Contador:
Última atualização: 22/12/2020

Prólogo

A lua estava coberta pelos galhos acima dela, então a única luz era a que se acendia quando pisava nos musgos bioluminescentes aos seus pés, que corriam. Corriam como se sua vida dependesse disso, talvez não a dela, mas a da criança que carregava nos braços sim. Segurava com força contra o peito, podia sentir o tecido de cetim e, se prestasse atenção, a respiração profunda do bebê.
Não ousava olhar para trás. A coroa prateada caiu? Que ficasse no chão. Não podia perder tempo, já que escutava gritos ao longe, gritos que vinham para ela, chamavam seu nome, implorando para que voltasse. Mas ela os ignorava. Não podia se dar o luxo de olhar para trás.
Assim que alcançou o lado mais a oeste do reino, virou à direita e alcançou a caverna. Entrou e abaixou a cabeça, sem pensar. Vinha com muita frequência para esse lugar, não precisava ver para lembrar que o teto era baixo ou da estalactite a cinco passos da entrada, que foi desviada sem pestanejar. A cada passo, parecia que a caverna ficava mais clara e não mais escura, como a lógica mandava. A luz branca do portal ao final era pouca, mas forte a ponto de conseguir cegar os desavisados. Mas ela vinha com frequência para esse lugar, não precisava ser avisada.
Fechou os olhos e deu os últimos passos, seu corpo sendo tomado pela sensação estranha de mergulhar em uma gosma gelada. Conseguiu sentir quando seus pés descalços encontraram a terra molhada do outro lado, mas nem isso era capaz de diminuir sua velocidade. Estava em outro mundo, era verdade, mas se ela conseguiu atravessar, quem estava perseguindo-a também conseguia. A perseguição não havia terminado. Ela esperava, ao menos, confundi-los por um tempo.
Pensando nisso, virou para esquerda no caminho que planejava ir reto. Não podia ir para o lugar mais previsível, teria que fazer um desvio. Alcançou o asfalto e seus pés doíam. “Malditos humanos”, praguejou em sua mente. Não podia gastar o fôlego que usaria em sua corrida. Virou a última esquina e contou as casas cinzas. Um, dois, três... Aqui. Atravessou o quintal, subiu os degraus da varanda e bateu, decidida, na porta. Quinze segundos passaram e nada. Bateu novamente, com mais força.
- Beth! – sussurrou alto. – Vamos, Elizabeth!
A porta foi aberta e ela viu Elizabeth, os cabelos castanhos desarrumados, a camiseta grande amassada e, se ela parasse para prestar atenção, perceberia um pouco de baba seca no canto direito da boca. A fugitiva não espera o convite para entrar ou a pergunta do que fazia em sua casa às 3 da manhã, entrou e trancou a porta atrás dela, sem afrouxar o aperto na criança.
- Aika, o que...
- Não tenho tempo. – Aika a interrompeu. Andou até o sofá e deixou a criança deitada, rodeada pelas almofadas. – Por favor, leve-a para ele amanhã de manhã. Diga que ele é o pai, que precisa deixá-la segura, que...
- Vai com calma! O que aconteceu? Por quê...?
- Eu disse que não tenho tempo! – ela falou mais alto, encarando a outra com seus olhos negros penetrantes. Ela desviou o olhar para a criança uma última vez. Pousou uma mão no colar que ficava grande no pescoço da pequena e a outra no seu, o pingente de lírio reluziu sob a luz baixa da sala. Depois beijou a ponta do nariz pequenino. A criança, como se entendesse muito bem o que estava acontecendo, soltou um grito alto e começou a chorar. Com um suspiro, Aika levantou-se e parou na frente de quem chamava de amiga. – Por favor, diga para ele que eu o amo.
Sem esperar resposta, destrancou a porta e saiu para noite de novo. Voltou, agora mais rápido, já que não tinha mais medo de tropeçar em cima do bebê, pelo mesmo caminho que fez. Quando alcançou o ponto que pegou à esquerda, continuou reto, rezando para todos os deuses que conhecia para que eles tivessem se perdido na caverna do portal. Sabia que não para sempre, mas o atraso era muito bem vindo.
Ela não ia até o final, até onde queria chegar quando começou a fugir. Deu meia volta. Voltou para onde havia chegado. Não adiantava, enquanto aquele portal não estivesse selado, ninguém estaria em segurança. Nem ele, nem a criança.
Seus pés alcançaram a terra, depois a gosma, depois a pedra. Virou de costas, ficando com o rosto na frente de onde ela sabia estar o portal, já que estava de olhos fechados. Precisaria olhar. Olhar para o antigo encantamento entalhado em cima do portal. A luz a cegaria, ela sabia, mas era um pequeno preço a se pagar por aqueles que amava.
Soltando o ar dos pulmões, abriu os olhos. A luz era linda, poderia encará-la por anos, décadas, se não tivesse um propósito. Então, com aquele choro que ouviu minutos atrás nos ouvidos, elevou a cabeça e leu as palavras em elveli.
Assim que a última vogal saiu de sua boca, sentiu o aço entrar entre suas costelas. O ar escapou de seus pulmões e, junto com ele, todas as forças de suas pernas. Ela olhou para a luz, que a cada segundo ficava menor e mais fraca, uma última vez. Não importava, seu bebê estava seguro. Ele estava seguro. Antes de se perder, ela ouviu, ao longe, em seu ouvido:
- Te peguei, lírio.

