Purple String

Última atualização: 18/10/2019

Capítulo 1

Embora o Japão não fosse mais novidade, os rapazes sempre achavam conforto em passear pelas ruas lotadas e apenas admirar a beleza da normalidade enquanto transitavam despreocupadamente sem serem percebidos. Por serem também asiáticos, achavam mais fácil se misturar com a população dali, bastava colocarem as máscaras que já estavam tão acostumados e conseguiam se esgueirar pelas ruas japonesas sem chamarem atenção. Foi com o intuito de desopilarem um pouco e saírem da rotina puxada da turnê mundial que havia proposto o passeio turístico que já haviam feito algumas vezes.
Após vagarem por diversos pontos turísticos, sempre acompanhados de longe pelos seguranças para emergências, os sete rapazes optaram por ir até Shibuya, visitar novamente aquele ponto turístico e procurar algo para comer. Enquanto andavam despreocupadamente, as pessoas caminhavam com passos apressados, mal percebendo a presença do grupo de celebridades internacionais que coabitavam as ruas naquele momento. Antes, porém, que chegassem ao restaurante que havia sugerido, os sete viram uma aglomeração de pessoas em volta à uma mulher idosa. Ela falava alto para a pequena plateia que estava disposta a escutá-la.
- ...Yuè Xià Laoren, então, amarra uma corda vermelha invisível no tornozelo daqueles que são almas gêmeas, e independentemente do tempo, das circunstâncias ou do lugar, aquelas pessoas estão predestinadas a se encontrar ou se reencontrar. – Todos os rapazes haviam parado para assistir ao show que se fazia ali, mesmo sem terem certeza do que acontecia, e embora japonês não fosse o seu forte, facilmente compreendeu as palavras da mulher.
- É só uma mulher falando besteira. – o rapper comentou com o restante do seu grupo, o ceticismo pingando de sua fala em coreano. A mulher, porém, parou de contar a história e voltou seus olhos para o rapaz, que só percebera que a atenção de todos voltou-se a ele quando foi cutucado por . O mais alto apontou para aquela senhora com o queixo, e pode perceber que ela o olhava intensamente.
- Não acredita em alma gêmea? – a mulher de cabelos grisalhos questionou em coreano, andando até o grupo à medida que a multidão que a cercava abria espaço para ela caminhar. olhou para os lados apenas para confirmar que, sim, ela falava com ele, e mesmo ele não sabendo como ela havia escutado seu comentário, achou melhor falar a verdade.
- Honestamente não. – respondeu simples. Os outros membros do grupo não se espantaram com a atitude franca e um pouco grosseira do rapaz por já estarem acostumados, mas as pessoas que compreendiam coreano ficaram estagnados observando o desenrolar da cena. – Não sei nem se acredito no tipo de amor necessário para que se existisse uma “alma gêmea”. – deu de ombros, expondo sua opinião de maneira seca e incisiva.
A mulher o dissecou lentamente, analisando cada expressão no rosto do rapaz antes de decidir sua próxima ação. Ela juntou as mãos em frente ao seu corpo, abrindo um sorriso gentil para , que ainda a olhava irredutível.
- Talvez eu possa lhe mostrar... – falou incerta, como se estivesse apenas pensando alto e não sugerindo algo, mas isso não o impediu de franzir sua testa e mostrar-se curioso para a proposta da senhora que ainda o analisava.
- Tudo bem, mostre-me. – concordou, ainda sustentando a expressão de pura curiosidade que mostrará há poucos segundos. começou a se questionar se o passeio havia mesmo sido uma boa ideia, pois estavam chamando mais atenção com aquela pequena cena do que gostaria, e era possível que brevemente fossem reconhecidos por alguém. Enquanto escaneava o ambiente, apreensivo com a mesma questão que maquinava em sua cabeça, a senhora deu mais um passo em direção ao jovem que a desafiava e sorriu.
- Pois bem. – disse, erguendo sua mão direita até a testa de , que mesmo sem compreender o que ela pretendia, a deixou tomar as ações necessárias. A senhora aproximou seu dedo indicador da testa do rapper e assim que a superfície enrugada encostou no lugar planejado, um arrepio percorreu a espinha do rapaz, e antes que tudo se tornasse escuro ele escutou dos lábios sorridentes da mulher as palavras que ela proferira: - Só vai durar um segundo.
Os segundos seguintes foram de extrema agonia para , uma vez que sua visão começou a escurecer e ele deixou de sentir lentamente as partes de seu corpo. Um grito se formou em sua garganta, mas ele nunca chegou a sair daquele lugar. Ele estava petrificado e arrependeu-se amargamente de ter aberto a boca e de ser teimoso o suficiente para desafiar aquela mulher. Quando começou a questionar se ficaria daquela forma para sempre, seus sentidos foram retornando, bem como sua visão. Piscou os olhos algumas vezes, estranhamente desacostumado com a claridade que o cercava, mas assim que seus olhos focaram novamente, um novo arrepio o percorreu. Aquele lugar não era o mesmo que estava há poucos segundos atrás. Teria ele desmaiado e seus amigos o levaram a um lugar diferente?
Observou os arredores tentando identificar o hotel em que estavam hospedados ou até mesmo um hospital, mas se encontrou sentado num tapete de pelos em meio a uma sala que não conhecia. Havia uma TV, bem como diversos porta-retratos com rostos nem um pouco familiares organizados numa prateleira. Na sua frente e no meio do tapete tinham alguns pedaços de brownie e três garrafas azuis meio cheias de alguma bebida que ele não foi capaz de identificar, e no fim do tapete havia um sofá preto aparentemente confortável, que ficava de frente para a TV.
- O que foi, amiga? Já bateu? – uma voz rouca o despertou de sua análise mitigada do ambiente, mas as palavras que foram ditas por ela não foram compreendidas. Ele se virou em direção à voz e foi aí que ele a viu. Uma garota se aproximava dele, seus cabelos castanhos iam até os ombros, formando pequenas ondas à medida que se afastavam da raiz. Uma mecha roxa despontava de um dos lados da cabeça, podendo ser facilmente despercebida caso ela não tivesse com os cabelos daquele lado presos atrás da orelha. Seus olhos castanhos o olhavam divertidos, como se vê-lo completamente perdido fosse engraçado e ele simplesmente não conseguia compreender o porquê. Estranhou que os olhos dela não eram puxados, e eram na verdade um pouco arredondados. Ela trajava uma blusa grande que ia até o meio de suas coxas e que havia apenas o desenho de um gato vestido de porco, e aparentemente um short curto por baixo daquilo. Ele sabia que nunca a havia visto antes pois tinha certeza que nunca esqueceria daquele rosto. Sabia, também, que nunca iria esquecer aquele rosto a partir de então. – Ei, , acorda.
Quando ela voltou a falar algo, ele percebeu que a língua que ela falava não era coreano, o que explicaria os olhos, mas não a situação. Ele sabia que não era nada asiático, nem inglês, e torceu fortemente para que ela soubesse falar algum dos dois, caso contrário ele não sabia como sair daquela situação. Olhou mais uma vez pela sala, vendo um rapaz surgir de um corredor na lateral do local. Ele também não possuía olhos puxados. Seus cabelos eram longos e um pouco mais ondulados do que os da garota, porém eram loiros e iam apenas até um pouco abaixo do seu queixo. Seus olhos esverdeados alternavam o olhar de para a garota que falava com ele enquanto ele usava uma das mãos para coçar levemente a barba por fazer.
- O que ela tem? – questionou, ainda em um idioma completamente desconhecido pelo rapaz. Observou a garota da mecha roxa apenas dar de ombros antes de respondê-lo.
- Acho que o brownie bateu, mas ela tá muito estranha. Será que vai dar bad trip? – foi fácil identificar a preocupação no rosto da menina, uma vez que suas feições eram muito expressivas. Antes que as coisas piorassem, o rapper resolveu se pronunciar, e torceu fortemente para que aquelas pessoas entendessem o que ele falava. Embora quisesse tentar algo em coreano, ou até mesmo japonês, o ambiente não aparentava ser de qualquer maneira próximo ao ocidental, então achou por bem tentar falar algo numa língua que, embora ele não dominasse completamente, sabia que era mais fácil de encontrar pessoas fluentes.
- Inglês? – assustou-se com a voz que saiu de si. Ele tinha absoluta certeza que aquela não era sua voz, e a cada minuto que se passava naquela situação ele ficava mais e mais confuso. Ele olhou para baixo rapidamente e usou todas as forças dentro de si para não gritar quando não viu sua barriga devido aos dois seios que a cobriam. Respirou fundo antes de voltar a olhar para a garota à sua frente, e quando o fez a encontrou prendendo uma risada e com os olhos cravados no rapaz loiro.
- Você tá tão chapada que quer conversar em inglês? – a garota questionou e sem conseguir se segurar mais, soltou uma grande risada, que foi seguidos pelo loiro. Os dois gargalhavam enquanto alternavam os olhares entre eles, os brownies no chão e a garota sentada no meio da sala, que, acreditavam os amigos, estava tão chapada que queria falar apenas em inglês.
- Sim. Quero ir ao banheiro. – falou quase que num impulso, no melhor inglês que conseguiu e viu a mulher a sua frente erguer uma sobrancelha antes de rir novamente.
- Fique à vontade. Você sabe onde é. – disse apontando para o corredor de onde o rapaz loiro havia surgido. Rapidamente se pôs de pé, percebendo que a altura dele estava diferente, assim como o corpo, e tinha quase certeza de que não havia nada... Lá embaixo. Antes que fosse completamente tomado pelo pânico, respirou fundo mais uma vez e seguiu pelo corredor que a garota havia apontado, encontrando o banheiro na segunda porta que tentou.
Assim que pôs seus olhos no espelho, ele quis gritar. Aquela não era ele. Definitivamente não era. Embora seus cabelos fossem quase do mesmo tamanho do seu, o reflexo que o encarava era o de uma mulher, e uma mulher que não era coreana. Os olhos amendoados e grandes o miravam do espelho e o pânico presente ali era visível. Ele escutou ao longe uma música soar e decidiu voltar para a sala e tentar compreender o que diabos estava acontecendo e porque ele estava no corpo de uma mulher. Será que aquela idosa japonesa havia enfeitiçado-o? Colocado uma maldição nele por ser tão cético? Enquanto se amargurava pela estúpida decisão de abrir a boca para falar besteira para aquela velha maldita, caminhou a passos lentos até a sala.
À medida que se aproximava da sala, a música foi ficando mais alta e ele identificou não muito tempo depois que se tratava de Heroes, de David Bowie. Ao adentrar novamente na sala, ele viu uma cena que fez seu coração disparar numa velocidade jamais experienciada por ele antes. A garota dançava descalça, de olhos fechados e com um grande sorriso estampado em seu rosto. Ela erguia duas das garrafas azuis que antes se encontravam no chão enquanto balançava de um lado para o outro em cima do tapete e murmurava a letra da música que tocava. Estava tão hipnotizado pela cena que se desenrolava à sua frente que ele mal viu o rapaz que estava deitado no sofá bebericando a sua garrafa e observando, também, a garota dançar despreocupadamente.
Ao abrir os olhos ela se deu conta da presença de quem quer que Min fosse naquele momento, e seu sorriso apenas se alargou fazendo com que o coração do rapper começasse a bater mais forte novamente e um calor estranho começasse a emanar de lugares que ele jamais imaginaria que poderia emanar dentro de seu peito. O sorriso que seguiu aquela cena foi espontâneo, ver aquela menina rir poderia fazê-lo sorrir em qualquer humor que ele estivesse, e ele tinha certeza daquilo naquele momento.
- Vamos dançar. – exclamou em inglês, estendendo uma das garrafas para o rapaz, que permanecia estático na entrada da sala. Antes que pudesse contestar ou pensar em qualquer outra ação, sentiu um choque percorrer seu corpo no mesmo momento que a garota tocou sua mão, puxando-o para o centro da sala. Com os dedos entrelaçados nos seus, ela caminhou lentamente para o lugar que dançava antes de ser atrapalhada por e o puxou junto dela. Ele não tinha forças para reagir àquilo então apenas deixou que ela o tocasse, e deixou que ela o guiasse para onde ela quisesse.
- Por que você está olhando ela assim, ? – o rapaz que estava deitado fez-se escutar, roubando para si a atenção da garota que não mais dançava. – Parece que está apaixonada pela .
Nesse instante tudo voltou a ficar preto e a mesma sensação de imobilidade tomou conta de . Mais rápido do que da primeira vez, ele sentiu a claridade invadir seus olhos e viu prontamente o rosto sorridente da senhora no meio de Shibuya novamente. Ele olhou ao redor e os seis rapazes o olhavam com olhares confusos e perdidos, mas rapidamente ele se voltou para a mulher que permanecia com um sorriso gentil no rosto.
- O-o que foi isso? – questionou baixinho, torcendo para que só a mulher o escutasse. Seus olhos estavam alarmados e, num reflexo rápido, ele levou as mãos até os peitos, percebendo que seu corpo era seu novamente e que não havia nenhum volume inesperado naquela área.
- Eu te mostrei sua alma gêmea. – respondeu calmamente, tão baixo quanto o rapaz havia falado. A multidão que os cercavam os olhavam desorientados, não compreendiam o que a mulher havia feito, ou mesmo se havia feito algo, e compreendiam menos ainda o fato de que os dois sussurravam um para o outro. – Mas agora que você a viu você só terá um mês para encontrá-la, ou o fio será cortado para sempre e apenas o acaso poderá os unir. – o já habitual sorriso transformou-se numa cara séria. – Vocês não estavam predestinados a se conhecerem agora, se nada for feito no próximo mês os deuses o punirão.
- Encontrá-la? – questionou confuso. – Como eu sei se essa garota existe mesmo, e que não foi só você colocando imagens na minha cabeça? – o tom de raiva não passou despercebido pelos membros da banda, que chegaram mais perto do rapper, determinados a compreender o que acontecia, ou, no mínimo, proteger a mulher de algum possível ataque de fúria de .
- Quando quiser encontrá-la, conseguirá fazê-lo em seus sonhos. – disse retomando a expressão tranquila e sorridente de antes. colocou uma de suas mãos nos ombros de para demonstrar que estavam ali, mas foi completamente ignorado pelo rapaz, que apenas ria com escarnio para as palavras completamente clichês e sem sentido que a mulher insistia em proferir no lugar de dar alguma ajuda real para que ele compreendesse tudo que havia se passado.
- Mas que p... – antes que pudesse completar a frase, porém, um grito ressoou em meio à multidão e os sete integrantes da banda viraram-se bruscamente para onde vinha.
- ! – outro grito estrondou e logo os seguranças se aproximaram dos rapazes, fazendo uma espécie de barreira entre eles e todo o resto dos pedestres. Aconselharam que eles andassem logo, mas antes que acompanhasse o passo dos amigos voltou seu olhar para a senhora, que acenava levemente para ele antes de dizer as palavras que grudaram na cabeça do rapper pelo resto do dia.
- Um mês.


