People Change

Última atualização: 21/03/2018

Prólogo


É engraçado como os acontecimentos da nossa vida ocorrem. É engraçado como sofria demasiadamente com bullying no ensino médio e, agora, é tão cobiçada na faculdade. É engraçado também que , o garoto gordinho da sala C do terceiro andar, que vendia os melhores pães doces, agora está cursando medicina na mesma faculdade onde eu também estou. Ou como Kate, com tanta falta de conhecimento, tenha conseguido terminar a escola e ingressar em uma faculdade. Como , tão presente na minha vida, hoje não existe mais. O mais surpreendente de tudo isso é que, pessoas das quais eu pensei não continuar na minha vida, ainda estão presentes. E não para por aí: pessoas das quais eu imaginei não serem presentes na minha vida, estão sendo presentes. Algumas, de forma que realmente me incomoda; causam-me um estresse tão grande que sinto vontade de cometer um crime e assassiná-los. Outros é uma presença da qual cativo e desejo manter por perto, como a amizade de .
Mas vejamos bem. A garota da qual eu jamais imaginaria estar por perto, já foi tão parecida comigo e, hoje, não é nada do que foi. É tão atônita que parece não sentir algo sequer...
Contudo, eu a amo. Assim como amo , e . Meus sentimentos de ódio são direcionados a somente duas pessoas: e Lisa Backwell.
Lisa é adorável e pode ser considerada uma boa amiga, sempre presente e nunca a vi falar algo sequer ruim das pessoas com quem mantém contato social. No entanto, faz coisas das quais afetam diretamente pessoas de seu convívio. Incluindo a mim. Incluindo . Incluindo . Ela não se importa se está magoando alguém, apenas faz, apenas pensa em si mesma.
E quanto ao , ele é realmente desprezível. Não tenho boas lembranças referentes a ele. Ele é ator! Fez teatro e hoje cursa Artes Cênicas. Automaticamente, me vem a mente de onde ele aprendeu a mentir assim tão bem... E não é só um preconceito por ele ser ator. É porque ele realmente é um baita mentiroso e um desprezível ser humano, da qual me pergunto todos os dias:
— Por que nós ainda falamos com esse cara?
— Talvez por ser irmão de respondeu, tragando mais uma vez o cigarro. Estávamos em uma praia, todos nós, enquanto o desprezível e tão parecido com um personagem que já havia feito, fodia no carro um pouco à frente, com Lisa.
— Ele sempre tem boas drogas. — Essa resposta veio de . — E as divide!
— Eu o acho um bom irmão, você só cultiva um grande ódio por ele e não consegue ver os lados bons — respondeu, e eu não pude deixar de revirar os olhos.
— Ele é legal quando não fica tentando ser odiado por todos — disse, e ela tinha razão. Há pessoas que são tão gentis para manter um relacionamento e imagens boas, já o garoto só queria ser odiado e reconhecido por isso. br>— Alguns de nós não são tão diferentes assim — retrucou, direcionando o olhar à mim.
— Certo, e por que vocês continuam falando comigo, então? — indaguei. Eu não era que nem ! Ele fazia por atenção; quanto a mim... Apenas não me importava.
— Porque nós te amamos, . — explicou, me abraçando de lado enquanto todos os outros concordavam com a cabeça. Era impossível não rir.
Mais à frente, era possível ver Lisa saindo do carro. Ao acenar para mim e para todos ao meu lado, retribuímos o ato. Ela estava se despedindo. A garota não iria passar o final de semana conosco, pois tinha que cuidar dos irmãos, já que vivia com os pais. E quando abriu a porta do carro, vindo em nossa direção com o peito desnudo, eu desejei não estar ali.
— Alguém já montou as barracas? — perguntei, esperando que a resposta fosse negativa e que pudesse sair dali sem ter que aturar mais uma vez as gracinhas de .
— Eu e o vamos montá-las — disse, logo levantando e indo com o outro rapaz até o carro onde anteriormente aconteciam atos inapropriados. Parece que meu plano não deu muito certo.
, sabe que não o suporto tanto quanto você, por motivos tão parecidos com os seus, contudo, ele faz parte do nosso grupinho há muito tempo. Não é como se fossemos fazer uma reunião para expulsá-lo. Somos adultos, sabemos lidar com essas coisas... — Parou por um momento ao ver o garoto em questão se aproximando e me fitando com repúdio. — Na verdade, eu acho que estou reconsiderando a respeito da reunião — ameaçou, levantando-se e indo em direção aos meninos, para ajudá-los com as barracas. Apenas ri, eu adorava aquela menina.
sentou-se onde antes se encontrava minha amiga, entre e eu, abraçando a irmã de lado, oferecendo a ela um cigarro de maconha. A mesma negou, porém, pegou e o entregou a mim, que aceitei. Era novo para mim que ele ainda não havia aberto a boca para dizer algo repugnante.
— Quando vai deixar de ser assim, ? — a garota indagou, encarando o irmão. O encarei também, gostaria de saber sua resposta. Não que ele fosse um ser humano tão horrível assim... Mas podia ao menos dedicar-se um pouco mais. Pelo que me disse, antes deles virem para praia, brigou com os pais, incluindo socos e tudo mais. O senhor deixaria de pagar a faculdade do filho, caso não arrumasse um trabalho que não fosse bicos de teatro aqui e ali.
— Por que você não se preocupa com seu cursinho de moda, ? — retrucou de forma bruta. Em seguida, riu, como se não tivesse falado sério. mostrou com clareza em sua feição estar desapontada.— E você, ?
— Eu o quê? — Perguntei, sem o encarar.
— Quando vai deixar todo seu amor reprimido por mim vir à tona? — Disse em meio a risos. Eu apenas ri, também. Mas um riso clássico que mostrava ironia.
— Quem sabe quando você também assumir seu amor por mim? — Perguntei me levantando. Ele segurou meu calcanhar, me fazendo parar antes de começar a caminhar.
— Nunca neguei que te amasse, meu amor. Mas é difícil esse relacionamento sem sexo. — Disse e apontou para o carro. Duas ações ocorreram no mesmo momento: Minha feição de nojo se formar, e fingir sensação de vômito e o empurrando com a mesma feição que a minha. Mas devo admitir: aquela voz era tão boa de se ouvir...
— Você é um tubinho de amostras de DST, . — Disse, me livrando de sua mão, seguido dos risos de .
Às vezes ele é engraçado, mas continua a deixar as coisas um tanto desagradáveis. Houve um tempo onde passou-se pela minha cabeça a hipótese de ter algo sério com . Mas ele não iria considerar algo sério, a não ser que também envolvesse outras quarenta garotas no relacionamento. Nessa época, também estava sendo usada, mas nós não sabíamos nem da existência uma da outra. Não era nada demais, sempre era estabelecido que nenhum de nós queria um relacionamento sério. Mas houve um momento, só um, em que isso passou pela minha cabeça. No entanto, eu nunca contei a ele. E por isso eu decidi não continuar com tudo aquilo.
Fui até , que estava armando a fogueira com certa dificuldade.
— Ei, ? — O chamei. Ele me encarou. — Tente não fazer com tanta pressa. — Ele sorriu, e fez o que eu disse. Eu não entendia nada sobre fogueiras ou coisa do tipo, mas tinha plena certeza de que não era daquela forma desesperada.
Sentei-me ao lado de e , dividindo o cigarro de maconha com ambos, enquanto e se juntavam a nós.
A noite terminou com a imagem a seguir: com seu violão e todos nós cantando.
Sobre o pensamento do início: Todos aqui mudamos muito. veio do Egito, está tentando a vida como atleta e tem bolsa para isso. Mas já tentou de tudo antes de estar estabilizado. era menos séria, e só se preocupava com festas e drogas, mas após a perda de alguém que realmente amava, se tornou tão responsável quanto . Em relação a ... Esse continua o mesmo desde o momento em que o conheci. Ele aproveita a vida como se fosse eterno. Me surpreenderia se ele fosse diferente, mas todos nós sabemos que ele é alguém que nunca vai mudar.

