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Revelações






Última atualização: 01/10/2017

Prólogo


Estou imersa em meus afazeres tentando ignorar o enorme aperto no peito que sinto, quando ouço o telefone tocar. Percebo como é incrível o fato de que algumas palavras são capazes de destruir tudo aquilo que eu sempre acreditei.
Ainda tentando absorver o choque causado pela notícia que recebi e sem saber ao certo o que fazer, me vejo sentada em um barzinho. Eu nunca bebi antes, mas quando me dou conta, já misturei diferentes tipos de bebidas alcoólicas, excedendo todos os limites imagináveis.
— Você está bem? — ouço uma voz masculina se dirigir a mim. Automaticamente reviro os olhos, sem a mínima paciência para qualquer homem que for, mesmo que ele seja um velho amigo.
— Não enche, Yago! — resmungo, mas as palavras saem mais enroladas do que eu gostaria.
— Você veio para cá sozinha? — ele insiste, agora se sentando ao meu lado.
— Você está vendo mais alguém por aqui? — lhe lanço um olhar intimidador. — Estou sozinha e continuarei assim, se é isso que você quer saber.
, o que você tem? — Yago parece realmente preocupado, mas certamente está exagerando.
Homens!
— Não há nada. Estou ótima! — levo o copo de bebida até os lábios e ouço alguém bufando ao meu lado.
— Agora chega, está bem?! — o copo que antes estava em minha frente some e Yago envolve meu corpo com o braço, muito provavelmente com o objetivo de me tirar daqui.
— Fica longe de mim. — rosno, tentando me desvencilhar.
O simples toque de um homem parece me sufocar, por isso, luto para me soltar, mas a cada instante meu corpo parece enfraquecer um pouco mais. Meu subconsciente ainda registra quando viro apenas um peso morto nos braços de um homem que é forte demais para se importar com o esforço que está fazendo.
E então, tudo que vejo não passa de escuridão.




Capítulo 1


"E você, tornou-se o adulto que sonhou ser quando criança?"

Jogo a revista sobre a mesa de centro da sala e solto um longo suspiro, incapaz de continuar lendo mais uma linha sequer sobre a vida perfeita, de pessoas perfeitas. Não sei ao menos porque me dei ao capricho de folhear uma revista tão previsível como essa.
Me pego pensando então, em como a vida de alguns parece tão certa, enquanto a de outros não passa de uma grande e inacabável confusão.
Você está pensando demais.
Ouço uma voz dentro de mim sussurrar e mesmo sabendo que pode ser perigoso, já é tarde demais: estou me lembrando de quem eu costumava ser. A garota doce, de futuro promissor, que ainda sonhava, que ainda acreditava...
Você era assim no passado, mas já não é mais!
Obrigo-me a concordar com o meu eu interior. Situações duras fazem as pessoas mudarem e, automaticamente, as tornam duras também. Foi isso que me tornei. Apenas uma pessoa fria, incapaz de sentir certas coisas.
Acredito que seja por isso que é tão difícil de deixar o passado para trás, se consideramos que o presente foge completamente do que foi planejado.
? — levo um susto ao perceber que não estou mais só.
— Que bom que você voltou! — abraço o único homem que permito continuar na minha vida. — Como estão os negócios?
Sentamos no sofá e Yago me conta sobre umas das filiais de sua casa de show, localizada no Rio de Janeiro. Deixo com que ele fale, apenas fazendo pequenas interrupções quando julgo conveniente. Decididamente prefiro pensar nos problemas dos outros ao invés dos meus.
— Você sabe que dia é hoje, não? — por fim ele pergunta, depois que nossa conversa sobre à casa de shows se encerra.
— Claro. — respondo contra a vontade. Eu esperava que ele tocasse no assunto, mas isso não significa que eu esteja pronta para falar sobre ele.
— Dois anos que você veio morar aqui. Passou rápido...
Uma das descobertas que fiz nesses últimos anos é que tempo não é capaz de resolver problemas ou curar todas as feridas. Existem coisas, que passe o tempo que for, continuarão presentes na sua memória, por mais que você deseje esquecê-las. Há feridas que não cicatrizam e ponto final.
— Já está tarde, acho que vou me deitar. — tento dar a Yago um sorriso convincente, porque no fundo só quero ficar sozinha. Estou exausta demais para continuar conversando sobre o passado.
No entanto, quando me deito, parece ainda mais difícil de evitar que os pensamentos tomem um rumo indesejável.
Automaticamente volto para quando eu tinha 19 anos. Yago sempre fora meu amigo, mas se mostrou um verdadeiro irmão quando mais precisei. Desde aquela noite, há dois anos, quando ele me encontrou completamente bêbeda em um barzinho, ele vem cuidando de mim.
Admiro muito a pessoa que ele é. Em como sente empatia pelos outros e que apesar das constantes viagens devido aos negócios, sempre encontra um tempinho para mim, sem nunca pedir nada em troca.
Viro-me para o lado, sentindo que não vai demorar muito para meu corpo ceder ao cansaço. Já sei exatamente o que me espera, então apenas fecho os olhos, esperando que os pesadelos comecem.
Quando desperto, o sol já nasceu lá fora. Meus olhos estão inchados, como se eu tivesse passado a noite inteira em claro. No início, era mais difícil para mim. Passava o dia todo bocejando, com o corpo cansado e com os pensamentos lentos. Mas agora, depois de tanto tempo, já me acostumei com a consequência das noites mal dormidas.
Sabendo que não há muito que se fazer, tomo um banho e vou para a cozinha em busca de um café forte o suficiente para me ajudar a acordar. Uma sensação de culpa se apodera de mim, assim que vejo Yago sentado à mesa.
— Sinto muito. — murmuro, desabando na cadeira ao lado dele.
— Pelo quê? — franze a testa, fitando-me.
— Você sabe... Os pesadelos... Os gritos...
— Deixe disso! Já lhe falei que não me incomodo.
Sei que ele diz isso apenas para me confortar. Nas primeiras semanas em que estávamos morando juntos, era comum ele adentrar meu quarto no meio da noite, com medo de que algo estivesse acontecendo, devido aos meus gritos — mais uma das consequências dos malditos pesadelos.
— Tenho uma coisa muito importante para lhe contar.
Analiso Yago com atenção. Ele parece tenso, certamente está com medo da minha reação em relação ao que vai me dizer.
— Estou ouvindo. — o encorajo, frente a seu silêncio.
— Estou apaixonado. — ele diz depressa, como os olhos fixos na xícara de café que está em sua frente.
— Lhe encontro no fundo do poço! — sorrio na tentativa de deixá-lo mais calmo.
— Estou falando sério, . — ele ralha comigo, mas agora seus lábios formam um discreto sorriso.
— Pois bem, eu também estou.
— Se não estou muito enganado, isso se chama ciúmes. — diz ele, claramente querendo me provocar.
— Ah, francamente! — reviro os olhos, sem querer dar o braço a torcer. — E quem é a sortuda? — indago, porque curiosidade sempre fez parte das minhas características.
— O nome dela é Luiza . Irmã do meu sócio, . — ele comenta, e vasculho minha memória em busca de alguma lembrança relacionada a ela.
— Acho que a conheço de vista. Ela é bonita, não posso negar.
— Amanhã vamos jantar na casa dela, para de certo modo "oficializar o namoro". — Yago faz uma careta, provavelmente percebendo quão antiquadas as últimas palavras soam.
— Eu realmente preciso ir? — pergunto, sem demonstrar muita disposição.
— Você sabe que não posso contar com meus pais. Eu ficaria feliz se minha única irmã pudesse ir comigo. — ele me fita com expectativa e consigo compreender o que ele sente. Os pais de Yago moram no Rio Grande do Sul e detestam viajar. A perspectiva de encarar a família da namorada sozinho deve ser apavorante.
— Tudo bem. — aceito por fim. — Mas vamos sair hoje a noite para uma espécie de despedida de solteiro, está bem? — proponho, e ele aceita sem qualquer reclamação.



Capítulo 2


Quando estou na companhia de Yago, as horas passam sem que ao menos eu me de conta. Já anoiteceu e estamos no sofá, assistindo um episódio da nossa série favorita.
— Se realmente vamos sair, precisamos nos arrumar. — comento, assim que o episódio termina.
— Claro que vamos. — ele confirma já se levantando. — Em 20 minutos, aqui na sala?
— Nenhum minuto a mais, nenhum minuto a menos. — concordo, mas sei que isso dificilmente acontecerá.
Yago é a pessoa mais vaidosa que já conheci. Sou muito prática quando o assunto é me arrumar, fazendo isso em pouquíssimo tempo. Ao contrário do meu irmão, que nesse quesito deveria ser considerado a mulher da casa.
— 20 minutos, não é mesmo? — provoco Yago assim que ele finalmente aparece, com um atraso de mais de meia hora.
— Você precisa começar a considerar uma margem de erro. — ele ri, animado como sempre e só então seguimos para nosso destino.
Sair com Yago, diga-se de passagem, sempre foi sinônimo de diversão. Passamos boa parte do tempo juntos, mas como ele é o proprietário da casa de shows onde estamos, em determinado momento da noite, ele precisou me deixar para lidar com alguns pequenos contratempos.
Já percebi, depois de todo esse tempo, que dificilmente um homem se aproxima de mim enquanto Yago está por perto. Certamente imaginando que ele é meu namorado e não meu irmão. Hoje, não foi diferente.
A primeira regra que criei em relação a qualquer homem, é: nunca, em hipótese alguma, passe seu número. Costumo sair à noite única e exclusivamente para curtir, definitivamente não tenho paciência para lidar com um cara pós-balada.
— Está na minha hora. — sussurro, quando os lábios de um moreno, bastante interessante, se afastam dos meus.
— Posso te acompanhar? — ele pergunta, deixando um beijo em meu pescoço.
— Eu adoraria, mas vim com meu irmão. Ele já deve estar me esperando. — uso a desculpa de sempre e me despeço, deixando para trás um cara com um número de telefone que não é meu e com esperanças de que realmente estou interessada.
Consigo encontrar Yago em um dos camarotes, conversando com outro homem. Encaro-o a distância por alguns instantes e só então o reconheço. . Apesar de sócio e melhor amigo do meu irmão, é a primeira vez que o vejo pessoalmente.
— Olá. — cumprimento os dois ao me aproximar.
— Oi. — responde com um belo sorriso no rosto.
— Vamos embora, Yago? — pergunto, porque de alguma maneira, a companhia de me deixa desconfortável.
— Vamos sim. — ele concorda e em seguida estende a mão para o amigo. — Resolvemos isso amanhã, pode ser?
— Claro. — retribui o gesto e em seguida desvia sua atenção para mim. — Até mais.
— Até. — respondo de forma automática e respiro aliviada quando Yago pousa o braço em meu ombro e me guia rumo ao estacionamento. — O cara que estava com você é seu sócio, certo? — questiono assim que entramos no carro.
— Certo.
— E por que eu nunca o vi aqui antes?
— Porque ele estava morando no Rio de Janeiro. Foi para lá na época em que iriamos inaugurar mais uma de nossas filiais e acabou ficando.
— Então ele está só de passagem? — pergunto, mas intimamente estou tentando entender qual foi o problema que vi em e que me causou esse repentino interesse.
— Na verdade não. A família dele mora aqui e por isso ele resolveu voltar. Chegou ontem à noite, junto comigo. — Yago esclarece, mas em seguida sinto um ar tenso se apoderar do ambiente. — Sem querer ser chato, mas tem namorada. — completa, cheio de cautela.
— Não! — exclamo, ao perceber o que se passa na cabeça do meu irmão. — Não estou interessada nele, pelo contrário. Só lhe perguntei por curiosidade.
— Fico aliviado em ouvir isso. já é meu sócio, melhor amigo, cunhado... Namorado da minha irmã seria demais para mim!
— Credo, Yago! Não há a menor possibilidade de isso acontecer! — afirmo convicta.
— E o cara que estava com você hoje à noite? — questiona, lançando-me um olhar de canto.
— Advinha?
— Você não deu seu número para ele...
— Exatamente!
— Quantos homens você já iludiu?
— Essa é uma conta difícil de fazer. — respondo e tanto eu quanto Yago acabamos rindo.
— Eu ainda espero pelo dia que você vai passar o número certo para um cara.
— Espere sentando, porque isso definitivamente não acontecerá.
— Já parou para pensar que talvez você só esteja magoada demais pelo o que aconteceu? Não acho justo você eliminar todas as opções de uma única vez. — ele argumenta, enquanto guarda o carro na garagem de nossa casa.
— Eu prefiro continuar assim, porque, com todo o respeito, homens não prestam.
— Assim você me ofende.
— Você sabe que é minha única exceção.
— Talvez possa existir outra.
— Talvez nós devêssemos ir dormir e esquecer essa conversa. — sugiro assim que chegamos à sala.
— Tudo bem. — ele suspira derrotado. — Mas não se esqueça do jantar na casa da Luiza.
— Não esquecerei. — afirmo e Yago deposita um beijo no topo da minha cabeça. — Boa noite.
— Boa noite e obrigado por não me deixar sozinho.
Quando me deito na cama, me pego pensando instantaneamente no moreno que conheci essa noite. Apesar de ser absolutamente bonito e o mais importante, ser um cara interessante em uma conversa, torço para não encontrá-lo novamente. Ou se caso isso venha acontecer, que ele simplesmente me ignore e não venha pedir explicações a respeito do número que passei errado.
Infelizmente isso já me aconteceu algumas vezes. Poucas, na verdade, mas que ocasionaram situações absolutamente chatas. Alguns homens simplesmente não aceitam o fato de serem dispensados por uma mulher. Voltam com aquele ar de "acho que você se enganou" ou "devo ter entendido errado".
Não seria muito mais fácil se eles apenas aceitassem a derrota e seguissem em frente?
Decido esquecer esse assunto por hora, para me concentrar em algo que agora é muito mais importante: Yago está namorando. Até que ponto isso irá interferir ou modificar nossas vidas? Eu não faço a menor ideia. Sei apenas que meu irmão merece mais do que ninguém ser feliz. E se a felicidade dele está relacionada à Luiza, o mínimo que posso fazer, é apoiá-lo.





