IMG-20180219-WA0029
Última atualização: 08/05/2018

Prólogo


Aquele, definitivamente, era o lugar onde gostaria de estar. No lugar dele. Era onde ela pensava que deveria estar. Enterrada, junto com a sua culpa. Junto com o seu egoísmo. Mas assim seria fácil demais, ela realmente sentia que merecia aquela dor que estava sentindo. Perdeu a única pessoa pela qual foi capaz de nutrir um amor verdadeiro, mas nem mesmo esse amor foi o bastante para se tornar alguém melhor o suficiente para ele. E era esse o pensamento que pairava sobre ela, ali, caminhando em direção ao túmulo recém aberto de Dylan, cuja vida lhe foi tirada precocemente, de forma cruel.
O motivo da briga era idiota, como sempre: seus ataques histéricos de ciúme e a sua forma impulsiva de agir. Mas, naquele dia, tudo parecia ser pior. Cada toque, cada palavra dita, tudo remetia a ela a sensação de ser a última vez. De que, ao cruzar aquela porta, ele iria embora. O que ela só não sabia é que não teria mais tempo para se desculpar, pois Dylan estava indo embora para sempre.
Até agora a ficha pareceu não cair. tinha pessoas incríveis ao seu lado, que tentavam a todo custo amenizar sua dor, mas isso não era suficiente, levando em consideração a culpa que agora sentia crescer assustadoramente dentro de si. Lilly e Robert, que sempre a acolheram como uma filha desde que Dylan e ela assumiram um relacionamento para a família, faziam questão de lhe dizer o quão amada era pelo filho deles, e que ela não poderia se culpar pelo acidente, pois fora uma fatalidade. Mas foi saindo da sua casa e batendo a porta com força. Foi correndo com aquela moto em um dia chuvoso. Como ela poderia ter permitido? Como poderia não ter ido atrás enquanto era tempo?
Eles, sim, eram fortes. Muito mais fortes do que . Sofriam a perda de um filho e, em vez de odiá-la, ainda tentavam fazer com que ela se sentisse melhor. E pior, ainda conseguiam pensar no próximo, enquanto ela continuava caminhando lado a lado com seu egoísmo. Ela ainda não havia aceitado bem o fato de Dylan ter sido mutilado. De que uma parte dele, a parte que era única, o tesouro mais precioso que ele tinha, pertencia agora a outra pessoa. Ninguém era digno de ter consigo os sentimentos dele. A vida dele. Os sonhos dele. Porque, na maioria dos casos, era isso o que acontecia quando era decidido doar um coração a alguém. Suas vontades, seus planos, suas habilidades, tudo isso brotava como mágica no receptor. Se ao menos soubesse a quem pertencia o coração de Dylan agora, mas o receptor não poderia ser informado por questões éticas e talvez até emocionais. Mas nem isso seria o suficiente para cessar a culpa e a dor que ela carregava consigo naquele momento, segurando uma rosa branca e prestes a dizer as suas últimas palavras para ele.
sentiu cada mísera parte do seu corpo doer, estava sem forças para encarar o que viria a seguir, mas precisava manter-se de pé para assistir ao ato final. Aproximou-se do túmulo sob o olhar atento das muitas pessoas presentes ali e se ajoelhou, encarando o caixão já dentro do grande buraco e se permitindo chorar.
– Espero que me perdoe por ter sido uma completa idiota, Dylan… Se não fosse por minha teimosia em insistir numa briga sem fundamentos, você ainda estaria aqui, com vida. Eu nunca vou me perdoar por isso, nunca. – ela sussurrou, apertando a rosa contra o peito e sentindo o ar lhe faltar. – Eu não sei o que vai ser de mim agora, mas prometo tentar ser alguém melhor do que fui pra você, está bem?
Tudo o que se podia ouvir eram soluços e choros incessantes, que carregavam um misto de tristeza e dor e pouco a pouco atingiam como se fossem milhões de facas afiadas. E, acredite, ela queria que fossem.
sentiu uma mão pousar em seu ombro e virou-se para ver quem era.
– Sinto muito, querida, mas não podemos adiar mais esse momento. – Robert, pai de Dylan, dirigiu-se a ela com Lilly ao seu lado.
Era impossível descrever a sensação de ver o estado em que os dois se encontravam. Dylan era filho único do casal e sentiu-se muito culpada por aquilo.
– Eu não consigo me despedir dele, não… – tornou a chorar, sentindo o ar sumir dos pulmões e a cabeça pesar.
Lilly, que não estava um pouco melhor, a abraçou e afagou seus cabelos num gesto de carinho. Tinha como uma filha e sabia que ela nunca seria capaz de fazer algum mal ao filho, e que tudo ocorrera como uma fatalidade. A vida era mesmo assim, incerta e cheia de idas e vindas. Não havia nenhum culpado na morte de Dylan.
– Nós precisamos deixá-lo ir, está bem? – Lilly enxugou as lágrimas do rosto da garota e ela assentiu, em silêncio.
Não tinha mesmo mais nada a se fazer, a não ser aceitar que Dylan agora pertencia a outro mundo e que, se desse sorte, ela o encontraria em seus sonhos. segurou a mão de Lilly e beijou a rosa, jogando-a em cima do caixão. Era o momento mais difícil, mas estavam juntas e era isso que importava.
– Eu sempre vou amar você, Dylan…


