Última atualização: 20/05/2018

Capítulo 1 - É RODEN!


RODEN


Em um mundo paralelo, eu poderia dizer facilmente que o homem de terno perfeitamente alinhado me olha como se estivesse sugerindo algo ou que está surpreso demais com minha capacidade profissional.
Queria realmente que seus olhos analíticos, que destacam a pele com um bronzeado falso, deixando mais nítidas as plásticas no nariz, significassem isso. Porém, especialmente nos Estados Unidos, Pensilvânia, especificamente em Pittsburgh, que fica dentro do fodido planeta que nós chamamos de terra e possui mais de sete bilhões de pessoas, sendo eu uma delas, é bem claro que ele não está fazendo isso, para o meu completo e absoluto azar.
– Você tem algum problema de audição? – sua voz sai rígida e infelizmente senti que aquela pergunta não é retórica logo após suas sobrancelhas bem cuidadas e desenhadas se erguerem. Céus, eu preciso do número da designer desse homem, ela com toda certeza é fabulosa e deve cobrar o preço dos meus sapatos da Jimmy Choo por cada fio arrancado. – Isso parece com o que pedi para você?
Se ele não estivesse com todo aquele açúcar na mão, tenho certeza que ele cruzaria os braços e depois as pernas, colocando a melhor expressão serena no rosto, pronto para me humilhar, e é óbvio que eu não estava sendo paga para isso, essa é a minha certeza diária.
Quando desesperadamente aceitei um trabalho temporário, ser secretária de um demônio que usa terno preto e toma um cappuccino de caramelo a cada cinco muitos, ter que aturar seu péssimo humor todos os dias não estavam nos meus planos, e eu nem sequer um dia imaginei que o trabalho que considerei, no momento, ser o dos meus sonhos se tornaria um emprego de merda dias depois da minha contratação.
Em um momento eu era apenas uma garota normal que andava com papéis para lá e para cá pelo piso preto e bem limpo dos corredores da empresa, servia-lhe café e atendia ao telefone para, dois segundos depois, virar seu saco de pancadas particular que usa saltos de dez centímetros que torturam bruscamente os pés.
Isso deveria ser crime, ninguém que tem a palavra "temporária" depois do nome do cargo que ocupa deve ser obrigada a usar saltos de dez centímetros; mais uma prova que esse homem é o próprio rei do inferno, a criatura mais maldosa e filha da puta que Deus teve a ousadia de criar e depois o abençoar com a maravilha do dinheiro que só serve para torná-lo em uma pessoa mais repugnante, insuportável e superficial em todos os sentidos da palavra.
– É claro que não parece! – grita ao me ver balançar a cabeça de um lado para o outro em um sinal negativo. – Eu pedi uma rosquinha de chocolate! – joga o delicioso alimento no isopor que estava sobre sua calça social preta. – CHO-CO-LA-TE. – silaba lentamente, olhando-me como se fosse uma idiota.
Quero esfregar seu rosto no concreto ou furá-lo com a mesma caneta que uso para escrever centenas de bilhetes que ele simplesmente ignora.
Minha imaginação para homicídios fica mais assustadora conforme os dias perto dele passam, o que me levava diariamente a pensar sobre a possibilidade de me demitir da forma mais madura possível: jogando o cappuccino quente na cara desse cretino e saindo da sala enquanto mostro o dedo do meio após decidir que a ideia de voltar imediatamente para Maine não é totalmente ruim.
Mamãe e Fred, seu golden, ficariam felizes em me ver, ela principalmente, já que deixou de se importar com o fato de que estou na faculdade e passou a achar isso um grande problema desde que percebeu que o local fica a apenas doze horas e cinquenta e seis minutos da sua casa, dando um total de 1.292,0 km de distância dos seus olhos protetores.
Eu amo aquela mulher mais que amo feriados e fins de semanas, mas, sinceramente, uma jovem de vinte e dois anos precisa começar a procurar a sua independência, e tenho certeza que minha mãe odeia essa palavra e tudo o que ela traz consigo a partir do momento em que a mesma percebeu que isso é tudo o que eu mais procuro no momento.
– Não é possível que você não consegue diferenciar uma rosquinha de chocolate de uma de baunilha. Normalmente a de chocolate é de uma cor mais escura. – ele pega o isopor e aponta para a etiqueta branca que fica em uma das laterais contendo informações sobre o alimento. – E aqui vem escrito CHO-CO-LA-TE.
Não estava entendendo a necessidade daquele homem pronunciar a porra do sabor separando o nome por sílabas, o que está sendo bem perigoso para ele, já que a cada vez que ele faz isso, tenho vontade de enfiar a merda da rosquinha na sua boca, desprezando toda a gentileza e considerando a agressividade a opção mais agradável para se concluir essa ação.
– Agora pegue isso, volte para a padaria e me traga o correto. – estende a bandeja em minha direção, praticamente jogando todo aquele açúcar no meu corpo.
Solto um longo e cansado suspiro. Eu não posso acreditar que irei pedir demissão mais uma vez.
Cinquenta dólares a hora é o que eu ganho, e isso não chega nem perto do que eu mereço receber, essa é a verdade. E, embora eu tenha tentado inúmeras vezes, o pessoal da assistência de empregos teria que me ver novamente por lá. Já tinha a desculpa perfeita para dar, e por mais que minhas explicações não façam muito efeito ou sejam boas o suficiente para me redimir de uma demissão, prefiro morar na rua do que ter que lidar com esse homem novamente, ou simplesmente voltar para Maine e ficar com a minha mãe.
Esse é literalmente o meu quinto emprego em dois meses, e só agora percebi que talvez Pittsburgh não queira meu traseiro gordo desfilando por suas ruas, talvez eu nunca deveria ter saído da minha cidade natal e que, com toda a absoluta certeza, as meninas da recepção estavam certas quando disseram que Franklin Parker é um bastardo metido a empresário, incompetente e mimado.
Rodon, eu lhe dei uma ordem! – sua voz soa novamente gritante pelos meus ouvidos e eu me assusto rapidamente pelo tom irritante da mesma.
Eu certamente cortaria sua garganta e destruiria suas cordas vocais, se homicídio não fosse crime.
– É Roden. – respondo-o pela primeira vez desde que os seus gritos começaram, possuindo um autocontrole que honestamente não era meu.
– O quê?
A megera de terno levanta as sobrancelhas grossas que marcam sua testa grande. Aquela era sua famosa expressão de obviedade e de desinteresse; ele a usa bastante, principalmente comigo.
Se ele ao menos soubesse como fica ridículo fazendo isso, surtaria.
Em vinte e dois anos de vida, nunca conheci um homem tão complexo com a beleza como Franklin é, ao ponto dos seus próprios funcionários fazerem um bolão apostando a quantidade de plásticas que o mesmo já fez no rosto. Dizem que beleza é a alma de qualquer negócio, Dr. Parker claramente leva esse ditado muito a sério.
– É Roden. R-O-D-E-N. – soletro, mesmo sabendo que na verdade ele não quer que eu o responda.
Nós estamos há algum tempo trabalhando juntos, eu já tive que ir na farmácia à 1h da manhã porque ele estava com dor de barriga, então o mínimo que ele tem que fazer é não esquecer o meu nome após as palavras a seguir saírem da minha boca.
– E pela milésima vez, eles não têm rosquinhas de chocolate! Se o senhor quiser, eu posso tentar desenhar para que você entenda isso ou simplesmente adotar a sua tática de comunicação e escrever por sílabas. – rebato, assistindo suas írises se transformarem em puro ódio. – Então, a não ser que você peça para encomendarem algum caminhão com ingredientes da sua maldita bomba calórica que vai permitir que os botões da sua camiseta finalmente pulem para fora, você vai ter que comer o de baunilha.