Capítulo 1

Woodville, Mundo Mundano.



As gotas de chuva batem forte na pequena janela do banheiro. arruma o cabelo, jogando a franja para o lado direito da cabeça. Hoje ele vai ser obrigado a deixar o carro comigo, ela pensou enquanto terminava de se arrumar em frente ao espelho do banheiro compartilhado com o pai. Ela olha a bagunça que a pia grande de mármore havia se tornado. Era exatamente esse motivo para não se arrumar todos os dias assim. Não que ela se importasse com a bagunça, mas o pai dela sim. Então, para evitar maiores discussões (e querendo ir para a faculdade de carro hoje), ela guarda calmamente todos os utensílios na bolsa preta e a leva para o quarto.
Lá embaixo, o cheiro de torrada queimada era demais para qualquer pessoa ignorar. Sabendo o que acontecia sem precisar ver, ela desce as escadas correndo, para que pudesse desligar a torradeira. Era claro que David tinha se empolgado com algum pedido na floricultura (a mais antiga de Woodville) ao lado ou com o quanto a sua mini horta estava verde e saudável. Os grandes benefícios de ter um pai florista, pensa , puxando as torradas pretas da torradeira. Torradas ou pedaços de carvão, mesma coisa.
- Desculpa, pai, mas isso não vai dar para comer. – Ela murmura, jogando o pão carbonizado no lixo pequeno em cima da pia. Vira o corpo para a direita e abre o armário que fica na altura de sua visão. Pega o pacote de pão fatiado e coloca duas fatias na torradeira de novo.
Dá alguns passos para a esquerda e abre a geladeira, examinando e listando o que ela podia fazer para comer. Encontra uma geleia de morangos feita na semana passada pela tia e se considera uma pessoa de sorte. Nunca uma geleia da tia Beth tinha sobrevevido tanto tempo para contar história.
Tira a compota da geladeira e se senta na mesa pequena de quatro lugares da cozinha, tirando o celular do bolso e começando a rolar o feed do Instagram. Não era uma cozinha gigante. Encostada nas paredes, um balcão com um mármore mais claro que o do banheiro formava um “L”, rodeando o cômodo. Em baixo e em cima, armários de madeira com um aspecto velho ou, como David costumava dizer, vintage. Os armários estavam em todas as paredes, menos naquela em que ficava a pia. Nessa, uma janela grande com a mini horta do pai.
- Bom dia! – Senhor Reed entra na cozinha com as luvas de jardinagem sujas com a terra preta. Pendura-as nas grades da janela e passa um pouco de água nas mãos. – As torradas já deveriam estar prontas... Será que eu liguei?
- Se você ligou? – Responde a filha, tirando os olhos do aparelho e virando o corpo para trás, a fim de enxergar o pai. – Mais um pouco ligada e teriamos que ligar para os bombeiros! Já conversamos sobre você ir para a floricultura e deixar coisas que podem pegar fogo ligadas...
O pai sorri, sem mostrar para a filha. Não poderia dar o gostinho dela achar que estava certa. bloqueia o celular e o deixa de lado, se preparando para fazer a pergunta que queria. As torradas pulam da torradeira e o pai as pega, com a ponta dos dedos para não queimá-los, e leva para a mesa. A filha agarra a compota com a geleia o mais rápido que conseguia, soltando um sorriso vitorioso quando o pai não conseguiu pegar. Apesar disso, não quis terminar com o doce, entregando o pote de vidro para o pai assim que terminou de espalhar na sua torrada.
- Então... – Começou ela, inocentemente. – Muita chuva hoje, não é?
- Uhum. – O pai não deu atenção, passando os dedos no pote para alcançar a geleia que ficara presa. Ou foi o que pareceu, já que sabia que pergunta viria depois dessa.
- Você tem o carro da floricultura e, já que é meio ruim ir a pé hoje, eu poderia ficar com o nosso carro hoje... O que você acha?
O pai ponderou. Era verdade, o carro da floricultura estaria totalmente a sua disposição hoje, já que a senhora Floyd tinha acabado com as entregas ontem. Se ele quisesse, ou precisasse, fazer algo poderia contar com isso.
- Não sabia que suas pernas não funcionavam na chuva. – Ele termina com a geleia e leva o frasco até a pia. – Mas, já que é o primeiro dia do semestre, eu vou permitir isso.
tentou manter a normalidade, mas não conseguiu conter a animação e soltou um gritinho agudo de felicidade. Levanta-se e dá um beijo na bochecha do pai. Pega o celular da mesa e a chave do carro no chaveiro em cima do interruptor da cozinha.
- Por favor, dirija com cuidado. – O pai diz, com uma leve preocupação nos olhos.
- Eu vou. – Responde a garota, se virando para pegar a bolsa ao lado da porta.
- E a tia Beth pediu para você passar na casa dela mais tarde. Não esqueça de mandar mensagem para ela!
- A pessoa esquecida dessa casa é você, pai! – Responde , com meio corpo para fora da porta. O cheiro de grama molhada tomava conta de seus sentidos, o que, para ela, era o melhor cheiro do mundo. – Vou mandar mensagem na hora do almoço. Te amo!
E, com isso, sai correndo para o carro, com o casaco verde escuro cobrindo os cabelos, evitando a chuva. Quando entra no carro cinza, olha no espelho retrovisor e sorri. Esse vai ser um bom semestre.