Um


saiu de casa percebendo uma grande movimentação do outro lado da rua. Um caminhão de mudanças estava estacionado em frente à casa que estava desocupada havia um bom tempo e agora estava sendo ocupada por uma nova família. Ela avistou uma garotinha que aparentava ter uns sete anos correndo na calçada com um labrador em seu encalço e sorriu fraco. Era tão estranho imaginar que um dia comum poderia representar sensações diferentes para cada pessoa. Enquanto, do lado de cá, ela estava sentindo-se deprimida pelo aniversário de morte de Dylan; do outro lado, pessoas comemoravam, talvez, um recomeço.
Queria dar as boas vindas àquelas pessoas, mas não estava em um de seus melhores dias para tal feito, já que não tinha vontade nenhuma de sorrir, então se limitou a acenar para a garotinha, que agora lhe encarava com um grande sorriso no rosto.
entrou no carro e deu partida. Dirigiu até o cemitério, como fazia todos os meses na data da morte de Dylan, com o pensamento longe e melancólico. Odiava interagir com as pessoas – exceto Lilly – naquele dia, então passava algum tempo no cemitério e depois se permitia passar o resto do dia em casa, chorando e se culpando pela morte do noivo. comprou algumas flores na floricultura ao lado do cemitério, como de costume, e entrou. Caminhou até a sepultura de Dylan, onde Lilly e Robert estavam sentados.
, minha querida! – a mãe de Dylan sorriu docemente ao ver a garota se aproximar.
– Oi, Lilly. – a abraçou ternamente e sentiu uma vontade súbita de chorar. Ainda se culpava pelo fatídico dia do acidente e sabia que demoraria a conseguir superar.
– São flores lindas. – Lilly disse, tomando o ramo das mãos da garota, que agora passava a mão pela foto de Dylan na lápide. Nunca mais o veria sorrir daquela maneira, a não ser pelas fotos que guardava dele com tanto carinho e que ajudavam a matar a saudade quando ela apertava forte em seu peito.
– Peço que me perdoem, eu tirei uma parte de vocês e nunca vou conseguir conviver com essa sensação horrível dentro de mim.
se encolheu e escondeu o rosto com as mãos, não conseguiu controlar o choro que veio a seguir e Robert a olhou com pena. Não queriam de modo algum que a garota se sentisse culpada pela morte do filho e tentavam a todo custo demonstrar isso a , mas era difícil quando ela já tinha acreditado naquela ideia.
, olhe para mim. – Lilly segurou o queixo da garota, fazendo com que ela a encarasse com os olhos vermelhos por conta do choro. Beijou o topo da cabeça de e a abraçou com força, tentando fazer com que ela se sentisse acolhida e que aquele pensamento ruim sumisse. – Nós nunca culpamos você, ok? Foi uma fatalidade e ninguém tem culpa de nada. Você precisa tirar isso da sua cabeça e seguir a sua vida livre desse sentimento que só está te destruindo por dentro.
encarou a lápide à sua frente por alguns segundos, enquanto Lilly trocava as flores murchas pelas novas, e um pensamento lhe veio à mente.
– Vocês algum dia quiseram conhecer a pessoa que recebeu o coração do Dylan? – perguntou, deixando ambos surpresos com o questionamento.
Um ano havia se passado e nunca havia tocado no assunto. Não era contra, mas na época ficara tão abalada que mal conseguia raciocinar direito sobre o assunto.
– Nunca soubemos. Lilly e eu preferimos não saber na época, pra evitar dependência emocional, sabe? Isso poderia influenciar de forma negativa na vida do receptor, nós não estávamos preparados e nem sei se estaremos algum dia. Mas me conforta saber que Dylan ajudou alguém. Ele foi importante. Deixou uma marca nesse mundo e sempre será lembrado por este feito grandioso. – Robert respondeu, com os olhos brilhando de orgulho.
– É tão injusto que Dylan precisou ter morrido para alguém continuar vivendo e talvez seja muito egoísta da minha parte pensar assim, mas eu espero que essa pessoa esteja aproveitando cada segundo da sua vida, porque Dylan com certeza estaria. Ele tinha muitos sonhos. – enxugou o rosto com a manga da camisa e repôs uma flor que caiu de dentro do vaso em cima da sepultura.
– Não pense dessa forma, minha querida, só imagine o quanto Dylan ficou feliz por ter salvado a vida de alguém. Você, melhor do que ninguém, sabe o quanto ele gostava de ajudar as pessoas. Então, onde quer que essa pessoa esteja, eu tenho certeza que ela é grata ao nosso menino por isso. – foi a vez de Lilly pronunciar-se sobre o assunto, e sorriu largo pela primeira vez naquele dia.
Nunca tinha parado para pensar na importância da doação de órgãos. Quantas pessoas morriam na fila de espera diariamente? Quantas pessoas precisavam manter viva a esperança de que encontrariam alguém compatível para realizar a doação? Quantas vidas poderiam ser salvas se os familiares se conscientizassem de que havia muitas pessoas esperando por um doador? admirou-se da atitude de Lilly e Robert, por pensarem em outras pessoas quando estavam dilacerados por dentro. E tinha certeza que, onde estivesse Dylan, se orgulhava dos pais.
– Tenho pensado nisso nos últimos dias, fico me perguntando se quem recebeu também sente curiosidade em saber sobre Dylan ou conhecer sua família, e se, depois do transplante, adquiriu algum hábito que ele tinha. Já li em alguns lugares que isso é possível. – disse e Lilly apertou sua mão carinhosamente.
– Talvez sim, mas não se apegue a isso, está bem? Não fique dependente da ideia de que uma parte importante dele está agora em outra pessoa, pro seu próprio bem. – Lilly concluiu. assentiu e pensou que talvez fosse bem melhor o receptor não ter aparecido na época. Não sabia se poderia lidar bem com esse fato, afinal não era Dylan, e sim alguém que carregava apenas uma parte dele, uma parte importante dele.
– Obrigada por tudo, eu nunca conseguiria passar por tudo isso sozinha. – puxou Lilly e Robert pra um abraço coletivo carregado de amor.
– Você é como uma filha pra nós, . Sempre serei grato por você ter cuidado de Dylan e por ter sido tão companheira dele, você fez meu filho muito, muito feliz, saiba disso.
sentiu seu coração aquecer ao ouvir as palavras de Robert e por um momento pensou que estava na hora de desapegar do luto. Não que fosse esquecer Dylan e tudo o que viveram, isso era impossível, mas um ano se passara desde a morte dele e tudo o que ela fazia era se culpar e chorar. Ele fazia tanta falta e só Deus sabia o quanto desejava tê-lo com ela, concretizando todos os planos que fizeram juntos para o futuro, mas por algum motivo ele se foi e ela precisava aceitar. Estava na hora de se libertar do fantasma da culpa e de todos os pensamentos sombrios que lhe ocupavam a mente todos os dias. Dylan, onde quer que estivesse agora, gostaria de vê-la sorrindo.
– Eu sempre vou amar você. – disse sobre a lápide e passou a mão carinhosamente pela foto de Dylan, enquanto Lilly observava, com lágrimas nos olhos, aquela cena.
Sentia saudade do único filho, mas tinha a plena certeza de que ele tinha cumprido sua missão na terra e que fez feliz todas as pessoas que conviveram com ele de algum modo. Dylan foi seu maior presente e era grata a Deus por ter convivido com ele vinte e três anos, foi uma dádiva e jamais poderia reclamar disso.
se despediu, com a plena certeza de que nunca o deixaria para trás. Apenas se permitiria ser feliz, longe de qualquer culpa e sentimento ruim.

Naquela noite, enquanto lia um livro qualquer na tentativa de distrair sua mente da melancolia, ouviu algumas vozes vindas do andar de baixo e sentiu curiosidade, já que seus pais não haviam falado nada sobre terem convidados para o jantar justamente naquele dia, pois sabiam que ela preferia o silêncio nessa data. Ao chegar ao topo da escada, viu a mesma garotinha que estava do outro lado da rua brincando com o cachorro sentada no sofá e rindo de algo que seu pai falava. Ela era tão linda e o som da sua risada contagiava qualquer um, então, sem nem pensar, desceu as escadas, deixando os pais surpresos.
, querida. Acordamos você? – a senhora perguntou, preocupada.
Especialmente nessa data, evitava ao máximo incomodar com qualquer coisa e estava acostumada em não ter a presença dela durante todo o dia nas refeições.
– Eu só estava lendo um livro, não se preocupe. – ela sorriu, transparecendo uma animação que seus pais não estavam habituados de um ano para cá. Talvez fosse a presença de Charlotte, aquela menina contagiava a todos com a sua alegria. – Mas e essa menina linda, quem é?
– Sou Charlotte, sua nova vizinha. – a garotinha disse, sorrindo, e estendeu a mão para , que achou o gesto adorável.
– Sou e é um grande prazer ter você como vizinha, sabia? – Charlotte sorriu largo.
, estes são Gray e Cece, avós da pequena Charlie, acabaram de se mudar para a casa aqui da frente. – Lauren os apresentou e estendeu a mão para ambos, sorrindo simpática.
– Seus pais foram tão gentis em nos receber aqui, são pessoas adoráveis, e Charlie está adorando a nova casa, não é, querida? – a garotinha balançou a cabeça positivamente.
– É bem grande e eu posso brincar com o Flynn, meu cachorro. Vovô disse que vai construir uma casa pra ele e eu mal posso esperar pra ver. – a garotinha disse, animada, para os presentes na sala.
– Será que eu posso conhecer Flynn qualquer dia desses?
sentou ao lado da menina, no sofá, que pareceu ainda mais animada ao falar do labrador. O cachorro era sua companhia desde que tinha três anos, fora um presente dado pelo pai e, desde então, Charlie não desgrudava mais do animal.
– Claro, tenho certeza que Flynn e você serão bons amigos. Você gosta de brincar? – Charlie questionou.
– Filha, creio que já tenha passado da idade de brincar, não acha? – a garota fez careta e protestou, afinal não era tão velha assim.
Tudo bem que algumas rugas já insistiam em aparecer, mas ainda assim não era algo grandioso. Riu com seus próprios pensamentos e Charlie a olhou com a sobrancelha arqueada.
– Bom, não tenho a mesma disposição que você e Flynn, mas eu gosto de brincar, sim, e qualquer dia desses posso levar vocês no parque, o que acha? – Charlotte a olhou surpresa e bateu palmas animadas.
Gray e Cece estavam radiantes com a recepção de à pequena, já que queriam ao máximo fazê-la não pensar tanto na ausência da mãe e se acostumar com a mudança sem tanta dificuldade.
– Meu pai pode ir também, ? Ele chega de viagem amanhã e vai adorar brincar com a gente também. – a menina perguntou, sem tirar sequer um segundo o sorriso dos lábios.
– Se seu pai for tão legal quanto você é, ele pode ir, sim! – Charlie sorriu de uma forma que fez o coração de se aquecer e seu interior se encher de carinho, como nunca havia sentido antes por nenhuma criança. Sabia, apenas olhando para ela, que Charlie era especial de alguma maneira e que elas se tornariam grandes amigas dali em diante.
Pensou em como gostaria que Dylan a tivesse conhecido também, já que ele era um grande apaixonado por crianças. Não era à toa que se dispôs a dar aulas de desenhos de graça para crianças carentes do seu bairro. Dylan mantinha um carinho muito grande por todas elas e elas por ele, e não conseguia imaginar como elas estariam sem ele por perto, já que fora egoísta demais para se fechar em seu mundo, vivendo o luto dia após dia, e se esquecera que elas também precisavam de apoio. Sabia por Lilly que as crianças perguntavam por ela e que sentiam sua falta, mas nunca tivera coragem de ir até lá vê-las e dizer que tudo ficaria bem novamente, já que nem ela mesma tinha essa certeza. Mas, naquele dia, um ano após a morte de Dylan, prometeu a si mesma que iria voltar a sorrir e deixar de lado a covardia que a fazia fugir do mundo lá fora.
Depois de mais alguns assuntos descontraídos, Charlie despediu-se e seguiu com seus avós para sua nova casa. E, por algum motivo, aquela garotinha tinha trazido, não só para aquela data, mas para a vida de , uma leveza sem explicação. A leveza de que ela tanto precisava. Crianças costumam ter o dom de despertar o que há de melhor, até mesmo em quem pensa não ter esse melhor dentro de si.
Para a surpresa de seus pais, havia decidido jantar com eles naquela noite. Contou a eles sobre as palavras de Lilly e até mesmo sobre sua vontade de reagir, que crescera ainda mais com a chegada de Charlotte. O que ela só não contou, porém, era sobre a curiosidade que estava a consumindo para descobrir quem seria o receptor do coração de Dylan. Sabia que não deveria se apegar a isso, mas, ainda assim, era o que ela queria. E não iria desistir de conseguir essa informação, ainda que sem nenhum apoio, custe o que custasse.         

