Trono de Sangue

Última atualização: 04/12/2020

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Capítulo 30

─ Eu não posso acreditar nisso! ─ Sarah ralhou, saindo do seu esconderijo e deixando-os saber que havia escutado toda a história. ─ Como você pode ser tão irresponsável?! Não mede suas ações?! Como pode, Isaac? Como? ─ Avançou sobre o filho, empurrando-o com força.
─ Mã-ae – gaguejou, mas foi interrompido com a bofetada que recebeu em seu rosto.
O rapaz levou sua mão ao local atingido, chocado com o movimento que a sua mãe havia feito. Sua boca escancarou e a pele ardia e latejava enquanto ele a alisava na tentativa de poupar um pouco a dor.
─ Não ouse remediar, Isaac. Não. Ouse!
Mais chocante para o rapaz do que ver a fúria da mãe, era notar o olhar de decepção do rosto dela. A expressão da mulher gritava a fúria dos seus olhos. Seu pai precisou passar os braços sobre ela para contê-la de avançar sobre ele novamente.
─ Você tem noção da gravidade disso tudo, Cameron? Tem? ─ Sarah virou-se para o marido, ainda incrédula, e ele passou as mãos pelas costas dela, a fim de acalmá-la.
─ Compreendo perfeitamente, mas você precisa voltar a si e não chamar atenção para nós – murmurou baixinho, varrendo o olhar pelo corredor e avaliando se mais alguém poderia ter escutado a conversa.
─ Mãe… ─ Isaac deu um passo vacilante em direção à matriarca, no entanto, ela se encolheu nos braços do marido, ainda decepcionada com ele.
─ Você vai corrigir isso. Mande um emissário a Grutok e peça desculpas, diga que assumirá o compromisso com a princesa Nihcole, qualquer coisa que conserte esse problema que causou – cuspiu contra o filho e Isaac franziu as sobrancelhas, balançou a cabeça e cambaleou para trás.
─ Eu não vou fazer isso ─ repudiou com nojo.
─ O quê? ─ Sarah tentou desvencilhar dos braços do marido, contudo, Cameron agarrou-a.
─ Me perdoe, mãe, mas eu não me casarei com ela. Posso fazer uma retratação ou o que for que vocês queiram, mas isso, não farei. Eu não a deflorei!
─ Ainda assim você não teve o mínimo de senso ao dormir logo com o colírio dos olhos do rei de Grutok. Todos sabem o endeusamento que ele tem pela princesa, você sabia dos riscos! Foi irresponsável, Isaac. Irresponsável! Não pensou no que deveria fazer lá ou mesmo na chance que o seu pai te deu. Você sempre foi sem limites, mas pensamos que dando parte do que queria e um pouco de atribuições, você pudesse agir diferente, mas… Céus, Isaac. O que foi o que você fez?
─ Eu não poderia prever o que aconteceria! Eu fiz o que era necessário. Me desculpe, mãe… ─ rugiu, passando as mãos por seus cabelos em frustração, sabendo também que não poderia contar a ela todos os detalhes daquela fatídica viagem. ─ Me perdoe, eu sei que errei, eu… Não posso mudar o que fiz antes, ainda que eu saiba que isso foi uma armação suja contra mim. Mas a senhora também terá que me perdoar porque eu não vou me casar com aquela cadela, ainda mais agora que a
─ O que tem a ? ─ Sarah interrompeu-o com brusquidão.
─ Eu não posso me casar com a princesa Nihcole. – O rapaz mordeu a língua e apenas respondeu firme, olhando em direção aos seus pais.
─ Eu espero que não esteja insinuando o que eu estou pensando, Isaac… ─ ela sussurrou, fechando as mãos trêmulas ao seu lado.
─ Vocês precisam se acalmar – Cameron murmurou, pedindo silêncio ao ver um guarda real passar por eles. ─ Vamos para o quarto e terminamos de resolver as coisas por lá.
─ Eu não tenho mais nada para resolver a não ser que signifique ajudar no resgate da princesa – Isaac resignou-se.
─ Cale a boca, Isaac! Você não vai se meter nisso, já quase morreu por essa inconsequência ─ Cameron ralhou gravemente. Aproximou-se do filho, deixando que sua altura o intimidasse, já que era quase um palmo mais alto que ele, e permitiu que suas narinas infladas e a voz baixa e grave impusesse o seu ultimato. ─ Veja bem o que fará: Ficará calado e não dirá a ninguém sobre as inconsequências ocorridas em Grutok. O reino está instável e se os homens souberem o seu fracasso, deixarão de acreditar no sobrenome . E você sabe o que acontecem com homens desesperançosos, Isaac? Eles caem e desfalecem. Eles morrem nas batalhas. Homens com fé e esperança lutam por um ideal, por alguém, por um nome e por uma nação. Homens sem nada, desistem. Além disso, não espere que a rainha irá te acalentar depois que souber que poderá perder a batalha porque não tem quem poderia ser o seu maior aliado. Não adianta ser o querido da poderosa , não quando o seu erro impede que ela busque o que ela quer, sua filha .
─ Não sei como poderia omitir isso dela, já que irá me questionar sobre o motivo de Grutok não lutar conosco. Mas, pai, foi a única forma de conseguir o que havia me pedido…
─ Fique quieto! ─ Cameron ralhou novamente, fazendo-o calar. ─ Não quero que volte a esse assunto nunca mais, me ouviu? Isso. Não. Aconteceu ─ repetiu pausadamente. ─ O rei de Grutok é orgulhoso, agora nem se você quisesse ele humilhar-se-ia para casar sua filha com você. não precisa saber os motivos que levaram a isso tudo e nem o que aconteceu. Você já deu as informações que ela necessitava o suficiente para reunir uma tática de guerra. Mais explicações geram mais perguntas, e mais perguntas, resultam em respostas que você não quererá dar. Você é meu filho, meu sucessor, meu único herdeiro, não é tempo de morrer.
Cameron encerrou a sua fala e virou as costas para a sua família, deixando-os a par que a conversa estava terminada ali, era o líder da sua casa, era a resposta final e sabia que havia deixado claro isso para Isaac.
Em contrapartida, o rapaz tinha sua respiração acelerada, estancado no mesmo lugar, de frente a Sarah, que o olhava com decepção.
─ Mãe… ─ estendeu a mão para chamá-la, a voz carregada de tristeza por não corresponder às expectativas da mulher que tanto lhe importava.
Sarah apenas estendeu a palma em sua direção, detendo-o, e balançou a cabeça antes de virar as costas e retirar-se, deixando-o por fim sozinho. Isto é, era o que pensava, até após uns momentos sentir uma mão pesada em seu ombro, que o guiou pelo corredor, sem chance para resistir.
─ Eu não contarei.
O homem que havia o puxado era , que agora olhava-o seriamente, logo após enfiá-los dentro de uma sala inutilizada do castelo. Isaac arregalou os olhos e encarou o guerreiro, sem saber o que dizer.
─ Se está preocupado que eu o delate para a rainha, saiba que não é o meu intuito. Se o quisesse, teria feito na reunião em frente a todos.
O rapaz arqueou a sobrancelha, desconfiado. Aquele homem não era seu amigo ou nada parecido, tinham conversado algumas vezes, até ficado um pouco mais próximos, se assim podia dizer, mas nada que o fizesse cobrir suas costas mediante a uma situação como essa.
─ Por quê? ─ o rapaz perguntou com curiosidade.
─ Porque ama a menina.
─ E? ─ indagou-o novamente, sem entender como apenas esse simples fato podia fazer com que o próprio general mentisse por ele.
─ O amor é uma arma mais mortífera do que qualquer outra que seja fatal. Você a ama, e isso é o suficiente para que possa lutar por ela com toda a sua vida e vigor. Estou enganado?
─ Não. Daria minha vida por ─ Isaac respondeu sem titubear.
─ Então é o suficiente, está sob a minha proteção até quando chegar a hora e eu o instrua com o que deve fazer – ditou com firmeza, seus olhos eram gelos sobre o rapaz, entretanto, transmitiam lealdade e verdade, por isso, Isaac acreditou nele.
O guerreiro recuou, pronto para deixar o local, contudo, a voz de Isaac o interrompeu, fazendo com que ele estancasse a sua mão ainda estendida sobre a maçaneta da porta.
─ Por que se preocupa tanto com ela? É certo que é o General e tem o senso de dever para com a família real e o povo. Todavia, não é só isso, é?
Aquela perguntou fez o corpo todo de estremecer.
Não, não era só isso.
Por isso, ouvir tal questionamento fez a sua expressão ainda mais dura e fria, como uma capa negra em volta da sua alma, lembrando da realidade que havia transformado a sua vida em pouco tempo, recordando-o que agora tinha uma filha, aliás, não sabia ainda se isso era uma possibilidade, já que a garota poderia estar morta a essa altura. Contudo, só esse pensamento fazia todo o seu sangue ser drenado por seu corpo.
Esperava que não, entretanto, se assim o fosse, era bom que todos em Medroc fugissem, pois nenhuma alma sairia impune das mãos de .
O general não ousou responder Isaac, não precisava dar satisfações. Apenas o olhou e ignorou o questionamento do rapaz, fechando a porta atrás de si e indo em direção ao aposento que lhe foi reservado para poder trabalhar as táticas e ler as cartas que haviam chegado pela manhã, esperando que alguma delas lhe trouxessem notícias esperançosas.
Sentou-se na mesa e começou folheá-las, uma por uma. Nada muito novo, apenas confirmações dos comandantes afirmando estarem nos posicionamentos que lhe foram impostos desde que a guerra fora declarada, outros relatando que haviam começado os treinamentos com os novos homens nas aldeias e as confecções das armas que estavam a todo vapor.
As cartas estavam abertas, por isso sabia que todas elas já haviam sido lidas por antes de serem trazidas ali. Ela não era uma mulher de apenas delegar funções, ele já sabia disso, dificilmente a rainha ficaria sentada apenas esperando que as repostas caíssem em suas mãos ou que os homens fizessem tudo por ela.
imaginava que não havia nada ali de interessante e que fizesse ele ter que conversar com a mulher novamente, já que há pouco haviam acabado de sair da reunião e dado todos os comandos necessários. Caso contrário, teria lhe chamado novamente para discutirem. Contudo, surpreendeu-se ao ler o conteúdo de um daqueles papéis, sentindo um calafrio terrível subir por sua espinha. Não conseguiu se controlar, antes que notasse estava a passos rápidos indo em direção ao quarto da rainha.
Dois soldados guardavam a frente do aposento real e barraram a sua entrada, impedindo que ele marchasse e esquecesse de todas as tolas formalidades que haviam na realeza.
─ Vossa Majestade está? ─ perguntou, a referência saindo mais em tom de zombaria do que esperava.
Nunca se acostumaria com isso, ainda mais com a raiva imensurável que ainda nutria pela mulher.
─ Ela pediu que não fosse incomodada por ninguém – um deles respondeu e quis socá-lo ali mesmo onde estava.
─ Bom… Nesse caso, vou entrar, já que eu sou alguém, soldado. ─ O general estendeu o braço até o homem que havia lhe dirigido a palavra e corrigiu com calma a gola do homem, depois acertando o brasão de Ílac que estava torto em seu peito. ─ Até onde eu sei, sou o seu General, e poderia te mandar embora nesse mesmo instante por tal insolência, ou até mesmo algo pior…
A voz dele era tranquila, apesar de ter saído mais baixa que o natural, o final quase como um sussurro. No entanto, por dentro fervilhava. Não era seu costume usar da sua posição e poder para infligir medo nos seus subordinados, mas seu punho esquerdo quase amassava a carta em sua mão por completo e estava mais louco do que tudo depois de ter lido o que havia ali.
percebeu o rosto do homem ficar pálido e o pomo de adão dele subir e descer por sua garganta. Não era preciso nem falar nada com o seu companheiro ao lado, bastou um leve inclinar de cabeça de para que o outro também tremesse e inclinasse para o lado, abrindo passagem para a porta da rainha.
O general deu um passo à frente, alcançou a maçaneta e a girou, sem abrir ainda a porta. Antes que a empurrasse, olhou para os homens, deixando transparecer a expressão furiosa que havia guardado até o momento.
─ A partir de amanhã vocês irão para o campo treinar junto com os homens que irão para a batalha. Estou destituindo vocês deste cargo e espero não vê-los depois que sair deste aposento. Busque outros dois para que assumam a posição de vocês aqui.
A boca de um deles se abriu enquanto o outro tremia, desconcertado.
─ Mas, senhor… O senhor disse que se deixássemos passar… ─ iniciou uma réplica, no entanto, o interrompeu, elevando em um tom a sua voz.
─ Acredito que a rainha havia dito que não deveria ser incomodada seja qual fosse a situação, não foi?
─ Sim, mas…
─ Não há “mas”. Deveria ter dedicação e obediência completa e velada a sua soberana, mas foram acovardados e ignoraram a ordem de quem vocês deveriam verdadeiramente temer. Pense que eu estou fazendo apenas um favor para vocês, eu mesmo lidarei com ela dizendo que troque a suas posições. Muito pior lhe seria feito se ela soubesse tamanha insolência que cometeram ao desrespeitar a sua ordem. ─ Abriu enfim a porta e fechou-a a tempo de ver os homens praticamente correrem.
Covardes – pensou. Se homens como esses eram resignados para a proteção da rainha, era óbvio que não estavam aptos para tal cargo.
Ao olhar para dentro, avistou de frente para o espelho, penteando seus longos cabelos negros que lhe iam praticamente até a cintura. Vestia apenas uma camisola de linho preta que seguia até os seus pés e, por mais que soubesse que tinha visto a entrada dele através do espelho, ela não olhou para trás.
─ Irei querer saber por quê meus homens correram como ratos assim que você adentrou o meu quarto, ?
─ Provavelmente não – respondeu-a, sentando na ponta da cama dela e fixando seu olhos nas costas da mulher.
─ Imaginei. ─ Continuou penteando os cabelos por uns momentos enquanto o observava através da imagem espelhada, vendo que ele inflava as narinas vez ou outra e tinha os pulsos cerrados sobre a cama. ─ Por que está aqui, ? Achei que tivesse dado ordens explícitas para não ser incomodada. ─ Girou com tranquilidade no banco, enquanto repousava a escova por cima da sua penteadeira.
─ Por que não me informou antes sobre isso? ─ Jogou a carta que impunha em mãos sobre a cama e arqueou a sobrancelha.
─ Vai precisar ser mais específico que isso para me refrescar a memória.
─ Os homens do contorno estão morrendo, vinte homens desaparecidos nos pelotões da beira mar.
─ E? ─ retrucou.
─ Como pode ignorar isso? É do Estreito de Lline que estamos falando, o mar que nos divide de Ocland.
fechou os olhos por breves segundos, tentando ser paciente com o jeito exasperado de .
─ Sr. – iniciou de forma formal, assim como deveriam ter se relacionado todo o tempo –, Não acredito que esse fato seja uma novidade, apesar de não acontecer há alguns anos. Eu tenho uma guerra muito maior do que me preocupar com o fato de que alguns homens morreram ou estão desaparecidos misteriosamente pela praia. Quem me garante que não sejam mais covardes que preferiram fugir do que enfrentar a guerra iminente?
─ É isso o que você pensa? Por isso que não deu importância a informação?
─ Eu não penso nada por hora, , e ao menos que você me dê um bom motivo para tal, receio que não podemos colocar nossos esforços em uma lenda fantástica de que Ocland é um lugar místico que devora mulheres e criancinhas.
─ Você não entende – murmurou, colocando os dedos na ponte do seu nariz e fechando os olhos com força.
─ Não, não entendo. E ao menos que você me explique, eu não farei nada a respeito – afirmou, olhando para ele.
sabia que algo havia acontecido há muito tempo na expedição para Ocland, foi a última que houve antes que Miles ─ sentindo-se culpado por ter enviado seu amigo Hector e quase o ter perdido naquela expedição ─ resolvesse desistir de vez.
Lembrava bem o que seu pai havia dito: “Filha, há coisas que não devemos mexer, o que é oculto, permanecerá como tal, pois podemos não gostar da verdade quando ela vier a luz”.
Depois disto não houve mais expedições, ainda que os demais reinos houvessem ficado indignados com tal fato. Ocland era o mistério, a terra de todas as lendas e que todos queriam desvendar e desfrutar, apesar de somente Ílac ter esse meio em mãos, já que era o único império que fazia divisa com o Estreito de Lline, vulgarmente chamado de mar de Ocland.
─ O que houve com você, ? ─ permitiu deixar cair algumas barreiras em suas formalidades ao ver como o homem estava transtornado.
Estava sendo sincera em sua pergunta, gostaria de saber o que havia acontecido, já que a única coisa que soube era que os homens sobreviventes – no caso ele e Hector – haviam demorado a se recuperar e voltar as suas funções.
A boca de comprimiu-se em uma linha fina e sua mão fechou-se ainda mais em seu aperto. Não queria voltar àquelas memórias, tinha medo de que se retornasse, voltasse a ficar insano e fosse novamente atormentado. Ocland era a sua fraqueza, que o fazia duvidar de si mesmo e das suas condições mentais. Se ele falasse tudo o que havia presenciado e o que aconteceu no decorrer dos dias, até mesmo recentemente, será que olharia para ele da mesma forma?
Não queria a pena dela, não queria que ela achasse que estava louco. Muito menos queria ter o risco de ser retirado das suas funções pela justificativa de estar desequilibrado mentalmente. Não poderia passar por isso agora, tinha uma guerra para lutar.
, percebendo o silêncio que permeava, voltou a se fechar, recolhendo o breve momento de vulnerabilidade que havia permitido. Afinal, não poderia também cobrar dele que se abrisse quando ela mesma ainda guardava tantos segredos.
─ Bom… Sendo assim, não posso fazer nada a respeito. Continuaremos gastando nossas energias no planejamento da guerra. Temos uma filha para resgatar, não podemos perder tempo com histórias sobre Ocland. Minhas prioridades são e Ílac, as lendas terão que esperar. ─ Abanou a mão em sinal que ele estava dispensado.
cerrou os punhos ainda mais e levantou-se, abrindo as mãos devagar e passando-as por sua calça, endireitou a sua postura e conteve a agitação dentro de si.
─ Como quiser, Majestade.
Lembrar de mudava toda a sua perspectiva. estava certa, precisavam focar nisso, no entanto, no fundo da sua alma, aquilo ainda o incomodava e ele sabia… Ocland era muito mais que uma lenda qualquer.



Capítulo 31

─ Já está pronta para dizer que deseja sentar-se ao meu lado no trono de Medroc? ─ Garret questionou-a enquanto gargalhava.
O rei estava sentado em uma cadeira que lhe era designada, bem abstente do resto da sala. Enquanto o recinto exalava um cheiro pútrido de sangue e morte, as paredes eram cobertas por mofo e o chão tinha uma pasta gosmenta de água, sujeira e outros resíduos, a cadeira que Garret sentava era como uma adaptação de um trono, toda reluzida por pedras especiais com detalhes entalhados de ouro, uma estatueta de cobra em cada ponta superior.
Havia um soldado para cada canto da sala, mais dois guardavam o lado de fora e outros dois ficavam lado a lado com , enquanto um último segurava o seu cabelo pela nuca e forçava a sua cabeça para dentro de um grande balde de madeira cheio de água em que ela era forçada a se ajoelhar.
─ Nunca – a garota rugiu, após tossir por uns breves segundos, cuspindo um pouco de água que havia entrado por sua garganta.
─ Ah, … ─ Garret estalou o céu da boca, fingindo uma expressão decepcionada. ─ Pense em como poderíamos ser fortes juntos… Os dois reinos mais potentes unidos contra o mundo! ─ Abriu os braços e soltou outra gargalhada.
─ Minha mãe já tentou isso com o Jeffrey, esqueceu? Não tem um plano melhor que não seja copiar o que o seu irmão já fez? ─ cuspiu contra ele e Garret inclinou um pouco a cabeça, franzindo as sobrancelhas. Em seguida, rolou os olhos e girou o indicador, dando um sinal para o soldado.
O homem que estava ao lado dela, caminhou até ficar em frente à princesa e lhe deu uma bofetada no rosto, arrancando sangue dos lábios dela, voltando em seguida para a sua posição inicial.
─ Meu irmão uniu-se com a sua mãe pela paz. Ele queria o poder de Ílac e sua mãe, no final das contas ele teve os dois. Um grande poder desperdiçado, ele poderia ter sido muito maior do que é, mas ficou acomodado com o que tinha ali. Sempre achei que ele deveria ser o homem escolhido por nosso pai, ele deveria ter ficado aqui em Medroc, sabe? Aqui era o lugar para ele. Henrique, apesar de ser o preferido do nosso pai, nunca se identificou com esse lugar, apesar de fingir bem. Acredito que Rory sabia disso, por isso enviou-o para casar com sua mãe, além de ser a única pessoa que o nosso pai confiava. Ele nunca deu crédito ao meu irmão ou eu. Todas as surras, ensinamentos e treinamentos, sempre foi pior para gente. Henrique era… Perfeito. Ele não precisava disso. Ele iria assumir e precisava mostrar para nós onde era o nosso lugar – completou, fazendo um careta. ─ Mas os planos mudaram… era mais fácil enviar o filho favorito para o império rival, o garoto de ouro. Se meu pai precisasse de qualquer coisa contra Ílac, ele teria Henrique, o seu braço direito infiltrado nas terras estrangeiras e pronto para honrar o que lhe fosse pedido.
─ Vocês iriam nos trair? ─ A garota resignou-se, os olhos arregalados com tal informação.
─ Quem sabe… ─ Garret deu de ombros. ─ Meu pai nunca nos dizia muita coisa. Era sempre ele e Henrique e nada mais. Só que a vida tem certas… surpresas, e o plano maravilhoso do meu pai foi pelos ares quando o seu primogênito morreu. ─ Franziu o cenho e levou os dedos até a ponte do nariz para apertá-lo.
aproveitava o momento de divagação de Garret para respirar o mais fundo possível e recuperar o ar da tortura que estava sendo submetida há cerca de meia hora, enquanto também ficava atenta ao máximo de informações que pudesse unir para desvendar toda a tramoia que existia entre Ílac e Medroc.
─ Eu nunca deveria ter assumido o trono. Os reis sempre preparam todos para tal coisa, mas a verdade é que eu nunca deveria estar aqui, ainda mais que a paz já estava estabelecida. Henrique deveria assumir Ílac e Jeffrey aqui em Medroc. Eu era apenas um cachorro jogado aos escanteios que precisava ser muito forte, mas não merecia um pingo de atenção, pois não seria ninguém além de uma arma pronta para lutar por meus irmãos caso precisassem. Então, imagine a decepção do meu pai quando, cedo demais, eu era o seu sucessor direto ao trono? ─ O rei riu e balançou a cabeça com as lembranças, passou a mão por seu cabelo loiro e depois por seu rosto, deixando a palma escorrer por cima da sua boca até chegar ao queixo. ─ Imaginou? ─ perguntou novamente e permaneceu em silêncio, olhando duramente para ele.
Garret fez outro sinal com o indicador e o soldado por trás da garota empurrou a cabeça dela dentro da água por alguns segundos e puxou-a pelos cabelos para a superfície novamente. tossiu e fez um ruído alto pela garganta, tentando respirar e obter oxigênio enquanto tossia e vomitava água concomitantemente, pega desprevenida pelo ato.
─ O rei está perguntando, então você deve responder – o soldado murmurou e a garota conseguiu ver o lábio de Garret se inclinar em satisfação.
─ Imagino… ─ tentou falar, mas seus pulmões ardiam. Fechou os olhos brevemente e tentou inspirar pela boca, voltando a falar entre arfadas e tossidas. ─ Imagino que… Imagino que tenha… ficado decepcionado ─ conseguiu emitir por fim.
Garret bateu uma palma na outra e se contorceu em sua cadeira em meio à risada alta que deu. Os homens ao redor não diziam nada e nem o encarava nos olhos, apenas sentia o pavor diante da cena insana que era o rei de Medroc.
─ Decepcionado, querida… Foi suave. ─ Ele levantou-se lentamente do seu local e caminhou até a garota, abaixando-se em uma perna e colocando seu antebraço sobre ela, ficando cara a cara com a menina. ─ Ele ficou irado, transtornado… Ainda mais quando Jeffrey disse a ele, logo após casar com a sua mãe, que não o atenderia mais, que ele não era Henrique no qual poderia controlar. ─ Estalou o céu da boca e levou a sua mão até o rosto da menina, acariciando o hematoma roxo que ela tinha em sua bochecha. ─ E eu fiquei aqui, sozinho com meu pai, agora com um trono em vista. Logo eu, a quem ele sempre olhou com decepção, o garotinho que sempre era encarregado por carregar os restos mortais que ele largava pelo castelo, que teria como única função limpar a sujeira que meu pai e irmãos deixassem para trás. A escória, o caçula decepcionante que ele teve porque era sentimental demais, segundo as palavras dele. Ele não ficou decepcionado, princesa… Ele ficou louco!
Garret reclinou sua testa até ficar de encontro com a de , fechando os olhos assim que a pele dele tocou a dela. A garota sentiu nojo e temor com a aproximação, mas sabia que se ela movesse apenas um milímetro, ter a sua cabeça enfiada na água seria o menor dos seus problemas.
─ Ele achou que poderia me capacitar para o cargo com castigos e treinamentos ainda piores dos que já havia me feito por toda a infância. Noites pelado, com fome e com frio. Açoites, torturas, dias e dias trazendo todos os tipos de pessoas para que eu matasse das mais variadas formas porque eu precisava aprender a ser forte… Eu não poderia vacilar, eu não poderia demonstrar emoção… Mas eu nunca fui muito bom nisso. – A voz de Garret falhou enquanto narrava e engoliu em seco enquanto ainda o observava por entre os cílios, vendo os olhos do rei ainda cerrados enquanto suas peles se tocavam. ─ Um dia ele trouxe um bebê… era só um bebê. E eu tive que abri-lo, decapitá-lo, parte por parte enquanto bebia o seu sangue. Eu… quase não consegui. Eu hesitei até que ele me mostrasse com os próprios punhos que devia obedecê-lo sem pestanejar. E eu fiz, princesa. Eu fiz tudo o que ele pediu, mas eu cometi um erro… Eu derramei lágrimas durante cada membro que eu esquartejava e ele observou tudo.
Garret respirou fundo e seu rosto contraiu-se de dor, sua fala agora era mais baixa como se fosse só para que ouvisse, apesar de que qualquer um no recinto poderia escutá-lo.
─ Meu pai me jogou numa cela escura, nessa mesma que eu coloquei você, me deixou nu e sem comida e frequentemente me trazia mulheres, homens e crianças das mais variadas idades. Eu só poderia ter uma perspectiva de sair quando eu estivesse pronto, ele disse. Cada vez que eu hesitasse ou chorasse, ou ao menos se meu olho brilhasse e ele percebesse, Rory traria mais e mais pessoas para que eu matasse, até que eu perdesse a conta de quantos foram. E como castigo, seus corpos deveriam ficar na minha cela para que eu pudesse encará-los até não ter mais algum remorso ou emoção. Eu matei velhos, jovens, mulheres e crianças… muitas crianças, recém-nascidos e grandes. Eu fiz tudo isso, , até que a dor que eu sentia ao fazer houvesse cessado, até não sentir um pingo de remorso por nenhuma vida que esvaía das minhas mãos, até que meu pai me observasse e emitisse o único sorriso que deu para mim na vida. E eu o odiei aquele dia, mais do que eu já havia odiado.
Um silêncio pairou e Garret colocou as duas mãos, uma em cada lado do rosto de , fazendo com que ela sentisse a tremedeira estendida em cada dedo dele que cobria a sua pele, apertando-a aos poucos, um gesto que ela não sabia dizer se era voluntário porque ele reprimia todas aquelas memórias, ou se era consciente, já que ele permanecia de olhos fechados diante dela.
─ E depois…? ─ sussurrou a pergunta quando o silêncio havia se estendido mais que o normal e Garret não mudava a sua posição e nem parecia tendencioso a isso.
─ Depois… Eu o matei! ─ Garret respondeu e abriu os olhos de uma vez, recolhendo a mão como se a pele de pegasse fogo.
Sua expressão mudou imediatamente para o sorriso irônico que ele sempre carregava nos lábios, o que agora a garota sabia ser apenas uma capa que o tio usava para cobrir o garoto torturado que ele sempre foi.
Garret caminhou de volta para a sua cadeira e passou a perna direita por cima da outra, formando um quatro, uma postura relaxada e que o deixava mais confortável após o relato do seu histórico.
─ Sabe o que aconteceu de mais interessante depois disso tudo? Depois que fiz tudo o que ele queria, ele realmente me olhava com um certo orgulho, achou que eu seria o filho perfeito, moldado aos seus caprichos, um soldado em suas mãos. Mas ele não contava que eu não queria mais isso. Ele matou tudo de mim, ele mesmo fez sua própria cova no dia que quis exterminar meus próprios sentimentos, que era a única coisa que me fazia não tentar vingar tudo o que ele havia me feito. E o mais insano foi o que eu descobri depois… Sabe todas as crianças que eu matei? ─ perguntou, mas não esperou resposta. ─ Meus irmãos. Todos filhos bastardos do meu pai. As mulheres? As prostitutas que ele não queria mais. Os velhos e outros homens? As famílias, maridos ou pais que se resignavam a ceder suas filhas e mulheres para os caprichos dele. Meu pai me fez matar o meu próprio sangue. Enquanto eu achava que era um treinamento para ser apto ao trono, eu continuava sendo um utensílio para limpar a sua sujeira, apenas pelo fato que o homem não conseguia guardar o seu maldito pênis dentro das calças.
respirava ofegante com as informações. Sabia que o reino de Medroc era louco, mas não tinha noção até onde ia a insanidade das pessoas.
Não lhe era surpresa os homens matarem a quem achavam que pudessem descartar, sua própria mãe já havia lhe contado várias histórias dos seus próprios antepassados. Mas nada da forma como Rory fez com o próprio filho.
─ O que você quer de mim? ─ ergueu a cabeça, criando coragem para enfrentar Garret.
─ Meu irmão se satisfez com a paz, mas eu quero guerra, princesa. Eu quero agora o mundo! Meu pai nunca pensou que eu pudesse ir além e agora que eu não preciso mais honrar nenhuma maldita aliança em nome do meu irmão, não há nada e ninguém que possa me deter.
─ E o que eu tenho a ver com isso?! Eu nunca vou trair a minha mãe e eu nunca trairia a minha terra! ─ elevou a voz, cansada dos jogos e torturas, sabendo que ela ou morreria ali, ou morreria tentando.
─ Você não aprende nunca… ─ Garret rolou os olhos e fez o sinal que a garota tanto temia.
Foi um segundo até que a princesa conseguisse prender a respiração o máximo possível e sua cabeça fosse enfiada novamente dentro da água gelada. A mão do homem empurrava-a pelos cabelos da nuca até o fundo, enquanto ela retorcia os seus braços que estavam amarrados em suas costas.
Instintivamente balançou a cabeça tentando se desgarrar, mas o homem permanecia firme, afundando-a cada vez mais. Os segundos pareciam cada vez mais lentos, pouco a pouco seu pulmão ardia e a cabeça parecia explodir. Suas forças foram ficando cada vez mais fracas até que ela não conseguiu mais conter seus próprios movimentos e acabou abrindo a boca, trazendo para dentro uma onda de água e resultando para si a escuridão.
Seu corpo foi jogado ao chão e um chute atingiu as suas costelas, enquanto uma mão colocava-a de lado e apertava o seu pulmão, fazendo com que o corpo contraísse e ela expelisse um vômito transparente da água do balde, tossindo sem parar.
Ficou assim por alguns minutos, ainda meio inconsciente, sua garganta pegando fogo, os olhos lacrimejando e tentando inspirar o máximo possível, enquanto sentia as pontadas como agulhas em seus pulmões.
Assim que viu que a garota estava parcialmente recuperada, Garret caminhou até ela e abaixou-se um pouco, apenas o suficiente para que ela pudesse o ouvir com clareza.
─ Eu já disse o que eu quero ─ falou com um tom duro e sombrio. ─ Eu quero você ao meu lado no trono para que o povo de Ílac tema e se curve para nós. Seus homens ficarão em dúvida se devem lutar por você ou para você. E essa hesitação será o suficiente para que eu possa atacá-los ─ recitou, pegando uma mecha molhada do cabelo dela e depois soltando-a sobre o seu rosto. ─ Pode ser muito para você trair o seu povo, mas posso te compensar de alguma forma. O que quer? Posso te dar todas as joias, o ouro mais fino, os vestidos mais elegantes e até prostitutos para satisfazer as suas necessidades.
─ Eu achei que você me quisesse como sua rainha… ─ murmurou, a voz soando forçada e saindo como labaredas em sua garganta.
─ E eu desejo, mas não quer dizer que quero viver com você como um casal feliz. ─ Garret fez uma careta. ─ Talvez eu a usufrua, se é isso que quer, posso abrir uma exceção vez ou outra, se assim eu a desejar também, mas não será nos seus termos, nem mesmo da forma que você imagina ou esteja habituada… Mas durante esses intervalos de tempo, você pode ter qualquer outra pessoa do meu reino, basta escolher quem quer que seja seu amante. Ou sua amante… Ou os dois. Posso permitir isso, desde que não tenha filhos. Se engravidar, eu terei que fazer o mesmo que fiz com meus inocentes irmãos…
contorceu-se no chão e tentou jogar o peso no ombro para se reerguer, o que foi em vão e só causou uma risada em Garret, que continuava agachado em sua frente.
─ A menos que sejam seus… ─ Ela abriu os olhos e encarou o rei, que enrugou a testa e torceu a boca.
─ Nem mesmo meus. Não quero filhos, isso não tem nem cogitação. Já tive experiência suficiente de como um pai é para ter certeza que não quero ser. Meus métodos… me deixam seguro o suficiente para que isso não aconteça. ─ Arqueou o lábio em um sorriso e depois levantou-se, sinalizando para que um soldado a pegasse. ─ Eu vou te dar um tempo para pensar na minha proposta, mas não demore… Eu não sou um retrato exato de paciência. ─ Sorriu e acenou para que a carregassem dali.
Os soldados agarraram seus braços e a levantaram com brutidão, levando-a arrastada, seus pés descalços ralando pelas pedras frias da sala em que estavam. Carregaram-na até a porta do local onde estavam mantendo-a presa e, a partir desse ponto, um outro soldado se encarregou de levá-la até a cela, o mesmo que a havia prendido no dia que chegou. O homem apertou o braço de e jogou-a dentro de cela fétida.
─ Espero que o passeio tenha sido agradável, princesa. ─ O homem zombou enquanto se deliciava com a visão imunda da garota, parte do seu vestido já estava destruído e agora molhado, o que lhe daria uma grande hipotermia ao anoitecer, os pés sangravam e o rosto e algumas partes do braço estavam cobertos por contusões. Já não era mais a garota bonita que havia chegado ao castelo, estava rumo a destruição.
─ Maravilhoso – desdenhou, enquanto desviava o rosto dele, a tempo suficiente de ver o grande sorriso do homem murchar com a sua audácia.
O soldado virou-se e saiu por um instante e logo voltou com uma daquelas moças desnudas, que carregava um prato de comida. O homem empurrou a jovem que, tremendo, ajoelhou-se ao chão e destravou um pequeno cadeado que abria uma passagem mínima para que o prato de comida e água pudesse ser passado por baixo e ficasse ao alcance de .
Assim que a princesa o pegou, enfiou a sua mão na comida e jogou-a na boca, ansiando por um pouco de alimento que renovasse as suas forças. A aparência daquilo não era bonito, nem mesmo gostoso, no entanto, era comida, e seu estômago já sentia a dor por não ter sido alimentado por algum tempo.
─ Está gostoso? ─ O soldado perguntou, deixando a vista um pouco da inclinação do seu lábio e a acidez em sua voz.
o ignorou e jogou outro punhado de comida na boca, evitando olhar para aquele homem.
─ Espero que sim ─ ele respondeu por ela. ─ Não há nada mais saboroso do que restos fetais cozidos ─ completou e sorriu ao ver o corpo da princesa se enrijecer e sua mão parar no ar com a carne mole e escura.
Tudo o que Garret havia lhe contato há pouco veio com força total a sua mente.
Doente. Todos em Medroc eram doentios!
A garota levantou-se de uma vez jogando o prato ao longe e fazendo-o cair virado para baixo dentro de uma poça de lama suja da sua cela. Ela cambaleou até a parede e pousou a sua mão nela, seu corpo encurvado vomitava no chão o pouco que tinha ingerido e foi impossível para segurar as lágrimas ali.
Fome.
Dor.
Solidão.
Exaustão.
O corpo da princesa esmoreceu e foi deslizando até o chão enquanto ela chorava e soluçava, a deleite do soldado que a observava e começava a gargalhar.
─ Oh, garota, você precisava ver o seu rosto quando lhe contei. ─ Gargalhou novamente, segurando a grade com a mão esquerda. ─ Não eram restos mortais, apenas miúdos de pato.
girou a sua cabeça e franziu o cenho, encarando o soldado e analisando o sorriso contente que estampava o seu rosto.
─ É uma pena que você tenha jogado fora toda a sua comida, não é? ─ ele completou, apontando para o resto que agora estava envolta da lama. ─ Até logo, princesa.
O punho de fechou com força, suas unhas quase arrancando sangue da sua palma enquanto ela observava o homem ir embora, permanecendo apenas a mocinha que havia trazido a sua comida. A garota olhou para o lado, na direção da saída, e depois, com cautela, aproximou-se da grade e soltou um pequeno papel, sem nem olhar em direção da princesa.
franzia a testa e encarava a garota, a menina, por mais imparcial que parecesse, tinha a perna tremendo, por isso, seja lá o que ela estivesse fazendo, lhe causava medo. A princesa arrastou-se até onde o papel estava e o desdobrou, passou os olhos pelas letras escritas e soltou um suspiro, levemente aliviada.
─ Eu não tenho nenhuma informação relevante até o momento ─ por fim comunicou e a garota não esperou nem um segundo para sair de lá sem nem mesmo olhá-la.
A princesa passou a mão por seu rosto, sentindo vários pontos doloridos e começando a tremer pelo corpo molhado, o estômago doía e a fraqueza a consumia, no entanto, uma última frase no papel lhe dava esperança que não estava sozinha, por isso, a única coisa que restava em meio a escuridão era a mensagem: “Não tenha medo”.


Capítulo 32 - Parte I

Os últimos dias passaram agitados em Ílac, na manhã seguinte, e suas tropas partiriam para Medroc. A rainha podia sentir o seu coração bater mais forte cada minuto que passava, as olheiras eram proeminentes pelas noites mal dormidas, o que a preocupava, pois precisava de toda a sua força para o combate que viria.
Estava no quarto girando a sua espada sobre o colo de um lado para o outro, seus dedos trilhavam nas insígnias cravadas no metal, presente dado por seu pai. Nesse momento sentia falta dele, se Miles estivesse vivo, talvez nada disso tivesse acontecido ou, pelo menos, ela estaria menos nervosa, já que não seria a primeira guerra que ele estaria presente.
No entanto, não era o caso. Era nos ombros dela que o seu povo estava, era o seu fardo para carregar. Pelo menos possuía dois homens de confiança, que apesar de ser tão inexperientes quanto ela, eram capacitados o suficiente para estar ao seu lado.
Foram dias e mais dias recheados de discussões entre Cameron, e ela, até que pudessem entrar em um consenso e conseguissem se organizar. não poderia perder mais tempo e era chegada a hora. O sol ainda ardia no céu, pela manhã ela havia dado as últimas palavras de encorajamento aos seus homens. Bebam, comam o seu prato preferido, brinquem com seus filhos, durmam com seus companheiros e companheiras, beijem e façam amor. Talvez seja a última vez que farão cada uma dessas coisas.
Parte disso era o que ela faria também. Quando chegasse o entardecer, ela iria até aos aposentos de Luigi e passaria a noite com seu filho. Pensar nisso lhe trazia uma dor inescrutável ao peito, as lágrimas salpicando os olhos. Não tinha medo de morrer, estava preparada para tal. Mas como imaginar a dor que o seu pequeno enfrentaria ao saber de tal fato?
dificilmente chorava, mas aquele era o seu momento, talvez o último em que poderia demonstrar fraqueza, por isso permitiu que algumas lágrimas escorressem dos seus olhos antes que estivesse com o pequeno Lui. Como queria ter tempo para poder ensinar tantas coisas para o seu garoto… Queria ajudá-lo nas lutas de espada e fazê-lo crescer um jovem forte e guerreiro, mas também queria ter ao menos um dia de paz para levar o menino para um simples passeio no bosque. Desejava poder instruí-lo para que fosse um jovem cheio de honra e respeito, diferente do finado Jeffrey. Jamais permitiria que o filho se transformasse em um monstro tão grotesco.
Mas e se não tivesse tempo? E se ela morresse e o garotinho nunca mais fosse o mesmo?
Luigi era tão novo, mas já havia presenciado tanto. Ainda que Jeffrey fosse o pior ser humano da terra, para o príncipe, ele era o seu pai, seu grande herói. Ele não entendia o que acontecia e por mais que quisesse negar, ela não poderia dizer que o falecido não tinha exercido bem a sua paternidade.
Pelo menos isso.
Ver o pai morto de forma brutal era algo que ela sabia que nunca sairia da mente do garoto, em seguida, ele perdeu a irmã com quem era tão ligado, e agora… talvez desse adeus a sua mãe.
Cada um desses pensamentos afiavam e dilaceravam a alma de , ao ponto dela explodir e lançar a sua espada contra a parede, cravando a lâmina afiada no local atingido. A rainha levantou depressa e passou o dorso da mão pela bochecha molhada, tentando controlar a respiração ofegante, engoliu o grito que queria exorcizar em sua garganta e andou até o lado oposto, a fim de pegar a sua arma de volta.
, está aí? ─ uma voz chamou-a do lado de fora, acompanhado de uma batida na porta.
A rainha inspirou o ar e deixou-o sair devagar, interiorizando a sua explosão.
Acabou. Agora ela precisava voltar a sua frieza habitual e buscar a força que ela nem mesmo sabia que tinha, pois o dever a chamava.
─ Pode entrar, Sarah – respondeu e passou os dedos sobre o rosto para tirar os últimos vestígios da sua fragilidade.
─ Você me chamou? ─ A esposa de Cameron entrou cautelosa e fechou a porta atrás de si.
─ Sim, sente-se. ─ Indicou a cama e a mulher pousou ali para que ficasse de pé diante dela. ─ Preciso de um favor seu.
Sarah levantou levemente os olhos, sem saber o que esperar, e entrelaçou suas mãos por sobre o colo, acenando com a cabeça para mostrar que estava disposta ao que a rainha lhe pedisse.
─ Preciso que cuide do Luigi para mim.
Sarah franziu o cenho, um pouco aturdida com o pedido. Encarou a rainha e observou a expressão séria em seu rosto, a verdade da frase expressa em seus traços.
─ Mas… , eu sempre cuidei. Isso não é favor algum.
─ Não, Sarah. Preciso que cuide dele como cuidou do Isaac. Preciso que você seja a pessoa que vai limpar os seus machucados, aquela que vai dar um beijo de boa noite antes dele dormir ou mesmo deitar com ele na cama quando tiver pesadelos…
… ─ Sarah tentou interromper, mas a rainha ergueu a mão, recuperando o fôlego para continuar.
─ Seja aquela que o aconselhará quando estiver mais velho, tenha ciúmes quando pessoas mal intencionadas se aproximarem dele somente pela coroa, seja quem o lembre que, além de qualquer coisa, precisa ser um homem de caráter, ou seja aquela que vai enxugar as lágrimas que caírem dos seus olhos e, acima de tudo, o ame como se fosse seu ─ terminou, os punhos cerrados ao lado do seu corpo e as unhas ficando a palma da mão para desviar a dor que transcendia o peito.
Sarah balançou a cabeça e alisou o seu vestido repetidamente antes de se levantar inquietamente.
─ Você vai fazer todas essas coisas, . Por que está me pedindo isso? Você é a mãe de Luigi, não eu. Amo o garoto, você sabe. No entanto, ele precisa de você.
─ Dificilmente eu voltarei, Sarah. Você sabe disso. Reis e rainhas morrem na guerra. Nem mesmo sei se está viva. Luigi é o único que me resta, preciso garantir que ele fique bem.
─ Vai dar tudo certo ─ a esposa de Cameron enfatizou.
─ Não vai. Sarah… Me escute. Eu não sou uma pessoa sonhadora, tão pouco iludida. Todos os meus sonhos morreram quando eu tinha dezessete anos. A partir daí eu entendi que a vida não é feita somente de esperanças. Elas existem e podem te dar força para avançar, mas a vida é um fato, é o hoje. Eu não posso sair em paz por aquela porta sem ter certeza que o meu filho tem chance de estar seguro. Eu jamais morreria em serenidade. Contudo, não posso ficar aqui por ele e virar as costas para todo o restante. São minhas responsabilidades, é o peso que recaiu sobre mim no momento em que eu me sentei no trono de Ílac. Eu partirei com toda a minha força, alma e vigor, darei tudo de mim e não voltarei enquanto não concluir a minha missão.
─ Então conclua e volte.
─ Sarah, prometa-me.
─ Então prometa-me você!
─ Eu não vou dar a minha palavra a algo que não posso garantir. Apenas quero que assegure a sua. Estou te pedindo como uma amiga, mas posso te ordenar como sua rainha, entretanto, acredito que não seja preciso.
─ Não… ─ Sarah suspirou e colocou o polegar e o indicador na ponte do nariz, fechando os olhos brevemente. ─ Você tem a minha garantia que cuidarei de Luigi como se fosse meu, sem nenhuma distinção entre Isaac e ele, seja o que acontecer.
─ Obrigada. ─ deixou seus ombros caírem e sentiu um leve alívio perpassar sobre sua alma.
─ Mas, … ─ Sarah interrompeu-lhe e chamou-lhe a atenção. ─ Dê o seu melhor.
─ Eu sempre dou ─ a rainha respondeu-a sem titubear. ─ Somente uma última coisa ─ recordou, antes de se despedir da amiga. ─ Mantenha Lui longe de Helena, não importa o que ela faça para se aproximar do garoto, entendeu?
─ Plenamente.
─ Obrigada, Sarah…
─ Não por isso. ─ A mulher aprontou para sair e respondeu, inclinando levemente o lábio e formando um pequeno sorriso.
correspondeu com um pequeno aceno de cabeça e manteve-se em pé até que Sarah fosse embora e fechasse a porta atrás de si. Assim que ficou sozinha, sentou-se sobre a cama, pousou as mãos sobre o rosto e esfregou-as. A conversa entre ela e Sarah fora uma das mais difíceis da sua vida, nenhuma mãe quer entregar seu filho nas mãos de outra pessoa, no entanto, ela precisou depositar a confiança na única que tinha a seu dispor.
Por isso, ela precisava de alguns minutos para digerir a situação antes de fazer a sua última tarefa do dia e ficar de uma vez por todas com o seu filho. Deixou que o tempo passasse enquanto encarava o nada, deixando a sua mente vaguear por um futuro incerto, refletindo sobre o que seria de si mesma se partisse desse plano territorial, ou mesmo o que seria daqueles que ficassem.
Fechou os olhos mais forte e tentou dissipar da sua cabeça todas as coisas que lhe atribulavam. Foi esvaziando motivo por motivo, razões e circunstâncias, até que restasse apenas ela e mais nada dentro do quarto em um vazio insólito e constante. Quando finalmente teve um tempo para si, levantou para sair, contudo, foi surpreendida e bloqueada por um corpo esguio a sua frente. Os cabelos longos como ela já estava acostumada a ver e os olhos claros que cortavam a visão de qualquer um que a enfrentasse.
─ O que está fazendo aqui, Helena? ─ questionou para a mulher a quem recusava chamar de mãe.
─ Ainda há tempo para que você esqueça essa bobagem. ─ A progenitora da rainha entrou como um vulcão furioso no quarto de , contudo, sua voz soava tão calma que se não fosse o olhar agitado, nunca se saberia o seu real estado de espírito.
As duas mulheres se entreolharam, a mais nova sentindo o mal estar subir só de estar diante da mãe. Dividir um recinto com Helena era sempre um desgaste e essa era uma batalha que ela não queria lutar no momento.
─ Não tenho tempo para isso agora, Helena ─ refutou e passou pela mulher, ignorando-a.
Helena segurou o braço da filha para a impedir, mas a mesma puxou com veemência, levando a mão até onde a matriarca havia tocado.
─ Você perdeu o direito de colocar seus dedos malditos em mim há muito tempo ─ vociferou. ─ Deixe-me, Helena. Eu libertei-a, usei de uma compaixão que a senhora nunca teve comigo. Permiti que passasse o resto da sua vida em liberdade, mesmo depois do atentado que você cometeu. O que te faz achar que tem alguma importância para mim ao ponto de que eu leve em consideração algo que diz?
─ Não me passe por tola, , eu sei que só me libertou porque esperava que eu lidasse com Jeffrey por você! ─ apontou.
─ E parece que deu certo, não foi? ─ A filha arqueou a sobrancelha, a língua recheada de insinuações.
─ Seria um sonho a ser realizado. Queria eu que meus planos para tirar a vida de Jeffrey tivessem dado certo. Mas alguém foi mais rápido e menos sutil do que eu.
revirou os olhos, seus pés batendo em impaciência, a vontade de fugir daquela discussão fazendo-se cada vez mais presente.
─ Você não entende, . Jeffrey era muito mais inteligente do que você pensa, contudo, estava camuflado no meio das suas orgias e imoralidades sexuais. Se eu pudesse, teria matado-o com minhas próprias mãos. No entanto, não vou mentir e dizer que não desfrutei de cada segundo que o vi sofrer. O nosso corpo não foi a única coisa que Jeffrey nos tomou... ─ sinalizou, deixando no ar o seu enigma.
─ O que a senhora está insinuando?
─ Seu pai... Jeffrey o matou.
A boca da rainha se abriu e ela sentiu seu coração ser apertado em um nó, o sangue esfriando dentro do seu corpo.
─ Não brinque comigo, Helena… ─ rosnou.
─ E você acha que eu falaria algo do tipo sobre o meu marido se não fosse verdade?! Eu descobri tempos depois. Jeffrey estava envenenando-o pouco a pouco em suas bebidas. Eu descobri logo após a sua morte. Quanto mais doente Miles ficava, mais porções dávamos para o curar e era aí que mais envenenado ele ficava. Jeffrey começou a pôr em sua bebida e depois em seus remédios, devagar para parecer natural, afinal, se descobríssemos, seria considerado um golpe contra o império.
─ Não é verdade… Por quê? O que ele ganharia? Ele já estava casado comigo, tinha Ílac nas mãos.
─ Na realidade, ele tinha quase tudo… Uma hora a verdade viria. Seja de mim ou de você, Jeffrey não conseguiria ocultar de Miles as suas barbaridades por muito tempo e a sua morte seria certa. Que forma melhor, então, de assumir o trono rapidamente do que matando o rei?
─ Oh céus, eu não posso lidar com isso agora. Por que está me contando isso nesse momento? O que quer de mim? Se você descobriu, por que não fez nada antes? ─ exclamou com fulgor.
─ E O QUE EU FARIA? ─ Helena contestou, furiosa. ─ Você me odiava e Jeffrey tinha tudo em mãos, ele me mataria no momento em que eu o condenasse, ele tomaria o reino e poderia fazer algo muito pior com você! ─ Apontou contra a filha. ─ Você acha que minhas rixas com ele eram apenas porque doei o meu corpo em sacrifício? Não, querida… Cada vez que eu o via, sentia o ódio mortal tomar conta da minha alma e não podia fazer nada a não ser tentar tornar a vida dele tão miserável quanto a minha era. Ter que lidar com isso me enlouqueceu. Você sabe o que me custou a morte do seu pai? Você tem noção do que é perder a pessoa que é a vida para si e ter que ficar quieta por um bem maior?
passou a mão violentamente pelo cabelo e virou de costas para mãe, tentando assimilar o que estava ouvindo ali. Sua mente girava em círculos, suas pernas bambeavam e a garota dentro de si que teve o pai arrancado da sua vida queria gritar naquele momento.
─ Na verdade eu tenho ─ sussurrou ─, graças a você ─ completou para a mãe.
As informações sambavam dentro da cabeça da rainha, o ódio enraizando dentro das suas células, querendo poder voltar ao tempo e apunhalar Jeffrey novamente por ter transformado a sua vida em um poço de sofrimento.
─ Você não me respondeu… Por que agora, Helena? ─ perguntou, ainda de costas e virando-se lentamente para a mãe. ─ Tantos anos deixando-se corroer por dentro, a loucura tomando conta da sua mente, tendo que ver Jeffrey todo maldito dia diante de você, até o ponto de você surtar e tentar matar o próprio neto, indo parar na prisão. Depois de tudo, por que agora?
─ Por que do que adiantaria te contar antes? Você iria matá-lo, ! Você desencadearia uma guerra, essa mesma guerra que surgiu agora e que eu tentei tanto evitar! Eu quero que fique e lute pelo seu reino aqui! ─ rugiu. ─ Precisamos nos unir. Você é a rainha, é quem está no trono, que ainda que esteja manchado de sangue, ele é seu! Não tem mais Jeffrey que possa dividir o poder e desonrar o nosso legado, você está só agora. Eu posso te apoiar! Não vá atrás de , você tem o Luigi aqui!
─ VOCÊ TENTOU MATÁ-LO! ─ A rainha bradou contra a mulher.
─ ISSO FOI ANTES DE DESCOBRIR QUE A SUA FILHA HERDEIRA É UMA BASTARDA! ─ contra-atacou, formando um silêncio sepulcral ao final.
─ Como…?
─ E como eu sei importa? Fique em Ílac, treine Luigi e esqueça Garret e suas loucuras com . Fortaleça-se antes de enfrentar uma guerra, não estamos preparados.
é a herdeira, não Luigi.
─ Luigi é o único herdeiro legítimo, ainda que tenha metade do sangue da linhagem do demônio.
─ Eu não vou ficar aqui ouvindo você insultar os meus filhos, Helena. Mova-se e me deixe em paz!
─ Eu não vou permitir! ─ A mãe entrou na frente da filha, estendendo as mãos para impedi-la.
─ Afaste-se, Helena! ─ aumentou sua voz, protestando contra a mãe.
A raiva explodiu na mais velha, que segurou os braços da filha em um aperto mortal.
─ VOCÊ NÃO PODE IR! ─ bradou, sacudindo e engasgando com as lágrimas.
A rainha ficou chocada, seus olhos se arregalaram com tal atitude inesperada, tendo a visão completa e desequilibrada da mãe diante de si.
─ Por quê? ─ incrédula, perguntou novamente, agora baixo em um sussurro, ambas esgotadas.
─ Você é a única coisa que me resta… ─ a matriarca completou, a voz quebrada e soando fraca com a discussão.
─ Helena… ─ suspirou e voltou o seu olhar para a mulher. ─ Você não quer que eu morra porque sou a única lembrança do papai que lhe sobrou ou por simplesmente ser sua filha?
Helena encarou a sua antiga menininha, agora já uma mulher formada. Sua respiração ofegante e o coração batendo tão forte que podia sentir no peito sem ao menos tocar. Sua boca abriu e os dedos largaram os braços de vagarosamente, a testa formando um vinco, porém, sem emitir resposta alguma.
As duas grandes mulheres de Ílac olharam-se por um segundo e engoliu em seco, sentindo algo quebrar dentro de si, o silêncio falando muito mais do que qualquer palavra e machucando-a muito mais do que qualquer ferida que sua mãe já lhe havia feito.
─ Não sei porque eu pensei que poderia ser diferente depois de tudo. Com licença, Helena. ─ passou pela mulher, raspando seu ombro contra o dela para poder sair pela porta do quarto.
─ Filha, espere! ─ A matriarca virou-se e tentou tocar novamente o braço da outra, porém a rainha puxou-o de volta com desprezo.
─ Não me toque e não me chame assim! Você perdeu esse direito há muito tempo! Adeus, Helena… Pode carregar com você o seu amor doentio junto ao que resta da sua vida enfadonha e espero que seus pecados possam pesar em seu túmulo.
Sem esperar resposta, a rainha saiu em passos rápidos, o suficiente para que a mãe não pudesse segui-la. Não podia e nem queria olhar para ela naquele momento. Já estava habituada com os maus tratos e os constantes desprezos, mas, no fundo, sempre tentou justificar as ações da mulher que a gerou, tentando encontrar um lugar nas profundezas da mente dela em que pudesse explicar todos os motivos pela forma que foi tratada. Dizia a si mesma que era a maneira dela de tentar fazer da filha alguém mais forte e melhor, afinal, era isso que Helena lhe dizia. No entanto, não havia nada… Se algum amor presidia no coração da antiga rainha de Ílac, todo ele era voltado para Miles e o que restara, ao povo. A filha era apenas um instrumento e agora… uma lembrança do falecido marido. E ter a prova viva disso doía como achou que não pudesse doer mais. Na sua mente ela acreditava que seu coração estava calejado e nada que a mãe fizesse poderia ainda a ferir. Isso até aquele instante.
Helena havia conseguido quebrar o resquício esquecido em seu coração e isso só aliviava o peso da sua consciência de ter trancafiado a mulher por tantos anos.
Quando achou que os olhos começavam a arder, colocou a língua no céu da boca e segurou por alguns segundos, impedindo que qualquer lágrima fosse derramada por aquela mulher através da técnica que a mesma lhe ensinou por tantos anos.
Rainhas não devem demonstrar fraqueza, . Rainhas não choram. Engula essas lágrimas agora!
Eu não consigo parar, mamãe. Tá doendo ─ a menina retrucou, segurando o pulso que sua mãe havia torcido durante a discussão.
Faça o que te ensinei. Inspire, coloque a língua no palato, segure e não deixe que essas lágrimas estúpidas caiam ─ ordenou. ─ Ah, e não se esqueça do que te falei…
O cavalo tropeçou em um galho perto do lago e eu caí ─ repetiu a histórica combinada da vez.
Boa garota, . Se tivesse me obedecido e parado de encontrar com aquele serzinho estúpido, isso não teria acontecido, mas tudo bem… Há males que servem de ensinamento, boas rainhas também precisam aprender a mentir, você verá.



Capítulo 32 - Parte II

─ Podem abrir a cela ─ pediu e o guarda destrancou-a, deixando a passagem para que a rainha entrasse.
Um dos outros soldados seguiu-a e postou-se ao seu lado, fazendo a guarda da rainha, e, enquanto isso, ela caminhava sobre o chão umedecido e mofado que levava até a mulher a quem queria ver.
Reynia estava no canto da cela, encolhida no chão. A poeira cobria a sua pele, sua clavícula mais exposta e os cabelos desgrenhados. A cabeça dela se moveu em direção a , mas assim que a viu, o cenho se franziu e virou para a parede novamente, preferindo olhar os tijolos recheados de mofo do que a mulher.
─ O que quer? ─ a prisioneira suspirou, deixando seus ombros caírem derrotadas.
─ Eu vim libertá-la ─ exalou para a surpresa da outra.
A testa de Reynia se enrugou, agora encarando a rainha, a incompreensão perpassando por sua mente, seus dedos foram direto para o seu vestido rasgado, apertando o tecido com força enquanto tentava se levantar fracamente do chão.
─ O que você quer de mim? ─ a mulher voltou a repetir, a chama de fúria exalando debilmente em seu tom.
─ Nada… Eu não quero nada mais a não ser que você vá embora do meu reino ─ respondeu-a lentamente ─, para sempre ─ completou.
─ Você… ─ ela se interrompeu e lambeu o lábio ressecado antes de continuar. ─ Você me trancafiou aqui… Buscou respostas que não obteve e agora vai simplesmente me soltar?
─ Talvez você pense o contrário, mas eu sou uma pessoa justa, Reynia. Eu lhe prendi quando provas indicavam que você poderia ter causado um atentado ao reino. Eu sei que, se eu quisesse, poderia te prender apenas pelo fato de você ter me desacatado ou invadido a minha privacidade tantas vezes quando se deitava com Jeffrey em meus aposentos para me desafiar. Mas nada disso me importa mais… Você não o matou, então não lhe prenderei mais. Contudo, eu não confio em você e por causa de tudo o que você já atentou contra a minha casa, você será exilada da minha terra. Estou te dando uma chance de seguir um novo caminho, você é jovem, Reynia, pode mudar todo o seu percurso ainda, deixar esse ódio de lado e sua busca por vingança para trás e ter um novo começo. Eu estou te dando uma chance que eu nunca tive na vida. Vá embora, terei homens que te escoltarão até os limites da cidade, comece a sua vida em outro lugar.
─ Eu não quero a sua pena! ─ Reyna avançou sobre a rainha, mas a algema que a prendia pelo pé não deixou que ela chegasse nem perto, fazendo com que ela tropeçasse e caísse no chão, seu joelho batendo contra o concreto e causando-lhe dor.
─ Pena a gente dá para os fracos, Reynia. Não é o que se aplica para você. Aceite a minha oferta ou ficará presa aqui para o resto da sua vida. Você tem até a noite para decidir, meus homens estarão prontos para você quando resolver o que irá fazer. Pegue isso como uma oferta de paz, não é sempre que uma escolha é nos posta à mãos.
deu as costas para a prisioneira e largou-a para trás, não queria acabar mudando de ideia devido a petulância infantil de Reynia. A mulher poderia não entender e talvez nunca soubesse, mas dar essa chance a ela, era uma forma da rainha honrar o pai da garota e seu irmão por tudo que haviam feito. Era o mínimo que poderia fazer por aqueles homens tão honrados.
Além disso, quem dera ela ter tido a mesma oportunidade, ter em mãos uma decisão que teria a possibilidade de mudar a sua vida.
Toda a trajetória de foram imposições em que ela teve que aprender a lidar, e todas as vezes que ela tentou mudar o seu curso, pessoas foram machucadas e coisas piores aconteceram.
Isso era tudo o que ela não queria que sua filha também vivesse, no entanto, a princesa acabou caindo dentro do redemoinho, um fenômeno que não sabia como impedir.
A rainha saiu dos locais mais obscuros do castelo de Ílac e caminhou direto para o andar dos aposentos reais, parou em frente a porta de madeira que tinha um L entalhado e pintado em dourado e vinho. Abriu a porta e deu um passo, entrando no quarto, o garotinho loiro que brincava no tapete girou a cabeça em sua direção com o susto e, assim que a reconheceu, levantou-se depressa, correu para ela e pulou, jogando-se nos seus braços.
─ Mamãe! ─ gritou.
abraçou o filho bem apertado e girou-o no lugar, em seguida abaixou-se vagarosamente, até que os pés dele tocassem o chão novamente, e inclinou a cabeça para encher-lhe de beijos na bochechas, enquanto o garoto teimava em largá-la.
Tudo em Luigi remetia a saudade, os cabelos dele cheiravam a sabão e um pouco de suor, indicando que ele estava gastando energias mesmo após tomar o seu banho noturno. A pele dele era macia e o seu rostinho redondo dava-lhe um aspecto inocente, apesar de ter os traços de Jeffrey.
O menino, apesar de parecer uma mini cópia do pai, tinha uma doçura que nem sabia de onde vinha, já que nem mesmo ela era assim. Ele deixou um beijo estalado na bochecha dela, um pouco de saliva ficando no local. Ela riu, abraçando o menino mais forte e fechando os olhos com força.
─ Eu estava com tanta saudade de você! ─ ele murmurou.
Luigi sempre dizia isso. Nunca era suficiente o tempo que ele passava com a mãe, ela era muito ocupada e agora sem o pai, o apego do menino por ela ficou ainda maior.
─ Eu também, meu amor, eu também… ─ sussurrou em seu ouvido e trouxe-o para cima em seu colo, mesmo já grandinho, levando-o até a cama na mesma posição. ─ Vim passar a noite com você, posso?
Os olhos do garoto se arregalaram e o sorriso cresceu em seus lábios.
─ Podemos fazer uma cabaninha? ─ Bateu palmas, pulando no colo da mãe.
─ O que você quiser. ─ sorriu, contente por ver a animação do garoto.
Os últimos dias tinham sido difíceis, ela percebeu a alegria do pequeno ir morrendo aos poucos e matava-a saber que não poderia fazer nada, pelo contrário… Talvez tudo pioraria.
Essa seria a sua última noite, por isso, queria que fosse memorável para o filho.
Passaram um tempo retirando os lençóis e montando a cabana no chão, pegou algumas almofadas e trouxe algumas cobertas para que eles pudessem deitar ali. Não era confortável, mas ela só precisava esperar que ele pegasse no sono para levá-lo de volta a cama.
O garoto ria e sentia o seu coração explodir, não sabia contar quanto tempo que ele não passava uma noite tranquila e agradável com a mãe, ouvindo o sorriso da mulher e tendo os braços dela em sua volta. Ele brincou e gastou sua energia, até se cansar e deitar entre as almofadas, bocejando enquanto o sono chegava.
─ Você vai embora amanhã, mamãe? ─ perguntou, virando a cabeça para a , que estava deitada ao seu lado, alisando seus cabelos.
─ Sim, meu amor ─ hesitou, mas respondeu cautelosamente.
O menino ficou em silêncio e franziu a testa por alguns segundos, olhando para o teto. Suas mãozinhas estavam entrelaçadas sobre a sua barriga e ele cutucava um dedo com o outro enquanto parecia pensar.
─ Você também vai me deixar? ─ a voz do menino tremeu, mas ele não chorou. Contudo, o coração de se apertou e ela se sentiu acuada em responder.
─ Ninguém está te deixando, Lui. ─ Deslizou o dedo pela testa dele, tentando aliviar o vinco contido ali.
─ Estão sim. Primeiro o vovô, depois o papai, em seguida a e agora você. Por que todo mundo vai embora? ─ a pequena criança piscou para ela, os olhos brilhando, porém, firme, mordendo o lábio inferior para não desmoronar.
suspirou profundamente e puxou o filho para seus braços, apoiando o seu queixo na cabeça dele e abraçando-o apertado.
Não queria mentir. Se ela não voltasse, uma mentira infundada no coração de uma criança poderia causar um estrago enorme no futuro. Mas como dizer para o filho que talvez essa fosse a sua última noite com ele?
─ Nenhum de nós escolheu te deixar, meu amor. Todo mundo ama você, mas às vezes há deveres e tarefas que são maiores do que nós, coisas que nos impede de ficar com quem nós amamos.
─ Eu não entendo… ─ Luigi murmurou, o rosto colado no peitoral da mãe, as mãos agarrando a roupa dela com força.
─ Vou te contar uma história enquanto você tenta descansar, tudo bem? ─ perguntou e o menino balançou a cabeça. ─ O mundo tem uma multidão de pessoas de todos os tipos espalhadas por todos os lugares. No entanto, sozinhas elas estão desprotegidas, sem ordem e direção. Por isso, os céus escolheram pessoas para guiar e cuidar delas. Essas pessoas têm missões especiais, elas têm poder, força e coragem. São agraciadas com tudo do bom e do melhor. Nada é negado a elas, mas, em recompensa, precisam cumprir com a missão de liderar e fazer sempre o que é melhor para salvar o seu povo.
─ Como um herói? ─ indagou, curioso.
─ Sim, meu amor. É isso que eles deveriam ser ─ confirmou, fazendo cafuné no garotinho para acalmá-lo. ─ Contudo, há pessoas muito, muito más, que tentam fazer mal às outras e esses heróis precisam detê-los, mesmo que para isso precisem ficar longe daquelas outras que eles amam muito. Porque se eles não cumprirem a sua missão, quem vai salvá-los?
O menino empurrou a mãe um pouco para que pudesse vê-la, levou seus pequenos olhos azuis até ela e encarou-a, mordendo a bochecha e vincando a testa. Em seguida, seus bracinhos passaram no pescoço de e ele beijou-a na bochecha, escondendo seu rostinho no pescoço dela.
─ Você é a minha heroína, mamãe ─ murmurou.
expirou, sentindo seus ombros relaxarem um pouco, colocou a mão na nuca de Luigi e trouxe sua testa até os seus lábios, deixando um beijo carinhoso ali.
─ E você também será um dia, meu amor ─ sussurrou. ─ Um dia você estará no meu lugar e será um grande herói para o nosso povo.
─ E vou poder ser bem fortão como o guerreiro e bom lutador como você? ─ Os olhos do menino brilharam e sua voz saiu animada, arrancando uma risada de .
─ Claro. ─ Sorriu. ─ Mas sabe qual é o maior segredo? ─ perguntou baixinho e Lui balançou a cabeça, seus cabelos loiros mexendo de um lado para outro. ─ Isso. ─ levou sua mão até o peito do filho, indicando o lado esquerdo. ─ Precisa ter um coração bem grande e cheio de amor. Se você o tiver, Lui, o céu será o limite para você.
O garoto levou a sua pequena mão até o local e depois bocejou, o sono começando a consumi-lo. Ele se achegou mais perto da mãe e o abraçou novamente, voltando a acariciar os seus cabelos, o movimento se fazendo lentamente, memorizando ali cada detalhe do filho que poderia nunca mais ver.
─ Eu vou ficar com saudades ─ o garoto murmurou, seus olhos fechando.
─ Eu também, Lui… Eu também. Prometa para a mamãe que irá se comportar e respeitar a sua tia Sarah, tudo bem? Ela te ama muito e vai cuidar de você.
O menino balançou a cabeça devagar, fechou a mão em punho e o levou a boca enquanto bocejava.
─ Eu sou grandinho, mãe… ─ falou, sonolento. ─ Eu vou cuidar de tudo enquanto você estiver lutando contra os homens maus.
O peito de se remexeu com a pequena risada que deu e seu coração inundou com o sentimento de amor e angústia. Ela apertou o pequeno Lui em seus braços, sentindo um pequeno desespero tomar conta do fundo da sua alma, os olhos salpicaram com as lágrimas e as lembranças e recordações alegres do seu menininho eram como agulhas que matavam-na a cada segundo que o tempo passava.
Ela queria congelar o momento, parar tudo para que pudesse ficar um pouco mais com seu garoto.
O ar dos seus pulmões estavam congelados e doía… Ah, como doía, pior que qualquer instrumento de tortura, uma sangria interna que não era possível de se estancar.
Ela não sabia como faria para deixar o menino dos seus braços antes do sol raiar, como olharia para ele pela última vez, como daria adeus e o manteria para trás…
Nem toda força do mundo a prepararia para tal coisa, apenas a certeza que era por Ílac, era por , mas também era por ele.
Era para salvar a todos, era para a esperança de um futuro de paz.
─ Eu te amo, mãe ─ Luigi sussurrou quase inaudível antes de apagar completamente e o sono lhe vencer. E fora o suficiente para que deixasse sua alma se derreter, as lágrimas molhando os fios dourados do garotinho em seus braços e a dor pinicando a sua pele.
Era real, era a despedida.
Ela precisava confiar agora que ele seria um homem bom e poderia crescer sem ela, que tudo que ela havia o ensinado e todo o amor que havia lhe dado pudesse o guiar adiante.
Seu menino, seu Luigi.
O presente que ganhou em meio a dor.
Seu filho.
Seu amor.



