Última atualização: 29/09/2018

30- Could this be for real?

"Cause I can't seem to tell if you're fiction or fact."

[…]

- Você vê, Castigo? Ele se importa comigo. Ele finalmente gosta de mim!
Franklin Bert, vestido de corvo, soltou aquele barulho nada parecido com o som de um corvo que vinha treinando.
- Só não se esqueça que não é de verdade! – Exclamou, se remexendo ao meu redor. – Você pode tê-lo feito achar que está apaixonado por você, mas sem a poção de Violeta da Noite ele ainda estaria caidinho pela boba Valerie! Rá-rá-rá!
Em vez de dizer qualquer coisa, fiquei pensando na fala de Castigo, o corvo, e em como ela fazia perfeito sentido na minha vida – como, aliás, toda aquela peça.
- ! – Annabeth sussurrou.
Olhei para baixo, sobressaltada. A professora Elizabeth estava ao lado dela, sussurrando a fala. Balancei a cabeça, voltando a mim.
- Calado, Castigo, ou te transformo em um frango e vendo para o dono da padaria! – Exclamei. Franklin saiu grasnando para longe. – O que importa é que Eric gosta de mim, e só de mim!
- E corta! – Elizabeth gritou lá de baixo. – Perfeito! Vocês dois estão ótimos, mas, Franklin, precisamos conversar sobre esse grasno.
A professora ficou conversando com Bert sobre aquele barulho devastador, enquanto eu me sentei em uma das poltronas, da plateia, pensativa.
- Ei, você está legal? – Annabeth apareceu ao meu lado.
- Humrum. – Assenti. – Só lembrei de uma coisa e perdi a linha de raciocínio.
- Sabe quem mais não consegue encontrar a linha de raciocínio? – Ela ergueu uma sobrancelha. – A Jasmine. Eu cheguei mais cedo para repassar as canções com ela, mas ela simplesmente não conseguia entrar no tom, e errava a letra o tempo todo.
Olhei para Annabeth, estranhando aquilo.
- Pois é. – Ela deu de ombros. – Em toda a minha vida nesse grupo de teatro, eu nunca a vi tão dispersa. Jasmine pode ser uma bruxa, mas é mega profissional. Honestamente, eu fiquei preocupada, porque a peça é na semana que vem!
E eu senti a mesma preocupação, pensando se aquilo teria a ver com o fato de Jasmine não ser a protagonista da peça dessa vez. Mas apesar disso, ela tinha se esforçado até então. Me lembrei então da briga entre ela e Charlie na noite do baile, de como ela estava fora de si. Talvez, por mais bizarro que fosse, alguém devesse falar com ela – alguém que tivesse visto o que aconteceu e que ela não fosse escorraçar. Fazendo o cálculo das opções para isso, percebi que a única que não seria profundamente afetada por uma enxurrada de ofensas vindas dela seria eu. E por mais estranho que fosse, eu também era, entre os presentes naquela noite, quem ela mais respeitava.
Depois que o ensaio acabou, tomei o caminho da minha sala de aula, mas decidi que se visse Jasmine, pararia para saber se estava tudo bem. Secretamente, para ser honesta, estava torcendo para que isso não acontecesse. Mas quando estava passando pelo corredor antes do meu, avistei a garota mexendo em seu armário.
- Beleza. – Falei para mim mesma. – É só perguntar.
O comportamento de Jasmine estava tão esquisito, que seu radar anti-eu nem sequer disparou, de modo que ela não percebeu que eu me aproximei até que falei alguma coisa.
- Jasmine? Ei.
Ela olhou para mim então, de cima a baixo, desconfiada.
- Pie? O que você quer?
-Bom, eu só queria... Saber se está indo tudo bem com os ensaios da peça. – Dei de ombros.
Jasmine bateu a porta do armário com força.
- Aquela fofoqueira da Annabeth já foi atrás de você, não é? – Bufou. – O que ela pensa, que você é a dona da peça?
Engoli em seco, pensando em qual seria a melhor forma de continuar.
- Não, é que... Jasmine, ela só ficou preocupada. Essa peça é importante para a Annabeth. Para todos nós. – Respirei fundo. – E eu... Vi o que aconteceu entre você e o Charlie na noite do baile.
A expressão de Jasmine ficou tão ultrajada que pensei que ela fosse começar um escândalo ou bater na minha cara. Mas continuei:
- Pensei que talvez você quisesse...
- O quê? Conversar? – Ela balançou a cabeça, incrédula. – E por que, de todas as pessoas, eu conversaria com VOCÊ, Pie? Você só pode ter ficado maluca! – Saiu andando.
- Porque... – Falei de longe. – Você não tem mais muita gente com quem conversar.
Jasmine parou de andar pelo que pareceu uma eternidade, mas na verdade foram só alguns segundos. Então ela endireitou as costas e se virou, voltando rápido em minha direção.
- Presta atenção, . – Disse em voz baixa e séria. – Mesmo que eu não tivesse com quem conversar, você ainda seria a última pessoa com quem eu falaria. Por Deus, você só pode estar maluca! – Ela deu uma risada nervosa, passando a mão pelo cabelo. – Se tudo está do jeito que está agora, é porque você veio para esta cidade!
- Eu...
- Ah, quer saber? Esquece. – Ela deu de ombros. – Só não se mete na minha vida, Pie, é sério.
Jasmine foi embora e me deixou ali, sem entender tão bem, mas, de repente, me sentindo mal por ela.

Minha penúltima aula do dia acabou sendo vaga, devido a uma consulta médica remarcada na última hora pela professora. Apesar de gostar de conversar com um ou dois colegas que faziam aquela matéria comigo, eu não queria ficar com ninguém naquele tempo livre. Fui para um ponto distante do gramado ainda baixo e me deitei.
Depois de conseguir deixar um pouco de lado minha conversa com Jasmine, tinha voltado a minha mente o primeiro problema, aquele que surgiu durante o ensaio.
O que eu estava pensando quando esqueci de dizer minha fala era que, assim como acontecera com Ebony e Eric na história, só tinha ficado tão interessado em mim porque eu tinha manipulado a situação para que isso acontecesse.
Afinal, quando nos reencontramos, tinha decidido ficar com a Summer, apesar do que acontecera no verão. Fui eu, com a minha obsessão por fazê-lo gostar de mim – agora eu sabia que era isso, acima das outras coisas – e todos aqueles planos, que tinha desencadeado tantos sentimentos confusos nele.
É claro que isso não fazia de Junior um santo, mas sem dúvida eu tinha uma grande parcela de culpa em tudo que tinha acontecido, e isso estava me deixando preocupada com outras coisas também.
Tirei o celular do bolso, ainda meditativa, e escrevi uma mensagem para Sofia.

Está em aula?

Ela não respondeu de imediato, e fiquei esperando.
- ! – Ouvi a voz me chamar e levei um susto.
Quando olhei para trás, me deparei com .
- Você me assustou. – Falei sem me levantar.
- Desculpe. – Ele disse, se aproximando. – Posso? – Indicou o espaço ao meu lado.
Dei de ombros, sabendo que não poderia repeli-lo para sempre, mas também pensando em minha conversa com Miguel sobre ser honesta com ele também.
- , olha... – Ele disse. – Eu pensei muito no que você disse, sobre viver fazendo a coisa errada e pedindo desculpas depois. Eu percebi que você estava certa.
- Que bom que percebeu, . – Meneei a cabeça. – Fico feliz, de verdade.
- Daqui por diante, isso vai mudar, eu prometo. Eu sei que te deixei muito chateada, mas a última coisa que eu quero é que se afaste de mim por isso justo quando estamos bem.
Engoli em seco e olhei para ele, angustiada com o rumo daquela conversa.
- O que foi? – Ele estranhou minha expressão.
- . – Eu suspirei. – Olha, eu juro que fico alegre em ouvir isso tudo; eu sei que isso vai ser ótimo pra você. Mas não pode mudar por minha causa, entende? Tem que mudar por você mesmo, pelo seu futuro. – Dei um sorriso solidário, segurando sua mão. – Porque eu e você... Nós não somos um casal. Somos só... Bons amigos. – Dei de ombros. – Eu quero que você pense no que quer para a sua vida daqui por diante, entende?
me encarou por alguns segundos, a expressão pensativa. Depois assentiu.
- Entendo sim. – Respondeu sério.
Sorri para ele, apertando sua mão de novo.
- Que bom. – Falei. – Bom, a gente se fala depois.
Saí dali mais leve por sentir que estava fazendo a coisa certa, apesar de ainda um pouco preocupada com . Pelo menos ele parecia bem com o que disse, o que já era um alívio.
Meu celular vibrou quando eu já estava no corredor.
- Sofi. – Eu disse.
- ! – Ela disse feliz. – Que bom que me mandou mensagem, estava doida por um motivo para sair da sala.
- Não era minha intenção te fazer perder aula. – Brinquei.
- Ah, não está acontecendo nada de importante lá, acredite em mim. – Riu. – Mas me conta: aconteceu alguma coisa?
- Algumas. – Ponderei. – Eu quase consegui conversar com o no sábado à tarde, mas aí o apareceu dizendo que tinha terminado com a Amber e começou uma confusão dos infernos.
- O o quê?! – A surpresa na voz dela foi clara.
- É, foi uma loucura. – Balancei a cabeça. – Mas você deve estar feliz em saber. – Provoquei.
- Cala essa boca. – Sofia disse rápido. Era incrível como aquele lance de estar apaixonado por ela a deixava tão sem jeito. Justo ela. – Que pena que não conseguiram conversar! Eu estava doida para saber o que ele ia dizer depois de toda aquela magia do baile.
- Sofia, era sobre isso mesmo que eu queria conversar com você. – Suspirei, me sentando na escada do corredor deserto. – Eu estou... Preocupada com uma coisa.
- O que foi? Pensei que estava tudo bem com vocês dois.
- E está. – Confirmei. – O problema é justamente esse.
- Hum. – Sofia esperou que eu continuasse.
- Acontece que... Hoje de manhã eu estava ensaiando para a peça de Outono a exata parte em que o ajudante da Ebony diz a ela que, se não fossem os feitiços, Eric jamais teria se apaixonado por ela. – Expliquei. – E eu me lembrei do porque, é claro, eu fiz de tudo para deixar ele maluco.
- Sim, faz sentido. – Ela disse.
- É só que depois... Depois eu me lembrei do .
- O quê?! Por quê?!
- Porque a verdade, Sofia, é que eu também posso ter deixado ele confuso com toda a história que criei. – Engoli em seco. – E se o só pensa que está apaixonado por mim porque eu fiz com que ele acreditasse nisso da mesma forma que fiz com o ?
- Não, ! – Ela exclamou, nervosa. – Quer dizer, não, isso... Não é isso. O gosta de você. Ele aceitou entrar na sua farsa por isso.
- Eu bem queria acreditar cegamente nisso, Sofi, mas a verdade é que o sempre foi uma boa pessoa, e podia muito bem estar só tentando me ajudar quando eu baguncei a cabeça dele também. Desde que comecei a pensar nisso...
- . – Ela me cortou. – Eu não posso negar que isso tudo até faria sentido, mas tenta não pirar agora, ok? Quando vocês conversarem, você vai poder esclarecer tudo. Só não se precipite.
- Tá. – Concordei. Mas a verdade era que ainda estava com medo.

🌴💚🌴


Por causa da minha conversa com Sofia e do resto todo, tinha tomado a decisão de ir com calma com . Antes de qualquer coisa, precisávamos conversar sobre o que estava acontecendo, para depois descobrimos o que fazer.
- BU! – Gritaram quando entrei em casa à tarde.
- AH! – Gritei. – Mas que diacho é isso?!
Papai, todo alegre, vestia uma roupa horrorosa que devia ser de quando ele tinha quinze anos, a julgar pelo tamanho.
- Isso é uma roupa que eu costumava usar na época em que você nasceu. – Ele olhou para si mesmo, orgulhoso. – E olha como ainda cai bem!
Eu podia ter errado no palpite da época, mas a roupa ainda era horrorosa.
- O senhor quase me matou. – Coloquei a mão no peito.
- Sabe por que estou usando isso? – Papai perguntou, ignorando meu quase infarto.
- Por que você vai a uma festa à fantasia muito brega? – Chutei.
- Não. Porque nós vamos para New Orleans! – Exclamou.
Meu queixo caiu. Eu não estava entendo nada, mas mesmo assim não podia acreditar.
- O quê? Mas como?
- Bom, uma velha amiga minha e da sua mãe, a Marley, me convidou para o casamento dela. – Explicou, indo para a sala. Eu o segui. – Ela é dona de um bar desde a época em que morávamos lá. É um centro musical maravilhoso, onde eu sempre tocava. E como eu não vou a New Orleans desde que me separei da sua mãe e achei que você pudesse querer conhecer o lugar onde passou seus primeiros anos de vida, confirmei nossa presença.
- É claro que sim! – Exclamei. – Mas a mamãe sabe? E quando vamos?
- Eu telefonei para ela depois que falei com a Marley, mas com o projeto em andamento, ela não vai poder ir. Já nós, vamos na quinta à noite.
- Mas já?!
- Bom, o casamento é no domingo, mas queria que tivéssemos tempo para dar umas voltas e você poder conhecer todo mundo. Além disso, e eu vamos tocar com a banda na festa, então o ideal é que tenhamos tempo pelo menos para um ensaio geral.
- O também vai? – Abri a boca.
- Ele ia avisar a mãe que ia precisar perder aula, mas, sim, ele disse que vai. – Confirmou. Depois pareceu preocupado. – Ah, não! Você não gostou?
- Não, não! Está tudo bem. – Sorri um pouco. – O sempre quis conhecer New Orleans. Vai ser legal.
- É maravilhoso ouvir isso, Rainbow! – Papai se aproximou e me deu um abraço e um beijo. – Estou tão ansioso para mostrar a todo mundo como você cresceu! – Saiu falando pela casa, todo feliz.
A ideia de ir para New Orleans me deixou muito feliz, e ao mesmo tempo, um pouco nervosa – não sabia dizer se por causa do ou se porque aquele havia sido o último lugar em que eu tinha vivido com meus dois pais.
De todo modo, aquela viagem poderia funcionar muito bem. Seria o momento certo para eu saber até que ponto o que sentia por mim era verdade.

🌴💚🌴


- Ah, isso vai ser taaão romântico! – Jodi dizia, rodopiando. – Você e o , dançando sob as luzes de New Orleaaans!
- Jodi, o está indo lá a trabalho, e eu estou indo rever os amigos dos meus pais. – Balancei a cabeça, me alongando.
- Blábláblá! – Emma me ignorou. – "Princesa Tiana e príncipe Naveen, no batuque da cidade!" – Começou a dançar. – Pra completar, você também faz bolos.
Jodi começou a rir e eu fingi estar séria, embora estivesse rindo. Sabia que quando Summer chegasse aquela palhaçada só ia piorar.
- Seu único problema vai ser quando a Amber descobrir que quer abandoná-la do jeito que ela está. – Emma arqueou uma sobrancelha.
- Ah, nem me lembre. – Estremeci. – Ela vai mesmo pirar.
- Até ouço a voz dela. – Jodi fez careta. – “Você não pode fazer isso, !”.
- VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO, !
Olhei para trás e vi com uma cara nada boa se aproximando.
- ? O que foi?
me encarou com os olhos vidrados.
- disse que vocês vão para Nova Orleans, mas você não pode ir enquanto a Amber estiver maluca! – Sacudiu meus ombros. – Não pode deixar ela assim! Não pode me deixar assim!
- , eu sinto muito. – Falei. – Mas meu pai já confirmou nossa presença no casamento. Além disso, você tem que resolver essa situação com a Amber sozinho, e rápido. Eu já tive que enfrentar aquela bruxa da mãe da Summer por sua causa!
- Eu sei. – Ele choramingou. Então olhou para Jodi e Emma. – Por que vocês duas não fazem nada também?!
- Me inclua fora dessa, . – Jodi bateu no ombro dele e se afastou.
- Vou gravar o noticiário quando aparecer a notícia de uma líder de torcida vingativa que atacou o ex-namorado. – Emma acenou, seguindo a amiga.
- Isso nunca vai acabar. – disse, deprimido.
- Vai sim. – Sorri. – Até a mais louca e obcecada das garotas percebe quando é hora de parar, por mais que às vezes demore um pouquinho. – Garanti. – Experiência própria.

Ainda assim, fiquei com pena de e decidi avisar pessoalmente a Amber que estava indo viajar em dois dias. A mãe da garota, que ainda não fazia ideia de que eu era a responsável por colocar na vida dela, me recebeu alegremente.
- Ah, vai ser ótimo para ela te ver! – Ela dizia enquanto me levava ao quarto. – Na minha época de líder de torcida, eu sempre contava com minhas amigas. Na verdade, temos reuniões anuais até hoje.
Não me surpreendeu nem um pouco que ela tivesse sido líder de torcida, a bem da verdade. Se estivéssemos no universo de Digimon, a senhora Hayley seria a digievolução de Amber.
- Pode entrar, querida. – Ela abriu a porta.
O impacto foi grande. Ao contrário da organização que víramos no dia do término, agora havia embalagens de todo o tipo de gordices espalhadas pelo quarto cor de rosa, enquanto a tv na parede reproduzia As Patricinhas de Beverly Hills. Amber estava sentada no meio da cama usando um moletom, com uma tigela de pipoca no colo e a boca toda suja de chocolate.
- ? – Ela disse meio soturna. – Veio assistir As Patricinhas de Beverly Hills comigo? Já está acabando, mas não tem problema; eu coloco de novo no começo.
Amber se esticou para pegar o controle, mas eu corri e segurei seu braço.
- Não precisa! – Dispensei. – Amber, eu vim te avisar uma coisa. Vou viajar depois de amanhã.
Os olhos azuis se arregalaram, como se ela saísse de um transe.
- O quê? Não, você não vai fazer isso comigo, ! – Protestou do jeitinho que as meninas tinham imaginado. – Eu preciso de você! Eu estou deprimida!
- Não, você não está! Você só terminou com um garoto, pelo amor de Deus! – Gritei impaciente. Depois, ao ver a cara dela e pensar na minha hipocrisia, fiquei com pena e me sentei na cama. – Olha só, Amber, desculpa.
- Eu sou uma idiota! – Ela começou a chorar com aquela cara toda suja.
- Não é não! – Segurei a mão dela. – Eu sei que o fim de um namoro, mesmo que um namoro de curto prazo, pode ser muito doloroso e, às vezes, difícil de aceitar. – Meneei a cabeça. – Mas você é uma garota incrível... Quer dizer, olha só pra você! Você é linda, é líder de torcida e ninguém nesse mundo conhece o roteiro de As Patricinhas de Beverly Hills melhor do que você.
Amber deu um sorriso misturado com uma fungada, e então voltou a chorar, me abraçando e me sujando com aquela boca toda suja de chocolate.
- Você é tão boazinha! – Exclamou.
Dei um suspiro, mas sorri. – Nem tanto, Amber. Nem tanto.

🌴💚🌴


Na manhã seguinte, Summer passou na minha casa para me dar uma carona. Claro que ela não deixou passar a história da viagem mais do que as meninas.
- Ah, ninguém merece vocês! – Exclamei.
- Tá, tá bom! Vou parar de te encher! – Ela riu. – Mas eu espero mesmo que vocês se divirtam. A primeira vez que eu viajei com o Junior e a família dele foi tão engraçada!
Em outros tempos, ouvir aquilo doeria um bocado, mas agora não. Eu não conseguia nutrir mais nenhum sentimento de inveja ou ciúme em relação a Summer àquela altura, e perceber isso me fez sentir muito melhor.

- Bom, nos vemos na segunda aula. – Ela disse, seguindo outro caminho, já dentro da escola.
- Até depois. – Acenei. E sem olhar para frente, trombei em alguém que vinha do outro corredor.
Ele olhou para mim e sorriu.
- Rainbow.
- . – Sorri, meio atrapalhada. – Você... Oi.
- Devia olhar para frente quando anda. – Ele avisou. – Da próxima vez pode esbarrar em alguém bem menos bonito.
Dei risada e rolei os olhos. Era tão bom ter o metido a engraçadinho de volta.
- Então você vai mesmo? – Ajeitei a mochila nas costas. – Amanhã, com a gente.
- Vou sim. Liguei para o seu pai ontem à noite para confirmar.
- Ele estava dormindo quando eu saí.
meneou a cabeça.
- Bom, acho que a gente vai ter tempo para conversar lá. – Disse. – Quero dizer, em New Orleans.
- Acho que sim. – Assenti.
- É... A gente se vê depois então. – Sorriu.
- Tá.
Alguns dias atrás, eu teria dado um beijo na bochecha dele, mas agora que as coisas estavam tão malucas, eu não sabia bem o que fazer. Então, me pegando de surpresa, se inclinou e ele próprio fez isso, dizendo em seguida com um sorriso:
- Tchau, Rainbow.
Ele foi para a aula e eu fiquei ali, a mão na bochecha, sorrindo até me lembrar que 1) eu tinha aula e 2) ainda não tinha certeza sobre .
Assim que me dei conta desses dois fatores, corri para a sala da senhora Turttle, me lembrando do outro fator complicador com o qual teria que lidar naquela manhã:
.
Porque, claro, quarta-feira era o dia da aula de economia doméstica.
- . – O semblante dele se iluminou.
- Oi, .
Por mais que tivesse tido aquela conversa motivadora com sobre mudar de atitude, ainda ficava nervosa em lidar com ele com meus sentimentos como estavam.
- Olha, eu pensei muito no que você disse ontem. – Ele começou.
- Pensou?
- Sim. E descobri que...
- Em seus lugares! – A senhora Turttle chamou nossa atenção, fazendo se calar. – Ou melhor, devo dizer... Em outros lugares. – Riu. – Hoje, queridos, teremos um teste surpresa. E para garantir que ninguém ganhe uma nota que não merece explorando o colega de mesa, vou trocar todos de lugares. Vocês vão ter que fazer uma geleia de frutas!
olhou para mim com uma careta.
- Junior , você vai ficar aqui na frente! – A professora chamou. – Pie, pode ir para a última mesa.
Dei de ombros, enquanto cada um de nós seguia para uma direção. A professora continuou misturando os pares. Para ser honesta, me senti um pouco aliviada por ganhar aquele tempo.

