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Última atualização: 03/07/2017

Capítulo 1 - Sábado


Eu não sabia o que tinha acontecido comigo hoje. Estava sentado em minha cama meia hora depois de acordar, não mexi um músculo desde então. O ar condicionado estava desligado, mas eu só faltava congelar, as cortinas abertas podiam mostrar o tempo cinza lá fora. Alguma coisa estava estranha. Essa situação toda me lembrou o dia que minha mãe me contou a verdade sobre meu pai. Depois de anos perguntando a razão de o meu pai nunca ter ido me conhecer, depois de anos chorando sozinho em casa para minha mãe não ver minha dor, depois de anos mentindo para os que perguntavam onde ele estava. Eu não entendia, até que passei a insistir cada vez mais. Era um dia como este, cinza, frio, sem vontade alguma de me mover ou falar com alguém. Apenas escutar. Minha mãe me disse que meu pai era um homem da paz, um homem que atraía olhares de inveja, por ter um espírito tão bom. Inclusive ela disse que eu me pareço com ele em quase todos os aspectos. Bom, voltando ao assunto... Meu pai faleceu três meses antes de eu nascer. Ele era um homem trabalhador e decidido, corria atrás do que queria até conseguir. Minha mãe disse que ele estava a semanas em busca de um berço ideal para mim, ele queria o "berço perfeito". E naquela noite ele encontrou. Dirigia apressado para casa doido para presentear sua mulher, quando de um segundo para o outro ele nunca mais poderia olhar em seus olhos, nunca mais poderia beijar seus lábios, nunca mais poderia dizer que a amava, e nunca veria seu filho que estava prestes a nascer. Minha mãe disse que naquela época ela teve que ser muito guerreira para não me perder, muitas vezes ela quase não aguentou e deixou a dor tomar conta de si, mas ela teve ajuda de algumas pessoas para conseguir se reerguer. A vida é a coisa mais complexa que existe, linda, porém, traiçoeira. Você pode estar seguindo um caminho, tendo pensamentos, vivendo lembranças... E de um segundo para o outro você perde tudo. É por isso que devemos viver cada dia como se fosse o último, você nunca sabe o que pode acontecer quando acordar no outro dia de manhã. Ou simplesmente não acordar jamais.
Minha mãe então passou a fazer trabalho duplo, ou melhor, triplo. Papel de mãe, papel de pai e ainda trabalhar fora de casa. Margareth com certeza é uma pessoa para se admirar e servir de exemplo, eu tenho muito orgulho dela. Gostaria que os outros também pudessem ter. Ela trabalha todo dia o dia todo em uma padaria a umas quatro quadras de distância daqui. Então, eu quase não a vejo. Mas acho que de certa forma isso serviu para me dar maturidade e independência. Sou uma pessoa que poderia ser considerada rara nos dias de hoje. Palavras da minha mãe. Apesar de ter meus defeitos, como ser tímido demais e não causar uma boa impressão na maioria das vezes por conta do meu jeito reservado, eu tenho um bom coração. Eu larguei os estudos aos dezesseis anos para ajudar minha mãe a trazer dinheiro para dentro de casa. Porque teve uma época que eu percebi que ela chegava em casa à noite exausta demais, ela tentava disfarçar, mas eu percebia. Eu tomei a iniciativa, não agradou muito a ela no início, mas a fiz entender. Eu tenho sonhos, claro, como todo mundo, mas a vida me deu caminhos, e eu segui o caminho que julgo certo. Pelo menos por agora. Se eu puder ir atrás dos meus sonhos no futuro seria maravilhoso. Eu trabalho em um orfanato, e me sinto bem lá. Eu ajudo a cuidar e interagir com as crianças, a energia lá é sempre muito positiva e eu sempre vou embora me sentindo completo. Gosto de fazer o bem e ver no olhar de todas aquelas crianças a felicidade. Com o passar dos anos trabalhando lá eu comecei a me aprofundar no assunto, procurar outros orfanatos para visitar e coisas do tipo. Acabei encontrando não um orfanato, mas um lar para idosos. Eu quis experimentar uma forma diferente de amor lá, então fui sem nem pensar duas vezes. Eu dava amor para crianças, seria interessante dar amor àqueles que tem mais experiência de vida do que eu. No final acabou que eu amei a ideia. As pessoas de lá não têm somente a energia positiva e a felicidade, mas têm também histórias fantásticas que deveriam virar livros. Os únicos dias que eu não trabalho no orfanato são Segunda e Quarta. Então aproveitei a oportunidade e comecei a frequentar o lar para idosos todas as Segundas. E às Quartas eu frequento um hospital para crianças com câncer, onde levo meu nariz de palhaço e doces. As crianças de lá são um pouco diferentes das crianças do orfanato. Nem todas mostram felicidade, nem todas estão dispostas a conversar e rir. A maioria na verdade, não quer interagir de forma alguma, o que dificulta bastante. Nas primeiras semanas eu voltava acabado para casa, sem esperanças. Mas no dia seguinte eu voltava para o orfanato e pensava que as crianças do hospital só tinham levado uma vida diferente. Apesar das crianças do orfanato não terem pais, existem outras pessoas ao seu redor lhes dando amor, carinho e atenção, muitos eram pequenos demais para se importarem com o amor materno e paterno. Mas as crianças do hospital já tinham esse amor, e não é ele que os preocupa. Mas sim a chance de perdê-lo para sempre em um estalar de dedos. Eu tenho apenas dezoito anos e já tive tantas experiências na vida, espero compartilha-las no futuro para meus filhos. Se ao menos alguém soubesse sobre a minha verdadeira vida...
Resolvi me levantar de uma vez, eu já tinha perdido uma hora e meia em pensamentos. Eu sempre levanto três horas antes de ir para o orfanato. Mas como passei um bom tempo refletindo acho que hoje não daria tempo de passar no parque. É um parque que tem perto da minha casa, mas enfim, isso é assunto para outra hora. Entrei debaixo do chuveiro para começar de verdade meu dia.
Minha mãe já não estava mais em casa, então apenas peguei uma maçã e vesti meu casaco enquanto andava em direção a porta. Tive que apressar o passo dessa vez porque já estava consideravelmente atrasado, no caminho eu comia a maçã, mas sentia que aquilo não me salvaria da fome. O dia parecia ficar mais cinza, acompanhando meus passos.

♡♡♡


Quando cheguei no orfanato senti aquela sensação de bem estar e respirei fundo antes de entrar.
- Bom dia, . - Oliver murmurou ao passar por mim, ele parecia estar apressado enquanto carregava um livro em mãos. Não esperou para ouvir o meu "bom dia" e simplesmente desapareceu do meu campo de visão.
Mantive o passo para seguir em frente. Abri algumas portas para finalmente chegar até a minha "área". Algumas crianças brincavam distraídas, mas outras sorriram e correram em minha direção ao me ver. Era sempre assim, e eu sempre achava tão lindo e morria de rir por dentro. Um couro "!" pôde ser ouvido e logo todos me abraçavam. Rodopiei alguns no ar e ri ao escutar suas gargalhadas gostosas.
Passados alguns minutos as crianças voltaram para seus afazeres. Tinha um grupo de meninas brincando com bonecas, um grupo de meninos brincando de desenhar e um grupo misto brincando de correr. Sentei no chão próximo à porta e olhei para o famoso casalzinho. Elena e Tyler, eram duas crianças maravilhosas e muito inteligentes. Eles estavam sempre afastados do restante, viviam presos somente à presença de um e de outro. Me aproximei andando agachado até eles e sorri ao ver Elena sussurrar para Tyler que eu estava me aproximando.
- Tem problema eu me aproximar? – perguntei, vendo Tyler sorrir tímido demonstrando que não tinha problema nenhum. Me sentei e beijei o topo da cabeça de cada um.
Tyler foi deixado aqui quando ainda era um bebê, e agora já estava com seis anos, às vezes ele ficava meio revoltado por nunca ter sido adotado, mas ultimamente ele está lidando melhor com isso. Seus pais não tinham condição para cuidar dele por serem muito humildes. Eu acho que isso não é motivo, e sou um grande exemplo vivo disso, mas foi a decisão deles. Elena já chegou aqui com dois anos de idade, e agora tem seis também, me avisaram que a mãe dela tinha morrido e o pai era um alcoólatra e simplesmente "não a queria mais". Achei isso um absurdo e a minha vontade no dia foi de ir falar pessoalmente com o homem, mas me fizeram cair na real. Os dois acabaram interagindo e se conectando instantaneamente, não querem mais nenhuma amizade, apenas eles se bastam. E quem sou eu para julgar?
- ? - ouvi meu nome e virei o rosto para ver que Oliver estava na porta segurando uma prancheta. - Pode vir aqui um instante? - assenti com a cabeça enquanto me levantava rapidamente em seguida. Me aproximei do meu colega de trabalho e nós dois saímos da sala. Encostei a porta atrás de mim e fiz sinal para que ele falasse.
Oliver Turner trabalha no orfanato a mais tempo que eu. Ele poderia ser considerado a pessoa mais comunicativa por aqui, não era à toa que nos falávamos.
- Preciso que dê uma lida nisso aqui. - me entregou duas fichas, pareciam ser fichas com os dados informativos de algumas crianças. - Têm pais querendo adotar esses dois. - ele esboçou um sorriso que mal cabia em seu rosto.
Senti um frio dentro do peito e instantaneamente uma felicidade me abateu também.
- Pode deixar, darei uma lida e começarei as preparações para a visita. - li os nomes das duas crianças nas fichas. Emma e Noah.

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Algumas horas se passaram e meu expediente enfim tinha terminado por hoje. Sinceramente eu não gostava muito de sair daquele local. Apesar de já ser por volta das dez da noite, por mim eu dormiria e acordaria ali. Depois que Oliver me disse que Emma e Noah estavam sendo procurados para adoção, eu li suas fichas e puxei as duas crianças para um canto e lhes disse que haveria visitação para eles no meio da semana. Não preciso dizer que foi uma chuva de emoções, né? Felicidade e decepção por deixar os amigos para trás, mas principalmente felicidade.
No caminho de volta para casa eu passei pelo parque novamente. Estava completamente deserto. Aquele local de manhã fica mais lindo, com certeza. Repleto de crianças brincando, seus pais sentados ao redor conversando com outros pais. Todos ali me conheciam, e ninguém se atrevia a sentar no balanço enquanto eu estava por lá. Esbocei um sorriso e me aproximei do parque com passos incertos. Era sempre assim. Me aproximei do balanço vermelho que já estava precisando de umas pinturas, e me sentei apoiando minhas mãos nas redes que o sustentavam. Era um daqueles balanços de dois, então ao meu lado tinha um outro balanço que permanecia vazio. Há muito tempo estava vazio, e eu nunca entenderia a razão.
. Esse nome vai me perseguir a vida toda. Algumas pessoas podem me achar louco, outras podem ficar admiradas... Mas eu só estava em dúvida. Eu poderia dizer que foi minha primeira e única verdadeira amizade. Nos conhecemos quando eu tinha por volta dos oito anos de idade. Minha mãe me trazia sempre para esse parque, onde eu poderia tentar interagir com as outras crianças, fazer aquilo que todos ali faziam. Brincar. Mas eu nunca me sentia à vontade, nunca me sentia bem-vindo pelos outros. Então eu permanecia sentado naquele balanço vermelho vendo todos se divertirem. Às vezes eu me aprofundava em pensamentos, tentava entender a mim mesmo naquele lugar. Até que um certo dia uma garotinha ocupou o lugar ao lado do meu naquele enorme brinquedo cor de sangue. A olhei surpreso enquanto ela me mostrava seu maior sorriso. tinha tantos sorrisos. Ela tentava a todo custo puxar assunto comigo, e eu me sentia invadido por ela. No dia seguinte ela se sentou ao meu lado novamente, e no próximo dia também. Até que não houvesse um dia sequer que eu não olhasse para os olhos daquela garota e me sentisse, pela primeira vez, à vontade. Os dias foram se passando e nós criamos uma amizade linda. Éramos conhecidos como "as crianças do balanço vermelho", e eu adorava isso. Tínhamos nossa particularidade. Eu e dividíamos segredos, dividíamos histórias. Ela é a única pessoa que sabe a verdade sobre a minha vida. Ela sabe que sou filho de uma mulher que trabalha em uma padaria e sustenta uma casa pequena. Ela sabe que eu não tenho pai e a razão por tê-lo perdido. Ela sabe que as vezes eu não tenho dinheiro para comer ou comprar alguma coisa que eu quero muito. Ela sabe tanta coisa que muitas pessoas nem sonham em saber. E mesmo assim ela se foi. me deixou para trás sem nem se despedir, ela foi embora quando eu tinha uns dez anos de idade. Eu lembro que nós tínhamos tido um dia que poderia ser considerado mágico. beijou minha bochecha e se afastou olhando nos meus olhos, naquele momento eu senti como se meu corpo inteiro tivesse congelado, e uma coisa nova se passou por mim. Eu queria beijá-la. Queria dar meu primeiro beijo nela. Mas eu não podia, porque éramos amigos e por tantas outras coisas que rondaram minha cabeça naquele momento. No dia seguinte eu estava sentado no brinquedo esperando por ela, mas ela não apareceu. Aquilo me fez ficar um pouco desesperado, mas coloquei na minha cabeça que ela devia estar doente ou coisa parecida para justificar não ter ido. Mas no outro dia ela não tinha ido também. Não apareceu durante a semana. Não apareceu durante o mês. Eu não deixava de ir um dia sequer, eu queria ver se ela apareceria. Até que eu entendi que ela tinha ido embora sem mais nem menos. Mas o que eu ainda não entendia era a razão disso. Sempre que eu sentava nesse balanço as lembranças com ela inundavam minha mente. Como naquele momento. Respirei fundo algumas vezes e olhei ao meu redor. Às vezes eu me sentia patético.
Meu celular começou a vibrar no bolso da minha calça e eu tive que me revirar inteiro naquele balanço, que já estava apertado para mim, para pegá-lo. Logo em seguida eu atendi a chamada, mas preferia nunca tê-lo feito.

Capítulo 2 - Domingo


Minha cabeça poderia explodir a qualquer instante. Estava próximo das onze da noite e eu usava toda a minha energia para correr naquelas ruas pouco iluminadas. Voltando para aquele assunto que eu tanto odeio em lembrar, mas ele parece querer persistir em minha vida. Por que tudo pode estar bem em um segundo, e no próximo tudo está caindo em ruínas? Aquela ligação me fez ficar cego, uma dor insuportável em meu peito só crescia. Senhor Frederick Groom nunca mais contaria suas histórias engraçadas, nunca releria seu livro favorito pela sétima vez, nunca mais diria o quanto amou sua mulher, nunca mais soltaria aquela gargalhada majestosa. Me ligaram do lar de idosos para me dar uma das piores notícias da minha vida. Mais uma pessoa se foi.
Assim que eu cheguei no local, fui abrindo as portas sem olhar para trás. Cheguei na sala de reuniões, onde os idosos sempre ficavam para conversar, assistir televisão ou jogar xadrez. Senhora Campbell e Senhor White estavam em um canto conversando quando me viram, me aproximei rapidamente dos dois e os envolvi em um abraço. Foi quando pude sentir as lágrimas lavando meu rosto. Minha vontade era de gritar. Perder uma dessas pessoas era como perder meu pai novamente. Porque o carinho que eu nutria por cada um deles não era desse mundo. Pude sentir a Senhora Campbell limpando minhas lágrimas e tentando esboçar um sorriso, mas ela não precisava fingir que tudo estava bem. Porque não estava. Todos aqueles idosos se consideravam irmãos, e eles me consideravam seu neto. Éramos uma família, então compartilhávamos a dor.

♡♡♡


Ainda naquela noite quando pisei em casa pude sentir o quão fora dos eixos eu estava. Quando eu cheguei no lar o Senhor Groom já tinha sido levado, foi mais uma vítima de ataque cardíaco.
Fechei a porta em silêncio para não acordar minha mãe e me dirigi para meu quarto. Meu rosto estava inchado, minha mão ia se transformando em um punho e meus olhos se fechando para tentar manter a calma. Mas assim que eu empurrei a porta, meu primeiro movimento foi de socar a parede com toda a minha força. Uma sequência de socos logo em seguida, um mais forte que o outro. Alguns gritos começaram a sair de minha garganta, e eu podia sentir gotas caindo do meu queixo para minha blusa. E, de repente... Braços suaves envolveram meu abdome e eu pude enfim me acalmar. Fechei os olhos e me virei para abraçá-la de verdade. Senti aquele amor, senti aquela proteção.
- Por que as pessoas simplesmente se vão, mãe? Por que a vida é tão injusta? - perguntei enquanto alguns soluços escapavam contra a minha vontade. - Nós damos amor, carinho, conversamos sobre assuntos memoráveis... Mas elas simplesmente nos deixam sem nem se despedir.
Ela apertou o abraço, mas isso foi um sinal para demonstrar que não tinha uma resposta. Então me afastei lentamente.
- Promete nunca me deixar? - olhei no fundo dos seus olhos e segurei suas mãos. - Promete nunca me deixar como meu pai fez? Ou como o Senhor Groom fez? - engoli em seco ao ver o olhar desesperado dela. - Ou como fez?
- Meu amor... Não posso te prometer isso porque ninguém é eterno. - meus olhos se abaixaram até eu encarar o chão. Era verdade. Todo mundo um dia se vai. Não é uma coisa que podemos controlar. - Você tem que aprender a ser forte e continuar sua vida. Talvez um dia entenderemos qual é o real sentido dela.

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Quando eu me deitei, não conseguia parar de pensar nas palavras de minha mãe. Não escolhemos ir, nossa hora simplesmente chega. Será que tem algum motivo para isso? Já ouvi dizer que temos uma missão aqui, e quando essa missão de vida é completada nós partimos. Qual teria sido a missão de meu pai? Qual teria sido a missão de ? Suspirei percebendo o que eu tinha acabado de pensar... Eu iria mesmo acreditar no que aquelas pessoas diziam? Ou eu ia acreditar na minha intuição? Mas... É tão difícil não acreditar nos outros nesse caso... Os ponteiros do relógio mostravam que se eu quisesse acordar amanhã três horas antes de ir para o orfanato, eu deveria dormir agora.
Acordei com ressaca. Ressaca da vida. Peguei meu celular que estava na cômoda para ver as horas, logo em seguida me levantei indo direto para o banheiro. Meia hora depois e eu estava pronto abrindo a porta do meu quarto. Caminhei em direção à cozinha e encontrei minha mãe tomando o café dela.
- Bom dia, querido. - ela me mostrou seu sorriso lindo, aquele que os olhos sorriem junto com a boca.
- Bom dia, mãe. - beijei o topo de sua cabeça e me afastei para pegar uma maçã. - Estou indo.
- Filho? - me chamou quando eu já estava próximo à porta. Virei apenas a cabeça para encará-la. - Eu te amo.

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Mais meia hora se passou e eu estava sentando no balanço vermelho. Olhei ao redor vendo algumas pessoas conhecidas. Por incrível que pareça a primeira lembrança que veio à minha cabeça não foi de , mas sim de Senhor Groom. Eu ainda estava meio abalado com isso tudo.
Me lembrei de quando ele me contou sobre sua viagem ao Japão. Senhor Groom era louco pelo Japão. Ele disse que era um clima diferente, as pessoas eram diferentes em todos os aspectos, e acrescentou dizendo que eu iria amar conhecer. Senhor Groom foi casado com uma mulher linda de descendência japonesa. Tiveram um filho e dois netos. Mas ele nunca me contou a razão de ter acabado no lar. Ou melhor, nenhum deles gostava de falar sobre isso.
- Qual a lembrança de hoje, tio ? - escutei uma voz doce perto de mim, virei o rosto vendo Suzy, uma das crianças que frequentava aquele parque, sentada no balanço ao meu lado. Aquela imagem fez meu coração acelerar contra a minha vontade.
- Suzy! Já falei que não é pra brincar no balanço essa hora! - a mãe da garotinha se aproximou pegando ela no colo e olhando sem graça para mim.
Eu me sentia incomodado com isso, não é como se as pessoas estivessem proibidas de se sentar ali. Os pais tomaram essa decisão por si, eu não tenho nada a ver com isso. Mas foi uma decisão que no final me fez bem, devo admitir.
Aquela imagem me fez voltar para as lembranças que envolviam .
"Minha mãe já tinha ido trabalhar há uns vinte minutos, deixando eu e sozinhos novamente. A garota se balançava lentamente enquanto mexia as pernas. Seu rosto se virava para o meu algumas vezes, mostrando que ela queria iniciar um assunto mas não conseguia.
- O que foi? – perguntei, querendo entender suas expressões. Ela sorriu para mim e eu pude ver certo alívio em seu rosto por eu ter iniciado a conversa.
- Você nunca me contou nada sobre você... - Ela começou e eu já me sentia desconfortável. - E eu já te contei tudo sobre a minha vida... - pude ouvi-la bufar.
- Não se sinta mal, não é como se alguém soubesse. - eu murmurei enquanto mantinha meu olhar para baixo.
- E por quê? - ela parou de se balançar e me encarou curiosa. - Me conta, ! Qual é o seu sobrenome? Você tem irmãos? - ela perguntou e eu soltei um riso fraco. - Qual é o nome da sua mãe? Por que seu pai nunca te trouxe para brincar? Você tem algum animalzinho?
- Cala a boca. - eu murmurei, virando meu rosto para encara-la. Pude ver os olhos da garota de arregalarem, e seu corpo inteiro se encolher. - Me desculpe. - tentei sorrir, mas ela se sentia ofendida com minhas palavras. - Você tocou em um assunto delicado...
- Você sabe que pode confiar em mim. - ela murmurou tão baixo que eu quase não ouvi. Ela voltou a se balançar, mas não tirava os olhos de mim.
- Ele morreu... - sussurrei sem olhar nos olhos dela. Não queria ver aqueles olhos com pena de mim, eu não iria conseguir segurar as lágrimas.
- Seu animalzinho morreu!? - ela perguntou assustada e eu tive que encarar seu rosto. Ela entendeu errado pelo visto.
- Não. Meu pai. - eu jamais falaria essas palavras tão na lata assim para alguém. É porque eu confiava nela.
Por mais estranho que isso possa parecer, ela não falou mais nada. Apenas segurou minha mão e entrelaçou nossos dedos. Naquele momento eu soube que eu podia confiar mais nela do que em mim mesmo."

Meu pai nunca se orgulharia de mim. Eu era apenas um garoto de dezoito anos que largou os estudos, e sou fraco demais para conseguir deixar meus problemas do passado de lado e seguir em frente.
Minha mãe um dia me disse como conheceu meu pai. Ele trabalhava em uma oficina, era mecânico de automóveis. Trabalhava duro, colocava a mão na massa, não tinha medo de se machucar. Ele enfrentava seus medos, enfrentava quem lhe fizesse mal, enfrentava seus próprios pensamentos. Ele era forte. Um dia o pai da minha mãe precisava dar uns concertos em sua lataria, então levou à oficina do meu pai. Era uma oficina distante de onde a Senhora Margareth morava, mas meu avô falava que tudo que ficava longe era de melhor qualidade. Naquele dia meu avô tinha pego minha mãe da faculdade, e ela teria que ir junto com ele. Ela me disse que enquanto meu pai trabalhava no carro eles ficavam trocando olhares, e aquele homem conquistou ela de uma forma inexplicável. No final do dia ele pediu o número dela enquanto meu avô foi fumar um cigarro.
Anos mais tarde descobriram que o pai do meu pai estudou com a minha avó materna no colegial.
O amor da sua vida pode parecer estar tão longe, quando na verdade está tão perto de você.
Hoje era Domingo, o que quer dizer que amanhã eu irei para o lar de idosos, olhar no rosto de todos eles e sentir meu coração diminuir aos poucos.
Hoje no orfanato foi bem cansativo. Primeiro eu tive que conversar durante uma hora com o casal que queria adotar Emma. Depois mais uma hora com o casal que queria adotar Noah. E então teve a primeira visita, os casais passaram um tempo com as crianças enquanto eu ficava encostado na parede olhando tudo. Logo depois tive que passear fora do orfanato com a possível nova família de Emma e depois o mesmo com a possível nova família de Noah. Depois tive que conversar com as crianças em particular para saber o que tinham achado dos adultos. E então tive que acalmar algumas crianças que começaram a chorar por não ter visitação para eles. E no final marquei para os casais voltarem terça-feira para tirarem um dia de diversão com as crianças.
Apesar de ser muito legal e bonito uma ação de adoção, é bem cansativo. E eu tenho que admitir que fico com o coração partido de ver um deles indo embora de minhas asas.
O dia acabou exatamente como começou. Rápido.
Ao me deitar na cama fiquei refletindo sobre algumas coisas. Como, por exemplo, a futura vida de Emma e Noah. Eram crianças incríveis, seriam muito amadas pelas famílias.
Meu pai iria ser um bom pai. Ele chegaria todo dia cansado do trabalho e me daria um beijo na testa. Algumas noites, enquanto ele estivesse assistindo televisão ou lendo o jornal, eu ficaria tentando puxar sua atenção, enquanto minha mãe cozinhava um jantar delicioso para nós três. Ele me acordaria de manhã para ir jogar futebol ou ir à praia. Ele choraria ou morreria de rir com minhas cartinhas e desenhos nos dias dos pais. Ele me ensinaria como convidar uma garota para sair ou como tratá-las com carinho e respeito. Ele me daria bronca quando fizesse uma coisa errada e depois viria se desculpar por ter gritado comigo. Ele me ajudaria a enfeitar meu quarto com personagens de séries, ou bandas de rock. Ele seria um pai maravilhoso, se não tivesse me deixado sem sequer me conhecer. Eu pelo menos sei como ele é. Já vi várias fotos dele, que minha mãe guarda por ai.
Diante de tantos pensamentos e uma eterna saudade, acabei caindo no sono sem nem perceber.

Capítulo 3 - Segunda-feira


"Era primavera. A estação do ano mais linda, na minha opinião. Os cabelos de pareciam mais vivos, cheios, brilhantes... Seu sorriso era maior, sua energia mais contagiante... E naquele dia em especial ela estava tudo em dobro.
Eu estava sentado no balanço vermelho há uns cinco minutos quando chegou, foi o dia que ela chegou mais rápido. Geralmente demorava de 15 minutos à meia hora. Ela se aproximou correndo e envolveu seus braços ao redor da minha cintura, sua gargalhada estava alta e seus olhos tinham um brilho especial.
- Você está diferente hoje. - eu disse quando ela se sentou no balanço ao meu lado. Seu sorriso não desmanchava de jeito nenhum.
- Tenho uma novidade! - começou a se balançar e dar pequenas risadas. Ela estava muito inquieta, e isso estava me deixando muito curioso.
- O que é? – perguntei, acompanhando ela nas risadas. Logo parou todos os movimentos e deu total atenção à mim.
- Mamãe está grávida! - logo em seguida ela pulou em cima de mim e me abraçou novamente.
Gargalhadas altas inundaram o parquinho."

Minhas pernas balançavam para frente e para trás inquietas. Aquele dia ela estava mais brilhante que o sol. Soltei um riso baixo enquanto encarava meus pés. Nossa, como eu sentia falta dessa garotinha.
A primavera já estava chegando. Mas ela não era mais tão linda assim.

♡♡♡


Minhas pernas agiam sozinhas me levando ao meu destino. Eu estava totalmente distraído no caminho para o lar de idosos. Não sei a razão da minha última lembrança com estar tão impregnada na minha cabeça. Parecia chiclete.
Assim que pisei no lar deixei todos os meus problemas e lembranças do lado de fora, aqui era lugar para me acalmar, procurar amor e tranquilidade. Entrei cumprimentando as pessoas que passavam por mim, alguns funcionários, outros idosos que eu não tinha tanta intimidade. Entrei no espaço de lazer e ri vendo alguns senhores cochilando enquanto passava um filme na televisão. Às vezes, quando passo muito tempo por aqui, fico morrendo de sono. Esses cochilos são bem contagiantes.
Peguei um chocolate quente na cozinha e quando estava saindo vi o Senhor White entrando. Ele esboçou um sorriso gigante e abriu os braços para me abraçar com aquele carinho, que me parecia carinho de pai. Eu acho.
- Eu já estava morrendo de saudade de você, garoto! - ele resmungou, me dando um leve soco no ombro. Senhor White pediu para uma das cozinheiras que fizesse um café com leite para ele. Ele resolveu se sentar em uma das cadeiras que tinha ao redor de uma mesinhas ali na cozinha, e eu me juntei à ele.
- Infelizmente só posso vir aqui uma vez por semana, mas adoraria vir mais vezes. – falei, dando um gole na minha bebida em seguida.
- Sabe? Às vezes fico me perguntando se é saudável para você frequentar um lugar como esse. - O mais velho disse, suspirando logo em seguida. Franzi meu cenho não entendendo o que ele quis dizer. - É uma troca de amor muito forte entre nós e você, só que já estamos muito velhinhos, ... Nunca se sabe quando um de nós pode...
- Não quero falar sobre isso. - o interrompi enquanto afastava ao máximo meu olhar dele.
- Me desculpe, garoto. - ouvi quando ele estalou a língua se repreendendo. Uma funcionária se aproximou para entregar o café ao senhor e logo depois se afastou. - Só me preocupo, pois sei que irá sofrer bastante.
- Essas coisas acontecem o tempo todo, em todo lugar, Senhor White. - murmurei depois de dar um gole generoso no chocolate quente, fazendo minha garganta queimar.
- Tudo bem, não irei mais tocar no assunto. - disse e se calou. Virei meu olhar para ele e suspirei. Senhor White era um dos homens mais generosos que eu já conheci. É o tipo de pessoa que realmente se importa com os outros.
- Sei que tocou no assunto por causa do Senhor Groom. - eu disse o encarando para ver sua reação. Senhor White e Senhor Groom eram bem próximos. O homem fechou os olhos e respirou fundo criando coragem para falar. Agora tínhamos entrado em um tópico mais sensível.
- Aquele desgraçado. – disse, soltando um riso no final. - Sempre foi um homem extremamente forte. - virou seu olhar para mim e esboçou um sorriso triste. - Primeira vez na minha vida que o vi ser fraco.
- Todos somos fracos em algum momento. – murmurei, dando o último gole na minha bebida.
- Eu me lembro de uma vez... - começou dizendo com o olhar perdido para cima. Me mantive quieto sabendo que estava prestes a ouvir mais uma história. - Quando viajamos para a África. Lembro-me que a muito tempo atrás tínhamos combinado de ir para uma das cidades da África para ajudar algumas pessoas por lá, porque infelizmente, né... Você sabe. - assenti com a cabeça. Eu planejava visitar a África no futuro. - Quando nós chegamos lá eu não sabia o que esperar, rapaz. Ficamos apenas uma semana, mas foi o bastante para me arrebentar. Entramos em alguns hospitais, algumas vilas... Tinha vezes que eu não conseguia seguir em frente para ver um pouco mais, tinha vezes que eu sentia um mal estar dentro de mim. Chegou uma hora que eu não conseguia enxergar direito, porque meus olhos estavam tão inchados por chorar. Mas mesmo passando por tudo aquilo, vendo e sentindo tudo aquilo ele se mantinha forte. Ele seguia em frente, ele conseguia ajudar de verdade aquelas pessoas. Eu ficava com inveja, eu via o quão forte aquele homem era. No final participamos de uma campanha para arrecadar dinheiro para ajudá-los mais ainda. Foi uma época bem emocionante. Groom podia derramar algumas lágrimas, sabe? Mas ele não era afetado por elas. - percebi que terminou a história quando ficou em silêncio encarando sua bebida quase intocável. Eu respirei fundo e levei minha mão ao ombro de Senhor White para confortá-lo.
Eu não sabia muito bem o que fazer. Falar alguma coisa? Mudar de assunto? Mas logo ele voltou a falar, me tirando dos meus pensamentos.
- Como você está, garoto? - entendi que ele queria mudar de assunto. Sorri fraco enquanto me sentava direito naquela cadeira.
- Mesma coisa de sempre. - murmurei e pelo seu olhar pude ver que ele entendeu.
- Afundando em lembranças? - finalmente ele deu mais um gole em seu café, que já deveria estar frio.
- Todos os dias. - fechei os olhos e joguei a cabeça para trás. - Eu sinto falta daquela garotinha.
- Aquela garotinha já deve ter virado uma mulher linda, hein? - ele disse em um tom divertido, me fazendo abrir os olhos para encará-lo.
- Não gosto muito de pensar nisso. - franzi o cenho o vendo fazer a mesma coisa. Ele não precisou perguntar, eu mesmo já fui respondendo. - me deixou sem mais nem menos. Ela se dizia minha melhor amiga, dizia que sempre estaria do meu lado. Ela não passa de uma mentirosa. E, além de tudo, ela deve estar bem mudada... Não só visualmente, mas também a personalidade.
- Pensei que se vocês se reencontrassem acenderia alguma chama. - ele disse, erguendo uma sobrancelha e eu desviei o olhar. Falar dela era muito estranho.
- Não sei se gostaria de conhecer a atual . Estou bem apenas com aquela garotinha em minha memória. - murmurei por fim.
- Bom... Tudo bem então. - ele disse meio decepcionado e eu ri. Todos daquele lar falavam que eram doidos para o dia que eu e nos reencontrássemos. Mas acredito que isso não vá acontecer. - Essa semana chegou um homem novo no lar. - ele voltou a falar e despertou logo minha atenção. - O tal do Senhor Miller. - lá todos se chamavam pelo sobrenome apenas, o único que era chamado pelo nome era eu. - Ele é meio quieto e afastado de todos, está com uma cara de bravo desde que chegou. - soltou um riso e deu um gole no café. - Ele não interage com ninguém por não estar aceitando ter vindo para cá. Pensei que fosse gostar de conhecê-lo.

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Passei bastante tempo no lar hoje. Depois de ficar algumas horas conversando com o Senhor White, me esbarrei com a Senhora Campbell e lá se foram mais algumas horas de conversa. Assistimos um desses filmes antigos e logo depois almoçamos. Perto do lar tem uma padaria, é só virar a esquina e atravessar a praça. Comprei um lanche lá na hora do almoço e voltei para comer com eles.
Agora eu estava caminhando de volta para casa. Já se passava das sete horas e eu estava um caco. Meu estômago roncava novamente e eu rezava para minha mãe ter preparado um jantar de reis.
Eu estava agora caminhando por uma praça que fica a uns dois quarteirões da minha casa. Atravessei a rua e pude avistar o parque vazio, o balanço ao longe me esperando para o dia seguinte. Suspirei voltando a andar. Atravessei mais duas ruas e finalmente cheguei em casa. Peguei minha chave no bolso e abri a porta, agradecendo à Deus por finalmente poder descansar em paz.
Quando ouvi um grito animado vindo na minha direção e arregalei os olhos.
- Pequeno ! Quanto tempo! - pude sentir braços finos ao redor do meu corpo e ri baixo. Não era agora que viria minha paz. - Lembra de mim, querido? - a mulher perguntou e eu assenti com pressa. Olhei para o lado e minha mãe estava parada com um sorriso enorme no rosto, ao lado dela tinha outra mulher. Fui na direção dela para cumprimentá-la também.
- Convidei duas amigas para jantar conosco hoje, espero que não se importe. - minha mãe sussurrou no meu ouvido ao me abraçar. Apenas pisquei um olho para ela como resposta.
Alguns minutos se passaram e estávamos nós quatro sentados na mesa da cozinha. Conversávamos sobre assuntos aleatórios enquanto a comida não ficava pronta. Minha mãe sempre levantava da mesa para olhar.
- Eu não esperava que já estivesse tão grande. - Senhora Mônica disse para minha mãe. Ela era a que não tinha me assustado na entrada. Eu sorri tímido, odiava quando virava o centro das atenções.
- Nem eu acredito ainda! Meu menininho já tem dezoito! - Senhora fez voz de choro e eu mantive meu olhar nas minhas próprias mãos.
- Dezoito, já? - perguntou Senhora Sarah. - Minha filha acabou de fazer dezessete, tenho certeza que iam adorar se conhecer. - ela me cutucou e eu apenas assenti.
- Por que não a traz qualquer dia aqui? Íamos adorar! - arregalei meus olhos para minha mãe, droga. - está mesmo precisando fazer mais amizades, e conhecer algumas garotas... - ela me olhou com o olhar que dizia "Sabe que estou certa". Apenas suspirei.
- Ótimo! - respondeu enquanto esboçava um sorriso que mal cabia em seu rosto. Alguma coisa apitou e minha mãe correu para nos servir a comida.
- Marga! Depois oferece ao o bolo de chocolate que eu trouxe! - Monica disse enquanto se levantava para ajudar.

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Algumas horas se passaram e as duas mulheres foram para casa. Minha mãe se despediu dizendo que ia dormir, me deu um beijo e foi para o quarto. Eu não estava com sono, então resolvi ler algum livro.
Entrei no meu quarto e tirei minha roupa para tomar banho, entrei no chuveiro e deixei a água gelada me preencher inteiro. Aquela água refresca, acalma e ajuda a relaxar. Tudo que eu precisava. Aliás, não sei a razão de andar tão exausto ultimamente.
Acabei o banho, me seguei e vesti uma cueca boxer preta. Andei até minhas prateleiras de livros atrás de algum bom que ainda não tivesse lido.
Tinha livro atrás de livro, aquele negócio estava uma zona e eu já estava quase desistindo, quando achei um livro diferente. Maior que os outros e com capa dura. Puxei, fazendo alguns outros caírem, e o joguei na cama. Arrumei os livros que tinham caído e me sentei na cama para ver do que aquilo se tratava, e quando o abri pude sentir meu peito afundar. Fechei o livro com pressa e encarei a parede branca do meu quarto enquanto respirava fundo. Álbum de fotografia. Eu e .
Fechei os olhos por alguns segundos para criar coragem. Ao abrir o álbum, a primeira foto era nós dois sorrindo para a câmera. Estávamos sentados no balanço. A próxima página tinha quatro fotos em cada lado. No primeiro lado eram fotos de mim e ainda no parque. A primeira nos abraçávamos, a segunda eu dava um beijo na bochecha dela, a terceira estávamos deitados na grama gargalhando enquanto nos encarávamos, e a quarta ela pulava enquanto eu estava agachado no chão morrendo de rir. O segundo lado tinha fotos de nós em algum aniversário meu. Em uma foto sorríamos usando aqueles chapeuzinhos de aniversário, a segunda estávamos sujos de bolo, a terceira eu apagava a vela enquanto ela batia palmas e a quarta nós apenas nos encarávamos com um sorriso pequeno no rosto. Parei alguns minutos para analisar aquela foto melhor. Senti um frio no estômago e fechei o álbum. Droga, ela fazia falta.
fazia falta na minha vida. E eu odiava isso.

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Minha noite tinha sido péssima. Se dormi três horas foi muito. Não conseguia parar de pensar nas fotos que encontrei de mim com . Revirei minha cama a noite toda, e aquela garotinha não saía da minha cabeça.
Agora eu me encontrava sentado no balanço vermelho, pensando mais ainda nela. Eu estava um caco, a qualquer momento poderia cair no chão e dormir. Hoje era terça, dia de ir para o orfanato trabalhar. Hoje as crianças iam passear pelo quarteirão com os pais adotivos e na volta me diriam o que acharam. Podia ser provavelmente o último dia que eu veria Noah e Emma, e isso me partia o coração, mas ao mesmo tempo me deixava extremamente feliz. Era uma sensação que eu não sabia como explicar.
Acabei desviando de para pensar nas duas crianças durante alguns minutos, quando sinto uma presença ao meu lado. Virei meu rosto e senti um gelo no peito ao ver uma garota, de mais ou menos a mesma idade que eu, sentada no balanço ao meu lado. Ela sorria para mim enquanto se balançava lentamente para frente e para trás. Cocei a garganta e retribui o sorriso à ela.
- Olá. - ela disse baixinho e eu apenas balancei a cabeça como resposta. - Dia bonito, não? - droga, ela estava tentando puxar assunto.
- Mais ou menos. - murmurei desviando o olhar para meus pés.
- Meu nome é Rachel. E o seu? - ela perguntou e eu levantei meu rosto para responder, quando, do nada, uma voz aguda me interrompeu.
- Você não pode sentar ai! - uma garotinha disse enquanto apontava um dedo para Rachel. Ela estava com cara de brava e tinha mais duas garotinhas ao seu lado, com a mesma cara. - Esse lugar tá guardado!
- Ah, é mesmo? - Rachel perguntou, provavelmente achando graça daquela atitude. - E de quem é esse lugar?
- . - uma outra garotinha respondeu. - sabe disso.
Ao ouvir meu nome soltei uma risada e me virei para a garota que estava sentada ao meu lado. Ela tinha olhos azuis e pintas que cobriam seu rosto inteiro.
- Prazer, . – murmurei, me levantando do balanço. Aproximei meu rosto do dela e sussurrei. - Me desculpe por isso. - apontei para as garotinhas e em seguida dei as costas à todas elas para seguir meu caminho.
Saí da praça já atravessando a rua. Minhas mãos estavam dentro do bolso do meu casaco e eu revivia na minha cabeça a situação de alguns segundos atrás. Eu não curtia muito esse negócio de lugar marcado no balanço. Ninguém podia sentar no balanço, apenas ela. Apenas aquela garotinha. Nem a atual poderia sentar. Isso eu quem não permitiria.

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Já fazia alguns minutos que eu estava no orfanato. Resolvi dar uma lida nos papéis de Elena e Tyler, meu casalzinho favorito, apenas por gostar de ler sobre eles.
Dentro de quinze minutos os casais interessados por Emma e Noah chegariam, e eu os receberia, então estava sentado em um dos bancos da entrada esperando enquanto lia. Alguns funcionários passavam por mim me cumprimentando ou oferecendo uma água ou café. Era muito bom trabalhar naquele lugar, parecia que o amor circulava pelo ar o tempo todo. Amor em cada palavra, gesto, emoção.
Os minutos voaram e eu já me encontrava em pé cumprimentando os casais. Falei para me acompanharem, e seguimos até a área onde eu geralmente ficava. Noah e Emma correram até mim assim que abri a porta, eles já estavam me esperando. Fechei a porta a levei as seis pessoas até outra sala para conversamos.
Depois de muita conversa eu os liberei para o passeio. Em mais ou menos três horas eu os veria novamente.
Descobri que os casais são amigos, e isso me deixou mais feliz ainda. Pelo menos Emma e Noah manteriam a amizade.
Caminhei pelo corredor até o final, virei à direita e segui até a recepção para pegar a xerox dos documentos e contato dos casais. Quando me virei para voltar à minha sala, junto às crianças, meu celular começou a vibrar no bolso da minha calça. Dobrei os papéis e peguei meu celular, atendendo logo em seguida. Preferi me sentar em um banco próximo para organizar aqueles papéis todos.
- ? Aqui quem fala é o Josh, tudo bem? - melhor conhecido como Joshua Parker. Ele era um pediatra do hospital para crianças com câncer que eu frequentava. - Está ocupado?
- Não! Pode falar. – murmurei, deixando o celular preso entre meu ouvido e meu ombro. Algumas folhas caíram no chão se espalhando e eu me estiquei para pegá-las.
- Ah, que bom. Queria antes de tudo confirmar se você vem amanhã? - ele perguntou e eu soltei um riso baixo enquanto revirava os olhos.
- Já deixei de ir alguma vez? – perguntei, ouvindo sua risada do outro lado. - Claro que vou, mas por que pergunta?
- É porque esse final de semana chegou um garotinho novo aqui. - ele começou a falar e seu tom de voz ficou mais calma e baixo. - O garoto tem oito anos de idade e foi diagnosticado com leucemia há um ano e meio. A doença deu uma trégua mas voltou com tudo agora e os pais estão mais que apavorados. Aquela história de sempre, você sabe. - pude ouvi-lo suspirar do outro lado da linha. - Vamos iniciar o tratamento como se fosse do zero. Mas eu te liguei para falar outra coisa na verdade sobre esse mesmo garoto. - ele ficou alguns segundos em silêncio, mas eu esperei que ele continuasse. - Esse menino me lembra muito você, . - franzi o cenho e deixei os papéis de lado para prestar total atenção. - O menino não interage com ninguém, está sempre calado e desviando o olhar, pensei que você se daria bem com ele. - acabei rindo da ironia. Primeiro Senhor Miller, agora o... Qual o nome do garoto? - Eu gostaria que você visse correndo para cá amanhã de manhã.
- Alguma vez já te decepcionei, Josh? - sorri ao ouvir sua risada rouca do outro lado. - Qual o nome do garotinho?
- Ah, sim! - exclamou como se tivesse se esquecido, em seguida escutei o barulho de papéis e ele voltou a falar. - Charlie .
Ao ouvir aquele sobrenome uma corrente fria passou por dentro do meu corpo, congelando todos os meus órgãos. Minha barriga afundou, meu peito afundou, meus olhos se arregalaram e um suspiro bem prolongado saiu por entre meus lábios. Aquele maldito sobrenome ainda me perseguia?
Desliguei a o telefone depois de me despedir de Joshua e fiquei encarando o chão branco. Tudo sobre ela me perseguia, até o sobrenome. Nossa, como estava com saudade daquele sobrenome... Voltei ao trabalho mais tranquilo quando me lembrei que não tinha um irmão.

Capítulo 4 - Quarta-feira


"Fazia uma semana que eu frequentava aquele parque. Mamãe no momento estava trabalhando e me deixava aqui com a desculpa de que eu deveria interagir mais com novas crianças. Mas eu sabia que na verdade era porque ela não podia me deixar sozinho em casa até o horário da escola. Eu estudava durante a tarde, e mamãe trabalhava na padaria de manhã, então para não me deixar sozinho ela me levava para o trabalho. Mas agora me deixava em um parque, pelo visto.
Eu estava sentado em um balanço vermelho que parecia ter sido acabado de ser pintado. Me balançava para frente e para trás observando as crianças brincarem. Tinha diferentes idades ali, diferentes tipos de pessoas, diferentes sorrisos, diferentes gargalhadas. Mas eu tinha um pouco de receio do diferente.
Nunca interagi com nenhum deles, e nunca pretendia. Por mim, passava a eternidade apenas os observando, eu achava até mais legal.
Alguns minutos se passaram, eu estava observando dois garotos brigarem por um escorrega, quando senti uma presença próxima a mim. Virei o rosto curioso e vi uma garotinha sentada ao meu lado no balanço. Franzi o cenho para ela e seu enorme sorriso, e apenas virei o rosto para voltar a observar a discussão do escorrega. Não esperava que ela fosse tentar puxar assunto.
- Qual é o seu nome? - ela perguntou. Tinha uma voz fina, mas que não chegava a ser estridente. Não era alta, era apenas fina. Voltei a encará-la e meu corpo entrou meio que em defensiva.
- . – murmurei, desviando meu olhar para meus pés logo em seguida.
- Legal! Meu primeiro amigo com esse nome! - ela disse, soltando uma risada no final da frase. Bateu palmas animadas e eu revirei os olhos.
- Não sou seu amigo. - respondi sem olhá-la, mas depois de alguns segundos sem ela ter pronunciado palavra alguma, resolvi levantar a cabeça para observá-la. Ela me encara sem expressão e eu ergui uma sobrancelha.
- Mas podemos ser... Né? - ela perguntou e tombou levemente a cabeça para o lado.
- Eu não sei. - fui sincero. Ainda mais que ela era uma garota, piorava mil vezes a situação. Só aquele pequeno diálogo entre nós dois e eu já estava suando por dentro.
- Meu nome é . - ela disse, ignorando minha resposta. - Vamos brincar! - ela fez um movimento brusco, pegando em minha mão.
Aquilo me assustou, e eu recuei de maneira agressiva como se ela tivesse me machucado.
- Eu to bem aqui. – murmurei, voltando a encarar meus sapatos. A garota bufou ao meu lado e começou a se balançar no brinquedo.
- Tudo bem, se não quer brincar, vamos conversar! - ela disse, voltando a ficar animada imediatamente.
Virei meu rosto para ela, e de alguma forma meu olhar bateu direto em seus olhos, e eu não consegui me esquivar dessa vez. Ela me prendeu com o olhar como se dissesse "Para de fugir".
- Quantos anos você tem, ? - ela perguntou e eu me mantive quieto, apenas olhando em seus olhos. - Nove? Dez? – insistiu, me fazendo soltar uma leve risada. - Tudo bem... Não vai responder? - resolvi implicar com ela e apenas fiz um movimento negativo com a cabeça. - Então não quer brincar, não quer conversar... Quer fazer o que?
Aquela garota insistia demais. Ela não via que não iria conseguir o que queria? Eu não era tão fácil de me relacionar assim, sinto muito, , mas não será dessa vez.
De repente os olhos dela começaram a ficar bem intimidantes, e eu resolvi desviar meu olhar de volta para meus sapatos. Ela pareceu entender o que eu queria afinal. Porque o resto da manhã ela se manteve ali ao meu lado, calada, apenas observando os outros, sentada ao meu lado. Ela era a mais diferente de todos ali. Naquele momento eu percebi que por mais que eu não admitisse, tudo que eu queria era a presença dela.
Sem brincar, sem falar. Apenas ela ali."

Mal sabia que ela estaria ali durante tanto tempo. Alguns dias depois daquele e estávamos conversando abertamente, mas sempre sentados nesse balanço vermelho aqui. me entendia sem que eu precisasse explicar, era apenas olhar em seus olhos. E o melhor é que não precisamos criar intimidade para que isso acontecesse, pois sempre foi assim. Criamos uma amizade que eu considero única, nunca mais vou encontrar alguém como ela, tenho certeza disso. No início eu realmente queria ela ali. Sem brincar, sem falar. Apenas ela ali. Pena que não durou para sempre.

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Hoje era dia de ir ao hospital. Eu estava com um nariz de palhaço no bolso da minha calça, eu adorava levá-lo ao hospital e alegrar um pouco o dia daquelas miniaturas. Eu pegava um caminho diferente para ir ao hospital. Passava pelo parque e ao invés de virar para a esquerda como eu fazia para ir para o orfanato e para o lar, eu seguia em frente e atravessava a rua. Dos três locais, o mais próximo de casa era o hospital, mas eu fazia uma volta apenas para ir antes ao balanço vermelho. Passei pela loja de brinquedos e pelo café, e virei a esquina encontrando a fachada do hospital. Não era um hospital enorme nem pequeno. Eu diria que era em um tamanho adequado.
Entrei no local dando de cara com o balcão de atendimento, tinha umas mulheres bem legais trabalhando ali. Elas eram sempre tão boas comigo. Balancei a cabeça cumprimentando as três morenas que estavam ali e segui em frente. Todos ali já me conheciam, então não precisava mais passar no balcão. No início eu precisava sempre preencher uma lista de visitação, mas o Joshua me ajudou a me livrar disso.
Pensando nele, foi a primeira pessoa que encontrei ao entrar no corredor de quartos. Ele estava como sempre: jaleco, estetoscópio ao redor do pescoço, prancheta em mãos e um sorriso no rosto.
- Estava pensando em você agora! - ele disse, abrindo os braços para me abraçar. Josh tinha uma energia positiva muito contagiante. - Acabei de sair do quarto de Charlie, o pai dele foi fazer um lanche no café aqui do lado. – falou, revirando os olhos. Ri baixo com sua reação, Josh odiava ter um café ao lado do hospital, assim ninguém comia na lanchonete daqui.
- O garoto está sozinho? – perguntei, erguendo uma sobrancelha. O médico logo arregalou os olhos para mim.
- Está louco? Acha que vou deixar um paciente sozinho? - deu um soco leve no meu ombro. - Nancy está com ele. Falei que uma pessoa muito especial viria vê-lo hoje, e enquanto essa pessoa não chegava Nancy o faria companhia. - ele disse, me fazendo desviar os olhos para o chão envergonhado. Odiava quando Josh me elogiava assim, ele é um cara legal e com um astral bom demais. Mas ele tem que entender que eu sou tímido.
- Qual é o quarto? – perguntei, enfiando minhas mãos nos bolsos da calça. Peguei o nariz de palhaço e fiquei o observando enquanto esperava a resposta.
- Duzentos e quatro. - ele murmurou me observando, e quando eu ia dar um passo adiante ele me segurou pelos ombros. - , não coloque o nariz para recebê-lo. Não vai dar certo. - piscou um olho e continuou seu caminho.
Comecei a andar em direção ao quarto e guardei o nariz de volta em meu bolso. Suspirei antes de bater de leve na porta e escutar barulho de passos.
Nancy abriu a porta me recebendo com um sorriso enorme. Ela era uma senhora bem simpática e tinha o melhor abraço do mundo. Seus braços gordinhos envolveram-me e pude senti-la cheirar meu pescoço em busca do meu perfume. Ok, aquilo sempre me incomodava muito.
Me afastei de Nancy e ela mandou um beijo no ar para o garoto, indo embora do quarto logo em seguida. Fechei a porta e dei poucos passos até alcançar o jovem. Olhei em seu rosto e percebi que ele tentava se desviar do meu olhar, aquilo me fez rir por dentro.
- Qual é o seu nome? – perguntei, me sentando na cadeira ao lado da cama. Eu já sabia o nome dele, mas queria que ele dissesse para mim. Isso faria ele se abrir aos poucos, tendo a liberdade de falar e não deixar que os outros falem por ele. Experiência própria.
- Charlie. - ele murmurou desviando seu olhar para as mãos, que estavam conectadas à alguns fios.
- Legal! Meu primeiro amigo com esse nome! - eu murmurei, demonstrando um pouco de entusiasmo demais. Eu era extremamente tímido, eu sei, mas eu me esforçava por aquelas crianças. Eu tinha que entrar em um personagem nesses momentos.
- Não sou seu amigo. - ele respondeu sem sequer me olhar. Brincava com as próprias mãos e tinha uma expressão fechada no rosto. Esse garotinho me lembrava muito alguém. Realmente, Josh estava certo, ele parecia comigo.
- Mas podemos ser... Né? - perguntei enquanto tombava levemente a cabeça para o lado.
- Eu não sei. - ele murmurou com a voz mais baixa e eu respirei fundo. Não era a primeira vez que alguma criança ficava chateada naquele lugar, era até compreensível.
- Meu nome é . - eu disse, tentando desviar o assunto. - Vamos brincar! – murmurei, fazendo um movimento rápido para pegar o nariz de palhaço no meu bolso.
Aquilo assustou um pouco ele, o fazendo recuar de mim fazendo com que sem querer um dos fios se desconectasse de sua mão. Sorri tímido pegando o fio e conectando de volta.
- Eu to bem aqui. – murmurou, voltando a encarar suas mãos. Mordi o lábio meio perdido em o que fazer. Pelo menos ele estava falando. Guardei o nariz de palhaço de volta em meu bolso e cruzei meus dedos.
- Tudo bem, se não quer brincar, vamos conversar! - eu disse, tentando arrancar alguma animação dele.
Ele virou seu rosto para mim e me encarou nos olhos. No momento em que seus olhos se encontraram com os meus eu senti algo familiar. Mas não soube reconhecer o que exatamente.
- Quantos anos você tem, Charlie? - eu perguntei, tentando mantê-lo falando, mas ele ficou quieto apenas olhando em meus olhos. - Sete? Oito? - insisti, mas ele parecia determinado a me testar, e eu consegui perceber isso. - Tudo bem... Não vai responder? - sorri de lado ao ver que ele realmente estava me testando, depois que apenas movimentou a cabeça em sinal negativo. - Então não quer brincar, não quer conversar... Quer fazer o que?
Ele apenas ficou em silêncio. E naquele momento eu consegui entender tudo que ele queria.

