Última atualização: 17/05/2018
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Prólogo

O teto cinza parecia cada vez mais interessante, talvez eu apenas estivesse muito entediada de estar ali, ou talvez encarar o teto e tentar me distrair para não pensar em todas as coisas que tinham acontecido fosse a única saída, provavelmente a terceira opção era a mais viável. Pelo menos agora eu estava sozinha e, apesar de estar confinada para "a minha própria segurança", não conseguia me sentir segura em momento algum e duvidava que conseguisse me sentir segura algum dia. As paredes completamente limpas pareciam se fecharem ao meu redor, me dando uma sensação agonizante de que eu nunca sairia dali, os passos no corredor me faziam sentir angustia e ao mesmo tempo em que eu desejava que a porta se abrisse, eu temia o que viria se isso acontecesse realmente. Minhas unhas já eram quase inexistentes, devido ao nervosismo constante que me atacava. Mas de todos esses fatos, o pior era pensar em , quando eu me distraia e me permitia pensar na minha pequena garotinha, em onde estava, com quem estava, como estava, isso sim era o pior dos meus pesadelos, minha mente não era nem um pouco bondosa nesse aspecto, projetava imagens da minha pequena sofrendo, sendo maltratada, não recebendo os cuidados que eu sabia que eram necessários e que eu tinha a capacidade de dar a ela, quando esses pensamentos tomavam conta de tudo ao meu redor, eu desejava ter sido mais forte, desejava ter aguentado um pouco mais por ela, porque a única pessoa que tinha me restado no mundo, dependia de mim, eu não podia mais cuidar dela, e a culpa era inteiramente minha.


Capítulo 1

- Você tem visita, vamos! - Abri os olhos lentamente ao ouvir a voz grossa e rude do homem que agora se encontrava em frente à porta, sentei-me na cama e o analisei por alguns instantes, deveria ser algum tipo de engano, não teria como eu receber visitas, levando em consideração que era muito pequena, e meu pai ignorava completamente a minha existência, a possibilidade de visitas era completamente nula.
- Tem certeza? - Minha voz saiu rouca e aquilo me assustou, fazia tanto tempo que eu não falava ou tinha contato com alguém, que as palavras pareciam sair rasgando por minha garganta, o guarda a minha frente apenas assentiu com a cabeça de forma mal humorada, deixando claro que ele não pretendia quebrar o meu jejum de palavras. Levantei da cama e segui pelo corredor estreito em completo silêncio, minha mente projetando diversas possibilidades sobre quem poderia ser. Talvez algum dos meus antigos amigos tivesse perdido o ressentimento que tinham por mim, ou talvez algum deles apenas estivesse ali para ver de perto a minha derrota, e apesar de eu considerá-los bons amigos, a possibilidade de vê-los já me deixava nervosa. Só eu sabia o quanto eles me faziam falta, seja com suas risadas escandalosas e fora de hora, ou com o jeito enrolado como lidavam com os problemas do cotidiano. Franzi as sobrancelhas assim que o guarda me indicou uma das cadeiras e o homem que estava sentado atrás do vidro era um completo desconhecido. Peguei o pequeno telefone preto e o levei até a orelha, enquanto fazia uma pequena analise rápida do homem a minha frente, barba sem fazer, relógio caro no pulso, terno bem cortado e igualmente caro, e eu tenho certeza que se aquele vidro não nos separasse, eu conseguiria sentir o cheiro de algum perfume importado, a pequena análise me fez identificar o que ele era - Eu não vou alegar insanidade, você precisa avisar isso ao meu pai de uma vez por todas e fazê-lo desistir dessa idéia estúpida! - avisei sem dar a oportunidade para que o advogado a minha frente abrisse a boca - Se a sua visita é para isso, você perdeu o seu tempo! - continuei a falar, aproveitando a presença de alguém que fosse ouvir - Mas deve ter conseguido um bom dinheiro, né? Pra vir até aqui, ver se consegue convencer a insolente filha do seu chefe a se declarar maluca, para ficar presa pra sempre em uma clínica psiquiátrica. Sinto muito, doutor, mas o senhor perdeu sua viagem! - estava pronta para bater o telefone no gancho quando o homem ergueu o dedo indicador, pedindo por apenas um minuto, o que me fez revirar os olhos automaticamente, será que ele não desistiria nunca? Apenas recostei meu corpo no encosto da cadeira e fiz um gesto, como se estivesse contando num relógio, e o tempo estivesse passando.
-Bem, senhora Petr.... - o olhar mortal que lancei na direção do homem foi o suficiente para fazê-lo repensar suas palavras - Ok, não é uma boa idéia chamá-la de senhora Petrov - murmurou como se estivesse falando com seu subconsciente, o que me fez revirar os olhos novamente, sentindo uma pequena pontada começar a incomodar minha cabeça - Vamos com o senhorita então, tudo bem? - perguntou e eu apenas assenti com a cabeça, deixando bem claro o quanto sua indecisão estava aumentando a minha falta de paciência - Eu não tenho nenhuma ligação com o seu pai - disse como se aquilo fosse me fazer perder a carranca mal humorada que estampava meu rosto, mas tudo o que fiz foi dar de ombros - E não pretendo dizer para a senhorita se declarar incapaz das suas faculdades mentais... - umedeceu os lábios com a ponta da língua ao ver que a expressão em meu rosto não mudava - Eu sou , represento o escritório de advocacia e o seu caso é do nosso interesse - de repente sua postura mudou, parecia mais seguro de si e confiante - Diante de todos os fatos ocorridos, e levando em consideração que esse é um caso público, devido ao seu pai e a forma como as coisas aconteceram, nós gostaríamos de nos oferecer para defendê-la judicialmente - com o término de seu discurso, que parecia muito bem ensaiado, foi a minha vez de erguer a postura. Apoiei os cotovelos na pequena bancada a minha frente e fiquei por alguns instantes olhando em seus olhos.
- E o que vocês ganham com isso? - minha voz saiu tão desconfiada quanto eu estava no momento - Porque... Convenhamos, os gastos processuais são grandes, eu não tenho como pagá-los e não pretendo conseguir ajuda com o meu pai para isso, logo, o trabalho de vocês seria completamente gratuito, mas, a troco de que, já que são uma empresa privada? - perguntei ainda sem desviar o olhar de seus olhos, eu acreditava firmemente que quando alguém mente, ou tenta enganar, os olhos entregam a pessoa e se um mínimo traço de mentira passasse pelos olhos do homem a minha frente, seu tempo estaria terminado.
- Bem, nós ganhamos a publicidade - respondeu rapidamente e de forma que me pareceu sincera - Afinal de contas, num caso como o seu... Seria bem difícil conseguir um habeas corpus sequer, mas eu e a minha equipe estamos confiantes de que conseguimos inocentá-la. Na realidade, nessa história, você ganha mais do que eu e o meu escritório. - franzi as sobrancelhas sem compreendê-lo imediatamente, mas isso não impediu que sua voz continuasse entrando em meus ouvidos - Tentaremos um habeas corpus para ficar solta até o julgamento, vamos arrumar um lugar seguro para morar, podemos reaver a guarda da sua filha... - a partir do momento em que a possibilidade de ter de volta em meus braços me atingiu, tudo o que o homem falava parecia irrelevante, na realidade, eu apenas conseguia ver seus lábios movendo-se, mas não conseguia ouvir nenhuma palavra do que dizia, a pequena e remota possibilidade de ter minha filha de volta em meus braços me motivaria a tentar qualquer coisa.
- Eu topo. - as palavras saíram de minha boca em uma velocidade que poderia até ser considerada vergonhosa, se não fosse a oportunidade que estava sendo oferecida. O sorriso logo brotou no rosto do homem, que parecia muito satisfeito com a minha flexibilidade diante da sua proposta.
- Não vai se arrepender, senhorita - sua voz polida preencheu meus ouvidos novamente, enquanto o homem começava a digitar em seu aparelho celular - Não vamos demorar a nos ver, dessa vez, sem esse vidro na frente, você pode apostar! - sorriu de forma confiante em minha direção, e eu gostaria que um terço daquela confiança me atingisse também, mas apesar da esperança em meu peito, eu ainda sentia medo, medo do que poderia dar errado, medo de estar sendo enganada, medo de nunca mais ver o meu bebê. Sem dizer mais uma palavra, o homem colocou o telefone no gancho e se levantou, apenas acenando com a cabeça em minha direção, aceno esse que foi ignorado, enquanto ele não me mostrasse que poderia cumprir sua palavra, ou provasse que estava falando a verdade, não teria nem um pouco de simpatia vinda da minha parte.

O caminho de volta para a minha cela tinha sido tão torturante e cheio de dúvidas quanto à noite que não demorou a chegar, mas para a minha infelicidade, parecia disposta a não passar tão rápido, tantos questionamentos, tantas dúvidas, até uma ponta de arrependimento passou por minha cabeça, talvez eu não devesse ter aceitado a proposta de um homem desconhecido, que alegava querer apenas publicidade como pagamento pelos serviços caros que prestaria, eu estava no mundo a tempo o suficiente para saber que não se pode confiar em homens, em nenhum deles, nem mesmo o meu próprio pai, principalmente em meu pai. Tudo isso poderia apenas ser uma armação dele, que me levaria a uma clínica psiquiátrica no final das contas, porque para sua reputação, era melhor ter uma filha maluca, do que ter uma filha presa. Assim como era melhor ter uma filha casada com um homem quase trinta anos mais velho do que ela, do que ter uma filha grávida e solteira. Essa era a sociedade onde nós vivíamos, esse era o tipo de mundo onde eu odiaria ver minha filha crescendo, o mesmo mundo em que eu cresci, por isso tentei de todas as formas não ceder a qualquer tipo de chantagem, mas Charles parecia realmente disposto a me ver casada e carregando um nome de prestígio.



Flashback

- Você tá maluca? - sua voz esganiçou e a veia em sua testa saltou de tal forma que eu não duvidaria nada se seu corpo caísse duro para frente e o homem tivesse um infarto - Você acha que as pessoas vão dizer o que? - gritou mais uma vez, sem se importar em estarmos trancados no pequeno escritório, e que qualquer um poderia facilmente ouvir a conversa.
- Que eu tô trabalhando de forma digna? - perguntei sentindo todo o sarcasmo que eu possuía no corpo sair por minha boca - Trabalhando para sustentar o meu bebê? - minhas mãos automaticamente foram guiadas para meu abdômen, e mesmo que não existisse nenhuma ondulação visível, a minha ligação com aquele pequeno ser era impossível de descrever em meras palavras.
- Trabalhando como uma garçonete de merda? Numa lanchonete de merda? - o tom de sua voz era cada vez mais irritado e bravo, e eu não conseguia entender como aquilo feria seu código de ética e moral - Você quer ver o nosso nome na lama! - apontou o indicador em minha direção - Primeiro fez isso aí - o dedo desceu na direção da minha barriga, o que fez minha raiva aumentar pelo rumo da conversa - Com um fodido, pé rapado que nem ao menos podia te pagar um sorvete num lugar a sua altura! - a mão que antes se encontrava em minha barriga se ergueu e encontraria o rosto do homem a minha frente, não fosse a agilidade dele.
- CALA A SUA BOCA, VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE FALAR DE ASSIM! - gritei, sentindo as conhecidas lágrimas começarem a rolar por meu rosto - ELE SERIA UM PAI MIL VEZES MELHOR QUE VOCÊ SE QUER JÁ PENSOU EM SER! ELE CUIDARIA DESSA CRIANÇA COM TANTO AMOR, TANTA DEDICAÇÃO, QUE NENHUM DINHEIRO NESSE MUNDO COMPRARIA A FELICIDADE DO NOSSO FILHO!
- É uma pena que ele não esteja aqui, não é? - perguntou com seu conhecido tom de voz ácido e debochado, fazendo com que um aperto maior crescesse em meu peito - Escute bem, eu tô realmente sem tempo e sem paciência para esses seus joguinhos - sua mão soltou meu pulso, e segurou meu rosto, observando-o por alguns instantes - Você vai fazer o que tem que fazer, e sabe por quê? - perguntou me olhando nos olhos - Porque você sabe o que está em risco aqui, sabe quem vai sofrer as consequências se você não for uma boa garota...
- Eu não sabia que tinha me transformado em um cachorro - puxei meu rosto com força, afastando-me de suas mãos - Onde tenho que me comportar como uma boa garota porque você quer, porque você acha que trabalhar como garçonete é indigno! - grunhi em sua direção, me virando de costas para o homem e passando a mão pelo rosto, eu não deveria, não poderia me irritar naquela altura do campeonato, não quando a única coisa que ainda me ligava a dependia apenas de mim e perdê-la seria o final de tudo o que existiu entre nós.
- Muitas vezes eu já pensei que você fosse igual a sua mãe, sabia? - seus passos ecoavam pela pequena saleta, mas a proximidade não vinha, o que me levou a crer que andava de um lado para o outro - Mas eu nunca pensei que você fosse ser tão burra quanto ela com essa porra de gostar de alguém - respirei fundo, tentando de alguma forma manter a calma e não avançar para cima do homem novamente - Ela se acabou pelo simples fato de gostar de mim! - riu com deboche - Porque eu não queria mais nada com ela, porque eu achei alguém melhor para estar ao meu lado, você sabe, , sabe muito bem toda essa história, não é?
- Você é sujo - sussurrei, elevando meus olhos e encarando o teto por alguns instantes, não daria a ele o gosto de ver mais lágrimas saindo por meus olhos - Você e essa gente que chama de amigos, essa tal alta sociedade que nunca acrescentou em nada! Todos vocês são podres, e eu vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para evitar que o meu bebê cresça perto de gente do seu tipo - me virei em sua direção apenas para ver sua expressão dura de pessoa rica que não está acostumada a ser contrariada.
- Tudo bem, você escolheu assim... - ergueu os ombros e um suspiro de alívio escapou por meus lábios, ele finalmente iria embora e eu poderia continuar com o meu trabalho - Mas quero te avisar que você está demitida - fez uma pequena expressão de pena - E vai ser assim em todos os seus empregos - deu mais um passo em minha direção, deixando nossos corpos o mais próximo que poderia sem que se tocassem - Na verdade, toda empresa que você for procurar emprego, você vai encontrar um grande e redondo “não”, sabe por quê? Porque se alguém cogitar em te contratar, a empresa dessa pessoa automaticamente vai ser fechada! - sorriu vitorioso e colocou as mãos no bolso do terno - E digo mesmo quanto aos seus amigos que certamente vão estar dispostos a te ajudar... Acho que você deveria pensar neles também, filha!

End Flashback.



Muitas vezes eu me perguntava como minha vida tinha chegado naquele ponto, como eu consegui acabar desse jeito. Algumas vezes atribuía à culpa da morte precoce da minha mãe quando eu tinha apenas quatro anos, e me pegava imaginando em como minha vida seria se ela ainda estivesse ao meu lado, provavelmente as coisas seriam diferentes em diversos aspectos, já que só uma mãe sabe exatamente todas as necessidades dos filhos e muitas vezes passa por cima das suas próprias necessidades para suprir as da criança, era o que eu fazia com , ela sempre estava em primeiro lugar, sempre. E eu gosto de pensar que minha mãe faria o mesmo por mim, me colocaria em primeiro lugar, me defenderia e iria contra o meu pai nos seus devaneios de que a alta sociedade não deve se misturar com a “escória da sociedade”, em suas palavras. Mas no lugar da minha mãe, eu tive Scarlet, e o seu deslumbramento por alcançar uma classe social bastante superior a dela, o que para a mulher, importava muito, visto que ela não podia nunca ser vista com uma roupa repetida, sapatos repetidos, ou de uma coleção passada. No lugar de uma casa amorosa e reestruturada, eu tive empregados que me cuidavam por pena, ou porque eram pagos para aquilo. Empregados que logo foram substituídos por um colégio interno quando eu atingi idade o suficiente para me virar sozinha. Não posso dizer que o colégio foi de todo ruim, de forma alguma isso seria realidade, nele eu conheci grande parte dos meus amigos, e , o cara por quem eu me apaixonei, o cara que eu ainda amava, o cara que me deu um grande presente, mas não esteve aqui para poder vê-lo e segurá-lo em seus braços, e a cada minuto que eu pensava em como ele lidaria com as coisas, como ele seguraria no colo, como lhe daria comida e todas as outras coisas que eu tenho certeza que ele executaria, cada momento que um pensamento desses me atingia, meu coração sangrava, e eu tinha plena certeza de que ele nunca mais pararia de sangrar.



Capítulo 2

Eu nunca conseguia saber ao certo como o tempo passava, ou em que dia estávamos devido à falta de acesso ao mundo exterior. Não tinha como eu saber quando estava sol, quando já era de noite, se chovia ou se o tempo estava aberto. E por mais que eu tentasse de alguma forma contar os dias de acordo com as refeições que serviam através do buraco na porta, chegou uma hora em que eu simplesmente me perdi e já não sabia se me ofereciam o almoço ou o jantar. Talvez a terrível dor de cabeça que aparecia todos os dias fosse uma das culpadas por essa confusão, talvez fosse a voz de Dmitri, que falava em meus ouvidos coisas que eu realmente não queria e não precisava ouvir, e por mais que eu soubesse que tudo aquilo era apenas uma coisa da minha cabeça, suas palavras me pareciam muito reais, e conseguiam me ferir de alguma forma. Em alguns momentos, tudo o que eu queria era que tudo acabasse logo, que eu não fizesse mais parte desse mundo e que meu sofrimento terminasse, mas seguido desses pensamentos, vinham os pensamentos sobre a minha pequena bebê, com quem eu tinha um compromisso, o compromisso de ser a melhor mãe que eu pudesse ser, o compromisso de suprir a falta que seu pai lhe faria, o compromisso de estar com ela para tudo, de ajudar em seus primeiros dias de aula, a aprender a andar de bicicleta, a fazer as tarefas de casa e acima de tudo, o compromisso de fazer dela uma boa pessoa, e dar a ela uma vida completamente diferente da que eu tive, principalmente da que eu tinha agora.
Esses pensamentos sempre faziam minha cabeça doer, e aparentemente o fato de estar em uma cela solitária me tirava o direito a medicamentos, já que achavam que eu poderia tentar uma overdose deles, não que essa possibilidade fosse realmente impossível, mas a dor de cabeça incomoda parecia piorar a cada dia, cada dia que eu passava longe, cada dia onde eu não sabia exatamente o que estava acontecendo com , cada dia que eu pensava que ela poderia estar sendo privada de alguma de suas necessidades básicas, cada uma dessas opções eram motivo de um novo latejar em minha cabeça, motivo de desespero, lágrimas e soluços, que só faziam com que a dor piorasse gradativamente, trazendo com elas algumas visões que não poderiam ser reais.


- Você realmente pertence a esse lugar - a voz grossa e debochada invadiu meus ouvidos, fazendo um suspiro pesado escapar por meus lábios, mesmo depois de morto, Dmitri não me daria sossego - O laranja combina bem com o seu tom de pele pálido! - sua figura sentou bem a minha frente e soltou um risinho, um daqueles malditos risinhos que me irritavam profundamente - O que foi, ? O gato comeu sua língua? - perguntou se esticando em minha direção e se aproximando um pouco - Você sente saudades, né? Eu aposto que sente falta de quando eu te tocava - fechou os olhos e inclinou a cabeça levemente para trás, parecendo se deliciar com a memória - E você tem que admitir, eu te tocava bem melhor do que aquele pobre coitado com quem você fez à bastardinha - minhas mãos estavam fechadas, e eu as apertava com tanta força, que conseguia sentir a ardência das minhas unhas quase nulas rasgando suas palmas - Você sabe que eu encontrei com ele? - soltou mais uma risada, dessa vez mais alta e debochada do que antes - E contei pra ele todas as coisas que nós fizemos juntos, contei como você gemia o meu nome, como você se esqueceu tão rápido dele quanto se esquece de uma mosca insignificante.... - aquilo não era real, não poderia ser real, Dmitri estava morto, ele estava morto e eu estava completamente sozinha ali dentro, mas sua risada, sua voz, até mesmo o seu jeito debochado de falar eram completamente reais para mim, tão reais que meu primeiro instinto foi avançar contra o homem a minha frente, encontrando apenas a parede. Mas não era o suficiente, não era o bastante, ele não poderia falar assim, não poderia fazer achar que eu não o amava, o simples pensamento de que acreditaria naquilo me consumia por dentro, seu rosto decepcionado apareceu em minha mente. Minhas mãos foram de encontro aos meus cabelos e puxá-los era a única coisa que me deixava um pouco mais calma, não que essa opção funcionasse muito, mas parecia me distrair, meus soluços escapavam altos e claros juntos aos grunhidos que saiam por minha boca, logo o sangue começou a escorrer pela lateral de meu rosto. Malditos pontos que pareciam sempre abrir só para me fazer me lembrar do que eu tinha feito e de como tinha feito. Aos poucos minhas mãos começaram a relaxar devido ao cansaço que o choro trazia, deixando com que eu trouxesse a direita ao meu campo de visão e observasse o sangue que escorria por ali, o meu sangue, sujo como eu era, impuro como eu era, indigno de qualquer tipo de coisa boa, ou felicidade que pertencesse a esse mundo.