Capítulo 2

Enquanto todos conversavam animadamente na mesa de jantar, permanecia calado, tentando absorver tudo que acontecera naquela manhã. Não compreendia como havia se sentido no corpo de uma mulher, não entendia que tipo de alucinação havia sido àquela e pior, não conseguia tirar o toque da garota de mecha roxa de sua cabeça. Seu coração pulsava cada vez que ele recordava os movimentos leves que ela fazia no tapete da sala, e a sensação eletrizante de ter sua mão em contato direto com sua pele.
- Olha só a cara dele. – ouviu a voz debochada de , que sentava à sua frente, e conseguiu captá-lo fazendo um bico com os lábios numa tentativa ridícula de imitar o mais velho. apenas mirou o maknae nos olhos e ele rapidamente desfez o bico e voltou a comer como se nada tivesse acontecido.
Felizmente, enquanto comia, sempre ficava bastante concentrado, o que fez com que quase nenhum dos membros percebesse sua desatenção à conversa, muito menos que seu pensamento estava viajando ao que ele acreditava ser muito longe dali, indo até um país desconhecido, de língua desconhecida e que, estranhamente, ele gostaria bastante de descobrir qual é. Infelizmente, antes que pudesse cantar vitória e admitir que estava fazendo um ótimo trabalho em esconder toda a confusão que passava por sua cabeça, ele sentiu os dedos longos e frios de cutucando-o por debaixo da mesa. Aproveitando-se do momento de distração dos outros membros que conversavam animadamente sobre a viagem até Singapura que fariam no dia seguinte, aproximou-se de para perguntar algo que vinha martelando em sua cabeça desde que vira o olhar assustado do mais velho no meio daquela rua.
- O que aconteceu mais cedo em Shibuya, ? – o rapaz questionou em sussurros ao amigo, enfiando um pedaço de frango em sua boca logo em seguida, fingindo prestar atenção nas instruções que repassava pela décima quinta vez naquele mês.
- Acho que se eu te contasse você não acreditaria. – o mais velho confessou, tentando ao máximo não atrapalhar a conversa que se desenrolava na mesa e não chamar a atenção dos membros para si. Ele falava baixo e com o olhar cravado no líder, pronto para menear a cabeça a qualquer olhar que voltasse para ele. – Nem eu sei se acredito mesmo...
- Ok, vou me preparar durante o jantar porque você vai me contar quando formos dormir. – declarou, dando fim à pequena conversa e voltando a prestar atenção de verdade no que era falado na mesa. falava sobre ter caído vergonhosamente na escada quando soube que o jantar havia chegado e todos riam de sua história, enquanto se deixava submergir nos mais variados pensamentos sobre o mesmo assunto: a menina da mecha roxa.
Após a refeição, todos se encaminharam para os devidos quartos, pois viajariam cedo no dia seguinte e queriam descansar o máximo possível. Naquele hotel, e dividiam um quarto, e dividiam outro, e o terceiro e , que havia vencido no pedra, papel e tesoura, tinha um quarto só para si. Assim que entraram no quarto, sentou-se na sua cama, cruzando as duas pernas e trocando o sorriso que sempre usava por uma expressão séria, incentivando a contar o que havia ocorrido aquela tarde enquanto estavam em Shibuya.
- Tudo bem... – começou, coçando levemente as orelhas numa clara indicação de que estava desconfortável e um pouco envergonhado. Ele então começou a descrever tudo que havia visto e sentido e a cada nova informação a feição de tornava-se mais incrédula e confusa. - ...E então ela disse que eu tinha um mês pra encontrar essa garota ou eu provavelmente nunca mais a encontraria. – finalizou, olhando para baixo e se sentindo estúpido por cada palavra que proferira a pouco.
- Mas, calma, a sua alma gêmea é a menina que você supostamente possuiu ou é a menina que você viu enquanto estava possuindo a menina que você possuiu? – a questão despontou dos lábios de antes mesmo que ele pudesse analisar o quão ridícula ela seria, e os dois começaram a rir assim que a última palavra fora dita. deu um leve tapa em sua testa e cobriu os olhos com a mesma mão, ainda rindo da situação.
- De todas as informações que eu te dei agora é sobre isso que você tem dúvida? – questionou incrédulo, mas a risada que ainda despontava dos seus lábios não permitiu que a pergunta tivesse o tom de ultraje pretendido. – Mas respondendo à sua pergunta... Eu não tenho ideia. – afirmou e viu seu colega de quarto maquinando uma nova pergunta em sua cabeça antes de soltá-la. se sentia extremamente incomodado com o silêncio que se instaurou no recinto naquele momento, então começou a batucar em sua própria perna com a mão que não mexia nas orelhas e teve plena certeza de que nunca vira o amigo tão desconfortável quanto ele estava naquela situação.
- E como você vai encontrá-la? – questionou algo que ele julgou ser mais inteligente do que a pergunta passada, mas viu o amigo dar de ombros e coçar a orelha mais uma vez. temia estar fazendo perguntas que atacassem a ansiedade de , mas aparentemente ele só estava desconfortável e confuso, nenhum traço de ansiedade real havia sido demonstrado até aquele momento. se tornou muito bom em ler , uma vez que o ultimo nunca foi muito bom em demonstrar emoções ou colocar o que estava sentido em palavras.
- Novamente, não tenho ideia. – confessou. – A mulher falou algo sobre eu encontrá-la em meus sonhos, mas eu não entendi se isso foi uma dica ou se ela só estava zombando com a minha cara. – disse, parando finalmente de batucar e se jogando de costas na sua cama, passando a encarar o teto e não mais o olhar confuso do amigo.
- Você quer encontrá-la? – questionou aquilo que ele realmente queria saber, mas o fez baixinho o suficiente para que ignorasse caso ele não se sentisse confortável de responder. Quando suspirou alto, começou a prestar mais atenção e ficar levemente preocupado, uma vez que o amigo sempre fora muito focado em trabalho e nunca demonstrou ser alguém com grandes planos para sua vida amorosa, nem mesmo com os membros da banda ele era muito amoroso e sempre invejara a disciplina que tinha quando se tratava de trabalho. Até aquele momento, o que mais chamara atenção do mais novo em toda a história que contara foi a maneira carinhosa que ele descreveu a garota, algo que ele jamais esperaria do amigo, e estava curioso para saber se ele queria encontrar o tal “amor da vida dele” ou se ele deixaria o amor passar e focaria no trabalho como vinha fazendo durante os sete anos em que eles se conheciam.
- Se ela for real, sim. – confessou, fechando os olhos para não observar qual julgamento faria daquela informação e apenas aproveitar o súbito momento de coragem que ele tivera de compartilhar aquilo com alguém.
- Bom, então vamos dormir e ver se a velha estava falando sério ou se foi só uma pegadinha muito bem bolada e um pouco de hipnose aí no meio. – o tão característico sorriso de voltou à sua face enquanto ele se aninhava na cama ao lado da cama de .
Não demorou muito para que os dois pegassem no sono, o cansaço trazido por uma turnê mundial não era fácil de lidar e dias de folga como esse que eles tiveram eram raridade na rotina conturbada deles, então aproveitar para dormir o quanto podiam era a escolha certa para se fazer. sentiu seu pensamento se esvaziando lentamente enquanto ele caía num sono profundo, mas antes mesmo que se desse conta, ouviu um estrondo do lado de fora de seu quarto e abriu os olhos num sobressalto.
Ao sentar na cama a primeira coisa que identificou foi uma claridade quase insuportável e xingou-se mentalmente por ter esquecido de fechar as cortinas do quarto antes de apagar, fechando os olhos na mesma velocidade em que os abrira e enrolando-se nos lençóis da cama. Um barulho ainda podia ser escutado de fora do quarto, mas agora identificava a progressão harmoniosa de alguma música que ele tinha certeza que não conhecia.
Ao abrir os olhos novamente, ele se assustou com o que viu. Estava sozinho num quarto que não era o do hotel e por um segundo pensou em gritar, mas então viu um porta-retrato em cima da mesa de cabeceira onde a menina da mecha roxa e a menina do espelho sorriam cobertas de glitter e com fantasias quase iguais. “Quando quiser encontra-la, conseguirá faze-lo em seus sonhos.” Lembrou-se prontamente das palavras da mulher e deu leve batidinhas em seu rosto para acordar de vez e focar em descobrir coisas que o pudessem ajudar a encontrar a sua suposta alma gêmea.
Levantou-se da cama e começou a vasculhar o quarto em que estava, encontrando apenas coisas escritas numa língua que ele definitivamente não conhecia, mas que era obviamente ocidental. Resolveu sair do quarto, e por um instante xingou-se por tê-lo feito. Assim que pisou no corredor deu de cara com a menina de mechas roxas. Seus cabelos estavam molhados e jogados para trás, seu corpo estava coberto apenas por uma toalha que mostrava perfeitamente cada curva do corpo da garota e ela segurava em uma das mãos algumas roupas e um celular, de onde vinha a música que ele não conhecia.
- O que foi, ? – a garota falou novamente algo que parecia apenas uma fala incoerente para ele que não compreendia o idioma e, num relâmpago, surgiu uma ideia em sua cabeça. procurou o celular da garota com as mãos, evitando ao máximo cair novamente na tentação de deixar seus olhos passearem pelo corpo da menina à sua frente, e viu o que tocava. Johnny Hooker era o nome que brilhava na tela e ele decorou mentalmente aquelas letras antes de apertar o botão para pausar a música e devolver o celular à garota, marchando novamente para o quarto do qual havia acabado de sair e fechando a porta rapidamente para que não fosse seguido. Repetia Johnny Hooker para si mesmo uma vez atrás da outra, temendo esquecer o nome do artista. ¬¬– Ai meu Deus, desculpa, você estava dormindo? – ouviu novamente a voz da garota, mas apenas se jogou na cama e fechou os olhos, sentindo a mesma sensação de adormecimento que havia sentido mais cedo no meio da rua.
acordou num sobressalto, pulando da cama tão violentamente que acabou por acordar junto, mas antes que pudesse questionar qualquer coisa, o mais velho correu de onde estava em direção ao seu celular que ele havia deixado carregando no banheiro. Ele rapidamente mudou o teclado para inglês e digitou no Google as duas palavras que repetia para si mesmo incontáveis vezes, temendo esquecê-las e tornar sua ida ao corpo de uma pobre jovem absolutamente perdida. Digitou Johnny Hooker e deu enter, torcendo vigorosamente para que aquele cantor o levasse para algum lugar. observava da porta do banheiro o amigo encarando a tela do celular enquanto a página pretendida por aquele não carregava. Seus olhos estavam semicerrados e ele só não havia voltado a dormir ainda porque a curiosidade estava incrivelmente maior do que o sono. Assim que a página carregou, clicou num botão fornecido pelo próprio Google para que ela fosse traduzida para o coreano, descobrindo que Johnny Hooker era um cantor e ator brasileiro.
- Ela escuta um cantor brasileiro. – murmurou do chão do banheiro, descendo a página para ter certeza de que essa informação estava correta. – Ela não escutaria música brasileira se não fosse brasileira, não é? – finalmente tirou os olhos do celular, encarando o amigo que seguia parado na porta do banheiro e mais uma vez sem sorriso nenhum. coçou a cabeça de leve, sonolento demais para pensar de verdade sobre isso e apenas deu de ombros.
- Hm, não sei. – respondeu sincero, oferecendo o braço para ajudar a se levantar do chão do banheiro. – Mas eu sei que em duas semanas a gente vai pro Brasil, então se ela for de lá você precisa descobrir onde ela está...
- E se não for em nenhum lugar que a gente vá fazer show no Brasil? – externou um pensamento que cruzou sua mente no momento em que leu “brasileiro” na biografia de Johnny Hooker, aceitando a ajuda do amigo e pondo-se de pé rapidamente.
- Ai, eu viajo com você pra onde você precisar. – falou simplesmente, andando lentamente e voltando a deitar em sua cama. – Você já atrapalhou meu sono por causa dela, agora é uma questão de honra encontrar essa menina. – brincou e antes de adormecer novamente, escutou a risada de ressoando pelo quarto silencioso.


