Última atualização: 14/01/2018

Capítulo 1

Em tempos atuais...

– Até que enfim, liberdade! - Lana quase gritou saltando para fora do carro e encarando o enorme prédio a nossa frente. Não consigo conter a empolgação e animados ao seu encontro.
Eu realmente não podia estar mais feliz, depois de vinte e um longos anos, agora eu tenho a minha própria casa, ou no nosso caso apartamento, mas isso não diminui nossa felicidade.
– Depois de tantos anos vivendo sobre as regras dos nossos pais... - faço uma pausa e passo um braço por cima do ombro de Lana, que me olha animada.
– ...agora criamos as nossas próprias regras! - ela completa minha frase e dá ênfase para deixar claro que agora as coisas seriam do nosso jeito.
Dou outra olhada para o enorme prédio antigo à minha frente. Era realmente grande, haviam trinta andares nele, e bom, ficamos com o trigésimo já que Lana ficou choramingando no meu ouvido que queria ficar no ponto mais alto onde poderíamos ter a vista perfeita da cidade de Hazelwood. Para mim o andar não era tão importante, eu só queria mesmo ter o meu espaço, o espaço que eu poderia dizer que era meu e que paguei por ele, por isso ficar no trigésimo andar não seria um problema para mim.
Acabamos achando Hazelwood na internet quando procurávamos alguns apartamentos, Lana e meus pais insistiram especialmente para que nos mudássemos para cá. Foi até engraçado quando começamos a pesquisar sobre a cidade, acho que foi o fato de dizerem que ela era assombrada e que continha um passado escuro, eu gosto desse tipo de coisa.
O barulho de algo metálico sendo arrastado me fez sair dos meus pensamentos. Acabo olhando por cima dos meus ombros e vendo que o caminhão da mudança havia chegado pouco tempo depois de nós, e os encarregados em nos ajudar já haviam começado a descarregar as inúmeras caixas de papelão pela calçada.
– Agora chega de sonhar e vamos ao trabalho. - Lana diz ao meu lado, e a olho, vendo que ainda mantinha a empolgação em seu semblante. Depois desvio meu olhar por um segundo de minha amiga, para aquela montanha de caixas. Se fosse em outra ocasião eu certamente reclamaria, mas não hoje. Hoje eu estaria feliz por apenas carregar caixas.
Fomos até a calçada e pegamos algumas caixas, para em seguida caminharmos para o edifício Hazelhills. Passamos pela portaria, onde havia um simpático porteiro que nos ofereceu ajuda, e acabamos aceitando já que iríamos levar um bom tempo até conseguirmos acabar com tudo isso.

***

Quase uma hora depois eu praticamente não sentia mais minhas pernas, minha respiração já estava ofegante, meus braços estavam doendo e eu estava completamente suada e grudenta. Acabei prendendo meu cabelo em um rabo de cavalo para tentar amenizar o calor que eu sentia, e como haviam muitas pessoas ajudando nem sempre deu para pegar o elevador. Subir vários lances de escadas acaba com qualquer pessoa, mas felizmente já estávamos no final. Os encarregados da mudança já haviam ido embora, e porteiro simpático já havia voltado para o seu posto, agora restava apenas duas caixas, uma que estava comigo e a outra com Lana.
– Graças a Deus, nós acabamos! Não aguentava mais! - a loira ao meu lado resmunga, enquanto esperávamos o elevador parar no nosso andar.
– Sim, minhas pernas estão queimando. - falo e dou uma olhada no espelho do elevador, fazendo uma careta ao notar o meu estado. Meu cabelo estava todo bagunçado com alguns fios do meu rabo de cavalo grudando em torno do meu pescoço, minha regata branca estava um pouco suja, e a única coisa que se manteve no lugar foram os meus shorts e minhas botas de cano curto. Lana não estava muito diferente de mim.
Solto um suspiro de alívio assim que vejo a porta do elevador se abrir, olho para o fundo do corredor vendo duas senhoras já de idade espreitando sobre suas portas, elas estavam nos observando desde que começamos a subir as caixas. Só espero que não sejam aquele tipo de senhoras fofoqueiras.
Ignorando os olhares delas continuamos nossa caminhada até a nossa porta, parando em frente ao número 218. Empurro a porta com o pé e finalmente entramos, colocando as últimas duas caixas no chão da sala e nos jogando no sofá logo em seguida.
– Eu estou morta. - Lana suspira ao meu lado – E com fome. - olho para o lado a vendo fazer uma careta.
– Vamos tomar um banho e depois pedimos alguma coisa. - me levanto já pronta para ir ao meu quarto – Amanhã arrumamos essa bagunça. - falo e ela apenas assente.
Quando estávamos quase fazendo o caminho para nossos quartos a campainha toca, me fazendo olhar confusa para Lana que dá os ombros. Caminho até a porta e a abro vendo as duas senhoras que nos vigiavam a pouco, elas tinham em mãos algum tipo bolo e algo que eu julgava ser chá ou café em uma grande garrafa térmica.
– Boa tarde, querida! - a mais baixinha e com os cabelos curtos me saudou.
– Hm, boa tarde. - respondo com meu cenho franzido.
– Nós apenas queremos dar as boas-vindas. - a outra senhora, essa com os cabelos até os ombros, mas igualmente brancos disse - Trouxemos bolo e chá. - ela dá um sorriso simpático, confirmando a minha teoria sobre o chá.
– Oh, claro, entrem! - dou espaço para que elas entrassem. Lana me olhou e franziu o cenho, e eu apenas dei de ombros - Por favor, não reparem na bagunça, ainda não tivemos tempo de arrumar. - falo e continuo encarando Lana sem saber o que fazer, a mesma logo entra em modo automático e dá um sorriso forçado para as senhoras.
– Imagina, querida, está ótimo. - a mais baixinha diz calmamente.
Talvez elas não sejam de todo mal.
– Eu sou e essa é Alana. - aponto para minha amiga que logo se juntou a mim.
– São muito bonitas. - a senhora de cabelo curto nos elogia e sorri - Sou Margaret e essa é minha vizinha Margot. - ela faz um pequeno gesto para a que estava ao seu lado.
– Prazer em conhecê-las. - dou um sorriso um pouco mais relaxado - Vamos até a mesa então? - indico a cozinha.
– Claro. - Margot responde, e por fim caminhamos até a cozinha.
As senhoras ajeitaram as coisas sobre a mesa, e depois disso ficamos uns bons minutos apenas jogando conversa fora, e cheguei à conclusão de que talvez elas poderiam ser boas vizinhas no fim das contas.
Descobrimos que Margaret se mudou para cá dois anos depois da inauguração do edifício, e que Margot veio no ano seguinte, sendo sua vizinha e se tornando uma amiga de longa data. Elas eram umas figuras, com seus cabelos brancos, sorrisos acolhedores e seus doces maravilhosos, já que esse bolo de chocolate que trouxeram estava ótimo. Lana e eu quase o comemos todo, mas as duas senhoras não pareciam se incomodar com isso.
– O que duas jovens moças como vocês vieram fazer aqui em Hazelwood? - Margaret pergunta ajeitando suas mãos enrugas sobre a mesa.
– Estávamos procurando algum apartamento e acabamos gostando desse aqui. – Lana responde, enquanto colocava um último pedaço de bolo na boca.
– São de Londres, certo? - agora foi a vez de Margot perguntar, e apenas assentimos em resposta – Hazelwood não é lugar para duas jovens como vocês. - franzo o cenho com sua fala, e troco um olhar confuso com Lana.
– Por quê? - pergunto curiosa.
– Nunca ouviram as histórias sobre essa cidade e o sanatório Waverly Hills? - eu podia identificar a tensão na fala de Margot.
– Já ouvimos alguns boatos sobre a cidade, mas nada relacionado a esse tal sanatório. - encaro bem as senhoras a minha frente. Eu já podia sentir a curiosidade tomando conta de mim.
– Bom, tudo que vocês já ouviram sobre a cidade provavelmente é verdade. - Margaret começa a dizer, e quase faço uma careta de deboche, mas me controlo.
Até parece que essa cidade era assombrada por criaturas ruins. Eu apenas gostei da história que eles venderam sobre o lugar, mas isso não significa que, de fato, eu acredite nela.
– E sobre o sanatório Waverly Hills... dá para vê-lo daqui, ele fica em cima de uma alta colina dentro da floresta. Foi abandonado há muitos anos atrás, e dizem que coisas horrorosas aconteceram lá antes do sanatório fechar e hoje ninguém se atreve a colocar os pés lá, já que quem vai lá não sai vivo. - minha primeira reação ao ouvir isso seria rir, mas, mais uma vez eu me contive. Essas senhoras já deveriam estar caducando.
Olhei para o lado encontrando uma Lana totalmente estática e com os olhos arregalados. Eu não creio que ela acreditou nessa baboseira toda.
– Chega! Não diga mais nada, Margaret. Você não deveria nem ter contado essas coisas para elas, as duas mal chegaram e já vão querer ir embora. - Margot repreende séria, se levantando em seguida – Temos que ir agora. Meninas, obrigada pela adorável tarde, se precisarem de alguma coisa é só falar conosco. - assinto, vendo as duas saírem apresadas e tensas da cozinha, me deixando sem entender nada. Até pensei em ir levá-las até a porta, mas não me deram oportunidade.
– "Já que quem vai lá não sai vivo." - imito a fala de Margaret, soltando uma gargalhada alta.
– Isso não tem graça, . - Lana me repreende com uma carranca séria.
– Claro que tem Lana, isso não passa de uma história para assustar crianças, e para atrair pessoas para esse lugar. Você sabe, vender uma boa história atrai grandes lucros. - me levanto calmamente – Agora vamos tomar um banho. - falo, me virando e indo até a saída da cozinha, mas paro no meio do caminho e olho sobre meu ombros. – E cuidado para as assombrações não te pegarem no banho. - finalizo minha fala para Lana, saindo da cozinha ainda gargalhando.
Era só o que me faltava. Eu já passei dessa fase de acreditar em monstros e em fantasmas, mas essas duas senhoras ainda pareciam acreditar.
Balanço a cabeça negativamente enquanto entrava no meu quarto, procuro meu pijama e produtos de higiene dentro das inúmeras caixas espalhadas pelo chão do quarto, e quando finalmente acho tudo que preciso, coloco meu pijama sobre a cama e vou até o banheiro.
Começo a tirar minhas roupas deixando-as sobre a tampa do vaso, para em seguida ir até o boxe e ligar o registro, deixando que a água quente escorresse sobre a minha pele e relaxasse meu corpo por um momento. Fecho os olhos apenas aproveitando a maravilhosa sensação da água quente contra o meu corpo; pego o shampoo que trouxe comigo, colocando uma quantidade significativa na mão e levando até a cabeça, lavando meus cabelos enquanto sentia o aroma doce de ervas.
Depois que lavo meu cabelo e corpo, desligo o registro e me enrolando em uma toalha. Saio do banheiro indo para o meu quarto, seco meu corpo e passo algum creme nele e por fim visto meu pijama. Jogo meus cabelos para frente e começo a secá-lo com a toalha, até escutar a porta do meu quarto ser aberta.
– Vou pedir uma pizza, certo?! - Lana perguntou da porta, já com um telefone em mãos. Ela também estava de pijama e com os cabelos molhados.
– Ok, só vou ajeitar meu cabelo. - ela assente, fechando a porta em seguida.
Pego minha escova de cabelo e começo a desembaraçar os fios emaranhados. Depois que termino dou uma rápida ajeitada nas coisas e saio do quarto. Dou uma breve olhada para o corredor, e nele havia quatro portas; uma do meu quarto, a outra do quarto de Lana, a do quarto de hóspedes e a do banheiro extra e ao fundo do corredor havia uma parede totalmente de madeira dando um destaque.
Fecho a porta atrás de mim e vou até a sala, vendo Lana fazendo o nosso pedido, e por isso acabo por me sentar no sofá.
– Daqui dez minutos eles entregam. - ela anuncia e se senta ao meu lado.
– Ok, eu posso esperar dez minutos. - falo pegando o controle e ligando a televisão.
A nossa sorte era que já tínhamos montado as coisas grandes, apenas faltava organizar as roupas, utensílios de cozinha e esse tipo de coisa fácil.
Coloquei em um canal qualquer apenas para deixar o tempo passar até que a pizza chegasse.

***

– Eles estão atrasados. - Lana resmungou pela milésima vez ao meu lado.
– Quanto tempo já se passou? - suspiro, também já cansada pela demora.
– Trinta minutos. - ela diz se levanta indo até a janela.
– Vamos esperar mais um pouco. - falo, me juntando a ela na janela.
Lana realmente fez uma bela escolha, daqui de cima dava para ver quase a cidade toda. Era uma visão muito bonita.
– Olha só aquilo, ! - ela diz enquanto apontando para floresta da cidade.
Abro mais a janela avistando entre as árvores e em cima de uma alta colina, uma enorme e antiga construção, o sanatório Waverly Hills. Até parecia aquelas coisas de filme de terror, ele ficava um pouco afastado da civilização, não havia nada o iluminando e a única coisa que o fazia companhia, eram as inúmeras árvores.
– Esse negócio me assusta. - Lana fala ao meu lado.
– Deixa de ser besta, você não ouviu Margaret dizendo que está abandonado há anos?! - volto para o sofá procurando pelo telefone, pronta para ligar para pizzaria.
, a Margaret não disse que ele estava abandonado há anos? - Lana pergunta com uma voz estranha.
– Sim. Eu acabei de falar isso. - respondo sem interesse enquanto começo a digitar os números da pizzaria, que estava anotado em um pequeno caderninho jogado sobre o sofá.
– Então por que as luzes se acenderam? - sua voz se torna ainda mais estranha, me fazendo parar de digitar os números para olhá-la. A mesma tinha os olhos arregalados, e segurava com força as cortinas.
– O quê? Do que você está falando? - me levanto e vou até a janela de novo.
Procuro pelo sanatório vendo que realmente todas as luzes estavam acessas em questão de segundos, me fazendo pensar que se ele estava abandonado há anos, por que estava com as luzes acessas?
Aquilo só fez uma enorme curiosidade despertar em mim. Eu sempre fui do tipo de garota que prefere um bom terror ao romance. Não que eu não gostasse de romances, eu até gosto, só que prefiro terror. Esse tipo de coisa sempre foi mais atrativo para mim e foram poucas as vezes que essas coisas me deixaram com medo. Eu tenho um pé na realidade, vivo em um mundo onde não existe monstros, fantasmas ou qualquer outro tipo de coisa que desafiasse a lógica humana.
– Eu não sei, quer ir lá investigar? - pergunto, vendo Lana saltar para trás.
– O quê?! Está louca?! Claro que não! - sabia que ela ficaria histérica, eu estava apenas brincando. Não iria lá mesmo que o meu lado curioso morresse de vontade de saber por que as luzes de um antigo sanatório abandonado estavam acesas.
Quando eu penso em provocar mais Lana o interfone toca, era o porteiro avisando que a nossa pizza havia chegado.
– A pizza chegou, vamos! - anunciei, voltando para sala. Lana me olha meio incerta me fazendo revirar os olhos – Vem logo. - falo sem paciência, e enfim saímos, indo até o elevador.
Não demora muito para que chegássemos na portaria. Pagamos pela pizza e o refrigerante, e quando estava pronta para voltar, olho além do portão do edifício, vendo a rua totalmente deserta e coberta por uma camada de neblina. Era sinistro, mas nada que fosse anormal.
Fizemos o mesmo caminho de volta, e quando o elevador abriu no nosso andar, começamos a caminhar pelo corredor novamente.
, você ouviu isso? - Lana pergunta, e paro de andar para olhá-la que mais uma vez estava com medo.
– Ouviu o que, Alana? - reviro os olhos. Eu já estava começando a me irritar com isso.
– Esse barulho de passos atrás da gente. - ela responde e olho em volta não vendo nada.
– Não tem ninguém aqui, Lana, estamos sozinhas. - falo e volto a caminhar.
– Por isso mesmo, estamos sozinhas. Então de quem eram os passos? - ela me olha assustada.
– Deve ser do fantasma da cidade. - respondo sem paciência.
Ela já está ficando paranoica com isso.

***

Comemos quase a pizza toda e agora estávamos mais do que satisfeitas. Amanhã teríamos que ir ao mercado, já que eu não queria comer porcarias todos os dias.
– É melhor irmos dormir agora. Amanhã temos que ir ao mercado e procurar por algum emprego, afinal, as contas não se pagam sozinhas. - falo, pegando os pratos e copos e os levando até a cozinha – Mas se tivermos sorte, talvez o fantasma as pague para nós. - debocho, ouvindo Lana bufar atrás de mim.
– Você devia parar de brincar com essas coisas. - me viro encontrando uma Lana séria e de braços cruzados.
– E você deveria parar de acreditar em historinhas para crianças. Isso não existe, Lana. - também a encaro séria – Vamos dormir logo. - dou as costas para minha amiga e vou caminhando em passos calmos até meu quarto.
Nos despedimos e cada uma foi para o seu quarto. Quando adentro o novo cômodo, vou até o banheiro para poder escovar meus dentes e fazer o resto de minhas higienes. Quando termino volto para o quarto, arrumando minha cama e deitando nela.
– Boa noite, Sr. fantasma. - falo debochadamente, antes de deitar minha cabeça no travesseiro e cair em um sono profundo e tranquilo.


Capítulo 2

Desperto de meu sono quando sou invadida por um maravilhoso aroma de café que faz meu estômago dar sinal de vida.
Esfrego meus olhos e me estico toda para acordar, e com um suspiro, me levanto da cama. Caminho no escuro à procura da janela e tropeço em algumas coisas até conseguir alcançá-la, rio comigo mesma e quando finalmente consigo abri-la, um vento forte e gelado me atinge e estremeço. Coloco meus braços ao redor de meu corpo na tentativa de me aquecer enquanto olho através da janela. Sou privilegiada com uma vista linda, mas me sinto um pouco desanimada por não conseguir ver a construção do sanatório daqui, pois tudo o que se pode ver é uma densa floresta que se estende sobre uma alta colina.
Respiro fundo apreciando a vista e sorrio ao pensar onde estamos. Nosso apartamento. Ainda não consigo acreditar que chegamos até aqui, mas realmente precisamos encontrar um emprego, quem sabe hoje é o nosso dia de sorte.
Pego um moletom mais quente sobre uma caixa de papelão aberta e o visto enquanto caminho para a cozinha, onde sou recebida com um sorriso de Lana.
– Bom dia. - saúdo depois de passar minha cabeça pela gola apertada do moletom.
– Bom dia, bela adormecida. - Lana brinca - Fiz café. - ela anuncia e eu bato palmas animada. Encho quase toda a xícara branca com o líquido preto e me sento ao seu lado no balcão.
– Quais são os planos para hoje? - tomo um longo gole da bebida quente e me sinto aquecida de imediato.
– Comprar mais café? - ela responde com uma pergunta e eu rio - Não, sério, a gente precisa de mais café e de bolachinhas, aquelas em formato de coala, sabe? E um pouco de açúcar também. Nossa, a gente não tem quase nada aqui. - ela diz frustrada.
– A gente pode sair para conhecer melhor a cidade e quem sabe procurar por vagas de emprego, e na volta para casa, passamos no mercado, o que acha? - pergunto enquanto levo minha xícara até a pia, passo ela por baixo da água e deixo ao lado para secar.
– Pode ser, vou me trocar. - minha amiga diz e some do meu campo de visão.
Volto para o meu quarto e decido vestir algo mais quente. Hoje o tempo não está dos melhores, então opto por jeans, blusa branca com mangas, minhas botas de cano curto e um casaco caramelo. Penso na possibilidade de levar um cachecol, mas desisto na hora em que Lana me chama.
– Estou com fome, vamos! - pego uma bolsa, e dentro de minutos estamos caminhando pelo saguão do prédio.
O simpático porteiro sorri e nos deseja bom dia quando passamos por ele, retribuo a gentileza e Lana desce até a garagem para pegar o carro. Atravesso a porta de vidro e me arrependo de não ter pego o cachecol, aqui fora está um gelo.
Aperto o casaco em volta do meu corpo e atravesso o portão de grades de ferro, chegando à calçada. Desço os poucos degraus da entrada e vejo Margot vindo com um saco de papel nos braços.
– Bom dia. - cumprimento.
– Bom dia, menina. - ela sorri - O que está fazendo aqui fora nesse frio? - a senhora pergunta enquanto ajeita o saco de papel em um de seus braços.
– Vou conhecer melhor a cidade, fazer algumas compras e procurar um emprego. - respondo dando de ombros.
– Emprego? - ela pergunta e eu assinto – Sei de uma vaga na biblioteca da cidade, se você tiver interesse, é logo na rua principal. Procure por um rapaz muito simpático, não me recordo seu nome, mas ele tem olhos verdes e um sorriso acolhedor, ele irá te ajudar. - ela informa e faz menção de entrar no prédio, mas volta – Você não vai sozinha, não é? - ela parece preocupada agora.
– Não, Lana também vai. - avisto o carro preto de Lana dobrando a esquina.
– Não me parece muito seguro, duas jovens meninas como vocês, andarem sozinhas por aí. - a encaro confusa.
– Por quê? Nós só vamos ao centro. - respondo um pouco irritada por ouvir isso. O que pode haver demais na cidade?
– Apenas tome cuidado e volte antes do escurecer. - ela aconselha e antes que eu poça argumentar, ela se vai.
Entro no carro depois que Lana buzina, impaciente, e ela logo acelera.
– Croissants, aí vamos nós! - ela diz animada enquanto bate suas mãos no volante.

***

Percebo que estamos chegando ao centro quando as casas começam a ser substituídas por pequenas lojas. Foram exatamente essas pequenas coisas que mais me encantaram em Hazelwood, casas simples, ruas estreitas, pequenas lojinhas que vendem de tudo, a floresta enorme e encantadora, e claro, Waverly Hills, o sanatório. Não vejo a hora de descobrir mais sobre esse lugar misterioso que todos parecem temer.
Descemos do carro e optamos por um café menos lotado, já que temos muito pelo resto do dia. Fazemos nossos pedidos no balcão e logo uma simpática senhora vem até nossa mesa para entregá-los. Pergunto à ela o caminho para a biblioteca da cidade e ela me dá as coordenadas. É bem perto de onde estamos.
Terminamos nosso café e seguimos o caminho que a senhora nos disse, chegando à biblioteca em minutos. Olho para a construção admirada com sua beleza e tamanho; quatro altas colunas em mármore claro sustentam o teto com várias gravuras em cinza escuro. Não consigo distinguir o que são, mas imagino que sejam esculturas de pessoas que fizeram parte da história da cidade.
! - volto à realidade quando ouço Lana chamar meu nome – Vamos entrar. - ela diz choramingando.
Subo os poucos degraus da entrada e empurro a pesada porta de madeira escura, revelando o paraíso. Centenas de milhares de livros ocupam estantes que vão do chão ao teto, de lado a lado das paredes, formando inúmeros corredores, algumas mesas estão enfileiradas no centro do salão, dando um ar bem mais sério ao local.
Deixo Lana admirando tudo e me dirijo para um balcão ao canto esquerdo onde se lê em uma placa "posso ajudar?" em letras douradas.
– Com licença!? - digo para um rapaz concentrado nos papéis em sua mão. Quando capto sua atenção, vejo que ele se encaixa nas descrições de Margot, jovem, de olhos verdes...
– Posso ajudar, senhorita? - e aí está o sorrio encantador.
– Ahm, sim. - digo um pouco atrapalhada devido a seu sorriso - Gostaria de saber sobre a vaga de emprego, tenho interesse. - ele me olha por alguns segundos antes de responder.
– Ah, certo... Bom, ahm... Meu chefe não está aqui agora e bom... Não seria educado da minha parte te deixar esperando ou fazê-la voltar mais tarde então.... Ahm... Eu sou o Connor, prazer! - ele se atrapalha todo para falar e eu sorrio pelo jeito envergonhado que ele estende a mão para mim.
! - o cumprimento e olho em volta à procura de Lana e a vejo perdida em seu próprio mundo enquanto passa o polegar nas capas dos livros.
Connor sorri. – Bom, sobre a vaga... - ele clareia a garganta – ... Você basicamente teria que recolocar os livros em seus devidos lugares e organizar os arquivos. - Connor diz e eu sorrio animada. Parece fácil, muito fácil.
– Parece fácil, não é? - ele diz como se tivesse acabado de ler minha mente, e por alguns segundos, realmente penso que ele possa fazer isso, mas, fala sério, ninguém consegue fazer isso, seria surreal, não é? – Bom, o trabalho é bem fácil na maioria das vezes, mas não conta para ninguém. - ele diz essa parte um pouco mais baixo, como se estivesse contando um segredo e o acho adorável por isso – Mas espere até ver esse lugar na semana de provas finais. - o garoto de olhos verdes respira fundo - É um caos! - Connor diz um pouco apavorado, me fazendo rir.
Gostei dele.
– Então nós podemos ficar com o emprego? - pergunto esperançosa.
– Nós? - ele arqueia uma sobrancelha de maneira confusa.
Cacete, esqueci da Lana.
– Sim, nós! Minha amiga, Lana, e eu – rapidamente corro em direção a loira, e a trago arrastada pelo braço, não ligando para seus protestos.
– Ai, ! - ela reclama enquanto esfrega o antebraço, mas para quando vê Connor a observando com um sorriso.
– Connor, está é Alana. -ela acena envergonhada - Lana, este é Connor, o simpático rapaz de olhos verdes e sorriso acolhedor que vai nos dar um emprego. - brinco e Connor ri ficando levemente vermelho nas bochechas, logo percebendo a referência, e Lana parece confusa.
– Margot? - ele pergunta mesmo já sabendo a resposta.
– Sim, nós somos vizinhas. Ela que te indicou. - sorrio para ele.
Ele parece surpreso e envergonhado. – Sério? - ele pigarreia para disfarçar seu espanto - Bom, se Margot indicou vocês, fico muito feliz em dizer que conseguiram a vaga. - ele anuncia e eu grito. Sim, eu gritei em uma biblioteca, recendo alguns "shh" em resposta, e me desculpo silenciosamente.
– Não acredito! - Lana me abraça fortemente e nós duas soltamos alguns gritinhos, mas desta vez, mais silenciosos.
– Olha, vocês ainda têm que preencher toda a papelada e talvez meu chefe me mate, mas eu realmente preciso de ajuda aqui e... - Connor começa à divagar, mas eu o interrompo.
– Muito obrigada, Connor. - sorrio e ele cora.
– Quando começamos? - Lana pergunta.
– Amanhã? - ele meio que pergunta para si mesmo.
– Amanhã? - eu pergunto para Lana.
– Amanhã! - ela responde animada.
– Amanhã, então! - Connor dá o veredito – Ahn, será que eu... Eu poderia pegar seu telefone? - Lana me olha quando a perguntada é lançada para mim – Para vocês sabem... Manter contato? - Connor se embaralha com as palavras mais uma vez, e Lana resmunga do meu lado algo que não consigo entender o que é.
Passo meu número e o de Lana para ele e nos despedimos, mas antes que pudéssemos ir embora, pergunto para Connor onde fica o mercado mais próximo e ele não exagerou quando disse que ficava logo ali. O edifício realmente ficava apenas a um quarteirão de distância.


Capítulo 3

Para minha surpresa o mercado não era como eu imaginava. Eu não esperava por algo gigante já que sei o tipo de cidade pequena que Hazelwood é, mas também imaginava isso, já que na minha frente estava uma pequena construção antiga mais parecida com uma lojinha de conveniências.
Caminhamos até a porta de vidro, escutando um tilintar de sino soar pelo local assim que empurramos a mesma. Por dentro ela era bem maior do que apenas encarando de fora. Uma jovem senhora estava ao caixa com uma revista em mãos, ela não fez questão de erguer seu olhar e ver qual era o tipo de pessoa que entrava em sua loja. Bom, se ela não liga, eu também não vou ligar.
Para minha sorte, mesmo sendo um mercado simples, encontramos tudo que precisávamos. Por isso pegamos todas as coisas, fomos até o caixa para pagarmos por elas e depois juntamos tudo e levamos até o porta-malas do carro, para enfim voltar para nosso apartamento.

***

Algumas horas depois, Lana e eu estávamos paradas no meio da sala, apenas admirando nosso belo trabalho. Assim que chegamos abastecemos a cozinha com as compras e começamos uma grande revolução no apartamento, desempacotando todas as caixas e arrumando cada coisa em seu devido lugar.
– Estou mais cansada do que ontem. - Lana resmunga, levando uma de suas mãos até as costas.
– Acho melhor ir se acostumando. - me viro em sua direção lançando um olhar divertido – Essa será nossa rotina de agora em diante. - minha amiga contorcer o rosto em uma careta, me fazendo rir.
– Não ligo, estou feliz demais para isso. - ela sorri – É tão bom saber que agora temos o nosso próprio espaço. - ela diz animada, enquanto encara ao redor com admiração nos olhos.
– Sim, nós... - sou interrompida pelo barulho de meu celular vibrando em algum canto. Rapidamente procuro eles com os olhos o vendo vibrar em cima da mesinha de centro – É uma mensagem do Connor. - falo, encarando o visor do aparelho de forma confusa.
– Hm, do Connor, huh!? - Lana diz divertida, me fazendo levantar meu olhar até ela, a vendo sorrir maliciosa, e em resposta eu apenas reviro os olhos – O que ele mandou? - ela perguntou, vindo em minha direção e espreitando sobre meus ombros.
– Ele quer saber se vamos para o trabalho amanhã mesmo. - falo, enquanto digito uma resposta para Connor.
– Por que não chama ele para jantar aqui hoje? - levanto meu olhar até a loira – Apenas para nos conhecermos melhor, afinal ele vai ser nosso colega de trabalho. - ela arruma uma boa explicação e eu apenas dou de ombros.
Fiz o convite e ele aceitou, passei nosso endereço e mais tarde Connor estaria aqui. Acho que vai ser bom, ele parece ser uma pessoa incrível e vai ser legal passar algum momento com alguém da nossa idade. Não que não gostamos da presença de Margaret e Margot, mas eu já estava ficando de saco cheio de toda essa besteira de lenda da cidade.
– Ele vai vir. - aviso Lana, que sorri em resposta.
– Acho que ele gostou de você. - ela me lança outro olhar malicioso.
– Por favor, não comece. Nós acabamos de nos conhecer, então a menos que ele já me conheça de um passado do qual eu não lembre, isso seria impossível. - reviro os olhos de novo, e Lana desvia o olhar, parecendo um pouco apreensiva com o que eu disse.
– É sério, ele ficou todo sem graça quando te viu. Muito fofo. - ela solta um falso suspiro, tentando se recompor.
– Vamos tomar banho e depois fazer o jantar. - mudo se assunto tentando sair dessa situação chata.
Lana é maluca, não acho que Connor tenha gostado de mim. Pelo menos não da maneira que ela insinuou, só deve ter ficado sem jeito porque parece ser um garoto tímido, apenas isso. Até porque nós acabamos de nos conhecer, acho que seria meio impossível.

