Rockabye

Última atualização: 21/12/2017

Prólogo

O teto cinza parecia cada vez mais interessante, talvez eu apenas estivesse muito entediada de estar ali, ou talvez encarar o teto e tentar me distrair para não pensar em todas as coisas que tinham acontecido fosse a única saída, provavelmente a terceira opção era a mais viável. Pelo menos agora eu estava sozinha e, apesar de estar confinada para "a minha própria segurança", não conseguia me sentir segura em momento algum e duvidava que conseguisse me sentir segura algum dia. As paredes completamente limpas pareciam se fecharem ao meu redor, me dando uma sensação agonizante de que eu nunca sairia dali, os passos no corredor me faziam sentir angustia e ao mesmo tempo em que eu desejava que a porta se abrisse, eu temia o que viria se isso acontecesse realmente. Minhas unhas já eram quase inexistentes, devido ao nervosismo constante que me atacava. Mas de todos esses fatos, o pior era pensar em , quando eu me distraia e me permitia pensar na minha pequena garotinha, em onde estava, com quem estava, como estava, isso sim era o pior dos meus pesadelos, minha mente não era nem um pouco bondosa nesse aspecto, projetava imagens da minha pequena sofrendo, sendo maltratada, não recebendo os cuidados que eu sabia que eram necessários e que eu tinha a capacidade de dar a ela, quando esses pensamentos tomavam conta de tudo ao meu redor, eu desejava ter sido mais forte, desejava ter aguentado um pouco mais por ela, porque a única pessoa que tinha me restado no mundo, dependia de mim, eu não podia mais cuidar dela, e a culpa era inteiramente minha.


Capítulo 1

- Você tem visita, vamos! - Abri os olhos lentamente ao ouvir a voz grossa e rude do homem que agora se encontrava em frente à porta, sentei-me na cama e o analisei por alguns instantes, deveria ser algum tipo de engano, não teria como eu receber visitas, levando em consideração que era muito pequena, e meu pai ignorava completamente a minha existência, a possibilidade de visitas era completamente nula.
- Tem certeza? - Minha voz saiu rouca e aquilo me assustou, fazia tanto tempo que eu não falava ou tinha contato com alguém, que as palavras pareciam sair rasgando por minha garganta, o guarda a minha frente apenas assentiu com a cabeça de forma mal humorada, deixando claro que ele não pretendia quebrar o meu jejum de palavras. Levantei da cama e segui pelo corredor estreito em completo silêncio, minha mente projetando diversas possibilidades sobre quem poderia ser. Talvez algum dos meus antigos amigos tivesse perdido o ressentimento que tinham por mim, ou talvez algum deles apenas estivesse ali para ver de perto a minha derrota, e apesar de eu considerá-los bons amigos, a possibilidade de vê-los já me deixava nervosa. Só eu sabia o quanto eles me faziam falta, seja com suas risadas escandalosas e fora de hora, ou com o jeito enrolado como lidavam com os problemas do cotidiano. Franzi as sobrancelhas assim que o guarda me indicou uma das cadeiras e o homem que estava sentado atrás do vidro era um completo desconhecido. Peguei o pequeno telefone preto e o levei até a orelha, enquanto fazia uma pequena analise rápida do homem a minha frente, barba sem fazer, relógio caro no pulso, terno bem cortado e igualmente caro, e eu tenho certeza que se aquele vidro não nos separasse, eu conseguiria sentir o cheiro de algum perfume importado, a pequena análise me fez identificar o que ele era - Eu não vou alegar insanidade, você precisa avisar isso ao meu pai de uma vez por todas e fazê-lo desistir dessa idéia estúpida! - avisei sem dar a oportunidade para que o advogado a minha frente abrisse a boca - Se a sua visita é para isso, você perdeu o seu tempo! - continuei a falar, aproveitando a presença de alguém que fosse ouvir - Mas deve ter conseguido um bom dinheiro, né? Pra vir até aqui, ver se consegue convencer a insolente filha do seu chefe a se declarar maluca, para ficar presa pra sempre em uma clínica psiquiátrica. Sinto muito, doutor, mas o senhor perdeu sua viagem! - estava pronta para bater o telefone no gancho quando o homem ergueu o dedo indicador, pedindo por apenas um minuto, o que me fez revirar os olhos automaticamente, será que ele não desistiria nunca? Apenas recostei meu corpo no encosto da cadeira e fiz um gesto, como se estivesse contando num relógio, e o tempo estivesse passando.
-Bem, senhora Petr.... - o olhar mortal que lancei na direção do homem foi o suficiente para fazê-lo repensar suas palavras - Ok, não é uma boa idéia chamá-la de senhora Petrov - murmurou como se estivesse falando com seu subconsciente, o que me fez revirar os olhos novamente, sentindo uma pequena pontada começar a incomodar minha cabeça - Vamos com o senhorita então, tudo bem? - perguntou e eu apenas assenti com a cabeça, deixando bem claro o quanto sua indecisão estava aumentando a minha falta de paciência - Eu não tenho nenhuma ligação com o seu pai - disse como se aquilo fosse me fazer perder a carranca mal humorada que estampava meu rosto, mas tudo o que fiz foi dar de ombros - E não pretendo dizer para a senhorita se declarar incapaz das suas faculdades mentais... - umedeceu os lábios com a ponta da língua ao ver que a expressão em meu rosto não mudava - Eu sou , represento o escritório de advocacia e o seu caso é do nosso interesse - de repente sua postura mudou, parecia mais seguro de si e confiante - Diante de todos os fatos ocorridos, e levando em consideração que esse é um caso público, devido ao seu pai e a forma como as coisas aconteceram, nós gostaríamos de nos oferecer para defendê-la judicialmente - com o término de seu discurso, que parecia muito bem ensaiado, foi a minha vez de erguer a postura. Apoiei os cotovelos na pequena bancada a minha frente e fiquei por alguns instantes olhando em seus olhos.
- E o que vocês ganham com isso? - minha voz saiu tão desconfiada quanto eu estava no momento - Porque... Convenhamos, os gastos processuais são grandes, eu não tenho como pagá-los e não pretendo conseguir ajuda com o meu pai para isso, logo, o trabalho de vocês seria completamente gratuito, mas, a troco de que, já que são uma empresa privada? - perguntei ainda sem desviar o olhar de seus olhos, eu acreditava firmemente que quando alguém mente, ou tenta enganar, os olhos entregam a pessoa e se um mínimo traço de mentira passasse pelos olhos do homem a minha frente, seu tempo estaria terminado.
- Bem, nós ganhamos a publicidade - respondeu rapidamente e de forma que me pareceu sincera - Afinal de contas, num caso como o seu... Seria bem difícil conseguir um habeas corpus sequer, mas eu e a minha equipe estamos confiantes de que conseguimos inocentá-la. Na realidade, nessa história, você ganha mais do que eu e o meu escritório. - franzi as sobrancelhas sem compreendê-lo imediatamente, mas isso não impediu que sua voz continuasse entrando em meus ouvidos - Tentaremos um habeas corpus para ficar solta até o julgamento, vamos arrumar um lugar seguro para morar, podemos reaver a guarda da sua filha... - a partir do momento em que a possibilidade de ter de volta em meus braços me atingiu, tudo o que o homem falava parecia irrelevante, na realidade, eu apenas conseguia ver seus lábios movendo-se, mas não conseguia ouvir nenhuma palavra do que dizia, a pequena e remota possibilidade de ter minha filha de volta em meus braços me motivaria a tentar qualquer coisa.
- Eu topo. - as palavras saíram de minha boca em uma velocidade que poderia até ser considerada vergonhosa, se não fosse a oportunidade que estava sendo oferecida. O sorriso logo brotou no rosto do homem, que parecia muito satisfeito com a minha flexibilidade diante da sua proposta.
- Não vai se arrepender, senhorita - sua voz polida preencheu meus ouvidos novamente, enquanto o homem começava a digitar em seu aparelho celular - Não vamos demorar a nos ver, dessa vez, sem esse vidro na frente, você pode apostar! - sorriu de forma confiante em minha direção, e eu gostaria que um terço daquela confiança me atingisse também, mas apesar da esperança em meu peito, eu ainda sentia medo, medo do que poderia dar errado, medo de estar sendo enganada, medo de nunca mais ver o meu bebê. Sem dizer mais uma palavra, o homem colocou o telefone no gancho e se levantou, apenas acenando com a cabeça em minha direção, aceno esse que foi ignorado, enquanto ele não me mostrasse que poderia cumprir sua palavra, ou provasse que estava falando a verdade, não teria nem um pouco de simpatia vinda da minha parte.

O caminho de volta para a minha cela tinha sido tão torturante e cheio de dúvidas quanto à noite que não demorou a chegar, mas para a minha infelicidade, parecia disposta a não passar tão rápido, tantos questionamentos, tantas dúvidas, até uma ponta de arrependimento passou por minha cabeça, talvez eu não devesse ter aceitado a proposta de um homem desconhecido, que alegava querer apenas publicidade como pagamento pelos serviços caros que prestaria, eu estava no mundo a tempo o suficiente para saber que não se pode confiar em homens, em nenhum deles, nem mesmo o meu próprio pai, principalmente em meu pai. Tudo isso poderia apenas ser uma armação dele, que me levaria a uma clínica psiquiátrica no final das contas, porque para sua reputação, era melhor ter uma filha maluca, do que ter uma filha presa. Assim como era melhor ter uma filha casada com um homem quase trinta anos mais velho do que ela, do que ter uma filha grávida e solteira. Essa era a sociedade onde nós vivíamos, esse era o tipo de mundo onde eu odiaria ver minha filha crescendo, o mesmo mundo em que eu cresci, por isso tentei de todas as formas não ceder a qualquer tipo de chantagem, mas Charles parecia realmente disposto a me ver casada e carregando um nome de prestígio.



Flashback

- Você tá maluca? - sua voz esganiçou e a veia em sua testa saltou de tal forma que eu não duvidaria nada se seu corpo caísse duro para frente e o homem tivesse um infarto - Você acha que as pessoas vão dizer o que? - gritou mais uma vez, sem se importar em estarmos trancados no pequeno escritório, e que qualquer um poderia facilmente ouvir a conversa.
- Que eu tô trabalhando de forma digna? - perguntei sentindo todo o sarcasmo que eu possuía no corpo sair por minha boca - Trabalhando para sustentar o meu bebê? - minhas mãos automaticamente foram guiadas para meu abdômen, e mesmo que não existisse nenhuma ondulação visível, a minha ligação com aquele pequeno ser era impossível de descrever em meras palavras.
- Trabalhando como uma garçonete de merda? Numa lanchonete de merda? - o tom de sua voz era cada vez mais irritado e bravo, e eu não conseguia entender como aquilo feria seu código de ética e moral - Você quer ver o nosso nome na lama! - apontou o indicador em minha direção - Primeiro fez isso aí - o dedo desceu na direção da minha barriga, o que fez minha raiva aumentar pelo rumo da conversa - Com um fodido, pé rapado que nem ao menos podia te pagar um sorvete num lugar a sua altura! - a mão que antes se encontrava em minha barriga se ergueu e encontraria o rosto do homem a minha frente, não fosse a agilidade dele.
- CALA A SUA BOCA, VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE FALAR DE ASSIM! - gritei, sentindo as conhecidas lágrimas começarem a rolar por meu rosto - ELE SERIA UM PAI MIL VEZES MELHOR QUE VOCÊ SE QUER JÁ PENSOU EM SER! ELE CUIDARIA DESSA CRIANÇA COM TANTO AMOR, TANTA DEDICAÇÃO, QUE NENHUM DINHEIRO NESSE MUNDO COMPRARIA A FELICIDADE DO NOSSO FILHO!
- É uma pena que ele não esteja aqui, não é? - perguntou com seu conhecido tom de voz ácido e debochado, fazendo com que um aperto maior crescesse em meu peito - Escute bem, eu tô realmente sem tempo e sem paciência para esses seus joguinhos - sua mão soltou meu pulso, e segurou meu rosto, observando-o por alguns instantes - Você vai fazer o que tem que fazer, e sabe por quê? - perguntou me olhando nos olhos - Porque você sabe o que está em risco aqui, sabe quem vai sofrer as consequências se você não for uma boa garota...
- Eu não sabia que tinha me transformado em um cachorro - puxei meu rosto com força, afastando-me de suas mãos - Onde tenho que me comportar como uma boa garota porque você quer, porque você acha que trabalhar como garçonete é indigno! - grunhi em sua direção, me virando de costas para o homem e passando a mão pelo rosto, eu não deveria, não poderia me irritar naquela altura do campeonato, não quando a única coisa que ainda me ligava a dependia apenas de mim e perdê-la seria o final de tudo o que existiu entre nós.
- Muitas vezes eu já pensei que você fosse igual a sua mãe, sabia? - seus passos ecoavam pela pequena saleta, mas a proximidade não vinha, o que me levou a crer que andava de um lado para o outro - Mas eu nunca pensei que você fosse ser tão burra quanto ela com essa porra de gostar de alguém - respirei fundo, tentando de alguma forma manter a calma e não avançar para cima do homem novamente - Ela se acabou pelo simples fato de gostar de mim! - riu com deboche - Porque eu não queria mais nada com ela, porque eu achei alguém melhor para estar ao meu lado, você sabe, , sabe muito bem toda essa história, não é?
- Você é sujo - sussurrei, elevando meus olhos e encarando o teto por alguns instantes, não daria a ele o gosto de ver mais lágrimas saindo por meus olhos - Você e essa gente que chama de amigos, essa tal alta sociedade que nunca acrescentou em nada! Todos vocês são podres, e eu vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para evitar que o meu bebê cresça perto de gente do seu tipo - me virei em sua direção apenas para ver sua expressão dura de pessoa rica que não está acostumada a ser contrariada.
- Tudo bem, você escolheu assim... - ergueu os ombros e um suspiro de alívio escapou por meus lábios, ele finalmente iria embora e eu poderia continuar com o meu trabalho - Mas quero te avisar que você está demitida - fez uma pequena expressão de pena - E vai ser assim em todos os seus empregos - deu mais um passo em minha direção, deixando nossos corpos o mais próximo que poderia sem que se tocassem - Na verdade, toda empresa que você for procurar emprego, você vai encontrar um grande e redondo “não”, sabe por quê? Porque se alguém cogitar em te contratar, a empresa dessa pessoa automaticamente vai ser fechada! - sorriu vitorioso e colocou as mãos no bolso do terno - E digo mesmo quanto aos seus amigos que certamente vão estar dispostos a te ajudar... Acho que você deveria pensar neles também, filha!

End Flashback.



Muitas vezes eu me perguntava como minha vida tinha chegado naquele ponto, como eu consegui acabar desse jeito. Algumas vezes atribuía à culpa da morte precoce da minha mãe quando eu tinha apenas quatro anos, e me pegava imaginando em como minha vida seria se ela ainda estivesse ao meu lado, provavelmente as coisas seriam diferentes em diversos aspectos, já que só uma mãe sabe exatamente todas as necessidades dos filhos e muitas vezes passa por cima das suas próprias necessidades para suprir as da criança, era o que eu fazia com , ela sempre estava em primeiro lugar, sempre. E eu gosto de pensar que minha mãe faria o mesmo por mim, me colocaria em primeiro lugar, me defenderia e iria contra o meu pai nos seus devaneios de que a alta sociedade não deve se misturar com a “escória da sociedade”, em suas palavras. Mas no lugar da minha mãe, eu tive Scarlet, e o seu deslumbramento por alcançar uma classe social bastante superior a dela, o que para a mulher, importava muito, visto que ela não podia nunca ser vista com uma roupa repetida, sapatos repetidos, ou de uma coleção passada. No lugar de uma casa amorosa e reestruturada, eu tive empregados que me cuidavam por pena, ou porque eram pagos para aquilo. Empregados que logo foram substituídos por um colégio interno quando eu atingi idade o suficiente para me virar sozinha. Não posso dizer que o colégio foi de todo ruim, de forma alguma isso seria realidade, nele eu conheci grande parte dos meus amigos, e , o cara por quem eu me apaixonei, o cara que eu ainda amava, o cara que me deu um grande presente, mas não esteve aqui para poder vê-lo e segurá-lo em seus braços, e a cada minuto que eu pensava em como ele lidaria com as coisas, como ele seguraria no colo, como lhe daria comida e todas as outras coisas que eu tenho certeza que ele executaria, cada momento que um pensamento desses me atingia, meu coração sangrava, e eu tinha plena certeza de que ele nunca mais pararia de sangrar.



Capítulo 2

Eu nunca conseguia saber ao certo como o tempo passava, ou em que dia estávamos devido à falta de acesso ao mundo exterior. Não tinha como eu saber quando estava sol, quando já era de noite, se chovia ou se o tempo estava aberto. E por mais que eu tentasse de alguma forma contar os dias de acordo com as refeições que serviam através do buraco na porta, chegou uma hora em que eu simplesmente me perdi e já não sabia se me ofereciam o almoço ou o jantar. Talvez a terrível dor de cabeça que aparecia todos os dias fosse uma das culpadas por essa confusão, talvez fosse a voz de Dmitri, que falava em meus ouvidos coisas que eu realmente não queria e não precisava ouvir, e por mais que eu soubesse que tudo aquilo era apenas uma coisa da minha cabeça, suas palavras me pareciam muito reais, e conseguiam me ferir de alguma forma. Em alguns momentos, tudo o que eu queria era que tudo acabasse logo, que eu não fizesse mais parte desse mundo e que meu sofrimento terminasse, mas seguido desses pensamentos, vinham os pensamentos sobre a minha pequena bebê, com quem eu tinha um compromisso, o compromisso de ser a melhor mãe que eu pudesse ser, o compromisso de suprir a falta que seu pai lhe faria, o compromisso de estar com ela para tudo, de ajudar em seus primeiros dias de aula, a aprender a andar de bicicleta, a fazer as tarefas de casa e acima de tudo, o compromisso de fazer dela uma boa pessoa, e dar a ela uma vida completamente diferente da que eu tive, principalmente da que eu tinha agora.
Esses pensamentos sempre faziam minha cabeça doer, e aparentemente o fato de estar em uma cela solitária me tirava o direito a medicamentos, já que achavam que eu poderia tentar uma overdose deles, não que essa possibilidade fosse realmente impossível, mas a dor de cabeça incomoda parecia piorar a cada dia, cada dia que eu passava longe, cada dia onde eu não sabia exatamente o que estava acontecendo com , cada dia que eu pensava que ela poderia estar sendo privada de alguma de suas necessidades básicas, cada uma dessas opções eram motivo de um novo latejar em minha cabeça, motivo de desespero, lágrimas e soluços, que só faziam com que a dor piorasse gradativamente, trazendo com elas algumas visões que não poderiam ser reais.


- Você realmente pertence a esse lugar - a voz grossa e debochada invadiu meus ouvidos, fazendo um suspiro pesado escapar por meus lábios, mesmo depois de morto, Dmitri não me daria sossego - O laranja combina bem com o seu tom de pele pálido! - sua figura sentou bem a minha frente e soltou um risinho, um daqueles malditos risinhos que me irritavam profundamente - O que foi, ? O gato comeu sua língua? - perguntou se esticando em minha direção e se aproximando um pouco - Você sente saudades, né? Eu aposto que sente falta de quando eu te tocava - fechou os olhos e inclinou a cabeça levemente para trás, parecendo se deliciar com a memória - E você tem que admitir, eu te tocava bem melhor do que aquele pobre coitado com quem você fez à bastardinha - minhas mãos estavam fechadas, e eu as apertava com tanta força, que conseguia sentir a ardência das minhas unhas quase nulas rasgando suas palmas - Você sabe que eu encontrei com ele? - soltou mais uma risada, dessa vez mais alta e debochada do que antes - E contei pra ele todas as coisas que nós fizemos juntos, contei como você gemia o meu nome, como você se esqueceu tão rápido dele quanto se esquece de uma mosca insignificante.... - aquilo não era real, não poderia ser real, Dmitri estava morto, ele estava morto e eu estava completamente sozinha ali dentro, mas sua risada, sua voz, até mesmo o seu jeito debochado de falar eram completamente reais para mim, tão reais que meu primeiro instinto foi avançar contra o homem a minha frente, encontrando apenas a parede. Mas não era o suficiente, não era o bastante, ele não poderia falar assim, não poderia fazer achar que eu não o amava, o simples pensamento de que acreditaria naquilo me consumia por dentro, seu rosto decepcionado apareceu em minha mente. Minhas mãos foram de encontro aos meus cabelos e puxá-los era a única coisa que me deixava um pouco mais calma, não que essa opção funcionasse muito, mas parecia me distrair, meus soluços escapavam altos e claros juntos aos grunhidos que saiam por minha boca, logo o sangue começou a escorrer pela lateral de meu rosto. Malditos pontos que pareciam sempre abrir só para me fazer me lembrar do que eu tinha feito e de como tinha feito. Aos poucos minhas mãos começaram a relaxar devido ao cansaço que o choro trazia, deixando com que eu trouxesse a direita ao meu campo de visão e observasse o sangue que escorria por ali, o meu sangue, sujo como eu era, impuro como eu era, indigno de qualquer tipo de coisa boa, ou felicidade que pertencesse a esse mundo.



Flashback

Já tinha um bom tempo que eu estava na mesma posição, minhas mãos apoiadas em cima de minha barriga, a cabeça pendendo levemente para fora da cama de solteiro, mas nem assim eu conseguia pensar em alguma solução para o problema que me cercava, problema esse que tinha um nome, mas eu costumava chamá-lo de outra forma: Pai.
Desde que meu pai tinha descoberto meu relacionamento com , ele fez questão de deixar claro que não aprovava, mas repentinamente, alguma coisa mudou e ele quis conhecê-lo, e se essa fosse uma família normal, eu fosse uma pessoa normal e meu pai também, isso seria ótimo, significaria que ele estava dando uma chance de mudar o que ele pensava a seu respeito. Mas conhecendo meu pai como eu conhecia, eu sabia que aquele jantar no final de semana seria apenas uma avaliação na qual nunca seria aprovado e o fato de vê-lo tão animado com o convite para conhecer minha casa e levar sua família para que todos pudessem se conhecer melhor, me desencorajava a dizer toda a verdade sobre a minha estrutura familiar e que meu pai e minha madrasta nunca iriam gostar dele, ou de seus pais.
Um suspiro pesado escapou por meus lábios e eu resolvi que seria melhor evitar o dano, mesmo que doesse um pouco agora, seria melhor do que ter sua família sendo destratada em minha casa, coisa que eu sabia que aconteceria. Levantei da cama e calcei os sapatos e sai do quarto rapidamente, não demorando muito a encontrar quem eu queria, já que vivia trancafiado na biblioteca, quando não estava estudando para alguma prova, estava estudando apenas para saber um pouco mais de algum conteúdo, e isso me deixava absurdamente orgulhosa por todo o seu esforço em ser um aluno bem acima da média.

- Hey - puxei uma cadeira e sentei ao seu lado, lhe lançando um sorriso calmo e torcendo mentalmente para que aquela conversa não fosse tão ruim quanto eu pensava que poderia ser.
- Oi, eu queria mesmo falar com você - se aproximou, plantando um beijo em minha testa - Liguei para os meus pais e avisei sobre o final de semana, minha mãe ficou super feliz e mal pode esperar para te conhecer! - fechou o livro que lia e virou o corpo em minha direção, enquanto sussurrava de forma animada - Eu disse a ela que você ama bolo de chocolate e ela disse que vai fazer um pra levar como sobremesa!

E foi ali, em toda a sua empolgação, e em toda a bondade que seus pais pareciam ter, que eu perdi a coragem de arrancar o Band-Aid de uma vez e dizer toda a verdade. Que Deus me ajudasse e as coisas não fossem tão ruins quanto eu previa.

End Flashback



Assim que a pequena portinhola se abriu, o rangido me despertou daquele pensamento, me aproximei da porta lentamente.

- Eu... Eu preciso de cuidados - gaguejei baixinho, esperando que o guarda escutasse e me levasse para algum tipo de atendimento médico, estendi a mão pelo pequeno buraco, deixando que visse os pontos abertos e apenas recebi um resmungo de confirmação a minha reclamação. Algum tempo depois dois guardas vieram e abriram a porta, seus olhares eram um misto que eu odiava ver, mas estava quase me acostumando a ter, pena, raiva, deboche, prazer, satisfação e superioridade. Apenas abaixei a cabeça e estiquei as mãos para frente, já sabendo o procedimento para poder sair da cela, o metal gelado envolveu meus pulsos e o “click” baixo das algemas se fechando ao redor deles me fez sentir ainda pior, o pior dos seres humanos na face da terra. Um dos homens me segurou pelo braço, enquanto o outro fechava a cela e caminhava a alguns passos atrás de nós em direção à enfermaria.

A enfermeira ergueu os olhos de suas pilhas de papel e me analisou por alguns instantes, eu não sabia se era só comigo, mas eles não tinham o hábito de falar muito com todas as presas. Talvez achassem que nós não éramos dignas de palavras, ou só não queriam contato com gente do nosso tipo. A mulher indicou a cadeira a sua frente e segurou minha mão, fazendo um estalo com a boca em negação e resmungando algumas palavras que eu não fui capaz de identificar, mas tinha certeza que não eram boas palavras, talvez uma reclamação por ter que cuidar de uma coisa tão insignificante como aqueles pontos, visto que ela tinha muitos papeis para trabalhar, e eu provavelmente seria mais um papel acrescentado em sua pilha de burocracias.

- Já é a terceira vez que vem parar aqui - falou com a voz dura e séria, me fazendo sentir ainda mais insignificante do que eu costumava me sentir ali dentro - Se continuar se machucando dessa forma, eu simplesmente vou me recusar a atender você, ou melhor ainda, nós vamos acrescentar que você causa ferimentos ao próprio corpo em sua ficha - mantive meu olhar baixo, observando calada enquanto a mulher passava um cotonetes embebido em algum produto que eu não sabia a origem e muito menos o nome em cima do corte - E sabe o que vai acontecer? Vão te transferir para uma área onde as presas fazem isso, vai ficar amarrada dia e noite para ver se aprende a se comportar - mordi o lábio inferior em desconforto com suas palavras e suspirei pesado - Eu aposto que seu pai pagaria um bom dinheiro para vê-la nessa situação, é isso que quer? - perguntou atraindo minha atenção por alguns instantes, neguei com a cabeça e fechei os olhos, respirando fundo e sentindo aquele cheiro forte invadir minhas narinas, causando mais uma fisgada em minha cabeça, dessa vez uma fisgada tão forte que me fez apertar os olhos com força e me fez sentir como se meus músculos estivessem perdendo a capacidade de se manter firmes - Então pare, pois da próxima vez é para lá que eu vou te mandar.
- Minha cabeça, dói muito - sussurrei uma tentativa de justificar, voltando a olhar para minha mão quando a mulher começou a suturar novamente a abertura que se encontrava ali - Eu... Eu não posso tomar nenhum remédio? - perguntei num misto entre pergunta e súplica, tendo apenas um gesto negativo com a cabeça em resposta - Nem aqui? Na sua frente? - pedi mais uma vez, tentando de alguma forma me livrar daquela dor infernal, mas mais uma vez a mulher a minha frente negou com a cabeça, parecendo decidida a não me dar mais nenhuma palavra além das ameaças com que tinha me "presenteado".
- Quando a detenta acabar esse procedimento, encaminhem-na para a sala do diretor! - uma voz feminina avisou aos guardas e meu corpo inteiro se arrepiou, o que seria dessa vez? Será que levaria uma bronca por estar indo para a enfermaria novamente? Será que realmente me transfeririam de área como a enfermeira havia dito? Nenhuma outra opção era viável ou parecia boa em ser conduzida para a sala do diretor, não era uma boa opção quando se estava na escola, quando se está em um presídio, parece uma opção ainda pior e por alguns instantes eu pedi mentalmente para que o processo de pontos e curativo demorasse um pouco mais, que levasse mais tempo do que o necessário, ou talvez até que desse uma complicação em dar aqueles malditos pontos em minha mão. Eu realmente não queria saber o que estava por vir.



Capítulo 3

A porta se abriu com um rangido e o guarda indicou com a cabeça a cadeira onde eu deveria sentar, o homem a minha frente deveria ter quase 60 anos, sua feição era cansada, fez um aceno com a mão, e no instante seguinte estávamos sozinhos em sua sala. Certamente meu rosto entregava o quanto eu estava nervosa, nada tinha sido dito, nem uma mísera pista tinha escapado do guarda, ou talvez ele também não soubesse o motivo pelo qual estava me levando para a sala do diretor do presídio.
Minha cabeça ainda doía tanto quanto poderia doer, até mais do que poderia, eu acreditava. Um pigarro na sala fez com que minha atenção voltasse ao homem sentado na cadeira giratória a minha frente, sua expressão cansada mudando para uma séria e não muito feliz.


- Preciso que assine aqui - estendeu alguns papeis em minha direção esperando que eu os pegasse, passei os olhos por cima das folhas e não conseguia compreender nada, minha cabeça doía tanto, que ler naquele momento seria um sacrifício.
- O que são esses papeis? - perguntei desconfiada, enquanto tentava forçar os olhos para enxergar as letras, mas elas pareciam se embaralhar em minha frente, zombando completamente da minha falta de capacidade.
- São os papeis que o seu advogado trouxe, você precisa assinar antes para poder ir! - indicou a caneta em cima da mesa, deixando claro que não tinha tempo para perder, e que se tinha, não pretendia perdê-lo me explicando qualquer coisa.
- Ir? Ir pra onde? - minha voz ainda estava mesma forma, desconfiada, e um suspiro impaciente saiu do homem a minha frente, que logo em seguida apoiou os dedos nas têmporas enquanto as massageava, pelo visto, não era só eu que tinha dor de cabeça por aqui.
- Ir pra casa, ir lá pra fora, ir pra qualquer lugar que você quiser ir, dentro do delimitado pela lei! - se eu ainda tinha alguma dúvida de que o homem estava irritado, a dúvida tinha sido sanada naquele momento, sua voz parecia mais impaciente a cada palavra que me direcionava. Mas aquilo não era realmente importante agora, visto que aparentemente, não tinha desistido do meu caso como eu pensava. Assinei os papeis o mais rápido que podia e entreguei de volta ao homem que pareceu agradecer mentalmente pela minha 'colaboração' - Espero não te ver por aqui outra vez, . - Eu também esperava não aparecer por lá outra vez, e faria tudo o que estivesse ao meu alcance para isso.

O mesmo guarda que me conduziu até a sala me indicou o caminho que eu deveria seguir, seguindo ao meu lado em seu inquebrável silêncio, nossos passos ecoavam por todo o corredor, até chegar a uma ala a qual eu nunca tinha visto, não que eu tivesse tido tempo de ver todas as coisas ali antes de ser enviada gentilmente para a solitária. Avistei o advogado pelo vidro da sala de espera, logo estávamos no mesmo ambiente e eu pude confirmar, perfume importado, dos caros, e que me causou mais uma fisgada na cabeça.

- O senhor pode... - sua voz se fez presente, e o homem apontou as algemas que ainda envolviam meus pulsos, o guarda se adiantou, abrindo-a rapidamente - Aqui, eu trouxe isso pra você vestir, espero que sirva - ergueu uma sacola preta em minha direção e eu apenas a peguei, levantando o olhar para o homem, e me arrependendo no segundo seguinte. Ok, eu estava completamente desarrumada, provavelmente eu parecia uma bagunça, porque eu era uma bagunça. Mas o olhar de pena que ele lançava em minha direção me fez sentir pior do que eu já me sentia há alguns instantes, eu me sentia como um daqueles vídeos de cachorros abandonados, onde uma alma bondosa aparece e salva o pobre animalzinho. Só que eu não era um animalzinho, e não esperava que nenhuma alma bondosa pudesse me salvar. Na realidade, nenhuma pessoa nesse mundo conseguiria ou poderia fazer isso.
- Ok... Eu vou... - indiquei a porta a minha frente, onde uma plaquinha estava pendurada, indicando que atrás dela se encontrava o banheiro e segui em sua direção. Assim que acendi a luz e pude me ver no espelho, eu entendi um pouco o olhar que me lançava, meus cabelos estavam completamente embolados e sujos de sangue, assim como meu rosto, com a mão esquerda abri a torneira e tentei de alguma forma amenizar minha aparência, ou pelo menos não aparentar estar tão suja quanto eu estava antes de entrar ali. Abri a sacola preta e tirei a roupa e um par de sapatos que se encontravam lá dentro, negando com a cabeça ao ver o que tinha sido escolhido para que eu vestisse. Um vestido de alfaiataria, que deveria ter custado os olhos da cara, na cor preta e um par de sapatilhas que seguiam a mesma cor, e por mais que as roupas em minhas mãos fossem caras, eu sabia que me sentiria barata se as vestisse. Se eu colocasse alguma daquelas peças, eu seria novamente a bonequinha de luxo que meu pai idealizava e Dmitri me obrigava a ser, e aquilo era a última coisa que eu queria, dobrei as roupas e as coloquei novamente na sacola preta, abrindo a porta do banheiro em seguida - Eu não posso vestir isso! Sinto muito! - estiquei a bolsa na direção de que me olhou confuso.
- O que? Não servem em você? - Perguntou preocupado, tentando compreender - Eu pedi pra minha secretária verificar o seu número, puta merda - resmungou, pegando o celular do bolso do terno e começando a digitar alguns números, logo levando o aparelho a orelha - Incompetente do caralho, eu só pedi uma coisa, uma única coisa e ela não consegue fazer, mas a gente vai resolver isso, alguém vai trazer uma roupa nova pra você aqui, isso é rápido - resmungava enquanto dava passos de um lado para o outro, me fazendo sentir um pouco zonza.
- Não tem nada a ver com numeração - falei um pouco mais alto para atrair sua atenção, e seus olhos logo se voltaram em minha direção, o telefone que antes estava grudado em sua orelha tinha sido afastado alguns centímetros.
- Qual é o problema então? - enfiou o aparelho no bolso, mas manteve a mão lá dentro, sua feição ainda era confusa - Não estão à sua altura? Isso foi o máximo que eu consegui de última hora! - avisou como se aquilo fosse realmente importante - Podemos comprar alguma coisa mais sofisticada depois, mas no momento é só isso que temos - explicou como se falasse com uma criança de quatro anos.
- Eu não posso vestir isso porque não quero, e não tem nada a ver com marca ou preço - minha voz voltou a ser baixa agora que o homem tinha os olhos fixos em meu rosto, tentando desvendar que tipo de brincadeira era aquela, ou o que eu realmente queria dizer, como se minhas palavras não significassem exatamente o que eu pretendia.
- Então tem a ver com o que? - perguntou em dúvida, uma pequena ruga de incompreensão se formando em sua testa - É a cor? Eu acho que preto é uma cor mais discreta pra você sair daqui agora, já têm repórteres lá fora e se você usasse algo muito colorido ia fic...
- Eu não quero saber disso! - apertei minha cabeça com as mãos quando minha voz saiu um tanto mais alta do que as fisgadas permitiam - Eu não quero essas roupas, são exatamente o que Dmitri escolheria para eu usar em um de seus eventos inúteis - meu tom de voz saia mais esganiçado a cada palavra, e eu precisei me sentar para que não caísse, já que uma fraqueza me atingiu em seguida.
- Ah, esse é o seu motivo? - perguntou com o mesmo tom que usava antes, como se falasse como uma criança pequena e mimada - E como a madame pretende sair daqui, então? - parou a minha frente, deixando a sacola na cadeira ao meu lado e enfiou as mãos nos bolsos – Porque, caso você não tenha percebido, essa é a única roupa que tem para sair daqui, e eu tenho certeza que Dmitri não está por aí para ver a roupa que você tá usando agora!
- Se você continuar usando esse tom de voz comigo, pode ter certeza que eu nem vou precisar tirar o uniforme - grunhi, me levantando da cadeira e deixando nossos corpos próximos, apesar da diferença de altura ser considerável, não deixaria que ele pensasse que eu tinha medo dele, ou que viria a ter algum dia – E, aliás, eu pretendo sair daqui com essa mesma roupa - apontei para meu corpo, logo ouvindo uma risada de descrença do advogado, que se afastou alguns passos e esfregou a mão no rosto.
- Você quer sair daqui vestindo isso? - repetiu meu gesto e apontou para a roupa que eu usava soltando mais uma risada desacreditada - Gostou do uniforme, ? - revirou os olhos e pegou a bolsa preta, empurrando-a em minha direção - Vai se trocar, por favor! Eu tenho outras coisas pra resolver ainda hoje!
- Não vou! - sentei novamente na cadeira e cruzei os braços, se ele estava me tratando como uma criança birrenta, eu me portaria como uma - Eu não vou sair daqui vestindo essa merda - apontei para o saco com desprezo - Se você quer arrumar alguma coisa para eu sair, ok. Contando que não pareça que eu tô saindo de um editorial de moda.
- Você tá de brincadeira comigo? - bufou irritado, e eu me limitei a dar de ombros - Me avisaram que você era louca, mas não achei que chegasse a esse ponto! - negou com a cabeça e deu de ombros - Bem, se o que você quer é estampar as capas dos jornais de laranja, ótimo pra você. Apesar de eu achar que essa não é bem a melhor cor pro seu tom de pele - seu tom de voz continuava sarcástico quando ele se ajeitou, e indicou a porta com o dedo indicador - Vamos?





Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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