Trono de Sangue

Última atualização: 01/04/2018

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Capítulo 16 - Parte I

A rainha esperava enquanto terminavam de fazer o seu penteado. Uma bela trança era elaborada na lateral do seu cabelo e a formosa coroa era presa em meio aos fios. O vestido, que na maioria dos dias era ignorado por , hoje mostrava toda a beleza e suavidade que ela costumava ocultar. A cintura bem apertada e os adornos bem trabalhados, todos perfeitamente ajustados, porém, nada chamativo demais, apenas o suficiente para mostrar a grandeza da sua veste e sua suprema elegância. A cor vinho combinava com o tom escuro dos seus cabelos, fazendo um contraste com a sua pele alva. O decote quadrado destacava os seus seios, enquanto a cintura apertada acentuava os seus quadris. Não haveria um convidado presente que não ficaria encantado por ela.
Colocou os brincos de pérolas e o restante das joias que usaria, apreciando a sua visão no espelho. Estava linda e sentia-se poderosa. Era uma pena que tudo aquilo era para presenciar a festa do seu marido, gostaria que estivesse daquela forma para alguma outra ocasião, entretanto, não tinha nem motivação para qualquer festividade. Tudo era apenas eventos obrigatórios que tinha que participar.
Naquela noite estava nervosa, o que não era o seu habitual. Jeffrey havia se afastado pelos últimos dias, no entanto, não o suficiente para que ela se esquecesse do que ele planejara para esta noite. Ter libertado Helena não havia sido em vão, percebeu que seu marido manteve-se longe quando ela estava com sua mãe, mas, em contrapartida, para a sua infelicidade, ela precisou passar mais tempo com ela para se livrar de Jeffrey. Torcia para que essa noite ele se embebedasse tanto, que não estivesse sóbrio o suficiente para manter nenhuma relação com ela, já que não teria como ela escapar.
Mandou trazer dos vinhos mais fortes, exclusivos de Medroc, toneladas dele. Quanto mais bêbado ele estivesse, mais fácil seria para tirar as mãos dele sobre si, e se tivesse sorte, ele não se lembraria de nada no outro dia. A última opção seria ela mesma se embebedar o suficiente para que não se recordasse de nada, porém, preferia não ter que optar por isso, pois o que menos queria era deixar o controle do seu corpo sob as mãos de Jeffrey.
Olhou no espelho novamente, uma imagem tão bela, mas tão diferente do que ela realmente era. Por dentro estava acabada, era apenas rastros da garota que já fora um dia. A imagem refletia algo que não era real, uma beleza que não existia mais.
Até quando iria aguentar as mãos de Jeffrey a tocando? Até quando iria ver as pessoas morrerem ou sofrerem sem merecer esse destino?
Lutou tanto para manter as aparências pela aliança, mas do que adiantou? Jeffrey não parecia se importar, ele apenas a queria. Agora todo o reino sabia das desavenças do casal. Como ela se livraria dele? Não era esse o plano. Ela só precisava de anos de estabilidade, um tempo para mostrar como tudo era perfeito ali e, depois, ela se tornaria uma pobre viúva e todos lamentariam por ela.
Era tudo muito delicado. Não poderia fazer isso enquanto não fosse a rainha, pois não tinha plenos poderes dentro do castelo para arquitetar algo tão perfeito. Após a morte do pai, ela precisou cuidar primeiramente do reino e depois se preocupar consigo mesma. Era o momento do povo conhecer ela e Jeffrey como reis de Ílac e fortalecer o poder, portanto, ainda não era o momento certo. Mas agora… tudo havia desandado. Uma morte “natural” não seria vista dessa maneira. Garret jamais acreditaria, muito menos o povo. O rei de Medroc conhecia coisas demais para acreditar em algo do tipo, ele sabia muitos segredos, a paternidade de era um deles. Sabia que ela, em outra situação, jamais se casaria com Jeffrey, além disso, ele conhecia bem o irmão.
Colocou as mãos no rosto, frustrada. Queria ser pelo menos um pouco egoísta para se livrar de Jeffrey sem medo das represálias que viriam sobre o seu povo e sua família, no entanto, ela não era assim. Teria que continuar jogando com Jeffrey e tentando achar um ponto fraco que o atingisse, que não fosse o Luigi, pois usar o filho não era uma opção.
Não demorou muito para ouvir batidas em sua porta e a mesma ser aberta vagarosamente. A figura imponente de Jeffrey entrou em seu aposento com um sorriso em cada ponta do seu rosto. Não podia negar como estava belo em sua roupa real. Era um homem muito bonito, entretanto, a vontade de vomitar cada vez que o via era inevitável.
― Está pronta, adorável esposa? - a voz repugnante dele chamou a sua atenção.
levantou sem responder e virou-se para ele. A mão do rei estava estendida para ela, esperando-a para que pudessem fazer a entrada triunfal no salão onde ocorria a festa. A rainha colocou a mão dela sobre a dele e foi recompensada com um leve beijo no rosto. Teriam que entrar como um casal adorável, eram o rei e a rainha afinal. Ela respirou fundo, unindo as suas forças para fazer como a mãe sempre lhe ensinou: “sorria, seja cordial e converse com todos”.
Seria uma noite longa, com certeza.
Cada passo que davam para mais perto do salão, o barulho ficava mais alto. A música, as risadas e as conversas já podiam ser ouvidas, os convidados provavelmente já estavam dançando e bebendo desde mais cedo, porém, os anfitriões da festa deveriam ser os últimos a entrar, a fim de ter toda a atenção voltada para eles. Por isso, a recepção dos convidados ficou a cargo de , que havia entrado com o pequeno Lui uma hora atrás.
― Estão prontos para a festa? - um soldado perguntou, antes de abrir a porta do salão para que eles entrassem.
Jeffrey acenou com a cabeça e endireitou a sua coluna, abrindo um largo sorriso. fez o mesmo, porém não sorriu. No entanto, também evitou que a sua raiva exalasse em seu semblante, colocando no rosto apenas um pequeno elevar de lábios.
As grandes portas se abriram e no mesmo momento todo o barulho se dissipou. Era a entrada do casal mais poderoso e temido, mas não era o medo que fazia com que todos se calassem, de uma forma boa ou ruim, ambos exalavam poder, e não havia uma alma que não ficasse chocada com a grandiosidade que os dois transbordavam juntos.
Como já era previsto, os olhares de todos se cravaram na beleza da rainha. Ela tinha algo diferente em si, era como se não quisesse chamar atenção, mas o alcançava da mesma maneira, algo que intrigava qualquer um que a visse. Era uma mulher de camadas que não mostrava quem verdadeiramente era, e esse mistério que ela carregava tinha o poder de atrair a todos. No entanto, ela duvidava que alguém a quisesse realmente caso algum dia soubesse o que estava escondido por trás dos seus olhos claros.
Desceram junto as escadas lentamente, Jeffrey saboreando todas as atenções que tinham sobre si e exultante com a bela mulher do seu lado. Sentia-se satisfeito. Ao seu ver, estava cedendo a ele aos poucos e no mais tardar, quando tudo terminasse, selariam novamente o seu matrimônio.
Sentaram-se lado a lado, nos tronos que estavam postos em um pequeno ressalto do salão. Quando Jeffrey bateu palmas, tudo voltou ao normal, as músicas, danças e risadas, e o ar do local parecia se fazer presente novamente.
― Mamãe! - o pequeno príncipe passou correndo pelo meio das pessoas com seus cabelos loiros voando, jogou o seu corpo no colo da mãe e a abraçou com vigor.
― Oi, meu grande garoto! - passou a mão pelo rosto dele, abrindo um sorriso sincero pela primeira vez desde que chegara ali. ― Onde está a tia Sarah? Está gostando da festa?
― Eu deixei ela para trás! Eu queria ficar com você, mamãe! - aconchegou-se no colo da rainha, apertando seus bracinhos no corpo dela e repousando a cabeça no peito de . ― Todo mundo fica olhando para mim, eu não quero ficar aqui! - o menino fez uma pequena careta, escondendo o seu rosto no corpo dela.
deu uma pequena risada pela forma que o filho falava e passou os seus braços nele, como se o protegesse.
― Posso te contar um segredo? - a rainha inclinou-se, surrando no ouvido de Luigi. O menino acenou com a cabeça, ainda com o rostinho escondido em seu colo. ― Eu também queria ir embora.
O pequeno levantou a cabeça com a revelação, arregalando os pequenos olhos azuis para ela.
― Então vamos, mamãe! Eu prometo que se a gente for embora, eu nunca mais fujo da tia Sarah! - juntou as mãozinhas em súplica e fez um pequeno bico para , que gargalhou com a proposta.
Quisera ela poder ir embora e deixar toda aquela futilidade para trás. Pudera estar em seu quarto curtindo uma noite com o filho, ao invés de ter que aguentar uma longa noite com Jeffrey.
― Não podemos, meu amor - afirmou para ele, vendo o semblante do pequeno esmorecer. Os olhinhos encheram-se de água e ele voltou a enfiar o rosto no corpo da mãe. ― Olhe para mim, Lui! - pediu com o coração apertado. Tocou o queixo do menino, fazendo com que os glóbulos cheios de lágrimas a mirassem.
O garoto sentia-se sufocado com tantas pessoas ao redor, muita gente o cumprimentando, pegando nele e apertando as suas bochechas. Ele só queria passar um tempo com a mãe em um lugar tranquilo. Sentia falta dela.
― Meu amor, todos olham para você porque é o menino mais bonito dessa festa. Aguente um pouco, tudo bem? A mamãe precisa ficar aqui para atender todas essas pessoas que vieram para o aniversário do papai, mas eu prometo que depois será apenas nós dois! - acarinhou o rosto do filho.
O menino encarou a mãe, mordendo a bochecha para tentar conter as lágrimas.
― Promete? - Luigi perguntou com a voz um pouco falha.
― Prometo, meu amor. Seremos só nós dois! - abraçou o filho, feliz por ter acalmado o coração do pequeno.
― E a ? Ela também pode ficar com a gente?
― Claro! Você, a e eu. - sorriu para ele.
― E o papai. Você esqueceu do papai, mamãe - disse Luigi, arrancando uma careta da rainha.
― Sim… - respondeu a contragosto. ― Se ele não estiver ocupado… é claro que estará lá também.
O menino abriu um grande sorriso e abraçou a mãe com força, nem reparando o momento que a atenção do pai no trono ao lado havia se desviado da festa e colado neles.
― Eu sempre tenho tempo para o meu filho! - passou a mão no cabelo de Luigi, bagunçando-o, como se dissesse a ele, porém, o tom da sua voz deixava claro que era um recado para e a sua tentativa de deixá-lo de fora da família.
A rainha o ignorou, mantendo o menino em seus braços, e focou os seus olhos em um movimento perto da entrada do salão. Subitamente o ar pareceu pouco menor no local, foi como se todo o barulho em volta sumisse e seus olhos conseguissem focar em uma única pessoa. havia acabado de entrar.
Ele poderia estar entre centenas de pessoas, mas um sempre encontraria o outro. Não custou muito, portanto, que os olhos dele se cravassem nos dela. Mesmo tão distantes, era como se estivessem bem pertos. Não conseguiam desviar. engoliu em seco, contrapondo a vontade que tinha de ir até ele sem mesmo poder, enquanto lutava com a mistura de mágoas e emoções que a presença da rainha propunha a ele.
Permaneceriam nessa ligação imaginária se não fosse a presença de Sarah e Cameron, que interromperam a atenção da rainha, desviando o olhar de para eles.
, perdoe-me! O Luigi correu no meio das pessoas quando te viu, não conseguimos segurá-lo. - Sarah aparentava afoita e preocupada.
O menino estava sob os seus cuidados naquela noite, já que toda a família real estaria ocupada com a festividade. Contudo, na primeira brecha que teve, Luigi escapou de suas mãos e correu até a mãe.
― Você deveria ser mais cuidadosa com o príncipe, Sarah! - Jeffrey fechou seu semblante para ela, endurecendo suas palavras.
― Me perdoe, Majestade - A mulher engoliu em seco e abaixou a cabeça, constrangida e temerosa que o rei lhe punisse por sua falha.
― Perdão?! Você acha que haveria perdão se acontecesse alguma coisa com o príncipe, meu filho, seu soberano? - Jeffrey rechaçou contra Sarah.
― Não há razão para tanto, Luigi está bem, como pode ver – Cameron chegou intervindo e circundando a cintura da esposa com o seu braço.
― Não se intrometa! - O punho do rei se fechou e, antes que as coisas piorassem, interviu em prol da amiga.
― Creio que não há necessidade de chamarmos atenção dos convidados dessa forma - falou baixo, apontando com os olhos para algumas pessoas que se viravam para ver o reboliço.
Jeffrey olhou em volta e suspirou, tentando conter a raiva. Não gostava da displicência da mulher com o seu filho, mas sua esposa tinha razão, era a festa dele e não queria fazer tumultos desnecessários naquele momento. Não que isso também ficaria assim. Ele se lembraria dessa falha mais tarde.
― Que seja… deem o fora daqui! - fez um leve movimento com a mão, indicando para se afastarem.
O semblante de Cameron era fechado, mas Sarah aproveitou a oportunidade para puxar o marido e levá-lo para longe, antes que mais algum mal-estar se ocasionasse. Um embate com Jeffrey era o que ela menos desejaria.
Seguiu com passos firmes para longe, deixando com o seu próprio marido e disponível para fazer as honrarias que lhe era tributo como rainha, tendo como castigo suportar Jeffrey ao seu lado por um longo tempo.

*


Do outro lado do salão entrava Helena com seus trajes gloriosos. Nem ao longe parecia a mulher trancafiada por anos. Sua pele estava mais alva e tinha de volta o brilho em seu olhar. Caminhava lentamente aos arredores, nostálgica ao relembrar os momentos que era ela a grande anfitriã. Sentiu falta dos corredores se abrindo por onde quer que ela pisasse, a sensação de poder e temor das pessoas ao seu redor. A saudades do seu marido ao lado, as trocas de sorrisos, o beijo que ele lhe dava sempre antes de descerem as escadas da entrada… tudo começou a sufocar o seu peito.
Não era a mesma coisa. Não era mais a rainha, apesar de ver que vários olhos pairavam sobre si. Não como antes, mas pelo menos algo lhe havia restado.
Analisou meticulosamente cada pessoa que pairava naquele salão. Gastou um tempo observando sua filha que parecia discutir aos cochichos com Jeffrey. Viu o neto aninhado sob o colo de , parecendo não querer ser arrancado dali. Observou Cameron e Sarah, que dançavam alheios do outro lado da festa, e não muito longe, percebeu o sorriso que Isaac abria cada vez que ficava sob as suas vistas. Nada lhe passava desapercebido, por isso, não foi diferente quando encontrou alguns rostos velhos conhecidos.
Caminhou até os belos homens que pareciam muito sérios para quem deveria estar desfrutando de uma festa. Um rosto lhe era notável, o outro… ela precisava estar mais perto para confirmar. Nessas horas era grata por ter uma ótima memória.
A roupa deles, apesar de muito bela, deixava claro quem eram. Os homens do exército sempre usavam o brasão de Ílac em seu peito e as roupas mais rígidas e menos cheias de parafernálias lhe permitiam movimentos melhores e ágeis caso algo acontecesse. O que não era mal, já que ficavam muito mais belos que os outros homens pomposos.
― Ora, ora, ora… se não é o pobre menino bonito de volta ao castelo - Helena parou em frente a , assim que teve certeza que a sua memória realmente não era falha, e abriu um pequeno sorriso para ele.
O guerreiro tomou um susto com a presença da mulher ali e expressou uma carranca em seu rosto ao notar que, de uma forma que ele não compreendia, ela se lembrava dele.
Helena sorriu ainda mais ao ver o desagrado em e, só depois, seus olhos pousaram no homem que estava ao lado dele.
― Hector… - seu tom de voz se atenuou, deixando de lado a ironia que carregava as suas palavras anteriormente.
― Olá, Helena - Hector curvou-se um pouco, olhando a mulher, e ambos se encararam por algum tempo até interrompê-los.
― Estou perdendo algo interessante? - o guerreiro perguntou ao amigo ao perceber o clima estranho no lugar.
Hector quebrou o olhar para Helena e virou o copo de vinho que estava em sua mão à boca, tomando tudo de uma vez só.
― Não - olhou de volta para a mulher e virou-se de costas, deixando sozinho com Helena.
A antiga rainha ficou alguns segundos observando por onde Hector havia saído, porém, logo depois, voltou a olhar , inclinando um pouco a cabeça para analisá-lo.
― Sabe, garoto, você deveria me agradecer... Vejo que se deu muito melhor saindo desse castelo. Olhe para quem se tornou hoje, um guerreiro importante do exército, o General de Ílac - afirmou ao ver as insígnias cravadas em seu brasão. ― Se estivesse aqui ainda, ao invés de estar recebendo o lugar de honra na festa, estaria servindo o copo de vinho que está em suas mãos - apontou para o cálice que ele segurava. ― Sim, com certeza você deveria me agradecer. - abriu um sorriso triunfante para ele.
― E por que eu faria isso? - arqueou a sobrancelha para ela, não gostando de se recordar daquela época tão dolorosa. Tempo esse que ele não se importava em servir copos, apenas apreciava por estar perto de .
― Está fazendo as perguntas para a pessoa errada, General - inclinou-se e assoprou perto do ouvido dele, depositando um beijo em sua bochecha e retirando-se em seguida.
ficou intrigado e sentiu nojo do local que a antiga rainha havia o tocado. Nunca havia trocado palavras com Helena e agora ela vinha até ele, parecendo saber mais do que deveria. Alguma coisa no tom dela lhe transmitia que ela sabia o motivo dele não estar mais no palácio. Mas por que ele a agradeceria?
Sua testa se enrugou com os pensamentos que começaram a lhe assolar. Pegou outro copo de vinho, não querendo pensar naquele tempo, contudo, parecia que nada que fazia lhe afastava, tudo girava e parava em novamente. Mesmo quando passara anos sem a ver, as visões, sonhos e pesadelos causados por Ocland reclamavam a memória da mulher em sua mente.
Passou seus olhos pelo salão, buscando ver novamente a rainha, porém, ela não estava mais no trono ao lado de Jeffrey. A única pessoa que encontrou foi a princesa, que não estava muito distante dele.

cumprimentava várias pessoas da festa. Quando finalmente encontrou um intervalo, tentou desviar um pouco delas, a fim de descansar. Ela era uma ótima anfitriã, mas até as princesas mais bem treinadas cansavam-se de vez em quando. Não seria diferente com ela.
Ficou perto da pista de dança, observando os casais que dançavam e se alegravam, aproveitando-se da honra de serem convidados para uma festa no castelo. Fechou os olhos, absorvendo a música que embalava o salão, esquecendo por alguns instantes todo o drama e infelicidade que a festa ofuscava. Tudo aquilo era uma mera aparência. Então… por algumas horas, viveria essa doce ilusão, como se tudo fosse tão fácil, bonito e encantador.
― Sentiu minha falta em sua cama essa noite, deusa? - a voz de Isaac sussurrou contra , fazendo os pelos dela se arrepiarem com o hálito que saía da boca do primo.
A garota, tirada do seu torpor, ajeitou-se para não demonstrar estar afetada pelo rapaz e virou-se para ele com um sorriso irônico nos lábios.
― Até que o seu braço enrolado em minha cintura fez falta. Precisei abraçar o meu próprio corpo para substitui-lo - falou, deixando o rapaz estupefato e com o cenho franzido. - O quê? Você achou mesmo que eu não sabia? - arqueou uma sobrancelha.
O rapaz deu uma gargalhada em resposta, acenando com a cabeça, fazendo um gesto de touché em seguida.
― Eu sabia… - resmungou. - Aliás, na verdade eu não tinha certeza, mas desconfiava. Toda vez que eu fazia isso, eu sentia o seu corpo remexer de leve ao contato. Você é uma menina má, princesa, não posso te chamar de doce Ally mais. Você me enganou! - fingiu-se de emburrado.
― Eu sou a futura rainha de Ílac, Isaac, você acha mesmo que vou ser passada a perna assim? Posso ter meus receios quanto ao Jeffrey, mas fora isso, ninguém me ludibria tão fácil, a não ser que eu queira que tal fato aconteça ou eu queira que pareça com isso. Não se engane assim, querido. Seu poder de sedução não virou magia ainda para me manipular.
A feição do garoto se contorceu. Era essa a visão que ele tinha dele? Um manipulador para conseguir arrancar a pureza dela? Não que ela estivesse errada em pensar isso, ele tinha dado todos os indícios para que ela formasse aquela opinião.
Nunca foi de se importar com o que pensavam dele, Isaac havia escolhido apenas viver, mas, naquele momento, sentiu-se constrangido. Era verdade que desde que olhou para a esteve inegavelmente atraído por ela e usou do seu charme para tentar fisgá-la. Contudo, já havia muito tempo que ele tinha deixado essa missão para trás. Ele a queria sim, mas não da mesma forma que antes. Ele contentava-se em estar do lado dela, protegê-la e muitas vezes apenas conversar. Tinha desejos, queria beijá-la e tudo mais, mas preferia ter apenas a companhia de do que nada.
Não estava ali querendo algo em troca. Desde que viu o que Jeffrey fazia com ela, uma raiva descomunal o apossou, não achava correta aquela subjugação que o rei tentava fazer. As duas mulheres reais eram tão grandes e independentes... por que trancar os passarinhos quando o belo era deixá-los voar?
Arrependeu-se de ter sido tão intenso com , todavia, era difícil para ele. Ele era aquilo que todos viam, brincalhão, honesto em palavras e com gracejos à solta, sem isso quem ele seria? Era o espírito vivo, a alma feliz que sempre dizia faltar no castelo. Ele não achava certo também mudar a sua identidade por causa de outrem, contudo, daria dois passos para trás com a princesa, caso necessário, para que não houvesse uma interpretação errônea da sua pessoa.
― É a filha de , não esperaria nada menos de você, . - abriu um pequeno sorriso, mas por dentro algo começava a despedaçar.
― É bom que saiba disso - falou firme. - Bom menino! - deu-lhe um pequeno beijo no rosto e saiu, deixando-o só no local.
Isaac, em seguida, respirou mais aliviado, ouvindo as mesmas palavras que ele outrora já havia falado com ela. Ela sabia... ele entendeu o recado. Ela o conhecia, entretanto, a princesa também queria deixar claro o seu ponto. E, naquele momento, Isaac sorriu, sentindo orgulho da mulher que era.
A princesa afastou-se do primo, precisando de um tempo para pensar. Já era mais que óbvio que ele mexia com ela, porém, se envolver com alguém não estava em seus planos… nunca. Precisava de uma distração. Manter a cabeça ocupada com outras coisas seria mais fácil do que encarar o rebuliço que sentia dentro de si.
Avistou um homem formoso enquanto caminhava e, percebendo que era um dos seus homens, tratou de ir até ele e chamá-lo, sabendo que com ele não teria problemas caso ela se cansasse e quisesse parar.
― Aceita dançar comigo, General? - estendeu a mão para ele, mas sua voz saiu firme, era notável que na verdade aquilo não era uma pergunta.
arqueou a sobrancelha, confuso, mas os olhos dela pareciam vasculhar ao redor. Não pensou muito quando segurou a mão dela e a guiou ao centro, apenas sentiu que a menina de alguma forma precisava dele naquele momento.
― Fugindo? - Ele perguntou, posicionando sua mão direita nas costas da princesa e erguendo a esquerda para que ela repousasse a dela e, assim, pudessem iniciar a dança.
A princesa apenas deu de ombros, ignorando a pergunta. Não iria se abrir com um estranho, seria muito tolo da sua parte.
Começaram a valsar em silêncio, enquanto observava ao redor, procurando compreender a situação.
― O garoto parece gostar de você - Ele iniciou o assunto, olhando por cima do ombro dela e notando Isaac, que não tirava os olhos da menina.
― Talvez… Não quero pensar nisso, vamos apenas dançar!
― Às suas ordens princesa – consentiu, segurando o riso.
Por algum motivo não se sentiu mal em seguir o pedido da garota e nem teve vontade de retrucá-la. Continuaram a dançar em silêncio e, aos poucos, a breve tensão de foi se esvaindo, enquanto o seu par ponderava porquê a princesa queria fugir do garoto insolente.
― Sabe… - coçou a garganta antes de continuar a falar. ― Se você não quer que ele te perturbe, pode apenas ordenar, afinal, você é a princesa. Se quiser posso dar um jeito nele para você também. - Piscou para ela e arrancou uma gargalhada de .
― Muito obrigada, General. Eu sei disso, mas não pretendo escorraçá-lo – respondeu com uma expressão risonha.
― Então você também o quer? - O guerreiro arqueou a sobrancelha para ela, sem entender. Ela fugia, mas o queria? Por que os jovens de hoje eram tão complicados? Na sua época apenas ia-se atrás do que queria, mesmo que quebrasse o coração no final, como foi o seu caso.
― Talvez… - a princesa respondeu, pensativa.
― Então você pode apenas aceitar isso - concluiu.
― E talvez eu me arrependa amargamente sobre esta decisão - acrescentou ao diálogo.
― Sim, talvez… - o guerreiro pareceu se perder em pensamentos com aquela constatação. Pensou em sua época, se ele tivesse ponderado mais antes de se jogar naquele relacionamento, tudo teria sido diferente…
― Você se arrepende? - o tirou dos seus pensamentos, ao mesmo tempo que ele deu um impulso com a mão para que ela girasse e voltasse aos seus braços.
A princesa analisava atentamente a feição do General, querendo saber se a expressão do seu rosto iria condizer com as suas palavras.
― Às vezes as lembranças dos momentos bons fazem valer as decepções posteriores. Depende do ponto de vista que você decide enxergar.
― Por que não parece acreditar no que sai dos seus lábios? - a garota o encurralou, percebendo que não havia sinceridade no que ele dizia, uma dor obscura podia ser notada sob os olhos do guerreiro. Ele sorria, mas não era de dentro para fora.
― Não é que eu não acredite… Provavelmente eu só escolhi enxergar o ponto de vista negativo do que eu vivi. Porém, isso não quer dizer que o que eu disse está errado, você pode ser diferente de mim e olhar tudo por outro ângulo - orientou-a.
― Hum... - mordeu o lábio, parecendo analisar as palavras do guerreiro.
De uma forma diferente, ela sentia-se bem naquela conversa. Era difícil receber conselhos, ainda mais amorosos. Nunca teve ideia ou uma visão do que era amor. Pudera! Só era próxima de dois casais, um deles eram Cameron e Sarah, mas quase nem os via juntos além das refeições, e o outro eram os seus pais, se é que podia chamar aquilo de casal. Nunca quis conversar essas coisas com a sua mãe, sabia que seria desconfortável para ela, além disso, também não era necessário, não até agora. Entretanto, aquele homem desconhecido estava ali aconselhando-a, e aquilo de alguma forma era bom e reconfortante.
― Faz sentido - a menina sorriu para ele, após tirar a sua própria conclusão. - Talvez eu vá viver o meu momento e me certifique que valha a pena.
― Só não se esqueça de me chamar caso ele parta o seu coração. Eu adoraria ensinar umas lições ao garoto - falou contente e arrancou uma gargalhada da menina.
A música estava quase ao fim e ele a girou novamente, inclinando-a ao final. Fazia tempo que não se divertia e esquecia as coisas ao seu redor. Jamais imaginou que podia se sentir leve dentro daquele palácio. Aquela garotinha tinha tornado aquilo real a ele, mesmo que ele não soubesse o motivo para isso.
― Será uma ordem que lhe darei com prazer, soldado! - a princesa sorriu e ambos se reverenciaram, encerrando a dança e separando-se felizes por aqueles poucos minutos vivenciados.

Do outro lado, olhava a cena chocada, não sabia definir o que sentia naquele momento. Uma emoção muito forte borbulhava o seu ser, uma vontade imensa de chorar, mas não faria isso, mesmo que fosse difícil não transparecer nada. Tantos anos… e a pessoa que ela mais amou na vida estava ali, junto com o único presente que ele lhe deixou. Juntos! Felizes! Dançando! Leves!
― Eles parecem ter se dado bem - Hector aproximou-se da rainha, entregando-lhe um copo de vinho.
apenas virou-o todo na boca, desejando estar forte o suficiente para continuar agindo normalmente depois do que havia presenciado.
― Sim, parece... - respondeu economizando nas palavras.
― Isso é incrível, sabia? - Hector continuou, e apenas o olhou, sem saber onde ele queria chegar. ― Você conhece o , sabe que ele assumiu o cargo porque precisávamos dele. Ele é o melhor, Majestade, mas te dará um pouco de trabalho. Ele não é adepto às ordens da realeza.
― Eu sei. - a rainha apenas concordou, sabendo que aquilo poderia ser um problema caso ele a desacatasse em frente as pessoas.
― Porém… aquela menininha ali - apontou para , que agora conversava com outras pessoas na festa. ― Eu não sei que mágica ela fez, mas ele apenas a obedeceu sem retrucar. Ela exigiu que ele dançasse com ela e ele apenas foi. Em que universo o faria isso? - Hector riu como se aquilo não fosse nada de mais, entretanto, arregalou os olhos, pensando no pior daquilo tudo.
Não poderia ser… poderia?
O homem, vendo a expressão estranha da rainha, deixou morrer um pouco a risada e analisou a angústia em seu olhar. Arqueou a sobrancelha, entendendo, talvez, o que ela estaria pensando.
― Não me leve a mal, Majestade. Creio que as intenções são completamente puras, não há com o que se preocupar. Sua menina parecia estar fugindo de algo quando levou meu amigo até o salão. Talvez a princesa tenha conquistado o respeito de . Quem sabe ele volte a olhar a realeza com outros olhos daqui em diante. Use isso ao seu favor. Deixe que a menina intermedeie as suas conversas, antes que vocês dois coloquem tudo a perder.
Hector falou, olhando profundamente os olhos da rainha, não dando tempo nem que ela respirasse aliviada com a constatação de não ter risco de pai e filha confundirem os seus sentimentos. Ela compreendeu o que Hector queria dizer e, apesar de não gostar de ter que enfiar a filha nessa equação, talvez fosse o único meio de ter ao seu lado nas funções do reino, sem que eles se “matassem” no final. Porém, o que ambos fariam caso descobrissem a verdade?
Achou melhor não ficar debatendo o assunto em sua mente antes da hora, já tinha problemas demais e a forma como Hector a analisava estava deixando-a desconcertada. Despediu-se do homem, enquanto ele voltava os seus olhos para e depois para a princesa. Balançou a cabeça e abriu um pequeno sorriso, estava ficando velho, mas gostava de saber que o seu cérebro trabalhava em bom andamento ainda.
Enquanto a rainha se afastava, um criado a interceptou com uma informação importante. O Rei Garret havia acabado de chegar ao palácio e ela precisava recepcioná-lo. Mesmo a contragosto, foi até a entrada, e que os céus a ajudassem, pois essa festa parecia estar longe de acabar.




Capítulo 16 - Parte II

A cavalaria havia chegado e, com ela, toda a escolta do Rei de Medroc. O nome dele não impunha o mesmo medo que o do seu falecido pai, entretanto, era difícil esquecer o passado que Medroc e Ílac tiveram. Por este fato, as pessoas ainda se afastavam quando ele passava, os homens se curvavam e os velhos tremiam. Garret não era Rory, mas aproveitava-se do legado do pai para manter os súditos em seus devidos lugares.
Havia acabado de chegar na terra de e entrava no castelo como se fosse o seu. Suas roupas eram feitas dos melhores tecidos, alinhavado a ouro, com brasões de prata e bronze. Bem exuberante e chamativa, do jeito que ele gostava. A mão era coberta por anéis de ouro e pedras preciosas, e os cabelos loiros, bem cuidados, ostentavam acima da sua cabeça a enorme coroa.
Caminhava em passos elegantes, sem olhar para os lados. Ninguém era importante para merecer a sua atenção, gostava apenas de exalar o seu poder e toda a riqueza que tinha, afinal, estava na terra do irmão, não poderia aparentar ser insignificante.
Entrou no castelo com o olhar altivo e um sorriso nos lábios. Admirou toda a ornamentação do lugar e ficou satisfeito por ter se produzido para estar ali. Seu irmão realmente havia caprichado, sentia quase uma disputa de egos. Aquilo tudo era para se mostrar a todos ou apenas por que ele estava indo prestigiá-lo?
Varreu seus olhos pelos grandes lustres de cristal e as cortinas de veludo que tampavam as janelas. Os jarros, quadros e utensílios que adornavam as salas eram brilhosos e não pareciam muito com o estilo da rainha, dando certeza para Garret que aquilo era apenas pompa do seu irmão mais velho.
Segurava a ponta de um sorriso enquanto caminhava pelo local e era guiado até a rainha, que o aguardava no final da recepção.
― Querida ! – o rei de Medroc abriu seu sorriso ao avistar a mulher. Inclinou-se levemente para ela, pegou a sua mão e cobriu-a com um beijo.
― Quanto tempo, Garret!
― Sentiu a minha falta? - inclinou o canto do lábio e levantou a sobrancelha duas vezes.
rolou os olhos para ele, acostumada com a forma que ele sempre a tratou.
― Quer a verdade ou que eu seja sociável? - cruzou os braços, encarando-o.
― Ah, … não me diga que quando está com o ranzinza do meu irmão, você não sente falta das minhas peripécias? Você escolheu o irmão errado, mulher. - Inclinou seu dedo para tocar o rosto dela, mas a rainha bloqueou antes que chegasse perto.
― Eu não tive escolha, Garret – respondeu grosseiramente, não gostando da aproximação dele. Os anos se passavam, mas a sua inconveniência era sempre a mesma.
― Hum… Quer dizer que se pudesse me escolheria? - passou a língua pelo lábio, traçando os olhos pela mulher.
― Nunca! Dos três Buckhaim, Henrique era o melhor, lamento que não esteja mais entre nós - respondeu direta e sem titubear, arrancando uma careta do rei.
― Essa doeu, sabia? - colocou a mão no peito. ― Acho que o Jeffrey não gostaria de ouvir isso. Mas, por outro lado, eu não me importaria de mostrar a você que sou melhor que os dois. Já se deitou com Henrique e com o Jeffrey, só precisa do terceiro irmão para tirar a prova de quem é o melhor. Vamos lá, , como pode escolher o Henrique se não provou tudo isso aqui ainda? - apontou para o seu corpo e sorriu.
bufou, o ignorou e resolveu sair, não conseguia ficar por muito tempo no mesmo espaço que Garret.
― Vamos lá, , não é como se eu não soubesse que você provou de quase todos os Buckhaim. Afinal, sua linda garota é filha do meu falecido irmão, não é? - provocou-a.
A rainha deu meia volta e andou até o rei em passos rápidos, parando bem próxima ao rosto dele.
― Você quer que alguém escute? Que tipo de jogo é esse, Garret? Isso é para dormir comigo? Se essa é sua tentativa, lamento lhe dizer que será infundada. Não vai acontecer - rangeu contra ele.
― Calma, . Por que tão brava? Está nos dias do sangue? Estou só me divertindo. - Piscou para ela e, quando viu uma figura que conhecia bem adentrar o local, aproveitou para tocar o rosto dela.
Não demorou muitos segundos, ao mesmo tempo que empurrava a mão dele para longe, o corpo de Garret foi jogado para o lado de uma só vez pelo marido dela, causando-lhe uma gargalhada.
― Tire a mão da minha mulher, inútil! - Jeffrey rosnou contra ele.
― Não fique assim, irmão. Eu trouxe o que me pediu. – Fez um sinal para ele e Jeffrey parou relembrando o que era. Assim que a sua mente se situou, o marido de abriu um pequeno sorriso, dando um tapa de leve no peito de Garret.
― Tudo bem. Mas volte para festa, isso não lhe dá direito de mexer com o que não te pertence - falou a última palavra, causando um descontentamento em . Jeffrey não entendia que ela nunca seria a sua propriedade.
Antes que o mais novo fosse para o salão, o puxou pelo colarinho e deu-lhe um selinho rápido, fazendo com que o Rei de Medroc ficasse chocado e paralisado em seu lugar.
― Eu não sou sua - afastou-se de Garret, abriu um sorriso e murmurou na direção de Jeffrey, incitando o ódio do marido.
Ele deu passos rápidos, erguendo a punho da direção deles, porém, cruzou os braços e Garret parecia muito abismado para dizer qualquer coisa.
― O que vai fazer? Arrancar a boca do seu irmão como fez com Olleon? Ou vai preferir matá-lo de uma só vez? Ou melhor, vai me matar? Mesmo sabendo que o povo nunca te aceitaria sem mim? Talvez você não vá arrancar os lábios dele, mas sim os meus, não é? Mas se fizer isso, como poderia saborear da minha boca mais tarde? - tocou em seus lábios, provocando-o.
― Você está brincando comigo, ? Achei que havia aprendido a lição! - rangeu com a voz grossa contra ela, ouvindo do outro lado o barulho da festa.
― E eu pensei que já tivesse entendido que eu não sou um pertence em suas mãos. Você só coloca as suas mãos asquerosas em mim porque eu lhe permito, Jeffrey. Porque eu prefiro a podridão do seu corpo sobre mim do que a morte dos inocentes. Se não fosse esse o motivo, jamais me tocaria.
Garret olhava de um para outro com os olhos espantados. Não que o embate fosse novidade para ele, mas nunca havia presenciado de forma tão clara. Os dois pareciam estar no limite e não se importavam com ele ali, ou talvez houvessem se esquecido da presença dele.
Jeffrey abriu a boca para retrucar, mas após um estalo da sua mente, respirou fundo e abriu um pequeno sorriso. Com o canto de olho, observou o seu irmão que presenciava a audácia da sua esposa, mas preferiu não dizer nada. Os seus planos estariam a vista de todos de qualquer forma logo mais.
― Ah, , você irá se arrepender… O seu orgulho vai cair logo, logo. - proferiu contra ela e olhou atravessado para Garret, saindo em passos duros de volta para o salão.
A respiração da rainha era intensa, mas estava feliz por ter desabafado um pouco da sua raiva. Depois de dias se contendo, sentia-se aliviada. Já que tudo estava desabando, era melhor que se jogasse nas ruínas de uma vez.
― Wow. Eu não sei o que houve aqui, mas pode continuar provando dos meus lábios sempre que quiser provocar o meu irmão. Eu sou todo seu, . - fez um bico e inclinou na direção da mulher, que ergueu a palma da mão e colocou no rosto dele, empurrando-o para longe de si.
― Fique longe de mim - rugiu contra ele e andou em direção a festa novamente.
entrou pelas portas principais do salão, rondando em meio as pessoas que a parava a todo momento para parabenizar pela belíssima festa. Não queria voltar a ficar perto de Jeffrey tão cedo, entretanto, subitamente, a música cessou e a voz do rei foi ouvida por todo o local.
― Damas e cavalheiros, é com muita alegria que eu recebo cada um de vocês nessa grandiosa comemoração. Tenho uma grande surpresa para apreciarmos nessa noite e quem sabe, agitar um pouco as coisas por aqui. – alargou um grande sorriso. ― Agora que o meu querido irmão já está presente, eu não preciso esperar mais, contudo, antes… onde está a minha amável esposa?
olhou de longe para o marido, sentindo os olhos de todo o salão sobre si. Abriu o sorriso mais amplo e falso que conseguiu no momento e caminhou até onde ele estava, tendo a sua passagem aberta em meio à multidão a cada passo que dava. A mão do rei estava estendida para ela, aguardando-a. Ela o segurou e postou-se ao seu lado, sendo recebida com um beijo.
― Agora podemos começar a verdadeira festa! - exclamou para a multidão, erguendo a taça de vinho, e colocou a outra na cintura de , que se esforçava para não deixar o seu sorriso morrer.
Ela estava conseguindo tal feitio, porém, quando todas as portas em volta do salão se abriram, dando entrada para dezenas de mulheres praticamente nuas que adentravam a festa, ela vacilou. Sentiu o corpo de Jeffrey tremer ao seu lado devido ao riso e, em resposta, o seu corpo se endureceu.
Eram várias mulheres, algumas ela reconhecia como concubinas do seu marido, porém, outras não pareciam nem ser de Ílac. Elas caminhavam em meio à multidão, apenas alguns adornos eram pendurados em seu corpo, joias e algumas pinturas cobriam locais mais íntimos. Elas paravam ao lado dos homens convidados, pousando suas mãos pelos ombros deles e se insinuavam sem importar se estavam acompanhados ou não.
― O que você pensa que está fazendo? Isso é uma vergonha, Jeffrey. O que acham que as esposas e mulheres de família falarão desse escândalo? - rangeu para o marido, tentando manter o semblante mais impassível possível, porém, seus olhos estavam arregalados e ela estava surpresa demais com a audácia dele.
― Oh, querida. Isso é só o começo - sorriu para ela e ergueu a mão, fazendo um sinal para que a última porta fosse aberta.
Caminhando com trajes dignos da realeza e uma pequena tiara, quase como uma mini coroa, vinha Reynia em direção a Jeffrey. A mulher seguia com a cabeça erguida, como se fosse importante ali. Andou até o rei, que fez um sinal para que ela se aproximasse mais. Assim que a amante chegou em sua frente, o rei soltou a esposa e enlaçou a cintura de Reynia, beijando-a na frente de todos os presentes ali.
Toda a multidão exclamou naquele momento. Não que não fosse comum os reis terem as suas amantes, mas aquilo, exposto, era no mínimo uma afronta. Não era algo comum na terra de Ílac.
olhou de um lado para o outro, sentindo a raiva exasperar pelo seu corpo. Quando deu um passo à frente, pronta para gritar ou impor qualquer coisa para acabar com aquilo, sentiu uma mão pousar em seu braço, podendo ver que era Cameron ali. Não sabia quando ele havia chegado, mas ele parecia preocupado.
― Não faça nada, . Pense na multidão aqui, uma confronta entre vocês dois seria muito pior - cochichou para ela, mas a rainha quase não conseguia ouvir.
Sua mente debulhava em chamas, poderia matar o marido ali na frente de todos naquele momento. Aquele era o fim, Jeffrey havia passado de todos os limites. Enquanto eles se enfrentavam longe dos olhares de todos, ela poderia lidar com qualquer coisa, contudo, aquilo ali, era o término de qualquer paz que ela tentasse engolir. Ele não duraria mais nem um mísero dia vivo depois dessa.
Sua respiração estava acelerada, ela precisava se acalmar. Olhou para Jeffrey, que agora ria com Reynia ao seu lado, ao mesmo tempo que a fitava, talvez esperando alguma reação da rainha.
― Venha, meu amor - chamou-a, estendendo o braço para enlaçar a sua cintura. Jeffrey queria expô-la e rechaçá-la. Estava colocando a amante em uma posição equiparada a sua esposa, e não tinha nada mais humilhante que isso.
deu dois passos para trás, querendo regurgitar a absurdeza de tudo aquilo. Fechou os punhos com força, ainda atenta as pessoas que esperavam uma reação dela. Engoliu a saliva, parecendo que o líquido descia como pedra em sua garganta. Pegou um cálice de vinho que estava na banqueta ao seu lado e, mesmo tremendo, ergueu o copo para a multidão.
― Que a festa continue! - falou em alto e bom som, como se fosse um brinde, e virou o vinho em sua boca. Olhou para Jeffrey em seguida, esperando a sua resposta, e o marido repetiu o seu gesto, abrindo um longo sorriso.
A música imediatamente voltou a tocar e, mesmo vacilantes, as pessoas voltaram a se envolver com a festa. Alguns apreciando as beldades dispostas por Jeffrey e outros poucos se desviando delas.
aproveitou para virar de costas e sair do salão. Se ficasse ali mais algum minuto ela o mataria com suas próprias mãos, e isso não poderia ser uma opção. Saiu às pressas, esbarrando em Cameron, que ainda estava por perto, e sumiu da vista de todos, não importando se comentariam sobre isso ou não. Depois da sua humilhação, o que menos importaria seria se ela se ausentasse da festa por alguns instantes.
Cameron observou a rainha sair e foi abordado por uma das mulheres, que aproveitara para passar a mão em seu peitoral. O homem retirou delicadamente a mão dela sobre si e deu um passo para trás.
― Sou um homem casado, lamento, senhorita - respondeu com a maior cortesia que conseguiu e a mulher partiu em busca de algum outro homem aleatório.
― Não gostou do presente de aniversário que dei para o meu irmão? - Garret perguntou, parando ao lado de Cameron.
― Eu deveria imaginar que essas coisas viriam de você - resmungou para o rei, irritado. ― Sempre sensacionalista.
Garret riu entre os goles da sua bebida, observando o caos do local.
― Você me conhece… Adoro uma diversão - gargalhou e olhou para Cameron, que arqueava uma sobrancelha para ele. ― Claro que para outras coisas eu sou um homem sério. - piscou e continuou a bebericar seu cálice, achando graça da situação.

*


― Não encoste em mim! - ralhou contra uma das mulheres que havia esbarrado nela.
A princesa caminhava furiosa em direção ao trono em que Jeffrey estava sentado com Reynia em seu colo. Estava indignada, aquilo era uma humilhação pública, na frente de todos os homens mais importantes de Ílac, ela não conseguia suportar.
Sentiu sua cintura ser puxada e ela ser levada para o canto do salão por um braço, enquanto ela tentou se debater para se soltar.
― O que pensa que está fazendo? Largue-me, Isaac!
― Eu que te pergunto, o que pensa que está fazendo? - o rapaz tentou contê-la, mas alguns olhares já estavam sobre eles.
― Eu vou acabar com ele! Quem ele pensa que é?! - a princesa falou nervosa, sem conseguir tirar os olhos de Jeffrey.
― Ouça, - segurou o rosto dela com as mãos. ― Eu te entendo, eu mesmo quero acabar com ele, mas não podemos. Não aqui, não agora! - tentou acalmá-la.
― Eu não posso deixar ele continuar fazendo isso! Eu o odeio!
, vendo a movimentação, aproximou-se junto com Hector.
― O sentimento é compartilhado, princesa, mas temo em concordar com o rapaz, você não deve ir até lá.
― General… você é o maior guerreiro do reino, eu ordeno que o mate, agora! - colocou as mãos em sua cintura, olhando firme para .
Hector trocou olhares com o amigo, pensativo pela confusão. Se a princesa fosse até lá seria o caos. De longe ele e haviam visto a princesa com Isaac e resolveram vir no mesmo instante apaziguar.
O guerreiro respirou fundo, precisando se conter. De todos ali, talvez fosse um dos que mais desejaria a morte do rei. Mas não era tão simples ir e matá-lo. Não na frente de todos.
― Essa uma ordem que infelizmente não poderei obedecer - respondeu, tentando soar calmo.
Os olhos da princesa encheram-se de água, a clareza vinha aos poucos e sabia que seria tolice fazer qualquer coisa naquele instante. Isaac passou seu braço pelo ombro dela, trazendo-a um pouco para perto e a confortando.
― Sua mãe é uma grande mulher, , as pessoas sabem disso. - Hector tentou contornar.
― Uma grande mulher, cujo o marido contrata prostitutas para oferecer aos homens da festa e coloca a concubina com um arco real ao lado da esposa? Onde ficará o respeito depois disso? Minha mãe pode ter batalhado por anos pelas conquistas dela, mas basta um piscar de olhos para que esses homens estúpidos se esqueçam e a desmoralizem. É isso que o Jeffrey quer, mostrar que ele está no poder, que ele está acima da minha mãe. Isso não pode ficar assim! - exclamou, indignada.
― O que quer que eu faça, ? Diga-me, o que tiver em minhas mãos eu farei, mas não te deixarei ir até lá e se colocar em risco. Quer que eu o mate? Eu o matarei, só diga-me, o que você quer? - Isaac virou para ela, segurando-a pelos ombros e focando em seus olhos.
― Ninguém vai matar o rei aqui, estão me ouvindo? - soou duro, chamando a atenção dos dois, porém, sua voz prosseguia em um tom baixo, para que não os ouvissem. ― Eu vou cuidar disso!
― O quê? - as três vozes perguntaram ao mesmo tempo, olhando para na tentativa de decifrá-lo.
― Eu disse que vou cuidar disso! - repetiu.
… - Hector tentou intervir, mas o guerreiro o interrompeu.
― Não se preocupe. Apenas fique de olho nesses dois, não deixe que façam nenhuma bobagem! - apontou para Isaac e e rompeu para fora do salão.
Estava nervoso, não queria saber como faria, mas a princesa estava certa, aquela ação do rei era uma amostra do que ele queria exalar a todos os súditos, um sinal para enfatizar que ele era maior do que a tão adorável e venerada .
Como ela estaria depois de todo o fiasco?
Não custou muito, quando percebeu já estava na sacada do andar superior, em um local que ele conhecia muito bem. olhava o luar e a natureza ao longe, inclinada sobre o parapeito. caminhou até ela, até parar ao seu lado e encostar o seu cotovelo sobre a mureta, admirando a escuridão da floresta que beirava o castelo.
― Eu sabia que te encontraria aqui… - falou com a rainha, dando um breve olhar para o lado para checá-la.
Uma leve inclinação se fez sobre os lábios dela e ela ergueu a sua cabeça para cima, olhando agora as estrelas.
― Você sempre me conheceu muito bem.
― Não tanto quanto eu achei…
― Por favor, não agora… não tenho cabeça para voltar ao passado depois da noite de hoje - suplicou sem olhar para .
― Não vim aqui para isso.
― Eu agradeço, mas… para que veio, então? Zombar da minha desgraça? Rir de como o destino teve uma forma cruel de me punir depois do que eu te fiz? - virou para ele com fúria nos olhos, suas emoções estavam abaladas com o impacto de Jeffrey.
― Devia saber que não sou esse tipo de pessoa… e por mais que você tenha falhado comigo, não acho que o destino seja tão cruel para lhe castigar dessa maneira, se assim o fosse, você já teria pago a dívida há muito tempo, você não merece passar por isso, … e você sabe do que estou me referindo.
buscou desviar seu olhar de . Ele sempre teve o poder de tirar tudo de si, até as mais profundas verdades escondidas. A única vez que ele não conseguiu, tinha lhe custado todo o esforço para enganá-lo.
― O que faz aqui então, ? - suspirou, dando-lhe uma trégua.
― Eu quis te ver!
― Por quê? - uniu suas mãos, tentando conter o tremor por tê-lo ao seu lado depois de tudo.
― Não queria que fizesse nada impensado depois de hoje.
― Não sou tola, . Se eu fosse, Jeffrey já estaria morto desde o dia que eu me casei - confessou, sem segurar a raiva em sua voz.
― Eu sei. Mas situações extremas acabam fazendo com que tomamos atitudes drásticas. Se alguém tiver que fazer isso, que seja eu. Não tenho nada a perder - ofereceu a ela, sustentando o seu olhar na rainha, mesmo que ela o evitasse.
― O que está sugerindo para mim? Que mataria Jeffrey no meu lugar? Isso é ridículo!
― Eu não tenho reino, não tenho família, não devo a ninguém. Não seria um martírio. - Deu de ombros como se não fosse nada.
― Então o grande , poderoso guerreiro rebelde de Ílac, que não segue ordens de ninguém e nem é subalterno da realeza, mataria o rei pela rainha ? - debochou, olhando agora para ele.
Sabia que não deveria tratá-lo dessa forma, mas estava zangada e, se fosse para matar Jeffrey, ela jamais passaria essas ordens para terceiros, seria um serviço que ela mesmo faria com prazer.
― Não por você! Mas há uma garotinha lá na festa que por pouco não faria uma estupidez enfrentando o seu marido e eu prometi a ela que cuidaria disso - devolveu, deixando claro que não tinha mais envolvimento com a rainha.
engoliu a resposta dele como uma tapa, lembrou-se do que Hector havia lhe dito e, por mais que estivesse com raiva, no fundo ficava feliz pela fidelidade que estava surgindo entre ele e .
― Não será necessário. Eu tenho tudo sob controle - afirmou. Ambos se encarando, dois orgulhos feridos se enfrentando.
deu uma risada irônica e balançou a cabeça em negativa.
― Percebi como tem o controle da situação…
― Me deixe em paz, . Volte para a festa, desfrute das mulheres que Jeffrey ofereceu aos convidados… Dos meus problemas cuido eu! - virou-se de costas para ele e saiu da sacada, voltando em direção da festa.
bufou, nervoso, e seguiu-a, enquanto a via acelerar os passos e se afastar cada vez mais. No caminho, observou uma criada ir até ela e falar algo, tendo um aceno de cabeça como resposta da rainha.
continuou até chegar ao portão do salão de festas e, ao entrar, encontrou Cameron, que parecia a sua procura.
― Aí está você! Estava preocupado - disse o tio, assim que a encontrou.
― Estou bem, só precisava espairecer um pouco.
― Acho que está na hora do presente, você precisa ir até lá, . Lembre-se: você está bem e nada te afeta.
assentiu e caminhou até Jeffrey, que já parecia alegre por causa da bebida. Se dependesse de ele ficaria ainda mais.
― Senti sua falta, querida esposa, onde estava? - o rei ria. Soltou Reynia que ainda estava consigo e andou um pouco aos tropeços até chegar a rainha.
― Fui preparar o seu presente, mas já voltei! - forçou um sorriso e Jeffrey a abraçou.
Reynia aproveitou que o rei havia a largado para sumir entre a multidão, a atenção dele agora era toda para a rainha. Ela sabia que era apenas uma distração e uma ferramenta contra , quando se envolveu com o Jeffrey, ela tinha plena noção disso.
A rainha empurrou o marido com cuidado, para que o gesto não soasse de uma maneira ruim, e pediu a atenção dos convidados para o grande momento. Quando a rainha se postou em pé, diante do salão, todos se calaram e a observaram.
― Como vocês sabem, é uma tradição de Ílac que nos aniversários do rei e da rainha, os seus cônjuges presenteiem o outro. Essa noite tem sido muito interessante e peculiar, mas fico feliz por abrir exceções hoje para agradar o meu marido. - alargou o sorriso para ele, tentando mostrar amena e em concordância com a situação.
― Eu tenho a melhor esposa do mundo, não tenho? - Jeffrey gritou para todos e a multidão fez festa em resposta. ― Continue, querida, mas antes, deixe eu chamar a minha família para prestigiar este momento comigo. Onde está Luigi? - varreu o olhar pela multidão até que avistou Sarah, que cochichava para o garoto ir até o pai.
O príncipe correu até ele e Jeffrey pegou o pequeno no colo. Em seguida, franziu o cenho ao perceber que teria que chamar também. ― Ainda falta uma, não? , venha aqui, meu doce!
A princesa saiu de perto de Hector e Isaac, após muitos sussurros dos dois para que ela mantivesse a calma e serenidade. Caminhou até ficar ao lado da mãe, observando tudo aquilo com repulsa.
― Agora sim! Pode continuar, minha esposa! - Jeffrey virou-se para , piscando um olho para ela.
A rainha respirou fundo e continuou o seu discurso.
― Pois bem! Como viram… meu amado marido aprecia um bom vinho, nada mais justo que eu lhe trouxesse o melhor, então. Feito com as uvas mais raras de cada império que foi colhido, amassado com as mãos dos nossos melhores serviçais e com uma concentração que o levaria a altura em um destilar. Foi um presente que o meu pai me deixou, várias gerações a guardaram. É para você, querido, sei o quanto queria o vinho Bon Seiyar…
Após anunciar, dois servos trouxeram o grande odre, pousando-o ao lado do trono de Jeffrey. Os convidados aplaudiam e invejavam a bebida refinada que o rei apreciaria.
― É por isso que eu amo você, minha - puxou-a pela cintura, beijando a sua boca, fazendo com que ela repugnasse aquelas palavras e aquele gesto.
Jeffrey já estava alto e a todo momento ficava a tocando e fazendo declarações para ela.
O servo encheu o cálice do rei com o vinho e entregou a ele. Em seguida, todos esperavam o grande brinde e o gole que selaria a apreciação do presente e a aceitação do gesto da esposa.
― Venha cá, garoto! - Jeffrey chamou o filho, abaixando-se ao lado dele e entregando o cálice em suas mãos. ― Não há melhor forma de findar o meu aniversário ensinando o meu menino a como ser um homem. - Gargalhou e fez um sinal para que o menino bebesse.
Luigi pareceu receoso, mas ergueu o utensílio lentamente, obedecendo a ordem do pai. Contudo, antes que o cálice chegasse a sua boca, o tomou da sua mão, impedindo-o que bebesse.
― O Lui ainda é um menino. Ele não vai beber isso, Jeffrey! - a rainha ralhou, indignada com o marido.
Entregou o copo de volta para o rei, franzindo o cenho para que ele largasse aquela situação ridícula e bebesse logo.
― Que seja, sua estúpida! - ralhou contra e deu dois passos bambos para o lado, devido ao álcool em seu organismo. ― Vida longa a mim, o seu Rei! - ergueu o cálice e fez o brinde, tendo a sua afirmação repetida pela multidão em um grito.
Bebeu todo o líquido em um só gole e olhou os convidados que o aclamavam. Sorriu contente com o sentimento de superioridade que lhe apoderara por toda a noite. Não podia estar mais feliz, havia colocado em seu devido lugar, mostrou para ela e para o povo que ele era maior do que todos. Sentia-se extasiado, seu nome sendo repetido pela multidão, quase um sonho realizado. Só estaria perfeito no mais tardar da noite, quando estivesse com o corpo de sob o seu.
Não teve muito tempo para aproveitar, uma dor forte correu dentro de si. Era agoniante, queimava de dentro para fora. Sua língua parecia derreter e sentia o sangue sair pela sua boca. Era desesperador! Começou a andar e a tropeçar, entrando no meio da multidão, que se abria para o rei, pensando que era o resultado da sua bebedeira.
Jeffrey começou a arrancar a sua roupa, rasgou os botões da sua camisa e ficou com o torso nu, enquanto se arranhava e segurava a garganta, gritando. Se jogou no chão e começou a se debater, na sua pele começou a aparecer manchas rosadas e todos começavam a se alvoroçar com o que estava acontecendo. Os soldados correram e fizeram um cerco ao redor do rei, mas ninguém sabia como proceder.
correu para segurar Luigi e virou o rosto do menino contra o seu peito, passou por entre a multidão, pedindo-os que lhe dessem espaço e caminhou apressadamente em direção de Jeffrey.
Ao chegar lá, a pele do homem estava completamente vermelha e aparentava estar derretendo. A boca minava sangue e estava sendo corroída, enquanto o epitélio do seu peito ficava em carne viva. Não sabia como era possível, mas os rugidos de dor de Jeffrey ecoavam por todo o palácio. Um buraco começou a ser aberto em sua barriga, enquanto ele se contorcia cada vez mais no chão.
inclinou-se para ir até ele, mas os braços de a pararam, impedindo que ela chegasse mais perto.
― Não o toque. É perigoso! - alertou-a.
A rainha não sabia o que dizer, não gritava, não pedia por socorro, muito menos chorava. Era desesperante, era feio, era assustador. Contudo, ela não conseguia desviar o seu olhar. Um choque entre temor e saciedade. Não conseguia se sentir mal ao ver a agonia de Jeffrey, muito pelo contrário, de uma forma insana, precisou conter um sorriso ao ver que agora a carne da garganta estava tão viva que ele não conseguia mais gritar, apenas soava alguns murmúrios.
― Meu papai está morrendo! - Luigi gritou, banhando a roupa da princesa em lágrimas.
― Eu vou tirar vocês daqui, venha comigo, ! - Isaac pousou as mãos sobre as costas dela, guiando-a para fora do salão. A garota estava em choque, nunca imaginara assistir uma cena tão horripilante como aquela.
O tórax de Jeffrey começou a se abrir e os ossos das suas costelas começaram a ficar expostos. O homem já não se debatia como antes, mas pequenos espasmos podiam ser vistos pelo seu corpo ainda.
― Irmão! - Garret gritou alto e desesperado, empurrando todas as pessoas que estavam a sua frente. ― Não! Não! Não! Você não pode me deixar! - repetia exasperado até ser contido pelos guardas para que não se aproximasse.
Todos assistiam o corpo de Jeffrey corroer até o último suspiro. Uma morte dolorosa, agonizante e sufocante. Toda a sua carne se desfazendo perante o povo que estava presente. Um falecimento humilhante e grotesco. Traído por um alguém.
Toda a soberba mostrada, todo o poder que ele achou ter conquistado… tudo antecipação da sua ruína. Nada lhe serviria na casa dos mortos. Respeito não é conquistado pelo ódio. Jeffrey havia feito muitos inimigos em sua caminhada e havia chegado a hora dos seus pecados baterem à porta.
Os ossos das costelas expostas começaram a fragmentar, sangue jorrava, a carne aberta, o rosto já todo desfigurado. Havia choro, desespero e pânico no salão. Garret precisou ser segurado pelos soldados, enquanto não conseguia desviar o olhar de Jeffrey nem por um segundo.
Quando o último espasmo do corpo do rei foi dado e asua carne parecia ter parado de derreter, um silêncio mortal pairou pelo lugar. deu um passo à frente, apenas chegando perto o suficiente para constatar o que todos já sabiam. Piscou os olhos ao observar os restos mortais que sobraram no chão, sem conseguir emitir qualquer sentimento que contradissesse o que realmente sentia naquele instante… alívio. Por isso, só conseguiu abrir a boca para a afirmar a nova realidade que encarava. ― O rei está morto!