Capítulo betado por: Letty Fernandes




Capítulo 1 - Esclarecimentos

3 anos atrás, aos 17 anos. Ensino médio

— Você me sufoca, ! — gritou, mais uma vez, enquanto a garota, , se encolhia sobre a cama. O garoto havia se irritado com algo que ela havia dito.
, você não precis... — Ela não pôde terminar de falar.
, eu não quero saber! — Exclamou novamente, de forma agressiva. — Nós não temos nenhum relacionamento, e é por isso que é bom! Essas coisas não dão certo, você entende? — Sentou-se na beira da cama, perto da garota. O que se passava na cabeça de era que, ele ainda era tão jovem para se relacionar... Não havia nem terminado a escola. Não estava pronto ainda. Ou talvez apenas estava confuso. Ele gostava dela. A queria muito, mas tinha medo.
, eu não disse que queria um relacionamento! — Protestou, inconformada. Apesar de não ter dito, ela queria.
O garoto respirou fundo, pegou as roupas da menina que estavam no chão e jogou sobre a cama, para que ela se vestisse. o encarou, incrédula, afinal, o que ele estava querendo dizer? Estava a mandando embora?
— Então entenda que você não pode sentir ciúme disso. — Falou apontando para ela e logo em seguida para ele. — Por que isso, — Referente ao que tinham. — Isso entre nós não é nada. Eu não sinto nada por você, já te falei isso. Não confunda a porra das coisas.
A garota fechou os olhos por alguns segundos e os abriu, recobrando o lindo sorriso que ela sempre soube ter.
— Eu sei, . Fica tranquilo. — Pegou as roupas, se vestindo. — Foi apenas um mal-entendido, acredite. — Levantou-se, passando a mão sobre seus cabelos. — Eu entendo sobre não ter relacionamentos, você não serve pra isso!
— E você também não.
— Você não sabe. — O encarou por míseros segundos, de forma rude. — E nunca vai saber, eu nunca vou querer ter um relacionamento com alguém como você, . — Havia tristeza em sua fala, mas não percebera isso. não percebera muitas coisas no decorrer desses meses.
— Você tem razão, — Levantou-se. — e ainda bem que tem. — Acariciou os ombros da menina, enquanto a mesma prendia seus cabelos. — Você volta amanhã?
— Claro. — Disse sorridente, virando-se para o garoto.
Acontece que no dia seguinte, ao voltar, não o encontrou em sua cama sozinho. E a reação do garoto foi apenas rir. disse voltar depois, e isso se seguiu por um tempo, até que parecesse óbvio que tudo aquilo estava a fazendo mal. Foi quando decidiu ter sua última noite com o garoto de que, possivelmente, estava começando a gostar. E se perguntava: como ela gostava de alguém como ele?
A desculpa foi de que, ela estava gostando e se relacionando com outro garoto. agiu tão bem diante daquela informação, como se não fizesse diferença, e talvez realmente não fizesse. Talvez nunca soubesse. Mas a partir disso, o garoto se tornou tão irritante com ela, assim como era com todos ao seu redor. Não que durante o tempo de ambos juntos ele tenha sido a melhor pessoa do mundo, mas era um pouco menos grosseiro, por exemplo.
Foi quando decidiu sair, e nesse balada encontrou , sua melhor amiga atualmente. Era uma noite realmente fria, e havia acabado de sair da casa de , na esperança de que talvez ele viesse atrás da garota, mas perdeu essa esperança ao perceber que na sua saída, outra entrava na casa do garoto. Balançou a cabeça em sinal negativo, rindo de como ela parecia idiota. Havia o dito sobre nunca ter cultivado nenhum sentimento por ele, e ele o mesmo. Sempre demonstrou apenas interesse sexual, no entanto era mais do que isso para ela. Mas ele nunca saberia disso, ela nunca diria isso, não para ele.
— Eu não gosto de cerveja. — gritou, por conta de todo o barulho da festa, sentou-se ao lado de , mostrando para a garota o copo com alguma bebida azul.
— É por isso que quem está bebendo sou eu, e não você. — disse, com o tom mais arrogante que tinha. a encarou, ofendida, mas logo desfez a cara e riu.
— Tendo uma noite ruim? — Perguntou.
— Uma vida inteira! — Disse, entre risos. — Desculpe. — Pediu, em relação a grosseria. Esperava que após ter sido arrogante com a menina, a mesma saísse dali, mas o quadro não aconteceu como imaginava.
— Ah, sem problemas! — deu um gole em sua bebida azul. — Amo um garoto que só quer saber de se divertir, um completo idiota. Vim beber para ver se consigo parar de ser dependente dele e terminar o que eu alucino termos. — desbafou. Nessa altura a garota já não estava tão bem. se identificou com o que aquela garotinha havia dito, e sorriu.
— Eu tive essa coragem hoje. — pensou que não se surpreenderia se estivessem falando do mesmo garoto. — Você só precisa perceber que não te faz bem. Não deixa ele saber o que você sente por ele.
— Por quê? Talvez ele goste de mim.
— Ele vai poder fazer o que quiser com você ao saber disso. Você se torna vulnerável. — acendeu um cigarro. — Se ele gostasse de você, nesse momento você não estaria bebendo para romper o que você alucina ter com ele.
parou para pensar por um momento, e tudo aquilo realmente fazia o maior sentido. a encarou por alguns segundos, até murmurar algo. parecia já ter visto , parecia já ter visto com em uma noite onde se decepcionou com o garoto pela primeira vez. desatou a rir!
— Do que está rindo? — perguntou, com a feição séria. — Você deve estar realmente bêbada. Não quero saber o que tem nessa bebida!
— Estamos falando do mesmo garoto. — disse. franziu o cenho, tragando o cigarro uma segunda vez. — !
— O quê? — não havia entendido o nome que havia sido pronunciado. A música estava muito alta.
! — Repetiu e dessa vez pareceu entender. — É o nome do garoto, não é? — assentiu com a cabeça. — Eu disse que estávamos falando do mesmo garoto. — sorriu após a confirmação.
— Que bom, assim você não pode me odiar já que rompi tudo o que eu tinha. — voltou a rir, e beber mais ainda.
— Me dando mais coragem de fazer o mesmo. — Disse, apontando para o copo, dando seu último gole. Levantou-se, endireitando-se para ir até a casa de . riu, entendendo o que a garota ia fazer.
— Só não diga besteira! — gritou, fazendo menção para que ela não falasse de seus sentimentos.
— Pode deixar! Vou apenas o xingar e dizer que eu tenho sífilis. — disse, piscando um dos olhos e saindo do local a caminho da casa do rapaz. riu ao imaginar a cara do rapaz perante a brincadeira que iria fazer.
Talvez desistir daquele garoto lhes trouxesse algumas coisas boas. Pessoas que a entendessem, como . Deu mais um gole em sua cerveja e levantou-se, pegando sua jaqueta e saindo daquele lugar, se sentindo tonta e ao mesmo tempo tão leve por ter tirado algo tão maléfico da sua vida. E não estamos falando sobre cigarros ou bebidas.

Atualmente, aos 20 anos. Ensino superior; Universidade

Ao redor daquela fogueira agora só havia , observando o fogo agora um pouco fraco. Logo se apagaria por completo. Se agarrou um pouco mais a malha que usava, enquanto pensava em como todos ali, possivelmente já adormecidos, mudaram tanto. E como ela havia mudado. Talvez nem tanto, ainda restava vestígios (um tanto grandes) da garota incompetente e arrogante que ela era. Muitas vezes, ouvira que era fria. Mas não era, ao menos não com as pessoas que estavam presentes com ela naquele dia.
Respirou fundo mais uma vez antes de se arrumar para levantar e entrar em sua barraca, mas o barulho de alguém saindo de uma das barracas chamou sua atenção. Era . O garoto que quase abalou emocionante por completo , no entanto ela conseguiu se livrar dele antes que isso acontecesse. Apesar de parecer cultivar algum sentimento por ele ainda...
— Não consegue dormir? — perguntou, sentando-se ao lado da garota. Havia percebido que ela sentia frio, mas não foi capaz de fazer qualquer coisa além de pensar em formas de piadas que a deixassem irritada.
— Na verdade, eu já estava indo. — Respondeu ríspida. havia desistido de continuar assuntos com , ele era rude na maioria das vezes.
— Eu tenho uma solução para seu frio. — Disse com intonação um tanto maliciosa. apenas o ignorou. Aquilo parecia ser tudo que ele pensava. — Ah, qual é, ?
— O quê, ? — Encarou o homem, séria.
— Vai me dizer que não quer? — Perguntou, aproximando-se um pouco mais da garota, que se afastou.
— Não quero.
— Tempos atrás você queria.
— Não estamos mais nesses tempos, meu anjo. — Disse, irônica.
— Você é um porre, . — resmungou, acendendo um cigarro.
— Você é um porre, . — Repetiu a frase de . Ele riu, balançando a cabeça após uma longa tragada.
— Talvez se eu incomodar um pouco mais , ela acabe cedendo. — o encarou, com raiva explícita em seu rosto. — O que foi? — Perguntou, com um sorriso no rosto. — A essa altura você sabe que eu e ela já...
— Sim, . — deu de ombros. — Mas não ache que isso vá funcionar. Por que é que você não vai atrás de outras garotas?
— Porque fora você e , a outra garota presente aqui é minha irmã.
— Ah, isso é uma pena. — fingiu feição triste. — Parece que não vai conseguir nada mesmo.
— Qual é a porra do seu problema, ? — Perguntou, asqueroso, a encarando com explícito ódio. não entendeu aquela mudança repentina de humor, e riu fraco.
— Sou eu quem deveria lhe perguntar isso. Eu não sinto mais vontade de fazer parte das suas farras. Isso te irrita? — Perguntou, debochada.
— Eu tenho pena de você, . Assim como todos aqui que só te aturam por isso. — Cuspiu as palavras. engoliu seco, respirando lentamente. — É tão infeliz que só causa pena. Você age como uma puta na maioria das vezes e ainda espera que um príncipe encantado apareça? — Murmurou baixo, mas baixo o suficiente para que ouvisse, e ela se mostrou realmente chateada com o que havia acabado de ouvir. se arrependeu no momento em que pronunciou essas palavras, mas não voltaria atrás. Ele tinha um certo problema com impulsos.
— Você age como um babaca todas as vezes e espera que eu ainda transe com você? — Disse, levantando-se. — Eu espero que você possa mudar. A única coisa que você sabe fazer é decepcionar as pessoas, e usá-las. Eu tenho pena de você. — Deu ênfase na última frase. Seguiu para sua barraca. Porém a impediu de prosseguir, segurando seu braço.
— E o que houve com o garoto que você estava se relacionando?
— Isso foi há três anos, . Não viva de passado, cresça. — soltou-se do braço do garoto, indo em direção a sua barraca, que dividia com .
— Vai se foder, . Ele deve ter te deixado por ser uma grande imbecil! Nunca foi boa em nada! — Disse, um tanto frustado. apenas o mostrou o dedo do meio, mas queria realmente o fazer comer areia.
O homem pareceu parar para analisar o que ela havia dito. Mas deu de ombros ao continuar fumando. Ou ao menos tentou não se importar. Virou-se no mínimo umas três vezes para observar enquanto dormia, e ria baixo de nostalgia ao lembrar-se das vezes que dormira com ela, e com , e agora ambas estavam ali juntas. Ele sabia que já fora apaixonada por ele, mas sequer parecia gostar dele. E talvez isso o incomodasse um pouco... Parecia ainda cultivar um sentimento por ela.

