Última atualização: 28/10/2018
Contador:

CAPÍTULO UM

?
Ouvir o meu nome me fez lembrar que estava viva. Uma lembrança dolorosa de que eu ainda estava viva. Minha cabeça latejou como se alguém estivesse constantemente martelando meu crânio, enquanto o cérebro parecia expandir-se, esmagando a si mesmo. Meu corpo parecia feito de pedra, cada membro pesava uma tonelada.
! — Com lentidão e pesar, me obriguei a abrir os olhos e vi uma parte do corpo do tio Mason ao lado da cama. O resto estava escondido atrás do travesseiro, que sugava minha cabeça. — Por Deus! Você está bem? — Sua expressão estava retorcida numa mistura de preocupação e curiosidade.
Demorei mais de um segundo para me situar, primeiramente como tio Mason estava ali e principalmente onde seria ali.
? — Senti um cutucão em minhas costas, enquanto o rosto do meu tio mudava de tom, para algo quase entediado. — Louise Kelleher, vocês estão atrasados. O voo parte em menos de uma hora.
Voo. A palavra ecoou por alguns instantes em minha mente. Uma única passagem aérea estava junto da bolsa Prada na mesa da cozinha; uma passagem apenas de ida para Campbell, Texas.
Vocês. A mente entorpecida de repente despertou-se em choque, e, apoiando os braços sobre o colchão, girei minha cabeça, captando os detalhes do cômodo: a parede magenta, o quadro de um pôr do sol na Califórnia, o cartaz de Dançando na Chuva. Eu estava em meu quarto e em algum lugar daquela cobertura estaria o meu irmão, ou ao menos era o que eu esperava.
— Droga. — Me coloquei de pé em um salto. O quarto girou a minha volta, e Mason segurou-me pelo braço, impedindo que por pouco eu não tivesse um encontro desastroso com o chão. — Droga! — o fitei, assustada. Meu tio, por sua vez, esforçava-se para conter a risada. — Nicholas!
— Ele está no quarto de hóspedes.
— Campbell!
— Isso mesmo. Vocês vão para Campbell. — respondeu, com o mesmo tom que um adulto usava para explicar algo para uma criança. Sua mão ainda estava agarrada com firmeza no meu braço. — Em menos de uma hora o voo para Dallas vai partir.
— Ai. Meu. Deus.
O quarto estava uma zona. Além de todas as almofadas e o edredom estarem jogados pelo chão, ainda somavam-se as roupas espalhadas em qualquer lugar que fosse capaz de pendurar algo, sapatos largados para todos os lados.
— Arrumo alguém para organizar isso depois. Vá se trocar, . — caminhava na direção da saída do quarto. — Saímos em quinze minutos. Talvez em menos.
Ainda estava imersa no meu espírito de choque quando tio Mason me deixou apenas na companhia daquela bagunça. Minhas mãos ainda estavam enterradas ao cabelo, enquanto sentia que minha cabeça se desfazia. Não diria que havia me esquecido completamente que iria para Campbell ou que meu irmão havia feito uma escala na Califórnia, interrompendo o seu caminho Alaska-Texas, apenas para que fossemos juntos para casa.
Na verdade, Campbell era a última coisa que saíra de minha cabeça desde o momento em que descobri que teria de voltar para lá. Dessa vez não haviam desculpas, não haviam trabalhos. Eu estava de férias e minha irmã iria se casar em algumas semanas, não podia mais adiar a minha volta para a terra natal.
Queria ter tido tempo para pelo menos tomar um banho mas, infelizmente, o horário apertado me deixou apenas a opção de vestir a roupa já separava para a viagem: uma camiseta folgada com uma frase qualquer, calça jeans e um All Star surrado, que há muito tempo havia se perdido entre os sapatos de grife no closet.
Mason esperava no hall junto das malas e de Nicholas. Meu irmão estava apoiado na parede, e apenas seus olhos, vermelhos e sonolentos, se levantaram com pesar quando apareci diante deles.
— Pelo visto a festa foi boa ontem. — Os olhos do meu tio vagaram de um Nicholas meio vivo, meio acordado, para mim. — Até você que costuma ser forte para bebida está acabada.
Limitei-me a sorrir, sem disfarçar o quanto forçado fora o gesto, Mason pouco importou-se, até diria que ele estava se divertindo com a nossa situação.
Encarei as malas empilhadas entre os dois. Era fácil descobrir quais eram as minhas; enquanto meu irmão era completamente básico com malas pretas, as minhas tinham capas do Mickey. Era definitivo, eu estava a caminho de Campbell depois de dez anos sem pisar os meus pés lá.
A sensação de estar voltando após tanto tempo era que um buraco se abrira em meu peito, sugando tudo para dentro de si e deixando apenas uma sensação gelada sob a pele. Eu estava sendo dominada pela ansiedade.
Mason cumpriu a promessa dos quinze-minutos-ou-menos, e, uma a uma, arrastamos as malas pelo hall até alcançarmos o elevador privativo. Nick estava no meio, Mason a sua direita e eu a esquerda, uma porção de malas ao nosso redor e entre nós. Meus olhos estavam presos aos números sobre a porta do elevador, que diminuíam gradualmente. Cada um que se apagava parecia levar consigo um pouquinho da minha coragem.
A porta dupla abriu-se, exibindo o amplo saguão do condomínio de luxo e o porteiro do período da manhã, Daniel, que nos cumprimentou com o seu corriqueiro sorriso largo e bem alinhado. Acenei com a cabeça e desejei que tivesse um bom-dia, e ele me desejou uma boa viagem. Limitei-me a sorrir, nervosa com a declaração, desejando que cada palavra dele no fim das contas se tornassem realidade.
Nossa viagem para o aeroporto estava sendo silenciosa, o rádio tocava algum pop da década de oitenta, baixo demais para entender a letra, conseguia distinguir apenas a batida.
A estrada estava com o tráfego intenso, embora não fosse de todo lento. Avançamos entre os grandes prédios no centro de Los Angeles, gigantes construções de concreto e vidro. Ainda me lembrava do choque inicial em ver aqueles imensos arranha-céus pela primeira vez, para uma pessoa acostumada aos prédios baixos de Campbell, era estranho ver o quão alto um prédio podia ser.
O celular vibrou sobre a minha perna, terminando por chamar a minha atenção. Se tratava de uma mensagem.
“Estou indo te encontrar no aeroporto. Xx Audrey”
Sorri em resposta, voltando os meus olhos para a janela. Estava animada por ver tia Audrey, apesar de não estar muito certa se aquele encontro acabaria bem. Uma Marylin Monroe acenou e sorriu para nós assim que passamos por ela na esquina.
Tio Mason estacionou o mais próximo que conseguiu da entrada do aeroporto, e Nick e eu nos encarregamos de descarregar as malas uma a uma. Um avião passou zunindo acima de nós, e, mentalmente, desejei que as pessoas daquele voo tivessem uma boa viagem.
— Tem alguém nos fotografando. — Nick comentou ao levantar a alça de uma das malas com rodas. Os óculos escuros escondiam os seus olhos cansados.
Acenou com a cabeça para uma direção, e Mason e eu nos viramos praticamente ao mesmo tempo, sem muita sutileza. Uma cabeça escondida debaixo de um boné azul marinho, e um corpo vestido em uma camisa branca com jeans escuros, apontava uma teleobjetiva diretamente para nós.
— É só fingir que não está vendo. — comentei, sem muito humor. Você fingia que não via eles, enquanto eles trabalhavam para que o mundo inteiro o visse.
— Sempre tem disso?
— Bom, dessa vez pelo menos é um só.
Audrey estava mesmo no aeroporto, mais precisamente logo ao lado da porta de entrada, acompanhada dos gêmeos Jordan e Megan. O trio acenou animadamente em nossa direção, o rosto de tio Mason estava retorcido numa expressão de surpresa e incômodo.
, gatinha! — Minha tia e agente pegou-me em um abraço assim que nos aproximamos. Ela usava um vestido curto preto e branco que exibia com louvor o corpo bem cuidado pelo ioga e, como de costume, um par de saltos finos. — Não achou que fosse mesmo embora sem um abraço de boa sorte.
— Mas é claro que não. — foi Mason que respondeu, com um tom de ironia. — Oi, crianças. — Ainda nos braços de minha tia, mesmo com o rosto parcialmente tampado pelo cabelo longo e castanho de Audrey, consegui ver Mason abraçando seus filhos, com um sorriso que ele raramente demonstrava a Audrey ultimamente, especialmente depois da entrada com o divórcio.
— Não vai para o casamento? — Afastei-me de Audrey, apenas para poder olhá-la nos olhos. Embora estivesse se separando do meu tio, isso não a tornava menos parte de nossas vidas.
Ela lançou um olhar fuzilante na direção do meu tio, que se distraia com os filhos.
— Depois falamos sobre isso. — Abriu um sorriso. — Oi, Nick!
— E aí, tia!
Ambos também se abraçaram.
Desviei minha atenção para a direção de onde viemos, ainda podia ver a lente apontada em nossa direção, especialmente naquele momento: o sol fazia um reflexo nada discreto no metal do broche do boné azul, um erro para alguém que tinha que tentar ser o mais discreto possível.
!
Voltei os olhos para o grupo, Audrey me encarava como quem esperava uma resposta, enquanto eu não tinha a mínima ideia do que ela pudesse ter me dito. Tio Mason e os gêmeos praticamente já estavam para dentro do aeroporto, Nicholas à meio caminho de entrar pela porta automática, todos igualmente me encarando.
— O quê?
— Só estava te chamando. — Minha tia apontou na direção da porta. — Precisa entrar.
Olhei mais uma vez a minha família já praticamente dentro do aeroporto.
— Ah. Sim. — Assenti, envergonhada pela minha total falta de noção.
Peguei a mala de rodinhas que me restara e entrei, a arrastando pelo saguão do aeroporto.
Tudo o que restava era aguardar a chamada do voo para Dallas. Havia um grande grupo de pessoas a espera e eram pelo menos de três voos diferentes, todos com destinos distintos, cada um para um canto do país. Depois de ser abordada por, pelo menos, quatro pessoas, decidi que o melhor lugar para aguardar o voo em paz seria em um canto isolado, atrás de uma planta alta, meu irmão e meus primos diante de mim como uma parede.
— A ressaca está acabando com você. — Megan comentou, divertida, seus olhos castanhos encravados em mim.
— Está sim. — Não era necessariamente a ressaca que me incomodava, já estive pior.
— Mason avisou que não deveríamos ter ido à festa. — Nicholas sorriu largamente, ainda usava óculos escuros. — E, por isso, foi ainda mais divertido.
Os gêmeos riram ao mesmo tempo. Eles eram tão diferentes um do outro que, às vezes, até custava acreditar que haviam nascido no mesmo dia. Megan parecia mais velha, as feições duras vindo direto de tio Mason, o maxilar bem marcado. As sobrancelhas escuras e retas, próximas demais dos olhos, lhe davam uma expressão feroz. Enquanto Jordan tinha o rosto fino e bem-humorado de Audrey, embora o cabelo mais claro viera do pai.
— Vão começar a faculdade no próximo semestre, não? — Nicholas cruzou os braços, vagando os olhos de um para o outro.
— Graças a Deus. — Megan rolou os olhos.
— Assim não temos que escolher com quem vamos morar. — completou Jordan.
— Nova Iorque, né?
Ambos assentiram.
— Ver vocês irem para a faculdade faz eu me sentir velho. — Retorceu a boca. — Lembro de quando vocês nasceram.
— Isso é frase de gente velha. Sem ofensas. — A garota o olhou com diversão.
— Vão começar a embarcar. — Mason falou assim que voltou até onde estávamos. Dois segundos depois, o voo foi anunciado no alto falante do aeroporto. Ele movimentou as sobrancelhas, enquanto assoprava o copo de café em mãos.
Nicholas virou-se para mim, apoiando uma mão em meu ombro.
— Então, vamos. — Pegou a bagagem de mão separada com pertences que não podiam ir na mala.
— Vão na frente. — Mason piscou sem necessariamente mirar alguém. — Eu vou conversar rapidinho com .
Passou um braço sobre os meus ombros, o fitei com desconfiança, enquanto ele olhava para os outros três. Nick deu de ombros e seguiu com os gêmeos na direção em que Audrey estava parada, distraída com a tela do seu celular.
— O que foi? — questionei, com um misto de preocupação e curiosidade.
— Comeu alguma coisa?
— Você viu que não deu muito tempo de comer algo em casa.
— Ok. Não fique sem comer, ou vai desmaiar.
— Tudo bem. — respondi em um tom de dúvida, aquela conversa estava esquisita.
— Olha, — respirei fundo. Agora ele diria o que realmente lhe passava na cabeça, estava usando o seu tom de pai. — eu só quero que você relaxe e aproveite, ok?
Franzi o cenho.
— O que está querendo dizer, tio?
— Só estou dizendo para você aproveitar o tempo em Campbell. — Passou a guiar-me com passos lentos na direção da fila que se formava para o embarque. — Descanse, reveja o pessoal, se divirta. Aproveite as férias.
— Ah. Sim! As férias que vocês me obrigaram a tomar. — Embora tenha falado com algum divertimento na voz, aquilo era mais uma acusação do que brincadeira.
— Prefiro o termo sugerir.
— Não me lembro de ter tido outra opção senão aceitar.
Ele sorriu com simpatia.
— Todo mundo precisa descansar, .
— Tudo bem. — Assenti positivamente, estávamos há poucos passos de onde meu irmão estava na fila. — Eu vou fazer todas essas coisas.
— Vai lhe fazer bem. Vai ser divertido!
Limitei-me a balançar a cabeça mais uma vez. Tinha minhas dúvidas a respeito da viagem me fazer bem.
— Só tente manter essa coisa de cigarro longe do seu pai, ou ele vai surtar. De novo. — Eu não estou fumando!
— O cheiro está impregnado no apartamento. — Ele fez uma careta. — Podia pelo menos fumar na varanda, assim o cheiro não fica no seu sofá.
Rolei os olhos.
— Nos vemos em breve. — Já alcançávamos Nick àquela altura. — Mandem um abraço à todos.
— Até mais, tio.
Os dois bateram as mãos com um estalo estridente, se abraçaram em seguida e distribuíram uma porção de tapas nas costas um do outro.
— Tchau, . — Audrey beijou-me no rosto. — Se cuide. Qualquer coisa me liga, ok?
— Pode deixar. — Confirmei, assentindo. — Até mais!
Em seguida despedi-me dos gêmeos. Megan fechou-me em um meio abraço, dando mais ênfase em um beijo longo e estalado em meu rosto, enquanto Jordan deu-me um abraço apertado.
E por último foi Mason. Senti seus dedos enterrarem entre os fios do meu cabelo curto, fazendo um rápido e leve carinho na região. Eu não queria me separar dele, ter que dizer tchau. Mesmo que eu soubesse que ainda nos veríamos, não era um adeus.
Dez anos era o intervalo de tempo entre o dia que ele me trouxe de Campbell para Los Angeles. Entramos juntos naquele mesmo aeroporto e agora estávamos nos separando, e isso comprimia o meu peito, quase me sufocando.
— Precisa me largar, . — Senti o movimento que seu peito fazia quando ria. — Você tem que ir.
Eu tinha que ir, o que não significava que eu o queria fazer. Afastei-me de Mason sem me preocupar em disfarçar o pesar que me tomava por dentro. Queria me agarrar a sua perna, feito uma criança no meio de uma birra, e implorar para que me levasse de volta para casa, o meu apartamento, de onde eu tinha uma vista deslumbrante de Los Angeles – especialmente à noite.
Mason fitava-me de volta com compaixão, ele sabia o que eu estava sentindo, ele sabia que eu não queria partir, que eu estava ansiosa e com medo de voltar para Campbell. E não tinha dúvidas de que se dependesse da vontade dele, estaríamos dentro do seu carro em menos de cinco minutos, porém, acima de tudo, Mason não me deixaria fugir daquilo. Estava na hora de encarar o passado, relaxar um pouco e especialmente estar com minha irmã em um dos dias mais importantes de sua vida.
— Vamos. — murmurei para Nick, que assentiu em compreensão. Acenei uma última vez para Mason, Audrey e os gêmeos, que retribuíram o gesto, eles quase pareciam uma família unida novamente.
Ainda à distância podia ver meus tios, seus olhos estavam em nossa direção e os seus lábios se moviam numa conversa que eu não conseguia ouvir ou ler, mas tinha certeza de que não se tratava de uma discussão, a única forma como ambos vinham se comunicando ultimamente. Na verdade, seus olhos me diziam que, de alguma forma, estavam preocupados.


