Tarefa Final

Tarefa Final

Última atualização: 19/03/2019
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Capítulo Único

Escreva sobre você e ela.

Olá! Meu nome é , eu tenho sinestesia, TOC e mais algumas coisas. Nunca fui normal. Eu ouço o barulho de comidas, cada pessoa tem uma cor, sinto o cheiro de sons, sinto o gosto de cores e cada letra e número possui uma cor. Olhar para M&M’s é como se eu estivesse em uma boate, olhar para o céu nublado tem gosto de azul. Eu almoço ouvindo música para poder mudar o gosto da comida. Namorei por três anos, a conheci perto de minha casa. Cada pessoa era exatamente igual, verde, azul ou laranja, com vozes das mesmas cores e que me faziam lembrar mil coisas e passarem mil imagens e vídeos na minha cabeça. Como eu soube que ela era a pessoa certa para mim? Ela era a única pessoa rosa que eu já conheci em toda minha vida. E é sobre como ela mudou minha vida que vou tentar escrever dessa vez. Antes de começar, preciso situar você um pouco com um "flashback". Eu me lembro disso como se fosse ontem, estava na cozinha desenhando quando minha mãe falou comigo:

- Que lindo o seu desenho, , são marcianos? – Ela pegou o desenho que eu havia feito nas mãos e começou a analisar com cautela.
- Não, mamãe. – Respondi rapidamente – Somos nós dois. – Puxei o papel da mão dela. – Veja aqui, você é verde escura e tem cheiro roxo! – Apontei para os riscos roxos que eu havia feito no desenho.
- Cheiro roxo? – Minha mãe começou a gargalhar e resolveu deixar para lá. – Crianças.


