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Última atualização: 28/10/2018

Capítulo 01

Dezembro de 2011
Parada, de olhos fechados no meio da sala de dança da Internacional School of Minnesota, se encontrava. A música ao fundo era Bingle Bingle do grupo Big Bang, e a garota de cabelo preto liso absorvia cada nota com o coração. Cada fibra de seu corpo vibrava com a batida da música enquanto os giros que teria que fazer naquela tarde no gelo rodava em sua mente. Mas antes que pudesse iniciar o treino em chão firme dos meus movimentos batidas foram ouvidas e seu olhar seguiu em direção a porta. Dois rostos familiares surgiram dentro da sala com sorrisos empolgados.
- A sua presença está sendo requisitada no almoço. - Miguel, melhor amigo de toda a vida de e capitão do time de hockey, informou com um sorriso maroto em seu rosto. Seus olhos cor de mel esverdeados brilhavam excitação por poder tampar em breve o seu buraco negro particular, também conhecido como estômago.
- Mas já? - A arregalou os olhos realmente assustada em como a hora havia corrido.
- Sim, sabíamos que você tinha perdido a noção e viemos te chamar. - Ariana, a melhor amiga mais fofa de todo o mundo, explicou em um tom carinhoso. Miguel caminhou até o banco em frente a parede de espelho e colocou a mochila da melhor amiga em seu ombro.
- Se deixar, você fica aqui até a hora do seu treino sem ter noção do tempo dançando essas músicas doidas. - O rosto rústico do estudante se contorceu numa careta engraçada.
- É música coreana, Miguis, coreana. - rolou os olhos e os seguiu em direção ao refeitório da escola.
- Coreano ou japonês. Tanto faz. Eu não entendo nada mesmo. - Ele deu de ombros e a patinadora lhe deu um tapa no ombro.
- O importante é que ela entende. - Ari piscou brincalhona para Miguel.
- É verdade! - concordou com a melhor amiga.

Ao entrarem no refeitório amplo e abarrotado de adolescentes barulhentos e famintos, as gêmeas Amélia e Amanda, duas estudantes intercambistas da Itália, acenaram para os indicar que já estavam devidamente sentados na mesa tradicional deles. A mesa ao centro do refeitório era composta pela nata da Internacional School of Minnesota. Todos os filhos prodígios e promessas de um futuro de ouro estavam sentados ali. O que incluía e seu seleto grupo de amigos. Amy&Mandy, duas loiras altas e de olhos azuis, eram as pupilas da treinadora do time de vôlei. Miguel, Garry e Nicholas eram os três mosqueteiros do time de hockey no gelo da escola. Ariana, de todos era a única sem aptidão nenhuma para os esportes. Por isso era responsável por ser a promissora capitã do Glee* da escola, e de tirar sempre as melhores notas em competições dos clubes nerds do colégio. E por fim, , uma das representantes olímpica dos Estados Unidos da América de patinação artística no gelo. Juntos eram a parcela popular dos alunos do freshman year*. Os veteranos populares também compartilhavam mesas vizinhas e assim a hierarquia social na escola era mantida.

- Ouvi dizer que esse final de semana o Tyler do sênior year* vai dar uma festa na casa dele. - Nicholas, um loiro de olhos de azuis, com o corpo definido, parecia ter acabado de sair de um comercial da Abercrombie, falou com um sorriso cheio de segundas intenções nos lábios ao ver os amigos recém chegados se acomodarem na mesa após se servirem no buffet do refeitório.
- Eu também! Ouvi dizer que o Jamie perguntou pessoalmente se você iria ser chamada. - Amy levantou as sobrancelhas duas vezes e ofereceu um sorriso travesso para . A garota rolou os olhos impaciente com o comentário da amiga.
- Ele mandou uma mensagem sobre, mas eu ignorei. - A garota de traços asiáticos deu de ombros.
- Você tem que me ensinar a ser como você. - Garry, o ruivo da turma, apontou o dedo na direção da amiga.
- Ai, , ele é tão fofo. E parece estar muito a fim de você. - Mandy piscou os olhos azuis de forma sonhadora.
- Pode ficar com ele pra você. - A patinadora respondeu num tom impaciente e tomou um gole da sua garrafa de água. Miguel passou o braço direito pelo ombro da amiga e com a mão esquerda apertou as bochechas da mais nova.
- O único homem da vida da sou eu. - Os lábios do capitão do time de Hockey depositaram um beijo na bochecha da asiática.
- É verdade. - Os olhos da estudante se exprimiram com o sorriso que tomou seu rosto.
- Vocês vão casar. - Nicholas comentou despretensiosamente e pegou uma batata frita da bandeja de Ariana, porém a garota deu um tapa estalado na mão do amigo - Só uma. - fez um bico infantil, mas em troca só recebeu um olhar repreensor.
- Come sua comida, Nicholas. - Ariana ralhou e apoiou o braço ao lado de sua bandeja, bloqueando o acesso do garoto a suas batatas.
- Então, nós vamos? - Garry perguntou encarando todos por cima da mesa.
- Vamos! - Mandy bateu palminhas empolgada.
- Vamos. - deu de ombros e deixou sua mente viajar nos passos que teria que fazer no treino de hoje.
- E a nossa viagem para a Disney nas férias está de pé, né? - Amy perguntou com a expressão sonhadora.
- Sim, vamos fechar o hotel essa semana.- Miguel lhe ofereceu um sorriso e estalou o dedo na frente do rosto de ao perceber o olhar desatento da mais nova.
- Ahm, é sim. - Ela informou ao tomar um pequeno susto.
- Você vai dividir quarto com o Nick, então? - Miguel brincou e segurou a risada ao ver os olhos da melhor amiga arregalarem e ela começar a negar veemente com a cabeça.
- Não, tá maluco? - a patinadora elevou a voz algumas oitavas. - Ei! Eu sou um ótimo companheiro de quarto, Okay? - O loiro cruzou os braços fingindo estar ofendido.
- Na verdade... - Garry coçou a cabeça e segurou a gargalhada a qual queria escapar - Você ronca e é bagunceiro.
- Nós vamos fechar o hotel da Disney essa semana. - Miguel informou em meio as risadas por conta do soco que Nicholas dava em Garry.
- Vamos sim. - sorriu e observou a hora em seu relógio - Preciso ir. - Informou e levantou rápido, porém, Miguel segurou seu pulso.
- Estou satisfeita. - A mais nova depositou um beijo no rosto do melhor amigo, desprendeu-se de seu toque e caminhou com a mochila nas costas em direção ao ginásio de gelo da escola.

XXX

Apesar da ambientação fria do imponente ginásio da Escola Internacional de Minnesota o corpo miúdo e torneado de escorria suor em consequência da transpiração do treino de duas horas. Há mais de uma hora a garota treinava os giros que precisavam ser aperfeiçoados a tempo do seu próximo campeonato. Ela tinha pouco menos de um mês. E tudo precisava estar em perfeita sincronização. Porém só notou a presença de Daniel quando a música parou de tocar mais uma vez e palmas foram ouvidas. olhou para frente e encontrou o irmão mais velho escorado na barreira que limitava o ringue de gelo. Os dois sorriram cúmplices e olhou em direção a Wen. Sua mãe e treinadora, que por algum acaso era uma ex-campeã olímpica de prestígio, após aposentar-se das competições aceitou o convite para ser a treinadora da escola. Tornando-se a maior mentora de em sua carreira promissora dentro e fora de casa.
- Excelente trabalho por hoje, . Pode descansar. - A mais velha com sua prancheta em mãos informou enquanto anotava ideias para o treino do dia seguinte.
- Obrigada. - A estudante informou e patinou em direção a saída do ringue. Daniel a esperava com o sorriso empolgado, e antes mesmo da irmã dar um passo para fora da arena ele a puxou contra seu corpo e a abraçou.
- A omma* pediu para buscar vocês porque vamos jantar em família hoje. - Ele piscou para a mais nova.
- Só assim pra você fazer gentileza pra mim, né, oppa*? - A mais nova bateu no mais velho com a toalha que usava para secar o rosto.
- Que pirralha mais ingrata. - Danny beliscou o braço de sem muita força. A garota fez uma careta engraçada e sentou no grande banco de madeira para tirar os patins do pé. O alívio ao tirá-lo foi imediato e a americana fechou os olhos por alguns segundos para apreciar a sensação de dever cumprido.
- E onde nós vamos jantar? - A voz de soou grave depois de alguns segundos em silêncio.
- Vamos naquele restaurante tailandês que o Doug é viciado. Aparentemente ele e a May vão fazer um pronunciamento importante. - O mais velho se sentou ao lado da irmã e a observou por alguns segundos.
- Será que o Doug oppa vai finalmente casar? - riu e Danny lhe acompanhou.
- Está na hora mesmo. Quer tomar um café antes de encontrá-los? - Daniel cutucou a coxa da irmã ao perceber o cansaço querendo dominar o corpo da mais nova.
- Às vezes você pensa. - piscou pro mais velho e caminhou em direção ao vestiário para tomar banho e se arrumar pro jantar em família.

XXX

O restaurante preferido de Doug era um simpático e charmoso estabelecimento tailandês. O clima era intimista e extremamente seduzente. amava comer ali, não tanto quanto o irmão mais velho, ainda mais em meio a uma dieta pré-treino, evitava qualquer tipo de tentação gastronômica ao máximo. Ao adentrar o local abraçada com seu irmão do meio, sua barriga roncou com fome e garota começou o seu mantra sobre sentir necessidade de ingerir comida era psicológico. Doug, o filho mais velho do casal , estava acompanhado da namorada, também descendente de asiáticos. Os dois haviam reservado uma mesa central, espaçosa o suficiente para comportar os pais de ambos e os irmãos mais novos do rapaz. Diferente do look casual de um universitário que Daniel usava, Doug estava sempre uniformizado com seus ternos impecáveis. Os irmãos mais novos e Wen se aproximaram da mesa, surpreendentemente, já ocupada por todos os outros familiares. Até mesmo Derek , sempre tão ocupado havia dado a graça de sua presença. Os recém chegados curvaram-se em respeito aos já presentes.
- Ainda bem que chegaram, estávamos ficando preocupados. - Derek lançou um olhar rígido em direção aos filhos. Seus olhos de cirurgião cardíaco analisava cada detalhe da roupa dos filhos mais novos.
- Pegamos um pouco de engarrafamento.- Wen informou os presentes antes que o pai pregasse um sermão no filho do meio.
- É um sinal que o Danny dirigiu com responsabilidade. - Doug deu dois tapinhas orgulhosos no ombro do irmão.
- Eu sempre dirijo com responsabilidade. - O estudante universitário colocou uma mão no peito e afetou a careta como se estivesse se sentindo incompreendido.
- Ah, tá. - riu e recebeu em mãos de um simpático garçom o cardápio do local.
- Como foi o treino, filha? - O pai dos se pronunciou sereno.
- Foi bom, appa. - A garota deu de ombros e abaixou o olhar.
- O que houve? - Wen observou a sua menina com o olhar cheio de preocupação.
- Nada demais. Só estou nervosa com o campeonato que está por vir.- O dedo indicador da mão direita da patinadora iniciou movimentos circulares por cima da mesa.
- Não se preocupe, você é a melhor patinadora do mundo. - Doug fez o sinal de joinha em direção a irmã mais nova. deu um sorriso congelado mas derreteu-se por dentro com a atitude fofa do irmão mais velho.
- É verdade. Você está se esforçando muito, ganhará o primeiro lugar. - Wen deu três tapinhas na mão da filha, a mais nova concordou sendo logo em seguida interrompida pelo garçom.
Com os pedidos feitos e as taças de vinho preenchidas, Doug bateu de forma delicada com o garfo em sua taça e pôs-se de pé. Todos os olhares da mesa encararam o advogado com atenção.
- Gostaria de ter um minuto da atenção de todos… - Um sorriso ansioso delineou os lábios em formato de coração do americano - Eu e a May estamos juntos há alguns anos e eu sou muito grato de tê-la do meu lado. Sempre que eu penso no meu futuro é ela que eu vejo ao meu lado, compartilhando nossas vitórias, dividindo os fardos e me fazendo o homem mais feliz do mundo por simplesmente existir. Por isso na noite de hoje, na frente de nossos pais e irmãos, gostaria de pedir a mão de May Park em casamento. - O moreno tirou uma caixa de veludo do bolso, a abriu e colocou na altura do olhar da sua namorada o anel de noivado.
- Finalmente! - Danny e falaram em coro.
- É claro que autorizamos o casamento. - Sr. Park falou com um sorriso sereno.
Doug colocou o anel na mão da noiva e seus irmãos mais novos puxaram a salva de palmas.
- Eu quero ser a madrinha. - A caçula dos aumentou o tom de voz para o irmão ouvir sua exigência por cima das palmas.
- Claro que vai. - May respondeu com um sorriso doce e a mais nova correspondeu com um satisfeito.
- Eu não sei colocar em palavras a felicidade de ver meu primogênito dar o primeiro passo para iniciar sua familia. - Wen disse orgulhosa.
- Um brinde a família. - Doug puxou o brinde ao levantar sua taça, os demais o seguiram extremamente felizes.

XXX

Miguel estava deitado na cama de , enquanto a garota e Ariana colocavam o closet da para baixo a procura de dois looks marcantes para elas usarem na festa de Tyler Points. O veterano era conhecido por dar festas lendárias, e desde que entraram no High School, e seu grupo de amigos nunca perderam uma. E desta vez não seria diferente. Batidas soaram na porta e um Daniel bem arrumado, sem esperar um comando de autorização da irmã entrou no recinto.
- Grande Miguel! - O músico riu e olhou por todo o quarto para procurar a irmã, a figura de saiu de seu closet em passos rápidos e um olhar repreensivo.
- Nós batemos na porta e esperamos o dono do quarto autorizar sua entrada. - Ela o repreendeu enquanto analisava o look do irmão e chegou à conclusão que o mesmo faria show naquela noite.
- O appa me deixou no comando. - Danny piscou e rolou os olhos. Miguel sentou-se na cama com o sorriso divertido, ele amava observar a pequenas discussões entre sua melhor amiga e o irmão dela - E sob essa premissa gostaria de saber aonde pensam que vão?
- Na festa do Tyler. - Miguel respondeu por cima da garota e apontou para o amigo com um sorriso amarelo.
- Quem é Tyler? - Daniel cruzou os braços, fingindo estar bravo, apenas para irritar a irmã.
- Tyler Points. Ele é veterano. Eu vou com os meninos de sempre. Vamos com o carro do Miguel. - balançou o dedo como se tivesse pontuando de forma imaginária todos os possíveis detalhes que o irmão poderia perguntar.
- Se o Mi vai tá tudo bem, eu deixo vocês irem. - ele deu de ombros - Estou saindo pro meu show, nos vemos amanhã. - informou, dando uma piscadela – Tchau, Ariana! - gritou para a garota dentro do closet ouvir e saiu antes mesmo do estrondo da estudante derrubando os sapatos de closet abaixo ressoar pelo cômodo.
- Seu irmão confia mais em mim do que em você. - Miguel zombou enquanto arremessava uma das almofadas rosas da cama para cima.
- Ele te ama mais mesmo. - Ela riu e entrou no closet a passos largos para ajudar a amiga - Tá tudo bem?
- Tá sim. - Uma Ariana com as bochechas extremamentes vermelhas respondeu sem encarar a mais velha nos olhos.
- Okay… - a voz de foi descendo as oitavas, mas achou melhor não indagar a reação da amiga, focou seu olhar no seu armário de calças. Para várias o clima em Minnesota estava frio e não seria uma boa ideia sair com as pernas de fora. amava o clima de sua cidade, o fato de estarem quase em pleno verão e não ter nem sinal de um calor esturricante era a melhor parte sobre Minneapolis. Uma certeza ela tinha, não havia sido feita para morar em cidades no Estados Unidos como as da Califórnia, por exemplo. Não conseguia se imaginar adaptada ao sol escaldante e o amor pela praia.
- Vão demorar mais quanto tempo? - Miguel reclamou com o tom de voz claramente entediado. Cansado de ficar na cama, levantou-se e foi até o laptop da amiga, verificar sobre os resultados dos times profissionais de hockey.

Após os três estarem prontos, aproveitou a ausência de todos os mais velho da casa, e assaltou o estoque do seu irmão do meio de vodka. Encheu um copo de shot para cada um e entregou na mão dos amigos com um sorriso travesso.

- Um brinde ao nosso futuro. - Miguel propôs, os três murmuraram "cheers" ao mesmo tempo ao chocar um copo no outro e tomaram um longo gole.
- Agora vamos porque a Amy não para de me mandar mensagem falando que só falta nós três. - Ari comentou ao ver o celular vibrar mais uma vez.
- Então, vamos, mi ladies! - Miguel rodou a chave do Jeep de seu pai no dedo indicador e os três seguiram extremamente animados para a festa.

- A-MIIII-GAS!!!!!!! - a voz já arrastada de Mandy ressoou no ouvido dos recém chegados na casa estilo gregoriano dos Points. e Ari foram até a garota e lhe deram um abraço apertado em conjunto - Até que enfim vocês chegaram!
- Elas demoraram duas horas para decidir qual seria a maquiagem da Ari. - Miguel informou com um bico rabugento nos lábios, Mandy franziu os olhos e percebeu a diferença no rosto da amiga mais geek do grupo.
- Você está usando lente de contato! - Apontou pro rosto da mais baixa e Ariana deu de ombros extremamente envergonhada.
- Sim! Finalmente ela cedeu! - bateu palminhas empolgadas e analisou as pessoas a sua volta.
- O Jamie já perguntou por você… - Mandy informou com um sorriso malicioso, a patinadora respirou fundo e apontou em direção ao bar.
- Preciso beber paciência. - informou antes de puxar os amigos e Miguel as seguiu.
- Uns beijinhos não vão te matar. - Mandy riu e Ariana deu um tapa em sua testa.
- , não faça nada se você não tiver a fim. - Ari deu um sorriso fofo para amiga, os dedos da patinadora não exitaram em apertar a bochecha da mais nova ao ver sua careta fofa.
- E lembre-se que eu posso bater no cara que for por você. - Miguel disse num tom brincalhão, apenas levantou o polegar direito sem virar-se para o amigo.
- Tá bom, você não bate nem em barata. - retrucou risonha. Ao chegar no bar que havia sido instalado no canto da sala de jantar dos Points, debruçou na banca e com um sorriso extremamente simpático apontou para uma cerveja.
- Três, por favor. - Miguel colocou os braços no ombro da amiga e o barman apenas assentiu, trazendo poucos segundos depois o pedido do casal.
- Eu amo Minneapolis! - riu e brindou seu copo vermelho com cerveja com os amigos. Os três caminharam até a mesa de Ping Pong no salão de jogos do porão, onde Amy, Garry e Nicholas participavam de um campeonato acirrado de beer pong.
- Piaaa! - o ruivo do grupo levantou os braços, os balançou no ar e abraçou a amiga tirando-a do chão.
- Larry! - replicou a brincadeira dando tapinhas fortes nas costas do amigo. Ao colocar a garota de volta, o ruivo cumprimentou Ariana com um beijo no rosto e Miguel com um abraço caloroso.
- Vocês chegaram! - Amy bateu palminhas empolgadas. Nicholas, o mais sóbrio do grupo, deu um beijo nas garotas e em Miguel um toque com as mãos.
- Agora a diversão vai começar… - A voz de Jamie Huang, sobressaltou pela multidão e congelou o sorriso no rosto. Em seguida a garota virou de uma vez o líquido do seu copo e encarou o mais velho a sua frente com uma sobrancelha levantada. Jamie era bem alto, com 1,91 de altura e corpo definido, era o capitão do time de basquete da escola. Era um dos solteiros mais cobiçados do High School e desde pequeno tinha olhos para . A mãe do atleta era melhor amiga de Wen , e juntas planejavam o casamento de seus filhos desde quando a patinadora era muito nova. E como um filhinho da mãe obediente e extremamente intolerante a nãos, Jamie havia se apegado a ideia de ter a caçula dos para si. O que tirava a garota totalmente do sério. Primeiro: Jamie era um babaca. Achava que tinha tudo e todos do mundo aos seus pés. Segundo: ele era problema na certa. Toda a sua áurea gritava: saia correndo, eu sou problema puro. Terceiro: ele era mimado e extremamente convencido. odiava o tipo de garoto que tinha a necessidade de ser o centro das atenções. Necessidade de excesso de atenção para ela era insegurança, e por essas e tantas outras razões a garota sentia o corpo estremecer de nervoso ao ver o garoto por perto.
- Vai mesmo! - Mandy, uma romântica incorrigível e decoradora de conto de fadas da Disney, empurrou a amiga para frente, fazendo-a trombar contra o corpo de Jamie. O atleta agora estava parado a apenas alguns passos do grupo de amigos, o braço esquerdo estava apoiado sobre a mesa e seu sorriso convencido estampava seus lábios - Eu desafio vocês dois a vencer eu e a Amy no Beer Pong. - a loira piscou maliciosa. Ela sabia atingir o calcanhar de Aquiles da amiga: sua competitividade.
- Eu te odeio! - rosnou entredentes ao virar de frente pra amiga, semicerrou os olhos e puxou o mais velho pelo pulso até o outro lado da mesa de Ping Pong. Os adolescentes bêbados se agitaram ao ver os participantes se ajeitando e começaram a gritar por uma das duas equipes.
- Dois japoneses contra italianas não é justo. - Garry brincou e tomou um tapa na cabeça de Miguel.
- Eu sou coreana. - deu o dedo do meio para o amigo, ao mesmo tempo em que Jamie também levantou o seu e reclamou com o garoto.
- Eu sou chinês, imbecil. - retrucou e encarou a com um olhar encantado. balançou a cabeça e apontou o dedo em riste no rosto do mais velho.
- Eu te mato se perdermos. - Informou, Jamie piscou e lhe roubou um selinho.
- Pode deixar pequena, depois que ganharmos quero um prêmio. - a patinadora encheu o braço do jogador com tapas ardidos, fazendo dar um passo pro lado para fugir da agressão.
- Não encosta estes lábios sujos nos meus! - informou com o rosto vermelho e virou o olhar fulminante para Mandy, culpando-a em silêncio. Ela fechou o punho esquerdo e fingiu cortar o pescoço com o dedo, mostrando às amigas que estavam perdidas. Amy deu Start no jogo ao tentar arremessar a primeira bola de Ping Pong em um dos copos de cerveja do lado adversário. A garota enfeitou os lábios com um bico infantil ao errar o objetivo. Jamie arremessou a primeira bola da sua equipe e acertou de primeira um copo das gêmeas. comemorou o primeiro ponto num movimento de braço enquanto o jogador se gabava para ela com um sorriso ladino e piscada.
- Eu sou seu melhor parceiro. - piscou para , a americana rolou os olhos e deu outro tapa no braço do garoto ao ver Mandy acertando um copo deles.
- Por favor, primeiro as damas. - o estudante do senior year informou com um olhar maroto, a patinadora nem exitou ao levar um copo até a boca e o virar.
- Vai com calma, . - a voz de Miguel soou ao fundo.
- Estou bem. - Informou sem olhar para o amigo, pegou uma bola de Ping Pong na caixa de estoque na mão de uma veterana e jogou a sua primeira bola, acertando um dos copos das gêmeas.
- Ela está bem. - Jamie mostrou os dois dedões em formato de positivo para seu calouro.
- E é melhor continuar assim. - Miguel resmungou e cruzou os braços.

Após meia hora, a última bolinha, jogada por , atingiu o único copo ainda sobrevivente das gêmeas. Jamie não exitou em passar as mãos pela cintura da mais nova, que por sua vez tinha o corpo e a mente embalados pelo efeito dos dez copos de cerveja que havia tomado, por isso, a patinadora entrelaçou os dedos pelo cabelo liso do jogador e deu início ao primeiro beijo da sua vida. Por conta do álcool em seu sistema, a jovem não ficou nervosa em momento algum. Deixou seu corpo seguir o ritmo que Jamie ditava e apenas se entregou. As pessoas em volta olhavam num misto de surpresa e empolgação. Os amigos de Jamie urraram em euforia e Miguel ameaçou ir na direção do casal para poupar da ressaca moral no dia seguinte, mas Amy colocou a mão em seu peito e o impediu de separar um dos casais mais esperados da Internacional School of Minnesota. Após alguns minutos o casal finalizou o beijo com um selinho demorado e Jamie colocou a patinadora no chão de novo. Num movimento rápido o veterano entrelaçou as mãos e observou a garota a sua frente admirado.
- Você é um vício, . - Passou o dedo indicador pelos lábios avermelhados da mais nova, fazendo-a piscar para ele.
- Acontece. - Ela respondeu com o sorriso maroto e puxou o garoto em direção ao sofá de couro ocupado por dois casais. Ao sentarem no único espaço ainda disponível a garota não perdeu tempo em avançar contra os lábios de Jamie. Sentiu dentro de si como se uma fome descomunal pela boca do atleta tivesse despertado dentro da estudante. O cheiro de cigarro, misturado com o perfume Calvin Klein, entorpeceu qualquer resto de sanidade no corpo da jovem. A caçula dos deixou seu corpo responder por ela, e aquela noite, pela primeira vez, não reprimiu seus instintos e se deixou ser levada pela impulsividade.

XXX

Na tarde seguinte, o celular de apitou em cima do criado-mudo enquanto era carregado. A garota resmungou ao despertar sem abrir os olhos, protestou alguns segundos ao manter os olhos fechados e sentiu seu mundo rodar por alguns minutos. Ressaca... ela definitivamente estava de ressaca. A garota esticou apenas o braço para fora de sua coberta vermelha e pegou o celular em mãos. Abriu os olhos e verificou que era extremamente tarde. O visor a informava ser três horas da tarde, ele também mostrava notificações no iMessage. Assustou-se ao ver a quantidade de notificações, mas achou melhor lê-las depois de tomar um banho e comer alguma coisa. Jogou o celular sobre a cama e espreguiçou-se, antes mesmo de calçar seus chinelos, Seoul latiu do lado de fora da porta para chamar atenção da dona. , vestida com seu onese de Squirtle, andou de forma preguiçosa e liberou a entrada do Golden Retriever. O cachorro invadiu o quarto de forma eufórica e latiu empolgado, fazendo a cabeça de sua dona reclamar com pontadas agudas. amaldiçoou todo o álcool ingerido na noite anterior e sentou-se no chão para Seoul lhe dar lambidas empolgadas. Após alguns minutos ao lado do cão, caminhou com o bicho em seu encalço até a cozinha. Ao passar pela sala encontrou Miguel sentado no sofá com uma tigela de cereal em seu colo e com os olhos vidrados em um jogo qualquer na televisão.
- Anyohaseyo, sunshine! - O garoto espremeu os olhos num eye smile e deu um sorriso amarelo pro amigo, fazendo rir do estado zumbi da mais nova - Acordou de ressaca, foi?
- Não conheço esta palavra. - Respondeu sarcástica e deu de ombros.
- Quer que eu faça panquecas pra você e lhe arrume uma aspirina? - O atleta ergueu as sobrancelhas de forma marota e concordou com a cabeça da forma mais efusiva que sua dor de cabeça e enjoo permitiam no momento.
- Às vezes eu acho que você lê meu pensamento. - murmurou com a voz grave por ter acabado de acordar e seguiu na frente do melhor amigo para a cozinha.
- Eu leio mesmo. E inclusive sei do fato de você estar ignorando seu celular por enquanto por medo de descobrir o que aprontou ontem.
- Eu aprontei algo muito sério? - sentou na primeira cadeira vazia da mesa e fez uma careta preocupada para Miguel.
- Depende do que você chama de aprontar… - Ele riu e arfou sôfrega.
- Eu não falei baleiês com as pessoas não, né? - Mordeu o canto dos lábios e um arrepio subiu pela espinha apenas de imaginar o mico se tivesse tentado se comunicar com as pessoas “na língua das baleias” da personagem Dory do filme Procurando Nemo.
- Não, você só tentou aplicar uns feitiços do Harry Potter com um canudo. Você jurou que era sua varinha. - Miguel segurou o riso e colocou a mão na testa, extremamente envergonhada com seu comportamento da noite anterior - Ah, e claro, você falou coreano por uma boa parte da noite.
- Eu não vou beber nunca mais. - Ela resmungou e negou com a cabeça.
- Não vai mais beber até a festa da Barker, né? - Vidal riu debochado e ligou o fogão para aquecer a frigideira.
- Devo saber de mais alguma coisa? - resmungou com o olhar cheio de vergonha sobre as costas do melhor amigo. O atleta virou com uma careta preocupada e confirmou com a cabeça.
- Sim… mas é melhor se alimentar antes. - Avisou e deixou a cabeça despencar até seus braços.
- Aigoo! - Grunhiu e fechou os olhos. Sua cabeça rodava como se tivesse dentro de algum brinquedo extremamente radical de um parque de diversões, sua boca estava extremamente seca, seu estômago sensível, a sensação de frustração só aumentava dentro de si ao tentar lembrar dos acontecimentos da noite anterior e falhar. Mas seu HD interno havia gravado apenas até a parte a qual Jamie Huang lhe convidou para ser sua dupla no Beer Poing. JAMIE HUANG, o nome do veterano brilhou em sua mente e levantou o corpo num arranque brusco - Não diz que eu dei meu primeiro beijo em…
- Jamie Huang. - Miguel deu vida às palavras e a jovem forçou um choramingo desesperado.
- Eu não dei na cara sobre ser meu primeiro beijo, né? - Ela franziu o rosto numa careta preocupada e o amigo caiu numa gargalhada alta.
- Olha, pelo menos de onde eu estava assistindo não me pareceu cometer nenhuma gafe. As horas de treino com o gelo deram certo. - O tom do mais velho era extremamente debochado.
- Aigoo! - Grunhiu mais uma vez, levantou da cadeira exasperada e correu em direção ao seu quarto acompanhada de um Seoul eufórico em seu encalço. Parou em frente a cama e tateou em desespero até encontrar o aparelho no meio das cobertas. Ao observar suas mensagens, arregalou os olhos ao ver cinco mensagens de Jamie. Destravou o celular e leu todas de forma ligeira. Ao contrário das suas expectativas sobre o garoto sumir assim que ficassem, nas mensagens ele a chamava para irem ao cinema juntos. Em automático caminhou de volta para a cozinha com sua mente um pouco confusa. Primeiro, ela havia beijado pela primeira vez e tinha apenas flashes borrados do acontecimento. Segundo, ela havia beijado seu amigo de infância e um dos caras mais populares da escola. Sua mente parou por alguns segundos e por algum motivo desconhecido um frio se agitou em sua barriga. chacoalhou a cabeça e sentou de novo na cadeira, agora Miguel já havia terminado sua panqueca e só por aquele dia a garota resolveu jogar a dieta pré-treino para o saco e deliciou-se com o alimento a sua frente, com direito a cobertura de chocolate para completar o pacote.
- Você não lembra de nada? - Miguel perguntou ao sentar de frente a melhor amiga com seu prato cheio de panquecas também.
- Eu lembro até o início da partida. Depois disso as memórias são uns borrões. - deu de ombros e respirou fundo - O Jamie me convidou para ir ao cinema. - Soltou as palavras com o olhar aflito e Miguel a encarou com atenção.
- E você vai? - O garoto levantou as sobrancelhas e analisou a amiga dar de ombros com o olhar extremamente confuso - Uau! está pensando mesmo em dar uma chance para Jamie Huang?
- Sei lá… talvez… - Sibilou quase para si e abaixou os olhos para as panquecas.
- O mundo vai acabar! - Miguel riu e segurou as mãos da mais nova, fazendo os olhos puxados e curiosos subirem até suas pupilas mel esverdeadas - Só não se joga de cabeça, okay? Não confio nele.
- Ele grita confusão, mas se aventurar sem compromisso não faz mal, né? - mordeu o canto dos lábios e Vidal concordou com a cabeça. Voltaram a devorar as panquecas em meio a lembranças da festa.


Capítulo 02

Os dias correram como num piscar de olhos até o dia da última qualificatória de patinação no gelo do estado de Minnesota. estava sentada com a cabeça baixa no vestiário apoiada em suas mãos, repassando seus movimentos em silêncio quando uma voz grossa e conhecida chamou sua atenção. A patinadora levantou a cabeça de imediato e encontrou seu melhor amigo, Miguel, com um sorriso enorme e as mãos fechadas em punho, chacoalhando-as.
- Fighting, ! - O garoto de olhos mel esverdeados sentou ao lado da mais nova e segurou suas mãos - Você treinou todos os dias, deu seu melhor. É só ter calma e concentração.
- Obrigada, Mi. - A estudante de traços asiáticos agradeceu com um sorriso fofo sem mostrar os dentes e encostou a cabeça no ombro do amigo - Você é meu melhor calmante.
- Eu sei. - Miguel piscou maroto para fazer a amiga rir - Mas tome cuidado, em poucas doses diárias posso causar abstinência.
- Esse risco eu não corro. Nós nunca iremos nos afastar. - entrelaçou sua mão com a do amigo.
- Isso é verdade. Eu vou atrás de você nem que seja do outro lado do mundo, tampinha. - O jogador envolveu o ombro da amiga e deu um apertão no mesmo. riu e respirou fundo ao ver sua mãe e treinadora entrar no vestiário para lhe passar as últimas instruções. - Hora do beijo da sorte. - Miguel deu um beijo rápido na bochecha da amiga e saiu afobado porta a fora do vestiário em direção ao seu lugar marcado, ao lado dos irmãos de sangue de .
Wen acompanhou a sua filha até a ponta do ringue, inspirou fundo antes de colocar as lâminas dos seus patins contra o gelo e desligou-se de qualquer nervosismo. Fechou-se em sua bolha e pelos próximos minutos toda sua mente estaria focada na sua música e nos seus passos.
Bingle Bingle do Big Bang em versão instrumental deu início e o patins da estudante deslizou para trás, combinados com movimentos graciosos de seus braços em automático. sentia seu coração acompanhar cada batida e passo de sua coreografia. Não permitiu-se apavorar em nenhum salto ou pirueta. Ao finalizar, seu sorriso era o reflexo do sentimento de dever cumprido. Havia performando de forma graciosa e sabia que havia prendido a atenção de todos os presentes. Seus olhos procuraram de forma minuciosa por rostos conhecidos na multidão. Não demorou muito para encontrar os amigos com pompons chacoalhando de forma empolgada. Ao lado seus irmãos e cunhada batiam palmas com os rostos extremamente orgulhosos. Porém não pôde deixar de ficar um pouco decepcionada ao não encontrar seu pai. Mesmo com o aperto no peito, manteve o sorriso e foi para o banco ao qual ela e as outras atletas deveriam assistir a performance que estava por vir.

Daniel foi o primeiro a abrir os braços para receber após confirmarem o primeiro lugar nas qualificatórias nacionais de patinação no gelo.
- Senhoras e senhores, rufem os tambores porque lá vem a Elsa asiática. - O músico fingiu usar a mão direita como um megafone e engrossou a voz. A patinadora, encontrava-se agora vestida com uma calça moletom da Adidas, um casaco confortável e quente, riu da piada do irmão e o abraçou forte.
- Cadê o appa, oppa? - A voz da garota saiu baixo apenas para o irmão entender.
- O appa foi chamado para uma cirurgia de emergência. Mas falou que amanhã teremos um churrasco para comemorar sua classificação nas nacionais. - O mais velho balançou os ombros da irmã e lhe deu um sorriso forçado. Ela amava seu pai, com todo seu ser, mas odiava o fato dele estar sempre trabalhando. Amava sua vida, não podia reclamar, tinha tudo que queria e muito conforto. Tinha plena noção de seus privilégios, porém ela sentia falta de ter um pai mais presente em seu dia a dia. Para encontrá-lo era quase necessário marcar um horário em sua agenda concorrida.
- Milkshake pra todo mundo, eu pago! - May gritou empolgada com a vitória da cunhada. desprendeu-se dos braços do irmão do meio e abraçou a cunhada - Você é demais, unnie! - A patinadora encarou a mais velha com os olhos cheios de admiração. Dougie e May namoravam desde que tinha doze anos. E por ser a caçula de dois homens, a estudante encontrou na cunhada a figura da irmã que não tinha. As duas nutriram um carinho especial uma pela outra desde o primeiro encontro entre elas. May havia se esforçado para ser presente na vida da mais nova tanto quanto Dougie. Momentos como aquele de conquista para era de pura emoção para ela.
Miguel abraçou a campeã para caminharem até o carro de Dougie, quando um senhor de traços asiáticos, cabelo chanel grisalho e um sorriso contagiante parou na frente do casal de amigos, fazendo todos a volta ficarem em silêncio e observar a figura estranha.
- Desculpa interrompe-los, mas eu preciso parabenizá-la por sua apresentação? Foi incrível. Você é muito talentosa. - O senhor comentou com a voz doce e um olhar intenso sobre . As bochechas da garota ruborizaram de vergonha e ela retribuiu o elogio com um sorriso tímido.
- Obrigada. - Respondeu sincera.
- Pelo seu talento posso sentir que ainda vai longe. Boa sorte nas Olimpíadas. - O senhor curvou-se e o seguiu no movimento.
- É, meninos… - Dougie colocou a mão no ombro da irmã com o peito estufado - Vamos? - Encarou o desconhecido com o olhar desconfiado.
- Sim… - A patinadora acenou positivamente com a cabeça e sorriu mais uma vez para o senhor. - Obrigada mais uma vez. - E seguiu com a escolta de seu melhor amigo e irmão mais velho até o estacionamento.

XXX


Na manhã seguinte quando o relógio marcou um pouco mais de 9h30, Miguel Vidal entrou sem cerimônias no quarto de sua melhor amiga e encontrou dormindo serenamente coberta por um lençol branco. Sem pensar duas vezes o atleta se jogou sobre a cama, afundando o espaço ao lado da amiga na sua cama de casal.
- Bom dia, flor do dia! Vamos acordar e descobrir onde está sua tia! - Vidal usou um tom extrovertido e murmurou algo indecifrável, cobrindo sua cabeça com seu lençol - Não adianta fugir de mim.
- Te odeio. - A voz rouca de sono da garota soou, fazendo o atleta soltar uma gargalhada divertida.
- Me odeia nada, não vive sem mim. - riu e jogou parte do corpo por cima da amiga.
- Ai, Miguel! - empurrou o jovem para o lado e sentou-se na cama de forma lenta, Vidal tampou a boca com a mão esquerda e soltou uma risada marota, a patinadora por sua vez semicerrou os olhos, virou de costas pro amigo para calçar seu chinelo da Adidas e rumou em direção ao banheiro.
- Te amo! - Gritou antes da garota fechar a porta. Levantou rapidamente para pegar o controle da televisão com o da Apple TV sobre o organizador na escrivaninha metodicamente organizada de , voltou a deitar na cama e continuou a assistir Naruto na Netflix. Ele conhecia sua melhor amiga e sabia que seu ritual de beleza e higiene da manhã duraria no mínimo meia hora. Por isso não hesitou em arrumar algo para se entreter e passar o tempo.

Após a troca de alguns looks e o ultimato de Miguel para desceram, o casal de amigos rumou em direção a área de lazer da casa dos . Estavam todos presentes, menos Wen. A treinadora ainda estava tendo seu sono revigorante. Até mesmo Derek portava vestes casuais e era o encarregado por cuidar da churrasqueira. Dougie e May terminavam de colocar a mesa enquanto Daniel e sua banda arrumavam os instrumentos para um pocket show acústico. Seoul, até então rondava Derek na esperança de ganhar um pedaço de carne, correu em direção a sua dona, anunciando a chegada do casal de amigos. Todos os presentes, incluindo os amigos de banda do do meio, pousaram os olhos sobre os dois estudantes presentes. iniciou um afago na orelha do cachorro e Derek abriu um sorriso extasiado de felicidade.
- Olha só quem acordou! A campeã da família! - O empresário colocou a espátula sobre a mesa e caminhou de braços abertos até a sua caçula.
- Bom dia, appa! - retribuiu o abraço de forma firme, rindo da forma quase robótica que o empresário lhe envolvia. Ela amava quando seu pai era carinhoso, não era algo corriqueiro no comportamento do Sr. , mas era extremamente especial e genuíno quando acontecia.
- Tive de resgatá-la, tio Derek. - Miguel apertou sem força o ombro da amiga, e Derek riu do garoto.
- Obrigado, Mi. Não sei o que seria dessa menina sem você. Como vai essa temporada para o time de hockey? - rolou os olhos ao ver seu pai iniciar um longo e entusiasmado papo de hockey. Caminhou até Daniel, Simon e Leo. Seu irmão do meio e os amigos estavam organizando os cabos e instrumentos para o show acústico com copos de cerveja em mãos. delineou os lábios com um sorriso maroto na hora em que os olhos de Simon Gazzoni pousaram sobre si e lhe ofereceram uma piscada fofa. O garoto de cabelo cacheado era o baixista da banda Paradise 101 e um crush da garota há alguns anos.
- Os nutricionistas estão orgulhosos desse shake nutritivo do café da manhã de vocês. - cruzou os braços e deu um ar descontraído ao seu semblante sonolento.
- É um segredo milenar para viver pela eternidade. - Simon aproximou tão risonho quanto a mais nova e a abraçou forte, tirando os pés de do chão. Daniel bateu com o fio do amplificador de sua guitarra nas costas do amigo, avisando-o para se afastar de sua irmã.
- Estamos bebendo em comemoração à sua classificação. - Leo, o dono de uma pele dourada e o mais baixo dos três, informou com um sorriso travesso. Puxou Simon para o lado, apertou os braços em volta da mais nova e a chacoalhou com força.
- Parabéns, pirralha! - Os dedos calejados do guitarrista solo da Paradise 101 apertou o nariz minúsculo da patinadora. empurrou o amigo para longe e deu um tapa em seu braço.
- Vocês precisam de limites! - A mais nova apontou com seu dedo indicador na direção dos membros da banda de seu irmão e, sem aviso algum, virou em seus calcanhares e seguiu até a mesa a qual Dougie e May organizavam a fim de beliscar algo com Seoul sempre em seu encalço.
- Bom dia, -ah! - May abriu um sorriso doce e ofereceu para a garota um copo de seu chá preferido de baunilha e mel.
- Bom dia, unnie. - A espreguiçou-se e encarou a mesa com atenção. Seu estômago roncou exigindo ser alimentado o mais rápido possível.
- Vou fazer panqueca para você. - Dougie informou antes de andar em direção à cozinha da casa. maneou a cabeça de forma positiva e deixou seu olhar pousar sobre Simon. Observou a figura do loiro extremamente concentrado em afinar seu baixo. Um sorriso maroto surgiu em seus lábios ao observar com extrema atenção os braços torneados do mais velho. Gazonni terminou de afinar o instrumento e levantou seu olhar em direção a irmã mais nova de seu melhor amigo e companheiro de banda. O sorriso em seus lábios aumentou e de forma charmosa os dedos calejados do baixista passearam pelos fios loiros bagunçados. As mãos foram de imediato para os bolsos do short e o casal trocou um olhar faiscante entre si.
- Ele é muito fofo. - May informou ao observar a visão da cunhada. arregalou os olhos, jogou a cabeça para o lado e soltou uma gargalhada alta ao ser pega em flagrante.
- É, não é? Mas só serve para dar uns beijinhos, mais do que isso é dor de cabeça na certa.
- Você é nova, tem mais de se meter em problemas mesmo. - Ela piscou - Douglas que não me escute. - balançou a cabeça com um sorriso bobo.
- É, mas com o Dougie por perto é impossível tentar desenrolar algo. - Riu e o som da campainha soou ao fundo.
- , você pode atender? - Derek interrompeu sua conversa com Miguel para indagar a filha. A garota concordou e seguiu até a porta de casa com Seoul em seu encalço.
Ao abrir a porta da casa dos , um casal se revelou em sua frente. Como um clique reconheceu o senhor de cabelo grisalho chanel do dia anterior em seu campeonato e franziu o cenho em confusão.
- Pois não? - Perguntou confusa e Seoul latiu enfusivo.
- Precisamos conversar com e seus pais. - A senhora informou com o tom de voz extremamente encantado e os olhos marejados.
- É, sou eu. - A garota respondeu confusa e olhou em direção a área de lazer - Vou chamar meu pai, só um instante. - informou cordial. O casal observou a silhueta da menina com extrema atenção. Raymond segurou a mão de Dorine, tinha medo que a mulher pudesse sucumbir de nervoso a qualquer momento. Afinal, aquele momento era esperado por eles há 14 anos.
XXX


observou na direção da porta de casa de forma ansiosa. Quem poderia ser aquele casal parado na sua frente? Será que eram olheiros de alguma faculdade? Se fossem, não estariam eles adiantados 3 anos para lhe ofereceram uma bolsa? informou para o casal esperar e foi até seu pai. Derek deixou Miguel encarregado de cuidar da grelha, e Dougie resolveu também prestar atenção a distância na conversa do pai. Depois de alguns minutos de conversa entre o proprietário e os visitantes, Derek encaminhou o casal até seu escritório, após acomodá-los seguiu até o segundo andar da casa para acordar Wen. Ao ver a mãe descer junto com o pai minutos depois, abriu a boca surpresa. Um frio nervoso se manifestou dentro da sua barriga e a jovem parou em pé ao lado do melhor amigo. May e Dougie também se juntaram aos dois, e formaram um semicírculo em volta da churrasqueira.
- O que vocês acham que pode ser? - a mais nova indagou.
- Talvez seja um patrocinador. - Dougie cruzou os braços e respirou fundo. A mão direita passou pela barba enquanto sua mente trabalhava em várias suposições.
- Podia mesmo ser! - as pupilas de brilharam em excitação.
- Mas você deveria estar presente nessa conversa, não? - Miguel indagou curioso e sinalizou com os braços que não sabia de nada.
- Meus pais vão se certificar primeiro se vale a pena. Depois vão comunicar . - Dougie respondeu pensativo, e May puxou uma risada para descontrair o ambiente.
- Parece até que não os conhece, Mi. - a mais velha deu alguns tapinhas no ombro do garoto, que alguns centímetros mais alto que ela.
- Hum… - murmurou e espremeu os olhos enquanto processava alguma ideias - Vou tentar ouvir alguma coisa. - informou.
- -ah! - Dougie a repreendeu com o olhar - Quando for a hora vão lhe chamar.
- Aigoo! - a garota bateu o pé e resolveu caminhar até a banda do irmão do meio. Iria pedir para começarem a tocar logo, pelo menos assim poderia se distrair com seu hobbie preferido: cantar e ouvir música.

XXX


Wen surgiu na área de lazer sem fazer muito alarde, ao perceber que sua chegada não foi percebida a treinadora permitiu-se observar a cena a sua frente. Seus pulmões inflaram cheios de medo e um aperto dolorido se instalou em seu peito. A sua frente havia uma cena bem comum para ela, seus três filhos estavam reunidos com alguns amigos, divertindo-se juntos. Todos os presentes estavam sentados em um círculo com Seoul entre eles, estirado na grama e curtindo uma soneca. Dougie, tinha em mãos seu celular e filmava o dueto dos irmãos. segurava um microfone, e Danny tocava violão. Leo era o responsável pela percussão, e Simon completava o número com um baixolão. A voz grave de cantarolava Try da P!nk. May e Miguel acompanhavam em coro, todos estavam entretidos com o pocket show dos jovens. A patinadora permitiu-se curtir a paz por mais alguns segundos, o furacão que estava por vir iria devastá-los em graus imensuráveis. E como uma bola de neve de culpa, ela começou a recriminar todas as mentiras e omissões contadas à . Seria a sua menina capaz de perdoá-la algum dia? Será que ela iria se mudar para o outro lado do país? Tantas perguntas, tantos temores… A cirurgiã respirou fundo e se aproximou dos jovens. Dougie foi o primeiro a perceber a presença da mãe, o advogado levantou com um sorriso caloroso e deu um beijo na bochecha da médica.
- Anasaheyo, Omma! - o garoto curvou o corpo em respeito e Wen o surpreendeu dando um beijo em sua testa. Miguel deu um tchau efusivo para a mais velha, na qual ela retribuiu com um sorriso esforçado.
- Bom dia, meninos. - a matriarca dos deu um cumprimento geral e dirigiu seu olhar para a filha - , você pode vir comigo por alguns minutos, por favor?
- Claro, Omma. - a estudante levantou com o sorriso ansioso, entregou o microfone para Dougie e seguiu a mãe até a sala de estar dos . Wen parou de forma brusca, fazendo frear repentinamente também, quase atropelando a mãe. As mãos, extremamente frias da técnica, envolveram a mais nova num abraço inesperado. demorou alguns segundos para processar, mas logo correspondeu ao afeto da mãe.
- Não se esqueça o quanto eu te amo. - a senhora soprou no ouvido da caçula em coreano. A estudante concordou com a cabeça.
- Eu também te amo, Omma. - respondeu na mesma língua. Os olhos da médica encheram de lágrimas, e antes que ela despencasse num pranto desesperado, entrelaçou a mão com a da mais nova e seguiram para o escritório de Derek.

