FFOBS - Promise (I'll be), por Pyo

Última atualização: 14/01/2018

Capítulo 1

Ela corria pela avenida chorando como se tivesse perdido um parente. As mãos, que antes eram delicadas com a francesinha sob as unhas, agora estavam sujas por ter tropeçado no próprio véu e o joelho ralado, sangrava. Sua vida estava cabeça para baixo...

2 semanas antes...


— Tudo pronto para a degustação de bolos?
Jiyi perguntou novamente só para ter certeza de que estava tudo nos conformes dela. A senhorinha de 82 anos realmente odiava quando as organizações de seus casamentos não saiam como planejado.
O casamento de e já estava sendo preparado há mais de um ano. O casal, que noivou há exatos 5 anos, em pequenas 2 semanas estariam juntos até que a morte os separasse.
Ambos vinham de famílias extremamente bem de vida. , que nasceu e cresceu num pedestal, sempre foi o mais paparicado pelos pais, que estudou nas melhores escolas, teve as melhores roupas e que claramente, se casaria com a melhor esposa que os pais pudessem arranjar.
nasceu em um berço de ouro e por mais que inicialmente tenha vivido toda a sua adolescência e começo da vida adulta nos Estados Unidos, voltou para estudar na Coréia depois de anos fora da terra natal. Os dois foram apresentados pelos respectivos pais e logo se aproximaram. Tinham uma relação superficial no começo mas logo foi substituída por amor de ambas as partes. não podia negar, amava , e muito.
Estavam na sala de estar do Saveur de corée, uma confeitaria renomada de Seul especializada em bolos de casamento.
O casal andava de mãos dadas olhando do chão ao teto. Ela, de saia lápis com uma estampa de quadradinhos e uma blusa com mangas com babados. Um laço que ia da blusa até a cintura e um par de sapatos pretos. era mais casual, uma skinny jeans azul com sapatênis e um casaco de inverno, pois fazia frio naquela manhã.
— Poderiam seguir por aqui, por favor? A degustação será em alguns minutos.
Uma senhora de meia idade com um rabo de cavalo e o uniforme da confeitaria veio nos avisar.
— Senhor e senhora...?
.
Responderam em uníssono. O rosto de se mostrava vermelho como cereja.
— Nós temos bolos dos mais variados, porém nos foi enviado uma lista rigorosa sobre quais sabores seriam aceitos em condições específicas. Aqui diz, cerejas apenas da época, damascos apenas se na paleta de cores da festa incluir cores pastéis...
realmente não ligava para nenhuma dessas coisas. A mãe de , , que fazia todas essas exigências sem cabimento. Afinal, a festa era dela ou da sogra?
Sem poder contestar, experimentaram todos as amostras e se despediram. Pessoas de negócios estão sempre atrasadas.
— Eu não achei o de cereja interessante. Artificial demais. — Ele disse enquanto colocava a chave na ignição.
— Mas o de damasco também pareceu sem graça até demais. Eu ainda prefiro o de chá verde, mas sua mãe diz que não combina com a cor que "nós" escolhemos.
— Você sabe como ela é... Talvez só esteja com um pouco de birra. Se você conversar calmamente, talvez possa convencê-la.
— Eu espero que sim. — checou o celular rapidamente, se lembrando da reunião em meia hora. — Eu realmente preciso deixar nossos planos de lado agora. A empresa vai falir e a culpa vai ser minha! — Riu enquanto puxava os cabelos para trás num rabo de cavalo.
— Você só precisa ter mais confiança. Agora só faltam 2 semanas! Fighting!
— Você diz isso porque só vai nas partes legais. Experimentar bolos, ver lembrancinhas...
— Não é verdade! Eu me lembro de ter escolhido a cor do guardanapo!
— Quando os convidados chegarem, farei questão de dizer: *a cor dos guardanapos foi escolhida a dedo pelo ilustre noivo*.
Os dois riram como se fosse a melhor piada que já ouviram. Nada como estar confortável do lado de quem você ama.
parou o carro na entrada da empresa. A família de , os , tinham uma multinacional de alimentos e ela foi encarregada de cuidar do JBJ CANDY. Agora, uma das mais lucrativas do mercado.
— Nos vemos de noite, certo? — Ele deu um sorriso de canto.
— O jantar é às 19h. Não se atrase! — Pegou sua bolsa e abriu a porta, dando um tchau rápido para seu noivo.
era claramente uma moça decidida e independente. Inicialmente, seus pais não queriam que ela administrasse uma parte tão importante da empresa, pois tradicionalmente falando, mesmo sendo a mais velha dos irmãos, deveria centrar-se apenas em encontrar um marido para casar. “Atrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher”, sua mãe dizia, mas o espírito americano de falava mais alto. Não queria se casar. Queria ser livre para fazer o que quisesse quando quisesse. Casamentos significam compromissos, compromissos significam responsabilidades e responsabilidades são como pedras que nos ajudam a cair do precipício.
Era assim que ela pensava até conhecer . Não pôde deixar de notar como os olhos dele brilhavam toda vez que falava sobre baseball, seu esporte favorito. E sobre como era simpático com todos conversavam com ele. Seus funcionários o adoravam e seu título de “príncipe encantado” realmente não era à toa. A aproximação dos dois foi planejada, isso é um fato. Mas, a moça não conseguiu esquecer tão facilmente. Muito menos ele. Poderia ter acontecido todo aquele típico romance coreano, em que os dois são inocentes e tímidos. O primeiro beijo é demorado e o eu te amo é quase como uma promessa que jamais poderia ser quebrada. Pela pressa por parte dos pais, resolveram assumir seu relacionamento sem ao menos ter certeza de seus sentimentos. Os encontros eram estranhos e um pouco sem graças…

