FFOBS - Putting On An Act, por Ste L.


Putting On An Act

Última atualização: 01/06/2018

Prólogo


Como atriz, eu já havia vivido muitas histórias nos meus poucos anos de existência. Meu dia a dia consistia em me colocar na pele de outros, em viver amores de verão ou grandes paixões e em enfrentar as mais difíceis e estranhas situações, tudo devidamente descrito num script e performado diante de câmeras.
Tinha sido muito bem treinada para expressar felicidade, tristeza, sofrimento ou alegria, conhecia quase todos os tipos de dores já enfrentados por um ser humano e já tinha suportado grandes perdas. O único problema de tudo é que, fora das telas, nada disso chegava ligeiramente perto da verdade.
Eu conhecia a tristeza, obviamente, mas nada que pudesse se manifestar fisicamente, nada que me fizesse ter dificuldade real de pensar e respirar. Estava intacta e alheia ao sofrimento extremo.
Até o momento.
Agora tudo ao meu redor parecia uma bagunça, onde o meu papel, o meu personagem, gradativamente havia-se transformado em mim sem que eu nem mesma me desse conta. Eu já não sabia mais o que estava planejado e o que eu poderia decidir sem seguir script algum, já não sabia diferenciar a verdade da boa interpretação e, o pior, era incapaz de separar os meus sentimentos pessoais daqueles que eu deveria expressar a todos quando do desempenho do meu papel.
Dizem que a vida imita a arte. No meu caso, a linha tênue que separava a minha vida da arte simplesmente desapareceu sem deixar rastros, levando consigo parte de mim. Não havia atuação, era tudo bem real.


Capítulo 1


Abri as portas de casa rapidamente e entrei correndo numa tentativa de evitar ao máximo os paparazzi que se aglomeravam à frente da entrada. Uma vez segura dentro do meu mundinho particular, procurei o interruptor, e enquanto acendia a luz com uma mão, tirava as sandálias de salto com a outra. Joguei-as em um lugar qualquer da sala e fui em direção ao bar para pegar uma garrafa de vinho.
Sentei-me no sofá com a taça já cheia e me pus a pensar no rumo que minha vida havia tomado. Eu havia conseguido grande sucesso em pouco tempo, era bem verdade. Minha carreira de atriz estava no auge, eu recebia propostas com grande frequência e, mesmo tendo começado a atuar apenas aos 16 anos, já era considerada um dos maiores nomes da história do cinema americano, não tendo nem alcançado os 23 anos ainda. Minha vida profissional era realmente completa, invejada por muitos e alcançada por poucos; por outro lado, minha vida pessoal estava um desastre.
Muito embora eu fosse conhecida como a “nova Meryl Streep” pela indústria do entretenimento, pela mídia, o apelido mais utilizado para se referir a mim era “solteira indomável”. Eu estava solteira desde sempre, era verdade, já havia tido alguns rolos passageiros e poucas coisas mais sérias com alguns caras que faziam parte do business, mas nunca me havia entregado por completo a ninguém. Não era virgem, e atrevia-me a dizer que era até muito bem experiente, obrigada. Eu apenas não tinha tido um interesse em ninguém, até o momento, que pudesse superar a minha felicidade de ser livre para fazer o que quisesse.
Hollywood era um lugar maravilhoso para aqueles que desejavam seguir carreira em atuação, mas era como uma bolha sufocante para os que já estavam lá dentro, ainda que eu morasse em Nova Iorque. A sensação era de que eu estava sempre com as mesmas pessoas, conversando sobre os mesmos assuntos e lidando com os mesmos problemas. Assim, as festas e as diversões oferecidas por aqueles que faziam parte da bolha eram uma ótima válvula de escape para todo o stress, sem contar que eram, também, povoadas dos mais belos rostos da indústria. Eu, particularmente, adorava uma festinha e costumava ficar bem alterada nestas quando a oportunidade surgia, sem que precisasse dar satisfação a ninguém.
Honestamente, ser solteira e curtir uma boa farra não era algo que me incomodava, no entanto as notícias que essa vida boêmia geravam – sendo muitas destas desprovidas de verdades – estavam começando a impactar a minha carreira.
Se antes o meu interesse pela diversão era interpretado como rebeldia adolescente pela mídia, agora ele era cada vez mais visto como falta de comprometimento profissional e imaturidade, o que estava deixando os meus empresários e publicitários loucos. Eu ainda não havia perdido nenhum papel, mas tinha visto o número de interessados em meu trabalho diminuir sutilmente nos últimos meses. Não era nada que colocasse minha carreira em risco no momento, mas era uma situação que, se não fosse controlada, poderia gerar grandes prejuízos futuros.
Suspirei alto e terminei o líquido que ainda estava na minha taça em um gole só, enquanto balançava a minha cabeça para espantar os pensamentos negativos. Minha noite já estava ruim o suficiente para que eu precisasse ficar remoendo todo o resto que estava dando errado na minha vida.
Estava exausta física e mentalmente. Mais cedo, tinha ido em um encontro com um cara antes de irmos a uma pequena house party no lado leste da cidade. Eu mal sabia quem ele era, então havíamos ido em um pequeno restaurante japonês para nos conhecermos melhor. O homem era apenas um advogado amigo de um amigo – ninguém efetivamente importante – que me fora apresentado por um grupo em comum nas de mensagens de celular, mas era também um dos caras mais chatos com quem já havia falado.
Nesse momento eu mal lembrava o seu nome para que pudesse contar a história direito, mas lembrava muito bem o quão egocêntrico e cheio de si ele era. Havia falado de seu trabalho e suas conquistas a noite toda, tinha me contado sobre sua família inteira antes mesmo de comermos o primeiro sushi e tinha descrito minuciosamente todos os procedimentos necessários para escrever uma simples petição, tudo isso sem nem mesmo parar por um segundo para me perguntar, sequer, se eu era nova-iorquina mesmo ou se havia me mudado para a cidade em algum momento da minha vida, ou até se eu estava gostando da comida.
Depois do péssimo jantar, dirigimo-nos rapidamente ao local da pequena reunião daquela noite. Tinha aproveitado a oportunidade para beber tudo aquilo que fosse necessário para me fazer esquecer o que o cara havia me falado mais cedo, o que me levou a um estado de embriaguez relativamente alto. Não me arrependia da bebedeira exagerada – era até uma situação relativamente comum durante as minhas diversões noturnas –, mas sabia que o resultado de tudo isso seria prejudicial quando, ao deixar o prédio junto com o Sr. Chato para entrar no táxi que nos levaria para casa, uma enxurrada de paparazzi estavam à minha espera. Os flashes eram tantos que cheguei a me desequilibrar e cair na rua, sendo logo levantada pelo meu péssimo date.
Uma vez dentro do táxi, fechei a porta o mais rápido possível e pedi para o motorista arrancar sem nem mesmo deixar o homem entrar no veículo.
Quando nos afastamos um pouco da multidão, olhei para trás a tempo de ver a cara de dúvida do Sr. Chato, que, embora parecesse um pouquinho frustrado por ter sido literalmente abandonado na calçada, parecia também estar aproveitando a atenção dos muitos fotógrafos que, antes, estavam atrás de mim. Típico.
Rolei o olho, suspeitando que o próprio homem tinha sido o responsável por avisar os paparazzi sobre o local onde estávamos. Não seria a primeira vez que isso me acontecia, principalmente com um chato egocêntrico que, provavelmente, beneficiaria-se muito de ter umas fotos suas com uma celebridade estampada nas revistas e sites de fofocas no dia seguinte.
Agora, sentada na sala de casa e já tendo terminado a minha última bebida da noite, aguardava a tontura passar antes de finalmente me enfiar na cama. Eu sabia que iria acordar em poucas horas com um telefonema raivoso de Larry, meu agente, mas não estava com paciência para me preocupar com isso no momento. Além de enfrentar a ressaca, no dia seguinte, eu também daria uma entrevista e tiraria fotos para a Vogue, uma vez que seria a capa da revista dali a dois meses. Eu precisava descansar, se quisesse estar com cabeça para fazer tudo direito, e foi com esse pensamento que adormeci no sofá da sala, sem nem mesmo tirar o vestido que usava.


O toque do meu celular era estridente. Eu tateei a almofada do sofá ao meu redor à procura daquele aparelhinho do diabo, encontrando-o enfiado entre o vão do local de apoio das costas e as almofadas. Não me dei ao trabalho nem de abrir os olhos, apenas deslizando o meu dedo pela tela de forma a responder a chamada.
– O que foi? – Disse, ainda sonolenta, nem ligando pela falta de educação.
Quem estava ligando-me a essa hora da madrugada? Era de um atrevimento e falta de respeito sem tamanho.
– O que foi? Eu é que deveria te perguntar isso, . O que foi aquele seu vexame ontem? Há fotos suas bêbada e caída na rua em todos os lugares. – Larry gritava em meu ouvido, aparentemente descontrolado. – Eu vi o vídeo que o TMZ postou, e você mal conseguia se equilibrar sem a ajuda daquele cara do seu lado. Onde você estava com a cabeça?
Respirei fundo antes de responder. Eu mal conseguia acompanhar o raciocínio do meu agente naquele momento. Eu havia acabado de despertar, poxa. Custava falar um pouco mais baixo e devagar? Eu merecia a bronca, sabia disso, mas ele poderia ser mais educado, pelo menos.
– Dá para gritar um pouco menos? Minha cabeça está explodindo, e você não está ajudando.
– Como é? Eu não estou nem aí se a sua cabeça está explodindo ou não. A culpa é toda sua, garota. Foi você quem escolheu beber, fumar e todas as demais porcarias que você certamente fez ontem. – O homem continuava gritando em meus ouvidos mesmo após minha reclamação.
Abri os olhos e fiquei em silêncio, por alguns segundos, antes de prosseguir a conversa. Em dias normais, Larry era o agente mais fofo do mundo, supercompetente, atencioso e extremamente meu amigo. Hoje, porém, sua irritação parecia beirar o limite, o que o deixava a situação toda desconfortável.
– Eu sei, Larry, desculpe-me. Eu não tive a intenção de ser grossa com você ou algo assim, é só que acabei de acordar e estou de ressaca. – Suspirei audivelmente, sabendo que ele prestava atenção do outro lado da linha. – O que aconteceu ontem é que eu fui numa festinha com esse amigo meu e acabei bebendo um pouquinho lá. Não exagerei tanto assim na bebida e nem fumei ou usei qualquer outra coisa, como você insinuou. – Menti um pouquinho sobre exagerar na bebida, mas ele não precisava saber. – O problema foi que, quando eu saí do prédio, eu me assustei com o número de fotógrafos que estavam lá e com os flashes das máquinas, então acabei desequilibrando-me, porque não consegui enxergar o chão direito. Não foi culpa minha, eu juro, eu estava totalmente no domínio das minhas faculdades mentais.
O homem não me respondeu prontamente e pareceu ponderar sobre a veracidade da minha explicação. Eu torcia para que ele acreditasse nessa minha versão da história que era, de certa forma, verdade. Ele já estava reclamando das festas que eu frequentava há tempos, mas aquela pequena house party do dia anterior não tinha nem tamanho e nem importância suficiente para justificar uma briga entre nós dois. Eu tomaria mais cuidado daqui para frente.
– Não foi essa a imagem que você passou para o resto do mundo. Pela sua cara, você pareceu ter bebido além da conta sim, mas não vou discutir isso. O que quero é que você coloque algum tipo de juízo nessa sua cabeça e pare de agir como uma adolescente. Por Deus, , você tem quase 23 anos, e todo fim de semana, quando vai para a balada, acaba por ser notícia principal dos mais diversos meios de comunicação! Eu já não sei mais o que fazer para contornar todas essas situações nas quais você se mete. – Ele disse com uma aparente impaciência na voz. – E são duas horas da tarde! Não acredito que você ainda estava dormindo.
Tomei um susto com a informação da hora e me levantei em um salto, já correndo para o banheiro para me arrumar para sair de casa. Eu tinha a entrevista às cinco horas, e não queria chegar atrasada e ter que enfrentar um mau humor ainda pior de meu agente.
– Puta que pariu! – Reclamei ainda com o telefone no ouvido. – Larry, eu sinto muito mesmo. Você sabe que tenho diminuído muito o número de festas que frequento e que, mesmo quando eu vou, quase não faço nada publicamente. Mas, poxa, eu também mereço um pouquinho de diversão às vezes, eu não posso me privar de tudo só porque os paparazzi me seguem para cima e para baixo ou porque alguns idiotas ganham dinheiro vendendo coisas pessoais minhas. – Falei rapidamente, enquanto procurava, freneticamente, o meu estojo de maquiagem. – Eu já sei que fiz burrada, já pedi desculpas e acho que podemos conversar um dia desses para colocarmos tudo a limpo, certo? Agora tenho que desligar, porque tenho aquele negócio na Vogue em menos de três horas e nem banho eu tomei!
Estava só esperando o homem se despedir para que eu pudesse desligar o celular e tacá-lo em um lugar qualquer, quando o ouvi suspirar do outro lado da linha.
.
– O quê?
– A entrevista da Vogue foi cancelada. Você não vai mais ter que ir lá hoje, então nem precisa ficar desesperada. Tudo foi para o ar, já era.
Parei de andar por um segundo e fiquei perplexa com a informação.
– O quê? Por quê?
– Eles me ligaram há cerca de meia hora, por isso te liguei. Eu já tinha visto as fotos do seu tombo, mas o que me deixou puto foi esse cancelamento da matéria. Eles me disseram que admiram o seu trabalho e que continuam te considerando uma das maiores e mais importantes jovens atrizes do país, mas a revista está passando por uma fase de promoção de um estilo de vida clean e saudável e que eles achavam que você destoaria um pouco disso. Em outras palavras, eles quiseram dizer que você só faz merda e que contradiria os princípios politicamente corretos deles, simples assim.
– Mas que merda é essa? Isso é tudo é ridículo. O diretor daquela porcaria de revista é o maior festeiro que eu já conheci em toda a minha vida! Eu o encontro em todas as baladas que vou, e ele sempre parece uma chaminé, fumando tudo o que vê pela frente, para dizer o mínimo. Eu nunca vi aquele babaca nem perto de estar sóbrio, e agora essa revistinha de segunda mão vem tentar me dar lição de moral? Que hipocrisia!
– Eu sei, eu sei. É realmente ridículo, mas não há nada que eu possa fazer. – Larry disse, já mais calmo do que antes, em um tom que soava cansado aos meus ouvidos. – Eu recebi a ligação hoje, e não posso simplesmente obrigar os caras a te colocarem na capa da revista! Eu fui tão prejudicado quanto você com essa desistência, lembre-se disso, e tenho certeza que foi porque essas suas fotos vazaram mais cedo.
– Certo, mas eu não quero nem saber. Vou ligar para aquela porcaria para tirar umas satisfações, sim. Eu nem estava tão mal naquelas fotos, eu apenas tropecei! – Agora que o choque inicial havia passado, decidi sentar na beirada da minha cama para conversar com Larry com mais calma. Eu não precisava ter pressa mais, afinal. – Idiotas.
– Grande novidade. Você sabe como essa indústria é um nojo, não me surpreende eles quererem agir de forma hipócrita agora. – Larry concluiu. – Bom, já que você não tem mais nenhum compromisso hoje mais tarde, que eu saiba pelo menos, queria saber se podemos nos encontrar para o jantar? Preciso discutir negócios com você.
Eu já havia deixado Larry bravo o suficiente para um dia só, o mínimo que poderia fazer era concordar com esse jantar.
– Tudo bem. Nos encontramos às 19:00 no Angelo’s, aquele da 57, pode ser? – Perguntei, já sugerindo uma cantina italiana em Midtown.
– Ok, combinado. Vejo-te lá, .
– Até mais tarde.
– Até.
Quando desligamos, deitei em minha cama por cinco minutos antes de tomar vergonha na cara para tomar banho e me arrumar. Eu não tinha mais a entrevista, era bem verdade, mas ainda precisava parecer decente na frente do meu agente, principalmente porque a chance de tombar com algum paparazzo no caminho era relativamente alta, e eu não queria mais fotos ruins minhas na mídia.


