?
A garota viu Henrique olhar o horizonte como se não quisesse responder.
- Não podemos nos dar a esse luxo, . – falou com pesar.
- Eu sei, mas nem por isso quer dizer que é fácil.
- A gente vai fazer dar certo ... Quando o dia chegar, vamos estar prontos. – disse lhe abraçando.
Mal sabia o garoto que o dia já havia chegado. não teve coragem de contar naquele momento. Ainda estava atordoada com o que teria que fazer com logo mais. Não compreendia nem como começar. Sempre soube que o dia do fim chegaria, mas não assim, não de forma tão cruel.
Enquanto isso, Henrique tentava tranquilizá-la. Não que para ele fosse mais fácil, se pudesse escolher, ele também preferiria ter ao seu lado alguém que fizesse suas mãos suarem, o coração bater mais forte e que o deixasse nervoso e sem palavras. Não poderia ter nada disso, mas ficava menos triste ao saber que seria ao seu lado, alguém a quem ele havia com o tempo pegado um apreço maior.
- Vamos, pequena, que tal melhorar esse rostinho e dar a eles um pouquinho de alegria? Vamos circular por ai. – levantou-se estendendo a mão para ela.
- Que comece o show! – falou a menina levantando e passando seu braço no dele.
Ambos já estavam acostumados a isso. Na frente dos outros eram o futuro casal adorado e invejado por muitos. Trocas de sorrisos, pequenos carinhos, beijo na testa, bochecha, mãos entrelaçadas... Tudo que fizesse seus pais pensarem que estavam se esforçando e que esse casamento seria o mais bem sucedido de todos. Não queriam ter o peso de uma rachadura na paz em suas costas. Os dois foram nascidos e criados para reinar. Sabiam das responsabilidades que carregavam desde o berço e tinham empatia pelo povo. Não fariam nada que pudesse prejudicar os seus reinos e, por isso, faziam sempre o mesmo teatro quando estavam juntos.
Saíram pelo corredor e foram caminhar em volta do castelo, sempre acenando aos criados e os demais visitantes que estavam ali para a Conferência. Resolveram se afastar um pouco daquele ar de falsidade que os rondava e caminharam no bosque que ficava na lateral do castelo.
- Onde está Cameron? Não o vi em nenhum momento desde que cheguei. – Perguntou Henrique para .
- Meu tio está na conferência. Você sabe como ele é com essas coisas políticas, não desgruda do pé do papai. Às vezes eu penso se não é ele que irá reinar ao invés de mim. Nunca vi tamanha dedicação que nem a dele. – riu ela enquanto contava as peripécias do seu tio.
- É tão estranho ver você o chamando de tio. Ele só tem 21 anos, é cinco anos mais velho que você apenas e mais novo que eu.
- É, eu sei, mas aqui em Ílac essa idade faz toda a diferença. Ele sempre esteve uma fase a mais do que eu nas etapas dos estudos preparatórios reais. Às vezes eu encho o saco dele falando que ele precisa pegar mais leve, porém papai me manda o deixar em paz, pois quando estivermos reinando, ele será nosso braço direito, assim como é para ele hoje.
- Ainda assim eu acho desnecessário todo esse empenho. Não é como se nós fossemos incapazes. Não querendo me gabar, mas eu sempre fui o melhor entre meus irmãos e você foi guiada a vida toda para isso, . Além do mais, você é ótima na queda de braço. – disse ele a empurrando pelo ombro e rindo.
- Pois é, eu sei. E confesse que eu ganharia de você fácil em uma luta. - piscou para ele. – Mas caso aconteça alguma coisa com papai e comigo, mesmo depois que nós nos casarmos, ele é o segundo na linha da sucessão. Se eu falecer sem filhos, você não pode reinar em Ílac sem mim, pois seria como Medroc tivesse o poder sobre as duas coroas, e o acordo não inclui isso. Então, de qualquer forma, devemos estar preparados para tudo.
- É, eu sei. Mas tem que dar muita merda para isso acontecer. Eu acho que seu avô colocou, na época, um fardo muito grande para ele. O Cameron vai enlouquecer desse jeito – riu Henrique.
- Espero que não, pois, apesar de tudo, ele é ótimo, e vai ser de grande ajuda para nós. – disse refletindo. – Fiquei sabendo que ele vai casar.
- Sério? Nunca o vi com ninguém. – falou Henrique surpreso.
- Eu também não, mas foi a conversa que eu ouvi pelos corredores. Ninguém sabe ainda, eu que sou intrusa e o ouvi dizendo algo a respeito com papai. Vai ver ele está à procura da noiva ainda.
- Nossa, pra que essa pressa? O Cameron parece um velho. Nem eu com meus 25 anos tenho essa pressa toda. – desdenhou.
- Claro que não né, grandão? Você não tem pressa porque vai se casar comigo e na verdade nenhum de nós dois queremos isso – suspirou.
- Enfim, para que ele se casaria tão cedo? – perguntou Henrique intrigado.
- Posição. Em Ílac um homem respeitado é aquele que tem família. O Cameron tem posição política, mas é novo ainda, algumas pessoas ainda não o levam tão a sério, apesar de sempre ter ideias brilhantes. Um casamento seria uma ótima solução.
- Nossa, você está mesmo a par de tudo, não é, senhorita ? – riu.
- Claro, nunca ouviu dizer que as paredes têm ouvidos, senhor Henrique Buckaim? – falou virando-se para ele e andando de costas.
- Então acho melhor tomarmos mais cuidado – riu ele tocando na ponta do nariz dela.
Estavam andando, conversando e brincando, quando avistou de longe um par de olhos que a fitavam com intensidade. Ela sentia como se fossem lasers mirados em sua direção observando-a. Olhava cada passo, cada risada que ela dava, cada toque inocente... via tudo ao longe e sua expressão não era das melhores. Era sempre muito difícil para ele lidar com isso. já havia dito que tudo não passava de uma representação para as pessoas, mas por que então eles estavam ali na entrada do bosque sozinhos daquele jeito? ria para Henrique e ele por vezes tocava seu braço, sua bochecha ou nariz. Era inevitável não pensar que eles eram um casal apaixonado. Mas se não gostava de Henrique, por que ela ficava com ele quando estavam a sós? Será que ele era só um estepe para a princesa? Não podia ser. Ele sabia tudo que haviam vivido, ele cresceu com , ele a conhecia muito bem. precisava jogar esses pensamentos para lá.
Deu uma última olhada em direção deles e seu olhar cruzou com o de . Ele não conseguia mais lidar com aquilo. Abaixou a cabeça e preferiu adentrar de novo no castelo.
, empalidecida, só conseguia olhar na direção do garoto, ver o rosto entristecido dele a quebrava e a fazia lembrar que logo ela partiria mais ainda o seu coração.
- Algum problema, ? – perguntou Henrique preocupado quando ela parou de repente de rir e mirava um local ao longe. Henrique se virou na tentativa de ver aonde a princesa olhava, mas já não havia mais nada naquele ponto.
- Sim – murmurou baixo. – Vamos entrar?
- Claro, está ficando tarde. Temos que nos arrumar para a festa à noite. Passo no seu quarto para irmos juntos? – perguntou ele.
- Não precisa. Encontro-te lá, pode ser?
- Como quiser, pequena. – Deu-lhe um beijo na testa e foram embora.

***


Já era chegada a hora da grande festa, o banquete já estava posto e os convidados já rondavam o salão. A decoração era ilustríssima, só havia do bom e do melhor. Os lustres se espalhavam por todo o salão iluminando o ambiente e o contraste com as flores expostas era a marca registrada da rainha Helena. Algo que demonstrava a grandeza, mas também delicadeza.
A princesa descia as escadas, fabulosa, em direção a Henrique que já estava a sua espera no local. Ílac era o anfitrião desse ano, portanto a garota precisava cumprimentar os convidados e circular com seu futuro noivo como se fossem o casal mais apaixonado do planeta. Essa era uma farsa que ela estava acostumada a lidar, era uma das coisas que a realeza trazia consigo. Você precisava sorrir quando queria ficar triste, precisava ser forte quando só lhe havia fraqueza e precisava lidar com as adversidades com um olhar erguido quando, na verdade, tudo que mais queria era fugir.
- Boa noite, querido – disse chegando perto de Henrique, cumprimentando-o em um tom suficiente alto para que as pessoas ao redor pudessem ouvir.
- Boa noite, minha pequena – respondeu o rapaz prontamente, alargando um sorriso e entendendo o seu papel. – Pronta para a essa longa noite? – sussurrou em seu ouvido.
- Já nasci pronta, grandão. – piscou para ele e entrelaçou seu braço nele.
O casal empenhou com primazia a atuação e não havia quem não suspirasse por eles. Quem diria que um casamento arranjado, antes mesmo de acontecer, seria tão bem sucedido? Mal sabiam eles que e Henrique apenas se esforçavam para salvar os seus reinos. Ambos tinham o mesmo pensamento, eram altruístas e sacrificariam qualquer desejo próprio pelos milhões que ficariam a salvo de uma guerra destruidora.
Após muitas andanças, a princesa já estava entediada e cansada das conversas chatas dos mais velhos e queria poder se divertir pelo menos um pouco com os jovens que estavam ali. Quando avistou a princesa Sarah abriu um sorriso e viu a oportunidade de fugir da chatice que os mais pais falavam.
- Olha, Rique, a Sarah está logo ali. Faz tempo que não a vejo, vamos lá? – disse animada.
Henrique não animou-se muito com a ideia, viu seu rosto ficar um pouco desconcertado e ele não parecia estar muito a fim de segui-la.
- , não sei se demos atenção suficiente para todos os governantes ainda. – retrucou.
- Como não, Henrique? – perguntou ela irritada, já estava cansada. – Conversamos com cada cabeça de gente desse lugar. Eu não aguento mais. Se não for comigo, eu irei sozinha. – falou estupefata com seu temperamento forte.
Henrique sabia que ela era teimosa e realmente sairia andando na frente, o largando para trás. Não seria bom que as pessoas achassem que eles tiveram algum desentendimento, então, por isso, e somente isso, consentiu em ir com ela.
A princesa Sarah estava belíssima, a adorava, apesar de não ter muito tempo para ter o prazer da sua companhia. Sarah era a típica princesa com seus gestos refinados, doce e calma. Seu vestido era tão belo e combinava com o ar inocente que ela carregava. Não sabia se tinha pulso para ser rainha, mas porte real ela possuía sim. De qualquer forma ela não precisaria se preocupar com isso, pois era a segunda na linha da sucessão, provavelmente ela se casaria com alguém importante no reino dela ou em outro reino e ficaria por isso mesmo. Ela nunca precisaria lidar com as coisas que lidava, talvez este era o motivo dela ter um ar tão leve ao redor de si.
- Sarah... – cumprimentou .
- ! Que prazer te ver, estava com saudades! – respondeu Sarah animada ao ver se aproximando. Seus olhos logo pararam em Henrique, que só conseguiu notar depois de cumprimentar a princesa. – Oi, Henrique.
- Ei, princesa Sarah. – cumprimentou-a sendo respondido com um aceno de cabeça.
- Quanta formalidade! Tenho que te trazer mais para o meio dos jovens, Henrique. – falou rindo fazendo o príncipe abrir um pequeno sorriso.
continuava conversando e perguntando para Sarah todos os detalhes do tempo que ficaram longe uma da outra. A princesa de Fortance, mesmo tímida e contida, ia respondendo todas as perguntas dela. Estranhava a forma elétrica que estava, mas não teve coragem de perguntar o que era. Até parecia que ela queria ocupar sua cabeça com o máximo de coisas possíveis, como se quisesse escapar de algo e a melhor forma era preencher sua mente. Estava com a mente longe pensando nisso que até levou um susto quando ouviu a última pergunta invasiva da princesa.
- O que disse? – perguntou Sarah.
- O pretendente Sarah. Quem é? Não é possível que uma princesa bela como você não tenha um monte de homens jogados aos seus pés. – falou em um ímpeto.
Sarah engasgou com a pergunta da garota, não imaginava que o leque do interrogatório se estendesse tanto. Desviou os olhos e encarou Henrique que estava tão surpreso quanto ela com o teor da pergunta. Sarah ficou constrangida de dizer qualquer coisa na presença do príncipe ali, isso nem deveria ser o tipo de conversa que um rapaz deveria presenciar.
- ... – resmungou Sarah. – Olha quem fala! Você diz como se não fosse uma princesa muito bela também. – Sarah desviou da pergunta jogando de volta para ela.
- Eu sou, né querida, mas para a tristeza de muitos eu já estou laçada – falou apoiando sua mão no ombro de Henrique e dando-lhe um beijo no rosto. Era para ser um ato normal, uma brincadeira simples. já estava acostumada com isso, mas viu o rosto de Henrique corar e o jovem ficar sem graça como ela nunca havia visto antes.
arqueou a sobrancelha sem entender a súbita vergonha ou timidez dele e olhou para frente encarando Sarah a tempo de ver seu tio Cameron aproximar da garota e enlaçar o braço em sua cintura.
- Se depender de mim, a Sarah também entrará nesse time logo. – Cameron falou para o grupo se infiltrando rapidamente na conversa e Sarah esboçou um pequeno sorriso.
E pela segunda vez na noite era pega de surpresa com reações inesperadas. Seu tio era tão centrado e sério, não imaginava ele entrando em uma brincadeira como aquela entre os jovens príncipes, a menos que, não fosse uma brincadeira. Ela tentou interpretar os sinais de Sarah, mas ela era uma garota tímida demais para conseguir ser lida. Não sabia se ela estava tímida e envergonhada com a situação, ou pela aproximação repentina de Cameron. E desde quando Cameron tinha interesse em Sarah?
- Uau, essa é nova para mim. Você sabia disso, Henrique? - falou surpresa.
- Sei tanto quanto você, . – respondeu encarando o “casal” da mesma forma que .
- Por que não há nada para saber, não é, Cameron? – falou Sarah olhando direto para o tio de e colocando a mão em sua cintura como se fosse para tirar, mas a mão do rapaz havia se empoçado ali.
- Ainda não, querida. Em breve. – falou ele galantemente abrindo o maior sorriso que já havia visto.
Os quatro se entreolhavam naquela conversa estranha e cheia de mistérios. estava tão intrigada que, por um tempo, conseguiu esquecer toda a angústia que estava sentindo e conseguiu guardar em um baú na sua mente por uns momentos. Henrique permanecia meio deslocado e mais sério que o normal, Sarah parecia constrangida e envergonhada e Cameron estava mais feliz que qualquer outro ali, com um sorriso largo no rosto. A princesa de Ílac tentava analisá-los, quando ouviu o som do titilar de uma taça de vinho erguido no meio do salão.
Helena e Miles estavam no centro, adiante do trono que os pertencia. Ao se erguerem todo o salão ficou em completo silêncio, esperando a fala do rei e da rainha de Ílac. Miles deu um passo à frente para tomar a iniciativa do discurso. Agradeceu o comparecimento de cada reino e representante que estava no local, reforçou a importância de estarem todos unidos nesse propósito todos os anos, reforçando a aliança e comemorando mais um ano de paz.
Após encerrada a fala do rei, Helena tomou a vez, pois tinha um grande comunicado para fazer. viu sua mãe fitar seus olhos perversamente. Ela sabia o que ela faria. Havia chegado a grande hora. E como um tiro, todas as lembranças vieram à tona, assim como tudo o que ainda precisaria fazer.
Não foi à toa que rapidamente seus olhos correram por todo o salão à procura do dos globos azuis que eram só seus. Seu coração batia forte em busca do único que ela amou de verdade e que lhe fazia esquecer de todos os seus deveres. Logo encontrou servindo os reis de Alegrance mais à direita do salão e seu coração se comprimiu por não ter tido tempo nem de preparar o garoto para o que ele haveria de ouvir.
- Hoje farei o comunicado mais esperado de todos os reinos. É de conhecimento de todos que há anos atrás todos nós enfrentávamos uma guerra mortífera, onde vários inocentes morreram por causa dos nossos próprios egos. Porém esse dia chegou ao fim e, hoje, cada um de nós podemos dormir tranquilos em nossas casas, pois um acordo foi feito e todos aqui assentiram com ele. Ílac e Medroc, os maiores rivais de batalhas, vizinhos e inimigos. Agora... Sangue do mesmo sangue. , minha filha, está prometida a Henrique, herdeiro de Medroc, desde quando criança e há anos esperamos a consumação desse fato. – Iniciou Helena com orgulho.
Quanto mais Helena falava, mais o coração da princesa se apertava. Involuntariamente apertou a mão de Henrique e o príncipe que continha uma careta confusa, logo começou entender o que significava tudo aquilo.
- Finalmente o grande dia chegou! Minha querida filha tornou-se uma mulher e está pronta para assumir seus compromissos reais e matrimonias com nosso querido e já amado genro Henrique Buckhaim! Vamos comemorar! - terminou de dizer erguendo a taça de vinho para cima, sinal este que todos no salão também repetiram, gritando e comemorando em alta voz o tão sonhado dia.
Todos bradavam alegres. A promessa que estava só na palavra, agora, se concretizaria. Todos festejavam, pois estavam aliviados. O medo que alguém voltasse atrás no acordo era muito grande. Quem poderia confiar em palavras de um governante, sendo que, esse era os mesmos que estavam cheios de ganância pelo poder há anos? A união dos dois jovens tornaria tudo real, portanto, não era à toa que todos se embebedariam naquela noite, pulariam, cantariam e dançariam em homenagem ao noivado oficial.
- Melhore essa cara, era para estarmos comemorando. Nem eu que fui pego de surpresa estou como você. – cochichou Henrique no ouvido de .
- Desculpe, e-eu... Não sei o que dizer. Eu já sabia, mas... Agora é real. – murmurou para ele segurando as lágrimas para não chorar na frente de todos.
Não havia volta, agora teriam que seguir em frente. Todos os teatros que já haviam sido feitos, as encenações, tudo... Ela teria que se esforçar agora para que tornasse realidade.
- Onde estão os noivos? Venham aqui na frente! Hoje, a noite será longa, temos muito que festejar. Acabei de ganhar uma linda nora – Bradou Rory aos quatro ventos, já levemente alterado.
- Acho que estão chamando vocês – Cameron apontou para eles o local, vendo que não haviam dado um passo sequer para sair dali.
Henrique entrelaçou seus dedos nos de , a fim de passar força à garota, puxou-a entre a multidão enquanto recebia vários tapas nas costas de saudações dos presentes. Ao chegar lá no meio do salão onde estavam seu pai e os pais de , Henrique virou-a para si, fazendo que ficasse de frente pra ele.
- Está pronta? – falou ele em tom baixo passando a mão em seu ombro.
- Sim – suspirou acenando com a cabeça.
Isso foi o suficiente para que Henrique fizesse o que esperavam deles. O garoto inclinou-se na direção de e selou seus lábios em um beijo singelo. Sua mão se ergueu até o rosto da garota e passou o polegar com carinho e bem levemente em sua bochecha. Ao se separarem o povo bradou em alegria erguendo suas taças e gritando em comemoração. Tudo estaria maravilhosamente bem e teria sorrido se o tempo não tivesse parado no momento em que ela abriu seus olhos e conseguiu ver ao fundo com uma lágrima escorrendo pelo seu rosto.



Capítulo 3

Não paravam de aproximar pessoas para parabenizá-los, depois de anos esperando, todos queriam felicitar o casal. Grutok, Alegrance, Fortance, Medroc e Ílac, os cinco impérios festejavam juntos o novo tempo que chegaria. A cada convidado que se aproximava, apertava mais o braço de Henrique para tirar forças e suportar tudo aquilo. Suas bochechas doíam pelo riso falso que emitia, não sabia como seu companheiro poderia fazer tudo aquilo tão naturalmente, enquanto para ela, era um grande sacrifício.
- Eu não consigo mais fazer isso, Henrique – inclinou-se para sussurrar no ouvido do rapaz.
- Aguente firme, , está noite é a mais difícil, aos poucos as coisas se tornarão mais fáceis. – tentou acalmá-la.
Mas não sabia se isso um dia chegaria a ser verdade. A imagem de com lágrimas nos olhos cortava-lhe o coração. Se já se sentia despedaçada com aquilo, como ficaria ao ter que dizer as palavras tão duras em breve? Tinha medo de não conseguir. Ela precisava ser forte, precisava ter coragem de quebrar o coração dele para que ele pudesse viver, nem que para isso ele a odiasse eternamente.
Estava tão distraída em seus pensamentos que não havia notado os irmãos Buckhaim se aproximarem. Jeffrey e Garret eram tão vistosos quanto Henrique, porém, enquanto o mais velho tinha os cabelos mais escuros como sua falecida mãe, os outros dois eram loiros como o pai.
- Ora, ora. Finalmente posso te chamar de cunhada, – disse Garret cumprimentando a princesa. – Já era hora, não? Achei que esse seu sangue nunca ia descer!
olhou chocada com as palavras brutas lançadas pelo mais novo e tentou esboçar um sorriso, mesmo contido, para não se mostrar desconcertada, porém nem foi preciso, logo Henrique interviu por ela.
- Não fala assim com ela, imbecil – brigou Henrique irritado, socando o ombro do irmão.
- Nossa, já está defendendo a cria. Mal noivou e já está assim, imagina quando desposá-la. Ela vai amarrar uma coleira em você, irmão? – disse debochado a fim de provocá-lo.
rolou os olhos com impaciência para ele, Garret era patético. Sempre com brincadeirinhas inoportunas, provocando-a de todas as formas. Jeffrey, pelo contrário, era sério, não fazia muitos gracejos, sempre um observador. Às vezes chegava a transparecer um pouco rude, não que o fosse de fato, ela ainda não poderia defini-lo. Pelo menos, não vivia a incomodando. Uma coisa era certa, tinha muita sorte por ser Henrique o primogênito, com ele teria uma chance de ter uma companhia agradável por toda sua vida.
- Destrate-a de novo e eu vou usar essa mesma coleira para degolar você. – fuzilou seu irmão com o olhar.
Henrique, apesar de bondoso, era o maior dos três rapazes e mais ágil também. Seus irmãos sabiam que se lutassem com ele, mesmo de brincadeira, sairiam perdendo.
- Nossa, que medo. Tudo bem, irmão, só queria dar minhas felicitações ao casal. – disse Garret erguendo as mãos em sinal de rendição.
- Parabéns pelo noivado, – agora quem a cumprimentava era Jeffrey, olhando-a profundamente. Ele era sempre indecifrável, não o conhecia bem e achava que mesmo com o passar do tempo, talvez, nunca conheceria quem ele seria realmente.
Ele pegou na mão da princesa e depositou ali um beijo, demorando alguns segundos em sua mão. Diferente do irmão mais novo, ele parecia muito mais intenso, seu olhar era tão denso e obscuro que parecia que ia além do que sua mente poderia imaginar.
- Obrigada, Jeff. – murmurou ela um pouco envergonhada.
O príncipe, sério, apenas esboçou um ameaçante sorriso, lançou-lhe uma piscada e olhou para Henrique, cumprimentando-o em seguida. O mais velho o encarou severamente, seu irmão sempre seria uma incógnita até mesmo para ele.
Cada um deles tinha uma personalidade diferente. Henrique, amável e bondoso, Jeffrey, sério e meticuloso, e, por último, Garret, libertino e metido a engraçadinho.
- Vamos sair daqui, , meus irmãos são muito inoportunos.
- Tudo bem, Rique. Não tem nada demais. – tentou melhorar a situação. Era claro que os irmãos gostavam de se provocar, mas eles se entendiam de qualquer maneira, afinal, eram irmãos. Ela teria que aprender a lidar com isso, não precisava ser rude, agora eles seriam sua família também.
O novo casal continuou a perambular pelo salão, sendo parado a cada segundo para receber congratulações. A mente de estava completamente atordoada, não aguentava mais a pressão de estar no meio de tanta gente e ter de comemorar algo que não queria, além de distribuir sorrisos que não seriam seus. Aquela imagem, a lágrima que viu descer pelo rosto de , nada apagaria da sua memória. E o pior de tudo, aquela seria somente a primeira que ela o faria derramar.
Sua mente estava em um outro universo, as pessoas conversavam com ela e a princesa apenas assentia com a cabeça e sorria, sem nem prestar atenção nas palavras que diziam a ela. Deixou a cargo de Henrique manter o diálogo. Seu cérebro trabalhava em alguma maneira de poder fazer com que o término com fosse menos doloroso do que já seria.
Como se adivinhasse seus pensamentos, viu sua mãe caminhar na direção deles com um sorriso largo no rosto, seu pai a acompanhava enlaçado em seu braço, um pouco bêbado com a comemoração, mas ainda consciente.
- Aí estão os noivos. – disse Helena cumprimentando-os com um grande sorriso. – Henrique, meu querido, eu estou tão feliz que, em breve, você estará aqui no castelo, nós não poderíamos ter um genro melhor, não é, Miles? - pousou a mão no peito do marido.
O rei Miles transbordava alegria, finalmente todos os seus esforços valeriam a pena. Todos os soldados que morreram, as crianças que ficaram órfãs, as mulheres que se tornaram viúvas, tudo teria sentido, assim que a paz fosse selada. Era por cada um deles que a filha faria esse sacrifício e, por isso, sentia-se orgulhoso dela. Sabia que Henrique era uma boa pessoa, por isso acreditava que ele a faria feliz. Seu coração pesava por não ver o brilho nos olhos da menina ao falar do casamento. Ela poderia distribuir todos os sorrisos, enganar toda a população, mas não a ele. Tinham uma relação próxima e íntima, ensinou tudo que pôde a ela e a conhecia bem. Porém, ao mesmo tempo, sabia que a menina não voltaria atrás. A filha tinha nascido com o mesmo fogo e paixão pelo povo que ele, ela não retrocederia, ela havia crescido sendo preparada para as responsabilidades que viriam a seguir.
- Estou tão orgulhoso de você, filha. Esse dia será lembrando por toda a história, perdurará gerações a gerações. Netos, bisnetos e tataranetos lerão os livros e decorarão a data em que os jovens e Henrique uniram-se para selar a paz dos reinos da Terra. Somos as nações mais poderosas que existem, e por isso, somos responsáveis por esse papel. Um dia vocês estarão no lugar de Helena e eu, e, tenho certeza, que cumprirão um ótimo papel. – deu dois passos chegando mais perto da filha e virou-se parar falar diretamente a ela. – Minha menina, meu orgulho e minha vida. Sei que será uma Rainha muito maior do que o rei que eu fui.
- Isso seria impossível, papai – murmurou.
- Não seria não. Pelo contrário, é muito mais do que possível. Sabe por quê? Porque é para isso que criamos nossos filhos, para que sejam grandes, maiores do que nós. Que pai eu seria se te instruísse para ser apenas uma sombra do que eu sou? Não. Eu te dei tudo de mim e te mostrei o caminho para ir muito mais além. Eu posso ter feito o acordo de paz, mas quem irá selá-lo é você. Você que o manterá, todo o curso que se seguir daqui a diante está em suas mãos e foi para isso que eu te dei asas, para que pudesse voar. Eu confio em você e em seus discernimentos. Vá para o alto, e nunca esqueça de sempre olhar para dentro do seu coração. – inclinou-se e deu um beijo na cabeça dela.
Virou-se para o lado, encarou Henrique e tocou seu o ombro, dirigindo a palavra agora a ele.
- Meu rapaz, estou feliz, pois sei que estou entregando minha filha a uma boa pessoa, a quem alego ser de confiança. Nunca me preocupei porque vejo em seus olhos o mesmo senso de justiça que enxergo no da minha filha e sabe por que eu sei disso? Porque são os mesmos, também sou assim. Pessoas como nós merecem estar no poder, pois os céus sabem que faremos um bom uso da coroa. O trono nos pertence por mérito, por isso, temos como obrigação fazer jus a isto. Caminhem juntos, sem nenhum interpelar o outro, e poderão crescer e serem reconhecidos por isso, mas se um de vocês tentar sufocar o brilho do outro, tudo desmoronará. Lembrem-se disso. Esta é minha benção a vocês.
Os olhos de embargaram, emocionada, era uma grande responsabilidade e por mais que soubesse que havia se preparado toda a vida para isso, tinha medo de fracassar. Seu pai estava ali depositando tudo de si neles e ela não queria decepcioná-lo. Henrique assentiu, sério, remoendo o que o rei dizia.
Miles olhava alegre para os dois, por mais que não via a mesma paixão que ele sentia por sua esposa entre eles, sabia que havia companheirismo, e se continuassem assim, seria suficiente para guiar o reino. Esperava que as palavras de incentivo dele fossem o gás que faltava para que abraçassem de vez àquilo. Não poderiam colocar tudo a perder agora.
- Obrigado pela confiança, Majestade. – Henrique estendeu a mão para o rei em cumprimento. – e eu recebemos todas as palavras que proferiu para nós e saiba que ter a sua confiança é muito importante para mim. Você é uma referência para todos nós, Rei, e se eu for metade do que você foi eu poderei morrer feliz.
- Não diga a palavra morte, filho. – falou Miles, rindo para o garoto. – Isso traz maus agouros para pessoas como nós. Ainda é cedo para isso, você tem muito ainda para trilhar. Ouça a palavra desse velho aqui que já viu muito na vida e sabe das coisas.
- Obrigado mesmo assim. - respondeu Henrique, centrado, como sempre era quando se tratava dos assuntos reais.
Helena observava, a todo o tempo, as feições da sua filha. Achava que a menina poderia estar desestabilizada com todo o alvoroço, ainda mais depois do dia de hoje. Porém, novamente, havia se enganado a respeito dela. Aquela mocinha a surpreendia outra vez, precisava estar com os olhos abertos. Achava-a até que estivesse calma demais. Começou a pensar se a menina não estava tendo algum outro plano mirabolante para enganá-la. Assim, logo que Miles se afastou, a mulher chegou perto de , abriu os braços e a puxou para um longo abraço.
- Eu não sei o que está tramando, mas vou dizer-lhe que pare já com isso – murmurou baixo no ouvido da filha enquanto a abraçava, sentindo o corpo da menina enrijecer em suas mãos.
- Mas, o quê? – indagou , afrouxando o aperto.
Helena continuou com seus braços firmes, não deixando que se afastasse dela.
- Espero que esteja lembrando o que você deve fazer. Ainda hoje. – frisou com um tom frio, fazendo o estômago da garota se revirar. – Assim que acabar a festa mandarei um guarda para acompanhá-la. Nem pense em alguma gracinha, eu receberei um relato do que eu quero ouvir. Termine com isso hoje, amanhã mesmo não quero esse paspalho aqui. – terminou dizendo antes de soltá-la.
A rainha colocou um sorriso de novo no rosto e olhou para o marido, partilhando com ele a felicidade do momento. Quem estava de fora jamais perceberia algo, Helena conseguia ter as mais ardilosas máscaras. Talvez seja os genes dela que tenha puxado toda vez que usava um sorriso que não queria em sua face e, por um instante, desejou ter mais ainda esta herança para poder colocar uma máscara dura e impenetrável quando fosse falar com .
Queria chorar, amaldiçoou o dia da menarca, o divisor de águas da sua vida. O dia que selava o futuro dela e o dia que fez a maior burrada e ao mesmo tempo a maior alegria da sua história. O dia que beijou pela primeira vez. Foi sua benção, mas também sua maldição. trouxe o mundo para ela, ele a salvou, mas foi, ao mesmo tempo, sua perdição. E pior ainda, agora por culpa dela, ele estaria destruído. Seria expulso do castelo sem nada, não teria como se sustentar, não teria o que comer nem o que beber e, ainda, de quebra, condenou o pai do garoto a definhar seus dias nas ruas.
Engoliu em seco e continuou a noite na festa até que já tivesse socializado o suficiente para poder se retirar. No decorrer dos minutos que passavam, seu corpo começou a ficar trêmulo e a ansiedade lhe dominou.
- Acho que agora que estamos liberados, já podemos nos recolher – falou Henrique para ela.
O alívio não veio com a frase, estava, sim, cansada de todo aquele teatro e da pressão de todos os cumprimentos, mas sair dali, significaria enfrentar , e ela não havia se preparado o suficiente para isso.
- Pequena, está tudo bem com você? – perguntou notando que estava estranha e apática.
- S-sim. Só estou cansada. – respondeu, respirando fundo.
- , eu sei que é difícil. Não só pra você, mas pra mim, mas vai dar tudo certo. Nós vamos fazer dar certo. – falou virando-se para ela e a segurando pelos ombros.
A princesa o olhou com carinho, Henrique era um ótimo amigo, importava-se sinceramente com ela. Ela aproximou-se dele e lhe deu um beijo na bochecha, retribuindo o cuidado dele.
- Obrigada, Rique. – disse ela
Despediram-se e retiram-se do Grande Salão. Suas pernas pareciam gelatinas e ela sentia que a cada momento iria desfalecer. Não demorou muito e notou um guarda atrás dela, seguindo-a. Era Hebert, responsável pela vigilância da realeza. Já não era tão novo, porém era de confiança o suficiente para não espalhar rumores sobre a intimidade do rei e da rainha por aí. Apesar de quase não conversar com ele, sabia que Hebert havia acompanhado grande parte do seu crescimento e parecia ser uma pessoa respeitosa. Quando viu que o homem a escoltava em cada passo que dava, logo concluiu que foi ele quem sua mãe havia incumbido de espiá-la.
Olhou para trás e viu o homem pisar os mesmos passos que os seus. Parou em frente à porta do seu quarto e o guarda parou exatamente atrás dela, como uma maldita sombra.
suspirou fundo, abrindo a porta devagar enquanto entrava em seu aposento. Teve que segurar a respiração e apertar firmemente a maçaneta para não desmoronar, pois quem estava sentado em sua cama, com o corpo curvado, cabeça entre os joelhos e mãos nos cabelos, era .
A princesa olhou para o guarda que estava em sua cola com um olhar de súplica.
- Será que poderia... Não entrar? – perguntou – Eu deixo uma fresta aberta, você pode ficar na escuta e tudo mais. Eu sei o que minha mãe lhe ordenou, mas deixe-me falar com ele a sós.
Hebert olhou para a menina e sentiu pena. A rainha havia lhe mandado acompanhar a garota e ficar com ela durante todo o tempo em que ela expulsaria o rapaz. Queria ter certeza que a menina faria da forma que ela ordenara. O soldado não entendeu o motivo para tudo isso, se condoeu pelo garoto que conhecia dos corredores do palácio, seu pai havia servido muito tempo àquele lugar. Porém não poderia falar nada e obedeceria a ordem da rainha piamente.
Todavia, ao ver os olhos brilhantes da princesa, consentiu. Virou e ficou estancado ao lado da porta, de prontidão, e escutou-a ranger até que somente uma pequena abertura fosse notada, o suficiente para observar tudo, caso necessário. Se Hebert virasse, conseguiria assistir todo o espetáculo que viria a seguir, mas preferiu honrar a garota e somente ouvir o diálogo para poder passar o relato para a rainha mais tarde.
Lá dentro, a menina começou andar pelo quarto, mas sem fitar . Não conseguia olhar ele e nem enfrentá-lo. Não sabia nem como começar.
O garoto, ouvindo o som dos passos de pelo quarto, ergueu o rosto sofrido e rompeu o silêncio.
- Por que não me disse?
- Não tive tempo – respondeu mecanicamente a verdade, mas sem ainda olhá-lo.
- Você resolveu comunicar a sua mãe que a hora havia chegado, sem mais e sem menos? Eu te vi de manhã, , nós estávamos bem aqui, nesse mesmo local, nessa mesma cama que estou sentado agora, por que não me disse? – voltou a perguntar.
A sua voz expressava a dor. Ele não conseguia entender, estavam bem pela manhã, trocaram juras de amor, ele havia se declarado para ela e vice versa. Eles sabiam que esse dia chegaria, mas por que fazer com que ele soubesse na frente de todos de forma tão brutal, tendo que assistir Henrique desfrutar dos lábios da sua amada?
A princesa não respondia nada, fechou os olhos ainda de costas para ele e suspirou, permanecendo muda.
- Eu sei que fui tolo chamando-lhe para fugir comigo tantas vezes, . Sou um simples apaixonado. Arriscaria minha vida pela sua.
“E eu arriscaria tudo por você, .” Pensou ela, mas nada expressou.
- Mesmo assim – continuou ele - Eu sabia que você é bem maior que isso. Quem sou eu? Apenas um filho de um velho serviçal do castelo, um mero ninguém. Você não foi feita para mim, por mais que eu te ame demais e te queira todo o tempo. Eu lutei todos os dias para que a minha mente encucasse que você não é minha, você pertence a ele. Você foi feita para reinar e será uma ótima Rainha, , eu só queria que tivesse me preparado antes. Queria poder-lhe pelo menos dizer adeus. – confessou frustrado passando as mãos em seus cabelos.
Os olhos de embargaram-se. compreendia a grande responsabilidade que ela tinha nas mãos, e por mais que ele tinha ideias mirabolantes muitas vezes, ela sempre soube que ele entenderia - por mais que doesse - o que ela deveria fazer.
Prazo de validade, lembrou ela.
E ao invés dele estar lá brigando ou zangando-a, ele dizia que a entendia. Estava dócil e amável, como sempre era o seu querido . E, mesmo assim, ela precisava feri-lo. Não era justo, ela não queria fazer isso. Apoiou as mãos na cômoda que estava em sua frente, segurando-a com força para que não caísse. Não poderia derramar nenhuma lágrima e nem desmoronar. Inspirou e expirou fundo, criando coragem para virar-se. Era a hora. Tentou tirar de dentro de si um ladro negro que nem ela sabia que existia, mas que seria necessário se ela quisesse manter a salvo.
- Isso diz respeito a mim, . Eu não preciso dar-lhe satisfações das minhas decisões, pois eu sou a princesa. Se alguém precisa explicar algo aqui, sempre será você, não eu. Eu não lhe devo nada. – falou com um tom que nunca havia precisado usar com ninguém.
O garoto ergueu o olhar para ela em uma careta confusa. O que eram aquelas palavras? Nunca havia visto ser ríspida nenhuma vez na vida e agora ela o tratava como um desconhecido.
- Como? – perguntou ainda inebriado, pensou ter entendido errado.
- Foi o que ouviu. E agora eu sugiro que você arrume suas coisas e se retire do castelo imediatamente. – disse para ele, dura e forte, porém seus olhos se desviaram com medo que se olhasse diretamente para ele, não suportasse.
- , o que está acontecendo com você? – perguntou se levantando e andando até a garota.
- Não chegue perto de mim! - falou em tom alto, erguendo a mão para que parasse no meio do caminho. Sua voz era sempre ríspida, mas sua mão tremia. percebeu quando ela a ergueu.
Cruzou os braços e levantou a sobrancelha, confuso. O que raios estava acontecendo? O que sua menina estava dizendo?
- , o quanto você bebeu essa noite?
- Acha que eu estou embriagada? – perguntou incrédula.
- Se não está bêbada, só pode estar louca. Por que está me tratando assim? Por que fala comigo como se não tivéssemos vivido nada durante esses três anos? E que negócio é esse de ir embora do castelo?
sabia que precisava ser mais convincente. Antes do título namorado/amante, era seu amigo. Ele a conhecia. Precisava mais do que ordens para fazer ir embora. Teria que dar uma explicação e que fosse persuasiva o suficiente.
- Você sabe, , acabou. Agora eu assumi para o mundo o meu relacionamento com Henrique, não há mais nada para nós. Você quer saber mesmo por que eu não te falei nada? Quer mesmo a verdade, ? Será que está pronto para isso? – arqueou a sobrancelha desafiando-o e deu um passo à frente para se impor a ele.
- Bom, é o que eu quero, apesar de achar que sempre estivéssemos sendo sinceros um com o outro. Mas se tem algo que tenha que falar para mim, estou a todo ouvido. – disse, cruzando os braços.
- Pois bem. – disse aproximando-se – Imagine uma princesa com um fardo enorme nas costas. É muita coisa para lidar, ter que viver a vida inteira amarrada a uma vida que não foi escolha sua e levar tamanha responsabilidade na sua cabeça. Mas aí, eis que aparece uma pessoa nesse intervalo de tempo, alguém que a fizesse aproveitar o tempo que teria ainda da sua liberdade. Foi isso que você significou pra mim, . Enquanto não era chegada à hora eu te usei e pude sentir a adrenalina de viver uma vida que eu sabia que não teria. Eu já terei Henrique por toda a vida, por que não então experimentar algo diferente antes disso? – foi cuspindo palavras que não sabia nem da onde estava tirando. – Você caiu na minha conversa como ninguém, , foi bom enquanto durou. Você beija bem e tudo mais, mas agora... Não preciso mais dos seus serviços. Agora eu estou noiva do herdeiro do império de Medroc, enquanto você... Bom... Não dá nem para descrever porque é apenas um ninguém.
O menino não conseguia acreditar no que a garota lhe dizia. Era como se fosse um brinquedo usado e descartado quando se enjoava dele. Ele não conseguia assimilar o que estava acontecendo. Ela não podia ter mentido por tanto tempo, podia?
Conseguia sentir uma ferida sendo aberta em seu peito. Uma dor alucinante que ardia e comprimia seu coração. Ele recusava-se a aceitar aquilo. Machucava e ele não compreendia, mas recusava-se a tomar aquilo como uma verdade. Não podia ser real. Aquela não era a sua menina.
- ...- chamou-a com os olhos embargados.
- Será possível, , que você não consegue entender!? – bradou ela, furiosa.
Ele podia pensar que era com ele, mas na verdade estava furiosa porque, por mais que tentasse, não parecia crer em suas palavras. Ele estava tornando tudo mais difícil. Por que não simplesmente acreditar que ela apenas o usou? – Porque o que viveram era um amor puro e genuíno – sua própria mente lhe respondeu.
- Não me chame de , agora, para você, é Alteza, ou Princesa . Deve-me respeito como qualquer outro plebeu. Você é um qualquer, , não se ache mais do que ninguém aqui. Espero que tenha aproveitado o pouco que teve, agora quero que vá embora! VÁ JÁ DAQUI! – disse ela gritando a frase final e apontando o dedo para a porta. A respiração estava descompassada, devia estar passando-se por louca.
- É sério isso? – perguntou ele em um último desejo insano que a garota se virasse e dissesse que tudo não passava de uma brincadeira de mau gosto. Os olhos ardiam por segurar as lágrimas que pediam passagem.
- É a única coisa séria que eu estou dizendo em todos esses anos que estivemos juntos. – falou ofegante, mas ainda mantendo o olhar sério. Seus olhos também queimavam na luta para não chorar.
- Quem é você? – perguntou em um suspiro, passando rapidamente a mão na bochecha para tirar uma lágrima que havia caído.
- , princesa de Ílac, noiva de Henrique Buckhaim, que por sinal, é herdeiro de Medroc. Ah, só para que caso você não esteja entendendo ainda, futura Rainha também. Serve? – falou com todo o tom superior que conseguiu. Realmente os genes de Helena estavam lhe servindo bem, os anos de teatro que a coroa lhe incitava conseguiu dar a ela uma máscara quase que impecável.
O garoto sentia as punhaladas cada vez que ela abria a boca. Ele parecia um masoquista tentando ainda, de alguma forma, desvendar o que estava havendo naquele quarto. Ele estava sendo humilhado de todas as formas. Aquela não era a mesma pessoa com quem ele havia vivido. A menina com quem ele brincava pelo jardim quando era pequeno, a garotinha com quem corria pelo bosque, ou mesmo a moça corajosa que entrou no lago com ele. Onde estava a princesa justa que não rebaixava a ninguém, a garota que ele sentia orgulho?
Ele sentia-se um mísero nada no momento. Era como se estivesse vivido uma mentira por toda a sua vida. Mas não é possível. Nem a pessoa mais traiçoeira conseguiria manter uma máscara por tanto tempo. Então, ele preferia acreditar que, por algum motivo que ele ainda não conhecia, o disfarce estava sendo apenas hoje com ele. O que, apesar de sua conclusão, não amenizava a dor de ouvir tudo aquilo.
- Olha, , eu não sei que droga deu em você, mas eu vou escolher tentar ignorar tudo isso que você está dizendo. Nós íamos acabar de qualquer forma, você não precisa chegar aqui e me humilhar achando que assim vai ser mais fácil. – disse ele deduzindo que a menina estava fazendo isso para acelerar o término entre eles.
- Céus, você é burro ou o quê? – disse exasperada. – VAI EMBORA DAQUI! Eu não quero ver sua cara nunca mais. Eu quero você longe do meu castelo. Chega. Eu já enjoei de você. Não quero ver seu rosto de cachorro sentido toda vez que você for me ver com o Henrique. Sai do meu quarto, pegue o imundo do seu pai e vai embora do meu castelo. Os guardas estarão à sua espera para escoltá-lo para fora.
O silêncio foi ensurdecedor. sabia que agora ela teria pegado pesado. Tocar no pai de era um golpe baixo, mas era a única alternativa que ela viu para conseguir completar sua missão.
Quando ouviu a princesa chamar seu pai de imundo, foi como se toda a imagem que tivesse construído da menina dentro de si tivesse quebrado. Ela estava mesmo o mandando para fora. Queria no momento virar a cara para ela e sair andando dali com o resto da dignidade que tinha. Mas não podia. Tinha apenas um pai velho, já praticamente acamado. O serviço braçal havia acabado com ele há anos, hoje, já não era mais útil para nada. Em seu lugar, trabalhava, mantendo o direito de viver junto com os demais funcionários e podendo assim, cuidar do seu pai. Mas...Se fosse embora, o que faria?
- Alteza – perguntou formal, jogando fora qualquer altivez e se submetendo ao que seja lá o que estivesse fazendo. – Se você quer se vingar de mim, me usar ou deixar de usar, seja o que for, faça o que quiser. Mas você sabe bem que meu pai não aguentará nem uma semana nas ruas de Ílac se sairmos daqui. – comunicou com a voz carregada de emoção. Humilhar-se-ia novamente se isso pudesse salvar o seu pai.
O coração de se partiu. Sim, ela sabia disso. Era quase que uma vida pela outra. Pensando bem... Não. Não era. Se ela não fizesse o que a mãe lhe ordenara, seria morto e, consequentemente, o pai também morreria. Mas se ela o expulsasse dali, o pai poderia até morrer, mas ainda teria uma chance de se virar de alguma forma.
Seu coração doía com tamanha atrocidade que estava fazendo. Nenhum deles merecia isso. Ele estava recebendo todo o castigo por algo que ela fez. Ele a ajudou no dia do lago, mas todo o resto foi ideia dela. Somente dela. Claro que ele havia consentido, eles se amavam e queriam ter um tempo juntos. Ele fazia isso por ela. Poderiam ter errado, mas quem, com tão pouca idade, e apaixonado não faria o mesmo? Eram duas crianças bobas achando que podiam controlar o mundo na época, mas Helena fez questão de mostrar que as coisas não seriam assim.
virou-se de costas pra . Ela não aguentaria mais, estava desmoronando. Mordia o lábio com força para não chorar, piscava repetidas vezes, mas não conseguiria se conter.
- Não me importa. – disse um pouco trêmula. – Vá e leve-o agora. Espero não ter que repetir. A próxima vez que eu disser será a última para os dois. E eu não estou me referindo agora em apenas ir embora daqui.
O garoto estava destruído, perdido e sem causa.
- Vai mesmo nos deixar a deriva por... Nada? Acha que eu ia estragar seu casamento perfeito? , por Deus, parece que não me conhece? – falou exasperado com a voz carregada.
O rapaz recebeu o silêncio em resposta. se recusava a virar-se novamente para encarar o rapaz, pois as lágrimas que tanto segurou, já haviam desmoronado. Apertava os olhos com forças para contê-las, mas nada daria resultado.
- Droga. Droga. Droga – murmurou o rapaz já fora de si, não acreditando que aquilo estava acontecendo. Colocou as mãos no rosto frustrado. Estava tão chocado e indignado que não sentia nem mais as lágrimas que jorravam em seu rosto. Era como se tivesse entrado em um estado de latência.
– De todas as coisas que você disse pra mim, , eu perdoaria todas, mas mandar um velho que não tem nada a ver com a gente para a rua, foi o golpe mais fatal que você poderia ter feito. Era me fazer te odiar que você queria? Parabéns, você conseguiu.
A frustração se transformou em furor, sua pele fervia em uma raiva ensandecida. Saiu em passos duros abrindo a porta com toda a força, fazendo-a bater alto ao fechar.
Foi só ouvir os sons dos últimos passos do garoto que terminou de se desfazer. Foi caindo no chão, deslizando no encosto da cômoda, aos prantos. Agora não segurava mais seus sentimentos, apenas se desfazia. Era como as geleiras das terras sulistas que se derretiam ao sol. Ela havia sido o gelo perante , mas agora que tudo havia acabado, só ficava a dor.
Ela não se importava nem com o guarda que abriu a porta novamente a via em uma situação tão deplorável. Ela queria sumir. Havia jogado o garoto e o pai às margens da sociedade, sem nada, sozinhos. Não tinha volta, já estava feito. Mas doía mais do que qualquer coisa que poderia sentir.
O quarto a sufocava, olhou de um canto para o outro, parecia que não conseguia respirar. Precisava sair dali, correndo. Estar dentro dele era como reviver cada mentira que disse a , seria relembrar cada palavra que havia estraçalhado o coração dele.
Levantou-se com as pernas cambaleantes e se dispôs a sair do quarto. Ao chegar ao batente, olhou o guarda que estava à espreita ouvindo para relatar a sua mãe.
- Será que você poderia pelo menos omitir a minha mãe sobre... Nós dois, eu e o ... Juntos? – perguntou ao guarda com o rosto vermelho banhado de lágrimas.
O homem ficou um tempo em silêncio observando o estado da princesa e assentiu com a cabeça, fazendo-a suspirar. Quando a garota deu alguns passos para se afastar do aposento, a fim de se apartar das lembranças dos momentos terríveis que acabara de passar, ouviu o guarda lhe chamar.
- Princesa! Permite-me dizer-lhe algo? – perguntou.
- Claro - respondeu arrumando melhor sua postura e erguendo o rosto para o soldado que a olhava de uma forma diferente em sua direção. Parecia... Admiração? Não compreendia bem.
- Você será uma ótima Rainha um dia, Princesa . Qualquer um que abdica o seu próprio amor pelo outro merece respeito. O povo tem sorte de ser a senhorita a próxima sucessora! – falou fazendo reverência a ela.
deu um sorriso pequeno, agradecida pelas palavras do guarda. Aquilo não sararia as feridas do seu coração, talvez aquele machucado nunca cicatrizasse, mas ela se apegaria àquelas palavras para tentar seguir em frente.




Capítulo 4

A madrugada fria cortava as suas entranhas, o vento gelado batia em seu rosto lembrando-o do motivo de estar ali. Não sabia para onde ir, olhava para um lado e para outro em busca de qualquer ambiente que pudesse protegê-los e os aquecer. Seu corpo já doía pelo peso do velho pendurado em seu ombro. O garoto o arrastava desde a saída do palácio, tentando fazer com que o seu pai tivesse o menos de esforço possível. O homem tossia e ofegava, estava cansado. Se continuasse daquele jeito não duraria muito.
suspirou, frustrado, por não saber o que fazer. Desceu o pai lentamente e o escorou em uma parede de lajotas na rua. Não se importou com o chão sujo enquanto sentava-se por ali e jogava uma pequena bolsa ao seu lado. Não havia trazido muita coisa, primeiro, porque realmente não o tinha, segundo, porque não teria condição de levar pertences e carregar seu pai ao mesmo tempo. Era um ou outro. Só havia pegado o básico de vestimentas, passou pela cozinha e assaltou alguns quitutes para que não passassem fome àquela noite.
Quando saiu pelos portões, só pensava em ir o mais longe possível do castelo, mas não conseguiu caminhar tanto quanto gostaria com o pai naquele estado. O velho estava cansado e aos tropeços. Vez ou outra gemia de dor. O braço esticado pelo ombro do filho lhe fazia sentir como se o sangue não circulasse mais o local, suas articulações latejavam e sentia uma queimação aguda, partindo do tendão até as pontas dos dedos. Quando pararam, foi como um alívio se alastrasse, conseguiu respirar finalmente, aliviado.
Ali mesmo, sentados na rua, abriu a bolsa, pegou um pedaço de pão e deu ao seu pai. Não tinham muito, mas sobreviveriam àquela noite. Pegou a manta que havia trazido e jogou-a por cima do velho que tremia de frio, mesmo sem reclamar. O pai não precisava dizer nada, ele não reclamaria, mas seu filho podia ver os pelos ralos dos braços dele arrepiados e seu queixo bater levemente. fechou os olhos e suspirou profundamente, tentava achar em sua mente uma solução para essa situação.
Sua mente corrompida e sádica o levou novamente aos momentos que havia vivido horas antes no castelo. Sentia cada palavra dita por . Suas entranhas se remexiam com o peso de cada letra soletrada pela boca dela, as lembranças eram duras e pesadas, como uma garra que invadia o seu peito e esmagava o seu coração com um só aperto. Como ela poderia ter o enganado por tanto tempo? Como ela pôde fazer isso com ele? Seria ele tão idiota a ponto de ter se deixado levar por um amor unilateral por todo este tempo?
Sua cabeça doía com a batalha entravada em sua mente, as boas lembranças que tinha com tentavam combater e ocultar a catástrofe que havia passado há pouco. Sentia como se fosse hoje, a menina sorrindo para ele com olhos que ele julgava serem tão apaixonadas. Viviam um amor tão puro. Como poderia esquecer de tudo?

A princesa olhava para ele, intrigada. Fazia uma careta confusa ao notar que o rapaz parecia estar em um outro universo. Às vezes ele focava um ponto e esquecia-se do mundo. achava tão fofo e engraçado... Ela gostava de encará-lo só para poder reparar nos traços do rosto de que mexiam-se involuntariamente quando estava daquela forma, concentrado.
- O que tanto pensa, ? - disse ela rindo, interrompendo os devaneios dele.
O garoto olhou pra ela e abriu um sorriso, aproveitou para retirar uma mecha de cabelo que estava caído na testa de e tampava seus olhos.
- Não sei se é algo agradável para se dizer no momento. – respondeu franzindo o cenho e desfazendo o sorriso rapidamente.
- Por favor – insistiu inclinando-se na direção dele e ignorando a carranca recente.
O garoto ponderou se deveria falar, mas vendo o olhar pidão da sua menina, não resistiu, sabia que não conseguiria negar nada a ela.
- Estava pensando em quando você casar com Henrique. O que irei fazer? Acho que você não irá querer ver minha cara nunca mais. Vai me esquecer completamente. – murmurou fazendo uma careta teatral para ela.
- Para de drama, – ralhou ela, porém rindo. – Eu jamais abandonaria você. Somos amigos desde sempre, não é porque não podemos ter um futuro no amor que nossa amizade acabará.
- Não sei se isso dará certo, . – suspirou.
- Claro que vai. Quando eu for a Rainha de Ílac irei te nomear meu conselheiro, ao lado de Cameron, e, assim, poderei ter você ao meu lado todos os dias. Eu nunca vou te deixar, , entenda isso. – colocou suas mãos, uma em cada lado do rosto do garoto, e terminou selando os lábios do rapaz.


