Última atualização: 28/11/2018

Capítulo 1

Em tempos atuais...

– Até que enfim, liberdade! - Lana quase gritou saltando para fora do carro e encarando o enorme prédio a nossa frente. Não consigo conter a empolgação e animados ao seu encontro.
Eu realmente não podia estar mais feliz, depois de vinte e um longos anos, agora eu tenho a minha própria casa, ou no nosso caso apartamento, mas isso não diminui nossa felicidade.
– Depois de tantos anos vivendo sobre as regras dos nossos pais... - faço uma pausa e passo um braço por cima do ombro de Lana, que me olha animada.
– ...agora criamos as nossas próprias regras! - ela completa minha frase e dá ênfase para deixar claro que agora as coisas seriam do nosso jeito.
Dou outra olhada para o enorme prédio antigo à minha frente. Era realmente grande, haviam trinta andares nele, e bom, ficamos com o trigésimo já que Lana ficou choramingando no meu ouvido que queria ficar no ponto mais alto onde poderíamos ter a vista perfeita da cidade de Hazelwood. Para mim o andar não era tão importante, eu só queria mesmo ter o meu espaço, o espaço que eu poderia dizer que era meu e que paguei por ele, por isso ficar no trigésimo andar não seria um problema para mim.
Acabamos achando Hazelwood na internet quando procurávamos alguns apartamentos, Lana e meus pais insistiram especialmente para que nos mudássemos para cá. Foi até engraçado quando começamos a pesquisar sobre a cidade, acho que foi o fato de dizerem que ela era assombrada e que continha um passado escuro, eu gosto desse tipo de coisa.
O barulho de algo metálico sendo arrastado me fez sair dos meus pensamentos. Acabo olhando por cima dos meus ombros e vendo que o caminhão da mudança havia chegado pouco tempo depois de nós, e os encarregados em nos ajudar já haviam começado a descarregar as inúmeras caixas de papelão pela calçada.
– Agora chega de sonhar e vamos ao trabalho. - Lana diz ao meu lado, e a olho, vendo que ainda mantinha a empolgação em seu semblante. Depois desvio meu olhar por um segundo de minha amiga, para aquela montanha de caixas. Se fosse em outra ocasião eu certamente reclamaria, mas não hoje. Hoje eu estaria feliz por apenas carregar caixas.
Fomos até a calçada e pegamos algumas caixas, para em seguida caminharmos para o edifício Hazelhills. Passamos pela portaria, onde havia um simpático porteiro que nos ofereceu ajuda, e acabamos aceitando já que iríamos levar um bom tempo até conseguirmos acabar com tudo isso.

***

Quase uma hora depois eu praticamente não sentia mais minhas pernas, minha respiração já estava ofegante, meus braços estavam doendo e eu estava completamente suada e grudenta. Acabei prendendo meu cabelo em um rabo de cavalo para tentar amenizar o calor que eu sentia, e como haviam muitas pessoas ajudando nem sempre deu para pegar o elevador. Subir vários lances de escadas acaba com qualquer pessoa, mas felizmente já estávamos no final. Os encarregados da mudança já haviam ido embora, e porteiro simpático já havia voltado para o seu posto, agora restava apenas duas caixas, uma que estava comigo e a outra com Lana.
– Graças a Deus, nós acabamos! Não aguentava mais! - a loira ao meu lado resmunga, enquanto esperávamos o elevador parar no nosso andar.
– Sim, minhas pernas estão queimando. - falo e dou uma olhada no espelho do elevador, fazendo uma careta ao notar o meu estado. Meu cabelo estava todo bagunçado com alguns fios do meu rabo de cavalo grudando em torno do meu pescoço, minha regata branca estava um pouco suja, e a única coisa que se manteve no lugar foram os meus shorts e minhas botas de cano curto. Lana não estava muito diferente de mim.
Solto um suspiro de alívio assim que vejo a porta do elevador se abrir, olho para o fundo do corredor vendo duas senhoras já de idade espreitando sobre suas portas, elas estavam nos observando desde que começamos a subir as caixas. Só espero que não sejam aquele tipo de senhoras fofoqueiras.
Ignorando os olhares delas continuamos nossa caminhada até a nossa porta, parando em frente ao número 218. Empurro a porta com o pé e finalmente entramos, colocando as últimas duas caixas no chão da sala e nos jogando no sofá logo em seguida.
– Eu estou morta. - Lana suspira ao meu lado – E com fome. - olho para o lado a vendo fazer uma careta.
– Vamos tomar um banho e depois pedimos alguma coisa. - me levanto já pronta para ir ao meu quarto – Amanhã arrumamos essa bagunça. - falo e ela apenas assente.
Quando estávamos quase fazendo o caminho para nossos quartos a campainha toca, me fazendo olhar confusa para Lana que dá os ombros. Caminho até a porta e a abro vendo as duas senhoras que nos vigiavam a pouco, elas tinham em mãos algum tipo bolo e algo que eu julgava ser chá ou café em uma grande garrafa térmica.
– Boa tarde, querida! - a mais baixinha e com os cabelos curtos me saudou.
– Hm, boa tarde. - respondo com meu cenho franzido.
– Nós apenas queremos dar as boas-vindas. - a outra senhora, essa com os cabelos até os ombros, mas igualmente brancos disse - Trouxemos bolo e chá. - ela dá um sorriso simpático, confirmando a minha teoria sobre o chá.
– Oh, claro, entrem! - dou espaço para que elas entrassem. Lana me olhou e franziu o cenho, e eu apenas dei de ombros - Por favor, não reparem na bagunça, ainda não tivemos tempo de arrumar. - falo e continuo encarando Lana sem saber o que fazer, a mesma logo entra em modo automático e dá um sorriso forçado para as senhoras.
– Imagina, querida, está ótimo. - a mais baixinha diz calmamente.
Talvez elas não sejam de todo mal.
– Eu sou e essa é Alana. - aponto para minha amiga que logo se juntou a mim.
– São muito bonitas. - a senhora de cabelo curto nos elogia e sorri - Sou Margaret e essa é minha vizinha Margot. - ela faz um pequeno gesto para a que estava ao seu lado.
– Prazer em conhecê-las. - dou um sorriso um pouco mais relaxado - Vamos até a mesa então? - indico a cozinha.
– Claro. - Margot responde, e por fim caminhamos até a cozinha.
As senhoras ajeitaram as coisas sobre a mesa, e depois disso ficamos uns bons minutos apenas jogando conversa fora, e cheguei à conclusão de que talvez elas poderiam ser boas vizinhas no fim das contas.
Descobrimos que Margaret se mudou para cá dois anos depois da inauguração do edifício, e que Margot veio no ano seguinte, sendo sua vizinha e se tornando uma amiga de longa data. Elas eram umas figuras, com seus cabelos brancos, sorrisos acolhedores e seus doces maravilhosos, já que esse bolo de chocolate que trouxeram estava ótimo. Lana e eu quase o comemos todo, mas as duas senhoras não pareciam se incomodar com isso.
– O que duas jovens moças como vocês vieram fazer aqui em Hazelwood? - Margaret pergunta ajeitando suas mãos enrugas sobre a mesa.
– Estávamos procurando algum apartamento e acabamos gostando desse aqui. – Lana responde, enquanto colocava um último pedaço de bolo na boca.
– São de Londres, certo? - agora foi a vez de Margot perguntar, e apenas assentimos em resposta – Hazelwood não é lugar para duas jovens como vocês. - franzo o cenho com sua fala, e troco um olhar confuso com Lana.
– Por quê? - pergunto curiosa.
– Nunca ouviram as histórias sobre essa cidade e o sanatório Waverly Hills? - eu podia identificar a tensão na fala de Margot.
– Já ouvimos alguns boatos sobre a cidade, mas nada relacionado a esse tal sanatório. - encaro bem as senhoras a minha frente. Eu já podia sentir a curiosidade tomando conta de mim.
– Bom, tudo que vocês já ouviram sobre a cidade provavelmente é verdade. - Margaret começa a dizer, e quase faço uma careta de deboche, mas me controlo.
Até parece que essa cidade era assombrada por criaturas ruins. Eu apenas gostei da história que eles venderam sobre o lugar, mas isso não significa que, de fato, eu acredite nela.
– E sobre o sanatório Waverly Hills... dá para vê-lo daqui, ele fica em cima de uma alta colina dentro da floresta. Foi abandonado há muitos anos atrás, e dizem que coisas horrorosas aconteceram lá antes do sanatório fechar e hoje ninguém se atreve a colocar os pés lá, já que quem vai lá não sai vivo. - minha primeira reação ao ouvir isso seria rir, mas, mais uma vez eu me contive. Essas senhoras já deveriam estar caducando.
Olhei para o lado encontrando uma Lana totalmente estática e com os olhos arregalados. Eu não creio que ela acreditou nessa baboseira toda.
– Chega! Não diga mais nada, Margaret. Você não deveria nem ter contado essas coisas para elas, as duas mal chegaram e já vão querer ir embora. - Margot repreende séria, se levantando em seguida – Temos que ir agora. Meninas, obrigada pela adorável tarde, se precisarem de alguma coisa é só falar conosco. - assinto, vendo as duas saírem apresadas e tensas da cozinha, me deixando sem entender nada. Até pensei em ir levá-las até a porta, mas não me deram oportunidade.
– "Já que quem vai lá não sai vivo." - imito a fala de Margaret, soltando uma gargalhada alta.
– Isso não tem graça, . - Lana me repreende com uma carranca séria.
– Claro que tem Lana, isso não passa de uma história para assustar crianças, e para atrair pessoas para esse lugar. Você sabe, vender uma boa história atrai grandes lucros. - me levanto calmamente – Agora vamos tomar um banho. - falo, me virando e indo até a saída da cozinha, mas paro no meio do caminho e olho sobre meu ombros. – E cuidado para as assombrações não te pegarem no banho. - finalizo minha fala para Lana, saindo da cozinha ainda gargalhando.
Era só o que me faltava. Eu já passei dessa fase de acreditar em monstros e em fantasmas, mas essas duas senhoras ainda pareciam acreditar.
Balanço a cabeça negativamente enquanto entrava no meu quarto, procuro meu pijama e produtos de higiene dentro das inúmeras caixas espalhadas pelo chão do quarto, e quando finalmente acho tudo que preciso, coloco meu pijama sobre a cama e vou até o banheiro.
Começo a tirar minhas roupas deixando-as sobre a tampa do vaso, para em seguida ir até o boxe e ligar o registro, deixando que a água quente escorresse sobre a minha pele e relaxasse meu corpo por um momento. Fecho os olhos apenas aproveitando a maravilhosa sensação da água quente contra o meu corpo; pego o shampoo que trouxe comigo, colocando uma quantidade significativa na mão e levando até a cabeça, lavando meus cabelos enquanto sentia o aroma doce de ervas.
Depois que lavo meu cabelo e corpo, desligo o registro e me enrolando em uma toalha. Saio do banheiro indo para o meu quarto, seco meu corpo e passo algum creme nele e por fim visto meu pijama. Jogo meus cabelos para frente e começo a secá-lo com a toalha, até escutar a porta do meu quarto ser aberta.
– Vou pedir uma pizza, certo?! - Lana perguntou da porta, já com um telefone em mãos. Ela também estava de pijama e com os cabelos molhados.
– Ok, só vou ajeitar meu cabelo. - ela assente, fechando a porta em seguida.
Pego minha escova de cabelo e começo a desembaraçar os fios emaranhados. Depois que termino dou uma rápida ajeitada nas coisas e saio do quarto. Dou uma breve olhada para o corredor, e nele havia quatro portas; uma do meu quarto, a outra do quarto de Lana, a do quarto de hóspedes e a do banheiro extra e ao fundo do corredor havia uma parede totalmente de madeira dando um destaque.
Fecho a porta atrás de mim e vou até a sala, vendo Lana fazendo o nosso pedido, e por isso acabo por me sentar no sofá.
– Daqui dez minutos eles entregam. - ela anuncia e se senta ao meu lado.
– Ok, eu posso esperar dez minutos. - falo pegando o controle e ligando a televisão.
A nossa sorte era que já tínhamos montado as coisas grandes, apenas faltava organizar as roupas, utensílios de cozinha e esse tipo de coisa fácil.
Coloquei em um canal qualquer apenas para deixar o tempo passar até que a pizza chegasse.

***

– Eles estão atrasados. - Lana resmungou pela milésima vez ao meu lado.
– Quanto tempo já se passou? - suspiro, também já cansada pela demora.
– Trinta minutos. - ela diz se levanta indo até a janela.
– Vamos esperar mais um pouco. - falo, me juntando a ela na janela.
Lana realmente fez uma bela escolha, daqui de cima dava para ver quase a cidade toda. Era uma visão muito bonita.
– Olha só aquilo, ! - ela diz enquanto apontando para floresta da cidade.
Abro mais a janela avistando entre as árvores e em cima de uma alta colina, uma enorme e antiga construção, o sanatório Waverly Hills. Até parecia aquelas coisas de filme de terror, ele ficava um pouco afastado da civilização, não havia nada o iluminando e a única coisa que o fazia companhia, eram as inúmeras árvores.
– Esse negócio me assusta. - Lana fala ao meu lado.
– Deixa de ser besta, você não ouviu Margaret dizendo que está abandonado há anos?! - volto para o sofá procurando pelo telefone, pronta para ligar para pizzaria.
, a Margaret não disse que ele estava abandonado há anos? - Lana pergunta com uma voz estranha.
– Sim. Eu acabei de falar isso. - respondo sem interesse enquanto começo a digitar os números da pizzaria, que estava anotado em um pequeno caderninho jogado sobre o sofá.
– Então por que as luzes se acenderam? - sua voz se torna ainda mais estranha, me fazendo parar de digitar os números para olhá-la. A mesma tinha os olhos arregalados, e segurava com força as cortinas.
– O quê? Do que você está falando? - me levanto e vou até a janela de novo.
Procuro pelo sanatório vendo que realmente todas as luzes estavam acessas em questão de segundos, me fazendo pensar que se ele estava abandonado há anos, por que estava com as luzes acessas?
Aquilo só fez uma enorme curiosidade despertar em mim. Eu sempre fui do tipo de garota que prefere um bom terror ao romance. Não que eu não gostasse de romances, eu até gosto, só que prefiro terror. Esse tipo de coisa sempre foi mais atrativo para mim e foram poucas as vezes que essas coisas me deixaram com medo. Eu tenho um pé na realidade, vivo em um mundo onde não existe monstros, fantasmas ou qualquer outro tipo de coisa que desafiasse a lógica humana.
– Eu não sei, quer ir lá investigar? - pergunto, vendo Lana saltar para trás.
– O quê?! Está louca?! Claro que não! - sabia que ela ficaria histérica, eu estava apenas brincando. Não iria lá mesmo que o meu lado curioso morresse de vontade de saber por que as luzes de um antigo sanatório abandonado estavam acesas.
Quando eu penso em provocar mais Lana o interfone toca, era o porteiro avisando que a nossa pizza havia chegado.
– A pizza chegou, vamos! - anunciei, voltando para sala. Lana me olha meio incerta me fazendo revirar os olhos – Vem logo. - falo sem paciência, e enfim saímos, indo até o elevador.
Não demora muito para que chegássemos na portaria. Pagamos pela pizza e o refrigerante, e quando estava pronta para voltar, olho além do portão do edifício, vendo a rua totalmente deserta e coberta por uma camada de neblina. Era sinistro, mas nada que fosse anormal.
Fizemos o mesmo caminho de volta, e quando o elevador abriu no nosso andar, começamos a caminhar pelo corredor novamente.
, você ouviu isso? - Lana pergunta, e paro de andar para olhá-la que mais uma vez estava com medo.
– Ouviu o que, Alana? - reviro os olhos. Eu já estava começando a me irritar com isso.
– Esse barulho de passos atrás da gente. - ela responde e olho em volta não vendo nada.
– Não tem ninguém aqui, Lana, estamos sozinhas. - falo e volto a caminhar.
– Por isso mesmo, estamos sozinhas. Então de quem eram os passos? - ela me olha assustada.
– Deve ser do fantasma da cidade. - respondo sem paciência.
Ela já está ficando paranoica com isso.

***

Comemos quase a pizza toda e agora estávamos mais do que satisfeitas. Amanhã teríamos que ir ao mercado, já que eu não queria comer porcarias todos os dias.
– É melhor irmos dormir agora. Amanhã temos que ir ao mercado e procurar por algum emprego, afinal, as contas não se pagam sozinhas. - falo, pegando os pratos e copos e os levando até a cozinha – Mas se tivermos sorte, talvez o fantasma as pague para nós. - debocho, ouvindo Lana bufar atrás de mim.
– Você devia parar de brincar com essas coisas. - me viro encontrando uma Lana séria e de braços cruzados.
– E você deveria parar de acreditar em historinhas para crianças. Isso não existe, Lana. - também a encaro séria – Vamos dormir logo. - dou as costas para minha amiga e vou caminhando em passos calmos até meu quarto.
Nos despedimos e cada uma foi para o seu quarto. Quando adentro o novo cômodo, vou até o banheiro para poder escovar meus dentes e fazer o resto de minhas higienes. Quando termino volto para o quarto, arrumando minha cama e deitando nela.
– Boa noite, Sr. fantasma. - falo debochadamente, antes de deitar minha cabeça no travesseiro e cair em um sono profundo e tranquilo.