CAPÍTULO DOIS

A maior parte da viagem aérea eu dormi, coloquei uma almofada no pescoço, vesti a máscara e aproveitei o espaço que a primeira classe oferecia para o nosso conforto.
Minha cabeça latejava levemente quando me deitei para descansar. Havia uma chama de esperança que ardia dentro de mim, que dizia que assim que acordasse em Dallas estaria me sentindo melhor, quase nova em folha. No entanto, quando Nicholas tocou-me no braço e avisou que a viagem chegara ao fim, minha cabeça latejava com a intensidade de ter um martelo batendo contra ela, enquanto o meu estômago protestava contra o vazio.
Tentei comer algo assim que descemos no aeroporto e pegamos nossas malas, mas não tive sucesso. O salgado passou por minha garganta fazendo cócegas, prometendo chegar ao estômago na forma de um soco. Duas mordidas foram o suficiente para eu não querer continuar em frente.
Alugamos um carro no estacionamento ao lado do aeroporto. Era um Jeep de um amarelo berrante, o modelo sem dúvida maravilhoso, já a cor, duvidosa. Empilhamos todas as bagagens no porta-malas e algumas no banco traseiro, Nick não esperou nem que eu lhe oferecesse a direção, talvez minha condição física já descrevesse por si só a total falta de vontade até mesmo de estar acordada.
Dentro do carro meu irmão verificou os seus documentos, checou a posição de cada um dos espelhos retrovisores, a altura e a distância do banco em relação ao volante, voltou-se mais uma vez ao espelho retrovisor acima do painel. Encarei toda a preparação exagerada com a cabeça apoiada na lateral de onde saia o cinto de segurança, a almofada ao redor do meu pescoço me dava sustentação e conforto.
— Pronta? — Por fim girou o rosto em minha direção, me encarava através das lentes escuras.
— Pronto digo eu. — Ajeitei meu corpo sobre o banco, esparramando-me ainda mais para frente.
— Nossa! — Levou a chave até a ignição. — Está irritada hoje.
— Minha cabeça está me matando. — Fechei os olhos.
— O remédio já não deveria ter surtido efeito?
— Não faz nem dez minutos que tomei.
— Tudo bem — murmurou.
— Só vamos para Campbell logo. — Suspirei longamente. — Apenas dirija.
Senti o motor ganhar vida e em questão de segundos o veículo estava andando. Concentrei na escuridão que dominava a minha vista, tentava ignorar o fato de minha cabeça doer e meu estômago revirar-se dentro de mim. Eu só precisava relaxar o corpo e dormir.
Nem no nível de cansaço em que me encontrava fui capaz de ignorar todos os alertas de que algo estava errado em meu corpo. Desisti de tentar dormir quando entramos em um engarrafamento no centro de Dallas.
Algum tempo se passou no tráfego lento, Nicholas ligou o rádio, e os autofalantes do carro murmuravam David Bowie. O sol começava a se pôr quando, por fim, deixamos Dallas e entramos na interestadual. A partir daquele ponto seriam três horas e meia de muita estrada até a nossa pequena cidade perdida no meio do Texas.
Um lugar ameno no inverno, infernal no verão, Campbell tinha pouco mais de vinte mil habitantes. Tinha todo o charme de uma cidade do interior, acolhedora e amigável, somando-se a aspirações de cidades grandes: um comercio rentável – especialmente no que dizia respeito a restaurantes e bares – e uma porção de pontos turísticos, era uma cidade antiga cheia de velharias.
Aos poucos a paisagem predominantemente urbana de Dallas foi dando espaço a imensidão de pastos e plantações que dominavam os pontos mais distantes da gigante cidade.
Não demorou para o céu ser tomado pelo breu da noite, os únicos focos de luz vinham dos faróis dos veículos e das cidades ao redor. Naquele ponto já era possível ver um céu mais estrelado, e a lua exibia apenas uma fina linha branca naquela noite.
— Nick.
— Hum? — questionou, distraído.
— Eu acho que vou vomitar.
— O quê? — Desviou os olhos da estrada por questão de segundos, o rosto mostrava confusão.
— Eu vou vomitar.
Afastei minhas costas do banco, o couro fez barulho com o meu movimento. Minha boca estava salivando, enquanto o estômago parecia dar piruetas dentro de minha barriga, contorcendo-se de uma forma violenta.
— Segura! Eu vou encostar.
Não deu tempo de ele atravessar as duas faixas entre nós e o acostamento, eu coloquei a cabeça para fora da janela, deixei uma coisa transparente e gosmenta pendurada na lateral do carro.
Ainda assim Nicholas encostou o carro, eu abri a porta com urgência, praticamente caindo para fora do Jeep. Mais uma vez meu corpo expeliu o que estava longe de ser um vômito comum, afinal, não tinha nada para colocar para fora, vendo todo o tempo que estava sem comer. Nick segurou meu cabelo, enquanto meu corpo se preparava para vomitar mais uma vez.
— Precisamos parar em algum lugar. — Pelo canto dos olhos vi a careta que ele exibia diante da gosma transparente sobre o asfalto. — Você tem que comer alguma coisa, . — Deu alguns tapinhas leves em minhas costas. — E eu vou limpar essa coisa no carro.
— Tudo bem — murmurei, voltando a posição ereta, ainda tinha um braço apoiado em Nicholas.
Eu ainda estava enjoada, pensar em comida me dava uma onda de repulsa, na mesma medida que parecia me aliviar. Estava há horas sem colocar uma coisa sequer no estômago e, àquela altura, já não era apenas uma questão de não querer comer algo, meu corpo precisava ser preenchido urgentemente, ainda que eu acreditasse que ele não iria segurar nada.
Nicholas dirigiu por mais algum tempo, até que surgiu a placa de um lugar que conhecíamos bem. Dois quilômetros à frente entramos em Derting, uma cidade consideravelmente mais populosa que Campbell e muito conhecida pelo grande distrito industrial, na qual eu estivera uma centena de vezes. Estávamos há menos de uma hora de casa, e isso me deixou levemente horrorizada. Nos últimos dez anos, eu nunca chegara tão perto de Campbell como naquele momento.
A marginal levou direto para a avenida principal de Derting, uma veia que levava diretamente ao coração da cidade. Era um lugar familiar, por onde eu havia passado vezes o suficiente para ser tomada por um sentimento de nostalgia ao ver as mesmas fachadas e restaurantes de antes.
Éramos particularmente fãs de uma hamburgueria famosa na região, o Fat Joe. Lugar onde além de provar um maravilhoso hambúrguer artesanal, você ainda podia curtir uma boa música ao vivo. Talvez fazer os dois ao mesmo tempo.
— Peço para viagem? — questionei já do lado de fora do carro, enquanto Nick observava a meleca que eu deixara escorrendo pela lateral do carro e que, àquela altura, já havia deslizado pela porta.
— Não. — Balançou a cabeça negativamente com uma expressão pensativa. — Coma com calma, não é como se estivéssemos desesperados para chegar em casa.
— Quer que eu peça algo para você?
— Um lanche simples, sei lá. Não estou com muita fome.
— Ok.
A fachada do estabelecimento era coberta por muito neon, chamativo e descarado. Entrar na lanchonete foi como voltar anos, um tempo que as vezes parecia ter morrido dentro de mim. O ambiente ainda era dominado pela decoração oitentista, tudo exagerado em cores, todo o brilho dos moveis de metal, o neon. Em uma parede era exibida uma coleção de garrafas de cerveja vindas de todos os cantos do mundo, que estava ainda maior. Outra parede era completamente dedicada aos ícones do rock, quase uma linha do tempo desde o início do gênero, até os nomes mais recentes a fazer sucesso. E em um lugar de destaque, logo ao lado do balcão do caixa, estava o mural de fotografias de visitas ilustres do Fat Joe. Em todas Joe estava ao lado de algum famoso que passara por seu estabelecimento. Me lembrei de prometer que a minha foto estaria ali um dia.
Apenas estando naquele lugar novamente pude perceber o quanto era bom, o quanto gostava dali. Era tão viva a memória de estar ali, que podia jurar que a qualquer momento meu pai passaria um braço sobre os meus ombros, enquanto Nicholas citaria o nome de cada cantor ou banda exposto na parede do rock, e Heather o mandaria calar a boca, porque ele era irritante.
— Boa noite.
Assustei com a aparição repentina de uma garçonete. Ela me fitou com olhos castanhos pelo o que pareceu minutos à fio. Primeiro seu rosto demonstrou certa confusão, as sobrancelhas uniram-se no meio da testa, a boca estava entreaberta, até que um canto se retorceu em um meio sorriso e a testa relaxou. Já havia visto essa mesma reação uma porção de vezes.
Kelleher! — sua voz era mistura de admiração e surpresa. — Quero dizer... — Limpou a garganta, arrumou a posição. — Me desculpe por tê-la assustado. Posso ajudar? — Se esforçava para soar o mais profissional possível, mas sua expressão ainda a entregava.
— Oi — respondi, envergonhada. — Queria dar uma olhada no cardápio.
Como vindo de outra dimensão, ela tirou um cardápio longo e colorido de suas costas e entregou-me. Seus olhos redondos não desgrudaram do meu rosto nem por um segundo, passou uma mecha do cabelo loiro para trás da orelha.
— Meus olhos não podem acreditar no que estão vendo! — uma voz forte veio das costas da garçonete, só havia uma pessoa em todo o Texas com uma voz tão potente. — !
Uma figura grande veio direto do balcão mais para atrás de nós, usando uma camisa larga e floral, ao melhor estilo havaiano, uma bermuda marrom escura coberta de bolsos e nos pés as mesmas sandálias de tiras de couro que me recordava. Joe era o dono da lanchonete, um homem largo e alto feito um armário. O cabelo estava ainda mais longo do que me lembrava, a barba por fazer e ainda usava os mesmos óculos redondos.
— Joe! — dispensei da mesma animação que ele.
— Trate muito bem, Julie. — A garçonete assentiu freneticamente, exibindo um sorriso largo. — Antes de ela ser uma atriz famosa, é uma das nossas clientes mais antigas.
— Obrigada, Joe. — Sorri em agradecimento.
— Como você está, pequena estrela?
— Eu estou bem. E você?
— Porra! Agora mais feliz por te ver. Como vai a família? Vi Heather há algumas semanas, mas faz tempo que não vejo todos vocês aqui.
Fazia tempo que as coisas já não eram mais como costumavam ser na época em que frequentávamos o Fat Joe.
— Eles estão bem.
— Heather disse que vai se casar em breve.
— Sim. Por isso estou aqui.
— Conheci o noivo dela. — Soltou um riso alto. — Rapaz calado, não me admira Heather ter se encantado por ele, porque ela fala até pelos cotovelos.
— Isso é verdade. — Ri com ele, ainda que não na mesma intensidade.
— Vou parar de conversa afiada. Um Elvis Presley no capricho?
— Hoje acho que vou com alguma coisa mais leve. — Fiz uma careta. — A viagem me deixou um pouco enjoada. — Acariciei a minha barriga, ao menos à essa altura o estômago protestava consideravelmente menos que quinze minutos antes.
— Nesse caso, que tal uma milk-shake de morango?
Não era a melhor maneira de começar uma refeição depois de um dia inteiro sem comer, mas a ideia de tomar o melhor milk-shake de morango dos Estados Unidos já fazia eu me sentir melhor.
— Acho que é uma ideia brilhante — respondi quase com admiração.
— Então anote o milk-shake aí, Julie. — Ela não esperou um segundo a mais para apontar a sua caderneta. — É o preferido dela. — Piscou para mim.
— E Nick também quer alguma coisa para comer.
— Ele também está aí? — Arqueou as sobrancelhas.
— Sim.
— Um Def Leppard no capricho?
— Bom, é o preferido dele. Pode ser.
— Julie. — Apontou para a caderneta, ela anotava freneticamente.
— Logo mais saem os pedidos — anunciou com animação e, tão rápido quanto surgira, ela sumiu na direção da cozinha.
— Fique à vontade, . — Joe abriu os braços, como se me apresentasse ao lugar.
— Obrigada.
— Caso interesse, tem música no salão. — Apontou na direção de uma porta de vidro fume.
Peguei um pouco da época em que o Fat Joe expandiu-se, com todo o sucesso da lanchonete, Joe abriu um salão maior ao lado, com mais espaço para mesas e junto acrescentou um pequeno palco, para apresentações. Era um lugar livre, onde você podia apresentar a sua arte seja lá qual ela fosse. Parecia com um grande show de talentos, e com certa frequência haviam shows por ali. O salão só fez a lanchonete ficar ainda mais famosa, ouvira dizer que pessoas com nome já haviam se apresentado ali.
— Consegui me livrar da meleca. — Nicholas se materializou do meu lado, pela segunda vez eu me via levando um susto, tudo em menos de dez minutos. — Me desculpe — resmungou após receber um olhar atravessado da minha parte. — Vamos nos sentar, por favor? — Apontou para uma mesa alta, próxima de onde estávamos.
Nos sentamos um de frente para o outro nos bancos cumpridos, Nick virava a cabeça de um lado a ao outro, não tinha dúvidas que compartilhávamos do mesmo sentimento de nostalgia em estar naquele lugar novamente.
— Caramba! — Soltou um assobio, por fim voltando-se para mim. — Faz uma vida que não venho no Fat Joe, e parece que não mudou nada.
Apoiei a cabeça sobre as mãos.
— Acho que a última vez que estive aqui, eu não sabia que seria a última.
Nicholas sorriu fraco.
— Acho que nenhum de nós sabia.
Ainda tínhamos uma mãe presente, assim como fugir para Los Angeles não era algo em meus planos. Éramos jovens e uma família completa. O Fat Joe me fazia lembrar de uma época em que a vida parecia completamente diferente. Pensei que, talvez, se doze anos antes Melissa não tivesse escolhido nos deixar, provavelmente não estaríamos vivendo aquele momento, apenas Nick e eu sentados, pensando sobre o passado que vivemos dentro daquelas paredes coloridas.
Agora Nicholas vivia no Alaska, trabalhava como veterinário especialmente de animais silvestres. Eu estava em Los Angeles, completamente envolvida com cinema. E Heather tinha o seu próprio negócio, uma doceria em parceria com sua melhor amiga, Betty. Não conseguia imaginar onde estaríamos se as coisas não tivessem mudado da forma como mudaram.
— Tem alguém se apresentando. — Nick olhava diretamente para a porta de vidro que separava os dois ambientes.
— Joe comentou isso comigo.
Primeiramente era apenas um piano tocando solitário, repetiu a melodia algumas vezes até ser acompanhado por uma voz.
When you're dreaming with a broken heart.
Não conhecia a melodia e tão pouco a letra, era a voz. Aquele timbre em particular tomou completamente a atenção dos meus ouvidos, e, de repente, tudo o que eu ouvia se resumia a música.
— The waking up is the hardest part.
Minha cabeça involuntariamente virou-se na direção da porta de vidro, era por onde a melodia chegava a mim, de forma abafada e baixa, mas podia ouvir.
You roll out of bed and down on your knees.
Nicholas falou algo, ouvi sua voz, porém não as suas palavras. Limitei-me a assentir sem ter a menor ideia do que quer que tivesse lhe saído dos lábios. Meu irmão se levantou, e tudo o que eu conseguia fazer era ter a minha total atenção na música.
And for a moment you can hardly breathe.
Como que atraída pela canção, especificamente pela voz, me coloquei de pé também. Fui até a porta de vidro e a puxei em minha direção.
Wondering was she really here.
No mesmo instante a música tornou-se mais clara, a voz parecia vir logo do meu lado. Havia uma mudança sutil de ambiente entre a lanchonete e o salão, luzes amarelas e menos intensas tinham a finalidade de dar um ar mais intimista ao local, embora ainda fosse possível ver a continuidade da decoração oitentista, ali dentro era tudo menos colorido e chamativo.
Is she standing in my room?
Uma porção de mesas se espalhava por todo um amplo salão, na maioria, as pessoas lotavam as mesas, outras tantas encontravam-se em pé. O que todos tinham em comum era a direção para a qual olhavam: o palco.
No, she's not.
Abri passagem entre as pessoas em pé no fundo do salão. Minha mente estava focada em ver quem se apresentava sobre o palco, embora, no fundo de minha mente, eu já tivesse a resposta para a questão. Com esforço e uma porção de pedidos de passagem, consegui chegar à frente da aglomeração de corpos, alcançando o começo do grupo de mesas que se estendiam até a beirada do palco.
Cause she's gone, gone, gone, gone, gone.
Fosse um golpe certeiro do destino contra o meu estômago ou apenas uma coincidência inacreditável, Westhoff se apresentava no palco da lanchonete que marcara a minha infância, exatamente na mesma noite em que, sem querer, eu fora parar ali.
When you're dreaming with a broken heart.
A música ganhou mais ritmo.
The giving up is the hardest part.
Para minha surpresa, ainda era a mesma pessoa que eu deixara em Campbell, dez anos antes. O tempo havia mantido o mesmo rosto bem-humorado e sorridente, ainda que tenha ganhado vários centímetros a mais de altura.
She takes you in with her crying eyes. Then all at once you have to say goodbye.
Eram os mesmos olhos castanhos, a mesma cicatriz no queixo, que brilhava sempre que batia luz e, especialmente, o mesmo sorriso bobo nos lábios quando cantava.
Wondering could you stay my love. Will you wake up by my side?
Aquilo me levou anos no passado, uma época em que eu costumava ser sua principal – e única – plateia, sentada diante do com o violão velho sobre as pernas cruzadas. Fora um tempo em que a presença um do outro era tudo o que bastava.
No, she can't. Cause she's gone, gone, gone, gone, gone.
A plateia presente acompanhava a letra, um rapaz ao meu lado murmurava a letra com a devoção de um fã extasiado, as mãos juntas ao peito, enquanto o rosto se retorcia em uma careta quase de dor. Os instrumentos tornaram a melodia ainda mais intensa, com a guitarra se sobressaindo aos demais.
Do I have to fall asleep with roses in my hand? Do I have to fall asleep with roses in my hand?
era famoso, especialmente no Texas. Ele e a banda tinham nome em festivais, eu sabia dessas coisas especialmente através de Alison, que falava com orgulho sobre o amigo e o seu sucesso.
Do I have to fall asleep with roses in my hand? Do I have to fall asleep with roses in my, roses in my hands? Would you get them if I did?
Todo o salão parecia suspirar ao som da música.
No, you won't. Cause you're gone, gone, gone, gone, gone.
Novamente o piano voltou a tocar sozinho, exatamente como fizera na introdução, trazendo quietude novamente ao salão, o garoto ao meu lado suspirou longamente. Encarando a plateia, passou lentamente os seus olhos pelos rostos ali presentes, parecia tentar decorar as feições de cada um. Os pelos do meu corpo eriçaram com a aproximação do local onde eu estava, com o piano ainda tocando ao fundo, seus olhos por fim encontraram-se com os meus.
When you're dreaming with a broken heart. — Seus olhos ainda sustentavam os meus, por mais que me esforçasse, os meus recusavam-se a obedecer qualquer comando de desvio. — The waking up is the hardest part.
A música morreu com o toque solitário de uma nota no piano. Nossos olhares ainda estavam cravados um ao outro quando todo o salão explodiu em uma salva de palmas e gritos. Deixei que me perdesse novamente no meio das pessoas em pé, que batiam palma animadamente, e levei uma pisada nada generosa em um dos pés na tentativa de me esquivar de toda a agitação.
Kelleher! — uma garota alta gritou assim que consegui me livrar da multidão. Ela tinha um sorriso largo nos lábios, e a câmera do celular estava aberta. – Sou grande fã do seu trabalho! Se importa de tirar uma foto?
Minha aparência era digna de pena, não tinha dúvidas do quão aparente poderiam estar as minhas olheiras, meu cabelo era a melhor representação de quem estava tendo uma viagem longa e cansativa, tudo sem contar o meu humor, que não estava em seu melhor nível de excitação. Esforcei-me para esboçar o melhor sorriso.
— Claro. — Não tinha os costume de recusar pedidos de foto.
A garota fechou-me em um meio abraço repentino e firme, do qual eu não conseguiria escapar nem se quisesse. Colou o seu rosto ao meu e levantou o celular, enquadrando nós duas em um retrato. Naquele momento tive certeza que minha aparência não se encontrava no seu melhor estado e, sem dúvidas, em pouco tempo aquela imagem estaria na internet.
— Muito obrigada!
— De nada — murmurei já indo em direção a porta, antes que qualquer outra pessoa me puxasse para mais uma fotografia.
O milk-shake de morango me aguardava sobre a mesa quando finalmente voltei para o meu lugar. Nick não se deu ao trabalho de perguntar a respeito do meu paradeiro nos últimos três minutos, na verdade, sua atenção estava completamente voltada para o farto hambúrguer em suas mãos.
— Heather ligou — foi o seu comentário após um longo período de silêncio entre nós dois. Seu lanche já estava pela metade, assim como o meu milk-shake. — Me xingou por estarmos aqui sem ela.
Tomei mais um gole generoso do meu milk-shake; mesmo depois de anos desde a última vez que tivera o prazer de tomar um, ele ainda tinha o mesmo gosto especial. Não me cansava de dizer que aquele era o melhor milk-shake da galáxia.
— Era isso, ou eu estaria morta — respondi com bom humor.
— Não que milk-shake seja o melhor jeito de encher a barriga. — Ele afastou uma mexa do meu cabelo, colocando a mesma atrás de minha orelha. — O que o melhor milk-shake não faz com uma pessoa. Até parece que o seu rosto voltou a ter um pouco de cor! — Revirei os olhos, tomando outro um gole do sorvete batido. –– Eu me pergunto como uma pessoa que vive na Califórnia consegue ficar tão branca. Eu que moro no Alaska estou mais bronzeado que você.
— Não tenho tempo para ficar na praia me bronzeando.
— E quem disse que precisa de sol para isso? Suas amigas famosas pagam para ter aquele dourado no couro.
— Muito obrigada, não quero ficar com a tonalidade de uma cenoura.
— Claro, prefere a de um nabo. — Tampei a boca com a mão livre, quase cuspi um gole de sorvete quando uma risada espontânea ameaçou sair por minha boca. — Seu próximo papel pode ser o de Gasparzinho.
No pouco tempo que ficamos no Fat Joe, Heather fez o favor de encher a caixa de mensagens de Nicholas com uma dezena de recados. Resolvemos que estava na hora de partir quando ela ameaçou sair de casa para nos buscar. Banquei o jantar, enquanto Nick se encarregou de ir ligar o carro.
— Foi ótimo vê-la mais uma vez, . — Joe me devolvia o cartão. — Aproveita o tempo que vai ficar aqui na região e venha mais vezes. Você e toda a família.
— Venho sim. Com todo mundo. — Assenti, sorridente. — Muito obrigada por tudo.
— Ah! — exclamou antes que eu pensasse em dar as costas. — Antes que se vá, quero fazer um pedido.
Joe deu um passo para o lado e apontou na direção do seu famoso mural de visitas ilustres, qualquer famoso que colocasse os pés no Fat Joe, tinha o prazer de aparecer no seu mural de honra. Meus olhos brilharam, quase literalmente, era o meu sonho entrar naquele mural.
— Falei que um dia teria a sua fotografia ali.
Contive um grito animado que ameaçou sair entre meus lábios. Me aproximei do mural, tomada pelo mais profundo sentimento de admiração, supreendentemente encontrei uma foto de .
— Eu estou tão feliz por isso — minha voz estava mais aguda que o normal. — Mas estou péssima, Joe — saiu em um lamento.
— Ela parece péssima, Julie?
De repente Julie estava entre nós, segurava em mãos uma Polaroid.
— Jamais! — Fez sinal com a mão livre para que nos juntássemos.
Joe passou um braço sobre os meus ombros, ele era pelo menos dois palmos mais alto que eu e seus braços enormes ao meu redor faziam eu me sentir como uma coisa magrela e minúscula.
— Apenas sorria, pequena estrela.
— No três, ok? — Julie ainda exibia o mesmo sorriso largo. — Um. Dois. Três!
Levantei a mão livre exibindo um joia, enquanto Joe fez paz e amor. A fotografia saiu instantaneamente da câmera, Julie a pegou com delicadeza e passou a abaná-la habilmente.
— Muito obrigado, . — Deu alguns tapinhas em minhas costas.
— Sou eu que digo obrigado! Obrigada e até mais, Joe.
— Até.
— E obrigada, Julie — agradeci a garota.
— Eu que agradeço.
Despedi-me com um aceno.
O que me separava da saída da lanchonete eram poucos metros, talvez dez passos ou menos, no entanto antes que pudesse dar o sexto passo, Westhoff entrou no meu campo de visão. O tempo pareceu diminuir o ritmo na mesma medida que ele deixava o salão, saía pela porta que havia me levado até ele. Seus olhos castanhos encontraram-se com os meus azuis pela segunda vez naquela noite, grudaram-se feito imãs de polaridades opostas.
Me vi obrigada a parar no momento em que nossos passos se encontraram quase no centro da lanchonete. Através da porta de vidro na entrada, podia ver o Jeep amarelo, feito uma banana madura, estacionado no meio fio, apenas à minha espera.
— Rainha da Califórnia! — Um meio sorriso surgiu no canto dos seus lábios.
Com a pouca distância entre nós, o mais perto que eu chegara de nos últimos dez anos, precisei levantar os olhos para encará-lo diretamente no rosto. Dizer que ele havia crescido um pouco era desmerecer toda a altura que ele conseguira durante a adolescência. Da última vez que nos vimos eu ainda tinha quase sete centímetros de vantagem, agora ele vencia com mais de um palmo acima de minha cabeça.
Passou uma mão pelo cabelo castanho e liso, levando a franja para trás, um gesto que não valeu de nada, vendo que o cabelo voltou com rebeldia para frente, lhe caindo sobre a testa.
— Oi, — saiu praticamente em um resmungo.
Ele ficou a me encarar pelo que pareceu uma vida inteira, seus olhos varreram cada centímetro do meu rosto, como se tentasse decorar cada pequena parte que formava as minhas feições. Era da natureza de observar as pessoas, tentar entendê-las. Naquele momento estava em dúvida se ele tentava encontrar no meu rosto a mesma pessoa que ele conheceu dez anos antes ou já buscava entender a pessoa diante de si dez anos depois.
— Eu preciso — Apontei na direção da porta. – ir.
Seus olhos vagaram até encontrar o que eu indicava.
— É Nicholas?
Limitei-me a assentir em confirmação. Deu meio passo para a o lado, me cedendo passagem para prosseguir, sorri em agradecimento.
— Está indo para Campbell? — sua voz me alcançou antes que realmente saísse da lanchonete.
Virei-me para trás apenas para olhá-lo.
— Sim. — Balancei a cabeça mais uma vez. — Estou indo para casa.
— Ótimo. — Um sorriso contido curvou levemente os seus lábios.
Sem dizer mais nada, uma troca rápida de olhares, por fim deixei a lanchonete. Nick não questionou o motivo da minha demora.