Já era a quarta vez que tagarelava sobre algo aleatório.
“Eu realmente adoro a massa daqui! É tão delicioso e o molho está sempre no ponto.”
“Você acha que nós estamos fazendo o certo?”
“Como assim?” Ele pareceu se engasgar com o vinho.
“Nosso namoro. Não é muito repentino?”
Estava tão assustada com tudo. Não fazia nem três meses que nos conhecíamos e mamãe já comentava de casamento. Nunca imaginei que voltaria para Seul para ser caçada e aprisionada.
-ssi…Eu ainda acho que sou muito novo pra saber o que é amor e assumir qualquer coisa, nem que seja namorar. Mas toda vez que eu te vejo, meu coração...eu não sei, ele é feliz e eu não consigo parar de falar. Você me deixa louco e nem ao menos nota isso.”
Ela não disse nada. Escondeu o rosto numa forma de conter sua vergonha e desejou sumir para qualquer lugar naquele momento.
“Só… Me diga honestamente. Você sente o mesmo?”
Demorou um pouco para responder, inúmeros pensamentos passaram por sua mente naquele momento e o maior deles era de conter seus sentimentos. Acabou se dando por vencido quando concordou que sim com a cabeça e murchou o rosto de vergonha e nervosismo.
Ele pegou nas mãos delas que estavam delicadamente postas sob a mesa.
Tudo iria ficar bem.
Depois de cinco anos, era normal que tímidos apaixonados se tornassem amantes um do outro. já não existia mais sem e nunca pensou, nem sequer por um segundo, que poderia respirar sem ele.

-

O jantar seria para comemorar (finalmente) o casório dos herdeiros das famílias e . Os pais definitivamente eram os maiores ansiosos por este dia. O encontro seria para ajeitar detalhes finais com a senhora , que estava encarregada da festa junto Jinyi-nim.
estava de um vestido preto, elegantemente enfeitado com pérolas sobre todo colarinho e mangas.
estava casual como sempre. A skinny jeans com um suéter e o casaco de inverno. Ele sempre se vestia da mesma maneira e ainda conseguia ser encantador.
O jantar correu bem. As duas famílias conversaram sobre tudo e comentaram sobre como parecia ter emagrecido para caber no vestido, mal sabendo eles que ela não comia pelo nervosismo. O senhor , sem papas na lingua, jogou na mesa que queria fechar a sociedade com Shinhwa, o grupo da família e um dos mais poderosos da Coréia. A mesma sociedade que fez com que esse casamento acontecesse. Os , nada surpresos com a ousadia, se mantiveram neutros até que os votos se oficializassem de uma vez por todas. Segundo mamãe, isso já será inútil pois quando nos casarmos, Shinhwa será de e sendo dele, também será minha.
-Me desculpe pelo meu pai. Ele está bem mais ansioso do que nós pelo visto. — Ela riu amargamente.
Já era tarde e -ssi estava no carro com .
— Não é como se aquele fosse o nosso primeiro jantar juntos. Lembra quando meu pai quis desmanchar todo o trato?
— Você segurou tanto o riso que parecia um pimentão. Como esquecer?
Ele estacionou o carro na frente do prédio onde morava. Se sentia menos sozinha morando em apartamentos. A casa que seus pais lhe ofereceram era muito grande e por causa de questões sociais, ainda não podia dividir a casa com .
— Você vai ficar bem?
— E por que não ficaria?
Ela se aproximou com um sorriso e ele a beijou sem hesitar. Juntou as mãos no rosto pequeno da garota, enquanto ela tirava seu cinto para que pudesse se estar mais perto. Quando viu, ela estava no colo de , agora beijando seu pescoço com cuidado e sentia as mãos delicadas dela por baixo de sua camiseta.
— Nós não deveríamos fazer isso aqui. Nem hoje.
— Nós podemos subir.
— Toda vez que diz isso não desce depois.
— Eu sei. Mas é por que eu não quero mesmo…
— Imagina se quisesse.
Subiram até o andar de aos beijos. Era uma das coberturas mais caras da cidade e que por sorte, estava quase sempre vazia.


Capítulo 2

Sexta-feira, 6h05 da manhã. 1 semana e 6 dias até a cerimônia.

Acordei com os barulho da furadeira lá fora. Acho que esse já estava pré-destinado a ser um daqueles dias que tudo te irrita profundamente ou pior, tudo te magoa.
Me arrastei para fora da cama depois de perceber que já tinha ido embora, sem ao menos deixar um bilhete e pelo jeito já fazia tempos, a cama já estava fria.
Eu teria uma reunião, às nove horas, sobre o marketing empresarial e depois teria o dia inteiro para me deixar levar quanto ao casamento. Apesar de odiar a organização de eventos em um geral, o meu casamento deveria ser ao menos divertido de preparar. Logo me preparei, vestindo meu melhor YSL e fui diretamente a empresa.
A JBJ era quase como o filho que eu terei muito em breve. Desde pequena meu pai se preocupou muito mais com a empresa do que com a própria família, então eu acabei seguindo seus passos sendo fria com as pessoas e tendo amor por coisas materiais. Há três anos, quando fui nomeada a CEO e fundadora da JBJ Candy, eu jamais imaginei que trabalharia tanto ou que receberia qualquer apoio, já que época eu era uma mera quase estrangeira que mal sabia coreano.
Vários funcionários quiseram largar o projeto e se juntar ao meu pai novamente ou simplesmente se demitir. Eu fui rejeitada pelos homens da empresa e até as mulheres se uniram contra mim, para que eu sumisse da face da terra. A situação era extrema, então meu pai teve a ideia da junção e . O casamento faria bem para o nome da empresa, quando acreditassem que passaria a ser o CEO e eu, apenas sua secretária pessoal. Desde que nosso relacionamento veio a público, minha parte do negócio só cresceu e eu logo estaria a um passo da reunião dos acionistas, onde eu poderia ser a CEO de todo o conglomerado global.
A reunião ocorreu ridiculamente bem, ignorando o fato de que Yeeun passou metade do tempo olhando o cabelo e Kevin não parava de me confirmar compromissos na agenda então, podemos dizer que tudo foi um sucesso. As pessoas não cansam de causar problemas a si mesmas.
Me contaram que o pessoal de meu pai se reuniu para realizar uma festa de negócios e, obviamente, para meu casamento. Eu simplesmente odiava como minha relação era sempre o foco de tudo e eu era quase invísivel. Eu não era , era a senhora .
Mandei uma mensagem para ele, dizendo que não podia se atrasar e nem pensar em não vir. Ele ainda não respondeu.
Me desgrudei do celular e deixei em cima da cama. Tirei a roupa e me enrolei na toalha. Eu precisava de algo relaxante, antes de enfrentar tanta gente mesquinha e ignorante como faria hoje e faço todos os dias. O fio gelado da água caindo sob a minha pele foi quase como uma pétala caindo sobre mim, me sentindo macia e completamente vulnerável. Adoro como o sabão de pêssego deixa a banheira mais cheirosa e meu corpo sempre fica mais bonito, não é possível ser só impressão minha.
Quando me enrolei na toalha novamente já tinha algumas ligações perdidas no celular, quatro de Ahn Hyunji para ser mais exata. Minha melhor amiga desde que fui estudar nos EUA e quando soube que eu voltaria para Coréia, não pensou duas vezes senão se mudar também.