Flashback

Já tinha um bom tempo que eu estava na mesma posição, minhas mãos apoiadas em cima de minha barriga, a cabeça pendendo levemente para fora da cama de solteiro, mas nem assim eu conseguia pensar em alguma solução para o problema que me cercava, problema esse que tinha um nome, mas eu costumava chamá-lo de outra forma: Pai.
Desde que meu pai tinha descoberto meu relacionamento com , ele fez questão de deixar claro que não aprovava, mas repentinamente, alguma coisa mudou e ele quis conhecê-lo, e se essa fosse uma família normal, eu fosse uma pessoa normal e meu pai também, isso seria ótimo, significaria que ele estava dando uma chance de mudar o que ele pensava a seu respeito. Mas conhecendo meu pai como eu conhecia, eu sabia que aquele jantar no final de semana seria apenas uma avaliação na qual nunca seria aprovado e o fato de vê-lo tão animado com o convite para conhecer minha casa e levar sua família para que todos pudessem se conhecer melhor, me desencorajava a dizer toda a verdade sobre a minha estrutura familiar e que meu pai e minha madrasta nunca iriam gostar dele, ou de seus pais.
Um suspiro pesado escapou por meus lábios e eu resolvi que seria melhor evitar o dano, mesmo que doesse um pouco agora, seria melhor do que ter sua família sendo destratada em minha casa, coisa que eu sabia que aconteceria. Levantei da cama e calcei os sapatos e sai do quarto rapidamente, não demorando muito a encontrar quem eu queria, já que vivia trancafiado na biblioteca, quando não estava estudando para alguma prova, estava estudando apenas para saber um pouco mais de algum conteúdo, e isso me deixava absurdamente orgulhosa por todo o seu esforço em ser um aluno bem acima da média.

- Hey - puxei uma cadeira e sentei ao seu lado, lhe lançando um sorriso calmo e torcendo mentalmente para que aquela conversa não fosse tão ruim quanto eu pensava que poderia ser.
- Oi, eu queria mesmo falar com você - se aproximou, plantando um beijo em minha testa - Liguei para os meus pais e avisei sobre o final de semana, minha mãe ficou super feliz e mal pode esperar para te conhecer! - fechou o livro que lia e virou o corpo em minha direção, enquanto sussurrava de forma animada - Eu disse a ela que você ama bolo de chocolate e ela disse que vai fazer um pra levar como sobremesa!

E foi ali, em toda a sua empolgação, e em toda a bondade que seus pais pareciam ter, que eu perdi a coragem de arrancar o Band-Aid de uma vez e dizer toda a verdade. Que Deus me ajudasse e as coisas não fossem tão ruins quanto eu previa.

End Flashback



Assim que a pequena portinhola se abriu, o rangido me despertou daquele pensamento, me aproximei da porta lentamente.

- Eu... Eu preciso de cuidados - gaguejei baixinho, esperando que o guarda escutasse e me levasse para algum tipo de atendimento médico, estendi a mão pelo pequeno buraco, deixando que visse os pontos abertos e apenas recebi um resmungo de confirmação a minha reclamação. Algum tempo depois dois guardas vieram e abriram a porta, seus olhares eram um misto que eu odiava ver, mas estava quase me acostumando a ter, pena, raiva, deboche, prazer, satisfação e superioridade. Apenas abaixei a cabeça e estiquei as mãos para frente, já sabendo o procedimento para poder sair da cela, o metal gelado envolveu meus pulsos e o “click” baixo das algemas se fechando ao redor deles me fez sentir ainda pior, o pior dos seres humanos na face da terra. Um dos homens me segurou pelo braço, enquanto o outro fechava a cela e caminhava a alguns passos atrás de nós em direção à enfermaria.

A enfermeira ergueu os olhos de suas pilhas de papel e me analisou por alguns instantes, eu não sabia se era só comigo, mas eles não tinham o hábito de falar muito com todas as presas. Talvez achassem que nós não éramos dignas de palavras, ou só não queriam contato com gente do nosso tipo. A mulher indicou a cadeira a sua frente e segurou minha mão, fazendo um estalo com a boca em negação e resmungando algumas palavras que eu não fui capaz de identificar, mas tinha certeza que não eram boas palavras, talvez uma reclamação por ter que cuidar de uma coisa tão insignificante como aqueles pontos, visto que ela tinha muitos papeis para trabalhar, e eu provavelmente seria mais um papel acrescentado em sua pilha de burocracias.

- Já é a terceira vez que vem parar aqui - falou com a voz dura e séria, me fazendo sentir ainda mais insignificante do que eu costumava me sentir ali dentro - Se continuar se machucando dessa forma, eu simplesmente vou me recusar a atender você, ou melhor ainda, nós vamos acrescentar que você causa ferimentos ao próprio corpo em sua ficha - mantive meu olhar baixo, observando calada enquanto a mulher passava um cotonetes embebido em algum produto que eu não sabia a origem e muito menos o nome em cima do corte - E sabe o que vai acontecer? Vão te transferir para uma área onde as presas fazem isso, vai ficar amarrada dia e noite para ver se aprende a se comportar - mordi o lábio inferior em desconforto com suas palavras e suspirei pesado - Eu aposto que seu pai pagaria um bom dinheiro para vê-la nessa situação, é isso que quer? - perguntou atraindo minha atenção por alguns instantes, neguei com a cabeça e fechei os olhos, respirando fundo e sentindo aquele cheiro forte invadir minhas narinas, causando mais uma fisgada em minha cabeça, dessa vez uma fisgada tão forte que me fez apertar os olhos com força e me fez sentir como se meus músculos estivessem perdendo a capacidade de se manter firmes - Então pare, pois da próxima vez é para lá que eu vou te mandar.
- Minha cabeça, dói muito - sussurrei uma tentativa de justificar, voltando a olhar para minha mão quando a mulher começou a suturar novamente a abertura que se encontrava ali - Eu... Eu não posso tomar nenhum remédio? - perguntei num misto entre pergunta e súplica, tendo apenas um gesto negativo com a cabeça em resposta - Nem aqui? Na sua frente? - pedi mais uma vez, tentando de alguma forma me livrar daquela dor infernal, mas mais uma vez a mulher a minha frente negou com a cabeça, parecendo decidida a não me dar mais nenhuma palavra além das ameaças com que tinha me "presenteado".
- Quando a detenta acabar esse procedimento, encaminhem-na para a sala do diretor! - uma voz feminina avisou aos guardas e meu corpo inteiro se arrepiou, o que seria dessa vez? Será que levaria uma bronca por estar indo para a enfermaria novamente? Será que realmente me transfeririam de área como a enfermeira havia dito? Nenhuma outra opção era viável ou parecia boa em ser conduzida para a sala do diretor, não era uma boa opção quando se estava na escola, quando se está em um presídio, parece uma opção ainda pior e por alguns instantes eu pedi mentalmente para que o processo de pontos e curativo demorasse um pouco mais, que levasse mais tempo do que o necessário, ou talvez até que desse uma complicação em dar aqueles malditos pontos em minha mão. Eu realmente não queria saber o que estava por vir.



Capítulo 3

A porta se abriu com um rangido e o guarda indicou com a cabeça a cadeira onde eu deveria sentar, o homem a minha frente deveria ter quase 60 anos, sua feição era cansada, fez um aceno com a mão, e no instante seguinte estávamos sozinhos em sua sala. Certamente meu rosto entregava o quanto eu estava nervosa, nada tinha sido dito, nem uma mísera pista tinha escapado do guarda, ou talvez ele também não soubesse o motivo pelo qual estava me levando para a sala do diretor do presídio.
Minha cabeça ainda doía tanto quanto poderia doer, até mais do que poderia, eu acreditava. Um pigarro na sala fez com que minha atenção voltasse ao homem sentado na cadeira giratória a minha frente, sua expressão cansada mudando para uma séria e não muito feliz.


- Preciso que assine aqui - estendeu alguns papeis em minha direção esperando que eu os pegasse, passei os olhos por cima das folhas e não conseguia compreender nada, minha cabeça doía tanto, que ler naquele momento seria um sacrifício.
- O que são esses papeis? - perguntei desconfiada, enquanto tentava forçar os olhos para enxergar as letras, mas elas pareciam se embaralhar em minha frente, zombando completamente da minha falta de capacidade.
- São os papeis que o seu advogado trouxe, você precisa assinar antes para poder ir! - indicou a caneta em cima da mesa, deixando claro que não tinha tempo para perder, e que se tinha, não pretendia perdê-lo me explicando qualquer coisa.
- Ir? Ir pra onde? - minha voz ainda estava mesma forma, desconfiada, e um suspiro impaciente saiu do homem a minha frente, que logo em seguida apoiou os dedos nas têmporas enquanto as massageava, pelo visto, não era só eu que tinha dor de cabeça por aqui.
- Ir pra casa, ir lá pra fora, ir pra qualquer lugar que você quiser ir, dentro do delimitado pela lei! - se eu ainda tinha alguma dúvida de que o homem estava irritado, a dúvida tinha sido sanada naquele momento, sua voz parecia mais impaciente a cada palavra que me direcionava. Mas aquilo não era realmente importante agora, visto que aparentemente, não tinha desistido do meu caso como eu pensava. Assinei os papeis o mais rápido que podia e entreguei de volta ao homem que pareceu agradecer mentalmente pela minha 'colaboração' - Espero não te ver por aqui outra vez, . - Eu também esperava não aparecer por lá outra vez, e faria tudo o que estivesse ao meu alcance para isso.

O mesmo guarda que me conduziu até a sala me indicou o caminho que eu deveria seguir, seguindo ao meu lado em seu inquebrável silêncio, nossos passos ecoavam por todo o corredor, até chegar a uma ala a qual eu nunca tinha visto, não que eu tivesse tido tempo de ver todas as coisas ali antes de ser enviada gentilmente para a solitária. Avistei o advogado pelo vidro da sala de espera, logo estávamos no mesmo ambiente e eu pude confirmar, perfume importado, dos caros, e que me causou mais uma fisgada na cabeça.

- O senhor pode... - sua voz se fez presente, e o homem apontou as algemas que ainda envolviam meus pulsos, o guarda se adiantou, abrindo-a rapidamente - Aqui, eu trouxe isso pra você vestir, espero que sirva - ergueu uma sacola preta em minha direção e eu apenas a peguei, levantando o olhar para o homem, e me arrependendo no segundo seguinte. Ok, eu estava completamente desarrumada, provavelmente eu parecia uma bagunça, porque eu era uma bagunça. Mas o olhar de pena que ele lançava em minha direção me fez sentir pior do que eu já me sentia há alguns instantes, eu me sentia como um daqueles vídeos de cachorros abandonados, onde uma alma bondosa aparece e salva o pobre animalzinho. Só que eu não era um animalzinho, e não esperava que nenhuma alma bondosa pudesse me salvar. Na realidade, nenhuma pessoa nesse mundo conseguiria ou poderia fazer isso.
- Ok... Eu vou... - indiquei a porta a minha frente, onde uma plaquinha estava pendurada, indicando que atrás dela se encontrava o banheiro e segui em sua direção. Assim que acendi a luz e pude me ver no espelho, eu entendi um pouco o olhar que me lançava, meus cabelos estavam completamente embolados e sujos de sangue, assim como meu rosto, com a mão esquerda abri a torneira e tentei de alguma forma amenizar minha aparência, ou pelo menos não aparentar estar tão suja quanto eu estava antes de entrar ali. Abri a sacola preta e tirei a roupa e um par de sapatos que se encontravam lá dentro, negando com a cabeça ao ver o que tinha sido escolhido para que eu vestisse. Um vestido de alfaiataria, que deveria ter custado os olhos da cara, na cor preta e um par de sapatilhas que seguiam a mesma cor, e por mais que as roupas em minhas mãos fossem caras, eu sabia que me sentiria barata se as vestisse. Se eu colocasse alguma daquelas peças, eu seria novamente a bonequinha de luxo que meu pai idealizava e Dmitri me obrigava a ser, e aquilo era a última coisa que eu queria, dobrei as roupas e as coloquei novamente na sacola preta, abrindo a porta do banheiro em seguida - Eu não posso vestir isso! Sinto muito! - estiquei a bolsa na direção de que me olhou confuso.
- O que? Não servem em você? - Perguntou preocupado, tentando compreender - Eu pedi pra minha secretária verificar o seu número, puta merda - resmungou, pegando o celular do bolso do terno e começando a digitar alguns números, logo levando o aparelho a orelha - Incompetente do caralho, eu só pedi uma coisa, uma única coisa e ela não consegue fazer, mas a gente vai resolver isso, alguém vai trazer uma roupa nova pra você aqui, isso é rápido - resmungava enquanto dava passos de um lado para o outro, me fazendo sentir um pouco zonza.
- Não tem nada a ver com numeração - falei um pouco mais alto para atrair sua atenção, e seus olhos logo se voltaram em minha direção, o telefone que antes estava grudado em sua orelha tinha sido afastado alguns centímetros.
- Qual é o problema então? - enfiou o aparelho no bolso, mas manteve a mão lá dentro, sua feição ainda era confusa - Não estão à sua altura? Isso foi o máximo que eu consegui de última hora! - avisou como se aquilo fosse realmente importante - Podemos comprar alguma coisa mais sofisticada depois, mas no momento é só isso que temos - explicou como se falasse com uma criança de quatro anos.
- Eu não posso vestir isso porque não quero, e não tem nada a ver com marca ou preço - minha voz voltou a ser baixa agora que o homem tinha os olhos fixos em meu rosto, tentando desvendar que tipo de brincadeira era aquela, ou o que eu realmente queria dizer, como se minhas palavras não significassem exatamente o que eu pretendia.
- Então tem a ver com o que? - perguntou em dúvida, uma pequena ruga de incompreensão se formando em sua testa - É a cor? Eu acho que preto é uma cor mais discreta pra você sair daqui agora, já têm repórteres lá fora e se você usasse algo muito colorido ia fic...
- Eu não quero saber disso! - apertei minha cabeça com as mãos quando minha voz saiu um tanto mais alta do que as fisgadas permitiam - Eu não quero essas roupas, são exatamente o que Dmitri escolheria para eu usar em um de seus eventos inúteis - meu tom de voz saia mais esganiçado a cada palavra, e eu precisei me sentar para que não caísse, já que uma fraqueza me atingiu em seguida.
- Ah, esse é o seu motivo? - perguntou com o mesmo tom que usava antes, como se falasse como uma criança pequena e mimada - E como a madame pretende sair daqui, então? - parou a minha frente, deixando a sacola na cadeira ao meu lado e enfiou as mãos nos bolsos – Porque, caso você não tenha percebido, essa é a única roupa que tem para sair daqui, e eu tenho certeza que Dmitri não está por aí para ver a roupa que você tá usando agora!
- Se você continuar usando esse tom de voz comigo, pode ter certeza que eu nem vou precisar tirar o uniforme - grunhi, me levantando da cadeira e deixando nossos corpos próximos, apesar da diferença de altura ser considerável, não deixaria que ele pensasse que eu tinha medo dele, ou que viria a ter algum dia – E, aliás, eu pretendo sair daqui com essa mesma roupa - apontei para meu corpo, logo ouvindo uma risada de descrença do advogado, que se afastou alguns passos e esfregou a mão no rosto.
- Você quer sair daqui vestindo isso? - repetiu meu gesto e apontou para a roupa que eu usava soltando mais uma risada desacreditada - Gostou do uniforme, ? - revirou os olhos e pegou a bolsa preta, empurrando-a em minha direção - Vai se trocar, por favor! Eu tenho outras coisas pra resolver ainda hoje!
- Não vou! - sentei novamente na cadeira e cruzei os braços, se ele estava me tratando como uma criança birrenta, eu me portaria como uma - Eu não vou sair daqui vestindo essa merda - apontei para o saco com desprezo - Se você quer arrumar alguma coisa para eu sair, ok. Contando que não pareça que eu tô saindo de um editorial de moda.
- Você tá de brincadeira comigo? - bufou irritado, e eu me limitei a dar de ombros - Me avisaram que você era louca, mas não achei que chegasse a esse ponto! - negou com a cabeça e deu de ombros - Bem, se o que você quer é estampar as capas dos jornais de laranja, ótimo pra você. Apesar de eu achar que essa não é bem a melhor cor pro seu tom de pele - seu tom de voz continuava sarcástico quando ele se ajeitou, e indicou a porta com o dedo indicador - Vamos?



Capítulo 4

Realmente, a quantidade de repórteres do lado de fora não tinha sido uma mentirinha dita pelo homem que caminhava ao meu lado tentando fazer um cerco com a mão e empurrando algumas pessoas que se juntavam ao nosso redor na tentativa de tirar uma boa foto, ou de conseguir alguma palavra vinda de nossas bocas. Alguns guardas tiveram que vir ao auxílio de , afastando as pessoas até que nós conseguíssemos alcançar seu carro, seria lindo se eu dissesse que o advogado foi um completo cavalheiro e abriu a porta pra mim, mas não, ele não fez. Apenas destravou o carro e entrou do lado do motorista, esperando que eu fizesse o mesmo que ele no lado do carona.


- Muito bem, não sei se você leu os papéis que assinou lá dentro - começou a falar, assim que ligou o carro e saiu do estacionamento daquele lugar, que eu pretendia nunca mais ver - Você não vai precisar usar uma tornozeleira, porque tem residência fixa - olhei em sua direção, pronta para contestar aquela informação, mas o homem ergueu um dedo, como um pedido mudo para não ser interrompido - Você não pode sair da cidade, e um oficial de justiça pode bater na sua porta a qualquer momento para garantir que você não esteja fazendo nada ilícito, então, nada de bebidas, drogas, ou qualquer substância que possa ser considerada ilegal! - me olhou com o canto dos olhos, tentando ver se eu tinha entendido o recado, e eu me limitei a assentir em sua direção - Todo mundo sabe do seu histórico em arrumar confusões, mas dessa vez, pelo amor de Deus, se você não quer voltar praquele lugar, não compre briga com uma formiga! - pediu, parecendo um pai que instruía a filha a não fazer nada errado. Esperei por algum tempo, para ter certeza que seu discurso tinha terminado e quando um silêncio incomodo se instalou no carro por mais de dez minutos, eu percebi que talvez fosse a minha vez de falar.
- Mas eu não tenho residência fixa - foi a primeira coisa que saiu por minha boca - E se por residência fixa você tá querendo dizer a casa do Dmitri, ou a casa do meu pai, você teve todo esse trabalho à toa, porque eu não vou pra nenhum desses dois lugares - muitas coisas preocupavam minha cabeça naquele momento, mas uma delas, a maior delas, era a qual eu não conseguia deixar de pensar. - E a minha filha? Onde ela está? Quando eu vou poder vê-la? Você disse que eu poderia ficar com ela novamente! - a ansiedade começava a me consumir, ver , talvez fosse o que eu precisava para conseguir um pouco de sanidade e tranquilidade naquele inferno que eu estava vivendo.
- Eu presumi que você não gostaria de ficar na casa onde cometeu um assassinato! - revirou os olhos como se a pergunta fosse idiota - Vai ficar no meu antigo apartamento, é pequeno, mas vai dar pro gasto. Também vamos te dar uma ajuda de custo enquanto não conseguir nenhum emprego, não se preocupe - avisou de forma tranquila, como se já tivesse pensado em tudo - Quanto à criança, assim que chegarmos ao apartamento, eu vou ligar para a assistente social e ela vai levar sua filha para lá! - Eu não precisava dizer mais nada, todas as minhas perguntas tinham sido respondidas, menos uma: Por que estava fazendo aquilo tudo? Será que eu era uma publicidade tão boa assim? Mesmo que eu perguntasse e ele respondesse, eu não acreditaria em sua resposta, então, preferi deixar que o silêncio tomasse conta do carro, era a melhor das escolhas.

Flashback

O jantar tinha sido um desastre, como previsto, meu pai tinha feito questão de ser absurdamente detestável, na verdade, ele e Scarlett pareciam estar em uma competição de quem poderia ser pior. Mas o que me surpreendeu no final de tudo foi a atitude de e de seus pais, mesmo que eu tivesse me desdobrado para tentar fazê-los se sentir um pouco mais confortável, ficou evidente que eles não eram bem vindos ali, e que tudo o que meu pai queria fazer era mostrar a ele o quanto tinha, o quanto nunca poderia me dar, e o que eu poderia esperar que ele fizesse diante dos fatos além de ir embora?

- Vamos? - perguntou enquanto eu os levava até a porta, a senhora segurava o bolo de chocolate que nem ao menos tinha sido servido, seu rosto deixava claro o quanto a mulher estava chateada com o que havia acabado de acontecer, enquanto o pai de se mantinha em silêncio, como tinha feito na maior parte do tempo, mas demonstrava em sua postura o quão ofendido tinha ficado com as insinuações do meu pai sobre um "golpe do baú reverso".
- Aonde? - mordi o lábio inferior sem entender muito bem aonde eu deveria ir naquele momento, e o sorriso no rosto de fez com que eu franzisse as sobrancelhas sem conseguir compreender o motivo pelo qual ele sorria, e não tinha uma expressão zangada em seu rosto.
- Para a nossa casa ué - apontou para seu próprio corpo e para os pais, seu pai não parecia muito satisfeito, mas sua mãe segurou o bolo com um pouco mais de força e me lançou um pequeno olhar esperançoso - Não é justo, , eu vir aqui, conhecer essa casa enorme e cansativa e você não ir conhecer a nossa humilde residência, lá é tão pequeno que você consegue ver o banheiro enquanto está na sala, aposto que nunca esteve em um lugar assim – riu bem humorado e eu me limitei a dar um sorriso e passar os braços ao redor de seu pescoço, tendo comigo a certeza de que ele era o melhor namorado do mundo, e de que era o homem com quem eu queria passar todos os dias que me restavam.
- Olhando por esse ponto de vista, eu acho que tenho que concordar! - ergui os ombros quando nos separamos – E, senhora , me perdoe a falta de educação, mas eu comi bem pouquinho do jantar para poder comer um monte de bolo de chocolate! me disse que o seu era perfeito e eu não duvido da palavra dele – a mulher me lançou um sorriso entusiasmado e eu retribui prontamente, apenas fechei a porta de casa antes de segui-los até o carro.

End Flashback

Demorou algum tempo até que o bairro residencial pudesse ser visto, era bem localizado, e parecia ser tranquilo. Pude ver uma pracinha, um mercadinho, uma farmácia e uma cafeteria ao redor. Assim que estacionou em uma das vagas demarcadas na praça, um pequeno sorriso brotou em meu rosto, adorava pracinhas, adorava poder ficar no sol da manhã, e mesmo que ainda fosse bem pequena e mal conseguisse pronunciar algumas palavras direito, fiquei feliz ao pensar na felicidade que ela teria ao frequentar o lugar.

- Acho que eu preciso dar uma passada na farmácia - sussurrei antes de descer do carro, recebendo um olhar questionador de - Eu tô com uma dor de cabeça infernal há algum tempo - levantei os ombros - Também vou precisar de coisas para e tudo mais... - continuei a falar diante de sua falta de palavras
- Se tivesse me dito antes que tinha dor de cabeça, eu teria te dado um remédio - se esticou no banco do motorista em direção a parte de trás do carro e pegou sua maleta, abrindo-a e me dando uma cartela de comprimidos - E quanto as coisas para sua filha, tudo isso já foi providenciado - se ajeitou novamente no banco do carro - Por mais que você possa ter adorado a vestimenta laranja, eu queria evitar que você desfilasse por aí com ela. Por que não troca de roupa antes de pensar em conhecer o bairro? - perguntou me deixando indecisa por alguns instantes, não conseguia identificar se seu tom de voz era sarcástico ou se ele apenas estava sendo sensato e preocupado.
- Hm, eu não queria incomodar - destaquei dois comprimidos da cartela e enfiei na boca, engolindo-os de uma só vez, o que fez o advogado arregalar levemente os olhos - Eu já estou acostumada - dei de ombros mais uma vez e assenti com a cabeça - Ok, eu acho melhor mesmo... Assim como acho melhor você parar com essas piadinhas idiotas, eu não sou suas amiguinhas e não tô usando isso aqui como uma fantasia de halloween - apontei um dedo em sua direção, enquanto falava com seriedade e abri a porta do carro, saindo dele sem dar tempo para o homem elaborar alguma resposta.

Aparentemente, minha pequena ameaça fez com que preferisse manter o silêncio enquanto me guiava para o apartamento, o prédio com aparência moderna e clean que me foi indicado parecia não ter muito tempo de construção, as pastilhas verdes cobriam toda a parede, e a sacada era fechada por uma cortina de vidro transparente. Acenei com a cabeça para o porteiro que olhou assustado em nossa direção. Esperamos o elevador por pouco tempo, mas parecia ter levado a eternidade até que suas portas abrissem e três mulheres saíssem de dentro da caixa metálica, seus olhares tão assustados ou mais do que os lançados pelo porteiro, elas pareciam ultrajadas e revoltadas em me ver, antigamente eu teria perguntado qual era o problema delas, mas a nova eu se limitou a entrar no elevador com a cabeça baixa.
O apartamento era realmente pequeno, mas apenas eu e ficaríamos ali, então, o espaço era mais do que suficiente. No quarto tinha uma cama de casal, e um berço tinha sido instalado ao lado dela, sua aparência deixava claro que ele era novo, e não fazia parte do mobiliário antes, os armários da cozinha estavam cheios de todo o tipo de comida que eu pudesse imaginar, assim como a geladeira, nos armários do banheiro os produtos de higiene estavam completamente organizados, assim como o resto da casa, e essa organização me causou paz.

- Acho que seria melhor se você tomasse um banho e trocasse de roupa para receber a assistente social - interrompeu o meu reconhecimento do ambiente - Têm algumas roupas para você no guarda roupa, coisa mais básica, pode ficar tranquila. Enquanto você toma banho eu vou ligar para a assistente social, e logo sua filha deve estar aqui - avisou calmo, pegando o celular e saindo da sala em direção à varanda. Resolvi que contestar não teria lógica, eu realmente precisava de um banho, precisava relaxar um pouco para então poder pegar a minha princesa no colo, não queria que ela sentisse aquele cheiro que parecia impregnado em meu corpo. Segui para o banheiro e fechei a porta, sentindo um alivio fora do comum quando aquela roupa laranja saiu de meu corpo.
- Eu nunca mais vou usar você - sussurrei como uma afirmação - Nunca mais vou estar naquele lugar, nunca mais vou fazer nada que possa me prejudicar, ou prejudicar a minha filha. Eu tenho um dever, e eu vou cumpri-lo.



Capítulo 5

Os jatos quentes tocavam minha pele e eu tinha certeza de que quando saísse do banho ela estaria completamente vermelha, mas já tinha um bom tempo que eu não sabia o que era um bom chuveiro, então fechei os olhos e aproveitei a água, deixando que ela levasse um pouco do peso que eu carregava nas costas, tudo isso ainda parecia uma mentira, ou talvez uma realidade muito alternativa, eu não duvidaria nada que poderia acordar a qualquer momento e estar na mesma cela de antes. Sei que não deveria pensar dessa forma, mas era um tanto inevitável pensar que algo aconteceria em meio a uma coisa "boa", já que na minha vida tinha sido sempre assim.
Tentei não demorar muito tempo no banho, mas tomei o tempo que achei necessário para me livrar daquela sensação de sujeira que estava comigo há tanto tempo. Enrolei meu corpo na toalha assim que fechei o registro e quando abri a porta, ele estava lá.


- Hm... Tá ficando cheirosa pro advogado, é? É nele que você vai dar o próximo golpe? - Dmitri se apoiou na pia e cruzou os braços, me olhando de forma descarada, o que fez com que meu corpo automaticamente retesasse - Ele deve ser bem rico, mas não tão rico quanto eu. Será que ele vai te dar todas as coisas que eu podia dar?
- Cala a boca Dmitri - falei entre os dentes e sacudi a cabeça, aquilo era só paranóia minha.
- Será que ele vai te tocar daquela forma, ? - se desencostou da pia enquanto guiava seus passos em minha direção, uma de suas mãos subiu lentamente, tocando meu rosto e guiando o caminho mais para baixo.
- NÃO ENCOSTA EM MIM! - gritei e sua risada ecoou no banheiro abafado e esfumaçado devido ao meu banho quente.
- Não era isso que você costumava dizer, querida! - apertei os olhos pedindo para que ele fosse embora de alguma forma, minhas lágrimas já escorriam por meu rosto e o gosto salgado delas preenchia minha boca.
- Que porra é essa? - abri os olhos quando uma terceira voz se fez presente e encontrei me encarando – Por que você tava gritando? - perguntou dando um passo em minha direção.
- Não encosta em mim! - apertei a toalha contra meu corpo com mais força enquanto usava minha outra mão para delimitar o meu espaço pessoal - NÃO CHEGA PERTO DE MIM! - berrei quando o homem pareceu não entender o que eu falava, todo o meu corpo tremia e eu sentia como se minhas pernas fossem ceder a qualquer momento.
- PARA COM ESSA PALHAÇADA - gritou de volta, mas tudo ao meu redor parecia oco e sua voz mais parecia um zunido, suas mãos envolveram meus pulsos enquanto ele chacoalhava meu corpo - SE CONTROLA! A ASSISTENTE SOCIAL ESTÁ SUBINDO E VOCÊ TEM EXATOS CINCO MINUTOS PRA SE ACALMAR E SE VESTIR! - falou sério, me soltando e me analisando com os olhos, como se tentasse scanear minha alma - - sua voz saiu ofegante e um pouco rouca devido aos gritos que deu - Olha pra mim! - ergui meu olhar automaticamente para seu rosto e ele parecia um pouco mais corado do que eu me lembrava - Eu vou separar uma roupa pra você, você vai se vestir e sair desse banheiro como uma mulher normal! - enumerou nos dedos - A assistente social tem que te achar ótima ou vai levar sua filha! Então você deixa para dar o ataque que quiser depois que ela for embora, mas agora você precisa ser a mãe que matou um homem para proteger sua filha! - sua voz saia séria e eu não tive outra alternativa a não ser concordar, Dmitri não poderia me fazer perder novamente, eu não lhe daria aquele prazer. Assim como dito, separou uma muda de roupa e me entregou, saindo do banheiro em seguida para que eu pudesse me vestir e terminar de me acalmar, ou tentar. O fato era: Dmitri tinha sumido outra vez e eu precisava encarar a realidade, e agir como uma adulta. O barulho da campainha tocando me fez despertar, larguei o pente em cima da pia e observei meu cabelo, pelo menos eu parecia apresentável, respirei fundo e fechei os olhos, enchi minhas mãos de água e joguei no rosto, pedindo aos céus que a mulher que decidiria sobre a guarda de me achasse normal e me desse um motivo para tentar recomeçar a minha vida.
- Uh, você gosta quando gritam assim com você? Me lembro que costumava ficar brava comigo quando eu gritava - Respirei fundo mais uma vez e fechei os olhos, ele não estava ali, Dmitri não era real, ele estava morto e enterrado, a essa altura do campeonato seu corpo já deveria estar sendo devorado pelas larvas - O que foi, ? Tá tentando me fazer ir embora? - perguntou de forma ressentida e eu abri os olhos, me virando de frente para ele.
- Você não existe, você não está aqui, e sabe por quê? Porque eu te matei! - sussurrei enquanto erguia um dedo na altura de seu rosto, mas sua expressão não mudava.
- Sim, você fez isso, mas veja só, você me ama tanto que não consegue ficar longe de mim - ergueu os ombros de forma simplista enquanto eu esfregava meu rosto nervosamente.
- , a assistente social está esperando, vamos? - deu duas batidas leves na porta e Dmitri apontou para a madeira que nos separava.
- Isso, , vai lá, pega a bastardinha, não ia gostar de saber que você deixou ela passar por tudo o que ela passou, pobre garotinha, tão nova e indefesa - negou com a cabeça como se lamentasse pela pequena e todo o meu corpo travou com as imagens que minha mente projetou, se eu saísse daquele banheiro, certamente não seria para reaver a guarda da minha filha, mas sim para perdê-la definitivamente.
- , abre a porta desse banheiro logo! - tentava falar de forma baixa e controlada, talvez para não chamar a atenção da assistente social.
- Eu não posso - sussurrei de volta, e me sentei no vaso sanitário, apoiando meu rosto em minhas mãos e os cotovelos em meus joelhos - Eu não posso sair daqui! – um suspiro pesado e impaciente saiu do homem que estava do outro lado da porta, e eu tenho quase certeza de que o ouvi praguejar alguma coisa.
- Ótimo então, eu vou falar com a assistente social, e ela vai levar embora! - grunhiu mal humorado e eu mordi meu lábio inferior com aquela possibilidade.
- Eu não posso sair, ela não vai gostar de mim, ela vai me odiar! - desabafei, sentindo as lágrimas quentes voltarem a escorrer pelos meus olhos.
- Ah, vai mesmo! Pode ter toda certeza disso, no momento em que a mulher bater os olhos em você, ela vai pegar a bastardinha e levar embora correndo - Dmitri concordou e aquilo só fez meu nervosismo aumentar, porque no fundo, eu sabia que ele estava certo.
- Claro que não! - suspirou mais uma vez - Você tem que sair dai e tentar ao menos, ! - seu tom de voz antes bravo, agora estava um pouco mais calmo e sereno, mas eu não tinha certeza se era verdadeiro.
- Isso, , vai lá, dá a chance para a mulher te odiar e dizer que você nunca mais pode ver a pirralha! Talvez já tenha até alguma família interessada nela. - os soluços escapavam por minha boca e eu tinha certeza de que eram altos o suficiente para serem ouvidos do outro lado da porta e de alguma forma, isso me deixava envergonhada.
- Olha só, se você não abrir essa porta e se apresentar naquela sala, a mulher vai achar que você não tem interesse em reaver a guarda - o advogado explicou ainda mantendo o tom de voz calmo - Todo mundo sabe que você passou por problemas, uma fase difícil, ela não está aqui para avaliar isso, está aqui para ver se você pode cuidar da sua filha. Você não acha que pode fazer isso? - perguntou e eu respirei fundo em meio aos soluços que ainda saiam junto com as lágrimas.
- Eu não sei - confessei baixinho, apesar de eu querer muito criar e educar minha filha, o que Dmitri dizia fazia sentido, talvez tivesse alguma família para cuidar dela muito melhor do que eu sequer poderia pensar em cuidar, talvez eu devesse ser menos egoísta e pensar no futuro que uma família bem estruturada poderia dar a ela.
- Eu sei que não! - a expressão de deboche na cara de Dmitri me causava mais nervoso e ansiedade, a sensação de que tudo daria errado e que era melhor assim, melhor para que ela estivesse longe do tipo de pessoa que eu era.
- Mas eu sei que sim, sabe por quê? - neguei com a cabeça, mesmo que o homem não pudesse me ver, talvez considerasse o meu silêncio como resposta - Porque quando eu fui te ver lá naquela prisão, eu tentei argumentar sobre como você seria uma ótima publicidade! Mas a única coisa que te fez mudar de ideia foi quando eu disse que nós poderíamos lhe devolver sua filha, e acredita em mim, se eu não achasse que você pode cuidar dela, eu não chamaria essa assistente social. E não ache que eu faria isso por você, ou por ela, eu faria isso porque não gostaria de ver o nome da minha empresa relacionado a mais uma tragédia! - o tom de voz que usava me transmitia segurança e até um pouco de calma, minhas mãos aos poucos paravam de tremer, Dmitri ergueu as sobrancelhas em minha direção e riu baixinho enquanto negava com a cabeça.
- O cara é realmente bom, ... Será que ele está mesmo fazendo tudo isso de graça? Ou vai querer algum pagamento especial no final de tudo? - perguntou enquanto olhava para seus dedos, como se fossem a coisa mais interessante desse universo.
- E então, ? Você pode abrir essa porra de porta e tentar se dá uma chance, ou vai desistir antes mesmo de começar?



Capítulo 6

- Bom saber que você não se tornou uma covarde - sorriu em minha direção assim que eu abri a porta do banheiro, mas eu não consegui retribuir ou lhe dizer qualquer palavra de agradecimento - Mantenha a calma, não é uma entrevista de emprego, ela só vai ver o apartamento e ver como você e vão interagir - explicou enquanto me guiava pelo corredor em direção à sala de estar, apenas assenti com a cabeça, tentando ter em mente que as coisas dariam certo dessa vez, pelo menos dessa vez eu deveria tentar e conseguir fazer tudo certo.


Assim que chegamos à sala meu foco sumiu, e o ar de meus pulmões também, ali estava ela, a minha joia, o meu bem mais precioso e eu não pude esperar um segundo antes de dar passos apressados em sua direção e pegá-la do colo da mulher que nos observava, meus olhos varriam meticulosamente cada milímetro de pele da minha bebê, que balbuciava algumas palavras incompreensíveis, mas parecia também estar feliz em me ver.

- Mamãe sentiu saudade, mamãe morreu de saudade a cada segundo! - sussurrei enquanto distribuía beijos por todo seu rosto, pescoço e toda a área que meus lábios alcançavam, apertando a pequena em meus braços, tentando de alguma forma suprir a falta que ela tinha feito durante todo o tempo em que ficamos longe.
-Eu acho que posso mostrar o apartamento para você enquanto isso... - a voz de se fez presente e eu ergui os olhos na direção da assistente social que agora nos observava com atenção, mas concordou com o homem e o seguiu em uma espécie de tour pelo apartamento.
-A mamãe jura que nunca mais vai ficar longe! - sussurrei para enquanto me sentava no tapete da sala e a colocava sentada em meu colo - Foi horrível pra mim também, mas cuidaram bem de você, não foi? - perguntei baixinho, e gostaria que falasse e pudesse me dizer que sim, que apesar de tudo ela tinha sido bem cuidada, mas como isso não era possível, eu me limitava a observar seu rostinho e seu corpinho, agradecendo mentalmente por não encontrar nenhum sinal aparente de maus tratos. A pequena passou os bracinhos ao redor de meu pescoço e eu apoiei uma de minhas mãos em sua cabeça, deixando um beijo suave ali, enquanto erguia meu olhar para o teto e agradecia aos céus por tê-la de volta em meus braços - Eu nunca mais vou te soltar, eu juro!
- Como você pode ver, o apartamento está em perfeita ordem e adaptado para que a criança viva bem aqui! - aos poucos os passos de e da assistente social começaram a ecoar, indicando que eles voltavam ao ambiente - E o juiz considerou que está bem para reaver a filha, levando em consideração que o que fez foi para manter a criança segura, ela não apresenta riscos para a menor, logo, não existe motivos para mantê-las afastadas - os dois entraram na sala novamente e parecia ter cochilado em meu colo já que seu corpo estava um pouco mais pesado e sua respiração também. A mulher em quem agora eu pude reparar um pouco mais olhou em nossa direção e concordou com a cabeça. Seus olhos claros, cabelos cacheados perfeitamente arrumados e a roupa alinhada transmitiam a sensação de que ela era impecável e eu não duvidava que fosse.
- Você acha que consegue cuidar dela? - perguntou calma, se sentando na poltrona em frente ao sofá em eu estava encostada.
- Sim, é o que eu mais quero, poder cuidar dela como ela merece! - as palavras saíram de minha boca sem a minha completa autorização, mas a emoção contida nelas pareceu ajudar um pouco.
- Tudo bem, só quero deixar claro que eu posso fazer visitas a qualquer momento, sem nenhum aviso prévio e que se eu achar que a menor está sofrendo qualquer tipo de maus tratos, eu vou solicitar que a guarda dela retorne ao conselho tutelar - alertou, seu tom de voz ainda se mantinha calmo, porém deixava claro que ela estava ali pelos interesses de , e por alguns instantes eu cheguei a gostar um pouco da mulher, mesmo que ela ameaçasse tirar minha filha de mim.
- Pode ter certeza de que não vai precisar, tudo o que eu já fiz até hoje foi em função dela - afirmei, minha voz saindo tão firme quanto deveria, me causando até uma pequena surpresa - Ela é minha filha, é minha responsabilidade e eu vou fazer o que for possível e impossível para que tenha uma boa vida. - Garanti e a mulher me lançou um pequeno sorriso antes de se levantar da poltrona e escrever algumas palavras em um caderninho que carregava em sua bolsa.
- Boa sorte, – sorriu em minha direção enquanto falava – Eu confio que você vai conseguir fazer o melhor para a sua filha – pegou um cartão dentro de sua bolsa e estendeu em minha direção - Esse é o meu telefone de contato, caso você precise falar comigo ou qualquer coisa do gênero, se precisar de alguma ajuda é só me ligar – segurei o cartão e sorri pela gentileza da mulher, que ajeitou a bolsa nos ombros e fez um aceno para antes de se encaminhar para a porta, que foi prontamente aberta pelo advogado.
- Muito obrigada, Ashley – sorriu terno para a mulher e fechou a porta, virando-se na minha direção assim que o fez – Viu, eu disse que não era tão difícil - seu sorriso era satisfeito, e eu não entendia muito bem porque ele sentia tanta satisfação, talvez aquele trabalho fosse muito mais difícil do que eu imaginava ser.
- Muito obrigada – sussurrei e beijei a cabeça de mais uma vez, me apoiando no sofá para levantar com a pequena – Deve ter sido um trabalho difícil, e eu ainda não sei muito bem o motivo pelo qual está fazendo ele, mas eu tenho minha filha comigo, e no momento, isso é o que importa!
- Eu já te disse o motivo para eu estar fazendo esse trabalho, se você não acredita, não tem nada que eu possa fazer – levantou os ombros e pegou o celular que apitou, assentindo com a cabeça ao ler a mensagem que tinha recebido – Bem, eu acho que você já está instalada – falou calmo, guardando o celular no bolso do paletó enquanto olhava ao redor tentando confirmar o que tinha acabado de dizer - Tem roupas para nas gavetas, você já sabe onde ficam as comidas, a chave está na porta, o telefone está funcionando e eu grudei meu número em um post it na geladeira – apontou para trás, indicando a cozinha – Se precisar de alguma coisa, ou se qualquer coisa acontecer, você não toma nenhuma atitude, você me liga! - seu tom de voz ficou um pouco mais sério no final.
- Tudo bem, eu acho que consigo me virar – forcei um pequeno sorriso em sua direção, tentando fazer com que o homem confiasse em minhas palavras, a verdade, era que eu realmente queria ficar um pouco sozinha e tentar compensar o tempo que tinha perdido com , o advogado me analisou por alguns segundos antes de confirmar com a cabeça e se dirigir até a porta.
- Eu venho amanhã para discutirmos algumas coisas sobre o seu caso – avisou já com a porta aberta – E as vizinhas dos andares de cima são insuportáveis, tente fugir delas tanto quanto for possível - revirou os olhos e eu fiz um joinha com o dedo, como se anotasse mentalmente sua "dica", logo a porta se fechou, e eu estava sozinha com .