Capítulo 3


Estou na cozinha, comendo um sanduíche, tendo em vista que acordei depois do almoço, quando Yago aparece visivelmente nervoso.
— Você precisa escolher alguma coisa para eu vestir hoje à noite.
— Você sempre fez isso sozinho.
— Mas agora é diferente.
— Você já foi a inúmeros jantares e nunca precisou de mim. Sendo franca, sempre achei que você tem um excelente senso de estilo.
— Esse jantar é mais importante do que os outros.
— Tudo bem! Depois dou uma olhada no seu closet e separo algo.
— Obrigado. — ele murmura e por um instante, tenho a sensação de que ele está perdido no "fantástico mundo de Yago". — Sei que estou parecendo patético, mas é realmente importante para mim.
— Eu entendo. — digo para tentar confortá-lo, mas a verdade é que por mais que eu tente, simplesmente não consigo me ver na situação que ele está vivendo. — Mas eu tenho certeza que vai dar tudo certo. Não tem porque não dar.
— Você tem razão. — ele concorda, balançando discretamente a cabeça, como se quisesse se livrar de alguns pensamentos.
— Eu sempre tenho razão! — brinco enquanto me levanto para lavar a louça.
Yago mantem-se visivelmente distraído o restante da tarde. Concluo que ele está com a cabeça cheia de ideias, planejando o que acontecerá a noite. Por fim, acabo desistindo de tentar conversar com ele, depois de ter que repetir várias vezes algumas coisas, sem obter realmente sua atenção.
Como prometi, fui até o closet dele e deixei sobre a cama o que considero apropriado para a ocasião. Satisfeita com minha escolha, vou para meu quarto decidida a ficar pronta mais cedo, porque caso haja algum imprevisto que me faça atrasar, certamente eu perderei o irmão.
— Acho que já podemos ir, não é? — Yago aparece em meu quarto, mais cedo do que o combinado, aparentemente nervoso. Concordo sem levantar qualquer objeção, considerando que já estou pronta. — Você está linda! — ele comenta enquanto seguimos para a casa de Luiza.
— Obrigada. Meu grande objetivo dessa noite é não fazer você passar vergonha. — digo e enfim vejo-o sorrindo.
— Tenho certeza que não vai, caso contrário, você corre o risco de ficar desabrigada. — ele brinca e me sinto satisfeita por ao menos ser útil para deixá-lo um pouco mais relaxado.
De certa forma, fico aliviada ao perceber que não demoramos muito para chegarmos ao nosso destino. "Quanto antes isso começar, mais cedo terminará", penso assim que Yago toca a campainha.
Somos recebidos por , que cumprimenta seu amigo com o mesmo sorriso que me deu na noite passada, quando nos conhecemos. Porém, seu sorriso se desfaz assim que seus olhos recaem sobre mim.
Isso não é um bom sinal!
— Você foi embora com ela ontem a noite, não foi? — fita Yago, como se estivesse exigindo explicações.
— Sim. — meu irmão responde de sobrancelhas franzidas.
— Então por que diabos ela está aqui? — o outro retruca, com a voz áspera.
— Parece bastante óbvio. — me intrometo na conversa, porque uma pequena desconfiança começa a crescer dentro de mim.
— Não parece não! — ele responde dirigindo a mim um olhar de desaprovação. — Isso só pode ser uma brincadeira de mau gosto. — resmunga, mais para si mesmo do que para nós.
Percebo então duas figuras se aproximarem. Reconheço a namorada de Yago sem muito esforço e deduzo que a outra seja a namorada de no instante em que eles entrelaçam as mãos.
Sinto uma raiva enorme se apoderar de mim.
— O que está acontecendo aqui? — Luiza pergunta, possivelmente sentindo o clima tenso que nos envolve.
— É o que eu estou tentando descobrir. — responde visivelmente incomodado com minha presença.
— Não é nada, Luiza. — esclareço, tentando ao máximo controlar o tom da minha voz. Ela não tem culpa de ter um irmão tão idiota. — Só fico me perguntando por que as pessoas não conseguem ver a mim e Yago como irmãos e começam a nos julgar tão ridiculamente.
— Como é? — indaga, agora espantando.
— Essa é a , minha irmã, . — Yago explica e tenho certeza que ele entendeu tão bem quanto eu o que vinha pensando de nós.
— Eu não acredito que ele fez isso! — Luiza esconde o rosto entre as mãos e parece impossível decidir quem está mais constrangido.
— Tudo bem, só não tem mais clima para mim.
, por favor. — Yago pede, mas dessa vez terei que desapontá-lo.
— Vai ser ainda pior se eu ficar. — digo a ele, que acaba concordando, já que me conhece há tanto tempo.
— Eu sinto muito, de verdade. — Luiza lamenta, sem ter coragem suficiente para me encarar.
— Não se preocupe. Nós conversamos outra hora, está bem? — tento ser educada e recebo um sorriso aliviado em troca. Mas aí, meus olhos encontram o cara que estragou completamente à noite. Respiro fundo, mas não consigo evitar, quando me dou conta, as palavras já estão saindo da minha boca.
— Yago não é como você que não fica satisfeito com apenas uma mulher.
Confesso que eu não sei se se envolve com outras mulheres ou não, mas depois do que ele insinuou, seria completamente injusto eu deixar barato. Apanhei demais da vida, mas agora eu aprendi a bater também.
O ato de pegar um táxi e ir parar em casa pareceu bastante inconsciente para mim. Há muitas perguntas sem respostas zanzando em minha mente. O que aconteceu essa noite poderia ter sido algo absolutamente normal se viesse de um estranho qualquer, mas se tratando do melhor amigo do meu irmão é completamente estranho e sem sentido.
Esforço-me para imaginar alguma justificativa plausível, mas parece impossível entender sozinha o que aconteceu. Deito-me no sofá já conformada com o fato de que terei que esperar Yago chegar, para talvez, conseguir algumas respostas.
Me pego pensando então, em como o clima deve ter ficado pesado depois que fui embora. Começo a torcer para que meu irmão seja um pouco compressivo e não queira me matar pelo que fiz essa noite.
Mas, afinal de contas, por que é que o irmão de Luiza tem que ser tão babaca assim? Por que não posso ter um momento de sossego em minha vida e fazer com que pelo menos as coisas possam dar certo para Yago?
São apenas mais perguntas, que não possuem repostas.




Capítulo 4


?
Abro os olhos assustada, deixando para trás um mundo de pesadelos. Porém, assim que vejo Yago me fitando tenho a sensação de que talvez o pesadelo ainda não tenha de fato chegado ao fim.
— Sinto muito por ter estragado seu jantar. — me apresso em dizer, sentando-me em seguida.
— Foi uma situação chata. Você tinha razão em ter ficado brava. — ele responde enquanto se senta ao meu lado. Sua expressão ainda não me deixa claro o que ele está sentindo.
— Devo procurar um lugar novo para morar? — questiono, lembrando-me do que ele havia me dito pouco antes de chegarmos à casa de Luiza.
— Não seja boba! — ele revira os olhos, mas agora percebo que ele está se segurando para não rir.
— Como as coisas ficaram depois que eu fui embora? — peço, com uma ponta de culpa.
— Acho que você arrumou uma boa encrenca para o . A namorada dele não ficou nada satisfeita com o seu comentário.
— Bem feito para ele! — dou de ombros, sem sentir um pingo de remorso por ter dito o que disse para o amigo do meu irmão.
— Aquilo não era verdade, ou era? — Yago me lança um olhar sério e sei que a resposta para isso pode fazer toda a diferença em relação à amizade dele com .
— Claro que não. Não sei nada a respeito da vida dele e nem faço a menor questão de saber.
— Você sabe como animar um jantar! — meu irmão sorri, parecendo mais a vontade.
— Posso te perguntar uma coisa? — indago, depois de alguns instantes de silêncio.
— Pode sim.
é seu sócio e seu melhor amigo. Como ele não sabia que eu sou sua irmã?
Yago solta um longo suspiro antes de responder.
— Você sabe como sou discreto em relação a minha vida pessoal. É claro que tanto o quanto alguns outros amigos meus sabem que eu tenho uma irmã, mas pense comigo: até dois anos atrás eu era filho único e de repente surge uma irmã do nada. Acho que é difícil para eles associarem você a uma mulher de 21 anos.
"Talvez pensem que meus pais adotaram uma garota mais nova... Enfim, eu nunca fiz questão de ficar explicando porque isso levantaria a curiosidade de muitos. E falar sobre você pode significar falar sobre o seu passado. E esse é um assunto apenas nosso e de mais ninguém. Você entende?" — ele me fita com expectativa, como se estivesse tentando me explicar algo realmente complexo.
— Claro que entendo. — afirmo, porque sua justificativa faz todo o sentindo para mim. — Mas o que você vai dizer para o agora?
— Andei pensando nisso já. Ele não precisa saber dos detalhes, então vou dizer que você sempre foi minha melhor amiga e que acabou ficando sem um lugar para morar e por isso veio para cá.
— Obrigada por cuidar de mim dessa maneira. É muito mais difícil para você do que eu poderia imaginar.
— Faço tudo que posso para proteger você, .
— Você é realmente incrível. O melhor irmão que eu poderia ter encontrado e sinto muito por não corresponder à altura ás vezes. Eu sabia que essa noite era importante para você, deveria ter me controlado. Você tem todo o direito de ficar irritado comigo.
— Vou esquecer o que aconteceu hoje com uma condição. — estreito os olhos para Yago que agora está sorrindo. — Eu e a Luisa marcamos de sair amanhã à noite, porém acabou se convidando para ir também.
— Céus! Ele é tão lerdo assim? — questiono fazendo Yago rir. — Você quer que eu vá também, estou certa?
— Está. Não estou pedindo para que você se torne a melhor amiga dele, só quero ter um trunfo na manga caso ele não deixe eu e a Isa em paz.
— E como você sabe que eu vou conseguir mantê-lo longe de vocês?
— Acredite em mim, se tem alguém que pode fazer isso, esse alguém só pode ser você.
Tudo bem! Não posso negar que Yago tem um pouco de razão. Digamos que eu levo jeito para enrolar os homens. Mas quando acordo na manhã seguinte, percebo que terei que me preparar psicologicamente para, muito provavelmente, ter que aturar durante a noite toda. Mesmo odiando com todas as forças a ideia, é o mínimo que posso fazer por meu irmão.
Tento manter meus pensamentos focados em outros assuntos durante o dia, mas a noite chega e eu não posso mais evitar o bendito encontro. Arrumo-me e espero por Yago na sala.
— Qual o motivo desse desânimo? — meu irmão questiona assim que me vê.
— Você ainda pergunta?
— Ele não é tão ruim assim, garanto a você.
— Não dizem que a primeira impressão é a que fica?
— Acho que ainda está para nascer alguém mais complicada que você. — acabo sorrindo. Ele está coberto de razão. — Vamos indo, antes que você desista.
Não fico nada surpresa ao perceber que estamos indo em direção a Estação 296, a casa de shows que pertence a Yago e .
Luiza já está com o irmão em um dos camarotes. Ela me cumprimenta de forma bastante gentil, enquanto mal dirige o olhar para mim. Não me incomodo nenhum pouco com sua atitude e fico bastante aliviada ao perceber que ele se afasta poucos minutos depois da nossa chegada.
Deixo Luiza e Yago sozinhos e me dirijo para uma mesa próxima ao bar. Peço uma bebida e fico sentada sozinha por um bom tempo, observando as pessoas se divertirem, até que noto alguém se sentando ao meu lado.
Reviro os olhos.
— Ela pediu um tempo depois daquilo que você disse. — obviamente se refere à namorada.
— Você não deveria estar em casa pensando nela? — peço, enquanto giro despreocupadamente meu copo de bebida que está sobre a mesa.
— Eu não vou ficar com outra mulher. — ele afirma, com um tom de voz bastante decidido.
— Eu não falei isso.
— Mas insinuou.
— Acho que você está imaginando coisas. Mas de qualquer modo, é bastante provável que você não resista. Afinal, os homens simplesmente não prestam.
Deixo falando sozinho, porque nada do que ele possa dizer fará com que eu mude de opinião.




Capítulo 5


Consciente de que mexi em uma ferida ainda muito recente, tomo o cuidado de manter uma distância segura entre mim e , mas sem perdê-lo do meu campo de visão, afinal, não quero que ele desconte sua frustração em Yago e Luiza. No entanto, algo me diz que é exatamente isso que vai acontecer.
Dito e feito!
Não demora muito para que ele siga em direção ao casal e eu faço o mesmo, disposta a não deixar nada e nem ninguém estragar com a noite do meu irmão.
— Vamos dançar! — puxo pelo braço, que meio confuso me segue até a pista de dança.
Percebo imediatamente que deve existir alguém conspirando contra mim, quando uma música lenta ecoa pelo espaço, substituindo a anterior que era bem mais agitada.
Um constrangido se aproxima de mim e leva uma de suas mãos até minhas costas. Sem muitas opções, sou obrigada a fazer o mesmo. Nossa proximidade faz com que eu perceba duas coisas: ele é muito mais forte do que eu julgava que fosse e seu perfume é definitivamente um dos melhores que já senti.
Quando me dou conta a respeito do que estou pensando, procuro de forma quase involuntária os olhos de . Praticamente paramos no meio da pista e o inesperado acontece: ele me beija.
Confesso que poucos caras beijam dessa forma. No entanto, não é só o beijo em si que é surpreendente. é intenso e sabe o que fazer exatamente na hora certa. Ele conseguiria facilmente me fazer perder a cabeça, caso eu tivesse me esquecido da nossa conversa de mais cedo.
Mas eu não esqueci.
Quando sinto os lábios dele se afastarem dos meus, sussurro algumas palavras:
— Eu disse que você não resistiria, não disse?
se mantem completamente imóvel, possivelmente assimilando o significado do que acabou de acontecer. Sorrindo, eu ainda mordo levemente o lábio inferior dele e só então vou embora, triunfante.
Opto por voltar para casa de táxi e mando uma mensagem para Yago avisando-o para não se preocupar comigo. Torço para que ele não tenha me visto com , porque se ele viu, estou certa de que não terei mais um minuto de paz.
Somente quando deito na cama é que começo relembrar de fato os acontecimentos da noite e inevitavelmente me vejo pensando em . Concluo que se não fosse por mim, ele não teria ficado com nenhuma outra mulher, como havia dito que faria.
— Acorda, ! — quando abro os olhos, tenho a sensação de que não faz cinco minutos que me deitei, mas pela claridade que entra pela janela já deve ter amanhecido faz tempo.
— O que você quer? — peço para Yago, cobrindo minha cabeça com a coberta.
— Só vim avisar que vou sair um pouquinho. — jogo um travesseiro em meu irmão e o fuzilo com os olhos.
— Dá próxima vez deixe um bilhete na cozinha.
— Que mau humor!
— Não sei se você percebeu, mas não tive uma noite tão boa quanto sua.
— Pensei que você tivesse, pelo menos, dormido bem.
— Como assim? — pergunto, sem entender a razão do seu comentário.
— Você não gritou essa noite.
— Tem certeza?
— Tenho sim. — ele responde bastante convicto, já caminhando em direção à porta. — Acredito que a explicação para isso é aquele beijo de ontem. — e antes mesmo de eu poder brigar, ele some porta a fora, me deixando sozinha.
Decido que não é muito seguro ficar pensando nas suposições de Yago e desço até a cozinha para tomar café. Assim que termino de guardar a louça, ouço a campainha tocar. Abro a porta e sou surpreendida por . Ele avança para dentro e me encurrala contra uma parede.
— Você conseguiu o que queria! — ele rosna e seus olhos parecem soltar fagulhas de raiva.
— A única coisa que quero de você é distância, mas infelizmente ainda não consegui isso. — rebato, na vã tentativa de me defender.
— Você acabou com meu namoro!
— Ah, francamente! Estou pouco me lixando para você e seus problemas com sua namorada.
— Se você não tivesse me beijado ontem, isso não estaria acontecendo.
— É claro! A culpa é toda minha agora. Você não tem a mínima responsabilidade sobre o que aconteceu. — retruco e apresar de toda minha irritação, eu sinto um desconforto enorme tendo em vista que o rosto de está a poucos centímetros de distância do meu.
— Se um não quer dois não beijam.
— Não sei se você se deu conta, mas isso significa que se você não quisesse, o beijo não teria acontecido. — as palavras saem da minha boca como um jorro.
me fita por um instante parecendo completamente perdido e finalmente vai embora, sem dizer mais nada. Rezo para que eu tenha conseguido me livrar dele de uma vez por todas.
Mal tenho tempo de me sentar no sofá e ouço a porta da frente se abrindo. Em um momento de delírio penso que pode ser novamente, mas logo me lembro de que tranquei a porta depois que ele saiu.
— Oi, pensei que você ainda estivesse dormindo. — Yago sorri, se jogando no sofá. — Você está bem? Parece que viu um fantasma.
— Vi sim. — murmuro e deito minha cabeça sobre as penas dele.
— Eu desconfiei, porque vi um saindo daqui. — conta, acariciando meus cabelos. — parecia bastante perturbado.
— Ele veio aqui para me culpar pelo fim do namoro, acredita? — questiono incrédula.
— Convenhamos que você não é totalmente inocente da acusação.
— Você está defendendo ele, é isso mesmo?
— A questão não é essa. Mas pense comigo: você colocou uma pulga atrás da orelha da Keila quando deixou a entender que se envolvia com outras mulheres.
— Eu só falei aquilo porque estava irritada.
— Eu sei disso. Mas depois do que aconteceu ontem, fica difícil para o encontrar um argumento. — Yago observa. — Pelo que Luiza me disse, uma amiga de Keila contou para ela que viu vocês dois juntos.
— Vai me culpar pelo beijo também? — pergunto completamente aborrecida.
— Claro que não. Mas o fato é que o beijo aconteceu e isso colocou em uma situação bastante complicada.
— Você pode fazer um favor para mim?
— Claro. O que você quer?
— Quero que você nunca mais me peça para ir a algum lugar onde possa estar, ok?
— Mas, ... — Yago tenta argumentar, porém eu o interrompo.
— Já está decidido. Posso conviver tranquilamente com Luiza, mas não me peça para aturar aquele idiota de novo!
— Ok. — ele concorda, mas noto que faz isso contra a vontade. — Vou viajar hoje à tarde. — para meu alívio, ele decide mudar de assunto.
— Para onde?
— Rio Grande do Sul.
— Mande um abraço para seus pais.
— Pode deixar. — ele concorda, sorrindo. — Eu devo estar de volta no final de semana, você vai ficar bem até lá?
— Vou sim. Não se preocupe comigo.
As frequentes viagens são possivelmente a parte que Yago mais gosta do seu trabalho. No entanto, para mim elas não possuem um significado tão atrativo. Significam apenas que mais uma vez, estou sozinha.




Capítulo 6


Acordo devido a alguns barulhos que parecem vir do andar de baixo. Contra a vontade, acabo levantando para ver o que está acontecendo. Assim que coloco o pé no primeiro degrau da escada ouço a voz de e paro imediatamente.
Ele está conversando com Yago sobre mim.
— Você não conseguiria suportar ela. — meu irmão afirma.
— Você está duvidando de mim? — questiona em tom desafiador.
— Dois meses namorando ela. Mas namoro sério, com tudo o que tem direito. — ouço Yago propor e arregalo os olhos, sem acreditar que ele esteja de fato fazendo isso comigo.
— Fechado! — responde, deixando-me completamente atordoada.
Não tenho coragem para ouvir mais nada, nem mesmo para saber qual será o prêmio da aposta. Sinto meu corpo ferver de raiva, no entanto, me esforço para manter os pensamentos claros. Preciso decidir o que vou fazer.
Não posso simplesmente dizer a eles que ouvi a conversa. Preciso encontrar uma maneira de me vingar. Deito novamente na cama enquanto analiso cuidadosamente as opções que tenho. Chego à conclusão de que talvez valha a pena entrar no jogo deles. Assim, posso infernizar a vida de e de quebra fazer com que Yago perca a aposta.
Paro de pensar no assunto quando vejo meu irmão entrando em meu quarto.
— Tudo bem? — ele pergunta, como se a conversa que estava tendo a pouco fosse sobre algo sem importância alguma.
— Tudo ótimo! — respondo, aderindo a mesma postura descontraída dele.
— Tem algum problema se a Isa vir jantar aqui hoje?
— Claro que não.
— E por acaso você já tem algum compromisso?
— Não, mas posso sair e deixar a casa livre para vocês. Sem problema algum!
— Na verdade perguntei por que queria que você jantasse com a gente.
— Tem certeza? — peço, sem a mínima vontade para receber visitas na atual circunstância.
— Absoluta.
— Mas depois do jantar eu subo para o quarto, está bem?
— Como preferir. — ele concorda, sorrindo.
— E como foi sua viagem? — indago tentando encontrar um assunto que seja mais seguro de ser abordado.
Yago começa fazer uma descrição detalhada da sua semana, mas não consigo prestar atenção em muita coisa. Fico me perguntando apenas quais devem ser os motivos que levaram a essa aposta idiota.
Depois de contar tudo o que queria, Yago volta a me deixar sozinha e aproveito para fazer algo útil. Decido arrumar meu closet a fim de me manter concentrada em outras coisas.
Levo boa parte da tarde para deixar tudo como queria. Só então me concentro nos preparativos para o jantar. Apesar de ser ideia de Yago, seria um milagre se ele se encarregasse de alguma coisa.
Quando Luiza chega — um pouco mais cedo do que o combinado, já tenho tudo devidamente organizado e por isso, aproveito para conhecê-la melhor. A impressão que tenho, logo de início, é a de que Yago escolheu a pessoa certa. Ao contrário do irmão, a companhia dela é extremamente agradável.
Depois do jantar, Luiza me ajuda com a louça e só então eu me despeço e subo até meu quarto. Pego no sono rapidamente, considerando o dia cansativo que tive.
Desperto com alguém tocando de forma descontrolada a campainha. Com medo de que possa ser algo realmente importante, levanto-me e logo no corredor dou de cara com Luiza.
— Bom dia. — ela sorri, mas posso perceber quão envergonhada ela está.
— Bom dia. — retribuo seu sorriso de forma carinhosa. — Você está esperando alguém?
— Não, mas posso apostar que é o . — ela responde, e o fato de eu não ter perguntado o que ela está fazendo aqui, parece deixá-la mais calma. — Ele vai fazer um escândalo. — comenta, revirando os olhos.
— Deixe ele comigo. Só avise Yago para não descer agora. — aconselho a ela, que concordando entra no quarto do meu irmão.
Sigo em direção à porta de entrada já sabendo o que vou fazer.
— Olá! — dou um grande sorriso para um homem que agora está completamente sem reação.
— Luiza está aqui? — ele pergunta nervoso, depois de parecer ter recuperado os sentidos.
Por uma questão de "isso não é do seu interesse" opto por não responder a pergunta. Isso parece irritar que tenta avançar para dentro da casa. Impeço-o colocando meu corpo em sua frente. Meu gesto nos faz ficar bastante próximos.
Esse homem pode dizer ao mundo inteiro que me odeia, mas seu corpo deixa claro o quanto eu o afeto. Aproveito a oportunidade e coloco minha mão direita no bolso de trás da calça dele. Minha provocação o deixa ainda mais imóvel.
— Qual o motivo do nervosismo? — peço para ele, com a voz sussurrada.
— O que deu em você? — ele usa o mesmo tom, mas posso notar uma ponta de desconfiança em sua voz.
— Absolutamente nada. — respondo, mas ele se afasta abruptamente.
Luiza enfim apareceu na sala.
— Eu sabia que você estava aqui! — ele esbraveja, encarando-a furtivamente.
— Ela está aqui porque eu insisti. Não sabia que estaria causando tanto problema. Realmente sinto muito. — me intrometo, antes que Luiza possa dizer algo.
— Posso saber por que você quis que ela ficasse? — desvia o olhar para mim e vejo um vinco formado em sua testa.
— Eu acabei passando mal depois do jantar e pedi que ela me fizesse companhia.
— E Yago?
— Ela dormiu no meu quarto, se é isso que você quer saber. — rebato sem pestanejar.
— E por que você não atendeu ao celular? — ele se volta novamente para a irmã.
— Porque esqueci o celular aqui na sala. — ela aponta para o sofá, indicando o lugar onde sua bolsa está.
— Qual a parte do "eu passei mal" você ainda não entendeu? — questiono a ele, tentando colocar um fim a discussão.
— Tudo bem. — ele cede, mas pouco convencido. — Agora vamos para casa.
Luiza vem até mim e me abraça, sussurrando um "muito obrigada" em meu ouvido. Assim que ela sai, eu e ficamos sozinhos mais uma vez. Ele me encara por longos segundos, até que decide ir embora.
— Se cuide, meu bem. — falo, antes de ele sair. Tenho a impressão de que ele hesita momentaneamente, mas em seguida, some porta a fora.