XXX


acordou sobressaltado, sentindo o coração bater mais forte depois da última e mais cansativa noite de trabalho daquela semana. Estava exausto e quase pronto para dormir novamente, quando se deu conta do horário. Precisava desocupar o quarto alugado para ele pelo último contratante até às dez horas, o que só lhe dava direito a mais meia hora para tomar o café oferecido e recolher suas coisas. Pensou em reclamar para si mesmo, mas deu lugar à gratidão ao lembrar-se de que não eram todos que tinham para com ele este ato de gentileza e, muitas vezes, o dinheiro para dormir e comer antes de poder voltar para casa precisava sair do seu bolso.
Cantar pelas noites das cidades da Califórnia até altas horas era no que ele realmente gostava de trabalhar. Embora ainda não fosse muito conhecido, tinha contatos que sempre procuravam por ele, seja para tornar os jantares dos casais apaixonados mais agradáveis com lentas melodias, seja para agitar e sacudir o público nas mais badaladas festas. Ele sempre sabia o que o público queria ouvir e esse era seu grande ponto forte. Havia se formado em direito, mas sua paixão pela música sempre falou mais alto do que um diploma e uma carreira aparentemente estável. Também, não ganhava tão mal com os shows que fazia, já que costumava conseguir pelo menos três noites seguidas de trabalho nos finais de semana, e aproveitava a luz do dia para procurar novos estabelecimentos interessados em escutá-lo. Era o suficiente para cobrir suas despesas e, sendo assim, não tinha porque abrir mão do que realmente gostava.
Mas, depois de longas tentativas, aquela seria provavelmente a última vez que precisaria viajar pelo seu trabalho. Tinha dado a grande sorte de conseguir um lugar fixo para cantar em San Francisco, e, embora sentisse falta da estrada, a essa altura, mal podia esperar para conhecer a casa nova e saber como sua pequena Charlie estava se adaptando a ela. Ajudá-la a suprir a falta de uma mãe falecida durante o parto, tendo de passar dias longe de casa, não era lá a tarefa mais fácil, por isso passar mais tempo perto dela e ainda ter a certeza de seu sustento garantido toda semana foi o suficiente para que não pensasse duas vezes antes de aceitar a proposta e mudar-se de vez de East Bay. Charlotte sempre foi bem cuidada pelos avós paternos e o apoiava incondicionalmente, mas, ainda assim, ele não gostava da ideia de se sentir um pai ausente para alguém que tanto precisava dele. Ele sempre fazia questão de mostrar a ela fotos de sua mãe, e contar sobre o quão incrível Jullie era e como a amava mesmo antes de ela nascer. Jullie foi a última mulher por quem se apaixonara, passando os últimos sete anos dedicando-se à Charlotte e sua música.
Já passava do meio-dia quando estacionou o carro em frente à sua nova casa, no bairro Richmond, em San Francisco. Tinha um jardim grande, do jeito que Charlie desejava, e o bairro era tranquilo, segundo indicações. Cuidara pessoalmente da decoração, então nada poderia estar mais perfeito do que estar em seu novo lar e ao lado das pessoas que mais amava na vida.
O homem desceu do carro, foi até o porta-malas e tirou sua bagagem. Caminhou até a entrada da casa e girou a chave na fechadura. Logo viu Cece e Charlie vindo em sua direção.
– Meu filho querido! – ela o abraçou calorosamente.
– Papai! Papai! – Charlotte corria, eufórica, na direção de , que abriu os braços para envolver a garota em um abraço caloroso.
– Oi, princesa, que saudades de você. Gostou da casa nova? – perguntou enquanto passava a mão pelos cabelos loiros da menina.
– Eu adorei! Não poderíamos ter escolhido casa melhor. – Charlie completou, batendo palminhas. A felicidade dela era capaz de contagiar qualquer um e, para ele, não havia nada melhor no mundo do que vê-la alegre.
olhava para os lados, buscando observar bem o local, enquanto Charlie se divertia com Flynn. Aquela era uma casa bonita, diga-se de passagem. Não era a mais luxuosa, mas também não fazia questão que fosse. Tinha aquele cheirinho de lar, era reconfortante e estava de bom tamanho para a faixa de preço que haviam conseguido. Era tudo o que ele precisava. Um lugar para recomeçar, a oportunidade de enfim estabilizar sua carreira e, por mais que lutasse consigo mesmo para admitir, podia ser a chance de estabilizar sua própria vida também. Afinal, já estava mais do que na hora e aquele sempre fora o desejo de Charlie, alguém que pudesse dividir com ela suas experiências e todos aqueles assuntos das quais ela só se sentiria a vontade para conversar com outra mulher. Sabia que não era exatamente assim com Cece, por mais que ela amasse muito a avó, queria alguém para viver com ela momentos de mãe e filha como nunca tivera. se sentia feliz por saber que a filha não era do tipo que ficaria contra um possível casamento. No entanto, a verdade é que , embora procurasse, não havia conhecido até então alguém que lhe chamasse verdadeiramente a atenção. Já tinha vivido seus romances de uma noite, considerando a vida que levava. Mas nunca passava disso. Ninguém conseguia derrubar a barreira que, sem perceber, ele havia criado entre si mesmo e o amor.
O dia por ali não prometia menos do que animação e muitos passeios. Durante o almoço, contou sobre o sucesso dos shows do final de semana para Charlie e seus pais, que o ouviam com atenção. Todos se sentiam felizes pelo contrato que ele conseguiu fechar em San Francisco e não escondiam a mútua felicidade em poder tê-lo sempre por perto dali em diante.
– Papai, tem uma amiga que quero que conheça. Ela é nossa vizinha da frente e prometeu me levar ao parque. E, se você for tão legal quanto eu, ela te leva também. – Charlie repetiu as palavras de , fazendo gargalhar.
– Vou adorar conhecê-la. E claro que sou tão legal quanto você, você herdou isso de mim, esqueceu? – a menina assentiu, sapeca, e a abraçou de lado.
e Charlie se deram muito bem, a moça é um encanto e os pais dela são pessoas muito receptivas, sabe, filho? Estivemos lá ontem à noite. – Cece acrescentou e pareceu surpreso. Estava curioso em conhecer a garota que estava arrancando elogios de sua filha e de seus pais.
– Ela é muito bonita também, com respeito ao meu docinho aqui. – Gray foi categórico e Cece sorriu docemente para ele.
– Eu já estou curioso pra conhecê-la! – disse e Charlie sorriu, batendo palminhas animadas.
– Pai, me leva pra tomar sorvete? – a garota pediu. – Podemos convidar a e assim vocês se conhecem, certo?
