Última atualização: 16/07/2018

PARTE I

Abril 2017
Colégio Namseok - Jamsil/ Seul

- Hey, null, aquele grupo que você gosta tanto lançou uma música ontem! - null correu até a mesa da garota. O sorriso doce da amiga sempre fazia null sorrir também. Nas mãos, o celular e os fones de ouvido pendurados, prontos para serem divididos.
- Uau null, como sempre a primeira a saber de todos os lançamentos musicais. - A garota brincou enquanto via a amiga sentar-se na cadeira ao lado.
- Você sabe, um dia eu serei uma grande compositora e cantora. Tenho que me inteirar. - Ela respondeu oferecendo um dos fones ao qual null aceitou prontamente.
As duas ficaram amigas exatamente por chegarem cedo ao colégio, com o tempo descobriram gostos musicais parecidos, além de outros assuntos. Há três anos, null considerava null sua melhor amiga e a primeira pessoa que se aproximou dela desde que foi transferida para aquele lugar.
- Eles são muito bons. - null comentou com um sorriso e permitiu-se fechar os olhos apenas para curtir o som. null riu. Sempre se surpreendia com a entrega da amiga às pequenas coisas do dia a dia. Desde uma música, a um simples passeio ou até dividir o lanche durante o intervalo.
Tudo para null parecia ser novo e encantador, ainda que ela se mostrasse ainda mais fascinante. null pensou que era aquele jeitinho deslumbrante que atraiu a atenção de null, o astro do time de natação e um dos garotos mais populares e desejados do colégio. A garota riu lembrando-se de como ele fora insistente ao chamá-la para sair e ela, tímida e inocente, sempre aceitava sem ter ideia das reais intenções do rapaz. Por esse motivo, a confissão dele para ela se tornou um evento e null tinha muito orgulho de ter sido a grande incentivadora para null engatar naquele relacionamento.
- Você está agindo estranho de novo, null. - Ela acordou de sua pequena viagem musical quando ouviu seu namorado sussurrar em seu ouvido livre.
Ela pulou da cadeira, envergonhada, arrancando risadas de null e do alto e belo rapaz ao seu lado. Sempre que null o encarava, questionava o que havia feito para merecer alguém tão bonito, talentoso e simpático em sua vida.
- Oh! Me desculpe. - Ela disse se ajeitando na cadeira. - Eu estava completamente absorta na música.
- Você sempre usa palavras estranhas, null. - null comentou rindo. - Apenas diga que estava viajando na vibe.
- Acho que isso é pior, null. - Ele disse se ajeitando na carteira ao lado da namorada. - E null, não se preocupe, você fica fofa quando está assim, nas alturas.
Novamente a vermelhidão subiu ao rosto da menina arrancando risadas do namorado que sempre adorava provocá-la.
- Ai que casal meloso. - null revirou os olhos antes de acompanhar a risada do amigo.
Em meio a mais risadas e provocações por parte de null, os olhos atentos de null não deixaram escapar quando ele entrou na sala. null null, o estranho garoto que preferia se isolar a ser amigo da turma, conversava com poucos e era hostil com a maioria das pessoas ali. Apesar disso, ele nunca a tratou mal, na verdade, null parecia lhe chamar a atenção, não só pelo tratamento quase amigável, mas pelo seu ar misterioso que sempre acompanhava olhadelas discretas em direção da garota. null fingia não perceber, mas sabia que boa parte do tempo livre do garoto ou ele passava observando-a ou no telhado do colégio, sozinho. O mais estranho era que, de alguma forma, ele sempre a ajudava nas coisas mais pequenas que fossem. Como na vez em que ela estava esquecendo uma importante apresentação de trabalho quando, de repente, recebeu uma mensagem no Facebook de null perguntando se ela já havia o feito. Ou quando ela estava atravessando a rua distraidamente em seu bairro e o garoto surgiu do além apenas para tirá-la do caminho de um ciclista desatento. Sem contar nas inúmeras vezes que ele a impedia de cair nos corredores vazios do colégio quando era sua vez de limpar a sala.
Desde esses acontecimentos, ela passou a observá-lo mais de perto e todas as vezes que ele entrava na sala, seus olhares se trombavam por breves instantes.
- Hey, null, você ouviu que uma garota nova vai entrar na nossa sala hoje? - Ela ouviu o namorado perguntar e voltou sua atenção a ele.
- Não…
- Oh sim! Eu ouvi quando fui a sala dos professores ontem. - null disse. - Se eu não me engano, ela também é de Namyang, null, como você!
O simples nome da cidade Natal fazia a garota se arrepiar inteira, fez o possível para esconder seu desgosto ao ouvir aquelas palavras, então apenas sorriu concordando com a amiga. Já estava na hora da aula começar de qualquer jeito. Ao som do sinal, os alunos foram se ajeitando dentro da sala, em segundos a professora entrou se posicionando no centro e depositando as suas coisas na carteira.
- Bom dia, alunos. A partir de hoje teremos uma aluna nova na sala, ela veio de Namyang. Tratem-na bem! - Ela disse com um sorriso doce nos lábios. - Pode entrar, senhorita Kang.
E então tudo se tornou câmera lenta para null.
Ela jamais poderia esquecer aquele rosto, o mesmo sorriso maquiavélico habitava os lábios finos daquela que é a representação em carne e osso de seus maiores pesadelos. null sentiu o coração disparar, o sangue parar de circular em seu rosto e as mãos começarem a tremer. Teve que escondê-las debaixo da carteira para que ninguém percebesse o seu desespero.
- Olá, meu nome é Kang Nari. - Ela se curvou para turma, seu tom de voz era enjoadamente doce. - Vamos nos dar bem!
O olhar de Nari passou por toda turma até alcançar o dela. null percebeu a surpresa no olhar da garota, mas ela ainda mantinha o mesmo sorriso cínico: Gatilho suficiente para que ela revivesse as terríveis lembranças daquele lugar.


Maio 2014
Orfanato Nabi -Namyangju

Ovos, farinha, leite, terra. Ela já havia perdido a conta de quantas coisas já tinham sido jogadas em sua cabeça. sua roupa, suas coisas. Os soluços e o choro pareciam ser o único alívio para a garota que já não tinha forças para retrucar os constantes abusos que sofria nas mãos das “amigas”. Amizade… Ela - que nunca conheceu o sentimento de ter alguém ao seu lado, defendendo-a, protegendo-a - questionava à Deus todos os dias porque tinha nascido. Porque tinha sido abandonada naquele lugar. Porque tinha companheiras tão ruins. Porque logo a filha dos donos do orfanato não fora com a sua cara a ponto de fazer da vida da pobre garota um verdadeiro inferno.
- Yah! Sua imunda! - ouvia a voz irritante e estridente de Kang Nari perfurar seus tímpanos. - Você nunca vai ser adotada! Você é tão feia, idiota e sonsa que ninguém vai te querer. Ninguém jamais irá te amar.
null já sentia conformada com aquela situação. Aquelas palavras não eram novidade para ela. Todas as vezes que as duas eram mandadas até a cidade, a garota escutava as piores coisas que um ser humano poderia dizer a outro. Nari era pura maldade, inveja e escuridão, null tinha certeza. Elas andavam lado a lado, mas null sempre se esforçava para atrasar um pouco os passos, odiava ter que ficar tão perto dela. Passavam pelo rio porque era o caminho mais curto, apesar de deserto. Ainda assim, null sabia que era um prato cheio para os abusos verbais que Nari não cansava de proferir a ela. Insatisfeita com a aparente indiferença da garota, Nari optou por ir além. Fingindo descaso, ela usou toda a força do corpo de uma menina de 14 anos para empurrar a colega diretamente ao rio. No impulso, null jogou as sacolas para a margem e deixou que seu corpo caísse na água gelada. Enquanto ouvia os escandalosos risos de Nari, ela pensou se não fosse melhor apenas deixar que a água entrasse em suas vias e a levasse para o plano espiritual de uma vez. Mas null não tinha tanta coragem, por isso esforçou-se para reunir forças e nadar até a margem do rio. Ela foi esperta o bastante para se afastar de onde Nari estava, do contrário, certamente ela a jogaria novamente no rio.
- Agora você é uma pata molhada! - A garota ria como se fosse o melhor programa de comédia da história. - Parece ainda mais com a filha de prostituta que você é.
A ferida. Nari sempre gostava de cutucá-la, mexer em seu passado e lembrar de que ela viera de um lugar mais triste ainda. Como se não bastasse ter que viver submetida a repetidas violações, Kim null é a filha de uma prostituta que a abandonou aos seis anos de idade na porta daquele orfanato. Ela não conhecia seu pai e sabia que jamais poderia recorrer a ele. O que parecia restar para a vida da garota era uma luta diária até que um dia a sorte lhe sorrir.
Mais tarde, quando voltou ao orfanato, a Sra. Kang, mãe biológica de Nari, a questionou, preocupada, sobre seu estado encharcado. null disse apenas que tinha caído no rio sem querer e que Nari tinha a ajudado a sair da água. Apesar de tudo, null não queria que a doce senhora descobrisse o monstro que chamava de filha, o que tornava tudo ainda mais fácil para a herdeira Kang.
- Não importa agora, vá se secar e se trocar, há uma pessoa querendo te conhecer. - O sorriso da Sra. Kang era doce sempre que dizia isso.
Não era a primeira vez que null ouvia aquelas palavras, as promessas vagas de que alguém, algum dia, poderia pensar em adotá-la e tirá-la daquele inferno. Ela já nem acreditava mais, por isso assentiu, triste, indo até seu quarto.
Para null aquele seria só mais um dia. Mas na verdade, foi O dia. O momento em que a sorte lhe sorriu.

(...)

- AI! - A sala toda se virou e null despertou de seu transe quando ouviu o grito de dor de alguma voz masculina.
No fundo da sala, null null estava encolhido em sua cadeira, as mãos pressionando o estômago enquanto se contorcia.
- Está tudo bem, Sr. null? - A professora perguntou, preocupada. O garoto estava vermelho, o cabelo bagunçado.
- Uma dor forte… Bem na barriga, posso ir à enfermaria? - Ele disse pressionando ainda mais forte o estômago. Imediatamente, a professora concordou com a cabeça.
- Claro! Representante null, acompanhe o Senhor null até a enfermaria, por favor. - A professora pediu e null assentiu pulando de seu lugar e indo até o rapaz.
Deixou que ele se apoiasse levemente em seu braço direito, e saiu da sala deixando uma turma completamente atônita, null não era de fazer alarde para nada. Mesmo em vezes que se machucou durante aulas esportivas, o rapaz costumava manter sua pose de durão e fingir que estava tudo bem mesmo quando a dor o dilacerava. null se lembrou de quando o rapaz torcera o tornozelo durante um jogo de basquete, mas como era a final do campeonato escolar, ele continuou jogando até o vencerem a partida. No fim, ele sucumbiu direto ao chão com um tornozelo que mais parecia uma pata de elefante.
Depois daquele dia, null ganhou o respeito e o carinho da turma. Ainda continuava sendo o estranho, belo e misterioso aluno do fundão, porém, agora, com uma legião de admiradores nem um pouco secretos.
null sentiu o peso de seus ombros sumir e quando se deu em conta, null andava normalmente pelos corredores. Ela estreitou os olhos para o rapaz, a cara de tédio absoluto e despreocupação a deixou ainda mais irada.
- Yah! Você não parece doente. - Ela disse no tom mais baixo que podia. Ele apenas riu.
- Estou me sentindo ótimo para falar a verdade. - null se permitiu abrir um sorriso de canto, desses que desconsertava qualquer garota.
- Então vamos voltar para a sala! Isso não é certo! - A garota bateu o pé e ele foi obrigado a parar de andar apenas para encará-la, o sorriso de antes dobrou de tamanho. Ela era fofa.
- Por que? Eu vi que você estava tremendo desde o início da aula, deveria ir à enfermaria, não?
A garota sempre se embasbacava com o jeito fácil e espontâneo de null ao tratar de todo e qualquer assunto, não importa a sua seriedade. Ela ficou longos segundos apenas encarando o rosto belo e vívido do rapaz, pensando em como ele poderia sorrir após dizer algo assim a ela. Após mostrar o quanto ele estava atento a suas reações. Enquanto o coração palpitava forte no peito, ela se envergonhou e abaixou o olhar para o chão. Ouviu-o suspirar e antes que pudesse pensar em fazer alguma coisa, sentiu a mão dele em seu ombro.
- Escute, sempre que não estiver se sentindo bem, apenas vá embora. Não se force a ficar em um ambiente que não quer. - A voz dele era calma, talvez fosse a primeira vez que null o via falar de maneira séria.
- Obrigada. - Ela sussurrou antes de levantar o olhar e dar um sorriso triste a ele.
Por aquele momento, ela apenas se deixou ser guiada pelo rapaz. Em silêncio, ele andou pelos corredores vagarosamente, o olhar grudado na garota ao lado que, agora, se entregava às emoções que a perturbavam desde antes. Ele podia ver as lágrimas correndo involuntariamente pelas bochechas enquanto as mãos tremiam levemente, como ele observou no início da aula. null tinha a garganta seca e fazia um tremendo esforço para não jogar todo seu bom senso para o alto e apenas carregar a garota no colo. Depois, ele iria diretamente até a novata e falaria tudo o que estava o engasgando há anos.
Oh sim.
Aquela tal de Kang Nari protagonizara a maior parte de seus pesadelos desde a infância até o início da adolescência. Ela só podia ser um monstro, não um ser humano. Junto ao turbilhão de memórias dos sonhos perturbadores de sua infância, vinha a ânsia de vômito e a raiva que quase acabava com seu senso.
Mas obrigou-se a se manter são pelo bem de null. Ela ainda chorava silenciosamente quando chegaram na porta da enfermaria. A garota virou-se para encará-lo limpando as lágrimas insistentes com as costas das mãos e tentou sorrir.
- Pode voltar para a sala agora, null. - Ela disse baixinho. - Vou me virar.
Ele sorriu e negou o pedido com a cabeça.
- Não posso fazer isso, se eu voltar sem você a professora vai achar estranho. - O rapaz abriu a porta da enfermaria e deu uma rápida olhada no local, todos os alunos sabiam que naquele horário a enfermeira Cho nunca estava. - Além disso, quero dormir um pouco.
A piscadela que ele lançou depois fez a garota revirar os olhos, mas entrou no lugar logo atrás dele. As camas eram separadas por cortinas brancas que, aparentemente, null gostava de ignorar, pois abriu todas de uma só vez. Ele parecia mais confortável ali do que na sala de aula. Convidou-a para uma das camas enquanto ele se deitava na cama ao lado. Timidamente, ela andou até ele, o silêncio que pairava não parecia incômodo, apenas confortável. Ele sorriu quando viu a garota tirar os sapatos para deitar na cama do lado e riu quando ela puxou as cortinas para tampá-la deixando apenas uma pequena fresta para encará-lo. Ela parecia mais calma e ele agradeceu mentalmente por isso enquanto ajeitava-se na cama virando de lado apenas para olhar o rosto da menina pelo pequeno espaço da cortina.
- Vá dormir, null. - Ele disse com a voz calma. - Talvez você precise disso.
- Não sei se consigo pregar o olho. - null respondeu aconchegando-se na cama e soltando um grande suspiro.
- Feche os olhos e tente. - null sussurrou para ela, ele mesmo já fechando os olhos.
Ela tentou. Por alguns minutos ela tentou dormir, descansar ou tirar a imagem de Kang Nari da mente, mas todas as vezes que fechava os olhos, a garota aparecia para infernizar sua cabeça, como se já não tivesse feito isso por anos a fio. null sentiu novamente o estômago revirar, as mãos tremerem e um bolo atingir a garganta. A verdade é que ela estava apavorada com a presença de Nari de volta a sua vida. Ela nunca tinha contado a ninguém todas as coisas que sofreu durante anos, ela jamais havia mencionado sequer que era adotada e que fora abandonada em tão tenra idade por uma mãe prostituta. O que iriam pensar dela se contasse a todos sua história? Provavelmente, reagiriam como as crianças do orfanato, como Kang Nari. Iriam odiá-la, desdenhar de si. null jamais olharia na sua cara novamente e null teria nojo de uma garota assim.
Quando abriu os olhos, ela estava engasgada no próprio choro e na vontade que há muito não a acometia de jogar tudo para o alto e desistir da vida. Mas pensou em seus pais adotivos, aqueles que lhe deram tudo, desde material a emocional. Ela não podia fazer nada que os machucasse. Ainda assim, ter uma filha que, na verdade, veio de uma garota de programa talvez fosse acabar com a imagem deles.
null se sentiu um erro.
Limpando novamente as lágrimas, ela olhou para a figura adormecida de null null. Ela se sentia tão confortável ao lado dele, mais do que o saudável considerando que era uma garota comprometida. Olhá-lo daquela forma lhe transmitia certa paz e ela pode esquecer, por um segundo, quem era. null não parecia o tipo de cara que iria se importar com aquilo. Se era null ou se era null. Ela tinha certeza que o rapaz não ia ligar.
- Hey, null, posso te contar um segredo? - Ela sussurrou olhando para o rosto adormecido. Ele não respondeu e ela se sentiu ainda mais confiante a ponto de levantar-se e se sentar na cama de frente para o rapaz. - Eu não sou quem todos acham. Meu nome nem é null null. Quero dizer, agora é… Mas eu costumava me chamar null null. Eu fui adotada milagrosamente aos 14 anos por pais incríveis e passei a me chamar null null. - Ela respirou fundo e deixou que mais uma lágrima escorregasse, dessa vez, solitária. - Antes disso, eu era apenas a filha de uma prostituta e, por isso, as meninas faziam atrocidades comigo. Principalmente Kang Nari. Agora que ela voltou… Eu estou com medo, null. Muito medo.
Ela não percebeu os olhos abertos do rapaz que prestava atenção em cada palavra que saia seus lábios. Quando ela se deu conta, ele já estava se levantando da cama e atravessando o curto espaço para abraçá-la, liberando todos os instintos represados desde o dia que colocara os olhos nela.
- Não fique com medo. - Ele sussurrou contra seu cabelo. Os braços estreitando-se em volta do corpo da garota enquanto ele afundava mais o rosto nela. - Eu vou te proteger de Kang Nari.
Não sabia porquê. Mas tanto null null quanto null null acreditaram naquela promessa.



PARTE II

Branco. Havia branco por todos os lados. Ele não sabia muito bem onde estava, mas reconhecia a arquitetura das paredes como pertencendo do Colégio Namseok. O amado colégio de sua família. Seu pai, então diretor da instituição, só conseguia falar daquele lugar e de como a família null havia construído cada detalhe com sangue, suor e lágrimas. Não que null se importasse, claro, mas com a obsessão de seu pai pelo colégio, era fácil identificá-lo.
A sua visão, aos poucos, ficou mais clara e logo ele conseguiu vislumbrar que o excesso de branco vinha de um corredor sem portas nem janelas. Parecia mais um beco. Não estava vazio. Duas meninas discutiam em pé e ele teve péssimos pressentimentos sobre aquilo. Poderia reconhecer aqueles rostos em qualquer lugar. Estivera sonhando com eles desde os nove anos de idade. Com um rosto mais precisamente. null null.
Ou melhor.
null null.
null viu Nari se aproximar agressivamente de null, batendo em seu braço, empurrando-a em seguida e finalizando com um tapa na cara. Viu as lágrimas da menina se derramarem e então acordou num pulo.
Desde que ela o salvou quando caiu num rio durante uma visita a cidade de Namyang, seu rosto nunca mais saiu de sua mente. Não que ele estivesse sido marcado pela garota. Ele seria eternamente grato, mas aquilo parecia involuntário. null null sonhava com null quase todas as noites. Ele a via no orfanato, brincando sozinha, via os abusos sofridos pela garota. Viu-a crescer e cresceu com ela em sua cabeça. Demorou muito para entender que ele não estava louco (como seu pai cogitou diversas vezes) e que aquilo só poderia ser obra de alguma entidade divina cruel. Mas se acostumou a ter sonhos com a garota e a sofrer, silenciosamente, com ela. Ninguém acreditaria se ele dissesse que sabia de uma pobre menina órfã a ser repetidamente agredida pelas colegas de sua idade. Na verdade, em sua casa, ninguém iria se importar. As pessoas ali só se preocupavam com dinheiro, status e boa imagem. Então, apenas rezou para a entidade que havia o amaldiçoado com aqueles sonhos para que ajudasse a garota.
Anos mais tarde, ele a viu ser adotada e transferida. Mas seus sonhos não mostraram que ela cairia no colégio Namseok. Precisamente em sua sala. E ele ficou feliz porque finalmente ele poderia protegê-la como sempre desejou. As coisas não saíram como o planejado. Com o tempo, vendo-a fazer amigos e até mesmo arrumar um namorado. null optou por ficar nas sombras, observando-a crescer em felicidade com a nova vida.
A garota que ele conheceu tinha desaparecido. Aquela era null null, não a pequena null que precisava dele.
No final, ele se conformou. Os sonhos até estavam diminuindo. Isso, até a chegada de Kang Nari. Ele sonhou com aquilo, com o tremor de null, com a volta da frágil null null e, pela primeira vez, se sentiu no direito de intervir. Era como se pudesse ser o herói que sempre desejou ser para a pequena garota. Finalmente ele podia fazer algo útil com sua maldição.
Por isso, quando percebeu a ansiedade e medo da colega de sala não pensou duas vezes em fingir um problema para ajudá-la a escapar daquele ambiente e daquela garota cuja simples imagem causava estrago. E então, todo seu esforço foi recompensado quando percebeu que ela precisava dele e que estava cedendo, aberta a sua ajuda, a sua preocupação e ao seu conforto. null sentiu-se útil, forte, capaz, como jamais sentira em toda sua vida. Ele queria salvá-la não só de Kang Nari como de todo o sofrimento e de um passado com feridas demais para alguém tão doce.
null null necessitava ser um herói para null, pelo menos uma vez.
Naquela manhã, após todo o momento emocional, null acabou por ir para casa. A sucessão de fatos estranhos, constrangedores e sentimentais, pareceram esgotaram toda sua força para lidar com pessoas e situações bizarras do dia. A enfermeira entrou bem quando dividiam aquele momento íntimo e null jurou que podia matar alguém por causa das repetidas zoações da mais velha. No final, a enfermeira acabou liberando null, ao perceber que seu limite já havia sido atingido. null não teve a mesma sorte, entretanto.
“Você não vai a lugar algum, senhor null. Não quero mais problemas!” a enfermeira disse e o rapaz apenas confirmou com a cabeça limitando-se a soltar um suspiro conformado.
Ele ainda tivera que lidar com o olhar questionador de todos, principalmente de null e null, quando voltou a sala para pegar os pertences da garota e entregar ao professor do horário a liberação formal da enfermaria. Claramente, null foi tirar satisfações mais tarde. null não gostava nem um pouco daquele cara, uma parte porque escondia uma paixão pela garota, mas também porque não sentia que null era a pessoa de quem null precisava. Todo o desgaste do dia foi compensado, no entanto, quando uma curta mensagem pipocou na tela de seu celular.

Re: Obrigada por hoje, null. :)

Send: Não por isso.

Ele respondeu com um sorriso idiota no rosto. Era a primeira vez que ela lhe mandava uma mensagem e por mais idiota que seu comportamento podia parecer, ele gostava de ver o nome dela no topo da sua lista de últimas conversas.

Re: Você vai continuar falando comigo depois do que eu te contei?

Ele bufou, resignado. O que ela tinha na cabeça para pensar que ele se afastaria dela? null era a vítima.

Send: Claro que não! Por que faria isso?

Re: Você sabe… Eu não sou quem você pensava.

Se ela soubesse o quanto ele a conhecia… null sorriu tristemente.

Send: null ou null. Você continua sendo você. Além do mais, eu disse que te protegeria de Nari. Como poderia fazer isso de longe?

Re: Acho que tenho que manter você por perto, então. Obrigada por tudo null, você é um bom rapaz.

Send:
Eu sei!

Re: Idiota kkk Boa noite

Send: Boa noite.

E mesmo que estivesse se despedido ali. null ainda ficou bons minutos observando aquela breve conversa.

(...)


null null sempre chegava tarde. Talvez por isso os olhares de puro horror e admiração de cada aluno que entrava na sala e dava de cara com a presença do garoto. Ele se esforçou em chegar cedo pela primeira vez na vida porque queria estar lá caso alguma coisa acontecesse entre null e Nari. Como o de costume, ele estava na última carteira, a cabeça baixa apoiada nos braços e o olhar atento à porta. null foi uma das primeiras a chegar. Olhou diretamente para o rapaz e sorriu estranhamente, assustada por vê-lo ali. Pouco depois, Kang Nari entrou. Depositou as coisas em uma mesa um pouco mais distante e logo foi para perto de null.
Droga.
As duas conversavam como se fossem as melhores amigas do mundo e ele conseguiu ouvir “você vai adorar a null”, vindo de null. A adrenalina já começava a rodar em suas veias. Rapidamente, ele sacou o celular do bolso e digitou.

Send: Onde você está?

Re: Atrasada, tive um sono horrível. Mas chegou a tempo. Por quê?

Ele suspirou pensando se deveria contar ou não o que ele estava vendo ali.

Send: Kang Nari se aproximou de null.

Re: Oh… Acho que não tenho como escapar hoje…

Send: Hey, não se preocupe, eu estou aqui.

Re: Eu sei! :)

Ele sorriu ao final da mensagem, sentindo-se orgulhoso de si mesmo e um tanto seguro quanto seu poder de ajudar a garota. Guardou o celular e quando percebeu, estava sob o olhar desconfiado de null. O garoto se aproximou da mesa de null, uma das sobrancelhas arqueadas e uma expressão nada amigável. Não que o null se importasse, aquele tipo de feição sempre lhe era direcionada pelas pessoas que não o conheciam muito bem. Ou até pelas pessoas que o conheciam bem. A questão era que null não estava com paciência para lidar com o aparente namorado ciumento da garota que gostava. Mas tinha que fazer.
- Você chegou cedo hoje, null. - O tom do rapaz era sério e um tanto debochado. Desde ontem, estava com a história de null entalada na garganta e para completar, a namorada mal tinha respondido suas mensagens e dera uma explicação muito suspeita a respeito do ocorrido. Uma repentina queda de pressão bem quando ela havia saído para levar o null a enfermaria. Algo não estava batendo ali.
- Como pode perceber… - null respondeu gesticulando com os braços, passando-os ao seu redor, como se apresentasse ao Song. O rapaz revirou os olhos.
- Não faça gracinhas, eu sei que algo está estranho com null desde ontem e você parece saber o que é.
- Hey, eu não sei de nada. - null abaixou o tom de voz, aquele garoto era irritante. - Mas se você acha que tem algo de errado com ela, vá e pergunte a null, não a mim.
null não atreveu a respondê-lo. Sabia que null estava certo, mas não podia deixar de controlar os instintos de namorado ciumento que lhe afligiam. O null deu graças a Deus quando viu o garoto se afastar, praguejando baixo, provavelmente, pela sua estupidez e sua crise de “macho alfa”. O rapaz sentiu que poderia se concentrar na chegada de null e ficar atento a toda e qualquer reação estranha. Não demorou tanto para ela passar pela porta. Os olhos encontrando primeiro os deles (ele se sentiu orgulhoso por isso), para depois repousarem em null e Nari.
- Hey! null! - Mesmo do fundo da sala, ele podia ouvir a voz alta de null chamando-a para perto.
Ele engoliu seco, preparando-se para agir, mas foi acalmado pelo sorriso que habitava nos lábios da garota. null parecia mais confiante naquela manhã, ele notou, então manteve-se em sua carteira. Não queria passar a impressão de que não confiava nela, porque confiava. O problema era Kang Nari. null notou bem o jeito que a garota olhou para null, o sorriso de escárnio camuflado em uma expressão angelical. Ele se esforçou para tentar ouvir o diálogo entre as garotas, mas apenas conseguiu entender as apresentações.
- null null, então. - A voz de Kang Nari se sobressaiu. - Muito prazer.
O null sentiu o sangue correr mais rápido pelo seu corpo e notou a palidez tomando conta do rosto de null. Ela logo se recuperou, no entanto, aceitando a mão que a novata oferecia. null tinha os piores sentimentos do mundo vendo aquela cena. Um turbilhão de imagens passando em frente aos seus olhos. Ovos, farinha, terra sendo jogados na pobre garota. Gritos, palavrões e palavras ainda piores direcionadas a alguém inocente. Se aquelas imagens perturbavam a mente dele, imagina o estrago que não fazia na cabeça de null.
Antes que ele enlouquecesse em raiva, o sinal tocou obrigando os alunos a sentarem. null não perdeu tempo em sacar novamente o celular e digitar uma rápida mensagem.

Send: Você está bem?

Re: Melhor do que o esperado. Vamos conversar. Te conto mais tarde.

Ela respondeu, apenas. As aulas começaram logo, mas null não conseguia se concentrar. De acordo com seu último sonho, poderia haver um confronto entre as duas a qualquer momento. Ele torcia para já ter sido interrompido com sua pequena intervenção no dia anterior, mas sabia que Nari não deixaria nada barato e voltaria a atormentar a garota.
Foi por isso que null null correu para fora da sala assim que o sinal soou anunciando o intervalo. O celular, agora seu eterno companheiro, esquentava em sua mão direita. Ele tinha um lugar certo para ir. O famoso telhado da escola, onde ninguém o atrapalharia - nem a null - a discutirem qualquer fosse o assunto.

Send: Me dê notícias. Agora, se puder.

Silêncio. Na verdade, null não sabia se o tempo não passava ou se estava ansioso demais para se acalmar e simplesmente confiar na garota.

Send: null?

Ele tentou de novo cinco minutos depois. O nervosismo não o deixava pensar com clareza. Por isso, preferiu agir. Mesmo que tivesse passado apenas doze minutos desde o início do intervalo. Desceu as escadas de volta para o prédio como se estivesse fugindo de chamas. Vasculhava na mente as memórias do último sonho premonitório que tivera. Um corredor branco e vazio. Onde, diabos, aquelas meninas poderiam se esconder?
Mas que merda!
Praguejou baixo tentando se concentrar quando uma epifania atingiu sua mente. Pôs-se a correr. Só poderia ser ali. No segundo andar do Colégio Namseok, depois do fim das salas havia um pequeno beco debaixo da escada mais distante, quase inutilizada. Diziam até que muitos estudantes usavam o local para chorar ou fazerem outras coisas que as regras vetassem. O lugar perfeito para um desastre recheado de memórias agonizantes de uma garota perdida. Corria tanto que sequer percebeu os olhares desconfiados e preocupados de null e null quando passou por eles no corredor. E quando chegou ao local, era tarde demais.
Pela primeira vez em seus dezessete anos, null odiou estar certo. Viu as lágrimas de null rolarem aos montes pelo seu rosto vermelho em apenas um lado, Nari ainda tinha uma mão levantada e um sorriso sádico. A garota estava pronta para desferir um chute na menor quando a impulsividade do rapaz gritou para que ele fizesse algo. E ele fez. Andando rápido até as duas até pegar Nari pelo braço e afastá-la com força de null.
- O QUE ESTÁ FAZENDO?! - A raiva era palpável nos olhos do garoto e Kang Nari se arrepiou pela primeira vez na vida. Ela deu um passo para trás, sem palavras e observou o null se virar, desesperado para a garota. - O que ela fez com você? Me fala, null! Me fala e eu vou denunciá-la ao diretor agora!
Tremendo em desespero, Nari esperou que null dissesse algo, torcendo para que suas ameaças fizessem efeito na mente já perturbada e frágil da menina.
- Nada. - A garota teve que engolir o choro para dizer. - Ela não fez nada.
Ouvir aquilo era pior que uma facada no estômago. null sentiu que poderia vomitar e ao olhar para as feições satisfeitas de Nari o enojava ainda mais. Não precisa, nem queria, ouvir mais nada. Apenas ajudou a garota a se levantar, passando um dos braços pela cintura dela, sob o olhar atento e apurado de Kang Nari. Depois, olhou para a garota que ainda sorria.
- Eu não sei o que fez, mas não vai ficar barato, Kang Nari. - O tom do rapaz era ameaçador o suficiente para fazê-la tremer. - Eu sei de tudo.
- Grandes porcarias. - Nari deixou cair a máscara pela primeira vez, sentindo-se poderosa o bastante para retrucar. Não tinha nada a temer se era null que mentia durante todo esse tempo. Agradeceu por ter sido transferida para aquele colégio e ter encontrado null novamente. E aquele relacionamento entre ela e null deixaria tudo ainda mais fácil. - Mesmo que você saiba quem é null null, não quer dizer que os outros vão aceitar tão bem assim…
- Você não sabe nada de seres humanos e empatia, garota. E pouco me importa os outros. - Ele estreitou o olhar. - Você não tem poder nenhum aqui e eu não vou deixar nada acontecer com ela! E se precisar usar influência e poder… Ah eu vou usar.
Kang Nari mordeu a língua, desconfiada daquelas últimas palavras. Deveria tomar cuidado com aquele garoto. Aparentemente, ninguém o conhecia bem ou a sua família, mas diziam que era bem rico e vinha de um berço dourado, apesar de não mostrar. Tudo bem. Ela tinha a carta certa na manga para atormentar null ou null - seja lá o nome - por algum tempo até pensar em um plano para destruir de vez a vida da garota. E, olhando para a forma que null cuidava dela, não seria tão difícil assim.



PARTE III

“Ninguém vai acreditar em você, null… Aliás, agora é null, não é?”

“Você enganou a todos, acha que alguém vai te perdoar?”

“Um filha de uma puta como você jamais será amada, espere até todos descobrirem a verdade…”

“É isso o que você merece… Vadia!”

Ela acordou bem na hora que recebera o tapa de Kang Nari. Respiração ofegante, suor escorrendo por cada poro, assim como as lágrimas que insistiam a cair. null abraçou os joelhos e enfiou o rosto entre as mãos. Após uma semana desde o confronto, ela ainda sonhava com as cruéis palavras que ouviu, além das agressões físicas. Desde então, têm recebido ameaças pelo celular, entre seus livros e em seu escaninho da escola. Todas de Kang Nari. Acordava no meio da noite repleta de mensagens em todos os meios sociais possíveis. E não podia fazer nada sobre aquilo, pois sabia que cada palavra da garota era a mais pura verdade.
Respirou fundo. Uma. Duas. Três vezes. Era uma técnica que havia aprendido com null nos últimos dias. O rapaz que havia se tornado seu único ponto de segurança, permanecendo ao seu lado mesmo após a recusa em contar-lhe sobre o que passou com Kang Nari. Naquele dia, ela sentiu mesmo que null poderia fazer algo contra a garota por sua causa, então preferiu omitir, deixá-lo longe daquela toxidade toda. Mas ele não queria colaborar, mandando mensagens a todo momento e resgatando-a das inúmeras crises de ansiedade que lhe atingira essa semana. Sua mãe já estava preocupada e com razão. A situação estava fugindo do controle e null sentia-se encurralada todas as vezes que seus pais a questionavam de seus dias na escola.
Para completar, null e null estavam estranhos com ela. Falavam pouco, quase sempre trocando olhares cúmplices e medrosos. Ela temeu que Nari tivesse deixado algo escapar para os dois, já que ela insistia em puxar conversa. Ainda assim, preferia pensar que nada aconteceu.
Olhou para o relógio ao lado de sua cama. 4h30. Teoricamente, ainda tinha duas horas de sono até ter que se arrumar para o colégio. Sabia que não iria dormir novamente, porque todas as vezes que fechava os olhos, a imagem de Kang Nari brotava para lhe atormentar. Então, fez a única coisa que a manteve sã durante os últimos dias. Pegou o celular e, entre as dezenas notificações desrespeitosas de Nari, buscou o número de null.

Send: Hey, você também sente que, depois de acordar de madrugada, é impossível dormir de novo?

Ela mandou a mensagem e suspirou levando o celular ao peito como se, de alguma forma, fosse acalmá-la quando se assustou com a repentina vibração do aparelho. Fitou a tela brilhante.

Re: Absolutamente sim! kk O que faz acordada a uma hora dessas, mocinha?

Ela riu. Em alívio e humor. Até em sua insônia null lhe acompanharia?

Send: Pesadelos… Reais demais até. E você?

Re: Pelos mesmos motivos.

Então ele também tinha pesadelos… Claro, ela pensou, qualquer ser humano normal tinha.

Send: Que coisa estranha. Até temos pesadelos nas mesmas noites. Será que estamos conectados?

Re: Possivelmente. Os Deuses devem ter me acordado para ver como estava.

Send: Os Deuses gostam tanto assim de mim?

Re: E por que não gostariam?

Send: Eu não sei…. Não sei se valho tanto a pena assim…

Re: É claro que vale, null…

Send: Obrigada, null.

Re: Estou dizendo apenas a verdade… Está mais calma agora?

Send: Como sabia que eu estava nervosa?

Re: Apenas imaginei… Mas isso não interessa agora. Vá dormir, mocinha, ou vai ter dor de cabeça amanhã.

Send: Você me conhece bem demais. Vá dormir também, e boa noite.

Re: Boa noite, null

E antes dela conseguir adormecer novamente, segurou o celular em seu peito. Um sorriso bobo brincava em seus lábios como não fazia há muito tempo. Quando fechou os olhos, foi embalada pelos braços de Morfeu e a figura que via, não era mais Kang Nari, mas o belo rapaz sorrindo para ela e dizendo “vai ficar tudo bem”.

(...)

Devia ser a terceira noite seguida que sonhava com aquilo. null acordando no meio da noite em lágrimas de desespero. Ele não conseguia dormir mais e encarava o celular durante horas, temendo incomodá-la. Por isso, quando a mensagem da garota pipocou em sua tela, deu graças aos Céus. Sabia que a garota escondia as ameaças de Kang Nari e já não aguentava mais ter que sonhar com sua tristeza todas as madrugadas. E mesmo sentindo null mais calma após a breve troca de mensagens. O sono não veio para null, que estava mais concentrado em encontrar uma maneira de afastar Nari de uma vez por todas. Claro, primeiro tinha que convencer null a enfrentar Nari novamente sem temer suas ameaças. Por isso, levantou-se mais cedo do que o habitual e aprontou-se para a escola. Seu destino era a casa de null, queria ter a oportunidade de conversar frente a frente com a menina. Queria fazê-la falar, botar tudo para fora. Por isso, esperou encostado ao lado do portão. Com todos os sonhos que já tivera daquele lugar, não foi difícil encontrá-lo.
Como sempre, null null estava adiantada. Ela abriu o portão e deu de cara com null null. Feições sérias e olhos inchados, carregados de olheiras, denunciando a falta de sono. null se sentiu culpada apenas em olhar a cara do rapaz.
- null! O que está fazendo aqui? - Ela se aproximou, descendo as escadinhas e fechando o portão. Talvez tinha chegado perto demais, mas não podia evitar, a proximidade com ele era muito confortável. - E ainda com essa cara… Você não dormiu, não é?
- Não, null, não dormi. - Ele riu um pouco pela preocupação dela, mas tratou logo de se concentrar no que deveria fazer ali. - Eu só conseguia pensar em você e em Kang Nari.
Ela não se surpreendeu, apenas abaixou a cabeça sentindo-se culpada. Mesmo null sendo seu maior ponto de apoio e, talvez, agora, seu melhor amigo, ela conseguia falhar com ele.
- Yah! - Ouviu-o reclamar baixo, as mãos dele envolvendo seu rosto apenas para levantá-lo, ela encarou os olhos cansados do garoto. - Você não tem culpa de nada ok?
- Por que você sempre sabe o que eu tô pensando, null? - Ela sorriu sem graça, temendo que uma lágrima intrometida descesse pelo seu rosto. O calor das mãos do rapaz era bom demais, e a culpa consumia ainda mais a garota por isso.
- Eu conheço você o suficiente, apenas isso… - Ele suspirou antes de soltá-la. - Vem, vamos andando. Eu quero conversar com você.
Ela concordou já temendo o assunto daquela conversa. Não poderia mais fugir e nem deveria. Era injusto demais com null ter que guardar tanto para si quando ele se esforçava tanto para ajudar e deixá-la, minimamente, feliz e confiante.
- Você não precisa entrar em detalhes sobre o que aconteceu entre você e Nari naquele dia. - Ele caminhava devagar, o tom era baixo. - Mas me diga, por que continua cedendo às ameaças dela?
Ela parou de andar e ele deu apenas um passo para frente antes de virar-se. Então ele sabia… Claro… null parecia saber tudo de sua vida, até mais do que ela. null ficou em silêncio, sem saber o que responder. Ouviu o forte suspiro do rapaz e viu-o se aproximar, colocando a mão em seus ombros.
- O que, diabos, tem a temer, null? - Ele disse olhando para a garota, ela desviou o olhar e ele apenas se afastou. - Sabe… Quando conversei com você aquele dia, achei que tinha entendido… Você não precisa ter medo de Nari nem das ameaças dela. Mesmo que ela diga a toda escola que você é adotada, e daí? Qual o problema disso? Você ser filha ou não de alguém, não te torna melhor ou pior… Vai por mim, eu sei do que estou falando.
- Como pode, null? - Ela questionou, a voz trêmula denunciava a vontade de chorar da garota. - Como você sabe?
Ele se virou de costas para a garota.
- Bom… Se quer saber esse meu segredo, precisa jurar que jamais irá contar a ninguém. - Ele a encarou novamente, sério e ela apenas assentiu se aproximando do rapaz. Os dois acabaram por se encostar na parede de uma casa qualquer, observando os carros passarem. - Eu sou o filho bastardo do diretor do Colégio Namseok. Na verdade, a esposa verdadeira dele não pode ter filhos, então ele engravidou uma mulher qualquer em troca de dinheiro e me trouxe para a casa. Ela me trata como filho fora de casa, mas dentro… Não se importa muito.
Ele sorriu melancólico para ela. A garota estava sem palavras e jamais poderia imaginar que eles estavam tão próximos. Já havia ouvido os rumores que ele vinha de família rica, mas filho do diretor… E ainda por cima com uma amante. Coisas que parecem verdade apenas na televisão, em novelas e séries.
- Sabe, null, nós não somos tão diferentes assim… Por isso eu sei que não deve temer a verdade. Você é null e também é null. E foi a sua história que te trouxe aqui hoje, não tenha vergonha dela.
- Você tem razão… Eu vou contar a null e null tudo e depois falo com Nari. - Ela disse decidida.
- E não se preocupe demais, mesmo que eles fiquem confusos. Eu estarei aqui. - O sorriso de null provavelmente era a coisa mais linda que null já viu em toda sua vida. Sentiu suas bochechas corarem e o coração bater mais rápido. O que estava acontecendo com ela?
- Obrigada! - Ela disse desviando o olhar, constrangida pela série de pensamentos que insistiam em lhe convencer que null null era o garoto mais bonito, simpático e carinhoso do universo. - É melhor irmos andando agora, enquanto você me conta mais sobre isso tudo.
Ele concordou. Um sorriso convencido brotara em seus lábios, ele não deixou de perceber que havia deixado a garota sem graça e vermelha. Talvez aquilo fosse um sinal de que sua sorte estava mudando. Para melhor.

(...)

Se a poucos minutos null null estava convicto que sua sorte estava em alta. Agora ele tinha certeza do contrário. Entrar no colégio com null ao seu lado já havia sido estranho. Olhares e murmúrios cercavam os dois e ele não poderia gostar menos. Mas ao entrar na sala com a garota em seu encalço, fora puro pânico. Ele sequer teve tempo de impedir e o pandemônio estava instaurado. null e null estavam na frente do quadro quando null se juntou a eles.

“A vadia representante de classe está saindo com dois ao mesmo tempo”

As palavras estavam escritas em letras garrafais. Assim que leu, sentiu o peito fechar, a respiração pesar e as pernas enfraquecerem. Só podia ser um pesadelo. Olhou para null, o garoto brilhava em raiva, tendo todo seu rosto tingido de vermelho. null mantinha-se calada e perplexa ouvindo os burburinhos explodirem na sala. null olhou diretamente para Kang Nari, observando o sorriso convencido da garota. Sabia que ela tinha aprontado aquilo e, julgando pela agitação da turma, todos tinham certeza que o segundo “namorado” de null era ele, terem chegado juntos não ajudava em nada. Sentia agora o olhar raivoso de null sobre si, mas antes que alguém pudesse fazer qualquer coisa, o null tomou a única providência cabível, aos olhos dele.
Correu até a frente da sala e chutou a mesa destinada ao professor. A raiva tão expressa em sua face que toda a turma se calou.
- Quem escreveu essa merda aqui!? - Ele perguntou, o tom frio e cortante poderia assustar qualquer um. - QUEM?!
A sala manteve seu silêncio e ele teve que respirar fundo.
- Ok… Não precisam dedurar ninguém… Mas se querem saber a verdade porque não perguntam? - A ironia transbordando dos lábios do rapaz. Ele andou até uma mesa qualquer onde sentava-se um de seus colegas. - Você. - Ele apontou antes de escorar na carteira do rapaz. - O que quer saber, hein? Já que estão fofocando sobre a representante! FALA!
- N-Nada… - O jovem rapaz gaguejou. - Só disseram que ela estava saindo com você e com null.
- Mas não está! - Ele bateu sobre a mesa novamente. - Escutem bem todos vocês! null null namora null e pronto, se vocês querem tanto assim saber porque estamos tão próximos…
null gritou, a sala inteira imersa em atenção. Mas antes que pudesse falar, deu uma última olhada para a null. A garota estava paralisada, sendo amparada por null. O desespero e medo tão presentes do olhar dela que era como veneno para o rapaz. Ele fechou os olhos e respirou fundo antes de continuar.
- Se estão tão curiosos assim… É porque queria dicas para chamar null para sair. - Foi a primeira ideia que teve. Um “oohh” coletivo se espalhou pela sala. Mas antes que ele se voltasse para null, ouviu o professor chegar. Estava encrencado.
- null null! - O homem estava parado na porta da sala. - Para a diretoria, agora!
null apenas concordou, passando por todos sem olhar para ninguém. null não se conteve em ir atrás dele, sendo seguida por null e null. O professor, confuso, olhou para o quadro e suspirou fundo. Aquele dia seria o inferno na terra para ele. Deixou que os outros adolescentes fossem atrás de null, enquanto ele mesmo faria questão de tirar aquela história a limpo.
Enquanto isso, Nari se encolhia na cadeira. Arrependendo-se da burrada que fez, agindo por impulso. Mas logo se recompôs. Jamais descobririam que ela havia escrito aquilo e, de qualquer forma, não seria punida gravemente e tinha certeza que quando contasse a todos sobre null, tudo seria esquecido, e ela seria, novamente, o foco de fofocas e perseguições. Tudo ficaria bem. Ela pensou.

(...)

null estava agradecida pelo corredor estar vazio permitindo a ela, assim, correr o máximo que suas pernas deixavam para alcançar null. Quando finalmente, conseguiu, agarrou-o pela manga, puxando-o para trás.
- Por que mentiu?! - Ela quase gritou fazendo-o virar imediatamente. null estava magoada. Profundamente. E não sabia muito bem o porquê. Dividia entre a onda de ciúmes que lhe atingiu quando falou de null ou pela culpa em colocá-lo naquela bagunça junto com ela.
- Você sabe, null, eu não quero piorar as coisas. Não hoje. - Ele suspirou fundo e sorriu de forma triste. - Você ainda tem coisas a fazer.
Ele apontou com a cabeça para as duas pessoas paradas atrás da garota. null e null estavam ligeiramente ofegantes, o olhar preocupado repousava sobre a menina. null suspirou a contragosto, não se sentia muito preparada, mas aquele era o melhor momento. Como sempre, null null tinha razão. Ela o fitou novamente, o olhar consternado pedia a ele qualquer tipo de ajuda. Ou que não fosse enfrentar o diretor. Ou que se fosse, que a levasse junto. Qualquer coisa que não lhes afastassem. Porém, ele apenas balançou a cabeça negativamente e sorriu.
- Nos falamos depois. - Disse antes de retomar seu caminho.
null mordeu o lábio antes de se virar para trás. null e null pareciam tão perdidos que ela sentiu pena. Por fim, caminhou dois passos até eles.
- Vamos ao telhado, preciso contar algo a vocês. - Ela disse com a voz baixa.
O caminho foi silencioso. Não podiam ser pegos andando a esmo pelos corredores, e nem tinham muito o que falar. A tensão nos ombros de null era palpável, o que deixava o clima entre os três ainda mais estranho. Quando chegaram ao telhado, se acomodaram em um canto qualquer. null sentou-se na frente dos dois, como se fossem sua plateia. Tomou ar antes de começar seu monólogo.
- Bom, há algo sobre mim que vocês não sabem… - Ela começou, esfregava as mãos, nervosamente, como se sua ansiedade fosse diminuir assim. - Eu sou adotada. Cresci em um orfanato chamado Nabi, em Namyang. Lá, eu me chamava null null, esse foi o nome que minha mãe biológica me deu antes de me abandonar… E bom, a vida não era muito fácil para mim…
O silêncio e a atenção dos dois deixavam a garota ainda mais apreensiva, mas precisava terminar aquilo. Contar a eles de uma vez por todas e tirar a limpo a história que Kang Nari inventou. Uma parte bem pequena dela também queria dizer a null que null null havia mentido e que não estava interessada nela.
- Neste orfanato, também vivia Kang Nari. Ela é filha da dona do lugar e, por ter tanto poder, não era muito legal comigo. Na verdade… Ela era - ainda é - detestável. - null pausou a fala, tentando controlar suas emoções. - Fazia coisas horríveis comigo… Coisas que eu gostaria de não ter que falar agora, mas… Enfim, ela dizia que por eu ser filha de uma prostituta, não merecia ter nada, nem amigos, nem amor, nem família… E agora, ela parece ter voltado apenas para me atormentar novamente. Eu estou dizendo isso a vocês agora antes que ela diga. Podem me odiar por ter escondido essas coisas por tanto tempo, mas eu precisava…
null olhou para o colo, as mãos apertadas uma na outra e respirou aliviada. Antes que pudesse levantar os olhos novamente, sentiu null se aproximar e passar um braço pelos seus ombros. A amiga chorava baixinho, ela podia ouvir. null teve que se controlar para não a acompanhar nas lágrimas. Mas estava cansada de chorar por tudo.
- Eu sinto muito, null. - A amiga disse entre soluços pequenos, null sorriu virando-se para ela e a abraçando com vontade. Quando se separaram, null enxugou as lágrimas e fitou a garota. - Para falar a verdade, eu e null já desconfiávamos que algo estava errado… Há uma semana, nós seguimos null. Ele corria tão desesperado pelos corredores, quando nos demos conta, estávamos espionando vocês no corredor vazio do segundo andar… Vimos que Nari fez algo e que null estava te ajudando, mas não dava para entender muita coisa sabe… Então decidimos esperar você contar pra gente… Só não sabia que era tão grave assim, você passou por muita coisa…
- Vocês não estão me odiando? - Pela primeira vez, ela fitou null. O rapaz tinha uma expressão séria, mas depois sorriu, triste.
- Claro que não, null. Como poderíamos? - Ele respondeu soltando um suspiro. Finalmente as coisas se encaixavam em sua cabeça e, vendo o rosto da namorada brilhar daquele jeito, tornava tudo ainda mais difícil.
- É! Idiota! Você não tem culpa de nada! Kang Nari é a vadia que está te infernizando! Eu vou acabar com aquela maluca! - null reforçou.
- Obrigada. - null disse apertando as mãos de null entre as suas e olhando para null.
null abraçou a menina mais uma vez.
- Hey, null… Será que posso conversar um pouco a sós com null? - null perguntou quando a menina soltou sua namorada.
Um tanto desconfiada, ela concordou, murmurando que iria voltar para a sala e dar alguma desculpa para o professor do sumiço do três. Os dois concordaram e logo que viu null se afastar, null se aproximou de null, envolvendo-a em um abraço. Há quanto tempo não tinham aquele tipo de contato? Qualquer tipo de contato, afinal. Pensando nos últimos meses, eles não pareciam mais o casal do início. Apesar de que ele tinha certeza de seu amor por ela, não sentia que ela lhe retribuía a altura e, talvez, no meio daquela confusão, nem fosse o momento certo. E havia null. O rapaz que a tomou, de uma hora para outra. null não gostava de pensar em null como um objeto, mas não conseguia evitar o pensamento de que o null roubou a garota para si, com todo seu charme e conhecimento do que estava acontecendo. Claro que null estava enciumado, porém, fitando a garota agora, sabia que não poderia fazer nada. Deu-se por vencido.
- Hey, null… Espero que não me leve a mal e nem pense que isso tem relação com o que acabou de me contar… - null disse se afastando um pouco da garota. Não havia o costumeiro rubor em suas bochechas de quando ele a tocava ou a constrangia. Não havia mais nada por ele ali, além de uma amizade. - Mas… Acho que devíamos terminar.
- Oh! - Ela disse constrangida. Entristeceu-se. Não pelo fim do relacionamento, mas pelo contrário. Por não estar triste com aquilo. null não merecia. Ela tentou balbuciar alguma coisa, mas as palavras não vinham. O rapaz sorriu e balançou a cabeça.
- Está tudo bem… Não precisa dizer nada. - Ele suspirou, mordendo o lábio em seguida. - Na verdade, eu queria apenas saber uma coisa… Como… Você e null? O que houve?
E a garota se sentiu ainda mais constrangida. Ela mesmo estava confusa com seus sentimentos e ouvir aquilo de seu, agora, ex-namorado, apenas piorava a situação.
- Bom, eu contei tudo a ele, sem querer, no dia em que Nari chegou ao colégio… Desde então, null tem me ajudado com tudo isso.
- Entendo… Por isso está gostando dele? - null soltou em um suspiro.
- O-O q-quê? Como… Como sabe?
- Você o olha como eu olhava para você em nosso namoro… - O rapaz sorriu tristemente. - E se quer saber, tenho certeza que ele gosta de você também, talvez mais do que eu.
- Não fale bobagens, null… Além do mais, eu tenho que superar você primeiro. - null engoliu um sorriso e pegou na mão do rapaz. - É por isso que quis terminar comigo?
- Bom, eu tenho que deixar você ir… E com toda essa situação, você não precisa se preocupar comigo… Não se preocupe também…. Vamos manter o nosso término em segredo, por enquanto. Pra não causar mais rumores.
- Você é bom demais para mim…- Ela sentiu a mão dele apertar mais a sua. - Você acha que podemos continuar sendo amigos?
- Mas é claro! Ainda preciso te deixar constrangida com meus comentários. Vai ser ainda mais divertido ver null com ciúmes.
O rapaz observou a vermelhidão tingir o rosto da garota, não evitou rir. Ela o acompanhou no riso, logo depois. Vendo-o assim, null teve certeza que tudo iria ficar bem.



PARTE IV

- null null e Kang Nari. O diretor pede a presença de vocês duas na sala dele. - Foi a primeira coisa que null ouviu ao pisar na sala novamente.
Os colegas estavam em silêncio, fitou null. A garota sorria de sua carteira, certificando-se que nada havia saído do controle. Depois, null olhou para null, atrás de si. O rapaz sorriu dando-lhe confiança antes de bagunçar lhe os cabelos carinhosamente. A garota sorriu e assentiu para o professor sendo seguida de Nari. Podiam ouvir murmurinhos atrás de si, mas seguiram o caminho até a sala em silêncio.
- Eu não sei o que está tramando, null null, mas não vai ser sair bem. - Foi a única coisa que Nari disse antes de entrar na sala do diretor.
null apenas revirou os olhos para a ameaça. Quando percebeu o ambiente, não podia se sentir mais segura. O diretor estava em sua grande cadeira, como nos filmes em que a entidade máxima do lugar sempre ocupava o centro, o lugar mais alto ou mais vistoso. No sofá ao lado, null descansava despretensiosamente, um sorriso vitorioso descansava em sua boca. Aquela pose relaxada quase arrancou um suspiro de null, mas logo que ele a viu, consertou sua postura.
- Muito bem, meninas, queiram se sentar. - O diretor disse apontando para as cadeiras a frente. Era um homem alto, de expressões severas e voz profunda. Quando null o olhou, percebeu diversas semelhanças físicas com null, apesar da seriedade. Assim que viu as garotas acomodadas, ele continuou. - Fui informado de um desafeto entre as senhoritas e, de acordo com um aluno, a senhorita Kang, supostamente, escreveu algo ofensivo envolvendo a senhorita null e o senhor null, aqui ao lado…
- Senhor diretor… - Nari tentou dizer algo, mas levantou um dedo, o suficiente para conseguir o silêncio da estudante.
- Consta ainda que a senhorita Kang tem… Ameaçado a senhorita null por fatos passados. Provados por alguns bilhetes que a equipe de limpeza achou no armário da senhorita null. - O diretor suspirou cruzando as pernas. - Bom, o que eu posso dizer sobre isso é que… Nós, do Colégio Namseok, não toleramos comportamentos agressivos ou ameaçadores. Somos um colégio renomado e nada que manche o nome desta instituição será tolerado. Está me entendendo, senhorita Kang?
- Sim, senhor…
- Ótimo. Seus pais já têm conhecimento do problema. Enquanto a você, senhorita null… Não tenha medo de reportar esses acontecimentos. É uma das nossas melhores alunas.
- Sim, senhor! - null respondeu com uma breve reverência. Sentia o olhar vibrante e ansioso de null sobre si.
- Sendo assim, estão dispensados.
Os jovens saíram da sala do diretor após uma reverência respeitosa. null podia sentir o ódio espumando de Nari, junto a preocupação. Foi só fechar a porta que null null sentiu-se ser empurrada para trás. Como reação imediata, null colocou-se atrás da garota, amparando-a. Em seguida, o rapaz tomou a frente, ficando entre as duas estudantes.
- Yah! O que está fazendo! Não ouviu o diretor? - null disse enquanto abria os braços protetoramente.
- Ouvi! Claro que sim! E agora estarei acabada e serei transferida novamente! - Ela bufou em ódio. - Logo, não tenho nada a perder…
Antes que Nari partisse para cima novamente, null foi a frente. Sob o olhar confuso e preocupado de null. Ela deu dois passos adiante, ficando frente a frente com a garota.
- Você não entende, não é? - null começou. - Nada do que fizer agora vai melhorar a sua situação. Eu não sei, nunca soube, por que me odeia tanto assim. Mas eu não vou ter mais medo de você, Kang Nari. Me recuso! E sabe por quê? Porque eu não fiz nada de errado, eu não mereço nada das coisas que fez comigo e eu não estou sozinha! null, null e null acreditam em mim e sabem de tudo. Já você… Enquanto não aprender a parar de querer ser melhor que os outros, não vai chegar a lugar algum.
- Você não entende, não é null … - Nari retrucou, fazendo questão de enfatizar o antigo nome da garota. - Você sempre foi perfeita demais, tinha a atenção de todos. Da minha mãe! E agora… Sua vida está ainda melhor? Eu escolhi vir para cá, morar com meu pai, para ficar longe daquele lugar irritante. E quando chego, tenho que dar de cara com você?
- Isso me parece karma, Kang Nari. Ou destino, o que preferir. - null se pronunciou com um suspiro. As lembranças de seus sonhos terríveis com aquelas duas garotas voltando como um filme. - Não podia ficar ilesa pelo que fez com null. Mais cedo ou mais tarde, teria que pagar.
- null tem razão. Mesmo que não voltasse por mim. Algum dia você teria que aprender que nenhuma ação contra outra pessoa é benéfica para você. Não sou eu quem está perdida aqui, Nari, é você. - null suspirou fundo e fitou a garota. - A propósito, meu nome agora é null null. Respeite-o. Vamos, null.
null pegou a mão do garoto e passou a puxá-lo para longe da garota. Ele sorriu apertando a mão dela na sua por um breve momento antes de soltá-la. Ainda não era o tempo certo de agirem próximos. Os rumores estavam apenas no início e, ele sabia, teriam que enfrentar algumas coisas ainda. Mas estava tudo bem. A expressão tranquila e confiante de null dava a null força, além de alguns arrepios e um coração acelerado.
- Você foi incrível. - Ele disse quando estavam chegando até a sala. O intervalo começaria em breve.
- Eu sei. Mas eu me sinto mais confiante agora. - Ela fitou o rapaz. - E é tudo graças a você. Obrigada.
- Eu não fiz nada… - Era a primeira vez que via null tão envergonhado, o rubor subindo pela sua face o deixava ainda mais fofo.
- Claro que fez, não sei o que disse ao seu pai, mas ele estava totalmente do meu lado.
- Ora, eu apenas usei meus conhecimentos de filho. Sei que o que ele mais preza nesse mundo é a reputação desse Colégio. Apenas o convenci que Kang Nari poderia trazer prejuízo a nossa imagem. Foi uma ótima conversa, mas estou de castigo por depredar o patrimônio escolar.
- Não esperava menos do seu pai… A propósito, vocês são parecidos. Como ninguém desconfiou que são pai e filho ainda?
- Ouch! Não acredito que disse que pareço com aquele velho carrancudo! - Ele pôs a mão sobre o peito fingindo uma dor. null apenas riu.
null sorriu olhando-a assim. O calor em seu peito lhe dizia que não teria pesadelos com a garota por um bom tempo. E era assim que deveria ser.

Outubro/2017
Colégio Namseok - Jamsil/ Seul

null sorriu ao contemplar a bela visão daquele telhado. Estavam a poucos meses do fim do Ensino Médio e, apesar do início do ano conturbado, aquele com certeza foi o melhor ano de sua vida. Virou-se para o grupo de amigos sentados no chão do lugar. Aprenderam a almoçar juntos e, aos poucos, todos os dias ela tinha um piquenique com as melhores pessoas que conhecera na vida. Voltou e sentou-se ao lado de null.
Pouco tempo depois da pequena confusão, Kang Nari foi transferida de colégio. Segundo os rumores, o diretor pessoalmente pediu aos pais da garota que a mudassem. Algumas fofocas envolvendo null, null, null e null permaneceram, ninguém sabia ao certo o que aconteceu entre o quarteto, mas, agora, eles se davam bem demais, mesmo que null tivesse se afastado um pouco. Pouco tempo depois, a notícia de que null e null haviam terminado o namoro se espalhou. E claro, não demorou muito para novos boatos surgirem e uma tonelada de garotas darem em cima do rapaz. Nada que não pudesse ser controlado.
Durante alguns meses, null saiu com várias garotas e manteve um estilo de vida libertino demais. Isso, até null chamar-lhe a atenção para o que estava fazendo. Tentando substituir null, o que não ia adiantar nada. O engraçado era que depois daquilo, null passou a ver null com outros olhos… null percebeu logo e tratou de ajudar o rapaz, mas null era tão lerda quanto boa pessoa. O que dificultava as coisas. Não que null pudesse dizer algo, null era ainda pior. E em algum momento do ano, os dois rapazes viram-se preso nos encantos das garotas, e logo não as largavam para nada, mesmo que o título da relação ainda fosse de amizade.
- Hey, no que estava pensando. - null perguntou cutucando o braço da garota. Ela não havia percebido que estava viajando e agora tinha todos os olhos voltados a si.
- Oh, em nada específico… Apenas como vou sentir falta disso quando ir para a faculdade. - Ela gesticulou apontando para os amigos. null sorriu se aproximando mais da garota. Bagunçou os cabelos dela antes descer a mão até a mão da garota.
- Não precisa se preocupar com isso.
- É! Além do mais, todos nós escolhemos faculdades em Seul. Não estaremos tão longe. - null complementou com um sorriso. - E eu sei que null vai atrás de você na Universidade de Seul.
- Yah! - Ele reclamou um pouco, incapaz de desmentir a amiga. - Você e null também vão para a mesma universidade.
null reclamou baixinho. Constrangido, pegou um dos guardanapos usados para jogá-lo em null. Logo, os meninos iniciaram uma pequena guerra de papel, enquanto as garotas riam escandalosamente da infantilidade dos dois. Ainda entretida com os rapazes - que se levantaram e passaram a correr um atrás do outro - null sentiu null chamar sua atenção.
- Hey, quando vai dizer a null? - A garota corou apenas em ouvir a pergunta da amiga.
- Quando tiver a minha resposta e a dele para a Universidade de Seul.
- Yah… Não está esperando tempo demais? Desde abril vocês estão nessa situação. - A garota protestou.
- Eu sei… Mas sabe, eu tive um sonho estranho esta noite… Sonhei que confessava meu amor por ele nesta data e tudo corria lindo! - null respondeu corada, envergonhada pelas outras coisas que aconteciam no sonho. - E você não pode falar nada de mim!
- Eu queria que null se confessasse primeiro! Mas ele é um idiota, então vou dizer no dia da formatura.
- Tenho certeza que vai dar tudo certo para você, amiga. - null abraçou null de lado, que riu.
- Pra você mais ainda, aquele babaca não consegue esconder que te ama.
null apenas assentiu, o rosto vermelho, os olhos brilhando. Quando encontrou seu olhar com null, sentiu que as palavras de null eram verdadeiras. O jeito que null olhava para null era o mesmo jeito que null olhava para null, afinal.



EPÍLOGO

Estava de pé no centro de um lugar enorme e decorado. Várias mesas dispostas. Várias pessoas presentes. null null não conseguia identificar muito bem os rostos daquelas pessoas, mas sabia que todas eram conhecidas. O dia devia ser muito especial. Olhou para si mesmo. Usava um terno branco, elegante. Sentia-se nervoso por algum motivo e os olhares atentos daquela pequena multidão o intimidavam ainda mais. De repente, as luzes do local se abaixaram suavemente e um holofote foi aceso para o fim do corredor. null sentiu seu coração disparar com a visão de null null vestida de noiva. Linda, maravilhosa, estonteante. Ele não tinha palavras para dizer quão bela a garota estava. Os braços dados ao seu pai adotivo. Na outra mão um lindo buquê de lírios. Quando null chegou ao altar, null tremia. Agradeceu ao sogro e tomou a mão da garota conduzindo-a para frente. De perto assim, ela estava ainda mais bonita.
E durante toda a cerimônia, a única coisa que pensava era que aquilo era o sonho de sua vida.
- null null, você aceita null null como sua legítima esposa? - O mestre de cerimônias disse fitando o rapaz.
- Sim.
- null null, você aceita null null como seu legítimo esposo?
- Sim.
O som escorreu doce de sua boca e null podia jurar que derreteria em ouvi-lo novamente.
- Então, pelo poder concedido a mim, eu vos declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva.

Antes que pudesse fazer qualquer coisa. null Jae acordou em um sobressalto. Fitou o quarto, a luz da manhã já iluminava o lugar parcialmente. Olhando para baixo, encontrou o torso nu, a cintura coberta apenas pelo lençol branco. Ao seu lado, null olhava assustada e preocupada. Viu a garota se levantar trazendo o lençol consigo junto ao peito. Os cabelos estavam bagunçados, a boca inchada, marcas roxas e vermelhas cobriam o seu pescoço denunciando o que fizeram durante toda a noite.
- null? Você está bem? - Ela perguntou preocupada. O rapaz olhou para ela. Linda. Era a única coisa que pensava, e sorriu passando a mão por entre os fios dos cabelos desalinhados.
- Estou. Apenas tive um sonho… - Viu a garota sorrir, maliciosa.
- E era sobre mim? Alguma coisa vai acontecer comigo? Boa ou ruim?
null riu da empolgação da garota. Mal podia acreditar que ela não duvidou da sua história de que tinha sonhos em relação ao futuro dela. Mas também, como ela podia? Se ele conseguia prever até mesmo quando pegava uma gripe, ou quando tropeçava em alguma coisa que ele deixou jogada pela casa ou até mesmo nas coisas maiores, como sua formatura da faculdade ou sua primeira entrevista de emprego. Talvez a surpresa maior foi descobrir que seu namorado era o mesmo garoto que ela tinha salvado ao pular, irresponsavelmente, no rio de sua cidade Natal na tenra idade de dez anos. Aquilo lhe provou que o destino realmente havia se encarregado de mantê-los juntos e ela jamais iria contrariá-lo. Porém, o que null nunca acreditou era na quantidade de anos que o null demorou para lhe contar aquilo.
- É sobre você sim e é bom. Definitivamente.
- Me conta!! Vamos! - Ele riu quando ela chegou ainda mais perto.
- Não vou. Será uma surpresa… - Ele disfarçou chegando o corpo um pouco para trás. Rasteiramente, seu braço esquerdo alcançou o criado mudo e o abriu devagar. - Mas serviu para me confirmar algo…
Ele tirou de lá uma pequena caixinha de veludo vermelha.





Fim!



Nota da autora: Sem nota.


Nota da beta: Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.


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