Capítulo 3

A viagem para Singapura havia sido mais agitada do que o normal, uma vez que eles normalmente viajavam no dia anterior ao show, e não no dia do show como estavam fazendo daquela vez, mas embora tivessem passado algumas horas escutando instruções e cronogramas vindos do produtor, nenhum dos rapazes podia se queixar de cansaço. A noite havia sido tranquila para todos e as horas extra de sono que aproveitaram foram essenciais para o sentimento de leveza que todos os integrantes da banda sentiam naquele momento. Depois de escutar tudo que precisava, sentou-se sozinho em uma das grandes poltronas do avião, até que se aproximou dele.
- Como você está se sentindo? – o mais novo questionou, ocupando a poltrona ao lado de , que tirou um dos fones de seu ouvido para dar a devida atenção ao seu amigo.
- Bem. – disse simplesmente e revirou os olhos para a atitude tão típica do rapaz ao seu lado. sabia que era provável que erguesse seu muro novamente assim que saíssem do Japão, e que o episódio no quarto fora uma raridade. Um dos motivos que o fizeram acreditar tão facilmente no rapper foi justamente o fato dele parecer tão desestruturado com toda a situação e, claro, ele ter saído da cama por qualquer motivo que não “porque era obrigado”.
- Está cansado ou... – tentou abordar o assunto por outro lado e viu rapidamente o amigo suspirar ao seu lado e tirar o outro fone do seu ouvido. As batidas de Power, de Kanye West, podiam ser levemente distinguidas caso prestasse realmente atenção naquele som, mas ele estava muito interessado na história que se desenrolava à sua frente para ter qualquer tipo de interesse em qualquer outra coisa que fosse.
- Na verdade não. – confessou e se virou parcialmente de lado para falar olhando diretamente para o amigo. – Eu dormi o resto da noite inteira, até acordei meio frustrado com isso.
- Do que vocês estão falando? – hyung) se aproximou deles com um sorriso grande e alguns salgadinhos e frutas em suas mãos para dividir, sentando-se em uma das duas poltronas dispostas à frente das poltronas já ocupadas pelos outros dois membros da banda.
- Que só bastou um dia livre para que nós já estejamos completamente desacostumados com isso de viajar no mesmo dia que chegamos. – sem nem pensar muito, disparou a primeira coisa que veio à sua mente, incerto sobre a vontade de em compartilhar ou não a experiência do dia anterior com qualquer um dos membros ou se seria embaraçoso demais para o rapper naquele momento. pareceu acreditar facilmente na desculpa que acabara de inventar, deixando o mais velho levemente orgulhoso de si mesmo e suas capacidades, e ansioso para o próximo jogo de máfia.
- Por isso você está frustrado? – questionou diretamente para , que balançou a cabeça positivamente e pegou um dos sacos de salgadinho que o mais novo estendia para ele.
Durante o resto do voo as mais diversas discussões foram fomentadas, mas nenhuma delas fora o assunto que e conversavam. Ao chegarem no aeroporto, muitas fãs os aguardavam, tendo os rapazes encontrado uma explosão de flashes assim que saíram do portão de desembarque. Enquanto a maioria passou direto, dando apenas alguns “tchauzinhos” durante o percurso até os grandes carros pretos que os aguardavam, hyung) mostrou-se animado de estar ali, fazendo uma pequenina dancinha no curto caminho que os separavam da rua e causando uma enxurrada de gritos animados das fãs de Singapura. Assim que chegaram na cidade, foram até o restaurante que sua equipe havia reservado para o almoço da banda e não muito depois foram direto para o local em que ocorreria o show para que pudessem passar as músicas e, em seguida, se arrumarem para mais um espetáculo que aconteceria dali há algumas horas.
Após a passagem de som, sentiu um sono imenso, aconchegando-se num dos sofás que mobiliava um dos camarins em que eles se encontravam. Foi em meio às risadas de e de que o rapper caiu no sono, sendo acordado rapidamente pelo que pareceram sons de pratos batendo. Quando sua visão desembaçou ele percebeu que estava com os dois braços apoiados num balcão e que as mãos que tinham belas unhas rosas definitivamente não eram suas. Olhou ao redor do ambiente claro em que estava e percebeu que era uma cozinha.
- Vamos, , as bebidas não vão ser servidas sozinhas. – o rapaz loiro de cabelos longos que ele havia visto na primeira vez que isso acontecera começou a empurrá-lo levemente em direção à porta, murmurando palavras incompreensíveis para o coreano que, mais uma vez, possuía o corpo de uma garota que poderia ser ou não sua alma gêmea. Ele começava a se sentir mal pela maneira que as coisas estavam sendo conduzidas, talvez ele pudesse estar atrapalhando a vida da garota em questão, ou fazendo-a parecer louca, mas ao mesmo tempo essas eram as únicas chances que ele teria de encontrar a menina que estava predestinada a ser o seu grande amor. mal podia crer que aquele tipo de pensamento de fato rondava por sua cabeça antes tão cética em relação a esse tipo de coisa. – Alô! Terra pra ! – percebeu que estava com o olhar perdido numa pequena área do bar que havia acabado de adentrar e voltou a olhar para o rapaz, que agora o observava com a testa enrugada e o dedo apontado na direção de uma mesa num canto escuro e próximo ao palco. – está se preparando pra cantar, você tem que terminar de atender a última mesa dela. – não conseguia compreender absolutamente nenhuma palavra que saía da boca daquele rapaz, mas ele parecia bravo e apontou diretamente para uma das mesas do recinto, provavelmente indicando para onde ele deveria ir. À pequenos passos hesitantes ele foi lentamente em direção àquela mesa.
Enquanto se aproximava, escutou algo que quase o fizera suspirar de alívio e, à medida que chegava mais perto, conseguiu identificar traços característicos que confirmavam suas suspeitas. Um casal encontrava-se naquela mesa, os dois de mãos dadas e conversando sobre algum museu que haviam visitado aquele dia. A razão da animação de e de ele saber perfeitamente sobre o que aquele casal era uma só: eles conversavam sobre o tal museu em coreano. Assim que chegou até a mesa, ele procurou no bolso do avental preto que vestia algo para que pudesse anotar os pedidos das pessoas à sua frente, facilmente encontrando um bloco de notas e uma caneta.
- Boa noite. – falou em coreano, chamando rapidamente a atenção do casal à sua frente. Um fio de cabelo da garota misteriosa cujo corpo estava pegando emprestado caiu desajeitadamente em frente ao seu rosto, lembrando ao rapaz onde ele estava, uma vez que seu cabelo não era tão longo nem ondulado quanto o da garota, embora ela possuísse cabelos mais curtos do que a maioria das garotas que ele vira naquele lugar até aquele momento. – Posso ajudá-los? – lembrou de perguntar, sorrindo da maneira mais verdadeira possível em seguida.
- Boa noite. Eu confesso que estou impressionado com esse bar. – o rapaz à sua frente falou, antes mesmo de fazer qualquer pedido, e voltou sua atenção para ele, indicando com a cabeça que ele deveria continuar sua fala. – Não apenas uma, mas duas atendentes falam coreano. Com certeza irei indicar para os amigos que vierem conhecer o Brasil. – finalizou sua frase, dando a a certeza de que estava, de fato, no Brasil.
- Verdade, acho que daqui para o fim da nossa viagem voltaremos aqui só pelo bom atendimento. – a moça que o acompanhava completou. Os dois eram jovens, aparentavam ter no máximo 30 anos, e a mulher ostentava um belo anel de noivado em sua mão direita.
- Nós agradecemos muito a preferência, e vamos trabalhar para que toda a experiência aqui seja agradável para ambos. – mimicou uma fala que havia visto num filme qualquer há tanto tempo que nem tinha mais certeza se a frase era mesmo aquela, em seguida ergueu o bloco de notas e a caneta que tinha em mãos. – Gostariam de pedir agora?
- Alguma chance de vocês terem Kloud1?- brincou e viu a garçonete rir mais do que deveria da piada. O homem não imaginava que ela conhecesse as cervejas coreanas, uma vez que sua aparência era bastante brasileira, mas ela riu como se compreendesse completamente a piada, dando a impressão de que era uma garçonete extremamente competente. Com certeza ele iria deixar uma boa gorjeta para ela.
- Acho difícil termos qualquer cerveja coreana... – disse pacientemente, confirmando ao homem que aquela garota sabia sim do que ele falava. - ..., mas posso dar uma olhada para vocês. Caso não tenha, o que vocês gostariam? – estava se saindo melhor do que ele esperava, e agradeceu a todos os programas de variedade que já participara na vida por tê-lo feito adquirir essa desenvoltura que ele, com certeza, não teria em um outro momento de sua vida.
- Se não tiver pode trazer a de sua preferência. – a noiva do rapaz disse, recebendo um meneio de cabeça positivo do seu noivo, ratificando sua fala. – Depois de você conhecer cervejas coreanas acho que confiamos completamente em você para tomar essa decisão por nós. – disse com um sorriso simpático e não conteve o impulso de fazer uma pequena reverência em agradecimento.
- Obrigado. – falou enquanto anotava na sua cadernetinha “dois copos de cerveja” e saiu em busca do pedido. Agradeceu internamente por eles não terem pedido nada para comer, uma vez que não saberia escrever nada em português caso fosse preciso. Buscou dentro do freezer alguma cerveja coreana, mas, como imaginara, não viu nenhuma, então pegou duas Budweisers antes de ser parado por uma jovem que também usava um uniforme igual ao que acreditava estar usando naquele momento. Ela segurou seu braço, o parando no meio do caminho
- Você já anotou o pedido na comanda da mesa? – a garota questionou, intrigada por ter pegado as cervejas ela mesma sem antes ter passado pelo caixa para anotar o pedido. desesperou-se por um momento, sem saber ao menos o que ela havia perguntado, e no momento de agonia apenas apontou para a mesa que estava indo servir e sorriu amarelo. A menina à sua frente revirou os olhos antes de falar uma última frase e soltar o braço de . – Está bem, eu anoto pra você, mas não esquece de novo.
afastou-se o mais rápido que pôde, evitando ter que lidar com outra conversa na língua que ele descobriu oficialmente que era português. Andou calmamente em direção à mesa do casal e depositou as duas cervejas na mesa, abrindo-as em seguida com o abridor de garrafas preso em seu avental.
- Muito obrigado. – agradeceu o rapaz, bebericando seu copo de cerveja. Antes que retornasse ao balcão do bar, porém, teve uma ideia e torceu mais do que tudo para que ela desse certo. Caso desse, ele ficaria muito mais próximo de descobrir como encontrar a sua misteriosa cara metade.
- Então... O que estão achando da cidade? – questionou tentando aparentar o mais despretensioso possível. O maldito fio de cabelo seguia caindo em seu rosto, mas ele não tinha coragem nenhuma de tocar num cabelo que não fosse o seu, por isso tentou menear a cabeça levemente para que saísse de sua frente, desistindo rapidamente e arrancando uma leve risadinha da mulher à sua frente.
- Eu particularmente estou amando. – o rapaz respondeu. – São Paulo é muito diferente de Sokcho. – comentou e os olhos de brilharam naquele momento. Seu plano havia dado certo. O rapaz continuava falando sobre museus e bairros, mas o nome São Paulo puxou completamente daquela realidade, pois havia finalmente descoberto que o suposto amor da sua vida estava numa cidade que ele visitaria dali há alguns dias.
Antes que pudesse pensar no que responder ao homem, porém, viu as luzes do palco se acenderem, e andando lentamente pela escada que levava até ele estava a menina de mechas roxas subindo com uma palheta entre os dentes e as mãos desfazendo o coque que tinha e soltando seus cabelos levemente ondulados.
- Que bom que estão gostando da cidade, agora peço licença e espero que aproveitem o show, qualquer coisa podem me chamar. – disse rapidamente, saindo de perto da mesa e se esgueirando para um canto meio escuro do bar, com o intuito de assistir um pouco do show que iria começar antes que seu tempo ali acabasse e ele fosse abruptamente levado de volta para Singapura.
A garota de mechas roxas subiu até o palco, colocando o violão ao redor do seu corpo e ajustando habilidosamente o pedestal do microfone para que ficasse à sua altura. Todas as luzes do palco se apagaram de uma vez e apenas um feixe de luz ficou ligado, iluminando não só ela, como também o belo sorriso que ela dava ao escutar um urro vindo do bar e uma salva de palmas tomando conta de todo o espaço.
- Boa noite. – falou com sua voz levemente rouca e teve certeza que poderia ouvi-la falando para sempre, mesmo que fosse em português. Ainda ostentava um sorriso no rosto, que se abriu mais ainda ao ser respondida com gritos pela plateia. – Para quem não sabe meu nome é , e hoje eu separei umas músicas que eu gosto muito e algumas poucas que eu mesma escrevi para cantar pra vocês, tudo bem? – não tinha ideia do que era aquela sensação que o preenchia sempre que ele a ouvia falar, mas ele tinha muito medo de descobrir por ser algo completamente novo e fora da sua zona de conforto. – A primeira é uma bem conhecida, então se vocês puderem me ajudar a cantar... – falou e finalmente começou a dedilhar o violão. Suas mãos eram habilidosas no instrumento e a melodia de Come Together, dos Beatles, foi facilmente identificada.

