Quando o macio do caixão conforta e liberta

Última atualização: 18/09/2018

Prólogo

Você não deveria ler essa história porque não vai gostar dela, tampouco de como ela acaba. Mas se insistir, deveria saber que ela não é sobre amor, paz, perdão, felicidade, mas sim sobre ódio, vingança, destruição, egoísmo e morte. Isso mesmo. Você vai me odiar. Vai odiar as escolhas que eu fiz. Vai odiar meu egoísmo indiscutível e prioritário. Vai odiar a minha incrível capacidade de manipulação que faz as pessoas sempre fazerem o que eu quero. Vai odiar como eu magoei e destruí as pessoas mais próximas de mim. Vai odiar como a minha ambição é uma característica tão forte na minha personalidade e do que sou capaz de fazer para conquistar os meus objetivos. Vai odiar a minha genialidade. Vai odiar a minha capacidade de fazer as coisas mais grotescas apenas para me proteger. Por fim, você vai odiar essa história, principalmente, porque eu morro só no final dela. É isso mesmo que está pensando! Essa não é uma história sobre a minha vida ou as escolhas que eu fiz. Essa é uma história sobre a minha morte. Mas não pense nem por um segundo que você não vai lamentá-la, porque vai. Talvez a única lamentação maior que ela é eu não ter morrido antes. Meu nome é Worksbare e, quando eu tinha trinta anos fui assassinada.


Capítulo 1

O advogado da empresa estava me encarando com certa arrogância e isso estava me irritando profundamente. Nunca gostei dele porque ele sempre foi o típico machão arrogante: age como se fosse melhor que todo mundo, mas no fundo ele sabe que é fracassado e, por isso, tenta enfatizar a todo momento que é superior.
- Você deveria falar comigo, Sr. Mahoney. – Disse, com um sorriso falso no rosto.
- Onde está o , ? – Meu sorriso se desmanchou no momento e tive que me segurar intensamente para não revirar os olhos.
- Mas é isso que estou falando para você, Norman. Ele está, realmente, ocupado e é por isso que você deve falar para mim o que pretendia falar para ele. – Completei, calmamente, embora estivesse me imaginando dando um tiro nele.
- É sobre uma falha que se deu nos anticoncepcionais comprovada e agora são muitos processos contra a empresa. Esse assunto é realmente sério e é por isso que eu preciso falar unicamente com ele ou com o filho dele. – Encarei-o, respirando fundo.
- Não entendi. – Soltei um riso cínico. – O filho dele ocupa o mesmo cargo que eu, Norman. Se você pode falar com o filho dele, pode falar comigo também. – O homem estava impaciente e eu podia perceber.
- A questão é que você é mais... – Ele deu uma pausa, escolhendo com cautela as palavras. – emocional. Digo, você é... menos competente. – Engoliu em seco, após terminar a sua frase visivelmente nervoso. Eu queria pegá-lo e jogá-lo pela janela, mas tudo que fiz foi apoiar os meus braços em cima da mesa.
- Você quer dizer que eu sou... mulher, certo? – Falei, olhando-o. Norman abriu a boca para dizer alguma coisa, mas eu continuei falando antes que qualquer som saísse da sua boca. – Olha, Norman... Eu só acho bem engraçado você insinuar que eu não vou dar conta do meu trabalho porque sou mulher quando você não consegue ter o controle nem da sua própria casa. – Ele arregalou os olhos, surpreso com a minha resposta. – Quer dizer... – Ri, sarcasticamente. – você é tão fracassado que seus próprios filhos não te suportam e a sua esposa precisa te trair com o seu irmão porque você não dá conta.
- O que você está falando? – Falou, alterando o tom da sua voz e se levantando. – O que sabe sobre a minha família ou...
- Sente-se. – Não alterei o tom da minha voz, apenas disse firme encarando-o.
- Eu não vou me sentar porr...
- Sente-se. – Repeti mais firme e aumentando apenas um pouco o meu tom de voz. Ele se sentou, com má vontade.
- Diferente do e do , eu também acho que você não é competente, Norman. Acho, de verdade, que você não dá conta do seu trabalho porque nem da sua casa você é capaz de cuidar. Mas temos que trabalhar juntos, independentemente de você me achar capaz ou não ou vice-versa. Então, por que você só não me fala o que iria falar para o para que eu possa fazer o meu trabalho?

***


Ainda faltava bastante tempo para eu ser assassinada. E, não se preocupe, não foi o advogado arrogante que me matou. Nessa época, as minhas preocupações eram completamente diferentes e, é óbvio que eu nem imaginava o que ia acontecer muito tempo depois. O que me preocupava era que não demoraria muito para – o último fundador da empresa vivo e um dos donos – morrer e, depois, uma verdadeira guerra seria traçada.
Minha mãe e ele fundaram essa empresa farmacêutica há muito tempo com a ideia de ajudar as pessoas. O que aconteceu na realidade foi muito diferente – como sempre: o mercado farmacêutico é extremamente lucrativo porque remédios são necessários em qualquer situação e jamais poderão faltar, ou seja, a vontade de ajudar as pessoas que mais precisavam desses remédios sumia à medida que o dinheiro entrava. Dois anos depois, eles nem lembravam a razão pela qual tinham fundado a MedWorksfout - sim, a ideia do nome foi criativa como qualquer comédia romântica normalmente é, e veio dos sobrenomes deles – e, sempre que podiam, os preços aumentavam.
Cinco anos depois, eles já haviam dobrado a fortuna que já tinham antes mesmo de criar a empresa. Porém, a grande mudança veio com a ideia de criar um dos mais eficientes e resistentes antibióticos já feitos na história da humanidade. Demorou ainda mais três anos para ele ficar pronto, mas no momento em que entrou no mercado, a venda foi um sucesso e a produção teve que duplicar em pouco tempo. Esse antibiótico fez com que a nossa empresa ficasse conhecida mundialmente e fez com que a minha mãe e construíssem um império – que resiste até hoje.
Antes eu havia dito que uma verdadeira guerra seria traçada com a morte dele e eis o porquê: eu e só podemos ter direito às nossas ações quando o último dos fundadores morrer. Minha mãe deixou muito claro que eu só poderia assumir o meu direito de sucessora quando o seu grande amigo e criador da Med morresse. Veja bem... 50% das ações vai para Henry e 50% das ações vai para mim no momento em que ele morrer. Minha mãe confiava tanto nele que ela deu todas as ações dela para enquanto estivesse vivo porque ela achava que eu ainda não estava preparada para assumir como uma das donas do império que eles criaram. Ou seja, assim que ele morrer, nós somos os donos.
Parece simples, eu sei. Se não fosse pelo fato de que tentamos nos sabotar durante todos esses anos para um ganhar mais credibilidade que o outro e ter mais ações. A questão é que ele quer ter 100% das ações como eu quero, então é uma eterna batalha que estamos lutando faz muito tempo! Se você não entendeu ainda, não vai demorar muito para entender da guerra que estou falando.

***


Depois de falar com o advogado, fui até a sala do presidente da empresa para comunicar a ele sobre os processos e o problema. Bati três vezes na porta, como sempre, e entrei tendo uma surpresa desagradável.
- Onde o seu pai está? – Levantei as sobrancelhas. Ele me olhou com a sua típica expressão de desgosto.
- Meu pai está muito ocupado em casa planejando a sua viagem pra semana que vem. Ele não vem hoje.
- Ok. – Disse, para não prolongar a nossa conversa e para sair de perto dele o mais rápido possível.
- Eu adoro a relação saudável de trabalho que você tem com os nossos funcionários. – disse, irônico. Virei-me.
- O que? – Franzi as sobrancelhas.
- Norman. Então quer dizer que cada vez que uma pessoa preferir falar comigo e não com você, por motivos óbvios, vai humilhar a pessoa? – Revirei os olhos.
- Não é que ele preferia você, Lafout. Ele só preferia qualquer pessoa que tivesse um pênis no meio das pernas, agora se você me dá licença... – Fui saindo.
- Diga a você mesma o que quiser, mas sabe a verdade! Vai ser uma ótima presidente! – Deu uma pausa. – Tenta se esforçar para não ser desagradável hoje à noite, mesmo que seja quase impossível! – Ele finalizou, soltando um riso cínico e eu só continuei andando. Não estava com tempo para deixá-lo me afetar.
"Tenta se esforçar para não ser desagradável hoje à noite"? Por que exatamente ele havia dito isso? Ah, claro! Tinha uma janta na casa de com os funcionários da Med e com alguns clientes e, mesmo só querendo chegar em casa e dormir, teria que ir.
O dia passou rápido e eu consegui chegar em casa mais cedo do que pretendia. Tomei um longo banho, me arrumei para o jantar, comi alguma coisa porque provavelmente a janta só iria sair mais tarde e fui para a casa dele.


Capítulo 2

Essa parte da história é bem importante para entender os eventos que estão para acontecer, então já que você decidiu lê-la – embora eu tenha te aconselhado para não o fazer – preste bastante atenção nessa festa. Não, eu não vou morrer agora, mesmo que meu assassino esteja aqui. Sim, ele está aqui, mas eu ainda não tinha ideia na época de quem ele realmente era e do que ele é capaz. Descobri só quando era muito tarde, infelizmente.

***


Assim que cheguei na mansão dos Lafout, pude perceber o quanto ela estava bem arrumada e elegante. Não que normalmente não fosse desse jeito – porque era mesmo –, mas dessa vez estava mais do que o usual. A iluminação, um dos lustres que ele tinha trocado na sala de jantar, as toalhas, tudo estava magnífico! A decoração ficou tão maravilhosa que ninguém jamais imaginaria que uma semana antes havia ocorrido um assalto – nada demais roubado, mas os assaltantes quebraram várias coisas.
A maioria dos rostos que já haviam chegado eram familiares para mim e eu estava me perguntando o que realmente estava por trás desse jantar. era uma pessoa generosa com toda a certeza do mundo, mas eu o conhecia muito bem para saber que quando você elogia alguém é porque quer, na verdade, ouvir um elogio e, quando você decide fazer uma janta tão elegante quanto essa, certamente não é só por lazer ou para agradar os seus funcionários ou clientes e sim porque você tem alguma intenção e um objetivo para ser alcançado.
Eu ainda não sabia qual era o objetivo, embora tivesse um palpite. Peguei uma taça de champanhe e avistei o dono do lugar se aproximando.
- Você deveria provar, . Esse champanhe está sensacional! – segurava uma taça também. Senti o cheiro e o provei.
- Seu bom gosto para escolher as coisas, como sempre... – Dei um riso e ele sorriu de uma maneira fraternal para mim.
- Cadê o ? Ou ele não teve nem a decência de aparecer? – Ele revirou os olhos, mas sorriu depois. Odiava o jeito como nós tentávamos nos sabotar desde sempre.
- Deus, vocês precisam parar com isso! O que vai acontecer quando os dois assumirem a Med? Vão se matar e destruir a empresa em quanto tempo? – Balancei a cabeça e tomei mais um gole. Tenho que ser sincera com você... Nunca entendi, realmente, o que minha mãe viu nele quando decidiu fazer uma parceria profissional. Claro, ele era muito inteligente e tinha uma aparência incrível: olhos verdes, alto, cabelos escuros, porte de modelo, embora a idade já tivesse apagado grande parte dos traços, afinal, ele tinha 57 anos. Mas sempre o achei tão... fraco. Manipulável. Uma pessoa que não tinha nenhuma característica natural de um forte líder. Sempre me perguntei isso e jamais achei a resposta, para ser bem sincera. Ele tinha consideração por mim como tinha por , como uma filha, mesmo que ela nunca tenha sido recíproca (e é claro que ele não fazia ideia disso).
- Provavelmente... E então esse império vai estar acabado! – Disse com um tom de sarcasmo e ri. Dei uma pausa e o olhei, séria. – Por que você fez essa janta, ?
- Posso responder se você me falar o que aconteceu com o Norman hoje. – Revirei os olhos, irritada por ter que tocar nesse assunto novamente.
- ? – Levantei as sobrancelhas e tomei o resto do champanhe que tinha na taça.
- Ele também... – Ele riu. É claro que ele ia falar alguma coisa pro pai, nem sei porque me surpreendi tanto. – Mas o Sr. Mahoney me ligou, extremamente emotivo. Dizendo que você era uma das pessoas mais cruéis que ele já tinha falado na vida. E então? – Perguntou, esperando uma justificativa.
- Não aconteceu nada. – Disse, com uma expressão calma. – Ele insinuou que eu não era competente e eu só mostrei para ele que era. Você sabe como as pessoas ficam quando os seus egos são machucados, não sabe?
- Claro que sei! – Pegou outra taça de champanhe. – É um novo produto que vou apresentar depois. Você já sabe do antialérgico que estamos produzindo, o resistente. Ficou pronto antes do previsto, então nem deu tempo de falar com vocês dois. – Explicado o motivo.
- Sabia que tinha um porquê. – Ele olhou para o chão, pensativo. Parecia ter se afundado nos próprios pensamentos, então me obriguei a perguntar.
- Você está bem?
- Está ansiosa? – Franzi o cenho, confusa com a pergunta dele.
- Como assim?
- Para assumir o seu cargo. – me surpreendeu com a sua pergunta. É claro que estava ansiosa! Mal conseguia dormir e comer pensando no dia em que ia ser dona de tudo que era meu por direito, mas é claro que não iria falar isso para ele, né? Você tem que entender que se eu assumisse que estava ansiosa para ser uma das donas da Med, também estaria assumindo que queria que ele morresse logo – o que não seria uma má ideia.
- Não sei... – Suspirei. – Não posso dizer que não estou, senão estaria mentindo. Mas não sei se estou preparada e para isso acontecer você tem que... – Olhei para o chão, como se estivesse mesmo me lamentando. Ele colocou sua mão no meu ombro para me consolar de uma maneira carinhosa.
- Ainda falta tempo para isso acontecer, . Não se preocupe! – Não estou preocupada, . A esse ponto você já deveria saber disso! - Além do mais, eu posso me aposentar também, lembra? – Não demonstrando nenhum desses pensamentos, olhei para ele como se estivesse aliviada. – Vou falar com os meus outros convidados senão eles vão ficar enciumados... – Disse rindo enquanto se afastava. Pareceu se lembrar de algo e se virou. – Preciso te mostrar um negócio depois! Não me deixe esquecer! – Afirmei com a cabeça e só quando ele sumiu de vista que eu percebi a enorme vontade de ir ao banheiro que sentia.
Após sair do banheiro, falei com algumas pessoas conhecidas, fingi estar achando a janta bastante agradável e bebi bastante champanhe para começar a acreditar nisso de verdade, já que não aguentava mais fingir. Fui pegar a quinta ou sexta taça quando vi outra pessoa se aproximando.
- Sorte sua que o Sr. Mahoney não está aqui. – disse, sorrindo sarcasticamente.
- Sorte minha mesmo. E você não podia perder tempo mesmo, né? – Falei, cínica. – Já foi correndo pro papai para dizer como eu magoei o pobre advogado! Até parece que você sente muita simpatia por ele... – Bebi um gole.
- Claro que não! Mas, diferente de você, eu sei que dentro da empresa não importa o sentimento que tenho pela pessoa... você precisa ser educado para ter um ambiente de trabalho saudável, já ouviu falar disso? – Respirei fundo, tentando ao máximo não demonstrar minha irritação. – Já sabe o que o meu papai vai apresentar hoje? – Ele falou, repetindo de um jeito muito ridículo o que tinha falado antes. Óbvio que estava contando que eu não sabia o que ele ia apresentar quando disse isso, mas estava errado – como sempre.
- Sei. – Respondi, nem me dando o trabalho de olhá-lo. Bebi o resto que tinha de champanhe e deixei a taça na mesa enquanto observava as pessoas se aproximando das mesas de jantar (tinha umas seis no total). Segui o caminho delas e me aproximei do lugar que eu sempre sentava – ao lado do . Nessas jantas, ele sempre sentava na ponta e o filho dele se sentava ao lado esquerdo e eu ao direito.
- O jantar vai ser servido agora, meus queridos convidados! Aproveitem! – disse, sorrindo.
Todos se sentaram e a janta foi servida. A janta era fígado de pato defumado – conhecido como Foie gras -, pêssego, nozes, cogumelos e, também, um raviole delicioso de lagosta e salmão. Todos os convidados se dividiram entre as mesas – devíamos estar em 100 – e apreciamos esses pratos deliciosos, bebemos, conversamos. Eu tentei ao máximo não demonstrar o quanto estava no limite e queria ir embora dali – afinal, eu era um dos vices da empresa -, mas foi difícil.
Após quase duas horas, quando a sobremesa já tinha sido servida e todos estavam satisfeitos, se levantou e começou o seu discurso:
– Meus queridos convidados! Primeiramente, eu gostaria de agradecer a presença de todos vocês aqui! Cada um de vocês está entre as pessoas mais queridas que conheço... – Ele se pronunciou com um sorriso radiante. É, talvez fosse isso que minha mãe viu... Carisma. – Vocês sabem que todos nós, depois de todos esses anos, já somos uma grande família! – Ao mesmo tempo que ele falava, os garçons colocavam mais champanhe nas taças expostas em cima das mesas. Tinha um potinho ao lado com cerejas para – ele as adorava. – E é com uma grande felicidade que eu venho aqui anunciar mais um grande prestígio dessa nossa parceria! Um novo produto, um novo começo... Não irá revolucionar o mercado farmacêutico, essa é a verdade. Mas eu tenho a mais absoluta certeza do mundo que irá revolucionar a MedWorksfout e todas as empresas que tem parcerias com ela! Irá revolucionar também todos os antialérgicos já conhecidos! Eu apresento o Antialérgico WorksFout! – E o grande telão – que eu ainda não tinha percebido devido ao tamanho do lugar – ligou, a alguns metros no salão.
As pessoas se afastaram bastante da mesa de jantar – deixando as suas taças nela – e se dirigiram até a sala em que estava o telão. A casa dele era enorme mesmo, caso você esteja se perguntando. Não vi o por perto, mas me aproximei também para ver melhor. Era a propaganda do antialérgico que a nossa própria empresa havia criado e todos assistiam encantados! Durou em média uns quatro minutos e, quando acabou, nós voltamos.
- Eu proponho um brinde a esse produto que vai revolucionar a nossa empresa! – Os convidados nas seis mesas seguraram as taças e brindaram com as pessoas que estavam perto. Eu, – que eu tinha percebido a presença agora –, , e John – dois funcionários – brindamos e tomamos um gole.
- Ao Sr. Lafout! – Eu gritei e todo mundo brindou novamente. Ele comeu, rapidamente, as cerejas do pote.
, você pode vir aqui por um segundo? – Perguntou e afirmei com a cabeça, percebendo que tinha ficado visivelmente com ciúmes. Subimos as escadas e eu estava completamente perdida do porquê ele havia me chamado. Fomos até o seu escritório.
- Eu sei que você deve estar se perguntando porque te chamei aqui... Mas tem uma coisa que eu preciso te mostrar. – Estava sem qualquer ideia do que isso poderia ser.
- O que você precisa me mostrar, ? O que está acontecendo?
- A sua mãe... – Engoli em seco. Minha mãe... Parecia que só de pensar nela já machucava. Mas é claro que não demonstrei nada disso.
- O que tem ela? – Perguntei, seca.
- Antes dela morrer, ela escreveu algumas cartas e eu sabia que ela ia te dar quando achasse que você estava pronta para assumir como sucessora dela. Mas aí, - Ele respirou fundo, preso nas memórias assim como eu estava. – ela morreu e nunca teve a oportunidade de te entregar. Então vou fazer isso por ela. Acho que você está pronta, . – Ele me chamar pelo nome completo só reforçava a veracidade em suas palavras.
- Eu não entendo... – Disse, confusa. Nunca soube sobre essas cartas que minha mãe escreveu e agora ele vem com essa?
- pode surpreender, eu sei. – Falou, sorrindo. Ele foi se dirigindo até a estante enorme entupida de livros que tinha no seu escritório. E então começou a tossir. Quando deu a primeira tossida, pensei que era algo normal. Mas então ele tossiu novamente, dessa vez parecia mais desesperado.
- ? – Perguntei e fui me aproximando. Ele não parava de tossir e parecia que não estava respirando. Quando se virou, suas pupilas estavam assustadoramente dilatadas e seus olhos incrivelmente avermelhados. Apoiou-se em mim, não conseguindo mais suportar o seu peso. Conseguia ver o medo nos olhos dele, o medo da morte que se aproximava a cada segundo que passava.
- Chame ajuda! – Ele conseguiu falar com muito esforço numa voz trincada e sofrida. Olhei para ele, sorrindo ironicamente.
- Chamar ajuda? – Levantei a sobrancelha. Empurrei-o para que ele não conseguisse mais se apoiar em mim e seu corpo caiu bruscamente no chão. – Você está brincando, né? – Pude perceber a surpresa em suas expressões, seguidas de decepção e desespero. Ele não conseguia mais respirar e estava sufocando. – Mais cedo você me perguntou se eu estava ansiosa para assumir o cargo que é meu por direito... É claro que estou! – Aproximei-me dele, com uma expressão cínica, e acariciei o seu rosto com certo desprezo. – Sempre te achei tão... fraco. Tão... patético. – Começou a balançar a cabeça, não acreditando na cena que estava vivendo.
- Foi... você? – Disse a frase com o resto das suas energias e com um tremendo esforço.
- Não. – Não me leve a mal. Eu disse sim que não seria uma má ideia ele morrer, mas não foi eu quem fiz isso. Você pode estar suspeitando, sei. Mas, realmente, acho que nem eu seria fria ao ponto de colocar veneno na comida favorita do cara bem no dia que ele vai divulgar, tão feliz, o produto que vai revolucionar a empresa. Isso é algo, realmente, sem caráter. Realmente apático. Nem eu seria capaz de ser tão insensível assim. – Mas você vai tarde... – Disse, com um sorriso vitorioso e cínico. Percebendo que ele não conseguia falar mais nada e que, a essa altura, ele provavelmente só sufocaria até a morte, comecei a fingir um choro.
Eu posso ser bem convincente. Comecei a fingir um choro real – com direito a lágrimas escorrendo – e a gritar.
- Socorro! Ajuda! Alguém ajuda! – Gritei o mais alto possível até as pessoas começarem a subir desesperadas. Coloquei a cabeça dele no meu colo como se estivéssemos assim desde sempre. Os convidados abriram a porta, surpresos com a cena que estavam vendo. Comecei a soluçar.
- Nós só estávamos conversando e aí... Deus! Alguém chame a ambulância! – Mais lágrimas escorreram pelo meu rosto e, a esse ponto, meu choro estava tão convincente que eu nem conseguia falar com o tanto que soluçava. – Alguém chame a ambulância! Ele vai morrer! – Abracei-o, como se minha vida dependesse disso. estava quase morto. empurrou as pessoas, adentrando o escritório. Colocou as mãos na boca, chocado e começou a chorar desesperado – um choro verdadeiro.
Parecia não estar acreditando no que estava acontecendo.
- Pai! Pai! – Ele gritou, abraçando com toda a sua força. Afastei-me um pouco, ainda fingindo estar cética a tudo que tinha acontecido, como se o considerasse meu pai. – Meu Deus! – disse, abraçando o que era o cadáver dele agora e eu podia sentir a dor que saía em cada palavra sua dita. Vi que já tinham chamado a ambulância, mas ele estava morto. – Não! Você não pode fazer isso comigo pai! Por favor! – Falou, soluçando. O vazio tão conhecido por todos nós já havia preenchido . A morte já havia deixado o que agora era apenas um corpo intacto, pesado, onde parecia que nunca tivera, nem por só um momento, a doce ilusão de vida e imortalidade que preenche todo ser humano, a todo momento e que o faz acreditar verdadeiramente que nem o tempo pode vencê-lo. Essa é a prova de que nenhum de nós é invencível. E somos tão indiscutivelmente tolos e ingênuos que apenas quando uma alma próxima e íntima de nós se esvai, que nos lembramos desse pequeno fato que é capaz de enlouquecer qualquer um.

***


Eu disse que coisas importantes aconteceriam nessa parte da história, não disse? O que você precisa manter em mente é o seguinte: enquanto todos se distraíam e se afastavam da mesa de jantar para ver a incrível propaganda do antialérgico, algo muito mais importante para o desenvolvimento da história acontecia. Alguém estava colocando cianeto – sim, um dos venenos mais potentes – no pote que tinha as cerejas que adorava tanto. Talvez, se eu tivesse apenas olhado para trás no momento exato, poderia impedir muitas coisas de acontecerem. Alguém estava colocando cianeto no pote para envenená-lo e, outra pessoa, no mesmo momento – a única – viu quem matou . Isso é extremamente importante porque veja bem... Talvez eu achasse, na época, que ser a dona desse grande império era o grande triunfo da minha vida, mas não era. O grande triunfo da vida é viver. Isso mesmo, viver. E, talvez, se eu tivesse olhado no exato momento em que a pessoa colocou o veneno no pote ou falado depois com o segundo indivíduo que viu o assassino do colocando o veneno, estaria viva. Mas qual seria a conexão entre os dois? Entre ver quem o assassinou e a minha morte? É bem simples a resposta: porque foi a mesma pessoa que nos assassinou.


