Shapeshifters

Última atualização: 20/12/2018

Capítulo 1


O inverno do lado de fora sopra impiedosamente contra as janelas, que tremem nos suportes de madeira apodrecida e fazem um pobre trabalho em manter o frio fora do pequeno quarto.
Sky arrasta os dedos ritmadamente pela parede áspera, os olhos ainda fechados, o corpo empoleirado na cama de cima da beliche velha, suor grudando seus cabelos na testa, ao pescoço e deixando marcas no colchão mofado, apesar de a temperatura ser dolorosamente baixa. Ela se revira, soluçando por debaixo dos cobertores, seus olhos ardem como se ela estivesse prestes a perder a visão, a pele está quente como se o coração fosse uma panela de pressão, espalhando sangue borbulhante pelas veias e ela mal pode respirar com o calor da própria febre.
Sua colega de quarto, deitada na cama debaixo, não poderia estar mais alheia ao estado da menina, distraidamente enrolando uma mecha do cabelo loiro no dedo indicador enquanto o namorado murmura palavras doces ao telefone. Sua atenção é desviada apenas quando os pés de Sky balançam para fora da cama e ela desce a escada de metal com o rosto completamente lavado de cor.
— Onde você vai? – os olhos azuis de Morgan avaliam a menina uma, duas vezes. Ela se senta e franze as sobrancelhas, tampando o microfone do celular com a palma da mão. – Você está horrível...
Sky é atingida por uma onda de mal-estar, quase perde o equilíbrio e precisa se curvar para frente, apoiar as mãos nos joelhos e suspirar longamente para impedir a própria visão de escurecer. Morgan arregala os olhos, encolhendo-se contra os suportes da cama, o mais longe possível da colega de quarto. Sky arruma a postura, então se apoia à porta e espera uma conclusão da outra menina.
— Eu juro, se você vomitar no quarto eu...
Sem paciência para a maldade de Morgan, ela sai para o corredor com um passo cambaleante, a cabeça latejando e os músculos protestando cada passo.
Na cozinha, ela se senta na grande mesa de madeira com a caixa de primeiros socorros aberta a sua frente, apoiando o copo de água gelada contra a testa e murmurando para si mesma. "Um pouco mais de água e uma aspirina, é tudo o que eu preciso." ela tenta convencer a si mesma enquanto vasculha a grande caixa branca em busca do remédio.
Um estrondo vem do andar de cima, ela levanta a cabeça alarmada mas logo volta a atenção para a pequena cartela no fundo da caixa. O orfanato nunca está silencioso, por mais lastimoso que seja, a todas as horas as crianças brincam em seus quartos ou perambulam furtivamente pelo casarão, criando histórias fantasiosas e vez ou outra quebrando alguma coisa em seu descuido.
Sentindo-se um pouco melhor depois de beber água, ela caminha pela sala principal, calculando silenciosamente o tempo para que a aspirina faça efeito. Após subir a escada sem pressa, uma porta se abre no final do corredor e uma das irmãs coloca a cabeça para fora, o hábito preto se mistura as sombras da noite e faz com que o rosto velho pareça uma assombração, flutuando no escuro.
— Vá agora para o seu quarto! É proibido fazer barulho depois das nove! – ela repreende, balançando a bíblia na direção da menina, a boca enrugada se curva em desagrado.
Sky abaixa a cabeça rapidamente.
— Desculpe irmã Hilda, não fui eu, só fui buscar uma aspirina...
Ela interrompe a adolescente colocando o dedo sobre os lábios finos, sinalizando para que ela se cale e em seguida apontando para o outro lado do corredor.
Sky caminha um pouco mais rapidamente para o seu quarto, ouvindo a porta do quarto da freira se fechar as suas costas. Ela abre a porta distraidamente, seus olhos lacrimejam e ela rosna contra os dentes.
O cheiro intragável de enxofre preenche o ar e a acerta como um soco na boca do estômago, seus olhos e narinas ardem com a intensidade da podridão e luzes fortes a cegam momentaneamente.
Mas não são luzes, são chamas.
Lambendo as paredes, enrugando o tapete, se erguendo em grandes colunas até o teto e crepitando aterrorizantemente a cama, onde uma grande criatura faz com que a mente de Sky pare completamente de funcionar.
Chifres se curvam para o céu, seu corpo negro como breu contrasta com o amarelo dos seus olhos em fendas, a boca é rasgada no rosto, com as presas pingando saliva e sangue. Nas suas garras igualmente pretas e longas como espadas, está o corpo de Morgan. O corpo. O corpo aberto, dilacerado e sem vida, sendo balançado de um lado para o outro como um brinquedo.
O monstro ruge, o som ecoa pelas paredes como muitas vozes gritando em desespero e o coração de Sky está completamente paralisado no peito. É quando ele se levanta entre as chamas que as pernas da menina entram em ação sem que ela perceba.
Sky dispara pelo corredor, corre com todas as forças do seu corpo doente para o andar debaixo, lutando ao máximo com os olhos marejados para enxergar os degraus no escuro, o monstro corre em quatro patas para fora do quarto, trombando com o corpo pesado contra as paredes, gritando atrás dela.
O sangue bloqueia seus ouvidos, o medo amarra sua garganta e ela não consegue gritar, não consegue pensar, a adrenalina a guia cegamente para um dos corredores escuros que leva para as salas de reza na esperança de alcançar os jardins e fugir da casa. A criatura está cada vez mais perto, ela escuta as garras rasgando a madeira do chão logo atrás dela. Ela ofega desesperadamente, sente que está se afogando no próprio medo mas não para de se mover nem um segundo. Com o esforço de fazer a dobra do corredor, o corpo da menina escorrega pelo chão liso e ela rapidamente se levanta, batendo as mãos contra as paredes do corredor estreito, tentando ao máximo se manter de pé, se manter correndo, não ser pega, não morrer...
O monstro grita logo atrás dela. Sky vira a cabeça para ver quanta vantagem ainda tem e assiste enquanto a criatura bate com o corpo contra a dobra no corredor, olhos amarelos brilhando assassinamente no escuro. Ela sente a força se esvaindo das pernas e soluça pesadamente, jogando-se contra a porta de vidro que a separa do jardim em um último recurso de esperança.
O vidro se estilhaça e ela rola pela neve e pelos cacos de vidro, cambaleando, ela tenta se levantar para correr até a cerca, mas sua perna direita dói insuportavelmente, incapaz de sustentar seu corpo. A menina cai, batendo com o rosto no chão e trincando os dentes de dor. A criatura se lança para cima dela, suas patas gigantescas encurralam a cabeça de Sky, que se debate desesperadamente e levanta os braços para se defender e chora de terror.
O monstro afunda as presas em seu braço, levantando-a no ar, os ossos são desmantelados pela mandíbula animalesca e ela grita em agonia com sangue manchando o próprio rosto e pingando para a neve aos seus pés.
Um tiro ecoa pelo orfanato, dois, três, as presas desprendem-se da pele e ela cai inutilmente na própria poça de sangue com a visão girando. A besta grita pela noite – mais um tiro – Sky vira o corpo lentamente e tenta rastejar com o braço que lhe resta, chorando descontroladamente, cega pelas próprias lágrimas.
Ela ouve madeira se rompendo, mais vidro sendo quebrado, mais tiros, uma voz humana grita mas ela não pode distinguir as palavras com a adrenalina pulsando nos ouvidos, a porta para a cerca está lentamente se aproximando, o monstro ruge, um último tiro é disparado pela noite e então ela é surpreendida com o silêncio.
Silêncio, a não ser pela própria respiração pesada e seus guinchos de dor, a não ser pelos passos atrás dela, a não ser pelo som de ácido corroendo pele. Ela diverge a visão para a antiga porta para o jardim, deparando-se com um enorme buraco de madeira quebrada, o corpo gigante de uma aberração jogado contra a neve e um homem, vestido de preto com a pele clara reluzindo a luz pálida da noite e uma longa arma nas mãos.
Ele corre até ela, curvando-se para sustentar o corpo cansado e falar com ela. Seus olhos são gentis, ela nota. Os lábios do homem se movem mas ela não escuta som algum, ele examina rapidamente a menina, arregalando os olhos para o braço que se pendura sem vida ao seu lado.
Sky é balançada, ele tenta chamar a atenção da menina para si mas já é tarde e seus olhos estão se revirando, levando sua pressão consigo e ela logo se estende inanimada em seus braços.
No que se parecem segundos, Sky volta a consciência, balançando a cabeça pesada e piscando várias vezes para se acostumar a luz amarelada. A dor latejante toma o seu braço aos poucos e ela geme, novamente trincando os dentes para tentar se controlar, apertando os olhos fechados. Uma mão segura a sua, desajeitadamente, pressionando delicadamente o braço machucado contra o corpo da menina sem força mas impedindo que o movimento do carro o machuque ainda mais.
Ela se força a analisar o ambiente. Está deitada no banco de trás de um carro, um casaco foi depositado sobre seu corpo e ele cheira a menta e sangue, a mão que segura a sua é pálida e pertence ao motorista, que não tira os olhos da estrada escura e coberta de neve mas reconhece que a menina está acordada. Ele a solta e apaga a luz do interior do veículo, murmurando ininteligivelmente para si mesmo. No escuro, ela se esforça para distinguir os traços leves do perfil do homem.
— Onde... – Sky tenta formular palavras mas está exausta, o cérebro sofre com a falta de oxigênio que o a perda de sangue lhe causou, o braço dói execravelmente.
—Sky?! – chama o homem, com a voz suave e tom calmo, seus olhos se encontram por um momento no espelho do retrovisor interno antes de ele voltar os seus para a estrada outra vez. – Eu preciso que você fique acordada agora está bem? Consegue fazer isso?
Ela franze as sobrancelhas, tentando ao máximo associar qualquer informação mas ainda está muito lenta.
— O que aconteceu? – ela questiona fracamente. Sua mente a leva para a visão que teve, do monstro sentado em sua cama incendiada, com o corpo da sua colega de quarto nas garras. Ela se pergunta se está sonhando, se está tendo uma das suas muitas crises esquizofrênicas, se está completamente louca e vai acordar na manhã seguinte no seu quarto no orfanato, ou talvez na cozinha ao lado da caixa de remédios, talvez no hospital com uma camisa de força. Uma aterrorizante voz no fundo da sua mente sussurra que qualquer uma dessas alternativas seria melhor do que lhe parece realidade agora.
Ele pigarreia desconfortavelmente, checando-a no espelho mais uma vez.
— Vai ficar tudo bem, meu nome é Park Chan-yeol, eu vou te levar para um lugar seguro – o homem garante e sua voz passa confiança e conforto, como a de um irmão mais velho, ou amigo de longa data, não como um completo estranho, não como um mistério com uma arma.
Em um impulso de sobrevivência, seu cérebro estuda a possibilidade de Chanyeol também ser perigoso, analisando possíveis cenários em que ele não esteja realmente a salvando. Não é que Sky descarta a possibilidade, seu corpo ainda treme de medo e a insegurança ainda faz um nó em seu estômago, mas mesmo que esse seja o caso, ela não é capaz de correr mais, não pode fazer muito contra o possível mal.
Silêncio por alguns minutos antes que lágrimas voltem a escorrer pelo rosto gelado da menina.
— Dói – ela choraminga, tentando ver o estrago do braço por debaixo do casaco mas não tem forças pra levantá-lo, como se ele fosse um membro fantasma em seu corpo, completamente desligado dela.
Ele se vira rapidamente para encará-la, suspirando e pisando com ainda mais determinação no acelerador, disparando pela noite fria.
— Eu sei, eu sou médico, Sky. Você não tem com o que se preocupar, nós somos responsáveis por você agora.
Quem são "nós", ela se pergunta.
Sua visão torna a escurecer, seus pensamentos ficam longínquos e ela encara a janela de frente para ela, notando que alguns poucos raios de luz brilham por entre as árvores a beira da estrada.
— Por quanto tempo eu dormi? – ela questiona com a voz falha.
— Seis horas, são quase cinco da manhã, o sol já vai nascer.
Silêncio outra vez, as pálpebras de Sky pesam, seu subconsciente implora para que seu corpo se desligue, se desligue da dor, do medo, do trauma, do cansaço, de tudo. Ela pisca algumas vezes tentando afastar a sonolência mas acaba se rendendo a exaustão.
— Sky? Fique acordada por favor, não durma agora, estamos quase chegando eu prometo – ele estica uma das mãos até ela, segurando sua novamente – Vai ficar tudo bem, só fique acordada.
— Eu não acho que consigo... – as palavras se arrastam e ela luta para seguir as instruções de Chanyeol mas seus esforços são pequenos diante da força do sono.
Em segundos seus olhos estão fechados e ela cai novamente para a escuridão do inconsciente.
Dessa vez só acorda quando Chanyeol a balança nos braços, confortando-a contra o próprio peito para tirá-la do veículo. Ele é magro, mas seus braços a levantam firmemente e ele caminha sem problemas. Ela examina seu rosto, piscando sonolentamente e rezando em silêncio para que o homem cumprisse a sua promessa e a ajudasse.
Seus olhos se encontram e ele sorri levemente para ela, espantando qualquer pensamento perverso que tenha previamente ocupado a mente da menina.
— Que bom que acordou – ele murmura, quase como uma exclamação de alívio. Com um pouco de esforço, Sky vira a cabeça para ver o grande casarão no meio da floresta se aproximando, suas janelas brilham com vida e a entrada está limpa de neve, a manhã já ilumina o céu completamente.
Chanyeol empurra a porta com o próprio corpo, surpreendendo os adolescentes e adultos jogados nos sofás ou pendurados nas largas vigas de madeira do teto, ganhando murmúrios de curiosidade enquanto faz o seu caminho até sua sala médica no começo do corredor.
Ele a deita na mesa de metal com cuidado, algumas poucas pessoas se agrupam curiosamente na porta para ver do que se trata a menina desconhecida, mas Chanyeol parece alheio a qualquer um que não Sky, focado em tirar o casaco de cima da menina sem machucá-la e examinar o braço ferido.
Algumas exclamações de desagrado a convencem de que talvez seja pior do que ela pôde sentir inicialmente e ela fecha os olhos quando Chanyeol apoia os dedos no seu cotovelo.
— Está tudo bem, confie em mim – ele repete palavras calmas, os olhos reparando rapidamente na expressão de dor da menina – Isso vai doer, mas vai ficar tudo bem – Chanyeol não oferece a Sky tempo de protestar antes de empurrar o braço da menina com força. O estalo dos ossos voltando para o lugar ecoa pela sala e ela grita longamente de dor, lágrimas saltando dos olhos e a cabeça girando de tontura.
Após limpar e engessar o machucado, Chanyeol move-se para a ponta da mesa, tamborilando os dedos no ritmo da respiração de Sky, que se acalma lentamente com suor agrupado na testa e olhos fechados.
— Com licença – ele pede calmamente, ela não vê a que o médico se refere mas sente seus dedos frios contra o seu calcanhar, tendo a calça leve de pijama enrolada até os joelhos. Ele examina a perna até ter certeza de que não está quebrada, limpa o sangue dos machucados causados pelo vidro e então se senta ao lado dela, rostos na mesma altura.
— Eu disse que ficaria tudo bem – ele pisca amigavelmente, ela examina o ambiente que com certeza se assemelha a uma sala cirúrgica.
— Por que eu estou aqui?
As palavras são dolorosas e carregam consigo o peso de uma sentença. Muitas outras perguntas são transmitidas silenciosamente pelos olhos aterrorizados de Sky. Por quanto tempo estará aqui? Onde fica esse lugar? Por que ele seria seguro? O que acontecerá com ela daqui em diante? Como poderá viver com a imagem da colega de quarto morta assombrando-a como uma cicatriz horrível?
Garras batem contra o chão liso e chamam a atenção dos dois para a porta da sala cirúrgica.
Um enorme lobo os encara do batente, piscando vagarosamente com olhos dourados. Ao contrário da criatura monstruosa no orfanato, a pelagem negra não a apavora, a curvatura musculosa das costas do animal não a aterroriza, a respiração forte e as pernas projetadas para uma corrida a impressionam. Ela se atenta aos detalhes, ao movimento das orelhas, o vai e vem das costelas com cada respiração, a altura extraordinária do animal.
Lembranças de suas aulas enchiam sua mente como uma corrente fluida. A voz doce da sua professora de mitologia monologava incessantemente.
"O atributo óbvio do lobo é a sua natureza predatória e, correspondentemente, está fortemente associado ao perigo e à destruição, tornando-se o símbolo do guerreiro, por um lado, e do diabo, do outro."
Sky pensa que nunca uma definição foi tão correta e ao mesmo tempo tão equivocada. É incapaz – por mais que tente – de associar o grande lobo a sua frente a criatura sorrateira de que ouviu falar nas histórias populares. Diante dos olhos experientes, da postura honrosa e do semblante rígido, tudo o que a mente de Sky conseguia gerar eram imagens de um protetor dedicado, um líder inegável. Por um momento ela é convencida da segurança do lugar.
Ele passa a encolher diante dos seus olhos, a pelagem negra é substituída por tecido, as patas se transformam em mãos firmes e os olhos dourados se apagam até se tornarem pontos negros e hipnotizantes no rosto definido e anguloso do homem a sua frente. Ele abre um sorriso de lado, expondo os dentes brancos, desdém pingando dos seus lábios.
— O que temos aqui... – ele se aproxima, parando ao lado de Chanyeol sem dar qualquer atenção ao homem, olhos fixados em Sky com sutil malícia – O que é você? – ele sorri um sorriso afiado e veste uma postura de curiosidade, olhos viajando pelo corpo machucado da menina sem qualquer pudor.
Ele se inclina e segura a mão que não está livre de curativos, leva-a aos lábios e deposita delicadamente um beijo à pele fina, afastando-se só um pouco em seguida para direcioná-la outro olhar intenso.
— Meu nome é ... – deixa outro beijo, dessa vez no pulso tingido de veias, olhos escurecendo diante das bochechas rosadas e a respiração acelerada da menina. – E como alfa, eu normalmente não admito que a minha casa seja invadida. – A jocosidade da face do homem desaparece em um segundo, substituída por um semblante escurecido como uma tempestade em formação.
O corpo de é estranhamente semelhante a sua figura animal, com o próprio cabelo acariciando as orelhas, com os olhos afiados e os músculos firmes, como se a ferocidade e a selvageria do lobo se estendessem pelas veias do homem.
Ele solta uma leve risada, os olhos ainda estão dilatados e escuros como abismos e deixa o braço dela para arrumar a própria postura, encarando-a de cima.
— Então tenha a decência de não morrer debaixo do meu teto, está bem?




Continua...





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