Here come old flat-top, he come
Groovin' up slowly, he got
Ju-ju eyeballs, he want
Holy rollers, he got
Hair down to his knees
Got to be a joker, he just do what he please

estava absolutamente hipnotizado pela voz rouca e meio grave da garota. Era completamente diferente de tudo que ele já havia visto antes e era, com certeza, uma das mais bonitas que já havia escutado. O bar já havia começado a cantar com ela, e os mais bêbados batiam palmas animadamente num ritmo aleatório que provavelmente só fazia sentido na cabeça alcoolizada deles.
He wear no shoeshine, he got
Toe-jam football, he got
Monkey finger, he shoot
Coca-Cola, he say
I know you, you know me
One thing I can tell you is you got to be free

Ela parou de tocar o violão e apontou os dois braços para a miniplateia que se encontrava no recinto, convidando todos a cantarem a parte que seguia junto a ela, e foi isso que aconteceu, quando em coro o bar cantou:
Come together, right now
Over me

Em seguida, ela voltou a tocar o violão com mais um de seus sorrisos no rosto, e não pode deixar de acompanha-la. Ele estava completamente imerso naquela música e, mais especificamente, naquela garota, e torceu pela primeira vez que ela fosse a sua alma gêmea, e não a garota com quem dividia o corpo as vezes. Ela voltou a cantar a música, mas a visão de começou a embaçar e escurecer, tendo ele certeza que sua hora de estar ali havia acabado e, diferentemente das outras vezes, ele apenas deixou que as trevas momentâneas o tomassem. Quando percebeu seus movimentos voltando, ele se levantou abruptamente por não saber que estava tão em controle do seu corpo quanto de fato estava, e assim que abriu os olhos e deu de cara com sozinho, sentado numa cadeira à sua frente provavelmente jogando algum jogo no celular.
- Ela esta em São Paulo! – exclamou animado para o amigo, que ergueu a cabeça do celular, mas no lugar de estar com uma feição tão animada quanto a de , esbugalhou os olhos e bateu levemente com sua mão na testa. Antes, porém, que pudesse compreender o que havia acontecido ou ao menos perguntar para porque ele estava daquela maneira, uma voz surgiu de trás dele, fazendo com que ele entendesse de imediato a reação do amigo.
- Ela... Quem?