CAPÍTULO TRÊS

Seja lá quais fossem os ingredientes daquele milk-shake de morango, fora o suficiente para me sentir infinitamente melhor do que horas antes, embora o meu humor ainda não fora capaz de atingir o ápice de sua animação. Toda a ideia daquela viagem me deixava tensa e levemente ansiosa, afinal fazia uma década que não voltava para casa. Ainda não sabia o que esperar daquele retorno.
Mandei uma mensagem para tio Mason, para ele ter certeza de que eu ainda me encontrava com vida, oitenta por cento recuperada de todo o mal-estar que me tomou o dia inteiro. Haviam pelo menos três mensagens dele enviadas em diferentes horários logo depois que nos deixou no aeroporto.
— Olha só!
Nicholas apontava o indicador esquerdo diretamente para algum lugar adiante, meus olhos vagaram pela estrada até encontrar uma placa de divisão de municípios. Era definitivo, estávamos oficialmente dentro dos limites de Campbell.
— Bem-vinda de volta!
Respirei fundo na tentativa de afogar a ansiedade que ameaçou me tomar por dentro.
— Me faça um favor. — A mão direita vagou do volante até o bolso da bermuda cinza, voltou segurando o celular. — Ligue para Heather. — Jogou o aparelho sobre minhas pernas, o peguei no ar pouco antes de se perder no chão do carro.
— Por quê?
— Só para dizer que em quarenta minutos estaremos em casa.
— Quarenta minutos? — Reprimi uma careta confusa. — Acho que não leva quinze minutos de onde estamos.
Nicholas piscou um olho sem necessariamente desviar sua atenção da estrada. Já podia ver as luzes de Campbell em pouco mais de dois quilômetros à frente. De repente percebi que sentia falta daquele lugar, era a minha casa.
— Ela não precisa saber.
Procurei por Heather na lista de contatos de Nicholas e fiz a ligação. A chamada estava no viva voz, ela atendeu na metade do primeiro toque.
Diga, Nicholas — seu tom era carregado de mal humor.
— Em quarenta minutos estaremos aí. — Nick respondeu.
Quarenta minutos?! Vocês estão onde?
— A caminho, oras!
Tem certeza que estão no caminho certo?
— Eu conheço o caminho, Heather.
Puta merda! Venham logo. ?
— Sim? O quê?
Nada. Só queria ter certeza que está aí. Venham logo!
— Nos vemos em breve.
Sim, sim — respondeu com impaciência.
Plantações tomavam os dois lados da pista de mão dupla, quando não eram campos de plantio abriam-se pastos inteiros para criação, fosse gado ou tropa de cavalos. Campbell crescia cada vez mais a medida que nos aproximávamos da aglomeração de casas. Prédios altos eram inexistentes naquele município, a construção mais alta da cidade era um prédio residencial com seis andares.
Nicholas entrou a toda velocidade no perímetro urbano da cidade, eu o xinguei uma porção de vezes, ele usou a desculpa que estava ansioso para chegar logo em casa.
Não era muito tarde, ainda assim Campbell já se encontrava dominada pela quietude da noite. A não ser por alguns pontos específicos no centro, onde haviam lanchonetes, bares e casas noturnas, a maior parte da cidade calava-se cedo; as pessoas se retiravam para dentro de suas casas após um final de tarde conversando com os vizinhos e preparavam-se para o dia seguinte.
Passamos pelo boliche, onde o pessoal da escola adorava passar o tempo. Eu ia ali só pelo sunday com cobertura de chocolate, odiava o boliche, especialmente pelas pistas pequenas e antigas, provavelmente da metade do século passado. Também passamos pelo primeiro cinema de Campbell, cuja fachada brilhava anunciando o que estava em cartaz. A longa escadaria que levava ao prédio antigo da prefeitura ainda tinha as mesmas estatuas de anjos e pessoas seminuas, tudo inspirado em uma arquitetura grega.
Deixamos o centro, nos encaminhando em direção aos subúrbios. Nossa casa ficava em um bairro no outro extremo da cidade, o que em uma escala de Campbell não significava muito, era totalmente diferente dizer isso em Los Angeles – na verdade, chegava a ser um problema −, era a última casa da rua.
— Caramba! Esse lugar não mudou nada — comentei completamente atônica.
— Não acho que mudar Campbell esteja nos planos de quem vive aqui.
Cidadãos de Campbell eram conhecidos pelo orgulho que sentiam de sua cidade, praticamente veneravam aquele pedacinho do Texas onde nasceram e cresceram. Eu sentia orgulho daquela cidade, adorava todo o encanto interiorano, o sotaque.
Nicholas virou para a direita, e estávamos oficialmente em nossa rua, meu coração deu um salto. A última vez que vira aquele lugar foi em minha partida para Los Angeles, que de longe não fora na melhor das circunstâncias, era uma lembrança que me trazia um gosto amargo a boca.
Projetei o corpo para frente, a fim de ter uma visão melhor da nossa aproximação do sobrado que foi a nossa casa desde sempre. À medida que alcançávamos o final da rua, nossa casa tornou-se maior e mais clara. Nick estacionou o carro no meio fio, logo em frente a saída da garagem. Estávamos diante de uma casa branca, com um jardim em frente, mais colorido do que me recordava.
A casa era exatamente a mesma, a varanda na frente, a garagem ao meu lado esquerdo, a imensa árvore na frente com um balanço de pneu ainda pendurado nela. Mas parecia diferente do que me lembrava, um lugar mais alegre, mais conservado, as coisas iam bem por ali.
A porta da frente abriu-se em urgência, uma figura saiu a passos largos, pulando alguns degraus da varanda da frente.
— Vocês chegaram! — Heather gritou de braços abertos, correndo em direção ao carro. Eu estava certa de que ela pularia em cima do primeiro que aparecesse na sua frente e desejei que essa pessoa fosse Nicholas.
Ela vestia um pijama de verão, coberta por um roupão de um rosa vibrante. O cabelo longo estava solto em ondas, que agitavam-se a cada passo. Logo ela, que sempre gostara de cabelo curto e franjas. Era quase se tivéssemos combinado em fazer a troca.
Para o meu total azar, foi até a minha porta que a maluca se dirigiu, a abrindo na voracidade de animal que queria devorar a sua presa, e puxou-me para fora sem delicadeza alguma. Felizmente já havia soltado o cinto de segurança, ou estaria sendo estrangulada sem Heather nem se dar conta.
— AI, MEU DEUS! — gritou próximo demais ao meu ouvido. — Você está mesmo aqui! Desgraçados! — Afastou-se apenas para dispensar um tapa em meu ombro.
— Ai! — Devolvi a agressão.
— Vocês me enganaram! — Me agarrou em um abraço mais uma vez. — Eu tenho tanta vontade de te matar, .
— Também senti sua falta, Heather.
Seus braços estavam tão fortemente fechados ao meu redor, que eu não conseguia levantar os meus para retribuir o gesto.
— Por favor, nunca mais faça isso.
— Fazer o quê? — a frase saiu levemente sufocada, podia sentir que minhas costelas se partiriam em poucos segundos.
— Ficar longe!
— Não exagera, Heather. Você ficou quase o mês todo de março em Los Angeles.
Afastou-se apenas o suficiente para me olhar diretamente nos olhos.
— Sua aparência está horrível. Parece mais magra do que da última vez que nos vimos. Está comendo direito?
— Heather! — Apartei os seus braços de mim, ela estava com aquele tom de mãe novamente. — Eu passei mal a viagem toda, por isso estou assim.
— Ressaca? Me lembro de Nick ter usado exatamente esse termo.
Virei-me na direção de Nicholas, prestes a fuzilá-lo com o olhar. Ele cumprimentava meu pai do outro lado do carro.
— Olá!
Me voltei para frente, diante de mim, logo ao lado de minha irmã, estava Alison, minha melhor amiga mirrada e de olhos puxados. Imediatamente a fechei em um abraço desesperado.
— Ally! — Ainda que eu não fosse consideravelmente alta, segundo a internet minha estatura era mediana, Alison parecia um filhotinho. Sua cabeça passava poucos centímetros da altura da marca do meu ombro. — Como você está?
Abracei ela com todo o vigor de alguém que estava desfalecendo de saudade. A última vez que pude fazer isso fora um ano antes, quando a mesma foi passar o verão em Los Angeles comigo.
— Eu estou ótima! — Até mesmo a sua voz fazia jus a todo o seu tamanho, ou falta dele.
Só então nos afastamos.
— Não esperava te ver hoje.
— Só quis fazer uma surpresinha. — Sorriu gentilmente. — Estava com saudade.
— Eu também estava. — Me permiti abraçar ela mais uma vez.
, — Heather estava de volta assim que me separei de minha melhor amiga. — esse é o Connor.
Fitei o seu noivo e o meu cunhado pelos últimos três anos. Ele usava os mesmos óculos grandes e redondos, além de estar dentro de roupas sociais.
— Por que ela te apresenta todas as vezes que nos vemos?
Ainda que Connor e eu não estivéssemos sempre em contato ou nos vendo com certa frequência, que por sinal era com a mesma frequência com que via a minha irmã, já que sempre estavam juntos nas viagens, não havia necessidade em nos apresentar toda vez que nos encontrávamos.
— Eu não faço ideia. — Ele deu de ombros, estendeu uma mão em minha direção. — Bom vê-la de novo. — Sorriu divertidamente.
Apertei sua mão.
— É bom te ver também.
E, por último, veio meu pai. Ele ganhou mais peso com o passar dos anos, finalmente exibindo uma aparência saudável, o rosto redondo novamente, a pele bronzeada e o cabelo cada vez mais grisalho. Veio até mim com os braços abertos, sem pensar duas vezes me joguei entre eles. Enterrei-me em seu peito como há muito tempo não fazia, eu pude ouvir o seu coração calmo batendo dentro do peito e sua respiração quente sobre a minha cabeça. Tudo o que fizemos por um bom tempo foi apenas aproveitar a presença e proximidade um do outro, não havia muito o que dizer.
Levamos as malas para dentro de casa, uma a uma. Tomei um choque ao entrar no hall e encontrar a mesma decoração, o aparador entre a entrada da sala e do escritório, o lustre de cristal no centro, o tapete claro em contraste com a madeira escura do chão, a escada a direita. Senti que havia voltado anos no tempo ou que talvez nunca tivesse realmente partido, uma ideia que me deu calafrios.
— Vocês pararam no meio do caminho para comer, eu tinha deixado com todo amor e carinho do mundo um lanche prontinho. — Heather fez bico.
Não era mentira, a mesa de madeira na sala de jantar estava coberta de guloseimas e bebidas. Pelos copos e pratos sujos, somando-se as migalhas sobre a toalha, em algum momento desistiram de esperar ou partiram para comer assim que descobriram que Nick e eu já tínhamos parado para fazer o nosso lanche.
— Era um caso de vida ou morte. estava desfalecendo. — Puxou uma cadeira e sentou-se em seguida. — Mas não sou eu que vou recusar comida. De jeito nenhum!
— Isso! — Heather deu alguns tapinhas animados no ombro de Nick. — Coma sim. E você também, . — Não esperou que eu respondesse, arrastou-me até uma das cadeiras vagas. — Fiz os seus preferidos. — Apontou para os cupcakes de chocolate, cobertos com chantilly e granulado colorido.
— E os meus?
— Você nem come cupcake, Nick.
— Se você se esforçasse um pouco para me agradar, talvez eu gostasse.
— Não vou fazer nada por você. — Lançou um olhar atravessado na direção do rapaz.
— Como foram de viagem? — Papai tomou a cadeira na ponta da mesa, provavelmente o lugar onde já estava antes, pois passou a mexer na colher dentro de uma xícara com café.
— Foi tranquilo. — Nicholas deu de ombros, pegando um dos donuts de chocolate com granulado. — A não ser pelo momento que vomitou na porta do carro.
— O que aconteceu? — Olhou diretamente para mim.
— Só passei mal — tentei soar o mais despreocupada possível, papai não precisava saber que em partes meu mal-estar tinha a ver com bebida em excesso. — Você sabe! Sempre passo mal nessas viagens longas, especialmente de carro.
— Ah! Aquele tipo de enjoo. — Blake estava acostumado em ter que lidar com uma criança enjoada por estar andando de carro e o choro pela dor de cabeça, que parecia prestes a furar o seu crânio. Eu brincava que tinha alergia a carro.
Heather me encarava do outro lado da mesa, uma sobrancelha arqueada, limitei-me a fingir que não estava entendendo a desconfiança toda dela.
— Vai passar a noite aqui? — questionei diretamente minha amiga sentada ao lado, ela cutucava a metade um pão já roído.
— Hoje não. Mas vamos ter tempo de noite do pijama.
— Bom, de qualquer forma acho que não cabemos mais na casa da árvore.
— Definitivamente não. — Ela riu com diversão. — Já não cabíamos mais lá para a festas dos pijamas mesmo antes de você ir embora.
— Hmm. — Cocei o queixo com uma mão.
Virei meu rosto na direção onde supostamente deveria estar a saída da casa, minha amiga captou meu pensamento no mesmo instante, praticamente nos colocamos em pé ao mesmo tempo.
— Onde vão? — Heather questionou, nos acompanhando com o olhar.
— Vou ver a casinha da árvore.
A sala de jantar tinha ligação direto com a cozinha no fundo da casa, que por sua vez tinha saída para o imenso quintal.
Talvez por ser a última casa da rua, nosso quintal era consideravelmente mais espaçoso que os demais da rua, com exceção do vizinho à frente, cujo quintal dele era ainda mais invejável. Não era segredo, porém não pude conter o choque em ver uma piscina bem iluminada ocupando metade do nosso campo de baseball improvisado na infância. Era uma piscina ampla cheia de formas e curvas.
— Às vezes sinto que só esperaram eu ir embora para fazer a piscina. — Passávamos pela mesma. — Teria adorado isso quando criança.
Ao lado direito do terreno ficava um carvalho ainda maior que o da frente, raízes largas e profundas sustentavam toda a majestade daquela imensa árvore. E perdido entre os seus grossos galhos e folhagem estava a nossa casinha de madeira, lugar onde passamos muitas tardes brincando e outras tantas noites dormindo.
A mesma casinha, talvez um pouco desgastada pelo tempo e definitivamente menor do que costumava ser quando era criança. Uma escada improvisada no tronco da árvore levava até a pequena varanda exterior da construção, o seu ponto de entrada.
Subi primeiro com minha amiga logo no encalço. Embora a casinha fosse alta o suficiente para poder ficar em pé dentro dela, ela parecia ainda menor do que me lembrava. Brinquedos antigos se espalhavam pelas prateleiras improvisadas em todo o redor nas paredes, o conjunto de mesa com cadeiras ainda estava ali.
Sentei-me na entrada da casinha, e minha amiga me acompanhou, ficou em posição de índio ao meu lado. Naquela altura tínhamos visão perfeita de todo o quintal ao redor e a casa logo a nossa frente, podia ver as duas janelas do meu quarto daquele ponto, de repente estava curiosa para ver como ele estaria depois de anos, ao menos papai não tinha se desfeito das minhas coisas para transformar o cômodo em alguma sala de ginastica ou de jogos.
Puxei minhas pernas para o meu corpo, passando os braços ao redor delas.
— É meio louco estar aqui de novo.
— Especialmente nessa casinha.
— Sim, especialmente isso. Mal cabemos aqui dentro. — Olhei ao redor, aquele pequeno retângulo cheio de brinquedos velhos e possivelmente muitos insetos, me trazia muitas boas lembranças. — Mas quer saber uma coisa louca de verdade?
Minha amiga levantou as pernas, imitando a minha posição, e apoiou a cabeça sobre os próprios joelhos, olhava diretamente para mim.
— Encontrei com vindo para cá.
A boca de Alison abriu-se.
— No Fat Joe?
— Sim.
— Eu sabia que ele ia se apresentar lá. Ele me contou. E como foi?
— Não sei. — Dei de ombros. — Nos falamos muito rápido, eu já estava de saída.
— Que coincidência.
— Pois é!
Caímos do silêncio. Depois de anos me acostumando a agitação de Los Angeles, havia me esquecido de como Campbell era quieto, especialmente à noite. Meus ouvidos estavam estranhando.
— Esse verão vai ser memorável.
— Espero que seja de uma forma boa. — Soltei um riso nervoso.
— Vai ser sim, . — Sua mão afagou o meu ombro com carinho.
— Amanhã meus pais vão fazer um jantar em casa, coisa simples, para comemorar o aniversário do Josh. Você vai, certo?
— Isso é um convite?
— É mais uma ordem.
— Sendo assim, não tenho a chance de recusar.
— Obrigada.
— E logo mais é o seu aniversário também.
— É. Só não precisa ficar falando isso perto do Josh, ele é complexado com o fato de termos nascido quase no mesmo dia. — Ela rolou os olhos.
— Certo, certo.
Dispensamos algum tempo apenas aproveitando o momento, havia séculos desde a última vez que curtimos a presença uma da outra. Mesmo que meus tios tivessem me forçado a entrar de férias, não negaria que era maravilhosa a sensação de não ter nada para fazer.
Mais tarde, Ally e Connor foram embora, quase ao mesmo tempo. Nick e eu levamos nossas malas para o piso superior. Seguindo para a direita no corredor ficava a suíte principal e o único quarto de hóspedes da casa, indo para o outro lado ficavam os três quartos destinados para cada filho.
O quarto de Heather era o primeiro, dos três o maior e com um closet generoso. Do lado oposto, na segunda porta, ficava o de Nicholas, que não era grande e tampouco possuía um closet espaçoso, mas tinha o seu próprio banheiro, de maneira que, enquanto ele curtia a própria ducha, Heather e eu tínhamos que brigar pelo banheiro do corredor.
E a última porta era o meu quarto, que não tinha nada de especial. Era apenas um quadrado, com um closet pequeno e sem qualquer chance de um banheiro próprio, mas ainda assim era o meu lugar.
Não que tivesse algum dom de memória fotográfica ou algo do gênero, mas cada coisa parecia estar no seu exato lugar. Acreditaria que aquele cômodo ficara trancado nos últimos anos, se não fosse o estado de limpeza em que se encontrava, não havia poeira em canto algum.
— Bem-vinda de volta! — papai anunciou ao deixar uma das malas logo ao lado da porta.
— Obrigada — respondi com divertimento.
— Boa noite, gatinha. — Passou sua mão por sobre a minha cabeça, desordenando a minha franja pelo caminho, e delicadamente me puxou para si, a fim de depositar um beijo no alto de minha cabeça.
— Boa noite, pai. — Apertei com delicadeza uma de suas bochechas, o gesto o fez rir.
Blake não foi embora logo de início. Com a mão apoiada na maçaneta da porta, ficou a me encarar. Primeiro imaginei que tivesse algo a dizer, então esperei, mas ele se limitou a sorrir e fechou a porta em sua saída.
Olhei o ambiente a minha volta, um cômodo parado no tempo, que ainda respirava a aspirações de uma garota de dezesseis anos, que passava os seus dias sonhando sobre o futuro. Uma porção de pôsteres de filmes se espalhavam pelas paredes, contrastado com os de cantores e bandas que eu curiosamente gostava na época. Minha icônica coleção de filmes, no formato de VHS e DVD, a coleção de livros que deixei para trás.
Não tinha planos algum de desfazer malas naquela hora da noite. Na verdade, tudo o que pensava naquele momento era em me jogar sobre a cama e abrir os olhos apenas no dia seguinte.
Me voltei apenas para a mala onde sabia que estava o meu pijama de verão e vesti o mesmo, uma regata solta com um shorts curto. Tirei toda a cobertura da cama, o edredom e as almofadas antigas, e me joguei sobre o colchão. Estava longe de ser tão macio quanto o que tinha em minha casa em Los Angeles, mas aquele era o meu colchão, o mesmo que me abraçara uma vida inteira, que me vira ir dormir com sorrisos nos lábios uma porção de dias, assim como me aninhou nas noites em que as lágrimas venciam.
Deitei minha cabeça no travesseiro, ele tinha um delicioso cheiro de coisa recém lavada. Heather e meu pai haviam deixado tudo perfeito para quando chegasse em casa e isso fez eu me sentir bem. Aquela fora uma das noites em que os sorrisos predominavam.