***

Apenas algumas horas depois, eu já havia tomado meu banho e o jantar já estava quase pronto, apenas checava os detalhes finais e esperava pela chegada de Connor.
– Meu Deus! Que cheiro delicioso, ! - Lana fala exasperada surgindo na cozinha. Logo se apressando e vindo em direção ao fogão - Sua comida é a melhor. - apenas sorrio em resposta ao seu elogio.
Havíamos dividido as tarefas. Eu fiquei com o jantar e ela encarregada da sobremesa, estamos tendo um trabalhão apenas para dar o nosso melhor ao nosso primeiro convidado de verdade. Eu até que estou um pouco animada com isso.
Ignorando isso por hora, volto a mexer o conteúdo da panela, sentindo uma pequena quantidade de fumaça quente atingir meu rosto, o que me faz tombar a cabeça para o lado, na intenção de desviar disso.
– Será que as luzes do sanatório estão acessas? - a pergunta repentina de Lana me fez olhá-la confusa. Eu realmente não entendo ela, uma hora está brigando comigo sobre todo esse assunto ser chato e no outro momento está me perguntando, mas sei como acabar com isso.
– Não sei, vamos ver. - falo, na esperança de que ela me olhe assustada e mude de assunto, mas, para minha surpresa, ela toma a frente saindo da cozinha e indo até a sala, me fazendo apenas segui-la.
Vamos até a janela, afastando a cortina para o lado, e me sinto cada vez mais surpresa por Lana querer ver isso; e um tanto confusa também. Procuro pelo enorme edifício, logo o localizando, grande do jeito que era seria muito difícil de não notá-lo. Lana se posiciona ao meu lado e eu a encaro tentando entender o que ela quer com tudo isso, mas seus olhos se arregalando não me deixam perguntar, e quando volto a procurar pela construção velha do sanatório, vejo que todas as luzes estão acessas, como se fosse mágica.
– Isso foi estranho. - falo, ainda encarando a construção.
Isso foi realmente estranho, até parecia que sabiam que estávamos olhando. Bastou que Lana e eu procurássemos pelo sanatório para que o mesmo respondesse com suas luzes acessas. Estou começando a cogitar a hipótese de estar delirando junto com minha amiga, e que talvez todo esse papo de lenda esteja nos afetando de fato.
O som da campainha soando pelo apartamento nos faz dar um pequeno pulo para trás e nos encararmos assustadas por um segundo, mas depois a realidade volta e eu me acalmo.
– Vou atender a porta. - Lana se voluntaria, indo em direção a mesma, enquanto eu tento esquecer o que aconteceu.
– Eu vou ver com estão as coisas na cozinha - volto em passos rápidos até a cozinha, ainda achando estranho o acontecido de segundos atrás, mas agora não é hora para isso.
Verifico o frango xadrez, vendo que estava pronto, depois olho a panela do lado consequentemente sento o delicioso aroma do espaguete. Vendo que tudo estava pronto, desligo as bocas do fogão e tapo todas as panelas, para poder ir até a sala e receber o convidado da noite. quando faço isso me deparando com um Connor extremamente adorável, ele usava uma blusa de mangas compridas da cor cinza, calça jeans de lavagem clara e tênis. Estava simples, mas muito bonito.
Vou em sua direção com um sorriso no rosto, recebendo outro maior em resposta.
– Essa é a segunda vez que nos vemos hoje, acho que podemos nos tornas bons amigos de trabalho. - falo divertida, tentando ser descontraída e fazer com que ele se sinta à vontade.
– Acho que sim. - Connor dá um sorriso tímido – Obrigado, pelo convite. - assim que agradece seu rosto ganha um pequeno tom avermelhado.
– Não agradeça a mim, a ideia foi da Lana. - aponto para minha amiga, e assim que o faço, noto um pequeno desapontamento no rosto de Connor, o que me deixa confusa, mas prefiro manter apenas para mim.
– Vamos jantar? - Lana pergunta de supetão quando todos ficam em silêncio, nos fazendo ir até a cozinha e preparar a mesa com todos os utensílios para que possamos ter um ótimo e agravável jantar.

***

– Espero que tenha gostado, dei o meu melhor no jantar. - falo para Connor assim que terminamos de comer.
– Estava ótimo, você cozinha muito bem. - ele elogia, me fazendo dar um grande sorriso.
– Agora é a minha vez, também quero um elogio. - Lana brinca, enquanto vai até a geladeira retirando de lá um lindo e aparentemente saboroso triple berry cake.
Enquanto ela ajeita sobre a mesa seu bolo, me levanto e vou até o armário atrás de pratos limpos, depois entrego um para cada e por fim nos servimos com uma fatia do bolo.
– Hmm!!! Isso está maravilhoso! - comento com a boca cheia de bolo.
– Está mesmo, - Connor também comenta, deixando Lana satisfeita.
Comemos mais alguns pedaços, até que algo me veio em mente, o Waverly Hills. Eu não sei motivo especifico, mas depois de todo esse estresse que passamos por conta disso, eu gostaria de saber a opinião de outra pessoa sobre essa suposta lenda, assim poderíamos acabar com isso de uma vez. E, bom, Connor trabalha em uma biblioteca, se essa lenda tiver mesmo algum fundo de verdade ele provavelmente deve saber sobre.
– Connor, você mora quanto tempo aqui? - começo com uma pergunta simples, para poder introduzir esse assunto.
– Moro aqui desde que nasci. - ele responde.
– Então você deve conhecer todas as antigas histórias da cidade... - começo a falar e faço uma pequena pausa – Do sanatório Waverly Hills, por exemplo. - ele franze o cenho por um momento, mas acaba assentindo.
– Esse assunto de novo?! - Lana pergunta, tentando parecer irritada, mas a sua voz não transparece isso, talvez ela queira saber disso tanto quanto eu.
– O que aconteceu lá? - pergunto, e apoio os meus cotovelos sobre a mesa, mas antes que Connor responda alguma coisa, vejo Connor e Lana trocarem um olhar totalmente estranho, como se compartilhassem algo que eu não sei.
– Não sei muita coisa sobre isso, mas... - ele começa e faz um apequena faz uma pausa, apertando os olhos, como se quisesse lembrar de algo. - O que ouvi a respeito disso é que o Waverly Hills foi construído para abrigar pessoas com tuberculose. Naquela época teve um surto muito grande de pessoas com a doença, a maioria acabou morrendo no sanatório e o restante acabou se matando, mas o estranho mesmo, era que ninguém encontrava os corpos dessas pessoas, nem mesmo os familiares quando iam atrás para fazer um enterro ou coisa do tipo. - ele finaliza sua explicação.
– Mas só para pessoas com tuberculose? - pergunto, ainda mais curiosa sobre isso.
– Na verdade, dizem que essa história de tuberculose era verdadeira apenas no começo, mas que depois de algum tempo foi usada para encobrir o que realmente acontecia lá dentro. - quando Connor diz isso eu sinto uma pequena movimentação embaixo da mesa, como se alguém tivesse chutado algo.
– Curioso o fato de ninguém saber o que aconteceu com os corpos. - comento, tentando ignorar o comportamento estranho de Connor e Lana.
– Vamos parar com essa conversa, Connor vem jantar aqui e você fica importunando ele com essa idiotice de sanatório. - Lana tenta bruscamente mudar de assunto, me deixando confusa pela forma que ela vem agindo durante o dia.
– Idiotice, mas até pouco tempo atrás você queria porquê as luzes de lá estavam acessas. - rebato debochadamente, não entendo suas mudanças de humor em relação a isso.
– Meninas... - Connor tenta falar, mas Lana interrompe ele.
– Mas agora isso já deu, ok! - ela fecha a cara.
– Meninas, eu...
– Por favor, sem drama. Apenas para de agir com se a cada segundo você fosse uma pessoa diferente. - reviro os olhos, não acreditando que nossa primeira briga aqui seria por uma coisa tão besta.
– Meninas...
– O que foi, Connor?! - um pouco exaltadas pelo estresse, perguntamos juntas para Connor, que fica vermelho no mesmo instante.
– Me desculpe por isso. - começo, meio sem jeito. – Não era bem isso que a gente havia planejado quando te convidamos. - tento arrumar uma explicação descente para o rumo que nossa conversa tomou.
– Sim, nos desculpe. - Lana também se desculpa, mesmo que eu perceba que suas palavras soem falsas. Afinal, o que deu nela? Desde que chegamos nesse lugar ela está estranha.
– Não se preocupem. - Connor diz suavemente, tentando amantizar o clima, e no final apenas ficamos em um silêncio horrível até ele anunciar que precisava ir embora.
Por fim o levamos até a porta e nos despedimos de Connor, que diz estar ansioso para o nosso primeiro dia juntos na biblioteca. E assim que o mesmo vai embora sou surpreendida pelas palavras de Lana.
– Me desculpe, eu não devia ter sido tão dramática. - minha amiga se vira para mim com arrependimento.
Olho em sua direção a vendo suspirar cansada.
– Tudo bem, eu apenas tenho que parar com toda essa chatice. - dou um fraco sorriso, tentando amenizar tudo.
Depois disso seguimos para o corredor e cada uma foi para o seu quarto. Quando atravesso porta adentro logo procuro pelo meu pijama, rapidamente trocando minhas roupas por ele, e depois indo até minha cama e me deitando, mas sem o intuito de dormir. Eu sei que havia dito para Lana que devia parar com isso, mas algo sobre aquele antigo sanatório despertava minha curiosidade, e toda essa lenda mal contada.
Quando dou por mim já estava caminhando pelo corredor outra vez em passos silenciosos e indo até a sala, depois caminhando até a janela e afastando a cortina para procurar pelo sanatório, e mais uma vez, assim que meus olhos se encontraram a enorme construção, as luzes são acessas. Dou um pequeno passo para trás em resposta, mas logo volto a me aproximar da janela, arrastando o vidro para o lado e colocando a cabeça e braços para fora da mesmo, deixo meus braços apoiados contra o batente da janela, sentindo o vento me atingir fazendo com que meus cabelos voassem em diversas direções.
Waverly Hills, o antigo sanatório supostamente abandonado que ascende suas luzes pela noite, e que tem uma lenda que ninguém sabe explicar. O lugar onde foi marcado por muitas mortes, mas nenhum corpo encontrado, o local assombrado por alguma coisa, mas o quê?
Por mais que eu queira esquecer isso, alguma coisa dentro de mim não deixava, era como uma conexão que no fundo eu não sabia se era para acabar com toda essa história de lenda ou para saber o que habitava nas paredes daquele lugar. Eu tinha que saber a verdade sobre o sanatório e tentarei isso amanhã quando for trabalhar na biblioteca. Quando surgir a oportunidade certa e eu estiver sozinha, não vou pensar duas vezes antes de procurar algum artigo, notícia ou até mesmo algum jornal antigo da época que falasse sobre esse assunto. Eu não sei o que se passa nesse sanatório e nessa cidade, mas uma coisa é certa, eu vou descobrir.
Coloco meu rosto e braços para dentro da sala novamente e fecho a janela, seguro a ponta da cortina pronta para arrastá-la, mas não sem antes dar uma última olhada no sanatório vendo as luzes se apagarem juntamente com minhas ações. Isso era muito estranho, quando eu chego a luzes se ascendem e quando eu saio, elas se apagam.
Ignorando isso pelo menos por hoje, arrasto a cortina e me viro pronta para voltar para o meu quarto. Caminho pelo corredor escuro, mas tenho a sensação de algo passando atrás de mim, e por isso olho por cima dos ombros, não encontrando nada além da escuridão.
Eu apenas preciso deixar isso para amanhã.

***

Acordo antes do despertador tocar, logo levantando e pegando o necessário para poder tomar um banho rápido antes de sairmos para a biblioteca. Tenho que admitir que estou muito ansiosa para meu primeiro dia no emprego novo, e o fato de estar o dia todo rodeada por livros e poder falar sobre eles com outras pessoas, é incrível, realmente não vejo a hora. Também quero procurar mais informações sobre Warvely Hills hoje, espero que consiga.
Deslizo o pijama pelo meu corpo e entro na água morna, me sentindo mais relaxada. Fico mais tempo que o necessário no banho, saindo apenas quando ouço Lana resmungar algo sobre eu acabar atrasando a gente. Me seco e visto uma roupa casual mas arrumada, levando em conta que não temos um uniforme de trabalho. Saio do banheiro e vou para a cozinha com o intuito de fazer algo para comermos, acabando por preparar apenas algumas panquecas, e enquanto deixo a máquina de café trabalhando, resolvo dar uma olhada no sanatório. Abro as cortinas e olho para o prédio distante, tudo parece estar normal e olhando assim, ninguém poderia dizer que esse lugar alguma vez foi palco das atrocidades que todos com quem já conversei disseram. E é exatamente isso que me intriga, ninguém sabe ao certo o que ocorreu no local, ou sabem, mas não falam. O que pode ter acontecido de tão horrível para que tenham tanto medo de tocar no assunto?
– As panquecas vão esfriar, . - a voz de Lana me traz de volta ao mundo real e me sinto estúpida por não ter percebido ela entrar no mesmo cômodo que eu.
Me sento no lugar à sua frente na bancada e permaneço em silêncio durante toda a refeição, não conseguindo pensar em mais nada a não ser o sanatório.

***

Descemos no saguão e o simpático porteiro, que vim a descobrir que se chamava Harvey, nos cumprimenta. Depois caminhamos em direção ao centro em silêncio, e me sinto na obrigação de preencher o vazio entre a gente, mas não quero aborrecê-la com mais "papo sanatório", então simplesmente respeito seu silêncio e permanecemos caladas por todo o caminho.
Cumprimentamos Connor assim que chegamos, e ele logo distribui várias tarefas para realizarmos durante o dia. Vou até a fileira de clássicos com um carrinho cheio de livros empilhados e organizo títulos como "Orgulho e Preconceito" e "Romeu e Julieta" de volta nas prateleiras.
Me dirijo à sessão de terror e fico espantada com a quantidade de exemplares sobre esse assunto, e sei que vou passar muito tempo por aqui, visto que esse é meu gênero favorito. Me abaixo para pegar mais livros e quando volto na minha posição original, vejo, por entre frestas de livros tombados, Connor na fileira seguinte conversando com Lana, eles parecem ter algum tipo de conversa séria e por isso resolvo não atrapalhar.
Reorganizo livros e mais livros em seus devidos lugares e isso é basicamente o que faço durante todo o dia, apenas parando algumas vezes para dar informações sobre onde achar tais autores ou tais títulos. E ao final do expediente nos encontramos perto da mesa onde Connor trabalha, e vejo Lana apenas pela segunda vez que entramos aqui. Quero acreditar que não nos encontramos apenas pela biblioteca ser gigantesca e não pelo fato dela estar chateada comigo devido ao jantar da noite passada.
– Vocês foram fantásticas hoje, meninas. - Connor elogia quando nosso horário termina, talvez desejando não ter dito isso em voz alta, já que ele se encolhe no lugar.
– Obrigada, Connor, você é muito gentil. - tento deixar a situação melhor para ele.
– Obrigada. - Lana diz rapidamente.
Connor apaga algumas luzes mais para o fundo da biblioteca e se despede de nós antes de se dirigir para uma das várias prateleiras, dizendo que tem mais algum trabalho pra terminar.

***

Assim que saímos da biblioteca fomos recebidas por uma agradável noite. O céu estava bem estrelado com uma lua brilhante o destacando. Olho para Lana, que parecia perdida olhando para o enorme número de estrelas que rasgavam o céu.
– A cidade fica adorável a noite. - comento, olhando a estreita rua de pedra com alguns postes iluminando o caminho, assim como as inúmeras casinhas enfeitadas com algumas lamparinas.
– Sim, aqui é realmente bem acolhedor. - ela concorda, mas não vejo verdade em sua fala.
Algumas pessoas transitavam por aqui, outras andavam de bicicleta e por fim, haviam alguns poucos carros pelas ruas. Continuamos nosso caminho cumprimentando algumas pessoas que passavam e nos acenavam educadamente. Hazelwood foi definitivamente uma ótima escolha. Era uma cidade bem tranquila ao contrário do que diziam, as pessoas eram muito simpáticas e sempre estavam de bom humor, era como se ajudar ao próximo fosse um dever aqui. Todos parecem querer ajudar alguém e com nós não foi muito diferente, Margot, Margaret, o porteiro simpático e Connor são exemplos disso.
Atravessamos o pequeno vilarejo de casas, logo avistando a floresta da cidade. Para fazer o caminho de volta para casa, tínhamos que passar em frente a floresta que eventualmente leva até o sanatório Waverly Hills.
Uma densa neblina parecia sair da floresta e o ar mudou drasticamente, era como se estive mais carregado. Percebi Lana ficar um pouco mais rígida ao meu lado. Eu sabia que ela tinha medo e não gostava da ideia de ter que passar por este caminho todos os dias, mas a ideia de usar um carro, e gastar tanta gasolina não era muito inteligente.
A essa altura já passávamos em frente a extensa e larga floresta, e diminuo o ritmo dos meus passos para que pudesse analisá-la melhor, encaro ao longe a neblina tomar conta da floresta que era iluminada apenas pela luz da lua. As árvores chegavam a ser monstruosas de tão grandes que eram, mas não me deixei intimidar por isso, pelo contrário, isso só fez uma enorme curiosidade despertar em mim. Eu precisava saber o que se passava entre essas enormes árvores que no final me levariam até Waverly Hills.
– O que está olhando? Anda, ! Vamos embora. - olhei para Lana a vendo um pouco aflita, mas andando em passos lentos, contradizendo sua fala.
– Eu estava pensando...
– Não! - ela me interrompe – Eu sei o que você está pensando e a resposta é não. - ela para de andar.
– Por favor! - junto as mãos e faço minha melhor cara.
– É melhor irmos embora. - Lana cruza os braços.
– Se você for lá comigo e a gente não achar nada, eu juro que nunca mais falo sobre o sanatório. Eu só quero acabar com toda essa história de uma vez. - falo, apontando para construção atrás de mim que podia ser vista daqui.
Lana olhou da construção para mim soltando um suspiro, ela parece pensar um pouco antes de responder.
– É sério isso? - ela pergunta com tédio.
- Sim! - respondo firme.
– Vamos acabar com isso de uma vez. – e, outra vez me surpreendendo, ela toma a frente e vai em direção a entrada da floresta, e eu nem sequer tive muito trabalho para convencê-la, o que eu acabo achando estranho.
Entramos na floresta e depois de caminhar por alguns minutos, tudo o que podíamos ouvir era o som que nossos pés faziam sob o solo de terra batida. O silêncio era quase absoluto, e devido à luz da lua, o mais inofensivo galho projetava sombras enormes que pareciam nos seguir para onde quer que fôssemos.
? - Lana pergunta com certa urgência. – Você ouviu isso? - ela soa amedrontada, mas quando olho em volta, apenas encontro árvores e mais árvores.
– Nós estamos sozinhas, Lana. Fique tranquila. - sorrio na intenção de acalmá-la.
Subimos o que antes era uma escada de pedra e ficamos a poucos metros da lateral do prédio mais temido dessa cidade, e estamos prestes a descobrir o porquê.
– O que é isso? - escuto a voz de Lana pergunta outra vez, e olho em sua direção a vendo um pouco mais afastada.
Acabo indo até onde minha amiga está.
– Acho que é um túnel – falo em dúvida, enquanto analiso o grande buraco escuro a minha frente, onde havia uma pequena escadinha e ao lado uma rampa.
Dou alguns passos, mas sinto Lana agarrar meu braço.
– Não vamos por aí, é perigoso. Acredite em mim, esse é o último lugar que você quer ir. - ela fala séria, e dá um riso sem humor.
– Mas... - tento contra argumentar sua estranha fala.
– Mas nada, eu já não estou afim de entrar nesse lugar agora. - a loira me puxa para longe do túnel. – Ou vamos pela frente ou não vamos. - ela finaliza e eu bufo irritada, puxando meu braço para mim e caminhando ao seu lado.
Continuamos subindo a grande colina, até que finalmente chegamos em frente ao famoso sanatório assombrado, Waverly Hills.


Capítulo 4

Ele parecia dez vezes maior agora do que olhando da janela do apartamento, sua pintura vermelha e branca já era gasta, mas mesmo assim a parte de fora estava em sua mais perfeita conservação.
... Eu vi alguém na janela do terceiro andar. - olho para o lado vendo Lana estreitar os olhos.
– Vamos entrar. - ignoro seu comentário e começo a andar até a entrada do sanatório.
Passamos por pilastras brancas e fomos até a grande porta de madeira. Olho uma última vez para Lana, mas ela não estava tão nervosa quanto eu achei que estaria, na verdade parece mais calma do que eu.
Respiro fundo e começo a empurrar a porta que, para minha sorte, não estava trancada. Quando finalmente já tinha empurrado o suficiente para criar uma abertura, olho para dentro vendo apenas escuridão.
– Está vendo alguma coisa? - Lana pergunta enquanto tenta olhar por cima dos meus ombros.
– Não dá para enxergar. - respondo sem olhá-la, apenas tentando ver algo do lado de dentro – Vamos ligar a lanterna do celular - sugiro, e assim fazemos, pegamos nossos celulares e logo as lanternas estavam fazendo um bom trabalho. – Vem! - por último sussurrei, e finalmente começamos a entrar.
– Por que está sussurrando? - Lana sussurra de volta.
– Eu não sei - sussurrei outra vez – Eu não sei - repito minha resposta, mas dessa vez usando meu tom de voz normal. Acho que por tudo estar escuro aqui dentro, e eu não conhecer o lugar, acabei sussurrando, como se estivesse entrando em um lugar que não era meu, o que de fato é verdade.
Solto a porta na esperança de que Lana a segure e encoste a mesma, mas o que escuto é um alto estrondo da porta batendo. – Era pra você ter segurado a porta. - repreendo a mesma, que dá de ombros.
– Vamos logo! - ela me ignora antes de começar a caminhar e eu acabo por apenas a seguir. E não demora muito para darmos de cara com uma recepção velha e, notando que não havia muitas coisas por aqui, apenas passamos por ela.
Quando saímos da recepção nos deparamos com uma bifurcação, dou uma rápida iluminada com a lanterna do celular, vendo que uma das entradas era para algum tipo de sala de espera e a outra entrada era para um enorme corredor mais escuro.
– Você vai escolher essa entrada, certo?! - Lana pergunta enquanto estreita os olhos para mim. E ela estava mesmo certa, já que eu acabo entrando no corredor.
Caminhando pelo enorme corredor escuro, tentávamos iluminar tudo ao mesmo tempo. Mas a única coisa que víamos era a pintura descascada e as paredes velhas. Também haviam muitas entradas sem portas, apenas espaços abertos.
Atravessamos o enorme corredor e viramos à esquerda dando de cara com uma escadaria.
– Vem! - chamo Lana, já subindo os degraus com pressa.
, é melhor esperar. Não me deixe sozinha. - minha amiga resmunga atrás de mim.
– Tá. - respondo mas continuo subindo até chegar no topo da escada.
, estou falando sério. - a voz de Lana se torna mais severa, como um aviso.
Ela vem agindo dessa forma estranha desde que Margot e Magaret nos contaram sobre o Waverly Hills, ela fica com essas expressões e avisos, como se soubesse de algo.
– Eu entendi. - respondo seriamente e ela revira os olhos – Para de ser chata – falo, já de saco cheio.
– Chata? - ela dá uma risada sem humor – Eu entrei na porcaria de um sanatório abandonado, só porque você me pediu, e eu ainda sou chata? - ela me olha totalmente incrédula.
– Sim. Sua atitude já está me dando nos nervosos. - falo a verdade e ela nega com a cabeça.
– Quer saber, se foda sozinha aqui. Eu vou embora. - ela diz com sua voz carregada e passa por mim, mas logo para encarando em volta. – Que parte do sanatório é essa? - agora sou em quem olha em volta vendo que estávamos em um corredor totalmente diferente, talvez tenhamos começado a andar durante nossa pequena discussão e nem percebemos.
– Não sei – dou de ombros, ainda irritada com ela.
Lana dá uma risada sem humor.
– Eu encontro a saída. - e falando isso ela some em meio a escuridão, indo embora.
– Vá com Deus, ou melhor, com a assombração que mora aqui. - respondo mesmo que seja algo idiota. E se Lana ainda estivesse aqui com certeza me xingaria.
Respirei fundo antes de continuar minha caminhada pelo sanatório, tentando esquecer Lana, já que não posso deixar as atitudes estranhas dela me atrapalharem, eu preciso acabar com isso.
Volto a caminhar em meio a escuridão, mas não acho absolutamente nada a não ser por coisas velhas e quebradas, e isso me faz questionar quem seria que acendia as luzes desse lugar? Ele parece meio vazio.
– Preciso encontrar alguma coisa. - falo para mim mesma com um último pingo de esperança.
Passo por mais um corredor vazio. Nada.
– Qualquer coisa. - falo já um pouco frustrada.
Subo outra escadaria.
Dou de cara em outro corredor, mas este é inteiramente composto de janelas, ou melhor, o que um dia foram janelas, mas que hoje são apenas grandes aberturas na parede de pintura descascada. E, por um momento, me encanto com a vista daqui de cima, penso que qualquer um que uma vez já esteve nesse lugar nos tempos que ele ainda funcionava deveria ter esse corredor como uma de suas válvulas de escape.
A vista é realmente fascinante e, por se localizar sobre uma colina, o sanatório é mais alto do que a maioria das coisas da cidade, fazendo com que se possa ter a visão de toda pequena Hazelwood. E me pego procurando pelo meu apartamento, talvez o encontrando eu consiga saber exatamente o local onde as luzes acendem e apagam misteriosamente, e talvez esse seja um bom ponto de partida.
Me aproximo mais do parapeito da grande abertura, mas um barulho à minha direita capta minha atenção antes que pudesse localizar meu prédio. Aponto minha lanterna para a direção do barulho, mas não encontro nada. Lana deve estar longe já, então, o que poderá ser?
Com cuidado começo a me aproximar de onde o barulho veio e resmungo frustrada por mais uma vez cair em um corredor como qualquer outro que já passei. Resolvo voltar para o corredor das janelas já que foi de lá que eu vim, mas usei o corredor da direita ou o da esquerda para chegar até aqui?
Encaro a bifurcação à minha frente e opto pelo corredor da esquerda, passo por vários cômodos vazios e começo a ter a sensação de já ter passado por esse mesmo lugar mais de uma vez. Paro no meio do corredor e olho para os dois lados. Nada. Absolutamente nada. Nenhum som ou sinal de alguém. Quem me dera ter encontrado alguém, assim poderia provar para Lana que quem acende as luzes é apenas algum morador de rua ou arruaceiro que usa o lugar para suas pichações e não alguma assombração maligna que se esconde nas sombras para puxar seu pé de noite.
Rio sem humor com a ideia idiota e meu riso ecoa pelo corredor vazio, me fazendo repetir o som uma e outra vez. Faço vários sons e, conforme vou passando pelos corredores, eles adquirem sons diferentes, como pessoas falando ao mesmo tempo. A intensidade da luz que sai da lanterna do meu celular diminui, me obrigando a parar. Olho para o visor do celular e o símbolo de bateria fraca pisca.
Droga! Não tenho muito tempo aqui, tenho que achar a saída antes que eu fique sem bateria.
Começo a olhar em todas as direções procurando por uma saída, antes que a luz da lanterna se apague de vez. Tento lembrar do caminho que fiz até chegar aqui para poder refazê-lo. Me viro e tento voltar o caminho em passos rápidos, mas um chiado estranho me faz parar, era algo baixo que foi se intensificando até que o som ficasse nítido, me dando a impressão de ser um conjunto de vozes falando ao mesmo tempo.
– Mais que merda é essa? - pergunto para mim mesma.
"Você não deveria ter vindo aqui"
"Corra antes que ele te pegue"
"Ela está perdida"