O brilho nos olhos de Charlotte não deixava negar o pedido da filha, então ele concordou, deixando Charlie animada. Mas, antes que pudesse responder, a campainha foi tocada e Flynn começou a latir. levantou-se, foi até a porta e, ao abrir, deparou-se com .
– Olá! – ele disse e lançou-lhe um sorriso, já imaginando quem ela era.
– Ahn, oi. Sou ! – ela retribuiu o sorriso e estendeu a mão para cumprimentá-lo. – Charlie está?
– Está sim, almoçando, quer entrar?
– Ah, meu Deus, eu cheguei em uma hora errada, né? Perdão, eu posso voltar depois e…
– Está tudo bem, de verdade! – riu da expressão de e deu passagem para que ela entrasse. – Entra, por favor, vou chamar Charlie.
pigarreou, sentindo-se um pouco sem graça por estar atrapalhando o almoço da família, mas sorriu largo e lançou-lhe um olhar terno, fazendo com que ela cedesse e entrasse na casa, logo sendo recebida por Flynn.
– Flynn, deixe de ser tão abusado! – ralhou de brincadeira quando o labrador se deitou de barriga para cima aos pés de , indicando que queria carinho na barriga. A garota riu e logo se abaixou, acariciando Flynn. Ele era mesmo muito folgado.
Mas, antes que pudesse chamar pelo nome de Charlie, a garota veio correndo até a sala, feliz por ver ali.
– Charlie! – elas se abraçaram sob protestos do labrador, que arranhava a sua pata direita na perna de , pedindo mais carinho, certamente.
cruzou os braços e riu, assistindo àquela adorável cena bem no meio da sua sala de estar. Mal conhecia , mas de uma coisa tinha certeza: já a adorava só pelo fato de tratar Charlotte tão bem.
, você já conheceu o meu pai? – a menina ajeitou uma mecha de cabelo solta do rabo de cavalo de e achou aquilo tão adorável que teve vontade de apertar a filha.
Ela era uma criança muito amável, mas era muito observadora também, o que fazia com que ela demorasse um pouco a deixar as pessoas se aproximarem tanto dela, assim, de imediato. Charlie era bem sensitiva e não era qualquer um que a conquistava logo de cara, o que o fez pensar que era mesmo uma boa pessoa. E muito bonita também.
– Conheci, sim, e o Flynn também! – voltou sua atenção ao cachorro, que não parava de arranhar a pata em sua perna, implorando por atenção.
– Ele gostou de você, sabia? – atraiu a atenção de para ele e seus olhares se cruzaram por um breve momento, deixando-os um pouco sem graça. Charlie pareceu não perceber, já que começou a tagarelar sobre o convite que ela e seu pai queriam fazer à .
– Papai prometeu me levar pra tomar sorvete e disse que podemos levar você também. – Charlie comentou.
– Ah, se não for incômodo, por mim tudo bem. Eu adoro sorvete, sabia? Muito mais do que eu gosto de pizza! – Charlie arregalou os olhos e olhou para .
– Papai adora pizza, mas eu não gosto tanto assim. Prefiro hambúrguer e batata frita, mas eu como quando ele insiste muito. – a olhou incrédulo, mas num tom de brincadeira. Por que crianças eram tão sinceras?
– Qual é, Charlie? Vai dizer que você não adora quando pedimos pizza de frango com borda de cheddar pra comer? Você sempre come duas fatias, espertinha. – paralisou. Aquele era o sabor preferido de Dylan quando decidiam pedir pizza para comer em casa. Ouvir sobre algo que remetia a ele era sempre muito doloroso, mas não poderia evitar, então segurou o choro e sorriu fraco.
– Eu como só pra você não ficar chateado. – Charlie confessou, recebendo um olhar reprovador de . riu da sinceridade da menina e voltou sua atenção para Flynn, ainda deitado no chão. Precisava afastar certos pensamentos naquele momento.
– Está vendo só, ? – ela assentiu ao ouvir seu nome.
– Sorvete é muito melhor, não é, Charlie? – as duas bateram a mão num high five e sorriram cúmplices uma para a outra, enquanto apenas observava. Não sabia o porquê, mas havia algo naquela garota que o fazia sentir afeição por ela, e talvez Charlie sentisse o mesmo.
Cece e Gray adentraram a sala de estar, felizes por verem ali, e a cumprimentaram com abraços.
– Eu não quis atrapalhar o almoço de vocês, mas é que minha mãe fez bolo de chocolate e eu vim trazer algumas fatias, sei que Charlie gosta! – os olhos da menina brilharam ainda mais ao pequeno gesto de , o que fez os olhos de Cece marejarem e e Gray sorrirem ainda mais. A menina era o que todos eles tinham de mais precioso, e o carinho que demonstrava sentir por ela fazia com que se tornasse muito querida por todos ali presentes.
– Não se preocupe, querida, você será sempre bem vinda em nossa casa. – Gray se pronunciou e todos concordaram.
– Obrigada, vocês são incríveis, de verdade! – entregou a pequena travessa nas mãos de Charlie e deu um beijo na bochecha da menina. – Agora eu preciso ir, tenho algumas coisas importantes a resolver. Espero que vocês gostem do bolo.
– Obrigado, , pelo carinho com a minha filha e com meus pais! Saiba que será sempre bem vinda aqui, quando quiser. – se aproximou, apertando a mão da garota, e ela retribuiu com um sorriso.
, você vai tomar sorvete com a gente, não vai? – Charlie fez bico e apertou suas bochechas de leve.
– É claro, ou você acha que eu ia recusar um convite tão gostoso como esse? – ela riu, sapeca.
– Hum, as oito está bom pra você? – perguntou e assentiu.
, eu e papai vamos tomar sorvete juntos! – Charlie cantarolou, dançando pela sala com Flynn em seu encalço, eufórico.
se despediu da família e voltou para casa sentindo-se um pouco mais alegre, especialmente por Charlie. Mas, ainda assim, um assunto importante martelava em sua cabeça: precisava iniciar sua busca pelo receptor do coração de Dylan. Já sabia por onde iria começar, mesmo tendo a quase certeza de que não teria todas as informações que necessitava, mas não custaria nada tentar. ainda estava digerindo a decisão que havia tomado de finalmente seguir em frente, e se via forçada a desviar de qualquer eventual pensamento que lhe remetesse a Dylan, caso contrário, essa caminhada nunca daria certo e ela continuaria estacionada no mesmo lugar. Entretanto, sabia que, antes disso ser possível, precisava sanar a dúvida que teimava em atormentá-la. Aquilo era importante para ela e nada a faria mudar de opinião. Aproveitou que seus pais estariam trabalhando durante todo o dia, ligou seu carro e dirigiu-se, então, para o único lugar capaz de livrá-la da sua própria prisão: UCSF Medical Center, o hospital responsável por assinar o Atestado de Óbito de Dylan.


