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Última atualização: 06/12/2018

Prólogo


Aquele, definitivamente, era o lugar onde gostaria de estar. No lugar dele. Era onde ela pensava que deveria estar. Enterrada, junto com a sua culpa. Junto com o seu egoísmo. Mas assim seria fácil demais, ela realmente sentia que merecia aquela dor que estava sentindo. Perdeu a única pessoa pela qual foi capaz de nutrir um amor verdadeiro, mas nem mesmo esse amor foi o bastante para se tornar alguém melhor o suficiente para ele. E era esse o pensamento que pairava sobre ela, ali, caminhando em direção ao túmulo recém aberto de Dylan, cuja vida lhe foi tirada precocemente, de forma cruel.
O motivo da briga era idiota, como sempre: seus ataques histéricos de ciúme e a sua forma impulsiva de agir. Mas, naquele dia, tudo parecia ser pior. Cada toque, cada palavra dita, tudo remetia a ela a sensação de ser a última vez. De que, ao cruzar aquela porta, ele iria embora. O que ela só não sabia é que não teria mais tempo para se desculpar, pois Dylan estava indo embora para sempre.
Até agora a ficha pareceu não cair. tinha pessoas incríveis ao seu lado, que tentavam a todo custo amenizar sua dor, mas isso não era suficiente, levando em consideração a culpa que agora sentia crescer assustadoramente dentro de si. Lilly e Robert, que sempre a acolheram como uma filha desde que Dylan e ela assumiram um relacionamento para a família, faziam questão de lhe dizer o quão amada era pelo filho deles, e que ela não poderia se culpar pelo acidente, pois fora uma fatalidade. Mas foi saindo da sua casa e batendo a porta com força. Foi correndo com aquela moto em um dia chuvoso. Como ela poderia ter permitido? Como poderia não ter ido atrás enquanto era tempo?
Eles, sim, eram fortes. Muito mais fortes do que . Sofriam a perda de um filho e, em vez de odiá-la, ainda tentavam fazer com que ela se sentisse melhor. E pior, ainda conseguiam pensar no próximo, enquanto ela continuava caminhando lado a lado com seu egoísmo. Ela ainda não havia aceitado bem o fato de Dylan ter sido mutilado. De que uma parte dele, a parte que era única, o tesouro mais precioso que ele tinha, pertencia agora a outra pessoa. Ninguém era digno de ter consigo os sentimentos dele. A vida dele. Os sonhos dele. Porque, na maioria dos casos, era isso o que acontecia quando era decidido doar um coração a alguém. Suas vontades, seus planos, suas habilidades, tudo isso brotava como mágica no receptor. Se ao menos soubesse a quem pertencia o coração de Dylan agora, mas o receptor não poderia ser informado por questões éticas e talvez até emocionais. Mas nem isso seria o suficiente para cessar a culpa e a dor que ela carregava consigo naquele momento, segurando uma rosa branca e prestes a dizer as suas últimas palavras para ele.
sentiu cada mísera parte do seu corpo doer, estava sem forças para encarar o que viria a seguir, mas precisava manter-se de pé para assistir ao ato final. Aproximou-se do túmulo sob o olhar atento das muitas pessoas presentes ali e se ajoelhou, encarando o caixão já dentro do grande buraco e se permitindo chorar.
– Espero que me perdoe por ter sido uma completa idiota, Dylan… Se não fosse por minha teimosia em insistir numa briga sem fundamentos, você ainda estaria aqui, com vida. Eu nunca vou me perdoar por isso, nunca. – ela sussurrou, apertando a rosa contra o peito e sentindo o ar lhe faltar. – Eu não sei o que vai ser de mim agora, mas prometo tentar ser alguém melhor do que fui pra você, está bem?
Tudo o que se podia ouvir eram soluços e choros incessantes, que carregavam um misto de tristeza e dor e pouco a pouco atingiam como se fossem milhões de facas afiadas. E, acredite, ela queria que fossem.
sentiu uma mão pousar em seu ombro e virou-se para ver quem era.
– Sinto muito, querida, mas não podemos adiar mais esse momento. – Robert, pai de Dylan, dirigiu-se a ela com Lilly ao seu lado.
Era impossível descrever a sensação de ver o estado em que os dois se encontravam. Dylan era filho único do casal e sentiu-se muito culpada por aquilo.
– Eu não consigo me despedir dele, não… – tornou a chorar, sentindo o ar sumir dos pulmões e a cabeça pesar.
Lilly, que não estava um pouco melhor, a abraçou e afagou seus cabelos num gesto de carinho. Tinha como uma filha e sabia que ela nunca seria capaz de fazer algum mal ao filho, e que tudo ocorrera como uma fatalidade. A vida era mesmo assim, incerta e cheia de idas e vindas. Não havia nenhum culpado na morte de Dylan.
– Nós precisamos deixá-lo ir, está bem? – Lilly enxugou as lágrimas do rosto da garota e ela assentiu, em silêncio.
Não tinha mesmo mais nada a se fazer, a não ser aceitar que Dylan agora pertencia a outro mundo e que, se desse sorte, ela o encontraria em seus sonhos. segurou a mão de Lilly e beijou a rosa, jogando-a em cima do caixão. Era o momento mais difícil, mas estavam juntas e era isso que importava.
– Eu sempre vou amar você, Dylan…


Um


saiu de casa percebendo uma grande movimentação do outro lado da rua. Um caminhão de mudanças estava estacionado em frente à casa que estava desocupada havia um bom tempo e agora estava sendo ocupada por uma nova família. Ela avistou uma garotinha que aparentava ter uns sete anos correndo na calçada com um labrador em seu encalço e sorriu fraco. Era tão estranho imaginar que um dia comum poderia representar sensações diferentes para cada pessoa. Enquanto, do lado de cá, ela estava sentindo-se deprimida pelo aniversário de morte de Dylan; do outro lado, pessoas comemoravam, talvez, um recomeço.
Queria dar as boas vindas àquelas pessoas, mas não estava em um de seus melhores dias para tal feito, já que não tinha vontade nenhuma de sorrir, então se limitou a acenar para a garotinha, que agora lhe encarava com um grande sorriso no rosto.
entrou no carro e deu partida. Dirigiu até o cemitério, como fazia todos os meses na data da morte de Dylan, com o pensamento longe e melancólico. Odiava interagir com as pessoas – exceto Lilly – naquele dia, então passava algum tempo no cemitério e depois se permitia passar o resto do dia em casa, chorando e se culpando pela morte do noivo. comprou algumas flores na floricultura ao lado do cemitério, como de costume, e entrou. Caminhou até a sepultura de Dylan, onde Lilly e Robert estavam sentados.
, minha querida! – a mãe de Dylan sorriu docemente ao ver a garota se aproximar.
– Oi, Lilly. – a abraçou ternamente e sentiu uma vontade súbita de chorar. Ainda se culpava pelo fatídico dia do acidente e sabia que demoraria a conseguir superar.
– São flores lindas. – Lilly disse, tomando o ramo das mãos da garota, que agora passava a mão pela foto de Dylan na lápide. Nunca mais o veria sorrir daquela maneira, a não ser pelas fotos que guardava dele com tanto carinho e que ajudavam a matar a saudade quando ela apertava forte em seu peito.
– Peço que me perdoem, eu tirei uma parte de vocês e nunca vou conseguir conviver com essa sensação horrível dentro de mim.
se encolheu e escondeu o rosto com as mãos, não conseguiu controlar o choro que veio a seguir e Robert a olhou com pena. Não queriam de modo algum que a garota se sentisse culpada pela morte do filho e tentavam a todo custo demonstrar isso a , mas era difícil quando ela já tinha acreditado naquela ideia.
, olhe para mim. – Lilly segurou o queixo da garota, fazendo com que ela a encarasse com os olhos vermelhos por conta do choro. Beijou o topo da cabeça de e a abraçou com força, tentando fazer com que ela se sentisse acolhida e que aquele pensamento ruim sumisse. – Nós nunca culpamos você, ok? Foi uma fatalidade e ninguém tem culpa de nada. Você precisa tirar isso da sua cabeça e seguir a sua vida livre desse sentimento que só está te destruindo por dentro.
encarou a lápide à sua frente por alguns segundos, enquanto Lilly trocava as flores murchas pelas novas, e um pensamento lhe veio à mente.
– Vocês algum dia quiseram conhecer a pessoa que recebeu o coração do Dylan? – perguntou, deixando ambos surpresos com o questionamento.
Um ano havia se passado e nunca havia tocado no assunto. Não era contra, mas na época ficara tão abalada que mal conseguia raciocinar direito sobre o assunto.
– Nunca soubemos. Lilly e eu preferimos não saber na época, pra evitar dependência emocional, sabe? Isso poderia influenciar de forma negativa na vida do receptor, nós não estávamos preparados e nem sei se estaremos algum dia. Mas me conforta saber que Dylan ajudou alguém. Ele foi importante. Deixou uma marca nesse mundo e sempre será lembrado por este feito grandioso. – Robert respondeu, com os olhos brilhando de orgulho.
– É tão injusto que Dylan precisou ter morrido para alguém continuar vivendo e talvez seja muito egoísta da minha parte pensar assim, mas eu espero que essa pessoa esteja aproveitando cada segundo da sua vida, porque Dylan com certeza estaria. Ele tinha muitos sonhos. – enxugou o rosto com a manga da camisa e repôs uma flor que caiu de dentro do vaso em cima da sepultura.
– Não pense dessa forma, minha querida, só imagine o quanto Dylan ficou feliz por ter salvado a vida de alguém. Você, melhor do que ninguém, sabe o quanto ele gostava de ajudar as pessoas. Então, onde quer que essa pessoa esteja, eu tenho certeza que ela é grata ao nosso menino por isso. – foi a vez de Lilly pronunciar-se sobre o assunto, e sorriu largo pela primeira vez naquele dia.
Nunca tinha parado para pensar na importância da doação de órgãos. Quantas pessoas morriam na fila de espera diariamente? Quantas pessoas precisavam manter viva a esperança de que encontrariam alguém compatível para realizar a doação? Quantas vidas poderiam ser salvas se os familiares se conscientizassem de que havia muitas pessoas esperando por um doador? admirou-se da atitude de Lilly e Robert, por pensarem em outras pessoas quando estavam dilacerados por dentro. E tinha certeza que, onde estivesse Dylan, se orgulhava dos pais.
– Tenho pensado nisso nos últimos dias, fico me perguntando se quem recebeu também sente curiosidade em saber sobre Dylan ou conhecer sua família, e se, depois do transplante, adquiriu algum hábito que ele tinha. Já li em alguns lugares que isso é possível. – disse e Lilly apertou sua mão carinhosamente.
– Talvez sim, mas não se apegue a isso, está bem? Não fique dependente da ideia de que uma parte importante dele está agora em outra pessoa, pro seu próprio bem. – Lilly concluiu. assentiu e pensou que talvez fosse bem melhor o receptor não ter aparecido na época. Não sabia se poderia lidar bem com esse fato, afinal não era Dylan, e sim alguém que carregava apenas uma parte dele, uma parte importante dele.
– Obrigada por tudo, eu nunca conseguiria passar por tudo isso sozinha. – puxou Lilly e Robert pra um abraço coletivo carregado de amor.
– Você é como uma filha pra nós, . Sempre serei grato por você ter cuidado de Dylan e por ter sido tão companheira dele, você fez meu filho muito, muito feliz, saiba disso.
sentiu seu coração aquecer ao ouvir as palavras de Robert e por um momento pensou que estava na hora de desapegar do luto. Não que fosse esquecer Dylan e tudo o que viveram, isso era impossível, mas um ano se passara desde a morte dele e tudo o que ela fazia era se culpar e chorar. Ele fazia tanta falta e só Deus sabia o quanto desejava tê-lo com ela, concretizando todos os planos que fizeram juntos para o futuro, mas por algum motivo ele se foi e ela precisava aceitar. Estava na hora de se libertar do fantasma da culpa e de todos os pensamentos sombrios que lhe ocupavam a mente todos os dias. Dylan, onde quer que estivesse agora, gostaria de vê-la sorrindo.
– Eu sempre vou amar você. – disse sobre a lápide e passou a mão carinhosamente pela foto de Dylan, enquanto Lilly observava, com lágrimas nos olhos, aquela cena.
Sentia saudade do único filho, mas tinha a plena certeza de que ele tinha cumprido sua missão na terra e que fez feliz todas as pessoas que conviveram com ele de algum modo. Dylan foi seu maior presente e era grata a Deus por ter convivido com ele vinte e três anos, foi uma dádiva e jamais poderia reclamar disso.
se despediu, com a plena certeza de que nunca o deixaria para trás. Apenas se permitiria ser feliz, longe de qualquer culpa e sentimento ruim.