Essa é minha primeira memória de sinestesia. Ou melhor, de quando eu notei que nem todo mundo via as coisas da mesma forma que eu. Minha mãe se preocupou muito quando minha “fase” de colocar cores, cheiros, formas e sons fora de lugar não passou. Fui a vários médicos, ninguém via nada de errado em mim, até que um neurologista e um psicólogo explicaram: eu tinha sinestesia. E a minha sinestesia era bem maluca. Em geral, as pessoas apresentam só um ou dois tipos de percepções embaralhadas. Eu tinha todas elas bastante confusas. Letras e números tinham cores específicas, sons produziam cheiros e imagens coloridas que saltavam aos meus olhos, algumas memórias tinham gosto, sem falar que eu via as pessoas refletindo áureas coloridas. Era engraçado saber que nem todo mundo sentia as coisas dessa mesma forma. Deve ser muito estranho ser normal.
Todos que sabiam desse meu “dom” sempre perguntavam: “minha voz tem cor de quê?” ou “meu cheiro tem gosto de quê?”. Às vezes, era cansativo. Eu tinha apenas um grande amigo naquela época, seu nome era Tom. Ele me conhecia há muito tempo e também não tinha mais paciência quando alguém aparecia do nada me perguntando qual a cor/cheiro/gosto tinham.
Mas essa carta não é sobre mim, essa carta é sobre ela e sobre como minha vida mudou depois disso. Lembro-me muito bem o dia que a conheci, como se tivesse acontecido agora.
Era o último dia de aula na escola, eu tinha me despedido do meu amigo, Tom. Sua família sempre ia para o interior da França nas férias de verão, tinham uma casa lá. Meus pais e minha irmã iam viajar para os Estados Unidos, seria a primeira vez na Disney da minha irmã Anne. Quando a viagem estava sendo planejada, eu pedi para ficar aqui em casa mesmo. Não queria viajar. Só de imaginar ir a Disney novamente, já ficava com dor de cabeça. Meus pais tentaram me convencer por umas semanas, mas foi em vão. Eu queria passar um tempo só. Silêncio e mais nada. Ia ser bom ter férias do gosto e cheiro da bagunça que acontecia lá em casa. Somente quando eu estava totalmente sozinho e em silêncio, conseguia relaxar. Nada de cores saltitando, nada de cheiros, nada de gosto. Somente a paz.
Ao chegar à minha casa, deparei-me com uma confusão de cores. Estavam todos muito agitados andando para lá e para cá, verificando passaportes e não sei mais o quê. Dei um aceno para o meu pai, que respondeu com um assobio verde que eu gostava. Sorri. Subi as escadas, sempre pisando em degraus pares, maldito TOC. Minha irmã estava fantasiada de Elza e berrava “livre estou, livre estou” no segundo andar. Anne tinha uma cor azul turquesa, como a maioria das crianças. Somente depois de grandes que elas ficavam com uma cor mais fechada.
- Irmãozão! – Ela correu até os meus braços ao me ver. – Você tem certeza que não quer ir? Vamos conhecer a Elza!
- Tenho certeza sim, chuchu. – Eu a peguei no colo para um abraço. – Quando você voltar, quero saber como foi tudo. Não se esqueça de tirar fotos legais.
- Sim! Vou tirar um “zilhão” de fotos. - Ela pulou do meu colo, saiu saltitando e cantando alguma outra música.
Minha mãe estava fazendo uma lista de recomendações para as semanas que eu passaria sozinho.
- Olha, nada de festas aqui, nem de meninas. – Ela estava escrevendo uma lista de compras num pedaço de papel rasgado. – Quero minha casa inteira quando eu voltar, tá certo, ?
- Sim, não tem porque se preocupar, mãe. – Falei, pegando o papel que ela me entregou. – Eu só quero ficar um pouco sozinho, sem todas essas coisas me atormentando.
Minha mãe deu um meio sorriso. Ela sempre se preocupava demais com a minha condição. Quando eu era menor, costumava ter hipersensibilidade sensorial. O que significa, basicamente, que eu “surtava” quando existiam muitos estímulos ao meu redor. Foram anos de terapias para conseguir controlar e reagir melhor a essa minha sensibilidade, mas isso acarretou no aparecimento do TOC e, naquela época, eu não estava aceitando muito bem minha terapia comportamental. Não estava indo para nenhuma sessão, o que acarretou numa piora grande. Isso a deixava triste, com um sentimento de incapacidade de me ajudar, mas não tinha muito que ela pudesse fazer.
- Vá lá no mercado e compre tudo dessa lista. Quero deixar você bem abastecido durante a viagem. – Peguei meu casaco no sofá e sai para ir às compras.
Moro em Londres, num bairro afastado do centro. Daqui até a Picadilly Circus, por exemplo, são mais de 35 minutos no ônibus. Meu bairro é bem amigável, não tem muitas crianças, o que é ótimo: menos barulho, menos cores. Vendo de fora, parece aquele bairro onde os tios do Harry Potter moram. Já me perguntei algumas vezes se eles se inspiraram na minha rua para fazer o cenário do filme. Muitas casas iguais, gramados verdes e carros pretos. Se você não estivesse acostumado, seria difícil achar o caminho de casa. Eu não tinha muita dificuldade em diferenciar as casas. Todas elas tinham números vibrantes ao meu ver. Os números da minha casa eram laranja e verde. Os do vizinho eram laranja e azul. Assim, eu via diferenças grandes onde outras pessoas não viam. No caminho até o mercado, notei um caminhão de mudança duas ruas depois da minha casa. Uma nova família estava chegando. Mais pessoas de cor laranja. Eu não achava graça em pessoas de cor laranja. Gostava das pessoas verdes e azuis. “Devem ser uma família excêntrica e chata”, pensei comigo mesmo. Sempre julgo as pessoas por suas áureas coloridas. Costumo ser preconceituoso às vezes, sou um cara chato. Continuei andando até o mercado sem prestar mais atenção no senhor e senhora laranja.
Fiz todas as compras rapidamente, aluguei o carrinho de compras do mercado para trazer tudo mais confortavelmente para casa. Normalmente você não pode fazer isso, os carrinhos alugados são apenas para serem usados nas dependências dos mercados. Mas a senhora que cuidava deles sempre gostou de mim. Ela tinha cheiro de verão e sua voz tinha cor amarela. Sempre que conversávamos, eu pensava em praias e ondas do mar. Era bem tranquilizante. Ela adorava ouvir histórias sobre os meus “poderes” e sempre me deixava levar o carrinho, desde que eu o devolvesse antes das 18 horas. No caminho de volta, notei uma pessoa diferente saindo do caminhão de mudança com uma caixa. Era uma menina, mais ou menos da minha idade. Ela tinha uma áurea cor-de-rosa. Nunca tinha visto ninguém cor-de-rosa antes. Fiquei intrigado e me interessei, mas não pude me aproximar. Afinal, tinha um carro de compras sob minha responsabilidade. Corri até minha casa, deixei as compras de qualquer jeito na cozinha para poder correr até o mercado, devolver o carrinho para a senhora cheiro de verão e finalmente poder conversar com a menina cor-de-rosa. O que eu falaria? Não fazia ideia. Mas eu tinha que ir até lá. Eu precisava conhecê-la. Foi a primeira vez que deixei o meu TOC de lado. Sempre que chegava com compras, precisava organizar tudo por cores, cheiros e formas. Dava muito trabalho e tomava grande parte do meu tempo, mas não fiz nada disso nesse dia. Devolvi o carrinho o mais rápido que pude e voltei para onde o caminhão estava. Cheguei perto da casa, mas não tive coragem de me aproximar. Apenas olhei atentamente para a menina cor-de-rosa. Ela estava cantarolando algo e eu não via cor nenhuma. Achei estranho. Sempre vejo alguma cor quando qualquer pessoa canta mas, dessa vez, nada. A menina cor-de-rosa notou que eu estava a encarando e se aproximou.
- Olá, posso ajudar? – Ela disse, chegando perto de mim.
Novamente, nada. Eu não via cor nenhuma com a voz dela. Mas o seu rosa ficava cada vez mais intenso enquanto ela se aproximava.
- Me desculpe, não queria te encarar. – Falei sincero. – É só porque eu nunca havia visto alguém como você antes.
- Ah, somos novos, acabamos de chegar de Bolton, conhece?
Ela era muito simpática e tinha cheiro azul. Azul era o meu cheiro favorito, me lembrava de manhãs frias, que era o meu tipo favorito de manhã.
- Não. Seja bem vinda e me desculpe novamente. – Virei de costas e saí andando rápido.
- Ei, qual o seu nome? – Notei pela primeira vez seus olhos castanhos, tão intensos e diferentes dos meus olhos azuis.
- Jones, ou . – Disse levantando os ombros – Te vejo por aí.
Eu tinha que sair, o cheiro azul dela estava me intoxicando. Tinha vontade de ficar a tarde toda lá, apenas admirando sua cor rosa e seu cheiro azul de manhã de frio.
- Ok, , eu sou , mas pode me chamar de , ok? – A menina cor-de-rosa disse, mas eu já estava do outro lado da rua, acenando.
. Seu nome era roxo. Combinava perfeitamente com sua cor rosa e seu cheiro azul. Ela era perfeita.
Foi assim que eu a conheci. Antes de continuar te contando a minha história, eu preciso explicar melhor como me sentia na presença dela. Quero tudo muito claro na sua mente, assim como está na minha. era a única pessoa que não me fazia ouvir a cor da sua voz, não vinham àquelas cenas em minha cabeça, os tiques saíam, o meu humor se estabilizava. Quando eu estava com ela, tudo que passava na minha mente era ela. era a única pessoa que tinha cheiro de manhã de frio. Quando você tem TOC e sinestesia, você nunca tem um momento de paz. E, pela primeira vez em 16 anos, eu soube o significado de paz na presença de outra pessoa.
Depois daquele encontro, continuei procurando desculpas para aparecer na rua dela. Eu andava sem rumo, dava voltas na quadra só para esbarrar “acidentalmente” com ela. Criava novas regras bizarras para o meu TOC, como o fato de sempre dar voltas pares ao redor da quadra dela. Mas, se eu a visse antes disso, ignorava toda e qualquer regra. Isso nunca acontecia com qualquer outra pessoa. Já perdi muitos horários por conta do meu TOC. Já deixei de comer por conta dele também. Não sei se você entende isso. Nem eu, que convivia com isso por anos, conseguia entender exatamente como ela fazia isso.
Algumas semanas depois do dia eque ela se mudou para perto da minha casa, ficamos amigos. Ela estava sempre comigo. Íamos juntos para a escola todos os dias. fazia piadas por ser quase imune aos meus “poderes”. Mas ela não era totalmente imune. Seu nome tinha cor, ela tinha cor, mas eram todos especiais, cores únicas que ninguém jamais teve.
Sentia-me complemente calmo na presença dela e me entreguei ao sentimento. No final das contas, acabei me apaixonando perdidamente. Ao meu ver, ela era única e perfeita, apesar de todos os seus defeitos e falhas. Ficamos juntos por três anos. aguentou muito nesse tempo.
Não sei ao certo quando tudo começou a desmoronar, sei que sempre fui muito egoísta e possessivo, como se ela fosse apenas minha. E só agora sei que eu não tinha esse direito. sempre foi uma menina independente e com uma personalidade marcante. Ninguém podia dizer a ela o que fazer ou deixar de fazer. Talvez esse tenha sido o meu erro. Eu a via como minha paz particular, uma pessoa que eu poderia “usar” para conter minhas crises e dores. Ela me fez voltar para a terapia alguns meses antes de terminarmos. Eu me frustrava sempre que vinha aqui. Assim que saia da sua sala, eu a procurava para me acalmar. Eu a usava como remédio. Acho que, no meio disso tudo, ela cansou. Sim, toda semana tinha uma crise nova, eu pedia pelo fim e ela lutava para continuar comigo, não sei por quê. Um dia, eu disse que não queria mais, no meio de uma explosão. Ela chorou, me acalmou e dormiu comigo. Não falou nada dessa vez. Não tentou me convencer do contrário. E depois dessa noite, nunca mais falei com ela. Você deve se perguntar o motivo de eu não ter lutado para ficar com essa menina, depois de tudo que eu já te falei e do que eu tentei expor aqui. Pois bem! Eu abri mão do mais importante que eu tinha, do maior ansiolítico possível, por não saber como ela reagiria a tudo que estava acontecendo. Resolvi fazer o que achei que seria o melhor para ela. Não iria aguentar vê-la triste por tudo que eu fazia e tinha muito medo do que poderia acontecer com as minhas mudanças bruscas de comportamento.
Muito tempo depois, já morando sozinho na minha casa nova, acordei. Estava no colo dela, sentindo seu cheiro azul, então percebi que sonhava. Despertei e vi que ela não estava comigo. Não pude fazer nada, mas continuava sentindo seu cheiro. Tomei banho, passei perfume e continuei sentindo seu cheiro. Almocei, lanchei, corri e continuei sentindo seu cheiro, até resolver mandar uma mensagem para ela dizendo “estou com saudade” e receber “tô ocupada agora”. Então todas as imagens de quem tem TOC voltam a dar um loop na sua cabeça. Tudo volta a atacar, o que me fez voltar de vez para cá. Finalmente me entreguei a essa terapia, entendo a necessidade, quero e vou melhorar. Estou escrevendo isso para tentar finalizar melhor essa fase da minha vida. Cansei de estar rodeado por sons e cores tristes.
Não sei se você algum dia vai ler, , mas gosto de pensar que sim.
Ainda não dá para fazer as coisas sem me lembrar de você. Ir ao mercado, dar uma volta na sua quadra, andar na sua velha rua, passar na frente da sua velha casa, mas o amanhã vai chegar e vai ficar tudo bem.
Obrigado por tudo que já me fez. Por cada conselho, cada dia juntos, cada abraço, cada saída. Nunca poderia crescer tanto sozinho, ou aprender tanto de qualquer outro jeito. Obrigado por me ensinar mais de como as coisas são, por me ensinar a cuidar de outra pessoa, por me ensinar a falar francês, por me ensinar o nome de cada cor que você vê ou que você acha que eu deveria ver corretamente.
Ainda guardo nossas fotos, não por querer sofrer, por te amar platonicamente, por querer te ver todos os dias, mas pelo que cada uma significa. Espero que você guarde também cada frase que escrevi atrás de fotos, cada uma delas significava muito para mim. Todas elas tem um som bom de olhar.
Algum tempo depois, eu soube que ela estava feliz e havia me superado. Mais tempo já se passou e só o que eu sei dela agora é que está com um amigo. Espero que ele te faça feliz como eu tentei, . Ele vai descobrir como você ama comer, as piadas que te fazem rir, os lugares que você sente cócegas, sua paixão por cada cor e como você gosta de mordidas no lóbulo.
Agora que a carta que nunca será enviada acabou, saiba que todos os nossos momentos juntos (não fui capaz descrevê-los aqui por egoísmo) serão para sempre só nossos, de mais ninguém.
, você foi meu sonho que acabou, mas vai ser sempre a lembrança mais cor de amanhecer que eu guardo.

Seu para sempre,
.




Fim.



Nota da autora: Olá, gente. Fiz essa fic há alguns anos atrás. Na época, algumas amigas estavam falando para eu fazer do meu ponto de vista de psicóloga, mas eu achei mais legal fazer do ponto de vista de um paciente em terapia. Eu costumava pedir para pacientes escreverem cartas para si ou para seus problemas. Então resolvi fazer algo assim, uma carta que não é bem uma carta e sim uma atividade terapêutica. Enfim, comentem o que acharam. Beijos!



Outras Fanfics:
Sinais do Tempo [Cantores - Harry Styles – em andamento] http://fanficobsession.com.br/fobs/s/sinaisdotempo.html

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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