***


Do outro lado da pequena cidade de Woodville, quatro rapazes discutiam. Na verdade, três gritavam entre si e um, sentado no sofá de três lugares, apenas observava. Os gritos acalorados tomam conta da mansão empoeirada. Não houvera tempo para que todos os cômodos fossem limpos (apenas os quartos que usavam e a cozinha foram devidamente desempoeirados) e nenhum dos novos moradores sabia fazer isso de maneira apropriada. teria de se lembrar de pedir uma camareira na próxima carta que mandasse pelo portal. A mansão estava abandonada há muito tempo, afinal. O último guardião havia morrido há, no mínimo vinte anos, já que não se lembrava de seu nome, muito menos seu rosto.
Os quatro estão na sala principal do lugar. No momento, ela parecia um cômodo de algum lugar mal assombrado com lençóis brancos por cima dos móveis. Porém, mesmo com os panos consegue identificar os móveis. Ao lado do sofá de três lugares que está sentado, ele imagina que tenha duas poltronas, não tinha ideia de que cores eram, mas tinha certeza que elas deveriam estar cobertas com o mesmo tom cinzento de poeira que encontrara nos outros móveis. À frente, uma mesa de centro, ele chutava ser de um marrom escuro, pois os pés apareciam por baixo do lençol. Mais atrás da mesa, uma lareira. Todas as paredes da sala eram pintadas com o verde esmeralda de seu reino, a mesma cor das escamas do primeiro rei de Dragil.
A discussão começa a preocupar o herdeiro do trono. Pode ver as escamas do irmão mais velho aparecendo e desaparecendo no pescoço. estava ficando com raiva. Se não fizesse algo, uma transformação completa poderia acontecer. Então, ele levanta de onde está e diz:
- Chega! – ninguém dá atenção. Pelo contrário, começa a falar mais alto.
- Vocês todos sabem que o melhor esconderijo é em plena vista! Ninguém vai sequer pensar que estamos nos misturando com humanos. – a última palavra foi cuspida com desdém.
- E o risco? – retruca , gesticulando com as mãos. – Você sabe muito bem o que humanos fazem quando descobrem um de nós!
- Eu disse chega! – fala mais alto, terminando a frase com um grunhido em aviso. Ele se põe entre o irmão e o guarda costas. – Não existe discussão. Eu já tomei minha decisão.
- Mas... – tentou .
- Não tem “mas”. – arruma a postura para a “postura de futuro rei de Dragil”.
Os dois guarda costas bufam, contrariados. Foram escolhidos a dedo exatamente para essa missão – não só por serem amigos de seus protegidos, como também por serem os melhores guerreiros, e, portanto, falhar estava completamente fora de qualquer cogitação. Sabiam que, por ter assumido aquela pose, não iria se deixar convencer do contrário. Era sua decisão, afinal. Eles teriam de aceitá-la.

***


- Espero que já esteja sabendo da última fofoca desse buraco de cidade. – disse Theodora, que carregava um guarda-chuva amarelo, assim que viu se aproximar das escadas que levavam ao salão principal da Universidade Comunitária de Woodville. Ela cruza os braços com a amiga e levanta o guarda-chuva para proteger ambas.
- Theo, quem mora ao lado da senhora Hemmings é você! – responde, sem parar de andar. A senhora Hemmings, uma senhorinha idosa de cabelos brancos, era a fofoqueira da cidade, mas quem poderia culpá-la? O maior divertimento dessa cidade era falar do que acontecia com os outros. – Eu não tenho o jornal de Woodville todas as vezes que eu saio para fora.
- Isso não é desculpa! – ela responde, estreitando os olhos. Naquele dia, Theo usava uma calça jeans preta e coturnos vermelhos. Em cima, uma camiseta branca enfiada por dentro das calças com um cinto preto de fivela prateada. era apaixonada pelo estilo da amiga.
Theodora Berry e Reed eram amigas desde quando não eram velhas o suficiente para saberem o que “amizade” significava. Theo era filha única da tia Beth, então, antes mesmo de uma das duas falarem suas primeira palavras, elas já dividiam os brinquedos quando os pais se visitavam. De certa forma, as duas se consideravam irmãs, já que, o pai de Theo morreu quando ela era muito pequena e a mãe de ... Bom, ela não gostava de falar sobre isso. Tia Beth e tio Dan eram os exemplos de mãe e pai que tinham.
- Tem gente morando na Mansão Dragilia! – Theodora solta, com a maior animação possível, quando elas alcançam o salão principal da universidade. arruma o cabelo, agora que estavam em um local coberto, e vê a amiga fechar o guarda-chuva.
- A senhora Hemmings deve estar bem animada mesmo, mais gente para falar mal. – responde, começando a andar em direção à sala de sua primeira aula, sendo seguida por Theodora e murmurando: – Por que eu escolhi fazer Filosofia esse semestre mesmo?
- Não! Pelo que eu entendi, são quatro meninos que vieram fazer alguns cursos aqui! – Theo ignora o comentário sobre a matéria. Ela avisou a amiga que não deveria ter feito a inscrição.
- Por que alguém viria fazer algum curso em Woodville? – faz uma careta. Quem iria espontaneamente vir para essa cidade?
- Sei lá. – Theo dá de ombros e continua: - Mas seja quem for, eu tenho certeza que todo mundo vai cair em cima deles e eu quero ser a primeira a fazer isso.
revira os olhos, encontrando a dita cuja da sala 7B. Não que o prédio da universidade fosse grande, longe disso – na verdade, tudo cabia em menos de uma quadra -, mas ela nunca vinha para esse lado. A área de humanas não era uma das suas áreas preferidas, então não pegava muitas matérias daquele lado do “campus”.
- Theo, eu sei muito bem que você quer interrogá-los, mas agora eu preciso ir e você também. – diz, parada a alguns passos da porta.
- Eu sei... Te vejo no almoço? – Theo pergunta, desanimada para passar algumas horas ouvindo seu professor falar.
- Claro. Ah! Sua mãe pediu pra eu ir lá hoje. Te dou uma carona! – grita, já que a amiga já tinha dado as costas. Ela suspira e entra na sala.