*"Algum problema?"*
*"Na verdade, nenhum. Só queria saber porque estava demorando tanto no banho"*
*"Eu... Espera, como sabia que eu estava no banho?"*
*"É óbvio. Se não tá com o , tá no banho. Eu já sei que o jamais estaria aí essa hora, então..."*
*"Será que dá pra parar de saber tudo da minha vida? Por que você ligou?"*
*"Eu só queria saber se vai estar na nossa reuniãozinha de hoje."*
*"Como não iria? Eu sou o assunto mais comentado por toda a empresa. Seria impossível passar despercebida."*
*"Tem razão, dona famosinha. Agora, vai demorar muito? Daqui a pouco vai começar e eu soube..."*
*"É. A senhora odeia atrasos. Tô sabendo. Agora me deixa ir."*
*"Que grossa"*
Eu juro que amo , o problema é que ela sabe tanto da minha vida que me incomoda. Daqui a pouco ela me diz como eu devia dormir com o . Credo.
Coloquei um vestido de seda, banhado de elegância e, ainda sim, discreto. Os saltos pretos serviriam de apoio para que eu suportasse a noite toda, e a maquiagem pesada e ainda inocente, trazia um ar de Lolita. Exatamente o que homens adoram mas se recusam a dizer, uma mulher com corpo de menina. Saí novamente. Eu não podia esperar nada dessa noite, mas queria ansiosamente que algo acontecesse.

Sexta-feira, 21h30 da noite.

Já fazia pelo menos 30 minutos que a festa estava correndo e até agora, nada tinha saído dos padrões de normal. Ninguém ficou doidão ou tropeçou sem querer no fio do microfone e caiu de cara nos aperitivos. Eu não suportava como as festas coreanas eram monótonas, principalmente as de negócios.
Estava parada logo ao lado da porta de grande, como a de um salão de festas comum, contando os minutos que faltavam até que pudesse, finalmente, ir embora. O pequeno detalhe que me incomodava é que meu noivo ainda está desaparecido. Pelo menos para mim, não tem nenhuma mensagem dizendo "estou vivo". Liguei algumas duzentas vezes, várias caixas postais tentando ser uma boa pessoa e em outra, sendo uma ogra mal educada. Eu não vou aturar a bizarrisse de em desaparecer justo no dia mais importante da empresa e também, o dia em que vamos oficializar a relação publicamente, trocando as alianças de compromisso pelas de noivado.
— Onde está ? — perguntou senhora Kang, a esposa de um grande magnata da carne no exterior.
— Ele... Ainda não chegou. — Forçou o sorriso, colocando as duas mãos em frente ao tronco, tentando não meter a mão na cara da senhora.
— Isso me parece algo de uma moça que não segura o próprio marido.
Essa vaca estava de brincadeira.
— Ele disse que estava muito ocupado e chegaria mais tarde.
— Ele costumava dizer muito isso.
— Ele quem? – Se mostrava confusa.
— Lembre-se, se você não amarrar o cavalo no tronco de madeira, ele foge.
Saiu andando, como se aquela não tivesse sido uma das conversas mais estranhas da noite.
Eu realmente não sirvo pra conversar com pessoas mais velhas, a menos que seja negócios, trocar mais que duas frases já é considerado demais. Apesar de estar brava com as perguntas intrusas, eu não estava surpresa. Todos me cobravam a cada passo que eu desse. Meu cabelo, roupas, meu desempenho. Tudo era motivo para que eu fosse chamada a atenção. Como se estivesse constantemente errando.
Som de talheres batendo no copo ecoavam. Era o senhor Huang.
— Muito bem. Acho que depois de duas garrafas de soju já posso dizer algumas palavras em respeito a Woohyun-nim. - Riu descontraidamente. — Esses anos que passaram como dias são impossíveis de…
Não vou me dar o trabalho de ouvir ou digerir tudo que Senhor Huang iria dizer. Todos ali, sem tirar nem por, apunhalavam Woohyun pelas costas. E nem eu, como filha, consegui escapar disso.
— Mas antes que fique muito tarde, queria perguntar a -issi e -issi se eles estariam prontos para a troca de alianças. - Senhor Huang finalizou.
Mais uma vez, eu tive que pagar o pato por tudo.
— Oi. Para os que não me conhecem devidamente, sou . CEO da JBJ Candy e noiva de . Um imprevisto aconteceu e meu noivo não pôde comparecer. Sinto muito. — me ajoelhei com um gesto de desculpas.
O ódio por aquela saia justa só não era maior que meu ódio por , que ultimamente parecia fazer questão de me esquecer nos momentos mais cruciais.
O salão foi tomado um silêncio extremamente incômodo até que a música tocasse novamente. A festa continuou calmamente até que meu pai se cansasse e como uma forma de respeito, todos foram embora. Mesmo assim, todos os olhares pesaram sobre mim como se eu fosse, novamente, a culpada.

Sexta-feira, 23h00 da noite.