Capítulo 2

Desperto de meu sono quando sou invadida por um maravilhoso aroma de café que faz meu estômago dar sinal de vida.
Esfrego meus olhos e me estico toda para acordar, e com um suspiro, me levanto da cama. Caminho no escuro à procura da janela e tropeço em algumas coisas até conseguir alcançá-la, rio comigo mesma e quando finalmente consigo abri-la, um vento forte e gelado me atinge e estremeço. Coloco meus braços ao redor de meu corpo na tentativa de me aquecer enquanto olho através da janela. Sou privilegiada com uma vista linda, mas me sinto um pouco desanimada por não conseguir ver a construção do sanatório daqui, pois tudo o que se pode ver é uma densa floresta que se estende sobre uma alta colina.
Respiro fundo apreciando a vista e sorrio ao pensar onde estamos. Nosso apartamento. Ainda não consigo acreditar que chegamos até aqui, mas realmente precisamos encontrar um emprego, quem sabe hoje é o nosso dia de sorte.
Pego um moletom mais quente sobre uma caixa de papelão aberta e o visto enquanto caminho para a cozinha, onde sou recebida com um sorriso de Lana.
– Bom dia. - saúdo depois de passar minha cabeça pela gola apertada do moletom.
– Bom dia, bela adormecida. - Lana brinca - Fiz café. - ela anuncia e eu bato palmas animada. Encho quase toda a xícara branca com o líquido preto e me sento ao seu lado no balcão.
– Quais são os planos para hoje? - tomo um longo gole da bebida quente e me sinto aquecida de imediato.
– Comprar mais café? - ela responde com uma pergunta e eu rio - Não, sério, a gente precisa de mais café e de bolachinhas, aquelas em formato de coala, sabe? E um pouco de açúcar também. Nossa, a gente não tem quase nada aqui. - ela diz frustrada.
– A gente pode sair para conhecer melhor a cidade e quem sabe procurar por vagas de emprego, e na volta para casa, passamos no mercado, o que acha? - pergunto enquanto levo minha xícara até a pia, passo ela por baixo da água e deixo ao lado para secar.
– Pode ser, vou me trocar. - minha amiga diz e some do meu campo de visão.
Volto para o meu quarto e decido vestir algo mais quente. Hoje o tempo não está dos melhores, então opto por jeans, blusa branca com mangas, minhas botas de cano curto e um casaco caramelo. Penso na possibilidade de levar um cachecol, mas desisto na hora em que Lana me chama.
– Estou com fome, vamos! - pego uma bolsa, e dentro de minutos estamos caminhando pelo saguão do prédio.
O simpático porteiro sorri e nos deseja bom dia quando passamos por ele, retribuo a gentileza e Lana desce até a garagem para pegar o carro. Atravesso a porta de vidro e me arrependo de não ter pego o cachecol, aqui fora está um gelo.
Aperto o casaco em volta do meu corpo e atravesso o portão de grades de ferro, chegando à calçada. Desço os poucos degraus da entrada e vejo Margot vindo com um saco de papel nos braços.
– Bom dia. - cumprimento.
– Bom dia, menina. - ela sorri - O que está fazendo aqui fora nesse frio? - a senhora pergunta enquanto ajeita o saco de papel em um de seus braços.
– Vou conhecer melhor a cidade, fazer algumas compras e procurar um emprego. - respondo dando de ombros.
– Emprego? - ela pergunta e eu assinto – Sei de uma vaga na biblioteca da cidade, se você tiver interesse, é logo na rua principal. Procure por um rapaz muito simpático, não me recordo seu nome, mas ele tem olhos verdes e um sorriso acolhedor, ele irá te ajudar. - ela informa e faz menção de entrar no prédio, mas volta – Você não vai sozinha, não é? - ela parece preocupada agora.
– Não, Lana também vai. - avisto o carro preto de Lana dobrando a esquina.
– Não me parece muito seguro, duas jovens meninas como vocês, andarem sozinhas por aí. - a encaro confusa.
– Por quê? Nós só vamos ao centro. - respondo um pouco irritada por ouvir isso. O que pode haver demais na cidade?
– Apenas tome cuidado e volte antes do escurecer. - ela aconselha e antes que eu poça argumentar, ela se vai.
Entro no carro depois que Lana buzina, impaciente, e ela logo acelera.
– Croissants, aí vamos nós! - ela diz animada enquanto bate suas mãos no volante.

***

Percebo que estamos chegando ao centro quando as casas começam a ser substituídas por pequenas lojas. Foram exatamente essas pequenas coisas que mais me encantaram em Hazelwood, casas simples, ruas estreitas, pequenas lojinhas que vendem de tudo, a floresta enorme e encantadora, e claro, Waverly Hills, o sanatório. Não vejo a hora de descobrir mais sobre esse lugar misterioso que todos parecem temer.
Descemos do carro e optamos por um café menos lotado, já que temos muito pelo resto do dia. Fazemos nossos pedidos no balcão e logo uma simpática senhora vem até nossa mesa para entregá-los. Pergunto à ela o caminho para a biblioteca da cidade e ela me dá as coordenadas. É bem perto de onde estamos.
Terminamos nosso café e seguimos o caminho que a senhora nos disse, chegando à biblioteca em minutos. Olho para a construção admirada com sua beleza e tamanho; quatro altas colunas em mármore claro sustentam o teto com várias gravuras em cinza escuro. Não consigo distinguir o que são, mas imagino que sejam esculturas de pessoas que fizeram parte da história da cidade.
! - volto à realidade quando ouço Lana chamar meu nome – Vamos entrar. - ela diz choramingando.
Subo os poucos degraus da entrada e empurro a pesada porta de madeira escura, revelando o paraíso. Centenas de milhares de livros ocupam estantes que vão do chão ao teto, de lado a lado das paredes, formando inúmeros corredores, algumas mesas estão enfileiradas no centro do salão, dando um ar bem mais sério ao local.
Deixo Lana admirando tudo e me dirijo para um balcão ao canto esquerdo onde se lê em uma placa "posso ajudar?" em letras douradas.
– Com licença!? - digo para um rapaz concentrado nos papéis em sua mão. Quando capto sua atenção, vejo que ele se encaixa nas descrições de Margot, jovem, de olhos verdes...
– Posso ajudar, senhorita? - e aí está o sorrio encantador.
– Ahm, sim. - digo um pouco atrapalhada devido a seu sorriso - Gostaria de saber sobre a vaga de emprego, tenho interesse. - ele me olha por alguns segundos antes de responder.
– Ah, certo... Bom, ahm... Meu chefe não está aqui agora e bom... Não seria educado da minha parte te deixar esperando ou fazê-la voltar mais tarde então.... Ahm... Eu sou o Connor, prazer! - ele se atrapalha todo para falar e eu sorrio pelo jeito envergonhado que ele estende a mão para mim.
! - o cumprimento e olho em volta à procura de Lana e a vejo perdida em seu próprio mundo enquanto passa o polegar nas capas dos livros.
Connor sorri. – Bom, sobre a vaga... - ele clareia a garganta – ... Você basicamente teria que recolocar os livros em seus devidos lugares e organizar os arquivos. - Connor diz e eu sorrio animada. Parece fácil, muito fácil.
– Parece fácil, não é? - ele diz como se tivesse acabado de ler minha mente, e por alguns segundos, realmente penso que ele possa fazer isso, mas, fala sério, ninguém consegue fazer isso, seria surreal, não é? – Bom, o trabalho é bem fácil na maioria das vezes, mas não conta para ninguém. - ele diz essa parte um pouco mais baixo, como se estivesse contando um segredo e o acho adorável por isso – Mas espere até ver esse lugar na semana de provas finais. - o garoto de olhos verdes respira fundo - É um caos! - Connor diz um pouco apavorado, me fazendo rir.
Gostei dele.
– Então nós podemos ficar com o emprego? - pergunto esperançosa.
– Nós? - ele arqueia uma sobrancelha de maneira confusa.
Cacete, esqueci da Lana.
– Sim, nós! Minha amiga, Lana, e eu – rapidamente corro em direção a loira, e a trago arrastada pelo braço, não ligando para seus protestos.
– Ai, ! - ela reclama enquanto esfrega o antebraço, mas para quando vê Connor a observando com um sorriso.
– Connor, está é Alana. -ela acena envergonhada - Lana, este é Connor, o simpático rapaz de olhos verdes e sorriso acolhedor que vai nos dar um emprego. - brinco e Connor ri ficando levemente vermelho nas bochechas, logo percebendo a referência, e Lana parece confusa.
– Margot? - ele pergunta mesmo já sabendo a resposta.
– Sim, nós somos vizinhas. Ela que te indicou. - sorrio para ele.
Ele parece surpreso e envergonhado. – Sério? - ele pigarreia para disfarçar seu espanto - Bom, se Margot indicou vocês, fico muito feliz em dizer que conseguiram a vaga. - ele anuncia e eu grito. Sim, eu gritei em uma biblioteca, recendo alguns "shh" em resposta, e me desculpo silenciosamente.
– Não acredito! - Lana me abraça fortemente e nós duas soltamos alguns gritinhos, mas desta vez, mais silenciosos.
– Olha, vocês ainda têm que preencher toda a papelada e talvez meu chefe me mate, mas eu realmente preciso de ajuda aqui e... - Connor começa à divagar, mas eu o interrompo.
– Muito obrigada, Connor. - sorrio e ele cora.
– Quando começamos? - Lana pergunta.
– Amanhã? - ele meio que pergunta para si mesmo.
– Amanhã? - eu pergunto para Lana.
– Amanhã! - ela responde animada.
– Amanhã, então! - Connor dá o veredito – Ahn, será que eu... Eu poderia pegar seu telefone? - Lana me olha quando a perguntada é lançada para mim – Para vocês sabem... Manter contato? - Connor se embaralha com as palavras mais uma vez, e Lana resmunga do meu lado algo que não consigo entender o que é.
Passo meu número e o de Lana para ele e nos despedimos, mas antes que pudéssemos ir embora, pergunto para Connor onde fica o mercado mais próximo e ele não exagerou quando disse que ficava logo ali. O edifício realmente ficava apenas a um quarteirão de distância.


Capítulo 3

Para minha surpresa o mercado não era como eu imaginava. Eu não esperava por algo gigante já que sei o tipo de cidade pequena que Hazelwood é, mas também imaginava isso, já que na minha frente estava uma pequena construção antiga mais parecida com uma lojinha de conveniências.
Caminhamos até a porta de vidro, escutando um tilintar de sino soar pelo local assim que empurramos a mesma. Por dentro ela era bem maior do que apenas encarando de fora. Uma jovem senhora estava ao caixa com uma revista em mãos, ela não fez questão de erguer seu olhar e ver qual era o tipo de pessoa que entrava em sua loja. Bom, se ela não liga, eu também não vou ligar.
Para minha sorte, mesmo sendo um mercado simples, encontramos tudo que precisávamos. Por isso pegamos todas as coisas, fomos até o caixa para pagarmos por elas e depois juntamos tudo e levamos até o porta-malas do carro, para enfim voltar para nosso apartamento.

***

Algumas horas depois, Lana e eu estávamos paradas no meio da sala, apenas admirando nosso belo trabalho. Assim que chegamos abastecemos a cozinha com as compras e começamos uma grande revolução no apartamento, desempacotando todas as caixas e arrumando cada coisa em seu devido lugar.
– Estou mais cansada do que ontem. - Lana resmunga, levando uma de suas mãos até as costas.
– Acho melhor ir se acostumando. - me viro em sua direção lançando um olhar divertido – Essa será nossa rotina de agora em diante. - minha amiga contorcer o rosto em uma careta, me fazendo rir.
– Não ligo, estou feliz demais para isso. - ela sorri – É tão bom saber que agora temos o nosso próprio espaço. - ela diz animada, enquanto encara ao redor com admiração nos olhos.
– Sim, nós... - sou interrompida pelo barulho de meu celular vibrando em algum canto. Rapidamente procuro eles com os olhos o vendo vibrar em cima da mesinha de centro – É uma mensagem do Connor. - falo, encarando o visor do aparelho de forma confusa.
– Hm, do Connor, huh!? - Lana diz divertida, me fazendo levantar meu olhar até ela, a vendo sorrir maliciosa, e em resposta eu apenas reviro os olhos – O que ele mandou? - ela perguntou, vindo em minha direção e espreitando sobre meus ombros.
– Ele quer saber se vamos para o trabalho amanhã mesmo. - falo, enquanto digito uma resposta para Connor.
– Por que não chama ele para jantar aqui hoje? - levanto meu olhar até a loira – Apenas para nos conhecermos melhor, afinal ele vai ser nosso colega de trabalho. - ela arruma uma boa explicação e eu apenas dou de ombros.
Fiz o convite e ele aceitou, passei nosso endereço e mais tarde Connor estaria aqui. Acho que vai ser bom, ele parece ser uma pessoa incrível e vai ser legal passar algum momento com alguém da nossa idade. Não que não gostamos da presença de Margaret e Margot, mas eu já estava ficando de saco cheio de toda essa besteira de lenda da cidade.
– Ele vai vir. - aviso Lana, que sorri em resposta.
– Acho que ele gostou de você. - ela me lança outro olhar malicioso.
– Por favor, não comece. Nós acabamos de nos conhecer, então a menos que ele já me conheça de um passado do qual eu não lembre, isso seria impossível. - reviro os olhos de novo, e Lana desvia o olhar, parecendo um pouco apreensiva com o que eu disse.
– É sério, ele ficou todo sem graça quando te viu. Muito fofo. - ela solta um falso suspiro, tentando se recompor.
– Vamos tomar banho e depois fazer o jantar. - mudo se assunto tentando sair dessa situação chata.
Lana é maluca, não acho que Connor tenha gostado de mim. Pelo menos não da maneira que ela insinuou, só deve ter ficado sem jeito porque parece ser um garoto tímido, apenas isso. Até porque nós acabamos de nos conhecer, acho que seria meio impossível.

***

Apenas algumas horas depois, eu já havia tomado meu banho e o jantar já estava quase pronto, apenas checava os detalhes finais e esperava pela chegada de Connor.
– Meu Deus! Que cheiro delicioso, ! - Lana fala exasperada surgindo na cozinha. Logo se apressando e vindo em direção ao fogão - Sua comida é a melhor. - apenas sorrio em resposta ao seu elogio.
Havíamos dividido as tarefas. Eu fiquei com o jantar e ela encarregada da sobremesa, estamos tendo um trabalhão apenas para dar o nosso melhor ao nosso primeiro convidado de verdade. Eu até que estou um pouco animada com isso.
Ignorando isso por hora, volto a mexer o conteúdo da panela, sentindo uma pequena quantidade de fumaça quente atingir meu rosto, o que me faz tombar a cabeça para o lado, na intenção de desviar disso.
– Será que as luzes do sanatório estão acessas? - a pergunta repentina de Lana me fez olhá-la confusa. Eu realmente não entendo ela, uma hora está brigando comigo sobre todo esse assunto ser chato e no outro momento está me perguntando, mas sei como acabar com isso.
– Não sei, vamos ver. - falo, na esperança de que ela me olhe assustada e mude de assunto, mas, para minha surpresa, ela toma a frente saindo da cozinha e indo até a sala, me fazendo apenas segui-la.
Vamos até a janela, afastando a cortina para o lado, e me sinto cada vez mais surpresa por Lana querer ver isso; e um tanto confusa também. Procuro pelo enorme edifício, logo o localizando, grande do jeito que era seria muito difícil de não notá-lo. Lana se posiciona ao meu lado e eu a encaro tentando entender o que ela quer com tudo isso, mas seus olhos se arregalando não me deixam perguntar, e quando volto a procurar pela construção velha do sanatório, vejo que todas as luzes estão acessas, como se fosse mágica.
– Isso foi estranho. - falo, ainda encarando a construção.
Isso foi realmente estranho, até parecia que sabiam que estávamos olhando. Bastou que Lana e eu procurássemos pelo sanatório para que o mesmo respondesse com suas luzes acessas. Estou começando a cogitar a hipótese de estar delirando junto com minha amiga, e que talvez todo esse papo de lenda esteja nos afetando de fato.
O som da campainha soando pelo apartamento nos faz dar um pequeno pulo para trás e nos encararmos assustadas por um segundo, mas depois a realidade volta e eu me acalmo.
– Vou atender a porta. - Lana se voluntaria, indo em direção a mesma, enquanto eu tento esquecer o que aconteceu.
– Eu vou ver com estão as coisas na cozinha - volto em passos rápidos até a cozinha, ainda achando estranho o acontecido de segundos atrás, mas agora não é hora para isso.
Verifico o frango xadrez, vendo que estava pronto, depois olho a panela do lado consequentemente sento o delicioso aroma do espaguete. Vendo que tudo estava pronto, desligo as bocas do fogão e tapo todas as panelas, para poder ir até a sala e receber o convidado da noite. quando faço isso me deparando com um Connor extremamente adorável, ele usava uma blusa de mangas compridas da cor cinza, calça jeans de lavagem clara e tênis. Estava simples, mas muito bonito.
Vou em sua direção com um sorriso no rosto, recebendo outro maior em resposta.
– Essa é a segunda vez que nos vemos hoje, acho que podemos nos tornas bons amigos de trabalho. - falo divertida, tentando ser descontraída e fazer com que ele se sinta à vontade.
– Acho que sim. - Connor dá um sorriso tímido – Obrigado, pelo convite. - assim que agradece seu rosto ganha um pequeno tom avermelhado.
– Não agradeça a mim, a ideia foi da Lana. - aponto para minha amiga, e assim que o faço, noto um pequeno desapontamento no rosto de Connor, o que me deixa confusa, mas prefiro manter apenas para mim.
– Vamos jantar? - Lana pergunta de supetão quando todos ficam em silêncio, nos fazendo ir até a cozinha e preparar a mesa com todos os utensílios para que possamos ter um ótimo e agravável jantar.

***

– Espero que tenha gostado, dei o meu melhor no jantar. - falo para Connor assim que terminamos de comer.
– Estava ótimo, você cozinha muito bem. - ele elogia, me fazendo dar um grande sorriso.
– Agora é a minha vez, também quero um elogio. - Lana brinca, enquanto vai até a geladeira retirando de lá um lindo e aparentemente saboroso triple berry cake.
Enquanto ela ajeita sobre a mesa seu bolo, me levanto e vou até o armário atrás de pratos limpos, depois entrego um para cada e por fim nos servimos com uma fatia do bolo.
– Hmm!!! Isso está maravilhoso! - comento com a boca cheia de bolo.
– Está mesmo, - Connor também comenta, deixando Lana satisfeita.
Comemos mais alguns pedaços, até que algo me veio em mente, o Waverly Hills. Eu não sei motivo especifico, mas depois de todo esse estresse que passamos por conta disso, eu gostaria de saber a opinião de outra pessoa sobre essa suposta lenda, assim poderíamos acabar com isso de uma vez. E, bom, Connor trabalha em uma biblioteca, se essa lenda tiver mesmo algum fundo de verdade ele provavelmente deve saber sobre.
– Connor, você mora quanto tempo aqui? - começo com uma pergunta simples, para poder introduzir esse assunto.
– Moro aqui desde que nasci. - ele responde.
– Então você deve conhecer todas as antigas histórias da cidade... - começo a falar e faço uma pequena pausa – Do sanatório Waverly Hills, por exemplo. - ele franze o cenho por um momento, mas acaba assentindo.
– Esse assunto de novo?! - Lana pergunta, tentando parecer irritada, mas a sua voz não transparece isso, talvez ela queira saber disso tanto quanto eu.
– O que aconteceu lá? - pergunto, e apoio os meus cotovelos sobre a mesa, mas antes que Connor responda alguma coisa, vejo Connor e Lana trocarem um olhar totalmente estranho, como se compartilhassem algo que eu não sei.
– Não sei muita coisa sobre isso, mas... - ele começa e faz um apequena faz uma pausa, apertando os olhos, como se quisesse lembrar de algo. - O que ouvi a respeito disso é que o Waverly Hills foi construído para abrigar pessoas com tuberculose. Naquela época teve um surto muito grande de pessoas com a doença, a maioria acabou morrendo no sanatório e o restante acabou se matando, mas o estranho mesmo, era que ninguém encontrava os corpos dessas pessoas, nem mesmo os familiares quando iam atrás para fazer um enterro ou coisa do tipo. - ele finaliza sua explicação.
– Mas só para pessoas com tuberculose? - pergunto, ainda mais curiosa sobre isso.
– Na verdade, dizem que essa história de tuberculose era verdadeira apenas no começo, mas que depois de algum tempo foi usada para encobrir o que realmente acontecia lá dentro. - quando Connor diz isso eu sinto uma pequena movimentação embaixo da mesa, como se alguém tivesse chutado algo.
– Curioso o fato de ninguém saber o que aconteceu com os corpos. - comento, tentando ignorar o comportamento estranho de Connor e Lana.
– Vamos parar com essa conversa, Connor vem jantar aqui e você fica importunando ele com essa idiotice de sanatório. - Lana tenta bruscamente mudar de assunto, me deixando confusa pela forma que ela vem agindo durante o dia.
– Idiotice, mas até pouco tempo atrás você queria porquê as luzes de lá estavam acessas. - rebato debochadamente, não entendo suas mudanças de humor em relação a isso.
– Meninas... - Connor tenta falar, mas Lana interrompe ele.
– Mas agora isso já deu, ok! - ela fecha a cara.
– Meninas, eu...
– Por favor, sem drama. Apenas para de agir com se a cada segundo você fosse uma pessoa diferente. - reviro os olhos, não acreditando que nossa primeira briga aqui seria por uma coisa tão besta.
– Meninas...
– O que foi, Connor?! - um pouco exaltadas pelo estresse, perguntamos juntas para Connor, que fica vermelho no mesmo instante.
– Me desculpe por isso. - começo, meio sem jeito. – Não era bem isso que a gente havia planejado quando te convidamos. - tento arrumar uma explicação descente para o rumo que nossa conversa tomou.
– Sim, nos desculpe. - Lana também se desculpa, mesmo que eu perceba que suas palavras soem falsas. Afinal, o que deu nela? Desde que chegamos nesse lugar ela está estranha.
– Não se preocupem. - Connor diz suavemente, tentando amantizar o clima, e no final apenas ficamos em um silêncio horrível até ele anunciar que precisava ir embora.
Por fim o levamos até a porta e nos despedimos de Connor, que diz estar ansioso para o nosso primeiro dia juntos na biblioteca. E assim que o mesmo vai embora sou surpreendida pelas palavras de Lana.
– Me desculpe, eu não devia ter sido tão dramática. - minha amiga se vira para mim com arrependimento.
Olho em sua direção a vendo suspirar cansada.
– Tudo bem, eu apenas tenho que parar com toda essa chatice. - dou um fraco sorriso, tentando amenizar tudo.
Depois disso seguimos para o corredor e cada uma foi para o seu quarto. Quando atravesso porta adentro logo procuro pelo meu pijama, rapidamente trocando minhas roupas por ele, e depois indo até minha cama e me deitando, mas sem o intuito de dormir. Eu sei que havia dito para Lana que devia parar com isso, mas algo sobre aquele antigo sanatório despertava minha curiosidade, e toda essa lenda mal contada.
Quando dou por mim já estava caminhando pelo corredor outra vez em passos silenciosos e indo até a sala, depois caminhando até a janela e afastando a cortina para procurar pelo sanatório, e mais uma vez, assim que meus olhos se encontraram a enorme construção, as luzes são acessas. Dou um pequeno passo para trás em resposta, mas logo volto a me aproximar da janela, arrastando o vidro para o lado e colocando a cabeça e braços para fora da mesmo, deixo meus braços apoiados contra o batente da janela, sentindo o vento me atingir fazendo com que meus cabelos voassem em diversas direções.
Waverly Hills, o antigo sanatório supostamente abandonado que ascende suas luzes pela noite, e que tem uma lenda que ninguém sabe explicar. O lugar onde foi marcado por muitas mortes, mas nenhum corpo encontrado, o local assombrado por alguma coisa, mas o quê?
Por mais que eu queira esquecer isso, alguma coisa dentro de mim não deixava, era como uma conexão que no fundo eu não sabia se era para acabar com toda essa história de lenda ou para saber o que habitava nas paredes daquele lugar. Eu tinha que saber a verdade sobre o sanatório e tentarei isso amanhã quando for trabalhar na biblioteca. Quando surgir a oportunidade certa e eu estiver sozinha, não vou pensar duas vezes antes de procurar algum artigo, notícia ou até mesmo algum jornal antigo da época que falasse sobre esse assunto. Eu não sei o que se passa nesse sanatório e nessa cidade, mas uma coisa é certa, eu vou descobrir.
Coloco meu rosto e braços para dentro da sala novamente e fecho a janela, seguro a ponta da cortina pronta para arrastá-la, mas não sem antes dar uma última olhada no sanatório vendo as luzes se apagarem juntamente com minhas ações. Isso era muito estranho, quando eu chego a luzes se ascendem e quando eu saio, elas se apagam.
Ignorando isso pelo menos por hoje, arrasto a cortina e me viro pronta para voltar para o meu quarto. Caminho pelo corredor escuro, mas tenho a sensação de algo passando atrás de mim, e por isso olho por cima dos ombros, não encontrando nada além da escuridão.
Eu apenas preciso deixar isso para amanhã.

***

Acordo antes do despertador tocar, logo levantando e pegando o necessário para poder tomar um banho rápido antes de sairmos para a biblioteca. Tenho que admitir que estou muito ansiosa para meu primeiro dia no emprego novo, e o fato de estar o dia todo rodeada por livros e poder falar sobre eles com outras pessoas, é incrível, realmente não vejo a hora. Também quero procurar mais informações sobre Warvely Hills hoje, espero que consiga.
Deslizo o pijama pelo meu corpo e entro na água morna, me sentindo mais relaxada. Fico mais tempo que o necessário no banho, saindo apenas quando ouço Lana resmungar algo sobre eu acabar atrasando a gente. Me seco e visto uma roupa casual mas arrumada, levando em conta que não temos um uniforme de trabalho. Saio do banheiro e vou para a cozinha com o intuito de fazer algo para comermos, acabando por preparar apenas algumas panquecas, e enquanto deixo a máquina de café trabalhando, resolvo dar uma olhada no sanatório. Abro as cortinas e olho para o prédio distante, tudo parece estar normal e olhando assim, ninguém poderia dizer que esse lugar alguma vez foi palco das atrocidades que todos com quem já conversei disseram. E é exatamente isso que me intriga, ninguém sabe ao certo o que ocorreu no local, ou sabem, mas não falam. O que pode ter acontecido de tão horrível para que tenham tanto medo de tocar no assunto?
– As panquecas vão esfriar, . - a voz de Lana me traz de volta ao mundo real e me sinto estúpida por não ter percebido ela entrar no mesmo cômodo que eu.
Me sento no lugar à sua frente na bancada e permaneço em silêncio durante toda a refeição, não conseguindo pensar em mais nada a não ser o sanatório.

***

Descemos no saguão e o simpático porteiro, que vim a descobrir que se chamava Harvey, nos cumprimenta. Depois caminhamos em direção ao centro em silêncio, e me sinto na obrigação de preencher o vazio entre a gente, mas não quero aborrecê-la com mais "papo sanatório", então simplesmente respeito seu silêncio e permanecemos caladas por todo o caminho.
Cumprimentamos Connor assim que chegamos, e ele logo distribui várias tarefas para realizarmos durante o dia. Vou até a fileira de clássicos com um carrinho cheio de livros empilhados e organizo títulos como "Orgulho e Preconceito" e "Romeu e Julieta" de volta nas prateleiras.
Me dirijo à sessão de terror e fico espantada com a quantidade de exemplares sobre esse assunto, e sei que vou passar muito tempo por aqui, visto que esse é meu gênero favorito. Me abaixo para pegar mais livros e quando volto na minha posição original, vejo, por entre frestas de livros tombados, Connor na fileira seguinte conversando com Lana, eles parecem ter algum tipo de conversa séria e por isso resolvo não atrapalhar.
Reorganizo livros e mais livros em seus devidos lugares e isso é basicamente o que faço durante todo o dia, apenas parando algumas vezes para dar informações sobre onde achar tais autores ou tais títulos. E ao final do expediente nos encontramos perto da mesa onde Connor trabalha, e vejo Lana apenas pela segunda vez que entramos aqui. Quero acreditar que não nos encontramos apenas pela biblioteca ser gigantesca e não pelo fato dela estar chateada comigo devido ao jantar da noite passada.
– Vocês foram fantásticas hoje, meninas. - Connor elogia quando nosso horário termina, talvez desejando não ter dito isso em voz alta, já que ele se encolhe no lugar.
– Obrigada, Connor, você é muito gentil. - tento deixar a situação melhor para ele.
– Obrigada. - Lana diz rapidamente.
Connor apaga algumas luzes mais para o fundo da biblioteca e se despede de nós antes de se dirigir para uma das várias prateleiras, dizendo que tem mais algum trabalho pra terminar.

***

Assim que saímos da biblioteca fomos recebidas por uma agradável noite. O céu estava bem estrelado com uma lua brilhante o destacando. Olho para Lana, que parecia perdida olhando para o enorme número de estrelas que rasgavam o céu.
– A cidade fica adorável a noite. - comento, olhando a estreita rua de pedra com alguns postes iluminando o caminho, assim como as inúmeras casinhas enfeitadas com algumas lamparinas.
– Sim, aqui é realmente bem acolhedor. - ela concorda, mas não vejo verdade em sua fala.
Algumas pessoas transitavam por aqui, outras andavam de bicicleta e por fim, haviam alguns poucos carros pelas ruas. Continuamos nosso caminho cumprimentando algumas pessoas que passavam e nos acenavam educadamente. Hazelwood foi definitivamente uma ótima escolha. Era uma cidade bem tranquila ao contrário do que diziam, as pessoas eram muito simpáticas e sempre estavam de bom humor, era como se ajudar ao próximo fosse um dever aqui. Todos parecem querer ajudar alguém e com nós não foi muito diferente, Margot, Margaret, o porteiro simpático e Connor são exemplos disso.
Atravessamos o pequeno vilarejo de casas, logo avistando a floresta da cidade. Para fazer o caminho de volta para casa, tínhamos que passar em frente a floresta que eventualmente leva até o sanatório Waverly Hills.
Uma densa neblina parecia sair da floresta e o ar mudou drasticamente, era como se estive mais carregado. Percebi Lana ficar um pouco mais rígida ao meu lado. Eu sabia que ela tinha medo e não gostava da ideia de ter que passar por este caminho todos os dias, mas a ideia de usar um carro, e gastar tanta gasolina não era muito inteligente.
A essa altura já passávamos em frente a extensa e larga floresta, e diminuo o ritmo dos meus passos para que pudesse analisá-la melhor, encaro ao longe a neblina tomar conta da floresta que era iluminada apenas pela luz da lua. As árvores chegavam a ser monstruosas de tão grandes que eram, mas não me deixei intimidar por isso, pelo contrário, isso só fez uma enorme curiosidade despertar em mim. Eu precisava saber o que se passava entre essas enormes árvores que no final me levariam até Waverly Hills.
– O que está olhando? Anda, ! Vamos embora. - olhei para Lana a vendo um pouco aflita, mas andando em passos lentos, contradizendo sua fala.
– Eu estava pensando...
– Não! - ela me interrompe – Eu sei o que você está pensando e a resposta é não. - ela para de andar.
– Por favor! - junto as mãos e faço minha melhor cara.
– É melhor irmos embora. - Lana cruza os braços.
– Se você for lá comigo e a gente não achar nada, eu juro que nunca mais falo sobre o sanatório. Eu só quero acabar com toda essa história de uma vez. - falo, apontando para construção atrás de mim que podia ser vista daqui.
Lana olhou da construção para mim soltando um suspiro, ela parece pensar um pouco antes de responder.
– É sério isso? - ela pergunta com tédio.
- Sim! - respondo firme.
– Vamos acabar com isso de uma vez. – e, outra vez me surpreendendo, ela toma a frente e vai em direção a entrada da floresta, e eu nem sequer tive muito trabalho para convencê-la, o que eu acabo achando estranho.
Entramos na floresta e depois de caminhar por alguns minutos, tudo o que podíamos ouvir era o som que nossos pés faziam sob o solo de terra batida. O silêncio era quase absoluto, e devido à luz da lua, o mais inofensivo galho projetava sombras enormes que pareciam nos seguir para onde quer que fôssemos.
? - Lana pergunta com certa urgência. – Você ouviu isso? - ela soa amedrontada, mas quando olho em volta, apenas encontro árvores e mais árvores.
– Nós estamos sozinhas, Lana. Fique tranquila. - sorrio na intenção de acalmá-la.
Subimos o que antes era uma escada de pedra e ficamos a poucos metros da lateral do prédio mais temido dessa cidade, e estamos prestes a descobrir o porquê.
– O que é isso? - escuto a voz de Lana pergunta outra vez, e olho em sua direção a vendo um pouco mais afastada.
Acabo indo até onde minha amiga está.
– Acho que é um túnel – falo em dúvida, enquanto analiso o grande buraco escuro a minha frente, onde havia uma pequena escadinha e ao lado uma rampa.
Dou alguns passos, mas sinto Lana agarrar meu braço.
– Não vamos por aí, é perigoso. Acredite em mim, esse é o último lugar que você quer ir. - ela fala séria, e dá um riso sem humor.
– Mas... - tento contra argumentar sua estranha fala.
– Mas nada, eu já não estou afim de entrar nesse lugar agora. - a loira me puxa para longe do túnel. – Ou vamos pela frente ou não vamos. - ela finaliza e eu bufo irritada, puxando meu braço para mim e caminhando ao seu lado.
Continuamos subindo a grande colina, até que finalmente chegamos em frente ao famoso sanatório assombrado, Waverly Hills.


Capítulo 4

Ele parecia dez vezes maior agora do que olhando da janela do apartamento, sua pintura vermelha e branca já era gasta, mas mesmo assim a parte de fora estava em sua mais perfeita conservação.
... Eu vi alguém na janela do terceiro andar. - olho para o lado vendo Lana estreitar os olhos.
– Vamos entrar. - ignoro seu comentário e começo a andar até a entrada do sanatório.
Passamos por pilastras brancas e fomos até a grande porta de madeira. Olho uma última vez para Lana, mas ela não estava tão nervosa quanto eu achei que estaria, na verdade parece mais calma do que eu.
Respiro fundo e começo a empurrar a porta que, para minha sorte, não estava trancada. Quando finalmente já tinha empurrado o suficiente para criar uma abertura, olho para dentro vendo apenas escuridão.
– Está vendo alguma coisa? - Lana pergunta enquanto tenta olhar por cima dos meus ombros.
– Não dá para enxergar. - respondo sem olhá-la, apenas tentando ver algo do lado de dentro – Vamos ligar a lanterna do celular - sugiro, e assim fazemos, pegamos nossos celulares e logo as lanternas estavam fazendo um bom trabalho. – Vem! - por último sussurrei, e finalmente começamos a entrar.
– Por que está sussurrando? - Lana sussurra de volta.
– Eu não sei - sussurrei outra vez – Eu não sei - repito minha resposta, mas dessa vez usando meu tom de voz normal. Acho que por tudo estar escuro aqui dentro, e eu não conhecer o lugar, acabei sussurrando, como se estivesse entrando em um lugar que não era meu, o que de fato é verdade.
Solto a porta na esperança de que Lana a segure e encoste a mesma, mas o que escuto é um alto estrondo da porta batendo. – Era pra você ter segurado a porta. - repreendo a mesma, que dá de ombros.
– Vamos logo! - ela me ignora antes de começar a caminhar e eu acabo por apenas a seguir. E não demora muito para darmos de cara com uma recepção velha e, notando que não havia muitas coisas por aqui, apenas passamos por ela.
Quando saímos da recepção nos deparamos com uma bifurcação, dou uma rápida iluminada com a lanterna do celular, vendo que uma das entradas era para algum tipo de sala de espera e a outra entrada era para um enorme corredor mais escuro.
– Você vai escolher essa entrada, certo?! - Lana pergunta enquanto estreita os olhos para mim. E ela estava mesmo certa, já que eu acabo entrando no corredor.
Caminhando pelo enorme corredor escuro, tentávamos iluminar tudo ao mesmo tempo. Mas a única coisa que víamos era a pintura descascada e as paredes velhas. Também haviam muitas entradas sem portas, apenas espaços abertos.
Atravessamos o enorme corredor e viramos à esquerda dando de cara com uma escadaria.
– Vem! - chamo Lana, já subindo os degraus com pressa.
, é melhor esperar. Não me deixe sozinha. - minha amiga resmunga atrás de mim.
– Tá. - respondo mas continuo subindo até chegar no topo da escada.
, estou falando sério. - a voz de Lana se torna mais severa, como um aviso.
Ela vem agindo dessa forma estranha desde que Margot e Magaret nos contaram sobre o Waverly Hills, ela fica com essas expressões e avisos, como se soubesse de algo.
– Eu entendi. - respondo seriamente e ela revira os olhos – Para de ser chata – falo, já de saco cheio.
– Chata? - ela dá uma risada sem humor – Eu entrei na porcaria de um sanatório abandonado, só porque você me pediu, e eu ainda sou chata? - ela me olha totalmente incrédula.
– Sim. Sua atitude já está me dando nos nervosos. - falo a verdade e ela nega com a cabeça.
– Quer saber, se foda sozinha aqui. Eu vou embora. - ela diz com sua voz carregada e passa por mim, mas logo para encarando em volta. – Que parte do sanatório é essa? - agora sou em quem olha em volta vendo que estávamos em um corredor totalmente diferente, talvez tenhamos começado a andar durante nossa pequena discussão e nem percebemos.
– Não sei – dou de ombros, ainda irritada com ela.
Lana dá uma risada sem humor.
– Eu encontro a saída. - e falando isso ela some em meio a escuridão, indo embora.
– Vá com Deus, ou melhor, com a assombração que mora aqui. - respondo mesmo que seja algo idiota. E se Lana ainda estivesse aqui com certeza me xingaria.
Respirei fundo antes de continuar minha caminhada pelo sanatório, tentando esquecer Lana, já que não posso deixar as atitudes estranhas dela me atrapalharem, eu preciso acabar com isso.
Volto a caminhar em meio a escuridão, mas não acho absolutamente nada a não ser por coisas velhas e quebradas, e isso me faz questionar quem seria que acendia as luzes desse lugar? Ele parece meio vazio.
– Preciso encontrar alguma coisa. - falo para mim mesma com um último pingo de esperança.
Passo por mais um corredor vazio. Nada.
– Qualquer coisa. - falo já um pouco frustrada.
Subo outra escadaria.
Dou de cara em outro corredor, mas este é inteiramente composto de janelas, ou melhor, o que um dia foram janelas, mas que hoje são apenas grandes aberturas na parede de pintura descascada. E, por um momento, me encanto com a vista daqui de cima, penso que qualquer um que uma vez já esteve nesse lugar nos tempos que ele ainda funcionava deveria ter esse corredor como uma de suas válvulas de escape.
A vista é realmente fascinante e, por se localizar sobre uma colina, o sanatório é mais alto do que a maioria das coisas da cidade, fazendo com que se possa ter a visão de toda pequena Hazelwood. E me pego procurando pelo meu apartamento, talvez o encontrando eu consiga saber exatamente o local onde as luzes acendem e apagam misteriosamente, e talvez esse seja um bom ponto de partida.
Me aproximo mais do parapeito da grande abertura, mas um barulho à minha direita capta minha atenção antes que pudesse localizar meu prédio. Aponto minha lanterna para a direção do barulho, mas não encontro nada. Lana deve estar longe já, então, o que poderá ser?
Com cuidado começo a me aproximar de onde o barulho veio e resmungo frustrada por mais uma vez cair em um corredor como qualquer outro que já passei. Resolvo voltar para o corredor das janelas já que foi de lá que eu vim, mas usei o corredor da direita ou o da esquerda para chegar até aqui?
Encaro a bifurcação à minha frente e opto pelo corredor da esquerda, passo por vários cômodos vazios e começo a ter a sensação de já ter passado por esse mesmo lugar mais de uma vez. Paro no meio do corredor e olho para os dois lados. Nada. Absolutamente nada. Nenhum som ou sinal de alguém. Quem me dera ter encontrado alguém, assim poderia provar para Lana que quem acende as luzes é apenas algum morador de rua ou arruaceiro que usa o lugar para suas pichações e não alguma assombração maligna que se esconde nas sombras para puxar seu pé de noite.
Rio sem humor com a ideia idiota e meu riso ecoa pelo corredor vazio, me fazendo repetir o som uma e outra vez. Faço vários sons e, conforme vou passando pelos corredores, eles adquirem sons diferentes, como pessoas falando ao mesmo tempo. A intensidade da luz que sai da lanterna do meu celular diminui, me obrigando a parar. Olho para o visor do celular e o símbolo de bateria fraca pisca.
Droga! Não tenho muito tempo aqui, tenho que achar a saída antes que eu fique sem bateria.
Começo a olhar em todas as direções procurando por uma saída, antes que a luz da lanterna se apague de vez. Tento lembrar do caminho que fiz até chegar aqui para poder refazê-lo. Me viro e tento voltar o caminho em passos rápidos, mas um chiado estranho me faz parar, era algo baixo que foi se intensificando até que o som ficasse nítido, me dando a impressão de ser um conjunto de vozes falando ao mesmo tempo.
– Mais que merda é essa? - pergunto para mim mesma.
"Você não deveria ter vindo aqui"
"Corra antes que ele te pegue"
"Ela está perdida"

Consigo identificar algumas frases em meio aquele enorme chiado de vozes, e para piorar minha situação a lanterna do meu celular apaga de vez, me fazendo imergir em total escuridão.
"Corra, garota estúpida, ele está vindo"
Uma voz fina e infantil ecoa sozinha quando o chiado para e, logo ao finalizar sua fala, passos pesados são ouvidos pelo corredor que eu estava. Olho para frente tentando enxergar alguma saída, mas apenas a escuridão era minha única companhia. Os passos começaram a ganhar mais força e agora vinham correndo, e por isso sem pensar duas vezes eu sai correndo pelo corredor, mesmo que não enxergasse absolutamente nada. Eu realmente queria descobrir o que havia aqui, mas de alguma forma ficou estranho, então é melhor que eu me esconda e descubra o que é isso.
Continuo correndo, já sentindo meus pulmões em brasas, na esperança de achar algum lugar. Solto um grito de surpresa assim que os passos pareceram me alcançar.
Silêncio. Novamente o corredor fica em silêncio, mas isso não me impedia de continuar a correr em uma direção qualquer em busca de uma saída. Acabei entrando em uma das inúmeras portas, dando de cara com uma sala com duas entradas. Uma pela qual eu passei e a outra que dava acesso por onde eu ainda não havia ido.
Um brilho estranho a baixo de mim me chama a atenção, e quando olho para baixo vejo que a lanterna do meu celular está ligada. Franzo o cenho e verifico ele, vendo que agora a bateria estava totalmente carregada.
– Mas o quê? Como isso aconteceu? - pergunto totalmente confusa.
Enquanto eu prestava atenção no celular sinto uma forte corrente de vento passar por mim, ergo meu olhar apontando a lanterna para frente e não encontrando nada a não ser por uma parede gasta e uma velha televisão sobre algum suporte de madeira. Clareio o cômodo, encontrando uma enferrujada cama de molas com uma camisa de forças sobre ela. Com certeza algum quarto de paciente.
Novamente senti uma forte corrente de vento, só que agora atrás de mim, me virei abruptamente não vendo nada.
Suspiro cansada.
– Relaxa, , deve ser só alguma corrente de ar que entrou. - falo para mim mesma na tentativa de me acalmar. O que durou poucos segundos, já que o barulho de alguém respirando pesadamente era ouvido atrás de mim e com ele um ar quente que me acertava na nuca.
Meu corpo inteiro se arrepiou de forma involuntária, me fazendo fechar os olhos e as mãos de maneira forte.
– Calma. Calma. - começo a repetir como se fosse algum tipo de mantra, na falha tentativa de afastar o que quer que seja, mas a respiração fica mais alta.
"Você sabe que é real, "
"Fuja"
"Ele vai te pegar outra vez"
Aquele chiado de vozes volta a repetir frases, me fazendo fraquejar por um segundo. E de maneira lenta vou virando meu corpo, ainda com os olhos fechados. E quando eu fico de frente para a suposta respiração alta, um por um eu abro meus olhos, não encontrando nada, e me fazendo soltar um suspiro aliviado.
É a minha imaginação, só pode ser ela, não tem outra explicação. Eu provavelmente deixei que o drama de todos me afetasse agora, com todo aquele papo de assombração.
Deixo que meu corpo relaxar por um instante. É melhor eu sair daqui logo.
Viro meu corpo para a outra direção afim de ir por outro caminho e ver se achava a saída, mas o que eu encontro me faz estremecer no lugar e paralisar sem acreditar.
Parado a centímetros de mim, estava um homem. Ele era alto, muito mais alto do que eu, seus cabelos caiam em cachos indo até seus ombros, mas o que me fez arrepiar foi o seu rosto; seus olhos eram duas órbitas negras, e embaixo deles olheiras extremamente vermelhas davam um contraste horripilante, assim como as inúmeras veias pretas saltando sobre as olheiras.
Meu corpo inteiro entrou em estado de alerta e eu não conseguia me mexer. O pânico tomava conta de cada célula do meu corpo, e minha respiração se tornou algo irregular. Eu nunca havia me sentindo assim antes, era uma sensação estranha e ruim que pairava sobre esse lugar assim que esse homem apareceu.
Então era isso? Eu simplesmente iria ficar aqui parada vendo essa coisa que eu ainda não sabia o que era, fazer algo comigo?
Um sorriso surgiu em seu rosto demoníaco, mas não era um sorriso gentil igual à que Connor costumava me dar, mas sim um sorriso doentio e maligno que passada uma sensação pesada. Um grito de pavor rasgou minha garganta automaticamente, e em poucos segundos já me encontrava correndo novamente. A droga da lanterna desligou mais uma vez e só o barulho de seus passos correndo atrás de mim eram nítidos.
A essa altura o suor já rolava por todo meu rosto. Olhei algumas vezes para trás vendo se ele vinha atrás de mim, mas eu não conseguia enxergar nada além do escuro, por isso volto a olhar para frente e avisto a escadaria que subi, e em passos rápidos desço ela correndo, quase caindo no final por não conseguir ver nada.
Seus passos alcançaram a escadaria e meu corpo se torna mais rígido. Sem parar de correr olhei para trás a procura dele, mas outra vez nada. A única coisa que consegui foi sentir meu corpo se chocando contra alguma coisa que me levou para o chão no mesmo instante. Coloco minha mão até a parte de trás da minha cabeça, que havia batido contra o chão na queda. Rapidamente me sentei, já pronta para correr de novo caso fosse necessário.
– Lana?! - pergunto um pouco alto assim que vi seu corpo se levantar também. Sem pensar muito ela veio até mim. – Você não tinha ido embora? - pergunto confusa, me esquecendo por um segundo aquele homem que estava atrás de mim.
– E-Eu tentei – ela faz uma pausa, e respira fundo antes de continuar – Eu tentei, mas não achava a saída. Então vozes... - fechou os olhos e levou as mãos até a cabeça – Muitas vozes, aquelas malditas vozes. - ela fala com misto de pavor e irritação.
– Me desculpe, agora eu entendo o que você queria dizer. - digo, a olhando um pouco arrependia – Mas precisamos sair daqui logo, antes que ele nos ache. - falo e ela me olha confusa por um segundo, mas apenas assente, ela sabe que agora não é o melhor momento para conversar.
Encaro nossos celulares caídos no chão com as lanternas para cima devido à queda, e quando noto o que eles iluminavam me encontro duvidando de tudo o que acreditei até hoje. Dezenas de pares de olhos negros formavam um círculo ao nosso redor enquanto nos encaravam na escuridão. Não haviam rostos, ou simplesmente não se dava para ver, mas já era suficiente para fazer com que eu entrasse em pânico.
Como isso pode ser real? Eu achei que podia ser apenas um cara louco que vivia aqui e atacava todos que entrassem, mas como explicar o que eu vejo agora?
Repetia isso mentalmente para mim mesma na intenção de me acalmar, e fazer com que tudo em minha volta sumisse e eu acordasse em meu apartamento segura em baixo dos cobertores, mas quando ouvi o grito estridente de Lana, sabia que isso era real e não importa quantas vezes eu tentasse me convencer do contrário, estava realmente acontecendo e eu não podia fazer nada para reverter a situação a não ser correr o mais rápido que minhas pernas conseguissem alcançar, e o mais longe que meus pulmões suportassem. E foi exatamente o que eu fiz.
Agarrei o braço de Lana e a puxei comigo com a maior força que eu poderia encontrar. Nos levantei em um ápice e foquei em um só ponto onde poderíamos sair e corri até ele. Esperei o baque devido ao encontro dos nossos corpos com as criaturas que nos cercavam, mas esse impacto nunca veio, apenas uma brisa gelada atravessou meu corpo como uma faca rasgando todo o meu interior de fora para dentro. Suas vozes aterrorizantes não paravam de repetir várias frases de uma vez só, fazendo com que fosse impossível pensar claramente no que eu estava fazendo, restando apenas o instinto me guiava para fora dali o mais rápido possível.
Saí de dentro daquele lugar arrastando Lana e me vi no topo da escadaria principal, desci correndo pulando os degraus de dois em dois e quando olhei para trás, sombras negras se misturavam com a escuridão da noite logo atrás de nós, podendo apenas ser vistas devido à luz da lua. Passamos pelo pátio central até chegar a um ponto que não tinha mais saída a não ser o túnel que avistamos quando chegamos aqui, e mesmo sem saber onde ele daria ou até mesmo se ele tinha um fim, acreditei que ele era a nossa única e última chance de sobrevivência e puxei Lana até sua entrada. Ela recua meu toque quando eu entro na total escuridão do túnel fechado e malcheiroso.
– LANA, RÁPIDO! - faço gestos para que me siga, mas ela parece estar em algum estado de pânico, não saindo do lugar não importando quantas vezes eu a chamasse pelo nome e nesse momento eu vi que não teríamos mais chances.
Minha vida acabaria aqui. Nesse lugar. Eu veria minha melhor amiga ser morta de algum jeito cruel e doloroso bem na minha frente por criaturas que nem sei ao certo o que são. E a próxima seria eu e tudo acabaria. Perguntas ficariam sem respostas e nós nos tornaríamos mais uma prova de que esse lugar é perigoso. Contariam nossa história para cada pessoa que ousasse perguntar sobre Waverly Hills e seríamos as pessoas que estavam no lugar errado na hora errada. Mas algo dentro de mim não queria desistir tão fácil. Algo dentro de mim dizia que eu precisava tentar, ainda tínhamos uma chance, afinal, tínhamos um túnel bem a nossa frente, só precisávamos entrar para descobrir para onde ele nos levaria.
– LANA, PELO AMOR DE DEUS! VEM! - gritei para ver se conseguia tirar ela do seu estado de pânico, mas nada aconteceu, ela continuou parada no mesmo lugar.
Olhei por cima dos seus ombros vendo aquele homem se aproximar de nós enquanto ainda tinha aquele sorriso doentio. Meus olhos voltaram para Lana, eu já conseguia sentir a dolorosa morte que teríamos. Pensa, , pensa. Foi ai que uma ideia me veio em mente. Sei que não seria o ideal, mas na situação que nos encontramos, não teríamos muitas escolhas. Voltei em passos rápidos até Lana, a agarrando pelos braços e virando seu corpo na mesma direção que aquela coisa demoníaca.
– Olhe bem! - falo a segurando pelos ombros – Está vendo ele? - pergunto, inclinando minha cabeça só para ver seus olhos arregalados piscando de forma frenética – Ele está nos alcançando. E quando isso acontecer... - engulo em seco – ...Provavelmente ele irá nos matar - senti o corpo de Lana reagir as minhas palavras.
Ele estava a poucos passos de nós e eu torcia com todas as minhas forças para que essa ideia tivesse funcionado. Para minha sorte, quando aquele homem esticou os braços para tentar agarrar Lana, seu corpo pareceu finalmente sair do encantamento de pânico, e sem pensar muito, agarrei sua mão e arrastei ela para dentro do túnel.
Ele conseguia ser mais escuro que o sanatório. Se antes eu mal conseguia enxergar, agora era que eu não enxergava nada mesmo. E para piorar, aquelas malditas vozes voltaram, trazendo junto com elas os vários pares de olhos negros brilhantes. O mal cheiro aqui dentro era insuportável também.
– Eu não acredito que isso está acontecendo depois de tanto tempo. - Lana fala baixo, e minha primeira reação foi olhar para ela, mas como estava muito escuro eu não conseguia enxergar. Apenas sentia o aperto da sua mão contra a minha.
– Calma! - tento acalmar o pânico, mas solto um grito assim que sinto alguém tentar me puxar pelo braço.
Aperto mais a mão de Lana, e juntando todas as minhas forças acelero os passos, puxando ela que acabou tropeçando e me levando junto para o chão. Senti uma grande ardência em meus joelhos e em um dos cotovelos. Passo a mão pelos locais percebendo que minha calça e minha blusa haviam rasgado.
Uma mistura de barulhos começava a ecoar pelo túnel: passos correndo, risadas e alguns tipos de rosnados animais, que não havíamos escutado antes.
"Ele está bem atrás de vocês"
Quando identifico essa frase agarro novamente a mão de Lana. Meus olhos estavam arregalados e agora mais do nunca meu coração parecia que iria rasgar meu peito.
"Fujam!"
Uma fina voz sussurrou, dando uma pequena risada no final. Olho para frente já conseguindo avistar uma pequena ponta de luz. O fim do túnel. Literalmente, havia uma luz no fim do túnel. Viro minha cabeça para Lana, agora conseguindo a enxergar, mesmo que minimamente. Lanço um olhar para ela que logo entendeu. Escutei os passos ficarem mais lentos e se aproximando de nós.
– No três. - sussurro para Lana que assente de uma maneira quase inexistente.
– Um. - outro passo do homem demoníaco em nossa direção.
– Dois. - mais outro passo.
– Três! - ele parou atrás de nós.
Como dois furacões nós duas levantamos com uma rapidez sobrenatural e voltamos a correr. Senti um dos meus joelhos fraquejarem devido ao machucado, mas aguentei firme e continuei a correr. Outro rosnado alto foi ouvido, mas já estávamos perto do fim. Eu até já conseguia me enxergar longe daqui e ao pensar nisso foi impossível de sorrir em alívio.
O túnel ficou silencioso e apenas os meus passos e os de Lana ecoavam aqui dentro, mas não paramos de correr. Eu é que não olharia para trás para ver o que havia acontecido. Um barulho de algo escorrendo foi soando aos poucos, parecia alguma coisa como água. E confirmei isso assim que escutei o barulho dos nossos pés contra algo molhado. Estava escorrendo água pela rampa do túnel.
Mais alguns passos e eu estaria fora daqui. Soltei a mão de Lana e lançando um sorriso para ela que retribuiu, mas isso durou pouco, já que assim que ela saiu do túnel eu acabei escorregando na água e caindo no chão de novo.
Gemi de dor.
– Você se machucou? - Lana perguntou um pouco aflita – Está sangrando! - ela aponta para mim.
Olho para meu corpo me vendo encharcada de sangue, mas era muito sangue, então não poderia ser meu. Inclinei minha cabeça para trás vendo que não era água que escorria pelo túnel, era sangue.
– Merda! Esse sangue não é meu, Lana! – ela, que estava prestes a me estender uma mão, para seus movimentos.
– Nós precisamos sair daqui agora. - sua voz sai exasperada.
Me coloquei de joelhos pronta para levantar, mas senti alguém agarrar meu tornozelo, me fazendo cair de cara no chão, literalmente. Sinto uma leve tontura me atingir, e com dificuldade olho por cima dos ombros vendo aquele homem com as mãos em volta do meu tornozelo. As veias pretas que estavam em baixo dos seus olhos pareciam que iam estourar a qualquer momento, e para o meu desespero ele começou a me puxar para dentro do túnel.
– LANA! - gritei desesperada por ajuda, vendo que uma barreira de criaturas demoníacas se formava na entrada do túnel impedindo Lana de me ajudar.
Eu não conseguia parar de gritar em pânico, eu iria mesmo morrer. Comecei a me debater e a tentar agarrar qualquer coisa, mas eram todas tentativas falhas, ele era muito forte. A única coisa que eu sentia era meu corpo sendo arrastado pelo chão, fazendo com que minhas roupas rasgassem e minha pele queimasse. Em uma atitude desesperada chutei a criatura, que para minha surpresa, meu pé não atravessou ele e sim o acertou em cheio, fazendo ele me soltar por um instante.
Aproveitei seu descuido, eu levantei e puxei Lana, voltado a correr pelo túnel, sentindo meu corpo pegar fogo de dentro para fora. Estávamos quase alcançando a saída de novo. Ainda vendo aquelas criaturas estranhas, levei meus braços até meu rosto na intenção de proteger ele, e fui contra a barreira de criaturas, sentindo novamente aquela estranha brisa e a sensação de uma faca me rasgando de dentro para fora. Quando abri os olhos vi que já tinha saído do túnel, procurei Lana com os olhos, a vendo parada à poucos passos de mim, me olhando totalmente assustada.
– Você está bem? - ela pergunta ainda mais aflita que antes.
– Sim. - minha voz sai ofegante – Vamos embora de uma vez. - falo exasperada, querendo ir embora logo.
Agora começamos a correr em direção as árvores da floresta. Dou uma última olhada para trás, vendo ele parado no final do túnel com aquele arrepiante sorriso, e seu corpo coberto de sangue, enquanto as outras criaturas estavam atrás dele nos dando acenos. Senti meu corpo se arrepiar e continuei correndo com Lana. 
Finalmente saímos da floresta e, para nossa sorte, não havia mais ninguém nas ruas a essa hora. Assim é melhor, sei que com certeza questionariam nosso estado caótico e não teríamos condições de responder.