Procura um lugar vazio no fundo, pois tem certeza que vai se distrair no meio da aula e a última coisa que quer é o professor lhe fazendo perguntas. Senta-se em uma das cadeiras da bancada de trás mais à direita e analisa a sala. A arquitetura era a mesma de todas as outras salas da universidade: três bancadas de largura e duas de comprimento, as bancadas de trás são elevadas em um degrau para que todos tenham a melhor visibilidade do professor. A mesa no canto e o enorme quadro branco atrás.
se vira, curiosa, para saber quem aguentaria esse semestre junto com ela. Encontra alguns rostos conhecidos como Andrew e Ali, Matt... Ela acena para eles, que acenam de volta. Nessa cidade era muito difícil encontrar alguém que você não conhece ou que nunca tenha visto. Mas isso mudou em três segundos.
Quatro estranhos marcham pela porta da sala 7B. Não demora para que todos percebam e os cochichos comecem. Os quatro param em frente à porta, discutindo brevemente onde vão sentar. Acabam decidindo pela bancada mais perto da porta, logo na frente de . Um a um, eles foram se sentando nas cadeiras. Ela não entendeu direito por que, mas se inclinou para frente e, assim que o fez, pode sentir o cheiro de cinzas que vinha dos rapazes. , no entanto, não se afastou. Gostou do estranho aroma e do estranho calor que parecia chegar em ondas da cadeira da frente.
Ela respira fundo, deixando o cheiro tomar conta das suas narinas. fecha os olhos e imagens dançam em seu cérebro, escamas douradas e fogo – muito fogo. Elas desaparecem rapidamente, como se nunca tivessem aparecido. franze o cenho e chega mais perto ainda, sentando na ponta da cadeira, sem abrir os olhos. É por isso que não vê o lápis amarelo no canto da bancada e acaba esbarrando nele, derrubando-o. Porcaria, ela pensa, abrindo os olhos e sentindo o calor de antes a abandonar.
curva o corpo, pronta para pegar o objeto caído. Estica o braço, pronta para alcançar, mas mãos maiores alcançam primeiro e pegam o objeto caído. levanta, endireitando o corpo. Virado para trás, o garoto que entrara no meio dos outros na sala sorria, com o lápis esticado para a menina.
- Aqui. – ele diz.
sorri de volta, pegando o lápis. Por um segundo, seus dedos se tocam e é como se o calor voltasse de uma vez, mas, agora, essa sensação não vem do rapaz. Começa no peito de , de onde o colar com pingente de lírio repousa. Por um segundo, o que ela sentiu a deixou sem palavras. Quando aquilo se dissipou, ela responde:
- Ah, sim! Obrigada. – ele assente com a cabeça e está prestes a virar para frente de volta, mas complementa: - E bem-vindos à Woodville, eu acho.
- Obrigado. – ele volta a se virar e, novamente, volta a encarar , ignorando o suspiro irritado do irmão ao lado. – Sabe, estamos desesperadamente procurando algum lugar para comer. Nossa casa ainda está meio... Bagunçada.
- A Lanchonete da Annie. – ela responde, sem pensar. A Lanchonete era o lugar que ela e o pai iam comer todos os domingos. – Eu poderia viver da comida de lá.
- Vamos dar uma passada lá mais tarde. Obrigado... – ele deixa a última palavra no ar, como uma pergunta.
- . – ela responde, de prontidão. – Eu sou a .
- . – ele repete, saboreando o nome em sua boca. – Eu sou . Esses são , e .
Dois deles se viram, dando um sorriso. O que estava ao lado de parece não reconhecer a presença de . iria chamá-los para fazer algo, mas o professor entra e os meninos se viram rápido.
Ela não se importaria em continuar conversando, afinal, era filosofia, mas os meninos da frente pareciam estar realmente concentrados no que o professor dizia.