— Você tem certeza de que vai ficar bem, filha? Mais um erro e eles cortam a sua cabeça fora!
— Eu vou, papai. Eu preciso ser forte, com ou sem o .
— Nunca mais deixe que ele faça isso, entende?
Ótimo. Tudo estava muito bem, bem mal.
— Eu vou chamar o motorista e ele vai te levar pra casa.
— Eu vou descer e esperar lá fora. O ambiente aqui tá me sufocando.
Desci as escadas já tirando os saltos que apertaram meus pés a noite inteira. Na primeira brecha que visse, eu já não dava mais a mínima pra essa pose toda que eu deveria ter 24 horas por dia nos 7 dias da semana. Às vezes eu sentia como se nem existisse mais. era meu personagem e todos dias, quando chegasse no meu quarto, eu colocaria a fantasia no guarda-roupa pra no dia seguinte, ser esse personagem novamente. Eu ainda não estava tão perdida com do meu lado, só que, ultimamente, nem isso eu tinha mais.
— Foi aqui que pediram um Uber? — Uma voz saíra do Jaguar preto.
Desgraçado.
— Na verdade, não. Acho que pode ser aquelas moças ali na frente. — me fiz de desentendida.
— Amor, eu posso explicar.
A carinha de cachorro que caiu da mudança de era inacreditável.
— Você quer saber uma coisa? Que tipo de pessoa deixa a namorada plantada e nem ao menos retorna uma mísera ligação? Você sabe que eu tive me ajoelhar na frente de todo mundo, não sabe?
— Eu tive que resolver tantas coisas que nem sequer sei onde meu celular está agora. Eu só soube que horas eram quando o secretário Kim me disse que eu deveria, ao menos, te buscar.
— Ao menos? Então você nem pensou em vir me ver?
— Entra no carro, por favor.
Eu não iria perder uma carona, mas nem morta.
— Se você encostar em mim, eu quebro o seu braço. — disse colocando o cinto.
Minha bochecha não poderia estar mais vermelha de raiva e ele continuava quieto como se nada estivesse acontecendo. Tudo bem, eu não quero que ele fale.
— Eu já disse que posso te explicar.
Não disse nada. Quero ver até onde ele vai chegar.
— Eu saí cedo porque me chamaram na empresa. Eu tive inúmeras reuniões e ainda tive que fazer todas as provas das roupas, já que eu tinha adiado tudo pra cuidar da decoração. Você não está sendo infantil demais ficando quieta?
— Infantil? Essa não é a primeira vez em que você simplesmente some e eu que tenho que segurar as pontas. Todo mundo me olhava como se eu fosse inútil antes de me casar com você e agora eu tive que me ajoelhar na frente dessas mesmas pessoas, porque você não consegue ter uma merda de relógio no pulso! Eu não me importo que você não me ligue, mas pelo menos não me faça me sentir pior.
As lágrimas quentes estavam na altura das minhas bochechas. Droga…
Nós já estávamos na frente da minha casa, mas a porta do carro estava trancada. Eu não queria dizer mais uma palavra, só iria queria que ele despejasse todo ódio sobre mim e fosse embora.
— Eu sei que tenho feito do jeito errado. Eu sei que eu tenho feito da pior maneira possível e eu quero te recompensar.
— E como você vai fazer isso? Você não pode voltar no tempo.
— Eu quero tentar o meu melhor.
— Uma pena que beijos não curam e nem tem poderes mágicos.
— Mas…
— Boa noite, . Me deixa sair do carro.
Ele respirou fundo, provavelmente tentando recuperar alguma paciência. Na realidade, sabia que estava errado e que eu tinha todo direito de odiá-lo agora, mas seu orgulho e o ar de superioridade não deixavam com que ele admitisse isso. O pior é que ele sabia disso.
— Eu te ligo. — Ele disse, recebendo em resposta a porta do carro batendo bruscamente.

Sexta-feira, 01h00 da manhã.

Girou as maçaneta depois de abrir a porta pela fechadura eletrônica. Jogando a bolsa prada na sala e indo em direção a cozinha, precisava tomar alguma taça de vinho antes de dormir. Pelo menos assim dormiria sedada. Nada era tão inoportuno quanto ser obrigada a dar às costas a pessoa que você mais ama e confia. Porém, já tinha 24 anos, ela não era mais uma adolescente boba que engole todas as bobagens do namorado só pra mantê-lo ao seu lado. Segundo ela, precisava aprender com as suas falhas e ela não iria apoia-lo só para ganhar um pouco de atenção.
Encheu a taça até a metade. Foi até o player da sala e colocou uma das suas músicas favoritas, Alone do Urban Zakapa, sentindo a música adentrar o ambiente e também em seu corpo, relaxando seus músculos tensionados instantaneamente. Não sabia por que, mas toda vez se sentia infeliz, colocava uma música que ouvia quando morava nos Estados Unidos. Talvez os velhos tempos sejam mesmo tão saudosos quanto dizem. Depois de meia garrafa, se cobriu com a manta do sofá e dormiu por lá mesmo.