Consigo identificar algumas frases em meio aquele enorme chiado de vozes, e para piorar minha situação a lanterna do meu celular apaga de vez, me fazendo imergir em total escuridão.
"Corra, garota estúpida, ele está vindo"
Uma voz fina e infantil ecoa sozinha quando o chiado para e, logo ao finalizar sua fala, passos pesados são ouvidos pelo corredor que eu estava. Olho para frente tentando enxergar alguma saída, mas apenas a escuridão era minha única companhia. Os passos começaram a ganhar mais força e agora vinham correndo, e por isso sem pensar duas vezes eu sai correndo pelo corredor, mesmo que não enxergasse absolutamente nada. Eu realmente queria descobrir o que havia aqui, mas de alguma forma ficou estranho, então é melhor que eu me esconda e descubra o que é isso.
Continuo correndo, já sentindo meus pulmões em brasas, na esperança de achar algum lugar. Solto um grito de surpresa assim que os passos pareceram me alcançar.
Silêncio. Novamente o corredor fica em silêncio, mas isso não me impedia de continuar a correr em uma direção qualquer em busca de uma saída. Acabei entrando em uma das inúmeras portas, dando de cara com uma sala com duas entradas. Uma pela qual eu passei e a outra que dava acesso por onde eu ainda não havia ido.
Um brilho estranho a baixo de mim me chama a atenção, e quando olho para baixo vejo que a lanterna do meu celular está ligada. Franzo o cenho e verifico ele, vendo que agora a bateria estava totalmente carregada.
– Mas o quê? Como isso aconteceu? - pergunto totalmente confusa.
Enquanto eu prestava atenção no celular sinto uma forte corrente de vento passar por mim, ergo meu olhar apontando a lanterna para frente e não encontrando nada a não ser por uma parede gasta e uma velha televisão sobre algum suporte de madeira. Clareio o cômodo, encontrando uma enferrujada cama de molas com uma camisa de forças sobre ela. Com certeza algum quarto de paciente.
Novamente senti uma forte corrente de vento, só que agora atrás de mim, me virei abruptamente não vendo nada.
Suspiro cansada.
– Relaxa, , deve ser só alguma corrente de ar que entrou. - falo para mim mesma na tentativa de me acalmar. O que durou poucos segundos, já que o barulho de alguém respirando pesadamente era ouvido atrás de mim e com ele um ar quente que me acertava na nuca.
Meu corpo inteiro se arrepiou de forma involuntária, me fazendo fechar os olhos e as mãos de maneira forte.
– Calma. Calma. - começo a repetir como se fosse algum tipo de mantra, na falha tentativa de afastar o que quer que seja, mas a respiração fica mais alta.
"Você sabe que é real, "
"Fuja"
"Ele vai te pegar outra vez"
Aquele chiado de vozes volta a repetir frases, me fazendo fraquejar por um segundo. E de maneira lenta vou virando meu corpo, ainda com os olhos fechados. E quando eu fico de frente para a suposta respiração alta, um por um eu abro meus olhos, não encontrando nada, e me fazendo soltar um suspiro aliviado.
É a minha imaginação, só pode ser ela, não tem outra explicação. Eu provavelmente deixei que o drama de todos me afetasse agora, com todo aquele papo de assombração.
Deixo que meu corpo relaxar por um instante. É melhor eu sair daqui logo.
Viro meu corpo para a outra direção afim de ir por outro caminho e ver se achava a saída, mas o que eu encontro me faz estremecer no lugar e paralisar sem acreditar.
Parado a centímetros de mim, estava um homem. Ele era alto, muito mais alto do que eu, seus cabelos caiam em cachos indo até seus ombros, mas o que me fez arrepiar foi o seu rosto; seus olhos eram duas órbitas negras, e embaixo deles olheiras extremamente vermelhas davam um contraste horripilante, assim como as inúmeras veias pretas saltando sobre as olheiras.
Meu corpo inteiro entrou em estado de alerta e eu não conseguia me mexer. O pânico tomava conta de cada célula do meu corpo, e minha respiração se tornou algo irregular. Eu nunca havia me sentindo assim antes, era uma sensação estranha e ruim que pairava sobre esse lugar assim que esse homem apareceu.
Então era isso? Eu simplesmente iria ficar aqui parada vendo essa coisa que eu ainda não sabia o que era, fazer algo comigo?
Um sorriso surgiu em seu rosto demoníaco, mas não era um sorriso gentil igual à que Connor costumava me dar, mas sim um sorriso doentio e maligno que passada uma sensação pesada. Um grito de pavor rasgou minha garganta automaticamente, e em poucos segundos já me encontrava correndo novamente. A droga da lanterna desligou mais uma vez e só o barulho de seus passos correndo atrás de mim eram nítidos.
A essa altura o suor já rolava por todo meu rosto. Olhei algumas vezes para trás vendo se ele vinha atrás de mim, mas eu não conseguia enxergar nada além do escuro, por isso volto a olhar para frente e avisto a escadaria que subi, e em passos rápidos desço ela correndo, quase caindo no final por não conseguir ver nada.
Seus passos alcançaram a escadaria e meu corpo se torna mais rígido. Sem parar de correr olhei para trás a procura dele, mas outra vez nada. A única coisa que consegui foi sentir meu corpo se chocando contra alguma coisa que me levou para o chão no mesmo instante. Coloco minha mão até a parte de trás da minha cabeça, que havia batido contra o chão na queda. Rapidamente me sentei, já pronta para correr de novo caso fosse necessário.
– Lana?! - pergunto um pouco alto assim que vi seu corpo se levantar também. Sem pensar muito ela veio até mim. – Você não tinha ido embora? - pergunto confusa, me esquecendo por um segundo aquele homem que estava atrás de mim.
– E-Eu tentei – ela faz uma pausa, e respira fundo antes de continuar – Eu tentei, mas não achava a saída. Então vozes... - fechou os olhos e levou as mãos até a cabeça – Muitas vozes, aquelas malditas vozes. - ela fala com misto de pavor e irritação.
– Me desculpe, agora eu entendo o que você queria dizer. - digo, a olhando um pouco arrependia – Mas precisamos sair daqui logo, antes que ele nos ache. - falo e ela me olha confusa por um segundo, mas apenas assente, ela sabe que agora não é o melhor momento para conversar.
Encaro nossos celulares caídos no chão com as lanternas para cima devido à queda, e quando noto o que eles iluminavam me encontro duvidando de tudo o que acreditei até hoje. Dezenas de pares de olhos negros formavam um círculo ao nosso redor enquanto nos encaravam na escuridão. Não haviam rostos, ou simplesmente não se dava para ver, mas já era suficiente para fazer com que eu entrasse em pânico.
Como isso pode ser real? Eu achei que podia ser apenas um cara louco que vivia aqui e atacava todos que entrassem, mas como explicar o que eu vejo agora?
Repetia isso mentalmente para mim mesma na intenção de me acalmar, e fazer com que tudo em minha volta sumisse e eu acordasse em meu apartamento segura em baixo dos cobertores, mas quando ouvi o grito estridente de Lana, sabia que isso era real e não importa quantas vezes eu tentasse me convencer do contrário, estava realmente acontecendo e eu não podia fazer nada para reverter a situação a não ser correr o mais rápido que minhas pernas conseguissem alcançar, e o mais longe que meus pulmões suportassem. E foi exatamente o que eu fiz.
Agarrei o braço de Lana e a puxei comigo com a maior força que eu poderia encontrar. Nos levantei em um ápice e foquei em um só ponto onde poderíamos sair e corri até ele. Esperei o baque devido ao encontro dos nossos corpos com as criaturas que nos cercavam, mas esse impacto nunca veio, apenas uma brisa gelada atravessou meu corpo como uma faca rasgando todo o meu interior de fora para dentro. Suas vozes aterrorizantes não paravam de repetir várias frases de uma vez só, fazendo com que fosse impossível pensar claramente no que eu estava fazendo, restando apenas o instinto me guiava para fora dali o mais rápido possível.
Saí de dentro daquele lugar arrastando Lana e me vi no topo da escadaria principal, desci correndo pulando os degraus de dois em dois e quando olhei para trás, sombras negras se misturavam com a escuridão da noite logo atrás de nós, podendo apenas ser vistas devido à luz da lua. Passamos pelo pátio central até chegar a um ponto que não tinha mais saída a não ser o túnel que avistamos quando chegamos aqui, e mesmo sem saber onde ele daria ou até mesmo se ele tinha um fim, acreditei que ele era a nossa única e última chance de sobrevivência e puxei Lana até sua entrada. Ela recua meu toque quando eu entro na total escuridão do túnel fechado e malcheiroso.
– LANA, RÁPIDO! - faço gestos para que me siga, mas ela parece estar em algum estado de pânico, não saindo do lugar não importando quantas vezes eu a chamasse pelo nome e nesse momento eu vi que não teríamos mais chances.
Minha vida acabaria aqui. Nesse lugar. Eu veria minha melhor amiga ser morta de algum jeito cruel e doloroso bem na minha frente por criaturas que nem sei ao certo o que são. E a próxima seria eu e tudo acabaria. Perguntas ficariam sem respostas e nós nos tornaríamos mais uma prova de que esse lugar é perigoso. Contariam nossa história para cada pessoa que ousasse perguntar sobre Waverly Hills e seríamos as pessoas que estavam no lugar errado na hora errada. Mas algo dentro de mim não queria desistir tão fácil. Algo dentro de mim dizia que eu precisava tentar, ainda tínhamos uma chance, afinal, tínhamos um túnel bem a nossa frente, só precisávamos entrar para descobrir para onde ele nos levaria.
– LANA, PELO AMOR DE DEUS! VEM! - gritei para ver se conseguia tirar ela do seu estado de pânico, mas nada aconteceu, ela continuou parada no mesmo lugar.
Olhei por cima dos seus ombros vendo aquele homem se aproximar de nós enquanto ainda tinha aquele sorriso doentio. Meus olhos voltaram para Lana, eu já conseguia sentir a dolorosa morte que teríamos. Pensa, , pensa. Foi ai que uma ideia me veio em mente. Sei que não seria o ideal, mas na situação que nos encontramos, não teríamos muitas escolhas. Voltei em passos rápidos até Lana, a agarrando pelos braços e virando seu corpo na mesma direção que aquela coisa demoníaca.
– Olhe bem! - falo a segurando pelos ombros – Está vendo ele? - pergunto, inclinando minha cabeça só para ver seus olhos arregalados piscando de forma frenética – Ele está nos alcançando. E quando isso acontecer... - engulo em seco – ...Provavelmente ele irá nos matar - senti o corpo de Lana reagir as minhas palavras.
Ele estava a poucos passos de nós e eu torcia com todas as minhas forças para que essa ideia tivesse funcionado. Para minha sorte, quando aquele homem esticou os braços para tentar agarrar Lana, seu corpo pareceu finalmente sair do encantamento de pânico, e sem pensar muito, agarrei sua mão e arrastei ela para dentro do túnel.
Ele conseguia ser mais escuro que o sanatório. Se antes eu mal conseguia enxergar, agora era que eu não enxergava nada mesmo. E para piorar, aquelas malditas vozes voltaram, trazendo junto com elas os vários pares de olhos negros brilhantes. O mal cheiro aqui dentro era insuportável também.
– Eu não acredito que isso está acontecendo depois de tanto tempo. - Lana fala baixo, e minha primeira reação foi olhar para ela, mas como estava muito escuro eu não conseguia enxergar. Apenas sentia o aperto da sua mão contra a minha.
– Calma! - tento acalmar o pânico, mas solto um grito assim que sinto alguém tentar me puxar pelo braço.
Aperto mais a mão de Lana, e juntando todas as minhas forças acelero os passos, puxando ela que acabou tropeçando e me levando junto para o chão. Senti uma grande ardência em meus joelhos e em um dos cotovelos. Passo a mão pelos locais percebendo que minha calça e minha blusa haviam rasgado.
Uma mistura de barulhos começava a ecoar pelo túnel: passos correndo, risadas e alguns tipos de rosnados animais, que não havíamos escutado antes.
"Ele está bem atrás de vocês"
Quando identifico essa frase agarro novamente a mão de Lana. Meus olhos estavam arregalados e agora mais do nunca meu coração parecia que iria rasgar meu peito.
"Fujam!"
Uma fina voz sussurrou, dando uma pequena risada no final. Olho para frente já conseguindo avistar uma pequena ponta de luz. O fim do túnel. Literalmente, havia uma luz no fim do túnel. Viro minha cabeça para Lana, agora conseguindo a enxergar, mesmo que minimamente. Lanço um olhar para ela que logo entendeu. Escutei os passos ficarem mais lentos e se aproximando de nós.
– No três. - sussurro para Lana que assente de uma maneira quase inexistente.
– Um. - outro passo do homem demoníaco em nossa direção.
– Dois. - mais outro passo.
– Três! - ele parou atrás de nós.
Como dois furacões nós duas levantamos com uma rapidez sobrenatural e voltamos a correr. Senti um dos meus joelhos fraquejarem devido ao machucado, mas aguentei firme e continuei a correr. Outro rosnado alto foi ouvido, mas já estávamos perto do fim. Eu até já conseguia me enxergar longe daqui e ao pensar nisso foi impossível de sorrir em alívio.
O túnel ficou silencioso e apenas os meus passos e os de Lana ecoavam aqui dentro, mas não paramos de correr. Eu é que não olharia para trás para ver o que havia acontecido. Um barulho de algo escorrendo foi soando aos poucos, parecia alguma coisa como água. E confirmei isso assim que escutei o barulho dos nossos pés contra algo molhado. Estava escorrendo água pela rampa do túnel.
Mais alguns passos e eu estaria fora daqui. Soltei a mão de Lana e lançando um sorriso para ela que retribuiu, mas isso durou pouco, já que assim que ela saiu do túnel eu acabei escorregando na água e caindo no chão de novo.
Gemi de dor.
– Você se machucou? - Lana perguntou um pouco aflita – Está sangrando! - ela aponta para mim.
Olho para meu corpo me vendo encharcada de sangue, mas era muito sangue, então não poderia ser meu. Inclinei minha cabeça para trás vendo que não era água que escorria pelo túnel, era sangue.
– Merda! Esse sangue não é meu, Lana! – ela, que estava prestes a me estender uma mão, para seus movimentos.
– Nós precisamos sair daqui agora. - sua voz sai exasperada.
Me coloquei de joelhos pronta para levantar, mas senti alguém agarrar meu tornozelo, me fazendo cair de cara no chão, literalmente. Sinto uma leve tontura me atingir, e com dificuldade olho por cima dos ombros vendo aquele homem com as mãos em volta do meu tornozelo. As veias pretas que estavam em baixo dos seus olhos pareciam que iam estourar a qualquer momento, e para o meu desespero ele começou a me puxar para dentro do túnel.
– LANA! - gritei desesperada por ajuda, vendo que uma barreira de criaturas demoníacas se formava na entrada do túnel impedindo Lana de me ajudar.
Eu não conseguia parar de gritar em pânico, eu iria mesmo morrer. Comecei a me debater e a tentar agarrar qualquer coisa, mas eram todas tentativas falhas, ele era muito forte. A única coisa que eu sentia era meu corpo sendo arrastado pelo chão, fazendo com que minhas roupas rasgassem e minha pele queimasse. Em uma atitude desesperada chutei a criatura, que para minha surpresa, meu pé não atravessou ele e sim o acertou em cheio, fazendo ele me soltar por um instante.
Aproveitei seu descuido, eu levantei e puxei Lana, voltado a correr pelo túnel, sentindo meu corpo pegar fogo de dentro para fora. Estávamos quase alcançando a saída de novo. Ainda vendo aquelas criaturas estranhas, levei meus braços até meu rosto na intenção de proteger ele, e fui contra a barreira de criaturas, sentindo novamente aquela estranha brisa e a sensação de uma faca me rasgando de dentro para fora. Quando abri os olhos vi que já tinha saído do túnel, procurei Lana com os olhos, a vendo parada à poucos passos de mim, me olhando totalmente assustada.
– Você está bem? - ela pergunta ainda mais aflita que antes.
– Sim. - minha voz sai ofegante – Vamos embora de uma vez. - falo exasperada, querendo ir embora logo.
Agora começamos a correr em direção as árvores da floresta. Dou uma última olhada para trás, vendo ele parado no final do túnel com aquele arrepiante sorriso, e seu corpo coberto de sangue, enquanto as outras criaturas estavam atrás dele nos dando acenos. Senti meu corpo se arrepiar e continuei correndo com Lana. 
Finalmente saímos da floresta e, para nossa sorte, não havia mais ninguém nas ruas a essa hora. Assim é melhor, sei que com certeza questionariam nosso estado caótico e não teríamos condições de responder.

***

Quando eu estava sentindo que ia desmaiar de exaustão e dor, consegui enxergar no nosso edifício. Corremos para o portão, agarrando as grades e chamando freneticamente por Harvey, que logo apareceu e saiu do seu posto vindo desesperado em nossa direção.
– O que aconteceu com vocês? - Harvey perguntou com os olhos arregalados.
– Só nos deixe entrar, por favor. - Lana falou rapidamente, e Harvey se apresou para abrir o portão.
– Meninas, vocês precisam me contar o que aconteceu. - ele disse preocupado.
Apresamos nossos passos indo até a grande porta de vidro, tendo Harvey atrás de nós fazendo várias perguntas. No elevador foi uma tremenda bagunça. Ele tentando saber o que aconteceu e nós duas tentando dar uma desculpa. O elevador logo se abriu e nossa pequena discussão ainda rolava. Acho que estávamos falando muito alto, já que duas portas foram abertas, revelando Margot e Margaret vestidas com hobbys de dormir, e em segundos seus olhares ficaram iguais ao de Harvey.
– Meu Deus! O que aconteceu com vocês duas? - Margot perguntou, vindo desesperada em nossa direção com Margaret ao seu encalce.
Nenhuma de nós duas ousou responder, talvez porque não saberíamos como explicar tudo que nos aconteceu hoje.
– Obrigada, Harvey. Pode voltar para seu posto de trabalho, nós cuidaremos delas. - Margaret fala, dando um pequeno sorriso para o porteiro, que mesmo relutante assentiu.
– Venham! - Margot nos levando em direção ao nosso apartamento.

***

Algum tempo depois, tomamos banhos, também fizemos alguns curativos, eu mais do que Lana. Margot e Margaret fizeram algum tipo de chá para nos acalmar e acabamos contando tudo para elas. Esperamos alguns sermões, mas tudo que ouvimos foram suspiros cansados e palavras de conforto. Margarte levou Lana ao seu quarto e Margot me levou ao meu. Eu realmente me sentia uma criança assustada deitada com a cabeça em seu colo, enquanto ela dizia palavras de conforto e fazia um leve afago. Eu não queria dormir. Não queria, porque eu sabia que assim que eu fechasse os olhos eu iria sonhar com aquelas criaturas e com ele.
Algum tempo depois, eu consigo escutar bem fracamente um barulho ao fundo, me fazendo perceber que eu estava naquele tipo de transe do sono que temos antes de nos desligarmos por completo, eu estava quase apagando, mas ainda conseguia ter alguma noção das coisas ao meu redor, ou melhor, os barulhos.
– Nós não podemos deixar que isso aconteça novamente. - escuto uma baixa voz, que reconheço sendo de Margaret – Quase que tudo vai por água abaixo, Margot. - sobre o que ela pode estar falando? O que foi por água abaixo?
– Eu sei, eu sei. - agora era a voz de Margot – Não deixaremos que isso se repita. Afinal, esse não é plano, não era assim que ela deveria ser mandada para lá. - agora eu posso escutar ela suspirando.
Eu queria poder me levantar e perguntar sobre o que elas estão falando, mas o sono me vence de vez, fazendo com que mais uma vez a escuridão me engolisse.


Capítulo 5

Acordo assustada com o som estridente que soa do rádio despertador e gemo em desaprovação. Tento chegar até o aparelho para desligá-lo, mas uma forte dor em minha cabeça me faz parar e respirar fundo. Aperto meus olhos quando a dor parece aumentar mais e mais, o que me faz recordar da noite de ontem.
Ontem.
Tremo ao relembrar o par de olhos negros e sombrios que me encaravam de tão perto, e me levanto na tentativa de encontrar algo para que possa me ocupar e esquecer o ocorrido. Me escoro na parede quando uma tontura me atinge e sigo assim até o banheiro onde sou obrigada à me apoiar no box para não cair. Abro o chuveiro e sinto a temperatura da água, esperando que ela fique ideal para que eu possa entrar.
Tomo um banho demorado para ter certeza que todo e qualquer vestígio da noite passada possa ser lavado e levado embora no ralo junto com todo o pânico que senti. Me seco e coloco uma roupa simples. Encaro a parede cor gelo à minha frente e tento pensar no que fazer agora. Preciso ir até a biblioteca, preciso conversar com Connor, e preciso de café. Não vou aguentar um dia todo em pé sem a bebida quente.
Caminho até a cozinha e coloco o café para fazer. Me contenho para não olhar o sanatório pela janela. Então acabo por ficar sentada no balcão à espera de Lana.
– Oi. - ouço sua voz fraca soar atrás de mim e dou um pulo.
– Quanto tempo você está aí? - pergunto e bocejo.
– Alguns segundos? Não sei. Seu café. - ela me passa uma xícara e vai para a sala.
– Lana! - a chamo. Precisamos falar sobre o ocorrido mais cedo ou mais tarde. Ela se vira e vejo que seus olhos estão cansados. Talvez devesse deixar para mais tarde, não quero sobrecarregá-la – Ahn, acho que é melhor irmos. - resolvo dizer, termino meu café em um gole e pego em minha bolsa logo saindo do apartamento.
Esperamos o elevador em silêncio e quando entramos, resolvo começar alguma conversa.
– Dormiu bem? - pergunto e me viro para ela à espera da resposta. Ela assente sem dizer nada e levo isso como uma dica para eu ficar quieta. – Certo. - falo simplesmente.
As portas do elevador se abrem e caminhamos para fora do edifício, e depois lado a lado até a biblioteca.
Conforme vamos recebendo cumprimentos das poucas pessoas que passam por nós na rua, pareço voltar à realidade e começo à pensar em todo o trabalho que vou ter para hoje.
Empurro a pesada porta de madeira da biblioteca, mas ela não se mexe. Encaro Lana com uma sobrancelha levantada e ela dá de ombros.
– Desculpe, estamos fechados! - ouço a voz de Connor vindo do interior.
– Connor, somos nós, Alana e ! - digo mais alto para que ele possa ouvir e rapidamente a porta é aberta por um Connor segurando alguns papéis em mãos.
-Oh, desculpe, desculpe. - ele diz atrapalhado quando derruba aos meus pés alguns dos papéis que segurava.
– Tudo bem. - ofereço um sorriso e me abaixo para ajudá-lo a recolher os papéis e algo escrito em uma das folhas me chama atenção. – Waverly Hills Sanatorium? - leio o título em voz alta.
– S-Sim, eu estava organizando os arquivos. - entrego algumas folhas para ele – Hoje não vamos abrir, eu cheguei à te mandar uma mensagem para avisar. - Connor abre mais a porta para que possamos entrar e a fecha atrás de si.
– Eu estava sem celular. - digo.
– Esqueceu de carregar, não foi? - ele pergunta bem-humorado.
– Não exatamente... eu deixei no sanatório. - revelo e vejo Lana se contorcer ao meu lado. Ela anda muito calada.
– Sa-sanatório? - Connor se engasga. – Você foi até lá? Sozinha? - ele parece apavorado.
– Não, a Lana também foi. - esclareço.
– Por isso você está com um curativo no canto da testa? - ele pergunta incrédulo.
– Já que estamos aqui, o que eu posso fazer? - Lana pergunta, mudando de assunto.
– Ahn, acho que não tem muito o que fazer por aqui. - ele olha em volta, e reparo em várias caixas de papelão espalhadas pelo chão – Vocês podem ir embora se quiserem. Eu dou conta. - ela sorri gentilmente.
A ideia de poder ir para casa e descansar parece ótima, mas não posso dispensar a oportunidade de descobrir sobre o que acontecia nos tempos em que Waverly Hills funcionava, ainda mais depois de tudo que passei lá.
– Eu fico! - falo ao mesmo tempo em que Lana diz "tudo bem". Cruzamos o olhar e ela dá de ombros. – Você vai para casa? - pergunto.
– Sim, estou muito cansada. - ela responde, e acena rapidamente para Connor e se vai fechando a porta em um baque.
Connor me encara de um jeito curioso e sei que ele está se contendo para não fazer perguntas e perecer intrometido.
– Onde posso começar? - pergunto e ele me dá instruções do que fazer.
Vou até o depósito que se localiza nos fundos da biblioteca, trago mais alguns arquivos dentro de uma caixa de plástico e coloco tudo ao centro do saguão, onde Connor está sentado de pernas cruzadas enquanto lê algo concentrado. Me sento ao seu lado e espio sobre seu ombro para ver o que ele tanto lê.
– Waverly Hills, huh?! - pergunto e empurro de leve o seu ombro.
– Sim, e-eu... - ele cora – Eu pensei em dar uma olhada aqui já que você estava tão curiosa sobre o local. - se explica.
– Estava mesmo, ainda estou, na verdade, mas depois da noite de ontem, fiquei em dúvida se devo ou não. - confesso e ele me olha preocupado – Pode perguntar o que aconteceu. - falo, notando seu olhar curioso.
– Oh, eu não queria parecer importuno, mas eu realmente fiquei preocupado quando você disse que foi até lá. Então, como foi? - ele coloca os papéis sobre seu colo e foca sua atenção em mim.
– Tudo bem, Connor, pode ficar à vontade para me perguntar o que quiser. - sorrio para ele, e ele devolve com um sorriso maior ainda – Bom, sobre o sanatório... - pego alguns dos arquivos de dentro da grande caixa e começo à analisar, e Connor faz o mesmo – ...nós fomos lá ontem à noite. - conto tudo para ele, realmente tudo. Desde Lana ter dito que viu alguém na janela, até as criaturas e aquela pessoa de olhos negros... Bom, não sei se aquilo era uma pessoa, mas não sei como chamá-lo então que seja pessoa mesmo.
Termino meu relato detalhado e Connor pisca algumas vezes seus olhos arregalados e antes de falar, abre e fecha a boca três vezes.
– Eu, eu não sei o que dizer. Eu... Eu não sabia que você tinha tanta coragem. - ele me olhe com uma expressão estranha.
– Eu não diria isso, pelo menos não depois de ontem. - dou uma risada sem humor. Pelo menos até ontem de tarde eu pensava como Connor, mas agora isso já mudou.
– Eu te admiro muito por isso, mesmo. - ele diz me olhando sério, e eu franzo o cenho.
– Obrigada, eu acho. - quebro o olhar abaixando a cabeça, e ele se levanta para levar uma das caixas de volta ao depósito.

***


– Connor, você encontrou alguma novidade sobre o sanatório? - pergunto mais alto e minha voz faz eco pela biblioteca vazia.
Passo os olhos sobre as folhas de sulfite esparramadas pelo chão e uma foto me chama atenção. A fachada do sanatório. Pego o que pensei ser uma folha, mas quando a puxo, várias outras folhas se desprendem dela e caem sobre o chão. As recolho rapidamente e depois de organizá-las como um livro, consigo ver que o que tenho em mãos são relatos de métodos de tortura horríveis que eram aplicados em pacientes nomeados "doentes mentais". Pego em uma folha que parece ser o começo de um relato de experimento.

10 de maio
O paciente Styles, Harry apresenta temperamento agressivo e perigoso para o convívio social, sendo a terapia do quarto branco a única solução cabível para seu tratamento, uma vez que ele pareceu responder bem à terapia de choque.

- A.W.

25 de maio

O paciente Styles, Harry está em tratamento à 15 dias no quarto branco, ainda apresentando temperamento agressivo. Se nota vestígios de automutilação em seus braços.

- A.W.


2 de junho

O paciente Styles, Harry apesenta traços de confusão mental, não sabendo informar o dia, hora ou até mesmo o seu nome. Apresenta cortes por todo o corpo e principalmente rosto, causado por suas próprias mãos.

- A.W.


Leio todas as linhas, uma a uma, enquanto tento assimilar o que acabei de tomar conhecimento.
? - ouço a voz de Connor – Tudo bem? Você não está com uma expressão muito boa. - ela se agacha na minha altura.
– Sim. Você já leu algo dessas caixas? - pergunto me abaixando para procurar mais relatos.
– Não, eu ainda não tive tempo. Por quê? O que tem aí? - ele pergunta.
– Eu encontrei relatos de tortura que eram praticadas em Waverly Hills, e o que eu li é horrível, Connor. Horrível - fecho meus olhos por um instante na tentativa de parar as imagens desse paciente sendo torturado, e Connor desvia ao olhar parecendo incomodado com isso. Não sei porquê mas as vezes sinto que ele quer me contar algo, mas não tem coragem.
– Eu li sobre um paciente, um tal de Harry Styles, e se ele estiver lá, Connor? E se ele ainda estiver no quarto branco dentro do sanatório? Nós precisamos encontrá-lo, precisamos salvá-lo. - digo fora de mim.
– Salvar quem? - me viro para a origem da voz, e vejo Lana parada na porta com duas sacolas em mãos.
– Precisamos salvar um antigo paciente do Waverly Hills, Lana. Ele deve estar preso em algum quarto. - explico.
– Ah, é? E quem te contou isso? Seu amigo fantasma? - ela cruza os braços sobre o peito, fazendo as sacolas fazerem barulho, e me encara com uma sobrancelha levantada à espera da resposta.
– Não, Lana. Está tudo escrito nesses papéis. - levanto os registros para provar meu ponto.
– Posso ver isso? - ela estende a mão e pega os papéis – Isso aconteceu em 1935, esse paciente deve ter uns 80 anos ou até mais agora, . E ninguém sobrevive sem água e comida durante todos esses anos, pelo amor de Deus! - ela abana a cabeça em sinal de descrença e me devolve as folhas.
Eu definitivamente estava bem fora de mim por não pensar nisso, não faria menor sentido salvar alguém preso lá por 80 anos ou mais.
– Lana, mas e o homem que vimos? - decido perguntar, e ela franze o cenho – Aquele que era bem alto. - ela não parece entender – Nós conseguimos atravessar todas aquelas criaturas, mas ele não, quando eu tentei me livrar dele lhe dando um chute, meu pé não atravessou seu corpo, o que quer dizer que ele está vivo, certo? - me levanto exasperada.
Ela volta a abanar a cabeça.
, me escuta. - ela pega minhas mãos e as segura firme enquanto olha fixamente para os meus olhos – Eu não sei do que vocês está falando. - ela me olha seriamente, e eu franzo o cenho.
– Por que você está agindo assim? - pergunto incrédula.
– Espera. Eu lembro da grande altura dele, lembro que ele tentou te puxar para dentro do túnel, lembro dele nos perseguindo. - assinto sem entender onde ela quer chegar – Mas sabe do que me lembro também? Das veias pretas que saltavam de suas órbitas negras, , nenhum ser humano tem isso, você realmente acha que aquilo era uma pessoa? - ela pergunta, mas não me dá a chance de responde – E de qualquer jeito, como você pensava em salvar ele? Ligando para a polícia? - ela debocha.
– Não. Talvez eu devesse voltar lá.- digo confiante. Eu sei que parece maluquice, mas eu preciso voltar.
– O quê?! - ela pergunta incrédula e começa à andar de um lado para o outro.
– Eu vou voltar para o Waverly Hills, Lana. Hoje! - esclareço e vejo pelo canto do olho Connor abanar a cabeça e encarar Lana de um jeito sugestivo.
– Você... Você só pode estar brincando comigo! - ela vocifera - Depois de tudo o que a gente passou você ainda quer voltar para aquele lugar? - ela estreita seus olhos para mim.
– Eu... - começo a falar, mas ela me interrompe.
– Eu até trouxe o almoço para pedir desculpas por ter sido estranha com você hoje, e agora me vem com essa história? Você está obcecada com esse lugar, . Está virando um problema. - ela diz com uma voz de desgosto, deixando as sacolas no chão e se virando para ir embora depois de bater à porta.
Olho para Connor em busca de conforto.
– Olha, eu não acho certo você voltar para lá e não acho certo vocês brigarem por causa disso. - abaixo a cabeça – Mas se é isso que você quer, eu posso te acompanhar. - levanto minha cabeça de imediato, corro em sua direção, o envolvo em um abraço apertado e ele ri – Mas com uma condição. - olho para ele – Nós temos que voltar antes de escurecer. - ele diz e eu apenas assinto.
Ajudo Connor à terminar o trabalho e durante esse tempo penso nas palavras de Lana e vejo que minha teoria realmente não faz sentido, mas nada me tira da cabeça que aquele homem pode precisar de ajuda. E, apesar de tudo, ele é uma pessoa, afinal, o que ele poderia ser? Um fantasma? Um demônio? Essas coisas não existem, e me sinto idiota por ter acreditado nisso ontem quando fui tomada pelo pânico.

