Shadows From The Past

Última atualização: 04/07/2018

Capítulo 1

ON

Enquanto eu pensava nas milhões de desculpas para poder ir embora, me jogar na minha cama e ver algum filme, escutei um ronco de um carro e o grito de uma garota. Meus olhos pousaram primeiro sobre a Range Rover que provavelmente era uma das novas, vermelha como fogo e com uma única listra branca no seu teto e logo depois na garota que descia dela.
Fui subindo meu olhar pelas coxas grossas, o quadril largo, a blusa apertada e enfim cheguei ao seu rosto. E que rosto... A garota tinha um sorriso largo e um maldito cabelo preto na altura dos ombros que brilhavam em contraste com o sol. O cabelo, o sorriso... Tudo nela era bem familiar, mas com aqueles óculos escuros e a distância em que estávamos não podia dizer muita coisa.
Assim que ela e a outra garota que a acompanhava começaram a descer os degraus que davam a piscina, ouvi o garoto ao meu lado gritar.
-, porra, menina! Onde você e a louca da se meteram? Teu pai já estava ficando preocupado. - A voz do cara me parecia preocupada e ao mesmo tempo divertida, ele tentava esconder um sorriso, mas a menina pareceu perceber, tirou os óculos escuros e pulou no garoto como uma criança pula no pai após um dia de escola.
-Eca, Rafa, e eu só saímos muito tarde da faculdade. A pesquisa nos prendeu durante um bom tempo e só. - O rosto do menino que eu acabava de descobrir que se chamava Rafael pareceu ficar mais tranquilo e com isso ela continuou - Sei que você já estava morto de saudades, priminho, mas agora e eu estamos aqui e você não precisa mais se preocupar em estarmos em perigo- Finalizando isso ela soltou o primo e foi cumprimentar as outras pessoas.
O sorriso, a forma como jogava o cabelo, a risada, o nome, os olhos negros... Porra, aquela era a , como pude não perceber? Mas ao olhar para aqueles olhos sabia, eu nunca me esqueceria daqueles olhos, aqueles malditos olhos negros.
Quando tinha saído de mais um dos milhares de devaneios que tive desde que cheguei naquela casa, vi que ela tinha passado reto por mim e agora ia na direção do meu pai e do Sr. Mario.
Foi neste momento que entrei na história e ouvi meu nome ser chamado pelo pai da .
-, venha conhecer minha filha, a - o sorriso que o pai de tinha era tão feliz, que cheguei a pensar como ele reagiria se soubesse que fiquei com a filha dele há alguns anos e que ela dizia ser apaixonada por mim. Do jeito que o homem era eu já teria levado alguns tiros da sua arma de caça. Enquanto pensava ia em direção a menina, meu pai e o seu novo amigo.
Quando ela deixou de olhar para celular e mirou meu rosto pareceu congelar, tirou os óculos escuros e me olhou com aqueles malditos olhos pretos que deixariam qualquer um em transe e deu um sorriso falso que só eu pude perceber e me estendeu a mão.
-Prazer, , você deve ser , correto? - A filha da puta ainda era boa em fingir que não me conhecia, parece que de madura ela não tem nada.
- O prazer é todo meu e sim, sou . Sabe, , eu ouvi falar ótimas coisas sobre você e confesso que fiquei bem surpreso com seus planos para careira. - Dei meu melhor sorriso, se íamos brincar de não nos conhecer eu que não iria ficar de fora.
- Espero que papai tenha falado bem mesmo, mas se me dão licença, rapazes, eu preciso ir tomar um banho, passei o dia na faculdade com essas roupas. - Ela sorriu meiga para meu pai e fez gesto estranho com a cabeça para mim - Não devo demorar, papai - Deu um beijo em seu pai e se foi para dentro da casa.
Os homens voltaram a falar de negócios e eu voltei a me sentar junto com o tal de Rafael e a amiga de que eu sabia bem que era , elas não se desgrudavam nem mesmo no colégio e eu saberia reconhecer de longe já que a garota sempre me odiou.
Meus pensamentos foram interrompidos com a voz da própria que me chamava.
- Qual o teu nome mesmo? Juro que lembro de você de algum lugar! - Ela sorriu doce, como quem estava sem graça por fazer aquela pergunta.
-Sou , você é? - sorri galanteador só para provocar o garoto que estava ao lado de , pois desde a hora que chegamos ele olhava de forma meiga e sempre jogando charme e a menina nem ao menos lhe dava abertura para algo mais afundo, sempre o chamando de amigo e o abraçando como tal.
-Ah, eu sou . - deu uma pausa como quem procura um arquivo na mente e continuou- Rafa, tô vazando ai que a deve estar doida atrás do novo biquíni dela e ele está comigo- e com isso ela se foi.
Maldita, ela também se lembrou de mim e por isso deve ter levantado tão rápido e ido atrás da amiga para avisar que eu estava aqui. Mas dessa vez ela está atrasada com a fofoca.

ON

Merda, merda, merda, mil vezes merda.
Por que caralho eu aceitei vir neste churrasco?
Devia ter ficado na casa de mesmo. Eu sabia que teria algo de errado aqui e tudo indicava que devia ter ficado na capital. Bom, digo capital porque papai e mamãe moram em uma cidade que não chega a ser no interior, mas por ter muitas fazendas é considerada interiorana. Nós saímos tarde da faculdade, decidimos comer em um restaurante no qual a fila estava enorme, pegamos um engarrafamento, esquecemos a mala de na casa dela e teve até um acidente.
E quando chego na minha casa, no único dia que eu posso ter diversão em dois meses, por causa da faculdade que me faz só chegar em casa tarde da noite, revisar a matéria do dia, as vezes nem comer e ir dormir, me deparo com o filho da puta do . Aliás, filho da puta não, pois conheci a mãe dele lá em baixo enquanto tentava subir correndo para o meu quarto, ela é um amor de pessoa.
O maldito ainda era lindo. Ombros largos, olhos azuis, piercing no lábio, cabelo preto e ainda tinha aquele sorriso, por que ele tinha que ter aquele sorriso tão lindo? O garoto é capaz de deixar qualquer mulher com as pernas bambas só de sorrir; com um piscar de olhos faz elas rastejarem por ele.
Na hora que eu o vi na minha casa, do lado do meu primo e perto dos meus tios, eu não soube como reagir e fiz o que faço de melhor: fugi. Cumprimentei e abracei todos, disse que estava com saudade e passei reto pelo babaca.
Até aí meu plano estava ótimo, fingir que ele não existia, mas meu lindo pai decidiu me apresentar para o pai do . O pai dele disse que eu deveria conhecer o seu menino, pois seria bom para o filho ter uma amizade que não andasse por aí toda de preto e foi isso que meu pai fez. Ele gritou o bendito moleque e ele veio na minha direção e eu me fingi de louca. Sim, de louca, pois eu bem me lembro dele só achei melhor fingir que não me lembrava do garoto. Mas ele nem sequer demonstrou lembrar de mim e por isso segui com plano de fingir que ele era só mais um idiota filho de algum babaca que meu pai fez negócios e acabou virando amigo.
Agora me encontro dentro do meu banheiro, tentando tomar um banho que me relaxe um pouco e me faça decidir o que devo fazer.
- , está no banheiro ,amiga? – Sabia que viria atrás de mim assim que ela e o almeida fossem apresentados.
- Sim, , mas já estou saindo. – falei tentando parecer calma.
- Nós precisamos conversar, então não demore, ok? – Pelo seu tom de voz eu tive a certeza, eles conversaram e como uma ótima amiga que sempre foi ela veio me acalmar e me avisar, porém desta vez estava atrasada e eu já tinha falado com o idiota.
Desliguei o chuveiro, me sequei, coloquei uma toalha no cabelo e sai dando de cara com sentada na minha penteadeira escovando os cabelos com a maior cara de preocupada.
- Se for do , eu já o vi e tive o desprazer de falar com ele, mas fingi que nem me lembrava do infeliz e ele nem quer demonstrou lembrar de mim também. Sei que você irá perguntar como estou depois de anos sem vê-lo e estou bem. – Falei tão rápido que nem eu mesma acreditei que estava bem após ver meu único amor depois de tanto tempo e, pela expressão de , ela também não tinha acreditado.
- , está tudo se você não tiver legal e não quiser descer.- Deu uma pausa, sorriu e continuou- Eu vou lá em baixo e digo que te deu uma ânsia de vomito por conta da comida do café da manhã, nós assistimos um filme ou conversarmos sobre alguma coisa... Eu sei que você está confusa e não minta para mim, ok? – Ela sorriu daquela forma doce que só ela sabia sorrir e guardou a escova.
- Não, eu vou descer. É só que estou surpresa por vê-lo depois de tanto tempo, , mas estou bem. – sorri da melhor forma possível- Vou colocar o biquíni, me espere aqui.
Entrei no banheiro, coloquei o biquíni, um shorts jeans curtinho branco e meu óculos de sol.
- Vamos, . – Chamei minha amiga que parecia estar em outro munda e sabia que aquele mundo se chamava Rafael.
O que e Rafa tinham é algo muito complexo, pois ficavam as vezes quando nós duas arrastávamos o Rafa para alguma festa da faculdade. Depois eles ficavam semanas inteiras sem se falar direito e depois voltavam como melhores amigos, onde ficava contando dos casos dela com os caras nojentos que fazem Engenharia Química e vivem falando mal de toda mulher que, sem juízo e magoada por outro idiota, aceita sair com aqueles panacas. A história dos dois não é difícil, Rafael precisava somente aparecer no dia seguinte dizendo que a quer e tudo estaria resolvido, mas em história reais nada parece ser tão simples e o príncipe parece sempre estar a complicar as histórias de amor.
Ela se calou, sorriu, me deu um beijo na bochecha e sussurrou:
-Seja o que for, aconteça o que acontecer ainda poderemos subir, ok? Não dê atenção a esse merda, estamos entendidas?
E saiu na minha frente em direção ao corredor que dava as escadas, eu respirei fundo e fui em direção a piscina com o melhor sorriso que conseguia naquele momento.

