Slingshot

Última atualização: 20/02/2018

Capítulo 1


Já eram quase duas da madrugada quando desci a avenida principal. Olhava para todos os lados, torcendo para que não houvesse ninguém que pudesse testemunhar minha passagem por ali. Apertei as alças da mochila firme em meus ombros e tentei deixar minimamente audível o som da minha respiração ofegante devido ao ritmo que eu mantinha. A adrenalina presente no meu corpo era suficiente para que eu não sentisse frio, apesar de estar apenas com uma t-shirt de manga curta perante uma temperatura que não ultrapassava os 10 graus.
Andei pelas sombras e virava pelas vielas escuras numa tentativa de me esquivar dos carros que subiam em alta velocidade pela rua. Meu foco em chegar logo na rodoviária era grande o suficiente para que eu não sentisse minhas pernas queimando enquanto forçava meus pés contra o calcário gélido das calçadas.
Desviei-me de todas as lembranças que tivera daquela última hora e pisquei rapidamente, como se isso me fizesse esquecer tudo o que aconteceu. A única coisa que importava era como eu sairia vivo dali. Com certeza já havia pessoas atrás de mim, e eu teria que fugir o mais rápido possível, antes que todos se dessem conta do ocorrido. Eu estava prestes a ser a pessoa mais procurada da minha cidade. Ao menos, eram essas as proporções que eu achei que o caso tomaria.

João Pessoa, 9h15 AM.
Pisquei firmemente os olhos e passei as mãos pelo rosto, procurando meu celular por meus bolsos. Logo o avistei jogado no velho piso de metal do ônibus de viagem e me estiquei para que pudesse pegá-lo. Não havia ninguém por ali, todos haviam saído para comer na breve parada que faríamos pela estrada. Olhei minha localização e percebi que estava bem perto do meu destino. Não demoraria mais de duas horas para que pudesse alcançá-lo.
Abri a mochila e meu estômago revirou. Fiquei enjoado e com nojo de mim mesmo quando vi o reflexo do metal que havia ali dentro. Aquilo pagaria todas as minhas contas pelas próximas décadas, mas não compraria minha vida de volta. Eu tinha acabado de me tornar o que mais temia: uma pessoa igual ao meu pai. E o pior é que eu tinha total consciência do que tinha feito. Era demais para mim.
Meus demônios internos gritavam como se tivessem sido alimentados e nunca tivessem estado tão fortes. Meus batimentos cardíacos estavam totalmente descompassados e eu sentia um calor enorme e insuportável, como se estivesse queimando. Não aguentava mais estar ali. Não aguentava mais conviver comigo mesmo sabendo que cedi à minha maior tentação. Não aguentava mais arcar com as consequências do que tinha feito, mesmo que elas mal tivessem começado. Fechei os olhos e apertei a mochila contra meu peito. Querendo ou não, era a única coisa que me sobrava.
...
Natal, 10h50 AM.
Olhei pela janela enquanto o ônibus parava em frente a um posto de gasolina e arrumei minhas coisas em minhas costas. Natal foi minha única opção de destino, já que eu tive apenas alguns minutos para comprar uma passagem e me dirigir para a rodoviária. Em condições normais, eu não teria vindo para um lugar tão perto, ainda mais se preciso me esconder. Vou ficar só de passagem por aqui; sem reservas em hotéis e sem compras com cartões de crédito. Eu precisava fazer documentos falsos o mais rápido possível se quisesse continuar.
Saí andando pela rua, sem rumo a princípio. Eu estava suado, e o odor que eu exalava não era lá um dos melhores. Precisava trocar de roupa com urgência, mas primeiramente eu precisaria comprar. Como eu compraria roupa se a única coisa que eu tinha é um punhado de correntes e alguns cartões que eu não podia usar. Minha única salvação seria encontrar uma joalheria por aqui. Continuei andando, procurando por algum shopping ou qualquer outro estabelecimento que eu pudesse vender isso e conseguir algum dinheiro em troca. Andei por uns 20 minutos, até que uma placa me indicou um centro comercial a alguns metros dali. Fui o mais rápido que consegui. Segundo piso.
Subi as escadas, segurando-me aos corrimãos para compensar a exaustão em minhas pernas. Entrei na loja e alguns olhares se viraram contra mim. Maioria deles se perguntava o que alguém vestido como eu estaria fazendo em um lugar onde o mínimo grão de areia custaria minha renda anual. Cheguei junto ao balcão e esperei que alguém viesse em minha direção. Uma mulher veio até mim com um sorriso amargo na cara, como se estivesse tentando disfarçar uma angústia enorme. Apenas não sabia se isso se devia ao fato de eu estar ali, ou a alguma dor interna pela qual a mesma esteja passando.
– Vocês compram ouro aqui, certo?
– Sim. – ela disse, colocando os dois braços sobre a vitrine de vidro com algumas pulseiras.
Coloquei a mochila em cima do balcão e retirei algumas correntes masculinas. Não queria que ninguém desconfiasse de nada.
Ela as colocou em cima da balança e suas sobrancelhas ficaram arqueadas por alguns milésimos de segundo, enquanto a mesma observava cada detalhe com uma lupa. Torceu o canto da boca e olhou nos meus olhos, como se procurasse algo errado em mim no meu rosto, e não seria nada difícil de encontrar. Eu estava usando calças largas e uma blusa amarrotada, uma touca e um tênis velho. Meu rosto tinha algumas poucas tatuagens pequenas, tal como meu corpo, e eu não andava como um grã-fino, digamos.
– Creio que não possamos cobrir o valor destas peças. – ela tirou os óculos que se encontravam no seu rosto e os fechou, colocando-os em cima do balcão de vidro.
– Cara, eu só preciso de alguma grana. – forcei as mãos contra o balcão, tentando disfarçar toda a ansiedade e medo que se encontravam dentro de mim naquele instante.
– Você pode optar pelo parcelamento. – eu assenti com a cabeça. – Mas precisaremos do recibo das joias, primeiramente. – ela me olhou de relance.
– Herança de família. – engoli seco e ela esboçou um sorriso de canto, com ar de desaprovação.
– Algum comprovante?
– Um minuto. – virei-me e coloquei a mochila no chão, revirando seu interior à procura de algo que pudesse comprovar que eu era proprietário daquilo. Um documento, algo assim. Nada.
– Precisa de algo? – ela perguntou, olhando por cima da tela do computador.
– Não. – molhei a parte de baixo do lábio e a olhei nos olhos. – Mas eu tenho uma proposta melhor.
– Diga.
– Eu te ofereço o material pelo preço que você puder cobrir. – sussurrei, inclinando-me em direção a ela, que olhou para os dois lados e começou a digitar.
– Só me passa seus documentos. – sorri de lado, pegando uma carteira que estava na mochila antes e tirando dela uma identidade.
– Aqui está, senhorita. – pisquei para ela, que deu um sorriso tímido.
...
Natal, 9h50 AM.
Encarei o teto do hotel em que estava e dei um suspiro longo. Empurrei a perna da garota que estava do meu lado e me sentei na cama. Não me lembrava de nada, mas isso não era algo incomum para mim. Nunca me lembrava do que havia feito em certas noites, do mesmo jeito que não me lembrava quem era aquela mulher até olhar bem para o seu rosto; era a balconista da joalheria. Ela não aceitaria um acordo tão pretencioso se não houvesse alguma intenção por trás disso, apesar de ela parecer o tipo de garota que não andaria com caras como eu.

Os sopros de vento traziam a brisa gélida de encontro a minha pele. Suspirei e olhei para a janela do segundo andar de relance por cima do grande muro de pedra que cercava a casa. Pisquei rapidamente, a fim de afastar os pensamentos. Coloquei as mãos nos bolsos das calças e firmei meus passos ao asfalto abaixo meus pés. Eu teria muito pouco tempo e precisaria calcular tudo exatamente certo. Olhei para o carro que me aguardava na esquina.

Natal, 9h50 AM.
Peguei minha mochila e algumas poucas roupas que havia comprado e desci rua abaixo. Não pretendia voltar para o hotel, então a balconista seria a última pessoa a aproveitar a estadia que ainda me restara ali. Os olhares tortos em minha direção me levavam a querer acreditar que isso teria algo a ver com o que eu fiz. Talvez eu estivesse em todos os noticiários e nem fazia ideia. Precisava me livrar logo de tudo o que estava comigo.
Havia uma maleta em minhas mãos que continha algumas cédulas que conseguira com algumas correntes que havia vendido, mas não era o suficiente. Precisava ir para longe, arrumar uma casa e levar a vida mais discreta que um cidadão poderia. Isso cogitaria arrumar um emprego, mesmo uma pessoa como eu tendo as mínimas chances de conseguir algum num lugar convencional. Talvez precisasse fundar alguma empresa, mas isso chamaria muito a atenção das pessoas. Onde eu poderia me esconder, se todos estavam atrás de mim? Parei em frente à janela blindada da cabine rodoviária. A próxima viagem era direta para santa Catarina.
– Quero uma. – pisquei forte, peguei algumas notas na mochila e joguei em cima do balcão, enquanto ele pegava o bilhete da passagem. – Pode ficar com o troco.
Eu teria pouco mais de 10 minutos para subir no ônibus. Minhas pernas fraquejam. Pensei por um momento sobre a última vez que eu havia comido algo e nenhuma lembrança pairou em minha mente. Provavelmente a última vez que comera algo fosse dias atrás.
...
Cobri os olhos com as mãos numa falha tentativa de impedir que a luz solar entrasse em contato com os meus olhos. Os raios de sol que atravessavam as janelas estavam firmes e ardentes contra a pele do meu braço, que pairava sobre o descanso da poltrona ao lado. Peguei minha mochila e caminhei vagarosamente entre as fileiras de poltronas, até descer pela escada apertada que me separava do chão. Eu estava em Blumenau.
Cambaleei pelas ruas, procurando que seja uma placa indicando alguma casa para aluguel, ou um hotel para passar um tempo. Eu não sabia quanto dinheiro tinha, mas era o suficiente para não sobrar mais espaço nem para meu celular ali. Era como se um guarda-roupa inteiro estivesse guardado ali dentro. Parei em frente a uma banca de jornal e pedi uma lista telefônica atual, daquelas com as paginas amarelas. Era velho e antiquado, mas eu não tinha contatos e precisava de algum lugar para ficar.
Eu imagino o estado em que minha cidade natal deve ter ficado depois do ocorrido. Todos devem estar chocados e apontando os dedos uns aos outros para saber quem era o real culpado. Apenas alguns flashbacks restaram em minha mente depois do dia do fato, e a gravidade da situação parecia diminuir a cada vez que eu percebia que as lembranças fugiam da minha mente. Liguei para alguns dos números através de um orelhão e consegui resposta de alguns, que me indicaram endereços de hotéis nas proximidades e, com algum custo, consegui chegar até um deles.

Blumenau, 7h20 PM.
Fiquei rente ao parapeito da sacada do quarto em que eu estava hospedado e acendi um cigarro, tragando fundo. Senti a fumaça passando por minhas vias aéreas, causando certo ardor ao adentrar meus pulmões. Minha cabeça latejou, tonteei e me segurei junto à mureta. Olhei para a rua e vi alguns carros passando e me afastei um pouco quando vi algumas viaturas policiais adentrando alguma estrada. Todos deviam estar cientes do meu sumiço, e talvez me procurando. Dei um passo para trás para me certificar de que eu não estava sendo visto e dei outro trago no cigarro que estava dentre meus dedos.
Não havia usado nenhuma droga ilícita desde o dia em que saí de minha cidade natal, e devido a todo o estresse, não me fazia tanta falta também. Adentrei o quarto, jogando a caixa de cigarros sob a mesa de centro da sala e indo em direção ao banheiro. Olhei-me no espelho e verifiquei se não havia algum fio de barba “perdido” em minhas bochechas. Nada. Eu estava morto de tédio e sem saber o que fazer. Eu podia tentar sair para alguma festa ou algo do tipo, apenas precisava de um local.
Joguei-me no sofá e peguei a lista amarela, procurando algum número de uma boate, casa de show ou qualquer coisa que servisse para minha distração naquele momento. Liguei para algumas para me informar dos próximos eventos e me dei conta de que era um tanto quanto antiquado ligar para uma casa de festas para saber dos próximos acontecimentos no local, sendo que hoje tudo é disponibilizado. Finalmente encontrei uma: um show aleatório de um cara que eu nem conhecia, mas eu só queria encontrar alguém para me divertir, e não curtir um som naquele dia.
Fui para o quarto e abri algumas sacolas que havia deixado em cima da cama, olhando rapidamente dentro de cada uma delas, procurando alguma que pudesse usar. Peguei um par de roupa que tinha comprado em uma loja perto do hotel e coloquei em cima do sofá; iria usar um tênis que havia trazido de Natal.
Entrei no banheiro e tirei a camisa em frente ao grande espelho que ocupava toda a parede do cômodo. Olhei para meu reflexo e dei conta do quão magro e pálido eu estava. Devia estar com anemia; minhas mãos tremiam. Eu havia comido mais cedo na recepção do hotel, mas não era suficiente. Amanhã eu trataria de comprar comida e resolver um local para ficar definitivamente.

Blumenau, 00h25 AM.
Estava sentado no balcão da boate com um copo na mão, observando as garotas dançarem na pista enquanto bebia. A música estava tão alta que eu não conseguia ouvir o que o garçom do outro lado do balcão dizia. Era alguma eletrônica ou algo do tipo. Eu não fazia ideia mais.
Num canto, alguns caras conversavam sentados em sofás vermelhos de camurça, acompanhados por algumas garotas que provavelmente estavam mais do que interessadas neles. Observei por alguns segundos. Eles não pareciam estar ali por espontânea vontade; suas expressões soavam bastante forçadas e não estavam dando tanta atenção para as garotas assim. Um deles saiu logo após e o outro encheu mais um copo com um liquido marrom que estava por cima da mesa. Aproximei-me e sentei no sofá do lado, fazendo um sinal com a cabeça para o cara. Ele não deu muita importância para minha presença ali.
– Posso pegar? – apontei para a garrafa.
– Pode. – ele não puxou assunto. Aparentemente queria falar o mínimo possível.
Dei um gole no líquido e me dei conta de que se tratava de uísque, e pelo gosto era bastante antigo.
– Aparentemente é um uísque bem velho. – dei outro gole, sentindo minha garganta queimar. – Gosto de bebidas mais fortes.
– É. – ele passou o braço por cima da garota. – É fabricado pela minha empresa.
Arqueei as sobrancelhas e continuei bebendo do líquido. Era exatamente daquilo que eu precisava – uma empresa para que pudesse lavar meu dinheiro sem que ninguém desconfiasse. Mas eu precisaria entrar, e não seria nada fácil sem antes conquistar a confiança dele. Inclinei meu corpo para frente e coloquei meus cotovelos em cima de meus joelhos.
– Você tem uma empresa de uísque? – perguntei e ele balançou a cabeça. – Meu avô costumava me dar uísque quando eu era criança. – forcei um sorriso de lado. – Eu queria, e ele dava. Já chegamos a ficar bêbados juntos, eu tinha onze anos. – dei outro gole e ele reprimiu uma risada, balançando negativamente a cabeça.
– Meu pai costumava me dar cigarros também. Acho que eu pegaria um câncer com dezesseis anos se dependesse dos conselhos dele. – ele largou o copo em cima da mesa. – Nunca te vi por aqui antes.
– É minha primeira vez aqui. – peguei um baralho de cartas em cima da mesa e joguei algumas cartas na mesa.

Blumenau, 10h50 AM.
O cheiro de fumaça e maconha era forte em minhas narinas, mesmo antes de abrir os olhos. Minhas costas estavam contra o chão frio do quarto e meus pés estavam sob um líquido qualquer no chão. Forcei meu corpo para a frente, num impulso, para conseguir levantar do chão. Fiquei sentado por alguns segundos, tentando estralar os ossos das minhas costas.
Olhei em volta e estava tudo uma bagunça. Eu estava deitado no chão da sala, a porta da varanda estava aberta, mas a do quarto estava trancada. Uma mulher estava deitada no sofá, aparentemente sem roupa. A mesa de centro estava coberta por cigarros, garrafas e alguns pacotes de cocaína. Fui em direção da varanda e acendi um cigarro. O sol estava quente e o trânsito um quanto tanto movimentado novamente. Recordava-me de tê-lo para cá, de termos comprado algumas pizzas e contratado algumas prostitutas, mas não me lembrava direito do nome dele.
Ouvi algum barulho do lado de dentro do quarto e me virei, jogando o cigarro pelo ar. A porta do banheiro estava agora fechada e a mulher que estava dormindo no sofá não estava lá mais. Liguei a televisão e peguei um pedaço de pizza que havia sobrado na caixa, sentando-me no sofá e colocando as pernas em cima da mesa de centro.
A porta do quarto atrás de mim havia batido e eu nem me movi para ver quem havia saído de lá. Estava prestando atenção demais no conteúdo da televisão para poder me virar naquela hora.


Capítulo 2


Olhei pela janela e dei um gole no copo de vinho que estava em minha mão. Uma voz ecoava pela sala, e os pedaços de madeira que queimavam na lareira estalavam ao entrar em contato com o fogo. Escutei passos atrás de mim, indo em direção à bandeja de bebidas e enchendo outro copo. Já tinha perdido as contas de quantas vezes o mesmo copo havia sido cheio. Era a minha deixa.


Blumenau, 00h50 A.M.
Eu continuava jogado no sofá, enquanto o cara de ontem ainda estava no banheiro. Passei por alguns canais rapidamente e olhei em volta. Eu estava mais que entediado ali, e o pior é que não havia nada que eu pudesse fazer.
Andei até a cozinha do quarto e abri os armários. Não havia absolutamente nada para que eu pudesse comer, só algumas coisas básicas na geladeira, que eu definitivamente não sabia preparar. Encostei-me na bancada e observei o quarto por cima do balcão da cozinha, que a dividia da sala que havia ali. Era um quarto consideravelmente grande e provavelmente caro. Não me lembro ao certo de quanto havia pagado pela estadia ali. Isso me lembrava da quantidade de dinheiro que ainda me restava.
Fui até minha bolsa e a abri, jogando todas as notas por cima do sofá. Eu não tinha tido cuidado algum em guardar as cédulas, e a maioria estava amassada no fundo da mochila. Comecei a contar e a separar as notas por valor, mas era dinheiro suficiente para viver uma vida inteira sem me preocupar com despesa alguma. Passados alguns minutos, a porta do banheiro se abriu, e o cara de ontem à noite saiu de lá com uma toalha em volta do pescoço e olhou espantado para a quantidade de dinheiro que estava em minhas mãos.
– Cara, isso é muita grana. – ele sorriu, arqueando as sobrancelhas e esfregando a toalha na cabeça.
– É. – continuei contando e sorri de lado.
– Como conseguiu tudo isso? – sentou-se no sofá, ainda com uma expressão de surpresa.
– Vendi umas joias. – forcei um sorriso enquanto guardava tudo na mochila de novo. – Não me lembro de ter perguntado teu nome ontem. – ele se levantou.
. – ele estendeu a mão.
.
Por alguns instantes, eu cogitei esconder meu nome, mas não o considerei uma ameaça. Ele aparentemente tinha tantos motivos quanto eu para querer esconder a própria identidade. Não tinha ar de ser uma pessoa confiável.
– E o outro que estava com você ontem? – perguntei.
– Eu não faço a mínima ideia. – ele sentou no sofá, pegando o último pedaço de pizza e mudando o canal da televisão. – O que tem para hoje?
– Qualquer coisa. – joguei a bolsa num canto e me sentei no balcão da cozinha.
– Você deveria depositar isso num banco. – ele apontou com o queixo, falando enquanto mastigava.
– Não posso abrir uma conta agora. – peguei o maço de cigarros e coloquei um na boca.
– O que você fez? Está fugido da polícia? – sorri com o cigarro nos dentes e o acendi.
– Nem eu me lembro. – traguei.
– Esse não é o melhor lugar para se esconder. – ele jogou a borda da pizza na caixa, colocando os pés sobre a mesa de centro.
– Foi o máximo que consegui fazer. – joguei as cinzas em cima da bancada.
– Troca os documentos. – ele pediu um cigarro com as mãos.
– Conhece alguém que faça isso por aqui? – ele gargalhou.
– Posso te apresentar ao cara.

Cambaleei pelo corredor do hotel, procurando as chaves nos bolsos com dificuldade. Coloquei as mãos nos bolsos, sem resultado. Senti uma leve pressão no bolso do moletom que usava, era a mão de alguém. Levantei os olhos e uma mulher me olhou e sorriu, com as chaves na mão. Escutei a porta abrir, usei as últimas forças que ainda me restavam para jogar meu corpo para dentro do quarto.


Acordei com batidas fortes na porta do quarto, acompanhadas de alguns gritos. Abri vagarosamente os olhos, colocando a mão na frente na tentativa de bloquear a claridade. Olhei em volta – eu continuava deitado no chão da sala, onde me lembro de ter caído ontem. Sentei-me no chão e cocei a cabeça. Minhas costas doíam, assim como os meus braços e minha cabeça. Segurei-me no sofá e me levantei com custo, cambaleei em direção à porta. Um homem engravatado com uma expressão nada feliz falava e gesticulava com as mãos, mas eu não conseguia escutar absolutamente nada. Encostei-me à parede e fingi escutar tudo o que ele dizia. O velho deu de costas, saindo pelo corredor. Deduzi que eu tinha feito algo de errado na última noite e que teria que ir embora dali. Fui em direção ao banheiro e entrei no Box, ligando o chuveiro. A água estava quente, já era um ponto positivo.
Tudo estava extremamente bagunçado, e o chão estava bastante sujo. Minha melhor opção era sair dali e deixar tudo como estava. Peguei uma blusa que estava no chão e meu celular. Fui até o canto em que tinha deixado a bolsa ontem, e, para minha surpresa, não havia nada ali. Andei pelo apartamento e revirei tudo, inclusive o quarto. Não havia nada em lugar absolutamente nenhum. Eu não acreditava que a vadia da noite anterior podia ter me roubado. Eu estava completamente desnorteado e sem saber o que fazer.
Peguei meu celular e levei meus dedos até à agenda de contatos. Com as mãos trêmulas, procurei o número de e disquei o mais rápido possível, esperando uma resposta do outro lado da linha.
– E aí, cara. – ele cumprimentou divertido. – A noite de ontem parece ter sido boa para você. – disse com malícia.
– Nem tanto, cara. – passei a mão pelo cabelo e apertei o celular entre os dedos. – Aquela vadia me roubou. Não restou nada, . NADA. – escutei um murmúrio do outro lado da linha.
– Eu avisei para deixar isso depositado, dude. – indagou. – Estou indo aí, pode ser que a gente encontre algo.
Encostei-me à bancada da cozinha e acendi um cigarro, mesmo com as mãos trêmulas. Isso não podia estar acontecendo. Coloquei tudo a perder por conta de uma garota. Eu não devia ter trazido ninguém para cá.
Traguei fundo, sentindo a fumaça queimar por minhas vias aéreas, e soltei tudo de uma vez. Eu nunca tinha me odiado tanto em toda a vida.
Pouco tempo depois, eu já tinha perdido a conta de quantos cigarros eu havia fumado. Ouvi batidas na porta e pedi que entrasse. abriu a porta, olhando para os lados e suspirou.
– Ela não tem uma das melhores famas. – gesticulou, encostando-se ao sofá. – Pode realmente ter feito isso.
– Eu não sei o que fazer agora. Coloquei tudo a perder por conta dessa grana. – traguei novamente.
– Mas você não lembra, e, se não lembra, não o fez. – desci da bancada, andando até a mesa de centro da sala.
A única coisa que eu tinha no momento eram as notas que usamos para cheirar cocaína em uma das noites que passamos aqui. Peguei todas, não contabilizavam mais de quinhentos reais ao todo, e era tudo o que eu tinha.
– Vou ter que me virar com isso. – pisquei forte, esperando acordar em minha cama e ter minha vida normal de volta. – E, ainda por cima, expulsaram-me daqui. Preciso ir embora.
– Dude, você vai conseguir sair dessa. – bateu em minhas costas. – Você pode trabalhar comigo e recuperar essa grana em instantes. – disse, esperançoso.
– É frustrante. – indaguei, suspirando fundo. – Mas eu preciso sair agora.
Juntei algumas poucas coisas que tinha e coloquei na bolsa. Tudo o que me tinha sobrado eram umas roupas, quinhentos reais e um anel que havia pegado de minha mãe antes de sair de casa. Não considerava tê-lo roubado, já que eu precisava manter uma lembrança dela comigo.
Ele chamou um táxi e fomos em direção à casa que, supostamente, era dele. Estava tudo bem desorganizado, mas incrivelmente parecia bem acomodadiço. A música estava consideravelmente baixa.
– Pode ficar à vontade. – joguei a mochila em cima do sofá da sala. – Aparentemente, hoje não há nada para fazer. A gente tenta esquecer todo esse clima hoje, e amanhã vê o que faz.
Ele saiu da sala, e eu comecei a prestar atenção nos móveis. O lado de dentro da casa estava até organizado. A estante da sala tinha algumas molduras com fotos organizadas em fileiras, próximas à televisão que ocupava grande parte do espaço. Escutei sua voz ecoar pelo arco que dava visão à sala de jantar. Seu tom de voz estava alterado, então deduzi que não fosse uma coisa muito boa. Sua sombra sobressaiu pelo corredor, e ele logo veio em minha direção, murmurando algumas coisas, enquanto guardava o celular no bolso.
– Eu sei onde a vadia mora. – ele se jogou no sofá, com os braços abertos. – E, aliás, ela se chama .
– E onde é? – sentei-me ao seu lado.
– Para o norte, seguindo a rodovia 27. Cerca de duas horas daqui. Se sairmos agora, conseguimos chegar lá antes das cinco. – assenti, levantando e pegando meu maço de cigarros na minha bolsa.
– Aquela puta me deve alguma explicação. – traguei fundo, expelindo toda a fumaça pela boca.
...
Passava das duas da tarde quando finalmente saímos de casa. Ainda não tínhamos um plano específico sobre o que falar quando chegássemos à casa de ; não sabíamos se ela estava sozinha; não tínhamos nada que a pudesse “intimidar” além de uma pistola no porta-luvas de .
Seguimos metade do caminho pensando sobre como ela reagiria, ou o que teríamos que fazer pra conseguir toda aquela grana de volta.
– Isso não vai ser tão fácil quanto Max me explicou pelo telefone. – ele apertou suas mãos em torno do volante. – ela não vai simplesmente entregar tudo de mão beijada. Isso iria ferir seu orgulho.
– Poderíamos chegar, atirar e pegar a grana. – zombei, gesticulando uma arma com os dedos, e rimos em conjunto.
conhece bastante gente, não teria como fazer isso sem pagarmos depois. – ele fez uma curva em direção a uma estrada de terra. – Aparentemente a vadia tem muitos cães de guarda esperando por um sinal para acabar com a raça de qualquer um que a tentasse prejudicar.
– Não sei por que não estou surpreso com isso, . – revirei os olhos, olhando pela janela.
Com dificuldade, consegui ver uma casa em meio a algumas árvores. Não era a mais bem cuidada do mundo, a estrutura parecia bem surrada; e o jardim, bem descuidado. Saímos em direção à porta de madeira branca e batemos algumas vezes, escutando passos pesados no chão que aparentava também ser de madeira. Cessaram após alguns segundos, deduzi que ela já sabia quem estava ali.
– Vamos, , não torne isso mais difícil do que precisa ser. – bateu novamente, encostando a mão no portal de madeira trincada.
O barulho da chave sendo girada do lado de dentro da porta era evidente, e eu fiquei mais aliviado por não ter que arrombar aquilo sem sequer saber o que havia do lado de dentro.
Uma silhueta de uma mulher com cabelos castanhos e um cigarro na boca se revelou quando a porta finalmente fora aberta. Eu me lembrava dos traços pouco a pouco, com a pouca memória que me sobrava daquela noite. Era , bem ali na minha frente.
– O que vocês querem? – ela escorou seu braço na porta.
– Não se faça de desentendida, . – revirou os olhos. – Você sabe muito bem o que viemos buscar.
– Você não mudou nada desde a última noite, gatinho. – ela piscou para mim, tirando o cigarro da boca e o apoiando entre os dedos. – Acho que ainda não peguei o sentido da conversa. – tragou. – Sejam mais objetivos, rapazes.
– Você pegou minha bolsa. – olhei em seus olhos, vendo um sorriso falso se formar no canto de seus lábios. – Eu não faço a mínima ideia de quanto dinheiro havia lá, mas você vai me pagar cada centavo. – simulei ir para cima dela, me empurrou pelo peito.
– É assim que você trata amores antigos, . – sorriu com malícia. – O dinheiro não está aqui comigo. Fiz a coisa mais óbvia do mundo, depositei em um banco. – deu de ombros e colocou o cigarro na boca novamente.
– Então saca. – respondi, ríspido.
– Não é só estalar os dedos e ter tudo em minha mão. – ela sorriu de lado, expelindo fumaça. – E, além disso, não entregaria a você. Foi um menino muito descuidado. – fingiu autoridade.
– No seu lugar, eu pouparia todo esse discurso furado e entregaria isso logo. – suspirou fundo.
– Se não vocês o quê? – depositou o peso do corpo ao lado oposto de antes. – Você é inteligente, . – jogou as cinzas, que antes estavam presas ao cigarro, no chão. – Pensando bem, eu preciso de um favor.
– Diz logo, cara. – disse impaciente e ela fez sinal para sair.
– Então, , entra. – ela disse, apontando para o sofá que ficava no meio daquela espécie de sala, onde nos sentamos. – Antes de tudo, quero que você entenda que eu não fiz nada por mal. Tenho meus motivos. – Pegou um maço de cigarros, apontando em minha direção.
, eu só quero a grana de volta. – puxei um cigarro, acendendo-o e colocando entredentes. – Eu tenho tantos motivos quanto você para merecer essa grana.
– Como você deve imaginar, vai ter que pagar certo preço. Mesmo que não seja justo com você, temos que aprender a ser espertos para vencer esse mundo. – recostou-se na poltrona de couro velho.
– E qual seria o preço?
– Bom, . – impulsionei meu corpo para a frente, apoiando meus cotovelos em minhas coxas. – Eu tenho uma irmã que está vindo para cá. O motivo é bem simples, ela vai fazer tratamento porque há um tumor instalado em seu fígado.
– Ainda não entendi onde eu me encaixo nessa história. – traguei.
– Você não me deixou terminar. – cruzou as pernas. – Ela virá fazer o tal tratamento, porém, como quase toda família sabe, é praticamente incurável. – gesticulou. – Ela teria aproximadamente um ano e meio, se o corpo reagir devidamente ao procedimento médico. Se você fizer com que o último ano dela seja o mais agradável possível, eu te pago mais do que tirei de você um dia. – deu um breve sorriso.
– E como sei que posso confiar em você? – ela revirou os olhos, pegando uma maleta em baixo da poltrona em que se encontrava.
Pegou um maço de notas envoltas por um elástico e jogou em cima da mesa de centro.
– Tem cinco mil aí. Pode conferir, se quiser. – deu de ombros. – Posso te pagar muito mais do que o dobro disso, se fizer o que eu pedi.
– Acho que não tenho outra opção. – mordi o lábio inferior enquanto via o saldo bancário, anexado juntamente às notas e vi sorrir de lado.
– Você está responsável por se aproximar dela. – apoiou suas mãos sobre a mesa, vindo em minha direção por cima da mesma. – Espero que não me decepcione, . – sussurrou em meus ouvidos, colocando um papel em meu bolso. – Agora cai fora.
Virei-me e andei até o carro de , que estava encostado no mesmo, olhando-me com um ar de curiosidade e encarando o dinheiro em minhas mãos.
– Acho que fiz um pacto com o diabo, . – ele suspirou.
– Você pode ter feito bem pior que isso. – ri pelo nariz e entrei no carro, começando a contar todo aquele dinheiro.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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