FFOBS - Strawberry Fields, por Carol Araújo


Strawberry Fields

Última atualização: 25/12/2019

“Eis o meu segredo: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. Os homens esqueceram essa verdade, mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. ”
Antoine de Saint-Exupéry




Chapter 1 - We ran past strawberry fields and smelt the summer time

- Ah merda! – gritei quando vi a tela do celular trincada ao meio – Bom, pelo menos ainda funciona - suspirei enquanto testava o touch do mesmo – Bela maneira de começar o dia Jones – era mesmo uma bela maneira de começar o dia, derrubando o celular da mesa de cabeceira, olhei para o lado e tinha uma garota dormindo, qual era mesmo o nome dela? Era com A... Ashley, Alice? Ah, Lindsay.
- Hey Linds, acorda, tá na hora de você ir. – eu tentei acordá-la de forma suave, mas o estresse de ter acabado de quebrar meu celular, o fato de ter que perder meu tempo na assistência, a garota ainda fazia “manha” para levantar – Lindsay – Falei mais alto. - Acorda, põe as suas roupas vamos. – Ela me encarou, ela era muito bonita, mais uma modelo que havia conhecido na festa da noite anterior e acabei levando para casa.
- Meu nome é Mary, Danny! - ela resmungou, aparentemente ofendida.
- Ah desculpa, Mary. Mas então, ta na hora de você ir. – Eu disse me levantando da cama e vestindo a boxer que havia deixado largada no chão na intensidade da noite anterior. – Vamos, não tenho o dia todo.
- Ah vamos repetir o que fizemos ontem – Ela falou sorrindo, tentando segurar minha mão, para que eu voltasse para a cama. – Vem, Danny – eu puxei o meu braço e a encarei, com um gesto de cabeça indiquei a porta do quarto e ela se antes parecia ofendida, agora com certeza estava, se fosse outro dia eu até ficaria com ela até tarde na cama, mas bom, eu não estava nos meus melhores dias, pude vê-la saindo do quarto segurando seus sapatos e já vestida quando entrei no banheiro. Tomei uma ducha rápida, se demorasse acabaria me afogando com tanta angustia que sentia, todos aqueles pensamentos que me martelavam a cabeça. Veja bem, eu sou um cara bem-sucedido, sou vocalista e guitarrista de uma banda de sucesso internacional, junto dos meus três melhores amigos, tenho mulheres que me desejam ao redor do mundo inteiro, e nunca me senti tão sozinho.
Saindo do banheiro, vesti minha roupa de corrida, correr sempre me ajudava a ignorar esses pensamentos, peguei meu celular, carteira e chaves em cima do móvel da sala e sai para a manha nublada de Londres.
Correr pela manhã era sempre uma terapia, não que eu não fosse a terapia, mas era um complemento a ela, a banda estava oficialmente de férias, havíamos acabado de completar uma turnê pela Europa e América do Sul, foram shows incríveis e eu amava o que eu fazia, era como se não houvesse nada de errado quando eu estava num palco. Mas, com as férias da banda, os caras sempre viajavam com suas famílias, e bom era nesses momentos que eu corria para aliviar a ansiedade que parecia comprimir meu peito, eu sempre me perguntava o por que alguém iria querer como companhia alguém como eu? Então, sempre ficava eu e eu mesmo nas férias em Londres. Enquanto estava distraído nos meus pensamentos, tentando abafa-los com a música que tocava no meu fone de ouvido, eu acabei esbarrando em alguém, e ambos caímos ao chão.
- Porra, não vê por onde anda? – eu exclamei indignado enquanto me sentava e tentava limpar minha roupa da sujeira da calçada. – Só olhar para frente cara.
- Des-culpa, eu literalmente não vi por onde eu ando. – foi então quando eu ouvi a voz dela que eu olhei pela primeira vez para ela, ela estava abafando um riso e olhando para o vazio atrás de mim, ela tateava o chão ao seu lado procurando algo, e então eu vi a bengala no canto da calçada e me toquei que ela era cega, além de burro eu sou um babaca idiota, pensei dando um tapa na minha testa.
- Nossa! - exclamei alto - Me perdoa, eu não sabia, eu quem não vi, me desculpa mesmo. Nossa como eu sou idiota, me desculpa moça. – A risada que ela abafava corria solta agora. Eu peguei a sua bengala e a ajudei a se levantar. Ela era pequena, e parecia tão nova e vulnerável, que eu olhei em volta para ver se tinha alguém com ela.
- Pode parar de procurar meus pais. – Ela ria – Eu tenho 27 anos apesar de ter uma pele ótima. Bem, é o que dizem. – Ela tinha um sorriso lindo e transmitia tanta paz que eu esqueci o porquê eu estava correndo, o porque eu estava tão angustiado há alguns minutos.
- Er, como você sabia que eu estava fazendo isso? Você não pode me ver, ou pode? – perguntei balançando a minha mão em frente aos seus olhos.
- Não eu não posso te ver, mas eu sinto que você está agitando sua mão na frente dos meus olhos, acertei?
- Er, sim... – respondi sem graça, colocando a mão no bolso. E ela soltou uma gargalhada, mas era uma risada tão gostosa que eu não pude não rir com ela. – Prazer me chamo Daniel, por de me chamar de Danny.
- Danny? Ah meu primeiro namorado foi um Danny – e ela riu mais ainda que eu não achava que era possível - Bom, eu namorava com ele, ele não sabia que eu existia, mas ele não deixava de ser meu namorado. Prazer Danny, eu sou , mas pode me chamar de – eu a olhei confuso, e fiz um gesto de que não havia entendido, depois eu me toquei que obviamente eu sou muito tapado, como ela ia ver o gesto?
- Como assim ele não sabia que você existia?
- Foi uma paixão juvenil antes disso – ela apontou para os olhos - Acontece. Ele é o vocalista da minha banda favorita da vida. - eu arregalei os meus olhos
- Er, qual é a sua banda favorita da vida? - perguntei assustado com a coincidência.
- McFly, você deve conhecer, e se não conhece ESCUTA agora. Eles meio que salvaram minha vida, sabe. – meu coração estava estranhamente acelerado naquele momento, eu precisava saber aquela história.
- , né?
- Sim.
- , você tem algum compromisso para agora? - perguntei ansioso, bom eu tinha que ir na assistência, mas um celular com a tela trincada podia esperar.
- Não, eu so estava caminhando mesmo, não posso arrumar os olhos, mas é bom manter o resto do corpinho saudável - E dessa vez eu ri com ela. Eu nunca na minha vida, em todas as minhas andanças, em todos os lugares, que não foram poucos, que eu já passei, nunca na minha vida, encontrei alguém tão leve e com uma risada tão gostosa, eu precisava conhecer aquela menina que tinha minha idade, aparentava ser mais nova que eu, e tinha uma leveza de alguém muito mais velha e sabia.
- Quer ir tomar um café comigo? - perguntei duvidando que ela aceitasse, bom, de qualquer forma, eu fui o primeiro namorado dela, qualquer coisa eu apelaria e acabaria cantando para convence-la.
- Você promete que não vai me matar e vender minhas córneas no mercado negro? - Eu soltei uma gargalhada, e pude vê-la franzindo o cenho
- Sua risada é familiar – tampei a boca na mesma hora abafando a risada.
- Prometo que não vou vender você, vamos tomar um brunch? - eu perguntei segurando sua mão, ela se apoiou no meu antebraço aceitando meu convite, e juntos fomos tomar um café, que eu não sabia, mas acabaria salvando minha vida.
Ao chegarmos na cafeteria eu a ajudei a se sentar e procurei o lugar mais isolado do lugar para evitar que nos vissem, não que eu a estivesse escondendo ou algo do tipo, era algo mais para poupá-la e que nos deixasse mais confortáveis, achei uma mesa próxima a janela, tinha uma vista linda para o parque.
- Como é aqui Daniel? - eu a encarei e levantando uma sobrancelha perguntei
- Como assim, como é aqui? - Ela deu um sorriso doce, enquanto parecia olhar tudo em volta.
- Bom, aqui tem um cheiro gostoso, é quentinho, eu queria saber como é aqui para os olhos, desculpa, é que eu e minha irma temos o hábito de fazer isso - ela riu - Ela sempre me descreve como são os lugares em que vamos. Só que ela não é mais uma adolescente como antes, então enquanto ela está na faculdade ou no trabalho, eu meio que fico só imaginando como são os lugares que eu estou - e isso que ela disse se fosse contado por outra pessoa ia parecer algo triste, mas tinha algo nela, na forma como ela falava que não transmitia tristeza nenhuma.
- Bom eu posso tentar fazer isso - eu respondi. Ela sorriu mais ainda. - Por onde começo?
- Ah começa me falando tudo que você está vendo.
- Bom, eu vejo uma moça muito bonita, ela está sentada na minha frente…
- Ah não vem com essa, eu nem me olhei no espelho hoje antes de sair de casa - Ela disse e começou a rir da própria piada, eu a acompanhei. - Mas é sério, como é aqui?
- Bem, estamos numa cafeteria, aqui é tudo decorado com madeira mogno, então é um ambiente um pouco escuro, estamos sentados mais ao fundo, e estamos do lado de uma janela grande, com uma visão linda para o parque. - ela suspirou, apoiando o cotovelo na mesa com a mão na bochecha.
- Estamos no outono né? O parque está tão lindo como costumava ser? - olhei pela janela, eu nem tinha me tocado que era outono até ela me lembrar.
- O parque está lindo, está todo em tons de laranja, marrom e vermelho, tem uma senhora sentada na praça alimentando os pássaros, e duas crianças correndo, um menino e uma menina. - senti ela procurando pela minha mão e parei de observar o parque quando segurei sua pequena mão entre as minhas.
- Obrigada Danny. - Sorri para ela e ela parece que sentiu porque abriu um sorriso delicado ao mesmo tempo.
- Posso perguntar como foi que aconteceu isso com você?
- Você já perguntou - ela deu uma risadinha. - Mas pode sim, não foi nada demais. Meio que foi escolha minha. - Eu não entendia mais nada
- Como assim escolha sua.
- Acho melhor pedirmos nosso brunch, porque vamos ficar aqui um pouquinho. - Eu sorri e concordei, em seguida chamei o garçom, ela pediu apenas um café puro com alguns cookies e eu a acompanhei. - Nossa que delícia. - ela soltou após beber um gole. - Bom, por onde começo?
- Do começo é sempre bom - respondi fazendo graça, e funcionou porque ela abriu um sorriso.
- Justo. Bom tudo começou numa noite na qual fui buscar minha irmã numa festa da qual ela tinha ido escondida dos nossos pais, e bom, eu sempre a acobertava, e ela a mim. Eu estava com 20 anos, ela devia ter uns 14 ou 15 anos na época. Era madrugada - conforme ela contava eu só conseguia a observar. - Estávamos na estrada e de repente um caminhão entrou na contra mão, acho que o motorista devia ter dormido no volante, e a última coisa que eu vi foi ele vindo na direção do lado que ela dormia. - ela respirou fundo e bebeu mais um gole, provavelmente lembrando do acidente. Eu segurei a mão dela mais forte, ela sorriu para mim e continuou - Eu só tive tempo de virar o carro, o caminhão atingiu o meu lado e não o dela. - vi uma lágrima discreta escorrer pelo canto do seu olho e com a mesma velocidade que caiu ela a limpou. - O motorista desceu do caminhão para nos ajudar, minha irmãzinha ficou presa nas ferragens e desmaiou com o impacto, para mim eu tinha morrido, porque eu não enxergava mais nada, quando ouvi a sirene da ambulância, e as vozes do lado de fora, eu percebi que eu estava viva, eu só não enxergava mais. Mas isso era o de menos, eu não me preocupava com isso, eu me preocupava que eu não encontrava minha irma, não a ouvia. Só lembro de gritar quando tentaram me tirar do carro, para que tirassem ela primeiro, que eu estava bem, que ela precisava mais de socorro do que eu, e bom, eu tive um descolamento de retina, minha irmãzinha só teve um braço engessado. - eu a encarava estático, não acreditando que aquela garota, garota não, mulher, tão pequena e aparentemente tão frágil, tenha tido tanta coragem - Eu só sei que você ainda está aí porque está segurando minha mão - ela riu
- Eu estou apenas admirando tanta coragem em alguém tão pequeno. - a risada foi ainda mais alta. - Mas você poderia ter voltado a enxergar se tivesse deixado que eles ajudassem você primeiro, porque não quis? - nessa hora a risada já havia cessado e ela apertou a minha mão ao responder.
- Eu não queria arriscar Daniel, eu poderia passar a eternidade cega se isso fosse o suficiente para ter minha irma comigo. Prefiro mil vidas cegas com ela bem, do que uma na qual minha visão estivesse intacta e ela já não estivesse mais aqui. - Eu senti o que ela disse no fundo do meu peito.
- Você deve amar muito a sua irmã - respondi baixo, e ela abriu outro lindo sorriso
- Irmãos mais velhos são trouxas. - ela riu.
- Bem, isso eu não sei. - respondi rindo - Eu sou o caçula e só tenho uma irma dois anos mais velha que eu.
Eu poderia ter passado horas conversando com ela, o assunto era fácil, ela gostava de várias coisas que eu gostava, nossos pensamentos e opiniões eram bem parecidos também. Resumindo ela era incrível e eu não queria ir embora quando ela pegou o celular, e eu entreouvi a conversa dela, dizendo que ela tinha uma reunião numa editora
- Nossa que legal. Você tem celular? Mesmo não vendo, digo?! - exclamei de olhos arregalados - Editora? Você trabalha?
Ela começou a rir
- É obvio que eu trabalho, acha que eu me sustento como? De vento? - eu ri com ela. - E todo celular hoje em dia tem essa função, está nas configurações, na acessibilidade.
- Eu nunca reparei - respondi pensativo. - Posso por meu número nele?
- Pode, desde que você anote o meu no seu também. - Ela sorriu me estendendo o celular dela e começou a me dizer seu número, eu mais que depressa salvei no meu celular o número dela, e devolvi o dela com o meu já salvo.
- Ouvi que você vai numa editora, você trabalha com o que ? - Ela abriu um sorriso orgulhoso quando respondeu.
- Eu sou uma escritora
- Que? Como assim? - respondi confuso.
- Eu adoraria ver a cara das pessoas sempre que eu respondo isso - a risada dela ecoava pelo café. - Bom, existe braile e audiobooks, certo?
- Certo.
- Pronto descobriu como. Eu tenho uma reunião sobre a continuação da trilogia que estou escrevendo e tudo o mais. Estou inclusive atrasada. - Ela começou a se levantar e pegou sua bolsa e bengala. Eu levantei rápido para ajudá-la, mas ela já havia conseguido sem ajuda e eu não queria deixar ela ir.
- Eu levo você. - respondi colocando a mão no ombro dela.
- Não precisa Danny. Eu consigo me virar sem um cavalheiro. - Ela respondeu sorrindo, segurando no meu antebraço para sairmos da cafeteria, ela fez questão de pagar a parte dela, mesmo que eu dissesse que fui eu quem a havia convidado.
- Bom, já que eu não posso te levar para sua reunião, e você não aceitou que eu pagasse o café, posso pagar pelo jantar? - perguntei quando saímos e estávamos já na calçada em frente ao parque.
- Jantar? Ah não sei Daniel, eu tenho que trabalhar, maior parte do tempo eu trabalho na verdade.
Eu não podia aceitar que ela não saísse comigo novamente, aquele café com ela foi um balsamo para toda a crise que tive mais cedo, a presença dela me fazia bem, eu teria que apelar.
- Ah vamos vai, não se pode dizer não para o seu primeiro namorado. - Ela começou a gargalhar.
- Ah vai me dizer agora que eu tomei um brunch com Danny Jones do McFly?
- Sim, você tomou. - respondi esperançoso - E espero que aceite jantar com ele também…
- Ha ha, ai - ela tentava falar entre as risadas. - Ok eu aceito, mas só porque você tem um humor excelente. Mas agora eu realmente tenho que ir. Me liga que eu te passo o endereço. Me ajuda a chamar um taxi - a ajudei a parar um taxista que passava na rua, e abri a porta para ela enquanto respondia
- Pode deixar que eu ligo sim. - fechei a porta e segurei sua mão pela janela. - Até daqui a pouco .
- Até daqui a pouco Danny Jones - ela respondeu rindo enquanto o carro tomava partida e eu fiquei parado na calçada observando ela se distanciar.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Poxa Carol, um capítulo e já sei que vou me emocionar a cada atualização da sua história, parabéns!
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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