Capítulo 4

- ! – com um estalo em frente aos seus olhos a garota saiu do transe em que se encontrava, piscando lentamente até se dar conta que já estava no bar e não mais na cozinha, e encontrava-se escorada contra um canto da parede virada para o palco, onde sua melhor amiga cantava Landslide, de Fleetwood Mac. Não era a primeira vez que entrava no modo automático e fazia as coisas sem perceber, mas um calafrio subiu sua espinha ao notar que ela não tinha memória nenhuma de sair de dentro da cozinha e não sabia ao menos porque estava escorada naquele canto, e não atendendo as mesas como deveria. – Eu sei que canta bem e tudo mais, mas o show dela atraiu mais gente que esperávamos e o bar encheu de uma forma que eu não consigo atender todo mundo sozinho. – Luke comentou, segurando na mão da garota e puxando-a para o balcão do bar, onde apressou-se em buscar um balde com gelo e enchê-lo de cervejas.
- D-desculpa, eu me distraí um pouco, eu acho. – falou, desconfiada de suas próprias palavras, e massageou levemente suas têmporas na tentativa de se recordar de qualquer coisa depois de ter colocado o avental em seu corpo.
- Bom, distraída ou não, o casal coreano ali simplesmente te amou e deixaram uma gorjeta enorme, aparentemente para dividir entre você e . Eu não tenho certeza porque o inglês deles era péssimo, não sei como você se desenrolou tão bem. – comentou antes de sair com o balde lotado de cervejas e entregá-lo a uma mesa, deixando para trás uma aturdida, sem saber do que ele falava.
- C-coreanos? – falou sozinha quando conseguiu absorver todas as palavras de Luke, buscando novamente em suas memórias o casal coreano que ela havia atendido e tendo absoluta certeza de que aquela cena não se encontrava em seu cérebro. Antes que pudesse pensar mais, porém, ouviu a voz de Luke chamando seu nome e apontando para uma mesa, então ela apenas deu de ombros e andou até o local indicado por seu colega de trabalho.
- Boa noite, posso ajuda-las? – falou com um sorriso no rosto. A mesa era composta por cinco garotas e todas elas olhavam o cardápio de drinks enquanto aguardava. Quando colocaram o cardápio na mesa, prontamente tirou seu bloquinho de dentro do avental e a caneta de trás da sua orelha, pronta para anotar o pedido. Assim que abriu o bloco, porém, viu escritos estranhos no seu bloco e ela tinha completa certeza que não havia escrito aquilo. De caneta azul, podia-se ler “맥주 2 잔”, e embora ela soubesse que aquilo deveria significar algo, ela não havia a mínima ideia do que era. Antes de começar seu surto que definitivamente viria, as meninas começaram a falar seus pedidos e ela mudou a página do seu bloco rapidamente, anotando tudo que elas falavam.
- Eu vou querer um mojito, por favor. – a primeira garota informou, olhando diretamente para sua colega, que meneou a cabeça sabendo que era sua hora de falar.
- Eu quero uma margarita. – disse e outra garota bateu palminhas, soltando o cardápio que ela ainda olhava de maneira compenetrada.
- Eu também quero uma margarita. – declarou, juntando seu cardápio com o resto.
- E um balde de cervejas, por favor. – a quarta garota falou, recebendo meneios positivos da garota que estava ao seu lado, provavelmente dividiriam as cervejas.
- Tudo bem, meninas, só vou precisar ver as suas identidades antes. – disse enquanto terminava de anotar o balde de cerveja e prontamente todas as cinco tiraram suas identidades das carteiras. – Pronto, vocês querem que eu deixe os cardápios aqui ou posso levar? – questionou, devolvendo a caneta para o seu lugar atrás de sua orelha e sorrindo novamente para as moças.
- Deixa um, por favor, o resto pode levar. – a mais velha de todas, como acabara de descobrir, falou simpática, e a garçonete apenas acenou a cabeça enquanto recolhia o resto dos cardápios.
- Tudo bem, qualquer coisa, podem me chamar, eu já volto com suas bebidas. – falou, saindo da mesa e indo até o bar cadastrar os pedidos.
Durante o show de , concentrou-se em atender as mesas e não surtar pelas ideias que estava tendo, mas enquanto cantava a última música e as pessoas se dispersavam do bar, a garota de cabelos curtos já tinha absolutamente certeza do que estava acontecendo consigo e só estava esperando o show terminar para pedir ajuda aos seus dois melhores amigos.
Com o fim do show, o bar começou a esvaziar um pouco mais, dando à a oportunidade perfeita de conversar com Luke por um tempo,, sem atrapalhar o trabalho de nenhum dos dois, muito menos estragar o fabuloso atendimento do bar. Ela entregou as cervejas que estavam em suas mãos e voltou para o balcão, buscando Luke incansavelmente com os olhos. Assim que o avistou, ela segurou sua mão e começou a puxá-lo para o lado do palco.
- ? O que você está fazendo?! – o rapaz resmungava enquanto a garota marchava silenciosamente em direção à escada da qual iria surgir e apertava o pulso do loiro com mais força do que ele algum dia esperou que ela pudesse fazer. – Você sabe que nosso turno ainda não acabou, né? – embora tentasse arrancar alguma informação da amiga do porquê ela estava daquela forma, seus questionamentos só faziam a menor bufar e continuar andando em silêncio.
- Seu show foi lindo. Eu te amo. Melhor cantora do Brasil todinho. Não me esquece quando for famosa. Agora vem. – disparou uma frase atrás da outra, agarrando em seguida o braço de e puxando-a da mesma forma que fazia com Luke, encaminhando os dois até a cozinha do bar.
- O que ela tem? – questionou. Seus cabelos estavam levemente molhados de suor e Luke quis se socar por ter achado aquilo sexy, mas obviamente ela jamais saberia desses pensamentos obscuros que ele fora tão bom em guardar para si durante os três longos anos em que eles se conhecem.
- Eu juro que não tenho ideia, ela só puxou meu braço e começou a me arrastar por aí. – o loiro respondeu e foi repreendido por um “shh” alto de .
- Calem a boca, minha vida está em risco aqui. – disse, abrindo as portas da cozinha e jogando os dois amigos para dentro. – Sentem-se.
Sem questionar mais nada, os dois se sentaram um ao lado do outro em um banco que ficava no fundo da cozinha, enquanto a se movia de um lado para o outro terminando de se convencer de que tudo aquilo que ela estava vivendo era o que ela pensava. Massageou as têmporas novamente antes de se virar para os seus amigos extremamente séria e soltar as palavras que nenhum dos dois esperava ouvir na vida inteira.
- Eu estou sendo possuída por um demônio chinês e vocês precisam me levar na igreja pra fazer um exorcismo agora. – soltou tudo numa única respiração e cravou os olhos nos dois amigos da sua frente. Aguardou alguns segundos pela reação compadecida daqueles que eram, ela achava, seus melhores amigos, mas teve uma reação completamente oposta da qual esperava. No lugar de se preocuparem e correrem para achar o padre mais próximo eles simplesmente gargalharam.
foi a primeira a deixar escapar a risadinha, e assim que Luke a acompanhou os dois romperam numa gargalhada estrondosa, fazendo com que um enorme bico se formasse nos lábios de e os olhos de se enchessem de água.
- , eu te amo tanto. – a garota falou, ainda com lágrimas nos olhos e sem ser capaz de controlar a risada. – Minha barriga... Está doendo... De tanto rir. – falava, pausando para respirar entre suas palavras, mas foi parando de rir quando viu o bico formado nos lábios da melhor amiga e os olhos brilhando indicando que ela estava prestes a chorar.
- Eu estou sendo possuída por um demônio chinês e meus melhores amigos não acreditam em mim. – falou alto, porém mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa, cobrindo seu rosto com as duas mãos e respirando fundo para não chorar.
- Calma, . – finalmente se acalmou e deu um cutucão em Luke para que ele fizesse o mesmo. – Vamos entender essa história... Por que você acha que está sendo possuída? – ela fez um esforço homérico para não rir da frase que acabara de falar, mas rapidamente se recompôs e voltou à serenidade que aparentava ter no momento.
- Olha, tudo começou a ficar estranho no dia do brownie... – começou a enumerar nos dedos enquanto falava toda a análise que havia feito durante seu turno. - ... Eu não me lembro de absolutamente nada do que vocês me contaram, foi como se eu tivesse desligado por um tempo e depois ligado de novo em outro lugar. – falou e Luke segurou um risinho que escapuliu por entre seus lábios.
- O nome disso é maconha, não demônio japonês. – o loiro falou, atraindo um olhar mortífero da mais baixa para si.
- Chinês. – apenas corrigiu e voltou seus olhos para , já que Luke obviamente não a estava dando a atenção pretendida. – Depois teve aquele dia lá em casa, que você disse que eu saí do quarto, desliguei sua música e voltei pro meu quarto, mas eu não tenho absolutamente nenhuma memória disso acontecendo. – falou como se a sua conclusão fosse obvia, mas a amiga apenas sorriu amarelo.
- Você tinha acabado de acordar, talvez estivesse meio sonâmbula ainda, , nada disso está me indicando demônio chinês. – falou verdadeiramente para a amiga, que abriu um sorrisinho e puxou seu bloquinho de dentro do avental que ainda usava.
- Eu imaginei que você falaria isso, porque era precisamente o que eu pensava, mas hoje... – disse abrindo o bloquinho e buscando a página pretendida. - ... Eu aparentemente aprendi a escrever chinês?! – exclamou mostrando o “맥주 2 잔” escrito em seu bloquinho para os amigos. – Eu não tenho absolutamente memória nenhuma de ter saído dessa cozinha, foi como quando eu fiz endoscopia, um minuto eu estava aqui, pisquei e no outro eu simplesmente estava do outro lado do bar escorada num canto vendo você cantar. – exasperou enquanto entregava o bloco de notas para , que encarava os escritos com os olhos arregalados e a boca levemente aberta.
- Primeiro isso aqui é coreano, não chinês. – falou, analisando as letras escritas no bloquinho de notas. Luke levantou o braço e o deu a palavra, mas não sem antes espremer seus olhos como um aviso.
- E se no lugar de ser possessão por demônio você não só viu estudando coreano e começou a rabiscar no automático letras aleatórias? – questionou, mas antes mesmo que pudesse pensar para responder, surpreendeu-se com a voz da sua melhor amiga.
- Eu acho que não é o caso, porque ela escreveu especificamente “dois copos de cerveja”. Seria coincidência demais se fossem letras aleatórias. – disse, ainda olhando embasbacada para o bloco de papel.
- Beleza, absolutamente todos os fios do meu corpo se arrepiaram agora. – Luke disse e se sentou entre os dois no banco, choramingando enquanto botava as duas mãos na testa.
- Eu estou sendo possuída por um demônio coreano. – falou com a voz abafada pelas próprias mãos.
- Olha eu não conheço nenhum padre, mas minha mãe é espírita, a gente pode ir no centro dela amanhã e tirar esse agouro de você. – o loiro comentou, tentando acalmar a amiga, enquanto a abraçava de lado e tentava pensar em qualquer coisa lógica que explicasse sua melhor amiga ter escrito coreano, mal sabendo falar um anneyonghaseyo direito.
- Tudo bem. – suspirou, levantando-se do banco e ajeitando o avental preto que ainda vestia. – Agora vamos voltar pro trabalho e amanhã eu me preocupo com isso. – falou e marchou para fora da cozinha.
- Às vezes eu me assusto em como ela muda de total desespero para tranquila e serena em menos de um minuto. – o loiro comentou, observando a porta pela qual havia saído. , por sua vez, apenas deu de ombros.
- Confesso que já me acostumei. – disse simplesmente. – Teu turno já acabou? – perguntou para o rapaz e ele olhou o relógio vendo que já eram 23h e sim, o turno dele havia finalmente acabado, e o de só duraria mais uma hora.
- Terminou, comecei uma hora mais cedo hoje. Por isso ninguém veio aqui atrás encher meu saco. – falou mais para si mesmo do que para a menina de mechas roxas, mas ela mesmo assim deu uma risadinha do comentário do amigo.
- Então vamos tomar uma cerveja e fumar enquanto o de não acaba? – a garota sugeriu e o loiro levantou-se na mesma hora, estendendo a mão para a amiga e ajudando-a a se levantar. Tirou seu avental e encaminhou para os armários que ficavam num corredor entre a cozinha e a porta dos fundos, em seguida guardou seu avental dentro de seu armário e tirou de lá duas carteiras de cigarro, uma sua e uma que a garota havia pedido para que ele guardasse um pouco antes do show começar. Os dois andaram em silêncio até o bar, pedindo para duas cervejas.
- Olha eu honestamente odeio quando o turno de vocês acaba mais cedo e eu tenho que ficar vendo vocês beberem sem poder. – resmungou enquanto entregava as duas long necks para os amigos. – Nem possuída por um demônio coreano eu tenho paz nessa cidade. – brincou, fazendo com que e Luke rissem um pouco antes de responde-la.
- Você nem bebe cerveja, garota. – sua melhor amiga comentou, dando um gole em sua cerveja. – E outra, amanhã nós três estamos de folga, então vamos comemorar o fim da sua possessão com bons drinks e músicas meia boca, mas que são ótimas pra dançar, que tal? – ofereceu e pode ver os olhos da amiga brilharem de animação.
- Você me conhece tão bem. – falou, fingindo uma falsa comoção, o que arrancou mais uma gargalhada de Luke e um leve revirar de olhos de .
Depois de acalmarem com promessas, e Luke caminharam até o lado de fora do estabelecimento, escorando-se na primeira parede que encontraram e colocando suas cervejas numa mesinha redonda e alta que ficava do lado de fora para quando havia lista de espera para entrar no bar. Luke tirou as duas carteiras de cigarro do bolso e as colocou em cima da mesa.
- Quer um marlboro ou vai continuar fumando esse produto de Chernobyl? – a garota questionou, puxando um cigarro de seu maço e tirando um isqueiro preto de seu bolso.
- Hollywood não é tão ruim assim, está bom? – resmungou, mas pegou um dos cigarros da amiga, fazendo com que um sorriso debochado despontasse de seu rosto, mas ela conhecia o loiro o suficiente para saber que se ela soltasse algum comentário engraçadinho ele iria devolver o cigarro e fumar o seu próprio, então guardou as piadinhas para si naquele momento.
colocou o cigarro entre os lábios e o acendeu facilmente com o isqueiro, tragando aquela fumaça cinza para seu peito e sentindo sua pressão baixar quase que automaticamente. Desde que se mudara da casa de seus pais para São Paulo, ela havia parado de fumar consideravelmente, por medo de se viciar de verdade naquele produto cancerígeno e prender-se para sempre num vicio ridículo, mas na última semana os dias que fumava estavam ficando cada vez mais próximos um do outro, provavelmente por causa do resultado da seleção para o mestrado em moda que ela havia tentado em Seul.
- Nervosa, ? – o loiro, que já havia acendido o cigarro sem que a garota percebesse, questionou ao ver a amiga com o olhar fixado no horizonte e soltando a fumaça lentamente. Ela apenas meneou a cabeça, confirmando as suspeitas de Luke e ele empurrou o ombro dela com o seu. – Eu ouvi quatro pessoas comentando hoje como sua roupa era bonita e como você era estilosa, eu acho que não tem chance de você não passar.
- Sei lá, não quero muito falar sobre isso. – cortou o assunto prontamente. Nunca fora confortável para falar do que a afligia ou comentar sobre seus problemas. Ela sempre preferiu lidar com eles sozinha e não atrapalhar os outros com suas inseguranças ridículas. Deu mais um trago em seu cigarro e resolveu mudar o foco da conversa pra Luke. – Mas e você? Eu vi lá de cima uma garota te passando um papelzinho e piscando em seguida, quase ri de lá mesmo, mas felizmente sou profissional o suficiente para não ter me abalado naquela hora.
- Eu já te disse, não tenho tempo pra mulheres. – disse, tragando seu cigarro da mesma forma que ela havia feito.
- Você é o maior come quieto dessa cidade e ninguém pode mudar minha cabeça. – a garota brincou e Luke apenas riu. Riu porque mal sabia ela que desde que a conhecera, nenhuma outra garota o interessou o suficiente para que ele pensasse em manter uma conversa. era a única que entendia de fato seu humor e ele acreditava piamente que conhecer outras meninas seria pura perda de tempo. O que atrapalhava sua vida, porém, era a inabilidade dele falar sério com a amiga sobre seus sentimentos, ou até mesmo a inabilidade que tinha de levar qualquer coisa que ele falava a sério.
- Se você diz. – falou simplesmente, soltando a fumaça que havia tragado e bebericando sua cerveja.
- E esse negócio de , o que você acha que é? – ela questionou, sem saber qual resposta esperava ouvir ou se ao menos ela tinha alguma resposta para essa pergunta, mas Luke apenas balançou a cabeça de um lado para o outro, bagunçando levemente seus cachos e dando a a resposta que ela já tinha.
- Eu não tenho ideia, honestamente. – confessou. – Mas eu fiquei assustado por ela ter escrito de fato algo coerente em coreano. Vou inclusive mandar uma mensagem para minha mãe agora. – disse, tirando o celular de dentro do bolso e abrindo a conversa com sua mãe.
- Eu sou muito cética, você sabe disso... – comentou, e o loiro meneou a cabeça enquanto digitava concentradamente em seu celular. - ..., mas e se ela estiver possuída mesmo?
- Bom... – disse travando a tela de seu celular e colocando ele de volta no bolso. – Vamos descobrir amanhã, minha mãe disse que ia marcar uma sessão particular para a gente com uma médium.


