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Six Years


Última atualização: 10/06/2017

Capítulo 1


San Diego, 20 julho 2013
não conseguia acreditar que estava lá, cada fibra de seu corpo pulava de alegria pelo simples fato de ela finalmente estar lá. A Comic Con de San Diego. Todos têm um sonho, um objetivo de vida, para alguns um carro, para outros uma casa, quem sabe até mesmo um casamento. Para , seu objetivo era ir à San Diego para aquela Comic Con.
A garota desde muito cedo se interessou por esse universo de quadrinhos e super-heróis, com o tempo o cinema entrou para essa lista de paixões e seu sonho era trabalhar nesse ramo, “Mas ser uma heroína também era meu sonho e aqui estamos não é”, é o que sempre dizia, já que no final das contas se formou em Jornalismo e se especificou na área política e agora trabalha em Nova York na equipe de correspondência da Rede Globo.
Mas lá estava ela, e depois de passar praticamente dois dias inteiros dentro daqueles “barracões” hoje era o dia do painel da Marvel, e a sorte da garota era tamanha – na concepção dela – que naquele ano o Estúdio faria algo que nunca havia feito antes, teria um painel – antes do principal – de autógrafos com o cast do filme Capitão América Soldado Invernal. Agora dá pra entender porque cada fibra de seu corpo pulava de alegria, certo?
A fila estava enorme, imensa, gigantesca de verdade, no entanto não se importava porque já havia feito amizade com as vinte pessoas mais próximas e também se distraia com as mensagens que recebia de suas amigas que estavam histéricas no Brasil, praticamente a obrigando a mandar foto de tudo que estava ao seu redor e de todos os atores do filme. Depois de quase uma hora, ela finalmente chegou ao painel. A primeira atriz que a “atendeu” foi Emily VanCamp, o que ela não gostou muito. Não podia ser a Scarlett ou a Cobie? A garota pegara um pouco de birra pela atriz pelos poucos episódios que assistira da série Revenge e nunca conseguiu superar isso. A próxima foi Cobie Smulders, que foi extremamente simpática e até fez algumas piadas sobre a Robin. Ao lado de Smulders estava Anthony Mackie e com aquele não poderia perder a oportunidade de enrolar um pouco na fila.
- Espero que não nos decepcione como Sam Wilson, hein – ela disse, sorrindo, com um tom de cobrança que não passou despercebido pelo moreno que assinava o nome em cima do Falcão do pôster. Mackie levantou o rosto e deu de cara com uma garota de pele clara e algumas sardas espalhadas pelo rosto, cabelo ruivo com algumas ondas nas pontas e olhos de uma cor diferente, parecia meio amarelado, quase como olho de gato e aquilo lhe dava um ar diferenciado. Ele sorriu de volta e lhe entregou o pôster, que já continha três autógrafos.
- Se eu te decepcionar prometo seu dinheiro de volta. – o sorriso se alargou no rosto da garota que acenou positivamente com a cabeça.
- Olha que eu vou cobrar hein. Sam Wilson e Bucky Barnes são personagens muito queridos para grande parte, se não para todos os fãs de Capitão América. – ao ouvir o nome Bucky, Sebastian, que estava ao lado de Anthony, se virou e encarou a garota ruiva, que era muito bonita por sinal, e resolveu entrar na conversa.
- Pensei que o Bucky já tinha sido aprovado – a ruiva o olhou e seus olhos se arregalaram minimamente porém perceptível, deu um passo para o lado para ficar de frente com o homem e lhe entregou o pôster, que ele não deu muita atenção e continuou a olhá-la com um sorrisinho de canto.
- O Bucky é ótimo – respondeu, saindo do choque inicial de estar frente a frente com um de seus atores favoritos – Caso contrário, eu já teria te procurado para pedir a devolução do dinheiro há dois anos. – disse, continuando a brincadeira do moreno que agora conversava com uma garotinha, mas riu ao ouvir a resposta da ruiva.
Stan soltou uma risada, assinou seu nome sobre a foto do Soldado Invernal e deslizou o pôster sobre o balcão até a garota, mas não o soltou.
- Obrigado – ele disse, olhando para ela com um sorriso sincero no rosto, o que só fez a mulher ter mais vontade de guardar ele em um potinho – é muito bom ouvir as pessoas falando que gostaram do desenvolvimento do personagem, então, obrigado. – A única coisa que soube fazer naquele momento foi sorrir de volta. Era a primeira vez que o via pessoalmente e todas as história que ouviu falar sobre o poço de meiguice que aquele ser a sua frente poderia ser se comprovaram e ela não poderia estar mais feliz.
- Você sempre arrasa, Chapeleiro – a forma como disse aquela palavra foi meio engraçada, já que um sotaque que ele não reconheceu se apossou de sua voz ao pronunciá-la. Ela pareceu não se importar, ou talvez não tenha percebido.
- Legal saber que não estou sendo julgado por só um papel – ele brincou, soltando o pôster já que um responsável pela organização estava reclamando que a fila havia parado. foi para o próximo autógrafo, mas nem reparou quem era já que continuava mantendo o contato visual com Sebastian.
- Fazer o que se os papéis que te dão são de extremamente amados? – ela falou sinceramente, mas ele não acreditou, já que ele mesmo não sabia quem era Bucky Barnes até 2010.
- Sério que você sabia do Barnes antes de Capitão América? – uma voz feminina questionou, fazendo tirar os olhos de Stan e dar de cara com Scarlett Johansson. Uau.
- Eu amo quadrinhos, e Marvel é meu amor – a garota respondeu dando de ombros e com uma feição de culpa no rosto.
- Não precisa puxar saco – Scarlett disse, assinando o nome em cima da foto da Viúva Negra – a gente não vai te crucificar se você disser que sempre preferiu o Superman ao Capitão América.
- A não ser eu – Chris Evans, isso mesmo, Chris Evans, entrou na conversa, tirando o pôster das mãos da loira para autografá-lo – Meu ego fere quando ouço alguém dizer que o Capitão não é o herói favorito.
A ruiva só sabia sorrir. Aquele era o momento mais mágico de sua vida sem dúvida alguma.
- Então infelizmente eu vou ter que te decepcionar. Meu herói favorito é o Homem de Ferro.
A expressão de incredulidade no rosto do loiro foi hilária. Scarlett e Sebastian começaram a rir.
- Eu tinha gostado de você, mas agora não quero mais ser seu amigo.
- Droga! Sabia que ser honesta não compensaria em nada para minha convivência social.
Chris soltou uma risada e entregou o pôster para a garota, que agradeceu e seguiu para a fila de entrada no Hall H.
Sebastian continuou fitando a garota se afastar. Todo lugar sempre tem aquela pessoa que se destaca, e aquela ruiva com um sotaque diferenciado não passaria despercebida de jeito nenhum.
- Minhas pernas já estão doendo – reclamou Scarlett – Queria ter podido trazer um banquinho.
- Você já o teria perdido, as minhas pernas estão latejando – Sebastian retrucou, alternando a troca de peso entre um pé e outro.
- Muito cavalheiro de sua parte, fico lisonjeada – ironizou Johansson, fazendo Evans rir.
- É nisso que dá acreditar que ele é aquele cara meiguinho das entrevistas.
Stan revirou os olhos autografando o pôster que estava a sua frente e olhou para a fila, ainda tinham muitas pessoas, mas a área da fila já havia sido fechada, então provavelmente nem aquelas pessoas seriam todas atendidas já que sua agente havia dito que um pouco antes das três horas alguém da organização do evento iria buscar o elenco para eles se prepararem para o painel no Hall H e já eram quase duas e meia.
- Vai ficar muito estranho se eu me sentar no chão? – perguntou Mackie com uma voz chorosa fazendo o rapaz que estava recebendo os autógrafos gargalhar.
- Dai o balcão vai te tampar, inteligência – Cobie respondeu o colega dando uma pedala em sua nuca, o que fez o moreno reclamar e massagear o local.
- Sabe, você não tem a mão exatamente leve – replicou o homem, fazendo as mulheres à sua esquerda darem risada.
- Pessoal está na hora – Tyler, que fazia parte da equipe da organização, apareceu acompanhado de três homens grandes vestidos de terno preto e com escutas no ouvido.
Os seis se despediram do grupo que ainda estava ali, se desculpando por não darem atenção a todos, e seguiram o rapaz da produção que parava o trajeto de tempo em tempo já que os atores paravam para tirar fotos com as pessoas do local.
Após alguns minutos eles chegaram ao backstage para ouvirem as recomendações que eram repetidas em todas as entrevistas por seus agentes e logo foi possível ouvir os gritos empolgados do público que estava no salão.
- E como estão os pés das minhas crianças? – questionou Samuel L. Jackson, se sentando ao lado de Sebastian no pequeno sofá que tinha no local.
- Você vai ter que me levar no colo para esse painel – resmungou Stan, jogando uma das pernas no colo do mais velho que riu e empurrou a perna do mesmo para longe.
- Desculpe, minha coluna é muito preciosa para eu estragá-la carregando um gordo como você.
- Anthony nunca reclamou do meu peso – rebateu com um muchucho, causando uma crise de risos no pessoal da produção que estava presente
- Estou decepcionado, Stan, pensei que era único para você – Chris estava de braços cruzados e com cara de choro – depois de tudo que passamos...
- Eu não recebo o suficiente para ser obrigado a conviver com esse tipo de gente – reclamou Joe tentando demonstrar descontentamento, mas sua voz estava embargada de tanto que segurava a risada. Seu irmão já havia desistido e gargalhava abertamente.
- Está na hora – Tyler cortou a conversa, ignorando o comentário de Smulders sobre “ele só sabe falar isso?” – Irmãos Russo primeiro, Frank Grillo, Emily VanCamp, depois Cobie Smulders, Anthony Mackie, Sebastian Stan, Samuel L. Jackson, Scarlett Johansson e, por último, Chris Evans – falou o rapaz, ouvindo os apresentadores já chamando os diretores. – filinha aqui gente, pra agilizar.
Os atores foram chamados na exata ordem que o organizador ditou, sentaram-se da esquerda para a direita, sendo que Evans, como foi o último a entrar, se sentou ao lado dos diretores.
Primeiro os entrevistadores fizeram algumas piadas sobre Samuel e Frank não terem participado do painel de autógrafos, o que rendeu alguns comentários de Mackie sobre eles serem esnobes antissociais, o que rendeu boas risadas no salão todo.
As perguntas relacionadas ao filme e a cada personagem iniciaram e Sebastian se afundou na cadeira. Suas pernas e seu pulso estavam doloridos, não saberia dizer quando foi a última vez que escreveu seu próprio nome tantas vezes, talvez quando estava aprendendo a escrever e fez isso para praticar, o que com certeza aconteceu há muito tempo.
Ouviu um dos entrevistadores perguntar algo para Grillo e suspirou. Ele não gostava muito daquela parte de seu trabalho. Adorava atuar mais que tudo, e a interação com os fãs nunca foi seu ponto forte, mas responder as perguntas era pior. Não sabia exatamente o que podia falar (por mais vezes que tivesse ouvido sua agente passar o roteiro do que ele poderia ou não dizer em uma entrevista) e isso o deixava meio nervoso. Ouviu um comentário de Anthony e deu uma risada. Aquele cara não sabia o momento de ficar quieto e Stan agradecia por isso já que os comentários inoportunos sobre as respostas alheias o distraia da pressão de ter centenas de pessoas olhando diretamente para a direção que ele se encontrava.
- Hey! Olá! – O moreno começou a acenar e cumprimentar ao lado de Stan e ele olhou para a direção que o colega sorria, vendo uma garotinha de uns oito anos acenando de volta, e, um pouco mais para o lado, na direção de Samuel avistou a ruiva do painel de autógrafos, que estava com a expressão de uma criança na manhã de Natal.
A garota estava extasiada, aquilo era simplesmente incrível, não tinha palavras para descrever o momento, então ela só ignorou o celular que vibrava a cada cinco segundos no bolso da calça e prestava atenção em cada palavra que cada pessoa que estava atrás daquela enorme mesa falava.
O romeno respondeu rapidamente à pergunta que lhe foi feita, passando a fala para Anthony, que praticamente falou pelos dois. Uns quinze minutos depois o painel do filme acabou, mas ainda teriam mais filmes e mais elenco então ninguém a não ser os atores de Capitão América Soldado Invernal se retiraram do recinto.
Toda a equipe estava hospedada no mesmo hotel já que eles tinham que fazer mais uma campanha de divulgação a noite ainda em San Diego, e todos optaram por passar a noite lá mesmo e, no outro dia, depois do almoço eles iriam embora - para continuar com a divulgação.