Caminhei em passos lentos até o quarto e deitei o corpinho adormecido da pequena na cama, seus traços e feições não lembravam absolutamente nada aos meus, ela era completamente igual a , exceto pelos olhos, os olhos castanhos ela tinha igual aos meus. Assim que ela nasceu e eu a peguei no colo, me lembro de como me senti ao ver que mesmo com o rostinho ainda inchado de um recém-nascido, ela me lembrava ao pai. Muitas mães consideram isso péssimo, já que carregavam o filho por meses, e achavam injusto que a criança não se parecesse com elas, mas no meu eu considerei um presente que se parecesse com o pai, porque assim eu nunca conseguiria esquecer seu rosto, e esse era o meu maior desejo.


Flashback
Eu estava grávida, e isso era completamente apavorante, principalmente levando em consideração que deveria ter uns dois meses que eu tinha terminado com o pai da minha filha, os testes tremiam junto com minhas mãos e eu precisei respirar fundo para não desmaiar naquele mesmo instante, eu tinha que pensar no que fazer, tinha que contar a e tentar de alguma forma resolver o mal-entendido que eu mesma tinha criado. Nós teremos um bebê, e eu sei que ele vai considerar isso, ele vai entender que tudo o que eu disse foi porque eu tinha que dizer, foi pra protegê-lo, assim como ele sempre me protegia. Me olhei no espelho do banheiro mais uma vez, decidindo que eu não precisava me arrumar tanto para vê-lo, ele me amava e fazia isso sem toda a produção desnecessária. Coloquei o celular no bolso da calça e sai de casa, eu precisava fazer isso e precisava ser agora. O caminho até a residência dos tinha sido calmo, Dark Horse tocava insistentemente e eu já estava quase começando a odiar o Katy Perry por isso.
Assim que entrei na rua de , meu coração gelou, uma viatura da polícia estava parada em frente à sua casa, os policiais falavam com sua mãe na porta e o mau pressentimento só aumentou quando a senhora caiu no chão, gritando como se o mundo dela estivesse acabando, quando o pai de apareceu para ampará-la, eu senti que o meu mundo estava acabando também.
Estacionei o carro de qualquer jeito, e naquele momento tudo o que eu conseguia era pedir aos céus que fosse outra pessoa, pedir para que aparecesse na porta também para consolar a mãe. Meus passos foram mais rápidos do que eu sequer pensava que poderiam ser e logo eu alcançava o casal e os dois homens fardados que estavam na porta.

- O que aconteceu? - perguntei em tom urgente, meu corpo inteiro tremia e quando o olhar da mãe de me atingiu, eu tive a confirmação, não era um engano, ou algum outro parente próximo, a notícia ruim era sobre , e então, as minhas orações foram para que fosse algo reversível.
- Ele... O meu filhinho – a mulher soluçou completamente desesperada e incapaz de dizer mais uma palavra se entregou novamente ao choro que parecia sair cada vez mais dolorido de seu corpo.
- O que aconteceu? - perguntei mais uma vez, me negando a acreditar no que minha mente perguntava, meu corpo se virou na direção dos guardas, que me analisaram alguns segundos antes de fazer uma cara de pesar – ME DIGAM LOGO O QUE MERDA ACONTECEU COM ! - minha voz saiu embargada, apesar de eu ainda segurar as lágrimas.
- Sentimos muito, senhorita, mas o jovem sofreu um acidente de carro e infelizmente não sobreviveu – aquelas palavras foram o suficiente para que as lágrimas saíssem sem a minha autorização, não poderia ser verdade, não deveria ser verdade, aquela era uma brincadeira, uma brincadeira de muito mal gosto e acabaria logo.
- Não, ele... Ele é prudente – argumentei, como se fosse impossível que alguma coisa tivesse acontecido com enquanto dirigia – Usava sempre o cinto de segurança, vocês se enganaram, vocês estão enganados e deram a notícia a família errada – em minha cabeça, nada daquilo parecia real, talvez eu acordasse em breve, e se isso acontecesse, eu nunca pararia de agradecer aos céus.
- A culpa de tudo isso é sua! - a voz grossa do senhor entrou em meus ouvidos, me fazendo virar em sua direção - Você e o seu pai endinheirado – apontou de forma acusatória para meu corpo - Você e tudo o que nunca poderia te dar, tudo o que ele estava tentando conquistar para vocês! - o mais velho soltou a mulher que ainda chorava, dando alguns passos em minha direção - Porque depois que você terminou com ele, por ele não ser o suficiente, por ele não poder te dar o suficiente – o homem soluçou e negou com a cabeça - O meu filho começou a trabalhar incansavelmente, todo maldito final de semana, para tentar ter alguma coisa, para tentar te provar de que ele poderia ser o que você precisava! - meus soluços saiam tão altos que eu mal conseguia escutar suas palavras, aquilo era culpa minha – Eu quero que você suma, você, o seu pai, o seu dinheiro e o que quer que você tenha vindo fazer aqui! - assenti com a cabeça, sabendo que não seria um bom momento para argumentar com ele, nunca seria um bom momento para argumentar com o senhor , não quando ele estava certo e eu era realmente a culpada por tudo o que tinha acontecido – E não ouse aparecer no enterro do meu filho, porque se você o fizer, eu vou ter o prazer de te enxotar de lá, assim como o seu pai fez conosco!
End Flashback



As lágrimas escorriam silenciosamente por meu rosto, eu não queria acordar de seu sono sereno, meus dedos percorreram sua pequena bochecha e a pele macia trouxe um pouco de conforto aos meus dedos.

- Muito obrigada, , por, apesar de tudo, me dar esse presente – sussurrei enquanto olhava para o céu pela janela do quarto, tendo a certeza de que onde quer que ele estivesse, conseguiria me ouvir agora.



Capítulo 7

Eu realmente estava estranhando a calmaria que era estar com em um lugar seguro, não consegui dormir direito durante a noite, com o pensamento de que a qualquer momento alguém entraria pela porta e tudo aquilo mudaria, o pesadelo voltaria para nossas vidas. Mas o dia amanheceu e tudo continuou absolutamente normal, levantei da cama lentamente para não acordar , que tinha ficado acordada boa parte da noite junto comigo e segui para a cozinha, preparei um café forte e um mingau, já que depois do primeiro ano de , eu não amamentava mais. Deixei os dois sobre a bancada da cozinha e voltei ao quarto, sorrindo ao encontrar a minha pequena garotinha com o dedão dentro da boca.


- Bom dia, minha princesa – sussurrei assim que subi na cama, dando um cheirinho em seu pescoço e recebendo um olhar sonolento da minha filha, o fato de ainda não falar me preocupava um pouco, mas eu estava dando um tempo para ela, assim como eu, ela tinha passado por muitas coisas e aquilo poderia ser o motivo para sua demora – Vamos levantar, tomar café da manhã e ver alguma coisa na TV? - perguntei calma enquanto a pegava no colo e guiava para o banheiro, sentei seu corpinho na pia e lavei seu rosto com delicadeza, espantando qualquer vestígio de sono. Aproveitei que estava no banheiro e escovei os dentes também, logo pegando no colo outra vez, a deixei sentada no tapete da sala e fui para a cozinha, peguei o prato com o mingau e a xícara de café e os coloquei na mesinha de centro, liguei a TV e procurei por um canal de desenho ou filmes infantis, o que logo atraiu a atenção de , que a todo momento apontava para o aparelho e dava resmungos agudos sobre as atividades que aconteciam ali, aquela era a minha tática para que ela comesse tudo, já que ela estava na fase de não querer comer alguns tipos de alimentos.

A campainha tocou, desviando sua atenção da tela e logo suas perninhas já corriam de forma desengonçada em direção à porta, levantei do chão e segui os passos da pequena, imaginando quem poderia ser, e tendo a resposta mais óbvia do mundo quando abri a porta.

- Acordei vocês? - perguntou calmo, estava arrumado e parecia ter saído de uma revista, será que ele andava sempre daquele jeito? Provavelmente sim, já que o homem não teria motivos para se arrumar só para vir me ver.
- Não, eu estava acabando de dar café da manhã para ela – apontei a pequena que parecia esperar ser cumprimentada e puxou a calça do advogado em busca de atenção.
- Bom dia para a senhorita também - se abaixou na altura da minha filha e estendeu a mão, segurando a pequena mãozinha dela nas suas – Eu vim trazer um cartão pra você - informou calmo, entrando completamente no apartamento em seguida.
- Hm... Tudo bem! - fechei a porta atrás de mim, enquanto continuava a tentar socializar com – Eu fiz café, você quer? - perguntei baixo, recolhendo o prato da mesa da sala e o deixando na pia e servindo uma xicara de café para ele assim que ouvi sua confirmação para minha pergunta.
- Você gosta? - perguntava em um tom de voz infantil, o que deixava claro que estava falando com – Ah, eu também gosto – logo que voltei para a sala, vi que o homem balançava as chaves do carro, enquanto minha filha dava risadas e tentava pegá-la de sua mão - Ela tem bom gosto para carros – falou divertido assim que eu entreguei a xícara em suas mãos e deu um gole no café.
- Deve ter – ergui os ombros e peguei minha xícara que já se encontrava vazia, a deixando na cozinha também, quando eu voltei, tinha conseguido tirar as chaves da mão do advogado e brincava de forma distraída com ela – Mas o que te trouxe aqui tão cedo?
- Então, como eu disse – se remexeu, pegando a carteira de dentro do bolso do terno que vestia e tirou de dentro dela um cartão - Aqui está, para o caso de você precisar de alguma coisa, a senha está no verso e ele está desbloqueado – peguei o cartão e suspirei pesado, não tinha certeza sobre aceitar ou não aquilo, mas na atual situação, seria bom tê-lo guardado.
- Ok, obrigada! - guardei o objeto retangular na gaveta do aparador que ficava ao lado da porta e me virei em sua direção - É só isso? Ou tem mais alguma coisa? - perguntei desconfiada, já que sua postura deixava claro que ele não tinha aparecido àquela hora apenas para me entregar um cartão.
- Então... - respirou fundo e se levantou do sofá, deixando a xícara em que bebia o café apoiada na mesinha de centro – Eu quero combinar um dia e horário com você, o juiz vai querer te ouvir, saber exatamente o que aconteceu naquele dia, e eu quero ensaiar o que você vai falar, você não pode se contradizer em momento nenhum! - explicou calmo, dando alguns passos em minha direção - Nós precisamos que você seja impecável para que ele não tire o seu habeas corpus, e você possa continuar aqui antes do julgamento real, esse procedimento é comum, como eu consegui o seu habeas corpus alegando que você agiu sobre forte emoção e todas essas coisas, o juiz quer uma versão dos fatos que venha de você!
- Mas, ele pode tirar o meu direito de ficar livre? - perguntei assustada, já que com a minha sorte, a possibilidade daquela opção acontecer era grande – Eu não sabia que isso poderia acontecer! - minha voz adquiriu um tom nervoso, e eu tinha certeza de que isso estava estampado na minha cara - Você pode vir para treinar seja lá o que for que eu tenha que falar quando for melhor para você! - avisei, sentindo o desespero crescendo dentro de meu corpo, se fosse necessário decorar alguma fala, eu a estudaria durante todos os dias e todas as noites antes do julgamento.
- , calma! - pediu e suspirou ao ver que seu pedido não seria atendido – O juiz só quer ouvir você, saber o que aconteceu, e só isso – me olhou com mais seriedade - Você não precisa se preocupar, nós conseguimos que você saísse da cadeia, vamos conseguir te manter aqui nesse apartamento até o julgamento, e até você ser inocentada – garantiu e lançou um pequeno sorriso em minha direção - Vou pedir para a minha secretária te ligar e ela vai te avisar o dia e o horário que eu vou vir para nós conversarmos melhor sobre isso, mas não precisa se preocupar.
- Tudo bem – respirei fundo, tentando não deixar a paranoia tomar conta de mim, tinha conseguido me soltar, tinha arrumado aquele apartamento para que eu e morássemos, ele não deixaria que as coisas dessem errado e estragassem o trabalho que ele tinha feito até aqui. Não mancharia o nome de seu escritório, e isso era uma coisa que eu tinha certeza que o preocupava.
- Eu tenho outros compromissos agora, mas você sabe, meu número está na geladeira, não hesite em ligar – concordei com a cabeça, enquanto ele se aproximou de em passos calmos e abaixou a sua frente, estendendo a mão para reaver a chave, sendo completamente fracassado em sua missão - Será que eu consigo uma ajudinha aqui? - perguntou, apontando para minha filha que parecia nada disposta a lhe entregar as chaves do carro.
- , meu amor – sussurrei para a pequena, atraindo sua atenção e sorri – Olha só, vai começar o filme das princesas – apontei a televisão, onde anunciava que o filme realmente começaria em breve e isso foi o suficiente para que a chave fosse esquecida e a pequena andasse na direção da TV, se sentando em frente a ela como se aguardasse ansiosamente o desenho começar.
- Nossa, você é boa nisso – falou de forma brincalhona e eu me limitei a dar de ombros, já que uma mãe conhece bem os seus filhos, e eu conhecia absurdamente bem para saber que ela realmente amava as princesas. Levei até a porta e a tranquei assim que ele saiu, sorri ao observar minha pequena batendo palmas em frente à TV de forma animada.

Peguei a xícara que o homem tinha deixado em cima da mesinha e segui para a cozinha, assim que comecei a molhar as louças para lavar, a campainha tocou mais uma vez, o que me fez franzir as sobrancelhas, será que tinha esquecido alguma coisa aqui? Varri o apartamento com os olhos e não encontrei nada que não estivesse ali antes, mas de toda forma, resolvi abrir a porta.

- Então você acorda cedo, não é? - a mulher loira, alta e com o corpo absurdamente definido falou e eu franzi as sobrancelhas, não a reconhecendo de lugar algum.
- Desculpe, eu não acho que conheço a senhora! - sorri forçado, tentando entender aquela situação constrangedora que acontecia ali – Eu sou , me mudei há pouco tempo – ergui a mão em sua direção, mas minha mão ficou no ar, completamente ignorada para a mulher que me olhava com nojo.
- Você acha que eu não sei quem você é? - perguntou com deboche - Você é a assassina que foi solta há poucos dias! - mordi o lábio inferior e respirei fundo, tentando mentalizar que estava na sala e tinha me instruído a não arrumar nenhum tipo de confusão, mas antes que eu pudesse abrir a boca para dizer alguma coisa, a mulher completou – Eu só vim aqui, para deixar bem claro, que você não é bem vinda nesse prédio, que aqui só moram pessoas de bem, e que se você não se mudar, nós vamos fazer da sua vida um inferno!
- Senhora – respirei fundo mais uma vez, tentando encontrar em minha cabeça algum mantra, ou coisa que pudesse me acalmar – Eu realmente não quero problemas com a vizinhança, pode ter certeza disso.
- Você não está entendendo? - riu e negou com a cabeça - Você. Não. É. Bem. Vinda. Nesse. Prédio. - Sibilou palavra por palavra – Eu tô te avisando, saia o quanto antes, ou nós tomaremos nossas providências - E assim como tinha aparecido na minha porta subitamente, a mulher deu de costas e saiu caminhando pelo corredor, deixando claro que aquela não tinha sido uma conversa, mas sim uma ameaça. Fechei a porta e olhei novamente para , que continuava distraída com seu desenho, minha cabeça balançou em negação, eu não sairia dali, não deixaria o lugar por um capricho de uma mulher que nem ao menos me conhecia.

Voltei para a cozinha e abri a geladeira, observando o que tinha lá dentro e pensando em alguma coisa para fazer no almoço, enquanto tentava realmente entender o que tinha acabado de acontecer na porta do apartamento, seria aquela mulher uma das vizinhas sobre quem tinha falado? Retirei uma carne do congelador e separei alguns legumes na bancada antes de voltar a lavar a louça. Meus olhos sempre desviavam em direção a sala, para ver se estava tudo bem com , eu tinha feito uma promessa a e pretendia cumpri-la, e não seria aquela mulher que me impediria de fazê-lo.


Flashback

Acompanhei todo o velório de longe, e o enterro também. Nossos amigos estavam lá, eles se abraçavam e choravam pela perda de , se despediam do amigo com tristeza, e eu desejei que eu pudesse fazer o mesmo, que pudesse ao menos me aproximar do caixão e lhe dar um último beijo, mesmo que ele não fosse poder retribuir, mas as palavras de seu pai ainda ecoavam em minha mente, a última coisa que eu queria, era estragar a despedida de , então, eu acompanhei tudo de longe. Mas assim que as pessoas começaram a ir embora e o cemitério esvaziou, eu me permiti uma aproximação. Parecia muito surreal em minha mente que estava ali, em baixo de toda aquela terra, a foto na lápide trazia seu sorriso, " , filho e amigo amado 1998 – 2015", por um segundo, eu quis acrescentar "pai" a um dos adjetivos descritos de forma tão simples ali.
- É, , você vai ser pai – sussurrei como se ele pudesse de alguma forma me ouvir – Eu sinto muito por não ter contado antes, sinto muito por tudo o que eu disse naquele dia – deixei que as lágrimas vissem – Era tudo mentira, eu precisava fazer, por você! - meus dedos dedilharam sua foto e um arrepio tomou conta do meu corpo – Eu sinto muito, eu sinto tanto que não têm palavras que possam descrever, mas eu juro a você, eu juro com todas as minhas forças, eu vou criar o nosso bebê, e vou fazer dele o bebê mais feliz que ele puder ser! E um dia, quando ele me perguntar sobre o pai, eu vou contar a pessoa incrível que você era, vou dizer a ele o quanto você amaria poder tê-lo carregado nos braços e ele vai saber, que mesmo sem estar aqui, você o amou! - me ajoelhei na terra e toquei sua foto com os lábios - Você vai ser sempre o meu amor, o meu primeiro amor e o único amor que eu vou ter, e eu vou honrar isso, eu prometo!

End Flashback


Uma lágrima solitária escorreu por meu rosto com a lembrança, principalmente com a certeza de que eu não tinha realmente cumprido com a minha promessa, eu tinha fraquejado no meio do caminho, e por isso, a nossa filha sofreu as consequências, e por mais que pudesse nem se lembrar disso no futuro, eu me lembraria, eu sempre lembraria que tinha quebrado a minha promessa uma vez, mas não ousaria quebrá-la novamente. Nenhuma ameaça que aquela mulher me fez me faria desistir de tentar lutar pela minha liberdade, pelo meu direito de ter a minha filha ao meu lado e pelo meu dever de cumprir a minha promessa.



