Rastejando de Volta para Você

Última atualização: 30/06/2018

Prólogo

“Meu amor por essa garota aumentava cada dia mais e de uma forma inexplicável. Eu não aguentava mais ficar longe dela, não ter seu corpo perto do meu, sua boca na minha, sua risada ecoando em meus ouvidos, sua respiração baixinha quando cochilava vendo filme, seu perfume impregnado no meu apartamento. Eu abriria mão de qualquer coisa para ter isso novamente, eu correria todos os riscos que tivesse que correr, eu lutaria todas as batalhas que aparecessem no meu caminho, mas eu queria ela de volta. Eu teria ela de volta. ”
-


Chambersburg, Pensilvânia.


Capítulo 1

Era bom estar de volta, depois de dois anos longe, era, realmente, muito bom voltar para casa. Eu não sabia ao certo o que me esperaria naquela pacata cidade, onde todos sabem de sua vida, mas estava curiosa para descobrir. Dois anos. Era tempo demais. Era distancia demais. Minhas pernas bambas me guiavam para dentro de casa, da minha casa, enquanto meu cérebro não parava um único minuto. Dois anos. Como era bom voltar.
Quando fui embora, deixei muitas coisas para trás. Minha família, minhas amigas, meu amor.
Aqueles dois homens que me amavam incondicionalmente, que dariam suas vidas por mim. Ficar longe do meu pai e do meu irmão foi horrível. Manter esse segredo deles, foi torturante.
Aquelas que eu sabia que podia contar onde quer que eu estivesse. Elas faziam meu coração se aquecer enquanto o vento gélido congelava o resto de meu corpo. Juntas éramos invencíveis.
Aquele que eu não tinha noção do quanto amava até que fui obrigada a partir. Eu o teria de volta. Era a meta que havia estabelecido ao voltar para os Estados Unidos. Mas eu tinha medo, muito medo de reencontrá-lo. Perceber que talvez ele tenha seguido sua vida. Perceber que talvez ele tenha outra pessoa, enquanto eu, tola, ainda me prendo em memórias do passado.
O cheiro de chuva entrou pela janela aberta e me fez trocar de roupa. Vesti uma calça preta de cintura alta, um suéter transparente nude com um top de renda preto e um scarpin preto também. Peguei um casaco quente, colocando-o por cima dos ombros e olhei-me no espelho. Eu estava perfeita e me perguntei o que ele acharia se pudesse me ver. Bufei e desci as escadas de minha amada casa, afim de sair logo dali. Peguei as chaves do carro e arranquei em direção a terceira casa que mais frequentei durante o último ano que estive aqui.
O sorriso em seu rosto, o olhar espantado e a lagrima solitária que escorreu me fizeram querer chorar. Não acreditava que havia concordado em deixar tudo para trás por causa de um problema que não era meu. O abraço que recebi foi o mais verdadeiro de todos os tempos e implorei para que nunca me soltasse. Olhei no fundo de seus olhos azuis e sorri.
- Não acredito que está de volta.
- Não acredito que fui embora...
Fui puxada para dentro da casa envidraçada, sendo recebida pelo ar quente que vinha do aquecedor. Tirei meu casaco e a acompanhei até seu quarto. Tudo continuava igual, as cores, os móveis, a cama, ela. Tudo.
era a minha melhor amiga desde os meus seis anos de idade, quando se mudou para a pequena cidade de Chambersburg com seus pais e sua irmã mais nova. Tinha um cabelo castanho escuro longo e encaracolado, que contrastavam com seus olhos azuis claros, tão profundos que era impossível esconder qualquer coisa que fosse dela. Era uma das pessoas mais inteligentes que eu conhecia e possuía um coração gigante, cabendo sempre espaço para mais um. Eu sentia tanto a sua falta que doía.
- Senti tanto sua falta – ela disse, como se lesse minha mente.
- Prometo que nunca mais irei embora – sorri.
- Nem ouse.
Caminhei pelo cômodo, observando cada detalhe do qual senti saudades. O papel de parede florido, os lençóis sempre brancos, a janela imensa que ficava na frente da sua cama, o quadro com o pôster de divulgação de Fantasma da Ópera – nosso filme favorito, nossas fotos na bancada. E então uma delas me chamou atenção, aquela que sempre esteve na minha cabeceira, mas que olhá-la naquele momento fez meu coração se partir em mil pedaços. Os amigos que havia abandonado. E ele. Todos juntos. Felizes. Ele e eu. Felizes.
- Você ainda fala com ele, ?
- Você sabe que não. – Suspirou – Ele se isolou quando você partiu...
- É possível que depois de todo esse tempo eu ainda o ame?
- É possível sim.
Sorri.
- Como estão as coisas por aqui? – Sentei-me ao seu lado.
- Nada muito diferente, na verdade – respondeu tensa.
- Último ano – suspirei – Não consigo acreditar que vamos nos formar e entrar em uma faculdade.
- Assunto proibido. Estou ficando louca, se você quer saber – riu – Preciso começar as redações para as aplicações as faculdades, meus pais estão me enlouquecendo.
- Você não devia por tanta pressão em si mesma, já lhe disse.
Meus olhos buscaram a foto novamente, fazendo milhares de duvidas aparecerem na minha mente. Será que ele ainda me amava? Será que ficaria feliz ao me ver?
- O que foi?
- Nada demais – dei de ombros.
- ...
- Só quero vê-lo de novo. Preciso vê-lo de novo.
- Você devia seguir em frente – ela disse, parecendo tensa.
- O que você quer dizer com isso? – Virei-me de frente para ela.
- Nada em especial, só acho que já se passaram dois anos... Eu seguiria em frente.
Olhei em seus olhos, atônita, tentando entender o que ela queria dizer, pois as palavras saiam de sua boca, mas não soavam nada como a minha melhor amiga.
- Do que diabos você está falando?
- Nada, . Deixe para lá, eu nem disse nada – levantou.
- Você está me deixando nervosa.
- Está tudo bem – ela hesitou, mas sorriu, fazendo um esforço para que o sorriso chegasse aos seus olhos.
Ela falhou.


Capítulo 2

Estar em casa era um sentimento inexplicável, era como se finalmente eu pudesse respirar. Ter meu quarto, meu banheiro, minhas coisas, minha vida. Ser eu. Claro que o tempo que passamos na Suécia não foi de todo ruim, conheci lugares maravilhosos, pessoas maravilhosas. Viajei para vários países nos arredores enquanto minha mãe trabalhava, aprendi novos idiomas e trouxe milhares de recordações boas. Mas estar em casa, ah, não existia nada melhor do que isso.
Meu pai estava insaciável, me abraçava quando podia e sempre dava um jeito de estar por perto, como se quisesse ter certeza de que eu realmente estava de volta. Meu irmão havia aproveitado as férias da faculdade e estava de volta, me incomodando sempre que possível.
Justin era dois anos mais velho que eu e sempre compartilhamos uma ligação muito forte, ele era meu confidente, meu protetor, meu anjo da guarda. Sempre que eu precisava, ele estava ali para mim. Sentiria saudades de tê-lo todos os dias comigo no colégio, mas morria de orgulho da sua vida na Faculdade de Direito e sempre que pudesse daria um pulinho na mesma para vê-lo. Ele viria para casa todos os finais de semana quando as aulas começassem. Éramos todos muito ligados uns aos outros. Não sabia como havia sobrevivido durante aqueles dois anos longe deles.
Mal havia entrado em casa quando meu pai me atacou, perguntando o que eu queria jantar que ele iria buscar. Tínhamos uma tradição: ninguém cozinhava nos finais de semana. Ok, as vezes nem durante a semana. Então sempre pedíamos comida fora ou jantávamos em algum restaurante.
- Japonesa, senti saudade de comer um sushi decente – ri e lhe beijei a testa.
- Senti saudade de você, pequena.
Sorri e lhe abracei, respirando fundo seu cheiro e vendo o quando senti falta daquilo.

:::