Os olhos dos senhores sentados nas cadeiras em frente ao Sr. foram como imã sobre . A adolescente lhes ofereceu um sorriso educado e subiu o olhar para o pai. Derek, geralmente um homem centrado e carismático, tinha os lábios encostados nas mãos entrelaçadas e o olhar perdido. Ao ver o clima tenso instalado no escritório do pai a estudante soube na hora: algo estava errado. Wen indicou a única cadeira ainda vaga do local para ela sentar. Acatou a ordem da mãe e a sensação de olhares queimando em suas costas lhe incomodou um pouco. Ao acomodar-se na cadeira de couro a adolescente procurou encarar seus pais a fim de obter respostas e evitar os olhares intensos dos desconhecidos.
- … - a voz de Derek saiu trêmula pela primeira vez ao referir-se à sua caçula - venha conhecer Raymond e Dorine Tuan. - Sr. informou em coreano. A adolescente levantou incerta como proceder. Mas no fim curvou-se de forma educada e voltou a sentar de novo. A mulher desconhecida caiu em prantos, assustando a patinadora um pouco mais. Um arrepio esquisito subiu sobre sua espinha e seus olhos confusos encararam seus pais atordoados, exigentes por explicação.
- Filha… - Wen encarou a caçula com os olhos cheios de lágrimas e segurou suas mãos, causando um pequeno choque na mais nova com o seu toque frio.
- Está tudo bem? - a mais nova piscou os olhos algumas vezes, observou em silêncio e rapidamente o casal a sua frente, tentava entender o que estava acontecendo. Mas nenhum insight lhe vinha à cabeça, deixando-a ainda mais nervosa.
- Sim… - Derek levantou de forma repentina, deu alguns passos até a mais nova, passou o braço pelo ombro da filha e depositou um beijo no topo de sua cabeça - como dissemos antes, esses são Raymond e Dorine. Eles são taiwaneses, mas moram há muitos anos na Califórnia. Eles vieram de lá pra cá pra te conhecer. - Derek concluiu e inspirou sôfrego.
- Olá! - a adolescente proferiu num tom cordial, abriu um sorriso educado e curvou-se conforme as tradições da educação coreana que seus pais tinham lhe dado.
- Oi! - o senhor taiwanês acenou de volta com um sorriso enorme. - De onde vocês são? - a jovem observou os senhores a sua frente atentamente. Dorine ainda soluçava de emoção, mas respirava fundo para conseguir responder a pergunta da mais nova.
- Los Angeles. - mama Tuan respondeu com a voz embargada. concordou com a cabeça e seu olhar foi em direção ao de sua Omma. Ela queria entender o que estava acontecendo. A cada segundo que passava o clima ficava ainda mais estranho.
- … - Wen segurou as mãos da filha, a adolescente lhe deu um apertão sem muita força de incentivo e logo depois fez a mesma coisa com o pai.
- Seja lá o que for, vocês são os melhores pais do mundo! - a caçula dos disse para incentivar os pais, e os donos da casa sentiram seu coração quebrar em mil pedaços ao ouvir a frase carinhosa de .
- Princesa, - Derek franziu o cenho e iniciou um carinho circular com o dedão na mão da patinadora - preste atenção no que eu e sua Omma temos pra te falar, está bem? Escute até o final, okay? - seu tom saiu como uma súplica e engoliu em seco. Derek era um pai extremamente protetor. Principalmente com , a sua única filha mulher e a caçula. Por isso, a jovem ficou tensa internamente. A ansiedade lhe atacou e de um segundo para o outro ela teve vontade de levantar e andar em círculos pela sala, mas não o fez. Obrigou-se a continuar sentada até ouvir o assunto tão importante de seus pais.
- Okay, Sr. Derek! - concordou e pousou o olhar com extrema atenção sobre o rosto da mãe.
- Filha, os Tuan são pais de cinco filhos. Três deles moram em Los Angeles, um deles na Coréia e bem... uma, infelizmente, foi sequestrada logo que nasceu. - o coração da jovem se apertou e ela encarou o casal a sua frente com extrema compaixão - E há muitos anos eles buscam pelo paradeiro dessa criança. Os anos foram passando e as pistas ficando cada vez mais difíceis. Até que há alguns meses eles foram surpreendidos com uma pista certeira e eles finalmente encontraram a filha biológica deles.
- Uau! - exclamou com a boca aberta em surpresa - E nós conhecemos ela?
- Sim. - Derek apertou o ombro da caçula.
- E quem é? - os olhos de miraram a mãe extremamente curiosa. Uma vontade surgiu dentro de si de poder ajudar os Tuan a reencontrarem a filha perdida, ainda mais se fosse alguma amiga sua, faria questão de dar todo o apoio para ela.
- Você, . - Wen falou tão baixo que por alguns segundos a mais nova pensou ter ouvido errado, mas logo uma risada inesperada soou por sua garganta.
- Para de brincadeira, Omma! - a patinadora deu um tapa na perna da mãe, divertindo-se com a piada dos pais.
- Não é brincadeira, filha. - as mãos da treinadora passearam pelo cabelo liso da menina e aos poucos a expressão da caçula dos foi mudando de divertida para uma expressão extremamente fechada.
- Como é que é? - a garota levantou rápido e encarou os até então pais de uma distância que podia encarar os dois.
- Princesa, agora você precisa entender o outro lado da história. - Derek pediu com os olhos marejados, e se assustou por alguns segundos, mas logo a raiva começou a dominar seu corpo conforme a ficha ia caindo pra si. Seus pais haviam mentido para ela a vida toda, toda a sua vida havia sido baseada em mentiras e omissões das pessoas as quais mais confiava no mundo. Sem contar o fato de os dois estranhos à sua frente serem seus pais verdadeiros. Ela não era e nunca havia sido .
- Que lado da história? Qual vai ser a mentira que vocês vão me contar? - a jovem cuspiu as palavras sem medir o teor da agressividade delas. Wen tampou o rosto com as mãos extremamente envergonhada e Derek tentou segurar o pulso da mais nova, mas a jovem se livrou da mão do "pai" em seguida. O casal Tuan encarava a jovem a sua frente com extrema admiração, loucos para poderem dar o abraço que esperaram toda a sua vida. Mas antes que alguém pudesse falar qualquer coisa, num rompante, correu como um raio para fora do escritório, e como um trovão passou pela porta de entrada da casa, surpreendendo não só os ocupantes do escritório, mas como também o pessoal da área de lazer. Nem mesmo Seoul foi capaz de acompanhar os passos apressados da atleta. A única coisa a qual se passava na mente da garota era se afastar o máximo possível de tudo dos . Ela não sabia para onde iria, apenas que qualquer lugar era melhor do que ali.

XXX


Os pés de a levaram por conta própria pra fora da casa dos por horas. Nem ela mesmo conseguia calcular a quantas horas sua mente a fazia caminhar para o mais longe possível de sua casa. Seu peito ardia em brasa mesmo com a temperatura quase negativa da cidade, cada inspiração e expiração eram dados com dificuldade, se não fosse pela fumaça por conta do frio, a garota podia jurar que não estava respirando. Em sua cabeça as palavras de seus até então pais rondavam sua mente, as lágrimas desciam espessas por suas bochechas vermelhas e tudo o que mais queria era fechar os olhos e descobrir-se dentro de um pesadelo. Num ato desesperado fechou os olhos por alguns segundos, mas ao focar as luzes do entardecer, o grito de choro rompeu mais forte por sua garganta. colocou a mão sobre o peito e tentou arrancar de forma ilusória seu coração por cima do casaco grosso. E sem rumo algum, a estudante caminhou até encontrar a trilha que a levaria para o seu mirante preferido para observar a cidade. A sua até então cidade natal. Seu corpo fazia o caminho tão conhecido em automático, já sua visão estava tão turva por conta das lágrimas que mal enxergava um palmo à sua frente. Os soluços romperam junto com as memórias da infância, aumentando seu desespero.

FLASHBACK ON

Janeiro de 2004
Derek era um dos cirurgiões cardíacos mais renomados do Estados Unidos, o que lhe classificava como um homem extremamente ocupado e cheio de compromissos. Porém, algumas raras vezes ao ano tirava um dia inteiro para passar com os seus filhos. Derek era completamente apaixonado por seus três herdeiros e se esforçava única e exclusivamente em nome do bem-estar e conforto deles. De todos os três, desde muito nova, era a mais apegada e mimada pelo pai. Por isso quando os dias de folga do mais velho aconteciam, ela fazia questão de aproveitar o máximo. Naquela tarde de sábado congelante, a pequena de 6 anos de idade sentia-se radiante. Derek havia arrumado finalmente tempo para levar e seu melhor amigo, Miguel, para patinar no lago congelado da vizinhança deles. O pequeno Vidal terminava de contar o último capítulo de Digimon para a amiga enquanto Derek colocava os equipamentos de segurança na sua filha caçula. Wen e ele haviam comprado todas as peças que impedissem a garota de fraturar alguma parte de seu corpo. Ela era não só a caçula, mas a única menina deles. O cuidado com sua segurança devia ser redobrado. Ao terminar de colocar o capacete numa de bico, Derek deu dois toquinhos no capacete roxo da garota e começou a colocar os equipamentos em um Miguel tagarela.
- Appa… - a voz da menina protestou - nós estamos perdendo tempo colocando esses equipamentos inúteis. - a garotinha com o cabelo preso numa trança do lado direito, vestida com calça jeans e casaco preto parecido com os de esquimós, cruzou os braços e piscou o olhar com entusiasmo ao observar os movimentos das pessoas patinando.
- , os equipamentos são ganho de vida. - o mais velho ralhou mais uma vez - Você e o Mi precisam patinar em segurança.
- É para não batermos a cabeça, né, tio? - o loiro ofereceu o sorriso banguela ao mais velho, Derek concordou com a cabeça e levantou a mão para Miguel lhe dar um high five - Isso mesmo, campeão.
- Mas não tem ninguém de equipamento aqui. - protestou em coreano e as mãos gordinhas de um Miguel rechonchudo de 7 anos atingiram a pele alva da garota com um beliscão. A menina deu um grito contido e bateu na mão do amigo.
- Eu não gosto quando você fala coreano com seus pais e irmãos. Eu não entendo nada. - Miguel deu de ombros, e rolou seus olhos.
- Foi sem querer, eu nem percebi que não estava falando em inglês. - a garota deu de ombros e aumentou o bico em seus lábios.
- Aigoo… - Derek resmungou risonho com um sorriso travesso delineado nos lábios. As mãos do homem bagunçaram as franjas lisas amassadas pelo capacete das duas crianças - Não tem negociação do equipamento de segurança. Parem de implicar um com o outro e vamos patinar!
- Appa! - abriu um sorriso enorme, deixando a mostra as janelas dos dentes de leite que haviam caído. Sem titubear, a pequena americana deu um passo enorme e finalmente colocou seus patins sobre o gelo pela primeira vez. Seu corpo curvou de forma torta para frente e seu coração acelerou com a excitação de estar patinando sobre o gelo. A garota asiática fechou os olhos e abriu os braços a fim de não cair.
- Tenham cuidado, crianças. Estou atrás de vocês. - com o dedo em riste e o olhar atento, Derek observou a desenvoltura inicial de cada um sobre gelo.
- . - um grito trêmulo escapou pela garganta do menino enquanto lutava com seu corpo para se equilibrar no gelo. Seus braços balançavam desengonçados pendendo seu corpo a cada segundo pro lado, enquanto as pernas escorregavam pelo chão congelado.
- Miguel… - a pequena futura patinadora abriu os olhos e levou as mãos até a boca para rir da cena cômica do melhor amigo patinando, o riso se agravou no segundo o qual Vidal caiu de bunda contra o piso natural.
- Para de rir de mim! - o garoto cruzou os braços e protestou com um bico nos lábios, fazendo rir mais alto. A até colocou os braços sobre a barriga para rir com mais intensidade.
- ! - Derek franziu o cenho e repreendeu a mais nova com o olhar - Quando um amigo cair ajude-o a levantar em vez de rir da cara dele. - estendeu as mãos para um Miguel de semblante fechado.
- Mas foi engraçado. - a garota deu de ombros e limpou as lágrimas de tanto rir.
- Quero ver ser engraçado… - Vidal marchou com os patins sobre o gelo com o rosto numa careta determinada até a melhor amiga e a empurrou pelo gelo a fim de fazê-la chorar. Derek negou com a cabeça ao ver o casal de amigos implicando um com o outro, mas para decepção de Miguel, como se tivesse o manual de instruções, deslizou com facilidade pelo chão do lago congelado. Sr. observou a filha dar seus primeiros passos no gelo com um sorriso admirado nos lábios.
FLASHBACK OFF

A adolescente urrou de dor com as lembranças da primeira vez que seu até então pai havia lhe levado para patinar pela primeira vez. Nunca havia se esquecido como havia se sentido tão feliz com a adrenalina de deslizar pelo gelo pela primeira vez. Seus olhos piscaram e em meio a fungadas ela tentou limpar as lágrimas de seu rosto. Seu pulmão ardia e sem rumo algum a adolescente subia colina acima. Ela não era mais , sua vida toda havia sido baseada em uma mentira. Até mesmo seus irmãos não fizeram questão alguma de lhe contar que era adotada. De alguma forma ela estava dentro de uma vida que não lhe pertencia. Quem ela devia ter sido e não foi? Ainda havia tempo para recuperar os anos roubados?
Tantos pensamentos lhe atormentava que a jovem nem percebeu quando se aproximou para perto da borda do precipício e deu um passo em falso. O grito desesperado escapou pela garganta e como um milagre, braços fortes lhe prenderam pelo quadril. As mãos masculinas a seguraram com força, trazendo-a contra seu corpo. virou-se num tranco só ao reconhecer o perfume de Miguel, encaixou a cabeça contra o corpo do garoto e chorou de forma ainda mais desesperada. O mais velho ficou em silêncio e iniciou um carinho sem pressa com a mão direita pelos fios pretos e lisos da melhor amiga.
- Você quer ir pra casa? - Miguel perguntou com cautela depois de uma hora em silêncio, seus olhos analisaram o rosto da amiga com precisão.
- Eu não tenho mais casa. - a garota respondeu e Miguel inspirou fundo.
- Eu sempre vou ser sua casa. - ofereceu um sorriso doce para . A garota concordou com a cabeça e sem falar palavra alguma o jogador entrelaçou a mão dos dois e começou a caminhada até seu carro.