Capítulo 8

- Querida, voltei - Dmitri abriu a porta de casa e meus olhos arregalaram automaticamente, sua viagem não deveria ter acabado tão rápido. Enfiei o biscoito de chocolate dentro do armário e fechei, limpando a boca de qualquer vestígio da minha transgressão a sua ordem de não comer chocolate. Meus passos rápidos me guiaram até a sala, onde o homem tinha acabado de deixar sua mala, um sorriso cresceu em seu rosto quando me viu, mas não era um bom sorriso, era um sorriso que me causava arrepios. - Posso saber o que a minha mulherzinha estava fazendo? - perguntou se aproximando e apoiando suas mãos em minha cintura, puxando meu corpo para perto.
- Eu estava na cozinha organizando os armários - respondi baixinho, tentando desviar meu rosto do seu para evitar que sentisse o cheiro que saia por minha boca.
- É assim que eu gosto, uma mulher prendada, que arruma as coisas - se aproximou mais, segurando meu rosto com uma de suas mãos - Você me deixa cheio de tesão assim, sabia? - seu rosto se aproximava cada vez mais do meu, e meu desespero crescia a cada instante. Assim que nossos lábios se tocaram, Dmitri se afastou com repulsa - Mentirosa! - sua mão acertou meu rosto sem a mínima piedade, fazendo com que eu me desequilibrasse.
- Dmitri, não, por favor! - pedi com súplica, alisando meu rosto ardido - Por favor, eu... Eu tenho uma coisa pra te contar! - estiquei uma de minhas mãos em sua direção, tentando fazer com que sua aproximação não acontecesse.
- Você vai me contar, mas vai contar depois que aprender a não mentir pra mim! - seu tom de voz era ameaçador, e eu tentei dar alguns passos para trás, na esperança de conseguir fugir, mas logo suas mãos se embolaram em meus cabelos e meu corpo foi puxado escada a cima.



- NÃO! - olhei ao redor, me dando conta de que estava em meu quarto, o choro de começando a invadir o ambiente pelo susto que ela provavelmente tinha levado também. – Shhhh, tá tudo bem, amor, foi só um sonho ruim - sussurrei me levantando da cama e a pegando no colo, o sol dava sinal de que apareceria no céu a qualquer instante, mas ainda era muito cedo para que estivesse acordada, e apesar de acreditar que eu não conseguiria mais dormir, embalei minha filha novamente, até que o sono a atingisse e a acomodei em minha cama, cercando seu corpo com alguns travesseiros para que não caísse.

Aproveitei que tinha adormecido para tomar um banho, meu corpo inteiro estava tremulo devido ao sonho, será que Dmitri não me deixaria em paz nunca?
Quando não aparecia para me perturbar pessoalmente, aparecia em meus sonhos. As lembranças dos momentos que passamos juntos sempre me causavam pânico, e se algum dia alguém disser: "Ah, mas não deve ter sido ruim o tempo todo", a minha resposta certamente será: "Verdade, não foi ruim o tempo todo, foi péssimo, horrível e degradante", ruim é pouco para definir os momentos que passei ao lado de Dmitri e quanto mais eu tentava não pensar neles, mais eles vinham em minha mente, inundando-a com pensamentos.
O tempo que eu fiquei no banheiro foi o suficiente para o sol dar as caras, indicando que aquele seria um dos dias com clima ameno o suficiente para ir na rua, e isso me fez lembrar da pracinha. Preparei uma mamadeira para e segui para o quarto, tendo apenas uma certeza quando observei seu corpinho: Eu nunca deixaria de achar a coisa mais fofa do mundo a forma como ela dormia, a forma como sua respiração saia tranquila, sua inocência e seu semblante. Deixei que seu sono durasse mais alguns minutos, aproveitando para observá-la com mais atenção, aos olhos dos outros, era apenas um bebê, aos meus olhos, era a razão da minha vida, o presente mais maravilhoso que eu já tinha ganhado.

- Ei, princesa - sussurrei como sempre, dando alguns beijos em sua bochecha delicada, logo tendo sua atenção para mim - O que você acha de tomarmos essa mamadeira, e dar uma volta na pracinha? - perguntei apesar de saber que não teria nenhuma resposta vinda da pequena criança, que não parecia mais sonolenta diante de minha proposta.

Não demorou muito para que esvaziasse a mamadeira, e começasse a resmungar de forma empolgada, como se tentasse me lembrar que eu tinha prometido levá-la à pracinha. Troquei sua roupa e a arrumei devidamente, não me esquecendo de protegê-la com protetor solar - item esse que eu tinha ficado um pouco surpresa ao descobrir no armário do banheiro, realmente pensou nos mínimos detalhes quanto as nossas necessidades e isso me surpreendia.
Levando em conta que o nosso apartamento era no segundo andar, preferi descer pelas escadas com , já que fazendo aquele caminho eu certamente não encontraria a senhora desagradável que tinha batido em minha porta há alguns dias, a simples possibilidade de encontrá-la e de que ela poderia fazer alguma grosseria com a minha filha já me causava desconforto e uma vontade enorme de brigar. Fiz um aceno de cabeça para o porteiro, que me pareceu ficar um pouco mais gentil e menos preocupado quando me avistou sem o uniforme laranja e abriu o portão para que eu passasse com .
A praça era literalmente do outro lado da rua, e estava vazia, levando em conta que ainda era bem cedo, aquilo poderia ser considerado normal. Coloquei sentada em um dos banquinhos que tinha por ali e estiquei um lençol no chão, logo a deixando sentar em cima dele e me juntando a pequena, que batia palminhas animada e apontava para todos os lados. O sol ameno esquentava a nossa pele de forma gostosa, e eu me permiti apreciar a sensação boa que aquilo me causava, era nesse tipo de coisa que eu acreditava, que a felicidade estava em pequenos momentos, gestos, sentimentos, a felicidade estava em poder sentar na pracinha com a minha filha e pegar sol.
Depois de algum tempo aproveitando o sol, ajudei a se levantar e a guiei em direção ao escorrega, seus gritinhos empolgados deixavam claro que aquele era um de seus brinquedos preferidos, ela era realmente incansável quando se tratava de escorregar, e por isso toda vez que acabava de descer, estendia os bracinhos em minha direção, pedindo que eu a erguesse novamente, já que ela era muito nova para subir os degraus sem algum auxílio.
Aos poucos algumas babás foram chegando ao lugar com as crianças de quem cuidavam, e se tinha uma coisa que eu tinha me prometido, era que eu não seria aquele tipo de mãe, a mãe que terceiriza a educação da criança que colocou no mundo, a mãe que nunca pode aproveitar um momento de diversão com o filho, a mãe que manda a babá na reunião de pais. Eu tinha plena noção de que não era fácil para muitos pais, e que para garantir o sustento dos filhos eles precisavam trabalhar fora o dia inteiro e isso era o que colocava a comida no prato de sua família, mas eu sempre acreditei que apesar de todo o trabalho, um tempo deveria ser dedicado aos seus filhos, mesmo que sejam dez minutos, contando que sejam dez minutos de qualidade, de olho no olho, carinho, compreensão, conversa sincera, sem a interrupção de celulares, sem estar sentado em frente à TV, ou com a cara enfiada em um tablet. No meu ponto de vista, tempo de qualidade era a melhor coisa que qualquer pai ou mãe poderia dar aos filhos.

- Quando a babá me disse, eu fiz questão de vir aqui ver - a voz que infelizmente eu conhecia chegou aos meus ouvidos, e por puro instinto segurei em meus braços com um pouco mais de força, conseguindo um resmungo vindo da pequena que queria voltar ao escorrega.
- Olha, senhora - respirei fundo, "Se você não quer voltar praquele lugar, não compre briga com uma formiga!" a voz de veio a minha cabeça, como uma recordação de que eu deveria tentar manter a calma - Eu não sei qual é o seu problema comigo.... - antes mesmo que eu pudesse terminar a frase, mais duas mulheres se juntaram a ela.
- Você deveria se envergonhar! - franzi as sobrancelhas para a também loira, porém com um corpo não tão definido assim, que agora falava comigo - Matou um homem, e agora quer ficar por aí, solta? - perguntou, deixando toda a sua indignação clara.
- Vocês não me conhecem, não sab... - a terceira mulher, a única ali que parecia não ter aderido ao loiro muito claro, e tinha os cabelos em um tom castanho escuro, ergueu a mão em minha direção, como se nenhuma justificativa, ou palavra que eu dissesse fosse válida.
- Nós não queremos saber! - se pronunciou de forma séria, sua postura deixando claro que ela se incomodava em apenas olhar em minha direção - Não nos interessa o que aconteceu, interessa que você representa perigo para os nossos filhos, nossos maridos, perigo as pessoas de bem que estão aqui! Que pagam caro para morar nesse bairro! - apontou ao redor, como se eu não tivesse entendido de onde ela estava falando.
- Eu pago o mesmo que vocês para morar aqui, sabia? - elevei o tom de minha voz um pouco, sentindo se remexer desconfortável em meu colo, dando impulso para ir para o chão - Não quero brigar com vocês - sacudi a cabeça levemente, tentando pensar em algum exercício para manter a calma.
- Mas nós queremos, e nós vamos brigar com você! - a morena continuou a se pronunciar, também elevando o tom de sua voz - Nós sabemos que você é perigosa e não vamos descansar enquanto não sair daqui, você e a criança - apontou para como se sentisse pena dela - Nem consigo imaginar o que essa pobre criança passa com você! - negou com a cabeça.
- Parece que a visita que eu te fiz há uns dias atrás não valeu de nada, né? - a loira tomou a frente - Mas saiba, que se você continuar insistindo e não obedecer o que nós dizemos, você vai saber o que é se meter com a gente e não vai gostar! - apontou o dedo em minha direção, e se eu não estivesse com no colo, mostraria a ela o que eu fazia com quem me apontava o dedo.
- Eu tenho os meus direitos e nenhuma de vocês vai passar por cima disso! - meu tom saia firme, porém minha voz era baixa, dar um escândalo não ajudaria em minha situação, então, eu apenas fiz como tinha me instruído, evitei a confusão. Recolhi o lençol que tinha usado no chão e o coloquei de volta dentro da bolsa, mesmo que protestasse que queria ir ao chão e começasse a dar indícios de que iria chorar, era melhor que fossemos embora. Outra hora eu a traria novamente na pracinha, quando ela estivesse vazia e nós não fossemos obrigadas a ficar ouvindo qualquer tipo de desaforo ou ameaça.

Vocês já tentaram segurar uma criança dando birra? Não? Sorte a de vocês, pois assim que coloquei meus pés fora da área que delimitava a pracinha, começou a gritar como se eu estivesse negando água ou comida a ela, foi assim durante o curto percurso até o prédio, continuou enquanto eu subia as escadas, e não pensem que parou quando chegamos ao apartamento, não tinha palavra de conforto, ou afago que apaziguasse a situação. Foi só abrir a porta e colocá-la no tapete da sala que sua birra aumentou de uma forma, que eu temi que algum dos vizinhos ligasse para a polícia, e isso não seria de todo impossível devido à situação.
O toque do telefone era abafado pelos gritos e soluços que pareciam não cessar nunca, onde tinha arrumado tanta energia para berrar? Eu certamente não sabia, mas vou me lembrar de verificar os rótulos dos alimentos que forneço a ela.

- Alô - praticamente gritei para a pessoa do outro lado da linha, que exclamou em reclamação, já que provavelmente estava com o telefone muito colado na orelha.
- Não precisa gritar, - falou um pouco mais alto, e eu apenas virei o telefone na direção da gritaria que acontecia na sala, deixando que entendesse o motivo do meu grito - O que está acontecendo aí? Ela caiu? - perguntou com a voz um pouco mais alta também.
- Não, isso é o que acontece quando ela sai da pracinha - revirei os olhos, me dando conta no segundo seguinte de que ele não podia me ver - Mas aconteceu alguma coisa? - perguntei, já que obviamente não ia perder o tempo dele me ligando para perguntar se estava tudo bem.
- E porque você não ficou um pouco mais com ela? - perguntou curioso me fazendo ter vontade de responder, falando sobre como suas vizinhas eram adoráveis e de como eu era a nova amiga favorita delas - O juiz marcou a data para te ouvir - falou sério, interrompendo meu pensamento sarcástico e eu senti todo o meu corpo gelando.



Capítulo 9

- Então, se o juiz te perguntar o que você estava vestindo naquela noite... - perguntava pela vigésima vez, e parecia disposto a perguntar mais vinte vezes para garantir que eu não esquecesse, ou me enganasse.
- Se ele perguntar o que eu vestia naquela noite, eu vou dizer que são as roupas com as quais eu fui presa e que eles mantiveram arquivadas para futura averiguação - revirei os olhos de forma entediada, levantando um pouco do sofá para esticar minhas costas, já estávamos sentados ali há tempo o suficiente para o filme que assistia terminar, e então começar outro e esse outro terminar também.
- Se ele perguntar o que Dmitri tinha nas mãos, o que você vai dizer? - apesar do meu evidente tédio com suas perguntas, não desistia, muito pelo contrário, parecia realmente empenhado a me tornar impecável para a tal audiência.
- Vou dizer que ele tinha pego uma faca - suspirei, sentando novamente no estofado, sentindo um arrepio ruim subir por minha coluna só em lembrar da cena e de para onde ele ia com aquela faca.
- Eu acho que não vamos ter problemas na audiência, - seu sorriso era satisfeito, e por alguns instantes eu me senti quase como se fosse uma aluna que tinha conseguido uma aprovação em um teste oral causando orgulho no professor.
- E eu espero que você esteja certo - passei a mão por minha nuca e massageei o local a fim de aliviar a tensão que tinha se instalado ali - Você tem certeza de que ele não vai fazer mais nenhum tipo de pergunta? - deixei meu nervosismo evidente, recebendo um risinho do advogado.
- Eu nunca vou poder ter absoluta certeza sobre o que o juiz vai perguntar ou não, mas seria incomum se ele te perguntasse algo que não fosse relacionado ao caso - seu tom de voz apesar de sério, tinha uma pequena nota de diversão, e talvez o motivo de sua diversão fosse o meu nervosismo.
- Você tá achando alguma coisa engraçada, ? - perguntei arqueando uma das minhas sobrancelhas, deixando claro para ele que apesar de suas perguntas repetitivas me entediarem, eu levava bastante a sério a tal audiência.
- Não, não tem nada de engraçado, fora que em um segundo você está revirando os olhos e no segundo seguinte está toda nervosa - resmungou, se levantando do sofá e andou até a cozinha, abrindo a geladeira e se servindo de água. Por alguns instantes tive vontade de repreendê-lo por tamanho abuso, mas então me lembrei de que aquele era o apartamento dele e não meu.
- Mas não tem a mínima graça - me levantei, parando a alguns passos de distância - Eu tô nervosa, e mesmo que eu esteja realmente entediada com você me perguntando a mesma coisa mil vezes, eu poderia fazer isso pelo resto da noite! - cruzei os braços mantendo uma expressão séria em meu rosto.
- Tá, tudo bem, nervosinha - gracejou me fazendo bufar irritada, aparentemente, não entendia que eu não era muito boa com brincadeirinhas, principalmente a de quem tinha pouca ou nenhuma intimidade comigo, o que era o caso dele.
- Eu não estou brincando com você, ok?! - avisei, minha voz saindo tão rude quanto eu desejava que fosse, mas não surtindo o efeito desejado no advogado, que se limitou a deixar o copo em cima da pia e passar ao meu lado sem dar a mínima atenção ao que eu dizia.
- Tudo bem, eu não brinco mais com você! - seu tom de voz continha uma porcentagem de deboche que eu não conseguia identificar, mas ele estava lá, o deboche, e o sarcasmo também - Acho que você está ótima, só tem que continuar praticando - apontou o papel onde eu tinha escrito todas as respostas para as possíveis perguntas que um juiz poderia me fazer.
- Ok, eu vou continuar a praticar - peguei o papel e o dobrei, guardando-o no bolso de minha calça, longe das mãozinhas de , que poderia destruí-lo com facilidade caso o alcançasse - Acho que você já passou muito tempo por aqui! - apontei a porta, sem medo de parecer mal-educada, já que eu realmente estava sendo.
- Nossa, a educação passou longe aqui, hein - gracejou mais uma vez, enquanto se aproximava de e passava uma de suas mãos pelos cabelos da pequena que continuava distraída com a tela de LCD, onde os desenhos coloridos cantavam uma música particularmente chata.
- Passou mesmo! - dei de ombros enquanto observava a cena - Já está tarde, você não tem mais o que fazer não? - perguntei desconfiada, enquanto sentia meu mau humor crescer exponencialmente a cada respiração que o homem ainda dava dentro do apartamento.
- , quando você crescer, você vai expulsar as pessoas de sua casa? - virou-se na direção da minha filha, falando em um tom infantil, fazendo questão de me ignorar completamente - Porque isso é muuuuuito feio - prolongou a palavra, parecendo cada vez mais satisfeito ao ver minha irritação.
- Vai, ela vai, sim! Mas pelo menos ela não vai ficar na casa dos outros até tarde quando já acabou o que tinha que fazer! - afirmei, já que se crescesse comigo, ela provavelmente aprenderia meu mau humor e a minha falta de educação por tabela, exceto se a genética de fosse tão boa a ponto de fazer com que ela herdasse sua bondade e paciência.
- Eu não estou falando com você - estendeu a mão em minha direção, continuando a conversar com , que agora já não prestava mais atenção na TV e dava algumas risadas com as palavras que lhe eram dirigidas - Sua mamãe é muito sem educação, , e você não deve aprender isso com ela! - apesar de dirigir as palavras para a garotinha, seu tom deixava claro que era uma provocação.
- , eu não sou nenhuma idiota pra você ficar de palhaçada com a minha cara! - resmunguei, bufando pelo que deveria ser a milésima vez no dia e sentindo uma crescente vontade de jogar alguma coisa na cabeça do advogado, que parecia realmente empenhado em me provocar.
- Eu? De palhaçada? - perguntou colocando uma das mãos no peito, como se eu tivesse acabado de ofendê-lo - Assim você magoa meus sentimentos, - fez um biquinho, que prontamente foi replicado por - Eu só estou aqui passando um tempinho com a minha amiga , a culpa não é minha se você não sabe aproveitar a minha maravilhosa companhia.
- Chega! - elevei um pouco meu tom de voz, não o suficiente para assustar , mas o suficiente para deixar claro que eu não estava gostando da brincadeira - Tá na hora de você ir embora! - peguei o paletó do terno que vestia quando chegou e estendi em sua direção, vendo o advogado levantar do chão e sussurrar alguma coisa para antes de passar por mim.
- Você precisa ser menos estressada, vai afastar todo mundo de você assim, não que você realmente tenha alguém! Eu só estou tentando ser um pouco mais agradável com você porque fiquei com pena ao ver que não tem nenhum amigo - seu tom de voz era diferente do simpático que usava com , agora ele estava sério e ácido - Mas acabei de perceber que é exatamente assim que você deveria estar! - negou com a cabeça antes de passar reto em direção à porta e batê-la ao sair.
- Idiota - foi tudo o que eu consegui responder no meu melhor tom indiferente, mas provavelmente ele não tinha escutado, e mesmo que o que ele tivesse dito me afetasse e causasse um aperto em meu peito, ele nunca saberia. Nunca sequer imaginaria que suas palavras tinham me machucado, porque, quando uma pessoa descobre um ponto onde te machuca ela sempre pode atacar naquele ponto, e eu não lhe daria essa oportunidade.
- Problemas no paraíso? - Tudo o que eu precisava agora era de Dmitri aparecendo para ser sarcástico também. Minha cabeça não deveria estar latejando o suficiente, por isso Deus enviou Dmitri para terminar o serviço que tinha começado. Resolvi que ignorá-lo era a alternativa certa a seguir naquele momento, ou então eu acabaria surtando. - O que foi? O advogado já descobriu o quanto você é fodida e desistiu? - perguntou, me seguindo enquanto eu ia para a cozinha em busca de um comprimido para aliviar as fisgadas que pareciam só aumentar.
- Não é da sua conta - respondi de forma grosseira, me arrependendo no instante seguinte, quando ouvi a risada característica e debochada que só Dmitri tinha - O que é que você quer, ein? - perguntei irritada, me virando de frente para ele e alcançando os remédios que estavam na prateleira ao seu lado - Tem algum assunto inacabado e é por isso que fica me perseguindo? - grunhi irritada, enfiando os comprimidos para dor de cabeça na boca.
- Meu amor, eu já te disse, eu só estou aqui porque você quer! - apontou em minha direção - Porque você precisa de mim, assim como sempre precisou! - deu alguns passos pela cozinha, olhando analiticamente ao seu redor, observando o ambiente de forma minuciosa - O cara até pode ter dinheiro, mas esse apartamento é uma pocilga! - falou com certo nojo - Provavelmente era aqui que ele trazia as mulheres que queria foder, mas não queria levar para casa. Como é que você consegue viver aqui? - perguntou com desdém, olhando para a cozinha como se fosse o pior lugar em que já tinha pisado - Ah, eu esqueci, você gostava do pobretão - revirou os olhos em sua típica careta de reprovação a tudo que eu fazia - A casa dele era pior que essa aqui, não era? - franziu o nariz - Como é que você pode ter aceitado isso, e pensar que seria o melhor para você?
- Será que você poderia calar a boca por só um segundo? - pedi baixo, apoiando minhas mãos na bancada da cozinha a minha frente, a voz de Dmitri me irritava, a forma como seus passos ecoavam no chão me irritava, o cheiro que ele exalava me causava ânsia de vômito e estar no mesmo ambiente que ele fazia meu estômago embrulhar como se uma mão o estivesse apertando.
- Você não gosta de conversar comigo? - se fez de ofendido, assim como tinha acabado de fazer na sala - Eu lembro que algumas vezes você pedia para a gente conversar... - coçou o queixo e ergueu o olhar como se a lembrança fosse vívida em sua mente - Você implorava para conversar, , o que mudou? - perguntou debochado, mordendo o lábio inferior enquanto um sorriso brotava em sua boca.
- CHEGA, DMITRI, CHEGA DAS SUAS INSINUAÇÕES ESCROTAS, CHEGA DE APARECER DO NADA E ME FAZER ENLOUQUECER COM ESSAS MERDAS QUE VOCÊ DIZ - gritei, sentindo todo o meu corpo começar a tremer novamente - CHEGA DE FAZER COM QUE EU ME SINTA UMA LOUCA POR VER VOCÊ E CONVERSAR COM VOCÊ, QUANDO VOCÊ CLARAMENTE NÃO ESTÁ MAIS AQUI! - minhas mãos foram de encontro aos meus cabelos, e a cada grito que eu dava uma nova fisgada tomava conta de minha cabeça, mas no momento gritar parecia o certo a se fazer. Saí da cozinha em passos apressados, minha visão estava turva devido ao stress e minhas mãos tremiam de forma que eu não conseguia controlar.
- Mama? - a voz suave e baixinha fez com que tudo ao meu redor parecesse mudo e se em algum momento eu tinha dado importância ao que Dmitri dizia, ele agora parecia completamente insignificante. Os olhinhos assustados de estavam fixos em mim, e eu tentei parecer normal enquanto me aproximava da pequena. Será que era apenas mais uma ilusão?
- O que você falou, meu amor? - perguntei baixinho, secando as lágrimas teimosas que insistiam em cair por meu rosto, mas daquela vez eram lágrimas de felicidade, felicidade e orgulho. E mesmo que não fosse nada confirmado, o fato de eu achar ter escutado as primeiras palavras de minha filha já me causavam emoção.
- Mama - repetiu baixinho, levantando de onde estava sentada e passando seus bracinhos gordinhos ao redor de meu pescoço. E foi ali em seu abraço, o abraço mais confortante que eu sentia em tempos, que eu deixei que todas as lágrimas viessem, minha pequena tinha dito suas primeiras palavras, e elas tinham sido 'mamãe', ela tinha me chamado. E eu nunca conseguiria, e nem pretendia conseguir, ignorar o chamado da pessoa mais importante da minha vida.