***

Quando eu estava sentindo que ia desmaiar de exaustão e dor, consegui enxergar no nosso edifício. Corremos para o portão, agarrando as grades e chamando freneticamente por Harvey, que logo apareceu e saiu do seu posto vindo desesperado em nossa direção.
– O que aconteceu com vocês? - Harvey perguntou com os olhos arregalados.
– Só nos deixe entrar, por favor. - Lana falou rapidamente, e Harvey se apresou para abrir o portão.
– Meninas, vocês precisam me contar o que aconteceu. - ele disse preocupado.
Apresamos nossos passos indo até a grande porta de vidro, tendo Harvey atrás de nós fazendo várias perguntas. No elevador foi uma tremenda bagunça. Ele tentando saber o que aconteceu e nós duas tentando dar uma desculpa. O elevador logo se abriu e nossa pequena discussão ainda rolava. Acho que estávamos falando muito alto, já que duas portas foram abertas, revelando Margot e Margaret vestidas com hobbys de dormir, e em segundos seus olhares ficaram iguais ao de Harvey.
– Meu Deus! O que aconteceu com vocês duas? - Margot perguntou, vindo desesperada em nossa direção com Margaret ao seu encalce.
Nenhuma de nós duas ousou responder, talvez porque não saberíamos como explicar tudo que nos aconteceu hoje.
– Obrigada, Harvey. Pode voltar para seu posto de trabalho, nós cuidaremos delas. - Margaret fala, dando um pequeno sorriso para o porteiro, que mesmo relutante assentiu.
– Venham! - Margot nos levando em direção ao nosso apartamento.

***

Algum tempo depois, tomamos banhos, também fizemos alguns curativos, eu mais do que Lana. Margot e Margaret fizeram algum tipo de chá para nos acalmar e acabamos contando tudo para elas. Esperamos alguns sermões, mas tudo que ouvimos foram suspiros cansados e palavras de conforto. Margarte levou Lana ao seu quarto e Margot me levou ao meu. Eu realmente me sentia uma criança assustada deitada com a cabeça em seu colo, enquanto ela dizia palavras de conforto e fazia um leve afago. Eu não queria dormir. Não queria, porque eu sabia que assim que eu fechasse os olhos eu iria sonhar com aquelas criaturas e com ele.
Algum tempo depois, eu consigo escutar bem fracamente um barulho ao fundo, me fazendo perceber que eu estava naquele tipo de transe do sono que temos antes de nos desligarmos por completo, eu estava quase apagando, mas ainda conseguia ter alguma noção das coisas ao meu redor, ou melhor, os barulhos.
– Nós não podemos deixar que isso aconteça novamente. - escuto uma baixa voz, que reconheço sendo de Margaret – Quase que tudo vai por água abaixo, Margot. - sobre o que ela pode estar falando? O que foi por água abaixo?
– Eu sei, eu sei. - agora era a voz de Margot – Não deixaremos que isso se repita. Afinal, esse não é plano, não era assim que ela deveria ser mandada para lá. - agora eu posso escutar ela suspirando.
Eu queria poder me levantar e perguntar sobre o que elas estão falando, mas o sono me vence de vez, fazendo com que mais uma vez a escuridão me engolisse.


Capítulo 5

Acordo assustada com o som estridente que soa do rádio despertador e gemo em desaprovação. Tento chegar até o aparelho para desligá-lo, mas uma forte dor em minha cabeça me faz parar e respirar fundo. Aperto meus olhos quando a dor parece aumentar mais e mais, o que me faz recordar da noite de ontem.
Ontem.
Tremo ao relembrar o par de olhos negros e sombrios que me encaravam de tão perto, e me levanto na tentativa de encontrar algo para que possa me ocupar e esquecer o ocorrido. Me escoro na parede quando uma tontura me atinge e sigo assim até o banheiro onde sou obrigada à me apoiar no box para não cair. Abro o chuveiro e sinto a temperatura da água, esperando que ela fique ideal para que eu possa entrar.
Tomo um banho demorado para ter certeza que todo e qualquer vestígio da noite passada possa ser lavado e levado embora no ralo junto com todo o pânico que senti. Me seco e coloco uma roupa simples. Encaro a parede cor gelo à minha frente e tento pensar no que fazer agora. Preciso ir até a biblioteca, preciso conversar com Connor, e preciso de café. Não vou aguentar um dia todo em pé sem a bebida quente.
Caminho até a cozinha e coloco o café para fazer. Me contenho para não olhar o sanatório pela janela. Então acabo por ficar sentada no balcão à espera de Lana.
– Oi. - ouço sua voz fraca soar atrás de mim e dou um pulo.
– Quanto tempo você está aí? - pergunto e bocejo.
– Alguns segundos? Não sei. Seu café. - ela me passa uma xícara e vai para a sala.
– Lana! - a chamo. Precisamos falar sobre o ocorrido mais cedo ou mais tarde. Ela se vira e vejo que seus olhos estão cansados. Talvez devesse deixar para mais tarde, não quero sobrecarregá-la – Ahn, acho que é melhor irmos. - resolvo dizer, termino meu café em um gole e pego em minha bolsa logo saindo do apartamento.
Esperamos o elevador em silêncio e quando entramos, resolvo começar alguma conversa.
– Dormiu bem? - pergunto e me viro para ela à espera da resposta. Ela assente sem dizer nada e levo isso como uma dica para eu ficar quieta. – Certo. - falo simplesmente.
As portas do elevador se abrem e caminhamos para fora do edifício, e depois lado a lado até a biblioteca.
Conforme vamos recebendo cumprimentos das poucas pessoas que passam por nós na rua, pareço voltar à realidade e começo à pensar em todo o trabalho que vou ter para hoje.
Empurro a pesada porta de madeira da biblioteca, mas ela não se mexe. Encaro Lana com uma sobrancelha levantada e ela dá de ombros.
– Desculpe, estamos fechados! - ouço a voz de Connor vindo do interior.
– Connor, somos nós, Alana e ! - digo mais alto para que ele possa ouvir e rapidamente a porta é aberta por um Connor segurando alguns papéis em mãos.
-Oh, desculpe, desculpe. - ele diz atrapalhado quando derruba aos meus pés alguns dos papéis que segurava.
– Tudo bem. - ofereço um sorriso e me abaixo para ajudá-lo a recolher os papéis e algo escrito em uma das folhas me chama atenção. – Waverly Hills Sanatorium? - leio o título em voz alta.
– S-Sim, eu estava organizando os arquivos. - entrego algumas folhas para ele – Hoje não vamos abrir, eu cheguei à te mandar uma mensagem para avisar. - Connor abre mais a porta para que possamos entrar e a fecha atrás de si.
– Eu estava sem celular. - digo.
– Esqueceu de carregar, não foi? - ele pergunta bem-humorado.
– Não exatamente... eu deixei no sanatório. - revelo e vejo Lana se contorcer ao meu lado. Ela anda muito calada.
– Sa-sanatório? - Connor se engasga. – Você foi até lá? Sozinha? - ele parece apavorado.
– Não, a Lana também foi. - esclareço.
– Por isso você está com um curativo no canto da testa? - ele pergunta incrédulo.
– Já que estamos aqui, o que eu posso fazer? - Lana pergunta, mudando de assunto.
– Ahn, acho que não tem muito o que fazer por aqui. - ele olha em volta, e reparo em várias caixas de papelão espalhadas pelo chão – Vocês podem ir embora se quiserem. Eu dou conta. - ela sorri gentilmente.
A ideia de poder ir para casa e descansar parece ótima, mas não posso dispensar a oportunidade de descobrir sobre o que acontecia nos tempos em que Waverly Hills funcionava, ainda mais depois de tudo que passei lá.
– Eu fico! - falo ao mesmo tempo em que Lana diz "tudo bem". Cruzamos o olhar e ela dá de ombros. – Você vai para casa? - pergunto.
– Sim, estou muito cansada. - ela responde, e acena rapidamente para Connor e se vai fechando a porta em um baque.
Connor me encara de um jeito curioso e sei que ele está se contendo para não fazer perguntas e perecer intrometido.
– Onde posso começar? - pergunto e ele me dá instruções do que fazer.
Vou até o depósito que se localiza nos fundos da biblioteca, trago mais alguns arquivos dentro de uma caixa de plástico e coloco tudo ao centro do saguão, onde Connor está sentado de pernas cruzadas enquanto lê algo concentrado. Me sento ao seu lado e espio sobre seu ombro para ver o que ele tanto lê.
– Waverly Hills, huh?! - pergunto e empurro de leve o seu ombro.
– Sim, e-eu... - ele cora – Eu pensei em dar uma olhada aqui já que você estava tão curiosa sobre o local. - se explica.
– Estava mesmo, ainda estou, na verdade, mas depois da noite de ontem, fiquei em dúvida se devo ou não. - confesso e ele me olha preocupado – Pode perguntar o que aconteceu. - falo, notando seu olhar curioso.
– Oh, eu não queria parecer importuno, mas eu realmente fiquei preocupado quando você disse que foi até lá. Então, como foi? - ele coloca os papéis sobre seu colo e foca sua atenção em mim.
– Tudo bem, Connor, pode ficar à vontade para me perguntar o que quiser. - sorrio para ele, e ele devolve com um sorriso maior ainda – Bom, sobre o sanatório... - pego alguns dos arquivos de dentro da grande caixa e começo à analisar, e Connor faz o mesmo – ...nós fomos lá ontem à noite. - conto tudo para ele, realmente tudo. Desde Lana ter dito que viu alguém na janela, até as criaturas e aquela pessoa de olhos negros... Bom, não sei se aquilo era uma pessoa, mas não sei como chamá-lo então que seja pessoa mesmo.
Termino meu relato detalhado e Connor pisca algumas vezes seus olhos arregalados e antes de falar, abre e fecha a boca três vezes.
– Eu, eu não sei o que dizer. Eu... Eu não sabia que você tinha tanta coragem. - ele me olhe com uma expressão estranha.
– Eu não diria isso, pelo menos não depois de ontem. - dou uma risada sem humor. Pelo menos até ontem de tarde eu pensava como Connor, mas agora isso já mudou.
– Eu te admiro muito por isso, mesmo. - ele diz me olhando sério, e eu franzo o cenho.
– Obrigada, eu acho. - quebro o olhar abaixando a cabeça, e ele se levanta para levar uma das caixas de volta ao depósito.

***


– Connor, você encontrou alguma novidade sobre o sanatório? - pergunto mais alto e minha voz faz eco pela biblioteca vazia.
Passo os olhos sobre as folhas de sulfite esparramadas pelo chão e uma foto me chama atenção. A fachada do sanatório. Pego o que pensei ser uma folha, mas quando a puxo, várias outras folhas se desprendem dela e caem sobre o chão. As recolho rapidamente e depois de organizá-las como um livro, consigo ver que o que tenho em mãos são relatos de métodos de tortura horríveis que eram aplicados em pacientes nomeados "doentes mentais". Pego em uma folha que parece ser o começo de um relato de experimento.

10 de maio
O paciente Styles, Harry apresenta temperamento agressivo e perigoso para o convívio social, sendo a terapia do quarto branco a única solução cabível para seu tratamento, uma vez que ele pareceu responder bem à terapia de choque.

- A.W.

25 de maio

O paciente Styles, Harry está em tratamento à 15 dias no quarto branco, ainda apresentando temperamento agressivo. Se nota vestígios de automutilação em seus braços.

- A.W.


2 de junho

O paciente Styles, Harry apesenta traços de confusão mental, não sabendo informar o dia, hora ou até mesmo o seu nome. Apresenta cortes por todo o corpo e principalmente rosto, causado por suas próprias mãos.

- A.W.


Leio todas as linhas, uma a uma, enquanto tento assimilar o que acabei de tomar conhecimento.
? - ouço a voz de Connor – Tudo bem? Você não está com uma expressão muito boa. - ela se agacha na minha altura.
– Sim. Você já leu algo dessas caixas? - pergunto me abaixando para procurar mais relatos.
– Não, eu ainda não tive tempo. Por quê? O que tem aí? - ele pergunta.
– Eu encontrei relatos de tortura que eram praticadas em Waverly Hills, e o que eu li é horrível, Connor. Horrível - fecho meus olhos por um instante na tentativa de parar as imagens desse paciente sendo torturado, e Connor desvia ao olhar parecendo incomodado com isso. Não sei porquê mas as vezes sinto que ele quer me contar algo, mas não tem coragem.
– Eu li sobre um paciente, um tal de Harry Styles, e se ele estiver lá, Connor? E se ele ainda estiver no quarto branco dentro do sanatório? Nós precisamos encontrá-lo, precisamos salvá-lo. - digo fora de mim.
– Salvar quem? - me viro para a origem da voz, e vejo Lana parada na porta com duas sacolas em mãos.
– Precisamos salvar um antigo paciente do Waverly Hills, Lana. Ele deve estar preso em algum quarto. - explico.
– Ah, é? E quem te contou isso? Seu amigo fantasma? - ela cruza os braços sobre o peito, fazendo as sacolas fazerem barulho, e me encara com uma sobrancelha levantada à espera da resposta.
– Não, Lana. Está tudo escrito nesses papéis. - levanto os registros para provar meu ponto.
– Posso ver isso? - ela estende a mão e pega os papéis – Isso aconteceu em 1935, esse paciente deve ter uns 80 anos ou até mais agora, . E ninguém sobrevive sem água e comida durante todos esses anos, pelo amor de Deus! - ela abana a cabeça em sinal de descrença e me devolve as folhas.
Eu definitivamente estava bem fora de mim por não pensar nisso, não faria menor sentido salvar alguém preso lá por 80 anos ou mais.
– Lana, mas e o homem que vimos? - decido perguntar, e ela franze o cenho – Aquele que era bem alto. - ela não parece entender – Nós conseguimos atravessar todas aquelas criaturas, mas ele não, quando eu tentei me livrar dele lhe dando um chute, meu pé não atravessou seu corpo, o que quer dizer que ele está vivo, certo? - me levanto exasperada.
Ela volta a abanar a cabeça.
, me escuta. - ela pega minhas mãos e as segura firme enquanto olha fixamente para os meus olhos – Eu não sei do que vocês está falando. - ela me olha seriamente, e eu franzo o cenho.
– Por que você está agindo assim? - pergunto incrédula.
– Espera. Eu lembro da grande altura dele, lembro que ele tentou te puxar para dentro do túnel, lembro dele nos perseguindo. - assinto sem entender onde ela quer chegar – Mas sabe do que me lembro também? Das veias pretas que saltavam de suas órbitas negras, , nenhum ser humano tem isso, você realmente acha que aquilo era uma pessoa? - ela pergunta, mas não me dá a chance de responde – E de qualquer jeito, como você pensava em salvar ele? Ligando para a polícia? - ela debocha.
– Não. Talvez eu devesse voltar lá.- digo confiante. Eu sei que parece maluquice, mas eu preciso voltar.
– O quê?! - ela pergunta incrédula e começa à andar de um lado para o outro.
– Eu vou voltar para o Waverly Hills, Lana. Hoje! - esclareço e vejo pelo canto do olho Connor abanar a cabeça e encarar Lana de um jeito sugestivo.
– Você... Você só pode estar brincando comigo! - ela vocifera - Depois de tudo o que a gente passou você ainda quer voltar para aquele lugar? - ela estreita seus olhos para mim.
– Eu... - começo a falar, mas ela me interrompe.
– Eu até trouxe o almoço para pedir desculpas por ter sido estranha com você hoje, e agora me vem com essa história? Você está obcecada com esse lugar, . Está virando um problema. - ela diz com uma voz de desgosto, deixando as sacolas no chão e se virando para ir embora depois de bater à porta.
Olho para Connor em busca de conforto.
– Olha, eu não acho certo você voltar para lá e não acho certo vocês brigarem por causa disso. - abaixo a cabeça – Mas se é isso que você quer, eu posso te acompanhar. - levanto minha cabeça de imediato, corro em sua direção, o envolvo em um abraço apertado e ele ri – Mas com uma condição. - olho para ele – Nós temos que voltar antes de escurecer. - ele diz e eu apenas assinto.
Ajudo Connor à terminar o trabalho e durante esse tempo penso nas palavras de Lana e vejo que minha teoria realmente não faz sentido, mas nada me tira da cabeça que aquele homem pode precisar de ajuda. E, apesar de tudo, ele é uma pessoa, afinal, o que ele poderia ser? Um fantasma? Um demônio? Essas coisas não existem, e me sinto idiota por ter acreditado nisso ontem quando fui tomada pelo pânico.

***


– Acho que acabamos por hoje, . - Connor diz, fazendo com que eu vire meu corpo para encará-lo. Ele tinha um olhar sério em seu rosto, e eu sabia que com essa de "acabamos por hoje" na verdade queria se referir que finalmente chegou a hora. Iríamos para o sanatório.
Respiro fundo e apenas assinto. Fico mais alguns segundos sentada apenas pensando no que iria acontecer dessa vez. Levanto meu olhar até meu braço direito, erguendo a manga da minha blusa e vendo alguns arranhões e machucados distribuídos pelo local. Outra vez respirei fundo e automaticamente levanto minha mão até o canto da minha cabeça, sentindo o pequeno curativo que eu havia feito essa manhã. Lembranças da noite passada invadem minha mente, fazendo-me fechar os olhos com força. Agora eu podia sentir exatamente tudo que eu senti na noite passada. A curiosidade, ansiedade, surpresa, incredulidade, pânico, desespero, dor; eu conseguia sentir cada dor, conseguia lembrar da sensação da minha pele sendo arrastada pelo chão grosso do túnel, conseguia sentir a ardência e queimação.
Meu corpo perecia pegar fogo e até o cheiro do sangue que inundava o túnel eu conseguia sentir, foi automático lembrar dele. E se Lana estivesse certa e ele não fosse humano? Mas, isso seria tecnicamente impossível, não? Fantasmas não existem, mas então por que seu rosto era daquela maneira? Por que ele parecia tão... Sobrenatural? Eu definitivamente não sei. Também não posso esquecer o fato de que também haviam algumas "almas", assim por dizer. As "almas" pareciam flutuar, eram como fumaça no ar e tinha aquela horrível sensação de algo me cortando de dentro para fora toda vez que eu passava por elas, mais uma vez, isso seria tecnicamente impossível. Eu vivo em um mundo onde não existem monstros ou fantasmas, eu vivo na realidade onde tudo isso não passa de historinhas e ficções, não tem essa de almas que vagam por um antigo sanatório assombrado, não tem essa de cidade assombrada. Tudo isso deve ter uma explicação plausível.
Bom, devem ter inventado essa história de sanatório assombrado para atrair turistas idiotas e terem um comércio melhor. Afinal, querendo ou não, Hazelwood é uma cidadezinha do interior quase como um pequeno vilarejo. E o que vi lá dentro podia muito bem ser uma encenação ou até mesmo algum perturbado que tomou o sanatório como casa e quer manter as pessoas afastadas de lá. Não existe outra explicação pra isso. Eu não posso e nem vou acreditar em uma besteira dessas. E parando para pensar agora, eu me sinto tão estúpida por ter sentido tanto medo, medo de uma coisa que nem sequer é real.
Logo eu que sempre fui pé no chão, uma garota que sempre adorou terror, fui me deixar levar por uma estúpida brincadeira. Nem o mais horripilante dos filmes foi capaz de me tirar um olhar assustado se quer. Aquele homem claramente precisa de ajuda e seria por ele, e apenas por ele, que eu voltaria lá, monstros não existem, isso não passa de uma ficção.
, você está pronta? - escuto Connor e chacoalho a cabeça afastando toda essa baboseira. Ele ainda mantém seu olhar sobre mim esperando minha resposta. Me levanto mais do que decidida e lhe lanço um olhar confiante.
– Sim. - dou uma rápida resposta o vendo assentir.
Vou até uma das inúmeras mesas da biblioteca pegando meu casaco vermelho que deixei sobre a mesa. Coloco ele rapidamente e vou até a saída da biblioteca vendo Connor na porta me esperando. Assim que saímos um poderoso trovão ecoa pela cidade, encaro o céu o vendo totalmente escuro e nublado.
– Huh, acho que vai chover. - aperto mais o grande casaco vermelho ao meu redor assim que sinto uma rajada de vendo congelante me atingir.
– Parece que sim. Vamos? - Connor se posiciona ao meu lado e começamos a caminhar para fora da biblioteca.
O caminho até a floresta foi silencioso, cada um de nós dois mergulhados nos seus devidos pensamentos. Assim que paramos na entrada da extensa floresta uma ansiedade sem tamanho tomou conta de mim. Eu já estava mais do que convencida de que não deveria ter medo, não havia do que ter medo.
Confiante, dou o primeiro passo para dentro da floresta vendo Connor logo atrás de mim. Começamos a caminhar entre as enormes e numerosas árvores, e logo já estávamos alcançando o túnel.
– Então este é o famoso túnel da morte? - Connor tentou fazer uma piada para descontrair, mas logo parou de rir assim que percebeu o que havia dito. Seu rosto corou.
– Acho que sim. - dou uma risadinha, afim de amenizar o seu constrangimento.
Continuamos subindo a enorme colina, finalmente chegando na frente do sanatório. Caminhamos calmamente até a porta, pelo menos eu, já que Connor não parava de olhar para os lados e mexer as mãos de forma frenética. Balancei a cabeça em negação. Não havia o porquê de ele estar assim.
Passamos pelas enormes pilastras e vamos até a grande porta de madeira, já pronta para empurrá-la.
– Você tem certeza que quer fazer isso? - sinto a mão de Connor repousar sobre meu ombro direito, fazendo-me olhá-lo.
– Sim e você? Se quiser desistir, eu entendo. - falo o vendo encarar o chão de uma maneira pensativa e depois me olhar.
– Não, eu vou com você. - disse confiante. Assenti de novo e lhe lancei um pequeno sorriso antes de voltar minha atenção para porta.
Com um pouco de esforço, eu empurro a grande porta que vai se abrindo de forma lenta. Olho outra vez para Connor que assentiu. Em passos lentos vou entrando novamente no sanatório. Olho para trás vendo Connor encostar a porta de forma cuidadosa. Espero até que ele se posicionasse ao meu lado.
Damos uma boa olhada no local, nos possibilitando ver bastante coisas já que estava de dia. Na nossa frente havia um enorme corredor, e nas paredes estavam pendurados alguns quadros onde tinham alguns pacientes, mas aparentemente nenhum deles pareciam feliz, ao contrário dos funcionários, que sempre sorriam nas fotos. Eram sorrisos largos e grandes, chegava até ser sinistro, todos com o mesmo sorriso, mas o que me chamou atenção mesmo, foi que em alguns desses quadros, haviam um homem alto e de terno, mas seu rosto estava rabiscado em todos eles, apenas o seu corpo era visível. Pode ser até impressão minha, mas nas antigas fotos que ele estava, os pacientes pareciam ter medo, dava para ver isso em seus olhos. Poderia ser apenas impressão já que as fotos estão antigas e de má qualidade.
Ignorando esse fato começo a dar alguns passos pelo corredor, puxando Connor junto, que parecia perdido nos inúmeros quadros. Ficamos alguns minutos caminhando pelo grande corredor. O barulho dos saltos de minha bota contra o velho piso de madeira eram a única coisa a se ouvir. Quando chegamos ao final do corredor nos deparamos com a recepção. Havia uma grande mesa curva de madeira com alguns papéis velhos sobre ela. Atrás da mesa havia uma espécie de estante com vários quadrados abertos, neles haviam algumas pastas.
Connor passou por mim e foi em direção à grande mesa e tentou pegar um dos muitos papéis ali espalhados, mas assim que ele tentou pegar o papel o mesmo voou para o chão. Connor se virou e olhou para mim, apenas dei os ombros. Ele caminhou até o papel e se abaixou para poder pegá-lo novamente, mas outra vez, o papel pareceu voar para longe. Connor ficou ali agachado com uma mão estendida, olhando confuso para o chão. Rolei os olhos e fui caminhando em sua direção o puxando pela mão. Eu praticamente o arrastei dali.
Olhei para o lado e vendo Connor encarando nossas mãos juntas, foi apenas um ato involuntário da minha parte, mas mesmo assim ele está completamente vermelho. Por isso decido manter meu olhar no sanatório, afim de não o deixar mais envergonhado.
Paramos de andar assim que damos de cara com aquela familiar bifurcação. Na nossa frente estavam duas opções de caminho, uma para a sala de visitação e o outro para o corredor que nos levaria até à noite passada. Fiquei alguns segundos analisando por qual dessas entradas iríamos. Mas algo me fez sair dessa dúvida. Como um furacão, duas crianças passaram correndo por nós, elas haviam saído no corredor e ido até a sala de visitação. Troquei um olhar confuso com Connor e me virei até a sala de visitação. Em poucos segundos, Connor e eu nos encontrávamos dentro da enorme sala, procurando pelas crianças que brincavam em um canto do enorme cômodo.
? - uma voz calma soou atrás de nós.
Virei meu corpo encontrando uma garota que parecia ter mais ou menos a minha idade parada a poucos centímetros de nós, com um enorme sorriso no rosto.
Me parecia um sorriso feliz?
Trocando um olhar confuso com Connor que não parecia tão confuso quanto eu. Afinal, quem era essa mulher?


Capítulo 6

A menina sorri docemente, mas isso não me deixa mais confortável.
– Sou Gemma. Eu estou tão feliz em te ver novamente depois de tanto tempo. - ela faz menção de segurar minhas mãos, mas logo para assim que me vê dando um pequeno passo para trás.
– O quê? Do que você está falando? - pergunto mais confusa do que antes. Olho para Connor e ele está encarando fixamente para Gemma.
– Não há muitas pessoas por aqui, tudo é sempre muito quieto e monótono, então quando alguém entra aqui e resolve voltar, é simplesmente incrível. - ela sorri outra vez.
– Não há muitas pessoas? E as crianças que vimos? Quem são? - pergunto.
– São apenas crianças, oras. - ela ri fraco e logo muda de assunto – E a Lana, sua amiga, onde está? - Gemma pergunta, mas seu sorriso some.
– Ela não gosta muito de vir aqui. - tendo dar uma resposta vaga – Como você sabe o nome dela? - cruzo os braços sobre o peito – E o meu nome? - levanto a sobrancelha.
Ela suspira.
– Isso é uma história para outra hora e eu estava por aqui ontem, quando ouvi a voz de vocês. - ela responde, me deixando mais confusa ainda. Eu não estou entendendo.
– Você estava aqui ontem? - pergunto surpresa. Então ela fazia parte daquela encenação.
– Sim. Escondida, mas estava. - ela desvia o olhar.
– Você estava escondida o tempo todo? Até quando aquele homem alto começou à nos perseguir? - pergunto com a voz um pouco alterada, afinal, se ela estava aqui, poderia ter nos ajudado – Você o conhece? - dou um passo em sua direção.
Vejo seu semblante se tornar triste.
– Eu não poderia ter feito algo contra ele, não à noite, eu... - sua fala é interrompida por risadas.
As mesmas crianças passam correndo por nós, fazendo com que a espécie de camisola branca e comprida que Gemma está usando voasse para todos os cantos.
– Crianças! Crianças! - ela os chama e eles param no meio do caminho – Sem barulho, lembram? - ela pergunta autoritariamente e eles confirmam com a cabeça.
– Vem brincar com a gente. - o menor dos meninos pede.
– Sim, por favor. - outro diz.
– Por favor, tia Gemma. - uma menininha ruiva pede com seus olhos suplicantes enquanto puxa a barra da camisola de Gemma para baixo.
Ela nos olha e dou de ombros.
– Tudo bem, crianças. - ela diz depois de um suspiro – Mas só se meus novos amigos puderem ir também. - dito isso, as crianças começam à pular e à bater palmas.
Gemma é puxada por pequenos pares de mãos e seguimos atrás deles, sem ao menos saber onde vamos parar.
– Novos amigos? - Connor pergunta baixo ao meu lado.
Permanecemos em silêncio por todo o trajeto, até chegarmos em uma espécie de parquinho com dois balanços e uma gangorra bem enferrujada. Do alpendre descascado, observo as crianças correrem no meio da grama alta e reparo melhor em suas roupas, algo que me estranha. Elas estão vestindo uma espécie de camisola branca, estão descalças e têm a pele muito pálida, igual a Gemma.
– Talvez elas não saiam muito daqui de dentro. - Connor nota meu olhar, e ele diz.
Chuto uma pedrinha e ela para ao pé de alguém, levanto meu olhar e vejo uma senhora parada a poucos metros nos olhando fixamente.
– Sra. Campbell? - Gemma corre em sua direção – A senhora veio tomar um ar fresco? Que ótimo, faz muito bem. - ela segura nos ombros da senhora e ajuda à levá-la para o outro lado do pátio.
Franzo a sobrancelha. Estranho. Gemma para ao meu lado e mexe nos dedos da mão de um jeito frenético me deixando impaciente.
– Então, Gemma, vocês moram aqui? - pergunto e ela confirma – Todos vocês? - ela assente – Por quê? Um sanatório abandonado não é um lugar muito comum para se morar. - encaro ela, esperando por uma resposta.
– Sim, é bem estranho, não é? - ela ri fraco e tira uma casca da porta.
– Sim, isso é estranho, mas você ainda não respondeu nenhuma de nossas perguntas. - escuto a voz de Connor soar ao meu lado, fazendo com que a tal Gemma e eu olhássemos para ele juntas. Connor tinha um misto de expressões em seu rosto, algo como impaciência e seriedade. Voltei meu olhar para Gemma que durante alguns segundos ficou apenas analisando Connor, antes de sorrir.
– Estão juntos? - ela pergunta apontando de Connor para mim. Agora foi a minha vez de suspirar. Eu sei o que ela está tentando fazer. Olho rápido para Connor que está mais vermelho que um tomate.
– Não, não estamos juntos. Somos apenas amigos. - respondo sem muita paciência. Gemma pareceu notar, já que se calou e apenas assentiu - Agora você...
– Que tal conhecermos melhor o sanatório? - ela me interrompe, levantando abruptamente, sem nos dar a chance de questionar. Troco um olhar cansado com Connor que sorri fracamente para mim e dá os ombros.
Eu já estava cansada de toda essa enrolação. Por que essa garota não podia simplesmente responder as nossas perguntas? Se ela viu tudo o que aconteceu com a gente noite passada, então certamente ela tinha as respostas que precisamos. E de uma maneira ou outra eu iria descobrir, nem que para isso eu tenha que sequestrar ela e a torturar até que diga tudo o que eu preciso saber. Ok, talvez essa não seja uma opção viável, mas eu ainda iria descobrir o que estava acontecendo.
– É melhor irmos. - a voz de Connor me puxa de volta para realidade – Quem sabe não damos sorte e conseguimos algumas respostas. - me lançou um sorriso encorajador e eu apenas assenti.
Me coloquei ao lado de Connor enquanto andávamos para dentro do sanatório a procura de Gemma. Alguns segundos e lá estávamos nós, passando por uma enorme porta de vidro trincado que nos levaria para dentro do sanatório outra vez. Connor correu a porta para o lado nos dando passagem, primeiro eu entrei e depois ele.
Eu olhava para cada detalhe deste lugar, e ele não parecia o palco de horrores da noite passada. Apenas parecia como uma velha construção abandonada e nada mais. Era como se de dia fosse outro lugar totalmente diferente.
Conforme Connor e eu íamos andando dávamos de cara com várias outras pessoas, o que me fez olhar confusa para ele, já que Gemma falou que poucas pessoas vivem aqui. Haviam crianças, jovens, adultos e idosos, todos usando a mesma camisola branca. Todos pareciam pálidos demais, estranhos demais e felizes demais. Todos por quem passávamos nos lançava um sorriso ou um aceno amigável, alguns até nos saudavam, sabendo o meu nome e o de Connor. Isso é estranho, muito estranho.
Fui para mais perto de Connor, agarrando seu braço com certa urgência. Ele pareceu notar, já que levou sua mão sobre a minha e me lançou um olhar tranquilizador. Continuamos nosso trajeto até retornamos a sala de visitação, tendo agora ela consideravelmente cheia de pessoas. Procurei Gemma com os olhos entre o grande número de pessoas, mas não a vi.
Uma cena me chamou a atenção, em alguns cantos do cômodo, haviam algumas mulheres e homens vestidos com um uniforme. Franzi o cenho, enquanto assistia eles auxiliarem algumas pessoas.
– Vocês estão ai! - uma voz sou atrás de nós, me fazendo dar um pequeno pulo. Me virei para trás vendo Gemma nos encarando com um sorriso. Essa garota sorri demais – Estava esperando por vocês. - ela diz.
– Gemma! - uma outra voz chamou – Então ela realmente veio até aqui? - uma ruiva com os olhos verdes, parou ao lado de Gemma e nos encarou sorrindo também. Gemma apenas assentiu – Olá, sou Katherine. - mesmo estando a nossa frente, ela deu um exagerado aceno com sua mão. E foi aí que eu percebi, ela usava um uniforme também.
– Então... - a ruiva juntou a mãos e nos olhou empolgada – ...Quer conhecer a nossa casa? - ela nos olhou com expectativa e eu apenas dei os ombros, dando um passo na direção delas.
As duas começaram a andar e Connor e eu apenas as seguimos.
, não esqueça que temos que voltar antes do anoitecer. - Connor sussurrou ao meu lado.
– Tudo bem, Connor. Só algumas perguntas e nós vamos embora. - falo, apertando mais meus passos para alcançar as duas – Então, Katherine... - começo a falar mas sou interrompida.
– Kat. Me chama de Kat, por favor. - virou sua cabeça em minha direção sorrindo.
– Kat... Por que você está usando esse uniforme? - apertei mais ainda meus passos, andando agora lado a lado com elas.
– É óbvio, não? - ela arqueia as duas sobrancelhas – Eu trabalho aqui. - ela dá de ombros.
– Trabalha aqui? - parei meus passos assim que escutei sua resposta. Procurei por Connor, não o vendo em lugar nenhum – Connor? Cadê o Connor?! - um desespero sem tamanho tomou conta de mim.
E se alguma coisa aconteceu com um ele? Onde ele está? Como sumiu assim do nada? Eu preciso achar ele!
– Não se preocupe, ele vai ficar bem. - parecendo ler meus pensamentos, Gemma respondeu.
– Como você sabe? Eu preciso achar ele! - falo, já me virando para ir embora mas sinto sua mão agarrar meu pulso. Viro minha cabeça para encará-la – Me solta, eu preciso achar ele. - tento me soltar de seu aperto, mas ela era mais forte do que parecia.
– Skyler está com ele, não se preocupe. Connor vai ficar bem, não é a primeira vez. - agora foi a vez da tal Kat falar.
– Skyler? Quem é Skyler? Não tinha ninguém aqui com a gente. - disse impaciente, ainda tentando me soltar de Gemma.
– É apenas um amigo nosso. Agora vem! - dizendo isso, elas me arrastaram para dentro de algum cômodo e fecham a porta, me impedindo de sair e saber onde Connor estava.


Capítulo 7

Olho em volta vendo que era um quarto exatamente igual ao que eu vi noite passada quando encontrei aquele homem.
– Esse é o meu quarto. - Gemma diz.
– Não quero saber. - ando até a porta tentando abrir ela, mas estava trancada – Eu preciso achar o Connor. - comecei a esmurrar a porta, até sentir Kat me puxar pelos ombros e me virar, levando suas mãos até meu rosto.
– Calma, , nós não somos iguais a eles. Ninguém aqui vai machucar vocês. - ela disse me olhando séria.
– Eles? - perguntei confusa, a vendo suspirar e assentir.
– Sim, eles são... - Kat estava prestes a responde quando é interrompida.
– Acho que isso é seu, . - e pela milésima vez Gemma tenta mudar de assunto.
Eu tiro as mãos de Kat do meu rosto já prepara para confrontar Gemma quando dois objetos em suas mãos me chamam a atenção.
– Meu celular? - pergunto surpresa. Vou em sua direção e logo pego o aparelho de sua mão, vendo que realmente era o meu celular, e que ele estava em funcionando normalmente. Gemma também tinha o celular de Lana em mãos – Como? - pergunto, ainda encarando o aparelho.
– Kat os achou ontem e pediu que eu os guardasse. - me viro encarando Kat, que sorria docemente.
– Obrigada. - agradeço.
– Tudo bem, . - ela diz sorrindo. Aqui todo mundo sorri demais, não gosto disso.
– Vocês podem me deixar sair agora? - pergunto, e Gemma troca um breve olhar com Kat e a ruiva assente.
– Primeiro temos que conversar. - Gemma começa, e acho irônico que logo ela queira conversar agora, já que desde que nos encontramos ela não responde nenhuma de minhas perguntas.
– Sim. Precisamos te contar algumas coisas. - Kat emenda.
– Podem começar então. - incentivo, prona para ter as minhas respostas.
– Eu tenho que pedir desculpas por ontem, eu realmente não podia ter feito nada. - Gemma fala cabisbaixa.
– Tudo bem, eu nem sei o que era tudo aquilo, parecia um sonho, aconteceu tudo tão rápido que eu nem consegui processar ainda. - mudo meu cabelo de lado, e flashes de vultos negros com olhos brilhantes, alguém nos perseguindo e sangue por todo o lado, invadem minha cabeça.
– Preciso que você fique ciente que apenas parecia um sonho, mas não era. - Kat enfatiza com um olhar firme.
– O quê? Como assim? Você quer dizer que aquelas sombras pretas flutuantes eram reais? - elas assentem – Vocês só podem estar de brincadeira comigo. - seguro minha cabeça com ambas as mãos e começo à andar de um lado para o outro – Não. Não era real, não faz o menor sentido. - repito para tentar convencer à mim mesma que essa é a verdade.
, querida - Gemma se aproxima de mim que coloca suas mãos sobre meus ombros – Você precisa acreditar em nós, só queremos te ajudar, lembre-se de tudo. - ela diz de modo condescendente e eu solto uma risada seca.
– Vocês querem tanto me ajudar que não disseram nada que seja importante até agora. - cruzo meus braços e encaro as duas garotas à minha frente.
– Eu vou contar sobre o Harry. - Kat diz baixo.
– Não, Kat! Não acho que ela deva saber dele de novo. Explique como tudo funciona, sabe, de dia e de noite. - Gemma tenta argumentar mas Kat nega com a cabeça.
– Harry? Quem é Harry? - pergunto antes que a ruiva possa falar, e um nome me vem à cabeça - Harry Styles? - Gemma me olha totalmente espantada, e levanto uma sobrancelha à espera que elas comecem à falar.
– Bom, sim... - elas trocam olhares nervosos – Ele é... Hm... Ele é... - Kat interrompe Gemma.
– Ele é aquele cara assustador que perseguiu vocês. - Kat fala tão rápido que demoro alguns segundos para processar.
– O quê? Não fale dela para ela, você sabe tudo que aconteceu. - Gemma diz em um guincho e a encaro confusa.
– Harry Styles? O cara que deve ter uns 80 anos ou mais agora? - pergunto incrédula, mas não recebo uma resposta – Vocês são muito engraçadas, meninas. - falo irônica.
– Ahn? Por quê? - Gemma pergunta, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha.
– Eu trabalho na biblioteca da cidade e acabei encontrando algumas fichas de pacientes daqui. Eu li apenas uma que era desse tal de Harry Styles e a data era de 1935. Então suponho que ele tenha uns 80 anos ou mais agora. - foi minha vez de cruzar os braços e arquear uma sobrancelha – Não tem como vocês me fazerem acreditar que o cara de ontem é esse tal de Harry Styles. - falo, lembrando do que Lana me disse na biblioteca sobre ninguém conseguir sobreviver tanto tempo sem água ou comida.
– Fichas... É bem a cara dele fazer isso. - Gemma fala descontente – Sobre o que eram essas fichas? - ela pergunta.
– Castigos. - faço uma careta ao lembrar das coisas horríveis que eu li – Tratamentos com choques e coisas do tipo. - dou os ombros e olho para as duas a minha frente.
– Foi nesse tipo de coisa que ele pensou então. - Kat para si mesma, mas sou capaz de escutar. Afinal de quem elas estão falando?
– Harry Styles da ficha era apenas um paciente que teve a infelicidade de parar aqui e sofrer esses tratamentos horríveis e o cara que eu vi ontem devia ser só um perturbado que não tem o que fazer. Por isso voltei, para ver se ele precisava de ajuda. - e como um furacão, Gemma saiu de perto de Kat e veio em passos firmes até mim.
– Não ajude ele, ! Me escute! Não faça isso! - ela diz totalmente nervosa e descontrolada, e Kat logo se apressou e veio até nós duas, se pondo ao meio.
Senti meu sangue ferver, quem ela pensa que é pra falar assim comigo? Ela não sabe o que eu passei e o que eu vi, se aquele cara não for um perturbado eu sinceramente não sei mais o que é.
– E por que eu não posso ajudá-lo? Você vai me dizer ou só vai inventar mais alguma desculpa idiota? - tomada pela raiva, tentei dar mais alguns passos mas Kat se manteve entre nós.
– Eu estou fazendo isso por você. Não quero que passe por tudo aquilo de novo, você já sofreu demais por conta disso. - Gemma fala exasperada, mas seu semblante muda para triste.
– Fazendo isso por mim? - pergunto de maneira irônica – Sabe o que você poderia ter feito por mim? - encaro bem seus olhos claros – Me ajudado ontem a noite. - solto de uma vez e ela parece afeta por minhas palavras.
– Você não entende, eu não podia fazer nada. - ela diz de maneira cansada enquanto passava a mão pelos cabelos de forma raivosa.
– Não. Eu realmente não entendo, por favor, me explique. - falo sarcástica mas ela não responde, o que me faz rir sem humor – Está vendo, você quer que eu acredite em você mas não é capaz de responder nenhuma das minhas perguntas. Você consegue pelo menos me falar o que é aquele homem? - pergunto séria.
– Ele é o meu...
– Chega disso vocês duas! - Kat interrompe Gemma com uma voz carregada – Você quer respostas, certo?! - ela pergunta olhando para mim, e eu apenas assinto – Você vai ter suas respostas, mas eu não quero discussões aqui, ouviram? - ela ainda mantem o seu tom de voz carregado.
– Tá. - Gemma diz descontente.
– Vou responder algumas de suas perguntas agora, - Kat diz – Eu preciso que você preste muita atenção no que eu vou falar agora. - apenas assinto – Presumo que você já ouviu alguma história ou boato relacionado a cidade ou o sanatório? - ela pergunta e eu reviro os olhos.
Ah, não! Essas lendas de novo não.
– Já ouvi sim, e já estou de saco cheio disso. - bufo irritada, e sinto os olhos de Kat sobre mim.
– As histórias ou boatos, são todos reais. - ela diz simplesmente como alguém que arranca um curativo de uma vez só, me fazendo revirar os olhos outra vez – Vou fingir que não vi isso. Continuando, o sanatório Waverly Hills foi inaugurado há muitos anos atrás, e muitas coisas ruins aconteceram aqui. - ela faz uma breve pausa – Eu sei que o que eu vou dizer agora parece mentira. - agora ela dá uma risada sem humor – Todo tipo de pessoa já passou por esse lugar e também houve muitas mortes, dando início a separação de almas depois de um incidente. - ela explica.
– Separação de almas? - pergunto confusa já não ligando.
– Sim, separação de almas. - as duas a minha frente tinham expressões sérias – Depois desse incidente, houve uma separação de almas para que as coisas ficassem mais fáceis de serem controladas e para evitar que os pacientes desse lugar se juntassem. Onde as almas de pessoas boas ficam presas de dia, sem poder aparecer durante a noite, e as almas de pessoas ruins ficam presas de noite, sem poder aparecer de dia. - meu cérebro da uma volta com sua explicação – Foi por isso que a Gemma não pode te ajudar. Nós que vivemos na luz não podemos andar sobre as trevas, assim como as criaturas que vivem nas trevas não podem vagar pela luz. - a ruiva finaliza.
– Você não pode estar falando sério, está? - pergunto incrédula, mas ela se mantém séria – Você está mesmo falando sério? - meu tom de voz fica alto.
– Sim, . Você queria que te contássemos a verdade, e é o que eu estou tentando fazer agora. - Kat arqueia as sobrancelhas.
Uou! Isso é... Uou! Essas duas garotas só podem estar loucas se acham que eu vou acreditar nisso. De fato são loucas só de inventarem um absurdo desses, não responderam nada do que eu queria saber e ainda por cima me vêm com uma dessas. Se antes eu já achava que o tal de Harry era algum sem teto ou perturbado, agora de fato eu comprovo isso. Ele é um perturbado, assim como as duas garotas a minha frente que insistem que eu acredite em uma mentira sem tamanho.
– Então você está querendo dizer que todas as pessoas que eu vi hoje são almas boas de pessoas mortas? - pergunto.
– Pessoas, eu não usaria esse termo, mas mortos todos estão. - Kat responde.
– Então vocês... - digo apontando para elas vendo Gemma assentir.
– Também estamos mortas. - a loira fala.
– Eu vou embora agora, isso aqui está ficando estranho. - digo dando alguns passos cegos para trás, mas assim que me viro dou de cara com Gemma – Ahn?!... Mas... Mas você não estava lá? - aponto para trás de forma confusa.
Olho por cima dos ombros não vendo mais Kat. Outra vez me viro para frente agora vendo sua figura ao lado de Gemma. Franzo meu cenho achando tudo isso muito confuso. Sem pensar muito vou em direção a elas para poder chegar até a porta, mas para minha surpresa meu corpo atravessa o delas assim como vez na noite anterior com aquelas coisas escuras.
O quê? Mais o que está acontecendo aqui?
– Que tipo de truque idiota é esse? Não tem graça. - vou até a porta e volto a bater ela nela, tentando abrir.
, não tem truque nenhum. - Gemma diz, dando alguns passos em minha direção, mas barro seus movimentos quando levanto minha mão pedindo que ela fique onde está.
– Eu quero sair daqui agora. - falo séria.
, por favor nos escute. - Kat suplica.
– Não! - respondo, virando meu corpo para elas mas me mantendo colada a porta – Eu quero sair daqui. - repito.
Gemma faz um movimento estranho com uma de suas mãos e eu escuto um "click" vindo da porta, e em seguida a porta se abre me fazendo cair no chão de costas. Faço uma cara de dor assim que sinto o impacto do meu corpo no chão.


Capítulo 8

Quando abro os olhos vejo a mesma cena da noite anterior se repetir. Vários pares de olhos me cercavam, mas ao contrário da noite anterior, não eram olhos maldosos e demoníacos, mas sim olhos bondosos e brilhantes. Era como se houvesse luz em cada par de olhos que me analisava, mas isso não muda o fato de tudo isso ser estranho. Esse lugar não é normal, assim como essas pessoas também não são. Eu preciso achar Connor e sair daqui.
Sem dificuldade, me levanto recusando a oferta de algumas mãos entendidas para mim. Passo por entre essas estranhas pessoas e vou caminhando pelos corredores, ouvindo alguns murmúrios.
Chacoalho minha cabeça tentando afastar as vozes de todas essas pessoas. Esse era definitivamente o momento mais estranho que eu já passei na minha vida, junto dessas pessoas que acreditam estarem mortas e presas em um sanatório com divisão de almas boas e ruins. Não tenho medo deles, mas essas pessoas precisam de tratamento médico e não é uma boa ideia ficar preso com um bando de gente louca em um sanatório abandonado.
Refaço todo o caminho de volta, já avistando Connor parado a alguns metros da porta de entrada do sanatório, que por sinal estava aberta. Ele conversava com um rapaz de sua altura, cabelos negros e olhos azuis, Skyler presumo eu. Aperto meus passos fazendo com que eles logo notassem minha presença.
– Connor, vamos sair daqui agora. - agarro seu braço assim que os alcanço.
– Calma, . - ele diz apontando para o rapaz à sua frente.
– Eu quero ir embora agora. - falo séria, vendo Connor franzir o cenho pra mim.
Eu sei que estou sendo contraditória agora, mas eu sinceramente não quero ficar cercada por pessoas loucas.
– Por favor! - digo desta vez de uma maneira mais descente. Connor suspira alto e assente.
– Tudo bem. - ele diz derrotado, logo pegando em minha mão e dando um último aceno para Skyler.
E, como eu sou uma pessoa de muita sorte, assim que me viro vejo Gemma e Kat parados à nossa frente.
, por favor nos escute. - Gemma suplica.
– Só nos deixem ir. Eu preciso ir. - digo, já sentindo meus olhos arderem. Eu sei que é bobeira querer chorar agora, mas eu só quero ir embora.
Eles finalmente pareceram entender já que Gemma nos deu passagem, mas antes que pudéssemos dar um passo se quer em direção à porta aberta, as luzes do sanatório começam a falhar e gargalhadas soam, ganhando intensidade. Era como se estivem longe, mas já nos alcançando.
– Droga! Que horas são? - Kat pergunta com certa tensão na voz. De maneira rápida olho no visor do meu celular que guardei o bolso de meu casaco.
– Sete da noite. - digo surpresa, já que não parecia que ficamos tanto tempo aqui. Connor e eu saímos às 16h da biblioteca.
– Vocês têm que ir embora agora. - Gemma diz exasperada, já nos puxando em direção a porta de saída.
Agora ela nos empurrava de forma desesperada até a porta, mas quando estávamos a centímetros dela, a porta se fecha em um estrondo alto nos fazendo parar.
– Ele está vindo. - uma voz soou atrás de nós. Connor e eu nos viramos e eu vi que a Sra. Campbell foi quem disse isso. Ela estava a alguns metros de nós com um olhar assustado. Agarrei mais ainda a mão de Connor, que com intenção de me proteger passou seus braços por mim, me aprisionando em um abraço.
– Nós temos que fazer alguma coisa. - Skyler diz de maneira nervosa.
– Sim, nós temos. - Kat completou, igualmente nervosa.
– Agora é tarde demais. - Gemma diz com um semblante tenso – Ele já está aqui. Connor, proteja a . - dizendo isso uma corrente de vento muito forte passa por nós, levando consigo as quatro pessoas a nossa frente e última coisa que eu vi antes das luzes se apagarem foi o olhar triste e carregado por lágrimas de Gemma.
Agora Connor e eu estávamos parados em meio a escuridão, sem saber o que fazer. Connor aperta mais ainda seus braços ao meu redor, e logo eu sento como se alguém alisasse meu cabelo e eu sabia que não era Connor já que eu sentia suas mãos em minhas costas.
“Ela finalmente voltou.”
Uma voz sussurrou pela sala, e nessa hora eu soube que Kat e Gemma não eram loucas, porque talvez eu seja a única louca aqui.
Os dedos gélidos tocaram meu rosto fazendo com que todo o meu corpo se arrepiasse. Me agarrei mais a Connor quando senti uma pressão que ia aumentando cada vez mais sobre meu pescoço me deixando sem ar.
– R-Res... N-Não consigo... - tento falar mas não consigo, por isso puxo a camiseta de Connor quando senti meus pulmões falharem.
Connor parece escutar minhas súplicas e consegue me libertar do que quer que seja a coisa que estava me impedindo de respirar.
, você está bem?! ?! - conseguia escutar precariamente a voz de Connor por entre minha respiração ofegante.
– E-Eu não sei. - respondo com alguma dificuldade. Tento colocar minhas mãos sobre meu pescoço, mas Connor está segurando-as forte demais, tenho até medo que ele possa quebrá-las.
Sinto uma forte corrente de vento me atingir e cambaleio para trás, mas antes de conseguir encontrar sua origem, me deparo com a mesma cena da primeira vez que aqui estive. Estávamos cercados de olhos brilhantes, mas algo estava diferente. As criaturas não estavam apenas nos observando, eu conseguia senti-las. Elas estavam por todo o lugar, seja sussurrando frases desconexas em meus ouvidos ou tocando meu corpo.
– Fique perto de mim, . - Connor sussurrou.
Me sinto culpada agora. Ter ficado até escurecer foi um descuido muito estúpido, ainda mais depois do que aconteceu na primeira vez que Lana e eu colocamos os pés aqui. Mesmo não sabendo o que realmente são, essas coisas são cruéis e sei que se algo acontecer com Connor eu nunca vou conseguir me perdoar, então tenho que nos tirar daqui o mais rápido possível. Só que ainda não sei como.
– Connor, nós temos que sair daqui agora e o único jeito é correndo o mais rápido possível, então vamos no três. - falo e ele assente – Um... Dois... - sento que Connor começou à correr antes do combinado e entro em pânico – CONNOR! - grito ao ver que ele corria para dentro do sanatório em um corredor sem fim. Ele não vai conseguir se esconder dessas coisas que foram trás dele.
– Ótimo. - bufei exasperada, e por um instante eu acabei esquecendo que havia essas coisas me observando – Agora vou ter correr por esse lugar estranho procurando pelo Connor. - solto um suspiro pesado.
Assim que tento dar alguns passos para poder iniciar a minha “caça ao Connor” sinto um par de mãos geladas repousarem na minha cintura. Primeiro eu penso que poderia ser Connor apenas pregando alguma peça em mim, mas assim que escuto aquela familiar respiração pesada e algumas gargalhadas soarem, eu sei que essas mãos não são de Connor. Meu corpo fica tenso no mesmo instante e o aperto em minha cintura aumenta. Quem quer que seja está me segurando como se quisesse atravessar seus dedos contra a pele da minha cintura.
Pense, . Pensa. Eu preciso fazer alguma coisa, preciso fazer antes que essa pessoa faça primeiro, mas para minha infelicidade meu corpo parece não querer colaborar. Acho que estou em um daqueles momentos onde você escuta algum barulho estranho de madrugada e deixa seu corpo totalmente imóvel sobre a cama com medo de se mexer e o dono do barulho estranho te atacar. Era exatamente isso que se passava comigo agora. Eu tinha que travar essa batalha interna entre meu corpo e minha mente, onde meu corpo se recusava a obedecer minha mente por puro pânico, e minha mente tentava enviar mensagens lhe dizendo que não havia do que temer, afinal, monstros não existem, certo? Eu realmente espero que não.
Em um ato bruto, senti meu corpo ser puxado para trás e colado a outro corpo. Fecho os olhos e aperto as mão, o corpo desconhecido era duas vezes maior que o meu, o que me fez pensar no que eu faria para sair daqui. Sem ter muitas opções, eu comecei a me debater contra o corpo desconhecido, mas obviamente que a pessoa era bem mais forte que eu, já que ela sem muita dificuldade, passou uma mão pela minha cintura e levou a outra até minha boca tentando abafar os grunhidos histéricos que eu soltava enquanto tentava me libertar.
Senti seu aperto ficar mais forte sobre mim e aos poucos a atmosfera do lugar foi ficando estranha. O sanatório que já estava escuro conseguiu ficar ainda mais, não me possibilitando ver nem uma mísera sombra. Meu corpo parecia que estava se agitando por dentro, minhas células pareciam que estavam em desordem, era uma sensação estranha, como se meu corpo fosse removido de um lugar para o outro. Definitivamente uma sensação estranha.
Eu estava tão concentrada nessa estranha sensação no meu corpo que quase não senti as duas mãos que me aprisionavam deixarem meu corpo. Respirei um pouco aliviada, mas foi coisa de segundos já que um poderoso trovão rasgou a atmosfera, trazendo com ele um enorme clarão que atravessou a janela iluminando por instantes o extenso corredor.
Espera, janela? Corredor? Mas eu não estava em um corredor e também não haviam janelas. O que está acontecendo? Será que aquela estranha sensação de ter meu corpo sendo removido de um lugar para o outro era mesmo verdade?
As luzes do sanatório se ascenderam do nada, me fazendo arregalar minimamente meus olhos assim que constatei que eu realmente estava em outra parte do sanatório. Mas como isso é possível?
– Olá. - uma voz fina e infantil soou me fazendo rapidamente abaixar meu olhar e encontrar uma linda garotinha loira usando um macacão cinza. Ela tinha os cabelos longos e com alguns cachinhos nas pontas, seus olhos eram incrivelmente verdes. Ela matinha um largo sorriso para mim, enquanto segurava um velho e gasto urso de pelúcia. E tenho a estranha sensação de ter algo familiar sobre essa garotinha – Você não fala? - ela tomba a cabeça para o lado e me encarou de forma confusa.
– A sua voz... - estreito olhos – Foi a sua voz que eu ouvi ontem quando estava aqui. - ela foi endireitando a cabeça de forma lenta enquanto voltava a sorrir.
– Sim, foi a minha voz. Eu gosto de brincar. - ela diz, batendo palmas de maneira empolgada.
– Eu não acho que isso é o tipo de brincadeira que se deva fazer com as pessoas. - falei ironicamente, não acreditando que está linda garotinha com cara de anjo esteja envolvida nessa merda toda – Cadê os seus pais? Eles sabem que você está aqui sozinha? - pergunto procurando com o olhar por algum sinal de um adulto.
– Eu não sei quem são os meus pais. Eu acho que não tenho. - ela contorceu o rosto em uma careta – Mas tenho amigos. Você quer conhecê-los? - o sorriso em seu rosto logo ressurgiu e ela agarrou uma de minhas mãos.
– Obrigada pelo convite, mas eu não posso, tenho que achar uma pessoa. - quando tento soltar minha mão da sua ela aperta. Olho confusa para seu rosto angelical que agora não parecia tão angelical. Seus lindos olhos verdes agora eram pretos, duas órbitas vazias. Seu lindo rosto, foi transformado em alguma coisa ruim com veias pretas e olheiras vermelhas em baixo dos olhos, igual a ele.
– Você vai conhecer os meus amigos! - a garotinha praticamente rugiu para mim, fazendo com que os pelos do meu corpo se arrepiassem. Totalmente tensa concordei freneticamente, vendo seu rosto voltar ao normal e um sorriso preencher seus lábios – Ótimo. - ela se virou e começou a me arrastar pelos corredores – Ah, meu nome é Madeleine. - ela inclinou rapidamente a cabeça para trás, me lançando um sorriso e depois voltou a saltitar, enquanto que sem escolha deixei que a garotinha me levasse pelos corredores.
Comecei a pensar no seu rosto e em como ele foi de angelical para demoníaco. Como ela fez isso? Será que eu estou sonhando ou ficando louca? Isso tudo não pode ser real.

***


– Ali estão eles! - sua voz me puxou para realidade. A garota apontava para um casal a poucos passos de distância de nós. Havia uma garota muito bonita de cabelos castanhos escuros assim como seus olhos e um rapaz igualmente bonito de cabelos loiros e olhos azuis – OLHEM O QUE EU ACHEI! - Madeleine grita empolgada atraindo a atenção do casal para nós.
O olhar da garota sobre mim não foi um dos melhores, poderia dizer que existia até um fundo de hostilidade ali, já o garoto me olhou com um sorriso esperto nos lábios.
– Olhem só o que a Mad nos trouxe. - o rapaz loiro cruzou os braços sorrindo.
– É a... - a garotinha tenta falar, mas percebe que não sabe o meu nome, por isso me olha confusa.
- . - respondo apenas.
– É, a gente já sabe. - a garota alta responde rispidamente, fazendo com que a garotinha mostrasse a língua e fosse junto do rapaz loiro.
– Elas são assim mesmo. - o loiro deu uma leve risadinha – Sou Niall e essa é Brooklyn. - escutei a tal Brooklyn bufar ao meu lado. Qual o problema dessa garota?
– Ahn... Vocês viram um rapaz mais alto que eu, cabelo castanho e olhos verdes? - resolvi me concentrar em alguma coisa mais importante que no caso é achar o Connor.
– Você é idiota ou o que garota? - Brooklyn disse rudemente e eu a olhei confusa. Por que essa está sendo tão estúpida comigo? – O Harry já deve ter o matado. - ela responde ainda mais rude.
– O quê?! - pergunto perplexa – Parem de brincadeiras. - agora quem falou rudemente foi eu.
– E você acha o quê? Que ele e todo o resto dessa merda é uma alucinação da sua cabeça? - ela me olhou – Não seja ridícula. Você melhor do que ninguém deveria saber disso, afinal, tudo isso é por sua culpa. - olhe mais uma vez indignada para ela, e depois para o tal Niall que nos observava com divertimento.
– A única ridícula aqui é você. Pare de falar sobre coisas que não fazem sentido. - a vi apertar os olhos com raiva, enquanto eu me virava para ir embora – Eu não vou perder mais meu tempo com vocês. - comecei a andar para longe deles.
– Bem vinda de volta ao inferno, . - e quando já estava me afastando deles, escuto a voz de Brooklyn seguida de uma risada.
Garota estúpida. Vou me concentrar em achar o Connor que é mais importante.


Capítulo 9

– Bem-vinda de volta ao inferno, . - imito sua voz esganiçada. Não gostei dessa Brooklyn. Quem ela pensa que é para falar comigo daquele jeito?
Dou um pulo assustada quando tropeço em alguma coisa, mas quando reparo melhor é apenas o primeiro degrau da escada que leva ao segundo andar. Respiro fundo e começo a subir os degraus de madeira que rangem a cada passo dado e, quando finalmente chego ao segundo andar, solto um suspiro de desânimo. Tudo aqui é completamente igual ao andar de baixo. Vários corredores com as paredes descascadas, piso sujo, portas quebradas e janelas sem vidro. E, claro, sem falar no silêncio ensurdecedor. Não ouço mais as vozes, o que é muito estranho.
Olho em cada cômodo conforme caminho pelo corredor, mas não encontro nada, absolutamente nada. Estou prestes à desistir da minha busca nesse andar quando uma porta fechada me chama atenção, o que acho um pouco estranho, pois essa é a primeira porta fechada que vejo nesse andar, ao contrário do primeiro, onde tudo parece um pouco mais organizado. Decido ver o que há por trás da tal porta, mas quando tento abri-la, nada.
Está trancada.
– Que ótimo. - reviro os olhos.
Não sei o que aconteceu comigo, mas realmente preciso ir embora daqui o mais rápido possível. Algo me deixou irritada de uma hora para outra e, sinceramente, se eu não encontrar Connor logo, vou deixá-lo aqui. Algo nesse lugar está me dando nos nervos.
Empurro mais a porta e ela cede um pouco mostrando que não estava trancada, apenas emperrada. Aplico mais força e finalmente ela se abre revelando um quarto, e posso dizer isso pelo fato de haver uma cama, mas duvido que alguém durma aqui, afinal, não há colchão ou travesseiros na cama de ferro e as molas que a sustentam não parecem ser nada confortáveis. Aos pés dela há também uma mesa de madeira escura e uma cadeira do mesmo material.
Me viro para, definitivamente, sair desse lugar e terminar minha busca pelo Connor, quando uma forte corrente de vento me atinge fazendo com que meu cabelo voe por todo o meu rosto, me impossibilitando de enxergar direito, e quando me viro tenho a certeza de que não foi pela janela quebrada que entrou o vento. E para concretizar a minha afirmação, assim que me viro totalmente vejo uma figura loira encostada ao batente da porta, me fazendo dar um pequeno pulo.
– Você me assustou. - resmungo, levando uma de minhas mãos até o peito, na tentativa de acalmar meus batimentos cardíacos que por segundos se alteraram.
– Desculpe, essa era a minha intenção. - o tal Niall solta uma curta risada enquanto eu reviro os olhos.
– Nossa, como você é engraçado. - imito uma falsa risada e cruzo os braços – Por acaso a sua amiguinha não está com você, certo? - pergunto, tentando olhar por cima de seus ombros a procura de algum sinal da garota ridícula.
– Quem? Brook? Não. Ela está cuidando da Mad. - agora foi sua vez de cruzar os braços, ainda mantendo seu sorriso – Vocês pareceram se dar tão bem. - nessa hora minha vontade foi de pegar a cadeira que estava ao canto do quarto e jogar em sua cabeça.
Ele acha que é engraçado? Pois não é. E por que ele fica rindo de tudo? Até parece um perturbado. Bom, talvez ele seja, porque para viver em um lugar desses, só sendo perturbado mesmo.
Decidindo ignorar a vontade louca de socar ele, até que esse estúpido sorriso sumisse do seu rosto, me colocando de costas e encaro a parede velha e gasta a minha frente, pensando em que lugar do sanatório Connor deve estar.
– Pensando onde seu namoradinho está agora? - a voz debochada de Niall soa atrás de mim.
– Ele não é meu namoradinho, é meu amigo – me viro em sua direção outra vez.
– Não foi muito legal da parte dele deixar você sozinha no escuro. Acho que você deveria arrumar um namorado melhor. - eu já estava mais do que pronta para lhe devolver uma bela resposta, quando reparei em algo. - como você sabe que ele me deixou sozinha? - arqueio uma sobrancelha, confusa e desconfiada.
– Eu vi, estava lá na hora. - ele responde simples, cruzando seus braços outra vez e ainda se mantendo escorado ao batente da porta.
– Você estava lá? - dou alguns passos apressados em sua direção.
– É óbvio que eu estava lá. - e lá vai outra resposta esperta.
– Como você sabe do Connor? - meu semblante transparecia todas as dúvidas que pairavam em minha mente.
– Harry e eu o pegamos. - e pela milésima vez no dia escuto esse maldito nome que faz meu sangue ferver.
– Isso já está perdendo a graça. - começo a andar de um lado para o outro passando a mão no rosto de forma nervosa. Assim vou acabar virando uma pessoa bipolar – Harry Styles está morto. - digo, parando e encarando o loiro que me olha com divertimento.
– De fato ele está morto, todos aqui dentro estão. - nessa hora eu não me contive e soltei um grito agudo de frustração.
– Dá pra vocês pararem com essa merda de pessoas mortas presas em um sanatório abandonado? - Niall endireita sua postura e se desencosta do batente da porta.
– E você acha que tudo isso é o que? Um grande sonho louco projetado pela sua mente? - ele me olha curioso e eu apenas dou os ombros, talvez eu esteja louca – Não. Você não está louca, . - arregalo meus olhos em espanto – O que mais vai ter que acontecer para você perceber que tudo isso é real? Que tudo isso é pra você. - ele dá um passo em minha direção, e em questão de segundos seu rosto vira aquela coisa demoníaca com veias e órbitas vazias.
– E-Eu... - tento falar, mas minha voz não sai.
– Está com medo, ? Pensei que não tivesse medo de nada. - ele continua dando passos em minha direção e eu dando passos cegos para trás, até sentir meu corpo se chocar contra a parede.
Agora ele estava a três passos de mim e quando eu penso que ele vai me atacar, ele solta uma risada com humor e seu rosto volta ao normal.
– Eu não vou te machucar, - solto um curto suspiro aliviado – Pelo menos não eu. - meu corpo logo volta a ficar tenso.
– V-Você sabe onde Connor está? - tento mudar o foco da conversa. Vejo ele acenar com a cabeça um “não”.
– Eu só ajudei Harry a pegar ele, mas não sei pra onde ele o levou. - dizendo isso ele se virou e começou a dar passos em direção a porta – Se eu fosse você, eu iria procurar seu namoradinho o mais rápido possível, tem uma grande chance dele estar morto agora. - sinto meu coração saltar no meu peito e meus olhos se arregalarem. Olho para porta vendo Niall atravessar ela, mas parar logo em seguida, apenas me olhando por cima dos ombros – Sugiro que leve alguma coisa para se defender ou vai acabar igual noite passada. - ele pisca pra mim.
Assim que ele termina sua frase dramática, some feito fumaça em uma grande corrente de ar. Meu coração voltar a bater com uma intensidade tão elevada, que eu tenho medo que ele rasgue meu peito.
Tenho que achar Connor. Desesperada vou indo em direção a porta, mas paro assim que lembro do conselho de Niall para pegar alguma coisa para me defender. Olho em volta procurando alguma coisa útil no quarto. Meus olhos se voltam novamente para cadeira de madeira. Sem pensar muito vou até ela e a pego. De maneira desajeitada começo a tacar a cadeira contra o chão afim de arrancar uma de suas pernas e usar como um bastão improvisado.
Depois de algumas falhas tentativas, vejo a madeira rachar. Apoio meu pé direito sobre a cadeira e agarrado uma de suas pernas, começo a puxar na esperança da madeira rachar mais. Agora depositando toda minha força, faço uma careta e puxo de uma vez só, vendo a madeira se desprender do resto da cadeira. Tomei tanto impulso na hora de puxar a madeira que me desequilibrei e fui parar na velha cama de molas sem colchão. Meus cabelos caíram sobre o meu rosto, tampando minha visão. Dou uma forte soprada tentando tirar alguns fios do meu rosto, quando consigo encaro o teto, depois levanto da cama e saio apressada do quarto a procura de Connor.
Passo correndo pelos corredores afim de encontrar a escada para o terceiro andar, o único que ainda não foi vasculhado por mim e quando a encontro subo rapidamente ela. Não tenho tempo a perder, o sol já está se pondo e a escuridão não é uma boa companheira.
Quando chego ao último andar, quase perco as esperanças. Esse andar é penas um salão aberto. Sem corredores, sem portas, e por tanto, sem cômodos onde Connor possa estar. Suspiro desanimada, mas não posso desistir, já que se aquele loiro pode estiver falando a verdade, mesmo que não seja o tal Harry morto há décadas que tenha pego o meu amigo, outro alguém pode ter feito isso e ele pode estar realmente em perigo. E é assim que tenho uma ideia.
Esse lugar enorme deve ter uma construção afastada, um anexo ou até um porão. Tenho vontade de dar um tapinha em minhas costas por pensar nisso. Corro escada a baixo em busca de qualquer espaço que eu não tenha vasculhado ainda e quando volto ao primeiro andar, não vejo as criaturas flutuantes, então continuo correndo ao avistar um corredor que leva para os fundos do sanatório, e ao atravessá-lo tenho a impressão de que a temperatura cai uns dez graus, não sei se pelo fato das paredes serem de azulejos ou pelo fato desse corredor ficar na parte de trás do sanatório onde não há nenhum resquício de luz, mas por um motivo ou outro, passar por aqui faz todo o meu corpo se arrepiar.
Reparo nas paredes e elas sustentam quadros com fotografias do que parecem ser enfermeiros, mas não consigo dizer ao certo devido aos vários cortes presentes por todo o lugar, mas principalmente nos rostos fotografados. Sinto uma sensação estranha ao olhá-los, então simplesmente tento ignorá-los e me concentro nos cômodos, onde não encontro muita coisa, pois muitos deles estão vazios e nos que não estão encontro macas velhas, cadeiras empilhadas nos cantos e panos pendurados nas janelas.
Abro algumas das portas fechadas, mas muitas vezes apenas espio pelo vidro sobre elas e vejo que cada sala com seus azulejos brancos sujos guarda diferentes tipos de aparelhos hospitalares velhos e enferrujados, o que me assusta de princípio, pois me faz lembrar do relato que li na biblioteca e só de imaginar que onde estou foi palco de crueldades no passado, me faz entrar em pânico e temer mais do que qualquer coisa pela vida de Connor.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus