Última atualização: 28/09/2018

Prólogo

"Abriu os olhos, mas não enxergou nada.

Tinha certeza que estava com os olhos abertos, mas continuou sem enxergar nada. Espremeu as pálpebras o máximo que pôde e sentiu um formigamento lhe correr pela nuca quando finalmente conseguiu ver.
Seu campo de visão foi tomado por diversos pontos de luz em uma sequência quase saltitante de cores: vermelho e azul, vermelho e azul, vermelho e azul. Quanto mais tentava focar em algo, mais embaçada ficava sua visão. Todos os movimentos ao seu redor estavam em câmera lenta, mas não conseguia se livrar da sensação de que tudo se movia rápido demais.
Fechou e abriu os olhos novamente, dessa vez com mais força. Agora as luzes dançavam demoradas. As pessoas se movimentavam com calma. Conseguiu até ouvir alguns ruídos que vinham do amontoado de corpos em volta de uma só atração. Sem esforço, sentiu que o ar ficou menos espesso e seus pés deixaram o chão. Percorreu, sem entender como, a distância que lhe separava do fenômeno que a todos parecia chocar. Quando chegou perto, os ruídos se tornaram gritos e seus olhos já não oscilavam entre vermelho e azul. Agora era só vermelho. Vivo. Por todo lado.
Sentiu o primeiro chute atravessar sua costela. O próximo parecia ter rasgado sua bexiga. Gritou de dor, mas ninguém moveu a cabeça em sua direção. Olhou pela primeira vez para si mesma. O vermelho sangue parecia cobrir todo seu corpo e..."

– Alguém pode pausar isso, por favor? – resmungou, impaciente. Todos os olhos se voltaram para ela.
... – Sussurrou a menina dos cabelos longos e ruivos, após suspirar e apertar um botão prateado que ficava ao lado de sua poltrona branca. – Algum problema? Você está se sentindo bem?
– Eu estou ótima. O problema é que vocês ficam dramatizando demais uma coisa que foi tão simples quanto Cristiano Ronaldo chutando a bola pra dentro do gol.
Todos pareciam atônitos. Ela revirou os olhos e deu as costas para o telão que cobria toda a parede onde estava.
– Seguinte, galera. Vamos recomeçar isso aqui. Eu sei que vocês devem estar assustados se perguntando que diabos... – sentiu o chão sob seus pés se estremecer um pouquinho e logo corrigiu – que coisa estranha está acontecendo aqui. Sei porque já passei por isso há quase um ano atrás e já expliquei para Jill – a menina ruiva, que agora a olhava com olhar de total reprovação – que esses vídeos de apresentação de nossas mortes são bem desnecessários. Bastava uma apresentação de Power Point, vocês não acham?

Ninguém respondeu.

– Bom, vou agilizar. Meu nome é . Tinha vinte e sete anos quando morri em um acidente de carro. Não teve nada disso aí de cores e o escambau. Quando eu vi, ploft, tava lá, mortinha! – Deu uma risadinha e depois pigarreou. – Eu estava grávida de uma linda menina, que nasceu como um milagre e daqui uns dias completa um ano. Tinha também uma melhor amiga incrível e um namorado lindo e bem... um pouco idiota. Acho que é isso. – Deu de ombros e depois ponderou. – Ah, por último, mas não menos importante... – ela fez um gesto desengonçado como se estivesse tocando bateria – Eles se odeiam. Mas terão que ficar juntos. E euzinha serei responsável por isso. – Terminou balbuciando um 'badumtss' e em seguida sorriu. – Mas e vocês, como morreram?


Um

girou as chaves gentilmente para que o motor do carro se calasse. Relaxou os braços e entrelaçou os dedos das próprias mãos enquanto olhava para baixo, em um silencioso sinal de respeito a dor de , que, desde que sentou ao seu lado no banco do passageiro, olhava fixamente para frente e quase não piscava.
– Você era o idiota. – Ela disse, fazendo seu rosto se contorcer em surpresa.
– Mas o qu...
– Shh. Não terminei de falar. – o repreendeu, mas ele percebeu sua voz vacilar. – Você, de todos nós, era o mais idiota. Na verdade, não sei se isso mudou ou vai mudar um dia... – ela deu de ombros. – Você era o idiota. Eu era a sensata. era o mimado. E ... – ela fechou os olhos e respirou fundo, enquanto parecia imóvel – era mágica.
sentiu os olhos arderem, mas continuou imóvel. Temia que qualquer movimento seu fizesse com que fechasse a porta invisível entre eles novamente. Ela precisava falar e ele queria, mais do que tudo, ouvi-la, se aquilo significava tirar meio por cento do peso que ela carregaria nas costas pelo resto da sua vida, a partir do momento em que saísse do carro.
– Você se lembra do dia da formatura do ensino médio? – Ela riu sozinha enquanto ele assentia, sorrindo discretamente. Fechou os olhos e, conforme as imagens vieram em sua memória, uma onda de calor preencheu seu coração.

Dez anos atrás

mal podia acreditar que aqueles longos anos do colegial haviam chegado ao fim. Ela iria se formar. Ela, , e . Era no mínimo curioso pensar que os quatro tinham conseguido chegar até ali juntos, após tantas encrencas, desavenças e, principalmente, detenções de .
Passou o dia pensando em como era bom finalmente se despedir da escola e de todas as pessoas insuportáveis que rodearam sua vida durante todo aquele tempo. Mas agora, sentada em frente ao espelho e encarando seu reflexo carregado de maquiagem, não conseguia sentir mais nada além da sensação de despedida. E se não soubesse ser adulta? E se ela se afastasse das únicas três pessoas que havia escolhido como família? Encolheu-se. O medo de perder sempre lhe assombrou, principalmente depois que sua mãe se foi.
Não conseguia imaginar sua vida sem . Haviam sido criadas praticamente juntas, visto que, quando tudo desmoronou, tia Rose - prima de consideração de seu pai e mãe de – fora quem mais ajudou em sua criação. Depois dela, havia sido a pessoa que mais a acolheu em seus momentos de escuridão e de luz.
"Não é hora de sentir medo" repetiu incessantemente dentro da própria cabeça. nunca iria lhe abandonar, sempre estaria em seu coração e ... bem, sempre estaria em sua vida, de uma forma ou de outra.
. – disse alto o suficiente para tirá-la de seu transe. – Não acredito que você ainda está sentada em frente a esse espelho e chorando mais uma vez! – logo virou o torso para observá­-la. Seu vestido era cinza escuro, simples, com um grande laço lateral. Com as mãos na cintura perfeitamente delineada, tentava se equilibrar em um salto quase maior que ela. Seus cabelos estavam soltos e levemente cacheados, emoldurando de forma perfeita seu rosto redondo e as grandes bochechas. Como sempre, estava linda.
– Por que, não importa o que eu faça, você sempre está mais bonita do que eu? É injusto com o resto do mundo, sabia? – tentou descontrair, limpando um resquício de lágrima abaixo do olho esquerdo.
– Por que, não importa o que eu fale, você não para de chorar? – A amiga continuou, irritada. – Não estou te entendendo! Se fosse pra chorar a gente tinha ficado em casa assistindo 10 Coisas Que Eu Odeio Em Você, né? – Ela disse chegando perto de e a envolvendo-a em um abraço apertado e cheio de conforto.
– Não é nada. – se recompôs, se desvencilhando gentilmente dos braços de . – É um choro de felicidade porque finalmente vou ter a chance de dar uns beijos em algum universitário gostoso. Ou em vários... – Ponderou e riu alto.
– Isso é o mínimo que eu espero de você. Pronta? – Ela piscou e balançou a cabeça, abrindo um sorriso sincero.

– Uau! Tudo isso só pra gente? – perguntou, brincalhão, quando as viu caminhar até ele.
– Não tem nada pra você aqui, . – disse divertida, enquanto o abraçava. – Cadê o ?
– Foi ao banheiro. – respondeu, antes de encarar da cabeça aos pés. – , meu amor, arrumada desse jeito nem parece que acorda parecendo o próprio satanás. Mandou bem!
– Se você me chamar de satanás mais uma vez, eu vou ser obrigada a pegar os meus chifres e enfiar no seu...
– Quanta sutileza. – Ela revirou os olhos ao ouvir a voz de a interromper. Era involuntário.
– Tem um chifre pra cada um, se quiser participar. – respondeu e ele piscou, sorrindo.
– Não é possível que tudo isso aí é meu. Jesus! – Ela se abanou, fingindo passar mal.
– Lindão! – falou e estalou um beijo na bochecha de , que apenas ajeitou o terno, como quem se vangloriava.
– Obrigado, obrigado, fãs. Vamos com calma! – Deu um selinho em e logo se dirigiu a .
– Ora, ora, . Tomou banho? Nem é sábado... – perguntou enquanto fingia contar os dias nos dedos e lhe deu uma cotovelada discreta na barriga. Não gostava quando eles começavam com as provocações, achava que pareciam duas crianças birrentas.

E realmente pareciam.

– Segui seu exemplo e tirei um dia do ano para ficar apresentável, . – Ela disse usando seu melhor sorriso irônico. passou a língua nos lábios, divertido. Eram bons naquilo. Não havia nada que os proporcionasse mais diversão do que um tentando levar o outro ao limite.
Sem muita expectativa, sentiu um par de braços a envolverem de repente e seu cérebro demorou longos cinco segundos para constatar que havia, por si só, decidido que podia se aproximar daquela maneira.
– Você sabe que está linda, . Uma noite de paz?
Das coisas raras da vida, uma delas era ver sem palavras. E mesmo assim, era exatamente como ela estava naquele momento. Estática. Sem corresponder ao abraço dele e muito menos a sua proposta, ficou na ponta dos pés e buscou os olhos de por detrás dos ombros largos do garoto. A amiga sustentou seu olhar, com um sorriso honesto e, como se tivesse obtido permissão, o abraçou de volta com um lampejo de raciocínio.
– Uma noite de paz.
Uma das mais incríveis da vida deles. Dançaram, beberam e riram como se fosse a última vez e, em um dado momento de cansaço, se recostou em um dos bares, enquanto assistia os amigos se divertindo na pista de dança. Fechou os olhos por um momento e desejou, com todas as suas forças, que a vida deles fosse eterna.

– Você tem certeza que não quer que eu fique com você hoje? – perguntou, limpando a lágrima silenciosa da bochecha da amiga. – Fico preocupado de te deixar sozinha.
Ela sorriu e balançou a cabeça negativamente.
– Você deveria checar o . Eu vou ficar bem. Sempre fico. – assentiu, sabendo que de nada resolveria discutir, e deu um beijo em sua testa.
Ao abrir a porta do carro, respirou fundo. Caminhou até a portaria do prédio sentindo o vento frio congelando as juntas de todos os seus dedos. Sentia-se fraca e vazia. Não tinha certeza se algum dia ficaria realmente bem.

~*~

abriu a porta sem muita dificuldade. A chave do apartamento de , misteriosamente, era a única coisa que nunca tinha perdido na vida. Respirou fundo antes de chamar pelo nome do amigo. Precisou ficar cinco minutos parado, com a cabeça encostada no batente da porta, se perguntando o que faria daqui pra frente. era, como tinha dito, um idiota. Enchia a cara religiosamente toda sexta-feira, fazia alguma competição infantil de comida com aos sábados, arrotava o tempo todo apenas para incomodar e era capaz de fazer qualquer coisa para ver gargalhar escandalosamente. Mesmo no trabalho, tinha um pouco de dificuldade de lidar com coisas sérias. Gostava dos cálculos e de desenhar plantas e era bom nisso, mas ninguém entendia como ele tinha conseguido se formar em engenharia civil sem ter a capacidade de se comunicar sem fazer uma piada a cada duas frases. Lembrou, naquele momento, de quando tinha nove anos e sua mãe lhe contou que seu peixe havia morrido de fome porque ele tinha esquecido de alimentá-lo. Comprou outro peixe na semana seguinte e também o matou, dessa vez por excesso de comida. Decidiu então que nunca mais cuidaria de outros seres vivos, pois teve certeza de que era incapaz.
? – Finalmente chamou, recebendo apenas o silêncio em resposta.
Acendeu a luz da sala e caminhou até o quarto do amigo, encontrando a porta aberta e o cômodo vazio. Suspirou. Não fazia ideia de onde o amigo estava, mas com certeza aquilo não era bom. Discou o número dele repetidas vezes e ao ouvir pela sexta vez a voz irritante da moça da caixa postal, apertou o celular com força. Passou a mão pela testa e espremeu os dedos nas pálpebras pensando onde diabos poderia estar. De olhos fechados, sentiu os músculos latejarem e lembrou-se de que não dormia há mais de 24 horas, quando recebeu a ligação exasperada de . Aos poucos foi se recostando no sofá, sentindo a respiração ficar pesada e em menos de um minuto, todos seus sentidos deram lugar a um sono pesado. Até ser interrompido, duas horas e meia depois, pelo barulho estrondoso da porta da sala se abrindo.
Com uma leve dificuldade de abrir os olhos e tentando entender o que estava acontecendo, sentiu um cheiro insuportável de álcool e alertou-se imediatamente ao ver a figura de no chão, com as costas apoiadas na porta e o rosto entre as mãos.
Caminhou até o amigo e sentou-se ao seu lado, sabendo que não havia muito o que dizer, apenas encostou as costas na parede gelada ao lado da porta e esperou, assim como havia feito com .
– Você entende, ? – falou pela primeira vez em quase vinte minutos, com a voz embargada, muito álcool em suas veias e a dor que sentia explodindo por todo o corpo. – Nunca mais ela vai voltar.
E então rompeu em um choro alto, cheio de soluços e alguns barulhos desesperados enquanto apenas apoiava a mão em suas costas e limpava as lágrimas silenciosas da própria bochecha. A dor de perder era gritante, mas, naquele momento, lhe doía como o inferno saber que seus dois melhores amigos estavam completamente devastados e não podia fazer absolutamente nada para mudar isso.

~*~

A claridade cegava . Não conseguia pensar em mais nada a não ser de onde raios havia surgido tanta luz. Olhou para os lados e viu que estava andando por um jardim enorme. O jardim era coberto de uma grama tão perfeita que parecia sintética, mas exalava um cheiro de terra fresca e molhada. Flores azuis, amarelas e brancas se espalhavam por toda sua extensão e ela não se lembrava de ter visto um lugar tão lindo quanto aquele em toda sua vida. Na verdade, não se lembrava de nada. Parou de andar e sabia que devia estar com a cara mais confusa do mundo ao olhar para baixo, enquanto vasculhava sua mente atrás de qualquer resquício de memória e se frustrava mais a cada segundo, não encontrando absolutamente nada.
– Finalmente você acordou! – Uma voz soou como música para seus ouvidos. Olhou para frente e encontrou uma moça alta, de cabelos vermelhos que caíam em ondas até a cintura, com uma pele quase tão clara quanto o branco das flores e os olhos mais escuros que já vira na vida. Atrás dela, estava uma bela e enorme casa branca com detalhes em amarelo claro. Suas janelas pairavam abertas, enormes e convidativas, assim como a porta da frente. Contou os andares e chegou ao fim no sexto. Sentiu o coração acelerar. Queria desesperadamente saber o que estava acontecendo. Deu dois passos para trás e recebeu um olhar terno da moça a sua frente. Julgando pelo sorriso que abriu, ela pareceu genuinamente feliz ao lhe ver.

Pigarreou.

– Não me lembro de estar dormindo. Não me lembro de nada. – Tentou mais uma vez buscar algo. Qualquer coisa que fosse, mas não havia nada. Não havia nenhum nome, nenhum rosto conhecido, nenhuma voz, nada. Tudo o que via eram imagens borradas, rastros de cores misturadas dentro de seu cérebro. – Você pode me ajudar? – Balançou a cabeça sentindo uma súbita vontade de deitar-se ali mesmo naquele chão. Ouvia com nitidez os passarinhos cantando e seu corpo se sentia cada vez mais relaxado.
A mulher desconhecida estendeu suas mãos para , que rapidamente as segurou. Fechou os olhos e começou a sentir uma onda de calor e energia atravessando todo seu corpo. O sono foi ficando cada vez menos presente e ela já sentia vontade de correr por todo aquele jardim.
– Meu nome é Jill. – A moça falou, desvencilhando suas mãos. – E isso é tudo o que você precisa saber agora. Anda, vamos entrar.
olhou desconfiada para ela, mas estava curiosa demais para simplesmente não começar, rapidamente, a andar em seu encalço.

Ao adentrar a casa, precisou parar por um segundo e respirar mais fundo do que antes.
Algumas crianças brincavam pelo imenso lugar, enquanto outras pessoas conversavam, cachorros corriam e pássaros cantavam em uma perfeita harmonia. Observando agora os detalhes, ficou impressionada ao ver que a casa era maior do que havia imaginado. Algumas paredes eram do mesmo amarelo claro percebido do lado de fora e mesmo assim, o branco dominava. Ao terminar de conhecer cada canto do cômodo com seus olhos, teve a certeza de que a paz reinava naquele lugar.
De repente, a dúvida começou a ficar maior. Onde estava? Como tinha ido parar ali? Quem eram todas aquelas pessoas sorrindo para ela?
? – Virou-se para Jill ao sentir que já estava sendo chamada há algum tempo.
– Desculpe, estava concentrada em outras... coisas. – Disse tentando não transparecer sua agonia.
– Certo. – Jill assentiu, compreensiva. – Assim que entrarmos naquela sala ali – ela apontou uma grande porta amarela no canto direito da casa – todas as suas dúvidas serão esclarecidas, prometo. Há alguém lá para fazer isso.
, franzindo a testa, observou Jill dar dois toques na porta, que se abriu rapidamente.
Lá dentro havia uma grande mesa branca que sustentava alguns livros, um pote de canetas imenso e um notebook branco no centro da mesa. Logo atrás do móvel, havia uma cadeira onde um homem alto e gordo sentava tranquilamente. Sua barba branca era tão grande que ela achou engraçada, porém seus olhos eram de um azul cristalino simpático que a lembravam da cor do mar. Ao lhe ver, o homem abriu um largo sorriso que a fez querer abraçá­-lo, mas tudo o que fez foi ficar parada segurando fortemente a mão de Jill esperando que os apresentasse.
– Richard, essa é . – Ela disse num tom que demonstrava afeto e respeito ao mesmo tempo.
– Como se eu não soubesse, huh? Sentem-­se – Richard disse apontando as duas cadeiras que postas à frente da mesa. – Como se sente, ?
– Bem... confusa? – Tentou indagar.
– Imagino que a senhorita Jill não tenha sido muito clara nas informações, certo? – Perguntou num tom engraçado e presunçoso.
– Ela foi legal. – Respondeu simplesmente. Avaliando suas chances de ter enlouquecido, grande parte do seu inconsciente gritou "100%".
– Deixe­me começar pelas coisas mais importantes, então. – Richard se aconchegou em sua túnica branca, trouxe a cadeira mais para frente e debruçou-se sobre a mesa. Olhou intensamente nos olhos de e, de repente, um flashback de tudo a atingiu. As coisas se misturaram em sua cabeça ao mesmo tempo: , , Summer, sangue, dor, hospital, carro, .
– O QUE É ISSO? – sentiu que tudo aquilo era informação demais e se levantou em um pulo. Pôde sentir a euforia das memórias se acalmando assim que deixou de olhar os olhos de Richard. – O que são vocês? – Balbuciou, com a adrenalina vibrando dentro de si. Sentou-se novamente na cadeira, encarando verdadeiramente o silêncio pela primeira vez desde a hora que abriu os olhos. As memórias começavam a se encaixar como um quebra cabeça. Em menos de um minuto, vinte e sete anos fizeram sentido. E, no final, constatou que estava morta. Se lembrava do acidente, da dor, de segurar Summer por uma fração de segundo e dizer a ela palavras desconexas das quais ela nunca se lembraria. Olhou para as duas pessoas na sala que a encaravam de um jeito relaxado, como se aquela fosse uma reunião rotineira com um velho conhecido.
– Está mais calma? – Perguntou Richard.
– Se tem uma coisa que não estou, com certeza essa coisa é calma! – Tentou não gritar ao final da frase, mas fechou as mãos em punho, sentindo uma pontada de raiva causada pela dúvida e angústia. – Se não estou viva, então eu...
– Um anjo. Você agora é um anjo. – Foram as últimas palavras de Richard antes de arregalar os olhos e vê-­lo explodir em uma aura azul. A luz que reluzia em volta de todo seu corpo fazia seus olhos se chocarem. Acima de sua cabeça o azul adquiria um tom prateado e então ele sorriu. Estava atônita quando olhou para Jill e percebeu que algo em volta dela também brilhava, mas não era azul. Sua aura era rosa claro com rosa escuro, fazendo uma mistura quase romântica e doce de cores.
– Ok, podem parar com isso. Estão me assustando. – Ela disse, tentando achar alguma cor ao seu redor também, mas tudo parecia perfeitamente normal. Richard e Jill voltaram às suas formas naturais e respirou aliviada. Sua mente não conseguia assimilar nada. Talvez fosse falta de álcool no sangue. Se era um anjo, estava no céu. Será que no céu permitiam bebidas alcoólicas? Se possível, gostaria que alguém lhe trouxesse dois shots de tequila.
– Então, hora de algumas respostas concretas para você. – Richard disse arqueando uma sobrancelha.
– Sim. Tenho a primeira pergunta. – Ela disse, limpando a garganta e selecionando uma entre as milhares que queria fazer.
– Pode começar.
desencostou-se da cadeira para aproximar um pouco o rosto do velho a sua frente.
– Você é, tipo, Deus? – Perguntou baixinho e sentiu-se automaticamente retardada quando Richard tombou a cabeça para trás, explodindo em gargalhadas.
– Garota, você é engraçada. Acho que vamos nos entender bem.

~*~

Nove meses antes

Antes de contar para ou , tinha que contar para ela. Mas como faria isso? Andava de um lado para o outro na sala do pequeno apartamento em que moravam, com uma mão na cintura e a outra, trêmula, na testa.
Era um bebê. Estava grávida aos vinte e sete anos. Sua mãe ficaria decepcionada, do mesmo jeito que ela estava consigo mesma. Como, em nome de Jesus, iria chegar até sua melhor amiga e dizer: "Oi, tudo bem? Então, sei que você cuidou de mim a vida inteira e me ajudou em absolutamente tudo que precisei, mas estou te retribuindo com uma gravidez e só tenho você pra contar. O que acha de criarmos um bebê no nosso apartamento minúsculo? Já que não vou me casar com tão cedo e muito menos ir morar com ele. Obrigada pela atenção, te amo também."

Talvez escrevesse uma carta com isso. E depois fugisse de casa.

Olhou novamente no relógio quando ouviu a porta da sala ser aberta. 00h14. Era isso. Estava com os dois pés e a cara afundada na merda.
Sentou-se no sofá para evitar um desmaio.
– Ainda acordada? Falei que não precisava me esperar. acabou de ir embora, deixou um monte de beijos nessas suas bochechas fofas. – disse, enquanto descia dos saltos e simplesmente não conseguia respirar. Sabia que tinha que fazer aquilo com calma e tranquilidade. Nada poderia dar errado se fosse delicada.
? Está me ouvindo? – perguntou olhando para a amiga cada vez mais pálida no sofá a sua frente.
"Ok, é agora." Pensou . "Mantenha a calma. Delicadeza."
– Estou grávida.


~*~

Era a quinta vez que desligava a função soneca de seu celular.
Ela tinha plena consciência de que já deveria ter saído da cama, tomado banho, café e vergonha na cara para encarar o dia que a esperava. O horário estipulado para estar no hospital era às nove, mas ao ler 08h45 no visor, sabia que os médicos teriam que lidar com um pouco de atraso.
Sentou-se na cama e sentiu os olhos pesarem por conta da noite mal dormida. Os últimos seis dias podiam ser resumidos em: muito café, pouco sono e visitas a Summer. Para ela, dormir quatro horas seguidas em uma noite já era uma grande vitória.
Conseguiu se arrumar razoavelmente rápido. Tomou seu café forte de todos os dias, acompanhado de uma torrada murcha, pegou sua bolsa e desceu em direção ao carro, sabendo que a partir daquele dia, sua vida mudaria para sempre.
25 minutos de trânsito depois, lá estava ela. Parada no estacionamento do hospital sem ter coragem de fazer qualquer movimento. A única coisa que lhe fazia companhia era o silêncio. Ultimamente gostava de pensar em como seria ter brinquedos espalhados pelo apartamento, mas não conseguia negar: estava completamente apavorada. Não que não gostasse de crianças, pelo contrário, adorava bebês. Mas sabia que não havia sentido em fazer tudo aquilo sem . Não sabia sequer trocar uma fralda ou preparar uma papinha e com certeza não levava o menor jeito para ser mãe.
Colocou a cabeça entre as mãos e tentou, pela milésima vez, pensar em todas as suas alternativas e todas terminavam com criando o bebê por conta própria e Summer se tornando um monstro sem coração. Aquilo era ainda mais apavorante. Totalmente fora de questão. teria uma síncope, com certeza.
Respirou fundo. A partir do momento que entrasse naquele hospital, tudo mudaria. Sua vida, sua rotina, seus horários, sua cabeça e seu coração. Não sabia se estava pronta, mas ao abrir a porta do carro, sabia que teria que estar.

Logo que passou pelas grandes portas de vidro, avistou escorado na parede mais próxima da recepção. A tentativa de sorriso que ele deu ao vê-la demonstrava que estava tão apavorado quanto ela. Silenciosamente, tentou se manter positivo.
– Bom dia. – A voz dela soou educada.
– Bom dia, .
O diálogo se encerrou por aí. April, a enfermeira – que já parecia mais uma colega dos dois do que apenas uma profissional –, logo apareceu com o sorriso de sempre e os levou até a sala do pediatra que acompanhava o quadro clínico de Summer, onde receberiam as instruções finais sobre o tratamento da pequena e, finalmente, a levariam para casa.
Passaram pelo menos uma hora ouvindo as recomendações do médico, mas vez ou outra assentiam sem realmente se concentrarem no que estava sendo dito. A cabeça de estava a milhão e sentia seu coração sendo engolido pelo próprio estômago de tanto nervoso.
– Por fim, a amamentação será feita no hospital com as doadoras de leite disponíveis nos primeiros 5 meses e depois vamos entrar com leite em pó. Estão prontos? ?
A voz um pouco mais alta do doutor a despertou de seus pensamentos.
– Oi? Sim. Estamos. ? – Perguntou sem realmente encará-lo.
Ele engoliu seco.
– Acho que sim.
O médico sorriu satisfeito e, no mesmo instante, April entrou com um embrulho felpudo em seus braços. Chegou mais perto de e o colocou delicadamente em seu colo.
Summer estava enrolada em uma manta bege, vestindo um macacão azul que dizia "Eu amo o titio" – claramente um presente de – e com uma tiara de tecido da mesma cor em sua cabeça.
– Oi, meu amor.
Os barulhos cessaram na cabeça de assim que proferiu aquela frase, enquanto olhava diretamente para os olhos grandes e curiosos tão parecidos com os de . Escutou fungar e sentiu o coração acelerar.
– É tão linda. Nem parece que é sua filha. – Ouviu a provocação em tom baixo de e tentou não rir.

Talvez não fosse ser tão difícil.

~*~

– Eu já disse que não, . Mais tarde, quando estivermos em casa, com você sentado num sofá, comigo de um lado e de outro. Sem perigo.
revirou os olhos pela milésima vez naquele dia após pedir pela décima quarta vez para segurar Summer por alguns minutos, enquanto abria a porta do carro de contrariado por ter que dirigir.

Assim que pisaram na sala do apartamento de , Summer começou a chorar. arregalou os olhos e encarou , que também parecia apreensiva.
– Ei, o que foi? Já está cansada de olhar para a cara feia do seu pai? Ele já vai embora. – tentou dizer, mas a menina berrava cada vez mais alto.
– Será que ela está com fome? Mas não faz sentido isso, ela acabou de mamar no hospital... – falava mais para si mesmo, enquanto balançava a pequena em seus braços sem saber exatamente o que fazer.
– Tem uma dúzia de cocos tão bonitinhos, piririlim, que achei melhor... – começou a cantar e o choro se tornou ainda mais alto.
– O que você está fazendo? – perguntou, olhando apavorado para as duas.
– Cantando uma música do Rei Leão! – Ela respondeu, um pouco ofendida.
– Pelo amor de Deus, pare. Assustou ainda mais a menina. Vai, me dê ela aqui. – Avançou um pouco e deu dois passos para trás.
Ele perdeu a paciência.
– Ela é minha filha. Me dê.
ainda parecia relutante.
– Sente-se e eu te dou. Você é um desastre ambulante, não consegue dar três passos sem fazer alguma merda.
Ele cerrou os olhos, mas pela primeira vez não quis discutir. Sentou-se, suspirando e abriu os braços, ansioso. entregou uma Summer com o rosto vermelho e coberto de lágrimas para e observou o rosto dele se iluminar aos poucos, conforme foi ajeitando a pequena em seus braços.
– Ei. – Ele disse baixinho. – Não precisa chorar.
Ela ainda chorava, mas com menos desespero.
– Eu nunca fiz muita coisa certa na minha vida... – ele suspirou. – Mas olha só pra você. – A menina fechou a mão direita em torno do dedo indicador do pai e foi, aos poucos, cessando o choro. O coração desobediente de bateu forte ao observar a cena. – Perfeita! – Ele concluiu, sussurrando.
Ficaram um tempo em silêncio até que Summer milagrosamente adormeceu. estava sentada ao lado de no sofá, com a cabeça recostada no tecido.
– Como vamos fazer isso? – perguntou, quebrando o silêncio.
– Não tenho a menor ideia.


Dois

"Você unirá duas vidas que se negam em aceitar o destino. Duas vidas que não se aceitam, mas ao mesmo tempo não tem outra opção a não ser caminharem juntas. Duas almas que se encontraram no amor que você os deu em vida.

Saberás a hora da chegada e a hora da partida.

Encontrará ajuda por perto.

Uma vez em terra, o anjo cupido só poderá voltar quando concluir sua missão."


As palavras martelavam no cérebro de enquanto ela bufava atrás de Jill.
Não era possível uma coisa daquelas. Que os céus abrissem os portões para que ela descesse de tobogã diretamente para o inferno, mas não poderia se comprometer com esse absurdo.
– Jill, você não está entendendo. Não vai dar. MESMO!
Jill parou abruptamente, fazendo com que não conseguisse frear os passos a tempo suficiente de não esbarrar em suas costas.
– Chega de lamentações. – Jill falou, sem muita paciência. – Existe um motivo pra isso estar acontecendo. Se você recusar, não vai ficar aqui. É isso o que você quer?
– Não, mas...
– Não tem "mas", . Dê seus pulos. Você desce em dois dias. – Jill encerrou a conversa e desapareceu, como sempre, deixando contrariada.
Ela balançou a cabeça. Há um ano estava sendo preparada para sua missão, mas nem em um bilhão de séculos imaginaria que seria aquilo.
Todos os anjos passavam por um ano inteiro de treinamento para finalmente voltarem ao mundo dos vivos e cumprirem uma missão específica. Após isso, caso concluíssem suas missões com sucesso, retornavam para desfrutar eternamente da paz e alegria do plano espiritual.
Existiam três categorias: anjos da guarda, anjos cupidos e anjos mensageiros. Os mensageiros eram responsáveis por intermediar a comunicação entre os anjos cupidos e anjos da guarda que estavam em Terra e seus supervisores espirituais, como Jill, levando e trazendo informações e recados dos dois mundos. Os anjos da guarda eram protetores de algum humano e absolutamente todos tinham um em seu encalço. As missões deles eram as mais longas de todas, pois só acabavam quando os humanos protegidos desencarnavam na hora certa. Por fim, os anjos cupidos, como . Esses tinham que juntar os casais mais improváveis (na visão humana) e fazer com que eles permanecessem unidos. não via sentido algum naquilo. É claro que seus sentimentos carnais já não existiam mais, por isso não tinha problema nenhum em pensar que ficaria com outra pessoa. O problema era com quem queriam que ele ficasse. Fechou os olhos e por um segundo concluiu que, se não existissem as complicações, aquele seria o cenário perfeito. Sua filha sendo criada pelas duas pessoas que mais amou na vida. Mas as complicações existiam e sabia que nenhum anjo daquela porcaria de céu tinha uma missão tão difícil quanto a sua, pois e eram como duas bombas-relógio e não tinha certeza se um sairia vivo quando o outro explodisse.

~*~

, tente de novo o celular do . – estava massageando as têmporas e fazendo um exercício de respiração para não surtar.
, está na caixa postal faz duas horas. Se ele não atendeu até agora, é inútil continuar tentando. Tenho certeza que daqui a pouco ele estará aqui. – tentou tranquilizar a amiga, mas, no fundo, não tinha tanta certeza assim.
– Eu acho bom, porque do contrário seu amigo é um homem morto.
Ela virou as costas e bateu a porta do salão de festas tão forte, que um penduricalho da decoração de circo se desprendeu da parede e caiu no chão.
foi até o objeto e suspirou ao tentar colá-lo novamente. Pegou o celular do bolso e digitou furiosamente:

"Onde CARALHOS você está??"

A festa de um ano de Summer já havia começado há três horas e olhava da porta para o relógio de cinco em cinco minutos. Já havia se decepcionado com inúmeras vezes em sua vida, mas sentia que dessa vez sua sanidade estava por um fio. Durante um ano inteiro, não teve muito o que reclamar dele, para sua infelicidade. Aos trancos e barrancos ele tentava ser um bom pai. Nunca deixava nada faltar a Summer e era até fofo de ver o jeito como ele se tornava outra pessoa quando estava na presença da filha. Porém, nem tudo são flores, e sua falta de maturidade e responsabilidade em outros diversos aspectos muitas vezes a enfurecia. Seus atrasos e o excesso de bebida, principalmente. normalmente intermediava a convivência dos dois, porque ali ninguém nunca admitia que estava errado. As brigas eram constantes e quando não havia um motivo concreto, as provocações estavam sempre presentes. Era como se gostassem de se espezinhar gratuitamente e ninguém ao redor dos dois conseguia entender em que mundo aquilo era saudável para uma criança. Por isso, começaram a diminuir a frequência com que se viam e nos últimos meses se limitaram a conversar exclusivamente sobre Summer. Aquilo estava funcionando bem, pois estavam há exatamente 12 dias e algumas horas sem brigar. Até agora.
se aproximou de com Summer no colo. A menina usava um vestido vermelho com bolinhas brancas, sapatinhos brancos com um laço vermelho, um enorme chapéu de mágico em sua cabeça e batia palmas freneticamente.
– Aparentemente ela está pronta para o parabéns. – estendeu os braços e a pegou em seu colo, observando as pessoas se aproximarem da mesa do bolo. Respirou fundo. Foda-se, faria isso sem ele.
As luzes apagaram e acendeu a vela gigante de palhaço que estava no centro do bolo. Enquanto cantavam parabéns animadamente, pensou em e sentiu o coração afundar no peito. Nunca sentira tanta falta da amiga como naquele momento.
Assoprou a vela por Summer - que parecia muito mais interessada em brincar com os cabelos da mãe - e, por um instante, desejou que estivesse ali com ela.

– Tchau, Lorie! Volte mais vezes para brincar com a Sums, ok? – disse antes de fechar a porta se despedir com um sorriso da mãe da menina, que era a última convidada a ir embora da festa. Subiu cansada para seu apartamento e quando fechou a porta, encostou a testa no batente e contou até cinquenta para não gritar.
– Vou levar Sums para tomar um banho, pois ela já está caindo de sono. , tente se acalmar, algo deve ter acontecido. – April – sim, a enfermeira, que hoje, além de sua amiga, era namorada de – disse, tentando tranquilizá-la. Entretanto, tinha cada vez mais certeza que só ficaria realmente calma quando desse um murro na cara de .
– Obrigada. – Foi tudo o que conseguiu dizer antes de ir até o sofá e deitar com a cabeça no colo de .
– Seu amigo é um irresponsável. Um idiota irresponsável que não teve capacidade nem de aparecer no primeiro aniversário da filha.
– Vamos esperar para saber o que aconteceu antes de alimentar o monstro que existe entre vocês dois. Estava tudo indo tão bem! – estava tentando parecer calmo, mas no fundo sabia que estava tão chateado e irritado com quanto ela.
Se levantou e endireitou as costas antes de começar seu discurso:
– Ele nem sequer ligou, ! Não pegou a droga do celular pra mandar uma porra de mensagem. – Levantou o dedo indicador antes de continuar. – Eu aguento a semana toda, Alex está sempre segurando a barra para mim quando estou presa no trabalho porque sinceramente me recuso a depender dele para qualquer coisa. A única coisa que peço, além do mínimo de responsabilidade, é que fique com ela aos domingos. Aí ele faz o que? Chega na merda do primeiro aniversário esse filho de uma puta some como se... – Foi interrompida pela campainha do apartamento que ecoou alto pela sala. Deu um olhar significativo a , que se dirigiu até a porta. Assim que a abriu, balançou a cabeça e sussurrou entredentes:
– É melhor você ter uma ótima explicação.
– Antes de eu tentar me explicar vocês podem me deixar entrar, não acham? – falou no plural, mas se dirigiu exclusivamente a , que, como sempre, estava com a resposta na ponta da língua.
– Na verdade, não acho. Você foi convidado para a festa e a partir do momento que não tem mais festa, não vejo motivos para deixar você pisar na minha casa. Mas talvez, só talvez, sua filha queira te ver, depois de ter ficado horas procurando por você. Então vou te deixar entrar somente porque quero acreditar que você tem essa ótima, ótima explicação por não ter aparecido mais cedo. – Terminou cruzando os braços, enquanto escancarava a porta de vez e seguia até o centro da sala.
– Vou ver se April precisa de ajuda com alguma coisa. – E sumiu pelo corredor, deixando apenas duas pessoas na sala.
apertou os olhos e sentiu o coração descompassar dentro do peito. Tinha formulado a mentira perfeita em sua cabeça, mas ali, naquele momento, olhando para os olhos mortais dela, soube que teria que falar a verdade. Colocou o pacote cor de rosa gigante no chão ao seu lado e deu dois passos para a frente, pigarreando.
– Eu perdi a hora.
Ela abriu um pouco mais os olhos com uma expressão de choque. Esperava que ele dissesse qualquer merda, que matasse um parente ou inventasse uma doença terminal, mas nunca esperou ouvir uma frase tão simples.
– Eu perdi a hora porque... – ele podia sentir as palmas das mãos suando. – Olha, eu acordei, fui correr, voltei pra casa e percebi que não queria vir sem espairecer um pouco antes. A falta dela ainda é muito difícil pra mim, eu precisava me desligar. Então eu dei uma passada no The Red, conheci alguém e...
– Por favor, cale a boca. – Ela disse, tentando ao máximo não alterar o tom de voz. – O que você pensa da vida, ? Você perdeu completamente a noção. – Ela virou de costas e passou a mão na testa, literalmente rindo de nervoso. – Eu adaptei a minha vida inteira. Eu troquei de emprego, eu mudei de casa, eu abandonei meus cursos, por Deus, eu abri mão de tanta coisa! Sabe por quê? – Tarde demais, ela já tinha alterado o tom de voz. – PORQUE EU NÃO TIVE ESCOLHA!
Ele deu um passo pra trás ao ouvi-la gritar.
– E aí você me aparece aqui com essa cara lavada e vem me dizer que estava com alguém ao invés de estar celebrando o aniversário da sua filha porque estava tristinho de saudades da namorada que você nunca amou de verdade, porque enquanto ela era viva tudo o que você fazia era magoá-la, exatamente como fez com sua filha hoje! – Ele conseguia ver as veias do pescoço dela saltando enquanto gritava, rápido demais, todas as palavras.
– O que foi que voc..
– Você é um moleque, . UM MOLEQUE!
– NÃO ME CHAMA DE MOLEQUE! – Agora era ele quem gritava.
Ela gargalhou.
– Eu pensei que daria pra conversar com você! – passou a mão pelos cabelos, agitado. – Eu errei, mas eu vim. Eu vim até aqui me explicar, porque eu não sou perfeito, mas eu estou tentando mudar. Mas como sempre, tudo o que você sabe fazer é me atacar jogando coisas do passado na minha cara!
– Tentando mudar? Me economize, . Você nunca vai mudar. Você sempre vai ser o mesmo cara. O cara que não se compromete com nada nem ninguém. O cara que foge quando as coisas ficam difíceis. Porque é isso o que você é. Um covarde.
As palavras dela o atingiram como uma faca.
– Saia da minha casa. Volte para o meio das pernas de sei lá quem que você deixou te esperando e suma da minha frente. Hoje você não vai ver a Summer. – se virou e começou a andar até o corredor.
– Olha só quem fala. Você enche a boca pra falar de mim e de todos os meus defeitos, mas eu nunca vi alguém mais covarde do que você. Você gosta de pisar nas pessoas ao seu redor só pra se sentir bem consigo mesma. Você é fria e deve ser por isso que ninguém nunca te amou.
Se ela queria ser cruel com ele, receberia a mesma crueldade em troca.
– E eu não sei se quero que minha filha seja criada por alguém como você.
sentia o corpo inteiro tremer de raiva. Ele não queria ter dito isso, mas, por um instante, se sentiu realizado. Queria magoá-la tanto quanto ela o havia magoado há poucos instantes e, embora jamais fosse levar aquilo adiante, sabia que o único meio de fazer isso era falando sobre a guarda de Summer.
– Está ameaçando tirar Summer de mim? – disse e ele pôde sentir o desespero em sua voz. – Durante todo esse ano nós... nós demos um jeito. Um jeito de lidar com tudo isso. E por culpa sua você quer tirá-­la de mim? Você não consegue enxergar que é uma catástrofe ambulante e que toda vez que algo dá errado é porque você não consegue lidar com a pressão de absolutamente nada?
Ele estava perdendo a paciência.
– É por isso que eu soube desde o início que nada disso daria certo. Porque já faz tempo desde que eu nutri algo bom por você dentro de mim. Não sobrou nada, . Não sobrou carinho ou admiração. A única coisa que havia sobrado era respeito e com essa sua enxurrada de ódio você acabou de perder o meu. Summer é minha filha, não sua. Se vamos viver nesse inferno, é melhor que eu providencie para que não tenha que te encontrar com tanta frequência. Vou fazer o que eu quiser com a minha vida e você não vai se meter nisso. – Ele terminou de dizer e deu as costas, como se a conversa tivesse chegado ao fim.
estaria envergonhada de ver a pessoa que você se tornou.
se virou, pronto para começar uma nova discussão, mas foi interrompido por uma voz masculina, que parecia ter brotado no meio da sala.
– Você já falou demais, cara. Não me faça ir até aí te ensinar o caminho da sua casa. – disse, mantendo o bom senso daquela conversa.
Ele levantou os dois braços, puxou a maçaneta e concluiu:
– Amanhã é domingo. Venho buscar a minha filha, queira você ou não.
E bateu a porta, permitindo que enterrasse o rosto nas mãos e chorasse copiosamente enquanto a envolvia com os braços. Estava destruída por dentro e, mais do que nunca, odiava .

~*~

Ele tentava desesperadamente lembrar. "Julie. Não, Jennifer. JOSEY! Ou era Jamie? Foda-­se." Alguma coisa com J era o nome da menina com quem ficou enroscado ao invés de ir ao aniversário de Summer, em busca de proteger sua consciência de pensamentos que ele não queria ter. Não queria pensar que era também aniversário da morte de . Não queria lembrar que não havia mulher no mundo que resgataria o tempo perdido e preencheria a falta que ela lhe fazia. E como se não fosse o suficiente, ainda colocou a cereja do bolo falando aquelas coisas horríveis para . Que tipo de babaca ele era? Essa pergunta não saia da sua cabeça desde que praticamente o expulsou da casa dela na noite anterior.
Entrou em seu loft e se jogou no sofá com os braços cobrindo o rosto, tentando pensar em algo que fosse fazer com que se sentisse melhor. Ouviu o celular apitar e hesitou antes de pegá-­lo. Ficou com medo de que fosse uma mensagem de jurando sua morte, mas quando leu o nome de sentiu-se aliviado.
"Quero um pedido de desculpas seu para amanhã ou como bom melhor amigo que sou, vou quebrar a sua cara. Espero que esteja bem. Qualquer coisa me ligue."
Ele bloqueou a tela e suspirou. era um ótimo amigo, mas sabia que ele sempre sairia em defesa de , não importava a situação. Era muito bom tê-lo entre eles, porque do contrário sabia que sem a relação dos dois teria ido para o buraco no primeiro mês sem . Suspirou irritado consigo mesmo. Odiava o fato de sempre estragar tudo e odiava ainda mais o fato de que estava certa sobre ele. Era um covarde. Sempre foi. Mas ela realmente não ficava para trás. Ao contrário do que tinha dito, tinha, sim, muito respeito por ela. Apenas não conseguia entender porque era tão difícil fazê-la baixar a guarda e conversar civilizadamente com ele uma vez sequer. Sentia-se sempre de mãos atadas quando estava com ela, como se qualquer passo em falso que ele desse fosse fazer com que ela surtasse e simplesmente não aguentava mais isso. Tinha chegado em seu limite.
Sua cabeça latejava devido ao estresse de algumas horas antes e esses pensamentos estavam o irritando ainda mais. Pensou em abrir uma cerveja, mas sabia que primeiro precisava de um longo e relaxante banho quente. Tirou a roupa, amarrou uma toalha na cintura e, quando estava a caminho do banheiro, ouviu um barulho de vidro se espatifando no chão.
? – Perguntou cauteloso, mas alto o suficiente para quem quer que seja que estivesse na sala pudesse ouvi-lo. – Eu vou pedir desculpas a amanhã, ok? Não precisa quebrar minha casa.
Nenhuma resposta. Mais um barulho.
– Se eu for até aí, vamos brigar. Vou quebrar um vidro desse na sua cabeça. – Sua voz soou confiante, mas seu coração estava acelerado.
Não estava entendendo o joguinho do amigo. Porra, por que não o respondia? Não que fosse medroso, mas realmente não gostava de ouvir barulhos em sua casa às duas e meia da manhã.
O barulho de algo se estilhaçando no chão se fez mais alto e dessa vez não teve dúvidas: ia dar um soco nele. Deu passos firmes em direção à sala e quando bateu a mão no interruptor, a luz cegou seus olhos acostumados com o breu. Em seguida, o pânico tomou conta de si. Não havia ninguém lá.
Três porta­retratos haviam ido para o chão. Pegou as três fotos em meio aos cacos de vidro e as observou por alguns segundos. A primeira era uma sua mordendo as mãozinhas de Summer quando ela tinha seis meses. Na segunda estava abraçado com na festa de aniversário de vinte e um anos de . Por fim, estavam , , e ele no dia da formatura do ensino médio, abraçados e fazendo caretas. Ainda segurando as fotos com as mãos trêmulas, olhou ao redor e chamou por mais uma vez.
, estou falando sério. Não tem graça.
O silêncio prevaleceu.
Respirou fundo e, ajeitando a toalha em seu corpo, seguiu até a lavanderia, retornando à sala com uma vassoura e uma pá. Summer iria para lá amanhã e não podia deixar nenhum rastro daquele vidro todo pelo chão. Aproveitaria e bateria em - ou no que quer que fosse que estava em sua casa - com o cabo da vassoura, pois lhe parecia uma boa arma.
Voltou com o peito estufado de coragem para a sala, mas ao chegar lá sentiu o corpo gelar e deixou cair no chão os objetos que estavam em suas mãos.
A luz estava novamente apagada e os cacos estavam amontoados em um dos cantos da parede. Sentiu o suor descer gelado, traçando um longo caminho da nuca até o final de sua espinha. Não sabia se estava delirando ou se aquilo era um pesadelo, mas com certeza havia algo de errado.
– A claridade faz doer meus olhos. Não acenda essa luz de novo.
Paralisado.
Era assim que se encontrava após ouvir a frase entoada por uma voz que ele conhecia mais do que bem. A voz que estava viva em seus sonhos e morta aos seus ouvidos há exatamente um ano, novamente se fez ouvir. Ele só podia estar ficando louco.
– Desculpa pela bagunça. Estou muito, muito irritada com você.
Olhou em sua volta, procurando provas de que estava fora de si e finalmente pousou o olhar sobre o sofá.
Viu dois olhos conhecidos o encarando e depois não viu mais nada.