Faltava duas semanas para as aulas começarem, mas minhas amigas, exceto a , estavam viajando e voltariam somente um dia antes, ou seja, só as veria na escola. Sentia muita falta delas, éramos um quarteto inseparável, e apesar de todas estarem em relacionamentos, isso nunca nos afastou, muito pelo contrário.
Sorri para o meu reflexo enquanto terminava de me maquiar e resolvi descer para o andar de baixo, afim de esperar o restante da minha família. Havíamos decidido que faríamos todos os nossos programas favoritos no final de semana, para matar a saudade e começar o ano letivo com o pé direito.
Justin já estava pronto no sofá, esperando pelo restante e ficamos implicando um com o outro até nossos pais descerem.
Fomos rindo de Chambersburg até Nova York e como eu sentia falta disso.
- Você sabe que esses dois anos não foram a mesma coisa sem você aqui, né – riu, me cutucando – Ir comer tailandesa não tinha a menor graça.
- Eu achei que fosse morrer de saudade – ri – Não, agora sério, nem o ballet conseguia me distrair, era frustrante.
Eu fazia ballet desde os três anos de idade na American Ballet Theatre, em Nova York, o que me fazia uma das melhores dançarinas de minha turma. Minha mãe sempre quis que me tornasse profissional, que dançasse em companhias russas e demonstrasse todo o meu talento para o mundo. Mas, para mim, era somente um refúgio. Quando eu me sentia triste, frustrada ou decepcionada, voltava minha atenção para a dança, a fim de tirar o que estivesse incomodando de minha mente. Sempre funcionava, como um remédio. Meu próprio remédio. Mas quando eu colocava minha roupa novamente, tudo voltava à tona.
E foi assim na Suécia, consegui uma vaga na melhor academia da cidade, foram dois anos de bastante treino e dedicação, mas, sempre que a música parava, todos os problemas reapareciam. A saudade apertava e dava aquela vontade de chorar.
Quando avisei que iria embora, tanto minha treinadora quanto meu parceiro ficaram desolados e ansiavam por minha volta. Matthew Donnovan dançava comigo desde os onze anos e juntos éramos perfeitos. Foi na mesma época em que Miranda Carte assumiu nossos treinos e se empenhou em nos fazer os melhores da academia.
Assim que me viram passar pela porta principal do teatro, todos pareciam espantados em ver de volta depois de dois anos. Os abraços calorosos, a chuva de perguntas, os sorrisos felizes ao me ver. Eu me sentia em casa. Tanto Miranda quanto Matthew ficaram surpresos e me recepcionaram com vários abraços e beijos, contentes por me terem aqui novamente.
- Eu espero que essa visita seja você avisando que está de volta e nunca mais irá embora – ele disse, enquanto caminhávamos pelo corredor até nosso estúdio.
- Com certeza, não te abandono mais meu amor – sorri.
- Como foi estudar lá? – Miranda perguntou, empolgada pelas novidades.
- Foi maravilhoso. Eles têm métodos bem diferentes e rigorosos, mas foi ótimo. Acho que melhorei minha técnica, afinal era a minha prioridade, apesar das viagens e tudo mais. Foi incrível – sorri – E você? Sentiu muito a minha falta?
- Vou te contar, foi difícil me adaptar a outra bailarina, tô acostumado a levantar bastante peso, sabe como é – gargalhou.
Sorri, me sentindo feliz de estar ali com eles e pronta para voltar a treinar. Eu cresci naquela escola, foi onde me descobri, onde aprendi, onde aperfeiçoei minha técnica. Foi onde eu renasci. Aquele lugar era o meu porto seguro.

Capítulo 3

A semana se arrastou de uma forma inexplicável, fazendo-me voltar toda a minha frustração para meus ensaios na academia. Faziam sete dias que eu havia voltado e não havia encontrado com ele em nenhum momento. Em uma cidade tão pequena quanto a nossa, era quase uma conspiração do destino isso não acontecer.
Joguei-me no sofá, irritada, fitando meu pai ler um livro na poltrona. Seu olhar estava desfocado, combinando com a ruga em sua testa, ou seja, estava lendo algum mistério. Ele tinha essa mania, sempre que lia alguma coisa envolvente, como seus mistérios favoritos, ele franzia a testa, como se lhe ajudasse a compreender melhor o que estava acontecendo no mundo literário. Coloquei os pés no colo da minha mãe e abracei uma almofada, tentando por meus pensamentos no lugar. Ela sorriu para mim e acariciou minha perna, busquei seus olhos e sorri docemente.
- O que você quer jantar, princesa?
- Italiano – sorri para ela – Podíamos pedir daquele lugar que eu gosto.
- Claro, só escolher o que você quer. Justin vai jantar com uns amigos em Nova York.
Acenei e levantei para pegar meu telefone e fazer o pedido, aproveitando para mandar uma mensagem para a , perguntando se ela queria vir dormir comigo. Sorri ao receber sua mensagem positiva e voltei para o sofá, colocando em um canal qualquer com um volume baixinho para não atrapalhar meu pai.
Me atirei na cama ao lado da morena, rindo de algo que ela havia contado e procurei algum filme no Netflix. Eu sentia muita falta desses momentos com ela, era a melhor amiga que eu podia ter. Eu podia contar com ela nos momentos bons, nos momentos ruins e nos momentos banais como esse. O tempo que fiquei na Suécia, adquirimos o habito de sempre ver o mesmo filme ao mesmo tempo, para fingir que estávamos juntas, pelo menos de coração.
- Tem alguma coisa para a gente comer?
- Acho que tem umas porcarias, meu pai comprou tudo que eu gosto – ri – Vamos lá buscar, eu pego a comida e você pega as bebidas.
- Só se for Coca-Cola – saltou para fora da cama, trocando o vestido listrado pelo pijama xadrez rosa claro.
- Qual a dúvida? – Ri, acompanhando ela no pijama.
Descemos rindo no mesmo momento que meu irmão chegava do jantar, ficando feliz em nos ver. e Justin sempre se deram muito bem e eu, como uma boa romântica, sempre torci para que os dois ficassem juntos. Apesar da menina estar comprometida há um tempo, eu nunca concordei com o relacionamento que ela mantinha.
- Hey garota, que bom ver você – ele sorriu, dando um beijo na bochecha dela – Quem viajou foi minha irmã, não precisava ter sumido.
- Palhaço, você ficou a maior parte do tempo na faculdade e vem me cobrar – ela riu, dando um tapa em seu braço.
- Tudo bem, perdoada – ele sorriu, se servindo um copo de refrigerante – Tão vendo alguma coisa decente?
- Moana, quer ver? – Sorri, já sabendo a resposta.
- Com certeza!
Justin era apaixonado por desenhos, não importando o estilo, então eu sempre tinha um parceiro para ir ao cinema toda vez que saia alguma novidade e para rever também, quando amávamos muito.
Voltamos para o meu quarto com mais coisas que podíamos carregar e, com certeza, que podíamos comer, e nos jogamos na cama, uma de cada lado dele, dando play no filme.