Capítulo 7


Eu definitivamente estou entrando no jogo que Yago e decidiram iniciar. O que talvez nenhum deles saiba, é quando entro em algo, entro para ganhar.
— O que aconteceu? — meu irmão está no corredor, visivelmente nervoso.
— Para todos os efeitos, ontem eu passei mal e pedi para a Isa ficar aqui. — explico para não correr o risco de descobrir a mentira que inventei. — E ela dormiu no meu quarto, inclusive. — concluo por precaução.
— Fico te devendo mais uma. — ele diz, enquanto descemos em direção à sala.
— Esteja certo que vou lhe cobrar. Não foi nada fácil convencer seu cunhado. Ele estava bastante irritado.
— Ele está com ciúmes. Se é assim com a irmã, imagina com a namorada?! — Yago se joga no sofá, mais relaxado do que nunca. Tomo consciência de que essa é a primeira vez que o ouço criticando seu melhor amigo.
O que uma aposta não faz!
— Vamos jogar vídeo game? — ele sugere arrancando-me do meu devaneio.
— Vamos!
Quando se convive com um homem, você é praticamente obrigada a aprender a jogar e modéstia parte, depois que peguei o jeito, me tornei uma ótima jogadora.
Passamos a manhã toda em frente à televisão, em meio a provocações e risadas.
— Vou tomar banho que ganho mais! — Yago resmunga, depois de ter sido derrotado novamente por mim.
— E eu vou pedir o almoço.
Depois de ligar para o restaurante, ouço o barulho de um celular tocando. Encontro o aparelho de Yago no sofá e vejo o nome de na tela.
— Alô.
É quem?
— Nenhuma amante do Yago, isso eu garanto. — respondo ironicamente.
Ah é você! — ele exclama, parecendo sem jeito. — Yago está?
— Ele está no banho.
Você pode pedir para ele me ligar depois?
— Posso sim. — concordo, fazendo-me de boa moça. — Mais alguma coisa?
Tem sim. — ele murmura depois de um instante em silêncio.
— Estou ouvindo.
Quando você vai esquecer o que aconteceu naquele maldito jantar?
— Talvez quando você se desculpar.
Eu realmente sinto muito, .
— Vou pensar no seu caso com carinho. — prometo e em seguida encerro a ligação.
As coisas não serão assim tão fáceis para .
— Seu sócio ligou. — informo meu irmão assim que ele dá as caras novamente.
— E você atendeu? — ele pede, parecendo duvidar da ideia.
— Sim. E ele pediu para que você retornasse. — passo o recado enquanto me dirijo para a cozinha. — Mas vamos almoçar primeiro, pode ser?
Ele concorda e me ajuda a pôr os pratos na mesa.
— Nós poderíamos ir pescar hoje à tarde, o que você acha? — ele pergunta já se servindo.
— Quando você diz "nós" se refere a quem exatamente?
— A mim e você.
— Sem incluir a Luiza?
— É melhor deixar o se acalmar um pouco.
— Em resumo, eu virei um quebra galho! — decido fazer um pouco de drama.
— Olha o ciúme! — ele ri e engatamos uma calorosa discussão sobre o assunto.
Somente depois de termos organizado a cozinha e as coisas que vamos precisar é que seguimos para o lugar que mais amo.
A chácara é uma das propriedades da minha família. Ela é meu refúgio. O lugar onde consigo encontrar sossego e posso recordar, sem medo, do passado. Acredito que isso se dê pelo fato dela estar rodeada de lembranças felizes. É o único lugar que não foi contaminado pela dor.
Enquanto Yago organiza os equipamentos de pesca, eu dou uma volta pela casa para ver se está tudo certo. Sou pega de surpresa ao ouvir barulho de carro se aproximando.
Quando chego à varanda dou de cara com .
— O que você está fazendo aqui? — questiono sem esconder o tom de raiva em minha voz.
— Convidei Yago para pescar, mas ele disse que iria sair com você e me convidou para vir também.
— Eu vou matar aquele idiota! — resmungo para mim mesma, sem acreditar no que está acontecendo.
— Acho que eu nunca vou conseguir entender você. — me fita, parecendo desapontando com minha reação.
— Está aí uma coisa em que concordamos.
— Já é um bom começo, pequena. — fico completamente imóvel ao assimilar as palavras de .
— Do que você me chamou? — pergunto ainda mais irritada, sem acreditar no que acabei de ouvir.
— Pequena. — ele responde firme, como se estivesse a fim de me desafiar.
— Vá para o inferno! — rosno e volto para dentro de casa, incapaz de continuar olhando para o cara mais sem noção que já conheci.
Ele mal me conhece! Como pode achar que temos tanta intimidade assim? Só então me lembro da aposta. É imprescindível que eu mantenha a cabeça no lugar, se de fato pretendo acabar com o plano dos dois.
De cabeça fria, saio da casa e procuro por eles. Ambos já estão pescando e por isso decido parar próximo a uma árvore e ficar apenas observando-os. Os dois estão de costas para mim e possuem uma postura bastante descontraída. Confesso que a visão é um tanto quanto interessante.
Só depois de alguns minutos é que crio coragem para me aproximar.
— Pensei que você não viria mais. — Yago comenta e eu apenas sorrio para ele, ainda incomodada com o fato dele ter convidado o amigo sem me consultar.
— Você não vai pescar? — pergunta encarando-me por cima dos óculos escuros.
— Hoje não. — dou de ombros e me sento na grama, tentando lidar com o fato de que ainda terei que aturar por mais algumas horas.
Observo os dois por mais um bom tempo, até que Yago decide ir para o outro lado do lago e acaba desistindo de pescar, vindo se sentar ao meu lado.
— Yago disse que você pesca bem. — ele comenta, tirando os óculos e passando despreocupadamente a mão pelos cabelos.
— Exagero dele. Só tenho um pouco de prática.
— Você deveria ensinar seu irmão a ser modesto assim. Ele costuma ser bem convencido. — ele sorri.
— Acho que já faz parte da natureza dele ser assim.
— Você tem razão. — concorda e seus olhos se desviam para o lago. Ele parece estar tão perdido em seus pensamentos, que não tenho coragem de interrompê-lo. — Yago sempre foi muito cauteloso em relação a você. A impressão que tenho é que ele quer te preservar do máximo de coisas possíveis. — a repentina mudança de assunto me pega de surpresa.
— Tanto que só fui conhecer você pessoalmente agora. Mesmo você sendo melhor amigo e sócio dele.
— Pois é. Acho que boa parte disso se deve ao fato de eu ter morado no Rio e, boa parte pelo fato de Yago sempre ter evitado me encontrar na casa de vocês.
— Acho que ele sabia que eu não iria gostar de receber visitas.
— Talvez, mas agora que ele começou a namorar a Isa, tornou-se bem mais flexível quanto a isso. — recebo a notícia com menos entusiasmo do que demonstro.
— Vou precisar ir embora. — Yago nos interrompe, parecendo bastante apressado.
— Por quê? — questiono, querendo saber o motivo para ele estar retornando tão cedo.
— Um dos fornecedores de bebida está me esperando, para negociarmos.
— Ainda bem que você cuida dessa parte. Odeio negociações! — exclama.
— Eu cuido dessa parte, mas vou precisar que você leve a para casa. Alguém precisa organizar a bagunça que fizemos aqui e se eu ficar vou acabar chegando muito tarde.
— Vá para a reunião que eu e a ficamos para organizar e depois eu a deixo em casa. — rapidamente adere à sugestão do meu irmão.
— Será que vocês podem parar de falar de mim como se eu não estivesse aqui? — indago irritada, mas Yago me ignora completamente e segue a passos largos em direção ao seu carro.
Sem ter outra opção e me corroendo de vontade de dar uns belos tapas em meu irmão, arrumo tudo em completo silêncio, tentando esquecer que minha única companhia se resume ao cara mais importuno que já conheci.
, me ajuda aqui! — tenho que ceder ao perceber que a porta está emperrada e que não consigo de forma alguma fechá-la.
— Você está me pedindo ajuda, é isso mesmo?
Sinto uma vontade avassaladora de mandar para o quinto dos infernos, mas como sei que será praticamente impossível encontrar outra carona para ir para casa, acabo ficando quieta.
O desgraçado ainda me deixa sofrer por alguns momentos e só então decide vir me ajudar. De forma absolutamente desnecessária ele me abraça por trás e com uma facilidade irritante ele puxa a porta, fechando-a.
Fico encurralada entre a porta e . Consigo sentir o calor que seu corpo emana e sua respiração extremamente próxima a meu ouvido.
— Pronto, minha pequena. — ele sussurra, fazendo-me estremecer involuntariamente.
— Eu não sou sua! — rosno entre dentes, virando-me para encará-lo.
— Por enquanto. — ele retruca e sorrindo segue até o carro.
Fico calada durante todo o percurso de volta, sem acreditar que em menos de três dias depois de ter feito a aposta com Yago, já está me considerando um objeto seu.
Babaca!
Quando chegamos à frente da minha casa, também desce e se apoia distraidamente no capô do carro.
— Obrigada pela carona. — falo, tentando ao menos manter o tom de voz educado.
— De nada, pequena.
Passo o restante da tarde nutrindo meu ódio por . Decido esperar Yago chegar para tomar satisfação com ele, mas assim que ele se aproxima de mim e sinto o cheiro de um perfume doce (exatamente igual ao de Luiza), me calo.
A única pergunta que realmente começa a ter importância para mim é por que Yago se deu ao trabalho de inventar uma desculpa para me deixar sozinha com , se isso poderia fazê-lo perder a aposta?




Capítulo 8


As três semanas seguintes passaram rapidamente e vi começar a entrar em minha vida aos poucos. Nesse meio tempo, chego à conclusão de que ele consegue ser extremamente chato quando quer, mas também sabe ser gentil em determinadas situações.
No entanto, mesmo nos dias em que sua companhia não é tão terrível assim, quando olho para ele, lembro-me apenas da aposta e em como nós dois estamos fingindo para conseguir o que queremos.
— Oi, ! — Luiza abre um enorme sorriso assim que abro a porta para ela. — Pronta para o show? — pergunta visivelmente animada.
— Prontíssima! — afirmo enquanto a acompanho até a sala. — E ? — peço, porque a ideia de sairmos hoje a noite partiu dele.
— Ficou esperando no carro.
— Vou avisar a ele que você e Yago ainda vão demorar um pouquinho. — aviso ao ver meu irmão descendo as escadas, sorridente.
Deixo os dois sozinhos e saio de casa decidida a fazer com que as coisas entre mim e evoluam. Já estou cansada dessa história de sermos apenas amigos.
Meu futuro namorado está apoiado em seu carro, com sua postura descontraída de sempre, mas essa noite em especial, ele está de tirar o fôlego.
— Oi. — ele me recebe com um sorriso sedutor e eu me aproximo para abraçá-lo.
— Oi. — sussurro em seu ouvido e fico absolutamente satisfeita quando ele leva as mãos até minha cintura, puxando-me para ainda mais perto do seu corpo.
— Yago e Luiza? — ele questiona, sem desviar os olhos dos meus.
— Ainda vão demorar.
— O que significa que teremos um tempo só para nós.
— Exatamente! — concordo ao perceber certa malícia surgir em seus olhos. — Acho que é nossa obrigação aproveitar esse tempo da melhor maneira possível.
Entrelaço minhas mãos em volta do pescoço de e assim que seus lábios tocam os meus, percebo que talvez eu não tenha sido a única a sair de casa decidida a fazer nosso relacionamento engrenar.
— Você está linda! — ele sussurra quando nosso beijo é interrompido devido à escassez de ar. Ainda estou com os olhos fechados, mas posso sentir o nariz dele roçando o meu de leve.
— Você também está. — respondo e abro os olhos somente porque sei que vou ver um radiante em minha frente.
Acho que esse foi o primeiro elogio que ele recebeu de mim.
Por mais durona que eu seja não posso simplesmente negar o que é óbvio. está realmente bonito, mesmo vestindo uma camiseta totalmente branca e uma calça jeans preta, há algo diferente nele.
Gostaria de, pelo menos por mais uma vez, me sentir tão feliz como ele parece estar se sentindo agora.
— Você está triste. — ouço dizer e solto um longo suspiro, incomodada com o fato de deixar meus pensamentos transparecerem tão facilmente.
— Não é nada. — tento fazer com que minha voz soe convincente e aproveito nossa proximidade para abraçá-lo novamente. Tanto para esconder meu rosto, tanto para poder encontrar a fonte de seu perfume, que agora se tornou oficialmente o melhor que já senti.
aceita sem relutância meu abraço e não faz qualquer menção de encerrá-lo mesmo depois de longos minutos.
Nos afastamos somente quando Yago e Luiza aparecem, nenhum deles parecendo surpreso com o fato de eu e estarmos juntos e, para meu alívio, acabo não ouvindo qualquer comentário sobre o assunto.
De certo modo, acho engraçada a forma como se dispõem em segurar minha mão e em se manter ao meu lado durante o restante da noite. Aventuro-me a dizer que grande parte das mulheres se apaixonaria facilmente por ele, no entanto, estou convicta de que não pertenço a esse grupo.
Não nego que com o passar dos dias o fato de eu estar com por conta de uma aposta, começa a me incomodar. Porém, isso parece tão natural para ele que me obrigo a deixar a culpa de lado.
Você não é a única que está mentindo aqui!
Meu eu interior alega, quando penso que estou agindo de forma totalmente inescrupulosa.
Tentando criar argumentos inquestionáveis para seguir em frente com tal loucura, vejo o mês passar com uma rapidez absurda. Imagino que isso se deva porque agora também começou a fazer parte dos meus dias e requerer minha atenção.
O grande problema nisso tudo, é que ainda não estamos namorando.
Deixo em nosso camarote da Estação 296 para ir até o banheiro, tentando fingir que esse pequeno detalhe (mas de uma importância inegável) em nossa relação não me incomoda.
Sou pega completamente de surpresa quando uma mão segura meu braço, fazendo com que o lugar que sela nosso contato doa instantaneamente.
— Ei, me larga! — falo para o cara que me segura, tentando me desvencilhar.
— Vem comigo. — ele ordena e para minha aflição noto que ele está completamente bêbado.
— Me solta! — grito quando ele começa a me puxar em direção à saída e só então tomo consciência da gravidade da situação.
As lágrimas começam a se acumular em meus olhos e mesmo estando rodeada de pessoas ninguém parece perceber meu desespero. Todos estão concentrados demais na atração que está tocando no palco ou simplesmente não se importam.
Esforço-me para pensar no que fazer e só percebo que não há mais pressão alguma em meu braço quando vejo o homem que estava a causando cair no chão.
As lágrimas tornam-se ainda mais intensas quando encontro e percebo que foi ele quem me salvou.
— Está tudo bem agora. — ele sussurra para mim, envolvendo meu corpo em um abraço. — Cara, eu só não bato mais em você porque você está bêbado, mas nunca mais se meta com a namorada dos outros! — a voz de soa ameaçadora e o homem que agora está sendo levantado por dois seguranças parece atordoado.
Fico absolutamente grata quando percebo que estou sendo tirada do meio da aglomeração sufocante de pessoas e sendo levada até o lugar onde mais cedo deixamos o carro.
— Obrigada! — tento expressar toda a gratidão que estou sentindo, mas minha voz sai entrecortada.
— Não precisa agradecer. — me fita com atenção e posso ver em seus olhos, que no fundo, ele está tão assustado quanto eu. — Ele te machucou?
— Não. Mas se você não tivesse visto... — começo, mas sou calada por um beijo.
— Sempre estarei por perto para te proteger. — ele promete acariciando meu rosto com uma das mãos.
Sua promessa e seu gesto afetuoso fazem com que eu me acalme.
— Posso te perguntar uma coisa? — sou vencida pela curiosidade, certa de que não vou conseguir deixar escapar a oportunidade que surgiu, mesmo em um momento tão impróprio.
— Claro. — ele responde prontamente, talvez até imaginando o que vai acontecer.
— Que história foi aquela de "não se meta com a namorada dos outros"? — ergo as sobrancelhas e vejo um sorriso encantador se formar no rosto de .
Eu já notei como o sorriso dele é bonito?
— Me dê um segundo. — ele pede, destravando as portas do carro e procurando por algo lá dentro. — O que você acha de me levar um pouco mais a sério?
— Não seja dramático! — o advirto, mas a sensação que tenho é de nada seria capaz de fazer o sorriso dele desaparecer.
— É simples. Igual ao que eu já uso. — ele avisa, estendendo uma pequena caixa para mim, cujo conteúdo é um anel. — Você quer namorar comigo? — pergunta, com os olhos brilhando de expectativa.
— É claro que quero. — respondo e então ele coloca o anel em meu dedo.
Só mais dois meses.
E tudo volta a ser como era.





Capítulo 9


me contou o que aconteceu ontem. — ouço Yago dizer e sou obrigada a desviar minha atenção da TV. Ele está deitado em meu colo e agora me observa atentamente.
— Contou? — indago, querendo saber até que ponto meu namorado se vangloriou, considerando que aceitei seu pedido.
— Sim. Vou aumentar a segurança da Estação. Não admito que o que aconteceu com você volte a acontecer. Quero que as pessoas possam se divertir e não sejam assediadas da maneira que você foi. — ele diz e posso ver em sua expressão o quanto à situação o incomoda. — Acho que você deveria prestar queixa.
— Eu sei que deveria. Mas já estive em uma delegacia uma vez e não pretendo voltar lá nunca mais. — respondo e fico aliviada ao perceber que meu irmão não insiste no assunto. Provavelmente recordando quão devastada eu estava quando fui intimada para prestar esclarecimentos. E de como eu fiquei, após tê-los feito.
Outra coisa que me deixa surpresa é o fato de Yago não comentar nada a respeito da mudança em meu status de relacionamento. Porque pelo que conheço de , posso apostar que ele correu contar para o amigo a novidade.
De qualquer modo, prefiro deixar tudo como está.
Talvez se eu já tivesse enfrentado um relacionamento sério estaria menos decepcionada ao perceber que depois de apenas dois dias do início do namoro, minha vida se tornou um inferno. Quando eu e ficávamos, não nos encontrávamos com tanta frequência, ao contrário de agora.
E com a convivência, vieram as brigas.
— Eu não quero sair hoje! — bate o pé, decidido.
— Então fique em casa sozinho. — retruco, sem ter mais paciência.
Saio e por incrível que pareça, ele não vem atrás de mim.
No entanto, nossa briga, faz com que eu perca toda a vontade de ir para a balada. Mas como não posso dar o braço a torcer e voltar, decido ir até a casa de uma amiga.
Fico fora o tempo que julgo suficiente para ter ido embora, porém, quando entro na sala, o encontro dormindo no sofá. A vontade que tenho é esmurrá-lo até que ele acorde.
? — chamo-o, mas não obtenho resposta. — Hey! — tento novamente, dessa vez mais alto.
— Que horas são? — ele indaga, com a voz sonolenta.
— Meia noite e meia.
— Voltou cedo.
— A balada estava sem graça. — dou de ombros e vejo seus olhos escuros recaírem sobre mim.
— É claro, eu não estava lá. — ele se gaba, sorrindo. — Posso dormir com você?
Reviro os olhos ao ouvir sua pergunta.
— Vai sonhando, . Vai sonhando!
Subo para meu quarto e decido tomar um banho gelado para me acalmar. Entretanto, quando saio do banheiro percebo que isso não será tão fácil. está deitado confortavelmente em minha cama. Ainda tento acordá-lo, mas de duas uma: ou ele está dormindo muito profundamente ou está fingindo não me ouvir.
Aposto na última opção.
Sem muito que fazer, eu acabo me deitando ao seu lado e adormeço.
— Bom dia! — uma voz bastante conhecida sussurra próximo ao meu ouvido.
— Péssimo dia! — resmungo, ainda de olhos fechados e então sinto lábios tocarem meu maxilar e descerem até meu pescoço.
— Tem certeza? — ele questiona e posso sentir seu hálito soprado em minha pele.
— Está na hora de levantar, não está? — mudo o rumo da conversa, porque tudo que mais quero agora é longe do meu quarto.
— Está. — ele concorda, parecendo um pouco resignado.
Ele realmente acha que as coisas serão fáceis?
Levanto-me e vou até o banheiro, ignorando o formigamento em determinados pontos do meu pescoço. Exatamente onde há pouco instantes foram depositados alguns beijos.
Ciente de que Yago está em casa, convido para tomar café, apenas com a finalidade de colocar os dois frente a frente e poder analisar as possíveis reações.
— Já que a Isa não pode dormir aqui, eu deveria proibir você também, . — Yago comenta, assim que nos vê entrando na cozinha.
Estranho ao perceber que ele não parece nenhum pouco chateado ou irritado, pelo contrário, está visivelmente animado, mesmo com as circunstâncias indicando que ele poderá perder a aposta.
— Você não acha que é um pouco cedo para termos uma conversa dessas? — se senta ao lado do amigo e logo os dois engrenam uma conversa séria sobre os negócios. Alheios ao fato de que nada disso estaria acontecendo caso ambos não fossem tão egoístas.
Me pego pensando se por algum momento algum deles foi capaz de pensar em como eu me sentiria usada, caso descobrisse sobre a aposta ridícula que ambos tinham feito.
Tento compreender como Yago foi capaz de propor tamanha idiotice, mesmo depois de ter acompanhado todos os momentos difíceis pelos quais passei. Será que para ele essa história toda possui um objetivo maior ou tudo não passa de uma grande brincadeira?
Assim que os dois terminam o café e saem para trabalhar, me deito no sofá e começo a revisar determinadas atitudes de . Não consigo encontrar significado em algumas de suas palavras. Não consigo entender porque ele aparenta se preocupar tanto comigo e porque prometeu estar sempre por perto para me proteger, mesmo estando ciente de que nosso namoro tem um prazo de validade estipulado.
Como se todas essas dúvidas não bastassem, ainda tento compreender a razão pela qual parei de ter pesadelos desde o dia em que nos beijamos pela primeira vez. E porque, mesmo estando nutrindo uma raiva diária por , meu corpo ainda reage positivamente a seus toques.
E por fim há mais uma questão que me intriga: a aceitação de Yago. Se eu estivesse no lugar dele, tentaria fazer o possível e o impossível para dar um fim em meu namoro com . Usaria de todos os meios que estivessem ao meu alcance para poder ganhar a aposta ao invés de simplesmente fingir que não me importo, como ele vem fazendo.
Céus! A que ponto eu deixei minha vida chegar?
Se pudesse voltar no tempo, mandaria os dois à merda e seguiria minha vida tranquilamente, tomando cuidado para manter distante... Mas agora parece ser um pouco tarde demais para isso.





Capítulo 10


Yago acabou viajando em boa hora. Mais do que nunca preciso ficar sozinha para tentar analisar a situação de um ângulo diferente, mesmo sabendo que ele possivelmente não existe.
Sou tirada do meu devaneio pelo toque do celular.
— Oi, . — atendo, mas sem conseguir demonstrar muita animação.
Tudo bem?
— Tudo sim.
Vamos sair hoje à noite? — ele propõe e percebo que sua voz possui um tom inegável de empolgação.
— Desculpe, mas não tenho vontade.
Podemos assistir a um filme.
— Ou podemos deixar isso para amanhã.
Nem pensar! Quero te ver hoje.
— Você não deveria estar viajando com o Yago? — deixo escapar, já começando a perder a paciência.
Deveria, caso não estivesse de férias. — me mantenho muda, o destino só pode estar tentando brincar com a minha cara. — Daqui a pouco eu chego aí, está bem?
Não respondo, apenas repasso a informação mais uma vez, sem ainda acreditar.
De férias!
Era só o que me faltava.
Como o prometido, não demora para que chegue trazendo algumas opções de filmes. Deixo com que ele escolha o que iremos assistir, e assim que uma comédia começa a passar pela TV, fecho os olhos e acabo adormecendo no sofá.
Acordo quando percebo que meu namorado está se mexendo.
? — indago ainda sonolenta.
— Estou aqui. — ele responde, segurando-me no colo. — Vou levar você para o quarto.
Fecho os olhos novamente rumo a mais uma noite tranquila de sono.
Os dias que se seguem, acabam passando com certa lentidão e sempre pontuados por alguma discussão entre mim e .
— Você me ama? — estamos deitados no sofá, assistindo a um talk show, quando sou pega de surpresa por sua pergunta.
— Eu não acredito nisso. — acabo optando por ser sincera.
— Então por que você está comigo?
— Atração. — uso a primeira desculpa que encontro e decido virar o jogo. — E você, me ama? — minha pergunta não recebe nenhuma resposta. — Está vendo! Você tem seus motivos para estar comigo, assim como eu tenho os meus.
— Gostaria de entender por que você não acredita no amor.
— É uma longa história.
— Tenho tempo. — ele insiste e eu acabo me zangando.
— Não gosto de falar sobre isso.
— Mas... — ele tenta argumentar, porém o interrompo.
— Por favor, !
— Tudo bem. — ele cede, silenciando-se por alguns momentos. — E quando vou conhecer seus pais?
Santo Deus!
— Nunca! — respondo com a voz ríspida, duvidando que exista no mundo alguém que consiga me tirar do sério em tão pouco tempo como ele.
— Por quê?
— Se eu disse que você não vai conhecê-los, você não vai e pronto. Pare de ficar me questionando! — retruco já me levantando.
— Para onde você vai? — ele faz o mesmo, colocando-se em minha frente.
— Para o meu quarto.
— Vou com você.
— Eu quero ficar sozinha.
— Prometo que não vou falar mais nada.
Sabendo que tentar impedi-lo só causaria mais uma discussão, sigo para meu quarto sem dizer mais nada.
Deito-me em minha cama e pouco depois sinto os braços de envolverem meu corpo. Ficamos ali, juntos, em completo silêncio por um bom tempo, até eu pegar no sono.

???

Estou sozinha em um lugar desconhecido. De um momento para o outro, avisto duas pessoas caminhando em minha direção. As lágrimas se acumulam em meus olhos quando percebo que eles são meus pais.
— Mãe? Pai? — os chamo, mas é como se nenhum deles pudessem me ouvir. Fico aliviada ao perceber que ao menos, eles estão felizes.
Subitamente uma luz forte surge e acabo fechando os olhos, sem conseguir encarar a claridade. Quando os abro novamente, percebo que voltei a ficar sozinha em meio a um lugar totalmente escuro. A temperatura parece cair bruscamente e sinto pequenos calafrios percorrerem meu corpo.
Encaro a escuridão atentamente e então percebo uma silhueta conhecida se formar. Tão subitamente quanto antes, uma nova luz aparece e vislumbro um carro vindo em alta velocidade, pronto para atingir tudo o que está em seu caminho, inclusive ele.
Tomada pelo desespero, consigo apenas gritar por seu nome.

???


— Hey, pequena. Eu estou aqui.
Abro meus olhos e sinto o alívio tomar conta do meu corpo ao perceber que estou no meu quarto e que está abraçando-me, enquanto algumas lágrimas escorrem pelo meu rosto.
— Foi só um pesadelo. — ele afaga meus cabelos e tento fazer com que minha pulsação volte ao normal.
— Promete para mim que vai se cuidar? — as palavras saem da minha boca de forma automática.
— Eu prometo. — ele diz, afastando-se o suficiente para poder ver meu rosto. — Mas você precisa se acalmar agora. — pede, secando minhas lágrimas com uma das mãos. E apesar de tentar se manter firme, posso ver em seus olhos que ele está assustado também.
— Sinto muito por isso. Sei que é só um pesadelo.
— Não precisa se desculpar. — ele afirma, voltando a se acomodar. Faço o mesmo, mas dessa vez, ao invés de deitar-me de costas, prefiro ficar frente a frente. — Yago me contou sobre seus pesadelos. — comenta, enquanto seus dedos percorrem distraidamente a pele do meu braço.
— Na verdade é sempre o mesmo pesadelo, exceto essa noite. — me pego contando, sem saber exatamente por quê.
— Se lhe faz mal, você não precisa falar sobre isso.
— É tão complicado! — aperto os olhos, sentindo-me momentaneamente fraca.
— Está tudo bem! — sussurra de forma absolutamente doce, depositando um beijo em minha têmpora.
— Você não precisa aturar isso. — digo a ele, apontando para minhas lágrimas. — Apenas vá para casa e descanse.
— A questão não é se eu preciso ou não aturar, . A questão é que eu quero. — sua revelação me pega de surpresa.
— Por quê? — murmuro, tentando compreendê-lo.
Ele solta um longo suspiro, como se a resposta pudesse lhe causar dor. Vejo seus olhos se afastarem dos meus, na tentativa de evitar que eu veja o misto de sentimentos que lhe ocorrem.
Mas eu vejo.
Quando seus olhos recaem novamente sobre mim, agora mais tranquilos, ele responde:
— Não posso te deixar sozinha.
Repentinamente ele parece exausto. Como se houvesse um peso enorme sobre seus ombros e não houvesse maneira alguma de poder se livrar. Sei que há algo o incomodando. Pergunto-me se ele está se sentindo culpado pela aposta e se talvez esteja cogitando me contar à verdade.
— Você está bem? — indago, incomodada com o repentino silêncio que se fez entre nós.
— Sim. — afirma, mas sua voz parece vacilante. — Apenas durma agora, pequena. — ele pede e eu o faço.





Capítulo 11


Apoiada no batente da porta do banheiro, me pego observando dormir. Em algum momento da noite ele decidiu tirar sua camisa e vejo seu peito despido subindo e descendo, no ritmo da sua respiração.
Ele é bonito.
Mesmo agora, de olhos fechados, como o cabelo completamente bagunçado, perdido em seu mundo de sonhos... ele é inquestionavelmente bonito.
Deixo-o dormindo e desço para a cozinha repreendendo-me pelo rumo que meus pensamentos tomaram. Fico aliviada ao perceber que não terei que lidar mais com eles por enquanto, no instante que vejo que o cômodo não está vazio.
Bela, nossa diarista, está bastante ocupada lavando algumas louças. Ela tem um pouco mais de 50 anos e vem em nossa casa duas vezes por semana. Ela é um dos seres mais adoráveis que já conheci e com a passar do tempo, comecei a considerá-la como uma segunda mãe.
O fato dela nunca ter se intrometido em minha vida, só faz com que minha simpatia por ela aumente. E sempre que eu preciso de um conselho, basta me sentar na cozinha e falar.
— Olá, Bela. — a cumprimento, sentando-me a mesa.
— Olá, querida. Dormiu bem?
— Sim. — digo a ela, tentando reprimir as lembranças do pesadelo da noite passada.
— Bom dia! — ouço uma voz masculina chegar até mim e me viro para encontrar .
Eu e Bela lhe respondemos em uníssono, enquanto o observo vir até onde estou. Seus lábios tocam os meus com leveza, mas posso sentir que ele ainda está preocupado.
— Você está bem? — indaga, colocando alguns fios soltos do meu cabelo atrás da minha orelha.
— Estou sim. — afirmo, da forma mais convicta que sou capaz.
— Eu realmente preciso ir para casa, mas não quero te deixar sozinha. — ele murmura e noto o quanto a indecisão lhe incomoda.
— Bela irá passar o dia todo aqui, não se preocupe.
— Você tem certeza?
— Claro. Pode ir tranquilo.
— Se precisar de qualquer coisa me ligue, certo? — balanço a cabeça positivamente e recebo um novo beijo.
— Cuide-se. — peço a ele, com os lábios ainda próximos dos seus.
— Cuide-se também. — ele sussurra para mim e em seguida se afasta. — Tchau, Bela.
— Tchau. — ela responde, sorridente como sempre e então estamos sós.
conhece você? — acabo perguntando, quanto tomo ciência de que ele a chamou pelo nome, sem que eu os tenha apresentado.
— É claro! Trabalho na casa dele também.
Meu queixo cai com a novidade. Por essa eu definitivamente não esperava. Começo a me mexer desconfortavelmente na cadeira, sabendo que isso é uma espécie de aviso para Bela. Ela sabe que tenho algo a dizer, mas não possuo coragem suficiente para tocar no assunto.
— Parece que Yago não é o único nessa casa que está namorando. — ela comenta, lançando-me um olhar de soslaio.
— Tecnicamente. — mordo o lábio, insegura. Bela parece entender que a situação requer sua atenção e deixa o que está fazendo de lado, para me fitar, de sobrancelhas arqueadas, esperando que eu lhe dê algumas explicações. — Estou com ele por conta de uma aposta. — confesso e agora é a vez do queixo dela cair.
— Céus! — ela exclama completamente incrédula.
— Não me olhe dessa forma. A culpa disso tudo é dele e de Yago. Foram eles que apostaram e não eu. — sinto a necessidade de me defender.
— E como você sabe sobre a aposta?
— Acabei escutando a conversa dos dois, sem querer.
— No entanto, eles não sabem que você o fez.
— Definitivamente não.
— O que exatamente eles apostaram?
— Que namoraria comigo por dois meses.
— E você decidiu embarcar nessa loucura, apenas para se vingar dos dois?! — ela me repreende, ainda parecendo chocada com minha história.
— Basicamente.
— Mas pela sua cara, há algo dando errado.
— Yago não parece nem um pouco incomodado com o fato de que vai perder a aposta, pelo contrário, às vezes eu tenho a sensação de que ele aprova meu namoro. E , por sua vez, me diz algumas coisas que acabam sendo incoerentes, se analisado o conjunto todo.
— Você realmente acha que está com você apenas pela aposta?
— É claro que sim! — afirmo, afinal, por que mais ele estaria?
— E você, o que sente por ele?
— Nada. — respondo em meio a um longo suspiro. — Talvez ódio ou raiva.
— Mas você não é do tipo de pessoa que acredita em amor, não é mesmo? — observo Bela com expectativa, sem conseguir entender o que ela está tentando explicar. — Para mim, ódio é um sentimento oposto ao amor, então se você consegue odiar alguém, consequentemente acredita que o amor existe.
— Acho que entendo seu ponto de vista. — confesso ao mesmo tempo em que uma confusão de pensamentos começa surgir em minha cabeça.
— Eu conheço tão bem quanto conheço você. Não acredito que ele esteja com você apenas pela aposta, principalmente depois do que eu acabei de ver agora a pouco.
— Então por que ele está comigo?
— Ele está apaixonado, . Se não estivesse, não estaria tão preocupado com você da forma que estava.
Apaixonado?
As palavras de Bela soam de forma completamente inacreditável para mim. Tento empurrar para o fundo da minha mente o pensamento de que ela raramente se engana sobre algo.
Enquanto a mulher que acabou de me dar mais informações para analisar tenta dar um jeito na casa, deito-me no sofá e começo a passar distraidamente pelos canais da TV, sem de fato encontrar algo interessante para me distrair.
Sem ter no que desviar minha atenção, eu começo a pensar em meu namorado e em nossas constantes brigas. Considero que se talvez eu for um pouco menos implicante, nossa relação poderia deixar de ser tão turbulenta.
Decido arriscar. Não somente porque estou farta das nossas discussões, como também por ser obrigada a confessar que eu gosto da maneira como ele se preocupa comigo, quando estamos com a bandeira da paz levantada.
Já está escurecendo quando decido mandar uma mensagem para perguntando se ele está ocupado. Poucos instantes depois meu celular começa tocar e preciso lidar com um homem preocupado, achando que o fato de eu ter entrado em contato significava que eu não estava bem. Explico-lhe então que apenas quero saber se ele gostaria de vir até aqui em casa.
O motivo que me fez chamá-lo gira em torno do fato de Yago estar viajando e de que eu definitivamente não quero ficar sozinha com meus pensamentos, por mais tempo do que o necessário.
Fico completamente relaxada ao lado de , me esforçando para evitar qualquer assunto que possa ocasionar alguma discórdia entre nós. Já é tarde da noite, quando não resisto e acabo soltando:
— E se um dia eu for embora?
— Se você não voltar de jeito nenhum, vou ir atrás de você. — ele responde prontamente. — Mas e se eu for embora?
Penso no que irei dizer com bastante cuidado enquanto sinto me analisar atentamente. Mordo minha bochecha internamente, tentando não rir e me levanto calmamente do sofá.
— A primeira coisa que irei fazer será chorar, — o encaro tentando decidir se devo ou não completar a frase. Tomo minha decisão assim que ele abre um sorriso presunçoso. — mas certamente serão lágrimas de crocodilo.
franze a testa, inicialmente zangado, mas então vejo um brilho em seus olhos que indicam claramente "encrenca".
— É melhor você correr. — avisa apenas e eu disparo para fora de casa.
Assim que chego ao quintal e percebo que não sou rápida o suficiente para mantê-lo afastado, me jogo na piscina.
— Peguei você! — ouço sua voz rouca um momento antes de sentir suas mãos em minha cintura.
Estremeço. E juro que não é por conta da água fria que nos envolve.
— O que você vai fazer comigo? — questiono e mesmo querendo fazer minha voz soar plana, há expectativa escondida nela.
percebe.
Sua boca reivindica a minha com veemência. Levo minhas mãos até sua nunca, querendo-o mais perto. Ele não se opõe. Sinto todas as partes dos nossos corpos se tocarem. Pela primeira vez, sinto por ele algo parecido com desejo.
— O que deu em você, ? — ele sussurra, como os lábios ainda sobre os meus. Não lhe digo nada, porque agora que consegui recuperar o fôlego perdido, apenas quero beijá-lo novamente.
Sinto o corpo de reagir, o que me faz soltar um pequeno ruído em resposta. Enterro minhas mãos em seus cabelos, descobrindo o quão macio eles conseguem ser mesmo estando completamente molhados.
?! — ele segura meu rosto entre suas mãos e seus olhos me dizem que ele está se esforçando para ser racional. — Precisamos sair daqui. Não quero que você fique doente.
Concordo. Primeiro porque ele está certo e segundo porque não quero acabar nossa noite com um desentendimento por uma coisa absolutamente sem importância.
— Vou pegar uma roupa do Yago para você. — comento, assim que nos aproximamos da porta de entrada da casa.
— Não precisa. — ele informa e segurando-me pela mão, me faz parar de caminhar, girando meu corpo para ficar de frente com o seu. — Já estou indo para casa.
— Você não pode ir desse jeito. — tento convencê-lo, mas posso ver em seu rosto que ele já está decidido a respeito do que irá fazer.
— Eu vou para casa e você vai se livrar da sua roupa molhada, está bem?
— Mas, ... — tento argumentar, mas sou interrompida por um beijo calmo, completamente diferente daquele que trocamos ainda na piscina.
— Até amanhã, pequena. — ele murmura e vai embora.
Enquanto tomo banho, percebo que todas as brigas que tivemos até agora se deram apenas pelo fato de ser extremamente teimoso, exatamente como eu. Ou seja, nenhum de nós, dá o braço a torcer.
Percebo também, que o fato de ele me chamar de "pequena" já não me incomoda mais. Acho que estou começando a gostar disso, bem como estou adorando ser tratada com carinho e zelo por alguém que não seja Yago.
Prometo para mim mesma, que nunca vou deixar saber disso.




Capítulo 12


Ter aprendido a lidar com a teimosia de fez com que nossos desentendimentos diminuíssem consideravelmente. No entanto, existem situações em que simplesmente é impossível conseguir aturá-lo.
— Você pode ficar se quiser. Não me importo nem um pouco em ir sozinha. — informo a ele, que acabou de recusar meu convite para sairmos.
— Quero que você fique comigo. — ele responde de forma bastante tranquila, enquanto deita-se confortavelmente em minha cama.
— Isso já aconteceu uma vez e você deve lembrar perfeitamente bem em como a noite terminou. — dou meu último aviso, referindo-me ao dia em que ele não quis me acompanhar e eu acabei saindo sozinha.
— É claro que me lembro! — ele sorri diabolicamente para mim. — A noite terminou com nós deitados na sua cama. Acho que esse vai ser um bom desfecho para hoje também.
Reviro os olhos e vou até o closet trocar de roupa, inconformada com o fato de que quase sempre sou obrigada a aderir aos programas que sugere para nós, enquanto ele simplesmente ignora a maioria dos meus.
Assim que fico pronta volto para o quarto e noto que meu namorado está em pé próximo à porta, segurando uma chave na mão.
— Bonito vestido. — ele comenta visivelmente descontraído. — Pena que ninguém, além de mim, irá vê-lo.
Ele dá alguns passos em minha direção e vejo quão determinado ele está em me manter aqui. Respiro fundo, absolutamente certa de que está para nascer um homem que consiga tirar minha liberdade.
— Por favor, me devolve a chave. — peço da maneira mais educada que consigo.
— Detesto lhe dizer não, mas agora vou ter que fazê-lo. — dá de ombros e não tenho dúvidas de que ele está absolutamente feliz em me frustrar.
Termino com a distância que nos separa e o fuzilo com o olhar.
— Essa é minha casa, . Faço o que eu bem entender aqui dentro. Então faça a gentileza de me dar à chave e me deixar sair daqui. — minha voz sussurrada soa tão fria quanto eu gostaria.
— Sinto muito. — ele nega novamente, fazendo-me perder completamente a paciência.
Eu odeio você! — rosno e assim que vejo seu rosto se contorcer, arrependo-me do que disse.
Prendo a respiração assim que ele puxa meu corpo para junto do seu. Fecho os olhos, sem conseguir encontrar coragem para encará-lo. Sei que agora ele deve estar furioso comigo. Espero por alguma reação que demostre isso, mas sou pega de surpresa ao me dar conta que o único movimento feito por ele, tem como finalidade me deitar na cama.
Abro os olhos quando sinto os lençóis tocarem minhas costas e assisto se posicionar em cima de mim, prendendo minha cintura entre seus joelhos e segurando meus braços acima de minha cabeça.
— Eu sei disso! — enfim ouço sua voz e um pequeno gemido me escapa, ao perceber quão sedenta ela está.
Minha reação abre precedente para que os lábios de toquem os meus de uma maneira completamente urgente. Meu corpo reage positivamente, mas por um pequeno instante ouço meu inconsciente e tento me soltar. Meu esforço faz com que o beijo se encerre.
Deus! O que você quer de mim? — pergunta, com a testa junto a minha. Por trás de todo o desejo, vejo uma profunda tristeza em seus olhos, possivelmente causada por minhas atitudes.
Começo a odiar a mim mesma por estar fazendo com que ele se sinta assim. Apesar do seu jeito torto, ele sempre me tratou tão bem, apesar de muitas vezes eu não merecer. Além disso, sei que mesmo não gostando de admitir, tenho culpa pelo fim do namoro dele.
Talvez, se naquela noite eu não tivesse aberto a boca, ainda estaria namorando com Keila e a aposta que nos uniu nunca teria existido. Provavelmente ele estaria feliz ao lado dela e não sofrendo por minha causa.
— Quero que você tire minha roupa. — lhe respondo, porque já não quero mais ter aguentar meus pensamentos incômodos.
Quero apenas que me olhe da maneira que está fazendo exatamente agora, como se eu fosse a única coisa que de fato tem importância no mundo.
Ergo minha cabeça para poder sentir seus lábios novamente. Sabendo que não irá encontrar mais resistência, ele solta meus braços e escorrego minhas mãos entre seus cabelos, querendo-o mais perto, sem me lembrar de que até poucos instantes atrás tudo o que eu queria era uma chave, e que de posse dela, eu estaria apenas aumentando a distância entre nós.
Na ânsia de atender meu pedido, parece alheio ao fato do vestido que estou usando possuir zíper e acabo ouvindo somente o barulho de tecido sendo rasgando. Não me importo. Quero apenas eliminar tudo que possa separar nossas peles.
Meu coração parece bater de forma descontrolada, quando faz uma pequena pausa para tirar sua camisa. Tenho a sensação de que nunca desejei um homem, como o desejo agora.
Mas pudera, duvido ter encontrado alguém tão belo. Seus cabelos escuros combinam perfeitamente com a cor de seus olhos, que agora parecem arder de desejo. Sua pele, assim como sua boca, possui uma maciez inexplicável.
Posso sentir suas mãos percorrendo meu corpo de forma absolutamente leve, como se ele quisesse apenas me provocar. Solto uma pequena lamúria. Ele está conseguindo! E assim que seus lábios se deslocam para meu pescoço, sei que não há mais volta.
Cravo minhas unhas em suas costas despidas, deixando claro que o desejo. Não sou capaz de ver seu rosto, mas tenho certeza de que ele está sorrindo sobre minha pele. Lembro-me então, de como seu sorriso é encantador e começo a me perguntar se existe alguma coisa em sua aparência que esteja fora do lugar.
Não existe.
Cada pequeno traço de seu corpo é perfeito.
Amaldiçoo o destino por não ter encontrado com em outra época da minha vida. Em uma época onde tudo seria mais fácil para nós, onde nossa relação poderia ter sido verdadeira, onde eu realmente poderia ter sido capaz de me apaixonar.





Capítulo 13


Com o corpo coberto apenas por um lençol, relembro os momentos vividos na noite passada. Não me arrependo do que aconteceu. Tanto eu quanto queríamos e no fundo estávamos cientes de que isso não demoraria a acontecer.
Ergo o olhar, tomada pela sensação de que estou sendo observada.
— O que foi? — pergunto a ele, ao notar sua atenção totalmente voltada a mim.
— Você é incrível! — afirma, enquanto seus dedos acariciam meu rosto.
— Já estamos na cama, você pode pular essa parte de tentar me ganhar com seus elogios. — sorrio, torcendo para que ele não perceba que estou um pouco constrangida.
— Eu sempre elogiei você. As coisas não irão mudar.
— Você é um pedaço de mau caminho. — confesso, depositando um beijo em sua clavícula.
— Só um pedaço? — ele ergue as sobrancelhas, convencido como sempre.
— Você é o mau caminho em pessoa, confesso!
Ele solta um gargalhada contagiante e em seguida sinto seus lábios sobre os meus.
— Posso lhe contar uma coisa? — ele sussurra agora sério, segurando meu rosto entre suas mãos.
— Se você quiser. — respondo usando o mesmo tom baixo de voz.
— Nunca desejei uma mulher, como desejo você.
Sem saber o que lhe dizer, elimino a distância entre nossas bocas. Sinto-me exatamente como ele. Desejando loucamente alguém que terei apenas por dois meses junto a mim.
— Já está na hora de levantarmos. — aviso, quando sinto nossa respiração vacilar.
— Já? Poderia ficar aqui o dia inteiro!
— Eu tenho certeza que sim. — concordo depois de ter recebido mais um beijo breve. — Mas Yago já deve ter chegado da viagem. Estou com saudade dele. — falo, enquanto me levanto da cama.
— Viagem longa essa, não? — questiona, ainda deitado, me observando.
— Luiza estava com ele. Era bastante previsível que a viagem se estenderia por uns dias a mais, não? — respondo, terminando de me vestir.
— Nós dois deveríamos viajar também, já que estou de férias. — propõe visivelmente animado.
Você deveria parar de enrolar e levantar dessa cama agora!
— Tudo bem! — ele concorda enfim e o vejo sair de baixo do lençol.
O corpo de é definitivamente algo interessante de ser observado. Gosto de saber, que mesmo sendo teoricamente, está ao meu dispor. A ideia de ter um namorando não deve ser tão ruim assim, quando se sabe escolher a pessoa certa.
? — o chamo, no momento em que percebo uma das consequências da noite que passamos juntos. — Acho que você não deveria andar sem camisa pelos próximos dias. — alerto, sem conseguir esconder o sorriso em meu rosto.
— Por quê? — deixo de ter a visão das suas costas, no instante em que ele se vira para me encarar.
— Eu deixei algumas marcas sugestivas em você.
— Não acredito que você fez isso! — ele exclama, procurando pelo espelho, na tentativa de ver os arranhões que minhas unhas provocaram em sua pele.
— Sinto muito. — me desculpo, mordendo o lábio para segurar o riso.
— Sente mesmo? — ele me lança um olhar desafiador e dá alguns passos em minha direção.
— O que você vai fazer? — pergunto cautelosamente, ao ver sua expressão ganhar linhas suspeitas.
— Apenas me vingar. — ele sorri e imediatamente tento aumentar a distância entre nós.
Percebo que fracassei ao sentir o braço dele envolver a minha cintura e em seguida seu corpo pressionando minhas costas. Sinto sua respiração em meu pescoço e estremeço, sem saber o que me aguarda.
, por favor. — peço, desejando que meu tom de arrependimento o faça mudar de ideia.
— Sinto muito.
Ele afasta minha blusa e sinto seus lábios tocarem minha pele na altura do ombro. Ao invés de depositar um beijo no local, sinto-o sugar o ar. Fecho os olhos, sabendo exatamente qual será a consequência do seu ato.
— Você é completamente maluco! — exclamo, quando ele finalmente me solta.
— Você tem toda a razão. — responde, fazendo com meu corpo fique de frente com o seu. — Sou completamente maluco por você.
Nem mesmo seu lábios sedentos sobre os meus são capaz de dissipar minha irritação. Não consigo compreender como alguém consegue ser tão egocêntrico.
— Você consegue ser bastante idiota, ás vezes. — resmungo quando ele se afasta.
— E você, como sempre, só consegue apontar meus defeitos. — ele reclama e toda a sombra de sorriso que havia em seu rosto desaparece.
— Estou sem paciência para drama!
— E eu estou tentando entender porque não conseguimos ficar um dia se quer sem discutir. E porque nossas discussões se iniciam sempre por motivos tão ridículos, como o de hoje. — o tom acusatório vai além do empregado em sua voz, está bastante explicito em sua expressão também.
— Talvez o fato de termos começado da maneira errada, influencie nisso.
— O que você está sugerindo? — ele indaga, parecendo confuso.
Sua falsa ignorância faz com que eu tenha vontade de gritar aos quatro cantos que sei sobre a aposta. Não me conformo com o fato do meu corpo desejar alguém que age de maneira tão desleal comigo.
— Esquece isso. Falei sem pensar. — controlo-me, sabendo que de certa maneira, estou tão errada quanto ele.
— Você não está pensando em desistir de nós, não é?
Vendo seus olhos assustados fixos em mim, entrelaço minhas mãos em volta do seu pescoço e o beijo, sabendo que está é a única maneira de fazer com que as perguntas sejam interrompidas.
— Sinto muito pelo que disse. Fui grosseiro com você. — sussurra, abraçando-me apertado.
— Está tudo bem. A culpa não foi sua. — respondo, inalando profundamente seu perfume. — Podemos ir tomar café agora?
Ele concorda e veste sua camisa.
— Suas costas estão doendo? — pergunto, sentindo-me um pouco culpada.
— Não. Estou bem. — ele sorri, estendendo a mão para mim.
Como eu esperava, encontramos Yago na cozinha, já terminando de tomar café. Apesar de cansado, ele está visivelmente feliz.
— Como foi à viagem? — pergunto, depois de abraçá-lo.
— Ótima! Mesmo tendo que resolver os problemas da Estação à distância, já que meu sócio está de férias, eu e Luiza conseguimos aproveitar bastante. — ele sorri, não conseguindo perder a oportunidade de provocar .
Deixo os dois conversando enquanto preparo o café. Aprecio a forma como eles se entendem tão facilmente. Gostaria que eu e tivéssemos essa mesma sintonia de vez em quando.





Capítulo 14


A conversa de e Yago é interrompida apenas quando entrego a meu namorado uma xícara de café e me sento ao seu lado. Somente agora tomo ciência de quão faminta estou.
— Achei uma serventia para você. O café está bom! — ouço exclamar e me viro para encará-lo.
— Que bom que tenho alguma serventia para você, porque você não tem nenhuma para mim. — retruco e Yago começa a rir.
— Vou deixar vocês discutirem a relação em paz. — disse, levantando-se.
Meu comentário faz meu namorado ficar emburrado durante o restante do café. Assim que se dá por satisfeito ele deixa a mesa e vai se sentar na sala. Deixo-o alimentando sua raiva por mim e vou lavar a louça. Sei que não vai demorar para ele voltar a estar na palma de minha mão.
Somente quando termino meus afazeres é que vou até ele. Ignoro seu jeito rígido de sentar e seus braços cruzados, que demonstram claramente sua irritação. Sento-me em seu colo, de frente para ele e entrelaço minhas pernas em volta de sua cintura.
— Oi. — sussurro, meu nariz roçando o dele.
— Não me provoque, .
— E por que eu não deveria?
— Porque não tenho nenhuma serventia para você, lembra?
— Eu andei pensando a respeito. Conclui que você tem bastante serventia para mim quando está no meu quarto, deitado na cama... — faço uma pausa, fazendo minha boca chegar até o ouvido dele. — Sem roupa!
— Você é muito sem vergonha, sabia?
— Claro que sou! Mas convenhamos que exatamente por isso que você gosta de mim.
— Gosto até mais do que deveria. — ele solta um longo suspiro e deixo meus lábios tocarem os dele, selando nossa reconciliação. — Quero lhe pedir uma coisa.
— Estou ouvindo.
— Quero que você vá jantar hoje lá em casa.
— Não tenho boas lembranças de jantares em família. — respondo, fazendo uma careta.
— Eu muito menos. Mas quero que você conheça meus pais.
— Mesmo? — indago, sem entender porque ele deseja isso, já que sabe melhor do que ninguém que nosso namoro irá durar apenas dois meses.
— Claro! Vou convidar o Yago também, assim você não se sente tão perdida...
— Obrigada! — sorrio ao perceber que ele continua se preocupando comigo.
— Preciso ir para casa agora. Mais tarde ligo para o Yago, está bem?
— Claro. — concordo, levantando-me.
Acompanho até a porta e volto para o sofá, sem querer incomodar Yago que possivelmente está descansando em seu quarto. Me pego pensando no jantar que terei que participar essa noite. Inconscientemente volto no tempo, para ser mais exata, no dia em que ouvi Yago dizer a seguinte frase:
“Dois meses namorando ela. Mas namoro sério, com tudo o que tem direito”.
Aí está o motivo pelo qual quer que eu conheça seus pais. Tudo está incluso no maldito pacote que adquiri chamado aposta.
Já está anoitecendo quando sigo para meu closet com a finalidade de me arrumar. Vasculho o lugar tentando encontrar algo apropriado para vestir. As opções que tenho parecem não me satisfazer. Só depois do que parece uma eternidade me deparo com um vestido que tinha ganhado de minha mãe.
Mesmo estando guardado há anos, sua beleza continua a mesma. Não sou capaz ao menos de me lembrar da última vez em que o usei. Ele já não combina mais comigo, é extremamente delicado, algo que já não sou mais. Ainda assim, por impulso, acabo vestindo-o.
Quando termino de me arrumar, saio do quarto e encontro com Yago no corredor.
Meu. Deus! — ele exclama pausadamente. — Você está incrível!
— Obrigada. — agradeço, sentindo minhas bochechas corarem.
— Eu sinto falta de você assim. Sendo apenas a garota que eu conheci e não essa mulher que criou um punhado de meios para se defender.
— Eu sei. Ás vezes até eu sinto falta... Mas não quero falar sobre isso agora. Temos que ir.
Yago concorda e para meu grande alívio não toca mais no assunto enquanto seguimos rumo a nosso jantar. A sensação de percorrer esse caminho novamente é estranha para mim. Fico aliviada em saber que dessa vez, sei o que me espera.
Como da última vez, atende a porta e seu olhar sobre mim é de espanto.
— Você não vai me expulsar daqui, vai? — indago, ao vê-lo completamente sem reação.
— Não... Deus!... Você está linda! — ele gagueja e volto a me sentir envergonhada.
O jantar acaba sendo um dos melhores da minha vida. Mariana e Evandro, os pais de são exatamente como Luísa: extremamente queridos e gentis. Tenho a sensação de que eles gostaram de mim.
— Quero que você conheça meu quarto. — avisa, assim que seus pais vão dormir.
O espaço tem a cara do dono. Definitivamente não esperaria por outra coisa. A única coisa que realmente chama minha atenção é a foto de uma mulher sobre o criado mudo. Sem conseguir evitar, me aproximo e só então percebo que a mulher sou eu.
— Você tem uma foto minha? — pergunto surpresa, segurando o porta-retratos na mão.
— Vi no seu Instagram.
— É tão antiga... — comento, devolvendo o objeto ao seu lugar.
— Eu sei. Mas gosto dela. Vejo uma menina diferente da mulher que eu conheci.
— Eu acabei mudando muito com o tempo.
— Talvez. Mas hoje você está parecendo à garota da foto. — ele comenta visivelmente satisfeito, puxando-me pela cintura. — Você está incrivelmente perfeita!
Deixo que seus lábios toquem os meus. Há muito tempo eu não me sentia tão bem quanto agora. Por um instante, desejo que tudo o que está acontecendo seja mesmo real. Ainda custo acreditar que os beijos tão sedentos de , sejam falsos.
— Aqui não! — advirto meu namorado, quando percebo suas segundas intenções.
— Por que não?
— Seus pais estão dormindo aqui do lado...
— Você não vai dormir comigo? — ele indaga um pouco desapontado.
— Hoje não. Inclusive, já está na hora de ir para casa.
— Quero que você fique. — ele diz, acariciando minha bochecha.
— Eu não posso. — afirmo, deixando uma leve mordida em seu lábio.
— Não me provoque, pequena. — me alerta, encarando-me furtivamente. — Fique, por favor.
Puxo para fora do quarto, sabendo que se eu ficasse mais alguns minutos com ele, acabaria cedendo. Percebo que existem coisas que são difíceis de controlar e estou redescobrindo algumas delas ao lado dele.
Como Yago e Luiza saíram, ele acaba me levando até em casa. Percebo os verdadeiros objetivos dele logo que o carro é estacionado e ele desce. Faço o mesmo e fico observando-o iniciar a caminhada em direção à porta de entrada.
— Ei! — o chamo, recostada no veículo. — O que você está fazendo?
— Indo para sua casa. — ele se vira para mim, parecendo confuso. — Vou dormir com você.
— Sinto em desapontá-lo.
— Por quê? — ele indaga, voltando até onde estou.
— Você já dormiu aqui ontem. E sua mãe reclamou que você está um pouco ausente ultimamente.
— Isso é realmente sério? — pediu, descontente.
— Muito. — sorrio, dando a ele um beijo breve. — Boa noite.
— Boa noite. — ele murmura visivelmente decepcionado. — ? — ouço meu nome, quando já estou na metade do caminho e me viro para fita-lo. — Você está parecendo uma menina hoje. Eu prefiro você assim.





Capítulo 15


Deito-me na cama depois de um demorado banho. Por mais cansada que eu esteja não consigo adormecer. Minha insônia tem nome e sobrenome. Fico pensando em como tem se esforçado para vencer a disputa que travou com Yago. O prêmio para o vencedor deve ser algo realmente interessante. Só isso pode justificar tamanha determinação.
Acordo mais tarde do que o costume. Lavo meu rosto com água corrente tentando afastar o sono que ainda possuo. Voltar a dormir está fora de cogitação, porque sei que apenas vou ficar me virando de um lado para o outro, com pensamentos nebulosos me importunando.
Sigo até a sala e encontro Luiza. A cumprimento e me sento ao seu lado no sofá.
— E Yago? — pergunto percebendo a ausência do meu irmão.
— Foi se arrumar para sairmos. — ela responde e, pela sua cara, tenho a impressão de que ele fez isso há um bom tempo.
— Ele é terrivelmente vaidoso. Definitivamente um caso a parte.
— Estou começando a perceber isso.
— Você vai ter vontade de esganá-lo, ás vezes. Mas na maior parte do tempo, vai se sentir grata por tê-lo.
— Acho que posso dizer o mesmo de . — ela diz, sorrindo.
— Isso tudo é meio estranho, não é? — pontuo, perguntando-me se em uma situação normal, tudo isso estaria acontecendo.
Provavelmente não.
— Muito! — ela concorda, fitando-me atentamente. — Depois do que aconteceu com Keila, imaginei que não se envolveria com alguém tão cedo.
— E ele foi se envolver justamente comigo. A grande culpada pelo fim do seu namoro.
— Confesso que no começo achei que ele havia enlouquecido ou que estava apenas querendo se vingar. Mas agora é bastante fácil de perceber que ele está realmente apaixonado.
Meu queixo cai. Encaro Luiza tentando encontrar algum vestígio de que ela está apenas brincando ou algo que indique que ela sabe sobre a aposta. Não há nada. Apenas sinceridade.
— Estou pronto! — Yago comunica, aparecendo repentinamente no cômodo.
— Até que enfim! — a garota ao meu lado exclama, levantando-se.
Agradeço mentalmente pelo foco da conversa ter se desviado de mim.
— Vamos almoçar fora. Quer ir conosco? — meu irmão indaga depois de trocar algumas palavras com sua namorada.
— Obrigada pelo convite. Mas prefiro ficar em casa. — digo, torcendo para que minha confusão de sentimentos não transpareça.
— Não fique sem se alimentar, está bem? — ele me alerta, com seu olhar preocupado sobre mim.
— Pode deixar! Irei cozinhar hoje.
— É melhor a gente ir.
Segurando a mão de Luiza, Yago a guia em direção à porta, como se a possibilidade de depender das minhas habilidades gastronômicas fosse algo terrível.
Talvez seja.
Sigo para a cozinha com um sorriso nos lábios, decidida a esquecer momentaneamente a conversa que tive com minha cunhada, até porque tenho certeza que não está apaixonado por mim.
Reviro os olhos ao perceber que meu irmão não se deu ao trabalho de ao menos lavar a louça que usou no café. Concentro-me em meus afazeres, mas não demora para que eu sinta um corpo musculoso tocar minhas costas enquanto minha cintura é envolvida por um braço.
— Como você conseguiu entrar? — indago, reconhecendo instantaneamente o perfume inconfundível do meu namorado.
— A porta estava destrancada. — ele responde depois que seus lábios tocaram gentilmente meu pescoço.
— Yago é um grande cabeça de vento! — reclamo, contudo, toda minha racionalidade vai por água a baixo quando sinto o hálito quente de próximo a meu ouvido.
Viro-me para ficar de frente com ele e a primeira coisa que encontro é um par de olhos atraentes.
Maldito seja!
— O que você está fazendo aqui? — peço, depois de beijá-lo suavemente.
— Vim almoçar com você.
— Vou fazer o almoço. Tem certeza que quer ficar? — levanto as sobrancelhas de forma sugestiva, esperando que ele perceba que realmente não levo muito jeito para isso.
— Não perderia por nada a oportunidade de provar seu tempero! — ele exclama, dirigindo a mim seu maior sorriso diabólico.
— Pois bem, trate de se sentar e não me atrapalhar. — ordeno e de bom grado ele se dirige até a mesa, sentando-se junto a ela.
Como eu e Yago temos o costume de comer fora ou de simplesmente pedir algo para as refeições, o estoque na geladeira não conta com muitas opções. Separo alguns ingredientes e percebo que tenho tudo o que preciso para fazer um risoto.
— Queria lhe pedir uma coisa, mas não acho que você vai gostar. — ouço meu namorado contar e noto certo tom de cautela em sua voz.
— Se eu não gostar, simplesmente não vou respondê-la. — dou de ombros, deixando que minha curiosidade vença meu receio.
— Tudo bem. — ele concorda, tomando uma lufada de ar. — Você não trabalha?
Deixo um sorriso escapar ao perceber que está preocupado com minha reação frente a algo tão simples. Mas pudera, já iniciamos discussões por bem menos do que isso.
— Minha família é dona de um empreendimento bastante rentável. Tenho participação na lucratividade, o que me permite pagar facilmente todas as minhas despesas. — explico da forma mais sucinta e segura que consigo.
— Tirando a questão monetária, você não fica entediada sem ter o que fazer durante todo o dia? — ele pergunta, ainda usando seu tom cuidadoso, provavelmente não querendo que seu interrogatório soe de forma ofensiva.
— É claro que fico. — confesso enquanto lavo os temperos que vou utilizar. — Ás vezes penso em fazer alguma coisa útil da minha vida, mas nunca consigo imaginar o quê gostaria de fazer.
— Deve existir algo que você realmente goste.
— Provavelmente. Mas acho que podemos eliminar “cozinhar” da lista. — faço uma careta, enquanto tiro as sementes do tomate.
— Qual o seu problema com as sementes? — questiona, agora sorrindo abertamente.
— Só não gosto de encontrá-las no meio da comida.
— Suas manias são bem interessantes. — ele comenta distraidamente.
Enquanto termino de preparar o almoço, fico imaginando se de fato tem reparado em mim a ponto de conhecer minhas manias. Enterro o pensamento no fundo da minha mente e sento-me ao lado dele, disposta a desfrutar de uma refeição tranquila.
Não acho que minha comida seja uma verdadeira maravilha, mas acaba afirmando de forma tão veemente que o risoto está saboroso que acabo por acreditar no que ele diz. Admiro cada vez mais sua capacidade de fazer com que eu me sinta bem.





Capítulo 16


Bela sempre foi minha maior fonte de conselhos, mas depois do início do meu namoro, venho recorrendo a ela, com mais frequência do que gostaria. Existem muitas questões que me incomodam e por vezes me pergunto onde foi parar a mulher forte e decidida que eu era.
— Parece que eu encontrei uma aliada. — ouço a mulher dizer, depois de eu ter contado a ela sobre a conversa que tive com Luiza, onde ela afirmou que está apaixonado por mim.
— Eu acho que vocês estão completamente malucas!
— Tenho uma maneira de provar que não estamos.
— E qual é?
No que ou em quem você pensa antes de dormir?
— Vamos mesmo ter essa conversa? — indago, sem querer responder os questionamentos que me estão sendo feitos.
— Estou tentando lhe provar uma coisa. Agora apenas responda minhas perguntas. — ela diz soando autoritariamente. — No que ou em quem você pensa antes de dormir? — insiste e por algum motivo, me vejo lhe dizendo a verdade.
— Em , ou em algo relacionado a ele.
— E quando você acorda?
— Em , ou em algo relacionado a ele. — repito, soltando um longo suspiro.
— Bem, parece que ele não é o único que está apaixonado.
— Acabei de ter a prova a que você está realmente maluca, Bela.
— Não seja teimosa, menina. — ela me adverte, fitando-me firmemente. — Ao menos aceite que ele está lhe fazendo bem.
— Isso não tem muita importância.
— Você está enganada. Fiquei sabendo que você não vem tendo mais pesadelos. Isso tem muita importância!
— Mas não tem nada a ver com ele. — reluto, mesmo sabendo que meus argumentos não convenceriam nem mesmo uma mosca.
— Você sabe que tem. Sabe que tudo isso parou depois que você o conheceu.
— Do que adianta? Ele está comigo por conta de uma aposta!
— E quem garante que é só pela aposta?
— Não o defenda, Bela!
— Não estou fazendo isso, só quero saber se você cogitou a possibilidade dele ter desistido da aposta porque no meio do caminho, acabou se apaixonando.
— Ele não está apaixonado por mim, bem como eu não estou por ele. — declaro, cansada de falar sobre algo que parece me machucar tanto.
— Eu só espero que você perceba o que sente por ele antes que seja tarde demais. — ela murmura antes de me deixar sozinha na sala.
Logo percebo que ficar na companhia do meu eu interior é ainda pior do que ouvir as palavras convictas que Bela tem a me dizer. Estou cansada. Cansada de ter tantas perguntas sem respostas. Cansada de fingir que está tudo bem, enquanto não tenho o menor controle sobre minha vida. Estou cansada de minhas coisas, exceto de .
Ele está em pé, a poucos centímetros de mim. Está me fitando de forma avaliativa e eu simplesmente não consigo desviar minha atenção dele. Yago parece estar resmungando alguma coisa ao fundo, mas não estou nada interessada em saber o que é.
— Senti sua falta. — sussurra, quando a voz do meu irmão cessa. Aparentemente Luiza teve a excelente ideia de tirá-lo da sala.
— Nos vimos ontem. — falo usando o mesmo tom de voz que ele.
— Para mim, parece uma eternidade. — ele confessa e finalmente sinto seus lábios sobre os meus.
Enterro minha mão em seu cabelo macio e solto um pequeno gemido quando sua língua reivindica seu espaço em minha boca. Nenhum cara beija como ele. Nenhum cara conseguiu me fazer perder o fôlego tão rapidamente como ele faz.
— Já chega, por enquanto! — a voz zangada de Yago interrompe nosso momento e sorrindo, meu namorado encerra nosso beijo.
Por enquanto! — ele sopra em meu ouvido, em tom de promessa.
Estremeço em seus braços.
Eu não deveria ceder tão facilmente.
— Será que podemos ir agora? — meu irmão se dirige a , impaciente.
Luiza lhe dá uma cotovelada nas costelas e o encarra com uma expressão séria no rosto. Yago revira os olhos e ambos trocam algumas palavras, mas não sou capaz de ouvi-los.
— Vocês vão sair? — me volto ao homem que está me abraçando e encontro seus olhos sobre mim.
— Marcamos de encontrar alguns amigos. — ele explica, enquanto seus dedos deslizam pelo meu maxilar. — Mas posso ficar em casa, se você preferir.
— Tudo bem. Pode ir. — digo, estranhando o fato de que ele está realmente preocupado se vou aprovar ou não seu compromisso.
Yago e saem deixando-me na companhia de uma Luiza desanimada.
— Não acredito que eles foram sem nós! — ela reclama, desabando no sofá.
— Pelo menos foram juntos. não vai deixar que Yago saia um centímetro fora da linha e vice-versa. — comento, sentando-me ao seu lado.
— Você está certa!
— Bem como estou certa em afirmar que não vamos ficar a tarde toda em casa.
— No que você está pensando? — ela indaga, seus os olhos atentos direcionados a mim.
— Shopping. O que você acha?
— Acho fantástico! — ela exclama de forma absolutamente animada.
Pego as chaves do meu carro, que costuma mais ocupar espaço na garagem do que de fato me ser útil. Ainda o mantenho apenas porque gosto de tê-lo a disposição em situações como a de hoje.
O humor de Luiza muda completamente e passamos uma tarde bastante agradável em meio a idas e vindas nas lojas preferidas da garota. Ela definitivamente tem muita disposição para sair às compras.
— Estou morta! — ela anuncia quando nos sentamos para fazer um lanche.
— Você não é a única.
— Mas estou bastante satisfeita com nossas aquisições. — ela declara, com um sorriso enorme no rosto. Somente agora me dou conta de algumas semelhanças entre ela e seu irmão.
— Que não foram poucas, diga-se de passagem. — comento, encarando as sacolas que estão organizadas ao meu lado.
— Vou lhe contar um segredo! — Luiza informa, assim que o garçom deixa nossos pedidos sobre a mesa.
— Estou ouvindo.
— Você é a primeira namorado do meu irmão que eu realmente aprovo.
— Jura? — questiono, um pouco surpresa com sua revelação.
— Sim. — ela reafirma, tomando um gole do seu suco logo em seguida. — Vocês dois tem uma sintonia fascinante. Não é difícil perceber que estão apaixonados um pelo outro.
— Você está exagerando. — balbucio, sem saber exatamente o que dizer.
— Pode apostar que não estou. — ela sorri e talvez percebendo meu constrangimento, decide mudar de assunto. — Vou tomar a liberdade de lhe pedir uma coisa, mas se você não se sentir a vontade, não precisa falar nada a respeito.
— Claro, pode pedir.
— Você nunca falou sobre seu passado. Confesso que já perguntei a Yago uma vez, mas ele foi bastante evasivo a respeito do assunto.
— Eu adoraria poder falar abertamente sobre isso, mas ainda é algo que me machuca muito. Não é uma história bonita para ser contada.
Solto um longo suspiro ao perceber que não só o que aconteceu lá atrás, mas tudo o que vem acontecendo atualmente em minha vida, está longe de ser uma história bonita para ser contada.



Continua...



Nota da autora: Parece quem tem alguém apaixonada, não é mesmo? Nos próximos capítulos decisões importantes serão tomadas, aguardem! E não se esqueçam de participar do nosso grupo. Beijos!



Nota da beta: Não tem um capítulo que esses dois não discutam, como eu já disse eu amoo hahahah! Eles estão completamente apaixonados, isso sim. Entreguem-se e esqueçam essa aposta, pelo amor de Deus, rs! Continue, Rê <3





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Para saber quando essa fanfic maravilhosa vai atualizar, acompanhe aqui.



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