ON


Não sei ao certo quanto tempo fiquei olhando as escadas que davam para a casa, mas em algum momento o tal Rafael me chamou.
-E aÍ cara, vamos começar mais uma partida de truco, está afim de jogar? – Eu era bom nisso, sempre ganhei quando jogava nas viagens em família ou quando jogava no colegial com a galera.
-Claro, mas com... – Fui interrompido pela voz de , que descia as escadas dentro de um shortinho que deixava ela muito mais gostosa do que estava quando chegou.
- , não está afim de jogar truco? Nós sabemos o quanto você ama ganhar neste jogo. – Primo disse sorrindo com certa ironia na voz.
-Você sabe muito bem que ganho de todos vocês até se estiver com os olhos vendados, Rafa, mas hoje eu vou passar, estou afim de dar um mergulho e depois vou comer alguma coisa, Boy. – Ela tinha um sorriso tão verdadeiro e meigo para o primo que cheguei a imaginar como aquela garota podia ser a vadia que conheci a alguns anos.
Dizendo isso, a maldita se virou de costas e andou em direção a algumas espreguiçadeiras que ficavam perto da piscina, tirou o shorts e sorriu para um homem com uma bebê, ela falou alguma coisa bem baixinho com a menina e a garotinha mandou um beijo.
sempre teve jeito com crianças, lembro bem que ela comandava as visitas aos orfanatos e até era a presidente do grupo de apoio que o Colégio tinha. As crianças a amavam e sempre que íamos visitá-las, eu via voltar com milhares de desenhos nas mãos. Era como os pequenos demonstravam que gostavam de nossas visitas e de alguns de nós, o problema era que só ela voltava com desenhos e cheia de cartinhas e pedidos de namoros dos garotinhos.

Flashback
7 anos atrás.

Eu acordei e olhei ao relógio, PUTA MERDA, a iria me matar. Eu estou atrasado para encontrar o grupo de apoio, atrasado tipo devia estar na estrada a caminho do Instituto Pequenos Anjinhos.
Com muita pressa me levantei, troquei somente de roupa, peguei o presente do meu afilhado e sai correndo com uma maça nas mãos em direção ao metrô. Sorte é o que, o merda que eu sou, namoro uma gata, tenho amigos bons pra caralho e ainda moro ao lado do metrô Praça da Árvore o que é um pulo para estar na Vila Mariana.
Desci do metrô e andei cerca de 5 minutos em direção ao Colégio. Chegando lá, encontrei , ou , como todos chamavam, com sacos e sacos de brinquedos a cercando e um urso rosa com branco enorme nos braços enquanto gritava ao telefone com alguém. É, eu estava realmente fodido. Ou ela me mataria hoje ou nós iriamos nos casar mesmo daqui alguns anos.
-, onde você estava, cara? A está puta, disse que ia sair sem você e ainda por cima te chamou de irresponsável, você sabe que a menina quando estava brava é o cão, por que você faz uma merda dessas? – Diego, meu melhor amigo falou sério e visivelmente preocupado.
-Cara, eu fiquei até tarde estudando e depois tinha treino da droga do vôlei. Quando cheguei, tive que digitar todo um conteúdo de biologia para aula que vou dar para as crianças do sexto ano.- finalizei no exato momento que gritou alto e em bom tom.
-, se eu não te amasse tanto iria te matar agora e dar para meus cachorros comerem. Qual a dificuldade de chegar no horário? Devia te tirar do grupo. – fui até minha garota beijei seu rosto e disse baixo .
-Baby, sabe que não fiz por mal, você sabe tudo que eu fiz ontem e até que horas fiquei acordado, me perdoe. – dei um selinho rápido e continuei, porém alto o suficiente para que todos ali pudessem ouvir. – Desculpa, , vamos sair agora que cheguei? – peguei minha bolsa e os sacos que estavam em volta dela e levei para dentro do ônibus, sorri para Seu Nelson, o motorista que duas vezes na semana nos levava ao instituto e guardei meu lugar e da na frente do ônibus.

Fim do flashback


Afastei as malditas lembranças da época em que eu era enganado e feito de otário para trás e virei o rosto na direção oposta à de . Em questão de alguns segundos, ouvi o barulho da água e como um imã me virei, dando de cara com uma toda molhada, cabelos grudados as costas e um sorriso gostoso enquanto pegava uma bebê que ela falava a pouco no colo, era lindo. A menina sorria e beijava o rosto de como se fosse uma filha demonstrando o quanto amava a mãe.
Fiquei durante alguns minutos olhando aquela cena até que o Rafael me chamou.
-Err, não sei quem você é, mas você não tira os olhos da minha prima e vá por mim ela não faz o tipo que procura um cara para uma foda casual, então por favor nem chegue perto dela. – A expressão do tal primo era tão séria que tive vontade de rir. Não tenho a mínima vontade de ficar com de novo e tenho certeza que se tivesse não seria a cara de merda dele que faria eu desistir disso, pode apostar.
- Fica tranquilo cara, sua prima não faz meu tipo! – olhei para a garota com desdém e continue- Se me dão licença, preciso ir ao banheiro, jogo na próxima rodada.
Me levantei e fui em direção ao banheiro que ficava no andar de baixo da casa, bem perto da sala de estar e, porra, que sala de estar! Dava duas da minha, sem falar na ‘’mini sala’’ que ficava ao lado da escada que dava aos quartos.
Abri a porta do banheiro e me olhei no espelho, abri a torneira e joguei um pouco de água fria no rosto, precisa parar de encarar , se mais alguém percebesse seria o fim. Imagina se o senhor Mario me pega olhando as coxas da filha dele? Ou a bunda dela? Eu estava literalmente fodido. Meu pai já havia me contado o que ele fez ao ex de que a traiu com uma colega dele.
Quando me virei para enfim sair do banheiro a porta se abriu e uma toda molhada, com o cabelo preso em um coque entrou toda afobada.
-Puta que pariu, você não bate antes de entrar? – Garota sem educação, os pais não ensinaram isto a ela?
-A porta estava aberta...-Ela deu uma pausa, ofegante.- Quem vai em um banheiro e não fecha a merda da porta, ? - Ela disse séria, me olhando nos olhos.
- Decidiu lembrar de mim, baby? Sabe, quando você chegou e não me cumprimentou, eu sabia que era só um teatrinho seu, mais um na verdade. Você lembrava bem de mim. Ninguém esquece um rosto tão lindo como o meu. –falei prepotente.
- Queria que eu fizesse o que? Se manca, . Só há dois motivos para nunca esquecermos alguém: ter amado muito ou odiado muito. Você é o segundo caso, então junte o que resta do seu orgulho e se manda do banheiro, porque gostaria de usar ele. – Ela nunca irá mudar, sempre se achando a dona da razão.
- Não, se quiser use ele comigo aqui dentro mesmo, não vejo nada de mau nisso. –Falei dando meu melhor sorriso pervertido.
- Você era, é e sempre será nojento, , me dá licença ou taco esse vidro de sabonete na tua cabeça- Ela pegou o vidro em mãos e me olhou seria.
- Dúvido, você não tem coragem, baby- Não tirei o sorriso em nenhum minuto do rosto.
-Lave sua boca imunda para me chamar de baby, seu babaca. -ela apertou o dentes e falou baixo como estivesse prestes a me matar com as próprias mãos.
-Baby, baby, baby..- Ela levantou o frasco de vidro e mirou em minha direção, foi o tempo que tive de assimilar que ela iria jogar em mim mesmo e abrir a porta para sair correndo. Quando passei meu corpo pela porta, ouvi o barulho do vidro se quebrando e de gritando que fosse me foder.
Iria ter volta, quem ela pensa que é para fazer aquilo comigo? Se eu tivesse demorado mais alguns segundos agora estaria com milhões de cacos de vidro na cabeça. OK, talvez milhões seja exagero, mas eu podia estar machucado e com não se mexe.
Ela que esteja preparada para o que a espera. Eu não sabia o que faria, mas com certeza faria algo, pois ela já havia me feito suficiente de idiota e uma marionete sua para que eu pudesse aceitar mais.


Capítulo 2

ON

Voltei sorrindo por saber que ainda conseguia a irritar e tirar do sério, pois no fundo eu nunca teria coragem de machucá-la nem fisicamente, nem verbalmente. Mas podia muito bem irritá-la a ponto de deixar que ela soltasse fogo pela boca e tivesse que me engolir durante todo o tempo que passaríamos juntos de hoje em diante.
Sentei na frente do Rafael e ao lado de e disse que devíamos jogar algo que pudéssemos fazer duplas, pois queria conhece-lo todos que ali estavam. Sabia que iriam chamar a , precisávamos de mais um já que estávamos em sete: Rafael, (megera indomada), dois amigos do Rafael, a prima mais nova de , um rapaz que trabalha para o Seu Mario e eu. Rafael pediu para esperarmos voltar, que ela iria jogar qualquer outra coisa que não fosse truco conosco e assim o fiz. Dei um gole na cerveja, respondi alguns amigos no Whatsapp e em alguns minutos ela voltou com um copo em mãos e em direção a nossa mesa. O QUE? Ela finge que não me conhecer, grita comigo e depois ela sentar onde estou? Bem, além de sentar onde estou, sentou ao meu lado, sorriu e ainda perguntou:
-E aí, gente, vamos jogar algo ou ficaremos olhando um para o outro com cara de nada?
-Essa é minha garota, achei que tinha sido picada pelo mosquito anti competição, docinho. – disse um que rapaz que ainda não sabia o nome, mas sabia que trabalhava na contabilidade dos negócios do senhor Mário. E que porra ele era da para falar como se fossem namorados? Não que seja da minha conta, mas muito estranho essa atitude dele.
-Gatinho, eu sou competitiva desde que nasci. Andei antes do Rafael para que ele não pudesse ser mais rápido que eu nisso. Aprendi a ler e escrever, falar inglês e francês antes da pois ela sabia espanhol, algo que nunca aprendi. Aprendi a surfar em uma semana quando estava morando na Califórnia com a Victoria – parou no meio da frase e sorriu para a garota a minha frente e continuou- para que ela não aprendesse antes de mim e chamasse toda atenção do mundo para ela, até porque sabemos que nunca poderei competir com esse corpo e esse rosto com olhos verdes, como o do Rafael.
-, você tem troféus de Matemática, Química, Robótica e Biologia largados por toda casa, medalhes de torneios de vôlei e natação da época que morava fora do país, fala 3 línguas, faz medicina, trabalho voluntário e ajuda na contabilidade do seu pai junto com o João. Não conheço alguém como você, larga de ser ridícula e deixa nós, meros mortais, sermos bons em algo que não seja perder para você- Falou Rafael sério enquanto fitava a garota ao meu lado.
Ela riu alto e de um jeito contagiante, que me fez querer rir junto e admirar cada ruga que apareceu na testa dela.
-Não seja ridículo, você é engenheiro da maior construtora do país, fala 2 línguas, chama atenção por onde passa por parecer um ator mexicano e ter esses olhos verdes. Cale a droga da sua boca ou terei que ir ai te bater e depois te abraçar. – ela piscou e mandou um beijo para o primo, que riu a chamou de controladora maldita.
-Então, vamos jogar ou não?- perguntei divertido, tentando mudar o foco do jogo, não queria ter que ficar ouvindo as milhões de qualidades e conquistas da garota ao meu lado.
- Vamos, o que acham de jogarmos dominó? Cada um faz par com quem está ao seu lado, sendo eu e , Victoria e João, Vitor e Pedro, a e o . Pode ser, lindinhos?- disse Rafael, todo gentil olhando direto para com esperança no olhar. Todo mundo, exceto , fez que sim e ele olhou para , que estava paralisada olhando para a cara de que ria.
-Podemos gente, eu só estava longe, sabem como é último ano da faculdade só consigo pensar em estudar e as horas no hospital estão me comendo viva. Olhem pra mim e essas olheiras. – sorriu meiga e me olhou- Se importa de ser dupla da garota mais competitiva da mesa, ? - piscou os longos cílios e sorriu como se estivesse flertando comigo. Fiquei parado, estático e ri.
-Claro que não, – frisei o apelido, sorrindo no final.
-Então que comecem os jogos, quem ganhar faz uma pergunta para a dupla que quiser.- Rafael falou e depois virou a cerveja que restava no copo.
O jogo seguia tranquilo. A maldita era boa, jogava muito, parecia um velho maldito viciado em dominó. Eu só seguia os comandos que ela dava disfarçadamente, como se fossemos íntimos, todos riam e brincavam e ela jogava calada, vez ou outra sorria para os amigos como se fosse uma mãe acalmando o filho que estava perdendo um jogo de futebol e foi entre um desses sorrisos, ela jogar o dominó e tomar mais um pouco da caipirinha que ela levantou e disse simplesmente:
-Senhoras e senhores, vocês deviam praticar mais enquanto eu estudo, acabei de bater nas duas pontas. Minha pergunta é para a e para o Rafael. E, João, pegue mais um pouco de caipirinha para essa incrível jogadora, meu docinho. – sentou- se novamente e sorriu olhando o primo que fez cara de bravo e me olhou, desmanchando o sorrindo e fazendo cara de nojo. – você também deveria aprender a jogar. Antonieta, aquela criança que corre pra lá e para cá ali na frente joga melhor que você e tem somente 8 anos, .
Eu queria xinga-la, dizer para ir ao inferno, eu que havia a ensinado a jogar daquela forma, mas sorri e disse com muita calma:
– Desculpe, no ensino médio eu fazia outras coisas com as mãos, não perdia tempo aprendendo jogos assim. Eu gostava mais do jogo da sedução, querida.- falei de forma gentil, tentando não sair sedutor, mas pisquei no final para intrigar a morena ao meu lado.
-Imagino, cada um acha sua forma de diversão, seja magoando garotinhas bobas e indefesas ou aprendendo jogos que podem levam o dinheiro de meninos que se acham homens. – ela sorriu como se tivesse falando sobre como gostaria do seu café naquela manhã. – Mas, foi somente um dica, . Agora posso fazer minha pergunta ou um desafio, vocês que sabem, meus lindos- disse olhando os amigos a nossa frente.
-Errr, pergunta, . Pergunta. Mas nada muito íntimo, sabe que ninguém precisa saber quem seu primo pega ou deixa de pegar. – falou ríspida e olhou sério para a amiga.
-hmmm, então vou fazer a pergunta para os dois. Rafa, quando vai chamar para sair? quando vai deixar de ser uma vaca que finge não gostar do meu primo mais lindo?- dito isso, o tal João chegou com a bebida de , a entregou e sentou olhando para cada um. Após o clima se tornar uma merda e os melhores amigos da minha nada-doce-controladora dividirem o olhar entre si e ela. Minha não, pois ela não é nada minha, mas da nada doce controladora ao meu lado.
- Carlota Guimarães , de onde você tirou essa asneira? Está usando drogas enquanto está na capital? – Rafael berrou, se levantando da mesa e entrando para a casa. deu de ombros, riu e disse:
-, falarei com ele e depois vocês terão um encontro. Não foda tudo, amo vocês. Com licença, anjinhos. – sorriu e se retirou para dentro da casa.
Que porra que tinha acontecido ali? Eu jurava que não queria nada com o engenheiro, nem sequer o olhava como ele a olhava e nem dava atenção como ele merecia, mas pelo visto estava errado e pela primeira vez não sabia nada sobre as mulheres.

ON

Ou eu juntaria meus dois amigos ou perderia a amizade do Rafael para sempre.
Sabia que havia cruzado uma linha ridícula que era muito perigosa, mas não aguentaria amanhã a merda que seria após eles ficarem mais tarde. Rafa iria chorar e reclamar pelos próximos três dias, falaria que não o amava, que só o usava enquanto não arrumava um bonitão loiro que curtisse jogar futebol ao invés de lutar como ele; diria que ela não podia brincar com os sentimentos dele da forma com ele julga que ela brinca, enquanto eu cismo em falar que na realidade eles estão só se desentendendo, que uma conversa resolveria tudo.
Enquanto sai pelas próximas duas semanas com alguns caras da faculdade e manda indiretas bem diretas para meu primo e nós conversamos sobre qualquer merda que não tem nada a ver com os relacionamentos que minha amada amiga se envolve e afunda mais em um amor que poderia dar certo, mas falta coragem de ambos os lados.
-Rafa, olha, eu te amo a 24 anos. Vivi meu primeiro porre com você, você cuidou de mim todas as vezes que fiquei doente até quando vomitei seu carro todinho no ano passado enquanto estava com aquela virose. Você me levou na balada pela primeira vez, me ajudou a sair da merda do buraco que me enfiei quando a vó Carminha veio a falecer e ainda me ajudou a superar meu primeiro amor quando tive de fugir dele, sem ao menos você saber quem ele era. Me deixe terminar e para de abrir a droga da sua boca para me interromper. – falei séria olhando ele nos olhos, enquanto ele abaixou o olhar e fitou o chão, esperando que eu terminasse a merda que tinha começado. - Se não tivesse tanta certeza do seu amor pela minha doce e do amor dela pelo meu príncipe mexicano não teria feito tudo que fiz. Peço perdão, sei que passei dos limites perto daquele desconhecido marginal, mas se você não tomar uma atitude perderá minha amiga para sempre, não posso escolher um lado e vocês fazem com que eu escolha. Vocês se gostam, só precisam de um empurram e eu dei. Agora deixe de ser frouxo e bunda mole, vá lá fora e pegue sua garota nos braços, de um beijo e a chame para comer naquele restaurante chinês nojento que ela adora, compre lírios e abra a droga da porta do carro. – ele me olhou sério por cerca de uns dez minutos, pensou, pensou e passou reto por mim indo em direção a porta que dava a saída.
Ou ele iria até ou iria embora e eu rezava a todos os santos, orixás, caboclos, guias, deuses e seres de luz que fosse a primeira opção, pois não iria aguentar perder meu irmão por causa da minha enorme boca.
E, Deus seja louvado, que choque eu levei, lá estava ele, puxando pelo braço para longe da mesa e de todos nós, ela me olhou confusa, eu sorri e eu sabia que ela tinha entendido. Gritei que ela lembrasse do que eu havia falado e me sentei de qualquer jeito na mesa.
- Não me olhem assim. Estava sem viver a semanas, meses e talvez anos, não aguentava mais, ninguém aqui entende, mas não podia deixar um amor tão lindo se perder assim. – imediatamente riu baixinho e tentou disfarçar coçando a garganta. – Por que riu? Não acredita no amor? Ou não é capaz de amar alguém e confiar no sentimento? – perguntei séria, levantando os óculos para poder fita-lo.
-Imagina, querida, o amor é lindo, porém o mundo está cheio de vadias que saem por aí magoando rapazes que só querer lhes dar amor e já passei da idade de acreditar nessas bobagens, não acha?
-Talvez seja, , ou o problema está na confiança dos homens nas mulheres, mas você nunca saberá, já que não pode amar. -falei séria, olhando em seus olhos, e enquanto via o homem na minha frente tentado a me responder ao mesmo tempo em que quer me matar só com o olhar, como se Deus quisesse me ajudar, seu pai chamou.
- Nando, vamos? Está ficando tarde, daqui para capital temos algumas boas horas de estrada e sua mãe possui consultas amanhã no primeiro horário. – terminando de falar isso, se dirigiu a mim. – , minha querida, foi um prazer imensurável conhecer você após ouvir coisas tão boas de todos, irei entrar em contato com você, pretendo ajudar a instituição que você visita, querida. – levantei e abracei o senhor e sua esposa e completei:
-Senhor , ficarei tão grata! Estamos precisando muito, as crianças não possuem mais fraldas e, bem como sabe, ainda não sou formada e ajudo com o dinheiro que ganho fazendo pesquisas científicas para a faculdade, porém não é muito e papai já ditou a lei, ele não pode mais ajudar nenhuma instituição. – sorri e virei para o marginal a minha frente - , foi um prazer te conhecer, espero que tenha sido um ótimo dia e nos vemos em breve, todos.- falei sendo o mais gentil que poderia, seu pai devia me achar uma dama, educada e fina.
-, querida, o prazer foi todo meu – falou me olhando nos olhos e segurando minha mão – espero que possamos sair algumas vezes, seria um prazer enorme ter sua companhia – finalizou beijando minha mão e piscando.
Eu me sentia sem ar, o coração acelerado, a mente a mil e uma recordação nítida de uma cena bem parecida, porém que ocorreu a sete anos.

Flashback

7 ANOS ATRÁS

-, por Deus, você não pode perder essa festa para ficar um sábado à noite jogando xadrez com sua avó. Eu também a amo, porém será a festa do ano e todo mundo do Conceição de Versalhes estará lá. Já passou da hora de você sair de casa um pouco, conhecer gente nova, e outra, você não comprou aquele vestido preto novo a toa. – Carolina, falava tão rápido que eu mal entendia, e poxa, não queria sair, era difícil entender que para mim ficar em casa era um descanso para a alma e o corpo após uma semana cansativa como a que tive? - Não fique calada, passo ai em um hora, esteja pronta e linda.
Merda, teria que ir nessa festa ou Carol ficaria aqui na porta plantada e me acusaria de rouba-la de uma noite com garotos lindos e muita bebida. E eu não queria ter que ouvir tanta asneira na segunda-feira, ainda mais agora que estava viajando e só voltaria no fim da semana. Droga de pais separados, se Soso estivesse em São Paulo essa semana seria mais simples. Mas não, estava em Minas Gerais aguentando o pai dela reclamar e obriga-la a ir em todos os jantares beneficentes e sorrir para todos, enquanto ela devia estar lá para cuidar da vó que estava muito doente.
-Você ainda está ai, ? Vou desligar, vá se arrumar.- e pronto ela desligou e eu fui em direção ao banheiro, tomei um banho quente, lavei os cabelos e passei creme hidratante em todo corpo.
Saí e fui a procura do tal vestido preto e de sandálias pretas para poder usar. Uma maquiagem preta forte, um batom nude e a droga do cabelo solto, liso e sem ondas, longo, como eu tanto gostava e vovó também. Me sentia estranhamente agitada, uma escola de samba bem no meu peito, uma perna que não parava quieta por nada e um celular silencioso demais e nada de Carolina. Após cerca de 20 minutos que eu estava pronta e a esperando como se hoje fosse minha festa de 15 anos, ela chegou e nem sequer desceu do carro, mandou uma mensagem e eu fui de encontro ao carro preto e enorme parado na frente da casa simples de minha avó.
-Espero que tenha uma boa desculpa, odeio esperar.- falei séria, escondendo um sorriso enorme.
-Papai queria saber se o Carlos iria. Sabe bem que ele não aprova nosso relacionamento, quando disse que era só um passatempo e agora não tínhamos mais nada, me liberou. Foi mal, .- Falou me dando um beijo na bochecha e sorrindo.
-Tudo bem, Carolzinha -falei rindo.
Não demorou muito e paramos na frente de uma casa enorme, branca e verde, com um quintal cheio de árvores e um balanço.
-E aí, vamos? Quero entrar logo e o Carlos trouxe um amigo, vou te apresentar. – merda, sabia que a insistência não era somente para minha diversão. Carlinhos provavelmente não iria vir. Ela disse que levaria uma amiga, ele disse que tudo bem se assim fosse, pois poderia levar um amigo e pronto cá estou eu. – olha, ali estão eles, vamos lá.
Haviam 3 garotos na roda. Carlos era loiro e com olhos castanhos escuros, baixinho e cheio de sardas. Um menino também loiro e de sardas, porém com os olhos verdes e muito alto. E um moreno, branco como papel, os olhos azuis brilhavam muito em contraste com a noite e a luz forte que estava bem na direção deles. Era alto, vestia uma calça preta e uma blusa de banda, era forte como um lutador, mas sem o porte de “sou o fodão” e, Deus, ele tinha um maldito piercing. Fiquei parada olhando eles, aliás, olhando a beleza em pessoa que estava a minha frente, era lindo, mas de uma forma intimidadora e sexy.
- Venha logo, , esqueceu como se anda? – e assim fui puxada por Carol até os meninos – Oi, garotos. Oi, Carlinhos. Meninos, essa é . , esses são Carlos, Diego e , eles estudam na turma C, aquela que fica do outro lado do Versalhes. – e assim eu descobri o tal moreno tinha nome, um nome bonito e que dançava na minha boca para poder sair.
- Oi, , venha cá e me dê um abraço, garota. – disse Carlos já me puxando enquanto eu olhava o moreno sem parar.
- Oi, Carlinhos, que saudade, você anda sumido. – sorri o abraçando de volta.
O segundo garoto, o tal de Diego sorriu e me deu um beijo na bochecha, já pegou minha mão segurou próximo ao rosto e disse:
-Que prazer te conhecer, , espero que se divirta em minha casa essa noite. – beijou minha mão e piscou.

Fim do flashback

Droga, eu estava vermelha, roxa e azul, talvez todo o arco íris. Me sentia de volta a 2008, me sentia sem ar, presa em uma atmosfera onde tudo que existia eram aqueles olhos azuis brilhando em minha direção e aquele piercing prata dando um ar ainda maior de sensualidade ao homem a minha frente. Ele soltou minha mão e saiu junto aos pais. Foi só ai que eu me dei conta, estava prendendo a respiração e com os olhos marejados.

Capítulo 3

ON

-, o que foi? Por que você está chorando? – Victoria se apressou a perguntar afoita, enquanto eu entrava correndo para dentro de casa, com o coração acelerado, xingando as próximas 3 gerações pós e todo o restante dessa droga de mundo. – , por que você saiu daquele jeito, está ficando doida? Ele te falou algo que não pudemos ouvir? Reparei que você não estava muito feliz com ele ali conosco, já se conhecem?- Vivi, entrou no quarto comigo e sentou-se no sofá branco ao lado da porta me encarando com aqueles olhos verde esmeralda esperando que eu falasse algo.
-Eu não sei, me senti tonta, uma falta de ar, acredito que por ter bebido sem comer - sorri da melhor forma que conseguia. Era boa atriz, fiz peças no Colégio, sabia mentir com tanto que não olhasse ela nos olhos – Nunca tinha visto o garoto, tratei ele como trato todo mundo, não seja boba – parei de encarar o espelho a minha frente e comecei a pegar as coisas para que pudesse tomar um banho quente, me enrolar no edredom e ver alguma comédia meia boca – E a senhora volte para lá, não deixe os garotos sozinhos, eles só faltam se matar com aquelas brincadeiras. Avise papai que estou cansada, que decidi dormir para amanhã voltar a capital e dar entrada nas papeladas do apartamento. – fui até Victoria, dei um beijo estalado, virei minha prima em direção a porta, dei um tapinha no bumbum e pedi – Ande, senhorita Esmeralda, vá em busca de seu José Armando que está lá em baixo com João e deixe sua pobre prima descansar. – ela riu, fez que não e abriu a porta, mas antes de fecha-la mostrou o dedo do meio e falou alto.
-Ele pode ser um playboy e você odiar esse tipo, mas se encontra-lo de novo pegue por mim, safadinha – bateu a porta e eu ouvi ela rindo alto e correndo, provavelmente em direção a escada.
Era o que me faltava nessa altura do campeonato, Victoria falando que era bonito. Bem, feio ele não era, porém insinuar uma asneira daquela? Faça favor, mal sabia ela que se eu pudesse mataria aquele desgraçado metido a playboy.

ON

Segunda- feira, como eu amo as segundas-feiras.
Acordei de bom humor por algum motivo, tomei banho, coloquei o terno preto com uma camisa branca e gravata roxa, desci para a cozinha e entrei. Mamãe estava de costas colocando a mesa.
-Dona Claudia, a senhora está tão linda dentro desse vestido azul. – dei um beijo em sua bochecha, coloquei o restante das xícaras na mesa e sentei na frente da minha mãe - Cadê papai? Já saiu? – perguntei enfiando um pedaço de pão na boca e enchendo uma xícara de chá preto.
-, VOCÊ TEM 25 ANOS. PODE COMER COM A BOCA FECHADA? – mamãe gritou me olhando duro e depois sorriu – desculpe, você faz isso todo dia só para me irritar e eu estou relativamente nervosa hoje, tenho uma cirurgia muito cansativa daqui 2 horas – disse olhando no relógio e prosseguiu – seu pai foi encontrar , ela estava à procura de apartamento. Acabou de fechar com nossa imobiliária e seu pai decidiu ele mesmo ir até lá. Aliás, que garota bonita, acredita que ela estudou no Versalhes? Vocês não se conheciam mesmo? – dona Claudia era curiosa e eu tinha certeza que por trás daquele olhar ela sentia algo, maldito sexto sentindo de mãe.
-Nada demais, sabe bem que eu curto as modelos loiras. Nunca vi mais gorda, devia ser de outra prédio e não frequentar minhas festas. Vou indo nessa, tenho uma aula agora de manhã e à tarde pretendo passar no laboratório para ver como andam as coisas por lá, nem só de realização se vive o ser humano, preciso de dinheiro para pagar minhas contas - peguei minha mochila e sai em direção ao meu carro.
Havia comprado a “Beth”, como apelidei meu Jimmy há cerca de 1 ano. Tinha um apartamento na Avenida Paulista, trabalho com crianças carentes todos os dias da semana e tenho um laboratório de exames. Tudo muito recente para quem se formou a tão pouco tempo, mas Seu Nicolas me deu o apartamento assim que entrei na faculdade de São Paulo, após me formar abri o laboratório com mamãe, porém ela não dava muita importância para ele, somente recolhendo sua parte quando o mês chegava ao final. Sempre fui amante da biologia no colegial, quando terminei logo prestei biomedicina e me formei com louvor há 3 anos.
Trabalhar dando aula foi uma ideia de mamãe, há 2 anos ela vivia dizendo que eu vivia triste por aí, que deveria trabalhar fazendo o que amava e deu a ideia de que eu fosse dar aula como gostava no ensino médio e foi o que me ocorreu. Procurei um grupo que ajudava em áreas periféricas, mostrei meu currículo, disse que tinha interesse sem remuneração alguma e pronto, dou aulas desde então.
Estacionei na porta do Colégio improvisado que ficava em um dos orfanatos que eu ia dar aulas de Ciências, Biologia e Química. Mesmo não sendo habilitado para tal profissão, eu era mais um reforço para os alunos que tinham grande potencial e, graças a droga de educação do nosso país, não podiam ir para frente, além de ajudar aqueles que tinham grande dificuldade.
- Olá, , achei que não viria hoje, somente da sexta-feira, como toda semana. – Raquel, era administradora do orfanato que eu lecionava as sextas durante a manhã.
- Acabei achando melhor vir hoje, te mandei um e-mail, achei que tinha visto, pois recebi retorno confirmando. Tem algum problema?
-Imagina, avisaria que você veio para as crianças. Hoje eles tinham visita de uma de nossas queridas ajudantes, porém ela marcou para sexta-feira junto com um amigo. – falou sorrindo e se retirou.
Esperei cerca de cinco minutos até ouvir um barulho vindo da escada e doro descer os degraus correndo e procurar por alguém na sala de estar. Seus olhos foram murchando e perdendo o brilho até que pousaram sobre mim.
-, o que você quer, meninão? Esperava por outra pessoa? - doro tinha acabado de completar 6 anos, não fazia parte de minhas aulas, porém sempre aparecia por lá para atrapalhar ou roubar meus biscoitos, o que nós levou a sermos grandes amigos.
-Cadê a titia, dona Rara? Ela prometeu e ela sempre vem, cadê? – não se deu ao trabalho de me responder após ver Raquel chegar na sala com as outras crianças. – Cadê a tia? – ele continuou a perguntar segurando um superman em uma mão e um desenho na outra. doro era muito bonito, era moreno, lembrava um índio, porém sem os olhos puxados. Usava uma roupa de marinheiro e agora estava chorando como se tivessem lhe batido.
- , ela teve que ir resolver alguns problemas, meu querido. Ligou hoje, prometeu estar aqui sexta, pediu para você não ficar bravo com ela, pois trará o que prometeu e disse que passará toda tarde aqui. – Raquel, passou a mão pelos cabelos do garoto – O que é isso? Mais uma carta pra ela? Assim ela ficará mal acostumada, toda semana sai com uma, está mimando muito ela. – Raquel falou fazendo cócegas e o garoto se contorceu todo. Quando Raquel se afastou, ele pareceu me notar e veio gritando.
-Seu , tudo bem? – pulou em meu colo, me deu um beijo e ficou me olhando.
-Por que ainda não me chama de tio, doro? Eu estou bem. Para quem era essa cartinha em suas mãos? Pelo choro, acredito que alguém muito especial – falei bagunçando o cabelo do garoto e pedindo a carta para poder vê-la.
-Ela é sim, tio. A tia vem aqui de uma a duas vezes na semana, a gente brinca, ela lê, me conta da cocola, dos amigos e a dona Rara deixou até ela me levar para sair já. Ela é muito bonita também, vou apresentar vocês. Você namora, tio? Porque a tia não, deviam namorar.
-Não namoro não, garoto. Devia me apresentar essa gata ai, deixe o tio ver o desenho. Você a desenhou, ? – perguntei e ele fez que sim com a cabeça me entregando o desenho. Nele havia uma moça de vestido longo, óculos de grau, cabelo nos ombros e uma coroa. Ele pintou os cabelos de preto e os olhos, o vestido de vermelho e a coroa de dourado. – Se ela for assim pessoalmente diga a ela que pode se considerar casada comigo, zinho. – falei sorrindo pro garoto que pulou do meu colo e foi até o pé da escada começando a subir.
-Pode deixar, tio, vou falar pra ela. – e saiu escada a cima, enquanto eu levava as crianças para mais uma aula de reforço e Raquel atendia o celular.
- ! Oi, querida. – após isso nada mais ouvi, pois já havia saído da sala de estar.
A aula correu como todas as aulas, as crianças sentadas ouvindo atenciosamente tudo que eu falava e depois tiraram suas dúvidas sobre os conteúdos que cada um estava tendo no Colégio.
Decidi almoçar sozinho e depois ir no laboratório, foi isso que eu fiz. Almocei rapidamente e corri para o laboratório.
- Bom dia, Susan – Sorri para a recepcionista.
-Bom dia, Senhor , como vai? – falou, se jogando na bancada de forma que seus seios ficassem mais amostra do que se ela ficasse sentada normalmente. Era nítido como ela se jogava para mim. Confesso que cheguei a tomar algumas cervejas com ela após o expediente, mas como eu já imaginava não passou de uns amassos no meu carro e ela ficando no meu pé pelas próximas semanas.
-Estou ótimo, obrigada por perguntar. – pisquei e sai em direção ao meu escritório.
Sentei em frente ao computador e comecei a buscar planilhas, ver orçamentos e olhar os exames que a análise havia enviado para mim. Durante o último exame meu celular tocou.
-Oi, pai, o que foi?
-Oi, filho. Liguei só para saber como está sendo seu dia e perguntar como você está, sua mãe disse que durante o café parecia estranho e saiu correndo. – droga, minha mãe e sua enorme boca falando mais do que devia sobre o que nem devia ser falado.
-Estou ótimo, foi impressão dela. – falei cortando totalmente o assunto rezando para que ele desligasse o telefonema.
- Que bom, . Fui hoje fechar o negócio com a , ela me perguntou de você, acredito que esteja interessada em ti, acredita? Uma mulher daquelas com você? Nem eu pude crer quando ela começou a fazer perguntas sobre ti e, sabendo que você está solteiro a tanto tempo, a chamei para comer lá em casa. Quem sabe assim vocês não podem se conhecer, seria ótimo para você ao mesmo uma amizade com alguém como ela. – Como ela pode ter um interesse em mim, chega a ser ridículo meu pai falar algo desse tipo. Mal sabe ele o ódio que nutrimos, que se eu pudesse nunca a teria conhecido. Nunca teria falado com ela naquela maldita festa, nunca teria a chamado para dançar como naquela noite e principalmente nunca teria a beijado.