Era por volta das sete da noite, Sebastian já estava pronto, mas as mulheres haviam começado a se arrumar uma meia hora atrás o que significava que ele teria um bom tempo livre para descer ao restaurante e comer alguma coisa porque as paredes brancas daquele quarto já tinham ficado sem graça há algum tempo.
As portas do elevador se abriram e ele saiu para o saguão de recepção do hotel que não era muito luxuoso, mas também não era nada simples com o piso revestido de porcelanato e muitos detalhes em gesso espalhados por todo o ambiente, o que fazia as poltronas de madeira com estofados escuro que estavam espalhadas estrategicamente pelo local se destacarem. Atravessando o saguão ficava a porta principal de entrada e saída e à direita a porta de entrada para o restaurante, mas uma cabeleira ruiva andando distraidamente pela recepção chamou a atenção do homem.
- Juro, Brê, se uma delas piscasse pra mim eu viraria lésbica só pra poder casar com elas – a garota falava ao celular em uma língua diferente, que demorou um pouco mas ele reconheceu como português. – Scarlett e Natalie óbvio – comentou, dando risada depois de ouvir a pessoa do outro lado da linha falar alguma coisa.
Stan podia não estar entendendo nada do que ela falava mas “Scarlett” e “Natalie” era impossível de não identificar. Em que contexto as duas poderiam entrar na conversa que aquele ser distraído e literalmente saltitante poderia se encaixar?
Na falta de ter o que fazer ouça conversas alheias – por mais que não entenda absolutamente nada do que a pessoa esteja falando. Foi essa linha de raciocínio que Sebastian seguiu quando abandonou a rota do restaurante e fingiu prestar atenção no celular enquanto se aproximava de onde a ruiva estava, não percebendo que a mesma olhava distraidamente para o chão enquanto falava e não reparava para onde estava indo.
Ele só percebeu que chegou muito perto quando esbarrou de frente com a mulher, o que resultou com o celular dele no chão.
- Ah meu Deus, desculpe! – exclamou desesperada, de abaixando para pegar o celular ao mesmo tempo que o homem, fazendo os dois baterem as cabeças um no outro.
- Ai! – soltaram juntos, finalmente se olhando.
arregalou os olhos quando reconheceu quem estava a sua frente, e desviou o olhar para o celular para disfarçar o choque, pegando o objeto, se levantando e desligando a chamada no próprio aparelho. Levaria um esporro de Breno mais tarde, mas aquilo realmente não importava naquele momento. O rapaz se levantou também e fitou a garota.
- Desculpa – falaram ao mesmo tempo e ambos riram sem graça – Eu estava... – ia emendando Sebastian, mas a garota o cortou.
- Não, não – será possível alguém morrer de afobamento? – Eu é que tenho que aprender a prestar atenção no que acontece ao meu redor, principalmente quando estou com o celular no ouvido.
As bochechas dela já estavam quase da cor dos cabelos e Stan comprimiu os lábios para não rir da situação da distração em pessoa a sua frente.
- Ta tudo bem, é sério – tranquilizou-a pegando o celular da mão que ela estendia para ele – Até porque estamos quites já que eu também bati na sua cabeça.
O tom risonho e o olhar divertido a fez relaxar um pouco. Um pouco, porque era Sebastian Stan ali na sua frente e ela estava com tanta vergonha que se um buraco se abrisse ali por perto ela pularia sem pensar duas vezes, só para fugir daquela situação. Nem pra Breno ser um irmão preocupado e ligar novamente só para saber por que ela havia desligado na cara dela, mas nem pra isso aquele bundudo servia. Como nenhum buraco surgiu para ajudá-la, somente sorriu para o homem.
- Sebastian Stan – estendeu a mão direita para cumprimenta-la.
- – cumprimentou-o de volta, imaginando que ele era somente mais uma daquelas dezenas de pessoas que ela havia cumprimentado naquele dia durante a Comic Con. “Qual é!? Ele é uma pessoa como qualquer outra, não precisa disso tudo, ” era o mantra do momento, mas seu cérebro respondia “não é qualquer pessoa quando se é gostosa assim”, e ela fingia que não ouvia essa parte.
- ? – Sebastian perguntou, soltando a mão dela e a colocando no bolso da calça.
- , embora esteja pensando seriamente em mudar para porque já faz um ano que me fazem essa pergunta - franziu o cenho e comprimiu os lábios, como se estivesse refletindo seriamente sobre aquilo.
- É um nome diferente – deu de ombros.
- Tem origem latim eu acho – ela cruzou os braços, realmente devaneando sobre as origens do próprio nome.
- Você não é daqui não é? – ela negou voltando a olha-lo, fazendo uma nota mental de pesquisar sobre o próprio nome mais tarde. – Portugal ou Brasil?
- O sotaque ainda está tão forte assim? – já fazia algum tempo que ninguém mais falava sobre seu sotaque, então ela ficou realmente surpresa.
- Achei um pouco engraçado o jeito que me chamou de Chapeleiro mais cedo, e agora, antes de nos atropelarmos, ouvi você falando alguma coisa que me soou parecido com português – se explicou sem mencionar a curiosidade inexplicável na conversa da garota, sem perceber que a mesma o encarava surpresa.
- Você deve ter falado com mais de duzentas pessoas diferentes hoje, e se lembra que eu o chamei de Chapeleiro?
- Bom... – ele não tinha pensado nisso, mas como tinha dito para si mesmo de tarde, uma ruiva daquela não passava despercebida – Eu gosto de me lembrar das pessoas que elogiam meu trabalho. – Seria uma ótima desculpa se ele mesmo não sentisse seu rosto esquentar. Abaixou a cabeça e ficou por uns três segundos encarando os sapatos, aquilo era horrível, “não tenho treze anos, pelo amor de Deus!”. Quando sentiu que o calor na face havia passado voltou a olha-la e ela possuía um sorriso de canto brincando nos lábios.
- Só trabalho com fatos – ela deu de ombros e Stan devolveu o sorriso. – Brasil, – falou depois de alguns segundos o olhando – o sotaque é brasileiro.
Tinha que ser. Foi a única coisa que passou pela cabeça dele.
- Ouvi maravilhas sobre o país – comentou Stan, se lembrando dos comentários dos colegas de elenco que já visitaram o lugar.
- É realmente incrível – a garota abriu um sorriso enorme só de lembrar da cidade natal – Embora o estado que eu nasci e cresci seja conhecido como Rússia brasileira...
- Rússia brasileira? – aquela era nova. Já ouviu muita coisa sobre o Brasil, mas nunca nada relacionado ao outro país.
- Sim. – respondeu rindo, se lembrando de algumas histórias realmente interessantes que ocorreram no estado, mas se ateve ao básico – Pode-se dizer que o resto da população nacional nos ache exageradamente antipáticos com outras pessoas e extremamente carinhosos com capivaras.
Capivaras? O que aconteceu com as praias ensolaradas, as mulheres e o futebol? De que lugar do Brasil aquela mulher tinha saído?
- Vocês costumam ter capivaras como animais de estimação? – perguntou com o cenho franzido, causando uma gargalhada na garota.
- Quando você for lá visitar irá descobrir – respondeu com a voz embargada pela risada e piscou para ele.
O nervosismo inicial já não existia mais. Ele foi simpático – diferente de muitas pessoas que ela esbarrou nos últimos dias naquela cidade –, e de fato, era espetacularmente lindo, mas pessoas simpáticas sempre estão um degrauzinho acima na escadaria da vida. A companhia delas é reconfortante e não deixam espaço para nervosismo nenhum. Na verdade, ela estava se soltando um pouco demais e sua única preocupação era que ele a achasse maluca e saísse correndo e gritando “ELA É LOUCA! NÃO CHEGUEM PERTO DELA!”. Não seria a primeira vez.
- Você trabalha para uma agência de turismo ou a propaganda é gratuita? – perguntou sorrindo, afundando mais as mãos nos bolsos.
- Nossa promoção oferece até setenta por cento de desconto se souber barganhar bem com o gerente – disse, imitando a voz das propagandas de pacotes de viagem, fazendo o homem gargalhar dessa vez.
- Você tem futuro – brincou a fazendo sorrir – mas tem que fazer uma melhor escolha de palavras, “barganhar” faz parecer que estamos prestes a vender a alma.
- Mas não é isso que fazemos quando compramos um pacote de viagens com o cartão de crédito? – questionou cruzando os braços, tentando soar séria, mas o sorriso insistia em continuar em seus lábios, fazendo sua expressão ficar engraçada.
- Droga, eu tinha esperança de ir para o paraíso – murmurou abaixando a cabeça, como se estivesse realmente decepcionado. só sabia dar risada.
- Quem sabe na próxima encarnação, eu já desisti de ir pra lá nessa. – Sebastian a fitou mordendo a bochecha. Por que mesmo estavam tendo aquela conversa?
- Mackie gosta de repetir que desistir é para os fracos – lançou um olhar desafiador à garota – Tem certeza que já desistiu?
inclinou a cabeça levemente para a direita e fez um biquinho, parecendo refletir seriamente sobre o assunto, apertando mais os braços contra o peito.
- Quem chegar lá primeiro guarda um lugar para o outro, pode ser? – ofereceu depois de alguns segundos, estendendo a mão direita para fecharem o acordo.
Sebastian soltou a risada pelo nariz e apertou a mão da ruiva.
- Você é meio louca – comentou, voltando a colocar a mão no bolso.
- Obrigada, é um dom natural.
De repente ela arregalou os olhos e Stan sentiu um peso sobre os ombros, fazendo os joelhos vacilarem e tropeçar um passo para frente.
- Hey, garanhão – ouviu Chris dizer às suas costas, logo ficando ao lado do companheiro de cena – Estava te procurando, mas parece que você está meio ocupado agora – o loiro sussurrou a última parte não tão baixo assim, fazendo tanto o rosto de Sebastian quanto de criarem cor.
- Chris – pigarreou o moreno – essa é , ela estava no painel de autógrafos essa tarde. – contou apontado com o queixo a garota, que tentava fingir que não ficou abalada com a chegada do loiro no local, falhando quase que completamente. A sua dignidade não estava deixando os olhos continuarem arregalados e a boca ainda estava fechada, então seu orgulho não estava de todo desestabilizado.
- Ah eu lembro de você! – exclamou Evans – A Ruiva Stark! – desviou o olhar para Sebastian que a encava com um sorrisinho de canto. – ainda estou chateado... – reclamou cabisbaixo.
Deus é prova que estava se controlando como nunca para não tirar o celular do bolso e pedir uma foto. Mas ela sabia que Evans ficaria desconfortável com isso, então se conteve com a imagem mental mesmo.
- Meu Deus, vocês estão todo arrumados – comentou, só agora reparando nas roupas dos homens, que se vestiam incrivelmente iguais, com calça jeans de lavagem escura e camisas sociais azuis que só mudavam a tonalidade. A única diferença marcante eram os sapatos, que em Chris era um coturno cinza grafite e Stan estava com um sapato social preto com alguns detalhes azuis em veludo. Com certeza nem um ano de salário dela pagaria um par daqueles. – Pretendem cometer assassinato coletivo? – no momento que as palavras saíram de sua boca sentiu o rosto esquentar ainda mais.
Os dois soltaram uma risada tanto pelo comentário quanto pela situação da garota.
- Obrigado – soltou Stan.
-... Então, eu já vou indo. - ela falou meio sem graça, desviando o olhar de Chris para Sebastian com um sorriso contido no rosto corado.
- Ah... claro! – Ele falou meio sem graça, já que não sabia como agir naquele momento. A conversa deles estava tão espontânea e divertida, por que o loiro tinha que aparecer bem naquela hora? Mas ele entendia o lado da garota, ela estava agindo até que muito naturalmente e controlada para alguém que supostamente estava conhecendo dois ídolos. - Até mais então, brasileirinha – falou, sorrindo.
Evans sequer disfarçou a virada brusca de pescoço para encarar o moreno com a sobrancelha arqueada. O mesmo fingiu que não era com ele e continuou a olha-la
- Até mais? – perguntou sorrindo.
- Você também está hospedada aqui, não é? – a ruiva pendeu a cabeça um pouco para a esquerda e uma expressão divertida tomou conta de seu rosto.
- Então, até mais, romeno.
E com isso se virou e foi em direção ao elevador.
Alguns segundos após as portas se fecharem, Stan sentiu a mão de Chris em seu ombro. Olhou para ele, que ainda encarava as portas de metal.
- Brasileira ãn? Por acaso ela tem uma amiga?
O romeno olhou sorrindo para o amigo e lhe deu um soco leve no ombro.
- Você só se faz de santo né, Evans, porque nem cara tem – comentou rindo do outro, que passava a mão exageradamente no local do “soco”.
- Eu nunca falei que era santo, Stan. Os outros que tiram conclusões precipitadas sobre meus atos – explicou, virando-se de frente para o Sebastian.
- Você não vale nem um centavo – retrucou, fingindo decepção com as palavras proferidas pelo rapaz à sua frente.
- Não é isso que diz meu contrato da Marvel.
Antes que alguma resposta pudesse ser dada Scarlett, Emily, Cobie e o restante dos homens saíram do elevador conversando alto e logo os dois se juntaram a eles e saíram do hotel, entraram nos carros em duplas, e foram para mais uma cerimônia de divulgação

saiu do quarto e andou até o elevador, rindo das mensagens que recebia no grupo das colegas brasileiras. Ela contou sobre o esbarrão com Stan, a conversa e a aparição de Chris, o que fez as garotas surtarem e crucificarem-na pelo WhatsApp por ela não ter tirado nenhuma foto.
A ruiva entrou no elevador vazio e continuou a responder as mensagens, quando as portas se abriram deu um passo para fora e sentiu o corpo esbarrar com outro e mãos firmes a seguraram pela cintura, levantou a cabeça assustada, já com as desculpas na ponta da língua, dando de cara com Sebastian que tinha um sorriso de canto no rosto.
- Nós temos que parar nos esbarrar assim – comentou, soltando a cintura dela.
- Daqui a pouco estaremos com hematomas – apontou para a própria testa e a dele, onde mais cedo tinha sido o alvo da pancada.
- Você está – colocou levemente o polegar sobre a pequena marca bem avermelhada no topo da testa da mulher, que ficou uma pouco desconcertada pelo toque e se afastou um pouco, saindo completamente do elevador.
- Sério? – questionou, colocando a mão sobre o lugar que ele tinha tocado instantes antes – Você tem uma cabeça dura, hein – brincou.
Ele sorriu sem jeito abaixando a cabeça e colocou as mãos nos bolsos.
O barulho do elevador deixando o térreo os fez olhar para as portas de metal e Sebastian fez uma careta.
- Eventos de divulgação não têm festas estrondosas que acabam super tarde? – perguntou ao perceber a expressão do ator por ter perdido o elevador.
- Estrondosas nunca. Acabam tarde? Sempre – virou-se e fitou a garota – Mas o bife estava horrível e já respondi muitas perguntas sobre o filme hoje. Corro o risco de falar o que não devo e os Russo me mandam para a Sibéria caso eu faça isso.
soltou uma gargalhada e Stan a fitou de cenho franzido, sorrindo também.
- Desculpa – falou quando se controlou – É que Sibéria, Soldado Invernal... – entrelaçou os dedos das próprias mãos – Tá tudo interligado.
O rapaz a encarou e soltou a risada pelo nariz, tentando controlar a boca, mas não resistiu.
- E você, que faz aqui à essa hora? Já é quase uma hora da manhã.
semicerrou os olhos com o sorriso ainda no rosto. Sabe os conselhos das mães de “Não fale com estranhos” “Não dê confiança para desconhecidos”? Els sempre foram para o ralo, e não seria agora que ela iria pedir licença para o homem e voltar para o terceiro andar.
- Estou com fome – deu de ombros – e não quero abusar do serviço de quarto, não quero ter que dividir minha alma em quatro.
Sebastian deu risada, se lembrando da conversa que tiveram mais cedo e teve uma idéia.
- A gente deveria ir dar uma volta. – propôs.
- Deveria? - perguntou, cruzando os braços e arqueando as sobrancelhas.
- Sim – disse simplesmente e passou por ela, indo e direção da saída, parando alguns passos depois para olha-la – Vamos. Tem várias lanchonetes que ficam abertas até às cinco aqui por perto.
A brasileira pensou em todos os prós e contras de sair da segurança do hotel para ir a qualquer lugar com um cara que havia conhecido naquele dia à uma da manhã, mas depois de refletir por um momento chegou à conclusão que não poderia haver riscos já que a avenida do lado de fora do saguão da recepção era muito movimentada e a cidade estava cheia de turistas, então consequentemente cheia de policiais.
- Okay – disse por fim, se aproximando dele e saindo juntos do ar fresco do ar condicionado do hotel para o ar quente e abafado que pairava sobre San Diego naquela época do ano. – Mas eu vou querer ir a uma sorveteria. Estou morrendo de calor.
- Tudo bem, brasileirinha – respondeu Sebastian sorridente.

Capítulo 2


A sorveteria ficava há apenas duas quadras do hotel, mas como nenhum dos dois estava com pressa, demoraram cerca de vinte minutos para chegarem ao local, perdidos em uma conversa sobre tudo e nada ao mesmo tempo.
- Então quer dizer que o elenco todo da Marvel está naquele hotel e eu só esbarro com você? – brincou , se fingindo de indignada.
- Eu acho que você anda me seguindo lá dentro e estamos esbarrando propositalmente, tudo extremamente calculado por você – abriu a porta da sorveteria para ela entrar com um sorriso brincalhão nos lábios, entrando logo depois dela, e ambos seguiram direto pegar as travessinhas para montar os sorvetes.
- Pra quem não gosta de falar muito nas entrevistas, você está falando muita asneira, romeno – retrucou a garota se fazendo de ofendida, colocando uma bola de um sorvete bem amarelo, quase laranja, na travessinha do rapaz que arqueou a sobrancelha para ela – É de maracujá, um fruta típica do Brasil. É meu favorito, se não gostar coloca na minha tigela.
Ela se serviu de três bolas do sorvete de maracujá, cobriu com a calda quente de chocolate e, pra finalizar, adicionou somente a calda de cereja, enquanto ele pegou mais três bolas de blueberry e muitas cerejas e chantilly. Sentaram-se um de frente para o outro nas cadeiras altas, dividindo o pequeno espaço da mesa que ficava bem próxima a uma parede toda de vidro, os possibilitando de ver o movimento da avenida, que por mais que já fosse quase uma e meia da manhã, ainda estava consideravelmente movimentada.
- Vai, experimenta – pediu animada, ela mesmo já colocando uma colherada na boca.
Sebastian pegou uma quantia considerável com a colher e levou aos lábios. No primeiro momento, um sabor bem doce tomou conta de seu paladar, sendo levado rapidamente e um azedinho suave ficando no lugar. Ele sorriu para a garota ansiosa à sua frente, acenando positivamente e repousou a colher na tigela.
- É estranho, mas é bom! – exclamou, encarando a ruiva que sorriu e piscou, como quem diz “eu te avisei”. – Como é o nome mesmo? – perguntou, voltando a atenção para sua travessa.
- Maracujá – respondeu, colocando a mão sobre a boca e engoliu o sorvete com um pouco de dificuldade já que colocou muito na boca e o conteúdo desceu congelando toda sua estrutura, fazendo Stan rir dela, e ela, com muita maturidade, mostrar a língua para ele, ambos caindo na gargalhada. – Com certeza já tomou o suco, mas é minha obrigação para com o Planeta Terra fazer com que o máximo de pessoas possível se apaixone por esse sorvete.
- Nossa é bom demais – comentou, terminando de comer o que sobrou do sabor em sua tigela e olhando significativamente pro sorvete da garota.
- NEM VEM, STAN – falou alto, tirando a travessa da mesa e mantendo perto de si – Você tem um monte de sorvete ai. É pecado roubar sorvete de alguém que tudo o que você sabe sobre é o nome.
- Não por isso – soltou a colher dentro da tigela e estendeu a mão direita sobre a mesa, como se quisesse cumprimenta-la de novo. Desconfiada e ainda de olho no próprio sorvete ela pegou a mão do rapaz. – Sebastian Stan, 31 anos, ator, original da Romênia, mas também passo por americano com facilidade. - A garota começou a rir e puxou a mão levemente, mas ele a segurou e continuou balançando como se eles estivessem de fato se cumprimentando. – Agora é sua vez. Não é difícil.
Ela respirou fundo, tentando não rir. Mais cedo ele havia dito que ela é meio maluca mas ele não passava muito longe.
- , 25 anos, jornalista, brasileira e acho que não passo por nenhuma outra nacionalidade se for tentar enganar alguém.
- Jornalista, hum? - Stan soltou a mão da mulher com um olhar diferente de segundos atrás.
- Não se preocupe, minha área é política, não vou te embriagar de sorvete para extrair informação do filme ou segredos pessoais para alguma coluna de fofoca - brincou ao perceber o desconforto repentino do homem.
O ator deu uma fungada se voltando para seu sorvete, mas repousou o olhar na ruiva novamente, o ar brincalhão no rosto novamente.
- É possível se embriagar de sorvete?
Dessa vez quem soltou a risada pelo nariz foi .
Ela sabia o que o homem estava fazendo. Embora ela pudesse passar a madrugada toda sentada naquela banqueta meio desconfortável conversando sobre idiotices como normalmente fazia, até assustar o cara e ele dizer que iria ao banheiro só pra ela aproveitar para ir embora, mandando uma mensagem pra colega do trabalho com uma ameaça de morte lenta e dolorosa, naquele dia ela não via porque não deixar ir em frente. Até porque os caras que a abordavam geralmente não eram 30% da gostosura que aquele deus romeno era. Mas esses caras, em sua maioria, também não eram simpáticos como o ator, e isso fazia sua vontade de ficar ali naquela sorveteria até raiar o dia aumentar em números consideravelmente maiores.
- Só saberemos se tentar - e com isso colocou mais uma colherada na boca.
Sebastian sorriu e roubou uma colherada do sorvete dela.
- Não acredito! - olhou-o indignada
- O que? - fingiu estar confuso - Agora eu sei mais que seu nome...
- Sabe a esperança de ainda ir pro paraíso? Você acabou de perder essa oportunidade. – retrucou, tirando uma cereja do caminho e roubando um pouco do sorvete dele.
- Qual o seu problema com a cereja? - perguntou curioso, reparando que na tigela dela só tinha a calda mas nenhuma fruta.
- Com cereja nenhum, mas isso não é cereja - respondeu dando de ombros.
- Claro que é cereja, o que mais poderia ser?
- Chuchu.
- O que?
arregalou levemente os olhos e segurou a risada
- Desculpa, achei que você soubesse.
Stan já não a olhava mais, sua expressão de surpresa e tristeza estava voltada para sua travessa que estava cheia de cerejas.
- Me nego a aceitar esse tipo de coisa – se voltou para a garota.
- Você parece já ter acreditado – inclinou a cabeça pra esquerda, segurando o riso pela cara de desolação que o homem fazia.
- Acredito que Leonardo Di Caprio nunca ganhou Oscar de melhor ator e ainda me nego a aceitar – deu de ombros.
- Nossa, verdade! Por Blood Diamond ele super merecia – comentou revoltada.
- E por The Aviator!? A Academia não gosta dele, só pode – reclamou, largando a colher e se inclinando um pouco, encostando os cotovelos na mesa.
- Acho que Inception também merecia algum reconhecimento, aquele filme é demais e a atuação do Leo está... Espetacular – ela também se empolgou no assunto, deixando o sorvete de lado.
- Mas esse ano ele ganha pelo menos o Globo.
- Não tive tempo de assistir Django ainda, não fala muito – contou. Ela estava querendo assistir aquele filme desde o primeiro trailer, mas a correria do trabalho e pós-graduação não estavam colaborando.
- Nossa, você tem que assistir. Se achou ele bom em Blood Diamond, em Django você vai idolatrar cada cena dele.
- Não me deixa ansiosa. Já que não pude assistir na estreia, agora quero assistir com calma. – retrucou e o ator a encarou por alguns segundos com um sorrisinho brincando no canto dos lábios, sorriso esse que logo foi substituído por uma pequena carranca.
- Não adianta me enrolar, , que história é essa de chuchu?
se recostou no pequeno encosto da banqueta e suspirou, dramatizando o máximo possível.
- O chuchu é cortado em cubos e fervido em calda de cereja junto com algumas cerejas... Quando ele pega a cor, é feito alguns furinho para a calda entrar e, se ele mantiver a forma de cubo, são cortadas as pontinhas pra virar uma bolinha – quem visse as expressões deles de longe poderia jurar que estavam falando sobre um grave acidente de trânsito envolvendo algum familiar de um deles. – As bolinhas de chuchu são deixadas em conserva com a calda e se torna isso que você está comendo com tanto gosto.
Stan a encarava com cara de enterro e ela quase ficou com dó, mas se lembrou que estava conversando com um ator e que aquela cara de choro não era nada comparado ao que ele poderia fingir, e com essa linha de raciocínio começou ficar difícil não rir.
- De onde você tirou isso? – a desolação na voz dele era tamanha que parecia real.
- Trabalhei em uma sorveteria por uma época. – deu de ombros.
- Me recuso a acreditar – Sebastian cruzou os braços junto ao peito e se encostou na banqueta – Não é porque na sorveteria que você trabalhava isso é feito que significa que em todas as sorveterias do mundo isso seja feito.
Ele estava realmente revoltado porque já ouviu uma história sobre aquilo e simplesmente sempre odiou chuchu, mas se recusou a aceitar porque simplesmente sempre amou cereja.
- Acontece que eu fui a responsável pela fabricação da calda por um ano e meio e reconheço cerejas falsas há metros de distância – falou convencida. Sebastian continuou a encará-la quase emburrado, mas rindo por dentro, se perguntando quem se orgulha de reconhecer cerejas falsas há metros de distância. – Quer ver...
Ela puxou a tigela de sorvete dele para si e começou a revirar as cerejas, separando duas e devolvendo à tigela.
- Come essa aqui primeiro – apontou para uma das bolinhas vermelhas e logo em seguida para outra – e depois essa, e me diga a diferença. – O rapaz pegou a fruta com a colher e a levou a boca – Mas saboreia! Não mastiga e engole de uma vez – falou em um tom mais alto, fazendo Sebastian se sobressaltar e se engasgar um pouco com a calda.
- Prometo que saboreio se você não tentar me matar de novo – comentou, tomando sorvete para se estabilizar.
- Desculpe – sussurrou sem graça, segurando a risada.
O rapaz pegou a primeira cereja e mastigou. Normal. Uma cereja comum como qualquer outra. Tinha até alguns minúsculos carocinhos no meio, mas ele não se importou, lançando um sorriso vitorioso para a ruiva, que lhe lançou o mesmo sorriso e apontou para a outra com a cabeça, o desafiando. Assim, ele pegou a outra e também colocou na boca.
Se a intenção ali não fosse saborear a fruta, ele engoliria e passaria a vida crente que aquilo era de fato uma cereja, mas uns três segundos depois, o típico sabor aguado tomou o lugar da calda e a diferença era perceptível. Lentamente Stan levantou o olhar para a garota com a decepção estampada no rosto.
- Que tipo de pessoa sem coração engana os outros de uma maneira tão cruel?
baixou a cabeça e soltou um longo suspiro antes de voltar a olha-lo.
- Eu sinto muito. De verdade.
- Sabe a esperança de ir para o paraíso? Você acabou de perder essa oportunidade – repetiu as palavras da ruiva, invertendo as tigelas – Agora estou no meu direto de cidadão americano de usufruir desse sorvete de maracujá.
- Mas você é romeno! – exclamou, puxando a tigela de maracujá para si por uma extremidade enquanto ele puxava por outra.
- Dupla nacionalidade, tenho direitos americanos – esclareceu.
- Não venha usar a lei ao seu favor, não é assim que as coisas funcionam.
- Se eu não usar a lei ao meu favor, o que usarei então? – o riso presente atrapalhava um pouco na concentração de puxar o sorvete sem causar nenhum estrago à pequena mesa.
- Não sei, quem sabe sua ética e moral de cidadão e não usar as leis como pretexto para um assunto tão chulo quanto esse? – perguntou com obviedade, segurando a tigela como se sua vida dependesse daquilo.
Sebastian parou de puxar o sorve, mas continuou segurando e olhou para ela, não conseguindo segurar a gargalhada.
- Você engoliu um dicionário antes de virmos pra cá? – a ruiva o encarou sem entender – Quem usa essas palavras em uma disputa por sabor de sorvete?
A cabeça da garota pendeu pra esquerda, somente naquele momento percebendo a escolha de palavras.
- Você sabe que independentemente das palavras, eu não vou desistir dessa tigela de sorvete né? – seu tom era desafiador
- Isso é egoísmo. Te dou o meu – ofereceu
- Se eu quisesse sorvete de blueberry, eu teria comprado sorvete de blueberry, não acha? – questionou sarcástica.
- Acho que você não deve ter muitos amigos que apreciem esse seu senso de humor – respondeu risonho, recebendo a língua como resposta.
- Okay, eu deixo você ficar com ele – se rendeu, entregando o sorvete de maracujá para o homem – Mas só porque ele está derretendo.
Ele pegou a tigela todo feliz e passou a outra para a garota, que olhava atentamente para o lado de fora.
- Que houve? – perguntou, seguindo o olhar dela e avistando três mulheres do outro lado da rua os encarando com os cenhos franzidos e conversando entre si – Fui reconhecido – murmurou e acenou para as mulheres que sorriram e começaram a atravessar a rua.
voltou o olhar para Stan e percebeu que a coloração do rosto do rapaz estava mais avermelhada.
- Você também tem vergonha.
- Não é bem uma vergonha. Gosto disso, significa que estou fazendo bem meu trabalho. - deu de ombros - É só que é estranho você estar na sorveteria degustando seu delicioso sorvete de maracujá e reparar que tem três pessoas te encarando do outro lado da rua.
- Sorvete esse, roubado, né – argumentou e ele soltou uma risada pelo nariz, reparando que as mulheres já haviam entrado no recinto e caminhavam até a mesa deles.
Todas foram muito educadas e controladas, o que fez comentar isso com Sebastian assim que elas se afastaram, uns quinze minutos depois, as comparando com como seria se aquele acontecimento tivesse se passado no Brasil.
- Você é brasileira e não deu chilique nenhum – comentou desentendido.
- Querido eu sou ruiva natural, não sei sambar, não gosto de feijoada – enumerou nos dedos – entre outros porquês, faço parte de um seleto e atípico grupo de brasileiros.
- Ui, olha a diferentona – brincou, tomando o pouco do sorvete que não havia derretido ainda.
- Meu irmão costuma usar o termo antissocial – deu de ombros, também aproveitando o que era ingerível do sorvete – Mas não se iluda, só Deus sabe o quanto me segurei pra não pular no pescoço do Evans.
- Como assim? E eu? – perguntou risonho e ela sorriu também.
- Você já reparou naquele homem? Você é lindo, mas Chris Evans é Chris Evans – comentou e só então percebeu o que falou, arregalando os olhos e cobrindo a boca com a mão, o rosto esquentando rapidamente – Meu Deus, eu falei isso em voz alta?
Ele até tentou, mas não rir daquilo era praticamente impossível.
Se tivesse cumprido suas intenções iniciais com a garota a sua frente com certeza não estaria se divertindo tanto. Na verdade, não se lembrava qual a última vez que dera tanta risada na companhia de uma mulher sem o auxílio do álcool.
Aparentemente, a atendente do local também pensava como era possível duas pessoas darem tantas risadas à uma e meia da manhã de um dia agitado como aquela sexta tinha sido sem álcool no organismo. Ao menos eles não pareciam ter álcool no organismo.
- Seu filtro não funciona muito bem né?
- Ele veio com muito defeito – se ajeitou na banqueta, tirando o celular do bolso da calça, que já a estava a incomodando, e colocou sobre a mesa – Em momentos como esse me pergunto, eu realmente falei isso? – estava rindo, mas era de nervoso.
- Falou – afirmou, ainda tentando se controlar da risada anterior – mas eu sou mais eu – brincou, apoiando os braços na mesa e cruzando os dedos das mãos uns nos outros.
- Adoro gente com amor próprio, me identifico – empurrou a tigela do sorvete de blueberry, que ela julgava não ter mais jeito, e imitou os movimentos do ator, tentando deixar o nervosismo da fala passada pra lá – Mas falando nisso, posso tirar uma dúvida muito crucial? – questionou séria.
- Claro – respondeu, franzindo o cenho levemente.
- Para poder assinar contrato com a Marvel tem que ser extremamente lindo e ou charmoso?
Stan bufou uma risada, mas Maschell continuou o olhando séria, ou ao menos tentando.
- Eu me encaixo em qual desses dois requisitos? – o sorriso maroto brincando nos lábios.
- Fica ai a questão no ar né… - arqueou um sobrancelha, desafiadora, com um sorriso de canto.
- Bom – se endireitou ainda deixando os braços sobre a mesa – Só hoje eu tomei café da manhã com Chris Hemsworh, encontrei Chris Pratt no elevador e passei o dia com Chris Evans. Então tenho a teoria que a prioridade vai para quem se chama Chris, quando não encontram alguém com esse nome tem que ser contratado pelo talento mesmo... – deu de ombros. O sorriso de se alargou e ela mordeu o lábio inferior com força. – Juro que se você disser que encontrei meu requisito você nunca saberá a sensação de ter uma foto com o queridinho da América.
Dessa vez quem não aguentou segurar o riso foi ela e a atendente só revirou os olhos de seu balcão.
- Então se eu for legal ganho foto com ele?
- Depende de você – pegou a colher e começou a brincar com o que restou do que um dia foi um sorvete de maracujá, percebendo que o celular sobre a mesa vibrou e isso o fez lembrar de uma coisa – Agora que reparei, você não tirou foto de nada hoje.
A moça pendeu a cabeça para a esquerda e franziu o cenho.
- Como assim?
Talvez só naquele momento ele tenha percebido que durante o painel naquela tarde prestou mais atenção na ruiva do que achara, e isso o deixava desconfortável porque aquilo não era de seu gênero, na verdade era mais a cara do Mackie ficar reparando em pessoas aleatórias durante as entrevistas de divulgação.
Sebastian nunca agradeceu tanto por ter uma colher e uma tigela de sorvete derretido por perto para poder distraí-lo enquanto ele achava um jeito de colocar em palavras a explicação de “fiquei te encarando por um bom tempo durante as perguntas”.
- O pessoal na fila, de tarde, estavam a maioria com o celular na mão, e você não. E no painel, a grande maioria estava gravando e você só olhava.
- Acho que não sou eu quem está vigiando alguém aqui, não é mesmo? – perguntou com um sorriso contido, vendo um tom rosado tomar conta das orelhas e das bochechas do rapaz. Como alguém que cora tão facilmente pode ser ator?
- E com Evans também – comentou, pigarreando levemente. Transar é bem mais fácil que conversar.
- Sou fã do Evans há algum tempo – pegou o celular e começou passar de uma mão para outra, sem prestar muita atenção no que fazia.
- Já tem fotos? – perguntou Stan sem entender a explicação da garota
- Não... – soltou com um risinho – Até pensei em pedir, mas ele foi tão simpático, e eu sabia que se pedisse, a postura dele mudaria.
Assim ele entendeu os motivos da brasileira, e até achou legal. Durante as divulgações de Capitão América o Primeiro Vingador, Sebastian acompanhou alguns painéis e entrevistas e presenciou alguns momentos do companheiro de cena que não desejava para ninguém. Mas essas ocasiões eram muito raras.
- Você sabe que não é sempre que as crises de ansiedade dele atacam, né?
- O importante é o momento, Stan - sorriu quase meigamente, suspirando. – E eu sabendo que o vi é o suficiente.
- Profundo.
Ela soltou uma risada pelo nariz e passou a olhar o aparelho que passava em suas mãos naquela brincadeira frenética, enquanto Sebastian continuou a olha-la.
Ela tinha razão, os melhores momentos da vida são aqueles em que esquecemos da tecnologia e nos concentramos no que está acontecendo ali, ao nosso redor. Fotos são ótimas para ajudar a nos lembrarmos de um tempo que já passou, mas as melhores lembranças são aquelas que nos vem à cabeça antes de dormir, que nos fazem sorrir sozinho. Os melhores momentos são aqueles que ficam registrados na memória, não importa quanto tempo passe.
- Há quanto tempo vive aqui? – ele perguntou depois de um tempo depois, tirando aqueles pensamentos da cabeça.
- Um ano. Recebi a proposta de transferência e aproveitei a oportunidade pra começar a pós por aqui.
- San Diego tem saída para jornalismo político? – questionou meio surpreso e ela sorriu da confusão do ator.
- Não, mas Nova York sim, e é lá que eu moro – explicou, largando o celular e se inclinando pra frente, apoiando o cotovelo na mesa e o queixo sobre a mão fechada em punho.
- Eu moro lá também, mas quase não fico na cidade.
- Isso não é cansativo?
- Às vezes sim, mas na maior parte do tempo eu adoro – o brilho nos olhos dele ao falar sobre sua carreira e profissão era comparável ao brilho nos olhos dela naquela tarde, dentro do hall H – Em qual jornal trabalha?
- É uma emissora brasileira, faço parte da equipe de correspondência. Você já deve ter passado pelo prédio, é um edifício enorme na 32 Avenue.
- Então você dá notícias na TV no horário nobre? - perguntou brincalhão.
- Não... – dessa vez o risinho foi nervoso – Eu e câmeras... – arregalou os olhos e negou veementemente com a cabeça. – A nossa relação não é boa, principalmente quando o caso é internacional – ele soltou uma risada e ela o acompanhou – Fico na redação. Procuro informações e formulo as notícias.
O ator assentiu com os lábios curvados de forma impressionada. Era uma grande responsabilidade.
Mas uma coisa não lhe saia de cabeça.
- Desculpa perguntar, mas por que política?
O sorriso se alargou no rosto da ruiva e ela empertigou-se, pronta pra dar uma grande e provavelmente cansativa explicação, então resumiu, como costumava fazer sempre que alguém fazia essa pergunta, com poucas palavras.
- O segundo ano do ensino médio pode ser muito persuasivo – disse como se aquilo explicasse tudo, o que na maioria das vezes de fato acontecia, mas ele continuou a encarando, como se esperasse que a garota terminasse de contar o motivo da carreira, o que não aconteceu.
- Eu sou ator, você acha mesmo que prestava atenção em alguma coisa no colegial? – perguntou seriamente e só soube rir.
- Platão, Sócrates, Maquiavel, Rousseau... – enumerou alguns dos principais nomes da filosofia política, e ele continuou com a mesma cara de tacho – Esses nomes te indicam algo?
- Indicam que só conheço os dois primeiros – respondeu com um sorriso amarelo. As aulas de filosofia era uma das poucas que ele não odiava, mas não odiar não significa gostar, então até rolava um pequeno orgulho o fato de saber diferenciar Sócrates de Platão.
Esse pequeno devaneio do rapaz demorou mais do que ele imaginava e estava se divertindo com a expressão reflexiva dele.
- No geral, eles falam sobre política – explicou-se segurando a risada, mas a cara de descontentamento dele demorou um pouco para passar.
Se ela disse que foi persuadida e depois citou aqueles nomes, a obviedade reinava no assunto abordado por eles. As vezes Sebastian se perguntava como terminou a faculdade.
- Deve ser horrível entrar em um debate com você.
- Nunca tente – fez uma expressão de intelectual, causando risada em ambos.
O celular dela vibrou novamente em cima da mesa e ele olhou para o aparelho que começou a piscar a tela intensamente a cada vez que uma mensagem chegava.
- O namorado de alguém está desesperado – murmurou, prestando atenção na cara dela ao ler as mensagens.
- Tenho dó de quem namora essas aqui – falou para si mesma, mas ele ouviu e fez uma cara de interrogação. – São algumas colegas brasileiras que sabem que estou em San Diego e estão surtando por eu não estar mandando foto de nenhum dos atores que encontrei hoje – explicou, bloqueando a tela do celular e colocando-o sobre a mesa novamente, voltando a atenção ao homem.
- Parece que elas não compartilham de sua filosofia de que viver o momento é o suficiente.
- Falei isso e quase fui morta via WhatsApp – comentou, fingindo uma expressão de desespero que logo foi substituída por um sorriso maldoso – Eu tive uma ideia, mas preciso do seu consentimento e da sua ajuda.
- Meu consentimento? – ele estava com um pouco de medo da cara que a ruiva fazia.
- Provavelmente vamos causar um infarto coletivo em cerca de umas quarenta pessoas.
- Eu deveria ter medo? – perguntou desconfiado.
- Não.
Ela o encarava ansiosa, e Sebastian sabia que seja lá o que ela quisesse fazer iria parar em um grupo de whatsapp, ou seja, internet. Mas também viu a forma que a garota havia respeitado o espaço do Evans e sabia que com ele não seria diferente.
- Okay – levantou os braços na altura do rosto em forma de rendição, aceitando entrar na brincadeira – O que eu tenho que fazer?
abriu um sorriso largo e quase sapeca, como uma criança que iria aprontar uma grande arte e pegou o celular, desbloqueando e entrando no aplicativo de conversa.
- Sentar naquela mesa ali – apontou para uma mesa que ficava há pouca distância atrás de onde ela se encontrava – Eu vou tirar uma selfie e você vai aparecer na foto fazendo uma careta bem engraçada.
- E você vai fingir que não me viu na foto e mandar para as outras – assentiu em compreensão, realmente gostando da ideia, mas não poderia perder a oportunidade de brincar com ela – Se quisesse uma foto comigo era só pedir, sabe?
A ruiva só revirou os olhos, mais uma enxurrada de reclamações chegando ao mesmo tempo.
- Stan, por favor, senta lá! – implorou, amansando a voz e fazendo um biquinho, as mãos juntas próxima ao queixo, quase angelicalmente pidonha.
Sebastian deu um sorriso sarcástico e se direcionou à cadeira indicada.
- Te pago um sorvete de maracujá depois – falou toda sorridente, mandando uma mensagem para o grupo
Você: Gente, eu to em uma sorveteria, querem foto da atendente do lugar!?
Beatriz : Você é uma vacilona, , não quero mais papo com você.
Ana : Uma foto não mata ninguém e você ai fazendo drama.
Ana : *VOCÊ AINDA VAI PEDIR ALGUMA COISA PRA NÓS SUA RUIM*

- Vai demorar ai, brasileirinha? – Stan perguntou, olhando para a mulher que encarava o celular com uma falsa expressão de ofendida.
- Me chamaram de ruim! – dramatizou, colocando a mão no peito.
- O que você vai fazer não é exatamente bonzinho – argumentou e ela mostrou o dedo do meio antes de entrar na câmera no grupo mesmo e posicionar para tirar a foto.
Como não rolou contagem regressiva nem aviso, a foto quase parecia realmente espontânea, com segurando a tigela quase vazia de sorvete derretido e mais ao fundo um Sebastian reclinado para trás com as mãos na beirada da mesa como se estivesse se segurando ali, os olhos arregalados e a boca aberta como se estivesse surpreso por invadir a foto.
- Vai merecer tradução das reações por essa cara – falou rindo, virando o celular para que ele pudesse ver a foto também.
- Achei que isso já estava incluso no pacote inicial – retrucou, voltando a se sentar em frente à ruiva, que pensava em uma espécie de legenda para mandar com a foto.
Você: Sorveteria ta mais vazia que o coração trevoso de vocês...
Esperou um pouco e mandou outra logo em seguida.
Você: EITA!!!
Puxou a cadeira para perto do ator, por mais que ele não entendesse o que estava escrito seria legal ver ele acompanhando o surto alheio, que não demorou para começar.
- Okay, isso vai ser difícil de acompanhar – a garota comentou, rindo do número de mensagens que chegava ao mesmo tempo, todas em caixa alta e com muitos pontos de exclamação ao final da frase.
- Pelo menos parece que ninguém enfartou, né? – brincou o romeno ao ver o tanto de mensagem – o que estão dizendo?
- Bom... Algumas estão afirmando que morreram sim – falou, rindo, e olhou para o homem de sobrancelhas arqueadas ao seu lado. – Já viu meu dom de vendedora, agora verá meu dom de tradutora – empertigou-se e pigarreou – “Meu Deus! Sebastian Stan está ai! , como você não viu Sebastian Stan ai!?” – ela lia como se estivesse interpretando em um teatro barato de ensino fundamental, o que tornava a cena mais interessante, considerando a pessoa que estava ao seu lado – “ sumiu, chamem a ambulância, liguem pra polícia, a doida sequestrou o menino Stan!”
- Menino? – interrompeu, rindo.
- Nós chamamos até o Downey Jr. de menino as vezes, é um costume – explicou, dando de ombros, sem olha-lo, rindo das mensagens. – Olha a Ana: “Gente eu acho que a morreu” – leu, rindo, e sendo acompanhada, rindo ainda mais com a próxima – “Morreu nada, deve tá tentando agarrar o coitado!”.
- Sim, estou sendo abusado e torturado com histórias traumatizantes relacionadas a chuchu - dramatizou olhando as mensagens e se interessou por uma específica – O que tem o Evans?
- A Bruna é louca, vamos pra outr...
- – cantarolou o nome da ruiva, como quem não quer nada. Ela bufou e revirou os olhos. Aquele grupo só servia para fazê-la passar vergonha, mas nunca achou que chegaria a esse ponto.
- “A desgraçada estava escondendo o ouro esse tempo todo! Vocês acham que eles não estão juntos desde aquela hora do Evans?”
- O que vocês pensam de mim? – perguntou, meio constrangido com o comentário.
- Sabemos que você não é santo, meu caro – respondeu, vendo ele desviar o olhar do rosto dela pelo canto de olho.
- O que ela diz no resto da mensagem? – ele cortou o assunto antes que ela pudesse falar qualquer coisa sobre a incrível capacidade do homem de ficar sem graça.
- “, volta aqui, não morre não, você só morre depois de uma foto decente, se não juro que saio daqui e vou pro seu velório em NY só pra me certificar que você morreu de verdade!! – riu e bloqueou a tela do celular, descansando-o na mesa – Isso vai ser interessante quando eu voltar pro hotel.
- Elas são bem... Carinhosas, né? – comentou, procurando palavras para descrever o tipo de relação entre elas.
- Ameaças são a maior demonstração de carinho que alguém pode fazer – Stan soltou uma risada pelo nariz enquanto negava com a cabeça. Talvez isso explicasse porque uma mulher bonita como aquela estava sozinha.
- Tá calor aqui, preciso de algo para me refrescar.
- “Se quisesse uma foto era só pedir” – imitou miseravelmente a voz dele, causando mais uma crise de risada – Isso está me parecendo abuso – reclamou.
- Promessa é dívida, – falou em um tom sério, olhando no fundo dos olhos dela, que comprimia os lábios tentando não rir, mas quando abriu a boca para falar as palavras soaram sérias.
- Sorte sua que eu sou uma pessoa legal – retrucou e pegou as tigelas da mesa e se dirigiu ao balcão onde a atendente revoltada e carrancuda se encontrava.
Durante todo o tempo que ficou perto das “vitrines” a mulher de uniforme a encarava como se esperasse que a ruiva explodisse a qualquer momento. O que não era muito distante da realidade já que ela queria muito fechar o estabelecimento e os dois únicos clientes sorridentes não queriam ir embora, piorando o humor já ruim.
pegou o sorvete com receio do olhar que recebia da mulher uniformizada e voltou praticamente correndo para a mesa onde Sebastian mexia concentrado no celular.
- Acho que não somos muito bem-vindos aqui – comentou, roubando uma colherada do sorvete antes de repousar a taça na frente do homem que prontamente desviou a atenção do celular para a massa de fruta tropical.
- Imagina – desdenhou dando de ombros – Quase três da manhã, só nós aqui... Ela deve nos amar.
- Aposto que o substituto dela está super atrasado e que era pra ela ter saído daqui há horas – disse a ruiva, olhando para a mulher atrás do balcão que fingia ter interesse nas próprias unhas.
- Ou ela odeia muito o trabalho dela, porque tem muita gente como nós, que ficam rindo igual retardados em uma sorveteria de madrugada – o ator também passou a olhar a funcionária, deixando o sorvete de lado.
- Ela não gosta de ver as pessoas felizes? – virou-se contrariada para o romeno, logo voltando o olhar na direção do balcão – Essa não é a política ideal de um funcionário de sorveteria.
- Com certeza terminou a relacionamento há pouco tempo e achou que trabalhar ajudaria a esquecer.
A mulher podia ouvir a conversa entre os dois, que por sinal, nem estavam tentando ser discretos, e já estava começando a odiá-los um pouco mais que o aconselhável, considerando que não os conhecia.
- Ou ela é na verdade um serial killer e tem o corpo de todos os ex no porão de casa, e sempre fica aqui porque o cheiro lá não é bom.
Tanto o alvo da conversa quanto Sebastian encararam .
- Acho que você está assistindo muito filme – Stan falou sério. O jogo do Sherlock só descobria serial killers no universo do Sherlock.
- Acho que ela ouviu, e agora nossos corpos vão se decompor junto com os dos ex – sussurrou, olhando para a mulher, que os fuzilava com os olhos, pensando que se aquele olhar não os fizesse sair daquele lugar, ela seria obrigada a pegar a vassoura os expulsar da maneira tradicional.
Sebastian, percebendo a raiva na expressão da mulher, se encolheu um pouco e voltou-se para a ruiva.
- Não que eu esteja levando essa sua conversa a sério, e por mais que o sorvete esteja uma delícia – pelo canto dos olhos viu a funcionária se levantando lentamente, sem desgrudar o olhar dos dois – Você não acha que deveríamos dar uma volta? Ver as vitrines e tal?
- Vamos – aceitou, guardando o celular no bolso, seguindo o homem para fora do estabelecimento com uma velocidade exagerada e risadas altas após alguns passos.
Eles passaram as horas seguintes contando histórias engraçadas, parecidas com a da atendente, histórias que já viveram e contando coisas que gostariam de fazer se tivessem a oportunidade.
Não viram o tempo passar, os assuntos eram tão bobos e ao mesmo tempo tão profundos, que os faziam esquecer que em algum momento deveriam ter ido dormir, ou que ele eram apenas dois desconhecidos, e que aquela madrugada duraria apenas algumas horas.
- Meu Deus, o dia já está clareando! – percebeu ao reparar no céu que já presenciava o nascer do sol, em um raro momento de silêncio entre os dois.
- Caramba é verdade! – Os dois pararam na calçada e ficaram assistindo o espetáculo da natureza. O amarelo tomando conta aos poucos do azul escuro, transformando-o em azul claro. Alguns minutos depois do sol nascer por completo, Stan olhou ao redor com a testa franzida – Onde estamos?
- Humm... – imitou os movimentos do ator e constatou que não fazia ideia de por quanto tempo eles haviam andado – Na verdade eu não sei – então avistou ao longe um amontoado de pessoas andando na mesma direção, com credenciais iguais à que ela usou para entrar no evento que a levou àquela cidade – mas se seguirmos aquele grupo, voltamos para a Con.
Sebastian olhou na mesma direção que ela um pouco surpreso. O sol acabara de nascer, não deveria ser mais que seis da manhã e aquele monte de gente já estava indo para a Comic Con. Santa disposição.
Durante o caminho, os dois fizeram apostas idiotas que envolviam com o perdedor pedindo para tirar foto com algum desconhecido do grupo de pessoas que eles seguiam, o que causou um pequeno alvoroço quando ele perdeu e teve que tirar foto com duas adolescentes que surtaram e seus pais não entenderam nada.
Depois que avistaram o Centro de Convenções mudaram o rumo da caminhada para o hotel, não demorando muito a chegar.
- Impossível! – falou pela quinta vez, quando ele insistiu em dizer que nunca assistiu nem leu nada de Harry Potter – Pelo menos um trecho de algum deles você já viu.
- Não – repetiu e riu da cara que ela fez, parando de andar quando chegaram no meio do salão da recepção do hotel – Mas eu gosto de Friends.
- Mas os pontos ganhados com isso perdem a força quando você diz que nunca assistiu Harry Potter! – retrucou revoltada, o encarando.
- Eu só não entendo esse fascínio todo pela história de um menino – deu de ombros, guardando as mãos nos bolsos da calça.
Os olhos arregalados e a boca escancarada não faziam jus ao tamanho da ofensa que aquele comentário dele foi.
- Olha, você é um cara legal, bonito, mas infelizmente nossa amizade termina aqui – falou a brasileira, aproximando, colocando a mão no ombro do homem para se apoiar, depositou um beijo na bochecha dele e se afastou.
Ele ficou um pouco perdido no que estava acontecendo, só acordando quando percebeu que ela estava quase chegando perto do elevador.
De todos os jeitos que poderia ter imaginado aquela noite com aquela ruiva, nada nem beirava à noite que realmente passara. Ela era diferente, ela sabia porque ele se aproximou dela e ainda assim se mostrou mais interessada em conversar e conhecê-lo.
Ela se mostrou uma espécie de amiga.
- Hey, brasileirinha – a chamou antes que pudesse controlar as cordas vocais – Não está se esquecendo de nada? – A primeira reação que ela teve foi apalpar os próprios bolsos, à procura do celular. Aquele já era o terceiro naquele ano, e não estava a fim de ter que comprar outro por memória fraca de novo. Mas a risada do homem mostrava que não era aquilo. – Comprar meu pacote de viagem para o Brasil como se você não me passou o contato da agência? – Okay, ele reconhecia que aquilo foi horrível, mas nada passou por sua cabeça naquele momento. Ela só sorriu, voltou para perto dele e estendeu a mão direita que recebeu um celular com prontidão, rapidamente ela digitou o próprio número ali aproveitou para tirar uma foto, fazendo uma careta, para deixar como ícone do contato. Sabia que aquele número logo seria esquecido, e provavelmente logo apagado também, mas não se importava. O que importava era o momento, certo? Devolveu o celular para ele, e ficaram se olhando – Até mais, brasileirinha – falou sorrindo e ela sorriu de volta, pendendo a cabeça para a esquerda. Qual a probabilidade dos dois se verem novamente?
- Até mais, romeno.
virou e voltou para perto do elevador sob o olhar atento do ator. Quando ia apertar o botão, as portas de metal se abriram revelando Chris Evans e Anthony Mackie, o segundo estranhando quando o loiro abriu um sorriso largo para a ruiva que entrava no elevador enquanto eles saiam. Antes das portas se fecharem a ruiva acenou para alguém atrás de Mackie que se virou e encontrou Stan com as mesmas roupas da noite passada.
- NÃO ACREDITO! SEU ROMENO SORTUDO SAFADO, FILHO DE UMA MÃE!
O romeno viu o moreno e o outro vindo entusiasmados, parecendo dois adolescentes, na direção dele, e soltou um suspiro misturado com risada. Aquele dia seria longo.

Capítulo 3


Sebastian acordou com o despertador tocando. 8:00 horas da manhã. Se levantou e foi acordar a garota, eles tinham um compromisso muito importante naquela tarde e ainda deveriam terminar a conversa que iniciaram no dia anterior.
- Oi, minha princesa – falou, se deitando de frente para ela que tinha os olhos fixados em um ponto da parede. – Dormiu bem? – a garota negou e ele acariciou sua bochecha – Por que não foi se deitar comigo? – ela deu de ombros e ele a puxou para perto, fazendo-a repousar a cabeça em seu peitoral – Quer que eu continue?
- Por favor.
Stan a abraçou, suspirando
- Tudo bem.

Outubro de 2013

Faziam três meses que a Comic Con tinha acontecido. Três meses que Sebastian e haviam se conhecido. Três meses que uma amizade muito forte nasceu.
Quando ela passou o número de telefone para ele, a única certeza que tinha era que pelo menos teria o número de um ator lindo e famoso em sua agenda de contatos. Tudo que ela menos esperava era que, dois dias depois, ele a mandaria uma mensagem perguntando se ela realmente teria que dividir a alma em quatro para poder arcar com todas as despesas da viagem. Depois daquele pergunta eles passaram a conversar todos os dias com exceções muito raras, como quando as festas de divulgação tinham um buffet muito bom, ou quando ela era arrastada para a festa de aniversário para algum colega da redação ou tinha que ir atrás de matérias que não eram possíveis de serem concluídas pelo telefone.
A press tour de Capitão América: Soldado Invernal acabou fazia quase um mês, mas Stan quis passar alguns dias na casa da mãe, que não via desde o começo das filmagens do filme, por ter se envolvido com outros trabalhos nesse meio tempo, mas agora estava de volta a Nova York e só passou em seu apartamento para tomar um banho e deixar as malas, indo diretamente para o prédio que recebeu o endereço há algumas semanas, no meio de uma brincadeira em uma vídeo chamada, brincadeira essa que envolvia ele fazendo uma surpresa para ela, mas como era uma surpresa e só passou o endereço porque ele prometeu enviar uma pizza no meio do expediente o sorriso não saia do rosto do rapaz. O ator olhou o relógio no pulso e já marcava dez para as 18:00. No dia anterior ela prometeu que naquela sexta só trabalharia até aquele horário, então ele tinha que se apressar.
Exatos dez minutos depois, Sebastian estava na frente do prédio. Pegou o celular e fez uma vídeo chamada para , que atendeu no segundo toque.
- Oi coiso.
- Oi coisa, que cara de desânimo é essa? – perguntou ao perceber o semblante cansado da garota.
- Seis da tarde de uma sexta feira – explicou – Experimenta passar seis horas seguidas sentada na frente de um computador. – reclamou, pegando sua caderneta de anotações o gravador e mais algumas coisas e jogando de qualquer jeito dentro da bolsa.
- Dramaaa – Stan cantarolou e mostrou a língua.
- Sebastian? – perguntou uma voz feminina e arrumou a câmera em um ângulo que focasse nela e na loira ao seu lado.
- Hey Ash. Tudo bem? – cumprimentou-a, Ashley deu sorriso e acenou, saindo do campo de visão do ator.
- Ué, não vai descer comigo? – A ruiva perguntou, percebendo que a outra não tinha arrumado a mesa e estava seguindo o caminho do corredor de escritórios ao invés do elevador.
- Fui convocada pra falar com o Tobias – falou, fazendo uma careta e também.
- Boa sorte – a loira riu nervosa e seguiu para a porta de divisão para o corredor – Até segunda – se despediu sem ter certeza se a colega a ouviu.
- Tobias? – Stan perguntou, mais para puxar assunto do que por real curiosidade.
- Chefe do meu chefe – agradeceu aos céus pelo elevador estar descendo e logo chegar ao andar dela, agradecendo novamente por ele estar vazio. Voltando a prestar atenção na tela do celular soltou um grito ao ver um táxi amarelo passando atrás do ator – Sebastian!
- O que? – perguntou assustado.
- Você está em Nova York? – gritou empolgada e meio revoltada.
- Ãn... – ele olhou para trás e viu mais dois táxis seguindo o mesmo caminho que o que vira. Ele realmente não lembrou do trânsito e só focou na faixada do prédio onde ela trabalhava. – Surpresa!? – falou, tentando manter o disfarce, mas saiu mais como uma pergunta do que qualquer outra coisa.
- Você não disse que só voltaria semana que vem? Quando você chegou? Não deveria estar em casa descansando? O que tá fazendo na rua já? – ela continuaria com o tiroteio de perguntas se ele não a interrompesse.
- Calma mulher, respira! – pediu, rindo – Eu recebi uma ligação, e como daqui uns dias terei que viajar de novo, pensei em dar uma passada aqui em casa, te deslumbrar com minha presença – O sorriso de já não cabia mais no rosto dela e isso o fez sorrir também – Cheguei há umas duas horas, estou aqui porque preciso pegar uma encomenda.
- Não é pra isso que serve o serviço de entrega?
- Essa é meio diferente, tinha que buscar pessoalmente – quando ele terminou de falar, as portas do elevador se abriram e saiu, se direcionando para a saída do prédio. Mas quando ela viu um homem segurando o celular na altura do rosto, ela travou no meio do saguão.
Sebastian desviou os olhos do celular e olhou para a mulher parada do outro lado das portas de vidro, levantou a mão direita e acenou para a ruiva, que riu incrédula, e saiu correndo logo em seguida.
Assim que alcançou Sebastian, não pensou duas vezes antes de se jogar no colo do homem, que deu uns três passos cambaleantes para trás antes de conseguir se equilibrar, com as pernas da mulher ainda envolvendo sua cintura e os braços firmes ao redor do pescoço, enquanto ele a segurava firme pela cintura.
- Baaaast! – deu um pequeno gritinho, apertando ainda mais o abraço.
- Você vai me enforcar! – o ator fingiu uma voz asfixiada, rindo junto com a ruiva quando ela afrouxou o abraço, se afastando o suficiente somente para poder olha-lo.
- E eu esperando uma pizza! – disse, rindo quando ele respondeu um “sou melhor que pizza” – Não acredito que você tá aqui! É natural eu dizer que estava com saudades? Por que eu ‘tava!
- Por que você acha que estou aqui? – perguntou com obviedade, ouvindo a gargalhada gostosa da garota.
- Porque não aguentava mais me ver só por Skype e precisava sentir meu toque e meu cheiro. – O rapaz revirou os olhos.
- Vamos fingir que é por isso pra você ficar feliz – falou com desdém.
- Começa com as gracinhas, agora você está a menos de trinta centímetros de distância de mim, posso te agredir à vontade – ameaçou, fazendo-o rir e aperta-la mais contra si.
olhou para o carro estacionado ao meio fio, reconhecendo a jaqueta jeans no banco do motorista, já que a janela estava aberta, e franziu o cenho.
- Bast, como você estacionou aqui?
Ele olhou para o carro e em seguida para ela.
- Estava vaga, eu só estacionei – deu de ombros – Por quê?
Ela respirou fundo e deu três tapinhas fracos no ombro esquerdo do amigo, sinalizando que queria descer do colo, o que ele atendeu prontamente.
- Aqui é a entrada da garagem! Há quanto tempo está aqui? Quer levar uma multa?
Stan arregalou os olhos, só então percebendo a placa que indicava a garagem, pegando a mão da garota e os guiando para o carro, entrando rapidamente, saindo dali logo em seguida.
Foram necessários alguns minutos para demostrar que não tinha controle algum sobre sua risada, deixando Stan emburrado, o que a fazia rir ainda mais.
- Ri, pode rir. – resmungou – Saio do conforto da casa da minha mãe, passo em casa só pra deixar as malas e venho direto pra cá, para te ver, e você fica rindo de um pequeno deslize. – enumerou, só para o descontrole maior da ruiva – Juro que se você não parar de rir, eu te jogo desse carro.
- Bast, como você tirou a carteira? – perguntou engasgada.
- Calada, eu sou um ótimo motorista – apontou o dedo para ela sem tirar os olhos da rua.
- Claro, tão bom que estacionou em lugar proibido – satirizou.
- Pelo menos eu tenho carteira, não é? – desafiou, fazendo-a mostrar a língua e ele sorriu vitorioso.
– Eu dirijo muito bem okay, só prefiro usar o metrô – Stan só resmungou um “aham”, e ela revirou os olhos – Bast, eu moro em um apartamento e trabalho em uma redação, se eu dirigir um carro não verei pessoas nunca, isso me fará entrar em colapso, por isso prefiro o metrô. Assim eu vejo gente e mantenho minha sanidade intacta.
- Primeiro: – Stan aproveitou para olhar para a garota, já que o sinal ficou vermelho – você não gosta de pessoas. Deixou isso muito claro nos últimos meses, essa não cola. Segundo: na redação tem pessoas, você vê gente o tempo todo lá. Terceiro: não venha com essa de sanidade mental. Você sabe que não possui isso. – afirmou, só tirando os olhos dela porque o sinal abriu.
- Talvez eu prefira não dirigir porque na estação eu faça amizades – apontou, mas viu na expressão do homem que ele já tinha descartado aquela ideia – Por que não? – perguntou meio revoltada
- Quantos amigos você tem aqui em Nova York? – questionou desinteressado, já sabendo que os nomes que sairiam da boca da mulher.
- Você, a Ashley... – Ela parou para pensar, pendendo a cabeça para o lado, fazendo um biquinho com os lábios, e quando ela ia abrir a boca para falar Sebastian a interrompeu.
- Viu, nada de amizades – apontou.
- Ei ia falar do Sr. Hadash, mas você me atrapalhou – reclamou.
- Quem é Sr. Hadash? – ele perguntou com a testa franzida.
- O senhor da carrocinha de cachorro quen... – Ela arregalou os olhos e o olhou esperançosa – Já que não vai rolar a pizza podemos comer cachorro quente? Por favor, diz que sim! – pediu com as mãos juntas, na frente da boca, infantilmente.
- Se for daquele lugar que você me fala, sim.
Depois que começaram a conversar, não tinha hora para troca de mensagens, telefonemas ou vídeo chamadas, mas o horário que eles mais conversavam era depois que saia do serviço, e pelo menos uma vez por semana ela parava em uma carrocinha de cachorro quente próxima a entrada da estação do metrô para comprar um lanche e conversar um pouco com o vendedor. já fazia isso desde que chegara em Nova York, mas desde que começou a conversar com o romeno, Stan começou a ouvir maravilhas sobre o tal cachorro quente, e prometeu que quando ele voltasse para a cidade, eles iriam lá.
- Okay, mas você vai ter que dar a volta e... – olhou ao redor, na rua, e se virou para Sebastian – Bast, para onde estamos indo?
Só naquele momento ele se tocou que não estava indo para nenhum lugar especifico, na verdade ele nem sabia para onde estava indo. Sabia que ainda estava na 32 Avenue, mas bem para frente da prédio onde trabalhava, talvez, até, para frente da rua que deveria seguir para voltar para casa. Ele só entrou no carro para se afastar da entrada da garagem e esqueceu de traçar uma rota depois.
- Pra falar a verdade, eu não sei – assumiu, pegando o primeiro contorno que avistou – mas já estávamos na metade do caminho, você que vai pagar a gasolina.
- Ahan, ta bom, claro – murmurou, ligando o rádio e deixando na primeira estação de radio, já que estava tocando Daylight e ela estava em um relacionamento sério com aquela música.
Depois de umas quatro músicas e Sebastian contar algumas coisas que ainda não tinha contado sobre as viagens com o elenco da Marvel e os dias na casa da mãe dele, apontou uma simples barraquinha móvel onde um senhor de uns sessenta anos e pele acobreada atendia alguns clientes.
- Presta atenção onde vai estacionar agora, o meu dinheiro da passagem vou gastar no cachorro, não to afim de ter que voltar a pé para casa porque seu carro foi rebocado – brincou em um tom sério, o que fez Sebastian encara-la.
- Virei chofer agora?
Ela sorriu meigamente e apertou a bochecha do rapaz, que deu um tapinha na mão dela.
O rapaz encontrou uma vaga sem muita dificuldade e com muita agilidade estacionou entre dois carros que estavam parados de um jeito que qualquer um xingaria muito antes de pensar em estacionar naquele espaço. ficou o tempo todo em silêncio, e quando Stan desligou o carro, ela o encarou, o sorrisinho vitorioso brincando no canto dos lábios dele o impediam de negar o ego inflado momentâneo.
- Pode assumir – ele provocou – você não tira a carteira por causa da baliza.
- Eu sou ótima na baliza – falou, saindo do carro, sendo seguida pelo homem que ria sem acreditar em nenhuma palavra que saia da boca dela – Não quer acreditar, tudo bem, mas saiba que quando tirei a carteira no Brasil, não reprovei no exame da baliza nenhuma vez.
- Nos outros reprovou quantas? – perguntou, rindo da cara de ofendida que ela fez.
- Vá se foder, Bast. – retrucou mostrando o dedo para ele – Eu dirijo muito bem, só que prefiro andar de metrô – revirou os olhos quando Sebastian resmungou um “obviamente, claro” – É sério. Imagina, eu passo o dia todo na redação, volto pra casa, um apartamento no sétimo andar. Uma hora ou outra eu tenho que ver mais pessoas além da Gertrudes.
- Gertrudes?
- Uma vizinha minha, mas isso não importa.
- Ta, mas eu chamo isso de desculpa – falou convencido, dando um pequeno peteleco na ponta do nariz dela.
- Okay – deu por vencida. Tentar convence-lo dos benefícios do metrô não a levaria a lugar nenhum – Da próxima vez eu estaciono.
- Nem se estivéssemos transando – respondeu prontamente, sentindo o rosto esquentar de imediato ao percebeu o que havia dito. deu um pulinho, de maneira que parou na frente do rapaz, as mãos indo em direção das bochechas dele.
- É tão bonitinho quando você fica vermelhinho assim, dá vontade de apertar suas bochechas – ele deu um tapinha leve nas mãos dela, saindo daquela direção.
- Sai daqui, não quero mais conversa com você, sua hipócrita.
- Eu? Hipócrita? Por quê? – questionou confusa, entrando na pequena fila da barraquinha.
- Quando nos conhecemos você ficou da cor do seu cabelo, não venha falar de mim.
o olhou inconformada, como pode alguém ser tão leigo assim?
- Bast, você está na minha lista de atores favoritos – ele abriu um sorriso de canto e um olhar travesso, mas quando abriu a boca para falar, o cortou – Nem começa a se achar. É normal eu ter ficado nervosa. Sem contar que você é ator, esse trabalho não exige falta de vergonha na cara?
- Você é chata assim em tempo integral, ou guarda tudo pra mim mesmo? – perguntou sério, fazendo o dono da carrocinha olhar estranho para ele, mas sorrir ao ouvir a resposta da garota.
- Nos últimos três meses você conheceu uns setenta por cento da minha vida, tire suas próprias conclusões.
- Será que ainda dá tempo de fugir? – o semblante assustado e o sorriso tentando escapar pelo conto dos lábios não combinavam muito, e o senhor assistia tudo com mais interesse que uma pessoa normal assistiria.
- O mesmo de sempre Srta. ? – perguntou, chamando a atenção dos dois mais novos.
- Sim, mas hoje são dois – respondeu simpática – Sr. Hadash, esse é Sebastian Stan, meu amigo, Bast, esse é o Sr. Hadash, meu avô postiço aqui de Nova York.
- É bom saber que você arrumou algum amigo da sua idade por aqui minha filha, não é bom alguém como você ficar andando por essas ruas sozinha.
- Mas eu tenho a Ashley também – o fez lembrar da amiga loira, rindo quando o senhor fez uma careta.
- Aquela Ashley não serve – desdenhou, entregando um cachorro quente já pronto para que passou para Stan, aguardando o segundo para si. – Ela não tem o coração puro como o de . Você precisa de mais pessoas de coração puro ao seu redor.
- Pra isso eu tenho o senhor – disse carinhosamente – iluminar o meu caminho e me trazer sempre o melhor.
- Se metade dos meus clientes fossem como você, eu não sentira falta da Índia nunca – comentou o senhor, entregando o outro cachorro quente. Sebastian até tentou pagar pelos dois, mas a ruiva não deixou ele tirar mais de dois dólares da carteira. Sr. Hadash assistia a cena com interesse e ria a cada ameaça que um soltava para o outro.
No fim, ganhou a discussão e pagou pelo próprio lanche.
- Sabe Sr. Hadash, o Bast é ator – contou toda orgulhosa – Mas ele tem vergonha de tudo – continuou num tom brincalhão, Sebastian já ficou com receio do que viria a seguir – Imagina quando tiver que fazer uma cena de sexo? Ele perde o papel mas não perde a vergonha.
- Sr. Hadash, foi um prazer conhece-lo, - Sebastian falou apressado, passando o cachorro quente para a mão esquerda para cumprimentar o indiano – mas agora eu tenho que me afastar desse tipo de pessoa.
O velho riu e encarou o amigo de cima a baixo.
- Não ia embora? ‘Ta fazendo o que aqui, me encarando ainda?
- O rapaz tem um futuro brilhante pela frente , você ficaria impressionada – o velho comentou os encarando, fazendo Stan franzir o cenho.
- Ele faz previsões do futuro – explicou – Mas essa já está muito óbvia – brincou, se voltando para o idoso.
- Ainda acha que errei na minha última previsão, menina ? – perguntou, olhando sugestivamente para Stan que ficou mais perdido ainda.
- Acho que ele não é o que o senhor estava querendo dizer – respondeu, olhando diretamente para o amigo que estava entendendo exatamente nada do que ao dois estavam falando – Agora eu preciso ir. Até terça Sr. Hadash.
- Até, minha querida. E repense seus achismos. A felicidade está nas pequenas coisas do dia-a-dia.
Sebastian também se despediu do vendedor, e juntos voltaram caminhando lentamente para o carro enquanto comiam o cachorro quente, que realmente era ótimo.
- Do que vocês estavam falando? – ele perguntou depois de um tempo em silêncio, a curiosidade ganhando sem esforço.
- Há alguns meses ele disse que eu logo encontraria a pessoa que me faria feliz até o meu último dia de vida, três dias depois nos conhecemos – contou desinteressada, focando sua atenção na comida e no movimento da rua.
Stan também não levou aquilo muito a sério, e nem chegou a se interessar na linha de acertos das adivinhações do velho indiano, mas tinha que assumir que aquilo foi profundo e a coincidência foi grande.
- Ele acha mesmo que eu sou azarado que vai ter que te aguentar por uns cinquenta anos? – Perguntou brincalhão, jogando a embalagem do lanche em uma lixeira próxima, já tirando a chave do carro do bolso.
- Não, ele acha que eu vou ter paciência de aguentar alguém no meu pé, me dizendo o que fazer ou não. Onde ir ou não. Que horas ir ou voltar, sendo que nem meu pai nunca me controlou tanto assim – ela respondeu, entrando no carro assim que ele destravou as portas.
- Você tem sérios problemas com relacionamentos – falou meio surpreso, a encarando – Me diga, cara , quem te traumatizou tanto assim?
- Ninguém – deu de ombros – Só tive um namorado, na faculdade, mas nenhum de nós levávamos aquilo a sério. Terminamos – fez aspas no ar – uns quatro meses antes da formatura. Sou madrinha de casamento dele.
- Você o que? – perguntou, rindo alto. Aquela era uma das situações mais estranhas que ele já ouviu na vida.
- Fui eu que os apresentei, nada mais justo que eu ser madrinha – explicou, dando de ombros, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Com a mesma facilidade que entrou naquela vaga, ele saiu, e depois de xingar a mulher por um bom tempo por ela estar comendo, ainda, o cachorro quente dentro do carro, eles decidiram por ir direto para a casa de Sebastian, já que ela queria ouvir todos os detalhes das viagens de divulgação.


- Gostar de trabalhar é uma coisa, ser viciado já é problema.
já estava há uns quarenta minutos deitada no sofá da sala falando com Sebastian pelo telefone. Ela o tentava convencer em ficar mais alguns dias em Nova York, já que não fazia nem duas semanas que ele havia voltado e já estava tentando escapar de novo, como ela dizia.
- Não sou viciado – disse revirando os olhos, cansado de ter que falar a mesma coisa pela terceira vez – Já vou ter que estar lá na semana que vem mesmo.
- O que significa quatro dias de folga ainda. Curta a vida, Sebastian! – exclamou revoltada com a teimosia do homem.
- Mas talvez…
- Vá para a luz, Elizabeth! – Gritou, imitando o Mark Ruffalo, fazendo Stan rir.
- Sou muito jovem para ir para a luz.
- Okay, entendi. Tudo bem – desistiu, se sentando no sofá fazendo uma cara pidonha, mesmo ele não vendo ajudaria na interpretação – Mas como você não comprou as passagens ainda, posso te pedir uma coisa?
- Manda – suspirou já imaginando a cara de cachorro sem dono que ela estava fazendo.
- No sábado vai fazer um ano que estou aqui, e minha mãe fez uma reserva no Minetta Tavern, porque ela acha que eu gostaria de comemorar esse fato.
- Espera, - ele a interrompeu – você não disse que já estava aqui há um ano?
- Eu arredondei… - desdenhou – Nove meses, um ano… Qual a diferença?
- Pergunte isso para uma grávida e seja linchada.
- Bast, por favor! – implorou com voz de choro – Minha única outra solução é a Ashley e ela com certeza não vai trocar uma noite com o noivo dela para jantar comigo.
- Jantar grátis, hum? – perguntou deixando a mulher apreensiva – Posso pensar no assunto.
- É um dos restaurantes mais caros de Nova York, Sebastian, é só aceitar e pronto – resmungou contrariada.
- Você pensou na Ashley primeiro, então como estou sendo usado de estepe, estou no meu direito de fazer drama.
- Então isso é um sim?
- Vou ter que pagar algo? – perguntou enrolando, se tinha uma coisa que ele gostava era de ver revoltada.
- Talvez o cachê para o meu empresário, por ter a honra de dividir uma refeição comigo. – respondeu convencida.
- Ego! Não me sufoque! Eu imploro! – dramatizou com uma voz abafada, fazendo a garota rir.
- A dona vai desembolsar a grana. É só ir e encher a pança.
- Que palavreado culto, Srta. – ele comentou, rindo das expressões usadas pela ruiva – Sábado nove horas eu passo ai, pode ser?
- Sabia que te atropelar tantas vezes dentro do hotel me renderia algo de útil.

O som da campainha fez sair correndo, toda destrambelhada pelo apartamento, enquanto tentava colocar um brinco.
- Achei que tinha sofrido um acidente no meio do caminho – reclamou quando abriu a porta para que o homem entrasse.
- Enrolei pra chegar aqui e você já estar pronta – explicou caminhando até o sofá e se jogando nele, todo esparramado – Nunca fui bom em matemática e essa coisa de calcular tempo.
- Isso é em física – ela esclareceu, se dirigindo ao quarto para pegar o outro brinco e o par de sapatos.
- Isso significa que eu não me importo – retrucou, tirando a carteira e o celular do bolso – Enquanto você calça os sapatos vou no banheiro, okay.
- Anda logo. – gritou ainda do quarto. Calçou os saltos pretos e voltou para a sala, alisando a saia do vestido para não deixá-lo marcado.
Stan tinha acabado de abrir o zíper da calça quando ouviu seu celular tocar, revirando os olhos pelo timing imperfeito.
- Bast! Seu celular! – gritou. Como se ele não pudesse ouvir um toque daquele, tinha que mudar aquilo que a ruiva fez no aparelho urgentemente.
- Atende pra mim, eu já vou – pediu já fechando o zíper novamente.
Quando pegou o celular na mão e viu o nome Chris Evans na tela, sentiu o estômago ir para os pés. Respirou fundo e atendeu, colocando o aparelho no ouvido.
- Boo Bear, você está com minha camisa azul por ai? Não acho ela em nenhum lugar, no último painel eu emprestei ela pra você, não foi? – aquela voz grossa e rouca do outro lado da linha nem deixou a mulher pronunciar nenhuma palavra, falando rápido.
Tudo bem. Era Chris Evans do outro lado da linha. Esclarecendo a brincadeira do fandom, de sim, eles dividiam roupa as vezes. Mas tinha uma coisa muito mais importante para ser focada no momento.
- Boo Bear, o Evans está perguntando se você está com a camisa dele – falou alto, com a voz meio esganiçada, fazendo o homem sair correndo do lugar que estava no corredor e chegar à ela rapidamente, arrancando o celular da mão da mulher que pressionava a outra com força na boca, para não deixar a risada sair tão alta.
- Hey cara! – Sebastian falou com uma voz amigável, apontando o dedo para e lançando um olhar mortal para ela, fazendo a vontade da mulher de rir aumentar ainda mais.
- Ih cara, liguei na hora errada? – Evans perguntou meio sem graça, mas rindo pela forma como a voz feminina chamou o romeno pelo apelido também.
- Nah, é só a ... Lembra dela? – perguntou, se afastando da louca ao seu lado.
- A ruiva de San Diego? Claro que sim – o loiro respondeu malicioso, fazendo Stan revirar os olhos – Mas hein, minha camisa azul, não ficou com você?
- Chris, você deve ter umas setecentas camisas azul – exasperou tentando lembrar quando que viu o colega sem ser de azul.
- Eu sei – suspirou, sabendo que aquilo era verdade – mas aquela fica tão bem em mim.
- Bom, eu a considerei presente de fim de divulgação – Sebastian se virou para olhar a mulher que o encarava com um sorriso enorme no rosto ainda vermelho pela gargalhada anterior.
- Ladrão – acusou o outro, rindo em seguida – Não te empresto mais nada, também. Agora vai lá com a , porque ela é gostosa demais pra ser deixada esperando – essa última parte o loiro falou mais alto e ouviu. Ela se jogou no sofá, rindo, e abafando o grito com uma das almofadas.
- Okay – Stan falou encarando o ser que costumava chamar de amiga, mas mais parecia uma paciente que fugiu de um manicômio – boa sorte em escolher a camisa ai. Até mais.
Foi o tempo dele desligar o celular, para levantar e começar a pular e dar gritinhos ao redor dele.
- Eu já posso morrer! CHRIS EVANS ME CHAMOU DE GOSTOSA!
- Se você não parar de gritar eu mesmo me encarrego de te matar – falou sério – te jogo pela janela.
- Pode jogar, Chris Evans me chamou de gostosa! – parou na frente do homem, ainda pulando, e ele se perguntava como aquilo era possível com um salto daquela altura nos pés.
Sebastian deu de ombros e se abaixou o suficiente pra poder envolver os joelhos dela e a jogar sobre o ombro, caminhando até o sofá, pegando tanto a carteira dele quanto a da mulher e seguindo para porta.
- Bast! Era brincadeira, eu sou jovem demais pra morrer! Não me joga, não! – ela gritava e ria nas costas no homem, fazendo um pequeno escândalo no corredor vazio, fazendo o ator rir junto. – Por favor, Bast, meu vestido vai ficar todo amassado! Me coloca no chão, pelo amor de Deus!
Quando Stan ia apertar o botão para chamar o elevador, as portas de metal do mesmo se abriram, revelando uma elegante senhora de uns oitenta anos, carrancuda, com um pequeno chihuahua dentro de uma espaçosa bolsa.
O rapaz rapidamente colocou o a ruiva no chão, a mesma prendendo as bochechas nos dentes quando viu quem estava saindo do elevador.
- Boa noite, Senhora Gertrudes – cumprimentou educadamente. A senhora só encolheu o rosto em uma careta e saiu do elevador, fazendo questão de não encostar em nenhum dos dois no meio da ação.
- Mas que pouca vergonha. Esse é um edifício familiar, façam essas coisas dentro do apartamento, seus pervertidos – falou seriamente, olhando para o casal de amigos como se eles fossem algum tipo de doença altamente contagiosa em forma humana – E por favor, menina, se controle, comecei ouvir seus gritos do quinto andar! – se virou e, toda pomposa, caminhou pelo corredor até as portas do elevador se fecharem e os olhares dos dois se encontrarem.
começou a rir assim que viu que o amigo estava completamente vermelho e de olhos arregalados.
- O que foi isso!?!? – perguntou, rindo da risada da mulher, mas com o rosto ainda corado.
- Minha fã número um. Minha querida vizinha Senhora Gertrudes.
- Por que ela te ama tanto assim? – perguntou curioso, se encostando na lateral do espaço de metal.
parou de rir e franziu o cenho, e fez o típico biquinho que fazia quando parava para pensar em alguma coisa.
- Na verdade, eu não sei – falou sincera – ela me adora assim desde que cheguei aqui.
- Você é apaixonante mesmo – comentou rindo e ela o acompanhou.
- É só mais um dos meus dons naturais – respondeu, jogando uma mecha de cabelo para trás.
- Fiquei caidinho – brincou, envolvendo os ombros da brasileira e saindo do elevador.
- Opa, essa noite promete – arranhou a nuca do homem, causando arrepios nele.
- Claro, Gertrudes que se cuide – murmurou sem pensar muito, ficando extremamente sem graça quando percebeu que falou aquilo em voz alta.
- Há! – pulou na frente dele apontando o dedo no peito do rapaz – Tá pegando o espírito da coisa! – abriu a porta do carro e entrou.
Sebastian parou por um instante, olhando-a pela janela.
- Aonde fui amarrar meu burrinho... – murmurou para si mesmo antes de dar a volta e assumir o banco do motorista.

- Nunca perguntei, seus pais trabalham com o que? – Sebastian perguntou interessado, olhando a decoração do restaurante e algumas pessoas conhecidas que estavam ali. Realmente não era pouca coisa, fazer reservas naquele lugar não era nem um pouco fácil.
O Minetta Tevern não era nenhum cinco estrelas, na verdade ficava em uma rua afastada, com bares ao redor, até meio escondido. Talvez esse fato e a comida de qualidade que tenha chamado a atenção de várias celebridades e famosos, que adoraram o local. Mas isso logo se tornou público e a clientela se tornou muito seleta, os preços foram aos céus e era necessário alguns meses ou muita influência para conseguir uma mesa ali.
- Minha mãe era arquiteta paisagista e meu pai arquiteto urbano – contou, se sentando à mesa, rindo da expressão surpresa de Stan – Mas agora eles estão aposentados. Só fazem algum rabisco quando o Breno pede ajuda nos projetos principais.
- Você foi a única que não seguiu o trabalho da família – comentou brincalhão – Como saiu uma jornalista do meio de um monte de arquitetos?
- Eu me divirto com as letras, deixo as contas e toda a confusão matemática para eles. Meu pai costuma dizer que sou a ovelha negra da família – sorriu ao se lembrar das brincadeiras que o mais velho sempre fazia pela carreira dela.
- Dois arquitetos – Sebastian puxou assunto quando viu que ela não falaria mais nada e ficaria ali sorrindo, encarando a mesa – Uma dupla e tanto, hein.
Ele gostava de vê-la falar sobre si mesma e sobre a família dela. As poucas vezes que eles abordaram o assunto família em suas diversas conversas, foram o suficiente para ele notar o que ela realmente valorizava.
- Eles se conheceram na faculdade. Meu objetivo de relacionamento sabe. Eles brigam, como qualquer outro casal que esteja junto por mais de vinte anos. Mas em nenhum momento um para de cuidar do outro. Às vezes é até engraçado, um não está falando com o outro e saem perguntando pra mim ou pro Breno se o outro comeu, ou se agasalhou antes de sair, se tomou as vitaminas – ambos riram da cena mental dos dois brigados e se cuidando – O Brê diz que ele e a Gabi já são assim agora, então imagina como será quando eles tiverem a idade dos dois.
- Você ainda não me contou essa história da Gabriela e do Breno – falou Sebastian, se lembrando de uma conversa antiga.
- Nossa é verdade! – um garçom se aproximou com os cardápios e copos de água, rapidamente os pratos e bebidas foram escolhidos e o garçom de afastou – a coisa até parece novela – Ele se recostou de forma mais confortável na cadeira e bebericou um pouco da água, fazendo cara de tédio pela enrolação dela – Eles se conheceram no colégio, o Brê tinha dezesseis e a Gabi quinze. Ela era completamente apaixonada por ele, mas naquela época o Breno era o galinha número um do colégio, ficava com todas, e a coitada da Gabi era mais chifruda que uma manada de alces.
- Você ama sua cunhada – Stan interrompeu-a, rindo junto com ela.
- Eu gosto muito dela, mas ela era trouxa demais no começo – se justificou.
- Okay, quando o cupido flechou ele então?
- Eles começaram a ficar no começo do ano, o Brê ficava com ela e mais umas sete. O que eu não entendo, ele era todo desajeitado naquele tempo. Quem é bonito com dezesseis? – perguntou mais para si mesma, para incrementar a história, mas Stan não entendeu bem e resolveu interromper novamente.
- Eu era – falou convencido enquanto o encarava com cara de paisagem.
- Você finge que é verdade e eu finjo que acredito, pode ser?
- Miss simpatia – murmurou, bebendo mais água e pedindo que ela continuasse.
- Okay, dois meses depois a Gabi apareceu grávida na porta de casa, falando que foi expulsa de casa e que não tinha para onde ir. Meus pais surtaram mais que o Brê, mas não tinha o que ser feito, a não ser o exame de DNA, que foi feito assim que o Gabriel nasceu. Mas nesse meio tempo minha mãe a acolheu lá em casa e a tratava como uma filha. O Brê continuou com a vidinha de galinha até uns oito meses de gestação – parou de falar, parecia que tinha voltado no tempo contando aquela história. Ela só tinha quatorze anos na época mas lembrava tudo o que a cunhada sofreu com seu irmão, e vê-los naquela noite abraçados, sorrindo e chorando, a fez ver que uma coisinha pequena pode mudar tudo – O Breno chegou em casa uma noite e viu a Gabi deitada no sofá, ele estava tentando fugir dela o máximo possível, mas isso é meio difícil quando se mora na mesma casa que a pessoa. Ele não assumia pra si mesmo, mas sempre gostou um pouco dela, e naquela noite ele sentou no chão perto do sofá e começou a conversar com a Gabi como se ela estivesse acordada. Não foi a conversa mais inteligente do mundo, mas ela estava dormindo, então não vou julgar o monólogo. Mas quando ele colocou a mão na barriga dela, o bebê se mexeu. Acho que foi só naquele momento que ele percebeu o que realmente estava acontecendo. Foi só ali que ele percebeu que seria pai, e que a mãe da criança era linda e o amava. Pra que fugir disso?
- A Gabi aceitou essa mudança de comportamento numa boa? – Sebastian perguntou interessado. já havia dito que a história do irmão era quase fictícia, mas aquilo tudo nem passara por sua mente.
No meio da história o garçom tinha voltado com os pratos, e ambos já se deliciavam com seus pedidos.
- No começo ela ficou com um pé atrás, mas quando o Biel nasceu o Breno que dava banho, colocava para dormir, até contava historinha – contou rindo – Virou o verdadeiro pai do ano. Nisso a Gabi deu uma segunda chance pra ele e essa brincadeira já tem onze anos.
- Eles parecem o casal exemplo. Se você não me contasse isso eu passaria a vida achando que eles sempre viveram um conto de fadas – Stan realmente estava impressionado com aquela história. Há alguns dias ele estava na casa de e conversou por um bom tempo com o casal por Skype. Quem via de fora nunca nem sonharia com tudo aquilo.
- Mas agora eles se respeitam acima de tudo. O começo pode não ter sido um conto de fadas, mas agora eles realmente se amam.
- Com exemplos assim e você ainda tem medo de entrar em um relacionamento?
- Não tenho medo de relacionamentos, só acho que devem ser construídos com a pessoa certa – esclareceu bebendo um pouco de vinho – Você, mais que ninguém, sabe que exemplos não nos afetam tanto como é dito por ai.
Sebastian engoliu seco. É óbvio que ele sabia do que ela estava falando, mas isso não tornava o assunto menos complicado, menos dolorido.
Ele pigarreou e levantou a taça, propondo um brinde.
- À nossa crise de Steve Rogers?
abriu um sorriso, descrente da proposta.
- Á nossa crise de Steve Rogers – brindou.
- Hum... – Ele engoliu o vinho e repousou a taça sobre a mesa – Se nada der certo, a gente casa.
Ela estendeu a mão por cima da mesa e ele a apertou.
- Acordo aceito.

Continua...



Nota da autora: Sem nota.




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