Capítulo 32 - Parte III

─ Levante-se! ─ O soldado abriu a cela e agarrou pelo braço, puxando-a para fora.
O homem arrastou enquanto ela tropeçava pelo caminho, seus pés descalços e feridos pelo chão gelado. A princesa foi jogada para dentro de um aposento vazio, apenas uma grande banheira no meio e uma criada ao lado com um balde e uma escova na mão.
─ Lave-se, o rei te quer limpa hoje. ─ Empurrou-a e voltou-se para a porta, fechando a saída e cruzando os braços.
passou as mãos pelos seus braços, abraçando-se, olhou para um lado e para o outro, enquanto a criada a encarava, esperando que ela fosse até lá. Seu rosto virou, olhando por cima do ombro para o soldado que a fitava ainda no lugar, seus dedos tremiam e a vergonha e a humilhação cobriam o seu corpo.
Lentamente, foi tirando as peças de roupa, sabendo que o homem não sairia para que ela se banhasse. Deixou que os farrapos caíssem no chão, expondo seu corpo muito mais magro e frágil, os hematomas espalhados por várias partes da sua pele. Não havia percebido o quanto fedia e o quanto ansiava por água fresca, apenas quando, tremulamente, caminhou até a banheira e afundou nela e o líquido cobrisse o seu torso.
A água era gelada e perfurava-a, fazendo-a tremer, no entanto, também tornava-a viva, trazendo a dor e purificando-a dos golpes levados durante os dias do cativeiro em Medroc. A criada foi até ela com uma escova e ergueu o seu braço, esfregando-a com as cerdas duras e deixando sua pele alva, vermelha. Sem nenhuma delicadeza, foi passando em cada parte do corpo até que a água escura escorresse, levando a sujeira impregnada.
Lembrar de casa talvez fosse a única coisa que lhe fazia ser forte, saber que era útil ali e que tinha uma missão. A sua vida não poderia ser perdida à toa, necessitava das informações que só Garret possuía e dependia dela arrancar uma por uma.
Pensando nisso, a princesa fechou os olhos e ocultou tudo ao seu redor, concentrando-se apenas no que era importante, amortecendo a dor, a saudade, as fraquezas e as angústias, pelo menos enquanto a criada banhava-a.
Assim que terminou, a mulher puxou pelo braço e levantou-a, jogando sobre ela uma toalha no qual a princesa se enrolou e tentou enxugar-se, tampando o máximo possível a sua nudez diante do soldado. O homem não esperou, caminhou até ela e agarrou-a, puxando-a sem tato e fazendo-a tropeçar sobre os seus pés. A garota foi levada até um outro aposento, onde reunia-se mais quatro mulheres, cada uma com vários utensílios nas mãos. A primeira tinha um vestido vermelho volumoso em um dos braços e no outro as anáguas, a segunda ostentava meias e sapatos, a terceira tinha vários ornamentos como colar, brinco e um chapéu, e a última, substâncias para maquiagem.
Assim que chegou, as mulheres começaram a arrumá-la, causando estranheza a princesa. Tentou perguntar o que estava acontecendo, mas nenhuma delas respondeu, assim como o soldado, que continuava apenas olhando-a em silêncio. foi enfiada para dentro do vestido apertado, que sufocava o seu busto e empurrava os seus seios para fora, deixando-os bem expostos no grande decote que carregava e os esmagavam. Sua cintura era alta e bem modelada e o tecido ia até o chão, as vestes de baixo estavam fechadas com cordões, que também ajustavam bem ao corpo e não deixavam o tecido cair, as mangas eram rentes aos braços dela, quase que minimamente feito. O vestido vinha acompanhado com uma capa elaborada, bordada com pedras preciosas e ouro à mão, tão longo que ultrapassava a calda do vestido. A segunda mulher veio em seguida com as meias e calçou nos pés dela o sapato de bico fino, que eram pequenos para e machucavam seus dedos já feridos. Seu cabelo foi penteado pela terceira criada e seus fios enfiados dentro de uma rede, o chapéu era enorme e tinha uma forma cilíndrica, as pontas no formato de um chifre.
Alguns grãos de cardamomo foram enfiados em sua boca para melhorar o hálito e um pó de giz lançado em seu rosto, deixando-a mais branca que o natural, sendo completado por um giz vermelho nas bochechas, em formato triangular, completando a arrumação. Um perfume foi esborrado sobre ela, fazendo-a espirrar três vezes e seu nariz pinicar, no entanto, quando levou sua mão até ele para coçar, uma das criadas a bateu, repreendendo-a.
O soldado foi até ela e segurou seu braço novamente, empurrando-a para fora do aposento e fazendo-a caminhar pelos corredores do palácio de Medroc. foi levada para locais que ainda não conhecia, os corredores pegajosos e escuros mudaram-se para luminosos e reluzentes, até chegar a um que era no mínimo, excepcional. Não tinha dúvidas que aquele era o andar da realeza, possivelmente onde o quarto de Garret estava.
Sua suspeita logo se confirmou quando ela e o soldado pararam diante uma grande porta de bronze, haviam pequenas pedras preciosas entalhadas nas molduras e relevos de ouro por todo o local. O homem pegou uma argola que era fundida ali e bateu à porta, avisando da sua chegada. Um jovem que já havia visto antes, quando chegara a Medroc, abriu a porta, e ela não conseguiu disfarçar a repulsa quando viu o corpo nu e decapitado do garoto. Desviou o olhar dele e passou para dentro do quarto, vendo Garret esparramado em sua cama, vestido com suas roupas chamativas e típicas, enquanto tinha um outro rapaz o abanando e uma moça do outro, servindo-o frutas. De cada lado do quarto haviam três guardas recostados na parede e que não olharam para ela por nenhum instante, como se tudo fosse invisível ali.
─ Olha quem chegou?! ─ Garret exclamou, abrindo os braços como se a chamasse para se deitar ali, mas recolheu-se, enrugando o seu nariz. ─ Venha, sente-se aqui! ─ Ele deu dois tapinhas no lado direito dele da cama.
O soldado atrás da princesa lhe deu um empurrão, fazendo-a cambalear e caminhar sem alternativa para onde o rei estava. Sentou-se temerosa ao lado do homem e ele passou a mão em sua cintura confortavelmente.
A boca dela formou uma linha em riste, louca para ordená-lo para que arrancasse seus dedos dali. No entanto, estava cercada e acuada, além disso, precisava ser cautelosa para obter o que precisava de Garret.
─ Precisávamos conversar antes do grande dia ─ o homem com a coroa na cabeça anunciou, gesticulando com a mão livre para ela e abrindo o seu sorriso.
respirou fundo, sabendo que ele esperava que ela o interroga-se, por isso, assim o fez.
─ E que dia é este?
─ A grande guerra está chegando, ssinha. Muito maior do que já teve nessa terra. Quando eu exterminar a todos e alcançar o que eu quero, ninguém nem mesmo se lembrará mais do nome do falecido rei Miles ou do meu pai.
─ Vocês irão para a batalha hoje? ─ a princesa perguntou, sentindo o frio escorrer pela sua coluna.
─ Sim! ─ Garret alargou ainda mais o seu sorriso, que o deixava tão bonito, mas, ao mesmo tempo, tão assustador. ─ Logo mais farei o meu discurso de encorajamento aos homens e você estará ao meu lado. Quando eles a virem, ficarão muito mais entusiasmados!
tentou levantar em indignação, mas o aperto dos dedos de Garret em sua cintura fizeram-se mais fortes e as mãos dos soldados dirigindo-se às suas espadas fizeram-na parar.
─ O que te faz pensar que vou colaborar com você? ─ a princesa rangeu, virando o rosto para que o rei visse suas feições.
Garret riu e balançou a cabeça, fez um pequeno sinal para o soldado que havia trazido-a para o quarto e ele saiu pela porta, no entanto, não custou a voltar, junto a ele, a pequena garota que levava comida para a princesa e uma espada em sua garganta.
A menina tinha o lábio cortado e o olho roxo, as lágrimas rolavam por suas bochechas, as mãos amarradas na sua frente.
─ O que…? ─ indagou, aturdida.
─ Se você não colaborar por bem, eu vou arrancar cada pedaço dessa menina ─ Garret explicou, seu rosto agora sério.
─ Mas ela é apenas uma criança!
─ E eu não me importo.
olhou para o rosto da garota borrado em lágrimas e balançou a cabeça, sentindo os seus próprios glóbulos se encherem. O que sua mãe faria no seu lugar? Ela viera até ali para ganhar tempo, conseguir informações e salvar o seu povo. Estar ao lado de Garret ia contra tudo o que ela se propôs. Valeria a pena uma vida de Medroc em troca de todas as outras de Ílac?
─ Ande, não tenho o tempo do mundo. Temos um casamento para participar.
─ O quê? ─ voltou-se na direção dele, esperando notar alguma brincadeira em sua voz.
─ Foi para isso que veio, não foi? Não posso deixar o casamento para depois e, se realizarmos antes da guerra, nossa união será selada diante dos céus e dos homens. Assim que eu acabar com a sua mãe, serei o único a unir os dois reinos.
A raiva de se alastrava sob sua pele, entendendo agora o motivo de ser arrumada tão meticulosamente. Seria o troféu de Garret, no entanto, não poderia deixar isso acontecer. Se o pior se findasse e sua mãe morresse…
Não.
Ele não poderia tomar Ílac.
─ Não serei uma arma em suas mãos ─ rugiu entre dentes e o lábio do rei se inclinou.
─ Você já é ─ sussurrou contra ela e sorriu. ─ Meu tempo de paciência está se esgotando, sobrinha. Vamos e colabore, você sabe as consequências.
girou a cabeça e olhou para a garotinha novamente. As penas dela tremiam, as lágrimas continuavam a cair e ainda que o seu coração estivesse apertado, ela sabia que não poderia fazer nada.
Desculpe ─ sussurrou para a menina, quase inaudível, mas seus lábios mexendo-se na direção dela e deixando claro a sua fala.
viu a menina gemer e as lágrimas aumentarem mais, ao passo que Garret levantava furiosamente da cama e pegava uma das espadas dos seus soldados.
─ Eu não tenho tempo pra isso ─ exclamou e em um golpe feroz, cortou a cabeça da garota fora.
deu um grito e colocou as mãos por sobre a boca, o sangue da menina jorrava pelo quarto, junto com a do próprio soldado que fora atingido no ato.
─ Eu não vou tolerar mais isso! ─ Garret virou o seu corpo na direção da princesa, o sangue respingado na sua roupa antes arrumada e os olhos drenados de fúria. E, pela primeira vez, verdadeiramente sentiu medo daquele Garret fora de si que se apresentava. ─ SAIAM TODOS DAQUI! ─ vociferou com a carne tremendo.
A pele dele agora era vermelha e os olhos não se retiraram dos de , mesmo quando, um a um, os soldados iam se retirando do aposento.
A princesa empurrou-se para trás na cama, mas sabia que nada a protegeria se ele a atacasse.
─ C-co-m-mo você p-pode?
─ Você acha que tenho pena ou medo de tocar ou matar alguém? Eu não tenho. Eu já te contei a minha vida, você sabe fragmentos do que passei e do que tenho coragem de fazer. Eu não sou bom, e matar uma menina é o mínimo do que eu posso fazer quando eu poderia exterminar todos aqui.
─ Ela era só uma criança! ─ gritou, sentindo as próprias lágrimas chegarem aos seus lábios.
─ E EU TAMBÉM! ─ Ele berrou de volta, as veias proeminentes na sua testa. ─ Eu era uma criança quando fui espancado, eu era uma criança quando passava fome na prisão, eu era uma criança quando matei pela primeira vez e era uma criança quando roubaram toda a inocência que eu tinha. ─ soletrou coisa por coisa, o peito subindo e descendo e a respiração ofegante. ─ Crianças morrem, crianças deixam de ser crianças, .
─ Você é louco. Seu pai o tornou assim ─ murmurou, agarrando os lençóis abaixo de si. ─ C-como… Como permitiram que fizessem isso com você? ─ ela perguntou mais para si mesma, escandalizada com a loucura de Medroc.
─ Jeffrey nunca soube… ─ Garret passou a mão por sobre o rosto, fechando os olhos brevemente. Depois de alguns segundos, olhou para ela novamente e deu um passo adiante enquanto tornava a explicar. ─ Ele já era meio sádico a sua própria forma, nosso pai não precisava lhe dar um treinamento maior do que o que teve. Na verdade, todos nós três éramos. Máquinas de matar construídas pelo nosso pai. Henrique não era diferente, mas até então, quando meninos, nós só precisávamos matar traidores, homens fracos e que traíram ou erraram perante o reino. Com o tempo, Jeffrey era o que mais gostava disso. Henrique era hábil e rápido nas suas matanças, Jeffrey gostava de ir mais lento e torturar mais os infratores e eu… eu era o único que não gostava de um e nem outro, mas fazia, pois era o que me obrigavam a fazer. Mas não era o suficiente. Nenhum deles teve que matar inocentes como eu, ninguém foi submetido as… as mesmas torturas.
A fúria de Garret foi transformada em um lamento rapidamente, como se não tivesse sequer explodido segundos atrás, ele caminhou até a cama perto de e sentou-se na beirada, passando os dedos pelo sangue da espada em suas mãos.
─ Henrique sempre foi o mais esperto de nós… Ainda que ele não concordasse com os métodos de Rory, ele sempre soube como fazer as vontades do pai de uma forma que ele nem suspeitasse que era contra tudo isso. Já Jeffrey sofreu bastante comigo, porém, quando aprendeu a matar da forma que matava, acabou recebendo uma certa atenção do nosso pai, que gostava de ver como ele fazia isso de um jeito tão hábil. ─ Garret ergueu a cabeça e franziu o cenho, mil lembranças passando em sua mente. ─ Eu não tinha nada, não foi surpresa que ele nunca olhasse para mim a não ser para me repreender. Até Jeffrey recebia um tapinha nas costas às vezes. Henrique tinha toda a atenção e eu… nada.
continuava encolhida, o homem a sua frente alternava a bravura para seriedade, loucura para garoto perdido. Ela não sabia como agir, mas aproveitou o momento de vulnerabilidade para estender a conversa o máximo possível. Essa era a sua oportunidade, quando Garret saísse para a guerra, seria tarde demais.
─ Henrique, Jeffrey e você… ─ ela iniciou cautelosamente. ─ Eu não entendo… Não é como se eles não enxergassem, ainda que não soubesse de tudo… Eles permitiram...
O semblante de Garret se escureceu e ele encarou a princesa cautelosamente.
─ Você pode pensar o que for de Jeffrey ─ referiu-se ao falecido ─, mas ele foi um bom irmão para mim. Ele cuidava das minhas feridas, me falava palavras de incentivo para ser mais forte. Talvez o fato de termos nascido da mesma mãe e passado por muitas torturas juntos tenha nos unidos de alguma forma.
─ E Henrique? ─ perguntou, curiosa, querendo saber mais do antigo pretendente da mãe.
─ Henrique… eu o amava, ele era meu irmão e naquela época eu ainda tinha esperança na família. Mas ele era mais implacável: “Garret não chore, Garret faça o que o pai manda, Garret cale-se antes que o pai faça algo pior para você”. Eram sempre ordenanças. Ele nunca foi amável, ou me ajudou. Não sei se porque, caso o fizesse, ele perderia o seu desígnio aos olhos do nosso pai ou porque não se importava. Jeffrey já apanhou muito para me ajudar, enquanto Henrique nunca o fez. Talvez suas palavras eram uma forma de querer que eu fosse forte e fingisse como ele diante do nosso pai, mas eu não era assim, eu não conseguia.
Garret fechou os olhos brevemente, girando a espada em suas mãos, o sangue borrando-o ainda mais, ainda que parecesse que ele não se importava.
─ Henrique era tão estúpido… O rei das marionetes. Eu o admirava, sabe? Apesar de tudo. Era o único que conseguia enganar ao nosso pai e todos em volta dele. Convenceu todos os reinos que estava apaixonado por sua mãe sendo que ele não tirava os olhos da outra garota… ─ deixou em suspenso, o lábio elevando um pouco com a lembrança.
A cabeça de girava com as informações, o temor cada vez aumentando. Seria todos de Medroc iguais? Até onde os Kreighs seriam constantemente enganados, inclusive ela? E se ela tivesse feito todo o sacrifício a troco de nada?
─ Outra garota, quem? ─ indagou, surpresa.
─ Ele podia enganar a todos, mas a mim não. O excluído sempre consegue ver melhor o que acontece ao redor. ─ Garret continuou sem responder a pergunta de . ─ Escapavam pelos cantos quando ninguém via e, logo em seguida, ele voltava e caminhava de mãos dadas com a sua mãe como se ela fosse a única no mundo. Estúpido!
─ Ele a amava?
─ Talvez. E talvez seja por isso que ele nunca enfrentou ao pai. Se Rory imaginasse que ele cogitava deixar o plano por uma mulher… A garota seria morta sem ao menos pestanejar. Henrique jamais renunciaria a sua mãe para tentar casar com ela.
─ Eu imagino que Henrique soubesse muito bem o pai que tinha ─ ela adicionou, um pouco aliviada.
─ Com certeza. Todos nós.
─ Garret… ─ chamou-o. ─ O que aconteceu com a garota? ─ indagou e o rei parou ao lado dela, inclinando suavemente o lábio.
─ Ela casou com o seu tio. ─ Sorriu e continuou caminhando, como se a informação fosse suficiente.
parou para refletir, Garret achava que Henrique era o seu pai, portanto restava-lhe Jeffrey e Garret. Jeff havia casado com sua mãe e Garret nunca havia dado-se em matrimônio, então só restava…
─ Cameron?! A garota que você está dizendo é a tia Sarah? ─ questionou, estupefata.
─ Garotinha esperta… ─ Garret deu um toque sobre a cabeça dela com a espada ensaguentada e virou-se, continuando a caminhar pelo quarto.
Mil coisas passaram na cabeça de no momento, a confusão se fez presente ao mesmo tempo que várias outras se esclareciam e ela se pegou boquiaberta e surpresa ao entender como se encaixava tantos pontos na história.
─ Voltando a nós dois, querida sobrinha. Siga ao meu lado calada ou seu destino será o mesmo que o dos meus criados, eu cortarei sua língua e não correrei o risco de ver nenhum escândalo seu sobre os meus homens. ─ Apontou a ponta afiada da lâmina na direção da boca da menina.
─ Minha mãe vai matá-lo ─ contra-atacou. ─ E quando ela derrubar um por um de Medroc, ela te fará desejar nunca ter sequer pensado em ir contra nós!
Garret inclinou o seu corpo para trás e gargalhou profundamente, a voz ressoando pelas paredes do quarto e causando calafrios na princesa.
─ Oh, pobre garota da imaginação fértil ─ falou assim que o riso cessou. ─ Fico a me perguntar se sinto pena ou graça de você. ─ A boca inclinou-se levemente e os olhos brilharam na direção dela. ─ Ílac não tem a mínima chance contra nós.
─ Você diz com tanta convicção…. Pensa tão pouco de nós assim para dar como ganha a sua vitória? ─ contradisse.
─ Não ─ sorriu. ─ Mas eu possuo informações internas suficientes para antecipar todos os passos que sua mãe der.
Os olhos da garota arregalaram e ela engoliu em seco brevemente.
─ Andou nos espionando?
─ Claro, bobinha. Você pensa tão pouco de mim? ─ devolveu a frase de para ela, deixando os dentes amostra durante o sorriso triunfante. ─ Não achou mesmo que eu iria como cego, não? Todos os reinos têm espiões, por isso confio pouquíssimo aos meus homens. Tenho vários esquadrões prontos, à espera do meu comando no último segundo. Meus homens são preparados para qualquer missão que eu venha enviá-los.
─ E o que quer, Garret? O que sua tão brilhante mente vai armar contra nós para derrubar-nos? ─ usou um tom de desdém que não condizia com o que sentia, mas precisava que Garret falasse, ela já havia sido informada sobre os sigilos, armações e emboscadas, era isso que ela precisava.
Ele encarou-a por alguns segundos, gostando de se divertir com a menina, irritando-a. Aquilo o satisfazia.
─ Não tem nada a dizer? ─ provocou-o. ─ Nós de Ílac não somos como vocês de Medroc, honramos nosso povo, nosso sangue. Somos justos, honestos e lutamos pela nossa terra. Ninguém nos trairia! Ninguém! ─ rugiu, exaltada, seus últimos recursos escorrendo pelas suas veias.
A veia da têmpora de Garret pulsou e ele franziu o cenho, sua expressão tornando-se furiosa e, em seguida, branda de novo. Ele caminhou elegantemente até e sentou ao lado da princesa, sua mão indo até o queixo dela e apertando-o com força, levando a cabeça de até a dele, até que chegasse imensamente perto e os narizes se tocassem.
─ Oh, ─ sua voz parecia um lamento, mas ela sentiu a diversão por trás dela. ─ Eu vou contar… ─ Ergueu a mão que segurava a espada e esticou o polegar para acarinhar a bochecha dela. ─ Não porque merece, mas porque saber irá te fazer sofrer e verás que o povo de Ílac não é tão bom e leal quanto você se ilude pensando… ─ completou, agora baixando o volume da sua voz.
Devagar ele empurrou o rosto dela para o lado e passou o nariz pelos cabelos da menina até que a boca parasse no ouvido dela. Baixinho, ele foi sussurrando as palavras, a verdade ecoando na orelha da menina e fazendo toda a pele dela tremer de ódio. Garret contava e sorria entre as palavras e, quando tentou se desvencilhar pela raiva, ele apertou-a mais, obrigando-a a ouvi-lo, já que havia pedido por isso, e contando vários detalhes sórdidos e tudo o que planejava fazer com sua mãe assim que estivesse em suas mãos.
empurrou Garret, suas mãos tremendo e as pernas bambeando quando ela tentou se colocar de pé.
─ N-não! ─ Sua mão foi até a boca, tampando-a. só sabia que precisava sair dali e avisar finalmente o que estava acontecendo.
─ Sim, , daqui não muito tempo, tudo o que restará da sua mãe e dos seus homens, serão o pó.



Capítulo 33

Antes mesmo do sol nascer, os homens estavam a postos com as suas armaduras. A madrugada era fria e o vento gelado cortava a pele dos guerreiros ao varrer os metais de suas roupas, o silêncio do local seria brutal se não fosse os murmúrios de orações espalhados pela multidão de soldados. estava recuada e distante, passava por cada pelotão, deixando um aceno de cabeça para os seus homens. , do outro lado, conferia algumas armas e passava instruções, enquanto Cameron fazia o mesmo, terminando de aprontar o seu pelotão.
Ninguém precisava dizer nada, todos sabiam que poderia ser a última vez deles pisando no solo de Ílac. Marchar contra Medroc talvez fosse a última coisa a ser feita, e, ainda que tivessem medo, a vontade de lutar pela sua terra era maior.
retornou até o seu cavalo enquanto os capitães agora colocavam os homens em formação. Ela terminava de examinar o animal quando ouviu alguém chegar afobado ao seu lado, contrapondo ao silêncio e concentração dos demais.
— Isaac?! — virou o rosto para o rapaz, que trajava também um uniforme de combate, o símbolo de Ílac cravado em seu peito.
— Eu quero ir! — apontou sem titubear, fechando a mão em punho e pousando em cima do coração.
franziu o cenho e pelo soslaio percebeu Cameron se aproximar.
— Eu já lhe disse, preciso de você aqui — contrapôs com clareza, desviando o olhar e dando o assunto como encerrado.
— Vocês não podem querer de verdade que eu fique! Como não poderia lutar em prol do meu povo? Como ficarei aqui esperando enquanto todos vocês travam uma batalha mortal? — exclamou, gesticulando com os braços e chamando a atenção de alguns homens que estavam ao redor.
— Isaac — Cameron chegou em tom de repreensão, o que fez o rapaz suspirar e segurar a ponte do nariz com os dedos.
— Pai… você deveria me entender. — O rapaz desviou o olhar da expressão de repreensão que havia feito assim que percebeu a atenção indesejada e desviou para o pai, uma súplica e lamentação expressada no tom de sua voz.
— Não — Cameron o cortou. — A única coisa que você precisa entender é que precisamos de alguém de confiança e com sangue real aqui no palácio. Se tudo terminar em ruínas - que os céus nos livre e nos guarde - você tem a função de tutelar Luigi e guiar o povo até que ele tenha idade o suficiente para tal.
— Eu não quero ser rei, eu só quero.. — começou a dizer, mas comprimiu os lábios, impedindo-se de revelar em público a sua real aflição. — Por favor… … — Virou-se para a rainha, tentando buscar a aprovação, mas ela apenas fechou os olhos brevemente e sacudiu a cabeça.
— É a minha palavra final, Isaac. Preciso de você aqui. Você não é um soldado, mas isso não tira o seu valor. Você é inteligente, nos ajudou durante todo esse tempo preparando-nos para caso esse momento acontecesse. Fez sua parte para com Ílac, a última coisa que preciso é que você fique… vivo — recitou a última palavra com amargor. — Não quero ouvir mais sobre isso.
virou as costas e subiu em seu cavalo, levando-o à frente dos pelotões que se formavam. Enquanto isso, Cameron dava mais um passo para frente, a fim de conseguir falar com o filho em baixa voz.
— Chega, Isaac. Até onde irá suas inconsequências? Quer me deixar mal perante a rainha? Ou pior… Quer te tornar mal aos olhos dela? Já não basta o acúmulo de babaquices que fez até aqui?
— Você sabe porque eu quero ir.
— Olhe a sua volta, filho! — Cameron esticou um dos seus braços e estendeu-o para o local. — Temos os soldados mais treinados, temos armas e uma grande estratégia. O que um rapaz ainda em recuperação dos próprios ferimentos iria nos ajudar? Deixe que eu mesmo me encarregarei de trazer para você, desde que faça o que lhe peço. Você não é bom para a guerra, mas pode ser bom para Ílac. Não posso fazer o que tenho que fazer em paz se souber que estará no meio da batalha.
Isaac levou as duas mãos ao rosto e balançou a cabeça freneticamente. Ainda levava nas costas a culpa por ter permitido que fosse levada. Se ele tivesse lutado mais, se fosse tão bom quanto ou , ou mesmo seu pai, talvez tivesse conseguido deter os homens. Agora mal sabia se a garota estava viva e o mínimo que poderia fazer era ir lutar por ela, ainda que houvesse uma possibilidade que ela nunca viesse saber disso.
— Por favor, pelo seu pai — Cameron pediu e Isaac soltou o ar frustrado, deixando a sua cabeça pender. — Venha aqui. — O homem puxou o filho para os seus braços e lentamente Isaac esticou os seus, até retribuir o abraço do pai.
Cameron deu leve batidinhas nas costas do rapaz, depositando um beijo na bochecha dele e segurando o seu rosto, a fim de encarar os olhos do filho.
— Cuide da sua mãe, tudo bem? Independente do que aconteça. Ela não sabe, mas acima de qualquer coisa, ela foi muito importante para mim, devo muito a ela. Essa será a batalha das nossas vidas, Isaac. Depois disso, tudo pode mudar. — Passou a mão pelos cabelos do filho, como se ele ainda fosse o pequeno menino que viu nascer e carregou nos braços tantas e tantas vezes.
— Eu te amo — Isaac puxou o pai novamente para um abraço rápido e, após a despedida, Cameron foi na mesma direção que , aprontando as últimas posições para partirem.
A frustração tomou conta das veias de Isaac e isso era pior do que a raiva. Sentia-se impotente por não poder fazer nada pela mulher que amava e nem ao povo no qual seu sangue carregava.
Era a saudade, a falta que sentia do cheiro dela, da doçura da sua voz, do calor da sua pele e o sabor dos seus beijos. Isaac precisava de algo para se segurar, algo que pudesse trazer a garota para mais perto, refrescar as lembranças de quando tudo era mais fácil, de quando a maior dificuldade era conseguir chamar a atenção dela chamando-a de sua deusa.
Ele andou apressadamente até o quarto da princesa e estancou ao abrir a porta. Suas narinas ainda podiam sentir o leve aroma dela ali, impregnado em cada pedaço do local. Respirou fundo e fechou os olhos brevemente, tentando cravar as memórias e deixando a mente levá-lo às imagens dos dois ali, os beijos trocados, a mão dele pela pele dela, os sussurros e juras de amor, as promessas, o sonho de dias melhores.
Ele adentrou o recinto e foi até a cômoda, abrindo as gavetas dela. Trouxe alguns pedaços de tecidos que ela usava até o seu nariz e abraçou-o, aspirando, como se fosse a própria ali. Ele vacilou por um instante, sentindo seus olhos arderem. Não queria imaginar o que ela passava em Medroc sozinha com o rei Garret. Talvez estivesse morta, e se não estivesse… talvez ela nunca voltasse a ser a mesma que ele havia conhecido.
Isaac enfiou sua mão na gaveta novamente, mas sentiu algo estranho ali. Seu cenho se franziu e a curiosidade o abateu. Retirou algumas roupas que estavam por cima e enfiou o braço mais para o fundo, tocando um fundo falso.
O caderno…
Ele lembrou-se dela guardando-o ali e confiando a informação a ele. Como poderia ter se esquecido disso?
Era o que vivia escrevendo. Pensou em abri-lo, mas sentiu-se como se fosse invadir a privacidade dela, adentrar dentro dos pensamentos que sequer sabia se ela permitiria. Não achou que fosse certo e, por mais que o seu coração quisesse muito abrir e sentir as palavras da amada em seu peito durante a leitura, preferia que ela estivesse ali para que a própria pudesse ler para ele.
Contudo, ela havia dito que ele poderia, não é? Ainda assim...
Balançou a cabeça e inclinou-se para guardar o objeto no mesmo lugar, no entanto, o caderno escorregou da sua mão, caindo no chão. Ao abaixar-se para pegá-lo, topou com várias notas caídas e espalhadas. Provavelmente estavam no meio das folhas. Ele esticou-se para pegá-las e seus olhos caíram diretamente nas palavras cravadas ali, o nome Medroc como fogo em sua vista chamando-lhe a atenção junto com uma frase que, em algum lugar da sua memória, já havia visto dizer.
Não tenha medo, venha e abra esse caderno, foi o que ela havia dito. As lembranças eram mais fortes agora.
Se alguma coisa acontecer, ele é seu.
Ele havia respondido que esperava nunca lê-lo, mas agora… Agora deveria ser o momento para isso.
Isaac pegou o caderno e os papéis e começou a lê-los. Algumas coisas eram confusas, eram poemas, observações pessoais, mas a nota que tinha o nome Medroc o intrigava. Estava escrito:
Eu cuidarei de você em Medroc, não tenha medo.”
Quem poderia dizer isso à ?
Ele passou seus olhos pelos papéis, perdidos, até achar um que tinha o seu nome.

Isaac,
Se está lendo isso, é porque não estou mais aqui.
Não sei se a essa altura estou morta ou ainda cativa em Medroc, mas quero que saiba que não o abandonei, ou a minha família, ou ao meu povo.
Foi tudo por vocês.
Eu não poderia ser protegida em casa, sendo que eu poderia ter uma oportunidade de ajudar de alguma forma, mesmo que parecesse loucura.
Eu vivi todos os anos da minha vida vendo a minha mãe se sacrificar por mim, por meu irmão e por todos ao seu redor. Foi isso que ela me ensinou, mesmo sem palavras. Nossas vidas têm um significado muito maior. Morrer faz parte, ainda que soframos. Mas nós, da realeza, fomos escolhidos para um propósito mais importante. Eu não poderia admitir viver longe desse caminho. Prefiro a morte, Isaac.
Posso parecer frágil, mas não sou covarde.
E nem tola.
Eu me deixei levar a Medroc, pois sabia que tentariam atacar.
Foi melhor assim. Poupou muitas mortes desnecessárias.
Não estávamos preparados para um ataque inimigo. Não ainda.
Garret há muito planeja tudo isso. Não sei se a morte de Jeffrey também, mas talvez isso foi apenas um meio mais rápido de colocar seus planos em ataque. Havia uma guerra armada de um lado só, nós nunca sobreviveríamos a ela dessa forma. Contudo, eu sei que ele gosta de brincar e se divertir, Garret irá se aproveitar da dor da minha mãe quando eu for, isso dará tempo a ela para o que for que ela precise para a batalha.
Minha ida a Medroc dará tempo para se organizar e formar alianças, assim espero.
Além disso, eu preciso saber o que Garret planeja. Eu preciso ir.
Tenho contatos que me ajudarão, alguém que estará lá por mim se eu precisar.
Eu espero que isso seja suficiente.
Mas se não for, saiba que eu te amo, e desfrutei daquela promessa de casamento que me fez tanto quanto você.
Quando eu voltar…
Ou nos encontraremos no céu.
Se cuide.
Da sua deusa


tinha um ar inocente e puro que por vezes confundia-se com fraqueza, o que não era verdade. Por trás de toda delicadeza que ela carregava, havia uma menina tão corajosa e forte como a mãe. Era só isso que Isaac conseguia pensar quando lia cada trecho daquela carta.
Doía; saber que ela tinha ido por conta própria fazia seu coração sangrar ainda mais, mas, em partes, ele compreendia. Não em tudo, pois não era rei ou príncipe, nem mesmo um guerreiro. Sempre fora egoísta, na verdade. Mas tinha mudado isso nele de alguma forma, ainda que tivesse ainda muito para aprender. E esse pequeno lado novo que ele havia adquirido, compreendia o que ela havia feito.
Seus dedos trilharam pelo termo carinhoso no qual ele a chamava. Esboçou um pequeno sorriso triste ao fitar a letra bela e cursiva da menina ao escrevê-la. Os olhos arderam mais forte e ele não queria parar de ver a carta escrita com tanto amor e carinho por ela. A saudade apertou e ele não saberia como suportar mais.
Como ele ficaria no palácio seguro e sozinho, sendo que a própria tinha se sacrificado tanto. Poderia ele apenas cruzar os braços e esperar?
Sabia que, na teoria, ele deveria permanecer no castelo. A rainha e seu pai já haviam explicado os motivos, mas poderia ele fazer o seu coração compreender?
Levantou-se em um súbito, sem mesmo terminar de ler as demais coisas. Era tudo pequenas notas picadas, algumas informações como onde ela encontraria os soldados de Medroc, porque deveria ir, alguns pedaços dos planos que já havia resumido na própria carta que havia escrito pra ele. Nenhuma informação nova além de uma sigla em uma delas. Provavelmente as mais reveladoras deveria ter queimado.
Quando voltou o seu corpo para a saída, encontrou ali, vestido com toda a sua armadura, de uma forma imponente que Isaac nunca tinha visto. Algo nele irradiava ferocidade, raiva e temor. Se Isaac não o conhecesse, talvez sentisse medo dele. O guerreiro parecia muito maior e muito mais sombrio.
— Precisa de alguma coisa? — o garoto perguntou, amassando um pouco os papéis nas mãos e puxando o caderno contra seu peito.
— Você — respondeu, sucinto.
— Como? —Isaac indagou, confuso.
— Preciso garantir que você faça a sua parte, garoto.
O rosto de Isaac franziu, detestando quando o chamava assim, fazia-o parecer mais fraco do que ele já se sentia.
— Se veio me obrigar a ficar aqui enquanto é prisioneira e vocês saem para batalha, perdeu o seu tempo — cuspiu contra o homem e deu um passo para mais perto, parecendo assustador.
Isaac recuou em reflexo, desequilibrando um pouco, mas logo se recuperou e ergueu a cabeça, enfrentando o homem à sua frente. Estaria pronto para qualquer batalha que o general quisesse fazer contra ele.
— Eu sei, e posso te ajudar. — respondeu, desarmando Isaac e fazendo com que o rapaz abrisse a boca, sem compreender o que estava acontecendo ali.
— Vai me ajudar?
— Vai repetir tudo o que eu digo? — O general inclinou uma sobrancelha.
— Qual a armadilha?
— Nenhuma. Eu te entendo. Faria o mesmo se fosse você, então te darei uma forma de fazer isso melhor. Você quer resgatar a princesa ou não?
— Obviamente.
— Então permita que eu te ajude. Tenho um grupo de homens de confiança, cerca de 30. São os melhores de Ílac em espionagem, combate e inteligência. Confio a minha vida a cada um deles, pois eu mesmo os treinei. Tinha um plano de resgate antes da batalha explodir em nossas caras, então, agora preciso de alguém a frente deles no comando, no lugar do que não posso fazer. Estarei ao lado da rainha na guerra, mas esse grupo é seu se quiser. Vá e traga de volta.
Isaac sentiu seu coração bater mais forte, a faísca da esperança alastrando no seu peito. Queria correr e abraçar o guerreiro ali em gratidão, mas acreditava que ele não era um homem muito adepto a abraços, então era melhor se preservar.
— Há uma estrada alternativa, um caminho pelo bosque. Vocês podem ir até a Torre de Janar, fica um pouco depois da divisa e em um local bem alto. Não sabemos se terão homens de Medroc ali, mas é o melhor lugar para que possam observar a longo prazo o caminho para continuarem a jornada até o castelo. Meus homens já foram instruídos e Klaus entregará o mapa a você, caso aceite a proposta.
— Você irá contra as ordens? — Isaac questionou, sabendo que tinha total conhecimento de que ele deveria ficar no castelo.
— E desde quando eu faço apenas o que me mandam? Eu não preciso garantir quem será o próximo sucessor do trono, eu só preciso da a salvo — respondeu firme, mas o rapaz pode ver um pequeno deslumbre dos olhos firmes dele, como um pequeno fio vacilante, um fiapo de dor em sua voz.
— E se eu não conseguir resgatá-la?
— Você a ama?
— Com todo o meu coração.
— Então irá conseguir. O coração nos permite fazer coisas inimagináveis. Posso confiar em você? — deu mais um passo, erguendo a sua mão para Isaac.
Em resposta, o rapaz deu um passo à frente, levando a sua mão e selando ali o acordo confidencial. Os dois homens que mais amavam a princesa, prontos para fazer de tudo para ajudá-la.



Capítulo 34

Atenção: Esse capítulo contém cenas de conteudo sensível.