Capítulo 3

Eu ficava girando o anel no meu dedo devido a minha ansiedade. Tinha passado quase 24 horas da morte de e, no momento, estava na delegacia. Meu telefone tocou e o atendi rapidamente. Era sobre o velório do dono da Med e, como tinha sumido e estava no estado de negação sobre a morte do pai, eu estava lidando com tudo.
A notícia se espalhou bem rápido, como o esperado. Afinal, quando um milionário morre, as mídias fazem todo o possível para lucrar em cima da morte e da notícia. E quando um milionário morre assassinado então? Envenenado? O país vira um caos! Nunca tinha visto o rosto dele em tantos jornais ao mesmo tempo, tantas pessoas – que provavelmente nem sabiam quem ele era antes de tudo isso – preocupadas com a resolução do caso. Definitivamente nunca tinha visto tantos repórteres juntos também, em frente à minha casa. Não só lá, mas em frente à casa do , à delegacia e por aí vai.
Não dá para culpar o filho dele por só querer desaparecer, certo? O velório aconteceria amanhã e eu já tinha recebido diversos telefonemas de pessoas prestando seus sentimentos pela morte dele. Provavelmente, tinham tentado falar com o filho dele primeiro, mas como o mesmo não atendeu, sobrou tudo para mim. Escolher o caixão, comprar o terreno do cemitério para enterrá-lo, escolher o lugar da casa que aconteceria o velório, receber as mensagens e os telefonemas das pessoas, tudo.
- Srta. Worksbare? – Quando ouvi o meu nome, me despertei dos meus pensamentos.
- Sou eu. – Disse, me levantando.
- Pode me acompanhar? – Afirmei com a cabeça, respirando fundo. Não posso negar, estava muito ansiosa para saber quem tinha feito aquilo e, também, porque eu podia ser uma suspeita. Era eu quem estava com ele quando começou a sufocar e a parar de respirar. A última vez que ele foi visto vivo, estava comigo. Entrei na sala dele. - Sente-se, por favor. – Sentei-me. – Você aceita água, café, alguma coisa?
- Não, obrigada. – Meus olhos estavam extremamente inchados devido ao meu choro forçado e, realmente passavam a impressão de que eu ficara chorando o dia inteiro.
- Eu sou Robert Fischer e estou fazendo todo o possível para resolver esse caso. – Ele se apresentou – Só preciso fazer algumas perguntas para entender melhor toda a situação, tudo bem? – Afirmei com a cabeça, suspirando. – Até agora só falamos com alguns empregados e o filho dele. – Eles tinham falado com ? Isso não era nada bom! As chances dele ter insinuado que eu era a assassina eram bem grandes! – Quando foi a primeira vez que você viu o Sr. Lafout na noite? – Olhei para o chão, como se fosse muito dolorido me lembrar dele.
- No começo da festa. – Falei, baixo.
- Que horas? – Ele perguntou. Mesmo estando sério, parecia estar compreensivo ao mesmo tempo.
- Eram umas oito horas, eu acho.
- Tudo bem. – O delegado anotou algo em seu caderno. – Sobre o que vocês conversaram, Srta. Worksbare?
- Rotina. Perguntei porque ele estava fazendo aquela janta e ele disse que era para divulgar o antialérgico. – Enquanto falava, meus olhos foram se enchendo de lágrimas – fingidas, é claro – e comecei a chorar. – Me desculpe... É só que é muito dolorido lembrar de tudo isso, sabe? – Sua expressão ficou menos dura e ele me ofereceu um lenço. – Obrigada. – Limpei-as.
- Eu sei que é difícil, . Mas preciso fazer todas essas perguntas para entender melhor e descobrir quem fez isso. É dolorido, mas necessário. – Concordei com a cabeça.
- Vou cooperar o máximo que puder. – Dei um sorriso fraco e ele prosseguiu. - E vocês não falaram sobre mais nada nessa hora? – Ele levantou a sobrancelha, meio desconfiado.
- Sim, na verdade. Ele disse que tinha que dar atenção aos outros convidados, senão eles ficariam enciumados e foi saindo, mas aí ele se virou e disse que tinha que me mostrar um negócio. – Mais anotações.
- Que negócio?
- Na hora eu fiquei bem confusa... Foi só quando nós subimos que ele me disse o que queria me mostrar. – Falei, me endireitando. O delegado só levantou as sobrancelhas, esperando eu prosseguir. – queria me mostrar algumas cartas que a minha mãe escreveu para mim antes de morrer. Ele disse que sabia o quanto era importante para ela fazer isso.
- E sobre o que são essas cartas, ? – Agora eu não precisava fingir mais porque ele tinha tocado mesmo na ferida.
- Não sei. Ele não – Dei uma pausa, engolindo em seco. – conseguiu entregar.
- Tudo bem. Vamos voltar para a janta, certo?
- Ok.
- Depois de um tempo todos se aproximaram da mesa e se sentaram.
- Sim. – Concordei com o que ele havia dito.
- Quando que o pote com as cerejas foi posto na mesa? – Tentei me lembrar, mas não consegui.
- Não lembro.
- Foi antes ou depois da propaganda? – Eu tentei me lembrar, mas a imagem de quando o pote tinha sido colocado na mesa não vinha na minha cabeça.
- Eu acho que... antes. – Anotou mais alguma coisa no caderno.
- Você achou algum comportamento estranho por parte de alguém? Alguém que se aproximou do pote ou parecia estar nervoso e estava agindo de uma forma estranha? – Não que me lembrasse.
- Acho que não.
- disse que acha que o veneno foi posto enquanto todos estavam distraídos com a propaganda, você concorda? – Definitivamente.
- Sim.
- Você estava aonde enquanto a propaganda estava passando no telão? – Essa pergunta foi mais direta. Foi como me pedir se eu era a culpada ou não.
- Eu estava perto do telão nessa hora, curiosa para ver como ele tinha divulgado o antialérgico.
- Você percebeu alguém que não estava lá naquele momento? Junto com todo mundo? – Não tinha percebido a presença de , mas isso não significava que ele não estava lá.
- Não. Eu acho que vi todo mundo lá. – O delegado apoiou as costas na cadeira e foi um pouco para trás. Ele parecia bem cansado.
- Você suspeita que alguém tenha feito isso? – Outra pergunta diretíssima.
- Não. – E não suspeitava mesmo.
- E ele? – Tirou uma foto de dentro da pasta que estava por baixo do seu caderno de anotações e a jogou na mesa. Quando vi quem era, franzi o cenho.
- Anthony? – Abri a boca, surpresa. – Por que ele faria isso? Ele trabalha naquela casa faz quase uma década! – Disse, me lembrando da imagem de um homem bom e amoroso que tinha dele. – Ele não seria capaz disso!
- Você tem certeza? – Balancei a cabeça de uma maneira afirmativa. – Ele tinha a oportunidade, chance e a aproveitou bem, não acha?
- Por que ele faria isso? – Perguntei, séria.
- Você sabia que há um mês a mulher dele morreu? – Anthony não faria isso.
- Não.
- Câncer de mama. – Coloquei a mão na minha boca, surpresa. Disso eu não sabia. – Ele fez a comida de , preparou as cerejas, esperou a oportunidade certa e que oportunidade! Bem quando as câmeras da sala e da cozinha que gravariam a pessoa colocando o veneno estavam quebradas, ele é assassinado! – Tinha me esquecido disso... Os assaltantes tinham as quebrado junto com várias outras coisas. – Tinha que ser alguém de dentro, não acha? O cozinheiro!
- Mas por que ele faria isso? – Não fazia sentido!
- Como eu disse, a mulher dele morreu de câncer. Estava se tratando com os remédios da MedWorksfout. – Parou de falar para ver se eu fazia a conexão.
- Isso ainda não explic... – Finalmente entendi o que ele estava querendo insinuar.
- Segundo outros funcionários da casa, ele conversou diversas vezes com para ver se ele abaixava o preço dos remédios para ele, o tão querido cozinheiro que trabalhava lá fazia tanto tempo! não abaixou e a mulher dele morreu porque Anthony não tinha dinheiro. – Não conseguia acreditar nas palavras que saíam da boca dele.
- Não... – Disse, pensando em como ele parecia se importar tanto conosco.
- teve a mesma reação. – O delegado completou.
- Posso ir? – Senti uma inexplicável falta de ar.
- Só mais uma pergunta, . – Deus! Eu só queria sair dali!
- Você consideraria o Anthony como um homem agressivo?
- Absolutamente não! – Respirei fundo. – Posso ir agora?
- Claro. Se eu precisar de mais alguma informação, te aviso. - Levantei-me, me sentindo meio tonta.
- Obrigada! – Saí da sala, sem acreditar que ele seria capaz de fazer algo assim. Logo Anthony? O cara tão tranquilo e que parecia estar sempre de bem com a vida? Que parecia não ter nenhum problema no mundo e, se tivesse, fazia toda a questão de esconder para fazer as pessoas mais felizes? A tontura foi aumentando e eu fui até o banheiro sentindo uma vontade imensa de vomitar. Abri a porta e segurei o cabelo, pronta para vomitar tudo que tinha no estômago.
Isso foi realmente um soco no estômago. Nem a morte de mexeu tanto comigo quanto perceber quem tinha o matado. Sentia como se não fosse a mesma pessoa, como se eu nunca tivesse o conhecido na minha vida. Como se todas as memórias que tinha dele ou toda a imagem da pessoa que ele era e de sua personalidade não passassem de meras miragens, utopias.
Não vomitei nada e me endireitei, me sentindo exausta. Precisava ir para casa.

Cheguei em casa e tomei um longo banho, ainda me sentindo estranha. É incrível como você nunca espera que essas coisas vão acontecer na hora em que acontecem. Confesso a você que fiquei imaginando como seria quando ele morresse e, se morresse. Afinal, como ele mesmo disse: poderia se aposentar e nós assumiríamos igual. O que eu nunca, definitivamente, imaginei foi que ele seria envenenado. Pensei em comer algo, mas não estava com fome.
Liguei a TV, mas a única coisa que os jornais falavam era sobre a morte de . Então, decidi pegar um livro qualquer para ler e acabei dormindo profundamente. Só acordei quando o despertador tocou, me avisando que eu precisava me arrumar para o velório. Coloquei uma roupa preta e, quando me olhei no espelho, percebi que nem precisaria fingir o quanto estava cansada com toda a situação porque eu realmente estava exausta.
Fui até a casa do e, quando o guarda abriu o portão para mim, me avisou que o filho de havia desaparecido e não tinha dado notícias – como eu disse, justificável. Estacionei o meu carro bem em frente à casa e entrei nela, com a sensação de que ele não estava morto. Não estava triste com a morte dele – essa é a verdade –, mas da mesma maneira me sentia como se estivesse presa em um pesadelo que não conseguia acordar.
Eram 9:30 e eles o trariam às 10. Preparei um café e fiquei aguardando. Não demorou muito e o caixão chegou. Disse o lugar que era para deixar e, assim que eles saíram, não pude ficar afastada dele. Tinha que vê-lo com os meus próprios olhos para cair a minha ficha.
Aproximei-me.
- Você deve estar me culpando agora, não está? – Falei baixinho, encarando o cadáver dele. – Acha mesmo que faria alguma diferença eu chamar ajuda? – Suspirei. – É, eu também acho que não. – Me assustei com um barulho de carro que fez lá fora e me afastei dele. Um parente distante de tinha chegado.
Nas próximas horas, observei pessoas que conhecia entrarem por aquela porta e pessoas que eu não fazia ideia de quem eram também. Conversei com quase todas e cheguei à conclusão de que ele era mesmo uma pessoa querida, porque todos pareciam verdadeiramente tristes. Vi pessoas que não via fazia bastante tempo e só veio perto do final da tarde, ficando por poucos minutos também.
Ele estava quase irreconhecível, se você me perguntar. Parecia que não tinha dormido desde o dia da janta e parecia que estava bebendo durante todo esse tempo sem parar. Sua dor era tão grande que ele não conseguiu ficar muito tempo perto do caixão, provavelmente sentindo a inegável verdade ser surrada em sua face.
Mesmo que eu pudesse perceber como as pessoas estavam magoadas, tinha vezes em que me questionava se aquilo era um velório mesmo ou um reencontro de parentes distantes – sempre tinha essa impressão. No final da tarde, a funerária levou o corpo até o cemitério e todos nós seguimos de carro. Dentro do cemitério, a caminhada foi longa e em silêncio, fazendo eu me perguntar às vezes se as pessoas realmente estavam ali.
Infelizmente, tinham vários repórteres também e, mesmo eu tentando afastá-los de lá, eles não paravam nem por um só segundo de tirar fotos insuportáveis. Atingiu um nível em que os guardas que estavam junto os ameaçaram e eles se afastaram por um momento, mas logo voltaram. Enterramos e eu ainda não conseguia acreditar que tinha sido Anthony quem tinha feito aquilo.
Ficamos mais um tempo em silêncio e, depois de todo mundo se despedir, fomos nos afastando dali. Despedi-me de todo mundo e fui para casa novamente, pensando no segredo mais agoniante e obscuro de toda a existência humana: o que era a morte e o que acontecia após ela.


Capítulo 4

A campainha tocou várias vezes seguidas, o que fez eu me apressar e ir rapidamente abrir a porta. Quando a abri, não podia acreditar na pessoa que estava vendo.
- Eu pensei em comprar uma garrafa de vinho, mas depois pensei novamente e cheguei à conclusão de que nunca ela seria o suficiente! Então comprei três! – Soltei um riso verdadeiro. Deus, como fazia tempo que não fazia isso.
- O que você está fazendo aqui? – A mulher ruiva com sardas e cabelos encaracolados e volumosos, de olhos castanhos à minha frente me encarava, rindo. - Nossa! Já que você parece tão incrivelmente feliz por me ver, acho que vou embora. – Ela disse, ironicamente.
- Claro que não! Entra! – Disse, sorrindo de verdade.
- Peguei seu vinho favorito. – Ela disse, sorrindo e foi até a cozinha. – Eu pensei em ir embora, mas depois me lembrei de como você estava no velório e não consegui falar com , aí decidi ficar mais um pouco! – disse com o jeito energético dela. Nossa história é bem longa e posso dizer que convivo com ela desde que saí do útero da minha mãe.
Ela é prima de , filha da irmã de , então nós crescemos juntas. Quando éramos crianças, brigávamos bastante, mas a nossa relação mudou drasticamente na adolescência e nós viramos verdadeiras confidentes.
- Onde estão as taças? Vamos ! Apresse-se! – Arregalei os olhos e fui pegar duas taças. – O que você estava fazendo?
- Estava assistindo um pouco de tv, mas logo desisti.
- Ah, a imprensa conseguiu a informação do principal suspeito né? – Afirmei com a cabeça e ela encheu as duas taças de vinho. – Eles são uns filhos da puta mesmo! – Disse, revoltada. – Primeiro, agem como se importassem com desde sempre, depois ficam em cima de nós durante o velório inteiro e agora divulgam essa merda?! – Finalizou, balançando a cabeça e bebendo um longo gole da bebida.
- Pois é. – Falei, encarando o chão. – Você viu os repórteres ali na frente? – Ela afirmou com a cabeça, arregalando os olhos.
- Só consegui entrar porque vim pelo portão dos fundos. – Completou, mostrando a chave que eu tinha dado a ela há alguns anos, quando me mudei para cá. Tomei um gole. – Você falou com o delegado hoje? – Balancei a cabeça.
- Ontem. Nem que eu quisesse daria tempo hoje.
- Foi corridão né? Meu Deus! Vim o mais rápido que pude, mas para ser sincera, nem sei se queria chegar a tempo! – Falou, rindo enquanto nos dirigíamos à sala. – Odeio velórios! – Alterou o tom de voz, expressando sua raiva. Tinha esquecido de como era espontânea.
- E o Alan, ficou com quem? – Alan era o filho de três anos que ela tinha. sempre tivera, desde pequena, um imenso desejo de ser mãe – algo que eu já não compartilhava – e, depois de dois anos casada, ela e o marido decidiram ter um.
- Ficou com o Damon. Ele até insistiu para vir, dizendo que queria muito estar aqui para dar o seu apoio tanto para mim quanto para vocês, mas eu disse que era melhor ele ficar com o bebê porque não queria que ele visse tudo isso... – Desabafou, bebendo mais outro gole de vinho. Se ela tinha decidido algo, não havia nada que Damon falasse ou fizesse que a faria mudar de ideia.
- Saudades do pequeno! – Disse rindo, me lembrando de como ele era fofo. No princípio, era para eu ser a madrinha dele, mas a cunhada dela ficou muito enciumada, então disse que era melhor eu ser a do próximo que viria.
- Assim que eu puder, trago ele para você vê-lo! E, você também tem que ir mais lá, em desgraçada? – Soltei uma gargalhada. – Tô falando sério! Você some assim e daí nós só nos vemos depois de alguns meses quando um parente morre? Nós não somos esse tipo de pessoa! – Ela disse, soltando uma gargalhada bem escandalosa também.
- Você tem razão! Eu deveria visitar vocês mais vezes, mas é que tudo tem ficado tão corrido nesses últimos meses!
- E agora tá pra ficar mais né? – Falou, se referindo ao fato de que eu seria uma das donas agora da Med.
- Bem mais! Quer mais vinho? – Perguntei, me levantando e ela me deu a sua taça. Fui até a cozinha, enchi as duas e voltei na sala.
- Mas eu te entendo, as coisas ficaram bem corridas também para mim por lá, depois que eu abri o meu escritório.
- Imagino... – Disse, entregando a ela a taça.
- Sério! Não tenho tempo nem mais pra cagar direito! - Soltei outra gargalhada.
- Então tá bem corrido mesmo! – Falei, sarcasticamente e ela começou a rir. Liguei a TV, mas novamente a única notícia era a morte de e quem eram os principais suspeitos. A foto de Anthony apareceu na tela, fazendo-me lembrar de que ele era o principal suspeito.
- Você não acha que foi ele né? – De repente, ela havia ficado extremamente séria e me olhava, pedindo uma resposta sincera.
- Não sei, . Eu não acho que ele seria capaz de fazer isso. – Bebi outro gole.
- Você acha? Tenho certeza! – Disse, já com a opinião formada.
- Mas o delegado parecia estar tão certo de que era ele que tinha feito isso... – Foi mais um pensamento alto do que algo que queria compartilhar com ela.
- Mas é claro que ele ia parecer ter certeza! Ele não é burro né ? – Franzi o cenho.
- O que você quer dizer com isso?
- Você sabe como a polícia é, . Quando esse tipo de caso acontece, a pressão para resolver e achar o assassino é bem grande... – Deu uma pausa. – Grande o suficiente para eles considerarem como principal suspeito a resposta mais óbvia. – Eu sabia o que ela estava querendo dizer.
- Eu sei. Pensei nisso depois, mas se não foi ele, quem fez isso?
- Não sei, sinceramente. – Falou, me olhando. – Mas eu sei que não foi ele, .
- Como você pode ter tanta certeza? As pessoas fazem coisas absurdas quando sofrem perdas como ele sofreu. – Porque era verdade.
- Elas fazem, nisso eu concordo. Mas elas não mudam tanto de personalidade ao ponto de ser capaz de fazer algo que não seria jamais em outras circunstâncias. Anthony jamais seria capaz de fazer isso, mesmo tendo sido um filho da puta com ele! – Ela sempre fora assim, nunca media as suas palavras. Sempre falava o que pensava para quem pedia e já havia se metido em várias confusões devido à sua língua solta. Levantou-se, inquieta – como sempre fora. – Pensa comigo, tá bom? Uma semana atrás, assaltantes invadiram a casa dos Lafout, levaram algumas coisas e o principal: quebraram as câmeras. Um homem que trabalha lá faz dez anos tem uma perda inestimável que é a morte da mulher dele que luta contra o câncer já faz um longo tempo, mas a principal razão da não melhora dela é porque ele não tem dinheiro pra comprar os remédios, que são da empresa do patrão dele. Um mês depois o patrão dele morre assassinado. O que isso te diz? – Ela respirou fundo e, quando eu ia responder, completou. – Pense bem antes de responder. – Foi quase como uma exigência.
O mais óbvio: ele agiu por impulso.
- Ele agiu por impulso.
- Não! – Minha resposta havia sido quase um xingamento pelo jeito que ela respondeu. - É aí que está! Um mês antes, quando a mulher dele morreu, ele não fazia ideia de que teria uma janta com vários convidados algum tempo depois! Se ele fosse agir por impulso, ele não pensaria sobre isso e o mataria logo uma ou duas semanas depois! Não esperaria três semanas, que foi quando anunciou a janta, para se vingar! A pessoa que o matou não agiu por impulso, . Ela planejou isso.
- Como? Como ela planejou isso? – Ela revirou os olhos, visivelmente irritada.
- A pessoa pegou cianeto sei lá aonde, a quantidade que ela sabia que iria matá-lo, esperou as câmeras não estarem funcionando, vários convidados, o momento ideal de distração para colocar o veneno e ainda o mais importante: esperou uma ocasião em que um perfeito suspeito estaria lá para ninguém nem desconfiar do verdadeiro assassino. – Fazia sentido tudo isso que ela estava falando, na verdade. Muito sentido. – A polícia só quer resolver esse caso o mais rápido possível devido à pressão da mídia e eles só querem olhar para a situação mais fácil que é o Anthony ser o culpado. – Terminando o seu pensamento, sentou-se. Bebeu tudo que tinha na taça.
- Como você chegou nessa conclusão?
- Eu parei para analisar, algo que as pessoas não parecem estar fazendo, ultimamente. Você não acha que o Anthony ser o assassino é óbvio demais?
- Mas às vezes a resposta é óbvia demais. – Falei, olhando-a, mas nem eu acreditava mais que era ele que tinha feito isso.
- Não, . Nunca é. – Todas essas informações estavam explodindo no meu cérebro e eu não tinha certeza de mais nada. - Você tem algum suspeito em mente? – Ela balançou a cabeça, com um sorriso levemente cínico.
- Não e você também não tem, sabe por quê? – Entendi o porquê da expressão dela quando terminou seu pensamento. – Por que a pessoa que fez isso é muito inteligente para a polícia ou nós a considerarmos como suspeita. É por isso. – Dessa vez, tive que concordar com ela porque se a pessoa tinha planejado tudo isso mesmo que ela estava sugerindo, então ela era realmente inteligente o suficiente para se safar.


***


Foi o Anthony será? O que você está pensando aí? Concorda com o que a disse? Pois você deveria porque não foi ele. Na época, todos nós – não importa o quanto nós sabíamos que ele não seria capaz de fazer isso – acabamos engolindo essa situação seja porque queríamos culpar alguém ou porque não tínhamos uma sugestão melhor. Pobre, Anthony. Tudo de ruim aconteceu na vida dele, inclusive ser acusado injustamente. estava certa de que ele não havia feito isso e eu tinha uma pequena dúvida porque tinha sido cruel o suficiente para merecer ser assassinado, mas no fim ela estava certa. Não foi ele que matou e não foi ele que me matou e só tinha uma única pessoa que sabia que ele era inocente. Sim, foi a pessoa que viu quem jogou o veneno no pequeno pote com cerejas. Por que ela não disse nada? Não se manifestou? Não ajudou um inocente que estava sendo xingado de todos os possíveis nomes e sendo acusado de algo que não tinha feito? Eu ainda olhei uma lista de todos os convidados, cozinheiros e qualquer pessoa que estava lá naquela noite para tentar achar um possível suspeito, mas estava certa nisso também: a pessoa era muito inteligente para ser considerada suspeita e ela se safou.

***


Cinco dias tinham se passado desde a morte de e muitas coisas tinham melhorado. A maioria dos repórteres já havia desistido de falar comigo ou de ficar ali na frente, então tudo estava mais tranquilo; as reportagens também tinham diminuído de uma maneira significativa, aparecendo raramente agora; tinha ficado esses dias na minha casa.
Faltavam dois dias para o luto acabar e todos nós retornarmos para as nossas atividades rotineiras, o que eu esperava ansiosamente. Era bom ter por perto porque ela me fazia esquecer de todos os meus problemas e das minhas responsabilidades para lidar – quase fazia eu me sentir como uma adolescente novamente.
Na segunda-feira de manhã, o delegado me ligou dizendo que tinha que falar comigo urgentemente. Primeiramente não reconheci a sua voz, mas assim que ele começou a falar do assassinato de , deduzi que era ele e confesso que fiquei extremamente nervosa.
Urgentemente? O que havia de tão importante para ele ter que falar comigo tão urgentemente assim? Robert disse para nós nos encontrarmos em uma cafeteria porque não queria chamar a atenção dos poucos repórteres que ainda insistiam na frente da delegacia. Concordei e combinei um horário à tarde, não conseguindo comer durante o almoço porque tudo que eu conseguia pensar era sobre o que ele precisava falar comigo tão urgente assim.
Tomei um banho rápido, arrumei-me e me dirigi a tal cafeteria – um lugar que eu nunca tinha ido antes. Pedi um cappuccino e após meia hora, quando achava que ele não viria mais, chegou. Não me avistou quando entrou, mas não demorou muito para me ver no canto do lugar, muito impaciente.
- Desculpe-me pelo atraso, Srta. Worksbare. Tive alguns imprevistos e não consegui chegar no horário que havíamos combinado. – Sério que você não conseguiu chegar no horário? Como se eu não tivesse percebido isso nesses últimos trinta minutos?!
- Tudo bem. – Nada estava bem. Eu odiava esperar. – Você quer pedir alguma coisa antes de nós começarmos? – Tomei o último gole do meu cappuccino.
- Não, vamos direto ao assunto. – Estava sentindo a ansiedade percorrer por todo o meu corpo e refletir no meu pé que não conseguia ficar parado.
- E então? O que precisa falar comigo? – Perguntei, nunca aguardando tanto uma resposta em toda a minha vida.
- Antes eu tinha algumas dúvidas de que Anthony poderia ser o assassino, mas agora estou certo de que é ele. – Lembrei-me de toda a conversa que eu havia tido com alguns dias atrás, pensando em como ela estava certa sobre tudo: eles realmente estavam tentando resolver o caso o mais rápido possível e procurando pela resposta mais fácil e óbvia.
- Por quê? – Perguntei, prestando bastante atenção no que ele iria responder.
- Achamos cianeto na casa dele. – Levantei as sobrancelhas, extremamente surpresa com as suas palavras.
- O que? – Questionei, com os olhos arregalados. Ele tirou uma foto de dentro de seu bolso e a jogou na mesa. Na foto estava o pote em cima de uma estante que deveria ser na casa dele.
- Cianeto. Tinha um recipiente com cianeto na casa dele, apenas um resto porque ele gastou quase tudo no pote com as cerejas. – Balancei a cabeça. r estava errada mesmo? Tudo que ela havia falado sobre Anthony não ter agido por impulso e por tudo ser planejado? Suas palavras pareciam fazer cada vez menos sentido agora que havia sido descoberta uma prova concreta. Não era apenas uma sugestão, um palpite. Eles haviam achado o veneno que foi usado para assassinar Marcus na casa de Anthony. – Essa prova e mais o motivo são o suficiente para acusá-lo. – Não conseguia acreditar em toda a situação.
- Não pode ter sido ele... Deve ter algum engano! – Falei, tentando ignorar aquela prova que estava bem à minha frente.
- Foi, . Eu sei que você não quer acreditar porque ele é uma pessoa muito carinhosa e querida pra você. Mas essa é a verdade, ele fez isso. – Robert disse, sem se alterar. Parecia mais preocupado do que bravo por eu ter falado aquilo. – Não consegui falar com . Liguei três vezes para ele desde ontem e ele não atendeu, então se você vê-lo ou achá-lo, deveria avisá-lo. – Balancei a cabeça.
- Você tem certeza que foi ele? – Perguntei ao delegado, esperando que a sua resposta fosse não. Anthony jamais seria capaz de fazer aquilo, não importa o que tivesse feito a ele.
- Como eu disse, Srta. Worksbare: no começo eu tinha dúvidas, mas como negar uma coisa que está bem na nossa frente? Ele tinha o motivo e nós achamos agora um pote com um resto do veneno que matou na casa dele. Você acha mesmo que não foi ele? – Suspirei. Talvez a resposta mais óbvia fosse a certa dessa vez e estivesse enganada.
- É difícil acreditar que não foi ele. – Disse, respirando fundo.
- Você pode falar com o , por favor? – Eu realmente não queria, mas o que falaria para o delegado? Que eu até poderia falar, mas não estava com vontade de vê-lo?
- Posso. – Afirmei, me arrependendo no momento em que pronunciei essa palavra.
- Tudo bem. Preciso ir agora, antes que apareça um repórter intrometido. – Ele disse se levantando. – Foi ele quem fez isso. Vai ser difícil para você e o aceitarem isso, mas é a verdade, . Mostre a foto para ele, diga que nós achamos o veneno na casa de Anthony. – Engoli em seco.
- Tá bom. – Ele deu um sorriso de lado e eu me surpreendi em como ele estava sendo tão gentil. Não que ele não parecesse um cara gentil, mas é que devido às circunstâncias estava sendo bastante paciente e compreensivo. – Obrigada por tudo! – Fez um gesto com a mão como se não fosse nada e saiu da cafeteria apressado.
Depois eu tive que ir ao bar mais próximo dali para pensar em tudo que tinha acontecido nesses dias e se realmente acreditava que ele era o culpado. Pedi um copo com whisky enquanto tentava imaginar a cena em que o homem mais bondoso que conhecia colocava veneno num pote de cerejas para assassinar alguém. Complicado até de imaginar.
Virei o copo e pedi mais alguns drinks e algumas doses de whisky. estava certa ou não? Anthony era o assassino ou não? Fiquei mais um tempo ali, ignorando as ligações de e pensando se deveria ir nesse momento na casa de ou esperar até amanhã. Decidi ir hoje mesmo para acabar com toda a situação.
Fiquei mais uns quarenta minutos ali no bar e depois fui até a casa dele. Precisava ver também se eu achava as malditas cartas que a minha mãe tinha me escrito e que jamais conseguira me entregar.

