Sussurros do Passado

Última atualização: 04/02/2025

No meio de segredos obscuros, onde o perigo espreita em cada esquina, null e null, unem-se numa teia de homicídios e mentiras.
Quando a verdade é mais mortal que o crime, até o amor pode tornar-se fatal.

Capítulo 1
O Início do Fim

null null


Aquela manhã no Alasca desperta como qualquer outra. A neve acumula-se suavemente sobre os telhados e as ruas desertas, envolvidas pelo frio cortante, estavam silenciosas. A vila é tão silenciosa que quase consigo escutar a minha respiração. O isolamento, o frio constante, e a paz superficial são como um véu que cobre tudo o que está por vir.
Estou no meu pequeno apartamento que chamo de casa à cerca de dois anos, a saborear um café forte quando escuto um grito. Não era comum que algo perturbasse a paz naquela vila. Curiosa, levanto-me imediatamente e olho pela janela. Uma pequena multidão começa a formar-se do outro lado da rua, junto a uma casa com o alpendre desgastado. Pouso a chávena de café na mesa, e começo a sentir o meu coração acelerar. Aquele movimento não é comum aqui, não neste lugar onde nada acontece. Algo se passava.
Dois anos tinham passado desde que tinha deixado Nova Iorque para tentar reconstruir a minha vida longe da agitação, longe das memórias dolorosas que teimavam em assombrar-me. Formada em jornalismo, eu sempre sonhei em escrever para grandes Editoriais, mas o meu passado empurrou-me para longe desse sonho. A vida tranquila e sem grandes surpresas da vila parecia perfeita para enterrar os meus fantasmas. Até agora.
Coloco a chávena de café de lado e pego no meu casaco de lã. A adrenalina começa a subir, e o meu coração bate cada vez mais rápido. Seria esta a oportunidade que eu tanto esperava?
Não devia estar entusiasmada com algo tão horrível. Mas havia algo dentro de mim, algo que me fazia ansiar pela adrenalina da investigação, pelo desafio de desenterrar segredos. Talvez, apenas talvez, esse momento pudesse ser a minha porta de retorno ao mundo do jornalismo.
Saio para a rua, ignorando o frio gelado que cortava a minha pele. O burburinho das pessoas crescia à medida que me aproximava. O local do crime estava tomado por sussurros e olhares horrorizados. E é então que assim que me aproximo da linha da frente, eu vejo. No alpendre da casa, pendurado por uma corda, estava o corpo de uma mulher. Morena, jovem, com o pescoço grotescamente inclinado para o lado, e o seu rosto congelado numa expressão de agonia. O vento sopra forte, mas o cenário está parado, como se o tempo estivesse congelado naquele momento.
Não consigo desviar o olhar. O horror está ali, tão presente e real, mas ao mesmo tempo, uma parte de mim começa a funcionar como antes. Os meus instintos jornalísticos, que pensei ter perdido, despertam. Tento absorver cada detalhe — o estado do corpo, o ambiente, a reação das pessoas.
Não era apenas a curiosidade natural de uma jornalista, mas uma necessidade profunda de entender o que estava a acontecer. Algo na cena parecia... errado. Não era só o horror de ver uma pessoa morta de forma tão brutal; era o facto de que um crime tão horrendo nunca tinha acontecido naquela vila.
A polícia local começa a chegar, atrasada e desorganizada como sempre. Dois oficiais mal conseguiam controlar a multidão que insistia em aproximar-se. Uma fita amarela foi esticada com pressa para delimitar a zona do crime, mas as pessoas já tinham visto o suficiente. Os cochichos espalhavam -se como um incêndio na floresta, cada um com sua teoria, cada um com seu medo.

— Quem faria uma coisa destas? — ouço alguém perguntar ao meu lado. Viro-me e vejo uma mulher mais velha, envolta de um grosso casaco de pele, com os olhos arregalados, incrédula — Não me digam que foi suicídio. Não é possível.
— Eles não vão conseguir lidar com isto — respondeu outra pessoa — A polícia daqui não sabe lidar com este tipo de coisas.

Eu sabia que aquela observação era verdadeira. A falta de recursos da vila era evidente. Os policias, claramente despreparados, mal sabiam por onde começar. Um deles, visivelmente nervoso, tentava anotar algo num bloco enquanto analisava o corpo com pavor.
Sem pensar duas vezes, eu aproximei-me da fita amarela, para tentar ficar o mais próximo possível da cena sem ser notada pelos policias. Sinto um arrepio, mas não era o frio que me estava a incomodar. A casa parecia antiga, mas há algo estranho na cena. O corpo pendurado ali é chocante, mas sinto que há algo mais. Algo naquela imagem fazia lembrar-me do passado. Uma sombra de algo que eu lutava para esquecer.

— Você não devia estar tão perto — A voz grave e autoritária faz-me virar rapidamente. À minha frente esta parado um homem alto, envolto num sobretudo e com um olhar intenso e sério. Ele parecia deslocado daquela zona, diferente dos outros policias confusos e dos moradores chocados.
— Quem é você? — pergunto, educadamente, mas ainda a tentar controlar o susto.
null null. Sou o detetive responsável pelo caso — Ele olha para mim com intensidade, enquanto mostra o seu distintivo, que fez-me desviar o olhar por um breve momento — E você?
null null... Sou jornalista — recompus-me, mas o ainda sentia o seu olhar intenso sobre mim.
— Jornalista, não é? — ele solta um suspiro que mistura desdém e cansaço — Parece que esta vila vai ser o assunto de muitas manchetes — Ele sorriu, mas os seus olhos continuavam frios — Espero que respeite os limites. Este caso não é para curiosos.

Há algo na voz dele, um tom de advertência que quase soa pessoal. Mas eu não recuo. Este caso, este mistério sombrio, podia ser exatamente o que eu precisava para reescrever a minha história. Em vez disso, observo enquanto ele caminha para mais perto do corpo. O olhar dele muda, tornando-se calculista. Ele está a trabalhar, e posso perceber que leva isso muito a sério.


null null


O avião balança levemente enquanto atravessa o céu cinzento em direção ao Alasca. Olho pela janela, mas a paisagem fria e desolada lá fora, pouco ou nada faz para acalmar a turbulência dentro de mim. Aceitar este caso tão repentinamente parecia ser a única coisa sensata a fazer. Não era só o trabalho — era uma fuga de tudo o que deixava para trás. O meu casamento estava um caos, junto com a Claire, a minha esposa, tínhamos decidido optar pelo divórcio. Não havia mais o que salvar. Cada conversa entre nós era uma batalha sem vencedores, apenas feridas. Este caso tinha vindo na hora certa, penso.
Este caso era uma oportunidade para ficar longe de tudo. Longe da Claire, das discussões intermináveis e do vazio que crescia entre nós. Precisava de clareza, e talvez um isolamento no Alasca me desse a distância necessária para refletir sobre tudo.
Enquanto o avião preparava-se para pousar, eu aproveito para revisar as poucas informações que tinha recebido há uns minutos sobre o caso. Uma jovem mulher, encontrada enforcada na varanda de uma casa. Era tudo o que tinha até agora.
Quando o avião toca o solo gelado, preparo-me mentalmente. Sinto uma tensão familiar nos ombros. Não é nervosismo — é a antecipação. Esta é a parte eu entendo, o caos que consigo controlar já que não consigo controlar o resto da minha vida, que está uma confusão. Mas aqui, posso fazer o que faço de melhor.



Chego à vila e sigo direto para a cena do crime. Assim que estaciono, percebo que não vai ser fácil. A fita amarela parecia mais um acessório do que uma barreira real, com a multidão de curioso aglomerada em frente da casa. Franzo o cenho ao ver a movimentação desordenada. Isto não era nada bom. Havia sinais de contaminação da cena, pegadas por toda parte, pessoas a inclinar-se para tentar ter uma visão melhor. Não há organização, não há controle. É frustrante.
Dou um passo em frente, com a mandíbula tensa, e com um gesto da minha mão fiz sinal para os policias locais começarem a dispersar a multidão.

— Todos para trás. Agora! — a minha voz era dura e autoritária, até porque não estava de humor para gentilezas.

Se aquelas pessoas não saíssem do caminho, eu teria que tomar providências mais severas. Os olhares voltam-se para mim, mas ninguém parece querer colaborar.

— Se não se afastarem, vou começar a prender quem interferir. Vocês escolhem! — disse, erguendo mais o tom da minha voz para que todos me ouvissem.

Gradualmente, as pessoas começaram a recuar, murmurando entre si. O alivio é momentâneo.
Enquanto os policias locais começavam a fazer um perímetro mais apropriado, eu passo a fita e aproximo-me do corpo da jovem mulher. Os detalhes começam a saltar na minha mente com a familiaridade de quem já havia visto cenas assim antes, mas ainda assim algo parecia errado. A mulher estava suspensa por uma corda, o pescoço numa posição grotesca, mas os olhos abertos pareciam contar uma história ainda mais horrenda. Há marcas nos pulsos, o que sugere que foi amarrada antes de ser enforcada. Tento focar nos detalhes. Mas é então que noto uma mulher a aproximar-se demais da fita amarela. Ela não pertencia a esta cena. Por isso, não hesito e intercetei-a logo, trocando algumas palavras que deixaram claro que não estava interessado em jornalistas a interferir no meu trabalho. Ela respondeu com firmeza, apresentando-se como null null, mas a sua ousadia não me impressionou. Tentei afastá-la, mas havia algo na determinação dela que me chamou a atenção. Não sabia dizer o quê, e isso apenas conseguiu deixar-me mais irritado.
Agora, enquanto volto a concentrar-me no corpo e na cena ao redor, as palavras dela ecoam brevemente na minha mente. Uma jornalista. Curiosa, teimosa. Esta vila atrai mais problemas do que aparenta.

— Quem estava contigo? — sussurro, enquanto os meus olhos examinam o ambiente. Nada está fora de lugar, mas tudo parece terrivelmente errado. Eu sabia que os assassinatos cometidos com tamanha frieza não eram apenas crimes passionais simples. Existe sempre algo mais, algo mais profundo e meticuloso. O arranjo romântico indica que o assassino queria que a cena transmitisse uma mensagem.
— O que temos até agora? — pergunto a um dos policias locais, tentando traze o foco de volta para o trabalho.
— N-nada concreto, senhor — ele gagueja, entregando-me um bloco de anotações mal preenchido.

Reviro os olhos. Claro que não têm nada. Olho novamente para o corpo. Com as luvas colocadas, analiso as marcas no pescoço da mulher. O enforcamento parecia ter sido planejado com cuidado, mas havia sinais de luta. Isto não tinha sido um suicídio ou simplesmente um homicídio. É meticuloso demais, teatral demais. Quem fez isto queria que fosse visto.
Enquanto analiso cada detalhe, sinto uma onda de frustração. Há muito mais nesta cena do que posso ver no momento. Quem fez isto conhecia a vítima, talvez até tivesse algum tipo de relação mais íntima com ela. E ainda assim, tudo parece premeditado demais para ser apenas um crime passional.

— Preciso de um exame completo das marcas no corpo — digo, enquanto pensava nas próximas etapas. O médico legista iria chegar em breve, mas eu sabia que a verdadeira investigação começava agora. Quem estava envolvido com esta jovem?
— E isolem completamente o perímetro! Quero relatórios detalhados sobre qualquer movimentação antes da vossa chegada.

O caos da vila ainda está instalado ao redor da casa, mas eu preciso desligar-me e focar no padrão, nos sinais que ainda não consigo desvendar.
Uma coisa é certa: isto não é aleatório. E seja quem for o responsável, não vai parar aqui. Como se a morte desta mulher fosse apenas o começo de algo muito maior.





Continua...



Nota da autora: Sem nota.

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