Naquela noite, enquanto lia um livro qualquer na tentativa de distrair sua mente da melancolia, ouviu algumas vozes vindas do andar de baixo e sentiu curiosidade, já que seus pais não haviam falado nada sobre terem convidados para o jantar justamente naquele dia, pois sabiam que ela preferia o silêncio nessa data. Ao chegar ao topo da escada, viu a mesma garotinha que estava do outro lado da rua brincando com o cachorro sentada no sofá e rindo de algo que seu pai falava. Ela era tão linda e o som da sua risada contagiava qualquer um, então, sem nem pensar, desceu as escadas, deixando os pais surpresos.
, querida. Acordamos você? – a senhora perguntou, preocupada.
Especialmente nessa data, evitava ao máximo incomodar com qualquer coisa e estava acostumada em não ter a presença dela durante todo o dia nas refeições.
– Eu só estava lendo um livro, não se preocupe. – ela sorriu, transparecendo uma animação que seus pais não estavam habituados de um ano para cá. Talvez fosse a presença de Charlotte, aquela menina contagiava a todos com a sua alegria. – Mas e essa menina linda, quem é?
– Sou Charlotte, sua nova vizinha. – a garotinha disse, sorrindo, e estendeu a mão para , que achou o gesto adorável.
– Sou e é um grande prazer ter você como vizinha, sabia? – Charlotte sorriu largo.
, estes são Gray e Cece, avós da pequena Charlie, acabaram de se mudar para a casa aqui da frente. – Lauren os apresentou e estendeu a mão para ambos, sorrindo simpática.
– Seus pais foram tão gentis em nos receber aqui, são pessoas adoráveis, e Charlie está adorando a nova casa, não é, querida? – a garotinha balançou a cabeça positivamente.
– É bem grande e eu posso brincar com o Flynn, meu cachorro. Vovô disse que vai construir uma casa pra ele e eu mal posso esperar pra ver. – a garotinha disse, animada, para os presentes na sala.
– Será que eu posso conhecer Flynn qualquer dia desses?
sentou ao lado da menina, no sofá, que pareceu ainda mais animada ao falar do labrador. O cachorro era sua companhia desde que tinha três anos, fora um presente dado pelo pai e, desde então, Charlie não desgrudava mais do animal.
– Claro, tenho certeza que Flynn e você serão bons amigos. Você gosta de brincar? – Charlie questionou.
– Filha, creio que já tenha passado da idade de brincar, não acha? – a garota fez careta e protestou, afinal não era tão velha assim.
Tudo bem que algumas rugas já insistiam em aparecer, mas ainda assim não era algo grandioso. Riu com seus próprios pensamentos e Charlie a olhou com a sobrancelha arqueada.
– Bom, não tenho a mesma disposição que você e Flynn, mas eu gosto de brincar, sim, e qualquer dia desses posso levar vocês no parque, o que acha? – Charlotte a olhou surpresa e bateu palmas animadas.
Gray e Cece estavam radiantes com a recepção de à pequena, já que queriam ao máximo fazê-la não pensar tanto na ausência da mãe e se acostumar com a mudança sem tanta dificuldade.
– Meu pai pode ir também, ? Ele chega de viagem amanhã e vai adorar brincar com a gente também. – a menina perguntou, sem tirar sequer um segundo o sorriso dos lábios.
– Se seu pai for tão legal quanto você é, ele pode ir, sim! – Charlie sorriu de uma forma que fez o coração de se aquecer e seu interior se encher de carinho, como nunca havia sentido antes por nenhuma criança. Sabia, apenas olhando para ela, que Charlie era especial de alguma maneira e que elas se tornariam grandes amigas dali em diante.
Pensou em como gostaria que Dylan a tivesse conhecido também, já que ele era um grande apaixonado por crianças. Não era à toa que se dispôs a dar aulas de desenhos de graça para crianças carentes do seu bairro. Dylan mantinha um carinho muito grande por todas elas e elas por ele, e não conseguia imaginar como elas estariam sem ele por perto, já que fora egoísta demais para se fechar em seu mundo, vivendo o luto dia após dia, e se esquecera que elas também precisavam de apoio. Sabia por Lilly que as crianças perguntavam por ela e que sentiam sua falta, mas nunca tivera coragem de ir até lá vê-las e dizer que tudo ficaria bem novamente, já que nem ela mesma tinha essa certeza. Mas, naquele dia, um ano após a morte de Dylan, prometeu a si mesma que iria voltar a sorrir e deixar de lado a covardia que a fazia fugir do mundo lá fora.
Depois de mais alguns assuntos descontraídos, Charlie despediu-se e seguiu com seus avós para sua nova casa. E, por algum motivo, aquela garotinha tinha trazido, não só para aquela data, mas para a vida de , uma leveza sem explicação. A leveza de que ela tanto precisava. Crianças costumam ter o dom de despertar o que há de melhor, até mesmo em quem pensa não ter esse melhor dentro de si.
Para a surpresa de seus pais, havia decidido jantar com eles naquela noite. Contou a eles sobre as palavras de Lilly e até mesmo sobre sua vontade de reagir, que crescera ainda mais com a chegada de Charlotte. O que ela só não contou, porém, era sobre a curiosidade que estava a consumindo para descobrir quem seria o receptor do coração de Dylan. Sabia que não deveria se apegar a isso, mas, ainda assim, era o que ela queria. E não iria desistir de conseguir essa informação, ainda que sem nenhum apoio, custe o que custasse.         

XXX


acordou sobressaltado, sentindo o coração bater mais forte depois da última e mais cansativa noite de trabalho daquela semana. Estava exausto e quase pronto para dormir novamente, quando se deu conta do horário. Precisava desocupar o quarto alugado para ele pelo último contratante até às dez horas, o que só lhe dava direito a mais meia hora para tomar o café oferecido e recolher suas coisas. Pensou em reclamar para si mesmo, mas deu lugar à gratidão ao lembrar-se de que não eram todos que tinham para com ele este ato de gentileza e, muitas vezes, o dinheiro para dormir e comer antes de poder voltar para casa precisava sair do seu bolso.
Cantar pelas noites das cidades da Califórnia até altas horas era no que ele realmente gostava de trabalhar. Embora ainda não fosse muito conhecido, tinha contatos que sempre procuravam por ele, seja para tornar os jantares dos casais apaixonados mais agradáveis com lentas melodias, seja para agitar e sacudir o público nas mais badaladas festas. Ele sempre sabia o que o público queria ouvir e esse era seu grande ponto forte. Havia se formado em direito, mas sua paixão pela música sempre falou mais alto do que um diploma e uma carreira aparentemente estável. Também, não ganhava tão mal com os shows que fazia, já que costumava conseguir pelo menos três noites seguidas de trabalho nos finais de semana, e aproveitava a luz do dia para procurar novos estabelecimentos interessados em escutá-lo. Era o suficiente para cobrir suas despesas e, sendo assim, não tinha porque abrir mão do que realmente gostava.
Mas, depois de longas tentativas, aquela seria provavelmente a última vez que precisaria viajar pelo seu trabalho. Tinha dado a grande sorte de conseguir um lugar fixo para cantar em San Francisco, e, embora sentisse falta da estrada, a essa altura, mal podia esperar para conhecer a casa nova e saber como sua pequena Charlie estava se adaptando a ela. Ajudá-la a suprir a falta de uma mãe falecida durante o parto, tendo de passar dias longe de casa, não era lá a tarefa mais fácil, por isso passar mais tempo perto dela e ainda ter a certeza de seu sustento garantido toda semana foi o suficiente para que não pensasse duas vezes antes de aceitar a proposta e mudar-se de vez de East Bay. Charlotte sempre foi bem cuidada pelos avós paternos e o apoiava incondicionalmente, mas, ainda assim, ele não gostava da ideia de se sentir um pai ausente para alguém que tanto precisava dele. Ele sempre fazia questão de mostrar a ela fotos de sua mãe, e contar sobre o quão incrível Jullie era e como a amava mesmo antes de ela nascer. Jullie foi a última mulher por quem se apaixonara, passando os últimos sete anos dedicando-se à Charlotte e sua música.
Já passava do meio-dia quando estacionou o carro em frente à sua nova casa, no bairro Richmond, em San Francisco. Tinha um jardim grande, do jeito que Charlie desejava, e o bairro era tranquilo, segundo indicações. Cuidara pessoalmente da decoração, então nada poderia estar mais perfeito do que estar em seu novo lar e ao lado das pessoas que mais amava na vida.
O homem desceu do carro, foi até o porta-malas e tirou sua bagagem. Caminhou até a entrada da casa e girou a chave na fechadura. Logo viu Cece e Charlie vindo em sua direção.
– Meu filho querido! – ela o abraçou calorosamente.
– Papai! Papai! – Charlotte corria, eufórica, na direção de , que abriu os braços para envolver a garota em um abraço caloroso.
– Oi, princesa, que saudades de você. Gostou da casa nova? – perguntou enquanto passava a mão pelos cabelos loiros da menina.
– Eu adorei! Não poderíamos ter escolhido casa melhor. – Charlie completou, batendo palminhas. A felicidade dela era capaz de contagiar qualquer um e, para ele, não havia nada melhor no mundo do que vê-la alegre.
olhava para os lados, buscando observar bem o local, enquanto Charlie se divertia com Flynn. Aquela era uma casa bonita, diga-se de passagem. Não era a mais luxuosa, mas também não fazia questão que fosse. Tinha aquele cheirinho de lar, era reconfortante e estava de bom tamanho para a faixa de preço que haviam conseguido. Era tudo o que ele precisava. Um lugar para recomeçar, a oportunidade de enfim estabilizar sua carreira e, por mais que lutasse consigo mesmo para admitir, podia ser a chance de estabilizar sua própria vida também. Afinal, já estava mais do que na hora e aquele sempre fora o desejo de Charlie, alguém que pudesse dividir com ela suas experiências e todos aqueles assuntos das quais ela só se sentiria a vontade para conversar com outra mulher. Sabia que não era exatamente assim com Cece, por mais que ela amasse muito a avó, queria alguém para viver com ela momentos de mãe e filha como nunca tivera. se sentia feliz por saber que a filha não era do tipo que ficaria contra um possível casamento. No entanto, a verdade é que , embora procurasse, não havia conhecido até então alguém que lhe chamasse verdadeiramente a atenção. Já tinha vivido seus romances de uma noite, considerando a vida que levava. Mas nunca passava disso. Ninguém conseguia derrubar a barreira que, sem perceber, ele havia criado entre si mesmo e o amor.
O dia por ali não prometia menos do que animação e muitos passeios. Durante o almoço, contou sobre o sucesso dos shows do final de semana para Charlie e seus pais, que o ouviam com atenção. Todos se sentiam felizes pelo contrato que ele conseguiu fechar em San Francisco e não escondiam a mútua felicidade em poder tê-lo sempre por perto dali em diante.
– Papai, tem uma amiga que quero que conheça. Ela é nossa vizinha da frente e prometeu me levar ao parque. E, se você for tão legal quanto eu, ela te leva também. – Charlie repetiu as palavras de , fazendo gargalhar.
– Vou adorar conhecê-la. E claro que sou tão legal quanto você, você herdou isso de mim, esqueceu? – a menina assentiu, sapeca, e a abraçou de lado.
e Charlie se deram muito bem, a moça é um encanto e os pais dela são pessoas muito receptivas, sabe, filho? Estivemos lá ontem à noite. – Cece acrescentou e pareceu surpreso. Estava curioso em conhecer a garota que estava arrancando elogios de sua filha e de seus pais.
– Ela é muito bonita também, com respeito ao meu docinho aqui. – Gray foi categórico e Cece sorriu docemente para ele.
– Eu já estou curioso pra conhecê-la! – disse e Charlie sorriu, batendo palminhas animadas.
– Pai, me leva pra tomar sorvete? – a garota pediu. – Podemos convidar a e assim vocês se conhecem, certo?
O brilho nos olhos de Charlotte não deixava negar o pedido da filha, então ele concordou, deixando Charlie animada. Mas, antes que pudesse responder, a campainha foi tocada e Flynn começou a latir. levantou-se, foi até a porta e, ao abrir, deparou-se com .
– Olá! – ele disse e lançou-lhe um sorriso, já imaginando quem ela era.
– Ahn, oi. Sou ! – ela retribuiu o sorriso e estendeu a mão para cumprimentá-lo. – Charlie está?
– Está sim, almoçando, quer entrar?
– Ah, meu Deus, eu cheguei em uma hora errada, né? Perdão, eu posso voltar depois e…
– Está tudo bem, de verdade! – riu da expressão de e deu passagem para que ela entrasse. – Entra, por favor, vou chamar Charlie.
pigarreou, sentindo-se um pouco sem graça por estar atrapalhando o almoço da família, mas sorriu largo e lançou-lhe um olhar terno, fazendo com que ela cedesse e entrasse na casa, logo sendo recebida por Flynn.
– Flynn, deixe de ser tão abusado! – ralhou de brincadeira quando o labrador se deitou de barriga para cima aos pés de , indicando que queria carinho na barriga. A garota riu e logo se abaixou, acariciando Flynn. Ele era mesmo muito folgado.
Mas, antes que pudesse chamar pelo nome de Charlie, a garota veio correndo até a sala, feliz por ver ali.
– Charlie! – elas se abraçaram sob protestos do labrador, que arranhava a sua pata direita na perna de , pedindo mais carinho, certamente.
cruzou os braços e riu, assistindo àquela adorável cena bem no meio da sua sala de estar. Mal conhecia , mas de uma coisa tinha certeza: já a adorava só pelo fato de tratar Charlotte tão bem.
, você já conheceu o meu pai? – a menina ajeitou uma mecha de cabelo solta do rabo de cavalo de e achou aquilo tão adorável que teve vontade de apertar a filha.
Ela era uma criança muito amável, mas era muito observadora também, o que fazia com que ela demorasse um pouco a deixar as pessoas se aproximarem tanto dela, assim, de imediato. Charlie era bem sensitiva e não era qualquer um que a conquistava logo de cara, o que o fez pensar que era mesmo uma boa pessoa. E muito bonita também.
– Conheci, sim, e o Flynn também! – voltou sua atenção ao cachorro, que não parava de arranhar a pata em sua perna, implorando por atenção.
– Ele gostou de você, sabia? – atraiu a atenção de para ele e seus olhares se cruzaram por um breve momento, deixando-os um pouco sem graça. Charlie pareceu não perceber, já que começou a tagarelar sobre o convite que ela e seu pai queriam fazer à .
– Papai prometeu me levar pra tomar sorvete e disse que podemos levar você também. – Charlie comentou.
– Ah, se não for incômodo, por mim tudo bem. Eu adoro sorvete, sabia? Muito mais do que eu gosto de pizza! – Charlie arregalou os olhos e olhou para .
– Papai adora pizza, mas eu não gosto tanto assim. Prefiro hambúrguer e batata frita, mas eu como quando ele insiste muito. – a olhou incrédulo, mas num tom de brincadeira. Por que crianças eram tão sinceras?
– Qual é, Charlie? Vai dizer que você não adora quando pedimos pizza de frango com borda de cheddar pra comer? Você sempre come duas fatias, espertinha. – paralisou. Aquele era o sabor preferido de Dylan quando decidiam pedir pizza para comer em casa. Ouvir sobre algo que remetia a ele era sempre muito doloroso, mas não poderia evitar, então segurou o choro e sorriu fraco.
– Eu como só pra você não ficar chateado. – Charlie confessou, recebendo um olhar reprovador de . riu da sinceridade da menina e voltou sua atenção para Flynn, ainda deitado no chão. Precisava afastar certos pensamentos naquele momento.
– Está vendo só, ? – ela assentiu ao ouvir seu nome.
– Sorvete é muito melhor, não é, Charlie? – as duas bateram a mão num high five e sorriram cúmplices uma para a outra, enquanto apenas observava. Não sabia o porquê, mas havia algo naquela garota que o fazia sentir afeição por ela, e talvez Charlie sentisse o mesmo.
Cece e Gray adentraram a sala de estar, felizes por verem ali, e a cumprimentaram com abraços.
– Eu não quis atrapalhar o almoço de vocês, mas é que minha mãe fez bolo de chocolate e eu vim trazer algumas fatias, sei que Charlie gosta! – os olhos da menina brilharam ainda mais ao pequeno gesto de , o que fez os olhos de Cece marejarem e e Gray sorrirem ainda mais. A menina era o que todos eles tinham de mais precioso, e o carinho que demonstrava sentir por ela fazia com que se tornasse muito querida por todos ali presentes.
– Não se preocupe, querida, você será sempre bem vinda em nossa casa. – Gray se pronunciou e todos concordaram.
– Obrigada, vocês são incríveis, de verdade! – entregou a pequena travessa nas mãos de Charlie e deu um beijo na bochecha da menina. – Agora eu preciso ir, tenho algumas coisas importantes a resolver. Espero que vocês gostem do bolo.
– Obrigado, , pelo carinho com a minha filha e com meus pais! Saiba que será sempre bem vinda aqui, quando quiser. – se aproximou, apertando a mão da garota, e ela retribuiu com um sorriso.
, você vai tomar sorvete com a gente, não vai? – Charlie fez bico e apertou suas bochechas de leve.
– É claro, ou você acha que eu ia recusar um convite tão gostoso como esse? – ela riu, sapeca.
– Hum, as oito está bom pra você? – perguntou e assentiu.
, eu e papai vamos tomar sorvete juntos! – Charlie cantarolou, dançando pela sala com Flynn em seu encalço, eufórico.
se despediu da família e voltou para casa sentindo-se um pouco mais alegre, especialmente por Charlie. Mas, ainda assim, um assunto importante martelava em sua cabeça: precisava iniciar sua busca pelo receptor do coração de Dylan. Já sabia por onde iria começar, mesmo tendo a quase certeza de que não teria todas as informações que necessitava, mas não custaria nada tentar. ainda estava digerindo a decisão que havia tomado de finalmente seguir em frente, e se via forçada a desviar de qualquer eventual pensamento que lhe remetesse a Dylan, caso contrário, essa caminhada nunca daria certo e ela continuaria estacionada no mesmo lugar. Entretanto, sabia que, antes disso ser possível, precisava sanar a dúvida que teimava em atormentá-la. Aquilo era importante para ela e nada a faria mudar de opinião. Aproveitou que seus pais estariam trabalhando durante todo o dia, ligou seu carro e dirigiu-se, então, para o único lugar capaz de livrá-la da sua própria prisão: UCSF Medical Center, o hospital responsável por assinar o Atestado de Óbito de Dylan.