Coloco a bandeja de forma agressiva novamente em sua mão. Ao fundo posso escutar risadas abafadas vindo dos três indivíduos que estavam sentados nas cadeiras pretas. Por um instante, esqueci completamente que tinha mais pessoas em sua enorme e exagerada sala de reunião.
Em um dia normal eu notaria isso facilmente, até porque é difícil três pessoas com muita massa muscular – muitas vezes usando roupas que facilitam o destaque desse detalhe no corpo –, com mais de um metro e oitenta passarem despercebidos quando estão desfilando por aí. Eu obviamente seria a primeira a ver essas minuciosas presenças mesmo sendo uma indesejada recém-solteirona que não procura por uma aventura com atletas – não que eu vá conseguir isso algum dia. Entretanto, ultimamente o meu radar para homens bonitos anda bem atualizado e sempre apita quando os irmãos estão todos juntos como uma grande família adorável em Pittsburgh, falando justamente com meu terrível e abominável chefe, que agora me olha com um olhar que arrisco dizer que é de raiva. Acho que ele não gostou da forma que minhas palavras saíram na frente dos seus clientes; eu não gostaria, mas também nunca agiria como uma canalha com alguém, essa é a nossa diferença. Contudo, isso não dura muito, logo um longo sorriso diabólico aparece em seu rosto.
– Bomba calórica? Não sabia que você era formada em nutrição, Roden. – frisa mais que o necessário o meu sobrenome em uma tentativa de me irritar e falha, pois o lindo e brilhante sorriso que dei chegou a reluzir do outro lado da sala.
Eu já sabia que seria humilhada, porém é claro que não deixaria esse cretino sair por cima. Já tinha aprendido algumas táticas de respiração que me favoreciam quanto as suas tentativas de me tirar do sério, e inclusive passei a ser conhecida como a mulher mais calma do edifício inteiro. No fundo, todo mundo sabia que eu estava ateando fogo em seu corpo e desejando ver sua alma se carbonizar em minha imaginação, mas não gosto de dar ênfase a minha grande habilidade de fingir uma calmaria quando na verdade me imagino bebendo o seu sangue como uma psicopata.
– Eu não sou, mas qualquer pessoa com mais de cinco anos que já aprendeu a ler sabe disso. – coloco meus braços para trás, juntando as mãos logo em seguida e curvo o corpo para frente, ficando mais próxima do demônio que já não me encara com tanto glamour e plenitude. – O senhor sabe ler, Dr. Parker? – sussurro, fingindo um interesse nisso, e ele, como sempre muito inteligente, notou isso logo de cara, permitindo-me ter o prazer de assistir seu rosto vermelho de tanta raiva.
– Não dá para se formar em duas faculdades sem saber ler, Sra. Roden. – rosna e eu quase tenho um orgasmo notando a sua reação. — Mas, já que você é tão informada no assunto, seja pelo menos uma vez útil e vá para dispensa do prédio anotar os valores calóricos de todos os alimentos.
Pelo menos uma vez. Se não fosse por mim, ele estaria tendo problemas muito sérios com o intestino até agora. Ingrato de merda!
– Tudo bem, mais alguma coisa? – a irritação que o provoquei já valeu o meu dia inteiro, portanto não me importei com o fato de que ele estava tentando me colocar em meu lugar e abusando do seu poder, até porque tenho consciência que, se eu não fosse uma subordinada e se nós estivéssemos no mesmo patamar, eu ganharia essa discussão facilmente.
– Sim, ligue para a agência de empregos dizendo que Dr. Parker está oferecendo o cargo de secretária. – ele pega a grande bomba de açúcar amarelo-claro na mão e encara o alimento por um longo tempo antes de voltar a me olhar. – Você está demitida. – dito isso, a megera abre um longo sorriso e joga a rosquinha na boca, mastigando-a calmamente, enquanto esfrega a expressão vitoriosa em meu rosto.
Não é preciso ser nenhum gênio da lâmpada para saber o que ele planeja agora, o cretino tinha arquitetado essa frase com muito cuidado nos poucos instantes que eu me deliciava com sua irritação, mas não vou dar o gosto da vitória para ele. Franklin Parker não vai me ver de joelhos implorando por um emprego merda, definitivamente não. Eu consigo algo melhor que isso, talvez um com o salário menor, ganhando isso atendendo pessoas e enchendo xícaras de café, porém não seria obrigada a usar saltos enquanto faço isso e não seria humilhada sempre que a vontade surge. Portanto, Parker e sua empresa de bosta que me dão boas visões de pessoas com uma estrutura óssea muito boa podem ir se foder. Dane-se todos aqueles contratos e todos os benefícios que esse emprego me traz, ninguém deveria trabalhar para esse homem, muito pelo contrário, ele deveria estar em uma vala profunda, fedida e escura, de preferência no inferno.
– Céus, Parker, você vai realmente demitir a garota por algo tão banal? – quando estava prestes a dizer o nome do lubrificante que facilitaria a ação de Franklin enfiar o prédio onde eu iria mandar que ele enfiasse, um dos irmãos me interrompeu com sua voz calma e serena.
Era o mais velho, sei disso porque ele é mais alto que os dois e estava lendo as folhas de algum contrato, muito concentrado, enquanto os outros dois mexem freneticamente no celular, um mandando mensagens e o outro tentando ligar para alguém. Ele sempre me passou a imagem de mais responsável e divertido também.
Seu rosto em si é um pouco assustador, porém é apenas por causa da grande massa muscular que o mesmo carrega. Quando aquele homem abre a boca e mostra todos os dentes alinhados, é impossível não se decompor com a cena. Ele é o único que está sem barba, e isso o faz parecer mais jovem, apesar de dar a impressão que ele está tentando provar para todos que ainda está em forma, o que é irônico considerando suas jogadas no Houston Texas e também porque ele não tem nem trinta anos.
Não sou muito de acompanhar futebol americano e aprendi com a minha mãe a detestar esse esporte por algum motivo que não me importei em saber. Confesso que, depois de começar a trabalhar para Parker e ver que pode ter algo interessante em jogos um pouco violentos, tirando toda aquela adrenalina, fiz algumas pesquisas e nunca me senti tão conectada com Gisele Bündchen depois do que encontrei no amado e abençoado Google.
Posso dizer que meu coração estava dando piruetas, incorporando uma linda e digna bailarina e dançando para lá e para cá. Justin estava defendendo-me, e isso foi o bastante para que Parker ficasse mais irado ainda. Quase o olhei e sorri da forma mais doce que conseguia fazer essa ação. Eu casaria com ele agora mesmo, se fosse possível.
– Arranjo uma melhor em dois segundos, Justin, você não precisa se preocupar com isso. – Franklin diz e começa a puxar a gravata do pescoço, alargando-a.
De repente ele ficou com calor, e posso apostar que é de nervosismo.
– Não estou preocupado com você, e sim com ela. – e então os olhos dele se dirigem e fixam no meu ex-chefe filho da puta, e, cara, posso ter um orgasmo da mesma forma que posso morrer agora. O olhar desse homem passa uma tensão inacreditável. Ele deve flertar muito bem. Aposto que Parker está remoendo-se dentro do próprio corpo. – Não é nenhuma novidade que você é um porre e trabalhar para ou com você se iguala a colocar um prego em cada dedo do pé. Eu sinceramente não sei como ela está aqui durante todo esse tempo.
– O capitalismo sempre vence no fim do dia. – digo e, no mesmo momento, o olhar dele e do seu irmão voam em minha direção.
Sinto-me acuada e começo a transpirar. Pergunto-me o que eles irão pensar caso eu saia correndo da sala ou simplesmente me esconda atrás de uma das cortinas ou móveis, tentando fugir dos seus olhos. Se o olhar de Justin transmitia tensão, o de Derek era completamente igual – senão pior –, e acabo de descobrir que não lido muito bem com isso.
