Finalizada em: 06/12/2020

“Tu dizes que me amas; eu o creio, eu o sabia antes mesmo que me dissesses. As almas como as nossas, quando se encontram, se reconhecem e se compreendem. Mas ainda é tempo; não julgas que mais vale conservar uma doce recordação do que entregar-se a um amor sem esperança e sem futuro?”
José de Alencar


“Na vida, ao contrário do xadrez, o jogo continua após o xeque-mate.”
Isaac Asimov


Capítulo Único

Munique, Alemanha Ocidental
24 de agosto de 1953

— Você vai ficar aqui a partir de hoje.

O garotinho de cabelos castanhos claros e profundos olhos verdes encarou o homem parado ao seu lado com respeito, sentimento que logo foi substituído por apreensão ao encarar a construção imponente. Por detrás dos portões de ferro com mais de dois metros de altura, estava a Neuhansen Praktikantenschule¹, o internato para rapazes mais conceituado da Alemanha.

Petrus analisou a construção de tijolos vermelhos de três andares, ladeadas por duas tores altas, com um canhão na sua entrada e sentiu um arrepio percorrer o corpo. Passaria seus próximos dez anos dentro daquelas paredes frias que não tinham sido destruídas pela Segunda Grande Guerra, convivendo apenas com outros rapazes e tentando sobreviver em um ambiente que não estava acostumado.

Ao mesmo tempo, estar entrando naquele mundo novo significava, para a pequena criança, um passo para a liberdade. Odiava a criação severa do pai e a forma como este lhe batia quando seu humor não estava bom. Odiava ser o motivo de chacota das irmãs mais velhas apenas porque era o único que não tinha herdado os cabelos platinados do pai. Odiava a mãe que nunca o defendia, que o deixava ser alvo de sovas sempre que o pai bebia um pouco mais. Assim como odiava as bebedeiras da mãe quando ela esperava o pai terminar de se divertir com alguma criada no quarto deles. No geral, mesmo ainda criança, ele já sabia que odiava sua família inteira e todos os preceitos que ela defendia.

Por isso, mesmo apreensivo, o internato localizado na Munique em reconstrução pós-guerra, com mais de 450km o separando de sua cidade natal, Dresden, lhe deu alguma esperança.
— Você não voltará para casa até ter concluído seus estudos – o homem austero, loiro e com roupas pretas, falou.
— Mas, papa...! E quanto ao Weihnachten²?!
— Enquanto não aprender a me respeitar devidamente, você não voltará para casa nem mesmo no Natal – ele lançou um olhar de desprezo para o garotinho.

Petrus assentiu com um aceno, encolhendo um pouco o corpo automaticamente. Aquele olhar geralmente precedia uma surra que o deixaria roxo por dias.

— Vá.

Carregando uma pequena mala de couro, o garoto de sete anos atravessou a rua e cruzou os portões negros sem olhar para trás. Sua mãe e suas irmãs tinham ficado em Dresden e pouco lhe disseram antes de sair de casa; seu pai o odiava sem aparente motivo, mesmo que ele fosse seu herdeiro. Não tinha motivos para olhar para trás e sentir mágoa pela família que sempre o desprezou.


Munique, Alemanha Oriental
31 de agosto de 1953

O barulho que vinha além da porta de madeira fechada fez Petrus esconder rapidamente os pequenos soldadinhos embaixo do travesseiro. Naqueles poucos dias que estava em sua nova casa, ele já tinha entendido que qualquer pertence poderia ser confiscado pelos garotos mais velhos se eles achassem interessante. Com medo de perder seus últimos brinquedos e, talvez, os últimos resquícios da infância, o pequeno garoto jamais mostrava seus pertences remanescentes para qualquer outra pessoa.

Quando a porta se abriu, Petrus estava sentado na cama com as pernas cruzadas em índio e fingindo ler o manual do internato.

— Olá! — uma voz alegre e estridente cumprimentou, sendo seguida por um baque de objetos sendo arremessados para o chão. — Você pode me ajudar?

O garoto de cachos loiros e olhos castanhos que passou pelo batente da porta tinha acabado de arremessar uma mala enorme sobre o piso e carregava, com dificuldade, uma caixa com alguns objetos pessoais. Sem lhe responder verbalmente, Petrus levantou da cama e puxou a mala para próximo à cama do seu futuro colega de quarto.

Se ele desfilou com essa caixa pelos corredores, não vai demorar muito para que os mais velhos apareçam e lhe tirem tudo, Petrus pensou, já prevendo o que aconteceria nos próximos dias.

— Obrigado! — respondeu o outro garoto, depositando sua caixa sobre a escrivaninha que lhe era destinada. — Meu nome é Frantz Valentin Hermann.

O moreno encarou a mão estendida em sua direção com dúvida antes de apertá-la e de se apresentar, mal sabendo que, a partir daquele momento, sua vida mudaria.

— Petrus Ezra Falkenberg.


Munique, Alemanha Ocidental
24 de setembro de 1953

— Eu não sei por que você insiste em enfrentá-los, Frantz — Petrus falou, subindo as escadas que os levariam para a próxima aula de francês.
— Se eu não fizer isso, quem vai te defender?

Petrus parou no meio do lance da escada, entre um misto de descrença e admiração pelo amigo. Mesmo muito menor que os garotos de doze, quinze e dezesseis anos, Frantz sempre se colocava à sua frente quando os outros vinham lhe provocar por causa de sua família. Em lugares pequenos como aquele, onde o nome e o dinheiro eram sinônimos de prestígio e respeito, os Falkenberg eram uma piada.

— Não me lembro de pedir para que você me defendesse — retrucou, terminando de subir os degraus e alcançando o outro.
— Então, da próxima vez, devo deixá-los te espancar apenas por ser filho de um idiota e neto de um traidor?
— Sim — disse, displicente. — Não é nada que eu já não esteja acostumado.


Munique, Alemanha Ocidental
30 de maio de 1954
07:31 a.m.

Naquela manhã de primavera, poucas nuvens habitavam o céu azul e as árvores preenchiam a paisagem com suas copas verdes que balançavam com a brisa suave. O vento quente que anunciava o verão ainda não tinha chegado, mas o frio rigoroso já abandonara a cidade que se mantinha ainda em pedaços.

Fazia duas semanas desde que nenhum dos mais velhos lhe importunava e os dias dentro do internato pareciam estar melhorando à medida que o tempo passava. Petrus constatou que já tinha crescido alguns centímetros quando percebeu que a barra das calças de seu pijama estava nas canelas, fazendo-o pensar que precisaria entrar em contato com a família para solicitar um novo. Ele não havia falado com seus pais ou com suas irmãs desde que seu pai lhe deixara na frente dos portões de ferro, nem mesmo recebera um telegrama nas festas de finais de ano. Então, quando se levantou da cama naquela manhã e foi fazer seu desjejum com Frantz ao seu lado, não se surpreendeu em não ter recebido nada da família.