As mãos de tremiam e um transtorno gelado revirava sua barriga, fazendo arrepiar até os pelos da sua nuca. Ela precisava avisá-los, era isso que tanto buscava, ela tinha os dados e as estratégias de Garret, assim como o nome da traição ainda latejando em seu ouvido.
Será que ainda restava tempo? Poderia encontrar sua mãe antes que fosse tarde demais?
Ela precisava sair dali, mas como o faria com Garret em seu encalço?
Assim que ele lhe forneceu os pedaços de informações suficientes para que soubesse que a garota estava desestabilizada, o rei saiu, informando-a que precisava trocar de roupa, já que havia estragado a sua com o sangue da menina morta.
Ele deixou-a lá com os soldados novamente, era impossível fugir. De qualquer forma, não demorou muito e Garret retornou com toda a sua pompa, uma roupa tão extravagante e chamativa quanto a anterior, o sorriso largo pendurado em seu rosto.
— Vamos, querida? — Estendeu a mão para ela e, vendo que a princesa não respondeu ao ato, um dos soldados pegou seu pulso com brusquidão e levou-a até o rei.
Garret apertou a mão de e torceu-a, fazendo-a gritar de dor. Em seguida, girou o braço dela e jogou-a contra a cama, ficando de costas para ele, o corpo do homem cobrindo-a por trás, uma mão segurando o seu pulso e outra a sua cabeça.
— Não brinque comigo, — rugiu quente contra o ouvido dela. — Nós vamos nos casar agora, diante de muito dos meus homens, e se você quer ainda manter-se com vida, é bom se comportar. Eu não preciso de uma princesa rebelde em meu palácio. Eu já tenho tudo o que preciso, casar com você é só um bônus que eu posso me abster. Eu posso tornar sua vida mais fácil aqui, ou fazer com que você deseje nunca ter nascido, só depende de você.
— Como pode esperar qualquer uma dessas coisas de mim?! — contra-atacou entre dentes, tentando forçar seu corpo para trás para se soltar, mas Garret era mais forte.
— Guardas! — Garret chamou e dois deles vieram para perto. — Eu quero a língua dessa infame — rugiu. — Agora!
começou a berrar enquanto os dedos do rei iam de encontro ao seu queixo, apertando-o. Um outro soldado enfiou a mão suja entre seus lábios para abrir a sua boca, enquanto outro sacava a espada da cintura e caminhava em direção a ela.
Todo o corpo da princesa sacudia em desespero, as lágrimas saltaram dos seus olhos. Seu corpo tremia e ela tentava empurrar sua língua para dentro enquanto o terceiro soldado enfiava os dedos dentro da sua boca para pegá-la, o que foi em vão, pois no momento que as unhas afiadas dele fincaram na sua carne, sabia que era tarde demais.
O homem puxava a língua dela para fora com força e ela já podia sentir o gosto do sangue em sua boca e a dor da sua mandíbula que era forçada a ficar aberta. Um dos homens alternou com Garret, agora a mão dele empurrava a cabeça de enquanto Garret pegava a espada da mão do soldado e seguia em frente
— É uma grande perda, confesso. Mas você procurou por isso. Não posso tê-la ao meu lado proferindo esse tipo de desaforo. Você poderia ter sido casta e obediente, mas optou pelo pior caminho. Tem certeza que ainda quer ir contra mim, princesa?
O grito da menina saía rasgando por sua garganta, algo brutal e que fez tremer até as paredes velhas do castelo. Seu rosto era vermelho escarlate devido a força empregada pelos seus pulmões e corpo. Ela não conseguia raciocinar, era desesperador, seus olhos arregalaram-se e debulharam-se em lágrimas a cada segundo que a espada de Garret aproximava-se da sua língua estendida.
— Diga-me, ! — Garret rugiu, colocando a ponta da espada afiada em um pedaço do seu órgão.
O rei começou a perfurar e o sangue a escorreu de dentro da boca da garota. urrava ainda mais, sua garganta completamente ressecada e rouca com o desespero. Ela balançou a cabeça para negar, mas o ato fez com que a língua se mexesse e cortasse ainda mais, aprofundando a dor.
— Você quer dizer alguma coisa, sobrinha? — Garret riu no seu ouvido e retirou a espada devagar, dando-a um pouco de espaço.
tentou cuspir, mas a dor era agonizante, sangue descia pela sua boca e ela sentia um pedaço da sua carne já aberta, ainda que não pudesse tocar. As bochechas estavam coberto pelas lágrimas e o cabelo dela grudava em seu rosto, seu peito subia e descia freneticamente enquanto as mãos tremiam sem fim.
— Você vai se comportar? — O loiro riu, erguendo a espada com a ponta ensanguentada e com a outra mão, seus dedos deslizaram sobre a têmpora de , como se para acalmá-la, um ato que dizia que tudo poderia ser mais tranquilo se ela cooperasse.
Vagarosamente e derrotada, em meio aos espasmos de dor que fazia seu corpo sacolejar, a princesa movimentou a cabeça de cima para baixo, rendendo-se. Garret alargou o seu sorriso e se afastou dela, levantando-se e dando um sinal para que os soldados fizessem o mesmo. A menina trouxe a língua para dentro novamente devagar, uma dor mortal atingindo-a, podendo sentir a ponta lateral pendurada, um corte profundo que jorrava sangue sem parar.
A cabeça de foi levantada, o sangue descendo por sua boca, tomando seu pescoço e deslizando até o colo, seu corpo mole erguido por um dos guardas. Havia perdido sangue e estava fraca pelo esforço e pelo momento desesperador, suas pernas não conseguiam se firmar, a ponto de desmaiar.
— É uma pena que tenha sujado o maravilhoso vestido que te dei, mas, pelo menos, a multidão verá o que acontece quando se desafia o rei Garret — comemorou, deliciando-se com o aspecto dela. — Levem-na! — ordenou aos soldados e deu meia-volta, saindo do aposento.
foi arrastada sobre os pés, sendo erguida por um soldado em cada braço enquanto o rei caminhava a sua frente. Quanto mais perto dos grandes portões eles chegavam, mais alto era o alvoroço e as vozes que ecoavam pelo castelo.
A visão da princesa ia e vinha entre a escuridão e a realidade, sua consciência já não era tangível, e não tinha mais força para lutar. Viu os corredores passarem, assim como a entrada de vários salões até chegar ao principal, o grande pátio de festas. pode perceber centenas de pares de olhos encarando-a, em sua maioria soldados e servos. Mais próximo da pequena escadaria que dava para o palanque, haviam homens bem arrumados e que pareciam exercer também algum tipo de poder.
foi solta e caiu de joelhos imediatamente, suas mãos repousaram no chão e as gotas de sangue misturaram-se ao carpete vermelho estendido pelo centro do pátio. Sua respiração era profunda enquanto fechava os olhos para se concentrar na dor, tentou depositar a força em um dos seus joelhos para levantar, mas uma vertigem lhe cobriu, fazendo com que cambaleasse.
— Meu povo! — ouviu a voz de Garret rugir ao seu lado e o barulho da multidão cessar. — Esta é o legado de Ílac, a herdeira… E agora ela é minha. Hoje é o dia que eu tomarei não só as terras do inimigo, mas toda a sua herança. Medroc nunca mais será subjugado e a rainha aprenderá que nunca deveria ter tocado no sangue Buckhaim!
O povo rugiu e os aplausos soaram junto aos gritos incessantes.
— Hoje irei tomar a princesa Ilackiana para mim e, quando eu despedaçar a rainha inimiga, teremos direito às terras de leste a oeste. O nome de Medroc se estenderá por toda a planície e todo aquele que não nos temer, irá ruir! — Garret fechou o punho e ergueu o braço e os soldados bateram em seus próprios peitos, formando um som de batalha frio e poderoso. — Lord Edroy, venha e dê início a cerimônia.
O homem caminhou até eles trazendo consigo uma taça de ouro com um punhal dentro. A arma tinha as insígnias de Medroc, seu cabo era um ferro esculpido, mergulhado no líquido que compunha o interior do objeto. Ele se posicionou no pequeno palanque, ficando de frente a Garret e . Um sinal de cabeça dele fez com que os soldados erguessem a garota para o rei e Garret agarrou-a pela cintura, fazendo com que ela ficasse apoiada ao seu lado.
O Lord falou coisas embaralhadas que não conseguia prestar atenção, mas que, no geral, era possível de se compreender.
Era o casamento. Ele estava acontecendo.
Ela queria se enfurecer, gritar e se vingar. No entanto, não tinha força. Ela cuspia com dificuldade o sangue que se acumulava na boca, fruto do corte em sua língua. Sentia o órgão inchado e latejando dentro de si. Suas pernas fraquejaram e as unhas de Garret cravaram em sua cintura, mantendo-a de pé. Sua outra mão voou para o queixo dela, tirando sangue da sua pele.
— Aguente firme, princesa. Logo estaremos selados pela eternidade — sussurrou.
Os olhos de deslizaram para o lado, a tempo de notar o largo sorriso do loiro ao seu lado. O restante das pessoas não fitavam-na ou, pelo menos, não se importavam com sua aparência destruída. Como se fosse normal uma noiva sangrar e cuspir sangue por toda parte. Não estavam surpresos, pelo contrário, conseguia ver o brilho nos poucos olhares que conseguia distinguir, deliciando-se com a derrota da filha de Ílac.
A princesa piscou e logo Garret mudou de posição, ficando de frente para ela, ele pegou a sua mão e levou-a até o peito, enfiando o anel que havia sido tirado da ponta do punhal que estava na taça; inclinou-se sobre ela e pousou um beijo em seus lábios sangrentos, manchando de sangue sua própria boca quando recuou. Um lento e longo sorriso se abriu na face do rei, a língua dele saiu e lambeu os próprios lábios, saboreando o sangue da menina, desfrutando do saber metálico dela.
O estômago de se embrulhou e o resto passou como um borrão, os gritos e aplausos ensurdecedores eram as únicas coisas que ela conseguia assimilar do ocorrido. Tinha relances de homens passando por um lado e para outro, bebidas em suas mãos e mulheres e rapazes em sua volta, muitos desfrutando-se deles em público. Os servos e servas nus, decapitados do rei eram como banquetes em bandejas para os homens.
— Eles vão para a guerra — Garret sussurrou enquanto a arrastava do meio da festa. — Provavelmente a última noite de muitos aqui. Eles irão aproveitar como animais — murmurou, entre risos. — Aliás, como bestas feéricas, porque animais eles já são. — Agarrou-a ainda mais forte e arrastou-a pelo braço. — Vamos, temos nossas próprias coisas para resolver.
Garret virou para o povo e acenou, os homens levantaram suas taças e brindaram ao rei. Ele virou, seguido por alguns guardas e carregou até um aposento, onde o povo esperava que o rei consumisse o seu casamento. Assim que chegaram ao local, a princesa foi jogada contra a grande cama, que encontrava-se elegantemente arrumada e centrada no quarto. Ela mal teve tempo de estender as mãos para proteger o seu rosto da batida, caiu de frente para o colchão levemente macio e não conseguiu nem mesmo virar.
Medo ordenhava a sua pele. Era algo que ela já esperava quando entregou-se a Medroc, ela sabia que poderia acontecer, assim como a própria morte, no entanto, ninguém de fato pode dizer que pode se preparar para um estupro. E, ainda que ela achasse que a possibilidade de ser violada fosse real, quando percebeu que o fato realmente poderia acontecer, ela temeu e todos os seus ossos tremeram.
Ela forçou sua mão contra o colchão para se erguer e conseguiu virar o rosto um pouco, a ponto de reparar Garret passar ao lado da cama e dirigir-se a uma pequena adega presente ali. Ele abriu uma garrafa de vinho e virou-a em sua boca, deixando escorrer o líquido escuro por sua garganta. Ele abaixou a garrafa e levou o dorso da mão até os lábios, limpando-os desajeitadamente enquanto encarava .
O rei franziu o cenho quando notou rastros de lágrimas descerem pelas bochechas dela. Sua cabeça inclinou-se levemente e ele caminhou até a cama, sentando-se ao lado dela. Assim que repousou ali, viu a menina se retesar, encolhendo-se na medida do possível para longe dele e balbuciando um ligeiro e desesperado “não”.
— Shiiiii... — ele fez o som com a boca, levando os dedos até o cabelo dela, as lágrimas da menina agora correndo ainda mais entre soluços. — Por que chora? Você se comportou, eu estou orgulhoso que finalmente nos entendemos, querida. — Arqueou levemente a boca.
não conseguia responder com a língua daquela maneira, por isso apenas balançava a cabeça freneticamente e tentava desvencilhar do toque dele. Garret encarou-a até que alguns pensamentos formassem em sua cabeça.
— Você…? — ele começou a perguntar, mas logo que compreendeu a situação, começou a gargalhar, retirando a mão de perto dela. — Você achou que eu iria tocá-la? — Ele inclinou a cabeça, estudando-a. — Não você, querida. — Sorriu. — Eu sei que eu posso parecer malvado, mas eu preciso para manter a ordem das coisas por aqui. Mas você é do meu sangue, filha do meu irmão, eu não faria isso com você, não com você. Eu não lhe disse quando chegou que poderíamos ou não fazer as coisas? Que minha única ordenança era que não admitiria filhos?
piscou, aturdida, as lágrimas ainda caindo, mas a surpresa tomando conta da sua face.
Ele havia dito isso?
Ela se lembrava de uma conversa, quando ele lhe fez sua primeira proposta de traição à sua mãe, lembrou-se dele oferecendo um trono, onde ela pudesse desfrutar ou não ao lado dele. Contudo, ela achava que essa não era mais uma oferta válida depois que ela havia negado, não quando ele a fez passar por tantas torturas e, por fim, cortou-lhe um pedaço da língua.
— N-n-nã-o? — foi a única coisa que ela conseguiu soprar com dificuldade.
— Não. Eu faço isso com meus criados, não com minha esposa e família. Se um dia me quiser, posso aplacar seus desejos, mas se quiser outras pessoas deste reino, você poderá. Achei que tinha entendido da primeira vez. — Ele rolou os olhos. — Você é a única família que me resta. — Uma sombra escura perpassou seus olhos, mas ele logo se afastou e voltou ao seu jeito jovial de falar. — Eu vou cuidar de você… Em algum momento Vossa Alteza irá colaborar e verá que não é tão ruim estar ao meu lado. Seremos uma equipe, . Eu, você e…
Garret levantou-se, a voz sumiu durante os lapsos da garota, ele recuou para algum canto do quarto que não conseguia ver, porém, logo voltou e trazia algo consigo em mãos.
— Infelizmente meus homens não entenderiam e eu preciso continuar mantendo o respeito, lutei muito para ter cada um aos meus pés. Mas acredito que você prefira isso do que a violação, não é? — falou com ela, abrindo o objeto de forma que a princesa pudesse ver.
Um chicote.
Garret movimentou-o de um lado para outro com prática e girou para ela, sorrindo.
— Para mostrar a minha piedade mesmo em meio a sua desobediência de hoje, vou deixá-la com as roupas.
A frase mal teve tempo de ser terminada, logo sentiu a chibatada e urrou de dor. Junto com o seu grito, brados de comemorações abafadas puderam ser ouvidas através das paredes, fazendo-a crer que muitos espreitavam e aguardavam o desfecho daquela situação.
Mais uma chibatada.
envergou as suas costas e trancou os dentes, quase mordendo a língua já ferida.
Queimava, ardia, dilacerava.
Cada vez que o barulho do chicote se fazia presente, a carne de ficava mais evidente, ao ponto do sangue ultrapassar as roupas rasgadas pelas chibatadas.
Uma, duas, três, quatro… contava mentalmente até que parou.
Parou de contar, parou de ouvir o som da tortura e parou de sentir.
Era como se a mente dela a levasse para um lugar seguro, onde tudo que acontecia ao redor era uma bolha inatingível. Ela sabia que quando voltasse a si, aquilo seria quase como a dor da morte, e por vezes ela achava que sua consciência lhe trazia de volta, mas a dor era tão agonizante que não era forte o suficiente para permanecer na realidade.
Em certo momento, ela não sabia se havia desligado de vez ou se realmente tinha acabado. Suas unhas estavam cravadas contra o lençol da cama, seu rosto afundado contra o colchão em uma mistura de baba e sangue. Só percebeu que Garret havia parado quando ouviu o som das suas roupas caírem no chão. Ela não fazia a mínima ideia do que ele estava fazendo, mas ouviu gemidos vindo do seu lado.
Com dificuldade, ela virou um pouco o seu rosto, o rei tinha os olhos cerrados e sua mão subia e descia com vigor contra o seu membro ereto. não conseguiu compelir, ela vomitou ali mesmo, quase desmaiada, seu rosto virando uma bagunça ainda maior.
O rei nem mesmo reparou nela, assim que sentiu seu êxtase vir, virou-se na direção da princesa e gozou por sobre as costas de , deixando o esperma deleitar-se sobre o corpo dela e pelo chão, alguns espirros caindo também sobre a cama.
O peito dele subia e descia até que ele finalmente a olhou. Não de forma automática como quando havia gozado, mas agora via sobre uma poça de sangue e vômito, o cheiro pútrido da carne aberta das costas dela e a bagunça ao redor da garota. Uma lembrança infeliz atravessou o rosto dele e ele correu o mais longe possível e ajoelhou-se no chão, deixando a bebida e a comida da festa voltarem do seu estômago e cobrirem o piso com o seu próprio vômito. Um suor frio correu da sua testa pela têmpora enquanto sua respiração estava acelerada. Demorou alguns minutos e, assim que se acalmou, levantou-se devagar, fechou os olhos e abriu-os novamente, colocando em sua face a tranquilidade que normalmente habitava ali. Andou até , porém viu que ela tinha seus olhos fechados e uma respiração lenta. Ele abaixou-se até as pernas dela, que pendiam para fora da cama e ergueu a mão por baixo do vestido até achar as roupas íntimas dela. Ele pegou-as e arrastou-as para fora, passou-as um pouco sobre o sangue que estava no chão, deixou que tocasse também seus dedos no gozo, levando-o até as coxas agora nuas da garota e fazendo com que o sangue e o esperma marcasse os lugares íntimos.
Assim que se levantou, ele jogou as roupas pelo local e foi até o rosto de , inclinando-se ali. Puxou um pouco do cabelo da face dela, comprovando que estava desmaiada e afastou um pouco o rosto da menina da poça.
— Desculpe… Mas era a única maneira, ou eles nunca acreditariam — sussurrou no ouvido dela, deslizando os dedos delicadamente pelo cabelo da princesa. — Espero que possamos recomeçar como uma família agora.
Levantou, colocou de volta as calças e caminhou até a porta. Antes de abri-la, pausou com a mão na maçaneta, olhou para cima e murmurou: — Estou pagando minha dívida. Espero que me perdoe, irmão! — Colocou o seu famoso sorriso no rosto e saiu para ser saudado pelos homens que o esperavam do lado de fora.



Capítulo 35 - Parte I

O som do trote dos cavalos era abundante, as folhas e os galhos das árvores da floresta balançavam junto ao som dos pássaros e insetos que habitavam o local. As rajadas de vento cortavam o ferro nas roupas dos soldados e alguns murmúrios eram ouvidos pelos homens que puxavam as catapultas.
Ainda que o percurso fosse barulhento, o silêncio imperava, o que parecia contraditório, mas fazia sentido para . Seus homens estavam concentrados, sabia por quem e pelo que marchavam. Já faziam horas que haviam saído do campo de concentração, após todas as tropas estarem preparadas. No pelotão dianteiro orientava os capitães, na retaguarda Cameron cobria e cuidava dos retardatários.
Logo chegariam na bifurcação e se separariam. A rainha tinha optado por estar longe de , ambos tinha influência sobre o povo e passavam uma imagem forte de luta, eram importantes para guiar os soldados. também gostaria de mandar para buscar a sua filha, enquanto ela enfrentava Garret em campo aberto. Contudo, a ideia havia sido negada veemente por Cameron, seria um desperdício de força de guerra, como o próprio orientou. Tanto ela quanto eram importantes o suficiente e juntos eram mais fortes para enfrentar o batalhão de Medroc. Após muitas discussões e planejamentos, o tio havia ficado com a incumbência de levar um batalhão menor pelo caminho que beirava a floresta, enquanto e guiaria o restante pelo campo aberto. O caminho era mais longo, mas não correriam o risco de serem pegos em emboscada e não teriam que passar com vários mil homens por dentro do rio. Uma coisa era quando ela havia levado apenas uma equipe, outra era atravessar com charretes, cargas, animais e vários instrumentos de guerra.
apenas torcia para que Cameron não fosse pego na mesma emboscada que ela havia sido da outra vez, mas ambos achavam que Garret não usaria do mesmo artifício e dificilmente ele esperaria que passasse pelo mesmo caminho. Portanto, eles contavam que a passagem estivesse livre para que o tio pudesse entrar na divisa do reino com mais tranquilidade, ou que, pelo menos, fosse possível combater os homens que pudessem esperá-los por ali.
Se tudo desse certo, encontraria Garret perto da divisa, ou talvez até mesmo no território de Medroc, Não muito depois seria tempo suficiente para que Cameron chegasse com seus homens para o reforço por trás dos inimigos.
O reino de Alegrance havia mandado muitos suprimentos, o que ajudou Ílac a compor na guerra inesperada. Já Fortance, apesar de ser um aliado, principalmente por causa de Sarah, não havia retornado a última carta que havia mandado e o seu emissário nunca mais havia voltado. Era claro que alguém havia interceptado, por isso ela mandou várias outras, porém não teve tempo de esperar uma resposta. Só torcia que a rainha, mãe de Sarah, houvesse recebido a mensagem a tempo de mandar seus soldados para o local estipulado a tempo.
A rainha despediu-se do tio, segurando qualquer emoção que pudesse ter nesse momento. Aquela poderia ser a última vez que o vira, caso tudo desse errado. Apesar de ser irmão do seu pai, ele não era tão mais velho que ela, por isso, em partes, cresceram juntos, ainda que separados por causa das missões particulares de cada um. havia sido criada para ser a rainha de Ílac, enquanto Cameron, para ser a sua mão direita e conselheiro real. Ainda assim, era o mais perto de um amigo que ela pudera obter. Não que houvesse qualquer tipo de desabafo, mas se entendiam e era um consolo para ela no meio de um castelo onde havia que pisar nas pontas dos pés e não confiar em ninguém. Além disso, ele lhe dera Sarah, e ela sempre seria grata por ter ganhado uma amiga no meio disso tudo.
Por isso, apesar dos tratamentos cordiais e superficiais por causa das regras reais, sentiu o peso da despedida e engoliu em seco quando ele a abraçou e sussurrou em seu ouvido que nada disso era culpa dela.
Agora estava ali, a floresta ficando para trás enquanto seguiam o caminho. Eles haviam acompanhado o rio, mas agora a estrada corria para uma subida, erguendo-os em um penhasco mediano, lá embaixo a água ainda passava, mas agora era uma visão longínqua, que só poderia provar caso se atirasse lá de cima.
Ela olhou para a révoa e um frio percorreu a sua coluna, ela só havia passado por ali uma vez desde que o pior aconteceu, na época ainda estava com seu pai, na equipe de busca por Henrique.
— Você está bem? — a voz de surgiu ao seu lado. Ela havia ouvido o trotar do cavalo, mas não era o suficiente para virar para ver quem era. Mas ela deveria ter imaginado que ele apareceria por ali.
meneou a cabeça, observando ao redor. O mato estava alto e algumas folhas batiam nas barrigas dos cavalos.
— Está preocupada? — ele voltou a indagá-la.
— É sempre um perigo passar por aqui, mas temos que contar com a sorte que os animais não irão querer atacar-nos, somos muito numerosos. Ou então… Caso isso aconteça, que possamos detê-los a tempo.
Agora foi a vez de assentir, olhando ao redor. Ambos ficaram em silêncio, na lateral dos soldados, um pouco mais afastados do pelotão.
— Ele não merecia isso. — ela falou baixo, sem olhar para o guerreiro ao seu lado. — Jeffrey, Garret… Poderia ser qualquer um, mas Henrique… Eu tenho que explicar ao meu filho de oito anos porque pessoas boas morrem, mas a verdade é… Que nem mesmo eu posso entender. Se Henrique estivesse vivo, tudo seria diferente.
sentiu um leve amargor, um velho sentimento conhecido toda vez que citava esse nome, mesmo há muitos anos. Mas era obrigado a concordar, ele preferia mil vezes que ela tivesse se casado com Henrique do que o asqueroso Jeffrey.
— Eu gostaria de ter a resposta para essa pergunta — ele respondeu simplesmente. — Mas… Gosto de acreditar que as pessoas boas morrem porque são essas as que lutam, que buscam por ideais e que geram a resistência. Os outros são egoístas, covardes e gananciosos que pensam somente em si e estão dispostos a qualquer coisa para preservar o seu próprio eu. Eu prefiro morrer lutando do que aceitar a maldade humana de cabeça baixa.
— Bom… Provavelmente será isso que vai acontecer conosco. — Ela levantou seu lábio em um sorriso, que não resplandecia em nada o seu semblante. — Foi aqui que ele morreu, meu pai e eu achamos alguns restos ensanguentados exatamente nesse local.
olhou em volta novamente, seus olhos passando pela rapina até a direção do penhasco e do rio abaixo.
— Você está certa, ele não merecia isso. — confirmou, reflexivo.
Henrique era um guerreiro, talvez tão bom quanto ele se tivesse mais tempo de vida. E ele aparentava ter uma índole melhor do que os irmãos. Deveria ter morrido por uma causa, não estraçalhado por um animal. Fora uma vida desperdiçada, além de um cargo em Ílac e , que fora tomado por Jeffrey.
queria manter-se longe dela, mas ele sabia… Ele sabia que passar por ali significava algo para ela e, ainda que ele não quisesse admitir, ele queria ver se ela estava bem.
O general virou seu rosto para a mulher, vendo-a com o olhar contemplativo para o horizonte. Os cabelos negros voavam e sua boca e testa estavam tão franzidas que provavelmente havia dado-lhe rugas definitivas no local.
Quando fora a última vez que ele a viu sorrir?
Qual a última vez que ele mesmo sorriu de verdade?
abriu a boca para dizer algo, mesmo que não soubesse o que, contudo, assim que havia inclinado o corpo na direção dela, uma trombeta tocou e os homens começaram a gritar.
Mal houve tempo para se preparar quando granidos intensos vieram na direção deles, os animais gigantes pulavam no meio da formação, arrancando braços, pernas e outros pedaços. O pelotão se rompeu, muitos correram para fugir e outros sacavam a espada para se defender. sentiu um baque no seu corpo o derrubar do cavalo e um vulto enorme passar por cima deles. Ele caiu com força no chão, um corpo mais leve por cima do seu, os cabelos pretos caindo ao redor da sua cabeça.
— Você está bem? — olhou para ele rapidamente e levantou-se depressa, estendendo a mão para o erguer.
Ela havia se atirado sobre no momento que viu o ataque da hiena. Um segundo a menos e talvez não fosse ela que teria derrubado o guerreiro ao chão.
sacou sua espada com agilidade e correu em direção a um soldado caído no chão, os dentes da besta cravados no braço dele. tentou gritar a tempo para contê-la, mas ela já estava lá montada sobre o animal, com sua espada enterrada no pescoço da hiena.
O bicho guinchou e sacolejou enquanto o sangue jorrava. O animal caiu junto com a rainha, prendendo a perna dela debaixo do seu corpo enquanto morria. A espada de soltou da mão dela ao caírem, a arma ainda presa na hiena enquanto ela mesma ficava sob o animal. Ela espalmou as mãos no chão para puxar a perna, mas um rugido a sua direita a assustou.
Uma hiena ainda maior corria ao seu encalço, tentou se desprender novamente, porém o peso a impedia que fizesse com rapidez, conseguiu mexer-se milimetricamente e, vendo que poderia não conseguir fugir a tempo, estendeu a mão para tentar tocar a espada presa no pescoço do bicho. Havia um palmo de distância entre elas, esticou-se até sua pele arder e não ser mais possível inclinar-se. A hiena vinha correndo cada vez mais rápido, o homem que ela havia salvo estava prostrado gritando ao chão com a mão arrancada, outros ao redor lutavam bravamente com vários outros animais do bando que os atacavam.
Ela tentou mover-se novamente, mas o joelho para baixo ainda estava preso, inclinou-se novamente para a espada, faltava tão pouco…
A hiena estava praticamente sobre ela, podia ver a boca da besta aberta e os dentes afiados prontos para a devorar. O animal pulou em sua direção, mas foi arremessado para fora quando se jogou sobre o bicho, rolando com ele por sobre a relva alta. não conseguia ver direito com o mato, apenas o grunhido do General e o rugido da hiena. Ela aproveitou para tentar desvencilhar do corpo morto do animal, enquanto lutava contra a hiena, lutando para sair e conseguir sacar sua espada novamente. Ela gritou enquanto usava toda a sua força para se soltar, a perna doía, mas ela conseguiu pisar firme, constatando que não tinha quebrado ou torcido nada. Arrancou a espada do bicho e olhou em volta freneticamente, procurando pelo Guerreiro.
! — ela gritou, o peito descendo e subindo desesperadamente junto aos olhos que giravam de um lado para o outro.
Era um emaranhado de desespero, homens e animais lutando, havia muito sangue, mas os soldados que estavam mais atrás estavam se aglomerando para socorrer o pelotão atacado. Eles conseguiriam se cuidar. precisava achar .
Ela gritou de novo, mas sua voz era apenas mais uma em meio a gritaria. Ela viu um movimento em alguns metros de distância a esquerda, um vulto de um cabelo loiro passando rapidamente pelo chão junto com um animal. correu o mais rápido que pôde até conseguir visualizar .
O homem tinha sangue sobre o rosto e jorrado no seu corpo, as costas dele coladas ao chão, o rosto vermelho e suas mãos estendidas, segurando a espada na horizontal no pescoço da hiena, contendo-a, enquanto ela se forçava para frente para o morder e usava as garras para tentar atacá-lo. Uma delas passou pelo braço de , abrindo quatro linhas profundas em sua carne. Seu corpo empertigou com a dor e o seu esforço contra a espada estremeceu, fazendo com que a hiena conseguisse forçasse ainda mais contra a arma e conseguisse derrubá-la no chão.
atacou, erguendo a sua espada o mais alto possível e descendo sobre o pescoço do animal. O sangue esguichou sobre ela e , a cabeça não havia sido decepada, pois o animal era muito grande, mas havia ficado pendida no corpo que caía sobre o Guerreiro.
As pernas de tremeram com a adrenalina, ela abaixou o corpo, lançou sobre o animal para empurrá-lo e ajudou-a, forçando as mãos para tirar a hiena sobre ele. Com muito vigor, ambos conseguiram retirar o animal e a rainha praticamente derrubou-se sobre , passando a mão estremecida sobre o rosto dele, tirando o sangue que o cobria e impedia que ela visse se ele estava ferido.
— Eu estou bem, estou bem… — ele repetia, enquanto varria o olhar por todo o corpo dele a fim de checar possíveis feridas. — É só o meu braço — completou, tentando se levantar e sentar.
Os olhos de correram em volta para ver sinais de perigo antes de terminar de checá-lo. Se outro animal viesse, não podiam perder tempo, tinham que lutar.
Os homens de Ílac eram um emaranhado contra as últimas bestas que haviam ficado, o número dos soldados eram maiores, elas não eram mais páreas para eles. Algumas corriam em fuga; que havia conseguido contar eram umas quatro, duas delas carregando corpos de seus homens mortos e uma com uma perna na boca.
suspirou, uma mistura de alívio por ter acabado e outra de pesar pelos homens perdidos tão grotescamente. Ela voltou a olhar para , que agora se levantava, e viu-o segurando o braço esquerdo com afinco. Ela ergueu-se também e pousou a sua mão sobre a dele, tirando-a de lá. O membro tinha furos profundos que jorravam muito sangue perto do ombro, as marcas da garra do animal que dilaceraram por onde suas unhas passaram.
— Temos que estancar isso rapidamente. — Ela puxou o tecido que corria por baixo da sua roupa de combate e rasgou-o ao meio com a própria espada. Puxou um dos lados até que o corte permitisse que fosse arrancado um pedaço e caminhou até o General.
Ela passou o pedaço do tecido sobre o ferimento da mordida, que era o que jorrava mais sangue e amarrou-o. Em seguida, deu um passo para se afastar e olhou para o guerreiro que ainda encarava as mãos dela que havia tocado o machucado.
engoliu em seco, não querendo pensar na quase morte de ali, ou mesmo a dela. Quão insignificante seria se tivessem morrido a caminho da batalha?
O coração deu um solavanco e um pânico começou a inundá-la, mas ela engoliu rapidamente, varrendo para longe qualquer sentimento que pudesse a desestabilizar nesse momento. Respirou fundo e encarou o guerreiro, tentando mostrar como nada disso a afetava.
— Salvei sua vida duas vezes. Acho que agora nossa dívida está paga.
Era o pior coisa que ela poderia ter falado naquele momento, mas fora a única que havia conseguido para evitar que aquilo que guardava tão profundamente saísse.
encarou-a enquanto segurava novamente o braço. A mulher não piscava enquanto olhava para ele, a frase lançada sem dó, como se fosse válido em troca de tudo que havia passado por ela. Ele quis falar, mas estava cansado demais, quase morrera. Olhou para o corpo dela, que também estava cheio de sangue respingado e viu o leve tique do dedo mindinho, algo tão mínimo e involuntário, mas denunciava mais do que ela poderia perceber.
Por isso, ele apenas expirou e deu as costas a ela, deixando que a rainha de Ílac lidasse com seus próprios problemas enquanto ele cuidava dos seus. A guerra mal tinha começado, e já haviam mais mortes do que poderiam prever.