Capítulo 3

Terça-feira, 8h00 da manhã, 1 semana e 3 dias até a cerimônia

O final de semana passou de forma tediosa. Fui fazer compras com , tomei um café e fui obrigada a me encontrar com a minha agradável sogra. O tempo passa como areia numa ampulheta e, de 5 anos, agora só falta 1 semana até que eu diga "sim" e seja feliz para sempre.
me ligou algumas duzentas vezes. Eu esqueci de dizer que não sou de facilitar as coisas para ele, ainda mais quando se é completamente estúpido. A mãe dele o criou num pedestal e, por isso, ele acha que é algum tipo de rei. O que ele não pensou é que a rainha que ele escolheu não é do tipo submissa. Eu obviamente aceitei as desculpas depois que ele pediu para entrar e o porteiro o deixou do lado de fora. Vocês deviam ter visto a cara dele.
— Você acha que esse vestido combina? — estava confusa, colocando vários vestidos na frente de seu corpo ao mesmo tempo.
— Sei lá. — ignorei completamente, desbloqueando o celular.
Pode parecer um programa de madame estar em plena terça-feira à tarde numa loja de vestidos. Eu tinha compromissos mas fui arrastada para cá, infelizmente. "precisava de um vestido para minha despedida de solteiro", como se dois cômodos da casa dela já não fossem um closet.
— Eu te chamei pra opinar, oras. — disse tirando o celular da minha mão. — Rápido, paetê ou seda?
— Sinceramente, o que nós estamos fazendo aqui? Achei que você ia pegar aquele vestido meu emprestado já que você amou tanto...— debochou.
— Eu queria, mas estou gorda demais para caber nele. Você ficaria mais bonita de qualquer forma. — deu de ombros e continuou a se ver no espelho.
— Tá bom, que tal o seda?
— Eu sabia que tinha escolhido uma boa melhor amiga.
Eu posso parecer ser fria o suficiente, mas depois de tantos anos a demonstração de sentimentos se tornou um luxo para mim. Eu nem lembrava da última vez que em tinha dito que amava ou até minha mãe.
Depois da visita aos vestidos fomos para a os sapatos, maquiagem e todas essas bobagens supostamente femininas que se imagina. A cada vez que eu saía com me perguntava se eu seria assim também, fútil o suficiente para perder todo o seu tempo e dinheiro em pedaços de pano e pó colorido.
se casou cedo, com 20 anos para ser mais exata. O magnata do carvão chinês pediu a sua mão de forma inesperada e em menos de 2 meses se casaram. A família dela, os Kim, claramente ficaram felizes com a junção das duas empresas. Tudo parecia correr bem, tirando pelo fato de que não amava seu marido e sua relação era distante. Hoje, os dois se veem a cada 3 meses em eventos para caridade, aquela coisa, manter a imagem. Ela não comenta sobre ele, não tem nenhuma mensagem no seu celular e toda vez que eu pergunto como vão as coisas ela sempre desconversa. A sua infelicidade faz meu coração doer porém, estou de mãos atadas.
— Eu acho que nós poderíamos ir em alguma festa na quarta também. Sabe, uma espécie de pré da pré despedida de solteiro.
— Nunca conheci uma pessoa como você, que tem fígado e forças para ir no clube toda noite. Acho que você devia arrumar um emprego. — Disse ao ligar o motor do carro.
— Jamais! Trabalhar é para as pessoas que precisam.
— Nunca me senti tão pobre quanto agora! — riram.
Viemos comer no restaurante da senhora Park, uma das melhores cozinheiras de Jajjanmyeon de Seul. Nós costumávamos ir lá para fugir dos nossos pais e, desde então, é o nosso lugar favorito.
— Aqui não muda nunca. — comentou, se ajeitando na cadeira.
— Acho que somos nós que mudamos até demais.
— Credo. Sabe, acho que seu senso de humor anda pesado até demais.
Eu tentei desconversar dando um sorriso, mas meu rosto cercado pela minha aura negra não deixou dúvidas.
— Você está bem? — Ela perguntou séria.
Eu acho que deveria contar.
— Estou. — Joguei a resposta, tentando desviar o assunto para o kimchi. — O gosto desse kimchi é o mesmo há 20 anos, e olha que isso me parecia impossível.
Tá, eu sei que isso foi infantil, "Por que esconder seus sentimentos, ? Isso é tão normal blablabla" Eu sei. Mas a , ela não pode saber disso. Ela vai se preocupar e arrancar todos os cabelos da cabeça até que eu fique feliz.
— Eu juro que fosse outra pessoa eu acreditaria, mas como é você, eu estou me fazendo de entendida — Ela cutucou o ramyeon com os palitos de metal.
— Como está Zhi Xie? — Eu tentei desesperamente desconversar.
— Ele não me liga há dias. Disse que estava em outra cidade...Qin...Qian...
— Qindao?
— Isso! Ele disse que ficaria lá até fechar os contratos que precisaria. — Seu rosto era de satisfação após o primeiro vestígio de jajjanmyeon entrar em sua boca.
— Você sente falta dele?
— Você sabe que não. — Continuou a comer.
— Eu não entendo. Como vocês estão casados há tanto tempo e não tem o mínimo de afeto?
— Nós não combinamos. Ele é uma pessoa completamente diferente de mim e sempre foi, não existe nada que nos aproxime.
— Mas o e eu...— Tentei indagar, mas fui cortada pela acidez de .
— Você e o deram certo, eu sei. Mas vocês eram novos e descobriram muitas coisas sobre amar juntos. Zhi Xie é 10 anos mais velho que eu e já amou antes de mim. Essa foi a nossa pequena diferença. Agora, será que a gente pode comer em silêncio?
Esse assunto a magoava. Ela aprendeu sobre o amor nos livros, filmes e mesmo casada, ainda não sabe dizer como chegou lá. Ela achava que estava destinada a sempre assistir, nunca vivenciar.
, me desculpa. Eu... Não quis puxar esse assunto pra te deixar mal é que, eu tô...
— Maluca com o casamento, eu sei. Apesar de eu ter participado muito pouco do meu casamento, as últimas semana foram a maior loucura da minha vida. — Suspirou.
— Nossas ligações pelo skype, lembra? — Ri ao se lembrar das últimas semanas daquela primavera em que se casou. Eu estava em Nova York para uma reunião importante e não poderia ir antes.
— E você não sabia me dizer se preferia rosa perolado ou vermelho! — O sorriso tão branco de se abriu, sentindo que fiz uma coisa certa no dia. Querendo ou não, eu amava essa garota e faria qualquer coisa por ela.

Mais tarde, eu fui até a casa dela, já que a mesma insistiu, para que eu pudesse ajudá-la a se arrumar. Seria a última vez que nos veríamos até o dia da cerimônia.
— Esse ou esse? — Mostrou as marcas de batom nas costas da mão esquerda.
— Esse aqui. — Alcancei a bolsa e achei um dos meus favoritos, um vermelho escarlate. Nunca usei muito porque minha mãe dizia que era coisa de... Você sabe, mulheres da vida.
— Sabe... Às vezes, acho que não sei o que faria sem você. — Ela tentou cochichar enquanto eu colocava o batom em seus pequenos lábios.
— Você teria outra melhor amiga. — O estalo do batom quebrou o silêncio que se instalava no quarto.
— Quando eu fui aos Estados Unidos — Ela se sentou na cama, calçando os sapatos. — Eu era mais pé no chão como você. Não achava que minha vida mudaria por estar em um lugar diferente, eu continuaria coreana. Mas, agora...— Ela se penteava pela 19ª vez, tentando manter os cachos feitos pela babyliss no lugar certo. — Eu percebi que morar no Bronx foi o que me fez ser o que eu sou hoje. Acho incrível como você sendo a mesma de 10 anos atrás.
— E por que você diz isso, quando eu disse que você teria outra amiga se não fosse eu?
— Pensa, se eu tivesse te dito a mesma coisa há 10 anos, o que você diria?
Minha mente foi longe por alguns momentos, como eu responderia isso quando eu tinha 14 anos? Tantas coisas aconteceram nesses 10 anos, muitas me machucaram e me fizeram crescer...
— Quando você souber me dizer — Me cutucou, acordando-me do devaneio. — Me liga. Agora, eu tenho que ir. A fila em Hongdae vai bater na porta de casa se eu demorar muito. — Ela agarrou a bolsa prada, verde e brilhante, seguindo até a porta do apartamento.
— Eu já vou sair, se isso é pedido educado de expulsão. — Vesti meu casaco, seguindo pelo corredor estreito do quarto até a sala de estar.
— Eu nunca te expulsaria da minha casa, mas eu realmente preciso ir. — Ela riu, fechando a porta atrás de si. — Eu te amo, até o grande dia!
— Até o grande dia. — Puxei a última gota de entusiasmo de que estava resguardada, vendo se distanciar devagar enquanto arrumava o vestido justo embaixo do sobretudo azul.


Capítulo 4

Sexta-feira a noite, estou deitada no sofá da sala de estar olhando o teto, uma taça de champagne, agora vazia, estava na minha mão esquerda, encostada ao chão pela moleza do meu braço. Ainda estava de saia justa e a camisa de seda, nem os sapatos eu tinha me dado o trabalho de tirar.
Ah, quase esquecendo, amanhã seria a nossa cerimônia de casamento. Depois de 5 anos e 2 semanas, eu finalmente teria aquele maldito anel entre os dedos, o que significava o meu maior anseio, felicidade. Porém, , que jurou de pé junto que estaria aqui, ainda não apareceu. São quase 2 da manhã e meu celular nem se mexeu dentro da bolsa. Nem sei porque ainda tenho esperanças quanto à isso. me chamou para sair em alguma festa aleatória com ela, já que, seria o “fim da minha solterisse eterna” e eu não podia perder a oportunidade de ver alguns gogoboys com outros olhos. Dispensei. Eu não sei vocês, mas ver homens seminus rebolando pra você não é lá o tipo de fantasia que eu teria.
Resolvi ficar em casa como estou agora. Ouvindo algum R&B dos anos 90, colocando mais um pouco de Moet Chandon, entre encher a cara com soju ou champanhe caro, tanto faz. E disseram que ser rico é o que mais trazia felicidade. Honestamente, eu tenho questionado tudo que está em volta de mim e eu considero como rotina. Será que eu seria mais feliz se a minha conta bancária fosse menor? Se trabalhar não fosse opção? E se, eu vivesse em harmonia com a minha família? Não digo que estar miserável e que se dividir entre pagar a conta de luz e água é melhor do que morar na cobertura de um prédio. Se a minha vida fosse diferente, eu poderia ser feliz? Há um tempo atrás eu costumava pensar que tudo na minha vida sempre foi desestruturado. Meus pais nunca foram presentes ou amorosos, o meu trabalho sempre foi apenas meu trabalho. Agora, mesmo que nada tenha mudado, eu ainda me sinto vazia e sem rumo. Às vezes, sumir seria a melhor opção.
— Mãe, você sabe onde o pode estar?
— Talvez na casa dos pais, querida. Soube que os tem uma tradição de se encontrar na noite antes do casório de um do seus herdeiros.
— Espero que seja verdade. O que você está fazendo acordada essa hora?
— A insônia… Estou mais nervosa que você, pelo que indica sua voz. Não está nem um pouco nervosa, filha?
— Acho que estou, mas não consigo saber. Estou um pouco alterada do campanhe — Riu levemente.
— Você precisa parar de beber a noite, te faz muito mal. Inclusive, não está acha que está bebendo demais, filha?
— Bebida nunca é demais, mãe. — virou a taça.
— Claro. Boa noite, filha.
— Boa noite, senhora .
Apesar da relação seca com meus pais, eu tinha uma conexão especial com minha mãe. Ela parecia que sabia tudo que eu estava pensando e apesar de irritar um pouco, ela nunca dizia diretamente. Ainda havia um pouco de amor dentro de mim.
- Alguém tocando a campanhia. Encarei a tela do celular preguiçosamente, tentando fazer meus olhos acordarem. 4 da manhã e alguém estava na porcaria da porta. O som ecoava ainda mais alto pela minha enxaqueca de ressaca, que com certeza estaria ainda pior de manhã. Arrastei-me até o olho mágico, mostrava alguém alto e com os cabelos um pouco bagunçados. . Meu resmungo irritadiço o ajudou a pensar assim que abriu a porta.
— Você não tem relógio, me parece. Sempre aparece aqui nas horas mais inusitadas.
— Desculpe. Você estava dormindo?
— O que você acha? — fazendo com que observasse a camisola de seda rosa caindo perfeitamente sobre seu corpo.
Não esperou mais um segundo até que avançasse sob a moça. O beijo era carregado de saudade, amor e um pouco selvageria. Era como se aquela vontade estivesse guardada há anos no peito do rapaz. Por pouco não derrubou com a brutalidade, mas segurou seu pulso levemente e seguiu até as mãos entrelaçarem. Os dois tinham uma sintonia incrível que, jamais poderia ser quebrada naquele momento. Além do amor, havia uma pitada de arrependimento ali. tentou ignorar seus instintos desesperadamente quando o noivo a levou de volta ao quarto, fazendo com que caíssem juntos.
— Eu senti a sua falta. — beijou-a novamente, dessa vez de leve.
— Eu não preciso dizer que senti a sua.
— Jesus, você cheira a champagne. — Ele riu. — Pare de beber, por favor.
— Vou tentar.
— Ansiosa pra amanhã?
Seu sorriso se desfez depressa e seus olhos se tornaram opacos. A ideia de se casar já estava tão próxima novamente que nem ao menos notara o impacto que isso teria em sua vida. Casar… Ter filhos… Viver pra sempre presa nisso.
— Disse alguma coisa errada?
— Não… Mas, me diz, onde você estava? — Tentou fugir da pergunta.
— Fazendo umas coisas importantes. Mas você ainda não respondeu minha pergunta. — Ele estava sério.
— Eu…- Desviou o olhar — Não sei.
— Você não quer se casar, é isso?
— NÃO! — Respondeu abruptamente. — Digo, eu não sei. Eu ando tão confusa… Vamos deixar isso pra amanhã.
— Acho que vou saber quando você disser não no altar. — Se soltou dos braços dela.
— Você faz tanto drama. Eu que deveria estar dizendo isso.
— Só por que é mulher?
— Só porque você nunca está aqui, só porque você some e depois se faz de coitado. Só por isso. — Empurrou seu tronco, me afastando até o lado oposto do sofá.
— Eu deveria receber o prêmio de pior noivo do mundo então!
Ao se levantar e girar os braços enquanto olhava para o teto sua expressão era outra, o olhar cínico e o sorriso sádico tomaram conta do seu rosto, tornando sua aparência assustadora.
— Devia mesmo. Desgraçado. — Ela abriu a porta. — Sai da minha casa.
— Eu nem sei o porquê de ter vindo.
— Você vai ter tempo pra pensar quando voltar pra sua casa. — Ela fechou a porta em suas costas.
Se tinha uma coisa que tinha se cansado nessas últimas 2 semanas, era de ser o projetinho perfeito de . Se ele achava que ela iria abaixar a cabeça e ouvir como um cachorrinho perdido, ele nunca esteve tão enganado.

Capítulo 5

Sábado, 8 horas até a cerimônia

O grande dia. A dita patricinha mais insolente de Seul nem pregou os olhos na noite passada, tentando entender que rumo estava seguindo ultimamente. Se esse rumo duraria uma vida toda.
Recebeu todo o tratamento dia da noiva em sua própria casa. Os melhores maquiadores e cabeleireiros da cidade estavam prontos para deixar mais uma vez, tão bela quanto o desabrochar das cerejeiras no Rio Han.
Seu estranhamento pela falta de juntamente com a movimentação tão cedo a deixara irritada. Sua vontade era de gritar incessantemente até que todos se espantassem, mas tirou forças de onde não tinha e, claro, bebericou uma taça de champanhe que era servida por empregados da casa.
— Quem te deu essa taça maldita? Já te falei para parar beber. — Senhora se aborreceu, tomando o vidro da mão da moça abruptamente.
— É um dia de comemoração, oras. — Ela sorriu de leve.
— Você não me parece muito da comemorativa.
— Eu sempre fui assim. — Ela sorriu, fechando seus olhos. — Mas, me diga, você viu a ? Ela falou com você ou algo do tipo?
— Ela disse que viria mais tarde. Tinha algumas coisas a resolver.
— Que estranho... Ela me prometeu que seria a primeira a chegar.
— As pessoas têm problemas, -ah.
— Eu sei. Eu devo ser a pessoa que mais sabe disso por aqui.
A mais velha não disse nada. Apenas contorceu o rosto e estranhou a tristeza da filha.

~

Sentada no sofá de camurça, tinha seus dedos gélido e de pontas finas estendidos, tendo as unhas de branco perolado, fez mais uma tentativa de ligação frustrada à . Tudo bem que o noivo a odiasse, mas sua amiga não poderia não aparecer em seu casório.
A porta bate estrondosa, como de alguém que estava apressado e assustado, fazendo com que todos ali presentes observassem a entrada. Os saltos azuis de a faziam parecer uma modelo, o sobretudo preto com detalhes prata e a saia justa de veludo verde junto a camiseta perolada. Seus olhos eram cercados por uma maquiagem leve, porém se distanciavam do ar inocente ao perceber sua feição ansiosa.
— Aconteceu algo? — olhou de relance, ignorando a situação.
— Não. Por que teria acontecido algo? — Seu celular era como um botão de bomba atômica, ela o segurava fortemente nas mãos.
— Nem parece que sou eu que vou casar. — Rindo pela primeira vez em dias, era ótimo ver os dentes brancos da moça.
— Se casar, não é? — Riu nervosamente, fazendo seu rosto se contorcer pela estranheza.
— Você está realmente bem estranha. Agora que você está aqui, pode ir até o meu quarto e olhar se meu vestido está arrumado? Está sob a cama. — Ela sorriu.
Num piscar de olhos, a moça dos cabelos até as costas sumiu, adentrando na porta ao final do corredor.

4 horas até a cerimônia

— Você precisa dizer contar pra ela. — Ele tateou a mesa mais uma vez, contaminado pela ansiedade do outro.
— Como? Agora? Hoje? — Respirou fundo ao bagunçar os cabelos, desesperado.
— Isso vai te destruir.
— Não. Não vai me destruir. Eu vou viver com isso. Ela nunca vai saber de qualquer forma.

2 horas até a cerimônia

— Você está maluca? Eu não sei nem se devo...— gritou para o celular. — O quê? Não! Não é minha vida! Mãe! — Abaixou a voz novamente, ouvindo os passos de um salto se aproximarem. — Eu tenho que ir.
. — Senhora entrou no quarto enquanto se abaixou na altura do quadril, demonstrando respeito.
— Você sabe que não precisa se abaixar, já é minha outra filha há muito tempo.
— Eu sei. Obrigada por cuidar de mim, senhora .
— Quem não gostaria de ter alguém como você frequentando sua casa? Aliás, como está seu marido?
— Ele está bem! Comentou que sente falta de visitar a você e minha mãe na casa de veraneio.
— Ele sempre será bem vindo! Mande-o dar um tempo de Xangai. É muito cansativo.
Ela riu levemente, porém o motivo de sua ansiedade voltou a martelar.
— Algum problema? Você me parece nervosa. Está com febre? — Levou as mãos a testa da garota.
— Não! Eu só estou... Ansiosa com tudo isso. Nunca imaginei que eles fossem realmente se casar. — Seu rosto se contorceu novamente pela estranheza.
A adrenalina corria em velocidades incalculáveis por suas veias, fazendo as pontas de seus dedos suarem e sua maquiagem escorrer, contaminadas pela água que saía de seu corpo.
— Eu também não. sempre foi uma fera indomável.
— Ela continua sendo.
— Por quê diz isso?
— Nada! — Ela sorriu, tentando disfarçar a boca descuidada.
é um bom rapaz. Sei que não conseguiria viver sem ele a essa altura.
30 minutos até a cerimônia

Depois de uma manhã inteira com adereços no cabelo, um rosto cansado por carregar a maquiagem pesada, os olhos fundos pela noite sem dormir. Em menos de 1 hora, seria e seu destino seria outro para sempre.
Da casa da noiva até o simples salão foram 15 minutos. Escolhera um lugar único e importante para a história dos dois: O fundo do restaurante que se conheceram. Era o suficiente para caber algumas vinte pessoas, trazendo intimidade e amor a primeira parte do casório. A cerimônia tradicional coreana seria na manhã seguinte, onde os noivos se vestem de hanbok* e realizam uma tradição de séculos.
— Você está linda, meu amor. — A mãe de disse ao ajeitar a última mecha de cabelo. — Eu jamais esperei te ver casar.
— Eu também achava isso impossível. — Ela sorriu com os olhos marejados, trazendo sua humanidade ao quase chorar.
— Não chore! Você não pode deixar seu rosto marcado de lágrimas — A mais velha sorriu. — Eu tenho que ir, estão me chamando lá embaixo. Fighting!
Minutos depois da porta de madeira se fechar, se abre abruptamente, trazendo o ar gélido de fora. Era em seu vestido de madrinha pêssego. O rosto estava vermelho e os olhos, cheios d'água.
— Você está bem? — A noiva perguntou, pegando na mão da amiga.
Ela encarou o encontro das duas mãos por alguns segundos, deixando uma lágrima cair no carpete.
— Eu preciso que você saiba de algo.
— O que é? Você sabe que pode me dizer o que quiser.
— Primeiro, me prometa uma coisa.
— O quê?
— Que vai acreditar em mim.
— E quando foi que eu não acreditei? Me diz logo, quem sabe eu fico um pouco ansiosa para pisar no altar. — A ruiva sorriu brilhantemente, se mostrando, pela primeira vez, feliz com tudo o que acontecia.
fechou os olhos, massageando as têmporas levemente a fim de não estragar sua maquiagem. Desbloqueiou o celular com as mãos brancas e frias, procurando a galeria.
— Ontem. — Encarou a amiga, que a fitava com as sobrancelhas juntas. — Você sabe que eu fui ao clube. Eu achei que estava tudo correndo bem até... Eu vi o . Eu pensei em te dizer só depois de cerimônia, assim você brigaria com ele e...
— Ele sempre vai ao clube. O que tem? — a cortou, se mostrando brava.
— Ele estava com outra garota.
O silêncio se instalou. Era possível sentir o sangue de ambas sendo bombeado para as mãos, onde a morena segurava com força incessante os dedos da outra.
— Eu sabia que você não iria acreditar em mim. — Ela se aproximou da garota de cabelos vermelhos, que tinha um olhar inquisidor sobre a morena. — Mas daí me mandaram esse vídeo.
estava dançando junto a outra garota. Os dois já estavam próximos o suficiente quando a desconhecida lhe roubou um beijo e ele correspondeu, pegando em seu braço para aproximá-la novamente.
Conseguiu-se ouvir o coração de quebrar.
Já não piscava mais. Fitando o vídeo que passava contínuas vezes até se aproximar da mão de , pausando o vídeo.
— Não é verdade.
-ah, eu...
. Esse não é o . Não pode ser ele.
— Você precisa descer agora! É a hora. — Um dos organizadores apareceu inesperadamente, trazendo uma notícia desagradável.
— Estou indo. — Ela respondeu mecanicamente.
. — Segurou-a pelo braço.
— Eu preciso ir, estão me chamando. — Ela puxou seu braço, lançando o olhar mais frio que um ser humano pôde considerar ter.

- Os convidados se levantaram ao ouvir a música. O fundo era agora o centro das atenções, esperando por uma senhorita tão branca quanto seu vestido e seu velho pai.
De repente, a figura ruiva de aparece. Suas mãos estavam vermelhas pela força com que segurava o buquê, e seu olhar era fixo para , que parecia com o rosto paralisado por sorrir tanto.
Ao entregar a moça para , os dois se aproximaram no altar, iniciando a tortura. Dez, vinte, trinta minutos se passaram sobre tudo um discurso religioso ao explicar como o casamento muda nossas vidas, nossos sonhos... Outrora, a noiva encarava o canto do altar, deixando uma lágrima escorrer pelo tempo sem piscar.
— E você, , aceita ele como seu legítimo esposo?
Acordou do devaneio, encarando as alianças e o padre que ali a olhava.
— Não.
A plateia que assistia assustou-se. Trazendo consigo os burburinhos e olhares desaprovadores.
— E o que vocês sabem sobre isso? Desde o dia em que eu botei esse maldito anel de noivado eu fui escravizada por cada um de vocês. — Virou-se para os que assistiam, dando um passo a frente.
— Eu acho tão engraçado como eu lutei tanto para isso tudo acontecer. Eu sofri tanto para que eu pudesse estar nesse vestido. Bebi e me enchi de remédios, tudo para que eu pudesse aguentar o ódio e insatisfação de vocês sobre mim. No final? Eu fui considerada um nada.
Seus olhos estavam arregalados, o caule das flores causava dor em suas mãos pela força, mas logo foi aliviado quando jogou todo o ramo no chão.
— Eu sei o que você fez, . — O rapaz se assustou com a menção de seu nome. — O quê? Você achou que iria esconder isso de mim? Esqueceu as paredes tem ouvido? Você perdeu a porra do juízo seu maldito! — Ela gritou, piorado pelo silêncio contínuo. — Você poderia ter feito isso com qualquer uma, mas a mim, você nunca, nunca, vai enganar com seus jogos bobos. E pensar que eu quase fiz a burrada de ser sua para sempre. — Ela largou os saltos no altos e arregaçou as mangas do vestido, correndo em direção a saída do restaurante.
Ela corria pela avenida chorando como se tivesse perdido um parente. As mãos, que antes eram delicadas com a francesinha sob as unhas, agora estavam sujas por ter tropeçado no próprio véu e o joelho ralado, sangrava. Sua vida estava cabeça para baixo...




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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