Dois


paralisou ao adentrar aquele local. Jamais imaginou ter forças para pisar ali novamente. Suas mãos suavam, suas pernas tremiam freneticamente e as lágrimas já estavam prontas para tomar conta do seu rosto. Sentia-se mais frágil e sozinha do que nunca e temia que a qualquer momento não pudesse mais coordenar nem mesmo seu próprio corpo. Mas aquele era só o começo de uma grande luta e ela sabia disso. Se queria mesmo descobrir quem era o responsável por carregar uma parte de seu Dylan, precisaria aprender a lidar com todos os sentimentos que aquilo desencadearia, principalmente dentro daquele local. Nada parecia ter mudado no último ano. Ao observar ao seu redor, era como se estivesse revivendo o dia em que recebeu a terrível notícia. Como se tudo estivesse arrumado no lugarzinho que ela avistou pela última vez.
Quando saiu de seu transe, respirou o mais fundo que pôde e balançou a cabeça negativamente, tentando fazer com que todos aqueles pensamentos deixassem de perturbá-la ao menos por um instante. O instante que precisava para pôr a mão na massa e começar sua busca.
Caminhou ainda a passos arrastados em direção ao balcão, onde uma moça se encontrava.
– Ei, posso ajudar? – a moça perguntou, reparando na distração de .
– Olá, me chamo . Estou aqui em busca de uma informação muito importante. Meu noivo faleceu nesse hospital há um ano. Ele teve morte cerebral e seu coração foi doado a outra pessoa. Gostaria de saber como encontro o receptor.
– Bom, você deve saber que essa informação é totalmente confidencial, né?
– Eu estou ciente da dificuldade de conseguir essa informação. Mas não estou disposta a desistir. É muito importante pra mim. – a convicção na voz de era admirável. Se ela colocava algo na cabeça, era capaz de mover céus e terras para alcançar seu objetivo.
– Sinto muito, mas não estou autorizada a ir contra a conduta do hospital. – a moça respondeu sem muito interesse de continuar aquela conversa. Ela sabia que, embora fosse triste para encarar, não conseguiria chegar a lugar algum com todas aquelas perguntas. Sequer conseguia entender aquele interesse mesmo depois de tanto tempo. O fato é que não era a primeira e nem seria a última pessoa a buscar por aquele tipo de informação. E, em 99% por cento dos casos, não dava em nada.
– Você poderia chamar a dra. Claire? – pediu, não se deixando abalar pelo desânimo do primeiro não.
A moça apenas assentiu. Seu olhar agora era carregado de pena, fazendo se sentir constrangida e levemente irritada. Mas nada disso importava. Não importava se era vista por aquela moça como uma maluca, obcecada ou simplesmente alguém que, como tantas outras pessoas, não conseguia superar a dor da perda. Ela podia ser tudo isso, desde que conseguisse o que queria.
– Dra. Claire, tem uma moça na recepção pedindo para falar com você. Se identificou como . Você pode descer até aqui? – a moça anunciou ao telefone, tentando desviar o olhar de – Ok, obrigada.
– A Dra. Claire está terminando de atender um paciente e já vai descer. Você pode se sentar e aguardá-la.
– Muito obrigada. – concordou, sentando-se em uma das poltronas dispostas em fileiras. Os longos minutos até que Claire descesse deixava tão inquieta que não pôde evitar recorrer a velha mania de roer suas unhas, antes pintadas com um esmalte vermelho cintilante. Xingou-se mentalmente por estragar o que havia cuidado com tanto esforço, mas se permitiu sorrir, pela primeira vez desde que entrou no hospital, ao ouvir a voz de Claire, sua última esperança. foi ao encontro dela e a abraçou rapidamente.
! Como você está? – Claire sorriu de volta para ela.
– É, eu estou levando. – o sorriso de ambas se desfez no momento em que proferiu aquela resposta.
– E então, o que posso fazer por você? – Claire perguntou, um tanto confusa. Ainda não fazia ideia do que poderia levar a procurá-la, já que nunca mais haviam se visto depois da morte de Dylan. Foi Claire a responsável por conversar com a família de Dylan sobre a doação de órgãos e, tamanha era a relutância de na época, que a médica não pôde evitar a surpresa em vê-la ali novamente, procurando por ela.
– Bom, você deve lembrar que o coração de Dylan foi doado para uma outra pessoa quando ele faleceu. Eu preciso de você para descobrir quem foi o receptor. – foi direta quanto ao pedido de ajuda, mesmo sabendo que talvez a resposta fosse não.
, você sabe que eu não posso fazer isso. Esse assunto ficou esclarecido com a família de Dylan e do receptor. Além do mais, isso vai contra a ética do hospital e só vai machucar ainda mais você. – Naquele momento, só conseguia pensar que o que iria machucá-la ou não era um problema exclusivamente dela. Ninguém entendia sua dor, exceto Lilly e Robert, portanto, os únicos da qual ela pensaria em considerar alguma opinião, e mesmo assim, quando decidiu ir ao hospital, não escutou sequer a deles, por que ouviria a de Claire?
– Claire, por favor. – ela já estava pronta para engolir seu orgulho e suplicar da forma mais dramática que conseguia – Eu preciso da sua ajuda.
– Vai ser difícil encontrar esses registros, . E nem sempre as informações sobre a família estarão atualizadas. – a Dra. Claire disse, quase se dando por vencida. Sabia que era totalmente antiético passar informações sobre transplantados, mas se comovia com a história de com Dylan.
– Apenas veja o que pode fazer por mim. – a garota juntou as mãos em forma de súplica, com lágrimas nos olhos.
– Eu posso te ajudar com apenas uma informação: o receptor é da região de East Bay. É a única coisa que posso te afirmar, por questões éticas e de privacidade da família do receptor. A aproximação pode causar muitos danos emocionais e influir de forma negativa na vida de todos. Há muitos casos graves de problemas sociais relacionados a isso. Portanto, pense bem se não é melhor deixar essa ideia de lado, ok? Eu sinto muito por tudo o que aconteceu, mas sempre leve consigo que Dylan salvou uma vida. – assentiu. Não era tudo o que queria saber, mas era um bom começo, ainda que a informação fosse muito vaga, iria pensar em alguma ideia para descobrir sobre o receptor.
– Muito obrigada, de verdade. Prometo que não comentarei sobre isso com ninguém. – sorriu para ela. As duas se despediram e virou-se para ir embora. Estava realmente agradecida e com ao menos um pingo de esperança de seu plano dar certo.
Esperança. Aquele era um sentimento que ela já nem se lembrava mais de sentir até aquele momento. Mas, para ela, aquele pingo de esperança era tão importante quanto um oceano inteiro, e ela deveria ser grata por cada mínimo passo que conseguisse avançar. Seus olhos agora ganharam um brilho diferente. Nem ela sabia porquê queria tanto encontrar uma partezinha de Dylan, e, de tanto ouvir que podia passar a vê-lo nessa pessoa, sentia um certo receio. Mas ela precisava olhar para essa pessoa ainda que de longe. Precisava saber se a pessoa que Dylan salvou era alguém tão bom quanto ele. Se realmente adquiriu algum traço da personalidade dele. E uma força dentro dela lhe dizia o tempo todo para continuar. Podia ser sua própria covardia a corroendo, teimando em fazê-la procurar por uma forma de aliviar uma culpa que nem tinha de fato. Por mais irônico que isso fosse, ela só entenderia quando finalmente descobrisse, caso contrário, tudo seriam apenas incertezas.
Dolorosas incertezas.

XXX


Às oito em ponto, ouviu a campainha tocar e se dirigiu até a porta.
e Charlie estavam parados lado a lado e sorriram ao ver , que retribuiu o gesto.
– Você está tão bonita! – Charlie disse, sincera, e olhou para que não conseguia tirar os olhos de – Não é, papai?
riu um pouco sem graça, mas logo se recompôs. Charlotte era espertinha demais e sabia como deixá-lo em situações constrangedoras.
– Está sim, filha. Assim como você está também! – ele disse para tentar amenizar a situação e Charlie riu sapeca.
– Obrigada. Você realmente está muito bonita, Charlie, essa cor combina muito com você! – disse referindo-se ao vestido vermelho que contrastava muito bem com a pele da menina e seus cabelos loiros. Os olhos de Charlie eram como uma pequena extensão do céu, azuis como tal e brilhavam de forma que faziam sorrir.
– Estão prontas, garotas? – perguntou o mais velho.
– Prontas! – as duas responderam ao mesmo tempo, causando um divertimento.
fechou a porta de casa e os seguiu até o carro de , que abriu a porta para ela entrar, ganhando um “ok” disfarçado da filha. Charlie era apenas uma criança, mas, por ter sido obrigada pela vida a lidar com questões tão difíceis e complexas desde sempre, era mais inteligente e madura do que muitas pessoas com mais idade do que ela. Muitas eram as vezes em que se deparava ouvindo algum conselho da filha, que, na maioria das vezes, estava certa. E ele fazia questão de demonstrar o quanto se orgulhava dela. A menina nunca tirava o sorriso do rosto, apesar do fardo que carregava. Era sem dúvidas admirada por qualquer um que tivesse a oportunidade de conviver com ela.
Os três conversaram animadamente sobre diversos assuntos durante todo o trajeto, inclusive sobre qual o sabor do sorvete que cada um pediria.
– Bi-Rite Creamery, chegamos! – disse animado ao passarem pela entrada do pequeno estabelecimento.
– É o meu lugar preferido em San Francisco, e olha que já provei o sorvete de vários lugares, mas nenhum se compara ao daqui. É uma sorveteria pequena, mas vive cheia, os atendente estão sempre de bom humor e nos atendendo da melhor forma. Fora que eles te deixam provar quantos sabores quiser até escolher o que você quer, mas já tenho o meu preferido: salted caramel. – explicou, empolgada com a ideia de mostrar seus pontos preferidos na cidade.
– Papai e meus avós sempre me levavam na sorveteria aos finais de semana lá em East Bay, era legal! – a garota paralisou ao ouvir. A mesma que Claire mencionara hoje cedo quando disse para onde havia ido o coração de Dylan.
– Vocês moravam na região de East Bay?– perguntou, curiosa, enquanto esperavam na fila por sua vez.
– Sim. Conhece? – perguntou.
– Só de ouvir. Mas o que os fez mudar pra San Francisco? – Charlie, que rolava os olhos pela pequena tabela de opções de sabores, agora prestava atenção na conversa.
– Meu pai canta! – olhou surpresa para .
– Tipo, profissionalmente? – indagou.
– Eu sempre fui um amante da música, até tive banda na época do colegial e pretendia seguir esse caminho, porém os meus pais não eram a favor que eu me dedicasse somente a música, sabe? Pelo fato de ser algo incerto. Então optei por estudar direito e me formei, mas tinha planos de então começar a minha carreira como músico, só que eu já namorava a mãe da Charlie e ela engravidou, o que me fez exercer a profissão para sustentar minha família. – ouvia a tudo atentamente quando começou a se questionar o que teria acontecido com a mãe da menina.
Então a vez deles chegou e a atendente da vez, muito simpática, perguntou o que iam querer.
– Eu quero provar o sabor preferido da ! – Charlie disse e concordou.
– Então três casquinhas salted caramel, por favor.
Esperaram até que lhe fossem entregues os sorvetes e foram para o lado de fora, sentar em um dos bancos disponíveis para conversarem.
– Então, o que fez você finalmente se dedicar à música, ? – o homem olhou para Charlie um pouco receoso por entrar naquele assunto, mas a menina sorriu o incentivando a continuar.
– Jullie morreu no parto e foi uma época bastante complicada, fiquei imaginando se eu daria conta de criar Charlie, ainda que com a ajuda dos meus pais. Foi bem mais complicado do que imaginei, mas eu consegui. Então, a música acabou se tornando um refúgio pra mim, foi algo que me ajudou a superar a morte dela, só que Charlie ainda era muito pequena e eu não poderia deixá-la para sair me apresentando por aí, então continuei trabalhando como advogado, mas ajudava nas composições das músicas da banda de um amigo meu. – fez uma breve pausa para respirar e tomar um pouco do seu sorvete, e não pôde deixar de notar os olhos marejados da pequena Charlie. Ela a abraçou de lado e beijou o topo de sua cabeça.
– Eu sinto muito por Jullie. – agradeceu sorrindo fraco.
– Meu pai cantava pra mim todas as noites antes de dormir e eu achava o máximo. E, quando eu cresci um pouco mais e comecei a entender as coisas, vi que ele não estava mais feliz com o trabalho e um dia ouvi ele falando pra vovó que queria largar tudo no escritório pra se dedicar ao que ele mais gostava, mas não queria de jeito nenhum ficar longe de mim. – ficou ainda mais surpresa com a menina pela maturidade que ela carregava consigo e a forma como ela lidava com o fato de não ter a mãe por perto.
– E aí um dia cheguei em casa do trabalho, Charlie estava me esperando no sofá enquanto assistia desenho e disse que queria conversar comigo. Ela tinha só seis anos e disse que não queria me ver triste e que me apoiava. Foi aí que decidi deixar meu emprego no escritório e ser músico. Tinha feito uma boa economia pro futuro de Charlie e meus pais se propuseram a cuidar dela quando eu tivesse que sair para cantar. – apertou de leve uma das mãos de , que estava vazia, apoiada em suas próprias pernas e sorriu fraco.
Charlie disfarçou sua expressão eufórica com aquele gesto, levando seu sorvete a boca, e limpou com um lenço de papel um pouco de sorvete perto da boca de .
– E, respondendo à sua pergunta: nos mudamos para San Francisco por conta de uma proposta irrecusável de trabalho. Eu não precisaria mais viajar, pois consegui um contratante fixo para me apresentar aqui em San Francisco, em uma balada chamada Club 525, conhece? – explicava animado para , que se mostrava muito interessada em ouvir mais e mais sobre a vida dele. Era difícil ele se sentir à vontade para puxar assunto com alguém que mal conhecia com tanta facilidade, mas, se tratando dela, a conversa parecia fluir naturalmente.
– Sério? Eu adorava frequentar esse lugar. Ia quase todos os finais de semana. Mas faz muito tempo que não vou lá, ouvi falar que até reformaram. – deu de ombros e baixou o olhar para o sorvete em suas mãos.
– E por que parou de ir? Você poderia ver minha apresentação na próxima semana. – pareceu se animar com a ideia e a garota sorriu fraco.
– Bom, eu sempre ia com o meu noivo. Faz um ano que ele faleceu em um acidente de moto e, desde então, perdi a vontade de ir. – se arrependeu de sua pergunta no momento em que percebeu a tristeza surgindo no olhar de .
, me desculpe, eu... – o interrompeu, não queria fazê-lo se sentir culpado e muito menos estragar aquela noite.
– Está tudo bem. Posso ver você se apresentar, sim, vai ser um prazer. – lançou-lhe um sorriso tímido, mas, ainda assim, o bastante para que o clima agradável voltasse a pairar sobre o local.
– E eu? Posso ir, papai? – Charlie perguntou, após terminar o resto de seu sorvete.
– Filha, você sabe que esses lugares não são para crianças. Mas prometo que vou fazer um show particular só para você. – Charlie concordou batendo palminhas.
– Você vai adorar ouvir meu pai cantar, . Ele canta muito bem. Vocês vão se divertir muito. – se havia alguém melhor para elogiar e ao mesmo tempo ser a cúpida dele, esse alguém era Charlie.
– Com certeza, mal posso esperar! – ela respondeu animada.
pediu a conta e, mesmo com tentando o contrariar, pagou o sorvete dos três. sentiu-se um pouco envergonhada, mas agradeceu, visto que havia sido vencida pelo cavalheirismo do rapaz.
– E aí, Charlie, o que achou do passeio? – perguntou assim que entraram no carro.
– Foi muito legal. Adorei o seu sabor preferido de sorvete, . Se tornou o meu também!
ligou o rádio e cantarolaram algumas canções em conjunto. Não era mentira quando Charlie elogiou o talento do pai para a música. Sua voz era suave e muito afinada, mesmo sem todo o preparo vocal e os ensaios que ele provavelmente fazia antes de subir ao palco. não pôde evitar que um sorriso escapasse por seus lábios ao se dar conta da emoção que ele transmitia ao cantar.
– Você é bom mesmo, . – disse sincera ao fim da música.
– Muito obrigada, de verdade. – sempre ficava sem graça ao receber elogios, por mais que não fosse algo raro de acontecer quando alguém o ouvia cantar. Mas ouvir dizendo aquilo o fez se sentir realmente bom.