Capítulo 10

Os dias se passaram tão rápido, que eu mal acreditei que já tinha que escolher uma roupa para me apresentar ao juiz. Dessa vez preferi não implicar com a roupa sugerida por , ele era o advogado e sabia quanto era importante criar uma boa primeira impressão.
Tudo parecia passar em câmera lenta, mas ao mesmo tempo, o tempo passava muito rápido, como se eu estivesse funcionando em piloto automático, a única coisa que eu escutava era o barulho que os sapatos com salto faziam ao ter contato com o piso de mármore do fórum. cumprimentava algumas pessoas com acenos e sorrisos, mas tudo o que eu conseguia fazer era ouvir os barulhinhos irritantes e tentar manter minhas mãos secas.


- Relaxa, , o juiz é um velho conhecido meu, já expliquei para ele a complexidade do caso, ele só quer mesmo lhe fazer algumas perguntas – assenti com a cabeça, sem me sentir realmente pronta para pronunciar alguma palavra. Sentei no banco que me foi indicado e mordi o lábio inferior ao observar a porta abrindo, um dos guardas chamou a mulher que estava sentada a minha frente e um suspiro de alívio escapou por meus lábios por ainda não ser a minha vez.

Mas para o meu azar, não demorou mais do que dez minutos – foi o que me pareceu - para que a mulher saísse da sala e indicasse que nós deveríamos entrar. Minhas pernas pareciam moles como gelatina, meu corpo inteiro tremia, e eu certamente não possuía um terço da confiança do advogado ao meu lado.
Minha insegurança aparentemente não tinha motivos reais, já que o juiz apenas queria confirmar que eu possuía uma residência fixa e que não pretendia fugir da cidade antes do julgamento oficial acontecer. Não fez muitas perguntas sobre o caso, apenas me pediu para contar a minha versão da história, já que eu nunca tinha sido realmente ouvida sobre o que aconteceu na fatídica noite onde dei fim a vida de Dmitri.

- Viu, não foi tão ruim! - caminhava sorridente pelos corredores do fórum, e eu me permiti sorrir também, realmente não tinha sido ruim. Talvez aquela sensação estranha em meu peito fosse apenas ansiedade.
- Tenho que concordar com você, eu achei que ele faria perguntas piores, ou que me olharia como as pessoas costumavam olhar na prisão – suspirei pesado e entrei no carro do advogado novamente – Eu ainda não sei o motivo pelo qual está fazendo isso, mas sinto que devo agradecer.
- Não precisa me agradecer, , talvez, acreditar na minha palavra seria o agradecimento ideal – sorriu em minha direção e deu partida com o carro, o caminho foi feito em silêncio, mas de alguma forma parecia o certo a ser feito no momento, parecia perdido em seus pensamentos e eu nos meus, e nenhum dos dois estava disposto a interromper o pensamento do outro, o carro encostou em frente ao prédio em alguns instantes – Eu não vou poder entrar, mas a menina que ficou com já foi paga, é só dispensá-la.
- Ok, obrigada – soltei o cinto de segurança e desci do carro, entrando no prédio rapidamente. Eu mal podia esperar para abraçar e beijar , compartilhar com ela a pequena vitória que eu tinha alcançado.

A babá contratada por me cumprimentou com um aceno de cabeça quando eu entrei no apartamento e eu sorri em retribuição, caminhando até a pequena e a abraçando com força.

- A gente conseguiu, , a mamãe conseguiu – sussurrei enquanto distribuía beijos por todo o seu rostinho. A babá não demorou a ir embora, me deixando a sós com a minha filha.

Desde que tinha silabado aquele simples 'mama' no tapete da sala, ela simplesmente não parava de falar, ou tentar falar qualquer coisa, sua última mania era ficar repetindo diversas vezes 'nau' ou 'qué' e apontar para o que desejava, o que obviamente fazia a minha ideia de ir ao mercado com ela uma péssima ideia.
Eu nunca tinha percebido que consumia tanto leite, não até o leite da dispensa acabar em menos de quinze dias, e por isso agora eu me encontrava parada no corredor dos laticínios, com a pequena falante que apontava para uma embalagem colorida e repetia 'qué' diversas vezes. Entreguei a caixinha em suas mãos, esperando que ela se acalmasse ao ter seu pedido atendido e voltei a observar as embalagens de leite. A realidade era: tinha muito tempo que eu não vinha ao mercado, e eu realmente não tinha o hábito de fazer compras de mês, já que quando eu morava com Dmitri, isso era função de uma das diversas empregadas, antes de morar com Dmitri eu não tinha dinheiro para compras em mercados, e antes de tudo isso, eu vivia em um colégio interno, onde as comidas eram vendidas prontas.
Resolvi pela embalagem da marca mais conhecida, já que a diferença de preço não era tão grande assim, terminei de colocar as caixas no carrinho e estava pronta para seguir pelo corredor, quando ela apareceu.
Seus cabelos que antes geralmente ficavam soltos e brilhavam, agora estavam amarrados em um rabo de cavalo baixo, a expressão facial fazia parecer que ela tinha ganho pelo menos uns dez anos desde a última vez em que tínhamos nos visto, seu corpo parecia mais magro e sua postura era curvada como a de alguém que sente muita dor nas costas e por alguns instantes eu tive vontade de me aproximar e envolvê-la com um abraço, apresentar e deixar que ela descobrisse com seus próprios olhos que o filho podia ter partido, mas deixou um pedaço dele conosco, um pedaço que era tão parecido com ele, que mais parecia um pedido para que nós nunca nos esquecêssemos de seu rosto. Assim que dei um passo em sua direção, o senhor também apareceu, e suas palavras por mais que tenham sido ditas em um momento de raiva, ecoaram em minha cabeça "Eu quero que você suma, você, o seu pai, o seu dinheiro e o que quer que você tenha vindo fazer aqui!" e com a voz do senhor , e os soluços de sua mulher ecoando em minha cabeça, eu resolvi que era melhor deixá-los em paz, virei o carrinho para o lado contrário ao que estavam e segui direto para o caixa com .
Pagar as coisas com o cartão que tinha deixado comigo me parecia estranho, na realidade, era estranho. Eu não trabalhava, mas tinha um bom apartamento, novamente eu não tinha preocupações com contas ou com dinheiro, e por mais que o advogado não tivesse me dado nenhum indício de que eu não poderia confiar nele, toda a sua bondade me era estranha, afinal de contas, quem é capaz de fazer tudo isso por um desconhecido pelo simples fato de esse desconhecido ser uma "boa publicidade"? Esse pensamento andava me atormentando um pouco nos últimos dias, será que era realmente "apenas publicidade" o que queria? Eu esperava que sim. Mas acreditava que não!
O caminho até em casa foi tranquilo, o tempo fresco deixava a caminhada mais confortável, e mesmo que estivesse crescendo e ficando mais pesada, carregá-la ainda não era um problema. Deixei a pequena em frente à TV, que agora era seu novo vício, e segui para a cozinha, organizando os poucos produtos que tinha comprado em seus respectivos lugares. O rosto da mãe de não saia dos meus pensamentos, e de alguma forma, eu a entendia, perder um filho deve ser a maior dor que uma mãe pode sentir, deve ser como abrir um buraco e ter a certeza de que ele nunca vai fechar. A morte de doía em mim, doía em cada minuto que eu pensava nele e em como as coisas poderiam ter sido, mas eu tinha certeza de que doía muito mais em seus pais, que tinham acompanhado seu nascimento e seu crescimento, tinham se esforçado para fazer dele um bom homem e agora não tinham mais o filho por perto.
Durante o tempo em que eu fiquei presa, o que mais me angustiava era a dúvida de como minha filha estava sendo cuidada, de como ela estava, se algum dia eu conseguiria abraçá-la novamente e pensar que isso poderia não acontecer, me dilacerava por dentro. Então, eu não sabia a dor que os pais de sentiam, mas conseguia imaginá-la perfeitamente ao olhar a minha filha e pensar que alguma coisa pior poderia ter acontecido com ela.
Depois de tudo organizado, era hora de dar almoço para , que finalmente estava começando a se alimentar melhor outra vez, parando de recusar os alimentos que costumava comer com facilidade antes. Deixei a louça na pia e resolvi que poderia tirar um cochilo acompanhada da pequena, que sempre apresentava sinais de sonolência após o almoço e a janta.

O jardim era bem cuidado e o cheiro das flores fazia com que eu me sentisse leve, eu gostava daquele cheiro, gostava do vestido floral que estava em meu corpo, e apesar de não conhecer o lugar, eu não sentia nenhum tipo de ansiedade ou nervosismo em estar ali, apenas queria observar tudo ao meu redor.
- ... - a voz de entrou por meus ouvidos, e eu me virei, sorrindo ao encontrá-lo, tão bonito quanto sempre fora, automaticamente corri em sua direção, passando meus braços ao redor de seu corpo
- Eu tava morrendo de saudade - sussurrei com o rosto escondido em sua blusa, o cheiro que exalava de sua roupa era o mesmo cheiro das flores – Por que você fez isso? - perguntei baixinho, erguendo meu olhar e encontrando seus olhos, um sorriso calmo estava estampado em seu rosto.
- As coisas acontecem porque tem que acontecer - respondeu de forma simples enquanto a ponta de seus dedos passeava por minhas bochechas - Mas você foi muito corajosa, e eu nem tenho palavras para dizer o quanto estou orgulhoso - seus lábios tocaram minha testa e eu fechei os olhos, aproveitando aquele toque o máximo que eu poderia.
- Foi minha culpa, eu sei que foi, eu fui uma estúpida, mas eu... Eu só queria proteger você - sussurrei, sentindo meu choro entalar em minha garganta - Eu sinto muito, eu sinto muito por tudo o que eu disse! - solucei, sentindo os braços de me apertarem um pouco mais
- Tá tudo bem, eu sei, eu sei de tudo agora! E nada do que aconteceu foi sua culpa - seu dedão passou por cima de onde uma lágrima teimosa tinha caído, limpando seus rastros - Você foi forte, você continua sendo forte, e eu sempre vou sentir orgulho de tudo o que passou até aqui e de como cuida da nossa filha - meus olhos estavam fixos nos seus, e eu só conseguia ver bondade neles - Eu amo você, , amo você e , e sempre vou amar, eu quero que sejam felizes - sussurrou calmo, enquanto roçava seu nariz ao meu, nossos lábios tão próximos que tudo o que eu precisava era um pequeno impulso para juntá-los.

PEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEN

Dei um pulo na cama com o barulho agudo da campainha e por alguns segundos eu desejei apenas poder voltar a dormir e retomar o sonho de onde estava, respirei fundo e passei a mão pelo rosto, tentando livrá-lo de qualquer aparência de choro ou irritação, quem quer que fosse na porta era culpado por interromper meu sonho, mas provavelmente não tinha ideia que eu estava dormindo, já que não passava de duas horas da tarde.
Meus passos se apressaram quando enfiaram o dedo na campainha novamente, apesar de ter o sono pesado, eu odiaria que ela acordasse por causa da campainha tocando, isso faria com que ela ficasse enjoada pelo resto da tarde.
Abri a porta e antes mesmo que eu pudesse abrir a boca para falar alguma coisa, as duas mulheres entraram no apartamento sem pedir autorização.

- Nossa, isso aqui parece com um chiqueiro - a morena falou, olhando ao redor, o que me fez olhar ao redor também, e em meu ponto de vista, tudo parecia normal - Você sabe, lindinha, o meu marido trabalha no fórum... - falou com descaso, enquanto eu não conseguia compreender exatamente o que estava acontecendo ali e muito menos me posicionar a respeito da situação - A assistente social pode vir te visitar a qualquer momento e você mantém esse apartamento assim? - negou com a cabeça.
- Mas é melhor para a gente, Melany, assim a assistente social leva essa pirralha, o que também é melhor para a criança - a loira, que tinha batido em minha porta a uns dias atrás, se pronunciou - A pia cheia de louça, o apartamento imundo...
- Senhoras... - murmurei - Caso não saibam, esse apartamento é uma propriedade privada e vocês não têm o direito de estar aqui dentro sem um convite, que não aconteceu! - apontei a porta do apartamento que ainda estava aberta, esperando que entendessem e saíssem da sala sem causar nenhum problema.
- Oh, ela sabe sobre direito - a tal Melany debochou - Querida, você tem que entender uma coisa: - ergueu o dedo na direção de meu rosto - Nós somos pessoas influentes, nós somos mulheres de família, nós nunca cometemos um crime, você sempre vai estar na desvantagem aqui! Vamos começar, Hilary? - perguntou para a outra e logo em seguida pegou um dos porta-retratos que ainda estava sem foto no aparador e o jogou no chão, fazendo com que vários cacos de vidro se espalhassem por ali.
- Você é doida? - perguntei elevando meu tom de voz, com certeza daria falta de seu porta-retratos e eu não saberia como explicar o sumiço dele. A minha preocupação sobre os objetos do apartamento só aumentou quando a tal Hilary jogou um dos vasos de cerâmica no chão também - Parem com isso! - avancei na direção de Hilary que agora tinha um enfeite de vidro em mãos.
- Encosta em mim, encosta a sua mão de vagabunda assassina em mim pra ver se eu não vou na delegacia dar queixa por agressão - ameaçou quando eu cheguei mais perto - E vou ter testemunhas - apontou a outra - Será que a polícia vai acreditar na palavra de quem? - perguntou com um sorriso debochado no rosto.
- Vocês não podem fazer isso! - avisei mais uma vez, tentando manter a calma, mas tudo o que fizeram foi dar risada como se eu fosse uma criança tentando entrar na conversa dos adultos. Cheguei a cogitar a possibilidade de ligar para a polícia, ou para o próprio , mas e se eles não acreditassem? Se achassem que eu era louca? E se as mulheres inventassem alguma boa desculpa, e eu saísse como culpada?
Então, eu me limitei a fazer o que podia fazer naquela situação: Observar.

Observar aquela cena era horrível, e me causava tremores que como sempre me deixava irritada, as mulheres não tinham a mínima piedade, e faziam a destruição como se estivessem em um chá da tarde, dando risadas e se apoiando. Não vou negar que a minha vontade era de voar em cima das duas e fazê-las engolir todas as almofadas que tinham destruído, pena por pena. Mas a antiga eu tinha que se segurar, deixar que tudo aquilo acontecesse, e isso matava lentamente a antiga .

- Essa não foi a última vez. - Melany avisou, enquanto passava por mim e batia a porta com força, fazendo com que meu corpo tremesse mais uma vez devido ao estrondo. A sala do apartamento estava completamente desorganizada, cacos de vidro por todos os lados, as penas das almofadas estavam espalhadas pelo sofá e por todo o carpete e a simples possibilidade da assistente social aparecer ali e pegar toda aquela bagunça me apavorava, então, eu resolvi que não era hora para ficar tremendo no canto, eu tinha que arrumar tudo antes que alguém aparecesse.



Capítulo 11

Sabe quando você olha ao redor e não faz ideia de por onde deve começar? Era assim que eu me encontrava. Resolvi que a melhor escolha era recolher os cacos de vidro, já que eu poderia facilmente pisar em algum deles e acabar me ferindo, o que atrasaria ainda mais o processo de organização, ou reorganização da sala. As penas das almofadas voavam para todo o lado enquanto eu tentava encontrar mais algum vestígio de vidro no carpete, visto que o apartamento não possuía um aspirador, pelo menos não que eu soubesse. Juntar todas as penas, enfiá-las novamente nas almofadas e costurá-las tinha sido o passo seguinte, e eu afirmo com toda certeza que foi torturante, levando em consideração que os pontos em minha mão começaram a arder devido ao movimento repetitivo com a agulha. Dei algumas palmadinhas no sofá e espantei as poucas penas que não tinha conseguido catar e suspirei pesado ao perceber que ainda tinha muito trabalho para ser feito.
A ardência em minha mão só aumentava, mas eu sabia que não poderia deixar a vassoura de lado e ver o que era, não enquanto aquele apartamento não se encontrasse perfeitamente arrumado, e mesmo que o sangue já começasse a escorrer pelo cabo da vassoura, eu sabia que as palavras daquelas mulheres eram verdadeiras, se a assistente social chegasse ali e visse aquela bagunça, não teria muita justificativa para dar. Por isso resolvi que só olharia o machucado quando acabasse o que tinha começado.
Levou bastante tempo até que a sala se encontrasse apresentável outra vez, mas ao menos nada parecia fora do lugar ou desorganizado. Uma careta se formou em meu rosto quando eu finalmente abri a mão e observei os pontos que há algumas horas pareciam prestes a secar, abertos. Mais uma coisa com a qual eu teria que lidar sozinha: os pontos. A caixinha de primeiros socorros ficava no armário do banheiro e eu agradeci mentalmente por já conhecer o apartamento o suficiente para saber disso.
Coloquei a caixa em cima da pia e a abri, observando o conteúdo dela. Gaze, esparadrapo, algodão e antisséptico, não era o ideal, mas ia dar para o gasto. Lavei a mão com cuidado, sentindo aquela ardência incômoda se espalhando através do corte, e passei o antisséptico em seguida, apoiando a gaze na mão e colando com o esparadrapo.
Tudo o que eu precisava agora era um banho, dar a mamadeira de e deitar novamente, nem que fosse no sofá da sala enquanto a pequena assistia a algum desenho para esperar a hora da janta. E eu faria isso se a campainha não tivesse tocado. Olhei para o alto e pedi mentalmente para que não fossem as vizinhas outra vez, já que eu não podia garantir o meu autocontrole mediante ao cansaço que eu sentia, meu reflexo no espelho deixava claro o quão cansada eu estava, e eu não fiz a mínima questão de corrigir aquilo.
Caminhei em passos lentos até a porta, me arrependendo no segundo seguinte por não ter me arrumado um pouco. A assistente social me olhou de cima até em baixo, como se estivesse de frente para algum morador de rua, ou maluco. E eu sabia que seu olhar era completamente justificável, já que eu deveria realmente parecer com uma das duas opções.


- Cheguei em um mau momento? - neguei com a cabeça e dei passagem para a mulher, olhando ao redor em busca de qualquer coisa que pudesse estar errada ou fora do lugar.
- Desculpe, é que eu aproveitei que estava dormindo e resolvi dar uma arrumada no apartamento - fechei a porta atrás de meu corpo e recebi um sorriso gentil da mulher, a qual eu ainda tentava me lembrar o nome - A senhora aceita uma água ou alguma coisa para beber? - perguntei baixinho, seguindo-a com os olhos, enquanto ela dava alguns passos pela sala, olhando tudo ao seu redor de forma analítica.
- Não, , obrigada, eu só passei mesmo para ver como você e estão - por mais que o fato de a mulher sorrir me acalmasse um pouco, minhas mãos não deixavam de tremer por um segundo - Ela está dormindo? - perguntou curiosa e eu assenti - Será que eu posso dar uma olhadinha nela?
- Claro que pode - respondi tentando manter a calma e tomei a frente, seguindo pelo corredor até o quarto e abrindo a porta - Eu geralmente coloco ela para dormir um pouquinho depois do almoço - usei um tom de voz bem abaixo do comum, para não incomodar o sono de , mesmo que eu soubesse que aquilo era realmente difícil. Mas eu sentia que precisava me justificar para a mulher que analisava o quarto e se aproximou da pequena que estava cercada por travesseiros na cama a olhando por alguns minutos antes de sair do quarto, mantendo-se muda.
- As coisas estão indo bem? Estão se adaptando? Tendo alguma dificuldade? - perguntou já no corredor, e seus olhos deixavam claro que ela saberia se eu mentisse ou tentasse enganá-la de alguma forma. Por alguns instantes eu tive vontade de lhe contar o que tinha acabado de acontecer e pedir por sua ajuda, mas ela poderia considerar que o apartamento não era um lugar seguro para devido aos ataques das vizinhas, e isso certamente faria com que ela quisesse levar minha filha embora.
- Estão sim, nós já nascemos uma adaptada para a outra - sorri em sua direção - E a única dificuldade é tirar ela do parquinho - soltei um pequeno risinho para tentar descontrair, mas a mulher se manteve séria, seus olhos não desgrudaram dos meus por mais alguns segundos, até que ela resolveu acreditar no que eu dizia e sorriu de volta.
- Fico feliz que tudo esteja indo bem - seus saltos ecoaram pelo piso do apartamento até a sala novamente e logo a mulher se encontrava com a bolsa em um dos ombros - Mas isso não quer dizer que eu vou parar de vir. Nós ainda vamos nos ver bastante, senhorita .
- Você pode aparecer na hora que quiser, as portas estão abertas - acompanhei a mulher até a porta, recebendo um aceno em confirmação - Desculpe recebê-la assim, eu realmente não esperava, e aí... - apontei para o meu próprio corpo numa tentativa de justificar o fato de eu parecer uma fugitiva de manicômio.
- Está tudo bem, , eu também faço faxina na minha casa - sorriu de forma que me tranquilizou - Bom final de dia para você e para . Até mais. - Acenou em minha direção e seguiu para o corredor, apertando o botão que chamava o elevador e aguardando.

Esperei que entrasse no quadrado metálico e acenei mais uma vez para a mulher antes de fechar a porta.
Quando me disse que viria de surpresa, eu não imaginei que a assistente social escolheria o pior horário e momento para aparecer, mas como a minha sorte era algo divino, eu estava grata por ela só ter chegado depois que eu terminei de organizar a bagunça que estava a minha sala. Fechei os olhos e respirei fundo antes de voltar a andar para o banheiro, implorando mentalmente para todos os santos para que ninguém batesse na porta, ou que nada acontecesse e eu finalmente conseguisse tomar meu banho.
Pedido esse que não foi atendido, já que assim que eu tirei a blusa, começou a chorar, indicando que tinha acordado.

- Deus, o senhor poderia apenas uma vez ouvir um pedido meu e fazer o que eu pedi e não o contrário? - perguntei, jogando minhas mãos para o alto e saindo do banheiro sem me importar em vestir a blusa, já que estávamos apenas nós duas ali – Oi, meu amorzinho - sorri para a garota, que me encarava com uma expressão chorosa e confusa no rosto - A mamãe ia tomar um banho, que tal a gente fazer isso juntas? - peguei minha pequena no colo e dei um cheirinho em seu pescoço - Hmmmm... Tá precisando de banho sim - ri baixinho enquanto a pequena resmungava alguns 'nau' e sacudia a cabeça positivamente, me fazendo dar mais uma risada.

O banho até que tinha sido tranquilo, gostava de tomar banho e costumava cooperar, contando que eu a deixasse embaixo do chuveiro por quanto tempo ela desejasse, e eu geralmente não me importava em deixá-la brincar um pouco com a água, o problema é que esse pouco nunca era um pouco, e nunca teria fim se dependesse da minha filha teimosa e apaixonada por água, por isso, assim que eu desliguei o chuveiro, o choro começou, e veio acompanhado dos gritos e das perninhas se debatendo em protesto, o que logo fez com que a atadura em minha mão começasse a ficar manchada de sangue.

- , para um pouco - pedi tentando manter o meu tom de voz calmo enquanto a levava para o quarto enrolada em uma toalha - Minha filha, pelo amor de Deus, eu quero colocar uma roupa em você! - minha voz parecia nula, e nem eu mesma conseguia me escutar em meio aos gritos que dava, então, resolvi ignorar seus gritos e manha e a vesti com a roupa mais fácil que vi a minha frente, o que não significa que tenha sido uma tarefa fácil, já que antes da roupa, eu tive que colocar sua fralda e secá-la.

Passei um vestido por minha cabeça rapidamente e a peguei no colo deixando-a no tapete da sala e ligando a TV.

- Pronto, pode parar de chorar - beijei sua cabecinha e sorri ao vê-la se acalmar, se um dia eu encontrasse o criador da tal porquinha rosa, eu lhe daria um beijo, e logo em seguida um tapa. A voz era irritante, o desenho era irritante, mas ao menos entretinha e fazia com que ela parasse de chorar rapidamente em situações como aquela. Minha mão latejou mais uma vez, me fazendo voltar o olhar para a atadura e suspirar pesado quando vi que toda a gaze já estava manchada de vermelho e precisaria ser trocada. Será que a farmácia entregava uma agulha de sutura? Talvez fosse a melhor solução para o meu problema, já que ir ao hospital estava fora de cogitação.

A sala do apartamento novamente se encontrava uma bagunça, agora devido a e a sua teimosia na hora de comer, eu realmente gostaria de entender como uma criança tão pequena conseguia gritar tão alto e deixar sua insatisfação tão clara. Não conseguia entender qual era o problema com a comida, a única coisa que eu sabia era: não tinha comido nem duas colheres direito, a maior parte da comida encontrava-se no chão da sala e na minha roupa, então, resolvi que seria melhor não continuar insistindo já que a insistência não resultaria em nada. Deixei que a pequena se distraísse com a TV, e mais tarde eu tentaria lhe dar algum tipo de suco, ou leite para alimentá-la. Assim que acabei de organizar a cozinha, voltei para a sala a fim de acompanhar os desenhos com , mas quando a peguei no colo, eu entendi o motivo de seu enjoo e falta de fome. O pequeno corpinho da minha bebê ardia em febre, um resmungo escapou por seus lábios quando minha mão provavelmente gelada encostou em sua testa, deixando claro a sua insatisfação com o contato da pele quente com a gelada, tudo o que eu conseguia sentir era desespero, desespero e culpa por não ter percebido antes que ela não estava em seu estado normal. Mas naquele momento o meu desespero não me servia de nada, então, a primeira pessoa que veio a minha cabeça foi , e foi o número dele que o meu dedo digitou no telefone.

- Espero que você tenha um bom motivo para estar me ligando a essa hora numa sexta-feira - a voz arrastada do homem não me saudou com nenhum boa noite, ou coisa do gênero, e talvez a bebida tenha sido a causadora de sua confusão, já que eu nunca tinha realmente ligado para o seu telefone, logo, era algo importante.
- E eu tenho, está com febre - um pigarro tomou conta da linha enquanto o parecia se situar no tempo-espaço - Deixa, foi uma péssima ideia te ligar - resmunguei pronta para desligar a ligação, e olhei ao redor pela janela, não avistando nenhum ponto de táxi ou transporte público próximo, mas eu daria um jeito sem a ajuda de .
- Não, , calma - disparou, parecendo finalmente ter acordado do transe em que se encontrava - Eu vou pagar a conta e vou praí, me espera, ok? - pediu mais agitado - Eu já estou chegando, espera! - sua voz saiu firme, foi a última coisa que disse antes de finalizar a ligação.

Peguei novamente no colo e beijei sua testa, sua temperatura parecia mais alta do que a alguns instantes atrás, então resolvi agilizar as coisas e trocá-la logo, agasalhei a pequena com medo de que a friagem que fazia do lado de fora piorasse sua situação e joguei um casaco por cima da roupa que eu já estava vestindo antes. Foi tempo o suficiente para o telefone de casa tocar, e a voz do porteiro informar que já estava esperando na rua. Ou ele tinha dirigido muito rápido, ou estava por perto quando eu liguei, qual das duas opções era a correta? Eu não sabia, e também não dava à mínima, o importante agora era levar a minha filha ao médico e saber o que lhe causava a temperatura fora do normal.



Capítulo 12

O clima dentro do carro foi realmente estranho, parecia sério e atento ao trânsito, enquanto tudo que eu conseguia fazer era me preocupar com e com o que poderia estar acontecendo com ela, meus pensamentos não costumavam ser muito bons comigo nesse aspecto e pensar que ela estava tendo febre por algo que eu tinha feito ou deixado de fazer, me torturava, assim que o carro parou em frente ao hospital, um suspiro de alívio escapou por meus lábios.


- Você pode ir, eu dou um jeito de ir embora daqui - avisei a enquanto pegava a bolsa em um dos braços e no outro, mas tudo que obtive como resposta foi a porta do carro abrindo e logo em seguida batendo, seus passos foram rápidos e logo me acompanhavam em direção à entrada do hospital.
- Até parece! - revirou os olhos e estendeu os braços para a pequena, que logo jogou seu corpinho na direção do homem, e em uma situação normal, eu nunca aceitaria passar para seu colo, mas naquele momento eu só queria que minha filha tivesse suas vontades atendidas, então, cedi e lhe entreguei a pequena, apressando os passos até a recepção do hospital. Expliquei brevemente o que tinha e preenchi uma ficha, não deve ter levado mais do que cinco minutos, mas em minha cabeça, aquilo era uma tortura e já tinha durado até demais.
- Quem é a neném mais bonita de todo esse país? - a voz de era baixinha, mas ele usava aquele tom de voz que as pessoas costumam usar sempre com bebês, o que o fazia parecer ligeiramente engraçado - Isso aí, é a - cutucou a barriga da garotinha com seu dedo indicador, e ela soltou um risinho, quem olhasse aquela cena de longe não teria ideia do que estava fazendo ali, e se seu corpo não continuasse quente, eu questionaria o mesmo.

Sentei ao lado dos dois em silêncio, já que aparentemente minha filha gostava da brincadeira, e isso parecia confortá-la.

- Esse médico tá demorando muito - reclamei depois de algum tempo ouvindo conversar com e ele negou com a cabeça, como se discordasse.
- Na realidade, você só tá muito agitada e por isso tá achando que o médico está demorando - uma de suas mãos tocou minha coxa, fazendo com que eu parasse de bater os pés no chão repetitivamente – Relaxa, , ela é uma criança, e é normal crianças terem febre.
- Não, não é normal! - resmunguei em sua direção, certamente não era pai, porque se fosse, ele saberia que não existia essa história de ser normal ou não ser normal, uma criança com febre era sempre um alerta para os pais.
- Tudo bem, eu não vou discutir com você - deu de ombros e voltou a me ignorar enquanto brincava com . Os minutos seguintes foram torturantes, e quando a voz do médico soou no corredor, parecia que uma eternidade tinha se passado, peguei a pequena do colo de rapidamente, sem lhe dar algum espaço para contestar a respeito.
- Pode ir pra casa, você já esperou demais aqui! - avisei enquanto me levantava e seguia para a porta do corredor que se encontrava aberta.
- Eu já disse que não vou para casa - sua voz preenchia o espaço logo atrás de meu corpo, deixando claro que o homem me seguia, o que me fez revirar os olhos pela insistência, mas aquele não era o momento de brigar, eu tinha preocupações maiores e lidar com a teimosia de um advogado mimado não era uma delas.
- Boa noite, mamãe e papai, o que traz vocês e essa bonequinha aqui? - o senhor de meia idade nos sorriu e perguntou enquanto se aproximava, automaticamente minha expressão facial mudou, porque todo mundo que via um homem, uma mulher e uma criança achava que se tratava de uma família? Será que era proibido existir mães solteiras com amigos disponíveis para levá-la ao hospital quando necessário?
- Boa noite, doutor - Não tive tempo para corrigir o médico, já que estendeu sua mão e apertou a do mais velho, enquanto me olhava esperando que eu explicasse o que tinha acontecido com , e se ela não estivesse em meu colo, eu certamente lhe acertaria com um tapa. Mas o meu foco no momento era outro.
- Ela estava bem, só meio enjoada para comer, aí dormiu e quando acordou, não quis comer de novo, então eu reparei que ela estava quente - expliquei rapidamente, a ansiedade tomando conta do meu corpo a cada segundo, eu realmente não estava habituada a lidar com doente, já que ela costumava ser bastante saudável na grande maioria do tempo, a única vez que ficou doente, foi um resfriado.
- Tudo bem, mamãe, você pode colocar a pequena ali? - apontou uma pequena maca que ficava no canto do consultório e se virou para o lado oposto, mexendo em algumas coisas que eu não conseguia identificar. Coloquei sentada onde me foi indicado e logo o médico se aproximou outra vez, agora com um palito e uma pequena lanterna em mãos, começando a examiná-la atenciosamente, enquanto eu observava os procedimentos realizados com a mesma atenção.


-*-



- Você definitivamente é a pessoa mais exagerada que eu conheço - reclamava em meus ouvidos enquanto o elevador subia - Eu achei que a garota estava realmente doente quando você me ligou, sabia? - sua falação tinha começado no carro, e o fato de termos chegado ao apartamento não fazia o homem se calar, aparentemente, era apenas mais um incentivo para que ele continuasse falando sobre eu ser exagerada.
- Eu achei que fosse algo grave, tá legal? - me virei em sua direção assim que entrei no apartamento, estava sonolenta devido a medicação, mas pelo menos seu corpo já se encontrava em uma temperatura que poderia ser considerada normal para os padrões infantis - Você disse que eu poderia te ligar em qualquer situação, e eu liguei. Sinto muito se isso atrapalhou a sua bebedeira! - revirei os olhos e segui para o quarto, retirando o excesso de roupa de e a colocando no berço - Já pode voltar pro seu barzinho, era só um dente.
- Exatamente, era só um dente, a porra de um dente, e por alguns instantes eu achei que você ia ter um infarto no corredor do hospital - passei pelo corredor até a cozinha e peguei um copo, minhas mãos tremiam devido ao nervoso anterior e ao fato de não calar a boca - Você é muito controladora e desesperada, cruzes.
- Sim, eu sou - respirei fundo e larguei o copo na pia, me virei em sua direção, finalmente ficando frente a frente com o homem, minha expressão facial certamente deixava claro que eu não estava contente - Essa garota é a única coisa que eu tenho no mundo, então, , o fato de ela ter uma simples febre me apavora, porque se eu perdê-la, eu não tenho mais absolutamente nada! Pode me chamar de controladora, de desesperada, do que você quiser. Você não vai saber o que eu senti enquanto não tiver um filho.
- Aí você também vai vir com esse papinho de "enquanto você não tiver um filho não vai saber"? - perguntou revirando os olhos em deboche logo em seguida - Deve ter sido por isso que o pai da garota deu no pé, você é muito chata quando quer, , tem que aprender a relaxar um pouco! - todo o meu sangue sumiu do meu corpo e voltou com a simples sugestão de que tinha fugido de sua responsabilidade por minha causa.
- O pai "dessa garota" está morto, - falei entre os dentes, meus punhos cerrados e minha postura deixavam claro o quanto eu estava irritada - Por isso ele não está aqui, ele não seria um covarde de merda a ponto de fugir da responsabilidade dele apenas porque eu sou uma chata! - a expressão facial do advogado ficou surpresa e seu rosto empalideceu um pouco com minhas palavras - Pode ir embora, foi realmente um erro te ligar, se existir uma próxima vez, eu dou meu jeito sozinha, afinal de contas, você não me deve nada e muito menos tem alguma responsabilidade com - neguei com a cabeça, e se arrependimento matasse, eu provavelmente não sobreviveria a noite.
- ... Eu... Não foi isso que eu quis... - tentou argumentar, mas a única coisa que eu queria era que saísse do apartamento e me desse algum tipo de sossego para que eu também pudesse descansar. Nenhuma palavra que dissesse conseguiria reverter o que já tinha dito anteriormente, então, não adiantava perder tempo esperando suas justificativas.
- Só vai embora - meu tom de voz era baixo e deixava claro que eu realmente não o queria ali - Faz o que o pai da minha filha teria feito caso ainda estivesse vivo! - lancei um sorriso sarcástico em sua direção - Ah não, não faria isso, ele era homem demais para abandonar a própria filha, pode não ter tido um terço de tudo o que você tem, mas era pelo menos três vezes mais homem do que você sequer já pensou em ser um dia! - não fiz questão de elevar a voz, mas a cada palavra que saia por minha boca, mais sarcasmo escapava por ela também.
- Ah, então agora, só porque o seu namoradinho, pai perfeito da sua filha morreu, eu deixo de ser um homem? - perguntou irritado, enquanto se aproximava alguns passos, não fiz questão de me afastar, se eu me afastasse demonstraria que me causava medo, ou coisa do gênero, e isso era algo que estava longe de acontecer - Não esquece, , de que o "não homem de verdade aqui" é o responsável por você estar aonde está agora! - tão rápido quanto se aproximou, o corpo de se afastou do meu, seus passos ecoaram pelo apartamento, até que o baque da porta deixasse claro que ele tinha ido embora.

Respirei fundo, tentando me acalmar daquela discussão, eu realmente devia muito a , mas não o suficiente para deixá-lo manchar a imagem de . Os pequenos goles de água refrescavam minha garganta e trazia algum tipo de calmaria para dentro de meu corpo, suas palavras ainda estavam ecoando em minha cabeça quando a porta abriu novamente.
Arregalei os olhos e deixei o copo em cima da pia, será que alguma das vizinhas tinha entrado em casa? Ou será que era algum ladrão? A resposta veio instante depois, já que eu nem ao menos tive tempo de chegar a sala, as mãos de envolveram meus braços e seus lábios se juntaram aos meus de forma intensa e rápida, sem me dar tempo de pensar muito no que fazer.

- VOCÊ PIROU? - minha mão acertou o lado esquerdo de sua face, e não foi só a marca dos meus dedos que ficou por ali, mas um rastro de sangue também - NUNCA MAIS FAÇA ISSO! - o sorriso de Dmitri apareceu enquanto o homem dava alguns passos em minha direção, à medida que eu me afastava - Não encosta em mim - choraminguei quando sua mão fez menção de tocar a minha - Por favor, não encosta em mim - pedi com súplica.
-, sua mão tá sangrando - a voz de se fez presente, mas logo em seguida uma risada alta de escárnio saiu por seus lábios - Foi eu que fiz isso, não é, querida? Eu adoro quando você fica amedrontada assim por minha causa - os soluços escapavam por meus lábios quando sua mão tocou a minha e eu já não conseguia mais controlar as lágrimas.
- Por favor, Dmitri - pedi baixinho, enquanto suas risadas continuavam a ecoar no apartamento - Por favor, só vai embora. - O sorriso maldoso no homem à minha frente me deixava completamente apavorada, e apesar de eu saber que era daquilo que ele gostava, eu realmente não conseguia controlar o meu instinto.
- A gente precisa ir ao hospital ver isso - voltou ao meu campo de visão, e a minha mão sangrando era a menor das minhas preocupações no momento. A mão que antes envolvia a minha de forma delicada se transformou em outra, maior, mais forte e mais pesada. Ergui o olhar e os olhos amedrontadores se encontravam ali novamente.
- Eu não vou a lugar nenhum - puxei a mão, me encolhendo contra a parede - Por favor, só vai embora, eu suplico - deixei que meu corpo escorregasse pela parede gelada, até que encontrasse o chão - Só me deixa sozinha, por favor!
- Tudo, bem querida, eu vou te deixar sozinha, mas isso é o que você sempre vai ser, sozinha! Você só tem a mim. E sempre vai ser desse jeito - seu tom de voz sarcástico aos poucos foi deixando o ambiente, assim como seus passos foram guiados para longe.



Capítulo 13

Depois do episódio na cozinha, simplesmente desapareceu, não tinha mais ligado, e quando eu liguei para perguntar sobre o caso, ele nem se deu ao trabalho de atender, mandou uma secretaria me avisar que no momento não tinha maiores informações, mas que entraria em contato caso algo mudasse. Então eu me limitei a aceitar que ele não queria contato e passei a fingir que o homem não existia realmente, talvez ele fosse apenas mais um dos meus delírios, assim como Dmitri passara a ser. felizmente já tinha superado a fase chata onde o dente incomoda mais do que tudo, e agora comia pelo tempo que tinha ficado enjoada, sua fome parecia ter triplicado e eu cheguei a cogitar começar a cultivar alguns alimentos em uma pequena horta vertical para evitar que a humanidade sentisse falta da comida que minha pequena consumia.
Resmunguei quando a campainha tocou, me tirando do meu pequeno devaneio sobre como instalar uma horta vertical naquele apartamento.


- Quem será, filha? - perguntei baixinho e a peguei no colo, não estávamos esperando nenhuma visita, mas tinha descoberto um novo prazer: Atender a porta. E quando eu ousava fazê-lo sem que ela estivesse por perto, ela fazia questão de expressar seu descontentamento por um bom tempo. Meus passos foram lentos e assim que as três mulheres apareceram em meu campo de visão, eu desejei não ter atendido a maldita porta.
- Vocês não vão entrar! - minha postura automaticamente se tornou defensiva, ainda estava em meu colo e no auge de sua inocência, acenava para as mulheres que lhe ignoravam prontamente - Minha filha está acordada, e eu até posso permitir que façam o que quiser comigo, mas não com ela! Vocês só entram nesse apartamento hoje se passarem por cima de mim - as mulheres apenas se entre olharam e deram de ombros, a alternativa lhes parecendo agradável. Logo senti o baque do meu corpo contra a porta, e assim que as outras duas estavam dentro do apartamento, a terceira me soltou.
- Você sabe que nada disso era realmente necessário, não é, assassina de maridos? - meu sangue fervia em minhas veias e tudo o que eu queria no momento era poder mostrar para as três que elas tinham mexido com a pessoa errada, mas me limitei a suspirar e conferir se não tinha se ferido de alguma forma quando eu fui empurrada, felizmente ela parecia bem, em outro caso, eu não responderia por mim.

Abracei a pequena com mais força quando o barulho de um dos poucos vasos que ainda restavam ecoou pelo apartamento, seus pequenos olhinhos arregalados, seu rosto de quem não conseguia entender o que estava acontecendo. Resolvi que ignorar a destruição seria a melhor coisa a fazer no momento, então, me sentei com ao lado da porta e a abracei apertado, esperando que as mulheres não demorassem a ir embora. Pensar que seria sempre assim, e que elas não se importariam com o fato de uma criança assistir a tudo aquilo me deixava insegura, até quando durariam aqueles ataques? Será que algum dia elas tentariam fazer alguma coisa contra ?

- Talvez você devesse pedir ao engomadinho um lugar novo - Dmitri apareceu ao meu lado, como se a situação já não fosse ruim o bastante - Ah, eu esqueci, ele não está falando com você, né? Você não deveria ter ferido os sentimentos dele, dizendo que ele não era homem e ainda por cima o recusando em seguida - estalou a boca em desaprovação, e eu tive que controlar a vontade de mandá-lo se calar, se as mulheres desconfiassem que eu além de tudo via o espírito do falecido, provavelmente iniciariam um incêndio no apartamento.
- Que porra é essa aqui? - a voz masculina estava uma oitava acima do normal, e pareceu atrair a atenção das três.
- Quem é você? E o que está fazendo aqui? É amigo dessa marginal? - a loira, que eu acreditava se chamar Melany, virou-se na direção de , ainda segurando uma almofada que agora se encontrava parcialmente destruída.
- Eu sou o advogado da senhorita e sou o proprietário do apartamento que vocês estão destruindo - grunhiu de forma irritada, logo seus olhos encontraram com os meus, e tudo o que eu fiz foi erguer levemente os ombros - Há quanto tempo essa merda está acontecendo, ? - perguntou alarmado, observando ao redor.
- Ah, então foi você que trouxe essa assassina para cá? - a voz afetada da mulher também ficou um pouco mais alta. - Nós exigimos que você tire ela daqui, essa mulher é um perigo para a sociedade, ela nem ao menos deveria poder andar por aí na rua como nós, cidadãos de bem - seu dedo indicador estava levemente erguido e apontava na direção do advogado que a olhava de forma incrédula.
- Aparentemente um juiz discorda da sua opinião, e considera que a senhorita está completamente apta para conviver em sociedade novamente - seu tom de voz deixava claro que quem estava ali era o advogado de respeito, que comandava a empresa que carregava seu o sobrenome - E caso as senhoras não saibam, o que estão fazendo aqui é crime. Invasão de domicílio, coação, e isso é só o começo do que eu vou acusá-las caso continuem a importunar a minha cliente. Agora, senhoras, eu vou pedir gentilmente para que deem o fora da porra do meu apartamento, antes que eu chame a polícia e preste queixa - seu dedo indicador apontou na direção da porta, que ainda se encontrava aberta, e como se tivessem entendido completamente o recado que queria passar, as três mulheres saíram do apartamento sem emitir nenhum chiado a respeito de suas palavras.

Assim que as três finalmente se encontravam fora do apartamento, eu pude me levantar do chão, meu lábio inferior estava preso entre os meus lábios, enquanto continuava a olhar para cada canto do apartamento.

- Eu gostaria de dizer que vou pagar pelo conserto, mas não tenho certeza se isso seria verdade - sussurrei, atraindo sua atenção, seus olhos analisaram rapidamente o meu corpo e o de que apesar de continuar assustada, se encontrava quieta.
- Há quanto tempo isso tem acontecido, ? - sua voz era séria e eu tive vontade de me encolher novamente - Quando você ia me contar sobre isso? - me mantive em silêncio e sua risada de descrença preencheu o ambiente - Puta merda, você não ia me contar sobre isso? Isso é muito sério, sabia? A assistente social poderia ter chegado aqui, e você acha que ela consideraria seguro se visse você encolhida com em um canto? - eu me sentia como uma criança levando esporro dos pais, sabia que, em partes, estava certo, mas eu não queria incomodá-lo ainda mais.
- Eu não queria incomodar você - sussurrei, finalmente quebrando o silêncio que se instalou na sala - Eu sei que isso parece idiotice, mas eu simplesmente não queria incomodar mais do que já incomodo e incomodei. Alguma hora elas iam se cansar, não iam? - perguntei baixinho, e mesmo que fosse uma pergunta sem resposta, o olhar de deixava claro que ele discordava da minha opinião.
- Eu vou chamar alguém para arrumar isso, vai trocar de roupa, enquanto alguém arruma essa bagunça, eu vou levar você e para fazer uma coisa legal - ainda parecia atônito em relação ao que tinha acabado de acontecer, e olhava ao redor com certa descrença enquanto esperava que alguém atendesse sua ligação.
- , não precisa - mantive meu tom de voz baixo, já que não julgava ser necessário elevar - Eu consigo arrumar sozinha em pouco tempo, tá tudo bem! Realmente não precisa disso - o olhar que lançou em minha direção deixava claro que ele não aceitaria qualquer contestação, então resolvi que talvez fosse melhor se eu fizesse o que tinha me pedido.

Assim que voltei para a sala com devidamente arrumada, um pequeno sorriso surgiu no rosto do homem, principalmente quando a garotinha, agora mais calma, se lançou em sua direção. Eu realmente não conseguia entender a simpatia que sentia por , mas talvez minha filha fosse apenas uma criança simpática com os outros.

- Ei, moça, cadê aquele dentão? - perguntou, sua voz que geralmente era grossa e séria, em um tom que eu acreditava que poucas pessoas tinham escutado o homem usar, e como se entendesse a pergunta que lhe fora feita, lhe lançou um sorriso, deixando que visse seus dentinhos da frente - Caraca, dois? Mas essa menina é muito rápida mesmo - estalou um beijo na bochecha da pequena e logo voltou a me olhar - Acho que nós precisamos conversar, não é?
- Não sei, você é quem vai dizer isso - dei de ombros e o segui para fora do apartamento - Eu realmente não acho necessário a gente sair e essas coisas... - suspirei pesado, já que eu não queria causar mais gastos, e muito menos mais trabalho a .
- Tudo bem, , mas eu acho necessário, você e só vivem enfurnadas nesse apartamento, eu já estava vindo aqui para convidá-las a um passeio mesmo - ergueu os ombros e entrou no elevador em seguida, seu dedo indicador deslizava pelo nariz da pequena e parava em sua boca, fazendo um barulho estranho, parecido com um motor de carro. Analisei sua roupa, e percebi que era a primeira vez que o via sem o tradicional terno que lhe conferia o ar superior e sofisticado de sempre. Apesar de vestido com uma calça jeans e camisa polo, ainda parecia um advogado, talvez aquele fosse o dia de roupa casual no escritório, se é que isso ainda existia.
- Ok - me limitei a dar de ombros e continuar a observá-lo, eu realmente não sabia nada sobre , nada além de que ele apareceu um belo dia na cadeia disposto a me tirar de lá, e conseguiu cumprir seu objetivo - Talvez eu realmente deva saber um pouco mais sobre você, já que você sabe quase tudo ao meu respeito - deu uma risada, e eu até perguntaria o motivo delas, mas apenas entrei no carro e peguei de seu colo para que pudesse dirigir. Não demorou muito tempo até chegarmos ao parque, a grama verdinha exalava um cheiro tão gostoso de natureza, que foi quase impossível não sorrir.

Caminhamos em silêncio até uma das diversas árvores que ficavam por ali, o sol batia entre as folhas e fazia com que a temperatura fosse mais agradável, a brisa refrescava nossos corpos, enquanto o sol tratava de esquentá-los, já batia palminhas de forma animada e gritava para ir ao chão, mal tinha aprendido a andar e fazia questão de tentar correr, era uma lógica que não entrava em minha cabeça. Sentei na grama e deixei que a pequena explorasse o ambiente ao seu redor, meus olhos não desgrudavam de seu corpo em nenhum instante.

- Olha, eu sinto muito por aquele dia... - começou, parecia um pouco envergonhado pelo tom de voz que usava - Eu realmente fiquei irritado, e eu sei, você não tem nada a ver com as minhas irritações - suspirou pesado e pela minha visão periférica percebi que passou uma das mãos pelo rosto de forma confusa - As coisas foram difíceis pra você, e eu nem imagino o quanto foram difíceis, mas eu não quero torná-las ainda piores.
- Relaxa, - foi a minha vez de suspirar - Você não sabia sobre o pai de , eu estava nervosa e também disse coisas que não eram realmente necessárias, eu só... Não gosto quando falam sobre dessa forma, ele foi uma pessoa muito importante e ainda é a primeira pessoa a me amar de verdade, a primeira a me dar a chance de mostrar que eu era bem mais do que os cifrões na conta bancária do meu pai, a primeira pessoa que nunca se importou com quanto eu tinha e o porquê eu tinha - uma lágrima fujona escapou pelo meu rosto - Eu sei que você não deveria ouvir nada disso, e que nem te interessa a minha vida, mas eu... - encolhi os ombros sem ter mais o que dizer.
- ... - seu tom de voz era baixo e logo sua mão repousava por cima da minha, o toque tão leve que mal era sentido - Eu estou aqui, sei que você tem motivos para não confiar plenamente em mim, mas eu quero mudar isso, eu quero te ajudar, quero tentar ser seu amigo ao menos. Se você foi sozinha até hoje, ok, mas isso não precisa ser sempre assim, você pode mudar as coisas.
- Não é tão simples assim, , eu sou toda esquisita, e têm todas as coisas que já aconteceram, olha só pra você - apontei em sua direção - Já é formado, tem uma empresa que carrega o seu nome, foi competente o suficiente para conseguir me tirar da cadeia enquanto aguardo o julgamento, eu realmente não sei como o meu pai ainda não chegou até você - dei um risinho baixo, já que Charles conseguia estragar todas as coisas boas que aconteciam em minha vida, e quando alguém aparecia disposto a fazer alguma coisa melhorar para o meu lado, ele também tinha o prazer de estragar.
- Isso não quer dizer nada, , isso só quer dizer que eu tive a oportunidade de me formar, abrir uma empresa e ser narcisista o suficiente para pôr o meu nome nela - sorriu, sua mão apertando a minha com um pouquinho mais de força, como se desejasse me passar confiança - E as coisas foram bem ruins com seu pai, né? - perguntou pesaroso - Você preferiu se casar com aquele cara a ir morar com ele, isso diz muita coisa...
- Eu não preferi - sussurrei e mordi o lábio inferior, a realidade era: todos achavam que eu tinha casado com Dmitri por livre e espontânea vontade, quando na verdade, eu só tinha àquela saída - Eu estava trabalhando de garçonete em uma cafeteria, meu pai descobriu e isso para ele foi um ultraje - ri baixinho, lembrando da cena que Charles fez dentro da cafeteria - No mesmo dia eu fui demitida, estava grávida de , não tinha para onde ir, e Charles tinha deixado bem claro que se eu procurasse qualquer um dos meus amigos, o que me ajudasse seria o seu próximo alvo, então, eu poderia ficar na rua e tentar a sorte, ou eu poderia casar com Dmitri, e você sabe qual das duas opções eu escolhi.
- Deve ter sido uma escolha difícil - desviei meu olhar de que tentava de alguma forma escalar a árvore ao nosso lado e encarei o rosto do , sua expressão deixava claro o quanto ele estava surpreso com aquela história - Mas você fez porque precisou, eu entendo que tudo o que fez até agora foi por aquela garotinha - seu dedo apontou na direção da pequena - Você fez por ela o que muitas mães não fazem por seus filhos, e deveria se orgulhar disso, . Você é muito mais forte do que parece e do que acredita ser - sorriu calmo e ergueu a mão que segurava a minha, plantando um beijo no dorso da minha mão - O pai da foi um cara de sorte por ter tido você ao lado dele.
- Obrigada - sussurrei e lhe dei um pequeno sorriso - Eu sei que eu sou difícil, mas não é de propósito - confessei - E se você vai querer tentar uma amizade, tem que ter isso em mente, nem sempre vai ser fácil, muitas vezes vai ser mais difícil do que fácil.
- Eu acho que nós podemos tentar - sorriu mais confiante em minha direção, e logo se levantou - Olha o carro do sorvete - correu até e a ergueu no colo, trazendo-a para perto e esticando a mão para me ajudar a levantar - Vamos tomar sorvete de que, ? - perguntou para a pequena, que apesar de nunca ter provado o doce em questão, bateu palminhas e gritou animada. Rapidamente alcançamos o carro que tocava uma musiquinha irritante, mas tinha tanto tempo que eu não escutava a tal melodia, que aquilo não foi capaz de me irritar.
- Você quer de que, ? - perguntou, enquanto observava as opções na plaquinha que ficava na lateral do carro - Acho que eu vou tomar um de morango - murmurou indeciso - Ou talvez baunilha... Não sei, já escolheu? - se virou em minha direção mais uma vez, o sorriso em seu rosto não se parecia com o sorriso que ele geralmente lançava, o que carregava no colo e ficava indeciso sobre sabores de sorvete era bem diferente do advogado que vestia ternos caros e raramente sorria.
- Eu não sei, acho que talvez... - eu diria chocolate, mas a mera lembrança do doce parecia fazer meu estômago doer, como uma lembrança, a lembrança do motivo pelo qual eu nunca mais coloquei um quadradinho de chocolate na boca.


Flashback

O gosto de sangue preenchia minha boca, meu corpo inteiro doía, me mexer parecia uma tarefa muito pesada e difícil. Mas entre todas essas coisas a que mais me incomodava era a fome, já tinha praticamente dois dias que meu estômago não recebia nada de comida, apenas água era o que eu conseguia ingerir. O rangido da porta me fez olhar para a fresta que agora estava aberta, e para o homem que passava por ali. Tinha uma bandeja em suas mãos, seu sorriso era calmo como o de um anjo e eu cheguei a cogitar por alguns instantes que Dmitri tinha me perdoado.

- Olá, querida, eu trouxe comida – sua voz deixava claro que algo estava errado, ele estava sendo sarcástico, logo, ainda não tinha me perdoado. A bandeja que antes estava em suas mãos, foi colocada em cima da cama – Venha até aqui, , eu quero que você veja a maravilha que eu mandei a cozinheira preparar – Assim que a cloche que cobria o prato foi erguida, o cheiro preencheu todo o ambiente, e isso fez com que meu estômago roncasse automaticamente.
- Dmitri, por favor – me aproximei em passos lentos devido a dor que sentia, caminhar não era uma tarefa que eu estava conseguindo executar com maestria – Eu juro, eu prometo pra você, que eu não vou mais mexer em chocolate, por favor – uma lágrima escorreu por meu rosto – Eu tô com muita fome – o cheiro do bife com batatas coradas impregnava o ambiente, e aquilo só fazia com que a minha fome aumentasse.
- Mas essa comida é pra você, meu amor – apontou o prato e bateu na cama ao seu lado, esperando que eu me sentasse ali, e assim que cumpri seu desejo, um de seus braços passou por cima de meus ombros – Eu sou um bom marido, , não sou? - perguntou ao pé do meu ouvido e eu assenti com a cabeça - Sou um ótimo padrasto também, não é? - concordei mais uma vez, concordaria com qualquer coisa que dissesse naquele momento – Mas, infelizmente, a minha esposa não consegue respeitar as regras, não consegue entender que eu não posso sair por aí com uma mulher gorda! - sua mão livre segurou em meu rosto, me fazendo olhá-lo nos olhos - Você entende, ?
- Eu entendo, eu entendo, eu juro! - sussurrei com certa dificuldade, já que minha boca estava espremida entre seus dedos – Eu sinto muito por não ter obedecido a você! - um sorriso ainda maior brotou em seu rosto – Eu vou fazer mais exercícios, eu vou à academia quantas vezes você quiser por dia, e eu não vou mais comer doces – mais uma lágrima caiu por meu rosto – Por favor!
- Tudo bem – sua mão soltou meu rosto rapidamente - Você pode comer – avancei na direção do prato, e assim que a primeira garfada estava a caminho de minha boca, Dmitri sorriu de forma perversa – Mas é uma escolha sua, meu amor, se você almoçar agora, eu infelizmente não vou poder garantir que faça o mesmo – um biquinho triste fingido apareceu em seu rosto – Infelizmente, nós estamos passando por algumas dificuldades, e eu só posso fornecer comida a uma das duas – o garfo em minha mão tremia, a comida estava tão próxima a minha boca, que por alguns instantes eu quase cedi e fui egoísta. Mas assim que a mamadeira apareceu no meu campo de visão, meus dedos largaram o garfo em cima do prato. - Nossa, você é mesmo uma ótima mãe, – estendeu a mamadeira ainda morna em minha direção, e eu a envolvi com os dedos trêmulos - Só não tente dividir, meu amor, aí tem a quantidade exata que a sua filha precisa para se manter saudável - com o sorriso ainda estampado no rosto, Dmitri recolheu o prato e saiu do quarto trancando a porta, me deixando sozinha com novamente.

End Flashback


- ? - estalou o dedo na frente do meu rosto, me fazendo acordar do transe em que eu me encontrava - Você já escolheu qual vai querer? Eu vou ficar com o de morango mesmo - seu sorriso continuava o mesmo de alguns instantes atrás.
- Eu acho que não quero - sorri em sua direção da forma mais convincente que poderia - Pode comprar um de baunilha para , mas dessa vez eu não vou tomar nada - estiquei os braços para que me entregasse a garotinha, que parecia mais agitada ainda devido a música que tocava
- Você tem certeza? Esse é um dos melhores sorvetes da cidade! - gesticulou de forma animada, parecendo tão infantil quando no mesmo momento, me limitei a assentir - Tudo bem então, mas eu e essa garotona aqui, vamos nos lambuzar de sorvete. - Piscou para e se virou para o sorveteiro, fazendo os pedidos em seguida.





Continua...



Nota da autora: Olá, gente bonita. Fico muito feliz que vocês estejam acompanhando Rockabye, cada comentário que vocês deixam é realmente muito precioso. Não vou enrolar muito, e vou dar logo o recadinho que tenho que dar, criei um grupo para Rockabye, se vocês quiserem participar, lá eu posto alguns spoilers e coisinhas sobre a fic.
Beijinhos e até a próxima!



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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