Quando cheguei à casa de , já estava anoitecendo e eu me questionava se havia sido um engano ir até ali, mas era tarde demais para mudar de ideia. Assim que o mesmo guarda de sempre me viu, abriu o portão e se retirou para eu poder entrar com o carro pela estrada que levava ao estacionamento da casa.
Estacionei meu carro e coloquei a minha mão no bolso para ter a certeza de que a foto estava comigo. Nem me dei o trabalho de perguntar ao segurança se estava ali porque ele teria avisado caso o mesmo não estivesse. Saí do carro e fui em direção à porta, respirando fundo. Toquei a campainha.
Era impressão minha ou ele estava demorando mais que o normal para atender a porta? Mexi os meus pés, impaciente, esperei mais um pouco e toquei-a novamente. Nada. Nenhum barulho. Nenhum passo. Será que ele estava mesmo em casa? Revirei os olhos, irritada, e pensei em tocar novamente, mas talvez ele só estivesse tomando banho.
Esperei mais alguns minutos e quando ia tocar a maldita campainha pela terceira vez, atendeu a porta. Quando o vi, não conseguia acreditar no estado em que ele estava. Seu cabelo moreno estava bagunçado de uma maneira que eu jamais vira, suas olheiras estavam maiores do que no dia do velório do seu pai – provavelmente não tinha dormido desde então –, ele estava com uma blusa toda suja aberta exibindo o peitoral e a calça que vestia estava imunda também, sua mão segurava um copo de whisky puro cheio e ele aparentava estar muito, mas muito bêbado. Quase dei meia volta e fui embora, mas tinha ido ali por uma razão e não iria embora até realizá-la.
- Preciso falar com você. – Disse, enquanto cruzava os braços. Ele revirou os olhos e bebeu um longo gole do whisky que estava no seu copo.
- Outro dia. – Simplesmente o falou e foi saindo andando. Estava realmente incrédula! Eu já disse que nós nunca nos gostamos e que ele fazia da minha vida um verdadeiro inferno, mas jamais tinha o visto tão acabado como estava agora. A impressão que me passou desde o dia do velório é que ele jamais seria capaz de se recuperar da morte do pai.
- Não! – Disse, entrando na casa e ele parou. – É sobre a morte do seu pai. – Virou-se e eu pude ver nos seus olhos extremamente verdes em como só de mencionar a morte de o machucava intensamente. – O delegado tentou falar com você, mas não conseguiu. Então, pediu para eu aparecer por aqui e te falar o que ele descobriu. – pegou o copo e o virou na sua boca, não o afastando até acabar toda a bebida.
Ele ia falar algo quando uma mulher de cabelos e olhos castanhos e de apenas calcinha apareceu no topo das escadas.
- O que você está fazendo aí? Não vai subir? – Olhou para ele, sorrindo maliciosamente, e não percebendo a minha presença até então.
- Você precisa ir embora, Lindsay. – O filho de foi direto e grosso e a moça se surpreendeu com a sua repentina resposta. Só então ela me viu no canto e franziu o cenho, confusa. - Mas eu pensei que nós estávamos nos divertin...
- Você tem algum problema?! Eu disse que você precisa ir embora! – Ele a interrompeu e gritou de repente, tendo um ataque de raiva.
- Tudo bem. – Ela disse com os olhos arregalados – surpresa como eu estava com o grito dele – e foi em direção a um quarto qualquer para pegar as suas coisas. Quando apareceu novamente, estava vestida e desceu apressada as escadas. Foi em direção à porta nem se dando o trabalho de olhar para trás ou de se despedir, apenas foi embora.
- E então? – Perguntou, me encarando de uma maneira bem estranha. Como se quisesse me matar, essa era a sensação que sentia quando o olhava. Tirei do meu bolso a foto e a estendi, esperando ele se aproximar e pegá-la. chegou mais perto e tomou a foto da minha mão, observando-a.
- Essa é uma foto que a polícia tirou. Eles acharam cianeto na casa do Anthony, . O delegado falou que tinha dúvidas quanto ao fato dele ser o assassino, mas depois que achou isso na casa dele, teve a certeza de que foi ele quem fez isso. O motivo e mais essa prova encontrada são o suficiente para ele ser acusado. – Disse, não acreditando nas palavras que saíam da minha boca. Quando a sensação de que esse era um pesadelo e que eu ia acordar a qualquer momento iam desaparecer?
- Não pode ser! – Ele disse, jogando a foto longe. Colocou o copo em cima da mesinha que tinha na sala e levou as mãos à cabeça, cético. – Anthony nunca faria isso! Você sabe disso, ! Você o conhecia! – Quando ele começou a gritar novamente, pensei que era raiva que ele sentia, mas assim que ele se aproximou mais ainda e segurou os meus braços, percebi que era puro desespero. Era essa a impressão que eu tinha desde o dia da morte de . Como se esse desespero presente em cada pequeno gesto seu jamais fosse desaparecer, como se ele estivesse tão frágil que pudesse quebrar a qualquer momento.
- Eu sei, . – Olhei-o nos olhos. – Também não quis acreditar quando o delegado falou comigo e hoje, quando me mostrou a foto. Mas, quais são as chances dele não ser o assassino? Pequenas, eu diria. – Ele se afastou, inquieto e mais desesperado ainda.
- Ele não faria isso... Meu pai pode ter negado a porra dos remédios pra ele, mas ele não faria isso ! – E então eu observei seu desespero se tornando raiva. – Por que você tá aqui em?! – Ele gritou tão alto que tive a certeza de que o guarda tinha o ouvido. Olhei-o séria, não entendendo o que estava querendo dizer. – Não me olhe com essa cara! Você veio até aqui simplesmente pra me falar essa merda toda?! Como se eu não soubesse que ele seria acusado!
- Não entendi o que você quis dizer com isso, . E não tem necessidade de gritar. – Disse, firme, mas sem alterar o meu tom de voz.
- O que você realmente veio fazer aqui? Falar alguma coisa sobre a empresa? Tentar tirar alguma vantagem enquanto tô na merda?! Você não liga pra porra da morte do meu pai e, certamente, não liga pra quem foi o filho da puta que o assassinou! – Balancei a cabeça, não acreditando no que ele dizia. Respirei fundo, me controlando, mas eu sentia meu pulso se fechando e as minhas mãos tremendo de raiva.
- Quem você pensa que é pra falar assim comigo? – Perguntei, não demonstrando a minha raiva nem me alterando. Eu poderia ser considerada uma pessoa que sabia controlar muito bem os sentimentos e que jamais agiria por impulsividade. – Não sei o que você está pensando nem o que está sofrendo, mas não tem direito algum de descontar toda a sua frustração e raiva em mim! Não vim aqui para tirar nenhuma vantagem e, definitivamente, não vim aqui para tratar algo da empresa! Vim, simplesmente, porque você ignorou o delegado e eu tive que te avisar como estava a investigação! E, se você acha que não me importo com a morte do seu pai – Tudo bem, dessa vez ele estava certo. Realmente não me importava com a morte de . – ou com quem o assassinou, é porque não tem ideia de quem eu sou! Não que me surpreenda com isso... – Algo que me surpreendeu? Como fui capaz de falar tudo tão calmamente, mas determinada. Nisso ele estava errado. Podia não me importar com a morte dele, mas saber que foi Anthony que tinha feito aquilo realmente me machucou. – Não sou obrigada a aguentar seus ataques de raiva, então quando você conseguir falar como uma pessoa civilizada, podemos conversar. – Dei as costas e fui saindo, mas ele não se contentou e continuou.
- Por que você demorou tanto lá em cima aquele dia em ? O que você ficou fazendo enquanto observava meu pai se engasgar com a própria saliva?! Por que demorou tanto para chamar ajuda?! – Continuei andando, mas a sua próxima frase me obrigou a parar instantaneamente. – Como você fez aquilo? – Virei-me, sentindo a raiva subir pela garganta e fazendo meus dentes rangerem entre si.
- Aquilo o quê?! – Perguntei, olhando-o.
- Como você matou meu pai?! – Não... Ele não tinha falado aquilo. Dessa vez, tinha ido longe demais! Uma coisa é insinuar que eu não me importo com a morte de e que demorei demais para chamar ajuda – porque essas coisas fiz mesmo –, mas insinuar que o matei?
- O que você disse? – Minha pergunta foi como um desafio. A chance dele simplesmente se redimir e retirar o que havia falado.
- Como você matou meu pai? – Tudo que tinha no seu rosto era desprezo. – Do mesmo modo que você matou a ?!– Sabia que ele estava só me provocando e que não acreditava de verdade que eu tinha feito aquilo, mas só dele ter ousado insinuar que havia matado e ousado pronunciar sobre a morte da minha mãe, ele despertou um ódio e um desprezo genuínos de uma maneira que eu jamais seria capaz de perdoá-lo. Eu tinha atingido um ponto em que, simplesmente, não conseguia mais controlar meus sentimentos, especificamente a raiva e o escárnio que cresciam a cada segundo que se passava.
Aproximei-me dele ao ponto de sentir a sua respiração no meu rosto.
-Você quer saber de uma coisa, ? Eu aguentei tudo isso que você falou, mas isso não conseguiria nem se quisesse. – Soltei um riso cínico. – Sabe qual é o seu problema? – Ele me olhava com uma expressão de raiva, mas eu pude ver o que realmente estava sentindo: remorso. Arrependimento por ter falado aquelas palavras. – Você age como se fosse um patético adolescente que pode fazer qualquer coisa com todo mundo, mas não pode! Pode dizer o quanto quiser que não me importo com a porra da morte do seu pai, mas enquanto a criança sumia para fazer sabe-se o que lá e bebia como um problemático, era eu quem estava cuidando de tudo para o velório! Eu que atendi cada porra de telefonema para receber os sentimentos de cada pessoa que conhecia porque você estava muito ocupado fingindo ser a porra de um adolescente mimado que não tem nenhuma responsabilidade, nem sobre a morte do próprio pai! Fui eu quem escolhi o caixão e cuidou de tudo, ficou o dia inteiro recebendo todas as pessoas que seu pai amava simplesmente porque você estava muito ocupado evitando a realidade como sempre faz! Mas adivinha só?! Você não pode fazer isso pra sempre ! – Quando percebi, estava gritando ainda mais alto que ele antes e seus olhos estavam arregalados. – Você não sabe porra nenhuma sobre mim ou sobre a minha mãe e se acha que tem algum direito de só mencionar a morte dela ou o nome dela, está errado! Muito menos de insinuar algo que você não faz ideia de como sofri seu filho da puta! – Não deixaria a minha dor transparecer. Fui diminuindo cada vez mais o tom da minha voz, mas de alguma maneira a agressividade não diminuía, tampouco sumia. – Tudo que seu pai sempre quis fosse que você crescesse e parasse de agir como um retardado mimado, da maneira que está fazendo agora! Então que tal, pela primeira vez na vida, pelo menos depois da morte do seu pai fazer o que ele queria para que ele tenha algum descanso? Mas talvez seja tarde demais e você realmente seja assim. – Olhei-o e senti vontade de cuspir no seu rosto.
se jogou no chão e se encolheu, mostrando o resultado das bebidas que provavelmente não tinha parado de tomar nesses cinco dias e, claramente, machucado com as palavras que eu tinha dito.
– Te vejo na quarta. – Disse, ainda percebendo o inevitável desprezo que tinha na minha voz. Infelizmente, o veria em dois dias. Isso se ele tivesse responsabilidade o suficiente para voltar a trabalhar no dia combinado, mesmo eu achando que nem se daria o trabalho de aparecer lá e ainda estaria bêbado. Saí daquele maldito lugar o mais rápido possível e dirigi por algum tempo, mas tive que estacionar porque as minhas mãos tremiam.
Sabia que não ia ser uma boa ideia ir lá, por que insisti? Não percebi o choro chegando, e só me dei conta quando estava soluçando de uma maneira incontrolável. Estava chorando porque ele tinha conseguido me machucar de uma maneira que nunca imaginara que ele seria capaz. Estava chorando pela morte da minha mãe – uma ferida que nunca se cicatrizara. Estava chorando porque apenas o fato de ele ter dito aquelas palavras tão cruéis – mesmo eu sabendo que não acreditava nelas – me feria de alguma maneira. Tudo em relação à morte da minha mãe me feria; machucava; doía.
Nem me lembrei de mencionar as cartas que minha mãe escrevera, porém, eu nem tivera a oportunidade também. Estava muito curiosa para saber o que ela tinha escrito de tão importante, mas teria que descobrir isso em outro dia.
Se só pudesse voltar no tempo, definitivamente, não iria na casa dele. Diria ao delegado que era para ele tentar continuar falando com porque eu estava muito ocupada. Fazia um longo tempo que não chorava, anos já.
A verdade é que depois que minha mãe morreu, nunca mais fui a mesma. Alguma coisa em mim morreu junto com ela e, nem se eu quisesse, poderia trazer essa parte já esquecida por mim de volta. Amadureci até mais do que gostaria e me tornei uma pessoa bem mais desapegada do que desejaria, provavelmente uma resposta involuntária à dor que eu sentira quando ela morreu.
Mas ela estava morta e não havia nada que pudesse fazer que a traria de volta, então era melhor enterrar todos esses pensamentos e essas memórias em mim mesma que insistiam em voltar de vez em quando. Acalmei-me depois de um tempo e esperei mais alguns minutos para que o meu rosto inchado voltasse ao normal. Pior do que ter ido à casa de , seria me fazendo quinhentas perguntas do porquê eu tinha chorado.
Quando o inchaço sumiu, voltei para casa me sentindo mais exausta que o normal. estava toda preocupada porque eu não atendia o telefone e tinha sumido, mas assim que expliquei tudo que acontecera desde ao encontro com o delegado no café até a discussão com , ela compreendeu completamente o meu sumiço e disse que era melhor eu descansar.
Nem discuti porque era o que precisava mesmo. Deitei-me, sentindo o sono pesar sobre todo o meu corpo, mas tinha algo que de alguma maneira eu não conseguira enterrar como sempre fazia. Podia ter parado de chorar e me acalmado, mas de alguma maneira aquele vazio e aquela dor no peito que fazia o meu coração parecer que ia explodir ainda estavam presentes, me fazendo pensar que assim como a impressão que me passara que jamais superaria a morte do pai, eu também jamais fora ou seria capaz de superar a morte da minha tão querida mãe.


Capítulo 5

Uma semana se passou desde a morte de e o luto finalmente acabou! Não posso expressar o quanto fiquei feliz em saber que voltaria a trabalhar na empresa e, pela primeira vez na minha vida, entraria naquele tão conhecido lugar como uma das donas!
Estava tão feliz que tive que disfarçar a minha alegria porque, afinal, há uma semana o evento mais trágico da Med – e provavelmente o pior acontecimento da vida dos funcionários também – tinha acontecido. Estava tão ansiosa e satisfeita que nem me lembrei da pequena discussão que tivera com dois dias atrás e não estava me importando de verdade se ele apareceria hoje ou não.
Peguei um café no Starbucks – tive que fazer essa pausa para esse tão esperado dia – e dirigi até achar uma vaga bem em frente ao prédio. Não precisaria nem entrar na garagem para estacionar! Tomei o resto do meu café e fiquei encarando aquela junção de tijolos, cimentos, ideias, substâncias e pessoas que formavam o que eu considerava uma grande e importante parte da minha vida.
A ideia parecia surreal, para falar bem a verdade. Entrar naquele lugar não como mais uma vice e sim como uma das donas. Uma das responsáveis para fazer todas as decisões e decidir o rumo da empresa, uma responsabilidade que eu jamais lidara antes. Agora não tinha mais que avaliar se as ideias de eram boas para a empresa ou se a prejudicaria, era eu quem teria que ter essas ideias e só de pensar nisso me sentia animada, porém, assustada também.
Dizem que quando vamos fazer uma escolha importante nas nossas vidas, sentiremos medo. O medo é inevitável porque você sabe que se estiver fazendo a escolha errada ou trilhar um caminho que não havia desejado no início, não vai ter volta na maioria das vezes. E que caminho em? Decidir como vai ser o futuro da empresa que minha mãe criou; a ideia que minha mãe teve décadas atrás e que se concretizou quando esse enorme império foi construído – cujo futuro estava nas minhas mãos agora. Tudo dependia de mim agora, o sucesso ou o fracasso da empresa. E eu pretendia fazer o sucesso que ninguém – incluindo a minha mãe – jamais fora capaz de fazer dentro da MedWorksfout.
Saí do carro quando me senti preparada e adentrei a secretaria, observando as pessoas trabalhando de um modo que parecia que elas jamais tinham parado. Tudo estava normal. Ali dentro, tive a sensação de que nada tinha acontecido nessa semana e que tudo estava como sempre estivera.
Subi pelo elevador até a sala onde os funcionários mais importantes da empresa me aguardavam – e ao – e mais alguns representantes de algumas parcerias nossas.
Entrei na sala, escondendo a felicidade radiante que sentia e encenei um pouco de tristeza e desânimo nas minhas expressões.
- Bom dia. – Disse, em um tom monótono e olhando a todos. Todas as pessoas naquela sala – sem exceção – haviam aparecido no velório de e prestado os sentimentos para mim.
- Bom dia. – Ouvi em tom uníssono o cumprimento saindo da boca deles. Apoiei as minhas mãos em cima da mesa. Ali estavam – que conhecia cada uma das nossas filiais por todo o país e as administrava de uma maneira magnífica –, Rebecca – que era a funcionária que cuidava e administrava grande parte do financeiro da empresa –, Norman, John – administrava, principalmente, a parte de produção e reportava para nós – e mais alguns que faziam tarefas complementares desses que eu falei ou ajudavam com um problema aleatório nas parcerias, nos contratos ou qualquer outra coisa. Das nossas parcerias, estavam os representantes da Bergamo – a empresa que era a nossa principal parceira e que produzíamos ou dividíamos praticamente os mesmos produtos –, a Medicine – que fazia alguns contratos conosco, dependia muito da situação – e, por último, a Care – que estava mais em alguns contratos minoritários, e que nós praticamente continuávamos renovando os antigos e não fazíamos mais nenhum.
Eu e sempre tivemos uma visão divergente quando se tratava de parcerias. Veja bem, acho que parcerias são necessárias, mas não do modo como ele fazia. Não tínhamos um único produto exclusivo da Med – embora tivessem alguns em que grande parte da produção ficava com nós – e, por essa razão, não podíamos fazer mudanças que às vezes eram extremamente necessárias ou mudar o preço sem negociação. Bem complicado.
Entendia muito bem que a grande razão para as nossas parcerias era a Human, a principal rival da Med e a que nós estávamos sempre empatando no quesito comércio, mas a Med era bem maior que a Human em termos de estrutura, ou seja, para ela chegar a nossa altura como tinha conseguido nos últimos meses, ela precisava de praticamente o dobro de parcerias. Já a nossa empresa? Conseguiríamos nos manter no mesmo nível de vendas sem alguns contratos e parcerias, definitivamente, até porque o produto seria exclusivo e podíamos cobrar mais caro sem ter que fazer nenhum acordo previamente combinado. já dizia que ficaríamos no prejuízo porque o preço poderia aumentar, mas as vendas abaixariam e concordava com ele.
Mas agora, eu era dona de metade de tudo isso e faria como quisesse. E daria um jeito de aceitar isso.
- Olha, vou ser bem direta, tudo bem? – Perguntei, olhando-os e eles afirmaram com a cabeça. – Sei que vocês têm várias dúvidas, então agora seria a melhor hora para tirá-las. – Eles ficaram algum tempo em silêncio, olharam-se e então Rebecca falou.
- Como as coisas serão agora? No quesito administração. – Ela pediu me olhando e eu suspirei. Não tinha uma pergunta mais óbvia e previsível?
- Elas ficarão do modo como vocês já suspeitam. 50% das ações vai para mim e as outras 50% para . Nós dois seremos os responsáveis pela empresa e não podemos tomar nenhuma decisão de uma nova parceria, um novo produto sem o consenso de um dos dois. – Terminei a frase, esperando ouvir as outras dúvidas.
- Anthony será acusado? A polícia realmente o considera como verdadeiro culpado? – John perguntou dessa vez e eu sabia que essa era outra pergunta inevitável.
- Sim. – Engoli em seco, olhei para o chão e então prossegui. – A polícia encontrou cianeto na casa dele e, devido a essa prova, eles vão prosseguir com a acusação. Robert Fischer, que é o delegado encarregado desse caso, me falou que tinha certas dúvidas até encontrar o veneno na casa dele. Não preciso falar dos motivos que ele foi considerado suspeito porque acredito que vocês já viram o suficiente na tv. – Dei um sorriso levemente cínico, pensando em como eles deviam ter ficado horas assistindo àquelas notícias sensacionalistas sem quase nenhuma base ou informação verídica.
- Onde está o ? – Norman perguntou. Tinha quase me esquecido de sua presença.
- Ele ainda está em luto e, quando se sentir preparado, voltará a trabalhar. – Disse. – Mais alguma dúvida? – Todos levantaram a mão e eu respondi cada uma, pacientemente. A maioria era sobre se os contratos continuariam iguais, os funcionários e eu os certifiquei de que ficariam da mesma maneira, como se ainda estivesse ali. Quando as dúvidas acabaram, falei para finalizar aquela reunião:
- E é isso! Se vocês tiverem qualquer dúvida sobre qualquer coisa, me procurem e eu as esclarecerei. Todos tenham um bom dia! – Forcei um sorriso e, antes de sair, me lembrei de algo. – , se puder vir até a minha sala? – Ela pareceu surpresa com o meu pedido e se levantou rapidamente.
Entrei na minha sala e a vi entrando logo atrás. Sentei-me.
- Por favor, sente-se. – Disse, sorrindo. Ela se sentou, séria.
Mazzaropi era a pessoa mais séria e carrancuda que já conhecera na minha vida. Fazia anos que ela trabalhava ali e eu nunca tinha a visto sorrindo uma única vez durante esses anos. Porém, o que ela tinha de carrancuda, tinha de competente e realmente acreditava que ela era a pessoa perfeita para substituir o cargo que eu e Henry ocupávamos.
- O que você deseja, ? – Me perguntou com o seu típico semblante sério.
- Você nos foi muito útil durante esses anos, sabia ? – Por um momento, tive a certeza de que ela achou que seria dispensada porque seus olhos ficaram desesperados.
- Fui? – Foi tudo que conseguiu dizer quando me interrompeu.
- Foi e é. – Vi que ela relaxou quando eu disse isso, então prossegui. – Sempre fez o seu trabalho do modo que exigimos e nunca cometeu nenhum erro. Confesso que estava entre você e John para esse cargo, mas sei que você é mais competente, então estou o dando para você. – Foi um meio sorriso que eu vi em sua expressão? Ou ela só estava contraindo os lábios como sempre fazia? De qualquer forma, ficou espantada.
- Eu? Que cargo? – Perguntou, curiosa.
- De vice presidenta da empresa. – Falei, sorrindo. Sabia que ela ia dar conta do trabalho e me ia ser muito mais útil que o John.
- Está falando sério, ?! – Mesmo com um quase sorriso na expressão de , pude perceber o quanto ela ficou contente em ser promovida. E, afinal, para ela um quase sorriso era como uma gargalhada! Afirmei com a cabeça. – Obrigada! Obrigada, sério! Obrigada! – Ri de sua reação.
- Tudo bem. Esse mérito é todo seu! Tinha que escolher alguém que é competente, mas que posso confiar também.
- Muito obrigada, ! Eu... Eu... nem sei o que dizer!
- Então não diga nada, apenas fique contente porque você merece!
- Eu juro que não vou te decepcionar! – Estendeu a sua mão e eu a cumprimentei.
- Acredito em você. – Ela afirmou com a cabeça e foi saindo meio perdida do meu escritório e eu percebi que tinha feito a melhor escolha possível.

Dois dias depois, era a hora do almoço e havia pedido para eu ir para casa almoçar com ela. Estranhei o pedido porque durante esses dias que ela ficou comigo, apenas em dois dias não almocei em casa, mas ela disse que queria ter a certeza de que iria.
Quando cheguei em casa, senti um cheiro maravilho e assim que vi com um avental, com seu cabelo preso num rabo de cavalo alto e mexendo nas quinhentas panelas que estavam no fogão, soltei uma gargalhada alta.
- Não entendi o motivo da sua risada, . – Ela falou, mas não se aguentou e riu também. – Até parece que você nunca me viu cozinhando!
- Cozinhando pode ser, mas com um avental de... – Me aproximei para ver qual era a estampa dele. – vaquinhas? – Franzi o cenho e soltei outra gargalhada.
- Eu achei na sua casa, você sabia disso gênio?
- Não sei como porque eu tinha a mais clara certeza que tinha jogado isso fora! – Ela balançou a cabeça.
- Pois eu acho que você usa ele todo dia cozinhando para si mesma e só não quer admitir! – Disse, rindo e gritou, repentinamente. – Agora levanta essa bunda e vem me ajudar a terminar! – Fiz assim como ela mandou e me surpreendi com o prato.
- Batata recheada? – Esse era o prato que nós mais comíamos quando éramos mais novas.
- Ah, por favor! Aquelas comidas gourmet me dão vontade de vomitar! Você come uma merda que não dá nem pro cheiro e paga mil reais! Dá licença! Quero comer algo que me faça cagar a noite inteira! – Soltei outra gargalhada.
- Faz muito tempo que eu não como isso! Você não tem nem ideia! – Senti o cheiro que me dava água na boca.
- Mais um motivo pra nós comermos! Agora para de falar, pegue uma garrafa de vinho para nós duas e encha as duas taças, pelo amor de Deus!
- Tudo bem, mãe. – Ironizei o modo como ela estava me dando ordens. – Acho que alguém se esqueceu que eu não sou o Alan. – Revirou os olhos.
- Cale a boca e sirva! – Disse, mandando mais ainda propositalmente.
- Agora sou sua garçonete? – Perguntei, só para encher o saco dela e fui encher as duas taças. Ela soltou outra risada.
- Meu Deus! Finalmente está pronto! Essa é a maldita última vez que faço isso, entendeu ? – Ela parecia bem impaciente.
- Entendi, . – Arrumei a mesa enquanto a observava virando a taça e colocando mais vinho nela. A minha taça estava quase cheia, mas ela se aproximou igual e encheu o pouco que faltava.
- Você precisa beber, ! Porque vai sentir uma falta desgraçada de mim! – Sabia que era isso quando ela me ligou dizendo para eu ir almoçar em casa. Era um almoço de despedida que ela estava fazendo e essa era a maneira dela de me dizer que iria embora hoje. Isso me deixava bem triste porque adorava a companhia de , adorava as suas piadas, como ela fazia eu me sentir uma adolescente novamente! Ela era, definitivamente, uma das únicas pessoas em que eu conseguia confiar.
- Vai embora hoje? – Tomei um gole de vinho e ela afirmou com a cabeça. Enquanto pegava a batata recheada e colocava na mesa, continuou falando.
- Pensei, pensei nisso e pensei de novo, mas acho que já é hora de eu ir embora, ! Meus clientes estão doidos e não param de ligar lá para casa, disse Damon! Eles, provavelmente, não parariam de ligar se tivessem o número do meu celular também, o que eu não passei ainda bem! – Tinha começado a falar e agora não pararia mais. – Damon disse que Alan chorou ontem porque sentiu a minha falta, meu bebê! E daqui alguns dias provavelmente os clientes vão ligar chorando, não duvido. – Disse, rindo. – Fiquei com você esses dias para te fazer companhia e porque queria falar com , e como já consegui as duas coisas... – Ela teve que dar uma pausa para respirar porque tinha falado muito rápido. Tomou mais um gole de vinho.
- Falou com o ? – Perguntei, surpresa.
- Ontem! Eu cheguei mais tarde por isso, te falei! Ou não falei? – Ela tentou se lembrar, mas quando não conseguiu, balançou a cabeça como se não importasse. – De qualquer forma, ele está ficando bem e nós tivemos uma ótima conversa! E acho que agora eu preciso voltar para casa, para a minha vida novamente, mas você não pode demorar para me visitar em vadia? – Ri de como ela falava rápido. Deus, ela tinha uma energia que eu não sabia da onde vinha.
- Tudo bem, ! Não precisa se explicar do porquê vai embora agora. Eu entendo que você precisa voltar para a sua vida e para a sua família e esses dias que você passou aqui foram ótimos! – Tomei um gole. – E eu vou visitar o pequeno sim vagabunda! Pode demorar um tempo, mas eu vou sim. – Ela me encarou com uma expressão desconfiada e finalizou o resto de vinho que tinha na taça. Fez um careta, provavelmente, porque tinha bebido tudo de uma vez.
- É bom mesmo! – Disse, com o seu tom mandão natural. – Agora vamos comer porque eu estou morrendo de fome! – Afirmei com a cabeça, concordando com ela e pegando a colher para nós nos servirmos. – Pronta para comer a batata recheada mais deliciosa da sua vida? – Revirei os olhos.
- Talvez essa daí dê para o gasto. – Provoquei-a e depois ri. – Brincadeira, . As suas comidas sempre foram as melhores! – Disse, sinceramente, e nos servi. Sentei-me e levei um pouco da comida na minha boca para provar. – Que delícia! – Falei enquanto o gosto sensacional se espalhava pelo meu paladar.
- Eu disse! – Concordou comigo, olhando-me com uma expressão convencida. Pegou a garrafa e colocou mais vinho na taça dela. – Vamos finalizar essa hoje, hein?
- Claro! Quanto mais vinho, melhor! – Ri e continuei comendo.
Durante o almoço, conversamos sobre tudo que você pode imaginar: comidas, sexo, a vida, sua conversa com o , histórias constrangedoras, etc. Fazia tempo que não ria ao ponto da minha barriga doer e eu até tinha me esquecido de como era a sensação. Finalizamos a garrafa e comemos metade da enorme travessa que continha a batata.
Ela disse que me esperaria chegar à tarde para ir viajar e eu avisei que era melhor ela fazer isso mesmo. A tarde passou rápido no trabalho e, quando voltei para casa, não conseguia acreditar que iria embora mesmo! As malas já estavam prontas e ela me disse que não queria sair muito tarde para chegar lá antes de amanhecer.
Só não saiu antes porque Staunton – que era onde ela morava – não ficava tão longe assim de Nova Iorque, então ela conseguiria chegar lá em sete horas – que era o objetivo dela.
- Então é isso! – Disse, não querendo me despedir dela. Ela deu um sorriso de lado, meio triste e me abraçou.
- Vou sentir a sua falta! – Retribuí o abraço dela mais forte ainda.
- Eu também! – Suspirei. Ela se afastou e carregou as malas para o estacionamento em frente à minha casa.
- Foi muito bom passar esses dias com você, . Dá uma nostalgia e uma vontade enorme de ter quinze anos novamente. – Falou, rindo.
- Com certeza! – Concordei, rindo também. – Quando não tínhamos que lidar com a realidade ou com a vida!
- É, bem isso. – Abriu o porta-malas do seu carro e colocou as malas nele. – Tenha um pouco de paciência com o , tudo bem? – Me surpreendi com o que ela disse, repentinamente. – Eu sei, eu sei! – Parecia que ela tinha lido os meus pensamentos. – Ele é insuportável, metido e imaturo... Não que você não seja assim com ele também, mas... – Como sempre, falou exatamente o que pensava. Abri a minha boca para contestá-la, porém, ela prosseguiu rapidamente para não me deixar falar. – ele está bem mal com a morte de , então dê um pouco de tempo para ele, ok? – Afirmei com a cabeça, mesmo que não tivesse com vontade de dar tempo nenhum a ele. – E não ouse não me visitar! São só 700 quilômetros e o Alan sente a sua falta, idiota! – Finalizou, rindo.
- Eu vou te visitar, já te disse isso! Fale para ele que não vai demorar muito! – Ela pareceu se lembrar de algo e revirou os olhos.
- Só de pensar naqueles clientes, me dá uma preguiça!
- Não pode pensar assim, afinal, você é a advogada deles! Se nem a advogada os suporta, então...
¬¬ - Pois é! – Ela me interrompeu. – Tchau, ! Beba bastante enquanto eu estiver longe porque você vai precisar pra administrar aquela empresa gigante!
- Vou precisar mesmo! Tchau, ! – Sorriu e entrou no carro. – E me mande fotos do pequeno!
- Claro! – Afirmou e deu uma pausa. – Ah, e não se esqueça! – Disse, num tom misterioso e eu franzi o cenho, confusa. – Você vai ver ainda! Anthony não fez aquilo, ! – Lembrei de toda a nossa conversa que havíamos tido dias atrás e tudo que me permiti fazer foi morder os lábios. – Te vejo logo, vadia! Tente não sentir tanto a minha falta, porque eu sei que pelo menos um pouco você vai!
- Te desejo o mesmo! – Soltamos gargalhadas e ela deu partida, saindo da minha casa. Observei-a até o seu carro sumir da minha vista e fiquei perdida nos meus pensamentos, pensando sobre tudo que acontecera nesses últimos dias na minha vida e que loucura que tinha sido tudo isso! E, pensando também em como eu ia sentir falta da minha melhor amiga. Ou melhor, da minha irmã.