– Chegamos! Lar doce lar! – desligou o carro, abrindo a porta para que e Charlie pudessem descer.
– Eu acho que ganhei uns belos quilos com esse passeio, mas até que gostei! – falou divertida, arrancando gargalhadas dos dois.
– Você ainda está me devendo a ida no parque, ! – a menina cobrou.
– É verdade! Não se preocupe, minha promessa é dívida. – elas bateram as mãos.
– Já vi que vocês vão aprontar muito juntas. – foi a vez de falar, recebendo protestos das duas meninas.
– Você não faz ideia. – piscou para Charlie, que sorriu sapeca. observou a cena e sentiu algo se aquecer dentro dele, e por segundos ficou imaginando como seria se Jullie ainda estivesse viva, ali, com eles. – Então, obrigada pelo convite e pela noite agradável.
– Tchau ! – e Charlie falaram juntos, recebendo um breve aceno de volta.
e Charlie ficaram observando a garota entrar em casa, até que a menina resolveu se pronunciar.
– Yes! mandou bem, papai! Sabia que o senhor não iria me decepcionar. – Charlie o abraçou, animada, fazendo com que ele despertasse de seu transe.
– Que isso, Charlotte, é só uma amiga. – ele respondeu com o tom mais sério que conseguira forçar, mas obrigou-se a cair na risada com sua própria atuação.
– Ei, você só é bom cantor. Não tente atuar, não. – a menina o repreendeu com tapinhas em seu braço.
– Tá bom, tá bom! – levantou as mãos em um gesto de rendição – Mas não vá ficando muito animadinha. Somos apenas amigos, não misture as coisas. Acabamos de nos conhecer.
– Eu sei, mas o senhor achou ela bonita, não achou? – Charlie indagou.
– Vá dormir, sua espertinha, já está na hora. – ele respondeu, fazendo cócegas na menina.
– Isso foi um siiiiim! – Charlie adentrou a casa correndo, antes que o homem a alcançasse, sendo seguida por Flyn, que tentava, como em todas as noites, fugir da ideia de ter que dormir solo em sua caminha.

XXX


acordou por volta de dez da manhã com o sol adentrando seu quarto sem que fosse convidado. Ah, se ele soubesse o mal humor que a acompanhava durante o resto do dia quando alguém a acordava, jamais faria isso de novo. Sua mãe sempre abria as janelas antes de ir para o trabalho, para se certificar de que a filha seria obrigada a acordar em algum momento, mesmo contra sua vontade. Apesar da vantagem de estar em férias do curso de fotografia e poder dormir de novo pelo o tempo que desejasse, nunca conseguia fazer isso e o resultado era sempre o mesmo: rolar na cama até desistir e levantar mais irritada do que já estava. Mal podia esperar para ter sua própria casa, fazer seus próprios horários e não ser incomodada caso alguém não estivesse satisfeito com eles. Apesar disso, esse era provavelmente o único ponto negativo na convivência entre ela e seus pais.
levantou da cama, cambaleante, e dirigiu-se até o banheiro. Tomou seu banho sagradamente longo e, antes que seus cruéis pensamentos tentassem a detonar, cantarolou uma música qualquer, esperando que aquilo também fizesse seu humor parecer mais maleável.
Colocou um vestido confortável pouco acima do joelho, que adorava usar quando pretendia ficar em casa, e olhou-se no espelho. Geralmente, fazia isso todos os dias ao acordar e costumava odiar sua aparência refletida nele, mas, especialmente naquele dia, não estava tão ruim, de modo que, se alguém a olhasse de longe, nem poderia dizer que aquela menina andava tão atirada e despreocupada com si mesma no último ano. Não era a roupa, nem o peso, nem o cabelo que faziam a menina se sentir tão mal há tanto tempo. Era seu rosto. Seus olhos. Sua expressão sempre tão triste e abatida. Ela se sentia sem vida toda manhã quando acordava. Mas não naquela manhã. Porque ela estava viva. E ela havia decidido viver, ou, pelo menos, se esforçaria para tentar. Por Dylan. Por ela. E porque não lhe restava outra escolha mais coerente senão aquela.
lembrou-se do passeio da noite anterior e de como ela estava realmente feliz na companhia de Charlie e . E aquela sensação era tão boa que a tornou disposta a buscar viver mais momentos que fizessem com que ela se sentisse daquela forma novamente.
Felicidade vicia tanto quanto a dor. E, sem se dar conta, estava caindo rapidamente naquele vício, que lhe soava como uma novidade que acabara de experimentar pela primeira vez. E foi impossível não sorrir de orelha a orelha ao deparar-se com tamanha força de vontade crescendo assustadoramente dentro dela.
estava decidida a fazer tudo o que não fazia há muito tempo. E isso incluía até mesmo coisas que na certa a fariam reviver memórias. Memórias que ela aprenderia a lidar de uma vez por todas, por bem ou por mal. Afinal, já esteve por tempo demais presa a elas. E estava pronta para dar os primeiros passos.
voltou para seu quarto e abriu a última gaveta de seu guarda-roupa, onde costumava usar como um baú para guardar coisas antigas. Puxou de dentro um álbum de fotografias, bastante empoeirado, por sinal. Passou os olhos rapidamente por algumas fotos, sendo interrompida quando folhas soltas caíram ao chão. Abaixou-se para verificar do que se tratava e se surpreendeu ao deparar-se com desenhos antigos que Dylan costumava fazer para ela. Lembrou-se, então que, desde a morte dele, não havia ido visitar a instituição que cuidava das crianças carentes, onde o mesmo costumava dar aulas voluntárias de desenho.
Sem pensar duas vezes, decidiu que voltaria lá, coisa que já deveria ter feito há muito tempo. Dylan certamente gostaria daquela atitude. Mas, além disso, ela também devia isso para aquelas crianças, que tanto a adoravam. Se sentia uma pessoa horrível por, querendo ou não, tê-los abandonado, mas já tivera todo o tempo de que precisava para se recuperar e agora era hora de retomar os compromissos que decidiu assumir. Chega de pensar apenas em si mesma, muitas pessoas à sua volta precisavam da sua atenção.

(...)

estava pronta e com todos os materiais que precisava. Lápis de cor, tinta, papel, algumas guloseimas e um brilho encantador presente em seu olhar. Decidira ir caminhando até a instituição, que carinhosamente era chamada de Lar de San Francisco e não ficava muito longe de sua casa. Quando Dylan a levou para conhecer, associou aquele lugar a um lugar triste e sempre fazia o que podia para ajudar as famílias daquelas crianças, seja com roupas, comidas, contando histórias e em tudo que precisassem. Quando já se sentia parte daquele lar também, percebeu que aquelas crianças eram mais felizes do que muitas outras de classes sociais mais altas. Crianças que vivem em melhores condições financeiras nem sempre recebem o carinho e a educação que necessitam, fingindo suprir esta falta com brinquedos caros, roupas e todos os tipos de bens materiais que seus pais lhes compram.
– Ei, ! – ela se virou para verificar de onde vinha a voz masculina que chamava por ela.
– Oi, ! – o cumprimentou com um beijo no rosto, fazendo ambos se encararem por um breve segundo – Como você está?
– Estou bem! E você, está indo para onde? Precisa de uma carona? – o rapaz apontou para seu carro, que estava a poucos metros de distância dos dois.
– Bom, eu vou visitar uma instituição de caridade que fica aqui perto. Vou caminhando mesmo, não chega a dez minutos a pé.
– Sério? Que legal! – não pôde evitar notar o sorriso espontâneo se formando nos lábios de ao citar a instituição – Eu também gostaria de conhecer. O que acha de me levar até lá?
– Claro! Tenho certeza que você vai adorar.
se sentiu surpresa e feliz com aquele pedido. A verdade é que gostou de saber do interesse de pelo próximo, o que não era tão fácil de se encontrar em outras pessoas de sua cidade.
Os dois caminharam em harmonia até a instituição. Vez ou outra, passavam por algum ponto interessante e parava para mostrar a .
– Eu realmente preciso apresentar San Francisco para você! – a menina riu ao constatar que sentia-se perdido por ali. Embora viajasse muito, sempre utilizava seu velho amigo GPS e ia direto aos endereços indicados. Não era de reparar muito o que tinha a sua volta.
– Precisa mesmo. Acho que se você me deixar aqui, não vou saber voltar para casa.
– Ah, bobo, nem estamos longe de casa. – respondeu, fingindo estar brava.
– Chegamos! – a menina parou por alguns segundos em frente ao portão da instituição. Se surpreendeu ao notar uma aparente reforma no local. Estava tão diferente. A pintura era nova, o espaço estava mais amplo e parecia haver um número maior de crianças desde a última visita dela. Não podia acreditar que fazia tanto tempo. Que ela simplesmente tinha abandonado tudo. Principalmente aquelas crianças, sempre tão doces, repletas de vida, coragem, esperança e da alegria que ela tanto precisava em seus dias. Apesar de tantos problemas que tinham, era difícil encontrar sequer uma que não fosse capaz de oferecer um sorriso sincero a quem quer que fosse. Elas não pediam muito a ninguém. Nada, na verdade. O pouco que recebiam já bastava e era sempre transformado em suficiente para dividir com todos ali presentes.
– Ei, , tudo bem? – deu pequenas batidas no braço da menina ao perceber sua distração.
– Sim, sim, claro, vamos entrar! – a moça abriu o portão, puxando para dentro logo em seguida.
Em questão de segundos, várias crianças já conhecidas por ela vieram correndo abraçá-la.
– Tia ! – Sophie, uma menininha muito apegada com , gritou, sem fazer a mínima menção de desfazer o abraço entre elas.
– Acho que cheguei na hora boa, a hora da brincadeira! – sorriu ao perceber a correria das crianças – Esse é meu amigo , ele queria conhecer vocês!
e cumprimentaram e conversaram com um por um, distribuindo sorrisos e abraços para todo o lado.
– Ei, sabem o que a tia trouxe? – a menina falou um pouco mais alto, atraindo a atenção de todos para ela – Eu trouxe doces e coisas para a gente desenhar também! – a menina concluiu, recebendo gritinhos de empolgação das crianças.
abriu seu material e fez questão de distribuir papel, lápis e algumas guloseimas para cada um, sendo ajudada por . Não podia negar que estava adorando o entusiasmo do homem ao se dirigir a cada criança, e o empenho dele em ser atencioso com elas. Ele nunca passava para o próximo sem receber antes um sorriso.
– Tio , você me ensina a desenhar? – Norah, uma menininha que acabara de chegar a instituição, pediu timidamente.
– Claro! Eu adoro desenhar, sabia? O que você gostaria de fazer? – perguntou com papel e lápis em mãos.
– Uma casinha, pode ser. Quero uma casa bem bonita para eu me imaginar morando nela. – a garotinha fez um gesto grandioso com os braços entusiasmada.
parou por alguns segundos para encarar a menina e se questionou o porquê de algumas pessoas terem tanto e outras não. Aquilo, para ele, não era justo. O rapaz prontamente guiou a mão da menina para começar o desenho.
– Eu não sabia que você desenhava, ! – exclamou, enquanto observava a cena surpresa.
– Ah, eu comecei a me interessar há pouco tempo. Gosto de dizer que a música é o que a alma diz e o desenho, o que ela vê. – ele explicou, ao mesmo tempo que concluía o desenho que fazia com Norah.
– Adorei! Eu quero morar nessa casa! – a menininha disse animada, enquanto encarava o papel a sua frente.
– Ficou realmente linda. – ainda encarava . Era surpreendente a quantidade de coisas que ela não sabia sobre ele, e mais ainda o quanto ela estava gostando de descobrir. Seus talentos, seu gosto pela arte, sua vontade de ajudar àquelas crianças e o quão companheiro ele estava sendo com ela. Pensou, por um momento, que não tinha nada realmente interessante sobre ela para que pudesse dividir com ele. Nada que provocasse nele qualquer tipo de admiração. E nem ela sabia ao certo porque sentia tamanha necessidade de provocar nele esse sentimento, mas a verdade é que gostava de se sentir, pelo menos, útil e boa em algo que fazia. E, nos últimos tempos, sequer lembrava de como era se sentir assim.
Os dois conversaram com as crianças durante toda a tarde. Depois de tantos risos, brincadeiras, histórias e agradecimentos que receberam, era impossível não sair dali com a sensação de missão cumprida e o coração explodindo de felicidade.
– Eu quero trazer a Charlie aqui! Ela vai adorar conhecer esse lugar incrível. – afirmou, após cruzarem o portão de saída.
– É verdade! Ela vai gostar mesmo. – concordou, animada em ouvir aquela sugestão.
– Essas crianças são realmente encantadoras. É contagiante a vontade de viver que elas transmitem. Enxergam o mundo como um lugar tão bom e inocente, são tão cheias de esperança. Tão diferente de nós, adultos. – comentou, com os olhos brilhando em cada palavra.
– É verdade. Fazia tempo que eu não vinha aqui, confesso. Mas sempre que venho, é como se tudo em volta enchesse de cor. Como se qualquer problema lá fora se tornasse apenas um mero detalhe. – assentiu. Estava se sentindo tão feliz que mal sabia explicar, como se algo dentro dele se renovasse.
tirou do bolso uma pequena barra de chocolate e ofereceu a , que negou prontamente. Andaram em silêncio, cada um com seus próprios pensamentos, que mal sabiam eles, estavam conectados de alguma forma.


Continua...



Nota das autoras:
É bem legal essa amizade entre nossos pp's surgindo, não acham? E claro, que a nossa pequena Charlie é a grande incentivadora disso tudo! Mas e o que acham sobre a pp ir atrás do receptor? Será que ela vai conseguir ou muitas águas ainda Vão rolar? Talvez ela não saiba, mas o que ela precisa saber está mais perto do que ela imagina! Continuem acompanhando SFTH pra saber e muito obrigada por darem uma chance para a nossa fic ❤
Quer ficar por dentro das atualizações e informações sobre outras fics da Ray? Só entrar aqui.
Ray Amaral e Andressa M.



Outras Fanfics:

Ficstapes
10. Trough With You (Songs about Jane – Maroon5/Finalizada)
16. Memories (Handwritten Revisited — Shawn Mendes/Finalizada)
13. My Song (Know-it-all - Alexia Cara/Finalizada)

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus