Última atualização: 15/07/2018

Prólogo


Como atriz, eu já havia vivido muitas histórias nos meus poucos anos de existência. Meu dia a dia consistia em me colocar na pele de outros, em viver amores de verão ou grandes paixões e em enfrentar as mais difíceis e estranhas situações, tudo devidamente descrito num script e performado diante de câmeras.
Tinha sido muito bem treinada para expressar felicidade, tristeza, sofrimento ou alegria, conhecia quase todos os tipos de dores já enfrentados por um ser humano e já tinha suportado grandes perdas. O único problema de tudo é que, fora das telas, nada disso chegava ligeiramente perto da verdade.
Eu conhecia a tristeza, obviamente, mas nada que pudesse se manifestar fisicamente, nada que me fizesse ter dificuldade real de pensar e respirar. Estava intacta e alheia ao sofrimento extremo.
Até o momento.
Agora tudo ao meu redor parecia uma bagunça, onde o meu papel, o meu personagem, gradativamente havia-se transformado em mim sem que eu nem mesma me desse conta. Eu já não sabia mais o que estava planejado e o que eu poderia decidir sem seguir script algum, já não sabia diferenciar a verdade da boa interpretação e, o pior, era incapaz de separar os meus sentimentos pessoais daqueles que eu deveria expressar a todos quando do desempenho do meu papel.
Dizem que a vida imita a arte. No meu caso, a linha tênue que separava a minha vida da arte simplesmente desapareceu sem deixar rastros, levando consigo parte de mim. Não havia atuação, era tudo bem real.


Capítulo 1


Abri as portas de casa rapidamente e entrei correndo numa tentativa de evitar ao máximo os paparazzi que se aglomeravam à frente da entrada. Uma vez segura dentro do meu mundinho particular, procurei o interruptor, e enquanto acendia a luz com uma mão, tirava as sandálias de salto com a outra. Joguei-as em um lugar qualquer da sala e fui em direção ao bar para pegar uma garrafa de vinho.
Sentei-me no sofá com a taça já cheia e me pus a pensar no rumo que minha vida havia tomado. Eu havia conseguido grande sucesso em pouco tempo, era bem verdade. Minha carreira de atriz estava no auge, eu recebia propostas com grande frequência e, mesmo tendo começado a atuar apenas aos 16 anos, já era considerada um dos maiores nomes da história do cinema americano, não tendo nem alcançado os 23 anos ainda. Minha vida profissional era realmente completa, invejada por muitos e alcançada por poucos; por outro lado, minha vida pessoal estava um desastre.
Muito embora eu fosse conhecida como a “nova Meryl Streep” pela indústria do entretenimento, pela mídia, o apelido mais utilizado para se referir a mim era “solteira indomável”. Eu estava solteira desde sempre, era verdade, já havia tido alguns rolos passageiros e poucas coisas mais sérias com alguns caras que faziam parte do business, mas nunca me havia entregado por completo a ninguém. Não era virgem, e atrevia-me a dizer que era até muito bem experiente, obrigada. Eu apenas não tinha tido um interesse em ninguém, até o momento, que pudesse superar a minha felicidade de ser livre para fazer o que quisesse.
Hollywood era um lugar maravilhoso para aqueles que desejavam seguir carreira em atuação, mas era como uma bolha sufocante para os que já estavam lá dentro, ainda que eu morasse em Nova Iorque. A sensação era de que eu estava sempre com as mesmas pessoas, conversando sobre os mesmos assuntos e lidando com os mesmos problemas. Assim, as festas e as diversões oferecidas por aqueles que faziam parte da bolha eram uma ótima válvula de escape para todo o stress, sem contar que eram, também, povoadas dos mais belos rostos da indústria. Eu, particularmente, adorava uma festinha e costumava ficar bem alterada nestas quando a oportunidade surgia, sem que precisasse dar satisfação a ninguém.
Honestamente, ser solteira e curtir uma boa farra não era algo que me incomodava, no entanto as notícias que essa vida boêmia geravam – sendo muitas destas desprovidas de verdades – estavam começando a impactar a minha carreira.
Se antes o meu interesse pela diversão era interpretado como rebeldia adolescente pela mídia, agora ele era cada vez mais visto como falta de comprometimento profissional e imaturidade, o que estava deixando os meus empresários e publicitários loucos. Eu ainda não havia perdido nenhum papel, mas tinha visto o número de interessados em meu trabalho diminuir sutilmente nos últimos meses. Não era nada que colocasse minha carreira em risco no momento, mas era uma situação que, se não fosse controlada, poderia gerar grandes prejuízos futuros.
Suspirei alto e terminei o líquido que ainda estava na minha taça em um gole só, enquanto balançava a minha cabeça para espantar os pensamentos negativos. Minha noite já estava ruim o suficiente para que eu precisasse ficar remoendo todo o resto que estava dando errado na minha vida.
Estava exausta física e mentalmente. Mais cedo, tinha ido em um encontro com um cara antes de irmos a uma pequena house party no lado leste da cidade. Eu mal sabia quem ele era, então havíamos ido em um pequeno restaurante japonês para nos conhecermos melhor. O homem era apenas um advogado amigo de um amigo – ninguém efetivamente importante – que me fora apresentado por um grupo em comum nas de mensagens de celular, mas era também um dos caras mais chatos com quem já havia falado.
Nesse momento eu mal lembrava o seu nome para que pudesse contar a história direito, mas lembrava muito bem o quão egocêntrico e cheio de si ele era. Havia falado de seu trabalho e suas conquistas a noite toda, tinha me contado sobre sua família inteira antes mesmo de comermos o primeiro sushi e tinha descrito minuciosamente todos os procedimentos necessários para escrever uma simples petição, tudo isso sem nem mesmo parar por um segundo para me perguntar, sequer, se eu era nova-iorquina mesmo ou se havia me mudado para a cidade em algum momento da minha vida, ou até se eu estava gostando da comida.
Depois do péssimo jantar, dirigimo-nos rapidamente ao local da pequena reunião daquela noite. Tinha aproveitado a oportunidade para beber tudo aquilo que fosse necessário para me fazer esquecer o que o cara havia me falado mais cedo, o que me levou a um estado de embriaguez relativamente alto. Não me arrependia da bebedeira exagerada – era até uma situação relativamente comum durante as minhas diversões noturnas –, mas sabia que o resultado de tudo isso seria prejudicial quando, ao deixar o prédio junto com o Sr. Chato para entrar no táxi que nos levaria para casa, uma enxurrada de paparazzi estavam à minha espera. Os flashes eram tantos que cheguei a me desequilibrar e cair na rua, sendo logo levantada pelo meu péssimo date.
Uma vez dentro do táxi, fechei a porta o mais rápido possível e pedi para o motorista arrancar sem nem mesmo deixar o homem entrar no veículo.
Quando nos afastamos um pouco da multidão, olhei para trás a tempo de ver a cara de dúvida do Sr. Chato, que, embora parecesse um pouquinho frustrado por ter sido literalmente abandonado na calçada, parecia também estar aproveitando a atenção dos muitos fotógrafos que, antes, estavam atrás de mim. Típico.
Rolei o olho, suspeitando que o próprio homem tinha sido o responsável por avisar os paparazzi sobre o local onde estávamos. Não seria a primeira vez que isso me acontecia, principalmente com um chato egocêntrico que, provavelmente, beneficiaria-se muito de ter umas fotos suas com uma celebridade estampada nas revistas e sites de fofocas no dia seguinte.
Agora, sentada na sala de casa e já tendo terminado a minha última bebida da noite, aguardava a tontura passar antes de finalmente me enfiar na cama. Eu sabia que iria acordar em poucas horas com um telefonema raivoso de Larry, meu agente, mas não estava com paciência para me preocupar com isso no momento. Além de enfrentar a ressaca, no dia seguinte, eu também daria uma entrevista e tiraria fotos para a Vogue, uma vez que seria a capa da revista dali a dois meses. Eu precisava descansar, se quisesse estar com cabeça para fazer tudo direito, e foi com esse pensamento que adormeci no sofá da sala, sem nem mesmo tirar o vestido que usava.


O toque do meu celular era estridente. Eu tateei a almofada do sofá ao meu redor à procura daquele aparelhinho do diabo, encontrando-o enfiado entre o vão do local de apoio das costas e as almofadas. Não me dei ao trabalho nem de abrir os olhos, apenas deslizando o meu dedo pela tela de forma a responder a chamada.
– O que foi? – Disse, ainda sonolenta, nem ligando pela falta de educação.
Quem estava ligando-me a essa hora da madrugada? Era de um atrevimento e falta de respeito sem tamanho.
– O que foi? Eu é que deveria te perguntar isso, . O que foi aquele seu vexame ontem? Há fotos suas bêbada e caída na rua em todos os lugares. – Larry gritava em meu ouvido, aparentemente descontrolado. – Eu vi o vídeo que o TMZ postou, e você mal conseguia se equilibrar sem a ajuda daquele cara do seu lado. Onde você estava com a cabeça?
Respirei fundo antes de responder. Eu mal conseguia acompanhar o raciocínio do meu agente naquele momento. Eu havia acabado de despertar, poxa. Custava falar um pouco mais baixo e devagar? Eu merecia a bronca, sabia disso, mas ele poderia ser mais educado, pelo menos.
– Dá para gritar um pouco menos? Minha cabeça está explodindo, e você não está ajudando.
– Como é? Eu não estou nem aí se a sua cabeça está explodindo ou não. A culpa é toda sua, garota. Foi você quem escolheu beber, fumar e todas as demais porcarias que você certamente fez ontem. – O homem continuava gritando em meus ouvidos mesmo após minha reclamação.
Abri os olhos e fiquei em silêncio, por alguns segundos, antes de prosseguir a conversa. Em dias normais, Larry era o agente mais fofo do mundo, supercompetente, atencioso e extremamente meu amigo. Hoje, porém, sua irritação parecia beirar o limite, o que o deixava a situação toda desconfortável.
– Eu sei, Larry, desculpe-me. Eu não tive a intenção de ser grossa com você ou algo assim, é só que acabei de acordar e estou de ressaca. – Suspirei audivelmente, sabendo que ele prestava atenção do outro lado da linha. – O que aconteceu ontem é que eu fui numa festinha com esse amigo meu e acabei bebendo um pouquinho lá. Não exagerei tanto assim na bebida e nem fumei ou usei qualquer outra coisa, como você insinuou. – Menti um pouquinho sobre exagerar na bebida, mas ele não precisava saber. – O problema foi que, quando eu saí do prédio, eu me assustei com o número de fotógrafos que estavam lá e com os flashes das máquinas, então acabei desequilibrando-me, porque não consegui enxergar o chão direito. Não foi culpa minha, eu juro, eu estava totalmente no domínio das minhas faculdades mentais.
O homem não me respondeu prontamente e pareceu ponderar sobre a veracidade da minha explicação. Eu torcia para que ele acreditasse nessa minha versão da história que era, de certa forma, verdade. Ele já estava reclamando das festas que eu frequentava há tempos, mas aquela pequena house party do dia anterior não tinha nem tamanho e nem importância suficiente para justificar uma briga entre nós dois. Eu tomaria mais cuidado daqui para frente.
– Não foi essa a imagem que você passou para o resto do mundo. Pela sua cara, você pareceu ter bebido além da conta sim, mas não vou discutir isso. O que quero é que você coloque algum tipo de juízo nessa sua cabeça e pare de agir como uma adolescente. Por Deus, , você tem quase 23 anos, e todo fim de semana, quando vai para a balada, acaba por ser notícia principal dos mais diversos meios de comunicação! Eu já não sei mais o que fazer para contornar todas essas situações nas quais você se mete. – Ele disse com uma aparente impaciência na voz. – E são duas horas da tarde! Não acredito que você ainda estava dormindo.
Tomei um susto com a informação da hora e me levantei em um salto, já correndo para o banheiro para me arrumar para sair de casa. Eu tinha a entrevista às cinco horas, e não queria chegar atrasada e ter que enfrentar um mau humor ainda pior de meu agente.
– Puta que pariu! – Reclamei ainda com o telefone no ouvido. – Larry, eu sinto muito mesmo. Você sabe que tenho diminuído muito o número de festas que frequento e que, mesmo quando eu vou, quase não faço nada publicamente. Mas, poxa, eu também mereço um pouquinho de diversão às vezes, eu não posso me privar de tudo só porque os paparazzi me seguem para cima e para baixo ou porque alguns idiotas ganham dinheiro vendendo coisas pessoais minhas. – Falei rapidamente, enquanto procurava, freneticamente, o meu estojo de maquiagem. – Eu já sei que fiz burrada, já pedi desculpas e acho que podemos conversar um dia desses para colocarmos tudo a limpo, certo? Agora tenho que desligar, porque tenho aquele negócio na Vogue em menos de três horas e nem banho eu tomei!
Estava só esperando o homem se despedir para que eu pudesse desligar o celular e tacá-lo em um lugar qualquer, quando o ouvi suspirar do outro lado da linha.
.
– O quê?
– A entrevista da Vogue foi cancelada. Você não vai mais ter que ir lá hoje, então nem precisa ficar desesperada. Tudo foi para o ar, já era.
Parei de andar por um segundo e fiquei perplexa com a informação.
– O quê? Por quê?
– Eles me ligaram há cerca de meia hora, por isso te liguei. Eu já tinha visto as fotos do seu tombo, mas o que me deixou puto foi esse cancelamento da matéria. Eles me disseram que admiram o seu trabalho e que continuam te considerando uma das maiores e mais importantes jovens atrizes do país, mas a revista está passando por uma fase de promoção de um estilo de vida clean e saudável e que eles achavam que você destoaria um pouco disso. Em outras palavras, eles quiseram dizer que você só faz merda e que contradiria os princípios politicamente corretos deles, simples assim.
– Mas que merda é essa? Isso é tudo é ridículo. O diretor daquela porcaria de revista é o maior festeiro que eu já conheci em toda a minha vida! Eu o encontro em todas as baladas que vou, e ele sempre parece uma chaminé, fumando tudo o que vê pela frente, para dizer o mínimo. Eu nunca vi aquele babaca nem perto de estar sóbrio, e agora essa revistinha de segunda mão vem tentar me dar lição de moral? Que hipocrisia!
– Eu sei, eu sei. É realmente ridículo, mas não há nada que eu possa fazer. – Larry disse, já mais calmo do que antes, em um tom que soava cansado aos meus ouvidos. – Eu recebi a ligação hoje, e não posso simplesmente obrigar os caras a te colocarem na capa da revista! Eu fui tão prejudicado quanto você com essa desistência, lembre-se disso, e tenho certeza que foi porque essas suas fotos vazaram mais cedo.
– Certo, mas eu não quero nem saber. Vou ligar para aquela porcaria para tirar umas satisfações, sim. Eu nem estava tão mal naquelas fotos, eu apenas tropecei! – Agora que o choque inicial havia passado, decidi sentar na beirada da minha cama para conversar com Larry com mais calma. Eu não precisava ter pressa mais, afinal. – Idiotas.
– Grande novidade. Você sabe como essa indústria é um nojo, não me surpreende eles quererem agir de forma hipócrita agora. – Larry concluiu. – Bom, já que você não tem mais nenhum compromisso hoje mais tarde, que eu saiba pelo menos, queria saber se podemos nos encontrar para o jantar? Preciso discutir negócios com você.
Eu já havia deixado Larry bravo o suficiente para um dia só, o mínimo que poderia fazer era concordar com esse jantar.
– Tudo bem. Nos encontramos às 19:00 no Angelo’s, aquele da 57, pode ser? – Perguntei, já sugerindo uma cantina italiana em Midtown.
– Ok, combinado. Vejo-te lá, .
– Até mais tarde.
– Até.
Quando desligamos, deitei em minha cama por cinco minutos antes de tomar vergonha na cara para tomar banho e me arrumar. Eu não tinha mais a entrevista, era bem verdade, mas ainda precisava parecer decente na frente do meu agente, principalmente porque a chance de tombar com algum paparazzo no caminho era relativamente alta, e eu não queria mais fotos ruins minhas na mídia.


Desci do táxi bem em frente ao restaurante e agradeci mentalmente aos céus por encontrar a calçada vazia e livre de fotógrafos. Adentrei o local com certa pressa e procurei Larry com os olhos, não o encontrando. Dirigi-me à menina que estava organizando as mesas e decidi perguntar por meu agente, sendo informada que ele ocupava um lugar no andar de cima. Murmurei um “obrigada” rapidamente e logo estava subindo as escadas. Vi que Larry estava sentado em uma mesa na frente da janela, em um lugar um pouco mais reservado. Ele, no entanto, não estava sozinho.
– Oi, tudo bem? – Falei, aproximando-me da mesa e sentando-me ao lado de meu agente, encarando-o e sussurrando em seus ouvidos. – Achei que quisesse falar de negócios comigo, o que está acontecendo?
– E eu quero, isso tudo é parte do negócio. Eu não disse que era algo exclusivo. – Ele respondeu simplesmente.
– Ok, que seja. – Virei-me para os dois homens que estavam na mesa e sorri educadamente. Levei um leve susto ao perceber que aquele que estava sentado diretamente à minha frente era , um velho conhecido, com o qual nunca tive uma relação muito próxima. – Desculpe a falta de educação em não os cumprimentar antes, eu só não estava esperando ninguém além do Larry aqui. Mas, enfim, oi, tudo bem? Sou , como acho que sabem, mas podem me chamar de .
-Oi, , muito prazer! – O homem que eu não conhecia se manifestou prontamente. – Sou Adam, agente do . Acho que nunca nos vimos antes.
– Acho que não! Muito prazer, Adam. – Apertei as suas mãos e voltei-me a .
– Oi, , tudo bem? Faz bastante tempo que não conversamos, mas acho que ainda se lembra de mim, espero que sim, pelo menos. – Ele deu uma risadinha de lado e estendeu as suas mãos na direção da minha. Acenei afirmativamente com a cabeça como forma de demonstrar que sabia quem ele era, apesar do tempo, e peguei a sua mão, apertando-a rapidamente. – Ótimo. Eu também estou surpreso de te encontrar aqui, devo confessar. O Adam tinha me dito que iríamos jantar hoje e eu pensei que também fosse algo entre nós dois só, então estou tão confuso quanto você.
coçou a sua cabeça, enquanto me olhava de lado e fazia uma careta. Dei uma risadinha fraca e decidi continuar a conversa. Se ele não sabia e eu também não, isso queria dizer que era algo que Adam e Larry estavam tramando juntos. Eu não gostava muito de , mas ele estava sendo bem agradável, então eu senti que deveria me esforçar para manter o bom clima entre nós quatro.
– Que bom, . Já estava achando que eu era a única excluída dessa noite. Sinto-me melhor assim.
– Estamos excluídos juntos, pelo o que parece. E, por favor, chame-me de . Eu sei que você não gosta muito de mim, mas parece-me sério demais.
– Certo. – Disse simplesmente antes de virar-me para Larry, tentando entender toda a confusão. – Será que vocês podem me explicar o que está havendo aqui? Acho que eu e merecemos saber.
– Por que não comemos primeiro, com calma, para só depois discutirmos o que temos para discutir? – Adam sugeriu a nós todos e eu dei de ombros, como se me fosse indiferente.
Confesso que estava ansiosa para descobrir a razão pela qual e eu tínhamos sido chamados para o mesmo jantar, mas esperar meia hora a mais não seria algo que me mataria.
– Se você prefere assim, tudo bem. – Ouvi dizer à minha frente.
– Ótimo.
Larry chamou o garçom e fez o seu pedido, assim como e Adam. Eu havia chegado há pouco tempo e nem tinha tido oportunidade de olhar o cardápio, então decidi por copiar Larry em sua escolha de prato apenas para que as coisas andassem mais rápido e eu não tivesse que chamar o garçom mais uma vez dali a 5 minutos para pedir qualquer outra coisa.
Durante os 40 minutos subsequentes, a conversa na mesa foi totalmente focada na indústria do entretenimento, as mudanças dessas e os mais novos babados – que não envolviam nem eu e nem , obviamente. Hollywood era podre e, obviamente, aqueles que trabalhavam no business também tinham o seu lado ruim. Logo, ouvir Larry e Adam fofocarem sobre os altos e baixos das carreiras de outras celebridades era o mesmo que ouvir o lado mais perverso daqueles programas de fofocas. Eu amava isso tudo, é claro, mas, quando o assunto envolvia alguém que me era conhecido ou por quem eu tinha apreço, ficava um pouco desconfortável. Assim, eu permaneci quase todo o tempo quieta, manifestando-me apenas para um ou outro comentário ou dando risada quando algo engraçado era trazido à tona.
Os pratos vieram e foram embora, e, quando eu menos me dei conta, o garçom responsável por nossa mesa já nos trazia o cardápio de sobremesa, que eu prontamente recusei, assim como Adam. pediu um doce de chocolate qualquer, sendo acompanhado por Larry. Quando os pedidos tinham sido anotados e o garçom já tinha se retirado, pigarreei baixinho, chamando a atenção dos três homens sentados na mesa.
– Então, será que podemos conversar agora? Já comemos e tudo mais e, afinal, é a razão pela qual estamos aqui, não é mesmo?
– Claro, claro. – Larry disse, ajeitando-se na cadeira ao meu lado. – Você quer falar, Adam?
– Por mim tudo bem. – O agente de respondeu, sorrindo para todos nós. – Certo. Eu e Larry combinamos esse jantar aqui porque, enquanto conversávamos alguns dias atrás, percebemos que estamos com problemas semelhantes. Ou melhor, vocês estão, o que acaba impactando o nosso trabalho.
– Qual problema? Eu sinceramente não estou com problema algum. – falou, olhando de Adam para Larry com um semblante confuso.
– Bom, eu estou com alguns probleminhas, sim, mas acho improvável que eles tenham qualquer relação com , para ser sincera.
– É aí que você se engana, . – Larry respondeu. – , você parece confuso, então vou te explicar o nosso lado da situação, meu e da . Vocês têm basicamente a mesma idade, então você certamente sabe que a tem frequentado bastantes festas nos últimos anos. Acho que vocês até se encontraram em algumas dessas, certo? Ótimo. O problema é que nos últimos tempos a mídia vem pegando no pé dela por conta de algumas fotos que vazaram dessas festas ou de alguns vídeos meio selvagens. – deu um sorrisinho de lado e olhou para mim com a menção da palavra “selvagem”. Eu senti minhas bochechas queimarem e olhei para Larry com os olhos arregalados em demonstração de incredulidade. Não acreditava que ele estava sendo tão direto assim com um cara que eu mal conhecia. E, por Deus! Não havia nada de selvagem em vídeo nenhum, eram apenas filmagens minhas dançando, fumando cigarro de maconha ou alegre por conta da bebida. Larry pareceu me ignorar por completo e continuou com o seu discurso. – Isso não tinha muitos problemas até certo tempo atrás, só que nos últimos meses eu tenho recebido incontáveis ligações de executivos e grandes nomes da indústria reclamando dessa pose “indomável” que a tem sustentado.
– Disso tudo eu já sabia, só que eu ainda não entendi aonde você está querendo chegar.
– É, eu também não. Qual é o ponto disso tudo, Larry? E porque você está expondo os meus problemas ao Adam e ao ? – Falei, um pouco mais irritada.
– Calma, , não há nada nessa história que nós dois já não saibamos. – Adam disse em defesa do amigo. – O ponto disso é que está com problemas parecidos, caso não saiba.
Balancei a cabeça negativamente e encarei o ator à minha frente. Ele desviou o olhar do meu e virou-se para o lado contrário ao de Adam.
– Bom, também têm sido criticado pela vida boêmia nesse último ano. As críticas a ele são basicamente as mesmas que são feitas a você, pelo o que pude ver. A única diferença é que ele não é conhecido como “solteiro indomável” como você. A mídia o apelidou de “garanhão de Hollywood”. – Dei uma risadinha baixa com a menção do apelido. Pude ver que havia ficado vermelho, assim como eu anteriormente. Fiz uma nota mental para abordar esse assunto com ele depois, para provocá-lo, e voltei a prestar atenção em seu agente. – Ele também teve fotos e vídeos de sua presença nas festas vazadas por aí, e também algumas fotografias com algumas garotas em momentos mais privados, se é que você me entende.
– Adam, por favor... – disse, cortando-o rapidamente.
, calma aí. A claramente não sabia de nada disso, duvido que ela tenha interesse em entrar em detalhes por aqui. Eu só estou querendo deixar tudo às claras para vocês. – pareceu respirar fundo antes de dar de ombros contrariado.
Eu permaneci quieta, afinal, apesar de ter dado risada antes, sabia que o garoto estava claramente desconfortável.
– Que seja.
– Certo. , não sei se você conseguiu entender aonde quero chegar, mas o ponto é que vocês dois estão com problemas semelhantes na mídia, então Larry e eu pensamos que um poderia ajudar o outro.
– Não acho que nossos problemas sejam tão iguais assim, mas tudo bem. – Disse só para contrariar, sabendo que não era bem verdade. – E o que exatamente teríamos que fazer?
– Nada muito complicado... – Adam começou a falar quando foi interrompido pelo garçom, que trazia a sobremesa. e Larry agradeceram e o homem logo se retirou. Larry pareceu ponderar alguma coisa uma vez que mexeu a cabeça em sinal de negação, manifestando-se logo em seguida.
– Serei bem direto, sim? , você está sendo criticado por farrear demais e por ser um romântico incorrigível, na melhor das expressões. , o seu problema também é relacionado com festas demais e compromissos de menos. Juntando tudo isso, Adam e eu percebemos duas coisas: a primeira é que vocês dois aparentemente têm os mesmos interesses; e a segunda, bom, a segunda é que um pode oferecer exatamente o que o outro precisa.
Quando o meu agente terminou a sua fala, algo pareceu fazer sentido em minha cabeça. Eu puder perceber exatamente aonde aqueles dois queriam chegar, mas o pânico que se instalou em meu íntimo queria provar com todas as forças que eu estava errada. Assim, sem que eu sequer percebesse, já estava manifestando-me entre dentes.
– Eu espero honestamente que tenha entendido todo esse plano de vocês errado, mas, por via das dúvidas, seja mais claro, por favor. Eu quero saber, detalhadamente, o que é que vocês estão querendo que essa ajuda mútua seja?
– Vocês teriam que fingir um relacionamento por um tempo. – Adam disse, sorrindo como se parecesse óbvio.
Arregalei os olhos ao mesmo tempo em que ouvia a colher de cair em seu prato. Olhei para o ator à minha frente, e ele parecia tão assustado quanto eu. Larry comia o seu pedaço de bolo freneticamente, como se isso fosse evitar represálias. Aquela ideia era simplesmente maluca e impossível de se tornar realidade.