CAPÍTULO QUATRO

Acordei na manhã seguinte com o sol batendo em meu rosto. Nem tanto pela claridade, mas o calor me convenceu a deixar o colchão de uma vez por todas. Com os olhos ainda se acostumando a claridade, abri a cortina estampada com as naves de Star Wars, e a luz invadiu todo o cômodo. O sol ainda estava baixo.
Deixei o meu quarto. Do corredor, a casa se encontrava estranhamente quieta, a porta do quarto de Nick estava aberta, assim como a de Heather, indicando que ambos já não dormiam mais. Caminhei pelo corredor até alcançar a escada, desci os primeiros degraus em silêncio e, então, ouvi algo de vidro bater contra o granito da bancada da cozinha.
Eu estava achando que foi Heather que pediu para você desembarcar em Los Angeles. — Ouvi a voz do meu pai. A leve menção sobre a passagem de Nicholas na Califórnia despertou a minha curiosidade.
Não. — a resposta veio logo em seguida. — Foi Mason que pediu.
Com passos leves atravessei o hall e tentei ficar o mais próximo possível da cozinha sem denunciar a minha presença.
Ainda não entendi por que ele te pediu isso.
Pai, — deu uma pausa como costumava fazer quando estava falando algo sério. Me encostei na parede e dei um passo mais próximo da porta de acesso a cozinha. — Mason e Audrey estão preocupados com .
Meu pai não disse nada de imediato. Minha respiração travou, queria me aproximar ainda mais.
Preocupados com o que exatamente?
Era a mesma pergunta que rondava minha cabeça.
Parece que ela está se isolando. Anda tensa. — Mexia com alguma bebida, podia ouvir o som da colher batendo na porcelana da xícara. — Passa muito tempo sozinha. Eles não sabem nem se ela está comendo direito. Viu como está magra?
Está bebendo?
Pai, todos nós bebemos. — respondeu em tom de brincadeira.
Fumando?
Provavelmente. Tio Mason estava com medo de não vir para Campbell, por isso me pediu pra parar lá.
Papai fez silêncio mais uma vez.
Ele e tia Audrey acham que vai fazer bem a ela passar um tempo aqui. Relaxar, essas coisas.
Silêncio.
Eles estão ocupados com o divórcio, que cá entre nós: está um caos. Não podem ficar em cima de com os problemas deles para resolver.
Dessa vez o silêncio se estendeu por mais que alguns poucos segundos. Girei o meu corpo, apoiando a cabeça na parede. Eu não tinha a mínima ideia de que tudo aquilo estava acontecendo sob o meu nariz. O plano de me levar à Campbell, toda a preocupação dos meus tios, quando na verdade eles tinham coisas muito mais importantes com o que se preocupar. O peso na consciência ganhou algumas toneladas a mais.
O que eu posso fazer? — a voz do meu pai saiu em um lamento doloroso. — Eu não fui capaz de ajudar ela nem naquela época!
A situação era diferente, pai.
A situação podia até ser diferente. Mas é tudo consequência do que aconteceu. A partida da sua mãe quebrou ela. — a última frase saiu quase em um sussurro, por pouco não consegui entender o que ele disse. — E eu não consegui ajudá-la.
Tão silenciosamente quanto fora até a porta, voltei de costas pelo corredor e entrei no banheiro. Abaixei a tampa da privada e me sentei ali mesmo.
Meus olhos estavam lacrimejando, pisquei uma porção de vezes na tentativa de conter as lágrimas. Havia prometido a mim mesma, dez anos antes, que nunca mais, em hipótese alguma, iria derramar uma única lágrima por minha mãe. Já tinha se passado doze anos desde que ela nos deixou à própria sorte, e achei que à essa altura isso já não deveria me incomodar mais. Engano meu.
Respirei fundo, segurei o ar por algum tempo e esvaziei totalmente os meus pulmões. Meu pai se culpava pelo o que houve, por minha partida, e isso era completamente injusto. Inspirei. Uma lagrima conseguiu vencer a minha força de vontade, me convenci que aquela seria por meu pai. Expirei. Também por Mason e Audrey, que mesmo com todos os seus problemas, ainda achavam um pedacinho para encaixar os meus também. Inspirei.
Um toque na porta me fez pular sobre o vaso sanitário e soltar um gritinho ardido.
? — era a voz de Nicholas.
Olhei ao redor desesperada. Tinham lágrimas escorrendo por meu rosto, eu não podia simplesmente deixar o banheiro naquela condição, ou eles saberiam que eu estive bisbilhotando a conversa privada.
— Sim? — agradeci aos céus por pelo menos a minha voz se manter firme.
Achei que ainda estava dormindo. Está tudo bem? O que está fazendo nesse banheiro?
Vendo que havia um banheiro praticamente em frente a porta do meu quarto, não era de se estranhar a questão.
— Estou bem sim. Só estou... — Olhei ao redor. O que eu poderia estar fazendo naquele banheiro? — Eu estou... — Havia um sabonete esfoliante sobre a bancada da pia. — Estou fazendo limpeza de pele.
Limpeza de pele?
— É. Depois de acordar, a melhor hora para fazer isso.
Ok. — havia um tom de dúvida. — Vai tomar café?
— Sim.
Beleza. Vou deixar as coisas sobre o balcão.
— Obrigada.
Lavei o meu rosto uma dezena de vezes, não queria que alguém descobrisse que eu estava fechada no banheiro praticamente chorando. Os olhos estavam levemente avermelhados, felizmente as olheiras se sobressaiam, eram mais evidentes. No pior dos casos teria que mentir que tudo tinha a ver com o cansaço.
Deixei o banheiro cinco minutos mais tarde. Caminhei até a cozinha, dessa vez apenas Nicholas estava lá, levantou os olhos do jornal assim que passei por ele. Tomei um dos bancos altos vagos junto a ilha da cozinha.
— Bom dia. — Tomei o bule azul com café.
— Dormiu bem? — Tinha sua atenção novamente no jornal.
— Feito uma pedra. — O que não era exatamente algo positivo, algumas partes do corpo estavam doloridas. — E você?
— Como um bebê. — Vi um sorrisinho no canto do lábio.
Enchia uma xícara branca com café quando um flash estourou em meu rosto.
— Ops! — a exclamação veio do meu pai, com o rosto escondido atrás de uma câmera Canon. — Deixei o flash ligado sem querer.
Virou a display da câmera para mim, era difícil identificar as minhas feições na imagem estourada, estava tudo exageradamente claro.
Comecei a rir involuntariamente. Papai apontou a câmera mais uma vez em minha direção e dessa vez não teve clarão algum. Ser filha de um fotógrafo me fez crescer familiarizada a câmeras e fotografias, além de ser o trabalho dele, era comum essas reações aleatórias com a câmera. Havia uma infinidade de álbuns e porta-retratos por toda a casa, exibindo as mais variadas poses espontâneas, eram registros divertidos do dia-a-dia.
— Não vou mentir, estava com saudade disso.
— Pelo menos essa não vai para a internet.
Papai apoiou a câmera sobre o balcão, sentou-se no banco logo em frente ao meu e tomou o jornal das mãos de Nicholas, que fez menção em protestar, mas o olhar duro de Blake foi o suficiente para fazer Nick mudar de ideia.
— E a câmera que te dei, você usa?
Coloquei uma colher de açúcar em minha bebida e mexi o café.
— Qual das? — Blake levantou os olhos do jornal. — Você fica alimentando o meu vício em equipamentos.
— A 1D, do último natal.
— Ah! — Assentiu positivamente. — Uso no trabalho, quero dizer, dependendo do trabalho. Ela não é das mais leves. E ainda virei lenda na região: o único fotógrafo com uma 1D pelos arredores.
— Eu lhe trouxe mais uma coisa.
— Outra câmera?! — Nicholas intrometeu-se na conversa. — Agora vai me dizer que a Nikon te mandou o projeto de uma nova câmera, que só vai chegar ao mercado daqui 10 anos, e pediu para você dar ao seu pai, só para testar o produto.
— Olha! Se for isso, não desaponta.
— É difícil competir com você, . — Franziu o cenho, me encarava com raiva.
— Fica calmo, Nick. Nem é uma câmera.
Corri na direção do hall e subi os degraus com urgência, ouvi um grito de Blake para ter cuidado na escada.
Já em meu quarto, deitei uma das malas de rodinha no chão. O presente estava em uma caixa de papelão toda envolta em plástico bolha e algumas peças de roupa, apenas para garantir que chegaria intacto. Coloquei a caixa de baixo do braço e voltei para a cozinha.
Nicholas me lançava um olhar atravessado, embora eu não acreditasse que ele estivesse mesmo irritado com a situação. Ele só era dramático.
— Aqui está. — Sentei-me novamente no meu banco e coloquei a caixa diante do meu pai.
Blake encarou a caixa e depois mudou o olhar para mim. Dobrou o jornal novamente e pegou o seu presente.
— Encontrei há algumas semanas. Quando estava em Londres.
Encontrei em Londres. — Nicholas me imitou com uma careta. — Você é muito exibida!
Recebeu em troca um tapa de Blake.
— Não vai abrir? — Apontou para a caixa. — Se não eu vou abrir para você, velho.
Nicholas ganhou um segundo tapa, dessa vez na mão, logo que tentou tocar na caixa. Papai cortou as fitas atadas ao plástico bolha com uma faca serrilhada. Suas sobrancelhas ergueram-se, enrugando completamente a sua testa.
— Encontrei em uma feira de rua, achei bem curiosa a peça. A vendedora me falou que é uma Lomography Petzval, e eu não sabia o que isso queria dizer.
Papai tirou de dentro da caixa uma lente dourada, nada discreta.
— Depois fui dar uma pesquisada, ela cria um efeito interessante nas fotos.
— Ela é diferente. Tenho que admitir. — Girou o objeto em mãos.
— Parece coisa velha. — Nicholas aproximou-se do objeto.
— É baseada numa lente do século XIX.
— Parece que pesquisou mesmo. Vamos testar?
— Agora?
Blake não respondeu a pergunta. Deixou o seu lugar e sumiu na direção do hall.
— Te odeio, .
— Você é um amor, Nick.
Papai voltou minutos mais tarde, tinha em mãos o corpo de uma Canon, na qual a lente dourada já estava acoplada, criando um contraste interessante.
Sem perdoar a minha aparência de quem acabou de acordar – e tinha chorado no banheiro −, papai me guiou para fora com a desculpa de que precisava testar o novo produto.
Passeamos pelo quintal por alguns instantes, papai estava à procura de um bom lugar para uma fotografia. No fim das contas me colocou contra a cerca viva que separava os terrenos, um conjunto de folhagens verde escuro com algumas flores alaranjadas.
— Ok. — Papai se posicionou alguns passos a minha frente e levou a câmera até o rosto. Ele tinha uma mania engraçada de enrugar toda a testa quando ia fotografar, fechava um olho com mais força que o necessário. — Fique de lado.
Virei o meu tronco alguns centímetros para a direita.
— Assim?
— Isso. E olhe para o lado oposto.
Girei a cabeça, meu olhar seguiu para a direção da rua.
— Isso. Perfeito.
E esperei. Esperei ouvir o disparo do obturador da câmera e nada.
— Pai?
— Só um minuto. Que eu estou descobrindo como mexe com isso, a lente é totalmente manual.
— Tudo bem.
Sai da posição a tempo de ver Nicholas juntando-se à nós. Parou logo ao lado de Blake, tinha os braços cruzados em frente ao peito.
— Faça a pose de novo.
Voltei a minha posição inicial. Por fim ouvi o som de disparo da câmera.
— Dessa vez foi? — questionei sem sair da posição.
— Adorei! — sua voz saiu em uma exclamação animada. — É maravilhosa!
— A lente. Não você. — completou meu irmão.
— Vai você também. — Papai empurrou Nicholas em minha direção.
O tomei pelo braço, mantendo-o logo ao meu lado. Tão alto quanto papai, minha cabeça alcançava apenas o seu ombro.
— Não sou modelo. — Rolou os olhos.
— Nem eu.
Como em nossas melhores fotografias, fizemos caretas e meu pai bateu a foto.


*


Estava no carro com Heather ao volante e Betty do lado do carona. Além de melhor amiga e madrinha de honra, Betty ainda era sócia de minha irmã, juntas construíram uma cafeteria, com especialidade em variados doces.
Elas conversavam animadamente sobre um filme que tinham visto na televisão noite passada, salvo o fato de que cada uma se encontrava em sua casa naquele momento. Eu me ajeitava preguiçosamente no banco traseiro, com a janela completamente aberta podia sentir o vento lamber o meu rosto.
Nosso destino era a loja de vestidos, lugar em que Heather mandara confeccionar os trajes de todas as madrinhas. Aparentemente eu era a única que não havia experimentado a peça, na verdade, eu sequer sabia como o vestido era. A única informação que me chegou era que eles tinham duas cores, azul para mim e Betty, enquanto as demais usariam na cor rosa.
Campbell estava no ápice do seu movimento, o tal horário de pico, e mesmo assim não se via sinal algum de congestionamento. Nunca me cansaria do tráfego de Campbell que raramente parava, aquilo era louvável. Não se podia comparar o número de habitantes de Los Angeles com o da pequena cidade, porém isso não tornava aquilo menos impressionante.
— Você vai adorar o vestido. — comentou Betty já na calçada, estávamos diante da fachada da loja.
Uma pequena vitrine exibia alguns modelos de vestidos de gala, um tanto coloridos, certamente o que havia chamado a atenção de Heather. A loja era pequena, não era um lugar chamativo.
— As cores são maravilhosas. — Betty se adiantou na direção da porta de entrada.
— Cores? — questionei, levemente atônica. — O vestido não é azul?
— Sim. — Heather respondeu primeiro.
Betty puxou a porta, fez sinal para que entrássemos. Uma placa na entrada dizia que havia ar-condicionado do lado de dentro.
— Mas não é a única cor. — Piscou para mim.
De repente estava com medo de ver o vestido. Heather era inegavelmente uma fã de estampas e cores, era visível no seu modo de vestir. Embora soubesse fazer boas combinações, não queria dizer que todo mundo quisesse usá-las.
O ambiente dentro da loja estava graus mais baixo que do lado de fora, causando um choque de temperatura bruto. Era uma temperatura quase digna de um agasalho.
— Bom dia! — Uma garota baixa, de cabelos volumosos e negros, disse enquanto se colocava em pé atrás do balcão na recepção da loja.
Haviam araras cobertas de vestidos na parede logo atrás da garota. Diferentes cores, tamanhos e tecidos.
— Heather! Bom vê-la. — Sorriu. — Olá Betty.
— Oi, Helen. — minha irmã a cumprimentou, Betty limitou-se a sorrir. — Viemos fazer a prova de vestido da . — Apontou em minha direção.
A garota acompanhou o gesto com o olhar, no fim alcançando o meu rosto. O seu sorriso alargou-se ainda mais, seus olhos quase se fecharam com o movimento dos músculos ao redor.
— Liguei no começo da semana. Avisei que viria hoje.
— Sim. Me lembro disso. — falava com minha irmã, mas seus olhos estavam cravados em mim. — Podem me seguir. Dona Rose não está, mas Kath vai atendê-las.
Helen saiu de trás do balcão, ela usava um chamativo vestido listrado de laranja e amarelo que ia até a altura dos joelhos. Por cima ainda havia um avental branco, que exibia a logo da loja em um bolso no centro do peito. Novamente mais cores, aquele lugar havia atraído minha irmã exatamente como fontes luz atraíam insetos.
A vendedora seguiu até o fundo da recepção e escondida entre mais araras carregadas de vestidos havia uma porta. Seguimos ela por um curto corredor, o papel de parede tinha um padrão floral em verde escuro, contrastando com o funcho verde claro. Helen parou diante de outra porta e bateu uma vez.
— Kath? — chamou com o rosto próximo a madeira. — É Heather. Ela veio fazer a prova de vestido da madrinha que faltava. . — Meu nome saiu estranhamente com mais ênfase, quase de admiração.
A maçaneta girou, a porta se abriu.
— Podem entrar, por favor.
Fiquei chocada. Precisei segurar o meu próprio queixo para que ele não fosse para o chão. Não esperava que a mesma Kath que Helen chamava fosse a mesma Kath que eu conheci na adolescência.
Aparentemente o tal vestido listrado era o uniforme da loja, pois Kathryn usava um igual. Ela havia ganhado peso, algo surpreendente para quem gostava de se gabar pelo número baixo na balança. Na verdade, vendo ela depois de dez anos, o rosto mais redondo, o quadril mais largo, a barriga protuberante, ela parecia mais saudável que antes.
Os olhos de Kath passaram do rosto de minha irmã, o mais próximo, para Betty, que vinha logo atrás dela, e, então, me alcançaram no final da fila de mulheres. Olhos grandes e azuis. Ela passou a mão pelo cabelo acobreado e alargou um sorriso, que, pelo que entendi, era especialmente meu, vendo que não fizera o mesmo com aquelas que vieram antes de mim. Aquilo foi estranho. No universo em que eu vivia não fazia o mínimo de sentido, pois não me lembrava de alguma vez Kathryn ter me tratado com aquela simpatia.
!
Pisquei, atônica, algumas vezes e olhei ao redor. Kathryn já não era a única com os olhos sobre mim. Era Heather quem falava comigo.
— Está dormindo? — Soltou um riso abafado. — Venha logo. — Fez sinal com a mão para que eu a seguisse.
Passei por Kath na porta sem desviar meus olhos do caminho.
O cômodo era uma espécie de ateliê. Rolos de diferentes tecidos, manequins com tamanhos variados e muito equipamento de modelagem se espalhavam em todas as direções, cobriam mesas e enchiam prateleiras. A loja não se limitava a vender os vestidos, também eram produzidos ali. Me perguntei se Kath seria uma das pessoas que mexiam com isso.
— Venha comigo até o provador, . — Kath apontou para uma outra porta no fundo do cômodo. Aquele lugar apenas parecia pequeno, por dentro era mais um labirinto de portas. — Vou te ajudar com o vestido. Já voltamos, meninas. — Me tomou por um dos braços, enquanto seus olhos estavam virados para a dupla que ficava. Guiou-me na direção da tal porta.
Não negaria que quis pedir socorro a Heather, ou, pelo menos, chamar para que me seguisse. Em minha imaginação, do outro lado daquela porta, Kathryn teria preparado um lugar especialmente para me torturar. Era um exagero, porém um exagero que me assustava.
Tudo o que encontrei foram mais manequins, vestidos pendurados, ou ao menos pedaços de vestidos, e um imenso espelho.
— Tire a roupa.
— O quê?!
— Para experimentar o vestido. — Olhou-me, confusa. — Precisa tirar a roupa para isso.
— Ah. — respondi, envergonhada pelo susto desnecessário.
— Vou te ajudar a colocar o vestido.
— Certo.
Em todos aqueles anos, se tinha algo que nunca passara em minha mente, essa coisa era que um dia estaria tirando minha roupa diante de uma das pessoas que mais odiei no colegial. Eu estava de calcinha e sutiã diante da melhor amiga de Brenda, umas das contribuintes para meu último ano em Campbell ter sido um pesadelo.
Teria me sentindo infinitamente melhor no momento em que entrasse no vestido, caso o mesmo não fosse uma peça tomara-que-caia, com uma saia bufante recheada de tule rosa, que contrastava de forma gritante com o azul turquesa da peça.
— Heather trouxe um exemplo de modelo, minha mãe fez o desenho final.
Encarava o meu próprio reflexo, Kathryn não tinha entendido que minha expressão era de indignação, não de surpresa.
— Ajudei a costurar. — completou com orgulho próprio.
Kathryn encarregou-se de fechar o zíper lateral, que deslizou com facilidade para cima. Sem aviso prévio, Kath passou a mexer em meu corpo, mais especificamente no vestido. Apertou o tecido de um lado, puxou do outro, esticou a fita métrica uma porção de vezes na saia, na cintura e no busto.
— Os seus números diminuíram. — Estava distraída com a fita em mãos.
Quatro meses haviam se passado desde que tirei minhas medidas para o vestido, fora tempo suficiente para os números terem diminuído. O reflexo no espelho também dizia isso. Me senti ainda menor dentro de tanta saia.
— Devo apertar?
— Não. Garanto que vão crescer de novo até o casamento.
Estar de volta em casa tinha as suas vantagens. Nada mais de comer porcarias congeladas das quais vinha sobrevivendo em Los Angeles.
— Como vão as coisas? — A pergunta me pegou de surpresa. Em partes por conta do silêncio que tomara o lugar, por outro lado, era um diálogo que não deveria existir entre nós. Aquilo era um tremendo erro do universo. — Quero dizer, além daquilo que sai por ai. — Riu consigo mesma. — Você sempre está na internet.
Ainda não havia me acostumado com a ideia de as pessoas saberem de vida através da internet. E muito provavelmente não me acostumaria nunca.
— Fazia tempo que não te via em Campbell.
— Eu nunca mais voltei. — saiu quase em uma acusação, embora não fosse a minha intenção.
— Ah. — seu tom foi fraco. — A vida deve ser corrida por lá.
— É sim.
— Pronto! — anunciou, colocando-se ereta novamente. — Vamos mostrar a Heather? Fui guiada novamente, dessa vez de volta para o cômodo anterior. Heather e Betty aguardavam sentadas em um sofá azul escuro e se colocaram de pé no instante que se deram conta da nossa volta.
— Minha nossa! — Heather avançou em minha direção e me fez girar algumas vezes. — Você parece ainda menor dentro do vestido. — Não tinha dúvidas que era culpa do excesso de tule cor de rosa. — Mas está lindo em você! O vestido ficou perfeito.
Heather bateu algumas palmas, totalmente animada. Quanto a questão do vestido ser perfeito, eu não era obrigada a ter que concordar.
— Bom, — começou Kath. — ainda tenho que fazer alguns ajustes, mas está praticamente pronto.
— Ficou incrível. Não acha, ?
As três pessoas presentes se viraram para mim ao mesmo tempo. Assenti mais do que de pressa.
— Você e sua mãe fazem uma boa dupla.
— Obrigada. Ela vai ficar feliz em saber disso.
E voltei ao provador. Cada vez que via a peça azul turquesa no espelho sofria um choque diferente. Àquela altura até começava a gostar do vestido, o modelo em si era bonito. O decote em forma de coração era delicado, a cor também era agradável. A peça só era exagerada de uma forma que agradava unicamente Heather. Me perguntei se as outras madrinhas, incluindo a de honra, haviam gostado tanto quanto minha irmã.
Kath aproximou-se sem que eu me desse conta, quando percebi ela já tinha aberto o zíper lateral do vestido. Ficou do meu lado até eu tirar completamente a roupa e devolver a ela e, só então, se afastou, levando o vestido consigo.
— Você é a única madrinha que faltava fazer a prova. — sua voz vinha de algum canto. — Na verdade, as outras fizeram pelo menos três. Como está um pouco em cima da hora, vai dar tempo de você fazer só mais uma.
Peguei a calça jeans de cintura alta jogada sobre um poltrona qualquer e passei a vesti-la.
— Brenda mesmo experimentou quatro vezes.
Meu corpo ficou estático com a menção daquele nome.
— O corpo dela muda muito rápido. — riu consigo mesma. — Entrou em uma dieta nesse mês, para ver se consegue manter um mesmo peso até o casamento.
Era claro que não existia uma única Brenda em todo o universo, porém havia apenas uma em comum nas galáxias próximas a minha e de Kathryn. O destino não podia estar sendo cruel a ponto de chocar mais aquela galáxia com a minha. Não de novo.
— Brenda? — Não escondi a minha confusão naquele momento.
— É. A Brenda. — Fez uma careta, retorcendo os lábios, soltou um riso baixo. Demorou alguns poucos segundos, mas, por fim, a expressão de deboche se desfez. — Você não sabia? — Agora era a sua vez de demonstrar confusão. — Não sabia que ela é uma das madrinhas?
Primeiro me veio o choque. Em minha mente, não fazia sentido algum Brenda ser madrinha de Heather, e eu tampouco queria que isso fosse verdade. Simplesmente não entendia como a minha inimiga do colegial se tornou uma das madrinhas daquele casamento.
, — a voz de Kath me fez lembrar que não estava sozinha no cômodo. — você não sabe que Brenda é irmã do Connor?
E então me veio a raiva. Connor tinha uma irmã, disso eu tinha consciência, apenas não sabia muito sobre ela. Mas seria possível que nos três anos de relacionamento com Heather, Connor nunca teria sequer mencionado o nome da própria irmã? Ou eu simplesmente havia ignorado o fato? Quero dizer, meu cunhado não era a pessoa mais tagarela do mundo, e nos encontramos poucas vezes. Não eram tão pequenas as chances de sua irmã nunca ter sido um assunto em pauta.
— Puta merda. — o xingamento me escapou entre os lábios, quase inconsciente.
— Disse algo?
— Não. — o mal humor começava a transparecer no tom de voz.
Terminei de vestir a camiseta cor de rosa.
— Achei que à essa altura você soubesse. — comentou sem graça, dando de ombros.
— Ótimo. — respondi com rispidez. — Isso está ficando cada vez melhor.
Campbell era pequena, eu só não esperava que fosse pequena àquele ponto. Esbarrar com Brenda pela rua seria algo normal, beirando o compreensível, porém as coisas estavam muito além disso. Uma coincidência terrível.
Abri a porta do provador com rapidez, surpreendendo Heather e Betty do outro lado. Estavam sentadas no sofá novamente e cortaram a conversa instantaneamente.
— Acabou.
— O que achou? — havia tom de expectativa na voz de Heather.
— Bonito. — menti na cara dura, embora meu tom ríspido entregasse em partes a verdade.


CAPÍTULO CINCO

Promessa era dívida, principalmente se era feita para uma melhor amiga desesperada. Alison me mandara ao menos meia dúzia de mensagens durante todo o dia, indiretamente me lembrando sobre o jantar em sua casa. Com papai e Nicholas falando sobre o mesmo assunto seria impossível esquecer o tal jantar.
Não conseguia me lembrar da última vez que vira o irmão de Alison, Joshua. Na verdade, nem éramos tão próximos. O nosso principal vinculo era eu ser melhor amiga da sua irmã caçula e ele ser melhor amigo do meu irmão mais velho. Definitivamente Ally era o principal motivo para eu comparecer àquele jantar.
Desci a escada, encontrando um Nicholas terrivelmente apressado no hall.
— Está pronta, linda? — Agitou as mãos no ar.
— Qual o motivo de todo esse desespero?
— Estou faminto.
— E não tem comida na sua casa? — Apontei na direção da cozinha.
— Estamos indo para um jantar, por que raios eu comeria em casa?!
— Pra evitar os outros de ter que lidar com o seu mal humor.
— Não estou mal-humorado! — praticamente saiu em um rosnado. — Estamos prontos, pai!
Um minuto mais tarde Blake surgiu no hall segurando um kit de churrasco de baixo do braço.
No carro, papai estava na direção, enquanto Nicholas se jogava do lado do passageiro, a mim sempre sobrava o banco traseiro. Não era de todo ruim, afinal, eu tinha todo o espaço de trás para mim.
Nick colocou o último álbum do Arctic Monkeys para tocar, a segunda música não tivera nem tempo para finalizar, estava pela metade quando chegamos a casa dos Gyliard. Não nos importamos em esperar R U Mine? terminar para finalmente deixarmos o veículo.
Desde que chegara a Campbell, havia percebido como muita coisa não parecia ter sofrido o efeito do tempo. Estar de volta à cidade era quase como voltar anos. Porém a casa da família de Ally era uma bela exceção a esse efeito. Me lembrava vagamente sobre minha melhor amiga comentar a respeito de reformas pela casa, mas em minha cabeça era aquela coisa de repintar alguma parede, trocar todos os móveis de algum cômodo ou até derrubar alguma parede inútil... Havia passado por ali muito mais do que uma simples reforma. Podia jurar que a casa crescera para os lados.
Foi Nick quem se encarregou de apertar a campainha. A rua estava cheia de carros, o que indicava que não era um simples jantar. Meio minuto depois alguém veio atender.
— Olha quem está aqui! — Joshua abraçou meu irmão. Ambos estapearam as costas um do outro sem delicadeza alguma.
— Parabéns, cara!
— Obrigado!
Ainda apertaram a mão um do outro.
— Feliz aniversário, Josh. — Blake também o abraçou, mesmo que com menos vigor que Nick.
— Obrigado, tio.
E chegou minha vez. Josh havia sofrido algumas mudanças consideráveis com o tempo. Nada do cabelo raspado e o rosto liso que o deixava com a aparência de um adolescente. O cabelo havia crescido, até mesmo deixara a barba aparecer, coisa que ele se negava a fazer antigamente.
— Quanto tempo, . — Sorriu para mim.
— Realmente. — Assenti. — E feliz aniversário! — imitei o mesmo gesto de abraço que os dois anteriores, fui ainda mais rápida que meu pai. — Tudo de bom para você.
— Muito obrigado. — Senti sua mão dar leves tapas em minhas costas. — Ally vai negar, mas está louca esperando por você.
— Eu imagino que sim.
Joshua fechou a porta assim que passei pela mesma.
— Ela me lotou de mensagens o dia inteiro. — comentei, fitando o rapaz.
— Bom, ela está na cozinha.
— Ok. Antes eu só preciso ir ao banheiro.
— Já sabe onde fica. — Deu uma piscadela em minha direção e estalou a língua. Deixou-me sozinha no hall.
Eu sabia onde era o banheiro, mas antes da casa parecer um lugar completamente diferente daquele que eu conhecia. O próprio hall deu-me a impressão de ter crescido metros.
Meu primeiro pensamento foi subir a escada. Alison comentou que agora contava com um banheiro exclusivo para si em seu quarto. Acreditava que aquele privilégio poderia se estender pelo menos um pouquinho para sua melhor amiga.
Para minha surpresa, a escada que antes dava para um pequeno espaço aberto que conectava os corredores dos quartos, agora se abria em uma ampla sala de televisão. O corredor para os quartos ainda estava ali, abri uma porta, sendo certeira em encontrar o quarto de Alison, que assim como o resto da casa havia crescido.
Fui rápida no banheiro, voltando para o quarto o quanto antes. Por mais que o cômodo tivesse crescido, ainda era o mesmo, apenas mais espaçoso. O mural de fotografias ainda ocupava uma parede, agora quase exclusiva para ele, especialmente vendo como ele crescera nos últimos anos. Alison e meu pai dividiam quase a mesma obsessão por fotografia, mas enquanto um era por tirá-las e colecionar equipamento, o outro era por acumulá-las.
O mural seguia uma distinta linha do tempo, começando com Alison ainda bebê. Passava por toda a sua infância, onde dava para identificar facilmente Nicholas e eu em uma porção de imagens. Eram fotos de nós dormindo na casa da árvore, outras nos divertindo no lago na fazenda de Mike, primo de Alison, até mesmo apresentações da escola.
A linha do tempo seguia para a adolescência, o período em que Ally se recusava a usar qualquer cor que não fosse preto, enquanto eu preferia algo com um quê oitentista. Éramos um belo contraste. Mais fotografias de Alison e Mike, ele fazia parte do nosso círculo de amigos e, sem dúvida, muito próximo da prima, embora de todos, Mike fora o que eu tinha menos afinidade.
E não podiam faltar fotos do grupo inteiro reunido, especialmente na época do colegial. , Brant, Morgan e Leo. Meu coração apertou-se com a visão de todos juntos. Costumávamos ser tão grudados, especialmente Leonard. Ele era indiscutivelmente o meu melhor amigo, um irmão que eu costumava dizer que tinha escolhido, ao invés de Nicholas. A distância que se abriu entre nós não era apenas física. Eu passei de melhor amiga para uma pessoa que sequer fora convidada para o seu casamento no ano passado.
E, então, gradualmente a minha participação nas fotografias foram sumindo. Havia Alison indo à um baile. Alison e Morgan em algum parque de diversões. Alison, Mike e em um show. Todos juntos na formatura do colegial. Faculdade. Viagem em um trailer velho. O casamento de Leonard e Morgan.
Morando em Los Angeles desde os dezesseis anos, era claro que seria difícil eu aparecer com tanta frequência naquele mural. Havia um vácuo de dez anos, onde eu aparecia esporadicamente em algumas imagens. Alison em Los Angeles. Eu em New York, ainda na época que ela estava na universidade. Nossa viagem para a Itália três anos antes. E a mais recente era do verão passado, quando Alison foi me visitar em Los Angeles. Na ocasião estávamos na praia, e ela bateu a foto com sua Polaroid.
Suspirei pesadamente. Não tinha mais nada que eu pudesse fazer sobre os anos de distância, o que eu podia ter feito já não dava mais tempo.
Abafei um grito com as mãos ao me virar na direção da porta e encontrar com postado na saída. Ele me encarava.
— Caramba! — Abaixei as mãos até o peito. Meu coração estava prestes a sair pela boca. — Você está aí há quanto tempo?
— Acabei de passar no corredor. — Apontou com o dedão a direção de onde viera.
— E você achou que seria uma boa ideia ficar aí em silêncio?
— Não quis atrapalhar o momento. — Indicou o mural com um dedo.
Observei ele se aproximar, passou a fitar as fotografias.
— Ainda bem que Alison registra tudo. — Encarava a parede pensativo. — Minha memória é uma merda.
— Sei disso.
Talvez por essa razão ele fosse a pessoa menos rancorosa que eu conhecia.
— Como você está?
Só então percebi que ele já não encarava mais as fotografias.
— Eu estou bem. — Assenti apenas para reafirmar a resposta.
Coloquei minhas mãos nos bolsos da jardineira, não o encarava diretamente.
Não era uma pergunta retórica, não quando vinha de . Ele realmente se importava e se interessava pela resposta, principalmente a verdadeira. era bom em decifrar as pessoas, talvez por ser tão empático. Ele era bom em me decifrar, e não acreditava que a distância ou o tempo tivessem mudado isso. Eu até podia ter mudado, mas a essência continuava a mesma.
— E você? — Por fim tive coragem de olhar para ele.
— Estou ótimo. — Curvou os lábios em um sorriso simpático.
Uma covinha solitária surgiu no lado direito do seu rosto. Ele continuava se recusando a deixar a barba crescer, o rosto liso exibia apenas a sombra do que poderia vir a ser uma barba.
— Achei você!
Quando me dei conta havia uma Alison pendurara em meu braço. Encarava-me feito uma criança ao encontrar a mãe depois de se perder no supermercado.
— Só encontrei Nick e o seu pai. Por um instante pensei que não tivesse vindo.
— Eu fiquei confirmando o dia inteiro que viria. Você ainda duvidou? — Fingi estar chateada.
Ela pouco se importou, apenas deu de ombros. Ultimamente as pessoas não estavam me dando muito voto de confiança, e, no fundo, eu não tirava a razão delas.
— Vamos vocês dois. — Tomou pelo braço também. — A festa é lá embaixo.
Assim que dei as caras oficialmente na festa, me vi na obrigação de cumprimentar as pessoas. Aqueles que eu realmente conhecia limitavam-se a família de Alison e alguns poucos amigos em comum. A diferença era que dez anos antes eu não tinha o meu nome em manchetes e o rosto em filmes. De repente, todos me conheciam, e, às vezes, eu sequer sabia o nome da pessoa.
— Minha garota! — Benjamin ou simplesmente tio Ben, para os mais íntimos, abriu os braços assim que me avistou.
O pai de Alison estava ainda maior do que da última vez que o vira. Seu corpo crescera para os lados e seus braços pareciam enormes. Usava uma camisa havaiana de gosto questionável, uma infinidade de coqueiros se espalhavam sobre um fundo azul. Ainda estava tentando superar o trauma daquela cor.
— Comecei a achar que não te veria mais. Não nessa vida. — Fechou-me em um abraço forte. — Quanto tempo criança.
— Também estava com saudade, tio Ben. — Minha voz saiu levemente sufocada, mal conseguia mover as costelas com o aperto forte.
— Esqueceu o caminho de volta à Campbell?
Separou os nossos corpos sem necessariamente deixar que me afastasse. Segurando-me pelos ombros, continuei de frente para Benjamin.
— Quase isso. — Acompanhei o seu tom de brincadeira.
— Como vão as coisas? Hollywood tem te tirado o couro? Parece cansada.
— Estou cansada mesmo. — E não era apenas uma questão física. — Mas as coisas estão indo bem. Não tem faltado trabalho.
— Imagino que não! — Soltou um riso alto. — Depois que você ganhou aquela coisa dourada, só consigo imaginar todos querendo trabalhar com Kelleher.
!
Virei minha cabeça alguns centímetros para o lado, Mike estava escorado no batente da porta. O tempo havia feito um bem danado a pouca altura do primo de Alison. Por um bom tempo ele parecia fadado a ser o mais baixo da turma, somando-se ao seu peso, ele sempre parecia ainda mais baixo do que realmente era. Cresceu mais do que qualquer um poderia ter acreditado.
— Oi, Mike. — Sorri para o rapaz.
Ele correspondeu ao gesto, os olhos puxados quase fecharam por completo com o movimento do rosto. Aquela era uma característica forte da vinda da família materna de Alison.
— Faz uma vida desde a última vez que nos vimos. — Aproximou-se, mexendo com o cabelo fino e espetado.
Não costumávamos ser muito próximos no colegial, apesar de dividirmos o mesmo círculo de amigos. Digamos que ele demorou a amadurecer e eu não tinha muita paciência para brincadeiras na época.
— É. — Concordei com um aceno da cabeça. — A vida de uma criança de dez anos.
Ele e tio Ben riram. Talvez agora um pouco de brincadeira não seria algo ruim.
Sem convite, ou um aviso prévio, Mike me fechou em um abraço rápido. Fiquei estática com o movimento, primeiramente nunca fomos íntimos um do outro, e, por outro lado, depois de ter partido, e de como parti, não esperava ser recepcionada com abraços e gracejos por meus antigos amigos. e Mike vinham me surpreendendo.
— É bom ver você ao vivo. — Já havia se afastado.
— Fomos assistir ao seu último filme. — tio Ben apontou para ambos com o indicador. — Juntos.
— Quem diria! — Mike cruzou os braços. Encarava-me pensativo. — Voltando as raízes. Um musical.
— Lembro como se fosse ontem dos recitais da escola.
— Como podem ver, — Dei de ombros. Inflei o peito. — me preparei desde cedo. Estava no meu destino cantar e dançar.
— Uma estrela desde os seis anos. — Benjamin deu alguns tapinhas no meu ombro. — Eu amei o filme. Você: espetacular.
— Obrigada. — Levei as mãos ao peito, meu ego aceitava o afago. — Você é um amor, tio Ben.
— Depois tem que autografar os meus DVDs.
— Tem os DVDs? — não disfarcei a surpresa.
— Temos todos! Ally sempre compra.
— Ok. — Mike interveio. — Já entendemos que você é o maior fã da . E tenho certeza que ela está adorando ser bajulada. — Rolei os olhos, Mike riu. — Sem ofensas, tio. — O rapaz passou um braço por sobre os meus ombros, puxou-me sutilmente para a direção de onde viera. — Mas vou levar para a parte da casa onde tem pessoas da idade dela.
— Você é um porre, Michael.
— Também te amo, velho.
Passamos da cozinha para uma segunda sala de estar. Essa era ainda mais ampla que a de cima, a parede lateral era trabalhada no vidro de fora a fora, dando uma visão limpa do quintal iluminado ao fundo. Um imenso e visualmente aconchegante sofá branco formava um L, todo coberto de almofadas coloridas de diferentes tamanhos. E além dele havia uma mesa de snooker.
Alison estava junto de alguns primos e na mesa de snooker. Ela não estava no jogo, no entanto comentava com vigor a partida jogada pelos rapazes.
— Salvei de ficar de conversa fiada com os velhos.
Mike me guiou até o lado de Alison, soltando-me apenas quando estávamos diante da mesa. Ally enganchou-se ao meu braço.
Fui cumprimentada à distância pelos primos dos meus amigos. Na maioria eu conhecia apenas de vista, eles eram uma família numerosa.
A partida era disputada por e Kyle, um primo de segundo grau de Alison. Ambos jogavam com a concentração digna de um verdadeiro competidor de snooker, só faltava um juiz em volta e estaríamos diante de um campeonato oficial, daqueles que se pode assistir ao vivo no YouTube.
encapou a bola preta, levantou o olhar, exibindo um sorriso maroto.
— Parece que temos um vencedor. — Ally comentou.
— O jogo ainda não acabou. — rebateu seriamente Kyle. Seus olhos concentrados na nova tentativa de , agora mirava a vermelha.
tem quinze pontos a mais que você. O jogo já acabou faz tempo.
— Mas fique feliz, Kyle. — Mike intrometeu-se. — Está perdendo só de quinze pontos para o melhor jogador de snooker da região.
O primo não ficou feliz com o comentário. O seu olhar fuzilante mudou de direção, da mesa para o rosto redondo de Mike. Só faltou soltar faíscas.
As partidas eram quase intermináveis, Kyle não queria sair dali sem uma vitória sequer. Em algum momento, Alison e eu desistimos de assistir e fomos sentar na varanda dos fundos da casa, havia uma mesa redonda de madeira com algumas cadeiras ao redor.
Dali tínhamos visão para todo o jardim, enquanto a porta dos fundos, completamente aberta à nossa direita, nos permitia ouvir toda a agitação do lado de dentro da casa.
Brindamos com nossos copos de cerveja, agora a garrafa estava definitivamente vazia e Alison parcialmente bêbada.
— Descobri da forma mais embaraçosa possível que Brenda é irmã de Connor. — comentei após um gole da bebida. Coloquei o copo de volta sobre a mesa.
— Espera. — Alison virou-se ligeiramente para mim em um movimento lento. — Você não sabia que ela era irmã de Connor?
— Você sabia?
— Sim! — Agitou a cabeça.
— Tudo bem. — Bufei. — É um tanto ridículo eu não saber disso.
— Pois é.
— Amanhã vamos almoçar na casa de Connor. - Tomei outro gole da cerveja. — Almoço em família.
— Sério? — Limitei-me a assentir. — A última vez que você viu Brenda foi tipo... — Ela parou por algum tempo, seus olhos concentrados em meu copo. — No colegial?
— Acho que foi. Logo depois daquele passeio desastroso com a escola para Dallas.
Alison fez uma careta.
— Queria ver esse reencontro.
— Te levaria comigo. Ou te mandaria no meu lugar.
Ela riu de uma forma preguiçosa, fazendo-me rir também.
— Esse verão vai ser especialmente louco.
— Nem me diga.
Levei a taça suada até a testa, sentindo o frescor da bebida gelada contra a minha pele.
— Parece até uma miragem ter você aqui.
— Garanto que sou bem real.
Brindamos mais uma vez. Meu copo já passara da metade.
— Olá, garotas!
Desviamos nossas cabeças ao mesmo tempo na direção da porta, Mike saia de dentro da casa e vinha em seu encalço.
— Seu pai está te procurando, Ally.
A garota fitava o primo sem parecer entender o que ele lhe dizia.
— Ei! — Estalou os dedos diante do rosto dela. — Seu pai está te chamando lá dentro.
— O que ele quer?
— Não sei. Não sou garoto de recados.
Bufou, irritada, mas colocou-se em pé. Sua taça intocada de cerveja ficou para trás, enquanto Michael tomou o lugar em que estivera.
— Agora que ela foi é seguinte: — Mike aproximou-se de mim de forma quase intimidadora, a voz em um sussurro. abaixou-se do meu outro lado, com um braço apoiado sobre a mesa.
— Gente, o que é isso?
— Fala baixo. — murmuraram juntos, fazendo sinal para que eu ficasse quieta.
— O aniversário da Ally está chegando. — Ela e o irmão tinham o infortúnio de terem nascido quase no mesmo dia, apesar dos anos que os separavam. — Pensamos em fazer uma festa surpresa para ela. — assentiu a minha direita.
— Em um pub que ela gosta lá no centro.
— Isso! Já conversamos com o dono, ele libera o lugar e faz um preço camarada pela bebida. Só temos que cuidar da comida, que, por sinal, ele liberou a cozinha pra uso.
— E é isso.
Ambos ficaram me fitando.
— Tudo bem. — concordei afinal. Não sabia exatamente o que esperavam por resposta.
— Você vai nos ajudar.
Virei-me para Mike.
— Com?
— Com qualquer coisa que precisar, oras! Todos vamos ajudar na empreitada.
— E por que vocês acham que dessa vez vai dar certo? — Cruzei meus braços. — Tentamos fazer isso há anos. — Estalei os dedos. — E ela sempre descobriu.
— Não pense nos anos anteriores como uma derrota. — foi que falou. — Pense que foram treinamentos, para conseguirmos dessa vez.
— Bom, — Dei de ombros. — o que temos a perder?
— É isso ai! — Mike deu-me um tapa no braço. — É esse o espirito. No fim, com ela descobrindo ou não, vamos ter uma festa.


CAPÍTULO SEIS

Não me sentia feliz e tampouco animada para o almoço em família. Significava que eu estava prestes a rever Brenda pela primeira em anos e a partir daquele ponto teria que aprender a conviver com ela.
Connor vivia em uma casa grande quase no centro de Campbell. Era um sobrado com um jardim simples, mas bem conservado, as paredes de madeira pintadas de branco. Até onde sabia Heather praticamente morava com o noivo, abrira exceção apenas nos últimos dias, já que Nicholas e eu estávamos na cidade porque queria ficar mais perto de nós.
Minha cara não expressava qualquer sinal de simpatia. Desde que acordei naquele dia, Blake já tinha pedido ao menos três vezes para eu relaxar o rosto. Ele acreditava que não passava de mal humor, só não sabia que meu mal humor tinha um nome.
Nick apertou a campainha, no instante que a porta abriu algo se revirou dentro de mim com um movimento gélido e agressivo. Era apenas Connor, ele arrumou o par de óculos no rosto e sorriu timidamente para nós.
— Que bom que chegaram. O almoço já está quase na mesa.
— E aí! Tudo bom? — Nick apertou a mão do cunhado, que correspondeu o gesto agitando a mão de ambos.
— Sim, sim. E você?
— Faminto.
Connor riu.
— Olá, senhor Kelleher.
— Connor. — Blake apertou sua mão também.
— Bem-vinda, . — Cumprimentou-me exatamente como fizera com os dois primeiros, embora agitasse as nossas mãos com menos intensidade. — Por favor, — Apontou na direção do corredor que levava para o fundo da casa. — estão todos na cozinha.
A casa tinha uma decoração minimalista, alguns poucos itens simples e pouco chamativos traziam uma personalidade tranquila ao lugar. Não tinha dúvidas que aquilo ajudava Heather e sua mania de organização conviverem quase em paz; menos coisas à vista significavam menos coisas espalhadas e desordenadas.
Atravessamos o longo corredor, ali um tapete vermelho escuro atravessava de uma ponta a outras. Alguns poucos quadros com fotografias, todos exatamente do mesmo tamanho, também preenchiam o corredor de fora a fora e não era preciso medir com uma régua, sabia que estavam separados em intervalos iguais. Passamos por algumas portas brancas, todas fechadas.
A medida que nos aproximávamos do final do corredor, o burburinho tomou forma, transformando-se em uma conversa audível. Minhas narinas foram impiedosamente invadidas pelo odor tentador de temperos, o que abriu o meu apetite. Me via tomada por uma fome que não sabia sentir segundos antes.
Fui a última a entrar no amplo cômodo que formava a cozinha conjugada à sala de jantar. Grandes janelas davam visão para o quintal no fundo, assim como eram uma ótima fonte de luz natural.
— Finalmente chegaram! — Heather colocou-se em pé em um pulo, antes ocupando uma das banquetas do balcão. — Vocês dois já conhecem todo mundo. — Tomou-me pelo braço sem muita delicadeza e me puxou ainda mais para dentro da cozinha. — Venha conhecer a família de Connor.
Minhas veias foram tomadas de gelo e meu coração passou a bater mais vigorosamente.
— Essa é a mãe de Connor. Hellen.
Sentava-se na banqueta ao lado de onde Heather estivera. Era evidente que o filho herdara alguns traços da mãe, o cabelo claro e desgrenhado, sem muito formato, os olhos redondos e verdes. A mulher estendeu uma mão em minha direção, e eu apertei educadamente.
— Prazer em conhecê-la, Hellen.
— Igualmente. — respondeu com um sorriso.
— Esse é meu sogro, Bruce. — Heather guiou-me feito uma boneca para o lado, onde o homem estava sentado ao lado da mulher.
— É um prazer conhecê-la.
Agora podia ver de quem Connor adquirira o rosto mais quadrado e o maxilar forte.
— Prazer em conhecê-lo também, senhor Piasecki.
Trocamos um rápido aperto de mão, o homem tinha aperto forte, quase bruta. Precisei conter uma careta de insatisfação que ameaçou tomar o meu rosto diante dele.
— E agora! — Heather anunciou genuinamente mais animada e só faltava uma pessoa naquela família. Eu queria morrer. — Brenda. — Estava pronta para sair correndo. — A irmã de Connor e minha madrinha.
A garota levantou-se de um dos lugares da mesa de jantar, seus passos alinhados caminharam com atitude em minha direção. A cena acontecia em câmera lenta dentro de minha cabeça. O cabelo chapado de Brenda estava mais longo do que nunca, porém mais claro do que me lembrava. No rosto ela carregava um largo sorriso, de longe era a coisa mais absurdamente assustadora naquela cena de modo geral.
Brenda Piasecki estava sorrindo especialmente para mim, e eu estava congelada. Fomos amigas na infância. Se ignorássemos o fato de no colegial ela ter achado graça em se divertir com a questão de minha mãe ter simplesmente abandonado a nossa família, aquele sorriso largo nem seria tão estranho.
Não erámos amigas, não tínhamos mais qualquer vínculo e mesmo assim vinha em minha direção uma Brenda claramente feliz estendendo uma mão.
— Ótimo vê-la finalmente. — Ainda sorria, e eu permanecia presa em um estado de choque. — Heather sempre fala de você.
Pisquei atônica algumas vezes. A mão da garota ainda pendia em minha direção, Heather se ocupou em fazer todo o meu trabalho de levantar o braço e obrigou minha mão a tocar na de Brenda. Um toque macio.
— Agora estão oficialmente apresentadas.
Oficialmente apresentadas?
Minha mão despencou de volta para o lado do meu corpo. Não era possível que Heather não soubesse que Brenda e eu nos conhecíamos. Praticamente estudamos juntas até os nossos dezesseis anos.
— Apresentadas? — Soltei a pergunta com um quê de divertimento. Podia jurar que Brenda prendeu a respiração.
— Não se preocupe, . — Heather rolou os olhos. — Antes do casamento vou te apresentar as madrinhas que ainda não conhece.
Definitivamente minha irmã não sabia que Brenda e eu já nos conhecíamos.
— Ótimo! — respondi com uma falsa animação. — Estou muito ansiosa por isso. — Olhei Brenda diretamente nos olhos, sua expressão era neutra, embora parecesse segurar a respiração.
— Então, — Os olhos de Brenda vagaram de mim para Heather. — e o vestido? De madrinha, eu digo. — Não parava de esfregar uma mão na outra. — Só faltava para fazer a prova. Deu tudo certo?
— Ah! — Heather exibiu um sorriso largo de imediato. — Deu certo, sim. Só vai precisar fazer alguns pequenos ajustes, mas ficou per-fei-to! Não é, ?
— Sim. Adorei o vestido. Como era o nome da garota que nos atendeu? — Fitei Heather.
— Helen?
— Helen era a do balcão. Não. A outra.
— Ah! Kathryn.
— Isso!
— É a filha da dona da loja.
Voltei-me para Brenda.
— Gente boa ela. — Abri um sorriso sugestivo.
— Ela é sim. — concordou minha irmã.
— E o salão? — Brenda soltou rapidamente. — Você me falou que faltava definir alguma coisa da decoração.
— Isso! Vamos nos sentar? — Apontou na direção da mesa de onde Brenda veio minutos antes.
— Sim.
As duas direcionaram-se rumo a mesa de jantar, sentaram de frente uma para a outra e embarcaram em uma conversa sobre a decoração da festa. Não negaria que me divertia o fato de Brenda estar dependendo de mim para manter seu segredinho bem guardado.
Mais tarde, todos tomamos nossos lugares na mesa. Pratos e talheres estavam ordenados sobre jogos americanos de pano, os copos postos de boca para baixo e cada um tinha o seu próprio guardanapo de pano. Havia uma organização quase simétrica sobre a mesa e isso só podia ser trabalho de Heather, a única pessoa maníaca por padrões suficientemente paciente para fazer algo daquele nível.
Mesmo com a comida em nossos pratos e todos ao redor da mesa, Brenda e Heather ainda estavam imersas em sua conversa sobre o casamento. Limitei-me a ouvir sobre detalhes que nem mesmo eu sabia, detalhes os quais Brenda não só estava por dentro, como praticamente havia ajudado em tudo. E isso me incomodou de uma forma que não achei que fosse possível.
Pela primeira vez em minha existência sentia ciúmes de minha irmã mais velha.
Elas eram íntimas. Minha irmã mais velha era terrivelmente próxima da pessoa que me odiara no colegial. As duas se conheceram durante os últimos três anos e agora eram amigas. O que Heather pensaria se eu resolvesse contar que Brenda, a mesma pessoa que a ajudava com o casamento, costumava achar graça do fato de nossa mãe ter nos abandonado?
— E o vestido de noiva! — Heather pronunciou cada sílaba da frase. — Ainda não sei lidar com ele.
— Ele é espetacular! — concordou sua cunhada.
— Serei eternamente grata, . — Por fim eu estava inserida no assunto, ao menos alguma coisa que eu tinha algum conhecimento. — É sério! Não tenho palavras para agradecer o vestido.
— Não foi nada. — Dei de ombros.
— Não foi nada. — Heather riu, Brenda a acompanhou. — Para você, a estrela da família. Eu nunca teria conseguido horário para um orçamento com Elsy Agusti, quem dirá pagar um vestido dela.
— Ficou espetacular.
— Eu sei. — Não tive intenção de soar bruta. Brenda não tiraria a minha alegria de tê-lo dado à minha irmã só porque ela o tinha visto ao vivo e eu não. — Vi as fotografias. — Limpei a garganta.
— E o chá de panela? Já viu uma data, Heather?
— Chá de cozinha? — Levei meus olhos até minha irmã. — Ainda não fez?
— Não.
— Ela quis te esperar.
— Não precisava ter feito isso.
— Você ficou fora de tanta coisa. O que pude adiar, eu adiei.
Minha mente deu sinais de tomar aquilo como alguma indireta, ou acusação a respeito da minha ausência. Respirei fundo, me esforçando para focar na parte boa: Heather me esperou. Fez questão que eu tivesse a chance de participar de algo e era o que importava.
Teria me sentido como a pessoa mais importante daquela mesa, caso, no minuto seguinte, Heather e Brenda não tivessem entrado novamente em detalhes do casamento, os quais eu estava completamente por fora.

*

Sentia cada milímetro de pele que cobria o meu corpo tenso. Era como se estivesse sobre um trampolim e qualquer menor movimento me levaria direto a uma piscina de pregos. Uma de minhas pernas balançava freneticamente, enquanto batucava constantemente com uma mão sobre a perna parada.
— Pode parar aqui? — Coloquei o rosto entre os dois bancos da frente.
Papai desviou os olhos da janela a sua direita e lançou-me um olhar confuso.
— Por que quer parar aqui? — Nick fitou-me através do espelho retrovisor.
Passávamos pelo centro da cidade, mais cinco minutos e já estaríamos em casa. Meu corpo estava uma pilha de nervos.
— Quero caminhar um pouco. — a frase saiu rápida e carregada de urgência, não seria de se espantar caso não acreditassem.
— Por quê?
— Eu só quero andar um pouco! — soou mais alto sem intenção, o nervosismo começava a tomar conta dos meus atos. — Volto andando para casa.
Sem mais qualquer questionamento meu irmão parou no meio fio.
— Daqui a pouco estou em casa. — anunciei antes de fechar a porta do Jeep.
— Cuidado, Louise.
— Ok, pai.
Esperei que o carro saísse da vista, assim que virou a esquina sai de minha posição de guarda. Vinha lutando contra a vontade voraz de acender um cigarro haviam dias, mais precisamente desde o dia que pisei os pés em Campbell, pensei que seria uma boa ideia evitar com meu pai por perto. Um dia antes de embarcar para o Texas tinha quase aniquilado um maço por completo.
Do outro lado da rua havia um posto de gasolina, mais ao fundo estava uma loja de conveniência escondida entre pilhas de pneus carecas e velhos. Eu não devia nem mesmo ter cogitado a possibilidade de ir comprar os malditos cigarros, estava quebrando uma promessa silenciosa, já feita fadada ao fracasso.
Olhei para os dois lados da rua e atravessei com passos largos, ansiosa para comprar aquela porcaria. Parei na calçada tomada por um choque de consciência, eu não deveria prosseguir.
O posto de gasolina de modo geral estava tão acabado quanto os pneus velhos, era admirável que ainda estivesse ativo. A placa gasta da loja estava levemente pendendo para um lado, dando a impressão de que cairia a qualquer momento, talvez sobre uma pessoa teimosa que não deveria estar ali.
— Mas que droga. — murmurei, irritada comigo mesma.
Um lobista acompanhou-me com os olhos até finalmente eu desaparecer dentro da pequena loja. O lugar estava tão abafado quanto imaginei que o inferno seria, três ventiladores trabalharam preguiçosamente para espalhar ainda mais o ar quente que dominava o lugar.
Atrás do balcão se encontrava um rapaz, não devia ter mais de dezesseis anos, porém exibia a barba por fazer de um tio de cinquenta anos. Encarava-me com tédio típico de alguém naquela idade, que enquanto os amigos curtiam as férias em algum acampamento, ou praia bem distante dali, ele era obrigado a ajudar na loja do pai.
— Preciso de cigarros. — Apontei para o mostruário pendurado na parede atrás dele.
Sem o mínimo de presa ou ânimo, ele virou o rosto numa lentidão torturante, encarou o painel com uma variedade limitada de marcas e, com a mesma moleza, voltou-se para mim.
— Marlboro, Salem, Winston ou Chesterfield? — até mesmo a sua voz se arrastava em um misto de tédio e pura preguiça.
— Pode ser Marlboro.
O observei girar sobre a cadeira onde se mantinha sentado, levantou o longo braço magro até a fileira da Marlboro e pegou um maço.
— São sete dólares e oitenta e nove.
— Também preciso de isqueiro.
— Não temos.
— Não tem? — Cocei minha cabeça. — Tem cigarro e não tem isqueiro?
— Acabaram. Pode usar fósforo.
— Tudo bem. Então me dê uma caixinha de fósforos.
— Não temos.
Prendi a respiração, sufocando um xingamento. Fechei os lábios em um linha dura.
— Onde posso achar um isqueiro?
— Talvez na farmácia ao lado.
Abri a carteira, tirei uma nota de dez dólares e entreguei a rapaz.
— Pode ficar com o troco.
Fechei o maço entre os meus dedos e vaguei para fora da conveniência.
A tal farmácia ficava logo ao lado do posto de gasolina. Parecia consideravelmente mais limpo que a loja anterior, o simples fato de não ter uma pilha de pneus velhos como item de decoração era admirável.
A porta abriu-se automaticamente com a minha aproximação, fui saudada pelo toque refrescante de um ambiente dominado pelo ar-condicionado. Algo bem-vindo após experimentar a ventilação de ar quente da conveniência.
Parei diante do caixa da farmácia, deixei que o maço caísse com um baque sobre o balcão. A atendente sobressaltou-se com a minha aproximação repentina, os olhos da garota foram do meu rosto para o cigarro e voltou-se para os meus olhos.
— Oi. Isqueiro, por favor. — Sorri.
Piscou forte algumas vezes, até que me deu as costas.
Enquanto esperava, alguém aproximou-se pelo lado, parando no caixa logo ao lado. Duas caixinhas foram postas sobre o balcão, não com a mesma brutalidade com que eu tratara os meus cigarros, mas com o cuidado de alguém que lidava com algo frágil. Desviei os olhos rapidamente apenas para concluir que se tratavam de testes de gravidez.
Por pura curiosidade levantei o olhar inesperadamente me deparando com Morgan, que correspondia ao gesto. Voltei-me para os testes, apenas para ter certeza do que tinha visto, antes do balconista pegar as caixinhas.
A aliança dourada em seu dedo anelar me fez recordar do casamento ao qual não fui convidada. Um ano depois do ocorrido estava diante de minha amiga da época do colegial comprando testes de gravidez.
— São dois dólares e vinte e cinco.
Um isqueiro vermelho estava apoiado no balcão diante de mim e do maço de cigarro intocado. Pelo canto do olho percebi que a atenção de Morgan já não estava mais em mim, ela olhava especificamente para a caixinha que carregava uma dose de morte para os meus pulmões.
— Claro. — Tirei a carteira do meu bolso, coloquei uma nota de cinco dólares sobre o balcão. — Pode ficar com o troco.
Deslizei minha mão sobre o caixa, primeiro agarrei os cigarros em seguida pegando o isqueiro vermelho. Senti-me relutante quanto a olhar mais uma vez para Morgan, fazia tanto tempo que eu não falava com ela, uma vida havia passado desde a última vez que nos vimos.
Era irônico o fato de eu estar carregando aqueles cigarros, enquanto Morgan estava prestes a saber se carregava dentro de si um pedacinho de vida.
— Boa sorte. — murmurei sem necessariamente olhar para ela, não tive coragem de levantar os olhos.
Morgan não iria dizer nada, eu sabia disso. Na verdade, esperava por isso. Nos conhecíamos desde os nossos dez anos, e conheci Leonard muito antes disso, fomos melhores amigos, e agora não conseguíamos nem dizer um simples olá uma para outra. Eu havia machucado eles, e o silêncio de Morgan era o meu pagamento por todos aqueles anos.
Sem esperar por resposta, deixei a farmácia. Acendi o primeiro cigarro cinco minutos mais tarde enquanto voltava para casa.

*

Sentia como se tivesse passado uma eternidade desde a última vez que caminhei por aquelas ruas. Me lembrava de várias vezes voltar andando para casa depois da escola, estranhamente eu preferia voltar por minhas próprias pernas do que pegar o ônibus escolar.
Encontrei com alguns vizinhos, me cumprimentavam à medida que eu passava pela calçada. Tentava dar um jeito de me esquivar sempre que alguém demonstrava querer começar uma conversa.
Cheguei em casa apenas com a bituca em mãos e louca para acender um segundo cigarro. Havia cedido à pressão de minha mente cega pelo vício, então o plano era fumar o mínimo possível, porém parte de minha consciência me dizia que enquanto aquela caixinha tivesse o que oferecer, eu não iria me acalmar.
Joguei a bituca na lixeira da rua e entrei em casa. Escondi o maço em um dos bolsos traseiros da calça jeans e o isqueiro no outro, tudo para meu pai não descobrir. No entanto, a primeira coisa que Blake falou assim que entrei na cozinha foi:
— Você está cheirando a cigarro.
Fiquei encarando ele sem saber o que responder. Negar não me parecia a melhor ideia, não tinha dúvidas que o odor estaria mesmo evidente, havia me esquecido desse detalhe. Por outro lado, concordar também não era a melhor solução, era como assumir um crime por mais evidente que ele estivesse.
Blake cruzou os braços ante o seu peito, caprichou na expressão autoritária de pai.
— O que foi?
— Você não tinha parado com isso, ?
Ele sabia que não! Nicholas fizera questão de deixá-lo a par do assunto em questão, eu só não podia dizer isso, ele não precisava saber que bisbilhotei a conversa deles outro dia.
— Mais ou menos. — Dei de ombros, também cruzei os braços.
Ele bufou feito um adolescente contrariado.
— Deveria parar com isso.
Já tinha ouvido a mesma frase de diferentes bocas. Às vezes vinha de tio Mason, outras de Audrey, até o contrarregra do último filme que gravei me deu alguns conselhos.
— Eu sei.
E essa era uma resposta constante. Algumas vezes eu realmente conseguia parar por semanas, porém em algum momento em me via de volta, era como um ciclo sem fim e eu não sabia exatamente como quebrá-lo.
— Tudo bem. — Blake desfez toda a sua pose autoritária, deixou que os braços caíssem ao lado do corpo e jogou a cabeça para trás. — Eu não vou discutir sobre isso com você. Você é adulta e espero que tão responsável quanto acredito que seja. Mas essa merda é só da porta para fora.
Não sabia ao certo o que responder. Estava sob o teto dele, no fim eu teria que acatar as suas ordens.
— Estamos entendidos, ?
— Sim, pai.
Por mais calmo que Blake fosse, havia alguma coisa no cigarro que o tirava do sério. Tentei ao máximo evitar que ele soubesse dessa pequena dependência desde que comecei, entretanto foi difícil negar quando eu apareci na internet claramente segurando um cigarro enquanto deixava uma loja qualquer em Los Angeles. Papai surtou a primeira vez, eu pedi perdão na época. Ele aprendeu a lidar e eu a não fumar na presença dele.
— Você recebeu uma ligação.
Pensei no meu celular.
— No telefone?
— Isso. — Me olhou torto.
— De quem?
Ele se apoiou de costas no balcão da cozinha.
— Do prefeito.
— Prefeito?
— Robbie.
Assenti em compreensão. Era o pai de Leonard.
— Pediu para você comparecer no gabinete semana que vem. Terça-feira, às quatorze horas.
— Para o quê?
— A secretaria não entrou em detalhes. Só pediu para o caso de você não poder ir, que que ligasse, assim veriam outro dia e horário.
— Claro. Vou ver se tem algum espaço na minha agenda super concorrida.
Papai riu.