Capítulo 35 - Parte II

Trinta e três homens feridos, doze homens mortos.
Nenhuma batalha ainda.
Algumas perdas.
Os homens de Ílac continuaram caminhando até saírem do local de periculosidade e entrarem em uma zona segura. ordenou que montassem acampamento, precisavam descansar e cuidar dos feridos. As tendas foram armadas e fogueiras espalhadas pelo acampamento, aquecendo e iluminando o local. estava diante de uma delas quando a rainha se aproximou, sentando ao seu lado.
— Desculpe — falou, encarando o fogo e vendo as chamas crepitarem transformando em brasas a madeira.
olhou-a, erguendo levemente a sobrancelha em incompreensão. Durante o restante do caminho, não se aproximou dela, e quando pararam, tratou de reorganizar os homens e orientar as divisões para vigilância, alimentação e disposição do acampamento.
— O que eu lhe disse mais cedo… — ela respirou fundo e fitou o chão. — Muitos dos nossos homens morreram nesse ataque. Nós nem mesmo encontramos com Garret e já perdemos… — Engoliu em seco. — Eu…
gostaria de dar desculpas pelo seu comportamento, mas, a verdade era que estava cansada de viver essa batalha com . Ela já tinha uma maior para travar do que viver em pé de guerra com o homem ao seu lado.
— Nós vamos conseguir — o General a interrompeu, virando levemente a cabeça para olhá-la. — Temos Cameron como uma opção extra, temos homens bem preparados, nós vamos conseguir.
— Eu sinceramente não sei com que Garret nos espera. A realidade é que estamos sendo atraídos a ele desde que Jeffrey morreu, jogando o seu jogo… Fizemos um plano para conseguir surpreendê-los, mas ainda assim… Quem sabe desde quando ele está planejando isso?
— É algo a se pensar… Já que não foi você que matou o irmão dele.
Um suspiro profundo saiu de , juntando-se ao barulho do fogo e do vento.
— Eu achava que havia sido a minha mãe. Alguns boticários que chamei para exumar o corpo de Jeffrey disseram ter encontrado um veneno e eu achei um frasco desta mesma composição no quarto dela.
ergueu a cabeça com a informação. Ele não sabia disso, nem imaginava porque Helena faria tal coisa.
— E por que disse achava? — perguntou.
— Porque disseram que o veneno em questão não faz aquilo que ocorreu na festa. Não é um ácido e jamais iria corroer o corpo de Jeffrey de dentro para fora daquela forma. No entanto, ele estava sendo envenenado, dia após dia… por Helena. Contudo, alguém foi mais rápido que ela.
— Mas… — começou a indagar e o interrompeu.
— Jeffrey matou meu pai, . Helena queria vingança. Ela pode ser louca, mas não é burra, não faria o que aconteceu na festa, a ponto de trazer uma atenção negativa sobre Ílac. Alguém matou Jeffrey primeiro, mas não sabemos o porquê.
balançou a cabeça, tentando assimilar a informação que havia acabado de receber. Odiava Helena, mas Miles sempre fora um bom homem. Se pudesse, ele mesmo teria matado Jeffrey antes.
— Às vezes me pergunto se tudo o que Garret quer é vingança. Uma guerra inteira, todo um povo morto apenas para fazer você pagar? — ele ponderou.
— Para atingir um rei, ataque o seu castelo — respondeu, dando de ombros.
— Ainda assim… Não pode ser só por Jeffrey, Garret não é tão inteligente assim.
bufou um riso sem humor, lembrando do garoto inconveniente que o rei de Medroc era, pronto para chamar atenção de qualquer um ao seu redor.
… A ganância cega e tira qualquer percepção de bondade e equilíbrio da humanidade. Eu espero qualquer coisa que venha desse império.
— Mas Medroc tem tudo o que Ílac tem, talvez até mais. Não temos nada a oferecer a ele a não ser sustentar o ego de Garret nos tornando a sua grande conquista. O que mais ele ganharia? Ele tem um exército infinito de homens inescrupulosos e sem coração, possuem extensão territorial e um povo numeroso para servi-lo como bem quiser. Talvez não possuam uma variedade rica de alimentos como Alegrance, mas nem nós temos, e se ele quisesse os ferreiros de Fortance, seria mais fácil aproveitarem a aliança com Grutok para chegarem até eles. Não faz sentido — interpelou.
— Temos lendas, assombrações e homens sendo mortos misteriosamente. Se é isso que Medroc quer… — respondeu com um tom carregado de ironia.
O corpo todo de se arrepiou, vultos de lembranças inundaram a sua mente, imagens de mulheres forçando-o a tomar uma bebida amarga, as alucinações, os golpes, a fome… A visita no castelo…
— Nós somos os únicos banhados pelo mar de Ocland — sussurrou, suas mãos fechadas sobre as coxas.
— Você acha mesmo que Garret faria isso tudo por causa de uma lenda?
— Se ele acredita nela, sim, eu acho. — olhou com a testa franzida para a rainha. — E se fosse você, deveria acreditar também.
— E por que eu acreditaria, ? Que prova eu tenho? Meu pai passou anos e anos em busca de informações até desistir. Não encontrou nada além de escritos antigos e cadáveres cada vez que procurava algo mais. Há coisas que devem ser mantidas no escuro…
— Se você tivesse buscado e investido mais nisso, talvez tivéssemos achado alguma coisa!
— E colocar você em perigo de novo?! — ela retrucou com veemência, as palavras soltas antes que pudesse contê-las.
piscou, uma e duas vezes, antes de assimilar o que proferiu.
— O que disse? — ele perguntou, disposto a fazer com que ela repetisse.
A rainha fechou os olhos com força e passou a mão pelo cabelo longo, sabendo que havia falado demais.
— Eu jamais te mandaria para uma missão suicida dessa novamente, … Eu não sei profundamente o que você passou, mas recebi informações do seu estado. Jamais colocaria você em uma circunstância dessa por mera vontade de explorar um reino desconhecido. Só obtivemos mortes em busca de Ocland. Não me arrependo de ter implorado ao meu pai para suspender qualquer outra tripulação para desvendar esse lugar. O que também não foi difícil, já que ele se preocupava com Hector.
sentiu algo estalar dentro de si. Talvez fosse a ciência de que se preocupava com ele, quando o mesmo achava que havia sido abandonado à própria sorte. A verdade era que, por mais duro que ele quisesse se mostrar para ela, ambos sabiam que ele era o que tinha o coração mais mole, pronto para ser pisoteado inúmeras vezes por .
— O que é isso? — a rainha perguntou, puxando levemente o braço do General para que ela pudesse olhar e acabou tirando-o do seu devaneio. — Está sangrando? ! Você não cuidou do seu ferimento?
O braço do homem tinha uma faixa mal feita, o curativo encharcado de sangue.
— Não tive tempo, precisava terminar de aprontar as coisas. Liberei os feridos para voltarem para casa, aqueles que já não servem para guerra, por isso tive que reorganizar algumas tropas. Acabei esquecendo. — Deu de ombros, desviando o olhar para a fogueira e ignorando o toque dos dedos dela em sua pele.
franziu a testa e balançou a cabeça em discordância. Ficou de pé, passando a mão na traseira para tirar as lascas de madeira do tronco em que estava sentada e a poeira da calça, em seguida, ergueu a mão em direção a .
— Vamos! — ela chamou e ele ergueu a sobrancelha. — Você precisa cuidar disso, não posso ter meu General com uma infecção no braço, ainda que seja o esquerdo.
Ele poderia ter negado, como sempre fazia ao lutar contra ela. Mas estava cansado. Levantou e, surpreendendo a própria , levou a mão até a dela e segurou-a. Talvez esse gesto fosse a maior provocação que poderia fazer, bem mais impactante do que simplesmente negá-la. O que foi comprovado quando ele sentiu a mão dela estremecer com o contato e hesitar por um segundo ou dois antes de agir como se não fosse nada relevante e caminhar de mãos dadas a ele até a sua própria tenda.
guiou-o, passando pelos soldados que guardavam o cercado que havia dentro da sua zona do acampamento. A tenda dela era maior que a do restante dos homens e havia um espaço de segurança entre o seu local e os demais para que não a incomodasse. Não era o suficiente para anular o barulho em volta, mas dava-lhe certa privacidade.
Ela ergueu o rosto e passou pelos soldados que estavam na entrada, sentiu a mão de vacilar sobre a sua, mas dois poderiam jogar esse jogo, se ele havia tido coragem o suficiente para segurá-la, teria que ter para passar de mãos dadas ao lado dela até a sua tenda, independente do que os homens poderiam pensar a respeito.
Seu lábio inclinou-se levemente, imaginando as mil voltas que a cabeça de provavelmente estava dando. Ela confessava que havia sido impulsiva ao estender a mão para ele, queria apenas ajudá-lo a cuidar do ferimento, mas ele havia aproveitado a oportunidade para peitá-la, então, ela faria o mesmo. Não ligava para o que pensavam de si, os soldados que imaginassem o que ela estava fazendo com ali. Até porque… Não era a primeira vez que ela levaria um dos seus soldados para cama. Se o guerreiro se sentia constrangido por isso, ela só lamentava, não era um problema que gostaria de discutir.
entrou com ao seu encalço, puxando-o até que ele se sentasse em uma cama improvisada no meio do local. Foi até um canto, pegando uma pequena caixa de emergência e voltou até ele, sentando ao lado da região onde estava o ferimento e tirando lentamente a faixa que o cobria.
O guerreiro encarava cada movimento da mulher com cuidado. Ela desenfaixou o local e passou o líquido desinfectante para limpar o ferimento. Ele grunhiu baixinho com o ardor, mas corria o tecido limpo com delicadeza. A rainha pegou uma das faixas limpas que estavam na caixa e passou pelo braço dele novamente, amarrando com firmeza no final. Os dedos dela permaneceram ali por um momento, junto com os olhos que estavam cravados sobre ela.
Quanto tempo que havia o tocado sem que estivessem lutando?
Seus dedos formigaram por deslizar no restante da pele dourada dele e seu coração sentiu falta dos momentos que já não poderia viver mais. Um dia ela havia tido tudo: o corpo de , o carinho de e o coração de .
Agora ele estava ali, tão perto, mas tão distante. Ainda que a presença dele fosse tão forte que inundava toda a tenda, fazendo que ela parecesse tão pequena, a ponto de a sufocar.
tirou a mão com um susto, a impressão que a pele dele havia queimado sob a dela. Ela fechou o punho, segurando-se, antes que cometesse algum ato impensado e impulsivo novamente.
Será que ela poderia mandá-lo sair agora?
Estar com ele era sempre como minar toda a sua força. Ela queria tanto, talvez ele fosse o único alento que ela poderia ter antes do fim da guerra.
Ela não seria grossa com ele de novo. Não o expulsaria, não como fez da outra vez. Ela havia aguentado muito mais, poderia lidar com ele ainda ali, ou talvez mesmo se levantasse e fosse embora, ela tinha certeza que ele não conseguia suportar a presença dela tão certo como ela não conseguia ficar na dele.
— Me conte sobre ela — a voz grave de ecoou em um murmúrio, contrapondo-se ao que ela pensava. — . Por favor — engoliu em seco —, deixe-me conhecê-la.
suavizou, ainda que seu coração batesse tão forte que ela percebia sem nem mesmo tocá-lo. Ela virou o rosto para o guerreiro ao seu lado, os olhos dele estavam carregados de intensidade e de um sentimento que ela não conseguiu definir. Ele tinha algo que aparentava uma súplica, um pedido desesperado e angustiante de um pai.
O coração da rainha se espremeu ao imaginar que, talvez, para ele, a informação que poderia dar fosse a única coisa que ele tivesse da filha. poderia estar morta a essa altura ou mesmo eles poderiam estar mortos antes de encontrar a menina. Talvez não houvesse futuro para nenhum deles, somente o hoje, aquele momento ali.
Ela deixou um sorriso, mesmo que triste, sair pelo seu rosto e olhou para o chão, pois não aguentaria encarar as emoções que a conversa poderia trazer quando ela contasse o que ele queria ouvir.
— Eu posso fazer isso. Eu posso te contar tudo agora, . — Desviou o seu olhar rapidamente durante a frase para ele, mas logo focou no horizonte, as próprias mãos entrelaçando-se por cima dos joelhos dobrados.
O General não tinha noção do que o tudo significava, mas ele queria saber. Ele queria ouvir aquilo que havia perdido, e se tudo significava conhecer por completo a filha que nunca pode ser um pai, passaria a noite toda ali se precisasse.
— Ela era uma coisinha gordinha e com a pele tão branca que parecia leite. Não tinha cabelos e os olhos eram tão claros que chamavam atenção desde o nascimento. Ela era o meu presente… quando eu achei que não tinha nada, quando pensei que era melhor morrer a viver tudo o que eu viveria, ela veio e, desde o primeiro instante que eu a senti dentro do meu ventre pela primeira vez… Eu sabia, , sabia que ela me daria força para lutar.
engoliu a saliva inexistente e lambeu os lábios levemente rachados.
— Quando precisei dizer para meus pais e Rory que estava grávida de Henrique… Foi uma das coisas mais amargas que me aconteceu. Não por causa de Henrique, não teria vergonha de assumir caso fosse realmente dele, mas porque sabia que era sua… Era o nosso bebê, a nossa história havia saído das fábulas e criado vida e, ainda que fosse completamente aterrorizante na situação em que eu me encontrava, eu só conseguia pensar em como poderia lutar para salvá-la de qualquer mal que sobreviesse.
inspirou profundamente, passando a palma áspera e calejada por sobre o rosto.
— Eu queria ter estado lá — ele exprimiu.
— Eu sei… — Ela virou para ele e tocou a mão do homem para tirar de sobre o rosto. — — chamou-o. — Eu quero que saiba que em nenhum momento passou pela minha cabeça que você não estivesse comigo. Sempre tive a certeza que se soubesse… você faria de tudo e lutaria com todos por nós. — Ela abaixou a mão dele e levou até a coxa, apertando-a levemente. — Mas eu não sou uma simples plebeia que você poderia resgatar e levar embora para longe dos homens maus. Eu era a princesa e seria a rainha de Ílac. Eu tinha um tratado para cumprir e vidas para salvar. Não poupei só Ílac, mas todos os reinos que entrariam em guerra conosco se a paz fosse rompida. Todas as vidas que iriam embora porque eu me apaixonei pela pessoa errada mais certa da minha vida.
fechou a mão mais forte contra a dela, contendo o ímpeto de anos construídos de ódio e indignação pela omissão. Era uma briga interna de emoção e razão. Mas ele não podia brigar com ela agora, estava se abrindo, algo que poderia ser considerado surreal se não estivessem rumo a guerra. Se ela estava aproveitando os últimos momentos para desabafar e confessar a fenda enorme que se fez entre eles, então ele aproveitaria. Muito melhor seria gastar seus últimos dias vivos em paz.
— Eu jamais conseguiria ficar longe… — ele confessou, tentando ser tão aberto quanto ela. — Digo… Se eu soubesse sobre a menina.
— Eu sei. — deu um pequeno sorriso de canto. — Eu te conheço muito bem, ainda que possa achar que não. Na verdade… acho que ambos nos conhecemos bem demais para o nosso próprio bem.
balançou a cabeça, levantando a face para olhar para o teto da tenda.
— Ela sempre foi mais parecida com você. — resolveu prosseguir, antes que os sentimentos ficassem mais intensos do que já estavam. — Não digo só na aparência, mas na personalidade. tem um coração enorme e uma capacidade de perdoar fora do comum. Achei que ela poderia ficar como eu, fechada e introspectiva com os anos. Mas ela conseguiu ser uma flor no meio da devastação do castelo. Os céus tiveram piedade da minha alma e me destinou filhos maravilhosos, mesmo Luigi, que poderia ter puxado ao pai.
— O garotinho não tem nada do Jeffrey, exceto a aparência.
— Esse é o melhor elogio que você poderia fazer a uma mãe — ela respondeu e acabou dando uma pequena risada espontânea, que estremeceu o interior da rainha.
— Eu queria poder dizer o contrário. — retomou, sério, assim que percebeu estar se deixando levar. — Queria jogar na sua cara que foi uma mãe horrível e poder descontar toda a aflição que eu sinto no meu peito. — Ele franziu o cenho, fechando a mão contra o próprio coração. — Talvez isso me satisfizesse e me faria um pouco vingado. Mas aí eu penso… Se fosse assim, teria uma péssima vida e até o próprio Luigi que, apesar de não ser meu filho, desejo o melhor. Eu jamais quereria isso. E, , agora eu entendo o que diz... porque me escondeu, apesar de não compreender um monte de outras coisas. Só que isso não faz o fato ser mais fácil. Isso não anula que não pude ser um pai ou conhecer minha filha. Eu entendo, mas ainda dói.
— Sinto não poder mudar isso para você… ainda mais agora — sussurrou o final. — Eu sinto como se tudo o que eu fiz foi em vão. Mesmo com todo sacrifício, está nas garras de Garret e, mesmo que ela fique salva… se eu morrer, não sei o que pode acontecer.
— Se isso acontecer, eu estarei lá com ela. E se eu também morrer… precisamos acreditar que ela estará pronta para lidar com o que quer que apareça. Além disso, ela não estará sozinha, Isaac estará lá por ela.
— Isaac sempre foi um espírito livre. — suspirou. — Não sei se poderá contar com ele como eu contei com Cameron durante o meu reinado.
— Não. — balançou a cabeça. — Isaac estará com ela de outra forma. — Levantou a sobrancelha e encheu o rosto de insinuação, fazendo com que franzisse o cenho em sua direção.
— Isaac… e ? Mas eles são primos. Quando isso aconteceu? Ela me contaria… — começou a retrucar, mas calou-se, sentindo a tristeza apoderar de si. — Estive tão envolvida com a guerra que não percebi? Eu sou a mãe dela, eu deveria… — Calou-se novamente, antes que acabasse ferindo não intencionalmente no processo.
Não é que ela quisesse insinuar nada contra ele, apesar de ser o pai, não conviveu com a menina. Querendo ou não, sentiu-se mal por não ter percebido isso e ouvir dele tais palavras.
— Não se culpe — respondeu, sem notar o que diria, para o alívio dela. — Estava envolvida com outras coisas, acontece… Se a gente reparasse em tudo que deveríamos o tempo todo, muitas coisas poderiam ser evitadas na vida. Mas, por vezes somos cegos e, em outras, emoções e problemas nos nublam fazendo com que vejamos apenas o que está em nossa frente. Não é algo específico de ninguém, todos fazemos isso. Você estava salvando o seu povo de uma guerra, enquanto isso, nossa filha se apaixonando.
— Isaac… — murmurou para si mesma. — Ele é conhecido por todos os impérios por sua fama libertina, não sei se ele seria o companheiro ideal para . Eu amo o garoto como se fosse meu próprio filho, mas até mesmo eu não posso ignorar isso.
— Isso é um fato. — esboçou um leve sorriso. — Já havia ouvido falar dele também. Contudo, nesse pouco tempo consegui me aproximar um pouco do garoto. Ele pode já ter errado muito, mas ama a menina. Eu sei disso. — afirmou com veemência.
— Como pode ter certeza? — inclinou o rosto com a pergunta.
encarou , reparando nos traços um pouco envelhecidos dela. Não tinha a pele mais tão lisa e delicada como quando menina, agora os rabiscos da vida enfeitavam seu rosto, os olhos mais frios, a boca na maior parte do tempo frisada. Os cabelos continuavam longos e pretos como carvão e o olhar tão firme como sempre foi. Mais velha, mas ainda linda, tão formosa quanto quando a conheceu.
Era inevitável encará-la e não lembrar de tudo o que já viveram, o frio na barriga por cada beijo escondido, a primeira vez que ele a tocou, quando finalmente descobriram o corpo um do outro, quando entenderam o que era realmente o amor.
Ele já havia vivido isso uma vez e, uma pessoa que já amou, reconhece o amor de longe ao vê-lo, por isso, ele fitou-a, carregado de emoção e respondeu:
— Porque a forma que ele fala de era como eu falava de você.
não soube o que responder, o silêncio se espalhou pela tenda, ambos podiam ouvir murmúrios vindos de fora e o tecido da tenda bater com a força do vento. Os grilos cantavam, a pequena chama da tocha de dentro da barraca crepitava e as folhas do lado de fora farfalhavam. ainda olhava para . Esperando o quê? Nem ele sabia. A rainha atenuou os vincos da testa e permaneceu com o corpo quase que completamente imóvel, somente o punho cerrado sobre o tecido da cama, agarrando-o.
Ela queria ultrapassar aquela barreira invisível e beijá-lo. Será que se ela fizesse isso, ele acharia que ela tinha lhe usado novamente?
Ela lambeu o lábio e engoliu em seco, observando o pomo de Adão dele subir e descer e depois sacudir levemente a cabeça, suspirar e desviar o olhar dela. Bem a tempo, antes que ambos cometessem uma insanidade.
— O que aconteceria com se descobrissem a verdade? — perguntou sem olhar para , aproveitando o questionamento que não saía da sua mente para poder desviar o assunto.
sutilmente aproveitou o relapso dele para mover-se um pouco para afastar-se.
— Ela seria considerada uma bastarda — respondeu, ajeitando-se novamente sobre a cama improvisada. — Perderia o direito à coroa e seria expulsa do castelo se não obtivesse o perdão real. Traições são coisas corriqueiras no meio da realeza, mas as penas para elas não. Nunca vi ninguém impor isso, normalmente filhos bastardos são os segundos, terceiros, por aí em diante. Normalmente os reis ou as rainhas são mais cuidadosos quanto a isso, filhos bastardos podem destruir reinos. Meu pai me contava várias histórias de Ilác, Medroc, Grutok… Acho que cada império já teve uma mancha negra assumida. Mas como poderia ter casos de rainhas estéreis, o perdão real foi uma das formas para contornar essa situação e o rei ainda ter herdeiros.
acenou com a cabeça em entendimento.
— Isso vale para você também? Se fosse contrário no caso, se Jeffrey fosse estéril.
— Sim, meu pai me amparou quanto a isso quando eu nasci, a lei me protegeria tanto quanto protege um rei homem. Mas no meu caso não era necessário, ainda que ele não pudesse ter filhos, para o povo, eu tinha uma com ele e, para meus pais e o pai dele, era filha de Henrique. Então, de qualquer forma, não seria necessário essa artimanha.
O corpo de empertigou como sempre fazia ao lembrar-se que, para todos, não era dele… de qualquer um de Medroc, menos dele.
— Bom, pelo menos, se fosse o caso, Luigi a perdoaria. Não tenho dúvidas que ele apoiaria a irmã, penso eu.
— Sim… E não. Se dependesse somente dele, seria mais tranquilo, mas Luigi não é considerado apto a governar até os 14 anos. Um rei só pode ser consagrado ao reinado com essa idade, esqueceu?
— Na verdade, eu nem me recordava disso. São coisas que aprendemos, mas como não vemos acontecer, não fica na lembrança. Nem sei que reinado aconteceu de ter um rei com tão pouca idade.
— Ílac talvez… — murmurou e inclinou-se e esbarrou o seu ombro no dela.
— Não diga isso. — Enrugou sua testa.
— Enfim… — ela suspirou e olhou para o teto, imaginando o cenário que conversavam. — A pessoa mais próxima da linha de sucessão assumiria como regente enquanto Luigi não pudesse governar. Nesse caso, na pior das hipóteses, se isso acontecesse, Cameron seria o regente. E se ele morrer, então Isaac fica com o cargo.
— Você acha que o seu tio concederia isso a ?
mordeu o lábio inferior, pensativa, estalou os dedos um a um enquanto ponderava.
— Para ser sincera, não sei. Eu acredito que sim, pela proximidade familiar, mas Cameron sempre foi muito correto e não sei como ele enxergaria esse tipo de traição da minha parte. Contudo, ele é meu tio, e além disso… — abaixou o tom de voz e inclinou-se para sussurrar para . — Não acredito que ele seria tão incomplacente quando ele mesmo passou por isso.
O General arqueou as sobrancelhas, demonstrando incompreensão e prosseguiu.
— Cameron também é um filho bastardo do meu avô, no entanto, o pai do meu pai usou outra opção como artifício para livrá-lo desse fardo. A lei de Ílac absolve os filhos bastardos quando os pais da criança contraem matrimônio. Meu avô casou-se com a amante a tempo de que a história não se espalhasse pelo reino. Meu próprio pai não tocava no assunto, segundo a sua visão Cameron e ele são iguais, sem nenhuma distinção de merecimento sanguíneo.
— Seu pai sempre foi uma pessoa maravilhosa.
— Sim ele era.
— Nunca imaginaria. Miles e Cameron tem traços parecidos — ponderou.
— Puxaram ao meu avô. Os cabelos negros da família vem da minha mãe — refletiu, passando a mão nas suas próprias madeixas. — De qualquer forma, ainda que as pessoas possam julgar, é a lei, ninguém pode contestar. Um bastardo que passa por um processo de acolhimento por casamento ou outro que é perdoado está amparado e sob proteção do castelo. Se o caso acontecer e for perdoada, ela ainda será reconhecida como minha filha e não perderá o título de princesa, só não poderá assumir. No caso do matrimônio, é como se o sangue se purificasse novamente. Na verdade, acho que isso tudo foi uma desculpa de alguns dos reis antigos para poderem casar com suas amantes.
— Provável. Assim que cansassem das suas próprias esposas poderiam contrair novo matrimônio e os filhos gerados pelas amantes ainda teriam os mesmos direitos.
— Exatamente — respondeu, analisando o olhar pensativo de .
O cenho dele estava tão franzido que formava um vinco enorme em sua testa.
— Está preocupado? — perguntou e ele acenou com a cabeça, sussurrando um sim enquanto passava a mão pesada por sobre o rosto. — Ninguém saberá, .
— Pode acontecer — ele respondeu com a voz temerosa.
— Não vai. Eu matei a mim mesma para manter esse segredo, eu fiz de tudo e para todos, eu sacrifiquei até mesmo qualquer fio de esperança entre nós dois para oferecer a ela um lugar seguro e uma oportunidade de ter tudo aquilo que a nossa filha merece — explicou, enfatizando a palavra que denotava a ligação entre eles.
olhou para a mulher cansada a sua frente, que apesar de tudo que já lhe fizera sofrer, também sofrera para defender a filha deles e isso valia mais que qualquer coisa. Viveu às penas com Jeffrey, abaixou a cabeça quando queria se impor e engoliu todos os segredos sozinha no meio da pressão do castelo. Tudo por , tudo pela filha que geraram juntos.
Como poderia odiá-la?
Por mais que ele tentasse — e como tentava —, ele a encarava e só conseguia sentir o peito arder em gratidão.
Doía ser deixado de lado. Doía não ter sido parte disso, mas era grato pela segurança da sua filha, por ela ter tido a oportunidade de viver uma vida aquém da destruição da realeza, por simplesmente ter tido uma vida feliz, ainda que agora estivesse em uma situação desesperadora.
E tudo isso era devido a essa mulher, , a antiga menina que havia roubado o seu coração e jogado a chave dentro do mar de Ocland, pois só isso justificava como ele ainda conseguia sentir tanta raiva, mas ainda amá-la.
Ele não conseguia remoer nada nesse momento, só percebia o coração bater desenfreadamente e como uma experiência extracorpórea, viu sua mão ser guiada até a bochecha de vagarosamente, tocando o tecido do seu rosto levemente frio, seu corpo inclinar para frente deixando-o minimamente perto dela e a boca encerrar o espaço, saboreando os lábios gelados da mulher.
Foi um gesto delicado e suave, apenas duas bocas se tocando tão fragilmente que parecia que a qualquer momento poderiam se quebrar. O dedão de deslizou devagar pela bochecha dela, para cima e para baixo, e a outra mão foi para o lado oposto do rosto, trazendo-a um pouco para mais perto.
soltou a respiração que estava segurando com o contato e entreabriu a boca, um pouquinho só, mas permitiu que os lábios se aconchegassem mais. A respiração dele na dela aqueceu o rosto de ambos e as bocas que antes estavam geladas, agora eram quentes e movimentavam-se vagarosamente sem se aprofundar. Pareciam viver um primeiro beijo, algo delicado e desajeitado, mas profundo, mais sentimental e intenso que um ato sexual.
Esse pequeno gesto dizia mais e abaixava um muro por muito tempo erguido. Demonstrava mais amor do que quando haviam se deitado juntos da última vez.
Não sabia se tinha passado muito tempo, mas parecia tão rápido. soltou-a com cuidado e se afastou, abrindo os olhos que antes haviam sido cerrados e captando tudo que a expressão de lhe mostrava.
— Muito obrigado — verbalizou o que sentia e acrescentou: — Desculpe.
— Não por isso — ela respondeu com a voz levemente rouca, contendo seus próprios dedos para que não deslizassem na própria boca, desacreditada.
O general levantou-se com calma e olhou novamente para , sem saber muito o que dizer, mas o momento dizendo muito para os dois. Ele virou e caminhou para fora da tenda, segurou o tecido e deixou que o vento frio do exterior cortasse enquanto ele deslocava o corpo para a saída.
o chamou, detendo-o. Ele girou a cabeça para ela, mas o corpo ainda permanecia voltado para fora. — Eu sei que pensa que não significou nada para mim… — ela se interrompeu, enquanto a voz ficava carregada e ainda mais rouca, levemente embargada. — Mas eu sempre te amei — molhou os lábios para continuar — e sempre vou te amar.
As mãos de apertaram o tecido, esmagando-o entre os dedos e ele encarou-a por tantos segundos que não soube dizer se aquilo era bom ou ruim. Havia falado demais? Não pensava assim. Era a verdade que sempre mereceu saber.
De qualquer forma, não soube a resposta, porque logo ele virou novamente para a saída e foi embora sem dizer adeus.



Capítulo 36

O vento cortava o rosto de Isaac, os galopes eram incessantes, trotavam sobre a terra firme em direção ao leste junto aos homens que havia lhe cedido. O rapaz parecia um menino perto deles, guerreiros robustos, silenciosos e assustadores. Ao vê-los, Isaac temeu que não o seguissem ou não o respeitassem, contudo, eram homens leais do General, por isso iriam com Isaac por onde ele fosse.
Galopavam dia e noite, parando pouquíssimas vezes apenas para dar descanso aos animais. As noites dormidas eram curtas, apenas o suficiente para a reposição do sono. Isso provavelmente davam-lhes dias de antecedência na viagem, já que teriam que contornar pelo lado oposto do rio até chegar aos planaltos do norte, que faziam divisa com Medroc.
Não era o local mais fácil de se passar e, provavelmente, era o menos acessível e impossível de se levar um exército inteiro. Seria o caminho perfeito para invadir o castelo e chegar até .
O palácio de Medroc situava-se perto do mar da Baía Malefic de Janar, o que lhe dava uma visão privilegiada de qualquer inimigo que viesse atacá-los, já que suas costas eram voltadas para a água. Isaac esperava passar pela região montanhosa da divisa até chegar a península da Baía — que formava uma ponta para dentro do continente e onde poderia enviar alguns espiões para ver se o caminho estava aberto do outro lado.
A região que antecedia o palácio no caminho norte era formada por rochas e planaltos, reproduzindo grandes penhascos. Isaac e seus homens subiam e desciam pelos relevos, por vezes altitudes tão elevadas que geravam vertigem a quem olhasse para as fissuras abaixo.
Estavam quase ao final da jornada, perto da divisa, quando fizeram uma nova parada para se alimentar e hidratar. Isaac pulou do cavalo e afastou-se um pouco do grupo. Os homens retiravam seus alforjes, alguns deles foram à procura de água para reabastecer os cantis e outros montavam uma fogueira para assar os coelhos que haviam pegado pelo caminho. O rapaz andou até uma árvore discreta e aproveitou para se aliviar. Há muito estavam viajando e a bexiga apertada lhe acompanhava por vários quilômetros. Outros fizeram o mesmo, mas os olhos sempre atentos em volta.
Assim que terminou, Isaac subiu as calças novamente e reuniu-se aos homens. Um deles, a quem aparentava ser o mais experiente e um dos líderes do grupo, aproximou-se dele.
— Rhestor informou que não falta muito para chegarmos. Logo estaremos no último penhasco, onde fica a Torre de Janar. Acredito que nos dará uma visibilidade boa da situação adiante.
Isaac acenou a cabeça em concordância. Ele conhecia muito dos mapas e havia passado parte da vida estudando os pontos fracos e fortes dos impérios, mas Rhestor, um dos homens de , conhecia o caminho como a própria palma da mão. Ele poderia guiá-los com confiança.
— Obrigado — Isaac agradeceu. — Sei que não está fazendo por mim, mas agradeço assim mesmo.
— Somos leais ao General, senhor. Daremos a vida, se necessário for, para concluirmos a missão.
Isaac sabia que era verdade, nenhum dos homens ali tinha algo a perder. Ele não sabia onde havia os encontrado, mas eram todos solitários, homens que viviam para a vida do exército, que haviam encontrando um no outro amizade e lealdade, no qual o rapaz acreditava servirem não a coroa, mas ao comando direto do próprio general.
Klaus, o homem à sua frente, tinha metade do seu rosto deformado, os cabelos eram escuros como carvão e batiam no seu queixo, tampando parte das marcas cravadas na sua pele, mas não impedia que às vezes Isaac o visse, como quando ele tirava os fios do rosto por conta do calor. O rapaz não ousou perguntar o que havia acontecido, porém, tinha certeza que cada um ali carregava uma história talvez horrenda demais para que qualquer um pudesse escutar.
Porém, Isaac já havia visto Klaus em ação, ainda que fosse contra um animal selvagem pelo caminho. Os passos dele eram silenciosos e precisos, e a espada, fatal. O rapaz tinha a impressão que provavelmente havia o encarregado de ficar sobre ele, pois por onde caminhava, sempre tinha a sensação que o homem estava ao seu redor, observando e tentando protegê-lo de qualquer ataque surpresa do inimigo.
Voltaram a se sentar, comeram e beberam, recuperando as forças. Alimentaram também os animais e deixaram eles descansarem por umas horas, dividiram os homens para que uns pudessem dormir e outros mantivessem a vigília. Assim que tudo se aprontou, voltaram a cavalgar, tentando chegar até a torre. Sol e lua, vento e chuva, passaram três dias até que conseguissem avistar a ponta do local.
— Ali! — Rhestor apontou, mostrando para Isaac. — Não deve ter muitos homens, mas haverá soldados, precisamos estar a postos.
Isaac deu o sinal para o restante do grupo e fizeram a formação. Assim que a torre foi ficando mais perto e o vento mais forte pela altitude do penhasco que subiam, uma flecha cortou o ar, atingindo o ombro de um dos homens de Isaac.
— Guerreiros, escudo! — Klaus gritou e os homens ergueram suas mãos, levantando o escudo de ferro e fazendo uma barreira em volta de Isaac.
Ainda que o rapaz tivesse a sua própria armadura, o pelotão trabalhava em uma sincronia que ele jamais conseguiria acompanhar. Galopavam e conseguiam manter os escudos emparelhados, formando um muro que detinha algumas flechas novas que eram lançadas.
Um dos soldados que estava na parte de trás puxou levemente as rédeas, freando um pouco o cavalo e se afastando do grupo. Ele jogou a mão para trás, puxou uma flecha da aljava e atirou-a, uma após outra, um outro homem o acompanhou e fez o mesmo. Os guerreiros da frente ergueram a espada e logo a formação se abriu, mostrando os inimigos à frente que corriam na direção deles.
Klaus saiu na dianteira, seu corpo inclinando para o lado e sua espada voando no pescoço do medrockiano, fazendo a cabeça do soldado rolar ao chão. Atrás dele, Rhestor fazia o mesmo e Isaac os acompanhava, sua espada cravou na garganta de um dos inimigos e a cabeça dele foi arrancada, ficando presa na ponta da arma.
— Não precisamos colecionar brindes de guerra, senhor, só matá-los — Rhestor gritou para Isaac, sorrindo enquanto pulava do cavalo e continuava a sua luta no chão.
Isaac nunca tinha visto nenhum daqueles homens rirem, mas alguma coisa no meio daquela matança e adrenalina mudava o humor deles drasticamente. Klaus não sorria, mas tinha um vislumbre de satisfação e sangue nos olhos. Rhestor aparentava freneticamente enlouquecido, matando um por um que entrava em sua frente. Os demais não eram muito diferentes, alguns lutavam em duplas, outros em trios, um completando o movimento do outro.
Era óbvio que o treinamento desses homens era completamente diferenciado, Isaac estava sozinho nessa, havia aprendido a lutar com o pai, nada como isso, mas servia para arrancar cabeças pelo menos.
Ele pulou do seu cavalo também, abaixou a espada e usou o pé para chutar a cabeça e desprendê-la da sua arma, bem a tempo para erguê-la e cravá-la no abdômen de um outro que vinha em sua direção. Em um golpe enfiou e retirou-a, dando um chute no local ferido e derrubando o inimigo no solo.
Mais três corriam na direção de Isaac e ele flexionou os joelhos levemente, colocando-se em posição, logo sentiu Klaus em suas costas, formando uma dupla com ele.
— Não trabalho como vocês — Isaac falou rapidamente, de olho nos homens que estavam perto de chegar.
— Eu te cobrirei, não se preocupe — Klaus respondeu e imitou a posição, prontos para o combate.
Os inimigos achegaram-se e Isaac atacou, o trio desviando e abrindo espaço. Klaus enfiou-se entre eles, puxando dois para a sua luta pessoal e deixando Isaac com um para enfrentar.
O homem que o rapaz combatia era bem mais alto que ele, um típico guerreiro de Medroc. A barba batia no peito e levava em sua mão uma estrela da manhã, arma composta por uma bola de metal maciça com espinhos de ferro em volta, que ficava presa em um cabo através de uma corrente. O homem rugiu, mostrando a falta de vários dentes e girando a arma com toda velocidade. Ele jogou-se contra Isaac e o garoto abaixou para desviar do golpe, rolando na terra e pondo-se de pé rapidamente. Endireitou-se por trás do homem, mas ele girou a tempo de bloquear o golpe do rapaz, a corrente enrolando na ponta da espada de Isaac.
O medrockiano abriu um longo sorriso e puxou com força a estrela da manhã, arrancando com ela a espada da mão de Isaac e jogando-a longe. O rapaz piscou, desarmado, e precisou correr quando o inimigo foi em sua direção, girando a arma novamente. Isaac deu um pulo e subiu em uma rocha pelo caminho, olhou para trás e viu o homem se aproximar, precisava ser rápido, mas agir com cautela. Aqueles homens poderiam ser fortes, mas ele era inteligente.
Aguardou um segundo, dois… O coração fazendo uma pequena pausa enquanto ficava parado no local e via o homem quase dobrar de tamanho ao se esticar, impulsionar o braço e lançar com toda força a bola espinhosa em sua direção.
Isaac pulou de cima da rocha no segundo exato, o suficiente para sentir o ar do movimento do inimigo quando a bola passou por ele e cravou diretamente na rocha, prendendo-a ali. O rapaz aproveitou-se da surpresa do soldado para jogar-se sobre ele e derrubá-lo no chão. Não foi exatamente como pensava, o homem era grande demais e o peso de Isaac era quase ínfimo comparado ao dele, mas o movimento inesperado o pegou distraído e fez com que caísse.
O jovem sacou uma adaga presa em sua cintura e empunhou na direção da jugular do homem, contudo, o movimento foi bloqueado quando a mão do inimigo segurou o seu pulso com força, momento antes da arma atingir o local requerido. Isaac sentiu seu braço ser torcido e a boca do homem se inclinar enquanto ele mesmo rugia de dor. O suor pingava pelo seu corpo e o braço ficava dormente, mas ele precisava golpear o homem, pois se cedesse ali, poderia ser o seu fim.
A mão oposta do inimigo subiu e foi direto para o pescoço de Isaac. Parecia tão pequeno e frágil, preso entre os dedos grossos e ásperos do medrockiano. Os olhos do rapaz esbugalharam e ele sentiu o ar sumir, a visão começou a ficar turva e pontos negros surgiam enquanto ele ouvia o barulho da confusão em volta e a gargalhada do homem embaixo de si.
Não podia morrer ali… Não podia…
O riso cessou e o inimigo engasgou quando Isaac usou o pouco da força restante para fazer o golpe surpresa. A mão esquerda foi direto para a outra adaga que escondia do lado oposto do cinto e foi em direção ao rosto do medrockiano, afundando no olho dele e rasgando até um pouco abaixo do nariz.
O homem soltou Isaac de imediato e jogou a mão sobre a face, gritando e contorcendo-se de dor, a adaga de Isaac ainda presa no local. O garoto foi arremessado para o lado e teve que rolar rapidamente quando um outro jogava-se sobre ele com a espada erguida. Pôs a mão no chão e impulsionou-se para ficar de pé, correu até o inimigo que ainda retorcia-se do outro lado e puxou dele a espada. Isaac girou e abaixou-se, enfiando a lâmina na cintura do infeliz que vinha atrás dele, retirou a espada novamente e enfiou-a no peito do homem, vendo-o cair duro na terra.
Logo um baque surgiu em suas costas, derrubando-o de surpresa no chão, seu rosto indo direto para a terra dura, causando ardência em seus olhos e nariz. Seus músculos retorciam de dor pelo golpe e ele espalmou suas mãos no solo para erguer-se um pouco, virando a cabeça para ver de onde vinha aquilo.
O barbudo estava de pé atrás dele, o peito subindo e descendo com força, a adaga ainda cravada no olho e o sangue escorrendo pela bochecha e deslizando pelo pescoço até ensopar o peito.
— Eu vou matar você — o homem rugiu lentamente e andou até onde Isaac estava — com sua própria arma. — Puxou a adaga do próprio olho, a boca retorcendo-se de dor e o glóbulo vindo junto com o grunhido que ele dava com o ato.
Isaac sentiu vontade de vomitar e não sabia como o homem conseguia fazer tal coisa, mas não era de admirar, visto que Medroc tinha modos insanos de treinar seus guerreiros.
O homem jogou-se sobre Isaac, mas o garoto pode ver a cabeça dele quase ser arrancada do corpo quando espinhos de ferro da estrela da manhã vieram de um golpe à direita, levando consigo um pedaço da carne do rosto dele. Em seguida, uma espada surgiu na garganta do inimigo, enfiada por trás até que estivesse transpassada completamente no pescoço dele. O barbudo caiu duro como uma rocha, e Isaac conseguiu avistar Klaus com uma pequena inclinação no lábio, segurando a estrela da manhã com a mão direita — o sangue do homem cobrindo toda a esfera — e Rhestor com um sorriso de orelha a orelha, mostrando todos os dentes com a espada ensanguentada na mão.
— Quem ia morrer com a arma de quem mesmo? — O homem arqueou a sobrancelha para o medrockiano morto no chão e voltou a olhar para Isaac, sorrindo. Klaus balançava a cabeça ao seu lado e rolava os olhos enquanto o garoto finalmente voltava a respirar.
— Achei que tinha dito que ia me cobrir? — Isaac gracejou, levantando-se quando Rhestor estendeu a mão para ele, dirigindo a pergunta para Klaus.
— Eu estava ocupado — ele respondeu simplesmente, voltando a seu aspecto sério. — O importante é que cheguei a tempo.
Isaac balançou a cabeça e sentiu vontade de apertar a mão do homem, mas algo lhe dizia que ele não seria tão receptivo assim, por isso, só agradeceu e voltou-se para Rhestor.
— Acabou? — Isaac perguntou, vendo outros homens do seu grupo se aproximarem e um emaranhado de corpos no chão.
O sorriso de Rhestor sumiu e os olhos se escureceram, a espada coberta de sangue foi embainhada novamente e um outro guerreiro se aproximou entregando a ele uma outra espada. Rhestor segurou-a e entregou-a a Isaac, era dele, a que havia caído no meio do combate.
— Dois nossos se foram e temos um ferido gravemente, porém não fatal. — Klaus respondeu. — Perdemos três cavalos também.
O ferido era o homem que havia levado a primeira flechada, Klaus explicou que Lhector, curandeiro do grupo, já estava tratando o homem. Os outros dois mortos haviam sido retirados do campo da batalha e já estavam cobertos pelo manto.
Isaac não ousou dizer muita coisa, mal conhecia quem havia morrido, mas para aqueles homens, com certeza, era uma perda considerável. Por isso, ele suspendeu o restante da caminhada para queimarem os corpos, em honra a vida perdida por um bem maior.
A torre estava ao lado, imensa e chamando por Isaac, contudo, ela teria que esperar. O silêncio cobria quando um dos homens fazia uma oração. Todos eles empunharam a espada para o céu e rugiram algum tipo de mantra, no qual Isaac sentia-se um pouco constrangido, como se estivesse intrometendo em algo que não fazia parte. Porém respeitava aqueles homens e honrava o sacrifício feito para a missão, por isso, aguardou, e quando o ritual fora finalizado, Isaac sentiu que os olhos dos homens voltaram para si com um brilho maior devido a permissão que ele havia dado para o lamento dos corpos.
Poderia ser algo simples, os homens de tinham forças suficientes para se rebelarem contra Isaac caso ele não lhes desse esse momento. Mas eles seguiam ordens, e o fato de Isaac compreender o quanto precisavam disso, concedeu o respeito deles mais do que o esperado. E, naquele momento, Isaac soube que eles lutariam não só por , mas por ele também.
No fim, o grupo acompanhou Isaac até a torre. Klaus pediu a dianteira para verificar o local e foi na frente, seguido por Rhestor, que fazia a guarda. Apesar de ser dia, o interior do lugar era escuro, todo de pedra e musgo, as escadas eram curtas e pareciam infinitas. Alguns dos guerreiros ficaram no térreo para montar a guarda e alguns arqueiros pararam pelo caminho, recostando-se nas janelas que iam encontrando a fim de manter a vigília.
Isaac caminhava no silêncio com os homens, até ouvir um grunhido e um barulho escada acima. Rhestor jogava no chão um homem morto enquanto passava a mão por sobre o seu cabelo castanho. Um gesto simples e tranquilo.
— Achei escondido atrás da porta — explicou-se e deu de ombros, voltando olhar para frente e seguindo Klaus. — Covarde — sussurrou sobre o moribundo.
Continuaram caminhando, as pernas doendo com a escadaria infindável. O local era quente e abafado, um dos homens atrás estava pálido e claustrofóbico e haviam perdido a conta de quanto tempo subiam ali. Quando a luz começou a expandir e uma brisa leve vinha dos corredores, chegaram ao topo. Havia ali alguns arcos e flechas jogados, mas nem sinal de homem algum, o que levou-os a deduzir que haviam acabado com todos.
Os homens deram espaço para que Isaac passasse e caminhasse até a grande janela da torre, deslocando seu corpo na abertura para analisar o terreno exterior. O vento era forte no local, estava muito alto, já não bastasse a altura do penhasco, a torre era imensa. O filho de Cameron parou ali ao mesmo tempo que Klaus se aproximou, seguido por Rhestor e os outros. Isaac achou que talvez estivesse delirando, sua boca secou e suas mãos apertaram nas pedras duras da beirada onde segurava.
— Santo Deus, me diga que não sou só eu que está vendo aquilo? — Rhestor murmurou e uma veia estalou na mandíbula apertada de Klaus.
— O que isso significa? — Isaac virou para o líder e perguntou, ainda que no fundo soubesse a resposta.
— Que Garret pode ser mais esperto do que imaginamos.
Isaac apertou os olhos e abriu-os novamente, pronto para ver os inúmeros homens que estavam no terreno abaixo do penhasco. Eram vários esquadrões, prontos para o ataque, já longe da direção do castelo.
— Sem chance de Garret ter se confundido e achado que nossa rainha atacá-lo-ia por ali, não é?
Klaus apenas passou um rabo de olho para o amigo, enquanto Fithos, um outro guerreiro entrou na conversa.
— Uma emboscada. Ainda que e destruam o exército medrockiano, Garrret terá outro enorme em cima deles quando menos esperarem.
— O caminho que eles seguirão sairá pela lateral do nosso exército, na pior das hipóteses, pelo menos poderemos recuar, isso é, se tivermos forças suficiente enquanto formos seguidos. Agora, se parte do exército se mantivesse recuado, poderíamos contra atacá-los por trás, quando pensarem que nossas forças estivessem se acabando. Nosso exército também é grande, pelo menos não seríamos pegos desprevenidos. — Rhestor opinou.
— Como conseguiram tantos? — Klaus murmurou baixo, observando o interminável exército de Medroc, que parecia um grande formigueiro ali de cima.
— Isso não é uma guerra ao acaso, o rei Garret só pode ter preparado isso há muito tempo. Talvez muito antes do que imaginamos — comentou Rhestor. — Vamos ter que voltar — Isaac falou e sentiu um pedaço do seu coração morrer. — A rainha precisa saber disso para se preparar.
Rhestor era o cara que confiava para armar os planos, Isaac sabia disso. Se ele estava dizendo tais coisas e se havia ainda uma esperança, então eles tinham que ajudar de alguma forma.
Mas
Sua deusa…
Ela ainda estaria presa no castelo, sofrendo sabe-se os céus o quê.
Isaac quis morrer naquele instante. Ele enterrou as unhas nas pedras e sabia que aquilo doeria mais tarde, sua coluna se curvou enquanto ele se maldizia e olhava ao mesmo tempo para o grande exército de Medroc.
— Senhor — Klaus o chamou, tirando-o momentaneamente da sua miséria. — Posso dar uma opinião?
— Claro. — Isaac quis rir amargamente por dentro por um instante. Claro que ele poderia falar qualquer coisa, ele era a merda do homem mais importante abaixo de agora que Hector estava morto.
— Não precisa que todos nós voltemos. Somos um grupo pequeno frente a um exército, não faremos tamanha diferença assim, fora que um grupo grande é mais chamativo e lento. Mande apenas alguns para voltarem imediatamente e informarem a rainha. O resto de nós estará aqui para continuarmos com a missão e salvar a sua princesa.
Isaac poderia abraçar Klaus ali naquele instante.
De certa forma, ele nunca teve tantos desejos de abraçar homens como estava tendo ultimamente. Se não amasse poderia dizer que estava imediatamente apaixonado por Klaus. Aquele homem havia salvado o dia, literalmente.
Isaac se conteve para não deixar o sorriso crescer em seu rosto, precisava se manter sério.
— Quem são os mais rápidos?
Klaus falou o nome dos homens e não muito depois, estavam todos fora da torre novamente. Cinco foram escolhidos, os cantis haviam sido enchidos novamente e buscaram os cavalos mais jovens e fortes para aguentarem o retorno. No fundo, o restante levantou orações para que tudo corresse bem e os homens chegassem a tempo.
— O resultado dessa guerra talvez dependa de vocês. — Isaac passou por eles, dando um cumprimento a cada um. Eles acenaram, sabendo do peso da responsabilidade e partiram.
Os cavalos cavalgaram rapidamente e logo já não se avistava nenhum deles. Isaac girou para os homens que ficaram, todos em posição, prontos para o próximo comando.
— E agora? — o rapaz perguntou a Rhestor, e o homem puxou o seu mapa do alforje, deslizando o dedo para os riscos que indicavam o caminho.
— Para o vale Obscuro, devemos seguir a direita, descer o penhasco e fazer o contorno por aqui — apontou para o local no mapa — para desviar do caminho do exército de Garret.
Isaac deu um salto e subiu em seu cavalo, Klaus fez o mesmo e apoiou-se ao seu lado. Os homens, um a um, foram montando e enfileirando, fazendo a formação. Estavam prontos para a continuar a missão.
— Que os céus guardem os nossos irmãos no caminho até rainha. Quanto a nós… Vamos salvar a princesa!