Capítulo 2


– Não, não, não, não, não. Nem pensar. – Ouvi dizer à minha frente antes mesmo que eu tivesse tempo de refletir sobre o assunto, no entanto o agradeci mentalmente pela revolta. – Isso só pode ser brincadeira. Eu não vou fingir estar em relacionamento nenhum. Vocês estão loucos.
-, tenta ver as coisas pelo lado bom... – Adam começou um discurso, mas eu logo o interrompi.
– Lado bom? Poupe-me. Eu não sei aonde vocês dois estavam com a cabeça quando pensaram que nós dois sequer cogitaríamos a possibilidade de aceitar esse plano absurdo. É ainda mais absurdo porque acredito que seja de conhecimento de todos aqui que e eu não somos amigos. – Virei-me rapidamente para o ator à minha frente e murmurei um pouco mais baixo. – Desculpa falar isso assim, não quero ofender.
– Sem problemas, por mim pode continuar. – deu uma risadinha e piscou o seu olho para mim.
Sorri brevemente para ele, mas mudei o meu semblante radicalmente quando olhei para Adam e Larry.
– Espero que tenham entendido que eu estou jogando essa ideia no lixo, sim? Prefiro ficar com a minha reputação totalmente prejudicada ao invés de entrar num relacionamento falso com quem quer que seja. Estou muito bem solteira, doa a quem doer.
– Eu vou ser obrigado a concordar em número e grau com a . Estou completamente satisfeito com o meu status de relacionamento atual e não poderia ligar menos para o fato das pessoas acharem que eu passo de namoro em namoro. Sou feliz assim e o meu comportamento não prejudica ninguém.
Acenei afirmativamente com a cabeça, concordando com a fala de . O fato de sermos festeiros e de nenhum de nós estar em um relacionamento fixo não machucava indivíduo algum. Isso era, pelo menos, o que eu achava. Olhei para Adam e ele mordia o seu lábio impaciente; Larry, por sua vez, apertava as suas mãos juntas, como forma de demonstração de impaciência e nervosismo. Esperei que meu agente olhasse em meus olhos e arqueei a sobrancelha, incentivando-o a falar o que quer que estivesse incomodando-o.
– Acho que falta ver um lado da situação nesse problema todo. – Larry suspirou e desentrelaçou suas mãos. Conforme ele falava, ele alternava o olhar entre e eu, deixando claro que as suas palavras valiam para ambos. – Há um time enorme de profissionais junto com cada um de vocês, publicitários, estilistas, advogados, maquiadores, cabelereiros; isso só para dizer o começo! E, bem, há eu e Adam também. O problema é que todas essas atitudes imaturas de vocês dois acaba por atingir a todos nós também, cada qual a seu jeito. Se há publicidade negativa quanto a algum de vocês dois, alguns trabalhos são deixados de lado. – Nesse momento meu agente olhou diretamente para mim, e eu puder entender sua referência à Vogue. Engoli em seco e continuei prestando atenção, sentindo-me cada vez mais culpada. – E, cada vez que isso acontece, alguém sai perdendo, mesmo que vocês não percebam. Se não há sessão de fotos, os maquiadores e cabelereiros não tem um job para o dia, se o cancelamento não for avisado com antecedência. Se há algum problema legal muito complicado, os advogados de vocês podem acabar por perder tempo demais em tentar achar uma saída decente para o caso, perdendo tempo útil de trabalho em outros processos. E assim vai.
Nem e nem eu parecíamos capazes de dizer alguma coisa. Eu não poderia falar por ele, mas eu nunca havia visto a situação toda por esse lado. Sabia que em termos relativos as coisas não eram tão ruins como eles estavam colocando – nós mal havíamos visto impacto das notícias negativas no número de trabalho que nos era oferecido! –, mas eu realmente deveria levar esse outro lado mais em consideração quando decidisse sair no futuro. Adam pigarreou alto, ganhando minha atenção e também se pôs a falar.
– E Larry não mencionou antes, mas eu acho importante falar de nós dois também. Tenho certeza que falo por nós dois aqui quando afirmo que é um enorme prazer trabalhar com vocês e que temos um carinho enorme tanto por você, , quanto por você, . Mas, as atitudes de vocês nos atingem em cheio, todas as vezes. Nós somos os responsáveis pela administração das suas carreiras, e o nosso nome também está em jogo nesse mundo da fama. O que vocês fazem ou deixam de fazer, o que conquistam ou deixam de conquistar, a influência, fama, dinheiro, tudo isso reflete no nosso sucesso. Os fracassos de vocês são nossos fracassos e, bom, o escândalo de vocês é sinônimo da nossa falta de competência.
Quando Adam terminou tudo, o que eu queria fazer era levantar da mesa e sair correndo. parecia perdido em um mundo paralelo, sem nem mesmo demonstrar mais apetite para terminar o seu bolo. O silêncio se instaurou em nossa mesa por uns bons dois minutos antes que decidisse cortá-lo.
– Eu sinto muito, nunca havia pensado assim. Sinto muito mesmo.
– Eu também. – Acompanhei no pedido de desculpas.
, , fiquem tranquilos. Nós não dissemos isso tudo para que vocês se sintam mal, foi só para que se conscientizem da dimensão das ações de vocês. Relaxem, jovens. – Larry deu uma risadinha, acabando com a tensão que havia se instaurado no ar. – Nada de ruim aconteceu até agora, e nenhuma das pessoas que trabalham com vocês sequer pensou em abandonar o barco. Está tudo certo para vocês dois.
– Ah Larry, cala a boca. Agora você já me deixou superculpada. – Brinquei, ainda que a brincadeira tivesse um fundo de verdade.
– Não foi a intenção, .
– Mas, já que vocês estão vendo a situação de forma mais ampla, tirem um tempo para pensar sobre o que comentamos aqui hoje, pode ser? – Adam perguntou.
– Eu deveria dizer não de novo, mas só porque vocês realmente fizeram um discurso emotivo, eu vou falar que tudo bem, vou pensar. Mas quero que saibam que na minha cabeça isso ainda não faz sentido, não acho que preciso estar com alguém para ser uma pessoa com a imagem melhor. – respondeu, ainda cabisbaixo.
– É só uma questão de passar a ideia de que vocês estão comprometidos com alguma coisa mais séria para mídia, esse é o intuito. – Larry falou, sorridente.
– É um intuito idiota. – Resmunguei. – Mas acompanho o no que ele disse antes. Só não esperem que eu mude de opinião, porque dificilmente vai acontecer.
– Tudo bem, só queremos que considerem a ideia, nada mais.
– Ótimo. – e eu respondemos quase no mesmo instante e soltamos uma risadinha baixa.
– Eu tenho só mais uma pergunta sobre tudo isso, se me permitirem. – Falei, fingindo esperar permissão para continuar.
Se eles me dissessem que não, eu falaria da mesma forma.
– E o que é? – Adam perguntou.
– Eu entendi a razão por detrás de tudo isso, mas quero saber o por que vocês acharam que seria uma boa ideia que e eu fizéssemos isso juntos. Eu sei que acham que podemos ajudar um ao outro, mas porque não ir atrás de duas pessoas notadamente bem-comportadas nessa indústria?
– Fácil. – Larry respondeu com um sorriso – Se chamássemos um homem e uma mulher quaisquer para figurar como namorado de vocês por um tempo, tudo seria evidente demais. Nem você e nem o tiveram algum relacionamento duradouro e público que seja do conhecimento da mídia, então seria cômodo demais que iniciassem um no momento em que começaram a ter problemas, não é mesmo? Quando Adam e eu conversamos essa ideia foi cogitada e, obviamente, faríamos isso sem que precisássemos comunicar o sobre o seu lado e vice-versa, no entanto achamos que as pessoas pudessem desconfiar do relacionamento arranjado. E, bom, vocês têm que concordar que ninguém espera um relacionamento arranjado entre duas pessoas “problemáticas”. – Arqueei a sobrancelha em resposta a esse comentário e Larry acrescentou – Desculpe usar essa palavra, é só para vocês entenderem.
– É, faz sentido, acho. – disse, encerrando a discussão.
Apesar de o clima ter melhorado um pouco, ninguém mais parecia disposto a comer mais nada e nem a permanecer no restaurante. Pedimos logo a conta, pagamos e nos despedimos, indo cada um para o seu lado. Não haviam fotógrafos na frente do restaurante, o que me permitiu chamar um táxi tranquilamente. Voltei ao meu apartamento em West Village ainda pensando no que Larry e Adam haviam dito, era uma ideia estúpida e sem nexo e eu jamais me submeteria a isso.


– Mas que raiva! – Reclamei alto, jogando uma revista de fofoca qualquer que estava em minhas mãos para longe. – Esse povo não cansa de fuçar a minha vida, não?
– Calma , o babado nem é tão grande dessa vez. São só algumas fotos suas com um gatinho, o que pode ter de tão ruim? – , minha melhor amiga, perguntou, inocente.
Ela havia ido para a minha casa para uma noite de filmes e muita pipoca, mas nossos objetivos tinham sido frustrados quando ela chegou com essa revista em mãos para me mostrar o novo flagra dos paparazzi para cima de mim.
, como eu a chamava, conhecia-me desde que éramos apenas menininhas mimadas de Long Island, com cerca de 10 ou 11 anos. Havíamos crescido juntas e compartilhávamos segredos, confidências e alegrias desde sempre. Ela havia sido a maior responsável por me incentivar a perseguir a carreira de atuação ainda durante os nossos anos de elementary school, mesmo quando meus pais ainda eram contra, e eu estava em seu lado quando sua carta de admissão da faculdade chegou.
Nunca ficamos tanto tempo separadas, mesmo quando nossos caminhos se distanciaram um pouco. havia decidido ficar perto de casa, entrando assim no college de medicina da New York University, eu fixei residência em Nova Iorque também, ainda que tivesse que ir à Los Angeles com certa frequência. Mesmo com a proximidade, nossos horários eram relativamente incompatíveis, já que a mulher havia cursava agora a grad school de medicina. Por essa razão, havia quase se tornado um ritual que nos encontrássemos uma vez por semana em minha casa para uma sessão de filmes, pipoca e muita fofoca.
– Você pelo menos viu as porcarias das fotografias? Nós estávamos agarrados! E tem alguns flagras de nós dois fumando um cigarro de maconha. – Falei, derrotada, já me jogando no sofá da sala.
, para de ser dramática! Não é a primeira e nem a décima vez que te pegam com maconha, e também não é o primeiro carinha que fotografam junto de você. Deixa para lá, nada disso vai fazer grande alarde na mídia. Em dois dias todo mundo vai ter esquecido tudo e você vai poder ter o seu mundinho de volta, como sempre acontece.
– Eu sei, , mas não aguento mais isso. Poxa, eu estava em uma conversa particular com o Karl, pensei que não havia ninguém por perto e abaixei a guarda. Nós estávamos apenas curtindo a noite de uma forma totalmente inocente, garanto-lhe, mas essas fotos fazem parecer que estávamos numa onda de pegação e drogas. Foram só uns beijinhos roubados e uma ou duas tragadas no cigarro dele, da minha parte.
arqueou a sobrancelha e deu risada. Ela devia estar achando graça do meu desespero repentino por algumas fotos vazadas, já que eu geralmente não ligava para isso. A verdade é que o discurso, que eu jurava ter sido ensaiado, de Larry e Adam alguns dias antes tinha realmente me feito pensar. Eu passei a me preocupar com os efeitos que qualquer decisão minha pudesse ter naqueles que me cercavam, mesmo que o problema estivesse fora do meu alcance, como agora.
– Por que você está rindo, ? – Perguntei um pouquinho emburrada.
– Pura e simplesmente porque essa não é você. Você sempre ignorou qualquer polêmica em que pudesse estar envolvida, porque está surtando agora? Além disso, como você mesma falou, essas fotos aqui são de mais de duas semanas atrás, são águas passadas. Qual é o problema, ? É alguma coisa com o Karl?
– Não, Karl e eu estamos bem, somos só amigos. – Dei de ombros, com indiferença.
Karl era um cantor indie com o qual eu tinha um casinho sem importância. Éramos bem amigos e nos encontrávamos sempre em festas ou reuniões de amigos, mas nunca havíamos combinado um encontro. Ficávamos juntos vez ou outra, e eu sabia que o cara tinha um grande interesse em mim, mas, como não era nada recíproco da minha parte, as coisas nunca passavam de uma noite. – Eu estou irritada com o conjunto de tudo isso. Não aguento mais sair para ir na esquina e ter que lidar com gente seguindo-me para cima e para baixo, de ter que encontrar fotos minhas que eu nem sabia que tinham sido tiradas em revistas aleatórias e nem de não ter privacidade nenhuma quando eu estou saindo com alguém ou fazendo alguma besteira.
– É o preço da fama, amiga. Eu entendo que esteja de saco cheio, mas não é como se você não soubesse que isso viria junto com o sucesso. – Virei-me para com um olhar matador, criticando o seu comentário. – Não me olha assim, . Não estou querendo te dar lição de moral nem nada disso, estou só constatando o óbvio. Eu também acho que você merece mais privacidade, mas não adianta ficar com raiva assim. O negócio é que atualmente é bom que os paparazzi te sigam, porque eles sempre têm um podre seu para descobrir, desculpe-me pela sinceridade. Se você fosse uma atriz talentosa e chata, ninguém iria ligar para o seu dia a dia.
– O que você está querendo dizer? – Perguntei, querendo saber aonde ela queria chegar.
Eu, definitivamente, não estava seguindo o seu raciocínio.
– Simples, se você quer que esse povo todo saia do seu pé, você tem que se tornar menos interessante para eles.
– Hum, e o que exatamente você sugere para que eu consiga isso aí?
– Bom, a primeira coisa que eu acho que você precisa fazer é começar a ser mais ativa nas redes sociais. Você não tem nada disso não é mesmo? – Balancei a cabeça negativamente, enquanto sentava ao meu lado no sofá e pegava o meu telefone em suas mãos. – Vamos dar um jeitinho nisso agora. Vou começar criando um Twitter e um Instagram para você. A página do Facebook você já tem porque eu mesma curto, mas deixa essa para ser administrada pelo seu pessoal mesmo. – Começou a falar, mexendo no aparelho telefônico como se fosse seu.
Assisti baixar certos aplicativos em meu celular, requisitar os nomes que queria para mim – como estava indisponível, acabamos por usar o meu apelido mesmo como usuário – e escolher uma foto para cada um dos meus perfis. Ela seguiu a si mesma nas duas redes sociais e entregou-me o celular com um enorme sorriso.
– Prontinho, aqui está. Você já está me seguindo, é claro, mas fique à vontade para seguir mais algumas pessoas também. Acho que o seu time não vai ligar muito que você agora está nas redes, mas acho que você deveria avisar ao Larry só por via das dúvidas. Você precisa de ajuda para entender como os dois aplicativos funcionam?
– Por favor. – Respondi, sorrindo também.
Eu odiava redes sociais e não via muito sentido em manter uma conta pessoal para mostrar minha vida a todo mundo, uma vez que acreditava que ela já era pública o suficiente. Mas, se a ideia de estivesse certa, talvez isso me tornasse um pouquinho menos interessante para a mídia, ou, pelo menos, um pouquinho mais próxima de uma menina normal de 22 anos.
Minha amiga ficou cerca de 15 minutos ensinando-me como usar o Twitter e o Instagram, e ambos me pareceram muito simples. Nos cerca de 45 minutos seguintes nós ficamos apenas fuçando as redes sociais de conhecidos nossos ou de amigos meus famosos, enquanto eu contava a ela sobre os mais novos babados de Hollywood. Eu não mencionei a minha conversa com Adam, Larry e em momento algum, já que pensava ser algo que morreria por lá e também não pareceu achar que nada me incomodava.
Horas depois, nós finalmente comemos pipoca e assistimos ao filme, como inicialmente combinado, e minha amiga foi embora um pouco antes das 19 horas, já que tinha que ir para a faculdade no dia seguinte. Eu não tinha nada programado para o resto da noite, então decidi dar uma olhada no que os meus novos perfis da rede social me ofereciam.
Escrevi algumas mensagens no Twitter e postei um vídeo dando “oi” no Instagram. Eu ainda não tinha seguido ninguém – além de –, mas o meu número de seguidores crescia rapidamente. Decidi dar uma olhada nas sugestões que os sites me ofereciam para seguir e acabei aceitando algumas. Não segui nem no Twitter e nem no Instagram nenhum dos meus antigos rolos amorosos, nem mesmo Karl, apesar de sermos amigos, e acabei seguindo um ou outro fã, apenas para ficar por dentro do que eles estavam dizendo sobre mim.
Passei um tempo vendo o perfil de alguns conhecidos e, do nada, encontrei o Instagram de . Eu não sabia ao certo se deveria ou não o adicionar, mas no final achei que não teria problema. Cliquei no botão de seguir e fui olhar as suas fotos, tomando o cuidado para não curtir nada. Havia muitas fotos dele em premiações ou pré-estreia de filmes, bem arrumado, com um sorriso perfeito e sempre sozinho. Em outras, ele estava com amigos em reuniões na casa de alguém ou em algum lugar diferente, como restaurantes ou parques. Também tinham algumas fotos em que ele estava acompanhado de uma menina loira, seja abraçando-a, beijando o seu rosto ou apenas sentado em seu lado. Não havia nenhuma legenda que identificasse quem a menina era e nem marcação do seu nome de usuário, só haviam legendas que deixavam claro que a menina era o seu porto-seguro, ou o quanto ele sentia falta dela.
Estava tão distraída fuçando as fotos, que nem percebi que tinha recebido uma mensagem direta, e, quando finalmente vi o numerozinho vermelho da notificação, cliquei no ícone. Meu coração deu um salto quando li o nome de como o remetente da mensagem, não porque eu estava emocionada ou algo do tipo, mas porque eu estava com medo de haver algum modo dele saber que eu estive olhando o seu perfil por tempo demais.

“@
Você por aqui? Achei que não fôssemos amigos o suficiente para merecer um follow seu.
Já olhou o meu perfil? Não recebi nenhuma curtida sua, pelo o que estive observando.”


Dei risada do seu comentário e senti o pânico deixar o meu corpo lentamente. Ele estava perguntando-me se eu havia olhado o seu perfil, logo não tinha como saber que sim, eu já tinha me divertido muito por lá. Pensei em ignorar a mensagem, mas achei que não teria sentido. Eu o havia seguido, então achava que poderíamos manter uma conversa amigável, apesar de não sermos tão próximos assim.

@
Acabei de criar esse perfil aqui e, não, não olhei o seu perfil. Só te segui mesmo. Posso curtir o que você postar daqui para frente, mas não vou atrás das suas fotos antigas haha :)
E não vejo problema em te seguir. Não somos inimigos, certo?


Eu havia mesmo mentido sobre olhar as fotos dele, mas eu não poderia ser sincera. Seria muito constrangedor se eu assumisse que tinha visto grande parte do seu perfil no mesmo dia em que havia criado o meu próprio Instagram, certo? Certo. Eu ficaria quieta.
Meu celular apitou com uma nova notificação de e eu logo fui ler a mensagem.

@
Certamente não, mas achei que você me odiava depois do episódio com a Amber. Desde então você nunca nem olhou na minha cara.
Só naquele jantar.
Mas isso não foi por vontade própria, né?
Enfim, postei uma foto agora. Espero sua curtida ;)


Antes mesmo de respondê-lo fui a seu perfil e vi a novo foto que havia publicado. Não havia nada demais nela, ela apenas uma careta sua com uma legenda sobre aproveitar a vida. Ele estava extremamente fofo na fotografia, mas limitei-me a curti-la sem deixar comentário nenhum.

@
Curti só porque você pediu, que fique claro.
;)
E eu não tenho problemas com você hoje em dia. O episódio da Amber ficou para trás, apesar de minha opinião ter continuado a mesma desde então.
Só não nos acho compatíveis e, pelo o que já li de você e já vi nas festas em que nos esbarramos, não acredito que tenhamos tantos interesses em comum.


Enviei as mensagens, percebendo, logo depois, que tinha sido um pouquinho grossa com ele, mesmo sem intenção. O “episódio da Amber” ao qual se referira tinha acontecido cerca de quatro ou cinco anos antes, quando ainda éramos adolescentes. estava conversando com uma menina da nossa idade, Amber, que havia contracenado comigo em um filme de comédia. Nós éramos muito próximas, então eu sabia que o caso deles durava algum tempo e que ela já estava ficando apaixonada. As conversas deles davam a entender que estava tão interessado quanto a menina, trocando juras de amor e mensagens fofas. Eu via a felicidade da menina diariamente, então torcia com todas as forças para tudo dar certo.
O problema é que não havia nada oficial entre os dois, então, em um dia qualquer, Amber recebeu uma mensagem de um conhecido nosso com uma foto de agarrado a Alexia, outra garota que também fazia parte da indústria e que era só um ano mais velha que nós dois. Amber ficou arrasada e veio chorar no meu ombro, e eu, como boa amiga, fui tirar satisfações. Na época eu já o conhecia pessoalmente, uma vez que o tamanho diminuto do business quase tornava uma obrigação que os adolescentes do local se esbarrassem eventualmente, mas nunca havíamos mantido qualquer tipo de amizade. Em resposta aos meus surtos, argumentou que nunca havia proposto para Amber nenhum tipo de relacionamento exclusivo e que, embora gostasse da menina, não tinha pretensão de namorá-la. O que se seguiu daí foi um grande problema entre eles dois, que inclusive vazou ao público, causando revolta por parte dos fãs de cada um deles.
e Amber terminaram o que quer que tivessem começado, óbvio, e eu passei a não gostar do cara por conta disso. Nas poucas vezes que nos falamos depois tomei o cuidado para não ser mal-educada, mas também nem ao menos tentei ser agradável. Eu e Amber acabamos afastando-nos, e fazia anos que já não tinha notícia da menina. A minha raiva para com foi lentamente dissipando-se, e hoje eu já nem mais ligava para tudo isso, no entanto eu nunca o pedi desculpa pelas coisas que o disse na época e também nunca recebi suas desculpas por bobagens que ele respondeu, razão pela qual ele deveria achar que eu o odiava.
Estava sentindo-me um pouco culpada pelo jeito ríspido que o havia respondido na última mensagem que mandei, então pensei em consertar um pouco as coisas.

