FFOBS - Risky Business, por Fernanda Gonçalves

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Última atualização: 30/03/2020

Capítulo 1

O que determina o sucesso de um e o fracasso de outro? Poderiam ser riquezas e ouro, uma casa na praia, um carro novo na garagem e viagens internacionais quatro vezes no ano? É ser orgulhoso por estar numa alta posição em alguma empresa enquanto sabe que aquela outra pessoa, que trabalhou mais do que você mas não teve a chance de competir, ainda está lutando para ser alguém no mundo? Não para .
Para a mulher de vinte e sete anos, ter sucesso significava finalmente conseguir o trabalho como promotora de justiça em Chicago, a cidade onde ela morou por toda a sua vida. Sempre tinha sido o sonho dela, desde que era uma garotinha assistindo séries de investigações criminais e vendo como eles lidavam com tudo, desde levar o caso para a justiça até convencer o jurado de que o réu era culpado. Qualquer coisa que não fosse isso parecia insignificante. E era por isso, enquanto ela crescia, que se encontrava em uma das melhores posições escolares, abrindo caminho para sua futura carreira como advogada. Não era fácil e ela tinha que se ajustar a muitas coisas, mas tudo valeu a pena quando ela finalmente se formou. O dia que ela conseguiu seu tão almejado emprego, sentiu que seu coração iria explodir; todas as noites acordadas estudando, todas as festas familiares que não pôde comparecer por conta de uma prova ou um projeto. Tudo isso parecia minúsculo naquele momento, algo tão trivial comparado ao que ela tinha conquistado.
Ainda havia um longo caminho para ser uma das mais prestigiadas promotoras, sabia disso, e havia muitas pessoas que pareciam invejar o fato de que uma mulher tão jovem tivesse conseguido trabalhar para a cidade tão cedo em sua carreira, mas isso apenas servia de incentivo para que ela se empenhasse ainda mais e mostrasse que ela estava ali por mérito próprio, que ela não conseguiu o emprego por sorte e que ela estava lá para fazer o trabalho do jeito certo. A taxa de 88% de vitórias que ela mantinha deixava isso bem a mostra para quem quisesse ver. Claro que tinham aqueles que acreditavam que um rostinho bonito poderia mover montanhas, mas era muito mais do que aquilo. Ela era inteligente, perspicaz, dura quando tinha de ser e gentil quando necessário. Ela tinha um jeito com palavras que fazia todos prestarem atenção no que ela estava dizendo; ela tinha o poder de fazer todos acreditarem que o que ela dizia era como tinha acontecido. Ela havia nascido para aquele emprego.
Talvez era por isso que tivesse sido escolhida para tomar frente naquele grande caso que mantinha todo mundo na beira de seus assentos enquanto esperavam pelo resultado. Tinha sido uma semana exaustiva, com evidências acumulando contra a defesa e ainda assim eles conseguindo fazer com que tudo fosse refutado. Pelo menos até aquela manhã.
O dia tinha começado cinzento e frio, nada incomum para dezembro. Enquanto fazia seu caminho até o tribunal, a calçada coberta em neve suja e gelo escorregadio, tudo o que ela tinha em mente era a peça final de evidência que tinha acabado de chegar até ela, algo que com certeza a faria ganhar o caso contra o infame Phil Adams, dono de um negócio capcioso envolvido em vários casos de corrupção e extorsão ao redor da cidade, e ainda atordoava como ele podia sempre se livrar das acusações. Mas não dessa vez, ela pensou sozinha enquanto fazia o caminho pelos corredores de mármore, o salto de seus sapatos batendo contra o chão e ecoando pelas paredes. Sua postura ereta e rosto sério significavam que ela não estava para brincadeiras e que não iria sair daquele tribunal sem mais uma vitória em seu currículo.
Com o salão começando a encher, ela olhou ao redor e reconheceu o rosto de seu chefe, seus olhos a encarando firmemente, e ela respirou fundo. Era tudo ou nada e não iria abaixo sem uma boa briga.
Phil Adams apareceu com seu advogado, a expressão sem nenhum tipo de preocupação, olhando ao redor de tudo como se aquilo fosse um desperdício de seu precioso tempo, que ele usava para cometer vários crimes, os olhos redondos parando diretamente em cima da jovem promotora com um sorriso perverso. Não tinha como aquela promotorazinha pegá-lo. Ele tinha aquele negócio desde antes de ela nascer, sua mente trabalhava de um jeito único, anos-luz a frente dela. Ela iria perder de forma catastrófica, tanto que seria impossível para ela conseguir algum outro emprego em qualquer um dos outros 50 estados do país. E ele mal podia esperar para que isso acontecesse.
Entretanto, o que ninguém esperava aconteceu. Numa magnífica mudança de eventos, se levantou e soltou uma larga pilha de papel sobre sua mesa, todos os olhos se voltando para a ação, enquanto ela continuava falando sobre aquela nova evidência achada, ligando o réu a uma série de encontros corruptos. A defesa fez um estardalhaço, clamando que aquelas evidências nunca foram mostradas para eles e que só poderia ser uma farsa vindo da promotoria tentando incriminar Adams, mas assim que mostrou à eles o vídeo com o réu fazendo o seu tão “nobre” serviço e como aquelas evidências tinham sido descobertas no dia anterior, houve um tumulto no tribunal.
Phil encarou raivoso, seu rosto se contorcendo numa carranca enquanto assistia a mulher caminhar até o juiz, junto de seu advogado, pensando em tudo o que ele faria com ela uma vez que isso tivesse acabado. Ele não tinha ideia de como ela conseguira aquela evidência, mas quando descobrisse, quem tivesse cometido aquele erro pagaria muito caro. Era uma coisa ter todas aquelas evidências estúpidas que ela tinha antes, mas o vídeo que a promotora havia mostrado o incriminava por muito mais coisas, coisas que ela não tinha nem noção e poderiam colocá-lo no radar dos Federais, algo que Adams não queria.
Sabendo a promotoria disso ou não, eles tinham o suficiente para mandar Adams direto para a cadeia e assim que o juiz declarasse o réu culpado. assistia o homem olhar para ela de forma sombria, mas seu sorriso nunca vacilou. Ele era só mais outro criminoso que estava certo de que iria se safar de tudo que havia feito só porque ela era nova nesse trabalho, mas, mais uma vez, ela tinha mostrado o quanto estavam errados. Havia um duplo sentido de justiça no que ela estava fazendo, como provar para todos de que ela era capaz e mandar o cara mau para a prisão, só para variar.
E depois de mais uma vitória, ela se sentia mais leve; era como se o tempo frio não pudesse atingí-la, era como se todos poderiam dizer o que queriam sobre ela. se sentia como se pudessem jogar qualquer coisa em sua direção e ela ainda assim conseguiria desviar, invencível. Talvez tenha sido por isso que ela decidiu sair com os amigos, a primeira vez que se dava esse tempo para curtir em quase quatro meses.
O bar estava lotado, não havia como negar. Era uma noite de sexta-feira e mesmo com a neve do lado de fora, todos pareciam estar fora de suas casas e nas ruas, encontrando amigos ou passando o tempo na companhia de um balcão cercado por estranhos e o cheiro constante de cerveja.
Para , não era diferente. Ela estava sentada na mesa mais ao fundo, se divertindo com amigos, sua risada ecoando pela mesa enquanto jogava a cabeça para trás, os olhos fechados no mais puro deleite. Ela não se lembrava qual fora a última vez que se divertira tanto, o trabalho sempre consumindo todo seu tempo. Não costumava ser assim. Houve um tempo que ela costumava ter tempo para seus amigos mais próximos, bebendo, indo à festas, conversando sobre bobeiras até as altas horas da noite ou apenas saindo para jantar. Até que ela conseguiu aquele emprego. lutava para balancear sua vida social e profissional e, às vezes, ela deseja ter de volta aqueles velhos tempos. Sentia falta de ver sua melhor amiga para almoços casuais, conversar sobre todos que elas conheciam; ela sentia falta de passar tempo com seu irmão e o provocá-lo com perguntas sobre a namorada; sentia falta de ver seus pais quase todas as noites, da casa deles ser próxima da dela.
E foi sentada ali, vendo todos ao seu lado rindo com ela que decidiu que ela iria achar um jeito de ter mais tempo para as pessoas que amava. Ela não poderia ser uma pessoa que só se deixa levar pela carreira como ela tinha se tornado, ela não podia deixar que sua vida passasse enquanto ela estava focada em ganhar casos.
Aquela noite, entretanto, se foi como num borrão, mas o tempo voa quando se está se divertindo, pensou ao checar o relógio no pulso, revirando os olhos para si mesma ao perceber que eram quase duas da manhã. Ela ainda tinha três quarteirões até chegar em seu prédio e julgando pelo olhar de seus amigos, eles não estavam muito melhores do que ela para oferecer qualquer tipo de companhia.
Era por isso que se encontrou na calçada sozinha, um grosso casado preso ao redor de seu corpo enquanto caminhava pela rua livre de carros, as lâmpadas brilhando em meio à escuridão da noite mais fria daquele ano. O vento gelado batendo em seu rosto servia para acordá-la um pouco, tornando a promotora sóbria e colocando seus pensamentos no rumo certo.
Cuidadosa e rapidamente, com os saltos batendo contra o asfalto escuro, guiando-a pelo caminho para o prédio de tijolos à vista logo em frente, a luz da recepção convidante, recebendo-a no ar quente do lado de dentro.
O que mais a assustou, quando relembrou-se daquela noite, foi que nada parecia estar fora do lugar. Tudo estava arrumado e no exato local que ela tinha deixado quando saiu para o tribunal naquela manhã; as louças dentro da pia, a caixa de papelão de comida chinesa na mesa de centro, o carpete enrolado e encostado na parede - ela tinha que arrumar aquilo logo -, a cadeira que tinha deixado cair no chão quando pegou sua bolsa, mas falhou em colocar de volta no lugar quando viu que iria se atrasar, a luz de seu quarto ainda acesa. Tudo parecia na mais perfeita paz, seu apartamento tomado pela iluminação fraca vindo da lua brilhando sobre a janela da sala de estar, fazendo-a não ligar as luzes internas. E talvez aquele tenha sido seu primeiro erro, porque se tivesse feito, ela teria visto que não estava completamente sozinha como achara.
Escondido nas sombras, lá estava ele, todo vestido de preto, os pés pisando sem nenhum tipo de som sobre os pisos, a respiração baixa para que não pudesse ser ouvido. Ele tinha que ser silencioso e rápido, era seu único pensamento enquanto anexava o silenciador à arma, seguindo os passos de pela casa. E talvez aquele tenha sido seu primeiro erro, porque não era tão indefesa quanto ele presumiu.
A primeira vista, parecia que ela tinha imaginado coisas, um truque de sua mente enquanto caminhava mais para dentro de seu apartamento, algo que sempre acontecia quando ela era mais nova. E mesmo que ela tivesse se xingado o dia todo por ter deixado as luzes de seu quarto acesas, teria que se agradecer mais tarde, porque era bem possível que aquela iluminação chata fosse o que a tenha salvado.
O corredor tinha uma janela no final, com a vista para o pátio de trás do prédio, algo que ela nunca tinha se importado muito, mas não dessa vez. Porque era através dela que viu alguém atrás de si, uma grande silhueta se movendo no fundo, se aproximando dela com algo que parecia muito com uma arma nas mãos. sabia naquele momento que se ela conseguisse sair de lá viva, se ela vivesse para ver outro dia, ela iria realizar todas as resoluções que tinha feito através dos anos. Ela saíria de férias e compraria a primeira passagem que visse para a Grécia. Ela começaria a comer de forma mais saudável. Ela iria começar a caminhar com a namorada de seu irmão todas as manhãs. Ela iria reciclar. Ela iria tomar banhos mais curtos.
Mas tudo aconteceu de forma tão rápida que mal teve tempo de perceber tudo. Num minuto ela estava lentamente se virando para ver quem estava ali, cara a cara, e no outro ela já estava o chão, a cabeça atingindo o chão com um baque alto, a visão se embaralhando, os pensamentos sumindo por alguns segundos. Ela podia sentir alguém pairando sobre ela, o rosto escondido nas sombras, sua respiração atingido-a com força. Só era possível ver seus olhos, frios e sem vida, como se já tivesse feito aquilo dezena de vezes e era só mais um trabalho que terminaria logo.
não podia permitir. Ela não chegara tão longe na vida para ser atacada dentro de sua própria casa e acabar morta.
Conjurando força de algum lugar que ela nunca tinha visto antes, lutou, suas mãos agarrando as do homem e as empurrando para longe dela, todo seu corpo tremendo e convulsionando para tentar se livrar dele, o peso do homem a pressionando contra o chão. Ela podia ouví-lo grunhir sobre ela, as mãos tentando se livrar das dela enquanto lutava para continuar com o alvo sobre ela, a arma perigosamente escorregando de seus dedos enquanto a chutava e se contorcia, tentando tudo o que ela podia para se livrar de sua prisão.
E então ela finalmente conseguiu, mas não sabia exatamente como acontecera. puxou os joelhos para cima, acertando as costas do homem no processo com certa força, deixando-o um pouco atordoado, mas fora o suficiente para que ela pudesse arrancar a arma de suas mãos e o acertar na cabeça com ela, o corpo dele caindo ao seu lado enquanto a mulher tentava se levantar e corria para fora do apartamento, os passos erráticos, a cabeça martelando contra seu crânio.
Correndo por sua vida, tropeçando em seus próprios pés, correu para fora do prédio para a rua, seus pés a guiando para a delegacia mais próxima no meio da noite, seu corpo todo gritando em dor agora que a adrenalina havia deixado suas veias.


Capítulo 2

Faziam 48 horas desde que entrara na delegacia de polícia, os olhos desfocados, os pés cambaleantes e os pensamentos confusos. Estava claro: o que tinha acontecido com ela causara uma concussão e isso preocupava o oficial atrás da mesa naquela noite. Ele tinha visto vários tipos entrando pelas portas da frente do recinto e, na maioria das vezes, eram pessoas bêbadas sendo carregadas por outros policiais, alguns sem teto e uma prostituta ou outra, mas nunca uma mulher bem vestida com roxos por todo o seu corpo e os olhos vidrados.
O policial se aproximou dela antes que tivesse a oportunidade de dizer algo: sua mente ainda acelerada com todos os pensamentos sobre o acontecido e se ela estava realmente a salvo agora. Demorou um pouco para perceber que estava tudo bem e que poderia respirar novamente, fazendo-a soltar o ar falhadamente, lágrimas se acumulando em seus olhos enquanto tentava organizar seus pensamentos e dizer tudo o que tinha acontecido com ela na última meia hora.
Sua descrição dos fatos não era totalmente confiável; estava confusa, estava escuro e ela estava sozinha. Não era um caso de não acreditar em sua história, mas precisavam saber mais para poderem ajudá-la e prender quem a tivesse atacado.
Depois de um check-up no hospital e passar a noite toda sob observação, ela finalmente voltou para a delegacia, seus pensamentos muito mais focados e organizados, os fatos mais diretos sobre o que tinha acontecido na noite anterior. E foi então que perceberam a seriedade de tudo, porque quando eles ouviram sobre o seu dia, perceberam que não era só um ataque aleatório, não quando Phil Adams tinha sido mandado para a prisão por causa dela.
Foi então que as coisas começaram a ficar mais sérias do que pensaram. Porque isso significava que Phil ainda estava tramando algo, mesmo do lugar de onde ele estava, e que ele não pararia por nada. Talvez significasse que o que ela tinha contra ele era o alvo de sua ambição e não haveria trégua enquanto não pusesse as mãos naquilo.
Mas o que realmente alarmou foi o fato de que eles não a liberavam. Ela tinha coisas para fazer, um trabalho para chegar e um apartamento para arrumar antes que pudesse assumir outro caso, mas os policiais pareciam não ter pressa. Eles caminhavam por ela inúmeras vezes, a ignorando completamente, tomando conta de seus afazeres como se, de repente, tudo o que ela havia dito não era importante. Ok, talvez ele tivessem homicídios para resolver, mas poderiam ter a cortesia de dizer à ela estava livre para ir? Era pedir muito?
Finalmente cansada de ficar esperando, se levantou de sua cadeira, olhou ao redor e balançou a cabeça. Eles nem perceberiam se ela fosse embora, então era isso o que faria. Voltaria para sua casa, mudaria todas as fechaduras, instalaria um sistema de segurança, imploraria para que seu irmão ficasse algumas noites com ela e rezaria para que aquilo nunca acontecesse de novo. Não podia viver toda a sua vida com medo do que poderia, ou não, acontecer. era uma figura pública que havia feito alguns inimigos. Tinha que lidar com isso.
Entretanto, assim que pisou em direção à porta, uma figura alta caminhou até ela, o rosto sério, suas roupas se destacando de todas as outras que estavam sendo vestidas pelos policiais, seus olhos fixos na garota. Algo sobre ele fez com que parasse de andar. Talvez fosse o olhar paralisante, ela pensou, e nada tinha a ver com o crachá do FBI que ele tinha. Porque só poderia ser muita falta de sorte: cair em algo muito maior do que ela tinha pensado e ter todo o crédito tomado pelos federais. Depois de todo árduo trabalho que ela tivera, dia e noite.
Respirando fundo, virou-se, todo o seu corpo agora na direção do homem à sua frente, e andou até ele. Ela não deixaria que ele roubasse o caso, isso era certo.
- Você está desperdiçando seu tempo, - foi a primeira coisa que a mulher disse para o homem bem mais velho, desafiando-o com apenas o olhar. - Eu não vou te dar o meu caso.
O homem alto olhou para ela de forma curiosa, suas sobrancelhas se erguendo no rosto enquanto encarava a mulher bem mais baixa em frente à ele. Ela tinha coragem, isso era verdade, andando como se ela não tivesse sido quase morta apenas algumas horas antes e não estivesse no radar de um dos homens mais perigosos que o FBI já havia cruzado caminhos.
- Nós não estamos aqui pelo caso, - ele disse dando de ombros, achando inusitado o quanto ela estaria disposta a brigar por ele. - Estamos aqui por você.
piscou por alguns segundos antes de entender o que ele queria dizer. Talvez não integralmente, mas ela sabia que ele a queria por causa do que ela tinha descoberto sobre Adams. Eles estavam tentando recrutá-la?
- Me desculpe, - ela começou os olhos rolando em suas órbitas. - Mas eu não estou procurando por outro emprego.
- Acho que você não entendeu, - o cara do FBI disse, seu sorriso aumentando quando percebeu o quanto a postura dela encolhera em descontentamento. - Não estamos aqui para te contratar.



É até engraçado como você planeja sua vida para ser de um jeito e quando menos se espera, o destino decide fazer uma aparição e mudar tudo o que você escolhera. Porque era exatamente assim que estava se sentindo no momento, 48 horas depois daquela noite fatídica, sentada numa sala branca com apenas uma mesa e cadeira de metal, olhando ao redor enquanto tentava pensar em tudo o que acontecera com ela.
Até então, a promotora ainda estava confusa sobre algumas coisas. Ok, então ela tinha prendido Phil Adams por corrupção, tinha sido atacada por alguém - presumindo que fosse sob ordens do criminoso -, escapado, chegado à delegacia sem se machucar, tinha sido interrogada e acabara sob a custódia do FBI. A última parte ela ainda não entendia bem, mas estava tentando.
A porta atrás de si se abriu mais uma vez e o homem da delegacia - ela descobrira que ele se chamava Sebastian Tyler - entrou, suas mãos cheias de papéis e pastas, seu olhos vidrados na garota.
- Vamos tentar mais uma vez, - ele disse se sentando de frente para ela. - Foi você quem encontrou todas aquelas evidências, certo?
- Sim, - ela rolou os olhos.
- E você não teve a ajuda de mais ninguém?
- Eu tive a ajuda dos detetives que primeiramente chegaram até ele, - ela explicou mais uma vez. - Eles me mandaram as novas evidências na noite antes do julgamento. Estava selado e eu abri. Mais ninguém viu o que estava dentro daquelas pastas a não ser eu, - terminou em um tom monótono.
- E você revisou tudo antes do julgamento?
- Sim! - ela exclamou em frustração, os punhos batendo contra a mesa, o som ecoando pela sala praticamente vazia. já estava lá há horas, tentando fazê-los entender que ela não sabia mais do que já havia contado para eles. O que estavam pensando? Que ela estava, de alguma forma, envolvida em todo o esquema? - Minhas respostas não vão mudar da última vez que você me perguntou, ok?
Tyler olhou para a mulher a sua frente, os olhos dela cansados formavam olheiras fundas, o cabelo estava todo bagunçado pelas dezenas de vezes que ela havia corrido as mãos por eles. Ela estava irritada, o pescoço enrijecido por todo o tempo que havia passado debruçada sobre aquela mesa e ainda assim estava tentando sair de lá, mesmo que ela soubesse, no fundo, de que isso não seria nada fácil.
O homem suspirou, seus olhos virando-se para o vidro espelhado atrás dele, a cabeça balançando de um lado para o outro. Eles não teriam outra opção.
- Ok, srta. , me siga, - ele disse se levantando de repente e indo até a porta, segurando-a aberta para o espanto de , que não perguntou nada, mas obedeceu.
Eles seguiram por uma série de corredores, cada um deles vazios, com nada que poderia identificar para onde estavam indo e na maior parte tempo, pensou que estava prestes a descobrir algo que não gostaria, como se ele estivesse a guiando para sua morte ou que eles tinham encontrado alguma evidência que a ligava a todos os crimes que Adams havia cometido. Claro que ela não tinha feito nada de errado, mas ela tinha o direito de estar paranóica, certo? Ela tinha sido atacada em sua própria casa e sido interrogada pelo FBI.
Seus passos pararam assim que eles se aproximaram de outra porta e ela percebeu o nome do agente nela quando ele pegou na maçaneta e a girou, abrindo a sala e ficando de lado para que ela pudesse entrar primeiro.
- Você tem que entender, srta. , - Tyler começou fechando a porta. Seu escritório era praticamente inexpressivo, como tudo o que ela tinha visto até então. A falta de decoração, de fotos de família e toques pessoais a fizeram perceber que talvez esse não fosse o seu real escritório. Era isso ou ele era muito mais frio que ela havia assumido. Mas ela era boa em ler as pessoas e algo dizia que todo aquele prédio não era exatamente onde os federais trabalhavam. Era mais como uma base secreta ou um lugar intermediário. - Você está correndo um grande perigo.
virou seu rosto na direção dele, pensando que não tinha ouvido o que havia sido dito. Sim, claro que ela estava em perigo. Ela havia sido jogada no chão dentro de sua casa. Isso não se qualificava como segurança, mas ela escolhera ficar em silêncio. Já havia contado aquela história inúmeras vezes e se eles quisessem que ela deixasse escapar alguma coisa, eles enfrentariam uma longa noite.
- Parece que você não entende as circunstâncias do seu caso, - Sebastian começou mais uma vez, caminhando pela sala e sentando-se na cadeira atrás da mesa, suas mãos se fechando por cima do tampo de vidro, os olhos procurando por algum sinal de estresse nela. - Ainda estamos tentando entender como você caiu nisso, mas se cavar um pouco mais nas evidências que encontrou, vai ver que está sentada sobre o maior caso que você já viu.
Levou um momento até que entendesse o que havia sido dito. Seria possível que, de alguma forma, ela simplesmente achou que fosse corrupção um caso que era muito mais? Bom, isso era o que Sebastian Tyler estava dizendo, mas não podia acreditar exatamente. Como era possível? Phil Adams corria pelas ruas de Chicago com seus esquemas sujos desde antes de ela nascer. Todos sabiam que ele estava lá. Como poderiam tê-lo deixado livre?
- Desculpa… O que? - piscou algumas vezes. - Está me dizendo que não é só corrupção? Que tem algo mais? O que é? Por que isso me envolve? Por que eu estou em perigo?
Com os pensamentos correndo a milhões por hora, tentava achar algo que podia ligá-la a tudo o que estava acontecendo, tentando entender como ela não tinha visto nada disso quando conseguiu os arquivos, tentando descobrir porque estava em perigo. Ela era só uma promotora de justiça que tinha colocado um cara na prisão, como dezenas de vezes antes. Por que agora? Por que quando tudo estava finalmente acontecendo em sua vida?
- Se acalme, - Sebastian suspirou, um sorriso simpático no rosto. Ele já tinha visto isso dezenas de vezes antes, o olhar de desespero quando alguém percebia estar em um lugar que não gostaria, a confusão, perguntando a si mesmo como tudo era possível. - Eu vou responder todas as suas perguntas, mas você tem que entender que existem alguns procedimentos que temos que seguir para garantir a sua segurança. Você se tornou muito importante para nós, srta. , e é nosso interesse pessoal mantê-la viva.
Nunca em um milhão de anos estaria preparada para as palavras que saíram dele. Porque tudo soava muito louco. Como Adams pensara que ela sabia tudo sobre seus negócios com pessoas importantes espalhadas pelo país? Por que ele pensara que ela usaria isso para chantagear todos e acabar com ele morto? Ela não teve tempo nem de terminar de ler tudo o que havia sido escrito naqueles arquivos.
Mas não importava. Porque suas palavras não significavam nada para alguém como Phil Adams e ela sabia que ele não iria parar até tê-la debaixo da terra, por mais que detestasse admitir. Então sim, talvez ela precisasse da proteção do FBI mais do que queria acreditar e talvez ela precisaria se afastar do caso. Era horrível, mas ela tinha que pensar não somente em sua segurança, mas na de sua família e de seus amigos. Era um preço alto a se pagar por um emprego.
- Ok, - sua voz vacilou. O coração batia erraticamente, as mãos suavam e todo seu sistema parecia mergulhado em terror sobre o que estava por vir. Ela queria que fosse algo simples, mas pelo olhar do Agente Tyler, sabia que seria algo que mudaria sua vida completamente. - Como isso vai funcionar?
Sebastian olhou para ela firmemente, sua expressão rapidamente se tornando numa fachada fria, tentando esconder todo e qualquer tipo de sinal que poderia fazê-la pensar que as coisas seriam fáceis. Ele queria que ela entendesse que o que estava prestes a acontecer com ela não era algo fora do ordinário para pessoas como ele, do outro lado da moeda, mas seria uma mudança extrema para ela. Porque ela não iria apenas ficar sob vigilância pelo resto de sua vida; ela teria outra vida. Teria que esquecer tudo o que tinha, deixar sua família, amigos, emprego, passado, presente e futuro. Ela iria desaparecer, cortar todo tipo de comunicação com qualquer um que tivesse em sua vida e fingir que não existia mais.
- Você vai entrar para o Programa de Proteção a Testemunha.

….

Algo tinha que estar incrivelmente errado. Primeiramente, ela não teve que passar por nenhum tipo de transformação para se parecer com outra pessoa. teve a chance de contatar sua família e explicar, bem por cima, o que tinha acontecido com ela e que ela teria que sair da cidade por um tempo, mas nada como fingir a própria morte em um acidente ou algo do tipo, como tinha visto em centenas de filmes. E, para finalizar tudo, ela poderia ter o mesmo nome que tinha porque eles só mudaram seu sobrenome. Que tipo de procedimentos de segurança estavam fazendo com que ela passasse? Ela não se sentia tão segura por tudo o que estava deixando.
- Não há motivos para se preocupar, srta. , - uma das mulheres a ajudando disse. Ela tinha percebido que estava apreensiva com tudo. - Haverá um agente do FBI perto de você o tempo todo. Você deverá se reportar à ele todas as noites e sempre que sentir que algo está errado.
Isso não fez com que ela se sentisse melhor. não fazia ideia de quem esse agente era. Sebastian Tyler contara a ela que descobriria assim que aterrissassem e quando ela o questionou sobre não ser ele, visto que ela já o conhecia e meio que confiava nele o suficiente após passar horas e horas sendo interrogada, ele apenas a ignorou com um balançar de ombros.
- Não se preocupe. - ele disse. - Você é muito importante agora então a deixaremos com um de nossos melhores agentes.
Ela percebeu que ele não disse “nosso melhor agente”. Até onde sabia, aquele cara poderia ser o último na lista de melhores agentes e poderia não significar nada. Ele era bom mesmo? Por quanto tempo trabalhava para o FBI? Ele já tinha trabalhado com aquele tipo de situação antes ou era o tipo de agente que sempre ficava atrás de sua mesa enquanto os outros faziam o trabalho pesado?
Mas não teve muito tempo para informar-se sobre suas dúvidas. Eles mantiveram a conversa num mínimo, mesmo no voo que parecia ser mais longo do que ela imaginara. Ela nunca entendera como atravessar o país demorava tanto, mas era bom. Era o único tempo que tinha para pensar sobre tudo que enfrentaria a partir dali. Uma nova identidade, uma nova cidade, uma nova vida. Ela até teria um novo trabalho já que não permitiram que ela chegasse perto de tribunais ou empregos relacionados à legislações.
- Lembre-se que você está tentando se acostumar com essa vida sem chamar atenção, - Tyler disse quando pousaram, seus olhos buscando no rosto dela algo além de certeza. Ele precisava que ela estivesse 100% focada ou não funcionaria. - Eu sei que deve ser difícil e você ainda tem muitas perguntas, mas ponha na sua cabeça que não faríamos isso se não pensássemos que é importante e o melhor para você.
Não, não seria fácil, ela pensou veementemente, os pés a levando para fora do jato privado que eles tinham usado, os olhos escaneando a cena em frente à ela.
O pequeno aeroporto era tudo que ela precisava para entender onde havia sido colocada. No lugar que ela jurou que nunca moraria: uma cidade pequena. E não era porque ela tinha pensamentos pré-concebidos de que cidades pequenas nutriam fofocas e pessoas cuidavam da vida uma das outras, mas porque ela era o tipo de garota que crescera na cidade grande, cercada de tudo e todos, vendo prédios cinzas contrastando com as árvores verdes, carros correndo pelas ruas a qualquer hora do dia, algo que ela sabia que não aconteceria onde quer que estivesse naquele momento.
Com um suspiro profundo, ela engoliu o bolo que se formara em sua garganta e tentativamente deu alguns passos adiante pela pista de decolagem, seguindo o caminho que levava para dentro do prédio branco em frente. Não havia mais como voltar e ela não faria algo que colocaria a operação em perigo. Ela iria se ambientar aquela cidade e agir como se fosse Evans, uma professora de inglês de Nova York que procurava tranquilidade e uma vida melhor. Ela iria conseguir.
- , esse é o agente que foi designado para você, - Sebastian disse quando pisaram no saguão do aeroporto. Era quase dezembro e o ar condicionado estava ligado, um calafrio percorrendo pelas costas dela ao mesmo tempo que o homem de cabelos escuros se virava para ela. E talvez ela não conseguiria fazer essa operação dar certo.
Porque não somente ele era um pouco mais velho do que ela, mas ele extremamente bonito. Tudo que bastou foi um rápido olhar para aqueles olhos escuros e ela já estava perdida. Era ridículo e exatamente como um filme para adolescentes, mas o homem parecia ser de outro mundo. Haviam pequenos pontinhos cobertos pela barba que coloriam seu rosto, criando padrões por sua bochecha esquerda, descendo por seu pescoço e, ela podia apenas imaginar, até seu peito. A camisa branca que ele usava o vestia perfeitamente, seus ombros largos esticando o tecido levemente, fazendo com que se xingasse por prestar tanta atenção em alguém que ela teria que ver todos os dias por só Deus sabia quanto tempo.
Talvez não fosse uma boa ideia. Talvez ela deveria se virar e voltar para o avião e mandar Sebastian levá-la para outro lugar. Alguém com aquela aparência não podia estar no FBI. Era impossível!
- Olá, - o homem disse e ela rolou os olhos internamente. Merda, até a voz dele era maravilhosa. - Eu sou o Agente , mas pode me chamar de . - ele sorriu. - Bem vinda à North Valley.


Continua...



Nota da autora: Ufa… Finalmente esse moço deu as caras por aqui. Mas, honestamente, tudo o que eu queria nessa quarentena era ficar presa numa casa numa cidadezinha do interior com um agente do FBI gato tomando conta de mim… hehe.
Espero que tenham gostado desse capítulo e… até o próximo!



Ai Fernanda, a vontade é de dar na sua cara com essa nota, sério. Só me manda mais atualização e ninguém se machuca!
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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