Capítulo 17

Após a declaração da rainha, o silêncio se fez presente entre os convidados. As expressões das pessoas estavam aterrorizadas, ninguém jamais esqueceria aquela cena doentia, estaria cravada na memória de cada um para sempre.
olhava para o que havia restado do corpo de Jeffrey, estava anestesiada, não conseguia pensar em nada naquele momento, apenas constatava que o seu algoz finalmente havia morrido. O passado rapidamente lhe veio à tona, recordando-a de tudo o que ele já havia lhe feito sofrer. Cada punhalada, cada vez que rasgou dentro de si... todas as ameaças e o medo que sentia dele tocar em algum dos seus filhos. Tudo latejava em sua mente e, essas coisas, não lhe permitiam sentir pena dos destroços corporais que via em sua frente.
Estava acabado. Finalmente livre...
A rainha bloqueou todo o pânico que pairava em sua volta, proveniente das pessoas que haviam assistido tal atrocidade, e permitiu apenas que a paz se alastrasse no seu coração naquele instante, mesmo que soubesse que era por pouco tempo. Fechou os olhos por alguns segundos e sentiu a pontada de um sorriso querer desabrochar dos seus lábios, não sabia se havia o emitido ou não, apenas percebeu-o quando escutou alguém que gritava, tirando-a do seu torpor.
— VOCÊ O MATOU! Você planejou isso tudo!
Era Garret. Seus olhos estavam banhados em lágrimas, dois soldados o escoltavam e o protegiam para que não chegasse perto do corpo do irmão.
O Rei de Medroc se desvencilhou dos homens e avançou sobre . Suas mãos estendidas partiram para esganá-la, mas a rainha deu um passo para trás, ao mesmo tempo em que postou-se em sua frente para protegê-la.
— Você não vai querer tocá-la! – a voz dele era baixa, mas tão poderosa e grave que poderia colocar medo em qualquer um ali. era o sobrevivente de Ocland, o grande Guerreiro, sua fama era conhecida por muitos lugares. Hector também havia sobrevivido, porém com sequelas, o que havia tirado muito do seu prestígio. Ao contrário dele, o novo General era temido e respeitado. Um poder que ia além do físico grande e musculoso que ele tinha; era o olhar duro, a voz ameaçadora e a face sem emoção. Era o homem sem história e solitário, mas, que ainda assim, foi poupado pela terra desconhecida. Só esse último fato era o suficiente para que muitos não almejarem sequer tocá-lo.
Os homens medrockianos estremeceram, entretanto, Garret não parecia temer qualquer coisa. Deu dois passados, ficando com o corpo muito próximo ao do guerreiro, ao ponto dele sentir a respiração quente do rei sobre si e o dedo indicador dele tocar o seu peito.
— Eu sou o Rei de Medroc, imbecil! Acha que vou deixar tudo isso para trás? Eu irei vingar a morte do meu irmão! – rugiu contra , sem se importar com o espetáculo que fazia na frente de todos.
O guerreiro não se moveu, permaneceu impassível, bloqueando o caminho de Garret. Sua cabeça moveu-se minimamente, o suficiente para lançar um olhar gélido em direção ao local onde o dedo do Rei de Medroc o encostava. Voltou seus olhos lentamente para o irmão de Jeffrey, sua veia saltando em sua têmpora, a mandíbula trancada com raiva e os lábios cerrados, sinais estes que não passaram despercebidos pelo monarca e o fizeram estremecer internamente, deixando sua própria mão cair para o lado, afastando-se dele.
— Tenho certeza que não fará isso, Majestade. O senhor está em Ílac rodeado de guerreiros do nosso povo. Um comando da rainha e estará morto neste mesmo instante. Não seja estúpido!
O rei de Medroc bradou alto e puxou seus próprios cabelos, indignado com a forma que falara com ele. Deu alguns passos para se afastar, mas assim que olhou para e o Guerreiro, deixou a sua raiva exalar mais forte.
— Vocês acham que podem ridicularizar o sobrenome Buckhaim, não é? Pensam mesmo que esse teatro vai funcionar? Ou mesmo que a rainha pode matar o Jeffrey e depois colocar o seu cão de guarda para vir contra mim? - Garret gritava exasperado, batendo a mão em punho no peito. — Eu vi você ameaçando o meu irmão! Todos aqui nesta sala sabem o quanto vocês se odiavam, ainda mais depois de hoje! Você armou tudo, !
As pessoas no salão começaram a murmurar sobre a situação. Infelizmente para a rainha de Ílac, o casamento que ela tanto tentou proteger dos olhos do povo não durou o bastante, Jeffrey havia arruinado tudo, era óbvio que isso, somado as palavras de Garret, faria todos acreditarem piamente que ela era a viúva assassina.
No momento que o Rei de Medroc terminou suas palavras, ele lançou o seu corpo em direção ao de novamente, no entanto, empunhou a espada firme na direção dele e vários outros soldados de Ílac achegaram-se, formando uma barreira na frente da rainha. Em resposta, os soldados medrockianos fizeram um círculo protetor em volta de Garret, impedindo que pudesse o matar.
— PAREM AGORA! – a voz da rainha sobressaiu em meio ao caos. — Ninguém irá morrer hoje! Uma morte foi o suficiente, os ânimos estão sobressaltados e não devemos falar ou ter atitudes impensadas neste momento. Você perdeu o seu irmão, Garret, eu entendo, mas não fui eu que o matei. Guarde a sua espada e seus homens, farei o mesmo com os meus, agora não é tempo para lutar, temos que prantear e velar o corpo do rei. É uma grande perda para Ílac, não torne tudo mais difícil.
Não era de tudo verdade, não prantearia a morte de Jeffrey ou coisa parecida, mas Garret não precisava saber disso. Ela teria que declarar luto e fazer todas as formalidades que se esperavam dela. Lidar com Garret seria delicado, ela sabia disso, o olhar duro do rei sobre ela dizia que ele não acreditava em nenhuma das suas palavras.
O irmão de Jeffrey grunhiu em frustração, porém, saiu da sua forma de defesa, dando ordens para que seus homens fizessem o mesmo. , mesmo contrariado, também abaixou a sua espada, tendo o seu ato seguido pelos seus homens. Hector aproveitou o baixar da guarda para ordenar que todos saíssem do local, não precisavam de mais plateia para aquela confusão. Tinha certeza que, ainda durante a noite, toda Ílac saberia o que havia acontecido, e pior ainda... Temeriam um grande embate entre os dois maiores reinos.
Pouco a pouco, a multidão foi se dissipando. O ambiente ainda era pesado, o cheiro de sangue impregnava o local, unido a um odor estranho da carne que havia derretido. Garret desviou o olhar, não conseguindo suportar olhar para o resto mortal que antes fora o seu irmão.
— Pelos céus e por Ocland, alguém cubra isso! Não quero ter que olhar para essa monstruosidade mais! – o caçula Buckhaim pediu e acenou com a cabeça para um soldado, ordenando-o que fizesse algo com o corpo.
— Garret – a rainha tentou se aproximar, cautelosa — eu não fiz isso!
— Pare! - o rei estendeu sua mão para ela e mirou-a com os olhos carregados de dor. — Eu não quero ouvir nada que venha de você. Eu sei das coisas, . Sei muito mais do que você acha que eu saiba. Meu irmão pode ter sido odiável aos seus olhos, mas ainda assim era meu irmão e eu o amava! Eu perdi um aqui nessa terra e acabo de perder outro. Você tem sorte do meu pai estar morto, ou você já estaria com o seu corpo sendo cremado neste exato instante!
— Eu sinto muito por sua perda, Garret, mas você não acha que se eu quisesse matá-lo já teria feito há tempos? Além disso, que estúpida eu seria em fazer isso em público? – questionou-o, tentando convencê-lo da sua inocência.
Hector e permaneciam perto da rainha, prontos para defendê-la caso ela precisasse. estava longe daquela bagunça desde que Isaac havia a levado junto com Luigi para que não vissem aquela cena. Sarah havia sido enxotada do salão por Cameron, que havia a mandado ficar no quarto, longe da confusão, e Helena aos poucos se esgueirava para perto do motim.
— Você agiu com raiva, não esperava que ele expusesse a amante na frente de todos. Eu a vi saindo do salão, o presente contaminado era seu! - Garret passou as mãos no cabelo furiosamente e começou a andar pelo salão.
acompanhava-o com o olhar, temendo a proporção do caos que poderia se instalar com essa morte. Por mais que fosse uma excelente rainha, não havia passado por um apuro como esse e apenas os seus pais tinham noção do que era realmente uma guerra.
O Rei de Medroc ajoelhou-se no meio do salão e soltou um grito alto, encostando a testa no chão e batendo seus punhos no piso. Todos se assustaram com o ato e os soldados medrockianos entreolharam-se, sem saber o que deveriam fazer.
— Ele surtou, devemos ser muito cautelosos... – Hector sussurrou para e , preocupado com o que sucederia. Era notório que o irmão de Jeffrey estava desestabilizado.
A rainha engoliu em seco e tentou dar um passo em direção ao rei, mas a mão do guerreiro a segurou disfarçadamente, impedindo-a.
— Se você for lá agora só irá piorar. No estado em que ele está, travará um duelo com você aqui mesmo em frente a todos – orientou-a em tom baixo para que somente ela o escutasse.
A rainha bufou, não queria esperar, mas sabia que ele estava certo. Estavam em uma situação de calamidade e ela precisava se conter. Garret era como uma bomba perto de explodir, qualquer passo em falso colocaria tudo a perder.
— Acabou! – a voz de Garret ecoou um pouco estrangulada, não permitindo entenderem o que ele havia dito. Todos ficaram atentos, querendo decifrá-lo, mas só conseguiram isso depois que o rei virou a sua cabeça lentamente, deixando que notassem as lágrimas que corriam e os olhos vermelhos, mesmo ainda estando ajoelhado.
O rei cravou o seu olhar em e uniu as suas sobrancelhas, a raiva sucumbia o seu rosto.
— Acabou! – falou mais alto e começou a se levantar.
— O que acabou? – Helena intrometeu-se entre eles e passou por , aflita.
— O acordo! Aquele tratado de paz ridículo que nossos pais fizeram! Acabou! É o fim! Medroc não tem mais parte nenhuma com Ílac! – cuspiu as palavras que todos ali temiam.
— Você não pode fazer isso! Você sabe o quanto nós lutamos para conseguir selar a paz?! Vocês não podem estragar tudo! – Helena vociferou com raiva, alternando o seu olhar para a filha e o rei.
A antiga rainha respirava irregularmente, aquelas palavras doíam em seu peito. Haviam lutado tanto... Miles quase havia perdido a vida muitas vezes. Não admitiria que isso acontecesse, não depois de ter feito numerosas coisas para que esse acordo prosperasse até os dias de hoje.
— Eu posso e eu vou! – Garret colocou-se de pé e passou a o braço pelo seu rosto, recompondo-se. — É o fim da paz entre Medroc e Ílac! A guerra voltou!
— NÃO! – Helena gritou, avançando contra o rei, porém, as mãos de Hector seguraram os seus braços, puxando-a para trás!
Todos tomaram um susto com a reação da antiga rainha, temeu que a reação da mãe pudesse piorar tudo, mas o amigo de fez o seu trabalho rapidamente, interceptando-a antes que as coisas piorassem.
— Helena, acalma-se! Pelos céus, você precisa ficar quieta! – disse duro, mas baixo, arrastando Helena dali, antes que ela dissesse mais alguma coisa.
— Hector, não deixe, por favor! – a antiga rainha começou a se remexer perante o aperto do homem, enquanto ele tentava a todo custo tirá-la do local.
Puxou-a para fora do salão até que entrassem em um aposento qualquer e estivessem longe da vista de todos. Ele olhou para ela desolado e sem saber o que fazer. Helena chorava e abraçava-se repetindo coisas que ele não entendia. Ele tentou tocá-la, mas parecia que só tornava tudo pior.
— Vão acabar com tudo. Eu vou ver o sangue novamente e eles vão visitar os meus sonhos! Eu não consigo, eu não posso! Todos vamos morrer! – balbuciava de olhos fechados.
Helena sentou-se se recostando na parede e balançando o seu corpo sem parar.
— Helena, olhe para mim – Hector pediu. — Por favor, eu não sei o que fazer com você assim. Olhe para mim!
— Não deixe que isso aconteça! Eu lutei muito para evitar a guerra. Você não sabe as coisas que eu fiz ou permiti, Hector. Você não sabe... – choramingava, mas ainda não abria os olhos.
O guerreiro sentia-se impotente diante daquela Helena. Talvez Miles soubesse o que fazer diante daquele surto, mas ele não. Nunca havia visto a antiga rainha daquela maneira, ela sempre parecia tão forte... Porém, ele precisava lembrar-se que ela havia passado anos detida por não estar bem mentalmente, era bem provável que aquela mulher diante dele era bem diferente da que ele havia conhecido.
Hector passou seus braços pelo corpo de Helena e trouxe-a para o seu peito tentando acolhê-la, porém as mãos dela pousaram no ombro dele, afastando-o.
— Miles não vai gostar disso... – falou firme, mas com a voz afetada pelo choro.
— O meu amigo gostaria que eu cuidasse de você agora! – Hector respondeu-a, seguro do que dizia. Puxou-a com mais força e Helena permitiu que ele o abraçasse, sabendo que ele estava certo, Miles aprovaria.

*


No quarto de , a princesa tentava conter o desespero do irmão, que estava chocado com a cena da morte do pai. Isaac estava ao seu lado, apoiando-a, no entanto, mesmo odiando Jeffrey, seu coração partia pelo sofrimento do menino.
— Meu papai nunca vai voltar, . Eu quero meu papai de volta, salve ele. – O garoto soluçava com o rosto agarrado ao vestido da princesa.
Como ela diria a ele que torcia para que o homem já estivesse morto e que jamais o ajudaria? Era uma dura verdade, mas que jamais poderia ser dita. Seu irmão não entendia, era muito novo ainda. Além disso, ele não conhecia o Jeffrey cruel que ela e a mãe vivenciaram. Para Luigi, o rei era um pai presente, carinhoso e atencioso. Talvez, o príncipe era a única pessoa que conhecia esse lado dele. Se havia a possibilidade de haver algum milímetro de bondade em Jeffrey, ele foi despejado para o seu filho.
— Nós não podemos fazer nada, meu amor. Ele provavelmente se foi! – tentou usar a sua voz doce para que Luigi compreendesse a nova realidade.
— NÃO, ? – perguntou, fitando-a com os olhinhos vermelhos.
— Não se preocupe, meu amor, eu nunca estive tão segura como estou agora! – sorriu para ele, atenta ao fato que o maior risco da sua vida era justamente o homem que agora estava morto e por quem o Lui pranteava.
Isaac aproveitou para se aproximar mais do garoto e passou a mão pelos cabelos dourados dele, chamando a sua atenção.
— E mesmo se ainda existir algum perigo, eu protegerei a sua irmã. Eu vou estar com vocês!
O menino olhou para Isaac, soltou-se de e jogou os seus bracinhos nele, abraçando-o.
— Você sabe lutar? – o príncipe perguntou para o rapaz.
— Sei sim! Talvez não como os guerreiros do reino, mas consigo me sair bem em uma luta. – Isaac piscou para ele, rindo.
— Você me ensina? – o menino pediu com os olhos brilhando para o primo. — Meu papai começou a me ensinar, mas agora eu não o tenho mais. Você pode me ensinar, Isaac? Você disse que vai proteger a minha irmã, então, quero saber lutar como você e proteger a minha mamãe!
— É claro, garoto! Você será o maior guerreiro que essa Ílac irá conhecer, nem que para isso eu tenha que pedir a ajuda de um amigo para lhe ensinar alguns truques melhores.
O menino sorriu, mesmo em meio às lágrimas que ainda escorriam, e apertou Isaac em seus braços novamente. O rapaz ficou feliz por ter aliviado um pouco da angústia do príncipe e riu ainda mais quando avistou a sua mãe na porta observando-os.
— Olá, senhora Sarah, está nos espionando? – arqueou a sobrancelha para ela e abriu um pequeno sorriso.
— Vim para ver como o Luigi estava, fiquei preocupada. – A mulher entrou no quarto, cumprimentando a princesa e indo até o príncipe, que se jogou no colo dela.
— Ele ainda está abalado, mas parece um pouco melhor. — a princesa informou para a tia.
— Se não se importa, vou levá-lo para o meu quarto. Creio que você precisará resolver várias coisas com a sua mãe, é melhor que ele fique comigo.
— Não há problema algum, desde que ele queira, claro. Você quer ficar um pouco com a tia Sarah, meu amor? – a princesa perguntou para o irmão e o menino acenou com a cabeça, passando os braços em volta do pescoço da esposa de Cameron.
— Você vem, Isaac? – A mãe do rapaz olhou firme para ele e o filho arqueou a sobrancelha, sem entender a expressão dela.
— Não, vou ficar um pouco mais com a , não quero deixá-la sozinha – respondeu, cruzando os braços.
Sarah respirou fundo e assentiu com a cabeça, levando Luigi em seu colo.
— É impressão minha ou a sua mãe não queria que ficasse aqui? – indagou-o, intrigada com o comportamento estranho da tia.
— Não sei, talvez ela queira falar algo comigo, mas não tem problema, depois nós conversamos. Agora eu quero ficar aqui com você! – sentou-se ao lado de na cama e pousou sua mão sobre a dela, fitando-a.
— Obrigada, isso vale muito para mim. – A princesa deu um sorriso fechado e fitou a parede, tentando entender tudo o que havia acontecido naquela noite insana.
Isaac ficou calado por algum tempo, sabendo que ela precisava absorver o que havia acontecido. Ele estava preocupado, mesmo que Jeffrey fosse um crápula, ele ainda era o seu pai. Será que ela poderia de alguma maneira estar sofrendo? Ele gostaria de saber...
— Como você está... com tudo o que aconteceu? – resolveu perguntá-la, a fim de saber como proceder ao seu lado.
— Eu deveria ser açoitada por dizer que estou ótima com a morte do meu próprio pai? – confessou, voltando o seu rosto na direção de Isaac.
Ela não parecia estar triste, mas, ao mesmo tempo, era notório que algo a afligia. Ela aparentava travar uma luta interna contra os próprios sentimentos.
... – Isaac tocou o queixo dela – Você não merece ser castigada porque quis a morte de um homem que fez sua mãe e você sofrerem. Eu mesmo desejei a morte dele e teria o matado... por você. – confessou.
O coração da garota se aqueceu com a declaração dele, sentindo-se confortada em saber que ele faria algo tão grandioso por ela.
— Parece louco – a princesa suspirou. — Eu queria estar aqui explodindo de alegria, porém, estou em um dilema se é isso mesmo que eu deveria sentir com a perda do sangue do meu sangue. Você viu como o Luigi estava. Às vezes me pego pensando se eu deveria pranteá-lo também.
— O homem que o seu irmão conhece não é o mesmo que você, . Há coisas que são maiores do que o sangue. Não foi você mesma que me disse uma vez que o Jeffrey não era um pai para você? – a princesa acenou com a cabeça e, enquanto o rapaz falava, sua mão ergueu para acariciar o rosto dela com o polegar. — Pois então... não há motivos para prantear alguém que não significa nada para você! Eu não sei direito o que houve essa noite, mas, sinceramente, estou aliviado! Acabou, , agora você poderá dormir tranquila e a sua mãe está livre das atrocidades daquele monstro...
— Você acha que foi o guerreiro? Eu pedi que ele o matasse e, logo depois de um tempo, ele morreu... O sangue dele está indiretamente em minhas mãos.
A princesa lembrou-se da ordem que havia dado a e de como ele havia saído decidido do salão. Nada lhe tirava da cabeça que o guerreiro é que havia feito aquilo.
— Talvez... Acho que sim. Não seria tão difícil para ele contaminar o vinho. Acesso ele tem e poder influente também. Se foi ele, agradecerei pessoalmente pelo favor que nos fez e te recompensarei por ter dado uma ordem tão sábia, . – sorriu para a princesa, tentando tratar do assunto de forma leve, sem deixar de acarinhá-la.
A garota riu com Isaac e apertou a mão dele, que estava repousada na sua, em agradecimento. O rapaz deslizou os dedos que estavam no maxilar dela até a sua bochecha, passando por sua pele carinhosamente. A princesa fechou os olhos em resposta, sentindo arrepiar o caminho que o toque dele traçou. Não conseguiam explicar como a energia do local havia mudado tão rápido. Bastou um toque mais íntimo para que a tensão sobreviesse sobre eles, puxando um para o outro.
Segundos depois, sentiu um ar quente bater em seu rosto, compreendendo que era o primo que havia se aproximado. Seu coração começou a bater descompassadamente, aguardando o próximo passo dele. Não teve coragem de abrir os olhos, na verdade, não sabia muito o que fazer, apenas esperou, ansiosa pelo que viria a seguir. Suas respirações estavam tão próximas que, mesmo sem ver, sabia que a boca dele pairava sobre a sua. Levemente, os lábios dele roçaram por sua boca, sendo seguido por um frio vazio. A princesa entendeu o que havia acontecido quando sentiu a boca dele tocar a sua testa por alguns segundos e se retirar, deixando-a frustrada.
A garota abriu os olhos lentamente e notou o rosto dele ainda muito perto do dela. Isaac recostou as suas testas e agora foi a vez dele fechar os olhos, parecendo travar uma guerra interna sobre o seu desejo.
— Não hoje, deusa... Não hoje! – sussurrou contra ela, dando o máximo de si para não beijá-la.
Era o que ele mais queria, há muito tempo desejava os lábios de sobre os seus. Ver ela disposta a retribuir-lhe e não fazer isso era mais difícil do que imaginava, contudo, não queria aproveitar-se da sensibilidade do momento para beijá-la. Ele não queria que a princesa pensasse que ele estava se aproveitando, desejava ter certeza que, quando esse momento acontecesse, ambos estivessem completamente convictos dos seus atos.
A princesa acenou com a cabeça, levantou-se da cama e afastou-se de Isaac, ainda meio atordoada com o clima que havia se estendido entre os dois.
— Acho que deveríamos voltar para o salão, minha mãe pode estar precisando de mim. – a princesa recompôs-se e caminhou até a porta.
O rapaz passou a mão pelo rosto e respirou fundo, sabendo que agora seria mais difícil ainda ficar longe da garota - não que ele quisesse fazer isso. A princesa tinha problemas maiores nesse instante e queria estar ao lado dela caso precisasse. Levantou-se e foi até , caminhando junto com ela de volta ao salão, um retorno frustrado e temeroso para o caos.

*


O coração de batia descompassadamente, porém, não era só ela que se preocupava. sabia que a quebra da aliança traria um desastre a todos, principalmente para os mais pobres, os aldeões, aqueles que não teriam como se proteger do ataque dos soldados inimigos.
— Majestade, acho que podemos resolver esse impasse de alguma outra maneira. Você está em choque e em luto, é aceitável, entretanto, peço-lhe um tempo para que tenha certeza da sua decisão. O falecido rei Jeffrey merece seus sete dias de luto, use desse tempo para decidir o que quer fazer. – Cameron aproveitou para tentar dissuadir o rei de Medroc, fazendo com louvor o seu papel como conselheiro e homem de confiança da rainha.
Garret ao ouvir isso deu uma gargalhada sarcástica para todos ali, abrindo os braços para eles.
— Vocês acham que eu sou tolo? Querem que eu fique aqui mais sete dias para quê? Me matarem também?
— Garret, dou-lhe a minha palavra que nada acontecerá. Em Ílac nós respeitamos o luto e somos fiéis aos nossos acordos, mesmo que não acredite. Se algo acontecer a você, todos os povos concluirão que sou eu a culpada de tudo. Garanto-lhe que estará seguro. Honre o corpo do seu irmão e pense com cuidado o que quer decidir. – aproveitou a ideia de Cameron e ajudou a endossar a sugestão.
O rei de Medroc olhou para ela e, em seguida, voltou o seu olhar para o chão ensanguentado onde seu irmão estava. Ele parecia estar pensando em algo, por isso não respondeu de imediato, apenas ficou estático até um pequeno sorriso surgir rapidamente antes de ser contido.
— Eu sei uma forma de resolvermos os nossos problemas. Eu não preciso de sete dias para pensar, mas talvez vocês precisem! – lambeu os lábios e encarou , ansiando saber o que ela diria.
— O que você sugere? – a rainha indagou-o.
— Um novo acordo! Nossos pais selaram a paz com um tratado e, agora, quero propor-lhe outro...
— O que você está sugerindo, Garret?- Cameron interferiu e encarou-o.
O rei abriu um sorriso lateralizado e parou os seus olhos direto na princesa, que acabara de parar na porta do salão junto com Isaac.
— Eu quero ! - apontou para a garota. — Prove para mim que não tem problema algum com a nossa família, . O Luigi pode assumir o trono de Ílac, mas pertencerá a Medroc. Um filho de Medroc vai para Ílac e um filho de Ílac irá para Medroc. Creio que era esse o combinado, não era? Ou já se esqueceram dele?
— O que está dizendo, Garret? O tratado foi selado comigo, não diga asneiras! – questionou-o, atônita.
— Seus pais nunca te disseram isso? – o rei estalou o céu da boca com a língua. — É uma lástima ficar no escuro, não é? Talvez Cameron ou Helena possam te explicar melhor, ou talvez você possa olhar no local onde nossos pais assinaram o acordo. Você tem sete dias, . É tudo ou nada, não estou aberto a discussões! Sete dias para decidir se me dará ou preferirá a guerra.



Capítulo 18

olhava para Garret chocada. Como não sabia disso? Como pôde viver todos os seus dias sem imaginar que teria que entregar a sua filha um dia nas mãos de Medroc? Se soubesse disso antes tentaria algum outro acordo ou um meio para contestação, ou na pior das hipóteses, prepararia para assumir tal cargo.
A princesa nunca fora criada para tal, pois não era necessário. ensinou a a ser livre. Ela não precisaria casar, nem de coisa alguma ou mesmo alguém. Ílac estaria em suas mãos para fazer o que bem lhe aprouver. abdicou de tudo para que a filha pudesse ser livre. Já bastava uma só sofrer os demônios da coroa, ela desejava que a sua primogênita pudesse colher os louros da dor que sofreu.
Entretanto, pelo visto nada seria assim tão fácil. O olhar decidido de Garret deixava claro que ele queria a princesa e não arredaria a sua palavra por nada. Teria coragem de abrir mão da menina pela paz entre os reinos?
— Mãe? – chamou-a, temerosa com o que tinha escutado.
Seu coração batia disparado e as suas palmas suavam com a revelação. Achava não ter compreendido direito, mas o sorriso de Garret em sua direção a enganava.
, não se preocupe, você não irá a lugar algum! – afirmou segurando o braço da filha e colocando-a atrás do seu corpo.
Isaac estancou em choque no mesmo lugar, não achava ser possível tal coisa. Não poderia ser verdade, poderia? Não quando as coisas pareciam estar dando tão certo para todos.
Enquanto isso, ficava a espreita, sentindo a tensão do ambiente como um vasilhame com pressão, prestes a estourar a qualquer momento. Se algo desse errado, ele precisava estar atento e defender e a princesa. As palavras de Garret pesaram em seus lombos, mas, se fosse verdade, não poderia fazer nada. Acordo era acordo, não poderia haver caprichos, caso contrário, milhares de inocentes morreriam.
— Tem certeza, ? Tem mesmo certeza que manterá a pequena aqui? Mesmo depois de tanto esforço para manter a paz, irá pisoteá-la dessa maneira? – debochou da rainha, tentando feri-la com as suas palavras.
— Você está sendo incoerente, Garret. Não conheço esse acordo, como tomarei uma decisão dessas sem saber a veracidade dos fatos?!
— Então chame a sua mãe! Vamos? O que está esperando? Eu tenho todo o tempo do mundo... Ou não, não é? Pode ser que você me envenene também, como fez com meu irmão.
— EU NÃO MATEI O SEU IRMÃO, GARRET! – a rainha bradou, exausta de ouvir as vãs acusações repetidas e insanas. Passou a mão pelo seu rosto, o pó que o cobria quase já não era existente, o belo penteado não estava mais ali. estava cansada, a beleza que antes a externava deu lugar ao temor pelo o que poderia acontecer.
— Não importa. Eu quero que você cumpra o acordo dos nossos pais. Cameron, você os acompanhou no processo, acabe logo com isso e diga-lhe, antes que eu exploda de vez aqui e parta para guerra ao invés de um acordo. – Garret olhou para o tio da rainha e pediu, também cansado de tentar convencer a rainha do que dizia.
olhou para Cameron, esperando a resposta dele. Alguns segundos de silêncio perduraram no local antes que ele tomasse coragem suficiente para falar.
— É real, o acordo... Ele existe – falou deixando os ombros cair, aparentando frustração.
— Como eu nunca soube disso? – a rainha perguntou, perturbada.
— Porque nunca foi preciso, . O tratado de paz precisava trazer segurança para os dois lados. O Rei Garret não está mentindo, porém, também não está totalmente correto em sua afirmação. O herdeiro de Ílac não é obrigado a ir para Medroc, aliás, não era, até que Jeffrey morreu e isso muda tudo. O acordo foi “o filho de Medroc deve desposar a filha de Ílac”, no caso era você e Henrique, no entanto, há uma continuação no termo: “em caso de falecimento e posterior quebra de acordo, para que o mesmo se mantenha, Ílac deverá enviar um herdeiro para Medroc”. Quando Henrique faleceu, segundo o contrato você deveria ir para Medroc casar-se com o Jeffrey, porém, seus pais não tinham outro herdeiro e Ílac não poderia ficar sem o sangue real, ou seja, a guerra seria inevitável. No entanto, quando Jeffrey sugeriu vir para cá, antes mesmo que isso fosse discutido, de certa forma aliviou a todos nós. Rory tinha mais um filho para assumir a sua terra, Garret, portanto não seria problema para ele que Jeffrey viesse para Ílac. Contudo, agora novamente nos vemos em uma situação atípica, pior ainda, um assassinato, então, pelo acordo, um herdeiro de Ílac deve servir a Medroc e, como Garret é um homem, quem deve ir é e Luigi será agora o herdeiro do trono de Ílac.
— Oh, céus! – a princesa sussurrou, colocando a mão sobre a boca.
Isaac deu um passo para se aproximar dela, mas parou antes que tomasse uma atitude impensada. Um olhar torto para eles nesse momento poderia agitar muito mais as coisas por ali.
— Não há nenhum outro modo? Um adendo? Algo que possa ser contornado? – perguntou exasperada.
— Infelizmente não, Majestade. Se quiser pode ler com seus próprios olhos. Foi à forma encontrada na época para contornar qualquer suspeita de traição. Eram dois países inimigos fazendo um acordo onde um herdeiro iria viver na casa do outro. Era uma forma de prevenir qualquer tipo de ação desleal de ambos. – Cameron explicou, recordando-se de todas as vezes que o irmão havia lhe esclarecido o tratado e como Miles havia lhe pedido que nunca fosse necessário que tal coisa acontecesse.
Miles era um homem justo, mas ele nunca confiou plenamente no sangue dos Buckhains, nem mesmo em Henrique que era o melhor deles. Preferia tratar bem o herdeiro de Medroc e protegê-lo na terra de Ílac do que ter que enviar a sua menina para a terra dos abutres. Assinou o termo porque era necessário, mas esperava que ele nunca precisasse ser colocado em prática. Fez seu irmão jurar que protegeria a todo o custo, mas quem imaginaria o que aconteceria com Jeffrey, ainda mais de forma tão horrenda?
— Está vendo? – Garret abriu os braços em sarcasmo. — Sete dias, . E nesse tempo, fique longe de mim. – Saiu em retirada com os seus homens, indo para o aposento que lhe havia sido preparado para hospedagem antes mesmo que toda a confusão fosse instaurada.
Enquanto isso no salão, estava chocada. Seu sangue parecia ter sido drenado do seu corpo, sua pele estava mais branca que o natural. Seus olhos encheram-se instantaneamente de água, mas ela esforçou-se para não derrubar nenhuma. Por que até quando estava morto Jeffrey precisava destruir a sua vida?
A princesa olhou para a mãe, que mordia o lábio com força e sentia-se de mãos atadas. era o seu bem mais precioso, era a lembrança dos únicos tempos de paz que ela teve na vida, da única vez que sentiu o amor verdadeiro e pôde desfrutar dele. Como daria isso a Medroc? Como entregaria de bandeja a sua filha?
... – sussurrou e deu um passo em direção a ela, mas a garota estendeu ambas as mãos, impedindo-a.
A garota recuou e balançou a cabeça em negativa. Não queria um lamento ou mesmo ouvir nada, precisava de um tempo. A carga das escolhas reais não estava agora apenas nas mãos da mãe, neste momento era dela também. Era a sua vida em jogo, era uma decisão tão sua quanto da rainha.
— Eu só preciso de um momento... Para entender tudo isso. Estou bem – afirmou com seriedade, por mais que seus olhos amedrontados negassem esse fato.
tentou segui-la quando viu a garota retirar-se apressada do salão, mas colocou- se na frente dela.
— Deixe-a ir. Ela precisa ficar sozinha agora, . Ela é forte, porém precisa assimilar o que aconteceu aqui. Ela não poderá pensar com clareza se estiver em torno dela nesse instante. – O novo general tentou explicar para a rainha a importância daquilo para .
De alguma forma ele entendia a garota. O mundo caiu aos seus pés e ela estava prestes a ir para uma terra estranha casar-se com o louco do Rei de Medroc. Não saberia nem o que ele faria com ela lá, seria forte o suficiente? Precisaria ser. Porém agora... Ela só necessitava aceitar a nova realidade e aprontar-se para quando chegasse o momento.
— Eu não vou deixá-la, . Ela não vai para Medroc. – rugiu baixo, apenas para que ele escutasse.
— Isso não é escolha sua, . Na verdade, isso não é sequer uma escolha. É um fato, é o acordo, você não pode ir para trás com isso – respondeu-a com um tom perturbadoramente calmo.
— Eu sou a rainha, eu escolho e decido o que vou fazer ou não! – retrucou mais exaltada.
— A que eu conheci disse que abriria mão de um amor para salvar o seu povo, o que aconteceu com ela? Achei que estaria disposta a tudo para manter a paz. Não foi por isso que me mandou embora daqui? – contestou-a, nervoso.
Há tempos ela era tão decidida, sabia o que deveria fazer e, até onde ele sabia, havia feito tudo para manter esse acordo. Mas agora, quando tudo estava prestes a desmoronar, ela apenas se sentaria e deixaria tudo ruir?
— Você não sabe nada, ! – apontou o indicador no peito dele com força. — Eu abdiquei tudo! Você não sabe o que tive que abrir mão, você não sabe o que eu sofri... – falava duro e forte, mas algo quebrava, seus olhos enchiam-se das lágrimas que há tempos não derramava. — Eu morri por dentro, deixei você, deixei minhas escolhas, deixei minha vida, eu deixei até o meu corpo... Mas ela... Eu não aceito! E não me importa o que digam, me chamem de egoísta, mesquinha, ou o que for... Ninguém sabe o que eu passei, ninguém... Está me ouvindo? Eu. Não. Vou. Abrir. Mão. De. ! - rugiu — Eu morro antes que alguém toque em um mísero fio do cabelo dela e se qualquer um tentar me contrariar, até mesmo você... Terá que lidar comigo primeiro! – terminou, deixando uma única lágrima derramar em sua bochecha, que foi rapidamente tirada por ela.
A rainha virou-se e saiu de imediato da sala, não querendo encarar mais ninguém. Quis dizer cada palavra que havia falado ali. Ela morreria, mas não sofreria dano. Era a única coisa pelo que valia a pena ainda lutar, era seu único troféu, a parte intocada da sua alma. era pura e a manteria assim o máximo possível e, se sua vida fosse o preço para isso, que assim o fosse então.

*


Ainda no salão, Isaac estava agoniado. Encontrava-se em um dilema entre esperar ou ir atrás de , contudo, esperar nunca havia sido o seu forte. Só de imaginar como a princesa estaria devastada ou se sentindo perdida lhe levava a vontade de envolvê-la em seus braços e prometer que tudo ficaria bem.
Porém, não poderia fazer uma jura tão falsa. Isaac sentia-se de pés e mãos atadas. A única solução que lhe vinha em mente era jogar em seu ombro e carregá-la para o mais longe dali. Coisa que nunca daria certo. Até porque, o primeiro passo que ele desse fora do castelo o tornaria um alvo fácil para os seus perseguidores e, logo agora que se sentia mais próximo de , a última coisa que gostaria era que seus problemas chegassem ao ouvido dela. Além disso, fugir com a princesa era assinar o atestado de guerra entre os dois impérios.
Queria conversar com a princesa, saber o que ela pensa. Talvez ela tivesse ideias melhores de como sair dessa situação. Resolveu que realmente não conseguiria esperar mais, começou a andar rápido até a saída, querendo chegar o quanto antes ao quarto da princesa.
— Aonde pensa que vai? – Cameron puxou-o pelo braço, encostando-o perto da parede, longe dos olhares das criadas e dos soldados.
— Eu preciso falar com a – Isaac respondeu sem titubear.
Seu pai suspirou em frustração e colocou a mão na testa, ponderando as palavras para o filho.
— Isso tem que parar! Eu não ia dizer-lhe nada antes, pois não via mal algum, mas agora é diferente Isaac, você precisa se afastar.
— Não sei do que está falando. – O rapaz deu de ombros e virou o seu corpo para voltar ao seu caminho, mas o pai não o largou.
— Eu falo sério, Isaac. Essa não é mais uma de suas peripécias. Eu aguentei muito de você até aqui, você fez o que sempre quis, mas agora eu estou te pedindo como um pai e ordenando com a autoridade confiada a mim pela rainha: afaste-se da princesa. Durma com qualquer uma aqui, até mesmo com a prostituta do rei, agora eu permito que a toque, mas deixe em paz. Ela não é um brinquedo que você pode utilizar.
— Eu não a vejo dessa maneira! – Isaac tratou de corrigir os pensamentos do pai. — ... Ela é especial.
Cameron deu uma risada sarcástica, balançando a cabeça. Não podia crer no que estava acontecendo ali, era pior do que ele temia.
— Não me diga que se apaixonou?! – perguntou, relutante. Seu filho sempre fora um homem de muitas mulheres, quando o viu ao redor da princesa achou que fosse um encantamento por mais uma em sua cama, mas aquilo ali não era nada bom e Cameron constatou o pior quando não obteve a resposta de Isaac, o seu silêncio já respondia por si próprio. — Não, não mesmo! Afaste-se dela!
— Eu não posso!
— Ah, você pode e você vai! Em breve ela estará na carruagem junto com Garret indo para Medroc e você a deixará partir. é a nossa única maneira de conseguir a paz novamente, o Rei de Medroc não vai mudar de ideia, você não o conhece, quando ele coloca algo em mente, ele não cede, ele levará ou ele deixará um rastro de sangue por onde ele passar. Devemos agradecer aos céus por ele ter recuado da guerra, não estrague tudo por causa de um fogo de homem que pode ser abrandado por qualquer mulher! – Cameron dizia nervoso, cogitaria até trancafiar Isaac se visse que era necessário para afastá-lo da princesa.
— Eu entendo os seus temores, mas você está me compreendendo mal. O que eu sinto não é um fogo de homem, ou mesmo pode ser abrandado com qualquer uma. A única pessoa que eu quero é e, ainda assim, eu nunca cheguei a nenhuma via com ela. Eu disse que a era diferente porque é verdade. Eu não quero depredá-la, eu quero venerá-la com tudo de mim. Ela não merece ser um objeto barato como troca para um rei estúpido e ganancioso como o Garret.
— E você acha que os filhos da terra merecem ficar sem pai? Ou as mulheres viúvas? Ou os plebeus e soldados merecem morrer? – Jogou contra ele, deixando-o sem palavras. — Nenhum deles merecem passar por nenhum sofrimento também, mas a vida não é justa, filho, nós que trabalhamos para tentar equilibrá-la da melhor forma. Uma vida por outras milhares? Acho que isso é o que eu acho que é mais válido! É difícil pra você agora, mas nem tudo o que queremos, podemos. Você vai aprender isso da pior forma, assim como eu. Entretanto, um dia você entenderá. Agora… não torne tudo mais difícil. Afaste-se enquanto é tempo, antes que torne tudo pior.
Cameron afastou-se do filho, dando-o um voto de confiança. Sabia que as palavras mexeriam com ele. O rapaz vivia uma vida diferente, mas ele tinha um coração grande, o pai sabia que ele refletiria sobre aquilo.
Isaac ficou atordoado. Uma luta sangrenta entre lutar pela primeira vez pelo seu coração ou tornar tudo mais fácil afastando-se e poupando centenas ou milhares de vidas. Não sabia se conseguiria apenas se afastar de , contudo, naquela noite, ele não foi encontrá-la. Voltou para o seu quarto, a fim de se deixar sofrer pela primeira vez por amor.

*


A semana passou tensa no palácio. Os criados olhavam para aflitos, seus olhos falavam o que esperavam dela, aceite o acordo. Só o pensamento da guerra trazia calafrios, até mesmo para os que não viveram nessa época. Eram muitas as histórias de terror dos tempos onde só podia se ver sangue e dor.
A rainha manteve-se afastada de Garret, mas não porque ele havia pedido. Se ela o visse era capaz de estrangulá-lo por querer a sua menina, era melhor que não o encontrasse mesmo. O rei, em contrapartida, parecia bem à vontade na sua casa, exceto pelo fato que vivia rodeado por seus homens de confiança e fazia-os provar todas as comidas antes de se alimentar, devido ao medo de também ser envenenado.
tentou conversar com algumas vezes, porém ela não estava disposta a ouvi-lo e se ele continuasse a tentar persuadi-la era bem capaz de confessar o que não deveria, ainda mais em um momento tão impróprio como aquele. O que Garret faria se soubesse que a menina não tinha o sangue do seu irmão?
Da mesma forma que a rainha o ignorava, ela era ignorada pela filha. Não que estivesse com raiva da mãe, pelo contrário, a garota apenas precisava de espaço para ter certeza de como procederia. Já havia ouvido a mãe e não queria que ela a persuadisse a concordar com tal coisa. Queria compreender a situação sozinha e ter uma decisão própria para isso. Ela foi preparada toda a vida para ser a rainha, e como tal, precisava tomar decisões difíceis. O momento havia chegado mais cedo que o esperado, mas estaria pronta para ele.
Só uma coisa lhe pesava, ou melhor, um alguém...
Quando havia decidido parar de lutar contra aquela sensação estranha que estava sentindo, o mundo ruiu ao seu redor. Aos poucos Isaac havia derrubado cada uma das suas barreiras. Nunca quis casar, pois nunca havia visto o casamento como algo bom, nunca almejou um relacionamento e nem nunca havia se interessado pelo sexo alheio, mas algo no primo o chamava para si. Ela lutou, ela tentou manter-se longe, mas agora era tarde demais. Tarde para ir contra a maré que era os seus sentimentos, mas tarde também para desejar qualquer futuro com ele, se é que ele queria isso também.
Não havia visto o rapaz em nenhum desses dias. Sentia falta dele. Queria ir até o seu quarto e perguntar por que ele havia a deixado tão cedo, mas sabia que era impróprio. partiria e talvez ele achasse que era melhor deixar tudo como estava, sem complicações.
Contudo, ela não esperava que o garoto, o único que faria o seu coração pesar quando estivesse indo embora, estaria em sua porta tão cedo. O seu corpo escorava no batente, seus cabelos negros estavam desgrenhados e envolta dos seus olhos havia bolsas escuras, acusando o sono ruim das suas noites.
Isaac abriu um pequeno sorriso para ela, que foi retribuído imediatamente. Passou a mão em seus cabelos e entrou no quarto da garota, fechando a porta atrás de si. Não precisavam de palavras, apenas olhavam-se, dizendo em suas expressões muito mais do que queriam professar em voz alta. Era o fim de algo que nem havia começado. Não tiveram tempo nem de descobrir o que era aquilo que despontava em torno deles, só sabiam que deveria terminar.
— Eu queria poder fazer alguma coisa. – Isaac quebrou o silêncio, entrelaçando os dedos da sua mão com os de .
— Eu também – respondeu, olhando como as suas mãos ficavam bem juntas.
Seria aquele fisgar no fundo do estômago a coisa mais próxima que ela sentiria sobre o amor em toda a sua vida? Sabia que com o Garret jamais teria isso, então Isaac era o mais próximo que ela havia sentido algo, seja o que fosse aquilo.
— Então é isso? Você vai mesmo? – ele perguntou, mesmo já sabendo a resposta dela.
— Sim – afirmou, encarando-o.
Um flash de tristeza passou nos olhos de ambos. Isaac já havia provado muitas, mas a única pessoa que ele sequer havia tocado era a que tirava a paz da sua alma, enquanto , que ainda era pura, iria embora sem ao menos saber como era o gosto de ser amada.
— Eu gostaria de pedir-lhe um favor – a princesa piscou os seus olhos em direção do rapaz, apertando a mão dele com mais força. Franziu os lábios por conta da ansiedade, entretanto, tinha certeza do que queria.
Isaac arqueou a sobrancelha, tentando imaginar qual era o desejo dela, mas abriu um sorriso para acalmá-la, deixando claro que faria qualquer coisa por ela.
— Eu já decidi, independente do que minha a mãe diga, eu vou com o Rei Garret. Eu não sei o que ele fará comigo, Isaac, eu estou me entregando, mas há algo que eu quero aqui e agora. Um pedaço meu que ele nunca vai ter, e se eu puder lembrar disso durante a minha vida, será o suficiente.
— O que você quer, deusa? – o rapaz perguntou, unindo as suas mãos e puxando em direção ao seu peito.
— Beije-me!
Isaac arregalou um pouco os olhos com o pedido sincero da princesa. O semblante dela beirava a expectativa e o rapaz não conseguiu conter a alegria que sentiu com o pedido. Todos os seus poros estavam eufóricos, mas a surpresa com a sua petição lhe fez paralisar por alguns segundos.
— Eu quero você, Isaac. Eu sei que depois daqui cada um tomará um rumo, mas, enquanto eu estiver em Medroc, quero uma lembrança boa, quero poder recordar-me de algo que fiz através das escolhas que eu queria e não que fui obrigada a fazer. Eu terei vários outros beijos, mas este, o primeiro, sempre será a minha memória, a recordação que manterá acesa a chama em mim, mostrando-me que eu estou lá por uma escolha, darei minha vida pelo meu povo.
... – Isaac tentou falar algo, na verdade ele queria dizer alguma coisa, mas a princesa retirou a sua mão da dele e tocou-lhe os lábios, impedindo-o de continuar.
— Por favor, não diga nada. Só me beije!
Então, sem mais delongas, sabendo que ambos esperavam por isso, Isaac inclinou-se para ela, a fim de selar seus lábios de uma vez, porém a garota temendo errar de alguma maneira, afastou a sua cabeça levemente, antes que suas bocas se chocassem, e pousou a mão no peito dele, impedindo-o provisoriamente.
— Eu nunca… - começou a explicar, timidamente, e Isaac se afastou devagar, com um pequeno e leve sorriso no rosto.
— Perdoe-me, minha deusa, não quero ser rápido, ou algo parecido... – Passou o seu indicador pelas maçãs do rosto dela e ela fechou os olhos lentamente, apreciando o seu toque.
— Não precisa pedir perdão, eu só precisava dizer isso antes. – respondeu-o, ela mesma agora aproximando o seu rosto do dele. — Assim que seus lábios tocarem os meus, não terei como voltar atrás. – Segurou a mão de Isaac, deslizando os seus dedos lentamente pela pele do rapaz.
— Você quer isso, ? – fitou os olhos da garota, encarando-a para ter certeza do próximo passo a ser seguido. O que Isaac menos queria era ser desrespeitoso com ela.
— Há muito tempo, como nunca quis tanto algo assim antes. - A princesa devolveu, sem titubear.
— Então não teremos arrependimentos.
E, quando seus lábios se tocaram, a afirmação tornou-se real. Não havia como se arrepender da sensação mais correta que já haviam sentido em suas vidas. Suas bocas tomavam-se como um encaixe perfeito e inimaginável. O beijo de era doce, Isaac era o primeiro dela, por isso, tomou-a lentamente, deixando-a conhecer seus lábios aos poucos, antes de começar explorá-los. Ele realmente a venerou, honrou-a com gestos e atitudes. Provava-lhe do seu sabor inebriante ao passo que traçava sua pele com os dedos, sentindo o arrepiar de cada poro da princesa.
Por isso já havia ouvido dizer que com sentimento tinha um sabor especial? Isaac poderia ter desfrutado de muitas mulheres, mas nenhuma delas se comparava aquele momento com . Seu coração batia forte e a necessidade de continuar ali infinitamente crescia em seu peito. Como a deixaria partir depois de tudo isso?
Ela não parecia inexperiente. Com a mão de Isaac em seu pescoço a auxiliando e guiando-a, ela sentiu-se valente. Pousou uma mão no peito dele e pôde sentir o coração que tamborilava no local. A sensação lhe deixou satisfeita e ainda mais entusiasmada por saber que não era a única que estava afetada ali.
Precisavam de ar, mas não queria se afastar. O breve momento que tomara para respirar foi quebrado quando seus lábios se chocaram novamente. Era viciante, era gostoso, era especial.
Sentir os lábios, a língua e o gosto da princesa seria algo que Isaac jamais esqueceria, quis morder a sua boca, querendo provar tudo dela, e sentiu-a arfar com o gesto dele. As mãos de já haviam voado para os cabelos dele, enquanto Isaac segurava-se para não passar em locais inapropriados.
Afastaram-se aos poucos, ofegantes com o que haviam vivido. Seus olhos não destrancavam um do outro, ambos sabiam que aquilo ali mudava tudo. Não eram flertes ao longe e o pensamento de algo que poderia acontecer. Eles se provaram, eles sentiram, era palpável. Palavras saltavam-lhe à boca de ambos, mas seguraram a língua antes que qualquer um deles dissesse. Era melhor não, quanto menos falassem, menos feridas teriam. Agora já seria difícil, mas se abrissem os seus corações... Seria pior.
deu um breve olhar para a porta, mordendo o lábio para se conter. Isaac entendeu, ele sempre a entendia. Ele precisava ir, antes que fosse tarde demais. Antes que ambos cedessem e se jogassem a esse sentimento novo que estavam vivenciando. Entretanto, ele sentia as pernas como chumbo, impedindo-o de se levantar. Nunca achou que seria tão difícil dar adeus, mas chegara a hora.
Precisavam despedir do novo que havia brotado e encolher as lágrimas que queriam despender por seus rostos.
Isaac, relutantemente, ergueu-se da cama e caminhou até a porta. Virou-se para trás, dando um último olhar para a princesa e, sem palavras, disseram tudo.
Adeus, .
Adeus, Isaac.
Era o fim.



Capítulo 19

não deixou nenhuma lágrima cair, porém, isso não significava que o seu coração não doía. Passou horas a fio em seu quarto, coberta pela sua angústia e preparando-se para o passo mais importante que daria em sua vida. Precisava ser forte como a sua mãe havia lhe ensinado, o povo dependia dela, por isso, não voltaria atrás.
Achava ser uma troca justa dar a sua vida em prol de muitos, no entanto, uma coisa martelava em sua cabeça. Quem havia matado Jeffrey? Ela estava ali, disposta a entregar a sua vida por culpa de alguém. Uma pessoa era responsável por todo o pânico instaurado entre os reinos e não sossegaria enquanto não achasse respostas.
Se realmente o assassino fosse o general, ela daria a sua vida de bom grado para Garret, pois tudo seria decadência das suas ações. Mas e se não fosse? E se ela estivesse disposta a sacrificar a sua vida por algo banal? Reynia era a sua amante, mas poderia odiá-lo como qualquer outra pessoa presente do salão. Até Helena poderia ter cometido tal crime, não era camuflado o desgosto da sua avó pelo falecido rei.
De qualquer forma, ela achava muito difícil que qualquer um deles se entregassem. Um crime como esse, mesmo que fosse o ato mais belo e singelo, seria digno de traição, ou seja, a morte do seu autor era a única saída.
A princesa ficou enclausurada em seus próprios pensamentos, optando por almoçar em seu quarto do que ter a chance de encontrar Garret antes do previsto. A criada havia trazido a sua refeição e foi logo dispensada por , retornando para as suas atividades.
O prato aparentava-se apetitoso, apesar dela não estar com fome, o cheiro da carne de veado inflamava as suas narinas e decidiu comê-lo, já que precisava de energia e força para aguentar a viagem até Medroc. Não sabia se Garret a trataria bem, talvez aquela fosse a sua última refeição.
Pegou os talheres que estavam enrolados em um tipo de papel, ao invés do pano que estava habituada. Quando o abriu, notou umas frases rabiscadas nele. Uma ruga se formou no vinco entre a sua testa, seus olhos semicerraram enquanto tentava entender o que era aquilo e surpreendeu-se ao perceber que era um recado, um recado destinado a princesa de Ílac.
leu as pequenas palavras miúdas com cuidado, o texto não era assustador, pelo contrário, as palavras finais dele eram até reconfortantes. O que a amedrontava eram o motivo delas. Por que alguém a escreveria e mandaria uma mensagem secreta?
Ao ouvir o som das batidas em sua porta, pegou o papel e colocou-o dentro de uma espécie de caderno que ela possuía. Era quase o seu diário pessoal, a princesa costumava fazer algumas anotações, reflexões, ou até mesmo poemas. Um pedaço íntimo do seu ser transcrito e desabafado. Não era algo que ela compartilhava, portanto, dificilmente alguém o descobriria. Enfiou-o na última gaveta da sua cômoda e dirigiu-se até a entrada do quarto, a fim de ver quem havia chegado.
— Querida, posso entrar? – a voz de sobressaiu do outro lado do quarto.
suspirou profundamente, encarar a sua mãe seria difícil. Evitou-a o máximo possível, entretanto, agora não teria mais jeito. Hoje havia completado os sete dias de luto por Jeffrey e, por conseguinte, o tempo que a rainha tinha para dar a resposta para o rei de Medroc.
— Claro. – Abriu a porta para a mãe e a acompanhou até que ambas estivessem sentadas frente a frente.
— Como você está? – questionou, preocupada com a filha.
— Acho que eu que deveria lhe perguntar isto. Eu não quero que fique angustiada por causa de mim, mãe.
— Como não poderia? Você assistiu o Jeffrey morrer daquela forma horrorosa e logo mais o Garret veio com essa proposta absurda! Eu não sei se está sofrendo ou de luto, você não tem conversado comigo... Não houve tempo nem de processar os acontecimentos, sei que a sua cabeça está atordoada com a possível ida a Medroc, porém, não se preocupe, eu darei um jeito nisso.
— Mãe, pare! – levantou-se e ergueu a voz, interrompendo o diálogo. — Você não pode lutar todas as batalhas por mim. Chegou a hora de eu fazer a minha parte, assim como você fez a sua um dia. E, para começar, eu não estou de luto. Como pensou que eu poderia chorar pelo meu pai depois de tudo o que ele fez conosco?
A princesa ergueu o braço, agitada, enquanto falava. Era por isso que ela evitou a mãe, sabia que ela tentaria lhe proteger, mas não queria isso.
— Eu não sei, . Você sempre me pareceu mais sensível, talvez pudesse ter ficado de alguma forma triste. Eu só quis me assegurar que estivesse bem.
— Eu não sou um cristal frágil pronto para quebrar. Eu não passei o mesmo que você, mas sobrevivi as minhas próprias lutas, eu jamais derramaria uma lágrima pelo Jeffrey. Aliás, o oposto disso, se eu pudesse tiraria todos esses malditos dias de luto declarados e faria uma grande festa em comemoração. Eu não sou a pessoa que você pensa, mãe. Não quero que negue o acordo do rei Garret, eu preciso assumir a minha parcela de culpa e eu irei de cabeça erguida.
— Você não tem culpa de nada. Nenhuma de nós temos. A morte chegou ao Jeffrey porque ele cavou os seus próprios demônios. – levantou-se tentando tocar na filha, mas ela colocou-se longe dela, andando até a janela e olhando o horizonte.
— Talvez eu tenha. Na verdade, eu tenho quase certeza que a possuo. Eu mandei matar o Jeffrey – falou com uma voz fria, deixando a mãe atônita.
— Como?
— Exatamente o que ouviu – virou um pouco a cabeça para mirar a mãe e afirmou o feito olhando diretamente para os olhos dela, a fim de que ela não tivesse dúvidas da veracidade de suas palavras. — Eu mandei matar o meu pai. Talvez eu tenho o puxado, afinal. Ele era um homem frio, e eu garanto que estou sentindo a mesma frieza que ele deve ter sentido quando matou tantos outros aqui. Há um vazio dentro de mim. Não tenho arrependimento, nem angústia, muito menos misericórdia. No fim das contas, acho que o sangue maldito dele corre em minhas veias.
A garota falava sem emoção, parecendo acreditar mesmo no que dizia. Seu coração não estava estraçalhado com a morte do homem, sua única preocupação era o que Garret faria com ela. Será que passaria nas mãos dele o mesmo que a sua mãe passou com o seu pai?
andou depressa até onde estava, colocando as mãos em forma de concha nas laterais do rosto da filha. Não podia permitir que se martirizasse dessa maneira, ou mesmo carregasse um fardo desse tamanho. Se havia alguém que era inocente nisso tudo, era a sua princesa, jamais poderia permitir que a garota pensasse tal coisa de si própria.
— Você. Não. É. Igual. A. Ele. Está me ouvindo? Você não tem nada do Jeffrey. Você é a pessoa mais graciosa que eu já conheci, sua bondade excede os limites da mente humana, você é justa, . Eu não compreendo o que você disse quando falou que mandou matar o Jeffrey, mas, ainda que isso seja verdade, não te torna igual a ele. Nunca!
— Eu não acredito nisso. Infelizmente não temos como correr do nosso sangue, mãe. Jeffrey é o meu pai e faz sentido que a maldade dele esteja comigo! – A princesa escorreu a angústia em seu tom, sofrendo por carregar consigo parte do falecido rei.
tomou-a pelos ombros e sacudiu-a. Seus olhos estavam saltados e mordia o lábio com força, agoniada com o sofrimento da filha. Não podia deixá-la achar que era um monstro como Jeffrey, mesmo se ela tivesse o mandado matar.
— Não, ! Você não compreende! Quando eu digo que você não possui nada daquele maldito, eu não estou tentando consolá-la. É uma realidade. O sangue do Jeffrey não corre nas suas veias, portanto, você não carrega nenhuma maldição dos Buckhaim.
— Mas como? O que quer dizer…?
, o Jeffrey não é o seu pai – soltou sem titubear e sem arrependimento algum.
A princesa abriu a boca, chocada. Jamais esperaria tal revelação. A garota ergueu a mão e a levou até a boca, e pelos olhos sérios de ela soube que aquilo era a mais pura realidade.
Os ombros da rainha caíram e ela parecia estar aliviada de ter dito tal coisa, apesar de se preocupar um pouco com a repercussão de tal confissão.
— A história é mais complexa do que imagina, eu teria que passar o dia inteiro aqui para que pudesse entender. Mas o que preciso que você saiba é que você não é filha do Jeffrey, não há maldade, não há demônios... O seu sangue é mais puro quanto poderia ser. Só não posso dizer que é melhor porque temos a Helena na família, entretanto, talvez, algumas coisas provenientes dela nos sirvam de algum modo. – explicou, olhando atentamente para a menina, que parecia mais pálida que o normal.
— Se eu não sou filho do Jeffrey... E o Luigi? – perguntou a primeira coisa que lhe veio à cabeça.
— Ele é fruto do nosso casamento. Apenas você que não – confessou.
— Quem é meu pai? – franziu o cenho, atordoada ainda com a revelação.
ficou em silêncio, não queria mentir, mas também não queria revelar a paternidade a ela.
— Mãe – chamou-a. — Quem é o meu pai? – perguntou novamente, agora com medo da resposta.
— Você confia em mim? – perguntou, erguendo a mão para segurar a da filha.
— Com a própria vida.
— Então não me faça essa pergunta. Não agora, por favor – suplicou, os olhos brilhando, uma emoção revelada que nunca havia visto em . Um gesto que mexeu com ela de alguma forma.
abriu a boca e franziu o cenho, sentindo-se ultrajada. Sua mãe não poderia lhe dar uma notícia dessa e achar que poderia continuar omitindo os fatos.
— Eu mereço saber! Depois de tanto tempo, depois de tudo... – a garota cerrou os lábios, segurando uma onda de lágrima que quis sair com as lembranças que vieram a sua mente. — Você percebe o que eu passei achando que o meu próprio pai quis me abusar? – confessou em baixa voz e estendeu a mão para a bochecha quando percebeu que uma lágrima havia caído.
— Ele te tocou? – A rainha ergueu a voz e sua espinha congelou com o pensamento.
Só o pensamento de tal coisa a nauseava. Sentiu a bile subir em sua garganta, sentindo vontade de desenterrar a cova de Jeffrey e fazê-lo em pedacinhos novamente
— Não! – tratou de desfazer os pensamentos da mãe. — Porém ele tentou, uma vez... Estava bêbado, contudo. Eu não quis te contar, a senhora já possui fardos suficientes para carregar.
— Filha, eu não sabia... Se eu ao menos sonhasse com isso, ele já estaria morto há muito tempo – sussurrou, sentindo-se culpada.
— Eu sei o que está pensando. Não tome isso como sua responsabilidade, pois não é! O Jeffrey era sádico e doente. Eu só queria que entendesse o meu lado. Como eu cresci pensando que aquele monstro era o meu patriarca.
— Eu entendo, . Você deve saber a verdade, é justo. Você e o seu pai, aliás. Porém, confie em mim, não é o momento. Quando descobrir, você terá total direito de conversar com ele, se expor e procurá-lo. Mas olhe como estamos no momento! Você diz que vai com Medroc... Será mesmo que conseguiria partir com essa notícia? Eu precisei esconder isso, , você é minha herdeira, minha sucessora, se alguém descobrir será declarado como uma traição a Medroc, mesmo que tenha muito tempo se passado. Você será considerada uma bastarda e não há império que confiará em nós depois disso, Ílac estará sozinha. Eu não sei qual seria a reação do seu pai se descobrisse. Tudo é muito delicado, a paz está por um fio e eu preciso garantir que se a guerra ecoar, eu tenha o maior número de pessoas ao meu lado.
ponderou o discurso da mãe. Compreendia, apesar de não concordar com todos os pontos. Uma coisa era certa, não era o momento para aquilo. Por mais difícil que fosse, ela teria que ignorar a revelação para se concentrar na missão que estava em suas mãos.
— Eu já o vi? Diga-me pelo menos isso.
— Sim, , você já o conheceu.
A emoção cortou o coração da princesa. Varreu em sua mente a dezena de homens que já havia visto, tentando achar uma ponta que seja de semelhança entre ela e o desconhecido pai.
Sua mãe estava certa, não conseguiria partir se soubesse a identificação do homem. Gostaria de conhecê-lo, passar um tempo com ele, ver se ele a aceitaria como filha depois de viver a vida toda com a frustração de tanto ser rejeitada por Jeffrey, a quem achava ser o seu gerador.
Como ela poderia lidar com todas essas coisas em uma hora como essa?
A garota acenou com a cabeça para a mãe, sabendo que teria que se conter. Seria difícil, mas não poderia ser egoísta nesse momento.
— Prometa-me! – A princesa pediu e olhou para a mãe com o semblante fechado.
— O quê?
— Prometa-me que quando chegar a hora não irá omitir-me da verdade.
parou por alguns segundos, ponderando se poderia dar a sua palavra quanto a isso.
— Eu prometo, . Prometo pela minha vida e por essa coroa que eu carrego.
A princesa assentiu com a cabeça, abraçando o seu próprio corpo. Sentou-se na cama, pois o seu corpo já não era forte o suficiente para lidar com a confusão que estava na sua cabeça.
— Ele era um homem bom? – perguntou tão baixo que a sua mãe quase não conseguiu escutar, no entanto, quando compreendeu a indagação da filha, não conseguiu conter o sorriso, lembrando da melhor época que teve em sua vida.
— O melhor deles. Seu pai era o meu melhor amigo e foi a primeira pessoa que fez algo por mim. Foi com ele que aprendi o amor e cuidar daqueles que eu amo. – a rainha sentou-se ao lado da filha, passando o braço pelo ombro dela. — Seu pai me ensinou a enxergar as coisas na simplicidade, eu não precisava de mais nada, , só bastava estar com ele. Nós sabíamos que não podíamos, ele trabalhava aqui no castelo e eu tinha uma aliança para cumprir. Mas não é como se pudéssemos controlar o nosso coração. Tínhamos uma data limitada, quando meu noivado com o Henrique chegasse, tudo estaria acabado. – A feição da rainha se entristeceu e seus olhos escureceram, lembrando-se da tragédia daquele dia.
viu o rosto da mãe iluminar-se e deteriorar-se em uma fração de segundos. Nunca havia a visto desta forma. Achava que a sua mãe nunca tinha tido a oportunidade de provar tal sentimento, mas as coisas pareciam ser bem diferentes.
— Se vocês sabiam que não daria certo, por que então deixaram isso acontecer? Não era fato que sofreriam? Não tornou tudo pior? – questionou, intrigada.
— A experiência de conhecer o amor faz valer a pena os riscos. O amor transforma, . Quando você puder desfrutá-lo, saberá o que eu digo. Perder o seu pai foi uma das coisas que mais doeu em meu coração, entretanto, o tempo que estive com ele sobrepõe o sofrimento que passamos. A caminhada até a montanha é árdua e cansativa, entretanto, é lá que podemos ver o melhor pôr do sol. Ao chegar ao topo, você se esquece do que sofreu no processo. O que eu vivi com o seu pai está aqui – apontou para o coração – e cada momento com ele ninguém poderá arrancar de mim. – Sorriu para a menina com ternura, as palavras soando doces como o veludo, de uma forma que nunca tinha ouvido, ao mesmo tempo que a mãe passava a mão pelo seu rosto, acarinhando-a.
— Eu queria que as coisas pudessem ser mais fáceis.
— Eu também, meu amor. – abriu um pequeno sorriso. — Mas eu fiz minhas escolhas, foi necessário. Contudo, eu tracei uma linha, eu decidi viver para o que eu tinha que fazer, dei todas as cartas e aceitei todas as que me deram. Eu achei que estava segura, . Eu fiz planos para que você pudesse concretizar o que eu não pude. Meu único desejo era que encontrasse o amor e fosse feliz com suas próprias escolhas, diferente de mim... O assassinato de Jeffrey mudou tudo. – concluiu, trazendo à tona novamente o gosto amargo que a morte dele significava.
Por um instante até havia esquecido que hoje seria o dia em que iria embora, sua mãe querendo ou não.
— A senhora fez o possível, mas o rio segue o seu curso, nem tudo está sob o seu controle.
respirou fundo, tentando fazer com que a filha a compreendesse. Ela jamais deixaria ir a Medroc, não importava o quanto ela quisesse ser altruísta.
— Garret não se importa com a aliança, . Ele quer vingança, isso é muito claro para mim. Conheço-o por quase toda a minha vida, ele não é como o Jeffrey, mas também não é confiável. Nunca gostei dele, nem quando éramos crianças. Jeffrey era quieto, além de ser difícil interpretar as suas ações, ele nunca mostrava o que queria, sempre concordava com todos e parecia estar ao dispor da maioria. Hoje eu sei que era tudo uma tática, ele era extremamente esperto. Mas Garret não, sempre pareceu um garoto mimado a fim de chamar atenção. Tinha a boca porca e a piadas infames, e quando colocava algo na cabeça, ninguém conseguia tirar. Ele decidiu que quer se vingar de mim e ele fará isso, . Com ou sem você.
— Mas se eu não for ele terá um motivo para declarar guerra a nós. – A princesa interpelou.
— E se você for ele irá matá-la e eu guerrearei contra ele de qualquer jeito. Guerra por guerra, prefiro mantê-la aqui viva e a salvo em vez de entregá-la.
não concordava, isso só daria mais um motivo para Medroc usar contra Ílac, entretanto, sua mãe estava decidida.
— Mãe... Sinto muito, mas não podemos arriscar.
— Não há discussão, . Eu já me decidi! – levantou-se e caminhou em direção a porta, encerrando o assunto.
— Eu direi na reunião que não concordo, mãe. Eu vou para Medroc e não há nada que possa fazer! – a princesa ergueu a voz, chamando a atenção da mãe enquanto ela abria a porta.
— Você não irá, . Perdoe-me – sussurrou as últimas palavras. Rapidamente postou seu corpo para o lado de fora do aposento e fechou a porta em um baque, deixando a garota com o cenho franzido pela incompreensão.
A princesa correu em direção a porta para acompanhar a mãe, porém ouviu o barulho das trincas pelo lado de fora, prendendo-a no aposento. tentou girar a maçaneta e puxar a porta, porém a mesma não abria, havia a aprisionado em seu quarto. Bateu na madeira e gritou a sua mãe para que a libertasse, mas nada ouviu em troca, ela havia a largado lá para que não fosse à reunião, deixando a princesa possessa com o ato.
correu até o lugar onde ficava a passagem secreta, mas assim que chegou lá, constatou que ele também estava trancado pelo lado de fora, fazendo a garota grunhir furiosa.
havia premeditado tudo, ela não havia confiado que apenas uma conversa convenceria a ficar. Se a menina tivesse puxado pelo menos um pouco da mãe, era claro que ela iria ser firme em salvar o seu povo. Trancá-la era a única forma de deixá-la de fora de tudo aquilo, enquanto comunicava a Garret a sua decisão final.
Enquanto a rainha saía sorrindo e aliviada pelo corredor afora, gritava e socava a porta, na esperança que alguém a ouvisse e atendesse o seu clamor. Pena que mesmo que a princesa gastasse todas as suas cordas vocais no momento, nenhum soldado da coroa a atenderia. Não depois de receber as ordens explícitas da sua grande soberana. Não, ninguém iria contra a poderosa em seu castelo.

*


A rainha já estava em seu trono, esperando que o restante das pessoas convocadas chegassem para a reunião. Revelaria a sua decisão primeiro a eles, aos que precisava do seu lado caso a guerra emergisse. Não queria ter contratempos ou mesmo pessoas interferindo em sua palavra quando Garret fosse comunicado.
Cameron já estava perto dela e, juntos, aguardavam e Hector, que haviam acabado de adentrar no salão real. Eram os melhores homens que ela possuía no reino, tinha convicção disso. Seu tio, apesar de nunca ter lutado na guerra, sempre trabalhou com o seu pai e aprendeu tudo com ele. Foi treinado como rei, apesar de não ter o cargo, por isso, era muito sábio e seus conselhos muito apreciados. Hector havia sido o melhor guerreiro ao lado de Miles e tinha experiência nas táticas de guerra, enquanto era o homem que agora comandava todo o exército de Ílac. Os soldados o respeitavam e não haveria outra pessoa que substituísse Hector tão bem quanto ele.
— Agora que estão todos aqui podemos começar! - A rainha estendeu a mão, indicando o início da pauta em questão, mas foi interrompida com os passos furiosos de Helena que entrava no local.
A mulher caminhou até ficar de frente a filha, o semblante parecendo calmo, mas a respiração forte a denunciava.
— Não ia me convidar para a reunião, filha? – Helena falou com o tom ressentido e raivoso.
— Não acho necessário já que você não é mais a rainha daqui. – simplesmente respondeu.
— Eu sei sobre a guerra tanto quanto qualquer outro aqui, ou você acha que o seu pai me deixava ausente das suas decisões? Eu estive presente quando o acordo foi feito, eu tive uma voz ativa para cerrar a guerra na primeira vez, posso ser útil na segunda. Deixe seus problemas pessoais comigo do lado de fora, . Se o seu pai estivesse vivo ele estaria aqui nessa sala, não há motivos para você me excluir disto! – Apontou para o chão, indicando a reunião.
deu um suspiro frustrado, não queria ter que lidar com a sua mãe no momento, olhou para Cameron e ele deu um aceno com a cabeça, concordando com a presença da mulher.
— Dê-me algum trabalho e você será carregada daqui nem que seja a força, estamos compreendidas? – A rainha deu a condição para Helena, que abriu um pequeno sorriso e com toda graciosidade caminhou até um assento, ficando mais próxima de .
— Agora que estamos todos aqui, creio que podemos começar. Qual a sua decisão, Majestade? – Hector perguntou a .
A rainha varreu seu olhar por todos ali e respondeu segura dos seus atos.
fica.
Houve um momento de tensão na sala, Helena praguejou baixo, sabendo o que essa decisão implicaria. Hector mordeu a bochecha interna, constatando que aquilo não seria nada bom, enquanto ponderava se ele estava aliviado com a notícia ou não.
— Você sabe o que isso significa, não é? – Cameron perguntou-a, obtendo um aceno de cabeça em resposta.
O tio suspirou, passando a mão por sua testa que apontava gotículas de suor. Os dedos das mãos de Helena tamborilavam ao seu lado e ela mordia o lábio inferior, contendo-se para não falar o que queria a grosso modo e ser expulsa do local. Um embate com a filha não a levaria para onde gostaria, portanto, tentaria ficar calada o máximo que pudesse até saber o momento certo para tentar persuadir .
— Majestade, a senhora sabe que lutei anos por Ílac e dediquei toda a minha vida e lealdade aos . – Hector caminhou até estar de frente para , a fim de que ela o olhasse nos olhos e o compreendesse. — Sei que ama a sua filha e quer o melhor para ela, mas uma decisão dessa implicará em uma declaração de guerra imediata. Essa é a nossa única chance de manter a paz. Muitas pessoas morreram para conseguirmos esse contrato, peço-te que reflita bem antes de tomar tal decisão.
A rainha continuou em sua mesma posição, sem mexer um fio sequer. As palavras do homem não a alteraram em nada, ela já tinha ponderado isso tudo e a sua decisão se mantinha firme.
— Diga-me, Hector. Você acha mesmo que o rei de Medroc se dará por satisfeito quando tiver a minha filha em mãos? – indagou, fechando o punho com força. — Garret quer vingança. No momento que ele colocar as mãos em ele a torturará ou mesmo a matará. Qualquer coisa que faça declararmos guerra. A morte do irmão não será saciada tão fácil com um casamento. O meu cunhado nunca se preocupou em casar e de uma hora para outra exige isso? Logo ? A sobrinha? – falou do parentesco sentindo a amargura por mentir diante de . — Não creio que seja tão tolo, Hector!
— Majestade… - O homem tentou interceptá-la, mas o interrompeu, levantando a mão para ele e ordenando-o que se calasse.
— Não estou aqui para pedir a opinião de vocês, Hector. Eu estou os comunicando – respondeu duramente.
Helena fechou a sua mão em punho e não se conteve.
— Então é isso?! Vamos todos nos sentar e ser coniventes com a sua escolha, a espera da guerra chegar? Duvido que qualquer um nesta sala pense como você, . Você não está sendo racional, está se deixando levar por suas emoções, como sempre fez. Desde nova, por mais que eu tentasse te ensinar, você sempre, sempre – repetiu com ênfase – tomou decisões estúpidas.
A veia saltou pelo pescoço da rainha e a sua testa franziu. Inspirou para tentar manter a calma, Helena queria a tirar do sério, se ela se exaltasse daria a ela o que queria, faria parecer que estava sendo levada apenas por vãs emoções, o que não era verdade.
— E foi essa mesma sabedoria que a levou a ficar presa por tanto tempo? Que eu saiba tem surtos de loucura há anos, desde que o meu pai morreu. Dei-lhe uma chance. Não faça eu me arrepender, Helena. Com o Jeffrey morto eu não preciso de você aqui. Aliás, quem me garante que não foi você que o assassinou?
A rainha apenas arqueou uma sobrancelha e abriu a ponta de um sorriso, mostrando que não tinha mais medo de sua mãe. Ela era a governante agora, por mais que Helena pudesse ter seus truques, também tinha os dela.
pigarreou a garganta e aproximou-se do grupo, chamando a atenção de todos.
— Acho que estamos perdendo o foco aqui. Não creio que qualquer coisa que digamos mudará a decisão da rainha. – O guerreiro interpelou, fitando os olhos dela profundamente. Ele sabia em sua própria pele como poderia ir até o final com as suas conclusões. — Eu sinceramente não sei se é isso que deveríamos fazer. Talvez mandar a menina nos daria mais tempo para nos preparar, porém, em contrapartida, eu concordo com Vossa Majestade em relação ao rei de Medroc. Enviar é apenas um aperitivo, isso não irá pará-lo.
— Oh, céus! Ordinariozinho, ainda não superou a paixão platônica pela minha filha?! - Helena abriu os braços exclamando e o corpo de se petrificou com a fala da mulher. — Vocês são uns tolos! Todos uns tolos! , o teu orgulho e as suas emoções irão te levar a ruína – olhou para a filha desapontada — General… esperava mais de você depois de tudo. Achei que, pelo menos, o seu rancor o ajudaria a ter uma opinião sensata, mas pelo visto você está muito encantado ainda para contrariar a minha filha. Cameron, você sempre foi um subalterno mandado e sem voz nesse castelo. Não me é novidade nenhuma a sua pacatez. E você – terminou olhando para Hector, frustrada. — Dentre todos, achei que faria de tudo para preservar a aliança da paz. Você estava ao lado do Miles, lutaram juntos… Palavras não podem expressar a minha decepção! Ílac irá ruir, e eu espero que o peso do sangue e da morte de cada cidadão pese nos ombros de cada um de vocês.
A antiga rainha virou-se, deixando todos para trás, retirando-se para o seu aposento. Resignar-se-ia a concordar com tudo aquilo, suas mãos eram manchadas de sangue, mas eram por fins necessários. Não admitia uma chacina deslavada de toda a população. Esta nova guerra ela jamais admitira e, pior, pelo jeito não havia nada que pudesse fazer.
Por mais que cada um na sala não concordasse com as acusações, interpelá-las nesse momento só tornaria tudo pior. Não tinham tempo para isso. Que cada um julgasse as suas próprias escolhas e as motivações por detrás delas.
— Creio que agora que o espetáculo da minha mãe já terminou, podemos prosseguir. – endireitou-se em seu trono, reordenando a sua postura. — Eu chamei-os aqui para anunciar a minha decisão e angariar o apoio de vocês no que virá a seguir. Infelizmente a guerra é inevitável, mas podemos nos precaver o máximo que pudermos.
Antes que qualquer um pudesse responder, Garret entrou na sala com sua pose altiva de sempre, não se preocupando em ser convidado ou não. O sorriso estava em seu rosto, era como se estivesse pronto para buscar o seu troféu.
— Olha, , estou vivo, mesmo depois de tudo. – Apontou com a mão para o seu próprio corpo, enquanto caminhava até a rainha com seus soldados ao redor por proteção.
— Eu lhe disse que não tínhamos nada contra você, Garret. Ílac não quer uma guerra, não tenho culpa na morte de Jeffrey.
— Bom… se haverá guerra ou não, é o que veremos, não é? – Estalou a língua no céu da boca, tendo a repugnação de Hector e em resposta. — Então, , onde está a minha princesa? – O olhar de Garret passou pelo salão e franziu o cenho ao perceber que a menina não estava ali. — Onde. Ela. Está? – perguntou pausadamente com o tom mais duro.
— Lamento, Garret. – respondeu tranquila, cruzando as mãos por sobre a sua perna.
O rei de Medroc passou a mão furiosamente pelo seu rosto, guiando-a até por seu cabelo. Em seguida começou a rir, passando a língua pelo lábio superior assim que o eco das risadas se findaram.
— Oh, , você irá se arrepender tanto disso! – Seus olhos eram como presas para cima da rainha.
— Não precisa ser assim, Garret. Você pode partir em paz e ficar em Medroc até que o luto pare de ofuscar a sua mente e possa perceber que somos inocentes.
— Claro! Óbvio que eu vou partir em paz. Depois da morte do meu irmão, matar o rei de Medroc não lhe cairá bem frente aos outros impérios, não é? Todos se voltariam contra a senhora. Oh, o carma, . Nem pode me matar aqui e garantir que eu não lhe faça nada. – Riu, lambendo os lábios novamente.
— Melhor partir antes que anoiteça, Garret. – sugeriu, mas o tom de sua voz denunciava a ordem.
— Sim! Muito obrigado pela maravilhosa hospedagem, sogra – pronunciou a palavra como se fosse mel em sua boca e torceu o nariz com o apelido, sentindo o seu estômago afundar.
O rei de Medroc chamou os seus homens e, junto com a guarda que lhe esperava na saída, aprontou a comitiva e partiu de volta para a sua terra. Sabia que a rainha não faria nada com ele, ela não poderia. Todos os outros reinos se voltariam contra ela e Ílac estaria sozinha no caos. Além do mais, era a única suspeita de matar o próprio marido, a situação dela já estava ruim o suficiente.
A cavalaria trotou em meio aos pastos, partindo por um dos caminhos mais curtos para o seu lar. Assim que chegaram ao limite entre os dois impérios, Garret ordenou que parassem. Olhou para as grandes estacas que hasteavam bandeiras brancas em suas pontas, o símbolo da paz. Havia também um entalhe de madeira em forma de um tigre com uma serpente enrolada em seu torso, símbolos de Ílac e Medroc, respectivamente, unidos, significando a junção dos reinos. Em seus pés estava escrito a data de quando o acordo fora selado, quando o tempo de calmaria finalmente havia sobrevindo em suas terras.
— Queimem tudo! – O rei rugiu para os seus homens. — Eu quero ver cada pedaço desses tecidos brancos virarem pó. Nosso povo foi humilhado! Ílac não se preocupa mais com a aliança que perseveramos por tantos anos. Cortaram nosso sangue, pisaram em nosso povo… Mas isso acaba aqui! Mostraremos a eles quem nós somos! Em nome de Rory Buckhaim, que travou essa batalha na primeira vez, eis que nos levantaremos de novo em busca do resgate da nossa glória e poder! VIVA A MEDROC! – O rei rugiu, cavalgando por entre seus homens.
Cada soldado bradava em volta, batendo os punhos nos próprios peitos. Os homens partiram com hostilidade, derrubando cada estaca e destruindo todas as bandeiras. Juntaram as madeiras e trouxeram o entalhe, simbolismo da paz, para o antigo local onde foi travada a última batalha dos dois impérios. Com furor colocaram fogo em tudo, fazendo subir uma grande chama aos céus.
O cheiro das cinzas era forte e a fumaça preta já tomava conta do local, entretanto, isso não impediu que Garret chegasse perto das chamas e retirasse do seu bolso um pequeno tecido com o brasão de Ílac, que havia surrupiado durante a sua estadia no castelo.
Jogou o pedaço de pano no fogo, vendo aos poucos o brasão inimigo ser consumido. A excitação tomou conta da sua pele, fazendo-o abrir um sorriso contente e ignorar a quentura do fogo que ardia sobre si. A euforia dominava os seus poros e a adrenalina o consumia a cada momento que assistia tudo virar pó. Era dada a largada, era o começo do fim.
— Chegou a hora de Ílac cair!



Capítulo 20

O dia havia sido agitado, estava cansado e precisava de mais do que uma noite de sono para poder colocar a sua cabeça de volta no lugar. A guerra estava vindo e Garret não tardaria em revidar.
Todos os guerreiros são preparados para uma batalha, mas só se sabe a sua força quando ela realmente acontece. Por isso, estava ansioso. Mesmo sem ter medo de se colocar na linha de frente, receava que não soubesse liderar os homens de forma satisfatória. poderia ser a rainha e dar as ordens, mas o General sentia como se todas as vidas estivessem também em suas mãos. Se não fosse o mais esperto, mais forte e mais astuto, muitos morreriam. Ele era o Rochedo, grande guerreiro de Ílac e líder do exército, todos esperavam que fosse o salvador.
Não havia procurado a guerra, mas, ainda assim, ela o achou e, agora, a vida dos homens e do seu povo estava em sua responsabilidade.
Precisava beber alguma coisa, pelo menos por uma noite para que pudesse alvejar a sua mente. Mas estar embriagado em meio a um tempo incerto não seria sábio, por isso, optou apenas por um suco, que lhe foi entregue no próprio aposento em que estava localizado.
Derramou o líquido no copo e levou-o até a cama, onde se sentou para descansar. Virou o líquido de uma vez em sua garganta, sentindo o frio escorrer da sua boca até o estômago, não dando-lhe nem tempo para cuspir o gosto amargo que sentiu em seu paladar. Levou o copo até as suas narinas, cheirando o líquido com cuidado, e percebeu um odor estranho, um aroma levemente conhecido, mas que não conseguia lembrar-se de onde lhe vinha à memória.
Não demorou muito e o guerreiro sentiu o seu corpo ficar mole. Sua mão não seguia o seu comando, o copo caiu ao chão derramando o líquido pelo tapete e o corpo dele pendeu sobre a cama, impossibilitado de se mexer. Sua visão começava a ficar turva, tentou gritar por socorro, mas não sabia se alguém lhe escutava devido às paredes grossas do castelo.
Aos poucos, percebeu a presença de alguém em sua frente. Os cabelos dourados chegavam à cintura, o olhar feroz o analisava enquanto chegava cada vez mais perto. A mulher curvou um pouco a cabeça, olhando para sem piscar. Passou os olhos pelo líquido no chão e depois para o corpo dele jogado sobre a cama e sorriu.
O guerreiro tentava se mexer, mas era inútil, a visão estava cada vez mais borrada e quando tentou perguntar quem era ela, a língua embolou-se dentro da boca e não soube se havia soado algo audível.
A loira ajoelhou-se ao lado dele e ergueu a mão para os cabelos do General, acariciando-o lentamente com suas unhas cobertas de terra.
― Deixe-nos em paz! – sussurrou no ouvido de .
Ele tentou balbuciar, não compreendia o que ela queria dizer, mas agora sabia de quem se tratava, as marcas azuis pela pele eram frescas em sua memória. A pele de urso cobrindo os seus ombros, as tranças no cabelo e o corpo aparentemente esguio e pequeno, porém forte. Já havia visto antes.
― A ganância atrai, cega e destrói os homens. Você viveu para impedi-la, grande guerreiro. Não deixe que cheguem até nós ou lutaremos como bravo contra vocês. Estamos em nossa terra, mas destruiremos a sua se precisarmos. – Prosseguiu, pairando a sua boca por cima da dele.
Lentamente abaixou-se e colou os seus lábios no guerreiro e ele remexeu os olhos em desaprovação. Não tinha controle do seu corpo, sentia-se inanimado. Era como uma alma dentro de uma estátua, sem poder mexer um mísero músculo sequer.
A mulher pousou os seus dedos no queixo dele, forçando para que ele abrisse a boca. Mordiscou os lábios de e logo em seguida enfiou a sua língua por entre eles, mesmo que não estivesse sendo correspondida. Para finalizar, afastou-se um pouco e cheirou a pele do guerreiro até chegar ao seu pescoço e deixar uma pequena lambida no local.
― Será uma lástima ter que matá-lo – completou, parando o seu rosto sobre o dele de forma que ele podia sentir o hálito quente da mulher.
Os olhos de estavam cada vez mais embaçados, não conseguia compreender direito o que ela falava, nem sentir o toque dela sobre si. Somente percebia seu corpo desfalecer, até que a escuridão tomasse conta da sua visão, pensamentos e sentidos.

*


A rainha desceu pelas escadas, passando pelo corredor obscuro que a levaria para um lugar conhecido e tenebroso. Dois guardas, um de cada lado da porta, protegiam o local. Olhou a imensa porta de madeira envelhecida e inspirou, esperando estar pronta para fazer o que fosse necessário ali dentro.
― Ela está aí? – perguntou para um dos soldados.
― Sim. Tudo pronto como Vossa Majestade ordenou.
― Ótimo.
O cheiro de mofo impregnava o ar, lembrou-se de Helena, que havia ficado ali por tantos anos. Não era de se duvidar que ela tivesse enlouquecido no local. Por mais que o Poço da Morte tivesse sido modificado na época para recebê-la, sua história ainda era cravada nas paredes e o local carregava o cheiro e o peso dos assassinatos e torturas cometidos ali.
Do lado de dentro, outros dois soldados faziam a guarda e, no meio deles, Reynia estava amordaçada e amarrada em uma velha cadeira de metal enferrujado. Seus cabelos caíam em seu rosto e seu corpo se remexia na tentativa de livrar-se das cordas que apertavam a sua pele. Por um instante recordou-se de si própria, quando era ela em tal situação, entretanto, tratou de empurrar tais pensamentos para o fundo da sua mente. Não era a mesma coisa, ela não era Helena e Reynia não era ela, precisava focar nisso para conseguir ir até o final.
Parou diante da mulher, que não parecia tão bela como sempre estava pelo palácio. Havia alguns hematomas pelo seu braço, provavelmente causados pela força bruta dos soldados para trazê-la até local. Os pulsos sangravam devido às tentativas de soltura e o seu vestido estava sujo de sangue e rasgado.
― Tirem a mordaça dela! – ordenou.
Os soldados obedeceram e, assim que o pano foi retirado, Reynia gritou com todo o fôlego que possuía em sua garganta e com toda a força que conseguiu.
ergueu a mão e deu um tapa no rosto da garota, deixando a marca dos seus dedos em sua bochecha.
― Calada! – vociferou.
Foi o suficiente para um silêncio brutal expandir pelo local. A respiração da amante de Jeffrey estava descompassada, o movimento do seu peito era rítmico e ofegante. A garota fixou seu olhar na rainha, deixando o ódio escorrer pelo seu semblante.
também a encarava. Bateu um pouco os dedos em seu quadril, tentando buscar calma para dialogar com a mulher.
― Não adianta gritar, estamos longe o suficiente para que nem o mais alto barulho seja escutado, além disso, essas paredes são grossas demais para que o som ultrapasse. Não quero te machucar, Reynia, mas preciso que colabore comigo.
― Bela forma de dizer que não quer me machucar. – A mulher cuspiu no chão, a saliva misturada com o sangue da sua boca machucada.
As entranhas de se contorceram com as palavras, porém manteve-se firme.
― Você foi vista saindo da festa e caminhando em direção à cozinha. Por quê? Conte-me a verdade, Reynia, e tentarei abrandar a sua pena por respeito a seu pai e o seu irmão, que muito me serviram.
A garota olhou para a rainha e emitiu uma risada sarcástica, balançando a cabeça em negativa.
― Dizer o quê? Nunca acreditaria em uma só palavra minha. Quer que eu acredite que se eu confessar que matei o rei você irá poupar a minha vida? Como fará isso? A primeira coisa que o rei de Medroc pedirá será a minha cabeça. Desculpe-me, Majestade, se eu quero preservar a minha vida.
― Tem razão. – cruzou as mãos em sua frente. ― Irá morrer de qualquer forma. Mas, se confessar, poderei fazer um acordo de proteção para todos os seus entes familiares e queridos.
Os pelos da amante se eriçaram com o acordo, sentindo a sua raiva se expandir ainda mais. Seus olhos encheram de água e ela começou a se debater enquanto rebatia as palavras da rainha.
― QUEM?! Quem você acha que me sobrou?! Por culpa sua eu perdi todos que eu amava. Meu pai morreu para te defender, minha mãe desfaleceu de tristeza anos depois e não teve força suficiente para criar meu irmão e eu. A única pessoa que me havia sobrado era Olleon e até isso você tirou de mim. Por que tinha que seduzi-lo? Poderia ter todos os homens aos seus pés, mas Olleon era o único para mim! – esculpiu com raiva em meio às lágrimas que jorravam.
Uma sensação de culpa sobreveio em , mas ela preferiu expulsá-la. O máximo que poderia carregar era o peso de ter se envolvido com o irmão da garota. Contudo, a morte dos pais de Reynia não era algo para carregar em suas mãos. Não poderia tomar mais esse fardo ou não conseguiria extrair a confissão de Reynia.
― Isso significa que você matou o rei? – A rainha tentou concentrar-se no que era importante.
― Não, Majestade – respondeu com tom irônico e lambeu os lábios sujos de sangue.
― Não tem medo das consequências, Reynia? – perguntou, tentando arrancar-lhe a declaração.
― Não. Morrerei de qualquer jeito. Serei a escória, a cobaia para cobrir os rastros sujos desse castelo. Se eu disser que sim, morrerei. Se negar, morrerei de qualquer forma, pois Vossa Majestade já decidiu a sua suspeita sobre mim. A única coisa que irá me satisfazer é saber que o Rei de Medroc nunca irá ficar satisfeito com a sua tal descoberta. Você pode mentir, me acusar, seja o que for. Ílac e Medroc estão fadados a se destruírem de uma forma ou de outra e, quando isso acontecer, a sua dor e o seu sofrimento também estarão mais perto!
deu outro tapa no rosto de Reynia, fazendo-a se calar. Sua respiração estava mais forte, as emoções afloradas. A tensão e o medo deixavam todos à flor da pele. Sabia que precisava fazer alguma coisa antes que Garret pudesse pelejar contra Ílac e que a mulher tinha razão em seu discurso.
A rainha poderia apenas acusá-la, dizer para o cunhado que Reynia havia matado Jeffrey por vingança pelo irmão morto. Mas Garret não acreditaria fácil assim, ele queria um motivo para guerrear e não deixaria isso passar. Se ao menos a mulher confessasse com seus próprios lábios diante de todo o reino, poderiam ter uma chance. O povo talvez acreditaria e Garret não teria como justificar a guerra para os impérios aliados, pois a batalha seria injusta e sem valor.
Mas Reynia não cederia, mesmo se fosse culpada. Ela havia deixado isso bem claro. Ameaças não adiantariam, a mulher não tinha mais nada a perder além da própria vida e, pelo visto, também não tinha medo de morrer. A rainha precisaria ser mais incisiva.
― Majestade, o estripador de seios está pronto. – Um soldado aproximou-se de , dando o recado alto o suficiente para que Reynia escutasse e arregalasse os seus olhos.
acenou com a cabeça para ele e o homem foi buscar o artefato. Olhou de volta para a amante, que começou a se remexer na cadeira para se soltar.
― Vai me torturar?! Acha que assim vai me fazer falar? – Reynia gritou, sentindo o desespero.
A rainha deu um passo para mais perto de sua prisioneira, expondo toda a frieza que conseguia transmitir. A confissão da mulher poderia salvar o seu reino, portanto, teria que deixar até a sua alma de lado, caso fosse necessário, a fim de conseguir o que queria.
― Você não me deixou escolha, Reynia – respondeu, ponderadamente.
― Bruxa sanguinária! Nunca vai ouvir nada que saia da minha boca e que possa te ajudar! Nunca! Prefiro morrer com a minha carne sendo arrancada do que ajudá-la. Mate-me, ! Mate-me! É melhor me matar antes que as cenas do meu corpo definhando grudem em sua memória, eu vou te torturar em seus pesadelos para o resto da vida! Cada sangue que escorrer do meu corpo requererá a sua alma. Irá se arrepender de me matar, a morte da minha família cairá sobre a sua, Majestade! – rugiu.
cerrou os olhos para a mulher, sentindo cada maldição jorrada contra si perfurar um pouco do seu escudo.
― Tragam a Pera da Angústia também – ordenou, sem deixar de encarar Reynia.
A amante fechou os dedos e cerrou os lábios em agonia. Seu pai era um soldado que sempre acompanhava o antigo rei durante a tortura dos seus inimigos. Ela ouvia muitas histórias, o suficiente para saber o que aquilo significava. Aquele instrumento horrível seria introduzido em sua vagina e se abriria em quatro partes, na medida em que o parafuso fosse girado. Reynia sabia que seria mutilada, morreria pela dor ou pela hemorragia adquirida dos seios arrancados pelo esmagador e da Pera que seria enfiada dentro de si. Sabia que precisava ser forte e tentar ficar lúcida até o fim da vida, não poderia ceder, não faria confissão nenhuma.
As roupas da mulher começaram a ser rasgadas. Enquanto um tentava conter o corpo dela parado, outro encaixava o Esmagador de Seios, enroscando o parafuso até que estivesse apertado o suficiente para que se começasse a tortura.
piscou, sentindo o seu estômago remexer. Observou as lágrimas de Reynia enquanto tentava lutar contra as mãos que a seguravam e só parou de se remexer quando o instrumento já estava alocado, pois, agora, qualquer movimento só lhe causaria dor.
Os seios da prisioneira subiam e desciam rapidamente, ergueu a cabeça e encarou a rainha com os olhos saltados, o rosto misturado com lágrimas, pó e sangue, um aspecto sujo, imundo e humilhante. Nua da cintura para cima na frente de todos, os pulsos e os tornozelos sangrando. Respirou fundo e preparou-se para a morte vindoura, mas, antes, quis deixar sua última confissão à rainha. Antes que ela se afundasse em dor, gritos e desespero. Antes que ela perdesse o domínio da sua mente e desfalecesse.
― É igualzinha a ela! Sangue do mesmo sangue… a maldade deve escorrer nas suas veias assim como nas da sua mãe. Vai querer esmagar os meus dedos também ou esse começo é pouco para você?!
A ciência desse fato deixou estupefata. Como poderia Reynia saber disso?
A comparação com a mãe trouxe a bile até a garganta da rainha. Desde que havia se dirigido para o caminho do calabouço, o seu coração estava apertado. Havia tentado ignorar o sinal que latejava em sua mente, mas as palavras soadas da boca daquela mulher tornou tudo real.
Precisava fazer o que fosse preciso, mas até que ponto os seus atos seriam justificáveis? Até onde ela se sentiria bem com isso? Haveria uma linha divisória entre necessidade e perversidade? Seria diferente os seus atos dos da sua mãe ou seriam tudo farinha do mesmo saco, manejados por suas próprias explicações? Como poderia fazer o que fosse preciso prosseguindo com a sua índole imaculada? Seria isso possível?
Um soldado se aproximou dela trazendo o outro instrumento de tortura requerido. olhou para ele, erguendo a mão para a Pera da Angústia.
Quando tocou o metal frio do instrumento, as imagens da sua mãe vieram a sua cabeça. A lembrança forte da dor que ela lhe provocou e a risada fria da mulher à medida que gritava de dor vieram como uma onda forte sobre si. Aquilo não seria nem próximo à dor que Reynia sentiria ao ser submetida pelos métodos de tortura escolhidos.
O metal pesou em sua mão, a rainha olhou para o artefato e apertou-o com força. Queria ter coragem de erguê-lo e usá-lo contra Reynia ao mesmo tempo em que queria achar outra saída.
Fechou os olhos rapidamente, não poderia demonstrar fraqueza. Uma rainha que não exalasse força jamais seria considerada digna de guiar o seu povo. Contudo, não conseguiu. Olhou para Reynia, que havia fechado os seus olhos, aguardando com medo o momento que a tortura começaria, e recuou.
Deveria ter uma forma menos brutal, algo que não rasgasse a sua alma. O que o pai de Reynia pensaria? Ele morreu ao tentar salvá-la da sua própria tortura e agora a própria faria algo pior com a filha dele?
Se ao menos tivesse certeza que a moça era culpada… Mas não tinham provas, apenas uma vaga informação.
Sabia que teria que ser dura, fora ensinada assim e medidas deveriam ser tomadas. Mas sentia que, no momento que fosse injusta e cruel como todos os outros, se afastaria da rainha que ela havia construído e buscado ser. Talvez pudessem achar que era uma fraqueza feminina. Mas desde quando para se mostrar forte ela precisaria cometer os mesmos erros que os homens cometiam? já havia passado pelo fogo e se reinventado, errar como todos só lhe tornaria mais uma dentre tantos membros da realeza. Além disso, um passado ruim não poderia justificar ações ruins em seu presente. Todos possuíam escolhas, afundar na sua história de vida grotesca ou utilizá-la para ser uma pessoa melhor.
― Leve-o de volta! – Entregou a Pera da Angústia para o soldado e apontou em seguida para o Esmagador de Seios que estava aparelhado a Reynia.
― Mas, Majestade… - o soldado interpelou, entretanto, foi cortado pela rainha.
― Eu mandei que levassem os instrumentos de volta. – Franziu o cenho e uniu as sobrancelhas, virando-se para o soldado.
― Como quiser, Majestade. – Curvou-se diante da rainha e afastou-se, enquanto o soldado atrás da prisioneira começava a desenroscar os parafusos para tirar o Esmagador.
― Não vai mais… – Reynia sussurrou e arregalou os olhos em surpresa, não conseguindo nem completar a frase. Os olhos embargaram-se de água com o alívio, mesmo que talvez ainda fosse morrer. Para ela, provavelmente a rainha estava apenas abandonando a tortura para lhe dar uma morte mais rápida. Ainda assim, seria melhor do que morrer aos poucos. ― Libere-a das amarras! – Deu outra ordem.
ignorou Reynia e observou enquanto ela era liberada. Os seios e alguns pedaços do tronco haviam ficado com marcas vermelhas por causa do aperto do instrumento no corpo dela, os locais da pele que os soldados retiravam as cordas ficaram a carne viva. Um roxo extenso já começava aparecer na lateral esquerda do rosto da garota e o lábio estava inchado com o corte.
A rainha andou até a porta do local e chamou os soldados para irem com ela, em contrapartida, para os que estavam encarregados da guarda da amante do falecido rei, apenas expressou uma ordem:
― Assegurem-se a prisão da possível traidora da coroa. As refeições estão suspensas até que eu diga o contrário.
Não usaria ferro e fogo, no entanto, descobriu uma nova forma que talvez fizesse Reynia confessar.
A rainha, após as ordens, foi embora, preferindo não encarar a sua prisioneira mais. Não podia sentir pena ou remorso, a guerra estava vindo e, juntamente a ela, escolhas difíceis deveriam ser tomadas. Reynia infelizmente era um efeito colateral da situação em que o país se encontrava. E que os céus a ajudasse, pois, por mais que tivesse dado uma chance à mulher, se precisasse deixá-la com fome para salvar o seu povo, então o faria.

*


Em seu quarto, estava inconformada com o ato da sua mãe. Sentiu-se enganada e, por mais que sua mãe estivesse zelando pela sua proteção, trancá-la havia sido um golpe baixíssimo.
Ela estava decidida, pronta para salvar o seu povo, mas agora as pessoas achariam que era uma covarde, que preferia esconder-se em seu quarto a encarar o destino da coroa que lhe era selado, contudo, não era verdade. Era destemida e corajosa, no entanto, havia sido impedida de cumprir o seu legado.
No momento em que sua mãe lhe trancou, tentou sair de todas as maneiras, a garganta já ficara seca de tanto gritar por ajuda. Desistiu quando o sol se pôs e percebeu que, àquela altura, a reunião já havia terminado e a guerra provavelmente já declarada.
A noite passou lentamente, enquanto ela ponderava todas as consequências do ato da sua mãe. Estava tão atordoada, que recusou-se a pensar na revelação que a sua mãe havia lhe dito. Não podia desconcentrar-se, sua preocupação deveria ser o seu povo.
Rodava e rodava em mil possibilidades que pudesse tirar o seu país dessa situação, no entanto não encontrava. E, caso não houvesse uma solução, apenas poderia lavar as suas mãos, extinguindo-se da culpa das mortes que seriam geradas.
Contudo, antes que dormisse, naquela noite um pequeno pedaço de papel passou por baixo da porta da princesa. Sem um anúncio ou um reclame do seu autor. Era apenas uma letra borrada, mas que poderia ali trazer a solução para os seus problemas.
Era arriscado, poderia ser uma armadilha, afinal, ela nem mesmo poderia confirmar a veracidade do que estava ali.
A princesa tinha coragem o suficiente para dar a sua vida pelo povo, mas não era tola para entregá-la debilmente sem fim algum.
Levou o papel até a um candelabro que ficava na cômoda do seu quarto e o colocou diante do fogo, fazendo subir o cheiro da queima. Verdade ou mentira, era melhor que ninguém lesse o que estava escrito ali. Se fosse alguém tentando enganar-lhe, não faria diferença, contudo, caso fosse verdade, muita coisa poderia mudar, o caos provavelmente se instalaria, mas também poderia haver esperança. Até que entrasse em contato com ela novamente, o melhor que ela faria era desaparecer com as provas.
Enquanto isso, precisava pensar em uma outra alternativa e a única plausível, por enquanto, seria tentar achar quem era o culpado pela morte do homem que um dia achou que fosse o seu pai.
Sua primeira opção era o General, nada antes lhe tirava da cabeça que ele poderia ter atendido o seu desejo, no entanto, apesar de ter poder e coragem suficiente para isso, ele teria que vir preparado e intencionado para tal coisa ao castelo. Ninguém anda por aí carregando um ácido livremente. Ao menos que ele já estivesse planejando isso.
A sua mãe também estava descartada - não por falta de vontade -, mas pelo fato que, para quem conviveu a vida toda com o monstro e o suportou, jamais o mataria de maneira tão falha para que a culpa recaísse sobre si na frente de todos.
Tentou listar na mente o nome de pessoas que odiavam Jeffrey, porém a lista ficou tão grande que resolveu parar. Poderia ser qualquer um. No meio da confusão de pessoas de um lado para outro na organização da festa, não seria difícil envenenarem o vinho. Talvez nem mesmo fosse alguém de dentro do castelo. O que Jeffrey mais tinha era inimigos dispostos a isso.
Porém, ela não tinha como perturbar a sua mente pensando em quem ela mal conhecia. Precisava analisar aquilo que estava diante das suas possibilidades. Começou analisar em sua volta, as pessoas ao seu lado. Hector e Isaac estavam com ela. Sarah, por mais que não gostasse do rei, não era esse tipo de pessoa. Cameron se tivesse uma ordem poderia ser capaz de tal ato, mas sabia que a sua mãe não tinha lhe pedido isso. Portanto, só sobrava Reynia e a sua avó como opções.
Reynia era a amante de Jeffrey e saiu apressadamente do salão, portanto era uma grande suspeita. Deveria ir até ela assim que possível para averiguar esse fato. E, logo em seguida, havia Helena.
A sua avó seria muito capaz de ter ocasionado a morte. A rixa entre Jeffrey e ela era tão grande que chegava a ser palpável quando estavam juntos. Além disso, Helena era capaz de qualquer coisa, não seria à toa que a mulher havia ficado presa por tanto tempo no antigo Poço da Morte. Muito estranho que logo agora que a mulher estava à solta novamente, o rei havia morrido.
Não aconteciam coincidências no reino, o que existiam eram atos altamente intencionados, prontos para derrubar qualquer um que fosse considerado um estorvo.
Agora Helena havia se tornado a sua maior suspeita e, se dependesse de , ela iria atrás da verdade.

*


Ainda de madrugada, quase perto do amanhecer, um soldado destrancou a porta do quarto de , dando-lhe o recado que sua mãe havia a liberado.
Sem poder perder tempo, saiu em disparada. Se havia uma chance de descobrir a verdade por trás da morte de Jeffrey, precisaria ser logo, mesmo se isso implicasse entregar a sua avó, sangue do seu sangue.
Enquanto caminhava em direção ao aposento dela, lembrou-se de como a avó sempre fora carinhosa com ela e, ao mesmo, tempo enigmática. O amor que ela nunca havia demonstrado com Luigi, era remetido toda a princesa. sempre gostou da avó e, enquanto criança, confiava nela cegamente. Entretanto, o amor por sua mãe sempre foi maior e, se tinha tantas ressalvas com Helena, era porque alguma coisa não estava certa.
A garota nunca perguntou, não havia tido oportunidade, ou talvez, bem lá no fundo, ela não quisesse mesmo saber e estragar a imagem que tinha da avó. Entretanto, era esperta e curiosa, não era à toa que sempre tentou se aproximar de Helena, tentando decifrar o baú de segredos que ela carregava, mesmo a contragosto da sua mãe.

― Você tem tudo o que precisa para ser a maior rainha de todas, . Eu estarei do seu lado, lhe protegerei e te ensinarei como se tornar tudo aquilo que você pode ser.
― Como a mamãe? – a menina perguntou para a avó.
Helena sorriu, os olhos brilhando, escondendo algo que a pequena não soube decifrar.
― Vê como sua mãe é destemida? As pessoas tremem quando ela passa, ela não tem medo de nada. – A princesa acenou com a cabeça, afirmando. ― Eu a fiz assim. Graças a mim ela é a maior de todas. Deixe-me guiá-la, , e nenhum ser na terra poderá contra você.
― Mas o papai enfrenta a mamãe! – a princesa afirmou, recordando-se de todas as brigas que presenciara escondida.
― Jeffrey é apenas um efeito colateral, querida. Alguém que precisamos lidar para estar no topo. Não significa que não podemos controlá-lo. Deixe que os inimigos pensem que são fortes e estão no controle, são onde eles mostram a sua fraqueza. Surpreenda-os. Nunca mostre tudo àquilo que você é capaz, não deixe que ninguém te conheça por completo até que chegue a hora. O melhor ataque vem do inesperado. Camufle-se, ouça e aprenda.
― Não sei se sei fazer isso, vovó.
― Você pode, minha querida. Você não é impulsiva como a sua mãe, tem as qualidades dela, mas não os mesmos defeitos. És a minha pupila! Seu sangue é mais merecedor do que o de todos nós. Vem dos dois maiores reinos, será a mais poderosa de todas e eu estarei ao seu lado para te orientar.
― Obrigada, vovó. – Abraçou a mulher, dando um beijo em seu rosto enquanto Helena sorria.

piscou, voltando a realidade. Não podia negar que muito dos ensinamentos da avó lhe foram úteis, ajudaram a formar quem ela era. Ou melhor, quem achavam que ela era.
A princesa caminhou até a porta em passos firmes e abriu-a sem cerimônias. Andou até uma pequena mesa que ficava no centro do quarto, arrastou uma cadeira e acenou para Helena, que estava encostada na janela, chamando-a para unir-se a ela ali.
― Oi, . – A voz da mulher não era a mais receptiva de todas e a garota percebeu isso. Normalmente ela era tratada com carinho e condescendência, mas sua avó parecia não estar com paciência para nada disso no momento.
― Gostaria de conversar com você. – Foi direto ao ponto.
― Sim. E sobre o que quer falar? Em como você está aqui ainda quando deveria estar em Medroc ou sobre quem de nós morrerá primeiro quando a guerra chegar?
Os olhos de Helena pareciam fogo, as rugas da sua velhice estavam mais expostas e os seus dedos abriam e fechavam em sua mão.
― Nenhuma das duas coisas. Até porque, não tenho culpa do estado em que nós estamos, não foi uma decisão minha.
― Claro que não. Foi a estúpida da sua mãe! – cuspiu com raiva, as unhas perfurando a pele da palma da própria mão.
― Deixe-a fora disso!
― Veio até aqui defendê-la? – Helena arqueou a sobrancelha, ecoando as suas palavras. ― Eu deveria ter sido mais dura com ela. sempre foi uma fera indomável dentro de um corpo humano. Palavras nunca funcionaram, mesmo quando pequena. Ela é irrefreável! Só aprendia no meio da dor, chantagem e suborno. Não deveria ser assim, mas é o que é, e por isso agora estamos todos perdidos.
A antiga rainha olhou em direção à janela, perdida em seus próprios pensamentos e palavras.
― Houve uma época que você a admirava. – recordou-a, puxando na mente às vezes que a avó dizia que a sua mãe era uma grande rainha.
― Sim. Quando ela atendia o que eu dizia. Eu a levei ao topo e agora ela o desmoronou. Você não deveria estar aqui, , você será a causa da perdição de todos nós.
― Acredite em mim, eu estaria em Medroc se eu pudesse. Mesmo que isso causasse a minha ruína pessoal, ainda que desse ao Rei Garret o meu corpo para ser despedaçado para o seu próprio orgulho. Não tenho medo de morrer, vovó. Eu só preciso que o meu povo e as pessoas que eu amo estejam a salvo.
Helena segurou um pequeno sorriso, um traço de orgulho da neta a sua frente.
― Diga-me o que lhe trouxe aqui, querida – pediu, recostando as suas costas na cadeira.
― Eu quero a verdade.
― Qual delas? – deu uma risada. ― Há tantas escondidas por aí e outras tantas que não devemos nem saber. Do que se trata isso, ?
― É muito fácil culpar a minha mãe ou qualquer outro sobre as consequências da guerra, mas estamos fazendo as perguntas erradas. Eu quero saber o início. Há um jogo maldito nesse castelo que eu ainda não desvendei, mas algo me diz que começa com você.
Helena balançou a cabeça e riu, achando graça da posição da menina diante dela, mas o ato só causou furor à princesa. Ela sabia que avó não era a graça que se mostrava para ela. Pelo contrário, Helena era justamente a pessoa que havia lhe ensinado como guardar a sua força, ideias e personalidade.
― Eu sou apenas uma velha senhora que a filha se rebelou. Uma mulher injustiçada e incompreendida por causa da minha vasta sabedoria. O que uma pessoa como eu poderia fazer? – apontou a mão para o seu próprio corpo, demorando-se mais nos locais enrugados da sua pele.
tirou um pequeno punhal escondido da sua roupa e colocou-o em cima da mesa, apontando para a mulher a sua frente.
― Confesse, vovó! – disse com um tom duro, causando surpresa em Helena.
― E o que eu deveria confessar? – Cruzou os braços e arqueou a sobrancelha, soando confusa.
― Não tente me enganar, vovó! – A princesa abriu um sorriso, zombando da mulher. ― Eu sei que você não ficou esse tempo todo presa à toa. Minha mãe jamais faria isso sem justificativa, então, boa coisa não deve ser. A senhora não é o anjo que aparenta.
― Sua mãe tem uma visão muito equivocada de mim, . Não acredito que depois de todo esse tempo que a gente passou juntas, você não confie em mim! – Colocou a mão no peito, ultrajada.
― Se você acha mesmo que eu daria meu voto a você ao invés dela, então se enganou.
― O que quer de mim, , o que quer saber? Seja específica! – Helena retrucou, cansada daquele jogo.
― Quero que confesse que matou Jeffrey.
Helena retesou o seu corpo e arqueou uma sobrancelha.
― E por qual motivo eu confessaria algo que eu não fiz? O que te leva a pensar isso? Todos nesse castelo o odiavam, sua mãe principalmente, e você acha que logo eu sou a culpada? – aumentou um tom de sua voz enfurecidamente.
― Sim, você está certa. Todo mundo o odeia, eu estou inclusa nisso, mas até agora lidamos com ele vivo, não? Porém, logo após estar solta, ele faleceu… – revelou suas suspeitas para a avó, que apesar de ter uma expressão fechada perante as acusações, não aparentava tão afetada.
― Uma infeliz coincidência. Ou feliz, eu diria. Já que poderíamos dar outra festa agora para comemorarmos que ele morreu – Sorriu, fazendo as rugas de seu rosto ficarem ainda mais proeminentes.
― Eu não estou brincando! – encorpou a voz e segurou firme o punhal, estendendo na direção da avó.
― O que acha que vai fazer com isso, criança? Matar-me? – Cruzou os braços para a neta diante da mesa, desafiando-a.
― Não! Por enquanto só estou te mostrando que estou de olho em você. Não deixarei minha mãe levar a culpa em seu lugar, essa guerra não é dela, alguém causou isso e eu vou descobrir quem foi. – Levantou-se da cadeira, ficando de pé.
― Achei que éramos amigas, doce criança – Helena lamentou, aparentando estar sentida com a desconfiança da princesa sobre ela.
― Faço-me de tola perante os que se dizem sábios para que eu obtenha as respostas que necessito. – Sorriu como a avó sempre fazia para ela, recordando-se dos conselhos de Helena e mostrando a mestre que a sua pupila era uma excelente aprendiz.



Capítulo 21 - Parte I

tentava se levantar, porém seu corpo parecia pesar uma tonelada. Suas pálpebras teimavam em ficar fechadas, por mais que ele tentasse abri-las. Além disso, sua cabeça doía como se tivesse se embriagado na noite anterior.
Não se recordava de muita coisa. Estava em seu quarto, bebeu um pouco e o resto eram vultos e misturas de flashes que não conseguia entender.
Forçou os seus olhos e com a mão direita empurrou o seu corpo para cima, a fim de se sentar. Pousou a esquerda na cabeça, sentindo-a latejar, enquanto a sua vista começava a se recuperar aos poucos.
— Argh! – reclamou, sentindo fraqueza em seus membros. — O que houve aqui? – sussurrou para si mesmo.
Olhou em volta do seu quarto, tudo parecia absolutamente normal. Lançou os pés para fora da cama, inclinando o corpo um pouco em direção aos seus joelhos e colocando as duas mãos por sobre a cabeça. Fechou os olhos novamente, tentando se recuperar, entretanto, uma onda forte de vômito subiu por sua garganta, fazendo com que ele colocasse a cabeça entre as pernas e botasse tudo para fora.
O gosto amargo cobriu o seu paladar e sentiu uma queimação por onde o líquido intragável havia passado. O odor nojento subiu pelas suas narinas, fazendo com que ele olhasse para a gosma esverdeada no chão.
Foi naquele momento que ele percebeu o copo caído junto ao líquido que estava nele. Piscou tendo pequenas recordações. A paralisia dos seus membros, a mulher que sussurrava em seu ouvido… Não podia ser coisa da sua cabeça, ali estava à prova. havia sido procurado, Ocland estava de olho nele e ele não conseguia entender o porquê.
Em passos lentos arrastou-se até o banheiro, esperando que a água gelada o ajudasse a se recuperar. Entrou na pequena banheira e com um pequeno vasilhame derramou o líquido em seus cabelos compridos. Esfregou-os com uma barra de sabão e deixou a espuma escorrer pelo seu corpo, querendo retirar qualquer toque que a mulher maldita de Ocland tivesse deixado com a sua mão. Passou a esponja de espiga pelos músculos do seu tórax, descendo até o abdômen, tão forte que a pele arranhou e começou avermelhar.
Estava cansado de sentir como se fosse um peão dentro de um jogo. Parecia que, mesmo que ele fugisse de tudo, as circunstâncias iam atrás dele. Lutou por sua independência, tentou traçar o seu próprio caminho, conseguiu status, poder e respeito, mas, ainda assim, parecia ser apenas um boneco que tentavam manipular.
Estava de volta ao castelo, ao lado da mulher que tanto amou e o desprezou. Cada dia dentro daquele lugar o deixava mais intrigado, quanto mais ele tentava entender, mais perdido ficava. Os reinos estavam em guerra e, para completar, Ocland agora o perseguia. Não poderia ser mera coincidência, havia mentiras que precisavam ser descobertas caso quisesse agir sabiamente para com Ílac.
Como um bom guerreiro, ele sabia que precisava pensar racionalmente, deixando todas as emoções de lado. Mas, quanto mais permanecia naquele palácio, mais a sua mente o confundia. Já não sabia se estava apto para assumir o comando do Exército. Milhares de pessoas dependeriam dele para salvar as suas vidas, entretanto, será que ele seria racional o suficiente para tomar tais decisões de forma fria e sábia?
Após o banho, o guerreiro vestiu os seus trajes, deixando a sua espada empunhada em sua cintura. Saiu do aposento para percorrer o castelo atrás do seu amigo, Hector. O homem não estava no seu quarto, nem na cozinha. Passou por vários salões do castelo, porém, não encontrou. Subiu até o andar dos aposentos reais como uma última opção e estancou quando reparou Hector de frente para a porta de Helena.
— O que está fazendo aqui? – O guerreiro o encurralou.
O amigo deu um passo para trás com o susto e piscou duas vezes, desconcertado.
— Estava apenas de passagem – gaguejou um pouco ao falar.
— Encarando a porta da mãe da rainha dessa forma? O que está aprontando, Hector?
O homem franziu os lábios e enrugou a testa, olhando para os lados para ver se alguém passava no local.
— Eu não estou fazendo nada, – sussurrou e pegou o braço do guerreiro, arrastando-o dali.
— Não é o que parece. – Puxou o membro de volta, fazendo uma carranca para o amigo.
— Olha… você não entenderia. - soltou o ar pelas narinas e colocou a mão na testa. — Juro pela nossa lealdade que não é nada que tenha que se preocupar. – Tocou o brasão na armadura em seu peito durante a jura.
— Eu não confio nela, Hector. Eu vivi aqui, passava por ela todos os malditos dias. Uma alma domesticada na frente de todos, mas aqueles olhos… eram diferentes do falecido rei Miles. Quando estava longe dos demais, eu via o desprezo, essa mulher é ardilosa. Ela não me engana.
Hector puxou o ar pelos seus pulmões e passou os dedos por sua testa devagar.
— Eu sei, eu sei… - resmungou. — Helena sempre foi… misteriosa. Mas, o que você faria se precisasse de você? – estendeu a mão para que não o interrompesse ainda. — Antes de criar todo esse ódio… suponhamos que vocês tivessem um término amigável, aquele que vocês já esperavam que teriam, sem confusões. Você a ignoraria? – Hector jogou a pergunta no ar, fazendo refletir.
e ele sempre souberam que a história deles teria um fim. Estava premeditado. O que não contava era com a forma que ela faria, a expulsão, jogar o seu pai doente e ele às traças das ruas frias de Ílac.
No entanto, se tudo fosse diferente, se o término fosse de outro modo, sabia que ainda beijaria o chão que a rainha passava. Seria ainda o menino inocente e sonhador que era. Sofreria por ver o seu amor nos braços de outro, mas compreenderia que era o destino que ela estava selada a ter.
Se recorresse a ele, era claro que a atenderia sem pensar duas vezes. E, por isso, o silêncio do grande guerreiro foi à resposta que Hector precisava, fazendo-o sentir satisfeito, entretanto, ele sabia que o seu amigo não deixaria isso passar tão fácil.
— Está me dizendo que você e ela tiveram um relacionamento? – desviou-se da pergunta, colocando o amigo contra a parede.
— Já disse que não é da forma que pensa. Helena sempre foi leal ao Miles e eu nunca entraria nesse meio, contudo, deixemos o passado para trás. Eu só precisava estar aqui. Esqueça isso, . Temos coisas mais importantes para fazer – respondeu, nervoso.
O guerreiro colocou a mão no ombro do antigo general, apertou um pouco forte e o encarou para que ele não pudesse desviar o seu olhar.
— Eu vou deixar isso passar, Hector. E faço isso por respeito a nossa amizade e por tudo o que fez por mim. Estou confiando nos seus instintos, nos mesmos instintos que te levaram a me salvar quando eu ainda era um garoto. Só peço-lhe uma coisa, não deixe que Helena entre em sua mente. Eu posso até depositar a minha confiança em você, mas não nela. E se eu suspeitar que essa mulher tenha parte com alguma coisa que está acontecendo nesse castelo, eu não titubearei em enfrentá-la, mesmo que isso destrua o seu coração.
Hector engoliu em seco e acenou com a cabeça, concordando com o amigo.
— Não se preocupe – colocou a sua mão por cima da de em seu ombro. — Se ela tiver parte nisso eu mesmo a derrubarei.
— Vamos sair daqui – o guerreiro chamou, levando-o até o escritório que a rainha havia separado para que pudessem fazer os planejamentos estratégicos do reino.
Ao chegar, passou os olhos por todos os cantos, constatando que estavam sozinhos. Entrou no local e fechou a porta, jogando o seu corpo no sofá aveludado do canto da sala e colocando as mãos por sobre o rosto.
— O que aconteceu? – Hector perguntou, aproximando-se. Cruzou os braços e ergueu a sobrancelha, só agora notando como o amigo parecia aflito. Sua pele estava mais pálida que o normal e a bolsa dos seus olhos proeminentes.
— Você ainda tem os sonhos? – indagou-o, mordendo a bochecha interna em preocupação.
O amigo franziu o cenho e balançou a cabeça em negativa.
— Já tem algum tempo que estou livre deles. Na verdade, desde que vim para cá que não os tenho. Por quê? Eles ainda estão te incomodando?
— Não acho que foi um pesadelo dessa vez. - suspirou.
— Como assim?
— Hector, eles estiveram aqui! – Ergueu a cabeça, deixando transparecer o temor em seu olhar.
— C-como? – a voz do antigo general vacilou. — Não é possível, . Você está confundindo com a realidade. Eu sei que nunca mais fomos os mesmos, muitas vezes também pensei que os via, mas não é real. Ocland está longe de nós. Eles estão felizes por estarem seguros e distantes da nossa própria bagunça.
— Também pensei que estava alucinando, mas não foi. Uma guerreira oclandiana esteve no meu quarto. Ela colocou algo em minha bebida, parecido com aquelas ervas que usavam em nós. Tenho certeza! Quando acordei o meu copo estava caído no chão, da mesma forma como me recordava. Ela esteve aqui, Hector.
As pernas do ex-general tremeram e ele precisou sentar-se imediatamente. Seu coração acelerou, as lembranças corroendo a sua mente novamente.
— Não pode ser verdade…
— Queria eu que não fosse.
— O que eles querem? Por que estariam em Ílac?
— Eu não sei, não me lembro. Minha mente está confusa, tenho flashes de algumas cenas e palavras, mas não sei. Minha cabeça dói só de fazer força para lembrar-me de alguma coisa. Recordo algo sobre ganância e não chegar a Ocland, apenas isso – respondeu, massageando as suas têmporas.
— Se realmente um deles está aqui, pode haver outros. , isso é muito sério, podemos estar sob ataque, precisamos avisar a rainha. Não consigo entender como chegaram até nós sem serem avistados.
— Eles são bons em se esconder, Hector. E respondendo a sua pergunta, eu não acredito que estamos sob ataque, pelo menos não ainda. Se Ocland quisesse vir contra nós, eles já teriam feito isso em vez de nos dar um aviso. Além disso, você tem certeza de que quer contar para alguém? Dizer tudo o que passamos naquele lugar? As alucinações, paranoias, os sonhos… quem nos daria crédito? Após fazer o relato seremos tidos como loucos. Ninguém acreditará que eu realmente vi alguém de Ocland aqui. No máximo acharão que eu estava embriagado.
Hector passou a mão pelo rosto, mordendo o lábio em nervosismo. Seu pé balançava freneticamente enquanto tentava pensar no que havia acabado de escutar.
— Está certo – concordou. — Mas ficaremos de olho. Qualquer outro movimento precisamos estar preparados e caso fuja do nosso controle, passaremo-nos por loucos, mas, pelo menos, tentaremos salvar a nossa terra.
concordou, deixando o ar sair por seus pulmões. Esperava que não precisasse chegar a esse ponto e torcia para que Ocland não fizesse mais das suas aparições assustadoras.
— Também tenho uma notícia ruim para dar. – Hector chamou a atenção do guerreiro, fazendo-o olhar para ele com a feição preocupada. — Garret queimou todas as bandeiras da fronteira por onde passou, inclusive o nosso símbolo da paz. Ou seja, ele acaba de anunciar a guerra para toda a população, o povo está histérico.
— Isso já era esperado. Ou vocês achavam que depois de tudo isso ele voltaria para casa e deixaria tudo para trás? – sorriu irônico.
— Óbvio que não. – Hector rolou os olhos. — Mas achávamos que demoraria mais alguns dias até que o povo descobrisse. Agora estão todos assustados, teme por uma guerra civil. O medo transforma as pessoas, homens que temem perder a vida podem cometer loucuras.
— Ela deveria ter se preocupado quando optou por não enviar a filha para Medroc, como o combinado – respondeu depressa e com raiva das proporções que as coisas estavam tomando.
Hector uniu as sobrancelhas, franzindo a boca em reprovação.
— Não é fácil estar na posição dela.
— Também não é fácil estar na posição do povo – rebateu, fazendo Hector soltar o ar pelo nariz.
— E se fosse você?
— Como assim? – Enrugou a testa.
— Se fosse a sua filha, entregaria de bandeja para o louco do rei de Medroc? Ainda mais sabendo das perversões do seu reino? Os boatos podem ser aumentados, mas dificilmente foram inventados. Garret Buckhaim é maluco! Que homem de boa índole pediria a sobrinha em casamento?
O guerreiro ficou em silêncio, ponderando a situação com outros olhos. Será que ele teria coragem de tomar as decisões que dizia agora se houvesse algum laço afetivo envolvido?
— Eu sou sozinho, Hector. Há muito tempo não sei o que é ter uma família, amor ou qualquer coisa parecida. Você é a pessoa mais próxima que tenho. Se eu tivesse uma filha – fechou os olhos, imaginando como seria essa realidade paralela, se lembrou dos pesadelos, o sentimento terrível que sentiu quando a garotinha morria –, se tivesse alguém do meu sangue neste mundo, eu daria a minha vida para protegê-la – finalizou.
Hector conteve um sorriso, sabendo que era exatamente isso que esperava do amigo. tinha uma capa grossa marcada pela vida difícil, por fora era um leão valente que rugia e poderia enfrentar a todos, mas por dentro, um coração manso e dócil como uma ovelha.
— Então você entende a rainha – explicou para ele.
levantou rolando os olhos e batendo os pés pelo chão do escritório.
— Isso é uma situação hipotética, Hector. Eu não tenho familiares. Assim que eu morrer o sangue voltará ao pó da terra junto com as entranhas dos meus pais, selando o fim da minha linhagem. Sendo assim, eu preciso fazer a minha função como guerreiro e General de Ílac, preciso ser a parte racional que não conseguirá ser. – Abriu os braços durante a sua fala.
Hector ficou calado, analisando o amigo. Balançou a cabeça e levantou-se também, aprontando-se para se retirar.
— Tudo bem. Mantenha a sua cabeça no lugar o máximo possível, você pode precisar dela em situações futuras e extremas. Vamos esquecer isso, agora você precisa ir até a rainha traçar as estratégias. O cerco está se fechando e estamos ficando sem tempo.
Hector estendeu a sua mão para , que a apertou de volta. Ambos saíram, o mais velho indo em direção oposta do mais novo. O guerreiro agora indo encontrar-se com a rainha que já o aguardava no Grande Salão Real.
No caminho, olhou para o lado, pensando ter visto um vulto pelo corredor. Balançou a cabeça, temendo estar paranoico, não poderia ter complexo de perseguição justo agora. Era exatamente isso que Ocland queria fazer com ele, enlouquecê-lo como sempre, precisava evitar que a sua mente tomasse direções involuntárias. Continuou caminhando, acenou para alguns guardas reais no trajeto e encontrou mais adiante, que parecia estar chateada.
— Olá, Alteza – cumprimentou a menina assim que se encontraram.
A garota, que ainda remoía a conversa que havia tido com a avó, tirou a carranca do rosto e sorriu para ele, iluminando os seus olhos.
— Olá, grande guerreiro. Para onde está indo?
— Preciso encontrar a sua mãe para que possamos começar a adotar estratégias de ataque a Medroc – respondeu, fazendo a menina franzir a boca, pensativa.
— Gostaria que não fosse necessário – refletiu. — Não quero que pense que sou uma princesa fútil e boba, Sr. . Eu não fugi da minha responsabilidade – a princesa quis esclarecer com firmeza, desejando que as pessoas não a achassem fraca por estar no castelo de Ílac ao invés de Medroc.
— Não penso tal coisa, Alteza – deixou claro. — Sei que está aqui por obra da sua mãe.
— Não quero que chateie-se com ela também. – A menina uniu as sobrancelhas e segurou para não sorrir da cara séria que a menina tentava emitir diante dele. — Minha mãe tem pensamentos diferentes dos meus, mas, ainda é a rainha, portanto, desgostoso ou não, todos aqui precisam respeitar a sua decisão. Estou lhe explicando porque confio em você, será a minha mão direita um dia, não é, General?
arregalou um pouco os olhos com o pedido sério que ela lhe fez, mas de forma tão informal e tranquila. Esforçou-se para não demonstrar a sua surpresa, parecia que quanto mais ele tentava se afastar do castelo, mas queriam o cravar lá.
— Claro, Alteza. Se achar que lhe serei útil estarei ao seu dispor – afirmou, fazendo com que abrisse um sorriso.
— É o maior guerreiro do nosso tempo, Sr. , me será muito útil. Por isso, já adianto-lhe que não fujo das minhas obrigações. Eu cumpriria o meu destino, não jogaria a paz dos reinos fora por um mero capricho.
não conteve o sorriso, a nostalgia dos velhos tempos tomando conta da sua mente. Recordou-se da época em que ainda estava aos beijos nos seus braços, escondidos pelos corredores do castelo, o tempo em que a adrenalina falava mais forte e que, apesar de tudo, ela sempre deixava essa mesma frase bem clara para ambos, ela cumpriria o seu destino sem pestanejar, passando por cima do seu próprio coração.
— É muito parecida com a sua mãe. Fala exatamente como ela em sua juventude – relatou, antes mesmo que se desse conta das suas palavras, e sorriu com os olhos brilhando pelas memórias boas que ainda guardava do seu tempo.
O semblante de se contorceu, um pequeno sinalzinho incomodando a sua mente, a curiosidade corroendo a sua língua.
— Conheceu a minha mãe, Sr. ? – a princesa o indagou, franzindo o cenho e fazendo-o perceber a gafe cometida.
— Quem não a conhece, Alteza? Ela é a rainha. – Deu uma risada forçada, que soou um pouco falsa.
mordeu o lábio, deixando os seus olhos percorrem e analisarem o guerreiro.
— Mas você pareceu realmente a conhecer. Disse “na juventude”. Precisaria estar próximo a ela para saber até como ela falava naquela época, não? – questionou-o, fazendo o guerreiro ficar nervoso com o erro cometido.
— Eu já morei aqui no castelo, princesa. Meus pais trabalharam a vida toda para a realeza. Eu vivia vendo a sua mãe correr por todo o canto acompanhada do rei Miles. É só isso. Às vezes estávamo-nos mesmos lugares, poderíamos até ter trocado algumas frases, não sei. Porém, onde uma princesa andaria com um reles plebeu como eu era? – tentou soar irônico, mas as gotículas de suor em sua testa e os dedos que tamborilavam na lateral da sua coxa mostravam diferente.
engoliu em seco, analisando agora cada detalhe do homem a sua frente. Poderia ser ele… sempre achou que seus cabelos, mais claros que o da mãe, era herança de Jeffrey, mas, agora sabendo que ele não era seu pai, poderia ter outra explicação. Os olhos do guerreiro eram do mesmo tom que os seus. Poderia ser apenas coincidência, quantas pessoas no mundo têm esses olhos?! Contudo, por outro lado, a cor da pele não tão pálida e um pouco rosada, os traços definidos da boca, a forma que os lábios subiam quando sorria, fazendo uma pequena cova na bochecha…
Não seria algo claro caso não soubesse, porém, quando revelado ficava tão óbvio… Adicionado à história da sua mãe, era como um tiro certeiro dado no alvo. Ela não tinha como estar enganada. Talvez fosse esse o motivo da empatia que sentiu pelo guerreiro desde a primeira vez que o viu.
Os olhos de encheram-se de água, deixando desconcertado e sem entender o que estava acontecendo. A menina estava estagnada na sua frente e parecia que iria chorar a qualquer momento.
— Você está bem, princesa? – perguntou, roubando-lhe a atenção.
— Maravilhosamente bem – sussurrou, erguendo a mão para tocar a bochecha do guerreiro, que deu um passo para trás, confuso.
A princesa balançou a cabeça, compreendendo que estava passando-se por louca, respirou fundo e tentou conter toda a euforia de emoções que tomavam conta do seu ser naquele instante.
— Desculpe, passei por muitas coisas esses dias... Eu só precisava… - engoliu as palavras. — Na verdade, eu preciso de um abraço, General – pediu, cravando os seus glóbulos oculares em direção aos olhos de , que estava atento à princesa.
O general retesou um pouco antes de atender ao pedido. Aquilo não era normal, tão pouco comum. Só não estava preocupado porque não sentiu malícia no tom da menina. A garota realmente aparentava querer somente um abraço, seja por qual fosse o motivo que a levava ter tal necessidade.
— Se não vier por espontânea vontade, temo que terei que lhe ordenar, General – sorriu para ele, deixando uma lágrima escapar por sua bochecha em meio ao riso.
Era um choro de felicidade, um orgulho que nunca havia sentido em seu corpo. Queria gritar para que o mundo soubesse que tinha o sangue mais honrado de todos, que não precisava se envergonhar mais por achar que a podridão de Jeffrey estava em sua carne. Seu pai era um homem de origem simples, mas digna. Um homem correto e justo, um homem que ensinou a sua mãe o que era o amor e por isso ela também foi amada. Independente da separação ou do caminho oposto trilhado, havia sido fundamental em sua vida.
O guerreiro andou lentamente até ela, abrindo os braços e puxando a menina para o seu afago. A garota enlaçou os braços por sua cintura, apertando-o como se não quisesse o largar nunca mais. A voz subia como um bolo em sua garganta, o tempo todo vinha à vontade de gritar e contar-lhe tudo, queria ser amada por ele, queria receber o seu afeto de pai, tinha vontade de explodir ali sem medo das consequências.
podia sentir o coração dela saltitando forte em seu peito e as lágrimas molhando a sua roupa. Não entendia o que estava havendo ali, mas um calor forte inundou o seu interior. Fechou os olhos, deixando aquele sentimento diferente o preencher. Era estranho. Não era o que havia sentido por , mas tão pouco também a relação que tinha com Hector. Era um sentimento de cuidado e carinho, algo gostoso que não sabia descrever.
Não teve vontade de soltar a menina e ela também não parecia disposta a isso. Levou a sua mão para afagar os cabelos dela e ela ronronou o seu corpo contra o dele apreciando o carinho. Teve vontade de embalá-la e pedir para que não chorasse. Por um momento ele não estava sozinho e sentiu como se alguém precisasse dele, o verdadeiro , e não o Guerreiro esperado por Ílac. Naquele instante a dor das suas percas não o atingiam, pelo contrário, era como se ganhasse algo que ele ainda não fazia ideia do quê, mas era confortável, satisfatório e espetacular.
Entraram em uma bolha até serem interrompidos por um barulho de cacos partindo-se ao chão. O guerreiro deixou os seus braços caírem rapidamente, dando um passo para trás para se afastar da princesa. passou a mão no rosto para enxugar as lágrimas e olhou para o lado, vendo a sua mãe pálida encarando os dois.
não sabia o que dizer para corrigir a situação que nem ele entendia, enquanto tremia, estancada no lugar. A taça de cristal que ela carregava em suas mãos estava partida em vários pedaços devido ao susto que ela levou.
? ? – Olhou de um para o outro, com medo do que esperar. Não estava pronta para lidar com a revelação da paternidade da filha agora, muito menos imaginava o que o guerreiro faria com a verdade. Isso é, se fosse esse o motivo para a cena que havia visto. Ela esperava que sim, por mais difícil fosse, ainda era melhor opção do que pensar outra coisa.
A princesa segurou as laterais do seu vestido e correu até onde a mãe estava, deixando para trás. Já supunha o que a mãe pensaria daquilo, no mínimo imaginaria que ela teria dado com a língua nos dentes.
chegou até , segurou a mão fria da sua mãe e inclinou-se para sussurrar em seu ouvido.
— Eu não contei para ele, mas fico feliz por ter descoberto – sorriu, iluminando os olhos avermelhados pelo choro.
abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada. Tão pouco teve tempo. Após dar o seu recado, a filha saiu apressada, ansiosa para estar sozinha e poder extravasar a sua animação por ter descoberto que era o seu verdadeiro pai. E, com isso, expirou aliviada por não ter chegado o tempo em que teria que entrar em confronto com o Grande Guerreiro.



Capítulo 21 - Parte II

? - o guerreiro chamou-a, percebendo o semblante estranho da mulher.
A rainha pigarreou, tentando consertar o desconforto diante da situação presenciada nos minutos anteriores e arqueou a sobrancelha, tentando decifrá-la.
— Vamos! Temos muito que conversar. - Voltou a sua postura e deu meia volta, o seu vestido longo e preto se arrastando pelo chão.
Mesmo em aspecto de luto, os fios dourados da sua roupa lhe davam uma feição forte, adornando o tecido. O tigre de Ílac estava enviesado nas costas e exposto, devido ao cabelo dela estar preso em um coque alto em sua coroa, destacando ainda mais o olhar intenso da rainha.
notou como o pano envolvia o busto dela, descendo colado em sua cintura, e como contornava os seus quadris. Seu olhar não conseguia desviar do balanço do corpo da mulher, enquanto ela caminhava sedutoramente em direção ao salão. O tempo não conseguia abafar o desejo que sentia por ela. Olhava-a como uma presa que não poderia consumir, os olhos fulminantes atraídos pela essência que ela exalava. Piscou e percebeu que de predador havia virado a caça, e que era o ser que o levava para o abate. Era dominado e encurralado pelo seu aroma, sendo guiado para a sua armadilha, pronto para ser laçado a qualquer momento. E o pior era saber que ela provocava tudo isso sem ao menos ter entendimento de tal coisa. Não era premeditado, nem mesmo consciente. Mas diante de , seria sempre dominado, mesmo que lutasse e tentasse transparecer que não.
Assim que chegou ao salão, a rainha virou-se para ter certeza que o seu acompanhante estava mesmo ali, o silêncio dele a incomodava e a deixava desconfortável. Na verdade, estar sozinha com era uma luta contínua contra a sua própria carne e suas emoções. fitou o guerreiro e não deixou de notar o desejo que corria no semblante dele. Conhecia aquele olhar, era o mesmo que havia a arrebatado um milhão de vezes.
Bastou uma troca profunda de olhares para a luxúria inundar o ambiente, a rainha engoliu em seco ao sentir os poros do seu corpo arrepiarem com a intensidade que os cobria, fato esse que se intensificou no momento que o guarda fechou a porta do salão, deixando-os sozinhos no local.
não conseguia desgrudar os seus olhos da mulher, passou o dedão no canto do seu queixo e deu um passo à frente, percebendo a rainha paralisada no próprio lugar. Os lábios carnudos e bem desenhados dela se abriram mediante a falta de ar que parecia se fazer presente e, quando ela passou a língua lentamente por eles, o guerreiro não conseguiu manter-se afastado mais.
Alcançou-a com mais alguns passos, desejando tocar a pele dela e verificar se estava tão quente quanto à dele. Queria prová-la depois de tanto tempo, conferir se o seu sabor ainda era o mesmo depois de tantos anos.
Ergueu o polegar até a bochecha da rainha, fazendo com que ela fechasse os seus olhos institivamente.
Quanto tempo ela não sentia o seu coração convulsionar dessa forma?
— Por que, ? - seu sussurro grave a fez estremecer.
Ela não conseguiu responder. Era impossível fazer qualquer coisa enquanto sentia o ar quente das narinas dele bater em seu rosto e deslizar até a curva do seu pescoço, deixando um rastro de fogo por onde passava.
— Por que tem esse poder sobre mim mesmo depois de tudo? - o vibrado da voz dele direto na sua orelha a amoleceu. Ergueu a mão e segurou o ombro dele com força, cravando as suas unhas na sua armadura para que não cambaleasse. — Diga-me.
— Eu não sei - respondeu vacilante, sentindo a sua fortaleza ruir.
— Você também sente? - perguntou, passando o seu nariz pela bochecha dela, fazendo um frio correr em seu interior.
reprimiu a sua voz, com medo que caso ela abrisse sua boca pudesse deletar tudo o que havia escondido dele. Não sabia se seria forte o suficiente, já havia carregado esse fardo por tempo demais, se abstido do seu próprio eu por um período muito longo. Estava exausta e, se tinha uma pessoa com quem ela poderia compartilhar as suas cargas, esse seria . Sempre havia sido ele, nos momentos mais difíceis ele estava lá, quando ela precisou assumir o seu compromisso com Henrique, ainda assim ele manteve-se com ela. Não a oprim ia, apesar do seu sofrimento, acima de tudo entendia o chamado dela e o seu destino.
— Eu acho que sim… - ele mesmo respondeu e depositou um beijo no maxilar dela. — Eu me enganei por muito tempo, Majestade. Deixei que me manipulasse e me guiasse no seu jogo. - Traçou seus lábios na bochecha dela. — Mas aqui está você, a que eu conheci. Eu reconheceria essa sensação em anos, à forma como você reage ao meu toque, como seu corpo arrepia com os meus beijos, o modo que você demonstra que me quer assim como eu te quero. - Deixou um longo beijo no início do pescoço dela, fazendo com que a rainha curvasse a sua cabeça para o lado, dando-o mais acesso. — Eu percebo como me olha...
— Acabe com isso, - ordenou com a voz estrangulada, uma luta contra a sua carne e a sua razão.
Sentiu o lufo de uma pequena risada contra a sua pele, os dedos dele subindo pelo seu braço bem devagar, sentindo o ouriçar dos seus pelos.
— Eu me pergunto, então… Por quê? - pausou por alguns segundos. — Responda-me, .
— Não há o que dizer - retrucou, voltando a olhar para ele, seus narizes quase se tocando, os olhos profundos travados um contra o outro.
segurou o queixo dela delicadamente, aproximando as suas bocas tão perto que se roçaram. Ele não aguentaria mais, ali era o seu limite, precisava reassumir o seu próprio controle. O semblante inebriado do guerreiro mudou para um aspecto mais sério, mas nem por isso apagava a lascívia em seu olhar.
— Eu fiquei no seu jogo por tempo demais. Chegou a hora de dar as minhas próprias cartadas. – Deu um passo para trás, afastando-se dela. — Eu vou descobrir, , quer queira ou não. Você fez tudo a sua forma, orquestrou os seus planos, me tirou do tabuleiro, porém, eis que estou de volta e, quando eu acabar, a verdade virá à tona.
O corpo de se endureceu, a sensação quente que sentia foi transformada por uma rajada fria que borbulhou o seu estômago.
— Eu não o enganei, . Isso não é um jogo.
— Não acredito mais em você – rebateu e cruzou os braços.
— Não é porque te desejo que signifique que te amei - A rainha soltou as duras palavras, esperando que isso o afastasse o suficiente para que pudessem manter a sua relação estritamente dentro dos deveres reais. Não podia deixar o que sentia por dominar as suas emoções, esse lapso momentâneo não deveria ocorrer novamente. Aquilo havia sido um erro, uma distração que não poderia se sujeitar novamente.
Os olhos do guerreiro vacilaram rapidamente, quase que imperceptivelmente, entretanto, logo voltou ao normal e o lábio de se curvou para cima, lhe dando um aspecto irônico.
— É o que veremos, Majestade.
A rainha grunhiu em frustração e deu as costas ao guerreiro, que segurou um sorriso por notar como havia a atingido. Aquele pequeno momento havia sido revelador para ele. Ela poderia negar o que fosse, mas ainda estava ali, a faísca no olhar, a paixão que tanto viu nos olhos dela durante muito tempo. Ele reconhecia e sabia que aquilo devia significar algo.
Não esperava se derramar nos lençóis com ela novamente, mesmo que o desejo lhe consumisse a alma. Muita coisa havia entrado no meio dos dois, havia o destruído e, mesmo que ele pudesse ainda ter sentimentos por ela, não quer dizer que se deixaria vulnerável novamente. Nunca mais.
No entanto, a verdade era o mínimo que ele merecia depois de tudo. Saber o que havia causado a mudança tão brusca em suas vidas, o motivo das palavras tão frias contra ele e as atitudes tão drásticas que o guiaram para um rumo e um destino completamente diferente.
— Será que podemos nos ater ao que realmente importa aqui? - A voz endurecida de demonstrava a sua irritação com aquele momento.
— Por ora, sim - sorriu por ver a mulher do coração frio se descompor na sua frente. E que o chamassem de babaca por isso, que seja, ele havia ficado feliz por perceber que não era completamente e unicamente trouxa como pensava.
— O que tem a me dizer? – A rainha sentou-se em seu trono e apontou para ele, repassando a palavra para que ele respondesse.
— Ah, muitas coisas, ... - passou a língua por seus lábios e fez uma careta divertida.
Estava adorando ter o conhecimento disso tudo. Era difícil reprimir a alegria que sentia ao constatar que nem tudo havia sido em vão, que não havia vivido uma mentira ao final das contas. Era como se estivesse deixando reviver o garoto que existia nele antes de ter sido pisoteado.
! – o repreendeu. — Sobre a guerra, quero saber quais são as notícias, pelos céus, atenha-se!
A postura do guerreiro mudou, enterrando dentro de si a sua história pessoal com a rainha para que pudessem tratar dos negócios reais. notou como os ombros dele se alargaram e seu corpo endureceu, suspirou aliviada por ele saber ser profissional nos momentos corretos. Nisso era irrepreensível.
— A guerra já é um fato consumado. Recebemos notícias que Garret ateou fogo nas bandeiras e no símbolo da paz entre Ílac e Medroc. Aldeões que residem por perto relataram que viram a fumaça ao longe, foram até lá e confirmaram.
— Tivemos alguma baixa?
— Até o momento não, mas temo que teremos em breve. Todas as aldeias que ficam perto da fronteira estão em risco. Não temos como protegê-los de uma invasão de Medroc, o espaço territorial de ambos os países é enorme, mesmo que mandemos homens para fazer a guarda, não seria suficiente, não contra o batalhão que poderia vir contra eles.
A mão de cravou-se no braço do seu trono, se não teria como protegê-los, homens, mulheres e crianças morreriam.
— O que sugere?
— Diante da nossa situação atual não há muito que se fazer. Entretanto, podemos mandar ofícios para todas as aldeias mais próximas das fronteiras e que ficam no caminho da estrada principal que vai até Medroc, creio que devemos pedir para irem a Racsah. A cidade é mais fortificada e seria um lugar mais seguro para eles.
— Isso poderia instaurar o caos, imagine se todos tentarem se refugiar?! É muita gente, a desordem estaria à solta.
— Mas pelo menos eles ainda teriam uma chance de sobrevivência - respondeu e acenou com a cabeça, concordando. — Além do que, eles já sabem, aos poucos a notícia correrá por todo o reino, não temos mais como omitir.
- chamou-o por seu apelido, fazendo com que ficasse ainda mais atento. — Você acha que temos homens suficientes para uma guerra dessa magnitude?
— Sinceramente? - ela acenou. — Não.
sentiu seu corpo estremecer, até o momento ela não havia sentido medo em travar a guerra, no entanto, agora que ela estava cada mais palpável, sentia a ameaça e a expansão que as coisas tomariam.
— Só temos bastantes homens porque Vossa Majestade seguiu os mesmos parâmetros de alistamento do seu falecido pai, caso contrário, acho que nem ao menos estaríamos preparados. A calmaria faz com que nós nos descuidemos, só invocamos o Criador quando estamos em perigo. Se todos ficassem atentos nos dias bons, estaríamos mais preparados para os dias maus.
— O quer dizer, ?
— Dificilmente sairemos dessa com vida - foi curto e direto. — O território é grande demais, muitos homens morrerão, com certeza Garret está mais preparado do que nós, ele tem um plano, sem dúvidas, era uma distração que talvez pudesse adiar o seu ataque e nos dar um tempo hábil para nos preparar, mas, com certeza ele já tinha outro pensamento na manga. Deixe-me convocar os meus homens, cercar o castelo e fazer daqui uma fortaleza, enquanto o palácio estiver de pé, o nome de Ílac também estará.
— E quanto ao povo? - preocupou-se.
— Infelizmente temo que a sorte esteja dada.
— Como você pode dizer isso? Não foi você mesmo que interpelou por eles? - a rainha não conseguiria admitir que todas as pessoas estivessem jogadas a ruína.
— Isso foi antes, . Enquanto ainda tínhamos tempo para o elemento surpresa. O que acha que pode fazer agora? Mandar 150 homens para cada uma das 45 cidades que Ílac possuí? Mandar mais 50 para as centenas de aldeias que estão espalhadas pelo nosso território? Do que funcionaria? Esparramaria os seus soldados e ficaria sem homens o suficiente para um combate frente aos esquadrões que Medroc mandará. Além disso, acha que os mil ou mais homens medrockianos que se lançarão sobre as terras não derrubarão os nossos cem que estarão divididos? Se fizermos isso eu tiro a minha armadura e entrego o meu batente aqui mesmo, não precisa de mim, toda Ílac estará morta.
suspirou frustrada, sabendo que estava correto. As lembranças das palavras da sua mãe voltaram à sua mente.
“O sangue de Ílac estará em suas mãos.”
Não havia saída.
— O que acha que devo fazer? - tentou soar calma, ao contrário de como o seu estado refletia por dentro.
— Mande alguns homens sim, mas não muitos, não para protegê-los, pois isso será impossível, mas para prepará-los. Dê armamento para o seu povo, mostre que confia neles, mostre que se preocupa. As pessoas te respeitam e te adoram, , elas se unirão a essa luta conosco. Os soldados ajudarão com algumas dicas e instruções, se as pessoas estiverem armadas pelo menos poderão tentar se defender enquanto nossas tropas não chegam para o socorro. Enquanto isso, faremos pontos estratégicos no império, onde haverá batalhões grandes o suficiente para que possam socorrer alguma cidade ou aldeia, antes que elas sejam destroçadas. Peça que as aldeias mais próximas se unam por um tempo, quanto mais gente junta, com mais força poderão lutar.
ficou em silêncio, analisando meticulosamente as palavras do guerreiro.
— É um bom plano, . Faça isso, meus homens e meu exército estão em suas mãos. Confio em você.
Poderia ser simples palavras, mas para o Guerreiro, tinha um enorme significado.
— Enquanto isso mandarei cartas aos outros impérios. Não poderemos sozinhos, então invocaremos nossas alianças – completou.
— Isso é bom - concordou, olhando para a rainha. Um silêncio pairou entre os dois, o temor do que viria a seguir. Um plano sobre o futuro realizado às cegas contra Medroc.

*


Durante a tarde, uma criada entrou no quarto de trazendo o seu chá. A princesa estava sentada diante da sua escrivaninha, escrevendo algo em seu caderno. Fechou-o rapidamente ao ouvir a voz de Linade no aposento e virou-se com um sorriso, disfarçando o nervosismo que se encontrava.
— Alteza, trouxe-lhe o que me pediu.
A princesa arqueou a sobrancelha, não se recordando de ter solicitado nada.
— Alteza – chamou-a novamente e estendeu a bandeja para ela. — Não tenha medo. É o que a senhorita requisitou.
A princesa piscou em entendimento, olhou para a xícara em sua frente e viu abaixo dela um pedaço de papel.
Olhou de volta para a sua criada, surpresa por ela estar envolvida de alguma forma naquilo. Abriu a boca para interrogá-la, mas a garota balançou timidamente a cabeça negando.
— As paredes podem ter ouvidos - sussurrou, tendo um aceno da princesa em resposta.
varreu os olhos pelas letras em garrancho e o coração saltitou. Não imaginou que tudo aconteceria tão rápido, não sabia se estava preparada, mas tinha coragem o suficiente para enfrentar o que viria.
Mal tinha descoberto o pai, mal tinha descoberto o seu próprio coração. Era tarde demais, não teria tempo para nada disso. Talvez, em um futuro incerto, ela poderia ainda ser feliz. Precisava ter fé.
Puxou uma folha do seu caderno e escreveu umas palavras, dobrando e estendendo a criada.
— Estou pronta. - afirmou firme, sem desviar o olhar da garota em sua frente.
— Obrigada. - Enfiou o papel no vale entre os seus seios e deixou a xícara no criado da princesa. — Pela paz entre os reinos! - ergueu os três dedos da mão direita - indicador, médio e anelar - juntos e tocou o coração.
— Amém! - repetiu o gesto, abaixando a cabeça rapidamente.
A criada deu alguns passos para trás, as costas curvadas, andando de costas e afastando-se da princesa. Antes de sair, mirou , os olhos brilhando admiração.
— Obrigada.
Uma palavra, mas altamente significativa. A princesa entendia e, por isso, aquele pequeno e delicado gesto, fazia-lhe suportar qualquer coisa que viria a seguir.
Voltou seus olhos para o caderno e começou a descarregar algumas palavras.

“Se o medo me persegue
Volto ao lar em busca de abrigo
Se em paz me deito em meu leito,
Covarde eu sou.
Pode o leão não comandar a sua selva? Ou a galinha não proteger os seus filhos? Ao passo que me levanto
A coragem me domina
Piso a angústia em minha sola
E o meu medo se esvai.”

Enquanto se debulhava nos seus próprios pensamentos, Isaac entrou no seu aposento. Caminhou até estar no centro do quarto e parou para admirar a princesa, que estava curvada sobre a sua própria escrivaninha, os dedos ágeis traçando o papel. Seu cabelo estava enrolado e preso em sua tiara, apenas uma mexa caía e encostava-se a sua bochecha. Um deslize na perfeição da realeza, talvez não percebido por ela, mas que lhe causava um charme maior e fascinava Isaac.
Não conseguia acreditar que ela estava ali, bem a salvo. Seu corpo estremeceu com a constatação. Desde que havia a deixado e ambos se despediram, que o rapaz não saía do quarto, imerso em sua angústia por perder a sua amada. Quando a mãe lhe informou o que aconteceu, não conseguiu esperar, teve que provar com seus próprios olhos a veracidade da informação.
Maravilhosa! A sua deusa encantadora, que lançou o seu poder sobre ele desde que havia emergido do lago de Ílac. Sua sereia, encantadora de homens, sedutora fatal de corações. Só poderia ser isso, um encanto silencioso rogado por no meio do silêncio.
— Você está aqui… - sussurrou, chamando atenção da princesa, que abriu um grande sorriso ao vê-lo.
— Isaac! - Levantou-se da cadeira rapidamente e andou em passos rápidos até onde ele estava.
O rapaz não esperou, foi de encontro a ela e a abraçou com toda a força, comprimindo-a no seu peito.
— Eu achei que havia lhe perdido, deusa.
— Eu ainda estou aqui.
Isaac passou os seus dedos pelo rosto dela, querendo ter certeza que era a moça em carne e osso em suas mãos. Traçou um caminho pela sua mandíbula, descendo até o pescoço nu da garota. Com a mão esquerda, espalmou as costas dela, puxando-a mais para si e a direita foi direto para a sua nuca. Abaixou a cabeça e encostou os lábios na curva do pescoço da princesa, fazendo o corpo dela estremecer.
— Prometa que não vai me deixar de novo - sussurrou, cheirando a pele dela e depositando em seguida um beijo em sua orelha.
levantou os braços e segurou o ombro de Isaac, seu coração estava disparado e suas pernas pareciam que iria ceder a qualquer instante.
— Prometa que ficará comigo – ele continuou.
Deu um beijo no maxilar dela, sentindo a respiração acelerada da princesa e, em seguida, depositou um selinho no canto da sua boca.
— Eu não posso permitir que me deixe mais. Eu preciso de você, ! - Tocou o queixo dela para fazê-la olhar em seus olhos.
Ele queria dizer mais, ele sabia que era muito mais do que isso. Porém, também queria saber se era recíproco, se esse sentimento louco que o dominava também fazia parte do coração da princesa.
Ele já era acostumado a ceder às tentações da carne, ser levado pelos hormônios e desejos, mas aquela sensação era nova. O medo de perder era quase irracional, havia doído demais, havia acabado com ele.
— O que me diz? - perguntou para a menina, encostando a sua testa na dela.
sentia a euforia do seu coração. Tudo havia acontecido rápido. O primeiro beijo e a perda de Isaac. Mas agora ela não tinha ido para Medroc, agora Isaac estava na sua frente. Entretanto, ainda era um futuro incerto. Não queria fazer uma falsa promessa a ele, por isso, respondeu a única coisa que talvez o fizesse um dia entender o porquê das suas decisões.
— Não tenha medo! - sussurrou, passando seus dedos pela barba rala do rapaz, inclinou a cabeça, ficou nas pontas dos pés e uniu os seus lábios nos dele.
Isaac foi surpreendido com o beijo da princesa, mas não esperou muito para corresponder. Deixou a menina guiá-lo, conforme a sua vontade. Sentia-se hipnotizado pelo seu sabor e a forma inocente e doce em que ela demonstrava o seu afeto. Ela não o tocava por sua beleza e nem se aproximava por causa do sobrenome poderoso dele - até porque, ela era muito mais poderosa. E era a doçura do momento que os envolvia que deixava Isaac cada vez mais comprometido com ela.
A hesitante exploração da língua dela na sua roubou o seu fôlego. Isaac puxou-a pela cintura para cima, se inebriando com o calor do corpo dela sob suas mãos. rompeu o beijo, afastou-se um pouco e sorriu, dando coragem para que Isaac tomasse os lábios dela novamente, acariciando-a profundamente e saboreando a doçura da sua boca.
A mão dele arrastou-se pelo corpo dela, dando um aperto na curva da sua cintura. A garota arfou ao sentir o toque da mão dele e o som que ela emitiu fez com que Isaac a desejasse mais do que ele achava que era possível.
sentia as emoções a sucumbirem, pressionou os seus seios no peito dele e entrelaçou as mãos em sua nuca e Isaac retribui abraçando-a. Passou os braços nela e a tirou levemente do chão, caminhou e carregou a princesa até que as panturrilhas dela tocassem a madeira da cama e eles caíssem sobre ela. Isaac segurou o peso do seu corpo apoiando a mão no colchão, ao lado do rosto de .
Encarou a garota, absorvendo cada detalhe dela. A cor dos olhos que brilhavam e os lábios rosados e inchados devido os beijos calorosos. Percebeu também as maçãs do rosto dela se avermelharem a medida que ele a encarava. Um sorriso lateralizado despontou do rosto dele e ele abaixou a sua cabeça, tocando seus lábios na ponta do nariz da garota. O ato fez com que ela fechasse seus olhos e, em resposta, Isaac desceu mais os seus lábios e beijou a clavícula exposta pelo vestido.
O arrepio foi instantâneo. O calor se intensificou e fez com que mordesse a sua própria boca com a expectativa. Isaac estendeu a sua língua, primeiro lambendo e em seguida dando uma pequena chupada na parte inferior da orelha de , fazendo com que o corpo dela se arqueasse.
— Por muito tempo eu achei que tudo se resumia ao desejo – sussurrou no ouvido dela e virou o seu rosto, beijando agora o seu queixo, ao mesmo tempo em que deslizava o seu indicador pelo colo da princesa e descia vagarosamente até o vale dos seus seios. A respiração da garota acelerou ainda mais, um frio vociferou no seu estômago, junto a sua pele que parecia estar em chamas. Abriu os lábios, que foram reclamados por Isaac com vigor. Uma conexão profunda se formava entre os dois, um desejo latente um pelo outro, um vislumbre de esperança no meio do terror. Um sentimento que nasceu aos poucos e sem expectativa, algo inesperado e que, agora, emanava força para poderem lutar.
abraçou Isaac, fazendo com que o corpo dele recaísse sobre ela. O rapaz desceu a mão para o seu quadril e o apertou, acompanhado de uma pequena mordida deixada no lábio inferior da garota, que a fez arfar.
— Agora eu percebo que o desejo sem o amor não é nada. – falou baixo e com a voz rouca tomada pelo desejo, aclamou os lábios dela novamente e tentou exprimir tudo o que sentia naquele beijo.
Cada toque e carícias, a profundidade e os beijos inebriantes deixava-os tontos. Isaac alternava os seus lábios entre a boca da princesa e pele dela. Não sabia até quando aguentaria ficar somente assim. A vontade de desabotoar cada botão do vestido da princesa latejava com força. Queria poder tocar por baixo da roupa dela, sentir a sua pele nua, poder desfrutar dos seus arrepios nas partes ainda não desfrutadas, poder mostrar tudo o que ele sentia com o seu corpo e alma.
Afastou-se um pouco o seu corpo do dela, exigindo de si uma força brutal. Sua respiração estava ofegante e o coração saltitava com a energia que irradiava do momento. Olhou para , que ainda mantinha os seus olhos fechados e a respiração intensa. A pele do seu rosto, pescoço e colo estavam avermelhadas por causa da sua barba, que havia raspado pelos locais. Um sorriso lindo era expresso na boca dela, unido aos seus lábios avermelhados. O cabelo estava completamente bagunçado, algumas partes ainda presas e outras soltas e esparramadas pela cama.
Imaginou como ela ficaria ainda mais linda após poderem desfrutar plenamente um do outro. Por um instante, quase jogou tudo para o lado e tomou-a de uma forma que ele sabia que não haveria mais volta.
também queria, como nunca quis nada antes. Toda a sua racionalidade e segurança havia sido destruída. Todo o seu intento de nunca se envolver, ser sozinha e jamais ceder à emoção alguma caiu por terra. Nunca imaginou que quando um sentimento desse tipo batesse à porta, fosse lhe dominar por completo. Agora ela queria tudo, desfrutar de cada pedaço e sensação que Isaac estivesse disposto a lhe proporcionar.
Quando já sentia o frio em seus lábios por não ter mais os beijos de Isaac, abriu os olhos, notando que o rapaz a encarava, sério e com a respiração descompassada, uma mão agarrando o lençol ao seu lado e a outra apertando forte e duro a sua cintura.
— O que houve? - Ela perguntou, hesitante, sem entender o que estava acontecendo.
— Eu não posso… - fechou os olhos. As veias dos braços e pescoços estavam saltadas e pequenas gotículas de suor despontavam por sua testa.
Uma onda de vergonha e timidez inundou a princesa. A sua consciência voltando para a posição comprometedora em que estava com Isaac por cima dela, entre as suas pernas, na cama e com seus corpos colados. Percebeu que vez ou outra os olhos de Isaac pairavam em seu colo e depois se desviava para o lado, ela ergueu a mão até o local, só agora percebendo que os seus seios estavam quase todos expostos, pois, em algum momento, o seu vestido havia descido.
A garota empurrou Isaac levemente, tentando rolar para o lado e desviar dele, mas ele não se moveu.
— Não diga nada - pediu a princesa, tentando puxar o vestido para cima e desviar o seu rosto do dele.
Isaac percebeu o constrangimento da princesa e abaixou-se para tocar a bochecha dela com o indicador, fazendo com que ela olhasse timidamente de volta para ele. Em seguida, inclinou-se e selou levemente seus lábios no dela.
— Não é o que está pensando, deusa. - sorriu, tentando tranquilizá-la. — Eu sempre fui um homem de muitas mulheres, desfrutei muito da vida e nunca havia me importado com isso. Eu já errei muito, . Agi inconsequentemente, não pensei nos meus passos, achava que desfrutar da minha liberdade era fazer tudo o que viesse na minha mente e da minha vontade. Contudo, eu estava completamente enganado. Não existe liberdade plena, todos estamos e precisamos estar sujeitos a preceitos, ordens e atos morais. A minha liberdade só pode ir até onde atinge a sua e eu não quero errar com você - disse sério.
— E se eu disser que também quero? Que tem passe livre para mim?
— Ainda assim, eu não quero trilhar o mesmo caminho que trilhei lá fora. Você merece mais, deusa. E não digo isso por você ser uma princesa, mas porque é especial para mim. É justamente por esse sentimento que vou lhe dizer isto: se liberdade é uma escolha, eu escolho, então, te respeitar. Eu não quero estar com você porque é linda ou porque desejo o seu corpo. Eu quero que saiba que quero estar com você simplesmente porque eu te amo.
A princesa abriu a boca, chocada. Aquele rapaz que havia chegado com o jeito devasso, flertes baratos e o seu jeito imprudente agora estava ali abrindo o seu coração para ela. sabia que ela também sentia algo por ele, mas verbalizar a situação parecia grande demais para lidar.
— Não precisa dizer nada agora. - Passou os dedos em uma mecha do cabelo que estava na testa dela. — Eu só queria deixar claro isso. Não quero que pense nem por um segundo que o que há da minha parte é apenas interesse e essa é a forma que vou te mostrar isso. Não porque eu não te quero demais, porque eu quero. Mas porque o meu amor é maior do que a minha carne, porque o que mais me domina é a vontade de ver o teu sorriso e saber que está feliz. Porque foi a única mulher que me fez querer ser uma pessoa melhor.
passou a mão pelo peito de Isaac, parando em cima do seu coração. Sentiu as batidas fortes e ritmadas dele e sentiu orgulho por estar entregando o seu coração para alguém que se importava tanto com ela.
Nunca ninguém, além da sua mãe, havia se importado. Qualquer outro homem se aproveitaria da oportunidade de se deitar com a princesa de Ílac, se não para abocanhar um casamento real, então para desfrutar da beleza da menina. E, ainda que não tivesse a coroa, ela era uma garota que não tinha experiência amorosa alguma, podendo ser suscetível, ou não, a ladainhas de homens mais experientes. O próprio Isaac poderia ter se aproveitado disso para tomá-la, entretanto, ele havia escolhido o caminho justamente oposto.
— Talvez o amanhã seja tarde demais - falou, incerta sobre o que o futuro poderia reservar a eles em meio à guerra.
Isaac sorriu, pegou a mão dela que repousava sobre o seu peito e puxou até a sua boca, depositando um beijo na palma dela.
— Então eu aproveitarei todo o tempo que tivermos juntos para mostrar o meu amor das formas mais diversas possíveis. E, quando toda essa confusão passar, lhe pedirei em casamento, e teremos até a eternidade para desfrutarmos profundamente um do outro.
ergueu o seu corpo e selou os seus lábios. Isaac deu passagem para ela e o beijo se aprofundou, abraçados, sem precisar dizer mais palavra alguma. Eram como se pudessem flutuar, imersos em uma bolha completamente alheios ao que estava em derredor. Não se importavam com as consequências, queriam ficar juntos e iriam lutar por isso.
queria esse futuro, lutaria com todas as suas forças para suportar o que viesse. Valeria a pena no final. Nem toda abstenção seria a troco de nada.
Quem disse que a lenda do arco-íris era falsa? sabia que após a jornada haveria um tesouro e ele estaria esperando por ela, pronto para ser reclamado. Uns lutavam por poder, outros por riquezas. Entretanto, lutaria por Isaac, e saber que ele estaria ali era tudo o que ela precisava para conseguir sobreviver.
— Fica aqui essa noite - a princesa pediu.
Isaac ponderou e acabou por aceitar, querendo poder aproveitar o máximo de tempo com a princesa. A guerra estava chegando, ele provavelmente teria que lutar. Quem sabe se iria sair vivo dali? Prometeu que mostraria a o seu amor enquanto durasse, então que começasse naquele momento.
Ficaram mais algum tempo juntos, aproveitando de cada segundo para se inundarem entre beijos e carícias. Mais tarde, enquanto conversavam, o rapaz olhou para a escrivaninha, notando o caderno curioso que a garota escrevia quando havia chegado.
— O que é isso? - levantou-se para ir em direção a ele, mas deu um salto e correu na sua frente, pegando o caderno e recostando em seu peito.
— Apenas algumas coisas bobas sobre a minha vida. É pessoal.
— Hum, então quer dizer que a princesa tem segredinhos? - Isaac riu e cutucou o lado da sua cintura, a fazendo gargalhar.
— Nada importante, mas se um dia quiser saber tudo sobre mim, leia esse caderno sem medo. Porém, não agora. - Abaixou-se e abriu a última gaveta da sua escrivaninha, retirou algumas roupas e objetos de dentro e retirou uma tampa que anunciava um fundo falso.
— Uau, parece mesmo importante. E você está me deixando ver o seu lugar secreto porque confia em mim? Tem certeza que não vou entrar no seu quarto escondido para descobrir todos os segredos da deusa de Ílac? - Arqueou uma sobrancelha e passou a mão na barba do seu queixo.
— Estou te mostrando porque quero mesmo que saiba. - Guardou o caderno ali e recolocou a tampa e as coisas em cima para fechar a gaveta. — Se algo acontecer comigo - olhou para ele — Não tenha medo, venha e abra esse caderno.
O corpo de Isaac estremeceu com a possibilidade. Ele ajoelhou-se diante dela, segurou o seu rosto em formato de concha com as mãos e aproximou-se, tão perto que seus narizes se tocaram.
— Não diga isso para mim. Não vai te acontecer nada, eu vou te proteger. - Beijou a testa dela e a abraçou, o medo de perdê-la latejando pelo seu corpo.
— Como é em Medroc? - perguntou e Isaac voltou a olhar para ela sem entender a mudança repentina de assunto.
— Por que está me indagando isso?
— Eu sei que uma das condições para que você fosse embora do castelo era que visitasse os outros impérios para diplomacia. Eu nunca cheguei a ir a Medroc, só conheço o que ouvi falar e pelo o que o rei Garret se porta quando vem aqui. O que eu precisaria saber caso eu fosse?
— Você não precisa se preocupar com isso mais, . Você está aqui a salvo.
— Por que não responde a minha pergunta? - a princesa franziu o cenho.
— Porque não consigo entender o motivo para ela - bufou e moveu-se para sentar-se no chão, puxando para o seu lado. — Só de pensar em você lá me dá calafrios. Eu não quero e nem posso imaginar isso, entende? Garret é… o que posso dizer, perturbado. Até eu que tive uma vida de devassidão consigo notar quando uma pessoa é completamente fora dos limites. No tempo em que estive lá tinha festa todos os dias, ele faz dos criados brinquedos para a sua diversão. Além disso… - franziu os lábios. — Não sei se teria coragem de dizer todos os distúrbios sexuais que acontecem por lá. O que você precisa saber é que não é o lugar para você, deusa. Nunca. Só lhe falo algo, lá não tem exceções, definições ou moral alguma. Garret acha tudo divertido, não aparenta ter definição do que é limite, porque ele mesmo não tem nenhum. Você seria um brinquedinho divertido que ele adoraria jogar.
— Mas eu sou a princesa, se eu tivesse ido seria um símbolo de uma nova aliança, ele não poderia me matar, a não ser que realmente quisesse a guerra.
— Ele não precisaria te matar. Há outras formas de te matar mesmo estando viva. As pessoas que passam naquele castelo… não sei se tem vontade de sobreviver depois. - Isaac falou, engolindo em seco.
balançou a cabeça e encostou-a no ombro de Isaac, sentindo uma onda fria revirar o seu abdômen. O rapaz a sentiu estremecer ao seu lado, então passou o braço por suas costas e a trouxe para mais perto. A princesa encostou sua bochecha no peito dele, ambos ali mesmo no chão, sem se importar com o local.
— Não precisa se assustar, você está aqui e bem. Eu estou com você - a voz rouca de Isaac sussurrou no ouvido dela, fazendo com que o calor dele a confortasse.
balançou a cabeça, querendo muito acreditar naquelas palavras. Fechou os olhos e passou seu braço na cintura de Isaac para abraçá-lo. Infelizmente aquilo não era verdade, mas, naquele instante, ela fingiria que sim e imaginaria que os braços de Isaac eram o seu porto mais seguro.



Capítulo 22

O dia aparentava mais bonito que os anteriores. Os raios solares transpassavam o vidro e iluminava o quarto da princesa. estava acordada há algum tempo. Já havia trocado de roupa, colocado um vestido mais simples e confortável, e agora estava sentada em sua cama, velando o sono de Isaac.
O rapaz estava em um sono profundo, os cabelos negros esparramados pela cama e o rosto um pouco inchado pelo sono. Quase não haviam dormido durante a noite, a emoção de estarem juntos era maior do que tudo e apenas desejaram aproveitar o momento raro de paz que lhes eram concedidos.
A princesa deslizou os seus dedos nos cabelos de Isaac, descendo o seu indicador pela pele da bochecha dele. Seu coração estava apertado, não queria ter que deixá-lo, ainda mais depois dele ter aberto a sua alma para ela. sentiu seu coração cair, como uma pedra rolando do topo mais alto da montanha. Sentia-se desfalecida, despedaçada.
Será que havia um futuro? Seria possível algo entre os dois?
Levou seus dedos até a sua própria boca, recordando-se dos beijos trocados e sentindo o calor em cada pedaço tocado por Isaac.
Já havia ouvido dizer que quem nunca conheceu o amor era uma pessoa miserável na vida, mas para ela, a verdadeira miséria era prová-lo e ter que deixá-lo.
sabia que não era a mesma pessoa de antes, não conseguiria simplesmente apagar Isaac da sua história, entretanto, também não se arrependia. Seria o seu fardo, levar uma pessoa em seu coração até que o último suspiro de vida fosse dado. Ainda que ela tivesse que servir a outro, ainda que tivesse que morrer.
Abaixou o seu corpo e repousou a cabeça no peito do rapaz e o abraçou enquanto dormia. Segurou a mão dele com a sua mão direita e com a outra acarinhou a sua bochecha. O movimento despertou Isaac, que abriu os olhos devagar, a visão ainda um pouco embaçada, mas o suficiente para ver que era a sua menina sobre seu corpo.
Ergueu um braço e passou pelas costas da princesa, abraçando-a e saboreando o calor do corpo dela.
— Bom dia, deusa – saudou com a voz mais rouca devido ao sono e com um sorriso torto nos lábios.
A garota virou o rosto em sua direção e sorriu, em seguida apoiou a mão na cama, erguendo-se um pouco, e deu um selinho nos lábios dele.
— Essa é uma ótima forma de acordar, sabia? Você poderia fazer isso sempre. – Deslizou o dedo pelo queixo dela.
estremeceu e fugiu o seu olhar do de Isaac, repousou a cabeça novamente no peito dele e sentiu o seu coração apertar.
— Seria maravilhoso – respondeu com a voz falhando.
O rapaz sentiu a reação da menina e virou-se de lado, de forma que um ficasse deitado de frente para o outro.
— O que está havendo? - perguntou enquanto alisava o cabelo dela.
— Nada – respondeu dando de ombros.
… – insistiu e ela suspirou.
— Eu só estou temerosa com o que pode vir. Muita coisa pode acontecer ainda, a guerra nem começou, não sabemos o dia de amanhã, tudo pode mudar.
— Você estará a salvo aqui, , eu vou proteger você, prometo – afirmou.
ergueu o corpo repentinamente e um pouco chateada, sentando-se na cama.
— Aí está o problema, Isaac. Eu não quero ser protegida. Vocês não podem me colocar em um casulo e achar que nada acontecerá. Eu posso estar morta amanhã, você compreende isso?
Isaac acompanhou os movimentos da princesa e sentou-se também, pousando as suas mãos no rosto dela.
— Não diga isso, deusa. Você não pode me deixar! - Recostou sua testa na dela, sentindo o seu coração palpitar. Não queria ter que imaginar perdê-la novamente, só a suposição lhe deixava enlouquecido.
fechou os olhos, sentindo o seu coração cada vez mais forte.
— Você não pode garantir a minha segurança, Isaac. Eu sei que isso é difícil para você. Eu também não quero te perder, não quando eu acabei de tê-lo. Contudo, a vida é como um corcel indomável, por mais que tentamos prender ou conduzir, jamais poderemos tomar o seu controle. Só podemos saber o presente, Isaac, você e eu, aqui e agora. Nada mais pode ser administrado por nós.
— Mas eu posso tentar…
— Não, não pode! – Passou a mão no rosto dele. — Eu não sou uma garotinha, Isaac. Se eu tiver que lutar, eu lutarei. Se tiver que morrer, eu morrerei. E se tiver que viver, eu viverei. Entreguei a minha vida ao que o destino preparou para mim e se no final dessa jornada tivermos que ficar juntos, nós ficaremos.
Isaac puxou o rosto dela e a beijou com paixão. A garota não se fez de rogada, abriu os lábios e recebeu tudo o que o rapaz havia de dar para ela. Não era um simples beijo, era o calor, era o desespero, era a paixão e também era a dor.
Aquilo que mais os movimentavam, também os estraçalhavam, e enquanto eles desfrutavam dos lábios um do outro, as lágrimas corriam dos olhos de , salgando o beijo que conduziam.
Isaac não parou, ele sentiu e consumiu cada parte dela, porque o que mais queria naquele momento era se debulhar nesse amor novo que havia descoberto, contudo, resistia às suas próprias lágrimas, pois no momento que estivesse chorando com ela, seria como sentir que havia chegado ao fim.
— Me prometa algo — pediu assim que o beijo foi cessado.
— Não quero fazer promessas – Isaac balançou a cabeça negando.
— Por favor…
— Não, – falou firme. — Não quero prometer nada, parece como se estivesse despedindo e eu acabei de comemorar justamente o fato de que você está bem aqui na minha frente. Não quero – contestou.
balançou a cabeça e fechou os olhos rapidamente, antes de abri-los de volta em discordância. Ergueu a mão e passou pelos cabelos de Isaac, como uma forma de acalmá-lo.
— Eu vou lhe dizer assim mesmo. Se algo acontecer comigo, quero que me faça um favor, é importante, por favor, apenas escute, não precisa prometer-me.
Isaac abaixou a cabeça em desaprovação. Não queria ouvir, mas também não a interromperia já que este era o desejo dela.
— Lembra do caderno que eu estava escrevendo? - perguntou, tendo apenas o silêncio do rapaz em retorno. — Isaac? - Tocou o queixo dele, fazendo com que ele olhasse para ela. — Você se lembra?
Ele acenou com a cabeça e fitou intensamente a garota.
— Ele é importante para mim. Eu costumo fazer desabafos e possui muitas coisas bobas por lá. Porém, há outras importantes, coisas que só eu sei. Se alguma coisa acontecer comigo, ele é seu. Quero que abra e leia, pode fazer isso por mim?
— Eu espero nunca lê-lo então – respondeu, aborrecido.
A garota sorriu diante da teimosia dele. Ela compreendia que ele não queria perdê-la, se fosse o contrário ela também se negaria. No entanto, ela sabia que caso acontecesse algo, ele faria o que ela havia pedido, tinha plena confiança nisso.
— Também espero, mas, caso contrário, por favor, leia.
Isaac balançou a cabeça, perturbado. Amar o deixava vulnerável e inquieto. Não sabia lidar ainda com suas emoções e pior ainda com a possibilidade de perdê-la. Por isso, vestiu a sua capa, a imagem que todos conheciam dele, o garoto divertido e libertino. Era mais fácil assim, isso ele sabia ser. Era melhor do que deixá-la ver o quanto estava tonto e perdido com o que estava acontecendo.
— O que a princesa esconde de tão importante no seu diário? - Isaac abriu um pequeno sorriso de canto e levou uma mão até a cintura dela, querendo deixar o assunto menos tenso.
— Uma carta de amor, talvez – ela sorriu, entrando em seu jogo.
— Uma declaração para mim? – O rapaz chegou mais perto dela.
— Quem sabe?! Você vai precisar ler para descobrir. – inclinou mais o seu corpo em direção ao dele e abriu um sorriso sensual, levando a mão até a nuca do jovem.
— Você está tentando me seduzir, deusa?
— Talvez… - seus narizes se encostaram. — Estou conseguindo? - questionou-o com um sussurro.
— Eu já sou completamente hipnotizado por você, . Qualquer coisa a mais que fizeres só comprovará que estou lançado aos seus pés. – Tocou seus lábios nos dela, dando-lhe um beijo delicado.
Quando ele colocou a mão nas costas dela para puxá-la para mais perto, a porta foi aberta, fazendo com que os dois pulassem de susto e se afastassem rapidamente. virou a cabeça em direção da porta, vendo sua criada assustada com a mão sobre o peito. Assim que se recompôs, a serviçal curvou-se envergonhada, desviando o olhar deles.
— Perdoe-me, Alteza, eu não quis interrompê-la – pediu, constrangida, fechando a mão e colocando-a por detrás do seu corpo.
levantou-se da cama, passando a mão pela roupa amassada e endireitando a sua coluna em uma pose altiva e real.
— Não interrompeu nada, Linade. - Olhou firme para criada, de forma que deixasse claro o que queria dizer.
— Claro que não, que bobagem a minha, Alteza. Perdão. Vim apenas para informar que o tempo está agradável para o passeio, assim como me pediu.
— Passeio? - Isaac, que a essa altura também já estava de pé, perguntou.
— Pensei em dar uma volta no bosque para espairecer – respondeu olhando para ele.
— Sozinha? É perigoso, ! – contestou.
A princesa rolou os olhos e colocou uma mão na cintura.
— Sempre fiz isso, Isaac.
— Mas não com uma guerra em processo.
— Não irei longe, eu só preciso sair um pouco daqui enquanto posso. Caso seja preciso, peço alguma dama de companhia para ir comigo.
— Eu vou contigo – Isaac afirmou e desviou os olhos para criada, que ainda estava meio curvada no mesmo lugar.
— Não é necessário, Isaac. - A princesa balançou a mão e o rapaz ergueu a sobrancelha, incomodado.
— Não quer passar um tempo comigo? Prefere ir sozinha? - retrucou-a, estranhando a dispensa dela, sendo que minutos atrás estavam juntos.
mordeu o lábio, trocando um pequeno olhar com a criada, e suspirou levemente.
— Tudo bem, vamos. E você – direcionou-se para a mulher – está dispensada. Muito obrigada.
— Mas, princesa… – a mulher tentou falar algo, porém foi interrompida.
— Está dispensada, Linade.
A mulher fez uma reverência e obedeceu, sem mais titubear. virou o seu corpo em direção a Isaac e cruzou os braços.
— Então? Quer dar um passeio comigo?
— Meu pai desfaleceria se soubesse que uma mulher está me convidando para um encontro e não o contrário. – Isaac riu, enquanto sentava na cama para calçar os seus sapatos.
— Eu sou a herdeira do trono, princesa de Ílac, tenho o privilégio de convidar quem eu quiser. Na verdade, ainda que você não quisesse aceitar, eu poderia obrigá-lo a ir comigo. – Sorriu, apontando para a tiara que estava em sua cabeça.
— Nem precisaria, minha deusa. – Levantou-se e andou até ela. — Sairia com você quantas vezes fosse possível só para poder me deliciar com a sua presença. Eu nunca gostei dessas convenções estúpidas mesmo. Por que o homem que deve convidar a mulher? Se ela possui vontade, então deve realizá-la, seja qual for. – piscou para ela e deu um beijo em sua bochecha. — Além disso, você me propor isso só torna tudo mais quente – sussurrou no ouvido dela, fazendo os seus poros arrepiarem. — Me faz lembrar de uma linda sereia nua no lago. A deusa que brotou das águas, personificando-se na imagem mais bela possível diante de mim. Eu não trocaria isso por nada neste mundo. – Depositou um beijo no lóbulo da orelha dela.
— Está tentando me distrair, Sr. ? – perguntou manhosa, inclinando a cabeça um pouco para o lado e dando espaço para que Isaac passasse o nariz lentamente pelo seu pescoço.
— Talvez… Está dando certo? – Depositou um beijo lento no local.
— Até estaria, mas nós precisamos mesmo ir agora, enquanto o sol está fraco – riu e empurrou-o de leve pelo peito, fazendo com que ele balançasse a cabeça sorrindo.
— Tudo bem.
pegou a sua capa e endireitou a sua tiara através do espelho, enquanto Isaac ajeitava-se no banheiro antes de irem. Em seguida, andando lado a lado, desceram as escadas do castelo sem falar com ninguém. Na porta, uma criada aguardava com uma cesta na mão e o rapaz a pegou para carregar durante o percurso em direção do bosque.
Assim que pisaram os pés fora do castelo, o corpo da princesa enrijeceu-se e ela apertou a mão de Isaac com vigor, forçando-o parar.
— Mudou de ideia? - o rapaz perguntou para ela, preocupado. — Não precisa ir se não se sentir segura, . Podemos fazer nosso desjejum aqui dentro.
A princesa olhou para ele e forçou um sorriso, suavizando o aperto em sua mão.
— Não, só fiquei assustada. Mas já passou, eu quero ir. Quero poder sentar diante do lago tranquila, enquanto os soldados não estão povoando as nossas terras e nossas águas ainda não viraram sangue – comentou, pensativa.
— Eu estou com você. - Entrelaçou seus dedos nos dela e ergueu para beijá-los.
Saíram dessa forma até chegar ao lago. O céu estava aberto e, mesmo que ainda cedo, os raios solares já aqueciam a mata. Havia uma pequena brisa que tocava e balançava levemente as folhas, trazendo o frescor da manhã. Uma manhã perfeita para os amantes imperfeitos.
Chegando ao local, Isaac pegou um pequeno tecido que estava dentro da cesta e estendeu-o no chão. Tirou os alimentos e espalhou-os, arrumando-os para que pudessem comer. Passaram um tempo entre conversas, amenidades e refeições. Isaac sentia-se satisfeito pelo rumo que estava tomando em sua vida. Era inesperado, mas ele não tinha dúvidas que estava certo. Não saberia como reagiriam ao saber dos sentimentos pela prima, mas eram completamente fidedignos e ele estaria disposto a provar para qualquer um que duvidasse do seu coração.
Em contrapartida, ao seu lado, sentia o seu coração comprimido. O desejo por Isaac era imenso, um lado seu queria fugir com ele para poderem viver tudo aquilo que estava nascendo em seus corações. Mas o seu compromisso e lealdade eram maiores e ela sabia que jamais teria paz em sua consciência se abandonasse o seu povo. Não era uma obrigação, era o sentimento de honra. Era ela que tinha o poder em mãos, ela poderia mudar a história e proteger homens, mulheres e crianças. Diminuir as chances das matanças, evitar um grande derramamento de sangue e dar a sua mãe um tempo maior para pensar e agir. era fiel a Ílac e trair ao seu povo, seria como trair a si mesma.
A princesa encostou suas costas no peito de Isaac e fechou os olhos, aproveitando o último momento de paz. O primo passava os dedos pelos fios dos cabelos dela, enquanto um braço dele rodeava a sua cintura, traçando o polegar em sua cintura.
Por um momento ela se esqueceu de tudo ao seu redor. Por um instante ela apenas quis sentir Isaac consigo, o conforto de ter alguém que estava com ela integralmente. Sentia a brisa que passava sobre o lago, o canto dos pássaros e o farfalhar das folhas das árvores ao redor. Tudo era música para os seus ouvidos, até que o momento cessou.
Escutou o bater das asas e os gritos estridentes dos pássaros se afastando e, após isto, o nada. Seu estômago embrulhou e sentiu um frio correr pela espinha da sua coluna, fazendo-lhe arrepiar. Abriu os olhos no mesmo instante e sentou-se, assustando Isaac. Olhou para os dois lados e não viu nada, porém, a sensação horrível comprimia o seu peito.
— Isaac, vá para o castelo, agora! - ordenou enquanto se levantava.
— O quê? Claro que não. Não irei te deixar sozinha. O que está havendo, ? - Isaac automaticamente colocou a mão por sobre o canto da sua cintura, onde normalmente ficava pendurado a sua espada, mas lembrou-se que estava desarmado, por ter saído do quarto da princesa direto para o bosque.
— Eles chegaram… - sussurrou, erguendo o indicador até a boca em sinal de silêncio.
Os olhos de Isaac saltaram e uma onda de adrenalina foi liberada, acelerando seus batimentos. Segurou a mão da princesa e puxou-a para trás de uma árvore, em silêncio, ao ouvir sons de pisadas se aproximando.
— Nós precisamos correr até um dos nossos soldados mais próximos – Isaac sugeriu. — Se tentarmos voltar para o castelo eles podem nos alcançar, estamos longe.
— Isaac! – A princesa puxou a mão dela, soltando-se. — Se eles estiverem mesmo aqui não conseguiremos fugir juntos. Vá e busque ajuda enquanto eu me escondo.
— Eu não vou te deixar, . Será que você não entende que se pegarem você, terão que pegar a mim também? - retrucou, frustrado e amedrontado.
— Se você for pego não poderá me ajudar em nada – tentou dissuadi-lo.
— Vamos! - Isaac não quis interpelar, puxou-a junto a ele e começaram a correr em direção do último soldado que tinham visto pelo caminho.
Tentavam dar passos rápidos, porém suaves, para que não chamassem atenção sobre eles. Não muito longe, avistaram as costas de um soldado que estava em pé e encostado em uma árvore.
Isaac suspirou em alívio e acelerou a corrida, puxando a reboque. Contornou a árvore e pousou a mão no ombro do homem para chamá-lo. Assim que ficaram frente a frente com o soldado, a princesa deu um grito, porém logo colocou a mão sobre a boca para abafar o som.
Os olhos dela encheram-se de água e Isaac praguejou, dando um soco no ar. O soldado de Ílac tinha as suas vestes rasgadas, uma espada transpassava o pescoço dele, cravando-o na madeira, e outra fazia o mesmo em seu abdômen. No peito, um corte profundo escorria sangue pelo seu corpo e formava a letra “A”.
Escutaram o barulho de galhos quebrando e os passos que se aproximavam acompanhado de uma gargalhada. Isaac olhou para os lados e notou que estava cercado. Em torno de dez a quinze homens rodeava-os, as roupas eram dos soldados de Ílac, mas as feições duras e marcadas, assim como os cabelos longos trançados, mostravam que eram os homens de Medroc.
Um deles se destacava entre todos. Tinha os fios ruivos e era o mais alto e robusto. Além disso, a cicatriz que cortava em diagonal o seu rosto lhe dava um aspecto assustador. Ele tinha as mãos vermelhas de sangue e outros respingos em seu rosto. Estava claro quem havia feito aquela atrocidade com o soldado de Ílac.
— Ora, ora, ora. Veja quem encontramos aqui. – Deu alguns passos para frente, enquanto os outros homens empunhavam as espadas em direção do casal. — Estávamos a sua procura, Alteza. – Curvou-se em zombaria, esticando em seu rosto um sorriso torto e deixando a mostra a falta de um dos seus dentes molares.
— Chegue perto dela e será um homem morto – Isaac colocou-se na frente da princesa e rugiu contra ele.
O homem gargalhou e cuspiu no chão, passando o dorso da mão na sua boca para enxugar a saliva. Inclinou a cabeça, fazendo um sinal para os seus homens, e eles avançaram em direção de Isaac. Um deles puxaram para trás e travou-a em seus braços, enquanto os outros afastaram Isaac dela.
— SOLTE ELA! - o rapaz gritou, enquanto tentava se debater na tentativa de soltar-se.
Um dos soldados deu um soco no rosto de Isaac, fazendo-o curvar-se em dor, mas o garoto não se deteve, correu na direção do homem, cabeceando o estômago dele e os dois caíram no chão. Isaac rolou por sobre ele e sentou-se em cima do estômago do homem, começando a esmurrar o rosto dele com brutidão. Entretanto, um outro guerreiro de Medroc aproximou-se e, com o cabo da sua espada, socou a lateral da cabeça do rapaz, fazendo-o cair entontecido.
começou gritar e chorar ao mesmo tempo em que tentava soltar-se, mas quanto mais puxava o seu corpo, mais o homem a apertava e machucava. Sabia que não devia ter deixado que Isaac viesse com ela, porém, se não fosse assim, ele jamais teria a deixado ir até o bosque. Quanto mais batiam nele, mais a princesa se desesperava, temendo a morte do rapaz.
Enquanto isso, os outros homens que antes estavam apenas observando, fizeram uma roda em volta de Isaac, passando a pisoteá-lo e chutá-lo. O rapaz contorcia-se de dor no chão, o sangue escorrendo pela boca dele e seus gemidos de dor ecoando pelo bosque, devido as pancadas que recebia. Sua visão já estava turva, seu corpo inteiro doía e não conseguia mais nem tentar se levantar ou se proteger.
A princesa, ao ver o rapaz desfalecer no chão tão cruelmente, uniu a maior força que conseguiu e puxou o seu corpo, arrancando-se das garras do soldado que a segurava. Em seguida, girou o seu corpo em 180º graus e levou o seu punho até o rosto do homem, que cambaleou para trás desprevenido. Em uma ação rápida, enquanto o homem erguia a mão para o lugar que ela havia lhe atingido, a princesa puxou a espada dele e encostou a lâmina em seu próprio pescoço.
— LARGUEM ELE! - gritou em alta voz e chamou a atenção do ruivo, que estava se divertindo em observar Isaac.
— O que pensa que está fazendo? - O homem deu alguns passos em direção dela, mas apertou ainda mais a espada em sua pele, sentindo um filete de sangue escorrer em seu pescoço.
— Largue ele e se afaste de mim. Mais um passo e eu me mato – ela ordenou.
— A senhorita não vai fazer isso – debochou, porém engoliu em seco ao ver a princesa pressionar a espada e mais sangue brotar da pele dela. — Você é louca? – O soldado questionou e arqueou a sobrancelha, ainda reticente, porém temeroso.
— Não estou brincando. SOLTEM ELE AGORA! - rugiu. — Suas ordens é me levar viva, não é? Pois saiba que se ele morrer eu também morrerei. Solte-o! - apertou ainda mais e sangue escorreu do seu pescoço, descendo pelo seu colo.
O homem gritou para os seus homens, mandando-os se afastarem de Isaac e eles o obedeceram. O rapaz se contorcia no chão, banhado de sangue. Quase não se conseguia ver o seu rosto, o olho estava inchado e as roupas rasgadas e empoleiradas. Seus braços estavam um sobre o estômago e outro na direção do rosto, um movimento feito para tentar se proteger o máximo possível, porém em vão diante de tantos homens contra ele.
Isaac não conseguia pensar, estava praticamente desmaiado. Ouvia o som da voz de ao longe, mas não tinha força para levantar.
— Você não vai escapar, princesa. – O ruivo deu um passo na direção dela.
— Não pretendo.
— Então venha conosco e torne tudo mais fácil.
— Eu irei, depois que estiverem longe dele – respondeu e o homem gargalhou.
— Quer que acreditemos que iremos embora e você nos seguirá de boa vontade?
— Não. Irei com vocês da mesma forma que estou aqui – disse referindo-se a posição da espada – até que estejamos longe o suficiente dele. Não há necessidade de morte alguma, eu estou aqui, conseguiram o que vieram buscar. Voltem com o prêmio de vocês e deixem meus homens em paz.
O ruivo passou a mão por sua barba, pensando na proposta da princesa.
— É audaciosa. Eu gosto. – Abriu um sorriso largo para ela e o nojo tomou conta da princesa. — Vamos! - Acenou com a mão para os homens e apontou para a princesa o caminho, a fim de que ela caminhasse na frente.
… – a voz estrangulada de Isaac chamou a atenção da princesa.
A mão fraca e trêmula dele tentou se erguer na direção dela, queria urrar para que não fosse, queria poder protegê-la, mas não conseguia. Sua visão estava cada vez mais escurecida, não conseguia definir se tudo aquilo era real, estava completamente desorientado.
As lágrimas escorreram dos olhos de , banhando suas bochechas rosadas. Ela já nem se importava com a dor do corte do seu pescoço, queria correr e cuidar de Isaac, garantir que ele estivesse bem. No entanto, a melhor saída era ir embora com Medroc, porém, precisava que Isaac sobrevivesse e fizesse a parte dele, por isso, abriu um sorriso trêmulo para ele, as lágrimas agora escorrendo até os seus lábios.
— Não tenha medo… – afirmou com um brilho nos olhos, em seguida fechou-os, impedindo-se de olhá-lo mais uma vez e voltar atrás com a sua decisão.
Virou o seu corpo e passou por entre os homens, andando na frente deles. A espada ainda sobre seu pescoço e os passos firmes em direção ao destino que ela sabia que estava reservado para ela.
A última coisa que Isaac pode ver foi alguns passos ao longe, no meio de uma visão embaçada. Notou um dos homens de Medroc apunhalar pelas costas, fazendo-a desmaiar. O corpo da garota foi pego no ar, antes que tocasse no chão e pudesse se machucar sobre a espada. Os soldados a seguraram, curvando e sumindo da vista do garoto.
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Isaac, misturada ao sangue que cobria o seu rosto. Fechou os olhos, constatando a dor física de cada milímetro do seu corpo somado ao estraçalhar do seu coração. Não havia conseguido cumprir a sua promessa, não havia protegido . E agora, sabe-se lá o que aconteceria com ela.


Capítulo 23

O corpo de Isaac parecia ter sido triturado. Sentia como se houvessem quebrado todos os seus ossos e os músculos como se estivessem torcidos, qualquer movimento acarretava-lhe uma pontada afiada de dor.
Abriu os olhos devagar, a visão meio embaçada e o nariz entupido com o sangue que havia escorrido e secado, interferindo na passagem de ar. Tossiu algumas vezes e sentiu o seu tórax arder, franziu a testa e gemeu, enquanto tentava apoiar a mão no chão para se levantar.
O sol já estava no meio do céu, um sinal que havia ficado desacordado por horas. Era bem provável que estaria muito longe nessa hora, além das fronteiras de Ílac. Precisava avisar os soldados o mais rápido possível, o tempo poderia ser um grande aliado nesse momento. Quanto antes à rainha fosse notificada sobre o sequestro, maiores seriam as chances de poder recuperar a princesa.
O rapaz forçou o braço para erguer o seu corpo, lutando contra a dor que irradiava por seus membros. Tentou virar-se para poder se apoiar nos joelhos, mas cambaleou, caindo com o rosto no chão. Estava fraco, havia perdido muito sangue e presumia que tinha quebrado alguns ossos. No entanto, não podia fraquejar. precisava dele e era ela que lhe daria forças – que nem possuía – para se erguer.
Com os braços debilitados, Isaac esforçou-se para inclinar o seu corpo novamente e conseguiu sentar no chão. Seu coração batia agitado e o pulmão estava ofegante pelo pouco movimento que havia feito. Levantou-se devagar, apoiando-se na árvore ao seu lado e, após muitas tentativas, conseguiu postar-se quase que dignamente em pé.
Quando deu o primeiro passo, suas pernas cambalearam e achou que cairia, no entanto, levou a mão para apoiar-se na árvore novamente, a fim de que não desabasse. Respirou fundo e conseguiu dar um pequeno passo fraquejante. Vacilava de um lado para outro, porém tentava manter-se firme até o seu destino final. Ia apoiando-se em cada galho, mato ou tronco que via pela frente, fazendo um esforço descomunal para conseguir chegar ao castelo.
Sua visão ia e vinha, alternando-se entre a claridade e a escuridão, a qualquer momento desmaiaria de novo. Os vultos negros ficavam mais frequentes à medida que ele esforçava-se para caminhar. Cada fibra dos seus músculos parecia estar se rompendo. Tentava ser forte, contudo, era cada vez mais difícil. Seu peito doía a cada respirada e, para piorar, o esforço acelerava a sua respiração, acarretando um sofrimento quase mortal.
Avistou o castelo ao longe e arrastou os seus passos para tentar alcançá-lo. Tropeçou em seus próprios pés e caiu no chão, batendo a lateral do rosto já machucada nos cascalhos do caminho.
Isaac rugiu de dor e contorceu-se na terra, a sobrancelha rasgada jorrando sangue novamente, inundando o seu rosto do vermelho escarlate. Não conseguiu levantar dessa vez, estava fraco demais. Seus olhos fecharam-se contra a sua vontade, mas conseguiu escutar alguns gritos masculinos e passos vindo em sua direção. Não conseguia compreender direito o que diziam, somente algumas palavras lhe eram claras como “caído”, “Isaac”, “ferido”.
Mãos o ergueram do chão, enquanto ele ainda estava semiconsciente, tentava abrir a boca, mas a língua parecia pesada, seu corpo não conseguia seguir as ações comandadas pela sua mente. Não podia enxergar o que estava em sua volta, constatou um alvoroço em torno dele e, após algum tempo, sentiu suas costas serem deitadas em um local macio.
— Onde está o meu filho? – Cameron chegou ao aposento aos berros e os soldados que trouxeram Isaac abriram espaço para que o pai pudesse chegar até o rapaz.
Isaac identificou a voz do homem e esforçou-se para abrir um pouco os olhos, podendo vê-lo se aproximar e ajoelhar ao seu lado.
— O que houve com você?
Isaac forçou para abrir a boca, mas a voz parecia áspera em sua garganta. Pigarreou, tentando falar novamente e sabendo que precisava avisá-lo sobre a princesa.
— Eles a pegaram… – Sua voz saiu quase inaudível.
— Quem? – Cameron enrugou a testa e segurou a mão do filho.
Um silêncio pairou no local antes que Isaac respondesse, entrava no recinto, acompanhada por Hector e , que vinham às pressas para saber o que havia acontecido com Isaac.
– o rapaz sussurrou para o pai, fechando os olhos por um instante.
A rainha sentiu as palavras de Isaac como um golpe em seu coração. Um gelo descia pelo seu estômago, fazendo tremer até as pontas dos seus dedos. Correu até a cama, avançando sobre o garoto e sem conseguir controlar o desespero que lhe abateu naquele instante.
— Onde está a minha filha, Isaac? - bradou, inclinando-se sobre ele.
O rapaz puxou os lábios para dentro, tentando umedecê-los, e esforçou-se para conseguir emitir algum som.
— Medroc… Medroc a levou – respondeu antes de fechar os olhos e desmaiar.
A rainha fechou as mãos em punho, segurando o grito na garganta que lhe sobreveio. Sua respiração ficou descompassada, não conseguia enxergar mais ninguém ao seu lado, seu mundo estava fora do lugar, era como se o chão tremesse e fosse a engolir. Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo.
Avançou sobre Isaac e começou a sacudi-lo, gritando para que lhe desse mais informações. Cameron aproximou-se para impedi-la, apoiando as mãos nos ombros da rainha e pedindo para que ela tivesse calma. Tentou puxá-la pelo braço, contudo, arrancou-se da mão dele e o empurrou, fazendo com que ele cambaleasse para longe dela.
— Como você quer que eu fique calma sabendo que minha filha está nas mãos de Medroc?! – rugiu e virou o seu rosto furioso para o tio.
— Meu filho está praticamente semimorto na minha frente e você ainda está o machucando! Acha que vai conseguir arrancar alguma coisa dele desacordado? Por céus, ele nem mesmo recebeu atendimento médico ainda! Vá atrás de quem pegou a princesa e deixe meu filho em paz! – Cameron colocou-se de frente para a cama, posicionando-se entre a rainha e Isaac.
uniu as sobrancelhas enraivecida pela forma que o tio havia a enfrentado pela primeira vez, porém, não retrucou. Ele estava defendendo o filho e não estava errado. Ela não podia deixar o desespero tomar conta naquele momento, Isaac não poderia ajudar, mas, se fosse esperta, tentaria ir atrás da menina e poderia alcançá-la.
Olhou para trás e observou alguns dos seus homens, que aguardavam às ordens dela. Até mesmo e Hector permaneceram em silêncio, esperando qual seria a reação que teria.
— Yech, chame um atendimento para Isaac – ordenou para um dos seus guardas. — Os demais venham comigo, incluindo você, Cameron. Você é pai, mas não é médico. Não poderá ser útil aqui. Entretanto, preciso de você para o que farei. Todos para a Sala do Trono agora .
Ela saiu com rapidez, sem abaixar a cabeça e sem emitir uma lágrima sequer, não dando espaço para que nenhum deles a retrucasse. Por dentro estava o caos, mas os homens não precisavam saber disso.
Assim que chegou ao local, sentou-se em seu trono e os homens se enfileiraram um ao lado do outro diante dela, formando uma meia lua e tendo no centro , Hector e Cameron, que seriam os únicos com direito a alguma palavra, devido à importância que tinham para a realeza.
— Arrumem os homens e selem os cavalos, assim que anoitecer, partiremos. Tio, você conhece os caminhos mais rápidos para se chegar a Medroc, então monte uma estratégia. Sr. Villent, preciso que monte um plano de ataque com o General – desviou o seu olhar de Hector e depositou sobre – e ele guiará o exército junto comigo.
O seu tio balançou a cabeça confirmando, enquanto os outros dois permaneceram calados e pensativos.
— Tem algo em mente, Majestade? – perguntou o mais velho do grupo.
— Partiremos ao anoitecer, é mais fácil para a camuflagem e para podermos pegá-los desprevenidos – a rainha explicou.
— Achas mesmo que pode alcançá-los pela noite? Provavelmente estão com menos homens que nós, o que faz com que possam fugir mais rápido. Além disso, com tantas horas pela frente, jamais conseguiremos chegar até eles antes que se refugiem nas muralhas da capital de Medroc – ponderou, franzindo o cenho e aparentando estar desconfortável.
— Se não conseguirmos podemos atacar algum dos seus batalhões ou tentar invadir o castelo. O rei Garret jamais imaginará uma ofensiva tão rápido – disse Cameron, embasando a ideia da rainha.
— Claro que ele não espera. Garret jamais vai achar que iremos atacá-lo hoje porque é uma insanidade. Ainda nem mesmo chegaram todos os homens convocados e nem temos todas as armas, as que mandamos confeccionar ainda não estão prontas. Nós não estamos prontos – o General retrucou.
— Não precisamos de todo o exército, seremos até mais rápido com poucos homens. Podemos fazer um ataque rápido e depois recuamos. Se há uma possibilidade de resgatar a minha filha, Sr. , eu farei isso. Podemos tentar infiltrar algum dos nossos também, é uma possibilidade. Sr. Villent, o que acha? – A rainha virou-se para o antigo general, que permanecia calado em meio ao debate.
— É possível, Majestade, mas concordo com o quanto a estarmos despreparados. É uma flecha de duas pontas.
— Podemos ir pela trilha da floresta após o lago, é mais difícil, porém mais curta, já que o mais provável é que eles fujam pela lateral das montanhas após a fronteira. Se os homens de Medroc foram pelo caminho mais seguro, eles contornarão o rio, o que torna a trilha mais longa. Jamais que eles irão pela estrada principal, pois topariam com nossos soldados. Pela floresta nós cortamos o caminho e, ainda que mais lentos, se formos com um número reduzido, talvez consigamos encontrá-los antes do castelo – o tio da rainha sugeriu.
— E como acham que vão atravessar a fronteira? Creem que o Rei Garret, depois de declarar guerra, deixou as portas abertas para nós? – elevou a voz, impaciente.
— Garret esperará por nós, mas não essa noite. Ele planejou raptar , pois sabe que irei até ele. Ele quer guerra e é a guerra que ele terá! - exclamou , fechando sua mão em um punho e batendo no braço do trono.
— E Vossa Majestade fará exatamente o que ele quer? – o guerreiro interpelou, dando um passo para frente e sendo barrado pela mão de Cameron estendida sobre o seu peito.
— Veja como fala com a sua Rainha, soldado. O senhor pode ser o General, mas ainda deve reverência – o tio da rainha rangeu contra o guerreiro, fazendo com que virasse para ele com raiva.
Abaixou os olhos até onde a mão do homem lhe tocava e fuzilou-o em seguida com o olhar, como se pudesse matá-lo ali mesmo.
— Tire a sua mão de mim – rosnou e deu um tapa forte na mão de Cameron, avançando sobre ele.
— Parem os dois! – Hector entrou no meio, decidindo intervir, enquanto apenas os observava. — Precisamos trabalhar juntos, caso contrário perderemos tempo.
— Exatamente, Hector. Obrigado por trazer lucidez à situação – a rainha agradeceu. — Nós vamos fazer isso, não vou deixar minha filha nas mãos de Garret. Cada segundo que se passa, sua vida corre mais risco. é a herdeira do trono, é o dever de todos vocês protegê-la. A única coisa que preciso é que trabalhem juntos para fazermos da melhor forma possível.
balançou a cabeça, contrariado, e passou a mão por seu rosto. Queria que a menina fosse resgatada, mas não estava de acordo com o plano.
— Isso é um erro – afirmou para a rainha.
— Que seja o meu erro então.
— Não farei parte disso! – exclamou e deu um suspiro profundo.
— O quê? – Hector e Cameron indagaram, assim que fez a declaração. Os olhos dele não deixaram de encarar a rainha.
— Eu disse que não farei parte disso. Estão dando o que o rei Garret quer, agindo sob emoções precipitadas. Eu não levarei meus homens para morrerem a troco de nada – o guerreiro reafirmou.
— A troco de nada? – A rainha levantou-se, nervosa, a raiva latejando sob as suas veias. — Aquele povo maldito invade nossas terras, levam a princesa, que por sinal é a minha filha, deixam outro membro real a beira da morte e o senhor me diz que é a troco de nada? - recitou lentamente, a voz mais grave que o normal. — Quem é você, General, para me dizer que não vale a pena lutar pela menina que saiu das minhas entranhas?! – Deu três passos em direção a ele, o ar inflando em suas narinas.
— Se todos morrerem em combate a garota não será salva e teremos apenas mais perdas. — cruzou os braços, não deixando-se intimidar por .
— Morrerei com honra se puder salvar a minha menina. – “E você deveria fazer o mesmo” Era o que ela pensava, mas não podia completar. O segredo que havia guardado a vida toda latejava na sua língua nesse momento.
Para , não queria lutar pela menina, não queria salvá-la. Será que se soubesse da verdade ele poderia dar tudo de si para resgatá-la? Talvez. Mas agora ela jamais teria certeza.
— Você não pode ir contra as ordens da Rainha! – Cameron tentou persuadi-lo.
— Então condene-me. Tire-me de minha posição – levou a mão ao emblema em seu peito –, encarcere-me ou mate-me. Pelo menos sofrerei tudo isso com a convicção dos meus atos em vez de seguir uma atitude tola e impensada – vociferou e imediatamente sentiu a palma da mão da rainha no seu rosto.
Os homens exclamaram, surpresos com o ato. estava brava, não somente com a recusa do guerreiro, mas por tudo que estava acontecendo. O emaranhado de situações ficava cada vez maior e saber que não teria para lhe apoiar no resgate da filha, que era dos dois , a deixava insana.
— Eu não preciso de você! – disse, seus olhos faiscando com o fogo da raiva que ardia.
O guerreiro surpreendeu-se com a reação dela, seus olhos saltaram-se com o ato e podia sentir ainda os dedos da mão da rainha em sua bochecha.
— Se essa missão não der certo, o remorso será o seu maior castigo, cuspiu contra ele, mesmo sabendo que agora ele não a entenderia.
— Não sentirei isso, tenho plena convicção do que decidi – o guerreiro contrapôs, sem abaixar o seu olhar.
— Ah, você vai… Não preciso te condenar, General. Poderia, mas não o vou. Pelo menos não agora. Torça para que eu traga minha filha a salvo… – Deu as costas para ele e voltou a sentar-se em seu trono. — Cameron e Hector, vocês tem uma tarde para se organizar, partiremos ao anoitecer. Estão todos dispensados. – Fez um sinal com a mão para que se retirassem e, um a um, os homens saíam, deixando-a sozinha.
Precisou de alguns segundos antes que notasse que ainda permanecia no salão. Olhou-o enraivecida, odiava-o naquele instante, estava decepcionada com o homem que era o pai da sua filha.
— Eu já dispensei a todos, – falou, levantando-se para ir ao seu quarto.
— Você me bateu.
— Sim, você foi estúpido. – Endireitou o seu vestido e passou por sem olhá-lo, caminhando em direção à porta.
— Eu fui sensato, , você está fora de si. – passou a caminhar atrás dela, enquanto a rainha o ignorava. — A possibilidade do plano dar certo é ínfima. Não consegue pensar nem por um segundo que talvez seja exatamente isso que Garret quer?
— Entre morrer e morrer eu prefiro lutar – respondeu e subiu as escadas com pressa, torcendo para que ficasse para trás.
— Eu também luto, , mas luto dentro do que é coerente. O que será de cem dos nossos homens quando chegar à terra de Medroc e encontrar o exército de milhares de Garret?! – Ergueu o braço e colocou no vão da porta para empurrá-la no momento em que virou para fechar na cara dele. — Aliás, nem cem, pois se forem pelo caminho da floresta, no máximo poderão levar uns setenta homens, ou demorará o triplo de tempo para chegar a Medroc. Quem lhe garante que já não estará no castelo até lá? - Empurrou a porta, fazendo com que desse um passo para trás, e fechou-a nas suas costas.
— Ninguém me garante, , mas é o que devo fazer. Se não a encontrarmos pelo caminho, podemos nos separar e tentar nos infiltrar. Saia do meu quarto! – exclamou a frase final, apontando o dedo em direção à saída.
, você está louca! – elevou a voz, tentando fazer com que a rainha deixasse a insensatez de lado. Para ele era uma missão suicida, a rainha morreria antes mesmo que pudesse notar.
— Eu não estou louca! Situações drásticas requerem medidas drásticas, eu farei o que é preciso! – bradou, erguendo os braços e sentindo o desespero de perder a menina corroer dentro a sua alma.
, você não está sendo sensata! ME ESCUTE! – implorou, cruzando uma mão na outra.
― Sensata?! – a rainha indagou, destilando escárnio em sua voz. ― Você acha mesmo que há como ser sensata enquanto minha filha está nas mãos daquele monstro?! – Apontou para o lado de fora da janela. ― COMO VOCÊ ACHA QUE EU ESTOU, SABENDO QUE A MINHA FILHA PODE ESTAR SENDO TORTURADA OU SABE-SE LÁ MAIS O QUE ESTÁ ACONTECENDO? – gritou, abrindo os braços, seus olhos enchendo-se de água.
chamou-a, abaixando o seu tom de voz e tentando soar calmo. ― Você está quebrada. É a sua filha e está com medo, eu conheço você, esqueceu? Conheço-te o suficiente para saber que jamais teria uma atitude dessas se estivesse pensando claramente. Está doendo agora, mas você precisa tentar se acalmar, está me ouvindo? Se você não raciocinar, vai fazer coisas estúpidas, morrerá e, então, como irá salvá-la? – caminhou até ela e segurou os seus ombros, torcendo que ela voltasse a si.
A rainha encarou o guerreiro, os olhos dele parecendo despir a sua alma. Sentiu-se fraca e desejou mais do que nunca que ele soubesse de tudo naquele instante. Queria tê-lo ao seu lado por completo, ansiava que eles pudessem guerrear as mesmas batalhas.
Discordavam, mas ele estava ali para ela, tinha plena convicção disso. A voz terna e a mão que afagava o seu ombro mexia com o seu emocional abalado mais do que ela esperava.
― Se não vai me ajudar não me atrapalhe, . – Uniu força para puxar os braços dele para baixo, retirando as mãos que estavam sobre ela. Caminhou até a porta do seu quarto, batendo em seu ombro no percurso. ― Partirei a noite, você já pode ir embora e não me procure mais!
segurou a maçaneta com força, sentindo a tensão do embate com o guerreiro. Doía, mas ela não voltaria atrás. Era melhor assim, ao mesmo tempo em que precisava dele, queria distância. Havia mentiras demais, almas quebradas que jamais conseguiriam se laçar de volta.
Olhou-o com o coração partido, mas com o misto de raiva pelas decisões que haviam tomado.
― Não, eu não vou. Eu não sou mais o menino que você pode expulsar.
O guerreiro rosnou e caminhou até ela, pegou em seu braço e a trouxe para perto de si, fazendo com que seu rosto ficasse tão próximo que a respiração acelerada dela encontrava com a sua. Os dois olhavam-se furiosos, um duelo de gigantes. O coração saltitava, um querendo convencer o outro da sua própria convicção.
Quando garoto, jamais a enfrentaria dessa maneira, mas agora era um homem crescido, tinha coragem de lutar por aquilo que acreditava. Uma pena que não acreditavam nos mesmos ideais naquele instante. O coração do guerreiro também doía pela menina, mesmo que achasse que não, mas ele não achava que aquela era a alternativa para salvá-la. Queria poder fazer algo por ela, ele sabia que a rainha estava perdida naquele momento. Via a mulher afundada em pânico e com medo de perder a garota, sentindo o seu coração estilhaçar por não poder resgatar a mulher do lamaçal que ela estava se jogando.
Ela não poderia ir, ela não poderia morrer.
Olhou para os fios escuros e soltos avoaçados, os olhos intensos rajados pelo terror. Queria poder trazer o brilho de volta a ela, da mesma forma que havia feito há anos quando ajudou-a fugir do casamento arranjado. um dia havia sido a paz do espírito de , mas agora a sua negação só lhe causava mais angústia. O guerreiro sabia que a partir do momento que ele se recusara a estar com , ela se sentiria ainda mais sozinha e perdida em meio ao seu desespero. Mas se recuar fosse necessário para clarear as ideias de , ele faria.
Desejava poder abraçá-la e dizer que estava tudo bem, que dariam um jeito nisso tudo, mas estaria mentindo. Aquilo era só o começo. A noite iria para Medroc e aquele instante poderia ser o último dos dois. A rainha também sabia disso, estava claro em seus olhos. conseguia lê-los como ninguém.
Em um ato rápido, passou a mão pela nuca dela e puxou-a, fazendo com que suas bocas se aproximassem. Assim que os seus lábios estavam quase se tocando, o guerreiro parou, esperando que ela hesitasse, mas surpreendeu-se quando ela jogou seu corpo contra o dele e fechou o espaço que faltava, abrindo a boca para que suas línguas pudessem colidir. Tudo foi rápido, intenso e bruto. Era a história que haviam deixado para trás, era a raiva e a mágoa de tudo que aconteceu e a intensidade da situação que estavam passando. Era como se ambos devorassem um ao outro e necessitassem daquilo naquele momento.
O beijo deixava a marca da saudade e os lábios se guiavam como se nunca tivessem se afastado. Desfrutavam como uma iguaria dos céus, o sabor mais doce que poderiam provar. E, depois de se tocarem, nunca mais saberiam como conseguiriam se afastar.
desceu a sua mão para tentar desabotoar o vestido que ela usava, entretanto, com a dificuldade iminente dos últimos botões, puxou-o, rasgando o último pedaço e retirando-o fora. Ela tentou fazer o mesmo, trazendo a barra da camisa dele para cima, enquanto ele estendia suas mãos para auxiliá-la. A rainha afastou-se com pesar, apenas para que ele desafivelasse o seu cinto e sacudisse a perna para que a calça caísse no chão, em seguida, se despiu do restante do seu traje de guerreiro, ficando nu por completo.
Não esperaram por mais nenhum instante, não poderiam pensar muito. Deixavam-se levar pelas emoções intensas e o desejo latente um pelo outro, caso contrário, poderiam desistir.
empurrou para cima da sua cama e deitou sobre ele, selando seus lábios novamente. Um beijo vigoroso se formou e mãos espalhavam-se na pele um do outro. O guerreiro girou o seu corpo, colocando-se por cima da rainha, e deixou a boca de por alguns instantes, somente para apreciar o restante da textura macia dela. Percorreu seus lábios pela carne da rainha, desfrutando-a como se fosse a mais apetitosa das iguarias. As unhas dela cravavam-lhe as costas e ele alternava os beijos com lambidas e mordidas por todos os locais que passava. Era como se quisessem mais um do outro, nada era o suficiente, mesmo com os corpos tão apertados entre si, quase que fundidos.
A respiração de ofegava a cada toque do seu guerreiro. Os dedos ásperos que traçavam a sua pele a fazia arrepiar e causava um frio latente na ponta do seu abdômen. Não conseguia esperar mais, ela necessitava dele. Nunca havia se sentido tão quente, tão desejosa e tão viva ao mesmo tempo. Segurou o rosto dele e trouxe-o para cima novamente, dando-lhe um beijo que significava muito mais.
Era real, era a essência dela ali, aquilo que nem Jeffrey e nem Helena haviam conseguido tirar, uma emoção que ela achava que estava morta, contudo, apenas fora capaz de trazer à tona novamente.
retribuiu com paixão, empurrando seu corpo contra o dela. Parecia um sonho bom demais para ser verdade. Após tanto tempo, depois de todos os pesadelos que tivera, ela estava ali sob os seus braços, tão palpável, tão entregue e tão linda.
Se ela tivesse lhe dado à chance há anos, teria feito tudo por ela, monumentos e exaltações seriam pouco para demonstrar o quanto a amava. Agora… Não sabia o que dizer e nem o que se passava na mente de ambos, entretanto, tinha certeza que precisava de . Era a única convicção que possuía.
Então, quando o beijo se dissipou, os dois abriram os olhos e se encararam, sabendo o que fazer. Não teve quem tomou a iniciativa, seus corpos nus se encontraram, um ao outro se fundiam em sintonia, tornando-se um só. Ninguém poderia explicar a sensação que passava dentro dos dois naquele instante. arfou e deu um grande suspiro, ambos parados, desfrutando daquele momento.
Tiveram medo de se mover e terminar rápido demais o que havia começado. Queriam se perder no tempo e no corpo um do outro. acarinhava os cabelos de , enquanto ela tinha o rosto na curvatura do seu pescoço e deslizava os dedos por suas costas.
A energia daquela condição causava a rainha uma vitalidade que estava desaparecida. O colapso que havia em sua mente ia se dissipando e ela sentiu algo que achou que nunca mais fosse possível, a paz. Sabia que aquilo não era literal, a situação era a pior que ela já havia enfrentado, mas, de alguma forma, um sentimento de esperança brotava em seu peito. Nos braços de ela sentia as suas forças renovadas. Não porque ele era o seu salvador, pois ele não era. Não havia um resgatador para além dela mesma. Contudo, saber que não estava só, era o melhor presente que poderia escolher naquele instante.
também sentia o impacto causado por ela. Os pesadelos do guerreiro eram trocados por lembranças enevoadas. Ao invés das cenas de mortes que ficaram cravadas em sua mente depois de Ocland, os momentos felizes começaram a aparecer. O contato dos seus corpos fazia com que ele sentisse os espinhos serem arrancados e as feridas saradas, mesmo que aquilo não fosse de fato verdade. Era apenas por um momento, uma fração de tempo que desejaria que fosse eterna.
Lentamente o corpo do guerreiro se moveu, fazendo com que uma eletricidade percorresse em suas veias e o corpo de se arqueasse para trás. Queria que ficasse marcado na memória deles cada disparo que era sentido com as estocadas dadas. Uma por uma, quase uma tortura. Um tormento cruel e delicioso.
A rainha arfava e cravava suas unhas nas costas do guerreiro, deixando as suas marcas na pele dele, impulsionou o seu corpo para cima, deixando o choque mais intenso e fazendo com que fosse impossível continuar postergando os movimentos lentos. Começaram a se movimentar mais rápidos e ofegantes, os cabelos embainhando-se no suor e o cheiro do sexo inundando o ambiente. Não sabiam quanto tempo conseguiram prolongar aquele momento de prazer até urrarem com o ápice do gozo estendido.
Uma nostalgia pairou sobre eles, lembrando-os como eram bons juntos. O corpo de despencou ao lado de e ambos tentavam controlar suas respirações e as batidas descontroladas dos seus corações. A energia em torno deles era tão incrível que parecia ser palpável diante dos seus olhos. Não precisavam dizer nada, aquele momento mostrava mais do que palavras. Por mais que ambos estivessem destruídos e afastados, um ocupava o íntimo ser do outro, mesmo sem saberem como reencontrar os seus caminhos novamente. Na verdade, nem era o intuito deles que isso acontecesse.
Ficaram em silêncio por algum tempo, não querendo se arrepender, no entanto, sabiam que aquele sentimento já estava batendo. sentiu suas fortalezas começarem a ruir, estava exposto a novamente, enquanto a rainha fechava os olhos, evitando encarar o homem ao seu lado.
Aquele momento não a faria voltar atrás e, infelizmente, por mais que no seu profundo interior ela desejasse o contrário, sabia que também não o faria.
― Nada mudou. – A voz rouca e ofegante de ecoou pelo quarto, sem ao menos encará-lo. O suor ainda impregnava o corpo deles, os braços colados lado a lado e as costas dos seus dedos encostados sobre o dele na cama.
― Eu não esperava que fosse diferente – respondeu no mesmo tom, embora estivesse internamente magoado.
piscou, engolindo toda a dor que sentia. Pôde sentir a voz dele estremecer, ainda que ele tivesse feito força para não demonstrar. Ela ainda era a mesma mulher quebrada em busca da filha. A mesma mulher que não o ouviria, independente se, por algum tempo, eles tivesse sido transportados para um universo de emoção diferente do que estavam vivendo.
A verdade é que, lá no fundo, acreditou que pudesse fazê-la mudar. Achou que tudo pudesse ser apagado, que as mágoas fossem capazes de ficar para trás e que ela desistiria da ideia de se colocar em risco iminente de vida.
No fundo ele queria o difícil, o amor. Algo superestimado, uma fábula que não existia. Eles nunca poderiam ficar juntos. Ao mesmo tempo em que pareciam perfeitos um para o outro, era como se fossem bombas que se expeliam e se afastavam. A partir do momento que o caminho deles foi desvirtuado, não houve atalho que pudessem os levar de volta. Por isso, levantou-se da cama, frustrado, catou as suas roupas e vestiu-as, deixando para trás, antes que ela o expulsasse da pior forma novamente.



Capítulo 24 - Parte I

As pálpebras dos olhos de Isaac pareciam chumbo, cada inflada de ar dos seus pulmões eram como pontas afiadas em seu peito. Acordou algumas horas depois, um pouco melhor, mas ainda em péssimo estado. Sua mente ainda estava confusa, flashes de informações disparavam e ele ainda estava lento para conseguir organizar tudo o que havia acontecido. Virou o seu rosto para o lado, vendo a sua mãe sentada em uma cadeira próxima a cama e com a cabeça recostada nela.
Assim que ouviu Isaac se mexer, a mulher despertou e um sorriso tomou conta dos seus lábios ao ver que o filho finalmente desperto.
— Meu amor, você acordou… – Os olhos de Sarah lacrimejaram de emoção e ela levou a sua mão até os cabelos do filho, acarinhando-os com ternura.
? – Foi à única coisa que Isaac conseguiu perguntar assim que a sua mente situou-se de onde estava e o porquê.
O sorriso da mãe esmoreceu e ela mordeu o lábio, receosa com a possível reação que o filho poderia ter.
— Ela não está aqui – respondeu e segurou forte a mão dele.
Isaac forçou para sentar-se com a informação, resmungando de dor, e em seguida, tentou jogar as suas pernas para fora da cama, porém foi impedido por sua mãe, que o segurou por seus ombros, forçando-o a ficar parado.
— Isaac, você está em recuperação! – ralhou para ele.
— Eu preciso procurar !
— Não, você precisa cuidar da sua própria saúde. Perdeu muito sangue, provavelmente tem alguma costela quebrada, você não vai a lugar algum!
— Eu não posso ficar aqui simplesmente esperando! – exclamou exaltado, assim que sua consciência foi se recuperando.
— Já há uma equipe para buscá-la, Isaac! Acalme-se! – Tentou contê-lo, mas o rapaz, mesmo machucado, ainda era mais forte e poderia sair da cama se quisesse.
Entretanto, a porta se abriu e Cameron entrou no recinto vestindo a sua farda, sua espada estava em uma das mãos e na outra a pedra para amolá-la. O homem passava a pedra na arma enquanto caminhava até o filho, sua sobrancelha arqueada pela confusão que encontrou ao entrar.
— O que está acontecendo?
— Cameron, graças aos Céus! – Sarah suspirou aliviada. — Diga ao Isaac que ele deve ficar em sua cama para se recuperar. Ele quer ir atrás da princesa – completou, com um semblante fechado.
Cameron guardou a espada em sua cintura e caminhou até a cama. Pousou uma mão no ombro da esposa e deu-lhe um beijo em sua cabeça, em seguida olhou para o filho com uma expressão séria.
— Não seja tolo, Isaac. Já não deu trabalho suficiente para a sua mãe quando era novo, ainda quer matá-la do coração? A rainha já separou os homens que irão ao resgate. Você mal consegue ficar em pé, só iria nos atrasar. Seria o primeiro a morrer em batalha.
Isaac balançou a cabeça resignado e apoiou-a novamente no travesseiro, suspirou alto e sentiu o seu coração comprimido por não poder fazer nada. Estava desesperado e sentia-se preso, enquanto não sabia o que estava acontecendo com tão distante dali.
— Traga ela de volta, por favor… – pediu, fitando o teto.
— Vamos fazer o possível. Você pode me contar o que aconteceu? Não quero nem saber o que fazia com a princesa sozinho, me diga apenas sobre o rapto – disse com um tom de censura e Isaac fechou os olhos com as lembranças duras que viam em sua mente.
— Estávamos no lago quando eles chegaram, tentamos fugir, porém os homens de Medroc já haviam armado uma emboscada. Creio que queriam ela viva, se não teriam matado a nós dois – discorreu, engolindo em seco.
Cameron balançou a cabeça, analisando o relato de Isaac.
— Garret não faria nada com ela escondido. Ele a quer no castelo, só nos resta saber as suas motivações.
— Ele é louco! – Isaac explodiu, esmurrando a cama. — Ele está furioso porque não cedeu, o que me preocupa é o que ele pode fazer mediante a raiva. O rei de Medroc está com o orgulho ferido, perdeu o irmão e foi contrariado pela nossa rainha. Ele vai destruir . Vocês precisam achá-la a tempo.
— Farei o que couber a mim. – Inclinou-se um pouco e segurou a mão do filho.
— Obrigado, pai – agradeceu, piscando para tentar segurar a emoção.
Sarah passou a mão pelo cabelo do rapaz, inquieta, e depois abriu um sorriso para os dois homens em sua frente.
— Por favor, se cuide você também – interpelou, encarando o seu marido, aflita.
Cameron abriu um pequeno sorriso e inclinou-se para beijar a sua testa.
— Não há o que se preocupar comigo, sei me cuidar. Contudo, quero que fiquem atentos aqui, se os homens de Medroc chegaram até o bosque, podem ter invasores dentro do castelo também. Fiquem atentos e juntos. Eu te disse uma vez que comigo estaria segura, Sarah. Eu cumpro minhas promessas. – Passou o polegar na bochecha dela, trocando um longo olhar com a esposa.
Sarah segurou a mão dele que a tocava e levou até os lábios dela, depositando um beijo ali e balançando a cabeça em consentimento.
— Agora preciso ir, os homens estão quase todos a postos. – Ergueu a mão para o filho, que o correspondeu dando um aperto.
— Fique bem! – Isaac entoou para o pai.
Cameron acenou com a cabeça e deu meia volta para sair do quarto, a fim de terminar de preparar-se para marchar contra Medroc.

*


estava deitado em sua cama, frustrado, angustiado e martirizado. As cenas daquela tarde invadiam a sua cabeça e o sufocavam. Doía como quando era um garoto de dezenove anos. Doía como um homem de trinta e oito. Independente do tempo, conseguia desmoronar todo o seu emocional.
O braço do guerreiro estava sob os seus olhos, protegendo-o da claridade. A porta rangeu e ele o retirou para poder ver quem adentrava em seu quarto. Observou o amigo entrar vestido a sua armadura, a perna puxava um pouco, mas sabia que Hector esforçava-se para mostrar que estava bem. O mais velho sentou-se na cama, ao lado dele, e ergueu-se para sentar-se também.
— Tem certeza que não vai? – Hector indagou.
— Absoluta.
— Só me diga uma coisa… Essa decisão é por que quer enfrentar ou por que realmente não acredita no sucesso da missão?
passou a mão por seu cabelo, descendo pelo seu rosto antes de responder.
— Não seria medíocre a esse ponto para fazer algo por uma vingança. Não irei, primeiro porque acho que estão indo direto para o suicídio. Segundo, porque eu achei que se fosse mais intransigente, poderia desistir – confessou. — Não tenho medo de morrer, Hector. Você, melhor do que todos, sabe disso. No entanto, depois de ter toda a minha vida destruída e ainda assim ter sobrevivido, acreditei que eu poderia ter uma missão maior aqui. As pessoas contam comigo. O que adiantaria se eu desse minha vida numa missão tola como essa? Eu entendo . Ela está sofrendo pela menina. Por incrível que pareça, eu também estou, gosto da garota. Mas nem por isso deixarei de ser racional. Não posso. me chamou aqui para aconselhá-la e é isso que tentei fazer. Eu ainda confio que talvez ela possa recobrar o juízo e tentar entender o que eu digo também.
— Entendo. – Hector balançou a cabeça e permaneceu um pouco pensativo.
O silêncio imperou no quarto, a incerteza dos próximos passos eram mais assustadores do que a luta em si.
— Seus homens farão falta. Sua equipe é a melhor, sabe disso. Não quero convencê-lo a ir, até porque não estou certo que o que faremos é o que deveríamos. Contudo, se algo acontecer… Você ficará bem por não estar lá? – Hector chegou ao ponto crucial da conversa que queria ter com o guerreiro.
Independente do sucesso da missão, Hector sabia o que as possíveis consequências futuras poderiam fazer com , no entanto, aquele não era um segredo seu para falar.
— Quando eu aceitei esse cargo e voltei ao castelo, deixei claro que não seria um cachorro da realeza. me quis aqui assim mesmo porque ela sabe que eu sou o melhor do exército dela, ela sabe que estou preparado para uma situação desse nível e por isso quis trazer os meus conselhos e meus homens para lutar ao seu lado. Você sabe da minha história com ela, Hector. Eu não vou deixar os meus sentimentos cegar-me ao ponto de apenas assentir com tudo o que ela diz. Se ela morrer, não quero compactuar com isso. Teria mais remorso se tivesse a incentivado do que terei por contrariá-la e ter tentado impedi-la.
Hector entrelaçou seus dedos e colocou-os debaixo do queixo, apoiando os cotovelos em suas pernas.
— Você pode estar certo. Vamos ver quando voltarmos.
— Espero não ver nada. Do fundo do coração, espero estar errado e que tudo dê certo na missão.
— Deveria despedir dela, por via das dúvidas – Hector insistiu, sentindo uma sensação amarga em sua garganta.
— Já o fiz – confidenciou, fazendo o mais velho arregalar levemente os olhos. — Não exatamente da forma que você está sugerindo, mas tivemos o nosso momento. seguiu o seu caminho e eu o meu. Independente da guerra, não há futuro para nós. Essa é a única coisa que posso afirmar disso tudo, creio que ficou bem claro.
, antes que eu vá, quero pedir-te algo – Hector contrapôs, sério, chamando a atenção do amigo. — Talvez voltemos em paz ou talvez nem mesmo eu esteja mais aqui. Contudo, se a rainha voltar, apesar de todas as arestas que vocês possuem ou todos os espinhos que vocês carregam repelindo um ao outro, quero que seja sensato, racional e calmo com qualquer coisa ou evento que possa surgir.
O vinco da testa de tornou-se proeminente e sua expressão encheu-se de dúvida.
— Não compreendo. O que está me dizendo?
— Sou mais velho e vivido, conheço mais da vida, por isso, me escute. As coisas podem ficar mais complicadas. E eu não digo isso só em relação à guerra, falo emocionalmente também. Há coisas ou informações que podem surgir e nos fazer estremecer, você pode perder pessoas, pode descobrir que nem tudo é como achava que era e muitos podem te decepcionar.
— Está falando isso para mim ou para você?
— Os dois. Já passei por isso, mas agora me preocupo com você… Se eu não estiver aqui quando essas coisas acontecerem, não entre em guerra com . Vocês precisam agir juntos para salvar a nossa nação.
— Você diz como se ela me escondesse algo. – franziu o cenho, encabulado com aquela conversa confusa, conhecia muito bem o amigo para saber que ele não soltava palavras ao vento de graça.
— Ela é a rainha, a realeza sempre possui muita coisa oculta. O caos sempre tem o poder de trazer as confissões mais tenebrosas à tona. Fique firme, proteja a mulher que ama, apesar de tudo, e salve o nosso povo! – Colocou a mão sobre o ombro de e o guerreiro colocou a dele por cima, dando um leve tapa.
— Farei o meu melhor! – afirmou.
— Já será o suficiente! Acredito em você – Hector encorajou e sorriu, orgulhoso ao ver o homem que ajudou a se tornar.
— Sempre acreditou. Obrigado, Hector. – O general agradeceu com carinho o homem que foi além de amigo, o seu segundo pai.
Os dois se abraçaram, a mão de um batendo nas costas do outro em um gesto demorado. Amavam-se e respeitavam-se. O mais velho havia cuidado de quando ele não tinha mais esperança alguma e ele seria eternamente grato por isso. Era o seu único amigo, a sua única família.
Após se afastarem, Hector despediu-se. Já estava quase na hora de partirem. Levantou-se da cama, dando uma última olhada no guerreiro, que parecia emocionalmente derrotado.
— Eu te admiro, garoto. – Sorriu para , lembrando de como ele ficava com raiva quando era chamado assim, mesmo depois de adulto. — Não sou como você. Fui criado para seguir ordens, irei pelo que a minha realeza disser, mesmo se estiverem errados. Porém, você não é assim. Você tem opinião própria e não se dobra, é esperto e faz valer a sua voz. Você é um rei sem coroa, . Tem o espírito de um governante em um corpo plebeu. – Abaixou-se em uma pequena reverência, deixando o amigo assustado com a sua atitude. — Estou indo para essa missão porque sigo a ordem da rainha, mas também estou indo amparar por você, pois também te sirvo.
— Eu não te mandei fazer isso, Hector. Pode ficar se assim se sentir melhor.
O mais velho sorriu e negou com a cabeça.
— Há ordens que não precisam ser ditas com palavras, apenas com o olhar. Estou feliz em servir as duas pessoas que mais honro neste castelo. Adeus, amigo. – Hector abaixou a cabeça e saiu do quarto, suspirando assim que esteve do lado de fora.
Agora ele só precisava ir em mais um lugar e estaria pronto para partir. Caminhou pelo corredor até chegar à escada que levava a ala dos aposentos reais. Subiu os degraus e curvou em direção ao aposento que ficava mais afastado do restante, torcendo para encontrar a pessoa que queria ali.
A porta estava entreaberta e Hector deu uma pequena espiada, avistando Helena com sua camisola de seda, sentada de frente para a janela e passando as cerdas da escova pelos seus cabelos negros. O homem abriu a porta devagar e entrou no quarto sem se apresentar.
Helena sentiu o olhar de Hector queimar em suas costas. Sabia que era ele, os mesmos passos lentos de sempre, a demora em poder falar algo porque gostava de admirá-la antes de qualquer coisa.
— Veio se despedir? – Helena quebrou o silêncio, parando de escovar os seus cabelos.
A mulher colocou a escova na estante e virou-se lentamente para poder observar o homem. A armadura muito lhe lembrava da mesma que utilizava quando era mais novo. Sempre estava com os brasões de Ílac no peitoral de aço e o capacete em mãos. Os anos tinham passado, vários fios grisalhos entre os pretos indicavam a idade, porém continuava forte e belo.
Hector caminhou até ela e agachou-se na sua frente para que pudesse encará-la nos olhos.
— Não sei se voltarei. – comentou baixinho, apoiando o braço na perna dobrada, formando um quatro.
— Vocês sempre me deixam… – Helena sussurrou, engolindo a saliva como se fosse pedra em sua garganta.
— Isso não é verdade. – Estendeu a mão e apoiou no joelho dela, fazendo lentos círculos no local. — Eu estive com você o tempo todo, mesmo de longe quando casou-se com Miles ou perto quando estava trancada no Poço. Eu sempre te visitei, lembra? – recordou-a, ao tom da sua vez cheia de ternura.
— Mas não me tirou de lá – Helena contradisse, fechando os olhos por breves segundos.
— Você sabe que eu não poderia fazer isso. Você não estava bem, Lena. Era um perigo para os outros e para si. Mas eu fiquei lá com você, eu te visitei, sempre.
— Você foi a minha sanidade… – Helena estendeu a mão e tocou a bochecha de Hector. — Não quero que você vá.
— É preciso. Vim porque não queria partir sem uma última lembrança. – inclinou o seu corpo, permanecendo de joelhos e aproximando-se de Helena.
A mulher sentiu-se receosa e encolheu a mão com a proximidade.
— Não sei se posso fazer isso – sussurrou, parecendo fragilizada.
— Miles está morto, Helena. E amanhã pode ser eu – afirmou, fazendo o coração dela afundar.
A antiga rainha fechou o espaço entre eles e selou os lábios de Hector, fazendo com que ele sentisse a sua boca pela primeira vez. Não se moveram, era um ato platônico que nunca imaginaram que poderia se concretizar. O homem não esperava que ela desse o primeiro passo, mas sabia que não poderia partir sem poder experimentar essa sensação ao menos uma vez.
Hector abriu os lábios e aprofundou o ato devagar para não assustá-la, sentindo a língua dela tocar a sua. Era a realização de um sonho para ele, que sempre havia sido respeitoso com Helena. Não só porque sabia do amor da antiga rainha pelo seu marido, mas também por causa do próprio Miles, que sempre fora seu amigo.
A mulher retribui e colocou as mãos no ombro dele, deixando-se levar pelo momento. Aos poucos sentiu suas dúvidas dissiparem e conseguiu aproveitar as sensações propiciadas, pensando como teria sido sua vida caso seu caminho tivesse Hector como destino final.
Após alguns minutos, o beijo cessou aos poucos e o homem, ainda de olhos fechados, sorriu, sentindo a sensação de satisfação e plenitude.
— Se tivesse me escolhido, talvez sua vida tivesse sido diferente – balbuciou, enquanto deslizava seus dedos na pele do braço dela.
— Talvez… – respondeu, afastando o seu rosto do dele e olhando-o com carinho. — Mas eu amo o Miles.
— Eu sei. – Hector balançou a cabeça, ciente do fato.
— Porém, talvez eu também pudesse amar você.
— Eu sei. – Segurou a mão dela com firmeza e subiu até os lábios deixando um beijo no local, antes de levantar-se e despedir-se, pronto para a sua batalha.

*


A rainha subia em seu cavalo, trazia um escudo em seu braço esquerdo e uma espada de cada lado da cintura. A armadura lhe pesava o corpo, fazia tempo que não a vestia, contudo, sabia lutar com ela devido os seus treinamentos. Cameron e Hector a acompanhavam, um de cada lado seu, também prontos para a partida. Junto a eles, mais trinta homens os seguiam. Era o número mínimo possível para que pudesse passar pela floresta de forma rápida e chegar a Medroc a tempo.
Eram os melhores homens que ela tinha, equiparando-se ao batalhão de , que não viria devido o seu comandante ter ficado no castelo.
Os momentos vividos com o guerreiro foram guardados no baú da sua mente, assim como ela fazia com tudo que pudesse tirar a sua concentração. só pensava na filha nesse momento. Não queria sentir a dor da separação do homem novamente, ou mesmo o fato dele não ter ido com ela em busca de .
Deu uma pequena batida na barriga do cavalo com o calcanhar e começou a trotar sendo seguida por seus homens. A noite fria caía e só era possível se ouvir as pisadas aceleradas dos animais que corriam em disparada. A cada cavalgada, o coração de saltitava, medo e esperança entrando em conflito à medida que guiava o caminho.
Prosseguiram o percurso, contornando o imenso lago e, após algum tempo, pararam diante de um córrego, que seguia o fluxo do rio. Os soldados estavam ofegantes e esperavam às ordens de sua rainha.
— Podemos seguir o fluxo do rio à esquerda, o caminho pode não ser aberto como aqui, mas é o que gastaremos menos tempo – Hector sugeriu ao se aproximar dela.
— Qual a outra opção? - perguntou, perdendo o seu olhar na escuridão e no reflexo da lua na água.
— Pelo caminho à direita sairemos na Mata Negra, umas duas horas mais longe até chegarmos ao caminho real, que é a estrada já aberta por nós.
escutou atentamente e olhou para trás para ver os seus homens. Eram bons soldados e muito corajosos. Confiava em cada um deles e sabia que eram os mais leais que ela poderia encontrar. Eles a seguiria até a morte, por isso, não pestanejou ao emitir a sua decisão.
— Vamos em frente.
— Como? – Cameron indagou-a, aproximando-se do outro lado.
— Vamos atravessar o rio.
— Majestade, já é tarde da noite, a temperatura dele deve estar baixíssima, além disso, não sabemos qual a profundidade das águas – o tio salientou.
— Então é bom que saiba nadar. – finalizou, descendo do seu cavalo.
Pegou as rédeas do animal e puxou-o, andando em direção às águas. Não olhou para trás, não parou para ver se alguém a seguiria, e nem fora preciso. Hector repetiu o movimento com seu cavalo e, um a um, os homens foram descendo os seus animais, guardando alguns pertences em pequenos sacos e amarrando-os no pescoço para evitar que molhassem.
A rainha pisou o pé na água e seu corpo inteiro se arrepiou ao sentir a baixa temperatura. Vagarosamente foi pisando cada vez mais para o fundo, os poros do seu couro ficando expostos a água fria. Aos poucos, foi deixando de sentir a sua pele, que se anestesiou com o gelo. Seu cavalo começou a relinchar e puxar a rédea em sua mão, amedrontado e sofrendo com o frio. Ergueu as duas patas dianteiras e moveu a cabeça com força, assustando-a e fazendo com que desequilibrasse e quase caísse. A mulher segurou firme com as duas mãos à corda e tentou alisar o rosto do animal, a fim de acalmá-lo.
Alguns outros cavalos da tropa também começaram a relinchar, causando um alvoroço entre os homens. A rainha, temendo perder o controle do batalhão, puxou a rédea do seu cavalo para baixo da cabeça, forçando-o a pousar suas patas novamente no chão. Logo que conseguiu o feito, deu a volta para a lateral do animal, pisou rápido o pé no estribo e o montou, inclinando o seu corpo em direção do pescoço do cavalo e passando a mão levemente sobre ele, até o abrandar.
Mulher e animal, novamente conectados, se acalmaram. A respiração do cavalo ainda era forte e o coração estava agitado, porém, ele já não relinchava e nem empinava.
— Não me deixe na mão, eu preciso de você… – sussurrou para o animal tenso.
Ele, por mais que estivesse mais calmo, não parecia querer sair do lugar. O cavalo tinha medo e temia que não fosse pela água. Os cavalos reais eram treinados para esse tipo de situação, então só lhe restava pensar que a sensibilidade do animal era por outro motivo...
— Vamos! Por … – Afagou o pescoço do animal com as duas mãos e ele relinchou, como se compreendesse as palavras da mulher.
Surpreendendo-a, o corcel negro deu um passo à frente, afundando-se mais na água e seguindo o caminho. Continuou a caminhar lentamente, a água agora batia na barriga dele, porém ele não parava. Os demais, aos poucos seguiram o seu líder, enfurnando-se mais no rio gelado.
Aprofundaram-se até que restasse apenas a base do pescoço do animal para fora. Pouco a pouco atravessaram e logo as águas foram ficando rasas novamente, podendo todos suspirarem aliviados. Haviam passado uma etapa, agora a preocupação seria outra. As roupas encharcadas somado ao vento frio, faziam o queixo deles baterem, não tinham feridas, mas o gelo os doíam até os ossos. Com a perna encostada na barriga do cavalo, podia sentir a pele do animal tremer. Precisavam correr e se movimentar antes que morressem de hipotermia. Quanto mais a madrugada avançasse, o frio pioraria, e já tinham poucos homens, não poderia perder ninguém.
Começaram a cavalgar apressadamente, correndo contra o tempo. A rainha não conseguia parar de pensar na sua menina e nas mãos dos homens sobre ela. Ela poderia imaginar quão malévolos os inimigos seriam, ainda mais a mando do rei Garret. Ela teria que chegar viva, mas não queria dizer que precisava chegar inteira, seja fisicamente ou emocionalmente.
O barulho dos cascos dos cavalos quebrando os galhos da estrada era cada vez mais intenso, encontraram o caminho bloqueado uma ou outra vez, tendo que saltar os troncos quebrados e pedras que interferiam na passagem. O percurso estava cada vez mais estreito, a floresta ia se fechando e tinham que abaixar os seus corpos para não serem atingidos pelos galhos das árvores.
Hector já tinha uma ferida no braço e alguns outros homens também estavam levemente machucados, porém prosseguiam. A roupa molhada limitava os movimentos, ainda mais tocando o aço frio. Cavalgavam e rangiam os dentes à medida que a noite esfriava e a madrugada fazia o seu percurso.
A luz do luar auxiliava em meio à escuridão, acrescido aos lampiões que alguns deles carregavam. O tempo parecia cada vez mais lento, corriam, mas pareciam não chegar a lugar algum. As horas se arrastavam enquanto eles enfrentavam as adversidades da sua missão.
O frio minava cada vez mais as forças e deixava-os mais cansados. começou a se preocupar que, caso não chegassem logo ao seu destino, os homens não estivessem prontos para a batalha.
Continuaram cavalgando até notarem um ponto de luz no horizonte. sorriu ao perceber que a floresta estava acabando e logo estariam a céu aberto, praticamente em Medroc. Aquela visão recobrou o seu ânimo e o dos homens, por isso, começaram a correr mais intensamente, vendo o caminho se alargar.
Os trotes se intensificaram e a cavalaria rugiu em incentivo para irem adiante salvar a princesa. corria na frente, sendo acompanhado por Hector e Cameron logo atrás. Seu corpo formava um só com o seu cavalo e ambos aceleravam, até sentirem o vento intenso vindo do exterior da mata.
só conseguiu ver as labaredas de fogo quando estavam do lado de fora, em campo aberto. Puxou a rédea do cavalo com força, fazendo com que ele freasse de uma vez e seu corpo fosse jogado para frente, quase fazendo-a cair. Os homens foram parando atrás dela, à medida que notavam o que estava acontecendo.
Várias fogueiras estavam acesas para dar claridade ao local e uma meia lua era formada pelos homens do exército de Medroc. Não era possível notar a quantidade devido à escuridão atrás deles, mas percebiam que eram muitos, muito mais do que a quantidade que havia invadido às suas terras para levar .
Assim que os soldados de Ílac, desavisados, entravam com rapidez, a meia lua dos homens de Medroc ia se fechando, restando apenas a passagem de volta para floresta, atrás dos guerreiros de .
Um homem grande e ruivo, montado em seu cavalo, liderava a frente dos homens de Medroc, e ao ver o olhar espantado de , ele sorriu. O inimigo caminhou em seu alazão um pouco mais para frente, diretamente para que a rainha pudesse notar que ele estava no comando.
— Estávamos te esperando, Majestade.



Capítulo 24 - Parte II

A risada debochada do inimigo fez com que os cabelos de se arrepiassem. Haviam caído em uma emboscada e não teriam como recuar. Girou a cabeça para olhar analisar os seus homens, pairando o seu olhar sobre cada um deles. Uns exalavam ódio, em outros era nítido o medo e pavor, entretanto, a rainha sabia que bastava uma ordem e eles lutariam. Não deveriam voltar pelo caminho que vieram, fugir não era uma opção. Poderiam morrer naquele momento, mas batalhariam até o fim pela causa proposta.
— Onde está a minha filha? – perguntou, logo que seus olhos encontraram o ruivo medrockiano novamente.
O homem olhou para o céu estrelado e passou a mão em sua longa barba, fingindo pensar e, em seguida, encarou novamente, abrindo um longo sorriso assombroso.
— Vossa Majestade está se referindo a uma bela donzela que encontrei perdida pela floresta? – Fez uma pausa para lamber os lábios. — Se for essa graciosidade, a senhora está de parabéns, nunca vi mais bela. Foi um deleite tê-la nos meus braços – provocou.
O furor percorreu as veias da rainha e ela precisou se conter para não avançar em um ato insano sobre o homem. Cada vez era mais difícil separar as suas emoções, o ódio latejava as suas entranhas de modo que lhe doía a carne ter que se conter. Tocar na sua filha levava-a ao máximo do limite, por isso, deveria ser cautelosa, antes que entregasse o jogo cada vez que cutucassem a sua ferida.
— Chega de delongas e vamos ao que interessa. Eu quero a princesa de Ílac. E vocês – ergueu a espada, apontando para o ruivo, – a troco de quê pegaram a minha filha?
O homem deu um salto do seu cavalo e saltou para o solo, dobrando levemente os joelhos para amortecer a queda. Depois, endireitou o seu corpo e pousou uma mão no cabo da espada que estava selada em sua cintura, trocando o seu sorriso por uma expressão sombria.
— Ah, Majestade, você é tão previsível… Só foi pegarmos a menininha que veio direto ao encontro dos lobos. Onde ela está?! Não sei, terá que perguntar ao meu rei. Eu apenas sigo ordens. Cumpri a primeira ao entregar a menina diretamente nas mãos de Sua Majestade, agora só resta-me mais uma… destruir você.
O ruivo puxou sua espada com rapidez e soltou um alto rugido, obtendo em resposta um brado dos homens de Medroc. Apontando a arma para , o homem tomou a dianteira do exército e começou a correr, atrás seus homens o seguiam, encurralando os guerreiros de Ílac.
— HOMENS, ATACAR! – a rainha gritou, puxando também a sua espada e avançando contra seus inimigos.
Cada uns dos presentes empunharam as suas armas, prontos para lutar. Em momentos de batalha, se esquecia da dor e das fraquezas, restava apenas o desejo de vencer.
Os corpos começaram a se chocar, travando o duelo entre os inimigos. O som afiado das espadas se expandiu no ambiente, assim como os gemidos de dor a cada segundo que alguém ia sendo atingido. Pelo canto do olho, conseguia ver Hector lutar com um homem, ambos ao seu lado, enquanto ela concentrava-se no ruivo abominável a sua frente. O homem era imenso e quase o dobro do seu tamanho. No entanto, a sua aparência macabra não a intimidava, a rainha sabia como usar o seu próprio porte e leveza ao seu favor.
O soldado avançou a sua espada sobre e ela o bloqueou, erguendo a sua na altura do rosto para se proteger. O barulho cortante dos aços soou alto no impacto e o ruivo tentou usar da sua força física para empurrar a arma sobre e tentar fazê-la cair. A rainha abaixou depressa a sua espada e rodopiou para direita, desviando do ataque do homem. Curvou o seu corpo e tentou dar um golpe na direção do abdômen do soldado, porém, ele foi bloqueado e ambos voltaram à posição de combate, se encarando e andando em círculos, prontos para um novo afronte.
O ruivo ameaçou-a, dando um passo para frente e depois recuando, contudo, não se acovardou e nem assustou-se com o ato, mantendo-se na mesma posição. A rainha encarava o homem furiosamente, sabendo que ele era o responsável pelo rapto da sua filha e, por isso, ela o faria pagar com as próprias mãos.
Os gritos dos homens morrendo ao seu redor não a distraía, canalizava a sua raiva e os seus golpes para serem o mais fatais e rápidos precisos, no entanto, ao ver o guerreiro dos cabelos alaranjados abaixar a sua espada e sorrir, a confusão apossou a sua mente. Um mísero segundo de desconcentração, apenas um instante até ela perceber um vulto ao seu lado. A rainha deu um giro em volta do seu corpo, esticou a sua espada para frente e atingiu em cheio o abdômen de um dos soldados de Medroc que tentava lhe atingir pelas costas.
O sangue respingou em suas mãos e o homem caiu no chão, debatendo-se de dor até morrer. A rainha voltou o seu olhar intrépido para o ruivo, que agora mantinha uma posição de ataque. passou o dorso da mão em sua testa, deixando um rastro do sangue do inimigo pela sua pele e, em seguida, deu um sorriso irônico para o soldado.
— Achei que estava lutando com um homem à minha altura, mas não passas de um covarde. Deixar que outro faça um serviço que deveria ser seu e ainda mais pelas minhas costas?! – Estalou o céu da boca e apontou com o polegar para trás. — Isso foi baixo. Não lhe torna digno nem da minha espada.
— Não há dignidade nenhuma em morrer, todos voltaremos para o pó de qualquer forma.
— Aí está a diferença entre nós. Morro com honra e deixo a minha história perpetuar nesta terra, aja como um covarde e terás seus ossos esquecidos em um túmulo qualquer.
O ruivo velozmente abaixou-se, pegou um escudo de um companheiro morto perto dos seus pés e correu para cima da rainha, que tentou apunhalá-lo, mas caiu no chão com o impacto. A espada dela havia atingido apenas o aço do escudo dele, e foi empurrada com força para trás no momento que o atingiu. O homem avançou sobre ela, tentando atingir-lhe pela lateral da barriga, mas rolou e desviou do ataque. Curvou-se em posição de concha e bateu a espada na perna do homem, fazendo-o cair de joelhos. Não havia sido ferido por conta da sua armadura, mas a força do golpe o desestabilizou.
aproveitou o deslize dele, levantou-se do chão e ficou diante do inimigo prostrado. Ergueu a espada no alto e estava pronta para degolar-lhe a cabeça, quando avistou não muito longe dali, Hector lutando com três homens ao seu redor, ferido e encurralado. Nem titubeou, deixou o seu algoz para trás e saiu correndo para ajudar o seu companheiro. Deu um salto e enfiou sua espada na garganta de um deles, matando-o imediatamente, e virou-se para enfrentar o segundo, que já havia largado Hector ao ver que era a rainha ao seu lado. O terceiro também voltou-se para e tentou atacá-la, porém, cada golpe que aplicavam, era desviado por ela.
Hector caiu no chão, o aço do peitoral havia sido transpassado e a lateral do seu abdômen sangrava. Sua perna, já prejudicada, estava pior, não tinha força para apoiá-la e não conseguiria mais manter uma luta. Com a respiração intensa e a fraqueza o consumindo, ele olhou para , que lutava contra os dois dos seus antigos carrascos. Ela estava saindo-se bem, mas, ainda assim, eram dois contra um, um entrave desgastante.
A rainha girava e atingia-os como se estivesse em uma dança, havia pegado a espada do homem que matou e agora tinha uma em cada mão, bloqueando cada golpe do inimigo e atingindo-os em resposta. A mulher tinha um pequeno sorriso no rosto e Hector suspirou aliviado ao constatar que eles não seriam páreos para a rainha, ela apenas divertia-se com eles. Pouco a pouco, mãos, braços, bochechas e vários outros pedaços dos corpos dos inimigos eram marcados pela lâmina da espada de .
O antigo general olhou para o lado, vendo os corpos de muitos homens ao chão. O sangue corria pela terra e haviam pedaços corporais espalhados por todos os lados. Os homens de Ílac lutavam bravamente, estavam em um número bem menor, mas o propósito que carregavam em seu peito deixava-os mais fortes. Os soldados de Medroc não tinham honra, preocupavam-se mais com sua própria pele, não duvidada que muitos deles tivessem fugido para se esconder e preservar as suas próprias cabeças.
Quando voltou olhar para frente, já estava diante dele, as armas abaixadas na lateral do seu corpo e um sorriso estampado no rosto. Tinha sangue pelo cabelo e por todo o corpo, mas logo viu que era apenas dos restos mortais que haviam sobrado dos soldados.
— Está bem? – Desfez o sorriso e pousou um olhar preocupado em Hector, que segurava o ferimento para estancar o sangue.
— Já estive melhor, Majestade, obrigado. – Tentou forçar um sorriso para tranquilizá-la. — Não se preocupe comigo, ainda temos muitos homens para matar.
guardou uma espada em sua bainha, ficando com somente com uma empunhada em sua mão.
— Eu preciso de você vivo – retrucou-o, preocupada com o sangramento intenso.
Era ainda só o início, os homens batalhavam na noite fria, muitos de Ílac estavam caídos, mas os que ainda restavam, tentavam resistir. A rainha virou-se para observar em volta e cravou o seu olhar no ruivo que marchava furioso em sua direção. deixou Hector atrás e avançou sobre o inimigo, mas teve a sua espada bloqueada pela esquerda, em sequência o homem ergueu o pé e chutou a sua barriga, jogando-a para trás. Ela fuzilou-o com o olhar, tirou a outra espada que estava embainhada, empunhando uma a sua frente e outra atrás. Correu de volta para o ruivo e o homem avançou em um golpe dianteiro, contudo a rainha conseguiu abaixar e desviar, deu um meio giro e, com a espada traseira, atingiu a coxa dele, transpassando o coxote.
— Maldita! – o homem gritou, sentindo a sua carne latejar. Fechou uma mão em punho e socou , que ainda não tinha tido tempo de se erguer, fazendo-a cair.
Acabou soltando uma das suas espadas na queda, mas elevou a outra em proteção no momento que o homem lançava-se sobre ela, atingindo-o no ombro. O soldado rugiu de dor e replicou cravando um golpe afiado no braço de . O golpe fez com que ela gritasse e soltasse a espada, o guerreiro medrockiano aplicou um soco em seu rosto, derrubando-a, antes dele mesmo cair ao seu lado ferido, ambos jogados com as costas no chão.
A rainha virou-se para a direita, tentando pegar a sua espada novamente, porém foi impedida pelo ruivo, que estendeu a sua mão e agarrou-a pelo punho, puxando-a para ele. sentiu o tranco e caiu por cima do peitoral dele, ergueu o punho o socou o rosto do ruivo e, assim que recebeu o murro, o homem puxou-a pelo cabelo, tirando-a de cima de si.
— Sua vadia, vai se arrepender disso! – Deu uma cabeçada nela, deixando-a tonta, e levantou-se, ainda puxando-a pelos cabelos da nuca e arrastando-a.
tentou sair das garras dele, mas estava desarmada. A posição não lhe permitia fazer muita coisa, sua cabeça latejava e a visão ainda estava um pouco turva com o golpe.
O inimigo puxou-a para cima, fazendo com que ela ficasse ajoelhada diante dele. Fechou os dedos da outra mão em punho e socou a cara dela, arrancando-lhe sangue da boca. cambaleou e cerrou suas unhas no braço do ruivo que a segurava, ao ponto de sair sangue, no entanto, ele não a soltou, com a mão livre ele agarrou o pescoço dela e a ergueu até que não tivesse mais os pés no chão.
— Quem disse que serei esquecido, Majestade? Todos saberão que matei a grande e poderosa Rainha de Ílac! – Soltou uma gargalhada, apertando mais ainda os dedos na garganta dela.
A rainha tentou remexer o seu corpo, mas o ar já lhe faltava. Os pontos negros começaram a atingir a sua visão, o coração batia forte em seu peito e o desespero apossava a sua mente. Repentinamente, a mão do homem se afrouxou e ele cambaleou. A rainha caiu ao chão e inspirou o ar profundamente, levando a mão até a sua própria garganta e alisando-a desesperadamente. Virou o seu rosto em direção ao ruivo e viu uma espada transpassada no ombro dele por trás e Hector caído no chão.
— Seu desgraçado! – o inimigo rugiu, estendeu a mão para trás gritando e puxou a espada pelo cabo para retirá-la. — Eu vou te matar com essa mesma espada, seu infeliz! – Caminhou até Hector e chutou o ferimento dele, em consequência o antigo general bradou de dor e viu o seu sangue fluir ainda mais intensamente.
O ruivo colocou o pé por cima da ferida e aplicou força no local, virando para um lado e para o outro e abrindo ainda mais a carne rasgada. Empunhou a espada com a mão direita e tocou embaixo do queixo de Hector, guiando a cabeça dele para cima e fazendo com que os dois pudessem se olhar.
— Adeus! – entoou, abrindo um sorriso maléfico, os dentes sujos de sangue.
Hector fechou os olhos, esperando a sua sentença, e o ruivo gargalhou, forçando a espada na garganta dele. O sangue começava a jorrar do seu pescoço e antes que pudesse chegar a sua morte, ouviu um grito e sentiu um peso cair por sobre a sua barriga. Abriu os olhos e viu a mão do guerreiro que empunhava a espada, caída sobre ele.
O ruivo berrava em choque, olhando para o sangue jorrando do seu pulso. Olhou para o lado e viu a Rainha de Ílac com a espada suja de sangue e a respiração descompassada, em posição de ataque diante dele. Não havia a visto chegar, a mulher havia sido rápida no seu golpe, decepando a sua mão. O grito ensurdecedor que ele deu fora tão alto que muito dos seus homens olharam em sua direção e tiveram medo, sem saber o que a rainha havia feito com o comandante. Medrockianos de todos os lados começaram a correr até os seus cavalos e começaram a fugir, alguns iam sendo mortos e impedidos pelos soldados de Ílac, e alguns poucos lutavam com bravura para defender o seu reino.
Ílac tinha um povo corajoso e leal, mas Medroc continha os sanguinários. Havia sangue e dor espalhado pelo chão. Os inimigos estavam em vantagem de números, mas agora, sem a ordem de comando, eram como formigas desorientadas ao ficar sem sua casa. Ainda assim, pouco a pouco, os homens de Ílac iam caindo também, deixando um rastro de corpos pelo chão.
O comandante ruivo, vendo que não tinha como mais lutar, deu alguns passos para trás com medo. Pressionou o pulso cortado no tecido da sua roupa e pegou uma outra espada de um morto qualquer que estava jogado no chão. Seus olhos tremularam ao ver a fúria da rainha, sabia que ela não o deixaria fugir. Olhou o guerreiro que estava ferido ao lado dela e depois novamente para ela. Estava em desvantagem naquele momento e ela o alcançaria sem mais delongas.
observou o ruivo parar de caminhar e encará-la. Ele abriu a mão esquerda e soltou a espada que estava segurando, levando em seguida sua mão até a sua cintura. A rainha inclinou-se para andar até ele e matá-lo, contudo, o homem retirou um objeto do encaixe da sua armadura e arremessou contra ela. O instrumento girou e passou violentamente no rastro do seu rosto, deixando um corte superficial em sua bochecha.
ergueu a mão no susto, sentindo os dedos tocarem no sangue que saiu da ferida sua pele. Ele havia errado o alvo e ainda estava viva, mas agora, com certeza, ela não o deixaria mais viver. Deu um passo para frente e estranhou o sorriso que se formava no rosto do ruivo.
— Lide com isso. – Fez um sinal com a cabeça, apontando para trás dela, e virou as costas, correndo em direção a um cavalo e gritando seus homens para retirada.
girou a sua cabeça para ver o que havia detrás, Hector estava em pé, pálido, e com os olhos arregalados. O antigo general desviou o seu olhar para baixo e o acompanhou, deparando com um punhal cravado no peitoral dele.
— Hector! – A rainha gritou e correu até ele.
O guerreiro tropeçou e caiu para frente, tentou segurá-lo, poupando assim o impacto, e caiu sentada ao lado dele por conta do peso, o sangue do homem sujando as suas pernas.
— Hector, por favor, fique comigo! – Tirou o punhal e pressionou a mão no peito dele para tentar estancar o sangue.
Os olhos do guerreiro não pareciam focar em nada, havia sangue por toda parte. Hector tentou erguer um pouco a cabeça na direção da rainha e abriu lentamente um pequeno sorriso.
— Vossa Majestade acabou com ele – disse com uma voz fraca e tossiu, expelindo sangue pela boca.
— Ele fugiu – ela constatou, olhando de um lado para outro, sem conseguir avistar o comandante ruivo.
— Mas Vossa Majestade o mataria. Olhe em volta, todos fugiram com medo da sua força e, os que não foram, estão sendo mortos pelos nossos homens – deu uma pequena risada e entrou em uma crise de tosse, girando o corpo levemente para o lado e vomitando sangue.
— Hector, preciso que você concentre-se em mim, está entendendo? Não feche os olhos. – O coração da rainha palpitava enquanto rugia para ele, o sangue do guerreiro não parava de jorrar e a fricção da mão dela não estava contendo o suficiente. — Homens! Selem os cavalos – gritou, chamando os soldados.
O homem franziu as sobrancelhas com força e resmungou de dor, tentava inspirar, mas suas forças estavam acabando e sua carne sofria com os golpes que havia levado. Aos poucos ia se enfraquecendo, sentindo o sangue jorrar do seu corpo. Com esforço conseguiu erguer a mão até o pulso da rainha e fechou os seus dedos ali, puxando-a levemente para ela a retirasse dali.
— O que está fazendo, Hector? Eu preciso estancar o ferimento! – vociferou, dando um tapa na mão dele e pressionando o ferimento do peito dele novamente.
— Não há o que fazer, Majestade. Meu tempo aqui acabou. – A voz dessa vez saiu mais débil e baixa, quase sem forças.
— Não! Você precisa voltar vivo! Eu ainda preciso de você. precisa de você! – ela retrucou com os olhos embaçados de lágrimas.
A ponta da boca de Hector se elevou em um sorriso suave ao pensar no amigo e o homem fechou os olhos, adquirindo uma expressão serena no rosto.
— Ele é um bom homem… – sussurrou.
— Sim, ele é! É seu amigo, mas não saberei lidar com ele sem você para intermediar, Hector – retorquiu, deixando uma lágrima pingar no peitoral ensanguentado dele e tentando fazer com que ele continuasse conversando e ficasse lúcido o suficiente para aguentar até a volta ao castelo.
— Ele não precisa mais de mim… – Deu um suspiro profundo. — Conte a ele, .
A rainha estacou, afrouxando a compressão em surpresa, e olhou para o homem, que mantinha os olhos fechados enquanto falava.
— Contar o quê? – Engoliu em seco, uma sensação amarga inundando o seu peito.
— Eu sei o que você esconde. Conte ao , ele merece saber. – Pausou a fala devido à fraqueza e engoliu um pouco do líquido que estava se acumulando em sua boca. Passou a língua no lábio ferido e tossiu antes de continuar. — Ele merece saber que não está só – conseguiu completar, quase inaudível.
começou a balançar a cabeça, as lágrimas – antes contidas – agora rolavam pelo seu rosto. Um frio percorreu a sua coluna e suas mãos tremeram no peitoral ferido de Hector. O homem arrastou a sua mão até estivesse por cima da dela e apertou-a com o resto de força que lhe sobrava.
— Conte a ele, – gemeu enfraquecido e sua cabeça lentamente caiu para o lado.
arregalou os olhos, apertou a mão do guerreiro que a segurava e, com a outra, pousou no rosto dele, balançando freneticamente.
— Hector, acorde! Hector! – berrou enquanto o sacudia inutilmente.
A rainha inclinou-se para baixo e posicionou a sua orelha no peito dele, sem se importar em sujar a lateral do seu rosto de sangue. Não conseguiu ouvir nenhuma batida ou mesmo o movimento do peito que indicaria a respiração do antigo general. Levou a mão até o pulso dele, entretanto, não encontrou nenhum sinal de vida ali.
Hector estava morto.
Sua vida havia se esvaído, o homem honrado que lutara em favor do seu povo e da família real, agora seria apenas um nome passageiro na Terra. Sem amor, sem família e com apenas um amigo. Era a única pessoa que deixara… . Mas morria em paz por compreender o que o destino havia lhe dado. Fora a bússola do garoto perdido, a salvação do jovem desalmado. Alguns laços eram selados mais fortes do que o sangue e por isso, mesmo que soubesse que ir naquela batalha provavelmente fosse o seu fim, a calmaria tomava conta da sua alma. Deixava um amigo na Terra, mas encontraria outro no céu. Reunir-se-ia agora com Miles e deixaria para trás o mundo de dor e obscuridade da Terra, marcado pela sua bonita passagem e um legado de integridade e retidão.
Assim que constatou a morte de homem, passou a mão por seu rosto, retirando as lágrimas que haviam caído. Ainda havia uma guerra, para enfrentar, homens para matar e uma filha para resgatar, por isso, fechou o seu semblante e se recompôs externamente.
Os homens de Medroc havia retornado seguindo o seu comandante e os que sobraram haviam sido exterminados pelo batalhão de Ílac. Alguns dos soldados de temeram se aproximar ao ver o antigo general caído, contudo, pouco a pouco iam se reunindo em volta dela e do corpo ao chão.
A rainha levantou-se devagar e enrijeceu a sua coluna, incorporando o seu o olhar duro e gelado, amplamente já conhecido. Não possuía nem metade dos homens que a acompanharam até aquela batalha, a maioria morto e outros muitos feridos. apontou para um dos seus soldados e o chamou para que se aproximasse. O homem caminhou timidamente, o coração despedaçado pela batalha sangrenta e por ver o seu líder morto ao chão. Assim que parou diante da rainha, flexionou o joelho e reverenciou-a, aguardando a ordem real.
— Prepare o corpo de Hector, quero que ele volte intacto para o castelo – determinou e percorreu o seu olhar para o restante dos seus homens. — Os demais recolham os outros corpos. Se não conseguir levá-los agora, amontoe-os em um local seguro que logo que chegarmos uma equipe virá resgatá-los. Todos aqui merecem um funeral digno diante das suas famílias, por isso, todos eles voltarão para a sua terra – e de onde nunca deveriam ter saído – completou em pensamento.
Pegou a sua espada, colocou de volta na bainha da sua cintura e caminhou até onde o seu corcel estava, trazido por um dos seus soldados. Impulsionou o seu corpo, pisou no estribo e subiu nele, cavalgando de volta para os seus homens.
— Selem os cavalos, soldados, estamos voltando para casa!



Capítulo 25

— Ora, finalmente está aqui, Alteza. A senhorita não sabe como te aguardei ansiosamente! – Os olhos de Garret se iluminaram ao ver a sua encomenda diante dos seus pés.
O corpo da princesa estava encurvado desde o momento em que foi jogada no chão do palácio, observada por todos como um animal raro exposto ao público. sentia-se fraca, não havia comido nada desde que foi levada do castelo, a lateral da sua costela doía, assim como várias outras partes do seu corpo. Achou que não chegaria viva até ali. Seu vestido estava sujo e rasgado, sua tiara real havia sido arrancada da sua cabeça com força, levando um punhado do seu cabelo junto do movimento.
Havia sido ridicularizada pelos soldados de Medroc durante o percurso, sentiu medo e por muito se arrependeu de ter se deixado levar por aqueles homens. No trajeto os homens tentaram tocá-la, erguendo a barra da sua roupa e depositando as mãos nojentas em sua coxa, no entanto, a princesa rebateu em proteção, levando um soco em resposta, enquanto os demais riam e gracejavam da situação.

A princesa de Ílac é intocável? – um deles zombou, segurando o rosto dela. — Aqui não, menininha, aqui você será o que nós quisermos. – Abriu um sorriso horripilante, mostrando seus dentes amarelos e deixando à mostra a falta de alguns deles.
Afaste-se de mim! – rangeu, virando o rosto para evitar o toque dele, enquanto os homens faziam um círculo ao seu redor.
Pegue ela, Crigh, quem a princesinha acha que é?! – um deles gritou.
Eu também vou querer um pedacinho – outro soldado avançou sobre ela por trás e agarrou a sua bunda.
A princesa pulou assustada e tentou fugir, escapando das mãos de alguns que tentavam segurá-la. Um homem alto e rechonchudo a abraçou quando ela passou por ele e a apertou contra o seu corpo, segurando as mãos dela em suas costas.
Onde que pensa que vai, princesinha? – Abaixou a cabeça e mordeu o ombro dela com força, fazendo-a gritar de dor e se debater. — Hum, saborosa! – Riu e arrastou-a de volta para o círculo. Os soldados, erguendo seus copos e gritando em zombaria, estendiam as mãos para tocá-la no caminho e começaram a puxar as roupas dela, rasgando partes do seu vestido.
Solte-me, seus crápulas! – gritou enquanto tentava se livrar das mãos dos homens, porém o círculo ia se fechando e ela sentia mãos passando em várias partes do seu corpo enquanto ela tentava se soltar, sem chance alguma.
A princesa chutou a canela de um deles e a sua palma atingiu o rosto de outro, entretanto, eram muitos. Começaram a puxar o seu cabelo e alguém a jogou no chão. O soldado, que havia a levado para o círculo, deu um grito e abriu os braços, chamando a atenção dos homens e caminhando até ela, que estava com as costas no chão, o seio direito quase exposto e sua perna desnuda.
Deixe a menina comigo, quero ver se assim que eu terminar com ela, a sua postura continuará tão altiva! – ordenou e os homens se endireitaram em volta da princesa, ao passo que ele andava até ela com a mão no cinto da sua calça, desabotoando-o.
começou a se rastejar, recuando de costas e tentando manter distância daquele soldado, mas atingiu a canela de um outro atrás de si. Estava cercada e sem saída. O homem abriu as calças, abaixou-se diante dos pés dela e puxou-a pelas pernas em sua direção, o que estava atrás dela abaixou-se também e segurou os braços da princesa, impedindo que ela tentasse se soltar.
Os olhos da menina encheram-se de água e ela começou a gritar, enquanto sentia os dedos ásperos do homem tocar as suas coxas e subir o seu vestido. Quando seus dedos calejados atingiram a lateral da sua roupa de baixo, o comandante ruivo – mandante do seu sequestro – entrou na roda, rugindo contra os homens e fazendo todos eles recuarem imediatamente.
Afastem-se dela, brutamontes! Querem ser mortos pelo rei? Temos ordens de levar a garota intacta! – rugiu e olhou para os seus soldados, empunhando a sua espada e colocando no pescoço do homem que estava ajoelhado diante da princesa.
Perdoe-me, comandante. – O soldado abaixou a cabeça em sinal de rendição.
O ruivo afastou a espada dele, virou de costas e passou lentamente o seu olhar para os homens do círculo, em seguida, deu um giro rápido e cortou a cabeça do soldado rechonchudo fora.
soltou um grito e colocou a mão sobre a boca ao ver a cabeça caída ao seu lado e o sangue respingado por suas pernas. Encolheu-as rapidamente e passou os braços por elas, os joelhos dobrados e as lágrimas jorrando pelo seu rosto.
Da próxima vez aprendam a seguir ordens. Feirjo, amarre a princesa novamente, a pausa acabou, vamos embora! – O comandante virou-se e caminhou para longe do grupo, enquanto um a um afastavam-se da garota, restando apenas o soldado com a incumbência de prendê-la.

Depois disso, ninguém mais a tocou, e ela foi levada para ser entregue nas mãos do Rei. Mesmo que o comandante ruivo não estivesse mais entre eles, ninguém ousaria desobedecer a uma ordem dele, pois sabiam que, em Medroc, a punição seria ainda pior. Um grande pelotão havia se encontrado com eles pelo caminho, e o ruivo voltou o percurso com os soldados em seu encalço, para uma missão que Garret havia ordenado.
Agora estava diante da pessoa que um dia achou ser o seu tio, aquele que ela pensou ter o seu sangue. Parte dela sentia-se aliviada, pois quando olhava para Garret, só lhe restava o nojo e o desprezo.
Estar em Medroc também era algo novo, nunca havia ido ali. O palácio era frio e sombrio, as paredes grossas e acinzentadas, alguns quadros eram espalhados pelas laterais, mas nada parecia ter vida ali. As roupas dos criados eram todas opacas e o semblante das pessoas, passivo e sofrido. O único que se destacava era Garret, o seu traje era vibrante e conseguia reunir toda a atenção para si. Havia uma fila de homens e mulheres que formavam um corredor até chegar ao seu trono. Todos estavam nus e com apenas algumas partes dos corpos pintados. Uma moça estava sentada no chão, aos pés do rei, enquanto ele passava a mão em sua cabeça, e um jovem espanava-o com um leque gigante, também sem roupa.
Ao passar pelo corredor humano, notou a porção de cicatrizes que espalhavam-se nos corpos de todos os servos ali. A menina que estava com o rei tinha o bico do mamilo deformado e um corte enorme que dividia o seu seio. O rapaz tinha o seu membro decapitado e olhava inexpressivo para frente.
Garret levantou do seu trono e caminhou até onde haviam jogado a princesa, elevando um pequeno sorriso em sua boca. Estendeu a mão e fez um sinal para que o guarda a colocasse de pé e, assim que foi feito, tocou o queixo dela, movendo o rosto da garota para a direita e para a esquerda. Em seguida, soltou-a, deu um passo para trás e varreu seus olhos por todo o corpo dela, enrugando a testa no final.
— Achei que tivesse dado ordens claras, soldado. – Olhou para o guarda que havia trazido à princesa e ele engoliu em seco com medo do rei.
— Ninguém a abusou, Majestade. Houve um contratempo, mas o Comandante assumiu o controle – respondeu com a cabeça baixa e as pernas tremendo.
Garret colocou a mão na cintura e olhou para cima, balançando a cabeça negativamente.
— Vocês sabem que eu odeio ser contrariado – retrucou e estendeu a mão ao ver o guarda abrir a boca para se defender. Estalou o dedo da mão esquerda e outro soldado caminhou em sua direção. — Leve-o para a Sala da Transformação! – ordenou.
O guarda arregalou os olhos e começou a negar com a cabeça.
— Por favor, Majestade, eu lhe imploro! Eu tenho esposa e uma família! Não faça isso comigo. – Ajoelhou-se e humilhou-se diante do rei.
Garret ignorou-o e voltou para o seu trono, enquanto o homem era carregado à força para longe dali. observava assustada, sem compreender o que significava tudo aquilo. Seu coração batia forte e descompassado, suas mãos atadas estavam frias e o seu corpo arrepiava com a face sombria daquela situação.
— Voltando ao que é importante – abriu um largo sorriso para a –, você irá se divertir muito aqui, princesa. Você sabe que eu sempre fui o seu parente mais legal, sua mãe é uma chata e o seu pai… – comprimiu a boca – Esqueça, ele era melhor do que o meu outro irmão, pelo menos. Divertíamo-nos muito, assim como vou te ensinar a se divertir também. – Passou a mão pelo seu queixo, enquanto a encarava.
— Não quero nada que tenha a ver com você! – cuspiu, os olhos flamejando de raiva perante Garret.
O rei soltou uma risada e puxou a menina que estava aos seus pés pelos cabelos, trazendo a cabeça dela para o seu colo e voltando a alisá-los.
— Não sei se percebeu, mas não querer, não é uma opção. – Sorriu para . — Já estava escrito em seu destino que você viria para mim, princesa.
A filha de cerrou os olhos, sem entender aquela afirmação.
— Só se você já soubesse que Jeffrey morreria. Caso contrário, jamais haveria a possibilidade de eu acabar em suas mãos, tio – respondeu com a sua voz carregada de escárnio e ironia.
— Pobre princesinha desorientada. – Garret fingiu um bico e uma expressão chateada. — Meu irmão já havia a prometido para mim muito antes. Ou você acha que ele queria a sua bundinha rondando pelo castelo dele pelo resto da vida? – Arqueou a sobrancelha, desafiando-a. — Na verdade, ele até queria sim, mas, para todos, ele era o seu pai, não é? Ele não podia te tocar, então entramos em um acordo para que ele a desse para mim.
abriu a boca em choque por ouvir tais palavras. Suas emoções oscilavam entre surpresa ao descobrir que Garret sabia sobre a sua paternidade, nojo ao escutar a forma que ele se portava a ela e ódio por quererem manipulá-la como um puro e simples objeto sexual.
— Eu jamais seria sua! Eu não sou de nenhum de vocês para me jogarem de um canto e para o outro. Acha mesmo que a minha mãe, a Rainha de Ílac, permitiria isso? – rugiu, fincando as unhas na sua palma em nervoso.
Garret inclinou o seu corpo para frente, apoiando o cotovelo em sua perna e o queixo em sua mão.
— Não precisa permitir, nós sempre conseguimos o que queremos! Seria só uma questão de tempo!
nunca havia sentido tanta raiva em sua vida, se pudesse mataria o homem com suas próprias mãos, sem dó e nem piedade. Não sentiria remorso e nem culpa, homens como Garret não era dignos sequer de merecerem respirar.
— Eu espero mesmo que a minha mãe seja responsável pela morte de Jeffrey como você tanto diz, não acredito nisso, mas espero que seja. E espero que a próxima morte seja a sua! – disse um tom mais baixo, porém sombria. Fincou o seu olhar no rei e percebeu o sorriso dele morrer ao ouvir as palavras da garota.
Sua feição fechou-se em raiva e ele colocou-se de pé novamente. Foi até e puxou os cabelos da parte de trás da cabeça dela, inclinando o rosto da menina em sua direção. Aproximou-se dela, fazendo seus narizes se colarem, as respirações de ambos chocavam-se e a princesa mantinha a boca franzida, sem vacilar o olhar perante o rei.
— Vai se arrepender de ter dito isso, ordinariazinha. A sua hora vai chegar! – Soltou-a com força, fazendo o corpo dela cambalear para trás.
Garret fez um pequeno movimento de desdém com a mão e dois soldados pegaram a princesa, um segurando em cada braço dela, e carregaram-na para longe dele. O rapaz, que antes o abanava, seguiu atrás dela, acompanhando os homens.
Desceram vários lances de escada, o cheiro de mofo e de umidade se fazendo presente cada vez mais. As mãos dos soldados apertavam os braços de enquanto ela ia sendo arrastada até o subsolo do castelo. Por mais que ela tentasse, era difícil se concentrar, havia muitos labirintos e o percurso escuro era iluminado apenas por algumas lamparinas dos corredores. Caminharam até pararem em frente a uma enorme porta de ferro, que foi aberta e mostrou um valão grande e sombrio. Dentro dele havia grades que dividiam várias celas, onde amontoado de homens e mulheres, magros e machucados, se faziam presentes. O local cheirava a podridão e sangue, algumas poças de água amontoavam-se no chão e soldados ficavam de frente as celas em posição de guarda.
tentou caminhar sem encarar os prisioneiros, mas não conseguiu impedir que seus olhos pousassem em uma cela quase vazia, diferente das outras que possuíam pessoas amontoados umas por cima das outras. No canto, uma criança de costas e nua, os ossos da coluna à mostra, a cabeça com os cabelos cheios de falhas.
A princesa estagnou o seu andar, sem conseguir desviar a sua atenção dali, entretanto, o soldado esmurrou as suas costas, mandando-a seguir adiante. Abriu outra porta, levando-a para uma cela vazia e mais distante, em uma sala que não havia outros prisioneiros.
— Você tem sorte que Sua Majestade, o Rei Garret, ordenou que te colocasse aqui, se não estaria como todos os outros que você viu – o soldado falou sem olhar para a princesa, abriu a cela e jogou-a lá dentro. — Nodrif será responsável por cuidar de você, não é muita coisa, já que as refeições estão suspensas, segundo a ordem do rei. Mas ele trará água de tempos em tempos ou outra coisa, caso haja alguma mudança.
Os olhos da garota voltaram-se para o rapaz nu do outro lado da cela, que em momento algum olhava para ela.
— O que fizeram com você? – sussurrou, analisando as marcas no corpo do jovem.
— Ele não vai te responder, então não perca o seu tempo. Economize a sua saliva, pois não terá muita água a sua disposição. Você não está a passeio, Alteza, é uma prisioneira aqui e a sua história de terror ainda nem começou.
Girou a chave na fechadura da cela e deixou a princesa para trás, sendo acompanhado do jovem que o seguia. sentiu a sua adrenalina cair e o seu corpo amolecer, sentindo o impacto de tudo o que havia acontecido até ali. Sentou-se no chão, abraçou as suas pernas e abaixou a cabeça para fazer uma oração, rezando que pudesse conseguir sobreviver o que é que Garret tivesse preparado para ela.

*


O castelo de Ílac parecia vazio, ninguém falava nada, apenas sussurros zanzavam pelos corredores. Estavam todos temerosos, o medo assolava o coração de todos. O povo ainda não sabia sobre o rapto da princesa, mas não demoraria até que a notícia circulasse pelas cidades, ainda mais se voltasse sem a filha.
não conseguia esperar por notícias em seu quarto, estava agoniado e, apesar de não ter ido para a batalha, torcia muito para que estivesse errado e todos pudessem voltar em paz. Enquanto aguardava por informações, havia orientado os guardas reais do castelo, reforçado as entradas e saídas e colocado seus homens de confiança em prontidão. Organizou os soldados que seriam enviados para as cidades e junto com eles as cartas com as ordens de para preparação do povo para a guerra.
Estava do lado de fora, sentindo a brisa fria bater em seu corpo e arrepiar os fios do seu braço. Continuava inquieto e por isso decidiu dar a volta do lado de fora do castelo e conferir se tudo estava conforme ele havia orientado. Ia passando diante dos soldados, que abaixavam a cabeça em cumprimento e respeito ao grande Guerreiro. Ele caminhou até a entrada do bosque, local onde e os homens haviam partido e sentiu o seu coração pesar.
As nuvens cobriam a lua, por isso estava muito escuro, entretanto, isto não impediu que o General visse um vulto na entrada da mata. Ele estreitou os olhos, empunhou a sua espada e caminhou em direção ao movimento. Ao se aproximar, ouviu um gemido e um resmungo, fazendo com que ele identificasse Isaac e o seu cabelo negro.
abaixou a espada e soltou o ar dos pulmões que nem havia reparado que estava preso. Andou até o garoto, que ainda não tinha notado a sua presença, e o viu com a mão sob o abdômen, mancando e se arrastando para o interior do bosque.
— O que está fazendo, Isaac? – perguntou, assustando-o e fazendo-o olhar para trás.
— Oh, céus, quer me matar? – resmungou com a voz estrangulada.
— Pelo contrário, você que parece querer se matar. O que está fazendo aqui no meio da noite e ainda por cima machucado dessa forma? Você não estava de repouso?
— Eu vou atrás da .
bufou e balançou a cabeça, incrédulo. Parou em frente ao rapaz e cruzou os braços diante dele, impondo uma postura séria e assustadora.
— Você por acaso é burro? Não aguenta nem andar e vai salvar a princesa com o quê? Força do pensamento?
Isaac uniu as sobrancelhas com raiva, virou o rosto e continuou a se arrastar pelo bosque adentro.
— Garoto, deixe de estupidez. A rainha já foi de encontro a ela, se alguém irá resgatar a princesa, será e não você. Você morrerá antes que chegue ao caminho, vamos para dentro, está esfriando e você já está sangrando. – Apontou para cintura dele, que continha uma mancha de sangue, provavelmente de algum ponto aberto.
Isaac parou e deixou seus ombros caírem, fechou os olhos, impedindo-se de chorar e sem vontade alguma de olhar para o guerreiro novamente.
— Eu prometi que a protegeria… – confessou baixo, porém o suficiente para escutar.
— Infelizmente na vida, algumas promessas não são possíveis de serem cumpridas.
— Eu nunca as faço…
— Cumprir o que diz? – o guerreiro o interrogou.
— Não… Promessas, eu não costumo fazê-las, pois eu nunca fui alguém de dar a minha palavra e nem nunca fora preciso. foi a única que me fez isso e a única pessoa que eu queria ter garantido que se tornasse realidade. – Girou o seu corpo em direção a , permitindo que o homem visse os seus olhos vermelhos.
— Você não podia fazer nada, Isaac. Tenho certeza que sabe disso – tentou acalentá-lo.
O rapaz balançou a cabeça e passou os dedos por entre os cabelos negros que colavam na sua testa.
— Mas eu falhei. Deveria ter sido eu, eu deveria ter morrido para salvá-la.
— E você quase morreu. Ainda assim eles estavam em maior número, mais preparados e já esperavam por ela. Poderia ter sido a qualquer momento, o rei Garret havia planejado isso desde que a rainha negou a sua proposta. Não se culpe, garoto. Guarde a sua energia para se recuperar e estar pronto quando ela voltar. – Colocou a sua mão no ombro do rapaz.
— E se ela não voltar? – questionou, temeroso.
— Então eu te ajudarei a salvá-la.
estava sério e compenetrado, seus olhos semicerrados em meio à noite escura, sem nenhuma oscilação, querendo garantir ao rapaz que estava falando a verdade. No que dependesse dele, ele iria ao socorro da princesa, mas não da forma desenfreada que havia feito. Pensaria, planejaria e, enfim, a resgataria. Já tinha armado algumas medidas para ajudá-lo em um plano, isso é, se a menina estivesse viva até lá. Teria que torcer para que sim, pois não havia nada que pudesse ser feito além disso.
Ver o olhar aflito de Isaac fazia a sua angústia aumentar. O garoto estava dilacerado e a expressão dele lhe causava incômodo. nunca havia passado o que ele estava passando. Teve o coração partido? Sim, entretanto, não teve que se preocupar com a integridade física de , a mulher estava guardada no castelo, cercada sobre os cuidados do pai. Além disso, sabia que qualquer coisa que ela enfrentasse, ela saberia se cuidar. Pelo menos era o que achava, até se reencontrar com a sua antiga amada anos depois.
, porém, ainda que fosse a melhor guerreira – o que não era –, nada poderia fazer sob o cativeiro de Medroc, estava à mercê das mãos de Garret, a dispor dele para qualquer coisa que o rei estivesse planejando para se vingar de .
— Obrigado – Isaac agradeceu com a voz fragilizada, nem mesmo parecia o rapaz altivo que um dia fora, estava destruído.
— Vamos para dentro, garoto, é perigoso estar aqui fora. Esperemos lá e rezemos para que cheguem com boas novas – o guerreiro tentou soar tranquilo, ainda que o seu coração estivesse apertado como há tempos não estivera.
Os dois caminharam de volta para o castelo e permaneceram no salão de entrada real, ali seria o primeiro local em que as notícias chegariam, então era de bom tom que estivessem prontos, seja para qual fosse à situação.
Isaac sentou-se no sofá estofado, os olhos vazios e pensativos, distante de qualquer movimentação ao seu redor, enquanto preferiu não incomodar o garoto, até porque, ele mesmo estava em um estado perturbado o suficiente, não saberia se teria condições para acalmar ninguém àquela altura.
O guerreiro resolveu caminhar um pouco para atenuar a sua mente, o lado interno do castelo continha poucos guardas, devido ter sido necessário posicioná-los na parte externa. Já não sabia quantas vezes havia conferido tudo, mas aproveitou para fazer novamente, temendo que houvesse espiões ou invasões no palácio. Andou por todo o térreo do palácio, subiu até o andar dos aposentos reais – certificando-se que Helena estava dormindo em seu quarto –, foi até os quartos de hóspedes, sala de reuniões e outras demais. Dirigiu-se para o setor da criadagem, evitando passar perto do seu antigo quarto e assim, permanecendo longe das suas lembranças. Os servos estavam em silêncio e havia poucos fora das suas camas, pois a hora avançada já dava o direito deles dormirem.
Em determinado momento, semicerrou os olhos ao ver uma sombra passar pelo corredor que dava até a cozinha. Em passos pequenos e silenciosos, empunhou a sua espada e perseguiu a pequena sombra, em direção ao local em que ela havia curvado. Com os joelhos levemente dobrados e posição de combate, o guerreiro dobrou o corredor, esperando ver o seu algoz, porém este estava vazio. Do lado esquerdo havia uma porta semiaberta, o que só poderia ser o refúgio utilizado pelo invasor para se esconder dele.
empurrou a porta vagarosamente e deu um pulo para dentro do aposento vazio e escuro, empunhando a espada para frente, porém, não atingindo nada. Não teve tempo de acostumar a sua vista com a escuridão da despensa que havia entrado, sentiu algo atingir a sua testa, um objeto redondo que o fez resmungar de dor imediatamente. Logo em seguida foi atingido por mais outro, de novo e de novo, fazendo com que rugisse e erguesse o braço para proteger o seu rosto e os locais do seu corpo que eram atingidos.
— Quem está ai? – gritou, dando passos para trás e passando a sua espada de um lado para outro, esperando atingir quem é que estava arremessando coisas contra ele.
— Fique longe de mim! – Uma voz fina e infantil lhe respondeu, ao passo que continuava recuando para não ser acertado pelos objetos. — Vá embora, imbecil! – a voz bradou contra ele novamente e o guerreiro conseguiu sair do aposento, sendo atingido mais uma vez no meio da testa.
Dobrou o seu corpo e colocou a mão na cabeça com dor. Fitou dentro do cômodo novamente com raiva e, ao mesmo tempo, curioso. Olhou o chão e viu várias laranjas e maçãs esparramadas, concluindo o que havia lhe atingido.
— Eu tenho uma espada e sou um ótimo guerreiro, é melhor sair daí, criança, antes que eu lhe dê umas palmadas! – retrucou, furioso, endireitando o seu corpo e olhando para a escuridão da dispensa.
Mesmo com a luz de fora, não conseguia ver muito bem, somente tinha certeza de que não era um adulto ali.
— O senhor não manda em mim! Eu sou o príncipe de Ílac e você é o inimigo que está me perseguindo e veio me atacar!
A feição de mudou automaticamente ao descobrir de quem se tratava. Balançou a cabeça sem acreditar e teve que segurar o riso perante a situação que se encontrava diante do menino.
— Perdão, Alteza – pediu, mudando o tom de voz e tentando segurar-se para que o menino não notasse que ele estava se divertindo ou sentisse alguma ironia no seu falar. — Se és o príncipe, então também sabes quem eu sou. General , ao seu dispor. Não hei de lhe fazer mal.
O guerreiro ouviu os passinhos temerosos do menino saindo do local, apontando a pequena cabeça para o lado de fora. Na mão havia um estilingue enorme e na outra uma maçã. Mordeu o lábio com a imagem da criança e só não sorriu porque notou que o garoto parecia amedrontado.
— É o Rochedo? O Guerreiro famoso de Ílac? – sussurrou com uma sobrancelha arqueada, desconfiado.
— Dizem que sim. – deu de ombros e tirou por menos.
— Uau – sussurrou, passando o olho pelo guerreiro da cabeça aos pés, quase sem acreditar.
— E você deve ser o grande príncipe Luigi , que está responsável por todo esse castelo enquanto sua mãe está fora! – sorriu para o menino, a fim de que ele não o temesse.
O garoto inflou o peito e cruzou os braços, olhando direto nos olhos do homem a sua frente.
— Sim, sou eu!
— Vejo que está fazendo um ótimo trabalho, você conseguiu atingir o melhor guerreiro da sua terra – falou sério e apontando para as laranjas caídas no chão, dando importância à ação do menino.
Luigi olhou para o seu estilingue, parecendo um pouco envergonhado, mas não pediu desculpas, apenas voltou a fitar e assentir com a cabeça, como se aquilo fosse normal em seu cotidiano.
— Eu sou bom em mirar.
— Percebe-se. – não conseguiu conter o tom irônico da sua voz e o menino quase se encolheu, porém, esforçou-se para manter a sua posição. — Por que o príncipe não está repousando nesse momento? – questionou.
— Não consegui dormir, estou preocupado. – Seus olhos caíram, fitando o chão, enquanto inflava os pulmões para segurar o choro.
— Sua mãe não tardará a voltar.
— Quem me garante? Primeiro o meu pai, depois minha irmã, agora a mamãe. Um a um, todos que eu amo estão indo embora. – O garoto voltou a encarar , os olhos avermelhando-se à medida que ele se esforçava para não derramar as lágrimas contidas.
O guerreiro ajoelhou-se para ficar na altura do garoto e pousou a mão no ombro dele em conforto.
— Eu também perdi os meus pais e nunca tive irmãos ou irmãs. Ser sozinho não é bom e nem é fácil, entretanto, não é o seu caso, garanto que sua mãe estará de volta e quem sabe estará com ela. Você agora precisa dormir e estar com as forças renovadas, pois, amanhã, quando chegarem, precisa ser forte para recebê-las e poder ajudá-las. Está certo?
— Mas eu estou com medo… – sussurrou. — Quando eu fecho os meus olhos, eu vejo a morte, eu… – Engoliu o choro. — E-eu vejo o meu pai, aquela sala… Posso sentir aquele cheiro…
O menino tremia sutilmente, no entanto, percebeu. Havia esquecido da atrocidade que o garoto havia presenciado. Ele jamais tiraria a razão do menino de estar daquela forma, ele próprio havia sofrido por muito menos. Quando era jovem e perdera o pai, foi de um jeito bem menos horripilante e, ainda assim, ele carregou a dor por anos. Não conseguia imaginar como seria para Luigi ter visto aquela morte tão grotesca.
— Quem está responsável pelo senhor, Alteza?
— A tia Sarah.
— E onde ela está?
— Eu não sei, tive um pesadelo e acordei. Ela não estava lá, então, vim procurá-la.
— Eu vou lhe ajudar a encontrá-la, não deve estar longe, afinal, ninguém sai ou entra nesse castelo hoje sem a minha permissão.
O menino assentiu e pegou na mão do guerreiro, que de início estranhou o contato, porém, ignorou o fato e caminhou de mãos dadas com o príncipe, à procura da esposa de Cameron. Rondou por locais que não havia ido ainda, até ouvir alguns gritos, cada vez mais perto do local onde estavam.
— Luigi! Luigi! – Sarah vinha correndo e suspirou aliviada ao deparar com o príncipe ao lado do guerreiro — Oh, céus, você está bem! – exclamou e caminhou depressa até o menino, ajoelhando-se diante dele e abraçando-o com força.
O príncipe soltou a mão de e passou seus braços pelas costas de Sarah, retribuindo o afeto.
— Onde você se meteu? Quer me matar de susto? Eu estava tão preocupada! – Passou a mão pelo rosto do menino, acarinhando-o.
deu um passo à frente, quase os separando e fitou a mulher com seriedade.
— Você não devia cuidar do príncipe? – indagou-a e observou a mulher ficar pálida.
— E-e-eu o perdi, senhor, em um momento ele estava dormindo e em outro ele não estava mais lá – gaguejou.
— Se algo acontecer com a rainha e a princesa, Luigi é o primeiro na linha de sucessão, deveria ter mais cuidado com os afazeres que lhe é atribuída – rosnou baixo, porém com fúria, apenas para que ela escutasse.
não estava preocupado com quem herdaria o trono, mas preferiu omitir a verdade, pensava na rainha, se algo acontecesse ao garoto seria o fim. Sem os dois filhos, ele temia que não conseguisse mais ter a estabilidade emocional para uma guerra. Perder os dois seria uma dor mortal.
Não tinha nenhuma ligação afetiva com o menino até essa primeira interação entre os dois. O príncipe era espirituoso e cativante, porém, indefeso. Aliás, não tanto assim, pelo que lembrara. Entretanto, em uma guerra, deixar o menino correr sozinho pelo castelo era inconcebível. não podia ter nas costas mais essa preocupação. Se Sarah havia ficado na incumbência de cuidar do menino, era o mínimo que ela poderia fazer para ajudar no meio do caos que estava instalado entre os reinos.
— Perdoe-me, senhor. – Ela abaixou a cabeça e curvou-se levemente.
— Onde estava? – indagou-a.
— C-como?
— Eu gostaria de saber o que era tão importante para que a senhora deixasse o príncipe sozinho.
Sarah estremeceu com o tom que usara com ela, mas depois franziu os olhos e deu um passo para trás, preferindo sair da zona dele para se sentir mais confortável a respondê-lo.
— Lamento, senhor. Muito lhe respeito, mas não preciso dar-lhe satisfação de onde eu vou ou deixo de andar. O garoto está bem e isso é tudo o que importa.
não se sentiu atingido pela resposta dela, pelo contrário, havia respostas que diziam muito mais do que fora perguntado. Se tudo fosse tão simples, ela haveria apenas respondido, não? Ela poderia ser esposa de Cameron, mas naquela situação, o poder de no castelo era muito maior e, se ele quisesse, poderia sim exigir que ela o respondesse. Entretanto, preferiu não ordenar e obter uma mentira, apenas precisava lembrar-se de ficar de olho nela.
— A mim não. – A boca de curvou-se em um pequeno sorriso. — Mas a rainha sim. Espero que até lá pense em uma desculpa suficientemente digna para isso. Até mais, senhora. – Girou e voltou os seus olhos para Luigi. — Até mais, Alteza, uma boa noite.
O garoto o respondeu com um aceno e virou-se, dando as costas para a mulher que continuou estacada no mesmo lugar.
— Tia Sarah, você acha que se eu pedisse, o Rochedo me ensinaria a lutar? – Luigi sorriu para a esposa de Cameron, enquanto ela observava o guerreiro sumir pelo corredor.
— Talvez… Quando tudo terminar. – Abriu um sorriso falho para o príncipe. — E se ele ainda estiver vivo até lá – completou em um sussurro.



Capítulo 26

A madrugada fria corria durante a quietude do castelo. A falta de informações consumia a sanidade de todos. e Isaac aguardavam no salão noite a dentro, cada um com suas próprias angústias.
O guerreiro era tomado de um pavor inexplicável, o seu coração doía, sabia que algo tinha dado errado. Na verdade, tinha certeza desde o início que essa missão era louca e suicida, mas o que poderia fazer para deter a própria rainha? Torcia para o melhor, porém, o seu ínfimo sabia a dura verdade, por isso, havia preparado tudo para caso o pior acontecesse. tinha soldados a postos, o castelo estava protegido e a sua cavalaria pronta para o ataque, caso necessário.
Usou do tempo que havia estado fora para adiantar as coisas, justamente o tempo que ele precisava e que ela não foi capaz de lhe dar. Ele entendia, mas não compreendia por completo, não estava no lugar dela e, talvez, se estivesse, não teria sido capaz de tomar alguma atitude fria e racional também, então, por um lado era bom ser só.
— Você não dormiu. – Deveria ser uma pergunta, mas soou como uma afirmação. notava Isaac encurvado na poltrona, os cabelos desgrenhados e as orelhas profundas, aparentemente mais magro.
— É impossível no meio disso tudo – o garoto respondeu.
O guerreiro apenas acenou com a cabeça, compreendendo-o.
— Preciso que fique bem se quiser recuperar a sua garota. – Encarou Isaac, tentando animá-lo.
— Estou me cuidando, a troca de curativo está sendo feita nos horários corretos e estou tomando os chás recomendados, mas não me peça para descansar, é impossível – lamentou, passando a mão por seus cabelos negros em frustração.
— Isso é bom. As feridas parecem estar melhores, com o tempo irá cicatrizar. Contudo, se eu achar que irá me atrasar, fique sabendo que não te levarei comigo – ressaltou, fazendo com que Isaac arregalasse seus olhos e o mirasse, levemente atordoado.
— Você não irá me deixar para trás. Eu preciso ir atrás de ! – Isaac rosnou, fechando a mão em punho.
— Do que me adiantará se for um estorvo? Se for necessário que eu vá salvar a princesa ou mesmo a rainha, não posso perder tempo preocupado com você, garoto! – rolou os olhos e voltou a mirar a porta, ansioso enquanto aguardava por notícias.
— Então não se preocupe comigo, eu me viro sozinho, apenas me importa que me leve junto, de mim cuido eu! – exclamou exaltado, arrancando uma risada irônica do guerreiro.
— Percebe-se como pode! – retrucou, ironizando Isaac. — Você a ama? – Virou a sua cabeça para o jovem, uma curiosidade que lhe alastrou no momento.
O rapaz fitou , sério, ponderando a sua resposta. Não porque tinha dúvidas, mas por não ter certeza se deveria abrir algo tão delicado e profundo de si mesmo com alguém que não tinha intimidade e havia conhecido tão recentemente.
Abriu a boca para responder, mas foi cortado pelos sons fortes das trombetas que soaram pelo castelo. O rapaz colocou-se de pé rapidamente, ignorando a dor das suas juntas machucadas e virou-se para a porta da entrada. Ao mesmo tempo, o coração de deu um salto e ele correu para se posicionar em recepção de seja qual fosse a notícia que chegaria.
Os soldados que estavam a postos abriram a grande entrada vagarosamente, enquanto via a movimentação estranha ao longe. Um deles correu em direção a , que percebeu ao chegar mais perto que se tratava de um mensageiro real.
O homem parou em frente ao General quase sem fôlego, curvou-se e colocou a mão no joelho para recuperar-se da corrida intensa.
— Diga-me logo o que houve! – rugiu, impaciente, chamando a atenção do homem, enquanto Isaac chegava por trás dele também para escutar.
O mensageiro olhou para a cima e tomou fôlego, sua voz soando um pouco ofegante.
— A Rainha está viva e está de volta! – soltou, fazendo soltar o ar dos pulmões que nem havia percebido ter prendido.
Isaac passou pelo guerreiro, esbarrando nele e tomando a frente para falar com o mensageiro, desesperado.
— E ? Eles conseguiram achá-la? – Sua voz beirava o pânico.
— Sinto muito, senhor, não sei lhe responder. Estava de atalaia e só percebi que eram os nossos voltando sozinhos, não consegui identificar ninguém da realeza que não fosse a rainha. Corri o máximo que pude para avisar o General. Desculpe-me. – Abaixou a cabeça, mesmo não tendo culpa alguma.
Isaac virou as costas para o homem e passou a mão por seu rosto em agonia. deu um leve aceno para o mensageiro e dispensou-o, em seguida ordenou os homens para se colocarem a postos para a recepção da rainha. Andou até Isaac e o viu destroçado, sentindo pena do rapaz.
— Talvez ela esteja bem – tentou confortá-lo.
Isaac deu uma risada amarga e balançou a cabeça em negativa.
— Ela não está – afirmou.
— Você não sabe.
— Eu sei e ela não está com eles. – Fechou a mão em punho e o colocou por sobre a boca.
— Você a ama.
Isaac não o respondeu, mas condoeu-se por ele.
— Nós vamos trazê-la de volta, garoto, eu lhe prometo isso – entoou para Isaac, fazendo ele olhá-lo com incredulidade.
— Por que faria isso? Conheço a tua rebeldia para com a realeza, sei que não luta por nossas causas pessoais, apenas pelo povo. – Isaac uniu as sobrancelhas em forma interrogativa, tentando decifrar o General a sua frente.
— Alguém precisa de um final feliz – soltou, enigmático, evitando o olhar do rapaz. Sua voz saiu pesada e reticente, e Isaac soube que aquela conversa estava encerrada quando o guerreiro deu as costas e caminhou de volta para o portão para esperar a Rainha.
Atrás deles Helena descia correndo e afoita após ouvir as trombetas. Suas mãos seguravam forte a barra do seu vestido, erguendo-o para que não tropeçasse os seus pés nele. A mulher não disse nada, apenas posicionou-se ao lado de , ambos ignorando um ao outro, focados apenas em esperar o retorno de .
Não tardou muito e a cavalaria chegou. Ao contrário do esperado, a rainha ficou para trás e alguns dos seus homens vinham caminhando na frente. Alguns homens chegavam e outros já eram levados direto para os fundos do castelo, para uma área hospitalar improvisada que havia mandado organizar.
O guerreiro caminhou apressadamente ao vê-los e os soldados ensanguentados começaram a abrir passagem até que a rainha, ao fundo, fosse vista por ele. A mulher tinha sangue espalhado por todo o corpo e segurava o braço ferido. Seus olhos encararam os de e pôde notar o suspiro que ele deu ao vê-la ao observar o seu pulmão desinflar.
O general correu seus olhos por cada pedaço da mulher, conferindo a situação em que ela se encontrava e se cada parte do corpo dela estava inteiro ali. Encarou-a de volta e percebeu seu olhar vacilante e um leve acúmulo de lágrimas nos olhos dela.
… – sussurrou apenas mexendo os lábios e deu um passo em direção a mulher, que deu outro para trás para se afastar dele.
Havia falhado, era esse o sentimento que ela tinha, por isso sentia-se impotente. A busca por sua filha havia sido inútil e, além disso, muitas pessoas haviam morrido e se ferido por sua causa, inclusive... Hector.
Sabia que a culparia. Foi uma missão fracassada e ele havia lhe dito para não ir. O sangue da única pessoa que o guerreiro amava estava nas suas mãos... De novo.
— O que houve? – tentou se aproximar novamente e dessa vez não fugiu.
Se havia uma coisa que ela não era, era covarde. Assumiria a sua culpa diante de e de toda Ílac se necessário.
— Uma emboscada. – Fechou rapidamente os olhos, recordando-se dos seus momentos de terror, podendo ainda ouvir os gritos dos homens que morriam ao seu redor. — Você estava certo. Não deveríamos ter ido.
engoliu em seco. Não tinha prazer em saber aquilo. Preferia estar errado, desejou muito que estivesse correta e que tudo tivesse saído bem.
— E a princesa?
— Nem cheguei a vê-la. Garret tinha uma tropa para nos interceptar, ele sabia que eu iria atrás da minha filha. – Desviou o rosto para que o guerreiro não pudesse notar a tristeza contida nos seus olhos. — As baixas foram enormes, perdi a maior parte dos meus melhores homens – completou.
olhou de um lado para o outro, notando os poucos que estavam bem o suficiente para permanecer ali diante da entrada do castelo. Franziu o cenho e procurou por seu amigo, porém não o encontrou. Um gelo perpassou por sua coluna e a sua bile retorceu-se.
— Onde está Hector? – perguntou, esperando que o amigo estivesse entre os feridos da área hospitalar.
voltou seus olhos para o guerreiro, notando a sua apreensão e mordeu o lábio, hesitando levemente.
, onde ele está? – O general abaixou o seu tom de voz, porém a sua voz soou mais grave.
— Eu sinto muito, … – lamentou e deu um passo ao lado, erguendo a mão e apontando para trás. Uma fila de quatro soldados que estavam detrás dela abriram passagem, mostrando uma maca com um corpo coberto por um belíssimo tecido escuro, talhado com os emblemas reais.
O guerreiro fechou o punho com força e sentiu o seu corpo vacilar. Piscou, atônito, sem acreditar no que tinha escutado e no que estava vendo. Era como se um buraco abrisse sob os seus pés e o engolisse. Sua mente tentava bloquear, sentiu o silêncio em volta de si, que foi quebrado com a voz trêmula de o chamando.
Em seguida, sentiu uma mão tocar em seu ombro. Olhou com o canto do olho e notou que era Isaac que estava ao seu lado. deu um passo para a direita, fazendo com que a mão dele caísse e encarou-o com um semblante fechado. Girou a cabeça e olhou de novo para , depois para o corpo tampado, voltando para a rainha novamente ao final.
Sentiu a sua carne tremer e uma fúria indomada alastrar dentro de si. Ele iria se perder, ele ficaria incontrolável.
caminhou até a maca e ajoelhou-se diante dela, com as mãos tremendo pegou o tecido e puxou-o devagar. O rosto pálido e sem vida de Hector apareceu fazendo com que ele se sentisse nauseado. O corpo estava longe de parecer o seu grande amigo, havia sangue e cortes, não havia o brilho que o antigo general sempre carregou, nem mesmo o sorriso condescendente dele. jamais ouviria os conselhos do homem que foi como o seu pai, nem mesmo receberia o abraço de quem pode um dia chamar de amigo.
Fechou a mão em punho e levou a boca. Por fora uma muralha, por dentro quebrando, desfazendo-se...
Não conseguia mais ficar ali, tinha vontade de gritar, sacudir, extravasar e botar todo o ódio que sentia para fora. Girou o corpo e deu meia volta para entrar no castelo. A mão da rainha tentou tocá-lo, mas ele se afastou a tempo. Não queria a piedade dela, não queria ficar perto de ninguém, não queria que vissem a sua fraqueza.
Ouviu vozes lhe chamarem, mas ignorou cada uma delas, apressou o seu passo e parou apenas porque Helena posicionou-se na sua frente, impedindo a sua passagem. Os lábios da antiga rainha estavam cerrados, as mãos apertando o seu vestido e os olhos arregalados.
— Conte-me – ordenou ao guerreiro.
uniu as suas sobrancelhas e encarou a mulher. Ela parecia apreensiva, mas não o comovia. Estava imerso na sua própria dor, na injustiça que vivia novamente. Desejou que sofressem o mesmo que ele, por isso, não mediu suas palavras com a mulher.
— Eu não sei o que ele significava para você, mas espero que saiba que ele está morto.
Proferiu a frase e saiu, deixando Helena estática no mesmo local. Não olhou para trás, apressou os passos, a fim de chegar logo em seu quarto. Ia explodir, seu peito estava comprimido, uma onda de raiva e ódio saltitando em suas veias. Subiu as escadas correndo até alcançar o seu aposento. Ao chegar lá, curvou o corpo, apoiando as mãos em seus joelhos, e gritou.
A voz saía profunda de dentro da alma. A dor exorbitante o sufocava e ele precisava liberá-la. Gritou novamente até doer a sua garganta, as lágrimas agora banhando o seu rosto vermelho pela fúria. Ergueu o seu corpo e rugiu, andando até a mesa do seu quarto e derrubando-a com tudo que estava em cima. Virou-se para sua cama e arrancou os lençóis, jogando-os no chão. Começou a quebrar os vasos espalhados pelo quarto enquanto praguejava furioso, arrancou o quadro da parede e partiu-o em dois com o seu joelho.
Parou no meio do quarto com a respiração forte e acelerada, olhou em volta, notando a destruição que fizera e, em seguida, sentiu seus joelhos vacilarem. Caiu no chão ajoelhado e colocou o rosto no tapete, curvado em lágrimas. Seu corpo começou a convulsionar com o choro que saía engasgado, sem conseguir conter as emoções fortes que fluíam de dentro de si.
Hector, a única pessoa que se importava com ele, o único que havia lhe dado uma chance quando todos os outros lhe fecharam a porta, seu segundo pai e amigo, estava morto.
não sentia o chão, era como se estivesse sendo tragado em uma imensa escuridão. Estava sozinho, de novo. E novamente por uma causa injusta.
Por um instante odiou a rainha por não ter o ouvido e odiou Hector por ser mais leal ao seu pacto com a realeza do que com ele. Sentiu raiva do amigo por ter partido e de por ter lhe chamado.
Uma batalha egoísta e individual. Não foi pelo reino, tinha sido pela menina. Um plano fadado ao fracasso desde o início e que ele tentara impedir. Deu seu corpo e sua alma para novamente e nem isso foi o suficiente para que ela o escutasse. Era por isso que ele não achava a realeza digna da adoração do povo. Bando de individualistas, homens e mulheres egocêntricos que só pensavam em si. Diziam proteger o povo, mas só queriam salvar as suas próprias cabeças. Enquanto isso, homens e mulheres sem culpa alguma morriam por uma causa insana.
O guerreiro deu socos no chão em meio as lágrimas, queria ir embora daquele castelo, deixar tudo para trás. Eles não o mereciam. Por que lutar em favor de uma mulher que havia sacrificado tantos homens para salvar uma única pessoa? Não seriam esses homens dignos de viver também? Valia a vida da menina mais do que todos os outros? Era Hector menos importante que a princesa? Será que muitos deles não eram também filhos? Ou mesmo pais? Por que eles?
Por quê?
As indagações o enlouqueciam, segurou os fios da cabeça com força, querendo arrancá-los para ver se alguma coisa aplacava aquela dor.
Não podia ir embora. Não pela rainha, mas pelas pessoas inocentes que precisavam dele para defendê-las. Ílac não poderia pagar pelos erros dos outros. Além disso, Medroc havia começado com isso. era culpada, mas Garret também. Fora ele que declarara a guerra, ele havia feito a emboscada e fora os homens dele que haviam matado Hector.
levantou-se vagarosamente do chão com uma determinação nos olhos. Passou a mão pelo rosto banhado de lágrimas e sentou-se em sua cama com um só pensamento. O guerreiro queria vingança e ele o faria nem que fosse a última coisa que ele fizesse em vida. Entretanto, seria a seu modo. Como e quando quisesse. Ele pensaria e planejaria, faria com que pagassem cada milésimo de dor que Hector sentiu antes da sua morte. Porém, agora, ele ficaria em luto, em respeito ao seu amigo e irmão. E que ninguém o incomodasse, se havia algum limite de bondade e paciência no seu interior, ele havia acabado de ruir.

*


pediu para encaminharem o corpo de Hector para os seus devidos cuidados e em seguida foi em direção ao seu quarto. Queria ficar sozinha, precisava de um momento só seu depois de tudo o que aconteceu. Passou por sua mãe, que ainda estava parada no mesmo local de entrada, sem trocar nenhuma palavra.
Helena ainda tentava absorver a notícia. Suas unhas fincavam a sua palma tão forte que teria certeza que a marca ficaria ali por muito tempo. Ao perceber a filha se retirando, foi como se tivesse despertado do seu transe. Helena franziu as suas sobrancelhas, levantou a barra da sua saia e foi atrás de , que acelerou passo ao notar que estava sendo seguida.
— Não me siga! – rugiu contra a mãe, sem olhar para trás.
— Você não pode fugir de mim – Helena retrucou, alcançando a filha no momento que esta entrou em seu quarto.
não teve tempo de fechar a porta, sua mãe já estava dentro do aposento. A respiração da matriarca estava acelerada e a rainha podia notar os olhos furiosos da mãe sobre si.
— O que você quer? – perguntou seriamente.
— Está satisfeita? – Helena questionou-a, mas não obteve resposta. — ESTÁ SATISFEITA?! – gritou e seu corpo estremeceu enquanto fazia isso.
A rainha encarou a mulher fora de si e não moveu nenhum músculo.
— O que acha? – forçou para que a sua voz continuasse calma, mas o desequilíbrio da mãe fazia o seu coração palpitar.
— Eu acho que você é uma ingrata, egoísta e que não aprendeu nada! – Deu alguns passos para perto da filha, ficando frente a frente com ela. — Eu te falei, te ensinei, eu te protegi, a troco de quê?! Para você fazer o que bem entendesse sem ouvir ninguém?! – continuou a gritar. — O seu pai deve estar revirando do túmulo nesse momento, revoltado e decepcionado com você! – exclamou com os olhos flamejantes.
— Não toque no nome do meu pai – grunhiu, sentindo a sua carne tremer.
— Você só precisava ter dado a menina. Mais nada além disso. Seria um preço a ser pago pela morte de Jeffrey, mas você precisava fazer tudo do seu jeito, não é? Como sempre, se acha a mais esperta, acha que pode passar a perna em todo mundo, assim como no passado. Mas você está errada, . Você tem noção de quantos homens morreram a troco de nada? – Helena ergueu as mãos e empurrou para trás, que tomou um susto pelo ato inesperado.
Não chegou a cair, apenas se desequilibrou, porém Helena não se deteve, continuou a avançar sobre a filha.
— Você sabe quantas mulheres e filhos estão chorando o leito dos homens que faleceram? E Hector? Você o matou! Você o levou para uma emboscada maldita, perdeu o homem que mais lutou por esse reino ao lado do seu pai por um capricho seu! – berrou e empurrou novamente, mas dessa vez a rainha segurou os punhos da mãe e empurrou-a de volta.
— Não toque em mim! – gritou.
— VOCÊ É MINHA FILHA! FAÇO O QUE BEM ENTENDER! VOCÊ MATOU O HECTOR! SUA ESTÚPIDA IDIOTA! – Helena avançou sobre e começou a socá-la descoordenadamente.
por um instante ficou sem reação. As palavras de Helena faziam doer o seu peito, mas não era esse o motivo que havia lhe deixado estática, mas sim a visão desequilibrada da sua mãe.
A antiga rainha tinha os olhos brilhando e tentava atacá-la de todas as maneiras como se aquilo fosse aliviar a sua dor. Porém, não conseguia entender o motivo para tamanho desequilíbrio, nem mesmo quando seu pai faleceu ela se mostrou assim.
segurou a mãe pelos punhos, impedindo que ela continuasse a lhe bater.
— Pare! Você é louca! – exclamou com os olhos arregalados. — Você acha que estou feliz com isso? Acha que eu gostei de ver meus homens morrerem? Acha mesmo que estou bem com a morte do Hector? A única sem coração aqui é você, que me daria para o açoite a qualquer momento. EU NÃO SOU ASSIM! Jamais vou admitir que façam mal a minha família, eu protejo quem eu amo, eu dei a minha alma e o meu corpo para proteger essa família e esse povo. Não venha me chamar de egoísta! – cuspiu o que carregava entalado contra a mãe.
Helena se afastou da filha com os olhos banhados de lágrimas não derramadas. Era o máximo que já tinha visto da fragilidade real daquela mulher. A matriarca deu uma risada amarga e balançou a cabeça, abraçando o próprio corpo em seguida.
— Coitadinha… Sempre a vítima não é, ? Tadinha da menina que teve que casar sem ser por amor. – Fez um estalo na boca em deboche e rolou os olhos. — A coisa mais rara de nós mulheres é casar com quem se ama, você não é a única. Mas aí você vem com outro lamento: “ah, eu sofri”, “ah, eu fui agredida”, “ah, eu isso e eu aquilo”. Tadinha da , não é? A única a sofrer no mundo, a única que merece ter seus caprichos atendidos. Oh, pobre – escorraçou.
— Fique quieta! – a rainha falou entredentes.
— Ah, não aguenta escutar? Pois eu tenho uma história muito legal para te contar. Você não foi a única que sofreu, , não foi a única que se sacrificou para manter essa casa erguida. E quando eu digo isso, não estou assumindo autoria de morte alguma, não matei o Jeffrey como vocês tanto desconfiam. Agora se eu queria aquele homem morto? Todos os dias da minha vida desde que ele se infiltrou nesse castelo. Acha que foi a única que sofreu com ele aqui? Então sente aí que eu tenho uma história para lhe contar!
Helena olhou para a filha determinada e não soube dizer o motivo, mas queria escutar, queria saber um dos segredos que a mãe guardava, por isso, a única coisa que fez foi sentar-se em sua cama e erguer a mão, apontando que Helena poderia fazer o mesmo e começar o seu relato.

Flashback


Jeffrey estava sentado em sua cama com uma garrafa de vinho em suas mãos, suas roupas jogadas de qualquer jeito pelo quarto, seus cabelos longos bagunçados e a pele suada devido à noite intensa que havia passado com algumas de suas amantes. Ouviu a porta da passagem secreta ser aberta e uma bela mulher entrar em seu aposento. Assustou-se com a presença repentina dela, mas lhe deu um longo sorriso sensual ao ver os trajes que ela usava ali.
O corpo escultural dela estava marcado pela camisola longa e fina. Contra a luz ele conseguia ver todo o desenho da sua pele, que chamava a sua atenção e fazia com que a desejasse entre os seus lençóis e embaixo do seu corpo.
― Posso saber a honra de sua presença aqui, Majestade? – perguntou com um sorriso irônico e deu um longo gole no vinho, passando a língua por seus lábios enquanto via a mulher caminhar até estar na frente dele.
― Vim para fecharmos o nosso acordo, Jeffrey. Você acha mesmo que manterá a sua boca fechada em meio às atrocidades que faz com ela? Miles não tardará em descobrir que você não é o marido perfeito que se mostra em frente a todos e você estará morto em um piscar de olhos. Deixe-a em paz, cumpra o tratado que os nossos reinos fizeram e em troca eu te dou o que você tanto quer. – Colocou-se entre as pernas dele, que estavam para fora da cama, e tocou o queixo do homem para que olhasse para ela.
Jeffrey pegou a mão dela e deu-lhe um beijo molhado, subindo pelo braço da rainha, passou o outro braço pela cintura dela e puxou-a para mais perto dele, beijando o abdômen dela em seguida.
― Você é linda, Helena. Nem acredito que terei em meus braços a preciosidade do grande Rei de Ílac. Garanto que se ele soubesse disso a morte seria muito pior para mim do que saber que violei a princesinha dele. – Segurou a barra da camisola dela, erguendo-a lentamente, e pode perceber a respiração da rainha acelerar em receio.
― Ele não vai descobrir. Cumpra a sua parte que do Miles cuido eu – imperou tentando convencê-lo a aceitar aquilo de uma vez.
― Ah, Helena… Se a sua filha fosse como você não precisaríamos ter tantos impasses. Vou gostar de provar a sua pele, Majestade, pena que a senhora não é a . Eu vou desfrutar tudo de você, rainha, o tempo que eu quiser, na hora que eu quiser, está entendendo? É a minha condição. Não sei o que vai fazer para conseguir estar disponível para mim, mas se não cumprir a sua palavra, a sua garotinha sofrerá as consequências. – Jogou o tecido que cobria a mulher para o lado, deixando-a desnuda, e encarou o corpo dela.
Deslizou a sua mão da cabeça aos pés dela, lentamente, como se tomasse posse do que antes era do rei. Sentia-se vitorioso, era um troféu em suas mãos. Jogou o corpo dela em cima da cama e virou-se, lançando-se para cima dela e prendendo as mãos de Helena com as suas no alto da cabeça da rainha. Enfiou o seu rosto no pescoço dela e inspirou profundamente o seu perfume, sentindo o corpo dela tremer e endurecer levemente.
Os olhos dela eram determinados e pareciam sérios, não via hesitação ali, todavia, os estímulos do corpo da mulher não condiziam com a fala altiva dela. Quando entendeu o que estava acontecendo, forçou mais seu corpo sobre o dela e deu uma gargalhada.
― Eu achei que você fosse uma vadia, Helena, mas pelo visto não é tanto assim, é? – lambeu o rosto dela, enquanto a rainha ficava imóvel, deixando-o possuí-la como quisesse. ― Vamos, Helena, deixe-me ouvi-la, você nunca fez isso, fez? Há uma consciência aí? Não queria trair o seu esposo, Majestade? – Riu contra a orelha dela e mordeu-a antes de descer a sua boca.
― Não importa o que eu faço ou deixo de fazer, Jeffrey. Apenas termine com isso e faça a sua parte antes que eu volte atrás – Helena rosnou contra ele, porém só deixou Jeffrey mais risonho.
― Ah… Não vai ser fácil assim. Vamos, Helena, ou irei pensar que o Miles não consegue oferecer tudo a você e por isso veio até mim. Diga que está aqui obrigada, que não queria estar sob a minha cama ou então fale que me deseja e sou melhor do que o grandioso rei.
Helena se remexeu por baixo dele, contrariada com o rumo daquilo.
― Não seja estúpido, Jeffrey, vamos! Ande logo. Me possua – tentou livrar suas mãos do aperto dele, mas não tinha força suficiente. ― Comece logo com isso, imbecil, ou me solte.
― Diga que sou melhor que ele, diga que me quer… – Jeffrey cantarolou, não se importando com a mulher que tentava se soltar das suas mãos.
― Nunca! – a rainha falou mais alto, virando o rosto quando ele colocou uma mão em seu peito.
Jeffrey continuava a insistir, enquanto Helena lutava contra ele. Suas gargalhadas ecoavam pelo quarto e ele negava-se a possuir o corpo dela, apenas brincava e a irritava, até o momento que a mulher cansou-se e exigiu que ele lhe deixasse ir.
― Não mesmo, Helena. Você acha que comanda alguma coisa aqui? Acha mesmo que eu iria cumprir o acordo da forma que você queria apenas? Quem você pensa que é para pensar que pode me manipular, hein? – Jeffrey deixou o seu sorriso morrer e entoou grave, colocando o seu rosto contra o dela. ― Eu sigo minhas próprias regras, Majestade, eu faço o meu destino. Eu vou possuir o seu corpo sim, mas não com você se oferecendo para mim. Agora você está da forma que eu quero, hesitante… Nesse instante você vai deixar de ser a preciosidade do Rei Miles para ser minha. Aproveite essa viagem e sinta a marca que vou lhe deixar enquanto possuo o seu corpo pensando na sua filha.
Naquela noite, Jeffrey Buckhaim cumpriu a sua palavra com a rainha e marcou-a enquanto ele chamava por . Sentiu seu prazer quando Helena retesava o seu corpo e desfrutou da euforia quando conseguiu arrancar uma única lágrima solitária da mulher mais poderosa do reino.
A primeira de muitas noites, e Jeffrey cumpriu parte do seu acordo. Procurou menos por , fato comprovado por Helena ao perceber o semblante mais feliz e confortável da filha. Ele ainda possuía a princesa esporadicamente, mas não tanto quanto queria, já que tinha a rainha agora em suas mãos. Aproveitou-se e deleitou-se disso, até o dia que a mulher foi presa, e então as coisas voltara a ser negras para a .



Capítulo 27

Atlantis - Seafret

Ílac estava de luto, a rainha havia decretado no instante que a mãe havia saído do seu quarto. A madrugada parecia ter ficado ainda mais fria depois dos relatos da noite, como se a natureza pudesse sentir a dor das perdas e refletisse o coração do povo quebrantado.
O choro dos entes queridos e de todos que se compadeciam aos guerreiros perdidos na batalha ecoavam pela terra, adentrando pelas paredes do palácio. As roupas negras cobriam os serviçais, que tremiam e ficavam em silêncio durante os seus afazeres.
A derrota doía e, junto a ela, o medo os cercava.
A rainha já não era tão imponente, a fortaleza de Ílac já não era vista como tão segura quanto antes e os soldados, agora eram falhos.
Nos corredores vazios, o vento gelado tocava e arrepiava a pele de Sarah enquanto ela voltava para o seu quarto carregando a sua vela em um pequeno candelabro. Empurrou a porta com cuidado para não derrubar o utensílio e assustou-se ao notar alguém sentado em sua cama, quase derrubando o artefato em suas mãos.
― Acalme-se, sou eu – a voz soou, levantando-se.
No mesmo instante Sarah soube que era o seu marido, colocou o candelabro sobre a estante e correu para abraçá-lo, passando os braços por suas costas com força.
― Oh, meu Deus, você está bem? – A mulher afastou-se um pouco, pousando a sua mão na bochecha de Cameron.
― Sim, com vida pelo menos. Não posso dizer de muitos outros. Foi horrível, Sarah.
― Oh, Cameron – ela lamentou com lágrimas nos olhos e alisou o rosto dele. ― Fico feliz que esteja aqui. Posso estar soando egoísta, mas… – começou a falar, porém, parou e engoliu em seco.
Cameron puxou-a para seus braços e a abraçou.
― Não precisa pensar nisso agora. Estou seguro e você também.
― Tinha medo que não chegasse, assustei-me ao vê-lo aqui. Agora eu vivo com medo, como antes…
Cameron enrugou a testa, segurou os ombros da Sarah e a afastou um pouco.
― Não ouviu a movimentação do castelo ao chegarmos? Até estranhei por não ver-te aqui. Está tarde, onde estavas?
Os olhos de Sarah arregalaram-se levemente, porém, logo não hesitou em responder.
― Com o príncipe. Não consegui dormir bem e fui ver como ele estava, você sabe que na ausência da rainha quem cuida dele sou eu.
Cameron acenou com a cabeça e voltou a sentar-se na cama, fitando a sua esposa.
― Não necessita mais se preocupar. Eu estou de volta, Sarah, continue comigo e nada irá lhe acontecer. Eu te protegi antes, não foi?
― Sim.
― Então venha cá. Deite-se e descanse. – Estendeu a mão para a mulher e guiou-a de volta para cama, aconchegando-a em seu peito enquanto a respiração de ambos, aos poucos, voltava a se regularizar.

*

Os dias passavam e Ílac mantinha-se de luto, nos corredores o silêncio ainda predominava e as pessoas apenas murmuravam uma para as outras, receosas com o que estava por vir. A população já sabia da grande lástima, haviam perdido a sua princesa para Medroc. Um ataque profundo na alma do povo de Ílac, que temia perder suas vidas também.
precisou se recompor, estava destruída, queria rasgar as suas vestes e gritar por ter perdido sua menina ou por imaginar toda atrocidade que ela vinha sofrendo por lá. Contudo, ficar parada não salvaria a sua filha e nem o povo. Reuniu-se por dias com os melhores dos seus espiões, mas nenhum deles lhe trazia respostas. O silêncio de Garret a corroía e a deixava incerta de como proceder. Não poderia mais ser impulsiva, suas mãos já carregavam o sangue de muitos inocentes.
O rei de Medroc havia declarado a guerra, feito-lhe uma emboscada e... mais nada. Nenhum recado, nenhum ultimato. Não pediu nada em troca pela menina, mas também não explicou o que queria. Era provável que estivesse esperando que o atacasse novamente. Precisaria ser esperta para poder planejar o seu próximo passo. Precisava dos melhores homens que possuía, precisava do General de Ílac naquele instante.
, porém, não estava disponível. Desde a morte de Hector ele havia se trancado em seu aposento e mal comia ou bebia. Ninguém entrava lá e nem mesmo os criados tinham notícias. Às vezes algum vinho era levado até a porta, nada mais do que isso.
havia dado uma semana de luto, esperando que ele se recompusesse. Mas mantinha-se prostrado e ela não poderia mais permitir isso. Ela tentara o procurar por várias vezes, mas ele negou recebê-la. Provavelmente estava odiando-a, por culpa dela o guerreiro havia perdido o que lhe era mais próximo de um familiar. No entanto, já havia esperado demais, precisava dele agora. teria que engolir a sua própria dor, assim como ela estava fazendo.
― Alguma notícia? – a rainha perguntou ao criado que havia incumbido por ficar de olho em .
― Sinto muito, Majestade. Mas ele ainda não saiu do aposento. Ouvi dizer que estava à espreita no dia das cinzas do ex-general, no entanto, não temos mais notícia alguma além disso.
― Obrigada. Tragam-me a chave do aposento e dois dos meus soldados. Ele me atenderá, quer queira ou não – a rainha deu a ordem e, ainda que o criado houvesse arregalado os olhos com o mandato, ele prontamente a obedeceu.
caminhou em direção ao quarto onde sabia que o encontraria. Parecia que todos os seus encontros com eram como um vendaval de confusões. Em uma eles haviam feito amor e em outra, acabado de chegar da batalha. Ambas ela havia destruído o seu coração, como sempre. Até parecia que a sua principal missão nessa vida era estraçalhá-lo. Se pudesse, deixá-lo-ia em paz, como já havia feito quando era uma menina, mas agora não havia escolha. Não podia deixá-lo partir.
Que ironia a vida. Antes havia o rechaçado da maneira mais extrema, porém, agora teria que fazer de tudo para que ele permanecesse. Ainda que tivesse aberto mão do homem , ela precisava trazer de volta o General , e para isso ela iria até as últimas consequências.
Chegou até a porta dele e bateu-a, não ouvindo resposta do outro lado. Com apenas um aceno de cabeça dela, o soldado a compreendeu e partiu para tentar destrancar o quarto. agradeceu aos céus quando o fecho fez um clique, indicando que a porta estava agora aberta e que não havia feito nada para impedir mais ainda a entrada e ela não precisaria dos soldados para derrubá-la.
A rainha balançou a mão e dispensou os seus homens, entrando no quarto em seguida. O odor de álcool e suor inundou as suas narinas, além do podre da sujeira espalhada. deu um passo a frente e notou os cacos dos vasos espalhados pelo tapete, os quadros quebrados e a cama desforrada, os lençóis e travesseiros arrancados completavam uma bagunça inigualável. Vários pratos intocados de comida também estavam por sobre a pequena mesa, o verde do mofo cobrindo os alimentos pelos dias que estavam ali parados, e apenas as garrafas do vinho estavam vazias e espalhadas pelo quarto.
Varreu o seu olhar por todo o aposento sentindo o seu coração pesar, mas nada havia a preparado para quando seus olhos pousassem em . Ela ainda não via o seu rosto, estava de costas virado para a janela, seus ombros curvados e as mãos enfiada em seus cabelos. Sentava sem camisa em um pequeno banco, mostrando suas costas douradas e o cabelo pregado em sua nuca.
deu mais alguns passos, aproximando-se cautelosamente, sem saber ainda como abordá-lo. Não precisava ver o rosto dele para compreender que o Grande Rochedo estava, na verdade, despedaçado. A sua postura, o ambiente, a reclusão, todos eram sinais suficientes, e não sabia o que esperar do embate que viria a seguir, mas estava disposta a usar tudo o que fosse possível.
― O que quer de mim, ? – a voz dele soou fraca e não precisou olhar para trás para saber que era ela.
A rainha viu as costas dele se moverem para cima e para baixo quando deu um grande suspiro. As mãos dela fecharam-se em punho, enquanto escolhia como abordá-lo. Fazia tempo que havia perdido a habilidade com as palavras, não sabia ser delicada ou compreensiva, isso sempre foi uma qualidade dele e não dela. Sabia dar ordens, mas isso não funcionaria com .
― Até quando planeja ficar aqui?
A pergunta ficou no ar por alguns segundos, até a voz rouca do guerreiro ecoar e encher o quarto.
― Não se preocupe, não tardarei a ir embora do seu precioso castelo, Majestade – ressoou, erguendo um pouco a cabeça para olhar janela a fora, ainda de costas para ela.
― Não me refiro a isso. Não estou te expulsando daqui – respirou fundo –, não dessa vez… – completou baixinho, não querendo que as lembranças voltassem e piorassem a situação.
― Oh! – deu uma risada cheia de escárnio. ― Obrigado pela sua hospitalidade, Majestade. – O guerreiro balançou a cabeça, incrédulo.
― Preciso que retome o seu posto como General. Eu o perdoarei pelo desrespeito que teve para comigo se voltar a liderar os homens para a guerra.
― Não.
… – encorpou mais a voz e deu um passo para frente, respirando fundo e tentando manter a calma. ― Ílac precisa de você, eu preciso de você… – confessou, tentando não mostrar toda a sua vulnerabilidade com a situação.
virou o rosto imediatamente, seus olhos faiscavam com a raiva que apoderou sobre ele. Fuzilava , mas tudo o que ela conseguia ver, era o semblante destruído, as bolsas roxas sob os olhos, as linhas tensas da sua pele e a tristeza exposta por todo o seu ser.
Aquela visão quebrou-a. A culpa invadindo o seu ser novamente. Todos os martírios da vida de tinham sido causados por ela, o despedaçava, era a única capaz de destruir a fortaleza que ele tinha, e não de uma forma boa.
― Você precisa de mim? – o guerreiro indagou lentamente, passando palavra por palavra por sua língua, quase como se não acreditasse no que tinha ouvido. ― Agora você precisa de mim?! – A curva do seu lábio ergueu-se em um sorriso sombrio. ― Mas você não precisou quando decidiu guiar os homens ao ataque suicida, nem mesmo quando tomou a sua decisão sozinha. Não… Você não precisa de mim, só quando eu te apeteço de alguma forma, quando te agrado ou sigo as suas ordens como um maldito cachorro. Você precisa de mim quando quer usufruir do meu corpo, como fez não uma, mas duas vezes após me expulsar daqui. Eu lembro daquela nossa vez na cabana… Ah, como eu me lembro. Fora isso… Pouco lhe importa a minha vida. Sempre foi assim, não é? Um objeto para o bel prazer da Vossa Majestade. Aí depois de tudo você ainda tem coragem de chegar aqui e dizer que precisa de mim? – cuspiu o discurso com rancor, a carne tremendo diante dela.
As palavras dele iam como lanças perfurando a pele de . Ela pensava se era isso que ele havia sentido toda vez que ela tentou o manter longe e o afastar. A rainha sabia que não compreendia nem um terço da história, mas doía, machucava como quando teve seus dedos penetrados pela mãe, no entanto, ainda que ele não segurasse adagas ou pregos, sentia uma dor alastrante lhe invadir.
― Nunca foi isso… – murmurou para ele, contendo a vontade de se abraçar e proteger-se da fúria de .
― Ah, não? Engraçado… Não é o que parece. – O guerreiro voltou o seu olhar para a janela, deixando o silêncio amortecedor pairar no ambiente.
Nenhum dos dois se atrevia a dizer nada, a mulher continuava parada diante das costas do guerreiro, que queria focar a sua atenção em qualquer coisa que a paisagem pudesse mostrar, menos na pessoa atrás de si.
― Vá embora, – pediu com a voz arrastada, após não aguentar mais a pressão do ambiente.
― O que quer para retomar o seu posto? Eu faço qualquer coisa – pediu, tentando unir forças para o que havia vindo fazer ali. ― Esqueça que sou eu a rainha, olhe para o povo, eles precisam de você, .
― Há outros homens competentes no exército.
― Nenhum igual a você – respondeu, prontamente. ― Você quer que eu implore? Humilhe-me? Pague penitências pelo o que eu te fiz? É isso? O que quer, ? Diga-me que eu faço – sucumbiu, sabendo que suas alternativas estavam se esgotando.
virou-se novamente, observando-a. Franziu a testa, porém, não disse nada, mas podia ver a apreensão dela.
― Pare com isso, é patético – retrucou e empertigou seu corpo para trás como se houvesse recebido um tapa.
― E você é um covarde – rangeu entre dentes. ― Pelo menos eu estou colocando-me à disposição do meu povo, e você? Está aqui jogado sem fazer absolutamente nada. Bebendo e choramingando como se fosse o único em luto nesse momento, como se fosse o único com direito de sofrer! Quem está sendo patético? – sua voz alterou um tom, deixando a fúria exalar por suas narinas.
ergueu-se do banco em um ímpeto furioso, fazendo-o cair atrás dele, andou em passos rápidos até encarar a rainha de frente.
― Seu povo? Até onde eu sei você estava sendo uma maldita egoísta que pensou apenas em si, caso contrário teria me ouvido. Você não pensou no povo quando colocou os homens para morrer na armadilha de Medroc. Suas mãos estão com o sangue de muitos homens, incluindo o de Hector, que mesmo sabendo que era suicídio, foi apenas para atender a ordem da Grande Soberana – zombou e a mulher ergueu a mão para lhe dar um tapa, mas dessa vez, foi mais rápido e segurou o pulso dela antes que o atingisse.
― Eu sei o preço que paguei e vou carregar esse fardo até o túmulo, mas isso não justifica os seus atos – retrucou com a respiração descompassada, puxando a mão de volta para soltar-se do aperto dele. ― Me redimirei como puder, por isso estou aqui. Ou você acha que eu me rebaixaria a troco de nada? Eu me apresentei disposta até dar-te a vingança pelo que te fiz, desde que não me mate, pode fazer o que quiser, desde que volte ao seu posto e me ajude a salvar o povo de Ílac.
não sabia a profundidade das palavras de , mas a rainha sim, ela sabia do que já havia sido capaz de se submeter para manter a paz até onde foi possível. E, ainda que imaginasse que jamais lhe pediria o mesmo que Jeffrey, para ela, que havia perdido tudo, nada mais lhe importava.
― Eu não vou tocar em você, , isso é ridículo. Ainda que eu esteja te odiando nesse momento, jamais te machucaria, você sabe disso. – Deu um passo para trás, afastando-se dela, sentindo-se ultrajado por ela pensar que ele poderia querer operar qualquer vingança física contra ela.
A mulher sentiu sua bile se retorcer e seus olhos encheram-se de água, ainda que ela não ousasse derrubá-las.
Como queria que tudo na sua vida tivesse sido diferente. Como seria se fosse o seu companheiro? Se não tivesse Jeffrey ou mesmo Medroc entrado em seu caminho?
O guerreiro passou a mão por seu próprio rosto e olhou para , notando uma mulher mais profunda que ele poderia imaginar, no entanto, ele não estava mais disposto a lidar com ela, havia chegado ao seu limite.
― Eu só quero ir embora – suspirou. ― Deixe-me em paz, , por favor… Apenas deixe-me. Eu só quero sumir e esquecer que você existiu na minha vida. Eu não posso mais fazer isso.
O guerreiro passou por ela e caminhou até a porta, abrindo-a para que a rainha pudesse sair. Contudo, apenas virou o seu corpo na direção dele, permanecendo no mesmo lugar.
― Eu não posso permitir isso – disse com a voz fraca, quase não sentindo suas próprias pernas. ― Ainda que você quisesse, é impossível, estamos ligados até o resto de nossas vidas.
colocou a mão na testa e respirou fundo, sem conseguir compreender as palavras dela ou mesmo entender a sua teimosia. Fechou a porta novamente para que ninguém pudesse passar e vê-los lá dentro, e caminhou até ela, ao ponto de arrastá-la, se possível, até que pudesse sair dali.
― Lamento, , mas creio que está equivocada. Isso termina aqui. – Ergueu a mão para tocá-la, mas antes que o fizesse, a rainha o interrompeu, dando um passo para trás.
― Não posso fazer isso antes de te contar uma história.
respirou fundo, mas, antes que abrisse a boca, a rainha ergueu a palma da mão, que tremia, em sua direção e começou a falar:
― Uma tarde em uma tenda, dois corpos que se amavam e haviam sofrido uma terrível separação, sucumbiram a um momento de amor – iniciou, clamando com os olhos para que ele não a interrompesse. ― Era o amor mais belo que poderiam ter e por ser tão especial, ele não poderia acabar, ainda que estivessem afastados. Por isso a natureza tratou de fazer por eles o que não podiam, gerando um ser ainda mais especial e lindo, o fruto do amor mais genuíno que esses dois poderiam ter na vida. – sentiu seu corpo desfalecendo a medida que narrava.
O coração de batia forte enquanto atentava-se as palavras da mulher e via os olhos dela inundarem de lágrimas.
― Mas era um segredo que nunca poderia ser descoberto. Aquilo que era lindo poderia ser visto como o terror aos olhos dos reinos, por isso ela soube que precisaria esconder essa verdade magnífica. Houve mentiras e enganos, mas tudo necessário para manter a salvo o fruto que crescia em seu ventre. – Tocou a sua barriga, vendo o rosto de ficar cada vez mais pálido. ― Muitos caminhos tortuosos foram necessários para guardar o presente que o céu havia lhe dado, mas tudo ficou bem, e ela se tornou uma moça linda e preciosa – completou com um sorriso nostálgico, mas ao mesmo tempo triste, piscando e deixando que as lágrimas rolassem por seus olhos, impossível de serem impedidas.
― O que você quer dizer, ? – a voz de estava rouca e enfraquecida, seu punho fechado, as unhas quase tirando sangue da sua palma.
inspirou, sem tirar os olhos dele, e finalmente, jogou a verdade tão profundamente escondida.
é sua filha.
O guerreiro cambaleou e deu um passo para trás, enquanto piscava, como se tivesse levado um tiro. Tudo ficou mudo naquele momento, não sentia os seus braços e pernas e precisou se arrastar até a cama para sentar-se antes que sucumbisse ao chão.
― Isso não pode ser…
― Eu não mentiria para você – afirmou, sem saber o que esperar agora.
O guerreiro sentia um reboliço dentro do seu corpo, um frio percorria pelas suas veias levando um sangue gelado da cabeça aos pés. Suas mãos tremiam e ele precisou abrir e fechar a mão várias vezes, tentando obter o controle sobre si.
Não podia ser…
Uma filha?
Ele não sabia o que pensar. Era uma informação muito abrupta para conseguir lidar, só conseguia ver as lágrimas descerem pelo rosto de , ainda que ela mantivesse a sua pose altiva, como se não estivesse quebrada ali.
Não estava sozinho… Achou que estava tudo acabado, mas tinha uma filha, … Como não notou? Mas também… Como notaria? Jamais imaginaria. Ela tinha alguns dos seus traços, a menina tão doce que ele havia dançado e conversado…
Quase curvou a boca para rir ao lembrar do jeito que a garota tinha e dos conselhos que ele havia lhe dado. Ele havia sentido uma conexão com a menina, mas nunca pensaria…
E agora ela estava em Medroc.
O pensamento fez seu estômago embrulhar. Não teve tempo de ficar alegre com a informação, pois logo lembrou-se que a princesa estava nas mãos de Garret. Sua menina, sua filha…
Mirou o chão enquanto a quantidade absurda de informações vinha como choque em sua cabeça. Seu coração acelerava e sentia-se impotente diante daquela descoberta. Ergueu um pouco a cabeça para , experimentando uma raiva incomum percorrer sobre ele, ainda maior do que ele sentiu ao saber que Hector havia falecido.
Ele tinha uma filha e foi lhe tirado qualquer chance e oportunidade de ser um pai.
Ela poderia estar morta nessa hora e só o pensamento disso fez com que tivesse vontade de vomitar.
― Você mentiu para mim. – cravou suas unhas no colchão, segurando-se para não perder a calma.
― Foi necessário – respondeu firme, sabendo que não poderia desvanecer diante dele.
― Se tudo isso não tivesse acontecido você algum dia me contaria? – o guerreiro perguntou, recebendo um silêncio em resposta. ― Você é inacreditável. Eu não posso acreditar nisso! – Passou a mão furiosa por seu rosto e depois por seus cabelos.
, entenda… – deu um passo para frente, mas o guerreiro ergueu-se com ódio e em alta voz.
― Entender o quê?! Eu sempre preciso te entender, mas dessa vez você passou dos limites, . Não se trata só da minha pessoa, trata-se de uma outra vida que faz parte de mim e eu tinha o direito de saber! Eu poderia ter feito tanta coisa… Oh, céus, eu poderia ter a protegido. – Fechou a mão em punho e seus olhos encheram-se de água, dando um passo em falso para trás.
― E você queria o quê? – exasperou. ― Eu estava prometida a Henrique, ia me casar com ele. Queria que eu fosse correndo atrás de você?! O que poderia fazer? Queria que fugíssemos como dois amantes? Fazer com que dois reinos pagassem por um erro que só cabia a nós! – Ergueu os braços e avançou furiosamente, seus narizes quase se tocando e o rosto vermelho de raiva.
― Nunca mais chame a minha filha de erro – rugiu lentamente diante dela e depois se afastou.
― Não é o que eu quis dizer, explicou-se, sem baixar a cabeça nenhuma só vez e contendo a emoção de ouvir pela primeira vez verbalizar aquelas palavras.
“Minha filha”
Quantas vezes sonhou que estivessem em um outro universo e ele falaria isso em um contexto bem diferente.
― O ponto que eu quero chegar é... – Pigarreou e prosseguiu. ― Nós sabíamos que não deveríamos nos envolver, mas ainda assim o fizemos. Fomos cuidadosos até aquele dia. Não me arrependo, , mas até o fruto mais bonito dessa terra tem consequências.
― Mas eu fui o único a pagar por elas. Eu e a minha filha – o guerreiro completou.
― Nossa – corrigiu-o.
Como era saboroso essa palavra, mas ao mesmo tempo avassalador.
― Eu só descobri depois e eu jamais a tiraria. – espremeu os olhos, como se até a mísera possibilidade lhe doesse a alma. ― Preferi lidar com as consequências. Tive dizer a todos que era de Henrique, apesar dele nunca ter me tocado. Como ele morreu, Jeffrey assumiu-a e casei-me com ele para manter a aliança.
não sabia como aquelas informações poderiam cravar uma ferida tão profunda em sua alma. era dele, mas para todos, ela carregaria qualquer sobrenome, menos o do pobre órfão que entrara no exército. Aquilo lhe dava nojo, todas as mentiras, tudo o que tinha que se submeter e que haviam lhe arrancado.
― Diga-me, , o que eu poderia fazer? Lhe contar só causaria mais sofrimentos, se alguém descobrisse, seria a morte de todos nós. Quem me garantiria que você aguentaria vê-la de longe, deixar outro homem assumir um papel que deveria ser seu?
― Não sei, , você não me deu a oportunidade, como eu poderia saber?! – cuspiu contra ela, agarrando o próprio cabelo e puxando-o para trás.
Aquela era a pior ferida que a mulher a sua frente poderia causar-lhe. E quando ele pensava que ela não podia machucá-lo mais, provava o contrário.
― Eu não podia arriscar! – exclamou quase gritando, os olhos embargados.
― Ainda assim… – franziu o cenho, descrente. ― Você teve todas as oportunidades… Todas! Jeffrey morreu, eu estava aqui, haviam ameaças, ela foi levada… Ainda assim você não me contou – recitou os pontos lentamente com sua voz grave.
― Achei que poderia ficar contra mim, abandonar o posto e a guerra, eu não poderia adicionar complicações. Eu precisava de você inteiro para a função que tinha que exercer.
― E ainda assim, aqui estamos nós, não é? – ergueu a sobrancelha, a boca tremendo e as lágrimas quase caindo por imaginar o que a menina poderia estar passando em Medroc. ― Como eu lhe disse antes… – pigarreou, tentando se recompor. ― Eu sempre fui apenas um objeto usado por você.
, não… – deu um passo temeroso, as lágrimas voltando a escorrer por sua face.
― Você é tão egoísta. Sempre tentou fazer as coisas sozinha, nunca me deu a oportunidade, você só veio até aqui porque era a sua última instância, não tem mais ninguém! Sabe que eu sou a única pessoa confiável perto de você, nunca foi por mim. Que se dane se eu tinha uma filha no mundo, dane-se que eu talvez nunca soubesse dela, não é? Mas você precisava dos meus serviços, então, aqui estamos… Eu fui tão estúpido! – tampou os olhos com as mãos. ― Quer saber, ? Você pode ser a pessoa mais forte que eu conheço, mas ninguém é imbatível, até as maiores pessoas precisam de ajuda e apoio de vez em quando. Você não é autossuficiente, eu estava do seu lado o tempo todo, mas você não quis. Você preferiu agir só. Agora vai ter que lidar com as consequências disso.
passou a mão por suas bochechas, respirando fundo e enxugando as lágrimas, recriminando-se por ter se mostrado tão frágil diante dele, mas era impossível tocar nessa ferida tão profunda sem quebrar de alguma forma.
, você não vai fazer nada? Vai abandonar esse barco, deixar Ílac só e lá? Pouco me importo se me odeie, faça o que quiser, mas não posso acreditar que depois de tudo você vá simplesmente embora! – falou, ainda que fosse uma frase carregada de mentiras.
Claro que ela se importava, nunca gostou de carregar o ódio de , sentia falta da época que recebia unicamente amor dos seus braços.
caminhou até a cômoda ao lado da sua cama e pegou a sua espada que estava ali em cima. Olhou para ela por alguns instantes e depois virou-se para com os olhos escuros e frios.
― Diga aos homens que o General está de volta. Marque uma reunião daqui uma hora, precisamos montar os planos de ataque. – Colocou a espada de volta a cômoda. ― Eu vou trazer a minha filha de volta e depois acabou. Você é a Rainha para mim e eu o General para você. Eu vou matar todos aqueles que tocarem num mísero fio de cabelo da minha filha, trazê-la a salvo e depois, é o fim. Eu não quero mais falar com você, nem mesmo respirar o mesmo ar. Eu te odeio, , como nunca pensei que pudesse odiar alguém. Farei o que deve ser feito, mas não espere mais nada de mim – falou enquanto seu peito subia e descia freneticamente.
travou seu maxilar e apertou as mãos em punho ao lado do seu corpo, balançando a cabeça em concordância.
― Já pode ir, Majestade.
deu as costas para , abriu a porta com força e deixou-a bater atrás de si, encostando as suas costas nela em seguida. As últimas lágrimas que havia segurado, desceram como uma torrente de águas quentes por suas bochechas e a única coisa que ela conseguiu sibilar com um movimento de boca foi: “Me perdoe”.



Capítulo 28

gritou, quebrou coisas, chorou e se desesperou. Ainda no quarto, colocou para fora todo o ressentimento, toda dor, todo o aperto no peito que o fazia sufocar.
Uma filha…
Em que mundo cogitaria tal ideia?
Nunca havia pensado nem mesmo na possibilidade.
Nunca imaginou ser pai, mas agora… Era apenas tudo o que ele queria. Mas para isso, primeiro, teria que trazê-la de volta para os seus braços. E isso significava ter que trabalhar junto a para o seu resgate.
Não estava liberado para sofrer, não estava liberado para sentir sua dor como todos. Nem mesmo teria tempo para colocar sua cabeça no lugar.
O dever era maior do que tudo isso. Nesse exato momento tanto Ílac quanto a sua filha precisavam do General em ação.
Sua filha…
Como só esse pensamento lhe trazia uma sensação de inundação ao seu coração? Já não era apenas ele no mundo. Havia uma semente que havia sido plantada. Uma semente que havia sido germinada em meio ao amor; pelo menos da sua parte assim era.
Após deixar o quarto, passou algumas horas refletindo e ruminando a sua raiva e a sua dor. No entanto, não deixou que isso se estendesse, não colocaria a segurança da sua filha e do povo em jogo por causa dos seus próprios sentimentos mediante a situação, por isso, pediu que um soldado enviasse um bilhete seu a rainha, convocando uma reunião emergencial sobre a guerra.
Antes de sair, entrou na banheira, desejando que a água pudesse lavar o seu corpo e os seus sentimentos. A dor o consumia e a raiva se alastrava. Estava ficando louco, possesso, incontrolável. Queria matar todos que o impedisse de chegar até a sua menina, nem que para isso morresse. Contudo, antes, desejava apenas um abraço, um afeto verdadeiro na sua vida, queria dizer a ela que não sabia como era possível, mas que a amava mais do que a vida no momento que havia a descoberto.
mergulhou na água até não ter mais fôlego, deixando escorrer as gotas junto as suas emoções. Após lavar-se, perdendo-se no tempo ali, estava pronto para mais uma batalha, mas agora seria diferente, ele lideraria, mesmo que tivesse que ignorar ao seu lado e lidar com ela todos os dias. Precisava disso até poder salvar Ílac e .
Enxugou-se e, ainda nu, sentou-se sobre a cama, cruzando as mãos e apoiando a sua testa nela, enquanto os cotovelos recostavam-se em suas coxas. Suspirou profundamente tomando coragem para vestir a roupagem de General novamente. Teria que se manter são quando tudo em volta o levava ao limite.
Vestiu-se e, assim que deu a hora, caminhou até a sala do Trono, onde a Rainha o esperava com os demais. Ao entrar, todos já o aguardavam. Seus olhos conectaram-se aos de por alguns segundos, que estava sentada em seu trono; entretanto, apenas o suficiente para que ele se fechasse e enviasse o recado mais duro que poderia, desviando-se da conexão que faziam.
Cada um dos presentes encarou o general. Não o viam desde a notícia da morte de Hector e devido à última batalha, o medo e a inquietação dos próximos passos inundavam o recinto. Cameron estava ao lado esquerdo da rainha, assim como outros homens importantes, chefes de famílias nobres que haviam apoiado o falecido rei Miles na antiga guerra e alguns outros homens que havia convocado e que seriam úteis para possíveis estratégias de guerra e infiltração.
— Fico feliz que tenha se juntado a nós, Sr. – a rainha pontuou, recepcionando-o, e sentiu todo o seu corpo retesar com as palavras da mulher.
Ela estava o provocando, era o que ele pensava, não havia outra explicação para jogar com ele desta maneira.
O general deu apenas um aceno de cabeça em concordância e aproximou-se do grupo, mantendo-se o mais longe possível da mulher. Olhou para os presentes até que puxou o coro com a maior indagação que pairava na cabeça de todos.
— E então, qual a nossa situação?
deu um pequeno e breve olhar para Cameron, sinalizando para que ele deixasse todos a postos das informações que obtiveram.
— Tivemos muitas perdas na última batalha – o tio da rainha iniciou, evitando olhar para o general. — Era um dos nossos melhores batalhões, parte foi morta e outra está ferida, mas Ílac ainda tem um exército grande se compararmos ao pequeno grupo que morreu.
segurou uma risada amarga com a frieza que aquilo era tratado, porém, preferiu calar-se, sabendo que infelizmente era fatos da guerra e não era hora para emoções, ainda que doesse a sua alma e fosse um inferno ter que segurar tudo o que estava passando dentro de si naquele momento.
— Não temos notícias de Medroc e creio que não iremos saber. A guerra foi declarada, mas não houve um convite de batalha de fato. Creio que o rei não quer um combate comum, ele quer vingança, por isso está usando todas as artimanhas sujas no processo. O sequestro da princesa é um bom exemplo disso. Não sabemos o que esperar ou como agir, mas precisamos unir forças – prosseguiu.
— O tempo é o nosso inimigo no momento, Garret tem e sabe-se lá o que ele planejou para ela lá. O sequestro foi uma emboscada, mas não creio que ele o faria só para matar-me ou um punhado de homens. Ainda que todos nós fôssemos mortos, Ílac é um reino muito forte e eles não teriam o nosso domínio. O que me faz pensar que foi apenas uma forma de nos desequilibrar, ou melhor dizendo, me desequilibrar. Mostrar a sua força ou mesmo tentar provocar-me. Ele nem mesmo estava lá, o que me diz que tudo não passa de uma grande diversão para o rei de Medroc – a rainha continuou.
— Exatamente. Por isso é hora de pensarmos grande, derrubarmos o inimigo de uma vez por todas. Garret não vai mudar de ideia e ele negou todas as nossas tentativas de paz. Enviamos já decretos para a retirada das aldeias das fronteiras e temos homens trabalhando nisso. Qualquer movimento do inimigo pode ser fatal para nós e já que Garret é covarde o suficiente de vir até Ílac, não nos resta outra escolha a não ser ir até eles. Contudo, entrar em Medroc não é fácil, eles podem estar a nossa espreita em qualquer canto, além de não ter lugares fáceis de se manejar um grande exército devido as montanhas e florestas – Cameron prosseguiu, roubando a atenção da reunião.
— Como vocês planejam fazer isso? – Kilt, um dos líderes presentes, perguntou.
— Contatos – Cameron respondeu, abrindo um pequeno sorriso.
— Ou possíveis alianças – a rainha corrigiu.
— Há alguns anos viemos nos preparando para possíveis ofensivas. Jeffrey nunca foi uma pessoa confiável e, ainda que estivéssemos sob a aliança, à rainha não sabia até quando ela poderia durar. Por isso tivemos que ser prevenidos. Um reino não pode durar apenas contando com a sorte, não é? – disse Cameron, varrendo seu olhar pelos presentes. — Precisamos estar sempre um passo a frente, ter um jogo acima para podermos assumir o comando. E foi por isso que enviamos um espião.
Os homens da sala se entreolharam um pouco surpresos e o sorriso de Cameron se alargou, assim como o semblante de satisfação da rainha.
— Precisávamos de alguém que tivesse acesso aos palácios, governos e pessoas do mais alto escalão dos reinos, que pudesse arrancar informações dos reis e descobrir seus pontos mais fracos. Não é uma tarefa fácil, ninguém sai falando sobre si de forma displicente a qualquer servo ou soldado, e seria muito estranho se Cameron ou eu tentássemos arrancar essas informações – continuou o discurso com os olhos brilhando, esfregando uma mão na outra. — Mais difícil ainda seria achar alguém confiável o bastante para que não traísse o nosso povo, precisava ser alguém do nosso próprio sangue, somente um faria esse trabalho tão bem.
— Sim, eu sei, eu sou maravilhoso. – Nesse mesmo momento, Isaac entrou no salão com um aspecto irônico no rosto e com um tom de superioridade, contrapondo ao seu próprio corpo que ainda manquejava.
rolou os olhos ao ver o garoto, nada surpreso com a informação, enquanto os demais resmungavam entre si, sem entender como poderia o rapaz ser o informante tão sério, sendo que todo o reino sabia da fama que Isaac carregava.
— Eu sei o que estão pensando – Cameron os interrompeu antes que o indagassem. — E é por isso mesmo que meu filho foi à pessoa ideal para isso. Um libertino viajante, atrás de bebidas, mulheres e sexo. Alguém que não queria ficar no palácio e tinha pouco vínculo com qualquer função da realeza, além de ter chances ínfimas de obter a coroa. Era exatamente isso que precisávamos. Uma pessoa que ainda assim, pudesse ser bem recebido em qualquer império que fosse, pois o sangue real corre nas suas veias, mas que não aparentava perigo algum. E não o subestime, Isaac tem uma lábia impressionante.
Não era surpreendente a falta de amabilidade por parte dos próprios conterrâneos. Isaac nunca havia sido um rapaz modelo, nem tampouco quis ser. Enquanto qualquer outro com sangue nobre iria buscar uma função importante no reinado, Isaac quis apenas aproveitar o que pudesse usufruir da vida, antes que estivesse fadado a seguir a carreira do pai e ter que apoiar uma princesa. Bom, era isso que ele pensava antes de ir embora, antes de ver novamente e tudo mudar dentro de si.
Fora por isso que aceitou sem pestanejar quando a oferta do seu pai e da rainha caiu em suas mãos. E tudo o que ele precisaria fazer era ser ele mesmo. Que tolo seria se tivesse recusado.
— E o que ele pode ter trazido de tão importante para nós? – um dos homens cuspiu ainda incrédulo.
— Informações, conhecimentos essenciais que podem ser usados para nossas estratégias de guerra. Se não cooperarem ou omitirem a sua guarda, eu saberei – Isaac respondeu, aproximando-se e puxando uma cadeira para se sentar, devido às dores que ainda sentia. — Sei o armamento que cada império tem, conheço seus pontos fortes e fraquezas e também sei os seus segredos obscuros que podemos utilizar. – Seu lábio curvou-se levemente em um sorriso misterioso.
— Já enviamos mensagens a todos os impérios, a fim de saber quem estará conosco. Precisamos fazer alianças e fortalecer nosso exército – o pai de Isaac completou.
— Fortance é a terra da minha mãe, dificilmente eles irão se opor a aliança, se eles estiverem conosco teremos os homens mais fortes, os soldados de lá são como uma muralha. Eles não são muito ágeis, mas podem fazer uma barreira de proteção espetacular se o colocarmos à frente do batalhão. Além disso, o material do armamento deles é maravilhoso. O que compramos em suas mãos não faz frente ao que realmente eles possuem, o melhor eles guardam para eles mesmos. A última vez que estive com eles, fabricavam uma nova arma destruidora, se conseguirmos o seu apoio, Medroc irá tremer diante de nós.
— Como sabe de tal arma? – um dos homens perguntou.
— As pessoas pensam que apenas os reis e nobres possuem informações privilegiadas, no entanto, esquecem que cada coisa que é feita, precisa de uma mão de obra, que por muitas vezes não é valorizada. Unam então uma nova amizade, um servidor insatisfeito e uma grande dose de bebida, e o resultado será um homem que fala pelos cotovelos. – Isaac riu, lembrando-se de quantas vezes havia feito isso.
Realmente seu pai estava certo, tinha uma grande lábia e o seu jeito largado de ser fazia com que se aproximasse de todas as pessoas que queria. Não era difícil fazer amizades com soldados, trabalhadores, senhoras e mocinhas… muitas delas. Aos homens, era só pagar doses de vinho e se transformava na melhor pessoa do mundo, tinha uma alta resistência a álcool então era fácil fingir-se bêbado junto aos seus companheiros e arrancar as informações que queria. Quanto às donzelas… Bom, não poderia negar que o seu charme era como uma chave ao baú de informações. As pessoas mal sabiam como a criadagem de um palácio poderia saber de coisas vitais e os segredos mais obscuros da realeza.
— Quanto a Alegrance – Isaac continuou com o seu discurso –, é um reino fraco e distante, não acredito que seja muito útil para nós, mas também não irão se opor, eles podem nos ajudar com suprimentos caso seja necessário, sejam eles comida ou providências médicas. Talvez cedam alguns homens, apesar de achar que caso o façam, serão mais para formar números do que para lutar em si. Sempre se conformaram com a situação em que vivem e nunca se prepararam para um possível ataque ou guerra que viesse acontecer. É mais fácil para eles se esconderem atrás de nós. No entanto, podemos oferecer a nossa proteção em troca de materiais e mão de obra que possamos precisar.
— E Grutok? – um outro questionou, curioso, agora que Isaac havia prendido a atenção de todos os homens. — Todos sabemos que eles seriam os mais úteis.
Isaac franziu o cenho e engoliu em seco, pensativo. remexeu-se enquanto via o rapaz ficar desconcertado e pigarreou, chamando a atenção dos homens para si.
— Antes que Isaac possa responder, eu gostaria de ter o direito à palavra. – Ergueu a mão e todo o recinto o olhou. franziu o cenho com a interrupção e pensou em pedir que ele esperasse, contudo, resolveu ceder, talvez fazendo com que visse como uma possível oferta de paz. A rainha fez um aceno com a cabeça, autorizando-o a prosseguir e o general então continuou: — Dentro de alguns dias poderemos ter respostas de Medroc. Possuo alguns homens infiltrados, enviei-os no dia que a princesa foi raptada – confessou, agora tendo a atenção completa da rainha e dos demais presentes.
— Como? – Cameron fez a pergunta antes que conseguisse falar.
Ladinos – respondeu e a sala exclamou.
Isaac olhou de um lado para outro, vendo a expressão chocada da maioria e sem compreender.
— O que é isso? – o rapaz perguntou.
— Assassinos, sabotadores, infiltradores capazes de entrar em qualquer lugar e obter as informações que sejam necessárias – respondeu com a voz gélida. — As últimas pessoas em que alguém pode confiar.
— Como você pode se meter com pessoas assim para estar em Medroc? – Cameron contestou, apertando o punho.
— Nem todo mundo tem uma vida privilegiada como o senhor, Cameron. Alguns param nas ruas, tem fome, fazem o que é possível para sobreviver – disse com um tom amargo. — Não que seja justificativa para atrocidades, mas você não conhece os meus homens e nem em quem confio, nem todos são pessoas ruins. Eu jamais enviaria ao reino inimigo pessoas com quem não pudesse contar. Eles me devem isso.
tocou no ombro do tio, impedindo-o que continuasse retrucando e voltou o seu olhar para .
— Conte-me mais sobre isso.
— Vossa Majestade havia pedido para que pensasse em meios para resolvermos o problema e foi o que fiz – respondeu, sem olhar para ela, focando em qualquer outra pessoa do recinto.
A dor da mentira ainda pesava, já era um grande esforço estar ali impassível diante de todos.
— Enquanto estavam na batalha – iniciou, sentindo o gosto amargo na língua ao lembrar-se do evento que culminou na morte do amigo –, eu reuni um grupo de confiança, a essa altura eles já devem ter conseguido entrar no castelo. Se estiver lá, eles darão um jeito de chegar até ela, a missão deles é protegê-la e, se possível, retirá-la de lá o quanto antes. Enquanto isso, podemos elaborar um plano para enfrentar o exército de Medroc.
— Isso é ótimo, elogiou, sentindo por dentro a emoção e a esperança de recuperar a filha.
— Mas, … – Cameron iniciou, mas foi cortado apenas por um olhar da rainha.
— Não me importa quem o general escolheu para fazer o serviço, desde que o faça. A prioridade é a minha filha, se o Sr. confia nesses homens para tal missão, então estou certa de que posso me despreocupar quanto isso. Estamos entendidos?
Seu tio apertou o punho, mordendo a língua para não retrucar, abaixou a cabeça em um aceno, mostrando que estava de acordo e voltou seus olhos novamente para seus homens.
— Então, agora devemos focar em como iremos atacar Medroc. Precisamos de Grutok, eles tem homens ágeis e fortes, meu pai dizia que poderiam entrar em praticamente qualquer local sem mal serem notados. Podemos formar equipe com nossos homens e alguns de Grutok para encontrar com a sua, , e assim trazer de volta, além de poderem ser um grande apoio na batalha.
O general sentiu o seu peito queimar com a sugestão, mas olhou para Isaac, que colocou as mãos sobre o rosto e abaixou a cabeça.
— Não acredito que Grutok nos apoiará nessa guerra. – voltou a olhar para a rainha, que enrugou a testa em resposta.
— E por que não? Isaac? – indagou-o de volta, cerrando a boca em uma linha fina.
O general semicerrou os lábios e deu um olhar de soslaio para o mais novo que estava no salão. O rapaz dos cabelos negros havia se encolhido levemente e Cameron flagrou a breve troca de olhares, franzindo o nariz em questionamento.
O rapaz abriu a boca para formular uma resposta, mas antes que o dissesse, o general o interrompeu, impedindo-o que falasse.
— Esqueça, , tenho contatos que me disseram que eles não nos apoiarão. Provavelmente eles irão respondê-la, mas já adianto que não devemos contar com eles.
— Mas isso é inacreditável! Sempre tivemos nossas diferenças, mas também nossas cordialidades. É impossível que Grutok fique neutro nisso tudo – a rainha se exaltou. — Mande uma equipe para eles, preciso de respostas.
— Majestade… – Cameron chamou-a. — Se o que o General diz é verdade, então ir até lá será uma perda de tempo, mande uma carta por um emissário, precisamos concentrar nossas forças aqui.
— Eu não acredito nisso… – murmurou inconformada. — Esse assunto não está encerrado, não mesmo. Mas, por hora, nos atentemos aos próximos tópicos.
A conversa voltou para o número de homens que já tinham prontos, possíveis entradas para a invasão de Medroc, treinamento dos soldados e material para as armas. A vontade era de sair no mesmo instante, mas, não poderiam ser pegos desprevenidos novamente. Se Ílac ia atacar, deveria ser com força total.
Enquanto isso, Isaac tocou o ombro do pai sutilmente e inclinou-se sobre o seu ouvido.
— Preciso falar com você.
— Agora? – Cameron franziu a testa e virou-se para o filho.
— Sim. – Engoliu em seco. — Por favor.
Isaac girou e caminhou para fora do recinto, o pai pediu licença aos presentes e o acompanhou até que estivessem do lado de fora. Assim que passaram pelas portas, Cameron segurou no ombro do filho e o impediu de continuar caminhando.
— Diga-me, não posso me ausentar muito tempo da reunião, preciso voltar.
Isaac olhou para os dois lados, passou a mão pelo rosto e voltou os olhos para o pai, que o encarava duramente.
— É minha culpa – confessou.
— O que é sua culpa? – Cameron cruzou os braços para o filho e deu um passo para trás, vendo o rapaz morder o lábio e ter uma espécie de pânico em seu rosto.
— Grutok. É por minha causa que eles não vão se aliar a Ílac.



Capítulo 29

1 ano atrás

Era o último império que Isaac precisava ir, há algum tempo aquilo o fatigava. Não a parte da diversão, ele nunca se cansaria disso, mas ter que ficar adulando reis e rainhas para conseguir o que queria era enfadonho. Velhos soberbos regidos e alimentados por elogios mentirosos, sempre assim.
O rei de Grutok era o pior deles, fechado e intransigente, difícil de ter um diálogo, no entanto, bastava-lhe um discurso de louvor e exaltação, que as pessoas poderiam ver o pequeno sorriso convincente que ele emitia. Tinha orgulho das suas armas e seus homens, gabava-se de cada uma das suas conquistas e tinha a filha como sua joia mais preciosa, o diamante mais raro que ele ostentava. Era bom para o seu ego exuberante mostrar aos homens uma beleza tão jovem no qual nenhum deles iria ter. Fazer isso o divertia.
Por isso, não foi surpresa para Isaac que o Rei de Grutok tivesse organizado uma festa para a sua chegada, cheio de pompa e convidados. Ele aproveitou-se de cada minuto que lhe foi oferecido, cada bebida, danças, comidas e flertes. No entanto, aquela veia de curiosidade latejava sobre ele, a cada minuto que passava, os olhos da multidão miravam os grandes portões que ficavam atrás do trono em que o rei sentava, todos à espera da grande aparição da noite.
Isaac não era indiferente, queria saber se a princesa era tão bela aos olhos quanto os boatos diziam, ou, pelo menos, que fizesse valer todo o suspense e exaltação que Cajif, rei de Grutok, fazia. Mas o soberano gostava de dificultar as coisas, brincar e fazer com que as pessoas ansiassem mais por aquela visão. Fazia bem ao seu ego, já que ele mesmo não era dotado de beleza alguma.
— Hoje ele está enrolando mais do que o normal – um dos homens do reino sussurrou para Isaac ao seu lado.
O rapaz apenas arqueou a sobrancelha em resposta, para não transparecer que estava tão interessado no assunto como os demais.
— Acredito que seja por sua causa. Você sabe… É de Ílac, Cajif nunca deixaria passar a oportunidade de ostentar algo para o melhor povo do mundo.
Isaac entendeu a referência e acenou com a cabeça, levando seus olhos novamente até a porta, que nunca se abria. Seus dedos começaram a tamborilar a taça de vinho e a bebida já estava começando a lhe deixar tonto. O pé batia no chão com impaciência e para ele a festa já era enfadonha. Depois de anos vivendo através delas, nada o admirava mais. Não quer dizer que não as curtia, ele era um festeiro assíduo e um mulherengo também, mas logo se sentia exausto de ter sempre muito do mesmo.
Sentia uma leve saudade de casa, sempre quis ir embora, seguir a sua própria vida e liberdade, mas agora que a tinha, tudo o que queria às vezes era o afago da mãe, os conselhos do pai, os treinamentos com a prima e rainha e até mesmo perturbar a pentelha , que não tinha muito contato, mas gostava de azucrinar quando mais nova.
— É agora – o homem ao lado o despertou dos seus pensamentos e os olhos de Isaac pairavam até a grande porta que estava sendo aberta. Todos pararam para poder observar a entrada triunfal da princesa, não havia um olhar que não estivesse sobre ela. — Não é todo dia que Cajif permite que tanta gente a veja, ninguém quer perder essa oportunidade — completou e explicou ao jovem de Ílac assim que notou o seu rosto confuso pela comoção das pessoas.
Isaac inclinou o seu corpo para frente e apertou os olhos enquanto olhava para o local, uma jovem surgiu pelos portões, seus cabelos longos tinham um castanho vivo que entoava o caramelo e lhe chegava um pouco abaixo da cintura, suas pontas se enrolavam formando ondas e cachos enquanto a sua raiz lisa escorria e moldava o rosto da princesa. A pele dela combinava com a cor do seu cabelo, era levemente bronzeada, deixando um dourado bonito e formoso. O rosto ligeiramente arredondado dava-lhe um ar inocente agregado as suas bochechas rosadas, na boca havia um tom de vermelho que destacava os seus lábios e deixava-os mais proeminentes.
O rapaz não conseguia tirar os olhos dela, a mulher era lindíssima e era impossível conter o reboliço que sentiu abaixo do seu abdômen, principalmente porque assim que a moça deu o primeiro passo ao salão, o olhar dela cravou diretamente no seu. Ela exalava doçura e inocência, mas algo na forma com que ela o encarava fazia com que Isaac quisesse desvendar o que a adorável filha de Cajif escondia.
— Venha, Isaac, conheça a minha bela Nihcole – o rei de Grutok exclamou para o rapaz e estendeu a mão para ele, seu estado bêbado visível pela forma que embolou um pouco as palavras.
Isaac repousou vagarosamente a taça de vinho ao seu lado e caminhou até o rei, tentando não olhar muito para a princesa. Ao chegar até eles, à moça abaixou a cabeça e fez uma leve reverência ao rapaz. Isaac inclinou-se para ela e estendeu a mão para cumprimentá-la, olhando para o rei em pedido de permissão. Cajif fez um leve aceno e tinha um grande sorriso no rosto, seu olhar reparando cada gesto que o rapaz fazia diante da sua filha.
Isaac pousou os lábios no dorso da mão, deixando o toque por um segundo, o suficiente para que não soasse como um insulto, mas também o suficiente para que ele olhasse para cima e visse, escondido por entre os cabelos, um leve inclinar do sorriso da princesa. Afastou-se dela e deu um passo para trás, rompendo o contato e voltando o seu corpo para o rei.
— Realmente, a beleza da sua filha vai além do que ouvi falar – entoou para Cajif e o mesmo bateu palmas e ergueu uma taça de vinho em comemoração.
Em seguida, o pai segurou a mão da garota e puxou-a para ficar ao lado dele. Isaac afastou-se, no entanto, em vários momentos durante a festa, seus olhos encontraram-se aos da princesa. Ela tentava disfarçar tocando a mexa do seu cabelo, ou desviando de um lado para outro, mas quando a visão de ambos se confrontavam, o enigma era lançado. O jovem de Ílac não era bobo, ele podia sentir do local onde estava o desafio lançado por ela. A princesa linda e intocável o chamava para si.
Talvez não fosse nada de mais se ela fosse qualquer outra, mas ela era o tesouro de Grutok, a mulher que ele sabia que nunca poderia ter, por isso, aquilo para Isaac era quase como uma bandeja linda e apetitosa que ele não poderia desfrutar. Mas o proibido era sempre mais excitante, não era? Isaac vivia pelo desafio e o fim da monotonia da sua vida. Sendo assim, uma única piscada para ela – enquanto Cajif dançava e estava distraído – e o acordo silencioso entre os dois fora acertado, culminando com um sorriso enigmático de Nihcole para ele e fazendo com que lá no âmago dos seus pensamentos, Isaac sentisse que estava entrando em algo muito ruim, mas que não conseguia controlar.

*


Era noite e Isaac estava recostado no peitoril do pátio do castelo, seus cabelos negros voavam com o vento e seus olhos estavam cerrados enquanto sentia a brisa cobri-los. Era tarde e não conseguia dormir, os dias estavam passando e ele não tinha reunido todas as informações que poderia. Cajif era mais esperto do que ele pensava, mostrava para Isaac apenas o que todos já vislumbravam, mas ele sabia que havia mais do que isso, o rei de Grutok era exuberante, mas também sábio. O homem era inteligentíssimo e Isaac conseguia notar durante as conversas que tinham juntos. O rapaz não podia mostrar tanto interesse nos soldados, armas e fortalezas de Cajif, mas tentava colher aqui e ali alguma coisa. Contudo, as pessoas de Grutok eram fechadas e ele sempre se sentia… observado.
Naquela noite, tudo isso o perturbou. Já era esperado que ele tivesse ido embora, mas ainda estava ali, preso e perdido. A única coisa que ainda fazia com que os dias valessem a pena eram os olhares furtivos que trocava com a princesa. Não tinha chegado perto dela, o rei mantinha a filha a uma distância segura nas poucas vezes que permitia que ela estivesse à vista durante as refeições. No entanto, era o suficiente para que Isaac sentisse o desejo e a luxúria.
Ele poderia ir até ela, arranjar uma forma de tocá-la e acabar com o fogo que emergia entre os dois, entretanto, pela primeira vez, ele precisou se conter. Ainda era cedo e Nihcole era perigosa demais, podendo acabar com todos os seus planos antes da hora. O seu eu vadio queria o impulsionar a arriscar tudo e acabar logo com isso, uma vez que estivesse com ela, Isaac sabia que o furor e a adrenalina se acalmariam. Entretanto, era contar demais com a sorte, antes disso, ele precisava fazer o seu dever.
O garoto de Ílac girou a cabeça e abriu os olhos rapidamente assim que ouviu um barulho de passos atrás de si. Seus olhos se estreitaram assim que percebeu uma presença feminina, vestindo um grande manto escuro que chegava até os seus pés. A cabeça dela estava abaixada, mas assim que o olhar dela levantou para focar no rapaz, Isaac soltou suas mãos, que estavam tensas e prontas para voar diretamente até a sua espada.
Nihcole esboçou um pequeno sorriso e caminhou para mais perto, enquanto ele olhava de um lado para outro, vendo se mais alguém a seguia até ali.
— Não se preocupe, estamos cobertos – a voz aveludada da garota soou rompendo o silêncio e surpreendendo Isaac.
— Desculpe, não compreendi, Alteza – o rapaz respondeu-a com uma pontada de zombaria, ainda incerto com o que aquela situação significava.
Era a primeira vez que trocavam palavras após o dia que se conheceram e o fato de estarem sozinhos na madrugada fria deixava a situação ainda mais intensa.
— Eu acredito que me compreendeu exatamente. – A princesa retirou lentamente o seu capuz e deixou seus cabelos acastanhados expostos a luz da lua, passou a mão por baixo deles e trouxe-os para fora do manto que vestia, fazendo que eles se rodeassem em sua cintura.
— O que quer de mim? – Isaac varreu seu olhar por toda a princesa e passou o seu polegar pelo lábio, terminando o foco nos lábios avermelhados da garota.
— Achei que você já sabia… – respondeu, movendo a língua para umedecer a parte que Isaac tanto admirava.
— Você está brincando com o fogo, princesa – advertiu-a, arrancando uma pequena risada dela.
— Eu não brinco com o fogo, Isaac. Eu o manipulo e faço tudo queimar. – Levou os dedos para a abertura de cima do seu vestido, deixando que seu decote ficasse ainda mais exposto e fazendo com que Isaac pudesse ver quase todo o seu seio.
A respiração do rapaz acelerou e ele mordeu o lábio com a ousadia dela, ainda que por fora ele tentasse manter-se imparcial. Ele inclinou suas costas contra o peitoril e repousou os cotovelos por cima dele, deixando-o em uma posição relaxada. Nihcole não seria a primeira mulher a tentar seduzi-lo e provavelmente não seria a última, o que fazia a diferença era a contradição entre a garota meiga que ela aparentava na frente de todos e o fulgor que ela exalava só para ele. Quem era aquela garota afinal?
Contudo, aquilo não era o suficiente para que Isaac se rendesse, ele não sabia o motivo dela estar ali, além do desejo que emitia. Ele queria ver até onde ela iria, ele queria desafiá-la e ver se esse movimento dela era apenas um impulso ou se a inocente princesa idolatrada de Grutok era uma farsa.
— E o que seria tudo? Eu? – Isaac deixou sair uma leve risada. — Talvez eu seja a prova de fogo, ou melhor, talvez eu seja a tempestade. E você sabe o que a chuva faz, não sabe? Ela apaga todo o fogo. Vá dormir, Nihcole, você não sabe no que está se metendo vindo até a mim.
A princesa balançou a cabeça vagarosamente e deixou um sorriso sair enquanto devorava o rapaz com os olhos.
— Então me mostre que sua tormenta é mais forte que a minha, prove-me que seu poder é maior do que o meu. Vamos ver quem será derrotado no final.
— Desculpe, Alteza, mas eu não desfruto de princesas inocentes, mesmo que me seja uma lástima imensa negá-la – respondeu, sem conseguir desviar o olhar da ferocidade dela.
— E quem é inocente? – retrucou em um tom sedutor, avançando para mais perto dele. — Acha mesmo que se eu o fosse, teria consentido todos os flertes que trocamos até aqui? Ah, Isaac, não venha se fazer de difícil agora para mim, pois sei que este não é o seu perfil. – Estendeu a mão e pousou no peito dele, seus corpos se aproximando e uma distância mínima ficando entre eles.
Isaac olhou para o toque ousado e delicado de Nihcole e acompanhou-o quando ela deslizou o dedo indicador pela sua pele, subindo por seu pescoço até chegar ao seu lábio inferior. Suas respirações aceleraram com o contato e o desejo era tão eminente que tornava-se impossível se afastar agora.
Em certa parte ambos estavam certos, Nihcole era o fogo e Isaac era a água que iria afogá-la até que não restasse mais nenhuma chama. Distanciar-se dela nesse momento requereria uma força que ele não tinha, nunca havia recusado uma mulher, quanto mais uma como a princesa de Grutok.
— Tem razão. – Os lábios dele curvaram-se em um longo sorriso e Isaac concretizou o ato dando mais um passo, deixando que suas respirações tornassem apenas uma. — Este é o meu verdadeiro eu. – Passou uma das mãos pelos cabelos da princesa e a outra pela sua cintura, trazendo o corpo dela para si. Encarou-a apenas por um segundo, o suficiente para que ela pudesse ver toda a lascívia contida em seus olhos antes de tomar seus lábios em um beijo profundo e escandaloso.
Sua língua se apoderou da dela e a sua mão desceu até a curva da bunda da princesa, puxando-a contra si, as costas dela se encurvaram e Isaac mostrou-a parte do que ela queria, mas não tudo. Tão rapidamente quanto se provaram, o rapaz afastou-se dela cobrindo como gelo o seu semblante.
A princesa arfava, seu pulmão subindo e descendo com rapidez e os lábios inchados e avermelhados. Ela levou sua mão até eles e tocou-os, os olhos nublados com o desejo que ainda ardia. Quando deu um passo para se aproximar novamente dele, Isaac recuou e fechou a sua face, desviando-se dela.
— Boa noite, princesa. – Caminhou e passou por Nihcole, deixando-a atônita.
— É isso?! Achei que tinha dito que era a tempestade? – Ela fechou as mãos possessivamente e seu pescoço avermelhou-se, uma pequena veia saltando em sua têmpora.
— E eu sou – Isaac girou a sua cabeça por cima do ombro e elevou a ponta do lábio sutilmente –, mas eu nunca te disse que te deixaria provar da minha tormenta. — Piscou para ela e saiu do local rindo para si mesmo.
A ação foi muito mais difícil internamente do que ele demonstrava, mas ele não poderia deixá-la ganhar. Se Nihcole queria brincar com ele, tudo bem, mas ele também faria o mesmo. Ela queria ganhar? Ele também. Já que era para arriscar a sua estadia em Grutok por uma cama quente proibida, então que lhe rendesse mais do que isso. Nihcole queria o seu corpo, Isaac precisava de informações, se ele confabulasse direito, ambos poderiam sair ganhando, ele só precisava saber como fazer isso sem que a filha de Cajif soubesse.

*


— Que tal um jogo? – Isaac cercou-a contra a estante, as costas da garota batendo contra os livros.
— Eu estou cansada dos seus jogos, Isaac – a princesa respondeu, rolando os olhos e passando a mão no pescoço dele.
Já estavam há duas semanas como gato e rato. Flertes escondidos, algumas fugas e alguns avanços. Depois da madrugada da sacada, era de se esperar que talvez Nihcole se sentisse ultrajada, mas não, a princesa tomou Isaac como um desafio que queria para si e ele pode comprovar no dia seguinte quando sentiu o pé dela roçar a sua coxa por debaixo da mesa no jantar, fazendo com que ele engasgasse com o vinho. Nihcole o surpreendia e ele adorava, no entanto, não podia apenas ceder, pois no momento que fizesse, quem garantiria que conseguiria usá-la como era o seu intuito? Por isso restava-lhe abrandar a velocidade dela com beijos, toques e carícias quando conseguiam se encontrar escondidos.
Agora estavam na biblioteca secreta, um lugar que, segundo Nihcole, era completamente inutilizada, pois guardava alguns livros antigos, tratados e outras coisas primitivas do reino, nada que fizessem com que fosse utilizada regularmente. Aquilo foi o maior avanço que Isaac havia tido e ele precisou conter a euforia quando ela fez o convite.
— Eu prometo compensá-la. – Isaac abaixou um pouco a sua cabeça e passou seu nariz lentamente pelo pescoço dela, até depositar um beijo debaixo da sua orelha, sentindo a pele dela arrepiar.
— O que sugere? – indagou-o com a voz fraca e trêmula.
— Um jogo de perguntas para deixar as coisas mais emocionantes…
— Estar comigo escondido nesse buraco e correndo o risco de ter a cabeça decepada pelo meu pai já não é emoção suficiente?
Isaac soltou uma risada, deixando o lufo de ar quente bater na pele dela.
— Nunca é o suficiente, princesa. Eu disse que você não sabia no que estava entrando antes de me desafiar.
— Eu acho muito melhor se a gente só esquecesse tudo e aproveitássemos. – Nihcole inclinou-se para Isaac, entrelaçando seus dedos no cabelo da nuca dele.
O rapaz sentiu-se tentado, mas precisava prosseguir com o seu plano, afastou-se dela e elevou o indicador, fazendo um gesto de negativo.
— Não tão fácil. Vamos… Eu estou entediado, Nihcole. Ou você se acha tão especial ao ponto de pensar que me tem na mão. Eu não preciso disso, princesa, eu posso sair pelas ruas de Grutok e entrar em qualquer taberna para resolver o meu probleminha. – Arqueou a sobrancelha, deixando o intento embutido em meio as suas palavras.
— Você está blefando, eu reconheço o desejo em seus olhos e em cada toque seu, Isaac. Não entendo porquê está lutando tanto contra isso. – Deu um passo a frente, quase colando seus corpos novamente.
— Não nego, realmente te quero. – O rapaz pousou delicadamente os dedos na bochecha dela. — Mas qual a graça quando o presente quer se desembrulhar tão fácil? – Abaixou-se e sussurrou no ouvido dela.
— Que seja! – Nihcole o empurrou com raiva e Isaac riu enquanto cambaleava para trás, depois o rapaz encostou-se em uma coluna e ficou observando-a, vendo a ira no furor que ela emanava pelos olhos e na pele vermelha do pescoço dela. — O que quer saber?
Isaac passou a mão pela barba rala, fingindo pensar, em seguida, olhou de um lado para o outro, franzindo as sobrancelhas, até voltar para Nihcole.
— Conte-me um segredo sobre esse lugar.
A princesa virou de costas, olhando ao redor e passou a mão pela estante empoeirada, batendo uma na outra em seguida para limpar-se.
— Nada interessante ao mesmo tempo em que tudo. A história de Grutok está aqui, composto em cada página espalhada, mas não é algo que irá te atrair.
— E você conhece? Digo… a história, o seu povo? Afinal, você é uma herdeira.
— Sim – balançou a mão em descaso –, mas como eu disse, não é nada tão interessante para você. Além disso, eu não sou treinada para assumir cargo nenhum, meus irmãos o são. Meu pai acha que ficar exposta como um troféu no reino é a minha função.
— E é por isso que você gosta das aventuras? É uma forma de desafiar o sistema? – Isaac questionou-a, desencostando da coluna e indo até a estante ao seu lado e pegando um livro qualquer.
— Não fui feita para essa vida de monotonia e pudor. Acredito que já tenha percebido… – Olhou por cima do ombro para Isaac, dando-lhe um sorriso que foi correspondido por ele.
— Falando nisso… Qual é o lance com seus irmãos? Achei que os encontraria aqui. – Isaac devolveu o livro para a estante, andou até a princesa e abraçou-a por trás, depositando um beijo em sua nuca.
O corpo da garota tremeu e ela passou as suas mãos por cima do braço de Isaac, aconchegando o seu corpo ainda mais contra ele.
— Os herdeiros ao trono não seguem no castelo ao atingir a maturidade – falou com um tom mais rouco devido aos beijos que trilhavam em sua pele. — Eles treinam com os soldados de elite e os espiões. Acredito que você já tenha ouvido sobre nossa fama.
— Sim. – Isaac mordeu o pequeno lóbulo da orelha da menina e puxou-o, fazendo-a gemer.
— Não me torture, Isaac – murmurou.
— Apenas prossiga. – Continuou as suas carícias e induziu para que ela continuasse falando. — Por que esse treinamento todo?
— An… Eu não sei muito bem, mas o meu pai diz que todos devem usar as armas que tem. Grutok não é grande e poderosa como Ílac e nem sádica como Medroc. Então em uma guerra, temos que ser mais sorrateiros e ter nossas próprias artimanhas – conseguiu concluir e girou o seu corpo para que ficasse de frente para o dele.
— Mas estamos em paz, não?
— E também estávamos antes, mas, ainda assim, a guerra veio, não foi? Você não entende, Isaac, há anos nem mesmo mora no castelo para compreender o que um reino precisa fazer para se proteger. – Jogou as mãos para o alto e agarrou-o pelo cabelo, puxando-o contra si e dando-lhe um beijo.
Isaac correspondeu-a, tomando os lábios dela e provocando-a ao mesmo tempo. Nihcole queria mais, mas ainda não era o tempo. Quando as mãos começaram a ultrapassar os limites e a tensão aumentava a um nível que Isaac sabia que não conseguiria mais controlar, ele se afastou e segurando-a pelo ombro, seu peito arfando com o momento. Seus olhos acabaram caindo para trás da princesa, reparando algo estranho atrás da última estante.
— O que é isso? – Isaac murmurou e Nihcole tentou retrucar, no entanto, era tarde, o rapaz de Ílac andou apressado até a estante, vendo um ferro que apontava por trás dos livros.
Isaac começou a retirá-los e colocá-los no chão até que uma grande barra de ferro ficasse à mostra na parede. Nihcole, que estava atrás dele, passou a frente e colocou as mãos na cintura.
— O quão interessado você está nos segredos desse lugar? – O sorriso estampava o rosto dela e Isaac já podia sentir o cheiro da mente da garota trabalhando.
— Depende se o que eu vou descobrir é tão interessante assim – Isaac entoou de volta com a voz carregada de promessas.
— Pois bem, puxe a estante para frente.
O rapaz fez o que ela pediu, no entanto, teve que retirar mais alguns livros devido ao peso do móvel. Depois de fazê-lo, usou a sua força para arrastar a estante, deixando a parede disponível para eles. Se não fosse o círculo de ferro com a barra fundida nele, Isaac jamais notaria o que estava errado ali, parecia apenas uma parede, contudo, no momento que Nihcole se posicionou na frente dele e empurrou a barra para baixo, uma porta se desprendeu, abrindo para um corredor escuro.
— Impressionante, não? – a princesa cantarolou antes de entrar.
— Na verdade, uma passagem secreta é bem comum nos castelos, Nihco… – Isaac começou a contradizer, mas ficou mudo ao ver o que o outro lado o aguardava.
As paredes eram de uma pedra amarronzada; de um lado havia uma mesa com alguns livros em cima e do outro, figuras entalhadas adornavam o local. O olhar de Isaac foi atraído para os desenhos rústicos, seus dedos tocaram as formas rupestres e ele soube que aquilo não fora construído para aquele fim, era uma preservação. Mas o que significava?
— Curioso, não é? – Nihcole sussurrou atrás dele. — Meu pai disse que ninguém sabe quem fez ou quando foi feito esses desenhos, mas parece antigo. Veja! – A garota apontou mais para esquerda e Isaac acompanhou-a com os olhos. — Se você segui-los, parece que estão contando uma história.
— De Grutok? – Isaac sussurrou, fascinado com aquilo.
Nihcole meneou a cabeça e deslizou o indicador pela parede.
— Preste atenção.
Isaac observou atentamente, seus olhos dirigindo-se na direção que Nihcole ia apontando. O primeiro desenho apresentava pequenas pessoas em círculos e com lanças em suas mãos, ao lado tinha mais deles em cima de árvores e escondidos dentro de algo que parecia uma gruta. Em volta dos seus pescoços e pulsos havia bolinhas que pareciam colares e pulseiras.
— O que você acha que significa? – Isaac perguntou.
— Meu pai passou a vida trazendo homens aqui para descobrir. Eles acham que é o relato de um povo antigo. Você vê esses ornamentos? – indagou, apontando para o pescoço e braços dos bonecos. — Por que eles fariam questão de mostrar isso? Não faz sentido, a não ser que seja importante. Nossos mestres acham que é algum sinal de riqueza. Olhe nesse desenho anterior! – Apontou para uma outra gravura. — Eles estão dentro de um barco carregado de alguma coisa e essas coisas são as mesmas que eles usam para colocar no pescoço, nos pulsos e fazer suas armas – completou, mostrando um boneco que retirava as pedras do barco e outro que segurava uma espécie de martelo, ao seu lado várias lanças e pontas de flechas. — Eles traziam essa mercadoria pelo mar e produziam os seus adornos aqui.
— O que me garante que isso não é uma falsificação? – questionou o rapaz ao mesmo tempo em que caminhava para tentar acompanhar o que aquela história dizia.
— Porque essas gravuras não foram encontradas só aqui. Há em vários outros lugares, inclusive em Ílac.
Isaac girou o pescoço e encarou a princesa, suas sobrancelhas franziram na direção dela e o olhar arregalado dele fez a princesa sentir-se poderosa com a revelação.
— Como nunca fiquei sabendo disso? Como saberei que não está inventando tudo?
— E como faria isso? Iria construir uma saída escondida em meu castelo apenas para te entreter? Tenha piedade, Isaac, você é importante, mas nem tanto. – Rolou os olhos e prosseguiu. — O próprio falecido rei Miles já veio aqui averiguar. Você acha que meu pai ajudava Ílac com materiais para barcos e viagens para Ocland por nada? – Balançou a cabeça. — Essas expedições só seguiram anos afins porque os reis tinham um material para acreditar que podiam ir até lá.
— Então vocês deduziram que essa historinha aqui é de Ocland? Por quê? Não vejo sentido.
— Você não terminou de ver os desenhos, Isaac. Veja só esses outros. – Apontou para os homens em cima de cavalos com as espadas erguidas. — Ao que parece houve uma guerra, esses homens vieram e mataram o povo que estava aqui. Se observar bem, há poucos deles no desenho final da parede, dando a entender que os que sobraram foram embora nos barcos pelo mar.
Isaac olhava para cada figura, os homens nos cavalos apunhalando os da terra, mortos de um lado e de outro, alguns outros depois perdidos no mar. Era tudo muito confuso, se ele tivesse visto sozinho, talvez não compreendesse, mas com Nihcole o explicando, ele conseguia ver as ligações.
— Por que os homens que chegaram a terra eram tão grandes e eles tão pequenos?
— Não sei, isso é uma incógnita. Talvez uma representação de um povo mais poderoso que veio e os derrotaram.
— Ao lado parecem até que são crianças.
— Crianças não lutam sozinhas, Isaac. E caso fossem, crianças crescem, não faria sentido serem todas retratadas com esse tamanho.
— Verdade. Mas eu ainda não entendi por que concluíram que esse é o povo de Ocland e o motivo das expedições para irem atrás deles. Se tudo isso está correto, esse povo foi expulso daqui, por que continuar perturbando eles?
— O que todos os homens mais querem… Poder! Se as conclusões forem fidedignas, os oclandianos traziam riquezas de alguma terra além do mar. Há alguns escritos perdidos que falam sobre um povo nativo que vivia banhado de ouro, diamantes, esmeraldas, rubis… Se esse for o mesmo povo que diz aqui, Ocland é esse lugar.
Isaac passou a mão por seu cabelo, estupefato com a história que ouvia. Será que foi por isso que morreram tantas pessoas nas expedições? Puro poder? O desejo de perseguir um povo já escorraçado em troca de mais riquezas?
— O que mais descobriram? – perguntou ainda curioso.
— Ah, uma coisa a mais aqui, outra lá. Quando eu era mais nova ficava fascinada. O lado bom de ser a menininha do papai é que ele sempre me contava as histórias para dormir, e adivinhe que histórias eram essas?
— Ocland... – Isaac murmurou, esboçando um sorriso.
— Em cheio! – Riu Nihcole. — Um certo dia a menina aqui descobriu que as histórias de dormir não eram fantasiosas. Comecei a pesquisar escondida até que descobri isso aqui. Meu pai me pegou em flagrante, mas me permitiu que viesse sempre que quisesse. A quem eu contaria afinal? Eu tenho todos os meus escritos aqui… – Virou-se e abriu uma gaveta antiga, tirando uma espécie de caderno. — Por um tempo foi bom, mas quando cresci, os objetivos mudaram e eu deixei isso de lado. Coincidentemente foi na mesma época que o Rei Miles abortou todas as missões a Ocland, então só nos restou continuar sonhando com a lenda.
— Posso vê-lo? – Isaac pediu e Nihcole acenou com a cabeça, entregando o objeto em suas mãos.
As folhas eram velhas e antigas, dentro havia várias anotações que aguçaram o interesse do rapaz. Os capítulos eram separados pelos impérios e pareciam ter em cada um deles um emaranhado de informações. Havia também anagramas que só de observar, Isaac não conseguia decifrar, ele precisaria de mais tempo para tentar entender tudo aquilo. Antes que ele folheasse mais alguma folha, a princesa aproximou-se dele, tomou o caderno de suas mãos e empurrou-o para a mesa atrás dele.
— Já chega. Eu preciso proteger a minha reputação antes que você pense que eu era uma garotinha esquisita e obcecada pelas lendas antigas – Nihcole riu a encostou-se em Isaac, pressionando seu peito nele. — Além disso, acho que já te dei informações demais, acredito que esteja na hora da minha recompensa.
Não era isso que Isaac estava a procura quando decidiu tirar informações da princesa, no entanto, era também além do que esperava, não poderia protelar mais a garota. Por isso, girou o corpo dela, invertendo as suas posições, segurou a cintura da moça e empurrou-a para cima, de forma que ela ficasse sentada sobre a mesa e alguns objetos caíssem no chão com o movimento. O rapaz abaixou-se e apoiou o seu peso em um joelho no chão, ficando a altura da cintura dela e lentamente pegou a borda do seu vestido e subiu vagarosamente, deixando que os dedos tocassem a pele por baixo dos panos enquanto subia.
— M-mas… – a garota gaguejou. — O q-que está fazendo? – indagou-o, sua respiração ficando mais ofegante à medida que os dedos dele subiam.
Isaac olhou para cima por entre os cílios, o sorriso lentamente se mostrando, fazendo uma curva sensual no lado direito da sua bochecha.
— Te dando a sua recompensa – respondeu-a, puxando o quadril dela para si.
Isaac passou a língua por entre os lábios em antecipação e não tardou para que Nihcole compreendesse em todos os termos o que o rapaz queria dizer. O garoto de Ílac era implacável, profundo e intenso na medida certa, a princesa não sabia se fechava os olhos ou tentava mantê-los abertos para apreciar a poderosa sensação que ele lhe fornecia. Seu coração batia tão forte que parecia que iria explodir e sua pele formigava intensamente, causando-lhe uma explosão de energia. Quando enfim o momento espetacular passou, Nihcole estava exausta, bagunçada e bem longe da beleza impecável que trajava, no entanto, estava satisfeita com um sorriso lento e frouxo nos lábios, enquanto Isaac olhava para ela com o peito cheio pelo serviço terminado.
— Espero que tenha valido a pena a demora – Isaac brincou, levantando-se e batendo a mão na sua roupa para tirar a poeira alastrada.
Nihcole não respondeu, ainda estava ofegante, apenas abriu um pouco mais o sorriso e fechou os olhos por uns momentos, tentando voltar a si. Isaac aproveitou desse momento para aproximar-se dela e beijar o seu pescoço, fazendo com que a garota praticamente ronronasse contra ele. Levantou a mão esquerda e apoiou na nuca dela trazendo a lateral do rosto de Nihcole contra o seu para sussurrar em seu ouvido algumas coisas sujas.
Enquanto a princesa mantinha seus olhos fechados contra Isaac, prestando atenção em cada promessa que ele dizia em seu ouvido, o garoto de Ílac pegou com a sua mão livre o caderno dela e enfiou-o por baixo da sua blusa, um pedaço dentro da calça na parte de trás. Em seguida, afastou-se e Nihcole abriu os olhos para ver o que estava errado.
— O que houve?
— Acredito que precisamos ir embora, antes que notem a nossa falta – Isaac respondeu, endireitando-se e mantendo uma distância segura da garota.
Nihcole não conseguiu disfarçar o desagrado, uma careta formou-se em seu rosto, porém, logo ela desfez, empinando o nariz e saindo de cima da mesa com toda a classe que possuía. Passou por ele e depois de ambos saírem do esconderijo, Isaac fechou-o e ambos ajeitaram a passagem secreta para que não demonstrasse vestígios que estiveram ali. Quando estavam perto de ir, Nihcole segurou o braço do rapaz, impedindo-o e deixando que suas unhas fincassem na pele dele.
— Eu não vou esperar muito mais, Isaac. Espero que fique claro isso para você. O fato do que fez para mim hoje não vai protelar o que eu quero. Espero você em meu quarto no último dia dessa semana. Eu não costumo lidar bem quando não tenho meus desejos atendidos. – Encarou-o com os olhos inocentes, mas o sorriso sombrio que a princesa lhe deu causou um leve frio em seu estômago.
Isaac acenou com a cabeça e abriu a porta para que Nihcole passasse, a garota desfez o sorriso e colocou de volta sua aparência angelical, pousou a mão no peito dele, ficou nas pontas dos pés e lhe deu um beijo em sua bochecha. O ato parecia meigo, mas foi o suficiente para Isaac saber que o jogo de gato e rato com a princesa precisava acabar.

*


No findar do prazo, Isaac tinha tudo o que precisava em mãos. Não se aproximou da princesa, apenas acompanhou os olhares furtivos dela sobre ele e aproveitou o tempo livre para criar amizades com oficiais e descobrir novas coisas sobre Grutok, como, por exemplo, uma poderosa arma de fogo, que o rapaz não conseguiu desvendar bem. Entre outras informações, quanto mais tempo ficava, mais sabia que precisava ir. Cajif já havia o hospedado por um período muito longo, não tinha mais desculpas para permanecer antes que ele desconfiasse, além disso, algo lhe dizia que seu envolvimento com Nihcole não lhe traria coisas boas dali em diante. Ela estava impaciente, mais indecorosa e menos sorrateira. Aquilo precisava acabar. Mas antes… Ele finalmente concretizaria o fogo do desejo entre os dois, encerrando assim a espera que parecia interminável.
Após vários malabarismos para chegar até a porta do quarto que ansiava, Isaac entrou e deparou-se com a princesa nua à sua espera. Não falaram e nem discutiram, ambos sabiam o que queriam ali e provaram durante cada segundo. Seus corpos viraram um emaranhado de mãos, suor, toques e beijos. Enquanto o castelo silenciava, os gemidos soavam pelo quarto sob a luz da lua até que ambos estivessem exaustos.
Isaac nem soube o que o atingiu, apagou com o cansaço, seus braços em volta da cintura da garota, e só acordou quando sentiu o seu corpo ser lançado ao chão e um soco atingir a sua mandíbula.
— Rato, covarde, ingrato! Eu te dei a minha casa, meus banquetes e a minha hospitalidade e é assim que agradece?! – um rugido soou sobre seu rosto, enquanto ele tentava abrir os olhos.
Estava tonto, sua visão embaçada, mas conseguia distinguir a gritaria e aos poucos situava-se no que estava acontecendo. O frio passava pelo seu corpo nu, atrás de um Cajif furioso, Nihcole estava em volta de um lençol aos prantos e por um instante Isaac quis protegê-la por ter exposto a garota. Podia ser um cafajeste, no entanto, não difamava as suas damas, Isaac sabia o preço que uma mulher pagava por um pouco de liberdade. Contudo, o seu senso de dever logo se esvaiu ao compreender as palavras que Nihcole professava.
— Ele me forçou papai! – a garota gritou entre soluços. — Eu disse… E-eu lhe disse não, mas… – Voltou a chorar e Cajif deu um outro soco em Isaac, fazendo o lábio dele rachar.
— Eu não fi… – Isaac tentou retrucar, mas um chute atingiu sua costela.
O rei usou dos próprios punhos para golpeá-lo, seu rosto vermelho e a respiração ofegante completavam o quadro junto com as lágrimas de Nihcole.
— Você desonrou a minha filha. – Pegou o rapaz pelo pescoço – a boca dele sangrando e escorrendo pelo seu queixo – e ergueu-o até que estivesse a altura dos seus olhos. — Você vai se arrepender de ter tocado cada mísero dedo seu nela e eu pouco me importo de quem você é filho. – Jogou-o no chão e virou-se para os dois soldados que estavam na porta do aposento. — Levem-no daqui.
Os homens pegaram Isaac, puxando cada um de um lado e arrastando-o enquanto ele estava tonteado. O rei saiu pela porta primeiro e o garoto de Ílac olhou para trás, tentando ver a princesa e confuso com o que estava acontecendo. Ele havia errado em se envolver com ela, mas por que acusava-o de maneira tão desonrosa?
Nihcole, que agora estava sentada em sua cama, fechou a sua expressão e deixou uma pequena inclinação do seu lábio direito aparecer, um segundo suficiente para que Isaac visse e ela voltasse a chorar alto, algumas criadas entrando correndo ao socorro dela.
O rapaz foi levado e jogado em uma cela, ficando três dias sem ver ou ouvir ninguém, apenas recebendo um punhado de pão e água por uma pequena portinhola no fim da porta de aço. O tempo sozinho foi responsável para que Isaac pudesse pensar e tentar compreender o que Nihcole havia feito.
Preferia pensar que aquilo havia sido um mecanismo de defesa por medo do que o pai faria com ela se soubesse que ela havia se deitado com ele. No entanto, o pequeno sorriso dissimulado que ela havia lhe dado em meio uma crise de choro, derrubava toda a sua teoria. O que ele não conseguia entender era o porquê.
Isaac não precisou esperar muito, durante o início da madrugada, um soldado abriu o portão de aço e o socou, o garoto estava fraco e não conseguiu se defender, foi erguido e amarrado em uma cadeira até avistar os passos delicados da princesa pelo local e ela parar diante dele.
— Você não me parece tão belo agora, mas nada que uns dias de recuperação, um bom banho e comida não te faça apresentável novamente – murmurou, deixando seu olhar passar lentamente por ele.
— Por que fez isso? – Isaac perguntou e cuspiu no chão, pingos de sangue caindo em seu queixo e peito.
— Eu disse que era o fogo Isaac, você escolheu se queimar… – Ergueu a mão e passou pelas mechas negras do cabelo do garoto. — Você achou que poderia brincar comigo? Me usar e simplesmente ir embora? Você me enrolou por semanas, Isaac, brincou comigo o tempo todo fazendo gracejos e perguntinhas inúteis apenas para ter o prazer de manipular. E depois disso tudo, ia pegar suas trouxas e partir?
— Eu nã… – a resposta dele foi calada com o tapa que a princesa desferiu em seu rosto.
— Não minta para mim! – rugiu, sua pele ficando avermelhada. — Eu sei que ia embora.
O peito de Isaac subia e descia, a boca latejando pelos golpes e o olhar vidrado na garota em sua frente.
— Tudo bem, eu ia. Mas não sei em que momento juramos amor eterno aqui, Nihcole. Eu te usei, você me usou, acabou. O que você quer?
A princesa soltou uma pequena risada e passou as costas dos seus dedos pela bochecha dele.
— Você… – respondeu e a sobrancelha de Isaac se ergueu em confusão. — Os homens de Grutok são tediosos e eu estou cansada de ficar sob a asa do meu pai. Eu quero liberdade, Isaac. Quero poder fazer o que eu quero, assim como você. Não foi isso que me disse nesse tempo que nos conhecemos? Não foi por isso que saiu do seu castelo? Eu nunca serei rainha e meu pai sempre me usará apenas como um adorno. Estou cansada de ser apenas um utensílio bonito, una-se a mim e me garanta a liberdade, em troca terá dinheiro, posses e eu não farei questão de restringi-lo também.
— Eu não sei se você entendeu, princesa, mas seu pai planeja me matar – vociferou contra ela, os braços queimando enquanto ele se revirava nas amarras.
— Não se eu intervir. Ele fará o que eu pedir. Um escândalo como esse não seria bom para o nome do meu pai. Imagina o que as pessoas diriam se soubesse que o seu bem mais precioso foi atacado debaixo dos seus olhos pelo rapaz de Ílac? Ele seria desmoralizado.
— O que está exatamente sugerindo, Nihcole? – indagou-a, sabendo na verdade que o que quer que ela dissesse, seria apenas a confirmação de algo que ele não queria acreditar.
— Case-se comigo. Eu direi ao meu pai que isso é o melhor e tenho certeza que ele acatará, além disso, uma união desse porte com Ílac seria bem-visto aos olhos. Todos sairemos ganhando.
— Eu não vejo onde eu ganho nisso – contrapôs.
— O seu prêmio será não morrer. Quer presente melhor que a dádiva da vida?! – Sorriu ironicamente, dando um pequeno tapinha no queixo dele.
— Você armou tudo, não foi? Como sabia que ele iria até lá?
Nihcole riu por uns momentos, aparentando recordar de cada passo que havia feito até terminarem naquela situação.
— Aquele era o dia do nosso ritual de oração. Fazemos sempre antes do raiar do dia desde quando era garotinha. Meu pai passa no meu quarto e me busca para que possamos ir juntos até a capela do castelo.
Isaac tentou se soltar furioso com a revelação, rugindo de raiva e proferindo todas as palavras de baixo calão que ele lembrava contra a princesa, o que foi inútil, pois só a fez rir ainda mais. Passou longos minutos até que gastasse toda a sua energia, a pele ferindo com as cordas que arrastavam contra ele e o cansaço vindo à tona.
Ir contra ela de nada adiantaria, agora ele precisava ser mais esperto e pensar. Casar com Nihcole ou morrer?
Preferia morrer ao ter sua liberdade trocada dessa maneira, roubada de si. No entanto, também não queria sair dessa vida ainda, o que só sobrava…
— Qual será a minha vantagem? Por que não acha que posso te sufocar com meu travesseiro enquanto está dormindo? – Ele abriu um pequeno sorriso, mas que nada remetia o seu estado, ele exalava amargura em cada sílaba que saía.
— Você não faria isso! Sua morte e de toda sua família seria cravada. Seria o atestado de guerra entre nossos impérios. A partir do nosso casamento, a responsabilidade da minha vida e o meu cuidado estará em suas mãos, tenho certeza que meu pai irá prezar por isso. Vamos, Isaac… Não quero um casamento como uma outra forma de prisão. Pense bem. Temos os mesmos ideais, gostamos de dormir com outras pessoas, beber, sair… A diferença entre nós dois é que não posso fazer nada disso porque as malditas pessoas dizem que por ter nascido mulher eu preciso ser dócil e servir apenas ao meu futuro senhor. Eu sei que você pouco liga pra isso. Eu só preciso do papel e que as pessoas pensem que é meu marido, mas você não necessita arcar com um casamento de verdade – Nihcole ponderou para ele e esperou que ele pudesse pensar sobre o assunto.
Isaac queria gritar que não confiava nela, que como uma garota que tinha tramado tanto contra ele agora apareceria com uma solução tão simples?! Não, ele não conseguia acreditar nela, mas precisava fazer com que ela achasse que sim, por isso, acenou com a cabeça, derrotado, arrancando um grande sorriso e um beijo de Nihcole, que se retirou em seguida, deixando o garoto de Ílac pensativo para trás.

*


— Vamos! – O soldado empurrou Isaac para o seu antigo quarto e trancou-o lá.
Depois de dias na prisão e após o acordo de Isaac com a princesa, ela conseguiu tirá-lo do recinto e fazer com que voltasse aos seus aposentos. Hoje era o dia em que seria anunciado a todas as pessoas importantes do reino o noivado de Nihcole com o rapaz de Ílac.
Assim que percebeu que estava sozinho, Isaac correu para procurar suas coisas, juntou o pouco que encontrou de algumas roupas e colocou no seu alforje, andou até a cama e puxou o colchão para cima, soltando um suspiro em seguida, logo após ver o pequeno caderno roubado debaixo dele. Enfiou-o misturado em suas trouxas e pegou também o seu caderno de anotações, que valia muito mais do que ouro nessa situação. Nele estava vários observações sobre Grutok, inclusive, um pequeno papel que ele havia pegado escondido de um dos ferreiros responsáveis pelas armas que Cajif possuía.
Empurrou tudo no alforje e jogou-o debaixo da cama enquanto trocava de roupa. Precisava estar preparado, suas armas haviam sido arrancadas, mas, talvez, houvesse outra maneira para que ele conseguisse sair dali, caso contrário, estaria preso a Nihcole para o resto da vida, já que duvidava muito que seu pai se opusesse a esse casamento, ainda mais depois de todas as acusações que havia recebido. A única solução era fugir enquanto houvesse tempo. Ele duvidava que Cajif iria expor a princesa, seria humilhante para ele, já que Nihcole sempre foi seu triunfo. Portanto, sua última esperança era que o orgulho do rei de Grutok fosse maior do que a vontade de vingar a garota, o que lhe daria tempo para ir embora e pensar em alguma solução.
Jogou-se na cama e pousou seu braço por sobre os olhos, exausto. Não queria voltar aos braços do pai e não queria que ele achasse que houvesse fracassado. Era um acordo, sua liberdade em troca de uma missão, agora ele havia acabado com as duas coisas e não sabia como voltar. A sorte era que Cajif nem desconfiava dos roubos e das informações que ele havia conseguido, caso contrário, seu corpo já estaria em uma vala profunda, independente do sobrenome que carregava.
Recusava-se a ceder de forma tão baixa para Nihcole. Ele havia errado e a enganado, mas ela não havia sido nenhuma garota inocente. Entraram em um jogo sem confiança alguma e agora ficara claro que ela não acreditava nele da mesma forma que ele sempre soube que havia algo errado por trás da máscara que ela carregava. Preferia voltar para casa a dar a princesa à satisfação de estar preso consigo depois da acusação tão horripilante que ela havia feito contra ele, ainda que sentisse um pouco comovido com a prisão que a garota levava no castelo.
Ouviu uma batida na porta, fazendo-o dar um pulo e levar sua mão direta a bainha à procura da sua espada, que agora estava vazia. Fechou os punhos e cerrou os olhos em desistência. Não esperava que voltassem tão cedo para buscá-lo, a sua sentença estava cada vez mais perto.
A porta rangeu vagarosamente e em um instante, um homem, que parecia um criado, enfiou a sua cabeça no aposento e fechou a porta atrás de si.
— Vamos, não temos muito tempo! – O homem jogou um pequeno saco para cima de Isaac.
— Gregório?! – Isaac chamou e o rapaz levantou a vista, expondo o seu rosto e o seu sorriso. — Céus, eu não acredito! – Cambaleou e foi preciso sentar-se na cama para recuperar.
— Deixe para desmaiar depois. Vista-se com o que eu te trouxe. – Apontou para o que havia jogado sobre Isaac e ele despertou para fazer o que havia pedido.
Não conseguia acreditar que Gregório estava ali. Era o seu amigo de caminhada, havia encontrado-o em Alegrance e nunca mais se desgrudaram. Faziam suas farras e compartilhavam bebidas e mulheres, contudo, quando Isaac precisava entrar nos palácios, o amigo não o acompanhava, parte porque não sabia da missão que ele carregava, e outra porque ele precisava de uma retaguarda, caso algo acontecesse, como agora.
— Achei que tivesse ido embora. Eu não disse que ia demorar aqui?
— Não tinha mais o que fazer? Para onde eu iria sem meu amigo?! – perguntou rindo, enquanto ajudava-o calçar as botas e Isaac acompanhou a sua risada, no fundo sabendo que não era tanto por parceria, mas pelo dinheiro que ele usava para sustentar a vida libertina que tinham.
Sem Isaac, Gregório era um simples nada em uma terra estrangeira. Mas, apesar disso, dava-lhe o valor por ter arriscado a entrar ali por ele. Sempre tinham um plano de contingência caso algo desse errado, mas havia passado tanto tempo e Isaac já havia mandado-o partir sem ele, jamais esperava que ele tivesse ficado. A barba do amigo estava crescida e se não fosse pelos olhos brilhantes e a voz nítida, talvez nem ele mesmo reconhecesse.
— Qual o plano? – Isaac perguntou.
— Consegui roubar umas roupas dos criados daqui, coloque este chapéu e ande atrás de mim. Passei essa semana fazendo reconhecimento do local, você andou aprontando por aqui, hein? – Deu uma pequena risada. — Acho que consigo desviar algumas atenções, não levante a cabeça e deixe que eu fale. Os guardas farão a troca de turnos daqui a pouco, temos pouco mais de dez minutos e um trajeto específico para conseguir sair desses andares, que serão os piores. Se conseguirmos chegar à criadagem, será mais fácil nos misturar e sairmos – respondeu-o, abrindo uma pequena fresta para olhar a situação do lado de fora.
— Eu gostaria de perguntar como conseguiu me destrancar, mas não sei se devo – Isaac murmurou, o coração batendo freneticamente com a ansiedade pela liberdade.
Gregório olhou-o por cima do ombro e abriu um sorriso.
— Mãos leves. – Piscou e voltou a olhar do lado de fora. — Vamos!
Isaac segurou o sorriso, sabendo que apesar de passar a maior parte do seu dia bêbado, Gregório tinha seus muitos segredos. Não é à toa que ficaram amigos depois que ele havia sido trapaceado em uma taberna. Uma hora estavam trocando socos, outra dando as mãos e selando juntos a sua viagem.
Isaac pegou o seu alforje e jogou a alça transpassada no seu corpo, seguindo o amigo. Assim que saiu pela abertura, sentiu uma pequena brisa bater em sua pele, o que lhe causou calmaria em meio à frenética pulsação do seu sangue.
Ia dar certo, tinha que dar.
Estava indo embora rumo a tomar a sua liberdade de volta. O seu futuro.
Nem Nihcole e nem ninguém poderia prendê-lo, e aquela era a lição que ele carregaria para vida.
Enquanto corria, um pequeno sorriso despontou dos seus lábios, imaginando o surto que a princesa teria quando não o encontrasse por ali mais. Não ligava para as consequências, estaria longe desse império e ainda por cima com o precioso caderno que ela por tanto tempo guardou.
Princesa de Grutok… Você pode ter tentado me queimar, mas eu acabei de apagar todos os seus planos”.



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Nota da beta: Esse Isaac hahahah, não tive como não rir, ele acabou cravando a própria cova com a princesa de Grutok, ele teve sorte de ter sido salvo no último minuto kkkkk. Esses desenhos, menção a Ocland e o caderno dela me intrigaram, hein? Tá tudo anotadinho na cabeça porque eu bem sei que isso é total relevante rsrs! Continue <3

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