Capítulo 37 - Parte I

A noite passada havia sido atormentada para . Ela dizia para si mesma que era por , pela guerra… Mas o seu interior também tinha conhecimento que parte era por . Ela não o encontrou no outro dia, após o momento que tiveram na tenda. Enquanto caminhava por entre seus homens, conversando com os capitães e líderes dos pelotões, não conseguiu se impedir de ter os olhos vagueando e procurando o general, não encontrando-o em lugar algum.
No início, achou que apenas tinha o perdido de vista frente ao numeroso exército, no entanto, quando deu a hora de partir e ele ainda não havia aparecido, começou a se preocupar.
— Majestade? — um rapazinho chamou-a cautelosamente. Não era um dos soldados, mas um dos ajudantes da equipe de apoio que acompanhava-os.
virou-se para ele, aguardando o que o garoto tinha para dizer.
— O General pediu para te dar um recado — iniciou, a voz um pouco trêmula. — Ele não estará com vocês durante o dia, pediu para prosseguirem sem ele. O Rochedo disse que encontrará vocês pelo caminho.
— O general — repetiu lentamente — disse isso para você?!
— Sim — o menino confirmou, engolindo em seco. — Ele se foi logo cedo e mandou-me para que desse o recado para a senhora. Por favor, Majestade, não me puna, sou apenas o mensageiro.
não sabia o quanto a sua expressão estava assustadora até perceber o medo no rosto do menino. Ela deu um aceno, dispensando-o, antes que ela descontasse a sua raiva em quem não tinha nada a ver com isso.
O que estava pensando? Isso tinha a ver com algum esquema tático ou havia fugido dela?
Depois da noite anterior, o mínimo que ela esperava era que ele pudesse dar um recado desse cara a cara. A não ser que ele soubesse que ela o impediria.
não sabia se ficava assustada com isso ou brava. De uma forma ou de outra, não poderia atrasar a caminhada e nem mandaria ninguém atrás de . Ela não era a babá dele e ele deveria saber o que estava fazendo. Não podia gastar energia nisso agora, nem mesmo a dos seus homens.
O sinal foi dado por ela e seu exército voltou a caminhar, seguindo rumo a Medroc. Focou-se em prosseguir e continuar planejando as táticas com os seus homens de confiança. O sol estava aberto e brilhante, ressoando todo o seu calor e deixando-os ainda mais cansados pelo percurso. Já era perto do meio dia, quando pararam para comer e finalmente viu se aproximar. Ela optou por ignorá-lo, sem querer que a bandeira branca que haviam estendido na noite anterior rompesse novamente. E no momento ela estava brava demais para poder conter o seu próprio temperamento.
— Recebeu meu recado? — aproximou-se uns minutos depois, enquanto ela apreciava um cozido de coelho.
deu um aceno com a cabeça e continuou a comer.
O general encarou a mulher e soltou um pequeno suspiro imperceptível, já esperava essa reação. A noite anterior havia sido inesperada, conflituosa e reveladora para ele. Muitas perguntas novas estavam na ponta da sua língua, ao mesmo tempo que outras saídas se revelaram à sua mente. Coisas que ele precisava fazer… havia dado um passo enorme, ele não queria que ela retrocedesse agora.
— Eu não fugi — disse a ela, sentando-se ao seu lado.
— Não imaginei por nenhum momento que o General de Ílac abandonaria seu exército, não faz parte de quem você é, . Até mesmo eu sei disso — respondeu, ainda focada em seu cozido.
— Não estou falando sobre o meu posto de general. — girou seu corpo para ela, de forma que não teve como não deixar sua comida momentaneamente de lado e focar nele.
O guerreiro não precisava dizer em palavras, apenas a sua expressão fazia saber ao o que ele se referia. Ela encarou-o, sem nada a dizer. Não mentiria e falaria que não havia pensado sobre o assunto.
— Eu precisava resolver algo…
— Não precisa me explicar, . Eu não esperava nada quando disse aquilo ontem à noite.
sabia que fazia parte da armadura dela. sempre se protegeria e o jogaria para fora, ainda mais depois de todos esses anos. Não que ela estivesse mentindo. No momento que ela fez a sua confissão, ele sentiu no mais íntimo do seu ser que era para ele e não para algo em troca. Mas, ainda assim, não queria que ela achasse que aquilo não teve nenhum valor.
— Até onde você iria pelas pessoas que você ama? — rechaçou o silêncio, fazendo com que parasse de comer novamente e um enorme vinco cruzasse a testa da mulher.
— Que maldita pergunta é essa, ? — A rainha cerrou seus dedos com força no talher. — Você sabe que eu faria tudo… — completou com força. A voz carregada de raiva pela interpelação dele.
Ela já havia dado mais do que sinais para ele que não havia limites para que ela protegesse os seus. Ainda que não soubesse os detalhes, ele deveria imaginar. Por que ele estava questionando-a?
— Eu só queria ter certeza quando a hora chegasse. — Ele levantou um pouco a mão, mas pensou melhor e recolheu-a, mantendo a distância necessária.
— Você não deveria nem mesmo questionar isso — ela cuspiu, querendo jogar todo o seu cozido nele.
— Eu vou lembrá-la disso mais tarde — respondeu mais leve e, vendo a irritação dela, seu lábio inclinou-se levemente.
Ele estava achando divertido? Estava gozando com ela?
levantou-se, sabendo que se empurrasse mais, tudo iria pelos ares. Ele era inteligente o suficiente para saber que havia um limite que até ele não poderia atravessar. Aquilo era o suficiente para ele. E foi a resposta dela que lhe deu força para fazer o que precisava. Levantou-se e deixou-a só, dando prosseguimento a sua jornada. Não evitou-a, mas também não voltaram a conversar nada que cogitasse sair da zona de conforto formado entre eles. Continuaram a caminhada trocando informações sobre a batalha, organização dos pelotões e onde passariam a pernoite.
Havia uma pequena aldeia não muito depois dali, na divisa entre os dois impérios. Iriam repousar no local, talvez a última noite em paz antes de pisar no solo inimigo e encontrar Garret a qualquer instante. ao longe observou um dos seus subordinados e, assim que o sinal foi dado, ele afastou-se disfarçadamente, misturando-se com outros soldados até que estivesse longe de e um pouco mais longe dos homens, o suficiente para poder trocar algumas informações com um deles.
— Achou o que pedi? — murmurou, sem olhar para ao lado, como se nem conversasse com um dos seus espiões.
— Na aldeia — respondeu, balançando a cabeça.
— Bom… E as coisas? Providenciadas?
— As mulheres estarão esperando da forma que me pediu. Falei das suas preferências, elas atenderão perfeitamente.
deixou subir levemente o lábio, mas logo se recolheu.
— Ótimo. É a última noite, façam valer a pena.

*

Já era de tarde quando mandou que arrumasse o acampamento para a pernoite. Sua tenda já estava armada, ela ansiava retirar o escudo e as roupas pesadas, banhar-se um pouco e esticar suas pernas. Seu corpo estava grudento de suor e poeira, os fios de cabelo duros e amarrados em um nó. Os dedos dos pés latejavam, por isso logo que abriu o tecido para entrar no aposento, abaixou-se e arrancou a bota, jogando-a de lado antes de se deparar com cinco mulheres no seu espaço.
— O que fazem aqui? — O corpo da rainha se empertigou e ela arqueou a sobrancelha, deixando seu semblante duro perante as servas desconhecidas ali.
As mulheres se inclinaram em reverência e uma mais velha deu um passo à frente, ainda com os olhos fitados no chão.
— Vossa Majestade, fomos enviadas para servi-la. Somos da aldeia Tratonec, não muito longe daqui, cada uma de nós temos nossas especialidades e estamos prontas para atendê-la na sua última noite antes que passe para as terras Medrockianas.
passou o olho por sua tenda, um aroma floral delicioso cobria o lugar, contrastando com o seu próprio cheiro de sujeira e suor. Haviam ramalhetes por todo o lugar e o incenso afundava em suas narinas. No canto direito, uma banheira improvisada, se é que podia se chamar disso. Era mais um grande barril e baldes de água em volta cheio de pétalas. Haviam toalhas limpas e tecidos que ela tinha certeza que não havia trazido consigo para batalha.
A pele de estremeceu ao pensar em um belo banho e descanso, mas não compreendia o que estava acontecendo, não poderia se dar ao luxo… ainda.
— Quem enviou vocês? — perguntou, enquanto rodeava pelo local, haviam sabões e cremes, até mesmo um espelho.
— Viemos para servi-la e prepará-la para a última festa, Majestade.
— Não foi essa a minha pergunta. — virou novamente para as mulheres, vendo-as engolir em seco. — Quem enviou vocês e de onde veio tudo isso? — Apontou para as especiarias espalhadas pela tenda.
— Viemos pela manhã na charrete, recebemos ordens, Majestade. — A mais velha tomou a dianteira das respostas. — Pediram que tivesse tudo de bom que pudéssemos oferecer, a senhora é a rainha, não deve cheirar a estrume na grande noite, perdoe-me se ofendi. — Franziu um pouco o nariz, porém, não recuou.
As mãos de se apertaram com a evasão da mulher, por mais que quisesse desfrutar de tudo aquilo. Ela nem mesmo queria ir para a noite de hoje, apenas deitar e ficar sozinha o quanto pudesse, sem ter que se despedir de ninguém. Além disso, não era uma grande noite, apenas mais uma fogueira e bebedices dos homens em pré-guerra, ela mesma não precisava de nada daquilo.
— Creio que estou agradecida pelos seus favores, senhora… — Indicou para que a mulher dissesse o seu nome.
— Tany.
— Tany — repetiu o nome da mulher. — E por isso, e somente por isso, te darei a última chance antes que eu mande todas vocês voltarem para casa. A mando de quem estão aqui?
A senhora olhou para apenas levemente, sabendo que não teria como guardar o segredo de sua rainha, por mais que tivesse dado a sua palavra. Era a afinal, ele deveria saber que ela arrancaria a informação sobre si.
— O Rochedo, Majestade. Foi em nome dele que viemos.
levantou em um supetão com a informação e não soube o que sentir. Confusão? Fúria?
Deu às costas para as mulheres e partiu em marcha da forma que estava, descalça, e foi em direção a tenda que sabia que era a dele. Abriu sem cerimônias, topando com apenas de calça, seu torso sujo e brilhoso de suor exposto e um leve sorriso ao ver que era ela ali.
— O que significa isso? — atacou, focando seus olhos no rosto dele.
olhou de um lado e de outro, seus olhos indo até a sua armadura e a camisa jogada ao chão.
— Eu ia me trocar agora.
deu um passo à frente e ergueu a mão com raiva.
— Não brinque comigo, , nós não voltamos a adolescência quando você me provocava, ou voltamos? Eu quero saber por que tem cinco mulheres na minha tenda, prontas para me servir?
deu um passo para mais perto, frente a frente com ela. Sua mão ergueu devagar até tocar o braço de , seu polegar esfregando na sujeira que estava impregnada ali até que ela desaparecesse. As palavras que ela havia dito quando ele fugiu anteriormente vieram como uma bomba em sua cabeça e foi incapaz de não tocá-la naquele instante, mas precisava também dizer o motivo de tudo aquilo.
— O que está disposta para salvar aqueles que você ama? — perguntou ele, subindo seu dedo levemente na pele dela.
sentiu seu corpo retesar e arrepiar, o gesto a pegou de surpresa, mas ainda não era suficiente para a abrandar.
— Isso novamente? — retrucou.
— Você disse “tudo” — continuou, passando os dedos para cima e para baixo do braço dela, sem conseguir se conter. — Me lembro que falou hoje pela manhã.
O coração de caiu e ela endureceu, a tristeza a consumiu de uma forma que doeu mais do que quando se decepcionou com Jeffrey. notou, porém não entendeu, não até que ela abrisse a boca e o surpreendesse.
— Não trocarei favores sexuais com você. Não acredito que justo você me pediria tal coisa.
A mão de caiu imediatamente dela e ele deu dois passos para trás, horrorizado.
— Eu não… — gaguejou com o susto de suas palavras e percebendo como o olhar dela estava ferido. — … — sussurrou. — Eu jamais exigiria isso de você a troco de nada… Nada!
A rainha sentiu um leve suspiro, mas ainda não estava tranquila, seu coração batia forte, um nervosismo fora do comum diante da situação.
iniciou, mas agora estava perdido diante do que ela havia dito, as palavras que havia pensado durante todo o dia para dizer a ela tornaram-se confusas.
Ele achou que poderia encontrá-la e falar o que queria de forma prática e formal, e aceitaria. Afinal, fazia sentido. Porém ao vê-la ali na sua tenda junto com as lembranças da última declaração, fez com que agisse fora de razão e a tocasse, fazendo com que a rainha pensasse na pior opção possível. Não poderia imaginar o que ela acharia se ele tivesse falado o que tinha preparado para dizer ali! Teria sido terrível.
Mas é claro que ela ainda estava ferida. Depois do que provavelmente teria passado, ele deveria ter pensado melhor. Ela já havia sido moeda de troca tantas vezes… Só de pensar nisso uma raiva sobrenatural se apossava dele, uma vontade avassaladora que tivesse sido mais esperto no passado, até mesmo talvez sequestrado-a, desde que ela não tivesse que passar os horrores que viveu no castelo, ainda que ela tivesse o rejeitado. Nenhuma mulher merecia passar por tal coisa.
Agora ele teria que refazer todo o seu discurso. Não sabia o que dizer para que ela não se sentisse usada novamente ou pensasse que ele queria tomar algum proveito sobre ela. Não era isso, jamais pensaria tal coisa se não fosse a situação em que eles se encontravam. E ele nunca, nunca e nunca a tocaria sem a sua permissão ou mesmo induziria tal coisa.
No entanto, para ocasiões desesperadoras, medidas tão desesperadoras quanto precisavam ser tomadas, e talvez essa fosse a única saída para manter em segurança. Por isso, com um grande dane-se e algumas maldições saindo de sua própria boca, decidiu se dispor da sua capa e sua armadura interior, novamente, mesmo que tivesse se fechado há anos, mesmo que essa mulher a sua frente tivesse o machucado de tantas formas… Ainda assim, teria que se abrir e expor, sabendo que provavelmente fosse a única forma que o ouvisse.
— Eu sempre te amei, não acho que seja novidade para você — iniciou. — Amei e te odiei depois na mesma intensidade. Te amava e odiava te amar. Odiava o que me causou, odiava que você tivesse roubado meu coração e pisado de tal forma que tivesse me destruído. Eu nunca me reergui, . Cresci como homem, persegui um sonho, mudei muitas coisas, mas isso aqui — tocou em seu peito — nunca mais foi o mesmo. Eu pensei que nunca conseguiria ter sequer um vislumbre do que era amor novamente até você me contar sobre . Ali eu senti uma faísca, algo como uma cola que reestruturava de novo os cacos do meu coração. Era como… sentir vivo de novo.
Suspirou e passou a mão no rosto, olhando para ela e percebendo o tremular dos seus cílios e um prender de leve da sua respiração.
— E quando eu achei que talvez minha vida pudesse fazer sentido de novo, eu a perdi e me senti no fundo do poço mais uma vez. E eu te odiei ainda mais, . Porque você me escondeu, porque eu nunca soube que poderia ter essa esperança. E sabe o que mais? Eu te odiei porque saber de me fez lembrar do tempo que eu acreditava no nosso amor, me fez perceber que apesar de você me amar ou não, da minha parte pelo menos brotou esse sentimento genuíno e foi isso que formou a nossa menina. — Os olhos dele se encheram de água.
mordeu o lábio, contendo-se. Piscou uma e outra vez e segurou, seu coração doendo tanto que parecia que iria explodir.
— Foi amor, . Ela foi feita com todo e completo amor — sussurrou quase inaudível e balançou a cabeça passando a mão no rosto para tirar uma rápida lágrima que caiu sem a sua intenção.
— A verdade é que… por mais que eu te odiasse, , o amor sempre esteve ali… no fundo, ocultado com toda a minha dor. Por isso que doía, por isso foi tão desastroso. Se eu não te amasse, todo esse ódio não teria razão. Eu teria conseguido seguir em frente e formado uma outra vida para mim. Mas nunca consegui porque eu me apeguei a todas as boas lembranças e na incredulidade de tudo o que aconteceu depois. — Inspirou profundamente. — Eu ainda te amo, … a verdade é essa. Mas ainda há muita dor e eu não estou dizendo isso porque quero algo em troca ou mesmo porque espero qualquer coisa. Eu jamais te diria isso em outro momento, eu preferiria levar minhas palavras ao túmulo do que ter que dá-la para você outra vez. No entanto, é necessário que você saiba disso antes que eu te peça algo, para que você entenda que não quero usá-la e não tenho nenhuma ou qualquer má intenção da minha parte. Eu nem espero nada, na verdade.
queria dizer tantas coisas para ele, havia tanta mágoa e dor… Queria explicar tudo, mas estava estática diante de tudo que ouvia. Era um mar de sentimentos tão fortes que machucava e ela quis voltar a ser aquela menina, se embrulhar e chorar até o dia amanhecer.
— Você me contou todas as leis e tradições um pouco atrás e falou que estaria disposta a qualquer coisa para salvar a quem ama. Neste caso em comum, . Repito, eu quero que saiba que jamais pediria isso a você em outras condições. Na verdade, se nosso passado fosse outro, eu lhe pediria mil vezes. Contudo, hoje, não quero te forçar, então pode negar se quiser… Eu apenas pensei que poderia ser uma solução viável diante…
, só fale, por favor, está me deixando nervosa. — cortou, sem conseguir esperar mais.
— Tudo bem. — Respirou fundo e deu um passo novamente para perto dela, suas mãos tremendo e sem vergonha alguma de mostrar isso naquele instante. Segurou as delas e levou-a para cima, até a altura do peito. — Case comigo, . Case comigo essa noite.
— Como? — estremeceu.
— Você disse que através do casamento o filho bastardo pode ser legitimado, assim como foi com Cameron — tentou explicar. — … Nós podemos morrer amanhã. Não sabemos como será para depois. Se ela estiver amparada, as chances de sua vida ser preservada é muito maior. Além disso, ainda que ela obtenha o perdão real, não é justo para nossa menina. Por que receber apenas a custódia do castelo quando ela mesma pode governá-lo? Há alguém que você confie mais do que entregar a coroa nas mãos da própria filha? Prefere que outro tome as decisões por ela? Luigi ainda é uma criança, ele nem poderia fazer nada.
entendia, mas isso não tornava tudo ainda menos chocante.
Não era como se nunca tivesse pensado nisso, por várias vezes sua mente havia refletido como seria mais fácil se e ela apenas tivessem ficado juntos. No entanto, o caminho que eles percorreram até ali tornou-se tão impossível e inviável que nem mesmo a cogitação de tal coisa se passava como possibilidade. E ela não conseguiria levar mais um fardo para , não depois de tudo que havia causado a ele.
Contudo, agora o próprio fazia essa proposta e ela estava tão estática que não sabia o que dizer.
Deveria aceitar?
Era viável e fazia sentido. E além disso, poderia morrer amanhã mesmo e nada mais teria o seu controle. O que seria de e do seu próprio império?
Não seria por amor, esse sonho encantado já havia zarpado há muito tempo. Mas ainda seria e ela confiava nele. O objetivo dele não era apossar do seu corpo ou mesmo tornar-se rei de Ílac. Era apenas por . Não era nem mesmo por perdão. Talvez ele mesmo nunca a perdoasse, nem mesmo quando soubesse de tudo. Mas… ainda assim era válido. E possuíam tantas pessoas ali que os boatos voariam rapidamente mesmo que morressem no outro dia.
viu a mulher quase em pânico na sua frente e recuou. Não queria forçá-la a algo, era uma sugestão. Ele mesmo teve que pensar bastante até decidir que isso era o mais sensato, por isso aproveitou o dia para providenciar o que fosse necessário, sabendo que não teria tempo para conversar com antes que fosse tarde demais e perdesse a última oportunidade. Ele compreendia que ela estivesse em choque e até mesmo se ela não topasse. Mas desejava que ela dissesse sim, ainda que seu corpo inteiro tremesse com a possibilidade dessa resposta.
— Você não precisa aceitar… — tentou voltar atrás, sentindo-se estúpido pela proposta. Jamais deveria ter dito isso a ela, talvez nem mesmo precisasse disso, poderiam contar com a sorte que o segredo se mantivesse. Rezaria por isso.
— Eu aceito — a rainha respondeu, recuperando-se de toda atordoação.
se enrijeceu, sabendo que precisava dessa armadura para lidar com o turbilhão de emoções que corroíam sua alma.
— Tem certeza? — perguntou, cautelosamente.
Ela tinha? acreditava que sim.
— Nós devemos fazer isso. É o mais viável. É uma boa proposta, — respondeu com tanta simplicidade que ele se chocou, contudo, não quis tentar entender muito, antes que tudo pudesse ir pelos ares.
— Então é isso. — Ele engoliu em seco levemente, a força da situação caindo sobre si. Haveria um matrimônio, e ele… Quem diria!
não conseguia ficar ali por mais tempo, precisava se retirar, pensar, colocar sua mente em ordem para que pudesse estar pronta para enfrentar todas as pessoas que presenciariam esse momento. Virou e se dispôs a sair da tenda dele com menos rapidez que queria, mas precisava manter uma pose, pelo menos.
— Onde vai? — perguntou, pensando que talvez quisesse conversar com ele antes, acertar algum termo ou algo assim.
— Para minha tenda. Tenho um casamento para me aprontar. — Olhou para ele por um segundo e se retirou, sem conseguir compreender como havia conseguido chegar até essa situação.