Afinal, por que eles se incomodariam de lhe mandar uma carta parabenizando-o por mais um ano de vida?


Munique, Alemanha Ocidental
30 de maio de 1954
08:29 p.m.

Sob sua cama estavam espalhados os livros de artes e um caderno de desenho. Petrus terminava o trabalho que valeria a nota final da disciplina com tamanha concentração que não ouviu quando a porta do dormitório fora aberta e fechada. Nem mesmo reparou que, por ela, Frantz tinha entrado com um pequeno dampfnudeln³ decorado com uma vela solitária.

O garoto de cabelos castanhos e olhos verdes apenas notou a presença do amigo quando este colocou o doce dentro do seu campo de visão, nublando-a com a chama da pequena vela.

— Feliz aniversário, Petrus!

Era a primeira vez que alguém lhe dizia aquelas palavras com tanta sinceridade e alegria. Nem mesmo as festas que sua família organizou para celebrar seu dia foram tão impactantes e honestas quanto aquele pequeno gesto de seu amigo e colega de quarto.

— Como você soube? — o moreno perguntou, espantado. Ele não tinha revelado a ninguém que era seu aniversário. — E como você conseguiu isso?!
— Você sabe que tem um mural com os aniversariantes do mês perto do refeitório, não sabe? — Frantz estreitou os olhos, ainda segurando o pequeno bolinho.

Petrus sentiu o rosto corar de vergonha. Nunca tinha reparado em tal coisa, e perguntou-se se o aniversário do amigo já tinha passado e ele sequer reparara.

— Quanto ao dampfnudeln, eu tenho uma boa relação com as cozinheiras — o loiro deu de ombros. — Como você acha que eu consigo comida pra gente quando eles servem aquele mingau horroroso no jantar?

O outro não disse nada, apenas assentiu, ainda completamente sem jeito pelo que estava acontecendo.

— Vai soprar a vela e comer seu bolinho ou não? — Frantz questionou.
— Vou — Petrus, desajeitadamente, pegou o doce com as mãos e fez um pedido antes de assoprar a vela. — Obrigado, Frantz.

O loiro sorriu, satisfeito consigo mesmo por ver o brilho de alegria nos olhos do amigo. Ele precisou ficar devendo uns favores para os garotos mais velhos quando o viram com o doce pelos corredores, mas Petrus não precisava ficar sabendo disso. Assim como ele também não precisava ficar sabendo que Frantz deveria favores para o mundo inteiro se isso significasse ter um sorriso sincero do amigo.


Munique, Alemanha Ocidental
30 de junho de 1960

— Você tem certeza de que não quer ir comigo? — Frantz perguntou, em frente ao espelho do dormitório e ajeitando a boina.

Eles já não eram mais os dois garotinhos desajeitados de sete anos atrás. Com quinze anos, Frantz e Petrus eram dois homens e alunos de respeito dentro do internato. Com o passar do tempo, o loiro foi conquistando seu espaço de valentia por sempre encarar os mais velhos sem medo e, por todas as brigas que tinha se metido e todas as horas que ele se dedicou passando na academia da instituição, seu corpo tornou-se atlético, forte e bem delineado. Os cachos loiros eram a única característica que suavizava seu porte, e fazia muitos outros alunos o compararem com algum deus grego. Na verdade, graças a toda sua masculinidade contrastada com os cabelos dourados, Frantz Hermann tinha ganhado o apelido de Apolo, e, devido à sua vaidade, o garoto adorava ser comparado ao deus do Sol.

Já Petrus Falkenberg, se fosse para ter um apelido de deus grego, seria Hades, uma vez que ele vivia perdido em próprios pensamentos e, quando interagia com os outros, era sempre com comentários irônicos e ferinos. Não que ele tivesse se tornado alguém ruim, longe disso, mas a vida sem qualquer demonstração de amor o endurecera, e sua personalidade tornou-se impiedosa pelo pragmatismo. A única pessoa com quem ele conseguia dialogar sem causar medo e que parecia quebrar todas as suas barreiras era o amigo e companheiro de dormitório. O moreno, não tão alto quanto o outro, também desenvolveu porte atlético, principalmente por ser obrigado pelo pai a entrar no time de boxe da instituição.

O telegrama, exigindo que o filho participasse de mais atividades físicas do que intelectuais, foi o único que ele recebeu de sua família naqueles sete anos.

— Absoluta — respondeu Petrus, sentado no parapeito da janela, observando os alunos deixarem aquela prisão de pedras vermelhas para retornarem aos seus lares para as férias de verão.
— Você sabe que meus pais adoram recebê-lo, por que tanta teimosia?

Frantz virou-se para o amigo, que o encarou, cansado.

Analisando o loiro com a camiseta branca para dentro das calças jeans escuras, um allstar preto e segurando uma jaqueta de couro preta, Petrus não soube o que dizer. Ver Frantz sem o tradicional e rotineiro uniforme, trajando a última moda americana de forma tão descontraída, tirou as palavras de sua boca.

Há semanas que seus pensamentos estavam confusos. Foi em uma aula de cálculo que Petrus percebeu estar encarando por muito tempo a nuca do amigo sentado na classe da frente, e, depois disso, reparou que estava sempre espiando o loiro pelo canto do olho. Pegou-se observando suas pequenas manias e, quando se recolhiam à noite, remexia-se inquieto com as sensações que sentia ao pensar no garoto da cama ao lado.

Como poderia explicar para o melhor amigo que não aceitava seu convite para passar as férias de verão com sua família porque estava com medo de lidar com sentimentos que não entendia?

— Você vai perder o trem — Petrus falou, desviando o assunto, levantando-se da janela e se recostando na porta do seu guarda-roupa.

Frantz revirou os olhos, impaciente e irritado com a fuga do outro.

Há anos que o amava, que o desejava secretamente e que fazia de tudo para vê-lo feliz, e nunca tinha nutrido esperanças de ser correspondido. Desde o primeiro dia que abriu a porta daquele dormitório e encontrou um garoto magricela lendo sobre a cama, Frantz soube que estava ferrado. E, mesmo sabendo que não seria correspondido, ele nunca lutou contra os próprios sentimentos; pelo contrário, os abraçou e cuidou deles como um tesouro. Contudo, qual foi o tamanho de sua surpresa quando reparou nos olhares furtivos ou nos toques disfarçados do amigo que lhe acenderam uma chama de esperança?

Sabia o que o amigo estava passando, a angústia que estava sentindo, porque ele mesmo tinha passado por isso ao longo dos anos até conseguir entender que seus sentimentos não eram errados. Entretanto, ele tinha uma família que o amava e que o acolhia apesar de saberem de sua homossexualidade, ao passo que Petrus não recebia nenhum tipo de afeto da sua ou de qualquer pessoa. Como poderia explicar e convencer o outro de que era certo amar alguém por quem ele era, e não apenas pelo seu sexo biológico? Ele sabia que a cultura tradicionalista, machista e, até mesmo, nazista estava enraizada na família e na criação de Petrus, então de que forma poderia quebrar todos esses tabus e torná-lo livre?