CAPÍTULO SETE - Parte I

— Mais alguma coisa? — A balconista encarou a caixa de papelão cheia de enfeites coloridos.
— Não, é só.
— São trinta e dois dólares. — Mascava ruidosamente uma goma de mascar.
Lhe entreguei uma nota de cinquenta. A gaveta do caixa abriu-se com um estrondo, moedas fizeram um barulho alto, aquela coisa era quase uma máquina de nocaute. A moça contou as notas e devolveu-me o troco.
— Obrigada.
Deixei a loja de conveniência segurando a caixa com um braço, com a mão livre liguei para Mike. Apenas seis toques mais tarde meu amigo fez o favor de aceitar a chamada.
— Já consegui o que você pediu.
Uma infinidade de enfeites brilhantes e coloridos para pendurar em qualquer lugar que coubesse um penduricalho.
Ótimo! Depois vamos te reembolsar.
— Não precisa, Mike.
Esqueci que você é rica.
— Claro! Falou o fazendeiro.
Ele riu.
Tem mais uma coisa.
Não me preocupei em esconder a irritação. Bufei.
— Diga.
Você vai buscar Ally.
O alarme do carro desativou com um toque agudo.
— Não era Josh que faria isso?
Bom, agora é você.
Abri a porta do carona e deixei a caixa com os enfeites sobre o banco.
— É pra fazer isso agora?
Me joguei no banco do motorista, terminando por fechar a porta.
Claro que não! Sua louca.
— Ah. — Dei de ombros. — Vai saber. Falou com tanta urgência que achei que era pra já.
Primeiro venha pra cá, porque precisamos de mãos pra trabalhar. Depois você busca Ally.
— Tudo bem.
Você é a atriz premiada da turma. Enrolar Alison vai ser moleza.
As pessoas costumavam encontrar maneiras criativas de ampliar o meu campo de atuação.
— Em cinco minutos estou aí.
Ok.
Estava há pelo menos três horas sendo jogada de um lado ao outro, sempre indo buscar alguma coisa que precisava para a festa surpresa de Alison. Não tinham comprado enfeites o suficiente, tive que correr para procurar alguma loja que tivesse algo de interessante.
Era a milionésima vez que tentávamos fazer uma surpresa para a garota. Todas as tentativas foram miseravelmente falhas, de alguma forma quase mágica Alison sempre acaba por descobrir tudo. Eu não me surpreenderia se àquela altura ela já não soubesse sobre a festa planejada para a noite.
Dei ré no estacionamento da loja e me vi de volta às ruas. A festa aconteceria em um pub no centro de Campbell, não era um lugar grande, mas segundo Mike era um dos preferidos de Ally desde a sua inauguração, três anos antes. O dono cedeu o espaço sem hesitar, deixando as bebidas por um preço razoável, enquanto a comida e a limpeza do local ficou por nossa responsabilidade. Um preço baixo a se pagar para ter acesso quase gratuito à um bom lugar.
Estacionei no meio fio, o pub estava logo adiante. Sua fachada era feita de tijolos à vista, uma porta dupla e preta era a única forma de acesso ao local. Haviam duas janelas retangulares vedadas por persianas que impediam qualquer visão do interior. Apoiei a caixa sobre os meus braços e empurrei a porta com a bunda a fim de fechar a mesma, tranquei o carro já há alguns passos de distância.
Precisei insistir em algumas batidas na porta até que alguém viesse abri-la. Por mais óbvio que fosse, não pude evitar a surpresa de encontrar Morgan pela segunda vez naquela semana, sua expressão demonstrava o mesmo sentimento de coincidência. Morgan e Alison eram amigas, fizemos parte da mesma roda de amigos, então era claro que ela estaria ali.
— Oi. — Por fim quebrei o silêncio.
Morgan limitou-se a puxar ainda mais a porta, dando-me espaço para passar. Novamente eu não esperava que ela fosse me dar alguma atenção, apesar de acreditar que éramos adultas o suficiente para não ficar naquele jogo ridículo de ignorar uma a outra.
Passei por Morgan sem insistir em alguma conversa. Se ela estava ali, provavelmente Leonard também estaria, desde que chegara a Campbell ainda não tinha encontrado com ele. Fazia tanto tempo que não nos víamos ou conversávamos. Como as coisas ficaram tensas com o passar do tempo, praticamente cortamos qualquer contato. De repente estava ansiosa com o nosso primeiro encontro, não sabia o que esperar.
O pub estava todo iluminado, talvez mais iluminado que ele costumava ficar em seu horário de funcionamento. As cadeiras na maioria estavam sobre as mesas com os pés para o alto, uma porção de canecas e copos de vidro lavados secavam sobre o balcão do bar.
Coloquei a caixa com os enfeites sobre uma mesa vaga, no mesmo momento Mike saía por uma porta dupla no fundo do salão, imaginei que se tratava da cozinha. Ele conversava com um homem que eu desconhecia.
! — exclamou assim que me encontrou parada ao lado da mesa. — Finalmente chegou, linda.
Se aproximou ainda sendo acompanhado pelo desconhecido.
, Christopher. Christopher, .
O homem estendeu-me uma mão em cumprimento, toquei seus dedos e ele balançou levemente os nossos membros.
— É um prazer conhecê-la, .
— Igualmente.
— Ele é seu fã. — Percebi o olhar rápido do homem para Mike. — E dono do pub. Agora que tal começar a trabalhar, Kelleher?
— Faz parecer que tudo o que eu fiz até agora não foi nada trabalhoso.
— Tenho algo para você. — Mike passou um braço por sobre os meus ombros, puxando-me mais para perto de si e me guiando na direção da cozinha. — Já volto Chris.
— Vai me colocar pra cozinhar? — Exibi uma careta pouco satisfeita.
— Não. Você é péssima nisso, mataria metade da festa com intoxicação alimentar.
Não deveria, mas me senti aliviada com o que ele falou.
Com a mão livre, empurrou a porta dupla. A cozinha, diferente do restante do lugar, era dominada pelo tom branco: azulejos, portas, janelas. Todos os moveis eram de metal, tão limpo que refletiam toda a luz do lugar.
— Então o que vou fazer?
— O que tem para fazer ainda, Leo?
Minha visão vagou com uma urgência desesperadora na direção para a qual Mike já olhava, meus olhos encontraram-se com os de Leonard. Seu cabelo claro estava penteado para trás, coberto por gel que não deixava um fio sequer escapar.
— De preferência alguma coisa que não seja cozinhar.
— Posso dar conta daqui.
— Estamos atrasados, lindo. — Mike tirou seu braço de sobre os meus ombros e me empurrou na direção da bancada, onde Leonard cortava algumas cenouras. — Vou trazer mais alguém.
Quando me dei conta, Michael já havia nos deixado a sós. Leonard ainda me encarava, talvez esperando que a qualquer minuto a miragem diante dele desaparecesse. Para infelicidade dele eu era bem real.
— O que posso fazer? — quebrei o silêncio, enquanto ele desviou o olhar para a bancada entre nós.
Leo apontou especificamente para uma direção, a qual eu segui com a cabeça.
— Tem alguns pacotes com batatas ali no fundo. — Em um canto isolado, em uma parte difícil de olhar a distância, pude ver alguns sacos de juta. — Precisamos de algumas dúzias descascadas.
Limitei-me a assentir positivamente. Peguei o descascador sobre o balcão e caminhei até o canto do isolamento. Minha companhia naquele lugar era uma porção de sacos lotados de batatas e um banquinho tão baixo, que minhas pernas ficaram dobradas acima do meu quadril.
Isso vai ser ótimo. — imitei meu tio dias atrás. — Você vai ver os seus amigos.
Peguei o primeiro vegetal do saco mais próximo. Haviam tantas batatas que talvez fosse capaz de alimentar todo o estado do Texas e ainda sobrar algumas porções.
Vai ser divertido.
Comecei a tirar a casca grosseira do vegetal.
Antes de embarcar de uma vez por todas naquela viagem, fiz um combinado comigo mesma. Não iria me importar com a forma que Leonard, Morgan ou qualquer outra pessoa me tratasse. Eu tinha partido e nunca mais voltei, podia entender a irritação deles e todo gelo que me davam. No entanto, ter consciência disso não diminuía a minha irritação.
Vinte minutos mais tarde o meu trabalho se resumia a duas batatas descascadas e uma terceira em processo. Um progresso humilhante.
— Ei!
Soltei um grito abafado e pulei do banco, levantei a cabeça encontrando Mike olhando por sobre meus ombros.
— Só isso?!
— Se está achando ruim, faça melhor. — não pareceu perceber que meu tom não era de brincadeira.
— Depois ainda tem que cortar tudo.
— Ótimo.
Voltei meus olhos para a batata mediana firme entre os meus dedos. O inspetor ficou alguns poucos segundos a mais nas minhas costas e por fim saiu.
No fim das contas não me importaria de ficar naquele canto descascando batatas pelo resto da noite, desde que não precisasse ter de ficar com Leonard e Morgan. Não tinha dúvidas que eles se divertiam com a minha situação de isolamento, podia jurar que minha orelha direita ardia em fogo.
Você vai descansar, . Vai se divertir.
Joguei a terceira batata dentro da tigela. Bufei insatisfeita com o andamento do trabalho, eu definitivamente era a pior pessoa no que dizia respeito a cozinha. Peguei uma quarta batata no saco, a menor do grupo até então, com uma casca amarelada quase limpa e comecei a descascar a mesma.
Mais de uma hora havia se passado, e o meu monte de batatas contava com um total de sete descascadas e uma oitava ainda em processo. Um processo lento e completamente irritante. Àquela altura as malditas batatas estavam no topo da minha lista de coisas incômodas naquele lugar.
— Posso pegar as batatas?
Pela segunda vez alguém me dava um susto naquele canto do terror. Levantei os olhos irritada, dessa vez era Morgan.
— Pode. — Empurrei a bacia com o pé.
— Só essas?
Apertei o vegetal entre os meus dedos e mordi a língua antes que nada de bom saísse de minha boca. Voltei ao trabalho com o descascador, ignorando completamente a questão, especialmente pela resposta ser óbvia e estar diante dos olhos de Morgan.
Minha amiga se afastou levando as batatas consigo, enquanto eu continuei o meu trabalho. Me esforcei para lembrar que as pessoas não tinham culpa da minha frustração culinária.
Nem cinco minutos se passaram, e Morgan estava de volta, dessa vez além da tigela, trazia consigo um banquinho e um descascador. Observei o seu movimento de colocar o banco no chão, a tigela entre nós e, por fim, sentar-se.
Definitivamente, pior do que descascar batatas a noite inteira seria descascar batatas a noite inteira com Morgan ao meu lado. Voltei o meu rosto para o meu vegetal quase completamente descascado.
Em partes era ótimo ter alguma ajuda com o trabalho monótono e irritante, embora Morgan não colaborasse muito para o tempo passar – e tampouco eu. O que realmente estava importando era a clara habilidade que ela tinha com as batatas. A cada uma que eu finalizava, Morgan já estava começando a sua terceira.
Logo a bacia estava cheia pela primeira vez, e Morgan e eu não havíamos trocado uma palavra sequer até então. Nem mesmo nos olhávamos, era como se uma não tomasse conhecimento da presença da outra.
Eu me pegava questionando o que estaria se passando na cabeça dela. Talvez estivesse imaginando alguma forma de me matar, ou apenas desejando que eu o fizesse por ela. Lembrei-me dos testes de gravidez. Queria perguntar se ela tivera coragem de os fazer, qual teria sido o resultado e como se sentiu com ele. Eu estava curiosa, havia um vácuo de anos entre nós, especialmente os últimos dois. Tudo o que eu sabia era através da Ally ou minha família, mas na realidade eu queria ouvir da Morgan, queria ouvir do Leo.
Tomei fôlego e me virei para Morgan. Assim que fiz menção em dizer algo, ela levantou-se com a bacia em mãos e caminhou de volta para o outro lado da cozinha. A minha coragem foi embora com as batatas.
Ela voltou poucos minutos mais tarde, pronta para mais uma rodada silenciosa de descascar vegetais. Uma hora depois e a bacia estava completa novamente, mais da metade das batatas graças a habilidade inigualável de Morgan. Eu estava mais como uma espécie de apoio e nem podia dizer que era moral.
— Acho que já fizemos o bastante. — Levantou uma segunda vez, tomou a bacia em seus braços.
— Morgan. — Pela primeira vez em horas ela estava me olhando no rosto. — Como foi com os...
— Não! — cortou-me bruscamente, o tom baixo, mas firme.
Projetou o seu corpo para frente em um gesto intimidador. Limitei-me a encolher sobre o meu banco em completa surpresa.
— Não fale disso com ninguém. — Mesmo que o seu tom fosse irritado, em seu rosto eu via o que parecia com dor. Entendi que não aconteceu o que ela esperava, e eu estava invadindo esse pedaço da sua vida. — Com ninguém, .
Ela afastou-se, apressada. Perdi algum tempo sentada em meu canto do isolamento, por mais preparada que eu achei que estivesse psicologicamente, na verdade eu não estava. A reação de Morgan me deixou desarmada, logo eu que tinha sempre algo a rebater.
Tão silenciosa quanto fizera o meu trabalho em descascar, eu estava fazendo o de cortar em cubos. Nós três dividíamos o balcão da cozinha, que apesar do seu tamanho, estávamos dentro do mesmo metro quadrado, Morgan e Leo um ao lado do outro e eu de frente. Não ousei levantar o olhar na direção deles em momento algum ou talvez sairia dali aos prantos.
— Está ficando tarde, Leo. — Ouvi Morgan murmurar. — Temos que nos arrumar ainda.
— Ainda falta essa forma para ir ao forno.
Talvez não tivesse demorado tanto se eu fosse um pouco mais hábil em descascar.
— Vocês podem ir. — comentei sem tirar os olhos das poucas batatas que restavam para serem cortadas. — Eu posso terminar sozinha.
— Você vai se atrasar. — Era Morgan.
— Não tem problema. De qualquer jeito só posso aparecer depois que começar a festa. — Dei de ombros. — Vou buscar Ally.
— Tem certeza? — Agora era Leonard, e me parecia levemente preocupado.
— Podem ir.
Levantei rapidamente o olhar, os dois me olhavam de volta. Foco nas batatas!
— Tudo bem.
Eles hesitaram. Por uma mínima fração de segundos, quase imperceptível, eles hesitaram diante de mim.
No fim, deixaram suas facas sobre o balcão e lado a lado deixaram a cozinha. Eu parei por um minuto o que fazia e tomei o máximo de fôlego que conseguia em uma única inspirada. Eu estava terrivelmente tensa e sentia uma monstruosa falta de ar, como se tivesse passado as duas últimas horas segurando o ar em meus pulmões.
— Como vai o trabalho? — Mike entrou ruidosamente na cozinha, carregava uma prancheta de baixo dos braços. — Está bem?
— Estou sim. — Assenti em confirmação. Ele não se convenceu. — Só falta essa bandeja para ir ao forno. — Apontei para a última fornada, antes que ele tentasse descobrir o que se passava.
— Precisa de ajuda para terminar?
— Acredito que não.
— Agora a pergunta crucial: consegue terminar a tempo de ir buscar Ally?
— Sim, senhor. — Bati uma continência lenta e preguiçosa.
— Eu vou estar por aí, qualquer coisa me chame.
— Ok. Obrigada.
Mike afastou-se de costas, empurrando a porta com as costas, e deixou-me sozinha novamente.
E eu voltei para as batatas. Depois de cortar aquilo que restara, passei todos os cubos para dentro de uma forma de metal. Exatamente como vi Leonard e Morgan fazerem, espalhei azeite sobre as batatas da forma e, no fim, temperei com sal e orégano.
Coloquei a forma dentro do forno em temperatura baixa, a primeira porção já estava quase pronta.
Fui encontrar Michael atrás do balcão do bar.
— Terminei.
— Beleza. Vai se arrumar e nos vemos mais tarde.
— Uma das fornadas está quase pronta.
— Tudo bem. Vamos ficar de olho.
— Não vai esquecer, certo?
Ele estava tão concentrado nas garrafas de bebidas que nem parecia estar ouvindo o que eu dizia.
— Não. Pode ir em paz.
— Se queimar, a culpa não vai ser minha.
, — Por fim olhou-me. — eu vou te chutar pra fora desse pub se você não sair.
— Tudo bem! — Levantei as mãos em rendição. — Nos vemos mais tarde.
— Sim, sim.
Eu estava mesmo com medo de ele acabar esquecendo das batatas. No fim das contas acenei para Mike, que nem percebeu meu movimento, e caminhei para fora do pub. Ainda na calçada, encontrei com chegando, ele usava um boné preto com a aba para trás.
— Rainha da Califórnia!
— Oi, . — Acenei para ele.
Paramos um de frente para o outro. Ele definitivamente tinha crescido.
— Mike está ai?
— Está lá dentro. — Apontei na direção da porta. — Estava no bar.
— Ele me mandou mensagem para vir mais cedo. Alguma coisa sobre cuidar da cozinha, antes que alguém ateasse fogo em tudo.
— Ele falou isso?!
— É.
— Eu estava na cozinha. — Cruzei os braços.
caiu na gargalhada.
— Então faz sentido.
— Obrigada pela parte que me toca.
Me lembraria de matar Michael mais tarde, já que era o próprio que me enviou para a cozinha.
— Tenho que ir. E uma das fornadas de batata está ficando pronta.
— Ok. — Sorriu. — Vem à noite?
— Sim, porque se eu não vier vocês ficam sem a aniversariante.
— Então nossa noite está dependendo de você. — Levou as mãos aos bolsos da bermuda. Franziu o cenho. — Que perigo!
— A confiança de vocês em mim é tocante.
soltou um riso divertido.
— Nos vemos mais tarde, .
— É. — Assenti mais uma vez. — Nos vemos mais tarde.
Trocamos olhares por mais alguns poucos segundos e, com um aceno da cabeça, continuei o meu caminho até o carro.


CAPÍTULO SETE - PARTE II

Cheguei em casa às pressas, tinha menos de trinta minutos para me arrumar e estar na casa de Alison no horário combinado. Até o momento ela acreditava que iriamos para o pub ter uma noite de bebedeira, o mesmo pub. O que teoricamente ainda não sabia era que no bar teria uma festa exclusiva para ela.
Peguei o pijama jogado no chão do closet e roupas íntimas limpas, corri até o banheiro do corredor e provavelmente tomei o banho mais rápido de minha vida.
De volta ao closet peguei um macacão e uma camiseta simples da Chanel. Como era uma simples festa de aniversário em um pub, não me pareceu existir a necessidade de vestir algo que não fosse casual.
— Estou de saída! — gritei ao descer a escada, encontrei com meu pai no hall.
— Eu nem sabia que tinha voltado. — Fez uma careta e continuou o seu caminho em direção a cozinha.
— É o aniversário da Ally.
— Estou sabendo. Passei lá na casa dela mais cedo e desejei os parabéns.
— Que amor!
— Eu sei. Sou um ser humano excepcional.
— Não exagere, pai.
Ele riu.
— Boa festa!
— Obrigada.
— E juízo.
— Juízo é o meu segundo nome. — Pisquei para ele.
Blake não se convenceu disso e tão pouco acreditaria. Saí apressada para fora, desci a escada da varanda da frente aos pulos e corri até o carro.
Antes de dar partida no motor liguei para Alison.
— E aí gata!
Ouvi o riso baixo dela.
Oi, outra gata.
— Já estou à caminho. Em cinco minutos estou na sua porta.
Ok. Já estou pronta, vou esperar.
— Então até daqui a pouco.
Até!
Nem foi preciso buzinar assim que cheguei a casa dela, Alison já esperava do lado de fora acompanhada de Benjamin. Ele acenou para mim.
— Feliz aniversário! — praticamente gritei assim que a garota entrou no carro. A fechei em um abraço apertado. — Tudo de bom para você. Te amo, amiga!
— Obrigada! Eu também te amo.
— Pronta para curtir a noite inteira? — cantarolei a frase batucando no volante.
— Prontíssima. — imitou-me. — E você?
— Eu nasci pronta para festejar, gata.
Dei partida no carro e voltei a via.
— Eu espero que esteja tudo bem.
— Como assim?
— Morgan e Leo vão estar lá e você sabe... Espero que não tenha problema. — Ela deu de ombros.
— Deixe disso, Ally. Está tudo bem. É o seu aniversário, a última coisa que tem que fazer é se preocupar conosco.
— Tudo bem. Vamos ficar todos bem, certo?
— Mas é claro! Não se preocupe.
— Também chamei Brant.
— Legal.
Se eu não via Leonard há anos, alguém que foi meu melhor amigo, fazia ainda mais tempo que não via Brant. Provavelmente a última vez que o vi foi quando me despedi na escola, sabia muito pouco a respeito dele, apenas o que Alison comentava as vezes.
— Você vai adorar o pub.
— Já vi ele por fora. — Pelos meus cálculos estávamos quase chegando. — Passei por ele algumas vezes.
— Espere para ver por dentro. É um ambiente aconchegante, música boa para dançar e a melhor porção de fritas com bacon da região.
— Você deveria ser paga por cada pessoa que vai ao pub por indicação sua.
— Na verdade, — Sorriu de forma vitoriosa. — eles sempre me dão uma caneca de cerveja por conta da casa.
— Que ótimo! Ser paga com cerveja, o meu sonho.
Estacionei na primeira vaga que surgiu assim que nos aproximamos do pub.
Aquela era uma região movimentada a noite, uma das poucas em Campbell. Havia uma porção de lanchonetes e bares no bairro, então era extremamente normal o movimento de carros e pessoas, não entregaria o fato de ter uma festa acontecendo dentro do pub.
Lancei um olhar rápido na direção do pub. Tudo parecia estar normal, nada que denunciasse a festa. Passamos pela atendente na porta, que discretamente lançou-me uma piscadela.
— Está mais escuro que o comum. — Alison olhou em volta pelo corredor de veludo vermelho. Realmente estava mais escuro que o lado de fora.
No momento em que entramos definitivamente no salão, luzes se acenderam de todos os lados e uma multidão explodiu em um sonoro “surpresa”. Alison estava atônica, as mãos sobre a boca abafavam um grito. Seus olhos vagavam de um lado ao outro sem parecer acreditar no que via diante de si.
Internamente eu gritei viva, pois aquela era a reação legítima de alguém que não esperava por uma festa. Daquela vez, vencemos.
— E O PARABÉNS? — a voz estridente de Mike se fez mais alta que qualquer outro barulho.
E como combinado, todo o salão iniciou o parabéns. Alison virou-se para mim ainda abismada, podia ver os seus olhos marejados e um sorriso genuíno que não deixava os seus lábios descansarem por um segundo sequer. Agitei as mãos em sinal para ela entrar de vez na multidão. Ela hesitou, mas eu insisti, afinal, estavam todos ali por ela.
Eu precisava me ocupar. Mesmo rodeada de rostos teoricamente conhecidos, no fim das contas eu não sentia que fazia mais parte daquele lugar e com aquelas pessoas.
Preparei porções de batata gratinada e ainda descasquei mais algumas para fazer outra fornada, levei bebida para as mesas das pessoas e distribui guardanapos. Cumprimentei pessoas que pareciam felizes de mais em me ver, enquanto eu mal conseguia me lembrar do nome delas. Tirei algumas fotos, respondi sem muitos detalhes questões sobre a minha vida na Califórnia. Distribui lanches e mais bebidas.
Alison sabia que eu estava me sentindo desfalcada, eu percebia isso cada vez que ela estava prestes a grudar em mim e me carregar consigo por toda a festa. Ela me conhecia como a palma de sua própria mão, assim como eu a conhecia. E eu não queria perturbá-la, não queria ser a pessoa que estaria atrapalhando a sua noite, então eu era rápida em encontrar alguma desculpa para me despistar dela.
Tudo o que eu precisava era de um único momento para relaxar. Sentia como se um par de mãos, com dedos feitos de ferro, apertassem o meu pescoço, deixando que apenas uma porção mínima de oxigênio chegasse aos meus pulmões.
Uma garrafa meio cheia de Budwiser e um cigarro acesso eram as minhas únicas companhias sob o céu estrelado. No fundo do pub havia um pequeno espaço aberto, que levava para uma pequena garagem. Estava sentada em um banco esquecido de praça, que devia estar largado ali no fundo havia muito tempo, naquele momento me foi útil e acabei ficando ali mais tempo do que esperava.
Dei mais uma tragada no cigarro. Talvez fosse aquela merda que estava me dando falta de ar, mas isso não foi o suficiente para me fazer parar.
Ouvi som de passos à distância, virei o rosto alguns graus na direção da saída do pub. deixava o recinto pela mesma porta que eu saíra quase vinte minutos antes. Seus passos eram folgados e leves, ele caminhava como alguém que não carregava peso algum sobre as costas e provavelmente essa era a verdade. O acompanhei com os olhos até que atingisse o lugar onde me encontrava e se sentasse ao meu lado.
Expeli a fumaça presa em meus pulmões e talvez tenha tentado esconder o cigarro aceso ao lado da minha perna. Sorri amarelo. Ele fingiu que não percebeu.
— Nós até tentamos não te deixar sozinha, mas você não colabora muito com essa aura de lobo solitário.
— Não se preocupem. Já estou acostumada. — respondi com bom humor, embora fosse uma verdade que eu tentava me negar.
— Isso soa tão melancólico, que estou começando a sentir pena.
— Obrigada por sua piedade. — Ri baixo.
— Como vão as coisas?
Sempre interessado.
— Vão bem. — Assenti apenas para confirmar.
— Seja mais especifica. Quero detalhes.
Ri levemente nervosa. Dez anos se passaram desde o dia que fui embora sem nem olhar para trás. ficou e eu o tratei como se não me importasse, ainda assim, mesmo tendo quebrado o seu coração, ele ainda se interessava. Não parecia haver feridas no mundo capaz de calar todo o amor e compaixão que aquele rapaz tinha dentro do peito.
— Me fale sobre o trabalho. Você está fazendo o que sempre quis.
— É sim. Quem diria que ia conseguir.
— Todo mundo acreditava nisso.
— E fico feliz que ninguém estava errado.
Continuou a me encarar em silêncio, ainda não era a resposta que ele queria ouvir. Rolei os olhos.
— É incrível. — Eu estava vivendo o meu sonho dourado de infância e não sabia como descrever a sensação de fazer aquilo. — Sinto como se pudesse fazer isso pelo resto da vida, sem jamais me cansar.
— Entendo. — Balançou a cabeça em concordância. — Já tem algum próximo projeto planejado?
— Não, na verdade. — Tomei um gole amargo da cerveja, ainda me incomodava pensar nas férias forçadas.
— Está dando um tempo?
Sua posição mudou ligeiramente. Apoiou os cotovelos sobre os joelhos e apoiou a cabeça sobre as mãos, fitava-me alguns centímetros abaixo. Estava sério.
— Não por vontade própria. Basicamente os meus tios me forçaram a entrar de férias.
— Por que fizeram isso?
Um riso nervoso me escapou.
— Eu não sei. — Dei de ombros. A irritação foi embora, fiquei apenas chateada. — Eles estão preocupados com alguma coisa. — Claramente a minha solidão praticamente voluntária. — Estavam com medo de eu não vir para o casamento de Heather. — E eu não tiraria a razão deles. — E falaram algo sobre diminuir o ritmo. — Afinal cinco filmes grandes logo em seguida não eram uma forma saudável de levar a vida. — Mas e você? Estava se apresentando com a banda aquele dia.
— Sim. — Sua expressão mudou como da água para o vinho, agora ela leve e alegre. — É sim. Quem diria que nos encontraríamos lá?
— Pois é! Você, a banda. Alison falou que vocês sempre tocam em festivais.
— É. — Voltou a apoiar-se no encosto do banco de madeira, sorria feito uma criança. — Tem rolado isso nos últimos dois anos. Tem sido divertido.
— Eu imagino. Você sempre quis trabalhar com música.
— Além dos festivais, tocamos em um bar também. Meu bar.
— Um bar? — Eu já sabia sobre o estabelecimento, Alison me deixara por dentro das informações, mas ele estava muito animado e eu não queria frustrar isso.
— É! Não é tipo um boteco de esquina, é coisa fina. Um pub, praticamente.
— Certo.
— Música boa ao vivo.
— O mínimo que espero de você.
— Uma porção de mesas de snooker.
Joguei a cabeça para trás numa gargalhada.
— Certo. Isso não podia faltar.
— O palco lá é incrível. Eu mesmo me encarreguei que ele ficasse perfeito.
— Você o construiu? — questionei em tom de brincadeira.
— Não me encarreguei literalmente. — completou entre uma risada e outra. — E também tenho uma gravadora.
— É sério? — Dessa vez a surpresa foi real.
— Sim. É algo pequeno, mas já fizemos bons trabalhos lá.
— Isso é ótimo! Fico feliz por você, . — respondi com toda sinceridade, me sentia verdadeiramente feliz por ele. Música era para , o que o cinema era para mim, um pedaço importante de quem erámos.
— Você precisa ir no bar algum dia.
— Não vou perder isso.
Minha resposta despertou um sorriso largo no rosto do rapaz, sorriso que exibiu sua solitária covinha do lado esquerdo do rosto. Levei a garrafa de cerveja de volta a boca, apenas para concluir que estava completamente vazia.
— Vou pegar mais uma. — Agitei a garrafa vazia em mãos. — Você quer?
Coloquei-me em pé.
— Depois. Vou ficar mais um pouco.
Limitei-me a acenar com a cabeça.
De volta ao interior do pub, tocava uma música eletrônica qualquer, algumas poucas pessoas já encaravam na pista de dança. A maioria ainda permanecia sentada, ou formando uma roda em algum canto.
Caminhei até o balcão do bar.
— Outra, por favor. — Exibi a garrafa vazia.
Antes de mais nada o barman olhou o número em minha pulseira e por fim virou-se para o freezer.
— Aqui. — Colocou a garrafa nova sobre o balcão e com uma única mão se livrou da tampa.
— Muito obrigada.
Ele afastou-se com a garrafa vazia.
Apoiei os meus braços sobre o balcão do bar, daquele ponto eu tinha visão perfeita do lugar onde Alison conversava animadamente com Morgan e Leo. Eles ainda pareciam as mesmas pessoas do colegial, sempre grudados uns aos outros e divertindo-se não importando como.
Pelo canto dos olhos percebi um movimento ao meu lado e um braço roçou-se ao meu.
— Então... — Virei imediatamente o meu rosto para a pessoa. — Caralho!
— Brant?! — Fitei meu amigo pasma e ele me parecia compartilhar do mesmo sentimento.
! — Ele estava maior, não apenas em questão de altura. O cabelo cacheado agora se resumia à um corte baixo, quase completamente raspado. E me pareceu mais bronzeado do que fora na época da escola. — Porra. — murmurou.
— O que foi?
— Eu estava prestes a mandar uma cantada em você. — Revirou os olhos.
— Cruzes!
— Me desculpe. Eu achei que era alguma amiga da Alison que eu não conhecia. Se bem, tem que tomar cuidado com as amigas da Ally.
— Pode não ser só amiga.
— Pois é. Sua bunda está mais redondinha que antes, não reconheci.
Rolei os olhos, simplesmente não acreditava no que ele estava dizendo.
— Ok, me desculpe de novo! Não é a melhor coisa a se dizer depois de tanto tempo se nos encontrarmos.
— Não é a melhor coisa a se dizer nunca!
— Me desculpe. — Coçou a própria cabeça, desviando o olhar. — Como você está? Faz tempo que não nos vemos.
— É sim. Estou bem e você?
— Ótimo.
Ficamos em silêncio por algum tempo, os lábios fartos estavam fechados em uma linha reta e dura, os olhos verdes não estavam focados em mim.
— Bom, eu vou andar por aí.
— Procurar alguém que não seja a sua amiga de infância? — Arqueei uma sobrancelha, ele ficou ainda mais sem graça, praticamente se encolhendo dentro de si.
— Tipo isso.
— Boa sorte.
Não vivíamos em uma cidade onde sempre haviam pessoas novas a se conhecer. Campbell era pequena demais para isso.
— Obrigado. Nos vemos por aí.
Observei suas costas escondidas em uma jaqueta preta afastar-se do balcão e me perguntei como ele aguentava usar aquilo em pleno verão.
Voltei-me para o balcão tomando conta de minha cerveja mais uma vez. Àquela altura já não sentia mais o amargor da bebida.
Eu deveria estar me divertindo, não só por ter dado a minha contribuição para aquela festa acontecer, mas principalmente porque eu amava uma boa festa para beber e dançar. Era a festa de aniversário da minha melhor amiga e eu estava sozinha no bar, tomando a milionésima garrafa de cerveja.
Meu espírito de diversão se recolheu para algum canto longínquo de minha mente dramática. Tudo o que eu podia fazer era afastar Ally o quanto eu pudesse, para poupá-la do meu estado de solidão e a falta de vontade de fazer qualquer coisa que não fosse lamentar.
! — Mike assustou-me.
Me encolhi sobre o balcão com uma mão fechada em punho. Parecia prestes a atacá-lo.
— Você está muito parada. — Eu mesma já tinha me dado conta disso. — É assim que você se diverte em Los Angeles?
Em Los Angeles naquele horário a festa ainda estaria só começando, as primeiras doses de álcool estariam sendo servidas em bandejas e eu provavelmente já estaria enfiada no meio da pista de dança. Soltei um suspiro.
— Vamos dançar?
Era quase um crime Kellerher ser convidada para dançar. Era eu que deveria fazer esse tipo de pergunta as pessoas, era eu que arrastava todo mundo para a pista. Não estava gostando da pessoa que me tornei naquela noite.
— Isso aqui não é um velório não.
Mike não esperou que eu concordasse. Agarrou-me por um braço e me arrastou para longe do bar, deixando para trás minha garrafa pela metade e uma porção finalizada de batatas.
A pista de dança estava quase vazia, a maioria das pessoas ainda se encontravam sentadas, fosse conversando, ou apreciando a música à distância. Meu amigo começou a remexer-se de uma forma pouco ritmada diante de mim, seu corpo rechonchudo balançava completamente fora do compasso, eu não sabia se ele fazia aquilo na tentativa de me entreter, ou sofria de uma terrível falta de ritmo.
Comecei apenas batendo os pés no piso escuro na mesma batida da música, também acompanhava o compasso batendo com uma das mãos na lateral da perna. Já era um começo. Tentei procurar Alison pelo salão, encontrei apenas alguns rostos conhecidos, ou nem tanto.
De repente Brant estava em meu campo de visão, ao meu lado e de Mike. Ele também se remexia conforme a música, mesmo que mais ritmado que Michael.
A música aos poucos começou a crescer dentro do meu corpo, fazendo ele criar vida lentamente e as pernas se moverem com mais vigor. Ter os dois dançando comigo pareceu um bom incentivo para me movimentar também.
Uma garrafa de cerveja surgiu em minha mão, por um instante fiquei em dúvida sobre em que momento eu havia pego aquilo. Virei a cabeça levemente para a esquerda e lá estava Alison. Ela dançava de forma contida, segurava também uma garrafa em mãos, sorriu ao perceber que eu a olhava.
A verdade é que eu amava dançar. Era decadente o fato de alguém ter que me arrastar para a pista de dança, especialmente por esse ser o meu papel. Me lembrava com saudade da época da escola, quando aconteciam os bailes e festas, eu não descansava enquanto não estivessem todos na pista. Eu acreditava que todo mundo tinha que provar ao menos um pouquinho a experiência de remexer o corpo despretensiosamente. Dançar é uma sensação libertadora.
Puxei minha melhor amiga para dançar comigo. Alison estava longe de ser o tipo dançante, era surpreendente o fato de ela ter entrado em nossa rodinha voluntariamente, normalmente eu tinha que puxá-la para se juntar à nós. Seguramos uma a mão da outra, eu me movia espaçosamente e Alison contida.
Eu estava finalmente à vontade naquele ambiente. O poder da dança.
— Acho que precisamos de mais pernas nessa pista.
Ally olhou ao nosso redor, mal chegávamos a dez pessoas dançando. O sorriso sugestivo em seus lábios mostrou que havia entendido.
Ainda segurando na pequena mão de minha amiga, sai guiando-a pelo salão sem necessariamente deixar de me remexer no ritmo da música. Paramos em uma mesa onde estavam alguns colegas da época da escola, todos moveram seus olhos em nossa direção com a aproximação descarada.
— Nem preciso perguntar o que veio fazer. — comentou Trish em meio a um riso divertido.
— Então não sei o que está fazendo sentada ainda. — soou estranhamente como um flerte. — Você era capitã da equipe de torcida, não entendo como está parada aí.
Deixei a minha cerveja sobre a mesa deles, a garrafa já estava quase no final. Ally e eu fomos até Trish, tomamos ela pelo braço e a moça não ousou resistir ao nosso chamado, ainda aproveitou para puxar Sandy para a nossa corrente humana. Outras duas pessoas foram para a pista incentivadas pela entrega das duas primeiras. Tinha muito espaço a ser preenchido na pista ainda.
Deixei que Ally continuasse dançando com Trish e Sandy, eu continuei com a missão de conquistar o mundo um dançarino de cada vez. Encontrei alguns primos de Alison e Mike na mesa seguinte.
— Por que está me olhando assim? — Drake olhou-me contido, encolheu-se em seu próprio lugar.
— Vim pessoalmente lhe chamar para dançar. — Alexandra, a irmã mais nova dele, explodiu em uma gargalhada. — E você também.
Parou de rir no mesmo instante.
— Eu não danço!
— Todo mundo dança. O mundo é divido entre aqueles que vão voluntariamente — Apontei na direção da pista. — e aqueles que precisam ser convidados.
— Não existe argumento que vá me fazer dançar.
O que Alexandra não sabia era que estava diante da pessoa mais convincente de Campbell. Minha lista de conquistas era de dar inveja, já conseguira até mesmo fazer o professor mais sério e temido da escola se soltar em uma pista de dança.
Cinco minutos mais tarde os dois estavam se remexendo ao lado de Mike, pensei que eles se sentiram mais à vontade dançando ao lado da pessoa mais desengonçada e menos preocupada do salão.
Descolei mais uma garrafa de bebida. Finalmente me sentindo completamente integrada ao ambiente, não saberia dizer se era efeito do álcool em meu corpo, ou apenas o sentimento de nostalgia em estar revivendo aquele hábito justamente com as pessoas que ele começou.
De mesa em mesa consegui fazer o volume de corpos na pista ser maior que no restante do salão. No entanto, ainda havia uma pessoa que faltava conquistar para aquele lado da força.
estava escorado na parede, segurava uma garrafa suada em mãos. As luzes coloridas que vinham da pista pintavam o seu corpo de uma porção de cores. Roxo, vermelho, verde e amarelo. Seus olhos estavam cravados em mim e em minha aproximação dançante.
— Está chapada? — questionou assim que o alcancei sem deixar de perder o ritmo da música.
— Estou me esforçando para estar.
— Eu não estou o suficiente para cair nessa. — Um sorriso torto tomou os seus lábios.
— Cair no quê?
— Você não vai me convencer a dançar.
— Sempre diz isso. — Meu corpo continuava a movimentar-se, mas os olhos de estavam em meu rosto.
— Fortaleci o meu psicológico nos últimos anos.
— Veremos.
Continuei dançando diante dele, podia ver o esforço em não rir estampado em seu rosto, tentava disfarçar um sorriso bebendo da sua cerveja e eu não lhe dava trégua, não desvia o olhar sob nenhuma circunstância.
— Parece que finalmente está curtindo a festa. — Descolou suas costas da parede, ficando centímetros mais próximo de mim, precisei levantar os olhos para continuar encarando-o. — Alison me perguntou uma porção de vezes o que estava acontecendo com você. E se tem alguém aqui que deveria saber disso é ela, não eu.
— Eu estou me sentindo ótima.
Fechei os olhos por alguns poucos segundos, deixando ser tomada apenas pela sensação da música entrando por meus ouvidos e balançando todo o meu corpo, enquanto o álcool corria por meu corpo dando uma ideia de estar prestes a flutuar.
riu contido, agitando o peito levemente enquanto abafada o som do divertimento.
— Posso ver isso. Está levando todo mundo para dançar, assim como fazia na escola.
— Às vezes me permito exteriorizar um pouco de felicidade. — Estava centímetros mais próxima dele, continuava a minha dança solitária. O corpo do rapaz estava ereto em uma posição que me pareceu tensa.
— A felicidade lhe cai bem.
Sorri em agradecimento.
Por fim estendi uma mão na direção de , seus olhos seguiram o movimento com desconfiança. Tomei os seus dedos nos meus, um toque quente, senti a hesitação inicial do rapaz, quase como se eu tivesse ido longe demais com o gesto. Não demorou para a tensão suavizar e seus dedos se fecharam com mais certeza ao redor dos meus.
E eu o puxei. Avancei de costas sem ver exatamente por onde nos guiava, esperando não esbarrar com nada até alcançar a pista de dança. Os olhos castanhos de estavam unidos aos meus, um gesto silencioso de confiança. Assim como nos velhos tempos ele estava entregue ao meu convite para dançar.
Nos guiei entre as pessoas que se remexiam na pista, parei apenas ao constatar que havia alcançado meus amigos. Alison ficou radiante em vê-lo entre nós.
Ambas colocamos Westhoff, a pessoa que mais se negava uma dança em todo o mundo, para dançar. Ele era ainda mais contido que Alison, porém mais hábil que Mike.
Entre garrafas de cerveja e muitos corpos agitados, naquela noite dancei até que o número de pessoas na festa se reduzisse para menos da metade e mesmo assim continuei dançando.
Eu parecia presa em um momento onde existia apenas eu, as músicas e as luzes psicodélicas, que atravessavam as minhas pálpebras fechadas. Sentia-me tão leve quanto uma pena ao vento, dominada por uma leveza que há muito tempo não desfrutava. A qualquer momento eu sairia flutuando pelo salão.
!
Fui abruptamente contida por mãos que se fecharam como feitas de pedra em meus ombros. Abri os olhos assustada, por um instante me esquecendo de onde estava, jurava que era Los Angeles.
Meus olhos focaram no rosto redondo de Alison, seus braços esticados em minha direção e seus dedos agarrados aos meus ombros. Não haviam mais luzes coloridas, na verdade o bar estava mais claro do que estivera a noite inteira. Atrás de nós, sobre o palco, o DJ juntava os seus equipamentos.
— Você está bêbada. — Alison exibiu uma careta divertida. — Estupidamente bêbada.
— Não.
Ainda tinha uma garrafa vazia em mãos, tentei focar em algum número, entretanto não fazia a mínima ideia de quantas garrafas teriam passado por minhas mãos. Talvez eu tivesse exagerado um pouco.
Soltei um riso debochado, que nem se quisesse conseguiria contê-lo.
— Posso estar.
— Eu ia ficar para ajudar a arrumar tudo, — Passou cuidadosamente as mãos em meu rosto, como se tentasse limpar algo. — mas primeiro vou te levar para casa.
— Arrumar tudo?
Olhei ao redor, o salão estava praticamente vazio se comparado ao modo que estivera a maior parte da noite. Leonard estava varrendo de um lado, lavava alguma coisa atrás do balcão do bar e Mike passou com um saco de lixo em mãos.
— Eu ia ajudar.
— Falou certo. Ia. — Ally tomou a garrafa de minhas mãos com delicadeza. — Você não está em condições para fazer nada.
— Você também não deveria ficar, é o seu aniversário. — minhas palavras saíram em um lamento exagerado.
— Tecnicamente não é mais. — Deu de ombros. — Já são mais de três horas.
— Sinto muito.
— Pelo o quê?
— Não ser mais o seu aniversário.
Alison jogou a cabeça para trás em meio a risada, o movimentou me deixou levemente tonta.
— Tudo bem, . — Distribuiu alguns tapinhas em minhas costas. — Onde estão as chaves do Jeep?
Deslizei minhas mãos pelo meu corpo até os bolsos traseiros do macacão, ambos estavam vazios, a não ser por um guardanapo esquecido no lado direito. Fiquei em choque por alguns segundos, até que Alison tocou o bolso central bem na altura do peito. Soltei um suspiro aliviado. A chave deixava um estranho formato entre os meus seios.
Um dos seus braços me auxiliava nas costas, fosse para me impedir de fugir, ou dar algum apoio caso as pernas resolvessem falhar.
— Vou levar nossa amiga já passada do ponto para casa. — comentou assim que passamos pelo bar.
— Precisa de ajuda? — nos acompanhava com o olhar, segurando um copo ensaboado.
— Não. — Balançou a cabeça, novamente um movimento que me deu certa tontura. Alison precisava parar com aquilo. — Não é primeira vez que tenho que fazer isso.
Novamente uma risada divertida insistiu em sair por meus lábios.
— Você lembra daquela vez...
, deixe as histórias para mais tarde.
— Aquele dia foi louco.
— Foi sim.
Finquei os meus pés no chão, Alison sofreu um solavanco.
!
— Tenho que pagar a minha conta.
— Tem certeza que não quer ajuda, Ally? — parecia prestes a sair de trás do bar.
— Ok. — Alison fitou-me levemente irritada. — Vamos acertar a sua conta. E obrigada, .
Acenei para com Alison agarrada a um dos meus braços, arrastando-me na direção da saída. O caixa ficava próximo a porta, o dono contava algumas notas antes chegarmos no balcão. A soma final da minha conta deu alguma ideia do quanto tinha bebido naquela noite e não foi pouco.
Ally não desistiu da missão em me tirar do pub, continuou a guiar-me em direção à rua, mesmo que eu não estivesse lutando contra. Do lado de fora a cidade estava tão silenciosa que parecia abandonada e de repente éramos as últimas pessoas em Campbell.
Paramos somente quando Mike se colocou em nosso caminho, acabara de colocar o saco cheio de lixo junto aos demais na lixeira.
— Onde vão? — Apoiou uma mão na cintura, estava claramente cansado.
— Vou levar para casa.
Meu amigo lançou-me um olhar rápido, caindo na risada logo em seguida.
— Você está muito chapada, .
— É como me sinto. — Balancei a cabeça lentamente, o mundo pareceu mover-se um pouco mais da conta ao meu redor, me segurei como mais firmeza em Alison.
— Obrigado por ter ajudado. — Apoiou a mão livre em meu ombro, talvez também estava precisando de apoio.
— Estou a suas ordens.
Bati continência.
— Boa sorte essa noite. Vai acordar se lamentando.
— Isso se ela levantar da cama. — Ouvi o seu riso baixo, seu corpo agitou-se levemente. — Logo eu estou de volta, Mike.
— Se precisar de alguma coisa liga para nós. E boa noite, .
— Boa noite, Mike Wazowski.
O caminho de volta para casa foi rápido o suficiente para eu sequer tomar conhecimento dele. Quando dei por mim já estava em casa, com Alison abrindo a porta do carona e estendendo-me uma mão em auxilio.
— Pode ficar com o carro. — a frase soou embolada. Àquela altura já andava apoiada em Ally, cada minutos que passava me sentia mais afetada pelo álcool. — Amanhã eu pego ele. Ou quando der.
— Muito obrigada pela consideração.
Alison pegou a chave reserva da porta escondida de baixo do vaso ao lado da porta, um esconderijo obvio e clichê. Fui amparada até atingir a minha cama no primeiro andar, minha amiga se livrou das almofadas e o edredom. Me colocou para dormir exatamente como uma mãe faria, eu não sabia se a comparação me incomodava, ou estava feliz que a mãe no caso era minha melhor amiga.
— Obrigada. — minha voz saiu em um murmúrio, me sentia exausta.
— Eu que agradeço. — respondeu no mesmo tom. Seu rosto estava baixo, próximo ao meu. — Fiquei muito feliz de ter você aqui hoje. Todos juntos de novo. — Senti o toque de sua mão em minha cabeça, meus olhos fecharam-se completamente entregues ao cansaço. — Boa noite, . Nos falamos mais tarde. — E beijou-me a testa.
Alison falou mais alguma coisa que meus ouvidos foram incapazes de compreender. Minha mente caminhava lentamente para os braços da escuridão, onde se silenciou e ignorou todo o mundo ao redor.


Continua...



Nota da autora: Gente, cada vez que vejo um comentário novo de vocês é um surto diferente. Acho que não tenho palavras pra agradecer todo o carinho e os elogios. Vocês SÃO DEMAIS! Tem um lugar guardado no meu coração. Eu escrevo há um bom tempo, então ver que as pessoas estão gostando do que eu escrevo significa muito, quer dizer que estou seguindo pelo caminho certo. OBRIGADA GENTE!
Bom, resolvi me fazer de misteriosa e mandar só a primeira parte do capítulo 7, não que existam grande revelações, mas garanto que a parte 2 tem ÓTIMOS momentos (e com os pps, é claro). E me digam: o que acham desse clima tenso que rola entre e o casal, Leonard e Morgan? Será que temos pessoas rancorosas nessa história? TALVEZ? Aguardemos os próximos capítulos dessa novela.
E sobre as atts, eu sempre aviso lá no Twitter quando sai no FFOBS, se alguém por aqui usar o tt é só me seguir lá e vai ficar por dentro. Ah! E também aviso quando enviei coisa nova pra beta, aí dá pra ter uma noção mais ou menos de quando vai ter capítulo novo (ou capítulos hehe). Enfim, é isso. Eu falo muito. Beijos no coração!



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus