Sharp Hearts

Última atualização: 24/02/2018

Prólogo

Naquele momento, juro que tudo que estava tentando fazer era não chorar.
Não sou chorona e nem me emociono facilmente, mas também não sou feita de pedra. Não é todo dia que você vê sua melhor amiga, a pessoa mais importante no mundo para você, se casando com a alma gêmea dela. Quando crianças, nós brincávamos de casamento. Às vezes eu fazia o papel do homem, às vezes ela fazia para que eu fingisse que era a noiva, mas nós – e todo mundo – sabíamos que o sonho de atravessar um corredor até o altar usando um vestido lindo era dela.
estava parecendo uma princesa elfo, com seu cabelo cortado na altura do ombro, o pequeno véu preso por uma tiara delicada, o vestido de mangas curtas e saia gigante. estava todo de branco, como ela sempre imaginou que seu futuro marido estaria. A igreja estava decorada com tons de lilás de marfim, as cores favoritas de , combinando com o roxo suave do meu vestido e das outras madrinhas.
O ministro estava fazendo seu sermão sobre 1 Coríntios 13, e eu observei e se encarando. Havia tanto amor entre eles, que afetava qualquer um que os observasse. Algo se agitou em meu coração, uma alegria imensa pelos dois e porque, um dia, eu diria para os filhos deles que graças à tia seus pais estavam juntos. Quando conheci , tive um bom pressentimento sobre ele.
Que se confirmava agora.
Droga, pensei, erguendo os olhos para o alto para conter as lágrimas. A única coisa que eu usava durante o dia-a-dia era batom, então tive que pagar alguém para fazer aquela maquiagem chique, que me deixou só um pouco menos chamativa que uma drag queen. Foi um baita dinheiro, e eu não poderia me dar ao luxo de deixar borrar.
Senti se mexendo ao meu lado. Um dos seus braços estava entrelaçado ao meu, e sua outra mão foi até o bolso do seu paletó. Ele tirou o lenço e o entregou para mim.
— Obrigada — sussurrei, encostando o tecido delicadamente no canto do olho. Aquilo não era justo, também deveria estar choramingando; afinal, eu, ele e crescemos juntos. Tinha certeza que ele iria tirar uma com a minha cara por isso depois.
— Não olhe agora, mas um dos padrinhos do está secando você — ele disse, baixinho — Quem esse idiota pensa que é? Vou socar a cara dele.
Pressionei os lábios para não rir. Olhei para a fila de padrinhos e madrinhas atrás de e vi de quem estava falando. Pessoas apaixonadas dizem que sentem “borboletas no estômago”, eu senti formigas: aquela sensação desconfortável quando um desconhecido lhe encara e você não sabe se é um flerte ou um psicopata.
Corei, constrangida. Ele era... gato. Muito. E parecia ter intimidade com o seu par – uma mulher maravilhosa que faria qualquer uma ter baixa autoestima só de ficar perto dela. Um tipo de intimidade diferente do que eu e tínhamos, vale ressaltar. Se bem que eles tinham algumas semelhanças – a cor dos olhos, o sorriso torto com covinhas, a postura de superior. Poderiam ser primos?
Primos também se pegam.
Por que diabos eu estava pensando nisso? Balancei a cabeça, voltando a me concentrar na cerimônia.
— Eu aceito — já estava dizendo, e eu me surpreendi. Quanto tempo fiquei fora do ar? colocou a aliança no dedo dela.
— Eu os declaro marido e mulher, sr. e sra. — o ministro anunciou — Pode beijar a noiva.
Uma chuva de aplausos tremeu a igreja, e o assovio de quase me deixou surda. Fui a primeira a jogar o punhado de arroz sobre eles, e todos os outros fizeram o mesmo, conforme meus amigos recém-casados desciam do altar, mais radiantes do que eu jamais havia visto.


In The Mood. Sim, de Glenn Miller. Esse era o tipo de música que havia escolhido para a sua festa, incluindo outros sucessos dos anos 40-50. Não havia dúvidas do porquê da maioria de seus convidados estarem realmente apreciando o bar.
— Vem, você precisa dançar comigo! — ela insistiu, me puxando da cadeira. Para uma mulher magrinha e baixa, era ridiculamente forte.
— Você sabe que eu não danço — eu gritei para que ela me ouvisse além da música.
— Se eu pedir para tocarem Rihanna, e você começar a rebolar a bunda até o chão, vou ficar muito irritada — ela disse, mais alto do que eu gostaria.
Senti meu rosto queimando, e não deve ter ficado com uma cor bonita nas luzes roxas dos holofotes, que havia pedido para colocar no salão (ela realmente gosta de roxo).
— Eu não faço isso — retruquei.
— Eu ainda tenho os vídeos do seu aniversário de 21 anos, querida — ela sorriu, maliciosamente, e, contra a minha vontade, fomos para a pista dançar.
Foi mais divertido do que eu achei que seria. É claro que eu não estava triste no dia que era um marco na vida dos meus amigos, mas não podia negar que tive medo que a minha relação com fosse mudar depois que ela se casasse. Não é como se ela e já não, praticamente, fossem casados – nós três vivíamos no mesmo apartamento. Agora, como era oficial, eu também seria oficialmente expulsa do cargo de vela/empata foda/amiga inconveniente. E, em breve, viriam os filhos, as responsabilidades, uma possível mudança para um lugar mais espaçoso, e as visitas à tia seriam mensais, ou, quem sabe, apenas nos feriados.
Deus. Eu precisava parar de pensar.
Depois que jogou o buquê (que eu não peguei e nem me esforcei tanto assim para pegar), e os dois cortaram o bolo e começaram a fazer coisas fofinhas e nojentas de casal, como enfiar o dedo no glacê e colocar na boca um do outro, eu decidi que era hora de beber. havia saído mais cedo por culpa do seu trabalho estúpido, mas eu sabia que iria me dar uma lenta e dolorosa morte se eu não ficasse naquele salão de festas – mesmo despercebida, um zero à esquerda.
— Mais um, por favor — eu pedi para o bartender, empurrando meu copo vazio de uísque com o dedo. Senti alguém se aproximando de mim, bem quando eu pensei que já estava tarde o suficiente para que os convidados pudessem se mandar.
— Se eu não tivesse visto você dançando com ao som daquelas músicas do fundo do baú, acharia sua situação depressiva. Pensando bem, eu acho de qualquer forma — uma voz rouca falou, na cadeira ao meu lado.
Era ele. O gato de horas atrás que havia me encarado. A primeira coisa que notei nele foi o cabelo. Um topete volumoso, bagunçado, cabelo de cantor de indie rock que faz música sobre sexo e drogas, e finge que não liga para nada.
— Você não deveria fazer coisa melhor com sua namorada? — perguntei, sem pensar antes de formular a pergunta.
Ele me olhou como se eu o tivesse xingado.
— Namorada? — o tom ácido de espanto da pergunta, combinou com a risada sarcástica em seguida. Reparei outra coisa sobre ele: a camisa branca – ele estava sem paletó agora – estava torneando seus braços, os dois primeiros botões abertos com a gravata frouxa davam vista para as clavículas, o peitoral e as veias no pescoço.
Senti que eu estava babando.
Hmmm.
Eu estava muito bêbada.
— A bonitona com os peitões que estava do seu lado — murmurei, dando um gole pequeno no copo cheio novamente.
O carinha riu.
— Ela é minha irmã, na verdade; pensei que os bons genes entregassem isso. Mas obrigado pelo interesse na nossa família — ele chamou o bartender. — Algo com gim, amigo, por favor — e, então, olhou para mim. Olhos brilhantes, que pareciam um caleidoscópio. — Quem é você?
— Acontece que eu sou a melhor amiga da . Quem é você? — eu quis saber.
— Acontece que eu sou o melhor amigo do , e me adora — ele se gabou, tão cheio de si que eu revirei os olhos. — , madame.
— De jeito nenhum você é melhor amigo do . Eu o conheceria — falei.
ergueu as sobrancelhas.
— Não, é verdade, você está certa. Eles me chamaram para ser padrinho porque, bem, me viram na rua e me acharam extremamente atraente — ele disse, sério, e eu não contive uma risadinha. Merda. — É triste descobrir que o ciclo social dos nossos únicos amigos não gira em torno de nós, não é, princesa?
— Eu tenho outros amigos — grunhi e admito que aquela não foi a resposta mais madura do mundo. Eu não tinha. Quer dizer, além de , minha relação com meus “amigos” não passava de uma ida à Starbucks de vez em quando.
engoliu sua bebida.
— Certo, então me conte sua história com os pombinhos. Mas você ainda não me disse seu nome. Nem de onde vem esse sotaque.
Eu o encarei por alguns segundos, apenas para ter certeza de que ele estava falando sério. gesticulou, como se estivesse me dando permissão para falar.
. Escócia. Eu conheço desde que minha família se mudou para Londres, vinte anos atrás. Conheci na faculdade. Cursei Teatro e Escrita Criativa, e ele se formou em Inglês e Literatura. Tivemos aula de Comunicação e Expressão juntos. Eu o apresentei para , e, agora, eles estão casados. — contei. Só percebi que tantos detalhes que ele não precisava saber saíram da minha boca depois de já ter falado.
— Por mais impressionante que sua carreira como cupido seja, , preciso dizer algo importante: você estudou na Royal Holloway? — ele perguntou. Fiz que sim com a cabeça. — Agora estou desapontado por nunca ter visto esse rosto na minha própria faculdade.
— Ah, então você é o dono da faculdade? — falei, irônica. Ele deu de ombros. — O que você cursou?
— Música — respondeu, e eu contive um sorriso. Minha intuição era melhor do que eu imaginava. — Eu e éramos colegas de quarto até ele se mudar com . Agora eu estou sinceramente ofendido por ele nunca ter falado sobre mim para suas amigas bonitas.
— Pode, por favor, parar de flertar comigo? — eu ri alto.
pareceu indignado – do tipo de indignação fingida. Ele deveria ser ator, não músico.
— Uau, como as mulheres são convencidas hoje em dia. Não posso nem elogiar! — protestou e, então, bebeu o restante do seu gim, todo de uma vez, e bateu o copo no balcão violentamente — Venha dançar comigo, .
Eu terminei o meu drink e olhei para ele.
— Eu nem te conheço.
Ele me deu um meio sorriso que poderia até ter sido assustador se não fosse tão sexy.
— Exatamente.


Acordei, sentindo como se minha cabeça pesasse mil quilos. Havia um gosto amargo na minha boca e minha garganta estava seca. Quando cocei os olhos antes de abri-los, percebi que meu cabelo estava todo emaranhado no meu rosto. Na festa, ele estava preso em uma trança elegante, e, agora, ela estava arruinada.
Espere. Fazia quanto tempo desde a festa?
Dei um sobressalto, assustada, piscando para enxergar melhor e percebendo que eu estava no meu quarto, a cortina estava aberta e o sol lá de fora iluminava o ambiente. Levei outro susto quando percebi que eu não estava usando nada além da minha lingerie preta, mas o vestido roxo e os saltos altos estavam jogados no pé da minha cama.
A minha cama estava uma bagunça.
Parecia que um furacão havia passado nela. Alguns travesseiros estavam caídos, os lençóis estavam amassados e manchados com a minha maquiagem. Senti meu estômago roncar e levei a mão à barriga – em seguida, senti outra coisa, a náusea típica da ressaca, e, com ela, vieram borrões na minha memória que eu acho que preferia não ter lembrado.
Eu e no salão de festas, dançando. Eu e abrindo as garrafas do bar e bebendo diretamente delas, jogando champanhe e conhaque um no outro. Eu e extremamente próximos. Eu sentada no colo dele – ele literalmente estava entre as minhas pernas. Nossos rostos quase se tocando. Ele me beijando vorazmente.
Me beijando muito.
Me beijando no táxi e na entrada do meu apartamento. Sua mão debaixo do meu vestido e puxando meu zíper. Minhas mãos quase arrancando os botões da sua camisa. na minha cama.
Felizmente a porta do banheiro já estava aberta, e eu corri a tempo de jogar no vaso sanitário até o que eu não tinha mais dentro do estômago. Senti a garganta arder mais ainda depois que terminei e tapei a boca ao despencar no chão, apoiando as costas na cerâmica fria da parede.
Aquela não era eu. Eu não era uma santa, mas também não era do meu costume ter ficadas de uma noite, principalmente com conquistadores que só levam garotas para a cama para riscar mais um traço na sua lista. Eu não era assim. Eu era apenas uma garota comum que evitava ficar longe de encrenca.
Agora só me restava esperar que aquilo não se tornasse uma encrenca.


Capítulo 1 - With A Little Help From My Friends



Eu sempre fui do tipo de pessoa que diz “tudo acontece por uma razão” e que “nós temos o que merecemos”. Mas aquilo ia contra todas as minhas crenças pessoais, contra todos os meus planos. Contra as leis do universo, talvez. Não podia estar acontecendo comigo, conosco.
— Útero inóspito? — eu perguntei, e minha voz falhou. Não era a única coisa falhando em mim. De repente, todo o meu corpo estava doendo. — O quê… Eu não entendo…
— Há várias razões pela qual isso acontece, sra. , e são diferentes em cada mulher — o doutor Morland explicou. — Mas, infelizmente, nesta condição, mesmo que o zigoto seja formado, a chance de permanecer no útero ou mesmo se implantar nele é quase nula. Como o próprio nome diz, não é um lugar próprio para um embrião habitar…
— Já entendemos, doutor — disse, ao meu lado. Ele parecia exausto ao coçar a barba. A outra mão segurava as minhas duas, e ele estava suando frio.
— Eu sou o problema — murmurei.
olhou para mim, com os olhos tristes. — Amor, é claro que não é.
Era perceptível o quanto ele odiava mentir para mim.
Nós estávamos tentando a tanto tempo que era óbvio que havia algo errado. Nós planejávamos que eu já estivesse grávida no nosso casamento, e não aconteceu. Quando sugeriu que procurássemos um médico após a lua de mel, só para garantir, fiz de tudo para manter o pensamento positivo. “Só para garantir”.
Ele era órfão desde os 14 anos e queria suprir essa falta sendo pai. Os meus pais estavam vivos, mas eu queria exercer essa função melhor do que eles fizeram comigo. Era o nosso sonho, de nós dois, e eu o havia destruído.
— Nós temos outras opções, certo? — ele perguntou ao médico. — Inseminação artificial. Nós temos dinheiro.
Na verdade, não tínhamos mais do que uma quantidade aceitável e limitada de dinheiro para viver.
— Acho que vocês gastariam milhares de libras para nada — o médico afirmou. — O problema não está na fecundação, mas no que vem depois.
fechou os olhos. Eu queria tanto me desculpar. Como ele poderia me perdoar por isso? Se é que ele queria me perdoar.
— Vocês sabem que podem adotar.
— Claro — murmurei, tentando engolir as lágrimas. — Se é nossa única opção.
Adotar era um gesto de amor lindo e tão verdadeiro quanto um filho biológico, mas… Nunca haveria um bebê com os olhos de , o meu nariz, seu cabelo, meus lábios. Eu não ficaria grávida, nem amamentaria. Aquilo não era algo que eu poderia simplesmente aceitar instantaneamente.
— E também há gestação de substituição — o doutor acrescentou.
— Barriga de aluguel — sussurrei.
— Exatamente! Aqui no consultório temos o contato de mulheres saudáveis que trabalham com iss…
— Ok, doutor, obrigada — eu falei, me levantando e trazendo junto para pegar nossos casacos. Não sabia se eu aguentava mais ouvir o homem falando sobre aquilo. — Mas já estamos de saída.

...


— E...corta! Bravo, pessoal! — a diretora do episódio anunciou, e eu bati palmas, animada. Eu ainda não havia me acostumado com a quantidade de pessoas que ficavam no set, e gravar bem no meio de Londres, à tarde, era completamente diferente dos outros episódios que eu havia escrito antes, onde as cenas foram gravadas dentro de estúdio e, em sua maioria, na madrugada.
Não sei quando exatamente comecei a gostar do meu emprego, mas certamente não foi antes de começar nele. Sharp Hearts é uma série adolescente, uma mistura de Gossip Girl e The O.C. britânica. Eles estavam exibindo a primeira temporada quando mandei minha aplicação para os produtores executivos. Não era o tipo de coisa que eu assistia, mas era a nova obsessão da Inglaterra.
Bem, eu sabia que não iria começar em séries indicadas ao Emmy ou com um roteiro de filme digno de Oscar, mas eu havia me apegado àquela série, aos personagens e, talvez eu deva dizer, até aos fãs. E, aparentemente, eles gostavam de mim. Uma das únicas coisas pelas quais eu poderia me gabar é que os episódios escritos por mim foram os mais assistidos da segunda temporada. Agora, estamos gravando a terceira.
! — Ellie McGruff me chamou quando eu estava me virando para ir embora, e eu sorri, permanecendo no meu lugar para falar com a nossa estrela.
Ellie interpreta Vivian Clarke, a personagem principal da série. Vivian é a típica protagonista que amamos odiar, uma patricinha rica e mimada que, mesmo fazendo todo tipo de porcaria, é a personagem favorita dos fãs que “merece ser protegida a todo custo” porque, às vezes, fazem porcarias com ela também e ela chora em cena. Sim, eu não estou exagerando quando digo que a série é um clichê. Mas Ellie não é muito diferente.
Seus pais são atores famosos, e ela começou a carreira quando era criança. Se em algum momento alguém a menciona como “a filha de Donna e Tony McGruff”, ela vira uma fera. Eu admiro o fato de Ellie se esforçar tanto para ter um reconhecimento próprio, que vá além da fama de seus pais, e, na verdade, o único motivo para eu não ser muito fã de Ellie é que ela parece com Vivian… até demais.
— Esse episódio foi maravilhoso! — ela disse para mim, animadíssima, prendendo a franja atrás da orelha enquanto o vento fazia seu cabelo cor de mel, que me lembrava o de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo, voar.
— Foi, não é? Pessoalmente, é um dos meus favoritos, não vejo a hora de ver a reação do público — falei, dessa vez com um entusiasmo que não precisei fingir.
A marca registrada dos episódios escritos por mim era que eu sempre fazia questão de colocar algo, como um plot twist dramático, uma tragédia ou qualquer coisa que fosse impactar os telespectadores. Veja bem, você pode pensar que um roteiro previsível como o de Sharp Hearts não deixa espaço para mais nenhuma surpresa, mas a indústria do entretenimento adolescente é… interessante, para dizer o mínimo.
A história gira em torno de Vivian e seu interesse amoroso, Kieran Flynn. Por ela ser uma menina rica e ele, pobre, Vivian o dispensa porque “são de mundos diferentes”. Mas quando Kieran descobre que ele é, na verdade, o filho perdido de um milionário, é a vez dele de esnobar Vivian.
Nem preciso dizer que Kieran é meu personagem favorito. E os dois são o casal favorito dos fãs, os amantes desafortunados, Romeu e Julieta modernos — francamente, eu não odiava tanto um ship famoso desde Ryan Atwood e Marissa Cooper.
— Ah, eu também — Ellie disse, rapidamente, parecendo nem ter prestado muita atenção no que eu havia falado — Quer sair para tomar um café com a gente?
— Sinto muito, querida, mas hoje não vai dar — minhas desculpas eram sinceras, e eu nem sabia quem era “a gente”, e talvez fosse a minha consciência a dona da voz, me repreendendo por mentir. Felizmente, Ellie rapidamente achou outra distração que não fosse eu, e eu pude me despedir do resto da equipe, enquanto recolhia minhas coisas.
Eu confiava na minha intuição ao desconfiar do motivo de Ellie querer a todo custo aproximar-se de mim. Quer dizer, eu não era uma atriz, e, no mundo por trás das câmeras, os showrunners e diretores são os únicos conhecidos. As únicas pessoas que comentavam meus posts no Instagram e no Twitter eram os fãs mais fervorosos, donos de fansites e que se importavam o suficiente para saber quem havia escrito o roteiro do episódio. No entanto, minha intuição me dizia que, durante o café, Ellie tiraria uma selfie, postaria com uma legenda para provocar a curiosidade dos fãs sobre o que viria a seguir e depois continuaria unicamente dando atenção ao celular, e eu ficaria em um silêncio desconfortável.
Sem culpa, peguei minha bolsa e comecei a andar na direção da estação de metrô mais próxima.


Ao abrir a porta, um Golden Retriever de quarenta quilos pulou em cima de mim, quase fazendo com que eu me espatifasse no chão.
— Peanut! — protestei, tentando me manter de pé, mas me ajoelhei para fazer carinho na cadela ao perceber que ela não ia desistir tão fácil e ri ao receber algumas lambidas na cara.
? — a voz de minha mãe chamou da sala de estar.
— Cheguei! — anunciei, trancando a porta atrás de mim. Pendurei meu casaco e bolsa no cabide do lobby e fui até eles.
— Achei que chegaria mais tarde, docinho — meu pai disse, embora nem ele e nem minha mãe parecessem preocupados com o fato de que as gravações poderiam demorar mais. Os dois estavam juntinhos no sofá, concentrados na televisão, assistindo O Império Contra-Ataca.
— Já terminamos esse episódio — contei, me sentando na poltrona.
— Ah, Harrison Ford jovem… que pedaço de mau caminho — minha mãe suspirou.
Meu pai pigarreou, encarando-a estupefato.
— O quê? Pensa que não sei que você guarda o pôster da Carrie Fisher com o biquíni dourado?
— Pai! — eu dei um gritinho, rindo.
— É vintage! — ele argumentou, erguendo as mãos.
Meus pais amam Star Wars, uma das coisas que herdei deles – ou fui puramente doutrinada. Na verdade, eles amam filmes em geral, uma paixão que compartilhamos e um dos nossos hobbies favoritos em família. Ambos são escritores também, então, é, eu não poderia ser a filha mais previsível.
Phil e Tanya , jornalistas formados pela Universidade de Edimburgo, se conheceram em um protesto político nos anos 80. Meu pai havia sido enviado ao local como repórter, enquanto minha mãe estava protestando com suas colegas feministas, usando nada além dos cabelos tingidos de rosa e uma calça jeans. Meu pai diz que o que o fez se encantar por ela foi a paixão com a qual ela protestava, que mais tarde ele descobriu ser a mesma paixão que ela investia em tudo a que se dedicava. E a isso ela respondia: “você está mentindo, só gostou dos meus peitos”.
Agora eles não exercem mais a profissão, mas são professores PhD na Universidade Imperial. Na verdade, esse foi o motivo para nós termos nos mudado da Escócia para cá há tanto tempo. Então, é fato, meus pais são incríveis, e eu tenho todos os motivos do mundo para amá-los e ter um relacionamento tão bom com eles que parece mais uma amizade. Mas ainda me sinto desconfortável por estar morando com eles depois de quase dez anos.
Fiz o ensino médio em um internato, assim como minha irmã mais nova, Pandora, está fazendo agora. Depois, dormitório da faculdade; e pouco tempo depois disso, o apartamento com - e mais tarde, com também. Eu sei que dar o apartamento para eles havia sido um presente de casamento (com exceção de , eu era a mais bem-sucedida entre meus amigos, pelo menos financeiramente, apesar de não ter muito reconhecimento) e que eu só ficaria na casa de meus pais até achar um lugar bom para mim, mas essa procura parecia nunca ter fim.
Mas, você sabe, talvez isso fosse só uma paranoia da minha cabeça, um complexo por estar na segunda metade dos vinte anos e o que diabos isso significasse.
ligou procurando por você — minha mãe me informou, enquanto eu me levantava para ir à cozinha que era, na verdade, apenas integrada à sala, de forma que os dois cômodos eram o mesmo espaço.
— Nós não temos nos falado muito ultimamente por conta das gravações — expliquei, cortando um pão ao meio e tirando o pote de geleia de dentro da geladeira em seguida.
Minha mãe emitiu um “humm”, e eu ergui os olhos do meu pão com geleia para vê-la com um sorrisinho malicioso.
— Mãe! Acho que depois de uns quinze anos, você já pode superar o fato de que nós dois não somos um casal, não acha? — perguntei.
— Mas vocês seriam tão lindos juntos! — minha mãe fez bico. — Você não lembra do livro daquela jornalista inglesa do The New York Times, que ela escreveu baseado no irmão gêmeo dela e sua melhor amiga, que eram amigos de infância e ficaram juntos? Foi tão lindo!
— A diferença é que o protagonista sempre foi apaixonado pela melhor amiga, ela só era burra demais para perceber isso. E eu posso lhe garantir que esse não é o caso de e eu — afirmei, passando violentamente a geleia no pão.
Minha mãe fez um muxoxo.
— Mas vocês teriam tudo para dar certo. Ambos são jovens, solteiros e lindos, e eu não vejo a hora de ter netos.
— Pai, pode dizer para a mamãe que eu não tenho nem um lugar para criar um gatinho, quanto mais um filho? — perguntei, logo antes de dar uma mordida no sanduíche. Meu pai murmurou alguma coisa incompreensível, claramente vidrado no filme que ele já havia visto incontáveis vezes nas últimas três décadas. — Eu vou ligá-lo de volta, mãe. Obrigada por me dar o recado.
— Vocês deveriam sair — sugeriu ela.
— Não abuse da sorte! — falei, indo na direção do meu quarto provisório.


Encarei meu reflexo no espelho, terminando de colocar o batom da cor da minha pele. Eu não me importava muito com roupas e maquiagem, mas, de vez em quando, era divertido me arrumar toda e me sentir bem. E aquele vestido bodycon mídi preto, com mangas longas e um decote generoso, me fez sorrir ao perceber que andar algumas quadras todo dia para pegar o metrô estava dando um bom resultado.
Por impulso, eu quase fui até o quarto dos meus pais para avisar que eu estava saindo, mas decidi que eu era apenas uma hóspede e que a filha deles era adulta e não precisava mais dar satisfações. Isso e, também, eu tinha um pouco de medo de ir ao quarto deles e flagrá-los em… momentos inapropriados, digamos assim, depois de algumas experiências ruins na minha primeira semana aqui.
Quando abri a porta, estava do lado de fora, como ele já havia me avisado. Usando a camisa branca social e a gravata preta do seu uniforme da Scotland Yard, mas felizmente sem o colete e o chapéu horríveis.
— Uau, tudo isso para me impressionar? — ele ergueu as sobrancelhas, zombeteiro.
Mostrei a língua.
— Não me arrumo para impressionar ninguém a não ser eu mesma — falei, com um sorrisinho. Ele estendeu o braço para mim, e eu o segurei, deixando-o me escoltar até seu carro.
Nós éramos frequentadores do The Hawley Arms há muitos anos, não só porque era o pub favorito de Amy Winehouse, mas porque morávamos perto de Camden Town – em Somers, e eu agora na casa dos meus pais em Primrose Hill; mas mesmo antes, no apartamento com , já morávamos na região norte de Londres. Isso e também porque a atmosfera do local era aconchegante, e o peixe com batatas deles era maravilhoso. Enquanto comíamos, perguntou:
— Você sabe se e já estão de volta da lua-de-mel?
— Sim. Eles voltaram há quatro dias — contei a ele e não pude esconder o leve descontentamento na voz. — está estranha. Ela não está falando muito comigo, parece estranha… distante. Como se estivesse me evitando. — falei e continuei comendo.
Por causa do silêncio exagerado, ergui os olhos para ver me encarando com uma expressão engraçada.
— Você é tão boba — disse ele.
— O quê? — protestei.
— Você é! — ele estava rindo de mim. Eu não sabia se estava ultrajada ou confusa. — Agora que casou, você acha que vocês não serão mais melhores amigas e que ela vai abandoná-la.
Semicerrei os olhos.
— Eu… — comecei, querendo encontrar as palavras certas para alfinetá-lo, mas fui derrotada, porque ele estava um pouco certo. soltou uma gargalhada. — Pare com isso!
— Desculpe, raio de sol — ele falou, e eu me encolhi um pouco com aquele apelido. me chama assim desde que nos conhecemos, quando tínhamos 12 anos, mas apenas em determinados momentos. Eu ainda não havia achado um padrão para os momentos em que ele o usava, mas me sentia constrangida, porque talvez eu estivesse me comportando como uma garota de 12 anos — Mas é você quem tem que parar com essa bobagem. Tanto quanto amam você. Talvez ela só esteja se adaptando à nova vida dela e, por isso, você ache que ela está distante. Talvez eles tenham tido algum problema e precisam de privacidade para resolver, sei lá.
— Problema? e ? Eles são o casal perfeito. Aposto mais na primeira opção — decidi. — Mas… você não acha estranho tudo isso? Quer dizer, nós dois conhecemos quando não passávamos de crianças, e agora ela é uma mulher casada! Você se imagina casado?
— Eu não iria reclamar — ele franziu a testa e riu suavemente — Quer dizer, se eu conhecesse alguém com quem eu me imaginaria fazendo aquilo.
Nós dois ficamos em silêncio de novo, mas não um constrangedor e sim um reconfortante, porque pelo menos um entendia o outro.
— Você… acha que nós deveríamos fazer um tipo de pacto, daqueles de que se nenhum de nós estiver casado aos quarenta anos, casamos um com o outro? — perguntei, e não sei de onde diabos essa pergunta saiu.
caiu na gargalhada de novo, e senti minhas bochechas e pescoço esquentando.
— Primeiro, você acha que eu sou tão ruim assim para estar sozinho aos quarenta anos? E segundo, não, eu não casaria com você, você é difícil demais para mim. — ele deu de ombros.
Revirei os olhos, rindo. Um garçom se aproximou da mesa.
— Com licença, senhor. Isso foi enviado para você pela senhorita de vestido vermelho, no bar — ele colocou o drink na frente de , e instantaneamente nós dois erguemos os olhos para o balcão do bar. A mulher de cabelos cacheados e vestido vermelho acenou para , com um sorriso sedutor.
— Boa, tigrão — eu brinquei e em seguida fiz cara feia — Jesus! Você não acha triste que as mulheres flertem com você até quando eu estou do seu lado?
— Você não acha ruim quando os caras vêm até você quando eu estou presente — argumentou ele.
— Claro, porque isso não acontece. Você sempre os assusta.
Ele achou graça.
— Permissão para flertar? — pediu.
— Permissão concedida. Mas, céus, espere eu sair, seria humilhante demais — falei.
Não que eu julgasse as mulheres que faziam isso, para ser sincera. Apesar de ter meu orgulho ferido, eu as entendia. Não que fosse uma força da natureza como os galãs de cinema ou algo assim, mas ele tinha uma beleza tão serena que também parecia quase sobrenatural. Acho que, no meio de tantas tempestades, até a calmaria poderia ser apreciada e linda. Essa era a melhor metáfora que eu poderia pensar para defini-lo.