***


combinou de encontrar Theo no carro e assim aconteceu. Ao final de todas as aulas dela, no meio da tarde, Theo marchou para o carro cinza da amiga. já estava lá há algum tempo, já que fazia menos aulas do que a outra, esperando o horário para ir embora. Enquanto esperava, não parou de pensar naquele calor que sentira mais tarde. Ela tinha certeza que não era porque havia achado o rapaz extremamente bonito – o que ela realmente achou. Achava que era algo mais. Algo como uma sensação do passado que havia voltado. Um dejà-vú?, ela pensou, mas logo descartou aquele pensamento. Era mais que isso.
O que eram aquelas escamas douradas?, continuava a pensar naquele momento em que estivera sozinha. No entanto, assim que Theodora abriu a porta e sentou no banco do passageiro ao lado, todas as perguntas desapareceram, como se nunca estivessem aparecido.
- Eu não acredito que você me traiu desse jeito! – Theo praticamente grita com sua voz aguda.
- Te trair? – revira os olhos. – Eu só falei para a sua mãe que a gente estava indo, porque...
- Você falou com eles! – Theo gospe, indignada. – Eu falei que eu queria ser a primeira a falar com os caras novos!
encara a amiga, incrédula. Ou melhor, fingindo incredulidade, afinal, conhecia a amiga de infância muito bem e sabia exatamente do que a tal “traição” se tratava. Era assim que funcionavam, Theodora era extremamente dramática e fingia que levava seus dramas à sério ou só seguia o script que Theo havia montado em sua cabeça.
- Olha, amiga... Eu não tive como. Eu derrubei o meu lápis! Ele só foi gentil comigo. – diz, olhando para Theo. Logo que termina, se vira para o volante e dá a partida no carro.
- Eu sei! Ali me contou tudo o que aconteceu. – Theo diz, mas seu tom de voz mudou. Parecia mais animado do que qualquer outra coisa. , por outro lado, estava cansada de tanta fofoca na cidade. Ela queria ter contado para Theodora. – Como são os nomes deles? Quem você achou mais bonito? E, principalmente, em quem eu devo fazer minha jogada?
dá risada das perguntas da amiga. Era claro que Theo faria essas perguntas, mas ainda era divertido ouvi-las.
- , , e . – responde sem pestanejar, ficou repetindo os nomes durante a aula de filosofia para não esquecer. Sua amiga nunca a perdoaria se não lembrasse.
- E...? – Theo pressiona.
dá um sorriso, mantendo a boca fechada. Mantém seus olhos na rua. Tinha parado de chover mais ou menos na hora do almoço, mas o céu ainda continuava com aquela cor acizentada. Ela não gostava daquela cor. Tudo parecia úmido demais quando chovia e ela odiava isso. Gostava quando as coisas eram ensolaradas, quando as flores da floricultura do pai se abriam, quando podia ouvir as crianças dos Wilsons rindo na rua de baixo.
- Vai! Me fala! – Theodora insiste.
- Você sabe que eu não vou falar nada. – responde, sorrindo. – Mas, acho que eles vão jantar na Lanchonete da Annie, porque eu recomendei lá. Se você quiser vê-los...
- O quê?! – exclama. – Não! Não podemos ir lá! Eles vão pensar que você está caidinha por eles. Não! A gente precisa levar isso bem calminhas.
- Theodora, você não presta. – murmura, encostando o carro na estrada da casa da tia Beth.
- Não presto, mas você me ama! – a amiga diz, rápido, abrindo a porta do carro e correndo até a porta de sua casa.
, no entanto, demora um pouco para sair do carro, até pegar as coisas que queria – seu casaco, celular, bolsa... Quando coloca os pés para fora do carro, a mesma sensação (o calor vindo do colar com pingente de lírio) toma conta novamente. Junto com isso, a sensação de estar sendo vigiada. O arrepio por trás da nuca a deixa maluca, portanto, olha para trás. Mas não vê nada, apenas o denso bosque que funciona como um paredão do lado sul da cidade.



Continua...



Nota da autora: Sem nota.




Nota da beta: Eita que eu tô curiosa, hein???????????? Essa apresentação toda e minha curiosidade 100% subindo aqui para entender tudo! <3

Qualquer erro nessa atualização ou reclamações somente no e-mail.


comments powered by Disqus