Graças ao bom menino Jesus, eu não tenho o costume de demonstrar estar afetada por algo, e talvez eles nem me tinham surpreendido tanto assim. Olhares fixos me deixam nervosa independentemente da pessoa que faz essa ação. O fato deles serem famosos – acho que posso considerá-los assim – só é um insignificante detalhe.
– Você é engraçada. – depois de um silêncio rápido e infernal que, na minha visão, demorou cerca de cinquenta anos e me fez realmente cogitar correr dali, Derek fala, mostrando um bonito sorriso para mim.
Ele está sentado na ponta da mesa, por isso vejo que ele praticamente sobe em cima da mesma para conseguir ter uma visão melhor de mim.
Essa é a primeira vez que interajo com clientes de Franklin sem ser pelo telefone ou não se tratando de assuntos da empresa, e sinto ele hiperventilado na minha frente. Aquela situação estava começando a ficar fora do seu controle, e ele simplesmente detesta isso, mas não é como se ele pudesse controlar qualquer coisa agora, uma vez que estou gostando do rumo em que tudo isso está tomando e pretendo firmemente continuar. Se no fim do dia ou em algum momento ele colocar toda a culpa no meu colo e tentar despejar sua merda na minha cara, farei questão de lembrar quem começou tudo isso.
– Obrigada. – abro um sorriso para Derek, retribuindo da forma mais sincera que consigo.
Ele é bonito, assim como os irmãos, e absurdamente simpático. Simpatia desliza entre as entrelinhas do seu rosto grande com traços fortes. Ele é aquele cara fofo que eu levaria para casa, se todo o seu corpo grande não me fizesse imaginar isso acontecendo de forma vergonhosa.
De repente quero abraçá-lo. Ele tem cara de quem sabe dar um bom abraço.
Quais as chances dele me achar louca ao pedi-lo para colocar seus braços grossos em volta do meu corpo?
Vejo-o assentir com a cabeça e levantar do lugar, começando a andar tranquilamente até a outra ponta da mesa, a ponta que ficava próxima de mim.
– Qual é o seu nome mesmo? – ele encosta a cintura na madeira marrom escura e cruza os braços, cerrando os olhos interessados e analíticos nos meus, confusos e perdidos.
Derek está falando diretamente comigo, surtaria quando contasse.
– Derek, por favor. Ninguém aqui tem tempo para perder com uma ex-secretária indiferente, temos assuntos sérios para resolver. – escuto Parker dizer da forma mais relaxada que existe, como se seu corpo não estivesse em chamas agora.
Eu não era indiferente até segundos atrás quando abri a porta desse escritório e seus olhos se encheram de alegria ao pensar que as malditas rosquinhas de chocolate tinham finalmente chegado, e muito menos quando salvei sua maldita pele com bronzeamento falso de uma reunião importante que o mesmo iria perder porque ficou até tarde em uma boate. Esse homem, ele é um nojo.
Reden, está dispensada. – nem ao menos se preocupa em me olhar ao falar comigo. – Pegue suas coisas e vá embora. – ele faz um movimento com a mão, igual faz quando tenta espantar algum inseto.
– Não, ela fica, e eu estou justamente tentando resolver o que você não conseguiu durante um mês. – sua voz de repente se torna firme e possui um tom severo. Eu posso ver Parker, depois de demorar para digerir as palavras, abrir a boca incrédulo, pensando em um milhão de coisas para rebatê-lo, mas voltando a ficar totalmente impotente quanto ao que Derek disse.
Eu quero gargalhar.
Franklin está desfrutando do próprio veneno. Ele errou feio quando não conferiu que lugar ocupava na tabela hierárquica e agora paga o preço pelo que fez há alguns minutos, segurando-se para não gritar com um dos maiores clientes que tem e imaginando o dinheiro que perderia caso resolvesse bancar o homem mimado de quarenta anos.
Quem foi que disse que o carma era uma vadia?
– Deixe a garota ir, Derek. – Justin diz, ainda muito ocupado virando mais uma folha do contrato que lê calmamente. – Ela já aguentou a babaquice de Parker por muito tempo.
Caralho, esse é o melhor dia da minha vida, e eu nem ao menos comi burritos.
– Mas que inferno! Será que posso falar com ela por um minuto? – Derek revira os olhos, irritado, e olha para o irmão, mas logo sua visão está no meu corpo novamente quando Justin apenas o encara por alguns instantes e movimenta os ombros para cima, dando de ombros e voltando a ler o contrato.
Ele puxa a camisa que usa para baixo, arrumando-a e solta o ar preso nos pulmões antes de abrir o sorriso bonito que já conheço.
Eu derreto.
– Quantos anos você tem?
– Vinte e dois. – respondo na velocidade da luz, ainda sem entender o porquê das perguntas.
Na verdade, eu já teria ido embora se isso não estivesse deixando Parker desesperado. Se eu pudesse dar um conselho ao babaca, diria para ele entrar em aulas de teatro, ele não está sabendo disfarçar seu nervosismo. A mania irritante de tentar afrouxar a gravata branca a cada dois segundos o entrega totalmente.
Pior para ele.
Melhor para mim.
– Imagino que esteja na faculdade. – ele ergue uma das suas sobrancelhas de forma engraçada, enquanto faz uma expressão divertida, e eu quase chego a rir.
– Sim, aceitei esse emprego de merda para ajudar a pagar a mensalidade dela e mais algumas coisas. – não penso duas vezes antes de dizer isso, e Parker finge uma crise de tosse como se estivesse acabado de se afogar com as rosquinhas de baunilha.
Deus queira que isso fosse apenas fingimento, pois se for real, não movo um dedo para chamar a ambulância ou algo que possa ajudá-lo. A única coisa que farei será puxar uma cadeira para perto dele, sentar-me nela e assistir sua morte com muito prazer.
– O desespero faz coisas inacreditáveis, não é mesmo? – assinto com a cabeça, porque é a única coisa que posso fazer no momento. – Mas agora você está desempregada, já sabe o que vai fazer?
– Explicar para a agência de empregos que saí para não cometer um homicídio.
– Você saiu? – meu ex-chefe solta uma risada anasalada e irônica, tentando conter os nervos. – Eu te demiti! – Parker esbraveja novamente, totalmente ofendido e com o ego quebrado, quase sinto dó.
– E eu ainda acho que posso te matar, isso não é engraçado? – cruzo os braços, olhando para ele cheia de maldade e nojo.
Travamos uma guerra de olhares naquele instante. Vomitaria nos seus sapatos sociais agora se me esforçasse mais um pouco.
– Derek, isso não é uma boa ideia. – Justin comenta como se estivesse falando sobre o clima de Pittsburgh, e dou um fim naquela guerra quando olho para os irmãos, colocando todas as engrenagens do meu cérebro para funcionar no mesmo momento.
– O que exatamente não é uma boa ideia? – pergunto em disparada.
Há algo no ar que eu ainda não entendi e, ao perceber isso, começo a me irritar.
– Na verdade é uma ótima ideia. Você parece muito competente. – Derek rebate, olhando o irmão de forma assustadora disfarçadamente.
– Ela não é competente. – Parker volta a pronunciar-se. – Eu a demiti exatamente por isso.
Por que Deus lhe deu a habilidade de falar mesmo?
– Frank, fique quieto. – antes mesmo que eu pudesse abrir a boca para rebater a megera de terno, Derek me interrompe, enquanto mostra a palma da sua mão para Franklin, sinalizando para o próprio fechar a boca.
Esse homem é incrível, mas eu posso mandá-lo fechar a boca sozinha.
– Desculpe, Derek, estou confusa aqui. Sobre o que você está falando? – decido dar continuidade no assunto, ignorando Parker e voltando ao que estava atormentando-me.
Derek abre os lábios para explicar, porém alguém é mais rápido que ele nisso.
– Ele está falando sobre você trabalhar para mim. – ouço uma voz rouca me responder e não demoro muito para buscar com os olhos o dono dela, que se encontra com os pés em cima da mesa e com o celular, que antes estava em suas mãos, guardado.
Sua visão está em Derek quando o vejo, e lentamente aqueles olhos relaxados e despreocupados se dirigem para o meu corpo, transformando-se em algo gélido e analítico. Eu posso ver o julgamento em suas írises quando elas estão duras em mim, como se estivessem buscando algum erro ou imperfeição.
Eu tinha esquecido completamente da sua presença na sala, e, céus! Como pude esquecer?
Paraliso por um segundo, sentindo uma certa tensão se instalar nos meus músculos e um arrepio na espinha acontecer.
acabou de falar que seu irmão estava oferecendo-me um emprego para trabalhar com ele ou eu estou ficando louca, completamente neurótica, digna de tranquilizantes e camisa de força, embora algo me diga que é a primeira opção, até porque Parker tem uma crise de riso, enquanto balança a cabeça de um lado para o outro em negação. E, mesmo que isso seja estranho, quero acompanhar meu ex-chefe babaca na risada que ele está dando, só que sem toda a ironia ou incredulidade que ele demonstra, e sim cheia de nervosismo.
Puro e o mais assustador nervosismo.
Imediatamente estou inquieta, e a culpa é de , que não está demonstrando achar a ideia de me ter trabalhando para ele algo ruim, muito pelo contrário, seus olhos continuam fixos em minha direção, e aposto que a música de algum desenho animado passa por sua cabeça, de tão despreocupado que está, deixando-me concluir que ele aprova o que seu irmão insano tinha proposto.
– Você está olhando-me de um jeito estranho. – ergue uma das suas sobrancelhas grossas e percebo que talvez tenha ficado tensa demais por algo tão bobo.
Queria saber o que ele pensa agora, porque parece que tem a ver comigo, e mesmo que eu não me importe com sua opinião, sou uma criatura curiosa.
– Não, não estou.
Não ouso desviar o olhar, muito pelo contrário, acabo cerrando os olhos em sua direção, transformando isso em algo duro, enquanto tento colocar meus pensamentos em ordem.
Eu posso não ser a melhor profissional do mundo, entretanto sou alguém que gosta de socializar, e se tem algo que fiz desde que comecei a trabalhar para Parker, tirando comprar o seu maldito café, foi conversar com os seus funcionários, o que particularmente foi muito bom nesse tempo.
Em dois dias, eu já sabia como lidar corretamente com Parker e sobre coisas que poderiam aliviar minha barra com ele, assim como também soube de algumas coisas sobre seus clientes, do mais limpo até o mais sujo. Abri a boca muitas vezes quando alguém comentava sobre aquele astro que sumiu porque estava na reabilitação, enquanto os tabloides diziam que ele estava de férias e que tudo isso era obra de Parker. Ele tem controle sobre tudo na vida de seus clientes, desde nutricionista até das manchetes que saíram nas revistas e jornais. O mundo das celebridades é tóxico, e Parker era como um remédio de desintoxicação nesse meio. Não é à toa que ele tem muitos contratos e dentre todos eles está o de , linebacker do Pittsburgh Steelers desde o ano passado, quando foi draftado com apenas vinte e três anos e teve uma linda estreia na defesa do time.
As coisas que ouvi sobre ele em si não são nada demais, todo mundo sempre disse que ele é o mais novo dos , que tenta ser mais reservado – mesmo não conseguindo, a internet não ajuda, e acredito que isso é a única coisa que Parker não consegue controlar –, busca perfeição no que faz, que se meteu em algumas fofocas e escândalos rasos sem nexo algum, algumas brigas em boates e mais algumas coisas parecidas com isso. Mas, além de tudo, diziam que é o mais instável deles, apesar de todo o carisma, o que me fez imediatamente pensar se realmente quero trabalhar para outra pessoa que tem grandes chances de me despertar pensamentos e ações homicidas, por mais que o máximo de ruim que já cheguei a fazer com Parker foi cuspir no seu café.
– É só que isso é...
– Acha que não dá conta? – me interrompe com a frase que transborda desafio.
Quase posso ver o canto dos seus lábios curvando-se para o lado, formando um inútil sorriso ridículo, porém ele não o faz, apenas dá indícios.
Aparentemente ele é muito bom nisso, em dar indícios de algo, mas não o fazer.
– É claro que ela dá conta! – Derek responde por mim. Já amo esse homem com todas as minhas forças, mas sinceramente? Não, não sei se dou conta, uma pessoa ser considerada instável nesta altura do campeonato, para mim, é pior do que ela ser homem. – Ela trabalhou por quanto tempo com você, Frank?
– Três meses. – dá de ombros. – E foram os piores da minha vida, devo acrescentar.
– Isso mesmo, Franklin, aja como se eu não tivesse te livrado de uma intoxicação alimentar e de problemas com o intestino. – rebato, completamente possessa com sua ingratidão. – Sem contar os contratos que era para você ter perdido se eu não fosse te buscar na maldita casa de strip-
– Ok, ela não é tão ruim. – diz, exasperado, em um tom mais alto que o meu, puxando a gravata para baixo mais uma vez.
Consigo ver facilmente algumas gotas de suor aparecendo em seu rosto.
– Nós sabemos que ela não é. – Justin diz após acabar de ler o contrato inteiro e colocar o papel em cima da mesa larga. – Admito que não acho isso uma boa ideia, mas se não achou ruim, que assim seja.
– Em nenhum momento disse que concordei com isso. – interfere. Apesar da frase ter tudo para soar ácida ou grossa, ela na verdade soa bem calma. Ele tem a mesma expressão indiferente no rosto, como se só estivesse ali falando com todo mundo por não ter nada melhor para fazer. – Não sei se ela é qualificada.
Não sei o porquê, mas encarei isso como um insulto.
– Parker não conseguiu achar uma pessoa decente para lidar com você já tem um mês, então acredito que qualificação não é o que você está procurando e muito menos o que precisa, até porque, se fosse, essa conversa não estaria existindo.
É óbvio que sou qualificada, não existe nada que eu não possa fazer, e ele me ofendeu profundamente ao falar isso.
Cruzo os braços e reparo que os quatro estão encarando-me. Derek tem uma expressão orgulhosa no rosto, enquanto Justin apenas está surpreso, Parker me olha com indiferença e se divide em me passar algo como desafio e qualquer outra coisa que não sei e não consigo descrever agora.
Ele é muito intenso, e eu devia ter medido o tom da minha voz, acho que ela saiu ácida demais, o que parece que despertou algo em .
– Isso vai ser interessante. – Justin pronuncia com uma animação bem evidente no tom de voz, mas eu e não nos importamos, apenas ignoramos e continuamos com os olhos fixos um no outro.
– Esse negócio vai funcionar da seguinte maneira: a gente vai tentar por um mês, e se der certo, você fica. – diz.
– Mas não disse que aceitei. – meu protesto soa como se eu fosse uma criança mimada, mas mesmo assim isso não tira a minha razão e muito menos muda esse fato muito importante.
– É melhor dar a resposta logo então, garanto que tem outras pessoas que podem ocupar esse cargo em um instante.
– Não, não tem, e você sabe disso. – respondo seca e seus olhos ficam muito furtivos em mim.
Ele obviamente não esperava por isso, e me pressionar nunca é uma boa opção, espero ter deixado isso claro. Quase posso ouvir Parker dizendo "Eu disse que ela não é boa, você terá que aguentar isso todos os dias, é melhor desistir" como se eu nunca tivesse abaixado a cabeça para todos os seus chiliques de meia-idade. Babaca.
– O que preciso fazer e quanto vou receber?
– Você vai cuidar de toda parte burocrática da vida do , resolver alguns problemas, ler e responder e-mails, não deixar ele se meter em encrenca, e se não conseguir fazer isso, alertar Parker o mais rápido possível. Essas coisas. – Derek dá de ombros, agindo como se fosse algo simples e sem muita importância.
Isso parece um emprego de muita responsabilidade, e eu não sou uma pessoa responsável. Meu cacto está quase morrendo e é a porra de um cacto. Não sou capaz de colocar água uma vez por mês no cacete da planta e eles querem que eu impeça de fazer besteiras quando ele mesmo já tem um longo histórico de fazedor de merda, além de que, segundo os corredores, ele é totalmente instável. É uma completa loucura.
– Basicamente vai ser o mesmo que você faz aqui, só que sem enfrentar os abusos diários de Parker ou de qualquer outra pessoa. Eu não deixaria que fizessem isso. – ele explica, tornando-se em poucos minutos a minha pessoa favorita do mundo.
Direi isso para ele se tiver uma oportunidade.
– Ninguém deixaria. – Justin corrige e Derek ignora, voltando ao foco da conversa.
– Quanto ao salário, cinquenta dólares a hora? – propõe e tem uma risada anasalada minha como resposta.
– Isso é o que já recebo.
E é uma grande miséria, considerando o tanto de dinheiro que eles ganham por mês. Posso não ser uma pessoa totalmente por dentro da NFL e do mundo do futebol americano, porém sempre leio revistas de esportes e, como já disse, andei fazendo minhas pesquisas.
– Eu pago o triplo então. – olho rapidamente para , um pouco assustada.
Vejo-o cruzar os braços e as pernas, soltando o ar dos seus pulmões e deixando que um silêncio se instale rapidamente logo em seguida. Dinheiro não é um problema, ele acaba de me mostrar isso com um tanto de arrogância eu diria.
– Está dentro ou não? – mordo a boca por dentro, esquecendo do tamanho da responsabilidade que estão me dando e questionando as chances de conseguir outro trabalho que chegue perto do que ele vai me pagar. Colocando o recém problema que tenho na balança e toda a minha condição financeira, não demoro muito para ter a resposta e muito menos para me decidir, concluindo que, se eu escolhesse o oposto, seria muita estupidez.
– Apenas não seja um cretino. A partir do momento que começar a agir como um, irei embora.
Estável ou instável, não importa. Vou fazer isso. É o triplo do que ganho e será algo temporário, só até eu conseguir juntar um bom dinheiro caso esse um mês de teste dê certo.
– Isso não vai acontecer, Reden – Reviro os olhos.
Ótimo, já começamos muito mal.
– É Roden. – corrijo-o sem hesitar. Qual o problema desses caras com o ato de decorar nomes? Roden.
Ele pisca lentamente, movimentando o maxilar bem definido de um lado para o outro.
– Isso não vai acontecer, Roden – repete, dessa vez pronunciando meu nome corretamente, enquanto me olha de forma amigável e ao mesmo tempo completamente indiferente.
Assinto, respirando fundo e colocando como nota mental regar meu cacto ao chegar em casa.


INFORMAÇÕES:

Linebacker. É uma posição do futebol americano migas, é da defesa e tal então ele tem que ser enorme. Imagine o Max enorme.
Draftado. É um evento que acontece para recrutar novos jogadores para os times da NFL.


Capítulo 2 - Qual o meu trabalho?


TRÊS SEMANAS DEPOIS


Eu odeio eventos. Toda a ação de se preparar antecipadamente para uma ocasião simplesmente acaba comigo e com todos os meus planos diários que incluem assistir filmes, séries e comer tudo o que tenho vontade. Eu detesto ter que experimentar roupas atrás de roupas e lidar com a indecisão de qual levar, de pensar em penteados para o cabelo, maquiagem, no perfume, na extensão de cílios ideal para aquele tipo de ocasião e todas as outras coisas que tornam as pessoas em seres humanos vaidosos. Eu não faço essas coisas, eu não nasci com esse dom e é exatamente por isso que eu tenho Raven e Breanne, que entendem tudo do que eu não faço a menor ideia, tudo o que eu precisava ter para hoje à noite, e que me matariam ao me ver correndo em um corredor agora, cogitando realmente tirar a única coisa que gostei e fiquei animada para comprar dentre todas as peças e acessórios que uso agora: as botas de cano curto, pretas, de camurça que possuem apenas oito centímetros de salto alto.
Eu verdadeiramente gosto delas, gosto mais do qualquer outra bota que eu tenha comprado em um intervalo de uma semana, o que me faz concluir que estou ganhando muito dinheiro.
Aposto que, em dez anos, se eu abrir uma poupança e começar a guardar uma boa quantidade de dólares, posso dar início a uma possibilidade de começar a ficar rica e, então, comprar um veículo que corra pelos corredores para que eu não precise sentir meus pulmões estourarem ou a lateral do meu abdômen implorar para que minhas pernas parem de se locomover. Eu provavelmente não veria os olhos raivosos de Franklin agora, se tivesse algum carrinho que me fizesse chegar na porta do banheiro em dois minutos também.
Reden. – meu sobrenome soa com muito desgosto e errado propositalmente dentre seus lábios repuxados logo após que ele fecha a porta branca atrás de si, e eu paro finalmente de correr ao chegar na frente da megera de terno impecável e perfeitamente alinhado, colocando as mãos nos meus joelhos nus, enquanto todo o meu interior clama desesperadamente por oxigênio.
Eu deveria fazer exercícios, essa é a sexta vez na semana que fico sem fôlego, e eu nunca pensei que um dia meu sedentarismo iria me prejudicar tanto em apenas seis dias ao ponto de me fazer querer ir para a academia.
– É bom você dizer que o motivo pelo qual só agora estou vendo sua cara é porque você estava no inferno lutando contra anjos e demônios pela antecipação do apocalipse ou participando do filme War Infinity.
Em qualquer outro momento antes dessas três semanas que Franklin Parker ainda pagasse meu salário, eu agora estaria dando mil e umas explicações para ele e torcendo para que o seu tom de voz não ficasse mais rígido e repreendedor do que já está, mas nós não estamos mais nos seus dias de glória, que ele tem passe-livre para pisar em toda a minha mísera dignidade, sem contar que Frank perdeu qualquer respeito da minha parte a partir do momento que saí daquele escritório sendo funcionária do , e não dele, então apenas ignoro a agressividade na sua voz, decidindo, apesar de tudo, tentar ser pacífica e educada com ele pelo menos uma vez nessa semana, enquanto ajeito minha postura e encaro sua formosa expressão irritada.
Nossos últimos encontros foram cheios de ironias, xingamentos, sarcasmo e muitas vezes gritos, o que me deu uma enorme dor de cabeça, uma vez que detesta esse tipo de comportamento e me fez prometer que não cederia novamente às provocações de Parker, então para o meu próprio bem e para o bem-estar do meu emprego, incluindo as botas que compro semanalmente, desta vez Franklin não vai receber uma resposta atravessada minha que pode provocar uma discussão.
– Sim, eu estava no inferno. – uma das suas sobrancelhas se erguem. – Quer dizer, não literalmente, mas pode ser comparado facilmente, até porque você viu o holocausto que está lá for…
– Não me interessa o que está acontecendo ou deixando de acontecer lá fora. – interrompe-me com as palavras quase soando dez quartas mais alta que o normal. – Você não está sendo paga para observar confusão de imprensa, você está aqui para resolver problemas, então me poupe da explicação barata justificando a sua incompetência, entre na merda desse banheiro e faça o seu maldito trabalho.
Minha boca cai quando ele termina de falar, pensando em todas as palavras de baixo escalão que conheço e em como minhas botas poderiam fazer um trabalho maravilhoso chutando sua bunda até o final do corredor, mas antes que eu pudesse decidir qual das duas coisas fazer, Parker ajeita a gravata no pescoço e interrompe qualquer ação minha.