Capítulo betado por: Letty Fernandes




Capítulo 2 - Point of View


Acordei, automaticamente procurando meu celular para checar as horas. Era cedo. Não havia dado onze horas ainda, no entanto, já se encontrava fora da barraca. Não que isso me preocupasse, mas ultimamente ela almeja tanto ficar sozinha que tenho medo de que ela piore. Depois da morte de , ela tem se fechado tanto para mim quanto para qualquer outra pessoa próxima ou que tente se aproximar. Talvez só precisasse de espaço, entretanto, continuo me preocupando. A garota foi e é minha única companhia em casa, então observo de perto sua vida se degradar aos poucos. Eu queria poder conversar com ela a respeito disso, quem sabe ajudaria? Porém, tenho medo de sua reação; tenho medo de machucá-la mais, ainda que não fosse minha intenção.
Cocei os olhos e vesti a manta que estava ao meu lado, notando que a mesma estava com um cheiro diferente. Um cheiro reconhecível, mas que não era meu, e ainda sim bom. Prendi meus cabelos e peguei minha escova e pasta de dentes, em seguida fui até o lago escovar os dentes, com uma garrafa de água nas mãos.
estava lá, fumando. Fiz o que fui fazer, e a observei por longos segundos, até que ela finalmente se dispôs a dizer algo.
— Sinto muito por estar agindo dessa forma — disse, me encarando após o fim da frase. Apenas sorri.
— Está tudo bem. Não podemos forçar sua recuperação — falei, me referindo a falta que ela sentia de . A garota abaixou a cabeça, tragando seu cigarro.
— Não é isso, . — A encarei, confusa. — Eu me sinto melhor. Claro que sinto falta dele e me dói saber que é uma saudade que não posso suprir... — Respirou fundo antes de continuar. — Acontece que sinto como se nada mais fizesse sentido. Não sinto prazer em nada, como se tudo fosse indiferente para mim — explicou cabisbaixa. Eu não sabia sobre isso e tinha medo de continuar nesse assunto e dizer algo que não deveria, porém, não podia simplesmente ignorar o sentimento alheio.
, eu não sei o que te dizer. — E realmente não sabia. Ela assentiu com a cabeça, como se já soubesse o que eu iria falar a seguir. — Não consigo imaginar, mas me parece ser um buraco. Falta algo.
— Falta, . Mas não sei se é por causa de , entende? — Eu não entendia.
— Talvez o que aconteceu tenha desencadeado isso — sugeri, me aproximando mais da minha amiga. — Procure alguém que possa ajudá-la. — Me referi a um psicólogo. Ela concordou, sorrindo ao se levantar, jogando o cigarro no chão e pisando no mesmo, voltando para as barracas.
Eu me sentia mal por ela. Realmente mal. Ainda mais por não saber o que fazer para poder ajudá-la, algo que eu de fato gostaria. Ela foi minha única família por muito tempo, depois que minha mãe decidiu me abandonar e sair do país com o namorado. Ao menos pagava as contas do apartamento e me mandava dinheiro, mas gostaria de tentar contatá-la, o que seria possível se ela não tivesse cortado todas as formas de comunicação comigo.
havia chego, sentou-se e lavou o rosto. Estava com o rosto amassado de sono e era uma graça. Todavia, tudo que há de bonito nele se transformava em pedaços tão feios quando me lembrava do quão idiota ele era.
— Bom dia, — cumprimentou com a voz mais rouca que o normal. Apenas acenei com a cabeça, retribuindo. — Vou dizer, pensei em me desculpar — admitiu, e o encarei confusa. Até parece!
— E por que não o fez?
— Porque não mudaria nada. — E ele tinha razão. Continuaria sendo um babaca mesmo após as desculpas, porém ele não se prestava nem ao tentar. — E não me arrependo. — Ah, agora era um motivo real.
— Me responde — O encarei. — Por que você ainda insiste em falar comigo?
— Porque você se irrita — disse, entre risos. — E porque fica sexy assim. — Levantou-se, e não pensei duas vezes antes de acertar um soco em suas bolas, que estavam a minha altura já eu estava sentada.
Foi questão de segundos para ver seu rosto perder a cor e ele cair de joelhos no chão, se encolhendo de dor.
— QUAL É O SEU PROBLEMA? — gritou dolorido.
— Pediria desculpas, mas não me arrependo. — Levantei, dando de ombros. E não me arrependia mesmo.
— Ah, eu vou fazer você se arrepender, — ameaçou, contudo, não dei importância, afinal, o que ele iria fazer? Fui até as barracas e todos estavam de pé, arrumando suas coisas.
— Bom dia, zinha — disse, sorridente. Retribuí o sorriso.
— Bom dia, gente — Respondi e ouvi em seguida uma resposta em coro de e . já havia arrumado nossas coisas e desmontado nossa barraca.
— Vão fazer o que amanhã? — perguntou .
— Minha única opção é estudar para prova — resmunguei. Não que eu precisasse estudar, sei que iria bem mesmo se não o fizesse, mas sempre é bom revisar algumas coisas.
— Ah, não vou ter provas por algum tempo — respondeu. — Então estou livre para o que quer que você queira nos chamar, gatinho. — Piscou o olho; apenas ri.
— Tenho treino durante o dia — disse.
— Ah, então está combinado, a noite vai ter uma festa naquele galpão perto de casa — avisou, colocando uma mochila nas costas. Ninguém recusava uma festa do garoto, eram sempre as melhores, e isso inclui até mesmo brigas. Geralmente, estava metido nelas, então não me surpreenderia se a ele estivesse no meio dessa vez.
— Eu topo — respondi, levantando a mão. fez o mesmo e riu, me entregando uma das bolsas.
— Eu também! — Os outros dois amigos gritaram juntos, pegando suas coisas.
— Eu também — apareceu, cuspindo no chão próximo a mim, me encarando com ódio. E eu senti uma angústia realmente grande. Talvez fosse medo. Entretanto, isso era apenas imaturidade... Até porque eu também agi com imaturidade. E é provável que ele retruque da mesma forma. Então, devo temer?
— Então está tudo beleza. — exclamou, esfregando as mãos e rindo. — Vai ser demais, galera. — O jeito dele era tão engraçado, que era impossível não rir.
Todos já haviam se organizado e agora seguíamos para o carro. dirigia, e, vez ou outra, eu olhava pelo retrovisor. Ele não disse uma única palavra sequer durante o caminho de volta para casa, enquanto todos cantavam Don’t Preach To Me. Até onde eu sei, ele adorava essa música, porém permanecia quieto.
Não demorou muito até que chegássemos. Eu e arrumamos nossas coisas, e ela murmurou algo sobre ir até a casa dos pais. Apenas assenti, enquanto terminava de organizar minhas roupas. Fui tomar banho, logo depois decidindo estudar, pois amanhã teria uma festa de , e ninguém perdia uma festa do garoto, pois são inesquecíveis.

[...]

— Você tá maravilhosa, — elogiei. Nunca, em festa alguma, vi ela se vestir daquela forma. Realmente marcava o local com sua aparência e vestes. A garota sorriu, jogando os cabelos para trás dos ombros.
— Você também não está nada mal, lindinha — respondeu, passando um batom vermelho.
— Fico muito agradecida. — Sentei-me ao seu lado, passando o mesmo batom após ela terminar o uso. — Lembra quando nos conhecemos?
— Claro que lembro. — Ela riu. — Eu estava tão tonta, sentia que ia cair a qualquer momento. E você estava bebendo cerveja. — Era verdade. E ela detestava cerveja. Creio que continue assim, pois, até então, nunca a vi bebendo.
— Graças a um garoto idiota — mencionei . Minha amiga concordou, ainda entre risos.
— Não podemos dizer que ele não serve pra nada! — Assenti. — Ao menos para nos tornarmos amigas ele foi útil.
— Realmente. — Levantei-me, indo até o armário me perfumar. Acabei me lembrando do ódio eminente que havia recebido dele após ter apanhado, e me perguntei se ele ainda faria alguma coisa... Acho que ele sequer lembra-se da jura que fez. Então não me importa.
— Não cabe a mim dizer algo a respeito, mas... — estendeu o “mas”, e eu revirei os olhos. Já sabia. Ela tinha reparado. — Aconteceu algo para o ter ficado tão estranho?
— Se aconteceu, não faço a menor ideia. Por que eu saberia?
— Porque, linda, vocês estavam sozinhos no lago depois que saí. — Ergueu as sobrancelhas. — Deu pra perceber aquele olhar te fuzilando quando ele passou por nós nas barracas. — Ri ao me lembrar de sua feição com dor. Acho que foi a minha maior vitória. — E o ouvi gritando com você.
— Ai, , já entendi que você é 100% observadora, obrigada viu, fofinha? — ironizei, terminando de me perfumar.
— Então, o que foi que aconteceu? Ainda estou esperando uma resposta!
— Aconteceu que é um idiota, como sempre — A garota me encarou, ainda esperando. Bufei, prendendo meus cabelos. — Eu dei um soco nas bolas dele. — me encarou incrédula e desatou a rir logo após. Balancei a cabeça, rindo também.
— Não acredito! — exclamou entre risos. Confirmei com a cabeça, também rindo. — E o que ele fez?
— Se contorceu. — respondi como se fosse óbvio. — Disse que eu me arrependeria e esse tipo de coisa idiota que ele sempre diz.
— Mas tome cuidado — avisou. — Ele é muito vingativo, . Sabe disso. — Sim, eu sabia, mas o que ele iria fazer? Me bater de volta?
— Vamos? — perguntei, e ela assentiu com a cabeça.
O galpão onde costuma dar suas festas não era muito longe de onde eu e morávamos. Ele morava sozinho, depois que seu pai morreu dentro da padaria onde trabalhava. trabalha lá agora, ou só toma conta, na verdade. Porque seu irmão é quem fica lá todo o tempo, já que é tão inútil quanto alguém que conhecemos.
Alguns passos e já podia ouvir o barulho alto da música, encarei minha amiga, que sorriu, e fizemos algumas dancinhas juntas. O lugar era enorme, assim como os portões. Haviam dois seguranças conferindo a presença das pessoas. gostava de exagerar, às vezes.
e — anunciei para o segurança e olhei para a ficha em sua mão. A fila estava grande, contudo, por sermos amigas do anfitrião, ultrapassamos algumas pessoas que não evitaram em reclamar. O segurança conferiu nossos nomes e acenou com a cabeça para o outro, que permitiu que passássemos.
Ao entrar, você podia ficar tonto com tantas luzes oscilando sem parar, com tantas cores, senão fossemos acostumados, claro. O barulho era alto e ao pisar no local você já sentia o ar pesado, por conta das inúmeras pessoas já presentes ali, todas pulando animadas fora do ritmo da música. segurou meu braço, chamando minha atenção, apontando para e , sentados à uma mesa. Fomos até lá.
— Oi, gatinhas, estão a procura de diversão? — O dono da festa perguntou, mexendo em seu próprio mamilo sobre a blusa. Eu e minha amiga rimos e sentamos ao lado deles.
— Onde está e Lisa? — indaguei. apontou para a segunda citada, que se agarrava com algum qualquer. A outra menina estava logo ao seu lado, fazendo algo não tão diferente. Arqueei as sobrancelhas em sinal de não-estou-surpresa. O garoto revirou os olhos. riu ao perceber, tirando de seu bolso um saquinho com comprimidos.
— Aqui — Os jogou sobre a mesa. — quem trouxe. — e pegaram o saquinho. Onde estava?
A garota ao meu lado logo se levantou e ficou algum tempo dançando, enquanto eu e bebíamos e riamos de coisas aleatórias. já estava tão bêbado que ajoelhava aos pés de Lisa, e era impossível deixar de rir daquela cena. Foi quando alguém sentou ao meu lado. . Eu estava um pouco tonta, e ele havia trago uma garrafa de vodca, me entregado enquanto tomava uma das pílulas que ainda estavam sobre a mesa.
Eu não sabia distinguir as coisas mais: estava rindo de tudo. E também. Mas ainda sabia quem era que estava ao meu lado e o que estava fazendo. estava lá, e com uma das mãos no meu seio, enquanto tentava me beijar. Acho que cedi, porém logo recobrei a consciência e me afastei dele. Nunca ouve uma festa sequer que o garoto não tentasse isso.
estava um pouco perdida, então fui até ela, confusa também.
— O que houve? — perguntei próxima ao sei ouvido.
— Não consigo achar meu celular! — respondeu, olhando em volta de si mesma. Comecei a rir, e logo ela também.
— Pode ser que você deixou sobre a mesa onde estávamos — sugeri, e ela concordou com a cabeça, seguindo até lá.
Eu continuei onde estava, dançando com as pessoas ao redor. Tocava alguma música realmente boa, contudo, eu não faço a menor ideia de qual era. E continuei ali por mais alguns minutos, até receber uma mensagem de .

“Vem aqui fora, nos fundos.”
“Preciso de ajuda.”

Pensei que ela havia achado o celular e estivesse passando mal, então fui até a porta dos fundos, onde era um beco. Mas não havia ninguém lá. Estava chovendo, e eu havia deixado minha jaqueta lá dentro, portanto me encolhia de frio. Chamei por minha amiga duas vezes e decidi ligar para ela, desistindo ao ver dois homens entrando pelo beco. Resolvi voltar para o galpão, contudo, eu já estava muito tonta e quase cai, o que fez com que outro homem, que estava me impedindo de entrar, me segurasse.
— Obrigada — agradeci. Mas estava assustada. — Preciso entrar. — Apontei com dificuldade para a porta.
— Já quer ir tão rápido assim? — Ouvi essa voz vinda de trás de mim, dando de cara com os dois homens que vi alguns minutos antes, enquanto o que barrava a porta ainda segurava meu braço.
Me senti em desespero. Tentei me soltar, porém ele apertava meu braço cada vez mais.
— Me solta! — gritei. Eu estava com medo. Um deles me pegou pelo outro braço e me arrastou para o final do beco, que não havia saída.
— Calma, nós vamos ser rápidos — disse, entre risadas, desabotoando a calça. Eu me debatia com a força que tinha, na esperança de que conseguisse me soltar deles.
— Nem pense em gritar. — Um dos que me seguravam mostrou-me um canivete. Nesse momento eu já chorava, queria que tudo aquilo acabasse.
Então, o vi levantar meu vestido. Chutei seu rosto, o que o fez ficar irritado e acertar um tapa forte no meu.
— Sua vagabunda! — A essa altura, já havia desistido de tentar me soltar, quando alguém apareceu. Os homens me soltaram e foram ao encontro desse alguém.
— Eu disse que era apenas um susto! — exclamava irritado. Eu conhecia essa voz. — Não era pra estuprá-la de verdade! — Do que ele estava falando?
Fiz força para me levantar e reconheci o homem: era . . Que havia se livrado dos três homens, após pagá-los, e vinha em minha direção. Não acredito que teve coragem de fazer isso. Limpei meu rosto, tudo que eu queria era que ele morresse. Não imaginava que fosse capaz de fazer uma brincadeira de tamanha maldade.
— Oi, — disse, tentando me levantar, porém, não deixei que o tocasse em mim. Eu só queria ir embora e nunca mais o ver!
— Você é doente, ! — gritei com todo ar que tinha em meus pulmões. Ele recuou um pouco. — Eu não acredito que você teve coragem de fazer isso. Você é doente. — Não conseguia parar de chorar. Estava me sentindo assustada e com raiva; aliviada por não ser real, mas ainda sim tão decepcionada quanto o dia em que descobri que gostava dele. Eu sou uma idiota.
! — chamou, vindo atrás de mim. — Espera, foi só uma brincadeira. — Tentou rir para amenizar as coisas. Detesto esse homem. — Pare de ser infantil!
— Me deixa em paz, — pedi, o encarando. — Você conseguiu o que queria, — Funguei. — só me deixa em paz agora. — O fitei, percebendo que o celular de estava em sua mão. O tomei pra mim e entrei de volta na festa. Entreguei o telefone para minha amiga e segui pra casa.
Eu estava me sentindo suja. Sentindo-me tão mal, como nunca havia sentido. Queria sumir, queria nunca mais ver , a pessoa mais infeliz que já conheci. Como vim parar aqui? Como cheguei nisso?
Como eu disse, as festas de são inesquecíveis.



Capítulo 3 - Esclarecimentos

3 anos atrás, aos 17 anos. Ensino médio.

Já era tarde quando saíra da casa de , e não demorou muito para que outra garota fosse acompanhá-lo pelo restante da noite. Mas estava intrigado, e esquecer o diálogo que tiverem uma hora atrás estava sendo complicado. Perguntava-se por que diabos não conseguia deixar isso de lado; era como se a imagem dos lábios dela se despedindo transformasse em um vídeo lento enquanto ela pronunciava as palavras. Ele nunca havia a notado tão bem, nunca havia reparado nos detalhes da garota, mas era como se finalmente tivesse uma imagem real dela bem fresca em sua mente. E novamente o diálogo se repetia:
... — o chacoalhou novamente pelo braço. O garoto jogava videogame, sem lhe dar atenção. — , você pode prestar atenção em mim ao menos alguns minutinhos? Não vou demorar. — Pausou o jogo. Então ela não ficaria ali? Ele pensou que passaria a noite com ela.
— O quê? — perguntou, cruzando os braços e a encarando. Na verdade, não queria ouvi-la.
— Eu não vou continuar vindo aqui, não quero mais isso — disse, apontando para os dois. franziu o cenho, confuso.
— Tá bom. Não sei o que está fazendo aqui ainda — falou entre risos. Era tudo muito engraçado para ele, tudo era uma grande diversão. A vida tinha que ser uma piada da qual você ri eternamente, e, por isso, não levava nada a sério. permaneceu em silêncio por um tempo, pensando se contaria a ele ou não sobre seus sentimentos, e a resposta mais rápida e lógica que encontrou foi “não”.
— Eu só não quero mais. Não sinto mais vontade — explicou, mas era mentira. Tudo que a garota queria era tê-lo para si, porém, sabia que isso era uma condição impossível.
— Mas eu não perguntei, — o garoto respondeu, e a outra bufou. Era tudo uma perda de tempo; ele era uma grande perda de tempo que apenas desperdiçava o oxigênio do planeta estando vivo. Mas fazia aquilo intencionalmente, não sabia como agir naquela situação, então fingia não se importar, pois não ligava. Ou, pelo menos, tentava acreditar nisso. — Você não está com aquelas crises de ciúmes, não é? — questionou, iniciando outra risada, contudo, tornou a ficar sério ao perceber que ela não havia o acompanhado. — O quê?
, eu não gosto de você. Isso é vazio, sem sentido. — E não pense que não doía nela pronunciar aquelas palavras. — Ficar contigo é divertido, mas é apenas isso. Eu procuro algo a mais, entende? Mas, por você, eu não sinto nada e muito menos espero algo. — Agora tudo fazia sentido para ele, que levantou as sobrancelhas mostrando que havia entendido.
— Eu nunca teria um relacionamento com você, é por isso? — Era sim, mas ela jamais diria, até porque não mudaria nada.
— Não, é porque eu não sinto nada por você. — Mentiras, novamente.
— É recíproco. — Riu, se divertindo com a confusão que aquela conversa proporcionava. — É por esse motivo que não entendo o porquê de estar agindo como se estivéssemos terminando um relacionamento.
— Eu achei que seria justo te avisar.
— Se não temos nada sério, você não precisa avisar que não quer continuar mais dando para mim — falou, ainda entre risos, entretanto, por algum motivo, estava furioso. Não queria que aquilo acontecesse.
abriu a boca para dizer algo grosseiro, pois ele havia acabado de, basicamente, ofendê-la, porém respirou fundo e disse:
— Tudo bem, então. — A garota levantou-se do sofá, sorrindo de forma superior.
— Conheceu alguém que te proporcione algo real? — perguntou voltando para seu jogo.
— Conheci sim — disse, incerta se deveria ou não o contar aquilo. A verdade é que não havia conhecido ninguém, ela só não aguentava mais ficar com alguém que não sentisse o mesmo por ela.
estava arrumada; iria para uma balada assim que saísse de lá.
— Inclusive, vou vê-lo agora, então estou indo. Tchau, . — Ele a encarou, assentiu com a cabeça e voltou a fitar o personagem em sua TV.
Pegou seu celular, convidando Lisa para ir até sua casa, e descobriu que a mesma estava nos arredores, mas só a chamou pois sentia raiva de , já que ela encontraria outro cara. Sentia muita, muita raiva. Tanta raiva que não conseguia mais prestar atenção no que fazia e atirou com toda força o controle do videogame no chão, que quebrou por inteiro. Andava de um lado para outro pelo quarto, se perguntando por que estava sentindo aquelas coisas. Ele nunca se importou com ela. Não muito. Não se importava de ficar e fazer sexo com outras garotas, mesmo que ela estivesse presente e vendo. Não se importava se ela se sentisse mal com aquilo ou não, porque, na verdade, a garota nunca se mostrou afetada. Talvez ela, de fato, não ligasse, então por que ele estava se importando?
Foi desviado de seus pensamentos quando ouviu o barulho de campainha. Lisa havia chegado. Foi até a porta, e, sem nem ao menos dizer oi, beijou a garota com toda ira que sentia no momento. Foi então que notou que havia diferença entre os lábios de Lisa e . Parou o beijo e a encarou, surpreso por reparar tal coisa; nunca sequer se importou com esses detalhes. Que tipo de pessoa ele era?
— O que foi, meu amor? — Lisa perguntou, entregando beijos pelo seu pescoço. olhava para rua atônito, esperando uma coisa estranha: que voltasse.
Sacudiu a cabeça, livrando-se desses pensamentos. “Que droga é essa?”, perguntava a si próprio. Apenas sorriu para a garota em sua frente, levando-a para o quarto, sem cortar seu contato.
Acreditou que aqueles confusos sentimentos não passassem de uma frustração por ser dispensado, e, apenas assim, conseguiu parar de pensar em .

[…]


Mais tarde naquela noite, , uma outra garota que ficava às vezes, apareceu em sua casa às 3 horas da manhã, completamente bêbada. Ele acordou assustado com o barulho em sua porta junto a gritarias. Ao seu lado na cama estava Lisa, completamente adormecida.
sentou-se na cama, vestindo uma calça e indo até a janela, onde pode ver caída em sua porta.
— Meu caralho — sussurrou, passando as mãos entre os fios do cabelo.
Coçou os olhos e foi de encontro à no andar de baixo. Ele ajoelhou-se ao lado da garota, que abriu os olhos para o encarar e começou a sorrir completamente boba — por álcool ou por amor — ao vê-lo.
— Eu te amo — admitiu a garota, sorrindo, com a fala enrolada.
— O que está fazendo aqui? — perguntou.
— Eu vim terminar nosso namoro — disse, tentando soar o mais sério que conseguia; estava tão tonta que mal mantinha as pálpebras abertas, e a sensação de vômito lhe subia a garganta por ver tudo girando.
— Nós não namoramos, garota! — exclamou baixo. A menina finalmente abriu os olhos, espantada. E, após alguns segundos assim, começou a rir, contudo, o riso transformou-se em choro em instantes.
Ele, por sua vez, não sabia o que fazer. Estava perdido. Procurou pelo celular da outra, pois sabia que ela tinha o número de . Ligou para o mesmo, que não demorou muito a atender. Não podia deixá-la ali, e não queria a acolher em casa.
? — chamou, com voz de sono, ao atender o telefone.
— Não, cara, aqui é o . — O garoto sabia que o outro era apaixonado por ela, mas não se sentia mal por ficar com a menina.
? — indagou, confuso. — Mas que diabos... — Fora interrompido, não podendo terminar a frase.
, preciso que venha aqui em casa. — A garota ainda chorava tentando abraçá-lo, este que se contorcia todo para evitar o contato.
— Esse é o choro de ? — perguntou.
— Cara, ela está completamente bêbada! E está aqui na minha porta quase morta há algum tempo, eu suponho.
— Eu estou indo. — A resposta fora escutada.
respirou aliviado, não queria ter que cuidar dela. era seu melhor amigo, entre tantas brigas, sempre acabava por feri-lo de alguma forma, entretanto, permaneciam amigos. Chegava a ser insuportável a forma como ambos se tratavam.
— Quem será a próxima? — se perguntou, em voz alta. Depois de , veio , mas claro que os sentimentos desta estavam tão claros. Ela realmente estava magoada, contudo, o que poderia fazer? Nunca quis se relacionar com ela. Com ninguém, na verdade. E sempre deixou isso claro. A culpa era dele por a garota estar apaixonada e bêbada as três da manhã? Com certeza não era. Por mais que tenha feito algumas coisas que talvez a tivessem feito pensar que ele gostasse dela. Porém, isso não vem ao caso.
— A próxima o que, zinho? — havia parado de chorar, e agora tentava agarrar o garoto. “Não entendo o que está acontecendo com essas meninas hoje. Será que Lisa é a única que sabe o que quero de fato?”, pensava.
, — Segurou as duas mãos da garota. — eu não quero beijar você. — A feição da garota mudou de alegre para brava.
— Eu também não, eu não gosto de você nem um pouco. — Ao dizer “pouco”, simulou com o dedo polegar e indicador algo que fizesse referência a uma pequena quantidade, e depois, abriu os olhos surpresa, como se tivesse lembrado de algo. — Eu não posso te contar que gosto de você.
revirou os olhos. Será que demoraria muito?
— Não pode, porque eu não quero nada sério com ninguém, já sei e já ouvi isso hoje — retrucou, sentando-se ao lado da garota e apoiando as costas na parede.
— E porque você é um babaca aproveitador. — disse, apontando o dedo para o rosto do menino. — Vai se aproveitar de mim porque gosto de você.
— Talvez. — disse. E estava falando sério. não era feia, nem um pouco, na verdade. Aos olhos do garoto, ela era tão gostosa quanto . ? Fez uma careta ao perceber que pensou novamente, por mais breve que fosse, na garota.
— É por isso que já me garanti que você não vai fazer isso.
— É? — ele perguntou, a encarando divertido. — O que é?
— É segredo — respondeu, pondo o dedo sobre o lábio e murmurando um “shhh”. riu da garota e ficou feliz ao ver vindo em sua direção, completamente desleixado e com feição preocupada.
O amigo não morava tão longe da casa de sua casa, mas pareceu demorar uma eternidade para quem aparentou sair de casa da mesma forma que acordou. deu uma de suas risadas largas, abrindo os braços divertido, em forma de agradecimento, contudo, o encarava com certa raiva. E sabia bem o porquê.
Acontece que, no dia seguinte, não soube de , e nem se deu o trabalho de saber. Ele estava se divertindo demais em alguma festa, se drogando com , rindo de coisas que nem estavam ali de verdade. E não procurou o garoto, nem por um dia sequer. Ela havia tomado sua decisão, sempre fora do tipo de se apaixonar tão rápido quanto piscar os olhos e é por isso que se machucava tanto. Por mais que soubesse que não passaria de apenas coisas casuais, ela acabou se apaixonando e entrado em um poço tão fundo, com demora de sair. E por ser tão parecida com , acolheu a amizade da mesma, e por tempos foi a melhor coisa já feita.


Atualmente, aos 20 anos. Ensino superior; universidade.

O alarme tocava gritante. ergueu o corpo, forçando a se levantar, quase sem controle sobre o mesmo. Sentia os ombros pesados, estava cansada. Mas o peso se tornava maior ao lembrar do acontecimento da madrugada. Ainda se sentia tão triste ao pensar que teve a capacidade de lhe causar tal mal. Sabia que o garoto não era o melhor dos amigos, mas nunca imaginaria que ele faria isso; o medo que ele a fez sentir é algo real, que mulheres pelo mundo inteiro sentem, é o que ela temia acontecer e, mesmo que não passasse de brincadeira, não era algo que se devia fazer com mulher alguma. Com pessoa alguma. Ainda ficava imaginando se tudo aquilo fosse real, se tudo realmente tivesse acontecido, e ela poderia estar morta. Aquilo a assustava tanto, sentia mais ódio de . Ódio e nojo. Ele não pensava em seus atos.
O alarme gritou novamente. pareceu acordar de seu devaneio e o desligou.
Ela teria prova. Prova de uma das matérias em que cursava na faculdade; história, para ser mais exata. E queria lecionar, mas se sentia indisposta hoje. Não conseguia pensar muito bem em política há cem anos atrás quando, na noite passada, ela pensou que poderia morrer. Porém, novamente, forçou seu corpo a se levantar e se dirigiu até o banheiro para tomar um banho e descarregar toda a crosta grossa que sentia em seu corpo.
, eu vou indo! Marquei de me encontrar com antes de entrarmos nas aulas para revisar matéria! — falou alto o suficiente para que a amiga ouvisse. Como já estava saindo de casa, não esperou resposta da garota, que permaneceu quieta mesmo que estivesse esperando.
Era a última prova desse semestre, e depois haveria algum tempo de férias até que as aulas do ano seguinte voltassem, que inclusive era o seu último, depois podia de considerar graduada. Pensava em mestrado, talvez doutorado, mas no momento nenhum desses assuntos rondavam sua cabeça.
Ao sair do banho, se vestiu o mais rápido que pode ao perceber que passou mais do que o tempo devido no chuveiro. Não conferiu seus materiais, muito menos se olhou no espelho; apenas jogou a bolsa nos ombros e saiu apressada de seu apartamento. Encontrou no caminho e pegou carona no carro da amiga que, na maioria das vezes, estava atrasada também. Agradeceu mentalmente por não ter ido com a irmã, apesar do garoto ter seu próprio carro, se aproveitava da boa vontade dela por pura preguiça. A garota morava no andar de baixo do prédio onde morava, e havia vindo morar com a irmã e seu pai não tem muito tempo, desde então evitava ir com para a universidade, contudo, em alguns casos, como hoje, era de bom grado que a amiga apareceu por perto.
— Obrigada pela carona, — agradeceu, entrando no carro. A outra respondeu mandando um beijo no ar, não deixando de perceber seu semblante triste.
— O que foi que houve com você? — perguntou, ligando o carro e dando partida no mesmo.
— Oi? — indagou, fingindo não entender. — Comigo? — Apontou para si mesma. — Nada! — Fingiu um sorriso torto, fazendo a amiga rir, cínica.
— Meu anjo, você não me engana — respondeu, a encarando rapidamente. — , Lisa, e até mesmo meu irmão podem me enganar, mas você, gatinha? — Deu uma risada em som de “Há”, como se duvidasse da capacidade da amiga de mentir para ela.
pensou por alguns minutos se deveria contar sobre o que o irmão dela havia preparado como vingança ontem. Pensou que seria bom, e estava cogitando a hipótese de contar. E iria. Mas tinha medo do que poderia acontecer a seguir.
— Anda, ! — exclamou. — Eu vou te encher a paciência até que você solte o que está incomodando seu coraçãozinho. — A amiga era extremamente meiga, quem não soubesse sobre sua adoção realmente duvidaria do seu parentesco com .
— Não sei se quero falar sobre isso.
— Envolve alguém? — perguntou. confirmou com a cabeça. — Ok... — Pareceu pensar. — Lisa? — A encarou, parando com o carro diante de um sinal vermelho, vendo a amiga negar com a cabeça. — Está preocupada com ? — questionou, recebendo outro sinal negativo. — Você não arrumou encrenca com ou , isso é impossível — disse e riu, pois a amizade dos três era realmente de se admirar. — Comigo, até onde eu sei, também não. Então só me resta o como opção, ou alguém da qual eu não conheço.
— Olha, ... — respirou fundo. — fez uma brincadeira ontem da qual foi extrema até mesmo pra ele. Isso está me incomodando.
— Eu sabia. — A garota deu um tapinha no volante, voltando a dirigir. — O que foi que esse incompetente fez dessa vez? Me diz e eu atropelo ele agorinha — ameaçou, apontando para o irmão que atravessava a rua correndo. pareceu ficar surpresa.
— Não dá carona para ele, não! — exclamou. — Senão, não te conto.
— Eu não vou. Acabei de dizer que o atropelaria. — Ela se perguntava onde o irmão estava indo, sendo que a universidade ficava para o outro lado, mas deu de ombros.
— Ok. — deu um riso curto. — Quando fomos acampar, eu me irritei com e acertei um soco nele. Ele disse que eu me arrependeria, aquelas juras e promessas vingativas que ele sempre faz.
— E ele provavelmente te fez algo realmente idiota.
— Fez! — gritou. — Algo mais do que idiota. , ele pagou três homens para que fingissem que iam me estuprar. — freou o carro, ouvindo alguns xingamentos por ter feito tal coisa, contudo, a surpresa foi tanta que aquela foi sua única reação. E ela não voltou a dirigir, permaneceu ali, ouvindo buzinas e vendo os carros passarem em sua frente pela longa avenida.
— Você está de brincadeira, esse imbecil fez isso? — A amiga a encarava. prestava atenção no trânsito, assustada com o que poderia acontecer já que o carro estava parado em meio a uma avenida movimentada.
— Fez, mas eu acho que a gente devia continuar... — Não pode terminar.
, eu não estou nem ai! — interrompeu, mostrando o dedo do meio pela janela para um homem que havia passado ao seu lado xingando. — Isso é algo realmente escroto, até para ele! Eu vou acabar com ele, . — prometeu, voltando a dirigir. A outra menina respirou aliviada com a volta da consciência alheia.
— Está tudo bem, — disse, cabisbaixa. — Eu sei que seu irmão continua um babaca, mas não sabia que tinha aumentado tanto o nível.
— Não se brinca com essas coisas. — A irmã do garoto estava furiosa, agarrava o volante com tanta força como se fosse o arrancar. Acontece que ela já havia sofrido abuso quando era mais jovem, e sabia, ela repudiava qualquer ato desse tipo, por mais que não tenha sido real. nunca havia sentido tanta raiva do irmão como sentiu naquele dia.