Três


nunca havia lidado com alguém desmaiado, mas podia assegurar que não era algo que estava entre os itens da sua lista de “10 coisas para fazer depois de morrer”.
estava no chão, pálido como as paredes de seu apartamento. Talvez ela devesse ter feito uma aparição mais discreta para não assustá¬-lo tanto, mas não conseguiu evitar. Havia chegado há pouco tempo, mas teve o desprazer de presenciar a cena patética entre os ex-namorado e a melhor amiga. A cada palavra, grito e risada irônica que ouviu durante aquela conversa, sentia um misto de raiva e mágoa. havia se esquecido de que fora quem lhe estendeu a mão quando ela foi embora e todas as coisas que abriu mão para acolher Summer em sua vida. Ele não era único a sofrer e o fato de que estava agindo como se fosse, fazia querer estrangulá-lo com suas próprias mãos.
Ficou indecisa ao ter que escolher com quem falaria primeiro, pois estava extremamente frágil após expulsar o amigo de seu apartamento. Mas, ao vê¬-la sob os cuidados dele e de April, soube que ela não estaria desamparada.
Ao entrar no apartamento de , uma onda de lembranças a atingiu em cheio. O cheiro, o sofá, o piso gelado. Os melhores momentos enquanto viva, havia passado ali, com ele. Ao olhar as fotos em cima da bancada, a raiva lhe invadiu de novo e sem pensar jogou os três porta¬-retratos no chão com vontade.
Tudo pareceu acontecer em câmera lenta até ela finalmente dirigir a palavra a ele. Pôde ver a descrença em seus olhos antes de cair estrondosamente no chão. Sem saber muito o que fazer, foi até a cozinha e trouxe consigo um copo de água gelada. Funcionava nos filmes, teria que funcionar com ela.
Despejou o conteúdo do copo diretamente em seu rosto e abriu os olhos rapidamente, desesperado e com a impressão de que estava se afogando.
apenas ignorou a sequência de palavrões que ele lançou a ela em seguida, deixou o copo sobre a mesa de centro e sentou-se novamente.
– Levanta desse chão, precisamos conversar.
levantou e seu rosto estava tomado por diferentes expressões. Estava atônito, aflito, apavorado, descrente e, ao mesmo tempo, curioso.
– Eu tenho certeza que não usei droga nenhuma hoje, então por que estou vendo fantasmas? – Murmurou para si mesmo.
– Não sou um fantasma! – retrucou, indignada com o comentário. – Sou um anjo. Sempre fui, na verdade. Mas agora é oficial.
Ele piscava várias vezes, tentando ter certeza do que estava ouvindo.
– Olha, eu sei que você está achando que isso é um sonho, mas não é. Vou te contar tudo, apenas… coloque uma roupa e pare de me encarar como se eu fosse uma aberração, por favor.
se deu conta de que a toalha que estava antes em sua cintura agora estava ao seu lado, no chão. Foi até o quarto balançando a cabeça freneticamente enquanto colocava uma calça. Não tinha a menor ideia do que estava acontecendo.
Ao retornar, a expressão em seu rosto continuou a mesma. resumiu o último ano em um monólogo de dez minutos. Contou a ele sobre Jill, sobre ter voltado para cumprir uma missão - omitindo o fato de que a missão envolvia ter que bancar a advogada do diabo e juntá¬-lo com - e reforçou o ponto de que somente os dois poderiam lhe ver, com o coração partido, pois queria muito poder conversar com mais uma vez.
Por fim, a fitou inconformado.
– Certo. Deixa eu ver se entendi: você é um anjo que tem que cumprir uma missão para poder desfrutar da sua "vida paradisíaca". – Ela assentiu discretamente enquanto ele continuava. – Somente eu e podemos te ver, você tem novos amigos e não me ama mais. – Ela franziu o cenho, pronta para explicar que não era bem assim, mas ele continuou. – Interessante. Preciso de vodka. – Se levantou rapidamente, mas segurou seu braço antes que se afastasse e ele arregalou ainda mais os olhos ao sentir o toque gélido em sua pele.
– Também achei que precisasse de álcool quando cheguei ao mundo superior, mas não vamos conseguir ter uma boa conversa se você estiver bêbado. O que, pelo que posso perceber, você está quase sempre, né? – Disse em tom de reprovação.
– Você acha que estamos tendo uma boa conversa? Porque eu, definitivamente, não acho. Na verdade, eu tenho certeza de que estou completamente louco falando sozinho no meio da minha sala às três da manhã de um domingo. Porque, do contrário, significa que você, morta, surgiu como uma assombração na minha casa, quebrou a porra toda, disse um monte de coisas que não fazem sentido algum e agora está sentada no meu sofá como se nada tivesse acontecido. – Virou as costas e mordeu o lábio sem saber o que dizer. Viu pegar uma das fotos, agora soltas em cima da bancada, e encarar a imagem por um bom tempo. Ele suspirou alto e tombou a cabeça para trás. Se virou para ela e colocou a foto de modo que pudesse vê-¬la.
– Você se lembra desse dia?
sorriu com a lembrança da formatura.
– Claro que me lembro. Foi a primeira vez em três anos que estávamos "juntos" - ela fez aspas com os dedos – que você disse que me amava.
sorriu triste, como se estivesse voltando no tempo dentro de sua própria cabeça.
– E hoje você vem dizer que não me ama mais. – Jogou a foto de novo em cima da bancada e sentou-se no sofá, ao lado de .
– Não fale assim. Vai entender um dia. Eu sou… diferente agora. Não tenho mais a capacidade de sentir certas coisas, principalmente carnais. Não posso mais… você sabe, ter um namorado. Mas, … – ela se aproximou dele. – Você faz parte de mim, da minha história. Morri amando você mais do que qualquer coisa nesse mundo. Hoje só quero que você seja feliz e que possa amar de novo.
– Nunca mais vou amar alguém como eu amei você. Como eu ainda te amo. – deitou a cabeça no encosto do sofá e não disse mais nada.
– Claro que vai, mas para isso você precisa parar de se prender ao passado.
Ele permaneceu calado.
– No que está pensando?
– No treco que a vai ter quando você aparecer lá.
Ela riu baixinho, mas percebendo que havia tocado em um assunto delicado, ele continuou:
– Vou pedir desculpas amanhã. É sério.
– Nunca mais faça isso com ela, . Nunca mais.
O silêncio se instalou por alguns minutos e quando pensou em puxar algum assunto, percebeu que as pálpebras dele se fecharam lentamente e sua respiração foi ficando cada vez mais pesada.
Ficou ali o observando por uns instantes, pensando que tinha dado um passo importante e, a princípio, tudo parecia ter dado certo.

~*~

acordou sentindo a cabeça pesar mais do que o normal.
, fotos, uma conversa pra lá de estranha e depois mais nada. Isso era tudo o que rodeava sua mente. De uma coisa tinha certeza: havia sido, definitivamente, o sonho mais esquisito que já teve.
Levantou-se zonzo e procurou rapidamente pelo celular, verificando a hora. Viu que ainda teria algum tempo livre antes de ir buscar Summer e decidiu tomar o banho quente e demorado que não se lembrava de ter tomado na noite anterior. Ali, com a água quente relaxando todos os seus músculos, riu sozinho pensando em como seu subconsciente era bizarro.
Alcançou a toalha sem muita dificuldade e caminhou de volta até seu quarto, dando um grito alto o suficiente para acordar um cemitério inteiro ao se deparar com jogada em sua cama, com um ar despreocupado.
– Nossa, você é muito escandaloso. Achei que tivéssemos passado dessa fase. – Ela pigarreou antes de continuar. – Não há nada aí que eu não tenha visto antes, mas, sou uma menina de Deus agora. Não faz vinte e quatro horas que voltei e já estou exausta de te ver nu.
– O que? Você... o sonho... não. – Ele passou a mão pela testa, rindo de nervoso. – Não, não e não. Não foi um sonho, não é? Eu estou mesmo vendo assombrações. Puta. Que. Pariu. – Sentiu o coração pulsar cada vez mais rápido e implorou ao universo para que não tivesse um infarto.
o encarou emburrada, sentou e cruzou os braços diante do busto.
– Da próxima vez que me chamar de assombração, em vez de quebrar seus porta¬-retratos, vou quebrar você no meio. – Acabou de falar e logo se levantou em direção à porta. – Vista uma roupa, Summer está te esperando. Espero que esteja com um belo discurso de desculpas para na ponta da língua.
– Você costumava ser mais dócil. – disse, mantendo a maior distância que podia do que quer que fosse que estava em sua frente.
– Recado dado. – Ouviu a porta bater e respirou fundo uma, duas, dez vezes.
Ele iria marcar uma consulta com o primeiro psiquiatra da lista do convênio médico assim que possível.

Trinta minutos depois, estavam os dois dentro do carro.
Sim, os dois. Ele havia tentado de tudo. Trancou as portas, rezou três Ave-Marias, um Pai Nosso e espirrou vinagre no carro - porque leu no Google que espíritos não gostavam de nada ácido -, mas acabava aparecendo ao seu lado de novo e de novo. Até ele desistir, aumentar o rádio no último volume e enfiar o pé no acelerador até parar em frente ao prédio de .
– Então, o que vai dizer a ela? – Ele questionou , evitando encarar seu rosto.
– Ainda não sei. Tenho uma leve impressão de que ela não vai aceitar tão bem quanto você.
olhou de soslaio para seu rosto, silenciosamente dizendo “ainda acho que estou louco, não aceitei coisa alguma.”
– Boa sorte! – E em um piscar de olhos, sumiu de seu campo de visão.

Seus dois pés pareciam tropeçar um no outro enquanto caminhava até a portaria. Com um aceno de cabeça, Joseph liberou sua entrada. Fazia tempo que não precisava mais anunciar sua chegada.
O prédio novo de era realmente muito bonito. Ela havia se mudado há mais ou menos quatro meses e mesmo com insistindo que Summer ainda não precisava de um quarto, ela fez questão de ter um apartamento maior. era designer de interiores e ele não conseguia se lembrar de ninguém que trabalhasse tanto quanto ela. Como resultado disso, foi promovida ao fim do ano anterior, o que a ajudou a ter dinheiro para investir em um imóvel melhor e realizar seu desejo.
Ele tocou a campainha e não demorou muito para que ouvisse o barulho das chaves.
– Oi, . – Ela o encarou e ele sentiu algo dentro de si encolher quando encontrou seu olhar gélido. não respondeu ao cumprimento e girou nos calcanhares, deixando a porta escancarada com uma ordem de “entre” não dita.
fechou a porta atrás de si e quando a viu seguir pelo corredor, não hesitou em chamá-la novamente.
– Antes de você ir, podemos conversar? – parou mais ou menos no meio do caminho ao ouvir a voz dele, mas mesmo assim não se virou.
– Não temos nada para conversar.
– Eu... queria me desculpar por tudo o que disse. Sei que errei, sei que sou irresponsável e que nada, nada vai apagar tudo o que falei, mas quero que saiba que nada daquilo é verdade. Nunca vou tirar Summer de você. Jamais faria isso. – Fez uma pausa para ver se receberia resposta, mas o silêncio permaneceu. – Vou entender se não quiser falar comigo, mas, por favor, me desculpe.
Alguns minutos se estenderam até que ela suspirar e dar meia volta, indo de encontro a ele e parando três passos a sua frente. O sentimento de culpa triplicou quando ele viu um resquício de água nos olhos dela.
– Sabe, , eu odeio gente que cospe as palavras na minha cara sem se preocupar com os danos que podem me causar aqui – apontou para a própria cabeça – e aqui – bateu a mão sobre o peito esquerdo. – Quando morreu, eu achei que nunca mais algo fosse ser capaz de me machucar. Mas ontem você conseguiu. De todas as brigas e insultos que já despejamos um em cima do outro, eu nunca esperei que você… me ameaçasse. – A voz dela embargou e ele se sentia envergonhado. Tinha dentro de si uma estranha vontade de abraçá-¬la e dizer a ela que era um completo idiota.
– Eu vou consertar isso. Você vai ver. Precisa ficar calma hoje, . – Não queria prolongar o assunto, mas queria, de alguma forma, avisá-la que ainda teria que lidar com e toda a sua história sinistra de anjos. – Sério, só... mantenha a calma.
ajeitou as mangas compridas de sua blusa preta nos braços e dirigiu um olhar confuso até ele.
– Do que você está falando?
Ele apenas balançou a cabeça e ela decidiu deixar pra lá. Ele era esquisito e ela não fazia questão de embarcar em suas loucuras.

~*~

– Não volte tão tarde, ela tem que dormir às oito. – falava pela milésima vez enquanto já fechava a porta do elevador. Nunca se sentia 100% segura quando Summer estava sozinha com ele.
Trancou a porta e se jogou no sofá. Gostava de ficar sozinha aos domingos, por isso o acordo entre eles era tão bom. Era o único dia da semana que tirava apenas para si. Colocava suas séries e leituras em dia, ouvia música alta, demorava mais de vinte minutos no banho e pedia algo gostoso para comer em sua própria companhia.
, mesmo quando tinha , gostava de ficar sozinha. Gostava de não ter que lidar com opiniões externas e fazer somente o que queria durante algumas horas, sem se preocupar em agradar ou ser conivente com escolhas alheias. Como trabalhava fora, Alex era babá de Summer em tempo integral de segunda a sexta. Saía cedo e voltava tarde e morria de medo de deixá-la em uma creche. Aos sábados, se dedicava inteiramente à menina. Caminhavam no parque, assistiam desenhos e passava umas boas horas repetindo a palavra "mamãe", ansiosa para ouvir Sums pronunciá-la. Sempre imaginou que com um ano a pequena já estaria falando algumas coisas, mas até agora a única coisa que saía da boca da criança era a sílaba "dá". Toda vez que ia ao pediatra fazia questão de perguntar se realmente não havia nada de errado só para que o médico a tranquilizasse, falando que cada criança tinha seu tempo e com Summer não seria diferente apenas porque ela queria.

Depois de uma hora, estava com um balde de pipoca em seu colo enquanto assistia a season finale de Scandal, sua série favorita. Estava xingando Fitz mentalmente quando sentiu algo se movimentar no lugar vago ao seu lado no sofá. Olhou de relance, voltou a olhar para frente e em menos de meio segundo olhou novamente para o que a tinha incomodado, jogando o balde de pipoca para cima imediatamente. Deu um grito estridente ao se deparar com a figura de ao seu lado e se jogou para o canto do sofá, colocando os dois braços em frente ao rosto e fazendo o símbolo da cruz com os dedos trêmulos.
– SANGUE DE JESUS TEM PODER!
podia sentir a pulsação explodir em seus ouvidos. Não podia acreditar no que estava acontecendo. Havia enlouquecido de vez.
– Não desmaie. Por favor, não desmaie.
Foi a última coisa que ouviu antes de todos os sentidos se esvaírem de seu corpo.

Quando abriu os olhos, tudo girou.
Não se lembrava de como havia ido parar na cama e nem de ter tomado banho, o que presumiu ter acontecido, já que sentia os cabelos molharem o travesseiro a cada movimento. Tateou no escuro até encontrar seu celular e se assustou ao ver que já passava da uma da tarde e ela não fazia ideia do que estava acontecendo. Girou o corpo para o lado direito, a fim de levantar e dar um rumo na vida, quando se jogou novamente para o canto oposto da cama.
– Por favor, respire. – falou cautelosa, temendo que a amiga apagasse de novo.
- Eu estou vendo almas penadas, puta merda! – Assim que disse isso, tentou se aproximar e se encolheu ainda mais. – Não se aproxime! Não chegue perto de mim ou vou começar a rezar.
– Gente, vocês precisam parar de chamar a atenção de Deus em vão. Vocês têm noção de como ele é ocupado? – indagou. – Olha, você me deu o melhor apelido até agora. Já fui chamada de assombração e fantasma, mas alma penada é novo. Sinto te desapontar, mas não sou nada disso, . Não precisa ter medo. – Levantou-se e encostou o corpo na parede, com os braços cruzados e uma expressão divertida no rosto.
– Por que estou vendo você? – falou baixinho, mas rápido demais. – Digo, você não é real. Você é fruto da minha imaginação, então – pigarreou – peço encarecidamente que suma. Escafeda-se. Desapareça. Me deixe em paz. – Fechou os olhos, contou até dez quando os abriu, continuava lá, encarando as unhas bem feitas com uma feição repleta de impaciência.
– Você não ouviu o que eu falei? – perguntou, dessa vez um pouco mais alto.
– Nem foi tão hostil assim. Estou ficando magoada. – revirou os olhos e depois ficou séria.
? O também está maluco? Ele... Por isso! Foi por isso que ele disse pra eu ficar calma! – A cabeça dela girava.
– Escuta, . Eu não sou uma alucinação, nem alma penada nem fantasma nem assombração. – suspirou. – Muitas coisas mudaram. Mas, para que eu possa te explicar, preciso que abra sua mente e seu coração para entender tudo, pode fazer isso?
assentiu sem perceber. Apenas prestava atenção em cada palavra que saía da boca de e, por algum motivo, acreditou imediatamente em tudo que ela dizia. Aos poucos sentiu o coração desacelerar. Não sabia se era a conexão sobre-humana entre as duas lhe dizendo que aquilo era real ou se era apenas a saudade falando mais alto.
– Eu senti tanto a sua falta. – finalmente diminuiu a distância entre elas. Deram um abraço apertado e ficaram em silêncio por um longo tempo, com algumas lágrimas de substituindo as palavras que não conseguia dizer.
– Por que meu cabelo está molhado? – Ainda fungando, fez questão de perguntar.
– Porque joguei água no seu rosto, mas mesmo assim você não acordou. – disse tranquilamente. – Funcionou com , imaginei que funcionaria com você também.
– Espera. Ele também desmaiou? – Ela assentiu e explodiu em uma gargalhada espontânea.
– Foi hilário! Ele ficou mais pálido do que quando contei que estava grávida.
mordeu o lábio, aflita após se recuperar de sua crise de riso.
– Ei. Você deveria dar uma chance a ele. Sabe, ele pode ser idiota de vez em quando, mas você sabe que não é uma má pessoa. Ele errou muito comigo, mas acertou diversas vezes também. Você precisa trabalhar essa mágoa. Summer não merece crescer vendo vocês dois parecendo gato e rato!
Parte de queria desesperadamente naquele momento dizer a que nem tudo era como ela imaginava. Mas não conseguiu. Achava que nunca conseguiria.
– Estou tentando, . O problema é que... é só ele aparecer que eu começo a prestar atenção em tudo o que ele fala e faz e sempre, sempre acabo encontrando algo que me irrite. Assim brigamos mais uma vez e tudo isso se torna um ciclo sem fim.
– Alguém tem que ceder. – levantou os dois braços. – Com o tempo as coisas vão melhorar, você vai ver. E eu estou aqui agora, posso ajudar. – Terminou abrindo um largo sorriso e por um segundo pensou ter visto um resquício de malícia em seus olhos.

~*~

tentava fazer Summer parar de chorar após tê-la tirado de perto de um dos vira-latas que estavam para adoção na feirinha da praça em que estavam passeando.
– Sums, papai não pode levar você de volta para casa com um cachorro. Sua mãe me mata. Você deveria saber que ela é sanguinária. – Completou a última parte quase como num sussurro, como se fosse um segredo entre eles.
Ela continuou chorando em seu colo e ele suspirou.
– Desculpa, pequena. Hoje não.
Foi até o carro tentando mostrar outras coisas coloridas para a filha, que parou de chorar após alguns minutos, mas continuou emburrada.
– Você não devia ser tão maldoso com a nossa filha, . – Ele sentiu um arrepio ao ouvir a voz tão perto de si.
– O que você está fazendo aqui? – Respondeu olhando em volta, apenas para se certificar de que ninguém estava presenciando aquela cena. O doador dos filhotes já estava entretido em uma conversa com outra pessoa e não havia muito movimento na praça àquela hora do dia.
Summer resmungou algo em seu colo, impaciente.
– Não é nada, meu bem. Papai está ficando louco. – continuou andando em direção ao carro e falou novamente:
– Leve o cachorro.
– Ficou maluca? Não vou levar o cachorro. – Retrucou e Summer o encarou com os olhos curiosos, como se estivesse dizendo “já entendi essa parte”.
Sem tentar explicar, a colocou na cadeirinha que estava no banco de trás do carro e fechou a porta.
– Ok, se você vai mesmo fazer isso de ficar aparecendo do nada, pelo menos não faça em lugares públicos. As pessoas vão começar a pensar que sou um maluco que fala com o nada, o que é, mais ou menos, o que estou fazendo agora.
Ela revirou os olhos como sempre fazia quando entediada com alguma coisa e o ignorou.
– Leve o cachorro. Você não viu os olhinhos dela, ? Estavam brilhando. Eu sei o que é isso! Nunca tive um cachorro.
– Você voltou mais louca do que antes. Ou quer me ver morto. vai perder a cabeça se eu chegar com um cachorro na casa dela. Sums vai ter que aprender a lidar com a palavra não.
– Leve-o para sua casa, então. Você bem que precisa de uma companhia, está ficando meio rabugento.
Ele lhe lançou um olhar irritado, abriu a porta do motorista e encerrou a conversa:
– Não vou discutir com uma assombração.

~*~

Treze anos atrás

! Por que você está andando tão rápido? – já estava cansada de tentar alcançar a amiga. Não entendia por que estava com tanta pressa para um primeiro dia de aula onde estudaram a vida toda. O ensino médio não faria com que todas aquelas pessoas fossem menos hipócritas e nojentas.
Desistiu de tentar alcançá-la quando foi jogada ao chão de repente, derrubando mais duas meninas que estavam atrás dela.
– Foi mal. – Disse o sujeito que havia tropeçado nela e causado mais congestionamento no corredor que já estava entupido de gente.
– Foi péssimo né, anjo? Você não olha por onde anda? Como... – Parou de falar assim que colocou os olhos sobre os dele. Seus traços eram arrogantes como o de qualquer outro adolescente mimado daquela escola e a roupa cara que usava não negava esse fato. Mas seus olhos continham traços de diversão e a cor intensa apenas lhe dava mais certeza de que ele era o famoso garoto que não presta, mas você adoraria levar pra casa.
– Vai terminar de me xingar ou vai ficar apenas babando na minha beleza? – O tom nada delicado na voz dele fez com que ela despertasse de seus devaneios e recorresse ao velho e bom sarcasmo.
– Estava apenas observando que você tem cara de idiota. E provavelmente é um idiota. E eu continuar te xingando não vai te fazer menos... você sabe... idiota.
Ficou sério por alguns segundos, mas depois relaxou.
– Você me achou bonito.
– Nem se você fosse irmão gêmeo do Chace Crawford.
– Você gostou de mim.
– Além de idiota, é iludido. Agora saia da minha frente que eu preciso encontrar uma pessoa.
Ele abriu espaço, fazendo uma reverência um tanto quanto exagerada ao ver a garota passar.