– Quero ele naquele salão, lindo e perfeito como um fodido modelo da Calvin Klein o mais rápido possível. Faça acontecer. – finaliza, olhando-me de cima a baixo antes de sair andando, sumindo da minha frente e deixando-me com muitos insultos presos na garganta.
É ridículo perceber que, mesmo depois dele assinar minha demissão, Franklin ainda age como se fosse meu chefe e eu continuo agindo como a sua funcionária que aguenta suas loucuras insanas e seu ódio gratuito diariamente. Não acredito que por um instante, quando aceitei trabalhar para , achei que estaria livre de Parker, quando na verdade, estou mais próxima dele do que jamais estive antes.
– Saia. – a voz preenche o banheiro assim que abro a porta.
Entro no cômodo e coloco meus olhos nele, assistindo meu chefe encarar a mão fraturada debaixo da corrente de água como se aquilo fosse regenerar os machucados dela ou, até mesmo, deixar a região na sua cor natural. As mangas da sua camisa social branca estão dobradas até os cotovelos e seu casaco preto está largado sobre o mármore escuro.
Ele nem ao menos pensou em fazer um curativo com a caixa de primeiros socorros que permanece intacta e fechada em cima da pia, ao seu lado, e eu não sei se isso é burrice ou apenas estupidez.
– Não posso, minha hora extra ainda não acabou. – respondo simplesmente, ignorando-o e deixando a ironia nítida na minha fala.
Inicio minha vistoria pelas cabines do banheiro, abrindo a porta de cada uma e conferindo se não tinha nenhum paparazzo ou fã com um celular na mão, gravando e tirando fotos dele dentro de uma delas, apesar de saber que Franklin deve ter feito a mesma coisa três ou quatro vezes seguidas enquanto esteve aqui dentro.
, a água não tem superpoderes. Nós já conversamos sobre isso. – ando até a porta, fecho-a e giro a chave, trancando-nos no banheiro após ter certeza que apenas eu e ele estamos ali.
Na última vez que não fiz isso, tive mais trabalho que o esperado quando duas fãs decidiram invadir o local e registrar em seus celulares com o lábio e camisa transbordando sangue. Não sei até hoje como consegui impedir que essas fotos caíssem na internet.
, apenas saia. – sua visão ainda não pousou em mim e nem ousou olhar para outra coisa a não ser a parte do seu corpo debaixo do fluxo de água, então aproveito esse momento para revirar os olhos, enquanto caminho em sua direção calmamente.
– Nós já falamos sobre isso também. Eu não irei sair, nem ao menos posso. Deixe-me me ver sua mão. – paro ao seu lado e tento tirar sua mão da corrente de água sem sucesso, pois ao perceber minha aproximação, puxa elas para o lado e me olha com raiva transbordando em suas irises castanhas.
– Eu mandei você sair! – com algumas notas mais altas que o esperado e possuindo um tom rígido e autoritário, fala novamente, tentando incansavelmente me afastar e deixá-lo lidar com suas próprias merdas sozinho, como se eu fosse deixar isso acontecer ou como se eu fosse uma criança assustada que sairia correndo após seus gritos.
É tão cansativo a sua resistência em todas as vezes que ele arranja problemas, principalmente pelo simples fato que essa resistência vem do estresse e da adrenalina do momento que faz com que sua personalidade piore cinquenta por cento a mais – se possível –, obrigando-me a simplesmente ajoelhar no chão e implorar para que ele me deixe fazer o que preciso e sou paga para fazer.
Eu gostaria que tivesse uma cláusula no contrato que me avisasse disso antes ou, pelo menos, que existisse um manual de como lidar com nessas circunstâncias. Li diversos parágrafos que diziam como eu devo agir perto dele, roupas que devo usar, como devo falar e me referir a ele, que eu não podia deixar vazar nenhuma conversa ou acontecimento, e em nenhum momento, nenhum sequer, lembro de ter algum texto falando sobre seus dias ruins ou o que fazer quando ele decide não deixar as pessoas fazerem o seu trabalho enquanto permanece no seu maior estado de nervos.
Malditas aulas de boxe que não fazem nenhum efeito. Ele deveria cancelá-las. É uma perda de tempo e dinheiro.
Apoio minha mão no mármore e quase bufo ao encarar seus olhos raivosos.
Por que ele não podia simplesmente me deixar trabalhar em paz?
, isso daqui é um banheiro público. – sinalizo com a mão livre enquanto falo. – Você não manda aqui.
– Isso daqui é um banheiro público masculino. – dá ênfase na última palavra. – O feminino se encontra no fim do corredor, e você pode ir para lá.
Eu o odeio com todo o meu ser, com todo o recém-nascido fio de cabelo castanho que tenho. Odeio o fato dele ser um idiota, orgulhoso, insuportável e cabeça dura que consegue me tirar do sério facilmente e, principalmente, odeio-o por ser meu chefe.
Eu não estaria discutindo a minha permanência em um banheiro se ele se chamasse Bryan e não tivesse todos holofotes em cima de si, e com toda certeza eu não estaria desejando para que, pelo menos uma vez, ele deixasse eu fazer a minha obrigação sem precisar implorar, se fosse uma pessoa qualquer.
Ele é tão exaustivo.
, responda-me, qual o meu trabalho? – ele revira os olhos e suspira, demonstrando tédio e fazendo pouco caso da minha pergunta.
Quando eu trabalhava para Parker, pelo menos era levada a sério.
, vá para casa. Eu não preciso de você aqui. – encaro-o incrédula e exasperada.
Ele nem sequer faz o trabalho de se escutar.
– Tudo bem, eu respondo minha pergunta por você. – endireito minha postura. Tenho treinado isso já faz alguns dias. – Eu sou contratada para lidar com seus problemas, com todos eles, isso vai desde o momento que você não consegue cortar as unhas do pé até se você cometer um homicídio. Você sabe o que isso significa, ? – de novo, ele rola os olhos como uma criança mimada que é, e eu acredito que sempre foi.
– Não, Roden, eu não sei o que significa.
– Não tem problema, eu posso explicar para você. – coloco um sorrisinho irônico no rosto, o tipo de sorriso que sei que o irrita. – Significa que todos os seus problemas, são meus problemas. Você não conseguiu dormir? Isso é meu problema, assim como se você não comer, não levantar da cama, não ir trabalhar, não telefonar para a sua mãe, não tomar banho, escovar os dentes, amarrar os sapatos, matar alguém, bater em alguém, não ir ao banheiro, não se vestir, não ter roupa para sair, não ter uma acompanhante disponível…
– Céus, ! Eu já entendi! – ele apoia as mãos no mármore ao me interromper, tencionando seus músculos dos braços, que ficam visíveis mesmo com grande parte da camisa social branca que veste cobrindo-os. Retiro tudo o que disse sobre suas aulas de boxe ao mesmo tempo que aproveito para retomar o ar. Talvez eu tenha me empolgado com a explicação. – E desde quando essas são coisas para se considerar problemas?
– Desde quando tudo isso acontece com você, . – rebato, deixando a agressividade bem notável quando pronuncio o pronome pessoal. – E eu fico feliz que você tenha entendido, porque você com a mão machucada, cabelo bagunçado, roupa amassada dentro de um banheiro, parecendo um indigente, é um problema. O meu problema. Então, por gentileza, deixe-me ver a porra da sua mão e fazer o meu trabalho!
Não sei se o tom que usei para o responder acaba de me fazer perder o emprego ou ganhar o ódio gratuito de , mas de qualquer maneira, parece ter funcionado, já que me olha pelo canto dos olhos, sério e quieto.
Nunca estive tão arrependida de saber que não tem ninguém filmando isso. Eu gostaria de ver o vídeo em que eu, Roden, estouro com , um homem que não tem tantos centímetros de altura a mais que eu – já que estou de salto –, mas que é consideravelmente enorme em questões de circunferência e músculos. Imagino que foi uma cena bem engraçada, principalmente porque acabo de gritar com alguém que, além de ser maior que eu, é meu chefe.
Esse é o momento perfeito para implorar que ele perdoe a palavra feia que falei e que me desculpe pela forma de abordagem, ao mesmo tempo que prometo que isso nunca mais vai acontecer, mas também é o momento que engole seco e fica por um longo tempo em silêncio antes de estender lentamente a mão machucada para mim, com os olhos congelados em um ponto fixo da pia molhada.
A rendição nunca foi tão bonita.
– Obrigada. – agradeço, dessa vez com a voz baixa e dando um sorriso verdadeiro para ele, que não me olha, apenas respira pesadamente com os olhos em todas as partes do banheiro, menos em mim.
Orgulho é uma merda.
Seguro sua mão grande, grossa e machucada. A pele na parte da base dos ossos *metacarpo nos dedos está rasgada e cheia de sangue, formando pequenos machucados, o que não é nenhum desastre, mas é um estrago menor do que pensei que estaria quando o vi começando uma roda de briga com os fotógrafos na parte de trás do estabelecimento.
Deprimente, se eu for dar minha opinião sincera sobre isso, e é claro, assustador. Ver brigar está no topo de coisas que odeio, junto com o rosto das pessoas que recebem seus socos. Só há alguns minutos contei três fotógrafos que sentiram seus punhos no rosto por tentar afastar da pessoa que ele realmente queria machucar, o que me levou a pensar que eu sempre odiei eventos, mas realmente os detesta, abomina todos eles. Só nessa semana, essa é a sexta vez que ele provoca uma confusão em um deles e eu preciso sair de onde estou e fazer o impossível para livrar a sua pele, mas mesmo assim, não consigo considerá-lo babaca por isso, que é o que qualquer pessoa que estivesse no meu lugar faria, mas eu não, não com .
Talvez isso aconteça por causa do que ele fez, oferecer-me um emprego bom, que paga bem e permite que eu facilmente o concilie com a faculdade. Sem contar que nem sei se posso chamar o que faço na maioria dos dias de trabalho, pois eles se resumem em ficar na frente de um notebook, respondendo e apagando e-mails de , atualizando suas redes sociais, agendando coisas na sua agenda, conferindo contratos de patrocínio e mais algumas coisas básicas, coisas essas que faço em menos de três horas, e no resto da tarde, quando não me dispensa, passo criando raiz no seu apartamento gigante, comendo burritos e, às vezes, observando-o treinar na sacada enorme que, graças ao bom Deus, tem portas de vidro que permitem que eu o veja malhar enquanto solto piadas para ele do balcão da cozinha. Dentre todos os momentos, essa é a parte mais interessante do meu dia.
– Você precisa parar com isso. – digo, deixando a mão dele sobre o mármore, pegando a caixa de primeiros socorros e abrindo-a, tirando de lá alguns algodões, álcool, remédio e uma faixa que eu usaria para enrolar sua mão após fazer o curativo.
solta o ar pelo nariz, manejando a cabeça negativamente em silêncio.
– Eu falo sério, . Você precisa parar de socar os outros todo santo dia.
Abro o pequeno recipiente de álcool, despejo sobre uma bolinha de algodão e continuo:
– Nós estamos no século XXI, sabe? Em 2018. As pessoas não resolvem mais as coisas na porrada, o mundo mudou, as mulheres já podem até votar, você sabia disso?
dá uma risada anasalada.
– O machismo, misoginia, violência, desigualdade e o assédio contra vocês já acabaram definitivamente também? – pego novamente sua mão e começo a limpar os machucados com o algodão cheio de álcool, que faz ameaçar dobrar os dedos nos primeiros minutos que coloco a bolinha sobre sua pele.
– Não, mas estamos lutando para que isso aconteça, é por isso que temos o feminismo. – termino de limpar cada um dos quatro ferimentos e começo a enfaixar sua mão assim que coloco outras quatro bolinhas de algodão, dessa vez, com remédio em cima deles.
– Espero que não demore muito.
– Eu também. – dou a última volta com a faixa em sua mão e amarro as duas pontas na parte da palma antes de se virar totalmente para mim.
Passo os olhos por seu rosto um pouco suado, procurando outro machucado e fico aliviada quando não encontro nenhum arranhão na sua face perfeita, primeiro porque não trouxe maquiagem para cobrir qualquer roxo que seu rosto possa ter ganhado e segundo porque Franklin me mataria.
– Você precisa lavar o rosto. – aviso e assente silenciosamente.
Afasto-me um pouco, pensando em como seria torturada se chegasse com o vestido molhado em casa.
se curva sobre a pia, liga a torneira e joga água no rosto, repetindo isso duas vezes antes de desligá-la, quando isso acontece, já estou com uma porção de papel toalha na mão, esperando para ajudá-lo a se secar.
Assim que ele se vira novamente para mim, começo a bater o papel que transformei em uma bola em seu rosto, secando-o, e enquanto faço isso, vejo um vestígio bem pequeno, quase imperceptível de um riso surgir entre seus lábios, na verdade, parece que ele está esforçando-se para reprimi-lo.
– É impressão minha ou você quer rir? – pergunto confusa ao encarar suas írises castanhas.
não sorri, ele não ri verdadeiramente, as únicas vezes que ele faz isso é quando quer ser debochado, irônico e sarcástico, tirando isso, ele é a todo momento sério e parece uma estátua ou um robô. Nessas três semanas ele sequer teve qualquer outra expressão no rosto além de tédio, seriedade, indiferença e irritação, e adivinha, todas elas não envolvem dar sorrisos e gargalhadas verdadeiras, portanto essa ação agora é absurdamente estranha, e eu me assusto quando vejo o sorriso dele se tornar bem notável pela primeira vez nesses vinte e um dias, no mesmo instante que concluo a pergunta.
– Eu posso fazer isso sozinho. – fala simplesmente, como se mostrar todos os seus dentes bonitos fosse algo que ele faz diariamente.
Quero apenas parar o que estou fazendo e ligar para Raven trazer meus óculos de grau o mais rápido possível.
Não acredito que ele acaba de sorrir porque estou secando seu rosto. Eu simplesmente gastei todas as minhas piadas nesses últimos dias à toa.
– Não, não pode. Você não tem o menor cuidado com o seu nariz, coisa que eu tenho. – novamente, um sorriso.
Quase pergunto se ele está fazendo um jogo comigo.
– Roden, você realmente acha que eu vou conseguir me machucar com uma bola de papel?
– Eu não acho, tenho certeza. Você é muito criativo e conseguiria se machucar até com uma inocente pena. – respondo simplesmente e termino de secar seu rosto, jogo a grande bola no lixo e ando até o outro lado da pia para pegar seu casaco logo em seguida.
se vira de frente para o espelho e eu fico atrás de seu corpo, segurando a peça de roupa. Ajudo-o a passar o primeiro braço e depois o segundo pelo casaco, vestindo-o até ele encolher os ombros rapidamente, ajeitando a peça no corpo antes de passar a mão não machucada pelos cabelos, jogando a parte grande para trás.
– Novinho em folha. – deslizo meus dedos pelos seus ombros duas vezes, como se estivesse tirando o pó daquela região, e inclino minha cabeça para o lado, encarando-o pelo espelho. – Nem parece que você iniciou uma roda-punk e estava mais acabado que o Trump minutos atrás. – brinco e dessa vez ele não sorri.
Em nenhuma das vezes ele chegou a sorrir.
apenas rola os olhos como sempre faz quando tento fazer uma piada e volta a ajeitar o casaco no corpo.
– Você conseguiu pegar os fotógrafos antes que algo vazasse? – pergunta.
Que lindo, causou a confusão e só agora demonstra preocupação. é realmente um homem que lida com a sua merda.
– Sim, ninguém viu também. Irei ligar para a Barbie e resolver o resto das coisas com eles agora.
– Ótimo. – ele dá uma última olhada em si mesmo no espelho igual um narcisista horrível que possui espelhos no teto do quarto para se observar transando e, então, fica novamente de frente para mim. – Eles vão perguntar da mão. – solto um suspiro pesado, sabendo que a parte ruim de todo o trabalho é essa: achar uma desculpa para justificar ele estar com a mão enfaixada.
– Você deveria ter pensado nisso antes de socar três fotógrafos. – comento sem pensar duas vezes, olhando para cima e colocando minhas mãos na cintura, mas não sem antes o ver levantar uma sobrancelha, com a expressão séria, e posso dizer que começando a ficar irritado. – Diga que machucou em um treino de luta.
– Eu uso luvas nas aulas de boxe.
– Pois então mude para Muay Thai. – uso um tom óbvio.
Dê-me mais dez minutos e eu saio desse banheiro desempregada.
cruza os braços e joga o peso do corpo na perna direita.
– Eu acho que nós temos que estabelecer limites e reforçar os papéis nessa relação. – engulo seco.
Detesto a liberdade que a minha cabeça acha que existe entre a gente, se eu não tivesse colocado isso na mente, meu emprego não estaria em jogo por conta da minha falta de noção.
– Estou totalmente de acordo, mas podemos fazer isso outro dia. – seguro em seus ombros e viro seu corpo, começando a enxotá-lo em direção à saída. – Agora você precisa entrar naquele salão e participar do evento, as pessoas já devem estar comentando da sua ausência.
Consigo levá-lo sem dificuldade até o momento em que chegamos na porta e eu a abro, pronta para tirar dali se ele não tivesse decidido endurecer o corpo, travando em frente à madeira e fazendo com que eu passasse a colocar força nos meus braços para fazê-lo sair do banheiro.
Ótimo, agora ele vai se negar a ir no evento, mas nem por um caralho eu vou deixar isso acontecer!
, pare de me empurrar! – protesta, deixando o corpo mais rígido. – Não vou ainda.
– Você vai sim, você precisa ir agora. – estico meus braços sobre suas costas e tento dar alguns passos, mas não consigo, pois além das minhas botas deslizarem facilmente pelo chão, ele agora está com as duas mãos espalmadas uma em cada lado da porta, mesmo com uma delas machucada.
Eu não acredito que estou tentando obrigá-lo a fazer isso. Mais uma coisa que o contrato não diz: que além de lidar com a sua instabilidade, eu teria que ser mãe de uma pessoa dois anos mais velha que eu, mas que tem a mentalidade de uma criança de dez anos.
– Não, eu não preciso. – rebate. – Eu mandei você parar de me empurrar! – estou esmagando seu casaco com as minhas mãos, que estão firmes na parte de trás dos seus ombros.
– Eu paro quando você sair! – grito entre gemidos pela força que coloco contra o enorme corpo de .
Nem que eu tenha que me transformar em um trator. Ele. Vai. Sair.
Tiro minhas mãos dele apenas para colocar os fios do meu cabelo que caíram no meu rosto atrás da orelha e decido tentar pegar impulso e pisar com firmeza no chão antes de colocar mais força nos braços para conseguir enxotá-lo.
Não deve ser difícil fazer ele passar por aquela porta à força. Ele só pesa 107 kg.
Dou alguns passos para trás, preparando-me para executar meu plano, porém, quando corro, tropeçando nos meus próprios pés, em direção às suas costas para voltar a empurrá-lo para fora, fecha a porta e se vira de frente, fazendo com que o único resultado que eu obtenha é seu corpo contra madeira.
Eu o odeio.
, abra a porta! – grito, tirando as mãos dele e dando um passo para trás, afastando-me. – Você precisa ir para lá, é o evento do seu patrocinador, ficar trancado no banheiro não é uma opção! – tento abrir a porta mesmo com ele encostado sobre ela e impedindo, pelas leis da física, que isso aconteça.
Parker iria me matar e a culpa seria dele!
, pare! – grita, segurando meus pulsos com cuidado e puxando meu corpo para ele, deixando-nos frente a frente. – Pare de agir feito louca! – ele encara meus olhos verdes e eu consigo captar sua pequena irritação.
Estou respirando pesadamente e meu peito sobe e desce sem parar.
Se eu não for demitida agora, não serei nunca mais.
– Eu vou ir, ok? Eu. vou. ir – repete pausadamente. Deixo minhas sobrancelhas em linha reta, confusa. Se ele vai, por que está fazendo essa cena? – Eu só preciso de um minuto, um mísero minuto. Dê-me isso e então eu irei, tudo bem? – abro a boca, indignada.
precisa urgentemente de aulas de comunicação humana.
– Por que você não falou antes? – pergunto, e ele me solta lentamente, afrouxando os dedos em meus pulsos.
– Antes em qual momento? Na hora em que você tentava me fazer sair a força enquanto gritava comigo?
– Você começou a gritar primeiro. – defendo-me.
Nós realmente precisamos mesmo estabelecer limites e reforçar os nossos papéis, sinto que estou ultrapassando e invertendo tudo.
– Bom, você estava empurrando-me para fora como uma louca.
– Eu estava fazendo o meu trabalho. Você sabe o que Parker faz comigo se você não aparecer naquele salão?
– Parker não é seu chefe. – rebate, duro. – E mesmo que fosse, ele continua não tendo o direito de fazer algo, você deveria saber disso. – eu quase abaixo a cabeça, sem saber o que dizer.
Na verdade, é melhor que eu não diga nada mesmo, pelo bem das minhas botas e dos meus boletos pendentes. Apenas desvio os olhos do seu rosto, cruzando os braços e ficando quieta.
– Nunca mais faça isso. – depois de um longo tempo em silêncio, com apenas o som da nossa respiração preenchendo o local, volta a falar.
– Não vai mais acontecer. – garanto, com a voz baixa.
Ele suspira, desencostando-se da madeira e puxando o casaco preto para baixo, arrumando-o.
– Eu vou agora. – abre a porta e para no meio da passagem, voltando a me encarar. – Você está liberada, pode ir para casa, apenas ligue para Barbie pedindo que ela deixe todos os contratos prontos para amanhã.
– Ok, farei isso. – assente levemente, olhando-me.
– Tudo bem então. – respira fundo. – Boa noite, .
– Boa noite, . – respondo e ele finalmente sai.

INFORMAÇÕES:

Metacarpo. É a parte do esqueleto da mão, fica entre o carpo e os dedos. Basicamente são os ossos que, quando a gente fecha a mão, ficam bem visíveis na parte do punho.


Continua...



Nota da autora: Hm, oi. Eu nunca sei o que escrever aqui então vou ser bem direta (vou tentar pelo menos). Segundas Intenções já estava na minha cabeça já faz mais de um ano e com o projeto Nós existimos do site finalmente consegui colocá-la em prática com a ajuda da fabulosa Maria Clara (beijo miga, tu é dezzzzz. LEIAM TOUCHDOWN AQUI NO SITE). Então eu espero que vocês tenham gostado desse primeiro capítulo extenso demaaaais e que continuem acompanhando. Agradeço quem leu e já gostou e quem tá lendo essa nota aqui agora hahaha (as vezes dá preguiça e eu não julgo). Enfim, não deixem de comentar o que acharam, o feedback é absurdamente importante para a continuação da história (nem que seja um: af, atualiza logo! Isso já ajuda muito) e espero ver vocês nos próximos capítulos.
Se ficou alguma expressão que vocês não entenderam, é só comentar que eu explico (ou deixo vocês ainda mais confusas, depende).
Eu também tenho redes sociais que vocês podem bater aquele papo maroto comigo e grupo no facebook para receber spoliers e cobrar agressivamente a atualização, então se quiserem participar do meu grande desfecho, vou deixar todos os links abaixo.
Beijinhos e abraços. Dani.




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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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