Cinco dias se passaram desde que tinha ido embora e eu estava, deploravelmente, me sentindo completamente solitária na minha casa porque havia me desacostumado a morar sozinha. Logo esse sentimento passaria e sabia disso, mas enquanto não passava, o silêncio estava me incomodando profundamente. Como já mencionei, é a pessoa mais energética que conheço, então dá para imaginar o quanto a casa ficou silenciosa quando ela partiu.
Apesar dela ter dito que estava melhorando, ele não havia dado notícias nem aparecido em nenhum momento durante esses dias. Por isso, eu estava segurando as pontas, fazendo praticamente tudo sozinha.
Era quarta-feira de manhã e eu estava ocupadíssima tentando localizar um pequeno problema na produção de um produto que havia dado reações inesperadas em várias pessoas. estava me ajudando, mas nós estávamos tendo grande dificuldade em identificar o lote e qual era a mudança na fórmula produzida em algum laboratório específico que estava causando essas reações.
Ouvi alguém entrando, mas eu estava agachada e tinham umas mil folhas espalhadas pelo chão porque achei que seria mais fácil de localizar alguma diferença nos protocolos.
- Está ocupada? – Assim que ouvi a voz, nem precisei me virar para saber quem era.
- O que parece pra você? – Perguntei, sarcástica e pude ouvi-lo bufar. Levantei-me. – Olha quem finalmente decidiu aparecer! – Sorri, cínica. Mal reconheci . Ele estava com um terno, sem as olheiras monstruosas que tinha desde a última vez em que o vira e parecia estar tranquilo e calmo – quase em paz, eu diria. Ele ignorou o meu comentário e prosseguiu.
- Podemos conversar? – Estava sério, então decidi ouvi-lo.
- Se for sobre a empresa, sim. – Falei, diretamente.
- Também é sobre isso. – Aproximou-se e se sentou. Eu também me sentei, ouvindo-o atentamente.
- Aconteceu alguma coisa relevante durante esses dias? – Deu uma analisada no chão da minha sala. – Exceto essa vontade súbita de fazer faxina. – Completou e eu não percebi o tom de desprezo que ele normalmente tinha na voz. tinha feito uma piada genuína, mas nem me dei o trabalho de rir.
- Isso – apontei com a minha mão para as folhas – não é uma vontade súbita de fazer faxina. Deu um problema com a fórmula de um dos nossos produtos em algum laboratório e, nós não o percebemos, então ele causou várias reações inadequadas em alguns de nossos clientes. – Pareceu surpreso.
- Qual produto?
- O Energetic, a vitamina C. – Ele afirmou com a cabeça.
- Então aconteceu algum problema enquanto estive fora. – Cruzou os braços. – Mais algum?
- Não, mas tem algo que você deveria saber. – Olhei-o. – Promovi a à vice da empresa. Sei que você preferia o John, mas eu realmente a acho mais competente que ele. – não pareceu insatisfeito com a minha escolha.
- Ela é melhor que o John mesmo. Quem ficou no lugar dela?
- A Alice. – Ele pareceu bem contente com as informações que passei.
- Só isso?
- Sim. – Disse. – Agora você pode voltar ao seu trabalho. – Esse era o jeito mais educado que achei para dizer que era para ele se retirar da minha sala.
- Tem outra coisa que quero pedir a você. – Sabia que ele ia querer algo e, provavelmente, ia ser alguma coisa extremamente desagradável. Ele mal tinha voltado a trabalhar e já achava que tinha condições para me pedir algo... Não tinha me surpreendido com essa folga exagerada também.
- Peça. – Me mantive calma e não demonstrei a minha insatisfação.
- Me desculpe por aquele dia que você foi lá em casa. – O quê?! Por essa eu não esperava! . Me. Pedindo. Desculpas. Mas que merda que acabou de acontecer?!
- O quê? – Perguntei novamente, achando que eu tinha entendido errado. Ele não ficou contente em ter que repetir, mas o fez da mesma maneira.
- Me desculpe pelas coisas cruéis que falei aquele dia pra você, quando foi na minha casa. Eu sei que você não teve nada a ver com a morte do meu pai e muito menos com a da sua mãe. Foi imprudente da minha parte te acusar dessa maneira e eu não deveria ter falado aquelas coisas para você. – Deu uma pausa, engolindo em seco. – Sei que as minhas desculpas não vão resolver nada ou retirar nenhuma das palavras daquele dia, mas é o mínimo que posso fazer. Principalmente agora que vamos conviver juntos quase todos os dias. – Eu realmente não esperava por essa! Não posso expressar a você o quanto fiquei chocada com as palavras que saíram da boca dele! E mais: eu podia ver que ele realmente estava arrependido. Fiquei tão impressionada que não soube nem o que responder.
Quando percebeu que eu não conseguia falar nada de tão surpresa que estava, prosseguiu:
- Olha... Eu só acho que nós já somos maduros o suficiente para deixar toda aquela rixa para trás, tudo bem? Temos quase trinta anos, somos os donos dessa enorme empresa que nossos pais deram duro para criar e construir, então acho que o mínimo que podemos fazer é pararmos de tentar nos sabotar porquê dessa maneira não conseguiremos fazer nada juntos. Então, se você conseguir deixar o passado para trás e estiver disposta a trabalhar comigo, eu estou! – Suspirei, olhando-o.
- Você está certo, . Não podemos retirar nada do que dissemos um para o outro naquele dia, mas podemos focar no futuro e deixarmos a rixa infantil no passado. – Falei, sinceramente, embora eu achasse que jamais seria capaz de esquecer o que ele havia me dito naquele dia. Mas eu não ia deixar isso interferir na nossa relação profissional. – Podemos fazer isso funcionar e podemos fazer a Med prosperar de uma maneira que ela jamais prosperou! Mas só podemos fazer isso juntos. Estou de acordo contigo. – Encarei seus olhos verdes e estendi a minha mão. – Temos um acordo, então? – Ele sorriu.
- Sim. – Estendeu a sua mão e nós nos cumprimentamos. – Fechado o acordo então. – Levantou-se, pegou algumas das folhas jogadas no chão. – Peguei essas aqui para ver se acho algum erro também, tudo bem? – Concordei com a cabeça e ele saiu da minha sala.
As coisas realmente nunca acontecem do jeito que nós imaginamos acontecer.

Tudo estava ótimo durante os dias que se passaram. e eu nem parecíamos as mesmas pessoas, se você me perguntar. Claro que nós ainda não nos gostávamos e eu me irritava bastante com o jeito dele e com as coisas que ele fazia, mas era uma coisa que já tinha aprendido a lidar e que teria que suportar por muito tempo ainda.
Já estava anoitecendo e quase todos já tinham ido embora da empresa. No momento só restava eu, , a secretária e mais dois funcionários – que não demorariam para ir embora também.
Fazia algum tempo já que eu estava pensando numa ideia louca de criar algo para a Med que traria lucros gigantescos. Já havia pensado em várias coisas, mas nenhuma era boa o suficiente. Então apareceu uma nesse exato dia e eu fiquei pensando durante o dia inteiro se deveria compartilhar com alguém ou se era cedo demais.
Havia escolhido para o cargo porque sabia que podia confiar nela, mas será que podia mesmo quanto a isso? A ideia que tive era genial, tenho que assumir, porém, era bem controversa. E o era por uma simples razão: envolvia oportunismo. Muito oportunismo. Um oportunismo que jamais aceitaria.
Quando assumi essa empresa, fiz a promessa a mim mesma de que a faria crescer de uma maneira que jamais crescera antes, não importava o que eu tivesse que fazer. Estava na hora de colocar essa promessa em prática.
Eu sei, acordo de paz, sem rixas e tudo mais... Mas eu estou falando de milhões aqui, se tudo der certo. Chamei para vir a minha sala e ela entrou, não parecendo muito contente por eu chamá-la bem na hora que ela estava arrumando as coisas para ir embora.
- O que foi, ? – Perguntou, mau humorada. O mais engraçado de tudo é que apesar dela ser monstruosamente séria, era difícil vê-la mau humorada. O que ela tinha de seriedade, tinha de paciente também. Mas hoje estava realmente mau humorada.
- Fecha a porta, fazendo o favor. – Pedi, sorrindo. era negra – tinha a pele mais bonita que já tinha visto em toda a minha vida –, cabelos encaracolados extremamente pretos e os olhos mais pretos ainda, extremamente cativantes. Aproximou-se e se sentou. – No dia em que te promovi, eu disse que você era competente e confiável. – Estranhou o rumo da minha conversa, mas continuou quieta. – Mas posso confiar mesmo em você?
- Claro que sim. – Limitou-se apenas a dizer isso.
- Tudo bem então. Eu tive uma ideia de um produto. – Ela estava prestando bastante atenção no que falava. – Mas ela pode ser considerada controversa. – Endireitou-se e me olhou.
- O quanto controversa, se me permite perguntar? – Esperta. Queria saber em que terreno estava entrando antes mesmo de pisar nele.
- Bastante controversa. Mas o que ela tem de controversa, tem de lucrativa.
- Estou escutando. – Disse.
- Você sabe que foi o antibiótico extremamente resistente feito a alguns anos que fez dessa empresa o que ela é hoje, certo? – Afirmou com a cabeça. – Mas hoje não há nada demais sobre ele. Ele é bom, claro, porque nós fomos o modificando, mas não há nada específico nele que faça os nossos clientes procurarem por ele.
- Sim. – Foi tudo o que disse. Apoiei meus braços na mesa.
- Sabe a minha opinião quanto a parcerias? – Ela afirmou com a cabeça.
- Sei que não é a fã número um. – Disse.
- Exatamente. Por que você acha que eu penso assim? – Vamos ver o quanto ela era perceptiva.
- Porque você acha irritante ter que ficar fazendo acordos previamente combinados sobre preços com os nossos parceiros. E você acha que dá prejuízo porque se apenas a Med vendesse, poderíamos cobrar mais caro. – Ela era ainda mais inteligente e observadora do que tinha imaginado.
- Exatamente. – Sorri, sarcasticamente. – E quanto a você?
- Vai fazer alguma diferença a minha opinião? – Provavelmente não.
- Acho que não, mas quero ouvi-la igual.
- Bem, - deu uma pausa – existem vantagens e desvantagens em parcerias. Particularmente, eu acho a parceria com a Bergamo bastante lucrativa para a MedWorksfout, porém, é muito prejudicial a parceria que nós temos com a Care, por exemplo. Como eu falei, depende de muitas coisas. – Estava gostando cada vez mais dela.
- Isso. Então... Estava na mente em produzir algo só da Med, sem parcerias nem mesmo com a Bergamo. Acho que a Med necessita de, pelo menos, um único produto exclusivo.
- Você tem um ponto. – Falou, me olhando. – Mas não é por esse motivo que ela é controversa, certo? É um pouco, claro, mas algo me diz que você tem uma ideia mais controversa e oportunista ainda.
- E eu tenho. Quero produzir um novo antibiótico... Um antibiótico mais resistente ainda do que aquele que foi produzido anos atrás, que pra época era revolucionário. Quero algo incomparável, para ser exclusivamente da Med.
- E você acha que a Med pode bancar a produção inteira? Arcar com todos os financiamentos? Nós vamos gastar bastante se você decidir ir para frente com essa ideia. – Comentou e eu observei um tom de preocupação em sua voz.
- Nós podemos, . Estou certa disso. E não importa o quanto vamos gastar, porque podemos deixar esse antibiótico extremamente caro para nós lucrarmos! – Falei, determinada. Eu sabia que isso ia dar certo, tinha certeza.
- Entendi o porquê de você dizer que ela é controversa. é totalmente a favor das parcerias. Mas ainda não entendi o porquê do oportunismo. – Falou, usando cuidadosamente as palavras certas.
- Porque eu quero apelar na hora que ele estiver pronto. Quero que as vendas comecem no dia exato que completar um ano do assassinato de e, quero que as propagandas digam que esse antibiótico é uma homenagem para ele. – Agora a surpreendi e pude perceber que ela ficou extremamente chocada com o que eu falei. Ela balançou a cabeça.
- Você sabe que jamais vai aceitar isso, . – Afirmei com a cabeça.
- Claro que não. Se vier de mim, ele certamente vai achar oportunista da minha parte porque nós nos odiamos e porque é oportunista. – A ficha de finalmente caiu e ela entendeu o porquê de eu tê-la chamado.
- Você quer que eu fale com ele. – Ela falou e coçou a testa. Parecia bastante hesitante. – Isso não vai dar certo, .
- Vai, sim. Se ele ouvir de mim, é óbvio que não vai. Mas de você? Ele te respeita e faz anos que trabalha aqui! te respeitava e você o admirava, então vai ser uma ideia perfeita vindo de você! – Ela estava encarando o chão, pensativa.
- Eu não sei... Nós não somos tão próximos assim para eu, simplesmente, chegar com uma ideia de produzir um produto em homenagem ao pai dele e depois dizer que a data de lançamento vai ser exatamente no dia em que completar um ano que foi assassinado! Ele vai desconfiar!
- Ah, isso ele vai. Ele vai falar que a ideia foi minha, mas nós podemos convencê-lo que foi você que pensou em tudo! – Sam mordeu os lábios e eu pude sentir a sua hesitação.
- Mesmo que ele concorde com isso, o que eu acho que não vai acontecer... jamais vai concordar que esse seja um produto exclusivo! Primeiro porque ele concorda com as parcerias e, segundo que é um produto em homenagem a !
- Nós damos um jeito nisso, .
- Não me parece uma boa ideia.
- Olha, eu pedi se podia confiar em você e você disse que sim. Tudo o que você precisa fazer é chegar nele e dizer que a ideia foi sua e eu faço todo o resto do trabalho. Posso confiar em você? Ou deveria ter escolhido outra pessoa para o cargo que ocupa agora? – Isso não foi uma ameaça, longe disso. Foi uma pressão psicológica porque eu sabia o quanto ela detestava sentir como se não tivesse feito o suficiente no trabalho ou como se não tivesse dado o melhor dela. E ela entendeu isso porque pude perceber que ela sentiu uma certa culpa.
- Tudo bem. – finalmente concordou. – Mas se algo der errado para o meu lado, vou falar que tudo isso foi ideia sua. Pode ser? – Sorri, vitoriosa.
- Pode. Mas nada vai dar errado, não se preocupe com isso. – É, parece que o acordo de paz estava oficialmente expirado. E nem fazia ideia disso.

***

Um dos piores erros que já cometi, devo admitir. Não posso expressar a você o quanto me arrependi de ter colocado essa ideia em prática, mesmo que não vá demorar muito para você descobrir. O problema não foi a ideia, longe disso. A ideia foi realmente genial, preciso ter os meus créditos. O verdadeiro problema foram as consequências dessa ideia. E que consequências! Lembra da guerra que eu falei lá em cima, bem no começo da história? Posso dizer que colocar essa ideia em prática foi a declaração definitiva e irreversível que ela havia começado. E, agora, você precisa prestar bastante atenção nos acontecimentos futuros e, principalmente, no imenso efeito colateral que está para acontecer, porque muito desse efeito tem a ver com a minha morte. Como? Você já irá descobrir.


Capítulo 6

Um pouco mais de um mês depois de toda a tragédia acontecer, confesso que estava estranhando como tudo estava tão calmo. Não houve um único problema na empresa; uma única confusão ou briga que me envolvesse ou que envolvesse qualquer um dos funcionários da Med.
Dentro da empresa, percebia que era uma pessoa extremamente reservada, mas aos poucos nós parecíamos estar ganhando intimidade – o que era muito bom também, já que ter uma pessoa em que podia confiar não era uma má ideia. e eu nem parecíamos as mesmas pessoas! Na realidade nem convivíamos, então não havíamos tido nenhuma briga desde que o tal acordo foi selado. E, ? Bom, às vezes ela me ligava e nós passávamos horas conversando no telefone, perdidas nas memórias do passado. Quando não estávamos nos falando pelo telefone, ela me mandava mensagens ou fotos do pequeno e fofo Alan. Tudo estava realmente tranquilo e ótimo!
Porém, eu sabia que não duraria muito porque tinha dito a que agora era uma hora oportuna para falar ao Henry da ideia que eu tivera duas semanas atrás. Ela ainda estava relutante, mas nós combinamos cada passo que ela daria e cada palavra que falaria na hora de apresentar a ideia como se fosse dela.
Uma coisa era óbvia: ele jamais acreditaria que a ideia era dela, pelo menos quando ela a apresentasse. Nós teríamos que ter uma paciência extrema e um poder de persuasão bastante eficaz para convencê-lo de que aquilo, de nenhuma maneira, era minha sugestão ou oportunismo.
Sabia que no momento em que apresentasse a ideia do produto, ele me confrontaria. Ela até disse para nós esperarmos mais um pouco, dar um tempo para superar totalmente a morte do pai e, só depois, mencionarmos o produto e o que pretendíamos fazer com ele. Porém, não tínhamos esse tempo porque se eu quisesse começar as vendas exatamente no dia em que completasse um ano do assassinato de , teríamos que começar a produção agora ou o mais cedo possível. No fim, chegamos à conclusão de que seria melhor falar só a ideia do produto e, mais para frente, especificamente a data em que pretendíamos que a venda começasse.
Terça-feira de manhã, entrou na minha sala com uma fúria que eu não vira nele desde o dia da nossa grande briga.
- Você acha que eu sou idiota?! – Ele entrou rapidamente e bateu a porta com toda a força possível. Olhei-o como se não fizesse ideia do que estava falando.
- Pelo jeito que você está batendo as portas, realmente estou acreditando que é. – Aproximou-se e deu um tapa muito forte na mesa, descontando toda a sua raiva.
- Você achou mesmo que isso daria certo?! Que eu simplesmente ia aceitar essa ideia de mau caráter absoluto? – Gritou e eu respirei fundo para manter a calma, como sempre mantinha.
- Do que está falando? – Disse, olhando-o sem nenhum sinal de preocupação.
- Meu Deus! – Colocou as mãos na cabeça, indignado. – Eu sei que foi você quem teve a ideia absurda de produzir aquele maldito produto e, ainda, mandou outra pessoa falar comigo como se eu fosse um idiota e não fosse perceber que só você é mau caráter dessa maneira para ter essa ideia ridícula! – Tudo bem, ele estava mais bravo do que imaginei do que ficaria. Levantei-me, calmamente, e soltei um riso como se estivesse achando engraçado o quanto ele estava bravo porque não tinha ideia alguma do que ele estava falando.
- Olha, não sei o que aconteceu com você... – Coloquei a mão direita na cintura. – mas não tenho ideia do que está falando.
- Não tem, é? – Soltou uma risada irônica. – Então você está tentando me dizer que não tem nada a ver com a sugestão que deu de produzir um novo produto em homenagem ao meu pai? É isso mesmo que está me dizendo? – Balancei a cabeça, como se essa fosse a primeira vez que eu ouvisse qualquer coisa relacionada a isso.
-, apenas disse que queria discutir uma coisa comigo, mas nunca teve a oportunidade de falar o que era. – Ele revirou os olhos, verdadeiramente irritado.
- Ela me disse que foi você quem a mandou ir falar comigo, tudo bem? – Por um momento, considerei que talvez tivesse falado alguma coisa, mas ele não tinha nenhuma convicção na voz e a frase inteira só parecia uma isca que queria que eu mordesse.
- Não faço a mínima ideia do que está falando! – Forcei um sorriso. – E eu estou muito ocupada agora, então se você tiver mais alguma acusação barata para me fazer, faça-a logo! – Andou de um lado para o outro, com uma raiva que estava escancarada em sua face.
- Se isso foi ideia dela, quero que a demita agora! – Arregalei os meus olhos. tinha ficado mesmo mais irritado do que eu tinha imaginado que ficaria.
- Mas, ... – Tentei argumentar, mas ele me interrompeu.
- Quero que a demita agora! E, se você não fizer isso, eu vou fazer! – Gritou e saiu da minha sala como um relâmpago. Observei-o andando pelos corredores e, depois, sumindo da minha vista porque tinha descido pelo elevador.
Finalmente senti como se pudesse respirar e me sentei, relaxando. entrou rapidamente na minha sala, mas ela parecia estar calma.
- Ele não gostou muito da ideia... – Falou, concluindo.
- Não. – Balancei a cabeça. – Ele disse para eu te demitir. – Disse, soltando um riso. Ela levantou as sobrancelhas.
- Ele vai esfriar a cabeça e vai mudar de ideia. – Não tinha ideia do quanto sabia sobre mim ou sobre a minha personalidade, mas pelo tanto que ela era perceptiva tinha medo de saber, às vezes. Porque ela sabia muito bem que era impulsivo para fazer um comentário como esse.
- Vai. – Expressei confiança.
- É melhor ele mudar, senão já sabe, certo? – Ela se referia ao fato de que diria tudo a ele: que eu fui procurá-la, que disse que era melhor ela apresentar a ideia porque se eu o falasse seria muito oportunismo e todo o resto. E então entendi que ela estava calma como qualquer pessoa estaria se tivesse todo o controle da situação.

Esperei vir falar comigo por qualquer razão para só então tentar acalmá-lo. Dois dias depois, ele ainda parecia estar tão furioso quanto antes, porém menos impulsivo e parecia que a sua fúria estava mais contida também.
Ele esperou sair para almoçar ansiosamente e só então entrou na minha sala, dessa vez não bateu tão forte a porta.
- Posso saber por que ela ainda está aqui? – Perguntou e se sentou.
- Porque eu não vou demiti-la. – Fui direta. Ele ia falar qualquer coisa, mas o interrompi. – Eu sei... Ela foi ousada demais quando decidiu falar de um produto em homenagem ao seu pai, entendo. – Dei uma pausa, demonstrando compreensão. – Mas se você parar para analisar, a ideia dela não é tão absurda assim. – Escolhi as palavras, cautelosamente.
Riu, sarcasticamente.
- É claro que você não acharia né? – Revirei os olhos.
- Você quer fazer mais acusações incoerentes ou conversar igual a um adulto? – Ele engoliu em seco e me esperou prosseguir. – O nosso antibiótico, o que os nossos pais produziram, não tem nada de específico! As pessoas o procuram como qualquer outro antibiótico, o que não deveria acontecer. – Dei uma pausa. – Tudo bem, a ideia de homenagear o seu pai talvez foi ousada demais, mas tenho certeza que ela não fez por mal, ! Sam adorava o seu pai e o admirava demais!
- Pode ser. – Falou, claramente com raiva ainda.
- Talvez nós só devêssemos produzir um novo antibiótico. Exclusivo. – Disse a última palavra, esperando uma reação imediata.
- Por que exclusivo, ? Você sabe que nós iremos nos prejudicar! Por que insiste nisso? – Balancei a cabeça.
- Não, necessariamente. Se nós produzíssemos um produto especial, muito eficaz, as pessoas iriam querê-lo e só esse antibiótico.
- E por que nós teríamos que excluir nossos parceiros? Você sabe muito bem o quanto custa para produzir um produto desses!
- Sim, eu sei! Mas você não entende? Seria um produto exclusivo nosso! As pessoas teriam que ir na Medicine Worksfout pra comprá-lo! – Ele não estava gostando nada da ideia.
- E qual é a grande vantagem nisso, ? Nós teríamos que vender o dobro para lucrarmos e você sabe disso. – Sorri, irônica.
- Ou aumentar o preço do produto... Porque veja bem, você sabe que se esse produto for exclusivo e diferenciado no mercado farmacêutico, nós podemos colocar o preço que quisermos! – Revirou os olhos.
- E qual é a vantagem disso se podemos vender o dobro por um preço mais acessível? – Apoiei as minhas mãos na mesa.
- Você está perdendo o foco aqui, ! A questão não é vender mais ou menos remédios! A questão é que nós não vamos depender de ninguém para manter as nossas vendas e esse produto será apenas nosso! Isso é uma vitória!
- Não acho que deixar o preço num valor absurdo para compensar a produção do produto seja uma vitória... – Disse, sinceramente. Deus, ele era tão teimoso quanto eu?
- Tudo bem, você pode ter um ponto de vista diferente, mas pode pelo menos considerar essa ideia? – Perguntei, vendo que ele já tinha se acalmado um pouco. Não existe a mudança de opinião sem haver a dúvida no meio. Era isso que eu queria que ele tivesse.
- Certamente. Mas vai ser demitida. – Balancei a cabeça.
- Não vai, não. Olha, ela me é muito útil por aqui, ! E eu não acho que consiga achar alguém tão competente quanto ela para fazer o trabalho. Não vou demiti-la por birra! – Disse, determinada.
- , isso não é uma birra! Você não a achou sem noção por vir e apresentar uma ideia dessas para mim? – Ele parecia tão determinado quanto eu. Claro que não, querido. Fui eu quem pediu para ela fazer isso.
- Não... Talvez um pouco ousada, mas isso não justifica uma demissão. Ainda mais quando se é tão competente quanto ela é! – Ele cruzou os braços, mas cedeu.
- Tudo bem. Mas no primeiro erro que ela cometer, nós a demitimos. Entendeu? – Afirmei com a cabeça.
Foi quando John bateu na minha porta e pediu para entrar. Assim que eu dei a permissão, ele entrou com um envelope médio nas mãos.
O envelope era todo branco e só tinha uma frase escrita a sua frente, que eu não consegui ler até ele me dá-lo.
- A secretária disse que esses dois envelopes chegaram para vocês. – Só então que eu vi que tinha mais de um e ele entregou o outro para o . Li o que estava escrito com uma letra impressa bem bonita e detalhada: À Srta. Worksbare. Abri-o enquanto fazia o mesmo e não acreditei quando vi de quem era endereçado.
Dessa vez, e eu bufamos juntos pela mesma razão. - Não... – Sorri, sarcasticamente. No convite dizia a seguinte frase:
“Você está convidado para a festa de comemoração dos 20 anos que a empresa Human faz no próximo fim de semana!
Data: 30/05/2016 Horas: 20 hrs
A sua presença é indispensável!”
E, atrás do envelope, tinha o seguinte recado de um antigo inimigo escrito: “Não podíamos nos esquecer de você, querida . Oliver Bressiani”
- Eu não acredito que ele ainda teve a audácia de...
- Escrever isso atrás? – mostrou o envelope dele com a mesma frase escrita, mas o nome dele substituía o meu.
- Sim! Nós vamos nessa festa, certo? – Falei, sentindo a raiva ferver o meu sangue e fazer os meus dentes rangerem.
Claro, talvez você não entenda o motivo da nossa raiva. Mas eis o porquê: a Human é a nossa principal rival e, na verdade, esse convite foi um deboche, uma demonstração do tipo “20 anos que estamos alcançando vocês e roubando os seus clientes, otários”. E é por isso que precisamos ir nessa festa! balançou a cabeça.
- Talvez seja melhor não ir. – Olhei para ele, incrédula.
- Óbvio que nós vamos! Eles nos chamaram e nós vamos!
- Pra quê, ? Para se irritar? Cansei desse filho da puta já! – Balancei a cabeça enquanto ele jogava o convite com o envelope em cima da mesa.
- Se nós formos, podemos avaliar com quem eles andam fazendo parcerias!
- Mas, se nós recebemos esse convite, é provável que todos os donos e alguns funcionários de todas as empresas farmacêuticas desse país tenham recebido um também! Difícil conseguir avaliar algo com mil pessoas no mesmo lugar. – Falou, sarcasticamente.
- E é por isso que nós temos que ir!
- John, o que você acha? – perguntou. Nem tinha reparado que ele ainda estava ali até então.
- Não sei. Talvez vocês devam ir. – Ele olhou com uma expressão para John como se estivesse reprovando a sua resposta. – Preciso ir. – Disse, se retirando.
voltou do almoço e entrou na minha sala, só percebendo que estava ali quando já tinha entrado.
- Ah, me desculpem! Eu não queria interromper! – Olhei-a.
- Não, não, entre! – Ela estranhou o meu pedido e se aproximou. Dei o convite a ela. – O que acha? Eu e John achamos que devemos ir, acha que não.
- Bem, ele mandou esse convite obviamente para tirar sarro de vocês. Por isso, não deveriam ir. – olhou com uma expressão vitoriosa para mim, mas foi cedo demais. – Porém, seria uma ótima ideia ir para demonstrar poder e avaliar quem está com eles na mesa principal da janta, por exemplo. Normalmente é lá que ficam os principais parceiros e as pessoas mais importantes para eles.
- Três contra um, nós vamos! – Finalizei a discussão e não pôde nem argumentar.Mbr< - Tudo bem. Mas se estiver um porre essa festa, eu vou embora na hora, entendeu?! – Afirmei com a cabeça e ele se levantou para se retirar da minha sala.
- , você também vai. – Disse a ela e a mesma pareceu incrédula.
- O que? Por quê?!
- Porque você é a vice e Oliver deveria conhecê-la. – pareceu bem irritada com o fato de eu ter dito a ela que teria que ir.
- Eu retiro o que disse! Não deveríamos ir! Nem recebi convite, . – soltou uma gargalhada e completou:
- Tarde demais, . – Chamou-a pelo apelido propositalmente para irritá-la, já que não tinham nenhuma intimidade e após ver que o seu objetivo tinha sido conquistado, saiu da sala.
- Não vai estar um porre, juro! E, se estiver, nós vamos embora, ok? – Não disse nada e saiu da sala, indignada.
Eu queria ir por dois motivos: para ter mais contato com e, consequentemente, ter mais uma ocasião para convencê-lo quanto ao produto e, também, porque colocá-lo com no mesmo local seria uma ótima ideia já que ele tinha criado uma grande antipatia por ela. Lentamente prosseguindo, mas prosseguindo. E é isso que importa.