– Aí está você! Pode me dizer por que saiu fazendo cosplay de Usain Bolt e me deixou para trás? – encostou no banco ao lado de e largou todas as suas coisas em cima da pequena mesinha. A área da lanchonete estaria um pouco menos agitada se fosse um dia comum de aula. Mas como era o primeiro, aquele havia se tornado o principal ponto de encontro dos alunos.
– Pare de reclamar! Quero te apresentar alguém.
ainda estava com a sua melhor expressão irritada quando um menino quase mais alto que as duas juntas se aproximou.
, esse é .
– Oi, . Tudo bem? Por que você fez com que ela me deixasse pra trás? Não podia esperar um pouco?
O menino deu uma risada gostosa.
– Bom conhecer você também. Mas a ideia de praticar corrida em plena segunda-feira de manhã com certeza não foi minha.
, não seja chata. – disse, revirando os olhos. – Conheci há algumas semanas, naquela festa que você não quis ir.
– E vocês se pegaram?
– Sim!
– Não! – Os dois falaram juntos, mas tinha certeza que o “não” de tinha sido sonoro o suficiente para que ela acreditasse. Gargalhou vendo que o garoto tinha entrado na brincadeira e que a repreendia com o olhar.
– Quero apresentar meu amigo pra vocês, mas acho que ele deve ter se perdido por aí. – falou, coçando a cabeça.
– Ele é legal? – perguntou, animada.
– Ele é. Acho que vocês vão se dar bem.
– Ele é bonito? – perguntou. Se tinha uma coisa que adorava ser, era inconveniente.
– Tire suas próprias conclusões. – disse e após uma breve pausa, gritou: - Ei, !
As duas olharam na mesma direção para qual acenava e sentiu o estômago revirar, incomodado.
– Olá. – O garoto disse com o mesmo ar prepotente no rosto. – Ora, ora, se não é a irritadinha do corredor.
Com seu melhor sorriso irônico, foi rápida na resposta:
– Ora, ora, se não é o mesmo idiota do corredor.
– Ela sempre distribui ódio gratuito por aí, assim? Isso não faz bem para o coração. A quem eu devo recorrer? – Ele perguntou olhando para , que, por um instante, parecia hipnotizada. já a havia visto olhar admirada para muitos garotos por aí, mas nunca daquele jeito.
? – cutucou a amiga.
– Oi? – Ela disse, despertando de seu transe e olhando em outra direção.
– Vocês já se conhecem? – perguntou gesticulando para e alternadamente.
– Digamos que sim. – fez uma careta.
– Você também é assim, ? – fez questão de fazê–la voltar o olhar para o dele mais uma vez.
– Eu? Assim como? – Ela parecia confusa.
abaixou a cabeça e esfregou os dedos nas têmporas. Era só o que lhe faltava.
– Rabugenta igual a sua amiga. – Ele disse fazendo apontando para apenas com um movimento de cabeça, sem quebrar o contato visual entre eles.
– Ela não é rabugenta.
– Finalmente alguém me defendeu nessa conversa! – exclamou, irritada.
– E também não é linda como você. – Ele disse simplesmente, fazendo com que corasse e não respondesse de imediato.
– Ok, , tire o seu amigo garanhão daqui. Vou vomitar. – apenas recolheu suas coisas de cima da mesa e saiu puxando pela mão.
– O que deu em você? – Perguntou enquanto se espremiam entre as pessoas no corredor. – Quase tive que limpar sua baba por aquele garoto.
parou de andar e virou o corpo para perguntar qual era o problema, sendo interrompida antes mesmo de começar:
– Acho que estou apaixonada.


~*~

– Tire as patinhas do meu sofá, . – Devia ser a quinta vez em menos de meia hora que mandava tirar os pés gigantes do seu sofá branco.
– Por que o pode e eu não? – Ele bufou, tirando um pé de cada vez.
– Porque, além de ser o cara mais bonito do mundo, gosto mais dele. E porque ele está de meias. – Ela disse se levantando para levar os copos espalhados pela sala até a cozinha.
– Ouviu, ? Sou o cara mais bonito do mundo. – Ela viu balançar os pés freneticamente como se fosse uma criança de dez anos enquanto tirava sarro da cara do amigo, que parecia irritado.
Rindo baixinho, colocou os copos sob o mármore da pia e, ao se virar novamente, deu um pulo com o susto que levou ao encontrar parado em sua frente, com os braços cruzados em frente ao tronco e um sorrisinho indecifrável no rosto.
– VOCÊ ESTÁ LOUCO?
– Precisamos conversar. – Ele disse baixo.
ficou na ponta dos pés para tentar enxergar por trás dos ombros de e suspirou aliviada ao ver que o amigo continuava jogado em seu sofá, assistindo televisão.
– Sim, precisamos. – Ela respondeu no mesmo tom de voz. – Mas não aqui e não agora. Aproveitando, será que pode me contar o que foi que você fez para Summer chegar com a carinha irritada e dormir como uma pedra em menos de vinte minutos?
– Bom, ela meio que queria que eu trouxesse um cachorro pra cá. – respondeu, dando de ombros.
– Um cachorro? – Ela arqueou as sobrancelhas demonstrando surpresa.
– Sim, um vira-lata muito fofo por sinal. – Ele deu um pequeno sorriso. – Mas como você é meio sem coração, imaginei que não seria uma boa ideia e, como ela é teimosa igual , não ficou muito feliz.
– Não sou sem coração, eu realmente amo os animais! Só não tenho cabeça nem tempo para um agora. – Ele assentiu e ela desviou o olhar antes de continuar. – Você fez bem. Obrigada.
– Pode repetir, por favor? Acho que não ouvi direito. – respondeu com a voz afetada, colocando a palma da mão direita atrás do próprio ouvido.
– Vá a merda.
Ele riu e girou nos calcanhares, voltando para a sala com atrás de si. Depois de vinte minutos de conversa jogada fora, resolveu ir embora e comemorou silenciosamente, pois finalmente poderia verbalizar aquilo que estava lhe atormentando desde que abrira os olhos naquele dia.
– Enfim sós.
– Me poupe, você está de saída também.
– Não estou, não. Agora já podemos conversar.
Um breve momento de silêncio reinou entre eles.
– Você acha que estamos ficando loucos? – Ele disparou.
– Sinceramente? Acho. Mas o que podemos fazer? – Ela respondeu, fechando minimamente os olhos. – É só que... argh! – enfiou o rosto entre as mãos. – Não faz o menor sentido isso.
– E se a gente chamar um padre? – sugeriu.
Ela tirou o rosto das mãos.
– Que padre, ? Você quer exorcizar a ? – Respondeu, parecendo horrorizada.
– Dê uma sugestão melhor então! – Ele bufou.
– Não sei. – Ela fez uma pausa. – Acho que acredito nela. – mordeu o lábio ao dizer isso. Era verdade, ela realmente acreditava naquela loucura toda.
– Eu não sei mais o que pensar. Isso é bizarro demais até pra mim.
Ficaram se encarando por um curto período de tempo e ela desviou o olhar. Olhar nos olhos dele era a primeira coisa que tinha feito quando o conheceu e não gostava da sensação que aquilo causava em seu corpo.
– Acho melhor você ir. – Levantou em seguida, chacoalhando a cabeça de modo a espantar seus pensamentos. Ele continuou sentado.
– Você não gosta de me encarar. Por quê? – questionou e mordeu a língua em seguida. Não pensava muito antes de falar e, nesse caso, não sabia nem se queria ouvir a resposta.
– Não tenho problemas com isso, . Por Deus... – tentou manter a expressão impassível e deu as costas para ele, mas logo sentiu um leve puxão em seu braço que a obrigou a voltar com o corpo para a posição em que estava antes. Seu coração deu um pulo inusitado ao perceber a proximidade com o rapaz a sua frente. Os olhos dele prendiam os seus e ela sentia como se fosse impossível fugir do contato e do choque de intimidade que aquilo rendia em seu ser. Os lábios dele formavam um leve e quase imperceptível sorriso, alguns fios de cabelo caíam sobre sua testa e ela se deu conta de que fazia muito tempo desde a última vez que havia reparado no quão bonito ele era.
– O que está fazendo? – Ela perguntou baixinho, tentando ignorar a tensão que consumia seu corpo.
sorriu largamente dessa vez.
– Tendo certeza que você não acha o cara mais bonito do mundo.
Soltou seu braço e sumiu pela porta de entrada do apartamento.
Em um impulso, pegou a primeira almofada no sofá ao lado e jogou em direção à porta assim que a mesma bateu.
– Idiota! – Gritou, mas ele já não ouviria mais.


Quatro

(A música do capítulo é For The First Time – The Script e recomendo colocar pra tocar quando a letra aparecer)

Na segunda-feira de manhã, a mente de parecia um trem desgovernado. A primeira coisa que fez ao chegar em seu escritório, foi encher uma xícara gigante de café. Entre indesejáveis cumprimentos de bom dia pelo caminho, abriu um sorriso discreto ao ver Meg. Sua vida era tão inacreditável que, além de tudo, ainda tinha que lidar com a secretária mais atrapalhada que já vira na vida.
– Bom dia, Meg. – Os olhos azuis da menina se voltaram para com rapidez através dos óculos e um sorriso largo tomou seu rosto.
– Bom dia, Srta. .
– Como estão indo as coisas? Marcou as entrevistas que pedi? – continuou, andando com a menina em seu encalço.
– Não encontrei nenhum fotógrafo disponível em nosso banco de dados. – Meg disse baixinho. parou em frente a porta fechada de sua sala.
– Meg, preciso de um. E preciso rápido. Pode se dedicar somente a isso hoje?
– Pode deixar. – observou a menina sair apressada e, ao adentrar a sala, quase deixou o recipiente de café quente cair aos seus pés. Ver girando em sua cadeira não era o que esperava encontrar.
– Você. Precisa. Parar. Com. Isso. – Disse pausadamente enquanto se recuperava do susto e sentia o coração desacelerar.
– O que foi? Não desenvolvi a habilidade da telepatia. Não é como se eu pudesse avisar quando vou aparecer, então acostume-se. – respondeu, divertida, enquanto observava a amiga trancar a porta rapidamente e fechar algumas cortinas, provavelmente com medo de parecer completamente louca.
– Que tal marcarmos horários? Assim você me poupa de um ataque cardíaco.
A expressão emburrada de quando se sentia injustiçada - o que ocorria com frequência - era uma das coisas favoritas de .
– Sums faz a mesma carinha quando é contrariada. – Concluiu, jogando o corpo em sua cadeira alta e confortável.
Um sorriso iluminou o rosto de , que depois pigarreou.
– Então, você está precisando de um fotógrafo?
– Sim, já faz um tempo que Andre me pediu para contratar um. Precisamos renovar nossos catálogos com urgência, mas Meg não conseguiu agendar nenhuma entrevista até agora. E nem pense em...
– Por que não chama logo o ? – interrompeu, sabendo que era disso que a amiga ia falar. segurou uma risada histérica. Não que não reconhecesse o talento de , pois seu amor pela fotografia era indiscutível. Também não era como se já não tivesse cogitado essa ideia e a descartado no mesmo instante, logo após lembrar o quão inviável era a possibilidade de deixar seu orgulho de lado e ter que olhar para a cara dele durante oito horas por dia, de segunda a sexta. Entretanto, insistia em afirmar para si mesma que não era apenas birra. Mas talvez fosse um pouco disso. Ou talvez fosse totalmente isso.
– Porque não. – Respondeu simplesmente, tentando a todo custo dar um fim naquele assunto.
– Você poderia, por favor, parar de agir como se tivesse cinco anos de idade? – permaneceu com a expressão impassível. Por dentro, seu coração já começava a apertar. Sabia que pela frente viriam palavras duras.
, precisa de um emprego fixo. Assim como você, ele tem uma filha pra criar. Não dá pra continuar vivendo de freela, né? – Ela esperou para ver se concordaria, mas rolou os olhos ao vê-la fazer uma careta. Sabia no que ela estava pensando. – Sim, ele tem dinheiro. Bastante, inclusive. – Ela fez uma pausa. – Mas, independente disso, você sabe que ele merece essa oportunidade.
respirou fundo. Sim, ela sabia. Mas sabia também que as chances de isso dar certo eram quase nulas. Ela e tendo que agir profissionalmente. Ela e juntos praticamente o dia inteiro. Ela e juntos. Ela e .
Se apenas em uma frase isso já parecia errado, não gostava nem de pensar na prática.
– Não vai rolar, . É sério.
revirou os olhos e se levantou. Impaciente, dirigiu-se uma última vez a amiga:
– Você deveria saber que eu não desisto tão fácil.
E sumiu tão rapidamente quanto apareceu.

~*~

sabia que nunca deixaria de ser cabeça dura. Estava desiludida, lembrando de todas as vezes na adolescência em que tirava notas baixas e pensava que se morresse tudo seria mais fácil.
Com a cabeça a mil, decidiu observar Summer um pouco. Mesmo sabendo que a filha não a veria, gostava de estar na presença dela apenas para observar seus movimentos, ouvir seus murmúrios desengonçados e admirar sua beleza.
A criança brincava com vários dados de pelúcia gigantes e coloridos, enquanto na televisão algum personagem de desenho animado cantava alegremente “ame sua família e venha brincar” ou qualquer coisa do tipo.
Summer jogou dois dos dados para cima ao mesmo tempo e soltou uma gargalhada gostosa quando eles se chocaram contra o chão. A cena se repetiu algumas vezes até se assustar com uma voz atrás de si.
não estava mentindo quando disse que ela era muito parecida com você.
Arregalou os olhos e procurou por mais alguém naquele cômodo, tendo a impressão de que os olhos da babá estavam pousados diretamente nela.
– É com você mesma que estou falando, .
– Você sabe… Como você está... – Perguntou, sem conseguir montar uma frase coerente.
– Te vendo? – Alex perguntou, divertida. – Venho do mesmo lugar que você.
ficou estática, sem saber o que dizer. Alex era um anjo?
– Sim, eu sou um anjo. Sim, anjo da guarda de Summer. Sim, te vejo todos os dias por aqui. Sim, eu sei que você é o cupido de e . E, por fim: boa sorte.
Alex se jogou despreocupada no sofá logo atrás de Summer, que ainda estava totalmente entretida pelos dados e parecia nem perceber a presença da babá. encarou estupefata o rosto da mulher a sua frente, que abriu um sorriso largo deixando seus olhos puxados ainda menores.
– Se você também é um anjo, por que todos podem te ver? Digo, ninguém além de e pode me ver. Agora você também pode, mas é diferente. Não é?
– Claro que é, posso te ver porque sou igual a você. Mas minha missão é completamente diferente da sua... tenho que cuidar de Summer o tempo todo e não conseguiria fazer isso sem que as pessoas me vissem. Por isso, aos olhos humanos, sou apenas uma babá.
– Faz sentido.
Um silêncio confortável pairou entre elas. De repente, se lembrou da frase "encontrará ajuda por perto".
– Então, como estão indo as coisas com os pombinhos? – Alex questionou, em meio a um sorrisinho. retribuiu com uma careta.
– Não sei nem por onde começar.
Ficou pensativa por alguns minutos, antes de uma luz se acender sobre sua cabeça.
– Alex, você tem o contato do chefe da ?
– Hm... Não. – Alex respondeu, pensativa. – Mas tenho o daquela secretária engraçada.
– Ótimo. Já serve. – sorriu. – Preciso de um favorzinho.

~*~

estava exausta. Mal conseguia prestar atenção no que estava fazendo e, ao ver que seu projeto estava ficando horroroso, constatou já estava mais do que na hora de ir para casa. Fechou o notebook e deu um longo suspiro. Era como se a visita de mais cedo tivesse pressionado um botão em seu cérebro que deixava o nome de ecoando em looping em seus pensamentos. Não gostava de se sentir egoísta, então andou até o estacionamento tentando enumerar, em uma lista mental, todos os motivos pelos quais estava certa, parando somente quando bateu a porta do carro e girou a chave na ignição, esperando ouvir o barulho do motor que, finalmente, a levaria para casa. Mas nada aconteceu.
Girou a chave novamente, franzindo a testa. Nada. Nenhum resquício de força ou barulho.
– Alguém lá em cima só pode estar de brincadeira com a minha cara.
Tentou mais cinco vezes. Em uma última tentativa frustrada, desprendeu um grito de ódio da garganta e socou o volante com força, apertando a buzina sem querer.
– MERDA!
Ótimo, agora parecia uma descontrolada. Encostou a cabeça no banco e, de olhos fechados, contou até vinte. Pegou seu celular e em segundos a chamada para o celular de já estava sendo efetuada.
Caixa postal. Uma. Duas. Seis vezes. Na última, resolveu deixar uma mensagem sutil e bem-educada:
– Oi, tudo bem? Eu só queria saber qual a finalidade do seu celular, já que você NUNCA ATENDE ESSA DROGA!
Desligou e respirou fundo. Pensou em suas possibilidades:
1 - Ligar para o seguro, que demoraria uma eternidade para chegar;
2 - Chamar um táxi e largar seu carro lá;
3 - Ligar para , que morava ali do lado e poderia dar uma carga de bateria em seu carro. Sabendo que com a última opção poderia chegar em casa mais rápido e sem preocupações, discou o único número que lhe restava ligar. Seu coração palpitava forte e ela suava como uma imbecil. Definitivamente, não tinha nascido para depender da ajuda de ninguém. Muito menos da ajuda de...
– Alô?
– Meu carro não liga, estou no estacionamento externo do escritório e antes que você pense em jogar na minha cara que estou te pedindo ajuda, quero que saiba que... – Foi interrompida antes de concluir a frase.
– Cala a boca, . Em dez minutos estou aí.

Foram os dez minutos mais longos da sua vida.
Já podia prever todas as piadinhas de mau gosto que ele faria em relação ao seu pedido de socorro e, infelizmente, ela não poderia reclamar.
Estava encostada no capô do carro quando o farol alto do carro dele a cegou. estacionou de qualquer jeito, levando em consideração que não havia mais quase ninguém por ali, e caminhou até ela com as duas mãos nos bolsos da calça jeans. Assim que parou em sua frente, automaticamente enrijeceu o corpo e cruzou os braços, levantando sua posição defensiva quando viu o resquício de diversão em seus lábios.
– Qual a graça?
Ele arqueou as sobrancelhas.
– Graça nenhuma, eu sempre soube que era seu herói.
Ela revirou os olhos e preferiu não responder, afastando-se do capô para que ele pudesse olhar e acabar de uma vez com aquilo.
Depois de algum tempo mexendo em cabos e observando as engrenagens do carro, limpou as mãos numa velha flanela que tinha trazido consigo.
– Tenho uma notícia boa e uma ruim, qual você quer primeiro?
– Desembucha, .
– A ruim é que provavelmente sua lata velha morreu.
– Não fale assim do meu carro. – advertiu. – O que quer dizer com isso?
– Acho que seu motor fundiu.
Ela bateu a mão na testa.
– A boa é que vou te levar pra casa.
– Não vai, não. Vou ligar para o seguro e depois chamar um táxi. O que, no caso, eu deveria ter feito desde o começo.
Ele apenas revirou os olhos, sem a menor vontade de discutir, enquanto a observava discar rapidamente o número do seguro.

passou a próxima meia hora ao lado dela, parado como uma múmia e mudo como um rádio sem pilha, mesmo com ela insistindo que ficaria bem sozinha. Quando o seguro chegou, alguns funcionários rebocaram o carro e disseram que o problema estaria resolvido em até vinte e quatro horas.
– Bom, obrigada por ter vindo e desculpa por ter feito você gastar seu tempo. Vou chamar um táxi, já pode ir embora.
já estava virando as costas quando ele bloqueou sua passagem.
– Você acha mesmo que vou te deixar chamar um táxi quando posso te levar pra casa? – Ela ouviu as palavras em tom debochado. – Anda, entra no carro.
, não precisa! Eu vou de táxi. – Tentou manter a voz firme. Já era demais o fato de ter feito com que ele fosse até lá, pegar carona não estava nos planos.
– Não me faça te pegar no colo como uma criança birrenta. – Ele cruzou os braços, como quem espera um desafio.
sentiu vontade de retrucar, mas concluiu que não tinha emocional para briguinhas naquele momento. Foda-se. Foda-se o carro quebrado, foda­se o dia de merda, foda-se . Ela só queria ir para casa.
– Boa garota. – O ouviu dizer antes de bater a porta.
– Vai pro inferno. – Encostou a cabeça no banco e esticou a mão para ligar o rádio.
Em poucos minutos, fechou os olhos ao ouvir os primeiros acordes de uma de suas músicas favoritas. Aumentou o volume e, pela primeira vez no dia, sorriu verdadeiramente.

She's all laid up in bed with a broken heart
(Ela está deitada na cama com o coração partido)
While I'm drinking Jack all alone in my local bar
(Enquanto eu bebo uísque sozinho no bar da cidade)
And we don't know how
(E nós não sabemos como)
How we got into this mad situation
(Como entramos nessa situação louca)
Only doing things out of frustration
(Fazendo as coisas apenas por frustração)

Concentrou-se totalmente na música e começou a cantar suavemente, deixando a música invadir completamente sua alma.

Trying to make it work
(Tentando fazer dar certo)
But man these times are hard
(Mas, cara, estes tempos estão difíceis)

Ouviu a voz de juntar-se a sua, no mesmo tom baixo, enquanto tamborilava os dedos no volante.

She needs me now but I can't seem to find the time
(Ela precisa de mim agora mas não consigo achar tempo)
I got a new job now on the unemployment line
(Eu tenho um novo emprego na fila dos desempregados)
And we don't know how
(E nós não sabemos como)
How we got into this mess, it's a God's test
(Como entramos nessa confusão, é um teste de Deus)
Someone help us 'cause we're doing our best
(Alguém nos ajude porque estamos fazendo de tudo)
Trying to make it work
(Tentando fazer dar certo)
But man these times are hard
(Mas, cara, estes tempos estão difíceis)

Olhou de canto para ele, que ainda tinha o olhar fixo na avenida a sua frente e, sem saber exatamente porque, cantou um pouco mais alto.

But we're gonna start by drinking our cheap bottles of wine
(Mas vamos começar bebendo nossas garrafas de vinho barato)
Sit talking up all night
(Sentar e conversar a noite toda)
Saying things we haven't for a while
(Dizer coisas que não dizemos há algum tempo)
A while, yeah
(Há algum tempo, yeah)

Ela agora cantava olhando para a janela meio aberta ao seu lado, enquanto movimentava a mão no ar no mesmo ritmo da música. a observou de soslaio, achando bonito como ela fechava os olhos por alguns segundos, apenas sentindo a música que, de repente, pareceu preencher o ar com todo seu significado. Naquele momento, queria mais do que tudo ter uma câmera em suas mãos para capturar aquele momento tão raro de vulnerabilidade da mulher ao seu lado.

We're smiling but we're close to tears,
(Estamos sorrindo, mas estamos prestes a chorar)
Even after all these years
(Mesmo depois de todos esses anos)
We just now got the feeling that we're meeting
(Só agora temos a sensação de estarmos nos encontrando)


Talvez tenha acontecido rápido demais, mas ela nunca saberia por quanto tempo seu coração pareceu parar de bater quando o farol ficou vermelho, seus olhos se encontraram com os dele e, quase em um sussurro, cantaram juntos:

For the first time
(Pela primeira vez)

Com todo o orgulho esquecido em algum lugar de si, abriu um sorriso sincero. Elevou um pouco mais a voz e, quando pôde ver, já estavam cantando a última parte da música, mais alto que o próprio rádio.

Oh, these times are hard,
(Esses tempos estão difíceis)
They end up making us crazy
(Eles acabam nos deixando malucos)
Don't give up on me baby
(Não desista de mim, amor)

Não demorou muito para que ele encostasse o carro em frente ao prédio de , desligando o rádio em seguida. Também não demorou muito para que ela tirasse o resquício de sorriso do rosto e acenasse levemente com a cabeça.
– Obrigada pela carona.
– No caso você ganhou uma carona e um show particular. Eu cobro por hora e só aceito pagamento em dinheiro. – Ele disse em tom presunçoso.
– Ah, pronto. – Ela respondeu, arqueando as sobrancelhas. – Você que deveria estar me agradecendo por eu ter permitido que você assistisse a minha performance.
já estava prestes a descer do carro quando o ouviu dizer, um pouco mais sério:
– Falando sério agora, não sabia que você cantava.
Ela sorriu, sem que ele pudesse ver.
– Tem muitas coisas que você não sabe sobre mim, .


Cinco

Doze anos atrás

A garrafa de vodka não pesava mais em sua mão esquerda, mas não sabia dizer se era porque não havia mais nenhum líquido dentro dela ou se era apenas o efeito entorpecente da quantidade de álcool que corria em seu sangue. Fosse o que fosse, quanto mais subia aqueles degraus, mais vontade ela sentia de rir. Era engraçado o jeito como suas pernas tremiam levemente a cada passo e a sensação boa que era ter as mãos de Jason ao redor da sua cintura.
– Pare de rir e anda direito ou você vai cair. – Ele repetia pela décima vez em menos de cinco minutos.
Quando finalmente chegaram ao corredor que dava para os quartos, a garota se virou para ele e sorriu, falando enrolado:
– Você não me deixaria cair. – Ele a acompanhou em uma risada baixa e logo se apossou de seus lábios, com uma pressa que até então não havia se pronunciado. se deixou levar pelos beijos, que ora desciam pelo seu pescoço, mas logo retomavam sua boca. Estava encostada na parede, tentando pensar em qual quarto poderiam entrar quando o afastou com uma mão, da maneira mais delicada que pôde, e, com a outra, levou a garrafa de volta à boca, até sentir as últimas gotas da vodka queimarem sua garganta.
– Acabou! – falou fazendo bico. – Vamos pegar mais?
Jason balançou a cabeça negativamente, fazendo seus cabelos caírem levemente sobre seus olhos castanhos.
– Sem mais vodka, agora só precisamos de um quarto. – A voz dele soou desejosa e instigante, como se nada no mundo importasse mais. Ela assentiu freneticamente e o seguiu em passos tortos, enquanto ele a puxava pela mão. Jason girou a maçaneta de uma das portas e ela logo pôde ver a grande e espaçosa cama coberta com uma colcha azul escura e três travesseiros jogados por cima. Não teve tempo de olhar em volta para decifrar de quem era o quarto, porque no instante seguinte já estava deitada entre os travesseiros e Jason se desfazia de sua camisa branca.
As roupas começaram a se espalhar pelo chão e o calor estava quase insuportável quando, de repente, o rosto de Jason não era mais o rosto de Jason e tudo que seus olhos viam eram borrões, como se uma agitação muito próxima a ela estivesse acontecendo. Novamente sentiu vontade de rir. Riu como se estivesse vendo um filme de comédia e só parou quando sua cabeça doeu ao ouvir um grito.
– O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? ­– focou na voz enfurecida, mas não conseguia entender porque Jason estava se vestindo de qualquer jeito e nem porque saiu do quarto em uma velocidade furiosa. Girou a cabeça com os olhos fechados, impedindo sua visão de ficar ainda mais turva e tentando focar em algum resquício de sobriedade. Quando os abriu novamente, estava parado logo ali. Ele estava em sua frente, com os braços cruzados sobre o peitoral e as narinas inflando a cada respiração. Alguém estava puto.
– O que você fez? ­– Ela perguntou baixinho, mas ao mesmo tempo desesperada por estar seminua em sua frente. Puxou dois travesseiros que estavam ao seu lado e tentou se cobrir o máximo que pôde, esperando uma resposta num tom que não fizesse sua cabeça doer.
– O que EU fiz? Olha só pra você! – Ele parecia indignado. – Entro no meu quarto e encontro você bêbada e quase sem roupa na MINHA CAMA com aquele idiota! Perdeu o juízo?
bufou, sem a mínima vontade de responder e se jogou para trás, caindo deitada na cama novamente.
– Desde quando você é meu pai? Eu estava me divertindo. –­ Riu sem humor, fechando os olhos e sentindo o peso das próprias pálpebras.
– Não ouse dormir na minha cama, . Se você vomitar, vou te chutar daí. – Ela fingiu que não estava mais ouvindo, mas ele continuou resmungando. –­ Logo esse fim de semana que todo mundo resolveu viajar. E ainda é sexta-feira! Não vou te aguentar até domingo. Sem chances. Você vai ficar com o .
– Mas o também está...
– Não interessa onde ele está! Ele vai ter que dar um jeito de voltar dessa viagem estúpida e te levar com ele.
– Você me odeia tanto assim? – perguntou, sem querer demonstrar ressentimento. – Eu poderia ter ficado sozinha, só vim porque e tia Rose insistiram. Vou chamar um táxi e ir embora.
Mesmo com a imagem embaçada, ela pôde ver seus olhos revirando.
– Eu não quis dizer isso. – Ele respirou fundo. – É só que... Quer saber? Deixa pra lá. Você não vai pegar táxi nenhum nessas condições. Pode ficar aqui, só não vomita no meu travesseiro.
andou em direção a porta, mas não perdeu a oportunidade.
– Isso! Volte para todas as suas garotas e me deixe em paz.
A voz do garoto ressoou baixa:
– Eu não vou ter essa conversa com você. Eu não te devo satisfações.
– Blá, blá, blá. – Ela retrucou, infantil.
– Muito madura.
– Com certeza mais do que você. ­– Ela terminou com dificuldade, antes que a escuridão tomasse seus olhos.


~*~


– Bom dia, raio de sol. – gritou animada ao abrir as longas cortinas que cobriam as janelas do quarto de . Ele resmungou qualquer coisa parecida com “só mais cinco minutos” e cobriu os olhos com o edredom quando sentiu a claridade atingir seu rosto.­
– Não tem mais um, nem dois, muito menos cinco minutos. Levante logo! – Ela bateu palmas. – Hoje é um dia especial. – E era mesmo. Era o dia em que finalmente ela havia começado a mexer seus pauzinhos para concretizar sua missão mais impossível que as missões do Tom Cruise.
­– O que você tá fazendo aqui a essa hora? – Ele disse, emburrado. – Você é um fantasma que pode ir onde quiser, a hora que quiser, fazer o que quiser sem ninguém encher o saco e, ainda assim, prefere vir me atormentar. – Ele continuava com os olhos fechados.
fez uma careta ao perceber que ele a havia chamado de fantasma novamente e jogou um travesseiro rente ao seu nariz.
­– Ai! – exclamou. – Já te disse que você voltou mais violenta?
– Tenho três coisas pra te dizer. Número um: se me chamar de fantasma de novo logo, logo você vai se juntar a mim no outro plano. Número dois: você se esqueceu da sua entrevista hoje. Número três: você tem quinze minutos para estar pronto.
arregalou os olhos procurando o relógio e resmungou um “ah, não”. se esparramou em sua cama assim que ele correu para o banheiro e ficou se divertindo com a cena de um com a cara amassada, cabelo desgrenhado, escova de dentes na boca, babando pasta de dente, tentando colocar uma camisa. Dois minutos depois, ele estava devidamente vestido, com uma expressão confusa no rosto.
– O que foi? – perguntou.
– Estou apenas imaginando o que deu na cabeça da . Digo, para ela ter me indicado para a vaga. Não esperava essa maturidade.
– Sobre isso… – começou.
– Ah, não. Não, não, não. Ela não sabe? O que foi que você fez? – Ele parecia realmente assustado.
– Vamos supor que eu tenha… Não, espera. Não é da sua conta. – sorriu maliciosa.
– Olha, eu sei que meus pecados foram muitos, mas se essa sua missão for provocar ainda mais a raiva da por mim, eu sugiro que pare, porque não é legal. Ela vai surtar.
­– Mas você precisa do emprego. – ponderou e ele pareceu pensar por algum tempo, dando de ombros em seguida.
– Deus me ajude.
Depois de engolir meia xícara de café, pegou sua pasta, rodou as chaves do carro em seus dedos e, em seguida, já estava em direção ao escritório, com em seu encalço.
Quando chegaram, ele estava pálido. Abriu os dois primeiros botões da camisa azul clara e respirou fundo.
– Vai dar tudo certo. Eles vão amar seu trabalho e no fim do dia você será um homem contratado.
– Se não for um homem morto... – resmungou.
Ela o viu adentrar a grande porta de vidro e suspirou. Agora tudo o que podia fazer era esperar e torcer para que sua primeira flecha tivesse ido na direção certa, rumo ao coração de um dos dois. Foi então que a sequência do flashback anterior a atingiu e ela entrou em transe, vendo as cenas desconhecidas mais uma vez.

podia ouvir o barulho de vomitando atrás da porta, mas não entendia como a menina podia recusar tanto sua ajuda.
, abre a porta. – Pediu pela quinta vez naquela manhã.
– Não. Estou bem. – A voz fraca ficava ainda mais fraca ao tentar soar firme, o que estava deixando um poço de irritação.
– Para de ser ridícula, garota. Me deixa te ajudar! – Ele esmurrou a porta com força e depois respirou fundo. – Por favor.
Uns vinte segundos se passaram até que ele ouvisse o barulho da maçaneta sendo puxada. estava em pé em sua frente, pálida e com os olhos fundos. A expressão cansada e dolorida, como de alguém que recebeu cinquenta tapas na cara de uma vez só. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo e seu dedo indicador direito foi imediatamente levado à boca de .
– Não fale nada, não quero ouvir. Juro que nunca mais vou beber. – A garota afastou o dedo da boca dele e voltou à pia, arrumando suas coisas em uma nécessaire e escovando os dentes em seguida.
A risada de soou alta e ecoou pelos ouvidos de como um sino ensurdecedor. No mesmo instante, ela se arrependeu de ter aberto a porta e desejou poder afogá-­lo na privada atrás de si.
– Se você fosse famosa, eu mesmo gostaria de redigir a manchete. Imagina só “ destruída por causa de muitos shots de tequila, uma garrafa inteira de vodka e alguns momentos de pegação com Jason Yuki na cama do inimigo.” Uma verdadeira reviravolta na sua vida, não? – terminou com um sorriso irônico e a viu revirar os olhos enquanto enxaguava a boca.
– Esse é o seu conceito de “me deixa te ajudar”? – A menina argumentou, pegando sua bolsa e indo novamente em direção ao quarto de .
Assim que passou em sua frente, não pôde deixar de reparar no short curto que realçava a parte mais avantajada de seu corpo e na regata quase transparente que estava colada em seu torso. – Esse é o seu conceito de pijama? – Perguntou, arqueando as sobrancelhas.
Ela se sentou confortavelmente em meio aos travesseiros e cruzou as pernas.
– Achei naquela gaveta ali – disse apontando uma das gavetas do armário do garoto. – Achei que fosse da . Ou de qualquer outra coitada que tenha largado por aqui.
se sentou ao lado dela e balançou a cabeça.
– Nunca deixei nenhuma menina dormir no meu quarto. Exceto e, bem, agora você.
– Hm. – A expressão no rosto dela era indecifrável, mas ele podia apostar que tinha ficado constrangida com o comentário.
– Mas do sofá já não posso dizer o mesmo... – continuou, tentando diminuir a tensão que havia se instalado pelo ar, e em seguida ganhou um tapa fraco no ombro. Sorriu para ela e, pela primeira vez em alguns dias, ela o fez de volta.
– Obrigada por me deixar ficar aqui e... me desculpa. Você sabe… pela sua cama, Jason e a quantidade de vômito no seu banheiro. – Ela terminou com uma careta.
­– Não tem problema. – Disse, mas de repente pareceu incomodado. – Mudando de assunto, estou morrendo de fome. Vamos precisar pedir alguma coisa porque não tem nada aqui em casa.
– Sem problemas. Vou me trocar e te encontro na sala. – disse se levantando e procurando suas roupas.
­– Certo. – Ele fez uma pausa antes de se levantar. Mordeu a língua, pois sabia que não devia falar sobre o que estava prestes a falar. – Ontem, se eu não tivesse interrompido, você teria... Você sabe... Com o Jason, não é?
A garota parou onde estava e de uma hora pra outra se sentiu petrificada. Não esperava por aquela pergunta. Tentou respirar normalmente, mas seu coração bombeava o sangue rápido demais e de repente suas pernas tremiam.
– Isso não é da sua conta, . – Conseguiu dizer sem gaguejar, mas no fundo só queria mudar de assunto.
– É sim. – Ele ponderou, sentindo-se subitamente confiante para continuar com o assunto. – Você estava bêbada e nunca ia me perdoar se soubesse que deixei alguém se aproveitar de você. Aquele cara é o maior imbecil, não entendi até agora porque você se prestou a esse papel, sinceramente.
Suas bochechas esquentaram e ela finalmente virou­-se para ele.
– O que você quis dizer com isso? Que eu saiba, , o cafajeste aqui é você. E eu posso ir pra cama com quem eu quiser, afinal, a vida é minha e não cabe a você decidir com quem vou perder minha virgindade ou não. – As palavras saíram mais rápidas do que ela desejava e de repente sentiu vontade de chorar. Acabara de admitir que era virgem para a última pessoa no mundo que deveria saber disso.
A expressão nos olhos de era um misto de surpresa com vergonha e incredulidade.
– Eu não... Eu não quis dizer isso. Eu... Esquece. Por favor, esquece. – Ela tampava o rosto com as duas mãos e desejava mais do que nunca que um buraco se abrisse e a engolisse para de baixo da terra.
Ei. – Ele deu dois passos pra frente, incerto. Não sabia exatamente o que fazer com aquela informação, mas apesar de tudo não gostava de vê-la constrangida daquele jeito. – Está tudo bem, você não tem que ter vergonha de mim. Te odeio e você me odeia, viu como a gente se entende? Tá tudo certo. Não vou contar nada a ninguém. – Ele não tocou nela, mas estava disposto a oferecer um abraço caso ela precisasse. E uma parte dele secretamente esperava que isso acontecesse.
Quando finalmente se tocou da cena que estava protagonizando no meio daquele quarto, tirou as mãos do rosto e gargalhou, ainda com algumas lágrimas pelo rosto.
­– O que foi? – perguntou confuso, enquanto a via se contorcer em risadas.
– Eu sou uma derrota. – Ela respirou fundo. – Uma virgem de quase dezessete anos sofrendo com uma ressaca monstruosa e chorando na frente do maior idiota que já conheci. – Ele não conteve uma risada baixa e balançou a cabeça de forma negativa. era louca. E embora tivesse motivos de sobra para não gostar dela, aquele em específico amenizava um pouco o lado negativo. Deu um leve tapa na testa da garota e finalizou a conversa:
– Vai logo. Ainda estou com fome.


~*~


Assim que a viu, se lembrou daqueles desenhos idiotas que assistia com Summer onde o personagem fica tão bravo que acaba ficando completamente vermelho, com fumaça saindo de suas narinas e orelhas. Era assim que estava quando ele adentrou a sala e cumprimentou Andre.
– Aí está ele! – Andre disse, divertido. – Olá, . Estávamos te aguardando. – Sorriu educado ao apertar sua mão e logo depois apontou para a cadeira ao lado de .
– Oi, . – disse alto, lançando-lhe um olhar que implorava “por favor, não estrague tudo”.
– Oi, querido. – Ela rebateu, com um tom forçado.
A entrevista foi tranquila e Andre parecia muito à vontade ao conversar com e analisar seus trabalhos, sem reparar que parecia a ponto de avançar nos dois como um leão furioso. Quando o relógio marcou onze horas, Andre encerrou a conversa, dizendo que estava contratado e poderia começar no dia seguinte. Naquele momento, pequenas explosões de felicidade aconteceram dentro dele. Finalmente havia conseguido um emprego pra fazer o que amava, com um salário bom, em uma empresa ótima e poderia ser um pai exemplar para Summer.
Ao contrário de , sempre teve tudo. Sua família era muito bem sucedida, portanto nunca precisou se esforçar muito para conquistar as coisas. Estudou nos melhores colégios, viajou para diversos lugares, optou por não entrar em nenhuma faculdade e fez todos os cursos de fotografia que quis. De certa forma, era um menino mimado que hoje sofria as consequências da boa criação. Tinha dificuldade de conseguir um emprego estável, não tinha muitos contatos no meio artístico e já não contava mais com mesada dos pais, o que dificultava um pouco manter seu padrão alto de vida. Agora, com Summer, era ainda mais complicado. Não passava dificuldades, tinha dinheiro o suficiente para viver razoavelmente bem, mas sabia que não poderia criá-la da forma correta se continuasse vivendo de freela.
Sua felicidade foi se esvaindo aos poucos ao encarar a expressão no rosto de , que deixava claro que ela poderia desmaiar a qualquer momento.

– Como assim contratado? Ainda temos mais duas entrevistas agendadas para hoje a tarde!
Andre sorriu, relaxado.
– Não vejo motivos para continuar com as entrevistas se gostei do rapaz. Fora que o fato de vocês se conhecerem ajuda na interação profissional. Aliás, , por que não indicou antes? – Ele franziu o cenho.
– Não me passou pela cabeça. – respondeu, entre dentes.
Andre apenas deu de ombros, sabendo que provavelmente a mais nova mentia. Despediu-se de ambos com um leve aceno de cabeça e deixou a sala.
– Ok, em minha defesa gostaria de dizer que...
– Você não tem direito a uma defesa. O que estava pensando? Como você sequer ficou sabendo... – parou por um momento. – .
Em questão de segundos, a amiga se materializou em sua frente.
– Pois não? – Tentou sorrir, enquanto colocava as mãos no rosto, derrotado.
– O que foi que você fez? – faltava espumar.
– Veja bem, você tinha um problema, certo? Eu resolvi o seu problema. Uma… colega entrou em contato com Meg e indicou , que, por acaso, estava super disponível para a vaga. No fim, você tem um fotógrafo e ele tem um emprego. Todos saíram ganhando. Iupi? – Ela sorriu satisfeita consigo mesma.
– Você não podia ter feito isso. – Repreendeu a amiga. – E você não devia ter aceitado a proposta sem falar comigo antes! – se dirigiu a .
– Por que não? Você é a dona da empresa, por acaso? – Ele respondeu, cansado da birra de .

Cinco minutos depois, já estava entediada. Aquela briga estava chata e ela olhava com cara de paisagem para os dois que gritavam pela sala. Não aguentava mais a história de “como você pode ser tão cara de pau” e “você é uma cretina egoísta” e blá, blá, blá. Será que eles não se cansavam de repetir os mesmos argumentos, os mesmos gritos, as mesmas brigas? não entendia por que eles se recusavam tanto a aceitar as coisas como elas eram. Tinha que consertar aquela palhaçada o mais rápido possível antes que eles transformassem a vida de Summer em um verdadeiro inferno.
Mais uma vez, sentiu sua mente se dissolver em um flashback. Dessa vez, lhe deixando quase sem ar.

, PARA! – tentava encontrar fôlego em seus pulmões, mas as cócegas faziam algumas lágrimas escorrerem por suas bochechas e ela já sentia sua barriga doer.
– QUEM É O REI? QUEM É? – Ele perguntava incessantemente com as mãos habilidosas por todo o corpo dela, fazendo com que, além de cócegas, formigamentos inapropriados se estendessem pelo mesmo.
– É VOCÊ! – finalmente admitiu. Suas mãos finalmente se afastaram dela e a garota pôde respirar com dificuldade, ainda se recuperando do ataque.
– Repete – ele disse com a voz firme, encarando-a com ar de superioridade. revirou os olhos e disse:
– O rei é você. Agora me deixe em paz. – Ela limpou o restante das lágrimas e viu o sorriso satisfeito dele muito próximo de si. Só então percebeu que estava jogada no sofá com sobre seu corpo, apoiando o peso em um dos cotovelos. Sentiu as bochechas queimarem e então o sorriso dele se desfez.
tirou os fios de cabelo que cobriam parte do rosto dela e deslizou os dedos quentes desde sua testa até seu pescoço. sentiu um arrepio na espinha, como se cada nervo do seu corpo fosse um fio desencapado quando os olhos dele prenderam os dela em um contato quase inquebrável. A respiração dele estava próxima demais e seus batimentos cardíacos se elevaram depressa. Sem coragem de se afastar, soube que iria se arrepender no segundo em que, sem tirar os olhos dos dela, ele se abaixou devagar até encostar seus lábios.
Foi apenas um toque. Um teste para ver até onde aquilo iria e o que despertaria dentro de cada um. Quando ela fechou os olhos, o corpo deles colidiram em choque e, de repente, não sabia mais quem era, de onde veio, para onde ir e, o mais importante, o que estava fazendo.
O beijo se aprofundou e o gosto da língua quente dele explorando devagar o interior de sua boca a fez mandar o último resquício de consciência para o espaço. Cedeu aos seus instintos e mal percebeu quando começou a se contorcer embaixo dele, pedindo inconscientemente por mais.
desceu as mãos pela lateral de seus quadris enquanto quebrava o beijo de forma delicada, com medo de que qualquer movimento brusco fosse fazer com que ela o empurrasse para o chão. Afastou-se minimamente seus rostos, ainda sentindo a respiração entrecortada da menina bater em sua pele ao encostar suas testas.
– Posso sentir seu coração batendo – ele sussurrou. – Não sabia que eu causava isso em você.
abriu os olhos lentamente, chocando-se de novo aquele contato visual intenso.
– Eu também não.
E então, tudo aconteceu rápido demais. colou suas bocas novamente, dessa vez com força. Era um misto de desejo, medo e ódio que se apresentava pela primeira vez. Era como se estivessem finalmente assumindo suas fraquezas, com toda a fúria dando lugar a um sentimento até então desconhecido.
Naquele momento, não pensou. Pela primeira vez em muito tempo, ela não planejou suas ações nem calculou seus próximos passos. Eram apenas dois jovens dando vazão a luxúria e a vontade incontrolável de viver o momento. Não sabiam se era o desejo, a insegurança ou a falta de conhecimento de seus mais profundos sentimentos que fez com que um se entregasse ao outro, sem pestanejar ou pensar nas consequências.
fora o primeiro. O primeiro que a tocou como nenhum outro jamais o havia feito.
E foi naquela noite que tudo começou.


saiu do transe quando bateu a porta com força. estava parada em frente a ela e sua expressão era confusa.
? Está tudo bem?
De repente seus pulmões se encheram novamente com o ar e a mistura de emoções a deixou completamente ensandecida. Se nunca tivesse morrido, provavelmente essa seria a hora.
Mal reconheceu a própria voz quando finalmente falou:
– Você... Você perdeu sua virgindade com o .


Seis

? – Ao ouvir a voz rouca chamar seu apelido, ela soube que o que estava prestes a fazer era mais do que certo.
Desde o momento em que pousou os olhos sobre no primeiro dia de aula do ensino médio, soube que o coração da amiga estava completamente entregue. Dois meses depois daquele fatídico dia, trocaram o primeiro beijo e não se desgrudaram mais.
Há um ano se lambiam pelos cantos em todas as oportunidades possíveis, mas, ainda assim, fugia de um relacionamento sério como o diabo foge da cruz.
Toda vez que tentava pressioná-lo para entender o que tinham, ele se esquivava com louvor. O argumento era que, por mais que gostasse dela, não estava pronto – nem disposto – a se entregar para algo que exigia tamanho comprometimento. Já afirmava que no fim das contas não se importava com rótulos e insistia que estar com fazia parte de sua evolução espiritual. No fundo, todo mundo sabia que ela morria de ciúmes e apenas fingia não ligar. "O que os olhos não veem, o coração não sente, ." Era o que repetia como um mantra. Mas os olhos dela viam, seu coração sentia e queria matá-lo. Não entendia como ele podia não dar a amiga o valor que ela merecia. Não entendia como alguém jurava de pés juntos gostar de uma só pessoa e no segundo seguinte saía beijando milhões de bocas diferentes.
Mas agora era sua boca que ele havia beijado, era seu corpo que ele havia tocado e pensar nisso lhe rasgava o coração. Havia traído a confiança de sua melhor amiga, mas, ainda mais doloroso que isso, era saber que havia traído a si mesma.
Tentando espantar a culpa que esmagava sua consciência, optou por não responder o chamado baixo do garoto, apenas terminando de vestir a saia jeans que usava na noite anterior.
– Onde você está indo? – perguntou, sonolento.
– Embora. – Instantaneamente sentiu a voz embargar e o estômago contrair.
– Não vamos nem conversar? – Ele já parecia bem acordado e nada cauteloso ao protestar.
– Não temos nada para conversar. – queria que o tom frio de sua voz deixasse claro que tudo que ela queria era silêncio, mas ele não pareceu se importar com a sua vontade quando pulou da cama e a segurou cuidadosamente pelo braço, fazendo com que ela o encarasse mesmo contra vontade.
, por favor. Eu pensei que…
– Você pensou errado – ela o interrompeu. – O que aconteceu não deveria ter acontecido. Não vai acontecer nunca mais. – Virou o rosto e paralisou. Seu coração batia tão rápido que mal conseguia raciocinar. Não tinha tido tempo o suficiente para analisar o que havia acontecido uma hora antes, mas podia sentir o desespero tomando conta de si ao perceber que ela estava completamente arrependida e prestes a deixá-lo.
– Ok, não deveria ter acontecido. Mas aconteceu – ele falou baixinho, tentando fazer com que ela olhasse em seus olhos novamente. – Aconteceu, . E foi… – ele franziu o cenho antes de continuar – bom.
– Não, ! Não, não, não e não. – Ela se desvencilhou dele e passou a mão pelos cabelos, agora soltos. – Meu Deus, o que estamos fazendo? O que foi que a gente fez? – Ela estava prestes a ter um ataque de pânico. – Ela nunca vai me perdoar. – E então, com um soluço profundo, permitiu que as lágrimas se desprendessem de seus olhos, aliviando seu peito da culpa e da agonia.
Estava doendo como jamais tinha doído antes.
Ver e juntos sempre fora incômodo. Os diálogos carinhosos, as trocas de olhares, os beijos e abraços, absolutamente tudo entre eles a fazia se sentir desconfortável. Agora finalmente sabia o porquê e, por Deus, preferia ter continuado no escuro.
Ela o queria. Desde aquele corredor, desde a primeira briga e a primeira provocação, ela o queria. E o queria a ponto de ter traído a pessoa mais importante da sua vida, sem nem pensar nas consequências.
– Ela pode não entender agora... até porque eu também não estou entendendo nada. – Ele falava mais para si mesmo, enquanto chorava copiosamente em sua frente. – . – Ele tentou se aproximar. Deu dois passos para frente e sentiu uma pontinha de esperança cutucar o peito esquerdo quando a viu não recuar. – Por favor. Não é possível que não tenha sido bom pra você também! – Ele tentou manter a voz calma, mas parecia desesperadamente curioso.
– Eu sinto muito. Preciso ir embora. – virou-se rapidamente. Ela não queria mais ouvi-lo. Ela só precisava sair dali. Agarrou sua bolsa e andou em passos firmes até a sala. As paredes pareciam se fechar em sua volta e era cada vez mais difícil respirar.
Estava quase alcançando a maçaneta da porta da frente quando sentiu a presença dele atrás de si novamente.
, presta atenção em mim. – segurou seu braço mais uma vez, agora com menos delicadeza e a virou contra ele sem que ela conseguisse protestar. ­Tinha certeza que estava fora de si, não sabia porque estava agindo daquela forma e muito menos sabia como podia estar prestes a dizer o que ia dizer. Mas as palavras se embrenharam em sua garganta e ele soube que, naquele momento, era tudo ou nada. Tinha acabado de descobrir o paraíso e não podia deixá-lo escapar de suas mãos sem ao menos tentar, por mais que aquilo lhe custasse todo seu orgulho.
– Se você quiser, podemos tentar. Vamos explicar para todos. , , tia Rose, meus pais. E vamos… dar um jeito. Vamos descobrir juntos o que foi que acabou de acontecer, porque, sinceramente, eu nunca senti nada igual. – abriu a boca para contestar, mas foi interrompida rapidamente por um dedo trêmulo dele em seus lábios. – Mas, se você olhar nos meus olhos e disser que não me quer, disser que não significou nada e colocar toda a culpa nos últimos resquícios de álcool que estavam no seu organismo, te deixo sair por essa porta sem hesitar. E aí vamos voltar para as nossas rotinas, fingindo que nada aconteceu e nunca mais falaremos sobre isso. Eu juro.
Ela o encarou pelo que pareceu uma eternidade. Aquele em sua frente era um diferente. Um vulnerável. Sem piadinhas, sem provocações, sem ironias e grosserias. Aquele era o brincalhão que de vez em quando lhe roubava um abraço depois de uma briga. O que quase derrubou a porta do banheiro ao ouvi-la vomitar.
Um que estava disposto a encarar o resto do mundo para que ela não saísse por aquela porta.
Mesmo sentindo-se esmagada por dentro, sorriu. Era bom saber que ele a havia deixado vê-lo de verdade, mesmo que por uma única vez na vida.
, – levou um dedo até sua bochecha e deslizou-o até seu queixo, enquanto ele a olhava esperançoso e ela se odiava cada vez mais por só conseguir enxergar em seus pensamentos – eu te odeio e você me odeia. Viu como a gente se entende?
Ele assentiu, sentindo uma sensação esquisita na boca do estômago.
tirou as mãos do braço de e desviou o olhar angustiado para a parede branca ao seu lado.
– Vi. – Completou com um sorriso irônico antes de dar as costas a ela. – Você está certa. É melhor ir embora.
Com os olhos ardendo, constatou que, de um segundo para o outro, o que não a suportava estava de volta e disposto a ficar.
Quando fechou a porta e pôde chorar sozinha, ela entendeu que teria que ser forte o suficiente para lidar com aquilo para sempre. Soube também que jamais poderia esquecer o que havia acontecido, mas jurou para si mesma que tentaria de todas as formas, mesmo que para isso precisasse pisar em seus sentimentos.


~*~


Enfurecida? Não. Louca? Também não. Triste? Menos ainda. O que estava sentindo, afinal?
não parava de pensar nisso desde que saíra como um raio do escritório de , antes mesmo que ela tentasse se explicar. Era tudo muito confuso. Ela estava brava, mas não brava a ponto de odiá­los, como tinha certeza que ficaria caso estivesse viva. Talvez a mudança de comportamento em relação aos seus sentimentos por tornasse tudo mais ameno, mas, de qualquer forma, queria com todas as suas forças ficar irritada com aquilo. A constatação de que havia sido – teoricamente – traída por não era bem uma surpresa, visto a complexidade do relacionamento dos dois. Mas dessa vez era diferente. Dessa vez a havia traído. Sua melhor amiga e seu ex-namorado. Que na época não era exatamente namorado, mas que de qualquer forma não deixava a coisa toda menos absurda.
– Eu exijo que anjos tenham o direito de se sentirem revoltados! – Bradou, olhando para cima, enquanto milhares de pessoas continuavam indo e vindo em direção a ela na calçada. Sabia que estava invisível e não tinha muitos problemas com aquilo, mas, naquele momento específico, se sentiu mais sozinha do que nunca.
– Infelizmente, não posso lhe conceder esse direito. – A voz de Jill entrou pelos ouvidos de com o mesmo tom suave de quando a ouviu pela primeira vez. a encarou atrás de si, sentindo uma súbita alegria.
– Jill! – Abraçou a superior e amiga, dando-se conta de que estava com saudades.
Jill sorriu de volta e retribuiu o abraço de forma comedida.
– Você está surpresa, é normal. Daqui a pouco vai começar a encaixar as peças e entender melhor a sua missão. A vida aqui pode ser solitária para pessoas como nós, por isso você tem uma oportunidade de ouro nas mãos. Faça o que tem que fazer e volte logo para onde você realmente pertence, ok?
– Mas...
– Comporte-se! – E com um sorriso largo, Jill desapareceu.

~*~


– Eu devia matar você e te levar lá pra cima junto comigo. – esbravejou sem pestanejar assim que surgiu no meio da sala do loft de , que se assustou a ponto de engasgar com o gole de cerveja que havia acabado de tomar.
– Misericórdia, mulher! – Ele colocou a mão no peito, sentindo o coração bater igual a uma britadeira.
– Quer dizer, com certeza você não iria lá pra cima. Com você o buraco é mais em baixo – ela concluiu, sorrindo cinicamente, sem mostrar os dentes.
– Posso saber o que eu fiz antes de virar uma assombração? – Ele tentou descontrair, mas ficou com o semblante sério quando ela o olhou significativamente. – Brincadeirinha.
– Eu sei sobre você e . – cruzou os braços e cuspiu outro gole da cerveja. Talvez não fosse um dia muito bom para beber.
– O quê?
– Você sabe, naquele fim de semana em que eu e viajamos. Eu sugeri que ela ficasse na sua casa, assim um faria companhia para o outro e, de alguma forma, tinha esperanças de que aquela seria uma ótima chance para vocês se aproximarem. – Ela quase riu quando viu que os olhos dele saltavam das órbitas. – Parece que funcionou, não é mesmo? Se aproximaram até demais.
, eu…
O homem estava tão pálido que ela jurou que ele iria cair duro ali mesmo.
– Já sei, já sei. – o interrompeu. – Você sente muito, não foi planejado e blá, blá, blá. Não precisa desmaiar dessa vez.
emudeceu. Seu pior pesadelo estava acontecendo e dessa vez não tinha como fugir.
Ele sempre se perguntou se as pessoas tinham acesso a informações privilegiadas depois de mortas e agora sabia. A resposta era sim.
, respire. Você está ficando vermelho. – Ao ouvir a voz de , percebeu que estava segurando o ar por tempo demais e soltou um longo suspiro antes de começar.
– Você não precisa me perdoar. É sério. Eu não mereço mesmo, eu fui um péssimo namorado pra você e tenho plena consciência disso – ele falava tão rápido que mal conseguia entender o que saía de sua boca. – Mas você precisa perdoar . Fui eu que estraguei tudo. Tudo o que eu faço é estragar as coisas e se você não a perdoar, ela… ela nunca vai me perdoar. – Ele agora estava de pé, andando de um lado para o outro em frente ao sofá e passando as mãos pelo cabelo, nervoso como ela havia o visto poucas vezes antes.
, se acalme. – Ela o segurou pelos ombros para que parasse de andar. – Eu não odeio vocês.
Ele franziu a testa. sorriu.
– Bem, talvez um pouquinho. – Ele fez uma careta e ela logo voltou a falar:
– É sério. Lembra quando te expliquei que as coisas são diferentes agora? – Ele assentiu. – Eu não te amo como antes. – fechou os olhos. Ainda era difícil ouvir aquilo. Não estava acostumado com um mundo em que não o amava. – Raiva, mágoa e repulsa são alguns dos sentimentos que, se estivesse viva, provavelmente estariam fazendo a festa dentro de mim agora. Mas não sou mais a mesma, portanto, não consigo sentir nada disso. Um pouco de surpresa misturada com decepção, talvez.
Ele relaxou um pouco os músculos, respirando aliviado.
– Então você me…
– Sim, eu te perdoo. Com uma condição. – Ela arqueou as sobrancelhas. – Você vai me contar absolutamente tudo. Agora.
pendeu a cabeça para o lado, coçando a nuca levemente.
– Não tem muito o que contar. – arqueou uma sobrancelha como quem diz "tem, sim".
Ele voltou ao sofá e se acomodou no mesmo lugar de antes.
– Eu não sei o que deu em mim naquele dia. Quando ela disse que ia embora eu… surtei. Parecia que ela queria fugir e deixar a culpa só pra mim, como se eu tivesse feito aquilo sozinho. – piscou demoradamente antes de continuar. – Fiquei com raiva. Quer dizer, eu já tinha raiva dela, mas fiquei com mais raiva ainda, se é que isso era possível. – Ele riu, debochado. – Sempre tão controlada e tão superior, querendo deixar claro para o mundo inteiro que eu era um lixo que não te merecia, mas naquele dia… naquele dia ela me quis. E depois me tratou como se eu fosse um pedaço de merda, descartável.
"Não me entenda mal, a gente não namorava ainda e eu realmente gostava de ficar com você. Mas, , eu nunca senti nada igual em toda a minha vida. E posso estar colocando a cereja do meu bolo de babaca do século falando isso olhando nos seus olhos, mas você me pediu sinceridade e a verdade é uma só. Eu fiquei frustrado. Eu fui do céu ao inferno em menos de vinte e quatro horas. Então, depois disso, algo acendeu dentro de mim e decidi ficar sério com você. Eu queria te amar e, bem, não foi muito difícil. Realmente te amei muito."
– E vocês nunca tocaram no assunto? – Ela insistiu em saber, curiosa.
– Bom, sim, algumas vezes. Não de uma forma muito madura, no entanto. Depois daquele dia, o que antes eram só pequenas provocações com um pouco de birra, virou algo muito maior. Nunca na sua frente, mas toda vez que tínhamos oportunidade parecia que entrávamos em uma competição de quem machucava mais o outro. Ela disse coisas horríveis, eu disse coisas horríveis e...
– Que tipo de coisas horríveis? – interrompeu, chocada demais para frear a pergunta que escapou de sua boca.
– Horríveis do tipo insinuar que só quis aquilo porque ela era virgem. E que jamais teria ficado com ela por outro motivo, já que ela não tinha nada de bom a oferecer. – fechou os olhos, com vergonha do que havia acabado de dizer. Era como se um filme estivesse passando em sua cabeça.
! – gritou, fazendo-o se contorcer em uma careta.
– Eu sei, eu sei! – Ele suspirou. – , isso aconteceu há doze anos atrás. Eu era um adolescente imbecil e com raiva. E você conhece a amiga que tem, ela também não me disse coisas muito agradáveis. Chumbo trocado não dói. – Falou, bufando no final.
– E aí vocês decidiram arrastar essa briguinha idiota para o resto da vida? – perguntou, com uma mão de cada lado da cintura.
– Não é só por isso que a gente se detesta. Eu nem sei se a odeio. Ela só… – ele parecia procurar as palavras – argh. Me irrita! Isso é passado. Durante muito tempo foi, sim, o motivo dos nossos desentendimentos. Mas hoje acho que só percebemos que somos muito diferentes e não fomos feitos para lidar um com o outro. Ela é fria, calculista, manipuladora, birrenta, chata, covarde…
– Meu Deus, homem não sabe mesmo ouvir um não. – concluiu.
– Quê? Claro que não, ...
– Então vai me dizer que essa raiva toda não é só porque ela disse que não sentia nada por você além de desprezo?
– Como você sabe dis...
– Eu chutei. – Ela o interrompeu. – E você acreditou nela? – Indagou, quase rindo.
, você ouviu uma palavra sequer de tudo que eu acabei de dizer? – estava confuso com a forma que a ex-namorada estava lidando com a situação. Se não era pra gritar com ele, que pelo menos lhe desse o mínimo de apoio.
– Sim, eu ouvi suas lamúrias. – Ela sentou ao lado dele. – Vocês são tão burrinhos... mas ok, titia vai explicar. – Pegou uma das mãos livres do rapaz e colocou sob a sua, pigarreando em seguida. – quer . quer . Preciso ser mais didática?
Ele assentiu e bateu a mão na própria coxa antes de se levantar como um raio.
– Ok, agora já chega.
Puxou o celular do bolso e, furiosamente, digitou alguma coisa.
– O que você está fazendo? – perguntou, confusa.
– O que eu devia ter feito desde o começo. – colocou o telefone na orelha.
– Olá, boa noite! Achei o número de vocês na internet. Pode me confirmar se é da igreja mesmo? – esperou. – Ótimo. Eu preciso falar com um padre. Sim, um padre. – Ele fez uma pausa enquanto abria a boca em incredulidade. – É bem importante, sim. Tenho um caso de exorcismo que precisa ser feito urgente!
Sem esperar mais, ela arrancou o telefone da mão dele.
– Você não fez isso! – O rosto de estava vermelho como as chamas do inferno de onde ele havia acabado de insinuar que ela tinha saído.
– Eu fiz, sim! De anjo não tem porra nenhuma aí. Pra verbalizar uma atrocidade dessa que você acabou de dizer, com certeza é satanás falando através do seu corpo. – Ele levantou o braços, afastando-se dela. – Só pode ser!
, você precisa me ouvir. – respirou fundo. Podia ver as narinas do homem inflando, tamanha relutância em absorver as palavras dela.
– Eu não quero te ouvir. Não quero te ouvir porque você não sabe o que diz. – agora estava de costas para ela. – Quando eu digo que você precisa perdoá-la para que ela me perdoe, não é porque sinto coisas por ela e sim porque do contrário isso tornaria minha convivência com a nossa filha um desastre maior do que já é! – Ele arfava após ter atropelado as palavras.
– A nunca amou ninguém. – começou.
– Sim, nem ela mesma. – a interrompeu, irritado.
– Cale a boca antes que eu enfie o meu sapato na sua garganta. – Ela o encarou, séria e ele apenas revirou os olhos. – Ótimo. Como eu estava dizendo, a nunca amou ninguém. Teve apenas um namorado e…
– Aquele cara de bunda suja? Aquilo não foi um namoro de verdad...
, eu vou ser obrigada a te matar se você não parar de me interromper, em nome do senhor Jesus Cristo. – Ela ralhou com a voz elevada e ele se encolheu um pouco no sofá.
– Grossa.
– Continuando, ela só namorou o Mason e todo mundo sabe que apesar de ter se esforçado muito, ela não o amou. O cara não ajudava muito, visto que era meio bobão e, bem, não é a pessoa mais paciente do mundo. Um amor mesmo, desses que consomem a gente, acho que ela nunca viveu. Hoje eu me pergunto se ela se privou de sentir isso por você por minha causa.
– Por mim? , você já viu como ela me trata? Como eu posso pensar em nutrir sentimentos por quem me afasta até com a força do pensamento? Você não está falando coisa com coisa! – Ele queria desesperadamente que aquela conversa acabasse.
– É óbvio que ela te afasta! – estava eufórica.
– Como assim óbvio? Ah, não. Você está me olhando com aquela cara de quem quer espirrar e não consegue. Isso significa que você vai falar uma barbaridade.
Ela o ignorou, inerte demais em seus próprios pensamentos.
– Porque se ela deixasse você se aproximar, iria se apaixonar de verdade. , a gente nem sempre espera por um príncipe encantado pra poder perder a virgindade, mas com certeza é um momento que não se esquece. E ela escolheu viver esse momento com você.
" sofreu por ter me traído, sim, mas também sofreu porque não podia te ter. E esse é o jeito dela de evitar sentimentos. Ela tenta manter a pose de durona e inatingível, mas eu te garanto: por trás dessa muralha tem um coração gigante e se tem uma pessoa que pode chegar até ele, essa pessoa é você. Tudo o que você precisa fazer é estar disposto a conquistá-la. Ou reconquistá-la."
Era quem agora andava de um lado para o outro, tentando dissipar a energia que fervilhava dentro de si.
– Essa conversa acaba aqui. Você precisa ir tomar um ar, organizar as ideias e voltar para conversar comigo quando estiver sem nenhuma droga atuando no seu sistema nervoso. Enquanto isso, eu vou tomar um banho, terminar de beber a minha cerveja e dormir tranquilamente para estar bem disposto para enfrentar meu primeiro dia de trabalho e a sua amiga amanhã pela manhã. Tenha uma boa noite. – rumou para o banheiro, encerrando o diálogo e ignorando completamente os resmungos de . Quando se viu sozinho no cubículo branco, trancou a porta atrás de si e arrancou a camisa rapidamente. Sentou no chão e encostou as costas nos azulejos gelados da parede. Sentia o corpo inteiro pegar fogo, irritado e confuso com as coisas que acabara de ouvir. Pela primeira vez em muito tempo, estava com raiva de . E sentia o coração bater com medo de que talvez, mas só talvez, essa raiva fosse resultado da possibilidade de ela ter um resquício de razão.

~*~


sentiu o coração estilhaçar quando encarou os olhos fundos de . A ponta do nariz extremamente vermelha e o rastro de lágrimas secas por suas bochechas denunciavam a tristeza e culpa que a amiga estava sentindo.
– Me perdoa, por favor! – Foi a única coisa que saiu da boca dela antes de jogar os braços em volta do pescoço de com força, como se sua vida dependesse daquele perdão.
– Ei, se acalma. Respira. Está tudo bem. – afagava os cabelos da amiga com carinho, querendo demonstrar que podia acreditar em suas palavras. – Está tudo bem. – Repetiu. – Não precisa ficar desse jeito.
afrouxou um pouco os braços e se afastou para encarar , que tinha um sorriso fraco no rosto, mas cheio de compaixão.
– Você não me odeia? Porque eu vou entender se você me odiar. Eu mesma me odeio todos os dias quando me lembro do maior erro que cometi na minha vida. , eu juro que… – tentava encontrar as palavras certas enquanto mais lágrimas caíam de seus olhos.
, eu não te odeio. Eu não odeio nenhum de vocês dois. Está. Tudo. Bem. – Repetiu pela terceira vez.
– Mas como? Como assim você… você não está brava? – não entendia. A amiga deveria estar um poço de raiva, gritando com ela e jogando em sua cara que fora uma péssima amiga, uma ingrata mentirosa.
– Preciso que você se acalme, pode ser? Desse jeito não vamos conseguir conversar direito. Venha! – deitou-se na cama espaçosa de , sendo seguida pela amiga. Ficaram uma de frente para a outra e apenas se encararam por longos minutos, como costumavam fazer quando uma estava muito nervosa e precisava se acalmar. sentiu os batimentos cardíacos voltarem ao normal e a respiração ficar um pouco mais leve. As lágrimas pararam de cair e deu um suspiro longo ao repetir:
– Me perdoe.
sorriu largamente dessa vez.
– Eu já te perdoei, sua teimosa. E não, não estou brava. Eu fiquei surpresa, um pouco chocada e até mesmo decepcionada. Mas, , eu sou incapaz de odiar vocês. Na verdade, acho que hoje sou incapaz de nutrir qualquer tipo de sentimento negativo dentro de mim. Você sabe... estou morta e tal.
Ambas riram e balançou a cabeça levemente.
– Eu entendo porque quiseram te levar tão cedo. Você era boa demais pra esse mundo. A gente não merecia você. Eu não mereço você. – E sentiu a garganta fechar novamente.
, não diga uma besteira dessas! – parecia ressentida.
– Falo sério. Olha o que está acontecendo. Eu te dei todos os motivos do mundo pra nunca mais querer olhar na minha cara e mesmo assim você está aqui, sorrindo pra mim e me consolando. Isso não existe!
– Você não pode me obrigar a não te perdoar só porque você não se perdoa. – falou rápido demais e mordeu o lábio, sabendo que aquela conversa seria complicada.
– Eu não posso me perdoar.
– Você precisa. , tudo nessa vida acontece por um motivo. Eu entendo a sua frustração e…
– Não, você não entende! – falou um pouco mais alto e percebeu que ela estava prestes a explodir.
– Me explique, então. – resolveu desafiar. Queria ver até onde a amiga iria.
– Poderia ter sido qualquer um, menos ele.
– Por quê?
– Eu preciso mesmo te dar um motivo? Ele estava com você! – gesticulava exageradamente.
– A gente ainda não namorava. – deu de ombros.
– Ah, , me poupe! – Bufou. – Até parece que você não importaria. – trocou de posição e agora estava sentada, com os braços cruzados abaixo do busto.
– Sim, eu me importaria. Mas vocês não me deram essa opção. Agora que meus chifres já estão maduros, não me importo mais. Portanto, se mesmo com passe livre você não quer se perdoar, quero pelo menos um motivo válido. – Ela se ajeitou na cama, ficando na mesma posição que a amiga.
– Esse motivo é válido. – disse com o maxilar trincado e observou a amiga com as narinas infladas, exatamente como se encontrava na conversa que tiveram mais cedo. Sorriu internamente. Como ela não tinha percebido antes?
– Não é. – Falou, calmamente.
, eu odeio ele! – Embora seu tom de voz estivesse alto, tentava de todas as formas não gritar.
– Será que odeia mesmo ou você inventou isso na sua cabeça pra esconder o que realmente sente? – deu sua cartada final.
– É o quê?! – Agora estava gritando.
– É isso mesmo que você ouviu. Vocês... – pigarreou, tentando consertar – você precisa parar de se enganar.
– Você se ouve? Tipo, quando você fala? – respondeu, atônita.
– Ai, quer saber? – jogou o travesseiro que estava em seu colo para o canto e se levantou rapidamente, batendo os dois pés com força sob o chão. – Minha paciência esgotou. Acho que já tive uma dose suficiente de por hoje.
o quê?
. É o nome do ship de vocês. Gostou? Eu que criei. – bateu duas palmas animadas.
gargalhou, tentando disfarçar a queimação em suas bochechas.
– Você é descompensada, .
A outra deu de ombros, não se afetando nem um pouco com o comentário da amiga.
– Pelo menos não sou mentirosa.
Fechou os lábios em um sorriso cínico e sumiu, deixando sozinha com seus próprios demônios.


Sete

O celular de tocava insistentemente na cabeceira da cama e ele jurou para si mesmo que a pessoa que estivesse o incomodando naquele horário teria uma morte lenta e dolorosa. Após uma longa semana tentando vencer a insônia, pensou que fosse ter um pouquinho de paz ao desativar o despertador na noite anterior. Claramente, ele estava errado.
– Me dê um único motivo para ouvir a sua voz às oito da manhã num sábado. – Grunhiu ao atender, após ter aberto apenas um olho para ler o nome de no visor. Ele poderia facilmente ganhar o prêmio de inconveniente do ano.
– Bom dia pra você também, amigão. E, sim, tenho um ótimo motivo para acordar a Rapunzel estressadinha.
– Acho que você quis dizer Bela Adormecida, .
– Isso, tanto faz. – O homem fez um barulho esquisito do outro lado da linha e esperou. – Hoje é aniversário da April.
– Parabéns pra ela. – respondeu, ainda sonolento.
– Tô falando sério, eu...
– Tá bom, cara, a gente compra um bolo na padaria e canta parabéns assim que ela chegar do hospital, tá? Boa noite.
– Não ouse desligar na minha cara, seu imbecil. Me ouve. – abriu os olhos de vez, completamente irritado. – Eu aluguei um salão de festas.
– Ah, não. Você vai dar uma festa daquelas bem espalhafatosas que ela odeia, não é?
– Não vai ser espalhafatosa. De onde você tirou essa palavra? Eu nem sabia que você tinha um vocabulário tão extenso.
– Há-há. – Ele fingiu se divertir com o comentário.
– Vai ser algo bem simples, apenas para pessoas próximas. – continuou, um pouco afetado. – Talvez eu tenha contratado um DJ.
– Isso vai dar tão errado...
– Você pode me apoiar? Tô tentando ser um bom namorado aqui.
, a April odeia chamar atenção. Até eu seria um namorado melhor que você e não a faria passar por isso.
não concordaria.
Automaticamente, se arrependeu do que tinha dito. Foi o que constatou ao ouvir a respiração acelerada do amigo através dos chiados altos que o telefone passou a emitir.
– Longe demais?
– Quase chegou na Patagônia.
– Desculpe.
– Tudo bem, de qualquer forma você está certo. – Respondeu e sorriu de canto. – Desembucha, para que você precisa de mim?
– Preciso que me ajude com a decoração.
Apesar do sono, riu alto.
– Você só pode estar de brincadeira.
– É coisa simples, eu juro. E não está disponível, então só me resta você.
– Nossa, você está me animando cada vez mais.
o ignorou.
– Te mandei o endereço por mensagem. Esteja aqui em meia hora. – Desligou sem dar nenhuma chance de resposta para o amigo, que apenas bufou antes de se jogar para trás e bater com as costas no colchão novamente. Talvez se dormisse só mais cinco minutos...

~*~


Uma hora e quarenta minutos depois, concluiu que não entendia muito bem o conceito de simplicidade.
O lugar era imenso, alguns globos já brilhavam no teto da pista improvisada e flores estavam espalhadas por pequenas mesas cobertas por toalhas brancas.
estava xingando baixo enquanto tentava, sem sucesso, pendurar alguma coisa na parede. Pulou de susto quando pigarreou às suas costas sem aviso prévio.
– Você quer me matar? – Perguntou, enquanto levava a mão ao próprio peito.
– Nah. – abanou as mãos no ar enquanto olhava ao redor. – Bem simples, realmente.
fingiu demência.
– Poderia ser pior. Eu podia ter contratado um carro de som para cantar parabéns pra ela no meio da rua.
– Isso teria sido um pesadelo. – ponderou. – Mas no fundo você sabe que não precisa de nada disso – ele apontou com a cabeça para o salão atrás de si – pra ela ficar feliz, não sabe?
assentiu, incerto.
Ao contrário de , nunca fez o estilo pegador. Dos quatro, ele era o mais estudioso. Sua prioridade sempre fora conseguir uma bolsa para o curso de engenharia, então raramente tirava sua atenção dos livros. O ar nerd e o jeito extremamente brincalhão faziam várias garotas suspirarem aos seus pés diariamente, mas ele era inseguro e distraído demais para enxergar isso.
Não foi por falta de tentativa dos amigos, no entanto. era o que mais se esforçava. Arrastava o garoto consigo para todas as festas possíveis, dava conselhos, apresentava várias amigas e mesmo assim, nada. Um golfinho teria mais atitude do que em relação às mulheres.
Durante a época da faculdade, as coisas mudaram um pouco. Teve um romance aqui e outro ali, mas nada muito duradouro. Algumas não conseguiam lidar com seu lado imaturo, outras simplesmente o achavam sentimental demais.
Então, depois de muito se frustrar, ele encontrou April.
se apaixonou por ela em uma terça-feira à tarde, quando foi acompanhar e Summer até o hospital para a realização de alguns exames de rotina na criança, que teve acompanhamento médico intenso durante seu primeiro ano de vida. Ele se lembrava da roupa que ela usava, do perfume que exalava e soube, ao ouvir o som de sua voz pela primeira vez, que havia encontrado o que tanto buscava.
Não que fosse muito difícil se apaixonar por April. A junção da pele escura com os olhos grandes e cor de mel, a fileira de dentes pequenos que se mostravam vez ou outra em um sorriso tímido e o jeito doce e cheio de energia da mulher fazia o coração do rapaz explodir dentro do peito.
Daquele dia em diante, encheu o saco de e de todas as formas possíveis falando sobre a mulher até que lhes fosse arrumado um encontro. Desde então, as borboletas no estômago do rapaz voavam freneticamente e qualquer pessoa que o conhecesse sabia que, com apenas um pedido da moça, ele moveria céus e montanhas.
Mas ela não pedia. April não era exatamente uma pessoa intensa. Ela era a calmaria para a ansiedade de e a voz da sabedoria nos momentos de surto de .
Não gostava do caos e muito menos era fã de badalação. Surpreender com um piquenique na manhã de domingo ou com jantares caseiros após uma terça-feira estressante de trabalho era um de seus passatempos favoritos. Maratonar Star Wars quando estava de folga do plantão era sua maior alegria e nada mais enchia seu coração de paz do que passar uma tarde em completo silêncio sentindo o cheiro de livros novos.
Ele sabia disso, mas ao mesmo tempo sentia necessidade de fazer algo especial. Queria, de alguma forma, que April soubesse das montanhas que ele estava disposto a mover por ela. E não havia outro jeito de fazer isso sem ser do jeito espalhafatoso de ser.
– Eu sei. – Respondeu, cansado. – Mas… eu preciso fazer isso. Semana passada ela me contou que nunca teve uma festa de aniversário. Então eu queria que essa valesse por todos os vinte e seis anos anteriores.
– Ah, não! – não se conteve. – Mas que coisinha maisi bonitinha e apaixonada gutiguti do papai – Disse, forçando uma voz estridente, enquanto apertava as bochechas do amigo com ambas as mãos.
– Me solta, porra! – estava da cor de um pimentão quando largou suas bochechas. Ambos riram e voltaram à atenção para os objetos que estavam espalhados pelo chão, esperando serem pendurados pelas paredes do salão.

Horas mais tarde, algumas pessoas já tinham se acomodado nas mesas e tudo parecia perfeito. estava encostado no bar, observando andar de um lado para o outro, apreensivo. Riu consigo mesmo da ansiedade do amigo enquanto levava o copo de cerveja a boca, antes de andar de encontro a ele.
– Você precisa se acalmar.
– Quem tá nervoso aqui? – respondeu, tomando o copo de cerveja da mão do amigo e virando de uma só vez o líquido em sua boca.
apenas balançou a cabeça negativamente.
– Você... tem falado com ? – Perguntou como quem não quer nada, mesmo sabendo que aquilo provocaria estranheza.
franziu o cenho, um pouco confuso.
– Tenho. Por quê? Você não?
– Não muito. – Se limitou a dizer, sabendo que não podia se aprofundar no assunto, por mais que quisesse. não tinha muita paciência para a relação dos dois, visto que sempre ficava parecendo um pombo-correio no meio das brigas. Sabia que o amigo torcia muito pelo dia em que ficaria tudo bem entre eles, mas jamais os perdoaria se soubesse do segredo que escondiam.
– Mas vocês não se veem tipo, todos os dias? Já faz uma semana desde que começou a trabalhar no escritório.
– Sim, mas, bem, você sabe que ela não está muito feliz com isso. Eu não a vi nenhum dia da semana. Andre comentou algo sobre home office. – Ele coçou a cabeça. Sabia que estava o evitando por causa da descoberta de e aquilo o incomodava mais do que gostaria de admitir.
está há cinco dias sem colocar os pés no escritório? – questionou, descrente.
balançou a cabeça de forma afirmativa.
– Será que a sua cara feia foi a única coisa no mundo capaz de fazer deixar de ser workaholic? indagou e ganhou um leve soco no ombro.
– Tentei falar com ela sobre Summer, mas Alex atendeu todas as minhas ligações e recebi uma desculpa diferente em cada uma. " está no banho", " está dormindo", " está ocupada fazendo vudu com um boneco seu" fez uma voz fina tentando imitar as falas de Alex. – Essa última eu inventei, mas pode acontecer a qualquer momento.
riu.
às vezes só precisa de espaço. Você sabe como ela é. Daqui a pouco ela vai se acostumar com a ideia e tudo voltará ao normal. Se é que isso entre vocês pode ser chamado de normal.
– Assim espero, amigo. Assim espero.

~*~


– Ok.
Foi o que disse enquanto encarava o próprio reflexo no espelho.
O vestido verde água tinha o caimento perfeito e ia até um pouco acima dos joelhos. Nos pés uma sandália simples e baixa, pois desde que Summer entrara em sua vida tinha abandonado quase que completamente o uso de saltos.
O cabelo estava solto e a única coisa que destacava sua maquiagem era o batom cor de café, que preenchia toda a pele de seus lábios cheios. Tudo estava em perfeita ordem, não fosse o anel em seu dedo indicador que, naquele dia específico, parecia pesar uma tonelada.
Não havia sido uma semana fácil. não havia aparecido desde a última conversa que tiveram e isso acarretou em pensamentos e mais pensamentos indesejados sobre seu passado e, de certa forma, sobre o que estava fazendo com seu presente.
Sentia-se encurralada em um beco sem saída que não lhe dava a opção de correr para longe, como sempre havia feito em relação aos seus sentimentos. Então fez a única coisa que lhe restava: fugiu. Inventou um mal-estar absurdo para Andre e pediu para trabalhar de casa nos últimos cinco dias. Como ela ficava sempre até tarde no escritório, o chefe não teve muitos problemas em concordar com aquilo. Assim sendo, conseguiu evitar de todos os jeitos possíveis. Alex estava encarregada de falar com ele sobre Summer e durante 120 horas, pôde respirar em paz.
Não queria tocar naquele assunto. Havia o evitado durante doze anos e agora sabia que seria a primeira coisa que o rapaz falaria sobre quando a encontrasse. E era por isso que o anel em sua mão pesava tanto. Aquele era um pedacinho de sua mãe que estava sempre com ela e Bree não aprovaria aquela situação. Bree teria dito a que era feio fugir. Ela teria conversado por horas a fio com a filha, tentando convencê-la de que o perdão é a coisa mais bonita que poderia oferecer aos outros e a si mesma. Mas Bree não estava ali para lhe afagar o rosto e dizer que ficaria tudo bem. Mais uma vez, se via sozinha para encarar seus medos.
O celular vibrou em cima da bancada do quarto, tirando-a de seus devaneios. Ao arrastar o aparelho pela madeira e ver um aviso de mensagem de um número desconhecido no visor, sentiu a garganta inchar.

“Olá.

Troquei de número.
Mande notícias.

Beijos,

Carl.”


Ela segurou o objeto em suas mãos com um pouco mais de força e fechou os olhos, desejando que houvesse a possibilidade de desler aquela mensagem.
Timing perfeito, papai.

~*~


Assim que adentrou o lugar com Summer inquieta em seu colo, sua visão se focou apenas em um lugar. A camisa azul marinho com as mangas dobradas até os cotovelos, a calça de sarja preta, os tênis cinza-claro e fios de cabelos desgrenhados por toda parte. estava de costas, mas ela o reconheceria de qualquer jeito. Respirou fundo e com passos mais lentos do que o necessário, se dirigiu até ele.
– Tem alguém aqui que quase não consegue se conter de ansiedade pra te ver, . E com certeza não estou falando sobre mim.
Quando ele se virou e seus olhos se encontraram, o sorriso presunçoso já estava nos lábios do rapaz. Summer batia palminhas animadas e o rosto dele se iluminou ao encontrar a garotinha nos braços da mais velha.
Sums era, definitivamente, a criança mais linda do mundo. Estava com um vestido branco estampado com flores azuis e alguns fios de cabelo se enrolavam, ainda sem forma, atrás de suas orelhas. Os grandes olhos de jabuticaba estavam vidrados no pai, que já estendia os braços para acolhê-la.
– Hey, minha princesinha. Que saudade! – Falou antes de beijar todos os lugares possíveis do rosto da criança, apenas para ouvir sua gargalhada gostosa. – Quem foi que permitiu você usar esse vestido curto? – Brincou, recebendo um olhar repreensor de .
– Você nem pense em dar pitaco nas roupas que Summer vai usar quando for mais velha.
– Saias e vestidos a partir dos trinta e cinco. Antes disso, somente calças. – tentou parecer sério, apenas para ver faíscas nos olhos da mulher à sua frente.
– Preciso acrescentar machista na lista das coisas que eu odeio sobre você? – arqueou a sobrancelha e ele sorriu.
– Essa eu passo. – Virou o rosto para a filha. – O que é bonito é pra ser mostrado, né? Como você é a coisa mais bonita que já habitou este planeta, tem total apoio do papai para se exibir por aí. – beijou o topo de sua cabeça e aproveitou a deixa para medir de cima a baixo – Inclusive, belo vestido. – Completou, com um tom malicioso.
girou nos calcanhares no mesmo minuto.
– Cuide dela. – E saiu em disparada em direção ao bar, desesperada por uma bebida gelada que curasse a secura de sua boca.
Aquela seria uma noite longa.

~*~


– Até você, ? – April estreitou os olhos na direção do amigo, que levantou os dois braços.
– Fui ameaçado de morte. – Respondeu, em tom divertido.
– Ah, não fique brava! – saiu em defesa de , que estava com os braços firmes ao redor da cintura da namorada.
– Isso, , me defenda. – Ele estalou um beijo em uma das bochechas quentes de April.
– Bastava ter comprado um bolo na padaria, . – April disse baixo e não deixou passar.
– Williams, tem certeza que não somos almas gêmeas? Porque foi exatamente isso que eu disse ao bobo apaixonado.
– Oh, meu Deus! Será que devo trocar de namorado? – Ela fingiu pensar e rolou os olhos.
– Amiga, se quer um conselho, não faça isso. Trocar um boy magia por um boy lixo é o pior erro de uma mulher... – disse, bebericando o drink que estava em suas mãos.
tombou a cabeça para o lado e deu uma risadinha.
– Está vendo isso, filha? – Aproximou a boca do ouvido de Summer, que ainda estava em seu colo. – Mamãe está com ciúmes.
– Nos seus sonhos. – O tom de deboche da frase não passou despercebido, mas antes que pudesse revidar, viu começar a se afastar.
– Onde está indo?
– Quero dançar. – Ela respondeu antes de dar as costas ao trio, indo novamente de forma apressada em direção ao bar. Enquanto andava, sentia o olhar atento de queimar em suas costas, mas sabia que enquanto estivesse ocupado cuidando de Summer, não a perseguiria. Sentiu-se aliviada ao ver que seu plano parecia funcionar. Por mais que odiasse usar a menina como isca para mantê-los afastados durante a festa, sabia que era a única coisa capaz de captar a atenção do homem por tanto tempo.
– Mais um Sex on The Beach, por favor. – Colocou o copo vazio em cima do balcão e observou o barman sorrir para ela antes de começar a preparar a bebida. Batucou os dedos distraidamente na madeira, quando viu que um sem nenhuma criança nos braços se aproximava dela.
– Você não pode se embebedar, hoje não tem vale night. Alex está de folga, não está?
– Ao contrário de Summer, eu não preciso de babá. – Retirou as mãos de cima da superfície fria. – Você não devia estar cuidando da sua filha? – agradeceu em silêncio quando um copo cheio do líquido alaranjado foi colocado em sua frente, seguido de mais um sorriso simpático do rapaz que estava do outro lado do balcão. Ela sorriu abertamente ao observá-lo e deu uma piscadela antes de levar o copo aos lábios. observou a cena e sentiu a garganta coçar. Ela estava... flertando?
– A mãe de April se ofereceu para ficar com ela. – Ele deu de ombros e puxou o copo das mãos dela, dando um gole generoso na bebida. – Até quando você vai fugir da conversa que precisamos ter? – Falou, deslizando o copo pelo balcão até ela segurá-lo com força.
endireitou a postura.
– Não sei do que está falando.
– Não se faç...
– Com licença, senhorita. – O barman interrompeu a fala de . – Eu... eu posso saber o seu nome?
piscou algumas vezes, atônito com a audácia do garoto de voz trêmula – que não parecia ter mais do que vinte anos.
– Eu não queria interromper, é que meu turno acabou e eu não queria ir embora antes de saber o nome da senhorita.
rolou os olhos e estava pronto para pedir para o moleque se mandar e deixá-los, finalmente, conversarem em paz.
– Meu nome é . E o seu? – Ela respondeu, simpática. Apesar de ter quase certeza de que o menino era uns bons anos mais novo, sentiu uma pontada de satisfação com o flerte inesperado.
– Josh. – O rapaz sorriu.
– E quantos anos você tem? Dezesseis? – perguntou, tentando fazer parte da conversa.
, não seja mal-educado. – Ela o repreendeu com o olhar e ele bufou. – Perdoe o meu amigo, Josh. Mas então, – pigarreou – você só queria saber o meu nome? – Provocou, dando um último gole em sua bebida.
– O seu telefone também seria ótimo. – Josh abriu um sorriso enviesado e aquilo bastou para sorrir ironicamente na direção da mulher.
, você não queria dançar?
Antes que ela pudesse responder, a puxou pela mão e seguiu em direção à pequena pista.
– O que você está fazendo? – Ela repousou as mãos em ambos os lados da própria cintura ao questionar, divertida.
– Te salvando da cadeia. É isso que acontece com quem se interessa por menores de idade. Vai pegar pra criar? – Ele apontou a cabeça na direção do bar.
– Assuma. – Ela disse, tentando se esquivar das pessoas desconhecidas que dançavam ao seu redor.
– O quê?
– Que ficou com uma pontinha de inveja porque, além de jovem, ele era muito mais bonito que você. – sorriu marota e ele respirou fundo. Caminhou até ela, que sentia a cabeça rodar um pouquinho devido à quantidade de álcool que tinha ingerido desde que chegara à festa. colocou a boca rente ao ouvido de , sabendo que poderia levar um tapa a qualquer momento por conta da súbita proximidade.
Enchendo o peito de coragem, murmurou de uma vez só, antes de deixá-la sozinha novamente:
– Nos seus sonhos.

~*~


– O que será que deu nessa menina hoje? – resmungou, colocando Summer sentada no pequeno balanço que ficava no meio da sala. Ligou a TV no canal de desenhos e torceu em silêncio para que aquilo fosse o suficiente para ajudar a criança a pegar no sono.
A festa havia começado mais cedo do que o normal, pois o plantão de April encerrava às 18h naquele dia específico. agradeceu mentalmente por poder ir embora não muito tarde, porque fazia questão de que Summer sempre estivesse pronta para dormir às oito. Dessa vez, porém, os planos não dariam certo, visto que os ponteiros do relógio já passavam das nove e ela continuava com uma energia inexplicável.
Tirou as sandálias e as colocou em um canto da sala, observando de rabo de olho um exausto se jogar em seu sofá.
– Você disse que só precisava ir ao banheiro. – Ela se dirigiu a ele, desconfiada.
– Eu precisava de uma desculpa para subir. Daqui você só consegue fugir se se jogar da janela. O que, no caso, acredito não ser uma opção.
respirou fundo.
– Não duvide do que eu sou capaz pra não ter que olhar pra sua cara. – Tentou soar brincalhona, mas sentiu a voz vacilar.
sabe. – Como se tivesse acabado de arrancar uma casquinha de sangue seco da pele, sentiu um grande alívio em seu peito ao finalmente tocar no assunto.
– Sim. Ótimo. Não precisaremos levar esse assunto para os nossos túmulos, não é incrível? Você não se sente aliviado? Eu sim. Agora que já esclarecemos tudo, dá pra fingir de uma vez por todas que nunca aconteceu. – Ela falou enquanto caminhava até a porta do apartamento, pronta para expulsá-lo dali o mais rápido possível. – Foi ótimo conversar com você.
– Uau. Você é realmente muito madura. – continuou do mesmo jeito que estava: deitado no sofá como se fosse uma estátua.
, eu não quero brigar. – resmungou de olhos fechados, prevendo onde aquela conversa os levaria.
– E por qual razão você sempre acha que qualquer conversa entre a gente vai resultar em briga? Acho que isso diz mais sobre você do que sobre mim. – Ele retrucou, afiado.
Ela apenas o encarou e, percebendo o tremor em suas pálpebras, entendeu que não estava apenas sendo birrenta, como na maioria das vezes. Ela estava realmente apavorada.
– Eu também não quero brigar, . Mas doze anos se passaram. A gente precisa falar sobre isso. – Ele tentou, dessa vez em um tom mais ameno.
– Já tentamos algumas vezes, não foi agradável. – As mãos dela suavam. – E eu não quero. Por que temos que falar sobre isso? Não faz sentido. Você mesmo falou: doze anos se passaram. Eu não sou uma menina e você não é um moleque, embora pareça um às vezes. – Em silêncio, ela cogitava fingir um desmaio.
se levantou e caminhou até ela, parando alguns passos antes de se aproximar demais. Cruzou os braços sobre o tórax e por poucos segundos, apenas a fitou intensamente. No fundo, ele também não sabia por que queria tanto falar sobre aquilo. estava sendo prática e racional, como sempre. Aquilo tinha acontecido há muito tempo e era bom que tivesse descoberto, assim podiam tirar o peso que carregavam há anos de suas costas e seguir em frente sem que o ocorrido incomodasse como um tijolo no sapato. Então por que aquilo parecia não bastar?
Abriu a boca pra falar algo, mas o pegou de surpresa ao ser mais rápida:
– Nós transamos.
Ela estava de olhos fechados e franziu o cenho, sentindo o estômago se comprimir de forma engraçada ao ouvir aquela frase entoada pela voz dela pela primeira vez.
– Sim? – Ele tentou compreender o que ela queria com aquela afirmação.
– Nós. Transamos. – disse mais uma vez, pausadamente, agora com a voz um pouco mais firme. Abriu os olhos e o encarou. – Era isso que você queria ouvir? Você queria que eu admitisse? Que eu dissesse em voz alta? Então tá. Vou dizer pela última vez: nós transamos. Eu me lembro. Isso aconteceu.
piscou, com a feição contorcida em surpresa. Após doze anos fingindo que aquilo tinha sido um pesadelo, estava ali, em sua frente, lhe dizendo em alto e bom som que sim, tinha acontecido. E de alguma forma ele soube que era exatamente isso o que buscava com aquela conversa. Ele queria ouvi-la admitir.
– O gato comeu sua língua? – disse, irritadiça com o silêncio mortal do rapaz.
Ele não conseguiu evitar quando um sorriso malicioso brotou em seus lábios.
– Era. Agora só falta você dizer que foi bom. – provocou e ao vê-la relaxar um pouco os ombros, soube que tinha conseguido estourar a bolha de tensão entre eles. Tinha plena consciência do quão difícil tinha sido para ela falar aquilo em voz alta e queria aliviar o clima. tinha um sério problema em enfrentar situações que pudessem lhe expor de forma vulnerável e, bem, vê-la constrangida não era uma de suas coisas favoritas.
– Foi médio. – Ela devolveu a provocação com um brilho curioso nos olhos. – Ok, fiz o que você queria. Falamos sobre isso. Agora, podemos voltar a fingir que esse desvio de percurso nunca aconteceu, por favor?
– Algo me diz que não vai deixar esse assunto morrer assim tão fácil. – Ele quase estremeceu, lembrando-se das conclusões malucas da ex.
– Às vezes tenho a impressão que voltou sem noção alguma da realidade. – concluiu com uma careta.
Antes que pudessem continuar o assunto, uma terceira voz ecoou estridente pelo cômodo:
.
e semicerraram os olhos ao mesmo tempo e se voltaram para o pequeno ser humano que balançava animadamente no centro da sala.
. – Summer repetiu, dessa vez fazendo outros barulhos esquisitos com a boca enquanto observava o colorido da TV.


Oito

– Até quando você vai fingir que não está chateada? – jogou sua bolinha de massagear as mãos em , que estava sentada do outro lado da grande mesa que ficava no centro da sala de reuniões.
– Até quando você vai me encher o saco com isso? – Pegou a bolinha no ar e a jogou de volta com certa violência, acertando em cheio o nariz dele. Sorriu ao vê-lo colocar a palma da mão sobre o rosto.
– Isso doeu, ok? – estava com as feições contorcidas em uma leve careta quando a viu dar de ombros.
– Sim, ela está chateada. – surgiu em uma das cadeiras e os dois pularam em seus lugares.
– Eu já não disse pra você não fazer isso? – ralhou irritada, enquanto se recuperava do susto.
– Disse. – respondeu. – Mas eu não me importo com o que vocês querem.
assume ser uma assombração sem sentimentos e choca um total de zero pessoas. – comentou em um sussurro, mas o anjo em questão se limitou a rolar os olhos.
, você precisa falar sobre isso. tem razão. Tudo bem você ficar incomodada com o que aconteceu. – Ela voltou ao assunto e cruzou os braços, impaciente como uma criança.
– Eu não estou chateada, nem triste, nem incomodada. Uma hora ela vai falar. – suspirou e desviou o olhar do rosto inquisitivo de . – Eu fico feliz que a primeira palavra dela tenha sido o seu nome, você é a mãe dela, não eu. – Ela fez uma pausa. – Eu sou apenas uma substituta. – Terminou com um sussurro e, assim que ouviu o que disse, se amaldiçoou mentalmente por ter soado mais dramática do que gostaria.
e a observavam entediados, apenas esperando que ela explodisse como uma panela de pressão. Mas ela não o faria. Não o faria porque não havia motivos para tal – era o que dizia a si mesma.
Summer havia dito "" antes de "mamãe" e estava tudo bem. Aquilo não mudava nada. Eventualmente ela acabaria falando e essa certeza deveria bastar para acalmar o coração inquieto de . Ela tentava se agarrar com todas as forças ao lado racional de seu cérebro porque toda vez que se lembrava da noite que antecedeu os dois últimos dias, sentia o estômago comprimir até virar um grão de areia.
, vamos lá. Você é a pessoa mais ciumenta que eu conheço. – continuou cutucando, enquanto permanecia calado, sem saber muito bem onde se encaixava no diálogo. É claro que queria ouvir Summer chamá-lo de pai, mas não havia criado tanta expectativa em cima disso como , que passou meses idealizando o momento. O momento em que Summer finalmente a chamaria de mãe.
Ele sentiu uma fisgada na garganta ao ouvi-la dizer que era apenas uma substituta, não gostava de saber que ela se sentia como uma intrusa.
– Eu não sou ciumenta. – Disse, ultrajada.
Os dois a olharam de canto.
– Ok, talvez eu seja um pouco ciumenta. – Acrescentou, um tanto despreocupada. – Mas não nesse caso. Não tenho porque ter ciúmes de Summer com você, . Por favor, me deixem em paz com isso. – implorou e a amiga decidiu que não tocaria mais no assunto. Por enquanto.
– Ah, aí estão vocês. – Andre abriu a porta da sala com um sorriso no rosto. e se ajeitaram em suas cadeiras, olhando de relance para o elemento cósmico – novo apelido que havia dado para – presente no cômodo.
– Desculpem o atraso, estava em uma ligação importante. – Ambos apenas assentiram com pequenos sorrisos. Meg, Phill – sócio de Andre, também conhecido como CFO da empresa – e mais duas assistentes, Karla e Jackie, entraram na sala logo em seguida e se espalharam pelas cadeiras ao redor da mesa. Todos conversavam enquanto Andre abria a apresentação em seu computador.
– Não acredito que Andre já está com os cabelos quase completamente brancos! – exclamou, absorta em lembranças. Em seu último ano da faculdade de psicologia, se deu conta de que não queria ser psicóloga. tinha acabado de começar a estagiar na A&P, que na época não passava de um pequeno escritório de design de interiores, quando uma vaga surgiu na área de Recursos Humanos. Imediatamente, ela convenceu Andre a dar uma chance para que, assim como , também criou uma grande afeição pelo homem.
tentou ignorá-la.
– E, nossa, ele também engordou. Não que isso seja um problema, eu não quero ser inconveniente…
– Já está sendo. – A interrupção veio de .
– O quê? – Andre perguntou, achando que alguém tinha se dirigido a ele.
– Oh, nada. Estou só pensando alto. – Ele sorriu para o homem, que voltou a tentar projetar a tela do notebook na televisão pendurada no painel da parede.
– Eu só ia falar que ele está mais bonito. Com alguns fios brancos e o corpo gordinho, Andre está um tiozão muito bonito. – concluiu seu pensamento, recebendo uma cara feia de .
– Vá embora. – Resmungou em tom baixo, sem perceber que todos haviam parado de falar no mesmo instante.
? – Andre estava de cenho franzido.
– Eu? – Ela abriu um sorriso angelical, como se nada tivesse acontecido.
Ele apenas balançou a cabeça.
– Bom, vamos ao que interessa.
Andre começou a falar sobre o faturamento da empresa no último mês e por mais que se esforçasse para prestar atenção, sentia-se demasiadamente incomodada com a presença de ali. parecia um pouco mais relaxado, mas olhava de canto para a ex a todo o momento, como se quisesse checar se ela finalmente já teria ido embora.
– Oh, oh. Esses números não são bons. – sussurrou.
– Fique quieta. – grunhiu.
– Srta. explodiu em gargalhadas. mordeu uma risada. estava da cor de um pimentão, completamente perdida e atropelando cada vez mais as palavras.
– Apenas… me perdoem. Andre, pode continuar. – Finalizou, jogando o corpo no encosto da cadeira com força. Internamente, desejou matar pela segunda vez.
– Acho que por hoje já me diverti o suficiente. Vejo vocês depois! – suspirou de alívio ao ver a amiga desaparecer como fumaça, mas sentiu a garganta coçar de irritação ao ver que ainda se divertia à custa da vergonha que ela tinha passado.
– E foi analisando esses resultados desastrosos que chegamos à conclusão de que precisamos realizar um evento.
– Um evento? – perguntou, confuso.
– Sim, um evento. – Andre o respondeu. – Algo que chame a atenção de decoradores, arquitetos e potenciais clientes. Só não sabemos exatamente o quê.
– Uma festa? – propôs.
– Péssima ideia. – interveio. – Não temos budget para uma festa. –
– Que tipo de festa? – Phill pareceu interessado.
– Podemos fazer uma festa temática. – deu de ombros. – Nesse meio, é muito comum empresas organizarem festas temáticas para arrecadar fundos. Podemos fazer uma jogada de marketing, anunciar parceria com uma instituição do terceiro setor, arrecadar uma grana e, de quebra, ainda ganhar notoriedade no mercado através da mídia.
– Parece cruel. – ponderou. – Vamos nos aproveitar de um assunto sério como caridade apenas para ganhar mercado?
– Se você olhar por esse lado, sim. Mas se você olhar pelo lado de que realmente vamos nos comprometer a ajudar alguma ONG, se torna benéfico para os dois lados.
– Eu não gosto dessa ideia. – Ela desviou os olhos para Andre, que parecia pensativo. – Acho que podemos organizar algo mais discreto.
passou a mão pelos cabelos, começando a ficar impaciente com a inflexibilidade da mulher.
– O discreto não funciona nesse caso, .
– Funciona, sim. Trabalho aqui há mais tempo que você e já fizemos isso antes. – se voltou novamente para Andre e Phill: – Um brunch talvez?
– Ela tem um ponto, rapaz. – Andre parecia ponderar. – Mas gosto da forma como você pensa. Phill, o que acha?
– Acho que podemos tentar algo novo. – Ele deu de ombros e sorriu maroto para a mulher a sua frente, que agora parecia emburrada.
– Certo. Quero vocês dois focados nisso. Passem tudo para Meg. Prazos, orçamentos, equipe. , não vamos conseguir contratar uma produtora, então você vai precisar de mais gente e equipamento para cuidar da cobertura da festa. Pode contar com Karla para te ajudar nisso. Acha que dão conta?
A nova assistente de Andre – que até um mês antes era apenas uma estagiária – sorriu mostrando todos os dentes para , que lhe devolveu uma piscadela.
– Com certeza.
Satisfeito, Andre recolheu suas coisas da mesa e saiu pela porta logo atrás de Phill. Meg e as duas assistentes voltaram rapidamente para suas mesas enquanto deixava a sala, caminhando com passos duros até a porta de seu escritório.
– Você precisa entender que nem sempre a sua opinião é a mais importante, esgueirou-se sorrateiramente pela porta antes que ela pudesse fechá-la em sua cara.
– Você precisa entender que é apenas um fotógrafo, . – disse, afiada, e arrependeu-se no segundo em que viu um lampejo de ressentimento faiscar nos olhos dele.
– A minha profissão não é menos importante que a sua. – retrucou, irritado. – Eu também tenho um cérebro.
– Jura? Na maioria das vezes não parece. – Ela sorriu e ele sentiu a raiva aumentar gradativamente. – Escute, não quis dizer que sua profissão não importa. É só que nesse caso…
– Nesse caso você se acha mais inteligente do que eu.
– Não. Acontece que, nesse caso, eu sei o que é melhor. E não acho que o melhor é nos aproveitarmos de uma situação delicada para gerar lucro.
– Por que você não consegue olhar pelo lado positivo? Eu expliquei que pode ser benéfico para os dois lados.
– E eu disse que não concordo. – cruzou os braços.
– Eu tenho certeza que se fosse qualquer outra pessoa oferecendo uma solução como essa, você aceitaria. Pensaria no assunto com mais carinho, pelo menos. Mas não, nada que venha de mim é válido pra você. – Deu dois passos para frente.
– Isso não é sobre você. Sinto em te desapontar, mas o mundo não gira em torno do seu umbigo, . – Ao ouvir a firmeza nas palavras dela, ele percebeu que, pela primeira vez em muito tempo, não parecia tão desesperada para se afastar.
– A minha capacidade intelectual é muito abaixo da sua, não é, deu de ombros.
Ele gargalhou e deu mais um passo, ficando tão próximo do rosto dela que conseguia sentir o calor de suas bochechas. Ela sustentava o seu olhar com tranquilidade, deixando claro que não iria recuar. ainda não conseguia entender exatamente o porquê da súbita mudança de postura, mas decidiu que gostava um pouco mais dessa nova forma de embate.
– Você é insuportável. – Tentou uma última provocação, com o tom de voz baixo.
– Aparentemente essa é a única coisa que temos em comum. – devolveu, ainda confiante.
Satisfeito, sorriu e se afastou lentamente.
– Você perdeu dessa vez, amor. A festa vai acontecer. Lide com isso.
– Do que você me cham… – O apelido foi a cartada final para vê-la finalmente fraquejar. Aquilo bastou para que ele sorrisse e fechasse a porta, sem nem terminar de ouvir seu questionamento.
ainda estava tentando se livrar do gosto amargo que sentiu na boca ao ouvir o apelido carregado de sarcasmo quando jogou todo o peso do corpo em sua cadeira larga.
Seriam três longas semanas.

~*~


está crente que a segunda palavra dela vai ser titio. – April deu um pequeno gole em seu café e depositou a xícara de volta sobre o balcão da cozinha de . – Você conta ou eu conto?
fez uma careta.
– Talvez seja. Talvez ela fale até "três pratos de trigo para três tigres tristes" antes de falar "mamãe". – Brincou com a borda da toalha que pendia para fora do balcão enquanto ria da própria piada.
, não fale assim. Você precisa ter paciência. – April colocou a mão quente sobre a mão da amiga.
– Eu tenho. É só que… – ela suspirou – acho que coloquei muita expectativa em cima disso e agora me sinto um pouco infantil.
April assentiu e se sentiu confiante para seguir adiante com o desabafo. – Eu olho para Summer e sinto que de todas as coisas boas que me deu nessa vida, ela foi a mais especial. Não me lembro mais de como era a minha vida sem essa criança. Talvez eu soe um tanto imatura agora, mas… toda vez que olho pra ela e reparo em seus traços, eu percebo que ela é uma mistura perfeita de e . – Ela fez uma pausa antes de continuar. – E eu queria que alguma coisa, por menor que fosse, fosse minha. baixou os olhos, sentindo-se completamente idiota. – Eu não quero ser injusta, mas por mais que eu tente me livrar do pensamento, parece que estou assumindo um lugar que não é meu. Talvez se fosse eu quem tivesse…
– Não ouse terminar essa frase. – April advertiu, ainda que em tom dócil. – Amiga, eu não sou nenhuma psicóloga, mas… acho que, de certa forma, é normal que você se sinta assim em alguns momentos. O que você precisa entender é que Summer é, sim, sua também. Ela transformou a sua vida e com certeza você transformou a vida dela. Feche os olhos e pense no bocado de coisas que vocês ainda têm para viver e aprender juntas.
April apertou a mão que ainda estava por baixo da sua, mas percebeu que sua tentativa de conforto não tinha resolvido muita coisa.
, você sabe que pode falar comigo, não é?
Ela balançou a cabeça de forma afirmativa.
– Então me conte a verdade. O que realmente te aflige? – April tentou, delicadamente.
fechou os olhos com força, tentando afastar de sua mente algumas dolorosas lembranças.
– Summer está crescendo e isso me apavora cada dia mais. Ela merece ter uma família perfeita. – Mordeu o lábio. – Tenho medo que eu não possa dar isso a ela. Tenho medo que ela nunca me enxergue como mãe.
– Isso é impossível, , por Deus! Olha, nem todas as mulheres nascem com vontade de ser mãe. Nem todas as mulheres têm o dom pra isso e está tudo bem! Mas esse não é o seu caso. Você escolheu ser a mãe dela. Poderia ter deixado ou até mesmo tia Rose tomarem conta de tudo e ter simplesmente continuado com seu plano de se mudar para os Estados Unidos, não poderia?
assentiu levemente, sentindo os olhos marejarem.
– Mas você não fez isso. Então, quem é a mãe dela? – April perguntou de forma tão firme que fez dar um pequeno sorriso.
– Sou eu.
– Mais alto, acho que não ouvi…
– Sou eu. – disse novamente, sem deixar a voz falhar. – A mãe dela sou eu.
– Muito bem. – A amiga sorriu largamente em sua direção, enquanto levava a xícara de café pela última vez aos lábios. – Agora que estamos entendidas, preciso ir para o hospital. Me atualize depois sobre os preparativos da festa, ok?
Com um abraço apertado, April se despediu de , que não demorou muito a pular de susto ao encontrar com uma expressão emburrada, sentada no mesmo no lugar que estava ocupado pela namorada de há pouquíssimo tempo.
– Comigo você não quis conversar, mas com ela você falou. Entendi.
arqueou uma sobrancelha.
– Estava bisbilhotando?
– Claro que sim! Em minha defesa, eu não costumo fazer isso. Na verdade, foi a primeira vez que aconteceu. Eu vim falar com você, mas quando cheguei te vi desabafando com ela e aí só… fiquei.
– Depois eu que sou ciumenta. – resmungou, enquanto levava as xícaras sujas até a pia.
– Não estou com ciúmes. Fico feliz que você tenha uma nova amiga, embora ela não seja tão legal quanto eu.
– Ela é ótima, .
– Tá, mas toda essa fofura dela é muito… – fez uma careta – suspeita.
sente sua falta, também.
– Eu não falei nada sobre isso. – cruzou os braços.
sorriu.
– Não precisou. Só existe um motivo para a sua implicância com ela: você acha que todas as garotas vão magoar o . Breaking news: April é incapaz de machucar uma mosca. Fique tranquila, ele está a salvo.
– Caso aconteça, você sabe que eu vou puxar o pé dela durante a noite, não sabe? Posso conseguir uma autorização pra isso. – Ela não sabia se podia, mas gostava de parecer perigosa.
– Bem que disse que você era uma assombr…
estirou o dedo rente ao nariz da amiga.
– Não se atreva.
levantou os dois braços e gargalhou logo em seguida. Menos de três segundos depois, a envolveu em um abraço.
– Você não é o seu pai. não é o seu pai. Summer tem uma família perfeita. Ela é sua filha também e nada mais importa. Nós te amamos, . Nunca se esqueça disso.

~*~


– Não, Karla, eu não sei onde o zinho está. – já não aguentava mais ouvir a assistente de Andre e aparentemente nova melhor amiga de perguntar por ele com aquele apelido nojento. Os saltos já incomodavam seus pés e ao sentir o latejar do calcanhar direito, adicionou aquele motivo à lista das razões pelas quais odiava : se não fosse a festa idiota, não estaria sendo obrigada a usar sapatos horríveis naquele momento.
– Ele está atrasado. – Karla disse o óbvio e colocou no rosto sua melhor expressão de deboche.
– Nossa, que novidade!
– Você é muito rude com ele. – A mais nova disse, desviando o olhar para a porta de entrada do galpão onde seria realizada a festa.
– Como é? – perguntou, um pouco chocada com o comentário.
– Eu disse – a menina encarou o rosto da mais velha diretamente – que você é muito rude com ele. é um cara legal e foi muito doce e paciente comigo durante essas semanas. Não entendo porque você o trata tão mal.
franziu o cenho, sem acreditar que estava levando lição de moral de uma garota anos mais nova que ela.
– Eu não o trato mal. Da missa você não sabe um terço, Karla. A nossa relação não é da sua conta.
A menina deu uma risadinha.
– Relação? Que eu saiba vocês só têm uma filha juntos, e considerando que a filha nem sua é... – Karla sussurrou a última parte e abriu um pouco mais os olhos ao ver o rosto de ficar mais vermelho do que o batom em seus lábios.
– O que foi que você disse? – avançou com o corpo para frente, mas foi impedida por algo que se enfiou rapidamente entre elas.
– Ei, o que está acontecendo aqui? – perguntou, um tanto assustado com a fúria da mulher, enquanto Karla se escondia atrás dele como um bichinho indefeso.
– A sua amiga tem algo a me dizer. Vamos lá, garota, repita o que você acabou de falar!
– Me desculpe! – A menina choramingou. – Eu falei sem pensar. Me desculpe, srta. vociferou, enquanto apertava ainda mais os braços em sua cintura.
encarou o rosto do homem. – , eu juro por Deus que se essa ratazana não sumir da minha frente agora, nós vamos todos parar na delegacia.
Os olhos dela brilhavam de ira e ele decidiu que não queria pagar pra ver se a promessa se concretizaria.
– Karla, por favor, vá verificar se todo o equipamento está pronto. – ordenou, sem tirar as mãos de .
– Mas…
– Agora.
Ela não se demorou em sumir por trás da estrutura do backdrop que cobria boa parte da entrada do galpão.
se desvencilhou das mãos de como um raio assim que ele afrouxou os braços ao seu redor.
– O que você disse a ela? – Ela perguntou, a voz carregada de ressentimento.
– O que eu disse sobre o quê?
– Eu não vou deixar você tirar isso de mim, ouviu bem? – Ela recuou dois passos, enquanto ele permanecia parado, sem entender onde ela queria chegar.
, você precisa se acalmar. Vamos convers…
– Não! Não tem conversa. Como consegue ser tão baixo? – continuou andando de costas, até se virar completamente e sumir do campo de visão do rapaz.

~*~


Poucas coisas na vida irritavam mais do que se sentir injustiçado. É por isso que, quando se aproximou da garota de vinte e dois anos, parecia um leão que estava há dois dias sem comer.
– Você tem aproximadamente 30 segundos pra me explicar o que aconteceu, Karla.
– Veja bem, não aconteceu nada demais. Ela é meio louca, né? – Karla tentou descontrair.
– Em outra situação, eu concordaria com você. Acontece que agora só te restam 23 segundos. 22, 21… – respondeu, com um fio de paciência.
– Nós estávamos apenas conversando quando eu, sem querer, comentei que a filha de vocês… bem, você sabe… não é realmente filha de vocês.
– O quê? – Ele pôde sentir os vincos se formando em sua testa.
Karla mordeu o lábio inferior.
– Jackie me contou sobre a sua ex-namorada que morreu. Disse que ela era amiga de e aí como um favor ela cuida da menina. Não sei o que tem demais em…
– Você disse na cara de que ela me faz um favor ao cuidar de Summer? – Ele a interrompeu, furioso. – Palmas pela coragem, porque noção…
– Claro que não! Eu só deixei escapar que sabia que a menina não era filha dela, tá legal? Cristo, quanto drama.
riu, descrente, ao observar a menina falar com tanto desdém.
– Preste bem atenção no que você vai fazer agora: – ele limpou a garganta – você vai encontrar , vai se desculpar e dizer que nunca, jamais, sob hipótese alguma me ouviu dizer um absurdo desse. Depois vai retirar toda e qualquer ameaça sobre denúncia contra ela, porque se eu sonhar que você andou espalhando por aí que te agrediu, ou pior, que não é a mãe da minha filha, Andre vai ficar muito decepcionado ao saber que a assistente em quem ele tanto confiou não passa de uma fofoqueira mentirosa. Estamos alinhados?
– S-sim. – Karla respondeu, atônita.
– Ótimo. – sorriu. – Boa sorte.

~*~


Três horas após o incidente, ele finalmente havia terminado todo seu trabalho. Ao terminar de guardar alguns equipamentos, correu os olhos pelo galpão lotado em busca de . Não sabia se Karla tinha seguido suas ordens, mas esperava do fundo da alma que sim, pois a última coisa que precisava era de mais uma discussão com a companheira de trabalho.
Retirou a bandana que estava grudando em seus cabelos já úmidos de suor e amarrou o pano em seu braço, logo abaixo da manga curta da camisa laranja que usava por cima da regata branca.
A ideia da festa temática havia sido dele, mas não sabia dizer se tinha gostado da sugestão de Andre, que parecia empolgadíssimo com o tema latinidades.
Enquanto as batidas de um reggaetón qualquer explodiam nas caixas de som, aproximou-se do bar e praticamente implorou por um mojito, ansioso por algo que curasse imediatamente a secura de sua garganta. Ao mesmo tempo em que o copo cheio foi colocado em sua frente, o rapaz espremeu os olhos para um dos cantos do enorme lugar, onde havia uma grande ilha de sofás. Era , ele sabia disso. O vestido florido, o batom vermelho e o cabelo perfeitamente jogado sobre o ombro esquerdo – o que permitia uma bela visão da lateral direita de seu pescoço – eram detalhes que não lhe passariam despercebidos nem a um milhão de quilômetros.
O que o fez apertar a mão ao redor do copo que lhe fora oferecido não havia sido a beleza da mulher, mas sim a pessoa que a contemplava tão de perto.
Em menos de um minuto, ele já estava a caminho do sofá onde ambos estavam sentados, conversando sobre algo muito engraçado, aparentemente. E estava morrendo de vontade de rir.
– … e aí você simplesmente saiu correndo! – ainda estava gargalhando quando notou em pé ao seu lado.
O olhar dele não demorou a cruzar com o par de olhos escuros do rapaz que estava sentado em frente à .
– Ora, ora. O que temos aqui? – O homem fingiu surpresa. – !
forçou um sorriso sem mostrar os dentes.
– Mason Cavanaugh.


Continua...



Nota da autora: Já diria Tiago Leifert: É FOOOOOOGO NO PARQUINHO!!! Porque, afinal, é disso que a gente gosta, né? HAHHAHHAAHAH. Esse capítulo foi bem difícil de escrever, eu demorei um FUCKING mês para terminá-lo e ainda não tenho certeza se gostei do resultado. Por isso, me contem o que acharam, comentem, vamos conversar pra ver se isso aquece o meu coração <3
Logo abaixo está o link do nosso grupo no Facebook. Venha fazer parte do meu cantinho! Lá eu falo sobre as próximas atualizações, solto alguns spoilers, sorteio novos capítulos e consigo sempre botar o papo em dia com vocês <3
Beijos xx


Outras Fanfics:
Everlasting (One Direction/Finalizadas)
16. New Romantics (Ficstape 1989 - Taylor Swift)
04. Out of the Woods (Ficstape 1989 - Taylor Swift)
07. Like I Can (Ficstape In The Lonely Hour - Sam Smith)



Qualquer erro no layout dessa fanfic, notifique-me somente por e-mail.


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