***


– Acho que acabamos por hoje, . - Connor diz, fazendo com que eu vire meu corpo para encará-lo. Ele tinha um olhar sério em seu rosto, e eu sabia que com essa de "acabamos por hoje" na verdade queria se referir que finalmente chegou a hora. Iríamos para o sanatório.
Respiro fundo e apenas assinto. Fico mais alguns segundos sentada apenas pensando no que iria acontecer dessa vez. Levanto meu olhar até meu braço direito, erguendo a manga da minha blusa e vendo alguns arranhões e machucados distribuídos pelo local. Outra vez respirei fundo e automaticamente levanto minha mão até o canto da minha cabeça, sentindo o pequeno curativo que eu havia feito essa manhã. Lembranças da noite passada invadem minha mente, fazendo-me fechar os olhos com força. Agora eu podia sentir exatamente tudo que eu senti na noite passada. A curiosidade, ansiedade, surpresa, incredulidade, pânico, desespero, dor; eu conseguia sentir cada dor, conseguia lembrar da sensação da minha pele sendo arrastada pelo chão grosso do túnel, conseguia sentir a ardência e queimação.
Meu corpo perecia pegar fogo e até o cheiro do sangue que inundava o túnel eu conseguia sentir, foi automático lembrar dele. E se Lana estivesse certa e ele não fosse humano? Mas, isso seria tecnicamente impossível, não? Fantasmas não existem, mas então por que seu rosto era daquela maneira? Por que ele parecia tão... Sobrenatural? Eu definitivamente não sei. Também não posso esquecer o fato de que também haviam algumas "almas", assim por dizer. As "almas" pareciam flutuar, eram como fumaça no ar e tinha aquela horrível sensação de algo me cortando de dentro para fora toda vez que eu passava por elas, mais uma vez, isso seria tecnicamente impossível. Eu vivo em um mundo onde não existem monstros ou fantasmas, eu vivo na realidade onde tudo isso não passa de historinhas e ficções, não tem essa de almas que vagam por um antigo sanatório assombrado, não tem essa de cidade assombrada. Tudo isso deve ter uma explicação plausível.
Bom, devem ter inventado essa história de sanatório assombrado para atrair turistas idiotas e terem um comércio melhor. Afinal, querendo ou não, Hazelwood é uma cidadezinha do interior quase como um pequeno vilarejo. E o que vi lá dentro podia muito bem ser uma encenação ou até mesmo algum perturbado que tomou o sanatório como casa e quer manter as pessoas afastadas de lá. Não existe outra explicação pra isso. Eu não posso e nem vou acreditar em uma besteira dessas. E parando para pensar agora, eu me sinto tão estúpida por ter sentido tanto medo, medo de uma coisa que nem sequer é real.
Logo eu que sempre fui pé no chão, uma garota que sempre adorou terror, fui me deixar levar por uma estúpida brincadeira. Nem o mais horripilante dos filmes foi capaz de me tirar um olhar assustado se quer. Aquele homem claramente precisa de ajuda e seria por ele, e apenas por ele, que eu voltaria lá, monstros não existem, isso não passa de uma ficção.
, você está pronta? - escuto Connor e chacoalho a cabeça afastando toda essa baboseira. Ele ainda mantém seu olhar sobre mim esperando minha resposta. Me levanto mais do que decidida e lhe lanço um olhar confiante.
– Sim. - dou uma rápida resposta o vendo assentir.
Vou até uma das inúmeras mesas da biblioteca pegando meu casaco vermelho que deixei sobre a mesa. Coloco ele rapidamente e vou até a saída da biblioteca vendo Connor na porta me esperando. Assim que saímos um poderoso trovão ecoa pela cidade, encaro o céu o vendo totalmente escuro e nublado.
– Huh, acho que vai chover. - aperto mais o grande casaco vermelho ao meu redor assim que sinto uma rajada de vendo congelante me atingir.
– Parece que sim. Vamos? - Connor se posiciona ao meu lado e começamos a caminhar para fora da biblioteca.
O caminho até a floresta foi silencioso, cada um de nós dois mergulhados nos seus devidos pensamentos. Assim que paramos na entrada da extensa floresta uma ansiedade sem tamanho tomou conta de mim. Eu já estava mais do que convencida de que não deveria ter medo, não havia do que ter medo.
Confiante, dou o primeiro passo para dentro da floresta vendo Connor logo atrás de mim. Começamos a caminhar entre as enormes e numerosas árvores, e logo já estávamos alcançando o túnel.
– Então este é o famoso túnel da morte? - Connor tentou fazer uma piada para descontrair, mas logo parou de rir assim que percebeu o que havia dito. Seu rosto corou.
– Acho que sim. - dou uma risadinha, afim de amenizar o seu constrangimento.
Continuamos subindo a enorme colina, finalmente chegando na frente do sanatório. Caminhamos calmamente até a porta, pelo menos eu, já que Connor não parava de olhar para os lados e mexer as mãos de forma frenética. Balancei a cabeça em negação. Não havia o porquê de ele estar assim.
Passamos pelas enormes pilastras e vamos até a grande porta de madeira, já pronta para empurrá-la.
– Você tem certeza que quer fazer isso? - sinto a mão de Connor repousar sobre meu ombro direito, fazendo-me olhá-lo.
– Sim e você? Se quiser desistir, eu entendo. - falo o vendo encarar o chão de uma maneira pensativa e depois me olhar.
– Não, eu vou com você. - disse confiante. Assenti de novo e lhe lancei um pequeno sorriso antes de voltar minha atenção para porta.
Com um pouco de esforço, eu empurro a grande porta que vai se abrindo de forma lenta. Olho outra vez para Connor que assentiu. Em passos lentos vou entrando novamente no sanatório. Olho para trás vendo Connor encostar a porta de forma cuidadosa. Espero até que ele se posicionasse ao meu lado.
Damos uma boa olhada no local, nos possibilitando ver bastante coisas já que estava de dia. Na nossa frente havia um enorme corredor, e nas paredes estavam pendurados alguns quadros onde tinham alguns pacientes, mas aparentemente nenhum deles pareciam feliz, ao contrário dos funcionários, que sempre sorriam nas fotos. Eram sorrisos largos e grandes, chegava até ser sinistro, todos com o mesmo sorriso, mas o que me chamou atenção mesmo, foi que em alguns desses quadros, haviam um homem alto e de terno, mas seu rosto estava rabiscado em todos eles, apenas o seu corpo era visível. Pode ser até impressão minha, mas nas antigas fotos que ele estava, os pacientes pareciam ter medo, dava para ver isso em seus olhos. Poderia ser apenas impressão já que as fotos estão antigas e de má qualidade.
Ignorando esse fato começo a dar alguns passos pelo corredor, puxando Connor junto, que parecia perdido nos inúmeros quadros. Ficamos alguns minutos caminhando pelo grande corredor. O barulho dos saltos de minha bota contra o velho piso de madeira eram a única coisa a se ouvir. Quando chegamos ao final do corredor nos deparamos com a recepção. Havia uma grande mesa curva de madeira com alguns papéis velhos sobre ela. Atrás da mesa havia uma espécie de estante com vários quadrados abertos, neles haviam algumas pastas.
Connor passou por mim e foi em direção à grande mesa e tentou pegar um dos muitos papéis ali espalhados, mas assim que ele tentou pegar o papel o mesmo voou para o chão. Connor se virou e olhou para mim, apenas dei os ombros. Ele caminhou até o papel e se abaixou para poder pegá-lo novamente, mas outra vez, o papel pareceu voar para longe. Connor ficou ali agachado com uma mão estendida, olhando confuso para o chão. Rolei os olhos e fui caminhando em sua direção o puxando pela mão. Eu praticamente o arrastei dali.
Olhei para o lado e vendo Connor encarando nossas mãos juntas, foi apenas um ato involuntário da minha parte, mas mesmo assim ele está completamente vermelho. Por isso decido manter meu olhar no sanatório, afim de não o deixar mais envergonhado.
Paramos de andar assim que damos de cara com aquela familiar bifurcação. Na nossa frente estavam duas opções de caminho, uma para a sala de visitação e o outro para o corredor que nos levaria até à noite passada. Fiquei alguns segundos analisando por qual dessas entradas iríamos. Mas algo me fez sair dessa dúvida. Como um furacão, duas crianças passaram correndo por nós, elas haviam saído no corredor e ido até a sala de visitação. Troquei um olhar confuso com Connor e me virei até a sala de visitação. Em poucos segundos, Connor e eu nos encontrávamos dentro da enorme sala, procurando pelas crianças que brincavam em um canto do enorme cômodo.
? - uma voz calma soou atrás de nós.
Virei meu corpo encontrando uma garota que parecia ter mais ou menos a minha idade parada a poucos centímetros de nós, com um enorme sorriso no rosto.
Me parecia um sorriso feliz?
Trocando um olhar confuso com Connor que não parecia tão confuso quanto eu. Afinal, quem era essa mulher?


Capítulo 6

A menina sorri docemente, mas isso não me deixa mais confortável.
– Sou Gemma. Eu estou tão feliz em te ver novamente depois de tanto tempo. - ela faz menção de segurar minhas mãos, mas logo para assim que me vê dando um pequeno passo para trás.
– O quê? Do que você está falando? - pergunto mais confusa do que antes. Olho para Connor e ele está encarando fixamente para Gemma.
– Não há muitas pessoas por aqui, tudo é sempre muito quieto e monótono, então quando alguém entra aqui e resolve voltar, é simplesmente incrível. - ela sorri outra vez.
– Não há muitas pessoas? E as crianças que vimos? Quem são? - pergunto.
– São apenas crianças, oras. - ela ri fraco e logo muda de assunto – E a Lana, sua amiga, onde está? - Gemma pergunta, mas seu sorriso some.
– Ela não gosta muito de vir aqui. - tendo dar uma resposta vaga – Como você sabe o nome dela? - cruzo os braços sobre o peito – E o meu nome? - levanto a sobrancelha.
Ela suspira.
– Isso é uma história para outra hora e eu estava por aqui ontem, quando ouvi a voz de vocês. - ela responde, me deixando mais confusa ainda. Eu não estou entendendo.
– Você estava aqui ontem? - pergunto surpresa. Então ela fazia parte daquela encenação.
– Sim. Escondida, mas estava. - ela desvia o olhar.
– Você estava escondida o tempo todo? Até quando aquele homem alto começou à nos perseguir? - pergunto com a voz um pouco alterada, afinal, se ela estava aqui, poderia ter nos ajudado – Você o conhece? - dou um passo em sua direção.
Vejo seu semblante se tornar triste.
– Eu não poderia ter feito algo contra ele, não à noite, eu... - sua fala é interrompida por risadas.
As mesmas crianças passam correndo por nós, fazendo com que a espécie de camisola branca e comprida que Gemma está usando voasse para todos os cantos.
– Crianças! Crianças! - ela os chama e eles param no meio do caminho – Sem barulho, lembram? - ela pergunta autoritariamente e eles confirmam com a cabeça.
– Vem brincar com a gente. - o menor dos meninos pede.
– Sim, por favor. - outro diz.
– Por favor, tia Gemma. - uma menininha ruiva pede com seus olhos suplicantes enquanto puxa a barra da camisola de Gemma para baixo.
Ela nos olha e dou de ombros.
– Tudo bem, crianças. - ela diz depois de um suspiro – Mas só se meus novos amigos puderem ir também. - dito isso, as crianças começam à pular e à bater palmas.
Gemma é puxada por pequenos pares de mãos e seguimos atrás deles, sem ao menos saber onde vamos parar.
– Novos amigos? - Connor pergunta baixo ao meu lado.
Permanecemos em silêncio por todo o trajeto, até chegarmos em uma espécie de parquinho com dois balanços e uma gangorra bem enferrujada. Do alpendre descascado, observo as crianças correrem no meio da grama alta e reparo melhor em suas roupas, algo que me estranha. Elas estão vestindo uma espécie de camisola branca, estão descalças e têm a pele muito pálida, igual a Gemma.
– Talvez elas não saiam muito daqui de dentro. - Connor nota meu olhar, e ele diz.
Chuto uma pedrinha e ela para ao pé de alguém, levanto meu olhar e vejo uma senhora parada a poucos metros nos olhando fixamente.
– Sra. Campbell? - Gemma corre em sua direção – A senhora veio tomar um ar fresco? Que ótimo, faz muito bem. - ela segura nos ombros da senhora e ajuda à levá-la para o outro lado do pátio.
Franzo a sobrancelha. Estranho. Gemma para ao meu lado e mexe nos dedos da mão de um jeito frenético me deixando impaciente.
– Então, Gemma, vocês moram aqui? - pergunto e ela confirma – Todos vocês? - ela assente – Por quê? Um sanatório abandonado não é um lugar muito comum para se morar. - encaro ela, esperando por uma resposta.
– Sim, é bem estranho, não é? - ela ri fraco e tira uma casca da porta.
– Sim, isso é estranho, mas você ainda não respondeu nenhuma de nossas perguntas. - escuto a voz de Connor soar ao meu lado, fazendo com que a tal Gemma e eu olhássemos para ele juntas. Connor tinha um misto de expressões em seu rosto, algo como impaciência e seriedade. Voltei meu olhar para Gemma que durante alguns segundos ficou apenas analisando Connor, antes de sorrir.
– Estão juntos? - ela pergunta apontando de Connor para mim. Agora foi a minha vez de suspirar. Eu sei o que ela está tentando fazer. Olho rápido para Connor que está mais vermelho que um tomate.
– Não, não estamos juntos. Somos apenas amigos. - respondo sem muita paciência. Gemma pareceu notar, já que se calou e apenas assentiu - Agora você...
– Que tal conhecermos melhor o sanatório? - ela me interrompe, levantando abruptamente, sem nos dar a chance de questionar. Troco um olhar cansado com Connor que sorri fracamente para mim e dá os ombros.
Eu já estava cansada de toda essa enrolação. Por que essa garota não podia simplesmente responder as nossas perguntas? Se ela viu tudo o que aconteceu com a gente noite passada, então certamente ela tinha as respostas que precisamos. E de uma maneira ou outra eu iria descobrir, nem que para isso eu tenha que sequestrar ela e a torturar até que diga tudo o que eu preciso saber. Ok, talvez essa não seja uma opção viável, mas eu ainda iria descobrir o que estava acontecendo.
– É melhor irmos. - a voz de Connor me puxa de volta para realidade – Quem sabe não damos sorte e conseguimos algumas respostas. - me lançou um sorriso encorajador e eu apenas assenti.
Me coloquei ao lado de Connor enquanto andávamos para dentro do sanatório a procura de Gemma. Alguns segundos e lá estávamos nós, passando por uma enorme porta de vidro trincado que nos levaria para dentro do sanatório outra vez. Connor correu a porta para o lado nos dando passagem, primeiro eu entrei e depois ele.
Eu olhava para cada detalhe deste lugar, e ele não parecia o palco de horrores da noite passada. Apenas parecia como uma velha construção abandonada e nada mais. Era como se de dia fosse outro lugar totalmente diferente.
Conforme Connor e eu íamos andando dávamos de cara com várias outras pessoas, o que me fez olhar confusa para ele, já que Gemma falou que poucas pessoas vivem aqui. Haviam crianças, jovens, adultos e idosos, todos usando a mesma camisola branca. Todos pareciam pálidos demais, estranhos demais e felizes demais. Todos por quem passávamos nos lançava um sorriso ou um aceno amigável, alguns até nos saudavam, sabendo o meu nome e o de Connor. Isso é estranho, muito estranho.
Fui para mais perto de Connor, agarrando seu braço com certa urgência. Ele pareceu notar, já que levou sua mão sobre a minha e me lançou um olhar tranquilizador. Continuamos nosso trajeto até retornamos a sala de visitação, tendo agora ela consideravelmente cheia de pessoas. Procurei Gemma com os olhos entre o grande número de pessoas, mas não a vi.
Uma cena me chamou a atenção, em alguns cantos do cômodo, haviam algumas mulheres e homens vestidos com um uniforme. Franzi o cenho, enquanto assistia eles auxiliarem algumas pessoas.
– Vocês estão ai! - uma voz sou atrás de nós, me fazendo dar um pequeno pulo. Me virei para trás vendo Gemma nos encarando com um sorriso. Essa garota sorri demais – Estava esperando por vocês. - ela diz.
– Gemma! - uma outra voz chamou – Então ela realmente veio até aqui? - uma ruiva com os olhos verdes, parou ao lado de Gemma e nos encarou sorrindo também. Gemma apenas assentiu – Olá, sou Katherine. - mesmo estando a nossa frente, ela deu um exagerado aceno com sua mão. E foi aí que eu percebi, ela usava um uniforme também.
– Então... - a ruiva juntou a mãos e nos olhou empolgada – ...Quer conhecer a nossa casa? - ela nos olhou com expectativa e eu apenas dei os ombros, dando um passo na direção delas.
As duas começaram a andar e Connor e eu apenas as seguimos.
, não esqueça que temos que voltar antes do anoitecer. - Connor sussurrou ao meu lado.
– Tudo bem, Connor. Só algumas perguntas e nós vamos embora. - falo, apertando mais meus passos para alcançar as duas – Então, Katherine... - começo a falar mas sou interrompida.
– Kat. Me chama de Kat, por favor. - virou sua cabeça em minha direção sorrindo.
– Kat... Por que você está usando esse uniforme? - apertei mais ainda meus passos, andando agora lado a lado com elas.
– É óbvio, não? - ela arqueia as duas sobrancelhas – Eu trabalho aqui. - ela dá de ombros.
– Trabalha aqui? - parei meus passos assim que escutei sua resposta. Procurei por Connor, não o vendo em lugar nenhum – Connor? Cadê o Connor?! - um desespero sem tamanho tomou conta de mim.
E se alguma coisa aconteceu com um ele? Onde ele está? Como sumiu assim do nada? Eu preciso achar ele!
– Não se preocupe, ele vai ficar bem. - parecendo ler meus pensamentos, Gemma respondeu.
– Como você sabe? Eu preciso achar ele! - falo, já me virando para ir embora mas sinto sua mão agarrar meu pulso. Viro minha cabeça para encará-la – Me solta, eu preciso achar ele. - tento me soltar de seu aperto, mas ela era mais forte do que parecia.
– Skyler está com ele, não se preocupe. Connor vai ficar bem, não é a primeira vez. - agora foi a vez da tal Kat falar.
– Skyler? Quem é Skyler? Não tinha ninguém aqui com a gente. - disse impaciente, ainda tentando me soltar de Gemma.
– É apenas um amigo nosso. Agora vem! - dizendo isso, elas me arrastaram para dentro de algum cômodo e fecham a porta, me impedindo de sair e saber onde Connor estava.


Capítulo 7

Olho em volta vendo que era um quarto exatamente igual ao que eu vi noite passada quando encontrei aquele homem.
– Esse é o meu quarto. - Gemma diz.
– Não quero saber. - ando até a porta tentando abrir ela, mas estava trancada – Eu preciso achar o Connor. - comecei a esmurrar a porta, até sentir Kat me puxar pelos ombros e me virar, levando suas mãos até meu rosto.
– Calma, , nós não somos iguais a eles. Ninguém aqui vai machucar vocês. - ela disse me olhando séria.
– Eles? - perguntei confusa, a vendo suspirar e assentir.
– Sim, eles são... - Kat estava prestes a responde quando é interrompida.
– Acho que isso é seu, . - e pela milésima vez Gemma tenta mudar de assunto.
Eu tiro as mãos de Kat do meu rosto já prepara para confrontar Gemma quando dois objetos em suas mãos me chamam a atenção.
– Meu celular? - pergunto surpresa. Vou em sua direção e logo pego o aparelho de sua mão, vendo que realmente era o meu celular, e que ele estava em funcionando normalmente. Gemma também tinha o celular de Lana em mãos – Como? - pergunto, ainda encarando o aparelho.
– Kat os achou ontem e pediu que eu os guardasse. - me viro encarando Kat, que sorria docemente.
– Obrigada. - agradeço.
– Tudo bem, . - ela diz sorrindo. Aqui todo mundo sorri demais, não gosto disso.
– Vocês podem me deixar sair agora? - pergunto, e Gemma troca um breve olhar com Kat e a ruiva assente.
– Primeiro temos que conversar. - Gemma começa, e acho irônico que logo ela queira conversar agora, já que desde que nos encontramos ela não responde nenhuma de minhas perguntas.
– Sim. Precisamos te contar algumas coisas. - Kat emenda.
– Podem começar então. - incentivo, prona para ter as minhas respostas.
– Eu tenho que pedir desculpas por ontem, eu realmente não podia ter feito nada. - Gemma fala cabisbaixa.
– Tudo bem, eu nem sei o que era tudo aquilo, parecia um sonho, aconteceu tudo tão rápido que eu nem consegui processar ainda. - mudo meu cabelo de lado, e flashes de vultos negros com olhos brilhantes, alguém nos perseguindo e sangue por todo o lado, invadem minha cabeça.
– Preciso que você fique ciente que apenas parecia um sonho, mas não era. - Kat enfatiza com um olhar firme.
– O quê? Como assim? Você quer dizer que aquelas sombras pretas flutuantes eram reais? - elas assentem – Vocês só podem estar de brincadeira comigo. - seguro minha cabeça com ambas as mãos e começo à andar de um lado para o outro – Não. Não era real, não faz o menor sentido. - repito para tentar convencer à mim mesma que essa é a verdade.
, querida - Gemma se aproxima de mim que coloca suas mãos sobre meus ombros – Você precisa acreditar em nós, só queremos te ajudar, lembre-se de tudo. - ela diz de modo condescendente e eu solto uma risada seca.
– Vocês querem tanto me ajudar que não disseram nada que seja importante até agora. - cruzo meus braços e encaro as duas garotas à minha frente.
– Eu vou contar sobre o Harry. - Kat diz baixo.
– Não, Kat! Não acho que ela deva saber dele de novo. Explique como tudo funciona, sabe, de dia e de noite. - Gemma tenta argumentar mas Kat nega com a cabeça.
– Harry? Quem é Harry? - pergunto antes que a ruiva possa falar, e um nome me vem à cabeça - Harry Styles? - Gemma me olha totalmente espantada, e levanto uma sobrancelha à espera que elas comecem à falar.
– Bom, sim... - elas trocam olhares nervosos – Ele é... Hm... Ele é... - Kat interrompe Gemma.
– Ele é aquele cara assustador que perseguiu vocês. - Kat fala tão rápido que demoro alguns segundos para processar.
– O quê? Não fale dela para ela, você sabe tudo que aconteceu. - Gemma diz em um guincho e a encaro confusa.
– Harry Styles? O cara que deve ter uns 80 anos ou mais agora? - pergunto incrédula, mas não recebo uma resposta – Vocês são muito engraçadas, meninas. - falo irônica.
– Ahn? Por quê? - Gemma pergunta, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha.
– Eu trabalho na biblioteca da cidade e acabei encontrando algumas fichas de pacientes daqui. Eu li apenas uma que era desse tal de Harry Styles e a data era de 1935. Então suponho que ele tenha uns 80 anos ou mais agora. - foi minha vez de cruzar os braços e arquear uma sobrancelha – Não tem como vocês me fazerem acreditar que o cara de ontem é esse tal de Harry Styles. - falo, lembrando do que Lana me disse na biblioteca sobre ninguém conseguir sobreviver tanto tempo sem água ou comida.
– Fichas... É bem a cara dele fazer isso. - Gemma fala descontente – Sobre o que eram essas fichas? - ela pergunta.
– Castigos. - faço uma careta ao lembrar das coisas horríveis que eu li – Tratamentos com choques e coisas do tipo. - dou os ombros e olho para as duas a minha frente.
– Foi nesse tipo de coisa que ele pensou então. - Kat para si mesma, mas sou capaz de escutar. Afinal de quem elas estão falando?
– Harry Styles da ficha era apenas um paciente que teve a infelicidade de parar aqui e sofrer esses tratamentos horríveis e o cara que eu vi ontem devia ser só um perturbado que não tem o que fazer. Por isso voltei, para ver se ele precisava de ajuda. - e como um furacão, Gemma saiu de perto de Kat e veio em passos firmes até mim.
– Não ajude ele, ! Me escute! Não faça isso! - ela diz totalmente nervosa e descontrolada, e Kat logo se apressou e veio até nós duas, se pondo ao meio.
Senti meu sangue ferver, quem ela pensa que é pra falar assim comigo? Ela não sabe o que eu passei e o que eu vi, se aquele cara não for um perturbado eu sinceramente não sei mais o que é.
– E por que eu não posso ajudá-lo? Você vai me dizer ou só vai inventar mais alguma desculpa idiota? - tomada pela raiva, tentei dar mais alguns passos mas Kat se manteve entre nós.
– Eu estou fazendo isso por você. Não quero que passe por tudo aquilo de novo, você já sofreu demais por conta disso. - Gemma fala exasperada, mas seu semblante muda para triste.
– Fazendo isso por mim? - pergunto de maneira irônica – Sabe o que você poderia ter feito por mim? - encaro bem seus olhos claros – Me ajudado ontem a noite. - solto de uma vez e ela parece afeta por minhas palavras.
– Você não entende, eu não podia fazer nada. - ela diz de maneira cansada enquanto passava a mão pelos cabelos de forma raivosa.
– Não. Eu realmente não entendo, por favor, me explique. - falo sarcástica mas ela não responde, o que me faz rir sem humor – Está vendo, você quer que eu acredite em você mas não é capaz de responder nenhuma das minhas perguntas. Você consegue pelo menos me falar o que é aquele homem? - pergunto séria.
– Ele é o meu...
– Chega disso vocês duas! - Kat interrompe Gemma com uma voz carregada – Você quer respostas, certo?! - ela pergunta olhando para mim, e eu apenas assinto – Você vai ter suas respostas, mas eu não quero discussões aqui, ouviram? - ela ainda mantem o seu tom de voz carregado.
– Tá. - Gemma diz descontente.
– Vou responder algumas de suas perguntas agora, - Kat diz – Eu preciso que você preste muita atenção no que eu vou falar agora. - apenas assinto – Presumo que você já ouviu alguma história ou boato relacionado a cidade ou o sanatório? - ela pergunta e eu reviro os olhos.
Ah, não! Essas lendas de novo não.
– Já ouvi sim, e já estou de saco cheio disso. - bufo irritada, e sinto os olhos de Kat sobre mim.
– As histórias ou boatos, são todos reais. - ela diz simplesmente como alguém que arranca um curativo de uma vez só, me fazendo revirar os olhos outra vez – Vou fingir que não vi isso. Continuando, o sanatório Waverly Hills foi inaugurado há muitos anos atrás, e muitas coisas ruins aconteceram aqui. - ela faz uma breve pausa – Eu sei que o que eu vou dizer agora parece mentira. - agora ela dá uma risada sem humor – Todo tipo de pessoa já passou por esse lugar e também houve muitas mortes, dando início a separação de almas depois de um incidente. - ela explica.
– Separação de almas? - pergunto confusa já não ligando.
– Sim, separação de almas. - as duas a minha frente tinham expressões sérias – Depois desse incidente, houve uma separação de almas para que as coisas ficassem mais fáceis de serem controladas e para evitar que os pacientes desse lugar se juntassem. Onde as almas de pessoas boas ficam presas de dia, sem poder aparecer durante a noite, e as almas de pessoas ruins ficam presas de noite, sem poder aparecer de dia. - meu cérebro da uma volta com sua explicação – Foi por isso que a Gemma não pode te ajudar. Nós que vivemos na luz não podemos andar sobre as trevas, assim como as criaturas que vivem nas trevas não podem vagar pela luz. - a ruiva finaliza.
– Você não pode estar falando sério, está? - pergunto incrédula, mas ela se mantém séria – Você está mesmo falando sério? - meu tom de voz fica alto.
– Sim, . Você queria que te contássemos a verdade, e é o que eu estou tentando fazer agora. - Kat arqueia as sobrancelhas.
Uou! Isso é... Uou! Essas duas garotas só podem estar loucas se acham que eu vou acreditar nisso. De fato são loucas só de inventarem um absurdo desses, não responderam nada do que eu queria saber e ainda por cima me vêm com uma dessas. Se antes eu já achava que o tal de Harry era algum sem teto ou perturbado, agora de fato eu comprovo isso. Ele é um perturbado, assim como as duas garotas a minha frente que insistem que eu acredite em uma mentira sem tamanho.
– Então você está querendo dizer que todas as pessoas que eu vi hoje são almas boas de pessoas mortas? - pergunto.
– Pessoas, eu não usaria esse termo, mas mortos todos estão. - Kat responde.
– Então vocês... - digo apontando para elas vendo Gemma assentir.
– Também estamos mortas. - a loira fala.
– Eu vou embora agora, isso aqui está ficando estranho. - digo dando alguns passos cegos para trás, mas assim que me viro dou de cara com Gemma – Ahn?!... Mas... Mas você não estava lá? - aponto para trás de forma confusa.
Olho por cima dos ombros não vendo mais Kat. Outra vez me viro para frente agora vendo sua figura ao lado de Gemma. Franzo meu cenho achando tudo isso muito confuso. Sem pensar muito vou em direção a elas para poder chegar até a porta, mas para minha surpresa meu corpo atravessa o delas assim como vez na noite anterior com aquelas coisas escuras.
O quê? Mais o que está acontecendo aqui?
– Que tipo de truque idiota é esse? Não tem graça. - vou até a porta e volto a bater ela nela, tentando abrir.
, não tem truque nenhum. - Gemma diz, dando alguns passos em minha direção, mas barro seus movimentos quando levanto minha mão pedindo que ela fique onde está.
– Eu quero sair daqui agora. - falo séria.
, por favor nos escute. - Kat suplica.
– Não! - respondo, virando meu corpo para elas mas me mantendo colada a porta – Eu quero sair daqui. - repito.
Gemma faz um movimento estranho com uma de suas mãos e eu escuto um "click" vindo da porta, e em seguida a porta se abre me fazendo cair no chão de costas. Faço uma cara de dor assim que sinto o impacto do meu corpo no chão.


Capítulo 8

Quando abro os olhos vejo a mesma cena da noite anterior se repetir. Vários pares de olhos me cercavam, mas ao contrário da noite anterior, não eram olhos maldosos e demoníacos, mas sim olhos bondosos e brilhantes. Era como se houvesse luz em cada par de olhos que me analisava, mas isso não muda o fato de tudo isso ser estranho. Esse lugar não é normal, assim como essas pessoas também não são. Eu preciso achar Connor e sair daqui.
Sem dificuldade, me levanto recusando a oferta de algumas mãos entendidas para mim. Passo por entre essas estranhas pessoas e vou caminhando pelos corredores, ouvindo alguns murmúrios.
Chacoalho minha cabeça tentando afastar as vozes de todas essas pessoas. Esse era definitivamente o momento mais estranho que eu já passei na minha vida, junto dessas pessoas que acreditam estarem mortas e presas em um sanatório com divisão de almas boas e ruins. Não tenho medo deles, mas essas pessoas precisam de tratamento médico e não é uma boa ideia ficar preso com um bando de gente louca em um sanatório abandonado.
Refaço todo o caminho de volta, já avistando Connor parado a alguns metros da porta de entrada do sanatório, que por sinal estava aberta. Ele conversava com um rapaz de sua altura, cabelos negros e olhos azuis, Skyler presumo eu. Aperto meus passos fazendo com que eles logo notassem minha presença.
– Connor, vamos sair daqui agora. - agarro seu braço assim que os alcanço.
– Calma, . - ele diz apontando para o rapaz à sua frente.
– Eu quero ir embora agora. - falo séria, vendo Connor franzir o cenho pra mim.
Eu sei que estou sendo contraditória agora, mas eu sinceramente não quero ficar cercada por pessoas loucas.
– Por favor! - digo desta vez de uma maneira mais descente. Connor suspira alto e assente.
– Tudo bem. - ele diz derrotado, logo pegando em minha mão e dando um último aceno para Skyler.
E, como eu sou uma pessoa de muita sorte, assim que me viro vejo Gemma e Kat parados à nossa frente.
, por favor nos escute. - Gemma suplica.
– Só nos deixem ir. Eu preciso ir. - digo, já sentindo meus olhos arderem. Eu sei que é bobeira querer chorar agora, mas eu só quero ir embora.
Eles finalmente pareceram entender já que Gemma nos deu passagem, mas antes que pudéssemos dar um passo se quer em direção à porta aberta, as luzes do sanatório começam a falhar e gargalhadas soam, ganhando intensidade. Era como se estivem longe, mas já nos alcançando.
– Droga! Que horas são? - Kat pergunta com certa tensão na voz. De maneira rápida olho no visor do meu celular que guardei o bolso de meu casaco.
– Sete da noite. - digo surpresa, já que não parecia que ficamos tanto tempo aqui. Connor e eu saímos às 16h da biblioteca.
– Vocês têm que ir embora agora. - Gemma diz exasperada, já nos puxando em direção a porta de saída.
Agora ela nos empurrava de forma desesperada até a porta, mas quando estávamos a centímetros dela, a porta se fecha em um estrondo alto nos fazendo parar.
– Ele está vindo. - uma voz soou atrás de nós. Connor e eu nos viramos e eu vi que a Sra. Campbell foi quem disse isso. Ela estava a alguns metros de nós com um olhar assustado. Agarrei mais ainda a mão de Connor, que com intenção de me proteger passou seus braços por mim, me aprisionando em um abraço.
– Nós temos que fazer alguma coisa. - Skyler diz de maneira nervosa.
– Sim, nós temos. - Kat completou, igualmente nervosa.
– Agora é tarde demais. - Gemma diz com um semblante tenso – Ele já está aqui. Connor, proteja a . - dizendo isso uma corrente de vento muito forte passa por nós, levando consigo as quatro pessoas a nossa frente e última coisa que eu vi antes das luzes se apagarem foi o olhar triste e carregado por lágrimas de Gemma.
Agora Connor e eu estávamos parados em meio a escuridão, sem saber o que fazer. Connor aperta mais ainda seus braços ao meu redor, e logo eu sento como se alguém alisasse meu cabelo e eu sabia que não era Connor já que eu sentia suas mãos em minhas costas.
“Ela finalmente voltou.”
Uma voz sussurrou pela sala, e nessa hora eu soube que Kat e Gemma não eram loucas, porque talvez eu seja a única louca aqui.
Os dedos gélidos tocaram meu rosto fazendo com que todo o meu corpo se arrepiasse. Me agarrei mais a Connor quando senti uma pressão que ia aumentando cada vez mais sobre meu pescoço me deixando sem ar.
– R-Res... N-Não consigo... - tento falar mas não consigo, por isso puxo a camiseta de Connor quando senti meus pulmões falharem.
Connor parece escutar minhas súplicas e consegue me libertar do que quer que seja a coisa que estava me impedindo de respirar.
, você está bem?! ?! - conseguia escutar precariamente a voz de Connor por entre minha respiração ofegante.
– E-Eu não sei. - respondo com alguma dificuldade. Tento colocar minhas mãos sobre meu pescoço, mas Connor está segurando-as forte demais, tenho até medo que ele possa quebrá-las.
Sinto uma forte corrente de vento me atingir e cambaleio para trás, mas antes de conseguir encontrar sua origem, me deparo com a mesma cena da primeira vez que aqui estive. Estávamos cercados de olhos brilhantes, mas algo estava diferente. As criaturas não estavam apenas nos observando, eu conseguia senti-las. Elas estavam por todo o lugar, seja sussurrando frases desconexas em meus ouvidos ou tocando meu corpo.
– Fique perto de mim, . - Connor sussurrou.
Me sinto culpada agora. Ter ficado até escurecer foi um descuido muito estúpido, ainda mais depois do que aconteceu na primeira vez que Lana e eu colocamos os pés aqui. Mesmo não sabendo o que realmente são, essas coisas são cruéis e sei que se algo acontecer com Connor eu nunca vou conseguir me perdoar, então tenho que nos tirar daqui o mais rápido possível. Só que ainda não sei como.
– Connor, nós temos que sair daqui agora e o único jeito é correndo o mais rápido possível, então vamos no três. - falo e ele assente – Um... Dois... - sento que Connor começou à correr antes do combinado e entro em pânico – CONNOR! - grito ao ver que ele corria para dentro do sanatório em um corredor sem fim. Ele não vai conseguir se esconder dessas coisas que foram trás dele.
– Ótimo. - bufei exasperada, e por um instante eu acabei esquecendo que havia essas coisas me observando – Agora vou ter correr por esse lugar estranho procurando pelo Connor. - solto um suspiro pesado.
Assim que tento dar alguns passos para poder iniciar a minha “caça ao Connor” sinto um par de mãos geladas repousarem na minha cintura. Primeiro eu penso que poderia ser Connor apenas pregando alguma peça em mim, mas assim que escuto aquela familiar respiração pesada e algumas gargalhadas soarem, eu sei que essas mãos não são de Connor. Meu corpo fica tenso no mesmo instante e o aperto em minha cintura aumenta. Quem quer que seja está me segurando como se quisesse atravessar seus dedos contra a pele da minha cintura.
Pense, . Pensa. Eu preciso fazer alguma coisa, preciso fazer antes que essa pessoa faça primeiro, mas para minha infelicidade meu corpo parece não querer colaborar. Acho que estou em um daqueles momentos onde você escuta algum barulho estranho de madrugada e deixa seu corpo totalmente imóvel sobre a cama com medo de se mexer e o dono do barulho estranho te atacar. Era exatamente isso que se passava comigo agora. Eu tinha que travar essa batalha interna entre meu corpo e minha mente, onde meu corpo se recusava a obedecer minha mente por puro pânico, e minha mente tentava enviar mensagens lhe dizendo que não havia do que temer, afinal, monstros não existem, certo? Eu realmente espero que não.
Em um ato bruto, senti meu corpo ser puxado para trás e colado a outro corpo. Fecho os olhos e aperto as mão, o corpo desconhecido era duas vezes maior que o meu, o que me fez pensar no que eu faria para sair daqui. Sem ter muitas opções, eu comecei a me debater contra o corpo desconhecido, mas obviamente que a pessoa era bem mais forte que eu, já que ela sem muita dificuldade, passou uma mão pela minha cintura e levou a outra até minha boca tentando abafar os grunhidos histéricos que eu soltava enquanto tentava me libertar.
Senti seu aperto ficar mais forte sobre mim e aos poucos a atmosfera do lugar foi ficando estranha. O sanatório que já estava escuro conseguiu ficar ainda mais, não me possibilitando ver nem uma mísera sombra. Meu corpo parecia que estava se agitando por dentro, minhas células pareciam que estavam em desordem, era uma sensação estranha, como se meu corpo fosse removido de um lugar para o outro. Definitivamente uma sensação estranha.
Eu estava tão concentrada nessa estranha sensação no meu corpo que quase não senti as duas mãos que me aprisionavam deixarem meu corpo. Respirei um pouco aliviada, mas foi coisa de segundos já que um poderoso trovão rasgou a atmosfera, trazendo com ele um enorme clarão que atravessou a janela iluminando por instantes o extenso corredor.
Espera, janela? Corredor? Mas eu não estava em um corredor e também não haviam janelas. O que está acontecendo? Será que aquela estranha sensação de ter meu corpo sendo removido de um lugar para o outro era mesmo verdade?
As luzes do sanatório se ascenderam do nada, me fazendo arregalar minimamente meus olhos assim que constatei que eu realmente estava em outra parte do sanatório. Mas como isso é possível?
– Olá. - uma voz fina e infantil soou me fazendo rapidamente abaixar meu olhar e encontrar uma linda garotinha loira usando um macacão cinza. Ela tinha os cabelos longos e com alguns cachinhos nas pontas, seus olhos eram incrivelmente verdes. Ela matinha um largo sorriso para mim, enquanto segurava um velho e gasto urso de pelúcia. E tenho a estranha sensação de ter algo familiar sobre essa garotinha – Você não fala? - ela tomba a cabeça para o lado e me encarou de forma confusa.
– A sua voz... - estreito olhos – Foi a sua voz que eu ouvi ontem quando estava aqui. - ela foi endireitando a cabeça de forma lenta enquanto voltava a sorrir.
– Sim, foi a minha voz. Eu gosto de brincar. - ela diz, batendo palmas de maneira empolgada.
– Eu não acho que isso é o tipo de brincadeira que se deva fazer com as pessoas. - falei ironicamente, não acreditando que está linda garotinha com cara de anjo esteja envolvida nessa merda toda – Cadê os seus pais? Eles sabem que você está aqui sozinha? - pergunto procurando com o olhar por algum sinal de um adulto.
– Eu não sei quem são os meus pais. Eu acho que não tenho. - ela contorceu o rosto em uma careta – Mas tenho amigos. Você quer conhecê-los? - o sorriso em seu rosto logo ressurgiu e ela agarrou uma de minhas mãos.
– Obrigada pelo convite, mas eu não posso, tenho que achar uma pessoa. - quando tento soltar minha mão da sua ela aperta. Olho confusa para seu rosto angelical que agora não parecia tão angelical. Seus lindos olhos verdes agora eram pretos, duas órbitas vazias. Seu lindo rosto, foi transformado em alguma coisa ruim com veias pretas e olheiras vermelhas em baixo dos olhos, igual a ele.
– Você vai conhecer os meus amigos! - a garotinha praticamente rugiu para mim, fazendo com que os pelos do meu corpo se arrepiassem. Totalmente tensa concordei freneticamente, vendo seu rosto voltar ao normal e um sorriso preencher seus lábios – Ótimo. - ela se virou e começou a me arrastar pelos corredores – Ah, meu nome é Madeleine. - ela inclinou rapidamente a cabeça para trás, me lançando um sorriso e depois voltou a saltitar, enquanto que sem escolha deixei que a garotinha me levasse pelos corredores.
Comecei a pensar no seu rosto e em como ele foi de angelical para demoníaco. Como ela fez isso? Será que eu estou sonhando ou ficando louca? Isso tudo não pode ser real.

***


– Ali estão eles! - sua voz me puxou para realidade. A garota apontava para um casal a poucos passos de distância de nós. Havia uma garota muito bonita de cabelos castanhos escuros assim como seus olhos e um rapaz igualmente bonito de cabelos loiros e olhos azuis – OLHEM O QUE EU ACHEI! - Madeleine grita empolgada atraindo a atenção do casal para nós.
O olhar da garota sobre mim não foi um dos melhores, poderia dizer que existia até um fundo de hostilidade ali, já o garoto me olhou com um sorriso esperto nos lábios.
– Olhem só o que a Mad nos trouxe. - o rapaz loiro cruzou os braços sorrindo.
– É a... - a garotinha tenta falar, mas percebe que não sabe o meu nome, por isso me olha confusa.
- . - respondo apenas.
– É, a gente já sabe. - a garota alta responde rispidamente, fazendo com que a garotinha mostrasse a língua e fosse junto do rapaz loiro.
– Elas são assim mesmo. - o loiro deu uma leve risadinha – Sou Niall e essa é Brooklyn. - escutei a tal Brooklyn bufar ao meu lado. Qual o problema dessa garota?
– Ahn... Vocês viram um rapaz mais alto que eu, cabelo castanho e olhos verdes? - resolvi me concentrar em alguma coisa mais importante que no caso é achar o Connor.
– Você é idiota ou o que garota? - Brooklyn disse rudemente e eu a olhei confusa. Por que essa está sendo tão estúpida comigo? – O Harry já deve ter o matado. - ela responde ainda mais rude.
– O quê?! - pergunto perplexa – Parem de brincadeiras. - agora quem falou rudemente foi eu.
– E você acha o quê? Que ele e todo o resto dessa merda é uma alucinação da sua cabeça? - ela me olhou – Não seja ridícula. Você melhor do que ninguém deveria saber disso, afinal, tudo isso é por sua culpa. - olhe mais uma vez indignada para ela, e depois para o tal Niall que nos observava com divertimento.
– A única ridícula aqui é você. Pare de falar sobre coisas que não fazem sentido. - a vi apertar os olhos com raiva, enquanto eu me virava para ir embora – Eu não vou perder mais meu tempo com vocês. - comecei a andar para longe deles.
– Bem vinda de volta ao inferno, . - e quando já estava me afastando deles, escuto a voz de Brooklyn seguida de uma risada.
Garota estúpida. Vou me concentrar em achar o Connor que é mais importante.


Capítulo 9

– Bem-vinda de volta ao inferno, . - imito sua voz esganiçada. Não gostei dessa Brooklyn. Quem ela pensa que é para falar comigo daquele jeito?
Dou um pulo assustada quando tropeço em alguma coisa, mas quando reparo melhor é apenas o primeiro degrau da escada que leva ao segundo andar. Respiro fundo e começo a subir os degraus de madeira que rangem a cada passo dado e, quando finalmente chego ao segundo andar, solto um suspiro de desânimo. Tudo aqui é completamente igual ao andar de baixo. Vários corredores com as paredes descascadas, piso sujo, portas quebradas e janelas sem vidro. E, claro, sem falar no silêncio ensurdecedor. Não ouço mais as vozes, o que é muito estranho.
Olho em cada cômodo conforme caminho pelo corredor, mas não encontro nada, absolutamente nada. Estou prestes à desistir da minha busca nesse andar quando uma porta fechada me chama atenção, o que acho um pouco estranho, pois essa é a primeira porta fechada que vejo nesse andar, ao contrário do primeiro, onde tudo parece um pouco mais organizado. Decido ver o que há por trás da tal porta, mas quando tento abri-la, nada.
Está trancada.
– Que ótimo. - reviro os olhos.
Não sei o que aconteceu comigo, mas realmente preciso ir embora daqui o mais rápido possível. Algo me deixou irritada de uma hora para outra e, sinceramente, se eu não encontrar Connor logo, vou deixá-lo aqui. Algo nesse lugar está me dando nos nervos.
Empurro mais a porta e ela cede um pouco mostrando que não estava trancada, apenas emperrada. Aplico mais força e finalmente ela se abre revelando um quarto, e posso dizer isso pelo fato de haver uma cama, mas duvido que alguém durma aqui, afinal, não há colchão ou travesseiros na cama de ferro e as molas que a sustentam não parecem ser nada confortáveis. Aos pés dela há também uma mesa de madeira escura e uma cadeira do mesmo material.
Me viro para, definitivamente, sair desse lugar e terminar minha busca pelo Connor, quando uma forte corrente de vento me atinge fazendo com que meu cabelo voe por todo o meu rosto, me impossibilitando de enxergar direito, e quando me viro tenho a certeza de que não foi pela janela quebrada que entrou o vento. E para concretizar a minha afirmação, assim que me viro totalmente vejo uma figura loira encostada ao batente da porta, me fazendo dar um pequeno pulo.
– Você me assustou. - resmungo, levando uma de minhas mãos até o peito, na tentativa de acalmar meus batimentos cardíacos que por segundos se alteraram.
– Desculpe, essa era a minha intenção. - o tal Niall solta uma curta risada enquanto eu reviro os olhos.
– Nossa, como você é engraçado. - imito uma falsa risada e cruzo os braços – Por acaso a sua amiguinha não está com você, certo? - pergunto, tentando olhar por cima de seus ombros a procura de algum sinal da garota ridícula.
– Quem? Brook? Não. Ela está cuidando da Mad. - agora foi sua vez de cruzar os braços, ainda mantendo seu sorriso – Vocês pareceram se dar tão bem. - nessa hora minha vontade foi de pegar a cadeira que estava ao canto do quarto e jogar em sua cabeça.
Ele acha que é engraçado? Pois não é. E por que ele fica rindo de tudo? Até parece um perturbado. Bom, talvez ele seja, porque para viver em um lugar desses, só sendo perturbado mesmo.
Decidindo ignorar a vontade louca de socar ele, até que esse estúpido sorriso sumisse do seu rosto, me colocando de costas e encaro a parede velha e gasta a minha frente, pensando em que lugar do sanatório Connor deve estar.
– Pensando onde seu namoradinho está agora? - a voz debochada de Niall soa atrás de mim.
– Ele não é meu namoradinho, é meu amigo – me viro em sua direção outra vez.
– Não foi muito legal da parte dele deixar você sozinha no escuro. Acho que você deveria arrumar um namorado melhor. - eu já estava mais do que pronta para lhe devolver uma bela resposta, quando reparei em algo. - como você sabe que ele me deixou sozinha? - arqueio uma sobrancelha, confusa e desconfiada.
– Eu vi, estava lá na hora. - ele responde simples, cruzando seus braços outra vez e ainda se mantendo escorado ao batente da porta.
– Você estava lá? - dou alguns passos apressados em sua direção.
– É óbvio que eu estava lá. - e lá vai outra resposta esperta.
– Como você sabe do Connor? - meu semblante transparecia todas as dúvidas que pairavam em minha mente.
– Harry e eu o pegamos. - e pela milésima vez no dia escuto esse maldito nome que faz meu sangue ferver.
– Isso já está perdendo a graça. - começo a andar de um lado para o outro passando a mão no rosto de forma nervosa. Assim vou acabar virando uma pessoa bipolar – Harry Styles está morto. - digo, parando e encarando o loiro que me olha com divertimento.
– De fato ele está morto, todos aqui dentro estão. - nessa hora eu não me contive e soltei um grito agudo de frustração.
– Dá pra vocês pararem com essa merda de pessoas mortas presas em um sanatório abandonado? - Niall endireita sua postura e se desencosta do batente da porta.
– E você acha que tudo isso é o que? Um grande sonho louco projetado pela sua mente? - ele me olha curioso e eu apenas dou os ombros, talvez eu esteja louca – Não. Você não está louca, . - arregalo meus olhos em espanto – O que mais vai ter que acontecer para você perceber que tudo isso é real? Que tudo isso é pra você. - ele dá um passo em minha direção, e em questão de segundos seu rosto vira aquela coisa demoníaca com veias e órbitas vazias.
– E-Eu... - tento falar, mas minha voz não sai.
– Está com medo, ? Pensei que não tivesse medo de nada. - ele continua dando passos em minha direção e eu dando passos cegos para trás, até sentir meu corpo se chocar contra a parede.
Agora ele estava a três passos de mim e quando eu penso que ele vai me atacar, ele solta uma risada com humor e seu rosto volta ao normal.
– Eu não vou te machucar, - solto um curto suspiro aliviado – Pelo menos não eu. - meu corpo logo volta a ficar tenso.
– V-Você sabe onde Connor está? - tento mudar o foco da conversa. Vejo ele acenar com a cabeça um “não”.
– Eu só ajudei Harry a pegar ele, mas não sei pra onde ele o levou. - dizendo isso ele se virou e começou a dar passos em direção a porta – Se eu fosse você, eu iria procurar seu namoradinho o mais rápido possível, tem uma grande chance dele estar morto agora. - sinto meu coração saltar no meu peito e meus olhos se arregalarem. Olho para porta vendo Niall atravessar ela, mas parar logo em seguida, apenas me olhando por cima dos ombros – Sugiro que leve alguma coisa para se defender ou vai acabar igual noite passada. - ele pisca pra mim.
Assim que ele termina sua frase dramática, some feito fumaça em uma grande corrente de ar. Meu coração voltar a bater com uma intensidade tão elevada, que eu tenho medo que ele rasgue meu peito.
Tenho que achar Connor. Desesperada vou indo em direção a porta, mas paro assim que lembro do conselho de Niall para pegar alguma coisa para me defender. Olho em volta procurando alguma coisa útil no quarto. Meus olhos se voltam novamente para cadeira de madeira. Sem pensar muito vou até ela e a pego. De maneira desajeitada começo a tacar a cadeira contra o chão afim de arrancar uma de suas pernas e usar como um bastão improvisado.
Depois de algumas falhas tentativas, vejo a madeira rachar. Apoio meu pé direito sobre a cadeira e agarrado uma de suas pernas, começo a puxar na esperança da madeira rachar mais. Agora depositando toda minha força, faço uma careta e puxo de uma vez só, vendo a madeira se desprender do resto da cadeira. Tomei tanto impulso na hora de puxar a madeira que me desequilibrei e fui parar na velha cama de molas sem colchão. Meus cabelos caíram sobre o meu rosto, tampando minha visão. Dou uma forte soprada tentando tirar alguns fios do meu rosto, quando consigo encaro o teto, depois levanto da cama e saio apressada do quarto a procura de Connor.
Passo correndo pelos corredores afim de encontrar a escada para o terceiro andar, o único que ainda não foi vasculhado por mim e quando a encontro subo rapidamente ela. Não tenho tempo a perder, o sol já está se pondo e a escuridão não é uma boa companheira.
Quando chego ao último andar, quase perco as esperanças. Esse andar é penas um salão aberto. Sem corredores, sem portas, e por tanto, sem cômodos onde Connor possa estar. Suspiro desanimada, mas não posso desistir, já que se aquele loiro pode estiver falando a verdade, mesmo que não seja o tal Harry morto há décadas que tenha pego o meu amigo, outro alguém pode ter feito isso e ele pode estar realmente em perigo. E é assim que tenho uma ideia.
Esse lugar enorme deve ter uma construção afastada, um anexo ou até um porão. Tenho vontade de dar um tapinha em minhas costas por pensar nisso. Corro escada a baixo em busca de qualquer espaço que eu não tenha vasculhado ainda e quando volto ao primeiro andar, não vejo as criaturas flutuantes, então continuo correndo ao avistar um corredor que leva para os fundos do sanatório, e ao atravessá-lo tenho a impressão de que a temperatura cai uns dez graus, não sei se pelo fato das paredes serem de azulejos ou pelo fato desse corredor ficar na parte de trás do sanatório onde não há nenhum resquício de luz, mas por um motivo ou outro, passar por aqui faz todo o meu corpo se arrepiar.
Reparo nas paredes e elas sustentam quadros com fotografias do que parecem ser enfermeiros, mas não consigo dizer ao certo devido aos vários cortes presentes por todo o lugar, mas principalmente nos rostos fotografados. Sinto uma sensação estranha ao olhá-los, então simplesmente tento ignorá-los e me concentro nos cômodos, onde não encontro muita coisa, pois muitos deles estão vazios e nos que não estão encontro macas velhas, cadeiras empilhadas nos cantos e panos pendurados nas janelas.
Abro algumas das portas fechadas, mas muitas vezes apenas espio pelo vidro sobre elas e vejo que cada sala com seus azulejos brancos sujos guarda diferentes tipos de aparelhos hospitalares velhos e enferrujados, o que me assusta de princípio, pois me faz lembrar do relato que li na biblioteca e só de imaginar que onde estou foi palco de crueldades no passado, me faz entrar em pânico e temer mais do que qualquer coisa pela vida de Connor.


Capítulo 10

Passo por todo o corredor frio até que chego na última porta, mas antes de abri-la respiro profundamente, pois Connor só pode estar aqui, não há nenhum outro lugar para servir de esconderijo. Ele tem que estar aqui.
Empurro a porta branca de ferro, que se abre em um rangido, e a imagem que vejo dentro do cômodo escuro apenas iluminado por uma lâmpada que pende no teto, me faz arfar. As mãos de Connor estavam presas ao teto por meio de correntes enormes e seus pés quase pendiam sobre o chão sujo. Sua face representava dor e cansaço por baixo das machas de um líquido escuro que estava presente por todo o seu corpo, mas não conseguia afirmar o que de fato era devido à escuridão do local, mas só o pensamento do que poderia ser me deixava ser ar. Suas roupas estavam sujas do mesmo líquido fazendo com que minha imaginação crie cenários horríveis para explicar sua origem.
Corro ao seu encontro temendo por sua vida, mas antes que pudesse alcançá-lo, tudo ao meu redor fica escuro.
– Connor? - tento chamá-lo, mas não obtenho resposta – Connor? - tento mais uma vez, porém mais alto, e em um piscar de olhos as luzes se ascendem.
Entro em pânico ao ver que Connor não está mais ao centro do cômodo. As correntes que o prendiam estão soltas e balançam de um lado para o outro como se ele tivesse acabado de se desprender dali. Não se encontra em lugar algum dessa sala.
Em questão de segundos a luz volta a se apagar.
– Que droga! - resmungo alto já farta de todos esses acontecimentos estranhos de hoje, e decido ir em busca daquela maldita cordinha que faz a luz ascender, mas antes que possa dar o primeiro passo, sinto uma brisa fria na altura da nuca que faz meu corpo todo se arrepiar.
– Sentiu minha falta? Veio por mim, não foi? - alguém fala perto do meu ouvido, tão perto que consigo sentir sua respiração contra minha pele.
– Você não desiste mesmo, não é? - ouço sua risada sem humor e sinto algo frio deslizando sobre minha pele. A escuridão me impede de saber o que é – Menina estúpida. - vocifera e sinto como que sua voz pudesse me derrubar, mas de quem é essa voz?
– A corajosa não me reconhece? - diz como se tivesse lido meus pensamentos – Vou te dar uma pista então. - dizendo isso a luz se ascender, mas antes que eu possa me virar para ver de quem se trata meus pés são puxados me fazendo cair no chão.
Grunho de dor e aperto meus olhos na tentativa de amenizá-la, mas sou obrigada a abri-los rapidamente quando começo a ser puxada pelos pés, da mesma forma que foi na noite anterior.
– ME SOLTA! - grito ao mesmo tempo que tento me segurar no chão fazendo com que meus dedos deixem uma trilha branca no piso sujo.
Continuo tentando me agarrar a tudo que eu encontro pelo caminho enquanto ainda sou arrastada pelo chão sujo. Quando eu estava prestes a agarrar uma maca ao canto da sala sinto meus tornozelos serem libertados, e sem pensar duas vezes me levanto de forma rápida, mas uma forte tontura me atinge fazendo meu corpo cambalear para o lado, onde sou obrigada a me escorar na velha maca para não voltar para o chão outra vez. Fecho os olhos com força assim que sinto uma dor aguda no canto da minha cabeça, no exato local onde eu havia machucado noite passada.
Algo quente começa a escorrer por toda lateral do meu rosto. Meu machucado mal cicatrizado da noite passada foi aberto outra vez, que ótimo. De forma ríspida passo a palma da mão por cima do machucado, não me importando de ter sujado mais ainda meu rosto de sangue. Eu só quero sair daqui, mas eu ainda preciso achar o Connor.
Solto um curto suspiro e deixo meu olhar cair sobre a maca. Meus olhos se arregalam e eu dou um pequeno pulo para trás assim que vejo alguns instrumentos cirúrgicos ensanguentados sobre a maca, mas o que me deixou com arrepios pelo corpo, foi que em meio a eles estava o casaco de Connor, este também todo sujo de sangue. Agora a minha infeliz teoria estava concretizada, era mesmo sangue o que estava em Connor.
Me viro rapidamente e começo a correr em direção a enorme porta enferrujada mas, pela segunda vez no mesmo dia, outra porta é fechada na minha frente. Já sentindo meus olhos arderem, junto todas as minhas forças restantes e dou um forte chute na porta que faz um estrondo por ela ser de metal, e junto com o estrondo da porta, um poderoso trovão ruge do lado de fora. Encosto minha cabeça na grande porta tentando pensar em uma solução.
– Não sabe o que fazer? - aquela voz volta, e me pergunta de maneira debochada – Eu tenho a solução pra isso. Você pode ficar aqui comigo. - escuto a voz sussurrar agora ao pé do meu ouvido, me fazendo ter calafrios horríveis.
Era uma voz grave, grave e muito rouca. Se fosse em outras circunstâncias e em outro lugar, eu poderia arriscar dizer que é o tipo de voz que uma mulher certamente adoraria ouvir.
– Obrigado pelo elogio, mas vamos com um pouco mais de calma, querida. - dessa vez seu tom de voz é normal e eu me pergunto como ele pode responder coisas que eu nem sequer falei.
Tomando um pouco mais de coragem, finalmente viro meu corpo para ver o dono dessa voz, e para minha surpresa era ele. Eu nunca iria esquecer desse rosto; mas seus olhos, seus olhos não estavam mais pretos. Seus olhos estavam incrivelmente verdes. Na sua pele não havia sinal algum de veias ou olheiras estranhas.
– Quem é você? - ainda espantada, faço a pergunta que no fundo eu já sabia a resposta.
Vejo um sorriso de canto surgir em seus lábios, antes dele dar os últimos passos para que nossos corpos ficassem totalmente colados. Agora eu me encontrava presa entre a grande porta de metal e ele. Sem aviso prévio ele levou suas mãos até a porta de metal, uma em cada lado da minha cabeça. De maneira lenta ele foi aproximando seu rosto do meu e eu sentia como se meu coração fosse rasgar meu peito, e que eu poderia morrer a qualquer momento.
– Você não sabe? Ultimamente você tem falado muito sobre mim. - ele disse a centímetros do meu rosto.
– Eu não te conheço. - falo baixo, com o cenho franzido.
Ele analisou meu rosto por alguns segundos, antes de voltar a sorrir.
– Já faz um bom tempo desde a última vez. - o estranho homem diz me deixando ainda mais confusa e cautelosa sobre ele.
O mesmo levou sua mão direita até meu rosto e passou a ponta do seu dedo indicador no a machucado na lateral da minha cabeça, e foi traçando o mesmo caminho que o sangue fez pelo meu rosto. Ele continuou fazendo seu caminho com o indicador agora descendo para o meu pescoço e meu corpo começou a ficar tenso. Quando seu indicador estava quase chegando na região do meu colo, onde uma fina linha de sangue foi traçada, ele parou seus movimentos e ergueu seu olhar na direção do meu. Em instantes seu rosto mudou, se transformando no monstro da noite passada.
– Sou Harry Styles. - assim que ele me diz seu nome, outro poderoso trovão rasgou o céu, me fazendo encolher entre a porta.
– Styles? Harry Styles? - questionei a mim mesma enquanto deslizava pela parede até o chão encolhendo os joelhos junto ao peito.
Não. Não pode ser. Harry Styles? Harry Styles está morto, não está? Mortos não falam. Meus pensamentos gritavam em minha mente e o som da chuva forte batendo contra a janela me impedia de pensar com clareza, mas de uma coisa eu não tinha dúvida; eu estava ficando maluca.
– Eu só posso estar louca. - sussurro para mim mesma enquanto sinto todo o meu corpo tremer. Outro trovão ruge junto de vários clarões, e me encolho mais. Sinto a presença de Harry ao meu lado, mas me recuso a encará-lo.
– Você é mais estúpida do que eu me lembro. - ele diz calmamente – Estúpida! Estúpida! Estúpida! - sua voz ecoa pelo cômodo mal iluminado, e sinto as lágrimas escorrerem pelas minhas bochechas – E garotas estúpidas merecem morrer. - o encaro de imediato e um sorriso doentio cresce em seu rosto de olhos negros.
Algo dentro de mim grita para que eu fuja e corra o mais rápido e longe possível desse homem assustador. Quando me levanto do chão, as luzes se apagam. Tomo impulso e em questão de segundos e seguindo apenas meus instintos corro para a escuridão total do lado de fora da sala, já que dessa vez consigo abrir a porta de metal.
Ouço risadas agudas e perversas se aproximando. Atravesso o corredor vazio de novo e com ajuda da luz da lua vejo que são aquelas coisas sombrias que me perseguem, elas se aproximam em uma velocidade ameaçadora mas quando me viro prestes a começar a correr na direção oposta, vejo Harry parado no final do corredor e entro em pânico. Em seguida ele desaparece feito fumaça e tenho que piscar meus olhos rapidamente uma e outra vez para tentar entender o que acabou de acontecer, e dentro de segundos, ele volta a aparecer, mas não, não completamente, consigo ver apenas seus olhos negros que me encaram de forma assustadora, mas seu rosto não está formado, tudo em sua volta é apenas escuridão.
Ouço um grito fino e quase ensurdecedor que parece ecoar pelos quatro cantos do sanatório, me obrigando a tapar os ouvidos com ambas as mãos. Aperto meus olhos fechados quando o som aumenta e sinto meus sentidos falharem, quase me levando ao chão, mas sei que se eu me render agora, vai ser meu fim e isso não está certo, pois eu mereço saber o que diabos acontece nesse sanatório. Eu mereço saber quem são essas pessoas de fato. Eu mereço saber toda a verdade, e Connor merece sair daqui ileso.
Connor.
Eu preciso achá-lo, mas eu nem ao menos seu onde ele está, se está vivo. Não pense bobeiras, , é claro que Connor está vivo, você só precisa achar ele, mas antes eu tenho que me manter viva.
Olho em volta e percebo que o corredor agora está silencioso e sem sinal de sua presença. Passo as mãos pelos cabelos de forma nervosa olhando para diversas direções à procura de alguma saída. O corredor agora iluminado da mais medo do que quando está escuro. É uma sensação horrível ficar olhando para esse lugar horroroso pensando que a qualquer instante alguma coisa vai surgir e me atacar. São tantos corredores aqui que até parece um grande labirinto.
Escuto algumas batidas fortes e já desesperada procuro com os olhos de onde vem o som, e percebo que vem de uma das inúmeras portas que tem no corredor. Era a última porta, a que estava mais longe de mim. As batidas se tornaram estrondos. De maneira automática fui dando passos involuntários para trás sem tirar meus olhos da porta que parecia que iria quebrar ao meio, tamanha era a força dos estrondos.
– Eu tenho que sair daqui. - sussurro para mim mesma, e outro estrondo e a madeira racha – E-Eu tenho que sair daqui. - outro passo para trás, e outro estrondo. A porta é partida ao meio e pedaços de madeira atingiram a parede a sua frente.
Sem parar para ver o que iria sair daquela porta me obrigo a correr pelo corredor outra vez. Meu corpo já queimava de dentro para fora, ele estava muito fraco, não aguentava mais correr, mas eu não posso me render e morrer aqui e agora. Por puro instinto dou uma rápida olhada para trás afim de ver se alguma coisa me perseguia, mas assim que eu o fiz, uma das lâmpadas se apagou e isso se repetiu como um efeito sanfona à medida que eu corria. Uma a uma as lâmpadas foram se apagando e outra vez me encontrava no escuro.
Eu preciso de luz, preciso ir para onde tem luz. E foi o que eu fiz, olhei para todos os lados avistando outro corredor que estava acesso e comecei a correr até ele. Algumas risadas começaram a soar ao longe o que me fez olhar para trás outra vez, vi que um pequeno grupo de coisas flutuantes vinham rapidamente ao meu encontro. Corri mais rápido para dentro do corredor, mas acabei trombando com alguma coisa que me levou para o chão.
– Te achei. - Harry disse tombando a cabeça para o lado enquanto sorria. Meus olhos se arregalaram e eu engatinhei para fora do corredor vendo que aquelas coisas já se aproximavam. Me coloco de pé pronta para correr para o outro lado, mas escuto um longo suspiro atrás de mim – Você sabe que eu vou te achar, certo? - Harry diz como se estivesse entediado, mas foda-se, eu voltei a correr outra vez.
Dessa vez eu fui em direção a um pequeno corredor que era a divisa de outros dois. Ele não estava iluminado, apenas suas pontas. Corro e paro no centro dele, analisando em qual direção eu iria. Assim que olho para esquerda eu vejo três pessoas pararem na entrada do corredor, eram três pessoas que usavam o mesmo uniforme das fotografias, dois homens e uma mulher. Seus uniformes brancos estavam totalmente sujos e rasgados, um saco marrom estava em torno de suas cabeças me impossibilitando de ver suas fisionomias. Aperto um pouco mais os olhos e percebo que em uma de suas mãos pingavam sangue. Arregalo os olhos e me viro.
Definitivamente esse não é o lado que eu vou. De maneira cautelosa eu começo a dar pequenos passos para o lado direito do corredor, mas o arrastar de algo me fez parar. Olho para trás vendo as três pessoas ainda paradas na entrada do corredor apenas me observando. Volto meu olhar outra vez para frente vendo uma pequena sombra na ponta do corredor, era a sombra de uma pessoa que vinha caminhando de forma lenta; a pequena sombra foi ganhando tamanho, o que significa que estava se aproximando. O barulho de algo arrastando ficava cada vez mais alto e eu não tinha pra onde ir. A sombra parou por alguns segundos, mas logo voltou a se mexer, e em instantes a figura alta de Harry surgiu, e em uma de suas mãos havia um enorme machado que ele arrastava pelo chão.
Meu coração salta e quase que eu o sento rasgar meu peito. De forma lenta Harry levou o machado até um de seus ombros, deixando o objeto apoiado ali. Ele me lançou uma rápida piscadela antes de dar o primeiro passo para dentro do corredor. Nesse instante o desespero se alastrou pelo meu corpo todo. Em um lado, havia três pessoas entranhas cobertas de sangue, e do outro um possível psicopata louco segurando um machado.
Sem saber o que fazer me pus contra a parede, e para minha sorte senti uma porta atrás de mim. Como é que eu não notei isso antes? E por que esse lugar tem tantas portas e corredores? Mas por hora estou agradecida por isso. De maneira rápida me virei e abro a porta, agradecendo por ela não estar trancada.
Acabo por entrar em uma sala, já procurando uma saída, achei outra porta e fui em direção a ela dando em outra sala com mais uma porta. Sem tempo para pensar no quão estranho era isso passei por essa porta repetindo a ação mais duas vezes. Assim que abri a última porta dei de cara com uma escadaria de madeira. Subo ela em passos rápidos e entro no primeiro corredor que eu vejo, corro em direção a uma enorme porta de duas entradas dando no que parecia ser a antiga cozinha e velha cozinha. Sem pensar muito fui me escondo embaixo do grande balcão que tinha ali, me encosto na parede e agarro meus joelhos.
O que é tudo isso? Por que essas coisas estranhas estão acontecendo logo comigo? E onde está Connor? Eu preciso achar ele, mas é praticamente impossível, esse lugar é gigante e cheios de portas e corredores. Fico encolhida por mais alguns minutos no mais absoluto silêncio, apenas eu e minhas dúvidas.
Será que eles foram embora?
Minha pergunta mental foi respondida assim que eu escuto alguém atravessar a porta da cozinha. Congelo meus movimentos tentando fazer o mínimo de barulho possível. Mais alguns passos e a pessoa parou em algum lugar que eu não conseguia ver.
– Eu sei que você está aqui, querida. - aquela voz. Por alguns segundos, eu chego a ter raiva de como ele sempre consegue me achar. – Não precisar ter medo, eu não vou te machucar... - ele deu mais alguns passos e agora eu conseguia ver suas pernas. Ele continuou andando na minha direção e parou em frente ao balcão, seus pés a centímetros de mim. – ...na verdade eu vou te matar. - dizendo isso eu consigo ouvir um arrastar metálico sobre a pia e inúmeras coisas surgiram em minha cabeça.
Ele deixou sua mão pender ao lado do corpo mostrando a enorme e afiada faca que ele tinha em mãos. Meus olhos se arregalaram e meu corpo voltou a entrar em alerta. Sem saber o que fazer, eu fechei os olhos com força. Então era isso, eu iria morrer agora.
Mesmo com os olhos fechados eu os senti marejarem e algumas lágrimas escaparem. Segundos depois sinto dedos gélidos tocarem meu rosto, limpando algumas de minhas lágrimas.
– Não chore ainda, querida. Eu nem fiz nada. - abro os olhos encontrando Harry agachado na minha frente, me encarando com aqueles profundos olhos verdes. Mesmo assustada eu tratei de tirar sua mão do meu rosto, o que fez ele negar com a cabeça – Vem aqui! - ele me arrasta para fora do balcão, e em espanto me coloco de pé, outra vez sendo encurralada.
– Você não pode me matar. - minha voz sai falha, e eu agarro na borda do balcão.
– Não? - ele me olha confuso, e depois se aproxima, levantando a faca e colocando a ponta dela na minha barriga, passeando por ali.
Agarro com mais força na borda do balcão e uma sensação ruim corre todo o meu corpo, e não era apenas pela faca pressionada sobre a minha barriga. Meu corpo começou a ficar muito fraco e minhas pernas começaram a fraquejar, minha visão foi ficando turva e pontos pretos surgiram por toda parte.
– Tenha bons sonhos, querida. - as últimas coisas que ouvi antes de imergir na escuridão foram as palavras gélidas de Harry.


Capítulo 11

Sinto uma ardência nos meus pulsos e solto um curto gemido de dor antes de abrir os olhos. Aos poucos, vou abrindo eles e tentando ver onde eu estava. Minha visão demora alguns segundos antes de ficar totalmente nítida e percebo que estou na velha sala onde vi Connor. Solto um curto suspiro e tento mexer os braços, mas percebo que eles estão presos às mesmas correntes. Entro em desespero e começo a balançar os braços freneticamente, mas sem obter resultados.
Corro meus olhos pela sala encontrando meu casaco vermelho sobre a velha maca, olho para o meu corpo e percebo que só estou usando minha fina blusa preta de mangas longas. Uma corrente de ar passa pelo meu corpo e minha primeira reação é tentar me encolher, o que não dá pelo fato de estar presa nas correntes.
Analiso outra vez a sala, que é iluminada apenas por uma velha lâmpada que pendia no teto e por uma pequena janela onde se podia ver alguns clarões vindo do lado de fora. Volto meu olhar percebendo que estava sozinha na sala.
Agora só preciso arrumar alguma coisa que possa me ajudar.
Encaro o chão vendo um velho pedaço de arame perto de mim. Isso terá que servir. Com o auxílio do salto da minha bota, tento arrastar o pequeno arame para perto de mim, obtendo sucesso. Quando o arame está perto o suficiente lembro de um pequeno detalhe: como eu vou pegá-lo com as mãos atadas?
– Ótimo! - bufo de irritação – Como é que eu vou sair daqui agora? - resmungo para mim mesma.
– Não vai. - Harry responde calmamente minha pergunta enquanto entra pela porta.
– Você tem que me deixar ir embora ou eu...
– Ou você o quê? - ele me interrompe, vindo em passos rápidos e parando na minha frente. Seu humor é algo peculiar – Você vai ficar calada, entendeu? - seus olhos incrivelmente verdes me olham com irritação.
– Você não manda em mim. - eu sei que na situação que eu me encontro isso não é o mais inteligente a se falar, mas eu não posso ficar aqui simplesmente morrendo de medo e deixar ele fazer comigo, seja lá o que ele imagina.
– EU MANDEI VOCÊ CALAR A PORRA DA BOCA! - ele grita e seu rosto muda outra vez, me fazendo arregalar os olhos. Tá, eu acho que posso ficar calada – Ótimo. - ele diz, fazendo com que seu rosto volte ao normal.
Ele se vira de costas pra mim e vai caminhando em direção a velha maca.
– Por que você simplesmente não pode me deixar ir? - sinto a raiva me invadir de novo, e minha promessa de ficar calada dura menos que meio segundo.
Ele se vira pra mim, me olhando sério.
– Você é muito chata. - ele rosna e eu abro a boca em indignação.
– Eu não sou chata, e onde está o Connor? - escuto ele bufar irritado.
– Pare de falar um pouco.
– Eu não falo demais.
– Olha, ainda falando. - ele ironiza se virando em minha direção.
– Não vou ficar quieta até você dizer onde o Connor está. - digo firme.
– Oh, isso foi uma chantagem? - ele faz falsa cara de surpreso, mas ao invés de respondê-lo, apenas ergo uma sobrancelha o desafiando, e ele se aproxima de mim em passos calmos – Parece que você não está em posição de exigir qualquer coisa. - ele sorri de lado e empurra meu corpo para trás, fazendo com que meus pulsos doam ainda mais, e gemo de dor. Sinto que a qualquer minuto eles vão começar a sangrar.
– I-Idiota. - falo com alguma dificuldade devido a dor.
– O que você disse? - os olhos de Harry começam a escurecer.
– Nada. - engulo em seco.
– Por favor, repita o que acabou de dizer. - ele ironiza outra vez, mas nego com a cabeça – Onde foi parar toda a sua coragem, querida ? - ele diz de forma condescendente e até inclina a cabeça um pouco para o lado, e só de olhar essa imagem tenho vontade de chutá-lo.
– Você não teria coragem. - ele diz sorrindo como se tivesse lido meus pensamentos – Ou melhor, você não tem coragem. - ele me desafia chegando mais perto, quase colando seu corpo ao meu.
– Você não sabe do que eu sou capaz. - respondo firme enquanto olho diretamente em seus olhos verdes que estão cada vez mais pretos.
– Faça. - ele volta a desafiar, e sinto a raiva me consumir – Faça, ! - ele dá mais um passo para perto de mim, colando nossos corpos – Você não quer me chutar? Então faça isso. - ele fala com um tom de voz sombrio, e seus olhos se tornam duas órbitas negras – Você não tem coragem, não é? - ele debocha e se afasta indo em direção à maca.
Meu casaco é jogado no chão e ele começa à mexer em algo que não consigo ver, mas soa como metal. Tento enxergar sobre seus ombros me colocando nas pontas dos pés, mas ele é muito alto.
Eu tenho que pensar em um jeito de escapar daqui, senão ele vai me matar.
– Eu tenho que concordar com você em uma coisa. - ele se vira com uma faca em mãos, e dou um passo para trás. Harry passa um pano por toda a faca como se estivesse lustrando-a – Eu vou te matar. - ele continua sem me olhar. Toda sua atenção está voltada para o objeto prata reluzente em suas mãos – Só não decidi como... - ele para suas ações e olha diretamente para mim – ...ainda. - tento dar mais um passo para trás, mas as correntes me impedem e acabo sendo projetada para frente e todo meu cabelo cai sobre o meu rosto.
Tento soprar os fios dos meus olhos para que possa enxergar, mas qualquer tentativa é em vão. Então acabo desistindo e suspiro cansada. Meu corpo está todo dolorido. Quase não sinto minhas pernas por ter corrido tanto por esses corredores. Minha cabeça dói devido ao impacto com o chão. Minha garganta está seca, e agora parece que meus braços vão se desmembrar do meu corpo.
Salto quando sinto algo frio sobre meu rosto e quando vejo que é uma faca tento me afastar, mas ele segura firmemente meu rosto no lugar. Harry usa a ponta afiada do objeto para retirar as mechas de meu cabelo do meu rosto e as coloca atrás de minha orelha.
– Deve ser frustrante saber que seu namoradinho corre perigo e você não pode fazer nada para ajudá-lo porque está aqui presa. - ele fala enquanto passa a faca vagarosamente sobre meu pescoço.
– O que você fez com ele? Onde ele está? - tento falar o mais calma possível. Tudo o que eu não preciso agora é que esse maluco com uma faca em mãos, fique irritado – Ele não é meu namorado. - completo.
– Você realmente quer saber o que eu fiz com ele? - Harry pergunta, e sem pensar duas vezes eu faço que sim com a cabeça e ele sorri antes de acariciar minha bochecha.
– O que você está fazendo, seu maluco? - tento me afastar, mas ele segura minha cintura.
– Shh! - ele coloca sua mão sobre minha boca.
– Me solta. - falo abafada pela sua mão.
– Fique quieta. - ele fala sério, e eu nego com a cabeça, sem conseguir falar.
Ele dá mais um passo em minha direção ficando à milímetros do meu rosto e logo me arrependo de ter falado qualquer coisa, pois em seguida, Harry segura meu pescoço com as mãos e o aperta tanto que minha respiração falha, tento clamar por ajuda quando sinto meus pés saírem do chão. Sou traída por meus pulmões que lutam por ar, antes de perder a consciência novamente.

***


Minha cabeça dói, meu pescoço dói, meu corpo inteiro dói. É como se um caminhão tivesse passado por cima de mim, um cansaço sem tamanho corria pelo meu corpo todo e não era apenas um cansaço físico, mas também era um cansaço mental. Eu me sentia mentalmente cansada, cansada de uma forma que eu nunca me senti antes.
Ainda mantendo meus olhos fechados eu consegui me lembrar, me lembrar da sensação de ter meu pescoço apertado até que eu desmaiasse. Da sensação de tentar a todo custo puxar o ar até meus pulmões de forma desesperada. Da sensação de ter minha consciência arrancada de mim aos poucos. Da sensação de ter as mãos dele em torno de mim, me causando tudo isso.
Era sempre ele. Ele era o culpado de tudo isso, era tudo culpa dele. Por que Harry simplesmente não podia me deixar ir embora? Qual o problema desse maluco?
Depois de algum tempo, meu corpo finalmente resolve obedecer os meus comandos. De uma forma preguiçosa levo minhas mãos até o rosto e solto um longo suspiro frustrado... Espera, minhas mãos estão soltas? Abro os olhos no mesmo instante e percebo que estou deitada no gasto e sujo chão da sala de cirurgia.
Então ele resolveu me soltar? Não posso perder essa oportunidade. Acabo por me levantar do chão pronta para ir embora desse lugar quando uma figura ao canto da sala me chama atenção.
– Connor? - pergunto surpresa.
Sim, era Connor. Agora ele estava preso outra vez aquelas malditas correntes. Deixo um pequeno sorriso de alívio moldar meu rosto, mas foi algo temporário já que ao notar seu estado um aperto se alastrou em meu peito. Ele estava machucado, mais machucado do que antes. Em seu rosto havia alguns cortes e sangue seco por todo lado, suas roupas estavam completamente rasgadas dando vista a algumas feridas que pareciam profundas, sua testa brilhava de puro suor escorrendo pelo seu rosto desacordado, e sua respiração era descompensada, mostrando que lutava para respirar.
– Meu Deus, Connor! - corro em sua direção e tomo seu rosto entre as minhas mãos – Connor! Connor! - chamo seu nome enquanto tento a todo custo o acordar. A culpa era minha, exclusivamente minha, eu nunca deveria ter voltado aqui com ele – Por favor, Connor. Acorde! - passo minhas mãos pelo seu rosto tentando remover um pouco do suor e do sangue seco.
Para minha felicidade ele começou a resmungar.
– E-? - ele pergunta de maneira falha, ainda mantendo seus olhos fechados.
– Sim, sou eu. - falo exasperada – Me desculpa, isso tudo é culpa minha. Eu nunca deveria ter te envolvido nessa situação.
– Não... Não é culpa sua. Eu não podia deixar nada acontecer com você dessa vez. - Com um pouco de esforço ele foi abrindo os olhos e tentando levantar a cabeça para me olhar – Não é culpa sua. - sua voz saiu um pouco mais audível dessa vez.
– Eu vou nos tirar daqui. Eu prometo. - tento passar um pouco de confiança para Connor que assente de forma lenta.
– Que cena mais linda. - escuto a voz de Harry e me viro o vendo encostado na parede de braços cruzados nos encarando com divertimento – Suponho que eu seja o vilão da história. - diz, se desencostando da parede e vindo em passos calmos em nossa direção.
– Fique longe dele. - me coloco na frente de Connor, tentando fazer uma barreira – Eu estou falando sério, fique longe dele. - repito quando percebo que ele continua se aproximando.
– Quando você vai parar de ser tão estúpida? - ele tomba a cabeça para o lado e me analisa com curiosidade.
Sinto uma raiva sem tamanho me consumir.
– Quem você pensa que é? - falo firme dando passos em sua direção e parando a sua frente – Você não pode fazer isso com as pessoas. - fecho minhas mãos em punhos.
– Eu acho que posso sim. - dizendo isso ele agarra minha cintura e me tira do seu caminho indo até Connor.
– O que você vai fazer com ele? - me desespero assim que vejo ele soltar um dos braços de Connor – Não! - corro em sua direção e tento o impedir, agarrando seu braço.
– Seja uma boa garota ou eu vou ter que te prender outra vez, querida. - ele apenas me lança um olhar em alerta, mas não deixo isso me intimidar, continuo tentando o impedir – Eu avisei. - solta um suspiro e agarra minhas pernas me jogando por cima dos seus ombros, me fazendo gritar em espanto.
Me debato de todas as maneiras tentando me soltar, o que é falho. Fico assim até sentir ele me sentar em uma velha cadeira de madeira, amarrando meus braços a ela
– Você precisa aprender a obedecer às pessoas, . - diz amarrando firmemente meus braços.
– Eu não vou te obedecer. - falo entre os dentes e tento me soltar outra vez, mas logo paro assim que sinto as cordas machucarem meus pulsos – Me solta ou eu vou gritar. - ameaço encarando Harry que se levanta.
Começo a gritar, mas isso não parece surgir efeito sobre Harry. Ele apenas caminha até o meu casaco vermelho jogado no chão e arranca uma de suas mangas, e volta em minha direção. Ele passa o pedaço de pano rasgado ao redor da minha cabeça, tampando minha boca.
– Bem melhor. - ele dá um falso sorriso e volta a se virar de novo e vai até Connor – Se você se comportar direito e só assistir o que eu vou fazer com o seu namoradinho, eu te solto. - ele diz ainda de costas pra mim.
Ele solta o outro braço de Connor e passa um de seus braços sobre o seu ombro, dessa maneira ele vai arrastando Connor até a velha maca, derrubando tudo que tinha ali e depois coloca Connor sobre ela. Harry agacha e pega um pequeno bisturi e depois leva até Connor, não sem antes me lançar um sorriso.
Ele rapidamente amarra os braços e pernas de Connor com uma corda antes de pegar o bisturi novamente e começar a furá-lo com toda a brutalidade. Tento gritar ao ver essa cena perturbadora, mas o pano que cobre minha boca abafa quase todo o som. Sinto meus olhos arderem enquanto Connor grunhe de dor.
Eu não posso acreditar que isso está realmente acontecendo. Connor, o garoto gentil, simpático e doce que conheci está sendo brutalmente torturado em frente aos meus olhos e não tem nada que eu possa fazer a não ser me debater sobre essa cadeira velha e nojenta na qual estou.
Espera! Velha?
Começo a me debater freneticamente não ligando se com cada movimento eu acabo ficando mais machucada, e com um último impulso o encosto da cadeira se parte e meus braços são libertados. Solto meus pés e tiro o pano da minha boca. E com um súbito ataque de coragem pego em uma das partes quebradas da cadeira e corro em direção a Harry, o acertando bem na cabeça. Ele se vira de imediato e posso ver as veias pretas crescendo sob seus olhos. Dou um passo para trás pronta para atacá-lo de novo, mas em questão de segundos, ele segura meus pulsos e me empurra para trás com uma velocidade sobrenatural e acabo indo de encontro com uma parede. Harry me encara profundamente e depois sinto uma dor aguda no centro da minha barriga.
A visão que tenho quando abaixo meu olhar é desesperadora, e sinto minhas pernas perderem a força. Harry tinha me esfaqueado e mantinha a faca lá como forma de tortura, tornando impossível cada movimento meu, e principalmente, tornando impossível para que eu respirasse sem dificuldades.
Sinto a faca se movendo para dentro de mim e grito com todas as minhas forças.
– Nos encontraremos outra vez no inferno, querida. - essas são as últimas palavras que escuto de Harry, antes de ser brutalmente puxada para um lugar escuro onde eu perderia minha consciência aos poucos, e consequentemente a minha alma.
Agora tudo estava voltando outra vez para mim.


Capítulo 12

POV ALANA

– Nos conte de uma vez o que aconteceu com ela, Alana. - pela terceira vez Margot pede impaciente para que eu explique o que aconteceu.
Eu sabia, no segundo que ela veio com aquela ideia maluca de "salvar" aquela coisa, que não era uma boa ideia voltar no Waverly Hills, pelo menos não agora, isso apenas apressou as coisas. Mas só o fato de escutar ela dizer que queria voltar naquele lugar depois de tudo o que passamos, foi o suficiente pra fazer meu sangue ferver. Claro, sendo a Alana que sou, me arrependi algumas horas depois, quando de 5 em 5 muitos eu encarava o relógio esperando ela voltar, isso não estava no plano.
Eu vi as horas passando e nada da voltar. Eu ainda tinha a esperança de ver ela entrar pela porta do nosso apartamento dizendo que eu estava certa de que isso tudo era uma grande idiotice, era o que ela precisa acreditar. Mas as horas continuaram passando, o sol já estava se pondo e ela não voltava. Então a aflição me invadiu e eu fui atrás dela à encontrando em um estado deplorável boiando no seu próprio sangue. E como se isso não fosse o bastante eu ainda vi Connor a poucos metros dela em uma maca velha, totalmente machucado.
– Escute, minha jovem! - Margaret tenta capitar minha atenção mas ainda continuo com a mesma expressão vazia – Eu sei que deve ser difícil, mas você precisa nos contar o que aconteceu com ela. - as duas senhoras me encaram de forma piedosa, me fazendo soltar um longo suspiro antes de finalmente contar o que aconteceu.
– Depois daquela noite, achou alguns papéis sobre o Harry e resolveu voltar para "salvá-lo". - faço aspas com os dedos, e bufo ao lembrar da sua teimosia – Eu tentei colocar em sua cabeça que isso era idiotice, mas ela tinha que ser teimosa e voltar lá. - fecho as mãos em punhos e me virei encarando deitada sobre a branca cama de hospital.
Vou caminhando em sua direção e paro ao lado de sua cama. Ela estava desacordada desde que chegou aqui. Respirava com a ajuda de aparelhos. Fios e mais fios estavam ao seu redor. No seu dedo havia um pequeno oxímetro marcando seus fracos batimentos cardíacos. Uma agulha estava enterrada em seu braço esquerdo levando o que eu julgava ser remédio ou algum suro, na verdade não sei.
– Você os trouxe sozinha? - escuto a voz de Margaret perguntar.
– Não exatamente. Gemma me ajudou até onde podia. - respondo rápido querendo acabar com o assunto logo, e dispensar essas velhas daqui.
– Gemma? Essa garota continua a mesma de sempre. - Margaret deu mais alguns passos se pondo ao meu lado.
– Não quero falar sobre isso agora. - falo, pegando na mão de – Por que você tem que ser tão teimosa? - pergunto mesmo que ela não possa me responder.
– Tudo bem. - sinto a mão de Margot repousar no meu ombro.
A porta do quarto se abrindo nos interrompeu. Era o médico da .
– Alana Evans? - o médico pergunta enquanto olha para uma planilha em suas mãos.
– Sou eu, Dr. - respondo, indo em sua direção.
– A srta. é a responsável pela paciente ? - apenas assinto – E os pais dela? Já os avisou? - ele me olha seriamente.
– Ainda não, Dr., primeiro eu gostaria de saber a gravidade da situação dela. - respondo e solto um suspiro. Tudo que eu não precisava agora era ouvir aqueles dois no meu ouvido, dizendo que não era bem isso que eles estavam planejando. Sim, não era realmente o que eles estavam planejando, mas ainda sim sinto que isso pode dar certo para mim.
– Então eu sugiro que ligue o mais breve possível para eles. - essas palavras foram o bastante para fazer estremecer.
– A situação dela é tão grave assim? - pergunto.
– Infelizmente sim. - ele me dá um olhar triste – Deixe-me tentar te explicar de uma forma fácil. - o médico suspira pesadamente antes de continuar – Em nosso corpo existe uma artéria chamada Aorta, a artéria principal. Ela é ligada diretamente ao coração e ao pulmão esquerdo, chegando três dedos acima do umbigo e se dividindo pelo corpo todo. Ela é responsável por enviar sangue, oxigênio e nutrientes para o corpo humano, e uma vez que ela é rompida, as consequências são graves. - ele explica.
– O que você quer dizer com isso, Dr.? - a essa altura a tensão me dominava por completo.
– Infelizmente, teve essa artéria rompida. - ele colocou uma mão sobre meu ombro – Uma artéria é como uma mangueira, quando é for rompida nós cortamos o lugar do furo, pegamos um pedaço de outra artéria e "emendamos". - fez aspas com os dedos – Fazemos esse processo para garantir que o sangue e o oxigênio continuem circulando normalmente, sem haver desvios ou vazamentos. E nós já fizemos isso em . - ele suspira outra vez. – Ela perdeu muito sangue, essa artéria foi atingida e ficou algum tempo sem receber oxigênio no cérebro, e quando isso acontece por mais de cinco minutos os danos são irreversíveis. Por isso por mais que acorde do coma, ela terá sequelas para o resto de sua vida. - ele finaliza e sinto um pesar enorme sobre de mim.
– Que tipo de sequelas ela pode ter?
– Não há como saber especificamente, mas em casos como o dela pode-se perder a fala, a visão, os movimentos, e em casos extremos entrar em estado vegetativo.
Como ela pode ter esse tipo de sequelas? Logo ela, isso é impossível, a menos que o que fizeram com ela no passado tenha sido algo realmente poderoso.
– Não tem mais nada que pode ser feito? - pergunto para o médico, que nega.
– Eu sinto muito, srta. Evans, mas na nossa oxigenação cerebral há um grande consumo de oxigênio e glicose pela parte do encéfalo, o que exige grande fluxo sanguíneo para o abastecimento, e quando esse fluxo é interrompido por um tempo maior que cinco minutos os danos podem se tornar irreversíveis, já que as células não se regeneram nesse caso. - ele volta a usar todo seus termos médicos que começavam a me irritar.
Depois de toda essa explicação ficamos em absoluto silêncio no quarto, até o médico pedir licença e se retirar.
– O que vamos fazer? Isso não faz sentido, não quando se trata da . - Margaret resmunga quando o médico fecha a porta.
– Eu não sei. - respondo e solto um suspiro.
Como eu poderia imaginar que tudo isso acabaria assim? Eu deveria ter amarrado ela dentro daquele apartamento já que era meio óbvio que ela faria algo estúpido. Ela sempre faz isso, sempre nos põem nesse tipo de situação.
– Nós vamos pensar em algo, está bem?! - a voz de Margot soa como um eco distante em minha cabeça.
– Margot, ela precisa de um tempo. Vamos. - ouço uma movimentação no quarto, mas logo os bips das máquinas são tudo o que se pode ouvir.
Caminho de volta até a cama de e me sento ao seu lado.
– Você sempre ferrando com tudo, não é?! É melhor que você acorde para que possamos continuar com as coisas, você sabe, eu preciso fazer isso por ele. - falo com minha amiga desacordada na esperança de que ela abra os olhos para que possamos voltar para o nosso apartamento.

***

POV ELLINORA

Ouço vozes que aparentam estar bem longe de mim, uma delas parece ser a de Lana, mas não tenho certeza. Meus olhos estão muito pesados para conseguir abri-los agora. Tenho a sensação de ter dormido por uma eternidade, mas mesmo assim me sinto muito cansada. Meu corpo está tão pesado que não consigo nem me mexer.
– A situação dela é tão grave assim? - ouço Lana dizer ao longe como se fosse um eco.
Dela? De quem ela está falando?
– Infelizmente sim. - alguém diz e pela voz é um homem.
Quero perguntar de quem eles estão falando e o que é grave, mas minha voz não sai, meus olhos não abrem, não consigo mover um músculo sequer do meu corpo.
O que está acontecendo comigo?
Sinto um lado do colchão se abaixar e me assusto. Quero muito abrir meus olhos para ver de quem se trata ou para pelo menos saber onde eu estou e por que estou deitada sobre um colchão, mas meu corpo parece não responder.
– Você sempre ferrando com tudo, não é?! É melhor que você acorde para que possamos continuar com as coisas, você sabe, eu preciso fazer isso por ele. - reconheço a voz sendo de Lana, mas sobre o que ela está falando? E quem é "ele" pra quem ela precisa fazer algo?
Do que ela está falando? Eu estou bem, certo? Claro que sim, estou apenas tendo um pesadelo ruim e daqui a pouco vou acordar. Eu sei que sim.
– Como ele está? - escuto outra vez a voz de Lana, e já não sinto mais seu peso sobre o colchão que estou deitada.
– O sr. Lee está bem, estranhamente todos os seus machucados já estão melhores. - escuto a voz daquele mesmo homem de antes.
– Ele vai ter que ficar em observação por alguns dias, mas Connor é um garoto forte. Logo poderá ir para casa. - o mesmo homem diz de novo.
Connor? Machucados? O que aconteceu com ele?
Flashes invadem minha mente e as cenas de Harry apunhalando Connor com aquele bisturi respondem minha pergunta. Quero mais que tudo ir até ele e ver como ele está, mas está acontecendo algo muito errado comigo, eu não consigo me mover, mas tenho certeza que vou acordar daqui a pouco e tudo voltará ao normal. Quem sabe eu consiga me levantar de onde estou se eu tentar me mover com mais vontade.
Tento a todo custo abrir os olhos ou mexer qualquer músculo do meu corpo que seja, mas paro assim que escuto vários bips e uma movimentação ao meu redor, e por isso penso estar em um hospital, mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, sinto minha cabeça pesar me fazendo dormir outra vez.

***

Uma suave brisa percorre meu corpo, me fazendo encolher sobre a superfície macia. Espera, eu posso me mexer?
Em questão de segundos abro meus olhos e me coloco sentada sobre a superfície macia. Ergo minhas mãos em frente ao meu rosto e começo a mexer elas para ter a certeza que agora eu tenho domínio total do meu corpo.
– Eu consigo me mexer. - sorrio ainda encarando minha mãos – Eu sabia que era apenas um sonho. - respiro aliviada.
– Não, querida. Isso aqui é um sonho. - escuto aquela familiar voz e começo a olhar em todas as direções em busca do seu dono.
Primeiro analiso o ambiente que eu estou, um hospital. Em seguida procuro e logo acho o dono da voz, encostado na parede na frente da cama em que eu estava.
– Você está dizendo que isso é um sonho? - o encaro confusa enquanto colocava os pés para fora da cama.
– Sim, mas eu não sou uma ilusão da sua cabeça. Eu estou aqui porque quero. - ele responde indiferente com um olhar tedioso.
Me levanto de vez da cama e o vejo caminhar em minha direção. – Então você está tentando me dizer que entrou na minha cabeça? - pergunto debochadamente, mas isso não o afeta.
– Exatamente. Essa foi a única forma de falar com você, já que está em coma. - assim que essas palavras sem emoções saem de sua boca, franzo meu cenho em confusão. Ele faz um gesto com a cabeça apontando para alguma coisa atrás de mim e assim que me viro para ver o que era meus olhos se arregalam.
Era a minha imagem que eu via deitada sobre a cama de hospital, cercadas de fios e aparelhos, mostrando que o meu estado não era bom e foi que ai vários flashes da noite passada outra vez.
– Agora você acredita, querida? - ele pergunta, logo atrás de mim – Vê agora como tudo isso sempre foi real. - fecho os olhos com força e deixo que uma enorme onda de ódio surgir em mim.
Então era tudo culpa dele. Culpa dele eu estar assim. Culpa dele Connor ter se machucado. Culpa dele a minha vida estar essa bagunça.
– Isso é tudo culpa sua. - me viro em sua direção e esmurro seu tronco, e seus olhos se enchem de raiva e sem muita dificuldade ele agarrou meus pulsos me prendendo.
– Não pense que, só porquê isso aqui é um sonho, eu não posso te machucar. - ele falou entre os dentes – Eu não te matei porque temos planos para você. - ele finaliza e me solta de forma rude, deixando marcas vermelhas em meus pulsos.
Começo a esfregar eles para tentar amenizar a ardência, era tão real essa dor.
– Não me matou, mas me esfaqueou – rosno, devolvendo o mesmo olhar de ódio – Muito obrigada. - falo sarcástica, indo em direção a porta.
Saio do quarto batendo a porta com força, e depois começo a vagar pelos corredores em busca de alguém que pudesse me ajudar, mas depois de andar quase pelo hospital inteiro, eu me encontrava parada no meio da recepção sem um sinal se quer de uma miséria alma.
– Nós estamos sozinhos aqui, sua estúpida. - para minha infelicidade, Harry aparece na entrada da recepção.
– Por que você não vai assombrar outra pessoa e me deixa em paz?! - pergunto cansada e já irritada com toda essa merda.
Seu semblante se tornou duro.
– Chata. Você é chata demais. - seu olhar era de pura irritação.
– Eu não tenho medo de você - falo firme, apenas para que ele fique ciente. Eu simplesmente não posso deixar que ele me intimide sempre que quiser ou controle minhas ações.
Ao contrário do que eu pensei, ele sorri de lado para mim, o que me confunde. Em seguida ele desce seu olhar por mim e para em algum ponto específico. Acabo por acompanhar seu olhar que parou sobre minha barriga e assim que analiso o local vejo uma enorme macha de sangue sujar a camisola branca que eu usava, seguida daquela familiar dor aguda. Era a mesma dor, parecia que a faca ainda estava ali me furando novamente, o que me fez levar a mão até o local e curvar meu corpo em dor.
– V-Você não pode fazer isso comigo. - minha voz sai falha.
– Eu posso fazer o que eu quiser com você. - Harry rebate – Você deveria ter pensado bem antes de voltar para mim. - ele vem outra vez em minha direção se inclinando e me obrigando a encarar aquelas duas orbitas negras – Agora não tem mais volta.

Capítulo 13

POV ELLINORABR>
– Você precisa acordar logo, . - Lana pega minha mão.
Gostaria que ela soubesse que eu posso ouvi-la e senti-la, e gostaria de dizer que senti muito sua falta. Ela não vem me visitar a alguns dias, pelo menos é o que acho, já que não tenho noção das horas ou dos dias que passam.
– Muitas coisas estão acontecendo enquanto você está aqui, por isso trate de acordar logo. - Lana diz.
Isso não pode estar acontecendo de novo. Não agora que Lana veio me visitar. Eu não posso perder mais uma de suas visitas. Eu não posso apagar agora.
– Ela está bem, eu acho. Os médicos disseram que... - e isso é tudo o que escuto antes de me desligar do mundo.

***

A claridade me incomoda e quando abro os olhos, demoro alguns segundos para me acostumar com ela. Me sento na cama e olho em volta para encontrar tudo exatamente igual aos outros dias. Bufo irritada, já farta de viver sempre a mesma coisa.
Saio da cama e do quarto, e meus pés descalços caminham pelo chão frio do corredor enquanto olho para todos os cantos com a esperança de encontrar alguém, mas tudo o que vejo são salas e mais salas pintadas de azul claro, como todos os dias.
Atravesso uma porta dupla e entro em uma divisão enorme, com um olhar mais atento vejo que se trata do refeitório. Avisto a máquina de chocolates do outro lado da divisão e meus olhos brilham. Passo apressada pelas mesas cor chumbo quando uma vontade enorme de devorar todos os sabores me atinge, mas não sinto a menor fome, afinal isso aqui é um sonho.
Aperto alguns números e logo uma barra de chocolate desliza para fora da máquina, e acho engraçado o fato de não precisar usar dinheiro nela. Antes mesmo que eu tenha a chance de pegar o doce, sou empurrada para o lado e alguém pega meu chocolate.
– Ei! – protesto, mas me calo quando vejo que se trata de Harry.
Me questiono sem conseguir acreditar que é realmente ele que está parado bem na minha frente, enquanto come meu chocolate.
– Isso é meu. - dou um passo em sua direção, mas logo recuo quando ele me encara.
– Ah, você. - ele diz sem emoção e se vira para seguir outra direção.
– Como assim "ah, você"? - faço aspas mas ele não pode ver – Devolve meu chocolate, e sai da minha cabeça. - ordeno enquanto aperto o passo para alcançá-lo, e quando faço me ponho na sua frente – Você não é um demônio ou algo assim? - ele levanta uma sobrancelha – Não sabia que você podia comer esse tipo de coisa. - cruzo os braços esperando uma resposta.
– Tem muitas coisas que você não sabe sobre mim. - ele diz as primeiras palavras em séculos e permaneço parada, enquanto ele continua caminhando.
– Então é isso? Você resolve aparecer pela primeira vez depois de quase me matar de novo e agora vai agir como se nada tivesse acontecido? - tento controlar minha voz para não gritar, eu não posso correr o risco dele desaparecer e me deixar sem respostas, mas ele simplesmente me tira do sério.
Harry respira fundo com os olhos fechados e me tranquilizo ao ver que não o deixei irritado, mas quando ele volta a abrir os olhos, vejo que falei cedo demais. Seus olhos estão negros e as veias embaixo deles parecem estar ao ponto de estourar. Dou um passo para trás quando ele me encara com raiva.
– Você se acha muito espertinha, não é? - ele dá mais um passo em minha direção. Cada passo dado por ele é um recuado por mim.
– O que quer dizer? - pergunto, mas o que obtenho em resposta me pega desprevenida.
Harry pega em uma mesa e a arremessa com força contra a parede atrás de mim fazendo com que eu me encolha.
– Se você continuar me irritando, eu vou te matar agora mesmo. - ele diz antes de desaparecer.
– IDIOTA! - grito quando não o vejo mais – Vai fugir outra vez? Você não cansa disso? - resmungo mesmo que ele não possa me ouvir.
Bufo irritada e me preparo para volta ao meu quarto, mas sou agarrada por trás e meu pescoço é preso, me impedindo de fazer qualquer movimento.
– ME LARGA! - grito em desespero, mas perco a voz quando sinto algo atravessar meu peito de baixo para cima. Minha cabeça tomba para trás quando sinto que estou perdendo a consciência.
– Eu avisei, garota estúpida... Você não deveria ter voltado pra minha vida. - ouço Harry sussurrar antes de sentir minha vida sendo tirada de mim.

***

POV ALANA


– Os médicos disseram que... - sou interrompida quando escuto um bip alto e contínuo – O que foi isso? O que foi esse barulho? - pergunto assustada para Margaret que me olha de olhos arregalados. Me aproximo da máquina que mostra os batimentos cardíacos de , mas tudo o que vejo é uma linha fina.
– O que está acontecendo, Margaret? - pergunto em meio ao desespero - ? - tento mexer seu corpo na tentativa de obter alguma resposta, mas ela continua imóvel, o que me deixa mais desesperada do que antes – Não. Isso não pode estar acontecendo. - tento apertar alguns botões da máquina que emite o bip, mas sou empurrada.
Analiso o quarto a minha volta e tudo parece acontecer em câmera lenta. Várias pessoas estão ao redor da cama de , enquanto um médico pressiona um desfibrilador em seu peito. Ele grita alguma coisa para o resto das pessoas, mas a única coisa que consigo ouvir é Margot chamando meu nome repetidas vezes. Sinto meus braços serem puxados e antes que eu pudesse protestar, a porta do quarto é fechada na minha cara, o que me faz acordar do choque.
– ME DEIXA ENTRAR! ME DEIXA ENTRAR! - grito dando socos na porta. Eu não posso deixar ela morrer ou tudo estará acabado.
– Ei, ei, ei, mocinha, você não pode gritar. Isso aqui é um hospital. - alguma enfermeira tenta segurar meus braços me impedindo de quebrar a porta no meio, e quando me solto dela outros dois enfermeiros enormes chegam e conseguem me sentar em uma das cadeiras de espera no corredor.
– Pode deixar que eu assumo daqui. - Margot diz para os enfermeiros que somem pelo corredor.
– Ela não pode morrer. - falo baixo, ainda não acreditando nisso. Eu realmente não sei como me sentir, não era para isso acontecer dessa forma.
– Tudo vai ficar bem, você vai ver. - Margot tenta me acalmar, mas como ela pode dizer que tudo vai ficar bem se eu vi com meus próprios olhos os batimentos cardíacos da minha melhor amiga chegarem ao zero?
– Não vai ficar tudo bem, está tudo acabo. - respondo rudemente – Você viu, ela se foi, Margot. Ela se foi. - minha voz sai em um sussurro.
Antes que Margot pudesse dizer mais alguma coisa, a porta do quarto de é aberta, revelando o Dr. Smith e alguns enfermeiros que logo se dividem entre os corredores do hospital. Tento olhar por cima de seu ombro mantendo um fio de esperança, mas ele fecha a porta me impedindo de saber ou não se está bem.
– Fale uma vez. - Margot pede e o Dr. Smith dá um longo suspiro.
– Eu sinto muito. - sua expressão é um misto de tristeza e pena – Paciente , horário da morte, 14h30. - quando essas palavras saem de sua boca eu sinto um enorme peso me atingir em cheio.
Minha mente começa a dar voltas, e sinto todo meu corpo relaxar em um estado nenhum pouco bom. Por um segundo meu mundo parou e eu não sabia o que fazer.
– Nós fizemos tudo que podíamos, Alana. E sinto muito. - ergo minha cabeça vendo o olhar ainda triste do médico.
– Posso vê-la?
– Infelizmente agora não. Ela será levada até o necrotério, houveram muitas hemorragias internas, precisamos lidar com isso antes que você possa vê-la. - apenas assinto.

***

Algum tempo já havia se passado e eu continuava no hospital para cuidar de toda papelada, e esperar a liberação do corpo de . Eu ainda não falei com seus pais sobre isso, eles iriam surtar ou até mesmo me matar, não estou com cabeça para isso agora. Eu mal posso acreditar que ela se foi de verdade, isso não estava nos planos por agora, ela não deveria morrer aqui. Não faço a menor ideia do que posso fazer e, pela primeira vez na minha vida, eu não tenho um plano sobre isso.
– Lana? - escuto uma voz chamando por mim, e acabo saindo de dentro dos meus próprios pensamentos. Ergo meu olhar para cima vendo Connor parado a minha frente.
– Oi. - dou uma resposta curta – Você parece bem. - comento, enquanto olho para ele que agora não tinha vestígios nenhum de machucados.
– Eu estou bem. - ele responde, e depois se senta ao meu lado soltando um longo suspiro, e só agora noto que seus olhos estão extremamente vermelhos, e como eu o conheço bem, sei que estava chorando – No final não conseguimos. Ela passou por tudo aquilo. foi a que mais sofreu e mesmo assim esse foi o fim dela. - Connor comenta, encarando as próprias mãos enquanto seus olhos brilham.
Ele ama ela, isso sempre foi óbvio, por isso não posso imaginar a sua dor. Mas eu também perdi a minha melhor amiga, ainda não sei como agir, eu sequer chorei, talvez eu esteja passando pela fase de negação.
– Eu nem sei como agir nessa situação. - solto um riso sem humor – Minha ficha ainda não caiu. - falo a verdade, enquanto observo os vários funcionários transitarem pelo hospital.
– O que nós vamos fazer agora? Você sabe, ainda existe ela, não podemos deixar que ela continue presa naquele lugar, mas agora que a se foi não sei como podemos fazer isso. - Connor suspira profundamente ao meu lado.
– Eu não sei o que vamos fazer, Connor. Na verdade, nesse momento eu não sei mais de nada. - respondo sincera, e ficamos em silêncio.
– Alana! - Margaret me chama enquanto se aproxima com Margot.
– O que foi? - pergunto sem interesse de fato.
– Vamos até o necrotério do hospital. - Margaret diz.
– Eles já liberaram o corpo da para vistas? Ninguém veio me falar nada. - fico completamente confusa.
– Eu apenas disse que tudo iria ficar bem. Venham conosco! - Margot diz e indica o corredor.
Encaro Connor por um segundo, mas ele parece tão confuso quanto eu. Apenas nos levantamos e seguimos as duas. E de forma discreta andamos pelo corredor, e milagrosamente conseguimos ir até o andar mais baixo do hospital onde se localizava o necrotério.
Quando chegamos de frente para a porta de metal eu já podia sentir o clima ficar drasticamente mais pesado, e quando Margaret abre a grande porta, o ar gélido de dentro nos atinge e por isso eu abraço meu próprio corpo para tentar me aquecer.
– Entrem, você dois. Nós iremos ficar aqui fora e vigiar a porta. - Margot diz e eu apenas assinto, mesmo que esteja confusa.
Primeiro Connor entra e depois eu o sigo, sentindo o frio do necrotério nos atingir em cheio. O clima era pesado e frio, e o forte cheiro de formol irritava meu nariz. Faço uma careta e tapo o nariz com uma de minhas mãos.
A sala era extremamente clara, organizada e limpa. Várias gavetas estavam fechadas ao fundo, guardando possivelmente alguns cadáveres, uma pequena mesa com instrumentos cirúrgicos estava no meio da sala e ao lado dela uma maca com um enorme lençol branco. Olho para Connor sugestivamente e depois começo a me aproximar da maca, paro ao seu lado e seguro a ponta do lençol, visivelmente vendo que havia um corpo debaixo dele. Respiro fundo e puxo o lençol, revelando o corpo nu e sem vida de .
Encaro ela por alguns segundos notando que minha amiga estava exatamente igual, ela nem sequer tinha a pele pálida ou lábios roxos, típicos de um cadáver, mas a enorme cicatriz que rasgava seu tronco mostrava que uma autopsia já havia sido feita em seu corpo.
Nesse momento minha ficha de que ela estava mesmo morta começou a cair, seu corpo sem vida sobre essa maca, e ainda essa enorme cicatriz eram provas de que tudo estava acabado. Olho para o lado vendo que Connor encarava sem piscar, ele estava visivelmente atordoado em vê-la nesse estado, e não sei se posso confortá-lo, afinal estávamos de frente para o corpo sem vida dela.
Meio receosa levo minha mão até a de e a seguro delicadamente, sentindo a frieza de seu pele, agora sem o calor da vida. Fico algum tempo apenas assim até sentir um pequeno aperto nos meus dedos, olho de solavanco para o corpo de mas ele continua intacto, por isso penso que pode ser apenas um espasmo, o que é normal. Mas o aperto logo se repete e eu tiro minha mão da sua com pressa.
– O que foi? - Connor pergunta.
– Ela apertou a minha mão. - respondo, ainda encarando o corpo sem vida de .
– O quê? - Connor me olha espantado.
– Eu não sei. Ela apertou minha mão e eu achei que podia ser um espasmo, mas ela fez isso de novo. - olho para ele com o mesmo olhar espantado.
Em seguida ficamos em silêncio e olhamos para o corpo de , que era o mesmo, se não fosse pelo fato de seu rosto se contorcer em uma leve careta. Meus olhos se arregalam e eu dou um passo para trás. agora contorce o rosto outra vez e mexe os braços, e eu quase saio correndo dessa sala.
Connor vem para o meu lado se mostrando igualmente espantado, e ficamos de longe olhando para ela, até que por alguma razão ela abre os olhos lentamente. Ela demora alguns segundos até que abra eles por completo, depois disso ela respira fundo e com calma se senta sobre a maca, depois ela encara o próprio corpo ficando totalmente surpresa ao notar sua falta de roupas, e quando percebe a cicatriz em seu tronco ela leva uma de suas mãos até o local, tocando nela. Depois disso ela finalmente ergue seu rosto e seu olhar se encontra com o meu, e ela se mostra visivelmente confusa e atordoada.
– O que está acontecendo? - aquela voz.


Capítulo 14

POV

Já se passaram muitas horas desde que estou presa nesse quarto, rodeada por médicos e enfermeiros que me encaram como se eu fosse uma aberração. Eu nunca fui tão picada por agulhas e submetida a tantos exames como hoje. Eu só quero ir embora.
Dr. Smith me encarava com uma expressão cansada, enquanto Lana estava sentada ao lado da minha cama, encarando a parede a nossa frente, ela não havia falado nada desde a hora que eu acordei.
– De acordo com os exames você nunca esteve mais saudável. Sem nenhum machucado ou sequelas, está na sua mais perfeita condição. Eu não sei como isso aconteceu, mas vou te dar alta - o médico explica visivelmente atordoado – , não hesite em voltar aqui caso sinta qualquer coisa e, por favor, fique em repouso, não sabemos se isso é passageiro. Aliás, não sabemos como isso aconteceu. - depois de me explicar tudo o médico deixa o quarto, e eu temo que depois de hoje sua cabeça fique mais branca ainda.
– Você não vai falar comigo? - me viro em direção a Lana que depois de muito tempo solta um longo suspiro.
– Estou feliz que você esteja bem agora. - ela dá os ombros, e agora foi a minha vez de suspirar.
– Vou trocar de roupa para podermos ir embora. - coloco meus pés fora da cama mas antes que eu possa me levantar sinto Lana agarrar uma de minhas mãos.
– Tudo vai ficar bem de novo. - olho para ela e mesma dá um fraco sorriso para mim.

***

– Finalmente estou em casa. - falo em meio a um suspiro assim que paro em frente a porta do meu apartamento.
– Tem certeza que não quer ajuda, querida? - Margaret pergunta e eu apenas nego com a cabeça. E tão rápido quanto veio, sinto um leve arrepio assim que a senhora fala comigo.
– Qualquer coisa nos chamem. - ela termina, e nos despedimos das senhoras.
Lana destranca a porta e eu não tardo ao entrar.
– Como é bom me livrar daquele hospital. - me jogo sobre o sofá da sala e agarro algumas almofadas.
, o Dr. falou pra você ter cuidado. - Lana me repreende.
– Eu já disse que estou bem, mamãe. - brinco, a vendo negar com a cabeça.
– Droga! - ela resmunga fazendo uma careta, e depois se senta no sofá ao meu lado.
– O que foi? - pergunto.
– Passei mais tempo no hospital do que aqui, já faz um tempo que não vou ao mercado e você deve estar com fome. - tenho vontade de rir quando ela me responde, já que eu achei que poderia ser algo mais sério.
– Tudo bem, podemos ir agora. - me levanto do sofá, mas Lana leva sua mão para frente do meu tronco me impedindo.
– Não. Eu vou mas você fica. - reviro meus olhos me sentindo como uma criança doente.
– Eu estou bem. - tento argumentar.
– Você fica e eu vou. - ela enfitava, pegando novamente as chaves do carro e indo até a porta – Não vou demorar. - reviro os olhos pela segunda vez, e decido ir até o meu quarto tomar um banho.
Assim que entro nele vou logo pegando uma muda de roupas e deixando sobre a minha cama, depois vou em direção ao banheiro querendo tirar essa sensação de hospital do meu corpo. Coloco minhas roupas no cesto de roupa suja e vou até o chuveiro, ligo o registro e deixo a água quente escorrer por todo meu corpo.
Encaro aquela enorme cicatriz que marcava meu tronco e fico pensando em como isso era possível, eles me abriram, constataram minha morte e mesmo assim estou aqui agora. Tem tanta coisa estranha acontecendo, eu preciso conversar com Lana sobre o que eu ouvi, e o que aconteceu comigo quando eu estava “morta”.
Passo um bom tempo debaixo da água, antes de finalmente desligar o chuveiro. Me enrolo em uma toalha e volto para meu quarto. Pego minha escova de cabelos e caminho até a penteadeira, desembaraçando os fios emaranhados.
– Fica muito bem de toalha, querida. - meu coração para por alguns segundos ao escutar aquela voz. Olho através do espelho vendo a figura de Harry escorado não batente da parede de braços cruzados.
– O que você está fazendo aqui?! - me viro para ele totalmente surpresa – Está me perseguindo agora? Não vai me deixar em paz? - me sentindo irritada com a sua aparição repentina, atiro minha escova de cabelo em sua direção, mas seu reflexo é ágil, ele apenas pega a escova no ar e a joga no chão.
– Por que você tem que ser teimosa até para morrer? - sem que ele não quer uma resposta para essa pergunta.
– Acho que você não pode me matar. - fomos dando passos em direções ao outro, parando frente a frente, e deixo um sorriso presunçoso surgir em meu rosto.
– Eu não contaria tanto com a sorte, querida. - ele estreita seus olhos.
– Você já tentou duas vezes, e nas duas vezes você apenas falhou. - mal tenho tempo parar respirar depois que falo, já que ele me lança sobre minha cama e segundos depois Harry está em cima de mim segurando meus pulsos na altura de minha cabeça.
– É melhor ficar de boquinha fechada se não quiser perder a língua. - tento me soltar mas ele é muito forte.
– O que você quer de mim? - pergunto entre os dentes – Você não pode fazer isso comigo pra sempre. - começo a me debater e ele aplica mais força sobre meus pulsos.
– Você é minha, esqueceu? Eu posso fazer o que eu quiser. - ele dá um sorriso de lado.
– Me solta! - rosno, e vejo o seu sorriso aumentar – Me mata de uma vez, então! - movida pela raiva deixo que tais palavras saiam de minha boca.
– Parece que você não quer morrer. - ele diz sarcasticamente – Não vou te matar agora. - ele aproxima seu rosto do meu me obrigando a encarar seus olhos verdes – Tenho planos para nós dois, amor. - ele sorri de novo, e antes que possa questioná-lo Harry some igual fumaça, me deixando sozinha.
Amor? Ele nunca me chamou assim antes, provavelmente está fazendo isso para me irritar, e parabéns, ele conseguiu.
Suspiro, passando a mão sobre o meu rosto, eu realmente estou irritada. Ouço a porta de entrada ser destrancando e levanto da cama rapidamente indo em direção a sala, pensando na possibilidade de ainda ser ele.
Quando apareço no final de corredor Lana e Connor me olham com diferentes expressões. Lana confusa e Connor com os olhos arregalados.
– Precisamos conversar. - falo séria.
– Você está bem? Aconteceu alguma coisa? - Lana larga as sacolas no chão e vem até onde estou – Eu sabia que não deveria ter deixado você sozinha. - ela segura meu rosto com as duas mãos e me olha preocupada.
– Eu estou bem. - falo e ela me olha desconfiada – Mesmo. - reforço, e por fim ela parece acreditar.
– Então talvez agora você possa colocar uma roupa para que possamos conversar. - ela olha discretamente para a porta e quando sigo seu olhar, vendo Connor ainda me encarando de olhos arregalados, e me dou conta que estou apenas de toalha.
Não sei como ele ainda tem esse tipo de reação; quando eu acordei estava em uma mesa de necrotério totalmente sem vestígios de roupas, e Connor estava lá também. Depois daquilo uma toalha não é nada sério, mas como sei como ele é, é melhor que eu me apresse antes que ele desmaie de vergonha.
– Ta bom. - seguro a toalha com força e volto para o meu quarto.
Apressadamente visto as roupas que deixei sobre minha cama, e quando termino ajeito meu cabelo e volto para o corredor indo atrás deles. Acabo encontrando Lana e Connor na cozinha guardando tudo que foi comprado.
– Precisam de ajuda? - vou em direção de Connor para ajudar com os pratos.
– Não precisamos, . - Lana intervém e devolve os pratos para ele – Você vai sentar aqui e descansar. - ela literalmente me senta na cadeira.
– Lana, pela milésima vez, eu não estou doente. - tento me levantar, mas ela empurra meus ombros para baixo me obrigando a sentar de novo.
– Eu cuido dela, pode deixar. - Connor se oferece, e se senta ao meu lado.
– Com toda essa confusão eu não tive tempo de perguntar se você está bem. Me desculpe, eu não deveria ter deixado tudo isso acontecer com você... - sou interrompida quando Connor me abraça.
– Estou aliviado que você esteja bem. - ele baixo.
– Eu também. - retribuo o abraço.
– Eu estou bem, e não precisa se desculpar. - ele se apressa a dizer.
– Eu nunca vou me perdoar por ter colocado você em risco, Connor. - pego em sua mão que estava sobre a mesa.
– O que importa é que estamos bem agora, você não me obrigou a ir, eu fui porque eu quis. - ele sorri timidamente.
Connor é realmente muito bonito, e o fato de ser sempre tão doce faz com que ele seja quase perfeito. Tenho muita sorte em tê-lo na minha vida como um grande amigo.
– Pronto! - Lana coloca uma travessa de lasanha sobre a mesa e meu estômago da sinal de vida – Vamos comer! - ela exclama com entusiasmo, e decido que agora não é a melhor hora para trazer Harry à tona. Tudo o que eu mais quero é ter um momento de paz com meus amigos.

***

– Terminei. - Lana informa assim que coloca o último prato limpo no armário.
Eu ainda não havia conversado com eles sobre Harry ou todo o resto, eu apenas resolvi aproveitar nossa refeição com coisas fúteis de amigos, nada que levasse ao sanatório.
– O que você tinha de tão importante para conversar com a gente? - Lana pergunta, voltando a se sentar em uma das cadeiras.
Solto um curto suspiro.
– Precisamos conversar sobre esse último mês. - vejo os dois a minha frente concordarem – Tenho tanta coisa pra contar pra vocês. - falo séria.
– Nós também. Muitas coisas aconteceram enquanto você esteve no hospital, . - Connor diz e eu apenas concordo.
– Poderíamos ter essa conversa na biblioteca? Acho que de qualquer maneira lá é o melhor lugar pra ter essa conversa. - sugiro e por um momento eles ficam confusos. Eu só não queria ter essa conversa aqui e correr o risco do Harry aparecer.
– Claro, até porque eu preciso mostrar algumas coisas pra vocês. - Connor fala.
– Só esperem um pouco, eu preciso trocar de roupa antes. Fiquei com um pouco de frio. - anúncio, me levanto da cadeira sentindo uma leve tontura me atingir, fazendo com que eu tenho que me escorar na mesa.
, você está bem? - Lana logo vem até mim, usando seu tom de preocupação.
– Estou, foi só uma tontura. - respondo, já voltando a me endireitar.
– Você tem certeza? Se quiser podemos passar no hospital. - a voz de Connor era igualmente preocupado. – Eu estou bem. - dou um fraco sorriso tentando convencer eles – Tudo que eu não preciso agora é voltar para o hospital. - dizendo isso me viro indo para fora da cozinha querendo acabar com isso, eu sabia que se continuasse ali eles acabariam me levando ao hospital.
Escuto um longo suspiro de Lana antes de passar pela sala. Olho por alguns segundos para a janela sentindo uma imensa vontade de ir espiar o sanatório, mas acabo desistindo. Continuo meu caminho, agora passando pelo corredor e indo até meu quarto. Assim que entro nele, automaticamente me lembro de Harry. Eu preciso achar um jeito de mantê-lo o mais longe possível daqui.
Vou até o meu guarda-roupas e retiro uma calça jeans, uma blusa de frio e por fim pego meus sapatos de salto. Rapidamente me troco e vou até o banheiro, entro nele e caminho até o espelho afim de dar um jeito no meu cabelo úmido. Acabo por decidir prender ele. Com a ponta dos dedos dou uma rápida ajeitada e prendo os fios em um rabo de cavalo.
Assim que termino sinto uma fraca dor de cabeça que me faz dar uma leve contorcida no rosto, mas a dor começa a se alastrar e acaba ficando insuportável. Fecho os olhos com força e levo minhas mãos até a borda da pia a apertando na tentativa de amenizar essa dor. Pendo minha cabeça para baixo de tanta dor, era como se tudo dentro dela pegasse fogo.
Eu já podia sentir as lágrimas se formando no canto de meus olhos enquanto alguns grunhidos de dor saírem sem permissão de minha boca. Quando eu estava a ponto de gritar por ajuda sinto a dor ir embora tão rápido quanto veio. Levo minha mão direita até meu rosto limpando os cantos dos olhos. Ergo minha cabeça e abro os olhos encarando meu reflexo no espelho. Os meus olhos estavam brilhando pelas lágrimas, e meu nariz e bochechas estavam levemente vermelhos.
Abro a torneira e levo as mãos até a água formando uma pequena conchinha, com cuidado vou levando em direção ao meu rosto.
– O quê?! - espantada deixo a água cair. Meu olhar corria pela pia trincada abaixo de mim. As rachaduras se dividiam bem onde eu havia aplicado força segundos atrás – Eu não posso ter feito isso. - continuo olhando de maneira espantada para a pia e decido sair dali.
Saio o mais rápido possível do quarto e vou até a sala encontrando Connor e Lana conversando.
–Você está bem? - Lana pergunta desconfiada.
– Sim. Vamos logo. - minto, indo até a porta.
Descemos até o carro de Connor em silêncio. Sei que Lana desconfia de alguma coisa, ela sabe que algo de errado está acontecendo comigo, sei disso pelo jeito preocupado que me olha por canto de olho enquanto estamos no elevador, ou pelos olhares discretos que me lançava pelo retrovisor do carro no caminho da biblioteca. Ela não comenta nada, certeza que não queria criar uma cena na frente do Connor.
Me perco em meus próprios pensamentos que giram em torno do acontecimento de pouco tempo atrás, e quando menos espero estamos em frente da biblioteca.
– Srta.! - Connor brinca e oferece sua mão gentilmente me ajudando a sair do carro. Agradeço com um sorriso, e encaro o prédio à minha frente.
Sinto como se não viesse para esse lugar à séculos. Sei que faz pouco mais de um mês, porém a sensação de nostalgia continua. Connor abre a grande porta dupla de madeira e nos deixa entrar primeiro. Lana ascende apenas as luzes do meio do salão, fazendo com que o ambiente ganhe um ar mais sério, o que me faz lembrar do motivo pelo qual pedi para virmos até aqui.
Harry.
! - Connor aparece em meio as estantes de livros – Encontrei alguns arquivos que talvez sejam de seu interesse. - ele caminha em minha direção focado nos papéis, mas antes que ele possa entregá-los para mim, Lana o para.
– Não precisamos trazer esse assunto à tona agora, não é? - ela sorri forçadamente e Connor segura a pasta amarela contra seu peito – tem algo importante para nos dizer. - os dois me encaram e sinto minhas mãos suarem de nervosismo, por isso começo a caminhar para longe.
– O que tenho à dizer não é algo muito fácil de se digerir, então vou entender perfeitamente se vocês acharem que estou perdendo a cabeça. - solto uma risada sem humor e me viro para ver suas reações. Eles se entreolham brevemente e voltam a me encarar – Eu ando tendo sonhos, quer dizer, eu tive sonhos. - me embaralho com as palavras e tenho que parar para respirar fundo mais uma vez antes de continuar – Eu tive uma espécie de sonho contínuo enquanto estava no hospital. - explico.
– O quê? Como assim? - Lana questiona, e ouço seus passos apressados atrás de mim. Me viro para encontrar seu rosto em pura confusão, já Connor continua parado em pé perto da porta.
– Eu tenho sonhado com o Harry. - revelo e uma expressão de choque estampa seu rosto.
– Você o quê? - ela pergunta em descrença, mas não me deixa continuar – Eu disse que era melhor você ter ficado no hospital, . Você claramente não está recuperada. Os remédios que foram dados para você eram muito fortes. - ela diz séria.
– Eu estou bem. - tento acalmá-la.
– Não parece. - ela tenta pegar em meu braço, mas me esquivo.
– Lana, me escute. - peço e ela tenta chegar até mim novamente e acabo me irritando. Em um movimento rápido seguro seus braços contra seu peito – Eu estou perfeitamente bem, Alana. - digo firme olhando fundo em seus olhos.
– Tá. - ela levanta as mãos em sinal de rendição e puxa uma cadeira de uma das mesas. Me sento em sua frente e segundos depois Connor se junta a nós.
– O que você estava dizendo sobre os sonhos, ? - Connor pergunta e antes de responder dou uma olhada para Lana, mas ela não retribui.
– Para falar a verdade tudo era muito confuso, a única coisa que está vívida em minha mente é o Harry. - bufo em frustração.
– Harry esse que está morto. - Lana murmura mas decido ignorar.
– Eu imagino como deve ser confuso, mas você sabe dizer como eles começavam? - Connor pergunta paciente.
– Lembro que eu sempre acordava em uma cama de hospital. Na primeira vez pensei que não fosse um sonho, mas quando consegui me mexer e levantar da cama vi que algo estava errado. - divago sendo invadida pelas lembranças ruins de estar presa em uma espécie de inferno pessoal no qual eu não conseguia sair, onde eu fui obrigada a reviver várias vezes o pior momento da minha vida.
– Então você sabia quais eram suas condições? - ele pergunta, totalmente concentrado em mim.
– Sim, eu consegui ouvir quando o médico disse meu estado para Lana.- cruzo meu olhar com o dela e agora ela retribui – Eu conseguia ouvir algumas das coisas que vocês me diziam. - confesso.
– Entendo. - Connor assente para mim.
– Eu não tinha qualquer controle sobre os sonhos, se eu tivesse, Harry não teria me matado. - revelo, e os dois comigo trocam olhares.
– Matado? - Lana pergunta.
– Você está querendo dizer que o Harry te matou? - Lana apontou para mim – Afirmar tudo isso seria tão doido quanto eu dizer que as luzes ficam ascendendo e apagando, e o fato das coisas caírem no chão mesmo quando a janela do apartamento está fechada seja que o famoso Harry estava querendo me assustar. - ela ri sem humor.
– Como ele pode fazer esse tipo de coisa? Ele pode sair do sanatório? - Connor pergunta.
– Eu não faço a menor ideia, mas se ele foi capaz de controlar a mente da ao ponto de conseguir matá-la, imagina do que ele ainda é capaz. - Lana suspira pesadamente.
– Agora vocês entendem o quão importante é descobrirmos mais sobre a história daquele lugar? - pergunto e eles assentem – Connor, posso ver o que você encontrou? - ele rapidamente me entrega a pasta amarela e a primeira coisa que vejo quando a tenho em mãos é Waverly Hills Sanatorium escrito em letra cursiva no topo da primeira página.

***

Não sei a quanto tempo estamos sentados nesse mesmo lugar procurando sobre o sanatório, mas tudo o que conseguimos encontrar até agora foram recortes de jornais com propagandas sobre os tratamentos revolucionários que o Weverly Hills proporcionava para seus pacientes.
– Dá pra acreditar na quantidade de pessoas que morreram naquele lugar? - Connor diz sem tirar os olhos do papel.
– Eu li que quase todos tinham tuberculose, mas esse jornal aqui diz que alguns corpos nunca foram encontrados, assim como Connor nos disse. - Lana completa e mostra a página para ele – Mas o estranho mesmo era que pessoas com doenças mentais também eram tratadas lá. Curioso, sanatórios geralmente são para pessoas com doenças que necessitam de isolamento. - ela divaga.
– Estranho. - Connor corre os olhos sobre a mesa com pilhas e mais pilhas de papéis – Talvez o antigo dono quisesse revolucionar - ele dá de ombros – Juntar as duas coisas. Acho que o Waverly Hills é uma mistura de sanatório com asylum. Não é à toa que dizem que lá é assombrado. - ele nos encara por um segundos, antes de voltar sua atenção para os papéis.
– Desse jeito alguém pode te mandar pra lá. - Lana fala sarcástica.
– Como assim "mandar pra lá"? - pergunto confusa.
– Sobre isso, ... - Lana endireita sua postura e chega mais perto da mesa – Algumas coisas mudaram nesse último mês. - ela me olha séria, e me sinto ansiosa com isso.
– Nós deveríamos ter te contado antes mas não tivemos oportunidade. - Connor comenta.
– Vocês estão me deixando preocupada. - confesso nervosa.
Connor olha de relance para Lana e ela respira fundo. – O sanatório reabriu. - assim que as palavras saem da boca da Lana meus olhos se arregalam mais do que eu achava humanamente possível.
– O QUÊ?! - pergunto mesmo tendo escutado perfeitamente.
– Waverly Hills Sanatorium está aberto, e em pleno funcionamento. - as palavras de Connor me fazem sentir algo estranho por dentro.
– Mas como? - me sinto totalmente atordoada enquanto tento absorver o que escutei.
– Também queríamos saber, . - Connor solta um longo suspiro.
– Dois dias depois da sua entrada no hospital alguém comprou a casa de loucos, e tão rápido quanto compraram, eles o reformaram. - Lana mira seu olhar na parede a frente olhando de forma fixa como se estivesse perdida em memórias – Trabalharam no Waverly Hills dia e noite, foi uma incessante obra que não teve pausa. Poucas semanas depois o lugar já estava pronto para receber pacientes. - ela desvia seu olhar da parede para mim – Pessoas chegavam todos os dias. Parece que os métodos usados lá chamam bastante atenção. - ela explica.
– Ainda sim é um fato muito curioso como isso aconteceu em tão pouco tempo, e logo que você deu entrada no hospital. - Connor me olha.
– Se pensarmos bem depois de tudo que passamos, qualquer coisa é possível agora. - Lana comenta.
Continuo em silêncio sem saber o que falar ou pensar, eu ainda estou em total choque de informações. Mas isso é interrompido quanto batidas soam na porta da biblioteca.
– Quem será? Eu deixei um aviso do lado de fora dizendo que estamos fechados hoje. - Connor diz, e eu os encaro por alguns segundos, mas eu acabo dando os ombros, me levantando na intenção de abrir a porta.
Alguns passos depois eu já estava em frente a enorme porta de madeira. Não tardo ao abrir o trinco dela, fazendo com que o barulho escoasse pela sala, com um pouco de esforço empurro a porta, já que a mesma era um pouco pesada.
Para minha surpresa haviam homens parados a minha frente trajando uniformes brancos. – ? - um deles pergunta. Era o que se mantinha a frente dos outros.
– Sou eu. - respondo confusa, e sem demorar o policial ergue um papel sobra a altura do meu rosto.
– Isso é uma intimação de internação. - ele fala e retira do bolso um par algemas – Você está sendo internada pela indicação do Dr. Smith que alega ter uma paciente com um tipo de doença rara para convívio em sociedade, que não pode ser tratada por ele. E por esse motivo ele indicou que você tivesse uma estadia forçada no Waverly Hills Sanatoruim por tempo indeterminado. - ele avança em minha direção e tenta agarrar uma de minhas mãos.
– O quê? - pergunto ainda mais confusa – Isso está errado. - falo já sentindo o desespero tomar conta de mim.
– O que está acontecendo ai? - escuto a voz de Connor vindo de dentro da biblioteca. – Nós podemos fazer isso do jeito fácil ou do difícil, Srta. - o homem alto avisa, mas a única coisa que eu consigo fazer é os encarar com espanto. Outro deles puxa meu braço de forma brusca me virando e me jogando contra a parede, e anda mais violento ele me algema.
– Você não podem me obrigar a fazer isso. - falo exasperada, e tento me debater de todas as maneiras.
Connor e Lana chegam até a porta mas dois dos homens os barram, e o que me algemou me puxa pelo braço me arrastando até uma ambulância. Vejo algumas pessoas espreitando nas janelas de suas casas e até algumas se atreveram a sair na calçada. Certamente pensam que eu sou louca.
Eu me debato, grito e até xingo mas nada disso me ajudou. Sou lançada na parte de trás da ambulância e logo os outros homens entram também, um deles ao meu lado. Através do pequeno vidro na parte de trás, vejo Lana gritar e Connor tentando corredor atrás da ambulância.
– Uma pessoa como você não pode ficar solta. - o homem que estava na parte de trás comigo, diz.
– VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO! - me desespero e grito mas o homem tenta tapar a minha boca com sua mão – NÃO! - grito o mais alto que posso e no mesmo instante todos os vidros da ambulância se partem e voam para todos os lados fazendo com que freiem o veículo de forma brusca.
O homem que estava comigo me olha em espanto sem entender o que aconteceu, e eu mesma não sei explicar o que foi isso. O que está acontecendo comigo?
– V-Você é um daqueles demônios, não é? - o homem pergunta com dificuldade e eu fico calada. Eu estou tão surpresa quanto ele.
Fico em total estado de choque que nem percebo o homem se aproximar de mim, apenas sinto uma leve picada no meu braço direito e segundos depois meu corpo fica totalmente mole e meus sentidos vão sumindo. Poucos segundos depois eu já não tinha mais controle sobre meu corpo, e o fato de estar algemada só piorava isso, então não demora muito até que meus olhos pesem e meu corpo se desligue.


Capítulo 15

Acordo sendo brutalmente chacoalhada. Demoro alguns segundos para conseguir abrir os olhos e tomar consciência de onde estou.
– Acorda, garota! Não tenho o dia todo. - não consigo processar logo de primeira de onde vem a voz, e quando minha visão se foca, vejo os mesmos três homens vestidos de branco.
O que aconteceu? Me pergunto, mas antes de conseguir colocar meus pensamentos em ordem, sou puxada para fora da parte de trás da ambulância.
– Não encostem em mim. - tento me esquivar deles, mas não consigo ir longe devido minhas mãos estarem algemadas. Eles pegam meus braços e me empurram em direção a entrada. - ME SOLTA! - grito enquanto me debato.
A medida em que eles me levam para dentro, os meus gritos aumentam atraindo a atenção de enfermeiros, e o que penso serem novos pacientes com suas famílias.
Me viro para frente encontrando um par de sapatos brancos e quando subo meu olhar vejo uma enfermeira que aparenta estar na casa dos cinquenta anos, me examinando como se eu fosse uma espécie de aberração.
– Está olhando o quê? – pergunto, já irritada por todos me tratarem como se eu fosse um deles.
– Fique quieta. - ela ordena severamente, me pegando desprevenida.
Encaro a senhora a minha frente sem saber o que fazer, de certa forma ela é um tanto quanto intimidante.
– A Srta. claramente não tem conhecimento das regras do Waverly Hills Sanatorium, mas não se preocupe, terá muito tempo para aprender. - ela diz ainda mais severa do que antes – Então, qual seu nome? - ela cruza os braços e pondero não responder, mas na situação em que estou não seria muito bom.
. - contragosto respondo.
– Certo. Me acompanhe, Srta. , vou lhe mostrar suas novas acomodações. - ela fala empolgada e uma vontade enorme de esmagar sua cabeça por conta disso, me atinge.
Um dos homens que me trouxe até aqui segura em meus braços me fazendo andar atrás da velha senhora que começa a subir a escadaria, e com isso percebo o quanto esse lugar mudou. As paredes e pisos tem cores mais claras, e a madeira velha da escadaria foi substituída por uma nova; eu nunca diria que esse é o mesmo lugar de um mês atrás, realmente fizeram um bom trabalho por aqui.
Subimos a escadaria e chegamos em um corredor que parece não ter fim. Sua extensão é coberta de portas de ferro dos dois lados, e quando passo em frente a uma delas me esforço para ver o que há do outro lado, mas antes de conseguir identificar o homem que segura em meu braço me empurra para frente me obrigando a caminhar rápido.
Sra. Morrice para em frente a uma das portas e tira do bolso um molho de chaves, e com uma abre a porta.
– Aqui está seu novo quarto. - ela segura a porta aberta para mim e paro em frente a ela.
O homem solta meus braços e depois retira as algemas de meus pulsos, e antes que ele possa me colocar para dentro passo por Morrice e começo a correr para o outro lado do corredor.
– ATRÁS DELA! - Morrice grita e olho para trás ao mesmo tempo em que dois homens começam a correr atrás de mim.
Viro para direita em um outro corredor com a esperança de despistá-los, mas para meu azar ele tem um fim. Olho rapidamente para os dois lados em busca de uma saída, mas tudo o que encontro são janelas com grades de ferro.
– Ali está ela! - me viro ao ouvir uma voz e vejo dois enfermeiros correndo na minha direção.
Dou alguns passos para trás na tentativa de me distanciar o máximo dos dois, mas acabo indo de encontro com a parede, e em segundos eles me alcançam. Um deles pega em minhas pernas e o outro me levanta pelo tronco.
– ME SOLTEM! - tento me soltar, mas eles são obviamente mais fortes do que eu.
Sem muitas dificuldades, os dois enfermeiros me carregam pelo corredor criando uma grande cena para todos os funcionários que transitavam por ali, e para minha infelicidade eles não demoram ao chegar onde Morrice estava, me jogando cela adentro e fechando a porta de metal em seguida.
– O jantar é servido às sete horas em ponto. - Morrice diz do outro lado da porta com um tom sério.
Me apoio nas pontas dos pés para alcançar as barras de ferro da porta, e quando consigo vejo Morrice e os dois enfermeiros indo embora, então me viro na direção da cela e deixo meu corpo escorregar pela porta até o chão.
Bufo ao ver uma cama que não parecia nada confortável, uma cadeira de ferro e uma janela com grades. Quando foi que eu virei um personagem de ficção onde eu pareço me meter em vários problemas? Já estou farta disso.
Me levanto do chão ainda mais irritada por estar presa nesse lugar, e caminho até janela para tentar separar as duas partes dela na esperança de conseguir clarear um pouco esse lugar, mas como sempre minhas tentativas foram todas falhas.
– Essa porcaria! - resmungo alto, enquanto passo a mão de forma nervosa pelo meu cabelo e coloco a outra na minha cintura sentindo o áspero e grosso tecido do horrível macacão cinza que eu estou usando. O que me faz questionar como ele veio parar no meu corpo já que eu não me lembro de ter o colocado.
Viro o meu corpo e volto a analisar meu novo quarto temporário. Exato, temporário, já que eu pretendo sair daqui o mais breve possível. Durante minha pequena análise percebo que algo está escrito na parede escura, pelo menos é o que parece, já que aqui é muito mal iluminado.
Dou passos apressados até o local e me agacho, forçando minha vista para poder entender o que de fato estava escrito ali.
"Você vê? É como uma espécie de jogo. Todos estão à procura de pessoas que possam jogar com demônios, e você é uma delas."
Arregalo os olhos sem entender o motivo disso estar escrito aqui. Será que essa frase era pra mim ou foi simplesmente um antigo paciente dessa cela que escreveu? Eu realmente não sei, mas sendo ou não para mim ela representava bem o que eu estava passando agora.
Mesmo que minha vontade fosse estar bem longe daqui não posso negar que agora faço parte de um jogo doentio, onde eu sou um simples peão esperando para ser derrubado para fora do tabuleiro pelas demais peças. E era exatamente por isso que preciso bolar uma estratégia, eu não posso deixar que essas pessoas que vivem aqui brinquem comigo.
Continuei por mais algum tempo apenas encarando aquela frase até perceber que ela era escrita por um vermelho escuro. Forcei outra vez a vista e percebi que realmente era vermelho. Aos poucos fui aproximando minha mão da parede e deixei que ela escorregasse por algumas letras, borrando a frase. O que quer que seja que foi usado ainda estava fresco. Levo minha mão suja em direção ao meu rosto e sinto o forte cheiro tão conhecido. A frase estava escrita com sangue.
Um barulho de metal pesado sendo arrastado me faz dar um pulo para trás. – Hora da janta, garota. - um dos enfermeiros que me trouxe até aqui estava agora parado na porta me encarando.
Dou uma rápida olhada para minha mão e depois para a parede vendo que não havia mais nada escrito nela, assim como nada em minha mão. Eu até penso em relatar o acontecido, mas certamente ele me acharia louca, aliás, já acha. O que é uma idiotice.
Me levanto e vou caminhando até a porta de forma lenta.
– Vamos, garota! Eu não tenho o dia todo. - ele ameaça me puxar pelo braço, mas sou mais rápida e agarro sua mão o lançando um olhar sério enquanto aplico força em meu aperto.
Estou tão concentrada na minha irritação que mal escuto um estalar de ossos vindo da mão do enfermeiro, que começava a fazer uma careta de dor. Rapidamente solto sua mão e passo para fora da cela ainda tentando assimilar as coisas. Quando já estou do lado de fora vejo uma pequena multidão de pacientes vestidos igualmente a mim sendo guiados por outros enfermeiros.
O "meu" enfermeiro tranca a porta atrás de nós e agarra meu braço com violência, me olhando como se pudesse me matar. Olho para sua outra mão que está um pouco roxa.
– EU VOU MATAR TODOS VOCÊS! - uma gritaria infernal se instala em meio aos pacientes. Busco o dono da voz vendo um velho com cabelos na altura dos ombros gritando com alguns enfermeiros que tentavam o conter – ME DEIXEM IR OU EU MATO VOCÊS! - ele se debatia nos braços dos enfermeiros assustando os outros pacientes que começaram a gritar junto com ele e outros.
Um desespero sem fim me atinge. Eu não posso ficar aqui, eu não posso ficar junto desses loucos ou eu vou acabar me tornando um deles. Aproveito o descuido do enfermeiro que me segura e saio correndo entre os pacientes, já ouvindo um apito ressoar atrás de mim.
Dou uma rápida olhada para trás vendo que o enfermeiro vinha correndo atrás de mim.
– Merda! - resmungo assim que vejo ele me alcançar. Volto a olhar para frente vendo três opções de caminho, opto por virar à direita, mas acabo trombando com alguém que me segura fortemente. Olho para o rosto da pessoa vendo que era outro enfermeiro. Bufo irritada sem ter o que fazer agora.
O enfermeiro responsável por mim vem correndo com um olhar nada agradável.
– Obrigado. - ele diz me arrancando dos braços do outro e me jogando contra a parede. Ele me vira e algema minhas mãos, depois se agacha algemando meus tornozelos com algemas específicas – Agora tente correr outra vez. - ele me lança um sorriso sarcástico.
– Você tem sorte das minhas mãos estarem algemadas. - rosno, não sabendo de onde vem toda essa irritação que venho sentindo ultimamente.
Ele apenas dá uma risada exagerada e agarra meu braço me arrastando pelos corredores. Mal tenho tempo para assimilar o caminho que estamos fazendo já que passo o tempo todo pensando em formas de matar esse imbecil.
Paramos em frente a uma grande porta de madeira com dois enfermeiros parados um em cada lado. Ele apenas acena para um deles que logo libera a porta dando passagem para nós.
– Aproveite o jantar, e não demore muito. - meu enfermeiro diz, me jogando para dentro da sala.
Analiso o grande refeitório lotado de pacientes a minha frente, eles estavam espalhados, alguns nas mesas, outros na fila da comida, uns perambulando, e por incrível que pareça até mesmo dançando pelos cantos do refeitório. Porém, não era só muitos pacientes que haviam aqui, também se mostrava em grande número de guardas que vigiavam cada movimento de todos.
Alguns pacientes que passavam me encaravam com certo medo pelo fato de eu estar totalmente algemada, já que só deveria ter eu e mais outros três ou quatro pacientes dessa forma. Obviamente eles deveriam achar que eu era perigosa.
Solto um longo suspiro e decido sentar, não estava com fome de qualquer maneira. Vou até uma mesa vazia, puxo uma cadeira e me sento. Abaixo a cabeça contra a mesa fazendo um pequeno barulho.
– Eu sabia que você iria voltar, só não pensei que seria como paciente. - escuto uma familiar voz e levanto minha cabeça vendo uma cabeleira loira. Era Niall.
Ele sorri em minha direção, ao contrário da pessoa ao seu lado.
– Como veio parar aqui? - ele pergunta e a sua amiga revira os olhos.
– Não sei. - respondo irritada.
– Não sabe? - ele pergunta e ri, dando uma leve cotovelada em Brooklyn que pela primeira vez me olha, e como eu esperava, seu olhar era frio.
Antes que qualquer um de nós pudesse dizer mais alguma coisa a porta do refeitório é aberta outra vez, captando a atenção de quase todas as pessoas aqui, incluindo os dois que estavam na minha frente.
Igualmente algemado, Harry é empurrado refeitório a dentro fazendo com que alguns pacientes rapidamente se afastem. Os guardas deixassem suas posturas mais duras como se estivessem prontos para atacar a qualquer momento.
Seu olhar tedioso corre pelo refeitório, até parar em mim. Ele me encara por alguns segundos antes de dar o seu costumeiro sorriso de lado e vir em passos calmos em minha direção. Tenho vontade de bater minha cabeça continuamente contra a mesa ao ver que ele se aproxima, mas isso só faria com que pensassem o pior de mim, então apenas volto a encostá-la contra a mesa.
– Então você veio parar aqui?! - ouço sua voz sussurrando em meu ouvido e meu corpo todo se arrepia de forma ruim. Levanto minha cabeça de imediato olhando para frente assustada, e vejo que Niall me encara sério enquanto Brooklyn revira os olhos novamente – O que foi que eu perdi? - Harry pergunta com um sorrisinho no rosto, claramente querendo saber o que eu fazia aqui.
Percebo que alguns pacientes a nossa volta começam à se levantar assustados quando Harry puxa uma cadeira para sentar ao meu lado e acho um pouco estranho.
– Eu sou perigoso, . Esqueceu? - ele responde minha pergunta mental.
– Não tem como esquecer. - murmuro baixo.
– Se você está aqui, também é perigosa. - Brooklyn diz – O que você fez, ? Matou alguém? - ela sussurra de maneira provocativa, mas dá risada no final.
– Eu não matei ninguém. - respondo entre os dentes, totalmente irritada, e vejo que alguns guardas estão com as atenções voltadas para mim.
Niall troca um olhar rápido com Harry, e depois se levanta.
– Ei, Brook, é melhor a gente ir. - o loiro se vira para a amiga.
– O quê? A gente acabou de chegar. - ela franze o cenho.
– Vem logo, garota. - ele insiste e a puxa pelo braço. Ela logo se apressa a tirar o braço das mãos de Niall e sai na frente batendo o pé.
Fico tão concentrada nos dois que mal noto Harry me encarando.
– O que foi? Você não tem nada melhor para fazer não? - pergunto ainda um pouco irritada.
Eu nem ao menos sei o porquê ando me sentindo assim. Sei que a situação em que estou é uma ótima justificativa para isso, mas mesmo assim essa não parece a minha personalidade.
– Na verdade, não. - ele responde tediosamente.
– Por que está aqui, afinal? Você não está morto, e é sei lá o que com aqueles olhos pretos. - solto de uma vez a curiosidade que surgiu em mim assim que vi ele aqui.
– Você se esqueceu que eu era um paciente desse lugar? - ele ergue uma sobrancelha.
– Está querendo dizer que não importa se o sanatório está funcionando ou não você sempre será um paciente desse lugar? - pergunto confusa e ele assente.
– E como dá pra sair desse lugar? - pergunto em seguida.
– Não dá. - ele responde e levanta minhas mãos mostrando suas algemas.
– Então como você conseguiu ir até o meu apartamento? - franzo meu cenho.
Harry solta uma risada sem humor antes de responde. – Não acho que seja normal ter uma conversa tão tranquila com o cara que tentou te matar tantas vezes. - ele se inclina para frente e coloca as mãos sobre a mesa, fazendo com que as algemas tilintem assim que encostam no metal da mesa – Falando nisso, da última vez eu me certifiquei de te matar de verdade, como você ainda está aqui? - ele me olha de canto de olho.
– Não sei. - falo sincera, já que todo aquele papo dos enfermeiros não me convenceram – Eu não fiz nada. - suspiro.
Ele ri sem humor outra vez.
– Então somos inocentes.
– Claro. Como você quiser. - falo de forma debochada, e me levanto.
– Onde você vai? - ele pergunta. – Não interessa. - respondo e vou até um dos enfermeiros – Preciso ir ao banheiro. - informo e ele assente, me levando para fora. Na verdade, eu só queria me livrar dessas pessoas, e principalmente do Harry.
O enfermeiro me leva para fora, e nós dois caminhamos pelo corredor, virando em outros. Andamos por mais algum tempo, até que pararmos em frente a uma placa que indicava o banheiro feminino. O enfermeiro tira as algemas dos meus pulsos e tornozelos, e logo depois vou indo em passos lentos até a porta, mas ele agarra meu braço me forçando a olhá-lo.
– É bom que você não tente mais nada. - ele alerta seriamente.
– Tudo bem... - encaro seu uniforme com o nome Ethan Stone escrito em um pequeno crachá – ...Ethan. Eu não vou tentar nada. - forço um falso sorriso e entro no banheiro.
Espero ele fechar a porta para que eu possa analisar o ambiente, e percebo que até que era um banheiro grande. Na parte da frente haviam algumas cabines, e um grande espelho na frente delas, logo no fundo estavam os chuveiros e mais alguma coisa que eu não conseguia enxergar daqui.
Solto um curto suspiro e me viro em direção ao espelho, vou até ele parando a sua frente para poder encarar o meu reflexo. Meu rosto estava totalmente limpo e livre de qualquer maquiagem, meu cabelo estava preso em um rabo de cavalo, e para ainda tinha esse macacão horrível que eu era obrigada a usar. Me olhando dessa forma, eu até que parecia uma louca de verdade.
Apoio minhas mãos sobre a pia de mármore marrom e fico encarando ela enquanto penso em uma maneira de sair desse lugar. Eu não posso ficar aqui, eu não quero ficar aqui e é por isso que eu vou sair o mais breve possível.
A porta do banheiro é aberta e segundos depois fechada, ouço o som de passos vindo em minha direção. A pessoa para atrás de mim e permanece em silêncio esperando meu primeiro movimento. Sem muito interesse ergo minha cabeça vendo Brooklyn parada atrás de mim me encarando através do reflexo do espelho. Solto um longo suspiro e me viro em sua direção. Com uma rapidez incrível ela agarra na gola do meu macacão e me joga contra a parede do outro lado, e seus olhos escurecem na mesma hora.
– Eu vou te avisar apenas uma vez. - sua voz era grave e emanava raiva, assim como seu olhar – Eu não quero você perto do Harry, entendeu? Não vou deixar você ferrar com ele outra vez. - ergo as sobrancelhas quando escuto sua ameaça.
Então era por causa do Harry que ela não gostava de mim, será que eu voltei para o ensino médio?
– E se eu não quiser? - pergunto apenas para provocá-la. Se ela soubesse como eu quero ficar longe dele, ela nem se daria a todo esse trabalho.
Ela cerra os olhos e leva sua mão direita até meu pescoço o apertando sem piedade.
– Eu não estou pedindo, eu estou mandando. - ela aperta mais meu pescoço, mas não tem o efeito que eu achei que teria – Eu não vou pensar duas vezes em te matar. - ela tenta colocar mais pressão em seu aperto, mas ele parece mais fraco do que imaginei.
Levanto uma de minhas mãos e levo até seu pescoço, da mesma forma que ela fez comigo, e ao colocar pressão eu mesmo me espanto com o tamanho da minha força nesse momento. Os olhos de Brooklyn se arregalam, e eu viro nossos corpos invertendo nossas posições e a deixando contra parede agora. Estou tão surpresa quanto ela, eu nem sei como fiz isso, apenas parece ser meu instinto.
– Se você não ficar no meu caminho, eu não fico no seu. - alerto, deixando de lado por um segundo toda minha surpresa com o que estava acontecendo. No momento apenas quero me livrar dela.
Apenas alguns segundos depois a porta do banheiro é aberta rudemente.
– O que está acontecendo aqui? - viro minha cabeça vendo Ethan parado na entrada.
– Nada. - respondo, e solto Brooklyn que vai ao chão. Lanço um último olhar sério em direção a garota sentada no chão para que ela veja a veracidade de minhas palavras.
Depois me viro e vou indo até Ethan que estreita seus olhos sobre mim visivelmente irritado comigo.
– Você está se tornando um problema outra vez. - o guarda diz assim que passo por ele.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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