Olhei-me no espelho, pensando se talvez eu tivesse me enganado que seria uma boa ideia ir nessa festa. Meus olhos castanhos escuros estavam bem destacados com o delineador e o lápis que tinha passado, minha pele que normalmente não era tão branca o estava agora pela maquiagem e meus cabelos castanhos escuros geralmente ondulados estavam lisos com uns cachos nas pontas agora. Passei o batom vermelho por último para contornar a minha boca que tinha um formato pequeno, mas os lábios eram grandes o suficiente para dar um desenho bonito a ela e quase pensei em ligar para e , dizendo que tinha desistido de ir na festa.
Eu estava bem cansada e só de pensar em ver Oliver, sentia náuseas. Mas tudo bem, agora era tarde demais para desistir. Estava com um vestido colado vermelho e com um sapato tradicional na cor preta. Respirei fundo, peguei a minha bolsa e fui até o meu carro para ir à festa.
O salão que eles tinham alugado para a festa era um dos maiores de Nova Iorque – senão o maior – e já tinha ido lá algumas vezes, mas fazia um tempo que não ia a uma festa tão grande como essa pretendia ser. Assim que cheguei ao local, me lembrei que apenas o estacionamento era maior do que algumas quadras na cidade e o salão eu ainda não conseguia ter uma noção muito boa – nem me lembrava também – do tamanho ainda porque estava muito longe.
Cheguei às oito e meia e, pelo menos, um quarto dos convidados já tinham chegado. Desci do meu carro ajeitando meu vestido, quando observei um casal chegando numa limusine e descendo rapidamente. Normalmente, nessas festas as pessoas se davam o trabalho de pagar um motorista para levá-las no lugar e depois buscá-las. Era costume, porém, particularmente eu não via necessidade. Se achava que iria beber demais e depois não ia poder voltar, tudo bem, então pagava alguém para fazer esse trabalho. Mas numa festa da Human? Tirar a pessoa de casa num sábado à noite, mesmo que tivesse a certeza de que teria as perfeitas condições para voltar? Não mesmo!
Quanto mais me aproximava do local, mais lembrava do quão grande ele era. Quando finalmente cheguei à porta, me senti tão minúscula que me perguntei como as pessoas haviam conseguido colocar os lustres lá em cima. Eu tinha esquecido de como esse lugar era gigantesco! Havia uma mulher e um homem nos recepcionando, mas estava tão impressionada por não me recordar do tamanho desse lugar que nem prestei atenção neles.
Segurei o meu vestido e fui entrando, me questionando se o chão tinha ficado mais branco ainda ou se sempre fora assim. Aquele lugar era magnífico! Tinha algumas paredes da cor branca, outras de cor bege e outras – poucas – pretas. As mesas estavam espalhadas por todo ele e lá na frente tinha uma elevação – como um palco – com um microfone e um enorme telão. O chão estava tão limpo que brilhava e os lustres eram tão enormes que poderiam ser facilmente comparados a um carro.
A decoração que eles fizeram ficou linda também – mais do que desejaria que tivesse ficado. Os lustres iluminavam muito o salão inteiro e nas laterais tinham várias mesinhas com bebidas, vinhos e poltronas, provavelmente para os convidados esperarem até a janta estar pronta. Do lado esquerdo, tinha um grande bar com um aspecto rústico e eu quis me aproximar dele só para vê-lo de mais perto. As várias mesas se espalhavam pelo lugar com flores coloridas em cima delas e com pratos e taças maravilhosos. A mesa principal, em especial – a do meio e, consequentemente, a maior – estava com mais flores ainda e as taças já se encontravam cheias de vinho para quem quisesse beber. Uma variedade de quadros rústicos também estavam colocados nas paredes e tudo que conseguia pensar foi como aquela decoração estava perfeita, sem um único defeito.
- Talvez devesse fechar a boca para não babar. – Escutei uma voz grossa e, quando me virei, dei de cara com um homem muito envelhecido com a barba e os cabelos grisalhos.
- Oliver. – Sorri, sarcasticamente. – Bem, pelo menos isso vocês fizeram certo, tenho que admitir. – Ele sorriu, cínico.
- Isso como todas as outras coisas né, querida. – Por que estava me chamando de querida? Quem ele pensava que era para falar comigo dessa maneira? Ele se aproximou e me deu um beijo na bochecha, cuja minha reação imediata foi me afastar o mais rápido que pude. Como vou explicar o que sentia por Oliver Bressiani? Talvez a melhor palavra fosse asco. Sabe aquela pessoa que só quando você observa sente um tremendo nojo e quer ficar o mais longe possível dela? Para mim esse era o Oliver. Ele me passava uma impressão horrível e o jeito dele me dava mais nojo ainda. Bressiani tinha uma malícia na voz e no jeito que tudo que ele falava eu sentia como se estivesse me assediando. Imagine agora um velho de sessenta anos falando tudo com um tom extremamente malicioso e cínico? Some isso ao fato de que ele realmente já disse descaradamente que queria transar comigo? Pois é.
Mas eu tinha que vir porque igual havia falado: vindo a essa festa teria uma chance de descobrir com quem a Human tinha interesse de fazer parcerias ou a proximidade das outras empresas com ela, então me obriguei a vir. Sem falar que não deixaria esse velho asqueroso e nojento me intimidar de nenhuma maneira. E tem outra razão, além daquelas que já mencionei: precisava falar com David, que não respondia mais as minhas mensagens.
- Diga a você mesmo o que quiser... Mas sabe que não é verdade, Bressiani. – Soltou um riso sarcástico.
- É claro que você ia falar isso de qualquer jeito. – Deu uma pausa. – Mas confesso que você me surpreendeu, Worksbare. Se fosse , jamais iria aparecer na festa. – Só balancei a minha cabeça afirmativamente.
- Você mandou convite, certo? – Levantei as minhas sobrancelhas e sorri, irônica. – Como poderia deixar de vir depois daquela tão atenciosa mensagem que colocou no envelope? – Qualquer um que estivesse perto perceberia o escárnio na minha voz só pelo tom dela.
- Ah, você gostou, querida? – Querida? Se pudesse o socaria, mas sabia que se falasse alguma coisa quanto ao fato de eu me irritar com ele me chamando dessa maneira, ele só faria mais questão ainda de repetir essa porra de palavra. Aproximou-se repentinamente e eu dei um passo para trás. – Posso fazer muito mais além de escrever aquela mensagem. – Sorriu, maliciosamente. Levantei as minhas sobrancelhas novamente, irônica.
- Diga a você mesmo o que quiser. – Repeti as mesmas palavras e fui me afastando dele. Ele só me encarou e, por último, disse uma frase que quase me fez ir ao banheiro para vomitar:
- Você está maravilhosa nesse vestido, . – Disse, me olhando da cabeça aos pés.
- Não posso dizer o mesmo para você, Oliver. Principalmente se usar a sua idade para esse critério. – Disse sarcasticamente e pude vê-lo irritado. Só sabia que ficaria o mais longe possível dele durante a festa.
Fui até o bar rústico para observá-lo e para pedir uma taça com vinho também. Sentei-me no banquinho à frente dele e fiz o meu pedido. Ele foi atendido rapidamente e eu tomei um longo gole assim que a taça estava em minhas mãos.
- Eu vou querer o mesmo. – Ele apoiou a mão no rosto e me olhou, diretamente. – Sentiu a minha falta, ? – Endireitei-me, observando o homem moreno com os olhos castanhos, cabelos pretos, de estatura média e com uma barba nem tão rala nem tão grossa à minha frente.
- David. – Disse, sorrindo verdadeiramente. O garçom deu a taça a ele e o mesmo tomou um gole.
- Como vai, amor? – Perguntou e eu pude perceber honestidade na sua voz.
- Ótima. E você?
- Bem. Oliver estava te tirando do sério ali? – Afirmei com a cabeça.
- Sinto tanto nojo dele, Davi! Se pudesse, daria um tiro nele. Não sei como o aguenta! – Falei séria, tomando um gole de vinho.
- Eu não aguento. – Soltou uma risada. – Trabalho aqui porque tenho que trabalhar. – Tomou um gole também.
- Todos nós fazemos o que temos que fazer, certo? – Foi como uma pergunta retórica e eu acabei pensando em tudo que tinha feito nessas últimas semanas porque achava que tinha que fazer.
- Certo. E como estão as coisas na Med?
- Corridas. – Dei uma pausa. – Mas tudo está dentro do que tinha planejado.
- E a minha garota está dando conta de tudo por lá? – Perguntou, de uma forma carinhosa, se referindo de mim.
- Tentando. – Disse, soltando uma gargalhada. Ele revirou os olhos.
- Tentando, nada! Tenho certeza que está! Você sempre foi a mais esperta, . Já o outro... – Fez uma careta.
- Não tão esperto. – Nós demos risada.
- Quando podemos nos encontrar?
- Você pode ir a minha casa depois? – Ele afirmou com a cabeça.
- Desde que eu não dirija. – Fez uma piada e eu soltei uma gargalhada.
- Posso ir também, ? – Quando olhei para o lado, e estava ali. Revirei os olhos. Ele não cansava de ser tão irritante e idiota, não?
- Não. – Fui direta e grossa. estava com um terno preto e uma gravata tradicional azul, podia até dizer que estava apresentável. Tudo bem, ternos pretos são sempre os mais bonitos, isso eu tinha que admitir. Já estava com um vestido longo amarelo – que ficara maravilhoso nela justamente porque fazia um contraste com a sua pele –, com um detalhe na perna que aparecia a sua direita se ela a flexionasse. Senão, nem apareceria esse detalhe. Ela estava linda!
- É um prazer te rever, . – Davi disse e estendeu a mão. – E é um prazer te conhecer... – Ficou a esperando completar com o nome dela.
- Sou a , vice presidente da empresa. – Apresentou-se séria, como sempre.
- É um prazer te conhecer, . – Disse e se afastou de nós. Ela me olhou indignada.
- Ele não trabalha na Human? – Franziu o cenho.
- Sim, mas ela está transando com ele. – completou e eu soltei uma gargalhada alta. Os dois me olharam confusos com a minha reação.
- Transando com ele? Nossa, ! Suas conclusões estão sempre certas! – Falei, sarcasticamente.
- Vocês pareciam bem íntimos. “Você pode ir a minha casa depois?” – Imitou de um jeito ridículo. - Vão fazer o que então? – Perguntou. Na verdade, não era para nós parecermos íntimos de nenhuma maneira. Era melhor que Oliver nem nos visse conversando, na realidade. Isso foi um erro. Balancei a cabeça negativamente.
- Nada. – Foi tudo o que disse e me levantei.
- Como “nada”? , ele trabalha na Human! – disse e eu cocei a minha testa.
- Tudo bem, tudo bem! Venham aqui! – Disse enquanto andava.
- Você não vai admitir mesmo que vocês estão transando? – Olhei para ele, reprimindo a minha raiva.
- Dá pra você calar essa boca?! – Estava andando bem rápido em direção à recepção e à saída. Depois de alguns minutos, saí pela porta e fui num lugar que não tinha ninguém no estacionamento. Nessa altura, quase todos os convidados tinham chegado e o salão estava completamente cheio – mas o estacionamento não. – Tudo bem! – Esperei eles se aproximarem. – Sim, ele trabalha na Human! – Disse, suspirando.
- E isso é tudo que você vai falar? Nós já chegamos a essa conclusão faz um longo tempo, ! – disse e eu revirei os olhos.
- Sério? – Perguntei, sarcasticamente. – Talvez se você me deixasse falar, eu diria conclusões que nem faz ideia! Olha... David e eu temos uma relação complicada, tudo bem? Ele cuida de grande parte financeira da Human. – parecia chocada.
- E ele vai na sua casa depois? – Perguntou calma, mas percebi a sua indignação na voz.
- Sim, ele vai.
- E você diz isso assim? – perguntou. Esses dois estavam tirando a minha paciência!
- Deus, ele me passa informações, tudo bem?! Estão satisfeitos? – Perguntei, olhando-os.
- O quê? – Os dois perguntaram juntos.
- Davi é o meu informante faz um longo tempo. Ele sempre me diz quais são os contratos, as parcerias, os produtos produzidos pela Human, etc! Ele não fala exatamente tudo, mas sempre diz as informações cruciais e é isso que importa. – Falei. – Parte porque eu quis vir à festa é porque ele não estava respondendo as minhas mensagens faziam alguns dias e eu queria perguntar a ele o porquê. Esse é um ótimo lugar para conversar, se for por pouco tempo. Tipo minutos para Oliver não desconfiar. – Disse, por fim. parecia impressionado.
- Desde quando ele te passa informações? Meu pai sabia disso? – Revirei os olhos.
- É óbvio! Faz uns três anos já. – Disse.
- É por isso que sabíamos de cada escolha que a Human ia fazer durante todo esse tempo! Ele nunca me falou nada! – Revirei os olhos novamente.
- Isso é óbvio também! Nós nunca nos gostamos... Vai saber o que iria fazer depois de descobrir isso?
- Eu não ia fazer nada! Quanto mais informações da Human, melhor!
- Fala baixo. – Disse e ele abaixou o tom.
- Mas por que David faz isso pra você? – perguntou. - Vocês não precisam saber disso! Tudo o que precisam saber é que ele me passa e, por essa razão, estamos em vantagem. – Suspirei. Isso eu não falaria a eles, não mesmo. Mesmo que fosse a a minha frente fazendo essa pergunta, não responderia.
- Por que será né? – cruzou os braços. – Provavelmente porque está o manipulando e dizendo que está apaixonada por ele para conseguir essas informações! Como eu disse, está transando com ele! – Soltei outra risada.
- Claro! Parabéns , talvez você devesse abrir uma clínica para analisar as pessoas de tão perceptivo que é! – Falei, cínica.
- Se não é por isso, é por que então? – Por que ele estava mais irritante ainda hoje?
- Não interessa. – Soltou uma risada sarcástica.
- Viu? Estou certo! – Falou enquanto nós nos dirigíamos para a porta novamente.
- Não está, não. – disse por fim, depois de um pequeno tempo em silêncio.
- Por quê? – perguntou a ela.
- Porque ele é gay. – Disse e, novamente, me perguntei o quanto ela era realmente observadora e perceptiva, mas não comentei nada. Ela estava certa de novo!
- Como você sabe disso? – apenas o ignorou e continuou andando. Entramos no salão novamente e observamos que a maioria das pessoas estavam já sentadas em seus respectivos lugares, embora tivesse algumas que estavam em pé ainda.
- Que horas são? – Perguntei.
- Nove e meia. – respondeu.
- Tudo bem, acho que devíamos nos sentar. – Eles afirmaram com a cabeça.
- Onde é o nosso lugar?
- Não sei, Mazzaropi. – Estávamos parados na divisão que separava a recepção do salão.
- Oi. – Uma mulher se aproximou, provavelmente organizadora do lugar. – Posso ajuda-los?
- Sim, não sabemos onde estamos sentados. – disse, por fim.
- Como é o nome de vocês?
- Worksbare e esse é Lafout.
- Ah, sim! – Ela olhou numa grande lista que estava em suas mãos. – Como vocês não sabem onde vão sentar?! Oliver se preocupou tanto em colocá-los num lugar bom e, assim que soube que vocês tinham trazido mais uma convidada, mudou todos os lugares apenas para colocá-la também na mesa principal! – Falou, sorrindo. Mesa principal? Por um momento, achei que tinha entendido errado, mas quando ela continuou sorrindo percebi que não. – Me acompanhem. – Foi andando em direção à mesa principal e nos mostrou os nossos lugares, que não eram nem no meio nem na ponta. – Aproveitem! – Retirou-se. Vi o meu nome escrito à frente de uma cadeira e me sentei.
- Aparentemente, toda a sua teoria se vai em cinco segundos, . – disse. Ele havia ficado ao meu lado esquerdo e ela ao meu lado direito.
- O que? – Respondeu-o.
- Sua teoria. – Deu uma pausa e eu bebi um gole de vinho. – Disse que nós poderíamos avaliar com quem eles estavam próximos e estavam fazendo parcerias pelas pessoas que sentassem na mesa principal. Se nós estamos aqui, acho que só tem algumas pessoas aleatórias também! – Ela ia dizer algo quando Oliver se aproximou e aquele sentimento de asco voltou instantaneamente.
- , é um prazer te ver. – Estendeu a sua mão para cumprimentá-lo. – Já cumprimentei você, . – Sorriu, maliciosamente e eu revirei os olhos. – E quem é essa mulher linda? – Perguntou, se referindo a . Ela o olhou, incomodada.
- A vice-presidenta da empresa. – Foi seca.
- E a vice-presidenta da empresa tem nome? – Levantou as suas sobrancelhas.
- Essa informação não é importante pra você nem te interessa. – Foi grossa e quis soltar uma gargalhada em reação à resposta dela, mas me contive em rir de satisfação.
- As pessoas que trabalham na MedWorksfout tem tanta educação quanto você, certo ? – Perguntou a mim, mas foi quem respondeu.
- Só se deve ser educado com quem merece. – Ela o olhou e ele se surpreendeu com a sua resposta.
- Tudo bem então. – Olhou para . – Eu sinto muito mesmo pelo seu pai! Ninguém merece ter uma morte tão horrível quanto a dele. – Todos nós percebemos um pequeno tom de sarcasmo por trás do que tinha dito. – Nem mesmo ! – Completou. Vi Lafout comprimindo os lábios porque estava com raiva.
- Certamente há muita honestidade nas suas palavras! – Foi sarcástico.
- Certamente. – Oliver repetiu. – De qualquer forma, aproveitem a festa. – Falou e saiu andando. Sam bufou quando ele se afastou e se sentou logo na frente, mas longe o suficiente para não escutar a nossa conversa.
- Escroto. – Disse e bebeu um gole de vinho.
- Até parece que ele sente mesmo pela morte do meu pai, quase soquei esse filho da puta! – Vi o seu pulso se fechando.
- Ele é muito nojento. – Falei, fazendo uma careta.
- É. – concordou. – Então, , voltando a falar do que nós estávamos discutindo antes... – Tomou outro gole. – Não é uma teoria, é um fato. E aqui não tem apenas pessoas aleatórias. Você acha mesmo que numa janta dessas eles colocam pessoas aleatórias na mesa principal? Claro, ele nos colocou aqui para nos irritar, porém, é só observar as pessoas que estão sentadas bem perto dele. Aqui tem os donos da Cured e da Analyzing e eles parecem bem próximos, não? – Nós três paramos para analisá-los. O dono da Cured estava dando uma gargalhada de algo que Oliver tinha falado juntamente com um representante da Cured. – Estão vendo a linguagem corporal de ambos? Estão inclinados em direção a Oliver, rindo verdadeiramente. Quem é aquela mulher, ao lado do filho de Oliver? – Perguntou e eu a observei. Na verdade, ela era a única que não parecia estar confortável.
- É a Jennifer, filha do dono da Cured. – respondeu.
- Estão vendo a linguagem corporal dela? – Parei para olhá-la. Ela parecia estar inquieta e brava.
- Sim. – Respondemos juntos.
- Ela não gosta do Oliver. – Deu uma pausa. – Parece não ter nenhum problema com o filho dele, mas estão vendo a forma como ela colocou a bolsa entre eles? Quer ficar o mais longe possível dele! Colocou a bolsa para formar uma barreira e distanciá-la dele dentro do possível. – Era verdade. A bolsa estava a sua frente e atrás do prato, mas era bem em direção a ele. – David, claramente, também não o suporta. Ele está com uma linguagem corporal oposta para Oliver. De costas para ele. – Davi estava um pouco mais longe Bressiani, mas isso era verdade também. Ele não falava com ninguém e estava de costas para o dono da Human. – Se quisermos arrancar algo de alguém, terá que ser dela. A linguagem corporal de ambos os donos da Cured e Analyzing diz que eles são muito íntimos. Com certeza eles têm parcerias ou estão para fechar alguma! – Concluiu e bebeu outro gole de vinho. Olhei para ela.
- Eu sei que com a Cured eles já têm, quanto a Analyzing eles devem estar fechando alguma. – Ela concordou comigo. – E, aliás, como você sabe de tudo isso, ? Saber analisar a linguagem corporal das pessoas?
- É o mínimo que se pode fazer quando se tem graduação em psicologia, certo? – Fiquei surpresa.
- Você é formada em psicologia?
- Uhum. – Disse, me olhando.
- Tem mais alguma coisa que deveríamos saber sobre você, ? – perguntou e eu dei risada.
- Não, por enquanto. – Disse e soltei uma gargalhada.
- Quem diria... – Comentou. Jennifer se levantou e saiu, aparentemente bem irritada.
- Quer tentar falar com ela? – perguntou e eu pensei se deveríamos.
- Se alguém for, deveria ser você, certo psicóloga? – Ri.
- Concordo com a . – disse. Estranhei porque ele nunca havia me chamado pelo apelido e o mais estranho de tudo: não foi debochado nem nada, apenas o disse como se sempre me chamasse dessa forma.
- Posso tentar. – Levantou-se e foi atrás dela.
- Tudo bem, ela me assusta! – Ele disse e soltei outra gargalhada. Tomei o último gole de vinho na taça.
- Formada em psicologia? Isso não estava no currículo dela. – Afirmou com a cabeça.
- Com certeza não. Ela tirou isso para poder analisar as pessoas sem que elas percebam? – Falou, rindo.
- Provavelmente sim. sempre está observando e falando coisas como se conhecesse a pessoa há anos.
- Sim! – Concordou comigo e pediu ao garçom que estava perto para dar as duas taças de vinho que estavam na bandeja dele.
- Dessa vez você estava certo, . – Ele se surpreendeu com o que eu disse. – Essa festa tá um porre! – Bufei. – Vamos só comer e ficar o menor tempo possível.
- Sempre estou certo, . – Revirei os olhos.
- Claro. – Disse, sarcástica e ele riu.
- Eu só quero socar aquele cara, filho da puta! – Olhou para Oliver.
- Temos que concordar nisso! – Tomei um gole. Observei os garçons colocando as panelas com comidas nas mesas. – Só vamos comer antes, claro.
- Temos que concordar nisso também! – Rimos. Eu estava achando até estranho como estávamos conseguindo conversar assim, sem nenhuma implicação ou deboche. voltou e se sentou. Estava calma como sempre.
- E então? – Perguntei.
- Ela não falou nada. E disse que era para eu ficar longe dela porque eu não tinha nada a ver com a vida dela ou com como ela estava se sentindo! – Arregalei os olhos e ri.
- Alguém não está tendo um ótimo dia... – Comentei.
- Mas você é psicóloga! – disse. – Deveria saber como lidar com as pessoas. – o olhou, revirando os olhos.
- Eu sou formada em psicologia, não psicóloga. Só porque sei analisar as pessoas de longe não significa que sei lidar com elas.
- Sei como se sente. – Disse, rindo. Assim que os garçons tinham servido quase todas as mesas, Oliver se levantou e foi em direção ao palco e ao microfone que tinha lá na frente. Subiu e começou a falar:
- Só quero agradecer a presença de todos vocês! Alguns são mais próximos, outros não – Pude jurar que ele estava nos observando –, mas todos sem exceção, fizeram parte da trajetória da Human! Agora fiquem a vontade e se sirvam! – O salão foi dominado pelo barulho das panelas sendo abertas.
Comemos, conversamos e o ambiente entre nós três estava mais leve do que tinha imaginado que ficaria. parecia ter esquecido a antipatia que tinha por e, às vezes, tinha a impressão que ele tinha esquecido a que sentia por mim também. Todos estavam conversando e esperando pela sobremesa no salão.
- E então, , pensou melhor sobre o produto? – Revirou os olhos.
- Estou pensando ainda. – Disse enquanto arrumava uma mecha solta no seu cabelo.
- Pense direito, tudo bem? Existem muitas vantagens para nós termos o nosso produto...
- Você quer falar disso mesmo quando estamos cercados pelos nossos rivais e inimigos? – Ele me interrompeu e riu. – Estou pensando direito, . Não se preocupe. – Não mencionei mais nada do produto naquela noite depois disso. Talvez tivesse que dar um tempo a ele mesmo para refletir melhor.
Depois de algum tempo, enquanto as sobremesas eram servidas, Oliver foi novamente lá na frente – mas dessa vez estava com o filho e alguns funcionários da Human – e fez um discurso homenageando os vinte anos da empresa. Logo um vídeo no enorme telão na frente – onde era visível para todos – começou. Primeiro, tinham imagens e pequenos vídeos do início da empresa e uma voz masculina no fundo narrando sobre as dificuldades que ela passou para continuar sem falir. Mostraram toda a trajetória desses vinte anos e depois de uns cinco minutos, já havia me distraído com a decoração do bar rústico um pouco distante. Para você observar como estava tudo tão emocionante e sensacional!
Só voltei a prestar atenção quando escutei uma frase em especial:
“E a Human cresceu tanto que hoje supera nas vendas em empresas como a Medicine Worksfout, a Bergamo e muitas outras. É incrível a resistência e o tamanho que esse império tem...”
Enquanto a voz que narrava falava essa frase, passaram uma imagem da Med há muitos anos, com a estrutura que era um quarto do que é hoje e depois uma imagem da maior estrutura da Human atualmente – provavelmente para enganar as pessoas dando a impressão de que a Human era muito maior. Eu não estava acreditando nisso! Realmente não estava! Colocar no vídeo que a Human estava superando a nossa empresa? Ainda por cima mentir porque eles jamais superaram nem em vendas nem de nenhuma forma a Med! Isso era brincadeira mesmo!
Soltei um riso sarcástico e pude observar que algumas pessoas nos olharam – provavelmente porque sabia quem nós éramos – quando a frase foi dita, mas eu as ignorei.
- Que merda é essa? – perguntou para mim, tão bravo quanto eu – mesmo que ele estivesse demonstrando mais. – Esse desgraçado merece morrer! – Disse.
- Merece. – Engoli em seco. – Mas agora nós temos que demonstrar que isso não nos atingiu de nenhuma forma e sorrir, até você ! – Forcei um sorriso. Ela me ignorou.
- Eu digo para nós irmos embora agora! – Ele disse, quase se levantando. Segurei-o pela mão.
- Não. Se sairmos agora, todo mundo vai pensar que ficamos muito incomodados com essa parte do vídeo! – Falei.
- Mas estamos incomodados! – Ele alterou um pouco o tom de voz e respirei fundo.
- Estamos, mas as pessoas vão pensar que estamos porque é verdade o que está sendo dito nele, o que obviamente não é! Continua sentado nessa merda de cadeira, . – Endireitou-se e suspirou. – Você também, .
- Claro. – Foi tudo o que ela disse e nós continuamos assistindo ao vídeo. Assim que ele acabou, pude ver que tinham pessoas chorando, emocionadas. Era difícil acreditar que alguém tinha se emocionado com essa merda ao ponto de chorar, mas tudo bem. Todo mundo se levantou e bateu palmas e nós fizemos isso também, mesmo que contra a nossa vontade.
- Vamos embora. – disse, impaciente.
- Espera só um pouco. – Falei e foi o que fizemos. Esperamos até todos terminarem de comer as sobremesas e começarem a se levantar para se direcionar as mesinhas laterais ou ao bar rústico.
- Tudo bem, vamos. – Disse enquanto todos os convidados se dispersavam pelo salão. Fomos até a recepção e quando estávamos quase saindo, ouvimos uma voz.
- Indo tão cedo? – Oliver disse e eu me obriguei a me virar.
- Não sabia que vocês estavam tão desesperados ao ponto de precisar mentir nos vídeos de homenagem, Oliver. – Falei, sorrindo sarcasticamente.
- E em qual parte mentimos? – Perguntou, cínico.
- Você sabe muito bem que vocês nunca nos superaram em nada. – disse. – Muito menos em estrutura! É realmente muito desonesto pegar uma foto da Med há anos e comparar com a estrutura da Human atualmente! Não que me surpreenda.
- Vocês sabem que a Human os supera em tudo.
- Claro. – Disse, irônica e me virei para sair dali.
- Não sabia que tinham ficado tão irritados assim! – Ele disse. – De qualquer forma, obrigado por terem vindo. – Não havia nenhuma palavra honesta na frase dele. – Ah, e ? – Ele disse e, quanto me virei novamente, estava bem próximo.
- Que foi? – Perguntei, querendo sair dali rápido.
- Eu ainda não sei quem é o traidor na minha empresa, mas vou descobrir. – Meu coração acelerou nessa hora porque eu nunca imaginei que ele falaria isso. Traidor? Merda, será que ele sabia de tudo? Tentei não demonstrar o quão surpresa tinha ficado.
- O que? – Tentei disfarçar. – Não sabia que era louco o suficiente para achar que tem algum “traidor” na Human! – Falei, debochada.
- Ah, por favor, querida! Nós dois sabemos que tem alguém lá dentro que passa informações pra você faz não sei quanto tempo! – Aproximou-se o suficiente para eu sentir a sua respiração. – E, quando eu descobrir quem é essa pessoa, vou acabar com ela! – Senti um arrepio percorrer por todo o meu corpo devido à ameaça que ele tinha, claramente, acabado de fazer. E ele tinha ficado assustador de um jeito que eu jamais vira. Pude sentir a sua raiva e o perigo que Davi corria pelo tom da sua voz.
Tentei não demonstrar o medo que estava sentindo, mas acho que não consegui.
– Se puder avisar a ela que eu sei de tudo, por favor? – Disse, assustadoramente, e se afastou. – Agradeço a presença de vocês novamente! – Ele deu meia volta e foi em direção ao salão enquanto eu só o observava, perplexa.
- , vamos. – disse e só então voltei pra realidade.
- Meu Deus! – Disse enquanto saíamos do salão. Era por isso que Oliver tinha nos chamado! Ele queria falar isso pessoalmente e, que lugar melhor senão a festa de comemoração da sua própria empresa? Era só por isso que havia nos chamado! Coloquei as mãos na cabeça.
- Você acha que ele sabe?! – perguntou.
- Eu não sei, não sei! – Falei, deixando transparecer o medo que estava sentindo.
- Ele não sabe. Senão não teria falado aquilo. – disse, me olhando. – Se acalme, ele não sabe de nada!
- De nada?! Você não ouviu o que ele disse? – Peguei meu celular no mesmo momento para mandar uma mensagem ao Davi dizendo que era melhor ele não ir a minha casa. Hoje, pelo menos.
- Acalme-se, . tem razão. – disse. – Ele fez isso para te assustar! Oliver não deve saber quem é o informante. – Suspirei.
“É melhor você não ir a minha casa hoje, depois explico.”, mandei a mensagem assim para Davi.
- É! – Falei para mim mesma, tentando me acalmar. – Vocês tem razão! Ele fez isso pra me assustar, o filho da puta! Não deve saber quem é, só que tem alguém passando informações.
- Exatamente. Vocês precisam tomar cuidado agora. – disse.
- Sim. Enfim, é melhor a gente nem ficar conversando sobre isso nesse lugar! –Eles concordaram comigo. – Segunda a gente se fala, tudo bem? – Disse enquanto me afastava deles.
- Se você descobrir algo, nos ligue! – Mazzaropi disse.
- Ok! – Fui até o meu carro.
Como ele havia descoberto que alguém era informante? Como tinha desconfiado? Deus, o que estava acontecendo?! Entrei no meu carro e dei um soco no volante. Não era nem para ele desconfiar disso! Será que ele tinha alguma ideia de que era Davi o informante? O que ele faria se descobrisse?!
- Merda! – Gritei e soquei o volante novamente.
Davi corria algum risco sério? E agora, o que faríamos?
Acalme-se, . Respire fundo. Ele não pode fazer absolutamente nada contra você nem contra o David. Acalme-se.
Fiquei repetindo essas palavras na minha cabeça até elas fazerem sentido e o meu coração desacelerar um pouco. Antes tinha concluído que não deixaria esse velho me intimidar de nenhuma maneira e não o faria mesmo! Isso tudo foi um show para ele mostrar para mim o quanto estava atento.
Mas ser só atento não é o suficiente, Oliver. Não comigo.