@
Ah, desculpe pelo o que eu disse na época da Amber. Era problema de vocês e eu acabei intrometendo-me.
Eu mal te conhecia antes, então foi tudo da boca para fora.
E eu não te odeio por isso.
Na realidade eu não te odeio, só para deixar claro haha.


A resposta veio menos de um minuto depois.

@
Melhor assim, não preciso de mais ninguém me odiando hoje em dia haha
E desculpe também. Sinceramente nem lembro o que eu disse, mas prometo que me arrependi.
Obrigada pela curtida, , aposto que deixou o seu mural mais bonito.


Fiquei um pouco incomodada com o seu jeito de lidar com a possibilidade de alguém odiá-lo. Era uma bobagem, mas mesmo assim fiquei curiosa.

@
Você é ridículo hahahaha o meu mural está igualzinho, garanhão. A sua foto foi só mais uma ;)
E quem é que te odeia hoje em dia para você se preocupar assim?

Eu usei havia usado o seu apelido midiático propositalmente, de modo a deixar aquela conversa um pouco mais leve. Dessa vez demorou a me responder, mas quando o fez foi bem sucinto.

@
Hoje, o Adam.


Sua resposta me deixou um pouco em dúvida quanto a continuar o assunto ou não, mas decidi perguntar, afinal ele poderia não responder, se não quisesse. Eu não me lembrava de ter visto nada negativo dele na mídia nos últimos dias, então realmente não fazia ideia do que poderia ter deixado Adam irritado com ele.

@
O que você fez agora?


Eu mal tinha pressionado o botão de enviar, quando recebi sua resposta. Assustei-me com o que li, mas também o respondi rapidamente.

@
Você está tranquila hoje?
Podemos nos encontrar?

@
Agora?

@
Sim. Você pode?

@
Posso. Você quer sair para algum lugar?

@
Por mim pode ser, tanto faz.

@
É alguma coisa privada que você quer conversar?

@
Mais ou menos.
Eu acho que sim, na real.

@
Então venha à minha casa.
Tudo bem para você?

@
Tudo bem. Só preciso do endereço.


Dei meu endereço ao garoto e corri para o banheiro para tentar um jeito no meu rosto, já que nem de maquiagem eu estava. Troquei o meu moletom por uma calça jeans e esperei a campainha tocar sentada no sofá. Quando escutei o barulhinho anunciando a chegada de , deixei o meu celular na mesa de centro e fui abrir a porta. estava vestido com uma calça de moletom e um casaco de moletom escuro, cobrindo sua cabeça. Dei espaço para ele entrar e, quando fechei a porta, fui em direção à sala com ele no encalço.
– Você quer alguma coisa para beber ou comer? – Perguntei gentilmente, sorrindo.
– Não, obrigada. Acabei de comer.
– Tudo bem. Pode ficar à vontade, senta aí. – Disse, convidando-o a sentar no sofá que eu estava ocupando minutos antes e sentando-me logo à sua frente. – Então, o que é que aconteceu para o Adam te odiar?
suspirou e passou as mãos no cabelo. Ele pareceu pensar por um segundo antes de retirar o seu moletom, revelando uma blusa branca colada no corpo por debaixo do casaco. Prendi a minha respiração por um segundo e deixei os meus olhos se perderem em seu corpo rapidamente, antes de perceber o que estava fazendo. Balancei a minha cabeça de um lado para o outro, espantando qualquer pensamento pecaminoso que pudesse sequer ter pensado em aparecer e engoli em seco. não pareceu perceber o meu momento de desconforto e pigarreou antes de começar a falar.
– Eu acho que ele talvez não me odeie ainda, mas ele está realmente muito puto. Não foi exatamente culpa minha, eu nem sabia de nada e... – Ele parecia desconcertado com alguma coisa e até um pouco envergonhado, o que estava me deixando agoniada.
, fale logo.
– Certo. Eu estava confirmado como papel principal de um filme daquele diretor Augustus Linberg, o enredo era sobre um agente secreto que atuava na Rússia e tudo mais, então era uma megaoportunidade. Estava tudo certo para as filmagens começarem no mês que vem e o Adam estava animado para caramba, até porque o cachê é bom. – deu uma risadinha. – O problema é que eu estava pegando a filha do Augustus há um tempinho, mas eu juro que não sabia quem ela era até o cara surtar.
– Mas como é que ele descobriu?
– Eu tinha combinado com a menina de sairmos essa semana. Há dois dias ela me ligou e me disse que estava sem nada para fazer e me convidou para ir à casa dela naquela tarde. Eu falei que tudo bem, porque achei que ela morava sozinha, então fui preparado. Só que ela nunca me disse que morava com os pais dela! A gente ficou junto à tarde e, quando o Augustus chegou com a mulher, o cara teve um surto porque eu estava só de cueca com a filha dele nos braços. Ele me expulsou de lá, claro, e ligou para o Adam para dizer que eu estava demitido.
Escutei a história com atenção e me esforcei para segurar a risada, sem muito sucesso na tentativa.
, não é engraçado. – protestou à minha frente.
– Desculpa, eu sei, eu sei. Mas o cara encontrou vocês dois na hora H?
– O que? Não! A gente estava sentado no chão da sala, encostados no sofá, assistindo a um filme na TV. Já tínhamos terminado tudo, por Deus.
– E por que a menina não falou para você ir embora se os pais delas estavam chegando?
– Ela me disse que pensou que eles fossem demorar mais, então não queria pedir para que eu fosse para casa antes da hora. O problema é que ela deixou a hora passar.
Dei uma risadinha baixa e vi que tentava parecer bravo com a minha reação. Quando arqueei a sobrancelha, pude ver um sorriso escondido em seus lábios, fazendo-me sorrir também.
– É, se eu fosse o Adam, eu talvez ficasse irritada com você também, para ser sincera. – Dei de ombros, irritando o garoto.
– Mas eu não tive culpa, poxa! Eu não sabia que a menina era filha do Augustus, se soubesse eu teria terminado tudo há tempos. – reclamou, olhando para mim.
, fica tranquilo. O Adam sabe disso, mas você tem que dar um tempo a ele para digerir a história, principalmente porque ele provavelmente já estava contando com isso e gabando-se pelo seu papel. Não adianta pedir para ele te desculpar agora, mas tenho certeza que ele não te odeia.
– Ih, , eu não sei não. O cara ficou puto comigo no telefone, eu nunca vi ele tão alterado assim. Foi assustador.
Lembrei-me da ligação de Larry alguns dias antes e o quão bravo ele estava com o cancelamento de uma capa de revista e de uma entrevista! Não queria nem imaginar a sua reação se eu tivesse perdido algum papel.
– Bom, não há nada que você possa fazer agora quanto a isso. O que eu queria saber é por que é que você quis contar isso tudo para mim? Não me leve a mal, é que nunca fomos amigos, então me pareceu meio estranho você se abrir e querer conversar sobre o seu problema só porque te segui no Instagram.
apertou os lábios e fez uma careta. Permaneci olhando para ele, enquanto esperava uma resposta à minha pergunta.
– É que eu achei que você fosse entender depois do que o Adam e o Larry nos falaram aquele dia e tal. Eu sei que o Larry também ficou puto com você algum dia desses porque o discurso dele meio que deixou isso a entender. – falou com convicção, fazendo-me morder os lábios e acenar afirmativamente com a cabeça. – Eu não sei o que você fez, mas também teve que lidar com a ira dele, então achei que pudesse me ajudar.
– Hmm... Tudo o que consigo te dizer é que a raiva do Larry passou depois de um tempinho.
– Acho que só me restar esperar, então.
Balancei afirmativamente com a cabeça e me mexi no sofá desconfortável. Eu não sabia se deveria começar outro assunto com ou se deveria esperar por um próximo movimento do cara. Olhei para seu rosto e ele parecia me encarar um pouco apreensivo. Talvez ainda tivesse mais alguma coisa para falar, mas, como ele não tomava atitude nenhuma, fingi que iria me levantar. Antes que eu sequer estivesse em meus pés ouvi sua voz dizer baixinho:
– Espera, eu vim aqui para falar outra coisa com você, se não se importar.
– Ah, tudo bem. – Respondi, já me sentando de novo. – E o que é?
coçou a cabeça e sorriu de lado, fazendo-me sorrir também. Eu sabia que ele estava tentando ganhar tempo e não entendia exatamente a razão para isso, mas decidi facilitar as coisas para ele, postergando um pouco a discussão.
– Eu estou com um pouco de sede, então vou pegar uma água, sim? Você quer alguma coisa?
– Uma água está bem para mim também. – Respondeu-me, sorrindo fraco.
– Já volto então. – Disse já a caminho da cozinha, deixando-o sozinho na sala com seus pensamentos.
Enchi uma jarra de água e peguei dois copos no armário, colocando-os numa bandeja. Demorei o máximo que consegui na realização daquela tarefa simples, queria deixá-lo relaxado, mas também não queria que ele sentisse como se eu estivesse evitando a conversa por alguma razão.
– Aqui está. – Falei quando voltei para a sala com a bandeja nas mãos. – Quer que eu te sirva?
– Pode ser. – deu de ombros e eu o entreguei um copo cheio do líquido, vendo-o beber um gole e deixar o objeto na mesa de centro em sua frente.
– Está pronto para falar agora?
– Acho que sim, mas, por favor, ouça-me até o final antes de se manifestar, ok? – Concordei com a cabeça e deixei-o prosseguir. – Eu estive pensando na nossa conversa com Adam e Larry e nos prós e contras de tudo o que eles disseram. Eu acho que é uma ideia idiota e meio estúpida, mas não é como se a minha vida estivesse indo às mil maravilhas, e, já que você foi enquadrada na mesma situação que eu pelo o seu próprio agente, acho que a sua também não. Acredito que é uma ideia fadada ao fracasso, mas talvez o caminho que cada um de nós esteja agora também o seja, então por que não tentar?
permaneceu olhando em meus olhos e eu não me pronunciei quanto a nada do que ele havia dito, então ele continuou o discurso.
– Não sei se eu fui claro o suficiente com o que falei antes, mas o que quis dizer é que acho que poderíamos tentar para ver no que dá. Não é como se fosse piorar a situação para nenhum de nós e, como não é nada real, a gente faz um combinado de que nosso relacionamento vai ser só para os outros verem, e em quatro paredes continuamos sendo quem somos, com quem quisermos. Você pode sair com os caras que costumava encontrar que eu não vou perguntar e eu faço a mesma coisa, mas, para o mundo, seríamos um casal. – sorriu antes de acrescentar rapidamente. – Ah, e como eu sei que você aprecia uma boa festa, assim como eu, poderíamos continuar frequentando as melhores baladas, só que iríamos juntos. Larry e Adam não poderiam reclamar e a mídia nos deixaria um pouco em paz.
Não respondi a sua proposta prontamente, porque não sabia muito bem o que dizer. Eu queria gritar para ele que a ideia era maluca, que eu jamais aceitaria nada daquilo e que eu amava a minha vida do jeito que era. No entanto, eu deveria reconhecer que talvez aquela situação fosse realmente vantajosa.
Respirei fundo e me permiti pensar por um segundo em sua proposta. Não seria nada permanente, seria? Poderíamos fingir um relacionamento por seis meses ou um pouquinho mais e depois termos uma separação amigável. Não precisaríamos nos envolver de verdade, apenas fingir um ou outro beijo ou carícia em público, coisa que o meu trabalho já me obrigava a fazer na frente das câmeras. Mas, se fingíssemos isso, eu certamente me tornaria menos interessante para a mídia, assim como havia sugerido. Eu teria um namorado para o mundo, mas continuaria livre no meu íntimo. Era uma situação de vitória para aonde quer que eu olhasse e, no fundo, seria só mais um papel para adicionar à minha lista.
– Tudo bem. – Respondi, sorrindo. – Eu topo.


Capítulo 3


Cerca de um mês havia se passado desde que e eu concordamos com o plano não-tão-idiota de Adam e Larry. Apesar de termos entrado no acordo naquela noite em que ele apareceu na minha casa, apenas colocamos a ideia em prática dois dias depois, quando marcamos um novo jantar com os nossos agentes para comunicar a decisão e para pensarmos em todo o resto como um conjunto.
Havia ficado decidido que não iríamos contar que o relacionamento era falso para mais ninguém e que não precisaríamos fingir por mais de 8 meses, tempo considerado adequado por Larry e Adam para que não ficássemos mal vistos pela mídia pelo término de um relacionamento relâmpago.
Muito embora os dois agentes quisessem assumir tudo no dia seguinte, e eu decidimos “começar” devagar para que as coisas parecessem mais verdadeiras. Começamos então por aumentar o nosso contato nas redes sociais, primeiro nos seguindo no Twitter, depois curtindo as fotos recentes um do outro no Instagram, sempre deixando comentários, ou respondendo aos tweets do outro. Quando tudo já estava ficando mais romântico, com um duplo sentido explícito proposital, passamos a curtir as fotos antigas um do outro no Instagram, ou a retweetar as mensagens antigas, como forma de demonstrar que estávamos vendo mais do que só o que nos aparecia no feed.
Esse comportamento não passou despercebido, obviamente, e a mídia inteira estava acompanhando atentamente o desenrolar da situação. Nós estávamos achando tudo muito engraçado, claro, mas não nos havíamos manifestado sobre nada. tinha me ligado no mínimo umas 5 vezes nas últimas semanas para me perguntar o que estava acontecendo e por que é que ela não estava a par de tudo. Expliquei a ela que ainda não havia nada certo e que estávamos apenas conversando, mesmo querendo simplesmente contar a verdade.
e eu continuávamos conversando pelas mensagens privadas também, mas apenas como amigos. Se teríamos que conviver pelos próximos meses, então que pelo menos fizéssemos isso na paz.
Adam e Larry estavam aflitos para que déssemos o pontapé inicial no nosso relacionamento público, então havíamos marcado um jantar a dois em um sábado num restaurante chique do Soho, bem perto do reduto nova-iorquino das celebridades. Nosso intuito era, obviamente, sermos fotografados em clima de romance, mas tínhamos concordado também em fazer um teatrinho adicional surpresa, caso trombássemos com fãs ou paparazzi no caminho.
O jantar estava marcado para às 20:00, mas eu estava tão aflita que havia passado o dia todo pensando no que vestir. Não era como se estivéssemos, de fato, em um encontro, mas eu não queria que ficasse na cara que eu estava apenas fingindo me arrumar para surpreender , mesmo que, talvez, no fundo, eu quisesse que ele ficasse um pouquinho admirado, sim. Eu ainda gostava de massagear o meu ego de vez em quando, oras!
Já tínhamos a reserva no local, então não havia, para nós, medo do plano dar errado, pelo menos quanto ao restaurante. Mesmo assim, eu estava com um friozinho na barriga, e meu coração acelerava todas as vezes que pensava no que estávamos prestes a fazer. Não, os sintomas não eram causados por emoção ou paixão reprimida, eu estava única e simplesmente nervosa com a ideia de que eu deixaria de ser publicamente solteira no momento em que pisasse no restaurante com em meu encalço. Minha liberdade estava indo para o ralo, e eu havia sido a responsável por concordar com isso.
Quando me enviou uma mensagem avisando que estava chegando na porta da minha casa, peguei meu casaco e minha bolsa e fui esperar na entrada. Assim que avistei uma imponente BMW branca virando a esquina, soube que aquele era o seu carro. Desci as escadas em direção ao veículo e vi abrir a sua porta, dar a volta no carro e abrir a porta do carona para que eu entrasse. Sorri brevemente para o garoto por conta de seu gesto e entrei no veículo, ouvindo a porta se fechar ao meu lado logo após isso.
Não conversamos muito no caminho para o local, olhava para as ruas com mais atenção do que o necessário, enquanto eu mexia no celular. Não estava tentando evitar nenhum tipo de conversa, mas queria me preparar mentalmente para o jantar e as consequências dele, e tinha certeza que ele estava fazendo a mesma coisa.
Cerca de 20 minutos depois, pude ver o carro virando na rua do restaurante escolhido. Eu já havia estado no local algumas vezes, mas mesmo assim tudo parecia diferente dessa vez. Respirei fundo quando parou do outro lado da rua e me concentrei para entrar no papel que estava prestes a começar a desempenhar. Acompanhei com o olhar sair do carro e dar a volta para abrir a porta para mim, assim como fez quando me pegou em casa.
Desci com um grande sorriso no rosto para o caso de alguém já nos ver naquele momento, e só percebi que deveríamos andar quando o garoto se aproximou de mim e pegou na minha mão, com aparente naturalidade. Fitei-o um pouco surpresa com o gesto, apesar de saber que era mais do que esperado.
– Tudo bem? – perguntou, olhando para as nossas mãos entrelaçadas. – Você se importa?
– Não, está tudo certo. – Respondi, olhando para seu rosto um pouco desconcertada.
– Se estiver desconfortável, podemos simplesmente andar lado a lado, não acho que terá qualquer problema.
– Não, , eu estou bem. Não me importo de ficarmos de mãos dadas, não é nada demais. – Dei uma risada baixa para o garoto e comecei a caminhar. – Agora vamos, porque alguém pode nos reconhecer por aqui e nos parar, e eu estou com fome.
riu e acelerou o passo para caminhar ao meu lado, já que eu o puxava suavemente por estar a alguns passos na frente. Entramos no restaurante e, logo que nos reconheceram na porta, fomos direcionados para uma mesa em um canto mais afastado do salão principal. Agradecemos brevemente e nos acomodamos em nossos lugares, ficando sozinhos.
– Você acha que as pessoas conseguem nos ouvir por aqui? – Perguntei com a voz baixinha.
O menino olhou ao redor e deu de ombros antes de me responder.
– Acho que não. Estamos afastados da parte cheia do restaurante, e aqui por perto só há aquele casal ali. – Ele me disse, apontando um casal de meia idade a duas mesas de distância de nós. – É só não falarmos tão alto que duvido que qualquer um possa ouvir.
– Espero que sim. Podemos conversar com naturalidade, então, sem nenhum fingimento, certo? – Falei ainda incerta quanto à privacidade do local.
– O que você está querendo falar que é tão secreto? – me perguntou, arqueando a sobrancelha.
– Nada, só não sei muito bem como manter uma falsa conversa apaixonada. – Dei de ombros, sendo sincera.
, relaxa um pouco. As pessoas não têm o porquê desconfiar de nada se não dermos motivos para isso. E, sinceramente, duvido que alguém fique prestando tanta atenção assim nas nossas conversas, independente de quem somos. – O menino disse, olhando em meus olhos, tranquilizando-me.
– Certo. – Respirei fundo, olhando ao redor. – É que essa necessidade de estarmos sempre atentos a tudo me estressa um pouco, sabe? Isso de ter que calcular minuciosamente o que faremos para evitar qualquer tipo de escândalo ou falatório da mídia. Sinto-me um pouco paranoica, mas às vezes sinto falta de quando ninguém me notava.
virou a cabeça para me analisar enquanto falava. Ele parecia genuinamente interessado na minha explicação e sorriu quando terminei. O garçom se aproximou de nós para entregar o menu e ficamos em silencio até que ele se afastasse.
– Acho que não me lembro da última vez que passei como um completo desconhecido em algum lugar. – Ele disse, pensativo, como se tentasse se lembrar de algum episódio em especial que contradissesse a sua fala.
, impossível! E quando você era criança? Duvido que você não tenha uma só memória de quando brincava na rua como um moleque qualquer. – Falei, perplexa.
– Para falar a verdade, eu acho que só nos momentos em que eu estava apenas com a minha família mesmo. – disse, coçando a cabeça e entortando a boca, pensativo. – Eu entrei nessa indústria quando era muito pequeno, meu primeiro filme foi com 4 anos, como o sobrinho da Julia Roberts em uma comédia romântica. Quase não tenho memória de antes disso, sabe? Então tudo o que me lembro é de sempre perceber alguém notando-me.
– Você não brincava com alguns amiguinhos ou algo assim?
– Brincava, claro, mas era quase todo mundo da indústria também. Minha mãe se mudou comigo para Los Angeles mais ou menos na época desse primeiro filme do qual participei, e lá era tudo em função do business. Eu passava quase todos os meus dias com crianças que faziam grandes filmes também, brincávamos e trabalhávamos juntos, então éramos conhecidos nesse meio. E as pessoas nas ruas me reconheciam com muita frequência também, o que só aumentou com o tempo. – O garoto contou-me animado. Eu sabia muito pouco sobre a vida dos atores mirins de Hollywood, e saber que o tinha sido um deles era surpreendente para mim.
– E você não se sente sufocado com isso? Eu estou nesse meio há uns 6 ou 7 anos só, e volta e meia quero chorar, porque sinto como se estivesse numa prisão sem ter cometido nenhum crime. – Disse, sincera.
riu e me olhou, divertido. Talvez eu estivesse exagerando e sendo um pouquinho dramática mesmo, mas essa história de sempre ter a minha vida privada, minhas conversas em restaurante ou mesmo minhas informações pessoais espalhadas por aí me dava nos nervos. E era em momentos como aquele, em que eu não tinha certeza se seria ou não observada, que eu me colocava a refletir sobre tudo.
– Ah, não é tão ruim assim, . Eu concordo que em certos momentos as coisas fogem do controle, mas na maioria das vezes só o que temos que fazer é tirar uma ou outra foto ou desmentir alguma coisa idiota.
– Ou também dar satisfações sobre tudo para pessoas que nem conhecemos, ou ter nossos rostos estampados em todos os lugares... Estamos encenando tudo isso aqui por causa disso, afinal. – Apontei de mim para ele, querendo deixar claro que estava falando do nosso relacionamento.
– É, isso é verdade, mas não é um fardo tão pesado se pararmos para pensar em tudo o que vêm com a fama, as oportunidades, os contatos, o dinheiro. E nós dois só vamos viver isso por pouco tempo, as vantagens da fama são duradouras. – deu de ombros rapidamente, virou-se para ao lado e acenou para o garçom, chamando-o para ir até a mesa. – Mas talvez eu só nunca tenha vivido de outra forma para saber.
perguntou-me se eu gostaria de beber uma taça de vinho, quando confirmei, ele pediu uma garrafa de vinho e água para o garçom, que havia acabado de chegar até nossa mesa.
– É, sei lá. Acho que, como comecei tarde nesse mundo do entretenimento, eu tenho boas lembranças de como é fácil e libertador ser normal e como é difícil aceitar que minha vida é pública agora. – Disse, retomando a conversa quando nos vimos sozinhos novamente.
– Talvez. Talvez você possa comparar bem o antes e o agora, já eu não posso dizer o mesmo. Não tenho como sentir falta de algo que não lembro como se parece. – O menino entortou a boca quando disse isso e eu ri.
– Você ia para a escola normal quando morava em Los Angeles? – Perguntei com curiosidade.
Eu não conhecia muito o além do que era difundido pela mídia, e já que passávamos muito tempo juntos e tínhamos acordado em fingir um namoro, seria bom que nos conhecêssemos bem.
O garçom aproximou-se da nossa mesa com a garrafa de vinho e nos serviu. sorriu para mim nesse meio tempo e começou a falar novamente quando o homem se afastou.
– Não, minha agenda era um pouco maluca, então não teria como eu frequentar nenhuma escola comum. Eu ia para uma escola própria para crianças que trabalhavam no mundo artístico, mas saí antes do fim da Middle School e terminei os estudos em casa.
– Eu não fazia ideia que essas escolas especiais para atores existissem, achei que era só exagero! Isso quer dizer que você nunca foi a uma festa de formatura ou a uma feira de ciências?
– Não. – riu, simpático, antes da sua feição mudar pare uma divertida. – Na verdade, retiro o que eu disse. Eu já estive em muitas festas de formatura, fui até rei do baile em algumas delas, e eu sempre fui com a garota mais bonita.
Entendi o que ele estava fazendo e soltei uma risada alta, me acompanhou e logo nós dois estávamos sendo observados pelo casal sentado a algumas mesas de nós.
– Eu não estou perguntando dos bailes dos seus filmes, seu ridículo. Estou querendo saber dos bailes de verdade, daqueles em que você fica nervoso para convidar uma garota para ser sua acompanhante, que você tem que ir vestido todo engomadinho e acaba beijando a menina na música romântica da noite. – Falei, fantasiando e gesticulando, animada, arrancando uma risada do garoto.
– Bom, nesse caso, não. Minha escola não tinha essas coisas, e eu também nunca tive uma garota que pudesse me convidar para ser seu par numa festa de verdade. – Ele deu de ombros, indiferente. – Não ligo também, não me faz falta.
– Ah, mas deveria ligar, sim. Você é provavelmente o único jovem americano que nunca foi a uma festa dessas. É quase uma tradição nacional, , sem dizer que é bem divertido! Você não pode simplesmente chegar aos 30 anos sem nunca ter feito parte disso. – Respondi enquanto colocava a mão no peito, como se estivesse profundamente ofendida.
– Ah, , eu não sei, não. Eu já sou meio velho para isso e nem sei como entrar numa festa dessas, acho que agora meio que já era. Sem dizer que deve ser só coisa de adolescente, aquelas festinhas sem graça. O que eu vou fazer lá quando eu posso ir nas baladas mais legais de Nova Iorque? Acho que não faz o meu tipo. – O garoto entortou a boca logo após terminar de falar, como se recusasse a ideia toda.
– Não ligo. Vou pensar em um jeito para que você vá em alguma festa real de formatura de colegial, eu faço questão. Você pode aproveitar as baladas da cidade até morrer, mas existe uma idade limite para ir numa festa dessas e, sinto em te avisar mocinho, mas você está quase lá. – Falei, ignorando por completo o que ele havia dito anteriormente
– Que seja. Mas, quero saber uma coisa, como é que você já foi numa festa dessas se também saiu da escola comum antes do Ensino Médio? – Arqueei a sobrancelha com a afirmação de , curiosa.
Não me lembrava de ter mencionado a ele o meu tempo de escola hoje ou nunca.
– E como é que você sabe disso?
– Google. Ou você achou que eu ia concordar em namorar você sem antes dar uma pesquisada na sua vida? – O garoto deu uma piscadinha para mim e sorriu de lado.
Rolei os olhos e disfarcei o meu próprio sorriso.
– Você deve saber mais de mim mesma do que eu, agora.
– Talvez. – falou ainda com o sorriso no rosto e com uma cara sapeca.
Ignorei a sua feição e decidi responder a sua pergunta.
– Enfim, eu só saí do colégio antes de entrar no Ensino Médio porque me mudei de Long Island para Nova Iorque, mas fui no meu baile de formatura da Middle School e fui também no baile de High School com um antigo namoradinho da escola, mesmo que já tivesse deixado de ser aluna.
– E ninguém te reconheceu por lá? – O garoto indagou, aparentemente curioso.
Sua pergunta era pertinente, afinal eu já tinha começado a minha carreira naquela época, e ele parecia saber isso.
– Sim, mas a maioria das pessoas havia estudado comigo antes, então eu não era nenhuma novidade por lá, sem dizer que muita gente aprendeu a não gostar de mim. Mas isso tudo foi indiferente, porque me diverti como nunca e eu beijei o mocinho na música romântica. – Falei, lembrando-me do dia, sorrindo involuntariamente com a memória.
– Divertiu-se mais do que nas baladas de L.A e daqui? – perguntou-me com um olhar de desafio, fazendo-me dar de ombros.
– Não, mas foi legal mesmo assim.
O garçom se aproximou de nós e nos perguntou se já havíamos decidido o que iríamos comer. Cada um de nós fez o pedido e ele se retirou do local.
– Já que mencionou as baladas, diga-me, por que você vai tanto nelas? Deve ter no mínimo umas três manchetes suas em baladas diferentes a cada fim de semana. – Disse como se não quisesse nada, quando, na realidade, estava morta de curiosidade para perguntar aquilo ao menino.
– Simples, eu acho divertido. É um bom lugar para esfriar a cabeça, tomar algumas bebidas e achar alguma menina interessante. – Revirei os olhos com a resposta previsível de . – E você?
– Gosto de dançar, e é a forma que encontrei de fugir um pouco da loucura de Hollywood, nada demais. Não vou à balada para procurar companhia. – Falei sem pensar.
– Você não é muito de companhia, né? – O garoto disse de uma vez, fazendo-me abrir a boca com o quão direta era aquela pergunta.
– O que quer dizer?
– Quero dizer que nunca vejo nenhuma informação sobre você namorar ninguém. – Ele disse com um aparente tédio.
– Ah, não sei, eu não colocaria nessa perspectiva. Não é que não curta companhia, mas, para mim, as coisas têm que ser tudo ou nada. – Falei, explicando ao garoto como a minha cabeça funcionava. Afinal, ele havia deixado subentendido, a meu ver, que queria entender as razões por detrás das minhas ações tão criticadas pela mídia. – Ou eu vou me envolver seriamente com alguém e vai ser algo exclusivo, ou eu vou só ter uma noite de diversão. Não vou me envolver com ninguém que eu ache que não vai dar certo e que vá me machucar.
– E por que não? – me perguntou, aparentemente curioso.
Ele estava com a cabeça apoiada em sua mão direita e me olhava atentamente enquanto eu falava. Fiquei um pouco desconcertada com a atenção que estava recebendo, mas encontros serviam para isso, não? Mesmo que falsos.
– Porque é perda de tempo. Se não tem futuro, não há razão para que eu lide com os problemas do relacionamento, prefiro ficar só com a parte fácil, se é que me entende.
– Faz sentido, se pensarmos por esse ponto de vista, mas eu ainda acho que não há muitas vantagens nisso tudo. – rebateu toda a minha argumentação antes de beber um pouco do seu vinho.
– E por que não? Eu nunca tive o meu coração quebrado e nunca precisei enfrentar tempos ruins com alguém que estava irritando-me. Eu caio fora muito antes de tudo, na verdade eu nem entro em nada. É o melhor dos dois mundos. – Sorri e também tomei um gole da minha taça de vinho, que naquele momento já estava pela metade. balançou a cabeça negativamente e continuou a conversa.
– Mas você também nunca tem ninguém para quem reclamar quando alguma coisa vai errado ou para simplesmente estar lá para você num dia chato. – Falou como se fosse óbvio e como se fosse motivo o suficiente para que quebrar toda a minha linha de pensamento. – E dá para aproveitar a parte boa por muito tempo antes dos problemas aparecerem, acredite.
– É isso o que você faz, então? Aproveita tudo de bom antes de simplesmente acabar com o que quer que seja? – Perguntei tão direta quanto ele havia sido antes comigo.
– Basicamente, sim. Eu não estou procurando uma companheira para a vida, quero alguém para aproveitar, então quando eu começo a sentir que há mais problemas do que vantagens, eu simplesmente passo para a próxima. – Respondeu simples, sorrindo em seguida.
, isso é muito cruel. Você é pior do que eu! Eu não iludo ninguém para depois deixar a pessoa na mão, você deve quebrar o coração dessas meninas todas as vezes. – Falei, olhando para ele de uma forma severa, como se o repreendesse.
pareceu ter percebido a minha intenção e tratou de se explicar.
– Não é bem assim, . Eu sempre deixo bem claro para qualquer garota como as coisas funcionam para mim, e na maior parte das vezes nós até terminamos civilizadamente. É um relacionamento que dá certo para os dois lados e que, quando termina, é meio que para deixar as coisas positivas para ambos.
– Hm, não sei se consigo ver dessa forma. – Disse, sincera, tentando me colocar no lugar das garotas que ficavam com ele nos termos que haviam sido expostos.
– É por isso que nós dois somos o melhor casal falso possível. – me olhou com um sorriso animado e eu fiquei confusa com aquilo. O que as nossas formas malucas de lidar com os relacionamentos anteriores teriam a ver com nós dois e o nosso falso namoro? O garoto pareceu notar a minha confusão e logo se pôs a falar. – Eu gosto de namorar no meio termo, quero alguém que não exija demais e nem de menos, você, em compensação, quer 8 ou 80. Nós somos totalmente incompatíveis, então nos juntar é perfeito. É impossível que essa coisa evolua para algo a mais o que o envolvimento falso. Não tem como dar errado.
Quando terminou de falar, percebi o seu ponto. De fato, se olhássemos atentamente, era evidente que em situações normais nós jamais nos envolveríamos, mas, por alguma razão, a forma decidida com a qual ele vociferou aquelas palavras me incomodou. Por bem ou por mal, era chato ouvir alguém dizer com tanta certeza que nunca ficaria com você, independentemente do motivo para isso. O meu ego, ao invés de ter sido massageado, sofreu um baque.
– É, eu acho que não. – Respondi, seca.
Mudei de assunto rapidamente, a fim de evitar que o clima ficasse ruim entre nós por minha culpa. não pareceu ter percebido nada de errado e continuou falando animado sobre qualquer bobagem. Alguns minutos depois eu já tinha decidido deixar para lá o meu incômodo e conversava animadamente com o garoto à minha frente, falar com ele era fácil e natural. era engraçado e sempre parecia ver o lado bom das coisas, seu jeito despreocupado de contar histórias e de brincar com o que acontecia ao seu redor me fazia sorrir mais do que o aconselhável em uma relação puramente profissional. Por mais diferentes que pudéssemos ser, tínhamos também muitos interesses em comum e eu mal percebi o tempo passar.
Quando o garçom se aproximou da mesa com um cardápio de sobremesas, fui rápida em agradecer e negar, , por outro lado, pediu o maior doce que estava disponível, exigindo duas colheres. Rolei os olhos no último pedido do garoto, muito embora estivesse tentando esconder um sorriso de lado. olhou para mim e arqueou a sobrancelha, antes de se manifestar.
– O que foi? – Falou, fazendo-se falsamente de desentendido.
– Eu não vou comer sobremesa, . – Respondi, óbvia.
Eu havia negado o cardápio sem nem mesmo dar chance de mudar de ideia, o que parecia evidente sobre a minha recusa em sequer considerar pedir algo.
– E por que não?
– Não estou com vontade. – Falei, dando de ombros.
– Duvido. Duvido que você simplesmente vá negar um bom pedaço de torta de chocolate com morango. – manifestou-se, divertido, arrancando um sorriso de mim.
– É, acho que vou passar sim. Meu personal me mata se souber que eu comi alguma coisa de fora da dieta, então não tenho muita escolha. – Assumi baixinho, um pouquinho envergonhada.
– Ah, , qual é? Para de se preocupar com tudo! Esse seu personal nem precisa ficar sabendo de nada. – Ele falou como se não ligasse para a minha desculpa que, internamente, eu sabia ser muito esfarrapada. – E não sei porque você liga para o que esse cara fala, afinal. Você está em forma e, sendo honesto, está mega gata assim, não precisa se privar de nada.
Senti minhas bochechas queimarem no segundo em que terminou de falar. Era um assunto sem pé nem cabeça, sim, mas ele havia me elogiado sem mais nem menos, por isso e eu tinha gostado. Decidi deixar toda a besteira que passava pela minha cabeça de lado e peguei a colher que estava na mesa à minha frente no intuito de demonstrar que tinha mudado de ideia. abriu um grande sorriso e eu arqueei a sobrancelha, curiosa. O meu ego havia acabado de se sentir um pouquinho melhor. Ponto para mim!
– Certo, eu me rendo à sua sobremesa só por conta do seu elogio, mas antes quero saber o porquê de você insistir nisso tudo? É só uma bobagem. – Falei, despreocupada, tentando deixar o elogio e a minha satisfação em ouvi-lo de lado.
– Gostei de saber que meu elogio te fez mudar de ideia. – Sorri com a sua resposta e o garoto continuou piscou de brincadeira. – E, já que me perguntou, você deveria saber que eu sou uma pessoa que ama doces e, já que estamos no nosso primeiro encontro, acho essencial que tenhamos o cardápio completo, desde o vinho até a sobremesa.
-, isso não é um encontro de verdade, não precisa se preocupar com a ideia de tudo ser perfeito ou algo assim. – Dei de ombros, tentando aliviar a pressão de um primeiro encontro que parecia ter colocado em seus ombros sem motivo algum.
– Eu sei que não estamos aqui para um verdadeiro encontro romântico, mas se vamos ter que fazer isso funcionar por uns meses, então que seja o mais legal possível para nós dois. – O garoto falou, mordendo o lábio, divertido, antes de prosseguir. – E podemos fazer disso o nosso primeiro encontro da amizade, o que acha? Eu posso me acostumar fácil com isso.
Ao ouvir a sugestão de , gargalhei. O garoto me acompanhou na risada e logo vimos o garçom se aproximar com o doce que havia sido pedido e com um olhar divertido no rosto. Tinha certeza que estávamos parecendo um casal de verdade, o que era ótimo. aproveitou o momento e pegou na minha mão que estava em cima da mesa, deixando-a entrelaçada à sua.
Por um segundo, arregalei os meus olhos com o susto que levei com o gesto, mas, quando percebi que mais pessoas no restaurante começavam a nos reconhecer ao longe, relaxei e entrei no teatro. Aumentei o sorriso o máximo que pude, muito embora ele já estivesse genuinamente grande, e o olhei do jeito mais apaixonado que consegui. Percebi que ele fez mais ou menos a mesma coisa do seu jeito particular e automaticamente pensei em quão bons nós éramos naquilo. Se a imprensa não comprasse a nossa história de amor, eles seriam loucos.
Soltei a mão de delicadamente e a direcionei para colher que estava à minha frente, pegando um pedaço do doce e assistindo o menino fazer o mesmo. O gosto estava realmente bom, mas, melhor do que isso, era o semblante satisfeito do garoto o ver que eu realmente tinha apreciado a sobremesa que ele havia escolhido. Arqueei a sobrancelha com curiosidade e, após comer mais um pouco, resolvi falar.
– Certo. Essa sua admiração pelo fato de eu estar comendo não é normal e eu estou começando a ficar sem graça. Você está me olhando de um jeito estranho. – ouviu minha frase e sorriu de lado, sapeca. – O que tem entre você e doces que ainda não entendi? Não pode ser só porque você gosta de comer isso aqui.
– Ora, ora. Somos amigos há tão pouco tempo e você já consegue dizer quando estou escondendo alguma coisa. Estou surpreso, , e sei que isso não faz parte dos seus dons naturais para a atuação. – Falou, brincalhão, arrancando uma risadinha baixa de mim.
– Eu tenho um talento natural para identificar quando as pessoas têm mais informações do que aquelas que me revelam, . E você é particularmente fácil de decifrar. – Pisquei o olho, divertida, e mordi os lábios, provocando-o de brincadeira. – Agora desembuche, qual é o seu problema?
– Eu não diria que tenho um problema, por assim dizer. Assim como você, eu tenho um talento natural pouco conhecido por aí. – Retrucou, misterioso, fazendo a minha feição mudar de divertida para curiosa.
– O que quer dizer?
– Sou um ótimo confeiteiro. Cozinho doces, tortas e qualquer coisa que me der na telha e que seja uma boa sobremesa. Vou à restaurantes e provo aquilo que me chamar a atenção, como esse bolo aqui, para tentar reproduzir em casa. E faço isso com maestria. – abriu um sorriso, satisfeito e orgulhoso, e eu deixei transparecer minha admiração por aquelas informações. Não era nada demais, mas se o garoto estava sendo meio reservado quanto a isso, eu respeitaria. – Eu sei que parece bobagem, e é mesmo, mas eu não conto isso para muita gente e só cozinho para aquelas pessoas que realmente importam para mim.
– E você vai cozinhar para mim, por acaso? – Perguntei já interessada na comida.
Se era tão boa assim, como havia se gabado, eu merecia provar.
– Talvez um dia. Temos que nos conhecer muito antes que eu me sinta confortável com essa ideia. Mas, enquanto esse momento não chega, quero ver as suas reações com os doces todas as vezes que saímos para que eu descubra o seu paladar aos poucos, por isso insisti que coma hoje. Um dia posso te surpreender, .
Fingi pensar por um minuto ao mesmo tempo em que comia mais uma colherada do doce e fazia uma expressão de mistério, impedindo-o de entender o que eu estava achando.
– Ok, combinado, faremos isso então. Mas, como você fez toda essa propaganda, quero acelerar esse processo todo. Sugiro que a gente inicie um jogo de perguntas e respostas para manter a conversa. – Respondi enquanto olhava a boca do garoto, que agora estava cheia de chocolate, curvar-se em um sorriso. – Então, já que contou uma curiosidade sua, contarei-lhe uma minha e depois você tem direito a uma pergunta sobre mim. Depois que eu responder, a vez é minha, e eu perguntarei.
– Gosto da ideia, então pode começar a falar.
Passamos a próxima meia hora perguntando e respondendo às perguntas um do outro. As perguntas eram bem inocentes e versavam mais sobre interesses pessoais, família ou nossas perspectivas de carreira. Nenhum de nós se atreveu a perguntar coisas pessoais demais, talvez porque estivéssemos apenas nos conhecendo e tínhamos interesse em manter uma amizade saudável. Eu não tinha nenhuma pretensão em fazer se sentir desconfortável com aquilo que queria saber sobre ele e não queria ultrapassar barreira alguma em nossa recém construída relação. Talvez um dia.
No meio desse jogo besta descobri que a família de era do Arizona, estado vizinho à Califórnia, que ele tinha um irmão mais velho, já casado e com dois filhos, e uma irmã mais nova, que ainda estava no colegial. Ele havia se mudado com a mãe para Los Angeles ainda pequeno, como já havia me dito, e tinha vivido por lá até os 16 anos, quando decidiu vir para Nova Iorque, enquanto sua mãe retornava para o seu estado natal.
Já na cidade, viveu com um amigo e os pais dele por uns cinco anos, até finalmente comprar um apartamento seu. Trabalhou em muitos filmes nesse período e viu sua carreira decolar quando participou de uma saga teen, aos 18 anos, conquistando o coração do público adolescente. Hoje, tinha muito contato com sua família, mas não ia com frequência para casa por conta da distância.
Eu contei a ele que era de Long Island, filha única de um casal de empresários e que, embora vivesse perto de casa, mantinha pouco contato com os pais. Mencionei e nossa amizade de longa data para o garoto, e prometi que ele iria conhecê-la um dia desses.
Quando terminamos de comer e acertamos a conta – o que, na realidade, fez, já que se recusou a deixar-me pagar um centavo que fosse –, o garoto pegou na minha mão e me guiou para fora do restaurante, acenando para algumas pessoas que nos davam oi. Já na rua, percebemos que havia alguns paparazzi à espreita, esperando a nossa saída. Fingimos ignorá-los por fora, como se estivéssemos entediados com a atenção recebida, mas, por dentro, estávamos sorrindo com a repercussão tão desejada de nosso encontro. Nenhum de nós mencionou o plano de desenrolar um teatrinho romântico para aguçar ainda mais a curiosidade, o que honestamente me confortou. Talvez fosse cedo para isso também.
Entrei no carro de quando esse abriu a porta para mim, e logo que me dei conta, já estávamos saindo da região, em direção às nossas casas. O garoto me deixou em casa cerca de 20 minutos depois e se despediu de mim com um sorriso e um tímido “obrigado”. Eu agradeci em resposta e entrei em casa sorrindo. A noite havia sido muito melhor do que eu imaginei a princípio.