A parte difícil de ser escritora é aquela que ninguém nunca conta para você. Por mais que você tenha criatividade e imaginação, não é todo dia que você vai ter inspiração. E é a falta de inspiração que faz com que você não tenha forças nem para apertar as teclas do notebook, mesmo quando tem todo o enredo de um livro na cabeça. Ou, no meu caso, de um episódio. Mas, no tempo livre, eu já estava trabalhando no projeto de um filme.
É claro que, quando eu terminasse o roteiro, só faltaria tipo um milhão de libras para financiá-lo.
Eu estava acordada há quatro horas e, naquela manhã, já havia digitado dez páginas e comido uma barrinha de cereal de banana e, possivelmente, 750ml de café. Era um dia bom para trabalhar, eu não estava me queixando sobre a minha vida ou tendo paranoias ou crises existenciais para me distrair, o que basicamente significava que eu poderia me focar completamente naquilo.
Até que me ligou, e eu larguei imediatamente o que estava fazendo para atender ao telefone.
— Oi, querida! — eu disse, ao atender o telefone.
, oi — a voz suave de me cumprimentou do outro lado da linha, e eu não precisava que ela me dissesse mais nada para saber que ela estava péssima.
, o que foi? — franzi a testa, assustada.
Você pode nos encontrar para o almoço em algum lugar, para conversarmos? — ela perguntou. Se eu conhecia , ela estava fazendo um esforço enorme para manter a voz calma, quando na verdade estava à beira das lágrimas. E isso me apavorou. — Por favor. É… importante.
— É claro, querida. Me diga o endereço e eu estarei a caminho — falei, me colocando de pé.
Cheguei ao Neal’s Yard trinta minutos depois e, de longe, vi os sentados à uma mesa a céu aberto. Eu sabia o quanto gostava daquele espaço adorável de paredes e esquadrias coloridas, janelas rústicas e plantas, e também dos restaurantes dali. E, pelo fato de ela ser uma chef, era importante que ela gostasse dos lugares onde nós comíamos.
— Ora, se não é o meu casal favorito — falei, aproximando-me deles e abrindo os braços. Os dois se levantaram para me abraçar, primeiro e depois .
— É bom vê-la de novo — sorriu.
— Eu que o diga! Como foi a viagem? — perguntei. — Me contem tudo, sobre todos os lugares — pedi, sentando-me na cadeira vaga, e subitamente percebi que talvez eu fosse a única ali que estava animada.
Alguma coisa muito errada estava acontecendo.
— Prometemos que vamos contar tudo depois, mas… — mordeu o lábio e olhou para . Minha amiga, que eu sempre achara ser uma das pessoas mais encantadoras do mundo, parecia ter perdido seu brilho.
, nós gostaríamos de contar uma coisa primeiro — falou ela. Meu coração acelerou, porque ao mesmo tempo em que imaginei um milhão de coisas ruins, também não tinha a menor ideia do que aquilo poderia ser. — Você já sabe que nós estávamos tentando ter um bebê há algum tempo e… bem, como não havia resultado, resolvemos ir a um médico. Só por curiosidade.
Eu imediatamente entendi o que aquilo significava. E me atingiu em cheio, como uma bola de demolição.
Fechei os olhos e engoli em seco, mas os abri de novo para encará-la. Eu não tinha certeza se queria saber o resto, saber os detalhes, mas precisava falar, então eu iria ouvir.
— Na verdade, nós não somos inférteis — ela disse e riu um pouco. Uma risada de ironia, eu percebi, pois os olhos dela se encheram de lágrimas e ela soluçou, colocando uma mão sobre a boca para conter aquilo. , eu percebi, também estava arrasado. Ele estava pálido e com olheiras fundas, e ele acariciou as costas de , tentando acalmá-la. Cerrei os punhos, percebendo que minhas mãos estavam tremendo. — Mas não podemos ter esse bebê de maneira convencional. Parece que… bem, eu não entendi muito bem os termos técnicos, mas meu útero não seria um lugar apropriado para um bebê viver. E, se abusássemos da sorte, até eu poderia morrer, também.
Pisquei, atônita. Minha boca estava aberta e meu peito estava doendo.
Pela primeira vez desde que eu me lembrava, soube de como era a sensação de perder algo que você nunca teve. E eu não imaginava como deveria estar sendo para , já que ela seria a mãe.
— Não sei o que dizer — admiti, baixinho. — , , eu… eu sinto tanto que não sei explicar — estendi as mãos por cima da mesa, e cada um deles segurou uma de minhas mãos.
Aquele era um momento tão íntimo, tão forte entre nós, unidos pelo amor que tínhamos uns pelos outros e pelo mesmo sentimento da dor e da perda, que eu nunca, nem em um milhão de anos, esperava que fosse dizer em uma voz baixinha e frágil:
— É por isso que nós esperamos que você aceite ser nossa barriga de aluguel.


Continua...



Nota da autora: Às leitoras novas e às antigas, olá! Aqui estou eu de volta ao site com uma nova longfic, uma ideia que tive há tanto tempo e finalmente pude trazer para a realidade. Se você leu Change My Luck (e entendeu a referência!), posso dizer sem medo que esses novos personagens são tão importantes para mim quanto os de CML e que prometo que não vão decepcionar. Espero que me acompanhem nessa nova história e que gostem, não deixem de comentar para me incentivar a continuar <3; para quem quiser, também pode me achar no twitter: @emypondx. Até a próxima atualização xx




Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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