Capítulo 7

Combinei de me encontrar com Davi no outro dia num apartamento no lado oposto da cidade que minha mãe tinha. Achei que lá seria mais seguro e mais afastado também.
Era logo depois do almoço e eu estava quase chegando lá. Pensei em falar para nós nos encontrarmos em vários outros lugares, mas no final deduzi que aquele era o mais seguro, mesmo que eu não estivesse muito animada para entrar nele.
Esse apartamento era o lugar que a minha mãe ia quando queria ficar sozinha. Não era o lugar que ela morava, mas poderia dizer que era muito mais o lar dela do a casa em que ela vivia. Lá tinham livros, discos de bandas, roupas, decoração, tudo que me lembrava dela. Posso dizer que até a forma como tudo estava organizado me lembrava dela.
Fazia seis anos que ela tinha morrido e, no total desses anos, eu só tinha ido lá uma única vez. Anos atrás, quando entrei lá, senti uma dor que tinha certeza que jamais conseguiria superar – estava certa nisso – e que me mataria – nessa não estava certa felizmente –, e não sabia se estava preparada para ir lá novamente.
Estacionei o meu carro à frente do prédio e fiquei lá dentro, observando-o. Estaria pronta para entrar lá e encarar verdadeiramente tudo que minha mãe deixara para trás? Encarar cada pequeno objeto que estava lá e que compunha cada pequeno gesto e gosto de sua personalidade? Que me lembraria de cada traço da pessoa que ela sempre foi? Só havia uma forma de descobrir.
Desci do carro e entrei no prédio, respirando fundo. Subi as escadas e achei a porta do apartamento. Nada luxuoso nem elegante era esse apartamento, mas era confortável e como disse: era muito mais o lar dela do que a casa que ela morava, na verdade. Peguei a chave e abri a porta, entrando nele.
A primeira coisa que observei foi o livro do Stephen King na prateleira que ela amava tanto. “A dança da morte”, o seu livro favorito desde que era muito nova. As almofadas perfeitamente arrumadas no sofá, a forma como a máquina de escrever estava completamente reta em cima da mesinha no canto da parede, os nossos retratos espalhados por todo o apartamento e em todos eles – sem exceção – nós estávamos rindo, a forma como não tinha nenhum resquício do meu pai nele, até isso.
Meus pais se divorciaram quando eu tinha cinco anos. Tudo que me lembro é que eles não se suportavam mais e só estavam casados por puro costume, então eles se divorciaram. Nos primeiros anos depois da separação, meu pai era bem presente na minha vida, mas depois quanto mais o tempo se passava, mais distante ele ficava de mim. Quando tinha dez anos, nós nos víamos duas vezes por ano e eu já não conseguia mais olhar para ele ou perdoá-lo por simplesmente se afastar de mim e não ser um pai. Simples assim.
Em 2011, um ano depois da minha mãe morrer, meu pai teve um ataque cardíaco. Ele tinha sessenta anos na época e ficou bem debilitado. Não vou mentir aqui e dizer que fiquei comovida com isso, porque na verdade, fiquei indiferente. Meu rancor e ódio pelo meu pai são tão grandes que desconfio que se ele morresse, não sentiria absolutamente nada pela morte dele. Nem dor, nem gratidão. Simplesmente indiferença.
Como ele não podia mais se cuidar e a segunda esposa dele também se divorciou dele – ninguém o suporta, isso é fato –, coloquei-o num asilo. O lugar que ele está é um dos melhores do país e ele tem tudo que precisa por lá. Não o visitei uma única vez e não sinto remorso por isso também. Por mim, poderia deixá-lo na rua e ignorá-lo como ele sempre fez comigo, mas como o lugar é bom e ele se distrai lá, pelo menos não vai encher o meu saco. Melhor gastar dinheiro e mantê-lo longe do que ignorá-lo e ele estar por perto infernizando a minha vida.
Voltando a minha mãe, porque ele não merece nem que eu fale sobre ele, senti muita saudade e nostalgia olhando todas essas coisas dela. Senti muita dor também em pensar que jamais a veria arrumando as almofadas dessa forma ou escrevendo na máquina de escrever dela. Ver o lugar empoeirado doía também porque me fazia perceber o quanto de tempo que já tinha passado desde a morte dela. Seis anos.
Pensei que não demoraria para David chegar, então me despertei e dei uma limpada no apartamento, só para tirar toda a poeira. Abri as janelas e olhei a vista que ela deveria ter olhado tantas vezes. O que ela tinha visto nesse apartamento tão longe e pequeno? Talvez fosse isso que ela viu. A simplicidade que estava tão longe de ser a realidade da Med. Talvez ela quisesse momentos longe do império que construiu porque era cansativo. E realmente era cansativo fazer decisões todos os dias que decidiam sobre a vida de milhares de pessoas.
Deus, tudo que conseguia pensar era como a minha mãe fazia falta! O que não daria para tê-la de volta! Daria absolutamente tudo apenas para ter a chance de vê-la novamente e abraçá-la. Mas isso não ia acontecer e eu já havia ficado muito tempo presa no passado. Era o que esse maldito apartamento fazia comigo!
Saí daquela janela e peguei o livro do Stephen King para ver se tinha alguma marcação, algo que eu jamais conseguira perceber e que me daria mais uma pequena parte dela. Às vezes, tinha a sensação de que a minha mãe tinha feito isso mesmo. Tinha deixado pequenos mistérios escondidos sobre ela para que quando não estivesse mais perto, eu a tivesse presente dessa maneira. Talvez tudo não passasse de uma imensa impressão!
A batida na porta fez eu me despertar abruptamente. Fui até ela e a abri.
- Amor! – David entrou e me deu um beijo molhado na bochecha.
- Nossa! – Disse, passando a minha blusa no lugar que ele tinha me beijado. – Realmente sentiu saudades, hein?
- Bem, fiquei preocupadíssimo depois que mandou aquela mensagem para mim, ! Imaginei todas as coisas horríveis que poderiam ter acontecido contigo para você dizer aquilo! – Colocou as mãos na cabeça.
- É melhor você se sentar. – Falei, séria. De repente, ele pareceu notar o apartamento.
- Faz tanto tempo que não venho aqui! – Davi disse. As únicas pessoas que minha mãe convidava para vir a esse pequeno e humilde lugar eram as que ela confiava totalmente e ele era uma delas.
- Nem me fale! – Disse, suspirando. – Só vim na semana que ela morreu e depois eu desejei nunca mais pisar aqui!
- Tudo nesse lugar me lembra dela! – Passou a mão na estante com os livros de uma maneira que dava pra perceber que só de lembrar dela, ele sofria.
- Tudo. – Concordei. – A forma como os livros estão organizados, a máquina de escrever... Parece que ela esteve aqui semana passada. – Concluí.
- Parece. – Disse, olhando tristemente para mim. – A dança da morte era o favorito dela né?
- Sim. – Suspirei e me sentei. Ele pegou o livro da minha mão gentilmente.
- Stephen King é tão misterioso quanto ela. Não me admira que esse fosse o livro favorito dela! – Soltei uma risada.
- Não mesmo! – Ele riu também.
- Você deve sentir uma falta monstruosa dela. – Senti vontade de chorar, mas não a demonstrei nem por um segundo.
- Muita. Não consigo nem... – Engoli em seco.
- Tudo bem, amor. – Davi disse e fez um carinho no meu rosto, se sentando e colocando o livro ao seu lado. Sentei-me também. – Eu também sinto muito a falta dela. – Vi uma tristeza real nos seus olhos. – Ela foi a pessoa mais boa que já conheci em toda a minha vida.
- Ela era. – Olhei para o chão, pensando em como a minha mãe realmente era uma pessoa maravilhosa e que eu jamais seria capaz de ser metade da pessoa que ela era.
- , me fale o que aconteceu ontem. – Olhei-o.
- Oliver sabe que tenho um informante dentro da Human, Davi. – Arregalou os olhos e as suas mãos começaram a tremer no mesmo momento.
- O quê? – Perguntou, assustado.
- Calma, quero que você não se desespere. – Manti a minha calma de uma forma que não tinha conseguido manter ontem.
- Não me desesperar?! – Falou alto. – Como não vou?! Como ele sabe que tem um inform...
- Ele me disse. – O interrompi. Isso, de alguma forma, pareceu o assustar mais ainda. – Oliver disse que sabe que tem alguém passando informações para mim, mas que não sabe quem essa pessoa é. Ele disse que vai descobrir, mas eu duvido muito que ele saiba até por onde começar a procurar. – Falei, sinceramente.
- Você está brincando comigo?! , com toda a certeza do mundo ele desconfia de mim! Só por eu ter falado contigo ontem na festa... Meu Deus! Aquele homem é louco, você sabia disso?! Eu não sei do que ele é...
- Calma! – Falei só um pouco mais alto, apenas para a minha voz se sobressair a dele. – Ele pode ser perigoso, mas eu te prometo que nada vai acontecer contigo Davi, pelo amor de Deus! E ele não deve desconfiar de você justamente porque você falou comigo ontem. – Franziu o cenho, não entendendo o que eu queria dizer. – Com certeza um informante jamais falaria comigo em público e foi o que fez ontem! Acalme-se! Agora nós só temos que tomar mais cuidado e pronto! Ele não vai descobrir que é você, te prometo. – Essa foi uma promessa verdadeira. Jamais seria capaz de mentir dessa maneira, não para ele. Tudo que eu falava enquanto estava com ele eram completas verdades, uma rara exceção.
- Você não pode me prometer isso, . Não sabe como aquele homem é inteligente e perigoso! – Ele realmente tinha medo de Oliver.
- Claro que posso! E eu não vou deixar nada te acontecer. – Peguei na sua mão e vi que Davi ficou menos preocupado. Ainda parecia assustado, mas estava se acalmando.
- Não podemos mais nos encontrar, nem aqui! Vou comprar um celular pré-pago e vou te mandar mensagens dele, pode ser?
- Tudo bem, mas esse apartamento é seguro! – Ele balançou a cabeça.
- Não importa o lugar! Se um dia ele só me seguir pra cá, já estou fodido! – Deu uma pausa, engolindo em seco. – O único jeito de eu continuar fazendo isso é do jeito que te falei. – Pude perceber que estava sendo sincero.
- Tudo bem. – Concordei, por fim.
Nós ficamos um tempo em silêncio.
- Eles estão fazendo um produto exclusivo. – Quebrou o silêncio e fiquei completamente surpresa.
- O quê?! – Perguntei, esperando-o prosseguir.
- A Human. Eles vieram com uma ideia de fazer um produto exclusivo. – A minha boca estava aberta de tão chocada que eu estava. – O que foi, ?
- É só que... – Será que nós tínhamos um informante dentro da nossa empresa também? – Quando que eles vieram com essa ideia?
- Há algumas semanas. – Então pura coincidência? Nossa! Mas que porra de coincidência! – Por quê?
- É que eu estava tentando convencer o de nós fazermos um produto exclusivo.
- A Med? – Até ele ficou surpreso.
- Exatamente.
- Talvez vocês sejam rivais porque pensam nas mesmas coisas! Sério, muita coincidência! – Exclamou, rindo.
- Talvez. – Eu nunca tinha ficado tão feliz com o fato da Human estar fazendo exatamente a mesma coisa que nós. – Você sabe que produto é esse? – Afirmou com a cabeça.
- Uhum. – Respirou fundo. – Um antibiótico. – E por que estava feliz? Porque agora tinha a desculpa perfeita para dar a do porquê precisávamos urgentemente produzir o nosso produto exclusivo! E o melhor de tudo? Com a Human tendo essa ideia, ele não poderia se dar ao luxo de discordar comigo mais. Nem mesmo por teimosia ou orgulho. Ou seja, eu estava ganhando novamente.

Eu e David conversamos por mais um tempo e depois ele foi embora. Assim que ele saiu, não perdi um segundo e fechei tudo que tinha aberto no apartamento e fui diretamente para a casa do . Precisava falar com ele agora!
Assim que cheguei e o portão abriu, eu estacionei o mais rápido possível. Desci e toquei a campainha sem parar. Ele ainda demorou longos dez minutos para atender a porta.
- O que está acontecendo?! – Disse, me olhando confuso.
- Você não vai adivinhar. – Sorri, sarcasticamente. Ele estava com uma camiseta verde e um shorts branco e, no momento em que o vi, tive que me segurar para não rir. Não que tivesse algo particularmente engraçado em sua roupa, mas eu jamais o vira usando uma roupa não social – tirando a vez em que fui a sua casa e nós brigamos. – Que foi? – Perguntou, estranhando a minha expressão.
- Nada. – Falei e ele abriu um espaço para me deixar entrar. Entrei e percebi que ele estava assistindo TV.
- E então, ? – Perguntou, sério.
- Falei com David. – Sentei-me no sofá.
- Você quer uma cerveja? – Cerveja? Nunca tinha o visto me oferecendo uma cerveja também.
- Claro. – Ele pareceu não acreditar que eu havia aceitado.
- Você bebe cerveja? – Revirei os olhos.
- E por que não beberia? – Deu de ombros.
- Sei lá, sempre tive a impressão que você só bebe vinho e whisky. – Ri.
- Não, gosto de cerveja também. – Ele foi até a cozinha e me trouxe uma.
- Aqui. – Me deu e se sentou um pouco distante de mim, mas ao meu lado. – E então? O que ele disse? – Abri a lata e bebi um gole.
- Ele me falou que a Human está produzindo um produto exclusivo, um antibiótico. – fez a mesma expressão que fiz para Davi. – Eu sei, eu sei! Parece uma mentira e eu também não acreditei, mas é verdade! Juro! – Bebi outro gole. Ele apertou os olhos.
- Não sei não, . Isso me parece uma coisa que você falaria apenas para eu concordar. – Revirei os olhos.
- Pelo amor de Deus! Se quiser ligar para ele para confirmar, pode fazer isso! Até cheguei a considerar que tinha um informante dentro da Med, mas eles tiveram essa ideia antes de eu sequer pensar nela. – Falei, sinceramente, e ele bebeu um longo gole da cerveja.
- Tudo bem. – Fiquei olhando-o.
- E então?
- E então o que? – Perguntou como se não soubesse do que eu estava falando.
- Você sabe do que eu tô falando! – Ele me ignorou. – ! – Falei, irritada e ele continuou me ignorando. – Você tem algum problem... – Repentinamente, soltou uma gargalhada. Olhei-o, séria.
- Me desculpe. – Ele quase não conseguia falar de tanto rir. – É que é muito engraçado te ver irritada dessa maneira. – Quase mandei ele ir se foder.
- Você não leva nada a sério, meu Deus! – Me levantei, indignada e deixei a merda da cerveja em cima da mesa. – Estou discutindo uma coisa séria da empresa e você vem fazer essas merdas! – Saí andando para me retirar dali. Eu estava seriamente irritada e estressada com esse jeito infantil dele.
Foi quando ele me segurou pelo braço, e eu me surpreendi com a sua atitude.
- Me desculpe, tudo bem? Foi só uma brincadeira de mau gosto. – Disse e pude perceber que foi sincero. – Vou te escutar. – Puxei o meu braço para me afastar dele.
- Você não cansa de ser idiota, não? – Disse, irritada de verdade.
- Foi só uma brincadeira, me desculpe. – Voltei andando para a sala, ainda meio brava. – Eu já te dou a resposta, só preciso pensar um pouco nisso, tudo bem? – Cruzei os braços e peguei a minha cerveja de volta.
Bebi até acabar e depois ele foi buscar mais uma para mim. O jogo que ele estava assistindo acabou em alguns minutos e depois começou a agir estranho, como se quisesse me pedir algo.
- Você tá bem? – Perguntei, não preocupada de verdade.
- Sim. – Parecia que ele estava se segurando para não falar alguma coisa e isso estava me deixando agoniada.
- Olha, se você quer falar alguma coisa, fale de uma vez. – Fui até um pouco grossa – me arrependi depois de ter sido.
- Tudo bem! – Falou, levantando os braços como se estivesse se rendendo. – Faz dias que quero te fazer uma pergunta, mas não sei ao certo como perguntar! – parecia nervoso. Estava até com medo de ouvir o que ele ia perguntar.
- Só pergunte, . – Falei, olhando-o. Ele olhou para cima e pude perceber que estava ao máximo tentando não demonstrar a dor que explodia em seu peito.
- Aquele dia... – Engoliu em seco. – O dia em que meu pai morreu... Posso saber por que ele te chamou para ir lá em cima? – Era a última pergunta que eu esperava que ele fizesse. E não tinha certeza se queria respondê-lo também. Senti um embrulho no estômago.
- queria me mostrar uma coisa. – Fui o mais breve possível. Havia uma longa lista de assuntos que eu, definitivamente, não gostaria de discutir com ele e no topo delas certamente estavam as malditas cartas que a minha mãe escreveu. Era um assunto muito delicado, um que eu não queria discutir com ninguém – principalmente com ele.
- Que coisa? – Ele foi mais além. Girei meu anel, me sentindo ansiosa e receosa ao mesmo tempo. Acho que percebeu isso porque falou as próximas palavras num tom extremamente sincero e gentil. – Eu só quero saber quais foram as últimas palavras que meu pai falou, . Por favor! – Ele segurou as minhas mãos e eu pude perceber seu desespero, sua curiosidade de saber como foram os últimos minutos da vida do pai dele. Se fosse a minha mãe, sentiria o mesmo.
Respirei fundo.
- Ele queria que eu visse algumas cartas que a minha mãe escreveu para mim antes de morrer. – Dei uma pausa. – Coisas que ela sempre quis me dizer, mas que nunca teve a oportunidade. disse que eu estava preparada para lê-las. – Falei, olhando-o. afastou a mão dele da minha, recolhendo-se na própria dor.
- Sinto muito. – As suas palavras foram sinceras.
- Olha, você quer saber o que ele disse por último? – Foi como uma pergunta retórica porque eu já sabia que ele iria querer saber. É óbvio que não falaria a verdade, nem chegaria perto dela. Mas o ponto era que estava agonizando na sua própria dor e ele merecia, pelo menos, um pouco de descanso. – Ele disse que te amava e que estava muito orgulhoso de você! – Falei, usando todo o meu talento para encenação que tinha. E ele acreditou porque os seus olhos se encheram de lágrimas.
Levantou-se.
- Vou pegar mais uma cerveja pra mim. – Falou, por fim, e se afastou. Esperei alguns minutos até o mesmo voltar. – E então? Quer tentar achar as cartas que a escreveu pra você? – Me surpreendi com a sua pergunta e quando me dei conta já estava subindo as escadas, em direção ao escritório. O escritório em que morrera.
Assim que abriu a porta, pude sentir toda a poeira acumulada se afastando pelo corredor. Comecei a tossir.
- Me desculpe. – Disse, entrando no lugar. – É que eu não tive coragem de entrar aqui desde o dia em que... – Respirou fundo. – Bem, você sabe.
Entrei no escritório, deixando as memórias do se engasgando invadirem a minha memória.
- Você tem alguma ideia por onde começar? – Balancei a cabeça negativamente. – Nem eu. – Riu e eu também.
- Acho que nós vamos ter que nos divertir tirando livro por livro nesse escritório tão limpo! – Obviamente, meu comentário foi sarcástico porque tinham milhares de livros ali e aquele lugar estava tão empoeirado quanto o apartamento da minha mãe.
- É. – Ele concordou, coçando a cabeça.
Eu comecei pelo lado esquerdo do escritório e ele pelo direito. Procuramos por alguns minutos num silêncio desconfortável até que decidiu quebrá-lo.
- Aquele dia que veio falar comigo, ela cagou na minha cabeça! – Falou, balançando a cabeça. – Disse que eu tinha que parar de ser tão mimado e encarar a vida como é. Confesso que às vezes me esqueço de como pode ser tão direta e sincera! – Soltei uma gargalhada.
- Te entendo! – Percebi que ele começou a rir da minha risada e não do que tinha falado.
- Acho que nunca vi você rir desse jeito. – Ele disse. – Que risada escrota, Worksbare! – Revirei os olhos e ri mais.
- Até com a minha risada você vai implicar?! – Revirei os olhos e continuei procurando.
- Não estou implicando... – Pude perceber um tom de sarcasmo na sua voz.
Depois de umas duas horas procurando, confesso que cansei, porém, só parei depois de olhar cada maldito livro daquela instante. E me surpreendi com também. Ele ficou procurando o mesmo tempo que eu, mesmo esperando ele sugerir a qualquer momento que eu deveria procurar sozinha já que as cartas eram da minha mãe. Mas não! Ele procurou durante as horas que eu fiquei ali, até nós revistarmos todos os livros do escritório.
Uma hora sugeriu pararmos e continuarmos no outro dia, mas quando percebeu como eu estava determinada a achar as cartas da minha mãe, desistiu e continuou procurando comigo.
Após nós arrumarmos tudo, me senti muito decepcionada. havia dito que as cartas estavam em algum lugar naquele escritório e, mesmo que nós tivéssemos procurado por cada centímetro daquele lugar, não tínhamos achado nada. Absolutamente nada! Será que ele havia se confundido e colocado em outro lugar as cartas? Será que era tudo uma grande mentira da parte dele? E se não fosse, onde estavam as cartas? O que estava escrito nelas? O que era tão importante ao ponto da minha mãe não poder falar pessoalmente e ter que colocar os pensamentos e as preocupações dela em escrito? Todos esses pensamentos estavam me deixando louca!
- ... – A voz de me despertou.
- O que? – Perguntei, me sentindo cansada e triste. Triste porque tinha a mais plena certeza de que acharia o que a minha mãe queria tanto que eu encontrasse no momento certo.
- Sinto muito. Vou dar mais uma olhada, mas duvido muito que as cartas estejam aqui. – Respirei fundo.
- Tudo bem, me desculpe por todo esse incômodo. – Falei, descendo as escadas enquanto ele fechava a porta do escritório.
- Não se preocupe. Foi bom saber as coisas que meu pai fez por último. – Suspirei. Nem parecia nós, tendo uma conversa tão civilizada assim! Sem sarcasmo, sem implicações, sem ódio. Apenas compreensão e gentileza. Quem diria?
- Imagino. Se eu estivesse no seu lugar, com certeza iria querer saber também! – Disse, sorrindo e fui até a sala.
- E nós aqui, tendo uma conversa dessas! – falou. – Será que nós pensaríamos que era possível conversar assim há algumas semanas? – Soltei outra gargalhada.
- Dificilmente. Enfim, me desculpe por todo esse incômodo! Acho que eu preciso ir agora, . Obrigada pela cerveja e por toda a sua ajuda! – Falei, sinceramente.
- Não se preocupe! Como falei, foi bom saber como foram os últimos minutos do meu pai. E quanto a cerveja, fiquei feliz em saber que você aprecia a melhor bebida do mundo! – Ele riu.
- Não tem como não apreciar! – Ri. – Tchau. – Me despedi, indo em direção a porta.
- ! – Chamou-me.
- Que foi?
- Eu aceito produzir esse produto. – Olhei para ele, não acreditando no que estava falando.
- Sério?! Sério mesmo?!
- Sério. – Não posso expressar o quanto fiquei feliz com o que ele havia dito. – Com a Human produzindo também, temos que ter o nosso próprio produto. Senão eles vão ter esse diferencial, certo?
- Certo! Isso é ótimo, ! – Falei, animada e rindo.
- Mas com duas condições. – Claro que existiria, certo?
- Quais? – Mas isso não era motivo o suficiente para deixar de comemorar.
- Desde que esse seja o nosso único produto exclusivo da empresa e que ele não envolva o nome do meu pai, nem que tenha nada a ver com ele. – Falou, sério. E eu percebi que se desafiasse essas condições, estaria pedindo para começarmos uma guerra de verdade.
- Tudo bem. – Fingi que concordei, mas é claro que não deixaria a minha ideia inicial que é: começar a venda do produto um ano após o assassinato do e dizer que é uma homenagem a ele.
- Estou falando sério, . – Claro, . Claro que está! Mas eu estou também quando digo que não vou desistir.
- Claro, eu concordo. – Estendi a minha mão e ele a apertou.
- Temos um acordo então.
- Temos. Você não sabe como isso vai ser bom para a Med, ! – Ele sorriu.
- Eu espero. – Sorri de volta.
- Obrigada! – Saí andando da casa dele não acreditando no que acabara de acontecer. Eu havia conseguido convencê-lo! Havia mesmo! E fora mais fácil do que eu jamais imaginara. Agora metade do plano estava concluído, faltava a outra.