Capítulo 5

A respiração de estava descompassada e ele alternava seu olhar entre o rapaz sentado no sofá e o outro que permanecia em pé com os braços cruzados. O segredo não era dele, então ele não ousaria abrir a boca para contar qualquer coisa para qualquer outra pessoa. Se tinha algo que tinha certeza que era, isso era um bom amigo, logo ele não trairia a confiança de dessa forma, contando displicentemente seu segredo na primeira pressão que sofrera.
- Ela quem, caralho?! – falou mais alto, seu queixo estava travado e mais para frente do que o normal, numa clara indicação de que ele estava estressado. bagunçou os cabelos tentando encontrar uma saída para aquela situação sem que ele tivesse que contar tudo que acontecera para seu amigo. Antes que tivesse um ataque do coração, porém, falou a primeira coisa coerente que passara pela sua mente.
- É uma longa história, . – falou simplesmente, vendo estapear sua própria testa e respirar fundo antes de proferir qualquer outra palavra.
- Tudo bem, é o seguinte, o show é daqui há duas horas e vocês ainda estão sem maquiagem e sem o figurino. – o mais alto começou a falar de maneira serena e calma, contrastando completamente com a imagem de alguns segundos atrás e fazendo com que se questionasse se a ideia ridícula de de que simplesmente dizer que era uma “longa história” evitaria qualquer outro questionamento por parte de tinha, de fato, sido uma boa ideia e funcionado. – Vocês vão fazer isso agora, vamos fazer esse show, e assim que a gente chegar no hotel vocês vão pro meu quarto e a gente vai conversar. – falou de maneira dura, mostrando-se irredutível a qualquer protesto e acabando com as esperanças recém-colhidas por .
- Tudo bem. – falou levantando-se da cadeira em que ainda estava sentado e saindo pela porta que havia entrado. também se levantou após menear a cabeça concordando com seu amigo, mas ao passar por , sentiu um aperto em seu braço seguido da voz do amigo soando atrás de si, e fazendo com que ele se virasse novamente em direção ao mais alto.
- Hyung. – o líder chamou, mostrando que mesmo com raiva não deixava de ser educado e chamava os mais velhos com os títulos honoríficos corretos. – Você sabe a política de namoros da companhia, não sabe? Por favor, não traga confusão para a gente. – suplicou, dando a naquele momento a certeza de que ele queria contar toda a história para , uma vez que o amigo jamais o julgaria da maneira que ele temia. não estava de fato com raiva como pensara há poucos minutos, ele só estava – como sempre – preocupado com a banda e com qualquer complicação que aquela situação pudesse trazer para ela.
- É bem mais complicado do que isso. – confessou o mais velho, andando em direção à porta. – Mais tarde eu te conto tudo. – falou sem olhar novamente para o amigo e deixou a sala de uma vez. sentou no sofá que estava deitado, puxando levemente os cabelos para trás e respirando fundo, seu único pedido era que o que quer que fosse, não atrapalhasse a banda e não trouxesse problemas grandes para seu amigo.
Ao chegar na sala de maquiagem, sentou-se ao lado de , que já estava com a primeira roupa do show, e vários guardanapos presos na gola de sua camisa para que essa não se sujasse com a maquiagem que seria colocada nele em instantes. Ele tirou os olhos do celular assim que o amigo sentou na cadeira e ergueu as sobrancelhas, como se questionasse “e aí?”.
- Eu vou contar tudo a ele. – disse simplesmente, e abriu os olhos em completo espanto, mas prontamente sorriu, feliz pela decisão de . Ele imaginava que saberia exatamente a melhor coisa a se fazer para encontrar a garota, o que fazer quando encontrassem a garota, a melhor maneira de protegê-la das fãs loucas que eles sabiam que tinham, e saberia também como conversar com sua companhia para que aquela situação fosse viável para o amigo.
- Vá se arrumar para o show, vai dar tudo certo. – tentou trazer um pouco de positividade para o mais velho, sorrindo sem os dentes para aquele, que apenas meneou a cabeça e saiu em busca de seu primeiro figurino.
O show ocorreu bem e de maneira natural, o palco era como um refúgio para , e lá ele esquecia completamente de tudo que fosse sua vida pessoal. A interação com as fãs enchia seu coração, bem como a dinâmica que tinha com seus companheiros de banda. Naquele palco ele não era , ele era , um dos melhores rappers da atualidade, e absolutamente nada além disso importava. Foi apenas quando Anpanman, uma das últimas músicas do show, começou a tocar que o rapaz começou a sentir a ansiedade tomar conta de si, e sentiu seu coração acelerar só de pensar em contar a toda a loucura que vinha acontecendo com ele ultimamente.
Ao chegar ao hotel, fez questão de demorar bastante fazendo as coisas que ele rotineiramente faria de maneira rápida, tentando prolongar sua conversa com o máximo que podia. Enquanto as gotas de água do chuveiro caiam sob sua cabeça, ele tentava formular uma frase coerente que não o fizesse parecer louco na frente do amigo, mas parecia apenas que ele estava queimando todos os seus neurônios para nada, uma vez que a situação em si era bem absurda e não havia maneira coerente de se explicar aquilo. o esperava sentado em sua cama e mexendo no celular. Ao terminar de se arrumar, se deitou na cama ao lado do amigo, suspirando alto e cogitando possibilidades de maneiras de fugir daquela situação.
- Eu realmente tenho que ir... – não tinha certeza se aquilo havia sido uma pergunta ou apenas uma declaração, então resolveu responder o amigo enquanto levantava da cama e guardava seu celular no bolso.
- Tem. – falou simplesmente, fazendo com que cobrisse seu rosto com as duas mãos e respirasse fundo, com a certeza que era agora que o internaria num hospício. estava certo àquela altura de que contar tudo para o outro amigo traria apenas benefícios, não concebendo uma realidade na qual não acreditaria na história, e por isso dessa vez ele não compactuou com as ideias evasivas de , ficando em pé em frente à cama do mais velho e aguardando a atenção dele.
meneou a cabeça em direção à porta no momento que olhou para ele, e ele acenou com a cabeça meneando-a de cima a baixo, mas não sem antes revirar os olhos e soltar um longo suspiro. Levantou-se da cama em seguida, trilhando o caminho que fora indicado pelo mais novo e sendo prontamente seguido por ele. Andaram em silêncio pelo corredor que poderia jurar ser mais longo da outra vez que tivera que ir até o quarto de , mas que dessa vez parecia curto, tornando sua jornada mais curta e a forca imaginaria em que o penduraria mais próxima. Chegaram em frente ao quarto e respirou fundo antes de dar três batidinhas na porta. Esperaram em silêncio no corredor, o som dos passos de foram ouvidos e em seguida a tranca da porta foi aberta, revelando um de regata e shorts com um sorriso no rosto.
- E aí... – disse sério, se colocando para dentro do quarto. Seu medo de compartilhar a história mais sem pé nem cabeça na qual já se metera foi substituído de maneira repentina por uma vontade de simplesmente acabar logo com a tensão e contar tudo ao amigo. o seguiu e se sentou na única cama de casal que havia no quarto, enquanto permanecia em pé aguardando se sentar também.
- Pode começar a explicar. – o líder disse assim que se sentou ao lado de , fechando o sorriso e assumindo uma expressão séria, estando cem por cento focado em e no que ele estava prestes a – ele esperava – explicar.
- Tá. – o rapper disse, enquanto andava de um lado para o outro olhando para qualquer coisa que não os dois rapazes sentados na cama à sua frente. Sua mão direita foi automaticamente para a orelha quando ele parou de andar, indicando o nervosismo que ele sentia por estar compartilhando aquilo e, pela primeira vez, se sentiu mais curioso do que preocupado. Ele jamais havia visto ficar envergonhado e nervoso daquela forma, ou ao menos havia visto o amigo citar uma mulher com tanta empolgação quanto ele fizera desta vez. – Lembra quando aquela mulher tocou minha testa? – questionou com os olhos fixados no chão e a mão mexendo incansavelmente em sua orelha.
- No Japão? – questionou e tanto quanto menearam a cabeça em concordância. – Lembro. – falou, indicando que o mais velho deveria continuar sua história.
- Então... Ela estava... – falava pausadamente, pensando cuidadosamente em todas as palavras que proferiria e se sentindo estupido por apenas pensar em dizer certas coisas. – Sabe... Ela estava... – como colocaria aquilo sem parecer completamente pirado? Na verdade, como diabos acreditou nele tão fácil? Ele com certeza não acreditaria. Milhões de pensamentos rodeavam a sua cabeça e ele só conseguia gaguejar enquanto tentava formular frases coerentes. – Falando...
- Faz que nem band-aid, fala tudo de uma vez que dói menos. – interviu, com pena da situação em que o amigo se encontrava e com mais pena ainda de , que o olhava completamente confuso.
- Amulhermemostrouoamordaminhavidameuakaiitoetodaaquelababoseiraeagoraeuprecisoencontrarameninaemummessenãonuncavouserfelizromanticamente
esereiobrigadoatorrarmeudinheiroparapreencherovaziodomeucoração. – falou mais rápido do que seu verso em Cypher pt.2 e por pouco não conseguiu se conter antes de fazer uma piadinha sobre a “tongue technology” de ao ouvir tantas palavras serem ditas em tão curto espaço de tempo.
- Quê? – questionou, mais confuso do que estava antes de cuspir várias palavras. – Eu não entendi nada que você disse, isso aqui não é batalha de Rap, Hyung. – falou, tirando uma brincadeirinha e não controlou uma breve risada de escapar de seus lábios, mas rapidamente retomou a compostura, inspirando e expirando lentamente para que não fosse acometido por uma crise de risos. respirou fundo e fixou novamente os olhos no chão do quarto.
- A mulher me mostrou o meu akai ito, a minha linha invisível. Quando ela tocou na minha testa eu simplesmente acordei no corpo de outra menina e vi essa garota de mechas roxas... – começou a explicar e a cada palavra que proferia o queixo de ia mais para frente. – Quando acordei de novo não tinha se passado nem um segundo aqui e a mulher falou que eu tinha que achar essa menina agora ou eu nunca mais ia encontrar ela e que ela era minha alma gêmea, então toda vez que eu durmo, eu entro de volta no corpo da garota pra descobrir onde ela está. Onde elas estão. – falou tudo de uma vez, olhando sempre para o chão e evitando qualquer contato com o olhar de .
- Eu não sei o que é mais chocante... – o mais alto começou a falar, e desejou ter uma máquina do tempo para voltar e só contar ao uma história falaciosa meia boca sobre uma assistente de produção com quem ele estava saindo, mas enquanto buscava com os olhos saídas para aquela situação ou pelo menos saídas daquele quarto, chegando a considerar inclusive a janela como uma opção, proferiu palavras que não eram esperadas por ele naquele momento. - ... a história toda, ou eu estar acreditando completamente nela. – as palavras dele vieram junto de um alivio enorme. , que tinha todos os músculos do seu corpo contraídos de tensão desde o momento em que o amigo começara a, de fato, contar a história, conseguiu finalmente relaxá-los e jogou-se na cama.
- Sério? – olhou pela primeira vez para o amigo e viu nada além de veracidade naquele olhar. de fato acreditava nele e ele apenas meneou a cabeça positivamente para o amigo.
- Mas eu tenho questionamentos. – disse, fazendo com que levantasse novamente da cama, ajeitando-se ao lado de e colocando as duas pernas em cima da cama, cruzando-as em perninhas de índio. – Primeiramente: qual é a sua alma gêmea? A que você está possuindo ou a de cabelo roxo? – questionou e fez um som alto ao seu lado, que era de clara animação.
- Eu sabia no meu interior que não era uma pergunta tão estúpida assim! – bradou para o amigo, arrancando uma gargalhada de e uma cara de completa confusão de . – Eu fiz essa mesma pergunta. – explicou com um largo sorriso ao rapaz sentado ao seu lado depois de se recompor do pequeno ataque de felicidade, mas apenas riu do jeito tão típico e espalhafatoso de .
- Na verdade eu meio que não sei. – respondeu envergonhado, ele realmente não sabia de fato qual das duas era sua alma gêmea, embora após vê-la tocar, ele torcesse com todo seu ser que fosse a menina de mechas roxas. Ele percebia que ela tomava conta dos seus pensamentos mais vezes no dia do que era saudável ou adequado, e mal podia esperar por conhecer um pouco mais a garota e saber se seu interior era tão belo e agradável quanto seu interior.
- E qual a sua participação nisso, ? – questionou antes de sequer pensar na resposta de para sua primeira pergunta. O rapaz apenas deu de ombros antes de responder seu amigo.
- Eu só sei... Sei de tudo... E guardei esse segredo de todos. – disse orgulhoso e balançou a cabeça de um lado para o outro, incapaz de conter sua felicidade por ter mantido aquele segredo e mais ainda por agora poder compartilhar com alguém que poderia ajuda-los mais ainda.
- Gente... – a voz de veio falhada, chamando a atenção dos dois amigos para si. - ... Eu acho que vou...-
E antes mesmo que qualquer outra palavra pudesse ser proferida, o corpo do mais velho despencou no chão.


Capítulo 6

detestava esperar. Sempre detestou. Principalmente quando se tratava de ambientes completamente silenciosos em que qualquer conversa, batida nervosa de pé ou respiração um pouco mais alta do que a normal pudesse ser escutada, e ela foi colocada naquela situação mais uma vez e, para piorar tudo, num centro espírita. A última vez que ela havia pisado em qualquer tipo de congregação religiosa fora na sua última visita aos seus pais, quando eles insistiram que ela participasse da missa de natal com eles, e ela suportou todas aquelas duas horas sentando e levantando com um sorriso no rosto e fingindo que nada a incomodava naquele lugar, quando absolutamente tudo ali parecia errado demais ou utópico demais para ser confortável.
Ignorando, porém, qualquer sinal de irritação ou incômodo das pessoas ao seu redor, batia o pé incessantemente na cadeira que Luke sentava, alternando a atenção entre suas unhas e o relógio da parede que aparentava não se mexer nem por um decreto. Luke era o único que aparentava estar calmo ali, ou completamente alheio à situação. Ele estava sentado à frente das duas meninas enquanto resolvia um caderno de palavras cruzadas que havia pegado da bolsa de sem que a mais nova percebesse, torcendo para que mais tarde ela não reclamasse tanto com ele. tinha um fascínio estranho por palavras cruzadas e um vício quase doentio por elas, chegando a níveis de eles estarem bebendo num bar e ela estar compenetrada no seu caderninho de palavras cruzadas enquanto mordia o lábio inferior e batucava com dois dedos em cima da mesa.
- Luke. – uma mulher alta de cabelos loiros surgiu no corredor, chamando a atenção dos três amigos sentados. checou mais uma vez o relógio e viu que marcava precisamente 9h30 da manhã, surpreendendo-se com a pontualidade britânica da mãe do seu amigo e se questionando como o loiro conseguia se atrasar tanto vivendo com uma mulher assim. – Venham, vou levar vocês até Lourdes. – chamou e os três levantaram simultaneamente.
Enquanto caminhavam atrás da mãe de Luke, percebeu que ele segurava um caderninho muito familiar, buscando seus óculos dentro da sua bolsa apenas para confirmar suas suspeitas. Assim que ela colocou os óculos, viu claramente seu caderno de palavras cruzadas e apressou levemente o passo até alcançar seu amigo. Ela deu um leve tapa na cabeça dele, pegando o livro em seguida e o guardando de volta na bolsa, mas sua ação foi tão sutil que nem , que caminhava atrás dos dois, percebeu a movimentação estranha.
- Da próxima vez me peça o caderno, para que eu possa negar. – sussurrou no ouvido do amigo, que se segurou ao máximo para não rir da expressão brava que a garota de mechas roxas sustentava ao seu lado.
Rapidamente chegaram até uma portinha e a mãe de Luke se despediu deles, uma vez que ela iria fazer parte de um passe e não poderia acompanha-los na consulta. bateu na porta duas vezes, seus olhos estavam maiores do que o normal e seu coração batia de maneira abrupta, uma vez que os exorcismos que ela já vira em filmes nunca foram muito confortáveis para as vítimas de possessão e ela temia que fosse igual ou pior com ela. Uma voz doce surgiu de dentro da sala, pedindo para que eles entrassem e, sem ao menos hesitar, abriu a porta e se pôs para dentro da sala, sendo acompanhada de Luke e .
- Bom dia, queridos. – a mulher que aparentava ter entre 50 e 60 anos os saudou com um sorriso no rosto. Seus cabelos eram vermelhos e intensos como fogo, o que contrastava bem com seu olhar sereno e sorriso calmo. – Os três farão a consulta? – questionou, andando em direção a um tapete estendido no chão. – Eu os sentaria numa cadeira, mas infelizmente só tenho duas aqui nessa sala, então podemos sentar todos no chão? – questionou ainda sorrindo. aparentava estar petrificada, então a cutucou de leve com o cotovelo para que ela falasse.
- N-não, sou só eu. – disse após o incentivo da amiga e Luke acenou para a mulher, ratificando a fala de . – E não tem problema sentarmos no chão não. Esses são meus melhores amigos, eles vieram me acompanhar. – explicou para a mulher, que se sentou no tapete e estendeu os braços para que eles a acompanhassem.
- E o que te trás aqui.... – alongou o final da frase para que a garota dissesse seu nome, e ela prontamente o fez.
- . – respondeu com um sorriso contido. Embora tentasse disfarçar, seu nervosismo era quase palpável.
- O que te trás aqui, ? – a mulher de cabelos vermelhos questionou, focando completamente na menina à sua frente e tentando passar para ela a confiança de que, qualquer que fosse o problema, ela não iria julgá-la.
- E-eu acho que estou sendo possuída por um espirito coreano. – disse sem enrolações e, ao contrário do que esperava, não recebeu da mulher nenhum olhar de incredulidade ou zombaria, mas apenas um olhar de compreensão. – A senhora tem como tirar ele de mim? – suplicou e Lourdes sorriu para ela.
- Primeiro vou tentar avaliar o que de fato está acontecendo, pode ser? – questionou ainda com um sorriso no rosto. e Luke alternavam os olhares entre si, tentando questionar um ao outro se isso estava de fato acontecendo, e entre a interação de com a médium. A mais nova apenas confirmou com a cabeça e Lourdes estendeu sua mão até tocar a extremidade do nariz da garota. – Eu prometo que não vai doer nada. – disse antes de deslizar seu dedo até a testa coberta por uma franjinha.
Assim que seu dedo encostou na testa da garota, cerrou os olhos, os abrindo novamente em poucos instantes, porém com uma face de completo terror e medo. Ela deu um leve pulo para trás e o coração de começou a bater mais forte, com medo de algo ter acontecido com sua melhor amiga. Antes que ela falasse qualquer coisa, porém, a médium pronunciou-se.
- Calma. – disse, atraindo a atenção da pessoa à sua frente para si. estava completamente perdido do porquê ele estava ali sem nem ao menos ter dormido, de quem era aquela mulher que ele olhava e por que ela parecia enxerga-lo, e não apenas enxergar a menina cujo corpo ele estava possuindo. – Não é um espirito maligno. Disso tenho certeza. – mais uma vez as pessoas conversavam no idioma que não compreendia e, pela primeira vez, ele olhou para o lado para saber com quem a mulher conversava. Ao virar-se ele se deparou com ela, a menina de mechas roxas. Seus cabelos estavam presos num rabo de cavalo alto e óculos de armação dourada pendiam em seu nariz enquanto ela o olhava com os olhos semicerrados, provavelmente desconfiada do que acontecia ali naquele momento.
- Ele... Está aí? Nela? – questionou apontando para e ele sentiu seu rosto corar apenas com aquela ação mínima. A mulher à sua frente meneou a cabeça positivamente, confirmando o que quer que ela tenha questionado.
- , eu juro que não passa um fio de cabelo no meu cu agora de tão fechado que está. – o rapaz ao seu lado comentou algo que a fez rir, fazendo um sentimento ruim surgir no peito de . Ele apenas suspirou alto e voltou a olhar para a mulher à sua frente.
- Na verdade... Eu nem sei se é um es... – enquanto ela falava seu olhar passeou por todos os cantos do corpo da garota, focando no tornozelo. Do tornozelo seu olhar seguiu por um curto caminho até chegar ao tornozelo de , e aí um olhar de clarividência tomou a médium. – Não acredito. Como você foi se meter nessa, garoto? – questionou, e embora não compreendesse suas palavras ele sentiu um leve tom de zombaria na voz da mulher, provavelmente ela sabia que ele estava ali e sabia porque ele estava ali. A próxima coisa que viu foi uma unha pintada de vermelho vindo em sua direção e novamente cerrou os olhos fortemente.
piscou algumas vezes antes de recobrar completamente a consciência. estava paralisada no canto do tapete, apertando a mão de Luke com toda a força que poderia, mas o rapaz parecia nem ligar de tão estarrecido que estava com toda a situação. olhou para os amigos e abriu um sorriso zombeteiro.
- O que foi? Parece que vocês viram um fantasma. – zombou, fazendo com que a médium gargalhasse e com que os amigos abrissem a boca em total descrença de que até em momentos como aquele a garota iria fazer piadas. Luke estava certo que a convivência com havia acabado com de vez, pois em tempos passados ela jamais faria algo do gênero, mas depois de conviver tanto tempo com essa máquina de fazer piadas quando se sente desconfortável que era , ela começara a fazer o mesmo. – Lourdes, por favor me diga que a senhora o tirou daqui. – voltou seu olhar para a médium e juntou suas mãos em frente ao rosto.
- Infelizmente eu não posso tirá-lo. – falou, perdendo brevemente o sorriso que a acompanhava durante toda a sessão. – Mas a boa notícia é que ele não quer necessariamente estar aí, ele só precisa de alguma informação.
- E como eu faço pra tirar? – choramingou, quase alheia à presença dos amigos naquela sala devido ao silencio sepulcral que fazia naquele canto do tapete.
- Você precisa conhecer ele melhor. Ajudá-lo a descobrir o que ele precisa. – disse ainda séria e meneou a cabeça. Olhou novamente para seus amigos e não conseguiu conter o riso ao ver a mão de Luke completamente vermelha e quase sem circulação devido ao aperto que fazia ali.
- Muito obrigada, Lourdes. Qualquer coisa posso voltar? – questionou, levantando-se do tapete e fazendo um sinal para que os amigos fizessem o mesmo.
- Com certeza, minha flor. E não apenas para uma consulta, mas pode voltar para alguma reunião pública ou um passe. – respondeu, pondo-se de pé da mesma forma que os outros três fizeram. Após se despedirem da médium, os três saíram da sala em silêncio, andando até a saída um ao lado do outro.
- Beleza, eu preciso de um cigarro. – a primeira a quebrar o silêncio foi , soltando finalmente a mão de Luke e recobrando os sentidos que jurava ter perdido durante o encontro com o fantasma coreano que assombrava sua melhor amiga. – Vamos até o parque que tem aqui perto para eu fazer isso, por favor. – pediu e viu Luke prontamente confirmar com a cabeça.
- Vão indo, eu vou me informar sobre reuniões e coisas de espiritismo com a sua mãe, chego lá em instantes. – falou simplesmente, andando em direção à sala em que estava acontecendo o passe e se sentando numa cadeira em frente a ela.
Por saber que a cidade não era perigosa, principalmente aquele bairro, e que eram apenas 10h00 da manhã, os dois concordaram em deixar a amiga sozinha e foram caminhando em direção ao parque. Ao chegarem lá, tirou sua carteira de cigarro de dentro da bolsa, pendendo um cigarro entre os lábios enquanto revirava a bolsa atrás de seu isqueiro. Luke pegou um de seus cigarros Hollywood que a garota tanto abominava e fez o mesmo, mas no lugar de revirar a bolsa da amiga, apenas aguardou até que ela encontrasse o isqueiro. O achou depois de alguns poucos segundos e acendeu o cigarro, sentando-se num banquinho que ficava à vista de qualquer pessoa que chegasse por lá para não dificultar a vida de quando ela viesse procura-los.
- Absolutamente doida toda essa situação, né?! – o loiro comentou depois de soltar a fumaça de seu cigarro na direção oposta à que estava sentada.
- Nem me fale. – ela olhava fixamente para uma placa do outro lado do parque, onde se podia ler um pequeno poema em cima de uma mesa cheia de livretes. – “Enquanto eles bebem fingindo alegria, brigamos fingindo namoro”, poético. – comentou despretensiosamente com o amigo, que deu uma risadinha baixa.
- Você devia usar óculos mais vezes. – aceitou a mudança de assunto da amiga. Ele sabia que não era boa em lidar com coisas que fugissem da sua compreensão, ou coisas que saíssem da sua zona de conforto, e embora sua tentativa de mudança de assunto dessa vez tivesse sido mais sutil do que o normal, ele compreendeu prontamente que “espíritos” não seria o assunto favorito da sua amiga naquele momento.
- É? – virou-se de frente para ele, soltando a fumaça na sua cara antes de fazer a próxima pergunta. Luke revirou os olhos, mas o sorriso em seus lábios não escondia que ele não estava nem um pouco chateado com aquela provocação. – Por quê?
- Primeiro porque você enxerga e para de me perguntar quem é quem e o que está escrito em absolutamente todo canto. – falou rindo, recebendo em troca uma estirada de língua da amiga e mais uma nuvem de fumaça na cara. – Segundo porque você fica linda de óculos. – disse ainda olhando nos olhos dela, mas, como sempre, achou que era mais uma das suas provocações e que ele não falava sério.
- Confessa, você me acha linda de qualquer jeito. – continuou a suposta provocação do amigo, e Luke parou alguns segundos para analisar se deveria falar honestamente com ela ou se, mais uma vez, iria fingir que seu comentário fora de fato uma provocação boba entre amigos.
- Acho. – respondeu simplesmente, chamando a atenção de para o fato dele não tê-la criticado dessa vez, como sempre acabava fazendo depois de suas provocações. – Na verdade, , eu te acho uma das mulheres mais...
Sua frase foi cortada por um braço que se estendeu entre a cabeça dos dois. A palma da mão aberta para cima mostrando a tatuagem de “Serendipity” tão conhecida pelos meninos tornaram impossível não reconhecer o braço de . Os dois viraram subitamente para ela, que sustentava um sorriso no rosto e a mão ainda estendida entre os dois.
- Vai, . Me passa o número da sua escola de coreano. Eu vou conhecer esse espírito pra tirar ele de mim.


Capítulo 7

- Como assim dormindo?! – o mais alto exasperou, completamente ultrajado com o diagnóstico do médico. Assim que havia apagado e caído estrondosamente no chão, chamou por um médico, preocupado com o estado de saúde do amigo, mas depois de alguns exames o médico não havia constatado nada de errado com o rapaz.
- Ele desmaiou. – falou igualmente ultrajado, como se fosse óbvio que um desmaio não era o mesmo que uma soneca, mas o médico manteve sua expressão serena, certo de que o rapaz estava apenas dormindo.
- Vocês têm uma rotina extremamente puxada, talvez ele tenha chegado ao máximo de exaustão sem perceber e acabou desmaiando de cansaço, mas honestamente não há nada de errado com ele, não tem sinais nem de que bateu a cabeça na queda. – o médico explicou e passou as mãos no cabelo nervosamente.
Subitamente, o rapaz que estava deitado tranquilamente na cama de acordou, levantando de maneira abrupta e apressada e respirando descompassadamente, claramente assustado com algo que nenhum dos três outros homens que estavam no quarto pudessem imaginar. Ao esquadrinhar o ambiente, notou a presença de uma pessoa a mais que não estava no recinto no momento em que ele foi levado de volta para o corpo da garota brasileira. Ele usava um estetoscópio no pescoço e o olhava curioso.
- Você está bem? – os olhos de preocupação de tamparam a visão que tinha do médico, então o mais velho voltou sua atenção para o amigo completamente, sua respiração se normalizava a cada minuto que ele percebia que estava de volta em seu corpo e em Singapura. Ele apenas meneou a cabeça e tornou a olhar para o médico, questionando-se o que ele fazia ali.
- Você desmaiou, mas o médico disse que você estava só dormindo... – por conhecer bem o amigo, logo explicou a situação em que eles se encontravam e prontamente compreendeu o que acontecera. Quando ele foi puxado para o Brasil ele provavelmente havia “desligado”, e os rapazes ficaram preocupados com seu estado e chamaram o médico.
- Ah sim. – coçou a cabeça tentando pensar em algo para dizer ao médico, mas nada parecia surgir em sua mente, que ainda tentava absorver tudo que havia acontecido há poucos minutos do outro lado do mundo. – Eu acho que eu... Estava cansado? – sua afirmação soou mais como uma pergunta, mas o médico meneou a cabeça positivamente, aliviando o rapper quase que de maneira instantânea.
- Era o que eu estava dizendo a eles. – comunicou, tirando o estetoscópio do pescoço e o guardando numa caixa preta que não havia percebido até aquele momento. – Você provavelmente está muito exausto, eu sugiro que descanse bem hoje e tente dormir amanhã durante o voo. E coma bem, não esqueça de comer bastante. – informou ao rapaz os cuidados que deveria ter para que a situação não se repetisse, mal sabia ele o que de fato acontecera e que não tinha absolutamente nada a ver com exaustão.
- Tudo bem, eu vou me assegurar que ele descanse. – garantiu ao médico, que sorriu simpático para os três.
- Vou me retirar agora. Boa noite para vocês, e lembre de descansar bastante. – finalizou enquanto se dirigia à porta do quarto do hotel.
- Obrigado. – o mais alto agradeceu, abrindo a porta para o médico e fechando-a assim que ele passou por ela. Ele se virou bruscamente para o amigo, ainda assustado e, mesmo que não tivesse sido culpa dele o que aconteceu, se sentiu mal por ter causado tamanho estresse nos dois amigos. – O que caralhos aconteceu?! – exclamou com a voz esganiçada e o queixo mais uma vez travado para frente.
- Alguém me puxou pra lá. – falou enquanto se sentava na cama, colocando as duas mãos nas têmporas e as massageando. – Eles sabem que eu estou lá. Que eu vou pra lá as vezes. – ao assimilar o que falava, os olhos de abriam mais e mais, tentando imaginar como eles haviam descoberto a presença indesejada do amigo no corpo de outra garota ou o que eles fariam com essa informação.
- E agora? O que eles vão fazer? – questionou o que martelava em sua cabeça, e ao olhar para viu que era basicamente o que ele também queria saber.
- Eu não sei. Eu não entendo absolutamente nada de português. Só sei falar Te Amo, Brasil e nem sei se minha pronuncia está de fato correta. Merda... – choramingou enquanto lembrava dos rostos assustados da menina de mechas roxas e do rapaz loiro quando ele voltou seu olhar para eles naquela sala minúscula.
- Será que você não vai mais conseguir voltar pra lá agora? – pensou alto e se arrependeu amargamente de tê-lo feito ao olhar a expressão desamparada que tomou conta do rosto de seu amigo. Antes que pudesse remediar, porém, interviu.
- E se você não conseguir mais encontrá-la? – questionou comedidamente, mas a resposta de veio de supetão.
- Eu tenho que encontrá-la. – declarou sem hesitação, para ele não havia mais a possibilidade de ele não encontrar aquela garota, nem que ele tivesse que visitar todos os bares de São Paulo ele iria encontrá-la. Ele precisava encontrá-la.
- Você vai. – o mais novo falou, olhando fundo nos olhos do amigo. – Ninguém aqui é peru, não vamos morrer de véspera. A gente não sabe se você não voltará ao corpo dela, talvez você volte, e se voltar você faz de tudo para descobrir onde diabos essas meninas estão, fechado? – disse esperançoso e concordou.
- Calma, antes de tudo, como você sabe que eles sabem que você está lá? – questionou, tentando mudar o foco do assunto de “você nunca mais vai encontrar o amor da sua vida” para “sacie a minha curiosidade e esqueça que talvez você nunca mais vá encontrar o amor da sua vida”.
- Tinha uma mulher na sala... – explicou enquanto cruzava as pernas e bagunçava levemente o cabelo. – Uma mulher que eu nunca vi, e ela parecia... Me enxergar, não sei se isso faz sentido. – se sentia absurdamente estupido cada vez que ele falava sobre isso. Essa história era a mais sem pé nem cabeça que ele já havia escutado e, com certeza, se não fosse com ele que estivesse acontecendo, ele não acreditaria que nada disso seria de fato possível, e era por isso que ele agradecia por ter dois amigos tão incríveis. Nem nem se mostraram resistentes a crer na história, nem o julgaram por absolutamente nada que ele dizia, eles na verdade o ajudavam e apoiavam como sempre fizeram durante os sete anos que passaram juntos. – Além disso, a menina de mechas roxas e o amigo me olharam assustados, eles jamais haviam feito isso. Não me disseram nada. Na verdade, a menina perguntava coisas para a mulher, que me analisava da cabeça até os dedos do pé. – comentou lembrando-se do olhar analítico que a mulher lhe dera, bem como do olhar de pena que ela lançara para ele ao – provavelmente – compreender o que se passava ali.
- E se isso for algo bom? – sugeriu, com um sorriso no rosto e a esperança que ele nunca falhava em ter.
- Como isso pode ser algo bom? – o mais velho questionou, em partes irritado por sempre achar um lado bom nas coisas, mas na maior parte aliviado por existir uma possibilidade de aquilo ser benéfico para ele.
- Talvez com ela sabendo que você está ali você possa conversar com ela, explicar a situação e pedir ajuda para encontrá-la. – falou sorridente e concordou, mas desceu os ombros antes mesmo de ficar animado com a possibilidade.
- O problema é que eu não falo português, não tenho como me comunicar com ela. – disse cabisbaixo, cada vez menos certo de que iria encontrá-la, mas com cada vez mais certeza de que ele queria fazê-lo.
- Mas... Não tem nenhuma possibilidade dela falar coreano? – finalmente se pronunciou, fazendo se lembrar de uma informação que lhes passara despercebida enquanto ele estava ocupado demais tentando não surtar enquanto atendia clientes.
- Talvez... – ajeitou-se na cama e ergueu novamente os ombros, claramente animado com o que acabara de lembrar. - ... Quando eu atendi um casal de coreanos eles comentaram que haviam duas garçonetes que falavam coreano naquele bar... Talvez uma delas fosse a garota. – falou com uma animação que ele desconhecia até então.
- Vamos fazer o seguinte. – o líder se pronunciou, certo de que aquela discussão não os levaria a lugar nenhum. – Já está tarde e amanhã temos uma viagem para fazer, vamos dormir agora, você entra de novo durante o sonho nessa garota hoje de noite como sempre faz e pergunta à tal menina de mechas roxas se ela fala coreano, ok? – sugeriu e tanto quanto aparentaram estar animados com a ideia.
- Tudo bem. – disseram ao mesmo tempo, enquanto se levantava da cama e caminhava para o lado de . Os dois seguiram em direção ao seu quarto em silêncio, sentindo pela primeira vez o cansaço proporcionado pelo show e o desejo de dormir latejando em seus corpos. Não conversaram muito antes que os dois caíssem num sono profundo.
Ao ouvir o barulho do despertador, xingou com todos os palavrões que vieram à sua mente. Embora não estivesse tão cansado quanto poderia estar, mais algumas horinhas de sono não seriam uma má ideia, mas antes que ele caísse na tentação de voltar a dormir, ele se forçou a levantar e desligar aquele barulho infernal. Sua frustração apenas aumentou ao perceber que, de fato, era dia. Ele havia dormido a noite inteira, o que significava que ele não havia entrado no corpo da garota àquela noite e, por isso, na cabeça sonolenta e pessimista dele, ele jamais entraria novamente e a perspectiva de finalmente encontrar o famigerado amor da sua vida estava perdida para sempre.
- Bom dia. – disse, com seu sorriso usual, embora a animação não estivesse cem por cento presente devido ao horário e às poucas horas de sono. apenas sorriu amarelo, partindo diretamente para o banheiro sem dizer nenhuma palavra.
estava mais calado do que o usual naquele dia, mas temeu questionar qualquer coisa e irritá-lo de alguma maneira, então respeitou o espaço do amigo e arrumou-se para saírem do hotel silenciosamente. Ao entrarem no avião para Hong Kong, foi para os lugares mais distantes e escondidos do avião, justificando sua escolha para ao dizer que havia desmaiado no dia anterior e precisava descansar bem. Em seus fones de ouvido, uma música alta tocava, embora nem ao menos ele soubesse de qual musica se tratava por estar absorto demais nos pensamentos pessimistas de que jamais encontraria a garota novamente. A música estava tão alta que não percebeu a aproximação dos outros dois rappers até que fosse tarde demais e eles já estivessem sentados ao seu redor.
- Como foi ontem à noite? Conseguiu falar com ela? – o líder questionou esperançoso, mas viu enrugar o nariz em claro descontentamento e pela primeira vez admitiu a possibilidade de que ele não voltaria mais para o corpo da garota.
- Eu dormi a noite inteira. – disse simplesmente, se virando de lado e tentando, sem sucesso, aumentar mais a música que tocava em seus fones de ouvido. Ele não tinha absolutamente nada para falar com ninguém, e por isso resolveu que seria bom seguir o conselho do médico e dormir na viagem para chegar descansado em Hong Kong. Fechou os olhos e rapidamente caiu num sono profundo, sendo acordado pouco tempo depois por alguém cutucando seus ombros.
- Acorda, , tu só bebeu um copo de vodka, não deu pra dar sono ainda não. – uma voz que se tornara familiar nos últimos dias falou, fazendo com que levantasse bruscamente a cabeça da mesa, percebendo que estava sentado e em frente às duas pessoas que da última vez que vira o olhavam amedrontados. A situação atual, porém, era o completo oposto do que vivera no dia anterior. os olhava assustado enquanto eles franziam a testa sem compreender de fato o que estava acontecendo.
- ? – o loiro chamou, e, ao não obter resposta, a menina de mechas roxas arregalou os olhos, compreendendo precisamente o que acontecia naquele momento. Antes de surtar, porém, lembrou do que sua melhor amiga havia pedido para ela fazer quando aquilo acontecesse novamente, então respirou fundo e fez algo que finalmente despertou Luke para o que de fato acontecia.
- Oi. – disse em coreano, fazendo com que os olhos de se arregalassem e ele jogasse o corpo para trás, encostando no encosto da cadeira com uma força maior do que a esperada pelo susto. – Calma, você fala coreano, não é? – questionou e mirou ela e o rapaz, que os olhava petrificado, antes de responder.
- Sim. – falou honestamente. Eles sabiam que ele estava ali, não tinha para quer tentar fingir ser a garota mais uma vez.
- Ok. – ela falou pacientemente e olhou para o amigo antes de proferir a frase que seguira, e que iluminara de esperança. – Não importa o que você esteja procurando aqui, nós vamos te ajudar.




Continua...



Nota da autora: Esse capítulo demorou menos do que eu esperava, e espero que menos do que vocês esperavam também. A partir de agora a presença desse trio ternurinha nos capítulos vai se tornar mais presentes e espero que vocês os amem assim como eu os amo. Um cheirinho e obrigada por estarem acompanhando essa fic <3



Nota da beta: Agora vamos descobrir quem é esse espírito, né?! No aguardo de mais, Brena! <3
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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