🌴💚🌴


O que quer que quisesse me dizer, não conseguiu naquele dia. Depois daquela aula tive que ensaiar para a peça – onde Jasmine continuava estranha, mas parecia menos pior – e passar um tempo praticando com a torcida também. Na quinta-feira, o próprio faltou à aula, e eu me sentei tranquilamente na mesa VIP com as garotas. Para minha surpresa, Amber finalmente deu as caras, ainda que timidamente, e se sentou conosco. manteve distância, sentando-se com e os garotos em sua antiga mesa.
Minha mala já estava arrumada desde a noite anterior, mas ainda assim quis acrescentar uma ou duas coisas enquanto falava ao telefone com Sofia. Nosso voo sairia em três horas e Miguel nos levaria no aeroporto.
- Cara, eu estou mais ansiosa para essa viagem do que você. – Ela dizia. – Não acredito que finalmente vocês vão se entender e essa fanfic vai acabar!
- Pelo menos a gente vai conversar com calma. – Dei de ombros, um sorriso na voz.
- E se beijar e etc. – Ela riu.
- Eu só espero que dê tudo certo.
- Francamente, prima, eu também.
Meu celular fez um barulho esquisito.
- Ah, tem outra chamada na linha. – Falei. – Espera um minuto, Sofi, eu já te ligo.
- Ok.
Encerrei a ligação com Sofia para atender a outra chamada.
- Vicentini?
- ? – Franzi o cenho. – Não reconheci o número.
- É porque estou usando o celular do meu irmão, ele veio passar o fim de semana aqui. – Explicou. – Escuta, será que a gente podia conversar? Mas tem que ser pessoalmente. Eu te pego em uns minutos e a gente sai pra comer alguma coisa.
Oh, claro, não sabia que eu ia viajar. Não que eu tivesse algum motivo para avisá-lo, especialmente quando tudo tinha acontecido tão de repente, mas talvez tivesse comentado se o visse na escola naquele dia.
- Ah, , sinto muito, mas eu estou indo viajar.
- Viajar? – Ele estranhou. – Mas para onde? Pro Brasil?
- Não, eu estou... – Balancei a cabeça em sinal de desculpas, mesmo ele não podendo ver. – Eu vou para New Orleans com meu pai e com o . É o casamento de uma velha amiga do Jack.
- Oh.
A decepção na voz de e o silêncio que se seguiu me deixaram preocupada.
- ? – Falei.
- Ah, deixa pra lá. Tá tudo bem. – Ele disse, mas sua voz estava estranha. – A gente conversa quando você voltar.
- Certo.
- Tchau, .
desligou, e por mais que ele não tivesse dito nada demais sobre minha viagem, senti um arrepio estranho, uma onda de medo, receio. Claro que era pura besteira. Liguei de volta para Sofia e voltei a arrumar minha mala.


30- Parte 2 – The only exception

“And up until now, I had sworn to myself that I'm content with loneliness… Because none of it was ever worth the risk.”

[…]

- É uma pena que não vá conosco, Miguel! – Papai exclamava a caminho da casa dos . – Marley ia adorar conhecer você.
- Fica pra uma próxima. – Ele respondeu ao volante. – E não se preocupem: eu e o vira-latas vamos nos divertir o final de semana inteiro. – Fez uma careta.
Fui obrigada a rir, sabendo o quanto Stevie e Miguel viviam se estranhando.
Paramos em frente à casa de e papai desceu do carro. Provavelmente ele achava que seria melhor tranquilizar a senhora antes de irmos, visto o estado dela.
A porta se abriu e Henry cumprimentou papai, depois os dois entraram, mas a porta ficou aberta.
- E quanto a você e o ? – Miguel perguntou então.
- Ficamos de conversar durante a viagem. – Respondi. – Se Jack deixar a gente fazer alguma coisa além de conhecer todo mundo da cidade, é claro.
- Algo me diz que Jack não vai ser um empecilho para vocês. – Ele riu, mas não explicou.
Meu pai surgiu à porta de novo, dessa vez acompanhado por . O rapaz abraçou sua mãe e apertou a mão de Henry, e um instante depois eles já estavam entrando no carro. Papai foi rápido em assumir seu lugar no banco da frente, enquanto ficou do meu lado.
- Oi, Rain. – Ele disse.
- Oi. – Sorri.
- New Orleans, aqui vamos nós! – Papai comemorou.

Cerca de meia hora depois, estávamos chegando ao aeroporto de Jacksonville.
- Aqui está. – Miguel disse ao terminar de ajudar com as malas.
- Obrigada, Miguel. – Falei. – Nos vemos semana que vem.
- Até mais, meu amigo. – Papai bateu no ombro dele.
- Nada de beber demais na festa, ouviu, Jack? – Ele ergueu as sobrancelhas. – Depois virou-se para . – Até mais, .
- A gente se vê, Miguel.
Nós três seguimos para o check-in juntos e pegamos nossas passagens. Depois seguimos para a sala de embarque, onde o tempo de espera, na verdade, foi bem curto. Papai passou a maior parte dele falando sobre a época em que vivíamos em New Orleans e contando histórias do bar da Marley, então a voz no alto-falante finalmente nos convidou a entrar no avião.
- Agora vamos achar os lugares... – Papai dizia enquanto passávamos pelo corredor. – E aqui estão!
estendeu a mão para mim.
- Eu te ajudo com a bagagem.
- Valeu. – Entreguei minha mochila a ele e ele a guardou com sua própria no bagageiro, tal qual a bolsa de papai.
- Vão, crianças, sentem-se! – Jack indicou as poltronas do canto. Toda aquela empolgação de papai era assustadora.
esperou que eu passasse para a poltrona da janela e depois se sentou ao meu lado, visto que papai não fez nenhuma menção de me fazer companhia.
- Não gosto de ficar na janela. – Ele disse. – Olhar lá para baixo me dá tontura.
Assim, lá estava eu, sentada ao lado de , enquanto Jack estava no corredor.
- Estão ansiosos, meninos? – Ele perguntou sorridente. – Faz tanto tempo que eu não me mudo que esqueci como era pegar um avião.
Realmente, o tempo que Jack tinha ficado em Jacksonville Beach era um recorde em relação aos últimos anos. Quando fui para a cidade, me perguntava quanto tempo mais papai aguentaria ficar lá, mas agora não conseguia imaginá-lo em nenhum outro lugar.
Percebi inflando as bochechas pouco antes da decolagem.
- Tudo bem? – perguntei.
- Ah, sim, está. – Ele respondeu. – Eu sempre fico nervoso na hora de decolar. Depois passa.
- Às vezes só precisamos de um amigo para segurar nossa mão. – Papai esticou para o nosso lado, dizendo como quem não quer nada.
- E o senhor poderia ser esse amigo, se não tivesse medo de altura! – Devolvi.
riu e eu sorri para ele, mas quando o avião começou a subir, eu realmente segurei de leve o braço dele.
Assim que o avião ganhou estabilidade, papai olhou para nós de novo.
- Bom, eu vou tirar uma soneca. Fiquem à vontade para terem uma boa conversa ex-namorados ou o que quer que sejam. – Sorriu. – Me acordem quando chegarmos. – Então ele colocou seus óculos de dormir e se ajeitou confortavelmente na poltrona.
Fiquei olhando para ele incrédula, e comecei a entender o que Miguel queria dizer sobre papai não querer nos atrapalhar. Por Deus, Jack era o pai menos pai de todos!
- Jack sendo o Jack. – deu de ombros.
- Tinha que ser o meu pai. – Rolei os olhos. deu risada.
- Pelo menos ele é engraçado.
- Ô, se é.
Ficamos em silêncio alguns instantes.
- Em que está pensando? – Ele quis saber.
- Que da última vez que estive em um avião eu estava a caminho de Jacksonville Beach pela primeira vez. – Lembrei. – Parece que faz tanto tempo agora.
- E faz mesmo. Pelo menos alguns meses.
- Eu era... Outra .
- Gosto da que eu vejo agora. – Ele sorriu. Sorri de volta. Então olhei de soslaio para papai.
- Acha que ele está mesmo dormindo? – Perguntei baixinho a .
- Mas não mesmo!
- Oh, pai, mas que droga! – Exclamei em voz baixa, fazendo o garoto rir.
Por sorte, o voo não duraria mais de duas horas.

🌴💚🌴


Quando desembarcamos em New Orleans, descobrimos que tinha um carro nos esperando. Eu realmente não estava esperando por essa, mas fiquei feliz.
- A Marley tem dessas coisas. Ela disse que fazia questão que chegássemos com conforto. – Papai explicou.
Papai recebeu uma ligação do sobrinho de Marley, indicando onde o carro estava estacionado. Logo nós três estávamos do lado de fora, e um rapaz negro alto veio até nós.
- Jack Pie! – Ele abriu um belo sorriso. – Ainda me lembro do seu rosto!
- Mas vejam só! – Papai se aproximou e abraçou o jovem. – Se não é o Max! Você era só um garotinho quando fomos embora.
- Mas minha memória não falha. – Ele riu. – Não acredito que você é a !
Sem jeito, apertei a mão que ele estendeu para mim.
- Eu te vi pequenininha assim! – Ele indicou com a outra mão. – Mas eu também era criança, para falar a verdade. – Olhou para . – Você deve ser o .
- É um prazer. – apertou a mão dele.
- é o baixista da minha banda. – Papai explicou. – Estávamos ansiosos para tocar com vocês.
- Ora, não mais que nós, Jack, pode apostar. – Max garantiu. – Mas vamos parar de falar e entrar logo no carro. Marley está louca para vê-los!

Max era muito falante, e ele e meu pai preencheram nossa viagem até a cidade com todo tipo de conversa. Para nossa sorte – e surpresa – papai não fez nenhum comentário sobre meu relacionamento com ; ele estava muito ocupado falando sobre sua carreira e as histórias com Marley e os músicos da época.
- Nossa, quase destruímos o bar da Marley naquela briga, mas espantamos os arruaceiros. – Ele contava enquanto Max parava o carro no bairro.
- Estamos pertinho. – Max disse. – Por que não descemos e andamos até lá? Para vocês matarem a saudade.
Descemos do carro e Max e papai continuaram andando, mas eu congelei.
- Puxa! – Murmurei.
Eu mal conseguia me expressar. Tudo era tão... Lindo. Tão colorido. Tão... Familiar.
- Rain? – se aproximou. – O que foi?
- Nada, é só... Não é incrível tudo isso aqui?
- E pensar que você passou anos nesse lugar. – Ele assentiu. – Estar aqui não te traz lembranças?
Engoli em seco, e então desconversei:
- Papai está nos deixando para trás! – Agarrei a mão dele. – Vamos!

De fato, meu pai praticamente havia se esquecido de nós, tão distraído que estava. Eu continuava encantada, mas pensativa e, embora soubesse que estava me observando, não fiz mais nenhum comentário.
- E aqui está: o bar da Marley! – Max anunciou quando nos aproximávamos de um estabelecimento lilás com uma janela de vidro larga e uma porta de saloon.
- Vocês pintaram a fachada? – Jack parou de andar e colocou as mãos na cintura, nostálgico. – Puxa, ainda é igualzinho ao que me lembro. Só que era amarelo antes.
- Gostei da porta. – sorriu.
- Vamos, vamos entrar. – Max chamou.
O bar tinha as paredes internas no mesmo tom de lilás que a fachada, e o chão e as estruturas eram de madeira, contrastando com as cadeiras e mesas de metal. Havia uma escada perto da porta, levando para algo no segundo andar.
- Eu não acredito que é mesmo o velho Jack Pie!
Uma mulher negra de cabelos cacheados presos por um turbante dourado veio em nossa direção no instante em que entramos.
- Marley! – Papai exclamou, abrindo os braços para ela.
- Meu bom e velho amigo. – Marley dizia com um sorriso, abraçada a ele. – Achei que nunca mais fosse ter a decência de vir aqui. – Então se afastou um pouco. – Na verdade, toda essa história de casamento foi só um pretexto para forçá-lo a nos visitar.
- Ah, Marley, não me faça pegar as malas e ir embora daqui mesmo. – Papai brincou. – Filha, venha aqui. – Me chamou.
Dei um passo adiante, meio sem jeito, e sorri.
-Oi. – Falei.
- Eu não acredito que você é a pequena Rainbow! – Ela me estudou, abismada, e eu sorri. – Ah, venha aqui, querida!
Me aproximei mais e Marley me deu um abraço apertado, como tinha feito com Jack.
- Meu bem, você se lembra da Marley? – Papai perguntou.
- Um pouco? – Respondi com ar de desculpas.
Marley o empurrou de leve.
- Ela era praticamente um bebê quando saiu daqui, Jack. O que esperava? – Rolou os olhos, depois me olhou com carinho. – Eu lembro de você quando era um pingo de gente, vindo buscar seu pai aqui para ir almoçar, porque ele sempre perdia a hora. – Sorriu.
- Eu ainda faço isso onde ele trabalha agora. – Meneei a cabeça. Marley deu uma gargalhada.
- É bom saber que alguns hábitos nunca mudam. – Disse, olhando então para o meu lado. – E você deve ser , o ex-namorado da .
- Caramba, pai! – Olhei para ele incrédula, mas riu.
- E baixista da banda do Jack. – Acrescentou. – E babá de cachorros. Sim, sou eu. É um prazer.
- Não se preocupe, Jack me falou dessas outras coisas também. – Ela riu. – Só queria que soubessem o quão fofoqueiro ele é.
Max assobiou.
- Me lembre de nunca te contar nada, Jack. – Disse e todos nós rimos.
Marley juntou as mãos, satisfeita.
- Vocês três devem estar exaustos da viagem, então vou mostrar seus aposentos. – Disse, e para minha surpresa, indicou a escada no canto. – Por favor.

Enquanto subíamos, Marley explicava do que se tratava aquilo.
- Quando Jack e Jaqueline vieram para cá, eu tinha acabado de comprar o bar. Na época, eu morava do outro lado da cidade com minha família e vinha para cá para trabalhar toda noite. – Ela lembrou. – Foi assim por algum tempo, mas quando consegui algum dinheiro, comecei a construir no segundo andar. Lembra disso, Jack?
- Ah, lembro sim. – Ele assentiu. – Dormi algumas vezes, quando a Jaqueline me deixava do lado de fora por chegar tarde. Ainda lembro do cheiro de tinta. – Papai sorriu.
Chegamos então ao segundo andar. Era um flat modesto, mas que era uma graça – cheio de cores e quadros. Reconheci o traço em um deles e me aproximei, enquanto os outros conversavam.
- Sua mãe me deu isso de presente. – Marley falou, ao notar minha movimentação.
Parecia um abstrato, cheio de cores vibrantes, mas quando olhado com atenção, formava o rosto de uma mulher de perfil. Afastei meus dedos da tela e enfiei as mãos nos bolsos.
- Atualmente, quem mora aqui é o Max. – Marley explicou. – A minha casa é no terceiro andar, e é lá que você vai ficar, . Jack, você e o se ajeitam aqui, e meu sobrinho vai ficar na casa dos pais. Não se preocupem com o barulho: não vou abrir o bar esse fim de semana por causa do casamento.
- Ah, Marley, não precisa fazer essa movimentação toda por nossa causa... – Papai falou.
- Já está tudo organizado, Jack. – Ela o interrompeu. – Vocês são meus músicos e meus convidados de honra. E eu ainda tenho meu quarto na casa dos meus pais, eu até durmo lá às vezes. Além disso, com tudo que ainda tenho que resolver da cerimônia, o ideal é ficar mesmo com minha família. Vai ser divertido, como em A Convenção das Bruxas, só que com as minhas primas no lugar delas. – Garantiu, fazendo com que ríssemos. – É sério, elas estão em polvorosa por casar a solteirona da família. Vai ser bom ter a ajuda delas em tudo.
- Se você preferir, eu posso ficar lá, no seu quarto, e você fica aqui. – Sugeri.
- Ah, meu bem, é muito gentil da sua parte. – Marley se aproximou e apertou de leve minha bochecha. – Mas você não sobreviveria por dois segundos. – Ergueu as sobrancelhas. – Pode usar tudo que encontrar lá em cima. A casa é sua.
- Tudo bem então. – Falei.
- Max, está na hora de irmos. – Ela chamou o sobrinho. – Eu volto amanhã cedo para ver vocês e apresentá-los ao resto da banda.
Marley deu um beijo em todos nós e a acompanhamos até lá embaixo. Depois papai trancou a porta do bar – escondida atrás da porta de saloon – e subimos de novo.
- Essa viagem me deixou mesmo quebrado! – Papai se espreguiçou.
- Pode ficar com a cama do Max. – ofereceu. – Eu vou dormir no sofá-cama.
- Se você insiste. – Papai se jogou no colchão, se esticando.
- Vamos ver lá em cima? – Falei para . Ele assentiu.
Subimos mais um lance de escadas para chegar no andar de Marley, o que ela construiu depois que já tínhamos ido embora da cidade. A decoração ali era mais suave do que o andar de baixo, mas ainda tinha muitos elementos coloridos. Dava para notar que o som da cidade também era menos forte ali, o que tornava o lugar mais adequado para uma noite de sono. Além disso, ao contrário do andar de Max, havia uma porta que separava o quarto do resto do espaço. Eu adorei o lugar.
- , vem ver isso aqui! – me chamou bem quando eu jogava minha mochila na cama.
Deixei o quarto e fui atrás dele, mas o garoto não estava dentro do flat, e sim na varanda, de costas para mim. Abri a porta de vidro e me juntei a ele, entendendo então o motivo do alvoroço.
- Olha só pra essa vista. – disse, alegre. E eu olhei.
Não era como se fosse o prédio mais alto da cidade, mas dali era possível ver a rua super movimentada de cima, com seus músicos e turistas, e as luzes coloridas. Era como o camarote de um grande baile andante.
- Tudo aqui é tão bonito! – Suspirei, apoiando o cotovelo na sacada e o queixo na mão.
- E tão musical. – suspirou também. – Não vejo a hora de sair por aí. Você vai comigo, não é?
- Eu... Vou sim. – Respondi meio insegura, mas a insegurança passou quando ele sorriu para mim. Eu sorri de volta.
deu um passo para mais perto, fazendo meu coração disparar, e então...
O cortejo nos fez pular de susto, passando lá embaixo com trompetes e saxofones. Nós dois caímos no riso.
- Oh, droga, daqui a pouco papai vai sair atrás deles! – Bati na testa.
- Dormir aqui vai ser... Impossível. – balançou a cabeça com veemência.
- Bom, podemos passar a noite toda assistindo os cortejos.
- Parece bom pra mim. – Ele sorriu.
- Mas algo me diz que não vamos ter tempo para dormir de dia com essa história de casamento. – Dei de ombros.
- Vamos assistir só esse então? – Sugeriu.
- Sem dúvida.
E então nós dois nos voltamos para a rua lá embaixo, onde um enorme cortejo de músicos passava e os turistas dançavam. E era aquele silêncio – aquele silêncio do dia em que nos conhecemos, que eu tinha medo de que fosse constrangedor, mas no fim das contas não era. Porque era o . E porque a música preenchia tudo ao nosso redor. E porque ele estava sorrindo. E ainda que eu não soubesse se ele gostava de mim de verdade ou por engano, eu não ia querer estar naquela sacada, naquela cidade, com mais ninguém.

🌴💚🌴


Se a música ocasional de papai já deixava a mãe de Jodi Slaterton nervosa, um passeio em New Orleans estava fora de cogitação, pois a mulher enlouqueceria. Mas, apesar da música incessante, eu havia dormido como um anjo.
Quando desci as escadas, os rapazes já estavam acordados, conversando.
- , você levantou! – Papai sorriu. – Bom dia, meu bem.
- Bom dia, pai. Bom dia, .
- Bom dia, Rain. – respondeu.
- Nós pensamos em começar nosso próprio ensaio, mas não queríamos te acordar. – Papai comentou.
- Eu não me importo, vocês podem tocar. – Dei de ombros.
Mas bem nesse momento ouvimos a porta se abrir lá embaixo. Marley, provavelmente, estava de volta.
- Pessoal, podemos subir? – Ela chamou.
- Claro, Marley, sinta-se em casa! – Papai gritou de volta. Balancei a cabeça.
Menos de um minuto depois, ela estava lá em cima, acompanhada de Max e um outro homem, esse mais forte.
- Pessoal, quero que conheçam o Daryl. Ele é meu noivo e também o melhor empresário do ramo de sapatos de New Orleans.
- É um prazer, Daryl. – Papai estendeu a mão.
- O prazer é todo meu. Claro que já ouvi falar de você, e a Marley também me contou muitas histórias.
- Espero que boas. – Papai sorriu, educado. – Estes são e .
- É um prazer.
Feitas as apresentações, Marley deu prosseguimento a agenda do dia.
- Bom, rapazes, Max vai levar vocês para conhecerem a banda e serem atualizados do que vai haver no domingo, e ... – Ela se aproximou de mim com um sorriso. – Sei que não se lembra direito de mim, então tecnicamente acabou de me conhecer, mas eu queria muito que fosse uma das minhas damas.
- Marley, eu ia adorar! – Exclamei agradecida.
- Ah, fico muito feliz em ouvir isso! – Ela pulou de alegria. – Sei que deve ter trazido um belo vestido, mas eu já preparei algo para o domingo, então guarde o que tiver para o jantar de ensaio e a despedida de solteira amanhã. Agora, você vem comigo para ajustar o vestido de dama às suas medidas.
- Tudo bem! – Eu estava tão feliz. Eu nunca tinha sido dama de ninguém!
Fomos terminar de nos ajeitar para sairmos de casa, e enquanto os outros conversavam, papai se aproximou de mim.
- . – Ele disse.
- Sim, pai? – Respondi pendurando a bolsa no ombro.
- Eu preciso te dar uma coisa. – Enfiou a mão no bolso. Ele parecia meio desajeitado. – Isso aqui.
Papai abriu minha mão e colocou algo nela. Era uma chave velha.
- Essa é a chave da nossa antiga casa. – Ele disse. – Onde eu, você e sua mãe moramos.
Era como se a cada palavra a chave se tornasse uma batata quente na minha mão. Eu queria jogá-la para outra pessoa. , Marley, qualquer um. Eu não podia ficar com aquilo.
- Eu não acho uma boa ideia eu ir até lá e ter um ataque de nostalgia às vésperas de tocar no casamento. – Papai continuou. – Mas acho que você ia gostar de conhecer o lugar onde vivemos.
- Não. – Falei rápido. – Quer dizer... Eu não vou ter tempo, pai. Tenho que provar o vestido com a Marley.
- Fique com ela mesmo assim. – Ele me impediu de devolvê-la. – Caso surja a oportunidade, o endereço é...
- Depois você me passa! – Cortei. – Eu não vou hoje, de qualquer forma. Marley! – Chamei.
Papai podia ter estranhado minha reação, mas eu não me importava. Joguei a chave na bolsa de qualquer jeito e dei um jeito de escapar dali bem rápido.