Desci do táxi bem em frente ao restaurante e agradeci mentalmente aos céus por encontrar a calçada vazia e livre de fotógrafos. Adentrei o local com certa pressa e procurei Larry com os olhos, não o encontrando. Dirigi-me à menina que estava organizando as mesas e decidi perguntar por meu agente, sendo informada que ele ocupava um lugar no andar de cima. Murmurei um “obrigada” rapidamente e logo estava subindo as escadas. Vi que Larry estava sentado em uma mesa na frente da janela, em um lugar um pouco mais reservado. Ele, no entanto, não estava sozinho.
– Oi, tudo bem? – Falei, aproximando-me da mesa e sentando-me ao lado de meu agente, encarando-o e sussurrando em seus ouvidos. – Achei que quisesse falar de negócios comigo, o que está acontecendo?
– E eu quero, isso tudo é parte do negócio. Eu não disse que era algo exclusivo. – Ele respondeu simplesmente.
– Ok, que seja. – Virei-me para os dois homens que estavam na mesa e sorri educadamente. Levei um leve susto ao perceber que aquele que estava sentado diretamente à minha frente era , um velho conhecido, com o qual nunca tive uma relação muito próxima. – Desculpe a falta de educação em não os cumprimentar antes, eu só não estava esperando ninguém além do Larry aqui. Mas, enfim, oi, tudo bem? Sou , como acho que sabem, mas podem me chamar de .
-Oi, , muito prazer! – O homem que eu não conhecia se manifestou prontamente. – Sou Adam, agente do . Acho que nunca nos vimos antes.
– Acho que não! Muito prazer, Adam. – Apertei as suas mãos e voltei-me a .
– Oi, , tudo bem? Faz bastante tempo que não conversamos, mas acho que ainda se lembra de mim, espero que sim, pelo menos. – Ele deu uma risadinha de lado e estendeu as suas mãos na direção da minha. Acenei afirmativamente com a cabeça como forma de demonstrar que sabia quem ele era, apesar do tempo, e peguei a sua mão, apertando-a rapidamente. – Ótimo. Eu também estou surpreso de te encontrar aqui, devo confessar. O Adam tinha me dito que iríamos jantar hoje e eu pensei que também fosse algo entre nós dois só, então estou tão confuso quanto você.
coçou a sua cabeça, enquanto me olhava de lado e fazia uma careta. Dei uma risadinha fraca e decidi continuar a conversa. Se ele não sabia e eu também não, isso queria dizer que era algo que Adam e Larry estavam tramando juntos. Eu não gostava muito de , mas ele estava sendo bem agradável, então eu senti que deveria me esforçar para manter o bom clima entre nós quatro.
– Que bom, . Já estava achando que eu era a única excluída dessa noite. Sinto-me melhor assim.
– Estamos excluídos juntos, pelo o que parece. E, por favor, chame-me de . Eu sei que você não gosta muito de mim, mas parece-me sério demais.
– Certo. – Disse simplesmente antes de virar-me para Larry, tentando entender toda a confusão. – Será que vocês podem me explicar o que está havendo aqui? Acho que eu e merecemos saber.
– Por que não comemos primeiro, com calma, para só depois discutirmos o que temos para discutir? – Adam sugeriu a nós todos e eu dei de ombros, como se me fosse indiferente.
Confesso que estava ansiosa para descobrir a razão pela qual e eu tínhamos sido chamados para o mesmo jantar, mas esperar meia hora a mais não seria algo que me mataria.
– Se você prefere assim, tudo bem. – Ouvi dizer à minha frente.
– Ótimo.
Larry chamou o garçom e fez o seu pedido, assim como e Adam. Eu havia chegado há pouco tempo e nem tinha tido oportunidade de olhar o cardápio, então decidi por copiar Larry em sua escolha de prato apenas para que as coisas andassem mais rápido e eu não tivesse que chamar o garçom mais uma vez dali a 5 minutos para pedir qualquer outra coisa.
Durante os 40 minutos subsequentes, a conversa na mesa foi totalmente focada na indústria do entretenimento, as mudanças dessas e os mais novos babados – que não envolviam nem eu e nem , obviamente. Hollywood era podre e, obviamente, aqueles que trabalhavam no business também tinham o seu lado ruim. Logo, ouvir Larry e Adam fofocarem sobre os altos e baixos das carreiras de outras celebridades era o mesmo que ouvir o lado mais perverso daqueles programas de fofocas. Eu amava isso tudo, é claro, mas, quando o assunto envolvia alguém que me era conhecido ou por quem eu tinha apreço, ficava um pouco desconfortável. Assim, eu permaneci quase todo o tempo quieta, manifestando-me apenas para um ou outro comentário ou dando risada quando algo engraçado era trazido à tona.
Os pratos vieram e foram embora, e, quando eu menos me dei conta, o garçom responsável por nossa mesa já nos trazia o cardápio de sobremesa, que eu prontamente recusei, assim como Adam. pediu um doce de chocolate qualquer, sendo acompanhado por Larry. Quando os pedidos tinham sido anotados e o garçom já tinha se retirado, pigarreei baixinho, chamando a atenção dos três homens sentados na mesa.
– Então, será que podemos conversar agora? Já comemos e tudo mais e, afinal, é a razão pela qual estamos aqui, não é mesmo?
– Claro, claro. – Larry disse, ajeitando-se na cadeira ao meu lado. – Você quer falar, Adam?
– Por mim tudo bem. – O agente de respondeu, sorrindo para todos nós. – Certo. Eu e Larry combinamos esse jantar aqui porque, enquanto conversávamos alguns dias atrás, percebemos que estamos com problemas semelhantes. Ou melhor, vocês estão, o que acaba impactando o nosso trabalho.
– Qual problema? Eu sinceramente não estou com problema algum. – falou, olhando de Adam para Larry com um semblante confuso.
– Bom, eu estou com alguns probleminhas, sim, mas acho improvável que eles tenham qualquer relação com , para ser sincera.
– É aí que você se engana, . – Larry respondeu. – , você parece confuso, então vou te explicar o nosso lado da situação, meu e da . Vocês têm basicamente a mesma idade, então você certamente sabe que a tem frequentado bastantes festas nos últimos anos. Acho que vocês até se encontraram em algumas dessas, certo? Ótimo. O problema é que nos últimos tempos a mídia vem pegando no pé dela por conta de algumas fotos que vazaram dessas festas ou de alguns vídeos meio selvagens. – deu um sorrisinho de lado e olhou para mim com a menção da palavra “selvagem”. Eu senti minhas bochechas queimarem e olhei para Larry com os olhos arregalados em demonstração de incredulidade. Não acreditava que ele estava sendo tão direto assim com um cara que eu mal conhecia. E, por Deus! Não havia nada de selvagem em vídeo nenhum, eram apenas filmagens minhas dançando, fumando cigarro de maconha ou alegre por conta da bebida. Larry pareceu me ignorar por completo e continuou com o seu discurso. – Isso não tinha muitos problemas até certo tempo atrás, só que nos últimos meses eu tenho recebido incontáveis ligações de executivos e grandes nomes da indústria reclamando dessa pose “indomável” que a tem sustentado.
– Disso tudo eu já sabia, só que eu ainda não entendi aonde você está querendo chegar.
– É, eu também não. Qual é o ponto disso tudo, Larry? E porque você está expondo os meus problemas ao Adam e ao ? – Falei, um pouco mais irritada.
– Calma, , não há nada nessa história que nós dois já não saibamos. – Adam disse em defesa do amigo. – O ponto disso é que está com problemas parecidos, caso não saiba.
Balancei a cabeça negativamente e encarei o ator à minha frente. Ele desviou o olhar do meu e virou-se para o lado contrário ao de Adam.
– Bom, também têm sido criticado pela vida boêmia nesse último ano. As críticas a ele são basicamente as mesmas que são feitas a você, pelo o que pude ver. A única diferença é que ele não é conhecido como “solteiro indomável” como você. A mídia o apelidou de “garanhão de Hollywood”. – Dei uma risadinha baixa com a menção do apelido. Pude ver que havia ficado vermelho, assim como eu anteriormente. Fiz uma nota mental para abordar esse assunto com ele depois, para provocá-lo, e voltei a prestar atenção em seu agente. – Ele também teve fotos e vídeos de sua presença nas festas vazadas por aí, e também algumas fotografias com algumas garotas em momentos mais privados, se é que você me entende.
– Adam, por favor... – disse, cortando-o rapidamente.
, calma aí. A claramente não sabia de nada disso, duvido que ela tenha interesse em entrar em detalhes por aqui. Eu só estou querendo deixar tudo às claras para vocês. – pareceu respirar fundo antes de dar de ombros contrariado.
Eu permaneci quieta, afinal, apesar de ter dado risada antes, sabia que o garoto estava claramente desconfortável.
– Que seja.
– Certo. , não sei se você conseguiu entender aonde quero chegar, mas o ponto é que vocês dois estão com problemas semelhantes na mídia, então Larry e eu pensamos que um poderia ajudar o outro.
– Não acho que nossos problemas sejam tão iguais assim, mas tudo bem. – Disse só para contrariar, sabendo que não era bem verdade. – E o que exatamente teríamos que fazer?
– Nada muito complicado... – Adam começou a falar quando foi interrompido pelo garçom, que trazia a sobremesa. e Larry agradeceram e o homem logo se retirou. Larry pareceu ponderar alguma coisa uma vez que mexeu a cabeça em sinal de negação, manifestando-se logo em seguida.
– Serei bem direto, sim? , você está sendo criticado por farrear demais e por ser um romântico incorrigível, na melhor das expressões. , o seu problema também é relacionado com festas demais e compromissos de menos. Juntando tudo isso, Adam e eu percebemos duas coisas: a primeira é que vocês dois aparentemente têm os mesmos interesses; e a segunda, bom, a segunda é que um pode oferecer exatamente o que o outro precisa.
Quando o meu agente terminou a sua fala, algo pareceu fazer sentido em minha cabeça. Eu puder perceber exatamente aonde aqueles dois queriam chegar, mas o pânico que se instalou em meu íntimo queria provar com todas as forças que eu estava errada. Assim, sem que eu sequer percebesse, já estava manifestando-me entre dentes.
– Eu espero honestamente que tenha entendido todo esse plano de vocês errado, mas, por via das dúvidas, seja mais claro, por favor. Eu quero saber, detalhadamente, o que é que vocês estão querendo que essa ajuda mútua seja?
– Vocês teriam que fingir um relacionamento por um tempo. – Adam disse, sorrindo como se parecesse óbvio.
Arregalei os olhos ao mesmo tempo em que ouvia a colher de cair em seu prato. Olhei para o ator à minha frente, e ele parecia tão assustado quanto eu. Larry comia o seu pedaço de bolo freneticamente, como se isso fosse evitar represálias. Aquela ideia era simplesmente maluca e impossível de se tornar realidade.