Capítulo 37 - Parte II

piscou uma última vez, antes de se colocar de pé e sair da tenda. Seus braços e mãos estavam pintados com os símbolos de Ílac. Ela vestia um vestido glamoroso. Não como os seus do castelo, mas, pela primeira vez, ela sentia que era perfeito para o que estava prestes a fazer com .
Por incrível que parecesse, não estava tensa. Pelo menos não por esse motivo. Pensar no guerreiro não trazia aflição. De tudo, se pensasse em um mundo alternativo onde tudo desse certo, saíssem vivos e acabasse a guerra, ela lidaria com ele depois. jamais seria um novo Jeffrey em sua vida, disso ela tinha certeza.
As criadas estavam no fundo da tenda, seus olhos brilhando em direção a ela. não sabia como era a sua imagem, mas com a dedicação que as mulheres tinham tido sobre si, duvidava que estaria mal.
Virou para a porta, ouvindo o alvoroço do lado de fora. Seus passos foram comedidos, lentos, porém firmes. Uma capitã, parte do seu pelotão e que fazia a guarda ali no momento, abriu para ela. olhou para fora, vendo todos seus homens e cidadãos da aldeia próxima reunidos em volta. Eles deixaram aberto um corredor, formado pelos soldados do mais alto escalão da tropa, cada um segurando um objeto em mãos e ao final… , o grande guerreiro. Seu cabelo e barba levemente aparados e bem vestido, com a flor da esperança em mãos.
Foi o único momento que vacilou, mas foi tão mínimo, que ninguém poderia perceber, além do seu futuro marido, claro, que conhecia-lhe além do que ela desejava.
começou a andar e a cada passo que dava, a fileira dos soldados de cada lado se ajoelhava, estendendo o presente em mãos. Era um rito de Ílac que ofertas fossem dadas aos noivos, símbolos de Ílac como força, amor, longanimidade…
O soldado abaixava-se, dobrando-se sob um dos joelhos e depositando ao chão o presente. Havia um bracelete de ouro, símbolo da prosperidade, um pedaço de lã, como oferta de fartura, e assim por diante, um a um, até que tivesse passado por todo longo corredor e estivesse de pé frente a , que parecia literalmente como o Rochedo em sua expressão, mas tinha o pulmão subindo e descendo, mais rápido do que o habitual.
Quantos sonhos de menina ela havia tido sobre esse momento? Mas haviam sido como pó, tão frágil, logo espalhado e dispersado com o vento chamado vida.
Encarou os olhos daquele que um dia teve todo o seu coração e viu sua garganta subir e descer e um leve endireitar do seu corpo. Ela achou que não ficaria nervosa, mas estava. As lembranças vinham pipocando como um maremoto sem controle, despedaçando tudo que encontrava em seu interior. O corpo vacilou por um momento, mas ao focar em , vendo talvez o mesmo desespero emocional que o seu, ajudou que continuasse a caminhar, passo a passo, em direção da única pessoa que poderia confiar.
Mirá-lo era a única coisa que fazia apagar todos à volta, era o que a fazia esquecer que o motivo de estarem fazendo isso ia além deles. Que talvez em outras circunstâncias, o sonho nunca aconteceria.
Tantas coisas morreram, tantas coisas foram derrubadas ao chão, mas aqui estavam eles novamente, juntos, numa mesma missão.
Quando chegou ao último passo, não haviam soldados, ou aldeãos… Era ali e, por um segundo, era real. Era o amor do passado, mas era também o futuro, independente do que pudesse haver entre eles. E por mais falso que pudesse ser o que fariam ali, o sentimento era tão real que doía cada uma das suas entranhas.
ergueu a mão e pegou a dela, com ternura trouxe até os lábios e depositou um pequeno beijo, sem deixar que seus olhos escapassem de . Como poderia os anos passarem e ainda fazer tudo tão intenso e avassalador? tremia cada grama do seu ser, ainda que tentasse ficar estoico do lado de fora. Mas no momento que a mulher de cabelos negros parou em sua frente, ele tinha certeza que todos haviam percebido.
Não era o protocolo, mas não conseguiu soltar a mão dela. Estavam nisso juntos. Era por , ela era o elo que os unia ali, mesmo sem sua presença. O fruto de uma união fazendo com que essa mesma união se selasse novamente.
Ambos viraram-se em direção ao sacerdote que aguardava-os. O silêncio espalhou-se pela multidão reunida e o homem ressoou uma oração, que foi acompanhada pelos presentes. O temor espalhado na alma de cada um que assistia. Não era apenas um casamento, mas era a mulher tão idolatrada e amada pelo povo, junto com o guerreiro mais temido e respeitado. As duas almas mais potentes de Ílac juntas.
As pessoas poderiam não entender nada do que se passava ali, não faziam nem ideia de que ponto havia unido esses dois, mas fazia sentido aos olhos terrenos; e ter os dois de mãos dadas ali trazia um ímpeto nos corações das pessoas, a intensidade do momento abalando cada coração.
O sacerdote ergueu as escrituras, recitando os versículos sagrados. Após alguns minutos, entregando a palavra do Divino, ordenou que o casal se virasse para prosseguir com as declarações.
respirou fundo frente a frente para , seu coração saltando pela boca, ergueu as mãos e colocou por cima das do Guerreiro, que estavam estendidas em sua direção. Ela controlou um pequeno sorriso ao notar que a palma dele estava tão úmida quanto a sua, o que aliviou um pouco a situação. Não tinha porque temer, esse era o seu . Uma versão mais robusta e empedrada, mais séria e machucada. Mas ainda era ele. A pessoa que nunca a machucaria intencionalmente, que a enxergou mais do que qualquer um.
— Eu, , rainha de Ílac, aceito este homem, , O Rochedo, General do meu exército e homem a quem confio, como meu esposo para ser o meu companheiro e ajudador. Que você ande os meus passos e me acompanhe no meu destino. Te prometo o meu coração, a minha força, a minha proteção e toda minha verdade. — Os recitais haviam sido adaptadas, mas ela era a rainha, ela podia. E ela queria dizer isso a ele, uma promessa real do que entregaria com o selo desse casamento.
Ela sentiu a mão de tremer um pouco mais ao finalizar a sua declaração, ele fechou os olhos brevemente, quase como uma longa piscada e abriu-os para acariciar o seu polegar na mão de antes dele mesmo recitar suas próprias palavras.
— Eu, , General do exército de Ílac, conhecido como o Rochedo, aceito como minha esposa, , minha rainha, a maior e mais poderosa mulher de todos os impérios. Confio-lhe aqui a minha alma, pois o coração sempre foi seu. Deposito minha fé e devoção e prometo estar contigo por todo o caminho, seja qual for. Estaremos juntos, para todo sempre. Que o passado seja o passado e que eu seja recebido no seu novo futuro — terminou, suas palavras saindo com intensidade diante do seu timbre grave.
piscou, tentando conter o brilhar dos seus olhos lacrimejantes, ambos se entreolhando, muitas palavras não ditas passando entre eles, além das sussurradas por enigmas ali.
O sacerdote deu o sinal, erguendo as mãos para abençoar o casal. Em seguida, a adaga foi trazida e entregue a primeiro, que deu um passo até , que tinha a mão estendida. Colocou sua palma por baixo da dele e fez um pequeno corte. O guerreiro repetiu o processo, agora na mão de e, em seguida, ambos estenderam a palma um para o outro, unindo-as e ouvindo o alvoroço do povo que gritava e cantarolavam músicas festivas em animação com a união.
Dado o sinal, empertigou o corpo, esperando o momento que ela menos queria. Lembrou-se do seu antigo casamento com Jeffrey, como ele fez questão de beijá-la intensamente diante do público, dando um espetáculo para todos os presentes. Era o que o povo queria assistir e ele queria mostrar que tinha o domínio sobre ela. Fechou os olhos, não querendo ver as risadas e nem reviver nada parecido novamente daquela situação humilhante, mas foi surpreendida quando sentiu as mãos quentes de no seu ombro e bochecha e os lábios úmidos dele na testa dela, num gesto de imenso carinho.
Ela abriu os olhos devagar, o corpo dele perto do seu, as respirações próximas o suficiente para sentir o sopro que saía do nariz do homem. Ele afastou-se vagarosamente dela, deixando suas mãos caírem até que a mão direita dele pegasse a mão cortada dela e ele a levasse até os lábios, deixando um beijo na ferida.
respirou fundo e soltou a respiração vagarosamente, o mundo ao redor sumindo novamente. Precisava sair dali rapidamente. Havia tanto que queria dizer, merecia mais do que isso. E se talvez a última coisa que pudesse dar a ele era a verdade, ela o faria. Pela primeira vez, queria que o Guerreiro se sentisse amado e merecedor de todo o amor que ele deveria ter recebido durante a vida e havia sido poupado.
Talvez fosse por isso que ignorou toda a multidão que celebrava, segurou a mão dele e puxou-o de volta ao corredor em direção de volta a tenda que passariam a noite.
As pessoas começaram a assobiar e gritar, ainda mais alto por ser a rainha a levar o guerreiro, acostumados com os homens ansiosos a levarem suas esposas para selarem a sua união.
Mal sabiam que não era nada disso. só precisava estar a sós com . A necessidade a consumia ao ponto que sentia que iria explodir. Ela tinha vontade de rasgar tudo e gritar, morrer mil vezes e voltar a vida, estraçalhar-se pelos segredos que a consumiram por tanto tempo.
Ela levou-o sem hesitar até chegarem a tenda. Alguns guardas ficariam a postos na entrada, e impediriam qualquer um que tentasse se aproximar por toda a noite. Deixou no centro do local e virou de costas, andando até uma pequena mesa que estava arrumada com um grande banquete em homenagem aos noivos. Ela tirou de lá uma garrafa de vinho e depositou o líquido em uma taça, virando o conteúdo por sua garganta de uma só vez.
olhava para a rainha confuso. Também não era fácil para ele e já imaginava que as emoções estariam a todo vapor, mas não compreendia a fundo o que se passava com ela.
— Alguma coisa errada? … Você sabe que não precisamos fazer nada aqui. — Ele deu um passo incerto na direção dela, que foi correspondido com uma risada triste e sarcástica por parte da rainha.
— Por favor, não — ela pediu, estendendo a mão.
arqueou a sobrancelha, ainda perdido.
— Não seja assim… tão bom — implorou com tristeza em seus olhos.
— ele tentou novamente.
— Não, . Eu não posso… — Parou, mordendo o lábio com força. — Eu não mereço isso. Você… Por que é assim? Por que foi me amar? — Uma lágrima por muito guardada escorreu pelos olhos dela. — Você tem ideia do quanto teve que pagar por isso?
balançou a cabeça porque ele sabia. Não seria hipócrita. Se tivesse se apaixonado por qualquer outra mulher, teria sido fácil. Teria um amor tranquilo e uma vida estável.
— Você não deveria — murmurou ela com dor.
— Quem dera se na vida pudéssemos escolher apenas os caminhos fáceis… — sussurrou. — Mas, … Eu posso ter passado pela moenda, sendo triturado de todas as formas possíveis no processo. Mas eu nunca vou poder deixar essa vida sem dizer que eu tive um amor avassalador.
não conseguiu se conter, suas lágrimas escorreram e seu corpo convulsionou com o choro por tantos anos guardados, por tudo que teve que passar, tudo que teve que enfrentar… Sozinha. caminhou até ela e a abraçou, deixando que ela soltasse do seu interior o que por tanto tempo ela prendeu.
— Eu não queria fazer isso com você, eu juro — ela falou contra o corpo dele, sua voz abafada contra sua camisa.
— Eu não entendo, .
E realmente não entendia. Para ele era uma incógnita. Hora ele pensava que ela o amava, outra hora que o odiava. A mesma mulher que havia dado o seu coração fora a que havia sido tão cruel com ele. Ela havia o expulsado, afinal, ele e a seu pai, que morreu pela doença, fome e exaustão.
se afastou levemente do corpo dele, passando a mão por sobre os olhos molhados para conseguir focar no guerreiro antes de falar.
— Eu tinha dezessete anos, não sabia o que fazer. Talvez se tivesse falado com meu pai as coisas teriam sido diferentes. Ou não. Eu tinha um casamento prometido a Henrique e tinha você… Minha mãe sabia sobre nós, . Eu não consegui pensar em nenhuma outra maneira que pudesse te salvar a não ser te mandar para longe. Era isso ou ela mandaria te executar. E eu duvido muito que Rory Buckhaim aceitaria que o filho fosse traído e trocado por um plebeu. — explicou, balançando a cabeça.
, eu… — estava sem palavras.
— Por favor, me escute. Eu quero te contar tudo. Você merece saber a história toda, . Eu lhe prometi toda a minha verdade e essa é a única coisa que posso te dar. Eu sei que não é nada e não muda o que passou. Mas eu quero que saiba porque você foi amado, . Da mesma maneira e intensidade que me amou, talvez até mais. Eu te amei e te amo com todo o meu ser e coração. Além dos meus filhos, você foi a única coisa boa e real na minha vida e se eu partir nessa guerra, eu não quero morrer sem que você saiba a verdade.
começou a tremer e teve que recuar, andou até a cama, sentando ali e colocando os cotovelos por cima dos joelhos, a cabeça apoiada nas mãos, olhando para o chão. caminhou, abalada, até ele, ficando na sua frente. Não poderia parar agora. Talvez fosse a única oportunidade que teria.
E ali, na frente dele, em meio as lágrimas e dores, soltando tudo o que lembrava, ela contou. Falou sobre as ameaças da mãe, sobre todas as torturas que levou no lugar de e das mentiras que lhe foram impostas. De como não se aguentou e temeu ao saber que ele fosse a Ocland, mas nada podia fazer para o impedir. Como haviam se amado no dia que se encontraram ainda jovens, mas não podia contar a verdade, pois saber que ele estava vivo era a única coisa ainda que a permitia ficar de pé. Colocou para fora quando descobriu a gravidez e como doeu saber que nunca poderia contar a ele. Como a mentira sobre Henrique saiu amarga nos seus lábios diante dos seus pais e a realeza de Medroc.
O chorou aumentou ao relembrar como o lugar de Henrique havia sido usurpado por Jeffrey e como sofreu nas mãos dele, feridas tantas que não poderia contar. E como entendeu que teve que ficar quieta e passar por tudo até aprender a se defender sozinha, como teve que lutar por sua vida e pela vida da filha deles para sobreviver. Como em meio a tudo isso criou seus filhos e tornou-se a rainha que é hoje, pensando não só nela, mas em todo um povo que sofreria se suas escolhas fossem diferentes.
Ao terminar, tentou respirar no meio da ofegância da sua voz e olhou para , só agora notando que ele chorava também. As mãos estavam sobre o rosto, mas ela via pingar e escorrer por entre os dedos, um soluço preso e doloroso ecoando dele, enquanto suas costas tremiam. Frente a frente, ambos tinham suas almas despidas, nenhuma cobertura ficando entre eles.
O guerreiro deixou suas mãos caírem e ele balançava a cabeça em negativa. Atordoado, levantou-se e caminhou para , as lágrimas ainda correndo por sua barba e olhando para o rosto destruído da rainha. A mão dele foi até a dela, trazendo-a para cima, até que seus olhos pudessem ver de perto a ponta do dedo arrancada, a marca que simbolizava toda a história que fora retirada das suas mãos.
Ele levou até os lábios e deixou um beijo no lugar. Sem se conter, seus lábios continuaram beijando mais e mais, ele levantou a mão dela, beijando cada pedaço da sua palma, o dorso, os dedos, o pulso… Ele queria reverenciá-la, beijar cada parte dela e tirar a dor que ela levou sozinha tanto tempo. Os beijos se misturavam entre as lágrimas dele na pele morena da rainha. Ele passou para os braços dela e subiu para o seu rosto. Os beijos passaram por cada lágrima da mulher, bebendo o sofrimento que saía da sua amada.
— Eu não sei o que, mas eu queria ter feito alguma coisa — confessou em prantos, enquanto a beijava por toda parte. — Eu não posso acreditar que te deixei passar por isso.
— Eu sei… — soluçou, enquanto era reverenciada pelos lábios de . — Não se culpe, pelos céus, não… Não há nada que pudesse ser feito. O que foi… Passou — Ergueu as mãos e colocou no rosto dele, trazendo-o para que olhasse nos olhos dela. — Você não tem culpa! — enfatizou com as lágrimas escorrendo.
não tinha palavras para responder, só sabia que se possível, amava mais ainda essa mulher do que sabia que poderia amar. Por isso, completou a única coisa que poderia fazer e que mostraria o que sentia no momento, aproximou seus lábios e beijou-a com todo o seu coração.
A boca de se abriu de imediato, correspondendo a mesma vontade que a dele, ambos consumidos pela dor que passaram e pelo amor que sentiam um pelo outro. O braço dela passou pelo pescoço de em apoio e as grandes mãos dele trouxeram o corpo dela para junto, colando seus troncos. O aperto era quase mortal, mas era como se fosse pouco. Todo espaço era muito para quem por tanto esteve separado.
impulsionou para cima e ela ergueu suas pernas e enrolou-as no corpo do seu agora marido, sem cortar o beijo por nenhum momento, ainda que bagunçado e eufórico, era tudo o que precisavam naquele instante. O guerreiro girou-os e jogou-os com cuidado para a cama que estava detrás deles, seu corpo por cima do dela, afastando-se devagar.
— Eu quero te amar — ele sussurrou para ela, deslizando os dedos pelos fios pretos e agora soltos pela cama.
— Então ame — ela sussurrou de volta, observando-o a encarar.
— Eu nunca imaginei que estaríamos nesse momento. — Ele balançou a cabeça, mais para si mesmo, uma lágrima voltando a escorrer pelo seu rosto.
— Amanhã podemos estar mortos. — levou os seus dedos até a bochecha dele, deslizando até chegar aos lábios do guerreiro. — Mas essa noite é nossa. Mesmo que nossa história dure só hoje… não há a rainha e o guerreiro. Somos só nós, . Me ame!
Ela não precisava pedir novamente, abaixou o seu corpo e selou os seus lábios com os dela, deliciando-se vagarosamente pela textura macia daquele beijo. Como se tivessem o tempo do mundo, as mãos dele desataram os nós do vestido dela, um a um, reverenciando cada pedaço de pele que ia se mostrando no processo. Um beijo sendo deixado enquanto o tecido ia saindo e largado de lado até que estivesse nua, sendo amada e adorada como merecia todo esse tempo.
Ele passou seus lábios no pescoço dela, deslizando seu nariz pela pele macia e descendo entre os vales dos seios da mulher, um leve suspiro sendo expirado. Não era nele que pensava quando sua língua percorreu o local, era tudo para , e cada ofegar que ela dava aos seus carinhos, era a resposta que ele precisava para continuar, mais e mais até que tomasse tudo dela e arrancasse cada exultação e gozo da sua alma.
Sua boca desceu até os vales mais íntimos da sua amada, passando as mãos nas coxas dela enquanto entregava o melhor que podia dar à mulher. Sentindo o corpo da rainha se remexer diante dele e os gemidos responderem a devoção que ele depositava ali, até que o ciclo tivesse se completado e todo o fôlego fosse arrancado de .
A rainha não tirou seus olhos dele, a adoração que ele emitia não poderia ser perdida e ela precisava beber todo amor que ele emitia com o seu corpo e alma. E, assim que havia ido até as alturas e voltado, ela sentou-se, pronta para fazer o mesmo com ele. Ambos mereciam serem amados e não haviam maiores ou menores ali.
o despiu e, pela primeira vez, permitiu, deixando que ela cuidasse dele, tirando cada peça de roupa e o amando assim como ele havia feito, ele agora deitado e ela por cima, deixando em seus toques e carinhos aquilo que queria ter expressado há tanto tempo, mas foi impedida. Deixando que seus lábios agissem por si, acima das palavras, mas mostrando aquilo que já não podia mais ser verbalizado. E quando ambos haviam conseguido entregar tudo de si um ao outro, puxou para cima e ela completou a ação, conectando-se a ele da forma mais física e íntima que um homem poderia se conectar com uma mulher.
Não era mais ou . Eram algo único, profundo e especial. Cada movimento que faziam, apesar de satisfazer as suas carnes, alimentavam os seus espíritos. E cada elevar da adrenalina que vinha, também trazia a cura que as almas cansadas precisavam para sobreviver. Foi por isso que ela chorou; e ele também. Não queriam que acabasse, queriam permanecer naquele invólucro eterno de amor e compaixão. Lentamente, movimento a movimento, de forma que eternizasse o momento, o casal apaixonado se entregou, permitindo-se apenas... amar.
E ao fim, quando a bolha precisava estourar e o ápice de tudo que fora construído surgiu em uma avalanche inevitável, transbordante e explosiva, só sobraram os dois, cansados, destruídos, mas saciados. E , com seu corpo jogado por cima de , sorriu. E aquele sorriso era tudo que precisava para nascer de novo algo que o guerreiro pensou por muito tempo haver perdido. Esperança. E ele sorriu de volta, deixando que as expressões por tanto tempo do seu rosto não usada desenferrujassem, dando a ela mais um pedaço seu, um pedaço que achou que nem existia, mas por , era possível. Sempre era possível. Porque esse era o amor deles. Podia não ser perfeito, mas era real. Tanto quanto duas almas que se amavam profundamente poderiam ser.



Capítulo 38 - Parte I

O sol mal tinha raiado e estava acordada, virada de lado na cama e olhando para , que ainda dormia. Seus olhos varreram o rosto do guerreiro, mais suave que já tinha visto por tantos anos, dormindo no que poderia ser o seu único e último sono pacífico.
Ela aproveitava os minutos restantes sabendo que precisavam se levantar para continuar a marchar com as tropas, sua mão percorria delicadamente os cabelos de , absorta de um carinho nostálgico ao pensar que ali, no meio daquela bagunça, era a primeira vez que eles ficaram juntos sem medo de serem pegos ou qualquer coisa parecida.
sabia que as coisas nunca seriam as mesmas. Eles estavam em iminência de morte, aproveitando o que poderia ser o último momento de “paz” de suas vidas. Se por algum milagre saíssem vivos de tudo isso, ela não saberia o que esperar. Apesar das revelações, a rainha tinha total compreensão que a dor não se apagava de uma hora para outra e, por mais que ela e tivessem transbordado os seus corações na noite anterior, eles não eram os mesmos jovens que eram quando se conheceram.
No entanto, isso não era algo que pensaria agora. Tinham que derrubar Garret, acabar com a guerra e trazer – se esta estivesse viva.
Só cogitar tal possibilidade rachava o coração de . Ela achava que tinha sofrido as maiores dores com o estupro, tortura e tudo o que passou. Mas nada se comparava a dor de perder um filho. Era irreparável.
Enquanto aprofundava-se em seus próprios pensamentos, não havia percebido que tinha acordado até sentir o dedo dele no vinco da sua testa, acariciando com o polegar devagar.
― O que foi? ― ele perguntou, sua voz ainda rouca pelo sono e os olhos levemente inchados pela noite quase não dormida de ambos.
― Apenas preocupações. ― ergueu levemente o lábio em um sorriso e o guerreiro apoiou-se com o cotovelo para inclinar-se sobre ela, iniciando um beijo lento e carinhoso, ainda movido pelas emoções que a noite havia trazido.
A mão de voou para o cabelo de e o corpo dele se ajeitou por cima do dela. O homem suspirou, ainda desacreditado de tudo que eles haviam passado.
Haviam provado e aproveitado o quanto puderam até ficarem exaustos porque sabiam que precisavam descansar para a guerra, mas ali, novamente, tudo o que queria era ter mais uma vez. No entanto, não foi possível, pois o soldado que estava guardando a porta da tenda entrou, interrompendo-os e fazendo com que o General saísse da sua posição e ambos olhassem para o intruso.
― Majestade, perdão, mas é urgente ― o homem falou, abaixando a cabeça e desviando o seu olhar para o chão para escapar da nudez do casal.
― Diga ― ordenou, puxando o tecido da cama para proteger os seus seios e sentando-se.
― Os homens do pelotão do General estão aqui e disseram que precisam falar com os dois. Eu disse que não poderia interrompê-los, mas eles foram enfáticos em afirmar que era sobre o rei Garret e a batalha.
levantou-se em um ímpeto, andando ainda nu até onde suas roupas haviam sido jogadas. O seu pelotão não deveria estar ali, mas sim com Isaac resgatando . O que tinha acontecido?
As mãos dele voaram enquanto colocava peça por peça, mal pode notar , que também tinha saído ainda sem as roupas, mas ao contrário dele, estava dando ordens para que os homens entrassem e só depois foi até o seu vestuário.
O soldado saiu para chamar os homens e voltou com eles poucos minutos mais tarde. e já estavam de pé – perto da entrada da tenda – quando cinco guerreiros entraram, suas roupas surradas e sujas e os cabelos lambidos pelo suor. Imediatamente a rainha reconheceu como sendo os que acompanhavam o General. Ele tinha ao lado dele sempre os homens mais estranhos, obscuros e assustadores. Pareciam menos com soldados e mais com espiões assassinos.
― Onde estão os outros? ― saltou a pergunta, precisando saber de imediato o que havia acontecido com o seu pelotão.
― Estão na missão, senhor. ― Um deles, o mais magro, que reconheceu por ser um dos seus mais ágeis, respondeu, fazendo uma reverência diante da rainha. ― Isaac nos enviou com uma mensagem.
― Isaac? ― questionou e inclinou sua cabeça de leve para . Sua expressão fechou-se ao ver o vinco do homem, sabendo que havia muito mais por trás dessa história. Não havia tempo para questionar agora, mas depois exigiria entender tudo isso.
― Ele está com o restante, provavelmente agora devem estar quase no fim do Vale Obscuro, minha senhora. No entanto, há algo que vimos e que precisamos informar.
― Então diga logo o que é ― retrucou, impaciente e nervosa com a situação.
― O rei Garret possui homens, muitos homens. Ele tem tropas extras vindo por outra direção, que não é o caminho convencional da batalha. Não sabemos como ele pode ter tantos, levando em consideração que a grande tropa vem pela frente.
― Pois eu sei… ― virou de costas, dando um suspiro e passando a mão por seu cabelo. ― Não me surpreende em nada. Garret deve estar planejando isso por anos, preparando seus homens e trazendo-os para o seu movimento. E Medroc nunca teve moral alguma quanto a quem deve lutar. Crianças são enviadas para o treinamento de combate desde cedo. Com a paz, um dos acordos é que essa conduta acabasse, mas, pelo visto, Garret deve ter ativado-a novamente.
acompanhava o diálogo em conflito entre ficar aliviado pelos seus homens estarem vivos e a caminho de e preocupado com a notícia sobre Garret.
― Não temos homens suficientes, Majestade, muito menos tempo hábil para mudar alguma estratégia. ― O homem disse com pesar.
― Não vamos fugir e nem recuar. Se retrocedermos agora, traremos as tropas de Garret para Ílac e inocentes morrerão. Se tivermos que ruir, ruiremos enquanto lutamos. ― replicou.
― Além disso, também temos uma contrapartida com Cameron, que poderá nos trazer alívio e oportunidade para contra-ataque. Medroc pode ter muitos homens, mas os nossos são muito bem preparados, pois eu mesmo liderei e rearrumei os treinos em todo o tempo que estive ao lado de Hector ― complementou, sentindo um pesar ao falar o nome do falecido amigo.
orou internamente para que algumas das suas estratégias surpresas dessem certo. Teria que contar com a sorte e esforço de outros, mas poderia dar certo. Não recuaria.
― Vamos levantar as tropas e marchar. Não podemos perder tempo. Devemos ficar no território de Medroc e levar nossa batalha para ali antes que eles nos encurralem em nossas terras. Vamos mantê-los o mais afastados possível do nosso povo e se o pior acontecer, estarão com os homens defasados e nossas aldeias poderão lutar por suas vidas.
Os homens que trouxeram as notícias acenaram com a cabeça e se retiraram da tenda, assim como o soldado que os trouxe. virou-se para se aprontar, mas foi detido pela mão fria de , que segurou o seu braço.
― Por que Isaac não está no castelo?
segurou a respiração por um segundo, prevendo o embate antes de soltar o ar e falar.
― Jamais conseguiríamos segurar o garoto. Ele ama a nossa filha, você acha mesmo que poderia detê-lo de fazer algo para ajudá-la?
suspirou e passou a mão por seu rosto.
― Eu dei uma ordem, . Você não pode simplesmente esperar que eu vire às costas para desfazê-las. Eu sou a rainha aqui! ― ela rugiu.
― Eu sei, está bem? ― Ele movimentou o seu corpo em derrota, acenando com a mão e curvando os ombros. ― Eu não quis tirar a sua autoridade, mas o que eu poderia fazer se o rapaz estava pronto para fugir sozinho e se matar em uma missão suicida? O máximo que eu poderia era ajudar para que seja o que for que ele fizesse, pelo menos fosse algo viável e que pudesse ajudar a nossa filha. Eu fiz o que fiz por !
― Você podia ter me contado ― ela exclamou, fechando a mão em punho. ― O que você acha que meus soldados vão pensar quando um dos seus homens chega aqui falando sobre uma missão que eu nem mesma tinha conhecimento?!
jogou-se sentado sobre a cama, abaixando a cabeça e colocando a mão por sobre o rosto.
― Você não permitiria ― ele suspirou, frustrado por toda a confusão. ― Me perdoe, . Eu não pensei em nada disso no momento, eu só tive uma solução prática no meio da tempestade que estava se formando.
― Eu não permiti que Isaac fosse conosco porque eu precisava dele vivo. Eu ainda preciso dele vivo. Se todos nós morrermos, ele é o único que poderia assumir a coroa. Luigi ainda é uma criança, qualquer um pode usurpar o seu lugar. ― balançou a cabeça em negativa. Odiava discutir com novamente, mas ela não deixaria isso passar e aquele era o último instante que teriam para conversas. Ela poderia amá-lo, mas ainda era a rainha ali. ― Eu espero que seus homens deem a vida por ele, porque no final de tudo, a vida dele está em suas mãos, é sua responsabilidade.
― Eles sabem disso. ― deu sua palavra, sabendo que seus homens fariam o que fosse preciso para salvar Isaac.
deu um aceno com a cabeça e virou de costas, caminhando até onde estava a sua armadura para aprontar-se. Começou a colocar as peças e pegar a sua espada quando resolveu parar os movimentos, mas ainda sem olhar para .
― Eu entendo o que fez ― disse baixo, mas sem suavidade. ― Você se reconhece nele. Você não pode me salvar, mas viu nele a oportunidade de salvar a pessoa que ama. Claro que pensou em , mas você também se identificou e isso foi um motivador. Mas, … Algo que você talvez não tenha entendido em toda a nossa história… Não há salvamento aqui e nem heróis. Ninguém poderia fazer nada, nem mesmo se quisesse. E se tem alguém que poderia salvar outra pessoa aqui, essa pessoa sou eu. ― A rainha virou para ele, agora encarando olhos do guerreiro direto nos dela.
A verdade poderia doer, mas era a realidade. Qualquer coisa que sequer tentasse fazer na época, pioraria tudo. As consequências seriam mais terríveis do que fora. era a única que poderia atenuar as coisas e assim ela fez.
― Eu não te julgo por ter enviado Isaac, por mais brava que eu possa estar com você no momento ― ela completou, posicionando a espada em sua cintura. ― Mas você teve dias e dias para ter me contado depois enquanto marchávamos e não contou.
― Eu errei ― respondeu, reconhecendo o insulto causado. Não havia pensando nisso, nem mesmo lembrado. Nem mesmo imaginou que algum momento essa missão poderia explodir na face deles e que poderia se sentir humilhada diante da sua posição. Mas ela estava certa e o mínimo que ele poderia fazer no instante era reconhecer.
― Sim, errou. E eu te proíbo de fazer isso novamente, sendo meu marido ou não.
balançou a cabeça e se colocou de pé, fazendo uma pequena reverência. Pela primeira vez não de modo zombatório. era a rainha e ainda que ele tivesse passado anos dizendo e vivendo com o fato que era contra a realeza, agora ele precisava entender que não era a oposição, eles estavam juntos nessa. Ele a respeitava como pessoa e também como sua Majestade e, casar com ela, não mudaria o fato que na escala de posições de poder do império, ela era a que detinha o mais alto escalão, a grande e poderosa Rainha .
Prontamente, após resquícios de silêncio e os últimos ajeitos em suas armaduras, e saíram da tenda, deixando tudo para trás. O guerreiro reordenou os soldados para formar as linhas de batalha, enquanto dava as novas coordenadas. O silêncio era mortal entre os homens, ouvindo-se apenas os barulhos das lâminas e cavalos que eram arranjados, aprontando-se para marchar.
Saíram de onde estavam rumo ao encontro de Medroc, os atalaias na frente para que pudessem ver a linha de batalha formada e dar qualquer aviso prévio possível. Passo a passo, foram se distanciando das aldeias de Ílac e foram para campo aberto, deixando um pouco a aflição de menor. Alguns pelotões foram divididos e afastavam-se, as catapultas eram arrastadas para frente e os arqueiros posicionados na retaguarda.
Os animais poderiam sentir a tensão do ambiente. De certo muitos morreriam nesse dia. A mistura tenebrosa de apreensão e excitação da batalha corroía os homens, lembrando das suas últimas despedidas, os últimos beijos e a última boa refeição.
Andavam ligeiro enquanto podiam, o suor escorrendo pelas têmporas e costas da pele dos que arrastavam as catapultas e tinham que puxar as carroças que emperram suas rodas nas pedras. Algumas ficaram para trás, quebradas ou despedaçadas. Mas já era esperado em uma viagem tão longa e puxada como essa. Ainda poderiam ter o suficiente ao chegar lá.
Caminharam e caminharam, o sol indo e voltando, escaldando e resfriando-se até um novo amanhecer, onde o primeiro pelotão que guiava chegou. Logo as trombetas soaram, fazendo todos os pelos da rainha se arrepiarem. Uma gota de suor frio percorreu a sua nuca, descendo pela coluna escondida em sua armadura. Logo o cavalo de postou-se ao seu lado. Ela sabia que era ele sem nem mesmo olhar.
― Chegamos ― o General falou em baixa voz, sentindo seu coração acelerar.
apenas acenou, ainda sem conseguir a visão completa do outro lado. Havia um vale entre eles, ela conhecia o trajeto, mas a visão matutina ainda não era o suficiente, pois o sol ainda não estava tão alto. Ela precisava se preparar, tinha que ver com seus próprios olhos antes de mandar todo o seu batalhão.
― Fique aqui ― ordenou e bateu as botas levemente na barriga do seu cavalo, que trotou com rapidez avante, seus passos misturando-se com as trombetas que ainda soavam.
Não era boba, não iria de encontro com o exército inimigo, mas foi até a ponta máxima antes da descida do vale. Um dos seus atalaias a avistou e veio correndo até ela, seus olhos arregalados em desespero.
― Eles estão lá, Majestade. ― Fez uma pausa e engoliu em seco. ― São muitos, nunca vi tantos. Olhe ― apontou para o fim do vale adiante.
Ainda era um pouco distante, mas poderia enxergar a massa escura de aglomerados de soldados. De onde estava pareciam incontáveis, como um formigueiro, mais uma prova para ela que Garret planejava isso muito antes de todos os contratempos que houveram.
― Volte e diga aos homens que se preparem. ― A rainha falou, ainda encarando os vultos dos homens de Medroc do outro lado. Um entre eles que chamava a sua atenção mais do que gostaria e que ela faria o possível para esquartejar membro por membro se chegasse a tempo, antes que ele fosse morto. ― Quando o sol iluminar o nosso trajeto, desceremos.
O atalaia, magro e de pernas compridas, sacudiu a cabeça e começou a virar, mas foi detido pela voz da sua soberana que rugiu novamente, ainda encarando o horizonte.
― E diga aos homens ― prosseguiu, seus olhos franzindo no louco que se destacava a frente daquela multidão ― que Garret, o rei de Medroc, é meu.



Capítulo 38 - Parte II

Garret poderia ter partido, mas ainda estava trancada no aposento, suja de sangue seco e com algumas gotas que ainda corriam pelos pontos mal dados em suas feridas. A língua meio inchada com o corte, prejudicava um pouco a sua dicção. Por sorte, o rei não havia ido tão adiante em suas fantasias horrendas e a manteve com seu órgão. A dor, porém, ainda era forte, assim como o nojo por seu próprio corpo impuro, sujo pelo líquido proveniente de Garret.
No entanto, esse não era o foco da sua mente. Ela havia ganhado tempo para que Ílac se organizasse para a batalha, mas aquilo ainda não seria suficiente para a traição vindoura. Ela precisava sair dali, sua mãe precisava saber a verdade o quanto antes. Deveria ter alguma forma que pudessem virar esse jogo maldito de Garret antes que fosse tarde demais.
O coração de chorava pelas vidas que se perderiam e se agonizava ao imaginar nunca mais encontrar sua mãe, Isaac ou mesmo… seu pai, seu verdadeiro pai.
Onde estava seu informante? Por que havia a abandonado?
Garret deixou dois soldados específicos para manter os olhos em . Ambos a visitavam duas ou três vezes ao dia para trazer os chás curadores, alimento e trocar o balde deixado para que a princesa fizesse suas necessidades. poderia ser considerada rainha, agora que estava casada com Garret, no entanto, quase nada havia mudado, ainda era uma prisioneira da pior espécie, com exceção que no momento habitava em um quarto ao invés da cela suja.
Provavelmente em torno dos seus quarenta anos, tão asquerosos quanto qualquer outro soldado encontrado nesse reino, os homens quando entravam encaravam a princesa, não deixando a luxúria despercebida aos seus olhos. 
A princesa não sabia como isso era possível numa situação como aquela, mas ela reparava a malícia dos homens e sentia o nojo vir à tona quando eles a observavam; o medo corroendo-a por todos os minutos que eles se mantinham ali.
Hoje não era diferente. Ela ouviu a porta ranger ao ser aberta pelos soldados e encolheu-se na cama, acertando o seu vestido e sentando-se rapidamente ao mesmo tempo que se arrastava até escorar as costas na cabeceira, afastando-se o máximo possível. Suas mãos voaram para sua saia, apertando-as para que não vissem como seus dedos tremiam cada vez que eles adentravam ali.
― Bom dia, princesa ― um deles cantarolou enquanto sorria e levava a bandeja até a cama. ― Dormiu bem? 
ignorou o homem, arrastando seus olhos para a porta e para o outro soldado que vinha atrás com um vaso de água. 
A porta foi encostada e ela engoliu em seco, tentando não sentir-se intimidada. Manteve a pose e o nariz altivo para que os homens não farejassem o medo que exalava dela.
― A princesa é boa demais para falar conosco, Trerton! ― o que entrara depois comentou, colocando a água de qualquer jeito sobre a bandeja e fazendo que parte dela esparramasse na cama com o impacto.
― Nós poderíamos dar um jeito nela. Assim, quando nosso rei chegasse vitorioso, teria uma cadela mansa e dócil. Sem muito trabalho. ― O primeiro riu, esticando a mão para tocar na perna de .
A princesa recolheu-a imediatamente, fazendo com que os homens gargalhassem.
― Não me toque ― ela rugiu, as sílabas ainda atrapalhadas na sua dicção, o que causou ainda mais risos a eles.
― Coma! ― o segundo virou às costas, trouxe uma cadeira para perto da cama e sentou-se para observá-la. O outro aproveitou para andar por entre o quarto, enquanto ia vagarosamente em direção à comida.
Ela não podia dar-se ao luxo de fazer uma greve de fome, pois precisava de toda energia possível para sair dali. 
Não sabia quando, mas precisava ser logo.
Pegou o garfo e a faca para cortar o pequeno cozido e levou à boca com cautela, usando o canto da visão para observar os homens ali. Queria poder engolir rapidamente para que fossem embora, mas estaria trancada novamente e estava cansada de esperar. Mastigou lentamente, levando cada pedaço à boca devagar e dando as goladas do líquido minuciosamente.
― Ande! Não temos o dia todo! ― O soldado sentado reclamou e quis sorrir, porém conteve-se. Ele levantou-se, revirando os olhos e foi até o outro homem, iniciando uma conversa mais distante. Ambos agora olhavam para uns pequenos baús de joias que haviam no criado do quarto, um presente que Garret havia deixado, mas que ela não havia usufruído.
A princesa aproveitou-se para puxar a faca devagar e colocar debaixo da saia do vestido. Agora só restava-lhe dois pãezinhos e não era necessário talher para comê-los. Ela levou um a boca, olhando para o lado para vigiar os homens. 
Um deles virou-se para ela e franziu a testa em frustração.
― Seja mais rápida!
― Até onde eu sei, o rei Garret não colocou limite de tempo para que eu comesse ― retrucou em provocação, causando furor ao homem.
― Mas ele não está aqui agora, está? ― O homem veio com raiva em direção a ela, enquanto o outro cruzava os braços ainda lá atrás, observando a situação. Ele levou sua mão até o queixo de , fazendo com que ela derrubasse o pão sobre a cama com a brutalidade do ato. ― Você vai engolir essa porcaria de uma vez por todas porque eu não vou ser babá de uma princesa imbecil. ― A mão dele foi até o pão caído e depois em direção ao rosto dela, forçando os dedos na bochecha da princesa para que a boca dela abrisse.
Em instinto, uma mão de segurou o pulso do soldado para se defender. A outra, no entanto, deslizou vagarosamente até a saia, até que as pontas dos seus dedos tocassem a pequena faca escondida ali. Com astúcia, ela retirou agilmente o objeto e forçou-o contra a garganta do soldado, fazendo com que ele gritasse e a soltasse, levando as mãos para o pescoço que sangrava sem parar.
jogou-se para fora da cama depressa e correu em direção a porta, no entanto, suas pernas ainda estavam fracas e perdeu tempo para poder abrir passagem, fazendo com que o outro soldado a alcançasse depressa, pegando-as pelos cabelos e a arrastasse pelo chão enquanto a xingava.
― Olhe o que você fez! Você matou meu primo, sua puta! ― Ele balançou-a pelos cabelos, fazendo-a sacudir a cabeça por cima do soldado que agonizava em morte no chão
― Me solte! ― gritou enquanto esperneava e tentava se livrar, contudo, seus golpes eram insuficientes.
O soldado tirou a espada embainhada e levou até o pescoço dela, fazendo com que a princesa parasse de se debater.
― Você não é nada para Medroc além de um troféu tolo e ordinário. ― Ele puxou ainda mais os cabelos dela, as costas de contra o peito dele agora, a boca do homem contra o ouvido dela, sussurrando com ódio cada palavra. ― Você é a escória de Ílac, apenas. E se acha que porque casou com o rei que tem algum poder aqui, está enganada. Você verá o que podemos fazer com você nesse lugar. ― O homem empurrou a espada mais forte no pescoço da garota, fazendo um filete de sangue escorrer de sua pele.
sentia a dor do corte, mas em um instante ela foi aliviada e trocada pelo grito do soldado atrás de si, que a soltou num ímpeto e deixou-a cair no chão. Quando olhou para trás, um homem retirava sua espada das costas do soldado de Medroc e empunhava-a novamente, agora cortando a cabeça dele fora num golpe ágil, que fez suspirar e arregalar os olhos com o impacto.
O desconhecido passou o dorso da mão pelos cabelos castanhos escuros longos que caíam em seu rosto, ainda que grande parte dele estivesse amarrada para trás em sua nuca. Seu porte era enorme, com músculos sobressalentes na velha armadura que vestia, e sua altura era intimidante. Ele ignorou o sangue que pingava da espada e estendeu a outra mão para ela, olhando para trás rapidamente para ver se alguém vinha por ali.
tinha suas mãos e joelhos no chão, sua respiração ofegante e olhos variando entre o homem ali em pé e a porta detrás dele. Em cálculos rápidos, sabia que não poderia fugir, mas também não iria simplesmente segurar a mão do desconhecido.
O homem, observando a insegurança de , deu um pequeno passo para frente, sua mão ainda na mesma posição.
― Não tenha medo ― disse com firmeza, encarando os olhos da princesa.
A garota piscou, compreendendo o recado e sentiu sua visão embaçar em alívio e um pequeno fio de esperança surgir no meio de toda essa situação.
― É você ou um soldado? ― perguntou, estendendo a mão vagarosamente até tocar na palma calejada do homem ali.
― Sou eu! ― afirmou ele, como se as palavras estivessem há muito tempo guardadas. 
O homem apertou seus dedos nos da princesa e ergueu-a, segurando-a pela cintura quando a mesma cambaleou com o impulso e ajudando-a a estabilizar.
afastou-se um pouco dele assim que sentiu a firmeza dos seus pés e inclinou o rosto para olhar o homem ali. Não sabia o que esperava, ele era assustador, não pela altura ou seu porte, mas pela sombra que carregava junto as cicatrizes que poderiam ser vistas em partes do torso e pele que ficavam para fora da armadura. Ela teria medo se não tivesse interagindo com ele por tanto tempo e soubesse que, naquele momento, era o único que poderia ajudá-la.
― Achei que não viria ― falou, sentindo sua língua latejar com o esforço das palavras.
Ele empurrou-a para trás dele enquanto virava para a porta e observava de um lado para o outro uma rota que pudessem tirá-los dali.
― Recebi seu recado, mas levei mais tempo que imaginava para reunir o pessoal que precisava de dentro do castelo. Nós precisamos ir antes que seja tarde demais.
A garota confirmou com a cabeça, sabendo que precisava conter o desastre o quanto antes, se isso fosse possível. Ela tentou firmar os seus passos ao máximo, ainda que fosse difícil acompanhar o homem à frente. Passaram pelo primeiro corredor ligeiramente, topando com dois soldados no caminho. congelou, no entanto, os homens fizeram um pequeno sinal e deixaram que eles passassem e seguira-os atrás.
― Por aqui, Sr. ― um deles passou na frente, apontando para uma porta e levando-os a um aposento vazio, que parecia um quarto luxuoso, mas antigo e abandonado. 
Entrando lá, os dois soldados foram direto a um gaveteiro e o empurraram, descobrindo uma passagem oculta para eles. A portinhola foi empurrada, dando passagem a um pequeno espaço, com altura suficiente para que se passasse somente de quatro. 
― Um de vocês vá na frente, a princesa e eu iremos atrás e o outro ficará na retaguarda.
Os soldados acenaram e rapidamente o primeiro entrou.
― Você acha que aguenta? ― O homem virou para princesa, varrendo seu olhar rapidamente por ela, que estava levemente pálida.
― Sim ― respondeu, mesmo sentindo seus joelhos tremerem. Ela deu uma vacilada ao abaixar-se, mas apoiou a mão no móvel ao lado, conseguindo curvar-se e enfiar-se no túnel escuro e rochoso.
― Siga o som dos passos do soldado à frente e lembre-se que eu estarei logo atrás de você. Mova-se pelo chão e concentre-se na sua respiração. Não entre em pânico, lembre-se que estou aqui. Você não está mais só, . Vá em frente e logo verá a luz, então estaremos fora daqui. ― O homem falou baixo, ajudando-a a colocar os pés dentro da passagem.
A princesa acenou com a cabeça e respirou fundo, enfiando o que restava do corpo no buraco escuro, escutando e vendo apenas pequenos vultos do soldado à frente dela se arrastando pelo chão e em seguida, o homem que a libertou atrás dela. Suas mãos disparavam pela mistura de terra e pedras enquanto tentava trazer o seu corpo adiante, seus joelhos por vezes embolando no vestido e fazendo com que ela desacelerasse. O local era abafado e o cheiro de terra úmida apertava suas narinas, dando-lhe uma sensação de sufocamento. Piorava quando ela sentia-se ficando para trás, não conseguindo alcançar o soldado que era muito mais rápido que ela.
De repente, ela notou sua mão ser tocada por algum bicho, que correu, passando por cima da perna dela e fazendo-a morder o lábio para não soltar um grito, contudo, não impediu que ela estancasse e quase derrubasse o seu corpo no túnel apertado. 
― Princesa ― O homem detrás dela tocou seu tornozelo levemente. ― É só um rato. Precisamos seguir. 
respirou fundo novamente, fechou os olhos por um segundo, mesmo sabendo que mal faria diferença por causa da escuridão, e tomou forças para voltar a ficar de quatro sobre os joelhos e prosseguir. Entre o ar pouco arejado, os calos sendo formados na mão e a sensação de enclausuramento que o local lhe concedia, após vários minutos que mal poderia contar - em sua mente poderiam ser até horas - um visgo de luz pode ser visto. Era apenas uma pequena rajada, mas que lhe permitia observar a sombra do soldado a sua frente e lhe deu vigor para continuar, mesmo tendo certeza que suas palmas a essa altura estavam machucadas, assim como seus joelhos falhavam.
Quanto mais perto ficava, mais seu coração palpitava e, ainda que estivesse sem forças, conseguiu ir mais rápido até chegar perto de onde os feixes de luzes saíam.
― Aguarde aqui, princesa, irei ver se o local está limpo. ― O soldado da frente falou e depois empurrou o que tampava a abertura do túnel, fazendo cair um tampo de pedra enquanto ele se jogava rapidamente para fora e sacava a sua espada.
quis ir em direção a luz no impulso, mas foi segurada pelo tornozelo pelo homem de trás, fazendo-a recordar que precisava esperar.
Passados alguns minutos, o soldado voltou e deu o sinal para que ela saísse. Ela engatinhou para frente, e passou uma das mãos sobre os olhos, tampando a claridade que agora ardia sua íris enquanto era pega pela cintura e impulsionada para fora. Em sequência, os outros dois também saíram, fechando a saída novamente antes de seguir a caminhada.
― Temos que continuar à direita até o esconderijo, lá possuo alguns homens que me aguardam e continuaremos a jornada juntando um pequeno pelotão pelo caminho. ― falou o homem enquanto ajeitava a sua armadura e posicionava a sua espada. ― Eu gostaria de te deixar em um lugar seguro, mas temo que não teremos tempo hábil por enquanto, mas posso garantir que assim que achar pelo caminho um local adequado, você ficará bem. Sua parte acabou, Alteza. Você fez muito pelo seu povo.
― Não! ― Ela entrou na frente dele, pousando a mão sobre o peito imenso do moreno de cabelos longos à frente dela. ― Eu cheguei até aqui ― pausou por causa do latejar da sua língua e respirou fundo ― e irei até o final. Não atrasarei a viagem de ninguém.
O homem franziu o cenho, dando-lhe demonstrações que não concordava, mas precisavam partir, por isso acenou e passaram a caminhar.
― Os cavalos foram deixados mais à frente, dentro da pequena mata. A partir de lá o trajeto será mais fácil. 
Continuaram a caminhada e agradeceu aos céus por ter comido um pouco antes de sair, ou não aguentaria tanto tempo, de certo desfaleceria. Ela sabia que os homens estavam retardando a corrida por ela, mas, naquele momento, era o máximo que ela conseguiria. Quando chegasse aos cavalos ficaria mais fácil. 
O homem que a salvou seguia na frente com um dos soldados e o outro atrasou um pouco seus passos para acompanhar lado a lado.
― Se seu pai soubesse, ele ficaria orgulhoso ― ele sussurrou baixinho quando teve certeza que os da frente não escutavam.
tropeçou levemente com a afirmação, parte sem entender e outra sentindo nojo das pessoas referindo a Jeffrey como seu pai.
― Tenho certeza que não ― respondeu, sentindo vontade de vomitar ao lembrar do homem morto.
― O General é um dos homens que mais admiro, não somos amigos, mas posso garantir o que lhe disse.
A cabeça dela virou imediatamente para o soldado, que olhava para a frente, ignorando-a como se não tivesse acabado de revelar o seu grande segredo.
― Como…. Como você sabe? ― ela questionou.
Ele apenas ergueu um pedaço do seu lábio e olhou-a de soslaio.
― Para uma grande missão de infiltração, é preciso descobrir alguns segredos. Achei que gostaria de saber disso antes que fossemos rumo à morte.
― Mas… você não está com ele? ― apontou a cabeça para o homem que liderava o caminho, falando baixinho com o soldado ao lado.
― Na verdade, estou aqui por sua mãe e pelo General. Não só eu, mas outros que se ajuntaram a ele. Não faz muito tempo que o descobrimos aqui em Medroc e já que nossas missões se convergiam, por que não? ― Deu de ombros e voltou a acelerar os passos.
também aumentou os seus, a fim de acompanhar os homens. Levantou sua saia e juntou-se a eles até sentir uma rajada passar ao seu lado, atingindo o primeiro soldado.
― ARQUEIROS! ― O outro gritou e jogou-se por sobre para tampá-la do ataque. 
No mesmo instante, homens surgiram dentre as árvores, passando a lutar com eles. , sem arma alguma para se defender, arrastou-se até detrás de um carvalho, olhando de um lado para o outro a procura de uma alternativa ou uma forma de ajudá-los.
O homem que a salvou combatia três com destreza, enquanto os outros estavam um pouco atrás, lutando com outros em meio a esbravejos e gritos.
Ela varreu seu olhar pela briga que parecia cada vez mais sangrenta até reparar um cabelo preto esvoaçante e familiar dentre eles, lutando com afinco, ainda que parecesse levemente machucado.
― Isaac? ― sussurrou em meio a sua surpresa e levantou-se rapidamente. ― Isaac! ― gritou e começou a correr em direção a luta dos homens.
― Princesa, fique onde está! ― O homem que a livrou virou-se para ela rugindo e fazendo com que sua distração desse espaço para que Isaac o socasse e ele caísse no chão.
O rapaz de Ílac, com a mão contrária, ergueu a sua espada para alvejar o coração do homem caído, mas foi impedido pela voz doce da princesa que gritou intensamente para impedi-lo.
― Isaac, não! ― ela bradou, correndo até não sentir mais suas pernas e colocando-se na frente do homem com suas duas mãos estendidas para protegê-lo. ― Parem, pelos céus, parem agora! Isaac, sou eu! ― gritou em desespero, fazendo com que a luta estancasse e os olhos do rapaz se arregalassem com o susto.
Deusa… ― ele sussurrou, abaixando sua espada devagar e olhando para a garota a sua frente, tão igual, mas tão diferente.
Ela estava machucada e com marcas de sangue por todos os lugares, inclusive no rosto. As palmas das mãos estendidas para ele estavam em feridas vivas e ele podia ver o pouco peso que ela tinha atualmente em seu corpo, além de poder jurar que as palavras alvejadas soavam disformes na boca dela.
A fúria tomou conta dele, fazendo com que apertasse a espada e desse um passo a frente para matar os homens que estavam com em cativeiro.
― Isaac, por favor, não! São aliados. Isaac, meu amor, eu estou bem ― ela deu um pequeno sorriso, forçando-se para soar bem em meio do caos. 
O garoto queria pegá-la em seus braços, mas temia que fosse uma armadilha. O homem mais velho que estava no chão levantou-se devagar, seu olhar colado em Isaac, mas já não carregado com o ódio da luta ou da morte. Assim que o filho de Sarah olhou para o restante dos homens que o acompanhavam e percebeu-os interagindo com um dos que aparentemente eram os inimigos, sua guarda abaixou um pouco.
― Isaac, esse é um dos nossos ― um dos homens de que o acompanhava e que estava antes na retaguarda bateu nas costas do soldado até então desconhecido. 
― Isaac? ― chamou-o novamente, sua voz embargada com a emoção de ver ele ali em sua frente.
Agora, sentindo um peso sair do seu corpo, Isaac deixou sua espada cair no chão e correu para , trazendo-a para seu peito, a cabeça dela na curva do seu pescoço enquanto ele beijava sua cabeça e seus cabelos.
― Graças a Deus eu te achei, minha deusa. ― Suspirou aliviado e colocou suas mãos no rosto dela, trazendo-a em direção a sua boca para dar-lhe um beijo. 
A garota foi com emoção e bom grado, mas assim que o lábio dele tocou-a, ela lembrou-se de sua ferida e afastou-se levemente, não tendo tempo de explicar-se antes que o grande homem mais velho e seu informante se colocasse ao lado dela, meio que afastando os dois.
― A princesa está sob a minha proteção, então peço-lhe que tire as mãos dela e apresente-se. ― O homem disse com o olhar misturado entre gelo e intriga enquanto encarava Isaac.
Isaac deu um passo em direção ao homem, mas o corpo de o impediu, abraçando-o e pousando a cabeça no peito dele. No mesmo momento o garoto acalmou-se e passou sua mão pelas costas dela, acarinhando-a com amor.
― Esse é Isaac , você não precisa se preocupar com ele. Estou mais do que segura. Ele é de confiança, filho da tia Sarah e Cameron.
O homem franziu o cenho profundamente, abrindo e fechando a mão devagar, ainda que o seu semblante mantivesse estoico. Isaac colocou um pouco de lado, deixando seu braço sobre o ombro dela protetoramente, sem conseguir deixá-la por um instante. Ele aguardou o homem se apresentar para que o cumprimentasse, mas ele permanecia em silêncio, apenas encarando-o. Ele era mais alto que Isaac e provavelmente tinha o dobro da sua idade, seus traços eram envelhecidos e tinha algumas cicatrizes espalhadas pelo seu rosto e outras partes do corpo, o cabelo longo e tão escuro quanto o dele dava-lhe uma aparência ainda mais assustadora.
Percebendo que os homens paravam ao redor, formando um círculo silencioso sobre eles, e que ninguém parecia querer dar um passo a mais, pousou a mão esquerda no peito do seu amado e inclinou a sua cabeça para olhar para ele.
― Isaac ― chamou-o, fazendo com que o rapaz desviasse seu olhar do mais velho e pousasse na princesa. ― Esse é o homem que me tirou do castelo. Conheça Henrique Buckhaim, o verdadeiro herdeiro do trono de Medroc.



Capítulo 39

Passado

Ir caçar era uma das poucas coisas que poderia espairecer a sua cabeça quando estava em Ílac. Não que fosse uma má pessoa, ele gostava dela, mas não queria ela. Contudo, ele tinha um dever a cumprir e faria conforme foi treinado, ainda que tivesse que sorrir com satisfação para o rei Miles todas as vezes que o encontrasse, além de ter que desviar o olhar da direção que realmente queria ir. Além disso, a rainha o olhava de uma forma estranha e ele preferia mil vezes estar longe dela.
Ílac era conhecido pela floresta densa e seus animais, além dos pastos verdejantes que proporcionavam um belo local. A primeira vez que saiu para caçar lá foi sugestão do rei Miles, haviam ido todos juntos. Agora ele ia apenas com os irmãos, uma rotina que já havia sido estabelecida em cada viagem que faziam.
Estar longe do pai também era um refrigério. Será que era por isso que seus irmãos o acompanhavam?
Aquele era o único momento que ele deixava de lado a responsabilidade de ter que abandonar o seu reino, o seu legado em Medroc, para ir a uma terra estrangeira, assumir um trono que nem mesmo seria totalmente seu. Afinal, Miles treinara a filha para ser mais do que um vaso ornamental.
Não.
entendia cada ponto do seu império. Ela era inteligente, tinha uma boca esperta e lutava como um bom soldado.
Se fosse lhe perguntar, não era isso que ele escolheria. Dividir o trono com outra pessoa...
Aliás, dividir não. Ele sabia que estava em desvantagem ali. Dificilmente os aldeões e o restante do reino o olharia como olhavam para - que tinha o sangue puro de Ílac. Ele era o filho do inimigo, uma peça na artimanha de paz entre os reinos. Nenhum deles tiveram escolha.
Era por isso que ele precisava em toda maldita viagem colocar o seu melhor sorriso, buscar uma simpatia que ele basicamente nunca aprendeu a ter e tentar ser a pessoa mais sociável que pudesse, afinal, ele precisava ser idolatrado pelo menos o mesmo tanto que sua futura esposa seria ao assumir o trono. Se carregasse metade do clamor que Miles levava, o povo beijaria os seus pés sem pestanejar.
Ele respeitava . Mas, ainda assim, não era o que desejava, era apenas o que deveria ser feito.
Tudo isso era cansativo. Ele sempre foi o que o pai desejou, o filho amado que cumpria todas as exigências e tinha a estima muito elevada em Medroc. Claro que Rory jamais mandaria o seu querido filho para ser um capacho. Na cabeça dele, o filho poderia tomar as rédeas de e Medroc teria indiretamente o poder sobre Ílac. No tardar, com alguns anos, poderiam dar um golpe e tudo seria território da família Buckhaim.
Contudo, Henrique sabia que não era bem assim, mas contrariar o pai também não estava nos seus planos.
No fim das contas, tudo resumia a exaustão. Construir uma imagem para o pai, outra para o rei Miles e outra para sua futura esposa. Talvez seja por isso que ele olhou para um fruto proibido, alguém que nunca poderia ter. Talvez fosse a sede de aventura, a vontade de ser ou fazer algo por ele próprio pela primeira vez.
Mas até isso o tempo apenas o sufocou.
Então estava ali, junto com seus irmãos - infelizmente -, para esquecer por um momento tudo e descarregar a raiva por ser enfiado em um acordo que ele nunca quis, em primeiro lugar. Por um breve momento ele desejou abrir mão de tudo, seguir o que o seu íntimo ansiava, ou melhor… alguém. Mas Rory sempre estava um passo à frente. Portanto, ele preferia estar agora ao lado do irmão que o odiava e vivia cobiçando a sua futura esposa, e o outro que o olhava como um cachorrinho, esperando uma aceitação que ele nunca daria. Nunca foram próximos afinal.
— Por aqui — Jeffrey gritou, tomando a frente, como se fosse o líder.
Henrique podia ver a ambição nos olhos do irmão, mesmo nos mínimos detalhes. Eram ferozes e ardiam toda vez que fixavam sobre si, como uma navalha afiada o dilacerando sempre que se encaravam.
— Quem te colocou no comando? — refutou, passando por Jeffrey e esbarrando no seu ombro.
Garret olhou de um para o outro, mas permaneceu calado, enquanto observava Henrique tomar a dianteira e puxar a flecha da aljava em suas costas. Ao seu lado, agora estava o irmão do meio, a raiva exalando e misturando-se com o calor e umidade da floresta.
— Você vê por que temos que fazer o que combinamos? — Jeffrey rosnou em baixa voz para que Garret escutasse.
— Tem certeza? — O caçula conseguiu achar o seu próprio som após alguns segundos, um calafrio percorrendo a sua espinha e o estômago embrulhando com o que poderia ocorrer daqui algumas horas.
Jeffrey olhou para ele, o lábio subindo levemente com escárnio e seus passos se atrasando para permitir que Henrique continuasse a andar e ficasse longe deles.
— Quem será você, irmão? Henrique terá Ílac e eu, Medroc. Quer continuar sendo uma marionete do nosso pai? Quer voltar a ficar trancafiado na prisão pútrida matando os restos do nosso pai? Nosso próprio sangue? — A sobrancelha de Jeffrey se arqueou e Garret teve certeza que agora vomitaria, porém, não podia. Seu pai o treinara tanto para que fosse forte, por isso colocar a sua bile para fora não poderia ser uma opção. — Você será um nada para ele como sempre foi. Ou já esqueceu o que ele fez com você? É isso o que quer?
— Claro que não! — Dessa vez uma fúria volumosa e incandescente explodiu dentro de Garret, fazendo com que fechasse os punhos e empurrasse Jeffrey, enquanto as lágrimas acumulavam nos cantos dos seus olhos.
Era como se um tornado passasse e roubasse todo o oxigênio, ele não conseguia respirar, não quando as lembranças dos bebês mortos e apodrecidos ainda assombravam as suas narinas. Era como se tivesse perdido no tempo de novo no meio da escuridão, sem saber o dia que conseguiria sair daquela prisão.
Garret sentiu uma dor escaldante no lado direito do seu rosto, seus olhos se abrindo e vendo seu irmão o sacudir.
— Eu preciso de você, não deixe que o pai te domine. Não aqui. Nós podemos ser donos da nossa própria história, Garret, fazer um novo caminho. Mas antes… precisamos acabar com ele. Depois de termos tudo em nossas mãos, nosso pai terá o que merece. Você está dentro ou não?
Garret havia sumido… de novo. Sua mente era um reboliço que ele tentava disfarçar com risadas e gracejos, mas não com Jeffrey. Nunca com Jeffrey. O único que o compreendia e o ajudava.
— Seremos sempre nós — Garret recitou, estendendo a mão.
— Nós juntos para sempre. — Jeffrey repetiu, trazendo a cabeça do irmão para o seu peito e dando-lhe um beijo em sua cabeça.
Ambos voltaram ao caminho disposto da estrada principal. Jeffrey conferiu todas suas armas e equipamentos, assim como Garret. O plano já estava sendo cozido há tempos e esse era o dia perfeito. Os demais soldados sempre ficavam para trás, dando o espaço solitário que precisavam para não ter testemunhas.
— Vocês vão ficar aí? — Henrique surgiu por detrás de uma das árvores, voltando para encontrar os irmãos. — Não podemos nos afastar, estamos perto da área das hienas.
Jeffrey abriu um sorriso, passando por ele e acelerando o seu andar.
— Está com medo, irmão? — falou mais alto, abrindo os braços e correndo agora de costas.
Henrique virou-se para ele.
— Você está louco? Qual a parte que estamos perto da zona perigosa você não entendeu?
Jeffrey apenas deixou seu sorriso crescer, fazendo um pequeno sinal para Garret, que também começou a correr, ambos deixando Henrique para trás.
O mais velho ralhou e começou a correr em direção aos irmãos. Apesar de ter o mínimo de contato possível com eles, não gostaria que nenhum morresse, ainda mais por causa de uma atitude tão imbecil. Além disso, ficar só não era uma opção viável e segura.
Metros a frente Jeffrey olhou rapidamente para o lado, observando que Garret o acompanhava em mesma velocidade.
— Mais rápido, precisamos nos afastar mais, não podemos ter chances de ter testemunhas.
As pernas queimavam, mas Jeffrey soltou uma risada maníaca e provocadora, daquelas que Henrique odiava, sempre olhando para ver se o seu irmão mais velho o seguia. Assim que chegaram ao campo aberto, no território mais perigoso, Jeffrey parou e soltou um uivo doentio, o som saindo do fundo do seu pulmão, sendo acompanhado alguns segundos depois pelo mesmo som proveniente de Garret.
Assim que os alcançaram, Henrique pulou para cima de Jeffrey, derrubando-o no chão e dando um soco em seu rosto, a raiva ardendo pela insensatez do irmão. Jeffrey não previu o soco, mas já havia tempo que Henrique acumulava todas as provocações que vinha dele, o golpe era um descarrego.
O mais novo inclinou o joelho, lançando-o contra a barriga de Henrique e deixando-o sem ar por alguns segundos. Enquanto se recuperava, Jeffrey chutou o maxilar do irmão, fazendo com que agora a sua visão escurecesse.
— Jeff… — Garret murmurou um pouco afastado, suas mãos abrindo e fechando com rapidez enquanto via Henrique caído, cuspindo sangue pela boca.
— Ande! — O irmão do meio ralhou, pronto para chutar o primogênito novamente.
Henrique foi mais rápido e rolou pela terra, entrelaçando suas pernas nas de Jeffrey e derrubando-o no chão consigo. Eles se emaranharam, uma confusão de chutes e socos. Jeffrey era extremamente forte, mas Henrique tinha alguns anos de treino a mais a seu favor, por isso, não foi surpresa quando apesar de estar com suas costas no chão, ele tinha seu irmão preso sobre si em um estrangulamento, seu braço cortando o ar do pescoço dele e a perna direita passando por cima das de Jeffrey.
Os cabelos loiros compridos do irmão do meio esfregavam em seu rosto enquanto ele tentava se soltar. Eles eram fisicamente diferentes, mas além disso, não poderiam ter personalidades mais opostas. Henrique sempre soube que esse momento chegaria, onde entraria numa luta de vida ou morte com seus irmãos. Mas por quê?
Foi exatamente essa a pergunta que ele verbalizou, enquanto esperava com um mínimo de esperança por eles. Sabia que bastava aplicar um pouco mais de força e o pescoço de Jeffrey quebraria. Contudo, deveria preservá-lo? Ainda era seu irmão, afinal.
Mas pior de tudo. O que diria para justificar ao pai a morte de um dos seus herdeiros?
— Garret — Jeffrey resmungou entre dentes, seu rosto cada vez mais vermelho, os lábios levemente arroxeados à medida que faltava-lhe o ar.
Como num estalo, o mais novo viu a única pessoa que lhe importava se desvair aos seus olhos e não podia suportá-lo. Como num lance de luz, ele sacou a flecha que ainda carregava em seu alforje e apontou para Henrique.
— Solte-o — ordenou, ainda que sua voz saísse com certo vacilo.
— Garret, eu não sei o que planejaram, mas ainda há tempo de voltarem atrás — Henrique falou com firmeza, mesmo que soubesse que a flecha mirava exatamente no meio dos seus olhos.
Jeffrey tentou dizer alguma coisa, mas o aperto de Henrique tornou-se mais forte. Era uma contagem regressiva e agora mais do que nunca o mais velho sabia que não teria como retroceder, entretanto… talvez ainda pudesse poupar Garret.
— Solte-o — o mais novo soou com mais firmeza, vendo o sofrimento do irmão.
— Garret — Henrique ralhou. — Pare com isso! O que querem? Um império para comandar? É isso, Garret? Posso arrumar Medroc para você. Qualquer um sabe que quem tem mais poder com o pai sou eu!
Henrique viu o tremular da mão de Garret, pronto para disparar. Ele precisava pensar... O irmão sempre foi volátil, talvez conseguisse tempo.
— Você não entende… — o loiro com a flecha murmurou, seus olhos ardendo e os flashes de memórias indo e voltando, pronto para levá-lo a loucura. — Nunca fez nada por mim. Vai me enxergar agora que estou com sua vida em minhas mãos? — Ele puxou a flecha, deixando-a pronta, um leve levantar de dedo e ela acabaria com Henrique.
Jeffrey, ainda que estivesse para desmaiar, deixou seu lábio subir em um sorriso saudoso. Garret nunca o deixaria.
— Solte-o — Garret ordenou novamente, mas Henrique persistiu.
O mais novo mudou levemente sua mira e deixou que sua flecha soltasse em direção a Henrique. Não onde mirou anteriormente, ainda não queria matar o irmão. Já havia matado muitos… O alvo foi direto em sua orelha, decepando-a e deixando apenas os pedaços ensanguentados pendurados na cabeça dele.
Henrique soltou Jeffrey no ímpeto, levando suas mãos imediatamente até a laceração na cabeça. O irmão do meio rolou, as mãos subindo para a garganta enquanto tentava recuperar o ar.
— Mate-o — sussurrou, quase inaudível para Garret, sua voz arranhando ao passar pela traqueia.
Garret apontou mais uma flecha para Henrique, observando o irmão se levantar aos tropeços, ensanguentado, mancando e olhando com ódio para ele.
— Mate-o — Jeffrey rastejou-se para perto do irmão, sendo como um diabo sussurrando o pecado para ele.
— Não posso — Garret vacilou seu olhar, pescando o irmão lateralmente e voltando para o seu alvo. — Por favor, Jeff… — Sua voz quebrou.
As lembranças eram fortes demais. Cada vez que ficou no calabouço, cada coisa que foi obrigado a fazer…
Jeffrey não tinha mais paciência para isso. Era agora ou nunca. Já haviam chegado longe demais. Estavam no local mais perigoso de Ílac, perto dos desfiladeiros, onde as hienas gigantes habitavam. Tinham lutado, já estava ferido. Não poderiam voltar. Eram eles ou Henrique, e ele estava disposto a que fazer com que fossem eles. Ele teria Ílac e Garret poderia ficar com Medroc. Ele teria para si e tudo o que seu irmão um dia sonhou.
— Dê-me isso. — Jeffrey arrancou o instrumento das mãos do irmão, apontando com fúria para o seu alvo, apenas uns segundos separando a morte do seu destino.
Assim que seu dedo tremulou por sobre o arco, um rugido feroz ecoou, causando um arrepio em sua espinha. O arco abaixou-se no automático com o susto e a cabeça dos três Buckhaim viraram-se para onde vinha o barulho.
Hienas Gigantes.
Elas eram enormes, maior do que qualquer um deles se lembrara. Havia tempo que de fato haviam visto alguma viva. Os dentes prostraram-se para fora, cobertos de tártaro e sangue, as narinas sentiam o cheiro do possível alimento em frente a elas, as patas prontas em posição para atacá-los.
Haviam duas delas, mas Jeffrey sabia que poderia ter mais, elas andavam em bandos. Talvez até mesmo montando uma armadilha para eles. Ele riu, uma risada maníaca que contrastava com a adrenalina que sentia ao estar à beira da morte. Ele recompôs o arco em sua mão e virou em direção a elas, soltando a flecha assim que o bicho saltou na direção deles.
A flecha atingiu direto o peito do animal que urrou e caiu de lado, fazendo o sorriso de Jeffrey crescer. No entanto, rapidamente o semblante caiu, quando viu que a outra besta selvagem vinha correndo na direção do irmão mais novo, que havia corrido para longe dele. Ele tentou pegar outra flecha para atingir o animal, mas estava atrasado. Seu coração saltou ao ver o irmão sendo cercado, uma espada pequena tremulando na mão dele contra o animal. A fera iria devorá-lo antes que pudesse ser atingida.
Jeffrey atrapalhou-se para montar a nova flecha e, ao tentar mirar o animal, uma pequena adaga girou como espiral direto no pescoço da hiena. O bicho selvagem rugiu e cambaleou, dando tempo necessário para que Garret pudesse enfiar a sua espada nele. Com esse intervalo e o animal ferido, Jeffrey correu em direção ao irmão mais novo enquanto o mesmo encarava Henrique, que mantinha a posição, oscilante, mas ainda o braço erguido por ter lançado a arma e ter salvo o irmão.
A pequena desatenção do caçula lhe custou um raspar de dentes em sua perna, salvo por Jeffrey que se jogou por cima dele e o derrubou, levando parte da dentada que era para o irmão. Colocando-se por cima de Garret, Jeffrey girou e ergueu a lança que carregava, enfiando no meio do peito do macho enorme que ainda tentava devorá-lo. Unindo força contra o animal machucado, Jeffrey conseguiu tirar a sua espada e enfiar no animal novamente, diversas vezes até que estivesse morto.
Em seguida olhou para o irmão mais novo, que parecia ainda em choque. Depois seus olhos voaram para Henrique, bem mais longe, perto dos desfiladeiros, andando meio bambo com a mão na orelha dilacerada, mas sem tentar se aproximar dos outros dois.
Um rugido soou de longe. Na verdade, pelo que Jeffrey poderia notar, era mais de um.
— Garret, precisamos sair daqui — murmurou para seu irmão, empurrando-o novamente para a direção que levava de volta a floresta.
Ele pegou o braço do irmão para puxá-lo, fazendo-o correr mesmo que os olhos dele estivessem para trás. Seu foco era Henrique, ferido, tentando pegar uma das espadas caídas enquanto mancava e perdia sangue.
Mais três hienas apareceram pela esquerda, correndo para onde estava a movimentação.
— Vamos! Rápido — Jeffrey gritou contra Garret, empurrando-o com mais rapidez.
— Henrique — o mais novo murmurou, olhando para o irmão mais velho que não conseguia movimentar com rapidez, ficando cada vez mais longe deles. — Elas vão pegá-lo. Ele está na direção delas.
— Que bom — Jeffrey respondeu ofegante, lutando contra o corpo do irmão que se retesava na fuga — Era isso que queríamos, esqueceu?
Garret não conseguia respirar, suas pernas endureciam, mesmo que ainda percorressem no automático com os empurrões do irmão.
— Ele me ajudou. — O caçula olhou mais uma vez para trás, vendo as três hienas agora cercando Henrique como abutres para sua presa, ansiando por devorar cada membro do irmão mais velho.
— Corra, Garret! Esqueça, ele estará morto em poucos minutos! — refutou, vislumbrando rapidamente para trás, uma última olhada para o irmão mais velho que odiava, sentindo o medo de ser alcançado, mas também a satisfação de saber que logo Henrique estaria às traças e toda herança seria sua.
Garret não conseguiu olhar mais para trás, não para a morte de mais um irmão. Por isso, sem sentir, um apagão formando em seu cérebro e em um gesto automático, deixou suas pernas queimarem em sua fuga, agarrando-se a liderança de Jeffrey de volta ao castelo de Ìlac.
Em contrapartida, Henrique via perfeitamente seus irmãos o abandonarem, tendo a consciência que morreria da forma mais cruel e desperdiçada do mundo. Não era um combate, não era em prol de uma causa. Era uma armação suja e atroz do sangue de seu sangue. Se não morresse pelas mãos dos irmãos, seria pelos caninos das bestas selvagens que estavam prontas par atacá-lo, e encurralá-lo contra o desfiladeiro.
No fundo ele sabia que era isso que Jeffrey queria. Não ser morto pelas mãos dele, pois era um covarde. Mas o local, os gritos… ele queria que Henrique morresse, mas de outra forma, bárbara, nem que para isso colocasse a própria vida em risco.
Henrique olhou para as três hienas, sabendo que teria cada osso do seu corpo destroçado, e depois para trás, sentindo o vento do desfiladeiro ricochetear seus cabelos escuros e deixando o som da água que passava lá no final tomar o lugar das suas dores.
Fechou os olhos por um segundo e seu pensamento não foi . Era uma outra moça de cabelos escuros, alguém a quem tinha feito tantas promessas, mesmo que nenhuma delas pudessem ser cumpridas, mas que ele pode pela primeira vez sair da posição do “dever” e apenas “ser”.
Ela sofreria, sem dúvidas. Mas era o que era. Pelo menos, se fosse para morrer, seria em seus termos e não numa obra arquitetada do sádico do seu irmão. E foi com isso que reunindo suas últimas forças, ele virou-se e correu, rumo ao que parecia ser o fim, um corpo livre em queda no penhasco direto para que as águas o tomassem.
Ele sentiu o ar.
Ele viu o rio se aproximar.
Manteve os olhos abertos encarando a escolha que fez.
E se fosse o seu fim, então que fosse em liberdade.





Continua...



Nota da autora: Pessoal, antes de tudo quero pedir perdão pela demora. Meu bebê nasceu e foi impossível escrever. Sério, ser mãe toma o tempo completamente. Minha vida agora gira em torno do bebê e estou aproveitando bastante esse tempo, mas isso não significa que esqueci de vocês, ok? Só que eu ainda estou tentando me situar nesse novo mundo pra mim.
Agora falando sobre o capítulo... ora, ora...finalmente descobrimos o que aconteceu com o Henrique e teremos muita água para rolar! Até a próxima e juro não demorar tanto assim mais haha.




Ah, Trono tem um trailer novo, assistam no link abaixo!
Trailer




Nota da beta: Gente, o Jeffrey consegue ser pior do que eu já imaginava, meu Deus, eu estou enojada. Eu sabia que essa morte do Henrique tinha dedo dele, mas conseguiu ser pior. E o Garret nem sempre foi tão mal mesmo, foi só uma peço do jogo do Jeffrey e do pai. Ansiosa pela continuação! <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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