🌴💚🌴


- Ah, isso é ridículo. – Uma das primas de Marley reclamava tomando um Martini, enquanto a costureira ajeitava meu vestido. – O que precisa ajustar aí? Nada! Vou te dizer uma coisa: eu daria um rim para voltar aos meus dezoito anos.
- É mais fácil assim do que oferecendo seu fígado, não é? – Outra delas debochou. – A essa altura ele já deve estar todo estragado.
Todas elas riram, inclusive Marley.
- Não liga pra elas, . – Ela disse.
- Está tudo bem. – Sorri. – Sabe, lá em casa somos... Éramos só eu e a mamãe, antes de eu ir morar com o Jack, então eu imaginava às vezes como seria ter uma família grande. E vocês parecem exatamente com minha família do Brasil.
- Ah, eu daria tudo para estar em... Como se chama? Copacabana. Tudo para estar em Copacabana agora. – A primeira prima recostou no sofá.
Marley balançou a cabeça, se sentando no banco perto de mim.
- Eu imagino que morar com seu pai tenha sido bem diferente de morar com a Jaqueline. – Ela riu. – Eu me lembro dos dois: eram como açúcar e sal. Se completavam, mas eram muito diferentes.
- Honestamente, eu achei que seria mais difícil. – Confessei. – Em todos os anos que vivi com a minha mãe, eu criei essa imagem do meu pai de alguém... Inconstante e desorganizado, apesar de eu amá-lo do mesmo jeito. Mas quando eu cheguei à Jacksonville Beach tudo foi muito diferente, porque o papai tinha encontrado o melhor personal organizer do mundo: o . Ele ajudou meu pai a entrar na linha, sabe? Foi como o filho que ele não tinha por perto.
- Espero que seu jeito de ver seu pai tenha mudado agora. – Ela me encarou com sinceridade.
- Mudou, sim. – Assenti. – E eu fico muito feliz por ter tido a oportunidade de passar mais tempo com ele.
- Que bom, porque ele também ficou muito feliz com isso. Quando liguei para convidar vocês para o casamento, ele não parava de falar do quão feliz estava por poder trazer você com ele. – Ela se levantou e colocou o braço sobre os meus ombros, enquanto eu olhava meu reflexo de vestido florido curto. – Espero que saiba que seu pai te ama muito, .
Dei um sorriso emocionado, sem dizer nada, e meneei a cabeça. Eu sabia, porque o amava do mesmo jeito. E aquilo não tornava aquela viagem mais fácil.

Depois das provas de vestido, Marley me chamou para ir buscar meu pai e para almoçar, mas bem quando estávamos saindo do ateliê, o próprio garoto apareceu.
- ! – Marley sorriu. – Onde está o Jack? Íamos chamar vocês para almoçarem.
- O Jack ainda está com os rapazes, falando sobre música. – explicou. – Eu escapei porque queria chamar a para dar uma volta, se não tiver problema.
Marley me lançou um sorriso sugestivo.
- Não tem mesmo. – Disse tranquila. – Eu almoço com o Jack. Mas não vão se perder por aí, hen?
- Pode deixar. – Sorri. – Até depois!
Acenamos para Marley, que balançou a cabeça, sorrindo, e seguiu na outra direção.

Assim que estávamos sozinhos, olhei para .
- Por onde vamos começar? – Perguntei animada. – Antes de qualquer coisa, tenho que dizer que já me sinto muito mais segura agora que você conseguiu nos encontrar sozinho, parabéns.
- Ah, obrigado, senhorita, mas na verdade, estávamos ensaiando ali na esquina. – Ele apontou para o lugar onde Marley entrava, lá no fim da rua. – Agora é que a aventura começa de verdade.
- Minha confiança em você acabou de acabar. – Dei um sorriso debochado. – E eu estou morrendo de fome.
- Não tanto quanto eu, pode apostar. Mas já pensei nisso, e tem uma coisa que a gente precisa experimentar.
- O quê? – Perguntei desconfiada.
apenas ergueu as sobrancelhas, mordendo o lábio.

Quinze minutos depois, eu estava sentada à mesa de uma lanchonete, encarando o prato a minha frente com uma careta.
- Sem chance! – Eu protestava.
- Ah, fala sério! Vai dizer que isso não parece delicioso? – ria, mostrando o cardápio.
- É um sanduíche de camarão! Quem come pão com camarão?
- Claro, porque a comida brasileira faz todo sentido. – Ele provocou, e quando me preparei para rebater, voltou a falar. – O po-boy é um prato típico de New Orleans! Eles te prendem se não comer.
A moça se aproximou e colocou os dois sanduíches que ele havia pedido sobre a mesa, sorriu para nós e se afastou.
- Vai você então. – Cruzei os braços, desafiando.
- Com todo prazer. – deu um meio sorriso, pegando o sanduíche de seu prato e mordendo. Ele ficou me encarando enquanto mastigava, para provar que estava tudo certo.
- E aí? – Perguntei.
fez sinal para que eu esperasse ele terminar de mastigar, e então suspirou.
- Vai ter que comer para saber. – Deu de ombros.
- Você é a pessoa mais chata do mundo! – Exclamei, mas estava rindo.
Peguei o sanduíche do prato e mordi devagar, encarando ele enquanto mastigava. E, para minha total surpresa, o estranho sanduíche era mesmo ótimo.
- E aí? – quis saber.
- Tá, pode ser que seja bom. – Dei de ombros, dando mais uma mordida.
- Pode ser é? – me encarou, divertido. – Já te disseram que você é muito teimosa?
- Já, e eu não concordei. – Dei um sorriso cínico.
Terminamos de comer nossos sanduíches, rindo enquanto discutíamos o que afinal havia de estranho na culinária brasileira.
- Você come feijão demais. – balançava a cabeça enquanto seguíamos pela rua.
- E você come de menos!
- Tá, onde vamos agora? – Ele se virou para mim, andando de costas.
- Eu queria comprar alguma coisa para o , para ver se ele me desculpa por ter deixado ele sozinho com a Amber.
- Eu acho difícil, mas vale tentar. – Deu de ombros. – Vamos perder o bonde!
saiu correndo, eu atrás dele, para que alcançássemos o bondinho vermelho que estava parado. Era quase como se nos transportássemos para o século passado.
- Eu adoro esse lugar! – riu quando nos sentamos e o streetcar começou a se mover.
- É, eu também. – Concordei baixinho, recostando na janela. Mas já estava voltando a me sentir esquisita.

🌴💚🌴


O French Market estava lotado de pessoas de todos os tipos logo na entrada.
- Legal. O que você acha que eu devo comprar? – Perguntei enquanto seguíamos o amontoado de gente em direção ao interior do mercado.
- Sendo o melhor amigo dele, eu poderia sugerir várias coisas interessantes, mas na verdade acho que você devia levar um chapéu ridículo. – opinou.
- Tipo o chapéu de grilo falante do dia da praia? – Ergui uma sobrancelha.
- Exatamente. – sorriu. – Esse lugar, por sinal, me faz lembrar a feira de artesanato da Praia das Ostras. Só que bem maior e mais histórica.
Sorri, e meus olhos se desviaram para o pulso dele, onde estava a pulseira que eu lhe dera de presente naquele dia.
- Você não tirou. – Toquei de leve seu pulso.
- Nem você a sua. – olhou para mim. E era verdade, eu não tinha tirado.
- É minha pulseira da sorte. Ou do azar, considerando tudo que deu errado depois que a coloquei, como brigar com meio mundo e perder o concurso de rainha do baile. – Fiz uma careta.
- Eu devia ter te avisado que ela estava azarada antes de te dar, não é? – provocou. – Bem, nunca é tarde. Agora você sabe.
Parei de andar e o encarei, segurando o riso. fez o mesmo. Então estiquei a mão para a bancada atrás dele e peguei um chapéu coco vermelho, colocando-o na cabeça dele.
- Achei! – Dei risada.
tirou o chapéu da cabeça e o analisou. Depois o jogou de uma mão para a outra, achando graça.
- Sabe de uma coisa? Acho que ele vai até gostar!

Depois de termos rodamos pelo mercado e comprado mais algumas coisas – incluindo um novo chapéu para o Jack também – pegamos o bonde para o centro de volta. No entanto, descemos um pouco mais longe e fomos a pé, carregando as sacolas e conversando, para observar a cidade.
- Bom, acho que é uma boa hora para conversarmos. – disse.
- Era o plano para essa viagem, não é? – Sorri um pouco. – Por onde começamos?
- Eu diria que devíamos começar pela noite do baile, mas na verdade acho que as coisas começaram bem antes disso.
Parei de andar, assentindo. Sentia no meu coração que as coisas estavam prestes a se resolver, e quase deixei passar o que estava bem atrás de , mas meus olhos pareciam querer se fixar ali.
- , eu preciso te dizer que eu...
- Aqui. – Murmurei, de repente.
- O quê?
- Era aqui. – Repeti. E quando vi estava empurrando de leve , meus pés me levando para a porta da casa alta de tijolos vermelhos.
me seguiu, sem nada entender. Nem eu sabia bem o que estava fazendo.
- , o que foi? – repetiu, preocupado.
Eu não respondi. Enfiei a mão na bolsa, cheia de urgência, e peguei a chave que papai tinha me dado pela manhã. Depois enfiei na tranca e girei. Como algo já me dizia que aconteceria, a porta se abriu com um rangido.
- Que lugar é esse? – perguntou intrigado.
- Minha casa. – Respondi baixinho. – Esse lugar era a minha casa.
Entrei no primeiro cômodo – que provavelmente tinha sido um vestíbulo. Ele era aberto para o cômodo seguinte por um arco. O que havia ali antes? Provavelmente uma sala. Havia uma lareira. O que mais havia ali antes?
- Como sabia que era aqui?
- Eu... Reconheci a fachada. – Murmurei.
- Pensei que não se lembrasse de New Orleans.
- Eu também.
Tudo que eu sabia sobre minha vida ali, era o que tinha visto em fitas cassete da mamãe, e o que papai me contava quando eu o visitava. Histórias feitas de outras histórias.
Mas, de repente, eu me lembrava de coisas. Pisando no assoalho agora velho, olhando a tinta amarronzada nas paredes, eu me lembrava de que naquela casa eu tinha comido minha primeira rosquinha de chocolate, e de ter tropeçado naquela escada e assustado minha mãe para valer. Fechei os olhos e quase pude ouvir a música do papai ecoando pelo primeiro andar. Lampejos de uma vida que eu tinha lutado para esquecer.
- Você está bem? – segurou minha mão.
- Estou. – Assenti. – Eu preciso subir.
me acompanhou em silêncio escada acima, o piso rangendo sob nossos pés.
Havia três portas, e logo percebemos que uma era do banheiro.
- Meu quarto! – Apontei para a última, a porta branca.
Apressei o passo até lá e a empurrei.
O quarto era azul – e disso eu não me lembrava – e havia uma janela grande na parede que dava para a rua. O teto era baixo, ideal para uma criança pequena, e não havia mais móveis; mamãe devia tê-los levado quando nos mudamos.
- Isso era para medir sua altura? – perguntou.
Me virei para ele, que estava sorrindo, próximo a porta, onde a parede tinha riscos em giz de cera branco.
- Acho que sim. – Sorri de volta.
- Ei, você está chorando. – franziu o cenho então, se aproximando e limpando uma lágrima da minha bochecha. E só então percebi que era verdade.
- Eu estou. – Confirmei.
Recostei na parede e escorreguei até o chão. se sentou ao meu lado, enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto suavemente.
- Eu estava com medo de vir para New Orleans... E lembrar dessas coisas. – Confessei.
- Por isso está esquisita desde ontem? – Ele quis saber. Eu assenti.
- Quando meus pais se separaram, foi... – Engoli em seco. – Muito difícil para mim. Eu sei que você entende disso também, mas eu era muito pequena, e achava que nós éramos felizes juntos. Todos nós. E ver os dois se separando foi... – Dei de ombros, fungando. – Foi como se o castelo em que eu vivia caísse em pedaços. Não havia mais os quadros da mamãe, não havia mais música.
segurou minha mão entre as dele.
- Eu queria poder fazer alguma coisa. – Ele disse calmo. – Mas sei que não dá.
- Eu me fiz esquecer muito do que eu vivi aqui, até que isso se tornasse só lembrança. Lembranças de uma vida antiga com meus pais juntos, lembranças que não me afetavam mais. – Expliquei. – Mas ver tudo isso de novo... Essa cidade, essa casa. É lindo e triste ao mesmo tempo. – Dei um sorriso fraco.
- O coração às vezes arde por um amor que não pode viver, mas que nunca morre. recitou a velha música de Billie Holiday. – Você era tão pequena quando tudo aconteceu. Mas estar aqui agora... , é uma coisa boa. Porque agora você pode entender o que houve realmente. E entender torna mais fácil aceitar, pode acreditar.
Olhei para ele – com carinho, grata – e encostei minha testa à sua, sorrindo um pouco.
- Obrigada por ficar comigo. – Murmurei.
E então se aproximou mais e nos beijamos. Ali, no chão velho de assoalho, com as teias de aranha sobre nossas cabeças. Quem precisava de um visco? Não tinha como ser mais certo que aquilo.
Então o celular dele tocou.
- Foi mal. – Ele me fitou brevemente com seus olhos . – É o Jack.
- Diga a ele que já estamos indo. – Incentivei.
E então atendeu.

Já estávamos deixando a casa quando passamos em frente ao quarto que fora dos meus pais. Só por curiosidade, empurrei a porta. Tinha as paredes num tom caramelo, e estava vazio como o meu, com exceção de uma coisa.
- O que é aquilo? – quis saber.
Fui até o pedaço de papel misterioso no chão, me abaixei e o apanhei.
Era um envelope, e cheirava a mofo, o que queria dizer que estava ali há algum tempo pelo menos. Como não estava selado, o abri com cuidado.
- Oh! – Murmurei.
Eram fotos. Fotos minhas. Fotos da minha mãe. Fotos do meu pai. Fotos nossas. Uma pequena sentada num muro ao lado de Jack. Minha mãe cozinhando, toda suja de massa de bolo. Os dois se beijando.
Meus olhos se encheram de lágrimas de novo, e um novo sentimento começou a aflorar. Nervosismo, raiva. Era difícil dizer.
- Vou levar isso comigo. – Falei para , que me olhava preocupado. – E vou dizer a minha mãe que o encontrei.

Preferi não ver meu pai, para evitar que ele percebesse meu rosto inchado e descobrisse que eu tinha andado chorando. Pedi a que dissesse a ele que eu estava muito cansada e ia tirar um cochilo.
Mas meu coração estava tão apertado que eu não consegui. Fiquei deitada na cama com aquele monte de fotos, a cabeça cheia.
No fim da tarde, enfim, fui tomar um banho, imaginando que já estava quase na hora de os dois chegarem. Tinha acabado de sair do banheiro, ainda com a toalha na cabeça, quando meu telefone vibrou sobre a cama e o rosto da minha mãe apareceu na tela.
Congelei por um segundo, pensando no que diria a ela, e então atendi.
- Alô. – Falei seca.
- Filha! Sou eu, a mamãe. – Ela disse carinhosa. – Estou ligando para saber se vocês chegaram bem a New Orleans.
- Sim, estamos bem. Estou na casa da Marley.
- Ah, que bom! Eu gostaria de poder ir ao casamento. A Marley era uma boa amiga quando morávamos na cidade.
- Sobre isso... – Falei sem conseguir me conter, minha outra mão fechada com força. – Eu fui à nossa antiga casa hoje.
Mamãe ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo a ideia.
- É mesmo? – Perguntou. – Seu pai que te levou?
- Não, eu fui sozinha. – Respondi.
- Bom, é uma casa linda, não? Costumava ser mais decorada, é claro... – Riu um pouco.
- Eu... – Respirei fundo, nervosa. – Eu achei um envelope lá. Um envelope com fotos.
- Sério? – Ela perguntou surpresa. – Bem, deve ter caído durante a mudança e achamos que um de nós tinha pegado. Eu deixei mesmo alguns objetos para trás em New Orleans.
- Você deixou muito mais do que uns objetos! – Eu disse exaltada, sem conseguir mais me conter. – Você deixou tudo pra trás, deixou nossa vida!
Mamãe se assustou.
- Filha, o que há com você? – Ela perguntou preocupada.
Eis uma coisa difícil de explicar. Mas eu tinha que falar, ou então sufocaria:
- O que há é que eu cheguei aqui sem me lembrar de nada, e aí encontrei uma casa fantasma, cheia dessas coisas que você “deixou para trás”, incluindo nossa família. Você desistiu de tudo que nós tínhamos, de tudo que nós éramos... Por que, mãe? Você me tirou do meu pai! – Comecei a chorar. – E ele nos amava tanto...
Minha mãe ficou em silêncio, e por um instante eu pensei que ela fosse voltar a falar num rompante, brigando comigo e culpando Jack pela minha rebeldia. Mas quando sua voz voltou, estava tranquila.
- Eu também o amava. – Respondeu. – Mas às vezes, um relacionamento, ainda que baseado no amor, pode ser muito mais difícil para uma das partes, e não deveria ser assim, sabe? Seu pai entendeu isso quando eu fui embora. Talvez um dia você entenda também.
Funguei, mais calma, mas ainda profundamente triste.
- Tenho que desligar. – Falei.
- Espero que consiga pensar no que eu disse. – Ela falou com doçura. – E que fique bem, ou vou precisar ligar para o seu pai. – Brincou.
- Não se preocupe. A gente se fala.
- Eu te amo, filha.
Encerrei a ligação e caí na cama, respirando fundo. Estava cansada e me sentia mal pelo que tinha dito a mamãe, mas ao mesmo tempo me sentia melhor agora. O fantasma do passado parecia bem menos assustador. O problema era que agora o presente de repente estava voltando a me assombrar.

🌴💚🌴


Acordei bem mais cedo que os rapazes na manhã seguinte, peguei minha bolsa e saí. Na noite anterior, depois do jantar, tinha vindo me perguntar se estava tudo bem, e eu disse que sim, mas desconversei de qualquer assunto. Na primeira oportunidade concordei que era hora de ir para casa porque o dia seguinte – a véspera do casamento – seria cansativo. Depois de ficar um tempo com eles no andar de baixo, falei para meu pai e que ia dormir. Entrei no quarto e esperei até que eles mesmos fossem se deitar, então me levantei e fiquei assistindo as bandas passarem até as duas da manhã.
Minha cabeça estava cheia de dúvidas – as da minha própria vida misturadas à história dos meus pais. Por mais que eu meditasse, não conseguia resolver nada, mas sabia que a primeira coisa que tinha que fazer para pensar com clareza era não deixar que a presença de me distraísse. Como era uma tarefa difícil, decidi sair sem ele ou papai.
Não era como se fugir dele fosse meu único motivo para fazer isso. A verdade é que eu queria ver um pouco mais da New Orleans da minha infância e tentar lembrar um pouco mais, por mais que soubesse que não lembraria de tudo.
Saí do bar e andei pelo quarteirão, parando para tomar o café-da-manhã em uma lanchonete. Meu telefone tocou quando eu já estava fora há cerca de uma hora.
- Filha, onde foi que se meteu? – Papai perguntou confuso.
- Ah, eu só estou dando uma volta pelo bairro.
- Por que ela não me chamou? – Ouvi dizer.
- está perguntando... – Papai começou.
- Eu só queria comprar umas coisas de garota. – Respondi antes que ele terminasse. –Para o casamento.
- Ah, tudo bem então, filha. Nós vamos nos juntar a banda para o ensaio antes do almoço, então talvez a gente acabe comendo por lá. Quer nos encontrar?
- Ah, não, acho que não vai precisar. – Dispensei. – Vou ligar para Marley e ver se ela pretende almoçar aqui no centro. Depois vou... Não sei, pintar as unhas.
- Certo. Um dia de garota. Você merece. – Ele concordou. – Nos vemos mais tarde então, filhota. Um beijo.
- Um beijo, pai.
Encerrei a ligação e pensei em onde eu iria em seguida. Talvez fosse ao parque, que eu tinha vontade de conhecer. Conferi pelo celular a rota do streetcar e então corri para pegá-lo.

De fato, consegui escapar de até mais ou menos o meio da tarde, quando ele e papai foram para casa para se arrumarem para o ensaio de casamento. Em meu favor, eu estava realmente pintando as unhas quando eles chegaram, e, depois que elas secaram, comi o po-boy que eles tinham levado para mim.
- Bom, o jantar de ensaio começa às sete. – Papai falou. – Então, se tem algum lugar que ainda querem visitar, essa é a chance de vocês, porque amanhã não conseguiremos fazer nada, e vamos decolar bem cedo na segunda-feira.
olhou para mim, ainda mastigando, esperando para ver se eu dizia alguma coisa. Ele estava tão bonito com a camisa preta estampada com o rosto da Peggy Lee... Não, não havia a menor chance de eu sair sozinha com ele. Olhei para papai.
- Não sei, tem algum lugar onde queria nos levar, pai? Acho que é uma boa chance de passearmos juntos. – Sugeri.
- Bem, na verdade tem sim alguns lugares que eu adoraria mostrar a vocês. – Papai coçou a cabeça, começando a sorrir. – Certo então. Já sei onde vou levá-los. Vocês vão adorar!
Papai continuou a falar, eu olhei para e dei de ombros. O rapaz não parecia ter percebido minha intenção ao fazer aquilo e, de todo modo, não havia um lugar que meu pai gostasse que ele não fosse gostar também.

Jack nos levou a todos os lugares que conseguiu no tempo que tínhamos, e ficou feliz em me apresentar a diversas pessoas que na verdade já me conheciam. Todos ficaram muito felizes em ver como eu tinha crescido e em falar com meu pai de novo, e no fim das contas eu fiquei feliz por ter decidido sair com ele.
Quando voltamos para casa, faltavam duas horas para o jantar. Ele aconteceria ali mesmo, no bar, que já estava quase todo pronto para receber os convidados. Mais tarde, haveria a despedida de solteiro dos noivos, mas esta seria um tour pelos bares da cidade.
- Que bom que voltaram! – Max exclamou quando nos viu. – Precisamos mesmo de ajuda para mover essas mesas de lugar.
- Bom, é com vocês. – Sorri para eles e então dei um beijo na bochecha de papai. – Eu vou subir.
- Tudo bem, querida.
Lá em cima, comecei a ajeitar as coisas – tanto as que usaria naquele dia quanto minha própria mala, porque, afinal, não teríamos muito tempo depois. O casamento aconteceria às onze da manhã no domingo, mas papai dissera que, conhecendo a família da Marley, a festa se estenderia até o fim da tarde, e estaríamos exaustos.
Depois que eu tinha deixado tudo em ordem, os dois subiram para se arrumar. Ouvi os passos e desci, para ver se papai precisava de ajuda com a roupa.
- Ah, acho que está tudo bem com minha roupa, filha. – Ele disse despreocupado.
- Deixa eu ver isso. – Falei duvidando. Fui até a cama onde a roupa estava para checar, mas de fato ela parecia impecavelmente passada. – Ué.
- Eu passei nossa roupa de manhã. – explicou, saindo do banheiro com a camisa social branca ainda aberta sobre a calça jeans. – Desculpa, eu não quis correr o risco de queimar o seu vestido.
Encarei ele por um instante e então sorri, achando que poucas vezes ele tinha soado tão fofo.
- Está tudo bem. – Falei. – Já salvou meu tempo.
- Sempre salve o tempo da sua namorada, ou então você nunca chegará a lugar nenhum na hora certa. – Papai comentou.
Rolei os olhos. – Olha só quem fala, o homem que nunca chegou no horário em nada. Além disso...
- Vocês não são namorados, eu sei. – Papai disse em tom de deboche, como se nem me levasse a sério. – E se quer saber, mocinha, eu cheguei no horário exato no dia do meu casamento com a sua mãe.
- Duvido muito que ela concorde com isso, mas, bom... – Uni as mãos, rindo. – Vou subir para me arrumar.
- Nos vemos lá embaixo.
Subi as escadas para o terceiro andar, peguei minha toalha e tomei um banho, ouvindo a rua ficar cada vez mais movimentada do lado de fora. Enquanto estava lá dentro, pensei em e sorri. Ele era mesmo o melhor personal organizer do mundo, e estava tão lindo com aquela camisa...
- Ai meu Deus, , o que você está pensando da vida?! – Repreendi a mim mesma quando me dei conta.
Saí do banheiro nervosa, enrolada na toalha, e entrei no quarto, fechando a porta. Me dei conta de que estava mais do que na hora de dar um jeito na minha vida. Eu não podia ficar beijando em um dia e fugindo dele no outro para sempre!
- Ah, finalmente lembrou que eu existo! – Sofia exclamou quando atendeu o telefone.
- Eu estou ficando maluca! – Exclamei, vestindo um robe que Marley tinha me dado como presente de boas-vindas e me sentando na cama.
- Qual a novidade? – Ela debochou. – O que houve agora?
- O que houve é que eu tinha planejado conversar com o de verdade nessa viagem, e em vez disso comecei a chorar e beijei ele.
- O efeito é o mesmo, não? Vocês fizeram as pazes!
- Não, Sofia, o efeito não é o mesmo. – Suspirei. – Porque essa dúvida infernal continua martelando na minha cabeça.
- Fala sério, . – Ela bufou.
- Sofia, isso é muito complicado. – Me joguei de costas na cama. – O , ele é a pessoa mais incrível do mundo. Mas eu não quero mergulhar de cabeça nessa história só para daqui a dois meses descobrir que ele não sente o que pensava, entende? – Perguntei, sabendo que ela no fundo entendia. – Eu já sofri muito por me enganar assim.
Sofia ficou calada por alguns instantes.
- Eu sei. Eu acho que...
Então alguém bateu à porta.
- Espera só um segundo, Sofi. – Falei me levantando.
Fui até a porta de correr e a abri, só para descobrir que quem estava atrás dela era . E pela forma como estava me encarando em silêncio, deduzi o que de pior poderia acontecer: ele tinha ouvido tudo.
- Sofia, eu preciso desligar. – Falei meio em choque. – Nos falamos depois, tá bom?
Desliguei antes que ela respondesse e fiquei olhando para por alguns segundos.
- Você ouviu? – Perguntei.
- Qual parte? – Ele quis saber. – Aquela em que você disse que eu sou ótimo ou quando disse que acha que eu não sei o que sinto por você? – Disse com rispidez.
- Não é bem isso. – Tentei explicar. – Não do jeito que você está pensando.
- E tem outro jeito de interpretar? – Perguntou com escárnio. – Olha, , eu tinha vindo aqui para te chamar para sair depois do ensaio, mas, quer saber? Já chega.
- Chega? – Repeti, ficando cada vez mais nervosa.
- Honestamente, , se depois de tudo que já aconteceu entre nós você ainda tem alguma dúvida do que eu sinto por você, eu não sei por que estamos sequer tendo essa conversa. Quer que eu te diga o que eu sinto? Ok. Eu gosto de você, eu quis ficar com você desde o dia em que te conheci, eu sou completamente apaixonado por você, sei lá! – Exclamou, me deixando absolutamente estarrecida. – Mas isso não importa, e quer saber por quê? Porque a verdade é que quem não tem certeza do que sente é você, e para ser sincero, eu é que não consigo lidar com isso.
foi embora, pegando no caminho a gravata preta que estava sobre a mesa. E eu fiquei ali, pensando no que ele tinha dito, em como eu era uma idiota e em como ele tinha todas as razões para acreditar no que dissera.

O jantar de ensaio, depois disso, foi a noite mais longa da minha vida – ainda pior do que quando eu descobrira sobre e Summer. mal olhou para mim quando eu desci e logo se ocupou em tocar com os músicos, de modo que eu passei quase toda a noite com Marley ou a sobrinha dela que era pouco mais velha que eu, Alexandra.
Não tive a menor chance de falar com , o que obviamente era culpa minha por ser tão estúpida, e não conseguia tirar da cabeça que ele tinha dito que estava apaixonado por mim. Não que eu era bonita. Não que era divertido ficar comigo. Que estava apaixonado.
E quem era eu para duvidar do ? O garoto que só tinha feito me ajudar em todas as minhas loucuras, que cuidava da minha família como se fosse dele, que arriscou uma amizade de anos por minha causa. O garoto que ainda achava que me amava depois de tudo.
Eu não tinha nenhum motivo para não acreditar nele, mas agora ele tinha seus motivos para duvidar de mim. Afinal de contas, era eu quem sempre estava em cima do muro, quem aceitava sair com ele em um dia e no outro fugia, quem beijava ele e depois dizia não saber se ele gostava de mim.
Ah, Deus, eu sou patética!
Era patética e não sabia o que fazer para consertar as coisas. Parecia que qualquer coisa que dissesse ia soar ridícula e piorar ainda mais as coisas.
A única vez que o vi olhar para mim, para ser franca, foi quando entrei com as outras damas. Nesse momento, desviou rapidamente o olhar do contrabaixo para mim, mas logo voltou a se concentrar na música que dedilhava.
Fiquei lá na frente feito uma estátua, e depois todos voltaram a conversar casualmente, e eu fiquei do mesmo jeito.
- Querida! – Papai apareceu perto de mim quando me sentei à uma mesa. – Você parece chateada.
- Ah é? Na verdade, eu nem... – Ia mentir, mas então olhei para ao longe e desisti. – Eu sou muito idiota. – Bati a cabeça na mesa.
- Ah, não fale assim. – Ele bateu nas minhas costas, claramente achando graça.
- está chateado, e a culpa é toda minha. – Expliquei.
- Você parece eu falando quando ainda era casado com a sua mãe, só que eu estaria bêbado agora. É bom saber que puxou a mim em alguma coisa.
Rolei os olhos, balançando a cabeça.
- Filha, vou te dar um conselho: quase sempre dá tempo de se arrepender e consertar as coisas. Mas não pode esperar demais.
- Esperou demais com a mamãe? – Quis saber. – Por isso deu errado?
- Por isso e outras coisas. Mas cada situação é diferente. – Deu de ombros, bebendo seu vinho.
Olhei para ele e depois para de novo. Ele estava rindo, conversando com Max sobre alguma coisa.
Era isso. Eu ia falar com ele!
Me levantei, cheia de coragem, e quando dei o primeiro passo, alguém agarrou meu braço, me puxando para trás com tanta força que me desequilibrei e tomei um tombo, chamando toda atenção da festa para mim.
- , desculpa! – Alexandra estava olhando para mim do alto. – Eu não calculei bem a força!
Ainda ouvindo o burburinho ao redor, morrendo de vergonha, segurei a mão dela e consegui me levantar.
- Eu só ia te avisar que está na hora de irmos para a despedida de solteira da Marley! – A garota explicou.
- O quê?
Antes que eu falasse, Max já estava subindo em uma cadeira.
- Tá bom, convidados, é aqui que essa festa acaba para que a outra festa comece! – Declarou, fazendo todos aplaudirem. – Homens e mulheres, separados! Está na hora das despedidas!
Um alvoroço começou pelo bar, e de repente um dos músicos apareceu e empurrou Jack de perto de mim.
- Até mais, meu bem! – Papai gritou rindo.
- Mas... – Comecei.
- Vamos, ! – Alex saiu me puxando.
Ainda tentei esticar o pescoço para procurar , mas a última coisa que vi foi um dos rapazes o empurrando também. E assim, minha chance de falar com ele estava arruinada.

Só muito mais tarde, depois de passar por uns dez bares e perder por completo a noção da hora, foi que finalmente as garotas me deixaram na porta do bar-casa.
- Isso foi incrível! – Marley dizia. – Mas por favor, meninas, estejam no salão no horário amanhã! – Avisou. – , querida, eu passo para pegar você.
- Tudo bem. – Sorri. – Descanse bastante, amanhã é um grande dia.
- Eu sei. – Ela assentiu, ansiosa. – Certo, meninas, vamos!
Marley e as garotas continuaram seu percurso barulhento a caminho de casa e eu subi as escadas, imaginando se conseguiria falar com finalmente.
Mas para minha total decepção, descobri que ele e papai ainda não tinham voltado. Eu nem sequer consegui sentir ciúmes pensando onde eles estariam, porque tudo que eu queria no momento era esclarecer as coisas com ele independente de qualquer coisa.
Mas meia hora se passou e eles ainda não tinham voltado. E eu estava tão cansada que acabei pegando no sono na cama de Marley.

🌴💚🌴


Na manhã seguinte, quando me levantei, eles ainda estavam dormindo. Queria acordar e resolver as coisas, mas não queria que ele pensasse que eu estava louca, então tomei meu café da manhã em silêncio, sozinha.
Logo que eu acabei, Marley me ligou avisando que estava indo me buscar para ir ao salão, então troquei de roupa e desci para espera-la lá embaixo.
- Bom dia, meu bem. – Ela disse descendo do carro.
- Bom dia, Marley. – A abracei.
- E os rapazes, como estão?
- Dormindo ainda. Eu deixei um bilhete.
- Ah, que inveja! – Ela exclamou. – Aposto que o Daryl está dormindo também. É a sorte de se nascer homem. – Fez uma careta. – Mas vamos logo! Tem muitas de nós para se arrumarem ainda.
Entrei no carro com ela e fomos até o salão, que ficava num ponto mais tranquilo da cidade. Assim que chegamos, os cabeleireiros nos ofereceram biscoitos e bebidas, e logo um deles agarrou Marley para começar a trabalhosa preparação de noiva. Me sentei lá, esperando alguns minutos até começarem a minha enquanto conversava com os cabeleireiros, e então pouco a pouco as mulheres da família de Marley foram chegando.
A manhã foi cheia de fofocas sobre a família e basicamente todos da cidade. Elas me faziam lembrar da minha família do Brasil, com quem infelizmente não tinha tanto contato pessoalmente.
- Mas você já esteve lá, não é? – A irmã de Marley supôs.
- Já sim, algumas vezes. – Assenti.
- Você fala... O que é que eles falam no Brasil mesmo? – Uma prima indagou.
- Português, sua idiota! – Outra respondeu.
- Tudo bem, nem todo mundo sabe. Eu falo Português, sim. Com a minha mãe quase sempre, pelo menos.
- Muito interessante. – A mãe de Marley sorriu. – Eu também só falava em Francês com a minha mãe.
- Lá vem a velha se exibir! – A primeira prima disse, fazendo as outras rirem.
- O que eu realmente quero saber é: aquele carinha escândalo que veio com você e o seu pai pra cá é seu namorado? – Alexandra perguntou, maliciosa. – Não que eu esteja interessada, mas é sempre bom ter certeza.
- Não seja assanhada, garota! – A mãe dela bateu na cabeça dela.
- Ai!
Não consegui deixar de rir.
- O e eu... É complicado.
- Pois eu vou te dar um conselho, menina. – Outra prima de Marley se aproximou. – É bom descobrir o que ele é seu antes que uma foguenta como essa aí ataque seu homem. – Bateu no meu ombro.
- Muito bem falado! – Alguém apoiou.
Continuei rindo, mas isso só me fez concluir que eu precisava mesmo conversar com , e ficava a cada segundo mais ansiosa. A essa altura tínhamos os penteados prontos.
- Por favor, não destruam tudo! – O cabeleireiro pediu. – Ainda faltam duas horas para o casamento!
- Vamos nos comportar. – Alex brincou.
Então Marley apareceu, vindo da sala especial, com um longo e lindo rabo de cavalo estruturado.
- Oh! – A mãe dela exclamou. – Está linda, filha!
Uma das primas começou a chorar.
- Bom, vamos logo! – Ela as apressou, querendo afastar a emoção. – Ainda tem muito o que fazer.
Marley me levou até o bar, depois se despediu e seguiu para a casa de seus pais. Eu iria dali a uma hora para o casamento com meu pai e , então era hora de me vestir e dar os últimos retoques. Mas o que eu realmente queria fazer era falar com . Não deixaria passar nem mais um minuto!
Subi as escadas decidida, só para encontrar meu pai escovando os dentes.
-Uxa, e atinha! - Ele me elogiou, sorrindo com a boca cheia de espuma.
- Cadê o ? – Perguntei, já procurando o rapaz pela casa.
Papai entrou no banheiro e enxaguou a boca antes de responder.
- Querida… O foi para o cais. – Disse com ar de desculpas. – A balsa ia chegar às 9:30.
- COMO É QUE É?! – Me exaltei, entrando em pânico. – Balsa? Você tá BRINCANDO comigo! – Surtei. – O não pode ir embora assim! Ele precisa me ouvir!
- Filha, espera...

[N/A: Meninas, podem ir na playlist e ouvir The Only Exception do começo.]

E lá fui eu, correndo feito uma louca, o cabelo enfeitado de flores provavelmente sendo destruído pelo vento.
- Alguém para esse ônibus! – Gritei quando avistei o veículo ao longe, na rua em frente à praça.
Como tinha decidido ir embora assim, por Deus?! Ele devia estar mesmo decidido a deixar o que quer que tivéssemos para trás, e eu nem podia culpá-lo. Eu era a pessoa mais indecisa e confusa do mundo. Ele devia mesmo procurar alguma estabilidade.
- Esse ônibus não está andando rápido o suficiente! – Comecei a choramingar no banco.
O senhor ao meu lado me olhava – os olhos cheios de lágrimas, o cabelo com flores e purpurina – sem saber o que fazer.
- Aceita um lenço? – Ele ofereceu então, preocupado.
- Sim! – Exclamei, chorando mais ainda.
- Moça, o que foi que houve? – Uma mulher de um grupo de turistas perguntou.
- Ah, é uma longa história...
E então eu comecei a contar minha história no ônibus, as pessoas prestando atenção total, fazendo comentários eventuais sobre o quão horrível eu tinha sido com Summer ou sobre como nada daquilo era culpa minha. Ao final, todos concordaram em uma coisa: eu tinha que encontrar e dizer a ele o que sentia realmente, porque ele era o meu amor verdadeiro.
- Não se preocupe, você vai conseguir encontrá-lo! – A mulher exclamou com segurança.
- Não sei, não. – Um cara da turma dela olhou em seu relógio de pulso. – Já são 9:45.
- Cale essa boca! – Ela bateu na cabeça dele.
- Ei, essa é a parada do cais! – O velhinho ao meu lado avisou.
- MOTORISTA, PARE ESSE ÔNIBUS! – A mulher berrou.
O ônibus parou tão bruscamente que batemos bati as costas no banco.
- Ai meu Deus, o senhor está bem? – Perguntei ao velhinho.
- Claro que estou, minha filha. – Ele afirmou. – Desça logo desse ônibus!
- Tá!
Me levantei e desci do ônibus correndo. Os turistas desceram logo atrás, pois também tinham que embarcar em sua balsa de passeio.
- Boa sorte, ! – Um deles gritou.
- Obrigada! – Gritei de volta.
Corri como o próprio Barry Allen até lá. Haviam dois barcos parados, e um se afastava aos poucos da costa.
- Não! – Exclamei, meu coração apertado por causa da hora. Eu não podia crer que eu tivesse chegado tarde demais.
Meu mundo estava desabando, quando vi o garoto de camisa branca e calça jeans entrando no segundo barco.
- ! – Chamei.
parou e olhou para trás, estreitando os olhos para ter certeza do que via.
- , não entra nesse barco! – Gritei, correndo de novo para alcança-lo.

[N/A: Ok, podem pausar agora. Vocês vão precisar de atenção haha.]

Quando consegui chegar até lugar onde ele estava, mal tinha fôlego para falar qualquer coisa. Me inclinei e pus as mãos nos joelhos, tentando respirar.
- ? – me olhou com absoluta confusão. – O que está fazendo aqui? Com esse... Cabelo.
- Você... Não pode... Ir embora. – Ofeguei. – Não sem antes me ouvir.
Finalmente consegui me recompor. estava me olhando sério, à espera de uma explicação.
- , eu fui uma idiota. – Falei. – E eu não estou falando só de ontem, estou falando dos últimos três meses e meio. Eu entrei em mil e uma loucuras, eu menti, eu virei outra pessoa... Tudo isso porque a verdade é que eu não conseguia aceitar que o só tivesse gostado de mim por um mês, quando eu achava que ia gostar dele para sempre.
cruzou os braços em frente ao corpo e permaneceu calado, esperando que eu continuasse.
- Eu achava que não era justo, que eu podia deixar tudo do jeito que eu queria, e, por isso, acabei fazendo todas as minhas chances de ter uma vida normal de novo darem errado: na escola, no teatro, com meus amigos. – Admiti. – Mas a pior parte disso tudo, , é que eu estava tão cega por todas as coisas que inventei, que não me dei conta de que a única coisa de verdade nisso tudo era o que eu sentia por você.
O rosto de mudou só o suficiente para a alguém que o conhecia bem perceber. Não foi um sorriso, nem um rolar de olhos. Mas eu sabia que agora ele estava me ouvindo ainda mais do que antes.
- Eu sinto muito se agi como se não confiasse em você. A verdade é que eu confio, confio mais que em qualquer um. Eu só estava com medo de pular de cabeça e ficar sem você depois, mas a verdade é que todo mundo corre esse risco. – Senti uma lágrima descer pela minha bochecha, pensando na minha mãe. – Mas eu prometo, , que nunca mais vou duvidar de você. E, para ser honesta, agora eu sei que ainda que houvesse só uma ínfima chance de você gostar de mim de verdade, eu aceitaria correr o risco de ter meu coração partido de novo, porque isso valeria o risco. Você valeria. Porque eu te amo, .
piscou diante de mim. Então ele olhou para o chão, e depois para mim de novo.
- Pensou mesmo que eu estava indo embora? – Ele perguntou apenas.
- Hanram. – Assenti fungando, confusa. – Papai disse que a balsa ia chegar 9:30.
olhou bem para a minha cara, e então começou a rir.
Fiquei absolutamente ultrajada. Eu não podia acreditar que ele estava zombando da minha declaração de amor!
- Qual é o seu problema? – Perguntei irritada.
- , eu não estou indo embora na balsa! – Ele explicou. – O Daryl alugou a balsa porque a Marley queria casar num barco, mas ela achou que eles não tinham conseguido fechar o negócio. O barco é uma surpresa pra ela. Eu só vim ajudar a colocar os instrumentos lá dentro.

[N/A: Ok, girls, voltem a ouvir a partir do 3:19 até acabar.]

Olhei para ele, depois para a balsa, onde pela primeira vez notei Max zanzando de um lado para o outro, e senti meu rosto queimar. Céus, eu era tão patética!
- , eu não podia ir embora. – disse sério, dando um passo à frente. – Porque não importa se você me deixa irritado, se você me confunde, se você é maluca... Eu continuo apaixonado por você. Eu me apaixonei por você na primeira vez que te vi, e cada vez mais desde aquele dia, mesmo tendo feito um esforço enorme para te detestar várias vezes.
- Não sei como você não conseguiu. – Senti o sorriso se espalhando pelo meu rosto, junto com ainda mais lágrimas.
Dei dois passos à frente e joguei meus braços em volta do pescoço de , que enlaçou minha cintura, e então nos beijamos, daquele jeito como acontecia nas comédias românticas que eu o obrigava a assistir toda sexta-feira.
Meu coração estava explodindo de felicidade, batendo tão forte que devia dar para ele ouvir, abraçados como estávamos. Não que eu me importasse.
- MUITO BEM, ! – Alguém gritou.
Nos afastamos para olhar para a balsa ao lado, onde meus amigos turistas estavam subindo. Eles aplaudiam e gritavam alegremente.
- Quem diabos é essa gente? – franziu o cenho.
- Amigos. – Expliquei, rindo. – Depois eu te conto. Eu tenho muito o que te contar, e quero que você me escute agora mesmo, antes de qualquer coisa.
- Tem mesmo que ser agora? – ergueu uma sobrancelha, rindo.
- Ah, não... Acho que pode esperar um pouco. – Sorri, e então o beijei de novo e de novo.


31- The devil has his eye on you, girl

“No more excuses. No more running. Only God can save you now.”

[…]

POV

- Como está a sopa de abóbora, meu bem? – Minha mãe perguntou.
- Está ótima, querida. Você sempre acerta. – Papai respondeu. – Não é mesmo, ?
O único motivo para eu não ter jogado meu prato na cabeça dele foi que aquele hipócrita ainda estava com o uniforme de polícia, o que quer dizer que podia ter uma arma no bolso e provavelmente atiraria em mim antes que eu pudesse estragar sua farsa de vinte anos de que gostava da sopa de abóbora da minha mãe – que, para o azar de gerações, era uma receita de família.
- Ah, está ótimo, mãe. – Menti. Papai sorriu, satisfeito.
Então, para minha enorme felicidade, a campainha tocou. Papai se preparou para levantar da cadeira, ansioso por se livrar da sopa, mas fui mais rápido que ele, lhe lançando um olhar de deboche.
- Eu atendo, pai. – Falei. – Longe de mim querer te interromper quando está comendo seu prato preferido.
- Tão gentil! – Mamãe achou graça, balançando a cabeça.
Saí da sala de jantar e fui até a porta da frente atender, mas assim que fiz isso, desejei ter ficado comendo a sopa horrorosa.
- Oi, gatinho! – Ela disse feliz.
- Amber?
- Aposto que está pelo menos um pouquinho feliz em me ver, não?
Eu não fazia a menor ideia de como agir com Amber, porque eu 1) não queria ser grosso, porque gostava dela, afinal, mas 2) sabia que era melhor ser direto. Entretanto, 3) quem me garantia que ela não estava com uma faca de novo?
Assim, fiquei olhando para a cara dela, sem saber bem como reagir. Quando ameacei dizer alguma coisa, ela me interrompeu.
- Ambie, eu...
- SHHHHHHH! – Ela tapou minha boca. – Você já falou demais e é minha vez!
Não que eu tivesse qualquer opção, mas deixei que ela dissesse qualquer que fosse a maluquice que a tinha levado até ali.
- Olha, gatinho, eu sei que toda essa história de ser expulso do time titular de repente deve ter mexido com a sua cabeça, então é claro que você não estava raciocinando direito quando a sonsa da Summer te atacou e fez você terminar nosso namoro. – Falou toda carinhosa, sorrindo, e quando eu tentei dizer que aquilo não era verdade, ela tapou minha boca de novo. – Mas não tem problema, bebê, porque eu sei que a verdade é que você me ama, e assim que sair desse surto, vai se dar conta disso. – Deu uma risadinha. – disse que eu devia parar de ficar deprimida por sua causa, e ela estava certa. Afinal, como eu poderia te ganhar de volta deitada numa cama com cinquenta barras de chocolate?
- Amber... Mas O QUÊ? – Fiquei absolutamente bestificado com aquela conversa.
- Tenha uma boa noite, amorzinho, nos vemos na escola! – E com isso ela saiu saltitando de volta até o carro e foi embora.
Entrei, ainda em estado de choque, e recostei na porta.
- Deus, isso NUNCA vai acabar! – Coloquei as mãos na cabeça.
Era como um filme de terror romântico e absurdo. Minha própria Harley Quinn, linda e psicótica.
Voltei para a sala de jantar, visivelmente abalado.
- Quem era, filho? – Minha mãe perguntou.
- A Amber. – Respondi desanimado.
- Filho, eu estou começando a ficar com pena dessa garota. – Papai disse chateado. – Quer dizer, eu nem entendo por que você quer terminar com ela! Amber é tão bonita e te adora!
Claramente meu pai achava que nem em um milhão de anos eu teria a sorte de que uma garota como Amber se interessasse por mim de novo. Não me importava. A garota que eu realmente queria era muito mais incrível, ainda que provavelmente nem se lembrasse do meu nome.
- O sabe o que é melhor para ele, Barney! – Minha mãe me defendeu.
Então a campainha tocou de novo.
- Quer saber? Sei mesmo. – Decidi. – Agora chega dessa loucura!
Marchei até a porta da frente decidido a mandar Amber me deixar em paz e seguir com a vida dela.
- PELO AMOR DE DEUS, ME DEIXA EM PAZ! – Berrei abrindo a porta.
Summer ficou olhando para a minha cara, os olhos arregalados, sem entender nada.
- Beleza, eu posso voltar outra hora. – Disse.
- Ah, é você! – Relaxei, um pouco envergonhado. – Ah, que bom! Quero dizer, desculpa, Summer, eu achei que fosse a Amber.
- ... Tá. – Summer disse, ainda desconfiada. Depois ponderou. – Tá. Eu entendo. Eu meio que já quis fazer isso com ela também.
Summer riu e eu também, apesar da tensão. Então convidei ela para entrar.
- Boa noite. – A garota disse quando entramos na sala de jantar. O garfo caiu da mão da minha mãe.
- Mãe, essa é a Summer. – Falei. – Pai, você a conheceu na noite do baile, lembra?
- Claro, filho. – Ele se colocou de pé e limpou as mãos no guardanapo, depois estendeu a mão direita para ela. – É bom te ver de novo, Summer.
- O prazer é meu. – Ela sorriu.
- Você... Aceita um pouco de sopa de abóbora, querida? – Mamãe ofereceu.
- Ah, eu adoraria, mas na verdade já jantei. – Ela disse. – Mas obrigada.
- Bom, eu vou conversar com a Summer lá no meu quarto. – Avisei antes que oferecessem alguma outra comida estranha a ela.
- Claro, tudo bem. – Mamãe sorriu.
Guiei Summer pelo corredor, ainda ouvindo minha mãe dizer “Dessa aí eu gostei!” quando entrávamos no quarto. Rolei os olhos e fechei a porta.
- Seus pais são simpáticos. – Ela sorriu.
- É, eu sei. Exceto quando eles estão prendendo alguém ou oferecendo aquela sopa de abóbora horrorosa. – Dei de ombros. – Pode se sentar. – Puxei uma cadeira para ela. – Ou pode sentar na cama. Ou onde você quiser. O quarto é seu. – Sorri.
A verdade é que eu ainda ficava um pouco sem jeito na presença de Summer, e ter ela entrando na minha casa e se sentando na minha cadeira giratória era um tanto quanto surreal. Mesmo que fosse amiga do , até aquele ano Summer era uma espécie de celebridade para mim, e era diferente de repente tê-la como amiga, embora eu já a considerasse assim agora.
- Então, para que a rainha precisa dos meus serviços? – Perguntei, me sentando de frente para ela.
- Na segunda-feira é aniversário da , sabia? – Summer respondeu, girando na cadeira. – Adorei essa cadeira. Adorei o seu quarto.
- Sério? – Franzi o cenho. – Caramba, eu não sabia. E olha que vivemos fazendo piada sobre ela não ter dezoito anos ainda.
- O que acha de organizarmos uma festa surpresa? – Sugeriu.
- Acho ótimo! Eu adoro festas! – Me animei.
Summer parou de girar.
- É que... Faz tempo que eu não tenho amigos como vocês, sabe? Pessoas em quem eu possa confiar, que se importam comigo de verdade. – Suspirou. – E a já fez tanto por mim e pelas meninas nos últimos tempos que acho que nada mais justo que prepararmos uma surpresa para ela. – Disse alegre. – Uma grande festa!
Ouvir Summer dizer tudo aquilo me fez engolir em seco. Não dava para deixar de pensar no que aconteceria se um dia ela descobrisse a verdade de tudo que tínhamos feito nos últimos meses.
- Claro. Você está certa. – Falei, tentando soar animado como um segundo atrás.
- Você me ajuda?
- Ajudo, é claro. – Sorri.
- Perfeito! – Ela se esticou e pegou minhas mãos, soltando-as em seguida para procurar um papel em branco na escrivaninha. – Vai ser na segunda-feira à noite, na minha casa. – Definiu.
- No começo da semana?
- Hanram. Assim é mais fácil evitar que alguém fofoque e estrague a surpresa. Sabe que horas eles voltam de New Orleans?
- Acho que de manhã.
- Posso convencê-la a não ir à escola, mesmo se chegar a tempo. – Analisou. – Você fala com o ? Ele pode nos ajudar.
- Falo sim.
- Legal. – Ela sorriu. – Isso vai ser tão divertido!
Continuei ajudando Summer a organizar as coisas, torcendo para que e se entendessem definitivamente naquela viagem, e assim pudéssemos tornar a mentira real e poupar Olsen de descobrir tudo.


🌴💚🌴


No dia seguinte, Summer teve um compromisso, então fui forçado a sair com Slaterton e Hughes para comprar as coisas para a festa.
- Se você pensa que estou mais feliz do que você com isso, , está muito enganado. – Emma resmungava enquanto entrávamos na loja de artigos de festa.
- Aposto que preferia estar com . – Impliquei, escapando por pouco de levar uma cotovelada.
- Parem com isso vocês dois! – Jodi se meteu em nosso meio. – É pela que estamos fazendo isso.
- Tá bom, Slaterton, você está certa. – Concordei. – Por onde começamos?
- Copos! – Ela sorriu, exibindo o aparelho lilás nos dentes. – Quero copos amarelos!
Depois de algum tempo jogando copos, pratos e outras tralhas de festa dentro do carrinho, o celular vibrou em meu bolso. Deslizei o visor para checar o que era, e então meu berro ecoou pela loja inteira.
- AI MEU DEUS! – Gritei.
- , VOCÊ FICOU DOIDO?! – Hughes veio atrás de mim.
- , o que houve? – Jodi correu também, preocupada.
Eu nem tive como falar, mas vendo o celular em minha mão, Emma logo o tomou.
- Ah. Meu. Deus. Essa é a Amber?! – Slaterton perguntou. Emma começou a rir.
Elas deram play no vídeo que Amber tinha acabado de publicar, intitulado “Queremos de volta ao time”.
- Caramba, você voltou com ela?
- Não! – Respondi.
Emma não conseguia parar de rir, enquanto Amber explicava todas as razões pelas quais era ridículo que me tirassem do time titular, começando por “eu ser um gato!”.
- Eu não tô acreditando nisso! – Exclamei.
- Parece bem real pra mim. – Jodi ergueu as sobrancelhas.
- Você nunca vai se livrar dela. – Emma apertou meu ombro de um jeito reconfortante, mas claramente debochando de mim.
Mas que droga!

Naquela noite, fui me deitar seriamente preocupado com o passo que as coisas andavam. Depois de algum tempo, fiquei irritado com Amber por ser maluca. Depois fiquei com pena de novo e, por fim, dormi.
Tive um sonho, um lindo sonho em que eu estava na Praia da Âncora, em cima de uma pedra, e aparecia uma sereia que na verdade era a Sofia. Ela me chamava para nadar com ela, mas antes que eu pulasse na água, Amber aparecia com um arpão e tentava matá-la. Acordei suando frio e não consegui dormir de novo, então fui jogar vídeo game.
Na manhã seguinte, estava com dor nas costas, e quando minha mãe perguntou por que, eu desconversei. A última coisa que precisava era falar sobre minha vida amorosa com meus pais. Por isso, quando ela disse que queria fazer um gnocchi que tinha aprendido na tv, me ofereci para sair e comprar o que ela precisava, antes que isso acabasse acontecendo.
Estava saindo do supermercado com uma sacola de batatas quando meu celular tocou.
- ! – Atendi. – Finalmente lembrou que eu existo, seu infeliz desnaturado!
nem ligou para o meu mau humor. Em vez disso, riu de mim.
- Oi, . Como estão as coisas?
- Nada bem, cara, mas é uma longa história. – Suspirei. – E a viagem? Como vocês estão?
- Era isso mesmo que eu queria te contar... disse. , eu e a nos entendemos. Estamos juntos agora. Dessa vez de verdade.
- Caramba, , tá falando sério?! – Parei de andar, estupefato. – Que ótimo, cara! Você não sabe o quão feliz eu fico em ouvir isso!
- Por que tanta alegria? – Ele riu. – Eu jurava que você ia dizer “não fizeram mais do que a obrigação de vocês”.
- E não fizeram mesmo. – Concordei. – Mas... Sei lá, a gente já se meteu em tanta coisa que acho que eu estou cansado. E agora que vocês dois estão juntos de verdade, vamos poder viver uma vida normal. Pelo menos até ficarmos entediados e inventarmos uma história nova.
- Nem brinca com isso. riu. – Mas é. Nós dois estávamos um pouco cansados também, eu acho.
- E vocês voltam mesmo amanhã, não é?
- Sim, amanhã de manhã.
- Preste atenção agora. – Falei em tom de conspiração. – Ela não está perto de você, ou está?
- Não... Ela foi se vestir para o casamento.
- Beleza, olha só: a Summer está organizando uma festa de aniversário surpresa pra amanhã, na casa dela.
- Sum é um gênio! É uma ótima ideia, eu estava mesmo pensando no que ia fazer.
- Ótimo. Então, nós queríamos garantir que a não soubesse de nada, o que seria mais difícil se ela fosse para a escola amanhã. Sendo assim, pensamos em dar um jeito de não deixar que ela vá. A Summer vai tentar fazer isso, mas na pior das hipóteses, você interfere.
- Por que é tão arriscado? Summer chamou a escola inteira? – Ele se assustou.
- Óbvio que não. Mas ela teve que chamar a Amber, e eu duvido muito que ela consiga conter a língua, o que quer dizer que metade da escola deve aparecer na casa dos Olsen amanhã.
- Isso é verdade. – Ele concordou. – Tá, e aí, o que eu faço além de segurá-la em casa?
- Sua missão é levar a até a casa da Summer às seis da tarde. – Expliquei. – Pode fazer isso?
- Sem problema. Vou adorar ver a cara dela.
- Eu também. – Sorri. – Agora, tem mais uma coisa que eu quero de você.

Fiquei andando de um lado para o outro com o post-it na mão. Eu podia não ser a pessoa mais organizada do mundo, mas gostava de usá-los às vezes quando estudava matemática, e tinha acabado anotando o número em um deles mesmo. Era verde-limão.
- , venha arrumar a mesa para almoçarmos o gnocchi da sua mãe! – Meu pai gritou.
- Eu já vou! – Gritei. – Me dá só um minuto!
Fechei a porta do quarto para evitar qualquer incidente vergonhoso e me sentei no puff, respirando fundo.
- Vai lá, , você consegue fazer isso. – Falei para mim mesmo.
Deslizei o visor e disquei o número do post-it – que àquela altura já tinha até decorado, de tanto reler – e esperei.
- Alô? – A voz suave veio do outro lado da linha.
- Sofia? – Perguntei, idiotamente. – Aqui é o... O . Sou o amigo da...
- . – Ela repetiu. – Eu sei quem é você. Oi.
Certo, é só falar.
- Tudo bem? – Perguntei.
- Tudo sim, e com você?
Sofia estava levando a conversa casualmente, mas eu precisava dar um sentido às coisas antes que ficasse tudo estranho.
- Bem. Bom, eu estou te ligando porque a Summer está organizando uma festa surpresa pra amanhã à noite. – Expliquei. – E eu pensei que... Eu sei que é segunda-feira, mas pensei que talvez você quisesse vir. A sem dúvida ia ficar muito feliz.
- Bom, eu adoro festas. – Ela disse. – E ela vai mesmo ficar feliz, então... Diga ao povo que vou. Uma única falta não vai me matar.
- Perfeito! – Comemorei. – Quer dizer, que bom. Vai ser ótimo. – Corrigi o tom de voz. – E... Eu sei que você não sabe onde fica a casa da Summer e a festa vai ser lá, então pensei que podíamos ir... Juntos. Não, tipo, juntos, mas, você sabe, eu poderia te levar lá, poderia... Ir com você. – Completei baixinho.
Tive a impressão de ouvir Sofia rir do outro lado da linha, e então, para minha total surpresa, ela disse:
- Tá. Por mim tudo bem.
- Sério? – Quase caí de felicidade, mas me controlei. – Tá, eu te pego na casa do Jack ou...
- Eu te busco, . – Ela me interrompeu, rindo. – Tenho que ir agora. Nos vemos amanhã.
- Tá! – Concordei rápido. – Até amanhã então.
Sofia desligou e aí sim comecei a pular pelo quarto feito um maluco.
- Amanhã! – Eu dizia. – Amanhã!
- , VENHA ARRUMAR A MESA, SEUS AVÓS JÁ CHEGARAM! – Papai bateu à porta com força.
- EU JÁ VOU! – Gritei de volta, mas logo estava sorrindo de novo. – Amanhã!

🌴💚🌴


Estava na aula de Física, montando uma equação, quando Jodi me cutucou da cadeira de trás.
- Diz aí. – Falei.
- A lista de músicas. – Ela sussurrou. – Estou te enviando o link.
- Beleza.
Jodi me enviou por mensagem o link da playlist. Me inclinei para trás e fui falando.
- Essa sim. Essa não. Nossa, que ridículo! Quem colocou isso aqui, a Hughes?
Emma – que estava na cadeira ao lado de Jodi – se virou para nos ouvir.
- Eu mesma, otário. – Respondeu. – E é bom deixar aí.
O professor olhou de sua mesa, procurando a origem do barulho, e nós nos abaixamos.
- Ah, tanto faz. Podem colocar o que quiserem, desde que não seja Maroon 5. – Avisei, porque não aguentava a voz do Adam Levine. – Depois eu passo uma lista de jazz pra vocês. A festa é da , afinal.
- Que generoso. – Emma rolou os olhos.
- Sou mesmo. – Concordei. – Eu só quero que essa festa saia perfeita porque, se querem mesmo saber, eu tenho um encontro. – Contei, embora não fosse mesmo um.
- Você está brincando, né? – Jodi me olhou com seriedade. – Com quem?
- Isso é segredo. – Sorri convencido.
- Vai ser um encontro com a morte quando a Amber souber. – Hughes riu.
Engoli em seco, sabendo que Emma estava certa. Mas de todo modo, aquilo teria que parar um dia. E também não era como se eu fosse me agarrar com Sofia no meio da festa. Na verdade, não era nem como se fosse um encontro de verdade. Mas ela tinha aceitado que eu a levasse, e isso me bastava.

Depois da terceira aula do dia, eu estava a caminho do banheiro, quando meu celular tocou.
- Ei, . – Falei ao atender.
- Oi, . – Ele respondeu. – Olha, eu só estou ligando para avisar que vamos nos atrasar.
- Como assim?
- Começou a chover muito aqui essa madrugada e eles adiaram os voos da manhã por causa do mal tempo.
- Que horas vocês vêm então?
- À tarde. Devemos chegar em casa lá pelas seis. – Disse. – Mas não se preocupe, eu dou um jeito de levá-la direto pra festa.
- Ok, então. Vou avisar a Summer.
- Nos falamos depois, .
- Até mais tarde.
Desliguei o telefone, imaginando que as meninas não iam gostar de saber do imprevisto, e bem nessa hora Jodi apareceu no fim do corredor, fazendo sinal para que eu esperasse. Ela estava vermelha, como se tivesse corrido muito para chegar até mim.
- Slaterton, o que houve? – Perguntei preocupado.
- Você precisa ver o que está acontecendo no campo de futebol. – Ela disse séria.
Segui Jodi rapidamente até o lado de fora, onde uma pequena multidão se aglomerava perto do campo de futebol. Como não eram muitos, foi fácil passar por eles. E foi aí que eu vi.
Os jogadores estavam lá, visivelmente irritados, assim como o treinador, porque algo os estava impedindo de treinar. Bem no meio do campo de futebol, estava sentada Amber – um pontinho rosa e jeans no meio do verde. Eles gritavam coisas, mas ela estava tapando os ouvidos com as mãos e cantando bem alto I love it da Icona Pop.
- Parece que ela está fazendo um protesto contra sua saída do time. – Jodi explicou.
- Meu Deus, Amber. – Espremi o rosto com as mãos.
O treinador continuava tentando tirar a garota de lá.
- Menina, é melhor você sair logo daí! – Ele avisou. – Nós temos que treinar, pela santa paciência!
- Devia ter pensado nisso antes de tirar do time! – Ela respondia malcriada.
- Hayley, eu estou perdendo a paciência! – Junior disse sério.
- Sai logo daí, Amber, ou vamos ter que te tirar! – avisou.
- Tenta então! – Ela chamou e deu um passo, mas Brad o segurou.
Sabendo que só eu podia dar um fim naquilo, eu tinha que interferir antes que a coisa piorasse, mesmo correndo o risco de levar um soco.
- Ninguém vai tirar ela a força! – Exclamei, correndo para o campo e entrando na frente de Amber.
- Gatinho! – Ela exclamou feliz.
- Não tem vergonha na cara de colocar sua namorada no meio disso, ? – O treinador perguntou irritado.
- Você devia ter vergonha de deixar seus jogadores ameaçarem uma líder de torcida! – Devolvi e ele ficou praguejando. – Fiquem longe dela! – Avisei. – Ela vai sair.
Estendi a mão para Amber, que a segurou – uma mistura de confusão e felicidade no rosto.
- Idiotas! – Ela os xingou antes de irmos definitivamente.
Levei Amber comigo para o mais longe da confusão possível, do outro lado da escola. Só quando nos aproximávamos de um banco embaixo de uma árvore, comecei a pensar no que diria a ela. Sabia, no entanto, que precisava ser mais firme que da última vez em que tinha terminado com ela, ainda que não quisesse magoá-la.
- , eu estava fazendo aquilo por você. – Ela tentou explicar quando nos sentamos. – O que eles fizeram é muito injusto, você é um jogador incrível, e eu tenho que te apoiar, porque sou sua...
- Não, Amber, você não é. – Falei com delicadeza.
Ela me olhou com os olhos azuis arregalados, estáticos.
- Quando eu terminei com você, eu estava falando sério.
- Você não gosta de mim? – Amber baixou a cabeça e vi uma lágrima escorrendo por sua bochecha.
Para minha surpresa, vê-la daquele jeito, saber que tudo estava chegando ao fim, me fez querer chorar também.
- Eu gosto. – Sorri um pouco, fungando, e me surpreendendo com a sinceridade do que eu dizia. – Mas ainda não é do jeito que você gosta de mim. E isso é que não é justo. Você merece mais do que isso.
Amber olhou para mim, os olhos cheios de lágrimas.
- Você está chorando? – Ela perguntou, porque eu estava do mesmo jeito.
- Estou sim. É difícil para mim também. – Admiti, segurando a mão dela. – Você foi minha primeira namorada. E eu espero que você seja feliz, e que fique famosa e mais linda ainda, para que no futuro eu possa dizer para todo mundo que já saí com você.
Amber riu um pouquinho. Depois me abraçou.
- Amo você, . – Ela disse. – Eu prometo que vou parar. Mas eu nunca vou te esquecer.
Eu a abracei de volta, sabendo que, de um jeito ou de outro, também nunca a esqueceria.

🌴💚🌴


- Ah, finalmente essa tortura acabou! – Hughes exclamou quando saíamos da última aula. – Não vejo a hora de me acabar na festa!
- Pois é, eu também. – Concordei. Ainda estava um pouco melancólico depois de minha conversa com Amber, mas estava passando aos poucos, e pensar que eu logo estaria com a Sofia acelerava esse processo.
- Quer uma carona até o centro? – Emma perguntou, pois indo com ela até o centro da cidade eu podia ir até a pé para casa.
- Não, eu vou depois. – Dispensei. – Tenho que tirar minhas coisas do vestiário de uma vez. Chega de adiar.
Ela assentiu, mais solidária que de costume.
- Sinto muito que tenha saído do time. – Disse. – Mas pensa pelo lado bom: não precisa mais se matar de fazer exercício, enquanto eu... – Fez uma careta.
Ri do comentário, surpreso por ela estar sendo legal comigo.
- Obrigado, Emma. – Falei.
- Nos vemos na festa, . – A menina sorriu. – Não vá deixar a descobrir tudo!
Hughes foi embora e eu segui meu caminho rumo ao ginásio, tentando pensar no lado positivo de não ser mais um jogador titular. Olhei o celular. Eram 16:40. Sem exercícios, pensei comigo. Mas também sem fama.
Ainda estava colocando tudo na balança quando ouvi vozes vindo de uma sala de aula vazia. Eu teria ido embora assim mesmo, mas o reconhecimento de quem estava falando me fez parar. Me aproximei devagar da porta, espiando rápido pelo vidro.
Junior estava sentado na mesa do professor. , sentado numa cadeira de frente para ele, opinava sobre a decisão do amigo.
- Tem certeza disso, cara? – questionava.
- Mais certeza do que tudo. – Junior confirmou. – Eu não aguento mais essa situação. Se tiver que ver a com o de novo, vou arrebentar a cara dele. A disse que eu tinha que pensar no que queria daqui pra frente, e eu entendi o que ela quis dizer. Eu sei a resposta agora.
- Então é isso mesmo? – parecia preocupado.
- Sim, , eu sei o que eu quero. Eu quero ela. – disse seguro, quase me fazendo cair para trás. – Não vou mais deixar que a pense que eu não tenho certeza. Vou pedir a em namoro hoje à noite, na frente de todo mundo.
- Mas e a Summer?
- Ela vai ter que lidar com isso. Eu e a temos uma história.

[N/A: Ok, meninas, a música tema dessa cena é Lies, mas não determinei sincronia para ela. Então ouçam se quiserem, ouçam como quiserem. Eu li a cena com e sem trilha e gostei dos dois jeitos :D ].

Me abaixei rápido, cobrindo a boca com as mãos com toda força para impedir a mim mesmo de fazer um barulho muito alto de pânico.
- Droga. – Murmurei. – Droga, droga, droga!

Saí correndo freneticamente até o vestiário do ginásio. Precisava pegar minhas coisas e sair dali rápido, precisava impedir aquela catástrofe. Seria o fim do mundo.
Empurrei a porta do vestiário, tão tonto com o que ouvira que até me esqueci ao certo onde ficava meu armário.
- Calma, ! – Falei para mim mesmo.
Encontrei a bendita porta e a abri, enfiando a toda velocidade as roupas que estavam ali dentro da mochila. Então peguei meu celular e tentei ligar para . Ele não atendeu. Depois tentei ligar para , mas ela também não. Eles deviam estar no avião àquela hora.
- Mas que inferno vocês dois! – Xinguei depois de tentar os dois números de novo sem resultado.
Constatei que a única coisa que eu podia fazer no momento era enviar um áudio para e torcer para que ele ouvisse antes de ir à festa.
- Escuta, . – Falei. – Você não pode levar a para a festa! O ficou maluco, e ele vai pedi-la em namoro na frente da escola inteira essa noite. Pelo que eu entendi, ele pretende contar toda a verdade a Summer, e aí ela vai acabar descobrindo que o namoro de vocês era mentira também! Vai ser o próprio apocalipse! NÃO LEVE A À FESTA! ELA NÃO PODE NEM IR À ESCOLA ATÉ TERMOS RESOLVIDO ESSA SITUAÇÃO!
Depois, escrevi uma mensagem de texto logo abaixo do áudio: OUÇA ESSE ÁUDIO ANTES DE QUALQUER COISA!
Assim que chegasse em casa, tentaria ligar de novo, e seguiria tentando até conseguir.
Mas tudo que fiz foi dar dois passos em direção à saída do ginásio e dei de cara com eles.
- , você tá ferrado. – disse sério.
Junior, parado ao lado dele, encarava o chão, como se estivesse em estado de choque.
Merda, ele devia ter ouvido tudo que eu falei!
- Todos esses anos bancando os nerds santinhos para agora você e o se revelarem a dupla de safados mais mentirosos que já vi! – continuou, indignado.
- Acho que está nos confundindo com vocês dois, . – Nos defendi. – Porque tudo isso começou por culpa do Junior.
- E vai acabar com você morto! – Ele me ameaçou, dando um passo à frente.
Mas antes que fizesse qualquer coisa, algo desviou nossa atenção. Junior tinha saído do estado de choque e começara a rir. Mas não era uma risada qualquer; o garoto gargalhava, enquanto eu o observava com medo.
- Junior. – O amigo disse, confuso.
- Então, deixa eu ver se entendi. – parou de rir aos poucos, se recompondo. – A , na verdade, nunca namorou o realmente. Tudo isso não passava de um plano para me torturar pelo que eu fiz. É isso mesmo?
- Ela não queria te torturar. – Falei em voz baixa.
- Ela... – Junior continuou, me ignorando. – Aquela filha da puta... Me fez terminar com a Summer e bagunçar toda minha vida social, e tem brincado com a minha cabeça e me feito sentir arrependimento e culpa todos os dias desde que chegou, por que ela queria se vingar de mim?
Agora o ar despreocupado de Junior tinha dado lugar a um olhar sombrio e assustador, e de repente eu soube que tinha que sair dali logo.
- Junior, a intenção da nunca foi te fazer de idiota. Ela não queria te enganar, ela só queria...
- Isso era exatamente o que ela queria, . – Junior disse sério. – E no caminho, ela transformou minha vida num caos.
Por mais que eu achasse que Junior estava tentando transferir a culpa de suas ações para , eu entendia parte do que ele estava dizendo. Ainda assim, eu não me importava – queria mais que ele se explodisse. Eu só queria correr dali e avisar meus amigos.
- Mas não se preocupe. – Ele deu um sorriso frio. – Se o que sua amiga queria era que eu fosse até as últimas consequências por ela, esse desejo será realizado. – Prometeu e eu senti um calafrio, sabendo que as coisas estavam prestes a sair de controle por completo. – Eu não tenho mais nada a perder mesmo.
Dei um passo para trás, nervoso.
- , pega o celular dele. – Junior mandou.
Tentei fugir, mas me puxou de volta e me segurou com toda a força, tomando o celular das minhas mãos e jogando para .
- Me devolve isso! – Gritei, me debatendo.
- Obrigado. – Junior disse. – Sinto muito, , mas essa mensagem de áudio nunca vai chegar. – Ele deletou a mensagem na minha frente. – E infelizmente seu nome acaba de ser retirado da lista de convidados daquela festa.
- Junior, você enlouqueceu! – Apontei o óbvio. – Você tem que conversar com a , você vai entender!
- EU NÃO VOU ENTENDER PORRA NENHUMA, ! – Ele gritou furioso, fazendo até o olhar com medo.
enfiou meu celular em seu bolso então.
- A fez da minha vida um inferno, e agora é vez dela. – Disse com firmeza. – Agora me ajuda, !
Junior veio em minha direção e saiu me puxando pelo braço.
- Junior, o que você... – começou.
- Anda logo, ! – Ele ordenou.
o ajudou a me levar até o lado esquerdo do vestiário, enquanto eu me debatia.
- Me solta! – Eu dizia. – Você ficou louco, ! Me larga!
Finalmente, chegamos às cabines com vasos sanitários, e Junior me empurrou para dentro de uma, depois fechou a porta. Tentei escapar, mas ele quase prendeu minha mão.
- , pega o banco! – Ele exigiu, segurando a porta com as costas, pois a mesma só abria para fora.
- Mas, Junior... – O garoto tentou falar.
- ANDA LOGO OU EU PRENDO VOCÊ TAMBÉM! – ameaçou.
- Me tira daqui, seu desgraçado! – Gritei, esmurrando a porta.
Ouvi o arrastar do banco pesado, e então senti Junior se afastar da porta.
- Sinto muito por não te fazer companhia, , mas temos uma festa para ir. – Ele disse casualmente. – Não se preocupe, você será solto quando minha vingança estiver completa. Ou não.
E alguns instantes depois, ouvi a porta do vestiário bater.
- Desgraçado! Seu desgraçado! – Tentei abrir a porta da cabine, sem nenhum sucesso. – SOCORRO! ALGUÉM ME TIRA DAQUI!
Mas era tarde demais. Àquela hora, todos os jogadores tinham ido embora, e o treinador também. O resto dos alunos devia estar em seu caminho para casa, ansiosos por aquela festa que estava fadada a ser uma catástrofe.
Me sentei na tampa do vaso, desesperado. Eu tinha que conseguir sair dali sozinho e logo, antes que tudo estivesse perdido.


32- We've got no worries in the world

"I'll swing you, girl, until you fall asleep, and when you wake up you'll be lying next to me."

[…]


estava em silêncio ao meu lado, absorvendo tudo o que eu tinha dito. Como Miguel tinha me aconselhado dias antes, eu precisava ser sincera de verdade, e isso incluía contar ao o que eu realmente tinha feito antes de qualquer coisa, evitando que aquilo se tornasse uma bola de neve no futuro.
- Eu sei que tudo que eu fiz parece a maior loucura, e na verdade foi. – Falei. – E eu vou entender se você quiser terminar comigo de uma vez agora que sabe. Mas eu precisava te contar tudo, porque não quero mais mentir.
afrouxou a gravata e se deitou na grama, as mãos atrás da cabeça. Eu esperei ansiosa, mas ao mesmo tempo segura do que estava fazendo.
- Tem razão, o que você fez foi muito errado. – Ele disse. – Mas, e eu sei que isso vai soar horrível, a verdade é que já estávamos mentindo, e tudo tem o mesmo peso, não importa a intenção. Eu sei disso agora porque também tenho uma parcela de culpa nisso tudo. E essa é uma coisa que eu tenho que te contar também.
- O quê? – Fiquei confusa.
se sentou de novo e olhou para mim.
- Se lembra quando você me perguntou por que eu não gostava do ? – Ele quis saber. Eu assenti. – Eu tinha mesmo um motivo, mas nunca te disse.
Franzi o cenho, ainda sem entender.
- Quando eu conheci o Junior, no primeiro ano, ele armou um trote pra mim e pro ... E pra Summer também. – Confessou. – Fazia parte do teste dele para entrar no time. Foi uma aposta, pra fazer eu e o pagarmos o mico do século e pra provar que conseguia ficar com ela.
Eu fiquei tão estarrecida que por alguns instantes só fiz olhar para ele.
- A Summer sabe?
- Não, eu nunca contei. – Balançou a cabeça. – O Junior jurou para mim que tinha descoberto que gostava muito dela, e eu também não quis magoá-la, então não falei nada. O sabia de tudo também, mas fez o mesmo.
Dei um suspiro, imaginando a situação dele.
- Eu não sou ninguém para te julgar; afinal de contas, tudo isso começou porque eu também não queria que ela se magoasse. Só que depois fiquei maluca. – Dei de ombros. sorriu um pouco, mas balançou a cabeça.
- Talvez nada disso tivesse acontecido se eu tivesse contado a verdade a Summer naquela época, ou se tivesse contado a você quem o Junior era quando descobri que ele era o seu crushmisterioso.
- Mas se você tivesse contado tudo a Summer naquela época, vocês provavelmente estariam namorando agora e nós não estaríamos aqui.
- Isso é verdade. Até que não seria tão ruim. – Ele brincou.
Ri e fiz uma careta, um pouco enciumada, e riu, encostando a testa na minha cabeça.
- Eu não queria estar com ninguém além de você aqui agora. – Disse.
- Nem eu. – Sorri.
- Essa é a minha única condição. – disse então, pensativo, segurando minha mão. Olhei para ele. – Eu quero que a gente deixe pra trás toda a loucura que aconteceu, mas tem que ser em nome de algo de verdade agora. O que me importa é saber que você gosta de mim como eu gosto de você.
- Então não vai dar. – Falei séria.
olhou para mim, assustado. Eu sorri.
- Eu acho que gosto muito mais.
inflou as bochechas e fechou os olhos, depois começou a rir.
- É mesmo? – Ergueu uma sobrancelha. – Quer mesmo colocar na balança todas as coisas que eu fiz para demonstrar meu amor por você? Porque a gente vai ficar aqui uma eternidade, e você com certeza vai perder.
- Tá apostado então. – Dei um sorriso torto.
- Beleza. Eu menti para a Summer. – Começou a listar. – Eu sentei com aqueles babacas da mesa VIP...
- Eu te segui numa viatura e assisti O Ataque das Galinhas Zumbi por você! – Protestei.
- Eu dispensei a ROSANA WAYANS por você! – Ele devolveu.
Continuamos ali, discutindo qual era a maior prova de amor de todas, e percebi que era verdade: eu não ia querer estar com mais ninguém naquele momento.


POV

Honestamente, casamentos nunca foram meu tipo preferido de festa, mas naquele dia, eu me diverti com nunca. Participei até daquela coisa patética de trenzinho quando começaram a tocar Macarena. Mas cada instante vergonhoso valeu a pena só por ver a morrer de rir, dançando do outro lado. E poder fugir ao final da música e ir correndo beijá-la sem nenhum receio... Nada pagava isso.
- Vem cá. – Eu disse quando enfim me afastei do beijo. – Por que é que só eu tenho que ficar lá pagando mico enquanto você fica aqui bancando a dama de honra nesse vestido florido?
- Na vida, , ser bonita te traz algumas vantagens. – Ela deu de ombros, ainda abraçada a mim.
- Ah, tá bom. – Ri, beijando-a de novo.
- Além disso, o maior mico da noite ainda está por vir, e desse você está dispensado de participar por ser homem.
- E qual é?
Então uma das primas de Marley gritou:
- A NOIVA VAI JOGAR O BUQUÊ!
olhou para mim com cara de derrota.
- Esse aí. – Falou.
A sobrinha de Marley, Alex, apareceu correndo e a puxou pela mão.
- , vem!
E ela deu de ombros, se deixando levar embora. Um aglomerado de mulheres se formou no jardim do salão de festas, para onde o barco tinha nos levado depois da cerimônia. Elas gritavam como feras, e Alex segurava fortemente no que parecia acreditar ser o lugar perfeito, enquanto Marley se posicionava.
Senti uma mão nos meus ombros.
- Max. – Olhei para o lado.
- E aí, cara? – Max estava rindo, acompanhado de dois outros caras. – Sabe o que vai acontecer se sua namorada pegar aquele buquê, não é? – Ele deu um gole em sua bebida.
- As outras vão matar ela? – Chutei.
- Ih, cara, não! – Um dos rapazes exclamou. – Ela vai ficar maluca. Todas ficam.
- Rezei antes de sair de casa para a Karen não conseguir pegar. – O outro estremeceu.
- Irmão, é melhor jogar uma pedra no pé dela na hora que aquele troço estiver voando. – O primeiro opinou.
- Ele já fez isso, só para constar. – Max lembrou. – Mas o não é assim, beleza? Ele acabou de voltar com a , deixem eles curtirem um pouco do romance dessa cidade!
Os três claramente tinham bebido bastante, embora Max parecesse mais sóbrio que os outros.
Voltei a assistir a cena da jogada do buquê, embora agora estivesse um pouco preocupado. Quer dizer, casar? Caramba, nós tínhamos dezoito anos, e tínhamos acabado de começar a namorar de verdade. Casar.
Mas segundos antes de Marley jogar o buquê, olhou para mim e sorriu, e uma mecha do cabelo purpurinado – quase arruinado em sua declaração naquela manhã – estava colada no rosto. E eu pensei naquilo. Era mesmo tão assustador? Eu sorri de volta e acenei.
- PEGA! – Alguém gritou.
E então o buquê estava voando e minha namorada foi jogada longe pelas mulheres enlouquecidas, tropeçando e cambaleando, quase caindo de cara no chão.
- EU PEGUEI! – Uma das primas de Marley começou a gritar.
- Droga, Deus! – Um dos amigos de Max exclamou irritado, aquele que estivera rezando para que sua namorada não conseguisse.
Me apressei em socorrer , que se recompunha meio tonta em meio a gritaria.
- ! – Chamei.
Ela veio mancando em minha direção.
- Quanta agressividade por um bendito casamento! – Ela resmungou.
- Você está bem? – Olhei para seu pé, lhe oferecendo apoio.
- Estou sim. – Ela riu um pouco. – Está feliz como todos os outros? Eu não peguei o buquê.
- Honestamente... – Falei rindo. – Eu quase torci por você.
me encarou com os olhos arregalados.
- Sério? Então você é doido. – Riu, desajeitada.
- Talvez eu esteja ficando mesmo. – Ri, enlaçando sua cintura e beijando-a de novo.
Jack estava certo sobre a duração do evento. A família de Marley gostava de festejar, e ficamos lá até o início da noite, quando finalmente nos despedimos, exaustos. Marley deixou a festa depois de nós, mas viajaria ainda naquela noite para a lua-de-mel na Colômbia.
- Foi maravilhoso ter vocês aqui! – Ela abraçou nós três quando avisamos que íamos para casa. – Meu velho amigo Jack. – Segurou com força as mãos dele. – Não demore tanto em voltar a nos visitar.
- Prometo que não, meu bem. – Ele sorriu.
Marley então se virou para nós.
- A pequena Rainbow. – Passou a mão pelo cabelo de . – Eu não poderia estar mais feliz em ver a moça que se tornou. E foi ótimo te conhecer, . Fico feliz que meu casamento tenha trazido romance o bastante para fazer com que se acertassem.
- Estou feliz em te conhecer de novo também, Marley. Minha mãe também está muito feliz por você. – sorriu. – Divirta-se na lua-de-mel.
- Foi ótimo te conhecer também, Marley. – Sorri.
- Cuide dela, amigo. – Jack abraçou Daryl. – Essa mulher vale ouro. Não é à toa que levou tanto tempo para ser conquistada.
- E agora me chamou de velha! – Marley riu. Nós também.
- Vamos deixar as chaves com o Max amanhã de manhã. – Jack avisou.
- Tudo bem.
- Divirtam-se na Colômbia. – Desejei.

Chegamos ao apartamento de Marley exaustos, tirando sapatos, paletós e enfeites de cabelo.
- Às vezes eu acho que a melhor parte das festas é quando elas acabam! – se espreguiçou.
- Acho que eu bebi demais... – Jack caiu de costas na cama, fechando os olhos.
- Acha é? – fez uma careta. Então ela olhou para mim rindo. – Vem comigo!
A menina agarrou minha mão e me levou escada acima. Fomos para a varanda, de onde já dava para ver as bandas passarem na rua.
- É o melhor jeito de terminarmos nossa viagem. – Ela sorriu, apoiando as mãos no beiral e o queixo nelas. – Do jeitinho que começamos, olhando tudo isso.
- Eu consigo pensar em jeitos melhores. – Dei risada, puxando ela para mais um beijo; esse mais lento, aproveitando cada segundo como se tudo pudesse acabar junto com aquela viagem.
- Caramba, eu estou tão exausta! – se jogou para trás e eu a segurei. Depois ela se soltou e entrou em casa.
A segui até lá dentro, onde ela empurrou a porta de correr e se jogou na cama rindo, o vestido florido todo espalhado. E eu a achava tão linda.
Me joguei ao lado dela, encarando o teto e pensando em como era possível gostar de alguém assim. Quando eu era mais novo, achava que gostava de Summer. Depois, achei que gostasse da Leslie. Mas agora, deitado ali com Pie, eu sabia que nunca tinha sabido de nada de verdade. Gostar parecia uma palavra tão boba para expressar o que eu sentia.
- Quer dormir aqui? – Ela perguntou.
Olhei para ela, uma sobrancelha arqueada.
- Eu disse dormir! – Ela me empurrou com força, envergonhada.
- Eu sei! – Caí na gargalhada. – Eu entendi!
balançou a cabeça, fingindo estar brava, mas toda sem jeito.
- Eu quero sim. – Falei mais sério.
Ela rolou para mais perto, deitando a cabeça no meu peito, e bocejou.
- Acha mesmo que isso vai dar certo? – Perguntou. – Porque eu quero muito que dê.
- Eu sei que vai. – Respondi, brincando com o cabelo dela. – Porque, francamente, se terminássemos agora, seus amigos da balsa iam me caçar até o fim do mundo.
- É verdade. – sorriu. – A Mara tem meu telefone. – Referiu-se a uma das turistas.
Eu não disse a ela que tinha me perguntado a mesma coisa naquela manhã, enquanto me arrumava para o casamento. Era como se dizer em voz alta pudesse fazer com que tudo se desfizesse de repente.
Seguiu-se um silêncio tão longo que achei que ela já estivesse dormindo. Então ouvi sua voz, bem baixinho:
- .
- Oi? – Respondi do mesmo modo.
- É melhor se levantar antes que meu pai te veja aqui.
Ri baixo e a ouvi fazer o mesmo, e então, menos de cinco minutos depois, ela já estava dormindo de novo. Dessa vez, profundamente.
Brinquei com o cabelo dela mais um pouco, sem querer apagar tão rápido, mas acabei não resistindo ao cansaço, fechei os olhos e dormi, com a sensação de que já estava sonhando há muito mais tempo.

🌴💚🌴


Mesmo não acordando tão cedo quanto pretendíamos, quando nos levantamos Jack ainda estava deitado.
- É melhor tirar ele dessa cama ou vamos perder o voo. – disse. – Pai. – Sacudiu Jack suavemente. – Pai, levanta. Temos que nos arrumar.
Enquanto Jack se colocava de pé e tomava um banho, preparei um café para todos nós. Bebemos juntos, sentados à mesa.
- Estou feliz que tenham voltado, meninos. – Jack comentou alegre, comendo um cookie de pacote.
- Obrigada, pai. – sorriu. Tínhamos decidido contar a Jack sobre o que tínhamos feito depois da viagem. O plano era que fosse ainda naquela semana, mas com a presença de Miguel para aliviar a barra.
- Eu que agradeço. – Jack balançou a cabeça. – A casa ficava muito mais organizada quando vocês dois a arrumavam. Eu já estava ficando preocupado.
- Folgado. – Falei.
Nós três rimos, e então olhou pela janela, só então se dando conta.
- Caramba, que tempo horrível! – Ela exclamou.
Lá fora uma chuva pesada caía, e ventava muito.
- Lembra quando o Katrina destruiu tudo aqui? – Perguntei.
- Quero ir embora logo. – estremeceu. – Que horas o Max vem nos pegar?
- Deve chegar a qualquer minuto.
E não demorou mesmo para que o Max chegasse. Ele nos ajudou com as malas e depois dirigiu o carro até o aeroporto, enquanto nos contava sobre os momentos horríveis da passagem do furacão Katrina, anos antes. Max tinha nossa idade na época.
ficava cada vez mais nervosa com aquela história, mas tentei tranquiliza-la lembrando de outras coisas.
Finalmente chegamos ao aeroporto.
- Foi um prazer rever você e a , Jack. – Apertou a mão dele. – E conhecer você também, .
- Foi legal te conhecer também, Max. – Falei. – Espero que possamos tocar juntos de novo qualquer hora dessas.
- Pode contar com isso. – Ele sorriu.
Depois das despedidas, Max foi embora e entramos no aeroporto. O lugar estava abarrotado de gente – muito mais do que em nossa chegada. Fomos direto para a fila do check-in, mas assim que nos atendeu, a moça fez uma careta.
- Um segundo... Estou vendo que o voo de vocês é o das dez horas, não é?
- Sim, o voo das dez horas para Jacksonville. – Jack confirmou. – Qual o problema?
- Sinto muito, mas o voo das dez horas foi adiado. – Ela informou. – Todos os voos da manhã foram. O tempo está muito ruim para voar.
- Está brincando! – exclamou, nervosa.
- E quando vamos poder ir agora? – Perguntei.
- Segundo nosso contato com a meteorologia, o tempo deve melhorar depois do meio dia. Os voos ainda estão sendo reorganizados, mas garantimos que será o mais rápido possível.
- Bom, fazer o quê? – Jack deu de ombros. – Obrigado.
Saímos da mesa do check-in e fomos nos sentar em um banco.
- Bom, não temos como voltar para casa. – Jack disse. – O Max já foi agora.
- Não queria dar esse trabalho também, mas o que vamos fazer?! – se chateou. – É muito tempo!
- Já sei um jeito de passarmos ele. – Falei. – Esperem aqui.
Deixei os dois e fui para perto das lojas do aeroporto. Na verdade, queria mesmo um motivo para escapar e falar com , avisando que chegaríamos atrasados. Depois que o avisei, entrei numa loja de lembranças aleatória e comprei um baralho. Às vezes, eu, e jogávamos em casa, e antes eu costumava jogar com o Jack também. Pelo menos não íamos morrer de tédio até o tempo melhorar.

Depois de um bom tempo jogando baralho e conversando sobre coisas aleatórias, fomos almoçar em uma lanchonete lá dentro. De vez em quando nos aproximávamos de algum lugar com vista para fora ou checávamos a previsão do tempo. E, enfim, aquela eternidade acabou. Já passava de uma da tarde quando foi anunciado que os voos poderiam sair. Fomos até o check-in e ela nos avisou que o nosso decolaria às duas e meia.
- Ah, finalmente! – exclamou.
- Alguém não aguentava mais perder. – Jack provocou.
- Você estava roubando.
- Ele não estava não. – Ri.
Fomos direto para a sala de embarque, e logo estávamos no avião.
- Eu é que não quero sentar na janela dessa vez. – avisou, se ajeitando entre Jack e eu.
- Vai ficar tudo bem, meu raio de sol. – Jack beijou a testa dela.
sorriu para ele e depois olhou para mim.
- Dessa vez sou eu que estou com medo de decolar. – Confessou.
- Às vezes tudo que precisamos é de um amigo para segurar nossa mão. – Citei Jack e sorri para ela, segurando com força sua mão. Esperamos a decolagem.
- Ei! – Ela disse então, quase pulando da poltrona. – Já desligaram os celulares? Não quero nenhum risco extra nesse voo!
- O meu está descarregado. – Jack respondeu apenas.
- E você? – me encarou.
Tirei o celular do bolso e o desliguei. Tinha mesmo me esquecido.
- Pronto, pode ficar tranquila. – Falei.
- Menos mal. – Ela sorriu e me deu um beijo no rosto, depois se ajeitou de novo em seu lugar.

Apesar do estresse da manhã e de algumas turbulências, o voo foi tranquilo e desembarcamos em Jacksonville horas depois com segurança.
- Minhas costas não aguentavam mais! – Jack se esticou todo.
- Lar doce Flórida! – fez o mesmo. – Estou tão feliz por ter sobrevivido!
- Você fala como se tivesse dançado balé no meio de um tiroteio. – Rolei os olhos, rindo. Ela me deu uma cotovelada.
- , é melhor ligar para a sua mãe e avisar que desembarcamos. – Jack disse. – Ela vai ficar mais tranquila.
Tinha até me esquecido do celular em meu bolso, mas o tirei de lá e liguei o aparelho. Depois de falar com minha mãe, percebi que tinha uma mensagem do . Estava em letras garrafais, dizendo "OUÇA ESSE ÁUDIO ANTES DE QUALQUER COISA!", mas não havia áudio nenhum lá.
Imaginando que pudesse ser algo sobre a festa surpresa, falei para e Jack que precisava ir ao banheiro. Chegando lá, tentei ligar para , mas só caía na caixa postal. Então disquei o número da outra pessoa que poderia me informar de alguma coisa.
- Summer? – Falei quando ela atendeu.
- ! – Ela exclamou feliz. – Vocês já chegaram? me falou do atraso do voo.
- Sim, estamos em Jacksonville. – Confirmei. – Jack está ligando para o Miguel vir nos buscar. Eu só estou ligando para saber se está tudo bem com a festa. O queria me dizer alguma coisa, mas não consigo falar com ele.
- Eu também queria saber onde ele se meteu. – Summer disse. – A Amber chegou aqui cedo para ajudar a decorar tudo, mas não para de beber margaritas, e Emma já está irritada. Quanto à festa, está tudo bem. Pode trazer a lá pelas seis, mas me mande uma mensagem quando vier. Vou tentar achar o enquanto isso.
- Tudo bem então. Nos vemos depois.
- Até lá!
Voltei para perto da e do Jack, que me avisaram que Miguel já estava vindo.
- Ótimo. – Eu disse, já imaginando como faria para leva-la até a casa de Summer.

Já estávamos do lado de fora do aeroporto esperando quando Miguel chegou.
- Miguel! – Jack o abraçou.
- E aí, pessoal? Como foi o casamento? – Ele quis saber, cumprimentando todos.
- Ah, foi incrível, Miguel! – Jack contou com voz saudosa. – Você devia ter ido.
- Bebeu demais por lá, Jack? – Miguel quis saber. – Olha que eu avisei!
- Só o suficiente para esquecer dos problemas.
Desconfiado, Miguel se virou para e eu.
- E quanto a vocês dois?
- Bom... Nós voltamos. – contou feliz.
- De verdade dessa vez. – Ressaltei.
- Bom. – Ele meneou a cabeça, sorrindo um pouco. – Fico feliz. Quero saber mais depois.
- Pode deixar. – Ela assentiu.
- Vamos lá? – Jack chamou. – Estou louco para tomar um café.
Pegamos um trânsito incomum para uma segunda-feira, mas ainda assim chegamos a Jacksonville Beach dentro do tempo esperado.
Miguel me deixou em casa, onde minha mãe me recebeu como um herói de guerra.
- Eu estava tão preocupada com você! – Ela me beijou. – Só conseguia pensar no furacão Katrina!
- É, a também. – Ri. – A propósito, nós voltamos.
- Sério? Que notícia maravilhosa, ! – Me beijou de novo. – Eu e a Amelie ficamos tão felizes em ouvir isso!
- Vocês duas são muito casamenteiras para o meu gosto. – Brinquei, falando com a barriga dela.
- É você quem está falando em casamento. – Mamãe ergueu as sobrancelhas e apontou para mim, vitoriosa. – Mas até que seria divertido.
- Para com isso ou eu conto para o Henry que foi você que comeu o sorvete todo semana passada! – Ameacei, subindo as escadas.
- Devo pedir pizza? – Ela perguntou.
- Não, eu vou ter que passar na casa do Jack de novo!
Coloquei a mala num canto e tomei o banho mais rápido do universo, depois expliquei a mamãe para onde estava indo e saí com o carro.
Quando cheguei a casa dos Pie, estava no banho, e quando contei a Jack do que se tratava minha visita, ele ficou devastado.
- Puxa, não acredito que me esqueci! – Disse deprimido. – Eu nem preparei nada, eu não comprei nada!
- Não se preocupe, acho que ela também não está lembrando. – Falei.
- Vou ter que fazer alguma coisa amanhã. – Ele ficou meditativo.
- Finja que não fez hoje porque não queria atrapalhar a festa dela. – Miguel sugeriu.
Jack estava considerando a possibilidade, quando desceu, usando uma calça jeans e uma camiseta branca.
- O que está fazendo aqui? – Segurou minhas mãos. – Pensei que fosse descansar.
- Na verdade, eu preciso ir a um lugar. – Falei, fazendo mistério. – E você precisa vir comigo.
- soltou minhas mãos e me encarou, desconfiada.
- O que está tramando, ? – Perguntou, sorrindo.
- Eu confiaria nele se fosse você. – Jack opinou do sofá.
Ela olhou para ele, que deu de ombros, e depois me encarou de novo, divertida.
- Você confia? – Perguntei docemente.
- Até debaixo d'água, . – Respondeu por fim. – Mas é melhor eu não me arrepender.
- Vamos, então. – Segurei a mão dela e a levei para o carro.
Em poucos minutos, estaríamos comemorando o aniversário dela e o início de uma nova fase para nós dois.


33- A Hurricane full of Lies

"And no one is getting out alive."

[…]

POV

- Alguém! – Gritei pela milésima vez, já sabendo que ninguém me ouviria. Não havia mais ninguém para me ouvir,afinal.
Tinha conseguido empurrar um pouco a porta, mas tentando sair, acabei com um arranhão gigante no braço.
Só tinha um outro jeito de sair. Baixei a tampa do vaso sanitário e subi nele, segurei nas paredes baixas da cabine e tomei impulso. Me manter em cima foi difícil a princípio, mas assim que consegui algum equilíbrio, pulei para fora da cabine, mas com tanta avidez que acabei caindo bruscamente, me machucando ainda mais.
- Maldito Junior! – Gritei, esfregando o tornozelo.
Depois, me apressei até a porta do vestiário, mas – é óbvio – estava trancada.
- Droga, merda, merda! – Chutei um armário com o pé que ainda estava bom.
Tentei abrir a porta com a força do ódio, mas não adiantou. Bati com força, chamando por ajuda de novo, mas também não deu em nada. Me sentei no chão.
Aquele seria o fim. Quando e chegassem àquela festa... Eu não podia nem pensar. A situação não me pareceu melhor quando lembrei que estava perdendo minha primeira e única chance com a Sofia, que nunca mais ia querer saber de mim depois daquilo.
Se eu tivesse meu celular. Se eu tivesse apenas um bendito celular. Foi então que...
- EUREKA! – Gritei, pulando de onde estava. – Um celular! Eu preciso de um celular!
Podia não fazer ideia de quanto tempo tinha se passado desde que eles tinham me trancado ali, mas se e iam chegar em cima da hora, talvez ainda desse tempo.
- Eu só tenho que achar um telefone. – Respirei fundo e saí andando pelo vestiário, testando as trancas dos armários.
As pessoas esqueciam coisas ali às vezes, eu já tinha visto. Se eu encontrasse um telefone...
Sabia que era difícil. Nenhum adolescente normal perderia o próprio celular e não se daria conta no segundo seguinte. Mas não era com qualquer adolescente que eu estava contando. Era com meu bom e lento Brad Winter, que pelo menos duas vezes por semana deixava o telefone no armário e ia embora, só se lembrando do mesmo quando queria mandar uma mensagem para JodiSlaterton.
- Vamos lá, Brad, não me decepcione. – Rezei, chegando ao armário dele. Eu conhecia a combinação de Brad porque em um de seus esquecimentos Jodi tinha me ligado e pedido que eu pegasse o celular para ele.
- Para lá, para cá, para lá de novo e... – Repeti, girando a tranca.
Clique. O armário se abriu.
- OBRIGADO, DEUS! – Abri a porta e comecei a fuçar entre as coisas, e como meu instinto raramente se enganava, lá estava o celular do Winter.
Mas droga, já passava das seis!
Certo, nada de desespero. Todos estaríamos a salvo logo. Eu só tinha que falar com aqueles dois. Disquei o número de . Mas depois de algumas chamadas...
- Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa postal, e estará...
- Não! Droga, ! – Exclamei irritado. – Vamos lá, , não me sacaneia agora.
Disquei o número da garota.
- Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa postal, e estará...
- Qual é o PROBLEMA de vocês?! – Me revoltei.
Tentei ligar de novo umas três vezes para cada um, mas de nada adiantou. Eu não podia ligar para as meninas, porque o efeito seria semelhante a deixar contar tudo. Eu não podia ligar para o Jack porque não sabia o número dele de cabeça. Só sobrava uma pessoa e, por sorte, eu tinha passado horas decorando o número dela. Agora só tinha que rezar para que ela atendesse o número desconhecido de Brad.
Esperei que chamasse quatro vezes, mas finalmente...
- Alô?
- Sofia! – Exclamei. – Sou eu, o !
- . – Ela disse. – Estou dirigindo, não posso falar agora. Eu peguei um trânsito, mas estou indo para a sua casa, me espera na rua.
- NÃO, VOCÊ NÃO PODE DESLIGAR! – Implorei. – Você precisa me ouvir!
- O que foi? – Sofia pareceu assustada.
- O descobriu toda a verdade sobre o que a fez e vai se vingar dela esta noite, na festa. Vai deixar todo mundo saber.
- Oh, merda! – Ela exclamou revoltada. – Maldito !
- Eu não consegui falar com a e o porque eles não atendem! Estou preso no vestiário da escola agora; o me trancou aqui quando ameacei avisá-los.
- Certo, eu estou indo para aí! – Sofia disse. – Chego em uns dez minutos.
Era bastante tempo, considerando o que estava prestes a acontecer, mas não tinha outro jeito.

Fiquei sentado perto da porta, esperando até ouvir passos se aproximarem.
- ? – A voz dela disse. – , você está aí?
- Sofia! – Respondi, dando um pulo. – Eu estou aqui dentro!
- Certo, eu vou te tirar daí, só me dê um segundo.
Esperei por alguns instantes e então ouvi o clique da porta se abrindo. Como diabos ela tinha feito aquilo?
Sofia empurrou a porta, tão linda quanto eu me lembrava, o cabelo de mechas coloridas caindo sobre a camisa de estampa militar.
- Minha amazona de cavalo branco! – Falei encantado. Sofia sorriu.
- Vamos logo, temos que impedir que aquele canalha estrague tudo!

Nós dois corremos a toda velocidade até o carro dela, que estava na rua devido à pressa. Entramos do mesmo modo, nos jogando nas poltronas.
- Agora me fala onde fica a casa da Olsen! – Sofia exigiu.
- Segue reto aqui! – Apontei. – Eu vou explicando no caminho!
Enquanto íamos à toda velocidade possível, Sofia xingava , questionando como raios ele tinha descoberto tudo.
- O que ele tem? Uma maldita bola de cristal?
Comecei a tossir, nervoso.
- O que foi? – Ela olhou rapidamente para mim.
- Bom, é que... Talvez o Junior tenha ouvido alguém dizendo que a e o nunca tinham namorado de verdade. – Falei inocentemente.
- Mas quem... – A garota franziu o cenho. Então se deu conta. – ! SEU IDIOTA, EU NÃO ACREDITO NISSO! – Ela soltou uma mão do volante e me deu um soco no braço.
- A CULPA NÃO FOI MINHA! – Protestei, tentando escapar. – Ele já tinha pirado; tudo que eu fiz foi tentar avisar ao , e aí ele e o acabaram me ouvindo.
Sofia olhou para mim de novo, furiosa, e bufou. Ameaçou me dar outro soco, mas então voltou sua atenção à estrada.
- Não adianta de nada te bater agora. – Disse. – Temos que chegar logo e impedir aquele babaca.
- Nem doeu tanto assim, mas eu concordo. – Esfreguei o braço sutilmente.
- Para onde eu vou agora? – Ela quis saber.
- Curva a direita na próxima entrada.
E não que nossa velocidade estivesse tão alta a ponto de não conseguirmos parar, mas não pudemos. Levou menos de um segundo para nos darmos conta do outro carro, vindo desenfreado para cima de nós na contramão assim que entramos na rua.
- SOFIA! – Gritei.
E aí tudo escureceu.


33 Parte 2 – A Hurricane full of Lies

[...]

dirigia, cantarolando Isn't she lovely?,do Stevie Wonder, e eu olhava para ele de minuto em minuto, curiosa.
- Não vai mesmo me contar aonde estamos indo? – Indaguei.
- A curiosidade matou o gato. – Ele deu de ombros. – Além disso, você já vai descobrir.
- Então tá. – Cruzei os braços em frente ao corpo, ansiosa.
ficou calado por um instante, mas então o ouvi rindo. Ele olhou para mim, curioso.
- Não sabe mesmo que dia é hoje?
Meneei a cabeça, negando. Ele voltou a rir.
Reconheci o trajeto que estávamos fazendo, mas ainda assim não entendi bem o que estávamos indo fazer ali. Quando paramos em frente a enorme casa branca dos Olsen e desceu, fiquei ainda mais perdida.
Havia pelo menos seis carros parados em volta da residência, e música vinha lá de dentro. Olhei para desconfiada. Ele sorriu e me deu um beijo no rosto, animado.
- Vem! – Me puxou pela mão para fora do carro.
O segui correndo até a porta da frente, rindo sem saber do quê.
abriu a porta da casa sem bater, o que era estranho para mim. E então Summer, Jodi e Emma pularam na minha frente com apitos e chapéus coloridos ridículos.
- SURPRESA! – Elas gritaram juntas.
- O que... – Murmurei, só então me dando conta do que estava acontecendo.
Era dia 26 de outubro. Era meuaniversário.
- Caramba, eu não acredito nisso! – Exclamei, um sorriso enorme e surpreso no rosto.
- Parabéns, ! – Jodi me abraçou apertado.
- Obrigada! – Eu estava tão abobalhada. Eles tinham me pegado direitinho.
- Feliz aniversário, ! – Summer me abraçou.
- Foto para posteridade! – Emma exclamou, me cegando com o flash do celular. Depois me abraçou também. – Parabéns, Pie!
- Como esconderam isso tão bem? – Perguntei.
- Ah, foi fácil. Nós atuamos bem melhor do que você. – sorriu, passando um braço pelos meus ombros.
- Você me enganou! – Ri, cutucando a barriga dele. – Nunca mais vou acreditar em uma palavra que sai da sua boca, .
riu, dando um beijo na minha testa.
- Então vocês voltaram mesmo? – Jodi perguntou feliz.
- Tínhamos voltado até eu descobrir que ele era um mentiroso. – Provoquei. Depois sorri, estendendo as mãos para elas. – É sério, gente, obrigada. Vocês são incríveis!
- Somos mesmo. – Emma concordou.
- Eu não sei quem é metade dessa gente. – ergueu as sobrancelhas, observando o amontoado de alunos da Jacksonville High.
- Nem nós. – Summer deu de ombros, segurando o riso.
- Eu quero comida! – Falei animada. – O que tem para comer?
- Ah, você vai adorar! Tem de tudo! – Jodi saiu me arrastando. Acenei para , que ficou conversando com Emma e Summer.

As pessoas me cumprimentavam, desejando parabéns, enquanto eu comia um cupcake de chocolate e caramelo num canto da sala, junto com JodiLyn e Brad, que tinha chegado perto de nós levando bebidas.
- Ah, eu não consigo decidir se gostei mais da festa surpresa ou desses bolinhos! – Eu exclamava extasiada.
- O Brad gordinho do passado diria que gostou mais dos bolinhos, sem dúvida. – Ele disse, comendo também.
Jodi riu, sentada no colo dele.
- Estou muito feliz que você e o se acertaram, . – Ela disse. – Vocês são meu casal preferido, junto com Monica e Chandler.
- Obrigada, Jodi. – Sorri. – Nós também estamos felizes. Parece que levamos uma eternidade para nos entendermos.
Enquanto conversávamos, Amber entrou na sala – um copo na mão, gritando eufórica. Vê-la ali me fez pensar em . Onde ele estaria?
- Sabe como eles estão? – Perguntei a Jodi.
- Parece que terminaram de vez agora. – Ela balançou a cabeça. – Foi hoje de manhã. Ela não deu piti nem nada, mas está bebendo desde que chegamos aqui.
- Vou conversar com ela.
Me levantei e fui até Amber, que estava dançando e cantando como se fosse o último dia de sua vida.
- Amber? – Falei.
- ! – Ela disse sorrindo, depois me abraçou. – Feliz aniversário! Feliz, feliz, feliz aniversário!
Sorri um pouco, abraçando ela de volta.
- Obrigada. – Falei. – Então você e o ...
A expressão de Amber caiu um pouco.
- Nós terminamos. De verdade dessa vez.
Assenti.
- Sinto muito.
- Ah, tudo bem. – Ela balançou a cabeça, forçando um sorriso. – Nós conversamos e estamos bem, a gente só... Não namora mais. – Suspirou, encarando o vazio.
- Que bom que está aceitando as coisas. – Apertei de leve seu ombro.
- Oh, estou sim! –A garota voltou a sorrir, embora não fosse o mais genuíno dos sorrisos. – Só preciso beber e dançar até esquecer a tristeza. – Ergueu o copo em minha direção. – Tim tim!

Deixei que Amber continuasse a afogar suas mágoas dançando e fui andar por aí. Encontrei Annabeth, algumas outras pessoas do teatro e da torcida. Eles me lembraram que a peça aconteceria na sexta-feira, e eu disse que estava ansiosa.
Por alguns instantes, enquanto procurava por , me lembrei de , e imaginei se ele estava ali ou não. Mesmo já tendo tido uma conversa com ele antes de ir embora, sabia que teria que fazê-lo de novo para dar um fim a tudo. Também teria que conversar com Summer, o que, particularmente, me preocupava muito mais.
- Ei, forasteira!
Me virei para trás e encontrei justamente ela, sorrindo.
- Sum. – Sorri também.
Agora eu já estava acostumada aos cabelos curtos, que faziam com que ela parecesse muito mais forte do que antes. Ainda assim, sabia que aquilo não era totalmente verdade. Por baixo da fachada de futura supermodelo, Summer ainda era a mesma garota risonha que confiava em todo mundo até se provar o contrário.
- E então, está gostando da festa? – Ela se aproximou, passando um braço sobre os meus ombros, e saímos andando. – Deu um trabalhão para tirar minha mãe daqui hoje.
- Onde ela está?
- Digamos que ela, meu pai e a Gwen ganharam três dias grátis em um resort. – Disse em tom de conchavo. Nós duas rimos.
- Eu adorei tudo. – Falei com sinceridade. – Obrigada por pensar nisso.
- Bom, você é provavelmente a melhor amiga que eu tenho agora, então que tipo de pessoa eu seria se não preparasse o melhor aniversário surpresa de todos? – Ela parou e deu de ombros.
Me virei para Summer, o coração carregado com o peso de tudo que eu vinha escondendo dela há meses. Depois de todo aquele tempo, dizer a verdade seria muito mais difícil, porque eu sabia que também significaria perder uma amiga fantástica.
- Summer. – Falei então. – Eu preciso conversar sobre uma coisa muito importante com você.
- Qual o problema? – Ela me olhou preocupada.
- Aqui não é o lugar. Mas queria que você fosse a minha casa amanhã, depois da aula.
Summer assentiu, sem entender, mas aceitando. Então ouvimos vozes altas, discutindo.
- Eu já disse que chega! – A voz mandona que conhecíamos disse.
- Emma? – Olhei para Olsen.
Em um segundo, estávamos indo até a cozinha. Emma estava de braços cruzados, a cara amarrada, e em frente a ela parecia chateado.
- Já chega, eu já falei que já deu. – Ela dizia com firmeza.
- Você nem me deu uma chance de verdade, Hughes! – exclamava frustrado.
- Dei sim, e você não sabe como foi difícil. Mas não tem jeito. Isso não vai acontecer.
O garoto bufou, jogando o envelope em suas mãos no lixo com tanta força que até a própria Emma se assustou.
- Quer saber? – Ele disse. – Dane-se! Estou cansado dessa babaquice.
pegou um copo de bebida e saiu da cozinha a passos de pesados. Nos aproximamos de Emma, que ainda estava congelada.
- Emma. – Segurei seu braço. – O que foi isso?
- Eu disse de uma vez que não queria ficar com ele. – Ela explicou, um pouco irritada, mas deixando transparecer um pouco do temor de segundos atrás. – Vocês sabem que eu tentei, mas a gente não tem nada a ver!
- Ele não reagiu nada bem. – Summer olhou para o corredor, receosa.
- Eu sei. Ele tinha comprado ingressos para o show de uma banda nova em Phoenix, mas eu tinha que falar a verdade. O problema é que ele surtou. Nunca pensei que ficaria tão irritado.
- Irritado demais para o meu gosto. – Observei.
- Agora estou preocupada. – Summer segurou o outro braço dela. – Vê se fica por perto. Ele pode causar problemas.
Emma assentiu e dava para ver como ainda estava nervosa com aquilo, então ficamos com ela até que se acalmasse. Quando achei que a situação estava um pouco melhor, falei que ia procurar o .
- Nos vemos daqui a pouco. – Sorri. – Fique de olho nela. – Pedi a Summer.
- Pode deixar. – Ela sorriu de volta. Emma rolou os olhos, mas agradeceu.
Saí andando pela festa de novo, a luz pulsante vinda da salachegando onde eu estava.E onde ele estava? Parecia que estávamos afastados há tempo demais.
De repente, alguém me puxou pela cintura.
- Finalmente achei você! – Ele riu, beijando minha bochecha.
Me virei para olhar para , abraçando-o e dando um beijo rápido nos lábios dele.
- Foi você quem sumiu. – Falei.
- Você está muito requisitada hoje, eu acho. – Ele brincou. – Eu tenho uma coisa para você.
- Pra mim?
enfiou a mão no bolso e tirou dele um pacotinho de veludo preto.
- Abre. – Disse.
Curiosa, puxei a fitinha que prendia o pacote e o virei em minha mão. Um par de brincos com as máscaras do teatro grego apareceu.
- Oh, mas que graça! – Exclamei encantada. – Onde foi que arrumou isso?
- Comprei em New Orleans na feira, quando você não estava olhando.
- Que esperto você! – Ri, colocando os brincos. – E então, como estou?
- Linda. Como sempre. – Ele me beijou.
- Obrigada. – Sorri, me afastando só um pouquinho. – Eu adorei.
Nos beijamos de novo por alguns minutos.
- Eu preciso ir ao banheiro. – Ele disse então. – Só me dá um segundo.
- Vou te esperar. – Falei.
beijou minha bochecha e então se afastou. Enfiei as mãos nos bolsos, dando alguns passos mais em direção a sala. Amber tinha parado de dançar um pouco, e estava sentada em um puff.
- . – Ouvi atrás de mim e me virei.
se aproximou. Ele parecia bem mais calmo do que minutos atrás, com Emma. Achei melhor não tocar no assunto.
- Ei, .
- Feliz aniversário. – O rapaz ergueu o copo em saudação. – Talvez queira saber que o está te procurando desde que chegou aqui.
- O ? – Perguntei com cautela.
- É. Acho que ele só queria te dar os parabéns, ou aconteceu alguma coisa na casa dele, não sei. – Deu de ombros. – Ele está lá em cima agora, colocando o celular para carregar no quarto de hóspedes.
Apesar de estar com um pé atrás com depois do que tinha acontecido mais cedo, disse a mim mesma que não podia misturar as coisas. E, de todo modo, eu precisava mesmo falar com . Talvez quanto antes o fizesse, melhor.
- Tudo bem, eu vou falar com ele. – Assenti.
- Vai nessa. – sorriu.
Enquanto eu subia as escadas, vi ele se sentando ao lado de Amber e começando uma conversa com ela. Esperava que falar sobre os problemas fizesse os dois pararem de beber um pouco.

Eu não conhecia todos os cômodos da casa de Summer, mas sabia quais quartos eram dela, da irmã e dos pais. Havia outras duas portas no corredor do segundo andar, e enquanto a música e as vozes continuavam lá embaixo, eu entrei justamente na certa.
estava de costas a princípio, mas se virou ao ouvir o barulho da porta. Por mais bobo que fosse, não pude deixar de perceber sua roupa. A regata branca e a bermuda jeans... Até o colar de metal de ponta de flecha. Era exata e perfeitamente como ele estava vestido quando nos despedimos em Venice Beach, meses atrás.
- . – Ele sorriu.
- Você queria me ver?
- Eu queria te dar feliz aniversário. – Ele foi até mim e me abraçou. Fiquei sem reação. – E conversar com você sobre uma coisa muito importante.
- Obrigada. – Assenti. – Eu também preciso falar com você.
- Eu primeiro, por favor. – O rapaz se afastou, indo para perto da janela.
A calma de , aquele ar de tranquilidade... Por algum motivo, estavam surtindo efeito contrário em mim. A cada segundo, eu ficava mais tensa. Algo me parecia estranho ali. Nele.
- , eu pensei muito em tudo que você disse antes de ir viajar. – Ele olhou para mim. – E eu percebi que você está certa. Você esteve certa o tempo todo.
- Do que está falando? – Perguntei desconfiada.
- Estou falando de saber o que eu realmente quero daqui por diante. – Sorriu. – Eu estou falando de nós dois.
Dei um passo para trás quase involuntariamente, a apreensão se espalhando por cada parte do meu corpo.
- . – Falei devagar. – Eu acho que você não entendeu o que eu disse antes.
- Eu entendi, . Posso ter demorado, mas finalmente entendi.
se aproximou de mim num piscar de olhos e segurou minhas mãos.
- Eu sei o que eu quero. – Ele disse com firmeza. – Eu quero ficar com você, e não pretendo mais esconder isso de ninguém.
Eu estava apavorada. Meu coração estava acelerado e eu sentia que ia desmaiar.
- , você ficou maluco. – Falei em voz baixa. – Não é isso que você quer. Não era disso que eu estava falando.
- , eu sei que fiz várias escolhas erradas desde que você chegou aqui. – Ele segurou meu rosto entre as mãos, falando em voz alta. – Mas eu sei agora. Eu te amo. Você me ama. Chega do , chega da Summer. Eu vou fazer o que você me pediu. Vamos contar a verdade a todo mundo. Ninguém mais vai nos separar.
Então ele me beijou.
Por uns dois segundos, fiquei totalmente petrificada. Aquilo era absurdo. Era surreal. Depois o empurrei com força, bem no instante em que ouvi a porta se abrir atrás de nós.
A primeira pessoa que vi quando me virei, foi . Ele nos encarava de cara fechada, as mãos cerradas em punho. Não dava para saber o que estava pensando, mas sem dúvida não era nada de bom.
Logo atrás dele, quase encostada à parede do corredor, havia a segunda pessoa. A boca de batom cor coral de Summer estava entreaberta, em um choque silencioso que se mostrava muito mais em seus olhos azuis arregalados.
- . – Falei, o desespero tomando minha voz. – Summer.
E um segundo depois, o rapaz estava voando para dentro do quarto, agarrando pelo colarinho e o jogando no chão.
- ! – Gritei.
- Eu devia ter te batido muito mais na noite do baile! – exclamou, furioso.
- Isso é um mal-entendido gigante! – Passei as mãos pelo cabelo, desesperada.
- Não, não é. – falou seguro, se soltando e passando um braço pelos meus ombros. – É a primeira vez em meses que as coisas estão como deveriam. e eu finalmente vamos poder contar a todo mundo que estamos juntos. Inclusive pra Summer.
- Você enlouqueceu! – Empurrei o braço dele, furiosa.
- Não, ele não enlouqueceu. – me puxou para perto dele, me protegendo. – Ele só parou de fingir.
- Então vocês... – A voz devastada veio de trás denós.
Olhei para Summer, que parecia estar desaparecendo aos poucos.
- Summer, você precisa me escutar. – Falei, dando um passo em direção à porta.
- Sim, ela precisa. – disse sério. – Ela precisa saber que eu sou o garoto por quem você estava apaixonada quando chegou aqui, e que foi por isso que nosso namoro acabou. Porque eu gostava de você, e você de mim, desde o começo, e a enganamos o tempo todo.
O braço de se moveu tão rápido que quando dei por mim já tinha tombado na cama atrás dele, as mãos no rosto, que sangrava por causa do soco que ele levou.
- Chega, ! – Ele gritou.
- Não acredito que vocês mentiram pra mim esse tempo todo. – Summer encarou o chão, incrédula. – Eu disse que você era minha melhor amiga! – Ela gritou, furiosa, voltando-se para mim então.
- EU SOU SUA AMIGA! – Gritei de volta, desesperada.
- Ela não fez isso sozinha, Summer. – disse com voz arrastada de onde estava, encarando com desprezo. – O sabia de tudo.
olhou para trás devagar. Summer o encarou com tanta dor que eu quase pude sentir de onde estava.
- Eu confiava em você. – Ela murmurou.
Summer deu dois passos em direção a escada, mas parou. Então voltou a passos firmes, decidida, e entrou no quarto.
E me deu um tapa no rosto.
Levei a mão a bochecha, sem ousar reagir. Estava quente. Do atrito. Da vergonha.
Ela se aproximou de e fez a mesma coisa, com ainda mais força, do lado oposto ao que tinha batido.
- Eu nunca pensei que pudesse odiar alguém do jeito que eu te odeio agora. – Ela disse a ele. E então saiu do quarto, desceu as escadas e desapareceu.
- Summer! – chamou. – Summer, espera!
Ele saiu correndo atrás dela e eu desabei ali, no assoalho, a mão no rosto. Senti as lágrimas quentes descerem.
E foi então que ouvi a risada atrás de mim.
Levantei os olhos devagar, para encontrar , que se jogou na cama, rindo como se tivesse acabado de ouvir a melhor piada do mundo.
- Qual é o seu problema?! – Perguntei me levantando. Mal tinha forças para isso. – Por que fez isso agora?!
Mas continuava gargalhando deitado, encarando o teto.
- Ah, mas que maravilha. – Ele disse. – Está feliz agora, Vicentini? Tudo saiu do jeito como queria?
- Não! – Exclamei, esfregando o rosto com as mãos. – Eu não queria nada disso! Você entendeu tudo errado, .
- Ah, não, eu entendi perfeitamente.
se sentou, me encarando sem rir, mas com uma expressão satisfeita no rosto.
- Você queria me fazer de idiota, e pagou por isso.
Pisquei uma vez, sem entender.
- Achou mesmo que podia destruir a minha vida com seu plano de vingança estúpido e depois sair como se nada tivesse acontecido? – Ele questionou. – Pois se enganou, .
Fechei os olhos, processando tudo.
- Eu não acredito nisso. – Falei.
- Eu descobri tudo que você armou pra se vingar de mim! – Ele se colocou de pé, falando alto, e eu fiz o mesmo. – Você e o idiota do estão me enganando com esse namoro de mentira desde que você chegou a essa maldita cidade. – Cuspiu. – Por sua causa, eu passei noites me sentindo um babaca, terminei meu namoro, enfrentei meus amigos naquela campanha idiota! Você acabou com cada pedacinho de coerência que eu tinha, você quis que eu ficasse maluco. Pois bem, você conseguiu. – Sorriu um sorriso cruel. – Minha vida é um inferno, e agora a sua também.
- Eu nunca quis me vingar de você, ! – Gritei de volta. Mas não tinha tempo para explicar aquilo. Agora tinha voltado a mim. Olhei bem para uma última vez, e então saí correndo.

As meninas foram apenas vultos que vi enquanto disparava para fora daquela casa.
- ! – Ouvi atrás de mim quando passei pela porta da frente. Ignorei.
Eu tinha que encontrá-los. Eu tinha que explicar a ela.
- Não é mentira dessa vez. – Eu falava sozinha, descendo a rua deserta.
Minhas mãos estavam geladas. Meu coração batia forte, como se fosse explodir. Eu nem sequer sabia para onde estava indo.
O mundo tinha caído sobre mim, e eu estava perdida em meio aos escombros.
Continuei descendo a rua, e, mesmo achando que não me atenderia, tentei ligar. Uma. Duas. Três vezes. Perdi a conta de quantas.
- Por favor. – Eu continuava falando sozinha. – Por favor, você precisa me ouvir.
Mas ele não atendeu. E Summer também não. Ela nunca mais ia querer me ouvir.
Será que ele tinha conseguido encontrá-la? Alguém tinha que conseguir. Ela precisava de alguém agora, mas não ia chamar ninguém. Porque eu era a pessoa que ela chamaria, e a culpa daquela catástrofe era toda minha. Minha amiga Summer, a Summer tão gentil e alegre que eu conhecera, estava destruída. Eu tinha feito isso a ela.
Dois pré-adolescentes sentados à porta de uma casa me viram passar. Eles me olharam com atenção, certamente percebendo o quão desolada eu parecia. E eu estava.
Tive a impressão de ouvir meu nome. Ignorei. Eu tinha que andar. Eu tinha que encontrá-lo.
De novo. Continuei andando.
- !
Olhei para o lado, assustada.
Do banco do motorista, Miguel me encarava, visivelmente aflito.
- A Summer... – Murmurei, perdida.
- Você precisa entrar no carro. – Ele disse sério. – e Sofia sofreram um acidente e estão no hospital.




Continua...



Nota da autora: O MUNDO DESABOU, E NÓS ESTAMOS NOS ESCOMBROS JUNTO COM A NOSSA PP-VILÃ!
Chegamos ao tão esperado momento da verdade, uma cena que eu estava ansiosa por escrever e que acabou sendo muito emocionante para mim também.
Agora quero que vocês me contem como está o coração de vocês. Só temos o momento final a ser postado agora, e, por isso, o meu está partido, mas ao mesmo tempo transbordando de alegria.
Espero pelos comentários, e QUE VENHA O ÚLTIMO ATO!

Beijocas da Fanny







Nota da beta: Eu to assim... sem palavras. Foi tiro pra todo lado nesses 3 caps, eu to muito impactada. Não quero que nada disso acabe, Fanny, só quero todos meus protegidos vivos, bem e felizes, se amando.
Junior o que tenho a ver, quando mais esmurrado, melhor.
Mas tenha bondade no seu coração quando for escrever a próxima att porque já to sofrendo aqui!
xx

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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