Capítulo 4 - Point of View

O resto do dia se passou da seguinte forma: uma merda. Principalmente durante a prova — prova esta que eu imagino não ter ido tão bem, e o motivo é claro: .
Acontece que eu não era ruim em provas (não estou me gabando, é a mais pura verdade). Eu queria lecionar, tinha amor por isso, especialmente quando se tratava de história. Ah! História... Então, o mínimo que eu podia fazer era dar o melhor de mim todos os dias. E eu dava. Mas hoje acredito ter usado apenas 60% de mim. Foi suficiente, acho.
A minha volta para casa no intervalo foi realmente complicada; eu tenho certeza que, se estivesse aqui hoje, ele seria a pessoa mais sensata, quem estaria ao meu lado agora me ajudando com isso. Sinto falta dele, da sua companhia, de como era tão... florescente com ele por perto. Parecia tudo tão melhor. As coisas desabaram de uma forma totalmente sem rumo depois que ele se foi, e isso ficou bem óbvio, já que ele com toda certeza arrumaria as coisas por aqui. Nada do que aconteceu ontem teria acontecido na sua presença. Ele impediria , e, ainda que este não lhe contasse nada, ele teria descoberto antes daquele planinho ridículo ter início. E esse idiota nem se prestou a me pedir desculpas... Me questiono se ele perdeu a consciência ou se tem noção do quão baixo foi o que ele fez. Inúmeras situações como essa se repetem diariamente pelo mundo, e é o medo de diversas mulheres; ele foi — e é — estúpido o suficiente para pensar que eu levaria apenas um sustinho bobo, enquanto, na verdade, quase vi a minha vida inteira passar por meus olhos. Foi um pesadelo.
Esse é o problema com : ele sempre tenta justificar as coisas. Fica procurando motivos e razões, e às vezes só basta uma conversa, coisa impossível de se ter com ele, porque, como já disse milhares de vezes, ele é insuportável. Gostaria de pensar diferente, mas seus atos colaboram para que ele perca pontos comigo todos os dias.
Ouvi um barulho estranho vindo do quarto de , então levantei-me do sofá, parando de mudar de canal sem realmente prestar atenção e fui até lá. A porta estava aberta e ela estava no chão, parecia ter caído. Foi de imediato meu desespero, indo até ela, que chorava. Eu não tinha a menor ideia do que tinha acontecido.
! — a chamei. — O que houve? Por que você está chorando? — Sentei-me ao seu lado, puxando-a para um abraço.
— Eu sinto tanto a falta dele, . — Sua voz é embargada de choro. — Eu não aguento mais isso. Já faz dois anos! Não acaba nunca — ela disse em meio a soluços. Eu me sentia mal; me sentia triste em ouvir aquilo vindo dela. Acho que todos nós sentimos falta de , mas é como se evitássemos falar, e acho que isso só acaba piorando. e foram os que mais ficaram tristes na época. A garota tentou cometer suicídio duas vezes e ficou internada por um tempo, enquanto o outro continuou fazendo as patifarias que sempre fez, mas era perceptível que não fazia por diversão, mas para esquecer. sempre o livrava dos seus problemas; estando presente ou não, ele o ajudava a recobrar a consciência.
— Eu sinto muito, — asseguro, ainda a abraçando. Aquilo me partia o coração. — Gostaria de falar que vai passar, mas você já não acredita mais nisso, não é? — Ela concordou com a cabeça, limpando o rosto. — Pode ser que demore, mas eu sei que vai ficar tudo bem, ok? — Ela permaneceu quieta. — , vai ficar tudo bem. Você acredita em mim?
— Eu quero acreditar. — A solto quando sua resposta vem hesitante, e seguro seu rosto de frente para o meu, no intuito de fazê-la me encarar.
— Eu também sinto a falta dele, caso você se pergunte. — Ela secou mais uma lágrima que havia caído. — Me dói saber que ele não está mais aqui, e me dói demais ver você assim pelo mesmo motivo. Eu gostaria muito, , gostaria muito mesmo que nada disso tivesse acontecido, mas acredite em mim quando eu digo que vai dar tudo certo.
— Acho que... acho que ficar remoendo isso só está piorando — confessou, prendendo os cabelos. — É como se todos vocês fingissem que ele nunca existiu. — Aquilo não era uma mentira. Evitávamos ao máximo falar sobre . Tínhamos medo de como seria a continuidade do assunto; tínhamos medo de como seria falar sobre com ou .
— Você tem razão, mas não significa que ele não nos faz falta também.
— Eu sinto como se só fizesse pra mim. — Ela me encarou, séria. — Daqui a três meses vai fazer dois anos certinhos de que ele morreu, e falar seu nome em uma frase onde a palavra “morreu” está presente me incomoda muito. Ainda não me parece real.
— Ter que falar dele usando verbos no passado também é um horror.
— Eu sonhei com ele ontem, só queria que fosse verdade — ela admitiu e fixou seu olhar no chão de madeira do apartamento. Respirei fundo, me levantei e estendi a mão para que ela se levantasse também. Percebi que havia um quadro no chão, quebrado, com a foto de e . Esse era o barulho estranho que ouvi vindo daqui.
— Quer falar sobre outra coisa? — questionei. levantou a cabeça, me encarando por um tempo. Eu não disse nada, apenas a esperei pensar sobre. era um assunto muito delicado, uma vez que ela realmente o amou e sofreu de verdade com isso, era complicado tocar nesse assunto. Não só com ela, mas principalmente com ela. respirou fundo, secando uma última lágrima que descia pelo canto dos olhos e sorriu. Era um sorriso fraco, ainda era possível ver tristeza, mas ainda assim um sorriso.
— Pode ser — respondeu, sentando-se na cama. — Me sinto aliviada. — costumava ter picos de humor. Humores diferentes. Vez ou outra parecia não sentir nada, e ela percebia isso, como quando acampamos, mas haviam momentos em que ela sentia demais. Era um pouco complicado lidar com isso, ter de ficar alternando entre “conselhos”, vez sobre perda e tristeza, vez sobre querer sentir algo, mas eu já havia me acostumado, e ela estava melhorando em relação aos humores alternados, principalmente depois que começou a fazer os trabalhos com .
Sorri, abraçando-a por um curto período de tempo, me sentando ao lado e perguntando: — Sobre o que quer falar? — Ela levantou os ombros, como quem diz “não sei”. O pensamento em relação a me retornou à mente. Quer dizer, ambos cursavam medicina. Juntos. Não era novidade que sempre estivessem próximos, mas haviam se tornado ainda mais. amava, era completamente fascinada por medicina, quase tanto quanto eu por história, e partilhava desse mesmo amor, tinha um carinho mais sentimental pelo curso por conta da morte inesperada de seu pai, mas e se entendiam muito bem quando se tratava desse assunto. — E quanto a ?
Ela respirou fundo, deitando-se novamente, encarando o teto.
— Ele é ótimo — respondeu. — Está me ajudando. Não digo só em relação ao estudo. — Ela estava falando também sobre . também era amigo dele, não tão próximo, mas era, e sentiu na alma tudo que aconteceu. Por tempos, ele fora a única pessoa que eu podia confiar, e acredito ter sido recíproco, então sei o quanto ele sentia pela falta do pai. Ambos, e , tinham isso em comum: a perda. Então era de se esperar que a menina compartilhasse mais sobre com ele do que comigo. E estava tudo bem saber disso! Eu entendia. Sempre me orgulhei da grande compreensão que tinha.
— Eu imagino — respondi, sorrindo de forma compreensiva.
— Passamos muito tempo juntos por conta dos estudos, ele é uma boa companhia, mas tenho medo que confunda as coisas.
— Ele não vai. — Ou talvez fosse. Mas eu não iria fazer com que se afastasse do pilar que mais a ajudava no momento. Se começasse a cultivar um sentimento por si, eu tenho certeza que teria em mente o esforço e desgaste que isso o causaria.

[...]