FLASHBACK
Sete anos atrás

Me sentia nervoso como inferno, suava frio e torcia para que desse tudo certo, que ela aparecesse naquela droga de festa, pois eu havia feito a merda para ela. Havia corrido o dia todo para que tudo desse certo e que a festa fosse incrível, que tivesse o que ela gostava, porém sem que ficasse tão na cara assim.
Comprei Doritos, os salgadinhos favoritos dela, e espalhei por toda a casa, para que se ela fosse comer não precisasse procurar. Eu comprei Malibu, Vodka e Tequila, porque eram essas bebidas que ela gostava. Coloquei na playlist somente os artista que ela gostava e deixei o jardim todo iluminado para que ela pudesse ficar aqui se lá dentro fosse sufocante.
As pessoas começaram a chegar. E chegar. E chegar. eu me sentia cada vez mais otário por estar fazendo a segunda festa esperando ela e nada dela aparecer. Quando já passava da meia noite, eu decidi sentar no sofá e ver o que aqueles merdas que decidiram vir estavam fazendo e foi como se meu peito estivesse sendo rasgado para que borboletas pudessem sair, como se meu coração fosse estourar. Minha boca secou, meu corpo formigou e ela estava lá, entrando pela porta principal com uma calça jeans escura, uma blusa azul com algum tipo de jaqueta cheia de franjas por cima e um maldito salto alto que a deixava sexy como o inferno, o que iria foder meus neurônios mais tarde.
Ela olhou em minha direção sorriu enquanto colocava uma mecha atrás das orelhas e veio ao meu encontro. Porra, eu me sentia um idiota, não conseguia nem ao menos me mexer, estava hipnotizado e viciado sem ao menos ter beijado a garota a minha frente.
Só me toquei quando ela parou na minha frente, sorriu com toda pose de você não é tão importante assim e soltou um:
-E aí, festa legal, pela primeira vez vi que tem comida – soltou uma risada alto no final, risada essa que veio acompanhada de uma jogada de cabelo e a cabeça sendo colocada para traz. Me levantei, peguei sua mão levei aos lábios, dei um beijo suave e decidi que precisava falar, não podia parecer um completo imbecil na frente dela.
-E aí, docinho, alguns convidados andaram reclamando, sabe como é né? Você está gata pra caralho, devia ser crime. – Eu jurava que ela iria me socar ou me mandar ir me foder, mas simplesmente riu e deu uma voltinha como quem diz “não é que estou? Olha bem isso tudo.”
-Muito obrigada, . O que temos para beber nesse lugar tão chique? – Falou em direção a cozinha sem nem ao menos olhar para trás. Corri o mais rápido possível atrás dela a segurei pela cintura a puxando para entrada lateral da cozinha ontem havia guardado as bebidas que comprei especialmente para ela.
-Venha por aqui, . – soltei sua cintura e peguei uma garrafa de Malibu e um copo cheio de gelo – Me falaram que isso é que você mais gosta de tomar, estavam certos?
-Estavam mais que certos. Anda por ai querendo saber o que eu gosto, ? Assim vou achar que está querendo me conquistar. – falou tomando um gole da bebida transparente em seu copo.
-Talvez esteja, talvez. Você nunca saberá. – falei me sentindo perdido e um completo retardado.
- Estava brincando, sei que seu tipo são as magras, altas e com coxas que entram facilmente em um 34. – falando isso me deixou na cozinha e seguiu para sala, encostando na parede e mexendo a cabeça conforme a música tocava.
Fiquei ainda um tempo na cozinha, tentando lembrar o que devia fazer, chama-la para dançar? Cedo demais. Chama-la para andar lá fora? Ela acharia estranho. Deixa-la sozinha? Muito arriscado, haviam muitos lobos maus soltos naquela noite. Ficar ao lado dela falando sobre qualquer coisa? Perfeito.
-Me diga então, você parece se sentir muito bem em qualquer lugar, por que nunca te via em festas? – falei a fitando nos olhos.
- Eu me adapto bem aos locais, muito rápido. – falou olhando para frente, para as pessoas dançando e depois pro chão. Era minha deixa, precisava chama-la para dançar, estava errado, não era cedo demais.
- Err, você quer sabe, talvez, dançar um pouco?- Mas que porra, quem fala assim com uma garota? Eu era um virgem idiota? Ela não era diferente de nenhuma outra, qual meu problema? – Digo, ta afim de dançar comigo um pouco?
-Achei que você iria engasgar aqui mesmo e morrer – ela riu e me puxou pelas mãos para o meio da pista, se aproximou e disse – também achei que não me chamaria para dançar. – soltou-me e começou a dançar.
Foram os 3 minutos mais rápidos de toda minha vida, nem ao menos eu acho que mexi. Fiquei somente intercalando entre os olhos e a bunda dela. A bunda e os olhos.
Quando a música acabou, começou outra mais lenta. A puxei pela cintura, abracei e sussurrei.
-Vamos dançar essa assim, passei a noite nervoso demais preciso ao menos sentir a droga do teu cheiro, pois minha mente maldita já imaginou aromas diversos e eu vou enlouquecer – ao contrário do eu imaginei ela não falou nada, não me afastou, não gritou, nada. Ela simplesmente deu de ombros e abraçou meu pescoço.
Senti seu cheiro doce, muito doce. Era como se eu estivesse comendo uma bala que tinha uma surpresa no meio, surpresa essa com gosto e cheiro forte de chocolate e morango. Era fascinante, como a garota que eu segurava em meus braços. Eu dei um beijo em sua bochecha, ela prendeu a respiração, ótimo tinha algum efeito sobre ela. Acariciei suas costas e a puxei para mais perto.
Beijei mais uma vez sua bochecha, ela suspirou soltando todo ar. Beijei o canto de sua boca, ela fechou os olhos. Beijei seu lábios e esperei alguma reação, qualquer uma. Ela acariciou meus cabelos e eu sabia, ela estava entregue. Passei a língua pelo seu lábio inferior pedindo passagem para que pudesse aprofundar o beijo, precisava saber se o gosto dela era tão bom quanto o cheiro. E, porra, eu estava provando o gosto do cheiro que garota usava. Era doce, o beijo sutil, os lábios macios, ela me beijava com calma, sem pressa e acariciando meus cabelos.
Meu coração batia mais rápido que uma bateria em escola de samba, queria sentir aquilo para sempre, queria aprofundar o beijo, poder sentir mais dela, queria senti-la mais perto, mais minha, queria mais e mais e mais e ela parou o beijo.
Fiquei olhando ela de olhos fechados, respirando aos poucos, tentando buscar o ar que havíamos perdido. Não dei tempo dela fugir, correr ou dizer algo que pudesse foder o momento maravilhoso que eu estava tendo. A puxei pelo pescoço colando mais uma vez nossos lábios, porém agora de forma mais intensa, menos sutil e senti ela sorrir enquanto correspondia meu beijo.

FIM DO FLASHBACK

-, você está aí? Filho? Se não quer conhece-la ou não a acha bonita é melhor falar, ela aceitou o convite. – voltei a realidade sentindo um formigamento no peito, uma confusão na mente e um belo de um otário.
-Não faz meu tipo, pai, porém será ótimo para os seus negócios que tenhamos um bom convívio e até algo a mais, sei bem disso, serei cortês, fique tranquilo. Vou desligar. – não podia mais falar dela ou pensar nela, iria enlouquecer.


Capítulo 4

ON

-Querido, não se faça, sei que também senti falta do meu cheiro, do meu toque dos meus lábios - a frase foi cortada ao meio por uma Ni deixando sua vodka em cima de minha escrivaninha e vindo em minha direção sorrindo travessa - sabemos que você sustenta essa posse, mas me quer - e antes que eu pudesse falar algo minha boca foi calada pela sua, mas não suave como era antes. Foi com desespero, suplica e saudade. Ela agora tinha gosto de menta com chocolate, cheirava a algum perfume amadeirado, porém doce ao mesmo tempo. Passei as mãos pela lateral do corpo dela, a puxando para mais perto, a trazendo para mim, buscando por mais contato, por mais de sua boca, por mais em mim.
Ela me jogou de costas contra a cama, ligou a luz do abajur, foi lentamente abrindo o zíper do vestido vermelho que começava apertado sustando seus seios e dando mais ênfase a eles e logo após a cintura era solto. Quando o vestido caiu no chão, pude ver a lingerie, preta rendada. Ela sorriu e me chamou com os dedos.
-Venha, . Pegue sua garota.
Abri os olhos e encontrei uma cama vazia. Sem , com as luzes ligadas e eu perdido.
Merda de garota! A filha da puta me perturbava até nos sonhos, o que era um inferno já que o que eu mais gostava de fazer era dormir.
Quando sai do laboratório e cheguei em casa, decidi busca-la nas redes sociais e, bem, não foi muito difícil encontrá-la. O Instagram possuía fotos dela com os amigos, em festas, em restaurantes caros, ao lado do primo, segurando bebês, no continente africano... E que porra ela foi fazer lá? A foto tinha a localização da Nigéria, provavelmente trabalho voluntário durante as férias o que explicaria tantas fotos em tribos, tantas fotos com bebês, com outros médicos e até mesmo com um casal famoso em um jantar agradecendo pela oportunidade de encontrar sua missão nessa vida. Nessa vida? Ela acreditava em vidas passadas, como pode ser a mesma após tanto tempo?
Perdi um bom tempo vendo as fotos e lendo os comentários em especial de homens nojentos sem o mínimo senso em suas fotos, aliás, não quero se soe ridículo, mas quem comenta "Gata, chega a ser crime"? Ninguém com senso de ridículo. Acabei pegando no sono após parar de investigar sua vida e comer algo. E bem, minha maldita curiosidade me levou a uma maldita ereção as 4 horas da manhã. Não dormi mais, mas também não me levantei da cama, não queria e não podia ir para o laboratório agora cedo. A semana tinha passado tão rápida que nem percebi já era sexta-feira, eu tinha aquele jantar idiota que meu pai marcou e teria que lidar com esse sonho e o jantar, tudo no mesmo dia. Bem, eu poderia ligar para o orfanato de Dona Raquel, passar a manhã lá, o que seria ótimo para minha mim, me distrair e ficar com os pequenos um pouco.
Mandei uma mensagem a Raquel, levantei, tomei um banho, fiz um chá de camomila e coloquei o de sempre, terno, porém dessa vez cinza com a camiseta de dentro preta e uma gravata roxa. O retorno de Dona Raquel não demorou a chegar, por volta das 7 horas ela me enviou uma mensagem dizendo que era muito bem vindo e quando o relógio anunciou 8 horas eu decidi sair, passar para comprar alguma coisa para comer no caminho e depois ir para o orfanato.
Cheguei não era nem 10 horas ainda, ouvi passos e risadas altas do lado de dentro, o dia já tinha sido começado e as crianças provavelmente estavam bem animadas hoje.
Entrei e elas levantaram sorrindo e vindo me abraçar, mas não. Continuou sentado, mexendo em algumas peças de lego
-E aí, , o que foi, querido? Ela não veio novamente? - perguntei me abaixando para poder olhar em seus olhos.
-Não, tio, ela veio. Foi pegar nosso lanche lá na cozinha com a tia Selma. Olha ganhei um carrinho vememeio. - ele disse se complicando na última palavra e sorrindo.
-Que carro bonito, garotão, então hoje esta feliz? - perguntei segurando agora Lily no colo. Lily era uma bebê de apenas 2 anos que havia chegado ao orfanato a 2 meses, pois a mãe era usuária de drogas e veio a falecer.
-Eu amei e, tio, você precisa conhecer a tia. TIAAAAAAAAAAAA, VEM CÁ- ele gritou e em questão de segundos ouvi o som de pés batendo contra o chão de madeira e levantei meus olhos ao ouvir aquela que havia me atormentado a noite toda.
-, o que aconteceu? Você está bem, meu príncipe? - Nem sequer havia me notado e eu estava como um idiota olhando ela sem os sapatos, com meias de sapinho, uma calça jeans clara e um moletom com estampas de coelhinho. Coelhinhos esses que mais me pareciam ter saído de um filme de terror. -Tia, te apresento o Tio . - ele apontou em minha direção e ela desviou o olhar do garoto para mim, de mim para o garoto e de novo para mim.
-? - ela disse confusa olhando para os próprios pés.
-, como vai? - falei sorrindo e estendi a mão para ela.
-Eba, vocês já se conhecem, já podem casar o quanto antes.- batia palmas e sorria olhando a cena e quanto levantou a mão e a puxei em direção ao lábios, seria cortês na frente das crianças.
-Já sim, somos amigos de longa data, não é, Ni? - aumentei o tom ao falar o apelido que somente eu usava com ela, fui sarcástico quando disse que éramos amigos, pois bem o garoto não precisava que eu fosse um merda logo ali e eu também não precisava ser muito gentil com uma qualquer.
-Tia, você quer namorar o Tio be? Poderíamos fazer um casamento de mentirinha hoje, eu ficaria tão feliz - e quando ele a olhou com aqueles enormes olhos pretos, eu soube que ela não diria não e eu teria que dizer.
-Err, , não acho que deveríamos. Raquel não vai gostar, meu querido. - ela disse sentando na frente do menino e entregando metade um lanche que Dona Selma tinha acabado de preparar e entregar.
-Dona Rara, não liga, lembra que fizemos aquele dia com a Dona Selma e o Seu Amarildo? Foi tão legal, vamos por favor, mamãe? - ele havia chamado de mãe e acredito que ela nunca tinha ouvido isso, pois com os olhos cheios de lágrimas respondeu.
-Meu príncipe, podemos fazer, a tia irá casar com esse sapo, ok? - apontou para mim rindo e bem sem jeito pelas últimas palavras do menino.
-AAAAAAE, VOU CHAMAR A DONA RARA E A CRISTAL PARAA TE ARRUMAR -gritou já do pé da escada.
-Hm, parece que sei sonho irá se tornar real ou seu pesadelo? - eu falei a olhando enquanto ela fitava o chão.
-, você é um merda e não sabe como te odeio, mas esse não é o momento de ficar falando sua asneiras. - ela nem sequer me olhou, continuou a fitar o chão e mexer em suas unhas.
-Você nunca tinha ouvido ele te chamar de mãe? Sabe que não é saudável. - falei meio sem jeito, esperando uma reação da parte dela.
-Nunca, não pode ocorrer isso, se descobrirem não poderei mais vir, irei falar com Raquel. - ela disse levantando e subindo as escadas. Droga, ela saiu chorando e mesmo que fosse uma maldita, não gosto de ver mulher chorar, não sou um idiota.
Fiquei algum tempo sentado esperando voltar, brincando com Lily e mais algumas crianças que estavam na sala. Quando voltou, me chamou para o jardim, disse que me casaria por lá e que , como ele chamava, estava se arrumando.
Me arrumei em frente a uma árvore, esperando descer e vir logo acabar com essa droga de brincadeira que nem devia ter começado, afinal ninguém me perguntou nada. Era como se ela concordasse e o mundo todo seguiria, se ela falasse não guardariam tudo e iriam deitar em suas camas.
-Tio, ela está descendo, não chore porque ela prefere os homens maus. - era nosso padre, ficou atrás de mim esperando ela. E quando ela desceu eu senti a mesma sensação que na primeira vez que ela entrou no meu gramado, quando chegou com sua amiga, quando ela era para prometida para Diego, quando era ficar com ele que ela estava indo naquela desta, quando seus olhos pousaram nos meus. Estava ridiculamente bonita, mesmo com aquela saia colorida e a blusa preta, os saltos com meia de sapinho, um batom borrado e muito blush nas maçãs do rosto.
Veio em minha direção segurando a mão de Seu Amarildo, o faz tudo do orfanato, que ria enquanto ela se tentava se equilibrar naquele salto que com toda certeza Cristal que arrumou ou pegou sem pedir de Dona Raquel.
Ela parou ao meu lado, olhou para frente e esperou começar a falar.
-Tia , você aceita se casar com o Tio ? Na saúde, na morte, quando ele for gordo e sem cabelos? - de onde saiu morte? Eu gordo? Careca? - era uma figura mesmo. , segurou a risada e me olhou, logo voltando a fitar o mini padre a nossa frente.
-Careca eu não quero - ela falou rindo baixinho. a olhou feio e ela pareceu entender o recado, era para ser um casamento bonito.- Tudo bem, eu aceito o sapo.
-Tio , você aceita se casar com a Tia ? Na saúde, na morte, quando ela tiver verrugas de bruxa e muitos gatos? - ele perguntou me olhando e esperando que eu falasse algo.
- Aceito. - foi só o que eu consegui dizer.
-Bem, agora troquem as alianças. Cristal, traga as alianças. - ele gritou a menina que estava sentada no chão com as pernas cruzadas mexendo com uma joaninha.
Ela levantou, limpou o bumbum com as mãos, pegou dois círculos dentro de sua calça e entregou a .
-Tia , coloque a aliança no dedo do Tio , por favor. Tio , coloca a aliança no dedo da princesa .
colocou a aliança no meu dedo e entregou sua mão para que eu pudesse colocar o anel. Eu olhei para , que fez um vai logo tio com a cabeça e eu coloquei a aliança em seu dedo. A aliança era feita de um arrame, acredito que clipes que eles pegaram do escritório de Dona Raquel e pediram para Seu Amarildo arrumar como um anel.
-Eu os caso em nome de Castelo RatimBum e Super Choque. -Ele disse sério nós olhando e acrescentou- Tio, pode beijar a princesa. Tia, deixe o sapo virar príncipe.
ficou dura ao meu lado, esperando que eu falasse algo ou fizesse e eu fiz, a puxei pela cintura e dei um leve beijo em sua bochecha.
-Não, Tio , é na boca, como nos desenhos quando a princesa casa com o príncipe. Ela vai te transformar em príncipe de novo, aproveita.
-Não é certo, príncipe. Melhor não - falei enquanto ficava quieta olhando o chão.
-A Tia não disse nada, beija logo, estou ficando com sono e fome, quero nanar. - ele disse abrindo a boca e coçando os olhos.
Eu engoli seco, virei para mim pela cintura e ela nem sequer se mexia, não me olhou não protestou, ela só ficou ali, olhando o chão.
Levantei seu rosto aos poucos e seu olhar encontrou o meu, ela estava perdida e longe daquele casamento idiota sem o menor sentindo.
Levei meus lábios até os seus e deixei ali, ela fechou os olhos e eu os meus também.
Senti que meu coração acelerado, senti que estava em metamorfose interna. Era como se estivesse voltando a ser um príncipe realmente, após tantos anos sendo sapo por causa de um feitiço. Me lembrei que a maldita bruxa que havia jogado o feitiço era quem eu estava e beijando e, como se tivesse levado um soco no estômago, me senti sujo e traindo tudo que jurei a mim mesmo a sete anos. Eu me afastei rapidamente abrindo os olhos e esperando que ela fizesse o mesmo e quando o fez, somente olhou o relógio e disse:
-, a tia precisa ir, tenho plantão hoje. Vou me trocar, me encontre na saída para um beijo, leve Lily contigo.- e saiu da minha vista enquanto eu tentava entender o misto de sentimentos que estavam me comendo vivo naquele momento.
Eu beijei a , deus, que merda deu em minha cabeça? Mas ela estava lá toda meiga, olhando para a criança daquela forma, estava sem graça por causa de toda situação e tinha um cheiro tão gostoso sendo exalado dela que quando o menino me pediu com aqueles olhos enormes e pretos eu não me aguentei, acabei beijando a maldita. E, Deus, como era gostoso ainda, os lábios, o cheiro, o gosto. E ela ficou em choque, não se mexeu, não disse nada, não fez nada, ela só ficou ali deixando que eu a beijasse e isso me fodeu, porque eu estava todo confuso e com algum problema na merda do estômago que só podia ser por causa do café da manhã que, como um choque, me afastei. Não podia abrir mão tanto de algo para que ela nem se importasse, nem ligasse para mim ou para nossos lábios juntos.
Agora eu estou indo para minha casa, tomar um banho e dormir o restante da tarde. Preciso descansar, preciso pensar e arrumar um jeito de agir naturalmente nesse jantar, porque não ir não está em questão. Meu pai teria um infarto depois de gritar comigo por agir como um babaca e deixar uma dama esperando.
Cheguei em casa, tomei um banho e cai na cama, somente de box, liguei Nando Reis e fechei os olhos, precisava relaxar, o quanto antes.
Um cheiro doce, alguém em meus braços, abri os olhos aos poucos e me deparei com ela, toda linda, cheirando a sabonete e sua Colônia pós banho. O quarto era branco, com uma parte na nossa frente com uma roseira cheia de rosas vermelhas, tinha fotos dela por todo lugar. Dela e de , dela e da avó, dela e de uma garotinha de olhos verdes enormes.
Milhares de livros pelas paredes em cima de prateleiras, uma única foto nosso ao lado da cama, ela sorria tanta que os olhos se fechavam e eu a segurava pela cintura olhando sério para quem quer que tivesse tirado. Ela se mexeu na cama, se apertou mais ao meu redor e respirou fundo. Era tão certo, tão gostoso e tão verdadeiro tê-la ali ao meu lado que nada e ninguém podia estragar, era como ter ganhado na loteria e o prêmio ser todo seu e de mais ninguém. Era minha menina, minha menina que tinha se transformado em uma mulher belíssima em meus braços naquela noite. E começaram a gritar meu nome, e do nada eu estava no chão com mamãe na minha frente cruzando os braços e me olhando séria.
-Vai dormir até que horas? Já, já a família chega e você deve já estar lá com todos nós, meu querido.
-Vou me trocar, mãe – disse ríspido e ela saiu do quarto me olhando daquela forma como quem diz iremos conversar sobre esse seu comportamento estranho depois. Quando minha mãe iria entender que eu tinha 24 anos, quase 25 e não era mais uma criança como ela achava?
Morava com eles ainda, porque ela passou um período há 2 anos muito doente e meu pai vivia viajando, não podia deixa-la sozinha enquanto levava garotas para meu apartamento todas as noites. Meu humor estava um cão, estava puto, pois havia sonhado com a garota duas vezes em um só dia, havia a visto pela manhã e até beijado e teria que vê-la novamente. O diabo estava me testando, buscando saber até onde ia minha fé, para que eu pedisse ajuda até ao inferno para que a garota fosse enviada novamente para o colo do capeta.
Levantei ridiculamente nervoso e cheio de esperanças que não faziam sentindo, coloquei a primeira calça jeans que achei e a primeira polo, rodei o piercing novamente para fora da boca e passei um perfume, estava ótimo para quem iria ver. Desci e encontrei mamãe já sentada conversando com a mãe de sorrindo muito e com uma taca de vinho nas mãos. Procurei pela sala a garota que queria tanto encontrar, mesmo negando a qualquer um que me perguntasse o que tanto olhava para a sala que já conhecia como a palma de minha mão.
-, o que foi, meu querido? – a mãe de perguntou me fitando por cima dos óculos de grau que estavam jogados para baixo.
-Nada, como vai a senhora? – perguntei indo em sua direção e beijando sua mão com muito cuidado e fazendo questão de incluir – Está muito mais bela do que quando a vi pela primeira vez, sabia disso? É inacreditável. – a mulher corou, abaixou o olhar e riu.
-Estou muito bem e você? Imagina, .
-Estou ótimo, obrigada por perguntar. Onde está meu pai? – fitei minha mãe que apontou para cozinha e eu segui em direção a mesma.
Ao chegar ele realmente estava lá com Seu Mário, ambos acabando de preparar o jantar e conversando sobre alguma coisa que fazia meu pai rir alto e dizer que não era para tanto.
-Pai, senhor Mario, como vai? – perguntei estendendo a mão para o senhor a minha frente que a apertou de volta.
-Estou muito bem, . – Ele fez um gesto estranho com a cabeça e continuou a conversar com meu pai me ignorando e eu cheguei a pensar que tivesse dito algo a ele e por isso não estava aqui e o pai me tratava com tanta frieza, talvez pretende-se me matar mais tarde, após o delicioso jantar que preparavam.
Decidi me servir de uma bebida, uísque puro com duas pedras de gelo e fui em direção a sala de estar para ficar com as mulheres ou tocar um piano, já que a conversa na cozinha se resumia a contas e planilhas.
Era inacreditável, aquela risada era a coisa mais gostosa que eu já tinha ouvido. Conhecia muito bem, conhecia como a palma da minha mão aquela risada, foi ela que me fez me apaixonar e agir como um idiota por uma garota e depois passar por tudo que passei com ela e com a merda daquele grupo idiota de pessoas que se afastaram de mim.