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Depois de ter passado alguns minutos em silêncio com Charlie, fui avisado por Josh que algumas crianças queriam me ver e eu não precisava me preocupar, porque ele ficaria com o garoto até que o pai dele voltasse.
Saí do quarto e segui o corredor até o final para virar à direita. Dei alguns poucos passos até o quarto de brinquedos. Peguei meu nariz de palhaço e o coloquei antes de entrar na sala. Quando abri a porta quase fui derrubado no chão com a quantidade de abraços. Soltei uma gargalhada ao enfim ser derrubado no chão. Algumas médicas que estavam por ali riam da situação, enquanto as crianças apenas gritavam me deixando um pouco mais surdo. Eu sempre ficava um pouco mais surdo quando ia para lá.
Algum tempo se passou, e agora eu me encontrava sentando no chão com uma mesinha rosa de bonecas na minha frente. Duas garotinhas me acompanhavam nessa brincadeira. Eu usava uma peruca loira que, na minha opinião, precisava ser escovada.
- , onde está sua xícara? - a morena, que já estava com o cabelo próximo às orelhas, perguntou procurando minha xícara para que ela pudesse me servir um pouco de chá invisível. Comecei a procurar o objeto e o encontrei embaixo da mesinha. Estendi para ela que me serviu prontamente. Mordi o lábio segurando o riso por me encontrar naquela situação.
- Como está o chá, Senhora Princesa Um? - a ruiva, que já estava com o cabelo maior um pouco, perguntou depois de servir um pouco de chá para o ursinho de pelúcia.
- Está quente, Senhora Princesa Dois. - a morena respondeu e eu não aguentei, soltei uma risada. - Como está a sua, Senhora Princesa Três? - ela perguntou, se dirigindo à mim. Mordi o lábio e fingi dar um gole na bebida.
- Está magnífica, Senhora Princesa Um. – respondi, erguendo a xícara e piscando um olho para ela.
Fiquei algum tempo tomando chá invisível com aquelas duas quando um grupo de quatro garotos me chamou para brincar com eles, eu fiquei aliviado até descobrir que a brincadeira era se pendurar em minhas costas.
Eu já estava ficando cansado e com dores quando Joshua entrou na sala. Ele estava meio atrapalhado enquanto segurava a prancheta com uma mão e o celular em outra, e ao mesmo tempo tentava segurar a maçaneta da porta. Ele me lançou um olhar e eu me despedi das crianças, tirei finalmente a peruca que estava vestindo e segui até o lado de fora do quarto logo após. Josh desligou o celular guardando no bolso, e voltou a atenção à mim.
- Já são sete horas da noite, que horas pretende ir embora? - ele perguntou, me fazer erguer uma sobrancelha.
- Estou sendo expulso? – perguntei, arrancando uma risada dele. Ok, não entendi.
- Claro que não, eu só queria saber. - ele disse, voltando a andar e me fazendo acompanhá-lo. - É porque você costuma ir esse horário, mas preciso de você aqui mais um pouco. - ele virou o rosto para mim durante alguns segundos e depois voltou a prestar atenção na prancheta.
- Posso saber o motivo? – perguntei, tirando o nariz de palhaço e colocando dentro no bolso. Não tinha percebi que estava usando até agora.
- O pai de Charlie teve que ir embora porque tinha um compromisso que envolvia alguma coisa de trabalho, parece que ele está mudando de emprego e precisava conversar com o futuro chefe. - ele falava enquanto anotava alguma coisa na prancheta. Não sabia como ele conseguia fazer tudo ao mesmo tempo. - E a pessoa que vai passar a noite com o garoto ainda não chegou, me ofereci para fazer companhia, mas ele não me quer lá. - ele parou de escrever e olhou para mim. - Ele quer você.

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Abri a porta do quarto ainda me despedindo de Joshua. Entrei colocando um sorriso no rosto e fechei a porta atrás de mim.
Charlie me observava inexpressivo. Comecei a caminhar lentamente até a cadeira e me sentei, seus olhos acompanhavam todos os meus movimentos em silêncio.
- Fiquei surpreso ao saber que me queria aqui. - admiti enquanto apoiava meus braços na cama que ele estava.
- Gostei do seu silêncio. - ele respondeu arrancando uma leve risada de mim. Fiquei ainda mais feliz quando vi um sorriso surgir em seu rosto.
Charlie era um garoto muito inteligente para sua idade, apenas com poucas palavras já pude observar isso. Ah, e descobri por Josh, que ele tem oito anos.
- É a parte de mim que eu mais prezo. - falei enquanto jogava o corpo para trás e me apoiava no encosto do banco. Cruzei os braços e percebi que dessa vez ele estava mais disposto a conversar. - Vou te dizer uma coisa. - murmurei e vi que ele se aproximou um pouco para prestar atenção. - Eu sei que é uma droga estar onde você está no momento. Não vou dizer que sei qual é a sensação, porque estaria mentindo, mas imagino que não deve ser legal passar por isso, ainda mais com essa idade. - ele desviou o olhar para a parede, mas eu continuei falando. - Muitas crianças aqui são bem fechadas por conta da situação que se encontram, mas muitas delas têm um segundo motivo. Você tem? - ele voltou a me encarar, e pude vê-lo reunir forças para se expor.
- Eu já tenho isso há algum tempo. Já passei por vários tratamentos... Nós morávamos em uma cidade que fica bem longe daqui, lá tinha um hospital que era o dobro desse... Lá eu era mais aberto, então fiz várias amizades, todos eram muito legais... - de repente Charlie se calou, deu para ver que ele não queria falar.
- Escuta, Charlie, se não quiser falar... - ele me interrompeu, ignorando completamente o que eu disse.
- O nome dele era Anthony. Ele era meu melhor amigo lá dentro. Mas ele morreu, tio, ele morreu! - a voz de Charlie começou a ficar um pouco esganiçada e vi que a qualquer momento ele choraria. - Eu tenho muito medo de me relacionar com alguém aqui e perder essa pessoa. Isso dói demais. - Charlie virou o rosto para mim a tempo de me deixar ver escorrer algumas lágrimas perdidas pelo seu rosto. - Eu tenho medo dessa doença. – fungou, voltando a encarar a parede.
- Você é mais parecido comigo do que eu imaginava. - sussurrei, mas ele não pareceu ouvir. - Escuta, Charlie. - me aproximei dele e segurei sua mão. - Essas coisas não acontecem apenas em um hospital. Elas acontecem o tempo todo, estamos sempre perdendo alguém. Temos que aprender a lidar com isso, para sermos fortes e conseguirmos seguir em frente. - ele assentiu levemente com a cabeça. Podia tem entendido meu conselho, mas eu sei que não seria tão fácil assim. - Vamos mudar de assunto.
- Me conta alguma história? - ele pediu me pegando de surpresa. Me senti no lar de idosos, só que dessa vez, eu era o idoso.
- Hum... Me deixe pensar em alguma. – disse, cruzando os braços e fazendo meu cérebro trabalhar em busca de alguma história para contar.
- A que mais tenha marcado a sua vida. - ele pediu, secando as lágrimas do rosto usando as costas de sua mão.
Aquele pedido me ajudou bastante. Não precisei pensar nem mais um segundo para que as palavras saíssem de minha boca.
- Próximo à minha casa, existe um parquinho, e nele tem um balanço vermelho bem legal... - contei a história para ele com detalhes. Apenas ocultei uma coisa: o nome dela. Mas eu não sabia a razão de ter feito isso.
Talvez, inconscientemente, eu esteja querendo me esquecer dela completamente.
- Essa história você leu em algum desses livros de contos? - ele perguntou, me fazendo erguer uma sobrancelha sem entender. - Eu acho que já conheço essa história de algum conto...
- Tenho certeza que está confundindo, Charlie. - eu ri da confusão do garoto. Respirei fundo me sentindo feliz por ter contado a ele. Eu sabia que era uma história que seguiria comigo para sempre.
- Tio , eu estou com muita fome. - ele murmurou um pouco envergonhado e eu sorri me levantando da cadeira.
- Volto logo, ok? - disse para tranquilizá-lo. - Prefere a lanchonete do hospital ou o café aqui do lado? - perguntei enquanto tirava a carteira do bolso para ver quanto dinheiro eu tinha.
- Café! - ele exclamou e eu segurei uma risada. Assenti saindo do quarto em passos rápidos. Quanto mais rápido eu fosse, mais rápido voltava.
Saí do hospital e dei poucos passos até chegar no café. Entrei e logo senti aquele cheiro gostoso, me encaminhei para a fila que estava um pouco grande e bati o pé no chão impaciente. Olhei no meu relógio de pulso. Marcava sete e cinquenta da noite.
Fui finalmente atendido quando era oito e dez da noite. Pedi um suco de caju e um croissant de queijo e presunto. Paguei e fui para o balcão ao lado esperar meu pedido. Tinha um casal ao meu lado que não paravam de se beijar, e aquilo já estava me incomodando. Olhei no relógio novamente. Oito e quinze.
Mais uns belos cinco minutos se passaram e meu nome foi chamado, caminhei até o balcão e peguei o lanche. Saí a passos apressados do café e caminhei até a porta do hospital. Empurrei usando minhas costas e entrei. Estava quentinho lá dentro, e isso me fez ficar um pouco mais calmo.
Entrei no corredor de quartos e me esbarrei com Josh. Ele riu ao me ver todo apressado e atrapalhado com os sacos em mãos, logo em seguida franziu o cenho.
- ! O que está fazendo aqui ainda? - perguntou pegando os sacos de minhas mãos. Estranhei o fato dele estar sem sua prancheta. Dessa vez foi minha vez de franzir o cenho.
- Estou fazendo companhia para o Charlie, lembra? Ele me pediu para comprar um lanche para ele. - falei enquanto coçava a nuca.
- Ah, garoto, pode ir para casa, deixa que eu entrego o lanche para ele. - piscou um olho para mim e se virou para voltar ao quarto de Charlie.
- Espera, Josh... Mas... Você não estava ocupado? Ele vai ficar sozinho? - o homem voltou a olhar para mim e negou levemente com a cabeça.
- Não, fique tranquilo. A irmã dele chegou. Ela vai passar a noite com ele aqui hoje. - ele respondeu e eu franzi o cenho.
- Irmã? - perguntei dando um passo para trás.
- Sim, ele não comentou que tinha uma irmã? - perguntou e eu apenas neguei com a cabeça. Por alguma razão que eu não compreendia, eu estava todo tenso. - O nome dela é .
Agora eu compreendia porque estava todo tenso.

Capítulo 5 - Quinta-feira


Minha cabeça estava pesada, meus olhos não desviavam do teto, minhas mãos cruzadas em cima do meu abdome e minha mente há uns bons quilômetros de distância. Hoje era dia de ir ao orfanato trabalhar, mas eu, pela primeira vez, não queria ir. Hoje eu queria me esconder em casa. Eu estava morrendo de vergonha depois de ontem, se eu esbarrasse com Josh em algum lugar, tenho certeza que eu viraria um pimentão.
estava de volta. Mais importante, estava viva. Eu nunca acreditei que ela estivesse mesmo morta, isso era só fofoca dos vizinhos que não tinham o que fazer.
O fato era que a família sumiu da noite para o dia naquela época, exatamente, não foi apenas que tinha ido embora, sua mãe e seu pai também. Alguns falavam que eles tinham sofrido um acidente de carro, outros falavam que a família foi sequestrada, e uma pequena parcela de gente dizia que eles eram imigrantes e o Senhor estava trabalhando ilegalmente, então foram deportados. Mas esse último sempre tive certeza que era mentira.
Ninguém nunca soube a verdade, porque, aparentemente, os pais de não tinham muitos amigos por aqui, apesar de ser um fim de mundo e quase todo mundo se conhecer.
Mas a questão era que agora ela tinha voltado. Ou não, ou eu posso estar louco e a irmã de Charlie é outra pessoa apenas com o mesmo nome da minha garotinha.
No fundo eu queria que fosse isso.
Ontem quando Josh me contou que estava no quarto com Charlie, a primeira coisa que fiz foi dar as costas ao homem e correr em direção a saída. Eu não tinha coragem de ficar ali, não tinha coragem de olhar para essa nova , eu estava com medo, na verdade. Não sabia o que esperar, não sabia se ela me reconheceria, ou se me ignoraria. O fato é que eu não conheço essa garota, ela é como se fosse uma desconhecida para mim.
Me sentei na cama tomando vergonha na cara, eu precisaria algum momento começar meu dia. Apesar de ter acordado três horas antes, eu não iria ao balanço hoje, preferia ficar sem pensar muito nela hoje.
Quando na verdade tudo que eu queria era bater na porta da casa dela. Mas isso nunca iria acontecer.
Apenas escovei os dentes e sai do quarto, indo para a cozinha em meus pijamas.
Minha mãe estava sentada na mesa tomando uma xícara de café e lendo uma revista. Virou a cabeça na minha direção quando ouviu meus passos, esbocei um sorriso e caminhei em sua direção para lhe dar um beijo na testa.
- Ainda está de pijamas? Vai perder o horário. - ela murmurou enquanto eu arrastava uma cadeira para me sentar na mesa com ela. Cocei os olhos e bocejei antes de começar a falar.
- Não vou passar no balanço hoje. - disse simplesmente me esticando para pegar um pão e passar geleia no mesmo. Senti o olhar dela em mim, mas me recusei a levantar a cabeça.
- Algum problema? - perguntou em um tom de voz mais baixo e eu ri pelo nariz.
- Nenhum. Apenas não estou muito afim de ir lá hoje. - dei uma mordida em meu pão, não estava com vontade de conversar sobre isso com ela. Minha mãe é muito desconfiada de tudo, então não iria parar até se conformar.
- Sei que está mentindo, . Para você não existe isso de "não estou muito afim" quando se trata de . - ela riu fechando a revista em seguida. Levei meu olhar para ela e vi que sorria como se estivesse certa. E estava.
- Você fala como se eu fosse apaixonado por ela. - bufei e depois fiz uma careta incrédulo quando ela ergueu uma sobrancelha. - Por favor, né, mãe. Eu só acho que devo parar de pensar tanto nela assim...
- Por que isso agora? - cruzou os braços se encostando na cadeira, bufei sabendo que agora não sairia mais desse assunto.
- Já parou para pensar como estaria hoje em dia? Quem é ela? O que se tornou? Como é sua nova personalidade? E seus novos pensamentos? - perguntei olhando dessa vez nos olhos dela, queria que me entendesse e me ajudasse. - Tenho medo dessa nova garota, e não tenho certeza se quero conhecê-la.
- Está exagerando, . - murmurou e eu revirei os olhos. - Não julgue as pessoas assim, vai que ela está bem melhor do que antes? - eu apensar assenti me conformando que ela não iria me ajudar. Terminei meu pão e enchi um copo de água para desentalar. - Mas por que isso tudo agora? Ela voltou? Você viu ela?
- Claro que não, mãe. - tossi depois de beber a água de uma forma errada. Coloquei o copo na pia e voltei a me aproximar dela. - Vou me arrumar para ir ao orfanato. Sabia que Noah e Emma vão ser adotados? O juiz aprovou.
- Jura? Que maravilha! Como Oliver está com isso? - fiquei aliviado por ela aceitar mudar de assunto.
- Ele está mal e bem ao mesmo tempo, sabe como é. É como perder um filho, mas ao mesmo tempo deixá-lo feliz. - ri baixo me aproximando dela para depositar mais um beijo em sua testa. Me afastei indo em direção à saída da cozinha, mas parei me encostando no batente da porta e virei meu rosto da direção dela. - Mãe?
- Sim, querido? - virou o rosto para me encarar.
- Tem como você ligar para aquela sua amiga e dizer que eu estou querendo conhecer a filha dela?

♡♡♡


O dia estava bem quente. Apesar de o céu estar completamente nublado, estava abafado. E eu já ia me arrependendo de ter colocado aquela roupa quente.
O clima nessa cidade era uma loucura. Era uma das coisas que mais me irritava ali.
Meu olhar estava meio perdido. Eu olhava para o chão, acompanhava meus passos, chutava algumas pedras e folhas que apareciam no meu caminho, meu andar era rápido e meus braços permaneciam cruzados. Eu estava uma hora adiantado, mas mesmo assim meu corpo reagia como se estivesse com pressa. Acho que isso era ansiedade.
Eu sou uma pessoa muito ansiosa. Mil pensamentos ao mesmo tempo, já tive algumas crises. As vezes penso que sou muito estranho, por isso não tenho muitos amigos. Eu estava precisando de uma festa. Veja bem, o garoto ansioso, tímido, antissocial, inseguro, calado, desanimado queria uma festa. Queria amigos. Queria uma companhia feminina. Sim, eu quero uma garota, não vou mentir.
Estou nos meus dezoito anos e nunca beijei na boca, nunca tive uma relação sexual, nunca senti um toque delicado, nunca toquei em um corpo delicado, nunca senti o calor humano de forma íntima, nunca senti unhas grandes me arranharem, nem prendi meus dedos em cabelos compridos. Nunca nenhuma menina se maquiou para mim, ou piscou para mim, ou... É. Eu preciso sentir essas coisas. Frio na barriga ou preocupação se meu beijo foi bom nunca foram coisas que se passaram pela minha cabeça. Odeio admitir, mas eu culpava um pouco por isso.
Ela era minha única amiga, única pessoa do sexo oposto que eu me relacionava, eu a achava linda e muito legal. Naquela época éramos muito pequenos para eu pensar nessas coisas, mas talvez, bem talvez, se ainda fossemos amigos, eu já teria experimentado todas essas coisas. Ou talvez não. Talvez fossemos amigos e só amigos mesmo. Não estou dizendo que gostava dela desse jeito, mas eu sou uma pessoa curiosa, e por termos intimidade poderíamos "descobrir" essas coisas juntos... Apesar de querer ter beijado ela quando éramos pequenos eu nunca vi com esses olhos. Como disse, era apenas curioso.
Agora me perguntava se ela já tinha experimentado algumas dessas coisas...
Eu estava passando pelo balanço vermelho agora. Achei engraçado o fato de que eu nem me sentei lá, mas mesmo assim estava pensando nela.
Apertei o passo para me afastar daquele lugar. Me conhecia bem demais para saber que acabaria cedendo e sentando lá. Abracei meu corpo e soltei um suspiro ao não conseguir evitar que uma lembrança se passasse por minha cabeça.
"Eu me atrasei para ir ao parque hoje. iria brigar comigo provavelmente, mas eu não ligava muito. Até gostava de irritar ela um pouco, era engraçado.
Mamãe me deixou no parque e eu fui caminhando de cabeça baixa por entre as pessoas. Algumas mães que estavam por ali me cumprimentavam e eu as retribuía com um sorriso fraco. Quando enfim cheguei no balanço vermelho olhei ao redor com a testa franzida. não estava lá. Dei de ombros me sentando no brinquedo, fazer o que, teria que esperar.
Me distraí olhando as crianças correndo de um lado para o outro. Eu já começava a achar esses tipos de brincadeiras bem bobas. Estava nos meus 10 anos de idade, entrando na pré-adolescência.
Uns vinte minutos se passaram e ela ainda não tinha chegado. Comecei a me balançar para frente e para trás. Tinha me esquecido como era ficar sozinho lá. Era vazio e bem chato para ser sincero. Mesmo com tanta gargalhada e gritaria ao redor. Me sentia como se estivesse completamente só.
Meia hora e nada. Eu não estava olhando no relógio, mas ouvia algumas mães falarem "só mais cinco minutos" e de cinco em cinco eu ia contando.
Para ser sincero, eu estava começando a me preocupar. Será que ela estava passando mal e não viria? Ela não viria? Por que ela não viria? Como? Isso era meio impossível, é claro que ela viria. Só estava atrasada.
As horas começaram a passar e meu peito a se afundar. Ela não viria.
Me conformei que ela estava passando mal. Pensei se seria bom passar na casa dela para visitar e ver se estava tudo bem, mas preferi não fazer isso.
Quando minha mãe chegou do trabalho para me buscar eu não consegui ir. Não consegui sair do balanço, eu senti algo muito estranho. Algo parecido com uma despedida, e eu não queria isso. Eu não sabia do que me despedir, mas não que me despedir.
Minha mãe se aproximou do brinquedo e se agachou na minha frente, acariciou meu rosto e passou o dedo embaixo nos meus olhos. Me assustei ao perceber que ela limpava minhas lágrimas, eu não sabia que estava chorando.
- Ela não veio. - murmurei fechando os olhos. Estava com vergonha. Me sentia patético.
- Vamos para casa, querido. - minha mãe beijou o topo de minha cabeça e me puxou pela mão.
No caminho até a saída do parque eu só conseguia olhar para trás na esperança dela aparecer no brinquedo de repente. Como mágica.
A questão não era que ela tinha apenas faltado um dia, oh, grande coisa.
A questão era que nós não faltávamos nenhum dia. Oh. Grande coisa.
Sim, grande coisa, enorme, maior que qualquer outra coisa existente nesse mundo.
Porque ela não apareceu no dia seguinte, nem nunca mais."
Nem nunca mais. E de repente volta do nada. Ela acha que eu sou o que? Espero que ela não esteja achando que vai me ver novamente. E se acabar vendo, espero que saiba que além de ansioso, tímido, antissocial, inseguro, calado, desanimado, eu guardava rancor. Sei que isso é horrível, mas não é algo que posso controlar.

♡♡♡


Hoje estava muito cheio no orfanato, e isso me deixou um pouco desconfortável, para ser sincero. Perguntei para uma das mulheres que ficavam na secretária o que estava acontecendo e a morena mais simpática me respondeu que tinham muitas visitações hoje. Pelo menos uns vinte casais, e isso melhorou meu dia em pelo menos noventa por cento. Além dos futuros pais de Noah e Emma, que me aguardavam em uma das salas de reunião.
Eu entrei na sala onde as crianças geralmente ficavam brincando e chamei Noah e Emma, sorri me agachando na frente deles enquanto segurava suas mãos.
- Hoje é um dia especial. – murmurei, sorrindo quando Noah gargalhou jogando a cabeça para trás. - Aqueles adultos que vocês acharam legais vão finalmente os levar para casa. - terminei de falar e senti um aperto no peito. Eles estavam indo.
Me levantei e sai da sala segurando as mãozinhas deles. Caminhamos sem pressa até a sala de reuniões e eu abri a porta.
Os casais disseram que não tinham problema em terem a reunião juntos, então achei ótimo, isso me faria ter mais tempo durante o dia.
A reunião foi bem tranquila e feliz. Conversamos sobre os hábitos familiares, hobbies, programas familiares, entre outras coisas. Falei um pouco das crianças, suas manias, formação da personalidade deles, problemas, vontades, teimosias. Depois falamos da parte mais chata: Papeladas, quando virariam oficialmente seus filhos e tal. Foi uma reunião até divertida, por conta das gargalhadas vindas dos dois miúdos.
Oliver colocou a cabeça dentro da sala em um determinado momento, ele disse que não estava aguentando de curiosidade e eu o deixei entrar.
- Bom, acho que estamos chegando ao fim. Acho que agora só preciso que todos assinem uns papéis, incluindo . - Oliver disse enquanto mexia em algumas folhas. Me estiquei para pegar algumas canetas que estavam no centro da mesa e distribuí para os casais.
As folhas foram distribuídas e assinadas. As crianças agora tinham oficialmente pais. Isso era algo muito indescritível, uma felicidade enorme. Era por isso que eu amava trabalhar ali, por causa dessa parte, essa parte boa, esse amor. Enquanto alguns largavam, outros apareciam para salvar.
Oliver se despediu de todos e teve que ir embora. Eu os acompanhei até a porta de saída. Emma e Noah estavam de mãos dadas comigo. Chegamos na porta e eu me agachei para me despedir dos dois, me despedi dos casais e fiquei na porta parado vendo todos irem embora.
Fiquei um bom tempo parado observando. Até depois que os carros desapareceram da rua, eu continuei lá.
Exatamente como um pai, preocupado com o filho que saiu de casa. Aquelas crianças agora tinham uma família, alguém para lhes dar amor. Mas mesmo assim eu ficava preocupado, porque eles ficaram embaixo das minhas asas durante muito tempo.
Meu celular começou a vibrar no bolso da minha calça, despertando-me. Peguei o aparelho e atendi sem ver a tela.
- Alô? - perguntei voltando a me encostar na parede e olhar para a rua.
- ? - era a voz de Josh. Instantaneamente meu rosto ficou quente e eu olhei ao redor. Que vergonha que eu estava de Josh agora. - ?
- Oi, oi. - dei sinal de vida e pude ouvi-lo rir do outro lado.
- Ah, sim. Achei que tinha fugido de novo. - ele falou em tom risonho e eu fechei os olhos constrangido. A situação só piorava.
- Me desculpe por aquilo. Tenho motivos para ter reagido daquela forma, e pretendo te explicar depois. - justifiquei e cocei minha nuca. Eu estava nervoso.
- Fica tranquilo. Eu liguei para saber se você ta muito ocupado amanhã? Eu sei que não é seu dia no hospital, mas Charlie queria muito sua presença novamente. - meu coração disparou e eu fechei os olhos frustrado.
- Ahn... - droga. - Desculpa, não vai dar.
- Tem certeza? Não consegue nem tentar? O garoto realmente gostou de você. - eu pude perceber a voz dele com um leve tom de descrença e achei aquilo cômico.
- Amanhã é meu dia no orfanato, precisarei ficar aqui. Ainda mais que duas crianças foram oficialmente adotadas hoje, e tenho mais algumas coisas pendentes para resolver. - menti, eu poderia ir para casa agora se quisesse.
- Isso é realmente uma pena. Bom, tudo bem, terei que me virar. Mas espero você quarta que vem aqui, hein! - ele riu e pude ouvir som de choro ao fundo. - Preciso ir agora, abraço!
Ele desligou sem eu nem conseguir me despedir. Tudo bem. Desliguei o celular e voltei a guardá-lo no bolso. Respirei fundo e cruzei os braços.
Charlie tinha gostado de mim. E eu tinha gostado dele. Mas eu estava com medo de ser sua irmã.
Voltei a caminhar para dentro do orfanato e me dirigi até a minha área. Abri a porta da sala das crianças e caminhei até meus dois pequenos favoritos. Tyler e Elena. Sentei-me ao lado deles e me meti na conversa.
- Sobre o que estão falando? - perguntei e pude ver Tyler tampar a boca ao rir alto. Eu acabei rindo junto a ele. Virei o rosto para Elena e ela tampava os olhos, achei nada mais justo eu tapar meus ouvidos. Cego, surdo e o mudo.

♡♡♡


Eu acabei saindo mais cedo do orfanato hoje. Ainda estava claro quando passei pela porta, mas o clima tinha esfriado um pouco. Oliver ficaria até mais tarde por conta dos tantos de casais que estavam visitando, eu ofereci ajuda, mas ele recusou. Ele tinha duas mulheres trabalhando ao seu lado, e estava um pouco irritado, achei melhor apenas ir embora mesmo.
Oliver é um cara muito legal. Ele já foi casado e divorciado uma vez, sua ex-mulher engravidou mas perdeu o bebê e isso o frustrou profundamente, o deixou devastado durante meses.
Anos depois ele conseguiu curar a si mesmo de uma quase depressão após entrar no orfanato, e começar a interagir com todas aquelas crianças. Apesar de ficar muito destruído quando uma delas ia embora, logo depois ficava muito feliz por saber que aquela criança agora tem uma família oficial. Ele é um homem com um grande coração, mas também é bem festeiro, adora ir para balada conhecer mulheres. Apesar de estar doido para se casar novamente.
Ele já me chamou algumas vezes para ir na balada com ele, mas o cara tem vinte e cinco anos, enquanto eu tenho dezoito. Primeiro que eu não saberia o que fazer lá, segundo que estamos em fases diferentes da vida, enquanto ele oferece álcool para mulheres de vinte, eu bebo coca cola observando as de dezessete.
Passei pelo parque e segui em frente sem nem olhar para o tal brinquedo. Eu não queria olhar, me recusava.
Eu também não queria ir para casa ainda, então decidi passar na padaria que minha mãe trabalhava. Ficava um quarteirão depois da minha casa, então apenas continuei andando em frente. Atravessei mais duas ruas e enfim, cheguei.
Abri a porta que fez um som de sino que já era bem familiar para mim. Caminhei até o balcão e sorri para a atendente loira que já estava na casa dos quarenta.
- Minha mãe está? - perguntei mesmo sabendo que ela estava. A mulher me respondeu que ela estava lá atrás e ela iria chamar, e eu esperei por ela sentado em um dos bancos que tinham por ali, próximo ao balcão.
Minha mãe apareceu quase no mesmo segundo que eu sentei, e eu logo me levantei novamente para ir até ela, que estava com um sorriso enorme e surpreso no rosto.
- O que faz aqui? - perguntou enquanto passava os braços ao meu redor.
- Saí mais cedo do orfanato, Noah e Emma foram oficialmente adotados. - respondi beijando sua bochecha. - Eu não estava afim de ir para casa fazer nada, então resolvi dar uma passada aqui. - respondi votando a me sentar e ela cruzou os braços.
- Como foi lá hoje? - ela perguntou ajeitando algumas coisa na minha roupa. Mães.
- Bem triste e feliz ao mesmo tempo. Eu sinceramente, não sei descrever como é a sensação. - sorri me lembrando dos rostinhos felizes.
- Fico muito feliz e orgulhosa de você, meu filho. Tem essas ações e missões de vida tão generosas, importantes e lindas. Seu pai com certeza... - ela não terminou de falar, e eu sabia porque, ela sempre parava de falar do nada quando começava a falar do meu pai assim. Eu apenas respeitava. Ela ergueu novamente os olhos para mim e eu sorri.
Enquanto nos encarávamos ela deu um estalo como se estivesse se lembrado de algo e pediu um segundo voltando para a parte detrás da padaria, onde os clientes não tinham acesso. Eu apenas esperei. Peguei meu celular para ter algumas coisa para fazer enquanto esperava, não era tão legal ficar admirando o chão.
Enquanto eu jogava um joguinho qualquer no telefone, pude ouvir o som do sino da porta novamente, indicava que tinha algum cliente. Eu não desviei o olhar do telefone, senão eu iria morrer no joguinho. Mas eu morri de qualquer jeito quando ouvi a voz daquela cliente.
Ergui minha cabeça rapidamente e pude concluir da onde eu conhecia aquela voz. Minha mãe apareceu novamente dando um gritinho animado enquanto abraçava aquela mulher.
Aquela mulher que, por acaso, era a mãe de .
Pela segunda vez, eu fugi.

♡♡♡


Entrei em casa com a respiração entrecortada. Minha garganta estava seca de tão ofegante que eu me encontrava, corri muito e agora me sentia mais patético ainda. Entrei na cozinha com pressa para beber água e ri de mim mesmo, eu realmente conseguia me superar.
Deixei o copo na pia e voltei para a sala. Me joguei no sofá e fiquei encarando o teto. Estava confirmado, se em algum momento fiquei em dúvida, agora eu tinha certeza. estava de volta. E de bônus com um irmão muito fofo, diga-se de passagem.
Me sentei rapidamente no sofá quando me dei conta de algo importante.
tinha um irmão com leucemia. Tudo que ela precisava agora era suporte, e não algum maluco fugindo dela.
Revirei os olhos voltando a me jogar no sofá. Fiquei uma boa meia hora perdido em pensamentos enquanto admirava o teto, e nem percebi quando a porta foi aberta.
Minha mãe surgiu no meu campo de visão e eu pulei de susto, olhei ao redor e suspirei ao constatar que ela estava sozinha.
- Não acredito que você fugiu da mãe da . - ela riu se sentando ao meu lado, eu bufei já sabendo que não iria fugir do assunto.
- Não tenho coragem de ver ainda, mãe. - voltei a olhar para ela, e quanto percebi que ia começar a falar eu a cortei. – E, por favor, eu não quero saber sobre o que vocês conversaram. - voltei a encarar o chão, que agora parecia muito interessante.
- Você não pode ficar fugindo da garota assim, ! Isso é ridículo! - ela arregalou os olhos e eu dei de ombros.
- Então eu serei ridículo. - ela bufou e eu fechei os olhos com força. - Por favor, não insiste.
- Ainda vamos conversar direito sobre isso, não quero você fugindo do assunto, muito menos dela! - ela elevou o tom de voz enquanto apontava para o meu rosto. Apenas revirei os olhos. - E toma isso aqui, eu ia te entregar quando ela apareceu. - ela me estendeu um papel e eu franzi o cenho. - É o número de Shantala, filha da minha amiga. Você pediu. - quando ela terminou de falar apenas se levantou e saiu da sala me deixando ali sozinho encarando os números naquele papel.
Eu estava mais perdido do que nunca.

Continua...



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