Capítulo 03

- Mi… - a voz embargada da patinadora chamou pelo mais velho. Os dois já se encontravam dentro do Jeep do pai do capitão em silêncio.
- Sim, … - o atleta respondeu no segundo seguinte com o apelido de infância da menina, desviou o olhar por alguns segundos para direção da amiga e entrelaçou a sua mão morna com a fria da mais nova.
- Talvez nós não estivéssemos destinados a nos conhecer. - a garota soltou um soluço de choro alto e voltou a cair no choro copioso mais uma vez ao dar-se conta que toda sua vida não passava de um acumulado de mentiras.
Miguel, com os olhos marejados, abraçou a patinadora com força, apertando-a o mais firme possível, queria mostrar a garota que não iria a lugar nenhum longe dela.
- Não pense assim. - sussurrou e deslizou as mãos pela extensão do cabelo liso da garota de forma carinhosa - Nós daríamos um jeito de nos conhecer.
- Eu não sei o que fazer, Mi. - as pupilas sempre tão brilhantes da asiática encararam o atleta extremamente perdidas. As mãos calejadas de Vidal ajeitaram uma mecha do cabelo da amiga atrás da orelha e depositou um beijo em sua testa.
- Você não precisa descobrir agora. Amanhã nós dois vamos descobrir juntos o próximo passo a ser tomado. - soprou num tom calmo e abraçou mais uma vez a amiga.
- Obrigada por estar ao meu lado. - encostou a cabeça no peito de Miguel e fechou os olhos em meio a soluços de choro.
- Sempre estarei, . - Vidal colou os lábios de forma suave sobre a bochecha molhada de lágrimas da melhor amiga e depositou um beijo carinhoso. E por bons minutos se mantiveram entrelaçados um a presença do outro num silêncio confortável. Miguel levantou o rosto da amiga e lhe ofereceu um sorriso compreensivo - Você quer comer? Quer dormir na minha casa? - respondeu com dois acenos de cabeça. Para a primeira pergunta a movimentou em negação, e em seguida concordou positivamente. Dormir longe de “casa” era o que mais necessitava naquele momento. Ela precisava espairecer a cabeça e processar as informações lançadas sobre seu colo como bombas atômicas. Com cuidado, Miguel ajeitou o corpo da melhor amiga no encosto do banco, colocou o cinto de segurança em volta da “” com delicadeza, em seguida pôs o seu e deu partida em direção a sua casa.

XXX

O corpo miúdo de dormia serenamente embaixo das cobertas azuis de Miguel Vidal, depois de horas de luta contra o cansaço emocional, físico e mental. A garota estava deitada sobre o braço do amigo, que por sua vez observava sua respiração subir e descer. Seu coração batia tão apertado quanto o da “”. Como ela iria viver dali para frente? Como de um segundo para o outro a vida de ambos podia ser transformada de tal maneira? E se os pais adotivos de quisessem a levar para LA? Como seria sua rotina sem o sorriso de sua melhor amiga para lhe iluminar? Como seria para processar o fato de pertencer a outra família? Seria ela capaz de perdoar os ? Um ímpeto de raiva queimou em seu peito em relação a sua segunda família. Por que Derek e Wen haviam omitido para a verdade sobre suas origens? Do que eles tinham tanto medo para manter a verdade escondida? Sua cabeça começou a latejar com tantos pensamentos, no relógio já passavam das seis da manhã e ele não havia conseguido pregar os olhos nem por um segundo sequer. Estava alerta a qualquer necessidade de e quando se deu conta os raios de sol tentavam de forma tímida transformar o clima de Minneapolis menos congelante. Fechou os olhos mais uma vez, no minuto seguinte seu celular vibrou sobre seu criado-mudo. O garoto esticou o braço livre e tentou ao máximo não mexer muito para acordar . A garota só havia conseguido cair no sono após o empréstimo de um remédio de dormir de Claire Vidal, também conhecida por mãe de Miguel. O cenho do atleta franziu ao ver o nome de Daniel no visor do telefone. Contou até três mentalmente e atendeu a ligação sob o comando de sua racionalidade.
- Pois não. - sussurrou o mais audível possível.
- Mi! Você tem notícias da minha irmã? - Danny perguntou extremamente desesperado, e um solavanco atingiu o coração do atleta. Mas ele até podia compreender o estado do irmão de sua melhor amiga, mais algumas horas e os completariam 24 horas sem informação alguma da caçula da família.
- Tenho. - Miguel respondeu após ponderar se dava o paradeiro da garota ou não - Ela está comigo. Estou acalmando-a para conversar com vocês.
- Ela está acordada? - Danny replicou num tom mais aliviado.
- Não, demos um calmante natural para ela dormir. Ela está muito agitada e assustada ainda. - os olhos do capitão percorreram pelo rosto da mais nova.
- Entendo… Quando ela acordar, por favor, a convença de voltar para casa. Nós precisamos conversar. E a lembre que acima de tudo nós a amamos para sempre. - os olhos mel esverdeados de Vidal arregalaram ao ver pela primeira vez na vida Daniel sendo sério e sentimental.
- Pode deixar. Farei o meu melhor para convencê-la. - respondeu sincero - Até mais, Danny. - finalizou a chamada e fechou os olhos mais uma vez para tentar descansar um pouco. Ele não sabia o que esperar do “dia seguinte” quando acordasse. Precisava estar no mínimo descansado para enfrentar o turbilhão de emoções que estavam por vir.

XXX

abriu os olhos e encarou o teto do quarto de Miguel e por alguns instantes, acreditou estar imersa num grande pesadelo de muito mau gosto nas suas últimas 24 horas. Porém, como uma avalanche, a realidade lhe atingiu e a garota só não soltou um grunhido alto porque sua garganta estava dolorida e seca com os gritos desesperados do dia anterior. Mesmo antes de abrir a boca já sabia que estava rouca. Conhecia seu corpo e não se enganava ao diagnosticá-lo. Ao seu lado, Miguel a observa com o semblante imerso em preocupação.
- Boa tarde. - informou e depositou um beijo na bochecha da amiga.
- Que horas são? - como o esperado a voz da garota saiu rouca e extremamente grave. Seu corpo estava um pouco mole e ainda se encontrava em estado de sonolência.
- Três horas da tarde. - informou após verificar o visor do celular. observou as olheiras ressaltadas do amigo e deslizou o dedão sobre sua bochecha.
- Você descansou? - indagou preocupada. Miguel concordou de forma positiva, mordeu o lábio inferior e ponderou por alguns segundos se deveria falar sobre a ligação de Daniel.
- O Daniel ligou. - as palavras pularam de sua garganta ao concluir que o certo era não esconder mais nada da amiga. Os olhos mel esverdeados do atleta cravaram sobre a mais nova e por estarem abraçados notou o corpo da patinadora travar.
- Hum… - resmungou e encarou o teto sem saber como reagir - E?
- Eles pediram para lhe convencer a conversar com eles e para te lembrar o quanto a amam. - ao fim da frase a estudante soltou um riso amargo e rolou para fora da cama com o semblante moldado em descrença na cara de pau de seus “familiares”.
- Eles só podem estar de brincadeira com a minha cara mesmo. - resmungou e seguiu num passo preguiçoso para fora do quarto de Miguel em direção ao banheiro no meio do corredor.

encarou seu reflexo no banheiro, o qual Miguel dividia com Leon, seu irmão mais novo de oito anos de idade. Ao deparar-se com sua imagem encontrou um espectro de si mesma. Seu rosto estava mais pálido que o normal, o cabelo estava um completo caos, igual seus sentimentos, e seus olhos eram envolvidos por profundas olheiras. A patinadora se encontrava uma completa bagunça, por dentro e por fora. Abriu a torneira e as mãos se uniram em um formato de concha, deixou ser preenchida com a água gelada e levou o líquido até o rosto, dando um choque de temperatura em sua pele. grunhiu um pouco e um bico se formou em seus lábios mais uma vez. Um bolo se formou em sua garganta e seu peito subiu e desceu com uma arfada cansada. Ela iria cair no choro mais uma vez, mesmo estando cansada de expelir tantas lágrimas. Os olhos da garota encararam o chuveiro e um estalo ocorreu em sua mente: ela não tinha nada seu consigo, além da sua roupa do corpo. Havia saído de casa num rompante impulsivo. Chegou a conclusão que mais cedo ou mais tarde teria de voltar a casa dos para pegar alguns pertences de necessidades básicas. Abriu o armário embaixo da pia e pegou uma escova de dente nova em folha, a tirou da embalagem e colocou a pasta de Miguel sobre ela e começou a escovar os dentes sem a mínima vontade de acabar com a atividade para ter de encarar o cruel mundo de mentiras que a esperava. Fez sua mente se desligar de qualquer outro pensamento a não ser do movimento do objeto em sua boca por cinco minutos. Terminou de limpar a boca e voltou para o quarto de seu melhor amigo. Miguel ofereceu um sorriso incentivador para a melhor amiga e levantou a mão direita em forma de um sinal positivo.
- Nós perdemos a aula. - a garota concluiu ao dar-se conta em qual dia da semana estavam.
- Sim. - o dono do quarto concordou sem fazer muito alarde.
- Eu não tenho outra roupa. - informou e verificou no relógio de pulso a hora - Vou matar meu treino. - os olhos do mais velho se arregalaram em surpresa e sem perceber no segundo seguinte os braços do garoto já estavam em volta da menina.
- Eu posso passar na sua casa e pegar o que você quiser trazer para cá. - Vidal depositou um beijo na testa da garota e concordou com a cabeça. Sentiu-se extremamente aliviada e agradecida de ter Miguel Vidal ao seu lado.
- Não sei o que seria de mim sem você. - confessou e encostou a cabeça no peito do capitão. A mão direita de Miguel iniciou um carinho sem pressa pelos fios lisos de e apertou o braço esquerdo em volta da cintura da garota, fazendo-a sentir extremamente protegida.
- Você nunca vai precisar descobrir isso. - Miguel respondeu sincero e por alguns segundos esboçou um sorriso de gratidão.
- Eu te amo. - os olhos negros da garota encararam as pupilas do mais velho que sempre exalavam sinceridade e compaixão.

XXX

Miguel, com as mãos trêmulas de nervosismo, tocou a campainha da casa dos enquanto observava a lista a qual tinha lhe passado de coisas para colocar em sua mala. Não demorou nem um minuto e a porta foi aberta por uma Wen com os olhos vermelhos de choro e decepcionados. A treinadora abriu na esperança de dar de cara com a sua filha caçula, porém num ato totalmente impulsivo a mais velha abraçou o melhor amigo de sua filha. Num primeiro instante o jovem congelou e ficou sem saber como reagir, mas após alguns segundos completou o abraço totalmente desconcertado com a demonstração desesperada e totalmente inesperada da mãe de sua melhor amiga. Em todos seus sete anos de amizade com , nunca havia presenciado a matriarca dos direcionar um abraço sequer em seu marido. Wen sempre fora uma mulher extremamente dedicada ao seu trabalho, uma mulher pontual, de uma inteligência fora do normal, observadora e racional. Derek sempre fora a emoção da relação, era até engraçado ver um homem de 1,80 sendo a parte “delicada” da relação. Por isso, Miguel arregalou os olhos em surpresa.
- Como ela está? - Wen levantou o olhar e perguntou com o tom apressado. A médica passou uma mão na outra na esperança de esquentar um pouco sua pele.
- Indo. - Miguel informou, coçou o canto no rosto e arfou sem saber como proceder.
- Ela está se alimentando bem? Ela nos odeia muito? - as olheiras no rosto da mais velha denunciavam o fato de não ter pregado o olho nem por um segundo. A culpa e preocupação estavam a consumindo tanto que a dor havia se tornado física. A boca do estômago da patinadora ardia em brasa em consequência de uma gastrite nervosa.
- Sim. Ela está muito magoada e perdida. - o moreno fez uma careta para mostrar que sentia muito por aquela situação e apontou na direção do quarto da amiga - Preciso pegar algumas coisas. - informou.
- Para quê? - Wen indagou o garoto e colocou a mão sobre o peito, num ato esperançoso de acalmar as batidas frenéticas e pesadas de seu coração.
- Ahn… a vai passar uns dias na minha casa. Até ela se acalmar e conseguir conversar de forma civilizada. - Vidal curvou a boca e deu de ombros para demonstrar que estava empenhando-se em acalmar a amiga.
- Okay. - a treinadora concluiu derrotada, cruzou os braços e abaixou o olhar envergonhado por ter de envolver Miguel na bagunça de suas mentiras - O Seoul... ele está bem triste sem a por perto.
- Se não se importarem, ele pode ficar lá em casa enquanto a tiver por lá. - o capitão de hockey processou a solução em alguns segundos e Wen não teve outra saída a não ser concordar. O garoto apontou na direção do quarto mais uma vez e a médica deu um passo para atrás e deixou o jovem caminhar até o quarto de sua filha, com a sensação de seu coração estar sendo rasgado ao meio.

XXX

Na manhã seguinte havia decidido não ir a escola de novo. Porém, dessa vez Miguel havia a deixado descansando e foi cumprir suas atividades escolares. Se perdesse mais um treino do time de hockey o treinador lhe daria uma suspensão na certa. Por isso, ao abrir os olhos, apenas encontrou um empolgado Seoul se enfiando por debaixo das cobertas para ganhar carinho. A garota atendeu a ligação ao ver o número desconhecido, pronta para desligar na hora caso fosse alguém dos fazendo contato por um telefone diferente.
- Pois não… - atendeu com voz de sono e jogou o corpo de novo contra a cama macia de Miguel. A mão livre começou a fazer um carinho sem pressa nos pelos de Seoul.
- Vi... ? - uma voz feminina super doce indagou do outro lado da linha, intrigando a jovem.
- Sou eu mesmo. - a garota confirmou e espremeu seus lábios um contra o outro.
- Eu sou a sua mãe biológica. - a senhora informou e a respiração da patinadora prendeu por alguns segundos. A senhora do outro lado da linha esperou ansiosa por alguma reação da sua recém-encontrada filha, mas ao não ter nenhuma resposta achou melhor seguir sua fala - Eu e o seu pai biológico gostaríamos de encontrá-la para conversarmos. Nós estamos muito ansiosos para te conhecer melhor. - fechou os olhos ao sentir as lágrimas se formarem em seus olhos novamente. Dentro de si um turbilhão de sensações fervilhavam e seu primeiro instinto foi querer recusar. Ela não estava pronta para conhecer a vida que lhe fora roubada, mas quanto mais ela prolongasse o momento, mais tarde ela iria descobrir quem ela realmente era.
- Okay. Podemos nos encontrar hoje no horário do almoço. - informou num ímpeto de coragem. Dorine abriu um sorriso aliviado do outro lado ao ouvir uma resposta positiva.
- Obrigada, querida. Você não sabe o quanto estamos felizes em poder te encontrar. - a senhora respondeu com a voz embargada de emoção e concluiu ter tomado a decisão certa. De alguma forma uma intuição esperançosa acendeu em seu peito. Teria ela a chance de encontrar amor e carinho em um novo lar livre de mentiras?
- Nos vemos no Key’s. Passo o endereço por mensagem. - concluiu de forma cordial.
- Obrigada, . - Dorine falou mais uma vez completa de carinho e respirou fundo para tentar controlar a crise de ansiedade que estava iniciando em seu corpo.
- Até mais tarde. - a jovem replicou antes de desligar o telefone e esconder-se mais uma vez embaixo do travesseiro para chorar copiosamente sobre o olhar atento de seu golden de estimação.

XXX

Enquanto os olhos de Dorine e Raymond Tuan observavam a porta do estabelecimento extremamente ansiosos pelo tão sonhado encontro, travava uma batalha interna na esquina do restaurante. Parte de si queria entrar de uma vez no estabelecimento e conhecer um pouco mais de sua história, outra parte queria sair correndo e fingir que os últimos acontecimentos não passavam de um sonho ruim. Mas toda vez que fechava os olhos as perguntas lhe interpelavam.
Ela não teria paz tão cedo se não começasse a juntar as peças daquele quebra-cabeça tão complicado e bagunçado que havia se tornado sua vida. Por isso, respirou fundo e deu os passos finais até o interior do bar café.
O casal Tuan respirou aliviado na hora em que reconheceram a silhueta de sua filha caçula. Ambos levantaram e cumprimentaram a jovem com um aperto de mão, segurando o impulso de abraçá-la. sentou logo em seguida e juntou as mãos sobre seu colo e olhou sem graça para o casal a sua frente.
- Estamos muito felizes de você ter concordado em conversar. - Dorine ofereceu um sorriso doce para a mais nova e apontou para o cardápio - O que gostaria de tomar?
- Nada. - respondeu cordial, seu estômago estava embrulhado por conta da pressão da situação.
- Você não gosta daqui? - Raymond indagou a possível filha com preocupação.
- Não, é só que não estou com vontade mesmo. - ajeitou a franja de forma nervosa e encarou as suas unhas pintadas de azul para fugir da intensidade a qual o casal lhe encarava. Depois de alguns segundos, tomou coragem e coçou a garganta antes de levantar os olhos de novo - Então... por que vocês acham que sou filha de vocês? - seu tom saiu firme. Dorine e Raymond se encararam por alguns segundos e sem trocar palavra alguma decidiram que era melhor Dorine iniciar a abordagem.
- É uma longa história. Mas queremos esclarecer tudo da melhor maneira possível. Porém, se ficar informação demais para você processar, pode nos interromper a qualquer momento, okay? Não queremos lhe carregar ainda mais com a loucura de toda essa situação. - a Sra. Tuan deu um sorriso carinhoso para a mais nova, apenas concordou com a cabeça para incentivar a sua suposta mãe biológica continuar - Meu nome é Dorine Tuan, sou mãe de cinco filhos, contando com a nossa caçula. Nós somos tawaineses, mas vivemos há muitos anos nos Estados Unidos. Quatro dos nossos filhos são americanos, apenas o nosso filho Joe é brasileiro. Mas isso são informações que daremos em um outro momento. Agora precisamos lhe contar a sua história e porque achamos que você é a nossa Vick. - a boca de abriu em surpresa ao ouvir o seu suposto nome original. Vick Tuan, esse era seu suposto nome verdadeiro. Piscou os olhos ao ser totalmente sugada para seus pensamentos sobre como teria sido crescer como Vick Tuan e não - Você nasceu em Los Angeles. E a única vez em que lhe segurei em meus braços foi nos seus primeiros minutos de vida. Depois que lhe levaram para o berçário nunca mais te vimos e nosso pesadelo começou. Uma das enfermeiras do hospital desapareceu com você e desde então não houve uma noite ou dia que não estivéssemos lhe procurando e pensando em você, querida. - as lágrimas começaram a rolar pelo rosto da caçula dos “” conforme sentia a dor de Dorine ecoando em seu coração através das palavras da mulher. A senhora também tinha olhos marejados, só de relembrar o dia mais triste de sua história fazia seu corpo arrepiar de dor e angústia.
- E como vocês sabem que eu sou a Vick de vocês? - indagou com a voz embargada. Raymond deu um leve aperto no ombro da esposa para ela deixá-lo responder dessa vez. Dorine concordou com a cabeça e tomou um gole de água para se recompor um pouco.
- A enfermeira que a roubou de nós foi presa há pouco tempo e condenada à pena de morte. Ela está respondendo pelos milhares de crimes os quais cometeu e num ímpeto de consciência contou aos advogados seu paradeiro. Todas as informações batem e até mesmo sua mãe adotiva a reconheceu. - Raymond terminou de falar e observou para conferir se estava tudo bem dentro do possível com a jovem.
- A Wen conhece a enfermeira que me sequestrou? - a boca de abriu e seu rosto formou uma careta desacreditada. Seu coração acelerou de nervoso e uma fagulha de raiva ardeu em seu peito.
- Pelo o que entendemos a tal enfermeira acabou sendo passada pra trás pelo seu parceiro de crime na época e no desespero te abandonou no hospital a qual seu pai trabalhava. Mas essa parte da história é melhor os lhe contarem. - um soluço horrorizado irrompeu pela garganta da patinadora ao imaginar-se tão pequena e abandonada à mercê da sorte. negou com a cabeça desesperada. Ela não queria conversar com os tão cedo, e tão pouco queria saber só metade de sua história.
- Por favor, me conte você. - implorou com os olhos e Dorine colocou sua mão gelada por conta do clima da cidade sobre a mão pequena da sua suposta caçula.
- Nós não temos esse direito, querida. Apesar de tudo os lhe deram uma vida ótima e seremos eternamente gratos a eles por terem cuidado tão bem de nossa caçula por quinze anos.
- Eles me enganaram a vida toda. - replicou com as palavras exalando mágoa.
- Eles tiveram os motivos para não lhe contar sobre você ser adotada. Mas não estamos aqui para defendê-los e sim para dizer que nós queremos comprovar o mais rápido possível que somos seus pais, Vi.... E queremos tê-la de volta em nossas vidas. Agora que te achamos não a deixaremos sair nunca mais de nossos braços de novo. - piscou os olhos, totalmente absorta nas palavras intensas da senhora a sua frente. Ela tinha uma nova família. Iria ela se acostumar a este fato de verdade? Mas e se todos os envolvidos da história tivessem errados? E se ela não for Vick Tuan? Seria ela capaz de administrar a frustração de ter sido enganada por toda sua vida e ainda não ter encontrado a sua família?
- Comprovar como? - as palavras saíram tão lerdas quanto seu processamento mental naquele momento.
- Nós já temos um processo em andamento para o seu reconhecimento como Vick Tuan, , e em poucos dias você será chamada para fazer um exame de DNA. Dando positivo nós vamos pedir sua guarda definitiva. - Raymond explicou com calma, enquanto o rosto da mais nova se contorcia em total surpresa. De um segundo para o outro o raciocínio da patinadora foi a mil. Caso desse positivo e os Tuan pedissem sua guarda isso significaria que teria que se mudar para Los Angeles? Um certo pânico se instalou ao perceber que teria de abrir mão de toda a sua vida em Minneapolis, incluindo seus amigos e sonhos.
- Hum… - a garota respondeu e num rompante levantou ao ser atingida por uma sensação de estar sendo sufocada por uma força imaginária. De um segundo para o outro a tarefa de respirar tornou-se a coisa mais difícil do mundo e ela sentiu a necessidade de sair correndo do restaurante - Eu preciso pensar sobre isso tudo. Foi um prazer conhecer vocês. Até mais. - atropelou as palavras ao falar e sem dar tempo para os Tuan reagirem, saiu como um trovão do recinto. Seu primeiro instinto foi ligar para seu melhor amigo e pedir para ele encontrá-la na arena de gelo da escola.

XXX

Apesar de estar completamente iluminada, a arena de gelo nunca esteve tão gelada e solitária para como naquele dia. A americana e Miguel estavam sentados, lado a lado, no primeiro banco da arquibancada em frente a entrada do ringue de gelo. As mãos do casal de melhores amigos estavam entrelaçadas e a garota tinha a cabeça repousada sobre o ombro do capitão. Os olhos mel esverdeados de Vidal, sempre tão cheios de vivacidade, observaram a melhor amiga com preocupação. A mão livre fazia um carinho sem pressa pela bochecha de , enquanto a "" encaravam os pés dos dois com o olhar extremamente vago.
- E se eu não for essa tal de Vick Tuan, Mi? E se eu for? E se eu tiver que me mudar para Los Angeles? Como eu vou viver longe de você? Como vou me acostumar a outra cidade? Como vou patinar no gelo? - as palavras saindo em meio aos soluços desesperado da patinadora. estava em pânico, extremamente perdida e não tinha nem ideia de como iria começar a achar o rumo de sua vida.
- Se preocupe com uma coisa de cada vez. - soprou as palavras e levantou o queixo da amiga - Eu vou estar sempre ao seu lado. - o peito de aqueceu com as palavras do mais velho. Ela concordou mais calma e inspirou fundo. Enquanto tivesse Miguel ao seu lado poderia ter a força necessária para enfrentar o furacão da sua suposta nova realidade.

XXX

Alguns dias se passaram e aos poucos voltou a frequentar as suas aulas, estava dando um passo de cada vez para conseguir se reencontrar como pessoa. Evitou os de todas as maneiras possíveis e se não fosse pela família Vidal e os amigos teria enlouquecido completamente. De um dia para o outro, ao descobrir não ser de verdade, a garota foi perdendo o interesse em tudo que até então amava. Até mesmo com a patinação ela havia pedido um tempo para conseguir se interessar novamente por algo que não fosse comer e dormir. Miguel estava extremamente preocupado com o estado zumbi o qual a amiga havia entrado, por isso após conversar com Ariana, decidiu levar Dougie e Daniel para conversar com a irmã de criação. Nem mesmo as ligações de May a estudante estava respondendo. Os irmãos se sentiram aliviados com o contato de Miguel e atenderam seu convite prontamente. Largaram todos os compromissos da tarde anterior ao exame de DNA que iria fazer.

O camisa seis do time de hockey deu três batidas no quarto de hóspede, o quarto temporário da melhor amiga, e esperou pela resposta da mais velha ao perceber o som de violão parar. Daniel cutucou Dougie de forma delicada, com o olhar apreensivo e apontou sua orelha, informando ao irmão para escutar a voz da garota cantando. Dougie concordou, ajeitou a sua gravata e piscou nervoso.
- Entra. - , sentada sobre a cama de casal deitou o violão ao seu lado e Seoul começou a latir mais empolgado do que o normal ao ver Miguel. O capitão abriu a porta com cuidado e o rosto da estudante transformou em uma carranca surpresa ao ver seu golden pular em cima de Daniel e Dougie.
- … - Vidal umedeceu os lábios e encarou a amiga com preocupação - os seus irmãos querem conversar com você. - informou com cuidado, a patinadora cruzou os braços e negou de imediato.
- Não temos nada para conversar. - a americana informou com o tom firme e desviou os olhos para Daniel fazendo carinho em Seoul. Vira casaca, ela ralhou mentalmente ao ver seu golden completamente derretido por seus outros donos.
- … - Dougie inflou o peito com coragem e deu um passo em direção a mais nova - você precisa nos escutar. Nós precisamos explicar para você o nosso lado. - juntou as mãos e suplicou para a irmã.
- Vocês tiveram quinze anos para isso e ninguém se importou em acordar um dia e dizer “Hey, bom dia! Você é adotada!” - a estudante carregou suas palavras com ironia e Dougie arfou frustrado. Era verdade, eles haviam errado em lhe esconder, porém ele e Daniel eram crianças quando tudo aconteceu. Não foi uma escolha deles. Eles apenas obedeceram as ordens que lhes foram dadas. tinha de entender e ver que apesar de todas as mentiras sobre sua origem o amor de todos os por ela era extremamente verdadeiro e real.
- … - Daniel parou de fazer carinho no cachorro, se colocou ao lado do irmão e encarou a mais nova com os olhos exalando remorso e apreensão - nós éramos crianças. Apenas seguimos os comandos que nos foram dados. Não foi uma escolha nossa. - o músico passou a mão pelo cabelo e em seguida depositou a mão sobre o lado esquerdo do peito.
- Vocês foram cúmplices de uma omissão. São tão culpados quanto os seus pais. - a patinadora respondeu de forma afiada. Cruzou os braços e apontou o dedo em riste para os mais velhos - Eu não confio mais em nenhum de vocês, eu na verdade não sei nem se conheço de verdade vocês.
- ! - Dougie grunhiu frustrado e bateu as mãos contra sua calça jeans - Nós não vamos deixar de ser seus irmãos. Nós erramos… - ele respirou fundo e encarou o teto por alguns segundos antes de voltar a falar - e te devemos desculpas por ter lhe mantido alienada por tantos anos. Mas nós erramos porque te amamos. Em momento algum queríamos te machucar, lhe fazer sentir diferente ou excluída. Pelo ao contrário, nós te amamos tanto desde a primeira vez que te vimos. A omissão foi um ato de covardia, mas também de uma proteção precipitada. Nós não queríamos te fazer se sentir à margem da nossa família de uma certa maneira, se você soubesse sobre a adoção só iria causar dúvidas e inseguranças desnecessárias em sua cabeça.
- Exatamente, . - Daniel completou - Nós todos cometemos um erro por querer te proteger demais. Você sempre foi e sempre será a nossa caçulinha. Nós somos incompletos sem você, . - Miguel fungou com Seoul ao seu lado, também tinha os olhos marejados e um turbilhão de sentimentos dentro do peito. Uma verdadeira guerra era travada dentro de si.
- , nos perdoe. Nós somos capazes de fazer o que for preciso para você nos absolver em seu coração e voltar para casa. - Dougie deu mais um passo na direção da irmã. limpou as lágrimas as quais escorriam pelo seu rosto e deu vários socos no peito do mais velho.
- Eu não sei o que fazer. - a estudante confessou exausta, de um segundo para o outro seu corpo se jogou contra o peito do irmão e a garota se permitiu cair num choro copioso.
- Nós estamos do seu lado, pirralha. - Daniel afagou o cabelo da mais nova.
- Nós sempre estaremos. - Dougie completou e apertou seus braços em volta de . Ao ver seus donos abraçados num clima triste, Seoul começou a latir e pulou em cima dos três para tentar animá-los. Miguel achou melhor sair do quarto sem avisar os , ele sabia que havia abaixado a guarda e iria querer conversar a sós com os irmãos.
- Eu quero perdoar vocês, mas uma parte de mim simplesmente não consegue mais confiar por completo. - a patinadora falou num tom fanho por conta do choro. Seus olhos encararam os irmãos cheios de mágoa e decepção. Daniel mordeu os lábios e Dougie concordou com a expressão triste. Eles sabiam que teriam de enfrentar consequências difíceis, porém não imaginavam que doeria tanto ver a mágoa da irmã mais nova. Eles nem ao menos conseguiam a encarar nos olhos tamanha a vergonha de estarem lhe causando tanta dor e decepção.
- Só nos dê uma chance para reconstruir a sua confiança em nós. Você pode nos dar? - os dedos do mais velho deslizaram pelas mechas do cabelo da mais nova. encarou os seus pés por alguns segundos, fazendo os seus oppas lhe fitarem com apreensão, porém depois de alguns segundos de reflexão sua cabeça meneou de forma positiva e os irmãos respiraram aliviados pela primeira vez desde a tarde em que havia saído de casa. Sem hesitar Dougie e Daniel envolveram a garota em um abraço triplo bem apertado.


Capítulo 04

observou Los Angeles tão minúscula da vista do avião e imaginou como teria sido crescer por entre aquelas ruas? Seria ela capaz de se acostumar ao calor? Logo ela que já se sentia sufocada com as temperaturas elevadas da Califórnia mesmo com o ar da aeronave refrescando sua pele naquele momento. A garota tamborilou os dedos sob a perna direita e encarou Daniel sentado ao seu lado. Ele e Miguel haviam concordado em acompanhá-la naquela breve viagem a qual ela iria descobrir se era Vick Tuan ou não. Uma arrepio percorreu sua espinha e ela fechou os olhos para tentar acalmar sua ansiedade. Ela não sabia dizer o que seria melhor: ser ou não essa tal de Vick Jun Tuan. Por um lado seria um alívio encontrar suas origens e começar a ter as respostas para as dúvidas as quais lhe acometiam, mas por um outro lado ela teria de abrir mão da sua vida de para viver a vida de uma pessoa totalmente desconhecida para si. Seria ela capaz de ser feliz?

Após pousarem, Daniel segurou sua mão e analisou atentamente em silêncio por alguns segundos o rosto da irmã para tentar captar qualquer sinal de nervosismo e medo da mais nova.
- Tudo bem? - o músico ajeitou o óculos em seu rosto e observou a patinadora concordar sem lhe encarar.
- Sim. Tem que estar. - concordou com a voz fraca.
- Seja qual for o resultado você sempre terá uma família em Minneapolis, . - o músico segurou a mão direita da irmã - E espero continuar sendo o irmão preferido caso você ganhe alguns irmãos extras hoje. - piscou brincalhão para descontrair. soltou uma risada sem força e umedeceu os lábios antes de encarar o mais velho com o olhar carregado de tristeza.
- Por enquanto eu não tenho mais uma família, Danny. Wen e Derek me enganaram por toda minha vida. - a mais nova retrucou e o respirou fundo para espantar o urro de frustração em sua garganta.
- Eles erraram... todos nós erramos por excesso de amor e proteção. Mas isso não muda o fato de sermos sua família. O que sentimos em nossos corações nunca irá mudar. - os olhos sempre tão descontraídos de Daniel encararam a irmã com firmeza e súplica para a mais nova quebrar de uma vez por todas o bloqueio que havia criado em seu coração em relação aos . A estudante concordou para encerrar o assunto e deixou seus olhos se perderem na paisagem de LA através da janela mais uma vez.

Ao saírem pela porta automática do aeroporto LAX na área do desembarque, os olhos curiosos e apreensivos de focaram o casal Tuan os esperando com sorrisos extremamente receptivos. O coração da garota se aqueceu e uma sensação morna de conforto invadiu seu corpo. Desde que havia os conhecido conversava algumas vezes por semana com casal. Ela estava se aproximando aos poucos, queria primeiro ter certeza que era Vick Tuan, para jogar-se de cabeça na convivência com sua potencial nova família. Ela não queria causar qualquer trabalho para o casal, mas eles haviam feito questão de recepcioná-la em LA. Queriam acostumar a caçula o mais rápido possível com a presença dos Tuan em sua vida. Por isso também exigiram que além de , Daniel e Miguel se hospedassem em sua casa.
Dorine abriu os braços ao ver a adolescente se aproximar e sem hesitar a envolveu em um abraço caloroso, pega de surpresa congelou por alguns segundos antes de corresponder totalmente sem jeito o gesto de carinho da mais velha. Os olhos da Mama Tuan se encheram de lágrimas ao sentir sua Vick em seus braços, porque seu coração de mãe tinha a mais absoluta certeza que a menina em seus braços era a sua caçula.
- Fizeram boa viagem, crianças? - Raymond perguntou com um sorriso caloroso no rosto.
- Fizemos sim. - Daniel respondeu de forma cordial. Seus instintos de irmão mais velho estavam em alerta máximo por conta de toda a pressão da situação. Se sua irmã fosse filha do casal a sua frente, a vida de todos eles mudaria de forma drástica. Não podia nem imaginar a sua rotina sem a presença de sua irmã caçula. Ela era seu xodó, sua chaveirinho. Havia jurado para si mesmo que a protegeria sempre de todo o mal, mas como seria capaz de cumprir sua promessa morando tão longe um do outro?
- ! - a voz da treinadora chamou pela filha, fazendo a adolescente congelar. Um pouco aturdida a garota olhou para trás e deu de cara com seus pais adotivos e irmão mais velho os encarando.
- O que você está fazendo aqui? - a jovem indagou com o cenho franzido e em seguida cruzou os braços em posição de proteção.
- Viemos para a audição do resultado de DNA... e também queríamos estar ao seu lado nesse momento. - Derek informou com calma e a adolescente soltou um riso incrédulo.
- Se eu quisesse a presença de vocês teria avisado. - a adolescente ralhou e encarou o irmão mais velho - Você podia ter me avisado mais uma vez. - virou de costas e encarou os Tuans, Miguel e Daniel que se encontravam com os olhares aturdidos - Vamos?
- ! - Dougie chamou com a voz algumas oitavas acima - Vamos conversar. - a patinadora fingiu não ouvir e seguiu em frente mesmo sem ter certeza de qual direção iria andar, ela só queria se afastar das pessoas que haviam mentido para ela sua vida toda. Ao perceber que a garota não iria voltar, Raymond e Dorine se apressaram em alcançá-la. Daniel e Miguel resolveram seguir o casal e , para acalmar a menina quando estivessem dentro do carro.
- Eu não acredito que o Dougie omitiu informações importantes para mim de novo. - a jovem resmungou ao parar na frente do Jeep dos Tuan. Seus olhos espremeram e ela encarou Daniel com os olhos faiscando desconfiança - Você sabia também que eles viriam?
- Estou tão surpreso quanto você. - o músico encarou a irmã de forma exasperada.
- Foi legal da parte deles querer estar ao seu lado hoje, . - Miguel pousou os braços no ombro da amiga - Eles se importam com você.
- O Miguel tem razão, . Hoje vai ser um dia importante, você precisa de todo o apoio necessário. - Dorine ofereceu um sorriso carinhoso e por algum motivo apenas assentiu, não quis prolongar o assunto.
- Veremos. - respondeu antes de entrar no carro e se acomodar no banco do meio.

XXX


Raymond estacionou o Jeep em frente a casa dos Tuan, Dorine saltou do banco do carona e abriu a porta para os jovens saírem do carro. O primeiro a sair foi Miguel, seguido por , a adolescente olhava atentamente a fachada da mansão a sua frente, e o coração acelerou agoniado ao imaginar que poderia estar morando naquela casa dentro de semanas. Danny foi o último a sair, em seguida os garotos ajudaram Ray a tirar as malas, enquanto Dorine guiou a jovem até a porta da casa. A senhora tocou a campainha para avisar aos moradores que haviam chegado. Por um segundo as pernas de travaram, mas ela se obrigou a seguir Dorine porta a dentro com um sorriso cordial no rosto. Sendo sua família ou não, os Tuan estavam sendo gentis com ela ao deixá-la passar aqueles dias decisivos em sua casa.
Foi colocar os pés dentro de casa que seus ouvidos foram arrebatados pelo som de uma manada descendo a escada no meio da sala. Segundos depois três garotos de idades diferentes desceram os degraus com passos afobados. Dorine abriu um sorriso caloroso e esperou os moradores da casa se ajeitaram um do lado do outro em frente a escada para começar as apresentações. encarou seus tênis como se fossem o objeto mais interessante do mundo.
- … - a mais velha chamou a atenção da garota e a fez subir o olhar, apontou para o menino mais alto - Este é o Mark. Nosso filho do meio. No meio é o Joe, o nosso caçula, quer dizer... você sabe, por enquanto o único caçula da casa. E esse é o Jackson. Ele é um amigo do Mark e está passando alguns dias de férias conosco. - conforme ia falando cada garoto reagiu ao seu modo a apresentação. Mark apenas curvou-se em respeito, Joey abriu um sorriso cordial e ofereceu um aceno de mão para sua suposta irmã mais nova, já Jackson abriu um sorriso de ponta a ponta e abanou as mãos de forma empolgada.
- Prazer! Eu sou Jackson Wang! - o garoto sorridente de luzes no cabelo piscou para a menina, nesse momento Miguel entrou na sala e colocou a mão no ombro da amiga, as bochechas de coraram com tantos olhares sobre ela.
- Ahm... oi! - respondeu aturdida, mas extremamente educada. Encarou o amigo para tomar coragem e voltou a encarar o amigo de seus possíveis irmãos - O prazer é meu!
- Vocês querem ajuda com as malas? - o chinês se prontificou a ajudar, e Miguel estufou o peito em posição de defesa.
- Não precisa, já estamos dando conta. - Vidal respondeu de forma cordial e estendeu a mão para o mais velho - Miguel, sou o melhor amigo da .
- Mi, Danny - a patinadora encarou os dois acompanhantes por alguns segundos e apontou para os três garotos estranhos a eles - Esses são Mark e Joey Tuan. O Jackson é um amigo do Mark. - ela terminou de falar e encarou para Jackson mais uma vez, totalmente hipnotizada pela pureza e alegria que os olhos do chinês emanavam.
- Prazer! - Wang saudou os acompanhantes da possível irmã de Mark e apontou para a mochila nas costas da mais nova - Deixa que eu levo para você. - arregalou os olhos, aturdida pelo aroma marcante do adolescente, concordou com a cabeça sem pensar direito e entregou sua bolsa para o mais velho. Jackson aumentou o sorriso e ajeitou a mochila em seu ombro.
- Ow - exclamou num tom brincalhão - Está trazendo uma casa aqui dentro?
- Quase isso. - respondeu tímida e deu de ombros - São os meus patins.
- Uau! - os olhos cheios de curiosidade de Wang piscaram fascinados - Você gosta de patinar?
- Eu amo. - a jovem respondeu empolgada e sentiu o coração acelerar ao notar o interesse do chinês em puxar assunto com ela - Eu na verdade sou atleta de patinação artística no gelo.
- Uau! - o garoto exclamou e abriu a boca em surpresa - Depois você precisa me ensinar uns movimentos. - piscou maroto.
- Claro! - concordou sorridente e Miguel limpou a garganta para chamar a atenção da amiga.
- Senhora Tuan, você poderia nos mostrar onde vamos ficar? - Vidal perguntou de forma educada, tinha os braços cruzados e as feições extremamente cansadas.
- Seria ótimo descansar um pouco antes da audiência. - completou um pouco chateada de Miguel estar cortando sua conversa com o simpático e extremamente bonitinho, em sua opinião, Jackson Wang. Danny concordou com a cabeça para enfatizar o quão bem-vinda seria algumas horinhas de descanso após um vôo longo.
- Claro! Vocês devem estar cansados e com fome! Enquanto vocês tomam banhos relaxantes, eu e os meninos vamos preparar um lanche para vocês. - a senhora Tuan exclamou e abanou as mãos num movimento exasperado.
- Não precisa se preocupar, nós não queremos dar mais trabalho. - respondeu preocupada e Dorine negou com a cabeça.
- Não é incomodo nenhum. - informou num tom dócil e chamou com a mão para eles a seguirem até o segundo andar da casa.
- Você vai se perder algumas vezes, mas logo se acostuma. - Jackson riu ao lado da garota e concordou com a cabeça.
- É, é realmente espaçosa a casa. - respondeu enquanto seus olhos observavam cada detalhe da casa dos Tuan.
- Vocês são namorados? - Wang apontou da garota para Miguel extremamente curioso. O casal parecia ser extremamente íntimos, eles até andavam abraçados, e o adolescente parecia querer proteger a garota a todo custo com o peito estufado, o olhar sério e as mãos de forma possessiva em seu ombro.
- Hum, não… - Miguel informou num tom cordial - somos apenas amigos.
- Somos como irmãos. - completou e lançou um olhar simpático para o chinês, o sorriso de Jackson aumentou de imediato e o garoto soltou uma respiração aliviado sem perceber. Miguel observou de rabo de olho a forma em como estava sendo extremamente cortês com o tal de Wang. James Huang que não abrisse seus olhos, teria um substituto em breve. Mama Tuan abriu a última porta do extenso corredor do segundo andar da casa dos Tuan e um quarto de parede rosa e uma decoração digna de conto de fadas invadiu a visão deles. Aquele era o quarto que sempre esteve preparado para receber de volta a sua possível dona, foi assim em todas as casas que moraram. Não importava em qual país, eles sempre montavam um cômodo para a sua Vick. Mantinham viva a esperança de encontrá-la e decoravam com objetos e tamanhos de cama que condiziam com a sua provável idade atual. Os olhos de piscaram absortos com todo o cuidado e delicadeza da família com o quarto, tudo estava impecável e limpo. Prontos para serem usados. A ansiedade revirou na boca de seu estômago e ali sua ficha começou de fato a cair. Naquela tarde mesmo ela iria receber a informação mais importante de sua vida. Seria ela capaz de lidar com as consequências do resultado de DNA?

XXX


foi a primeira a tomar banho e vestir roupas confortáveis para ficar em casa. A garota colocou uma calça extremamente leve e uma regata branca, gotículas de suor já se formavam na região do seu nariz e ela amaldiçoou por alguns segundo o tempo quente da Califórnia. Mesmo sem entender o porquê seu coração bateu apertado de saudade do clima frio de Minnesota. Ela mal havia deixado Minneapolis, temporariamente, e ela já estava morrendo de saudade da sua cidade. Mesmo sem uma casa para chamar de sua, Minneapolis era seu mundo. Parou em frente a janela do quarto para analisar a paisagem do backyard da família Tuan e duas batidas na porta lhe despertaram de seu transe. A garota deu passos apressados até a porta e ao abrir deu cara com um sorridente Jackson Wang e uma bandeja cheia de coisas gostosas para comer.
- Espero não estar atrapalhando… - o chinês ofereceu um sorriso caloroso pra - A Tia Dorine enviou para vocês. O Mark está trazendo a bandeja deles daqui a pouco. - piscou de forma simpática para a adolescente a sua frente e achou adorável a forma como seu cabelo úmido e o rosto extremamente rosado a faziam estar ainda mais bonita do que na hora que a conheceu.
- Aigoo!* - exclamou num tom surpreso e abriu espaço para o adolescente entrar no quarto - Não precisava! - informou e fez que iria pegar a bandeja da mão do mais velho, mas Jackson negou com a cabeça e acomodou o objeto em cima da cama da jovem. O chinês a encarou surpreso ao vê-la exclamar em coreano.
- Você fala coreano? - a pergunta escapou de sua boca e concordou com a cabeça enquanto seus olhos devoravam as guloseimas que Mama Tuan haviam preparado para ela.
- Você também? - os olhos da caçula dos "" focaram Wang com real interesse e o jovem concordou de forma efusiva com a cabeça.
- Eu e o Mark moramos na Coréia. - ele informou e arregalou os olhos.
- Sério? Eu sou coreana... quer dizer... é… os meus pais adotivos são coreanos. - a garota falou sem jeito e abaixou os olhos com um incômodo nítido. Era a primeira vez que tinha que se referir aos daquela maneira, seu peito doía em lembrar que nada do que acreditava ser era verdade. Nem mesmo descendente de coreanos ela era mais, e nem fazia ideia se algum dia iria descobrir suas origens. O coração de Jackson apertou ao ver os olhos da mais nova refletirem tanta mágoa, uma vontade de fazê-la se sentir melhor invadiu seu peito e ele decidiu que precisava recuperar o sorriso de antes em seu rosto. Mesmo que triste, ainda era um sorriso.
- Você deve ter aprendido desde pequena. - concluiu e apontou para a bandeja - É melhor comer antes que os waffles esfriem.
- É verdade. Você quer um pouco? - ofereceu um sorriso sem mostrar os dentes e sentou na cama de casal.
- Eu já comi, obrigado. - Wang respondeu com o sorriso fofo - Coma direitinho e descanse, okay? - o menino piscou os olhos a espera da resposta da recém-chegada e não pôde deixar de sentir uma onda morna dentro de si ao achar todo o cuidado e atenção do mais velho adorável.
- Pode deixar, vou comer tudo. - estendeu a mão com o polegar levantado e um sorriso grato nos lábios. Jackson curvou o corpo e saiu do quarto com um sorriso empolgado estampando seu rosto.

XXX


Os olhos de percorriam inquietos por cada pessoa sentada na mesa da audiência de revelação sobre ela ser Vick Tuan ou não. Em frente a ela estava Derek , seus olhos que sempre costumavam lhe acalmar naquele momento aumentava ainda mais a tempestade de sentimentos que ocorriam dentro de si. Ao lado de Derek estava Wen , com o rosto firme e serio. A única coisa que denunciava seu estado de nervo crítico era seus pés batendo de maneira incessante contra o carpete da sala. Em frente aos , Dorine e Raymond seguravam a mão um do outro para se manterem firme. Eles não conseguiam pensar nem por um segundo da possibilidade de não ser sua Vick, pensar nessa possibilidade era como perdê-la duas vezes. E eles não sabiam se seriam capazes de lidar com a dor imensurável de perder a filha mais uma vez. E como um efeito câmera lenta observou o juiz abrir o envelope com o resultado, sua mão suou frio enquanto os olhos da autoridade percorriam pelo papel para dar seu veredito.
- Então fica firmada que o resultado é: tem 99,9% de chance de ser filha de Dorine e Raymond Tuan. - a voz ressoou pelo ambiente e um zunido iniciou nos ouvidos da estudante, segundos depois a mais nova Tuan abaixou a cabeça enquanto sua mente processava em looping as palavras do meritíssimo.
- Eu sou Vick Tuan… - repetiu para si mesma, enquanto todos os adultos da sala a encaravam. Prontos para responder a qualquer movimento ou reação mais brusca sua. O juiz continuou seu verídico, porém a mente da adolescente só conseguia pescar palavras soltas que em geral informavam que sua guarda estava concedida aos Tuans.

Dorine e Raymond estavam radiantes com a notícia, mesmo com a ansiedade de poder abraçar a sua Vick novamente, acharam melhor deixar os conversarem com a garota após o fim da audiência. Wen, Derek, Dougie e Daniel observavam a adolescente com o rosto sobre a mesa soluçando com o choro de emoções indefinidas. Uma parte de si estava feliz de ter encontrado seus pais biológicos, porém outra parte de si estava completamente perdida. Como seria a sua vida em Los Angeles? Como seria se adaptar a sua família biológica? Seria ela capaz de ser feliz imersa a uma vida bem diferente da sua como ?
- … - a voz grave de Derek ressoou como um trovão e os soluços da garota aumentaram - nós sempre seremos sua família. - a mão gélida do empresário pousaram sobre o ombro da menina. A estudante estava tão exausta que não teve reação alguma de se afastar. Dougie iniciou um carinho sem pressa no cabelo da menina.
- Nada muda o amor que sentimos por você. - o advogado falou num tom carinhoso.
- Eu... eu... não sou a mais, eu não posso mais viver como ela. - a jovem respondeu com a voz embargada e abafada por ainda estar de cabeça baixa.
- Filha… - a voz de Wen soou o mais suave possível - você pode ser quem você quiser e viver da maneira que mais se sentir confortável. E você sempre terá o nosso amor ao seu lado. - os olhos de levantaram e a treinadora segurou sua mão.
- Nós sempre seremos sua família. - Daniel concluiu com um sorriso fofo.
- Eu amo vocês. - desabafou com a voz embargada, naquele segundo foi atingida por tudo que abriria mão, e ela percebeu a falta que sentiria da convivência dos .