Dois


paralisou ao adentrar aquele local. Jamais imaginou ter forças para pisar ali novamente. Suas mãos suavam, suas pernas tremiam freneticamente e as lágrimas já estavam prontas para tomar conta do seu rosto. Sentia-se mais frágil e sozinha do que nunca e temia que a qualquer momento não pudesse mais coordenar nem mesmo seu próprio corpo. Mas aquele era só o começo de uma grande luta e ela sabia disso. Se queria mesmo descobrir quem era o responsável por carregar uma parte de seu Dylan, precisaria aprender a lidar com todos os sentimentos que aquilo desencadearia, principalmente dentro daquele local. Nada parecia ter mudado no último ano. Ao observar ao seu redor, era como se estivesse revivendo o dia em que recebeu a terrível notícia. Como se tudo estivesse arrumado no lugarzinho que ela avistou pela última vez.
Quando saiu de seu transe, respirou o mais fundo que pôde e balançou a cabeça negativamente, tentando fazer com que todos aqueles pensamentos deixassem de perturbá-la ao menos por um instante. O instante que precisava para pôr a mão na massa e começar sua busca.
Caminhou ainda a passos arrastados em direção ao balcão, onde uma moça se encontrava.
– Ei, posso ajudar? – a moça perguntou, reparando na distração de .
– Olá, me chamo . Estou aqui em busca de uma informação muito importante. Meu noivo faleceu nesse hospital há um ano. Ele teve morte cerebral e seu coração foi doado a outra pessoa. Gostaria de saber como encontro o receptor.
– Bom, você deve saber que essa informação é totalmente confidencial, né?
– Eu estou ciente da dificuldade de conseguir essa informação. Mas não estou disposta a desistir. É muito importante pra mim. – a convicção na voz de era admirável. Se ela colocava algo na cabeça, era capaz de mover céus e terras para alcançar seu objetivo.
– Sinto muito, mas não estou autorizada a ir contra a conduta do hospital. – a moça respondeu sem muito interesse de continuar aquela conversa. Ela sabia que, embora fosse triste para encarar, não conseguiria chegar a lugar algum com todas aquelas perguntas. Sequer conseguia entender aquele interesse mesmo depois de tanto tempo. O fato é que não era a primeira e nem seria a última pessoa a buscar por aquele tipo de informação. E, em 99% por cento dos casos, não dava em nada.
– Você poderia chamar a dra. Claire? – pediu, não se deixando abalar pelo desânimo do primeiro não.
A moça apenas assentiu. Seu olhar agora era carregado de pena, fazendo se sentir constrangida e levemente irritada. Mas nada disso importava. Não importava se era vista por aquela moça como uma maluca, obcecada ou simplesmente alguém que, como tantas outras pessoas, não conseguia superar a dor da perda. Ela podia ser tudo isso, desde que conseguisse o que queria.
– Dra. Claire, tem uma moça na recepção pedindo para falar com você. Se identificou como . Você pode descer até aqui? – a moça anunciou ao telefone, tentando desviar o olhar de – Ok, obrigada.
– A Dra. Claire está terminando de atender um paciente e já vai descer. Você pode se sentar e aguardá-la.
– Muito obrigada. – concordou, sentando-se em uma das poltronas dispostas em fileiras. Os longos minutos até que Claire descesse deixava tão inquieta que não pôde evitar recorrer a velha mania de roer suas unhas, antes pintadas com um esmalte vermelho cintilante. Xingou-se mentalmente por estragar o que havia cuidado com tanto esforço, mas se permitiu sorrir, pela primeira vez desde que entrou no hospital, ao ouvir a voz de Claire, sua última esperança. foi ao encontro dela e a abraçou rapidamente.
! Como você está? – Claire sorriu de volta para ela.
– É, eu estou levando. – o sorriso de ambas se desfez no momento em que proferiu aquela resposta.
– E então, o que posso fazer por você? – Claire perguntou, um tanto confusa. Ainda não fazia ideia do que poderia levar a procurá-la, já que nunca mais haviam se visto depois da morte de Dylan. Foi Claire a responsável por conversar com a família de Dylan sobre a doação de órgãos e, tamanha era a relutância de na época, que a médica não pôde evitar a surpresa em vê-la ali novamente, procurando por ela.
– Bom, você deve lembrar que o coração de Dylan foi doado para uma outra pessoa quando ele faleceu. Eu preciso de você para descobrir quem foi o receptor. – foi direta quanto ao pedido de ajuda, mesmo sabendo que talvez a resposta fosse não.
, você sabe que eu não posso fazer isso. Esse assunto ficou esclarecido com a família de Dylan e do receptor. Além do mais, isso vai contra a ética do hospital e só vai machucar ainda mais você. – Naquele momento, só conseguia pensar que o que iria machucá-la ou não era um problema exclusivamente dela. Ninguém entendia sua dor, exceto Lilly e Robert, portanto, os únicos da qual ela pensaria em considerar alguma opinião, e mesmo assim, quando decidiu ir ao hospital, não escutou sequer a deles, por que ouviria a de Claire?
– Claire, por favor. – ela já estava pronta para engolir seu orgulho e suplicar da forma mais dramática que conseguia – Eu preciso da sua ajuda.
– Vai ser difícil encontrar esses registros, . E nem sempre as informações sobre a família estarão atualizadas. – a Dra. Claire disse, quase se dando por vencida. Sabia que era totalmente antiético passar informações sobre transplantados, mas se comovia com a história de com Dylan.
– Apenas veja o que pode fazer por mim. – a garota juntou as mãos em forma de súplica, com lágrimas nos olhos.
– Eu posso te ajudar com apenas uma informação: o receptor é da região de East Bay. É a única coisa que posso te afirmar, por questões éticas e de privacidade da família do receptor. A aproximação pode causar muitos danos emocionais e influir de forma negativa na vida de todos. Há muitos casos graves de problemas sociais relacionados a isso. Portanto, pense bem se não é melhor deixar essa ideia de lado, ok? Eu sinto muito por tudo o que aconteceu, mas sempre leve consigo que Dylan salvou uma vida. – assentiu. Não era tudo o que queria saber, mas era um bom começo, ainda que a informação fosse muito vaga, iria pensar em alguma ideia para descobrir sobre o receptor.
– Muito obrigada, de verdade. Prometo que não comentarei sobre isso com ninguém. – sorriu para ela. As duas se despediram e virou-se para ir embora. Estava realmente agradecida e com ao menos um pingo de esperança de seu plano dar certo.
Esperança. Aquele era um sentimento que ela já nem se lembrava mais de sentir até aquele momento. Mas, para ela, aquele pingo de esperança era tão importante quanto um oceano inteiro, e ela deveria ser grata por cada mínimo passo que conseguisse avançar. Seus olhos agora ganharam um brilho diferente. Nem ela sabia porquê queria tanto encontrar uma partezinha de Dylan, e, de tanto ouvir que podia passar a vê-lo nessa pessoa, sentia um certo receio. Mas ela precisava olhar para essa pessoa ainda que de longe. Precisava saber se a pessoa que Dylan salvou era alguém tão bom quanto ele. Se realmente adquiriu algum traço da personalidade dele. E uma força dentro dela lhe dizia o tempo todo para continuar. Podia ser sua própria covardia a corroendo, teimando em fazê-la procurar por uma forma de aliviar uma culpa que nem tinha de fato. Por mais irônico que isso fosse, ela só entenderia quando finalmente descobrisse, caso contrário, tudo seriam apenas incertezas.
Dolorosas incertezas.

XXX


Às oito em ponto, ouviu a campainha tocar e se dirigiu até a porta.
e Charlie estavam parados lado a lado e sorriram ao ver , que retribuiu o gesto.
– Você está tão bonita! – Charlie disse, sincera, e olhou para que não conseguia tirar os olhos de – Não é, papai?
riu um pouco sem graça, mas logo se recompôs. Charlotte era espertinha demais e sabia como deixá-lo em situações constrangedoras.
– Está sim, filha. Assim como você está também! – ele disse para tentar amenizar a situação e Charlie riu sapeca.
– Obrigada. Você realmente está muito bonita, Charlie, essa cor combina muito com você! – disse referindo-se ao vestido vermelho que contrastava muito bem com a pele da menina e seus cabelos loiros. Os olhos de Charlie eram como uma pequena extensão do céu, azuis como tal e brilhavam de forma que faziam sorrir.
– Estão prontas, garotas? – perguntou o mais velho.
– Prontas! – as duas responderam ao mesmo tempo, causando um divertimento.
fechou a porta de casa e os seguiu até o carro de , que abriu a porta para ela entrar, ganhando um “ok” disfarçado da filha. Charlie era apenas uma criança, mas, por ter sido obrigada pela vida a lidar com questões tão difíceis e complexas desde sempre, era mais inteligente e madura do que muitas pessoas com mais idade do que ela. Muitas eram as vezes em que se deparava ouvindo algum conselho da filha, que, na maioria das vezes, estava certa. E ele fazia questão de demonstrar o quanto se orgulhava dela. A menina nunca tirava o sorriso do rosto, apesar do fardo que carregava. Era sem dúvidas admirada por qualquer um que tivesse a oportunidade de conviver com ela.
Os três conversaram animadamente sobre diversos assuntos durante todo o trajeto, inclusive sobre qual o sabor do sorvete que cada um pediria.
– Bi-Rite Creamery, chegamos! – disse animado ao passarem pela entrada do pequeno estabelecimento.
– É o meu lugar preferido em San Francisco, e olha que já provei o sorvete de vários lugares, mas nenhum se compara ao daqui. É uma sorveteria pequena, mas vive cheia, os atendente estão sempre de bom humor e nos atendendo da melhor forma. Fora que eles te deixam provar quantos sabores quiser até escolher o que você quer, mas já tenho o meu preferido: salted caramel. – explicou, empolgada com a ideia de mostrar seus pontos preferidos na cidade.
– Papai e meus avós sempre me levavam na sorveteria aos finais de semana lá em East Bay, era legal! – a garota paralisou ao ouvir. A mesma que Claire mencionara hoje cedo quando disse para onde havia ido o coração de Dylan.
– Vocês moravam na região de East Bay?– perguntou, curiosa, enquanto esperavam na fila por sua vez.
– Sim. Conhece? – perguntou.
– Só de ouvir. Mas o que os fez mudar pra San Francisco? – Charlie, que rolava os olhos pela pequena tabela de opções de sabores, agora prestava atenção na conversa.
– Meu pai canta! – olhou surpresa para .
– Tipo, profissionalmente? – indagou.
– Eu sempre fui um amante da música, até tive banda na época do colegial e pretendia seguir esse caminho, porém os meus pais não eram a favor que eu me dedicasse somente a música, sabe? Pelo fato de ser algo incerto. Então optei por estudar direito e me formei, mas tinha planos de então começar a minha carreira como músico, só que eu já namorava a mãe da Charlie e ela engravidou, o que me fez exercer a profissão para sustentar minha família. – ouvia a tudo atentamente quando começou a se questionar o que teria acontecido com a mãe da menina.
Então a vez deles chegou e a atendente da vez, muito simpática, perguntou o que iam querer.
– Eu quero provar o sabor preferido da ! – Charlie disse e concordou.
– Então três casquinhas salted caramel, por favor.
Esperaram até que lhe fossem entregues os sorvetes e foram para o lado de fora, sentar em um dos bancos disponíveis para conversarem.
– Então, o que fez você finalmente se dedicar à música, ? – o homem olhou para Charlie um pouco receoso por entrar naquele assunto, mas a menina sorriu o incentivando a continuar.
– Jullie morreu no parto e foi uma época bastante complicada, fiquei imaginando se eu daria conta de criar Charlie, ainda que com a ajuda dos meus pais. Foi bem mais complicado do que imaginei, mas eu consegui. Então, a música acabou se tornando um refúgio pra mim, foi algo que me ajudou a superar a morte dela, só que Charlie ainda era muito pequena e eu não poderia deixá-la para sair me apresentando por aí, então continuei trabalhando como advogado, mas ajudava nas composições das músicas da banda de um amigo meu. – fez uma breve pausa para respirar e tomar um pouco do seu sorvete, e não pôde deixar de notar os olhos marejados da pequena Charlie. Ela a abraçou de lado e beijou o topo de sua cabeça.
– Eu sinto muito por Jullie. – agradeceu sorrindo fraco.
– Meu pai cantava pra mim todas as noites antes de dormir e eu achava o máximo. E, quando eu cresci um pouco mais e comecei a entender as coisas, vi que ele não estava mais feliz com o trabalho e um dia ouvi ele falando pra vovó que queria largar tudo no escritório pra se dedicar ao que ele mais gostava, mas não queria de jeito nenhum ficar longe de mim. – ficou ainda mais surpresa com a menina pela maturidade que ela carregava consigo e a forma como ela lidava com o fato de não ter a mãe por perto.
– E aí um dia cheguei em casa do trabalho, Charlie estava me esperando no sofá enquanto assistia desenho e disse que queria conversar comigo. Ela tinha só seis anos e disse que não queria me ver triste e que me apoiava. Foi aí que decidi deixar meu emprego no escritório e ser músico. Tinha feito uma boa economia pro futuro de Charlie e meus pais se propuseram a cuidar dela quando eu tivesse que sair para cantar. – apertou de leve uma das mãos de , que estava vazia, apoiada em suas próprias pernas e sorriu fraco.
Charlie disfarçou sua expressão eufórica com aquele gesto, levando seu sorvete a boca, e limpou com um lenço de papel um pouco de sorvete perto da boca de .
– E, respondendo à sua pergunta: nos mudamos para San Francisco por conta de uma proposta irrecusável de trabalho. Eu não precisaria mais viajar, pois consegui um contratante fixo para me apresentar aqui em San Francisco, em uma balada chamada Club 525, conhece? – explicava animado para , que se mostrava muito interessada em ouvir mais e mais sobre a vida dele. Era difícil ele se sentir à vontade para puxar assunto com alguém que mal conhecia com tanta facilidade, mas, se tratando dela, a conversa parecia fluir naturalmente.
– Sério? Eu adorava frequentar esse lugar. Ia quase todos os finais de semana. Mas faz muito tempo que não vou lá, ouvi falar que até reformaram. – deu de ombros e baixou o olhar para o sorvete em suas mãos.
– E por que parou de ir? Você poderia ver minha apresentação na próxima semana. – pareceu se animar com a ideia e a garota sorriu fraco.
– Bom, eu sempre ia com o meu noivo. Faz um ano que ele faleceu em um acidente de moto e, desde então, perdi a vontade de ir. – se arrependeu de sua pergunta no momento em que percebeu a tristeza surgindo no olhar de .
, me desculpe, eu... – o interrompeu, não queria fazê-lo se sentir culpado e muito menos estragar aquela noite.
– Está tudo bem. Posso ver você se apresentar, sim, vai ser um prazer. – lançou-lhe um sorriso tímido, mas, ainda assim, o bastante para que o clima agradável voltasse a pairar sobre o local.
– E eu? Posso ir, papai? – Charlie perguntou, após terminar o resto de seu sorvete.
– Filha, você sabe que esses lugares não são para crianças. Mas prometo que vou fazer um show particular só para você. – Charlie concordou batendo palminhas.
– Você vai adorar ouvir meu pai cantar, . Ele canta muito bem. Vocês vão se divertir muito. – se havia alguém melhor para elogiar e ao mesmo tempo ser a cúpida dele, esse alguém era Charlie.
– Com certeza, mal posso esperar! – ela respondeu animada.
pediu a conta e, mesmo com tentando o contrariar, pagou o sorvete dos três. sentiu-se um pouco envergonhada, mas agradeceu, visto que havia sido vencida pelo cavalheirismo do rapaz.
– E aí, Charlie, o que achou do passeio? – perguntou assim que entraram no carro.
– Foi muito legal. Adorei o seu sabor preferido de sorvete, . Se tornou o meu também!
ligou o rádio e cantarolaram algumas canções em conjunto. Não era mentira quando Charlie elogiou o talento do pai para a música. Sua voz era suave e muito afinada, mesmo sem todo o preparo vocal e os ensaios que ele provavelmente fazia antes de subir ao palco. não pôde evitar que um sorriso escapasse por seus lábios ao se dar conta da emoção que ele transmitia ao cantar.
– Você é bom mesmo, . – disse sincera ao fim da música.
– Muito obrigada, de verdade. – sempre ficava sem graça ao receber elogios, por mais que não fosse algo raro de acontecer quando alguém o ouvia cantar. Mas ouvir dizendo aquilo o fez se sentir realmente bom.

– Chegamos! Lar doce lar! – desligou o carro, abrindo a porta para que e Charlie pudessem descer.
– Eu acho que ganhei uns belos quilos com esse passeio, mas até que gostei! – falou divertida, arrancando gargalhadas dos dois.
– Você ainda está me devendo a ida no parque, ! – a menina cobrou.
– É verdade! Não se preocupe, minha promessa é dívida. – elas bateram as mãos.
– Já vi que vocês vão aprontar muito juntas. – foi a vez de falar, recebendo protestos das duas meninas.
– Você não faz ideia. – piscou para Charlie, que sorriu sapeca. observou a cena e sentiu algo se aquecer dentro dele, e por segundos ficou imaginando como seria se Jullie ainda estivesse viva, ali, com eles. – Então, obrigada pelo convite e pela noite agradável.
– Tchau ! – e Charlie falaram juntos, recebendo um breve aceno de volta.
e Charlie ficaram observando a garota entrar em casa, até que a menina resolveu se pronunciar.
– Yes! mandou bem, papai! Sabia que o senhor não iria me decepcionar. – Charlie o abraçou, animada, fazendo com que ele despertasse de seu transe.
– Que isso, Charlotte, é só uma amiga. – ele respondeu com o tom mais sério que conseguira forçar, mas obrigou-se a cair na risada com sua própria atuação.
– Ei, você só é bom cantor. Não tente atuar, não. – a menina o repreendeu com tapinhas em seu braço.
– Tá bom, tá bom! – levantou as mãos em um gesto de rendição – Mas não vá ficando muito animadinha. Somos apenas amigos, não misture as coisas. Acabamos de nos conhecer.
– Eu sei, mas o senhor achou ela bonita, não achou? – Charlie indagou.
– Vá dormir, sua espertinha, já está na hora. – ele respondeu, fazendo cócegas na menina.
– Isso foi um siiiiim! – Charlie adentrou a casa correndo, antes que o homem a alcançasse, sendo seguida por Flyn, que tentava, como em todas as noites, fugir da ideia de ter que dormir solo em sua caminha.

XXX


acordou por volta de dez da manhã com o sol adentrando seu quarto sem que fosse convidado. Ah, se ele soubesse o mal humor que a acompanhava durante o resto do dia quando alguém a acordava, jamais faria isso de novo. Sua mãe sempre abria as janelas antes de ir para o trabalho, para se certificar de que a filha seria obrigada a acordar em algum momento, mesmo contra sua vontade. Apesar da vantagem de estar em férias do curso de fotografia e poder dormir de novo pelo o tempo que desejasse, nunca conseguia fazer isso e o resultado era sempre o mesmo: rolar na cama até desistir e levantar mais irritada do que já estava. Mal podia esperar para ter sua própria casa, fazer seus próprios horários e não ser incomodada caso alguém não estivesse satisfeito com eles. Apesar disso, esse era provavelmente o único ponto negativo na convivência entre ela e seus pais.
levantou da cama, cambaleante, e dirigiu-se até o banheiro. Tomou seu banho sagradamente longo e, antes que seus cruéis pensamentos tentassem a detonar, cantarolou uma música qualquer, esperando que aquilo também fizesse seu humor parecer mais maleável.
Colocou um vestido confortável pouco acima do joelho, que adorava usar quando pretendia ficar em casa, e olhou-se no espelho. Geralmente, fazia isso todos os dias ao acordar e costumava odiar sua aparência refletida nele, mas, especialmente naquele dia, não estava tão ruim, de modo que, se alguém a olhasse de longe, nem poderia dizer que aquela menina andava tão atirada e despreocupada com si mesma no último ano. Não era a roupa, nem o peso, nem o cabelo que faziam a menina se sentir tão mal há tanto tempo. Era seu rosto. Seus olhos. Sua expressão sempre tão triste e abatida. Ela se sentia sem vida toda manhã quando acordava. Mas não naquela manhã. Porque ela estava viva. E ela havia decidido viver, ou, pelo menos, se esforçaria para tentar. Por Dylan. Por ela. E porque não lhe restava outra escolha mais coerente senão aquela.
lembrou-se do passeio da noite anterior e de como ela estava realmente feliz na companhia de Charlie e . E aquela sensação era tão boa que a tornou disposta a buscar viver mais momentos que fizessem com que ela se sentisse daquela forma novamente.
Felicidade vicia tanto quanto a dor. E, sem se dar conta, estava caindo rapidamente naquele vício, que lhe soava como uma novidade que acabara de experimentar pela primeira vez. E foi impossível não sorrir de orelha a orelha ao deparar-se com tamanha força de vontade crescendo assustadoramente dentro dela.
estava decidida a fazer tudo o que não fazia há muito tempo. E isso incluía até mesmo coisas que na certa a fariam reviver memórias. Memórias que ela aprenderia a lidar de uma vez por todas, por bem ou por mal. Afinal, já esteve por tempo demais presa a elas. E estava pronta para dar os primeiros passos.
voltou para seu quarto e abriu a última gaveta de seu guarda-roupa, onde costumava usar como um baú para guardar coisas antigas. Puxou de dentro um álbum de fotografias, bastante empoeirado, por sinal. Passou os olhos rapidamente por algumas fotos, sendo interrompida quando folhas soltas caíram ao chão. Abaixou-se para verificar do que se tratava e se surpreendeu ao deparar-se com desenhos antigos que Dylan costumava fazer para ela. Lembrou-se, então que, desde a morte dele, não havia ido visitar a instituição que cuidava das crianças carentes, onde o mesmo costumava dar aulas voluntárias de desenho.
Sem pensar duas vezes, decidiu que voltaria lá, coisa que já deveria ter feito há muito tempo. Dylan certamente gostaria daquela atitude. Mas, além disso, ela também devia isso para aquelas crianças, que tanto a adoravam. Se sentia uma pessoa horrível por, querendo ou não, tê-los abandonado, mas já tivera todo o tempo de que precisava para se recuperar e agora era hora de retomar os compromissos que decidiu assumir. Chega de pensar apenas em si mesma, muitas pessoas à sua volta precisavam da sua atenção.

(...)

estava pronta e com todos os materiais que precisava. Lápis de cor, tinta, papel, algumas guloseimas e um brilho encantador presente em seu olhar. Decidira ir caminhando até a instituição, que carinhosamente era chamada de Lar de San Francisco e não ficava muito longe de sua casa. Quando Dylan a levou para conhecer, associou aquele lugar a um lugar triste e sempre fazia o que podia para ajudar as famílias daquelas crianças, seja com roupas, comidas, contando histórias e em tudo que precisassem. Quando já se sentia parte daquele lar também, percebeu que aquelas crianças eram mais felizes do que muitas outras de classes sociais mais altas. Crianças que vivem em melhores condições financeiras nem sempre recebem o carinho e a educação que necessitam, fingindo suprir esta falta com brinquedos caros, roupas e todos os tipos de bens materiais que seus pais lhes compram.
– Ei, ! – ela se virou para verificar de onde vinha a voz masculina que chamava por ela.
– Oi, ! – o cumprimentou com um beijo no rosto, fazendo ambos se encararem por um breve segundo – Como você está?
– Estou bem! E você, está indo para onde? Precisa de uma carona? – o rapaz apontou para seu carro, que estava a poucos metros de distância dos dois.
– Bom, eu vou visitar uma instituição de caridade que fica aqui perto. Vou caminhando mesmo, não chega a dez minutos a pé.
– Sério? Que legal! – não pôde evitar notar o sorriso espontâneo se formando nos lábios de ao citar a instituição – Eu também gostaria de conhecer. O que acha de me levar até lá?
– Claro! Tenho certeza que você vai adorar.
se sentiu surpresa e feliz com aquele pedido. A verdade é que gostou de saber do interesse de pelo próximo, o que não era tão fácil de se encontrar em outras pessoas de sua cidade.
Os dois caminharam em harmonia até a instituição. Vez ou outra, passavam por algum ponto interessante e parava para mostrar a .
– Eu realmente preciso apresentar San Francisco para você! – a menina riu ao constatar que sentia-se perdido por ali. Embora viajasse muito, sempre utilizava seu velho amigo GPS e ia direto aos endereços indicados. Não era de reparar muito o que tinha a sua volta.
– Precisa mesmo. Acho que se você me deixar aqui, não vou saber voltar para casa.
– Ah, bobo, nem estamos longe de casa. – respondeu, fingindo estar brava.
– Chegamos! – a menina parou por alguns segundos em frente ao portão da instituição. Se surpreendeu ao notar uma aparente reforma no local. Estava tão diferente. A pintura era nova, o espaço estava mais amplo e parecia haver um número maior de crianças desde a última visita dela. Não podia acreditar que fazia tanto tempo. Que ela simplesmente tinha abandonado tudo. Principalmente aquelas crianças, sempre tão doces, repletas de vida, coragem, esperança e da alegria que ela tanto precisava em seus dias. Apesar de tantos problemas que tinham, era difícil encontrar sequer uma que não fosse capaz de oferecer um sorriso sincero a quem quer que fosse. Elas não pediam muito a ninguém. Nada, na verdade. O pouco que recebiam já bastava e era sempre transformado em suficiente para dividir com todos ali presentes.
– Ei, , tudo bem? – deu pequenas batidas no braço da menina ao perceber sua distração.
– Sim, sim, claro, vamos entrar! – a moça abriu o portão, puxando para dentro logo em seguida.
Em questão de segundos, várias crianças já conhecidas por ela vieram correndo abraçá-la.
– Tia ! – Sophie, uma menininha muito apegada com , gritou, sem fazer a mínima menção de desfazer o abraço entre elas.
– Acho que cheguei na hora boa, a hora da brincadeira! – sorriu ao perceber a correria das crianças – Esse é meu amigo , ele queria conhecer vocês!
e cumprimentaram e conversaram com um por um, distribuindo sorrisos e abraços para todo o lado.
– Ei, sabem o que a tia trouxe? – a menina falou um pouco mais alto, atraindo a atenção de todos para ela – Eu trouxe doces e coisas para a gente desenhar também! – a menina concluiu, recebendo gritinhos de empolgação das crianças.
abriu seu material e fez questão de distribuir papel, lápis e algumas guloseimas para cada um, sendo ajudada por . Não podia negar que estava adorando o entusiasmo do homem ao se dirigir a cada criança, e o empenho dele em ser atencioso com elas. Ele nunca passava para o próximo sem receber antes um sorriso.
– Tio , você me ensina a desenhar? – Norah, uma menininha que acabara de chegar a instituição, pediu timidamente.
– Claro! Eu adoro desenhar, sabia? O que você gostaria de fazer? – perguntou com papel e lápis em mãos.
– Uma casinha, pode ser. Quero uma casa bem bonita para eu me imaginar morando nela. – a garotinha fez um gesto grandioso com os braços entusiasmada.
parou por alguns segundos para encarar a menina e se questionou o porquê de algumas pessoas terem tanto e outras não. Aquilo, para ele, não era justo. O rapaz prontamente guiou a mão da menina para começar o desenho.
– Eu não sabia que você desenhava, ! – exclamou, enquanto observava a cena surpresa.
– Ah, eu comecei a me interessar há pouco tempo. Gosto de dizer que a música é o que a alma diz e o desenho, o que ela vê. – ele explicou, ao mesmo tempo que concluía o desenho que fazia com Norah.
– Adorei! Eu quero morar nessa casa! – a menininha disse animada, enquanto encarava o papel a sua frente.
– Ficou realmente linda. – ainda encarava . Era surpreendente a quantidade de coisas que ela não sabia sobre ele, e mais ainda o quanto ela estava gostando de descobrir. Seus talentos, seu gosto pela arte, sua vontade de ajudar àquelas crianças e o quão companheiro ele estava sendo com ela. Pensou, por um momento, que não tinha nada realmente interessante sobre ela para que pudesse dividir com ele. Nada que provocasse nele qualquer tipo de admiração. E nem ela sabia ao certo porque sentia tamanha necessidade de provocar nele esse sentimento, mas a verdade é que gostava de se sentir, pelo menos, útil e boa em algo que fazia. E, nos últimos tempos, sequer lembrava de como era se sentir assim.
Os dois conversaram com as crianças durante toda a tarde. Depois de tantos risos, brincadeiras, histórias e agradecimentos que receberam, era impossível não sair dali com a sensação de missão cumprida e o coração explodindo de felicidade.
– Eu quero trazer a Charlie aqui! Ela vai adorar conhecer esse lugar incrível. – afirmou, após cruzarem o portão de saída.
– É verdade! Ela vai gostar mesmo. – concordou, animada em ouvir aquela sugestão.
– Essas crianças são realmente encantadoras. É contagiante a vontade de viver que elas transmitem. Enxergam o mundo como um lugar tão bom e inocente, são tão cheias de esperança. Tão diferente de nós, adultos. – comentou, com os olhos brilhando em cada palavra.
– É verdade. Fazia tempo que eu não vinha aqui, confesso. Mas sempre que venho, é como se tudo em volta enchesse de cor. Como se qualquer problema lá fora se tornasse apenas um mero detalhe. – assentiu. Estava se sentindo tão feliz que mal sabia explicar, como se algo dentro dele se renovasse.
tirou do bolso uma pequena barra de chocolate e ofereceu a , que negou prontamente. Andaram em silêncio, cada um com seus próprios pensamentos, que mal sabiam eles, estavam conectados de alguma forma.


Três


— Papai! Papai! — abriu os olhos ao ouvir a voz de Charlie lhe chamar. Flynn pulava freneticamente em sua cama enquanto a menina gargalhava da cara engraçada que ele fazia.
— Bom dia, minha menina! — ele puxou a filha para um abraço e beijou seu rosto docemente. Passou a mão na cabeça de Flynn, que se aninhou em seu peito ao lado de Charlie.
— Bom dia, paizinho lindo. Dormiu bem? — perguntou enquanto acariciava o rosto do pai. Era assim todas as manhãs e amava ser acordado daquela maneira, pois dificilmente passava o resto do dia de mal humor.
— Muito bem, e você? — perguntou.
— Sim, pirilim! Flynn também, não é, fofuxo? — o labrador respondeu, levantando a pata direita para a menina, o que fez sorrir.
Charlie encostou a cabeça no peito de , a fim de ouvir as batidas do seu coração. E ele achava incrível aquele gesto, pois era uma forma de se conectarem profundamente, como se fosse uma forma só deles de dizer "eu amo você".
acariciou os cabelos loiros da filha, pensando em como amava incondicionalmente aquele pequeno ser e que tudo que fazia era pensando nela.
Sua pequena e adorável Charlotte.
E agora ele só queria aproveitar tudo o que tinha para viver ao lado da filha, de seus pais e, claro, de Flynn. Eles eram sua família, seu porto seguro e a sua paz. Era para eles que voltaria sempre no fim do dia e isso era algo que dinheiro nenhum no mundo poderia comprar.
— Eu te amo, papai! — Charlie disse, dando um beijo na testa de . Em seguida virou para Flynn e acariciou a barriga do cachorro que dormia tranquilamente no peito de . — Também amo você, Flynn.
— Eu amo você, minha menina! — sentiu o coração aquecer com aquelas palavras e não desejou estar em nenhum outro lugar naquele momento.
— Paizinho, você prometeu que ia me levar na escola que eu vou estudar, lembra? — a menina deu pulinhos alegres em cima da cama e assentiu.
— Claro que lembro, filha. Daqui a uma semana as férias escolares acabam, você começa a estudar de novo e eu quero que você conheça a sua nova escola. — ele levantou com cuidado para não acordar Flynn, mas sem sucesso, já que o labrador se despertou e começou a rolar na cama e balançar o rabo.
— Oba! Vovó disse que eu vou gostar e que vou fazer novos amiguinhos. Você acha, pai? — perguntou.
— Eu tenho certeza! — pegou a menina no colo e a girou no ar, fazendo ela gargalhar.
— Vou ajudar minha vó com o café enquanto você toma banho, se arruma e fica bem lindo, tá bem, papai? — Charlie disse quando a colocou novamente no chão e ele assentiu. A menina o abraçou e saiu do quarto com Flynn em seu encalço e riu com a cena.
Eram mesmo uma dupla imbatível.

(...)

sentou ao lado de Charlie na mesa e cumprimentou seus pais. Já passava um pouco das nove horas da manhã e ele levaria Charlotte na escola onde ela começaria a estudar em breve, e talvez estivesse mais ansioso do que a própria filha. Queria saber se ela iria se adaptar bem ao novo ambiente e se seria bem vinda pelos seus novos colegas. Sabia que mudanças eram difíceis, mas estava sendo melhor do que ele poderia imaginar, principalmente para Charlie, que de cara havia feito amizade com .
— Bom dia, filho. — Cece o cumprimentou, servindo uma xícara de café para ele. — Bom dia, meus pais, como passaram a noite? — serviu-se de panquecas.
— Muito bem, meu filho, e você? Me parece um pouco cansado. — Gray notou a aparência abatida e as olheiras embaixo dos olhos do filho. A verdade era que sua vida como músico não era das mais tranquilas. Eram noites em claro, mas não era algo com que se importava, afinal, era o que ele gostava de fazer.
— Noites mal dormidas, meu pai, mas eu já me acostumei. — respondeu.
— Se alimente bem, meu filho, e se cuide, tá bem? — Cece segurou a mão de e ele lhe lançou um olhar terno.
— Flynn, você não pode comer panquecas, não me olhe assim! — Charlie repreendeu o labrador, que estava sentado no chão ao seu lado, com um olhar pidão.
— Charlie, sua avó e eu queremos levar você para comprar seu material escolar. — Gray chamou a atenção da menina para si, que sorriu largo. Sair para comprar material escolar era uma de suas atividades preferidas antes do ano letivo iniciar.
— Sim, pirilim! Eu quero muito, vôzinho! — disse, animada.
— Então vamos visitar a sua escola nova e depois deixo você aqui pra sair com seus avós, tudo bem? — Charlie assentiu. — Eu preciso resolver algumas coisas e só voltarei à noite, podemos sair para jantar, o que acham? — Cece e Gray concordaram, animados. Charlie olhou para o pai pensativa e logo abriu a boca para falar.
— Pai, a gente pode convidar a ? — pediu. não se surpreendia com o fato de Charlotte querer que estivesse ao lado deles, já que ela se tornara alguém muito especial para sua filha.
— Claro, filha. Se não estiver ocupada, ela pode ir conosco sim. — a menina sorriu largo e levantou os braços em comemoração, fazendo os presentes ali darem risadas. Então, ela deu um beijo em e levantou, com Flynn em seu encalço.
— Eu já disse que amo vocês hoje? — Charlie perguntou e eles negaram.
— Também amamos você. — Cece respondeu.
— Vou me arrumar, paizinho, e já volto. Vamos, Flynn!
ficou observando a menina sumir no corredor e, quando já estava longe o suficiente, decidiu contar aos pais sobre o que estava planejando.
— Lembram quando a Charlie pediu uma casa na árvore? — Cece sorriu, lembrando das inúmeras vezes que Charlie pediu uma casa na árvore igual as que via nos filmes, mas a casa em East Bay não havia espaço para tal feito, então prometeu que, quando se mudassem, iria construir uma para ela. — Vou sair para comprar materiais para construir no jardim, lá atrás. Não vai ser exatamente uma casa de árvore, pois não temos uma no jardim, mas vai ser tão grandiosa quanto.
— Eu te ajudo, meu filho, prometi uma casinha a Flynn também. Aquele danadinho já é tão parte de nós, merece também. — Gray disse.
— Charlie vai ficar tão feliz, meu filho. — sorriu.
— Quando chegarem do passeio, já quero estar aqui com o material e então vamos contar a ela sobre o nosso segredo, está bem? — Cece e Gray assentiram. Estavam tão animados quanto .
Charlie apareceu novamente na cozinha, fazendo eles mudarem de assunto rapidamente e sorrirem cúmplices.

xxx

saiu da cafeteria no final da rua e caminhou até a pracinha do outro lado, acomodando-se em um banco embaixo de uma árvore. Sorriu fraco ao lembrar das tardes de domingo em que ela e Dylan passavam ali, quando já tinham cansado de ficar em casa assistindo filmes e comendo pizza. Ainda era muito difícil não tê-lo por perto, não ouvir sua voz nem o som da sua risada quando ela dizia algo engraçado. As pessoas viviam dizendo que o tempo cura tudo, mas, para ela, o tempo só servira para aumentar ainda mais a saudade e as suas incertezas. Dylan e ela haviam planejado uma vida toda juntos. Noivado, casamento, casa própria, estabilidade financeira, filhos e por fim uma velhice juntos. E, mesmo que todos dissessem que o futuro era incerto e que o amor entre eles poderia acabar um dia, ainda sim, acreditava que seria para sempre.
Mas o para sempre sempre acaba. E agora ela tinha a plena certeza disso.
Pouco valia o tempo, se não fosse com Dylan. Pouco valia tudo ao seu redor.
Era difícil demais recomeçar, mesmo depois de tanto tempo, mas tinha a plena consciência de que precisava reagir. A vida passa e não espera por ninguém, pode ser duro dizer, entretanto é a mais pura verdade.
ponderou abandonar a ideia de ir atrás do receptor de Dylan, mas, por outro lado, pensou que precisava disso para poder seguir em frente. Como se estar frente a frente com a pessoa que agora carregava o coração do noivo fizesse com que ela enfim colocasse um ponto final em todos os seus questionamentos.
Mas não seria nada fácil, havia muito o que fazer, e sem a ajuda de Claire seria quase impossível chegar até o receptor. Contudo, com um pouco de sorte, talvez encontrasse o que tanto procurava.
— Ei, ! — a garota sorriu surpresa ao ver se aproximando.
— Hey, ! — ela o cumprimentou com um abraço e, quando se separaram, o garoto a fitou dos pés a cabeça e sorriu largamente.
era o melhor amigo de Dylan e consequentemente se tornara amigo de também. Costumavam frequentar os bares da cidade em busca de um amor para , que era considerado um dos solteirões mais cobiçados da região, desde a época do colegial. Mas para isso era uma grande baboseira, já que seu coração já estava tomado por alguém que ele amava secretamente.
— Você continua linda, . — ele elogiou.
— Você tá de brincadeira, né? Olhe só para mim, estou um caco! — disse num tom de brincadeira, mas no fundo com um pouco de verdade.
balançou a cabeça negativamente, em desaprovação.
— Como você se sente? — perguntou sério dessa vez. Um ano desde que seu melhor amigo se fora e ele ainda não sabia bem como lidar com a saudade que sentia. Tanto que, logo após a morte de Dylan, fez as malas e foi morar com o pai na Inglaterra. Sentia-se culpado por ter abandonado no momento em que ela mais precisava, mas não suportaria ter que lidar com a dor dela também.
— Um ano e a culpa ainda me consome, . — abaixou a cabeça, encarando os próprios pés.
— Todos sabemos que você não teve culpa nenhuma, você já deveria ter se convencido disso. Não? — a abraçou, depositando um beijo no topo da cabeça da garota.
— Eu não consigo... — a fala de soou fraca, denunciando um choro preso na garganta. Parecia que iria sufocar a qualquer momento.
— Me desculpa por ter sido tão fraco a ponto de fugir, de ser egoísta e não ter dividido tudo isso com você, eu sou um completo babaca. — desabafou, a fim de tirar um peso das costas.
— Cada um lida com a dor do jeito que sabe, . Eu não culpo você por ter ido embora, eu teria feito o mesmo se pudesse — encarou o garoto, enxugando uma lágrima teimosa que rolava pela bochecha dele — Você foi o melhor amigo dele, irmão e cúmplice. Eu não poderia pedir a você que guardasse a sua dor no bolso para cuidar exclusivamente da minha. Seria muito para que você pudesse suportar e está tudo bem.
segurou a mão livre de e sorriu fraco.
— Eu sinto tanta falta do Dylan... — confessou.
— Eu também, . Mas nós estamos aqui e precisamos continuar, por ele. Tudo bem? — ele assentiu.
— Por ele, sempre. — sorriu, tentando ser forte.
Mas a grande verdade é que por dentro ela ainda estava em pedaços e levaria mais algum tempo para se reconstruir. Mas, com por perto, talvez fosse mais fácil, já que ele não a julgaria de forma alguma. Pensou em contar sobre a sua busca, mas ainda era cedo demais, tinha medo de que ele achasse uma loucura sem fundamento.
Talvez fosse mesmo uma loucura sem fundamento. Mas e se não achasse nada disso e também quisesse conhecer o receptor? E se ele aceitasse ajudá-la nessa busca?
Uma pequena luz de esperança se acendeu no fundo do coração de e, sem nem pensar direito, as palavras saíram de sua boca, causando um certo espanto em :
, o que você acha de conhecer o receptor do coração de Dylan?

xxx

chegou em casa com todo o material que havia comprado para a construção da casa de árvore de Charlie. Estava ansioso para contar a novidade para a filha, pois sabia que a pequena ficaria bastante feliz.
Foi até o jardim com Flynn em seu encalço, deixando todo o material lá enquanto olhava em seu celular o modelo da casa que ele mesmo havia desenhado.
Seria verde, a cor preferida de Charlie, com alguns detalhes em branco.
ouviu a porta da entrada bater e Flynn correu até a sala, indicando que Charlie havia acabado de chegar com seus avós.
— Paizinho! — a menina pulou no colo de , animada.
— Filhota linda! Como foram as compras? — perguntou, colocando a menina de volta no chão.
Cece colocou as inúmeras sacolas no sofá, enquanto Flynn pulava freneticamente, pedindo carinho.
— Foi ótimo, pai, meus avós lindos compraram coisas incríveis pra mim! — Charlie respondeu.
— E se eu te contar que eu tenho uma surpresa pra você? — Charlie arregalou os olhos, curiosa.
Cece e Gray sorriram, já sabendo do que se tratava.
— Conta, pai, vai, conta! — Charlie bateu palmas, animada.
— Primeiro vou colocar isso aqui em você, espera só um instante. sorriu e pediu ajuda de Cece para vendar a menina e levá-la até o jardim.
— Só pode tirar quando eu falar três, tá bom? — Charlie assentiu, mesmo com vontade de arrancar aquela venda dos olhos ali mesmo.
— Um... — Cece, Gray e começaram a contagem.
— Dois... — dessa vez Charlie disse junto.
— Três!
Charlie abriu os olhos, se deparando com o material que havia acabado de despejar lá e já pôde ter uma ideia do que se tratava a surpresa.
— Espera, é o que eu tô pensando, pai? — perguntou, eufórica.
— Vamos começar a construir sua casa na árvore! — respondeu e Charlie saiu correndo pelo jardim, com Flynn atrás.
Cece e Gray fizeram o mesmo, comemorando junto com a neta a sua conquista.
Charlie não era do tipo de criança que gostava de roupas e brinquedos caros, pelo contrário, ela gostava mesmo das coisas simples e agradá-la não era difícil.
sorriu ao ver a cena, imaginou Jullie ali, vivendo todas aquelas emoções junto com a filha, mas sabia que ela estava presente de certo modo. Acreditava nisso.
— Flynn também vai ter a casinha dele, ao lado da sua, vou ajudar seu pai nessa missão. — Gray falou, recebendo um abraço caloroso da neta.
— E nós podemos ajudar também? — Cece perguntou.
— É claro, mãe, vamos todos colocar a mão na massa pra que essa obra fique tão incrível quanto Flynn e Charlie merecem! — respondeu, animado.
— E quando podemos começar, papai? — Charlie perguntou, olhando o material mais de perto. Ficou feliz ao notar que seu pai havia escolhido a sua cor preferida.
— No final de semana, tudo bem? Assim todos podemos começar a trabalhar. E a propósito, aqui está o desenho. Fiz de acordo com o que você queria, filhota. — entregou o celular para Charlie, que ficou boquiaberta com a grandiosidade do projeto.
— É incrível, papai, bem melhor do que eu falei pra você! — ela sorriu, abraçando .
— Você merece, princesinha, você é a neta mais incrível de todo o planeta, você sabe, não é? — ela assentiu, arrancando risadas de todos.
— Obrigada, eu amo vocês! — a menina respondeu, puxando todos para um abraço grupal — Pai, será que nós podemos ir até a casa da convidar ela pra nos ajudar na construção?
— Hum, não sei, filha. Será que não estará ocupada agora? — Charlie fez bico, deixando sem saída.
— Não custa nada, paizinho, eu quero contar pra sobre isso, vai... — a menina pediu, juntando as mãos em súplica e não teve como negar.
Então e Charlie foram até o lado externo da casa, quando avistaram do outro lado da rua.
— Filha, talvez não seja uma boa hora. — disse ao perceber que estava acompanhada.
— Quem é aquele? — Charlie perguntou baixinho, encarando o pai, que ergueu os ombros sem saber o que responder.
estava prestes a voltar para dentro da casa novamente, quando ouviu chamar por seu nome.
— Ei, ! Charlie!
O homem acenou para ela e sorriu, mas, quando deu por si, Charlie já estava atravessando a rua correndo, quando um carro em alta velocidade desviou da menina e freou bruscamente.
— Charlie! — correu até onde a filha estava, paralisada e trêmula por conta do susto.
correu em direção a menina, enquanto correu até o carro tentando ver quem estava dirigindo.
— Está tudo bem, querida? — perguntou, passando a mão pelo rosto da menina, que respirava ofegante.
— Está sim. Papai, me desculpa por atravessar a rua sem prestar atenção. — abraçou a menina forte e cruzou o olhar com , que sorriu fraco.
— Está tudo bem, filhota, só tome mais cuidado, está bem? Se não você ainda vai matar seu velho do coração. — Charlie riu.
— Eu não consegui ver quem estava dentro do carro, acho que a pessoa ficou com medo de descer e foi embora, mas que bom que foi só um susto. — disse, se aproximando deles e Charlie o analisou de cima a baixo.
— Quem é você? — ela perguntou, curiosa.
— Sou , e você é a?
— Charlotte, mas todo mundo me chama de Charlie. — a menina respondeu, esticando as mãos para ele.
é um velho amigo. Este é o , pai desta linda menina, eles moram aqui na casa da frente, se mudaram há poucos dias. — e se cumprimentaram com um aperto de mão.
— Bom, acho que temos que voltar pra casa, né, Charlie? — pegou a mão da menina, mas ela lembrou da novidade que iria contar à , quando o carro quase a atropelou.
, meu pai vai construir uma casa na árvore pra mim e eu queria muito te contar, por isso nós viemos aqui. — sorriu.
— E eu posso participar disso também? — perguntou, deixando Charlie feliz.
— É claro, combinamos de começar no fim de semana, se você estiver livre, é claro. — disse sob o olhar atento de .
Havia algo nele que não tinha agradado Charlie, mas talvez ela estivesse tão apegada a ideia de juntar seu pai e , que qualquer homem que se aproximasse da mulher acabaria virando uma ameaça para ela.
— Com certeza estarei. Mas nós combinamos, certo? Agora eu preciso ir. — assentiu.
Charlie deu um abraço em e acenou para .
— Foi um prazer conhecer você, Charlie! — sorriu para a menina.
— Foi um prazer conhecer você também! — ela retribuiu a gentileza e puxou para atravessarem a rua, com mais cuidado dessa vez.
— Você acha que ele é namorado dela? — Charlie perguntou para , que não soube responder.
— Vamos almoçar? — ele perguntou, querendo mudar o assunto, mas Charlie o olhou feio.
— Você é impossível pai! — a menina riu e apressou o passo, deixando para trás. Não sabia exatamente o que havia sentido ao ver com o tal , mas lá no fundo torcia para que eles fossem apenas bons amigos.

(...)

Ao cair da noite, enquanto se arrumava para o jantar em família, escutava algumas músicas que estava pensando em incluir no seu repertório de shows. Gostava de estar sempre renovando e por dentro das novidades do mundo da música, pois costumava tocar em bares universitários.
Porém não escondia sua paixão por músicas antigas e mais clássicas, que escutava com seu pai quando era criança.
observou o porta retrato sobre o criado mudo e o pegou, apertando contra o peito. Julie fazia tanta falta que nem sabia mensurar a grandeza da saudade que sentia, mas, quando olhava para Charlie, era como se o vazio nunca tivesse existido, pois a menina era uma parte de Julie também e, mesmo que fosse difícil criá-la sem a mãe por perto, o amor de Charlie compensava tudo.
— É tudo por você e por ela, eu prometo. — ele falou, esperando que ela ouvisse onde quer que estivesse.
, filho? — ouviu a voz de Gray chamar seguido de duas batidas na porta.
— Pode entrar. — respondeu, colocando o porta retrato de volta no lugar.
— Cece está ajudando Charlie a terminar de se arrumar e eu vim aqui conversar com você um pouco. Como você está? Te achei pra baixo hoje. — Gray observou.
— Sinto falta dela, pai. — disse, se referindo a Julie.
— Todos nós sentimos, meu filho. — Gray abraçou , que se permitiu chorar feito um bebê. A verdade é que se fazia de forte o tempo todo por causa de Charlie, não queria que ela o visse chorando pelos cantos e ficasse triste também. Mas estava no seu limite, então se permitiu liberar todo sofrimento que estava dentro dele.
— Eu achei que com o tempo se tornaria mais fácil, mas não é bem assim. Será que eu sou um bom pai mesmo? Será que Julie não seria melhor pra nossa filha do que eu sou, pai? — Gray segurou o rosto de , fazendo com que ele o encarasse.
— Julie seria uma mãe maravilhosa, , mas você também é um pai incrível! Cece e eu temos muito orgulho do homem que você se tornou e eu tenho certeza que Julie e Charlie também se orgulham de você. — assentiu e sorriu fraco.
— Eu não sei o que seria de mim sem vocês por perto! — disse, abraçando o pai.
— Filho, faz muito tempo desde que Julie se foi e você se fechou pro amor, se dedicou integralmente ao papel de pai e ao trabalho. Você nunca pensou em ter alguém? — Gray perguntou cautelosamente.
— É complicado. Eu nem sei mais se eu tenho a capacidade de amar alguém de novo, meu pai, e, além do mais, Charlie precisa de mim. — Gray sorriu. Queria tanto que o filho fosse feliz e que tivesse alguém para cuidar dele e de Charlie. Alguém que tivesse a capacidade de amá-lo e de enxergar o quão incrível ele era e que pudesse amar Charlie também. Todo mundo merecia uma segunda chance, e com não seria diferente.
— Aquela moça, , o que acha dela? — Gray perguntou, fazendo rir. Não era possível que seu pai também estava fantasiando essas coisas. Ele e não tinha nada a ver, seriam sempre amigos.
— Não começa você também, pai, é bonita e uma pessoa agradável, mas somos amigos, não, nada a ver. — ele afirmou.
— Charlie a adora e eu sei que é recíproco, então ela seria a pessoa perfeita para fazer você feliz, meu filho.
— Eu sou feliz, pai, afinal, tenho vocês, quem sabe um dia eu não estarei pronto pra abrir meu coração de novo? — Gray assentiu, dando dois tapinhas na costa do filho e sorriu.
— Tudo bem, meu garoto, mas pense bem, hein? Vou ver se está tudo bem com Flynn e espero você lá embaixo. — Gray se levantou, deixando sozinho com seus pensamentos.
levantou e olhou pela janela, avistando sozinha na pequena sacada de seu quarto. Ela tinha a cabeça baixa e parecia estar chorando. pensou em mandar uma mensagem para ela, mas foi interrompido por Charlie entrando em seu quarto.
— Paizinho, nós estamos esperando você. Está pronto? — ela caminhou até onde ele estava e avistou também.
— Você estava observando a ? — a menina sorriu e revirou os olhos em desaprovação. De repente Charlie estava obcecada em encontrar sinais de que o pai estava interessado na moça.
— Eu só olhei pela janela e a vi, parece estar triste. O que você acha? — ele perguntou.
está triste, vamos chamar ela pra ir jantar com a gente, pai?
— Filha, vamos deixar a quieta, está bem? Eu acho que ela não está em um bom momento e nós não devemos ser intrometidos. Amanhã você pode convidá-la para dar uma volta com Flynn, o que acha? — Charlie concordou e sorriu animada.
— Você é melhor, paizinho, eu te amo! — se abaixou para abraçar a filha e distribuir beijos pelo rosto da menina.
— Agora vamos? Seus avós devem estar nos esperando e eu estou faminto. Você não?
— Sim, piriliiiim! Vamos, paizinho!
deu uma última olhada pela janela antes de seguir Charlie e seu olhar cruzou o de , que sorriu fraco e acenou brevemente. E, por mais que seu desejo naquele momento fosse atravessar a rua e consolá-la, seja lá por qual motivo ela estivesse triste, apenas pediu em seu pensamento que tudo ficasse bem.


Quatro


Thanks for all you've done

I've missed you for so long


Por algum tempo permaneceu caminhando pelo largo campo florido procurando por alguém. Não sabia como havia ido parar ali nem porquê. Era tão bonito e tranquilo, que ela sentiu-se em paz, como se nenhum problema que ela possuísse no momento pudesse atingi-la. Ela sentou-se embaixo de uma árvore e sentiu um vento cálido lhe atingir em cheio, bagunçando seus cabelos. sorriu, pois sabia exatamente o que viria a seguir. Jamais esqueceria aquele perfume. 

Ao abrir os olhos, nem se deu ao trabalho de olhar para o lado, apenas sentiu o toque leve e macio da mão de Dylan tocar a sua. Havia almejado tanto tempo aquele encontro, mas a esperança dentro de si encontrava-se adormecida. Aquilo era mesmo real?

— Você veio... — ouviu ele dizer em meio a um sorriso alegre. Quando ela finalmente virou-se para encará-lo, quase sentiu o coração rasgar o peito de tanta alegria. 

— Como isso é possível? — perguntou.

— Há muito mais mistérios no céu do que você imagina, meu amor. — ela assentiu e encostou a cabeça no ombro de Dylan. Ele entrelaçou os dedos nos dela e assim permaneceram por alguns longos minutos, apenas apreciando a presença um do outro.

— Sinto sua falta, você não imagina o quanto é difícil sem você. — a voz de quase inaudível denunciou um choro preso na garganta. Isso fez com que o coração de Dylan se comprimisse e ele sentisse uma dor insuportável lhe atingir em cheio. Não poder estar ao lado de e saber que ela se sentia culpada pela sua morte era a pior sensação.

— Eu também sinto a sua. — Dylan beijou o topo da cabeça da garota. 

levantou a cabeça de modo que pudesse encarar Dylan, que agora observava o grande campo florido. Ele sorriu fraco, como se soubesse o que se passava pela mente de . 

— Você quer saber sobre o receptor, não é? 

assustou-se com a pergunta no primeiro momento, mas não poderia fugir daquele assunto. Sua vida agora se resumia a esta questão.

— Você acha que sou louca por isso? — ela retribuiu a pergunta.

— Eu não julgo você, mas precisa ter cuidado, vai magoar pessoas com essa busca. — ela assentiu. 

— Você acha que é o certo a se fazer, então? — perguntou, esperançosa.

— Não há uma verdade absoluta, — Dylan respondeu com convicção e ela lançou-lhe um olhar carregado de dúvida. — E eu não posso interferir nas suas decisões. Você precisa buscar pelas respostas aqui dentro. — Dylan apontou para o coração da garota e pousou sua mão ali.

— Eu... — sentiu que não iria conseguir segurar o choro e Dylan a apertou contra si. Era doloroso para ele também.

— Você não pode passar a vida se culpando, está bem? Foi uma fatalidade... — ele tentou confortá-la. 

assentiu e abraçou Dylan. Não queria que aquilo acabasse, mas tinha certeza que estava chegando ao fim, pois a sua visão começou a ficar turva e a voz de Dylan parecia ficar cada vez mais distante.

— Dylan? Eu não quero ir embora, eu preciso de mais tempo com você, por favor! — ela implorou baixinho, assistindo o cenário à sua frente se desfazer.

— No momento certo vamos nos encontrar de novo. Mas não esqueça: eu amo você, pra sempre! — ele disse antes de tudo desaparecer da vista de . Agora tudo se resumia à escuridão e a sensação de solidão fazia querer gritar e quase sufocar.

Pra sempre.

Sempre.

I can't believe you're gone

You still live in me


acordou sobressaltada e com a respiração ofegante. Seu corpo inteiro doía por conta da posição na qual havia pegado no sono. 

Aquela sensação...

Aquele sonho parecia tão real que que mal conseguia se mexer, estava paralisada e buscando por indícios de que não estava ficando louca.

Dylan teria mesmo ido ao seu encontro ou era só a sua mente usando seu desejo intenso de encontrá-lo para projetar essa fantasia? 

Não saberia explicar. Entretanto, apesar de angústia que estava sentindo, uma parte dela estava feliz por ter sentido o toque dele novamente.

Não importavam as diversas teorias acerca de sonhos. Para ela havia sido real e um pouco confortante.

encarou o notebook à sua frente com várias abas sobre transplante de coração abertas e decidiu por ora encerrar sua busca. Estava exausta mentalmente, mas fisicamente sentia-se pronta para correr uma maratona se fosse preciso.

Pegou o celular para checar suas mensagens e percebeu que haviam dez ligações perdidas de . Entretanto não estava pronta para encará-lo depois da breve discussão acerca do assunto sobre o receptor. havia surtado, pois achava um pensamento mórbido demais para que fosse colocado em pauta. E havia deixado claro que jamais participaria disso por ter a certeza de que estava projetando suas frustrações naquela ideia e que nada ia mudar o fato de que Dylan estava morto. No fundo, talvez ele tivesse um pouquinho de razão e respeitava sua vontade de não querer acompanhá-la na busca ao receptor, mas não ia permitir que interferisse em suas decisões.

Decidiu apenas ignorar e deixar aquela conversa para quando estivessem com a cabeça fria, pois era seu melhor amigo também e não queria de maneira alguma deixá-lo de fora da sua vida. 

sorriu ao abrir uma mensagem de , sua melhor amiga, que estava em Nova York visitando a família de Martin, seu namorado.


''Desculpe a ausência, mas é que nós temos feito tantas coisas por aqui. Prometo que vou compensar assim que chegar em SF, me manda notícias, está bem?'

digitou uma breve mensagem para a amiga e achou estranho ao ver que a outra mensagem não lida vinha de um número desconhecido.


'Oi, , aqui é o . Tomei a liberdade de pedir seu número pra sua mãe, espero que não seja problema. Tem algo pra fazer hj? Charlie pediu pra te chamar pra jantar com a gente. Topa?’

Agradeceu por aquele momento de distração e resolveu fazer uma surpresa para Charlie. Levaria algumas fatias de bolo de chocolate para a menina, pois sabia que ela gostava, e um vinho da velha adega de seu pai para .


I feel you in the wind

You guide me constantly

XXX


Enquanto aguardavam o jantar ficar pronto, Charlie e se divertiam na sala cantarolando algumas músicas e Flynn aproveitava para tirar um cochilo no carpete fofinho de Cece, que havia ido até a cidade de Santa Cruz com Gray visitar sua afilhada que estava prestes a dar a luz. Ao toque da campainha, Charlie saiu correndo, sem dar tempo de alcançá-la, pois tinha certeza que era .

— Você veio! — Charlie disse ao ver a garota parada na porta carregando uma vasilha de um lado e uma garrafa de vinho do outro.

— Que programa mais legal eu teria pra fazer hoje a não ser jantar com você, pequena? — a garota sorriu e lhe entregou a vasilha com fatias de bolo de chocolate. — E eu trouxe a sobremesa.

— Ei, . — pareceu surpreso ao ver a sua vizinha parada em sua porta com uma garrafa de vinho em mãos. Achava que havia sido invasivo demais ao pegar o número de seu telefone com Lauren.

— Eu quis fazer uma surpresa, por isso não respondi a sua mensagem, me desculpe. — ela respondeu ao notar a expressão do rapaz.

— Ah, tudo bem. O jantar está quase pronto, entra. — abriu espaço para que entrasse. Flynn pareceu ser mais educado dessa vez, já que apenas esperava por sua vez de cumprimentar a garota. 

— Ei, Flynn, é uma pena que eu não tenha petiscos em casa, mas eu prometo que da próxima vez eu trago algo pra você, garotão. — brincou e Flynn pareceu entender, já que latiu de imediato para ela e ergueu uma pata. 

— Pai, a trouxe bolo de chocolate e eu amo chocolate, um tantão assim. — Charlie abriu os braços até onde conseguiu para demonstrar a eles o que havia acabado de dizer. 

— Ah, mas é claro que ama. Da última vez você devorou todas as fatias de bolo sozinha e quase passou mal, lembra? — repreendeu a filha, que escondeu o rosto entre as mãos desconfiada.

colocou a garrafa de vinho sobre o balcão e sentou-se em uma dos bancos que havia em volta.

— Minha mãe que fez, bolo de chocolate é a minha sobremesa favorita, sabia? 

Charlie abriu a boca, surpresa pela informação.

, você gosta das mesmas coisas que eu e isso é engraçado! — a menina riu e acomodou-se no banco vazio ao lado de .

— Isso se chama afinidade, filha, por isso você e se deram tão bem, apesar da diferença de idade. — entrou na conversa enquanto analisava a lasanha no forno. 

fez cara de ofendida com o que o pai de Charlie havia acabado de dizer, mas ele mal percebeu que ela continuava o encarando com a expressão incrédula.

— O quê? — ele perguntou.

— Você me chamou de velha, . — ela respondeu, emburrada, e quase caiu na brincadeira, pois arregalou os olhos pensando no que havia dito.

— Droga, eu sou péssimo em fazer cortesia às visitas. — ele bufou e revirou os olhos. 

desfez a sua expressão de irritada e caiu na gargalhada com aquilo. Adorava pessoas com senso de humor e de longe podia perceber que era uma pessoa fácil para manter uma relação de amizade saudável, daquelas que você pode zoar sem medo de que a pessoa fique chateada, mas, claro, tudo dentro do limite. 

Sentia-se à vontade ao lado dele e isso já era um bom começo.

— O que significa ‘afinidade’, papai? 

— Significa uma combinação ou semelhança de gostos, interesses e sentimentos. — Charlie assentiu diante da explicação do pai e sorriu.

— E eu acho muito legal ter afinidade com você, pequena, eu sempre quis ter uma irmãzinha assim como você, mas meus pais acharam que já eram velhos demais pra isso, então acabei sendo filha única. 

— Mas eu poderia ser sua filha, não poderia?

Um breve silêncio se instalou na cozinha, pois tanto quanto não sabiam o que responder para a menina, que os encarava, esperando por uma resposta à sua pergunta.

— Filha, isso não é pergunta que se faça. Vocês podem sempre ser amigas, olha que legal… Além do mais, é muito nova pra ser mãe, eu suponho. — riu da cara de desespero do rapaz. Segurou as mãos de Charlie e encarou a menina com um sorriso doce nos lábios.

— Eu vou ser a mulher mais feliz do mundo se um dia tiver uma filha que seja pelo menos a metade do que você é, Charlie. Adorável, esperta e inteligente, acredite, você é a criança mais incrível que eu já conheci na vida. — Charlie sorriu largamente e agradeceu mentalmente por aquele momento não ter se tornado constrangedor. 

Era perceptível que Charlie estava tentando a qualquer custo fazer com que e ficassem mais próximos de alguma forma e, por ser uma criança sonhadora e adepta dos contos de fadas, acreditava que as coisas seriam fáceis assim. 

— Pai, eu tô com fome! — Charlie resmungou. 

e sorriram cúmplices por terem conseguido desviar daquele assunto por ora e logo trataram de cuidar para que o jantar fosse servido.


(...)


— Você cozinha muito bem, ! — elogiou ao terminar de comer a lasanha preparada por ele e recebeu um sorriso em agradecimento. 

— Te passo a receita depois, se quiser. Você cozinha? 

— Eu me arrisco. — respondeu.

— Pai, posso comer uma fatia de bolo? — Charlie perguntou e assentiu.

serviu a menina com uma fatia de bolo em um prato sob o olhar atento de Flynn, que não desistia de tirar uma lasquinha de comida humana. 

— Vem, Flynn, vamos assistir desenho na sala! — o labrador seguiu a menina até desaparecem da vista dos adultos.

— Ei, não precisa, você é nossa convidada. — disse ao ver começar a retirar os pratos sujos para colocar na pia. 

— Não é problema pra mim, , gosto de ajudar. — ela sorriu e se encostou no balcão para observá-la. era dona de uma beleza incontestável, entretanto, a sua simplicidade era que tornava a sua beleza rara. sabia que, por trás daquele sorriso, havia marcas causadas por uma grande perda, a qual ele já havia experimentado a sensação. Perder alguém era mesmo uma dor insuportável, que amenizava com o tempo mas nunca cessava. Queria poder dizer a ela que tudo ficaria bem e que poderia contar com ele e sua família, mas não queria parecer invasivo demais. Precisava esperar que desse abertura para tal atitude. Mas não fazia questão de esconder o seu apreço pela garota que havia conquistado o coração de sua filha e de seus pais. Ela era mesmo muito especial.

— Terra chamando … — estava tão envolvido com seus próprios pensamentos que nem se deu conta da aproximação de . 

Ele sorriu fraco e olhou incrédulo para a pia, que estava limpa.

— Você não quis me ajudar, então fiz tudo sozinha — riu, descrente com a “acusação”.

Num gesto rápido, o rapaz passou o dedo pela cobertura de chocolate e passou no rosto de . Ela arregalou os olhos e gargalhou alto vendo a sua indignação.

— Eu não acredito que você fez isso! — ele levantou as mãos em sinal de rendição quando viu enfiar o dedo no chocolate e ameaçar sujar seu rosto. Ela bufou quando percebeu que seria mais difícil por ser mais alto do que ela, mas não desistiu de dar o troco.

rodeou o balcão, ficando frente a frente com , que estava do outro lado, apoiando-se nas pontas dos pés para tentar alcançar , mas em vão.

— Droga, , eu desisto. Você venceu! — disse, erguendo as mãos e enfiando o dedo sujo de chocolate na boca, se deliciando com o alimento.

— Pelo menos eu não desperdicei esse chocolate em você, né?

— Você é fraquinha demais, fácil ganhar de você. — se gabou, recebendo um olhar feio da garota em seguida. 

pegou um pano limpo e foi até o lado onde ela estava, pedindo licença para limpar seu rosto. não conseguiu evitar o contato direto com , que estava concentrado em tirar a mancha de chocolate do rosto dela. Era impossível não notar a beleza dele, mesmo com a expressão cansada e as olheiras por conta das noites mal dormidas por causa da sua atual profissão. Mesmo nunca tendo visto Julie, achou que Charlie se parecia muito com o pai, quase como uma cópia perfeita.

O olhar deles se cruzou e ambos sorriram, felizes por estarem compartilhando um momento agradável e divertido e pela amizade que estava surgindo.


(...)


Horas mais tarde, enquanto assistiam a um desenho qualquer na TV e conversavam sobre coisa aleatórias, Charlie estava adormecida no colo de .

— Vou levar ela pro quarto, você me espera aqui? — falou baixinho para não acordar a menina. Quando já estava com ela no colo, Charlie abriu os olhos devagar e segurou a mão de .

, me coloca na cama? — pediu manhosa e a garota se pôs de pé prontamente para acompanhar .

— Claro, meu amor. — ela deu um beijo na bochecha de Charlie e achou aquela cena adorável. tinha muito jeito com crianças e o carinho que ela tinha com Charlie era algo de se admirar.

caminhou com Charlie em seu colo até chegar ao quarto no fim do corredor. abriu a porta para que eles entrassem e ficou encantada com a decoração do quarto da menina.

Era num tom verde claro e branco, com poucos detalhes em rosa. Uma caminha encostada na parede cheia de almofadas e algumas bonecas organizadas uma ao lado da outra. A cama de Flynn ficava ao lado da de Charlie e seus brinquedos estavam espalhados pelo chão. Mas o que mais chamou a atenção de foi a pequena prateleira de livros no canto da parede. 

colocou a menina na cama e ela balbuciou o nome de , que foi até ela e sentou na beirada da cama, afagando seus cabelos.

— Deus te guarde, pequena, tenha bons sonhos. — apenas observava em silêncio fazer carinho em Charlie até que tivesse certeza que ela estava adormecida. Então ele se aproximou e beijou a testa da filha. Flynn logo se acomodou em sua cama como se estivesse ali para zelar pelo sono de sua companheira.

e saíram de fininho para não fazer nenhum barulho e seguiram novamente para a sala.

— Acho que agora podemos apreciar o vinho que você trouxe, o que acha? — assentiu, achando uma ótima ideia. — Vou pegar as taças e a garrafa, já volto.

pousou os olhos sobre um porta-retrato que estava na estante no canto da sala e imaginou ser Julie. Os cabelos castanhos caindo em perfeitas ondas sobre o ombro e um sorriso estonteante. Acariciava sua barriga e estava radiante. imaginou o quanto Charlie foi esperada por sua mãe e por , claro. Mas em especial Julie, que a carregou nove meses no ventre. Se perguntou se Julie conseguiu ao menos ver o rostinho de Charlotte e se ouviu seu primeiro choro. Ser mãe era uma dádiva e Julie sentiria muito orgulho de Charlie se estivesse aqui, tinha certeza. 

sentiu uma lágrima solitária escorrer pelo seu rosto e jurou que não ia estragar aquele momento chorando que nem uma boba. Era um assunto muito delicado e não queria deixar triste por ter que falar sobre isso.

— Ela era linda, não era? — limpou o rosto rapidamente e virou para encarar , que tinha consigo as duas taças e a garrafa de vinho.

Ele colocou tudo sobre a mesa de centro e caminhou até onde estava parada admirando o retrato de Julie.

— Era… — ela sorriu fraco.

notou o semblante triste de e afagou seus cabelos com cuidado. Ela fechou os olhos e de repente sentiu-se mais à vontade para deixar alguma lágrimas escaparem.

— Isso… demora a passar? — perguntou e soube exatamente sobre o que ela estava falando. Ele respirou fundo e involuntariamente encostou-se em seu ombro. Estava tão cansada e precisando de alguém que entendesse a dor que ela estava sentindo, que nem ao menos se importou com o fato de não conhecer o suficiente para trocarem confidências e carinho. Confiava nele e isso bastava naquele momento. 

— Nunca passa. Mas com o tempo a dor ameniza, porque você para de se questionar como seria se a pessoa ainda estivesse aqui e passa a agradecer os momentos que teve com ela. Você não se sente triste ao lembrar, não tanto, na verdade. A tristeza aos poucos vai dando lugar a alegria de ter tido o privilégio de ter sido amada por esse alguém, sabe? Mas é claro que isso não é uma regra, pois nem todo mundo consegue desapegar, digamos assim. — respondeu. 

secou o rosto novamente e levantou a cabeça para encará-lo.

— Eu tenho a sensação de que esse vazio nunca mais vai ser preenchido, entende? De que eu não vou conseguir colocar minha vida nos eixos de novo, porque eu não consigo imaginar a minha vida sem ele… Isso é tão… Estranho. — sorriu fraco e passou a mão pela bochecha de , que ainda estava molhada por causa do choro. 

Ele a puxou para que pudessem voltar a sentar no sofá e serviu as taças de vinho, entregando uma para ela.

— Eu acredito que as pessoas sejam insubstituíveis, mas daí achar que esse vazio vai permanecer sempre aí é errado. Por algum tempo você vai mesmo se sentir dessa forma, mas existem inúmeras novas formas de continuar, , a vida nunca pode parar. Por você e por ele… — apertou a mão de carinhosamente e ela sorriu. tinha uma visão de mundo muito madura e era confortante ouvir os conselhos que ele tinha para dar.

bebeu um pequeno gole do líquido roxo da taça e fez o mesmo.

— Eu me culpo pela morte do Dylan e isso me consome dia após dia. Um ano se passou e eu ainda não consigo me livrar desse sentimento, todas as noites, quando eu deito a cabeça no travesseiro, o peso da culpa cai sobre mim. É horrível. — a garota piscou os olhos repetidas vezes para evitar que mais lágrimas caíssem. 

— Se você não quiser falar sobre isso, não tem problema, viu? Eu não quero que essa noite seja triste pra você. — ela assentiu. 

— Nós tivemos uma briga por insegurança minha e ciúmes, foi horrível e ele saiu da minha casa muito irritado. Mas nunca passou pela minha cabeça que aquela seria a nossa última briga e a última vez em que eu o veria com vida. Então, horas mais tarde a mãe dele me ligou dizendo que ele estava no hospital em estado grave…

— Você não tem que se culpar, , foi uma fatalidade, você não poderia prever o que viria a acontecer. 

— É difícil me convencer disso, talvez, se eu tivesse sido um pouco mais compreensiva, ele não teria saído daquela forma e dirigido em alta velocidade. — aproximou-se um pouco mais de , puxando seu rosto com delicadeza para que ela o encarasse.

Ele fitou os olhos marejados da garota e sentiu seu coração pesar por vê-la tão frágil.

— Você não teve culpa nenhuma, acredite em mim. Você acredita? — não soube dizer exatamente o porquê, mas bem ali, naquele momento, teve a visão de Dylan à sua frente proferindo aquelas palavras. Então, lembrou do sonho que teve mais cedo.

— Acredito. — respondeu. — Obrigada, . Pelo jantar e por me ouvir. 

— Obrigado pela sua companhia e pelo vinho, . — ergueu a taça para ela, que retribuiu o gesto. — E me desculpe pela Charlie.

— Aquela danadinha… Você tem muita sorte por tê-la, Charlie é uma criança iluminada. Confesso que ela trouxe um pouco mais de cor pro meu mundo. — sorriu orgulhoso. Era um pai extremamente coruja que se gabava pelos feitos da filha, e ouvir as pessoas falando tão bem da menina aquecia o seu coração. Charlotte era uma criança muito especial e nunca mediu esforços para fazê-la feliz. Era verdade que Julie fazia muita falta, mas havia deixado uma grande missão e um grande presente para ele na terra, nada mais justo que fizesse a sua existência valer a pena.

— Ela gosta muito de você e eu fiquei surpreso por ela ter deixado você entrar tão rápido na vida dela. Charlie é uma criança muito fácil de lidar, mas não são todas as pessoas que conseguem a atenção dela, assim, tão rápido. Julie era muito sensitiva com as pessoas e eu acredito que Charlie também seja. — sorriu. Sabia que havia se tornado importante para Charlie, assim como a menina havia se tornado importante para ela também. E saber que Charlie havia gostado dela de cara a fazia se sentir ainda mais especial.

— Posso fazer uma pergunta? — perguntou receosa, mas assentiu enquanto enchia novamente as taças. 

— Você nunca mais se apaixonou por ninguém? É que já faz tanto tempo…

negou de imediato e pareceu surpresa com a resposta negativa do rapaz.

— Já tive alguns pequenos casos, mas nada que ultrapassasse isso. Nunca levei ninguém pra conhecer minha família porque nunca encontrei ninguém que me despertasse essa vontade. Acho que me bloqueei, sabe? E eu sempre tive um certo receio por Charlie, é difícil encontrar alguém que a trate bem e que entenda que ela precisa muito de mim ainda. — deu um gole em sua bebida enquanto digeria sua resposta.

Era válido que não estivesse sozinho durante esse tempo, afinal, todos tinham suas necessidades, mas era nítido que ele havia se fechado pro amor, já que era quase impossível que alguém não se apaixonasse por ele.

era do tipo paizão dedicado, compreensivo e super inteligente e ainda por cima cantava e cozinhava muito bem. Eram qualidades que qualquer mulher em sã consciência apreciaria.

— Seria abusar muito do nosso começo de amizade se eu pedisse pra você cantar pra mim? 

— É claro que não, vai ser um prazer, senhorita. — fez uma breve reverência e levantou-se para pegar o violão.

bebeu o resto de vinho que restara em sua taça sentindo-se um pouco tonta por conta da quantidade álcool ingerida. Era muito mais do que ela costumava ingerir, já que não era muito fã de bebida alcoólica Observou se acomodar novamente no sofá e posicionar o violão em seu colo.

Hey, Jude, don't make it bad… cantou a primeira frase de Hey jude num tom suave e calmo que fez fechar os olhos e se deixar levar por aquele momento de paz. Não queria pensar em nada triste naquele momento.

Take a sad song and make it better, remember to let her into your heart, then you can start to make it better… — dessa vez cantarolou junto, o que fez abrir um sorriso largo por notar o quão doce e agradável era a voz de ao cantar. Ela levava jeito.

Hey, Jude, don't be afraid, you were made to go out and get her deixou com que cantasse sozinha dessa vez, fazendo seu rosto corar e ela desviar o olhar para o chão.

The minute you let her under your skin, then you begin to make it better… observou repousar seu corpo no sofá e fechar os olhos. Continuou cantarolando baixinho no ritmo da música, sentindo seu corpo relaxar e sua mente viajar para algum outro lugar. silenciou, apenas tocando a melodia em seu violão e observando adormecer em seu sofá. 


And anytime you feel the pain

Hey, Jude, refrain

Don't carry the world upon your shoulders


aproximou-se devagar. Percebeu que havia de fato pegado no sono e ficou com pena de acordá-la. Observou a expressão serena da garota e sua respiração tranquila que fazia seu peito subir e descer lentamente. Sorriu por sentir uma paz encher seu coração e aquecer a sua alma. Fazia tempo que não se sentia daquela maneira. 

Então foi até seu quarto pegar um cobertor e um moletom para caso acordasse sentindo frio. Cobriu a garota e deixou a peça à vista. 

Mas, antes de ir para seu quarto, fez um carinho na testa dela e pediu baixinho para que tudo ficasse bem. 

— Boa noite, .


For well you know that it's a fool

Who plays it cool

By making his world a little colder


Continua...



Nota da autora: Queria começar dizendo que eu particularmente achei esse capítulo bem fofo. Nossos pp’s iniciando essa amizade repleta de respeito e carinho é algo bonito de se ver, né não? E a nossa pequena Charlie atrevidinha? Ela vai ser responsável pelos momentos engraçados dessa fanfic, podem apostar! E eu queria contar duas novidades: a primeira é que eu resolvi criar uma playlist no spotify pra fanfic, já que o nosso pp é cantor, não poderão faltar músicas, portanto, vou acrescentando as que me inspiram a escrever e as que eu vou usar nos capítulos, certo? Play de SFTH no spotify
E a segunda novidade é o grupo no whatsapp, eu acho que seria mais legal e mais fácil de interagir com vocês, leitoras. Então se alguém quiser entrar e conversar com essa autora que vos fala, será muito bem vinda. Quero muito falar com vocês sobre SFTH!

No mais, é isso. Vejo vocês na próxima att dupla?

Um super beijo, Ray :*



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Outras Fanfics:

Ficstapes
03. Trainwreck (Demi Lovato – Don't Forget)
09. The middle (Demi Lovato – Don't Forget)
10. Trough With You (Maroon 5 – Song about Jane)
12. U Smile (Justin Bieber – My world)
13. My Song (Alexia Cara – Know-it-all)
16. Memories (Shawn Mendes – Handwritten Revisited)

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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