Capítulo 2


– Não, não, não, não, não. Nem pensar. – Ouvi dizer à minha frente antes mesmo que eu tivesse tempo de refletir sobre o assunto, no entanto o agradeci mentalmente pela revolta. – Isso só pode ser brincadeira. Eu não vou fingir estar em relacionamento nenhum. Vocês estão loucos.
-, tenta ver as coisas pelo lado bom... – Adam começou um discurso, mas eu logo o interrompi.
– Lado bom? Poupe-me. Eu não sei aonde vocês dois estavam com a cabeça quando pensaram que nós dois sequer cogitaríamos a possibilidade de aceitar esse plano absurdo. É ainda mais absurdo porque acredito que seja de conhecimento de todos aqui que e eu não somos amigos. – Virei-me rapidamente para o ator à minha frente e murmurei um pouco mais baixo. – Desculpa falar isso assim, não quero ofender.
– Sem problemas, por mim pode continuar. – deu uma risadinha e piscou o seu olho para mim.
Sorri brevemente para ele, mas mudei o meu semblante radicalmente quando olhei para Adam e Larry.
– Espero que tenham entendido que eu estou jogando essa ideia no lixo, sim? Prefiro ficar com a minha reputação totalmente prejudicada ao invés de entrar num relacionamento falso com quem quer que seja. Estou muito bem solteira, doa a quem doer.
– Eu vou ser obrigado a concordar em número e grau com a . Estou completamente satisfeito com o meu status de relacionamento atual e não poderia ligar menos para o fato das pessoas acharem que eu passo de namoro em namoro. Sou feliz assim e o meu comportamento não prejudica ninguém.
Acenei afirmativamente com a cabeça, concordando com a fala de . O fato de sermos festeiros e de nenhum de nós estar em um relacionamento fixo não machucava indivíduo algum. Isso era, pelo menos, o que eu achava. Olhei para Adam e ele mordia o seu lábio impaciente; Larry, por sua vez, apertava as suas mãos juntas, como forma de demonstração de impaciência e nervosismo. Esperei que meu agente olhasse em meus olhos e arqueei a sobrancelha, incentivando-o a falar o que quer que estivesse incomodando-o.
– Acho que falta ver um lado da situação nesse problema todo. – Larry suspirou e desentrelaçou suas mãos. Conforme ele falava, ele alternava o olhar entre e eu, deixando claro que as suas palavras valiam para ambos. – Há um time enorme de profissionais junto com cada um de vocês, publicitários, estilistas, advogados, maquiadores, cabelereiros; isso só para dizer o começo! E, bem, há eu e Adam também. O problema é que todas essas atitudes imaturas de vocês dois acaba por atingir a todos nós também, cada qual a seu jeito. Se há publicidade negativa quanto a algum de vocês dois, alguns trabalhos são deixados de lado. – Nesse momento meu agente olhou diretamente para mim, e eu puder entender sua referência à Vogue. Engoli em seco e continuei prestando atenção, sentindo-me cada vez mais culpada. – E, cada vez que isso acontece, alguém sai perdendo, mesmo que vocês não percebam. Se não há sessão de fotos, os maquiadores e cabelereiros não tem um job para o dia, se o cancelamento não for avisado com antecedência. Se há algum problema legal muito complicado, os advogados de vocês podem acabar por perder tempo demais em tentar achar uma saída decente para o caso, perdendo tempo útil de trabalho em outros processos. E assim vai.
Nem e nem eu parecíamos capazes de dizer alguma coisa. Eu não poderia falar por ele, mas eu nunca havia visto a situação toda por esse lado. Sabia que em termos relativos as coisas não eram tão ruins como eles estavam colocando – nós mal havíamos visto impacto das notícias negativas no número de trabalho que nos era oferecido! –, mas eu realmente deveria levar esse outro lado mais em consideração quando decidisse sair no futuro. Adam pigarreou alto, ganhando minha atenção e também se pôs a falar.
– E Larry não mencionou antes, mas eu acho importante falar de nós dois também. Tenho certeza que falo por nós dois aqui quando afirmo que é um enorme prazer trabalhar com vocês e que temos um carinho enorme tanto por você, , quanto por você, . Mas, as atitudes de vocês nos atingem em cheio, todas as vezes. Nós somos os responsáveis pela administração das suas carreiras, e o nosso nome também está em jogo nesse mundo da fama. O que vocês fazem ou deixam de fazer, o que conquistam ou deixam de conquistar, a influência, fama, dinheiro, tudo isso reflete no nosso sucesso. Os fracassos de vocês são nossos fracassos e, bom, o escândalo de vocês é sinônimo da nossa falta de competência.
Quando Adam terminou tudo, o que eu queria fazer era levantar da mesa e sair correndo. parecia perdido em um mundo paralelo, sem nem mesmo demonstrar mais apetite para terminar o seu bolo. O silêncio se instaurou em nossa mesa por uns bons dois minutos antes que decidisse cortá-lo.
– Eu sinto muito, nunca havia pensado assim. Sinto muito mesmo.
– Eu também. – Acompanhei no pedido de desculpas.
, , fiquem tranquilos. Nós não dissemos isso tudo para que vocês se sintam mal, foi só para que se conscientizem da dimensão das ações de vocês. Relaxem, jovens. – Larry deu uma risadinha, acabando com a tensão que havia se instaurado no ar. – Nada de ruim aconteceu até agora, e nenhuma das pessoas que trabalham com vocês sequer pensou em abandonar o barco. Está tudo certo para vocês dois.
– Ah Larry, cala a boca. Agora você já me deixou superculpada. – Brinquei, ainda que a brincadeira tivesse um fundo de verdade.
– Não foi a intenção, .
– Mas, já que vocês estão vendo a situação de forma mais ampla, tirem um tempo para pensar sobre o que comentamos aqui hoje, pode ser? – Adam perguntou.
– Eu deveria dizer não de novo, mas só porque vocês realmente fizeram um discurso emotivo, eu vou falar que tudo bem, vou pensar. Mas quero que saibam que na minha cabeça isso ainda não faz sentido, não acho que preciso estar com alguém para ser uma pessoa com a imagem melhor. – respondeu, ainda cabisbaixo.
– É só uma questão de passar a ideia de que vocês estão comprometidos com alguma coisa mais séria para mídia, esse é o intuito. – Larry falou, sorridente.
– É um intuito idiota. – Resmunguei. – Mas acompanho o no que ele disse antes. Só não esperem que eu mude de opinião, porque dificilmente vai acontecer.
– Tudo bem, só queremos que considerem a ideia, nada mais.
– Ótimo. – e eu respondemos quase no mesmo instante e soltamos uma risadinha baixa.
– Eu tenho só mais uma pergunta sobre tudo isso, se me permitirem. – Falei, fingindo esperar permissão para continuar.
Se eles me dissessem que não, eu falaria da mesma forma.
– E o que é? – Adam perguntou.
– Eu entendi a razão por detrás de tudo isso, mas quero saber o por que vocês acharam que seria uma boa ideia que e eu fizéssemos isso juntos. Eu sei que acham que podemos ajudar um ao outro, mas porque não ir atrás de duas pessoas notadamente bem-comportadas nessa indústria?
– Fácil. – Larry respondeu com um sorriso – Se chamássemos um homem e uma mulher quaisquer para figurar como namorado de vocês por um tempo, tudo seria evidente demais. Nem você e nem o tiveram algum relacionamento duradouro e público que seja do conhecimento da mídia, então seria cômodo demais que iniciassem um no momento em que começaram a ter problemas, não é mesmo? Quando Adam e eu conversamos essa ideia foi cogitada e, obviamente, faríamos isso sem que precisássemos comunicar o sobre o seu lado e vice-versa, no entanto achamos que as pessoas pudessem desconfiar do relacionamento arranjado. E, bom, vocês têm que concordar que ninguém espera um relacionamento arranjado entre duas pessoas “problemáticas”. – Arqueei a sobrancelha em resposta a esse comentário e Larry acrescentou – Desculpe usar essa palavra, é só para vocês entenderem.
– É, faz sentido, acho. – disse, encerrando a discussão.
Apesar de o clima ter melhorado um pouco, ninguém mais parecia disposto a comer mais nada e nem a permanecer no restaurante. Pedimos logo a conta, pagamos e nos despedimos, indo cada um para o seu lado. Não haviam fotógrafos na frente do restaurante, o que me permitiu chamar um táxi tranquilamente. Voltei ao meu apartamento em West Village ainda pensando no que Larry e Adam haviam dito, era uma ideia estúpida e sem nexo e eu jamais me submeteria a isso.


– Mas que raiva! – Reclamei alto, jogando uma revista de fofoca qualquer que estava em minhas mãos para longe. – Esse povo não cansa de fuçar a minha vida, não?
– Calma , o babado nem é tão grande dessa vez. São só algumas fotos suas com um gatinho, o que pode ter de tão ruim? – , minha melhor amiga, perguntou, inocente.
Ela havia ido para a minha casa para uma noite de filmes e muita pipoca, mas nossos objetivos tinham sido frustrados quando ela chegou com essa revista em mãos para me mostrar o novo flagra dos paparazzi para cima de mim.
, como eu a chamava, conhecia-me desde que éramos apenas menininhas mimadas de Long Island, com cerca de 10 ou 11 anos. Havíamos crescido juntas e compartilhávamos segredos, confidências e alegrias desde sempre. Ela havia sido a maior responsável por me incentivar a perseguir a carreira de atuação ainda durante os nossos anos de elementary school, mesmo quando meus pais ainda eram contra, e eu estava em seu lado quando sua carta de admissão da faculdade chegou.
Nunca ficamos tanto tempo separadas, mesmo quando nossos caminhos se distanciaram um pouco. havia decidido ficar perto de casa, entrando assim no college de medicina da New York University, eu fixei residência em Nova Iorque também, ainda que tivesse que ir à Los Angeles com certa frequência. Mesmo com a proximidade, nossos horários eram relativamente incompatíveis, já que a mulher havia cursava agora a grad school de medicina. Por essa razão, havia quase se tornado um ritual que nos encontrássemos uma vez por semana em minha casa para uma sessão de filmes, pipoca e muita fofoca.
– Você pelo menos viu as porcarias das fotografias? Nós estávamos agarrados! E tem alguns flagras de nós dois fumando um cigarro de maconha. – Falei, derrotada, já me jogando no sofá da sala.
, para de ser dramática! Não é a primeira e nem a décima vez que te pegam com maconha, e também não é o primeiro carinha que fotografam junto de você. Deixa para lá, nada disso vai fazer grande alarde na mídia. Em dois dias todo mundo vai ter esquecido tudo e você vai poder ter o seu mundinho de volta, como sempre acontece.
– Eu sei, , mas não aguento mais isso. Poxa, eu estava em uma conversa particular com o Karl, pensei que não havia ninguém por perto e abaixei a guarda. Nós estávamos apenas curtindo a noite de uma forma totalmente inocente, garanto-lhe, mas essas fotos fazem parecer que estávamos numa onda de pegação e drogas. Foram só uns beijinhos roubados e uma ou duas tragadas no cigarro dele, da minha parte.
arqueou a sobrancelha e deu risada. Ela devia estar achando graça do meu desespero repentino por algumas fotos vazadas, já que eu geralmente não ligava para isso. A verdade é que o discurso, que eu jurava ter sido ensaiado, de Larry e Adam alguns dias antes tinha realmente me feito pensar. Eu passei a me preocupar com os efeitos que qualquer decisão minha pudesse ter naqueles que me cercavam, mesmo que o problema estivesse fora do meu alcance, como agora.
– Por que você está rindo, ? – Perguntei um pouquinho emburrada.
– Pura e simplesmente porque essa não é você. Você sempre ignorou qualquer polêmica em que pudesse estar envolvida, porque está surtando agora? Além disso, como você mesma falou, essas fotos aqui são de mais de duas semanas atrás, são águas passadas. Qual é o problema, ? É alguma coisa com o Karl?
– Não, Karl e eu estamos bem, somos só amigos. – Dei de ombros, com indiferença.
Karl era um cantor indie com o qual eu tinha um casinho sem importância. Éramos bem amigos e nos encontrávamos sempre em festas ou reuniões de amigos, mas nunca havíamos combinado um encontro. Ficávamos juntos vez ou outra, e eu sabia que o cara tinha um grande interesse em mim, mas, como não era nada recíproco da minha parte, as coisas nunca passavam de uma noite. – Eu estou irritada com o conjunto de tudo isso. Não aguento mais sair para ir na esquina e ter que lidar com gente seguindo-me para cima e para baixo, de ter que encontrar fotos minhas que eu nem sabia que tinham sido tiradas em revistas aleatórias e nem de não ter privacidade nenhuma quando eu estou saindo com alguém ou fazendo alguma besteira.
– É o preço da fama, amiga. Eu entendo que esteja de saco cheio, mas não é como se você não soubesse que isso viria junto com o sucesso. – Virei-me para com um olhar matador, criticando o seu comentário. – Não me olha assim, . Não estou querendo te dar lição de moral nem nada disso, estou só constatando o óbvio. Eu também acho que você merece mais privacidade, mas não adianta ficar com raiva assim. O negócio é que atualmente é bom que os paparazzi te sigam, porque eles sempre têm um podre seu para descobrir, desculpe-me pela sinceridade. Se você fosse uma atriz talentosa e chata, ninguém iria ligar para o seu dia a dia.
– O que você está querendo dizer? – Perguntei, querendo saber aonde ela queria chegar.
Eu, definitivamente, não estava seguindo o seu raciocínio.
– Simples, se você quer que esse povo todo saia do seu pé, você tem que se tornar menos interessante para eles.
– Hum, e o que exatamente você sugere para que eu consiga isso aí?
– Bom, a primeira coisa que eu acho que você precisa fazer é começar a ser mais ativa nas redes sociais. Você não tem nada disso não é mesmo? – Balancei a cabeça negativamente, enquanto sentava ao meu lado no sofá e pegava o meu telefone em suas mãos. – Vamos dar um jeitinho nisso agora. Vou começar criando um Twitter e um Instagram para você. A página do Facebook você já tem porque eu mesma curto, mas deixa essa para ser administrada pelo seu pessoal mesmo. – Começou a falar, mexendo no aparelho telefônico como se fosse seu.
Assisti baixar certos aplicativos em meu celular, requisitar os nomes que queria para mim – como estava indisponível, acabamos por usar o meu apelido mesmo como usuário – e escolher uma foto para cada um dos meus perfis. Ela seguiu a si mesma nas duas redes sociais e entregou-me o celular com um enorme sorriso.
– Prontinho, aqui está. Você já está me seguindo, é claro, mas fique à vontade para seguir mais algumas pessoas também. Acho que o seu time não vai ligar muito que você agora está nas redes, mas acho que você deveria avisar ao Larry só por via das dúvidas. Você precisa de ajuda para entender como os dois aplicativos funcionam?
– Por favor. – Respondi, sorrindo também.
Eu odiava redes sociais e não via muito sentido em manter uma conta pessoal para mostrar minha vida a todo mundo, uma vez que acreditava que ela já era pública o suficiente. Mas, se a ideia de estivesse certa, talvez isso me tornasse um pouquinho menos interessante para a mídia, ou, pelo menos, um pouquinho mais próxima de uma menina normal de 22 anos.
Minha amiga ficou cerca de 15 minutos ensinando-me como usar o Twitter e o Instagram, e ambos me pareceram muito simples. Nos cerca de 45 minutos seguintes nós ficamos apenas fuçando as redes sociais de conhecidos nossos ou de amigos meus famosos, enquanto eu contava a ela sobre os mais novos babados de Hollywood. Eu não mencionei a minha conversa com Adam, Larry e em momento algum, já que pensava ser algo que morreria por lá e também não pareceu achar que nada me incomodava.
Horas depois, nós finalmente comemos pipoca e assistimos ao filme, como inicialmente combinado, e minha amiga foi embora um pouco antes das 19 horas, já que tinha que ir para a faculdade no dia seguinte. Eu não tinha nada programado para o resto da noite, então decidi dar uma olhada no que os meus novos perfis da rede social me ofereciam.
Escrevi algumas mensagens no Twitter e postei um vídeo dando “oi” no Instagram. Eu ainda não tinha seguido ninguém – além de –, mas o meu número de seguidores crescia rapidamente. Decidi dar uma olhada nas sugestões que os sites me ofereciam para seguir e acabei aceitando algumas. Não segui nem no Twitter e nem no Instagram nenhum dos meus antigos rolos amorosos, nem mesmo Karl, apesar de sermos amigos, e acabei seguindo um ou outro fã, apenas para ficar por dentro do que eles estavam dizendo sobre mim.
Passei um tempo vendo o perfil de alguns conhecidos e, do nada, encontrei o Instagram de . Eu não sabia ao certo se deveria ou não o adicionar, mas no final achei que não teria problema. Cliquei no botão de seguir e fui olhar as suas fotos, tomando o cuidado para não curtir nada. Havia muitas fotos dele em premiações ou pré-estreia de filmes, bem arrumado, com um sorriso perfeito e sempre sozinho. Em outras, ele estava com amigos em reuniões na casa de alguém ou em algum lugar diferente, como restaurantes ou parques. Também tinham algumas fotos em que ele estava acompanhado de uma menina loira, seja abraçando-a, beijando o seu rosto ou apenas sentado em seu lado. Não havia nenhuma legenda que identificasse quem a menina era e nem marcação do seu nome de usuário, só haviam legendas que deixavam claro que a menina era o seu porto-seguro, ou o quanto ele sentia falta dela.
Estava tão distraída fuçando as fotos, que nem percebi que tinha recebido uma mensagem direta, e, quando finalmente vi o numerozinho vermelho da notificação, cliquei no ícone. Meu coração deu um salto quando li o nome de como o remetente da mensagem, não porque eu estava emocionada ou algo do tipo, mas porque eu estava com medo de haver algum modo dele saber que eu estive olhando o seu perfil por tempo demais.

“@
Você por aqui? Achei que não fôssemos amigos o suficiente para merecer um follow seu.
Já olhou o meu perfil? Não recebi nenhuma curtida sua, pelo o que estive observando.”


Dei risada do seu comentário e senti o pânico deixar o meu corpo lentamente. Ele estava perguntando-me se eu havia olhado o seu perfil, logo não tinha como saber que sim, eu já tinha me divertido muito por lá. Pensei em ignorar a mensagem, mas achei que não teria sentido. Eu o havia seguido, então achava que poderíamos manter uma conversa amigável, apesar de não sermos tão próximos assim.

@
Acabei de criar esse perfil aqui e, não, não olhei o seu perfil. Só te segui mesmo. Posso curtir o que você postar daqui para frente, mas não vou atrás das suas fotos antigas haha :)
E não vejo problema em te seguir. Não somos inimigos, certo?


Eu havia mesmo mentido sobre olhar as fotos dele, mas eu não poderia ser sincera. Seria muito constrangedor se eu assumisse que tinha visto grande parte do seu perfil no mesmo dia em que havia criado o meu próprio Instagram, certo? Certo. Eu ficaria quieta.
Meu celular apitou com uma nova notificação de e eu logo fui ler a mensagem.

@
Certamente não, mas achei que você me odiava depois do episódio com a Amber. Desde então você nunca nem olhou na minha cara.
Só naquele jantar.
Mas isso não foi por vontade própria, né?
Enfim, postei uma foto agora. Espero sua curtida ;)


Antes mesmo de respondê-lo fui a seu perfil e vi a novo foto que havia publicado. Não havia nada demais nela, ela apenas uma careta sua com uma legenda sobre aproveitar a vida. Ele estava extremamente fofo na fotografia, mas limitei-me a curti-la sem deixar comentário nenhum.

@
Curti só porque você pediu, que fique claro.
;)
E eu não tenho problemas com você hoje em dia. O episódio da Amber ficou para trás, apesar de minha opinião ter continuado a mesma desde então.
Só não nos acho compatíveis e, pelo o que já li de você e já vi nas festas em que nos esbarramos, não acredito que tenhamos tantos interesses em comum.


Enviei as mensagens, percebendo, logo depois, que tinha sido um pouquinho grossa com ele, mesmo sem intenção. O “episódio da Amber” ao qual se referira tinha acontecido cerca de quatro ou cinco anos antes, quando ainda éramos adolescentes. estava conversando com uma menina da nossa idade, Amber, que havia contracenado comigo em um filme de comédia. Nós éramos muito próximas, então eu sabia que o caso deles durava algum tempo e que ela já estava ficando apaixonada. As conversas deles davam a entender que estava tão interessado quanto a menina, trocando juras de amor e mensagens fofas. Eu via a felicidade da menina diariamente, então torcia com todas as forças para tudo dar certo.
O problema é que não havia nada oficial entre os dois, então, em um dia qualquer, Amber recebeu uma mensagem de um conhecido nosso com uma foto de agarrado a Alexia, outra garota que também fazia parte da indústria e que era só um ano mais velha que nós dois. Amber ficou arrasada e veio chorar no meu ombro, e eu, como boa amiga, fui tirar satisfações. Na época eu já o conhecia pessoalmente, uma vez que o tamanho diminuto do business quase tornava uma obrigação que os adolescentes do local se esbarrassem eventualmente, mas nunca havíamos mantido qualquer tipo de amizade. Em resposta aos meus surtos, argumentou que nunca havia proposto para Amber nenhum tipo de relacionamento exclusivo e que, embora gostasse da menina, não tinha pretensão de namorá-la. O que se seguiu daí foi um grande problema entre eles dois, que inclusive vazou ao público, causando revolta por parte dos fãs de cada um deles.
e Amber terminaram o que quer que tivessem começado, óbvio, e eu passei a não gostar do cara por conta disso. Nas poucas vezes que nos falamos depois tomei o cuidado para não ser mal-educada, mas também nem ao menos tentei ser agradável. Eu e Amber acabamos afastando-nos, e fazia anos que já não tinha notícia da menina. A minha raiva para com foi lentamente dissipando-se, e hoje eu já nem mais ligava para tudo isso, no entanto eu nunca o pedi desculpa pelas coisas que o disse na época e também nunca recebi suas desculpas por bobagens que ele respondeu, razão pela qual ele deveria achar que eu o odiava.
Estava sentindo-me um pouco culpada pelo jeito ríspido que o havia respondido na última mensagem que mandei, então pensei em consertar um pouco as coisas.

@
Ah, desculpe pelo o que eu disse na época da Amber. Era problema de vocês e eu acabei intrometendo-me.
Eu mal te conhecia antes, então foi tudo da boca para fora.
E eu não te odeio por isso.
Na realidade eu não te odeio, só para deixar claro haha.


A resposta veio menos de um minuto depois.

@
Melhor assim, não preciso de mais ninguém me odiando hoje em dia haha
E desculpe também. Sinceramente nem lembro o que eu disse, mas prometo que me arrependi.
Obrigada pela curtida, , aposto que deixou o seu mural mais bonito.


Fiquei um pouco incomodada com o seu jeito de lidar com a possibilidade de alguém odiá-lo. Era uma bobagem, mas mesmo assim fiquei curiosa.

@
Você é ridículo hahahaha o meu mural está igualzinho, garanhão. A sua foto foi só mais uma ;)
E quem é que te odeia hoje em dia para você se preocupar assim?

Eu usei havia usado o seu apelido midiático propositalmente, de modo a deixar aquela conversa um pouco mais leve. Dessa vez demorou a me responder, mas quando o fez foi bem sucinto.

@
Hoje, o Adam.


Sua resposta me deixou um pouco em dúvida quanto a continuar o assunto ou não, mas decidi perguntar, afinal ele poderia não responder, se não quisesse. Eu não me lembrava de ter visto nada negativo dele na mídia nos últimos dias, então realmente não fazia ideia do que poderia ter deixado Adam irritado com ele.

@
O que você fez agora?


Eu mal tinha pressionado o botão de enviar, quando recebi sua resposta. Assustei-me com o que li, mas também o respondi rapidamente.

@
Você está tranquila hoje?
Podemos nos encontrar?

@
Agora?

@
Sim. Você pode?

@
Posso. Você quer sair para algum lugar?

@
Por mim pode ser, tanto faz.

@
É alguma coisa privada que você quer conversar?

@
Mais ou menos.
Eu acho que sim, na real.

@
Então venha à minha casa.
Tudo bem para você?

@
Tudo bem. Só preciso do endereço.


Dei meu endereço ao garoto e corri para o banheiro para tentar um jeito no meu rosto, já que nem de maquiagem eu estava. Troquei o meu moletom por uma calça jeans e esperei a campainha tocar sentada no sofá. Quando escutei o barulhinho anunciando a chegada de , deixei o meu celular na mesa de centro e fui abrir a porta. estava vestido com uma calça de moletom e um casaco de moletom escuro, cobrindo sua cabeça. Dei espaço para ele entrar e, quando fechei a porta, fui em direção à sala com ele no encalço.
– Você quer alguma coisa para beber ou comer? – Perguntei gentilmente, sorrindo.
– Não, obrigada. Acabei de comer.
– Tudo bem. Pode ficar à vontade, senta aí. – Disse, convidando-o a sentar no sofá que eu estava ocupando minutos antes e sentando-me logo à sua frente. – Então, o que é que aconteceu para o Adam te odiar?
suspirou e passou as mãos no cabelo. Ele pareceu pensar por um segundo antes de retirar o seu moletom, revelando uma blusa branca colada no corpo por debaixo do casaco. Prendi a minha respiração por um segundo e deixei os meus olhos se perderem em seu corpo rapidamente, antes de perceber o que estava fazendo. Balancei a minha cabeça de um lado para o outro, espantando qualquer pensamento pecaminoso que pudesse sequer ter pensado em aparecer e engoli em seco. não pareceu perceber o meu momento de desconforto e pigarreou antes de começar a falar.
– Eu acho que ele talvez não me odeie ainda, mas ele está realmente muito puto. Não foi exatamente culpa minha, eu nem sabia de nada e... – Ele parecia desconcertado com alguma coisa e até um pouco envergonhado, o que estava me deixando agoniada.
, fale logo.
– Certo. Eu estava confirmado como papel principal de um filme daquele diretor Augustus Linberg, o enredo era sobre um agente secreto que atuava na Rússia e tudo mais, então era uma megaoportunidade. Estava tudo certo para as filmagens começarem no mês que vem e o Adam estava animado para caramba, até porque o cachê é bom. – deu uma risadinha. – O problema é que eu estava pegando a filha do Augustus há um tempinho, mas eu juro que não sabia quem ela era até o cara surtar.
– Mas como é que ele descobriu?
– Eu tinha combinado com a menina de sairmos essa semana. Há dois dias ela me ligou e me disse que estava sem nada para fazer e me convidou para ir à casa dela naquela tarde. Eu falei que tudo bem, porque achei que ela morava sozinha, então fui preparado. Só que ela nunca me disse que morava com os pais dela! A gente ficou junto à tarde e, quando o Augustus chegou com a mulher, o cara teve um surto porque eu estava só de cueca com a filha dele nos braços. Ele me expulsou de lá, claro, e ligou para o Adam para dizer que eu estava demitido.
Escutei a história com atenção e me esforcei para segurar a risada, sem muito sucesso na tentativa.
, não é engraçado. – protestou à minha frente.
– Desculpa, eu sei, eu sei. Mas o cara encontrou vocês dois na hora H?
– O que? Não! A gente estava sentado no chão da sala, encostados no sofá, assistindo a um filme na TV. Já tínhamos terminado tudo, por Deus.
– E por que a menina não falou para você ir embora se os pais delas estavam chegando?
– Ela me disse que pensou que eles fossem demorar mais, então não queria pedir para que eu fosse para casa antes da hora. O problema é que ela deixou a hora passar.
Dei uma risadinha baixa e vi que tentava parecer bravo com a minha reação. Quando arqueei a sobrancelha, pude ver um sorriso escondido em seus lábios, fazendo-me sorrir também.
– É, se eu fosse o Adam, eu talvez ficasse irritada com você também, para ser sincera. – Dei de ombros, irritando o garoto.
– Mas eu não tive culpa, poxa! Eu não sabia que a menina era filha do Augustus, se soubesse eu teria terminado tudo há tempos. – reclamou, olhando para mim.
, fica tranquilo. O Adam sabe disso, mas você tem que dar um tempo a ele para digerir a história, principalmente porque ele provavelmente já estava contando com isso e gabando-se pelo seu papel. Não adianta pedir para ele te desculpar agora, mas tenho certeza que ele não te odeia.
– Ih, , eu não sei não. O cara ficou puto comigo no telefone, eu nunca vi ele tão alterado assim. Foi assustador.
Lembrei-me da ligação de Larry alguns dias antes e o quão bravo ele estava com o cancelamento de uma capa de revista e de uma entrevista! Não queria nem imaginar a sua reação se eu tivesse perdido algum papel.
– Bom, não há nada que você possa fazer agora quanto a isso. O que eu queria saber é por que é que você quis contar isso tudo para mim? Não me leve a mal, é que nunca fomos amigos, então me pareceu meio estranho você se abrir e querer conversar sobre o seu problema só porque te segui no Instagram.
apertou os lábios e fez uma careta. Permaneci olhando para ele, enquanto esperava uma resposta à minha pergunta.
– É que eu achei que você fosse entender depois do que o Adam e o Larry nos falaram aquele dia e tal. Eu sei que o Larry também ficou puto com você algum dia desses porque o discurso dele meio que deixou isso a entender. – falou com convicção, fazendo-me morder os lábios e acenar afirmativamente com a cabeça. – Eu não sei o que você fez, mas também teve que lidar com a ira dele, então achei que pudesse me ajudar.
– Hmm... Tudo o que consigo te dizer é que a raiva do Larry passou depois de um tempinho.
– Acho que só me restar esperar, então.
Balancei afirmativamente com a cabeça e me mexi no sofá desconfortável. Eu não sabia se deveria começar outro assunto com ou se deveria esperar por um próximo movimento do cara. Olhei para seu rosto e ele parecia me encarar um pouco apreensivo. Talvez ainda tivesse mais alguma coisa para falar, mas, como ele não tomava atitude nenhuma, fingi que iria me levantar. Antes que eu sequer estivesse em meus pés ouvi sua voz dizer baixinho:
– Espera, eu vim aqui para falar outra coisa com você, se não se importar.
– Ah, tudo bem. – Respondi, já me sentando de novo. – E o que é?
coçou a cabeça e sorriu de lado, fazendo-me sorrir também. Eu sabia que ele estava tentando ganhar tempo e não entendia exatamente a razão para isso, mas decidi facilitar as coisas para ele, postergando um pouco a discussão.
– Eu estou com um pouco de sede, então vou pegar uma água, sim? Você quer alguma coisa?
– Uma água está bem para mim também. – Respondeu-me, sorrindo fraco.
– Já volto então. – Disse já a caminho da cozinha, deixando-o sozinho na sala com seus pensamentos.
Enchi uma jarra de água e peguei dois copos no armário, colocando-os numa bandeja. Demorei o máximo que consegui na realização daquela tarefa simples, queria deixá-lo relaxado, mas também não queria que ele sentisse como se eu estivesse evitando a conversa por alguma razão.
– Aqui está. – Falei quando voltei para a sala com a bandeja nas mãos. – Quer que eu te sirva?
– Pode ser. – deu de ombros e eu o entreguei um copo cheio do líquido, vendo-o beber um gole e deixar o objeto na mesa de centro em sua frente.
– Está pronto para falar agora?
– Acho que sim, mas, por favor, ouça-me até o final antes de se manifestar, ok? – Concordei com a cabeça e deixei-o prosseguir. – Eu estive pensando na nossa conversa com Adam e Larry e nos prós e contras de tudo o que eles disseram. Eu acho que é uma ideia idiota e meio estúpida, mas não é como se a minha vida estivesse indo às mil maravilhas, e, já que você foi enquadrada na mesma situação que eu pelo o seu próprio agente, acho que a sua também não. Acredito que é uma ideia fadada ao fracasso, mas talvez o caminho que cada um de nós esteja agora também o seja, então por que não tentar?
permaneceu olhando em meus olhos e eu não me pronunciei quanto a nada do que ele havia dito, então ele continuou o discurso.
– Não sei se eu fui claro o suficiente com o que falei antes, mas o que quis dizer é que acho que poderíamos tentar para ver no que dá. Não é como se fosse piorar a situação para nenhum de nós e, como não é nada real, a gente faz um combinado de que nosso relacionamento vai ser só para os outros verem, e em quatro paredes continuamos sendo quem somos, com quem quisermos. Você pode sair com os caras que costumava encontrar que eu não vou perguntar e eu faço a mesma coisa, mas, para o mundo, seríamos um casal. – sorriu antes de acrescentar rapidamente. – Ah, e como eu sei que você aprecia uma boa festa, assim como eu, poderíamos continuar frequentando as melhores baladas, só que iríamos juntos. Larry e Adam não poderiam reclamar e a mídia nos deixaria um pouco em paz.
Não respondi a sua proposta prontamente, porque não sabia muito bem o que dizer. Eu queria gritar para ele que a ideia era maluca, que eu jamais aceitaria nada daquilo e que eu amava a minha vida do jeito que era. No entanto, eu deveria reconhecer que talvez aquela situação fosse realmente vantajosa.
Respirei fundo e me permiti pensar por um segundo em sua proposta. Não seria nada permanente, seria? Poderíamos fingir um relacionamento por seis meses ou um pouquinho mais e depois termos uma separação amigável. Não precisaríamos nos envolver de verdade, apenas fingir um ou outro beijo ou carícia em público, coisa que o meu trabalho já me obrigava a fazer na frente das câmeras. Mas, se fingíssemos isso, eu certamente me tornaria menos interessante para a mídia, assim como havia sugerido. Eu teria um namorado para o mundo, mas continuaria livre no meu íntimo. Era uma situação de vitória para aonde quer que eu olhasse e, no fundo, seria só mais um papel para adicionar à minha lista.
– Tudo bem. – Respondi, sorrindo. – Eu topo.


Capítulo 3


Cerca de um mês havia se passado desde que e eu concordamos com o plano não-tão-idiota de Adam e Larry. Apesar de termos entrado no acordo naquela noite em que ele apareceu na minha casa, apenas colocamos a ideia em prática dois dias depois, quando marcamos um novo jantar com os nossos agentes para comunicar a decisão e para pensarmos em todo o resto como um conjunto.
Havia ficado decidido que não iríamos contar que o relacionamento era falso para mais ninguém e que não precisaríamos fingir por mais de 8 meses, tempo considerado adequado por Larry e Adam para que não ficássemos mal vistos pela mídia pelo término de um relacionamento relâmpago.
Muito embora os dois agentes quisessem assumir tudo no dia seguinte, e eu decidimos “começar” devagar para que as coisas parecessem mais verdadeiras. Começamos então por aumentar o nosso contato nas redes sociais, primeiro nos seguindo no Twitter, depois curtindo as fotos recentes um do outro no Instagram, sempre deixando comentários, ou respondendo aos tweets do outro. Quando tudo já estava ficando mais romântico, com um duplo sentido explícito proposital, passamos a curtir as fotos antigas um do outro no Instagram, ou a retweetar as mensagens antigas, como forma de demonstrar que estávamos vendo mais do que só o que nos aparecia no feed.
Esse comportamento não passou despercebido, obviamente, e a mídia inteira estava acompanhando atentamente o desenrolar da situação. Nós estávamos achando tudo muito engraçado, claro, mas não nos havíamos manifestado sobre nada. tinha me ligado no mínimo umas 5 vezes nas últimas semanas para me perguntar o que estava acontecendo e por que é que ela não estava a par de tudo. Expliquei a ela que ainda não havia nada certo e que estávamos apenas conversando, mesmo querendo simplesmente contar a verdade.
e eu continuávamos conversando pelas mensagens privadas também, mas apenas como amigos. Se teríamos que conviver pelos próximos meses, então que pelo menos fizéssemos isso na paz.
Adam e Larry estavam aflitos para que déssemos o pontapé inicial no nosso relacionamento público, então havíamos marcado um jantar a dois em um sábado num restaurante chique do Soho, bem perto do reduto nova-iorquino das celebridades. Nosso intuito era, obviamente, sermos fotografados em clima de romance, mas tínhamos concordado também em fazer um teatrinho adicional surpresa, caso trombássemos com fãs ou paparazzi no caminho.
O jantar estava marcado para às 20:00, mas eu estava tão aflita que havia passado o dia todo pensando no que vestir. Não era como se estivéssemos, de fato, em um encontro, mas eu não queria que ficasse na cara que eu estava apenas fingindo me arrumar para surpreender , mesmo que, talvez, no fundo, eu quisesse que ele ficasse um pouquinho admirado, sim. Eu ainda gostava de massagear o meu ego de vez em quando, oras!
Já tínhamos a reserva no local, então não havia, para nós, medo do plano dar errado, pelo menos quanto ao restaurante. Mesmo assim, eu estava com um friozinho na barriga, e meu coração acelerava todas as vezes que pensava no que estávamos prestes a fazer. Não, os sintomas não eram causados por emoção ou paixão reprimida, eu estava única e simplesmente nervosa com a ideia de que eu deixaria de ser publicamente solteira no momento em que pisasse no restaurante com em meu encalço. Minha liberdade estava indo para o ralo, e eu havia sido a responsável por concordar com isso.
Quando me enviou uma mensagem avisando que estava chegando na porta da minha casa, peguei meu casaco e minha bolsa e fui esperar na entrada. Assim que avistei uma imponente BMW branca virando a esquina, soube que aquele era o seu carro. Desci as escadas em direção ao veículo e vi abrir a sua porta, dar a volta no carro e abrir a porta do carona para que eu entrasse. Sorri brevemente para o garoto por conta de seu gesto e entrei no veículo, ouvindo a porta se fechar ao meu lado logo após isso.
Não conversamos muito no caminho para o local, olhava para as ruas com mais atenção do que o necessário, enquanto eu mexia no celular. Não estava tentando evitar nenhum tipo de conversa, mas queria me preparar mentalmente para o jantar e as consequências dele, e tinha certeza que ele estava fazendo a mesma coisa.
Cerca de 20 minutos depois, pude ver o carro virando na rua do restaurante escolhido. Eu já havia estado no local algumas vezes, mas mesmo assim tudo parecia diferente dessa vez. Respirei fundo quando parou do outro lado da rua e me concentrei para entrar no papel que estava prestes a começar a desempenhar. Acompanhei com o olhar sair do carro e dar a volta para abrir a porta para mim, assim como fez quando me pegou em casa.
Desci com um grande sorriso no rosto para o caso de alguém já nos ver naquele momento, e só percebi que deveríamos andar quando o garoto se aproximou de mim e pegou na minha mão, com aparente naturalidade. Fitei-o um pouco surpresa com o gesto, apesar de saber que era mais do que esperado.
– Tudo bem? – perguntou, olhando para as nossas mãos entrelaçadas. – Você se importa?
– Não, está tudo certo. – Respondi, olhando para seu rosto um pouco desconcertada.
– Se estiver desconfortável, podemos simplesmente andar lado a lado, não acho que terá qualquer problema.
– Não, , eu estou bem. Não me importo de ficarmos de mãos dadas, não é nada demais. – Dei uma risada baixa para o garoto e comecei a caminhar. – Agora vamos, porque alguém pode nos reconhecer por aqui e nos parar, e eu estou com fome.
riu e acelerou o passo para caminhar ao meu lado, já que eu o puxava suavemente por estar a alguns passos na frente. Entramos no restaurante e, logo que nos reconheceram na porta, fomos direcionados para uma mesa em um canto mais afastado do salão principal. Agradecemos brevemente e nos acomodamos em nossos lugares, ficando sozinhos.
– Você acha que as pessoas conseguem nos ouvir por aqui? – Perguntei com a voz baixinha.
O menino olhou ao redor e deu de ombros antes de me responder.
– Acho que não. Estamos afastados da parte cheia do restaurante, e aqui por perto só há aquele casal ali. – Ele me disse, apontando um casal de meia idade a duas mesas de distância de nós. – É só não falarmos tão alto que duvido que qualquer um possa ouvir.
– Espero que sim. Podemos conversar com naturalidade, então, sem nenhum fingimento, certo? – Falei ainda incerta quanto à privacidade do local.
– O que você está querendo falar que é tão secreto? – me perguntou, arqueando a sobrancelha.
– Nada, só não sei muito bem como manter uma falsa conversa apaixonada. – Dei de ombros, sendo sincera.
, relaxa um pouco. As pessoas não têm o porquê desconfiar de nada se não dermos motivos para isso. E, sinceramente, duvido que alguém fique prestando tanta atenção assim nas nossas conversas, independente de quem somos. – O menino disse, olhando em meus olhos, tranquilizando-me.
– Certo. – Respirei fundo, olhando ao redor. – É que essa necessidade de estarmos sempre atentos a tudo me estressa um pouco, sabe? Isso de ter que calcular minuciosamente o que faremos para evitar qualquer tipo de escândalo ou falatório da mídia. Sinto-me um pouco paranoica, mas às vezes sinto falta de quando ninguém me notava.
virou a cabeça para me analisar enquanto falava. Ele parecia genuinamente interessado na minha explicação e sorriu quando terminei. O garçom se aproximou de nós para entregar o menu e ficamos em silencio até que ele se afastasse.
– Acho que não me lembro da última vez que passei como um completo desconhecido em algum lugar. – Ele disse, pensativo, como se tentasse se lembrar de algum episódio em especial que contradissesse a sua fala.
, impossível! E quando você era criança? Duvido que você não tenha uma só memória de quando brincava na rua como um moleque qualquer. – Falei, perplexa.
– Para falar a verdade, eu acho que só nos momentos em que eu estava apenas com a minha família mesmo. – disse, coçando a cabeça e entortando a boca, pensativo. – Eu entrei nessa indústria quando era muito pequeno, meu primeiro filme foi com 4 anos, como o sobrinho da Julia Roberts em uma comédia romântica. Quase não tenho memória de antes disso, sabe? Então tudo o que me lembro é de sempre perceber alguém notando-me.
– Você não brincava com alguns amiguinhos ou algo assim?
– Brincava, claro, mas era quase todo mundo da indústria também. Minha mãe se mudou comigo para Los Angeles mais ou menos na época desse primeiro filme do qual participei, e lá era tudo em função do business. Eu passava quase todos os meus dias com crianças que faziam grandes filmes também, brincávamos e trabalhávamos juntos, então éramos conhecidos nesse meio. E as pessoas nas ruas me reconheciam com muita frequência também, o que só aumentou com o tempo. – O garoto contou-me animado. Eu sabia muito pouco sobre a vida dos atores mirins de Hollywood, e saber que o tinha sido um deles era surpreendente para mim.
– E você não se sente sufocado com isso? Eu estou nesse meio há uns 6 ou 7 anos só, e volta e meia quero chorar, porque sinto como se estivesse numa prisão sem ter cometido nenhum crime. – Disse, sincera.
riu e me olhou, divertido. Talvez eu estivesse exagerando e sendo um pouquinho dramática mesmo, mas essa história de sempre ter a minha vida privada, minhas conversas em restaurante ou mesmo minhas informações pessoais espalhadas por aí me dava nos nervos. E era em momentos como aquele, em que eu não tinha certeza se seria ou não observada, que eu me colocava a refletir sobre tudo.
– Ah, não é tão ruim assim, . Eu concordo que em certos momentos as coisas fogem do controle, mas na maioria das vezes só o que temos que fazer é tirar uma ou outra foto ou desmentir alguma coisa idiota.
– Ou também dar satisfações sobre tudo para pessoas que nem conhecemos, ou ter nossos rostos estampados em todos os lugares... Estamos encenando tudo isso aqui por causa disso, afinal. – Apontei de mim para ele, querendo deixar claro que estava falando do nosso relacionamento.
– É, isso é verdade, mas não é um fardo tão pesado se pararmos para pensar em tudo o que vêm com a fama, as oportunidades, os contatos, o dinheiro. E nós dois só vamos viver isso por pouco tempo, as vantagens da fama são duradouras. – deu de ombros rapidamente, virou-se para ao lado e acenou para o garçom, chamando-o para ir até a mesa. – Mas talvez eu só nunca tenha vivido de outra forma para saber.
perguntou-me se eu gostaria de beber uma taça de vinho, quando confirmei, ele pediu uma garrafa de vinho e água para o garçom, que havia acabado de chegar até nossa mesa.
– É, sei lá. Acho que, como comecei tarde nesse mundo do entretenimento, eu tenho boas lembranças de como é fácil e libertador ser normal e como é difícil aceitar que minha vida é pública agora. – Disse, retomando a conversa quando nos vimos sozinhos novamente.
– Talvez. Talvez você possa comparar bem o antes e o agora, já eu não posso dizer o mesmo. Não tenho como sentir falta de algo que não lembro como se parece. – O menino entortou a boca quando disse isso e eu ri.
– Você ia para a escola normal quando morava em Los Angeles? – Perguntei com curiosidade.
Eu não conhecia muito o além do que era difundido pela mídia, e já que passávamos muito tempo juntos e tínhamos acordado em fingir um namoro, seria bom que nos conhecêssemos bem.
O garçom aproximou-se da nossa mesa com a garrafa de vinho e nos serviu. sorriu para mim nesse meio tempo e começou a falar novamente quando o homem se afastou.
– Não, minha agenda era um pouco maluca, então não teria como eu frequentar nenhuma escola comum. Eu ia para uma escola própria para crianças que trabalhavam no mundo artístico, mas saí antes do fim da Middle School e terminei os estudos em casa.
– Eu não fazia ideia que essas escolas especiais para atores existissem, achei que era só exagero! Isso quer dizer que você nunca foi a uma festa de formatura ou a uma feira de ciências?
– Não. – riu, simpático, antes da sua feição mudar pare uma divertida. – Na verdade, retiro o que eu disse. Eu já estive em muitas festas de formatura, fui até rei do baile em algumas delas, e eu sempre fui com a garota mais bonita.
Entendi o que ele estava fazendo e soltei uma risada alta, me acompanhou e logo nós dois estávamos sendo observados pelo casal sentado a algumas mesas de nós.
– Eu não estou perguntando dos bailes dos seus filmes, seu ridículo. Estou querendo saber dos bailes de verdade, daqueles em que você fica nervoso para convidar uma garota para ser sua acompanhante, que você tem que ir vestido todo engomadinho e acaba beijando a menina na música romântica da noite. – Falei, fantasiando e gesticulando, animada, arrancando uma risada do garoto.
– Bom, nesse caso, não. Minha escola não tinha essas coisas, e eu também nunca tive uma garota que pudesse me convidar para ser seu par numa festa de verdade. – Ele deu de ombros, indiferente. – Não ligo também, não me faz falta.
– Ah, mas deveria ligar, sim. Você é provavelmente o único jovem americano que nunca foi a uma festa dessas. É quase uma tradição nacional, , sem dizer que é bem divertido! Você não pode simplesmente chegar aos 30 anos sem nunca ter feito parte disso. – Respondi enquanto colocava a mão no peito, como se estivesse profundamente ofendida.
– Ah, , eu não sei, não. Eu já sou meio velho para isso e nem sei como entrar numa festa dessas, acho que agora meio que já era. Sem dizer que deve ser só coisa de adolescente, aquelas festinhas sem graça. O que eu vou fazer lá quando eu posso ir nas baladas mais legais de Nova Iorque? Acho que não faz o meu tipo. – O garoto entortou a boca logo após terminar de falar, como se recusasse a ideia toda.
– Não ligo. Vou pensar em um jeito para que você vá em alguma festa real de formatura de colegial, eu faço questão. Você pode aproveitar as baladas da cidade até morrer, mas existe uma idade limite para ir numa festa dessas e, sinto em te avisar mocinho, mas você está quase lá. – Falei, ignorando por completo o que ele havia dito anteriormente
– Que seja. Mas, quero saber uma coisa, como é que você já foi numa festa dessas se também saiu da escola comum antes do Ensino Médio? – Arqueei a sobrancelha com a afirmação de , curiosa.
Não me lembrava de ter mencionado a ele o meu tempo de escola hoje ou nunca.
– E como é que você sabe disso?
– Google. Ou você achou que eu ia concordar em namorar você sem antes dar uma pesquisada na sua vida? – O garoto deu uma piscadinha para mim e sorriu de lado.
Rolei os olhos e disfarcei o meu próprio sorriso.
– Você deve saber mais de mim mesma do que eu, agora.
– Talvez. – falou ainda com o sorriso no rosto e com uma cara sapeca.
Ignorei a sua feição e decidi responder a sua pergunta.
– Enfim, eu só saí do colégio antes de entrar no Ensino Médio porque me mudei de Long Island para Nova Iorque, mas fui no meu baile de formatura da Middle School e fui também no baile de High School com um antigo namoradinho da escola, mesmo que já tivesse deixado de ser aluna.
– E ninguém te reconheceu por lá? – O garoto indagou, aparentemente curioso.
Sua pergunta era pertinente, afinal eu já tinha começado a minha carreira naquela época, e ele parecia saber isso.
– Sim, mas a maioria das pessoas havia estudado comigo antes, então eu não era nenhuma novidade por lá, sem dizer que muita gente aprendeu a não gostar de mim. Mas isso tudo foi indiferente, porque me diverti como nunca e eu beijei o mocinho na música romântica. – Falei, lembrando-me do dia, sorrindo involuntariamente com a memória.
– Divertiu-se mais do que nas baladas de L.A e daqui? – perguntou-me com um olhar de desafio, fazendo-me dar de ombros.
– Não, mas foi legal mesmo assim.
O garçom se aproximou de nós e nos perguntou se já havíamos decidido o que iríamos comer. Cada um de nós fez o pedido e ele se retirou do local.
– Já que mencionou as baladas, diga-me, por que você vai tanto nelas? Deve ter no mínimo umas três manchetes suas em baladas diferentes a cada fim de semana. – Disse como se não quisesse nada, quando, na realidade, estava morta de curiosidade para perguntar aquilo ao menino.
– Simples, eu acho divertido. É um bom lugar para esfriar a cabeça, tomar algumas bebidas e achar alguma menina interessante. – Revirei os olhos com a resposta previsível de . – E você?
– Gosto de dançar, e é a forma que encontrei de fugir um pouco da loucura de Hollywood, nada demais. Não vou à balada para procurar companhia. – Falei sem pensar.
– Você não é muito de companhia, né? – O garoto disse de uma vez, fazendo-me abrir a boca com o quão direta era aquela pergunta.
– O que quer dizer?
– Quero dizer que nunca vejo nenhuma informação sobre você namorar ninguém. – Ele disse com um aparente tédio.
– Ah, não sei, eu não colocaria nessa perspectiva. Não é que não curta companhia, mas, para mim, as coisas têm que ser tudo ou nada. – Falei, explicando ao garoto como a minha cabeça funcionava. Afinal, ele havia deixado subentendido, a meu ver, que queria entender as razões por detrás das minhas ações tão criticadas pela mídia. – Ou eu vou me envolver seriamente com alguém e vai ser algo exclusivo, ou eu vou só ter uma noite de diversão. Não vou me envolver com ninguém que eu ache que não vai dar certo e que vá me machucar.
– E por que não? – me perguntou, aparentemente curioso.
Ele estava com a cabeça apoiada em sua mão direita e me olhava atentamente enquanto eu falava. Fiquei um pouco desconcertada com a atenção que estava recebendo, mas encontros serviam para isso, não? Mesmo que falsos.
– Porque é perda de tempo. Se não tem futuro, não há razão para que eu lide com os problemas do relacionamento, prefiro ficar só com a parte fácil, se é que me entende.
– Faz sentido, se pensarmos por esse ponto de vista, mas eu ainda acho que não há muitas vantagens nisso tudo. – rebateu toda a minha argumentação antes de beber um pouco do seu vinho.
– E por que não? Eu nunca tive o meu coração quebrado e nunca precisei enfrentar tempos ruins com alguém que estava irritando-me. Eu caio fora muito antes de tudo, na verdade eu nem entro em nada. É o melhor dos dois mundos. – Sorri e também tomei um gole da minha taça de vinho, que naquele momento já estava pela metade. balançou a cabeça negativamente e continuou a conversa.
– Mas você também nunca tem ninguém para quem reclamar quando alguma coisa vai errado ou para simplesmente estar lá para você num dia chato. – Falou como se fosse óbvio e como se fosse motivo o suficiente para que quebrar toda a minha linha de pensamento. – E dá para aproveitar a parte boa por muito tempo antes dos problemas aparecerem, acredite.
– É isso o que você faz, então? Aproveita tudo de bom antes de simplesmente acabar com o que quer que seja? – Perguntei tão direta quanto ele havia sido antes comigo.
– Basicamente, sim. Eu não estou procurando uma companheira para a vida, quero alguém para aproveitar, então quando eu começo a sentir que há mais problemas do que vantagens, eu simplesmente passo para a próxima. – Respondeu simples, sorrindo em seguida.
, isso é muito cruel. Você é pior do que eu! Eu não iludo ninguém para depois deixar a pessoa na mão, você deve quebrar o coração dessas meninas todas as vezes. – Falei, olhando para ele de uma forma severa, como se o repreendesse.
pareceu ter percebido a minha intenção e tratou de se explicar.
– Não é bem assim, . Eu sempre deixo bem claro para qualquer garota como as coisas funcionam para mim, e na maior parte das vezes nós até terminamos civilizadamente. É um relacionamento que dá certo para os dois lados e que, quando termina, é meio que para deixar as coisas positivas para ambos.
– Hm, não sei se consigo ver dessa forma. – Disse, sincera, tentando me colocar no lugar das garotas que ficavam com ele nos termos que haviam sido expostos.
– É por isso que nós dois somos o melhor casal falso possível. – me olhou com um sorriso animado e eu fiquei confusa com aquilo. O que as nossas formas malucas de lidar com os relacionamentos anteriores teriam a ver com nós dois e o nosso falso namoro? O garoto pareceu notar a minha confusão e logo se pôs a falar. – Eu gosto de namorar no meio termo, quero alguém que não exija demais e nem de menos, você, em compensação, quer 8 ou 80. Nós somos totalmente incompatíveis, então nos juntar é perfeito. É impossível que essa coisa evolua para algo a mais o que o envolvimento falso. Não tem como dar errado.
Quando terminou de falar, percebi o seu ponto. De fato, se olhássemos atentamente, era evidente que em situações normais nós jamais nos envolveríamos, mas, por alguma razão, a forma decidida com a qual ele vociferou aquelas palavras me incomodou. Por bem ou por mal, era chato ouvir alguém dizer com tanta certeza que nunca ficaria com você, independentemente do motivo para isso. O meu ego, ao invés de ter sido massageado, sofreu um baque.
– É, eu acho que não. – Respondi, seca.
Mudei de assunto rapidamente, a fim de evitar que o clima ficasse ruim entre nós por minha culpa. não pareceu ter percebido nada de errado e continuou falando animado sobre qualquer bobagem. Alguns minutos depois eu já tinha decidido deixar para lá o meu incômodo e conversava animadamente com o garoto à minha frente, falar com ele era fácil e natural. era engraçado e sempre parecia ver o lado bom das coisas, seu jeito despreocupado de contar histórias e de brincar com o que acontecia ao seu redor me fazia sorrir mais do que o aconselhável em uma relação puramente profissional. Por mais diferentes que pudéssemos ser, tínhamos também muitos interesses em comum e eu mal percebi o tempo passar.
Quando o garçom se aproximou da mesa com um cardápio de sobremesas, fui rápida em agradecer e negar, , por outro lado, pediu o maior doce que estava disponível, exigindo duas colheres. Rolei os olhos no último pedido do garoto, muito embora estivesse tentando esconder um sorriso de lado. olhou para mim e arqueou a sobrancelha, antes de se manifestar.
– O que foi? – Falou, fazendo-se falsamente de desentendido.
– Eu não vou comer sobremesa, . – Respondi, óbvia.
Eu havia negado o cardápio sem nem mesmo dar chance de mudar de ideia, o que parecia evidente sobre a minha recusa em sequer considerar pedir algo.
– E por que não?
– Não estou com vontade. – Falei, dando de ombros.
– Duvido. Duvido que você simplesmente vá negar um bom pedaço de torta de chocolate com morango. – manifestou-se, divertido, arrancando um sorriso de mim.
– É, acho que vou passar sim. Meu personal me mata se souber que eu comi alguma coisa de fora da dieta, então não tenho muita escolha. – Assumi baixinho, um pouquinho envergonhada.
– Ah, , qual é? Para de se preocupar com tudo! Esse seu personal nem precisa ficar sabendo de nada. – Ele falou como se não ligasse para a minha desculpa que, internamente, eu sabia ser muito esfarrapada. – E não sei porque você liga para o que esse cara fala, afinal. Você está em forma e, sendo honesto, está mega gata assim, não precisa se privar de nada.
Senti minhas bochechas queimarem no segundo em que terminou de falar. Era um assunto sem pé nem cabeça, sim, mas ele havia me elogiado sem mais nem menos, por isso e eu tinha gostado. Decidi deixar toda a besteira que passava pela minha cabeça de lado e peguei a colher que estava na mesa à minha frente no intuito de demonstrar que tinha mudado de ideia. abriu um grande sorriso e eu arqueei a sobrancelha, curiosa. O meu ego havia acabado de se sentir um pouquinho melhor. Ponto para mim!
– Certo, eu me rendo à sua sobremesa só por conta do seu elogio, mas antes quero saber o porquê de você insistir nisso tudo? É só uma bobagem. – Falei, despreocupada, tentando deixar o elogio e a minha satisfação em ouvi-lo de lado.
– Gostei de saber que meu elogio te fez mudar de ideia. – Sorri com a sua resposta e o garoto continuou piscou de brincadeira. – E, já que me perguntou, você deveria saber que eu sou uma pessoa que ama doces e, já que estamos no nosso primeiro encontro, acho essencial que tenhamos o cardápio completo, desde o vinho até a sobremesa.
-, isso não é um encontro de verdade, não precisa se preocupar com a ideia de tudo ser perfeito ou algo assim. – Dei de ombros, tentando aliviar a pressão de um primeiro encontro que parecia ter colocado em seus ombros sem motivo algum.
– Eu sei que não estamos aqui para um verdadeiro encontro romântico, mas se vamos ter que fazer isso funcionar por uns meses, então que seja o mais legal possível para nós dois. – O garoto falou, mordendo o lábio, divertido, antes de prosseguir. – E podemos fazer disso o nosso primeiro encontro da amizade, o que acha? Eu posso me acostumar fácil com isso.
Ao ouvir a sugestão de , gargalhei. O garoto me acompanhou na risada e logo vimos o garçom se aproximar com o doce que havia sido pedido e com um olhar divertido no rosto. Tinha certeza que estávamos parecendo um casal de verdade, o que era ótimo. aproveitou o momento e pegou na minha mão que estava em cima da mesa, deixando-a entrelaçada à sua.
Por um segundo, arregalei os meus olhos com o susto que levei com o gesto, mas, quando percebi que mais pessoas no restaurante começavam a nos reconhecer ao longe, relaxei e entrei no teatro. Aumentei o sorriso o máximo que pude, muito embora ele já estivesse genuinamente grande, e o olhei do jeito mais apaixonado que consegui. Percebi que ele fez mais ou menos a mesma coisa do seu jeito particular e automaticamente pensei em quão bons nós éramos naquilo. Se a imprensa não comprasse a nossa história de amor, eles seriam loucos.
Soltei a mão de delicadamente e a direcionei para colher que estava à minha frente, pegando um pedaço do doce e assistindo o menino fazer o mesmo. O gosto estava realmente bom, mas, melhor do que isso, era o semblante satisfeito do garoto o ver que eu realmente tinha apreciado a sobremesa que ele havia escolhido. Arqueei a sobrancelha com curiosidade e, após comer mais um pouco, resolvi falar.
– Certo. Essa sua admiração pelo fato de eu estar comendo não é normal e eu estou começando a ficar sem graça. Você está me olhando de um jeito estranho. – ouviu minha frase e sorriu de lado, sapeca. – O que tem entre você e doces que ainda não entendi? Não pode ser só porque você gosta de comer isso aqui.
– Ora, ora. Somos amigos há tão pouco tempo e você já consegue dizer quando estou escondendo alguma coisa. Estou surpreso, , e sei que isso não faz parte dos seus dons naturais para a atuação. – Falou, brincalhão, arrancando uma risadinha baixa de mim.
– Eu tenho um talento natural para identificar quando as pessoas têm mais informações do que aquelas que me revelam, . E você é particularmente fácil de decifrar. – Pisquei o olho, divertida, e mordi os lábios, provocando-o de brincadeira. – Agora desembuche, qual é o seu problema?
– Eu não diria que tenho um problema, por assim dizer. Assim como você, eu tenho um talento natural pouco conhecido por aí. – Retrucou, misterioso, fazendo a minha feição mudar de divertida para curiosa.
– O que quer dizer?
– Sou um ótimo confeiteiro. Cozinho doces, tortas e qualquer coisa que me der na telha e que seja uma boa sobremesa. Vou à restaurantes e provo aquilo que me chamar a atenção, como esse bolo aqui, para tentar reproduzir em casa. E faço isso com maestria. – abriu um sorriso, satisfeito e orgulhoso, e eu deixei transparecer minha admiração por aquelas informações. Não era nada demais, mas se o garoto estava sendo meio reservado quanto a isso, eu respeitaria. – Eu sei que parece bobagem, e é mesmo, mas eu não conto isso para muita gente e só cozinho para aquelas pessoas que realmente importam para mim.
– E você vai cozinhar para mim, por acaso? – Perguntei já interessada na comida.
Se era tão boa assim, como havia se gabado, eu merecia provar.
– Talvez um dia. Temos que nos conhecer muito antes que eu me sinta confortável com essa ideia. Mas, enquanto esse momento não chega, quero ver as suas reações com os doces todas as vezes que saímos para que eu descubra o seu paladar aos poucos, por isso insisti que coma hoje. Um dia posso te surpreender, .
Fingi pensar por um minuto ao mesmo tempo em que comia mais uma colherada do doce e fazia uma expressão de mistério, impedindo-o de entender o que eu estava achando.
– Ok, combinado, faremos isso então. Mas, como você fez toda essa propaganda, quero acelerar esse processo todo. Sugiro que a gente inicie um jogo de perguntas e respostas para manter a conversa. – Respondi enquanto olhava a boca do garoto, que agora estava cheia de chocolate, curvar-se em um sorriso. – Então, já que contou uma curiosidade sua, contarei-lhe uma minha e depois você tem direito a uma pergunta sobre mim. Depois que eu responder, a vez é minha, e eu perguntarei.
– Gosto da ideia, então pode começar a falar.
Passamos a próxima meia hora perguntando e respondendo às perguntas um do outro. As perguntas eram bem inocentes e versavam mais sobre interesses pessoais, família ou nossas perspectivas de carreira. Nenhum de nós se atreveu a perguntar coisas pessoais demais, talvez porque estivéssemos apenas nos conhecendo e tínhamos interesse em manter uma amizade saudável. Eu não tinha nenhuma pretensão em fazer se sentir desconfortável com aquilo que queria saber sobre ele e não queria ultrapassar barreira alguma em nossa recém construída relação. Talvez um dia.
No meio desse jogo besta descobri que a família de era do Arizona, estado vizinho à Califórnia, que ele tinha um irmão mais velho, já casado e com dois filhos, e uma irmã mais nova, que ainda estava no colegial. Ele havia se mudado com a mãe para Los Angeles ainda pequeno, como já havia me dito, e tinha vivido por lá até os 16 anos, quando decidiu vir para Nova Iorque, enquanto sua mãe retornava para o seu estado natal.
Já na cidade, viveu com um amigo e os pais dele por uns cinco anos, até finalmente comprar um apartamento seu. Trabalhou em muitos filmes nesse período e viu sua carreira decolar quando participou de uma saga teen, aos 18 anos, conquistando o coração do público adolescente. Hoje, tinha muito contato com sua família, mas não ia com frequência para casa por conta da distância.
Eu contei a ele que era de Long Island, filha única de um casal de empresários e que, embora vivesse perto de casa, mantinha pouco contato com os pais. Mencionei e nossa amizade de longa data para o garoto, e prometi que ele iria conhecê-la um dia desses.
Quando terminamos de comer e acertamos a conta – o que, na realidade, fez, já que se recusou a deixar-me pagar um centavo que fosse –, o garoto pegou na minha mão e me guiou para fora do restaurante, acenando para algumas pessoas que nos davam oi. Já na rua, percebemos que havia alguns paparazzi à espreita, esperando a nossa saída. Fingimos ignorá-los por fora, como se estivéssemos entediados com a atenção recebida, mas, por dentro, estávamos sorrindo com a repercussão tão desejada de nosso encontro. Nenhum de nós mencionou o plano de desenrolar um teatrinho romântico para aguçar ainda mais a curiosidade, o que honestamente me confortou. Talvez fosse cedo para isso também.
Entrei no carro de quando esse abriu a porta para mim, e logo que me dei conta, já estávamos saindo da região, em direção às nossas casas. O garoto me deixou em casa cerca de 20 minutos depois e se despediu de mim com um sorriso e um tímido “obrigado”. Eu agradeci em resposta e entrei em casa sorrindo. A noite havia sido muito melhor do que eu imaginei a princípio.

Estava apenas de calcinha e sutiã, cantarolando uma música pop qualquer na cozinha de casa, enquanto preparava meu almoço de domingo, quando escutei a campainha da minha casa tocar estridente. Bufei, impaciente, pela distração e pela inconveniência de quem quer que fosse que estivesse à minha porta e fui em direção a ela, sem nem mesmo me importar em me cobrir. Quando cheguei mais perto da entrada, gritei, perguntando quem estava lá, ouvindo a resposta alta de do lado de fora da casa.
Rapidamente deixei a garota entrar no recinto e, no momento em que direcionei o meu olhar para o seu rosto, pude ver a sua expressão de fúria. Fingi não perceber sua raiva e virei-me de costas, caminhando em direção à cozinha novamente, enquanto dizia a ela para ficar à vontade – não que eu precisasse passar esse recado.
A garota pareceu ignorar as minhas palavras e seguiu-me a passos firmes, apoiando suas mãos na bancada da cozinha assim que chegou no local. Eu continuava agindo normalmente, tentando ganhar tempo, mas podia ouvir bufar de dois em dois segundos atrás de mim.
– Quando é que vai olhar para mim? – Ouvi a garota perguntar com uma voz que transmitia mágoa e raiva.
Suspirei e virei-me de frente para ela, com um sorriso tímido no rosto.
– Prontinho. Tudo bem com você? – Falei, soando simpática, tentando acalmá-la um pouco. Eu sabia a razão de sua raiva, óbvio, mas esperaria ela dizer alguma coisa para poder me explicar.
, corta essa. Sem simpatia para o meu lado hoje, ok? – Ela virou os olhos, fazendo-me abaixar a cabeça e continuou. – Eu quero é saber o porquê de você esconder que está namorando o ?
– Eu não escondi nada de você, . Disse que estávamos conversando e conhecendo-nos. Fui sincera quando falei que não tínhamos nada naquele dia.
– É, mas e daí? Custava você ligar para contar que a conversa havia evoluído para alguma coisa mais real? Você sabe o quão chato é acordar e ver na internet que a sua melhor amiga teve um encontro romântico com um cara famoso e nem se deu ao trabalho de compartilhar isso com você? – A menina parecia genuinamente chateada, e eu estava com o coração partido por ter que sustentar uma grande mentira para ela a partir daquele momento.
A verdade é que eu não tinha contado nada do jantar para porque queria adiar o teatrinho o máximo possível, mas talvez essa não tenha sido a melhor ideia que já tive.
– Eu sinto muito, não tive a intenção de esconder nada de você. me chamou para sair na noite anterior, e eu fiquei tão nervosa que mal raciocinei. Eu juro que foi só isso. – Menti descaradamente.
– Hm... Isso não muda o fato de que eu fui totalmente esquecida por você e fui obrigada a descobrir por terceiros.
, desculpe-me mesmo. Eu prometo que daqui para frente te conto qualquer coisa relevante que acontecer entre nós. – Disse meio manhosa, buscando o seu perdão.
Assisti a garota virar os olhos, caminhar para um armário do lado da geladeira, abri-lo e pegar um salgadinho antes de se jogar na cadeira do balcão, analisando-me de cima a baixo.
– Não vou te perdoar, que isso fique claro, mas aceito saber as novidades em primeira mão. – A garota disse, ainda de boca cheia, apontando uma batata para mim.
Revirei os olhos e dei as costas para a menina novamente, continuando a preparar o meu almoço como se nada tivesse me interrompido.
– Agora você está fazendo tempestade em copo d’água. Reconheço que dei uma grande mancada, mas não é para esse drama todo.
– Não estou nem aí. Eu estou chateada por ser a última a saber da novidade e acho que estou no meu direito de ficar assim. Sinto muito se você acha exagero, mas vou continuar jogando isso na sua cara até que me recompense com uma informação superexclusiva. – Rolei os olhos com a sua fala e deixei-a terminar o seu discurso. – Por Deus, eu sou sua melhor amiga, mereço ter algumas vantagens.
– Tudo bem, tudo bem. Da próxima vez que algo grande acontecer entre nós dois, aviso-lhe.
pareceu aceitar bem o nosso “trato” e mudou rapidamente de assunto, contando-me dos seus dias na faculdade e do novo enfermeiro com o qual ela estava saindo. Aparentemente era só um rolo, mas a garota parecia estar animada, então ouvi com atenção toda a sua história.
Embora fosse minha melhor amiga, era o exato oposto de mim no quesito “homens”. Enquanto eu preferia manter todos os meus rolos o mais discreto possível, ela gostava de contar todos os detalhes para quem se interessasse em ouvir, e, bem, eu me divertia com isso.
– E então ele pegou na minha mão e simplesmente me convidou para conhecer os seus pais no próximo fim de semana. Eu fiquei um pouco assustada, já que estamos ficando há umas duas semanas só, mas aceitei porque não tenho nada melhor para fazer. – disse e eu ri da história e também da sua facilidade em simplesmente começar um relacionamento do nada.
– Mas você gosta dele? – Preguntei genuinamente interessada, enquanto sentava em sua frente para esperar a comida, que estava agora no forno, ficar pronta.
– Não ainda, mas ele é legal e, bom, é espetacular na cama, então estou gostando de sair com ele.
– Bom, você já tem meio caminho andado.
– Mas e você e esse aí, como estão? Digo, pelo o que vi na internet, vocês estavam divertindo-se muito ontem, mas, como você não me contou nada, não pude ter certeza se deveria ou não acreditar no que estava escrito. – A garota arqueou a sobrancelha com curiosidade e eu sorri fraco.
– Ah, nós estamos bem. Estamos conhecendo-nos melhor ainda, então as coisas não estão indo muito rápido, mas ele é uma ótima companhia e é bem engraçado também. Somos extremamente diferentes na visão de mundo e coisas assim, mas acho que nos complementamos, sabe? Não sei quanto tempos vamos durar, mas estou feliz agora.
– Nossa, quem diria? finalmente aceitando ficar com alguém sem precisar ter um milhão por cento de certeza que as coisas vão dar certo. Esse cara realmente mexeu com a sua cabeça, hein? – Fingi estar desconcertada com sua pergunta e virei o rosto para o lado, evitando olhar diretamente para os seus olhos.
Eu estava mentindo descaradamente e a menina me conhecia bem demais, o que me fazia temer pela possibilidade dela descobrir que algo estava fora do lugar.
– É claro que não, . Continuo a mesma idiota controladora e sem coração de antes, só estou dando uma chance para o talvez. Não é como se eu estivesse aceitando um relacionamento meia boca com ele, estamos dando 110% de nós aqui. É por isso que tudo está indo devagar, sabe? Quero garantir que ele está na mesma página que eu. – Desconversei um pouco, tentando contornar a situação. De fato, como havia dito, em situações normais nós dois não estaríamos juntos, então eu entendia por achar que o garoto estava mudando a minha forma de pensar. – Mas, vamos mudar de assunto. Eu mal comecei a sair com o e você já quer um relatório completo. Pega leve, querida.
– Tá, tá, vou deixar passar dessa vez, mas só porque não quero ser a responsável por te fazer pensar demais nesse seu rolo. – falava gesticulando, como se estivesse deixando pra lá esse assunto.
– Namoro. – Falei simplesmente, corrigindo-a.
– Calma, vocês estão namorando já? Já chegaram nesse rótulo?
– É, acho que sim. Não tinha sentido ficar chamando de outra coisa se estamos agindo como um casal.
– Surpreendente. Se eu não te conhecesse há anos, diria que é outra pessoa. – A garota falou antes de levantar e caminhar até um armário, pegando um copo e enchendo-o de água na pia. – Bom, estive pensando aqui e queria saber se não podemos fazer um encontro duplo algum dia dessa semana? Eu e Alexis, e você e .
Pensei por um minuto antes de responder . A verdade é que não, eu não queria que a menina conhecesse antes de que eu mesma me acostumasse com a ideia de tê-lo como alguém íntimo a mim, e também não estava tão interessada em conhecer o seu acompanhante ainda. No entanto, um encontro duplo com a minha melhor amiga era tudo o que e eu precisávamos para manter nosso romance interessante para o público. Sairíamos mais uma vez e, de quebra, meu namorado estaria conhecendo a minha melhor amiga, o que dava um ar de veracidade pra coisa toda.
Dei de ombros e respondi a garota com um falso ar de dúvida.
– Eu acho que tudo bem, quero dizer, por mim tudo bem, eu só teria que ver com o se ele está de acordo. Mas, a princípio, escolhe algum lugar legal para irmos.
– Ótimo, vou pensar em algo então.
Sorri para e levantei-me, indo até o forno para retirar o prato que eu havia colocado lá dentro há alguns minutos. Coloquei a comida em cima da bancada da cozinha e peguei dois pratos para que nós duas pudéssemos comer juntas. Eu sabia que a menina iria acabar passando a tarde em minha casa – afinal, era nosso dia de filmes e pipoca – e ficava feliz de poder contar com ela em todas as horas, mesmo quando eu estava sendo uma verdadeira vaca por detrás de tudo.
A tarde passou devagar e preguiçosa, nós não havíamos feito muita coisa, mas tínhamos certamente conversado sobre os mais diversos assuntos. ainda não me havia mandado mensagem após o jantar do dia anterior, então achei melhor começar uma conversa amigável com ele a fim de informá-lo sobre o jantar dos próximos dias. estava superenvolvida em alguma discussão com o seu rolo e parecia brava o suficiente para que eu nem cogitasse perguntar nada. Ela mal percebeu quando me levantei do sofá da sala e comecei a digitar em meu celular, um pouco incerta de como prosseguir.
Comecei a conversa o mais diretamente que consegui, agradecendo pelo jantar do dia anterior e dizendo que havia me divertido. , como sempre, foi rápido em sua resposta, dizendo-me que não havia sido nada e que deveríamos repetir a dose. De fato, deveríamos mesmo, pelos negócios, pelo menos.

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Acho que teremos que repetir mesmo. Vi que as notícias de ontem estão bombando!
, inclusive, veio aqui hoje para mencionar que tinha descoberto sobre nós assim. Eu só havia dito que estávamos conversando até então...

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Bom, então a coisa toda está dando certo, né? Ainda bem.
Quem sabe assim o Adam não larga do meu pé.
E espero que sua amiga não tenha ficado tão brava com você. Eu certamente ficaria.

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Na real, ela ficou um pouco, sim, mas já consegui me desculpar.
Quanto a tudo dar certo, é só continuarmos aparecendo juntos para deixar o interesse do público em nós grande.
Ah, e quer jantar com a gente nessa semana. Ela está saindo com alguém e queria me apresentar a pessoa. Seria uma boa oportunidade para que ela te conhecesse também, se você topar.

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Acho que não tenho muita escolha, não é?


Muito embora a resposta de fosse verdadeira, parei imediatamente de sorrir quando a li. Nós tínhamos mesmo que sair o máximo de vezes possível nesse início de namoro, mas queria também que as coisas fossem divertidas para nós dois, não que parecesse uma obrigação.

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Não precisamos ir se você não quiser, de verdade. Não tem problema algum...
Não quero que se sinta pressionado ou obrigado a sair comigo sempre. Podemos fazer um cronograma de passeios para que fiquemos mais à vontade.


Demorei um segundo para pressionar o enter da mensagem, mas finalmente o fiz. Não queria que o garoto se sentisse no dever de sair sempre que eu sugerisse, até porque eu não mesma queria ter a liberdade de negar qualquer convite que me fosse feito. Suspirei e larguei o celular em cima do sofá e fui procurar , que agora andava freneticamente de um lado para o outro da minha cozinha.
– Tudo bem? – Perguntei, curiosa, enquanto via a garota digitar com raiva.
– Tudo ótimo, às mil maravilhas. Estou só um pouco brava, porque o idiota do Alexis vai sair hoje à noite e nem se deu ao trabalho de me avisar.
– Ah, sim. Você ao menos perguntou o porquê de ele não ter dito nada? – Disse simplesmente, só para vê-la olhar para mim de forma mortal. Seu rosto deixava claro que eu não deveria me manter fora disso, então apenas levantei os braços, como se me rendesse. – Não está mais aqui quem disse, foi mal.
– É, é bom não estar mesmo. Mas, para sua informação, ele me disse que acabou de ser convidado, por isso não tinha falado porcaria nenhuma e bla bla bla. Eu não estou nem aí, estou brava. – bufou impacientemente e eu ri. Havia duas explicações para o seu comportamento: ciúmes ou raiva por ter sido deixada de lado. Eu apostava na última. – E o seu celular está tocando, caso não tenha percebido.
Eu não tinha. Corri para a sala em busca daquele aparelhinho maldito, atendendo-o sem nem mesmo olhar na tela quem é que estava ligando.
– Alô? – Falei um pouco ofegante pela corridinha que tinha dado.
– Oi, sou eu.
– Hum, quem?
. – O garoto disse baixinho, como se estivesse incerto quanto a ligar para mim. – Achei que tinha meu número salvo por aí.
– Ah, oi , tudo bem? Não sabia que iria me ligar, desculpa a demora. – Disse, sentando-me no sofá para ficar mais à vontade. – Eu tenho o seu número, sim, é que estava longe do celular, então respondi a ligação sem checar o número.
– Pude perceber, acho que liguei umas duas vezes antes de você atender. Pensei que estava brava comigo. – Ele sussurrou a última parte, deixando-me confusa com a afirmação.
– Brava, por quê? – Perguntei, mordendo minha unha, incerta e honestamente curiosa com a confissão.
– Pela sua última mensagem para mim, parecia que você não tinha gostado do que disse quando concordei de sairmos com a sua amiga. – O garoto soprou no telefone, parecendo um pouco nervoso.
– Não, eu não fiquei brava com isso! Só quis te deixar confortável para dizer que não queria ir, porque achei que você estava concordando por necessidade, só porque temos que ser vistos juntos, sabe? – Suspirei audivelmente e esperei dizer alguma coisa. Quando ele não o fez, continuei falando. – Não quero que você sinta como se precisasse aceitar qualquer proposta minha, quero que leve todos os nossos programas como diversão também.
– Ei, eu estou me divertindo, sim, fica tranquila. Quando respondi que estava sem escolha, quis apenas brincar com essa situação toda, não era porque não queria ir. Se eu estivesse desconfortável, eu falaria. – falou e eu abri um sorriso. Ele não estava reclamando de ter que sair comigo, afinal, e havia se preocupado com a possibilidade de eu ter ficado brava com ele pela interpretação errada da resposta. – Desculpa se te fiz pensar que eu estava aceitando por obrigação, ontem à noite foi ótimo, não pareceu nada armado. Ficaria feliz de repetir.
– Quem tem que pedir desculpa sou eu, por te ter feito pensar que estava chateada por uma bobagem dessas. Mesmo que você estivesse falando que não me aguentava mais, você estaria no seu direito, e eu aceitaria sem reclamar. Eu sou mais forte do que pensa, garanhão. – Ri sozinha na sala e ouvi me acompanhar do outro lado da linha. apareceu de repente, olhando para mim com um semblante confuso, e eu tampei o microfone do celular para escutar o que a garota tinha a falar.
– Você está falando com quem?
. Por quê?
– Hum, deveria ter imaginado. Bom, estou indo para o bar com o Alexis, ele acabou de me convidar. – A garota disse com um sorriso enorme no rosto e eu me segurei para não rir da sua reação. De fato, sua raiva para com o garoto era por não ter sido convidada para sair. Típico de . – Você quer ir?
– Eu acho que não, estou meio cansada. – Menti, mas não estava mesmo no clima de ir para bar nenhum.
– Cansada, sei. Você está é ocupada com o namorado. – riu e eu sorri envergonhada. – Tudo bem, não tem problema. Nos vemos durante a semana, certo? – Assenti com a cabeça e vi a garota pegar sua bolsa perto do sofá.
Veio, então, até mim, deu-me um beijo na testa e acenou antes de abrir a porta e fechá-la, deixando-me sozinha.
Tirei a mão do microfone do telefone e voltei a minha atenção para o menino do outro lado da linha, que chamava o meu nome insistentemente.
, você está aí?
– Agora estou. Foi mal, tive que dar tchau para a . – Expliquei rapidamente.
– Ah, sim, isso quer dizer que você não ouviu minha pergunta, então? – Ouvi sua voz soar um pouco incerta, mas ignorei esse fato, afinal tinha rolado uma pergunta e eu não havia escutado.
– É, não escutei. Você pode repetir? Prometo que agora presto atenção. – Brinquei, mas não riu, então permaneci quieta também, dando a ele tempo de falar o que quer que fosse.
– Eu queria saber se você quer vir aqui hoje? Podíamos pedir uma pizza e jogar alguma coisa, se estiver afim. Não sei o que você gosta de fazer, na verdade, mas estou te convidando para vir até a minha casa.
Mordi o lábio por um momento, sem saber ao certo o que responder. Eu deveria ir? Talvez. Eu não tinha nada marcado à noite, então poderia fazer o que bem entendesse. Mas qual seria o ponto em ir até a casa de sem que fosse para chegar à primeira página do jornal? É verdade que poderíamos postar fotos nas redes sociais ou algo do tipo para manter a curiosidade acessa, mas não seria melhor sairmos, afinal? Por outro lado, eu poderia usar esse tempo para fazer com que nossa amizade evoluísse, poderia acabar por ganhar um amigo. Suspirei e decidi parar de pensar demais e só aceitar o convite.
– Hum, ok, legal, eu vou sim. Você pode me passar o seu endereço, acho que não o tenho por aqui?
– Ótimo, mando-lhe por mensagem, pode ser? – Concordei com um murmúrio e levantei-me do sofá para mudar de roupa e sair. – E que bom que você aceitou vir.
– Não, imagina. Mas eu queria dizer que faço questão de comer pizza, senão eu nem saio de casa. – Brinquei e ouvi rir do outro lado da linha.
– Bom, eu que sugeri, não é mesmo? Te espero e pedimos juntos, certo?
– Certo. Nos vemos logo.
desligou, depois disso e eu fui ao meu quarto fazer o que precisava ser feito, antes de pegar um táxi e me dirigir a sua casa.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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