XXX


Na manhã seguinte o coração disparou ao ouvir o despertador avisando-a que era seis horas da manhã. Sem protestar observou Miguel ao seu lado em sono profundo e Daniel roncando no colchão ao lado deles. Tomando cuidado para não acordar nenhum dos dois, levantou da cama fazendo o mínimo de barulho possível e foi em direção ao banheiro. Se arrumou em poucos minutos, sem se preocupar com maquiagens e colocou a mochila a qual havia preparado no dia anterior nas costas. Seus olhos marejaram ao parar no meio do seu futuro “quarto” e observou todos os símbolos da vida de Vick Tuan. Respirou fundo e por alguns segundos ponderou se deveria falar com Dorine e Raymond. Eles eram pessoas incríveis, mas esperaram por tanto tempo que pareciam querer recuperar toda a convivência perdida que não reparavam o peso que jogavam em seu colo. Na hora em que comentaram sobre o churrasco para ela conhecer os outros membros da família Tuan, a garota não soube dizer não. Mas por dentro sentia que iria explodir a qualquer momento com toda a pressão de adaptação a qual estava sendo exposta. Se ela os avisasse sobre querer passar o dia na sua, com toda certeza eles tentariam lhe convencer do contrário, e ela estava cansada demais para lidar com todas as expectativas que tinham sobre Vick Tuan.
Ela precisava tirar um tempo para si em meio a toda aquela loucura. A vida de Vicky havia sido roubada dela e já não se reconhecia também como . E foi ali, perdida em si mesma que entendeu, uma das dores mais desesperadoras do mundo era não compreender quem era. Por isso, respirou fundo e caminhou em direção a cozinha da casa para pegar a chave da porta da frente enquanto chamava o Uber que a levaria até algum lugar longe dali. Olhou de um lado para o outro com o coração acelerado pela adrenalina, não queria ser vista por ninguém, era melhor poupar-se de possíveis explicações. Tudo estava indo dentro dos conformes até o segundo o qual suas mãos pegaram a chave da porta e virou-se na direção da entrada da cozinha e deparou-se com Jackson Wang, sem camisa e com a expressão confusa lhe encarando.
- Jackson! - exclamou com a mão no peito, o coração disparou por conta do susto e suas pernas amoleceram de imediato. Sem a permissão do cérebro, seus olhos percorreram pelo corpo do chinês e as bochechas ruborizaram ao reparar o quão lindo Wang estava com a cara inchada de quem tinha acabado de acordar e com o abdômen exposto.
- Vicky! - o chinês imitou a expressão da irmã mais nova de Mark, os lábios da mais nova Tuan abriram em surpresa ao ouvir seu nome original sair dos lábios rosados do garoto.
- . - a jovem o corrigiu em automático e apontou em sua direção - Posso lhe ajudar em algo? - a garota coçou a cabeça de forma sem graça e mordeu os lábios de forma nervosa. Jackson observou seu olhar intercalar entre ele e o relógio digital do monitor no micro-ondas prateado dos Tuan.
- Não preciso de nada, obrigado. - o mais velho informou e curvou-se para agradecer a menina. Engoliu em seco e deixou sua curiosidade escapar por seus lábios - Está tudo bem com você? - desceu os olhos de forma concentrada pelo corpo de e notou que a mesma carregava uma mochila enorme nas costas. Podia jurar que a garota estava pronta para acampar.
- Sim! - a mais nova cruzou os braços para trás do seu corpo e seu celular vibrou em sua mão informando que o seu táxi havia chegado - Eu preciso ir, você nunca me viu aqui. - a mais nova rodou nos calcanhares e saiu de forma apressada para o lado de fora da casa. Sem pensar e preocupado com a última frase da garota o chinês a surpreendeu seguindo-a até o carro e entrando no veículo em seu encalço - O que está fazendo? - a americana perguntou com a voz esganiçada.
- Me certificando o que está acontecendo com você. - Wang tinha o semblante sério e seus músculos estavam tensionados.
- Eu estou bem. Eu juro. - encostou o cotovelo direito sobre o banco, apoiou a cabeça sobre a mão do mesmo lado e com o braço esquerdo fez força para empurrar Jackson Wang para fora do carro - Você precisa sair antes que alguém nos veja.
- Eu não vou deixar você ir a lugar nenhum sozinha nesse estado de nervos. - o chinês cruzou os braços e encarou a mais nova de forma intensa, fazendo-a esquecer por alguns segundos por que estava tentando expulsar o amigo de seu irmão do veículo.
- Nunca estive mais calma. - a patinadora ofereceu um sorriso amarelo na direção do rapaz.
- Para onde a senhorita vai? - o motorista perguntou numa voz tediosa.
- Venice Beach. - soltou a primeira ideia que surgiu em sua mente e como esperado Jackson arregalou os olhos.
- Alguém sabe sobre você estar indo para lá? - o chinês espremeu os olhos e soltou o ar de forma lenta e sôfrega.
- Não - confessou, seus olhos estavam magnetizados com a pureza do olhar do mais velho, ela jurava estar sob algum feitiço lançado por ele, as palavras saíam em automático após suas perguntas - Eu preciso de um tempo longe de toda essa loucura.
O silêncio se instalou por algum tempo, piscou os olhos e observou Jackson concordar com a cabeça enquanto processava as informações as quais havia recebido. O chinês respirou fundo, mexeu no cabelo e concordou mais uma vez com a cabeça.
- Tudo bem, eu não vou falar seu paradeiro para ninguém. - o sorriso no rosto da mais nova Tuan se iluminou e Jackson levantou o indicador - com uma condição!
- Qual? - arregalou os olhos curiosas.
- Que eu possa passar o dia com você. - cruzou os braços e a boca da estudante abriu em surpresa.
- Aigoo! - a caçula dos Tuan exclamou e deu de ombros - Okay.
- Espera mais cinco minutos, moço - Wang informou, puxou para fora do carro enquanto voltava para dentro da casa dos Tuans para buscar uma blusa.

XXX


Ao saírem do táxi, permitiu-se inspirar e expirar o vento com cheiro de maresia de forma lenta e prolongada. Fez uma prece silenciosa para as energias da natureza renovarem a bateria de seu corpo. Ela precisava de um descanso de toda a loucura que sua vida havia se tornado, por algumas horas ela não queria ser Vicky Tuan, nem . Queria apenas ser uma adolescente comum com problemas comuns. Jackson entendeu que a garota precisava fechar os olhos por alguns segundos e se manteve em silêncio. Seus olhos observavam os traços delicados do rosto da mais nova. Ela era linda, tinha de confessar. Mas sua parte preferida até então eram seus olhos. O par era tão grande e cheios de indagações, era impossível não querer se perder no infinito o qual suas pupilas eram a porta de entrada.
- AAAAAAAAAAAH! - o grito contido na garganta de escapou sem aviso prévio fazendo Jackson dar um passo para trás e encarar a patinadora com os olhos arregalados. A estudante sacudiu o corpo, sem se importar com o que as pessoas pensariam de si, suas mãos balançaram de forma agressiva, como estivesse expulsando toda a angústia e aflições de dentro de si.
Depois de alguns segundos, soltou uma inspiração alta e cortada, o peso em seu peito se dissipou um pouco e a jovem abriu os olhos e encarou o chinês com as sobrancelhas levantadas e o corpo congelado enquanto a observava.
- Você está bem? - a voz do garoto saiu arrastada e caiu numa crise de riso. De um segundo para o outro ela percebeu o quão surreal era a situação a qual se encontrava, e então ela riu. Riu da grande piada que era para o universo e até mesmo para Deus. Entre tantos seres humanos por que justamente ela tinha de ser uma das pessoas premiadas para passarem por aquele tipo de situação? Ela era um bebê de poucos minutos de vida quando foi obrigada a encarar o maior perigo de sua vida. Tantas coisas podiam ter lhe acontecido. Quanto mais pensava no que podia ter vivido, mais vontade de rir sentia. Até lágrimas rolavam pelo seu rosto.
- Estou… - respondeu após alguns minutos. Respirou fundo e em meio a um controle fajuto da risada concordou com a cabeça - É só que tudo isso é tão absurdo... me deu vontade de rir.
- Bom… - Jackson analisou a irmã de Mark com cuidado e deu de ombros - rir é melhor que chorar.
- Com certeza! - a americana respondeu em meio a mais um surto de gargalhadas.
- O que você quer fazer agora? - o chinês perguntou preocupado.
- Eu quero... eu quero… eu quero esquecer meus medos. - concluiu após olhar em direção ao parque de diversões do pier de Venice Beach - Quero ser qualquer jovem comum no mundo.
- Já sei do que precisa. - informou, sem pensar duas vezes, Jackson segurou o pulso da garota e caminhou em direção as barracas. Sentir o toque do chinês sobre sua pele, fez ser invadida por um calor inesperado no peito. Ela teve de se concentrar para conseguir acompanhar o asiático e não tropeçar na sua frente.
- Do que eu preciso? - ela perguntou após pararem em frente a um quiosque de cachorro quente.
- Comida! - apontou com entusiasmo para a vitrine, sorriu com sua empolgação e concordou com a cabeça. Ela iria deixar de lado todas as preocupações de com sua dieta. Pelo menos por 24 horas.
- Eu gostei disso. - ela riu e deu um passo para frente para analisar as opções infinitas, uma mais deliciosa e gordurosa que a outra.

Jackson tinha a boca aberta em surpresa enquanto ele observava a irmã caçula de Mark devorar com rapidez e entusiasmo todas as coisas mais gordurosas que haviam encontrado na barraca de comida. Não era ainda nem oito horas da manhã direito, mas a adolescente a sua frente devorava um belo cachorro quente, acompanhado de batata fritas com queijo e um belo milkshake de morango. Ele estava abismado com o entusiasmo o qual a garota devorava cada pedacinho. Depois de alguns minutos, a americana levantou o olhar para Jackson e lembrou de oferecer um pouco ao garoto.
- Você quer? - a garota apontou para a porção de batatas enquanto sua mente analisava as possíveis possibilidades de sobremesa. Ela estava tendo um pico de glicose no sangue e estava amando cada segundo sem se preocupar com as calorias que estava consumindo.
- Não, obrigado. - ele riu e percebeu o canto da boca de suja com catchup. - É... tá sujo. - o chinês pegou um guardanapo e com delicadeza aproximou um pouco mais o corpo em direção a mais nova e limpou o canto da sua boca. segurou a respiração sem perceber quando o aroma tão viciante do amigo de seu mais novo irmão invadiu seu nariz. A garota piscou os olhos sem saber como reagir ao certo com um rosto tão belo perto de si. Quando Jackson lhe ofereceu um sorriso, ela correspondeu com outro extremamente grata e encantada.
- Obrigada, Jackson. - ela retribuiu com a voz falha e o garoto piscou para ela.
- Você pode me chamar de Jacky ou Gaga, sabia? - o trainee levantou as sobrancelhas numa careta divertida e caiu na risada.
- Gaga? Tipo… Lady Gaga? - ela caiu na gargalhada e o menino tentou fingir que estava bravo, mas no máximo acabou fazendo uma careta extremamente fofa.
- Só Gaga. - soltou sua típica risada estridente - É meu apelido chinês.
- Você é chinês e meu nome adotivo é . Isso é engraçado de alguma maneira. - riu desgovernada e Jackson passou a mão pelo ombro da mais nova e limpou sua garganta.
- De alguma maneira era objetivo do destino nos conectar. - ele encarou a irmã mais nova de Mark com intensidade e sentiu seu coração acelerar perigosamente. Sem saber como responder, a jovem deu um leve empurrão no garoto.
- Got It*, Gaga. - piscou marota e soltou uma gargalhada estridente. Alguns transeuntes encararam a adolescente preocupados com seu estado mental.

Jackson observava a roda gigante em frente a porta do banheiro feminino, havia sentido necessidade de fazer xixi depois de dois copos de milkshake. Por isso tomou um susto quando o corpo da garota colidiu contra o seu, em automático o chinês segurou as pernas da menina e sentiu os pelos do seu corpo arrepiarem com a risada da mais nova em seu ouvido. Ela não pensou nem duas vezes ao ver as costas do garoto tão propícias para se montar de cavalinho.
- Hey Gaga, let’s Go*! - ela engrossou a voz e apontou na direção do carrossel.
- Animada, huh? - o chinês sorriu e começou a trotar com a mais nova nas costas.
- Estou! - a patinadora soltou as duas mãos e as sacudiu de forma enérgica - Estou de férias de mim por um dia.
- Férias de você? - franziu o cenho.
- Sim! Por um dia não vou me preocupar com nada, apenas curtir o momento. - esticou os dois braços e fechou os olhos.
- Então, hoje você vai ter a programação de 24 horas de diversão do Wang! - informou e apressou o passo com a mais nova em suas costas.
- Manda ver, Gaga! - a risada de saiu pela primeira vez num tom estrondoso e sincero.

XXX


e Jackson se encontravam sentados no carrinho da roda gigante, um de frente ao outro, quando o celular do mais velho começou a tocar. Os olhos da mais nova se arregalaram assustados e o chinês pegou o telefone bolso.
- É o Mark. - informou sorridente e deu de ombros. Antes que seu dedo destravasse o aparelho, as mãos geladas de seguram as suas próprias com força.
- Pera... não atende... por favor! - a americana suplicou com a voz manhosa e Jackson piscou os olhos algumas vezes antes de bufar e concordar com a garota.
- Por que não? - as mãos do mais velho fizeram o movimento para enfatizar sua indagação, murchou os ombros e encarou os próprios pés.
- Você não pode falar que está comigo, okay? - ela exigiu e os olhos do chinês arregalaram ainda mais, um misto de preocupação se instalou em seu peito.
- Eles devem estar preocupados… - a voz de Jackson saiu suave e chiou consigo mesma.
- Eu sei, mas hoje eu preciso fingir que não devo nada a ninguém. Faz isso por mim… - os olhos da mais nova piscaram em súplica, as mãos geladas da patinadora seguraram as quentes do chinês e eles se encararam por alguns segundos. O coração de ambos acelerou e por alguns segundos Jackson perdeu as palavras, sua mente se transformou num completo branco. Wang umedeceu os lábios e de forma inconsciente aproximou o rosto pouco a pouco em direção a irmã de Mark. Um sorriso travesso surgiu nos lábios da mais nova e uma ideia inusitada invadiu a sua mente. Ela seria impulsiva de todas as maneiras naquela tarde. Sem pressa alguma o corpo da americana também foi de encontro ao de Jackson, os lábios de ambos se encontraram no meio do caminho em um toque suave. O chinês colocou a mão direita sobre a bochecha de , e pouco a pouca deixaram as línguas se explorarem. Um frio inusitado pairou sobre a barriga da mais nova, e a adrenalina a fez se sentir viva novamente, era a primeira vez que sentia a vontade sincera de sorrir com empolgação para a vida desde a descoberta da sua verdadeira identidade. E pela primeira vez também chegou à conclusão que talvez não fosse tão ruim ser Vick Tuan.

Glossário:
Aigoo - Expressão coreana, usada particularmente para demonstrar surpresa.
Got It - Entendi!
Let’s Go - Vamos nessa!




Continua...



Nota da autora: EITAAAAAAA MARGARETE! PERA AI, A MINHA PRESSÃO CAIU AQUI! HAHAHAHAHA E OLHA SÓ QUEM CHEGOU JÁ COMO? COM O PÉ NA PORTA! ELE MESMO! THE ONE AND ONLY! O CHINÊS MAIS AMADO DO MUNDO TODINHO: JACKSON WAAAAAAAAANG!
Ai, gente, eu tô muito feliz! E ansiosa também para saber o que acharam do encontro desse OTP que não perde tempo algum hahaahaha!

E aí o que vocês acham? Será que esse casalzinho vai pra frente? Será que nossa patinadora preferida vai aprender a ser feliz como Vick Tuan?
Não percam as cenas dos próximos capítulos!
E claro, vocês já sabem, né?
Querem saber spoiler, conversar comigo e saber o que ando aprontando?
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BEIJOS DE LUZ, LINDEZAS!!!!







Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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