Já eram quase duas da manhã e eu ainda não havia conseguido dormir. Eu e fomos para a sala e ficamos assistindo alguns desenhos. O dia seguinte seria o último dia de aula, e, pelo que me disse, pretendem passar o final de semana na casa da tia do , Lori. Era uma senhora muito agradável, simpática... Tinha um sério problema em ficar piscando os olhos muitas vezes, e pessoas que piscam tanto realmente me deixam intrigada. Fico me perguntando se é de propósito ou se há algo a incomodando... Incomodando por sete anos, já que é o tempo em que a conheço. Faz realmente algum tempo desde que a vi pela última vez, quando ela chamava de meu “namorado”, mesmo que eu a tenha dito sobre não estar com ele mais. Nunca estive, para falar a verdade, mas ficávamos juntos quando eu era a única garota em meio a nós, amigos, que ele optava. Por ser a única opção. Agora Lisa é essa opção. É incrível como a garota é obcecada por . Ela fica com outros caras, isso é óbvio, mas ela parece cultivar algo realmente doentio por ele; já fez coisas ridículas para tentar afastá-lo de mim, o que pesou sobre .
Foi quando meu celular vibrou. Era uma chamada de . Olho para , que já estava adormecida, e me dirijo para a cozinha, a fim de não acordar a garota. Ela sofre de insônia, e realmente precisa dormir.
— Oi, . — Atendo o telefone sem me esforçar para soar educada.
Amigaaaaa, preciso de um super favor seu! — Sua voz é totalmente mole em meio à gritaria e barulheira, e não preciso de muito para notar que ela está bêbada. Rolei meus olhos, pois com certeza esse favor não seria algo agradável.
— Ah não, garota! Você está tonta e com certeza é alguma merda — eu digo com convicção. Nunca, em anos, me ligaria durante a madrugada para pedir um favor simples. Acredito que nem estando sóbria em um horário comum ela me ligaria para isso. Sempre são coisas que eu me nego a fazer, mas, no fim, acabo cedendo, pois sei que, se fosse ao contrário, ela também faria e já fez.
Mas é urgente. Eu estou perdidassa. — Riu muito, e parou de falar comigo na ligação para murmurar algo para alguém. — Não vou passar a noite em casa, mas busco ele de manhã, eu juro! — Do que diabos ela estava falando?
— Ele? — perguntei. — Ele quem, ?
! — respondeu, e logo em seguida arrotou. — Acho que vou vomitar.
— De que merda você está falando? — indaguei um tanto irritada. Eu acho que já conseguia imaginar qual seria o grande favorzinho que ela pediria, e a raiva veio adiantada. Ou minha própria amiga me odeia em segredo, ou ela possui algum problema.
Eu o deixei na portaria. Ele está tão mal quanto eu vou ficar, mas percebi que não deixei as chaves com ele, e se ele acordar meu pai agora é certeza que manda ele embora respondeu, fazendo voz de quem estava triste, na tentativa de me convencer. Coloquei a mão sobre a testa, eu não entendia o porquê de ela estar fazendo isso depois de tê-la contado sobre a merda que ele fez. Eu sentia repulsa, vontade de me manter longe dele, eu... sentia medo, não sei! Jamais imaginaria algo tão nojento vindo de , mesmo sabendo o quão repugnante ele era.
! Não! Ligue para outra pessoa.
, eu não tenho para quem ligar. — Pensei automaticamente em ou . — não me atende, e eu não faço a menor ideia do que aconteceu com o celular de .
, eu não vou o ajudar. Eu te disse sobre o que ele fez, eu não quero vê-lo.
Mas, , eu conversei com ele antes de tudo isso. — Ela se referia antes de terem bebido. — Ele está triste e arrependido. Disse que não vai acontecer novamente, e, também, quando ele acordar eu já vou estar aí e ele vai pensar que eu estava com ele durante toooodo o resto da noite. Por favor! — disse e logo ouvi risadas. A música estava tão alta que parecia que meu celular gritava comigo. — Amiga, vou desligar. Beijo.
, eu não... — Ela desligou. — Mas que merda, garota!
Eu sabia sobre ter passado por uma situação parecida, e sabia o quanto ela detestava atos assim. Me admira ela estar bêbada e não estar com raiva de . Acho extremamente difícil eles terem conversado e ele ter realmente dito aquelas coisas. não era assim, sabia que eu tinha consciência disso. Ela tem que estar realmente louca para me pedir uma coisa dessas!
Eu podia deixá-lo lá, e quando tentasse ir pra casa, teria que chamar o senhor , que logo em seguida o acolheria a gritos. E, no dia seguinte, não pagaria sua estadia na faculdade, e não o deixaria morar lá mais. Ele teria que se virar sozinho a partir disso, e juro que essa é uma hipótese tão boa quanto a segunda. Pode ser que ele saia andando por aí e acabe por se perder, o que não seria nada ruim caso ele parasse o mais longe possível de mim e qualquer pessoa que eu ame, ou quem sabe poderia ser sequestrado? Assim, talvez, ele pudesse entender a merda que havia feito. E eu torcia para que, durante o tempo de período da cozinha até a porta do apartamento, isso acontecesse. Ou, quem sabe, alguém sentisse pena daquele pobre coitado bêbado, jogado na rua uma hora dessas, e o levasse para casa? Ou alguma fã que já viu algumas peças de teatro aparecesse e tomasse conta. Pedi aos céus que isso acontecesse enquanto eu andava até o elevador. Respirando fundo e contando lentamente de um a cinco.
Ou, por que não? Alguma das inúmeras garotas que ele fica constantemente não o achasse.
— Um...
Ele podia, também, recobrar o pouco que resta da consciência e ligar para uma delas...
— Dois...
Triste me sujeitar a não poder correr para ou . Me surpreenderia se eles não estivessem dormindo a essa hora.
— Três...
Entrei no elevador e apertei o botão do primeiro andar.
— Quatro...
Esperava, como uma outra opção, que ele já estivesse dentro do prédio batendo na porta de casa, pedindo, implorando para que o pai o deixasse entrar, e assim voltaríamos para a primeira opção, a qual eu almejo veemente que ocorra. Se não hoje, algum dia.
— Cinco. — O elevador abriu. Minhas mãos suavam. Fechei os olhos e respirei fundo. Ao abri-los, torci para que ao menos uma das hipóteses que cogitei tivessem acontecido. Embora, muito provavelmente, ele estivesse realmente jogado na portaria e dormindo. Ou desmaiado. é tão responsável quanto uma criança de dez anos. Não que deva se responsabilizar por ...
Infelizmente, lá estava ele. Como eu havia imaginado. Rolei os olhos, abrindo o portão. Durante esse período da noite não havia sequer segurança ou porteiro, os moradores deviam se virar. Acontece que por aqui ninguém sai de seus quartos esse horário.
Ajoelhei na frente de , e, mesmo não estando tão perto, já era possível sentir o odor forte de álcool e cigarro. Ele havia cheirado também. Respirei fundo mais uma vez. Sentir esse cheiro e ver seu rosto me fazia lembrar da minha vontade de socá-lo até a morte.
... — chamei, mas ele pareceu não ouvir. Sequer pôde se mexer. — ! — chamei um pouco mais alto, porém nada novo. O sacudi um pouco. — , pelo amor de Deus, acorda! — Foi quando recebi um sinal. Um resmungo. Apenas isso. — Mas que caralho. — Tentei levantá-lo, mas foi em vão ao perceber que eu não aguentava seu peso.
Estava muito frio do lado de fora e não era tão seguro assim. Eu estava quase chamando o senhor , mas prezava tanto pelo irmão que me pesava a consciência. Mas eu queria. Iria o chamar uma única vez mais, se não houvesse resposta o deixaria ali, era isso que eu iria fazer!
! — prolonguei seu nome ao pronunciar enquanto o sacudia, torcendo para que ele não respondesse.. O mesmo abriu os olhos, infelizmente, assustando-se, enquanto apalpava todo seu corpo. Acredito que a procura do celular, que percebi estar jogado no chão ao seu lado. Apontei para o mesmo e ele seguiu meu dedo com os olhos, até o encontro do celular, o pegando com alívio.
— Obrigado... — Agradeceu e direcionou o olhar para mim. — ? — disse, confuso, com a voz enrolada. Coçou a cabeça. — Eu acho que ainda estou vendo coisas — continuou e começou a rir, sacudindo a cabeça com os olhos fechados, esperando que eu fosse desaparecer. Eu não acredito que estou passando por isso. — O que você ainda está fazendo aqui? — perguntou, mais confuso ainda, ao abrir os olhos.
— Eu não sou nenhuma alucinação sua, ! — exclamei alto, irritada. Eu esqueci da parte em que teria que lidar com um bêbado.
— Não? — perguntou tentando tocar meu rosto. Bati em sua mão de imediato. Ele pareceu se admirar com o tapa que eu dei, pois foi real. Eu não pude deixar de rir, me contendo logo em seguida.
— Vem, levanta. — Me ergui, estendendo a mão para que ele se apoiasse e levantasse. Ele olhava atordoado por todo o lugar, parecia nunca ter visto aquele local.
— Caramba — murmurou entre risos. — Essa era da boa! — Se referia a alguma droga que havia usado. Dei de ombros e ele se levantou; quase caiu umas duas vezes, me fazendo desiquilibrar sem parar, mas chegamos no elevador. Foi o momento em que eu pude respirar. O deixei no chão enquanto estalava minhas costas que já doíam como se fosse uma grave dor na coluna, ainda que eu só tivesse “carregado” por pouquíssimos minutos. Não que ele fosse gordo, mas eu não aguentava o meu próprio peso! E ele não era pouco musculoso, digamos.
Olhando assim para ele, não parecia ser tão ruim. Passava uma imagem vulnerável, inofensiva. Parecia uma criança perplexa com algo novo, mas só estava drogado e não passava de um ser repugnante. Mas muito bonito, por sinal. Algumas marcas em seu rosto estavam mais fortes, em comparação a última vez que o vi tão de perto e o analisei. E isso tem muito tempo. Vez ou outra ele parecia cochilar e a cabeça caía rapidamente sobre o ombro, mas logo ele acordava e a levantava de novo. Era engraçado. Eu poderia pensar em tantas coisas horríveis para fazer com ele para que no outro dia ele se sentisse mal, mas eu não conseguiria. Eu não sou como ele. Não quero que me odeiem, como disse, eu só não me importo... Mas dessa vez, eu me importava.
O elevador abriu. se apoiou em mim novamente e seguimos até a porta de casa. Ele parecia abismado, indignado.
— Ei — chamou —, eu não moro no apartamento trezan... trazen... mas que diabos. — Ele parecia não conseguir falar o número correto. Um pouco longo demais para alguém extremamente chapado e bêbado.
— Trezentos e cinquenta e oito — terminei, pegando as chaves do meu bolso com uma das mãos.
— Isso — afirmou, franzindo o cenho, fazendo uma cara de quem estava com raiva —, trezatentos e sessenta, não! Cinquenta e oito. — Não pude deixar de rir da sua frase embolada. — O que vai fazer comigo? — perguntou, em tom malicioso. Rolei os olhos.
, fica quieto agora — pedi me recordando de , mas ao abrir a porta eu não a via mais no sofá. Já deveria ter ido para o quarto.
— Sim, senhora — disse e sorriu. Eu gostava do sorriso de , era bonito. Não era perfeitamente alinhado, mas a forma que o abria era encantadora. Deixava mais a vista algumas marcas em seu rosto, o que o fazia parecer mais maduro, no entanto sabemos o quão infantil esse homem é. Acontece que, quando bebia, parecia ser outra pessoa. Parecia alguém... bom. Não parecia ser o repugnante.
Tentei chegar ao meu quarto com o mínimo barulho possível, e quase consegui, se não tivesse decidido de uma hora para a outra começar a cantar. Me amaldiçoei por dentro. Queria morrer. Tampei sua boca, e exclamei um “shh” para que ele ficasse quieto. Ele concordou. O levei até o banheiro, fechando as portas para abafar o som. sentou-se no chão, ao lado do vaso sanitário. Eu não tinha nenhuma obrigação, mas, como havia dito, naquele momento não parecia ser o extremamente babaca. Era só o extremamente vulnerável e idiota em um sentido fofo. Eu não sentia tanto ódio o vendo assim. Afinal, ele estava aos meus cuidados e eu poderia fazer o que quisesse. Incluindo afogá-lo, mas não tenho uma banheira, então iria apenas o deixar sobre o chuveiro gelado.
Tirei seus sapatos e blusa com certa dificuldade e pedi que ele tirasse a calça, pois estava realmente complicado. Ele o fez de uma forma tão lenta que eu pude sair do banheiro a procura de algumas roupas antigas do alojadas em algum lugar do meu guarda-roupa e voltar, e ele ainda permanecia tirando as calças. Bufei, o ajudando, foi quando percebi que ele me encarava, sem se mover.
— O quê? — perguntei. Ele abriu novamente um sorriso bobo, com os olhos apertados na bochecha por estar sorrindo.
— A gente se conhece, não é? — indagou, tentando tocar em meu cabelo. Retirei sua mão.
— Não — respondi ao retirar a vestimenta, que por acaso estava vomitada. Ugh.
— Como não? Você me lembra uma garota da qual eu gostei muito. — Por um momento, eu travei, assustada. Afinal, nunca gostou de mim... Digo, não assim. Acredito que de nenhuma forma. — Louise, o nome. — E então percebi o quão idiota eu estava sendo. Como pude pensar que se tratava de mim? Eu sou muito idiota. Ele fez algo horrível e eu ainda encontro possibilidade de um possível sentimento de três anos atrás ter sido real pra ele. Panaca!
— Pois bem, me chamo — falei enquanto ligava o chuveiro. Ao me virar, percebi que sua mão ia em direção a minha bunda, mas seus movimentos estavam tão lentos que eu pude pará-lo antes que alcançasse e eu me irritasse.
? A ?
— Parece que alguém se lembrou. — Coloquei as mãos sobre a cintura. Ele começou a rir alto. — , não ria tão alto, por favor. — Me preocupava com o sono de .
— Você não é ela. Ela não iria cuidar de mim estando acabado assim. Me deixaria lá fora. — Me surpreendi com o quão bem ele (não) me conhecia. É claro que eu não o deixaria lá. Pensei nisso, e muito. Cogitei tanto essa hipótese... mas eu me arrependeria, e odeio me arrepender de algo, e, afinal de contas, isso mostra que não sou como ele, certo? Certo!
— Por que ela faria isso?
— Porque eu fui um babaca — cuspiu as palavras com ódio. Era uma surpresa. Nunca o vi arrependido de algo que fez, nem mesmo bêbado, mas deixei de conhecê-lo e tentar o fazer há anos atrás, minha imagem e definição de ainda é arcaica, por mais que ele aparente ainda ser quase que 100% do que era antes. Mas vimos que arrependimentos durante seus momentos de álcool fazem parte do atual. Como eu disse: uma surpresa.
— O que você fez? — questiono novamente, dando continuidade à confusão de .
— Eu sinto muito por ter feito aquilo.
— Então se desculpe com ela — sugiro. Estava divertido ter aquela conversa com o vulnerável e sensível. Era totalmente explícito seu rosto deprimido e isso me deixava satisfeita! É claro que ele se arrependia, mas nunca demonstrava, e ver isso estava sendo tão bom quanto icônico.
— Eu não posso — respondeu, me deixando intrigada. — Não consigo, não quero. — E tudo voltou como era. Não me parecia mais tão divertido após isso.
Empurrei-o para debaixo da água, e ele reclamou de alguma dor por ter batido o braço com força na parede, mas eu não me importava. Acredito que, no momento em que você está bêbado, está em seu momento mais sincero, e se mesmo bêbado ele pensava aquilo, então eu não devia o perdoar. Caminhei até a porta do banheiro, mas ouvi me chamar.
— Fica aqui um pouquinho mais. Tá muito frio — pediu, espirrando gotículas de água no chão ao falar.
— Você é um porre, — reclamei, deixando as roupas que trouxe de sobre a privada, junto com uma toalha. — Quando recobrar um pouco da sua sobriedade, espero que ao menos me agradeça por ter te ajudado — exclamei e sai do banheiro. consegue estragar os melhores momentos. É por isso que ele é, por inteiro, uma grande ruína.
Peguei meu celular e enviei uma mensagem para , que já havia me ligado outras duas vezes. A avisei sobre estar aqui e bem, mas que se ela não aparecesse em casa para buscá-lo até as sete da manhã, eu diria ao pai dela que ele invadiu minha casa bêbado.
“Não precida de trandoexgero. Eu vou estarai, , não faz merda pfvaore..”, essa foi sua mensagem em resposta. Difícil de traduzir, mas já estava acostumada o suficiente para entender. Sentei-me na cama, pensativa: o acolheria nesse momento, não eu. Como gostaria que esse garoto estivesse aqui ainda... Sinto falta dele. Ele era quem completava tudo, agora falta algo. Para todos nós. Acredito que em todos nós também... Era ele quem mantinha o equilíbrio.
vez ou outra tossia e cantarolava alguma coisa, mas já havia um tempo que tinha parado. Decidi ir vê-lo e, então, notei que estava adormecido. Desliguei o registro e mais uma vez me vi tentando acordá-lo.
— chamei enquanto coçava meus olhos. Eu estava começando a ficar com sono. Ele acordou. Obrigada, céus! Peguei a toalha e o entreguei, ele havia começado a tremer de frio. Seu rosto até parecia um pouco mais pálido.
— Eu não tenho o que vestir. — Ele não estava mais falando enrolado. Agradeço por isso. Não era difícil entender, e ele ficava realmente bobo, mas naquele momento eu prefiro destratar alguém um pouco mais sóbrio. Qual é?! Ele parecia uma criança há minutos atrás!
— Elas estão aqui. — Coloquei as mãos sobre as roupas em cima da privada. — Eram do , espero que não se incomode. — Ao mencionar o nome de , ele pareceu ficar incomodado. Com certa tristeza. — Tudo bem? — perguntei e ele assentiu.
Sai do banheiro e me sentei na cama o esperando sair do banheiro. Ele dormiria no sofá, obviamente, então fui até a sala deixar alguns cobertores por lá, e, ao voltar, eu o vi já deitado em minha cama. Ele só podia estar de brincadeira. Podia estar bêbado e se sentindo mal, dormir no sofá com toda certeza não iria piorar, e eu não o queria na minha cama.
, eu vou dormir aí. — O balancei, e então pude ver seu rosto molhado. Sei que ele não estava tão atordoado quanto no momento em que o peguei do chão na portaria, mas continuava bêbado. E estava chorando, pelo que me parecia. Aquilo me deixou comovida, de certa forma. Eu nunca o vi chorar, Nnm mesmo com a notícia sobre . — O que houve? — Me sentei na beirada da cama. Ele apenas limpou o rosto e continuou me encarando. — É por causa do... — Não pronunciei seu nome, mas ele concordou com a cabeça. — Oh, certo. Sinto muito.
— Não tenho mais ninguém que se importe comigo — ele disse em um tom de voz fraco, rouco e, de certa forma, as palavras me soaram pesadas. — Só tinha ele. Só ele, . — “”, huh? Fazia tempo que não o ouvia me chamar assim. encarava o colchão enquanto falava, e aquilo me deixou triste. podia ser a pessoa mais repugnante que conheço, e parecer muitas vezes ser um imbecil que não tem sentimentos e não se importa com as pessoas que tem, e eu mantinha uma raiva grande por ele pelo que fez, juro, mas naquele momento eu me senti triste por ele.
— Isso não é verdade. — E não era mesmo. Ele soltou uma risada irônica. — Não é, ouviu, ? — O encarei mais de perto para que ele entendesse. o amava de todo coração, e tenho certeza que seu pai também. e o achavam essencial. E, bom, se eu não me importasse ao menos um pouco, acredito que não o teria ajudado, mesmo que a maior parte dessa ajuda tenha sido por .
— Me desculpa — ele pediu com o tom de voz quase inaudível. Ele havia se desculpado, e não me parecia falso. Talvez porque estivesse bêbado... Nunca veria isso vindo dele sóbrio. — Não pensei direito.
— Você nunca pensa direito. — Respirei fundo e bocejei logo em seguida. Eu estava contente, mas ainda não me era suficiente. — Você pode dormir na sala, eu fico aqui — falei para que ele entendesse que eu definitivamente não iria deixá-lo dormir ali. Nem mesmo triste. Nem mesmo que fosse seu último dia de vida.
Ele apenas levantou e se dirigiu para a sala sem dizer uma única palavra. Mas eu ainda sentia um peso no peito. Me deitei, eu precisava dormir. Foi um dia muito cansativo.

[...]


Acordei assustada com me sacudindo. O brilho do dia já entrava pela janela; eu não havia dormido nem cinco horas e era acordada daquele jeito? Foi como piscar os olhos. Demorou um pouco para que eu conseguisse ver com clareza e qualidade o rosto de , que parecia preocupado.
— Oi, bom dia — falei cobrindo meu rosto com a mão de toda aquela claridade.
— Cadê o ? — ela perguntou com o tom de voz desesperado. estava completamente descabelada, com maquiagem borrada até o nariz, cheirando a álcool e cigarro.
— Pelo que me lembro, pedi que ele dormisse na sala.
— ACHEI! — gritou do... espera, do meu banheiro? Quando foi que ela entrou lá?
Adentrei o locall e lá estava , com a cabeça apoiada no vazo sanitário — que estava cheio de vômito, inclusive. Olhei para , que agora respirava aliviada, e pensei em voltar a me deitar, mas não deixou.
— Já são sete horas, daqui a pouco você tem aula.
— Dá uma folga, . — apertou a descarga, acordando . — Hoje é o último dia de aula, ninguém vai.
— Bom, eu vou. — saiu do banheiro para se arrumar. Eu só queria passar todo o resto do dia dormindo. tampava os olhos e ao mesmo tempo os coçava, por conta da luz, do sono, e da possível dor de cabeça. — Não estamos mais no ensino médio onde ninguém vai no último dia de aula — resmungou fora do quarto. Bom, eu não iria. Eu merecia um descanso! Já havia passado pelas provas finais e tinha ido bem. Esse momento é meu!
— Vou pegar um remédio, olha ele rapidinho — pediu.
levantou a cabeça e me encarou com os olhos semicerrados. Era engraçado o rosto amassado de sono e toda a posição torta de quem dormiu no banheiro — e de mal jeito. Mas, apesar de toda distorção facial por causa do sono, vulgo bochechas inchadas e olhos pequenos por causa da luz, ele ainda parecia irritado. Bom, não era novidade que ele não fosse lembrar de algo, ou se quer mostrar que lembrava, ele mentiria, afinal, vulnerável e dócil? E logo eu presenciei? Era um absurdo para ele.
— O que está fazendo na minha casa, ? — perguntou, rude. Cruzei os braços, arqueando uma das sobrancelhas. Ele não se lembrava, como disse. Ou fingia. Nunca saberei, e não me importa. — O que está olhando? Se manda!
— Garoto, você está no meu banheiro — falei ainda o encarando. E voltamos ao zero novamente! Ele olhou ao redor, percebendo realmente não estar em casa. E antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa, abriu a tampa do vaso para vomitar. Eu também quis vomitar ao ver aquela cena. Nojo. — já vai trazer algo para isso. — Me referi ao enjoo da ressaca. me olhou, limpando a boca e disse, entre feições confusas:
— Por que eu estou no seu banheiro? — Passou de confuso a assustado. Encarei o teto, respirando fundo. Definitivamente: Não seria eu a pessoa a explicar!
entrou no banheiro, me beijando a bochecha e dizendo um “obrigada” só mexendo os lábios, sem emitir som, e ainda bem! Me poupou. Sorri e sai do banheiro, me deitando novamente em minha cama. E, dessa vez, eu iria dormir.



Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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