Estava bem tarde, mas eu ainda tinha uma parada para fazer antes de ir para casa. Liguei para contando a ela sobre tudo e que ele aceitara a ideia do produto exclusivo. Nós iríamos assinar o contrato no outro dia! Falei também das duas condições que havia proposto e até sugeriu que eu desistisse de fazer o produto em homenagem a para ficar tudo em paz com , mas falei a ela que quando dizia que iria conseguir alguma coisa, eu conseguia.
Fui até uma praça extremamente vazia e estacionei o meu carro na esquina. Confesso que estava bem assustada, mas era o lugar que ele tinha combinado. Fiquei atenta, olhando para todos os lados e esperando a qualquer momento alguma pessoa entrar no carro e me assaltar – meu medo se expressando por mim.
Por fim, observei um homem com um casaco todo preto e um chapéu se aproximar de mim. Era ele. Um arrepio percorreu por todo o meu corpo.
Entrou no meu carro.
- . – Os olhos muito azuis de Martin me observaram, o que me fez coçar o meu pescoço, ansiosamente. Ele tinha uma cicatriz enorme que cobria o lado esquerdo da boca dele e subia até o início do rosto, em direção a orelha e perto do olho. Nunca soube o que aconteceu para ele tê-la. – E então? – Respirei fundo.
- Preciso que faça uma coisa para mim. – Disse, olhando-o.
- Prossiga. – Tirei uma foto do meu bolso.
- Preciso que ache alguma coisa no passado desse homem. Algo que iria destruir toda a reputação que ele construiu durante todos esses anos. – Levantou as sobrancelhas, surpreso com a pessoa que estava na foto. Sorriu, maliciosamente.
- As pessoas não costumam me pedir para achar podres de pessoas mortas, Worksbare. – Ele disse, olhando para um sorrindo que se encontrava na fotografia.
- Não. Pode fazer isso? – Perguntei a ele.
- Pelo preço certo, posso fazer qualquer coisa. – Senti os seus olhos me fitando. Martin certamente era uma pessoa que me assustava de verdade. – Ele é rico. Pessoas ricas normalmente escondem melhor as coisas, então vou precisar do dobro. – Revirei os olhos.
- Tudo bem. Duzentos mil. – Olhei para o chão. – Como sempre, metade vai ser depositada na conta agora e a outra metade só depois do trabalho ser concluído. – Ele lambeu os lábios.
- As pessoas não costumam me pedir para achar podres de mortos, a não ser quando querem chantagear alguém próximo dessa pessoa. Um filho, por exemplo. – Sim, ele tinha percebido exatamente quem eu pretendia chantagear. Não falei nada.
- Quanto tempo? – Pedi.
- Dias, semanas, não sei. Depende do quão bem ele escondeu os podres. – Deu uma pausa. – Vou esperar pelo dinheiro, . – Saiu do carro tão rápido quanto entrou. Pude relaxar quando ele saiu.
Eu disse que faria absolutamente tudo para fazer essa empresa lucrar de uma maneira que ela jamais havia lucrado. Não estava mentindo. Disse também a que o que eu queria, conseguia. Não disse como, mas não estava mentindo também. E, se eu tivesse que chantagear para conseguir com que esse maldito produto carregasse a homenagem do pai dele e começasse a maldita venda na data que queria, o faria. Sem remorso, sem pensar duas vezes.
era uma pessoa boa, não tinha dúvidas sobre isso. Mimado, arrogante, mas tinha um coração bom. A questão é que no fundo, bem no fundo, eis o que ele sempre fora e sempre seria para mim: um obstáculo no meu caminho que eu iria ter que esmagar e destruir de alguma maneira.

***

O que você está olhando? Eu falei para você que essa história não é sobre perdão, amor ou sobre as minhas escolhas! Essa é uma história sobre a minha perversidade e meu egoísmo. Não tenho culpa se não quis acreditar em mim! Só espero que não esteja se arrependendo agora de estar fazendo parte dela, porque é exatamente agora que tudo vai começar a pegar fogo. E ainda não sou eu quem está queimando. Ainda.

Capítulo 8

O barulho do relógio estava me irritando profundamente e várias vezes quase arremessei qualquer coisa pesada o suficiente para quebrá-lo. Tic tac. Parecia que até o próprio relógio estava zombando de mim! Zombando dos poucos meses que eu tinha para produzir o maldito produto e zombando do dia de hoje. Tic tac. Era quase como um lembrete, na realidade. Um lembrete de que meu tempo estava acabando e que precisava apressar toda a produção. Tic tac.
Logo depois que concordara com a minha magnífica ideia e nós havíamos assinado o contrato, tínhamos começado a confeccionar a fórmula do produto e, nisso, já tinha se passado um pouco mais de um mês. Eu estava sendo a verdadeira líder do projeto inteiro! Acompanhava cada maldito laboratório para ter a certeza de que todos estavam sendo rápidos o suficiente e produzindo exatamente da forma que queria. Tic tac.
Martin não voltou a dar notícias depois daquele dia também. Ele sempre fora assim: quando pedia algo, só aparecia quando tinha descoberto todos os podres e todos os arrependimentos que a pessoa tinha se esforçado ao máximo para enterrar. O problema é que esses sumiços normalmente demoravam menos que duas semanas, e agora já havia se passado um pouco mais do dobro do tempo que ele sempre demorava. Tic tac.
Tinha tentado ligar para ele, mas só atendia quando tinha as respostas que eu havia pedido. Tic tac.
Eu teria que tirar aquele maldito relógio do meu escritório! Como odiava esse maldito dia! Sete de julho, maldita data!
O telefonema me despertou dos meus pensamentos e, assim que o atendi, a secretária me disse que havia um pacote que tinha chego para mim. Me assustava só de pensar no que tinha naquele maldito pacote! Todo ano era a mesma coisa! Me perguntava se ele pensava que eu realmente abria os pacotes e ficava com os presentes que me mandava! Pedi para que ela o trouxesse para mim.
- Aqui, srta. Worksbare. – Ela falou, trouxe-o até mim e o colocou em cima da mesa.
Era uma caixa de papelão lacrada e só tinha um pequeno bilhete em cima com apenas uma frase: Você merece, . – Papai.
Aquela palavra embrulhou o meu estômago de verdade e me deu vontade de vomitar.
- Pode tirar daqui, Jenna. – Falei para ela, com um sorriso falso. Pareceu surpresa. – Pode abri-lo e ver se você gosta do que estiver aqui. Senão gostar, pode jogar tudo fora. – Ela ficou boquiaberta.
- Mas, srta. Worksbare...
- É só isso. – Interrompi-a. Deu de ombros, pegou o pacote e estava quase se retirando do meu escritório quando fiz um último pedido. Tic tac. – Pode, por favor, tirar esse maldito relógio daqui? – Perguntei, irritada. Ela apenas confirmou com a cabeça, fez o que pedi e saiu dali.
O relógio não estava ali, mas de alguma forma eu ainda parecia conseguir escutá-lo. Era essa merda de dia! Cada mínima coisa parecia me irritar intensamente e profundamente nessa maldita data! Fechei a minha mão com raiva e respirei fundo, para me acalmar.
Na hora do almoço, estava arrumando as minhas coisas para sair quando apareceu, repentinamente.
- Ei! – Falou, mais animada do que o normal, mas ainda não sorria.
- Oi. – Disse, estressada enquanto guardava o que julgava necessário na bolsa.
- Estava pensando se você não quer almoçar comigo hoje? – Perguntou e eu apertei os meus olhos, desconfiada.
- Por que? – Olhei-a. Seus enormes olhos pretos me encararam, franzindo o cenho.
- Sei lá, só imaginei que...
- Quem te contou? – Respirei fundo para tentar não demonstrar o quão irritava estava me sentindo.
- O quê? – Perguntou, me olhando.
- Quem te falou? – Ela se endireitou e percebeu que não tinha mais o porquê de fingir que não sabia do que eu estava falando.
- Ninguém. – Deu uma pausa. – Bem, não me lembro de quem me falou, mas nunca mais esqueci que hoje... – Interrompi-a novamente.
- Tudo bem, tudo bem. Olha, estava pensando em fazer alguma coisa amanhã para não ser um porre tão grande, mas assim que resolver te aviso, tudo bem? – Ela confirmou com a cabeça. Aproximou-se e só então percebi que havia um pequeno pacote escondido em sua mão. Não estava acreditando naquilo!
- Não precisava ter se incomodado... – Sorri, verdadeiramente.
- É só uma lembrança, . – Disse, sinceramente enquanto colocava o pequeno embrulho nas minhas mãos. – Espero que goste. – Sabia que as próximas palavras não poderiam ser evitadas. – Feliz aniversário! E então, quantos anos? – Ela deu um quase sorriso?! Como assim?! Se o meu aniversário era motivo o suficiente para quase fazê-la sorrir, tinha que fazer um esforcinho.
- Tudo bem! Vinte e oito. – Eu estava ficando velha, meu Deus! Abri o pacote de presente e observei uma caixinha toda branca que provavelmente teria algum brinco ou anel dentro. Abri-o e fiquei imensamente surpresa quando vi que era um par de brincos dourados bem delicados em forma da flor de lótus. – Você... – Nem consegui falar porque tudo o que conseguia fazer era me perguntar se era pura coincidência ou se ela realmente tinha me dado sabendo o que aquele símbolo significava para mim.
- Ouvi por aí que gosta bastante dessa flor, então decidi comprá-la para você! – A minha garganta começou a arder porque tudo o que queria fazer era me sentar e chorar como uma criancinha, embora tudo o que tivesse feito era sorrir verdadeiramente e agradecê-la.
- Você não tem ideia de como gostei mesmo desse presente, . – Quase não conseguia falar direito. – A minha mãe... – Dei uma pausa. Deveria compartilhar isso com ela? – A flor de lótus sempre foi a sua favorita. Ela sempre me disse que ela simboliza pureza e esclarecimento e que o seu caule representa o cordão que une as pessoas às suas raízes. – A primeira coisa que fiz no momento em que entrei no apartamento dela depois de sua morte foi jogar fora todas as flores de lótus porque, simplesmente, era muito doloroso olhar para elas e me lembrar de minha mãe. Mas agora seis anos já haviam se passado e tudo o que conseguia fazer quando olhava para essa flor era sentir paz.
- Representa mesmo. – Concordou – Viu, esse dia não tem que ser tão ruim! – disse e deu uma pausa. – Fico feliz que tenha gostado, . Feliz aniversário! – Afirmei com a cabeça, ainda olhando para os brincos enquanto ela foi se afastando. Antes de sair da porta, me perguntou duas coisas. – Então não vai querer almoçar comigo mesmo? – A pergunta dela fizera eu me afastar da nostalgia que aquele pequeno embrulho me trouxera.
- Acho que não, Mazzaropi. Mas agradeço pelo convite!
- Tudo bem! – Mordeu os lábios e eu vi que ela refletiu se deveria fazer a próxima pergunta ou não. Por fim, decidiu fazê-la. – E, se você realmente fizer alguma coisa amanhã, posso levar a minha namorada? – Realmente faria alguma coisa amanhã? Só de pensar, me sentia indisposta. Mas é claro que se eu fizesse, ela poderia trazer quem quisesse.
- Claro! – Sorri, olhando-a.
- Tudo bem! – Saiu do meu escritório e senti o arder da minha garganta aumentando.
Odiava o dia do meu aniversário porque sempre passava o dia com a minha mãe e nós sempre tínhamos um ritual do que fazer e como fazê-lo.
Primeiramente, pelas manhãs nós visitávamos o zoológico que ela sempre me levava quando eu era criança. Passávamos horas lá, relembrando memórias passadas e esquecidas, para só então irmos para o próximo ponto que era um maravilhoso jardim que Nova York tinha escondido em um desses bairros afastados. A primeira vez que ela me levara lá, tinha me dito que era o lugar dela e do meu pai e que eles adoravam passar o tempo lendo, conversando enquanto observavam as maravilhosas flores que tinham no jardim. No dia que ela me levou pela primeira vez, disse que o lugar era muito lindo para simplesmente ser uma memória que ela compartilhara apenas com o meu pai no passado, então decidiu criar novas memórias comigo naquele lugar. Depois disso, íamos comer no meu restaurante favorito italiano ao lado da primeira casa em que nós tínhamos morado e depois passávamos quase a tarde inteira no central park, nos divertindo e rindo. A última parada antes do apartamento dela era uma biblioteca bem antiga onde nós falávamos sobre os livros que havíamos lido, o porquê deles serem interessantes, quais eram os próximos que tínhamos interesse em ler! À noite, ela me fazia comidas japonesas – de uma maneira única que só minha mãe conseguiria fazer – e, nesses últimos anos, havíamos adicionado uma garrafa de vinho a nossa tradição. E só então ela me dava o presente que tinha comprado. Sempre dizia que não era necessário porque apenas a nossa tradição era um presente bom o suficiente, mas ela era muito teimosa e sempre insistia em me dar alguma coisa. E sempre eram os presentes que eu mais gostava e, também, os mais memoráveis!
Bem, agora você pode imaginar o porquê de eu não suportar esse dia durante esses seis anos. É outro dia em que tudo que consigo pensar é em como sinto a sua falta; em como jamais conseguirei fazer uma tradição novamente dessas com ninguém; em como parece não ter graça passar o dia com qualquer outra pessoa. Simplesmente assim.
Pensei que depois de alguns anos que ela havia falecido, conseguiria celebrar verdadeiramente o meu aniversário, mas tudo que consigo fazer nesse maldito 7 de julho é me lembrar dela e de como eu era tão feliz por tê-la perto! Respirei fundo.
Quanto ao outro embrulho que ganhei antes? Aquele era do , meu pai. Todo ano ele insiste em me mandar algum presente, talvez com a esperança que essa atitude vá trazer alguma diferença para a nossa relação, mas eu nem faço questão de abri-lo. Talvez ele pense que eu abro também, sinceramente não me importo. Só sei que todo ano ele manda algum presente de aniversário e todo ano sou obrigada a dar para alguém – como Jenna – ou só jogar no lixo – normalmente a minha forma preferida de me livrar dele e do presente.
Tinha algo extremamente assombroso em fazer vinte e oito anos. Quando eu parava para pensar que faltava apenas dois anos para completar trinta, sentia-me verdadeiramente aterrorizada. Dizem que trinta anos é a idade do sucesso, que provavelmente tudo que conseguiu até chegar nela é o que vai ter pelo resto da vida. Bem, não estava nem perto de ter tudo que queria, então era melhor eu me apressar. Peguei a bolsa que já tinha arrumado e decidi que não voltaria a trabalhar naquela tarde. Não conseguiria me concentrar de qualquer forma.
Entrei no carro e fiquei me olhando no pequeno espelho que tinha acima do volante, pensando no rumo que minha vida tinha tomado. E se todo o esforço que estava fazendo na verdade fosse em vão? E, se eu não conseguisse conquistar os meus objetivos nem fazer a empresa lucrar de uma forma que ela jamais lucrara? E, se na verdade, eu a falisse? Deus, era melhor parar com esses pensamentos agora! Respirei fundo e comecei a dirigir, não sabendo para onde estava indo.
Não queria ir ao zoológico, nem ao jardim ou ao meu restaurante italiano favorito! Muito menos ir ao Central Park, ou à biblioteca ou comer alguma maldita comida japonesa! Quando percebi, já estava em frente ao apartamento dela no outro lado da cidade, o lugar que mais me lembrava dela. Tive que estacionar e respirar fundo novamente.
Todo ano seria assim? Será que eu jamais conseguiria superar, de verdade, a morte dela? Ou que esse maldito vazio ou essa coisa morta em mim jamais ia sumir? Meus olhos começavam a se encher de lágrimas, mas não choraria. Não hoje. Decidi sair dali e voltei para a minha casa, me sentindo desanimada.
Só havia feito uma parada antes: fui ao mercado e comprei uma garrafa de vinho para pelo menos me esquecer um pouco da grande merda que era esse dia. Entrei, deixei o vinho na cozinha, fui à sala e me joguei no sofá, sem vontade de fazer absolutamente nada.
Fiquei encarando o teto, pensando nos últimos acontecimentos loucos que haviam acontecido na minha vida e, repentinamente, decidi que iria fazer algo amanhã sim! Era a porra do meu aniversário e eu não ia deixar todas essas merdas que acontecem na vida tirarem, pelo menos, a comemoração que eu estava completando mais um ano de vida! Amanhã ia dar uma festa na minha casa e ia chamar todo mundo que conhecia! Pelo menos, ganharia presentes e poderia beber para esquecer de toda essa dor que estava sentindo por culpa das lembranças da minha mãe.
Essa era a minha única saída: beber. Talvez esse fosse o único momento em que realmente não sentia o vazio, nem a dor, nem a saudade dela.
Comecei a mandar mensagens para todo mundo que conhecia dizendo que amanhã haveria uma festa na minha casa às oito para comemorar meu aniversário! Não sabia ainda muito bem o que faria para as pessoas comerem ou que tipo de decoração – por mais simples que fosse – que eu iria fazer, mas ainda tinha um dia inteiro para decidir isso.
Liguei para alguns decoradores que conhecia, pedindo sugestões e eles me deram várias. Fiz uma pequena lista das coisas que precisava comprar e decidi que seria uma coisa bem básica e simples. Pediria várias pizzas – sim, pizzas e, se alguém reclamasse que se sentisse a vontade para ir embora – e muitas, mas muitas bebidas – de todos os tipos. E foi mais ou menos assim que passei o resto da minha tarde.
No fim, ainda estava me sentindo um pouco desanimada e sem vontade de fazer tudo isso, mas não abriria a mão de fazer pelo menos uma festa simples. Mandei uma mensagem para dizendo que ela podia trazer quem quisesse e acabei convidando até , o que foi na verdade mais uma questão de educação porque várias pessoas da empresa haviam sido convidadas e ele, certamente, ouviria sobre a festa, então decidi chamá-lo também.
Depois de ver quem chamaria e do que precisava comprar no outro dia, decidi tomar um longo banho e dormir também, para que essa maldita data e esse maldito dia passassem logo.

No outro dia, as horas passaram rápido e, quando percebi, já eram seis e meia e eu não tinha nem começado a me arrumar. Mandei mensagem para todo mundo novamente dizendo que se eles quisessem chegar um pouco mais tarde, seria melhor. Tudo já estava comprado: as bebidas, as pizzas estavam encomendadas, tinha encomendado o bolo, a decoração estava arrumada. Quanto a essa última, a única coisa que tinha feito mesmo era colocar algumas velas espalhadas pela sala para dar uma visão mais bonita, tinha colocado alguns balões brancos espalhados pelo local, flores e um ou dois lustres em cima da mesa principal.
Fui correndo tomar um banho e assim que saí, coloquei rapidamente a roupa que já havia separado. Era um vestido nem curto nem cumprido, na altura do joelho completamente colado e preto. Era simples, mas elegante. Coloquei o meu colar que era dourado e tinha uma safira nem tão pequena nem tão grande e os brincos que havia me dado. Vesti o meu sapato alto, preto e um pouco fosco e estava quase pronta. Maquiei-me com o básico: rímel, pó, base, iluminador. Por fim, para dar um toque final, fiz um delineado bem forte para marcar os meus olhos que ficou perfeito e passei o meu batom vermelho sangue. Agora estava pronta! Olhei-me no espelho e suspirei, pensando se realmente deveria ter feito tudo isso.
Bem, agora era tarde demais! Fiquei mais algum tempo terminando de arrumar tudo quando escutei pela primeira vez na noite a campainha tocando. Quando abri a porta, era uma amiga minha da época da faculdade – não era muito próxima, mas gostava dela. Recebi-a e nós ficamos ali conversando até as pessoas começarem a chegar.
Tinha chamado umas setenta pessoas no máximo e quase todas haviam confirmado presença. Em uma hora, quase todo mundo já tinha chegado e devo confessar que, às vezes, sentia-me como se a festa de aniversário não fosse minha e como se a minha casa estivesse cheia de pessoa completamente estranhas. Não porque tinha chamado pessoas que não falava fazia um longo tempo, mas porque mesmo as que eu julgava próximas como , John – pessoas que convivia quase todos os dias fazia anos –, não as conhecia verdadeiramente, assim como eles não me conheciam.
Talvez a única pessoa que eu realmente conhecia, não estava ali. nem tinha como vir, embora a tivesse chamado de qualquer forma. Esse é o problema da sua melhor amiga morar em outra cidade, mesmo que não seja tão longe assim.
Já havia colocado músicas eletrônicas para as pessoas dançarem e as pizzas não demorariam para chegar. Quanto aos presentes? Bem, esses não havia aberto nenhum ainda, porque preferia abri-los quando ninguém estava por perto e, também, porque dessa maneira não precisava ficar fingindo que tinha gostado de cada um – mesmo que tivesse os odiado intensamente.
Estava na cozinha arrumando algumas coisas e já havia bebido algumas cervejas. Foi quando vi se aproximando.
- Ei, ! – Sorri, a olhando. Hoje ela vestia um vestido curto e colado vermelho vivo e estava linda. Estava de mãos dadas com uma mulher, que julguei ser sua namorada.
- ! A gente nem conversou direito quando chegou! – Sorri e bebi um gole da cerveja.
- Pois é! Fico feliz que tenha gostado do meu presente! – Falou, observando que eu já estava usando-o. – Eu queria te apresentar a minha namorada. , essa é a Emma! Emma, essa é a minha chefe. – Nos apresentou, com o semblante sério como sempre, mas parecia estar feliz. Estendi a minha mão.
- É um prazer te conhecer, Emma! – Disse, sorrindo e ela retribuiu o sorriso.
- O prazer é meu, ! vive falando do quanto você é genial e competente na empresa! Estava bem curiosa para te conhecer. – Soltei uma gargalhada.
- Bem, obrigada. – Olhei-as. – Aliás, preciso te fazer uma pergunta, Emma! Ela já riu alguma vez na vida? – Perguntei sobre e a sua namorada soltou uma gargalhada bem escandalosa.
- E se eu te falar que as pessoas vivem perguntando isso para mim? – Comecei a rir também e revirou os olhos.
- Engraçadinha! – Falou para mim, sarcástica.
- Mas ela ri sim, quando está sozinha comigo... – Falou e olhou para ela. – É brincadeira, amor! – Soltou uma risada e deu um selinho na minha colega de trabalho.
- Estou esperando ansiosamente pelo dia que vou ver como são os dentes dela! – Ela revirou os olhos novamente.
- Vocês são hilárias, sério! Muito engraçadas! – disse enquanto nós duas ríamos.
- Enfim, peguem uma cerveja aí e aproveitem! A pizza já deve estar chegando. – Falei, jogando a minha lata de cerveja no lixo e pegando outra.
- Obrigada por ter nos chamado! – As duas falaram quase juntas e foram se afastando para a sala.
Tirei algumas cervejas que estavam na geladeira e coloquei na caixa que estava completamente cheia de gelo. A campainha tocou e eu fui atender, deduzindo que eram as pizzas. Paguei ao homem que tinha vindo fazer a entrega e as levei até a mesa principal da sala. Vi que algumas pessoas – funcionários da empresa – viram que eu precisava de ajuda para carregar todas as pizzas e me ajudaram.
- Podem comer! – Gritei e, no mesmo momento, todo mundo se aproximou para pegar um pedaço.
Depois de eu e todos os meus convidados comermos bastante, nós fomos dançar. E foi assim que se seguiu a minha noite. Eu bebi, dancei, comi, conversei com várias pessoas que fazia um longo tempo que não via e, também, com as que eu via frequentemente. Bebi tanto que comecei a ficar bêbada de verdade, algo que já fazia anos que não ficava. Quando não estava com um copo de vodka, estava com uma latinha de cerveja ou bebendo doses de whisky. Assim que percebi que estava ficando bêbada mesmo, parei de beber e comecei a tomar bastante água.
Era quase uma hora da manhã quando o meu celular tocou e eu vi que era – terceira vez que ela tinha me ligado. Ela tinha me mandado uma mensagem no dia do meu aniversário, falando que tinha que aproveitar mesmo por mais horrível que eu estivesse me sentindo, e que me ligaria no outro dia para me dar os parabéns devidamente porque ela não iria conseguir no dia.
Atendi e fui até lá fora, para abafar um pouco o som da música que estava muito alta.
- Oi! – Disse, quase gritando e pude escutá-la rindo no outro lado da linha.
- Está aproveitando mesmo então, hein? – Soltei uma gargalhada.
- Claro! Não foi o que você disse para eu fazer, ?
- Sim! , me desculpe mesmo por não ter ligado ontem! Eu sei que devia ter ligado e fui uma amiga de merda, mas juro que meu presente vai recompensar por eu ter sido tão idio... – Interrompi-a.
- Não se preocupe, ! Tá tudo bem! – As minhas palavras estavam saindo um pouco enroladas, mas eu sabia muito bem o que estava dizendo. – Você me mandou a mensagem, lembra? E a sua mensagem foi muito mais reconfortante do que vários parabéns que recebi! – Disse, sinceramente.
- Que bom saber disso! Mas, isso não justifica eu ter sido tão idiota e não ter ligado para ti, mas eu juro que meu presente vai recompensar! É óbvio que não vou mandar por correio porque quero ver a sua cara assim que você ver o que é! Então pode demorar um pouquinho para você recebê-lo, mas vai valer muito a pena, vadia! – Demos gargalhadas juntas. E ela, como de costume, estava falando rapidamente. – Parabéns, ! Eu te desejo tudo de bom, de verdade! Tudo que você merece e isso inclui muito sexo, dinheiro, sucesso na empresa que eu tenho certeza que você vai dar conta, mais confiança que já tem e muitas viagens, presentes, eu na sua vida! – Sabia que ela realmente desejava de verdade tudo aquilo para mim.
- Se acalma, respira fundo ! – Disse, sorrindo. – Obrigada por tudo, sério! Obrigada por cada palavra que você disse tanto hoje quanto ontem e por sempre estar tão presente na minha vida! Eu te amo, viu? – Provavelmente essa última frase só saiu porque já estava um pouco bêbada. Não que eu não a amasse, longe disso, mas era realmente difícil nós duas trocarmos palavras de carinho dessa maneira, mesmo que nós soubéssemos o quanto uma significava para a outra.
- Eu te amo também, desgraçada! – Me surpreendi que ela me respondeu. – Tem um carinha aqui querendo falar com você. – Falou e a ligação ficou em silêncio por um momento.
- Oi. – Ouvi uma voz infantil falando. Era o filhinho dela!
- Alan! – Falei, animada. – Tudo bem com você, meu amor?
- Tudu. – Ele ainda não sabia falar muito bem, o que só o tornava mais fofo ainda! – Minha mamãe disse que você tá parabéns, tia? – Perguntou e eu quis mordê-lo e apertá-lo!
- Sim, meu pequeno! Que saudade que tô de você! – Pude ouvir a voz da ecoando e dizendo o que era para o Alan falar.
- Parabéns, ! – Logo depois disso não falou mais nada.
- Ele saiu correndo, ! – falou de repente, rindo. – Enfim, ele que quis falar com você, viu?
- Que saudade dele, ! – Queria tanto dar um abraço nele.
- Pois é, você tem que vir nos visitar! – De repente, percebi uma coisa.
- Nossa, como ele tá acordado ainda? – Era uma hora da manhã já.
- Não sei também, viu ! Às vezes, dá umas loucas nele e ele fica acordado até bem tarde! Provavelmente segue o exemplo da mãe né, todo energético e tudo mais! Mas logo ele dorme e você tem que nos visitar logo, hein ? Estou falando seríssimo! – O cérebro dela funcionava muito rápido, então tinha que prestar bastante atenção enquanto ela falava porque mudava de assunto muito rápido. Ri.
- Sim, !
- Enfim, Dam também desejou os parabéns para você – era o seu marido –, mas a gente tá com uns amigos aqui, daí ele tá lá para fora!
- Diga a ele que eu agradeço! Mas eu tô curiosa para saber qual é o presente! – Ouvi a sua risada.
- Pois é! Venha me visitar! – Revirei os olhos e ri também. – Então tá, ! Não quero atrapalhar aí com os seus amigos! Mas você merece tudo, viu? Parabéns! Aproveita bastante a festa e tudo que você tá recebendo também de presente! Afinal, é só uma vez no ano! – Soltou outra gargalhada escandalosa.
- Claro! – Concordei, rindo. – Tchau, !
- Tchau! – Desliguei o telefone e me sentei no meio fio da calçada, me sentindo meio tonta.
- Você tá bem? – Me assustei porque eu não tinha percebido que tinha alguém ali por perto.
- Você me assustou, ! – Falei, colocando a mão no peito com a respiração acelerada.
- Desculpa, pensei que tinha me visto. – Podia perceber que ele estava se segurando para não rir.
- Tô bem sim, só fiquei um pouco tonta. – Olhei-o.
- Quer ajuda? – Balancei a cabeça negativamente.
- Na verdade, vou ficar um pouco aqui. – Sentou-se do meu lado.
- Você tava falando com a ? – Afirmei com a cabeça, percebendo a tontura passar um pouco. – Que saudade que eu tô do Alan. – Falou, colocando a mão no rosto.
- Sim, faz muito tempo que não o vejo! – Concordou comigo.
- Eu também. – Ficamos um momento em silêncio. – Não sabia o que comprar pra você, então se não gostar do presente pode ir trocar na loja. – Franzi o cenho, completamente surpresa.
- Você trouxe um presente pra mim? – Ri, achando a situação engraçada. – Espero que não seja uma bomba ou qualquer coisa assim... – Ele revirou os olhos.
- Acho que já passamos dessa fase, não? – Você que pensa, .
- Espero. – Falei, quase mentindo.
- Eu não sou tão mal educado assim! Se você me convidou para vir a sua casa, óbvio que vou trazer alguma coisa né! – Olhei-o, rindo. – Fiquei surpreso que me chamou, na verdade.
- E eu fiquei surpresa que você veio. – Ele riu e arrumou o cabelo porque o vento tinha o bagunçado.
- Você me chamou... – Deu de ombros. – Tinha comida e bebida de graça. – Disse e eu soltei uma gargalhada. – Já disse que você tem uma risada bem escrota?
- Já, Lafout. – Revirei os olhos e continuei rindo.
- Que engraçado isso! – Pareceu pensar alto.
- O que? – Levantei uma sobrancelha.
- Em todos esses anos, eu nunca tinha vindo na sua casa. – Olhei-o, surpresa novamente.
- Ah, pelo amor de Deus! Uma vez você deve ter vindo! Uma vez, pelo menos! – Ele balançou a cabeça.
- Nunca. Antes, na outra casa que vivia com a , fui algumas vezes. Mas nessa mesmo, não.
- Nossa... – Cruzei os meus braços.
- Meu pai teve que morrer para a gente se resolver e eu conhecer a sua casa... – Pensou alto novamente.
- Verdade né! – Concordei com ele.
- Eu pensei de verdade que nós íamos nos matar no momento em que assumíssemos a empresa e aí, aconteceu o contrário. – Será que ele estava falando tudo isso porque já tinha bebido bastante?
- É. Vamos lá para dentro, . – Como a tontura já tinha passado, me levantei e o puxei para se levantar também. Ele colocou o braço em volta dos meus ombros porque não conseguia se equilibrar direito.
- É, Worksbare. Você não é tão insuportável assim, no final das contas! – Falou, rindo e eu revirei os olhos novamente.
- Pena que você é! – Soltou uma gargalhada e nós entramos em casa novamente.
Pelo resto da noite, eu não bebi mais. Dancei bastante e comi mais um pouco, mas decidi não beber para não ficar mais bêbada ainda. Confesso que acabei não me arrependendo de fazer a festa e me diverti bastante! Era tudo que eu precisava, na verdade, pro meu aniversário.
Um pouco antes das cinco, as pessoas começaram a ir embora e por último só ficaram algumas: , , Emma(mesmo não sendo do meu cotidiano), John, Rebecca e mais duas amigas minhas da faculdade e seus namorados. Às cinco e meia, todos tinham ido embora e eu estava deitada no sofá, quase capotando.
ainda disse que qualquer coisa ela e Emma posavam aqui para me ajudar a arrumar as coisas, mas falei pra elas que já tinha contratado alguém para limpar tudo na segunda. Não que eu não fosse juntar toda a sujeira e tudo mais, mas limpar mesmo (lavar o chão, dar uma geral na casa) tinha contratado uma diarista.
Para a festa ser perfeita, só faltou mesmo a e o Davi – que não veio porque não pode nem chegar perto da minha casa após todos os acontecimentos. Davi disse que daria um jeito para se encontrar comigo e dar o seu presente que eu já estava curiosa para saber o que era!
Antes mesmo de perceber, dormi profundamente no sofá – tudo que precisava após essa longa festa.
No outro dia, só despertei porque meu celular começou a tocar e a fazer um barulho monstruosamente alto. A princípio, não reconheci o barulho e fiquei procurando de onde vinha, totalmente sonolenta. Foi quando percebi o meu celular em cima da mesa da cozinha e, com muito esforço, fui até lá.
Atendi o telefone, bocejando.
- Pensei que tinha mudado de número. – Sua voz era inconfundível. O arrepio veio novamente.
- Martin. – Engoli em seco, sentindo a minha cabeça arder – ressaca.
- Achei o que você queria, . – Sentei-me, sentindo como se não tivesse dormido nada. Que horas eram agora?
- Pode falar.
- Vou ter que te mostrar. – Revirei os olhos.
- Martin...
- Te mando por mensagem o endereço e te encontro lá em uma hora.
- Mas, Martin... – Sua voz me cortou de uma forma grossa e fria.
- Eu descobri o que queria, . Mas você vai ter que ver isso. Vai ser o seu melhor presente de aniversário. – Antes mesmo que pudesse responder, ele desligou.
Ontem, refleti novamente se iria destruir e chantagear mesmo porque ele estava me surpreendendo cada vez mais de uma maneira boa. Mas, não custava olhar, certo?


Capítulo 9

Tomei um banho rápido, sentindo a minha cabeça explodindo. Agora eu havia me lembrado do porquê fazia anos que não ficava bêbada. E o motivo era a ressaca. Vontade de vomitar, uma dor desgraçada de cabeça e sentir como se houvesse meses que eu não dormia. Era essa a sensação.
Durante um mês, fiquei desesperada para saber notícias de Martin, mas o filho da mãe me liga justamente no dia que eu tô de ressaca? Saí do banho, coloquei a roupa mais confortável que eu tinha no meu guarda roupa e fiquei pensando se devia ou não comer alguma coisa.
Uma hora o enjoo foi tão forte que eu pensei de verdade que ia vomitar, então fui correndo para o banheiro. Não vomitei, mas a vontade não passou também. Decidi não comer nada e já sair de casa, porque pela mensagem que Martin tinha mandado com o endereço, o lugar era bem longe.
Entrei no carro, coloquei meus óculos de sol e comecei a dirigir. O enjoo voltava e ia embora. O tempo todo. Outro pensamento veio à tona, repentinamente. “Vai ser o seu melhor presente de aniversário”, como diabos ele sabia que há dois dias tinha sido o meu aniversário? Eu, com certeza, nunca tinha falado. Esse cara me assustava cada vez mais!
Quanto mais eu me aproximava do endereço, mais percebia que estávamos indo para a região mais desfavorecida e pobre de Nova York. Por que ele tinha me pedido para ir lá, afinal?
Demorei um tempo para localizar o endereço e, quando o fiz, estacionei o meu carro em frente a uma casa qualquer. Dessa vez, não consegui segurar. Então desci do carro e vomitei tudo, ali na calçada mesmo. Agachei-me e vomitei tudo. Que nojo.
- Você quer um lenço? – Olhei para trás, assustada, e dei de cara com o maldito Martin! Qual era o problema dele para aparecer assim?
- Se você tiver. – Disse, ainda de costas para ele. Aproximou-se e me deu um pano. Por mais que em outras circunstâncias eu jamais fosse aceitar qualquer coisa dele, estava com a boca toda suja e, certamente, não limparia com a minha blusa. Passei o pano na minha boca e me endireitei, olhando-o.
- A festa foi boa? – Arregalei os meus olhos. Como ele sabia da festa de ontem?
- O... O que? – Perguntei.
- Pelo visto você bebeu bastante. – Concluiu, olhando para o meu vômito no chão. Foi só um comentário. Cara estranho.
- Não vamos falar disso. Por que você me trouxe aqui, Martin? – E a merda do enjoo não passava.
- Vem. – Foi tudo que falou. Outro arrepio percorreu pelo meu corpo.
- Como você sabe que meu aniversário foi... – Ele me interrompeu.
- Dia sete de julho? – Já podia correr agora e fugir dele? – Eu sei tudo sobre os meus clientes, .Tudo. Senão, jamais aceitaria fazer qualquer coisa por eles. – Engoli em seco. Tudo, ele disse. – De qualquer forma, quero que foque naquela casa. – Apontou para uma casa com pintura azul bebê e cheia de rachaduras em toda a estrutura. Nós estávamos perto o suficiente para observá-la, mas longe o suficiente para que, se alguém aparecesse, não achasse estranho nós estarmos ali.
- E? – Olhei para ele. Eu não suportava encarar a sua cicatriz, então desviei o olho e ele percebeu. Parecia que ele tinha soltado um sorrisinho bem estranho.
- É o que você pediu. – Esperei-o prosseguir. – O podre que Marcus fez todo o possível para enterrar. Esse foi difícil de achar, .
- Mas você achou.
- Claro que achei. – Lambeu os lábios. – Senão você não me pagaria duzentos mil, certo? – Olhou para o relógio. – Não deve faltar muito agora.
- O que?
- Só fica observando a casa. – Depois de uns três minutos, um homem negro, alto, com o cabelo quase raspado e que parecia ter a minha idade, saiu da casa azul. Ele fechou a porta e saiu de lá, andando na calçada. – Não fique o observando muito. – Martin disse e eu parei no momento.
- E então? Quem é ele? – Perguntei, curiosa.
- O nome dele é Thompson. – Disse, sussurrando. – A mãe dele se chamava Bonnie Thompson e foi uma funcionária da Medicine Worksfout por dois meses. – Balancei a cabeça, ainda não entendendo porque aquilo supostamente seria algo interessante.
- E? Esse é o podre que você achou? – Ele sorriu, ironicamente.
- É. Sabe por que? – Como nós estávamos do outro lado da rua, nem pareceu nos notar e continuou andando.
- Por que?
- Porque ele é meio irmão do . – O que ele havia dito? A minha boca abriu de tão surpresa que eu fiquei. – E sabe qual é o pior de tudo? nunca ajudou esse menino com nada, . O estado que eles vivem é deprimente e ele nunca nem se importou. – Não conseguia falar nada ainda, nem acreditar no que estava bem ali a minha frente. – E, se você destruir a reputação do , ninguém vai querer comprar um produto em homenagem a ele. – Não tinha parado para pensar nisso. Era um jogo de Marketing ruim. Mas tudo que eu conseguia pensar agora era como aquele homem era filho de ? Como?! Eu sempre pensara que era o único... Isso... – Você pode fazer melhor que isso. – Concluiu e eu entendi exatamente o que ele quis dizer.
- Calma! Você está me falando que tem um irmão? – Meu rosto se abriu em um sorriso.
- Meio irmão, mas sim.
- Meu Deus! – Foi tudo que consegui falar enquanto tirava as minhas mãos da boca. – Isso quer dizer que tudo que o tem...
- Metade pertence ao . – Aquilo explodiu a minha cabeça de uma maneira que eu jamais conseguiria explicar. Era a solução perfeita! A minha chance de ter total e completa influência na MedWorksfout! Tudo... Tudo parecia estar se explodindo na minha cabeça agora.
- Bem, vou deixar você. Já sabe, quero a outra metade agora que concluí o trabalho até hoje. – Foi tudo o que Martin disse e saiu.
Isso é, meu Deus! A minha chance finalmente tinha aparecido! Tudo o que eu precisava fazer era manipular o meio irmão de e poderia ser a sócia majoritária! O que significava que eu ia ter um poder completo e absoluto da Med! Esse realmente havia sido o melhor presente de aniversário que recebi! Ou melhor, que eu comprei.
A informação ainda parecia estar explodindo o meu cérebro. Tudo havia mudado de lugar na situação agora. Absolutamente tudo. Precisaria pensar muito bem e racionalmente em quais seriam os meus próximos passos e no que faria. tinha um irmão! Um irmão! Um irmão que merecia por direito metade de tudo que ele tinha!
Respirei fundo, sentindo o enjoo voltar. Mas que merda em? Voltei andando até o meu carro, pensando em tudo isso que tinha acabado de descobrir. Quais seriam os meus próximos passos? Realmente teria coragem de fazer isso com ? Caso tivesse, qual seria o meu plano?
Entrei no carro, olhando-me no espelho do retrovisor. Em quem confiaria? Essa era uma vantagem boa demais para vacilar contando-a para alguém que não fosse digno de minha confiança. Tudo o que tinha que fazer agora era: Depositar a outra metade do dinheiro na conta de Martin, ir para casa (e talvez vomitar mais um pouco) e raciocinar sobre isso e sobre qual seria o meu plano.
Dirigi até o banco e depositei numa das cinco contas que ele havia passado para depositar. Depois disso, voltei para casa – e antes tive que parar o carro duas vezes porque pensei que ia vomitar mais. Entrei em casa e deitei na minha cama, olhando fixamente para o teto.
Eu tinha uma decisão muito importante para fazer agora:
1. Ignorar aquilo que tinha pago duzentos mil para Martin descobrir, continuar com uma relação profissional harmoniosa com e lucrar bastante, mas nada que revolucionasse a empresa.
2. Usar o que ele tinha descoberto para chantagear para que ele aceitasse que o nosso antibiótico resistente carregasse a homenagem de seu pai, começasse a venda exatamente no dia em que completasse um ano da morte de e eu fizesse a empresa lucrar de uma forma que ela jamais lucrara. E, ainda, (talvez) manipular para posteriormente conseguir mais ações da empresa – ações de – e me tornar a sócia majoritária.
E agora? Como falei, uma decisão importantíssima para tomar! Uma decisão que poderia – ou não – mudar todo o destino da Med. E eu teria que refletir bastante sobre isso porque não havia espaço para erros ou decisões ruins a serem tomadas. Tudo tinha que ser perfeito, independentemente da minha escolha.

***
Decisões, decisões, decisões. Essa é uma história em que várias decisões são tomadas, a maioria ruins. O que você está supondo que eu irei fazer nesse momento da história? Escolher a decisão número 1 ou a decisão número 2? Complicado, não? Não sei muito bem o que está pensando, mas sugiro que não se iluda. Sugeri isso porque a decisão que eu irei tomar nessa parte da história vai mudar todo o rumo dela. E, quando digo que vai mudar todo o rumo, quero dizer que muitas pessoas vão ser destruídas. Só não disse quem...

***
Era quarta-feira e eu estava conferindo alguns arquivos da empresa, ainda com aquela importante decisão a ser tomada. Como disse, teria que pensar racionalmente antes de decidir qualquer coisa.
Muitas pessoas haviam vindo me perguntar se eu gostara do presente que elas tinham me dado e, em todas as vezes em que essa pergunta foi feita, disse que os havia adorado – mesmo que não me lembrasse do presente específico que tinha recebido. A ressaca passou algumas horas depois naquele dia e, prometi a mim mesma, que jamais ficaria bêbada de novo – mesmo que soubesse profundamente que não tinha como cumprir aquela promessa. Respirei fundo, encarando todos aqueles arquivos e entrando num certo desespero porque realmente não sabia o que fazer.
Além de não saber o que fazer, não conseguia me concentrar no trabalho nem pensar racionalmente. Era tudo complicado, mas confesso que o meu receio não era destruir – mesmo que estivesse pensando bastante sobre isso – e, sim, tomar a decisão número 2 e depois perceber que a empresa não lucraria tanto assim ou que não era uma pessoa tão facilmente manipulável.
Existiam muitos “Ses” nessa história e eu não gostava de trabalhar com eles e, sim, com certezas. Era esse o grande problema dessa decisão em especial. Normalmente, eu fazia o que tinha que fazer – não importando os sacrifícios – sem pensar duas vezes, mas dessa vez era diferente. O barulho da porta abrindo fez eu me assustar porque estava muito perdida nos meus pensamentos.
- Ei, ! – Era justo a pessoa que eu estava evitando desde a minha festa pelos acontecimentos recentes! E foi mais estranho ainda porque ele me chamou pelo apelido.
- Oi, . – Disse, meio seca.
- Não precisa se assustar, não! Eu sei que sou lindo e tudo mais, mas você já deveria ter se acostumado com a minha beleza! – Disse, brincando e soltou uma gargalhada. Revirei os olhos, mas sorri.
- O que você quer?
- Nada demais, só preciso que assine esses papéis pra mim. É renovação de contrato, etc. – Aproximou-se e deixou uns papeis na minha mesa. Li por cima só para confirmar se era o que ele estava falando e, quando percebi que era, assinei rapidamente.
- E você não podia mandar a secretária fazer isso? – Fui grossa e ele se surpreendeu com a minha repentina grosseria.
- Eu só... – Engoliu em seco. – estava passando aqui na frente, daí já decidi te dar os papeis. Mas na próxima vez digo para ela vir, já que é um problema tão grande aparecer por aqui! – Todo o seu bom humor parecia ter sumido de uma hora para a outra. Ele foi tão ignorante quanto eu.
- Melhor mesmo. – Falei, assinando e dando pra ele os papéis. foi se afastando e saiu da minha sala.
Tinha que ter sido grossa com ele porque, se fosse escolher a decisão número 2 mesmo, não seria um baque tão grande quando o ameaçasse. Era necessário. Ele não podia mesmo pensar que éramos amigos ou qualquer coisa assim.
Só de vê-lo e pensar em chantageá-lo já me dava um embrulho no estômago. Não porque seria difícil, mas porque depois que o fizesse, as coisas jamais seriam as mesmas.
Fiquei até o horário do expediente acabar e depois fui embora pra casa. Assim que cheguei, Davi me mandou uma mensagem dizendo que estava vindo para cá. Estranhei devido aos acontecimentos na festa da Human e, pelo fato de Oliver ter descoberto que havia um espião dentro da empresa dele e Davi dizer que nós teríamos que tomar muito mais cuidado depois daquilo. Para mim, tomar cuidado não era ir diretamente na casa da pessoa anunciando para o mundo que você a conhecia bem o suficiente para fazer isso, mas não falei nada a ele.
Eu pretendia tomar um banho antes mesmo dele chegar, mas quando estava indo para o banheiro, a campainha tocou. Fui até a porta o mais rapidamente possível e a abri.
- Amor! – Disse ele, com o mesmo jeito de sempre e me deu um beijo molhado e um abraço forte. – Parabéns, amor! Te desejo tudo de bom, muitas felicidades, força para encarar aquelas pessoas horrorosas da sua empresa todo dia, paciência para lidar com elas e com o mundo, etc! – Soltei uma gargalhada com os parabéns que ele me deu e percebi que havia um embrulho em suas mãos. – Espero que goste, !
- Obrigada pelo parabéns mais pessimista que já recebi! – Falei, rindo e dei um beijo na sua bochecha. – Obrigada pelo presente também!
- Ah, não foi nada! – Disse, fazendo um gesto com a mão. – O presente também não foi nada! Falei isso brincando porque sei que é maravilhosa o suficiente para lidar com todos eles e, que jamais vai deixá-los te atrapalhar!
- Fico feliz que tenha essa confiança em mim! – Sorri e abri o presente ao mesmo tempo. Rasguei o pacote e fiquei surpresa quando vi que era um colar bem delicado todo prata, com uma pedrinha na ponta dele. – Obrigada, Davi! De verdade!
- Foi atrasado, mas espero que tenha gostado querida! – Falou e me beijou novamente na bochecha.
- Gostei sim, amor! Adorei! – Peguei o colar. – Aliás, já vou colocá-lo agora! Vem, senta! – Sentei-me no sofá enquanto colocava o presente que ele me dera. Davi se sentou logo ao meu lado. – Não entendi você! Não veio no dia do meu aniversário aqui em casa para ser mais “discreto” – fiz com as minhas mãos um movimento de aspas –, mas decide aparecer aqui agora?
- Mas é claro, ! Aquele dia veio todo mundo, a sua casa era um ponto de encontro e de atenção! Hoje, pelo contrário, numa quarta-feira às oito da noite, depois de conferir aproximadamente umas quinhentas vezes se não tinha alguém me seguindo, é bem mais tranquilo! – Deu uma pausa. – E eu também não queria perder o tempo de ir lá no outro lado da cidade, no apartamento da , quando posso dar um pulo aqui. – Dei de ombros.
- Você que sabe.
- Mas me conta como foi a sua festa! – Falou, todo animado.
- Foi demais, Davi! Quando pensei em fazê-la, pensei de verdade que seria um porre, mas no final das contas não me arrependi de ter a feito!
- Ah, que bom, querida! – Ele riu. – Imaginei mesmo que tinha sido num momento impulsivo que decidiu fazer a festa e, que talvez, se arrependeria depois, mas que bom que gostou! – Sorri. – E que bom que gostou do presente também!
- Obrigada, sério! – Olhei para o meu colar prata, satisfeita. – Então... Pensei em fazer um macarrão, o que acha?
- É pra já! – Concordou, levantando-se. Fomos até a cozinha e eu coloquei a água para esquentar.
Enquanto fazíamos a nossa janta, dei detalhes sobre como tinha sido a festa e comentei sobre o fato de eu ter ficado bêbada pela primeira vez em muito tempo! Falei também sobre ter ligado e a conversa estranha que tinha tido com . Ele só ia ouvindo e rindo e, muitas vezes, nós demos várias gargalhadas juntos. Mas depois aquele assunto voltava na minha mente e eu tornava a ficar presa nos meus pensamentos novamente.
Adorava Davi, de verdade! E adorava as conversas dele, mas muitas vezes enquanto ele falava, parava de escutá-lo pensando no que deveria fazer e quais seriam os meus próximos passos.
O macarrão não demorou muito pra ficar pronto e, assim que ficou, nós nos servimos e fomos até a sala para colocar em qualquer programa de tv que estivesse passando. Por fim, colocamos no Masterchef – o que não podia ser mais propício já que nós havíamos feito a nossa janta e ela estava deliciosa!
- E então, amor, não vai me falar o que está te incomodando nessa sua cabecinha? – Me surpreendi e olhei-o.
- Não sei do que tá falando, Davi! – Disse, bem convincente. Como falei, se tem algo que sou especialista é em esconder os meus sentimentos e não demonstrá-los por nada.
- Se eu não te conhecesse tão bem, acreditaria em você, ! O problema é que te conheço demais pra acreditar em você, então pode abrir o jogo! – Revirei os olhos, rindo e colocando um pouco de macarrão na boca.
- Tá tudo certo. – Disse, por fim e ele decidiu não insistir, mesmo que soubesse que algo estava errado.
Quando nós tínhamos terminado de comer e estávamos entretidos com o Masterchef, decidi abrir o jogo – apenas por cima. Não é que eu não confiasse nele, mas falei superficialmente só porque preferia não contar nada a ninguém até ter certeza do que faria e de como faria.
- Preciso fazer uma decisão, Davi. – Disse, do nada. Ele parou de prestar atenção no programa no mesmo momento e se voltou para mim.
- Que decisão? – Perguntou, sério.
- Tem duas possibilidades. – Estava calculando bem as minhas palavras.
- E quais seriam elas, ?
- Ou eu tomo a decisão mais fácil, que não irá prejudicar ninguém, mas também não fará a empresa lucrar bastante... Ou, tomo a decisão mais difícil, que irá prejudicar várias pessoas, mas talvez faça a empresa lucrar bastante. Talvez de uma forma que faz tempo que ela não lucra! – Esperei por seu conselho. Davi parou por um segundo, olhou para o chão – parecendo estar pensando bem no que iria falar – e então disse a sua próxima frase.
- A empresa vai lucrar absurdamente bem?
- Talvez. – Disse, dando de ombros. – Acredito que sim, mesmo que seja em cima de um sensacionalismo barato.
- E você acha que vale a pena prejudicar essas pessoas por isso? – Ele parecia saber exatamente de quais pessoas eu estava falando em prejudicar.
- Sim. – Respondi, sem pensar duas vezes.
- Então não sei porque está pedindo a minha opinião, , porque me parece que já tomou a sua decisão. – Deu uma pausa e olhou profundamente nos meus olhos. – Talvez só esteja falando comigo para que não se sinta tão ruim quando tomar a decisão mais difícil, porque vai ter uma pessoa que conhece e ama que concorda com ela. – E não é que Davi estava certo? Talvez fosse só isso que precisava, de uma permissão para não me sentir tão horrível.
- Pode ser. – Foi tudo que me limitei a dizer.
- Só acho que deveria pensar bem nisso, amor. – Levantou-se, abruptamente. – Vou indo nessa porque preciso fazer algumas coisas lá em casa para amanhã. – Aproximou-se e me deu um beijo na bochecha. – Pensa bem nisso, tá? Mesmo que não seja do seu feitio, sem decisões impulsivas! – Concordei com a cabeça e me levantei.
Fomos até a porta.
- Obrigada por ter vindo e pelo presente, Davi! – Sorriu para mim.
- Eu que agradeço pelo macarrão! – Me abraçou e saiu, rapidamente, pela porta. Entrou no carro e saiu da minha casa, assim que abri o portão.
Deitei novamente no sofá, observando outro episódio de Masterchef iniciar. Desliguei a tv, peguei as minhas coisas e fui ao banheiro para tomar banho. Enquanto me despia, ficava me olhando no espelho pensando se a decisão realmente tinha sido tomada.
Pelo tanto que me conhecia, acreditava que sim. Mas eu realmente estava disposta a fazer isso? Realmente? O que minha mãe diria se pedisse algum conselho a ela? “Filha, você deveria pensar melhor sobre isso. Talvez pensar se alguém tivesse que decidir sobre te prejudicar mesmo que ela se beneficiasse com isso. Porque esse é o seu lugar agora.”, ela diria exatamente isso. Conseguia até imaginar ela acariciando meu rosto enquanto falava isso. “Mas a escolha é unicamente e apenas sua, .” E então me chamaria pelo nome completo para reforçar o quanto estava falando sério.
Liguei o chuveiro quente e me joguei nele, sentindo a água percorrer pelo meu corpo e me relaxar. Toda a tensão e o estresse do dia, da semana, pareciam ter ido juntamente com a água escorrendo. Esfreguei os meus olhos, pensando se tomaria essa decisão mesmo. Esfreguei bastante o meu cabelo também, o meu corpo e demorei bem mais do que o necessário no banho.
Saí do box e me sequei, novamente me encarando no espelho. Será que eu me conhecia tão bem quanto julgava que conhecia? Caso não conhecesse, o que faria se o arrependimento surgisse depois? Respirei fundo, me enrolei na toalha e, assim que saí do banheiro, já sabia o que tinha que fazer. Sabia qual decisão tomar, mesmo que me arrependesse dela depois, mesmo que me sentisse horrível ou desprezível ou escrota. Era aquilo que eu tinha que fazer e era aquilo que faria.
Mesmo que não me conhecesse tão bem quanto julgava que me conhecia, tomaria essa decisão porque era a certa para o momento. Não podia controlar o futuro, nem os sentimentos futuros, mas podia controlar o presente e o agora. E, também, quais seriam os meus próximos passos e planos. E não só meus, mas os da empresa também.
Fiz a promessa de que faria essa empresa lucrar como ela jamais lucrara e agora era tarde demais para tentar descumpri-la ou desejar que jamais a tivesse feito. Até porque não queria tentar nem desejava isso. Eu queria cumprir essa promessa e queria fazer a escolha número 2, mesmo que doesse admitir isso. Talvez esse fosse o porquê da demora para decidir o que faria, justamente porque achei que não suportaria admitir. Achei que não suportaria admitir para mim mesma que não me importava nem um pouco ou me preocupava em destruir e talvez a reputação de .
Essa era a grande verdade: a indiferença já havia preenchido um grande lugar em mim e não tinha mais como voltar atrás. Essa era quem eu era e teria que lidar com esse fato. Teria que lidar com o fato de que me tornei uma pessoa fria o suficiente para fazer o que era preciso sem me preocupar com quem teria que prejudicar ou destruir. Lidar com o fato de que não me importava de verdade de vazar a história do filho escondido de para toda a mídia caso não obedecesse as minhas demandas. Lidar com o fato de que, a esse ponto, só estava me importando comigo mesma, com a empresa e com os meus próprios objetivos, com os meus próximos planos para alcançar aquilo que queria – mesmo que tivesse que destruir qualquer pessoa que fosse. Essa era quem eu era! E, pra falar a verdade, estava gostando disso! Estava gostando de quem havia me tornado e do quão longe iria para alcançar aquilo que desejava e almejava.

Dormi como um bebê durante a noite inteira e acordei bem tarde no outro dia. Sim, era uma quinta-feira, mas eu era uma das sócias daquela empresa e não precisava cumprir os horários justamente por ser eu quem dava os meus próprios horários.
Olhei no relógio e vi que eram onze horas. Troquei-me, sabendo qual seria o meu próximo destino. No caminho, peguei um Starbucks e fui indo pelo caminho que já estava familiarizada.
Estacionei, olhei para aquela casa que já tinha olhado e desci do carro, indo em sua direção. Não havia mais tempo, vontade ou motivo para desistir agora. A decisão tinha sido tomada e, independentemente de quais seriam as consequências, era a certa e havia uma certeza absoluta que se afirmava dentro da minha mente a cada passo que dava, me aproximando da casa.
Bati na porta duas vezes, quando uma mulher com cerca de cinquenta e cinco anos, baixa e com o aspecto cansado atendeu a porta.
- Olá. – Ela me olhou dos pés à cabeça, tentando me reconhecer, provavelmente. Mas não tinha como porque ela jamais me vira, não pessoalmente pelo menos.
- Como posso ajudar? – Perguntou, séria e desconfiada.
- Oi, meu nome é e eu gostaria de falar com o seu filho! – Disse, sorrindo.
- Qual deles? – O nome dele já estava na ponta da minha língua.
- . Thompson.




Continua...



Nota da autora: (18/08/18) Sem nota.



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