:::

Corri para atender o celular que tocava insistentemente em cima da cama. Tinha saído do banho e estava me vestindo para almoçar com a no centro da cidade, havíamos combinado de comer no nosso restaurante favorito, e depois, irmos a Nova York aproveitar os últimos dias de férias.
- Quase pronta – atendi rindo.
- Já estou saindo de casa, cinco minutos estou aí – informou e pude ouvi-la ligando o rádio – Está muito frio na rua, que horror.
- Bom saber, vou terminar de me vestir e já desço.
Desliguei e calcei as botas de salto alto, me olhando no espelho. Havia colocado uma calca preta, com um suéter preto e um blazer de lã listrado, me enrolando numa manta gigantesca, afim de afastar o frio. Prendi o cabelo num rabo de cavalo alto e peguei a bolsa, descendo no mesmo instante em que ouvi uma buzina. Acenei para o meu irmão, que estava atirado vendo televisão e sai porta a fora.
Assim que entrei no carro, uma terceira pessoa saltou no banco de trás, gritando “Surpresa” e quase me fazendo enfartar.
- ! Eu vou te matar, garota! – Ri, me esticando para abraçar a loira sorridente no banco traseiro.
- Tive que voltar antes, não conseguia mais ficar longe de você, sua maluca – riu – Por favor, nunca mais vá embora.
- Eu prometo – sorri para ela.
O almoço havia sido melhor impossível, poder matar a saudade das minhas amigas era uma sensação inexplicável. Se não fosse por elas, eu não teria sobrevivido a esses dois anos exilada na Suécia. Nossa, , que drama. Ri em pensamento. Mas era a mais pura verdade. Elas estavam sempre ali para mim, me fazendo companhia, me atualizando de tudo.
Menos dele.
Era assunto proibido em todas as nossas conversas. Mas, de qualquer forma, também acredito que elas não gostariam de me contar que ele havia seguido em frente.
Eu não havia compartilhado com ninguém meu plano de reconquista-lo, parecia que enquanto o mantivesse só para mim, as chances de darem certo eram maiores. E, apesar de estar na cidade há mais de uma semana, ainda não havia cruzado com ele em nenhum lugar. Isso era, de certo modo, muito frustrante. Queria vê-lo, contar que eu estava de volta e que tudo que eu havia dito não passavam de palavras ocas e sem significado. Queria tê-lo. Para nunca mais soltar.
Sorri para minhas amigas enquanto caminhávamos pelas avenidas lotadas de Nova York, tomando cafés da Starbucks e tirando uma quantidade absurda de fotos. Eu amava isso nelas, essa espontaneidade, poder ser eu mesma sem ser julgada. Posei para a quinquagésima foto e coloquei meu copo no lixo, indo em direção ao carro.
- É amanhã, primeiro último dia de aula – suspirei.
- É amanhã – responderam em uníssono, com vozes tensas.


Capítulo 4

Acordei com um mal pressentimento. Primeiro último dia de aula. Suspirei, frustrada e fui tomar café da manhã. Queimei a língua com o leite e voltei ao quarto, irritada. Estava com aquela sensação de que tudo daria errado. Coloquei uma calça jeans, uma regata cinza, um blazer rose, enrolada em uma manta estampada e uma bota branca de salto alto. Meu reflexo no espelho me mostrava o quão bonita estava e sabia que estaria voltando com tudo. Joguei meu longo cabelo encaracolado para o lado e sorri. Estava pronta.
O conhecido caminho parecia longo demais, como se a cidade tivesse dobrado seu tamanho. Nervosa era pouco para descrever como eu me sentia naquele momento, pois agora sim, eu estava de volta. Estacionei o mais próximo da entrada possível e sai do automóvel, chamando toda a atenção para mim. A garota popular que havia abandonado a cidade sem mais e nem menos. Era um tanto quanto irritante ter todos os olhares voltados na minha direção, mas eu não esperaria nada diferente. Quando você some de uma cidade tão pequena quanto Chambersburg por dois anos, é natural que, quando você retorne, toda a atenção da cidade se volte para você. Porém, não mudava o fato de que era realmente irritante.
- ?
Eu conhecia aquela voz. Virei para trás e não pude conter o sorriso que se abriu em meu rosto, fazendo toda a irritação anterior se dispersar em segundos.
- Ai meu Deus! – Abracei-a forte – Você está mais linda do que nunca.
- Eu sempre fui linda – ela riu, jogando o cabelo para trás.
- Pouco convencida, não é mesmo? – Uma voz masculina ecoou nos meus ouvidos.
- ! – Abracei-o, sorrindo – Senti tanta falta de vocês...
e , o casal mais popular da cidade. Ela com seus longos e encaracolados cabelos ruivos e ele com seu coque samurai sempre pronto. Eram o clássico ‘A Dama e o Vagabundo” e eu amava isso. Eram melhores amigos, confidentes e estavam sempre juntos. Como senti falta desses dois.
- É tão bom poder te abraçar, depois de todo esse tempo longe. Ainda não consigo entender o que fez vocês irem para o outro lado do mundo.
- Eu sei, é ótimo estar aqui com vocês! Não sabe o quanto eu esperei por isso – sorri, a abraçando de lado enquanto caminhávamos pelo corredor.
- Em algum momento de nossa mórbida existência saberemos o porquê de você ter ido embora? – Riu.
- Vou pensar no seu caso.
Meus lábios se repuxavam num sorriso falso cada vez que alguém acenava em minha direção. Eu não queria ver todas aquelas pessoas, só necessitava delas, aquelas que nunca me abandonaram.
Eu estava encucada que ainda não havia o visto e ninguém falava sobre ele. Ele. Eu não sabia nada que havia acontecido nesses dois anos. Eu achava que o quanto menos eu soubesse da vida dele, mais fácil seria me desligar de tudo que passamos. Eu mal fazia ideia do quão equivocada eu estava.
Suspirei aliviada quando correu até mim, ela, sem sombra de dúvidas, era a melhor amiga que eu poderia ter. Lhe abracei e fomos lentamente até a sala de Língua Inglesa. Ela estava tensa, podia perceber. Seus ombros rígidos, seus dedos apertando os livros que carregava, mas algo dentro de mim dizia que eu não deveria perguntar o que estava acontecendo. Sentei ao seu lado, virando-me de costas para a porta, e, antes que eu pudesse iniciar um assunto qualquer com a morena, uma voz, que eu conhecia melhor do que qualquer coisa no mundo, ecoou pelo estabelecimento.
E então, o meu mundo, antes em ruínas, desmoronou completamente.
O que ele estava fazendo ali? Por que estava de terno frente minha turma? Por que todos os alunos me encaravam? Porque os cochichos envolviam meu nome? O que diabos estava acontecendo?
Eu estava completamente paralisada. Minha mente tinha entrado em um completo estado de choque. Não me lembrava nem como respirava. Seus olhos, fixos nos meus, mostravam sua confusão, sua surpresa em me ver. Ele não entendia nada. Eu também não.
Ele engoliu em seco e então eu acordei do transe em que me encontrava.
Busquei os olhos aflitos de e lhe mostrei minha confusão, meu medo de que aquilo que passava por minha mente se concretizasse em segundos. Ela apenas suspirou e sussurrou que tudo ficaria bem. Não estava entendendo, mas não sabia se queria mesmo entender. Olhei para ele e seu olhar surpreso prendeu o meu novamente. Aqueles olhos que senti tanta falta, aquele sorriso que ele não conseguia nem forçar, aquele corpo esculpido maravilhosamente. Como queria poder abraçá-lo.
- Eu... – pigarreou, virando-se para a turma novamente – Quanto tempo, hm?
- Sentimos saudades, Mr. .
- Estamos de volta, Mia. – Ele forçou um sorriso e largou sua pasta na mesa - Eu preparei uma leitura leve para o primeiro dia, apenas para que pudéssemos relembrar um pouco o que vimos no último ano. Então, - olhou-me novamente – Alguém se lembra do que lemos antes das férias?
Meus ouvidos não escutavam nada do que saia por sua boca, meus olhos estavam embaçados e eu não sabia se aguentaria isso. Não podia ser verdade. Deviam estar me pregando uma peça, uma brincadeira de boas-vindas.
Mas não. Era a vida esfregando a realidade na minha cara, mostrando as consequências de minhas atitudes.
Levantei num pulo, sentindo todos os olhares em mim novamente e saí da sala ouvindo apenas os sussurros dos presentes combinados com o salto de minha bota no piso claro da escola. Não aguentava mais ficar ali, meu estomago estava embrulhado, minha cabeça rodava, minha visão estava turva. O que estava acontecendo comigo? Rapidamente, me vi do lado de fora da instituição, o ar gélido cortando meu rosto e, por um segundo, mudando o foco dos meus pensamentos. Eu sabia que certas coisas iriam mudar quando deixasse a cidade, mas nunca imaginei que levaria tamanho choque quando retornasse.
E eu não tinha culpa de nada! Eu fui obrigada a ir embora, fui obrigada a deixar tudo e todos para trás, fui obrigada a deixar o homem que eu amei e que ainda amava. E eu não tinha absolutamente nada a ver com os erros cometidos!
Mas era, sem dúvidas, a que mais sofria.
As lagrimas quentes desceram por minha bochecha fria, marcando o rosto maquiado, fazendo com que meus olhos ardessem devido ao vento. Um soluço contido escapou por meus lábios, meu peito tremeu com sua intensidade e eu sabia que teria que sair dali o mais rápido possível. Apressei meus passos até o carro e entrei, agradecendo por guardar a chave do mesmo no bolso da calça, e então, vendo que alguém estava me observando e eu conhecia melhor do que qualquer um aquele corpo. Ele prendeu meu olhar e não pude controlar a sequência de espasmos que escaparam do meu peito. Quanto mais ele se aproximava, mais se distanciava de mim. E então, a porta do carona se abriu e em seguida fechou, fazendo o carro ser preenchido por aquele cheiro de camomila, sabonete de morango e 212 da Carolina Herrera.

:::

- Como isso aconteceu? – A pergunta escapou baixa pela minha boca.
- Eu pensei que você não voltaria. Você não lembra das coisas que me disse?
- E por isso resolveu se tornar professor das minhas amigas? – Ri, irônica – Ou melhor, daquelas que um dia foram suas amigas também.
- Eu não resolvi isso, simplesmente. Foi o que me foi oferecido. Para alguém que havia acabado de se formar, não podia ter muitas exigências.
- Você sabe que outras escolas poderiam te dar emprego.
- Nós estamos em Chambersburg, . – Ele riu – Não em Nova York. E, repetindo, eu nunca imaginei te ver aqui de novo. Eu achei que era para sempre.
- Isso não muda nada.
- Foi o único emprego que consegui, ok? – Bufou – Minhas notas caíram 70% depois que você foi embora, ninguém queria um professor que tinha o histórico marcado com médias e reprovações. Eu repeti um semestre inteiro. Eu perdi minha bolsa de estudos. Eu simplesmente não tinha escolha.
- Eu não escolhi ir embora, eu fui obrigada!
- Não precisa gritar, estou bem do seu lado.
- Eu falo do jeito que quiser! – Baguncei o cabelo, furiosa e magoada – Quer saber? Volte para os seus alunos. Eles precisam mais de você do que eu.
- , nós precisamos conversar...
- Não. Não precisamos. Você precisa voltar para sua aula ou você quer perder o único emprego que lhe estava disponível?
- Você está irreconhecível – ele olhou fundo em meus olhos, suspirando.
- Vai embora, .
E então, ele caminhou lentamente para longe de mim, deixando-me perceber quando seu peito tremeu, irrompido por um soluço forte. Baixei a cabeça e chorei. Chorei como nunca havia chorando antes. Lá se vai meu plano de reconquista-lo. Eu sabia que não tinha mais volta, que nós dois estávamos acabados para sempre. Ele era meu professor e eu não podia fazer nada para mudar isso. E foi aí que entendi o mau pressentimento que tive de manhã. Era meu “sexto sentido” me avisando que nem sempre as coisas são como queremos que sejam.
Ótimo jeito de reencontra-lo.
Todas as memorias do nosso relacionamento voltaram com toda a força, enchendo minha cabeça e me fazendo chorar cada vez mais. Eu nunca imaginei que isso aconteceria. Eu era uma tola de pensar que ele estaria esperando por mim, mesmo depois de tudo o que eu lhe disse quando fui embora. Lembro que esperei que ele aparecesse no aeroporto, todo tempo meus olhos buscavam por ele, vindo correndo e pedindo que eu ficasse. Mas isso nunca aconteceu. Ele acreditou nas minhas palavras. Ele comprou cada coisa que eu disse. E isso era pior do que qualquer dor no mundo.
E então, eu proibi todo mundo de falar sobre ele. Era como se, caso eu não soubesse, nada seria real. Cada momento que eu me perguntei como ele estava indo, eu me punia por tê-lo deixado. Por ter dito as coisas que eu disse. Por não ter sido capaz de dizer que ia embora. Por ele ter que descobrir pelos outros. Por ter cortado os laços da forma que cortei. Eu me considerava a pior pessoa do mundo e eu merecia o que estava acontecendo agora.
Eu precisava me acalmar, precisava voltar para a sala de aula. Não podia dar mais motivos, além de minha inesperada volta, para todo mundo falar sobre mim. Eu precisava ser forte.
Respirei fundo, arrumando o estrago que o choro tinha feito e sai do carro. Eu não ia me deixar abalar daquela forma, não por algo que não tinha solução. Ou seja, chorar não resolveria nada, nenhum dos meus problemas. Os óculos escuros pelo menos escondiam meus olhos vermelhos, mas todos sabiam que algo estava errado ou eu não teria saído correndo daquela forma.
Avistei e indiquei o banheiro, seguindo para lá em seguida. Três garotas adentraram o lugar numa pressa incrível e me abraçaram tão apertado que eu queria para sempre ficar ali. Só existia um abraço melhor que o delas...
- Hey, – sorri – Queria ter te visto antes de tudo isso.
- O que houve, princesa?
- Por que ninguém me contou?
- Eu não sabia como contar uma coisa dessas...
- Eu poderia pelo menos estar preparada para isso, . Meu chão desabou quando eu o vi parado na minha frente, daquele jeito. E eu não posso fazer nada. Absolutamente nada.
- Ninguém sabia que você ia voltar, ele não ia parar a vida dele porque você tinha ido embora. Você não viu o estado que ele ficou, foi praticamente sua única opção. Não seja injusta...
- Não ser injusta? – Ri – O cara que eu amo há 3 anos vira meu professor e eu não tenho como mudar isso, porque é a vida dele e, pelo visto, eu não faço mais parte dela.
- Você não faz mais parte dela desde o dia que disse as coisas que disse a ele.
- Nossa, , muito obrigada – debochei – Eu não consigo acreditar numa coisa dessas. É surreal.
- Você queria o que? Que depois de tudo o que você disse ele ficasse esperando pelo dia milagroso em que você voltaria? Ele tinha que seguir em frente. Você destruiu ele.
- Eu me destruí também, bem mais que a ele.
- , para de drama – ela bufou.
- Não é drama!
- Você tem um ano na escola, apenas um ano. Se você amou ele estando vinte e quatro meses do outro lado do oceano, o que serão doze meses aqui? – tentou ser compreensiva.
- Vocês nunca vão entender.
- Entender o que? Que você está sendo infantil? Isso nós já percebemos.
- , não seja grossa – interrompeu – Você pelo menos já conversou com ele? Ele saiu da sala meio atordoado...
- Ele me seguiu até o carro. Não quero conversar.
- , você devia pelo... – interrompi-a.
- Eu não quero conversar! Eu não quero que ele esfregue na minha cara que não significo mais nada para ele! É tão difícil de entender isso?
- Você que sabe... – deu de ombros.
- Precisamos voltar para a aula – falou baixinho – Eu ainda acho que você está sendo infantil, mas acho que já tem idade o suficiente para tomar as próprias decisões.
- Eu não vou te dizer o que estou pensando, porque acredito que não mereça ouvir. Então ou você para de falar isso ou sai da minha frente – olhei fundo nos olhos dela, deixando bem claro que eu não estava pra brincadeiras.
bufou e saiu do banheiro, batendo a porta quando passou. suspirou e foi atrás da ruiva, pedindo desculpas em silêncio.
- Eu acho que você tem que fazer o que acha melhor para você – me abraçou, beijando meu couro cabeludo – Você chegou faz pouco tempo, ajeite a sua vida primeiro e depois resolva suas pendências. Infelizmente, as coisas realmente não irão mudar, cabe a você decidir o rumo da sua vida.
Suspirei e concordei em silencio, indo lavar as mãos e ajeitar a maquiagem.
- Eu vou voltar para a aula, você vem?
- Já vou, pode ir na frente.
E quando ela me deixou sozinha, eu percebi o quanto eu me sentia vazia.

:::

Eu sabia que ignorar meus problemas não faria deles menores, mas era melhor do que encarar a verdade frente a frente. Eu amava aquele homem mais do que qualquer coisa em minha vida, mas não havia volta para nós, éramos um caso perdido. Pensar que, quando embarquei de volta para os Estados Unidos, eu estava determinada a reconquistá-lo parecia uma piada de mau gosto.
Resolvi que não iria me importar, por mais que fosse mentira, queria poder curtir minhas amigas sem ter que ficar me preocupando com coisas que não tinham solução.
Passava os dias de casa em casa, sempre tendo alguma delas para me distrair e me fazer rir. Me joguei com tudo nas aulas de ballet, demonstrando sempre meu melhor e colocando toda minha frustração em cima das sapatilhas. Encontrava com ele nas aulas, as quais fazia questão de sentar o mais ao fundo possível e me esconder atrás dos meus livros. Eu havia adquirido o talento de chorar em silencio, sem chamar a atenção para mim em nenhum momento. Havia voltado a usar meus óculos de grau, assim ficava mais escondida e era mais fácil de disfarçar. Porém, apesar de tudo isso, a escola havia se tornado o meu inferno particular.
Antes, eu amava Língua Inglesa, era definitivamente a melhor matéria que tinha. Meu sonho era ser escritora, eu ficava no escritório do meu pai lendo todos os livros que ele possuía em sua estante todos os dias depois da escola e foi assim que conheci ele.

Flashback – três anos e meio antes.

- Sr. ? – Uma batida na porta e em seguida a mesma se abriu.
Um garoto moreno, alto, com olhos tão azuis quanto o mar, ficou na minha linha de visão. Eu nunca havia visto homem tão lindo quanto ele. Sua camiseta branca realçava com o jeans escuro e deixava sua pele em evidencia, me fazendo questionar se ela era tão macia quanto aparentava ser.
- Oi, ele não está, quer deixar um recado? – Respondi, voltando do transe, completamente corada.
- Ah, , sou aluno dele – estendeu-me a mão – Queria tirar uma dúvida sobre o trabalho que ele pediu.
- , filha dele – sorri tímida – Posso dizer que passou aqui, o que acha? Peço para ele lhe procurar quando voltar.
- Filha? – Sorriu sem graça e mudou de assunto rapidamente, envergonhado – O que está lendo aí? Seu pai tem livros muito bons por aqui.
- Romeu E Julieta, não adianta, eu sempre volto para ele – rimos – Acho que já li todos dessa estante, estou começando a implorar por títulos novos.
- Eu tenho alguns que não tem aqui, se você quiser – coçou a cabeça – Podemos nos encontrar na biblioteca um dia desses e trocarmos algumas dicas literárias.
- Eu adoraria – sorri, colocando o cabelo atrás da orelha e olhando para meus pés – Adoraria mesmo.
- Que bom, eu posso te...
- ! – Meu pai interrompeu, entrando no escritório – O que faz aqui? Vejo que já conheceu minha filha, .
- É, conheci sim, muito simpática – disse sem jeito – Professor, eu vim lhe perguntar sobre o trabalho que passaste na última aula, será que poderíamos conversar rapidinho?
- Claro, eu estou indo para uma reunião, quer me acompanhar até o prédio 3? – Perguntou enquanto pegava seu material e me dava um beijo na testa – Te encontro mais tarde em casa, mocinha, nada de ficar aqui o dia todo.
- Ok, papai – sorri, tímida – Tchau, .
- Tchau – ele sorriu para mim e eu sorri boba, vendo-o acompanhar meu pai porta fora.
Fim do flashback.

Agora eu odiava Língua Inglesa.

:::

Quando meus pês encontraram o chão, pude sentir a unha fincando a carne e sabia que havia me machucado. Respirei fundo e continuei, como se não houvesse acontecido. Era uma forma de me distrair do pandemônio que havia se tornado a minha mente.
Matthew me levantou, fazendo cada passo perfeito do nosso dueto. Dançar com ele era algo inexplicável, era como se nos comunicássemos somente pela música, não precisávamos de palavras, de ordens ou de contagem. Era apenas nos dois e nossa dança. Eu estava sem treinar Pas de Deux desde a minha ida para a Suécia, havia focado meus treinos em melhorar minha técnica e elevar minhas habilidades, então estava dando tudo de mim nos treinos com ele. Mas, assim que ele me colocou lentamente no chão, eu oscilei, sentindo o pé latejar.
- , você está machucada – ele parou.
- Não, tudo bem, podemos continuar – disse, me colocando na posição para que seguíssemos de onde havíamos parado.
- Nada disso, depois você se machuca feio e a culpa vai ser minha.
- Matt, está tudo bem – tentei sorrir e ignorar a dor.
- , vai olhar o que houve – Miranda se meteu na conversa.
Concordei, sentando-me no chão e desamarrando as fitas que prendiam a sapatilha no tornozelo. Vendo a ponteira cheia de sangue no mesmo instante em que puxei a meia calca para cima. Bufei. Que nojo. Era a única parte que eu odiava. Aguardava ansiosamente o dia que inventassem uma forma de dançar sem que isso acontecesse. Me apressei em fazer um curativo e calcei as sapatilhas novamente, pronta para outra.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.




Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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