Estava apenas de calcinha e sutiã, cantarolando uma música pop qualquer na cozinha de casa, enquanto preparava meu almoço de domingo, quando escutei a campainha da minha casa tocar estridente. Bufei, impaciente, pela distração e pela inconveniência de quem quer que fosse que estivesse à minha porta e fui em direção a ela, sem nem mesmo me importar em me cobrir. Quando cheguei mais perto da entrada, gritei, perguntando quem estava lá, ouvindo a resposta alta de do lado de fora da casa.
Rapidamente deixei a garota entrar no recinto e, no momento em que direcionei o meu olhar para o seu rosto, pude ver a sua expressão de fúria. Fingi não perceber sua raiva e virei-me de costas, caminhando em direção à cozinha novamente, enquanto dizia a ela para ficar à vontade – não que eu precisasse passar esse recado.
A garota pareceu ignorar as minhas palavras e seguiu-me a passos firmes, apoiando suas mãos na bancada da cozinha assim que chegou no local. Eu continuava agindo normalmente, tentando ganhar tempo, mas podia ouvir bufar de dois em dois segundos atrás de mim.
– Quando é que vai olhar para mim? – Ouvi a garota perguntar com uma voz que transmitia mágoa e raiva.
Suspirei e virei-me de frente para ela, com um sorriso tímido no rosto.
– Prontinho. Tudo bem com você? – Falei, soando simpática, tentando acalmá-la um pouco. Eu sabia a razão de sua raiva, óbvio, mas esperaria ela dizer alguma coisa para poder me explicar.
, corta essa. Sem simpatia para o meu lado hoje, ok? – Ela virou os olhos, fazendo-me abaixar a cabeça e continuou. – Eu quero é saber o porquê de você esconder que está namorando o ?
– Eu não escondi nada de você, . Disse que estávamos conversando e conhecendo-nos. Fui sincera quando falei que não tínhamos nada naquele dia.
– É, mas e daí? Custava você ligar para contar que a conversa havia evoluído para alguma coisa mais real? Você sabe o quão chato é acordar e ver na internet que a sua melhor amiga teve um encontro romântico com um cara famoso e nem se deu ao trabalho de compartilhar isso com você? – A menina parecia genuinamente chateada, e eu estava com o coração partido por ter que sustentar uma grande mentira para ela a partir daquele momento.
A verdade é que eu não tinha contado nada do jantar para porque queria adiar o teatrinho o máximo possível, mas talvez essa não tenha sido a melhor ideia que já tive.
– Eu sinto muito, não tive a intenção de esconder nada de você. me chamou para sair na noite anterior, e eu fiquei tão nervosa que mal raciocinei. Eu juro que foi só isso. – Menti descaradamente.
– Hm... Isso não muda o fato de que eu fui totalmente esquecida por você e fui obrigada a descobrir por terceiros.
, desculpe-me mesmo. Eu prometo que daqui para frente te conto qualquer coisa relevante que acontecer entre nós. – Disse meio manhosa, buscando o seu perdão.
Assisti a garota virar os olhos, caminhar para um armário do lado da geladeira, abri-lo e pegar um salgadinho antes de se jogar na cadeira do balcão, analisando-me de cima a baixo.
– Não vou te perdoar, que isso fique claro, mas aceito saber as novidades em primeira mão. – A garota disse, ainda de boca cheia, apontando uma batata para mim.
Revirei os olhos e dei as costas para a menina novamente, continuando a preparar o meu almoço como se nada tivesse me interrompido.
– Agora você está fazendo tempestade em copo d’água. Reconheço que dei uma grande mancada, mas não é para esse drama todo.
– Não estou nem aí. Eu estou chateada por ser a última a saber da novidade e acho que estou no meu direito de ficar assim. Sinto muito se você acha exagero, mas vou continuar jogando isso na sua cara até que me recompense com uma informação superexclusiva. – Rolei os olhos com a sua fala e deixei-a terminar o seu discurso. – Por Deus, eu sou sua melhor amiga, mereço ter algumas vantagens.
– Tudo bem, tudo bem. Da próxima vez que algo grande acontecer entre nós dois, aviso-lhe.
pareceu aceitar bem o nosso “trato” e mudou rapidamente de assunto, contando-me dos seus dias na faculdade e do novo enfermeiro com o qual ela estava saindo. Aparentemente era só um rolo, mas a garota parecia estar animada, então ouvi com atenção toda a sua história.
Embora fosse minha melhor amiga, era o exato oposto de mim no quesito “homens”. Enquanto eu preferia manter todos os meus rolos o mais discreto possível, ela gostava de contar todos os detalhes para quem se interessasse em ouvir, e, bem, eu me divertia com isso.
– E então ele pegou na minha mão e simplesmente me convidou para conhecer os seus pais no próximo fim de semana. Eu fiquei um pouco assustada, já que estamos ficando há umas duas semanas só, mas aceitei porque não tenho nada melhor para fazer. – disse e eu ri da história e também da sua facilidade em simplesmente começar um relacionamento do nada.
– Mas você gosta dele? – Preguntei genuinamente interessada, enquanto sentava em sua frente para esperar a comida, que estava agora no forno, ficar pronta.
– Não ainda, mas ele é legal e, bom, é espetacular na cama, então estou gostando de sair com ele.
– Bom, você já tem meio caminho andado.
– Mas e você e esse aí, como estão? Digo, pelo o que vi na internet, vocês estavam divertindo-se muito ontem, mas, como você não me contou nada, não pude ter certeza se deveria ou não acreditar no que estava escrito. – A garota arqueou a sobrancelha com curiosidade e eu sorri fraco.
– Ah, nós estamos bem. Estamos conhecendo-nos melhor ainda, então as coisas não estão indo muito rápido, mas ele é uma ótima companhia e é bem engraçado também. Somos extremamente diferentes na visão de mundo e coisas assim, mas acho que nos complementamos, sabe? Não sei quanto tempos vamos durar, mas estou feliz agora.
– Nossa, quem diria? finalmente aceitando ficar com alguém sem precisar ter um milhão por cento de certeza que as coisas vão dar certo. Esse cara realmente mexeu com a sua cabeça, hein? – Fingi estar desconcertada com sua pergunta e virei o rosto para o lado, evitando olhar diretamente para os seus olhos.
Eu estava mentindo descaradamente e a menina me conhecia bem demais, o que me fazia temer pela possibilidade dela descobrir que algo estava fora do lugar.
– É claro que não, . Continuo a mesma idiota controladora e sem coração de antes, só estou dando uma chance para o talvez. Não é como se eu estivesse aceitando um relacionamento meia boca com ele, estamos dando 110% de nós aqui. É por isso que tudo está indo devagar, sabe? Quero garantir que ele está na mesma página que eu. – Desconversei um pouco, tentando contornar a situação. De fato, como havia dito, em situações normais nós dois não estaríamos juntos, então eu entendia por achar que o garoto estava mudando a minha forma de pensar. – Mas, vamos mudar de assunto. Eu mal comecei a sair com o e você já quer um relatório completo. Pega leve, querida.
– Tá, tá, vou deixar passar dessa vez, mas só porque não quero ser a responsável por te fazer pensar demais nesse seu rolo. – falava gesticulando, como se estivesse deixando pra lá esse assunto.
– Namoro. – Falei simplesmente, corrigindo-a.
– Calma, vocês estão namorando já? Já chegaram nesse rótulo?
– É, acho que sim. Não tinha sentido ficar chamando de outra coisa se estamos agindo como um casal.
– Surpreendente. Se eu não te conhecesse há anos, diria que é outra pessoa. – A garota falou antes de levantar e caminhar até um armário, pegando um copo e enchendo-o de água na pia. – Bom, estive pensando aqui e queria saber se não podemos fazer um encontro duplo algum dia dessa semana? Eu e Alexis, e você e .
Pensei por um minuto antes de responder . A verdade é que não, eu não queria que a menina conhecesse antes de que eu mesma me acostumasse com a ideia de tê-lo como alguém íntimo a mim, e também não estava tão interessada em conhecer o seu acompanhante ainda. No entanto, um encontro duplo com a minha melhor amiga era tudo o que e eu precisávamos para manter nosso romance interessante para o público. Sairíamos mais uma vez e, de quebra, meu namorado estaria conhecendo a minha melhor amiga, o que dava um ar de veracidade pra coisa toda.
Dei de ombros e respondi a garota com um falso ar de dúvida.
– Eu acho que tudo bem, quero dizer, por mim tudo bem, eu só teria que ver com o se ele está de acordo. Mas, a princípio, escolhe algum lugar legal para irmos.
– Ótimo, vou pensar em algo então.
Sorri para e levantei-me, indo até o forno para retirar o prato que eu havia colocado lá dentro há alguns minutos. Coloquei a comida em cima da bancada da cozinha e peguei dois pratos para que nós duas pudéssemos comer juntas. Eu sabia que a menina iria acabar passando a tarde em minha casa – afinal, era nosso dia de filmes e pipoca – e ficava feliz de poder contar com ela em todas as horas, mesmo quando eu estava sendo uma verdadeira vaca por detrás de tudo.
A tarde passou devagar e preguiçosa, nós não havíamos feito muita coisa, mas tínhamos certamente conversado sobre os mais diversos assuntos. ainda não me havia mandado mensagem após o jantar do dia anterior, então achei melhor começar uma conversa amigável com ele a fim de informá-lo sobre o jantar dos próximos dias. estava superenvolvida em alguma discussão com o seu rolo e parecia brava o suficiente para que eu nem cogitasse perguntar nada. Ela mal percebeu quando me levantei do sofá da sala e comecei a digitar em meu celular, um pouco incerta de como prosseguir.
Comecei a conversa o mais diretamente que consegui, agradecendo pelo jantar do dia anterior e dizendo que havia me divertido. , como sempre, foi rápido em sua resposta, dizendo-me que não havia sido nada e que deveríamos repetir a dose. De fato, deveríamos mesmo, pelos negócios, pelo menos.

:
Acho que teremos que repetir mesmo. Vi que as notícias de ontem estão bombando!
, inclusive, veio aqui hoje para mencionar que tinha descoberto sobre nós assim. Eu só havia dito que estávamos conversando até então...

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Bom, então a coisa toda está dando certo, né? Ainda bem.
Quem sabe assim o Adam não larga do meu pé.
E espero que sua amiga não tenha ficado tão brava com você. Eu certamente ficaria.

:
Na real, ela ficou um pouco, sim, mas já consegui me desculpar.
Quanto a tudo dar certo, é só continuarmos aparecendo juntos para deixar o interesse do público em nós grande.
Ah, e quer jantar com a gente nessa semana. Ela está saindo com alguém e queria me apresentar a pessoa. Seria uma boa oportunidade para que ela te conhecesse também, se você topar.

:
Acho que não tenho muita escolha, não é?


Muito embora a resposta de fosse verdadeira, parei imediatamente de sorrir quando a li. Nós tínhamos mesmo que sair o máximo de vezes possível nesse início de namoro, mas queria também que as coisas fossem divertidas para nós dois, não que parecesse uma obrigação.

:
Não precisamos ir se você não quiser, de verdade. Não tem problema algum...
Não quero que se sinta pressionado ou obrigado a sair comigo sempre. Podemos fazer um cronograma de passeios para que fiquemos mais à vontade.


Demorei um segundo para pressionar o enter da mensagem, mas finalmente o fiz. Não queria que o garoto se sentisse no dever de sair sempre que eu sugerisse, até porque eu não mesma queria ter a liberdade de negar qualquer convite que me fosse feito. Suspirei e larguei o celular em cima do sofá e fui procurar , que agora andava freneticamente de um lado para o outro da minha cozinha.
– Tudo bem? – Perguntei, curiosa, enquanto via a garota digitar com raiva.
– Tudo ótimo, às mil maravilhas. Estou só um pouco brava, porque o idiota do Alexis vai sair hoje à noite e nem se deu ao trabalho de me avisar.
– Ah, sim. Você ao menos perguntou o porquê de ele não ter dito nada? – Disse simplesmente, só para vê-la olhar para mim de forma mortal. Seu rosto deixava claro que eu não deveria me manter fora disso, então apenas levantei os braços, como se me rendesse. – Não está mais aqui quem disse, foi mal.
– É, é bom não estar mesmo. Mas, para sua informação, ele me disse que acabou de ser convidado, por isso não tinha falado porcaria nenhuma e bla bla bla. Eu não estou nem aí, estou brava. – bufou impacientemente e eu ri. Havia duas explicações para o seu comportamento: ciúmes ou raiva por ter sido deixada de lado. Eu apostava na última. – E o seu celular está tocando, caso não tenha percebido.
Eu não tinha. Corri para a sala em busca daquele aparelhinho maldito, atendendo-o sem nem mesmo olhar na tela quem é que estava ligando.
– Alô? – Falei um pouco ofegante pela corridinha que tinha dado.
– Oi, sou eu.
– Hum, quem?
. – O garoto disse baixinho, como se estivesse incerto quanto a ligar para mim. – Achei que tinha meu número salvo por aí.
– Ah, oi , tudo bem? Não sabia que iria me ligar, desculpa a demora. – Disse, sentando-me no sofá para ficar mais à vontade. – Eu tenho o seu número, sim, é que estava longe do celular, então respondi a ligação sem checar o número.
– Pude perceber, acho que liguei umas duas vezes antes de você atender. Pensei que estava brava comigo. – Ele sussurrou a última parte, deixando-me confusa com a afirmação.
– Brava, por quê? – Perguntei, mordendo minha unha, incerta e honestamente curiosa com a confissão.
– Pela sua última mensagem para mim, parecia que você não tinha gostado do que disse quando concordei de sairmos com a sua amiga. – O garoto soprou no telefone, parecendo um pouco nervoso.
– Não, eu não fiquei brava com isso! Só quis te deixar confortável para dizer que não queria ir, porque achei que você estava concordando por necessidade, só porque temos que ser vistos juntos, sabe? – Suspirei audivelmente e esperei dizer alguma coisa. Quando ele não o fez, continuei falando. – Não quero que você sinta como se precisasse aceitar qualquer proposta minha, quero que leve todos os nossos programas como diversão também.
– Ei, eu estou me divertindo, sim, fica tranquila. Quando respondi que estava sem escolha, quis apenas brincar com essa situação toda, não era porque não queria ir. Se eu estivesse desconfortável, eu falaria. – falou e eu abri um sorriso. Ele não estava reclamando de ter que sair comigo, afinal, e havia se preocupado com a possibilidade de eu ter ficado brava com ele pela interpretação errada da resposta. – Desculpa se te fiz pensar que eu estava aceitando por obrigação, ontem à noite foi ótimo, não pareceu nada armado. Ficaria feliz de repetir.
– Quem tem que pedir desculpa sou eu, por te ter feito pensar que estava chateada por uma bobagem dessas. Mesmo que você estivesse falando que não me aguentava mais, você estaria no seu direito, e eu aceitaria sem reclamar. Eu sou mais forte do que pensa, garanhão. – Ri sozinha na sala e ouvi me acompanhar do outro lado da linha. apareceu de repente, olhando para mim com um semblante confuso, e eu tampei o microfone do celular para escutar o que a garota tinha a falar.
– Você está falando com quem?
. Por quê?
– Hum, deveria ter imaginado. Bom, estou indo para o bar com o Alexis, ele acabou de me convidar. – A garota disse com um sorriso enorme no rosto e eu me segurei para não rir da sua reação. De fato, sua raiva para com o garoto era por não ter sido convidada para sair. Típico de . – Você quer ir?
– Eu acho que não, estou meio cansada. – Menti, mas não estava mesmo no clima de ir para bar nenhum.
– Cansada, sei. Você está é ocupada com o namorado. – riu e eu sorri envergonhada. – Tudo bem, não tem problema. Nos vemos durante a semana, certo? – Assenti com a cabeça e vi a garota pegar sua bolsa perto do sofá.
Veio, então, até mim, deu-me um beijo na testa e acenou antes de abrir a porta e fechá-la, deixando-me sozinha.
Tirei a mão do microfone do telefone e voltei a minha atenção para o menino do outro lado da linha, que chamava o meu nome insistentemente.
, você está aí?
– Agora estou. Foi mal, tive que dar tchau para a . – Expliquei rapidamente.
– Ah, sim, isso quer dizer que você não ouviu minha pergunta, então? – Ouvi sua voz soar um pouco incerta, mas ignorei esse fato, afinal tinha rolado uma pergunta e eu não havia escutado.
– É, não escutei. Você pode repetir? Prometo que agora presto atenção. – Brinquei, mas não riu, então permaneci quieta também, dando a ele tempo de falar o que quer que fosse.
– Eu queria saber se você quer vir aqui hoje? Podíamos pedir uma pizza e jogar alguma coisa, se estiver afim. Não sei o que você gosta de fazer, na verdade, mas estou te convidando para vir até a minha casa.
Mordi o lábio por um momento, sem saber ao certo o que responder. Eu deveria ir? Talvez. Eu não tinha nada marcado à noite, então poderia fazer o que bem entendesse. Mas qual seria o ponto em ir até a casa de sem que fosse para chegar à primeira página do jornal? É verdade que poderíamos postar fotos nas redes sociais ou algo do tipo para manter a curiosidade acessa, mas não seria melhor sairmos, afinal? Por outro lado, eu poderia usar esse tempo para fazer com que nossa amizade evoluísse, poderia acabar por ganhar um amigo. Suspirei e decidi parar de pensar demais e só aceitar o convite.
– Hum, ok, legal, eu vou sim. Você pode me passar o seu endereço, acho que não o tenho por aqui?
– Ótimo, mando-lhe por mensagem, pode ser? – Concordei com um murmúrio e levantei-me do sofá para mudar de roupa e sair. – E que bom que você aceitou vir.
– Não, imagina. Mas eu queria dizer que faço questão de comer pizza, senão eu nem saio de casa. – Brinquei e ouvi rir do outro lado da linha.
– Bom, eu que sugeri, não é mesmo? Te espero e pedimos juntos, certo?
– Certo. Nos vemos logo.
desligou, depois disso e eu fui ao meu quarto fazer o que precisava ser feito, antes de pegar um táxi e me dirigir a sua casa.


Capítulo 4


tinha os olhos meio fechados e olhava-me com descrença, enquanto virava sozinho o copo de cerveja em suas mãos. Eu ri da cena com vontade, ainda que na realidade não tivesse nada de realmente divertido naquilo. Nós dois estávamos sentados frente a frente no carpete da sala da casa do garoto, em meio a uma caixa de pizza e algumas garrafas de cerveja vazias. Outra garrafa, dessa vez cheia, permanecia entre nós e era usada para encher o copo de vidro que segurávamos.
Muito embora não fosse o plano inicial da coisa toda, a conversa do jantar acabou levando-nos a uma pequena partida íntima de “eu nunca”, em que o perdedor virava um copo – de cerveja, claro – todas as vezes que já tivesse feito algo que tinha sido mencionado. Revezámos a vez um do outro para fazer o comentário, e eu já não sabia mais quem de nós tinha bebido mais.
– Eu não acredito em você.
– Sinto muito, , eu nunca acordei sem lembrar do que fiz no dia anterior.
– Duvido que a toda-festeira , a dona das baladas de Nova Iorque, não tenha esquecido alguma coisinha do que aconteceu nos seus dias mais loucos.
– Ei, eu não sou tão porra louca assim! – Fingi que estava ofendida e vi rir da minha cara, desafiando a minha afirmação anterior. – Assumo que ultrapasso o limite algumas vezes, sim, mas, para minha infelicidade, eu sempre me lembro das merdas que fiz. Parece que o meu subconsciente gosta de me ver envergonhada na manhã seguinte. Eu já perdi até as contas de quantas pessoas eu simplesmente parei de olhar na cara depois de extrapolar na noite anterior.
– Você é estranha. – Ele disse, colocando o seu copo no chão para tornar a enchê-lo. Acenei com a cabeça, como se concordasse com a sua fala, e dei de ombros. – Mas tenho que dizer que tenho inveja de você. Eu sempre esqueço o que fiz e no dia seguinte descubro pelos tabloides. Digamos apenas que não é o melhor jeito de saber que você fez besteira.
Dei uma risadinha baixa, em grande parte por conta da bebida, o que o fez arquear a sobrancelha em desafio.
– Você está rindo de mim, ? Achei que éramos cúmplices nisso aqui. Eu ainda vou descobrir os seus podres, mocinha.
– Fique à vontade, querido. Eu duvido que consiga descobrir alguma coisa que não seja de conhecimento público. – Brinquei e vi um sorriso passar pelos seus lábios. – O que está guardado a sete chaves comigo dificilmente vai sair. – Pisquei, marota, e vi o seu sorriso mudar para mais cafajeste.
– Estamos quites, então. Um dia talvez você tenha acesso ilimitado a mim, quem sabe?
– Isso foi uma cantada sexual? – Indaguei, já gargalhando. Quase instantaneamente ficou vermelho, mas não deixou o semblante de bad boy e o sorriso safado desaparecerem.
– A malícia está nos olhos de quem vê, ou, nesse caso, ouve. – Ele respondeu rápido, e a vez de ficar vermelha foi a minha, mas disfarcei tomando um longo gole da cerveja em minha frente.
– Epa, eu não tinha feito nenhuma pergunta para que você pudesse virar o copo! – O menino reclamou, antes de continuar. – É a minha vez, inclusive, e, bom, já que estamos mais apimentados agora, aqui vai. Eu nunca dormi com nenhuma co-star.
Pensei por um segundo se deveria ou não tomar a iniciativa e deixar a verdade escapar, ou se deveria fingir que nunca tinha feito nada disso. Não é como se fosse algo inédito no mundo do entretenimento, mas eu diria que era um pouco adepta demais a essa prática. Se algum colega desse abertura o suficiente para que eu investisse, e se eu percebesse ser algo recíproco, eu simplesmente ia em frente. Era sempre coisa de algumas noites só, mas era divertido mesmo assim. Além disso, se fizesse alguma diferença para – o que eu duvidava –, eu estava prestes a fazer parte de um filme em que o meu co-star era um grande conhecido dos meus lençóis.
Decidi deixar todo o pensamento bobo para trás e encarar o fato de que era só uma pergunta simples entre dois amigos. Eu não o deveria mais explicações mesmo, então revelar que um dia já tinha feito isso não seria automaticamente como abrir o livro da minha vida. Peguei o copo, que estava cheio novamente, e bebi com gosto, mantenho o meu olhar fixado no seu. piscou, travesso, e pareceu aprovar, mas eu só rolei os olhos.
– Você é surpreendente, . Achei que fosse daquelas que separa trabalho e romance. Sempre tão profissional nas entrevistas, quem diria que, por trás dessa fachada, há uma verdadeira romântica...
– E eu sou profissional, não falei em romance nenhum, você disse sobre dormir com alguém, e não sobre ter algo sério. – Disse como se fosse óbvio e dei de ombros.
– Oh, certo, você tem um ponto nisso tudo. – Ele pareceu pensar por um momento e franziu a testa, como se estivesse fazendo um grande esforço para se lembrar de algo. – Mas, enfim, quem era esse cara? É alguém que eu conheço? Eu estou tentando lembrar dos seus co-star nos filmes, mas confesso que não assisti grande parte. – disse, direto, e eu ri do seu interesse.
– Você por acaso decorou o catálogo dos projetos que eu já participei para poder lembrar de nome aqueles com quem atuei? – Brinquei, mas deixei claro com o meu tom que havia um pouco de verdade na questão.
Ele parecia realmente conhecer minha carreira, e eu estava interessada em saber o porquê.
– Não exatamente, mas já lhe disse que pesquisei sobre você antes de entrarmos nisso aqui. E, bom, se estamos namorando para o mundo, eu acho que deveria te conhecer bem o suficiente para que possa responder alguma questão caso eu seja perguntado.
Sorri com a sua resposta simples e concordei com um aceno de cabeça. Ele tinha razão. Se éramos algo sério, como tentávamos passar para a mídia, eu deveria saber o bastante dele para que fosse justificada a razão pela qual eu, a “solteira indomável”, rendi-me aos encantos do garoto. Eu tinha que entrar no papel de cabeça, assim como ele tinha feito.
– Bom ponto. Vou trabalhar nisso de te conhecer, então.
– Fique à vontade. – Ele sorriu, presunçoso, mas logo assumiu um ar brincalhão, que permaneceu durante as suas próximas frases. – Ficarei feliz de lhe contar o que quiser saber, eu sou um livro aberto. Agora pare de enrolar e responda a minha pergunta, mulher! Eu conheço o cara?
– Informação demais, garanhão. E, afinal, quem disse que foi um só?
– Bom, eu tinha que tentar. – Ele deu de ombros, divertido, e já encaminhou sua mão para o copo, como se estivesse preparando-se para o que estava por vir. – Sua vez de perguntar, já estou pronto para ouvir alguma coisa bem pessoal, se é que me entende.
Rolei os olhos com a brincadeira do garoto e pensei por alguns segundos o que poderia perguntar. Havia muita coisa que eu queria saber dele, é claro, mas eu deveria escolher algo que nunca fiz também. Abri um sorriso de lado quando uma pergunta boba transpassou a minha mente, e vi seus olhos se estreitarem em curiosidade.
– Vou lhe perguntar uma coisa bem pessoal, espero que não ligue ou fique constrangido. – Comecei, fingindo adotar uma postura de cautela, buscando provocá-lo, quando na verdade nada disso era necessário.
– Assim eu estou ficando nervoso, . – Ele respondeu, arqueando a sobrancelha.
– Estou brincando, não é nada demais. – Balancei a cabeça de um lado para o outro, como se o encorajasse a ficar tranquilo.
– Então vá em frente. – Ele sorriu e já encaminhou a mão para o copo, mas sem tocá-lo.
– É só que eu nunca me apaixonei.
ficou quieto por um segundo, encarando-me, como se estivesse esperando que eu dissesse alguma coisa adicional. Quando dei de ombros e apontei o copo, ele pareceu cair em si e soltou uma gargalhada alta, fazendo-me rir junto.
– Era isso? Ah, você me assustou sem motivo algum! Eu já pensei que era alguma coisa sexual e altamente constrangedora, combinação que, com certeza, faria-me virar o copo. – Dei uma risadinha com o seu comentário e esperei que ele continuasse. pegou o copo em sua frente e bebeu devagar, enchendo-o novamente logo em seguida. – Isso é algo muito simples e, como bebi, acho que ficou claro que já me apaixonei antes.
– Achei que a resposta fosse ser essa mesmo. Você é festeiro, mas me disse antes que é melhor cair fora de um relacionamento antes dos problemas começarem, então presumi que já tinha passado por problemas amorosos. Só isso explicaria a sua recusa em simplesmente querer 100% de alguém.
– É, acho que sim. A bebida está me deixando um pouco tonto e confuso, mas é meio por esse caminho mesmo. Namorei uma garota alguns anos atrás e acabei apaixonando-me por ela. Foi um caos. Não era recíproco, e eu não sabia, então, quando me declarei, ela surtou. – deu de ombros e entortou a boca, como se aquilo ainda o incomodasse um pouco. Sorri, cúmplice, numa tentativa silenciosa de dizer que sentia muito e ele acenou com a cabeça, agradecendo. – Ficamos juntos por mais algum tempo até ela simplesmente sumir um dia. Eu sofri como um cão e decidi, depois disso, que não namoraria sério nunca mais, que a vida seria uma eterna curtição. Acho que nessa parte eu fui bem-sucedido.
– Definitivamente bem-sucedido. – Concordei com a sua brincadeira na tentativa de animar um pouco o clima, mas, antes que pudesse começar um assunto aleatório, resolveu se manifestar.
– E você?
– Eu o quê?
– Você disse que nunca se apaixonou.
– Não, nunca me apaixonei. – Falei como se estivesse repetindo o óbvio. – Foi por isso que fiz a pergunta, oras. Não tenho história para contar.
– Eu sei, , quero saber o porquê. Se eu sou assim hoje porque me apaixonei, quero saber por que você é assim hoje se nunca se apaixonou, e por que nunca se permitiu a isso. – O garoto falou devagar, como se estivesse escolhendo cuidadosamente as palavras que iria usar comigo.
– Não tem uma razão específica, acredito que nunca conheci ninguém que pudesse quebrar o meu coração, ou, pelo menos, tê-lo. O meu jeito de hoje não tem nada a ver com isso, eu acho. Talvez eu me torne uma versão feminina de você depois que alguma coisa assim acontecer comigo, quem sabe?
– É, espero que não. Ser assim hoje é ótimo, mas o processo até isso foi uma droga, não queira experimentá-lo.
– Dica anotada. – Respondi, enquanto me levantava. Peguei o copo do chão e coloquei-o sobre a mesa próxima a mim, bati as mãos nas minhas pernas para limpar o local e cambaleei um pouquinho até o sofá, acomodando-me por ali. – Cansei de jogar. Acho que entrei na fase preguiçosa da bebedeira. Podemos só conversar um pouquinho? – Perguntei, fazendo um biquinho.
soltou uma risadinha e concordou com a cabeça, sentando-se no lado oposto ao meu.
– Ainda bem que sugeriu isso, acho que, se continuasse a beber tanto assim, iria acabar a noite com a cara dentro de uma bacia. – Ele brincou e eu ri baixo. – Estou falando sério, e você iria ser obrigada a cuidar de mim.
– Ah, sim, claro. Eu iria é dar o fora o quanto antes, isso sim. – O garoto estreitou os olhos em desafio e eu arqueei a sobrancelha, como se estivesse confirmando a minha fala.
– Você não seria capaz.
– Não mesmo, eu iria acabar passando a noite segurando a sua cabeça, muito provavelmente. Iria ser uma ótima forma de terminar uma noite entre amigos. – Brinquei e vi entortar a boca, como se desaprovasse a ideia.
– Falando em noite de amigos, quando é que vamos encontrar a sua amiga mesmo?
– Não sei. Ela tinha dito sobre irmos essa semana, se você puder, claro. – Disse, um pouco incerta com a ideia.
Eu sabia que ele havia me dito que não estava fazendo isso por obrigação, mas ainda me sentia um pouco incomodada de ter que pedir
– Qualquer dia funciona para mim. – Ele falou e sorriu, logo antes de sua expressão mudar para uma que demonstrava que ele lembrara alguma coisa – Eu tenho que fazer um convite a você também, inclusive. Um amigo fez parte do elenco de um filme que lança amanhã, vai ter um screening aberto à imprensa e uma festa privada em Chelsea. Ele me convidou e falou que posso levar alguém também, e, como estamos nisso de sermos um casal, achei que seria legal se você fosse comigo. Pode ser divertido também, eu acho.
– Pode contar comigo, eu vou sim. Quando é? – coçou a cabeça e deixou-a cair para o lado, respondendo logo em seguida.
– Depois de amanhã à noite. Sei que está um pouco perto, mas fui avisado esses dias também.
– Não tem problema, estou livre essa semana quase toda. Dou um jeito de arranjar uma roupa e coisas assim, não é grande coisa. – Respondi, sorrindo. – Sabe o que podemos fazer? Posso combinar de encontrarmos a no almoço ou durante a tarde, e então vamos juntos nesse evento. Acho que facilita bastante a dinâmica para nós dois.
– Por mim está ótimo.
– Legal, vou perguntar então se ela está disponível. – Peguei o meu celular e enviei uma mensagem à garota, explicando do nosso compromisso à noite e perguntando se ela e seu amigo/namorado/qualquer coisa gostariam de almoçar conosco.
A resposta não tardou a chegar, e, em meio a assuntos aleatórios, e eu acabamos escolhendo um café simpático para encontrarmos o casal, deixando tudo pré-marcado.
Ficamos conversando por mais um tempo, conhecendo um ao outro, falando sobre amigos em comum e sobre a indústria na qual trabalhávamos. era calmo e divertido, parecia conhecer metade de Hollywood e ser amigo íntimo de grande parte das celebridades mais conhecidas do mundo, mas, pelas ideias expressas, parecia, também, ser muito pé no chão, como se a fama toda não fosse nada além de um mero detalhe. Ele era, definitivamente, diferente do que eu me lembrava, e ainda mais diferente do que o personagem que a mídia pintava.
Quando percebi estar quase dormindo, decidi que era a hora de ir embora. Levantei-me do sofá, espreguicei-me e procurei minha bolsa com os olhos. assistia os meus movimentos sem dizer nada, parecendo estar cansado também.
– Eu acho que vou indo. – Anunciei o óbvio, vendo-o acenar afirmativamente com a cabeça.
Caminhei lentamente até a poltrona na qual minha bolsa repousava e a peguei, já direcionando meu corpo em direção à porta.
– Você pode ficar, se preferir. – Ouvi-o dizer e sorri.
Sabia que era um convite feito, um pouco, por obrigação e educação, afinal era tarde e ele morava em um grande apartamento sozinho. Eu ficar não o custaria nada. Só que, do meu ponto de vista, não havia necessidade de concordar com isso. Mesmo assim eu sorri, agradecida.
– Obrigada pelo convite, , mas acho que preciso ir mesmo. Vemo-nos depois de amanhã, de qualquer forma, certo?
– Posso te levar para casa. Está muito tarde para que você vá sozinha. – Ele falou, levantando-se e indo pegar a chave do carro num porta-chaves perto da porta de entrada.
– Não precisa, de verdade. Já pedi um táxi pelo celular. – Ele pareceu um pouco decepcionado, mas largou a chave em cima de uma estante perto de mim. – E não quero ser chata também, mas nós bebemos bastante. Não quero entrar num carro com você no volante. – Brinquei e o garoto deu uma risadinha baixa, parecendo concordar.
– Bom ponto. Te acompanho até a porta, pelo menos.
– Tudo bem.
Caminhamos juntos até a porta de sua casa. Ele a abriu e então olhou para a rua, a fim de checar se a minha carona havia chegado. Eu permaneci do lado de dentro, esperando, afinal fazia um pouco de frio lá fora, e eu não estava com vontade de aguardar no vento gelado. Esperamos cerca de cinco minutos até que o automóvel finalmente chegasse. fez questão de me acompanhar até a porta do veículo, e, embora eu não achasse necessário, aceitei.
– Muito obrigada pelo jantar e pelo convite, . – Agradeci, sincera, e inclinei-me para deixar um beijo em sua bochecha.
O garoto pareceu congelar com o gesto, a princípio, mas logo relaxou e sorriu.
– Não há de quê. Até logo, . Boa noite. – Retribuí o boa noite do garoto e entrei no táxi, que logo partiu em direção à minha casa.

O dia seguinte passou rápido como um raio. Eu não tinha compromissos marcados, mas isso não me impediu de correr atrás de algumas questões administrativas de projetos que eu fazia parte. Leitura do roteiro de um filme que estava por vir, confirmação de aparição em alguns comerciais e recusa de convites para eventos eram algumas das coisas nas quais decidi focar.
Larry também ocupou grande parte da minha tarde. Ele havia decidido ligar para me atualizar sobre alguns papéis que estava de olho e aproveitou também para se inteirar sobre meu relacionamento com . Contei a ele que estávamos nos dando bem e que já tínhamos, inclusive, planejado mais alguns encontros públicos para os próximos dias. Desempenhando seu papel de empresário, ele pareceu satisfeito com o jeito com o qual as coisas estavam indo e concordou quando eu disse achar que a mídia havia sido convencida sobre o nosso envolvimento. Escutei alguns conselhos de como ele acreditava que as coisas deveriam se desenvolver dali, mas fiz questão de deletar todos da minha mente logo após desligar o telefone. e eu faríamos isso como quiséssemos, sem seguir nenhum manual de instruções.
Durante a noite, combinei os poucos detalhes faltantes do “encontro duplo” com e deixei a par do que faríamos. Havíamos decidido que ele passaria em minha casa para me pegar e de lá seguiríamos juntos para o local marcado. Eu já tinha, também, deixado separada uma roupa e chamado um amigo maquiador para me ajudar a ficar pronta para o evento que iria com meu namorado mais tarde. Faríamos tudo na minha casa depois do primeiro compromisso, e estava, inclusive, com o seu terno no porta-malas do carro, para que pudesse se aprontar por lá também.
Na manhã do outro dia, não me obriguei a despertar cedo, mas isso não me impediu de estar de pé às 9 horas por livre e espontânea vontade. A verdade é que eu adorava uma festa, e fazia um tempo considerável que não ia em uma – desde a fatídica house party em que levei um tombo na rua, despertando a fúria do meu empresário e originando a razão para todo o resto do plano no qual estava metida agora. Eu não estava planejando perder a linha e nem nada disso, e sabia que, em festas de lançamento de filmes, as pessoas eram, geralmente, mais comportadas do que em baladas aleatórias, mesmo assim eu estava ansiosa para finalmente me jogar numa pista de dança e deixar o som de alguma música me levar.
De tarde, sem atraso de sequer um minuto do horário em que havíamos marcado, embicava o carro na calçada em frente à minha casa, com um grande sorriso no rosto. Ele estava vestido de forma casual, com uma calça jeans simples e uma camisa de pano leve, devido ao calor que fazia naquele quente mês de maio. Os vidros da frente estavam abaixados, o que me permitiu cumprimentá-lo antes mesmo que ele fizesse menção de sair do banco do motorista para abrir a porta para mim. Quando chegou perto de mim, o garoto inclinou-se para deixar um beijo estalado na minha bochecha, e eu apenas sorri com o gesto, entrando no carro em seguida.
Diferentemente da primeira vez que saímos juntos, dessa vez o caminho até o café foi tudo menos silencioso. Tínhamos nos visto há apenas dois dias, mas parecia que o assunto fluía com naturalidade entre nós dois, como se fôssemos verdadeiros amigos de longa data.
– Como é essa ? – perguntou, direto, e eu fiquei um pouco confusa com a pergunta.
– Você quer dizer fisicamente ou...?
– Deus, não. De jeito, quero saber como é o jeito dela! Só para que eu não fique tão perdido assim quando encontrá-la. – Assenti afirmativamente com a cabeça, finalmente entendendo o que ele queria dizer, mas, antes que iniciasse a explicação, ele ainda fez um último comentário. – Eu não daria em cima da sua amiga.
– Bom, ainda bem, porque ela realmente acredita que estamos juntos, e isso seria um pouco estranho. – Brinquei para que ele se sentisse menos incomodado com a ideia de dar em cima de . – Ela é expansiva, mas muito divertida. É bem cara de pau quando quer e nunca leva desaforo para casa. Acho que é o tipo de garota que sempre tem uma opinião sobre tudo, independentemente do que seja, então você sempre vai ter assunto com ela, se quiser. Ela é minha melhor amiga há anos e sabe basicamente a minha vida inteira e todos os meus segredos. Bom, quase todos. – Acrescentei, lembrando-me da mentira que sustentava atualmente. – De qualquer forma, espere um interrogatório, porque ela vai querer te conhecer por inteiro, mas não precisa ficar acanhado também, porque senão ela pega no pé.
– Com essa descrição, ela parece legal.
– E é, eu a amo muito. Com nunca tem dia ruim.
– Mas, desculpa perguntar, , mas se ela te conhece tanto assim, como é que você acha que pode sustentar um relacionamento falso? Será que ela não vai perceber? Não seria melhor contar direto?
Seria, é claro que sim, mas nós tínhamos combinado que não iríamos falar disso para ninguém, e eu tinha cumprido a minha parte, deixando a minha amiga alheia à verdade. Eu torcia com todas as minhas forças para que ela não percebesse que havia alguma coisa estranha entre e eu, e, para isso, colocaria em ação todos os meus dons de atuação. Dei de ombros para as perguntas do garoto e estalei os lábios antes de responder.
– Vamos descobrir isso em alguns minutos, então temos que ser bem convincentes nessa coisa toda.
– Tudo bem. Tenho passe livre para fazer o que precisar, então? – Ele me olhou de canto, mantendo parte de sua atenção no trânsito à sua frente e a outra parte em mim.
– Você sempre tem passe livre quando estamos em público. – Disse como se fosse óbvio, mas não sem acrescentar em tom safado para provocá-lo. – Isso é, se for algo decente, é claro.
gargalhou e sorriu de lado, como se alguma coisa não adequada tivesse cruzado a sua mente. Eu arqueei a sobrancelha em curiosidade, mas como ele não estava olhando para mim, não viu o gesto.
– Isso é uma pena, eu tinha tanta coisa para fazer, mas acho que vou ter que deixar para lá.
– É só não fazer na frente de ninguém, então. Eu não proibi nada, afinal de contas. – aproveitou que tinha parado no farol e me olhou descrente e chocado. Eu só pude gargalhar e chacoalhar a cabeça, como se estivesse negando a minha fala anterior.
– Eu estava brincando só, não precisa ficar com medo. – Disse, ainda em meio a risadas.
– Eu definitivamente não estou com medo, só fiquei surpreso pela sinceridade e pelo convite implícito nela.
– Bom, sinceridade é tudo num relacionamento, e, como hoje seremos um casal por tempo quase integral, só joguei conforme as regras do jogo. – Ele riu e eu apenas sorri, virando-me para a janela apenas para constatar que estávamos já na rua do local combinado.
Quando o carro foi totalmente parado, fui rápida em abrir a minha porta e parar na calçada, à espera do garoto. Ele rapidamente parou ao meu lado, pegou na minha mão e olhou para o meu rosto como se esperasse algo.
– O que é? – Perguntei, querendo descobrir qual era o problema.
– Ela já está aí? – Ele respondeu como quem não quer nada, e disfarçou um pouquinho ao começar a andar, puxando-me em direção ao café.
– Ah. – Passei a procurá-la com os olhos através do vidro do local, sem sucesso em, de fato, encontrá-la. – Não, acho que ainda não.
– Vamos entrando, então, pode ser? Ou você quer esperar por aqui?
– Não, vamos lá. – Respondi, já empurrando a porta de vidro e adentrando o local.
Escolhemos uma mesa no canto, longe da maior concentração de clientes, numa tentativa de conseguir mais privacidade.
sentou-se ao meu lado, mas não soltou a minha mão. Ele virou-se de lado na cadeira e começou a brincar lentamente com os meus dedos, como se aquele jogo bobo realmente estivesse o divertindo um pouquinho. Fiquei olhando para ele sem dizer nada, apenas permitindo que ele fizesse o que quer que estivesse planejando. Uma garçonete se aproximou e perguntou se queríamos ver o cardápio, eu concordei apenas para que ela saísse dali antes de nos reconhecer, e agradeci mentalmente quando ela apenas deixou-o em cima da mesa e se retirou rapidamente.
Sem que eu sequer percebesse, o garoto se aproximou do meu rosto e levou uma de suas mãos para uma mecha de cabelo que caía em meu rosto, colocando-a atrás da orelha. Eu prendi a respiração sem nem pensar, na expectativa do que poderia acontecer em seguida. Se me perguntassem o que eu pensava estar prestes a ocorrer, eu diria, com certeza, que ele me beijaria ali pela primeira vez, mas, diferentemente do que eu pensei, ele apenas aproximou o seu lábio do meu ouvido e sussurrou por ali.
– Acho que a sua amiga chegou. Vi uma mulher apontar em sua direção alguns segundos atrás e ela está andando diretamente para cá. – Sua voz estava mais grave do que eu lembrara de ser, e o seu hálito quente batendo em meu ouvido me fez ficar um pouco desnorteada.
Concordei devagar com a cabeça e afastei-me dele, abrindo um sorriso numa tentativa desesperada de entrar no personagem de volta. Depositei um beijo molhado em sua bochecha e virei-me para o lado oposto em tempo suficiente de ver chegar até nós.
– Finalmente encontrei o casal. – Ela falou, animada, inclinando-se para me abraçar e esticando a mão para em seguida. – Estava achando que nunca os veria juntos.
, não exagera. Não faz nem uma semana que e eu saímos juntos em público pela primeira vez. Você é, literalmente, a primeira pessoa que sai com a gente. – Rolei os olhos e estiquei a minha mão para cumprimentar o homem que estava atrás dela.
– Que seja, ainda acho que eu poderia tê-los visto antes, mas tudo bem. Esse aqui é Alexis. – Ela disse, introduzindo o garoto, e e eu nos apresentamos também.
e o garoto sentaram-se logo em seguida em frente a nós. A garçonete voltou com mais cardápios e minutos depois nós já tínhamos pedido e procurávamos conhecer uns aos outros. Alexis era gentil e tímido à primeira vista, mas, depois de cerca de trinta minutos de conversa, ele já tinha se soltado o suficiente para fazer piadas e dar altas risadas com as bobagens que minha amiga dizia.
parecia estar se divertindo também, fazendo um ou outro comentário besta, simplesmente inteirando-se no grupo como se fosse parte dele há séculos. Eu permaneci a maior parte do tempo ouvindo e rindo. Ria das histórias que nos contava, ria das bobagens que seu ficante-ou-qualquer-coisa dizia e ria também das palhaçadas que fazia com os dois.
Vez ou outra eu olhava para a fim de tentar decifrar o que ele estava achando daquilo tudo, e uma ou duas vezes nossos olhares se cruzaram, fazendo-o sorrir para mim. Depois do que me pareceu uma hora, e Alexis engataram uma conversa sobre esportes e eu me virei para , encontrando-a com a sobrancelha arqueada e um sorriso de lado.
– O quê? – Perguntei, confusa.
– Então é sério mesmo isso entre vocês. – Ela disse, divertida.
– Eu lhe falei que era, oras. Você sabe que eu jamais namoraria alguém que não estivesse mergulhado de cabeça no relacionamento, sabe que para mim é sempre tudo ou nada.
– Eu sei, mas achei que talvez você estivesse se apaixonando dessa vez e tivesse aberto uma exceção para tudo isso. – disse, pegando na minha mão, apertando-a como se me confortasse. – Mas eu vejo que não. Vi o jeito que ele olha para você, e a forma com a qual olha para ele também. Ainda é muito recente, mas já dá para ver que vocês se gostam. – Eu mordi os lábios, um pouco incomodada com a sua fala, mas acabei disfarçando ao fingir estar encabulada.
é um bom garoto, espero que as coisas deem certo entre nós. – Menti descaradamente e a vi concordar.
– Vai dar tudo certo, , não se preocupe tanto assim.
– É, vamos ver. Mas e você e o Alexis, como estão? – Mudei de assunto antes que ela me fizesse jurar amor eterno ao meu falso namorado.
– Estamos bem. Ele é legal e sempre topa tudo, então tenho uma companhia permanente para o que quer que eu queira. E, bom, já lhe disse que ele é bom em outras coisas também, então não tenho do que reclamar. – Ela sussurrou a última parte e logo soltou uma risada baixinha.
– E os pais dele? Você os conheceu, afinal?
– Ah, sim. Eles são uns amores e me trataram tão bem que fiquei emocionada com o carinho. Não foi nem um pouco estranho, pelo contrário, pareceu que eles já me conheciam e que eu estava fazendo uma visita recorrente por lá. Já pedi ao Alexis para irmos lá de novo. – Ela falou e a vez de rir da situação foi minha.
Acabei chamando a atenção dos garotos com a minha risada e vi me olhar com curiosidade.
– Sobre o que estão falando? – Alexis perguntou, interessado.
– Sobre os seus pais, querido. Estava contando para que eu já quero voltar à casa deles para outra visita. – Ela falou com naturalidade e eu ri um pouco mais da facilidade com a qual ela tinha para lidar com situações que poderiam parecer constrangedoras para alguns.
Nós ficamos no local por mais um tempo, mas logo a conversa se encaminhou para uma despedida, e, quando percebi, e Alexis já combinavam de nos encontrarmos novamente. Eu me despedi do casal e assisti-os caminhar em direção ao fim da rua. Segurei a mão de num gesto que fingi ser automático para o caso de estarmos sendo assistidos e olhei em seu rosto apenas para concordar com sua proposta de irmos embora.

– Você acha que ela acreditou, então? – Ele me perguntou assim que adentramos a minha casa.
– Eu acredito que sim! Ela me disse que tinha percebido que nos gostávamos, então, pelo jeito, a convencemos. – Respondi simplesmente.
– Graças aos céus. Eu me esforcei para fazer a melhor atuação da minha vida, se eu tivesse falhado, iria me aposentar permanentemente.
Dei risada do seu comentário e caminhei em direção à sala para acender as luzes do cômodo, percebendo só então que não conhecia, de fato, a minha casa, e que deixá-lo à vontade e sozinho não seria um gesto muito educado da minha parte. Ele só havia estado lá uma única vez e não tinha saído do primeiro andar, o que me levou a realizar um pequeno tour dele pela casa. Não é como se eu morasse em uma mansão ou algo assim, mas era uma casa grande o suficiente para que eu vivesse com conforto e pudesse convidar algumas pessoas para passar alguma temporada comigo, se eu quisesse. Disse a que ele poderia usar o quarto do hóspede para o que quisesse e que a cozinha estava, também, totalmente à disposição.
Fui, por fim, tomar meu banho a tempo de receber Scott, meu cabelereiro e maquiador. Não muito depois de ter terminado o que precisava, Scott tocava minha campainha e entrava em minha casa como um furacão. Ele subiu ao meu quarto e fez o seu trabalho como o esperado, ajudando-me a me vestir no final. Eu havia escolhido um vestido azul simples e que caia em camadas até os pés, não era chic demais, mas também não era algo que poderia ser usado no dia a dia. Quando me olhei no espelho, fiquei satisfeita com o resultado e agradeci o meu maquiador com muitos abraços. O homem se despediu e saiu do meu quarto, deixando-me sozinha para que eu pudesse dar os últimos retoques em minha aparência.
Alguns minutos depois, apareci na sala e imediatamente vi mexendo em seu celular, enquanto permanecia sentado no sofá. Ele estava com um terno preto que o caía muito bem, fato que não deixei passar despercebido.
– Nada mal. – Falei, chamando a sua atenção.
Seu olhar desceu de minha cabeça aos meus pés, analisando-me por inteiro, e eu apenas arqueei a sobrancelha, esperando um veredito.
– Nada mal você também. – Ele respondeu, simpático, caminhando em minha direção. – Você ficou linda com esse vestido. Se não estivéssemos namorando de mentira, eu diria para você que todos os homens dessa première vão ficar caídos aos seus pés, mas como você é a minha acompanhante hoje, eu só vou omitir esse fato de você.
Sorri com o seu comentário e fui em direção a porta para que pudéssemos sair. veio logo atrás, e a sua proximidade me permitia sentir o seu perfume, fazendo-me pensar no quão bom seria ter ele como companhia para o resto da noite. Nós entramos em seu carro e iniciamos uma conversa qualquer apenas para passar o tempo e, antes mesmo que eu percebesse, já estávamos entrando na rua correta do evento.
estacionou o veículo no local indicado e nós descemos em seguida, dirigindo-nos à entrada do evento. Não soube quando, mas no momento em que percebi, nós já dávamos as mãos e me guiava para o grande tapete vermelho do local. Seria a nossa primeira aparição como um casal para a imprensa, o que me deixava com um frio na barriga de como as coisas aconteceriam, mas, ao mesmo tempo, sabia que nós precisávamos apenas seguir com a atuação tal como havíamos feito até então. Se tinha acreditado em nós, eu secretamente esperava que qualquer um o fizesse também.
Logo que pisamos no tapete vermelho, os gritos dos paparazzi tornaram-se ensurdecedores. Flashes foram disparados para todos os lados, e eu apenas me foquei em caminhar sem tropeçar até o local indicado para posarmos para as fotos oficiais. Ficamos no local pelo o que me pareceu uma eternidade, sorrindo aos fotógrafos e fazendo as mais diferentes poses. Eu ouvi um ou outro grito no meio da multidão implorando por um beijo, mas apenas me limitei a beijar o rosto do garoto como se isso fosse o suficiente para eles.
O filme passou rápido, e, ainda que eu fosse atriz, não consegui prestar muita atenção na história, porque filmes de ação não despertavam o meu interesse. parecia compenetrado no roteiro, então eu apenas permaneci quieta e deixei meus pensamentos vagarem soltos. Quando o filme acabou, fomos direcionados para um grande salão anexo, onde um jantar e uma festa tomavam parte.
– O que achou do filme? – perguntou, enquanto comia, iniciando uma conversa entre nós dois.
– Era legal, mas não faz muito o meu estilo. – Dei de ombros como se não ligasse muito. – Mas tenho que dizer que o Robert Higens naquele papel principal estava maravilhoso, fiquei com a boca tão aberta quando ele tirou a camisa que quase babei. – rolou os olhos com o meu comentário e logo respondeu.
– Ele é maior babaca da história, pode acreditar. Dizem que nos sets de filmagem ele só fala com alguém se a pessoa for minimamente conhecida, senão ele só ignora e trata mal. – Fiquei um tempo encarando-o e processando a fofoca que, até então, eu desconhecia.
– Quem disse? – Perguntei, interessada.
– Todo mundo. Nos bastidores de um filme que trabalhei, rolavam altas histórias do que ele já fez. Você ficaria de boca aberta pelo choque se descobrisse tudo o que ouvi.
– E o que mais você sabe? Coloque essas fofocas na mesa, querido, estou sedenta por histórias cabulosas. – O menino riu com o meu comentário, mas desembestou a falar no minuto seguinte. Contou babados que eu sabia, coisas que já tinha ouvido falar e algumas outras fofocas que eu sequer imaginaria. – E está vendo aquela mulher de salto alto ali no fundo, de vestido vermelho e cabelo preso? – Ele perguntou e eu assenti, fixando o meu olhar nela discretamente. – Ela se chama Natascha Habberman, é mulher do Karl Neves, aquele diretor mexicano famoso, você deve conhecer. – Assenti novamente com a cabeça e esperei que ele continuasse. – Ela o traiu dentro de um carro no estacionamento de um Walmart e foi flagrada pelos paparazzi. O escândalo foi abafado, porque ele pagou milhões, mas já ouvi de mais de uma fonte essa história toda.
– Eu estou chocada. Como alguém consegue abafar um escândalo assim e ainda continuar casado com a pessoa? – concordou comigo e olhou para os lados, checando se ninguém estava olhando para nós.
– Conhece aquela mulher sentada ali na mesa do lado, de amarelo? – Olhei para a pessoa a qual ele se referia e concordei, pois já havia trabalhado com ela em um filme anos atrás. – Beija muito, muito mal. Ah, e ela me odeia.
Eu arqueei a sobrancelha para ele e o vi dar de ombros. havia tido alguma coisa com ela, era óbvio, o que me levou a dar uma risada um pouco alta pela revelação da falta de habilidade dela em beijar.
– Você não presta. – Constatei, provocando-o, e vi um sorriso safado surgir em seus lábios. – Já que estamos nisso, sabe quem é Christopher Jiles? Pois bem, ele é péssimo na cama.
Foi a vez de rir, eu, por outro lado, apenas sorri, deixando claro que estava me divertindo com a situação toda.
– Catherine Langdon também é. – O garoto respondeu, brincalhão. – E Anne Brerner é um arraso, nunca vi coisa igual. Céus!
– Jeff Yunhus chora de medo de filmes de terror à noite.
– Karl Anton tem medo de baratas.
– Hanna Drew já transou no set de um filme com o cabelereiro com a porta aberta.
– Ah, mas eu transaria com ela assim também se pudesse. Ela tem o melhor beijo que já experimentei na vida. – falou como se lembrasse de algum episódio específico.
– Você é estranho. – Torci o nariz como se estivesse com nojo só de pensar na ideia.
– Estou sendo sincero. Sinceridade no relacionamento é tudo, não é mesmo? – Ele falou, fazendo referência ao que tinha dito mais cedo, e eu só consegui rolar os olhos.
Quando estava me preparando para responder, reconheci uma figura masculina caminhando em minha direção e abri um grande sorriso. Nate Lloyd aproximou-se lentamente da minha mesa e logo abriu os braços para que eu pudesse me jogar lá em um grande abraço, e eu o fiz. Ele era vocalista de uma banda e havíamos nos conhecido em uma festa algum tempo atrás, ficando amigos em seguida pelos gostos em comum, mas nunca havia sido nada além de amizade de ambas as partes.
– O que está fazendo aqui? – Perguntei, ainda abraçada a ele, que sorriu.
– Um amigo meu acabou fazendo uma aparição no filme, então vim prestigiá-lo. – Ele respondeu e me soltou do abraço, sem nem perceber que estava por ali. – E você?
– Vim acompanhar o . – Disse, apontando o garoto, que estendeu a mão para cumprimentar Nate. – Estamos aqui por um amigo dele também.
– Ah, que legal. Você gostou do filme? – Fiz uma careta e ele riu. – Achei meio chato também, mas pelo menos temos essa festa agora.
– É, isso sim. Dá para compensar e aproveitar dançando e divertindo-se.
– Falando nisso, você quer ir dançar comigo? Tenho uns amigos lá na pista e você pode acabar achando algum que lhe interesse. – Ele falou, verdadeiramente alheio à situação toda.
Eu fiquei um pouco constrangida por ter deixado ouvir esse comentário e não ter passado a ideia correta da coisa toda para Nate, então fui rápida em me retificar.
– Ah, eu acho que não. é meu namorado, estamos aqui juntos. – Respondi o mais simpática que consegui e dei a mão para , que continuava sentado, mas sustentava, agora, uma expressão não muito feliz em seu rosto. – Vou ficar com ele, mas vai lá e se diverte, falamo-nos depois.
– Que pena, mas tudo bem, então. Foi ótimo te encontrar, . – Nate disse, aproximando-se e deixando um beijo estalado em minha bochecha, saindo em seguida.
Olhei para logo que o garoto foi embora e o puxei levemente para cima com a mão que ele ainda segurava, a fim de deixá-lo entender que eu gostaria que ele se levantasse. Muito embora a sua feição não fosse das melhores, ele foi rápido em atender ao pedido silencioso e logo estava bem à minha frente.
– Desculpe por isso, eu deveria ter sido mais explícita quanto à razão por estarmos aqui juntos. – Falei, genuinamente arrependida.
Nós não éramos namorados de verdade, e eu sabia que poderia ficar com quem quisesse, mas a ideia de ele ser publicamente ignorado e taxado de idiota pela mídia, depois, era chata de qualquer maneira.
– Tudo bem, , é a primeira vez que saímos juntos como um casal em eventos assim, acho que ainda não sabemos direito o que fazer. – disse, compreensivo, e sorriu de lado. Inclinei-me em sua direção e deixei um beijo em sua bochecha, afastando-me em seguida. – Você quer dançar? Eu estava a fim de curtir a noite naquela pista.
– Claro, vamos lá.
Saímos andando de mãos dadas em direção à pista. Eu sabia que havia alguns fotógrafos lá dentro, o que seria benéfico para nós, mas, acima de tudo, sabia também que eram muitas as celebridades e influenciadores digitais que poderiam acabar falando sobre a gente mundo afora, deixando ainda mais na boca do povo o fato de estarmos juntos.
A pista estava animada e bem cheia, os sucessos ali tocados consistiam em batidas animadas e fortes, levando-nos a jogar o corpo para um lado e para o outro num ritmo frenético. Não havia espaço para danças românticas e sentimentais por ali, a diversão girava em torno de gritos e palavrões entoados nas músicas, e, não tão raramente, pessoas ali presentes saiam do burburinho para poderem se agarrar com mais facilidade.
dançava bem e parecia completamente alheio ao que o rodeava, trocamos alguns olhares divertidos durante o tempo que passamos ali e vez ou outra ríamos da situação deplorável de alguém. Havia muitos rostos conhecidos por nós dois por ali, e eu perdi as contas de quantas pessoas precisei cumprimentar de longe com um aceno de cabeça ou um sorriso.
Sem que eu percebesse exatamente como, senti-o aproximar-se de mim o máximo que pôde, colando os seus lábios no meu ouvido, fazendo com que alguma coisa se mexesse em meio estômago quando ele se pôs a falar e soprou o seu hálito quente por ali.
, eu posso te beijar? – Sua pergunta era baixa e parecia até um pouco constrangida. Afastei-me minimamente dele, a fim de olhar em seus olhos, mas logo ele já estava com os lábios de volta ao meu ouvido. – Só para as pessoas que estão aqui saberem que estamos juntos, e também tem muitos fotógrafos por perto eles podem ver e...
E então eu tomei a dianteira da situação, simplesmente segurei em seu rosto com as minhas duas mãos e grudei os meus lábios aos dele. A textura macia de seu lábio em choque com o meu fazia com que um calor subisse pelo meu corpo todo, deixando-me com vontade de aprofundar o beijo instantaneamente, mas eu me controlei e deixei que apenas permanecêssemos num selinho demorado. posicionou suas mãos em minha cintura e puxou-me ao seu encontro, eu, por minha vez, passei minhas mãos pelo seu pescoço, trazendo-o para mais perto também.
Por um segundo, paralisei um pouco ao pensar na ideia de beijo técnico. Nós estávamos fingindo namorar, então não seria absurdo se decidisse usar uma técnica do teatro para o beijo. Eu pessoalmente a odiava e achava, honestamente, que era apenas desconfortável e que não tinha vantagem alguma para o beijo francês comum. No entanto, minhas dúvidas e inseguranças foram imediatamente sanadas quando o garoto tocou os meus lábios com a sua língua, pedindo passagem. Eu imediatamente concedi e iniciamos um beijo calmo e carinhoso, mas este logo ganhou velocidade e passou a ficar um pouco mais afobado, sendo sempre controlado, porém.
e eu permanecíamos abraçados, mas não nos tocávamos para além disso. Suas mãos estavam paradas em minha cintura e o máximo que ele fazia era apertá-la vez ou outra, já eu limitei-me a mexer um pouco em seu cabelo e só.
Quando o ar faltou, afastamo-nos devagar, e eu permaneci com os olhos ainda fechados, respirando fundo. Alguns segundos depois, permiti-me voltar a balançar os quadris conforme a música que tocava, e abri os olhos, encarando o meu namorado. sorriu e piscou para mim, eu apenas balancei a cabeça em falsa reprovação e continuei com a minha dança, assistindo-o fazer o mesmo.
Após cerca de meia hora, reclamei de dor no pé, e puxou-me gentilmente para fora da pista de dança. Decidimos ir embora logo depois, não nos importando nem mesmo em nos despedirmos de qualquer um dali. Na saída vimos alguns paparazzi tirarem fotos nossas ao fundo, mas eu estava tão esgotada que simplesmente agi como se eles não estivessem ali, limitando-me a apenas segurar a mão do garoto.
O caminho para casa foi silencioso, não por qualquer clima estranho entre nós ou algo assim, mas pura e simplesmente pelo cansaço que tomava conta de mim. Sem perceber, adormeci no veículo, sendo acordada por quando o carro já estava estacionado em frente à minha casa.
– Já chegamos? – Perguntei, sonolenta, e o ouvi concordar. – Tudo bem, já estou acordando. – Ouvi sua risada baixa ao meu lado e sorri.
Lentamente abri meus olhos e me permiti ficar cinco segundos parada, apenas situando-me, antes de efetivamente me mover em direção à minha bolsa, que estava jogada no chão. Quando estava pronta, olhei para o garoto ao meu lado e sorri, agradecida.
– Obrigada pela noite, .
– Não há de quê. Obrigada pela tarde também. – Ele respondeu, calmo.
– Mande-me uma mensagem quando chegar em casa.
O garoto concordou com a cabeça e eu inclinei-me em sua direção, deixando um beijo em sua bochecha. Saí do veículo logo em seguida, caminhando em direção às escadas e abrindo a porta a tempo de vê-lo dar partida no carro e sair dali.
Subi para o andar de cima, ainda pensando na noite que tínhamos tido e no beijo que compartilhamos. Havia sido íntimo, mesmo que estivéssemos no meio de tantas pessoas, mas eu sabia que o ato tinha tido todo um propósito por detrás. Mesmo assim não pude deixar de pensar no quão ridículo era o fato de termos que nos despedir com um simples beijo no rosto, quando já havíamos sentido o gosto um do outro em um encostar de lábios muito mais pessoal.
Obriguei-me, no entanto, a pensar que não, nunca tinha, efetivamente, beijado . Nossos personagens, sim, haviam se envolvido e protagonizado um beijo, mas nós dois éramos apenas amigos e um beijo na bochecha deveria bastar.
Joguei minha bolsa em qualquer lugar do meu quarto e coloquei o meu pijama em velocidade recorde. O sono, no entanto, só tomou conta de mim depois que eu recebi o recado de que ele havia chegado em casa.


Capítulo 5


Fechei o livro que estava no meu colo e olhei ao redor, enquanto permanecia preguiçosamente deitada na toalha de piquenique. A Washington Square estava completamente tomada por pessoas de todos os tipos, que buscavam aproveitar o verão e o sábado de sol, assim como eu. Tinha decidido tirar o dia para mim, sem que precisasse me preocupar com qualquer coisa relacionada à carreira ou a relacionamentos amorosos, e era como se, naquele momento, eu fosse o sol do meu inverso pessoal e nada mais fosse remotamente relevante.
Bom, até o meu celular tocar.
Era Larry pela milésima vez só naquela semana. Rolei os olhos e bufei antes de, finalmente, responder a ligação. Como era de se esperar, ele queria discutir algumas questões de trabalho comigo, o que estava, honestamente, enchendo-me a paciência. Eu começaria a filmar um longa dali a uma semana, mas não havia alarde nenhum a fazer-se, já que a gravação seria na própria cidade, e eu não teria que fazer preparação prévia alguma. Mas, por alguma razão, ele estava fazendo uma tempestade em copo d’água por isso, querendo que eu fizesse um cronograma de gravações e coisas do tipo, além de quase me obrigar a ir almoçar com os meus futuros colegas de elenco no dia seguinte.
Larry queria, também, que eu aceitasse conceder algumas entrevistas sobre minha carreira, meus projetos futuros e, bom, sobre , o que eu estava tentando a todo custo recusar. Eu sabia que nosso namoro era totalmente ligado à ideia de fazer mídia, mas não queria simplesmente falar de para uma revista qualquer quando acabamos de começar a aparecer juntos. Eu queria esperar, levar no meu tempo. Meu empresário, porém, queria correr com tudo e fazer do seu jeito, o que estava me enlouquecendo.
– Eu não vou falar dele para revista nenhuma, Larry, já lhe disse.
, por favor! Só vai ajudar vocês dois, você sabe disso. – Meu empresário quase implorou do outro lado da linha.
– Eu concordo em dar entrevista, se for tão importante assim para você, mas não estará na pauta. Isso é final para mim. – Respondi, entediada.
– E por que não?
– Porque a minha vida não gira em torno dele, simples assim. Eu concordei com essa coisa toda para ajudar a minha imagem, não para que as pessoas trocassem o interesse em mim pelo interesse no . – Respirei fundo por alguns segundos antes de continuar, já que essa discussão recorrente com o meu agente estava me deixando bastante nervosa. – Olha, eu não estou tentando ser chata, Larry, não mesmo, mas não quero que as pessoas passem a me associar a ele só porque estamos juntos. Se a entrevista é minha, quero falar sobre a minha carreira, quero que se interessem por mim e só. Se fosse uma coisa para o casal, é diferente, mas você está me pedindo para tirar o foco do que me importa para ajudar uma coisa temporária, e isso eu não vou fazer.
– Tudo bem, já entendi o problema, vou ver o que posso fazer e nos falamos depois. Mas não se esqueça do seu almoço amanhã! – Meu empresário falou e eu só concordei rapidamente para que pudesse desligar o telefone e ficar livre de novo.

Depois de uma tarde tranquila e um início de noite bastante agradável, decidi que estava na hora de agitar um pouco a minha vida, razão pela qual liguei para e a convidei para me acompanhar em uma festa num rooftop de Midtown. O lugar era um velho conhecido meu, e eu gostava de como conseguia ficar escondida por lá enquanto revezava entre admirar a vista da cidade e dançar.
Um pouco antes do horário marcado, já me encontrava no local, à espera da minha amiga. Estava ansiosa para ter uma “noite de garotas” e queria aproveitar ao máximo, então, para não ter que ficar sem nada para fazer, fui ao bar do hotel no qual a balada era localizada para deixar o tempo passar.
Logo após pedir o segundo drink, percebi a aproximação de um homem estranho, que tomou a liberdade de sentar-se do meu lado. Ignorei a sua presença já que não o conhecia, mas não demorou mais do que cinco minutos para que ele iniciasse uma conversa comigo. Comecei a dar respostas monossílabas, sem interesse em efetivamente continuar com aquilo, mas quando percebi que estava atrasada e ainda não tinha dado sinal de vida, resolvi simplesmente me entregar ao papo.
– E você faz o que da vida? – Ouvi o homem, que eu havia descoberto chamar Mark, perguntar-me.
– Sou atriz, faço alguns filmes e coisas assim, nada demais. – Brinquei, arrancando risadas do meu novo acompanhante. – E você, alguma coisa interessante para me contar?
– Trabalho no mercado financeiro, Wall Street, sabe? – Concordei com a cabeça e esperei que ele continuasse. – Mexo com a bolsa de valores e coisas assim, nada demais. – Ri da sua referência à minha fala anterior. – Mas, o seu trabalho é mais legal. Será que já te vi em algum filme?
Dei de ombros e bebi mais um gole do meu drink, vendo-o acompanhar com atenção o caminho da minha boca.
– Talvez...
– Eu duvido, se tivesse visto eu me lembraria, com certeza. – Fingi estar encabulada só pela graça da coisa, e sorri de lado. O garoto aproximou o seu banco do meu em alguns centímetros e eu não me movi, esperando apenas para ver no que ia dar. – Eu posso lhe pagar mais uma bebida?
– Acho que não devo aceitar, ou vou acabar bêbada, e realmente não é a minha intenção hoje. – Respondi sinceramente, embora minha vontade interior fosse, sim, de virar mais um copo.
Eu não tinha nada que me impedisse de perder o controle naquele momento, afinal. Exceto, talvez, a minha consciência.
– Se você aceitar, eu te acompanho na bebida. Não precisamos perder a linha, podemos só ficar mais à vontade. – Ele disse, convincente, e eu mordi o lábio, pensativa.
Senti sua mão se aproximar devagar da minha mão que segurava o copo, pegando-a e fazendo um carinho por ali. Um drink a mais não iria matar, não é?
– Bom, se é assim, tudo bem. – Concordei por fim, arrependendo-me no segundo seguinte.
, o que você está fazendo? – Escutei a voz assustada de ao longe. Soltei-me rapidamente do garoto e me afastei o máximo que pude, olhando para ela em um misto de surpresa e susto.
Eu havia dito a ela que estava no bar do local, então o fato da garota aparecer por ali não era nenhum absurdo, no entanto, o que eu não esperava, era que ela chegasse sem me avisar, pegando-me desprevenida.
– Eu, eu estava conversando, oras. – Respondi um pouco nervosa, deixando com que ela se aproximasse de mim e me lançasse um olhar de descrença.
– Sim, estou vendo. De qualquer forma, estou aqui, então se puder se despedir do seu amigo, eu agradeço. Vou te esperar ali. – Ela falou, apontando para um local a cerca de dez metros de onde eu estava, perto o suficiente para que ela ficasse de olho em tudo o que estava acontecendo ali.
Virei-me para o garoto ao meu lado e sorri fraco como num pedido de desculpa. Ele pareceu entender uma vez que deu de ombros e acenou afirmativamente com a cabeça. Peguei a minha bolsa sem pensar muito e procurei uma caneta dentro dela, escrevi o meu celular num guardanapo em seguida e entreguei o papel a ele.
– Muito obrigada pela conversa, Mark. Pode me procurar, se quiser. – Falei baixo antes de simplesmente dar às costas ao garoto e sair ao encontro de .
Minha amiga sustentava uma feição mal-humorada no rosto, mas eu decidi ignorar esse fato enquanto caminhávamos juntas. Ela não dirigiu a palavra a mim até estarmos sozinha dentro do elevador, e eu evitei olhá-la assim que percebi o quão envergonhada estava.
– Posso saber o que você estava fazendo no bar? – perguntou um pouco ríspida e eu rolei os olhos numa atitude falsamente despreocupada.
– Estava conversando com aquele cara. Ele era um fã e veio ao meu encontro quando me reconheceu. – Disse como se fosse óbvio.
– E você dá o seu telefone para todos os seus fãs?
– Como? Eu não dei meu telefone a ele, eu estava dando um autógrafo. Quando você chegou, ele estava contando uma história muito triste para mim e eu me sensibilizei, só isso. Eu não iria embora sem ao menos assinar alguma coisa para ele. – Menti descaradamente e vi a garota franzir o cenho e cruzar os braços como se duvidasse.
– Você sabe o que estava fazendo melhor do que eu, então se a sua consciência está tranquila, eu não vou discutir. Só quero lhe lembrar que agora você tem um namorado, caso tenha esquecido. – Senti o sangue chegar em minhas bochechas e, por um segundo, fiquei genuinamente arrependida e envergonhada de ter me permitido flertar com Mark no bar, sensação que passou assim que eu me lembrei que não, eu não tinha um namorado.
Eu era completamente solteira e poderia dar meu telefone a quem quisesse, na realidade. Mas não sabia disso, e a sua reação era condizente com o que ela achava que estava acontecendo, mas, ainda assim, eu havia ficado incomodada com a bronca não merecida.
– Não preciso ser lembrada disso, eu sei muito bem como está o meu status de relacionamento.
– Ótimo. O sabe que você está aqui? – Ela perguntou e arqueou a sobrancelha, esperando uma resposta minha.
– Sim. – Menti descaradamente de novo. O pobre garoto não fazia a menor ideia do que eu estava fazendo no momento. – Ele, inclusive, não veio porque tinha um compromisso, mas eu o convidei. E o Alexis, sabe que você está aqui?
– Ele me trouxe até aqui. – A garota respondeu, parecendo entediada, e eu desisti de provocá-la assim que a porta do elevador abriu.
– Que bom. – Falei seca e saí do local, sendo acompanhada de perto por ela.
– Que bom. – Ela repetiu.
Cinco minutos depois da nossa quase-discussão, e eu já estávamos de bem de novo. Divertíamo-nos ao som da música e deixávamos com que a energia do local nos dominasse, parando vez ou outra apenas para admirar a vista para a cidade de Nova Iorque. Mas, pelo resto da noite, eu não me atrevi a sequer olhar para qualquer outro garoto que estivesse por ali.

Cheguei atrasada no almoço de elenco no dia seguinte, tal como era esperado, já que na noite anterior eu e tínhamos ficado na balada até o seu fechamento. Meu humor não era dos melhores, mas me obriguei a colocar um sorriso no rosto e cumprimentar todo mundo com simpatia assim que os localizei dentro do restaurante. Havia alguns rostos conhecidos e outros que eu nunca havia visto, mas que sabia o nome.
Fui colocada no assento do lado de Andrea, meu par romântico do longa, e um antigo conhecido com quem eu já havia, inclusive, envolvido-me por um tempo. Nós nos dávamos bem e não tínhamos qualquer tipo de mágoa um com o outro, o que fez com que a conversa fluísse naturalmente entre nós.
O resto da equipe era bastante agradável de conversar também, mas acabei passando a maior parte do tempo envolvida em papos diversos com o garoto. Ele era alto, atlético, e, ao mesmo tempo, um homem extremamente atraente e galanteador, o que me fazia ter vontade de simplesmente aproveitar o tempo das filmagens para me divertir um pouquinho, mas eu sabia não ser o certo, principalmente por conta de sua fama de cafajeste.
– Quer dizer que você está com o , então? – Andrea me perguntou direto e eu o encarei, confusa, por conta da mudança repentina do assunto.
– Sim, estamos juntos faz um tempinho.
– Achei que você não fosse o tipo que namora. – Ele soltou e eu franzi o cenho, como se perguntasse o que ele queria dizer com aquilo. – Não estou criticando, , não me leve a mal, mas você me disse algo assim quando estávamos no nosso rolo.
– Eu não tenho nada contra namorar, só acho que tem que ser a pessoa certa e que queira algo sério, caso contrário prefiro nem começar nada. – Falei um pouco chateada com a imagem que ele tinha de mim antes, mas decidi deixar de lado.
– Ah, sim, entendi. E você está feliz com ele?
– Bastante, é um cavalheiro comigo e sempre me faz dar boas risadas. É tudo muito leve entre nós, ainda que estejamos no início, e eu gosto bastante de como estamos levando as coisas. – Respondi e sorri, em seguida.
Andrea sorriu para mim de volta, antes de retomar a conversa.
– Fico feliz por você, então. Espero que dure bastante, mas, se não for o caso, ainda temos um filme para gravar juntos, e podemos afogar as suas mágoas de diversas formas, se quiser. – O garoto disse com um sorriso e de lado e eu me mexi, um pouco incomodada.
– Acredito que não vai ser preciso, nós estamos bem, e eu torço para que as coisas continuem assim. – Dei um sorriso fraco e virei a minha cabeça para o outro lado, iniciando uma conversa com a assistente de direção que estava ali.
A leitura do roteiro estava programada para começar na semana seguinte, o que já estava me deixando ansiosa para colocar a mão na massa. Teríamos filmagens indoor e em lugares abertos, mas tudo se concentraria única e exclusivamente em Nova Iorque, deixando-me à vontade para manter projetos paralelos durante o período. Seria como um trabalho normal, afinal, já que eu teria a possibilidade de ficar em casa.
, você vai precisar de alguma coisa adicional enquanto estiver trabalhando? Acomodação, ajuda para conhecer a cidade? – Kathleen, a diretora, perguntou-me simpática, e eu só acenei a cabeça em negação.
– Não, não. Sou praticamente uma nova iorquina já, não preciso de nada, muito obrigada! – Respondi com um sorriso no rosto, realmente agradecida pela preocupação.
Olhei para o lado e vi que Andrea tinha entortado a boca e estava coçando a cabeça, como se algo o estivesse incomodando. Franzi o cenho, esperando que ele se manifestasse, o que não tardou a acontecer.
– É, eu acho que preciso de ajuda para me acostumar com a cidade. Vim para cá poucas vezes e confesso que estou um pouco perdido. – Kathleen sorriu para ele e balançou a cabeça em concordância.
– Ah, claro, querido. Você é da costa oeste, certo? – O garoto acenou afirmativamente. – Não tem problema, vamos te fazer se sentir em casa por aqui. , você pode ajudar o Andrea com isso? No seu tempo livre, é claro. Seria legal para vocês se conhecerem mais antes de começarmos o trabalho.
Sem ter muito como sair da situação, concordei com a proposta, encontrando um Andrea com um olhar de agradecimento ao meu lado. Sorri para ele apenas para confirmar o meu compromisso e propus que ele me encontrasse na Times Square à noite. Eu achava que não havia jeito melhor de conhecer a cidade de verdade senão pela pele de um verdadeiro turista, e, se fôssemos cautelosos, poderíamos nos misturar aos milhares de pessoas que visitavam Midtown nessa época do ano sem sermos reconhecidos. O garoto aceitou a ideia de prontidão e ficamos de combinar os detalhes depois.
O almoço não durou muito mais. Kathleen repassou algumas diretrizes para a semana seguinte e nós todos nos despedimos, cada um indo para o seu lado.
Perto das oito horas, mandei mensagem para Andrea avisando-o que sairia de casa logo e que ele deveria me encontrar por lá. Peguei a minha bolsa na sala e dei uma última olhada no espelho, certificando-me de que a roupa escolhida e os óculos escuros disfarçavam, um pouco que fosse, quem eu era.
Mas, quando abri a porta, levei um susto.
estava com o dedo a caminho da campainha, enquanto segurava em sua outra mão uma caixa de pizza do Joe’s. Sem nem ao menos pensar direito, voltei para dentro de casa, dando a ele espaço para passar e entrar. Fechei a porta atrás de nós e franzi o cenho em confusão, não tendo certeza se tínhamos combinado alguma coisa ou não.
– Nós não temos nada marcado. – respondeu a minha pergunta sem eu nem mesmo precisar verbalizá-la. – Eu estava à toa em casa e quis fazer uma surpresa com essa pizza. – Sorri de lado com a sua ideia e instantaneamente perdi qualquer mínima vontade de sair.
– Por um minuto achei que tinha esquecido alguma coisa, mas ainda bem que não. – deu risada e tomou o caminho até a cozinha para deixar a pizza em cima do balcão.
Era bobo, mas gostei de saber que ele já se sentia à vontade para caminhar pela casa, como se estivesse acostumado com o local, apesar de só ter ido até lá duas vezes. O menino olhou para mim e coçou a cabeça, antes de falar de novo.
– Você está toda arrumada, vai sair? – Olhei para baixo e tive que discordar mentalmente da sua constatação. Eu estava com uma calça jeans rasgada e uma camiseta branca simples, o mais básico que consegui. Eu não queria impressionar ninguém, pelo contrário, queria não chamar a atenção, então presumi que o seu comentário tinha sido só um jeito de perguntar se eu tinha algum compromisso.
– Sim... Fiquei responsável por sair com o cara que vai interpretar meu par romântico no filme que começo semana que vem. – acenou afirmativamente com a cabeça e vi seu ombro murchar. – Talvez você o conheça, eu não sei. Ele chama Andrea Kornig, é de San Diego, mas está sempre nas boas festas de Los Angeles.
parou por um segundo e pareceu vasculhar sua memória em busca de algo que o ligasse ao meu co-star, e logo ele pareceu achar, fazendo uma careta.
– Sei quem é, sim. Não somos muito amigos, mas já o vi algumas vezes.
– Bom, vou ser a guia turística dele por hoje. Estava indo encontrá-lo, inclusive. – Concluí rapidamente.
Pensei em chamar meu namorado para nos acompanhar, mas a forma com a qual se referiu a Andrea antes deixava claro, para mim, que havia algum problema entre eles, então eu decidi deixar quieto.
– Ah, tudo bem. Eu apareci sem avisar mesmo, acho que vou para casa então. – Ele disse com um sorriso no rosto, mas eu sabia que ele estava um pouco decepcionado pela sua visita surpresa não ter dado certo.
– Você pode ficar por aqui, se quiser. Pode me esperar e comemos essa pizza juntos depois. Eu não devo demorar muito. – Falei, sincera.
Eu já não estava com tanta vontade de ir, e, agora que tinha uma razão para voltar mais cedo, tinha certeza que não ficaria horas a fio fora de casa.
– Eu não sei, . Você tem certeza que não vai querer usar a casa depois? – perguntou um pouco mais baixo e eu não entendi, de primeira, o que ele quis dizer.
– Usar a casa? Por que? Eu não... Oh, sim. – O entendimento me atingiu em cheio. achava que eu, talvez, fosse querer trazer Andrea para casa depois. Deduzi que ele tinha, provavelmente, pensado que eu estava indo para um encontro com o garoto e poderia querer transar ali mais tarde.
– Eu posso ir para casa mesmo, não tem problema algum, de verdade. – insistiu e eu apenas neguei com a cabeça.
– Não, por favor. Estava falando sério sobre comermos a pizza juntos. Eu vou realmente só mostrar um pouco da parte turística da cidade para o Andrea e volto. – Falei, séria, e ele pareceu desistir de pensar em ir embora.
– Ok, então te encontro por aqui mais tarde. – Voltei a pegar as minhas coisas e a caminhar em direção à porta, sendo seguida pelo garoto. – Se estiver com sede ou fome, a geladeira está abastecida, você pode, inclusive, cozinhar um doce para mim. – Disse, sorrindo de lado, num pedido mudo para que o fizesse. – Se ficar com sono, o quarto de hóspedes está aberto também. Enfim, sinta-se em casa, mas pode me ligar se tiver algum problema.
Ele concordou com um murmúrio e eu abri a porta, já saindo para fora do lugar, uma vez que o carro que tinha solicitado já estava à minha espera. Entreguei as chaves em suas mãos e virei de costas, saindo dali e acenando um tchau de dentro do veículo. Ele respondeu o meu aceno até o carro dobrar a esquina, então, a minha última visão foi a dele entrando na minha casa e encostando a porta.

Rodei o centro da cidade com Andrea por um tempo, mostrando-o as ruas mais conhecidas e apontando uma ou outra informação que lhe seria útil para os próximos meses. Eu sabia que ele provavelmente já conhecia Nova Iorque por cima, então decidi deixar a conversa girar totalmente em torno de como era a dinâmica da cidade, como os nova iorquinos esperavam que as coisas fossem feitas, e como, diferentemente da costa oeste, a fama de alguém não era, necessariamente, passe livre para todo o tipo de coisa.
O garoto não pareceu deslumbrado com o pequeno tour, mas disse-me estar satisfeito de poder ter conhecido a parte mais movimentada da cidade sem ser reconhecido, ou sem precisar estar dentro de um carro com a janela fechada. Eu o entendia, tinha pleno conhecimento do quão chato era estar num lugar em que não se pode dar um passo sem ser vigiado, e sabia que, às vezes, respirar um pouco de ar fresco e passear como só mais um cidadão no meio de tanta gente era tudo o que era preciso para trazer paz interior.
E, foi pensando nisso, que decidi encerrar a noite no jardim da biblioteca municipal da cidade.
O local era agradável e, embora estivesse fechado àquela hora, tinha um amplo espaço na frente, onde era possível sentar para admirar o prédio histórico. Acomodamo-nos em uma mesa por ali para descansarmos um pouco e Andrea me agradeceu por tê-lo acompanhado. Sorri o mais simpática que consegui, e, quando estava pronta para me levantar e me despedir, ouvi sua firme anunciar um convite.
– Quer ir jantar? – Olhei para o seu rosto um pouco surpresa e neguei devagar.
– Eu não posso, mas muito obrigada. Tenho que voltar para casa, já está ficando tarde.
– Eu te levo depois, quer dizer, o táxi leva, mas eu acompanho. – Ele falou, olhando bem fundo nos meus olhos, mas tudo o que fiz foi negar novamente com a cabeça.
– Não vai dar...
– É por causa do seu namorado? – Concordei e dei de ombros como se dissesse que não havia jeito. – Ele não precisa saber, se você não quiser. – O garoto falou e sorriu de lado.
– Bom, na realidade ele está me esperando em casa para comermos juntos, então realmente vai ficar para uma próxima. – Levantei-me e rapidamente me despedi do garoto. – Espero que aproveite a cidade nos próximos dias. Vemo-nos na segunda que vem, certo?
– Certo.
Chamei um táxi qualquer que estava passando pela avenida e chequei o relógio quando entrei no veículo. Três horas e meia, esse era o tempo que tinha passado desde que saí de casa, mais cedo. Havia demorado mais do que imaginei inicialmente, mas torcia, secretamente, para que ainda estivesse me esperando.

Subi o último degrau antes de alcançar a porta e, quando o fiz, procurei a minha chave na bolsa, apenas para lembrar que havia deixado ela com . Toquei a campainha esperei por alguns segundos até que o garoto aparecesse em minha frente, abrindo a porta. Olhei para seu rosto e percebi que ele parecia sonolento, como se tivesse acabado de acordar, o que me foi confirmado assim que entrei na sala e encontrei um travesseiro e cobertor no sofá. Ri da situação e percebeu, coçando a cabeça em seguida.
– Fiquei com sono e dormi um pouco aí, espero que não se importe. – falou, parecendo encabulado, e eu balancei a cabeça, negando e sentando-me no sofá que ele ocupava antes, trazendo a coberta para mim e batendo no lugar ao meu lado para que ele se sentasse ali também.
– Não tem problema nenhum. Desculpe demorar tanto, inclusive. Acabamos passeando pela Times Square e andamos um pouco por lá, o que tomou um pouco mais de tempo do que eu tinha planejado.
– Tudo bem. Vi que vocês foram até a biblioteca pública, sabia que eu nunca entrei naquele lugar? Sempre passei na frente, mas nunca tirei um dia para visitar. – Ele disse com indiferença e eu fiquei confusa. Sim, nós realmente havíamos parado no local, mas eu não tinha dito isso a ele ainda, então não sabia como ele tinha descoberto.
– É, nós fomos, mas como sabe disso? – Acompanhei com os olhos ele se esticar e pegar o celular no bolso da calça, mostrando-me uma notícia que havia saído no TMZ há pouco.
Passei o olho pelo conteúdo e meu sangue ferveu um pouco. Alguém havia tirado fotos nossas lá, o que, em tese, seria até aceitável, mas a pessoa tinha feito isso de um ângulo que parecia que estávamos muito mais próximos do que o que, de fato, ocorreu. Além disso, a fonte da notícia fez questão de dizer que tinha escutado a nossa conversa e que estávamos combinando algum lugar para jantar, distorcendo totalmente a minha resposta quanto ao convite. Para fechar com chave de ouro, a notícia insinuava que estávamos secretamente juntos ou algo assim.
– Que idiotas! – Exclamei, um pouco irritada. – Eu não estava combinando nada com ele, estava dando o fora. Esse pessoal não tem mais o que inventar, não é? – Peguei a minha bolsa do chão e cacei o meu celular lá dentro, demorando mais do que o normal para achá-lo. – Vem aqui, fica perto de mim.
– O que você vai fazer? – perguntou, mas, mesmo assim, aproximou-se.
Levei meu braço até o seu pescoço e puxei seu rosto para o encontro do meu.
– Vou tirar uma foto nossa e colocar no Instagram. – Disse como se fosse óbvio. – Se o TMZ quer um furo de relacionamento falso, que repostem a nossa foto. Eu não vou deixar eles falarem besteira de mim por aí só porque algum idiota tirou uma foto minha conversando com o Andrea.
Inclinei-me e beijei a sua bochecha, tirando uma foto em seguida. Tínhamos ficado fofos juntos, e, embora fosse algo claramente fingido, parecia bastante real do meu ponto de vista. Coloquei uma pequena legenda e enviei para postagem, me acompanhou com o olhar e apenas deu uma risada baixa quando terminei.
– “Depois de fazer o papel de guia turística por uma noite, finalmente em casa”. – Ele leu a legenda com a voz engraçada e eu rolei meus olhos. – Criativa essa sua legenda.
– Ah, fica quieto, pelo menos agora eu acabo com o falatório que aquela matéria do TMZ vai dar.
– Talvez, ou talvez não. Sem ofensas, mas a sua foto ficou comportadinha demais. – Ele pegou novamente em seu celular e abriu na câmera. – Se me permite...
Arqueei a sobrancelha, mas logo dei de ombros, deixando para lá qualquer tipo de pensamento que se passasse pela minha cabeça. Acenei afirmativamente com a cabeça e deixei com que ele me envolvesse em um abraço apertado, trazendo-me para o seu colo em seguida. Ele posicionou o celular na nossa frente e me puxou para um selinho demorado, e eu agradeci internamente por estar sentada e não de pé. Depois de ouvir o flash e sentir se afastar um pouquinho, senti sua respiração no meu pescoço e apenas fechei os olhos, abraçando-o. Ouvi novamente o barulho do celular avisando que outra foto tinha sido disparada, o que me fez abrir os olhos lentamente e sair do seu colo. O garoto focou sua atenção para as imagens do celular e eu esperei que ele me mostrasse o resultado, surpreendendo-me com a legenda simples de coração.
– Agora sim. – exclamou sorrindo para as fotos. – Agora fica claro que estamos bem e que somos um casal.
– É, acho que sim. – Levantei-me do sofá e o puxei pela mão para que fizesse o mesmo, antes de iniciar minha caminhada até a cozinha. – Vem, vamos comer, estou morta de fome.
A pizza estava no mesmo lugar que eu lembrei estar antes de sair, então precisei aquecê-la por um tempo antes que nós dois efetivamente começássemos a comer. colocou os pratos e copos na mesa da cozinha, e, logo que tudo ficou pronto, nos sentamos por ali, iniciando uma conversa sobre o filme que eu estava prestes a começar a gravar. Contei a ele sobre o roteiro, as minhas ideias para o personagem e ouvi sua opinião sobre alguns pontos que me pareciam confusos.
Quando entramos no assunto do elenco, citei alguns personagens secundários e os atores que os interpretariam, assim como parte da equipe de apoio. já conhecia uma ou outra pessoa, por conta de trabalhos anteriores que fez, e compartilhou as experiências que teve com eles comigo.
– Mas e o Andrea, qual a história que vocês têm juntos? – Perguntei, direta, esperando que ele me contasse qualquer que fosse o problema entre eles.
– Por que você acha que temos alguma história juntos? – Ele rebateu depois de um tempo.
– Sua cara não foi das melhores quando eu mencionei o nome dele mais cedo. – Dei de ombros e vi o garoto morder o lábio.
– Ah, bom, nós tivemos alguns desentendimentos no ano passado e acabamos brigando por isso. – Assenti e continuei olhando para o seu rosto para que ele desenvolvesse essa explicação. Eu queria saber o que tinha acontecido, oras! – Quando eu digo que brigamos, quero dizer que saímos no soco.
Eu ri da revelação, e arqueou a sobrancelha, como se me perguntasse o motivo da risada.
– Por que um homem formado como você socaria outro homem de graça? – Perguntei, segurando o riso.
– Não foi de graça, ele me provocou. – coçou a cabeça, comeu mais um pedaço da pizza e então falou o que que estava esperando ouvir. – Estávamos numa festa na casa de uma modelo, lá em Los Angeles. Eu já tinha visto ele algumas vezes, mas nunca havíamos interagido nem nada, então eu não sabia que ele tinha ido na festa acompanhado de uma garota. Bebida vai e bebida vem, e, quando percebi, eu já estava me agarrando escondido com uma das amigas da anfitriã. Como as coisas foram esquentando, nós fomos para um quarto para terminar o que começamos. Quando saímos de lá, o Andrea estava com a maior cara feia, e veio para cima de mim reclamar de ter ficado com a menina que ele estava acompanhando. Eu juro que não sabia que ela estava com ele, mas a garota bem que não parecia ter um problema com isso, até por que saiu andando sem nem dar bola para os seus gritos, e, então, eu só o ignorei.
– Você saiu andando também?
– Bom, sim. Eu não estava com paciência para ficar ouvindo reclamações dele quando, na realidade, ele nem estava perto da menina, para o começo de conversa. Enfim, eu saí andando e ele começou a gritar comigo, falar um monte de merda, eu voltei até ele e perguntei se ele e a menina tinham algo exclusivo e fixo e ele negou, então o mandei à merda também. Eu poderia ficar com isso só, mas ele decidiu me xingar e falou na frente de todo mundo que já tinha pegado a minha ex, e que ela tinha dito que eu era uma perda de tempo e uma porcaria na cama perto dele, então parti para cima. Saí de lá com uma costela quebrada, mas ele saiu pior, com toda certeza.
– Vocês, homens, e a fragilidade no ego de quando reclamam de vocês na cama... – Falei, brincando, e rolei os olhos. pareceu não gostar tanto assim do comentário, mas não reclamou.
– Não foi só por fragilidade, , Andrea estava tentando me humilhar na frente de todo mundo por causa de uma garota que nem parecia querer nada com ele. Eu não sou de brigar, mas perdi a linha no dia e acabei no meio dessa confusão.
– Entendi, mas a briga entre vocês acabou por aí? E a menina? – Quis saber do desfecho da história já que do jeito que estava, não me parecia que as coisas tinham sido resolvidas.
– Nós nunca mais nos encontramos pessoalmente, mas fiquei sabendo por uns amigos em comum que ele falou um monte de mim para um pessoal da indústria. Como eu nunca fui perguntado de nada, não dei corda, mas sei bem que ele fez a minha caveira. Paciência. E eu não sei da garota, nunca mais vi nem ela e nem a amiga dela que estava dando a festa. – Assenti e decidi mudar de assunto por um tempo.
Eu não conhecia tão bem assim, mas pela sua feição não era difícil perceber que ele estava ficando irritado só de lembrar do ocorrido, e eu não queria deixá-lo bravo por uma coisinha tão boba.
– Tenho um convite para lhe fazer. – Falei e arqueou a sobrancelha.
– Assim, do nada?
– Sim, do nada. Estive pensando naquilo que você me disse na primeira vez que saímos, sobre nunca ter ido num baile de escola, e arranjei um jeito de mudar isso. – Abri o maior sorriso que pude e franziu o cenho. – A minha antiga escola vai realizar o baile de formatura nesse fim de semana, e eu entrei em contato com um pessoal que trabalha por lá e eles nos autorizaram a ir. Isso é, se você quiser.
– Como você conseguiu fazer com que dois adultos participem de uma festa de escola tão facilmente? – Ele perguntou, desconfiado.
– O treinador de futebol do colégio estudou comigo, então mantemos certo contato. Eu liguei para ele e perguntei se nós poderíamos ir, já que você nunca tinha participado de nada do estilo, e ele disse que sim, desde que não chamássemos imprensa e nem nada assim para o local. E então, você topa? – Mordi o lábio na expectativa e não demorou muito tempo até que ele respondesse.
– Eu topo, mas eu vou ser obrigado a usar um smoking e coisas assim?
– Obviamente. – Respondi como se a pergunta fosse boba, levantando-me em seguida para colocar os pratos sujos na pia. levantou também e trouxe a caixa vazia da pizza e os copos, mas continuou atento ao que eu dizia. – Eu vou usar um vestido de baile também, se te conforta. E pensei que poderíamos ir na sexta à noite e voltarmos no domingo, já que a escola fica em Long Island e é cerca de uma hora e meia daqui.
– Certo, podemos ir no meu carro. E você quer que eu pesquise hotéis e coisas assim? – Ele perguntou, prestativo.
– Não, não, nós podemos ficar na casa dos meus pais. Eu costumava morar lá quando criança, e tem bastante espaço para que passemos o fim de semana. – pareceu incomodado por um momento, o que me foi confirmado quando ele tombou a cabeça para o lado e mordeu os lábios, parecendo incerto. – Tudo bem para você?
– Não é melhor a gente procurar algum outro lugar para ficarmos? Eu não sei se seus pais vão gostar muito da ideia, e, para ser sincero, não estou muito confortável com a ideia de conhecer os dois agora.
Soltei uma risada baixa e terminei de arrumar a lava-louças antes de me virar para respondê-lo.
– Não se preocupe com isso, meus pais quase nunca ficam em casa de fim de semana, eles são empresários e aproveitam esses dias para visitar as filiais da empresa em outros estados. Tenho quase certeza de que não vamos encontrá-los, mas, se por acaso o fizermos, não vai durar mais do que dez minutos, garanto-lhe. De qualquer forma, meu pai não liga para os meus namorados, ele não vai te incomodar. – Concluí e ele pareceu ponderar por um tempo, mas, depois de suspirar baixo, concordou com a cabeça.
– Tá, está bom para mim, então.
– Já estou animada! – Comemorei sozinha, e , em compensação, apoiou-se no balcão da cozinha, rindo da minha empolgação. – E não fique com essa cara de deboche, meu bem, você vai aproveitar como nunca antes.
– Disso eu já não tenho tanta certeza. – Ele respondeu, maroto, e saiu andando para sala, deixando que eu o seguisse.
Nós nos sentamos juntos no sofá que estava com o cobertor em cima, cada um de um lado, e eu peguei no controle remoto, ligando a televisão. Fiquei mudando de canal por um tempo até concluir que não tinha nada passando, entreguei, então, o controle para , que pareceu achar muito divertido um jogo de futebol americano qualquer. Eu não me ocupei em prestar atenção no programa, então deixei meus pensamentos vagarem para todo o resto.
Era engraçado como, há pouco mais de um mês, eu e não tínhamos ao menos proximidade o suficiente para nos chamarmos pelos respectivos apelidos, e estávamos sendo crucificados pela mídia por levar a vida a sério de menos. E agora, por conta de um acordo muito bobo, compartilhávamos um sofá numa segunda-feira à noite, enquanto a maior diversão do ambiente eram os gritos periódicos do narrador da partida.
Percebi que me sentia totalmente à vontade com o garoto, e acreditava internamente ser algo recíproco, e que ele não só tinha passado a ser alguém com quem eu me importava, como também havia ganhado o posto de meu melhor amigo em pouquíssimo tempo.
Tirando , eu nunca tinha mantido grandes amizades com ninguém, nunca tinha achado alguém que aparecesse na minha porta com uma caixa de pizza em um dia de semana só para passar um tempo comigo, e nunca tinha me sentido tão segura de que ele não me estava fazendo companhia por anseio de, um dia, conseguir algo.
Admirei por muitos minutos o seu semblante sério ao assistir ao jogo, sorrindo todas as vezes que ele, talvez sem nem mesmo perceber, levantava um braço para comemorar um touchdown. Preguiçosamente, ajeitei-me no sofá e deitei a cabeça em seu colo. Sabia que ele estava um pouco surpreso pelo meu gesto repentino, já que seu corpo ficou tenso por alguns segundos, mas eu apenas fixei meu olhar na tela da televisão e fingi estar prestando atenção no que se passava ali. Alguns minutos depois, fui eu quem acabou sendo surpreendida quando ele levou as suas mãos no meu cabelo e começou um carinho bom por ali. Sem nem perceber, adormeci em seus braços pela primeira vez.


Continua...



Nota da autora: Muito, muito obrigada a todas vocês que têm lido a fic até aqui! Eu ainda não criei nenhum grupo para falarmos dela (mas está nos meus planos!), mas, assim que o fizer coloco o link aqui! Beijinhos <3

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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