FLASHBACK

Entrei no grupo de teatro já passava das duas da tarde ou fazia o papel de Darci ou Dona Margo iria cair minha nota em literatura e eu queria acabar a merda do colegial junto com todos ali. Me sentei nas cadeiras do auditório e fiquei esperando que alguém entrasse e começasse logo o ensaio. Queria ir logo para casa, tomar um banho e dormir algumas horas, aliás, eu precisava disso.
Passando cerca de vinte minutos todos chegaram, mas ninguém se prontificou a fazer algo, ensaiar, conversar sobre a peça ou o figurino ridículo, só ficaram sentados conversando e Dona Margo ficou sentada em cima do palco conversando com um dos alunos do segundo ano que como todos os anos cuidava do figurino. E como sei disso? Eu já fui do segundo, todo ano escolhem um único aluno do segundo ano para cuidar do figurino com o pessoal do terceiro para que possa pegar alguma coisa para não ficarem tão perdidos em seu ano.
Eu estava impaciente e agoniado quando ela entrou, vestindo um legging preta, uma blusa vermelha escrito “Orfanato pequenos anjinhos” e logo abaixo “auxiliares”, o cabelo em um coque alto, o óculos de grau a deixavam mais linda do que o normal e, Deus, como eu sentia falta daqueles lábios já, como ela era encantadora e atrapalhada. A garota caiu com a bolsa, livros e um sacola com roupas auditório a baixo e por reflexo eu me levantei em um pulo só e corri em sua direção, segurei sua mão a puxando para cima, perguntei se estava tudo bem e se precisava de algo e ela riu, riu alto, gostoso e de forma despreocupada como se tivesse tirando uma com minha cara.
-, eu estou bem, vivo caindo por ai – levantou e pegou as coisas em minha mão, mas antes de virar sussurrou – se acostume com isso, serei sua Elizabeth, meu Mr. Darci gostosão. – se virou me deixando boquiaberto e vidrado no som mais viciante e gostoso que já havia escutado, sua risada.

FIM DO FLASHBACK

Calça preta larga, uma blusa curtinha listrada, o óculos de grau, cabelo metade preso, salto alto, muito maquiada e extremamente linda, rindo alto e daquela forma tão viciante lá estava a culpada pela meu tão repentino mal humor, pelas minhas noites mal dormidas e meu coração fodido. Eu me senti preso ao chão, meu coração voltou a parecer a droga de uma escola de samba e meu estômago se embrulho, droga de fast food, eu pedi a todos os anjos que fosse só uma dor de barriga ou um infarto e não alegria por vê-la.
-, venha aqui, pare de ficar nos olhando com essa cara de idiota. – Minha mãe falou como se eu ainda fosse uma garotinho e inferno era como eu me sentia ali.
-Cheia das graças nessa idade, mamãe? – Perguntei a olhando sério- , linda, como sempre – falei, pegando a mão da mulher a minha frente e beijando arrancando suspiros das outras duas mulheres da sala.
-Não seja galanteador, querido. – , riu sem jeito – Muito obrigada, . – falou fitando o chão extremamente sem jeito ou fazendo uma belíssima cena, como quando fazia teatro.
-Falo somente a verdade, deveria saber. Gostaria de tomar uma Vodka? Tequila? Quem sabe uma caipirinha? Ou gostaria de um malibu puro e com um único gelo? – frizei o nome da bebida para ver a reação dela e ao contrário do que imaginei havia uma diversão em seu olhar e não ódio por estar a irritando na frente da mãe sem que ela pudesse revidar.
- Querido, como sabe que minha menina gosta de malibu? Não conheço muitas pessoas que gostem da bebida pura, com um único gelo. – a mãe de me olhou por cima dos óculos de grau e sorriu.
-Não sabia, somente deduzi, é assim que eu gosto. – falei dando de ombros.
-, você não toma Malibu, diz que é horrível e tem gosto de nada. – Puta que pariu, como mamãe tinha a boca enorme. As outras duas mulheres na sala se olharam como se a mãe pergunta-se a filha por que eu sabia daquilo.
-Hm, cheguei a comentar na mesa sábado, meninas. Acho que ele lembrou e está sem jeito de falar que reparou muito em mim, a ponto de lembrar aquilo que gosto de tomar – Filha da puta da , contornou a situação para que eu ficasse como um idiota encantado.
-É isso aí. – falei simplesmente.
-Eu gostaria sim de um malibu, . – ela falou me olhando e deu uma piscadinha, cretina.
- só um momento. – falei indo em direção ao bar que ficava do lado de fora de casa, junto do jardim.
Já estava terminando a bebida quando riu e eu me virei a encontrando de braços cruzados, o óculos no alto da cabeça e o celular na mão.
-É, , como sempre você começa a brincadeira e não pode terminar, não é? – falou agora séria me fitando.
-Não fui eu que fugi após um simples beijo, deveria rever as merdas que você fala, princesa. – falei colocando a pedra de gelo no copo.
-Fugi, baby. – ela disse se aproximando e parando na minha frente sorrindo inocente. – sabe o porquê, zinho?- falou fazendo beicinho e enrolando a ponta que estava solta de seu cabelo. Eu gelei, intercalando meu olhar de sua boca para seus olhos, fascinado. – é que eu senti nojo, precisava vomitar. – pegou o copo ao meu lado e se virou rindo alto.
Quem ela achava que era? Grande filha de uma puta desgraçada, que o diabo a levasse para as profundezas do inferno por agir de tal forma comigo.
Não pensei duas vezes, a puxei pelo braço, ela rodou, a bebida caiu metade, o peito dela bateu contra o meu, com a outra mão puxei ela pelos cabelos para que ficássemos cara a cara e sussurrei.
-Baby, não me trate mais assim, acha que sou um cachorro? – passei meu lábios nos dela, mas sem cola-los. – irei te mostrar que você não senti nojo de mim, sentir desejo, sentir um maldito desejo que te faz queimar por dentro e se odiar por isso. – com isso colei de vez nossos lábios, ela ficou imóvel, pedi passagem para que pudesse a beijar de verdade e ela cedeu tão fácil que até estranhei.
Era urgente, era desejo puro, era ódio, era saudade e principalmente magoa. Era tão gostoso quanto antes, era rápido e leve, era desesperado. E do nada era somente nós dois ali, era como se a droga do passado tivesse ido embora, como se fossemos um casal se beijando as escondidas para que as pessoas não pudessem ver e depois comentar, era apaixonado.
Eu parei de beija-la aos poucos, ela puxou meus lábios devagar, eu puxei seu pescoço para o lado, tirei meus lábios dos seus e desci para aquela área tão gostosa da menina, ela suspirou e sorriu. Estava entregue, era minha de novo.
Como um passe de mágicas, ela voltou a realidade me empurrou e falou entre dentes.
-Nunca mais me beije, nunca mais me toque, nunca mais me faça te querer. Você já me destruiu demais, eu demorei anos para me livrar do que eu sentia por você, chorei noites e noites, fui para longe dos meus amigos e de minha família para te superar, então nunca mais me toque. – eu me senti uma merda. Ela tinha os olhos marejados, a boca vermelha, uma marque bem vermelha no pescoço e uma mágoa no olhar. Ela se virou e voltou para dentro da casa e eu me senti vazio sozinho de novo.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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