Como podia ele duvidar de tudo que viveram juntos? Nada que tentava refletir o fazia compreender a atitude de para com ele. Quando chegasse a hora, ele a deixaria livre, não a impediria de seguir a sua vida. Por que então o arruaçar dessa maneira? Não havia motivo que o levasse a perdoá-la por tamanha atrocidade. Olhou para seu pai que já estava dormindo ao seu lado. Amanhã ele precisaria procurar ganhar dinheiro de alguma forma, o que ele havia trazido não duraria por muito tempo, além do que, não poderia dormir ao luar para o resto dos seus dias. Fechou os olhos torcendo para que a noite passasse rápido e que seus pensamentos não continuassem o atormentando, e assim, após horas de labirintos que não chegavam a lugar nenhum, dormiu.
Ao longo da semana, continuou sua jornada com seu pai pendurado em seus ombros. Seus pés calejavam com a caminhada e seus braços doíam com o esforço físico. Era muito difícil conseguir se virar tendo que arrastá-lo por todos os lugares, por isso, deixava-o, às vezes, escorado pelas muretas da rua por um tempo, enquanto ele ia atrás de algo que pudesse salvá-los. Infelizmente, dar um emprego para um garoto de 18 anos, não era tão fácil quanto imaginou. Os pequenos negócios geralmente eram administrados pelos próprios proprietários e familiares, não restando nada que desse uma chance ao rapaz. Ouviu vários “nãos” durante o percurso, muitos não queriam nem ouvir o que tinha a dizer. As pessoas olhavam para o menino maltrapilho com nojo e um resquício de medo, pensavam que poderia ser um ladrão aproveitador. Ninguém queria saber ou se importar com um menino sozinho e pobre no mundo.
também tentou achar um albergue ou qualquer aposento em que pudessem passar a noite, prometia aos donos que assim que conseguisse um trabalho, ele pagaria as despesas. Mas só recebia portas e mais portas na cara. Nem uma mísera e única oportunidade. Não queriam saber se ele estava necessitado ou passando fome, as pessoas não se importavam se ele tinha que sustentar um pai velho e doente. As pessoas costumam olhar as outras na rua e julgá-las, a maldade no mundo cegou a terra e, agora, ninguém enxerga mais o outro. Era muito mais fácil cada um viver a sua própria vida. Se importar para que, né? O mundo era egoísta e aprendia a lição da forma mais difícil.
No final da semana a comida já havia acabado. O estômago do garoto ardia com a falta de alimento. Há mais de vinte e quatro horas não sabia o que era o gosto saboroso de um punhado de pão ou um molhar da garganta com um gole de leite. Salivava quando passava em frente às barracas das feiras e não tinha nenhuma moeda para comprar nada. preferiu deixar para o pai as últimas coisas que havia conseguido trazer do castelo, pois o velho já estava debilitado. Sem os cuidados do palácio o garoto também não tinha dinheiro para comprar os medicamentos que seu pai precisava para se manter.
O coração do menino estraçalhava-se e a sensação de impotência atingia-lhe em cheio. O menino, que voltava de mais uma busca frustrada, aproximou-se do local onde havia deixado o seu pai. Ao olhar o corpo franzino do velho encolhido sobre um pedaço de papel grosso que havia achado no lixo, chorou. Voltava da mesma forma que havia ido, sem nada. Como chegaria até ele e diria que não tinha conseguido nada para lhe dar de comer?
Os olhos do homem se abriram com dificuldade ao ouvir os passos do filho, cada vez mais perto. O homem levantou a mão lentamente, em um pedido mudo para que se aproximasse. agachou-se e segurou a mão dele, depositou um beijo ali, um pedido de desculpas por ser alguém tão imprestável. Começava entender porque havia o enxotado da sua vida, ele era um nada mesmo. As lágrimas que desciam pelo rosto do menino molharam a mão do senhor, não conseguia conter, não dava mais para ser forte pelo pai, era o fim.
- Não é culpa sua. – murmurou o velho baixinho, quase sem força.
Foi a gota d’água para que os soluços saíssem da garganta de .
- Sim, é. Se eu não tivesse me envolvido com ela... Pai... Podia ser tudo diferente. Perdoa-me. – disse ele entrecortado em meio ao choro.
- Shiii... - disse o homem levando o dedo até a boca de , impedindo-o de falar. – Não se pede perdão por amar, filho. – falou tossindo fraco e tentando esboçar um sorriso.
O menino sentou-se ao lado dele e puxou-o para entre seus braços. Apertou o pai forte, não queria largá-lo, não queria deixá-lo ir. Queria poder fazer alguma coisa, mas estava de mãos atadas.
- Não pense que é pequeno, . Você pode muito mais do que imagina. – disse o pai dele, quase inaudível. – O vaso feito do barro não queima ou estraga ao passar pelo fogo, pelo contrário, ele toma forma, e torna-se algo bonito e forte. Não deixe que as provações da vida te façam retroceder. Eu te amo, filho. – terminou lentamente, fechando os olhos.
beijou a cabeça do pai enquanto as lágrimas ainda caíam. Ficaram ali abraçados, o corpo do garoto esquentando o do patriarca durante a noite fria. Fechou os olhos e, após algumas horas, acordou assustado. Olhou para os dois lados e só conseguia enxergar o breu da noite escura, já era madrugada. Estava com seu pai, na mesma posição de quando encostaram ali para dormir. Seus braços envoltos nele não cederam nem por um momento, seguravam-no firme em forma de proteção. tentou se posicionar melhor, pois, do jeito que estavam, além das dores habituais que seu pai já tinha, ele ficaria ainda pior.
Afastou o pai do seu abraço, a fim de colocá-lo deitado, mas estranhou quando o mexeu e ele não esboçou nenhuma reação, mesmo que involuntária. Balançou o corpo dele para acordá-lo e seu coração apertou-se ao notar que ele não respondia.
- Pai, acorda – chamou-o em desespero.
Começou a agitar o corpo mais violentamente, sentindo sua espinha gelar cada vez que não via reação alguma. Sentia um esmagamento violento dentro de si, um medo súbito de perder a única pessoa que lhe restara. Um frio percorria o seu interior e sua carne tremia em choque.
- Pai, por favor, não me deixa. – murmurou com os olhos embargados, inclinando-se sobre ele.
Pegou o pulso do velho, não sentindo nem um rastro de pulsação, colou sua bochecha no nariz dele e não conseguiu notar nenhum sopro de ar quente sair por suas narinas.
- Não! Deus, por favor, não! – debruçou sobre o corpo sem vida do pai. As lágrimas rolavam e molhavam a manta que estava sobre ele. Num ímpeto de loucura, jogou o pano longe, posicionou uma palma de sua mão sobre a outra, direcionando sobre o tórax de seu pai, e começou a impulsionar com força o peitoral do velho, a fim de reanimá-lo e tentar trazê-lo à vida.
- Vamos, pai! Volte pra mim, por favor! - falou entre os dentes e sob lágrimas enquanto massageava o peito dele. Inclinou-se sobre a boca do velho soprando um jato de ar quente nela e voltando às massagens cardíacas em cima da posição do coração. – Bate! Droga. Vamos, você consegue, pai!
Um, duas, três vezes, até perder a conta de quantas vezes já havia feito aquele procedimento. O ciclo continuava e continuava, ele não desistia de tentar. Os braços doíam, suas articulações latejavam, mas ele se recusava a deixar o pai ir. Ele não podia ficar sozinho. Seu pai era o único que restava em sua vida, era sua obrigação cuidar de quem tanto havia feito por ele, mas falhou miseravelmente.
Quando seu organismo fraco, por causa da ausência de comida, desfaleceu com o esforço físico, caiu sobre o corpo morto do pai. Sentia uma paralisia, estava imóvel e sem forças, a única coisa que conseguia produzir eram as lágrimas que caíam.
Chorava compulsivamente sem conseguir mexer-se. Não se importava com o choro alto que reproduzia, sentia-se a pior pessoa do mundo, um miserável, inútil. A dor da partida era como uma lâmina que cortava o seu coração. Havia achado que tinha sentido a pior dor quando o expulsou do castelo, mas estava errado. Nada havia o preparado para aquele momento. Odiou a menina com todo o seu ser. Seu pai poderia estar no conforto do castelo, mas acabou seus dias na sarjeta, sujo e como um indigno. Partiu desta vida como um ninguém, um andarilho pelas ruas de Ílac.
O que restava de foi embora junto com a vida do seu pai naquela madrugada. Apertou os olhos desejando ser qualquer outra pessoa, menos ele mesmo. Sentia rancor de si. Achava-se uma pessoa tão boa, justa e altruísta, mas aonde tudo isso o levou? Pensou tanto em e foi parar ali, carregando ainda por cima seu pai junto com seus problemas. E agora, estava de fato, só.

***


Dias, semanas e meses haviam passado, mas a dor não. O tempo que se alastrava só fazia o coração de se endurecer mais. Era como a raiz de uma árvore que cresce, enlaça-se e invade por onde passa. A semente da dureza havia sido plantada e o garoto temia que, com o tempo, já não restasse mais nada daquele menino que havia deixado o castelo.
Não passava mais fome, porém, não porque alguém havia lhe dado emprego ou lhe ajudado, conseguiu se virar por contar própria. Não era uma forma honrosa, mas conseguia tampar a dor do seu estômago faminto. Como forma de acalentar sua consciência, só roubava quando sentia a ardência no órgão digestivo.
Hoje era um desses dias. Tentou adiar o máximo possível, mas se continuasse assim, adoeceria. Seu corpo já estava magro, sentia-se em pele e osso, havia perdido vários quilos. Avistou uma barraquinha de frutas na rua e observou o movimento das pessoas. Era um dia cheio, ele poderia infiltrar entre eles sem ser percebido.
Seu coração começava acelerar, não havia acostumado com essa vida ainda, sempre ficava nervoso ao cometer tal ato. Misturou-se em meio à multidão ali, até se aproximar da venda. Sua mente começou a montar as táticas que usaria para conseguir pegar a fruta. Notou um homem alto, forte e robusto comprando algo por lá, suas roupas destacavam-se, tinha uma couraça no peito e observou uma espada pendurada em sua cintura. Ao deter o olhar por ali, pode perceber um saco de moedas pendurada no local. Seus olhos brilharam instantaneamente. Melhor do que roubar a fruta, seria pegar aquele dinheiro que estava lhe dando bandeja. Poderia ficar um bom tempo sem roubar caso conseguisse. Não se importou com a postura do homem, nem com o que aquelas roupas significavam. Só queria sair daquela miséria de vida.
Aproximou-se sorrateiramente do homem e com uma mão leve e rápida, puxou o saquinho. O sorriso já estampava seu rosto quando conseguiu retirar o punhado tão ligeiramente. Poderia não gostar do que fazia, mas era bom naquilo. Já se virava para sair dali, tão rápido quanto chegou, mas sentiu uma mão forte segurar seu pulso.
- Aonde pensa que vai, garoto? – o homem o repreendeu sério, apertando o local.
Em uma resposta imediata, o garoto girou sua mão presa para a direita, em um movimento em círculo, invertendo assim suas posições. Agora era que segurava o braço do homem, em uma tática infalível que havia o ensinado quando estava no castelo. Após o movimento, empurrou o homem para afastá-lo e saiu correndo por entre a multidão, pegando o homem de surpresa.
Empurrava com as mãos as pessoas que estavam em sua frente, desesperado, ouvindo o homem gritar em seu encalço para pará-lo. Sentia o seu coração na garganta, seus batimentos eram frenéticos e já conseguia ouvir o chiar da sua respiração pesada. Dobrou em uma esquina e olhou para trás notando que o homem continuava a persegui-lo. Após alguns minutos, uma dor aguda corroia o lado direito do seu abdômen, seu ritmo também não era mais o mesmo. Os dias sem comer haviam o deixado fraco. Em outras épocas ninguém o alcançaria, a única pessoa que ele perdia era a princesa, mas na forma que estava, até uma criança de cinco anos o alcançaria.
Não tardou muito para o homem chegar até ele. Segurou seu braço com força e deu um puxão para que o menino parasse. virou-se de uma só vez socando o lado direito do rosto do indivíduo, pegando-o de surpresa. O homem rugiu de dor, xingando o garoto, e levou a mão até o local atingido, massageando devagar.
O garoto ofegava, parado no mesmo lugar, seus dedos latejavam pelo impacto dado no maxilar. Não conseguiu se mover, toda a energia do seu corpo estava drenada, apenas olhava o homem encurvado, murmurando de dor, enquanto tentava recuperar a força novamente. O homem, aproveitando que havia cambaleado e estava levemente abaixado, impulsionou-se e lançou-se sobre a cintura de , fazendo os dois caírem no chão. resmungou, sentido a dor em suas costas pela queda e por causa da fraqueza do seu corpo. Tentou se desvencilhar do cara, mas ele foi mais rápido imobilizando os seus braços e virando o garoto para que ficasse com o rosto colado ao chão.
- Me larga! – gritou .
O garoto aspirava a terra sob o seu nariz enquanto o homem torcia seus braços em suas costas. Sentia a dor com os puxões e a força que o homem aplicava impedindo-o de se mexer.
- Fique quieto garoto ou farei pior com você.
- Me solta! – gritou impaciente.
- Ladrãozinho de merda, achou mesmo que ia me roubar? – falou o homem irado, dando um tabefe na cabeça de .
Nada que o menino fazia para se soltar adiantava. Estava debilitado demais e quase esmorecendo pelo vigor perdido. Sua visão começou a escurecer e já não sentia as mãos do homem segurando o seu braço, nem o cheiro da terra no chão, muito menos a dor que estava sentindo em seu corpo. Só notou alguns pontos negros aparecerem até um borrão completo se formar, perdendo completamente a consciência.

***


Tudo ainda estava embaçado, não conseguia detectar muito bem as coisas, estava acordando aos poucos. Não sabia onde estava, nem quanto tempo havia se passado. Olhou para os lados e viu um tecido que cobria o local, era uma grande tenda. Percebeu que estava deitado sobre uma cama e assustou-se sem entender o que estava acontecendo. Ameaçou levantar-se rapidamente, mas sentiu uma mão forte tocar-lhe o peito, o impedindo.
- Acalme-se, garoto, não se esforce tanto. – disse o dono da mão que o tocou.
cerrou os olhos, focando o homem que estava ao seu lado. Percebeu que era o mesmo que havia tentado roubar, ou seja, o mesmo que havia o perseguido e o imobilizado.
- Onde estou? Você me trouxe para cá? Por quê? O que quer de mim? – perguntou assustado.
- Vejo que já está melhor. Quantas perguntas! – exclamou o homem rindo. – Vamos lá, te responderei uma de cada vez. – Entrelaçou os dedos e apoiou o queixo como se fosse pensar – Você está no meu quartel, não sei se percebeu hoje mais cedo, mas sou um soldado. Quem te trouxe fui eu e o que eu quero de você eu te responderei depois que você se alimentar. Meu nome é Hector, ou melhor, General Hector Villent. – estendeu a mão para o menino.
não sabia o que dizer. Estava muito ferrado. Não poderia ter escolhido pessoa pior para roubar.
- Não vai me cumprimentar? Depois de tentar me roubar ainda vai me deixar com a mão estendida aqui? – falou em meio a um sorriso. Nem parecia o cara irado que estava lhe perseguindo.
O menino estendeu a mão, um pouco trêmula, e cumprimentou-o.
- .
- Prazer em conhecer você oficialmente, garoto. Agora coma, está muito fraco. – disse estendendo para ele um prato com comida e um copo de suco.
Os olhos do menino brilharam e avançou sobre o alimento como um animal devorador. Não se importou com a educação, nem nada disso. Estava definhando de fome, usava as próprias mãos para levar a comida à boca, com pressa, como se caso piscasse, o homem a sua frente mudaria de ideia e o deixaria novamente às mínguas.
Hector apenas observava o menino, curiosamente. Após imobilizar o garoto, percebeu que, em momento súbito, ele havia parado de se mexer. Ficou assustado, não esperava que o menino desmaiasse. Só queria dar uma lição no ladrãozinho que havia ousado mexer com ele. Porém seu coração doeu ao ver o menino desfalecido, reparou no corpo magro e logo ligou os pontos. O menino roubava para comer e deveria ter desmaiado tamanha fome que passara. Há quanto tempo será que ele estava naquela situação?

- Como aprendeu aquele golpe? Meninos de rua não sabem fazer aquelas coisas e julgo que se você não estivesse tão fraco, talvez escapasse de mim. – perguntou Hector para o garoto.
- E teria mesmo. – disse presunçoso. – Mas não foi nada demais. Aprendi no lugar de onde eu vim – falou como se não fosse nada, dando de ombros.
- E por acaso você fazia parte de uma quadrilha ou de salteadores? Aquele é um golpe tático de guerreiros. Se você quiser continuar comendo esse prato de comida acho bom me contar, menino. – disse o general tentando arrancar informações de .
De alguma forma estava intrigado com aquele garoto. Ele lhe aplicou um movimento com maestria e havia o roubado tão sorrateiramente que se não fosse o melhor de todos os soldados, não teria percebido. O que estava fazendo um menino como aquele na rua?
- Eu vim do palácio e foi lá que aprendi tal coisa. Mas por favor, não me peça para dizer mais nada daquele lugar - O menino, temendo o pior, achou por bem falar, mesmo que vagamente.
Hector franziu o cenho para ele, mas preferiu não forçá-lo mais, poderia assustá-lo. Com o tempo ele teria as respostas que queria, por hora, poderia esperar.
- Quero te fazer uma proposta, garoto. – disse para , fazendo os olhos do menino o fitarem curiosamente. – Fique aqui comigo no batalhão. Entre para o exército de Ílac. Eu tenho o poder de te ingressar aqui. Tenho a patente mais alta, tudo passa por mim e nenhuma agulha aqui dentro se mexe sem a minha vontade. Você já se mostrou com habilidades que me surpreenderam, melhores até que algum dos meus homens. Com o treinamento certo e uma alimentação adequada para criar massa muscular, poderá ser um grande guerreiro um dia. Quem sabe terá o privilégio de fazer parte da guarda particular da realeza!?
fez uma careta involuntária ao ouvir aquilo. Falar de realeza o lembrava de , e tudo o que menos queria, era estar perto dela. Quanto mais distante, melhor.
- Sinto muito, mas irei recusar a proposta. Posso viver em Ílac, porém não devo nada a família real. – disse ele com rancor. – Prefiro ficar bem longe deles.
A fala de atiçou ainda mais a curiosidade de Hector. Em outra situação degolaria vivo alguém que ousasse falar daquela maneira contra a realeza, mas o menino o intrigava e já havia se afeiçoado ao rapaz.
- Olha menino, não sei se você está muito na condição de exigir alguma coisa. Em troca de ficar aqui você terá um teto e comida para sempre. Garanto que é muito melhor do que tentar ficar assaltando pessoas pela rua e definhar de fome. Você está em pele e osso, rapaz. Estou te dando uma chance que poucos têm. Junte-se a mim, não enviarei você de volta ao castelo, mas será meu escudeiro. Vou te ensinar tudo o que sei e em troca quero a sua dedicação completa.
ponderou a oferta do general, a chance de sair daquela miséria em que vivia. Será que a vida estava sorrindo para ele novamente? Todo o sofrimento que havia passado ficaria para trás. O destino estava lhe dando uma nova chance e ele não poderia desperdiçá-la.
- Então, o que me diz? – perguntou Hector novamente, erguendo a mão para .
O garoto olhou de forma agradecida ao general, não esperava tamanha generosidade, ainda mais de alguém que ele havia feito mau.
- Eu aceito. – respondeu o menino estendendo a sua mão para Hector e selando o acordo.
Ele daria um jeito de retribuir a bondade do homem. Ele havia salvado a sua vida e, em troca, ele se deixaria guiar da forma que o general quisesse. Era um grande guerreiro que Hector queria que ele fosse? Então ele se esforçaria todos os dias para superar as expectativas colocadas pelo seu salvador. Lembrou-se das palavras do seu pai, o fogo havia vindo, agora era a hora de crescer.



Capítulo 5

Sabe aquela sensação que está sendo sufocado e que, por mais que você busque o ar, ele não vem? A tentativa de respirar é em vão, infla os pulmões com todas as suas forças, inspira tanto que chega doer, mas nada é suficiente. Só resta a sensação de queda e o aperto mortal no peito. É como andar em um túnel escuro sem ver o final. O desespero toma conta e você quer acelerar, correr até seus pés racharem, mas não vê nada, não há fim, não há saída. É assim que se sentia após aquela conversa com .
Naquela noite, após sair do quarto, correu desenfreada até o pátio superior do castelo, um local onde pudesse ficar sozinha e se livrar da agonia que sentia. Inclinou-se no parapeito, chorando desconsoladamente, olhava para baixo e viu-se tentada a lançar-se dali e acabar com toda aquela dor de uma vez por todas. Mas não faria isso, não seria egoísta com o seu povo a esse ponto. Sua nação precisava dela.
O horror e a decepção no rosto de vinham como um flash em sua mente. Ela partiu o coração da pessoa com que mais se importava. O que seria dele agora? Como sobreviveria nas ruas sozinho? E o seu pai? Céus, ela havia sido tão dura com ele. Proferiu palavras que nunca imaginaria sair da sua boca, apenas para poder persuadi-lo. Não havia outra escolha. Era matar os sentimentos de ou deixá-lo morrer, literalmente.
Durante a festa, ela pensou formas e mais formas de conseguir burlar a mãe, mesmo após a ameaça. Talvez se despistasse poderia avisar antecipadamente. Armaria um teatro, mas ele não sairia daquele jeito, pelo menos não sem nada e arrasado como foi. Ela daria um jeito de ajudá-lo. Porém, sua mãe era muito mais ardilosa e ela já devia esperar que, logo que saísse do salão, teria um soldado em seu encalço.
Não havia nada que pudesse fazer. A cada instante que retrucava, ela sentia um aperto maior. Havia sido tão difícil segurar as lágrimas e parecer tão indiferente. A realeza havia a treinado bem. Já tinha colocado tantas máscaras durante a sua vida... Só não contava que, a pior delas, teria que ser usada com o seu amor.
A menina ainda chorava, desesperadamente, não sabia quanto tempo havia se passado, já era bem tarde. O terror subiu pelas suas entranhas. Não podia ficar desse jeito. Ela precisava fazer alguma coisa. Correu de volta para o seu quarto, desviando dos locais que os guardas da ronda passavam, e, ao chegar na sala, afastou um quadro e abriu a portinhola secreta para o corredor oculto que sairia direto aonde queria. Ao entrar em seu aposento, abriu a porta do seu guarda roupa, retirando dali uma capa preta que continha um capuz, muito usado por ela quando fazia longas caminhadas no bosque em épocas frias. Em seguida, pegou sua caixa de joias e procurou alguma que estivesse de acordo com suas intenções. Achou o colar perfeito. Havia sido um presente de Medroc pela futura união da princesa. A pedra que acompanhava o cordão era um diamante vermelho de valor inestimável. Se conseguisse entregar a ele o colar, ele não teria mais problemas pelo resto da vida. Poderia ter uma vida agradável e confortável, além de poder cuidar do pai.
Segurou o colar e enfiou-o no bolso do casaco. Olhou-se no espelho, tomando coragem pelo que ia fazer. Não poderia desistir. A vida de dependia disso. Se não havia conseguido protegê-lo antes, sentia-se mais que na obrigação de fazer algo agora. Aproveitou que já era madrugada e resolveu sair em busca dele.
Caminhando pela mesma passagem de antes, esperou até o momento que não avistava nenhum guarda e saiu até os fundos do castelo. Se fosse pela frente não conseguiria passar por eles, mas sabia alguns caminhos pelo bosque. Não que precisasse de fato usá-los, mas agora seria uma ótima oportunidade.
A friagem do lado de fora a fez arrepiar. Ouvia os sons dos grilos e dos seus passos quebrando os galhos secos pelo chão. Sentiu um leve medo por estar naquele lugar, sozinha, mas ao mesmo tempo confiava em si mesma para se defender, caso precisasse.
Não tardou muito para conseguir encontrar as ruas desertas de Ílac. Olhou de um lado para outro e não avistava nada. Para onde havia ido?
Começou a correr sem rumo e direção. Escolheu um lado e partiu por ele. Não tinha tempo a perder, precisava achar o garoto, tentar explicar o que aconteceu e entregar-lhe o colar. Precisava dar um jeito para que ficasse bem, necessitava fazer isso antes que amanhecesse e alguém sentisse sua falta.
Passara-se mais de uma hora e tudo o que via era o balançar dos galhos das árvores com o vento e alguns pontos de luz das luminárias. Era assustador estar ali. A princesa não andaria daquela forma se fosse durante o dia. Ela jamais poderia sair nas ruas sem, no mínimo, uma escolta. Pior ainda a pé. E ali estava , sozinha, na escuridão, com apenas um capuz que tampava sua cabeça, um colar preciosíssimo no bolso e uma pequena faca que havia pego durante a saída e colocado na cintura.
Cada minuto que passava a princesa ficava ainda mais desesperada. Para onde ele teria ido? Já havia andado por todo lado e não conseguia encontrar nada, nem ao menos um único sinal do seu garoto. Lágrimas brotavam pelos seus olhos e o temor tomava conta da sua alma. Como poderia viver o resto da sua vida sem saber o que aconteceu com ele?
Entrou em um beco, gritando o nome do seu amado, na esperança que se ele estivesse por perto, pudesse ouvi-la. Escutou um barulho estrondoso soar pelo corredor escuro, fazendo-a gritar no susto. Cerrou os olhos na tentativa de conseguir enxergar o que havia causado aquilo, mas só ouvia um som estranho se aproximar cada vez mais. Quando o barulho estava em seu som máximo, sentiu algo pular de uma vez sobre ela, fazendo-a cair no chão, assustada. Seu coração batia descompassado pelo susto. O que era aquilo?
Seus dedos tremiam e seu coração subia à boca. Só ficou mais calma quando olhou para o lado e viu que o que havia pulado nela era apenas um gato de rua. Odiou o pequeno felino por ter quase a matado.
Apoiou a mão no chão, empurrando o corpo para se erguer. Começou a se levantar quando sentiu um toque em seu ombro. Virou o rosto de uma só vez para ver quem era, abaixando o capuz com cuidado. ? Finalmente o acharia em meio a tanta procura e após horas de cansaço? Estava enganada. Seu sorriso desmanchou-se ao deparar-se com um homem grande e fardado a sua frente. Uma espada enorme estava em sua mão e o brasão de Ílac se destacava em seu peitoral. Atrás dele estavam mais quatro homens com o mesmo uniforme. Eram os soldados do palácio. De alguma forma haviam a encontrado e aquilo não era nada bom.
― Preciso que nos acompanhe, princesa – disse, sério, o que havia lhe tocado.
chegou a pensar em revidar de alguma maneira, mas do que adiantaria? Eram cinco contra uma. Eles estavam armados, enquanto ela tinha apenas uma pequena faca. E se eles estava ali, provavelmente estavam a vigiando por muito mais tempo. Uma fuga não adiantaria de nada. Só retardaria o pior. Seus pais saberiam de qualquer maneira e ela sofreria as consequências por isso. Pior ainda, se encontrasse enquanto estivesse fugindo, sua mãe não seria tão benevolente com ele.
O soldado segurou pelo braço ao notar que ela os encarava e insistia em não se mover. A verdade era que a menina ainda ponderava suas opções.
― Largue-me, soldado. Você não tem autorização para me tocar dessa forma – disse a princesa com raiva, puxando seu braço de volta.
― Temos ordens superiores a sua, Alteza. Sua mãe nos mandou para que retornasse ao palácio a qualquer preço, desde que chegasse viva – soltou o soldado, sem pestanejar.
O corpo de gelou no mesmo instante. Era pior do que pensava. Sua mãe estaria a sua espera arquitetando tudo, e, pelo o que sabia, seria implacável. Ela havia ganhado novamente. Pela segunda vez naquele dia estava impedida de chegar até . Não teve outra escolha além de deixar ser escoltada de volta ao palácio pelos homens brutos ao seu redor. Surpreendeu-se ao notar ali o mesmo soldado que havia a vigiado durante a conversa com o garoto em seu quarto. Ao fitá-lo, o guarda deu uma leve balançada na cabeça e abaixou-a. Estava pelo comando da Rainha, não poderia fazer nada pela menina.
Ao chegar no castelo, ficou intrigada ao perceber que estavam a levando para outro caminho e não de volta ao seu quarto como pensava.
― Aonde estamos indo? – indagou.
― Vossa Majestade ordenou que te levasse a outro lugar, ela a aguardará lá. – respondeu um deles.
estranhava tudo aquilo. Tinha um pressentimento muito ruim e cada passo que dava o terror a corroia. Enfiou a mão em seu bolso e segurou com força o colar. Nada estava certo . Ela devia ter encontrado e o salvado. Mas agora, ela mesma estava em apuros. O que sua mãe faria?
Começaram a dobrar alguns corredores e descer algumas escadas, como se estivesse em um labirinto. Após alguns minutos, pararam em frente uma grande porta de madeira envelhecida que lembrava-se vagamente o que significava. Um guarda abriu a porta e outro deu um leve cutucão para que a princesa continuasse caminhando.
As paredes daquele local eram úmidas e revestidas de pedras. O aroma não era dos melhores, um cheiro de mofo com algo velho e empodrecido pairava sobre o ambiente. Olhou ao redor do corredor que levava ao aposento, notando crânios pendurados em ganchos presos em meio às pedras. Recordou-se que, quando mais nova, seu pai havia a apresentado àquele lugar. Era o calabouço subterrâneo do Castelo, também conhecido como Poço da Morte.
O Rei Miles, há um tempo atrás, contara à filha que levavam os prisioneiros de guerra para serem torturados lá. Havia armamentos suficientes para conseguirem fazer qualquer um abrir a boca e revelar todos os segredos de batalha. Além disso, era naquele mesmo local que eles davam fim a todos os inimigos capturados. Com a paz, ele ficou inutilizado, até hoje, pelo que parecia.
Quando finalmente chegou ao centro do Poço, avistou sua mãe sentada em uma cadeira com os braços cruzados a sua espera. Ao fitá-la, Helena abriu um leve sorriso convencido e acenou com a cabeça para os guardas. O comando foi o suficiente para que cada um deles se posiciona-se ao lado da princesa e a segurassem pelo braço, arrastando-a até uma outra cadeira que estava em frente a Rainha.
― O que significa isso? – perguntou tentando se debater para soltar-se.
Foi o mesmo que nada. Os guardas apenas atendiam o que a mãe da garota dizia. Precisou que os outros dois ajudassem a segurar a menina, tamanha força que ela fazia para desvencilhar das mãos que a apertavam. Apenas um ficou de fora, o soldado Hebert. Ele olhava para a garota com pesar, não queria fazer parte daquilo.
A menina gritava para lhe soltarem, enquanto um a segurava, outro a prendia na cadeira. Vez ou outra a esbofeteavam para que ficasse quieta enquanto Helena apenas observava. Após devidamente amarrada, um deles trouxe uma mesa junto com uma berlinda pequena. Esse equipamento era utilizado para decapitação de rebeldes e traidores. Continha três buracos, dois para as mãos e um maior para passar a cabeça. Pegaram os braços de com brutalidade e encaixaram-nos no instrumento. O buraco maior não foi utilizado pelos soldados, deixando a menina meio encurvada pela posição que estava. Não prenderam sua cabeça, a Rainha só queria as mãos e o braço.
― Você ficou louca? – gritou a princesa para sua mãe.
― Não, filhinha. Pelo contrário, estou muito sã. Você é que parece ter perdido o juízo. Mas fique tranquila, eu lhe mostrarei muito bem como voltar à sanidade. – falou antes de pedir aos soldados que trouxessem os pregos.
Hebert, meio receoso, pegou os itens em uma caixa que estava ao lado do Esmaga-dedos e entregou-os à Rainha. Helena, segurou os pregos com afinco, ergueu um com a mão direita, na altura dos seus olhos e observou-o cautelosamente.
― Eu te dei uma ordem simples, . Enxote o garoto e mande-o embora junto com o traste do pai. Mas você precisava complicar as coisas, não é? Você acha mesmo que ia me passar para trás mesmo depois de ter me feito de boba por tanto tempo? Achou mesmo que eu confiaria em você depois de tudo? Pobre criança tola. Você quer brincar de adulta, ? Então vou te tratar da mesma maneira e você aprenderá que nunca mais deve tentar me passar à perna.
A garota sentiu o ódio descomunal pela sua matriarca. Como poderia a pessoa que lhe deu a luz ser tão fria? Onde estava aquela mulher que lhe fazia carinho e contava histórias para dormir? Como poderia ter duas personalidades tão distintas ao mesmo tempo?
não chorava ainda, estava muito assustada com o que iria acontecer. Sua mãe era louca. Só por ter a trazido até aquele lugar, demonstrava que as coisas piorariam. A mulher falava e analisava o pequeno prego como se fosse a coisa mais fascinante do mundo. Parecia sentir orgulho do que faria logo em seguida.
― Hebert, tome as honras da primeira furada. – falou entregando a ele o pequeno objeto.
O soldado engoliu em seco e olhou para a menina, sem saber como agir. Tinha que seguir a ordem da Rainha, mas não conseguia encarar a princesa e terminar de fazer o serviço.
Vendo a hesitação dele, Helena ficou furiosa. Sempre que alguém não acatava uma ordem sua, o furor tomava conta de si. Tinha vontade de matar o ultrajante. Esse era um dos motivos que era tão dura com . Mas não podia tirar a vida da própria filha, o que não quer dizer que não poderia torturá-la e ensinar-lhe uma lição.
― Não posso – disse fraco o soldado virando-se em direção a rainha.
― Sr. Hebert, eu sou a rainha e eu ordeno que você faça isso agora. A não ser que você queira que os próximos a sentarem nessa cadeira sejam seus filhos. Como são os nomes deles mesmo? Reynia e Olleon, não é mesmo? Duas crianças tão adoráveis! Seria uma pena estragar seus pequenos dedos assim. – falou girando o prego fino em sua mão.
O soldado ficou petrificado. Suas pernas vacilaram ao ouvir citar o nome dos seus filhos. Mesmo contrariado, pegou, trêmulo, o objeto das mãos de Helena e caminhou em passos lentos até a princesa. Balbuciou com os lábios um “desculpe” para a princesa e, com o estômago revirado, posicionou o prego na direção do dedo indicador da mão esquerda da garota. O coração de saltitava com o que estava por vir. Engoliu em seco e fechou os olhos. Já sabia o que aconteceria, então apenas esperou a perfuração vir.
Sentiu a dor aguda alastrante quando o prego, fino quase como uma agulha, de ponta bem afiada, entrava por debaixo da sua unha. A garota rugiu de dor e se debateu na cadeira com o desespero que lastrava o seu corpo. Como poderia um objeto tão pequeno causar tamanho sofrimento? Uma agonia irradiava da ponta do seu dedo e remexia toda as suas entranhas. Era insuportável. Cada vez que o prego enfiava mais parecia que iria morrer.
O sangue escorria pelo seu dedo e pingava sobre a mesa. A garota chorava e gritava com a dor. Remexia-se tanto que seus pulsos ardiam com as tentativas de sair dali. A pele despelava ao raspar pela parte presa a madeira.
O soldado soltou o prego e, vendo-o pendurado sob a unha da garota, afastou-se correndo até vomitar em um canto da sala. Seus olhos embargaram com o que havia provocado na pessoa que tanto respeitava. Não queria fazer isso, sentia nojo de si mesmo.
A Rainha abriu um sorriso largo, satisfeita ao ver o desespero da filha. Pegou uma espada que estava pendurada ali perto e parou em frente à garota. Com a ponta dos dedos, tocou no sangue derramado por sobre a mesa, e deslizou seu indicador no polegar, espalhando o líquido em sua digital. Seus olhos brilharam quando olhou para trás e fitou o soldado Hebert ainda meio desconcertado.
Em um golpe rápido, deu um giro de 190º, ergueu a espada e apunhalou-o pela barriga, vendo o homem cair ajoelhado diante dos seus pés. O sangue escorria pelo abdômen dele até formar uma poça ao chão. O homem tocou devagar no local ferido e olhou para Helena, inacreditado. Cambaleou por alguns segundos até cair para o lado, sem vida.
― Nããão! – gritou , chorando. – Como você pôde? – bradou desesperada.
A rainha virou seu corpo novamente ficando de frente para a menina. Aproximou seu rosto dela para sussurrar de forma tenebrosa as palavras em seu ouvido.
― Só uma pequena amostra que não devem, nunca , me desobedecer – disse levantando o canto da boca levemente, debochada.
― EU ODEIO VOCÊ! – gritou a princesa e cuspiu no rosto de Helena logo em seguida.
A rainha rapidamente ergueu a espada e, por um instante, a menina achou que ela cortaria seus braços fora, mas sua mãe bateu o armamento com toda força em seus membros, não com os lados da lâmina, que são as cortantes, mas sim com sulco, face que não deceparia seus membros fora. O que, apesar de tudo, não deixou de formar dois cortes longos, por causa do impacto, em cada braço.
A menina gritava de dor, já não bastava o sofrimento alucinante que latejava em seu dedo, agora sangrava pelos braços. Cerrava os dentes para tentar conter, mas era impossível. As lágrimas desciam desenfreadamente, seus cabelos pregavam-lhe no rosto e podia sentir em sua boca o gosto salgado da água que descia por seus olhos.
― O que você vai dizer as pessoas, heim? O que meu pai vai achar disso que está fazendo comigo? - vociferou nervosa, em meio ao choro.
― Querida, ele não vai achar nada porque ele não vai saber. – respondeu Helena colocando a espada em cima da mesa. – Você está naqueles dias , lembra? Está indisposta. Seu pai sabe como é, ele vai entender. Coisas de mulher. Você não quer receber ninguém, apenas a mim. Eu mesma vou cuidar de você, filhinha. – disse tocando o queixo da menina. – Não se preocupe, pois com o seu pai eu me acerto. Você só terá que inventar algo para as cicatrizes e machucados. Mas você é boa com mentiras, não é? Vai se sair bem.
― Víbora! Eu me recuso a dizer que sou sua filha! Eu odeio você! ODEIO! – Gritou se debatendo com força.
― Podem continuar o serviço – falou Helena para os outros soldados, ignorando completamente os brados ferozes da menina.
Um deles foi até a rainha, pegou um outro prego, caminhou em direção da menina e enfiou-o no dedo anelar. A garota urrava de dor e suas bochechas encharcavam-se com as lágrimas derramadas. Os soluços de ecoavam por toda a sala. Era desesperador. Ela rugia alto, remexia-se e sacudia as pernas involuntariamente com o reflexo das pontadas fortes que sentia quando os pregos entravam. O estado da garota fazia comprimir o coração até dos soldados mais frios, menos de Helena.
― Você vai pagar por tudo o que você está fazendo, Helena. Vai pagar nem que seja no INFERNO! – gritou enquanto o soldado enfiava o terceiro prego.
― Então nós vamos juntas, meu bebê. – falou a rainha esboçando uma gargalhada no final.
― Eu odeio você! Você não será a rainha de Ílac para sempre, Helena, e, quando for a minha vez, você vai se arrepender, está me ouvindo? - vociferou a menina, tentando não fraquejar sua ameaça em meio à dor.
― Nossa, estou muito preocupada. – respondeu fazendo um sinal de bocejo. Independente de um título ou não, , eu sempre serei respeitada e temida por aqui. A minha coroa pode passar para você, mas nunca fique desatenta enquanto eu estiver ao seu lado. E por causa dessa sua boca nervosa, eu vou te deixar um último presentinho. – Virou seu rosto para o soldado que estava à esquerda e chamou-o – Traga para mim o esmagador de dedos.
O soldado, de prontidão, trouxe o equipamento e posicionou no dedo mindinho de . O Esmagador tinha uma manivela que, quando girada, apertava com força o ferro, dos dois lados, até o que o dedo fosse completamente quebrado e esmagado.
― Vamos ver se é tão corajosa agora. – falou a Rainha.
O soldado começou a girar a manivela à medida que gritava de dor. Sua garganta ardia tamanha era força que emplacava em suas cordas vocais. Chorava e debatia-se, mas recusava-se a clamar por misericórdia. Sofreria o que fosse, mas não abaixaria a cabeça para a sua mãe, não pediria por clemência.
Sua mãe poderia fazer o que quisesse agora, mas, um dia, a menina se reergueria. Ela se lembraria de cada marca que sua mãe havia deixado sobre ela. Tudo só a tornaria mais forte. Olhou com ódio para Helena, mesmo em meio a insanidade da sua mente devido a tortura.
Se esse era o preço que ela estava pagando por tentar ajudar , ela passaria com orgulho. As cicatrizes ficariam, as marcas estariam cravadas para sempre, mas não seria pior do que a ferida que estava em seu coração. O físico, com o tempo se restaura e não dói mais, porém, o coração, não há remédio que tenha a cura. E, por isso, não se arrependia. Faria tudo de novo, por ele .



Capítulo 6 - Parte I

A princesa passava os dedos lentamente pelo seu braço. Podia sentir o pequeno relevo das cicatrizes, duas linhas em cada lado. Seus dedos da mão esquerda já estavam recuperados, mas jamais seriam os mesmos. Meses depois, bastava fechar os olhos que poderia relembrar a agonia e a dor que sua mãe lhe causara. Porém, pior do que as cicatrizes, era ter que respirar fundo e seguir em frente, manter-se calada e fingir que tudo estava bem. O ocorrido não poderia pará-la, ela tinha um acordo a manter e um mundo inteiro para salvar. Tudo dependia dela. Se vacilasse, poderia colocar tudo a perder e, isso, ela jamais admitiria. Já sentia uma culpa e um fardo enorme nas costas, não levaria mais esse.
No outro dia após o noivado e dia fatídico, não saiu do quarto. Não tinha condições, ninguém poderia vê-la daquela maneira. Mas isso não impediu que as notícias chegassem aos seus ouvidos. Logo pela manhã, seu tio Cameron pediu a mão da princesa Sarah em casamento. Ele disse que o noivado seria feito no dia na festa, já que ele não sabia que seria a noite de e Henrique, porém, quando a rainha Helena fez o anúncio, ele decidiu deixar para o outro dia e não ofuscar o momento dos herdeiros. Ao contrário deles, Cameron não precisava esperar um ano para o seu casamento, portanto aproveitou que os convidados ainda permaneciam no castelo para convidá-los para seu casamento no próximo mês.
Naquela mesma manhã, todos foram embora, inclusive seu noivo Henrique, mas ele não ficou longe por muito tempo. Devido o noivado, suas vindas a Ílac tornaram-se cada vez mais frequentes e ele parecia disposto a levar isso adiante da forma mais verdadeira possível. Era difícil, ambos sabiam que o amor que os rondava era uma amizade pura e simples, mas teriam que casar e, por isso, necessitavam buscar algo mais. Para era muito mais complicado, Henrique não tinha noção de tudo o que acontecera na vida da garota. Cada vez que a princesa olhava aquelas cicatrizes e o resto do que sobrou do seu dedo mindinho, só conseguia lembrar de e do quanto havia falhado em sua busca pelo garoto. O que será que teria acontecido com ele?
O príncipe de Medroc muitas vezes tentava beijá-la, fazia carinhos e arriscava intensificar o relacionamento, enquanto a princesa acabava o afastando. No início aconteceu várias e várias vezes até que Henrique perdeu a paciência.
, desse jeito nunca vamos dar certo. Você não pode correr disso. Nós vamos casar, não existe outra alternativa, sempre soubemos deste fato, eu não posso tentar sozinho, você precisa colaborar. – disse ele firme para ela quando sentiu a resistência da menina ao beijá-la.
— Desculpe. – respondeu constrangida abaixando os olhos.
— Olha, , eu sei que não me ama, sei que somos amigos, mas estamos noivos e noivos tem contato, imagina quando casarmos... – disse ele fazendo-a sentir-se envergonhada. – Eu não quero ser o tipo de cara que força a mulher, mas você precisa colaborar também. Pela nossa amizade, por tudo que está em nossas mãos, vamos tentar ser um casal de verdade. Passamos muito tempo fingindo, éramos novos, não tínhamos selado nada ainda, mas agora é real, chegou à hora. Em poucos meses vamos casar e precisamos adquirir intimidade. Preciso que confie em mim.
engoliu em seco. Adorava Henrique, mas cada beijo que ele lhe dava era como se, em seu coração, estivesse traindo . Fechou os olhos e respirou fundo. Ela não poderia continuar agindo como se fosse tê-lo de volta. Ela tinha um compromisso com Henrique e Medroc não aliviaria a pena caso ela pisasse em falso. Rory Buckhaim era devastador, ele jamais admitiria uma traição ao seu filho mais velho, muito menos que ela voltasse atrás na aliança. Ela precisava cumprir o combinado.
— Eu vou tentar. Desculpa, Henrique, é difícil...- suspirou – Prometo que será diferente agora. – confirmou e viu um sorriso pequeno brotar na face dele.
E, de fato, seria. não negaria mais a Henrique, mas por dentro o seu coração comprimia-se. Ele era homem, tinha suas necessidades, iam se casar, claro que ele não viveria com apenas pegando em sua mão. A princesa deixou ser guiada por ele, não podia aborrecê-lo, ele sempre mostrou-se um bom rapaz, mas quem garantiria que ele não iria se irritar com ela caso continuasse o negando? Já havia abusado muito da paciência dele.
Dessa forma, a intimidade deles foi crescendo, a garota já sabia o que ele iria fazer ou querer dela todas às vezes que vinha ao castelo. Não o repreenderia, mas seu interior chorava. Era uma casca grossa que se formava em meio a tantas decepções. Queria que fosse seu , seus beijos e seus toques. Segurava-se para não chorar cada vez que estava com Henrique. Precisava acostumar-se com isso, pois seria ele a pessoa que estaria com ela pelo resto da vida após o seu casamento.

***


Era chegado o dia de mais uma visita de Henrique a Ílac. suspirava exausta. Sentia-se cada vez mais sufocada e a presença do seu noivo, que antes era um alívio, passou a ser um fardo. Os irmãos dele também viriam dessa vez, teria que ser cordial com sua nova família e sorrir para todas as piadinhas de Garret. A única parte boa era que sua mãe não estava no castelo nesses dias. Havia viajado para o sul do país para resolver assuntos reais.
Já estava tudo pronto para recebê-los. Sua amiga Sarah, que agora morava no castelo, ajudou-a nos preparativos. Depois que casou-se, passou ser a companheira de e ela pôde achar na garota uma amiga fiel.
— Acho que já acabamos tudo por aqui. Agora só temos que esperar. – disse a princesa passando a mão por seu vestido a fim de ajeitá-lo. – E você, dona Sarah, trate de descansar. Você sabe que não pode fazer esforço. – ralhou para ela.
A barriga de Sarah já estava proeminente, sentia os pés inchados e algumas dores nas costas. O filho dela e de Cameron não tardaria para nascer, mas, nem por isso, deixaria de ajudar a sua amiga. Levava mais jeito que ela nesse tipo de afazeres. Como a rainha não estava, ela se prontificou a auxiliar na recepção dos convidados.
— Pode deixar, . Eu estou bem. – respondeu sorrindo e alisando sua barriga.
— Espero mesmo, caso contrário o Cameron me mata, tia. – falou a última palavra em tom de brincadeira. Fazia gracejos por ela ter se casado com seu tio. Na verdade, tudo foi bem inesperado, mas, no fim, foi uma boa surpresa para , em meio a toda a tempestade.
Um soldado entrou no salão onde estavam, anunciando a chegada dos príncipes.
— Bem vindos! Chegaram bem a tempo para o almoço! – saudou os três rapazes que adentravam o palácio.
Henrique vinha na frente, enquanto seus irmãos o acompanhava logo atrás. Tinha um largo sorriso no rosto e já abria os braços para abraçar , quando sua expressão mudou para uma feição desagradável. O sorriso oscilou, mas ele logo se recompôs, tomando a princesa pelos braços e lhe dando um beijo, na boca, na frente de todos os presentes.
surpreendeu-se, mas não podia simplesmente empurrá-lo ou brigar com ele ali. Teve que retribuir e sutilmente afastou-se dele, embaraçada por aquele momento íntimo em público.
— Nossa, irmão! Estava mesmo com saudades da noivinha, heim? – caçoou Garret passando por eles e dando-lhe um tapinha nas costas.
Henrique percebeu a situação constrangedora que tinha colocado a princesa e ficou sem graça. Olhou para que estava de cabeça baixa e praguejou internamente por ter sido tão impulsivo com a garota.
— Desculpe. – Murmurou baixo para que ela escutasse.
—Tudo bem, Henrique. – respondeu voltando olhar o rapaz, disfarçando todo o incômodo.
— Espero que não estejam cansados da viagem. O almoço está quase servido. – disse Sarah, que estava perto da princesa, chamando a atenção de todos.
deu um pequeno sorriso para ela, em sinal de agradecimento por estar mudando o foco da situação.
— Estamos bem. A viagem foi um pouco longa, mas estamos dispostos ainda. Obrigada Sarah e desculpe não cumprimentá-la. Sentia falta da pequena, . Você é casada, sabe como são essas coisas, não é?
— Na verdade, não sei não, pois vejo meu marido todos os dias. Mas compreendo. – respondeu ela rapidamente, colocando um sorriso doce no final.
— Ei Jeffrey, junte-se a nós. – chamou ao perceber o irmão do meio afastado, apenas observando-os.
Ele caminhou lentamente até eles, abrindo um pequeno sorriso lateralizado.
— Olá, princesa. Está estonteante! – falou ele pegando a mão dela e beijando-a. – Olá, Sarah. – cumprimentou a outra menina apenas com um aceno, que foi retribuído por ela.
— Vou pedir para a criada acompanhá-los até os seus aposentos enquanto eu chamo o meu pai para juntar-se a nós para o almoço. – disse .
— Obrigada, querida. – agradeceu Henrique, deu um beijo em sua testa e caminhou com seus irmãos para os seus quartos.
Passado uma meia hora, já estavam todos à mesa para refeição. O Rei Miles havia se juntado a eles e aproveitava para pedir que os garotos contassem as novidades do reino, para também saber notícias de rei de Medroc. Cameron e Sarah também estavam ali, só faltava mesmo à rainha Helena, mas ninguém sentiria falta dela, a não ser o seu marido. Fora ele, todos estavam aliviados pela ausência intimidadora da mulher.
— O Garret a qualquer momento aparece com um filho nas costas. Esse anda só pelos bordeis de Medroc, incrível como não bateu ainda nenhuma mulher lá no palácio dizendo que está grávida. – contou Henrique para o rei Miles, divertindo-se.
— E o Rei Rory permitiria um dos seus herdeiros com um filho bastardo? As lendas dizem que eles são perigosos para a linhagem real. Deveria comportar-se mais adequadamente, Garret. – Cameron retrucou, mostrando sempre correto, o que fez o mais novo revirar os olhos.
— Eu não serei rei, nem nada disso. Sou o último da linha de sucessão. Não me importo. – Garret deu de ombros, levando a taça de vinho à boca.
— Boa reiteração, irmão – concordou Miles com Cameron, mesmo que ele ainda estivesse rindo do caso. – Cuidado, Garret. Pode continuar aproveitando a vida, você é jovem ainda, mas cuide-se, você é o segundo do trono, logo após o seu irmão Jeffrey. Não pode vacilar.
— Fique tranquilo, Majestade. É impossível que aconteça. – respondeu o príncipe mais novo, convicto, olhando rapidamente para Cameron e fuzilando-o. Cameron conseguia ser mais inconveniente do que seu irmão Henrique.
Continuaram conversando amenidades até o Rei Miles lembrar que precisava saber a resposta do Rei Rory a respeito da exploração às terras desconhecidas de Ocland.
Havia cinco impérios, mas a existência de uma terra desconhecida intrigava os reinos. Chamavam-na de Ocland e pouco se sabia sobre ela, a verdade era que, aquela terra era perigosa. Ficava ao norte e ninguém que havia chegado vivo até lá, voltou um dia para contar. Vira e mexe as patrulhas dos exércitos, que cuidavam das fronteiras, desapareciam. Na madrugada e silenciosa noite, os soldados do exército iam diminuindo. Não sabiam com que lutavam. Várias embarcações iam e não voltavam mais. Lendas e mais lendas eram formadas por causa disso. Com a aliança de Medroc, o Rei Miles agora poderia mandar uma equipe exploradora maior e mais bem treinada. Poderiam juntar seus homens e ir atrás dessa terra tão temida.
Não eram todos que tinham coragem de ir até lá. A maioria dos soldados fugiam ou desertavam quando eram chamados para tal missão. Não era por menos, a cada dez barcos que iam, apenas um voltava, ainda este destroçado. Quem conseguia sobreviver dizia que não haviam conseguido chegar nem a metade do destino, sendo interceptados pelas sombras da noite, como foi apelidado. Se até mesmo trabalhar nas fronteiras era perigoso, quanto mais avançar mar aberto para aquele local.
— Seu pai concordou em me ceder os homens? – perguntou o Rei Miles para Henrique.
— Ele disse que daria dez ótimos guerreiros para você, mas não diria que são os nossos melhores. Na verdade, Majestade, todos têm medo de acabar perdendo seus homens e ficarmos enfraquecidos, mesmo em meio a tempos de paz. Ocland ainda é uma terra temida. Não sabemos o que esperar.
— Compreendo. O meu melhor homem se prontificou a ir e confesso que se pudesse mudar a cabeça dele, eu mudaria. Não quero perdê-lo, é meu braço direito no exército. – concordou o rei. – ... – chamou sua filha lembrando-se de algo.
— Sim, pai. – parou de comer e olhou para ele.
— Lembra daquele garoto que vivia brincando com você e depois desapareceu daqui? Como era o nome dele mesmo?
...- respondeu a menina, sentindo o gosto amargo na boca ao soar o nome que estava guardado no fundo da sua mente. Seu estômago revirava-se e a simples lembrança dele a fazia estremecer.
— Esse mesmo. Encontrei com ele semana passada. Está no esquadrão do General Hector Villent. Eu o vi quando fui até lá conversar com o General. Parece-me que ele vai com a equipe rumo a Ocland, ele é o escudeiro do Hector agora, bom garoto ele, ouvi muitos elogios.
deixou seus talheres cair sobre a mesa, chamando a atenção dos presentes. Não estava preparada para aquilo. Sentiu sua carne estremecer e seu corpo ficou mole. Uma súbita fraqueza apossou-se dela e teve que segurar na borda da mesa para se recompor. Não conseguiu nem se alegrar por saber que o garoto estava vivo e ter notícias dele após tantos meses. Só entrou em pânico por saber que ele estava indo a esta missão suicida.
— Como? – disse com uma voz trêmula. Pigarreou tentando recuperar a compostura, mas seria quase impossível disfarçar a voz carregada de sentimentos.
— Ele vai em missão. O general disse que achava-o muito novo para tal coisa, mas que o garoto era promissor. Ele insistiu muito, disse que era questão de honra acompanhar o general, algo assim, não me lembro bem. Enfim, pobre menino, poderia ter uma longa carreira no exército, mas agora quem dirá se ele durará um dia em uma missão como essa... – o rei deixou a questão no ar.
—Isso que é um rei animador – Garret riu. – Já está contando que a missão vai fracassar. Vamos fazer um brinde. – Ele elevou a taça fazendo gracejo.
— Não é isso. – o rei Miles riu da desenvoltura de Garret. – Sei que perderemos homens nessa batalha. E se formos comparar os grandes guerreiros que estão indo e um moleque novo como ele, o garoto é o alvo mais fácil. – explicou-se.
Não, não, não. Ela não podia deixar. Não havia lutado tanto para que ele acabasse morrendo em uma missão como essa. Ela havia mentido para ele, tratado-o mal e ainda levava as cicatrizes por ter tentado o ajudar. Não admitiria que ele fosse morrer em uma batalha que não era dele.
— Sinto muito pelo seu amigo, . – Henrique sussurrou em seu ouvido, segurando sua mão, ao perceber a tensão da menina com a notícia.
apenas balançou a cabeça, absorta com aquilo que acabara de ouvir.
— Majestade, meus irmãos e eu queríamos pedir permissão e se possível a sua companhia para podermos caçar amanhã na Floresta Horizonte. – disse Henrique, mudando de assunto.
— Oh, meu jovem, não precisa nem pedir permissão. Todas as vezes que vocês e seus irmãos vêm aqui vocês aproveitam para isso. Até parece que em Medroc não tem florestas. – gracejou o rei para eles.
— Mas lá não possui alces tão grandes como Ílac. – respondeu Henrique.
— Vamos fazer uma competição. Ninguém aguenta mais Jeffrey sempre matando todos e não deixando nenhum para nós – disse Garret divertido, fazendo Jeffrey abrir um sorriso de leve.
— Então quer dizer que Jeff é o melhor caçador? – perguntou para ele, auxiliando que o foco mudasse, mesmo que a notícia anterior não saísse do seu pensamento.
O príncipe do meio alargou mais ainda o seu sorriso e inclinou-se na mesa em direção a princesa.
— Com toda a certeza, . – piscou para ela e encostou-se a sua cadeira novamente.
— Eu o acho bem sombrio. – Sarah, que estava ao lado esquerdo da princesa, sussurrou em seu ouvido.
deu uma pequena risada com a observação de Sarah, olhou para Jeffrey e analisou as feições do rapaz. Era um garoto bonito. Seus cabelos eram loiros e cumpridos. Seu olhar era sedutor e havia uma áurea misteriosa por trás que se aumentava pelo fato dele não ser tagarela como o irmão mais novo. Só temia pela intensidade que os seus olhos emanavam, era sempre intimidador.
— Ele não é sombrio, só é calado. – respondeu baixinho de volta, voltando a comer.
— Não poderei ir com vocês. Preciso resolver outras coisas no complexo do batalhão amanhã. Porém mais tarde me ajuntarei a vocês para o jantar. – a voz do rei interrompeu-as.
— A princesa nos dará a honra da sua companhia? – perguntou Jeffrey para .
— Não dessa vez, Jeff – respondeu após ter uma ideia mirabolante. – Na verdade, gostaria de acompanhá-lo, pai. Como futura rainha creio que é bom conhecer as unidades do nosso exército e ajudar posteriormente com as táticas das missões. Os soldados precisam começar a me reconhecer, logo serei eu a assumir o trono – informou olhando para o pai.
— Isso é muito bom, , pode me acompanhar após o desjejum. – assentiu sorrindo para a filha. Adorava compartilhar esse tipo de coisa com ela e sabia que seria uma ótima governante.
— Sendo assim, eu vou com você também, . Deve ser bom que te acompanhe. – disse Henrique.
Um calafrio tomou conta dela. Seu noivo não poderia ir, senão estragaria todos os seus planos.
— Não, não. Não precisa, Henrique – tratou de negar rapidamente. – Você ainda é visita, aproveite para sair com seus irmãos e depois descanse. Teremos outras oportunidades. Além do que, como não estamos casados, os homens podem ficar receosos com alguém de outra nação conhecendo nossos sistemas de guerra, não é mesmo, papai? – falou encontrando a desculpa perfeita.
— Verdade. Sinto muito, filho. – Miles disse para o príncipe. – Mas em breve você estará lá conosco. Vá se divertir com os garotos. Fique tranquilo, chegamos antes do anoitecer.
— Tudo bem então. – respondeu ele, pegou a mão de e a beijou.
O almoço terminou tranquilo. Continuaram conversando amenidades e sendo interrompidos com os gracejos de Garret. Antes de se retirarem, o Rei Miles pediu que os garotos tomassem cuidado na caçada do próximo dia, por mais que já estivessem acostumados a irem para lá. A Floresta do Horizonte tinha campos de matas fechados, mas também era rodeado de campos abertos em volta. Isso era favorável para o habitat de vários animais silvestres, sejam ursos e lobos, assim como hienas traiçoeiras nas planícies. Ílac tinha uma natureza incrível. O lugar era riquíssimo em animais das mais variadas espécies, por isso os garotos ficavam encantados e um dos seus hobbies era caçar em todas oportunidades que tinham em Ílac.
No outro dia, pela manhã bem cedo, os três filhos de Rory Buckhaim se aprontaram, pegaram suas armas e cavalos, rumo à Floresta Horizonte. E, enquanto isso, preparava-se para ir com o pai para o campo onde ficava o núcleo do exército de Ílac. Vestiu uma calça cinza escuro e uma blusa branca um pouco folgada, mas que facilitava os movimentos. Não queria parecer uma menina delicada frente aos soldados. Calçou uma botina e pegou a faca que sempre carregava, amarrando-a em sua cintura. Não quis nada pomposo ou brilhoso, pois chamaria atenção, portanto pegou uma capa escura que, apesar de ter itens metálicos no colarinho, não era como as capas reais que costumava usar para sair. Se sua mãe estivesse ali jamais deixaria que ela saísse com esta vestimenta, mas o seu pai não se importava com isso. Terminou prendendo parte do cabelo que caía em seu rosto, para trás.
O coração da menina tamborilava com a expectativa de rever o seu amado. Como ele estaria? Qual seria a sua reação ao vê-la? Ele não a receberia bem, era fato. Mas ela esperava que ele pelo menos a ouvisse. Não poderia deixá-lo ir para aquela missão suicida. O que ele tinha na cabeça?
O rei e a princesa selaram seus cavalos e partiram para o local. Seria uma caminhada de, aproximadamente, quarenta minutos. A cada trotada do animal, as mãos da garota suavam. Tentava em sua cabeça escolher as melhores palavras para que a compreendesse. Não poderia contar o que acontecera e os motivos verdadeiros para ter o expulsado. não deixaria isso quieto, ela o conhecia muito bem. Ele a defenderia de todas as maneiras, ele tinha um espírito forte e um instinto de proteção. Ela não poderia deixar que enfrentasse sua mãe, seria sua morte na certa. Ela teria que dar um jeito de convencê-lo sem dizer a verdade.
— Está nervosa, filha? – perguntou Miles ao perceber que a garota estava inquieta e muito calada. – Não há com que se preocupar, os soldados te respeitarão, sabem que será a próxima rainha. – completou achando que essa era a angústia da menina.
— Obrigada, pai – assentiu ela, achando melhor que ele entendesse dessa maneira.
Tão logo, avistaram o acampamento. Era enorme e possuía um grande cerco em volta. Os portões eram largos e altos, feitos de madeira. Em cada lado cinco soldados ficavam fazendo a guarda, além dos dois arqueiros que ficavam de atalaias nas duas torres, uma de cada lado do portão. Ao notarem o Rei e sua cavalaria, os sons das trombetas foram ouvidos, fazendo os portões abrirem-se para eles. Assim que entraram, foram recepcionados e encaminhados direto para a sala do general que ficava logo na parte inicial do acampamento.
— Boa tarde, General Hector. – cumprimentou o rei assim que avistou o homem a quem tanto confiava ali dentro.
— Boa tarde, Majestade. – respondeu fazendo uma reverência. – Vossa Alteza! – cumprimentou também a menina ao vê-la atrás do pai.
— Boa tarde, Sr. Villent. – respondeu ela.
— Vim para resolvermos aquelas questões referentes à expedição à Ocland. Precisamos fechar os últimos detalhes. Quando pretendem ir? – perguntou Miles.
— Estamos quase prontos, Majestade. Treinamos os homens intensamente durante esses últimos meses e preparamos os armamentos, só faltam os homens de Medroc e terminarmos alguns detalhes das embarcações.
— Quanto a isso pode ficar tranquilo, o príncipe Henrique me confirmou ontem que seu pai enviaria dez soldados para nós. Não podemos correr o risco de perder bons homens sozinhos. Ainda acho que não deveria ir, Hector.
— Fique tranquilo, Miles. – o general respondeu, deixando um pouco a formalidade de lado, afinal, eram amigos. – Desta vez estamos preparados. – disse com convicção.
Os dois começaram a discutir estratégias enquanto apenas os observava. Não tinha esperança que nada daquilo fosse dar certo. Sua mente fervilhava e planejava como faria para encontrar em um local tão grande como aquele.
— General, creio que não estou sendo muito útil no momento para os senhores. Gostaria de conhecer melhor a distribuição dos departamentos do exército e do campo de concentração. Sei que você e meu pai estão ocupados, mas se puder me dar algumas indicações eu mesma posso ir. – falou interrompendo os dois.
— Filha, não é bom que ande sozinha por ai. – seu pai interpelou.
— Não há problema, Majestade. – Hector fez questão de tranquilizá-lo. Abaixou-se e abriu uma gaveta, retirando dali um pequeno mapa e estendendo-o sobre a mesa. Era a planta do local. – Princesa, logo aqui na entrada temos várias unidades. – disse apontando no pedaço de papel. - Na unidade leste, você vai encontrar os comandantes de vários pelotões, lá fica o Planejamento Estratégico, eles se reúnem para colocar uns aos outros a par das notícias, esquematizar ideias, entre outras coisas. No lado Oeste estão a Enfermaria e as Unidades de saúde. Temos também a unidade de Comunicação. É lá que os homens enviam as cartas para seus familiares e recebemos os recados dos outros reinos. Além disso, temos a Equipe de Espionagem que fica de olho em todos movimentos do mundo. Como seu pai sempre diz, devemos estar atentos a tudo, mesmo em tempos de paz. Você pode rodear tranquila por todos esses campos que te mostrei, só peço para que não vá para o lado sul, é onde fica o Dormitório dos homens.
— Lá não tem mulheres também? – perguntou , intrigada, após ouvir a palavra homens tantas vezes. Ela sempre achou um absurdo ter mais homens guerreiros do que mulheres.
— Até tem algumas, mas elas já estão acostumadas com meus homens, ninguém mexe com elas. A não ser que elas queiram, claro. – respondeu ele rindo. – Mas uma mocinha como você, poderia ser um aperitivo nas mãos deles, nem todos conhecem o seu rosto. Por favor, não vá, não quero ter meus homens degolados por seu pai.
— Eu sei me cuidar, Sr. Villent. Não preciso que me defendam. – respondeu irritada, fazendo uma careta. Odiava que a tratassem como uma princesinha indefesa. Ela lutava tão bem quanto o seu pai. Não tinha tanta força bruta, mas era extremamente habilidosa.
— Pior que é verdade, Hector. Essa mocinha dá mais trabalho do que imagina. Minha filha não precisa de mim, ela mesmo degolaria seus homens, um por um. – afirmou o rei, risonho, mas com convicção.
Hector riu, mas ainda estava descrente. Em que mundo uma princesa delicada, de braços finos e tão nova, derrubaria seus homens que eram como brutamontes?
— De qualquer forma, filha. Mantenha-se longe de problemas, ok? – Miles pediu, olhando para ela.
— Claro. Já vou indo então. – respondeu prontamente, saindo antes que ficasse tarde.
Já sabia que deveria ir para o lado sul, mesmo que não fizesse a mínima ideia de onde o garoto estaria. Andou até chegar em uma cerca de arame farpado, que dividia o Dormitório dos demais setores do exército. olhou para os dois lados e, vendo que ninguém a observara, colocou o capuz da sua capa, para tampar a sua face.
Com cuidado, andava por entre o acampamento, observando as pequenas fogueiras ao chão e as tendas armadas. Vez ou outra sentia-se observada, mas ninguém a parara. Cada um estava ocupado com seus próprios afazeres. Uns treinavam pelos cantos, outros jogavam sortes no chão e muitos locais estavam apenas abertos, sem ninguém. Sentia-se dentro de um formigueiro. Desse jeito não acharia nunca o garoto. Seria o jeito procurar ajuda, mas, ao mesmo tempo, não queria que descobrissem que ela, a princesa, estava ali.
Avistou dois homens sentados ao redor de uma pequena fogueira. Eles conversavam enquanto jogavam pequenos gravetos ao fogo.
A menina aproximou-se, fitando o chão, chamando a atenção dos homens ali.
— Poderiam me dar uma informação? – ela perguntou bem baixo, a fim de não chamar atenção.
Os homens olharam para ela e, ao perceber que se tratava de uma mulher, abriram uma expressão maliciosa e se levantaram para ir até ela. Um deles era alto, robusto e tinha uma pele bronzeada. Os cabelos eram negros e nos seus braços podiam-se ver várias cicatrizes que vinha da clavícula e desciam, provavelmente, até o peitoral. O outro tinha a pele mais clara, mas parecia envelhecida pelo sol. Seus cabelos eram amarelos compridos e trançados. O moreno posicionou-se em frente à princesa e o outro deu a volta, colocando-se atrás dela. Ele passava a mão por seu próprio queixo enquanto a analisava descaradamente. Os olhos deles cravaram-se na garota como dois lobos devoradores.
— O que a garotinha quer? – o homem da frente começou a se aproximar, passando a língua por seus lábios rachados.
estremeceu, sentindo o clima pesado envolver o ambiente. Não havia sido uma boa ideia, porém não havia outro jeito. Precisava tentar.
— Onde é a tenda do ? – perguntou ainda com a cabeça baixa, mas com a voz firme. Colocou sua mão por dentro da capa, vagarosamente, para não causar ameaça, posicionando-se por cima da sua faca.
— O garoto queridinho do general? Agora ele tem esses privilégios? Uma garota de presente? – disse o que estava em suas costas com a voz carregada de ironia.
Muitos tinham inveja pela proteção que o garoto possuía e por ele conseguir ascender tão rapidamente no batalhão.
— O que será que ele acharia se nós passássemos um tempo com o brinquedinho dele? – perguntou o moreno abrindo um sorriso que demonstrava as más intenções da sua mente.
O loiro acenou com a cabeça, dando uma risada triunfal. Deu um impulso para agarrar a garota por trás, mas já estava de guarda. Por mais que seus pelos arrepiassem com a adrenalina que lhe corria, ela já havia treinado o bastante para saber o que fazer. Ao sentir a aproximação do homem, fechou o punho, girou o braço e parte do seu corpo para trás, acertando-lhe a lateral do seu rosto. O homem praguejou vários xingamentos, levando a mão até o local atingido e cambaleando um pouco para o lado.
— Sua garotinha ordinária! – esbravejou.
O moreno deu um passo, ameaçando ir até a garota, mas o outro homem estendeu a mão para que ele não se intrometesse.
— Deixa, Sarmens. Eu faço questão de acabar com essa aí eu mesmo. E você, pirralha – virou-se para a garota - Vai se arrepender amargamente – ele olhou com ódio para a menina e corrigiu sua postura, pronto para partir para cima dela.
— Vamos ver, então. – ela o respondeu, sem vacilar, segurando um pequeno sorriso.
posicionou-se, um pé na frente e outro um pouco atrás, tirou a faca que estava pendurado em sua cintura, por debaixo da capa, e ergueu as mãos em posição de combate. O loiro riu em desdenho. O que uma mocinha mirrada poderia fazer contra ele? Aquele golpe anterior teria sido pura sorte. Correu avançando para cima garota, mas deu um passo para o lado desviando dele, fazendo com que ele passasse direto por ela. Em uma rápida girada chutou por detrás do seu joelho, fazendo-o desequilibrar e cair no chão. O homem grunhiu raivoso. O outro quis ajudá-lo, mas ele fuzilou-o com o olhar. Não queria que fosse preciso uma outra pessoa auxiliá-lo para combater uma garotinha. Seria uma vergonha.
abriu um pequeno sorriso lateral. Mexeu os ombros em rotação e esticou o pescoço de um lado para outro. Estava pronta para continuar. O homem, que estava prostrado na terra, virou o pescoço, olhando para trás e deparou-se com parte do rosto da menina, que ainda estava coberto pela capa. Começou a se erguer, mas a menina, mais rápida ergueu a perna esquerda e chutou o rosto dele, fazendo-o cair para o lado e cuspir sangue no chão.
Um ódio súbito tomou as entranhas do homem e, mesmo ainda tonto, tentou se levantar rápido, ergueu o punho e tentou socá-la. abaixou-se, desviando do golpe e chutou o abdômen dele, na posição do diafragma. O homem, sem ar, caiu com as mãos por cima da barriga. Chiava tentando puxar o ar pelos pulmões, mas não conseguia. Tombou ao chão, sem forças e a menina suspirou satisfeita. Já era uma batalha ganha para , só restava-lhe o outro.
O moreno, vendo que o amigo já estava fora da luta, correu para pegá-la. Mas, ao contrário do loiro, não foi impulsivo. Já havia percebido que a menina tinha tática de batalha. A garota, vendo a apreensão dele, ergueu a sua mão e fez um sinal com o dedo para que ele viesse até ela, desdenhando-o. Irritado, ele correu em sua direção, mas ao invés de socá-la, como ela esperava, fez um golpe falso com o punho e abaixou-se, dando-lhe uma rasteira e fazendo com que ela caísse de bunda no chão. Ergueu a perna para pisar em sua barriga, mas girou-se rapidamente e levantou-se, posicionando-se novamente em combate. A faca, continuava firme e segura em sua mão direita, pronta para atacar. Com a mão esquerda tentou socá-lo, mas o homem segurou seu punho no momento que a mão dela chegava perto do seu rosto. Ele apertou com força e começou a girar em sentido horário, fazendo com que o braço esquerdo de se contorcesse e ela começasse a se encurvar. Nesse momento, a menina aproveitou a mão direita livre e cravou a faca com toda força no ombro dele, fazendo-o que ele a soltasse de uma vez e gritasse de dor.
A princesa manteve-se firme e começou a girar a faca no local, lentamente, fazendo com que uma dor alucinante fosse sentida pelo homem e o sangue jorra-se no local. Depois de alguns segundos fazendo este movimento, retirou a faca de uma vez e deu dois passos para trás.
O moreno caiu ajoelhado, rugindo de dor, colocou sua mão direita sobre o local ferido tentando estancar o sangue que descia pelo buraco feito pelo armamento.
ajeitou sua capa novamente terminando de retirar o capuz, que havia caído durante sua queda, mas estava embolado na presilha que prendia o seu cabelo. Caminhou lentamente em direção ao homem e olhou para o lado vendo que o outro estava caído, com a mão ainda no estômago, mas com os olhos assustados, cravados nela. Pegou a faca, colocou no pescoço do moreno e empurrou um pouco o seu queixo para cima, para que seus olhos mirassem diretamente nos dela.
O homem quando a fitou, sentiu sua espinha gelar. Não havia visto antes e no calor da luta não a reconhecera. Estava certo que morreria, agora que sabia quem era aquela garota. Jamais seria perdoado por desrespeitar a princesa e ter lutado contra ela.
A menina apertou mais a faca contra o pescoço dele, fazendo com ele franzisse o rosto em uma expressão dolorosa.
— Vou perguntar mais uma vez. Onde é a tenda de ? - falou com a voz firme para ele. Seu olhar era mortal e o homem sabia que havia subestimado a menina.
— Só seguir direto pela ala sul. É a tenda à direita de uma armação bem grande. A grande é a do general, a do garoto é bem ao lado. Você saberá ao chegar lá, a tenda do general se destaca entre todas as outras. – respondeu com a voz rouca e trêmula por causa do aperto.
A garota abriu um sorriso satisfeito para ele, devido a sua condição.
— Muito obrigada pela sua cooperação, soldado. – apertou mais um pouco a faca deslizando lentamente até retirá-la do seu pescoço, deixando um filete de sangue para trás. – Pode ir os dois agora para a enfermaria. Digam que brigaram entre si. Ninguém precisa saber que apanharam de uma garotinha, não é mesmo? – disse olhando para os homens, cruzando os braços com um sorriso pleno. Estava sendo benevolente e misericordiosa. Seu pai não seria tão bondoso se soubesse.
O homem colocou a mão em seu pescoço, sentindo o ardor no local, porém suspirou aliviado pela complacência da princesa.
A garota voltou a colocar sua capa e caminhou em direção ao caminho que o homem havia dito. Antes de se afastar mais, virou-se de volta a eles, vendo o loiro ajudar o outro a levantar-se.
— Isso foi uma ordem, soldados. Espero não ouvir o meu nome por aqui e nunca mais subestime uma garota. – completou para eles, piscando em seguida.
— Sim, Alteza. – eles assentiram, fazendo reverência.
voltou olhar para frente, guardou sua faca novamente na cintura e sorriu. Sentia-se grande e poderosa nesses momentos. Mostrava-os que o fato de ser mulher não queria dizer que era inferior a eles. Ansiava para o dia que fosse rainha e pudesse fazer com que o mundo visse que ela poderia ser tão grande quanto o seu pai. Era um dos motivos que se doava tanto pelo reino.
Continuou caminhando por alguns minutos até conseguir avistar, ao longe, uma tenda enorme. O local tinha um tecido que erguia-se na frente formando uma grande varanda. Embaixo, mesas e cadeiras espalhavam-se pelo local. Ela era realmente bem grande e chamativa, não tinha dúvidas, aquela era a tenda do General.
Ao lado direito, da forma como o homem havia lhe dito, estava uma tenda pequena, montada com bambus de madeira e tecidos, bem simples.
Seu coração tamborilou. A expectativa do encontro a corroia por dentro. Estava muito mais nervosa para encontrar do que para enfrentar os homens do exército do seu pai. Não sabia o que falaria, só sabia que precisava vê-lo. A necessidade de poder olhá-lo novamente e se pudesse... Tocá-lo. Não. Não podia pensar nisso. Ele com certeza a odiava. Ela precisava colocar seu foco em convencê-lo a não ir naquela missão insana.
Caminhou hesitante até parar em frente a sua tenda. Observou a fresta do tecido do local aberto e pode ver o deslumbre das costas do garoto. Deu alguns passos para chegar mais perto, silenciosamente. Pegou um pedaço do tecido e abriu mais, podendo notá-lo ali. Ele estava sentado em sua cama, de costas, enquanto mexia em algo que ela não percebeu o que era. Foi impossível segurar as lágrimas. Um misto de emoções percorria o seu corpo, lembranças inundavam a sua mente e a vontade dela era correr até ele, abraçá-lo e não largá-lo nunca mais. Mas não poderia.
Gastou um tempo observando cada pedacinho do garoto. Não saberia quando voltaria a vê-lo, ainda mais se o seu plano não desse certo. Notou suas costas douradas e desnudas. Elas estavam bem mais largas e os músculos estavam destacados. Seus bíceps estavam proeminentes, não recordava de serem assim antes. Seus cabelos estavam mais curtos, mas ainda poderia colocar seus dedos entre eles se pudesse tocá-los.
Suspirou fundo, tensa pelo que viria a seguir. O som acabou despertando a atenção do garoto que olhou para trás, deixando cair o utensílio que estava em suas mãos ao deparar com a pessoa que estava ali na entrada. Não poderia acreditar. Ficou atônito. Seu coração parecia sair pela boca. Levantou-se rapidamente e voltou o seu corpo em direção da garota.
... – soprou desacreditado.
— Olá, . – a garota falou, fazendo o som da sua voz alertar o menino sobre a veracidade daquela situação. Realmente era ela ali.




Capítulo 6 - Parte II

Os dois se entreolhavam. Muita coisa passava pela cabeça de ambos naquele momento. O corpo da menina desfalecia pelo encontro, enquanto a mente dele trabalhava para saber o motivo que os uniram novamente. não sabia o que fazer ou dizer, não esperava ver a garota ali. O que sentia por ela mesmo? Amor, ódio? Não lembrava de nada agora. Não conseguia sentir nada. O choque com a visão da princesa em sua frente era maior do que todas as coisas.
contemplava seu amor à sua frente. Por um momento não se recordava dos motivos que a trouxeram até ali. O medo de perder evaporou-se e a única coisa que ela sentia era a saudade. Seus olhos lacrimejavam. Queria tocá-lo, precisava ter certeza que era real.
Ele estava mais lindo do que antes. Seu peitoral estava definido, provavelmente pelo ritmo de exercícios do exército, o abdômen continha vários gomos que terminavam em sua cintura com um belo V ao final. Seu rosto mais marcado, parecia mais homem o seu garoto. Fitava os lábios que tanto beijara há tempos atrás. Se fechasse os olhos sentiria todas as sensações que as mãos dele já haviam lhe proporcionado quando passeavam pelo seu corpo.
A menina abaixou o seu capuz lentamente e deu um passo temeroso para aproximar-se do garoto. O ato fez despertar-se do seu transe e trazer à tona todos os últimos acontecimentos. Sua expressão fechou-se por completo e cuspiu toda a raiva e indignação na frase que soltou.
— O que faz aqui? – perguntou afastando-se dela.
recolheu sua mão e suspirou profundamente. Deveria esperar que estivesse arisco depois de tudo.
— Eu precisava te ver.
O garoto riu descrente.
— Engraçado, se me lembro bem você havia dito que não queria me ver na sua frente nunca mais. – contra-atacou virando o rosto.
fechou os olhos, tentava pensar brevemente o que poderia dizer a ele sem que revelasse toda a verdade. Era claro que ele estaria arredio, mas ela não teve muito tempo para se preparar, tudo aconteceu muito rápido e agora ela estava ali, diante dele, depois de tantos meses... Lembrar do passado não ajudaria em nada.
— Fiquei sabendo que você vai à missão rumo a Ocland – tentou ser direta. Sabia que não iria ouvir nenhuma desculpa que ela desse. Ainda mais se não fosse verdadeira.
— E o que você tem a ver com isso? - perguntou cruzando os braços e arqueando a sobrancelha para ela. Seu coração ardia em seu peito, como era difícil vê-la de novo.
— Vim exclusivamente para lhe pedir que não vá. É uma missão suicida, . – disse tentando soar firme para ele. O garoto soltou uma gargalhada, não acreditava no que estava ouvindo.
— E você está preocupada comigo? Por que se importa? E não venha me dizer ao contrário porque ambos sabemos que não é verdade, você foi bem clara da última vez que nos vimos.
— Você sabe que eu me importo, . – ela respondeu sem pensar na contradição das suas palavras para o garoto. Ela dizia a verdade, mas se comparar com as atitudes que ela teve para com ele, era certo que não acreditaria. Porém ele não sabia a verdade e só o pensamento de perder o garoto corroia a menina por dentro.
— Não, . Eu não sei. A única coisa que tenho certeza é que você me enxotou do palácio como se eu fosse um nada. Um brinquedo que você usou, aproveitou e jogou fora quando enjoou – Ele falou alto e nervoso aproximando-se dela. – Você não se importa. Você não ligou quando me chutou ou usou palavras que me feriram, você não deu a mínima quando mandou um velho doente para as ruas sem ter nem o que comer. – esbravejou, fechando o punho e socando a mesinha que estava ao seu lado.
calou-se, não sabia o que responder, seu coração comprimia-se com a verdade. Era tão difícil não abrir o jogo, se contasse, por mais que doesse, ele entenderia. estava ferido, mas ela também estava. Ele só não sabia disso.
— Não tem nada para dizer, não é? Claro que não! Você sabia que eu tive que mendigar comida pelas ruas? Sabia que ninguém, ninguém mesmo, teve coragem de dar uma ajuda sequer? Sabia que a doença do meu pai piorou? Você tem noção de como foi ver meu pai morrer em meus próprios braços por sua culpa – terminou dizendo a ela com os olhos marejados.
A menina segurava para não se quebrar na frente dele. Estava horrorizada com a revelação. Ela sabia que isso ia acabar acontecendo, foi por isso que tentou ir atrás dele quando pôde. Mas ouvir da boca do menino, sentir o quanto ele estava machucado e o quão mal ela tinha feito para ele, mesmo sem culpa, era devastador.
— Ele morreu? – Ela murmurou mais para si mesmo do que tudo.
— O que você acha? – Retrucou com escárnio.
— Me desculpe, . – Foi a única coisa que conseguiu pronunciar.
— É só isso que tem a dizer? – perguntou aproximando-se dela furiosamente – Desculpas não vão mudar o que aconteceu, . Desculpas não mudam o passado. Nada vai conseguir apagar, nenhuma borracha vai mudar o que você fez comigo. – parou em frente a ela. Seus olhos azuis estavam escurecidos em ódio pela garota. Quem visse a cena teria certeza que avançaria para cima dela, mas ele apenas parou, encarando-a. Suas narinas soltando o ar raivoso que estava alastrado dentro de si, emanava a cólera por todos os dias terríveis que viveu e por tudo o que aconteceu.
— O que quer mais que eu diga, ? Como você mesmo disse: Não vai mudar nada. Eu queria poder transformar tudo o que houve. Os céus sabem o quanto eu queria...Mas não posso. Tudo o que eu fiz teve uma razão, você entendendo ou não. A única coisa que posso fazer é pedir desculpas a você e dizer que lamento muito que aconteceu – ela respondeu firme para ele. Sua respiração estava descompassada e seu coração palpitava forte. Por pouco não abria a boca e revelava tudo. Precisava relembrar que não podia contar. Se ficasse acuada ele não a ouviria. Ela o conhecia bem. Precisava chamar-lhe a atenção e teria que ser altiva como ele estava sendo ela.
— Você é inacreditável. – resmungou passando a mão no rosto. – Vá embora daqui!
O garoto sentia-se frustrado. A menina fazia emanar o pior de si. Toda a mágoa armazenada, todo o ódio que cultivou no decorrer dos dias... Ele estava transtornado e, pior ainda, ficava indignado pelo fato que, apesar de tudo, a garota mexia com ele como nenhuma outra conseguia. Embora tudo o que aconteceu, a presença dela ali fazia o seu coração bater da mesma forma de antes, como se nada tivesse mudado. Era um sentimento alucinado que ele não queria ter mais. Como podia continuar amando alguém que havia o ferido da pior maneira possível?
— Eu não vou. – afirmou firmando seu pé no chão.
— É uma ordem, princesa? Vai querer me enxotar daqui também? Saiba que eu não sirvo mais a você ou seja, quem for da realeza mais. Estou aqui para honrar ao general e a ele devo minha vida. – cruzou os braços encarando-a de frente.
A princesa entendeu, então, o motivo dele querer seguir para Ocland. Iria acompanhar o General. Se devia a ele, ele cumpriria. Era esse o garoto que ela amava. Justo e leal. Não haveria promessa que cairia ao chão.
– chamou-o docemente – Pare...Olhe no fundo dos meus olhos e veja se estou mentindo para você... – estendeu sua mão esquerda a fim de tocar o rosto dele.
O som da voz meiga de , como ela o tratara durante tantos anos, o quebrou, mas não ao ponto de o cegá-lo. Segurou a mão dela antes que seus dedos chegassem em seu rosto e deslizassem sobre si. Nesse momento, com a mão dela estendida, a manga da capa de desceu, deixando exposto o seu braço. notou o sangue respingado pela princesa, algo que não havia visto até aquele momento. Uma preocupação súbita se apoderou dele, da mesma forma que sempre ficava quando desconfiava que estava com problemas.
— O que aconteceu? – perguntou puxando o braço dela e analisado para ver se havia algum corte.
— Não foi nada. Só alguns contratempos até chegar aqui. – respondeu puxando seu braço novamente e tentando tampar os respingos de sangue com a manga da capa, mas o garoto apertou-a firme, impedindo que ela se retirasse. Começou a virar o braço dela olhando-a com cuidado.
O instinto de proteção reapareceu como fogo, colocou a raiva que sentia no fundo do baú e só precisava saber se ela estava bem. Notou uma marca estranha no local que olhava. Não eram machucados recentes, eram duas cicatrizes. Duas linhas finas e um pouco em relevo. ao perceber o que ele fitava, tentou puxar novamente seu braço para escondê-lo.
— Pare com isso, – bradou ele para que ela não tentasse se encobrir.
Apesar de não querer que ele visse suas cicatrizes, sentir o toque dos dedos de em sua pele novamente, mesmo que em um sentido não romântico, lhe enfraquecia. pegou sua mão delicadamente e começou a olhar ponto por ponto, até notar as marcas nos dedos da garota. Franziu o cenho ao perceber as cicatrizes e mais ainda ao chegar no dedo do mindinho, ou o que restou dele. Ele sabia o que era aquilo. O seu treinamento deixara-o a par daquele tipo de coisa.
, o que aconteceu? – perguntou com seu timbre grave.
— Nada! – ela respondeu rapidamente, puxou sua mão e conseguiu escapar do garoto, escondendo-a atrás de si. – Um machucado qualquer no bosque, você me conhece, sempre me meto em confusão nos treinamentos.
— Não, . Você nunca se machucou assim. Você não é tonta. Além disso, eu conheço esse tipo de marca. , quem fez isso com você?
Os olhos da garota embargaram-se com a lembrança. Segurava-se para não contar a ele todos os motivos que a levaram até aquele dia. O garoto sempre cuidara dela, sempre fez tudo pela menina. Se ele soubesse... Se ele sequer imaginasse tudo o que havia passado, ele não ficaria de braços cruzados. Ele a defenderia nem que tivesse que dar a própria vida e era isso o que a princesa mais temia. Era justamente o que não podia acontecer. Ele não poderia saber. Mesmo agora, era claro como se preocupava com ela, apesar de tudo o que eles passaram. Ela precisava manter a boca fechada.
— Esqueça isso, . Para o seu próprio bem... – sua voz tremeu ao responder.
O coração do garoto apertou. Sentia que havia algo muito errado ali. Alguém havia feito mal a menina e o temor na voz dela indicava isso. Logo a sua garota que era sempre feroz com tudo e para com todos. Ela era destemida e enfrentaria qualquer um a altura. O que havia acontecido? Agora parecia um gatinho assustado. Isso não era comum. O que faria a grande princesa ficar daquela forma?
Uma vontade súbita de abraçá-la e cuidar dela se apoderou dele. Os olhos da menina pareciam tão profundos, era como se mil segredos estivessem ali para serem desvendados. Ele olhava para ela da mesma forma que a primeira vez que descobriram seus sentimentos. Não sabia os motivos que levaram fazer o que fez com ele, mas não era possível os sentimentos dele não fossem recíprocos.
Por isso, naquele momento, sua mente se turvou. Ver a menina tão frágil diante dele, ultrapassou as más lembranças que havia lhe causado. Não pensava nele, só pôde pensar nela. O amor que tinha pela garota era grande demais para ser inerte em um momento como aquele. Não quando ele a via ali, ferida, e sem saber o que causara isso.
Lembrou-se que poderia ser a última vez que a veria. A missão em que partiria daqui uns dias talvez não houvesse volta. Uma despedida digna então...Todas as sensações estavam intensificadas naquele momento. Estendeu a mão para ela, pedindo que lhe desse a dela novamente. A menina, mesmo vacilante, retirou sua mão da capa e ergueu lentamente até tocar a dele de novo.
Naquele instante, o toque alastrou um fogo por suas peles. Era como se voltasse há três anos atrás. Tudo de novo. Olhavam-se intensamente, sabiam que um pensava no outro, em tudo o que viveram e na intensidade dos seus momentos, era recíproco, eles sabiam disso. A conectividade que tinham não havia se perdido. Fitando-se daquela forma... Eram só e de novo.
O rapaz abaixou o olhar, analisando os machucados novamente. Ergueu a mão dela com cuidado até ficar a altura do seu rosto. Pegou seus dedos delicadamente e levou até a sua boca, depositando um beijo lento em cima da cicatriz. Repetiu o gesto em cada ponta dos dedos dela, um por um, fazendo-a estremecer. Ia beijando vagarosamente, mas os seus olhos não a deixavam. Eram intensos e cheio de ardor.
Uma eletricidade saía do local que ele beijara e espalhava-se por todo o corpo. Sentia-se entorpecida pelo seu toque novamente e por sentir os lábios do garoto ali. Estavam mais próximos. Não notara quem tinha dado o passo, talvez os dois, mas estavam frente a frente, como dois imãs atraídos. Um transe louco os pairava e só conseguiam sentir o calor e a necessidade incontrolável de ter um ao outro.
A mão de soltou a da garota e rapidamente passou para a sua nuca, enfiando seus dedos por entre os cabelos dela. Puxou-a para mais perto de si e atracou os seus lábios com intensidade. abriu a boca dando passagem a sua língua que percorria valsando com a sua. Como sentiu falta dos seus lábios quentes sobre ela... Dançavam em uma sincronia única, extraindo tudo um do outro. Era intenso, caloroso e arrepiante. Tinham fome, precisavam de mais.
Era saudade, amor, era a mágoa e decepção. Todos os sentimentos expostos num desejo carnal e ao mesmo tempo afetuoso.
desamarrava a capa de afobadamente enquanto a menina passava as mãos pelo seu peitoral, sentindo cada detalhe do seu corpo. Ela precisava dele e ele precisava dela .
A vestimenta caiu aos pés da garota e sentou-se em sua cama trazendo-a para sua frente. Puxou o laço da calça dela e abaixou-a com força. A menina apoiou suas mãos nos ombros dele, enquanto as mãos do garoto subiam lentamente do joelho até suas coxas, fazendo-a se arrepiar. Com uma mão, separou um pouco as pernas dela e depositou um beijo na parte interna da coxa da princesa, fazendo-a arfar. Subiu lentamente, fazendo uma trilha com seus lábios enquanto sentia as unhas dela encravando-se cada vez mais em sua pele, à medida que chegava mais perto da sua intimidade.
Olhou para cima e viu a expressão lívida dela. A boca entreaberta olhando para ele embaixo. O rapaz abriu um pequeno sorriso e deslizou as mãos para a cintura dela, erguendo sua blusa com cuidado. A medida que ia subindo, sua boca passou a beijar a sua barriga, passando a língua por seu umbigo. Tocava-lhe cada parte como se fosse a última vez. Terminou de retirar a blusa dela, jogando-a em qualquer canto por ali, puxou-a para seu colo, virando-se com velocidade e colocou-a por debaixo dele.
Voltou a beijar os lábios da menina, ensandecidos pelo calor que alastrava por eles. nem acreditava que estava nos braços do garoto novamente. Sentir seus beijos, sua mão pela pele dela, cada toque... Nunca pareceu tão certo.
Ela o amava tanto. Queria ter nascido em uma família simples até mesmo pobre para poder escolher passar a vida toda com , mas, ao mesmo tempo, não mudaria nada, pois se assim o fosse, não o teria conhecido. Ela optaria passar por cada tortura de novo, cada dor e agonia que sentiu se, em troca, tivesse todos os momentos que teve com ele. Só não o faria caso pudesse retirar toda dor que havia causado no menino.
Os beijos que os dois trocavam ficaram cada vez mais quentes e logo estavam os dois nus sobre a cama de . Os lábios do garoto intercalavam entre sua boca e outras partes do seu corpo. A respiração dela era rápida e os batimentos cardíacos incalculáveis. Ao mesmo tempo em que era intenso, era delicado e carinhoso. Apertava-a como se quisesse marcar sua pele, mas, em contrapartida, passava lentamente os dedos por seus seios, focando em seu bico, intensificando assim as suas sensações.
Não tardou, ele estava dentro dela, completando-a de forma inimaginável. Cada movimento trazia-lhe uma onda de prazer e aflorava tudo o que sentia. Fechou os olhos aproveitando o momento que passavam ali. Uma lágrima rolou dos olhos de , por tudo o que tinham passado. , que estava sobre ela, continuou a se movimentar, porém mais lentamente, ao notar o choro dela. Beijou cada um dos seus olhos, passou o polegar pelo rastro que a lágrima havia percorrido e voltou a beijar os lábios da garota.
O prazer voltou a inundar os seus corpos quando o garoto acelerou seus movimentos. A menina cravava-se nele enquanto ele arfava em seu pescoço. Continuaram até chegar ao ápice do momento. As respirações eram profundas e o suor descia por suas peles. Era o selo de tudo o que eles sentiam. Foram deixados levar por seus sentimentos e por tudo o que haviam vivido um dia.
— Eu te amo, . – murmurou a garota no ouvido dele, instantaneamente após o ápice.
O corpo de enrijeceu-se ao ouvir aquelas três palavras mágicas que já havia ouvido tantas outras vezes. Mentiras, tudo da boca para fora, pensou ele . Fechou os olhos e praguejou internamente por ter sido tão fraco diante dela. A amava tanto que deixou-se levar por tudo ao deparar-se com naquele estado. Não podia deixar que ela o ludibriasse. Não podia deixar que ela usasse o seu amor e o pisasse como havia feito da outra vez. Ela era da realeza. Não era confiável. Quando precisou dela onde esteve? O escorraçando do seu lar. Por causa dela seu pai havia morrido. Não podia esquecer disso.
Saiu de cima dela lentamente e voltou a sentar-se na cama, perto da beirada. Fitou a parede e suspirou. Decidiu-se que não queria saber mais nada sobre ela, deixaria ela seguir sua vida assim como ele havia seguido a dele.
... – a princesa o chamou, sentando-se também e tocando ombro dele ao notar o seu silêncio.
— O que aconteceu aqui não muda nada, . Eu não vou te perdoar. – Falou sem olhar para o seu rosto.
A feição da menina transtornou-se e sentiu evaporar toda a harmonia que haviam adquirido em instantes. Ela levantou-se, chateada, e começou pegar as peças das suas roupas no chão, começando a se vestir.
O menino olhava para baixo, evitava encará-la e tinha medo de enfraquecer-se novamente.
, me escute, me odeie o quanto quiser, que seja... Mas, por favor, não vá para Ocland. – implorou ela parando em sua frente.
O menino suspirou, estava cansado fisicamente e emocionalmente.
— Eu não odeio você. Eu queria te odiar, mas... Acho que ficou claro que não – resmungou baixo. Estava sendo sincero, mas não voltaria atrás.
A menina ajoelhou-se em frente a ele e segurou seu rosto para que olhasse para ela.
— Então, , por mim, não vá...- deixou sua voz morrer em seu pedido. A visão turva segurando as lágrimas, uma última esperança para que ele cedesse daquela ideia descabida.
O garoto olhou para seus olhos. Um conflito interno de tudo o que aconteceu.
Segurou as mãos das meninas e abaixou-as. Precisava ser forte. Por mais que a amasse, não admitira a injustiça que ela o fizera. Não seria feito de palhaço de novo. Não seria um objeto nas mãos da princesa. Não devia nada a ela. Se devia algo a alguém era o seu general e honraria a promessa feita a ele.
— Vá embora, .
, por favor...
vá embora, agora. – falou mais forte.
A garota viu que não o conseguiria o persuadir. Ele não voltaria atrás. Era inevitável. As lágrimas começaram a descer e por mais que a feição do garoto ao vê-la assim vacilara, ele continuou parado, sem mudar de opinião. Do que adiantaria? Ele não teria nada a ganhar com isso. Quando ela fosse embora ela voltaria para o seu noivo e ele continuaria sendo o cara abandonado. Não, ele não cederia a ela.
percebeu que seria irredutível. Em um impulso, ela deu-lhe um selinho e abraçou-o, soluçando com a despedida. O menino apertou os dedos na cama, mas não a retribuíra. Ela agarrou o seu pescoço e ele pode sentir as lágrimas quentes banhar o seu ombro.
— Eu te amo, ...- repetiu o que havia dito e terminou afastando-se, passou o dorso da sua mão em seu rosto e enxugou o choro. Colocou a capa novamente e caminhou para fora da tenda dele, dando uma última olhada para trás até sair por completo. Levando para fora um coração quebrado e a incerteza que seu garoto continuaria vivo.
— Eu também te amo, , e odeio ainda te amar... – Ele suspirou quando ela não poderia mais ouvir.

***


A princesa saiu desnorteada da tenda. Ainda estava inebriada com o calor e o toque de , mas também estava devastada por ter falhado em sua missão. O garoto iria embarcar para Ocland e, talvez, aqueles momentos que tiveram fossem os últimos. A sensação de derrota era evidente. A única ponta de luz da sua vida, se foi. Se a derrota fosse só na área sentimental, ela conseguiria lidar com isso, mas não saberia o quanto ficaria destruída se o garoto morresse.
Passou o resto do dia calada, ao lado do seu pai. Não podia chorar, precisava ser forte diante de tudo e de todos. Miles percebia a tensão da garota, mas preferiu não incomodá-la achando que era devido ser a primeira vez dela no quartel. Sabia que perguntar a sua filha não adiantaria, sempre quis mostrar ao pai o quanto era forte.
Ao entardecer, voltaram com sua escolta a cavalo, completamente em silêncio. Quando avistaram o castelo já estava anoitecendo e os ventos gelados da noite já começavam a aparecer. O rei e a princesa desceram dos animais e deixaram os soldados para trás, caminhando em direção a entrada. Miles franziu o cenho ao perceber uma movimentação estranha no local. Havia uma circulação no meio dos seus soldados, o rei desembainhou a sua espada, ficando em posição de combate. A princesa, reparando nos movimentos do pai, fez o mesmo com sua faca e, ambos, começaram a ir cautelosamente em direção a porta.
Quando estavam chegando, um serviçal veio correndo na direção deles gritando pelo rei.
— Majestade, Majestade, estávamos indo encontrá-los. – disse o homem afoito ao alcançá-lo.
— O que houve? – Miles perguntou, abaixando sua espada.
O homem engoliu em seco e temeu dar a notícia ao rei. Abaixou a cabeça e começou a gaguejar, não conseguindo transmitir o que precisava ser dito.
— Diga logo, homem! – bradou o rei, nervoso.
— O príncipe faleceu.
Miles ficou lívido, sua expressão fraquejou mediante a fala do homem. O coração de disparou-se, não esperou uma explicação, saiu correndo para dentro do castelo, ouvindo os gritos do seu pai aos fundos. Olhou ao redor e só via os funcionários do palácio, alguns estavam agitados de um lado para outro, outros choravam e alguns pareciam estar em choque tanto quanto ela com a notícia.
Continuou caminhando até avistar os irmãos sentados em uma longa poltrona no salão de estar. O primeiro que ela viu foi Garret. Seus braços estavam ao redor do seu corpo e ele balançava-se para frente e para trás em um claro sinal de nervosismo. Seus olhos estavam esbugalhados e ligeiramente avermelhados. Uma ferida marcava sua têmpora direita e um sangue escorria até o seu queixo. Suas mãos e braços estavam sujos de terra e rastros de sangue seco e a sua blusa estava toda rasgada. O coração da garota parecia que iria saltar do seu peito, quanto mais olhava para cena, mas o desespero a tomava.
Não muito longe de Garret estava Jeffrey acanhado. Sua cabeça abaixada entre seus joelhos e as suas mãos entre seus cabelos. Quase não se via movimentação, estava parado naquela posição, um pouco arredio. Sua calça um pouco rasgada, mostrava uma ferida na perna. Seus cabelos loiros compridos estavam uma bagunça, uma mistura de terra e sangue. Ele levantou um pouco a cabeça ao ouvir a chegada da princesa, e ela pode notar o ralado vermelho no lado esquerdo do seu rosto e um corte profundo na bochecha direita. O sangue estava respigado por toda sua face, escorrendo pelo seu lábio e misturando-se aos fios da sua barba.
colocou a mão na boca ao constatar a realidade a sua frente. Se Garret e Jeffrey estavam ali e um príncipe havia morrido... Não, Não podia ser. Como? Por quê? As lágrimas que havia segurado no percurso, agora já rolavam em seus olhos. Sentiu o calor de um toque nos seus ombros e constatou que era seu pai que estava ali. Ele havia corrido atrás dela, mas com o desespero do momento, não havia percebido.
— As hienas-gigantes, Majestade – o mesmo serviçal que havia lhe dado o recado agora explicava para eles. – Um bando os atacou. Os alces fugiram para a planície e eles foram atrás, sendo pegos desprevenidos. Provavelmente de 15 a 20. Eles não teriam nem chances. A sorte desses dois foi porque elas pegaram o outro primeiro, dando-lhes tempo para fugir.
A princesa olhou para o homem horrorizada. Isso era sorte? Seu amigo e noivo estava morto. Não conseguia processar aquela informação. Olhou para o seu pai e ele parecia em choque tanto quanto ela. Ela viu suas rugas de expressão se acentuarem. Para Miles aquilo era muito pior do que a morte de um rapaz, bem pior do que perder um genro. Como Rory Buckhaim ficaria ao saber que seu filho morreu em suas terras? Pior ainda, o que seria do acordo deles agora que Henrique havia falecido?
Muitas perguntas pairavam pela cabeça de todos. Agora estava explicado porque até os funcionários do castelo estavam tão aterrorizados. Todos tinham medo do que poderia acontecer. A época que viveram no terror ainda estava na lembrança dos mais velhos. As recordações por si só já causavam calafrios em todos.
Miles pensou em Helena e no quanto a sua mulher ficaria em choque com a noticia. Ela mais do que ninguém prezava muito por essa aliança. Não saberia nem como dar a notícia a sua esposa. Passou sua mão pela sua barba e tratou de dar ordem aos empregados para prepararem o corpo, teriam que enviá-lo para sua terra natal juntamente com os irmãos Buckhaim.
— Majestade... – começou hesitante. – Não restou nada. Por isso os soldados estavam em polvorosa quando o senhor chegou. Estavam na floresta procurando qualquer coisa que pudesse enviar para Medroc, mas elas devoraram tudo... Só sobraram os restos do sangue e parte de suas vestes espalhadas por ai. – o servo engoliu em seco.
Miles fechou os olhos e colocou os dedos sua testa, pensativo. Rory não teria nada nem para velar o filho. Não queria nem imaginar a expressão dele ao receber aquela notícia.
correu até onde Garret estava e agachou-se diante dele, com lágrimas nos olhos. Com cuidado tocou o joelho do rapaz, chamando-o sua atenção. O garoto reparou na aproximação da princesa, mas ainda estava estático. Olhava apenas para frente, apertando mais ainda o seu corpo contra si.
— Garret... – a princesa chamou-o querendo sua atenção. Qualquer coisa que pudesse o fazer falar com ela.
Ele continuava a se balançar, para frente e para trás. A princesa pôde ver que ele tinha mais machucados do que ela havia percebido de longe. Ambos os irmãos precisariam de cuidados médicos, mas pareciam que nem lembravam das suas próprias dores.
— Eram muitas... – sussurrou. – Eu não pude fazer nada. Elas o comeram... – sua voz sumiu e seus olhos encheram-se de água. Seu corpo inteiro tremia. Era claro que parecia o mais afetado. Apesar que Jeffrey era tão calado, não dava para saber o que se passava no seu interior.
afastou-se com a informação. Não conseguiria ouvir mais nada, assim como Garret parecia que não poderia mais falar. Correu para os braços do seu pai e o abraçou forte. Como poderia em um só dia passar por tantas emoções? Seu pai a envolveu sussurrando que tudo iria ficar bem, mas não era o que parecia, sentia que tudo estava desmoronando e tendia a piorar.
As pernas da menina fraquejavam, sentia-se fraca diante do acontecimento. Trancou-se em seu quarto e pranteou por Henrique. Deixou o luto a consumir e invadir a sua carne. Além de tudo, ainda tinha , que ela não sabia se voltaria vivo daquela missão. Perderia seu amigo e o seu amor. Dois golpes da vida de uma só vez.

***

No outro dia o rei declarou luto em toda Ílac. Vários soldados vestidos todos de preto escoltaram a volta antecipada dos irmãos para Medroc. queria ir com eles, mas seu pai não deixou. Não sabia como Rory reagiria ao receber a notícia, temia pela segurança da menina. Rory era inesperado. Tinham um acordo antes, mas agora como ficaria?
Miles pediu para que os garotos que dessem notícias assim que chegassem. Ele esperaria para saber a respeito do velório e pediu que enviasse os pêsames à família. Logo então, foram embora, Jeffrey e Garret, um herdeiro a menos para Medroc. Junto com a própria escolta ia também alguns de Ílac. Os soldados estavam avisados para observar todos os movimentos de Rory. Qualquer coisa deviam voltar imediatamente e dar as notícias ao rei. Miles poderia ser um bom homem, mas não era bobo, precisava estar atento de agora em diante.
Helena ao voltar para o castelo e saber do ocorrido, ficou desolada. O pânico era visível no rosto da mulher, ficou desesperada ao saber da morte de Henrique. Miles demorou a acalmá-la e fazê-la entender que tudo ficaria bem. Assim como a princesa, a Rainha passou uma semana sem sair do seu quarto. Sofriam por motivos diferentes, mas o estopim era o mesmo, a morte de Henrique.
O Rei Rory mandou todos os soldados de Ílac voltarem. Por três semanas o castelo ficou apreensivo sem notícias de Medroc. Porém logo chegou um comunicado dizendo que fariam um ritual simbólico para o velório de Henrique. Miles, Cameron e foram até lá para representar o seu povo. O evento foi triste, era notório que o rei estava devastado, mas ele não demonstraria fraqueza na frente dos outros impérios e nem diante do seu povo. Talvez, por isso a demora para a cerimônia. Foi o tempo que ele havia conseguido para recuperar-se e mostrar o rei impassível que era.
atraia a atenção por onde passava. Era a noiva viúva e todos estavam com expectativa para saber o seria dali para frente.
Os restantes dos dias da princesa seguiram-se sombrios. O castelo de Ílac parecia morto também. Quase ninguém conversava, o seu pai vivia em reuniões com Cameron e sua mãe nem olhava para seu rosto. Até o povo andava com medo pelas ruas. Os serviçais não diziam nada, mas o pânico em seus olhares era notório.
Três meses haviam se passado e ainda não tinham respostas de Medroc. Ílac não queria forçar nada em respeito ao luto do reino, mas ninguém sabia o que seria da aliança depois da morte de Henrique. O príncipe e a princesa haviam sido preparados por anos para assumir aquilo, o primogênito de Medroc passou muito tempo da sua vida conhecendo Ílac para que pudesse governar o país junto com . Tinha o apoio de Miles e Helena e era querido por eles. Agora todos estavam vendados em um rumo inesperado.
A princesa passava seus dias mais em seu quarto do que qualquer outro lugar. A tristeza havia a consumido, não só pela morte de Henrique, há dois meses a embarcação para Ocland havia saído levando o seu e, até o momento, não haviam mais notícias dele. A menina vivia fraca. Não tinha quase força para sair da cama e passava mal direto. Quase não estava comendo direito e todos achavam que estava doente de amor pela morte do seu noivo.
— Você não pode continuar assim, . – disse Sarah entrando em seu quarto de uma vez e abrindo as cortinas da janela. – Você precisa se levantar. Venha, eu trouxe o seu café da manhã. – terminou puxando um carrinho até a cama da menina.
— Eu não estou bem, Sarah. – resmungou, virando-se para o lado e puxando a coberta para si.
— Eu sei que não está bem. O palácio inteiro sabe disso. Seu pai está preocupado e eu também. – falou com um tom triste. – ... – pousou a mão nos cabelos da princesa – Eu sei que ele se foi, sei que deve estar doendo aí, mas a vida continua...
— Você não entende Sarah, eu realmente não estou bem. Não estou dando desculpas. Pode ser psicológico por estar abatida, mas eu estou me sentindo muito fraca, você sabe dos desmaios que tive nas últimas semanas. – disse tentando sentar-se na cama.
— Claro que está fraca, você nem está comendo direito, . Tome aqui, Margot preparou ovos e leite para você. Você vai ficar melhor quando comer – puxou o prato do carrinho e levou até o colo da princesa.
No mesmo instante, empurrou o prato para o lado, fazendo-o cair ao chão e se espatifar. Correu até o banheiro, debruçou sobre a privada e vomitou uma gosma líquida e transparente, já que não tinha muita coisa em seu estômago para colocar para fora.
Sarah correu até ela, preocupada, e ajudou a menina segurando seus cabelos, enquanto a princesa continuava a vomitar. O olhar da mais velha repousou com preocupação sobre ela e pode ouvir um suspirar profundo vindo de Sarah. A menina virou sua cabeça para o lado, vendo a mulher do seu tio olhá-la com uma ruga de apreensão.
... Há quanto tempo o seu sangue não vem? – Sarah perguntou sem rodeios.
A princesa sentou-se no chão do banheiro, encolheu suas pernas em seu peito e abraçou-as, começando a lacrimejar.
— Há alguns meses... – respondeu, fazendo Sarah engolir em seco.
, eu vou te fazer uma pergunta e quero que seja sincera... Você e Henrique... Bem, vocês fizeram... – começou a perguntar desconcertada.
Nem precisou terminar. A menina abaixou a cabeça e as lágrimas começaram a cair dos seus olhos, fazendo com que Sarah entendesse isso como um sim. A princesa já desconfiava, só que ouvir as suspeitas de Sarah tornavam o problema real.
— Oh, meu Deus, – Sarah exclamou e puxou a menina para os seus braços, deixando que ela a usasse como conforto. – Sinto muito... Não chore. Filho deve ser uma benção, uma dádiva. Lembra como fiquei radiante quando meu pequeno Isaac nasceu? Eles trazem felicidade, ... Agora você tem um pedacinho do Henrique com você... – tentou animá-la, mas chorava junto com . Sabia que isso não era bom, mas teria que tentar ajudar sua amiga.
— Sarah, você está casada com Cameron. Um filho é tudo o que queriam. Eu estou solteira e grávida de um homem que morreu. O que acha que vão fazer comigo e meu bebê?
— Calma. Você vai dar um jeito nisso, . Você é forte. Você consegue derrubar um batalhão de homens sozinha, isso é só um pequeno obstáculo. Eu vou estar aqui para ajudá-la, ok? Eu vou conversar com Cameron, nós vamos ver o que podemos fazer por você. – Sarah afagou-a em seus braços.

passou seus dias pensando no que poderia fazer. Estava em risco. Tudo já estava estremecido e essa gravidez poderia piorar ainda mais a situação ou poderia salvá-los. Tudo iria depender do que aconteceria na reunião que haveria com Medroc.
Cansado de esperar por notícias deles, o rei Miles havia enviado uma carta para Rory convocando-o para uma sessão extraordinária. Precisavam resolver os assuntos dos reinos o quanto antes. A aliança ainda estaria de pé mesmo sem o casamento? O que seriam deles agora?
Quando o Rei, Rory Buckhaim, adentrou o castelo de Ílac com seu filho Jeffrey ao lado e toda a sua cavalaria, não houve homem vivo que não tivesse o temido. Os olhos deles estavam mais sombrios do que de todas as vezes que haviam o visto. O ar mais jovial e tranquilo da noite do noivado não fazia nem sombra em sua feição. Passou direto por todos até chegar no salão de reuniões, onde Miles o esperava junto com Cameron, Helena e , que havia feito questão de participar. Todos se entreolhavam, era como se estivessem andando em cacos de vidros e qualquer passo em falso, se cortariam.
era a que estava mais agitada. Preparava-se para o que teria que dizer na frente de todos. Repassou mentalmente como deveria agir e, mais do que nunca, sabia que precisava ser forte. Não importava o que diriam, ela precisava proteger a criança que estava em seu ventre. , além de futura rainha, agora tinha um novo sentido de vida. Já havia passado por tantas coisas, não era uma menininha indefesa. Era uma garota sofrida pelas ironias do destino, mas isso não a faria abaixar a cabeça. Nem a sua mãe havia conseguido com sua tortura, agora não seria diferente. Enfrentaria sua mãe, seu pai, Rory, ou seja lá quem fosse. Enquanto princesa, ela tinha poderes limitados, era sujeita a muita coisa, mas em sua mente ela guardava tudo, sabia que quando fosse rainha à realidade mudaria, a começar pela sua mãe.
Miles resolveu quebrar o silêncio e dirigir a grande dúvida para Rory.
— Como fica o nosso acordo mediante a situação vigente?
— Não creio que haja mais um acordo aqui, Miles. – a voz grave do rei de Medroc rugiu pela sala, fazendo os pelos de Helena se arrepiarem.
— Nós não temos culpa pelo o que aconteceu, Rory. Nem nós e nem o povo. Foi uma fatalidade. – Miles tentava manter a tranquilidade e conduzir a reunião com serenidade.
— Diga isso para você que não perdeu a sua filha em minhas terras. Era sua responsabilidade, meus filhos eram visitantes em seu reino! – Rory levantou de sua cadeira, bateu o punho à mesa e apontou para o rei do outro lado.
— Vamos manter a calma. Sei que está em luto, mas pense com clareza, Buckhaim. Está disposto a jogar tudo para o alto? Vai declarar guerra por algo que somos inocentes? – Miles perguntou firme, mas por dentro ele vacilava. Não queria nem lembrar das épocas de terror de anos atrás. Sentiu a mão da sua esposa segurar firme a sua por debaixo da mesa e apertou-a respondendo seu gesto, tentando tranquilizá-la.
— Eu não quero mais nada dessa terra, eu tenho nojo daqui e não vejo como reparar mais essa situação. – Rory respondeu com cólera em seus olhos.
Aquilo não teria fim. O rei de Medroc parecia irredutível e tudo encaminhava-se para o caos. Era a chegada à hora e a princesa não poderia ficar calada.
— CHEGA! – a voz de soou alta fazendo todos os rostos virarem para ela com o susto.
— Filha... - Miles começou intervir preocupado, mas a garota o cortou.
— Pai, eu tenho algo importante a dizer. – respondeu virando-se para ele, tentou transmitir em seu olhar para que o pai confiasse nela e ele compreendeu.
Os olhos de todos agora a miravam. Jeffrey a fitava profundamente deixando-a desconcertada, mas isso não a faria vacilar. Estava pronta e precisava falar.
— Agora a garotinha quer se intrometer na conversa de gente grande? – Rory bufou irritado com a petulância da menina por interrompê-los.
— Eu não sou uma garotinha, Majestade. Sou a futura Rainha de Ílac e estava noiva do seu filho. Tenho muito a dizer – disse cerrando os olhos em direção do rei. - Eu estou grávida de Henrique. – soltou, fazendo toda a mesa exclamar. Estavam atônitos, Helena com a mão sobre a boca, Miles com os olhos arregalados, olhava para a filha com afinco, enquanto Rory parecia ter visto uma assombração.
— Como é? – Rory exclamou exaltado.
— O que você ouviu. O sangue de Medroc corre dentro do meu ventre, um pedaço do seu filho está dentro de mim. – falou firme e pousou a mão sobre sua barriga, que ainda não aparecia saliência.
O rei de Medroc sentou-se vacilante. Ainda tinha a feição mortal em seu rosto, mas percebeu um leve brilho em seu olhar.
— Meu garoto deixou um herdeiro... – o rei balbuciou, ainda desacreditado.
— Sim, ele deixou. – tentou dar um pequeno sorriso, para mostrar complacência ao rei e fazer com que ele ficasse mais vulnerável.
- Helena chamou a sua atenção. – Isso é preocupante. Você não pode ter esse bebê solteira, querida... – ela lembrou. ouvindo isso, fechou os olhos e passou as duas mãos por sobre a barriga em sinal de proteção.
— Ninguém vai tocar nesse bebê. É o sangue de Henrique que está ai. Meu sangue! – bradou Rory, possesso de raiva. Não queria saber de lei, costume ou tradição. Se era o sangue do seu filho que estava ali, ele passaria por cima de qualquer coisa para o manter bem e era justamente com isso que contava.
A mão de Jeffrey tocou o ombro do seu pai, na tentativa de acalmá-lo, levantou-se devagar e ajeitou a gola da sua camisa com paciência. Olhou direto para o rei Miles e passou seu olhar por , cravando-se na menina.
— Creio que sei como podemos resolver tudo isso. – falou tranquilamente com um brilho no olhar. – Pai, você tem dois filhos ainda, o acordo pode continuar. – falou virando-se agora para Rory.
— O que você quer dizer?
— Eu caso com , assumo o compromisso que era do meu irmão Henrique e a criança, enquanto Garret pode assumir o trono de Medroc. A princesa carrega um herdeiro do seu primogênito, não podemos permitir que nada aconteça a ele, além disso, com o casamento, a aliança continua. Ninguém terá mais nada a perder.
— Mas Henrique faleceu já tem três meses... Até o casamento a barriga dela ficará grande e as pessoas desconfiarão. – Helena ressaltou.
— Então nos casamos amanhã. Não importa. Quem comanda aqui? Nós ou eles? Deixem que falem. Se eu não ligo e nem ninguém aqui desta sala se opõe, muito menos eles devem falar alguma coisa. Nós comandamos todo o império e nós ditamos as regras. Dê-me a mão de em casamento e resolveremos todos os problemas. – Jeff passou seu olhar em cada pessoa que estava assentada à mesa e, como ele acreditava, ninguém pareceu contestar a sua decisão, nem mesmo . A garota sabia que era a melhor saída. Não imaginava que as coisas iriam para esse rumo, mas o príncipe estava certo. Além disso, parecia que seguir caminhos inesperados e que não queria era a lida da sua vida, estava acostumando-se com isso. Não poderia ser egoísta, além do reino, deveria proteger sua criança. Casar-se-ia com Jeff e pagaria o preço por suas ações.
Após um tempo com olhares cruzados, vendo o assentimento de todos, Miles estendeu sua mão para Jeffrey, selando então o novo acordo. Um pacto bem mais íntimo e interno. Haviam segredos escondidos que só eles saberiam. Aquela sala estava recheada deles. Um novo selo para a paz, um casamento às pressas, um filho que não era legitimo e mais tantas e tantas coisas que alguns ali guardavam para si. Novos caminhos eram traçados e o destino havia mudado. O que aconteceria adiante? Ninguém saberia...


Capítulo 7

18 anos depois


O casebre era velho e um pouco distante da cidade real, localizado em um pequeno vilarejo, outro reino, milhas distante de Ílac. O local estava bagunçado e as garrafas de bebidas estavam jogadas pelos cantos. O rapaz, debruçado sobre a mesa, relia a carta do seu pai pela décima vez. Havia postergado o máximo que pode, mas agora a situação lhe exigia total atenção. “Está na hora de voltar para casa”. As letras piscavam diante dele. Antes, isso não era uma opção, mas agora… Perderia toda a sua liberdade, sua vida de viagens e descobrimento pelo mundo chegaria ao fim, porém, era melhor do que a situação em que se encontrava no momento. Olhava cautelosamente a caligrafia do pai, até ser interrompido pelo seu amigo, que entrava um pouco bêbado e com uma mulher pendurada ao seu lado.
― Aqui ainda? – perguntou o homem com a voz um pouco embolada pelo alcoolismo. Desvencilhou-se da mulher e caminhou até a mesa, retirando a carta das mãos do seu dono.
― Me devolva isso, agora ! – ralhou, tomando de volta o pedaço de papel, enquanto o seu companheiro apenas ria e se jogava no pequeno sofá da sala.
A mulher, que os observava atentamente, começou a caminhar em direção ao rapaz. Era um homem bonito e atraente. Seus cabelos negros estavam bagunçados e seu tórax, exposto sem a camisa, mostrava o corpo definido que poucos tinham naquela época. Os olhos azuis cintilantes destacavam-se no meio daqueles traços marcantes e da barba negra charmosa dele. Passou reto pelo seu acompanhante e caminhou em passos lentos e sedutores até onde se encontrava o rapaz que ela mirava. Ele estava nervoso e impaciente, precisava tomar uma decisão, e a brincadeira do seu amigo não havia o ajudado em nada.
― Você parece estressado, precisa relaxar. – ela abaixou-se para dizer em seu ouvido com uma voz harmoniosa e sensual. O rapaz não estava no clima, mas não podia negar que era uma mulher muito formosa. ― Qual o seu nome, querido? – perguntou passando a mão pelo peitoral desnudo, descendo vagarosamente até o abdômen dele.
― Isaac.
― É um belo nome, Isaac. – a mulher respondeu lentamente, saboreando cada sílaba, assim como o corpo que ela tanto apreciava.
O amigo dele já estava desmaiado e eram os únicos no local. A bela mulher sentou-se no colo de Isaac, a fim de tentar tirar toda a sanidade dele, que já começava a aderir a ideia de não passar aquela noite com a cama vazia. Ela começou a trilhar beijos no pescoço do rapaz, e em resposta, com a mão esquerda, ele apertou a cintura dela e com a outra começou a descer lentamente a alça do seu vestido, beijando o local exposto.
― O que um faz aqui em nossas terras? – a mulher perguntou, sorrateiramente, no momento que Isaac a despia e beijava o seu colo. Ouvir seu sobrenome sair da boca dela fez todo o seu corpo enrijecer. Ele não a conhecia e não havia dito nada sobre si. Um frio percorreu a sua espinha e a sensação que algo estava errado apoderou-se dele. Retirou a mulher rapidamente do seu colo, empurrando-a para longe. Em seguida, encurralou-a na parede, aterrorizado pela descoberta.
― Como você sabe? – perguntou segurando o rosto dela, a fim de que não desviasse do olhar dele. Um sorriso diabólico se abriu e ela não parecia com medo ou preocupada com nada.
― Eu sei de muitas coisas, Isaac . – estalou o céu da boca e passou a língua pelo lábio inferior, enquanto cobiçava o rapaz com luxúria.
― Quem te enviou aqui? Como me conhece? – Isaac indagou transtornado, não estava gostando nada daquele jogo.
― Muitas perguntas, meu doce rapaz. – ergueu a mão para tocá-lo novamente, mas Isaac afastou-se dela, repudiando-a. A mulher franziu o cenho e balançou a cabeça em negativa, não gostando daquele gesto, e caminhou lentamente até ele, aproximando-os de novo.
― Eu vim te trazer um recado. Eles já te encontraram e estão vindo te buscar. Melhor se render antes que perca a vida.
O sangue de Isaac gelou, ele sabia quem estava vindo, ele precisava ir embora. Sabia que aquele esconderijo não ia ajudá-lo por muito tempo, tudo havia acontecido muito rápido e ele só conseguiu escapar depressa e fugiu para o primeiro vilarejo que encontrou. Furioso com a afronta, o rapaz segurou a mulher pelo braço e arrastou-a até a porta do casebre, empurrando-a para fora, enquanto ela gargalhava.
― Não vai adiantar, Isaac. Eles virão te pegar! – a mulher gritou enquanto Isaac batia a porta na cara dela.
Começou a juntar suas coisas rapidamente, colocando alguns mantimentos, o dinheiro que havia guardado e algumas roupas dentro de sua bolsa. Pegou a carta e enfiou-a no bolso e, em seguida, vestiu um casaco com um longo capuz negro, que o ajudaria em sua fuga. O rapaz esgueirou-se pela janela do fundo do casebre e começou a correr para longe dali. Não olhava para trás, apenas gastava toda a energia dos seus músculos para se afastar o máximo possível daquele local. Já sabia o que devia fazer, precisava voltar para casa, era à hora de atender ao pedido do seu pai.

***


Nas terras de Ílac, a rainha preparava-se para voltar ao palácio. Havia ficado quase um mês fora, visitando as capitais e atendendo o povo. Sentia falta de casa, apesar de que, há muito tempo, não podia chamar o castelo de lar. Mesmo assim, ansiava a cada passo até retornar. As portas se abriram assim que pisou os pés na escadaria real, vários criados corriam de um lado para outro para recepcioná-la. Não a esperavam ali, havia chegado um dia antes do previsto, para o terror e desespero de todos, não que tivessem medo, mas não queriam decepcioná-la.
A capa de veludo vinho que vestia, cheia de detalhes bordados a ouro, escorregava pelo chão liso, seu olhar penetrante não desviava para nenhum lado. Havia se transformado na mulher de gelo, séria e impetuosa, poucos tinham a oportunidade de conhecer o outro lado. Era temida e respeitada por toda a nação. Ninguém ousaria dizer que ela não era tão boa quanto os outros reis, era muito melhor. Realmente, toda a fé que o seu pai Miles havia depositado nela foi comprovada.
— Onde está ? – perguntou para um servo que estava encurvado diante dela.
— Não sei, Majestade. Provavelmente está cuidando do Luigi, ela passou bastante tempo com ele durante sua ausência.
— E meu marido?
— Acho que não levantou ainda. – respondeu um pouco trêmulo, ainda com a cabeça abaixada.
ouviu atentamente e continuou caminhando até o seu quarto, a fim de retirar todos os aparatos que carregava e descansar da longa viagem que fizera. A espada pesava-lhe a cintura, mas dificilmente era mantida afastada, nunca saberia em quem podia confiar, portanto, vivia para manter-se a si própria, sua família e seu povo.
Assim que chegou, abriu a porta do quarto e deparou-se com uma cena que nada lhe agradou. Uma moça nua e esguia dormia sob os lençóis da sua cama, os cabelos bagunçados estavam espalhados pelo colchão. Olhou de um lado para outro, a procura do seu marido, não o encontrando. Adentrou no recinto com passos firmes e conseguiu ouvir o barulho da água que caía da torneira no banheiro.
Os passos de acordaram a jovem moça que estava ali. Ela começou a levantar-se lentamente, esfregando os olhos com os dedos.
— Jeff… – sussurrou a garota, ainda com os olhos meio embaçados por causa do sono.
— Tenta de novo. Quem sabe da próxima vez você acerta. – soou do lado dela, fazendo-a despertar assustada e cobrir-se com o lençol.
Assim que se deu conta de quem estava na sua frente, um leve sorriso começou a surgir no rosto da menina, mas percebendo a cólera no olhar de , resolveu levantar-se rapidamente e sair dali.
— Dormir com o meu marido não te dá o direito de se apossar da minha cama, Reynia. Apareça aqui de novo e será a última coisa que fará. – ameaçou-a. Aquele era o seu quarto, o seu recinto, não admitiria que Jeffrey usasse-o para as suas promiscuidades. Reynia vestiu-se rapidamente e caminhou apressada até a porta, mas, antes de se retirar, deu um breve olhar para a rainha, fazendo uma leve curvatura no canto dos lábios, sutil, mas que não passou desapercebido aos olhos de .
Furiosa, abriu a porta do banheiro, encontrando Jeffrey com o corpo submerso na água da banheira, seus olhos estavam fechados e sua cabeça apoiada na beira, não movendo-se nem por um milímetro com a entrada brusca da rainha no local.
— Eu disse que não queria que isso se repetisse. – bradou em pé, posicionando-se ao lado dele, que apenas sorriu, sem nem abrir seus olhos.
— Também senti sua falta, amor. – falou debochado.
desembainhou a espada, que ainda estava em sua cintura, e estendeu até o pescoço do seu marido, sem medo algum. A lâmina fria tocava a garganta de Jeffrey, e assim, ele finalmente abriu os olhos, contemplando a sua mulher, que possuía o ódio esculpido pelo seu semblante.
— Opa. Não precisa ficar com ciúmes, . – Jeffrey começou a se levantar, após se recuperar do susto do primeiro impacto da espada. Saiu da banheira expondo o seu corpo nu, que pingava e molhava o chão do banheiro. Caminhou para mais perto de , sendo acompanhado pela espada dela que continuava mirando-o sem vacilar. — Meu corpo é todo seu hoje, querida esposa, e ele está morrendo de saudades de você, veja. – olhou para baixo, onde o seu membro endurecia com a visão de diante da sua presença. Poderia ter mil mulheres, mas sempre chamaria sua atenção mais do que todas, era quase como uma obsessão.
— Não vai tocar em mim! – rosnou para Jeffrey, sem alterar o tom de voz. Abaixou sua mão e guardou sua espada novamente. — Vista-se, após o almoço teremos uma reunião e mais tarde preciso que esteja no salão.
— E você vai me deixar assim aqui? Impossível. Venha cá, . Satisfaça o seu marido e depois iremos para lá. Ou você quer que todos saibam que está renegando os seus deveres como esposa? Você sabe que um acordo de casamento requer obrigações, não é? Será que preciso lembrá-la disso todas as vezes? – Jeffrey usou da sua artimanha para barganhar uma manhã de sexo com a rainha. Era o que sempre utilizava quando queria satisfazer seus desejos carnais.
Houve um tempo que não precisava usar de tal artimanha, ele possuía o que queria, mas não mais. havia mudado, não era uma garotinha grávida e assustada, isso era passado, a rainha não permitia que ele agisse da mesma forma que antes.
— Obrigue-me a fazer qualquer coisa com você hoje e, quando menos perceber, eu corto o seu valioso membro fora e nunca mais terá como utilizá-lo, nem em mim e nem em ninguém. – vociferou para ele. Ele sabia que não eram ameaças vazias, sabia cometer loucuras quando queria. Não foi sempre assim. Porém, com o tempo, ela aprendeu a se defender de todos à sua volta. Ela ainda submetia-se a muitas coisas em prol do reino, mas, agora, era do jeito dela.
— Não seja tão má, minha rainha. – Jeffrey caminhou até chegar bem perto, olhando-a luxuosamente com seus olhos azuis anis indecifráveis. Tantos anos e ainda conseguia ficar transtornada com a misteriosidade e intensidade dele.
Jeffrey levantou suas mãos e alisou os braços de , por debaixo da sua capa. Subiu até o seu ombro, tentando conquistá-la para si. Ela não se movia, apenas encarava-o, deixando-o seguir para o que ele queria.
— Minha preciosidade – ele sussurrou perto do seu ouvido, passou os dedos vagarosamente em seus lábios, fazendo-a abrir um pouco a sua boca.
Os olhos dela escureceram-se, ele tomou aquilo como um sinal de desejo, mas só sentia a raiva e o desprezo. Aproveitando-se do toque dele ali, virou-se e mordeu o dedo que a tocava, bem forte, fazendo-o puxar a mão rapidamente e rugir de dor.
— Sua bruxa! – Jeffrey ralhou, apertando seu dedo, que provavelmente, deveria estar sangrando.
— Agora sim usou o apelido certo, doce marido. – abriu um sorriso para ele, virou o rosto e saiu, deixando-o praguejar sozinho no banheiro.
Tirou sua túnica, a espada e a coroa, colocando os utensílios em cima da penteadeira. Olhou de volta para a sua cama, sentindo nojo daquele local.
— Mande os criados queimarem todos os lençóis e o colchão que vocês utilizaram. Eu quero tudo fora do meu quarto. Faça isso, ou você nunca mais tocará sua mão em mim. Não duvide disso. – disse em alto e bom som para que ele ouvisse de onde estava e retirou-se em busca da única pessoa que poderia a acalmar naquele momento.

***


Enquanto partia em busca de no palácio, encontrou Cameron e Sarah, que pareciam alegres naquela manhã.
, você chegou! – Sarah exclamou, abrindo os braços para recepcionar a amiga.
— Sim. Resolvi pular a pernoite e chegar um dia antes. Sempre é bom surpreender as pessoas. – a rainha respondeu com um sorriso esperto nos lábios. Era por isso que era grande, sabia reinar com sabedoria. As surpresas faziam com que ela visse e descobrisse coisas em sua ausência. Por isso ninguém no palácio, ou fora dele, costumava sair da linha, com exceção de Jeffrey, que pouco se importava. — Você parece mais radiante, o que houve?
— Isaac vai voltar! – Sarah exclamou com os olhos marejados, a alegria estampava o seu rosto, estava feliz com a volta do filho.
— Que bom, Sarah! Vocês dois devem estar muito felizes. Estou com saudades daquele menino, provavelmente é um belo homem agora. – comentou feliz pela alegria da sua amiga. Se quando ficava dias longe de , seu coração apertava, imagina se tivesse que passar o mesmo que Sarah, anos longe do seu único filho.
— Finalmente ele resolveu me responder. A qualquer momento estará aqui. Espero que possa finalmente aquietar-se e assumir as responsabilidades que lhe esperam. – Cameron completou, contente, mas com uma expressão um pouco ranzinza.
— Ele será mais do que bem-vindo, tio. Se ele servir a mim e a futuramente, da mesma forma que você serviu ao meu pai e ao meu reinado, sei que Ílac estará em boas mãos. Mas pegue leve com o garoto, ele ficou muito tempo longe e chegará depois de ter vivido uma vida livre pelos reinos. Dê um tempo para que se adapte. – disse sabiamente.
— Ele já aproveitou demais, . Era esse o combinado, agora é à hora de voltar. - seu tio respondeu desgostoso, por ele Isaac nunca teria partido, mas sabia que era melhor dar asas para seu filho enquanto tivesse o poder, do que podá-lo antes da hora e ele fugisse.
— Tudo bem. Quando chegar, levo-o até mim, quero vê-lo. – pediu. — Cameron, de tardinha teremos uma reunião com o General, preciso de você lá.
— Sim, . – Cameron assentiu, retornando ao seu caminho, enquanto Sarah ficou para trás, tentando decifrar o que escondia.
— O que aconteceu? – Sarah perguntou, conhecia bem demais a sua amiga para deixar escapar qualquer coisa.
—Como?
— Achei que quando voltasse estaria radiante e feliz, mas parece cansada, o que houve? – Sarah repetiu a pergunta, fazendo suspirar. Chamou-a até um aposento vazio, para que ninguém as visse e começou a desabafar.
— Reynia…
— Eu não acredito. Jeffrey levou-a novamente para a sua cama?
— Sim, ele faz isso para me provocar. Ele sabe que detesto quando tomam o meu espaço. Ele tende a piorar cada vez que fica muito tempo sem mim, até que eu ceda. A essa altura, talvez os servos já estejam até comentando pelo castelo, caso alguém tenha visto. E o pior, você precisava ver o sorriso debochado dela. – explicou lembrando do semblante de Reynia ao deixar o quarto.
, por que você simplesmente não a expulsa daqui? Mande-a embora. Ela ainda pode te trazer dor de cabeça. Já pensou se ela engravida… um bastardo em Ílac não seria nada bom.
— Eu não posso, Sarah… – falou ressentida, uma culpa caía sobre seus ombros, mesmo que não a tivesse. — Além disso, mesmo que eu fizesse tal coisa, Jeffrey arranjaria qualquer outra para o seu lugar. Ele quer a minha total devoção a ele e isso ele nunca terá. Jamais abaixarei minha cabeça para aquele ser novamente, já me basta às lembranças que me corroem. Além disso, ele não é louco de engravidar ninguém, a aliança estaria arruinada, eu o arruinaria.
Sarah assentiu, mesmo que ainda se preocupasse. Sabia o que havia passado no início do seu casamento. Ela lidou com Jeffrey por muito tempo até poder se impor de verdade, o que só aconteceu depois que ela foi proclamada rainha. Enquanto isso, ela teve que engolir muitos choros e dores. Sarah não sabia nada da vida de antes de ir morar no palácio, mas era uma boa amiga e acompanhava cada fase da rainha desde quando descobriu a gravidez da pequena .
— Ainda tem pesadelos? – perguntou, lembrando uma época em que disse que não conseguia dormir direito com as memórias pesadas que tinha, mesmo que não contasse exatamente o que era.
— Às vezes. Mas não quero falar deles agora. Preciso ver .
— Tudo bem, quando quiser podemos conversar. – Sarah sorriu docemente e apertou a mão da sua amiga em companheirismo.
— Obrigada, Sarah. – sorriu a rainha em retribuição.

***

caminhou até o quarto de , buscando matar a saudade que sentia da sua primogênita. A menina estava sentada de frente a sua penteadeira, olhando para o espelho, enquanto passava as cerdas da escova por seus longos fios castanhos. Ao ouvir os passos da mãe, virou-se e sorriu. , finalmente, após o longo tempo fora de casa, sentiu-se aliviada e feliz. Observar os olhos azuis de era como voltar aos tempos passados, era como saciar uma saudade absurda que ela sentia. Abraçou a sua menina, aquecendo de novo o seu coração. A garota era muito preciosa, era um pedaço de um alguém junto ao dela, e aquilo ali, ninguém nunca poderia arrancar. Estava selado nos genes da sua filha, nos traços que a faziam recordar dele e na doçura que somente havia visto uma pessoa ter.
— Senti tanta a sua falta. – a menina resmungou contra o colo da sua mãe, enquanto os braços dela apertavam o seu tronco.
— Eu também, querida. Você não tem ideia de como é difícil ficar longe de você. – deu um beijo na bochecha da filha, acariciando-a. — Cuidou bem do seu irmão? Como foram os dias aqui sem mim?
—Você sabe que são horrorosos, não é? A tia Sarah sempre vem saber se está tudo bem e tem uma atenção especial com a gente, mas somente isso. Não que eu precise de babá, ou algo do tipo, já estou bem grandinha, mas o papai mal me dá bom dia ou boa noite. Sinto-me sozinha sem você. – reclamou, ressentida.
franziu o cenho, sabendo muito bem o que sua filha estava dizendo. Não gostava de saber que se sentia dessa forma. A garota sofria pela falta de carinho do “pai”, por isso era tão apegada à mãe.
— Seu pai não é uma boa referência, meu amor. Não se pode querer que dele saia qualquer coisa como amor e carinho. São duas palavras que não fazem parte do seu vocabulário. – tentou minimizar a situação.
—Não é verdade. Eu vejo a forma como ele olha para o Luigi, há ternura e afeto. Ele passa horas com ele na sala de combate, sempre o chama para as refeições e até levou-o na floresta para caçar na semana passada. – dizia, sobrecarregada com o desprezo de quem ela considerava o seu patriarca. Não tinha uma figura masculina de referência e, por vezes, preferia nem ter. Possuía um dilema entre querer ou não se aproximar do seu pai, já que todas as vezes que havia o feito, só se decepcionara com ele.
— Como assim eles foram caçar na floresta? – perguntou, afetada. Não era o tipo de coisa que trazia boas lembranças a ela.
— Acho que não foi nada demais. Na verdade, creio que nem saíram muito do bosque, fique tranquila, mãe.
— Não quero o Luigi indo àquele lugar. – disse com um tom de voz gélido por causa das recordações que tinha, seu estômago embrulhava-se todas sempre que algo lhe lembrava a cruel morte de Henrique.
— Então terá que dizer ao papai isso, ouvi-os combinarem de irem novamente semana que vem.
— Farei isso. – decretou – Mas o que mais você fez durante esses dias? – resolveu mudar de assunto.
— Passei alguns dias a mais com a vovó. – declarou, mesmo contra o agrado da sua mãe.
― Você tem a visitado? – perguntou, não conseguindo disfarçar uma careta irredutível.
― Sim! – a menina respondeu com ternura. ― Ela está tão bem, mamãe. Você precisa ver como evoluiu. Se continuar assim, creio que ela poderá sair logo de lá. – completou abrindo um sorriso largo e esperançoso.
A rainha franziu o cenho, desconfiada, havia perguntado, mas dentro de si habitava um conflito interno entre saber ou não. Além disso, tirar a mulher daquele local, não era uma opção, se dependesse dela, a mulher ficaria lá para sempre.
― Por que não vai visitá-la? Ela ficaria tão feliz… – sugeriu a menina, tocando a mão da sua mãe que, imediatamente, recolheu-a.
― Não. – respondeu séria.
― Eu não entendo… – sussurrou.
― Há coisas que não precisa compreender, querida. Só saiba que eu faço o melhor para nós duas. – completou beijando a têmpora da garota.
— Ela disse que estava com saudades. – sussurrou, sabendo que estava pisando em um terreno desagradável para a sua mãe. — Ela quer te ver.
contorceu-se. Já havia um bom tempo que não visitava Helena. A última vez faria quase um ano. Apesar de estar no castelo, não queria ver a sua mãe, olhar para ela remetia às lembranças de toda a maldade cometida. As palavras duras que ela dissera quando precisou dela, soavam nitidamente na sua cabeça. Sua mãe havia aberto mão da própria filha, então apenas retribuiu o fato.
— Podíamos trazê-la para um quarto melhor no castelo, deixar ela perto da gente. Se ela estiver rodeada da família, creio que a sua recuperação seria ainda mais rápida. Ela superaria o que passou depressa.
— Não! – foi enfática ao dizer.
— Mas mãe… é a vovó! – implorou.
A menina tinha um coração enorme, era bondosa e caridosa. Não tinha as imagens que possuía. Para ela, Helena era uma avó amável, que havia perdido a sanidade após o trauma.
— Ela está bem onde está, . Tudo tem o seu tempo, quando ela estiver melhor sairá de lá, caso contrário, continuará no local que coloquei até que se recupere.
— Mas aquele lugar é tão estranho, mãe. Eu sempre sinto um ar sombrio quando desço aquelas escadas. Eu sei que vocês reformaram tudo para recebê-la, mas saber que ali era utilizado há décadas atrás para torturar pessoas, me traz calafrios.
— Não se preocupe, filha. Ela está onde absolutamente deveria estar. – disse suave, abrindo um longo sorriso confortante à princesa, mas que, para a rainha, significava muito mais.
— Tudo bem, mas promete que irá vê-la? Se não for por ela, faça por mim! – a princesa olhou para a mãe com seus olhos azuis brilhantes, não conseguiria negar nada a eles.
— Sim! Prometo, querida. – beijou a testa da sua filha e levantou-se. — Irei ver o Luigi agora, depois nos falamos mais.
— Tudo bem, mãe. Irei ao lago com as criadas agora pela manhã, mas estarei de volta para o almoço. – assentiu, pedindo que tivesse cuidado e retirou-se do quarto, enquanto a princesa terminava de se ajeitar.
colocou um vestido simples e leve, estava indo para o bosque, não precisaria de muitos apetrechos, apesar de gostar de utilizar cada um deles. Porém, para ir para tal lugar, era melhor que fosse com roupas mais práticas. O vestido era fácil de se vestir, precisava somente enfiar o tecido azul pela cabeça e colocar um cinto em sua cintura, a fim de marcar o seu corpo. Colocou também uma capa de tecido fino pendurada em seus ombros, o pano possuía um capuz para caso a princesa precisasse utilizar para se proteger em meio à natureza. Pegou uns acessórios e uma toalha, colocando tudo em uma bolsa e saiu do seu quarto.
Chamou suas duas criadas de confiança e foram caminhando em meios aos pedregulhos até o local que tanto amava. Não sabia o que tinha ali, mas aquele lago a fascinava, era como se contasse mais histórias do que poderia imaginar. Sempre que podia, ia banhar-se ali e refrescar-se no calor do verão de Ílac.
— Tem certeza que não tem ninguém aqui, princesa? – uma das servas perguntou.
— Sim, Linade. Pedi que os soldados se mantivessem longe, não precisamos de escolta para vir aqui. Eles já me conhecem o suficiente para saber que não podem se aproximar quando venho ao lago.
— Mas e se aparecer alguém? – a outra perguntou. Estavam acostumadas com as idas de ali, mas sempre se preocupavam, com medo que vissem a princesa naquele estado, afinal, tinham ordens diretas da rainha para ficar de olho nela. Não queriam a princesa exposta.
— Ninguém vai aparecer. Fiquem tranquilas. Afinal, só há duas passagens até aqui, ou por dentro do castelo, que está restringida segundo a minha ordem, ou beirando a floresta, pela trilha. Mas ninguém faria isso para vir ao palácio, não tem fundamento. Quem do povo iria querer invadir o local, correndo o risco de serem mortos pelos soldados? – explicou, retirando a sua roupa e entrando apenas com suas vestimentas íntimas na água.
Mergulhou, aproveitando-se da temperatura amena e relaxando o seu corpo no lago. Adorava estar ali, poderia esquecer os problemas com seu pai ou qualquer outra coisa que viesse lhe afligir. Era uma sensação de liberdade profunda e impagável.
Enquanto as duas mulheres sentavam-se à espera de , a princesa submergia e perdia a noção do tempo, enquanto nadava para lá e para cá. Olhou para cima e viu que o sol já estava quase no meio do céu, já era à hora de voltar. Nadou até a parte mais rasa e assim que viu que o seu pé já alcançava a areia do fundo, começou a caminhar para sair dali, deixando seu tronco seminu a mostra.
Sorriu ao ver as duas que a esperavam ali, pacientemente, mas seu sorriso murchou ao ouvir um barulho de um galho se quebrando logo à direita. As mulheres gritaram ao reparar a presença de uma quarta pessoa no local, fazendo com que gritasse também assustada e tentasse se cobrir com as mãos. Olhou na direção daquele som e notou um belo rapaz que a olhava, hipnotizado.
Assim que percebeu que havia sido flagrado, alarmou-se e ficou sem reação, porém, logo em seguida, o seu olhar caminhou por todo o pedaço de carne exposto do corpo da princesa, uma visão tão intensa que sentia como se queimasse a sua pele. O rapaz a observou atentamente, até cruzar o seu olhar com o dela e abrir um pequeno sorriso travesso, uma pequena curva lateral formou-se em seu lábio, uma expressão completamente recuperada e que demonstrava um intenso desejo ardente ali.



Capítulo 8

Isaac preferiu chegar ao castelo pelo atalho dos fundos, beirando a floresta. Poucos sabiam aquela trilha, era praticamente uma rota de fuga caso houvesse alguma invasão. Como sempre foi um explorador, conhecia todos os pormenores do local, assim como as passagens secretas e os locais antigos e obscuros do castelo. Não queria fazer alarde com a sua volta, por ele nem estaria ali, mas as circunstâncias o obrigaram a tal decisão.
Sentia falta dos seus pais, porém não queria retornar e ser engessado por Cameron em um modelo que ele visionava para o filho. Talvez se seu pai não o obrigasse a tantas coisas, ele até se interessaria, mas as exigências faziam com que ele rejeitasse tudo aquilo, resolvendo então partir.
O que ele não esperava é que se depararia com uma moça tão bela pelo caminho. Ao chegar perto do lago, ouviu algumas conversas e risadas, andou devagar para não assustar ninguém e foi em direção ao som para saber quem estaria ali. Quando conseguiu avistar, encantou-se pela formosura da garota que saia das águas, parecia um ser mitológico, como os contos das sereias que encantavam os homens. Sua pele clara estava exposta e gotículas de água desciam por seu corpo, os cabelos castanhos, em um tom escuro por estarem molhados, colavam-se nas costas dela. Ao se virar, pode notar os traços delicados do seu rosto, a boca rosada convidativa parecia clamar por ele e os olhos azuis davam o toque especial na graciosidade que ela emanava. Foi instantâneo o caminhar que ele deu na direção dela, fazendo um barulho que assustou as mulheres que estavam ali.
A surpresa por ter sido descoberto durou poucos segundos, Isaac não era do tipo que se abalava fácil. Logo que viu a garota virar-se para ele completamente apavorada, só se sentiu mais privilegiado por poder contemplar as curvas descobertas do seu corpo, que fizerem um sorriso malicioso surgir em seus lábios.
― O que está fazendo aqui? Quem lhe deu o direto de me espiar? – perguntou furiosa ao notar que o rapaz lhe admirava e correu para pegar as suas roupas, que estavam sendo entregues pelas mãos das criadas. ― Vire-se, agora! – ordenou enquanto tentava se vestir apressadamente, arrancando uma gargalhada de Isaac.
― Linda, a natureza é aberta a todos. Eu não tenho culpa que ela me deu a oportunidade de apreciar uma beldade saindo das águas. – Disse rindo e piscou para ela, sem desviar o olhar.
― Eu poderia mandar cortar sua cabeça por causa disso, sabia? – a princesa indagou-o, colocando o vestido, enquanto as criadas enfileiravam na frente dela para tampá-la do rapaz. A roupa simples que havia escolhido para aquele dia não denunciava a sua linhagem real e Isaac apenas achava graça em como uma mocinha podia ser tão petulante.
― Hum, acho que não. – colocou o dedo em seu queixo, como se estivesse pensativo. ― Creio que não pode fazer muita coisa contra mim. – respondeu, caminhando até ela.
― Quem você pensa que é? Diga-me o seu nome! – colocou suas mãos na cintura, após vestida, fuzilando-o com o olhar.
― Nomes são para os íntimos, linda. Talvez se a gente se conhecer melhor, eu posso te dizer o meu e você o seu, que tal? – Isaac disse passando por entre as duas mulheres, posicionou-se em frente à e tocou sua bochecha com o dedo.
abriu a boca levemente, embasbacada, nunca havia sido cortejada descaradamente daquela maneira. Franziu o cenho para o belo rapaz que tentava a desequilibrar e empurrou a sua mão para longe dela.
― Afaste-se de mim ou eu mando prendê-lo imediatamente! – cuspiu furiosa. Era a princesa, será que ele não a respeitaria?
A raiva da garota a sua frente só fazia Isaac querê-la ainda mais. Ficava ainda mais bela com as sobrancelhas unidas, em uma tentativa doce de se mostrar brava. Quem era aquela plebeia corajosa que achava que podia mandar prender o filho de Cameron , primo da Rainha de Ílac?
― Você gosta de dar ordens, não é, deusa? – perguntou divertido, imaginando outras ordens que gostaria que a beldade pudesse dar. A menina, compreendendo as segundas intenções dele, resolveu entrar no jogo, a fim de colocá-lo em seu devido lugar.
― Adoro! – um pequeno sorriso irônico formou-se no rosto de . ― São os ossos do ofício, afinal, sou a princesa de Ílac. – terminou de abrir o sorriso quando viu o de Isaac murchar, tamanha a surpresa.
Como não havia reconhecido a garotinha que viveu parte da sua vida com ele no castelo? Agora ela havia se tornado uma linda mulher, Isaac jamais saberia.
… – soprou surpreso.
― Ah, você finalmente se deu conta?! – a princesa debochou dele.
A superioridade de não durou muito tempo, logo um sorriso ainda maior foi aberto por Isaac e mil coisas eram confabuladas em sua cabeça.
― Isso será divertido… – as palavras dançaram na boca do rapaz, que estendeu a mão para a princesa, fazendo com que ela o encarasse, sem conseguir compreender. ― Isaac ! Quanto tempo, priminha.
― Isaac? – indagou-o, surpresa. Não via o primo há anos. Se o encontro não tivesse sido conturbado, ela teria ido até ele e o abraçado, porém, agora estava completamente envergonhada por seu parente ter a visto daquela maneira. Suas bochechas coraram e a vergonha acendeu-se por todo o seu corpo. O seu próprio primo estava flertando consigo.
― Lembrou ou eu fiquei tanto tempo fora que não se recorda nem do meu nome? – perguntou, recolhendo de volta a sua mão que havia ficado no ar.
― Isso é inacreditável. Vamos, garotas. – praguejou, inconformada com a situação, e chamou as criadas para irem embora.
― Eu sou real, , pode me beliscar se quiser comprovar. Só não tão forte, tudo bem? Não curto esse negócio de prazer na dor. – brincou maliciosamente, correndo atrás dela e fazendo com que a princesa rolasse os olhos.
― Me deixe em paz. – falou, tentando ignorar Isaac. Por um momento havia admirado a beleza dele, sentiu a chama no olhar do primo na primeira vez que se avistaram, agora, estava extremamente constrangida com o fato e com a insistência dele, mesmo sabendo quem eram.
― Será meio difícil, deusa. Vamos conviver um bom tempo juntos agora que eu voltei. – riu com a irritação da garota.
acelerou os passos para se afastar dele, mesmo sabendo que, se quisesse, ele a alcançaria. Suspirou profundamente e continuou a caminhar rumo ao castelo, precisava se recuperar daquele encontro. Isaac preferiu deixá-la ir, mesmo que ficasse tentado a persegui-la. A garota havia mexido com os seus ânimos e o fato de que era sua prima ou a princesa não mudava nada para ele. Estava enfadado de ter que voltar ao castelo, mas agora as coisas não pareciam tão entediantes assim, algo lhe dizia que ele gostaria bastante de estar ali e por isso, ele sorria.

***

Isaac avistou o pai e seu rosto exprimiu a alegria por vê-lo, fazia muito tempo que havia deixado o lugar e, apesar de ser um amante de viagens, ele sentia falta da sua família. Cameron esboçou um sorriso gentil e ambos caminharam em direção um ao outro. Quando chegou na frente do filho, a expressão alegre do pai se esvaiu, fechou o semblante e deu um tapa, não tão forte, no rosto do garoto, que ergueu a mão até a bochecha, confuso, e arqueou a sobrancelha, sem entender a recepção do pai.
― Isso foi por ter desaparecido, não visitado a gente e não ter dado notícia de vida. Sua mãe deve ter envelhecido uns dez anos durante a sua ausência. – disse sério para ele. Logo em seguida, abriu um sorriso e puxou o garoto em seus braços. ― Agora isso, é por você ter finalmente voltado, obrigado por atender o meu chamado, filho, seja bem-vindo ao lar. – falou o abraçando com sinceridade.
Isaac riu e devolveu o abraço ao pai, até o momento que pode ouvir um grito feminino ecoar pelo salão.
― Isaac! – Sarah exclamou ao ver o filho. Seus olhos encheram-se de lágrimas, foi de encontro a ele correndo, quase o derrubando ao jogar o seu corpo sobre o rapaz.
― Mãe, como senti sua falta – beijou o rosto dela, emocionado. Sua mãe era muito especial para ele, sua maior dor era estar longe dela, todavia, mesmo assim, não foi motivo o suficiente para fazê-lo voltar.
― Meu menino, você está tão grande, é um homem feito. O tempo passou tão rápido. – Sarah dizia, admirando o rapaz que já era um belo homem, a barba pelo rosto, o corpo forte e sua altura, mostrava o quanto ele tinha desenvolvido longe dos olhos dela.
― Também senti a sua falta. – Isaac respondeu com a voz um pouco embargada devido à comoção.
― Desafogue o menino, Sarah, ele precisa respirar. – Cameron interrompeu o momento, puxando-o um pouco para o lado.
― É o meu filho, Cameron, eu vou afogá-lo o quanto eu quiser. – Sarah respondeu, ignorando-o e continuando a mimar o rapaz, que riu da situação.
Ficaram um tempo por ali, abraçando-se e matando a saudade. Ver o sorriso no rosto dos seus pais fez com que o peito de Isaac se apertasse e se arrependesse de ter passado tanto tempo fora.
Colocaram algumas conversas em dia, mas Cameron tratou de pedir que Sarah deixasse o restante para mais tarde, pois o rapaz precisava descansar e se arrumar para o almoço com a realeza. Ele não poderia aparecer com as roupas que utilizava, nem parecia que era um . Porém Isaac sempre gostou disso, não queria que o tratassem diferente ou que abusassem dele por ser alguém importante para a rainha de Ílac, apesar de usar o sobrenome, às vezes, quando queria algo ou alguém…
O rapaz seguiu em direção ao seu antigo quarto, sendo seguido pelo seu pai, que só esperava estar a sós com ele para ter a conversa que pretendia. Percebendo as intenções dele, Isaac suspirou em desagrado, mal chegara e já seria bombardeado pelas perguntas que sabia bem que ele iria fazer.
Enquanto caminhavam, avistou alguém que os observava de longe. Era uma bela moça, a lascívia estampava o seu semblante, Isaac conseguia detectar mulheres como ela, mesmo de longe. Abriu um pequeno sorriso de canto ao perceber que era alvo de um olhar extremamente desejoso por parte dela e, em resposta, a mulher mordeu o canto do lábio, olhando-o profundamente.
― Afaste-se dela. – Cameron ordenou, ao perceber que Reynia fitava o seu filho.
― Eu não fiz nada. – Isaac riu, despreocupadamente, desviando o olhar da bela moça.
― Estou te avisando antes mesmo que aconteça qualquer coisa. Não chegue perto dela, não lhe dirija a palavra e fuja de qualquer encanto que ela possa ter. – Cameron foi reticente.
― Pai, não se preocupe. Eu não costumo cair por mulher alguma. Só não compreendo o motivo de estar tão arredio. – arqueou uma sobrancelha, virou-se para o pai e fechou o seu semblante. ― Por acaso é sua amante? – indagou-o, arrancando uma risada de Cameron.
― Não mesmo, impossível tal coisa. Não se preocupe. – afirmou, colocando uma mão no ombro do filho.
― Então…?
― Você saberá em breve. - foi a única coisa que ele respondeu, deixando Isaac intrigado.
Continuaram andando, até que chegasse ao local. Isaac largou a bolsa em cima da cama e começou a se despir para tomar banho, enquanto o seu pai fechava a porta para que ninguém os escutasse.
― Fez o que eu te pedi? – Cameron perguntou ao filho.
― Claro. Como mais eu poderia ficar livre e, ao mesmo tempo, ter dinheiro para ir aonde quisesse? Está tudo aqui. – respondeu, abrindo a sua bolsa e tirando de lá um caderno grosso e um pouco desgastado.
Cameron pegou-o e folheou algumas páginas, a fim de verificar o conteúdo do objeto. Abriu um sorriso satisfeito, mas preferiu ter certeza antes de realmente se orgulhar do filho.
― É certo que fez tudo direito? – perguntou.
― Claro, pai. Tudo o que eu faço é com maestria. – abriu um sorriso zombeteiro. ― Tudo o que eu consegui estão nessas folhas, eu espero mesmo que zele por elas, não foi fácil.
― Muito bem. – Cameron sorriu, dando um leve tapa no ombro do filho, em sinal de aprovação. ― É por isso que vai ocupar o meu lugar e ser a mão direita da Rainha. Você tem talento, garoto. É esperto e observador, além de ser um ótimo estrategista. terá um bom apoio.
― Com certeza, serei o melhor para ela. – Isaac sorriu, um grande sorriso sonhador, que Cameron não pode decifrar.
― Agora quero saber por que não respondeu as minhas últimas cartas. Faz tempo que nos deixou sem notícias.
― Eu tive alguns problemas… – Isaac deixou a resposta no ar.
― E eu quero que compartilhe eles comigo.
― Nada importante, pai. Nada que não pudesse ser deixado para trás. – falou tentando soar firme. Seu pai não precisava saber que ele só havia voltado agora porque estava fugindo.
― Tudo bem. Espero mesmo. – assentiu com a cabeça. ― irá querer ver você, vou avisá-la do seu retorno. Ela convocou uma reunião à tarde, um pouco antes quero que conversemos com ela, ok? Sabe o que dizer? precisa muito disso.
― Sinto falta dela. É minha prima, mas é como uma tia. - sorriu lembrando de como o paparicava quando criança. ― Estou pronto, pai. Não se preocupe. – tocou o seu ombro, passando confiança.
― Arrume-se, te encontrarei mais tarde então – Disse Cameron antes de se retirar e deixar Isaac se ajeitar no seu antigo quarto, que ainda estava intacto, como se não houvesse ido embora há anos atrás.

***


A família inteira estava na mesa. Era à volta de e o retorno de Isaac, deveria ser comemorado juntos, mesmo que estivessem longe de ser uma família amorosa e feliz. Os reis sentavam em pontas opostas, um em cada ponta da mesa, de forma que pudessem olhar um para o outro, frente a frente. Ao lado de estava, no lado direito, , e do outro lado, Isaac. Ao lado dele, seus pais, Cameron e Sarah e, na frente, do lado esquerdo de Jeffrey, o príncipe Luigi.
― Estou muito feliz de estarmos todos juntos aqui. Senti sua falta, Isaac. Você é como um filho para mim. – falou para ele, contente pelo retorno do rapaz. Sarah parecia estupenda e Cameron, satisfeito. ― Não precisa ficar com ciúmes, Sarah, falo do fundo coração.
― Não se preocupe, . Também considero como filha, então estamos quites. – Sarah sorriu, genuinamente.
― Isaac, você reconheceu a minha menina? Quando foi embora era apenas um garoto levado, veja como cresceu a minha garota. – a rainha perguntou, apontando para a filha. Isaac, que prestava atenção na conversa, abriu um sorriso, lembrando do fato ocorrido pela manhã.
― Realmente, quem diria que a pequena se tornaria uma mulher tão bela. - falou fitando a garota, que tentava desviar o olhar, focando em sua comida. ― Se eu não soubesse, juro para você, Majestade, que a desposaria, sem pestanejar. – terminou tomando um gole de vinho que estava em seu cálice e colocando o cotovelo sobre a mesa, onde apoiou o seu queixo na mão e olhou para a garota.
, engasgou, em surpresa com o atrevimento do rapaz em frente a sua família. Ele falava como se não fosse nada de mais, contudo, ela sabia as intenções por trás das suas palavras. Foi inevitável a carranca que apareceu em seu rosto. Segurou com força a sua faca, tentando se conter e não voar para cortar-lhe o pescoço.
― Isaac, respeite a . – Sarah advertiu-o, arrancando uma risada do garoto.
― Deixe o menino. Ele não disse nada de mais, Sarah. – defendeu-o. ― Todo o reino reconhece a beleza da minha menina. Isaac só disse o que faria caso não fossem primos, não é mesmo, querido? – sorriu para ele. Isaac tinha uma áurea leve e divertida, que sempre arrancava risos da rainha, desde pequeno. Gostava de tê-lo de volta no castelo e costumava paparicá-lo, a contragosto de Cameron e Sarah.
― Claro! Eu seria tido como um grande mentiroso se falasse qualquer coisa ao contrário. – o garoto defendeu-se, pousando uma mão em seu peito.
― A é a princesa mais linda do mundo todo! – exclamou Luigi, arrancando a atenção de todos, que sorriram com a pureza do menino.
Jeffrey deu uma risada debochada, mas que não passou desapercebido pela mesa. Tudo que envolvia a princesa, para ele, era puro tédio. cerrou os olhos, em uma tentativa de passar uma mensagem ao marido, que apenas a ignorou e começou a conversar com o filho.
― Meu garotão treinou hoje? – ele perguntou, mudando de assunto e afagando os cabelos do menino.
― Sim papai, muitão! Veja como estou forte! – O menino sorriu e ergueu os bracinhos, tencionando-os para tentar evidenciar algum tipo de músculo.
― Continue assim e um dia será forte como o papai. – Jeffrey sorriu para ele, enquanto observava a cumplicidade existente entre os dois.
― Lui, amor, como foram os seus dias sem mim? Sentiu minha falta? – resolveu chamar a atenção da conversa, para que assim pudesse englobar o restante das pessoas.
― Sim, mamãe. Um tantão assim, oh – abriu os bracinhos, um esticado de cada lado do corpo, para mostrar o quanto a sua mãe havia feito falta durante aquele mês. A rainha odiava ter que deixar os seus filhos, porém precisava cumprir com as suas obrigações, já que não deixaria Jeffrey tomar a frente e conquistar o fascínio do povo mais do que ela. ― Mas a cuidou direitinho de mim. – alargou o sorriso olhando para a irmã, que sorriu complacente para ele.
― Sua irmã não fez mais do que a sua obrigação, Luigi. Não a exalte. – ralhou Jeffrey e o menino não compreendeu as palavras do pai.
A tensão foi instantânea sobre a mesa, Cameron, Sarah e Isaac tentavam ignorar a postura do rei, contudo era impossível não notar o quanto à rainha estava furiosa e como ficou constrangida com a hostilidade pública do pai.
― Com licença, não estou me sentindo bem, vou me retirar. – informou, segurando para não quebrar na frente de todos os presentes ali. Respirou fundo e deu um sorriso fechado, tentando transparecer que estava bem, retirando-se da mesa em seguida.
Isaac acompanhou a princesa com o olhar, sentindo-se condescendente com a situação, mesmo que não estivesse entendendo muito bom. O tempo fora lhe fez perder muitas coisas, mas ele trataria de buscar saber e se atualizar das notícias dentro daquele castelo.
― Além de tudo é mal educada. – Jeffrey resmungou, levando o garfo à boca e continuando a mastigar, despreocupadamente.
Todo o sangue ferveu no corpo de , ela olhava-o como se pudesse matá-lo ali mesmo naquela mesa, diante de todos, não se importaria. Como desejava a morte infeliz de quem era intitulado o seu marido. Ele não precisava assumir a paternidade de , mas também não precisava humilhar a garota em todo os momentos possíveis.
― CHEGA! – bradou, batendo a mão à mesa, assustando a todos. ― Eu não vou tolerar mais isso! – falou entredentes, tentando conter para não avançar sobre ele.
A expressão do rei se fechou, sentindo-se constrangido por ter sido chamado atenção na frente dos demais. Ele se ergueu da cadeira, ficando em pé também e confrontando-a com o olhar. Sarah, conhecendo bem a rivalidade e tudo que envolvia o casal, cochichou para seu marido e filho para que se retirassem, e sem mais delongas, os três saíram sorrateiramente, pegando também Luigi com eles, deixando e Jeffrey a sós.
― Eu é que não vou tolerar mais as suas afrontas, – disse o rei, fechando o punho, nervoso. ― VOCÊ É A MINHA MULHER! – bradou socando a mesa, fazendo cair alguns pratos e talheres no chão.
pulou um pouco assustada com o barulho, sua carne tremeu, porém não vacilaria diante dele. Continuou olhando-o com toda a fúria que carregava em seu interior e começou a rodear a mesa para enfrentá-lo de perto.
― Eu posso ser a sua esposa, mas você não é o meu dono! – disse suavemente fria. ― Você não manda em mim, Jeffrey, nunca mandou, seu poder pode ser extenso, porém não se compara ao meu. É melhor se acostumar com isso. – prosseguiu com a voz cada vez mais carregada e, inesperadamente, seu marido abriu um pequeno sorriso, intrigando-a.
― Será que preciso relembrar a você os nossos primeiros anos de casamento? – ele inclinou-se para ela, falando baixo em seu ouvido.
Não. Ele não precisava. Aquelas memórias, infelizmente, não conseguiam sair da cabeça dela. Mesmo quando dormia, não havia a paz. A dor cortava-lhe a alma. Podia reviver na sua mente cada instante que os dois tiveram juntos sem o seu consentimento. Algumas marcas cravadas em sua pele, também não a deixariam esquecer.
Um soco foi dado, direto no rosto de Jeffrey, fazendo com que ele cuspisse o sangue que se aglomerou em sua boca. Um ato completamente inesperado, que pegou o rei de surpresa.
― Isso foi pelo primeiro tapa que me deu, há anos atrás. - Terminou de dizer e saiu sem olhar para trás. Ouvindo só o grito ‘vadia’ que Jeffrey expelia pelos pulmões.
Naquela época, não o conhecia a fundo, o herdeiro de Medroc sempre foi um mistério para ela, porém, , ao se casar, jamais esperaria conhecer o seu lado oculto, era completamente não revelado ou estimado. Ele não esperou muito para mostrar quem era de verdade, à noite de núpcias havia sido bem reveladora.

Flashback

, no banheiro, retirava o seu vestido de noiva. Havia acabado de se casar com a pessoa mais inesperada, Jeffrey Buckhaim. Ele havia se disposto a isso, assumindo o lugar do irmão falecido, um gesto nobre que não passou desapercebido aos olhos dela. Agora estava ali, nervosa, sem saber o que esperar da primeira noite com o seu marido. Será que ele seria carinhoso com ela? De Henrique ela esperaria isso, mas o irmão do meio era uma incógnita.
Não tinham intimidade suficiente, o casamento foi feito não muito tempo depois do acordo para que a barriga de não crescesse o suficiente para levantar suspeitas. O vestido foi feito em um modelo justamente para encobri-la. Tudo estava nos conformes, a cerimônia foi festiva e o povo, apesar de ter pranteado o primogênito, parecia contente com a continuação da aliança.
deixou o vestido cair aos seus pés e admirou o seu reflexo no espelho. Uma leve saliência era notória. Tocou o local, fechou os olhos e sorriu, lembrando dos momentos que haviam gerado esse fruto tão precioso para ela. Uma lágrima escorreu por sua bochecha. Um misto de alegria por saber a quem pertencia aquele neném e tristeza, por não ter o destino que queria.
Após algum tempo ali, terminou de se aprontar para noite nupcial. Sentou-se na cama, vestida com um hobby de seda bordado a ouro, a espera do seu marido. O que faria quando ele chegasse? Queria pedir para que ele esperasse mais um tempo, até que estivessem mais íntimos, mas não poderia falar isso para ele. Como poderia se doar a alguém no qual ela não tinha nem o mínimo de interesse? Jeffrey era um homem bonito, porém não despertava nada dentro de si. Fecharia, então, os olhos, e tentaria lembrar da única pessoa que fez com que ela se entregasse de corpo e alma, seria a única saída.
Não passou muitos minutos, a porta rangeu, abrindo espaço para o rapaz loiro, forte e robusto. Ele olhava para ela como se contemplasse a presença da menina ali. Um sonho materializado bem diante dos seus olhos.
Ele caminhou até ela e tocou o seu rosto, deslizando as mãos pelo seu corpo até alcançar o laço da roupa dela, que foi aberto sem hesitação. O príncipe não dizia nada, só passava a mão por dentro do hobby, deixando-a constrangida.
― Jeff… – começou a sussurrar, mas foi interrompida pela mão dele, que tampou a sua boca.
A rainha ficou assustada com o gesto, mas permaneceu quieta. Era à noite de núpcias, sabia que teria que ceder. Quando as mãos dele desceram e tocaram a sua barriga, ele puxou-as de volta e sua expressão era de abominação. Deu alguns passos para trás e afastou-se da princesa, andou até uma mesa que ficava no canto do quarto e puxou uma cadeira que estava lá.
― Sente-se aqui. - ele mandou. , ainda sem compreender, caminhou devagar e tentou cobrir o corpo, em reflexo a vergonha que sentia. ― Não se tampe, quero você nua.
Vendo a hesitação dela, Jeffrey puxou a roupa com tudo, jogando-a no chão e machucando um pouco o braço dela. Aquilo estava passando dos limites, ela sabia que teria que dormir com ele, todavia não precisava que fosse rude.
― O que você está fazendo? – virou-se para encará-lo, mas quase não teve tempo para terminar a pergunta, pois logo sentiu uma bofetada atingir o seu rosto, fazendo-a cair no chão.
― Você não pergunta nada aqui, . Eu falo e você obedece. Seja uma esposa obediente. Eu te fiz um favor. - falou ele, empurrando o corpo dela com o pé, para que virasse para cima e o encarasse.
A boca de sangrava com o soco, os olhos embargados olhavam para aquele ser em sua frente, que não parecia nem um pouco afetado por ter a machucado.
― Me fez um favor? – indagou-o, curvando a cabeça levemente de lado para cuspir o sangue que se amontoou.
― É óbvio. Poderia estar exposta como uma meretriz diante de todos os reinos, mas eu a desposei. Por minha causa o seu nome não está na sarjeta, a aliança está de pé e ainda tem um bastardo no seu ventre, que para todo o povo será como se fosse meu. Ou seja, você me deve muito. - falou como se fosse algo claro.
― Eu não te pedi para fazer isso! – Ela falou indignada, tentando se levantar, porém ele pisou mais firme sobre o seu tórax, impedindo que ela fizesse movimentos. ― Me largue! – ralhou para ele, arrancando um leve sorriso do príncipe.
― Agora você é minha, , completamente minha. - abaixou para falar perto do seu rosto. A princesa sentiu um temor tomar conta de suas entranhas, o rapaz revelava-se alguém completamente diferente. Toda a educação e simpatia dos dias antecedentes ao casamento, havia se esvaído. Quem era Jeffrey, afinal?
― Levante-se e sente na cadeira. - ordenou retirando o seu pé de cima dela.
― Eu não vou fazer nada disso, você não pode fazer isso comigo! – gritou, começando a se levantar, mas um chute em suas costelas a fez cair novamente, fazendo com que ela abraçasse sua barriga de forma protetora.
A dor a deixava imóvel no chão e tinha medo que aquilo prejudicasse o seu bebê de alguma forma. As lágrimas começaram a se acumular e teve medo, não por ela, mas pelo fruto do seu ventre.
― Como é lindo o instinto maternal. – Jeffrey desdenhou. ― Pena que essa criança seja uma bastarda, um fruto maldito que o meu irmão deixou em você, . Se eu pudesse eu arrancaria ele daí agora mesmo – falou dando outro chute na costela dela, que gritou de dor. ― Eu não posso, amor, porém eu te garanto que dou o meu jeito se você não se comportar.
A princesa não conseguiu segurar as lágrimas, o terror pela criança que estava ali tomou conta de si. Uniu toda a força que tinha para tentar se levantar e quando conseguiu, aproveitando-se de uma distração dele, correu em direção a porta, fugindo à procura de ajuda. Foi direto para o quarto dos seus pais, encontrando a sua mãe que penteava os cabelos sentada na cama.
― O que está fazendo aqui? – Helena indagou-a, confusa. Sua filha deveria estar em suas núpcias naquele momento, mas estava ali, nua e com o rosto sangrando, entrando em seu aposento.
correu até ela, desesperada. Mesmo que não tivesse mais afeto pela matriarca, achava que pudesse contar com ela naquele momento. Tinha medo do que pudesse acontecer e temia pelo feto. Agarrou-se no colo da mãe e começou a chorar, abraçando-a fortemente.
Helena, empurrou vagarosamente a filha, para que se afastasse dela e olhou-a intrigada, enquanto a menina enxugava as lágrimas que caíam.
― Ele… O Jeffrey… ele me agrediu. – falou entrecortado, enquanto tentava contar a mãe o ocorrido. A Rainha observou o rastro de sangue na boca da menina e passou os olhos pelo corpo dela que parecia realmente ter sido atingido. Helena fechou os olhos rapidamente, respirou fundo e voltou a fitar a princesa, segurando o seu tom de voz.
, volte para o seu marido. - soou comedida.
― O quê? Você não ouviu o que eu disse? – a menina levantou-se em um supetão, cobrindo o corpo com as mãos.
― Ouvi. – Helena falou tranquilamente, enquanto cruzava as mãos sobre sua perna.
― E mesmo assim a senhora me manda voltar? – perguntou indignada.
― Sim. Volte agora e despose o seu marido, como uma esposa deve fazer.
― ELE AMEAÇOU MATAR O MEU BEBÊ! VOCÊ NÃO TEM UM PINGO DE SENTIMENTO DE MÃE? – gritou exasperada. Não era possível que não havia nem um rastro de afeto dentro daquele ser.
Helena olhou para a pequena barriga da filha e seus olhos tremeram levemente. Piscou duas vezes e voltou a fitar o rosto da garota, fechando o semblante e ficando de pé.
― Dê o seu jeito, . Você está casada agora e precisa arcar com isso. Essa criança é uma consequência sua, assuma então suas próprias saídas. Você é uma princesa e não uma pirralha que vem chorar no colo da mãe. Enfrente o seu problema sozinha. – Falou firme, segurou o braço da filha e começou arrastá-la para fora do quarto dela.
― Como você pode? – perguntou, mas foi ignorada pela rainha que continuou a puxá-la e a levou até a porta. Arrancou um lençol e jogou para ela se cobrir e continuou escoltando-a de volta ao quarto nupcial.
― O meu pai vai matá-lo quando souber… – rangeu os dentes em meios as lágrimas, assim que chegaram em frente ao local.
Helena empurrou a menina contra a parede e depositou suas unhas contra o pescoço da filha, sufocando-a levemente.
― Você quer arruinar tudo? É isso que você quer, ? – falou baixo para não chamar atenção de ninguém, porém firme. ― Se o seu pai mata o filho de Rory, ele vem pessoalmente matar o seu pai e eu faço questão que a próxima morte seja a sua. É uma guerra que você quer? – empurrou mais a cabeça da menina contra a parede, erguendo para que ela pudesse olhar em seus olhos. fitou a mãe com ódio, mas foi obrigada a balançar a cabeça negativamente. Ela não poderia fazer isso. Uma guerra era tudo o que eles menos desejavam e não levaria esse peso nas costas.
― Muito bem. Então estamos entendidas. – soltou o pescoço da filha, que levou a mão imediatamente ao local, tendo certeza que as marcas da mulher estariam ali. Helena deu um beijo na testa da garota, abriu a porta e viu Jeffrey, sentado na cama, parecendo agitado, esfregava uma mão na outra sem parar e balançava o pé freneticamente.
Ao ver Helena entrar com a princesa, seus olhos ficaram estáticos, não levantou, apenas ficou observando-as e analisando os movimentos da rainha, que entrava sem transparecer coisa alguma.
― Ela é toda sua. – Helena falou para Jeffrey, saiu do quarto e fechou a porta em seguida, deixando-os sozinhos.
Um sorriso genuíno se abriu no rosto do príncipe, não esperava aquela reação da rainha. Levantou-se e andou até , que o fitava com medo, já que nada poderia fazer em relação a ele.
― Você não devia ter feito isso,
― O que você quer de mim? – cuspiu ela.
― Muitas coisas, princesa. – sussurrou passando o seu nariz pela pele dela e tocando-a levemente. ― Porém agora você terá que pagar pela sua malcriação.
― Me despose! Toma-me de uma vez! É isso? Acabe logo com esse jogo infernal! – ralhou jogando o lençol no chão, fazendo Jeffrey rir.
― Não precisa ser ansiosa. Teremos a vida toda para isso. Porém não será hoje. – falou evasivo. Caminhou até um quadro, onde se abria uma porta oculta para o quarto ao lado e fez um sinal com a mão, chamando duas mulheres nuas que saiam de lá.
― O que significa isso?
― Você não acha mesmo que eu ia tomar o seu corpo com essa praga dentro de você, acha? – perguntou tranquilamente enquanto passava suas mãos nas cinturas das mulheres, puxando-as para junto dele. ― Aguardem aqui, lindas. – falou para elas e deu um selinho em cada uma, andando até em seguida. ― Agora é a hora da sua penitência. – Deu um murro na costela dela, fazendo-a desabar.
Começou a socar a garota, que apenas pedia para que não machucasse o seu filho. poderia defender-se, mas isso só traria mais problemas. Uma briga com o seu marido não manteria a aliança, precisava, então, suportar. Jeffrey deu vários socos nas suas pernas e tórax, enquanto a princesa se encurvava, abraçada a sua barriga. Chorava pela impotência de não poder fazer nada, estava fadada e entrelaçada a Jeffrey pelo resto da sua vida e a única coisa que pensava era uma forma de aguentar tudo isso, salvando assim o reino e o que ela tinha de mais importante em seu ventre.
O príncipe era esperto, com exceção da boca de que havia cortado no início, nenhum soco mais foi dado em lugares expostos. Prometeu não ferir a barriga dela, desde que ela fosse submissa ao que ele quisesse. E assim, a princesa o fez. Sujeitou-se a cada golpe, cada ferida aberta que corroia o seu sangue e a sua alma. Ao se cansar, Jeffrey ordenou novamente que ela se senta-se na cadeira e dessa forma, assistisse o espetáculo que se seguiria. O príncipe com as duas mulheres.
, meio cambaleante, sentou-se e testemunhou a tudo, não poderia virar o rosto e nem fechar os olhos, era uma ordem. Ele dizia que ela precisava ver o que estava perdendo enquanto carregava o sangue do irmão nas suas entranhas.
E aquilo se prosseguiu, dias, após dias. E quando achava que nada podia piorar, ela se dava conta que não havia limite para a maldade humana.



Capítulo 9

Um pouco distante da cidade real, no acampamento do exército de Ílac, o homem abaixava-se e levantava-se, fazendo as suas flexões. Era um exercício que estava habituado a realizar. Seus bíceps e tríceps tencionavam-se com o movimento, subindo e descendo, de novo e de novo, uma, duas, três… cinquenta vezes, até perder a conta. O suor percorria o seu torso nu, as gotículas desciam pelo seu pescoço, percorrendo cada músculo das suas costas. O cabelo, um pouco grande, grudava-lhe ao rosto. Quando começou a sentir uma pequena fisgada no abdômen, sabia que era a hora de parar, as flexões matinais estavam encerradas.
Pegou uma toalha e passou pelo seu corpo, enxugando o suor, ato este que não passava despercebido pelas poucas mulheres que ficavam por ali. Porém, ele ignorou o mundo ao redor, como sempre fazia quando estava concentrado. Apenas caminhou até a mesa que ficava em frente a sua tenda e pegou dois pães, que havia separado para o seu café da manhã.
Enquanto comia, viu Hector aproximar-se, um pouco manco, e ajeitar-se na cadeira ao seu lado. Sua expressão não parecia das melhores, havia uma leve carranca e apresentava-se comedido, provavelmente falaria algo que não gostaria de escutar.
― Diga o que quer. - perguntou para o general, colocando o restante do pão no prato e arqueando a sobrancelha.
― Quero que me substitua. - Hector foi curto e direto.
― De novo isso?
― Sim. E vou pedir sempre, até que acate logo de uma vez.
― Eu não quero posição nenhuma, Hector. - disse , impaciente.
― Eu sei disso. E por isso te tornas ainda mais digno para tal posição. É o único que confio plenamente, . Eu já estou velho e um pouco manco. Não aguento muita coisa mais, a rainha tem um voto de gratidão comigo, mas logo ela me perguntará quem irá me suceder e eu quero anunciá-lo.
Ouvir falar dela era sempre amargo e indigesto para . As lembranças da última vez que a tocou ainda ferviam em sua pele. A imagem de foi a única coisa que lhe deixou são e o manteve vivo durante os meses tenebrosos nos mares de Ocland A visão do seu corpo nu, as suas curvas e a pele macia… tudo ainda era vivo em sua memória. Nada poderia apagar aquilo. Mil mulheres poderiam passar por seus lençóis, mil guerras seriam travadas, porém o seu coração fora totalmente comprometido por uma única pessoa, a rainha de Ílac.
― Já te disse que prefiro manter distância deles.
, já se passou tanto tempo, esquece isso. O reino precisa de alguém competente e essa pessoa é você, ou quer que eu continue no cargo neste estado? Porque eu não passarei a minha posição a nenhuma outra pessoa além de você - o general apontou para si mesmo, apontando a perna que já não era a mesma desde que voltaram da expedição.
― Você está pegando pesado, Hector. E você sabe muito bem que, não importa o tempo que se passe, eu nunca vou esquecer a injustiça que me fizeram.
Com o tempo de amizade, o general passou a conhecer melhor o garoto que havia acolhido, aos poucos foi contando, mesmo que superficialmente, o que havia acontecido. Hector entendia o amigo, mas não podia deixar que o passado o impedisse de chegar ao topo, precisava fazer com que o loiro aceitasse o cargo, ele era a pessoa certa para isso.
― Eu conheço a rainha, . Eu sei que ela pode ter errado, mas ela é uma ótima governante, deveria dar uma chance ao meu pedido, não por ela, mas por um bem maior.
― Você não a conhece como eu conheci. Eu também a achava maravilhosa e ela me enganou, assim como engana a todos vocês. - falou amargoso, remoendo tudo o que passaram, as lembranças felizes e tristes entravam em conflito em sua mente. Nunca saberia quem era a verdadeira , afinal.
― As pessoas mudam, - Hector tentou persuadi-lo novamente.
― Eu sei, mas não pretendo conhecer nenhuma outra versão da rainha. O que eu vi foi o suficiente para uma vida inteira. - respondeu, continuando a comer, querendo dar a conversa como encerrada.
Os atos de destruíram o guerreiro. Era um menino doce, alegre e esperançoso, agora não restava muita coisa, apenas a lealdade que tinha com o amigo Hector. Entregar o seu coração a ela havia doído e ele pagava o preço todos os dias por isso, fechou-se para a vida, não confiava nas pessoas, jurou para si mesmo que jamais ficaria vulnerável novamente. O amor enfraquecia as pessoas, um estalar de dedos e tudo se dilacerava, fazendo com que nem a dor física lhe atingisse com tamanha intensidade. Não, não passaria por isso de novo.
― Você ainda gosta dela - O general afirmou cruzando os braços, observando atentamente as reações do homem a sua frente, que parou de mastigar instantaneamente.
― Você só deve estar louco. - ralhou , largando o pão sobre o prato e encarando Hector furiosamente. ― Você sabe o quanto eu a odeio.
― Exatamente, você só trocou o que sentia pela raiva. Quando alguém que você ama te machuca muito, a primeira coisa que o ser humano opta é odiar, na tentativa inútil de esquecer, mal sabem que o ódio é só uma forma de amor camuflado.
― No meu caso não. E o que você sabe sobre amor? Não casou e só tem casos paralelos.
― Talvez eu saiba mais do que pensa, . Sou mais vivido do que você. Está claro que ela ainda mexe contigo, você evita o palácio e quando ela vem aqui, você viaja, além disso, não suporta que falem o nome dela. Isso não mostra superação. - Hector acusou, deixando o amigo irritado.
― Você diz isso porque não sabe o que eu passei! - alterou o seu tom de voz, ficando em pé imediatamente.
― Eu sei o que me contou, não preciso conhecer mais para entender que teu rabo está preso nela até hoje.
O sangue de ferveu ao ouvir aquelas palavras. Sentia vontade de usar toda a sua força para surrar o amigo, porém não faria isso. Em contrapartida, apertou os punhos com força e esmurrou a pilastra de madeira que estava ao seu lado, precisava extravasar, Hector estava passando dos limites. Sua respiração estava descompassada e o peito subia e descia, tamanho o ódio que sentia naquele momento. Tentava todo os dias evitar aquele assunto proibido, mas seu amigo tinha que trazer tudo à tona novamente, lhe levando ao limite.
― Me deixe em paz, Hector. Eu não quero saber mais da .
― Por que, ? - O General perguntou, chegando mais perto dele, não tinha medo do amigo, precisava provocá-lo até que ele derrubasse os muros que havia imposto. precisava superar, o posto de general deveria ser dele, porém antes ele precisava enfrentar os seus demônios interiores. ― , , - começou repetir o nome da rainha inúmera vezes, irritando-o. pousou as mãos sob os ouvidos, gritando para o amigo calar a boca. ― Confesse! Fala logo que nunca a esqueceu, diga que pensa nela e que você só não aceita o cargo por causa desse maldito lance que você teve com ela.
― Cala a boca, Hector! Quer gritar aos quatro ventos para que todos saibam que eu dormi com ela? - falou baixinho, entredentes, girando o corpo em direção do general, com a voz carregada de ira.
―Está preocupado com ela? Mas você não acabou de dizer que a odiava? - riu em deboche por ele estar se entregando.
deu um grunhido profundo e empurrou o amigo para longe dele, fazendo cambalear e quase cair ao chão. O rosto estava vermelho e sentia-se o mesmo moleque que havia sido escorraçado de casa há tantos anos. O mesmo menino que um dia havia salvo a linda garota de cabelos negros de um casamento prematuro, mas que depois foi enxotado como uma praga. Tantas juras de amor que atormentavam o sono de , as palavras que o machucaram e as noites de amor. Como tentar esquecer quando a ferida é tão profunda? Era como uma cicatrização mal feita que forma um enorme queloide, sempre que olhar estará ali, feia, para mostra que um dia o machucado aconteceu.
― Droga, Hector. Talvez eu não tenha esquecido mesmo, é isso que queria ouvir? Talvez o maior ódio que eu possuo seja de mim mesmo, por ainda sentir alguma coisa por quem me fez sofrer tanto. E sabe por que eu não quero aceitar porcaria de cargo nenhum? Quer saber o motivo que eu a evito tanto? Porque eu sou um medroso. Sim, é isso o que eu sou. Eu tenho medo de que, caso eu a veja de novo, eu desarme ou ceda, como fiz da última vez. Eu sou um fraco e me odeio por isso. - terminou com os olhos marejados, repugnando o fato dela ser o seu calcanhar de Aquiles. Para todos, era o homem inabalável, a pedra, o guerreiro imbatível, denominado como Rochedo, porém, no fundo da sua alma, havia uma fraqueza, e o nome dela era .
Ele colocou as mãos sobre o rosto e jogou-se sobre a cadeira, sem forças. Sentia-se exausto e muito mal por colocar tudo isso pra fora. Era como se não tivesse superado nada por tantos anos e isso o fazia praguejar contra si mesmo.
― Tudo bem, garoto. - Hector deu um tampa leve no ombro dele, chamando-o como sempre falava com ele, desde que o conheceu e aproximando-se ― O amor faz isso com as pessoas, nos deixam vulneráveis e medrosos, mas você é , o melhor guerreiro de Ílac, o herói de guerra da expedição de Ocland, a pessoa que salvou a minha vida. Supere isso e tome o lugar que é seu por direito!
― Se superar fosse fácil eu já teria feito isso há muito tempo…
― Não estou dizendo para esquecer tudo o que passou, porém você pode ser maior que tudo isso. Não pode contornar a sua vida por causa dela, pois ela não parou a dela por você. A vida segue e precisamos tomar decisões que farão parte do nosso futuro, podendo ser elas fáceis ou não. O que eu garanto é… Você tem força suficiente para enfrentar qualquer coisa, só depende da sua busca interior.
suspirou profundamente, sabia o quanto Hector estava certo. Não que quisesse ou almejasse o cargo do amigo, pelo contrário, enquanto o general estivesse vivo, não assumiria aquela posição. Porém sabia o quanto era importante para Hector o seu apoio, ainda mais depois que ele não tinha mais as mesmas habilidades de antes. mais do que nunca, precisava ser o seu braço direito e, para isso, ele precisaria acompanhá-lo aonde quer que fosse, até mesmo no castelo.
― Eu não vou assumir o seu lugar, Hector. - falou olhando firme para o amigo e antes que ele começasse a retrucar novamente, ergueu a mão, para que ele se calasse e continuou a dizer. ― Não é pelos motivos que você acha. Eu realmente não quero ocupar o seu lugar, você ainda é forte e enquanto estiver com saúde, será o general. Entretanto isso não quer dizer que não estarei ao seu lado te ajudando. Eu largarei essas merdas para lá. - falou decidido.
Hector abriu um sorriso satisfeito, sabendo que havia conseguido chegar em algum ponto com toda aquela conversa. Sentia-se mal por jogar as tralhas de direto em sua face, mas se era isso que o amigo precisava para se erguer, ele faria tudo de novo.
― Quer que eu vá no castelo com você, converse com a rainha ou qualquer outra porcaria? - prosseguiu falando. ― Ok. Eu irei por você. Um dia eu era um garoto sem perspectiva, órfão e sozinho, e você me salvou, me deu um lar e um futuro. E é por isso que eu vou até lá. Quer dizer a ela que eu serei o próximo General? Pode falar. Só não assumirei agora em honra a você - disse estendendo a mão e Hector pode perceber a sinceridade no olhar dele.
Hector alargou ainda mais o seu sorriso, sabendo que finalmente teve um progresso ali. Apertou a mão do amigo com firmeza, um pacto selado entre eles, uma irmandade construída em meio as tristezas do exército.
― Vamos hoje mesmo para o castelo.
― Mas já? - indagou.
― Preciso aproveitar o seu súbito de coragem. - o general disse rindo. ― Além disso, eu já recebi um memorando da Rainha antes da sua última viagem e ela não costuma ser muito paciente, vamos hoje e falo que você será o meu sucessor. Assim ela ficará mais tranquila.
apenas balançou a cabeça, assentindo. Não estava preparado para voltar para aquele lugar, mas sabia que era necessário. Deveria ir agora antes que voltasse atrás na sua decisão e decepcionasse o general mais uma vez.
― Hector… - Chamou-o antes que ele se retirasse.
― Diga.
― Você sempre está lá com eles, conhece-os mais do que os cidadãos ou qualquer outro soldado… - começou a perguntar e, quando se referia a ‘lá’, Hector sabia bem que ele falava sobre o castelo e a realeza.
― Aonde quer chegar? - o general cruzou os braços e olhou em direção ao amigo que parecia constrangido.
― O Rei Jeffrey… Como ele é? Não digo a imagem dele que todos veem, pergunto a sua sincera opinião.
Hector estranhou o súbito interesse do amigo, arqueou uma sobrancelha e após uns segundos, o canto da sua boca começou a se inclinar em um pequeno sorriso, entendendo o porquê do questionamento.
― Você quer saber como ele é como rei ou como marido da rainha ?
deu de ombros, olhando para o pedaço de pão largado sobre o prato e ignorando a pergunta do general, queria apenas que ele respondesse e se desse por satisfeito, sem mais perguntas. Hector vendo a mudez dele, riu descaradamente, balançando a cabeça.
― Eu vou responder sobre os dois, já que você não escolheu opção nenhuma. Ele é um rei razoável. Não chega aos pés do que Miles foi um dia, mas talvez a culpa não seja dele, a Rainha ofusca qualquer coisa que ele tenta fazer. É o nome dela que você vê nas ruas e não o dele. Ele já foi mais presente, no início ele ia com ela pelas passeatas nas ruas, participava mais ativamente das reuniões, conselhos, visitas… Hoje nem tanto, creio que com o tempo ele se acomodou, já que a rainha tomou todas as rédeas. Na verdade, por um bom tempo ali, para quem estava mais perto, parecia uma batalha de egos, entretanto é responsável demais para deixar que as intrigas com seu marido tomassem o lugar do que era importante, o reino. Agora… quanto a relação deles como casal, não sei te dizer. Eles nunca demonstraram nada. É diferente de quando era Miles e Helena. Você via o amor no rosto de ambos, ele idolatrava a esposa. Já Jeffrey e … não vejo nada. Talvez sejam só mais reservados, não sei… Respondi a sua pergunta?
― Sim… - respondeu, evasivo.
― Tudo bem. Vou ver como a equipe Alpha está indo com os treinos. Se prepare mais tarde para partirmos. Não vá fugir de mim.
― Não vou! Que saco, Hector. - ralhou jogando um pedaço de pano que estava em sua mesa para cima do general, fazendo-o rir antes de se retirar.

Aquele dia seria longo, sabia disso.
Tentou preparar-se psicologicamente toda manhã, durante o almoço e o início da tarde. Treinou com os homens, fez reuniões com alguns espiões das fronteiras, porém nada era suficiente. Sua mente sempre voltava para lhe lembrar que hoje ele veria .
Já havia visto a mulher de longe algumas vezes, quando ela fazia suas aparições pela cidade. Porém, apresentar-se a ela como o grande guerreiro ? Nunca.
Quando voltou da expedição de Ocland, Miles quis o condecorar por sua bravura, entretanto ele negou. Faria o que fosse preciso para manter-se afastado daquela gente. Mas agora estava ali, terminando de se aprontar para encontrar a sua antiga amada. Encheu-se de coragem e deu o passo que tanto temia. Independentemente do que havia passado, enfrentaria os seus terrores e andaria em frente. Não pararia a sua vida por causa dela, ela não merecia isso. Após tanto tempo, estava na hora de revê-la.

***


No castelo, após o almoço desastroso, Isaac foi atrás de . Não entendia o motivo de tanta hostilidade proveniente do seu pai, por isso ficou preocupado. Por mais que ela tentasse transparecer que estava bem, ele sabia que a princesa havia saído da mesa por causa do destrato do pai, não precisava nem ser muito inteligente para perceber isso.
Rodou pelo castelo, passando pelo quarto dela, várias salas, cozinha, e aposentos, mas nada de a encontrar, até que lembrou de algo, memória de anos atrás, quando ainda eram crianças. Sabia aonde a acharia. Caminhou, subindo três andares de escadas, até chegar em um pequeno terraço, lá havia uma bela varanda com vista para a floresta ao lado.
Sorriu ao ver os longos cabelos castanhos de , mas o mesmo tempo, murchou-o, ao ver que ela chorava. Aproximou-se lentamente para não assustá-la. Ela olhava para o horizonte, triste e sem vida, não era a mesma menina que havia visto no lago, faltava-lhe o furor e o fogo em seus olhos. Precisava fazer algo para desviar a atenção dela dos momentos anteriores e decidiu agir da forma que ele melhor sabia, tinha certeza que funcionaria.
― O que você tem? - perguntou a ela, assustando-a com a sua presença.
A princesa, imaginando o importuno do rapaz, resolveu enxotá-lo, querendo ficar sozinha com seus próprios lamentos. Não queria lidar com ele naquele momento. Mas a contragosto dela, Isaac queria justamente o contrário. Melhor que ela se irritasse com ele, do que lembrar das palavras duras do pai.
― Me erra, Isaac. - ralhou para ele - Me deixe em paz. Sai daqui. - balançou a mão para ele e depois passou na bochecha, enxugando uma lágrima.
O rapaz abriu um pequeno sorriso e aproximou-se, pronto para deixar a língua afiada agir.
― Errar por quê? Você é toda bonitinha e perfeitinha do jeito que é. Deixe como está - falou piscando para ela e foi impossível a princesa não sorrir. Ele era um inconveniente, porém era engraçado, precisava confessar. Como ele conseguia fazer esse tipo de coisa mesmo nos momentos mais importunos?
Balançou a cabeça e ignorou o que o primo havia dito, voltando a olhar a floresta. Por um instante, percebeu que sua atenção já não estava no pai e quando olhou para Isaac, viu um brilho de felicidade.
― Por que está feliz? - Ela resolveu perguntar.
― Porque tive algo que queria, consegui te fazer sorrir. - explicou com um pequeno sorriso contido, diferente do que ele dava sedutoramente nas outras vezes. conseguiu entender o que ele quis fazer com o gracejo e agradeceu internamente pelo primo não ser tão babaca quanto ela pensava antes, talvez ele pudesse usar seus “poderes malignos” para o bem algumas vezes.
― Por que está aqui? - ela perguntou suave e com sinceridade, enquanto o primo aproximava-se e se punha ao seu lado.
― Eu te vi sair e parecia muito chateada. Queria saber se estava bem, porém cheguei aqui e te encontrei chorando, só quis ajudar. No entanto, eu gostaria de saber o motivo, apesar de já imaginar qual seja.
― Se sabe o que é não precisa vir aqui me fazer falar. - respondeu arisca. Estava magoada e não queria se abrir para que um desconhecido visse suas fraquezas. Ver o carinho e devoção que o pai tinha pelo irmão e o desprezo que sentia por ela era sempre doloroso, quando isso era feito em público, sentia-se pior ainda.
Isaac respirou fundo. Não costumava conversar com garotas, muito pelo contrário, tudo o que ele menos fazia era dialogar com elas. Mas ali, vendo a doce daquela forma, e sem entender o comportamento de Jeffrey, queria poder ajudá-la de alguma maneira.
― Olha, - chamou-a como quando eram crianças. ― Me desculpe o termo, mas o seu pai é um babaca. Você não precisa dele. Você tem uma mãe maravilhosa que te ama, um irmão que te adora, dois tios que gostam muito de você e… não vou dizer nada disso de mim, porque eu mentiria - riu em gracejo. ― Mas você tem uma família afetuosa. Não precisa do seu pai para nada. Garota, você é a futura rainha, aquilo que não te faz ruir, irá te fortalecer, as dificuldades só acrescentarão e te mostrarão a pessoa forte que será. Pense nisso. - terminou tocando a ponta do nariz dela.
riu com a sinceridade dele e de uma forma esquisita, o que ele havia dito acalentou temporariamente a sua dor.
― Há anos, você diria que gostava de mim também. - ela brincou com ele. Tendo na mente as lembranças de quando brincavam juntos pelo palácio.
― Ah, , pode ter certeza que eu continuo gostando, mas agora de uma forma bem diferente. - terminou passando os olhos pelo corpo da princesa, apreciando a beleza dela.
― Não precisa tentar galanteios comigo, Isaac. Não vai rolar. - debochou. - Além disso… gosta de mim? Sério? Acabou de me ver! Não tinha uma mentira melhor para falar não? É esse o papo que você usava para convencer as garotas que conheceu durante a sua viagem? - Ela perguntou, arrancando uma risada do rapaz e fazendo com que ele balançasse a cabeça em negativa.
― As coisas que eu dizia para elas eu não posso usar com você, deusa. - piscou para ela. ― Vossa Alteza é donzela demais para isso. E você que me interpretou errado. Eu disse que gostava de uma forma diferente, hoje eu gosto do que vejo, não de você romanticamente. Não se ache tanto, meu amor. - inclinou-se para ela e roubou-lhe um beijo na bochecha, afastando-se em seguida para longe, antes que ela revidasse de alguma forma. ― Fique bem. - terminou sorrindo, enquanto ela parecia um pouco atônita.
A princesa fechou o semblante, não querendo transparecer nada a ele e deu-lhe as costas, indo em direção ao seu quarto.
― Não precisa ir embora, . - Isaac pediu, vendo que ela não havia gostado da ousadia dele.
Ela apenas o ignorou e continuou caminhando, até que o rapaz resolveu segui-la, não querendo que ela ficasse sozinha ou encontrasse Jeffrey por aí.



Do outro lado do palácio, balançava a mão que ardia com o soco que havia dado em Jeffrey, dando algumas voltas pelo castelo, a fim de esfriar a cabeça. Procurou no quarto, porém ela não estava lá, portanto resolveu voltar ao seu aposento para descansar e esquecer os momentos de tensão de minutos antes.
As imagens piscavam na sua cabeça, lembranças que ela gostaria de deixar encaixotadas bem longe de si. A frase de Jeffrey tirou toda a sua sanidade. Havia aprendido a ser comedida e controlada diante dele, entretanto um pequeno gatilho e todo o seu ódio foi expelido no soco que lhe dera.
Andava pensativa em passos lentos, abriu a porta vagarosamente e entrou no recinto, sendo surpreendida por duas mãos grandes que vieram em sua direção e apertaram o seu pescoço.
― Você acha mesmo que eu ia deixar isso barato, sua vagabunda?! - Jeffrey gritou bem perto do seu rosto, forçando os dedos contra a garganta de , que foi surpreendida com o gesto. O nariz dele ainda pingava sangue, parte do líquido estava borrado em sua cara, provavelmente após alguma tentativa inútil de tentar limpá-lo.
― Solte-me - ordenou, praticamente sussurrando, quase sem voz, devido ao aperto.
O marido riu na cara dela, arrastando-a até em direção a cama, enquanto ela debatia-se tentando soltar-se.
― Pensasse nisso antes de ter me agredido. - ergueu-a mais, até que os seus pés saíssem do chão. poderia ser ágil, mas Jeffrey era bem mais forte que ela. Seus olhos estavam saltitados, a falta de ar a consumindo, ele a esganava com força com seus dedos grossos e ásperos.
Lentamente, com a força que ainda lhe restava, retirou a faca que carregava na cintura e encravou no braço de Jeffrey, fazendo com que ele a soltasse de imediato e ela caísse no chão.
― Sua puta desgraçada! - Exclamou, levando a mão até o ferimento que sangrava.
se arrastava no chão, uma das mãos na garganta e a outra tentando levantar o seu corpo. Fazia força para tentar puxar o ar que havia lhe faltado e assim recobrar completamente a consciência.
Jeffrey, vendo que ela fugia, soltou a ferida do seu braço, e com a mão ensanguentada que prensava antes o machucado, puxou-a pelos cabelos, fazendo-a gritar. Arrastou-a até a cama, jogando-se por cima dela em seguida, para contê-la, enquanto a mulher gritava, mandando-o soltá-la. lutou e conseguiu desprender uma mão, socando o rosto de Jeffrey e cortando-lhe sua boca, gesto este que foi retribuído por ele com um grande soco, ferindo o supercílio da rainha. Ele prendeu as pernas dela com a força dos seus joelhos sobre ela e segurou os seus braços, um de cada lado do rosto da sua esposa.
― Que tal relembrarmos a forma que fazíamos nos velhos tempos? - Jeffrey riu inclinando-se sobre e dando um beijo nos lábios dela, tentou forçar a entrada de sua língua na boca da rainha, que se aproveitou do ato forçado para abri-la e morder os lábios do marido com força, arrancando mais sangue dali.
― VADIA! - o rei levantou bruscamente o seu tronco, tocando o local ferido e sentindo o gosto metálico lhe invadir.
empurrou-o, tirando-lhe de cima de si, e rolou na cama até chegar na ponta para levantar-se dali. Correu para a direção em que sabia que havia guardado a sua espada, mas antes que chegasse, Jeffrey segurou o seu braço com força e a puxou em sua direção.
― ME LARGA! - gritou socando o seu peito. ― Se você tocar em mim de novo eu juro que mato você. - rosnou com cólera, encarando os olhos azuis, que naquele momento, pareciam mais escuros e faiscavam em sua direção.
Ele apertou o pulso dela, tentando contorcê-lo para a direita. A medida que ele girava, a rainha se encurvava de dor, porém, antes que ele a rendesse, ela ergueu a perna e chutou-o, atingindo o joelho direto de Jeffrey e fazendo-o cair no chão, urrando de dor. Ele aproveitou a queda para juntar as pernas e dar-lhe uma rasteira, fazendo-a cair, quase que por cima dele.
O rei tentou puxar ela para junto de si pelo pé, porém enquanto era arrastada, conseguiu pegar a faca que estava caída no chão, após ser cravada no braço de Jeffrey e retirada por ele.
― Fique longe de mim ou eu te mato agora! - gritou apontando o objeto para ele.
As respirações de ambos estavam ofegantes. Era claro a raiva emanada, um passo em falso e alguém sairia morto dali. Com certeza os gritos e os barulhos estavam sendo ouvidos por todos, entretanto não conseguiam pensar nisso. Depois de muito tempo se segurando, a bolha de ódio havia estourado. queria matá-lo e Jeffrey estava frustrado por não ter dominado a mulher que tanto quis.
O rei pulou pra cima dela, sem medo de ser atingido pela faca, estava cego pela raiva e queria colocar sua esposa em seu devido lugar, submissa aos seus feitios como era antes de serem nomeados sucessores do reino.
Continuaram a sua batalha, equivalentes. Jeffrey era forte e esperto, mas era muito ágil e possuía um excelente treinamento. A melhor de Ílac contra o melhor de Medroc, era quase sanguinário. O quarto estava sendo destruído, objetos eram jogadas ao chão, alguns machucados era feitos e podia-se ouvir o berro de ambos.
O loiro segurava a mão em que empunhava a faca e, no momento em que acertou um soco nela, a porta se abriu em um estrondo, assustando ambos, que olharam diretamente na direção dela. tinha sangue que descia do supercílio e inundava toda a sua face direita. Várias marcas avermelhadas se espalhavam pelas partes expostas do seu corpo e alguns cortes desciam por seu braço, enquanto o lábio inferior de Jeffrey estava completamente inchado e o sangue espalhado por todo o seu rosto. Havia alguns cortes que a rainha havia feito nele, porém o que mais sangrava havia sido o primeiro machucado no braço.
Viram dois guardas entrando desesperados e depois parando, sem saber o que fazer naquela situação. O rei e a rainha brigando, quem deveriam defender? De quem seguiriam as ordens caso houvesse algum mandato? Atrás deles, também estavam alguns criados que passavam e ouviram o barulho, correndo até lá para ver o que estava acontecendo.
Logo, ouviram um grito feminino, uma voz que fez todo o interior de tremer e temer por ela.
― Mãe! - gritou atordoada ao ver aquilo. Ao notar o sangue e a forma que o pai segurava a sua mãe, não quis saber de mais nada, apenas queria defendê-la. ― SOLTE ELA, AGORA! - gritou, indo em direção a Jeffrey e desforrando vários socos nas suas costas, que em vista ao que havia feito com ele, pareciam cócegas.
Jeffrey, em reflexo, apenas soltou o braço de e empurrou com força, fazendo com que ela caísse no chão.
― Deixe as duas em paz imediatamente! - a voz de Isaac sobressaiu em meio à confusão e só agora notou que o rapaz havia entrado logo após a sua filha. Ele empunhava uma espada na direção do rei, sem medo algum. Era firme e não desviava, colocou-o na mira enquanto caminhava e estendeu a mão assim que chegou até , para ajudá-la a levantar.
olhou de um para outro, temendo o que o marido poderia querer fazer com eles depois de presenciarem tudo aquilo.
― Quem você pensa que é, moleque, para vir me enfrentar? Acha que ser primo da minha mulher te dá algum direito? EU SOU O REI! - Jeffrey bradou, virando-se de costas para e indo em direção do rapaz.
― Isaac, pode deixar que eu resolvo. Leve daqui. - tentou dissuadi-lo. Não se importava com a própria vida, porém temia o ódio do marido sobre aqueles que nada tinham culpa.
― Eu não saio daqui sem vocês. - Isaac respondeu sério. Jamais deixaria a rainha e a princesa com aquele crápula, mesmo que ela pudesse dar conta dele sozinho.
O que havia acontecido durante todo esse tempo que ficou fora? - o rapaz se perguntava.
Sempre achava o relacionamento do rei e da rainha algo estranho, mas nunca imaginou nada nem de perto parecido com o que havia presenciado.
deu um sinal para que os guardas não se aproximassem e com um leve balançar de cabeça, ordenou para que esperassem lá fora. Com eles, os criados que espreitavam foram embora, eles já haviam visto coisas demais, aquilo não era bom. Fazia o possível para manter as aparências e ser cordial, mesmo que fosse uma missão insana perto de Jeffrey, que sempre a provocava, no intuito de conseguir noites na cama da rainha.
Enquanto isso, Jeffrey e Isaac se olhavam com puro ódio, se não fosse pela espada que o garoto erguia para o rei, ele já teria avançado para cima dele e quebrado o pescoço do filho de Cameron.
olhava para tudo com lágrimas nos olhos, porém não as derramava. Se a sua mãe, que estava toda machucada, parecia forte, ela não vacilaria ali, entretanto, estava arrasada e com medo.
― Uma hora você terá que abaixar essa espada e no momento em que eu te encontrar, não sobrará nada para que você conte história, garoto. - Jeffrey soou frio para Isaac, que ainda não conhecia esse lado do rei.
Até aquele momento, o rapaz não havia vacilado, mas um frio na espinha percorreu por ele ao ouvir aquelas palavras. Não era uma frase jogada ao vento, era uma promessa, os olhos do rei transmitiam e afirmavam a ameaça.
Isaac, até então, se sentia protegido com espada que havia roubado do guarda no corredor. Ele e ouviram os gritos que vinham da direção dos quartos reais e a movimentação de uns guardas que corriam para lá. Ele precisou acelerar os passos para acompanhar a princesa, que foi atrás deles como um jato. Ao verem a briga do casal, os soldados não fizeram nada, restando a Isaac tomar a atitude que teve. Porém, o rei estava certo. Ele não estaria com a espada o tempo todo, uma hora estaria desprevenido e Jeffrey faria algo contra ele, com toda a certeza.
― Vou repetir o que disse mais cedo: você não vai tocar em mim, Jeffrey. - disse firme, chamando a atenção de todos para si. ― E completarei ainda mais, não fará nada para a minha filha e muito menos ao Isaac.
Jeffrey sentiu a ponta gelada de uma espada em sua nuca. No momento que vacilou, dando as costas a , ela foi em busca da sua espada, um tropeço cometido pela desatenção do rei, que estava tomado pela fúria por causa da intromissão de Isaac. Apesar disso, Jeffrey apenas ergueu um pouco a cabeça e riu.
― Você acha que isso vai me impedir de fazer alguma coisa? Sua saída é me matar, o que é certo que não fará… seria a única coisa que me impediria, porém você não pode. Temos uma aliança para zelar, amor. - falou, ironicamente.
― Não brinque comigo, Jeffrey. Você ainda não entendeu que está em desvantagem aqui? Você só está vivo por causa da maldita aliança, eu preciso de você, no entanto, você também precisa de mim. Ou você acha que se eu mandar um maldito dane-se para tudo isso, o seu irmãozinho irá te acolher? Se eu acabo com essa aliança, você se torna um ninguém, Jeffrey. Não terá reino, não terá casa, não terá nada! - falou empurrando a espada, fazendo um pequeno furo no pescoço dele. ― Toque na minha filha ou nesse menino e eu enfio essa aliança no seu rabo e será a única coisa que você terá para levar de volta a Medroc. Aliás... nem lá, porque o seu irmãozinho de merda jamais irá te querer pelo seu reino. Ele deu uma festa quando você largou o trono do seu país e optou vir para cá. Ele está pouco se lixando para você. Quer mesmo mexer comigo, amor?
O corpo do rei retesou-se. tinha um grande ponto em mãos. Ele sempre contou que a aliança do reino estava acima de tudo para ela, porém ele nunca havia mexido com a doce . Até o animal mais dócil mostra as suas presas quando os seus filhos são ameaçados. Jeffrey havia experimentado daquilo pela primeira vez. O tom de voz dela saía mais frio do que o habitual, não eram ameaças infundadas, conviveu dezoito anos com ela e foi o suficiente para saber do que ela seria capaz e, pela primeira vez, Jeffrey temeu pelo que ela poderia fazer.
― Creio que o silêncio é a sua reposta... Saia daqui! E se um mísero fio do cabelo desses dois cair e eu imaginar que foi você, já sabe o que acontecerá! - terminou subindo a espada lentamente pela pele dele, deixando um traço de sangue no local, uma marca, e com certeza, uma futura cicatriz. Toda vez que Jeffrey passasse a mão por sua nuca, ele lembrar-se-ia da promessa de .
Com fúria, ele virou seu rosto para ela, assim que a rainha desencostou a sua espada. Saiu a passos largos e fortes do quarto, abrindo a porta com tanto vigor que a mesma bateu na parede causando um estrondo.
Assim que saiu, a rainha soltou o ar aliviada. Olhou pra , que estava protegida atrás de Isaac, enquanto o garoto ainda mantinha sua espada empunhada, em choque. Percebeu que agora, após a queda da adrenalina, a mão dele tremia e a menina parecia quebrar a qualquer momento.
praguejava internamente pelos dois terem vivenciado momentos tão intensos e tão pessoais para ela. Jeffrey nunca havia sido um pai para a sua filha, mas também não queria que ela visse o seu lado monstruoso. Além disso, até Isaac, que não tinha nada a ver com a história, estava envolvido no problema. Ela ficou sem saber o que dizer e como agir diante deles, quando pensou em se aproximar, o guarda que estava do lado de fora entrou para dar um recado a rainha.
― Com licença, Majestade, mas pediram para avisar-lhe algo. - o soldado disse um pouco acanhado, com medo de alguma represália após ter visto o que claramente não era da sua conta.
― Diga! - pediu, frustrada, passando as mãos pelo rosto.
― O General Hector está aí com o guerreiro de Ocland para falar com a senhora. - informou com olhos brilhando ao citar o companheiro do general e fazendo, em contrapartida, todo o sangue de sumir com o recado recebido.



Capítulo 10

O castelo aparentemente era o mesmo, porém, sabia que isso não era verdade. Antes aquele era o seu lar, um lugar acolhedor onde viveu desde que seus pais começaram a trabalhar para o falecido rei Miles. Aqueles corredores haviam sido alvos de suas corridas junto a , e as passagens secretas, eram os esconderijos das brincadeiras que faziam. Agora, ao olhar minuciosamente para o palácio, sabia que muita coisa havia mudado.
O ar era sombrio e o aspecto era frio. Os criados não eram sorridentes como antigamente, e apenas escutava-se o silêncio, interrompido vez ou outra, minimamente, por algum servente ou guarda real. Poderiam dizer que ele estava louco, que o castelo era centenário, que até as mais delicadas obras estavam intactas por muitos anos, porém sabia que aquele local onde pisava os seus pés depois de tanto tempo, estava longe do que ele um dia chamou de casa.
Os minutos que aguardava no salão de espera eram cada vez mais agoniantes. O soldado havia pedido para que ele e Hector aguardassem ali na recepção. Não sabia se era ansiedade, mas parecia que estavam ali já há muito tempo e nada de alguém aparecer. abria e fechava o punho, tentando se acalmar. Não poderia se mostrar abalado, queria demonstrar a o homem que se tornara, inabalável, e não o garoto bobo que ela deixou para trás.
Hector colocou a mão no ombro do amigo, tentando passar conforto, o que não foi bem recebido por . Para ele, aquele gesto o fazia sentir-se fraco e isso era o que ele menos queria naquele momento. Retirou a mão do general imediatamente e começou andar, retirando-se dali.
― Para onde está indo? – Hector perguntou, confuso.
― Andar por aí. Não vou ficar igual a um idiota aqui esperando os caprichos da realeza terminarem para enfim nos atender.
― Você não pode ir entrando assim, .
― Eu já fiz o que você quis, Hector. Vim até aqui, mesmo a contragosto. Agora as regras são minhas, eu já disse que não me abaixo para eles, você sempre soube disso. Se eles me quiserem no teu lugar, será do meu jeito. Não vou me adequar ou me moldar para ser capacho de ninguém, não faço parte desse jogo – falou bravo e continuou andando, ignorando as reclamações do homem.
Caminhou sem nem mesmo pensar para onde suas pernas o dirigiam, apenas entendeu o mecanismo automático do seu corpo, quando se viu em pé, de frente ao seu antigo quarto no palácio. A porta estava fechada, não sabia quem vivia ali agora, porém, uma força maior o levara a girar a maçaneta.
Um só rompante e o quarto estava escancarado. Queria entrar e aspirar aquelas paredes mofadas novamente, esperando que tudo fosse igual, assim como o restante do castelo. Porém não imaginava que ouviria um grito feminino soar no local.
― Quem lhe deu a ousadia de entrar aqui? – a jovem vociferou, dando de costas imediatamente e puxando o lençol para se cobrir.
― Desculpe, senhorita, não imaginava que havia alguém no local – ele respondeu, um pouco desconcertado pela situação constrangedora.
Desviou o olhar da bela mulher e mirou as paredes, notando que não eram as mesmas. O mofo havia se esvaído e não tinha mais as camadas de madeira velha pelo quarto. Pelo contrário, era tudo novo e muito bonito, o quarto se transformou em algo pomposo e luxuoso. Havia até mesmo um pequeno sofá aveludado, móvel que só quem era da realeza ou fosse muito rico poderia possuir.
O guerreiro voltou a fitar a jovem, arqueando a sobrancelha intrigado. Por que aquela garota tinha tanta pompa em um local tão insignificante como aquele?
Reynia, assim que se virou para ele, notou a farda que se destacava nos músculos largos de . As roupas dele não eram iguais aos dos soldados do castelo, o tecido era diferente, mais compacto, a armadura em seu peito era mais trabalhada e o símbolo de Ílac que ele carregava, cravado em meio ao bronze, mostrava a alta patente que tinha.
O sorriso sedutor que ela emitiu assim que o olhou, não passou desapercebido por ele. Reynia deixou cair lentamente o lençol, até que estivesse nua novamente, e girou o seu corpo, ficando de frente para o guerreiro. Tinha o rosto inocente, porém os olhos demonstravam luxúria e perigo. Aqueles traços delicados não enganavam a . O tempo lhe havia dado a esperteza e capacidade de ler melhor as pessoas, sua única exceção era , para ele, ela sempre seria uma incógnita. Entretanto, Reynia emitia por todos os seus poros que era um problema e um calafrio tomava o corpo de , mesmo sem saber o motivo aparente.
― Bom… – ela começou a dizer, enquanto caminhava lentamente na direção dele. ― Aqui é o meu canto há bastante tempo. Creio que podemos pular a parte que você finge não saber disso e ir logo para o que nos interessa – completou colocando a mão sobre o peitoral dele e aproximando o seu corpo.
Ela era bela, muito bela. via isso, porém ela estava completamente equivocada sobre as suas intenções.
― Você está enganada – disse, segurando a mão dela e colocando longe de si.
― Como? – ela perguntou confusa, não entendendo a distância que ele se punha dela.
― Não sei quem é você e não sabia que vivia aqui. Vim só porque já morei neste mesmo aposento, queria saber se estava do mesmo jeito, porém já percebi que não. Portanto, já posso ir, com licença – falou virando-se e querendo se retirar do quarto.
Um pequeno sorriso brotou nos lábios dela e seus olhos brilharam com a informação.
― Ainda podemos nos divertir, – Reynia falou o nome dele, saboreando cada letra que a sua voz emitia, fazendo com que ele paralisasse de costas para ela.
O guerreiro virou-se imediatamente e caminhou com fúria na direção da garota, encurralando-a contra a parede. Uma mistura de medo e excitação se passou dentro dela, o suficiente para que tivesse coragem de fitar profundamente os olhos dele, esperando a sua próxima ação.
― Como sabe o meu nome? – a voz dele soou baixa, porém grave e fria.
― Eu sei de muitas coisas. Eu posso te contar, mas prefiro deixar a conversa para depois da diversão.
Reynia deu um passo a frente, encostando seus seios desnudos no peitoral dele, que recou, imediatamente. , com uma mão, segurou o rosto dela e a colocou contra a parede novamente, não de forma bruta, porém confrontando-a.
― Não vai querer fazer joguinhos comigo, menina - disse colocando seu rosto mais perto do dela e soprando cada palavra.
Reynia apenas riu, tinha um olhar sugestivo que ele não soube traduzir. Ela tentou tocá-lo de novo, porém não permitiu, o que a fez gargalhar ainda mais.
, , … Você não entende que já é um peão desse tabuleiro há mais tempo que imagina, não é? – falou, misteriosa.
― O que quer dizer com isso?
― Deite-se comigo e saberá! – ela balbuciou, tentando encostar seus lábios no dele. Poderia ser uma tentação se não fosse esperto o suficiente para não cair nas armadilhas da garota.
― Jamais! – disse, soltando-a e afastando-se dela de uma vez. Voltou a caminhar para fora do quarto, ou melhor, para longe do problema que Reynia carregava em sua áurea.
― Não diga isso, meu doce guerreiro. Você vai voltar. E sabe como eu sei? – ela ia dizendo despreocupadamente enquanto ia até a sua cama. Sentou-se e pegou o lençol caído no chão, colocando-o novamente sobre os ombros, cobrindo-se.
não disse nada, apenas olhou para trás e a fitou, esperando que ela terminasse o seu pensamento.
― Porque sei que você quer respostas, . Você quer entender coisas que só eu posso te dizer.
― Eu não retornarei aqui, menina.
― Vai sim. Já sabe onde eu vivo e já sabe o que eu quero – disse, devorando-o com um olhar malicioso e um sorriso em seus lábios. ― Da próxima vez, espero que esteja preparado para atender ao meu desejo. Garanto não te decepcionar – piscou para ele e saiu mais furioso do que já estava.
Era claro que aquilo mexeu com ele. Ele sabia que ela tinha informações sobre coisas da sua vida, ela não falaria tudo aquilo à toa e gostaria muito de descobrir. Porém, dormir com Reynia era o mesmo que cair na boca do leão. Aquilo era uma armadilha notória, ele só não entendia o que ela ganharia com uma noite de prazer com ele.
Saiu do quarto atordoado, não era isso o que ele procurava quando teve a intenção de ir até lá. Andou pelo corredor um pouco sem rumo, pensando no que acontecera. Não havia caminhado muito quando topou com um homem machucado que vinha naquela direção. Havia sangue espalhado por seu corpo e ele andava e praguejava, escorando-se por vezes nas paredes, deixando os traços de sangue por onde passava. Não demorou muito para notar que era o Rei que estava ali.
Jeffrey ergueu o rosto, encontrando o guerreiro que o encarava, sem entender o que havia acontecido. Os dois homens se fitaram, um tentando interpretar o outro, porém o rei não tinha tempo para conversas fiadas com os soldados do reino. Estava possesso de raiva e precisava se acalmar, só havia uma pessoa que conseguiria lhe proporcionar isso naquele instante e era até o quarto dela que ele iria naquele momento. 
 Se fosse alguém preocupado com a realeza, teria buscado o motivo que deixou o rei naquele estado, no entanto, ele não se importava. Apenas ficou curioso. Queria desvendar o que estava acontecendo naquele castelo, a sua curiosidade aguçava-se cada vez mais.
Jeffrey não ficou muito tempo, logo continuou o seu trajeto e apenas o observou sair. O rei tinha tanta cólera nos olhos, que nem notou que o guerreiro não havia feito a habitual reverência que todos lhe davam, pelo contrário, o encarou de igual para igual.
resolveu voltar para o seu trajeto, encontrar Hector e resolver o que haviam ido fazer ali de uma vez por todas. Aquele lugar lhe trazia calafrios e ele sentia que a tendência era piorar. Não havia se passado nem uma hora que chegou e já tinha confusão suficiente o rondando.
Assim que voltou a recepção, o general conversava com outro soldado e pela sua aparência, algo não estava certo.
― O que houve? – perguntou logo que chegou.
― A rainha não poderá nos receber hoje, parece que está indisposta. Ela mandou avisar – Hector comunicou.
― Ela sabe que eu estou aqui? – indagou baixo, somente para o amigo.
― Não sei, provavelmente sim. Você acha que é por isso que ela não veio?
― Talvez – respondeu pensativo. ― Eu não acredito que você me fez vir até aqui à toa, Hector. Eu não vou dar viagem perdida, não demorei tanto tempo para voltar de mãos abanando.
O general deu uma risadinha irônica e balançou um pouco a cabeça.
― E o que pretende, ? Ir lá e forçar a rainha a conversar conosco?
― Exatamente! – afirmou sem pudor.
― Você está louco? Claro que não. Vamos embora! – o general falou, tocando o braço do guerreiro, puxando-o em direção a saída.
― Você queria que eu viesse até aqui e eu vim, se eu for embora agora, não volto mais. – cruzou os braços e manteve o olhar firme para Hector.
O amigo sabia que nada o faria mudar de ideia, por isso suspirou, passando a mão pelo rosto e olhando para o soldado que fitava os dois, um pouco perdido na conversa.
― Olleon, aonde a rainha se encontra no momento? – o general perguntou.
― Senhor, ela se encontra no seu aposento, mas não vai receber ninguém, já disse. Não adianta.
― Eu não quero saber se ela vai, rapaz. Eu vou até lá, você querendo ou não. – bufou, enfrentando o soldado à sua frente.
― Temo que, então, eu não poderei lhe deixar passar. - ele deu um passo, ficando cara a cara com o guerreiro.
Hector, temendo uma confusão, tratou de colocar o braço entre os dois, a fim de afastá-los. O soldado já colocava a mão em sua espada, enquanto abria um pequeno sorriso zombeteiro com a audácia do homem.
― Você não vai querer enfrentá-lo, vai por mim. – Hector sugeriu ao soldado.
― Vocês podem ser meus superiores, porém a minha devoção é para a rainha. Tenho o dever de protegê-la e se ela disse que não quer atender ninguém, ela não atenderá.
― A rainha sabe se cuidar sozinha. Se ela não me quiser lá, ela que me mande embora então, em vez de mandar recados a terceiros. - respondeu fuzilando-o com o olhar.
― Escute ele, Olleon. O máximo que pode acontecer é mandar degolá-lo. Mas se isso acontecer, você ficará feliz, sairá ganhando de qualquer forma. - o general tentou convencer o rapaz mais uma vez.
― Eu vou adorar saber o que Vossa Majestade vai achar da sua audácia. - saiu da posição de combate e abriu passagem para que pudesse ir.
― Veremos. - o guerreiro caminhou, esbarrando no ombro de Olleon, fazendo o rapaz praguejar.
nem olhou para trás, apenas foi depressa em direção ao andar dos aposentos reais. A apreensão que sentia antes para encontrá-la foi tomada por uma súbita raiva por ela não querer atendê-los. Quem ela pensava que era para recusá-lo assim? Quando ela havia aparecido em sua tenda, anos antes, ele teve que recebê-la. Agora ela simplesmente se dizia indisposta? Não mesmo. Ele iria até ela e a confrontaria.
Quando estava chegando ao local que lembrava ser o antigo quarto dela, viu uma jovem moça, que parecia muito abalada, envolvida nos braços de um rapaz, extremamente sério. Seus olhos passaram pela menina, que o fitou, fazendo uma pequena pausa em seu percurso. Ele não conhecia a princesa, mas logo imaginou que seria ela, devido a pequena tiara real que usava na cabeça. Seus olhos azuis estavam vermelhos, provavelmente a garota havia chorado bastante, pois sua pele branca adquirira um aspecto abatido.
Não pode olhá-la por muito tempo, pois logo o rapaz a puxou para dentro do quarto que havia sido de um dia. Um quarto que, para , havia sido palco de inúmeros bons momentos e noites de amor, todavia, também o levava às lembranças da sua última noite no castelo.
Balançou a cabeça e foi em direção ao último aposento que poderia encontrar . Não esperou ser convidado, apenas abriu a porta em um supetão, fazendo-a pular um pouco da cama com o susto.
tinha uma bacia com água ao seu lado e vários panos ensaguentados. Duas criadas estavam em sua volta limpando os seus ferimentos. O quarto estava uma bagunça, havia coisas jogadas por todo o lado e respingos de sangue pelo chão.
Não era essa a visão que esperava dela após todos esses anos. Os olhos da rainha fitaram os seus, surpresa, não imaginava vê-lo ali.
O guerreiro vistoriava tudo, estancado no próprio lugar. Seu estômago embrulhou com a imagem da mulher toda machucada. Os lábios dela estavam inchados e a região perto do olho, roxa. As criadas não haviam a limpado completamente, pelo contrário, apenas tinham começado o serviço. olhou a bacia e viu a água que devia ser transparente, ter um tom avermelhado, somado aos tecidos que estavam sujos de sangue.
― O que aconteceu aqui? – a voz de soou grave por todo o aposento.
― Deem-nos licença, garotas – pediu as suas criadas e ambas largaram o serviço, deixando-os a sós.
A rainha não o respondeu, apenas o encarou, chocada demais com a presença do homem que tanto amou ali na sua frente.
Ele estava mais velho, mas para ela, sua beleza só havia aumentado. Não era mais um garoto, havia se tornado um homem, um grande homem. Seu coração saltou como se fosse a mesma menina, porém agora era diferente, não era mais a mesma e, provavelmente, o guerreiro na sua frente também não.
Tantos segredos guardados, tantas feridas… E, surpreendentemente, estavam ali, unidos no mesmo local novamente.
Quando tornou-se rainha, tinha o poder de ir até ele e contar-lhe tudo, implorar o seu perdão. Mas ela tinha outros atributos para fazer. Além disso, já havia ferido tanto ele, que era melhor deixá-lo partir, seguindo a sua própria vida e destino. Tudo o que envolvia era o caos. A bagunça e a tragédia lhe perseguia, não era justo trazê-lo para isso. merecia ser feliz e correr o seu próprio destino.
― Vou repetir a minha pergunta. O que aconteceu aqui? – ele indagou com a respiração um pouco descompassada.
Uma batalha interna corria dentro de ambos, não sabiam como proceder a esse reencontro, muito menos com a situação que se apresentava ali. Era melhor não dizer nada, apenas ignorar o passado e tratar o que precisavam conversar hoje.
― Nada de mais. Acidentes de treinamentos de batalha. – deu de ombros, como se tudo fosse insignificante, e pegou o pano que a criada utilizava, passando ela mesma em suas feridas.
― Agora os soldados que você usa para treinar podem acabar com você? Olhe o seu estado! E desde quando você treina em seu quarto? – cuspiu, adentrando mais no aposento.
― Eu não preciso que peguem leve comigo, . Nunca fui desse tipo, nem quando criança, não seria agora diferente. Até parece que já se esqueceu!
― Pelo contrário, . Eu me lembro muito bem das coisas, todas elas por sinal. E se me recordo bem, a garota que eu conhecia não deixaria ninguém fazer isso com ela. - apontou para os ferimentos expostos pelo corpo da rainha.
― Acidentes de treinamento acontecem. As batalhas são reais, portanto não posso gastar meu tempo com treinamentos fictícios – falou enquanto tocava o tecido úmido em um corte e gemia um pouco de dor.
sabia que ela estava mentindo. Era a mentira mais descabida que ela poderia ter dado. Poderia enganar aos outros, não a ele. Logo a lembrança do rei, tão machucado quanto ela, surgiu em sua mente, fazendo sua carne tremer de raiva com as suposições que vinham em sua cabeça. Tudo piorou quando se recordou do choro da princesa e como o jovem ao seu lado precisava acalentá-la.
― Seu marido também estava “treinando” com você? – jogou a pergunta, vendo o corpo de retesar no mesmo instante.
A raiva tomou conta dela e ela não queria que soubesse o que se passava ali, muito menos queria a pena dele. Ele não podia se meter em seus problemas. Ela havia feito muito para deixar ele a salvo, não era a hora de interferir no caminho dele novamente, precisava deixá-lo sair do castelo tão intacto quanto entrou, se é que isso era possível.
― Ele sempre treina comigo. Os reis devem estar prontos para tudo – respondeu, jogando o pano com força dentro da bacia de água e virando-se para encará-lo.
Não imaginava o efeito que tal ato teria sobre ambos. Um frio percorreu seu estômago e ela sentia que o olhar de fogo de poderia transpassar todas as suas mentiras. Era como se a despisse e ela voltasse a ter treze anos de idade.
Como ela queria sentir a mesma proteção que ele havia lhe dado um dia. Sentia falta da sensação de segurança que só havia sentido nos braços de , desde que ele a protegeu em sua menarca.
No mesmo instante, recordou-se de como essa atitude havia trazido tantos malefícios para o homem que amava. Não poderia fazer isso com ele novamente. Não poderia arrastá-lo, era perigoso demais.
― Diga logo o que quer aqui, . O que veio fazer em meu quarto? – perguntou, tirando ele dos seus pensamentos. ― Se não tiver nada para fazer, saia daqui.
― Eu quero a verdade.
― Eu já lhe disse, mesmo não te devendo nada. Vá embora – ordenou, querendo que ele saísse de lá o quanto antes.
― Ele tocou em você? – indagou, cerrando os punhos e imaginando o que poderia ter acontecido ali.
― É claro que tocou, . Foi um treinamento. Ele apanhou também. Satisfeito? Eu não tenho que me explicar para você. – ficou em pé, encarando-o.
― Você sabe muito bem do que estou falando, ! – ralhou irritado.
― Eu quero que você saia daqui, agora! – caminhou até a porta, passando por ele e abriu-a, apontando a mão para a saída.
― Eu sou um estúpido por me preocupar, não é? É a segunda vez que faz isso comigo.
― Não precisaria se você tivesse aprendido na primeira – ela soltou, desviando o olhar para o corredor, lutando para não ceder.
respirou fundo, tentando conter a vontade de xingá-la e esbravecer por ser tão ignorante, ou mesmo por tentar tapeá-lo com algo que estava tão claro aos seus olhos.
Balançou a cabeça, decepcionado, e virou-se para ir embora, porém, estacou assim que sentiu os dedos gelados de tocar o seu braço.
Olhou para eles, os mesmos dedos com as cabeças deformadas, que somado a tudo que havia visto ali, fez o seu corpo gelar e pensar que poderia ter ali mais coisas do que ele imaginava.
― Eu sei o motivo que trouxe você e Hector aqui. Avise-o que o cargo é seu – falou, ignorando todo o assunto anterior.
deu um sorriso debochado para ela, descrente do quanto aquela ação o lembrava épocas remotas, como um dejavú. Mas dessa vez seria diferente. Ele não sairia correndo como um menino magoado, chorando. Ele sabia que aquela história de treinamento era balela. Se não queria lhe contar, tudo bem, eles não tinham mais nada com a vida um do outro mesmo, mas ela não o deixaria no escuro, não mais.
Voltou em direção ao aposento de Reynia. Não sabia o que poderia encontrar lá, muito menos o que faria quando chegasse, só tinha certeza que precisava ir.
No meio do caminho, quando chegou na cozinha, encontrou o seu alvo. Nem precisou ir até o aposento da garota, ele estava bem ali, de costas, comendo alguma coisa na mesa, sozinho. Tinha ataduras pelos braços, provavelmente alguém já havia cuidado dos seus ferimentos.
O local estava vazio, Jeffrey havia dispensado a companhia de todos devido ao estado em que se encontrava. observava meticulosamente cada movimento dele, tentando interiorizar o ódio latente que borbulhava do seu ser. Olhou as feridas dele, imaginando cada defesa que fez para tirar as mãos do bastardo sobre ela.
Queria rugir de raiva e socá-lo sem parar, mas não faria isso. Tinha outras coisas em mente. Assim que viu um saco de estopa em cima de uma bancada ao seu lado, muito utilizado para armazenagem de alimentos, teve uma ideia insana. Pegou-o e continuou a andar, meticulosamente, como o bom guerreiro treinado que era.
Assim que chegou às costas de Jeffrey, enfiou o saco em sua cabeça rapidamente, fechando-o no pescoço dele. Um grunhido abafado foi dado pelo rei e suas mãos foram direto para os braços de , tentando tirá-los do aperto. O homem debatia todo o corpo, enquanto era puxado com brutalidade para sair da cadeira e cair no chão. O ar lhe faltava aos pulmões e as forças se esvaíam aos poucos.
agachou-se atrás dele, tranquilo, enquanto via Jeffrey ficar cada vez mais decadente.
― Nunca mais encoste a sua maldita mão na rainha ou eu virei pessoalmente garantir-lhe que será a última coisa que fará na vida – falou baixo, com uma voz extremamente grave, tomado pelo ódio pelo rei.
As mãos de Jeffrey tentaram alcançá-lo novamente, em vão. deliciava-se com a vingança que fazia.
O rei não se achava homem o suficiente para agredir ? Então ele que lutasse pela sua vida agora.
Os movimentos iam se enfraquecendo, ao passo que forçava mais a boca do saco na garganta de Jeffrey. De pouco em pouco, a energia do rei ia se esvaindo, até ser-lhe aplicado um golpe no pescoço, que fez tudo parar. O corpo dele desfaleceu, se esparramando ao chão. voltou a levantar-se, retirando o saco e olhando para o homem estirado. Não tinha remorso, estava satisfeito. Saiu do seu devaneio apenas porque foi interrompido com uma voz assustada, que o fez temer ser descoberto ali.



Capítulo 11

— Você é louco? Matou o rei? – O general indagou, correndo em direção ao corpo de Jeffrey que estava atirado ao chão.
rolou os olhos, indiferente ao que havia feito. Colocou o saco no mesmo local que tinha encontrado, enquanto Hector se desesperava, temendo as consequências do ato do amigo.
— Fique calmo. Eu não matei ele, apesar de ser uma ideia tentadora. Agora vamos embora – chamou, caminhando em direção a porta da cozinha.
— É só isso o que tem a dizer? – Hector questionou-o, exaltado. — Eu chego e vejo o rei desabado no chão e você apenas me diz isso?
— Se ficarmos aqui seremos descobertos e creio que isso não será nada bom. Deixe-o aí. Ele merece cada segundo de agonia que sofreu. Depois conversaremos – falou, impaciente, sabendo que se não resolvesse sair logo do local, alguém poderia chegar.
O general o seguiu e ambos portaram-se para fora do castelo. tentava mostrar-se calmo, mas o seu interior fervilhava com um misto de emoções pelo encontro nada agradável que havia tido com . Não que ele esperasse algo tranquilo, porém, vê-la ferida era a última coisa que imaginava.
Não temeu agir da forma que agiu com Jeffrey. Não era esse o caso. O problema era todo ela. A rainha. . A mulher forte que ele sempre conheceu. A antiga garota que o derrotava nos treinamentos. Os olhos que brilhavam toda vez que o via.
Todavia, parecia um passado longínquo, pois, a mulher que conhecia, por mais que continuasse a ostentar o título, tinha agora os olhos frios e vazios. As feridas estavam expostas pela sua carne, mas, o pior de tudo, era a ferida que ele não conseguia ver, aquela que corroía a sua alma.
Um espírito dilacerado reconhece outro, por isso, não sabia o que havia acontecido com , porém, tinha certeza que as dores dela eram tão fortes quanto as dele, se não forem até maiores.

— Você vai me contar agora porque diabos o rei está desacordado em plena cozinha do palácio, seu merda? – Hector empurrou , nervoso, assim que se afastaram do palácio.
Haviam caminhado em um silêncio ensurdecedor. O general segurava-se para não avançar em . Precisavam manter as aparências até que estivessem longe o suficiente para não aparentarem suspeitos. Aquilo não acabaria bem, ele tinha certeza disso. Jamais imaginou que perderia a compostura daquela forma. Não era possível que um guerreiro bem treinado como ele fosse perder a serenidade por ciúmes, não é?
— Você não viu o que eu vi – soou frio com as lembranças em sua mente.
— E o que você viu? OLHA PRA MIM QUANDO EU FALO COM VOCÊ, SEU BASTARDO!
Bastou o grito inconsequente de Hector para que saísse do seu transe. Como um bom guerreiro que era, ele era concentrado e comedido, porém, aquela última palavra dita durante a fúria do amigo mexeu com ele, fazendo com que erguesse o punho e mirasse direto no queixo de Hector, em um golpe forte e duro.
— Idiota! Olha o que você fez! – Hector ralhou, cambaleando e segurando o rosto que agora tinha um corte que sangrava bastante.
— Nunca mais me chame disso, está me ouvindo? – falou com fúria. Seus olhos estavam nebulosos e pareciam saltar a qualquer instante. A respiração descompassada mostrava o quanto ele se segurava para não destruir Hector ali mesmo.
Ele não era um bastardo, era órfão. Tinha uma grande diferença nisso.
Primeiro viu sua mãe definhar, quando tinha apenas cinco anos. Depois o pai morreu em suas mãos. Golpes após golpes. Era isso o que a vida tinha para ele.
— Me desculpe – Hector falou um pouco mais calmo, após ver a dor atravessar os olhos de . Havia dito aquelas palavras no calor do momento, apenas havia sido o primeiro xingamento que lhe veio na cabeça. — Me desculpe – repetiu, levantando-se e vendo o menino ofegar.
passou a mão pelo rosto, tentando segurar-se. Era óbvio que estava um pouco fora de si, mas tentava manter-se são.
— Podemos conversar com calma agora? – O general perguntou, olhando o soldado que assentiu com a cabeça, abaixando os ombros e a guarda.
— Ela estava completamente ferida, Hector. Havia sangue pelo seu corpo e os hematomas eram evidentes. Eu jamais esperaria ver a cena que eu vi.
— Ela te disse o que havia acontecido?
— Não. Ela jamais falaria, mas eu sei. Foi o seu marido. Eu o vi pelo corredor e ele estava em um estado tão lamentável quanto ela. Você não tem ideia da quantidade de coisas que se passaram em minha cabeça.
— Imagino… – Hector suspirou com a informação, entendendo o que o amigo queria dizer.
— Não sei ao certo o que acontece ali e nem a quanto tempo, contudo, eu não podia deixar por isso mesmo.
… eu compreendo você, mas… Você não pode simplesmente fazer justiça com as próprias mãos. Se você disse que o rei estava ferido também, é provável que a rainha tenha se virado bem sozinha até agora. Ela é forte, . – Hector tentou achar as palavras certas para acalmá-lo.
— Eu sei que ela é, mesmo não sabendo o que está havendo eu sei que ela é mais forte do que eu imagino. No entanto, eu não queria que ela tivesse que passar por isso sozinha, ninguém merece ser violentado, Hector. – suspirou profundamente, recordando-se das feridas de .
— Mesmo se essa pessoa seja a que te feriu? – o general indagou, querendo saber o que teria para dizer.
— Mesmo que seja a pessoa que estraçalhou o meu coração e deu aos porcos. Ainda assim nada dá direito ao Jeffrey para tocá-la ou abusá-la. Não há justificativa ou precedente que o absolva. Eu não vou ficar em paz com isso. Eu não a quero em minha vida mais, porém, também não a quero ferida, consegue entender?
Hector calou-se, absorvendo as informações. Era muito mais fiel a rainha do que ao rei e aquilo o atingia também, apesar de não ser na mesma proporção, pois não havia nenhum sentimentalismo envolvido, apenas um grande respeito e devoção pela rainha.
— Não quero ser pessimista, , mas não sei muito o que poderíamos fazer.
— Poderíamos? – indagou.
— Claro. é a minha rainha, a ela eu devo o meu respeito e não a um homem de merda que veio de outro país selar um acordo dos reinos. O sangue de Ílac corre nela e não nele – falou firme, fazendo a boca de se curvar em um sorriso. — Achou o quê? Que não estaria do seu lado? Ah, garoto, você é novo ainda. Já estou velho e vivi muito desta vida para saber a quem devo a minha lealdade.
— Você teima em me chamar de garoto como se eu fosse ainda um menino – ralhou , um pouco mais risonho.
— Você sempre será meu garoto, . O filho que nunca tive. - passou o braço pelo ombro do amigo, puxando-o pra um abraço de companheirismo, sendo retribuído no mesmo momento.
— Obrigado por isso.
— Não tem o que agradecer, além disso, encontrei Cameron e ele falou que logo nos chamaria para estarmos no castelo novamente. Talvez encontremos a rainha antes mesmo do esperado – Hector disse ao se recordar do recado que o tio da rainha havia deixado pra ele, enquanto havia desaparecido pelos corredores do palácio.
— Isso é ótimo. Ainda mais se somado ao fato que me aceitou para ocupar o seu posto.
— O destino sempre trata de colocar as coisas no lugar – Hector murmurou pensativo.
— O que quer dizer com isso? – indagou, arqueando uma sobrancelha, um pouco desconfiado das filosofias de vida do general.
— Nada, garoto. Vamos. Ainda temos uma longa estrada pela frente.

*


No quarto da princesa, Isaac a embalava e tentava acalmá-la, mesmo que ele próprio estivesse tenso com toda a situação. Um instinto protetor e de responsabilidade se apossou dele. Estava apreensivo, as palavras de Jeffrey repetiam-se em sua mente.
estava em pânico. Sabia que seu pai era um homem mau, porém, jamais imaginaria até que ponto ele iria. Ele a ameaçou, não só a ela, mas a Isaac também. Após o que viu, sabia que o rei seria capaz de cumprir cada promessa feita. Era claro que não havia um pingo de amor ali, nem por ela, nem por , nem por ninguém. Era um homem vazio e sem escrúpulos.
— Fique calma, . – Isaac tentava trazer tranquilidade a menina.
— Ele vai nos matar – falou entrecortada, em meio aos soluços.
Isaac passou seu braço pelas costas dela, trazendo-lhe para o seu peito. Afagava as costas da garota que estava em choque.
— Eu não vou deixar isso acontecer – vociferou firme.
— Você não vai poder fazer nada. Você não entende, ele faz o que quer aqui – contrariou-o, balançando a cabeça freneticamente enquanto suas mãos tremiam.
— Ei, me escute. – Isaac colocou suas mãos no rosto dela, fazendo com que os olhos vermelhos da princesa encarassem os seus.
A princesa não disse nada, apenas fitou-o, vendo a solidez que ele passava em seu olhar. A expressão de Isaac era forte e madura, diferente do rapaz que havia se apresentado a ela no primeiro instante. Não que o garoto divertido e abusado não estivesse ali, porém, naquele momento, Isaac era um homem e sentia uma imensa necessidade em ajudar a prima com o que quer que ela precisasse.
— Eu disse que não vou deixar que nada aconteça e eu o farei, – soou seguro do que dizia. — Não importa como, eu vou dar um jeito. Confia em mim? – questionou-a, passando o polegar para enxugar as lágrimas que corriam pela bochecha da menina.
acenou com a cabeça, concordando, mesmo com medo. Engoliu o choro e jogou os braços pelo pescoço de Isaac, abraçando-o apertado, sentindo um pouco de conforto no meio do caos.
O rapaz conseguia sentir o coração vacilante dela bater ritmicamente em seu peito. Os pequenos dedos delicados tocaram os seus cabelos e ele pode aspirar o perfume doce que a pele da sua prima emanava. Naquele momento, sentiu-se segura de alguma forma, mesmo estando nos braços de uma pessoa que era tão distante para ela. Algo fazia Isaac transparecer uma zona protegida, livre dos perigos do castelo, e a garota gostou de estar ali, em meio ao corpo quente dele.
— Obrigado por isso, deusa – o rapaz deu um leve sorriso, recebendo um pequeno tapa de , que afastou-se dele, reprimindo uma expressão mais alegre.
— Você não muda, Isaac. Sempre engraçadinho. - a princesa rolou os olhos.
— O que seria das nossas vidas monótomas se não houvesse motivos para nos fazer sorrir? – piscou para ela e levantou-se da cama. — Eu preciso sair, você ficará bem? Se quiser posso ficar um pouco mais aqui, sabe que para mim não é esforço algum – perguntou com um sorriso de canto cheio de malícia.
— Não é preciso, vou ficar bem – ela respondeu, ignorando as intenções embutidas do rapaz.
— Tudo bem, então. Tchau, . – Acenou, enquanto caminhava em direção a porta.
— Obrigada, Isaac – a princesa agradeceu-o, antes que ele se retirasse por completo, recebendo uma leve piscada e um largo sorriso do rapaz, que logo fechou a porta do aposento e saiu do local.
Assim que deixou o quarto dela, Isaac pôde suspirar e pensar melhor. Tentou manter-se forte durante todo o tempo que esteve com a princesa, porém, o seu interior, estava frenético. estava tão aflita que não percebeu o quanto Isaac tremia em um misto de ódio e temor.
Passou a mão por seus cabelos negros e olhou para o teto, tentando se acalmar, o que não resultou em muita coisa. Caminhou em passos largos para o seu quarto, ignorando todos ao seu redor. Passou por seu pai sem nem ao menos o cumprimentar e entrou em seu cômodo, afoito, precisando extravasar.
Pegou o primeiro vaso que viu pela frente e jogou-o contra a parede. Viu o utensílio se espatifar em cacos pelo chão e desejava que aquele objeto fosse a cabeça do rei.
— Por que está assim? – a voz do seu pai rompeu o quarto, levando-o a tomar um susto com a entrada repentina.
— Aquele homem é lunático… - foi a única coisa que Isaac conseguiu dizer, enquanto fitava os cacos no chão e tentava pensar em algo que pudesse salvar e .
— Que homem? Por que está tremendo e tão nervoso? – Cameron aproximou-se do filho, observando o local bagunçado com a explosão que o garoto deu.
Isaac não tinha noção de como estava fora de si, porém, seu pai o observava cautelosamente, sem expressão alguma.
— O rei Jeffrey… - sussurrou, lançando-se na cama e enfiando os dedos entre os seus cabelos, quase os arrancando.
— O que ele fez?
— Aquele homem não tem escrúpulos. - levantou o olhar para o pai, mostrando toda a cólera que sentia. — Eu cheguei no quarto da rainha e ela estava ensaguentada, eles estavam aos socos. Jeffrey também estava ferido, mas isto é porque a rainha é uma ótima guerreira. Mas e se não fosse? E se fosse com ? Ele a agrediu e agora eu sinto toda essa adrenalina querendo sair para matar aquele crápula – rosnou, fechando o punho com força e dando um soco na parede ao lado da cama.
Cameron observava o filho atentamente, a raiva do rapaz era exalada pelo seu corpo. Ele conseguia perceber que Isaac não deixaria aquela história assim por menos, porém, pensava em uma forma de contornar tudo aquilo sem que Isaac pudesse se meter.
O jovem, vendo a calma do pai e a falta de resposta dele, ou mesmo o esboço de alguma reação, franziu o cenho e o encarou, começando a compreender tudo.
— Você já sabia… - constatou. — Eu não acredito! Há quanto tempo? Você sempre soube e não fez nada? Como pôde?
— No castelo nós sabemos de muitas coisas, apenas optamos por ficar calados – Cameron respondeu como se não fosse nada.
— Você está sendo conivente com essas atrocidades – Isaac ralhou apontando para o pai. O sentimento de impotência o alastrava mais ainda após essa confirmação.
— Garanto que sabe se cuidar sozinha.
— Isto é um absurdo.
— E você queria que eu fizesse o quê? – Cameron elevou a voz, nervoso. — Me intrometesse com os problemas conjugais deles?
— Não sei… talvez. Fizesse qualquer coisa. – Isaac levantou-se novamente, agoniado.
— Você não entende! Fique quieto e não se envolva. Você não vai querer entrar no caminho de Jeffrey.
— É bom que ele é que não queira entrar no meu – Isaac respondeu, caminhando até uma adega de vinhos que possuía em seu quarto. Pegou uma garrafa e colocou sobre a estante, a fim de abri-la.
— Isaac, eu te proíbo de se meter nesse assunto – Cameron ordenou firme, entretanto, teve em resposta um sorriso debochado do filho.
— Você não pode me impedir. - abriu a garrafa de vinho e colocou o líquido em um copo, bebendo em seguida.
Cameron apressou-se para perto dele e deu um tapa no copo de Isaac, derrubando-o, o vinho se espalhando pelo tapete e misturando-se aos cacos do vaso.
— Eu não estou brincando, Isaac. Eu tenho meus meios para te mandar até para Ocland se eu quiser. Não graceje comigo – rugiu.
— Achei que estava sentindo saudades de mim, papai – debochou, irado pela atitude passiva do pai diante da situação.
— Eu preciso de você aqui, Isaac. Não me decepcione. Eu posso te ensinar tudo o que sei, posso te fazer alguém importante em vez de um maltrapilho viajante, todavia, posso sumir com você de Ílac até que aprenda a me obedecer. Você escolhe.
O rapaz não respondeu. Sabia que no reino, abaixo da realeza, o seu pai era o homem mais importante que havia, ele poderia muito bem cumprir cada palavra que estava dizendo. No entanto, o garoto não temia perder o poder que estava destinado a ele, não se importava em não ter o cargo de mão direita da rainha, só conseguia pensar na segurança das pessoas que presava.
Calou-se diante da ameça proferida. Não porque queria nada disso, mas pelo fato que, se fosse embora, não poderia ajudar em nada. Se afastar não era uma opção. Não iria embora do castelo até que soubesse que estava em segurança.

*


Ao anoitecer, , pensava no encontro inusitado que havia acontecido. Seu coração sangrava muito mais que as feridas do seu corpo. Não queria dizer aquelas palavras duras para , contudo, fora necessário. Ele era altruísta demais, bondoso em demasia. Ela jamais permitiria que ele confrontasse o seu marido. Já bastava a vida dela e em risco todos os dias, agora Isaac… Não poderia colocar mais um na zona de guerra interna que era aquele castelo.
A rainha terminava o seu último curativo quando a porta rangeu e uma figura pequena e loira correu em sua direção.
— Mamãe! – Luigi pulou sobre a cama e só não se jogou sobre porque a voz de Sarah bradou um sonoro “não” o impedindo.
— Desculpe, . Ele estava ansioso para te ver. Desde o jantar que tentei entretê-lo, porém ele falou que queria te ver – Sarah explicou com os ombros um pouco encolhidos, constrangida com a situação com que a amiga se encontrava.
— Não tem problema, Sarah. – sorriu e inclinou-se para abraçar o filho.
O menino, devagarzinho, ajoelhou-se sobre a cama, ao lado da mãe, e deu um beijo estalado por cima da região arroxeada do rosto dela, causando um pouco de desconforto no local.
— O que foi isso, meu amor? – perguntou rindo e acariciando os cabelos loiros de Luigi.
— Um beijo. Você sempre diz que com um beijinho sara mais rápido. Então logo você vai estar boazinha de novo – justificou lançando seus bracinhos na cintura da mãe em seguida, fazendo lacrimejar.
— Claro que vou, Lui. Logo vou ficar boazinha e nós poderemos brincar muito juntos, tudo bem?
— Oba! – bateu pequenas palminhas e pulou eufórico sobre a cama, enquanto e Sarah riam do menino.
O príncipe começou a brincar com tudo o que encontrava pelo caminho. Desceu da cama e se distraiu com uns animais empalhados que haviam por ali, dando espaço para que as mulheres pudessem conversar sem preocupações.
, até quando isso vai continuar? Não acha que já chegou ao limite? – Sarah criou coragem para fazer a pergunta que a angustiava.
— Essas feridas são apenas nadas se comparadas ao que ele já me fez. Não se preocupe, Sarah, enquanto eu estiver de pé, eu aguento qualquer coisa.
— Eu sei que é forte, . Eu não suportaria passar nem metade do que passou.
— Nem eu permitiria tal coisa. Mesmo que Cameron seja meu tio, eu não deixaria – a rainha afirmou convicta.
— Ele não é assim, ainda bem. O Cameron não me toca de nenhuma forma, então não preciso me preocupar ou ter medo de passar o mesmo que você – deu um pequeno sorriso contido.
— Que bom – suspirou. Era uma preocupação a ser descartada. Pelo menos a sua amiga estava em boas mãos. — Vamos mudar de assunto, como está se sentindo com seu filho de volta? – perguntou e viu o rosto de Sarah se iluminar.
— Não tem recompensa maior. O Isaac tem o jeito peculiar dele, mas é um garoto bom. Falando nisso, espero que perdoe o meu filho por ser tão indelicado, ele não deveria ter falado daquele jeito com ela.
— Deixem as crianças, Sarah. A tem um coração muito grande para guardar rancor por tão pouco.
— Mesmo assim. Ele induziu algo ultrajante.
— Ultrajante por quê? Por um possível relacionamento amoroso? Isso não é degradante, Sarah. Eles são primos distantes, não que eles queiram ter alguma coisa, mas não precisamos fazer um pandemônio por isso. Eu adoraria que Isaac fizesse parte da família, mais do que já faz.
— Claro que não. Eu jamais permitira isso – Sarah levantou exaltada e interrompeu-a rapidamente com a voz elevada.
— Acha que a minha filha não é boa o suficiente para Isaac? – franziu o cenho, não gostando do rumo daquela conversa.
Sarah, ponderando a forma que a sua fala havia soado, suavizou a sua expressão, fazendo cair de leve os seus ombros.
— Não é isso, . Jamais pensaria tal coisa. A é um doce e creio que na terra não há homem algum que a mereceria. Porém, Isaac não foi feito para ser rei, meu filho será a pessoa com que ela irá se apoiar, o Grande Conselheiro, assim como Cameron foi para Miles e é hoje para você.
— Você teme os riscos que ele pode correr se tivesse tal poder em mãos? – Era uma pergunta, mas falou como se fosse uma afirmação. Sarah demorou um tempo para responder, até que finalmente concordou.
— Não me julgue por me preocupar com o meu filho, . Eu sei que pensaria o mesmo se fosse . Tenho plena certeza que se tivesse outra opção, você faria de tudo para mantê-la longe dos perigos que a realeza enfrenta.
A rainha apenas acenou com a cabeça. Sim, se ela pudesse, afastaria de tudo isso, mas não podia. Além disso, o sangue real corria pelas veias da sua filha, ela tinha responsabilidades, assim como . Não poderia tirar o direito dela reinar quando chegasse a hora, estava em seu chamado. O que poderia fazer era prepará-la para lidar com o que quer que viesse e instruí-la para ser a melhor governante, da mesma forma que seu pai fez com ela.
Todos que tem os genes reais estão fadados a uma vida em meio ao poder, queira ou não. Podem fugir, podem lutar, podem até mesmo ter medo de encarar a realidade, todavia, o destino sempre dará um jeito de colocar os herdeiros novamente em seu trono. sabia que não adiantaria afastar ou escondê-la. O trono era dela, ela queria assumir um dia. A rainha só esperava que nada tentasse impedir o que lhe era seu por direito.
Não condenava Sarah por temer que o seu filho tivesse um alvo desenhado em suas costas. sabia que a paz era como um fio fino que poderia ser arrebentado a qualquer momento. Fio este que a rainha dava um pouco da sua vida todo os dias para ser mantido.
Muitas noites ficava a pensar qual seria o preço que pagaria. Por mais que doesse imaginar que sua filha pudesse sofrer, sabia que poderia ser uma realidade vigente.
Lembrou-se dos olhos odiosos e gananciosos de Reynia, da maldade de Jeffrey, a imprevisibilidade de Garret e a loucura da sua mãe. Além de tudo, mesmo que todos os dias exalassem as flores dos campos, o medo do desconhecido sempre estaria ali, na penumbra da noite, quando o vento do sul traz o cheiro das águas que vem de Ocland.
Como culpar Sarah por querer manter o seu filho bem? Não faria ela o mesmo se pudesse? Não era isso que ela fazia todos os dias quando lutava com unhas e dentes contra Jeffrey para proteger a sua menina? Não foi seu instinto protetor que levou-a a manter a gravidez e dizer a todos que ela era filha de Henrique? A partir do momento que soube que um bebê estava em seu ventre, sabia que amaria aquele ser acima de todas as coisas e daria a sua vida, a sua alma e todo o seu ser para mantê-la a salvo.
— Eu entendo – disse, levantando-se da cama e agarrando-se a Luigi, que ainda brincava um pouco afastado com os animais empalhados. Deu um abraço apertado no menino, depositando ali também todo o carinho que sentia por ele.
Ao olhar para o garoto, apesar de ter várias feições do seu marido, não lembrava do ser repugnante que era Jeffrey e nem a forma dolorosa que ele foi concebido. Luigi fora o milagre em meio ao sofrimento. Era a sua pequena luz, toda vez que olhava-o percebia que, até no mais fundo do abismo, os raios de sol podem ser alcançados.
colocou seu rosto na curva do pescoço do menino, aspirando o cheiro do seu garotinho, não querendo largá-lo mais.
— Está chorando, mamãe? – o príncipe perguntou assim que sentiu algo molhar a sua pele.
nem havia percebido quando começou. Há anos não chorava. Havia aprendido a interiorizar todo e qualquer tipo de sentimento que a quebrasse. Não que pudesse considerar como muita coisa, era apenas duas lágrimas solitárias e vazias que haviam escorrido. As mãos pequenas do menino começaram a afagar os cabelos negros da mãe e Sarah viu que era o momento de deixar sozinha.
Logo que ouviu a porta se fechar, a rainha levantou o rosto e passou sua mão pelo rosto do pequeno.
— Não estou chorando, meu amor.
— Está sim, olha só uma lágrima bem aqui. - o menino apontou para uma gota perdida na bochecha de . — Por que a mamãe está triste? – tocou com o indicador, enxugando o rosto da mãe.
— São lágrimas de saudades porque mamãe ficou muito tempo fora e ainda não tivemos tempo para ficarmos juntos. - abriu um sorriso para o menino, a fim de tirar a ruga de preocupação que havia fincado na testa do garoto. — Agora vá tomar um banho porque você está cheirando que nem um gambazinho – desviou do assunto e riu, pegando o menino em seu colo e levando-o até a banheira do seu quarto.
Encheu de água e colocou alguns sais de banho para o garoto. Gostava de fazer ela mesma esses pequenos detalhes, compensando muitas vezes a sua ausência devido as responsabilidades reais.
Deixou-o brincar um pouco na água e foi buscar uma toalha para retirá-lo dali. Assim que saiu do banheiro, deparou-se com o homem que a esperava sentado em sua cama. Seus braços estavam encostados em suas pernas e a coluna levemente inclinada. Parecia nervoso, seus cabelos castanhos estavam levemente bagunçados e as veias dos seus músculos sobressaltadas. Assim que a viu, deu um sorriso contido, varrendo os olhos por cada atadura que estava na pele dela.
— Não esperava te ver aqui. – A rainha encostou a porta do banheiro, para que não corresse o risco de Luigi vê-lo. — Meu filho está ali dentro. - apontou para a porta para que o soldado entendesse.
— Eu queria saber se estava bem. Antes não pudemos conversar, a senhora só pediu para que enviasse o recado ao general – falou cerrando os punhos, lembrando do desaforo que o guerreiro havia feito com ele.
— Não me chame de senhora, Olleon, me sinto uma velha abusadora de garotos indefesos - resmungou indo até ele.
— Não é pela idade, é respeito. Vossa Majestade sabe que tem toda a minha inteira devoção. – O homem levantou-se e caminhou até a rainha tocando o seu rosto.
— Agora não, Olleon. – deu um passo para trás, afastando-se dele.
— Eu só quero te fazer se sentir melhor – sussurrou. — Eu estou ao seu dispor para tudo, minha rainha, como sempre.
— Eu sei – suspirou, cansada demais para lidar com qualquer coisa. — Mas hoje eu preciso ficar com o meu filho. É o que eu quero, Olleon.
— Tudo bem, Majestade. Estou às suas ordens, até mesmo para matar o rei, caso necessário. – O soldado tinha uma expressão dura, disposto a tudo pela rainha.
— Eu sei, mas não precisa. Posso lidar com ele. – tratou de tirar aquela ideia dele e suavizou a sua expressão, em agradecimento por ter alguém de confiança no castelo por ela.
— Se cuide, minha rainha. – O soldado fez uma reverência e caminhou até a porta para se retirar.
Justamente quando abriu a porta, topou com o rei, que tinha uma expressão demoníaca em seu rosto. Seus braços estavam cruzados e haviam alguns curativos espalhados por seu corpo. Automaticamente, a mão de Olleon se fechou sobre o cabo da sua espada, pronto para defender de qualquer ataque que aquele homem fizesse.
— Está tudo bem, pode se retirar, Olleon – a voz da rainha soou dura e o soldado sabia que aquilo era uma ordem. Ela não o queria ali, seja o que for que havia levado Jeffrey de volta ao seu quarto, ela teria que lidar novamente com ele sozinha.
O soldado foi empurrado pelo braço duro do rei, que logo fechou a porta, deixando-o parado do lado de fora, pronto para invadir o aposento caso ouvisse algum barulho suspeito.
Jeffrey caminhou lentamente até , tentando decifrar as coisas que sua esposa omitia dele.
— Não sabia que agora mandava os outros fazerem o serviço por você, . - falou enquanto puxava uma cadeira e sentava-se, fitando seu olhar sobre a rainha.
— Não estou te entendendo.
— Não? Além de tudo é covarde? – indagou-a, passando a mão pelo seu próprio pescoço, onde uma longa marca vermelha poderia ser vista por toda a extensão da sua pele.
— O que você quer, Jeffrey?
— Ah, , não me pergunte o que eu quero, pois não gostará do que vai ouvir. Eu quero você e todo o seu corpo que me pertence, mas, ao mesmo tempo, eu sinto uma vontade insana de torturá-la, cortar cada pedacinho seu, te matar aos poucos para que você morra sabendo que nunca deveria ter me questionado. Porém, este dia ainda vai chegar, não se preocupe. Apenas ainda não é a hora. – Jeffrey saboreava cada desejo das suas palavras, fazendo os poros de se arrepiarem.
— Mamãe, minha pele parece de velhinho. - o grito de Luigi foi ouvido, a voz aguda vinda do banheiro, fazendo o coração da sua mãe acelerar, temendo que o menino presenciasse alguma cena sórdida, assim como .
— Respeite ao menos o seu filho que está aqui. - a rainha ressaltou, querendo preservar o garoto.
— Eu não vou fazer nada. Está com medo, ? Não vou tocar no meu garoto. Ele é a única coisa boa que veio de você e desse casamento infernal. Não deixaria um fio do cabelo dele cair, afinal, ele será o futuro rei.
— O Luigi não será rei, Jeffrey. A é a minha sucessora – disse isso, fazendo as gargalhadas do rei ecoarem pelo local.
— Vejo que é tão louca como a sua mãe. Você acha mesmo que eu vou deixar aquela bastarda assumir o meu trono?
MEU TRONO! – bradou, furiosa. — Este reino é meu, o sangue de Ílac corre nas minhas veias. Não tente usurpar o que não te pertence.
— Fala igual a maldita da sua mãe. Talvez eu te prenda junto com ela, que tal? Acho uma ótima ideia – o rei sugeriu risonho.
— Talvez você queira ir até lá. Não eram tão amigos no início do nosso casamento?
— Bons tempos… – Jeffrey passou o dedo por seu lábio ferido, depois com a língua, lambeu um pequeno filete de sangue que havia saído. — É uma pena que as coisas tenham mudado tanto, hoje eu quero léguas de distância daquela velha maldita – resmungou, voltando a olhar para , se perdendo nas curvas que a rainha tinha.
— Saia do meu quarto, Jeffrey. Já nos cansamos suficiente por hoje, não acha? Eu só quero uma noite de paz com meu filho. Era para me provocar que você veio? Então missão cumprida, satisfeito? – passou a mão por seu rosto, exausta e depois posou-a em sua cintura.
— Na verdade, eu vim lhe avisar que vou querer uma festa grandiosa para o meu aniversário. Você não esqueceu que está perto, não é? Convide o meu irmão, quero que ele sinta inveja de tudo o que eu tenho. Quero que todos me olhem com ganância. Seja a mais bela da noite, seremos o casal perfeito e, antes que discorde, você que me dará o meu maior presente. Quero você, , e não terá como fugir. Muitos estarão aqui no castelo e você não poderá me negar como anda fazendo ou eu espalharei para todos que está opondo aos seus deveres reais. Porém, não fique triste, eu tenho reservado alguns presentinhos para você também – revelou e levantou-se, caminhando até a rainha que estava estática. Deu um beijo breve nos lábios dela, deixando o amargor e o temor das suas palavras.
Assim que saiu, sentou-se na cama, não conseguindo conter o tremor das suas pernas. Aquilo estava cada vez mais insustentável e ela temia não ter forças o suficiente para enfrentar Jeffrey para sempre. Precisava provocá-lo a altura, mas sem colocar os seus queridos em risco. Necessitava de algo que o tirasse dos trilhos, assim como ele fazia com ela.
Porém, não confiava em ninguém que não fosse aqueles que ela amava. Como poderia fazer?
Lembrou-se das palavras de Jeffrey.
… hoje eu quero léguas de distância daquela velha maldita.” - era isso que ele havia dito.
A recordação a fez remeter a anos atrás. Sua mãe sempre era bondosa com ele, porém, subitamente, os olhares se transformaram em raivosos. Ela não dizia nada, mas sabia que havia um clima de hostilidade ali e, por incrível que pareça, seu marido parecia temê-la de alguma forma. Como se ela soubesse de algo.
Pensando nisso, sabia o que deveria fazer. Não era o que ela mais queria, nem ao mesmo estava preparada para tal encontro, contudo, tinha certeza que era chegada a hora. Era o momento de rever Helena.



Capítulo 12

A cada passo mais perto do local, as mãos dela estremeciam. As lembranças mais fortes que tinha daquele lugar eram recheadas de dor e tormenta. Os dedos da rainha tamborilavam, relembrando a agonia que sentiu ao ter cada um deles perfurados por sua mãe. Voltar ao Poço da Morte não seria fácil, mesmo que este já não fosse mais o seu nome.
Desde que a mãe dela havia sido colocada naquele lugar, muita coisa havia mudado. Contudo, poderiam retirar todos os objetos de tormenta, transformar todas as paredes, ou mesmo colocar cortinas claras nas janelas. Nada modificaria as recordações que possuía de lá.
A medida drástica de trancafiar a matriarca ali surgiu devido à insanidade de Helena, que começou aos poucos, após a morte de Miles , seu marido. Havia dias que ela o chamava como se ele estivesse vivo, enquanto outras vezes, parecia normal, encarando a dura realidade.
Com o passar dos dias, suas atitudes começaram a piorar, demonstrando a sua preferência plena pela neta . Ela não se importava com o pequeno Luigi – que não havia completado nem um ano quando Miles faleceu. Era como se o seu neto não existisse, ela apenas ignorava completamente o pequeno príncipe.
Os eventos foram se tornando mais insustentáveis quando uma batalha se formou no castelo entre ela e Jeffrey. não sabia definir o motivo, porém, todo desafeto que Helena escondeu por ele foi escancarado. Ela não media mais as palavras e deixava claro o quanto odiava o marido da sua filha.
Por um momento, até achou que isso fosse uma demonstração de amor da mãe, uma revolta por todas as crueldades que Jeffrey havia feito contra ela. Entretanto, a rainha estava errada. Em uma conversa com a matriarca, na tentativa de propor um plano para sair daquela situação, foi escorraçada. Helena não consentiu, tratou-a mal e ainda a mandou continuar a vida como ela era, recheada de dor e sofrimento.
aguentou toda a bipolaridade da mãe e as reclamações de Jeffrey sobre ela por um bom tempo, até que fato a fez tomar medidas drásticas.
Quando Luigi havia acabado de completar um ano de idade, uma grande festa foi encomendada por Jeffrey, a fim de comemorar o primeiro aniversário do seu herdeiro. já havia se arrumado e agora ela buscaria o seu filho para entrarem todos juntos no grande evento real. As criadas ficaram responsáveis para arrumar o menino e aprontá-lo sem atrasos e, assim, quando a rainha chegasse ao aposento dele, o príncipe estaria pronto.
No momento em que se aproximou do quarto, sentiu que algo estava errado, ouviu alguns resmungos e abriu a porta de uma só vez, deparando-se com o corpo da sua mãe inclinado sobre o menino, que era sufocado com um travesseiro pelas mãos sorrateiras de Helena.
— O que você está fazendo? – A rainha gritou, retirando a sua mãe de cima de Luigi com brusquidão. O rosto dele estava vermelho arroxeado por causa do sufocamento que havia sofrido. o embalou em seu colo e começou a chorar, tentando conter o sentimento da quase perda que alastrava-se em seu peito. — Você está louca! – Essa só podia ser a única explicação para a cena que havia presenciado.
— Ele precisa morrer – Helena disse fria, nenhuma emoção poderia ser detectada em sua voz.
—Sai daqui! Eu mato você antes que possa tocar em meus filhos, está me ouvindo? – gritou em meio ao choro. Só não havia avançado contra a sua mãe porque não tinha condições de largar o pequeno em seu colo.
— Ele vai te fazer escolher entre os seus filhos e, no final, alguém morrerá de qualquer forma. Um ou outro, seja qual for, vai doer. Melhor que seja o que tem o sangue do demônio – Helena balbuciou sem olhar nos olhos de , como se anunciasse uma profecia.
— Nem que eu morra por eles, mas os meus filhos sairão dessa com vida. – rugiu, apertando o garoto em seus braços, que ainda estava desacordado.
Helena olhou para a filha com pena, como se ela fosse uma tola por dizer tais palavras. Condenava-se por não ter terminado o serviço a tempo, antes que a pegasse em flagrante. Agora ela sabia, era tarde demais.
, por que a demora? – Jeffrey entrou no quarto indagando e deparou-se com a imagem transtornada da sua esposa com o filho nos braços. No mesmo instante, voltou seus olhos para Helena, que o encarou com uma expressão séria e sem medo de vacilar.
— O que você fez? – a voz grave do rei bradou pelas paredes do aposento e seus passos foram rápidos até chegar à mulher, que não desviara dele.
Os dedos grossos de Jeffrey foram direto para o pescoço dela, apertando-o sem piedade. Ninguém precisava explicar, ele entendera no momento que analisou a cena.
assistia tudo calada, não conseguia defender a mãe. Qualquer resquício de amor pela sua matriarca havia ido para o fundo do poço assim que a mulher tocou em seu filho.
— Eu fiz o que precisava ser feito – a voz apertada dela soou, enquanto Jeffrey a esganava. Ele iria matá-la ali. — Mate-me, porém saiba que seus segredos não serão levados ao túmulo comigo – falou, mesmo com falhas na respiração. Entretanto, havia nela uma tranquilidade jamais vista, estava passiva, como se não estivesse quase à beira da morte.
Seja o que for que Helena sabia, mesmo que não entendesse, havia sido o suficiente para que os dedos de Jeffrey folgassem aos poucos, relutante, até largá-la por completo.
Ele respirava rápido, uma luta interna travada entre matar a mãe da sua esposa ou permanecer longe dela. Não se importava com muita coisa, mas o pequeno Luigi era o seu ponto fraco, mais ainda do que a compulsão que sentia pela mãe do garoto.
— Eu não quero saber o que você vai fazer, porém a mãe é sua. Dê um jeito nela antes que eu o faça. Se acontecer alguma coisa com o meu filho, saiba que acontecerá dez vezes pior com a sua bastarda – Jeffrey rugiu olhando agora para . Ele não podia fazer nada contra Helena, no entanto, sabia que a rainha daria um jeito. Ela sempre faria o impossível para manter tudo em seu perfeito andamento.
O rei caminhou até a sua esposa, tomou o menino das suas mãos e deu um abraço apertado em Luigi, carregando-o para longe do quarto e deixando mãe e filha a sós.
— Deixe-me fazer o que é preciso e garanto que a dor será menor. Ele só tem um ano. Seu apego por é muito maior que a esse garoto. – Helena não sentia culpa, estava determinada, e a conhecia o suficiente para saber que ela o faria sem pestanejar.
— A senhora está compreendendo o que diz? Eu jamais escolheria entre os meus filhos. Eu os amo. Eu tenho um sentimento de mãe, o que é diferente do que você conseguiu ter algum dia. – levantou-se, a fim de encarar a sua mãe frente a frente.
— Amor? Por um menino que foi concebido enquanto o seu marido a violentava? Enquanto ele arrancava o seu último pingo de dignidade? – Helena bufou e abriu um sorriso em escárnio. Deu uns passos em direção à filha e ambas se fitaram, enquanto a mãe destilava o seu veneno. — Dia após dia, grito após grito. Por que você acha que o Miles e eu mudamos de quarto assim que casastes? Foi para que o seu pai não ouvisse o seu choro ridículo. Doía, não é? Cada vez que você se sentia rasgada e dilacerada, cada vez que a brutalidade dele vinha sobre você. Com certeza o nojo e a ânsia de vômito se faziam presentes em suas noites. Como amar um ser que nasceu em meio à podridão?
As palavras de Helena vieram como flechas no interior de , fazendo-a reviver cada instante doloroso. Ela sabia de tudo, claro que sabia. E mesmo assim, nada foi o suficiente para que sua mãe se comovesse por ela.
— Podridão essa que você permitiu – rosnou contra a sua mãe. — Não importa a origem do Luigi, ele é meu filho, sangue do meu sangue, nascido das minhas entranhas. O amor que eu tenho por ele não é medido pelo sofrimento que vivi, pelo contrário, ele é o motivo que me faz suportar tudo. Ele pode ter vindo da podridão, como você mesma diz, porém, pior do que a podridão física que suportei, é ter que lidar com a podridão que é a sua alma, mãe.
— Pense o que quiser. Eu sei o que estou fazendo. – Helena cruzou os braços, os olhos pareciam um pouco vibrantes pela declaração da filha.
caminhou até a porta, afastando-se de Helena, e colocou a cabeça para o lado de fora do quarto, chamando alguém que não pôde ser visto por sua mãe.
— Então cada um que assuma as consequências das suas próprias atitudes, pois eu também sei o que estou fazendo. - dois guardas entraram e postarem-se ao lado da rainha. — Prendam-na por atentado a vida do príncipe! – ordenou a eles e, imediatamente, cada um segurou Helena por um braço, pegando-a de surpresa pela atitude de .
— Você não ousaria fazer tal coisa? – Helena ainda deu uma última olhada séria para a filha, dando-a uma última chance para que se redimisse de tal ato.
— Eu tenho plena certeza do que estou fazendo. Podem levá-la para o quarto dela por enquanto, mas exijo que mantenham sigilo completo, caso queiram manter suas vidas e os empregos de toda a família de vocês – terminou ordenando aos guardas, que apenas assentiram para a rainha.
— Você ficou louca! Estão todos loucos! Me soltem, suas pragas! Não podem me prender! Eu sou a rainha de Ílac, não podem me tocar! – Helena bradava, indignada.
— Errado! Eu sou a Rainha de Ílac! Desde que o meu pai morreu você é apenas uma viúva! Não é rainha, não é mãe, não é avó, você não é nada mais, Helena!
— Miles, por favor, mande essa ingrata me soltar! Miles, meu amor, por favor! – a mãe de começou a chamar pelo falecido marido, voltando mostrar a sua insanidade. —Filha, a mamãe te ama, você não vai entender o que eu faço agora, docinho, um dia você vai compreender, eu vou fazer tudo por você, , minha pequena! – ela falava como se estivesse dizendo para a criança e não a adulta que estava a sua frente, só mostrando ainda mais como estava instável.
— Isso não é amor! – foi a única coisa que conseguiu dizer, enquanto via sua mãe ser arrastada para fora.
, não! Por que está fazendo isso comigo!? Foi por que te neguei quando nasceu? Foi só por um segundo, filha, sua mãe não entendia, mas o seu pai me fez compreender que você era especial! Chame ele! Ele vai te explicar, ! Chame o seu pai! MILES! MILES, AMOR! POR FAVOR, DIGA A ELA! – Helena começou a gritar sem parar, até ser levada para longe e seus berros já não pudessem mais ser ouvidos por .
A rainha não soube como digerir àquela situação. Era notória a loucura da sua mãe. Não sabia sobre o que ela estava dizendo e nem se alguma coisa que ela falou era verídico. Só possuía uma certeza, precisava afastar Helena da sua família, prendê-la em algum lugar em que ela não fosse mais um perigo. Portanto, nada mais justo que deixá-la no mesmo local onde todo o circo começou, o Poço da Morte.
A prisão de Helena pôde ser justificada pela loucura apresentada após a morte de Miles. Alguns ajustes foram dados no local, porém, pelo menos, ela estaria longe o suficiente para que não precisasse mais lidar com ela… Até aquele momento.
Sete anos depois, estava a caminho do mesmo lugar que tanto evitou. Como não conseguiria fazer aquilo sozinha, pediu para que a princesa a acompanhasse. A única que costumava ir até lá era . A rainha sabia que Helena não faria nada contra a menina. Além disso, ela só permitia que a filha visitasse a avó acompanhada da guarda real.
Desciam, então, as duas pelas escadas que as levariam ao antigo local, que agora, para as más línguas, tornara-se o Calabouço de Helena. As paredes eram iguais e o cheiro de mofo ainda era forte. Mesmo após anos, o caminho ainda arrepiava a pele da rainha.
— É sinistro, não é? - falou, vendo o desconforto da mãe, que apenas deu de ombros. — Eu disse que esse lugar era assim, por isso eu sempre peço para deixá-la sair daqui.
continuou calada, evitando que a sua boca proferisse palavras erradas, ou que a sua voz saísse trêmula, demonstrando o quanto aquela situação era desconfortável para ela.
— Por que agora? - a garota indagou, recebendo um franzir de sobrancelhas da mãe em resposta. — Me refiro a ver a vovó. Depois de tanto tempo, por que resolveu vê-la finalmente?
— Creio que é a hora de dar uma nova chance a ela, isto é, se ela se mostrar realmente sã. - respondeu, após ponderar sobre o que dizer por alguns instantes, fazendo com que a olhasse e sorrisse, feliz pelo o que havia ouvido.
Não tardou para que chegassem diante da porta que separava as duas mulheres com os gênios mais fortes do castelo, e Helena. Duas mulheres de gerações diferentes, mas que eram grandes por igual, apesar de suas personalidades peculiares.
A porta foi destrancada e aberta vagarosamente, fazendo com que o rangido chamasse a atenção da mulher que estava dentro do local. Helena estava sentada em sua cama, olhando o horizonte pela pequena janela empoeirada do lugar.
— Miles, é você, querido? – perguntou, virando o pescoço lentamente, até parar o seu olhar em , que estava congelada diante da visão da sua mãe.
Os cabelos que antes eram negros com uma cor viva e radiante, agora estavam desgrenhados e os tons brancos haviam os tomado quase que por inteiros. Ela também estava mais magra e o seu rosto coberto por rugas fortes, que antes passavam-se desapercebidas. Seus olhos estavam fundos, envoltos em uma bolsa negra, além do olhar opaco e sem vida.
olhou imediatamente para , em uma expressão que a indagava mentalmente onde estava a melhora que a filha havia dito sobre Helena. A garota apenas arregalou os olhos, não conseguindo palavras para explicar, havia tempo que ela não ouvia a avó chamar pelo falecido avô.
, querida, é você mesmo que está ai? - Helena abriu um grande sorriso ao notar a filha, deixando a rainha desconfortável.
— Sim, sou eu mesma, Helena. - respondeu à mãe, preferindo não usar mais o termo materno, já que ela se tornara indiferente para a sua vida.
— Eu senti tanta a sua falta – sua mãe sussurrou, parecendo estar emocionada.
disse que estava melhor. - desviou do assunto, não poderia retribuir dizendo que sentiu saudades da mãe, pois não era verdade. Na realidade, a rainha sentiu-se aliviada quando ordenou que Helena fosse trancafiada naquele lugar.
— Minha doce . – Helena falou carinhosa, abrindo os braços para a princesa, que caminhou até ela e deu-lhe um terno abraço. — Essa menina tem sido tudo para mim durante esses anos amargosos. Eu sinto tanto, filha - Helena falou a última frase com pesar, para que soubesse sobre o que ela se referia.
a cada momento sentia-se mais incomodada naquele local. O pedido de desculpas sutil não havia mexido com ela, apenas havia sido inesperado. Não que ela acreditasse nas palavras da mãe, porém, se Helena já era uma incógnita quando estava bem, imagina agora no auge da sua loucura. Não sabia o que poderia acontecer, porém, era necessário libertá-la. Com Helena no jogo, a atenção de Jeffrey sairia de cima de e Isaac, ou até sobre ela mesma. só teria que tomar conta do seu caçula, caso a insanidade da sua mãe ainda possuísse tendências homicidas.
— Onde está o pequeno Luigi? - a pergunta de Helena fez até os últimos fios do cabelo de se arrepiarem, fazendo-a pensar seriamente em voltar atrás em sua decisão. — Eu estava errada, . Eu perdi você, meus netos e toda a minha família por medo. Passei tempo o suficiente aqui para entender que eu fiz tudo errado. Tudo mesmo - falou enfatizando a palavra tudo.
— Não vamos remexer no passado - foi sucinta.
— Tudo bem - Helena apenas concordou, voltou o seu olhar para e sorriu. — Ela é tão linda quanto os pais - disse para a princesa, passando os dedos por seu cabelo.
é uma ótima garota, confio nela para se tornar uma grande rainha um dia - falou, arrancando um sorriso orgulhoso da filha.
— Claro que vai. Espero poder estar por perto para ensiná-la e ajudá-la ser grande assim como você.
— A não precisa da sua ajuda, Helena.
— Como não? Eu te ajudei e olha como você tornou-se poderosa?! Eu posso estar enclausurada aqui, porém eu ouço os comentários. Todos falam sobre a grande , rainha de Ílac.
— Eu deveria agradecer? - perguntou, indignada, segurando-se para não jogar tudo à tona diante de , que permanecia ao lado de Helena, sentada na cama.
Helena apenas deu de ombros e beijou o rosto de neta. Em seguida, levantou-se e caminhou em direção à filha, erguendo a mão para tentar tocar no rosto de , que deu um passo para trás, afastando-se imediatamente.
— Não encoste em mim - rugiu entredentes, fazendo com que Helena recuasse a sua mão.
Helena caiu o seu semblante, quase como se sentisse ferida, vagou seus olhos para , em um pedido mudo para que a neta a ajudasse de alguma forma. A princesa, apenas fez uma súplica muda para que cooperasse. Para a princesa, não fazia sentido que a sua mãe viesse até ali se não fosse para abrir a guarda, mesmo que apenas um pouco. Os olhos desejosos da sua filha fizeram suspirar, rendida, e fazer logo o que havia ido fazer ali.
— Quero te dar uma chance, Helena, mas ainda não estou certa sobre isso - a rainha disse, finalmente, após um período de silêncio, fazendo os olhos da senhora a sua frente brilharem. ocultava suas reais intenções. Se era para fazer isso, ela precisaria fingir que estava mesmo disposta a dar um voto de confiança para Helena.
— Oh, querida, isso é verdade? Eu vou mesmo sair daqui? - falou tão baixo que sua voz quase era inaudível.
— Sim – adiantou-se e respondeu. — Eu só estou aqui para acompanhar minha mãe. Mas a ideia veio somente dela - levantou-se da cama e caminhou até ficar ao lado da mãe.
— Filha? - Helena voltou olhar para com incredulidade.
— Isso mesmo. Quero deixar o que passou para trás, no entanto, preciso saber se posso confiar em você, Helena. Você sabe o que eu quero dizer com isso - pronunciou dura. Independente da resposta que ela desse, a rainha continuaria de olho nela, porém, precisava saber se a mãe entendia a situação em que estava. Um vacilo e não esperaria nem um segundo para tomar uma medida mais drástica novamente.
— Claro, querida. Você está certa. Eu nem acredito… - Uma lágrima solitária escorreu pela bochecha de Helena e ela tratou de enxugá-la. — Miles ficará tão feliz quando souber. Você vai me levar até ele, não vai, ? – indagou a filha com os olhos brilhando, enquanto e engoliam em seco, sem saber o que responder.
— Independente das alucinações, ela não precisa ficar nesse lugar sombrio, mãe. Você pode manter os olhos nela em algum aposento perto da gente - a princesa sussurrou para , já temendo que a mãe voltasse atrás em sua decisão.
A rainha ponderou, pensando se valia a pena lidar com uma Helena que chamava pelo seu falecido marido. Não precisou gastar muito do seu tempo para tomar uma decisão, era melhor isso do que lidar com um Jeffrey que ameaçava de morte a sua menina.
— Claro, Helena. Não tardará e você se juntará a ele. Tenho certeza disso. - não soube porque havia dito isso. Parte, talvez, pelo fato que queria acalmá-la de alguma forma, outra possibilidade era o desejo pela morte da sua mãe desde que ela a obrigou expulsar do castelo.
— Obrigada, filha. - Helena lançou seus braços sobre , não dando-a tempo para pestanejar. Abraçou-a com força por um longo tempo, mesmo que a rainha não a correspondesse.
Quando se afastaram, parecia um pouco petrificada pela atitude impulsiva de Helena. Tentava a todo o tempo não se abalar, contudo, receber o abraço materno que não teve, mesmo antes de todo o caos, era quase icônico.
— Vamos - chamou, após pigarrear e voltar a sua compostura.
A rainha deixou sua mãe e sua filha para trás, querendo sair logo daquele lugar. Uma sensação de enclausuramento começou a se apossar dela e o pânico irradiou a sua pele. Sua respiração começou a ficar mais rápida e, em decorrência disso, suas pernas começaram a acelerar pelo corredor estreito. Ela sentia como se as paredes estivesse se fechando sobre ela e que, pelas suas costas, pudesse ser atacada a qualquer momento.
Não era fácil para estar ali, muito menos encarar Helena. Não se recordava de quando se sentiu tão vulnerável pela última vez. Ela sentia a sua armadura desintegrar aos poucos, como um soldado abatido em meio a uma batalha.
Viu uma pequena luz no final do corredor e correu, conseguindo respirar fundo somente ao terminar de subir o último degrau da escada. Inspirou o ar lentamente e fechou os olhos, voltando a se acalmar.
Tudo estava se tornando mais difícil, muitas coisas que tiravam a sua paz estavam a alarmando ao mesmo tempo. Não era só o reino. Era Jeffrey, era Ocland, era e era Helena. Era a segurança dos seus filhos, era a paz. Tudo em suas costas. Era ela e somente ela. O mundo poderia sucumbir, porém, apenas tinha a responsabilidade de sentar-se ao trono e reerguer tudo novamente.




Capítulo 13

As três mulheres da geração caminhavam até o aposento que se tornaria o novo lar de Helena dali em diante. Quatro guardas estavam encarregados de vigiá-la vinte e quatro horas por dia, um revezamento de escala duplo que impediria que ela ficasse só.
— Você ficará aqui, Helena – explicou à mãe, assim que chegaram ao local. — Não poderá sair sem autorização e terá sempre soldados ao seu redor. Participará das nossas reuniões familiares, como eventos e refeições, podendo ser chamada em outros momentos também. Não abuse da minha cordialidade e assim poderá, aos poucos, voltar à rotina das nossas vidas. Caso contrário, o lugar em que estava será pouco para o que tenho reservado para você. Estamos entendidas?
Helena, que passava o seu olhar no novo quarto, girou o corpo para encarar a filha. Arqueou a sobrancelha lentamente, abrindo um pequeno sorriso lateralizado.
— Sim, querida. Compreendi perfeitamente.
— Ótimo! – fez um sinal para que os guardas tomassem os seus postos e despediu-se da mãe, sendo seguida por , que deu um beijo em sua avó antes de sair.
Assim que deixaram o quarto, a rainha puxou a filha para o canto oposto de onde estavam, ficando longe dos ouvidos dos homens que estavam a porta do aposento de sua mãe.
— Quero te pedir algo e terá que confiar em mim para atender a minha petição sem questionamentos – cochichou, tendo a completa atenção de .
— Pode dizer, mãe. Você sabe que eu tenho plena confiança em todas as suas decisões e ações. A vó é um bom exemplo disso, mesmo eu querendo ela em um local mais confortável, eu sempre respeitei a sua decisão de mantê-la por lá. Só espero ser digna de ter seus segredos compartilhados comigo – a princesa respondeu, não tinha um tom de exigência ou de mágoa.
Ela entendia que, no cargo de rainha, havia a necessidade de se ocultar diversas coisas. Um dia seria ela e a garota faria a mesma coisa. apenas, por hora, procurava ser uma coluna firme para e, dessa forma, quando chegasse a sua hora, ela tomaria o lugar no trono que um dia fora da sua mãe.
— Você é digna, ! Só não é o momento ainda. Logo estará pronta para o reinado e saberá todos os segredos sujos e encobertos por essas paredes.
— Por que não agora, mãe? – indagou, curiosa.
— Você será uma grande rainha um dia, minha filha. Eu tenho plena convicção quanto a isso, porém, é muito difícil chegar a esse cargo sem nos corromper. Muitas coisas que não previmos acontecem e nos fazem tomar medidas que não desejamos. A realeza, ao mesmo tempo que nos ergue, também nos derruba. Essa coroa que eu carrego conseguiu sugar quase tudo de mim. Entretanto, você… - colocou a mão no ombro da filha e a olhou com um brilho diferente — Ainda há uma pureza em sua alma, . Você carrega uma graça que nem mesmo Jeffrey é capaz de lhe tirar. As ofensas dele a atinge apenas momentaneamente, elas não derrubam a luz que gira em torno da sua alma. Você é diferente! Não estou te vendando, apenas quis preservar a sua essência durante a mocidade, que é a fase onde tudo se molda dentro de nós.
— Mas o que lhe garante que, quando tudo for revelado, eu não vá se tornar essa pessoa que você tanto teme? – questionou a sua mãe, que apenas abriu um terno sorriso para a menina.
— Isso não vai acontecer, . Algumas concepções mudarão, você irá se magoar, talvez até mesmo chorar… Porém, não transformará quem é de verdade. Você já criou a sua própria identidade, filha, e eu sei que é madura o suficiente para lidar com tudo o que estiver por vir.
— Quando a senhora fala assim… parece até que vem um vendaval pela frente – , sem perceber, abraçava o seu próprio corpo, temerosa pelas palavras sombrias da mãe.
— Talvez venha, precisamos estar preparadas!
A garota mordeu o lábio, receosa, e olhou para o chão por alguns instantes. Não poderia dizer que não sentia medo do que poderia descobrir ou sofrer, entretanto, sabia que teria que pagar o preço e estava disposta a isso.
— E o que iria me pedir? – voltou a encarar a mãe, percebendo o semblante dela mudar para um tom preocupado em instantes.
— Quero que cuide do Luigi para mim. Mantenha os olhos nele sempre que possível e quando não estiver com ele, quero que ele esteja com a Sarah. Não o deixe só. Queria poder fazer isso eu mesma, mas com todas as obrigações reais, nem sempre será possível, portanto, vou deixar essa responsabilidade para você.
— Ele está correndo risco de vida? – perguntou aflita. Amava o seu irmão e temia perdê-lo.
— Ainda não sei, talvez. De qualquer forma, não podemos abaixar a guarda, bons líderes sempre estão precavidos – alertou-a.
— Cuidarei dele com a própria vida, mãe. Não se preocupe!
— Eu preciso de vocês dois bem, . Dos dois, está entendendo? – segurou o rosto da filha e se aproximou dela, falando diretamente em seus olhos.
A princesa balançou a cabeça positivamente, compreendendo o recado da sua mãe, em seguida, a puxou contra seus braços, dando um abraço apertado na garota. Ficaram entrelaçadas durante alguns minutos, um gesto afável e carregado de sentimentos.
— Sim… - a menina sussurrou contra os cabelos da mãe, antes de se afastar.

Encerrada a conversa, foi à procura do seu irmão, atendendo assim o pedido da sua mãe. Seu coração estava aflito. As coisas estavam piorando sucessivamente e ela temia o que vinha pela frente. Escolheu algumas criadas de confiança para supervisionarem Luigi nos momentos que não pudesse estar com ele. Não teria como cuidar do menino o tempo todo, porém, faria o máximo possível.
Após providenciar tudo e ainda cumprir com algumas obrigações reais que ficavam em seu encargo, foi em direção a alguém que queria muito ver. Ela sentia que precisava agradecê-lo, por isso, percorreu pelo castelo até encontrar o quarto de Isaac.
O rapaz, debruçado na pequena escrivaninha, estava ao lado de uma garrafa de vinho, aberta já pela metade, e em sua mão, um copo vazio ao qual ele olhava com afinco.
A princesa entrou devagar no aposento, vendo as costas largas de Isaac se destacarem no casaco preto e os seus cabelos bagunçados e rebeldes. Provavelmente ele estava bêbado, ela não sabia definir, porém, era o que ela poderia suspeitar com a imagem que ela observava. Todavia, ela não se sentia assustada como quando via Jeffrey alcoolizado, pelo contrário, ver Isaac daquela forma lhe dava vontade de se aproximar e saber o que estava acontecendo.
— Por que bebe tão cedo? – indagou-o, assim que parou em sua frente.
Isaac desviou o seu olhar do copo e subiu vagarosamente até alcançar o rosto de , abrindo um largo sorriso no momento que detectou quem estava ali.
— Um homem não tem hora para beber, doce . - levantou o copo para ela e a princesa franziu o cenho, não gostando daquela atitude.
— Por que, então, eu acho que tem algo mais aqui? Ou acha divertido se embebedar em plena luz do dia? – cruzou os braços e encarou-o seriamente.
— Você fica linda brava, sabia? – Isaac levantou-se e ficou diante da garota. — Eu não estou bêbado, . É preciso de muito mais que uma garrafa de vinho barato para tirar a minha sobriedade. - deu um passo para mais perto, fazendo-a prender o ar. — Estou tão lúcido que ainda consigo notar as pequenas sardinhas, quase imperceptíveis, no seu nariz. Posso perceber a sua ternura em cada traço delicado do seu rosto e consigo ainda sentir vontade de beijar esta apetitosa boca em forma de coração sempre que eu a vejo. - ergueu o queixo da princesa e pousou o indicador nos lábios dela, fazendo a respiração de ambos se misturarem por alguns segundos.
A princesa ficou nervosa com a aproximação do primo e afastou-se rapidamente, virando o rosto para o lado para desfazer do toque dele. A respiração dela estava acelerada e seus olhos mostravam o seu espanto. O que ela faria se ele tivesse sido mais rápido em vez de achegar-se devagar?
Deu dois passos para trás, passou as mãos suadas em seu vestido e pigarreou, tentando retomar a sua fala.
— Vejo que estás bêbado mesmo para ser tão ousado assim! – tentou ralhar contra ele, porém a sua voz estava tão fraca, que Isaac apenas riu, percebendo o efeito causado nela.
— E desde quando eu preciso disso para mostrar as minhas intenções para você? – arqueou a sobrancelha para ela e deu um passo para se aproximar novamente.
— Fique longe de mim! – a princesa bloqueou-o, estendendo as suas mãos. — Não foi para isso que eu vim aqui! – disse frustrada, virando-se de costas para sair do quarto dele.
Por um momento, havia pensado que valia a pena ir até lá. Um impulso que estava arrependida naquele instante. Onde estava com a cabeça quando achou mesmo que Isaac e ela poderiam ter uma conversa normal?
O rapaz, vendo que ela estava decidida a ir, segurou o braço dela impedindo-a. Não queria que ela se fosse. Gostava de importuná-la, todavia, não queria que ela se afastasse dele. Parte de si apreciava o jeito nervoso e desconfortável que a menina ficava quando ele falava esse tipo de coisa, e a outra parte dizia apenas a verdade. Desde que a viu, Isaac sentia vontade de provar da delicadeza que a princesa tinha.
Já havia desfrutado de muitas mulheres nos mais diversos locais. Nunca foi preciso de muito para ter alguma em sua cama. Muitas delas, inclusive em Ílac, aproveitavam-se do fato dele ter o sobrenome para tentar subir alguma posição na sociedade ou mesmo lhe trazer um herdeiro. Tentativas até então, em vão. Ele era muito esperto para sucumbir aos atentados contra ele, apesar dos riscos. As tripas de porco eram um bom método para impedir que tivesse filhos espalhados por aí, porém, se não preparadas bem, poderiam romper durante o ato sexual, por isso, ele só utilizava as que ele mesmo tratava e imergia ao leite para a limpeza ou compradas de algum fornecedor confiável.
Contudo, era diferente, ela tinha uma beleza que exalava pureza. Desde quando a viu saindo de dentro do lago, havia ficado fascinado por ela. Saber que era a mesma menina que conhecia na época da sua infância, a sua doce prima, só tornou-se tudo mais tentador. Poderia dizer que era o gosto do proibido que fazia toda a diferença, porém, mesmo antes de saber das ligações sanguíneas, no instante que pousou os olhos sobre ela, sabia que a queria.
— Por favor, não vá embora! – O rapaz pediu, mudando o seu tom de voz.
— Me solte agora, Isaac! – ela puxou o braço, tentando fugir dele, porém o mesmo não permitiu.
— Perdoe-me! Vamos levantar a bandeira branca da paz! Você veio aqui por algum motivo e eu quero ouvi-lo. Prometo me comportar! – Fez um sinal de juramento com os dedos, enquanto a princesa permanecia, inabalável, olhando para ele. — Vamos, , por favor!
— Tudo bem! – suspirou, rendendo-se ao encanto dos olhos azuis de Isaac, que sorriu com a sua resposta.
Ele pegou na mão da princesa e guiou-a até a sua cama, sentando em seguida e dando um tapinha ao seu lado, para que ela fizesse o mesmo.
— Eu não vou me sentar ai! – resignou, fazendo Isaac rolar os olhos.
— Eu não estreei essa cama ainda! Nada que não possa ser resolvido. - piscou para ela e passou a mão pelo lençol vinho.
— Você prometeu! – ela o alertou, antes que começasse os seus gracejos novamente.
— Desculpe! É meio que inevitável em sua presença, mas prometo me atentar! Venha! – chamou-a novamente e, sem graça, sentou-se ao seu lado, constrangida por estar ali com ele, ainda mais sozinhos em seu quarto.
Pousou as mãos sobre as pernas cobertas pelo vestido e olhou para os seus dedos que remexiam sem parar. A proximidade e a situação até haviam feito que ela se esquecesse das palavras. O que estava fazendo ali, afinal?
… - Isaac a chamou, incentivando-a para que dissesse alguma coisa.
A garota olhou para ele, contudo, voltou a fitar rapidamente as mãos em seu colo, evitando se perder na beleza do seu primo.
— Eu queria agradecer – falou em um tom fino e envergonhado. — Você não precisava ter se colocado em meio aquele fogo cruzado e, mesmo assim, o fez. Obrigada por defender a mim e a minha mãe. Palavras nunca serão o suficiente por isso – prosseguiu, assim que tomou coragem.
— Não há de que. Eu faria de novo se fosse necessário! – O rapaz sentiu o seu peito preencher com a gratidão da garota.
— Não o faça, por favor! – retrucou rapidamente. Até se esqueceu do constrangimento e o fitou com olhos de súplica. — Não quero te colocar em risco e tenho certeza que a minha mãe lhe diria a mesma coisa. Nos viramos bem até aqui, Jeffrey não fará nada contra nós! Não pior do que já tem feito.
Isaac tentou traduzir o que tinha por trás das palavras de sua prima. Era evidente que ela sentia medo, no entanto, ao mesmo tempo, ela preocupava-se com ele.
, eu jamais poderia ficar tranquilo se não fizesse nada. Esse não é o tipo de pedido que eu irei simplesmente acatar. Peça-me qualquer outra condição, até mesmo que eu me afaste completamente de você. Sem gracinhas ou qualquer coisa parecida. Mas não me impeça de tentar protegê-la. - pousou a sua mão sobre as da menina, que estavam entrelaçadas no colo dela e, nesse momento, não recuou.
— Só… por favor… fique bem! – a princesa pediu, os olhos enchendo de água. — Eu não vou conseguir lidar com mais essa preocupação. Não quero ser a causa da sua morte. Por favor, Isaac. – Uma lágrima rolou pelo rosto dela, por mais que ela tentasse segurar o desespero dentro de si.
— O que ele fez com você? – a mão do garoto foi até a bochecha dela, enxugando a gota que escorria.
— Nada… - suspirou e mordeu o lábio, tentando se conter.
— Não minta para mim, . Por que eu tenho a impressão que o seu único sofrimento não é apenas o descaso dele como pai? – questionou firme, apertando sua mão contra a dela para passar força.
— Por favor, Isaac, não me faça dizer… Eu não quero tornar tudo pior.
— Eu não vou agir de cabeça quente, , eu te prometo. Não vou colocar a minha cabeça em risco. Porém, eu quero que me conte o que anda acontecendo aqui. O que houve nesse castelo desde que eu saí? O que o Jeffrey faz com você?
— Prometa-me primeiro que não fará nada! – implorou, apertando a mão dele.
— Eu prometo, agora me conte! Confie em mim, deusa!
suspirou fundo, criando coragem para desabafar. Isaac lhe passava segurança e conforto. Era difícil levar as cargas sozinha, por muito tempo sentia o peso da omissão e do medo. Ela preferia não levar mais uma preocupação para a sua mãe, que já tinha o mundo em suas costas. Ela seria a futura rainha, também precisaria lidar com seus dilemas sozinha. Nunca teve outra pessoa além de para lutar por ela. Ver Isaac lhe defendendo a fez sentir como se houvesse alguma esperança dentro daquela bagunça de vida que era a dela.
— Tem sido tempos difíceis… Desde que o meu avô morreu, esse lugar nunca mais foi o mesmo. É como se meu pai só esperasse a sua morte para revelar o seu lado negro. Eu assistia as brigas, as ofensas, até algumas coisas mais fortes. Porém, nunca havia sido atingida diretamente. Minha mãe sempre me protegeu. Eu sempre vi a indiferença de Jeffrey em seus olhos, às vezes até mesmo o seu desprezo comigo. Contudo, quando Luigi nasceu, tudo piorou. Eu observava o carinho paterno que ele tinha com o meu irmão, enquanto comigo não existia nada.
— Você não precisa dele, . Alguém que não te dá o valor, não vale a pena. – Isaac tentou confortá-la.
— Eu sei. Por mais que doa, eu sei disso. E se o problema fosse somente esse, eu conseguiria viver tranquilamente. Porém, um certo dia, ele estava bêbado e minha mãe viajando… – a menina fez uma pausa e engoliu em seco, tentando encontrar as palavras certas para reviver aquela noite.
Os olhos de Isaac arregalaram-se, prevendo o que a menina diria. Não sabia se suportaria ouvir tal atrocidade, porém, necessitava se mostrar forte para ela.
… ele te tocou? – fez a pergunta engolindo em seco, quando notou que o silêncio dela havia se estendido demais.
— Não… não da forma que você está pensando. – tratou de tirar isso da cabeça de Isaac, que suspirou aliviado. — Entretanto, nessa noite, eu achei mesmo que ele faria tal coisa – confessou, envergonhada, abaixando a cabeça e desviando o seu olhar para longe.
Os punhos do rapaz cerraram-se, nervoso. Tinha vontade de se levantar e socar a cara de Jeffrey, porém, não podia. Havia prometido a que não agiria precipitadamente, não poderia ter nenhuma atitude insana. O que a garota precisava agora era de alguém firme ao seu lado, alguém que a ajudasse tirar um pouco do peso que carregava nas costas.
— Nesse dia eu ouvi algumas batidas na minha porta. Fiquei assustada, já era bem tarde. Abri com pressa e me deparei com ele bêbado à minha frente. Ele começou a falar coisas desconexas, xingar-me, dizer que eu era fruto de uma maldição e que eu tinha sujado a minha mãe, que devia ser só dele. Não consegui compreender bem e também nem perdi tempo com isso. Estava completamente tomado pelo efeito do vinho. Porém, o que mais me assustou, foi quando partiu para cima de mim, jogando-me contra a cama. - deu uma pausa, a boca secando com as lembranças indigestas daquela noite sombria. Os olhos começaram embargar, no entanto, ela não queria chorar na frente de Isaac e nem se mostrar fraca. — Ele me bateu e me deu vários socos, enquanto me prendia em seus braços. Ele… ele começou a rasgar a minha roupa, enquanto eu gritava por socorro. Não adiantava nenhum choro, naquele momento eu achei que nada me salvaria. Que tipo de pai faz isso com a própria filha? – fez a pergunta que latejava em sua cabeça sempre que se recordava da tentativa de abuso de Jeffrey.
— Ele não pode ser nem considerado um pai, . – Isaac acarinhava a mão dela enquanto falava. — Ninguém foi ver o que estava acontecendo? Nem mesmo os soldados da sua guarda?
— E fazer o quê? Enfrentar o todo poderoso rei? - riu em escárnio. — Se sabiam, não fizeram nada. Provavelmente viram que era o meu pai entrando ali, ninguém jamais se intrometeria.
— Isso é um absurdo! Como a sua mãe não soube disso? Ela faria alguma coisa, não teria aliança que a fizesse deixar alguém te tocar, tenho certeza! - Isaac passou a mão em seu cabelo, aflito. Estava agoniado, porém precisava ser comedido, o que o deixava ainda mais louco.
— Todos nesse castelo que falam algo contra Jeffrey desaparecem. Mesmo que respeitem a minha mãe e também a temam, o medo do rei é explícito, já que a minha mãe costuma ser justa, ao contrário do meu pai, que é insano. De toda forma, como eu disse, ele não chegou às vias de fato. Antes que ele me tocasse mais profundamente, ele desistiu. Não sei se foram os meus gritos, o medo pelo que minha mãe faria, o efeito da bebida, ou qualquer outra coisa. Só posso afirmar que depois disso, ele apenas me bateu e me empurrou para fora da cama, seminua, e largou o seu corpo no meu colchão. Não demorou nem muito a dormir em seguida.
As mãos de abriam e fechavam enquanto narrava aquela noite assombrosa para Isaac. O medo que sentiu na noite fatídica era tão grande que parecia palpável. Ela lembrava-se como ficou recostada contra parede, abraçando os seus joelhos e tampando o seu corpo, em meio ao choro e desespero. Não sabia se devia sair dali e se expor aos soldados, ou ficar, correndo o risco de Jeffrey acordar. Havia sido uma madrugada aterrorizante.
— Depois desse dia eu vivo com medo. Minha carne treme quando eu fico sozinha ou nos mesmos lugares que ele. Quase entro em pânico quando minha mãe me diz que vai viajar novamente, porém, eu apenas sorrio e assinto. Tranco a porta todas às noites e empurro a poltrona do meu quarto para frente da passagem secreta que há lá. Eu sempre acho que ele vai invadir o meu aposento e terminar aquilo que ele começou. Contudo, ainda bem, nunca mais ele o fez. Não sei nem se ele se lembra do que houve, creio que sim, só não comentamos nada um com o outro.
, por que não conta para a sua mãe? Tenho certeza que ela agiria de alguma forma. Você não pode viver com medo. Isso não é vida!
— E colocar mais um peso nas costas dela? - deu um sorriso triste para Isaac. — Não posso fazer isso. Minha mãe já faz demais por aqui. Isso só a desmoronaria mais. Posso enfrentar isso, Isaac! Conviver com a possibilidade de um acontecimento é bem mais fácil do que a certeza que ele aconteceu.
— Eu não posso conceber isso, . Desculpe, mas eu não posso permitir. E a próxima vez que ele tentar algo? Sempre terá o risco dele atingi-la quando sua mãe não estiver por aqui.
— Eu não acho que ele vá tentar. Eu sinto medo, contudo, isto é normal mediante a situação que eu passei, eu creio que ele agora me pune de outras formas. Eu sempre faço o serviço que é dele aqui quando estamos sós. Eu que atendo as famílias das aldeias, resolvo problemas da administração, reuniões com os chefes de famílias importantes… Não que tenha restado muito a se fazer. Minha mãe, aos poucos, foi retirando tudo de Jeffrey. Ele se acha muito poderoso, mas é só a imposição do medo que ele faz com as pessoas. O restante das atribuições que seriam dele, normalmente, sou eu que faço. No entanto, não me importo. Um dia tudo isso será meu e de minha responsabilidade, de qualquer forma. A única diferença é que a minha mãe não o sabe, ainda.
— Não creio que ela vai se importar de ser você a assumir tal legado… - Isaac ponderou
— Não, não vai! Entretanto, ficará furiosa quando souber que Jeffrey que passou tal coisa para mim. Porque o problema não é eu fazer, mas sim, ele abdicar e me obrigar a isto. Não quero ser motivo para mais uma briga entre os dois, Isaac. Você viu com os seus próprios olhos onde isso pode parar.
Isaac se levantou e começou a andar de um lado para o outro, a respiração descompassada e as mãos indo até o cabelo diversas vezes.
— Não posso apenas ouvir você e não fazer nada! Como vou dormir tranquilo sabendo que existe um monstro dentro desse castelo? Como vou descansar sabendo que ele pode te atingir a qualquer momento? - voltou para perto da cama e ajoelhou-se diante da princesa, pousando as mãos no joelho dela.
— Você não é nenhum herói ou guerreiro, Isaac. Não tem o que fazer. Quer me ajudar? Saia da linha de frente, não se envolva conosco, se puder até vá embora de novo daqui. É melhor para você! Eu já me preocupo com muitas pessoas, não quero te adicionar na minha lista – falou com uma voz cansada. No final, não era só que levava o fardo, também carregava parte dele.
— Sinto muito te informar, doce . Agora é tarde demais para isso. Eu já estou envolvido. Não vou deixá-la. Posso não ser um guerreiro, mas sei me virar muito bem ou esqueceu de todo treinamento que passamos quando atingimos dez anos de idade? “Uma criança no castelo, não é uma criança”, palavras do meu pai. Contudo, não vou enfrentar ninguém, não sou burro, princesa. Mas vou fazer o possível para essa nossa estadia no palácio ser a melhor possível. - afagou as mãos dela com a quentura da sua e deu um sorriso afável para ele. Era uma promessa, e Isaac costumava cumprir as suas palavras.
Olharam-se por algum tempo, um silêncio confortável em que cada um deles tentavam desatar o emaranhado de problemas em suas mentes. A princesa não queria ver ele em perigo, porém, ele teimava em permanecer na sua vida. Ela só orava para que o primo não fizesse nada impulsivo. Ela trabalhava arduamente a sua discrição diante dos problemas com o pai. Não queria colocar tudo a perder, não poderia jogar mais essa bomba no colo de sua mãe. precisava dela, agora ainda mais devido o cuidado com Luigi. Contar a ela, ou falar dos seus temores, seria enfiar um fardo impossível de ser sustentado. Colocaria tudo a perder, pois, a sua mãe não admitiria aquele tipo de coisa. Toda a aliança seria quebrada, porque, definitivamente, Jeffrey não escaparia dessa com vida.
— Eu vou guardar o seu segredo, deusa. - Isaac puxou a mão da princesa para os seus lábios e pousou ali um beijo demorado. Parecia até prever a angústia que estava passando na mente da menina.
— Muito obrigada. Esperava mesmo que isso ficasse só entre nós. É necessário. - encarou-o com seus olhos azuis, uma troca de olhares profundos foi sustentada.
— Fique tranquila. E, como eu disse, pode confiar em mim. Eu estou aqui para ajudá-la. Farei o possível e o impossível para isso. E sem colocá-las em risco. - seu polegar acarinhou a mão dela, um gesto apreciado por ambos, sem perceberem.
Ela sorriu para ele e balançou a cabeça assentindo. O sorriso da princesa fez com que o dele também aparecesse. O semblante sereno dela, mesmo em meios às tribulações, o aqueceu por dentro. Parecia tão delicada, mas era tão forte.
A imagem doce, antes, o encantara, contudo, agora, queria mais do que desfrutar da pureza dela, queria endeusá-la por sem quem é, e quis, mais do que nunca, aquela moça nova que foi revelada à sua frente.





Capítulo 14

*Atenção! Cenas fortes abaixo. Se você é menor de 18 anos ou não possui estômago está lendo por sua conta em risco.

Por todo o lado que olhava, havia fogo e dor. Os homens gritavam de um lado para o outro. As imagens eram confusas, alternavam-se em suas lembranças. Estavam sendo atacados, as flechas vinham do desconhecido e atingiam os soldados ao seu lado. Um a um, caíam e gritavam, rugiam de agonia. Estavam todos mortos.
Sentia subir um ardor em sua perna, era o fogo o atingindo. Ia morrer também, como todos os outros, porém, lançou-se na água para se salvar. Agora, as recordações eram do sufocamento que sentiu, os braços que bateram euforicamente tentando nadar e a cãibra que lhe consumiu. Morreria de qualquer jeito. Tudo era um grande borrão. Suas vistas logo se escureceram e deixou-se afundar, esperando o sabor da morte surgir, sendo levado pelas águas do mar de Ocland.
Não sabia como havia sobrevivido e nem como fora o seu tempo pela terra desconhecida. Estes eram os seus sonhos, apenas vultos das lembranças. Imagens que se confundiam, não sabia o que havia sido real e o que era delírio. Cenas de pequenas pessoas, a pele pintada de vermelho ou azul, seu corpo sendo arrastado na terra dura, um líquido estranho sendo jogado em sua garganta e, depois disso, as imagens torturantes. Eram imaginações ou visões? Não sabia. Contudo, via ele e se beijando, ele e jurando amor eterno, ele e casando-se, ele e com um bebê nos braços…Depois… tudo caía, os muros desmoronavam, o castelo pegava fogo, era arrancada dos seus braços, uma mão enorme puxava os cabelos dela e uma espada transpassava o seu coração.
O seu corpo foi largado desacordado nas areias da praia de Ílac e ele despertou com a água salgada do mar que tocou os seus pés. Sua carne tremia e por mais de um mês não conseguiu falar nada. Restaram-lhe apenas os pesadelos, os gritos e a dor. Os homens acharam que não teria mais volta para ele. Entretanto, com o passar dos dias, foi voltando a si, as visões haviam diminuído, até restar apenas os tormentos, estes ainda o perturbavam durante a noite.
Esse era um desses dias, todas essas recordações inundaram a sua noite, fazendo-o acordar ofegante, o corpo em choque e o suor escorrendo por toda a sua pele. O sentimento de morrendo em suas mãos, a dor agoniante, os sons dos corpos gritando ao seu lado… parecia tudo tão verdadeiro.
Levantou-se e saiu da sua tenda, estava perto do amanhecer e ele precisava respirar ar puro. Passou a mão entre os seus cabelos e avistou ao longe um homem, olhando em direção do horizonte, onde o sol logo nasceria.
Caminhou devagar até ele, reconhecendo ser o seu General ali. Parou ao seu lado e suspirou profundamente, tendo no amigo alguém que o entenderia. Afinal, Hector foi encontrado dois dias depois que ele, também nas areias da praia, no mesmo estado quase catatônico, todavia, acrescido de um detalhe, a perna que nunca mais foi a mesma.
― Também não consegue dormir? – Hector perguntou, assim que sentiu a presença do amigo ao seu lado.
― Às vezes dormir é o que eu menos quero – murmurou, sentindo ainda o calafrio da sua pele.
― Entendo... É aterrorizante repousar sem saber se essa será mais uma noite invadida pelo terror que Ocland nos causou.
respirou fundo, compreendendo perfeitamente o que o general estava dizendo. Não queria dormir e ter os mesmos pesadelos. As imagens alternavam-se, às vezes eram lembranças, porém outras eram visões de algo que não havia acontecido. De qualquer forma, ambas causavam-lhe uma dor inenarrável.
― Você acha que sobrevivemos por alguma razão? – Hector lançou a pergunta, olhando o sol que começava a aparecer.
― Não creio que eu seja tão importante assim – retrucou com uma feição pesada. Afinal, quem ele era? Apenas uma pessoa sem importância, Hector era a única família que tinha, quando ele se fosse, seria só mais um ninguém por aí.
― Eu não acredito nisso. De alguma forma, acho que nos deixaram vivos por alguma razão. Eu ainda ouço aquela voz quando eu durmo. Aquela frase invade a minha cabeça cada vez que eu prego os meus olhos… “Ainda não é o tempo de vocês…” - O general fechou os olhos, tentando agarrar-se às recordações confusas da sua mente.
bufou, frustrado. Sabia como era louco tudo aquilo que passaram. De alguma forma, Hector havia se apegado a algo bom para tentar não enlouquecer, entretanto, ele já não tinha a mesma esperança do seu amigo.
― Isso pode ser apenas uma ilusão, Hector, você nunca saberá se isso foi real ou não. Nossas lembranças foram confusas. Seja lá o que fizeram com a gente, não queriam que nos recordássemos o suficiente para contar ao nosso povo o que tinha em Ocland. Se é que realmente pisamos os nossos pés lá.
― Pode ser… - Hector deu de ombros, pensativo. ― Mas eu ainda acredito que só estamos vivos porque eles nos permitiram. Ninguém mais sobreviveu, apenas nós…. Isso deve significar alguma coisa.
Olharam para o horizonte que marcava o nascer do sol e ficaram reflexivos. Cada um com as suas tragédias internas. A quentura da manhã já começava a aparecer e precisavam unir suas forças para sobreviver às tormentas de mais um dia.
― Prefiro não pensar nisso, Hector. Na verdade, prefiro não pensar em nada que tenha a ver com aquele lugar. É o melhor que podemos fazer para a nossa sanidade! - encerrou o assunto, preferindo tentar esquecer a agonia que havia passado durante a noite.
Foi um dia difícil, sempre que isso acontecia – o que era bem frequente – era como se voltasse ao tempo, quando Ocland entrou em sua vida. Muitas vezes preferia ter morrido a viver com os pesadelos, mesmo que não fossem tão intensos como antes. Viver a morte da mulher que amava, noite entre noites, sentir como se tudo fosse tão verídico, o matava por dentro. Isso, sem contar, quando revivia as noites da morte do seu pai, ou então, o bebê que aparecia em seus sonhos sendo lançado na toca dos animais carnívoros e devorado. Não conseguia compreender, entretanto, a dor estava ali, latejando em seu peito.
Não houve trabalho naquele dia que desviasse a sua mente. Perdeu todas as lutas do treinamento com os seus soldados. Não conseguia se concentrar. Foi um dia difícil. E, quando a noite chegou novamente, teve medo de fechar os olhos e sofrer o mesmo dano que a noite passada.

***


A noite já havia caído e, como sempre, os temores de voltaram. Ela demorava a conseguir engatar no sono, cada pequeno ruído era o bastante para lhe fazer estremecer. Nada havia acontecido, porém, ver o intento deturpado do seu pai sobre si, conseguiu quebrá-la por dentro. Hoje não seria diferente. Era mais uma noite, mais uma luta a ser enfrentada.
Estava embrulhada em meio aos lençóis, esperando poder dormir mais cedo que as noites anteriores. Tentava ter esperança que aquilo passaria e que, algum dia, não tivesse mais medo do seu primeiro beijo e primeiro toque mais profundo fosse com o seu próprio pai.
Apenas a sua cabeça estava desembrulhada o suficiente para que pudesse respirar. Se esforçava para não pensar em nada, todavia, era impossível não se assustar até com o barulho do vento que batia na janela.
Não fazia ideia de quanto tempo estava ali ou a quantidade de esforço que havia feito para que o sono viesse, de repente, ouviu um barulho como uma batida soar pelo seu quarto, fazendo o seu coração acelerar. Pensou ser fruto da sua mente, no entanto, as batidas ficaram cada vez mais insistentes e fortes. Enrolou-se mais ainda nos lençóis, impedindo-se de sair da cama. Não tinha força para enfrentar aquilo. As lágrimas brotavam em seus olhos e a carne tremia por antecipação. Era o mesmo barulho da noite que a aterrorizou. Ela não queria deixá-lo entrar.

Ouviu o seu nome ser chamado e a porta esmurrada. Já não parecia mais um simples toque, agora era como se o corpo se chocasse tentando abri-la. Com toda a força de si, tomou coragem para se virar e olhar em direção do barulho, notando que não era da porta principal que vinha o som, mas sim, da passagem secreta. Como havia sido tola. Era óbvio que Jeffrey não usaria o caminho comum para chegar até ela, ainda mais com a sua mãe no castelo. Não podia postergar mais. Negar a sua entrada seria pior, poderia ter efeitos mais drásticos, todavia, deixá-lo entrar seria cavar a sua morte interna.
A princesa não teve muito tempo para pensar, antes mesmo que tomasse a decisão, a porta da passagem secreta foi aberta, fazendo-a dar um pulo na cama assustada. Seu coração faltava lhe sair pela boca e a sua bile se contorcia dentro de si. Apressou-se e pegou uma pequena espada, quase não usada, que ficava no canto da sua cama e apontou para a porta, disposta a fazer com que o seu pai repensasse antes de tentar tocá-la.
A porta rangeu e o barulho da poltrona sendo arrastada ecoou pelo quarto. As mãos da princesa tremiam, porém ela continuava com a espada erguida, esperando o seu algoz. Ela pôde perceber a sombra do homem surgir, passando a perna por cima do mobiliário. A escuridão não permitia distinguir muita coisa, contudo, ao chegar mais perto, devido o reflexo da luz que entrava pela janela, ela conseguiu identificar o seu invasor, já bem perto de si.
— Isaac?! O que você está fazendo aqui? Quer me matar de susto? – só não gritou, pois não queria chamar atenção dos guardas para dentro do seu quarto.
— Você não facilitou para mim, deusa. Tive que entrar com meus próprios métodos – Isaac se aproximou da princesa com uma pequena bolsa transpassada em seu corpo. — O que pensa que está fazendo com isso apontado para mim? – interrogou-a assim que viu a espada da princesa em sua direção.
conseguiu respirar novamente, mas o seu coração ainda estava acelerado. Abaixou a sua arma vagarosamente e passou a mão em sua testa, enxugando as gotículas de suor.
— Você é louco! Eu achei que… Achei que… - não conseguiu terminar, travou o seu corpo e seus olhos iam embargando a medida que a adrenalina abaixava.
Isaac, percebendo o que se passava na cabeça da garota, sentiu-se mal com o que fizera e correu para acudi-la. Passou os seus braços na cintura dela e a trouxe para o seu peito, a fim de tranquilizá-la.
— Calma. Sou só eu. Eu devia ter te avisado, desculpe. Eu não pensei que te assustaria. - sussurrou contra os cabelos dela, enquanto sentia as unhas da garota cravarem em sua roupa.
Ficou abraçado a ela até sentir o seu corpo amolecer e a sua respiração voltar ao normal.
— O que está fazendo aqui a essa hora da noite, Isaac? – soltou-se e perguntou com uma voz dura, assim que se recuperou.
O rapaz olhou para a feição séria da princesa e o reflexo da luz que batia sobre ela. A camisola de tecido fino branco marcava um pouco das suas curvas e os seus cabelos longos e castanhos a deixavam com uma imagem delicada. Parecia um anjo, contudo, um anjo amedrontado, tudo por culpa dele.
— Eu prometi para você que faria a nossa estadia agradável! Eu estou aqui por você, minha deusa. – Deu um passo em sua direção, mas espalmou as mãos no peito dele, impedindo-o que se aproximasse.
— Eu não vou ter nenhuma relação íntima com você, Isaac, vá embora! – cuspiu contra ele. Agora estava nervosa com a invasão do moreno. Como ele ousava entrar assim no meio da noite? Ela não era uma qualquer e não permitiria que ele achasse isso.
— Não é o que você está pensando, ! – O primo falou mais sério, caminhando em direção à cama e jogando a sua bolsa ao lado. — Você me confessou que tinha medo pelo que Jeffrey fez com você e, sinceramente, eu também tenho. Não vou te deixar sozinha, por isso vim dormir com você. - começou a tirar o casaco negro que adorava vestir e as botas que estava calçando.
Ia se despindo com naturalidade, deixando chocada. Lentamente, retirou a blusa branca que usava por baixo, deixando o seu peito desnudo, dando uma visão inédita para os olhos da princesa. O peitoral forte de Isaac chamou a sua atenção, assim como o abdômen definido dele. Não estava habituada a ver a nudez de homem algum, muito menos de um tão bonito, no meio da noite, e enquanto estavam sozinhos em seu quarto. Tudo tomava a sua concentração, até mesmo os pelos curtos e negros que percorriam o caminho até o cós da calça dele. Inesperadamente, engolia em seco e ofegava, sem conseguir negar o quanto a beleza do seu primo era convidativa aos seus olhos.
Ela tentou dizer algo, entretanto, a sua garganta estava seca. Apenas conseguiu assistir e apreciar cada movimento de Isaac, até que ele estivesse somente com a sua calça.
Logo que terminou de se ajeitar, o rapaz a olhou, e ao vê-la estática, sorriu.
— Vai ficar aí parada? Venha dormir! – Isaac estendeu a sua mão para ela, convidando-a para se juntar a ele. balançou a cabeça saindo do seu estado e franziu o cenho, injuriada.
— O que você pensa que está fazendo? Eu não vou dormir com você! Pegue as suas roupas e vá embora, Isaac – apontou para ele com raiva, fazendo-o rolar os olhos.
, preste atenção. – levantou-se e caminhou devagar até ela. Mesmo escuro, a princesa podia notar cada traço do corpo dele se movimentar. — Eu disse que não ia te deixar, eu fiz uma promessa e vou cumpri-la. Eu só estou prezando pela sua segurança. Não irei te atacar. Não confia em mim? – perguntou-lhe e fez uma cara tão amável que até parecia mesmo que ele não era aquele rapaz que vivia a enchendo de gracejos.
— Não vai adiantar eu tentar expulsá-lo, vai? – suspirou e relaxou os ombros, frustrada.
Isaac mordeu o lábio, segurando-se para não rir da teimosia da prima, e parou a um passo de distância, para que ela não se assustasse.
— Não, deusa, não vai. Eu vim para ficar. Acostume-se! – estendeu a mão para ela novamente, e após alguns segundos pensativa, estendeu a dela, deixando ser guiada por ele. — Boa menina!
— Não abuse da minha bondade! Dormir é a única coisa que faremos aqui! – ela caminhou até a cama e deitou no local onde sempre ficava, cobrindo-se com o lençol.
Isaac abriu um grato sorriso para ela e, com cuidado, sentou-se do lado oposto da cama. Não quis fazer nenhum tipo de gracejo para não assustá-la. Apenas deitou-se e recostou a sua cabeça no travesseiro, fitando o teto.
Nunca havia apenas dormido com alguma moça, no entanto, era diferente e ele estava ali para defendê-la. Precisava focar nisso. Todavia, era difícil, ainda mais sabendo que toda aquela beleza estava ali ao seu lado. Mais um pouco e seus braços poderiam se tocar. Se ele virasse o seu corpo para o lado, poderia aspirar o cheiro delicioso dos cabelos dela.
— Boa noite, Isaac! – sussurrou. Sua voz parecia um pouco trêmula, era o efeito da proximidade do rapaz sobre ela.
— Boa noite, deusa! – respondeu e tentou dormir, porém, sono é o que menos teria durante a noite, não enquanto os seus corpos estivessem tão perto e a tensão fosse tão palpável. Ao contrário de , que assim que deixou passar o susto e o medo por ter um corpo masculino ao seu lado, cedeu ao descanso, sentindo-se mais segura do que havia sentido em toda a sua vida, tudo porque Isaac estava ali com ela.

***


O dia de havia sido agitado. A volta de Helena, o cuidado com Luigi, a preocupação com Jeffrey… tudo isso bombardeava a sua cabeça. Além do mais, precisava resolver os problemas do reino. Não poderia ser negligente com o seu povo, eles não tinham culpa dos problemas que ela possuía dentro de casa.
Mais cedo, durante a tarde, havia tido finalmente a reunião com Cameron e Isaac. Pediu perdão a eles por ter postergado tanto, porém, devido às intercorrências que teve, não tinha nem cabeça para falar sobre a volta do seu primo.
O rapaz fez todo o relatório para , tudo o que ele havia observado nos países por onde passou, os fatos a serem considerados, os pontos fortes e fracos de cada um, entre outras coisas. Enquanto narrava, o escrivão tratava de passar tudo para o papel, eram dados importantes que a rainha não poderia perder. Se um dia a guerra voltasse, precisariam saber o que poderia usar e com quem poderia contar.
Cameron olhava o garoto com orgulho, ele narrou tudo com destreza, sabendo pontuar exatamente aquilo que eles haviam conversado antes e que era importante que a rainha soubesse. No final das contas, ter perdido o filho por tantos anos não havia sido em vão. Ele teve a sua vida libertina, todavia, também cumpriu com o que havia prometido e a prova estava toda nas palavras que ele dizia e no livro de anotações que havia entregado ao pai.
Depois da reunião, permaneceu no local até o tardar da noite. Todos provavelmente já haviam dormido, entretanto, a rainha ainda observava atentamente o papel do escrivão, estudando cada palavra contida ali. Esperava nunca ter que usar nada daquilo. Não queria saber que caso Alegrance voltasse contra ela, ela poderia usar as investidas marítimas, pois o ponto forte deles era a via terrestre, ou mesmo que Grutok possuía os melhores espiões e caso se rebelasse contra Ílac, poderia ter homens infiltrados no seu meio a qualquer momento. Eram informações importantes, porém ela queria acreditar que jamais seria preciso menear nenhuma delas. Contudo, por que o seu coração se apertava tanto? Por que algo lhe dizia que tudo ainda ficaria pior do que já estava?
Guardou o documento com cuidado em um cofre escondido. Não queria que Jeffrey pudesse ter todas aquelas informações. Passou a mão pelos seus cabelos negros, que a essa altura, já estavam bagunçados. Os olhos, um pouco avermelhados pelo sono que lhe apoderava, começavam a arder, fazendo com que ela resolvesse repousar de uma vez.
Subiu as escadas até chegar ao andar que continha os aposentos reais. Um vento frio soprou pelo corredor e um arrepio subiu por sua coluna. Não sabia o que era, mas começou a sentir-se aterrorizada, ainda mais quando, a medida que caminhava em direção ao seu quarto, não viu nenhum soldado a espreita. Pensou em ir até o quarto de Luigi, no entanto, lembrou que Sarah havia se oferecido para ficar com ele essa noite, portanto, resolveu parar no quarto de e girou a maçaneta para conferir se ela estava bem.
Encontrou a porta trancada e deu um leve sorriso, lembrando-se da época que era um pouco mais nova que a filha e fazia a mesma coisa, porém, a sua intenção era acobertar um amor proibido, diferente da filha, que ela sabia não ter interesse por ninguém, pelo menos não até onde ela sabia…
Preferiu largar a sensação esquisita em seu peito para trás e continuou a caminhar, acelerando os passos para encontrar o aconchego do seu quarto. Quando já estava próxima, tomou um leve escorregão por causa de um líquido que havia pisado. Olhou para o chão e o seu coração paralisou ao perceber que se tratava de uma poça enorme de sangue. Levou a mão até a boca, sua carne tremendo e o aperto no peito cada vez mais profundo. Havia um rastro que não se restringia apenas àquele local, ele prosseguia até a porta do seu quarto.
Andou vacilante, seguindo o caminho coberto de sangue, e olhou para a porta do seu aposento, que estava entreaberta, com a maçaneta coberta de vermelho, um líquido que escorria e fazia o seu rastro até o chão, juntando-se às gotas que haviam por lá.
abriu a porta, trêmula, sem saber o que esperar do outro lado. Não sabia com o que poderia se deparar ali dentro e, por um segundo, hesitou, para poder ter tempo de orar ao ser superior, o Deus que poderia fazer algum milagre e salvá-la de encontrar um dos seus filhos mortos ali. Quando terminou de empurrar a porta, o cheiro forte de ferro alastrou as suas narinas. Era intenso e parecia estar por toda parte. Ela sabia o que significava aquilo e os seus olhos logo constataram, observando a quantidade de sangue que estava espalhada por todo o seu quarto. Era como se quisessem marcar cada canto que era seu. Os móveis estavam sujos, o chão, as paredes… Tudo. Nada havia passado ileso.
Não teve coragem de acender o candelabro ou qualquer outro tipo de luz no local. O reflexo da lua foi o suficiente para ver o estrago que havia ali. A rainha começou a correr vagarosamente o seu olhar, pedaço por pedaço do local, até dar um passo para frente e sentir algo em seu pé. Abaixou a vista e colocou a mão na boca, contendo o grito. Havia um mão ali, jogada pelo meio do caminho.
Tudo começou a rodar, o cheiro forte queimava-a por dentro e a imagem daquela mão a sua frente fazia com que quisesse desmaiar, entretanto, tinha que ser forte. Não conseguia nem ter raciocínio para identificar que mão era aquela, só soube que era masculina, isso ela conseguia perceber sem precisar chegar mais perto. Deu outro passo até a estante ao seu lado e viu a outra mão ali. Mordeu o seu próprio lábio inferior com força, uma forma para que ela não desmoronasse naquele instante.
Levantou os seus olhos até a sua cama e viu ali um corpo, que da onde estava, não sabia quem era. Só percebia que ele estava nu, sem as mãos e sem a sua cabeça.
Sentia-se enclausurada e claustrofóbica. O lugar parecia estar se fechando e o sangue a sucumbindo. Cambaleante, andou até a cama e quase caiu para trás ao reconhecer quem estava ali. Não precisava ver o rosto do defunto para saber quem era, reconhecia os traços do corpo dele.
Precisou segurar-se na cabeceira da sua cama para não cair. Seus olhos encheram-se de água e a culpa a assolou forte como um soco. Suas mãos tremiam muito, mas, mesmo assim, tocou o corpo, sentindo que já estava frio. O lençol, que outrora era branco, estava banhado de sangue, e precisou virar para o lado rapidamente para vomitar, devido toda a cena que estava vendo.
O gosto amargo queimava a sua garganta. Uma, duas, três vezes, golfou sem parar. Não conseguia olhar para tudo aquilo, não conseguia nem mesmo erguer a sua coluna, apenas fitava o chão e trazia à boca a comida e até o que nem tinha mais em seu estômago. Suas pernas desfaleciam e tinha certeza que não teria força para se reerguer, porém, ao ouvir uma voz soar pelo quarto, tudo mudou. Olhou diretamente em sua direção e, da posição em que estava agora, conseguiu notar, mesmo bem escuro, que por todo o tempo, Jeffrey esteve ali, observando-a sucumbir diante dos seus olhos.
— Apreciando a minha obra de arte? – ouviu a risada sarcástica dele, fazendo o ódio tomar conta dos seus olhos.
Ele levantou-se da poltrona que estava e deu alguns passos, ficando em direção da luz que irradiava o quarto, dando a a visão plena do seu marido. Ele estava coberto por sangue, mas não parecia transtornado ou vacilante por isso. Seu braço dobrado tinha uma cabeça por cima dele e com a outra mão, ele alisava os cabelos do defunto.
O rosto estava transfigurado, não havia olhos, e a boca aberta mostrava que a sua língua também estava arrancada. Foi inevitável, uma lágrima desceu pela bochecha de , mesmo que ela se segurasse ao máximo. Agradeceu pela penumbra ter escondido esse fato e, assim, não ter dado a Jeffrey o gosto de ver as suas lágrimas arrancadas.
— Você achou mesmo que eu deixaria que outro homem te tocasse? Você ainda não entendeu que você é minha, ? – caminhou até ela e parou bem a sua frente, oferecendo com clareza a cabeça que estava em suas mãos.
A rainha não se mexeu, temia que o mínimo movimento dela mostrasse o quanto estava afetada. Por dentro morria, queria gritar, chorar, culpar-se e até mesmo, depois, matar Jeffrey. No entanto, por fora, o melhor que fazia, era ser impassível.
— Não tem nada a dizer? A sua língua foi arrancada também? – Jeffrey a questionou e soltou uma intensa gargalhada.
As mãos de fecharam-se, assim como os seus olhos. Abriu-os lentamente com toda a fúria que lhe alastrou, o gosto amargo queimando-a e a língua feroz tomando vida novamente.
— Eu nunca fui e nem nunca serei sua, Jeffrey – cuspiu contra ele, porém o rei apenas sorriu.
— Não é o que parece e não foi isso que o soldadinho achou depois do que eu fiz com ele. – Virou a face da cabeça em direção dela e jogou-a para cima de de uma só vez, que a pegou em um impulso, mas logo arremessou-a para cama, enojada.
tremia, não teve como disfarçar. O impulso não teve como ser contido. Ela não queria segurar a cabeça de Olleon com suas mãos. Olhou para as suas palmas e viu o sangue dele sobre elas, fazendo-a ofegar e cambalear para trás.
— Tsc, tsc, tsc… É assim que trata o seu amante? – Jeffrey balançou a cabeça, mostrando-se decepcionado. — Depois dele ter lutado tanto comigo em seu nome, o mínimo que ele merecia é ter a sua cabeça sendo segurada pelas suas doces mãos, minha . Pobre coitado! É uma lástima, sabia? Tão inocente, tão devoto, tão burro… Mas eu ensinei-lhe a lição, querida. Primeiro arranquei os seus olhos para que soubesse que jamais poderia olhar para você, depois tirei-lhe as mãos que passearam pelo seu corpo, e por último, a língua. Esta ficou para o final, pois eu queria ouvi-lo gritar. Foi uma pena ele não ter feito isso. Preciso confessar, o rapaz morreu com bravura. Não pediu clemência e nem fez escândalo algum. - relatou o assassinato frio que havia cometido. — Ah… - enfiou a mão no bolso, retirando de lá um pacotinho, ao qual estendeu a mão para . — Pegue! – ordenou.
A rainha não se moveu, apenas olhou o emaranhado de pano que ele a oferecia. Sua mente ainda vagava imaginando a dor que Olleon havia sentido e o quanto ele sofreu, tudo por sua culpa. Era sua responsabilidade por ter se envolvido com ele. Ela devia protegê-lo, em honra e memória do pai dele, entretanto, ao contrário disso, dormiu com o rapaz, e agora ele estava morto.
— PEGUE! – Jeffrey gritou, impaciente com a recusa de .
Ele parecia fora de si, mais do que todas as vezes. Insano, ela diria. A rainha temeu alguma reação dele, ainda mais por ela estar ali, desprotegida, sem guardas e até mesmo sem a sua espada, que devia estar em algum lugar do seu quarto, isso é, se ele não tivesse escondido.
Devagar, estendeu a mão, pegando o pacote que Jeffrey lhe oferecia. Ele a mandou abrir e, com cuidado, ela foi desatando cada tira do pano, até abrir o embrulho por completo. Prendeu a respiração ao notar o que era e precisou ser forte para não o deixar cair.
— Esse é o meu presente para você. Para que não se esqueça do que eu te digo todos os dias, . Nenhuma outra pessoa pode te tocar além de mim – rosnou, enquanto ela fitava o membro de Olleon em suas mãos. — Isso – ele apontou para o órgão que havia arrancado – nunca deveria ter entrado em você. A grande Rainha me decepcionou novamente. Primeiro com o meu irmão e, agora, com um soldado qualquer. Espero que tenha aprendido, pois não lhe darei outra chance de novo. Se não deixar de ser teimosa e se render de uma vez, eu prefiro te ver morta do que aos braços de outro novamente. Está me compreendendo, ? – tocou o rosto dela, deixando um rastro de sangue ali.
Ela não conseguiu responder. Em qualquer outro momento afiaria as suas palavras contra ele, entretanto, estava vulnerável ali e a astúcia era clara nos olhos de Jeffrey. Todavia, também não conseguia apenas assentir para ele, por isso, preferiu apenas encará-lo e calar-se, deixando-o que ele tirasse as conclusões que quisesse.
Jeffrey deu um passo para mais perto da sua esposa, encostando-se nela e fazendo que a sua respiração batesse em seu nariz.
— Não se esqueça do meu presente de aniversário. Você tem até lá para se entregar a mim de corpo e alma, . Não quero mais recusas, não quero a sua língua afiada, a menos que seja dentro da minha boca. Queria muito desfrutar do seu corpo agora, mas sei que não está pronta ainda. Eu espero, querida. Não tem problema. Contudo, depois da festa, você será minha para toda a eternidade – terminou de declarar e selou os lábios dela.
fechou os olhos com força, segurando a vontade de vomitar novamente, o nojo e o desprezo a alastravam. Por sorte, ele não aprofundou o beijo, a porta foi escancarada e um corpo belo e esguio entrou pelo quarto.
— Majestade, o senhor mandou me chamar? – Reynia entrava no quarto com uma voz sedutora, mas estancou ao notar a situação que encontrava. — O q-que e-está acontecendo? – gaguejou e deu um grito fino ao ver o sangue e os pedaços humanos pelo quarto.
O rei riu e a chamou com o dedo para que ela viesse para o seu lado. Mesmo trêmula, Reynia caminhou e quando postou-se perto de Jeffrey, ele a enlaçou pela cintura para que ela não fugisse.
— Olhe ali, menina! – apontou para o corpo e a cabeça que estava jogada por sobre a cama – Veja o que acontece àqueles que não fazem o que eu mando. Você será uma boa garota para mim, não é, Reynia? Não ousaria me trair também… - ela não soube se era uma pergunta ou uma afirmação, só sentiu o seu corpo cair ao notar que quem estava morto ali, na cama da rainha, era o seu irmão Olleon.
A moça soltou um grito e seu corpo desfaleceu, contudo, Jeffrey tampou-lhe a boca, para que sua voz não pudesse ser ouvida e segurou o seu tronco para que ela não desmaiasse. As lágrimas dela tomaram conta da mão dele e ela debatia-se com o que havia restado da sua força.
segurou o seu choro diante daquela situação. Não gostava de Reynia, mas poderia imaginar a dor que ela poderia estar sentido. Além disso, por mais que não amasse Olleon, tinha uma gratidão e um carinho pelo rapaz, que sempre se mostrou um aliado fortíssimo a ela no castelo.
— Fiquei quieta, Reynia! Agora! – Jeffrey sacolejou a garota e falou duramente com ela.
— Você matou o meu irmão! – ela rosnou contra ele, chorando compulsivamente.
— Sim! E mato você também se não calar a sua boca! Ele teve o que mereceu, ou você acha que por ser seu irmão eu deixaria que ele tocasse a minha mulher? – falou para ela e Reynia desviou o seu olhar para com fúria.
Sentia o ódio pela rainha aumentar ainda mais, o sentimento alastrado que só era impedido naquele momento porque Jeffrey jamais permitira que ela a matasse.
— Sempre por sua culpa… - ralhou contra , que apenas engoliu em seco, sentindo todo o martírio apoderar dos seus ombros.
— Cale a boca! Só eu falo aqui! – Jeffrey empurrou Reynia, fazendo-a cair de joelhos no chão. Em seguida, puxou os cabelos dela para posicioná-la pé novamente, ao seu lado. Saiu a arrastando, deixando para trás e, ao chegar à porta, virou para a sua esposa com o olhar sério e retirou do bolso uma chave. — Você vai ficar aí, , para aprender a lidar com os seus erros. Amanhã eu venho te libertar, enquanto isso, passe a noite remoendo todas as suas ações e atitudes até aqui. Pense bem e não volte a repeti-los!
— VOCÊ NÃO PODE ME PRENDER AQUI, JEFFREY! – gritou assim que notou que ia ficar naquele quarto fedido a sangue com o corpo de Olleon despedaçado por todo o lado.
— Ah, você vai, querida! Aproveite e procure os olhos e a língua dele. Estão espalhados em algum lugar desse cômodo. Adeus, meu amor. – Fechou a porta de uma vez, não dando tempo de correr para tentar impedi-lo.
A rainha começou a socar a porta e a gritar para que a tirassem de lá. E, do outro lado, Jeffrey ria do desespero dela. Ela não conseguiria sair. Ele havia trancado as passagens secretas e dispensado toda a guarda. Nem se acordasse no meio da noite com os brados de , seria em vão. Mesmo que fosse uma solução difícil, visto que um quarto era no início do corredor e o outro no final.
— Agora venha, Reynia, enxugue essas lágrimas e morda essa sua língua. Depois dessa noite trabalhosa estou precisando de alguns momentos de prazer. – Jeffrey saiu puxando a amante pelo braço, enquanto ela tentava conter as lágrimas e a sua dor.





Capítulo 15

Dizem que durante a noite os temores são mais intensos, as sensações se ampliam e os medos se intensificam. O poder da mente é potencializado e toda percepção é aguçada. sentiu em sua carne cada segundo que passou presa naquele quarto. O pânico e o desespero transbordaram por sua carcaça fria e o seu muro interno foi quebrado. A sanidade que sempre tentou manter, sumiu por algumas horas, e o resultado disso estava em suas mãos ensanguentadas. A carne viva dos seus dedos; os antigos machucados, antes curados, estavam todos abertos novamente. Não haviam mais unhas e a dor atingiu um pico tão alto que foi bloqueada por seu cérebro durante os momentos que ela arranhava a porta tentando sair daquele lugar.
Quando o quarto foi aberto, a rainha estava sentada no chão, seus cabelos desgrenhados e o rosto inchado. Não possuía lágrimas, entretanto, seus olhos estavam vermelhos como sangue e o pó que cobria a sua pele, escorrido pelas suas bochechas. Ela levantou-se, ajeitando o vestido sujo e rasgado, e endireitou a sua coluna, erguendo o seu rosto. Caminhou para fora do seu aposento, passando em frente ao guarda que havia aberto a porta para ela sem olhá-lo. Seus passos eram lentos e arrastados, mas não vacilava e nem se intimidava com a forma que estava andando pelo corredor.
No mesmo momento, saía do seu quarto, encontrando a mãe naquele estado deplorável. A princesa correu até ela, inclinando para tocar o rosto da rainha com seus dedos delicados, porém, desviou a sua cabeça, impedindo que a filha encostasse nela. As duas se entreolharam, com a mão ainda suspensa no ar, foi abaixando-a vagarosamente, sem saber como proceder ali. Sua mãe não precisava dizer nada, era claro que Jeffrey havia feito alguma coisa muito grave. A garota nunca havia a visto daquela forma, ao mesmo tempo que a rainha parecia tão forte, era sabido que estava destruída.
Abriu a boca para tentar falar alguma coisa, mas estendeu a sua mão para a menina, indicando que ela não deveria proferir nada. A garota, obediente, deu dois passos para trás, abrindo o caminho para a mãe passar. Pensou que, talvez, fosse melhor dar espaço para que ela se recuperasse e assim, quando ela estivesse pronta para dizer alguma coisa, estaria ao lado da mãe para ajudá-la.
A rainha continuou caminhando, enquanto a filha ficava para trás, parada no mesmo lugar, olhando com lamento a sua mãe. deu alguns passos, suspirou fundo e parou, fechando os punhos e os olhos lentamente.
– chamou a atenção da menina. ― Não sinta pena de mim. Não será isso que irá me derrubar. É apenas mais uma pedra no meio do meu caminho.
Dado o seu recado, abriu seus olhos e continuou caminhando, enquanto observava às costas da sua mãe sumindo pelo corredor extenso do castelo.

*


― Como sua mãe está? – Isaac perguntou, observando a rainha que acabara de chegar à sala de jantar.
― Não sei. Pela primeira vez não tenho ideia de como ela está lidando com o que aconteceu. Ela não tem me deixado entrar, está calada e só tem trocado algumas palavras comigo e um pouco com o Luigi – respondeu, externando a sua preocupação.
Uma semana havia se passado, sete dias que a princesa possuía uma companhia para a sua cama. Desde a primeira noite que Isaac invadiu o seu quarto, o ato virou rotina para os dois. Após o rapaz tomar conhecimento sobre o que rei havia feito, seu cuidado com a menina havia se intensificado e possuía uma ótima desculpa para afundar sob os lençóis dela.
― Acha que ela pode enlouquecer? Uma tortura psicológica daquela pode acabar com a mente de um ser humano.
― Ela é forte – disse, enfática. ― Claro que ela não está bem, acho que ninguém sabe tudo o que ela passou, porém, eu sinto que tem algo mais. Acho que ela está tramando…
― Creio que ela vai matar o seu pai – Isaac foi direto ao ponto. ― Era o que eu faria no lugar dela.
― Não duvido. Entretanto, ela pensa maior do que uma vingança. Matar Jeffrey seria um risco para a aliança dos reinos. Ela não pode.
― Talvez seja por isso que ela está tão silenciosa, está arquitetando uma forma de fazer sem que cause transtornos.
― Espero que sim! – falou friamente.
― Não se importa? – Isaac arqueou a sobrancelha, indagando-a.
― E por que me importaria com uma pessoa que viola e põe em risco àqueles que eu amo?
― Foi o que imaginei. – O rapaz abriu um leve sorriso para a menina. ― Só quis confirmar. Você é tão doce, minha bela , que fica até difícil imaginar que deseja a morte de alguém – disse a sua constatação, fazendo-a rir.
― Jeffrey não é alguém, Isaac. Ele é um estorvo, um ser assim não merece viver – respondeu e voltou a olhar para a mãe do outro lado do salão, que estava perdida dentro dos seus próprios pensamentos.
― Falando no demônio… Olha quem está chegando ali. – Isaac apontou com o rosto para Jeffrey, que entrava pela outra porta junto com o pequeno Luigi ao seu lado. Os dois conversavam entretidos e divertidos, o príncipe alheio a tudo o que acontecia no castelo.
― Não suporto ver o sorriso dele e como ludibria o meu irmão com o seu amor fajuto. Ele está alegre, pois amanhã começa a festa que ele tanto quis. – O desprezo de era tão notório em sua voz que o tornava quase palpável.
― Meu pai me disse que o seu tio Garret vem. Eu o vi durante o meu tempo fora, passei uns meses em Medroc. – Isaac resolveu mudar de assunto, não seria bom que Jeffrey os flagrasse cochichando sobre ele, ainda mais com o olhar que a princesa dirigia em sua direção.
― Sim, ele vem. Faz um tempo que não o vejo, como ele está? Sinto falta dos seus gracejos. Ele sempre consegue irritar a minha mãe. – riu com a lembrança.
― Ele parece bem e um pouco louco, confesso. Eu não o distingo como uma pessoa normal – falou, lembrando da época que esteve no reino vizinho.
― Bom… Quem consegue passar pela realeza com a mente intacta, afinal?
― E por que você acha que eu fui embora? – abriu um sorriso divertido para ela.
― Você nunca me falou sobre o seu tempo fora. Ainda me surpreende o tio Cameron ter permitido.
― Acordos, doce , sempre acordos. - piscou para a garota ao seu lado, segurando-se para não trazê-la junto ao seu corpo.
Cada vez era mais difícil manter a sua sanidade perto da princesa, dormir com ela era chegar ao ápice do seu autocontrole. Já havia dias que não tocava em alguma mulher e precisava mudar isso, antes que atacasse a própria prima. Talvez ele se saciasse com alguma serviçal do próprio castelo, se ele jogasse o seu charme não seria difícil trazer alguém para a sua própria cama. Havia também aquela bela mulher que havia se insinuado para ele, porém, não queria trazer mais confusão a sua vida. Já bastava o que havia acontecido durante o seu tempo fora.
― Vamos? Creio que só falta nós para compor a mesa – chamou-o, tirando-o da hipnose que estava.
Caminharam lado a lado e sentaram-se para o jantar que seria oferecido. A rainha e o rei estavam em cabeceiras opostas da mesa, longe o suficiente para que, qualquer briga que houvesse, fosse apenas verbal. Jeffrey possuía Luigi ao seu lado e preferiu sentar-se ao lado da sua mãe e de Isaac. À sua frente estava Sarah e um local vazio, que deveria ser de Cameron.
― Boa noite, crianças. Que bom que chegaram para unir-se a nosso jantar em família. – Jeffrey falou com um grande sorriso, pesando a ironia em suas palavras.
Ninguém o respondeu, um silêncio fúnebre pairava a mesa, não havia o que dizer. Com exceção de Luigi, ninguém queria estar ali, e Jeffrey se deleitava com isso, sabendo que o efeito era causado por ele. Estava feliz por estar, aos poucos, retomando o espaço que havia perdido por causa de . Havia se acomodado demais, agora, entretanto, estava disposto a comandar aquele castelo à sua própria maneira.
― Percebo que estão todos tímidos – soltou uma risada. ― Irei, então, iniciar eu mesmo uma conversa agradável. – Varreu o seu olhar pelos presentes até encontrar o assento vazio à mesa. ― Sarah, onde está Cameron?
A mulher engoliu em seco, olhando de soslaio para , que apenas ignorou a pergunta e começou a comer, sem olhar para Jeffrey.
― Ele foi fazer os convites para alguns líderes pessoalmente, Majestade. Ele voltará a tempo da festa de amanhã. - a voz dela saía frágil e baixa, era nítido que estava receosa em responder algo que o rei poderia não gostar.
Jeffrey franziu o cenho, parecendo estar desconfiado. Olhou para a sua esposa, que continuava a mirar o prato a sua frente, e sentiu uma raiva apossar os seus nervos. Ela não seria tão petulante mesmo depois de tudo, seria?
― O que está armando, ? – o rei fechou os punhos e cravou seus olhos nela. ― Você sabe que se você e seu tio tentarem fazer qualquer coisa contra mim, isso se voltará a você mil vezes pior! – bateu o punho à mesa, fazendo os pratos e copos vibrarem, e passou seus olhos por Isaac e , insinuando no silêncio o que queria dizer.
ergueu o tecido que estava em seu colo, que servia de guardanapo, e ergueu-o até a boca, limpando-a. Em seguida, dobrou-o lentamente e olhou para Jeffrey, que esperava a sua resposta.
― Apenas pedi o que me ordenou sobre a festa. Alguns convites, se não entregues pessoalmente, soam como desrespeito ou como se os convidados não fossem importantes o suficiente para virem até aqui. Não há nada além disso, querido. – A voz de era morna, mas tranquila, e, por incrível que pareça, não dava para notar ironia ou sarcasmo em sua entonação.
A atitude dela surpreendeu a todos, incluindo o seu marido. franziu a testa sem entender o tom condescendente da sua mãe. Ela e o Isaac trocaram olhares e o garoto parecia ter um tom triste, que fazia com que ela compreendesse a situação, mesmo sem querer acreditar. Sua mãe havia se rendido. Após tantos anos, havia cansado de batalhar contra Jeffrey.
― Hum… - o rei não soube o que responder. Esperava uma discussão acalorada, estava acostumado com isso, contudo, lidar com uma dócil, era no mínimo inesperado, por mais que fosse isso que sempre desejou. ― Que bom! Fiz alguns ajustes na programação, tenho uma surpresa para nós, meu amor. - sorriu e voltou a comer, rasgando com os dentes a carne da ave que havia caçado.
O silêncio voltou a reinar no local e apenas se ouvia o barulho dos pratos e talheres que remexiam a comida. Luigi de vez em quando quebrava a bolha gritante de estranheza com as suas peripécias infantis, porém, a única que conseguia esboçar alguma pequena risada era Sarah e o próprio Jeffrey, que não tinha nada a temer ali.
Todos pararam de jantar no momento que escutaram barulhos de saltos entrarem pela sala. Era Helena que vinha glamorosa, com um guarda em cada lado seu. Não parecia aquela mulher acabada que estava no calabouço, pelo contrário, havia vislumbres da antiga Helena, porém, com uma aparência mais velha e cansada. Trajava um vestido finíssimo, digno da realeza, e a pintura em sua cara conseguia enganar a sua idade real. Sua pele estava adornada com joias caríssimas e valorosas, ninguém admitiria que era a mesma mulher.
A mulher chegou sorrindo e acenando a todos, como se não tivesse passado tanto tempo reclusa naquele lugar. Chegou à mesa, puxou a cadeira vaga ao lado de Sarah e cumprimentou a todos.
― Olá, meu netinho amado, que saudades eu tive de você! – passou a mão pelos cabelos dourados de Luigi e o garoto recolheu-se na cadeira, estranhando a senhora que ele não se recordava.
A cor da pele de Jeffrey parecia ter se esvaído, ao mesmo tempo que estava furioso por encontrar com Helena. Olhou para a esposa que mantinha a cabeça baixa, escondendo o seu semblante, e deduziu que ela havia liberado a mãe do seu aprisionamento. Respirou fundo para não extravasar a sua raiva, não poderia mostrar que a mulher que chegara ali mexia com ele, não poderia ficar vulnerável. Estava ganhando a batalha, ceder agora seria uma fraqueza.
O rei puxou Luigi para o seu colo em um ato rápido e o menino escondeu o seu rosto no peito do pai, sem entender porque a senhora ao seu lado lhe causava tanto pavor.
― Ele está me estranhando. A última vez que eu o vi estava muito novo. – Helena murmurou sozinha. ― Porém vovó veio para ficar, está me ouvindo, pequeno? – estendeu a mão para acarinhar o braço do menino, contudo, Jeffrey a repeliu antes que o tocasse, segurando o punho dela com força.
Os olhares deles se cruzaram, enquanto todos assistiam a intensidade do momento. Helena franziu o cenho e remexeu o braço para que ele o soltasse, esfregando o pulso com a outra mão, assim que ele o fez.
― Está agressivo, Jeffrey. Não está conseguindo extravasar a sua raiva? Não é isso que eu tenho ouvido pelos corredores. Miles não gostaria desse tipo de atitude sua… - sorriu para ele, ignorando o latejar que o aperto em seu punho gerou.
― Miles está morto… - rosnou entre dentes, tentando se conter.
O semblante dela mudou drasticamente, como se aquela frase quebrasse tudo dentro de si. Seu rosto se contorceu e cerrou a sua boca, fechando os punhos a mesa.
― Verdade, voltemos a comer então. - A antiga rainha olhou para o prato a frente e começou a jantar, fazendo com que os outros, aos poucos, continuassem o que estavam fazendo e Jeffrey suspirasse aliviado. Nenhuma palavra mais foi dada, era como uma linha fina que poderia se romper a qualquer momento. Não poderiam chamar de paz, mas, pelo menos, sobrevivência.
Ao fim do jantar, chamou o filho e retirou-se com ele, sendo seguida por Sarah, e Isaac. Quando Helena levantou-se para seguir o seu caminho, Jeffrey a interrompeu, segurando o seu braço com firmeza.
― O que você quer? – rosnou contra a mulher, que abriu um sorriso para ele.
― Querido genro, não entendo a sua ira. Fiz alguma coisa que lhe desagradasse? – indagou-o, serena e batendo seus cílios.
― A sua passividade não me engana, Helena. Você pode ter iludido a sua filha, mas não a mim. Fique longe do meu filho e eu, e se você ousar abrir a sua boca, eu corto a sua língua fora. - apertou mais ainda o braço dela, porém Helena não se mexeu.
― Da mesma forma que fez com o soldado? – levantou uma sobrancelha, encarando-o.
A fúria de Jeffrey alastrou pelo seu corpo, ergueu o punho e mirou o rosto de Helena, arrancando-lhe sangue da boca quando acertou o seu maxilar.
― FIQUE QUIETA! Fique quieta, Helena! O seu tempo passou aqui! Acha que pode me confrontar? Acha que pode comandar alguma coisa aqui? Você não é a rainha mais, você não é NADA! – gritou contra ela, com sua respiração ofegante.
Helena endireitou o seu rosto, voltando a focar em Jeffrey, e passou o dorso da mão pelo machucado. Viu o rastro de sangue sujar a sua pele e sentiu o ardor no local ferido. Contudo, não expressou um semblante dolorido ou mesmo resmungo, apenas encarou-o de volta.
― Não vou esconder mais as coisas do meu marido, Jeffrey. Ele saberá e você pagará por tocar em mim! – Helena falou enquanto esfregava uma mão na outra, a fim de limpar, pacientemente, o sangue sujo no local.
O rei ficou ainda mais nervoso com essa Helena que via a sua frente, A antiga rainha já era difícil de se lidar, ainda mais sem saber ao certo o nível da sanidade da mulher.
― O MILES ESTÁ MORTO, SUA LOUCA! MORTO! EU SOU O REI! A QUEM IRÁ RECORRER? – gritou contra ela, já partindo em sua direção, o ódio latente fazia-o ter vontade de matar a mulher com as próprias mãos.
Helena deu um passo para trás, estendeu uma palma contra ele, e com a outra mão, retirou de entre os seios algo que o rei sabia muito bem o que era. Jeffrey ao ver aquilo vacilou e estremeceu, parando o seu caminhar.
― Não repita isso. Nunca mais. Eu sei, mas não o repita. - ela falou, rangendo uma voz torturada que saía da sua garganta. ― Eu não preciso de uma coroa para reinar, Jeffrey, o poder está em meu nome, este objeto em sua cabeça é um mero artefato frente o domínio que está sob minhas mãos.
Jeffrey riu. Uma risada amarga e descrente.
― Acha mesmo que você, a rainha louca, tem mais prestígio do que eu, o Herdeiro de Medroc, Rei de Ílac?
― Eu não preciso achar nada, Jeffrey, os atos dirão por si só e você verá.
Helena deu meia volta e deixou o rei sozinho. Parou apenas ao lado dos guardas que a esperavam do outro lado da porta, disse a eles onde iria agora e deixou para trás um Jeffrey incomodado com o que poderia vir pela frente.
A antiga rainha acelerou os passos e encontrou pelo caminho. A filha, quando a viu, resolveu ignorá-la, porém sua mãe lhe deu um sinal e era notório que queria conversar com ela a sós. ordenou que os guardas se afastassem e puxou a mãe para um aposento vazio que se encontrava logo à direita, ignorando um rastro de sangue que estava em sua boca.
― O que você quer? – a rainha vociferou para a mãe. ―Te dei liberdade, mas não o direito de vir atrás de mim.
Helena franziu o cenho e sua feição se entristeceu com a aspereza da filha.
― Uma mãe não pode se preocupar com a filha? – questionou-a.
― Se essa mãe realmente fosse uma de verdade, sim. Porém não é o seu caso. Diga-me logo o que quer e me deixe em paz, Helena.
― Engraçado você se mostrar hostil comigo, mas ficar como um cachorrinho adestrado perto do Jeffrey hoje na mesa do jantar. – Helena cravou o seu olhar em , destilando toda a hostilidade que sentia mediante a situação.
A ira da rainha extravasou ao ouvir as palavras da mãe. Deu três passos rápidos em direção a ela e agarrou o seu pescoço, fincando as unhas compridas na pele de Helena. O corpo da sua mãe bateu contra a parede atrás de si e ela gemeu com dor.
― Nunca mais diga isso de mim, entendeu? Você não tem o direito! Da relação do meu casamento, cuido eu. Você não me jogou na toca do monstro? Agora me deixei enfrentá-lo em paz. Sei o que estou fazendo. Não faça com que eu me arrependa de ter libertado você – A voz de era grave, tamanha a raiva que sentia. Não era só por Helena, mas tudo o que vivia estava culminando para um colapso a qualquer momento.
A rainha afrouxou o aperto no pescoço da mãe aos poucos e, assim que se viu livre, Helena passou a mão pelo local que ficou com as marcas das unhas de . Sua filha não quis mais ficar ali, andou até a porta, deixando-a encurvada e um pouco ofegante para trás.
― Helena – chamou a atenção da mãe, virando levemente a cabeça para trás –, eu não disse durante o jantar, mas, na próxima vez que tocar no cabelo do meu filho, eu arrancarei a sua mão fora – completou e retirou-se do local.
Assim que ela saiu, Helena abriu um pequeno sorriso. Não estava incomodada com a dor latente no pescoço, ou muito menos com a ameaça vindoura, sua expressão beirava a satisfação.
― Essa sim é a que eu criei.

*


A penumbra da noite caía, mas o castelo não estava silencioso como era acostumado a ficar nesse horário. Haviam serviçais por todos os lados, todos estavam ativos para a recepção dos convidados da grande festa do Rei Jeffrey. Tudo deveria estar impecável. Ílac era uma grande potência e deveria receber os seus anfitriões com as mais belas regalias do reino. Os melhores tecidos estavam sendo expostos, os cristais mais raros e os utensílios mais caros eram usados, tudo para ostentar o poder que o império tinha. Mostrar que ainda era uma nação grande fazia com que os outros países se sentissem retraídos e, quanto mais temor tivessem, menores as chances de rebeliões acontecerem.
Claro que o rei também não gostaria que nada estivesse fora do lugar em seu aniversário. Os servos sabiam o que poderia acontecer se algo desse errado. A fama dele já era conhecida em todo o castelo e, nos últimos dias, devido aos recentes acontecimentos, as palavras começaram a disseminar em meio à população. Já era sabido o que Jeffrey havia feito com e, como palha lançada ao vento, as fofocas se foram e percorreram além dos muros do palácio.
As pessoas por muito tempo se acostumaram com maridos que tratavam as mulheres como lixo, mas, em uma época onde Miles endeusava a sua esposa, a visão da mulher havia mudado para uma joia preciosa. Depois da posse de , através do respeito que ela cativou do povo, o cenário se modificou novamente e puderam ver que o sexo feminino podia lutar e ser tão corajoso e impetuoso quanto o masculino. Entretanto, depois de saberem das últimas novidades do castelo, o povo começou a se perguntar se tudo aquilo era apenas uma imagem, uma propaganda enganosa de algo que nunca existiu. Seria a rainha tão valente quanto demonstrava ser? Era ela submissa ao seu marido? Isso sempre aconteceu ou fora um fato recente? Será que a rainha revidaria tamanho ultraje? E se isso acontecesse, até quando duraria o tempo de paz?
Não precisaram de muito para começarem a fazer esses questionamentos. Bastou o povo saber das brigas do casal e de como a rainha havia sido trancada com um moribundo durante a noite pelo seu marido. Os motivos verdadeiros para o acontecido não necessitavam ser esclarecidos, as próprias más-línguas poderiam inventá-los. E, depois da palavra ser dita e disseminada, não havia nada que pudessem fazer para pará-la. Era como uma praga que contaminava de um a um, até estarem todos rendidos.
Dentro do castelo eles evitavam falar sobre o assunto. Não queriam ter a cabeça decepada. Apenas faziam o serviço que lhe foram atribuídos com temor.
Isaac passou pelo salão e conseguiu sentir os olhos dos criados sobre si. Cada um da família real passou a ser piamente observado. Mas o que poderiam fazer? Arrancar os olhos de todos?
Claro que quando ele retribuía o olhar, cada um deles abaixava a cabeça com medo de uma represália. Isaac era um homem manso, por isso, abusavam da bondade dele, espionando-o com menos discrição. Não teriam coragem de fazer o mesmo com o rei ou a rainha, não desta forma pelo menos.
Isaac sentia-se sufocado, odiava tudo aquilo. Queria ir embora como da última vez, mas algo não o permitia. Ao mesmo tempo que a sua mente latejava para correr daquele lugar, era como se também se visse preso em algo inexplicável, ou melhor… alguém.
Olhar para a íris azul de era a única coisa que o deixava calmo. A delicadeza da princesa o prendia e, quando se aconchegava na cama com ela, era como se esquecesse de todos os problemas daquele castelo. Cada noite que ele se esgueirava sob o seu lençol era um presente dos céus. Ele observava a pele rosada da menina e os traços delicados do seu rosto, percebia quando a sua respiração ficava mais lenta e ela embalava no sono. Só um tempo depois disso é que ele dormia, esperava que a princesa estivesse completamente desacordada para passar seu braço em torno do corpo da garota, sentindo um frio na ponta do seu abdômen toda as vezes que se aproximava dela.
Entretanto, naquela noite, não quis o receber, por isso estava possesso. A desculpa da menina é que os convidados chegariam cedo e ela não queria correr riscos. Expulsou-o do seu quarto a contragosto do primo, que usou todo o seu vocabulário chulo para pregoar maldições perante aquela situação.
Não era a toa que estava tão transtornado. Os murmúrios pareciam piores a sua volta, os olhares eram como se cravassem suas costas e os problemas tinham dimensões maiores do que realmente eram. Ele precisava sair dali ou surtaria. A opção de bater à porta do quarto de até que ela o recebesse não seria bem vista, já que não queria receber a culpa de desonrar mais uma donzela. Quem acreditaria que eles apenas dormiam ali?
Um aperto no peito tomou conta dele e era como se não conseguisse respirar. Correu para o lado de fora, procurando a primeira saída que achasse. Andou afoito pelos corredores até chegar a saída do fundo do castelo, avistou o bosque em frente, que levava até a floresta, e não pensou duas vezes até afundar mata a dentro e respirar o ar puro das árvores que balançavam naquela noite fria.
Estava escuro e a única luz que iluminava o local era o reflexo da lua que cobria a natureza. Isaac ouvia os barulhos dos grilos e outros bichos que ele não conseguia distinguir. De uma forma estranha, ele não sentia medo, sentia mais paz ali do que dentro do castelo. Apreciou o aroma da terra e caminhou sem direção, tentando não ir longe para não se perder. Ficou por muito tempo até não saber a quantidade de horas que estava ali. Ele não queria voltar e o sono não havia o encontrado ainda. Ficou por lá, tranquilo, até ouvir um barulho estranho na mata. Não era o som da natureza, eram galhos se quebrando e ele estava certo que algo estava se aproximando.
Praguejou internamente, recordando-se que saiu com tanta pressa que não tinha nada para que pudesse se defender caso algum animal selvagem chegasse perto de si. Olhou de um lado para outro, analisando se havia alguma árvore que pudesse subir, mas não encontrou nada possível. A melhor saída seria andar devagar e sem fazer barulho, voltando ao castelo.
O silêncio havia se instaurado novamente, porém o seu coração batia forte. De alguma forma sentia-se observado e aquilo lhe dava calafrios. Ao longe, já conseguia ver as luzes do palácio e sentiu-se aliviado por chegar perto.
Contudo, inesperadamente, sentiu uma mão áspera gelada tampar-lhe a boca e outras segurarem os seus braços. Não conseguiu gritar, seu corpo foi jogado contra o tronco de uma árvore e pode ver dois homens trajados com as vestes do castelo, um ergueu uma faca contra o seu pescoço e outro o amarrou contra o tronco.
― Achou que ia se livrar de nós tão fácil, ? – um dos homens deu um tapa no rosto do garoto, enquanto o outro, logo depois, amarrou um pano na boca dele, para que não pudesse gritar.
― Acho que você esqueceu que nós estamos em todo lugar – o outro homem riu, mostrando a sua veste para o rapaz.
O primeiro homem pegou a faca e passou lentamente pelo rosto de Isaac, abaixou o objeto até a barriga dele, apertando um pouco para que ele sentisse a ponta da faca o incomodar.
― Você é um covarde, garoto! Fugiu para cá, pois estaria protegido pelo papai e pela rainha. Não sabe enfrentar os seus próprios problemas, não foi homem para assumir o que fez e morrerá por isso… - fez uma pausa - A não ser que volte atrás. Você sabe o que meu mandante quer, faça o que ele ordenou e deixaremos tudo para trás. - cortou um pedaço do tecido de Isaac, para mostrar que a ameaça era real.
O segundo homem, que observava atentamente a interação do seu companheiro, tirou a mordaça para que Isaac pudesse responder a questão. O garoto estava com a respiração ofegante, sabia que ali poderia ser o seu fim, mas jamais aceitaria os termos que eles queriam. Tinha inúmeros defeitos e não era exatamente uma boa pessoa, porém, jamais aceitaria uma culpa que não era sua por mero capricho de outrem.
― Eu já disse que sou inocente! – Isaac entoou as palavras, fazendo os homens rirem.
― Está dizendo que o rei mentiu? Está mesmo colocando a sua palavra contra a dele?
O homem aproximou, apontando a faca para o rosto de Isaac com raiva, deixaria ali a sua marca para que o rapaz não ultrajasse a sua majestade novamente, porém, antes que encostasse no garoto, uma pontada lacerante foi sentida em suas costas. Olhou para baixo e viu a ponta de uma espada sair pela sua barriga. Não teve tempo nem de ouvir o grito do seu parceiro, apenas viu a cabeça dele rolar até os seus pés e sentiu a escuridão vir sobre si logo em seguida.
Isaac estava assustado, sua respiração rápida e o coração aceso. Achou que ia morrer, mas fora salvo inesperadamente.
― Está tudo bem com o senhor? – a voz do homem que havia matado o seu opressor surgiu, enquanto um outro o desamarrava.
― Sim, obrigado. – Isaac suspirou, aliviado, passando as mãos nos seus próprios punhos que estavam marcados pela corda. ― A quem devo agradecer pelo gesto tão nobre? – indagou, analisando os trajes do homem.
, General do Exército de Ílac. - Estendeu a sua mão a ele, que retribuiu o gesto. ― Este é o antigo comandante e meu amigo, Hector. - Apontou para quem havia desamarrado o garoto e ele pôde o ver enrolando a corda com as mãos.
― Ah, sim, o Sr. Hector eu conheço, eu o via pelo castelo quando mais novo. Muito obrigado, eu os recompensarei por isso e pelo silêncio de vocês. O que querem em troca? – Isaac perguntou, fazendo dar um passo para trás, sem entender aquilo.
― Não precisamos de incentivos para fazer o nosso dever, senhor. E temo lhe dizer que não poderei ocultar este fato. Estes homens – apontou para os corpos que estavam no chão – estão vestidos como os serviçais do castelo. Por que queriam lhe matar? Não posso omitir este fato e colocar a vida da realeza ou qualquer um daqui em risco – explicou pacientemente e intrigado pelo pedido de Isaac.
― Sinto muito, garoto. – Hector colocou a mão no ombro de Isaac ― Estamos fazendo o nosso dever. Estamos aqui justamente fazendo a ronda para proteção do castelo antes da festa do Rei Jeffrey. Não podemos correr riscos de sermos surpreendidos com ataques ou qualquer coisa parecida.
Isaac olhou para os dois homens, tentando pensar no que faria. Ninguém poderia saber o motivo que havia voltado. Seu pai ficaria decepcionado por descobrir que a razão realmente era uma fuga e, além disso, o obrigaria a ceder a algo que não queria, sua fama lhe perseguia, ninguém acreditaria nele.
― Senhores… - Isaac chamou-os a atenção ― Sei que estão preocupados e entendo o motivo. Eu jamais iria querer que qualquer um da minha família estivesse em risco, porém, isto – apontou para os corpos no chão ― foi um motivo completamente particular. É algo só meu, não tem relação nenhuma com o nosso povo ou reino – explicou, tentando convencê-los. ― E, ainda que fosse, eu não quero que isso saia daqui, está entendendo? – Isaac tentou usar do mesmo poder de persuasão que o pai tinha, deixando nas entrelinhas que aquilo era uma ordem, afinal, ele também era da realeza e possuía o poder para tal coisa.
e Hector se entreolharam. O mais velho segurou o riso, entendendo o amigo apenas pelo semblante.
― Se eu não sigo nem as ordens da rainha, muito menos atenderia o pedido de um menino. – riu zombando, achando aquilo inacreditável.
Isaac passou a mão por seus cabelos, sem saber o que fazer. De fato não havia aprendido a articulação do seu pai.
― Sabia que eu poderia usar isso como uma insolência sua? – Isaac tentou barganhá-lo com uma leve ameaça. ― Se não segue as ordens da sua Majestade, por que teria, então, um cargo tão alto?
― Porque eu sou o melhor, garoto! E não te devo mais explicações, venha! – puxou Isaac pela gola de trás da sua camisa, arrastando-o de volta para o castelo, enquanto Hector ria da situação.
― Por favor, me escute! Eu dou a minha palavra. Se eu explicar-lhes, vocês entenderão – exclamou, tentando livrar-se do homem que tentava fazer com que ele voltasse ao palácio, todavia, era muito mais forte e não seria nada atraente se ele ficasse se debatendo como uma criança pega no flagra.
― Quando chegarmos ao castelo você terá tempo para me contar toda a história e, só depois, eu pensarei no seu caso. – afirmou, fazendo com que uma pontada de esperança nascesse no peito de Isaac. Resolveu, então, ceder e caminhar junto a eles, torcendo para que o general compactuasse com o seu silêncio.


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