Num lampejo de bravura misturada com indignação, Frantz terminou com a distância que os separavam e segurou o queixo do outro com uma das mãos, enquanto colocava a outra sobre sua cabeça e entrelaçava suas pernas, vendo os olhos verdes do amigo arregalarem-se.

— Estou cansado disso — disse o loiro, antes de grudar os lábios nos dele. Demorou um pouco até que Frantz sentisse Petrus relaxar em seus braços, mas, quando o fez, ele foi capaz de aprofundar o beijo que tanto esperou.

Para o loiro, beijar outro homem não era novidade, muito menos se relacionar sexualmente, mas, ter os lábios de quem tanto amava contra os seus tornava o ato como novo e indescritível. Petrus, em algum momento, apertou sua cintura, puxando-o mais para perto, ao passo que Frantz agarrava sua nuca e explorava sua boca com ferocidade.

Apolo, estamos saindo! – batidas na porta fizeram com que os dois rapazes se separassem rapidamente e se encarassem com incredulidade.
— Já estou indo — gritou Frantz, com os olhos grudados no moreno com a respiração descompassada. — Conversamos sobre isso quando eu voltar.

Sem dizer mais nada, o loiro ajeitou outra vez sua boina, pegou sua mala e saiu do dormitório, não dando chance para que Petrus se recuperasse do que tinha acabado de acontecer.


Munique, Alemanha Ocidental
25 de agosto de 1960

Aquele fora o verão mais quente, longo e conturbado que Petrus encarara desde que fora morar no internato. Em todas as outras férias, ele concentrava-se em algum projeto particular: lia todos os livros de um determinado autor, aprendia novas partituras no piano, explorava algum canto da nova Munique, e tantas outras coisas, mas não nesta última folga. O beijo quente que Frantz lhe dera antes de partir para casa e sumir por dois meses atormentou seus dias e suas noites e rendeu inúmeras páginas de confissões e frustações em seus diários.

Foram dias intermináveis de introspecção, de busca frenética por compreensão de seus sentimentos, e noites inquietantes com sonhos eróticos e proibidos que envolviam o melhor amigo. A sociedade dizia que era errado sentir o que ele sentia por Frantz, mas então por que seu interior gritava em protesto?

— Sabia que te encontraria aqui — a voz do amigo tirou-o dos pensamentos e Petrus observou, com surpresa, o loiro aproximar-se. — Você se esconde nesse terraço sempre que precisa encontrar as respostas que julga serem as corretas.
— Você não deveria voltar só daqui cinco dias?
— Decidi voltar antes — Frantz deu de ombros, com as mãos dentro dos bolsos das calças sociais marrons. Ele usava suspensórios e uma camisa branca abotoada. — Imaginei que tivesse te deixado atordoado.

Pelos anos de amizade e cumplicidade, o loiro o conhecia bem, e Petrus não soube o que lhe responder perante àquela afirmação tão verdadeira.

— Se você continuar com a sua lógica, não vai encontrar as respostas que está buscando — continuou o loiro, parando ao lado do outro. — Seu moralismo familiar vai repreender tudo o que está sentindo, e isso irá te deixar miserável.
— Mas não é certo — declarou Petrus, inseguro de suas palavras.

Frantz ergueu as sobrancelhas e lhe lançou um sorriso divertido.

— De acordo com quem? — retrucou.
— Com todos.
— E quem são eles para dizer o que você deve sentir e de quem você deve gostar?

Outra vez sem palavras, Petrus optou por ficar quieto, caso contrário, diria algo ainda mais tolo do que suas respostas anteriores e poderia causar um atrito entre os dois.

— Foi o que pensei — Frantz concluiu, mantendo o sorriso no rosto.

Em um gesto sutil, o garoto loiro acariciou levemente o braço do moreno, percebendo seus ombros empertigarem e sua respiração pesar. Aproximou-se um pouco mais, pondo-se atrás de Petrus e sussurrou em seu ouvido à medida que tornava a carícia mais sensual.

— O amor não tem barreiras, Petrus, e gostaria de te provar isso.


Munique, Alemanha Ocidental
02 de janeiro de 1961

Para Petrus, aqueles últimos meses foram repletos de afeto, alegria e autoconhecimento. Frantz, aos poucos, convencia-o de que o sentimento e o desejo que tinham um pelo outro transcendia as regras da sociedade em que viviam e que eram o bastante para fazê-los felizes. Encontrou no companheiro de dormitório não mais um amigo, mas um confidente, um professor e o primeiro amor.

Um novo mundo fora apresentado a ele, uma realidade que ia além das regras quadradas da sociedade contemporânea, e, quando notou, Petrus estava mais leve, descontraído e amável. Era amado e amava em retorno, não havia desejo mais profundo que este em seu coração, e a vida o tinha concedido isso.

Entretanto, Frantz não reapareceu no jantar de boas-vindas aos alunos que retornavam de suas casas após as festas de final de ano. E, quando Petrus questionou os outros com quem o amigo costumava viajar, todos desconversavam e se afastavam receosos. Preocupado com o que poderia ter acontecido, o moreno retornou para o dormitório após a refeição apenas para encontrar o lado de Frantz totalmente vazio.

Demorou três semanas para que ele obtivesse alguma resposta do que tinha acontecido.

A irmã mais nova de Frantz, Sofie, finalmente respondera ao seu telegrama.

“Querido Petrus, como vai?
Estou lhe escrevendo às escondidas e peço que perdoe minha demora, pois Frantz tornou-se assunto proibido nesta casa desde o Natal. Entretanto, por saber do amor que meu querido irmão nutria por você, abstenho-me de ficar quieta e de lhe deixar sem explicações.
Frantz foi denunciado por suas transgressões (que palavra odiosa, não?) pelo diretor do internato. As autoridades bateram em nossa porta dois dias antes do Natal e o levaram. Meu pai tentou usar sua influência para livrá-lo da pena, mas nem o nosso nome, nem a nossa fortuna foram capazes de salvá-lo do fuzilamento. Recebemos a notícia oficial durante o dia de Natal. Creio que não preciso explicar o que essa situação fez com minha família.
Nós sempre soubemos das inclinações sexuais de Frantz, e meu pai o alertava constantemente para ter discrição, já que o amava demais para se importar com quem o filho se relacionava. Portanto, quando meu irmão nos contou que seus sentimentos eram retribuídos, mesmo com receio, nossa família estava em paz por vê-lo feliz. Foi dilacerante o tirarem de nós apenas porque ele amava outro homem.
Antes de partir, carregado pelos oficiais, Frantz gritou pedindo que nós lhe transmitíssemos os seus sentimentos. A última coisa que ouvi de meu irmão foi: “diga a ele que o amo, diga a ele para ser feliz.”. Depois disso, sua voz e sua risada ficam presas em nossas memórias e se transformam em lágrimas.
Por favor, honre o último pedido de meu irmão e seja feliz, Petrus. Vou além e ouso pedir um desejo meu: não se esqueça dele e da história que compartilharam juntos.
Com amor, sua eterna amiga,
Sofie Hermann”



Dresden, Alemanha Oriental
01 de julho de 1963

A mansão de dois andares e vitrais outrora reluzentes parecia menor e menos imponente do que ele se lembrava. O jardim, antes repleto de flores, não passava de um gramado seco e sem atrativos, enquanto a fachada da casa onde nascera mostrava sinais de deterioração e falta de cuidados.

Odiava estar de volta àquele lugar e, mais do que isso, odiava ter que voltar a conviver com aquelas pessoas. Dez anos longe deles não foram o suficiente para apaziguar a raiva que tinha de sua família e o que ela representava na sociedade. Pelo contrário, depois de passar tanto tempo convivendo com outras pessoas, outra cultura e se autoconhecendo, a repulsa que sentia pelos seus apenas cresceu.

Depois da morte injusta de Frantz, Petrus reviveu o apelido de Hades dentro do internato. Qualquer rapaz que tentavam colocar em seu dormitório, não sobrevivia quatro noites ali dentro antes de pedir para ser transferido para outro quarto. O garoto moreno, revoltado com a instituição e com as regras do mundo, terminou os estudos com louvor, mas honrou a fama do deus grego do submundo e fez daqueles últimos anos um inferno para todos. Ninguém ousava se aproximar e, os que tentaram enfrentá-lo, apenas sofriam física e mentalmente. Finalmente ele tinha achado um motivo para apreciar as aulas de boxe, e, ao final da formação, ele se tornara mais um valentão moldado pelas injustiças da vida.

De alguma forma, a fama impetuosa que recebera agradou seu pai. Anos atrás ele tinha deixado um garotinho medroso, tímido e inteligente demais para o próprio bem na frente de portões de ferro. Agora, o mesmo homem que o desdenhara, o esperava de braços abertos com um sorriso largo, feliz e orgulhoso por estar recebendo de volta um filho com olhos frios e de genialidade calculista.

— Deixei um maricas e ganhei um guerreiro — disse o senhor loiro, ainda austero e severo para causar medo em qualquer um, menos no garoto de dezoito anos. — Fiz bem em te colocar naquele internato e te deixar tanto tempo afastado.
— Sim, senhor — respondeu o jovem, evitando encarar o mais velho.
— E aprendeu a ter respeito também! — o mais velho o abraçou pelos ombros, para em seguida arrastá-lo para dentro da mansão. — Estou ansioso para que me mostre o que aprendeu e que me prove o porquê de ser meu herdeiro.

Petrus respirou fundo, assentindo em concordância e seguindo o homem que detestava.

Um mês morando com sua família foi o suficiente para que Petrus entendesse que não poderia continuar ali, que não queria pertencer àquele lugar. A mãe continuava submissa e mais alcoólatra do que nunca; as irmãs, mesmo casadas, eram fúteis e seguiam o mesmo comportamento da matriarca; o pai, severo, adúltero, violento, dono da razão, mantinha até mesmo os genros sob controle. O único que ele não conseguia controlar era o filho que, a cada dia que passava, horrorizava-se com os negócios da família e ressentia-se com o pensamento retrógrado e errado de todos eles.

Embora pertencessem à Alemanha Oriental da União Soviética, os Falkenberg viviam em um regime de regalias. Os avós de Petrus, assim como a maioria daquela geração alemã, foram nazistas. Seu avô paterno, em particular, fora um oficial de alta patente do governo de Hitler, mas, nem mesmo o cargo elevado, o impediu de trair o próprio país e repassar informações para a URSS quando previu a derrota alemã na guerra. Suas informações foram valiosas a ponto de garantirem mordomias para ele e para a família dentro do regime socialista, e, por isso, seu pai, Heinz Petrus Falkenberg fora criado para acreditar na supremacia alemã e na ideia de que, se fosse esperto o suficiente, poderia se sair bem em qualquer situação.

Ao final daquele mês de julho, Petrus tinha conseguido entrar em contato com algumas pessoas clandestinamente e preparava-se para partir e abandonar, de uma vez por todas, aquela vida e aquela família odiosa.


Oxford, Inglaterra
28 de abril de 1965

— O seu currículo é impressionante, sr. Hermann.

O rapaz de quase dezenove anos, com cabelos acastanhados compridos até a nuca e incríveis olhos verdes que se escondiam atrás de óculos de garrafa, encarou o senhor grisalho à sua frente com um sorriso agradecido.
— O sr. Williams explicou-me suas verdadeiras origens e, com naturalidade, compreendo os motivos para buscar refúgio em nosso país — continuou o senhor. — Devo alertá-lo de que, se continuar com essa inscrição em nossa Universidade, Petrus Falkenberg estará morto para sempre. Tem certeza de que é isso que deseja?
— Sim, senhor — respondeu o jovem, que, há pouco mais de um mês, desembarcara na cidade portuária de Newquay em busca de recomeço.

O senhor de idade o estudou por alguns segundos antes de dar sua sentença.

— Sendo assim, já que o senhor fez tudo através de canais oficiais do nosso governo, combatendo a ideologia socialista e renunciando suas raízes alemãs, dou-lhe às boas-vindas à Escola de Medicina da Universidade de Oxford, sr. Ezra Hermann.


Boston, Massachussets, EUA
10 de junho de 1973

Os olhos verdes observavam o ambiente que o cercava como se estivesse analisando um campo de batalha. Mesmo que o parque transpirasse a primavera, aquela área exclusiva para xadrezistas encontrava-se tensa pela concentração de seus habitantes. Alguns jogavam, outros observavam as partidas com real interesse, enquanto poucos cruzavam aqueles tabuleiros com pressa para não serem convidados para um jogo.
— Você é novo por aqui.

Ezra desviou o olhar dos xadrezistas para o homem que parara ao seu lado. Ele tinha os cabelos escuros cortados como a moda da época, compridos até a nuca e com uma franja lateral, e usava calças boca de sino xadrez e uma camisa social roxa.

— Sim — respondeu Ezra com sua típica frieza alemã.
— Você joga? — perguntou o homem, depois de ficarem alguns minutos lado a lado em silêncio.
— Sim.
— Quer jogar? — sua entonação divertida foi respondida com um brilho desconfiado nos orbes verdes.
— Sim.

O outro riu da resposta, caminhando descontraído até uma mesa desocupada e sentando-se, esperando que Ezra imitasse seu gesto para começarem a partida. Diferente do americano, Hermann caminhou arisco até o outro. Mesmo que estivesse em solo americano há três anos, ainda não havia se acostumado com a falta de formalidade que os nativos tinham, tão contraditórios aos britânicos.

— A propósito, meu nome é Peter Poltz — ele estendeu a mão sobre o tabuleiro.
— Ezra Hermann — respondeu o cumprimento, sentando-se no lado das peças brancas.
— Como você é novo por aqui, decidi deixá-lo começar — ele riu. — Mas não se acostume com isso.

Ezra apenas ergueu uma sobrancelha, as írises esmeraldas sagazes como nunca o alertavam que algo estava acontecendo ali.


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Eles já estavam há quatro horas sobre aquele tabuleiro e um número considerável de telespectadores se reuniam ao redor para observar a partida interminável. Era a primeira vez em seus vinte e sete anos de vida que Ezra encontrara um oponente à altura.

— Devemos declarar empate por afogamento4 — Peter perguntou, observando com cautela o outro.
— Creio que sim — Ezra respondeu, recostando-se no encosto do banco e cruzando os braços.

As pessoas em volta da mesa remexeram-se inquietas. Era a primeira vez que viam Peter empatar com alguém, e olhavam com fascínio o desconhecido que tinha sido capaz de enfrentá-lo com maestria.

A troca de olhares entre os dois homens não somente despertou em Ezra a vontade de conviver com outras pessoas novamente, como também as velhas sensações que estavam lacradas por mais de uma década.


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— Vai estar de plantão na noite de quinta-feira?

Peter e Ezra caminhavam lado a lado pelo Norman Park após outra tarde jogando xadrez sem obterem um resultado diferente que o da primeira vez. Tornaram-se adversários constantes durante o passar do ano, e bons amigos à medida que as estações trocavam.

— Não. A não ser que troquem a escala. Por quê?
— Estreou um filme novo do Clint Eastwood semana passada, estou procurando companhia para ir assistir.
— Eu poderia considerar a oferta se fosse para assistir ao novo do James Bond, mas um filme de faroeste, Peter?
— Por que ver um britânico atirando nos outros e conquistando as mulheres com apenas um olhar é melhor do que um pistoleiro defendendo uma cidade de bandidos? — seu tom irônico causou desconforto no médico.
— Está bem, mas você paga os ingressos — retrucou Ezra, dando-se por vencido.
— Cada um paga o seu, ainda não estou te chamando para um encontro.

O residente em neurocirurgia do Massachusetts General Hospital parou de caminhar, estarrecido pelo que tinha acabado de ouvir. Há quanto tempo ele sabia de seu segredo? Em suas conversas ao longo dos meses, tudo o que Ezra tinha revelado a ele era que deixara com facilidade sua antiga identidade numa Alemanha decadente e resolvera recomeçar em outro país. Eles falaram de suas profissões também, e o médico encontrou no adversário de xadrez, um professor de história extremamente crítico com a sociedade e ativista em todas as causas da época em que viviam. Todavia, lembrava-se muito bem de que sempre escondera sua homossexualidade. Não por vergonha, mas porque permitir-se a ela revivia Frantz, e pensar no primeiro amor ainda lhe era dolorido demais.

— Oras, não fique tão surpreso por eu saber sobre você — Peter virou-se, rindo. — Sei que é gay desde o primeiro momento em que te vi.
— Como?

O professor deu de ombros, aproximando-se do médico e parando a poucos centímetros dele.

— Apenas sei — disse com naturalidade, ao mesmo tempo que seus lábios se alargavam em um sorriso travesso. — Quando eu resolver te chamar para um encontro, você saberá.

Peter olhou para os lados, certificando-se que ninguém os observava, ainda mais pelo parque estar deserto naquele início de noite fria e escura, e roubou um beijo rápido de Ezra, antes de se afastar rindo como se não tivesse acabado de fazer algo que poderia colocá-los atrás das grades.

— Te espero na frente do AMC Loews, quinta-feira, às seis horas — falou, afastando-se como se nada tivesse acontecido.


Boston, Massachussets, EUA
05 de dezembro de 1973

— Você vai passar o Natal trabalhando?

Peter caminhava com as mãos dentro do casaco de lã, que combinava com as calças tweed do mesmo tecido e da mesma cor. Em um dos braços, seu sobretudo de lã preto estava pendurado.

—Vou — Ezra respondeu, admirando a tela de algum pintor que não conhecia.
— Por livre e espontânea vontade? — Peter insistiu, evitando chamar atenção de outras pessoas que se encontravam na mesma sessão que eles do Museu de Belas Artes de Boston.
— Sim.
— Por quê?!

Ezra parou de fingir prestar atenção na obra à sua frente e encarou o amigo com olhos cansados. Esse período do ano sempre era difícil para ele, e, por isso, ocupava a época das festividades com trabalho excessivo. O Natal fazia-o relembrar a morte de Frantz, e, com isso, a culpa de que se não tivesse correspondido aos seus sentimentos, o outro ainda poderia estar vivo.

— Não gosto dessas festividades — respondeu, dando de ombros e caminhando para o próximo quadro.
— Mentira — retrucou Peter. — Ninguém não gosta do Natal. Do Ano Novo eu até entendo, mas do Natal?!
— Peter, você me contou que cresceu numa família harmoniosa, certo? — Peter concordou, e Ezra continuou: — Imagino que suas festividades eram repletas de músicas natalinas, risadas cúmplices, comidas deliciosas e troca de presentes. Sem contar a neve que deixa tudo mais mágico. Estou errado?
— Não...
— Agora imagine não ter nenhuma dessas lembranças. Fez isso? — o outro concordou novamente. — Substitua esses momentos alegres por uma família fria e rígida, e depois por anos de festividades em um internato sem sequer um cartão de Natal.
— Ezra...
— Ainda não terminei — o alemão naturalizado britânico ergueu a mão, interrompendo o outro de continuar. — Por fim, imagine ter um motivo para celebrar o Natal com felicidade, mas então ter essa mesma razão tirada de forma violenta no dia do nascimento de Cristo. E, então imagine descobrir isso por uma carta.
— Não fazia ideia.
— Claro que não, eu nunca te contei — ele deu de ombros. — Mas talvez agora você consiga compreender meus motivos por não celebrar essas datas.


Boston, Massachussets, EUA
24 de dezembro de 1973

— Dr. Hermann, há um homem procurando pelo senhor na recepção.

Ezra tirou os olhos do recém lançado Postern of Fate5, de Agatha Christie, e xingou mentalmente a pessoa que o tiraria daquele conforto. Como sempre, a véspera do dia de Natal era tranquila, e ele sempre aproveitava as horas vagas lendo alguma obra da rainha do crime. Os problemas sempre apareciam durante a madrugada, quando todos já estavam bêbados o suficiente para começarem a fazer loucuras.

Ele levantou-se da cama onde estava sentado e recolocou os sapatos confortáveis, assim como o jaleco sobre o pijama cirúrgico. Quem quer que fosse era um tremendo imbecil por tirá-lo de suas horas de sossego. Entretanto, sua carranca logo se desfez ao reconhecer Peter parado no saguão do hospital, aparentando certo desconforto ao segurar uma cesta nas mãos.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou, aproximando-se.
— Já que você não vai até as festividades natalinas, resolvi trazê-las até você — respondeu com um sorriso largo.

Foi a vez de Hermann se sentir desconfortável, porque podia sentir os olhares curiosos das outras pessoas sobre os dois. Sem jeito, autorizou a passagem do outro e caminhou rapidamente até o refeitório reservado aos médicos. Àquele horário, o ambiente encontrava-se vazio, o que fez o médico suspirar um pouco mais tranquilo. A última coisa de que precisava era de boatos a seu respeito.

— Fique tranquilo, não vou te beijar de novo, ainda mais no seu ambiente de trabalho — Peter brincou, parado atrás dele.
— Você fala e faz coisas que me desnorteiam — confessou Ezra, sentando-se em uma mesa e sendo seguido pelo outro.
— Espero que de uma forma boa.
— Ainda não sei dizer — respondeu, sincero.

Peter não deixou transparecer a mágoa em seu olhar. Sentou-se em frente ao outro com o mesmo sorriso, como se suas palavras honestas não o tivessem machucado um pouco. Afinal, ali estava ele, um professor de história bem-conceituado na Universidade de Boston, consciente das suas escolhas e muito satisfeito com sua bissexualidade, correndo atrás da atenção de alguém que não estava pronto para aceitar os seus próprios sentimentos. Em sua mente, soava patético um homem tão resolvido consigo mesmo querer alguém receoso, inexperiente e pouco verdadeiro com seus desejos.

— Quem sabe, com o tempo, você encontre a resposta — Peter deu de ombros e começou a abrir a cesta.


Boston, Massachussets, EUA
31 de dezembro de 1974

— Ansioso para o último ano de residência? — Peter perguntou, observando as pessoas que dançavam na sala de estar de um de seus amigos.

Com muito trabalho, ele tinha conseguido convencer Ezra a sair do hospital em algum dos dias marcantes das festividades, e, mesmo que o Natal anterior fosse uma nova lembrança boa na mente do alemão, ele ainda não estava pronto para abrir mão da dor e da culpa. Por isso, quando montaram a escala de plantões, ele pediu a noite da virada para si. Comemorar o Ano Novo ao lado de Peter parecia uma boa escolha.

— Bastante. E você? — perguntou Ezra, bebericando a cerveja em seu copo de plástico. — Alguma resposta sobre a proposta de emprego que queria?

A relação dos dois havia evoluído um pouco com o decorrer daquele ano. Peter tinha ousado algumas vezes, segurando sua mão quando iam ao cinema ou lhe roubado alguns beijos em eventos undergrounds, mas jamais o chamara para um encontro definitivo, ou lhe dissera palavras mais sérias. Para Ezra, o outro parecia estar se divertindo às suas custas, e isso o enfurecia todas as vezes que trocavam carícias, ao mesmo tempo que ansiava por cada uma delas.

Semanas atrás, antes de se atracarem no banheiro de um pub, Peter tinha revelado a Ezra que enviara seu currículo para uma grande instituição depois de saber que a vaga para professor de história, especializado em história ameríndia, estava aberta e que ele esperava ansioso ser contratado. Desde então, ele não tinha tocado mais no assunto e Ezra, sedento pelas sensações que estava experimentando outra vez em sua vida, não entrou em detalhes.

— Sim, recebi a carta de aceite semana passada — Peter sorriu, orgulhoso de si mesmo. — Me mudo para Austin depois de amanhã.

Ezra parou o movimento no meio, deixando o copo a poucos centímetros da boca, e olhou chocado para o outro homem. Ele tinha acabado de dizer que se mudaria para Austin, para o outro lado do país, como quem diz que comprou meias novas. Como se não fosse algo drástico que mudaria a vida de ambos.

— Como? — o médico perguntou, talvez tivesse ouvido errado.
— Isso mesmo que você ouviu, Ez — ele tomou um gole de seu vinho antes de continuar. — A Universidade do Texas adorou meu currículo. Eles fizeram uma proposta irrecusável e eu me mudarei para Austin em dois dias.

Um misto de sentimentos prevaleceu dentro de Ezra, mas o único que ele conseguiu identificar naquele momento foi o de traição.

— Como pode ter decidido algo assim sem me consultar?

Peter ergueu as sobrancelhas, surpreso. O professor sabia que o médico não ficaria contente com a notícia, mas não esperava que ele reagisse daquela forma, deixando subentendido de que tinham uma relação mais sólida do que eventuais carícias. Durante todo aquele ano em que passaram juntos, o historiador esperou por iniciativas, por alguma palavra de que pudesse ser correspondido, mas Ezra nunca correspondera às suas expectativas, mantinha-se sempre fechado nos próprios sentimentos e afastava-se todas as vezes em que estavam em público e Peter ousava uma aproximação. Ver seus olhos verdes transbordando sentimentos era algo novo para o professor, e, por frações de segundos, arrependeu-se da escolha que tinha feito.

— Esquece — Ezra continuou sem esperar por uma explicação. — Eu deveria saber que não passei de um brinquedo para você.

Peter, com perplexidade, o viu se afastar e sair da casa sem lhe dar tempo de reagir. Quando percebeu que precisava ir atrás dele, o médico já estava a meia quadra de distância, e, com toda aquela neve na calçada, ele precisou de toda a sua coordenação motora para não cair e conseguir alcançá-lo.

— Ezra — disse, puxando o braço do outro e o fazendo parar de andar. — Você nunca foi um brinquedo para mim.
— Está dizendo isso apenas para que eu me sinta melhor e não te odeie pela escolha que fez.
— Eu amo você — Peter confessou, encarando as írises verdes que assombravam sua mente. — Mas você não está pronto para me amar — quando fez menção de que ia tocar seu rosto, Ezra afastou-se e inconscientemente olhou para os lados, querendo ver se alguém os observava. — Vê?

Ezra voltou sua atenção para Peter, que agora não mais o segurava e o olhava com mágoa. O sorriso singelo em seu rosto transmitia um ressentimento que o neurocirurgião odiou saber que causava nele.

— Você ainda se afasta do meu toque quando estamos em público, apresenta-me como um amigo quando questionam nosso tipo de relação — explicou Peter, colocando para fora, pela primeira vez, as dores que carregava dentro de si. — Ainda guarda segredos em seu peito e sofre por alguém que já partiu. Não minimizo o seu amor por ele, mas estou cansado de demonstrar afeto por alguém que vive no passado.
— Peter, eu nunca quis...
— Me magoar, eu sei — interrompeu. — Mas o fez mesmo assim — ele respirou fundo, pensando bem nas próximas palavras que diria. — Eu te amo, Ezra Hermann, e vou continuar te amando mesmo que nossos caminhos nunca mais se cruzem.
— Peter, não vá embora — Ezra suplicou, finalmente dando-se conta do que sentia pelo outro. — Por favor, não me deixe agora.
— Já fiz a minha escolha, Ez.
— Eu amo você — confessou, dizendo palavras que o assustavam, mas que também o libertavam. – Eu amo você, Peter, então, não vá.

Peter sorriu singelo outra vez e apertou o papel que estava em seu bolso. Há meses queria ouvir aquelas palavras, e, quando tinha seu desejo realizado, eram em circunstâncias que o faziam duvidar da veracidade delas.

— Quando você estiver pronto para amar de verdade, Ezra, este será o meu endereço em Austin — disse, criando coragem e estendendo o papel para o outro. — Vou esperar por você lá.

Foi a vez de Peter sair de perto sem dar a oportunidade para o outro responder, mas, diferente do que ele tinha feito, Ezra não o seguiu, nem mesmo o procurou no dia seguinte e no próximo. O médico não o procurou pelas próximas semanas. E, somente depois de dois meses, Ezra criou coragem e escreveu uma carta tola, mas sincera, para a pessoa que mais fazia falta em sua vida.


Austin, Texas, EUA
23 de fevereiro de 1976

Peter esfregou os olhos e caminhou com passos arrastados até a porta do apartamento alugado, torcendo para que não fosse, outra vez, a vizinha da frente oferecendo-se a ele depois de umas garrafas de vodca com as amigas. Antes de abrir a porta, fechou melhor o roupão sobre o pijama marrom e deu leves tapas nas bochechas, querendo afastar o sono que o dominava.

Entretanto, qualquer resquício de sonolência em seu corpo acabou no momento que abriu uma fresta da porta e encontrou um homem de cabelos morenos e brilhantes olhos verdes parado em sua soleira, segurando apenas uma pequena mala e uma jaqueta jeans.

— Ezra? — perguntou, atônito, e esfregou os olhos, apenas para averiguar de que o médico não era uma miragem.
— Vai me convidar para entrar?

Ainda sem jeito e sem acreditar no que estava acontecendo, Peter abriu por completo a porta e liberou a passagem para ele. Fechou-a após vê-lo parado no meio de sua pequena sala, observando cada detalhe do minúsculo apartamento.

— Desculpe, mas o que você está fazendo aqui?

Ezra colocou a mala no chão, atirando a jaqueta sobre ela, e girou o corpo, finalmente encarando-o. Céus, tinha sentido falta dele. Cada dia que passou em Boston sem a companhia de Peter fora excruciante, e em nenhum deles deixou de pensar que deveria ter insistido mais. Aguentou aquele último ano de residência porque sabia que, ao final dele, voaria para Austin e resolveria as coisas entre os dois. Vendo-o neste momento, sonolento por ter sido acordado no meio da noite, seu peito encheu-se de carinho e, sem pensar, quebrou a distância que os separavam e segurou seu rosto, beijando-o sem pedir permissão e tentando transmitir toda a falta que tinha sentido dele.


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Ezra era mais alto e mais largo que Peter, mas nem por isso deixou-se de ser abraçado pelas costas, colando o peito nu do parceiro em seu dorso.

— Não achei que minha noite terminaria assim — Peter disse divertido, mordiscando o lóbulo de sua orelha e causando arrepios em Ezra, que dedilhava sua coxa, extasiado com o que tinham feito. — Na verdade, nunca achei que viria.

O médico afastou um pouco o tronco e virou o rosto em direção ao outro, observando de perto a barba rala por fazer e as olheiras cansadas. Outra vez, sem esperar permissão, ele o beijou, sugando seus lábios com delicadeza e querendo guardar aquele momento.

— Você me deu algo que jamais pensei sentir, Peter — Ezra soprou entre o beijo. — Não podia perder a chance de te dizer novamente que te amo.

Peter sorriu radiante, beijando-o com urgência e descendo a mão para tocá-lo, outra vez, daquela forma amorosa que apenas uma outra pessoa o tinha feito.


♟️♟️♟️


— Aonde você vai? – Peter perguntou, ainda sonolento, observando Ezra levantar-se da cama e escolher algumas roupas em sua mala.
— Trabalhar — respondeu o outro, simplesmente.
— Você já conseguiu emprego aqui? — sentou-se, confuso, observando cada movimento do amado, e apenas ficou mais confuso quando o viu assentir com a cabeça. — Como?
— Meu currículo é impecável, você sabe — respondeu, brincalhão. — E, depois da entrevista de ontem, disseram que eu poderia começar hoje mesmo.
— Espera, como assim? Você fez uma entrevista ontem? Onde?
— Sim... — Ezra sentou-se, ainda nu, em frente ao outro, com divertimento nos olhos. — Cheguei ontem de tarde, fiz a entrevista à noite no St. David’s Surgical Hospital, expliquei meus motivos para me candidatar para a vaga e hoje começo lá.
— No St. Davids?! — Peter encarou-o, surpreso. — E quais motivos você deu a eles?
— Oras, apenas disse que o homem da minha vida morava em Austin, e que eu estava vindo reconquistá-lo.

Se as palavras pronunciadas não foram o bastante para abalar Peter, o tom natural com que elas saíram da boca dele foram. Ezra riu, beijando-lhe os lábios antes de se levantar e seguir rumo ao banheiro.

— E eles aceitaram você mesmo assim?!
— Deixei claro que, se não o fizessem, ia procurar outro hospital que se beneficiaria com as minhas habilidades sem se importar com a minha homossexualidade — Ezra disse, de dentro do banheiro da suíte. — Não ficaram muito contentes, mas como eu disse, meu currículo é realmente impecável.


Austin, TX, EUA
10 de junho de 1976

— Vamos nos casar — Ezra declarou de supetão, fazendo com que Peter o olhasse sobre o livro com as sobrancelhas erguidas em completa descrença. — Estou falando sério. Um casal de Minnesota pediu autorização para as autoridades em 1971.
— E como foi o desenrolar do processo? — Peter questionou, irônico.
— Acho que não foi para frente, mas, mesmo assim, podemos tentar.
— E, no meio disso, arriscar nossas posições na universidade e no hospital?
— Quem se importa com isso, Peter? — Ezra aproximou-se, tirando o livro das mãos do parceiro e agachando-se a sua frente.
— Eu me importo — retrucou, sério. — Não esqueça que estamos em um estado tradicionalista, republicano e que odeia mudanças progressistas. Quero continuar usufruindo do que estamos conquistando aqui.
— Quem ouve esse discurso sem te conhecer, vai pensar que você é um conservador — respondeu com mágoa.
— Ez... — Peter levantou o rosto do namorado, encarando-o com carinho. — Não quis magoar você, mas essa sua ideia é absurda e abrupta. De onde ela surgiu?

Ezra afastou a mão dele, levantando-se e inclinando-se sobre a poltrona em que Peter estava sentado, apoiando cada mão em cada braço da poltrona, cercando-o.

— Perdi tempo demais em minha vida negando os meus sentimentos — explicou. — Perdi você por um ano porque fui um covarde em reconhecer o que tínhamos. Não quero que isso se repita e quero dizer a todos que você é o meu companheiro.

Um ano separados tinha quebrado o gelo ao redor do coração do neurocirurgião. Todos aqueles meses longe um do outro foram o suficiente para que ele entendesse que a vida era curta demais para se apegar a preconceitos, regras e imposições da sociedade. Todos os traumas que ele via em sua profissão o alertaram para a brevidade da existência, e ele não queria terminar a sua sem nem mesmo ter começado, de fato, a viver. E Peter percebeu essa mudança nele. O professor de história viu seu amor por ele crescer ainda mais quando conheceu a verdadeira personalidade daquele doce e irônico europeu. Ainda assim, ficava surpreso e honrado quando o companheiro tinha esses rompantes afetivos e declarava seu amor sem se preocupar com mais nada.

— Podemos fazer uma cerimônia simbólica com os nossos amigos — sugeriu Peter, acariciando o rosto do namorado. — Trocar votos e alianças. Não terá valor civil, mas significará o mundo para nós.


Austin, TX, EUA
16 de dezembro de 2000

— Ez, preste atenção — Peter disse, segurando a mão no neurocirurgião antes de o levarem para a sala de cirurgia. — Nós não tivemos um filho juntos e me arrependo por isso. Sempre focamos em nossas carreiras e em mudar o mundo que esquecemos de nos dedicar a algo tão importante — ele arfou, desconfortável por falar demais.
— Peter, guarde suas energias — Ezra disse, próximo ao marido. — Podemos falar sobre isso quando você sair da cirurgia.

O professor, já com alguns fios brancos na cabeleira lisa, balançou a cabeça em negação.

— Não vou conseguir mudar isso, Ez. Não tenho mais tempo. Mas você tem.
— Não diga uma coisa dessas.
— Ezra, você irá realizar esse meu último desejo — disse categórico, embora com dificuldade. — Irei te observar lá de cima. Fique atento aos sinais, porque essa criança irá aparecer em sua vida e, quando ela chegar, você irá experimentar um novo tipo de amor.
— Peter, não fale como se estivéssemos nos despedindo — os olhos verdes que, dificilmente choravam, agora estavam marejados com a tristeza das palavras proferidas pelo amor de sua vida.
— Não tenha medo de amar essa criança, Ezra — Peter acariciou o rosto do companheiro antes que os técnicos aparecessem para levá-lo para o bloco. — Ela vai mudar a sua vida, assim como você mudou a minha.


Austin, TX, EUA
02 de agosto de 2010

Em uma das portas de consultórios do décimo terceiro andar, piso restrito à especialidade de neurocirurgia do St. David’s Surgical Hospital, lia-se:

Ezra Hermann, M.D., Dr., PhD. Neurocirurgião
Especialista em neoplasias do Sistema Nervoso Central
Especialista em neurocirurgia pediátrica
Chefe do Serviço de Neurocirurgia do St. David’s Surginal Hospital

E, além da porta de madeira com a placa de chumbo tão intimidadora, um senhor de sessenta e quatro anos, cabelos grisalhos, olhos verdes como esmeraldas e com linhas de expressão e olheiras marcando o rosto estava sentado em sua cadeira, analisando o currículo sobre sua mesa.

A garota estava séria na foto 3x4 que encabeçava sua ficha de identificação e, mesmo assim, parecia mais jovem para alguém que alegava ter vinte e três anos. Ela tinha gabaritado a prova de seleção para aquele intercâmbio imposto pelo hospital, mas não fora a única a fazê-lo. Além dela, um parisiense e um londrino haviam acertado todas as questões teóricas. Todavia, ela era a única que tinha lhe chamado a atenção. Assim como o dela, o currículo dos outros dois candidatos eram impecáveis, até um pouco melhores por terem fluência em mais idiomas e estudarem em instituições mais renomadas que a dela, mas nada disso o impressionava.

Leu o nome da brasileira outra vez e o recitou em voz alta após acrescentar o adjetivo neurocirurgiã. Soava bem. Uma jovem corajosa, vindo de uma instituição irrelevante se comparada à dos outros candidatos, achava-se boa o suficiente para entrar no mundo machista da neurocirurgia e conquistar seu espaço. De fato, ele encarava o currículo de uma estudante valente.

Por que não apostar suas fichas nela? A sociedade médica americana estava precisando de alguém que quebrasse os velhos preconceitos e trouxesse novas perspectivas. Por que não dar uma chance para a brasileira atrevida e, com isso, iniciar uma revolução naquele círculo tão fechado?

A fotografia do retrato em sua mesa captou sua atenção, e, ao observar o companheiro de vida já falecido, riu com escárnio. Peter teria amado iniciar uma revolta na neurocirurgia americana, e seria o primeiro a lhe incentivar a aceitar a jovem.

— Esse é um dos sinais de que me alertou, Peter?
¹ Praktikantenschule significa colégio interno em alemão. A instituição nomeada não existe na realidade.
² Weihnachten significa Natal em alemão.
³ Dampfnudeln são bolinhos assados no forno e cozidos na panela com leite, podendo ser servidos recheados com compotas de frutas ou creme de baunilha.
4 Empate por afogamento ou Rei Afogado é uma situação em que o xadrezista tem a vez de jogar, não está em xeque, mas não tem movimentos válidos.
5 No Brasil, o título do livro é Portal do Destino, e foi o último romance que Agatha Christie escreveu.


Por hora, fim.



Nota da autora: Antes de tudo, quero pedir desculpas se alguém se ofendeu com algo que escrevi nessa oneshot. Eu nunca tinha escrito um enredo que abordasse a homossexualidade e a identidade de gêneros, então, se, de alguma forma, soei preconceituosa e causei mal estar com minhas palavras, peço mil perdões. Jamais tive a intenção de magoar alguém. 🙏🏼

Dito isso, explico que o enredo contando a história do Ezra apareceu quando eu menos esperei, e, antes que eu esquecesse de tudo o que minha mente tinha pensado em questão de minutos, escrevi no bloco de notas do celular o que eu queria compartilhar com vocês. Ezra Hermann sempre foi o meu personagem favorito de Sinapse e, depois do capítulo que revelei sua homossexualidade, fiquei com a sensação de que precisava falar mais sobre ele e sobre tudo o que ele passou. Escrever sobre ele me dá um enorme prazer porque ele representa todas aquelas pessoas que vencem na vida apesar das adversidades, que continuaram lutando e acreditando num mundo melhor, que se esforçam para tornar a nossa sociedade mais justa e unida. Ainda assim, ele tem defeitos, não é perfeito, mas procurou sempre evoluir.

Eu espero do fundo do coração que vocês tenham gostado dessa oneshot, já que cada palavra que coloquei aqui foi com muito carinho. ❤️ Vejo vocês nas minhas outras histórias pelo site, e, quem quiser me deixar um comentário, ficarei muito feliz. Um beijo e até a próxima. 🍀


Outras Fanfics:
Sinapse [Atores - Em Andamento]
Our First Halloween, spin-off de Sinapse [Atores - Finalizada]
Em Cada Extremo, Nós [Restrita - Originais]


Nota da beta: Meu Deusss que preciosidade essa história, que achado!! Que talento incrível pra escrita, tô admirada. Acho que Sinapse acaba de ganhar mais uma leitora :3


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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