The Curve of a Dream

Última atualização: 04/07/2020

Prólogo

As pessoas sempre estão em busca de algo que os faça sentir vivos. Para algumas o amor, sexo, filhos, uma experiência de quase morte, saltar de paraquedas, andar por uma corda a mais de cem metros do chão, por mais insano que pareça, os faz sentir cada célula de seus corpos de um jeito especial. Por muito tempo tentei descobrir o que me fazia sentir vivo, o que me fazia sentir vontade de sair da cama todas as manhãs para um novo dia. Nunca encontrei.
Pensei por muito tempo que ter uma namorada, poderia ser esse motivo, mas considerando o número de vezes que tentei, duvido muito. Pensei que talvez depois do casamento, e dos filhos, algo mudaria, mas não estava e nem estou disposto a fazer todas essas coisas para me certificar.
Estava em uma viagem por Mônaco, há mais ou menos três anos, quando o barulho dos motores enchera meus ouvidos e eu não consegui prestar atenção em mais nada. Quando os carros de fórmula um, faziam barulho na pista, alguns turistas, inclusive eu, é claro, olhavam as gloriosas máquinas embasbacados. O som dos motores tomou cada célula do meu corpo, era como se cada uma delas tivesse tomado um energético potente e ficassem quicando de um lado para o outro. O cheiro da borracha no asfalto, a energia daquele lugar. Naquele momento, eu percebia que queria passar o resto dos meus dias ali. Descobri nesse fatídico dia que o que me faria sentir vivo estava ali, bem na minha frente.
Sempre assisti aos prêmios e GPs pela TV, mas nunca dei a devida atenção, mas a partir daquele momento, aquelas coisas se tornaram minha vida. O que me mostrou que as vezes tudo que você precisa pode estar ali do seu lado, só esperando que você de uma boa olhada para se mostrar.
Quando voltei para casa, cheio de planos e expectativas fiz o possível e impossível para entrar nesse mundo. Coisas essas que nunca considerei fazer nem pela minha própria família. Consegui chegar a algum lugar, claro que ainda tenho muitas ambições. Alguns milhões para ganhar, alguns famosos para conhecer e coisas do gênero. Foi uma caminhada árdua, mas hoje eu vejo que estou perto, mas perto do que imaginei estar um dia. Hoje, eu sou , piloto de teste da François- , na Fórmula Um.

Capítulo 1 - Mademoiselle Rousseau

O dia estava quente, o sol alto, era quase hora da pausa para comer, estava fazendo alguns testes com o carro novo da François-. A minha equipe.
Jacques, um dos mecânicos estava comigo falando de mulheres e mexendo nos pneus. Alguns metros de distância de nós estava o atual presidente da François-, também conhecido como dono das nossas almas. François, costumava frequentar o pequeno autódromo da montadora, gostava de ver os testes, acompanhar tudo que era feito bem de perto, coisa que não era comum para alguém da patente dele. Hoje, François estava sentado em uma mesa, do lado de fora do refeitório. Com a roupa mais cara que devia ter no armário, o que também não era comum no dia a dia. Geralmente todas refeições eram servidas no refeitório, nunca tinha muita gente, então o salão pequeno e tenebroso servia. Nos dias quentes mesas eram postas na grama, perto da curva mais angulada, e comíamos ao ar livre. Algumas vezes, François comia com a gente, mas sempre em mesas com pilotos ou engenheiros, e sempre muito rápido. Não era um dia muito quente, até ameno demais para a época, mas as mesas estavam postas do lado de fora, principalmente uma bem grande, e cheia de comidas diferentes.
O relógio marcou 16:00 e depois de limparmos as mãos em uma flanela, o que era comum nesses tempos, pois eu estava mais para auxiliar de mecânico do que para piloto de teste, fomos nos sentar, para o tão esperado café.

- Está sentindo esse cheiro? – Jacques perguntou ao se aproximar de uma das mesas.
- De chá? Ou você fala dos croissants? – Respondi distraído com as muitas opções do cardápio.
- Não, morto de fome. Última vez que vi alguém comer aqui fora, sem alguém precisar desmaiar no refeitório...tem alguma coisa errada.
- Jack, meu querido amigo. Não deixe a paranoia atrapalhar esse momento. Última vez que vi uma mesa tão bonita foi no casamento da minha irmã, isso tem sete anos, e ainda faltam três anos para ela terminar de pagar a conta do buffet. – Jacques riu e passou a também encarar a mesa.
- Não vejo a hora de comer aqueles pãezinhos ali. – Agora ele parecia ter se dado conta da grandiosidade do momento com o novo cardápio.
- Sanduíche ou brioche com geleia? – Uma copeira perguntou ao se aproximar.
- A gente vai querer os bolinhos ali, querida. – Jack disse, apontando para a mesa.
- Desculpe, mas aqueles não são para vocês. Sanduíche ou brioche? – A garota disse um pouco impaciente.
- Como assim? Tem isso agora? Isso é sério? – Jack perguntou inconformado. Eu poderia ter a mesma reação, mas François estava ali, na mesa do lado, tinha que parecer equilibrado. Caso o contrário, eu já teria gritado e feito greve pelo meu direito de comer bolinhos.
- Sanduíche. – Eu disse.
- Sanduíche e brioche, então. – Jacques disse, inconformado. – Brincadeira, é isso que a gente ganha! Aposto que são para o François ou algum patrocinador, ou algum piloto que ele esteja de olho. – Percebi naquele momento que ele podia estar certo.

Os sanduíches chegaram e estávamos comendo com um grande refrigerante quando eu percebi uma movimentação diferente. Uma mulher. Mulheres não eram comuns ali naquela época, nem naquele horário. Uma mulher de cabelos castanhos e bem alta. Talvez a famosa mulher de François, mas não. A mulher dele era mais velha, e aquela devia ter uns trinta e poucos anos, no máximo. Ela usava um vestido azul marinho, e grandes óculos escuros, batom vermelho e o cabelo estava perfeitamente em ordem. Não tinha vindo de metrô ou ônibus até ali, com certeza.

- Mademoiselle . – François disse e se levantou, cumprimentando a mulher com um aperto de mãos bem caloroso.
- François, como vai? – A mulher sorriu timidamente. Era algo importante, François não receberia uma mulher como ela ali se não fosse algo importante. Resolvi me aproximar, arrastando um pouco a cadeira e ficar atento ao que acontecia na mesa ao lado.
- Você está ainda mais linda do que da última vez que a vi. Onde foi? Genebra? – François perguntou cortês.
- GP do Brasil, eu acho. Obrigada pelo elogio, François. Você também, está ótimo. – A mulher tinha uma bela voz francesa, mas quase sem sotaque.
- Claro, William ganhou aquele GP. Como esquecer? – Uma pergunta retórica. Javier, nosso piloto que tinha mais chances havia batido em uma curva na primeira volta. Claro que ele nunca esqueceria que outro tinha ganho a corrida.
- Sim, ele ganhou. – Foram servidos então os croissants, biscoitos, geleias e chá. Naquele momento eu entendi, François queria alguma coisa. A mulher aparentemente percebeu também, depois de tomar um pouco de chá, voltou seu olhar para o nosso presidente.
- Estou curiosa para descobrir o motivo deste convite, além de um chá na sua excelente companhia, é claro. – Ela foi mais direta do que eu achei que mulheres poderiam ser.
- Claro. – François riu sem humor. - , sempre direta e espirituosa. As mulheres deveriam ser mais como você. Bem, não farei rodeios. - Ela sorriu, colocando um biscoito com geleia na boca.
- Bom, como um dos primeiros entusiastas da sua carreira, eu fiquei muito feliz com sua premiação, aquela reportagem sobre os garotos na China foi realmente tocante, algo que adoraria. – François fez uma pausa dramática, que eu não compreendi. - É interessante ver o papel da mídia, do jornalismo no esporte, hoje em dia. Nós sabemos bem o quanto uma opinião bem dada pode mudar o rumo das coisas. – François e riram um pouco, diminuindo a atmosfera tensa que havia se instaurado segundos atrás. - Suas matérias, colunas, opiniões e coberturas sobre a Fórmula Um e todo meio que rodeia nosso esporte, tem feito com que o público adore cada vez mais nossos pilotos e equipes. Garotos não querem mais ser jogadores de futebol, querem ser pilotos, e as meninas querem se casar com pilotos e tudo isso graças a você. – François disse sorrindo. Não entendi porque ele puxava tanto o saco da mulher, nunca havia visto ele falando assim de alguém, não que eu visse ele falando muito.
- François, se o que diz está certo. Se garotas querem abrir mão de suas profissões e carreiras porque o grande sonho e meta é se casar com um piloto, então não estou fazendo meu trabalho do jeito certo. – François ficou sem resposta, engoliu seco e ficou em silêncio por alguns segundos, então a mulher riu e continuou. – De qualquer modo, agradeço o reconhecimento pelo meu trabalho. É difícil para uma mulher, ainda nos dias de hoje, conseguir reconhecimento em um meio dominado por homens. Seu reconhecimento, principalmente, significa muito para mim, desde o início até os dias de hoje. E eu acredito que isso se deve ao fato de eu conseguir falar de coisas que eu amo. – Uma mulher que ama corridas? Isso pode ser interessante.
- São méritos seus, . – François disse sorrindo um pouco sem jeito.
- Bem, continue o que estava dizendo. - disse sorrindo, uma pessoa intrigante.
- Claro. Eu me lembro de quando você começou, foi depois que . Vocês tinham isso em comum no início, jovens, querendo dominar o mundo e mostrar o seu valor. O irônico é que ambos foram domados pelo meio em que estavam.
- Ser uma repórter jovem, mulher e cobrindo corridas e os bastidores não foi fácil. Tive muita ajuda, você sabe o quanto sou grata. – disse serena.
- Sim, eu sei. Foi bonito ver as maravilhas que você fazia e faz quando fala bem de alguma equipe. É quase marketing. Sabe as coisas boas que chegam para essas equipes quando seu nome está envolvido. – François disse deixando algo subentendido.
- Essas coisas boas, essa visibilidade, só chegam se eu falo bem.- Ela riu. - E também, pelo prestigio do meu nome nesse meio, que construí com tanto esforço. E exatamente pelo cuidado que eu sempre tive em pensar bem cada palavra que uso.- concluiu.
- Talvez seja hora de você pensar bem em como pode nos ajudar. – François disse e nem eu esperava esse desfecho, por mais escancarado que estivesse. François não era o do tipo que pedia ajuda.
- Seja claro, por favor.
- Você entendeu, . Sabe melhor que ninguém como andam as coisas aqui. Sabe dos nossos déficits, você controla isso de perto, eu sei. E agora, está na hora de agir.
- Não sei se o que você me pede é possível. Você era amigo do meu pai e tio do , somos família. Mas eu não posso fazer muita coisa, vocês estão a muito tempo sem ganhar nada. Desde que morreu, parece que levou a François- com ele. Eu não posso me comprometer muito vinculando meu nome a vocês, principalmente quando tudo parece ser só questão de tempo. Eu realmente espero que você entenda o meu lado. Eu amo isso tudo também, sou uma das maiores interessadas na recuperação da escuderia, mas vocês precisam de mais que uma nota, uma entrevista, uma matéria. – Desta vez quem fez a pausa dramática foi . Eu estava atônito demais com tantas informações para esboçar alguma reação. - François, depois que morreu, vocês nunca mais foram os mesmos, não ganharam nenhum GP, corrida, nem nada do tipo. Até o faturamento da montadora vem diminuindo. Vocês não são vistos no pódio há uns dois anos. Eu amava o , sabe disso. Eu sempre disse coisas boas sobre vocês, sobre os carros, sobre ele. Mas agora pelo que eu soube vocês não têm pilotos, o carro está ultrapassado, ninguém a frente dos projetos. Eu lamento não poder ajudar mais nisso, não posso salvar esse navio. Não me peça para afundar minha carreira junto com a sua equipe. Eu lamento muito. Talvez possa ajudar com outras coisas, tenho muitos contatos, mas não posso vincular meu nome a François- . Não mais. Talvez seja a hora de voltarmos apenas a fazer carros. Eu sinto muito. – A mulher olhou com pena para François, e então começou a se levantar.
- . – François disse num tom mais alto e mais sério. – Eu sei o número de pilotos e escuderias que você tirou do poço e o tanto que você os ergueu. Você pode se esforçar mais, eu sei que pode. Sabemos. – François disse olhando para baixo.
- François, eu sinto muito, mas não vejo como.
- Você sabe o que eu fiz, pela sua família, seu pai e por você. Não gosto de fazer esse tipo de coisa, . Você me conhece. Mas que inferno, eu odeio ter que fazer isso com você. Mas não tenho outra opção. – Percebi ali que François estava muito desesperado. E senti medo.
- Eu sei o que você fez, sei exatamente cada ligação, cada ação, cada indicação sua. Mas é exatamente por isso que você tem que entender que eu não posso fazer muito, eu sou uma jornalista, não dirijo, não projeto, nem nada disso. Droga, François, eu não quero ver o que o construiu com você desmoronando assim. É uma parte dele isso aqui, mas eu não posso fazer nada! – A voz da mulher mudou, agora era uma discussão suave, com atmosfera tensa e a voz dois timbres mais alta. Assim que ricos brigam.
- Quando você se empenhou em tirar William do fundo do poço, você não se preocupou com sua carreira. Quando não se preocupou em esperar o corpo do esfriar por pelo menos um ano, você não ligou para sua carreira. – François disse num tom cortante e se levantou. A mulher ficou sentada de cabeça baixa, mas quando ela falou, seu timbre era extremamente calmo.
- Não fale do que não sabe, François. Só Deus sabe o que eu passei quando morreu. Eu ajudei William e quase afundei por isso. Aprendi minha lição. – A mulher olhava fixamente para François, e mantinha a coluna ereta.
- Lembre-se de . Você disse que não gostaria de ver o que ele construiu se esvaindo. Se não fará por mim, faça pela memória dele. Você ajudou William Reed uma vez e hoje ele é um dos melhores pilotos que temos na ativa. Há chances do mesmo milagre acontecer. – François disse sem emoção, ainda de pé.
- Eu preciso pensar. – se levantou. – E preciso de tempo. Mas não garanto nada.

sequer cumprimentou François, se levantou e saiu pelo mesmo lugar que entrou. Com a saída dela, nenhum outro som poderia ser ouvido, todos presentes estavam em um silencio terrível, até mesmo Jacques estava calado. François se levantou de repente e foi embora.
E então todos seres vivos ali, que antes estavam calados, agora estavam comentando toda a cena, parecia uma feira.

- Quem é ela? O que tem a ver com William Reed? – Perguntei de uma vez para Jacques, por saber que ele tinha muito mais anos de casa que eu.
- . – Jack respondeu sem humor e deu de ombros.
- Eu ouvi que o nome dela é , mas quero saber o que ela é do François. Percebeu a tensão? – Eu estava muito curioso com aquela cena, esse tipo de situação não era comum ali.
- Você não estava aqui na época. Sabe de onde vem o de François-? – Ele perguntou e arqueou uma sobrancelha.
- François, do François. E de outro sócio, Howard . Eles tinham algum grau de parentesco, não tinham? – Eu havia lido aquilo várias vezes quando comecei na François- .
- Pois é, isso é antigo. A escuderia foi fundada pela família do François, e de um amigo Howard , muitos e muitos anos atrás. Mas nesse meio tempo mudou muito, começou com carros, passou a categorias pequenas de automobilismo até chegar na fórmula um, mudou de nome, faliu, se reergueu. Estava quase falida quando outro Howard da família assumiu a direção da montadora. E aí, junto com François que na época era cunhado dele, resolveram dar uma repaginada. E funcionou, aí estamos aqui. Mas o Howard ficou doente, e voltou para sua terra com a esposa e o filho, mas um tempo depois, mandou o menino para cá, esse menino, , sobrinho do François, que na época era piloto, aprendeu muita coisa com ele. E o velho criou o garoto como filho. Depois de adulto, ele virou um piloto maior do que o François jamais ousou ser. E mudou muita coisa aqui, o era engenheiro mecânico, piloto, conseguiu fazer mais coisas boas que o pai. A François- é nova, perto das grandes por aí, mas ganhou muita coisa nesses anos, isso por causa do , principalmente. Sabe, dizem que esse William é o piloto da década, mas tenho certeza que se ele tivesse corrido uma vez contra o , ninguém mais se lembraria dele. era o melhor piloto que eu já vi, ele ganhou quase todas corridas que disputou no ano que morreu, aproveitamento de 60% por temporada. É um ótimo aproveitamento. – Jack fez uma pausa e sorriu, depois de pensar sobre o que havia dito. – Eu venerava o . Eu trabalhei com ele, sabia o que fazia, ele ajudava desde o projeto do carro até os testes, ele respirava correr. E então, um belo dia, sem explicação, sofreu um acidente terrível, e morreu. - Jacques disse com pesar.
- Eu me lembro. Li sobre a morte dele nos jornais. Morreu em uma curva, Mônaco. – Eu me lembrava da notícia, só não me lembrava bem que o tal era o de François-.
- Se quer saber dessa daí, pesquise na internet, não vou falar dela. tinha adoração por ela, e depois da morte dele, meses depois ela já estava se esfregando com William Reed. é assunto proibido na François-. Pelo menos era, até agora.

Jacques disse isso e se levantou, já era hora de ir para casa. Eu estava louco para chegar em casa e pesquisar tudo que poderia encontrar sobre . Se ela era esse tipo de pessoa, assunto proibido na escuderia e mesmo assim François tinha suplicado tanto sua ajuda, era porque as coisas realmente não estavam nada boas. Qualquer informação era suficiente. Quem era ? O que ela fazia? O que aconteceu entre ela e ? O que acontecia com ela e William Reed? Perguntas que, suas respostas podiam custar o emprego, chances e sonhos que eu tinha no momento.
Quando cheguei em casa naquela noite, comi um resto de pizza que tinha na geladeira, do dia anterior. Estava morando sozinho, por causa do trabalho, pizza era minha primeira e última opção sempre. A primeira coisa que fiz aquele dia quando vi o computador foi colocar o nome no navegador. Muitas coisas apareceram. Fotos com alguém que eu reconheci como William Reed, e outras com . Links de artigos escritos por ela e entrevistas. Depois de zapear por eles percebi que o que François disse mais cedo era verdade. A mulher tinha o dom. Ela tinha lábia, como comentarista esportiva era mais que maravilhosa, e como mulher era linda também, não podia negar. A pesquisa passou a ser então “ e ”. Muita coisa surgiu nesse ponto. Muitas manchetes em sites esportivos e de fofoca.

seria o piloto do século se amadurecesse agora. –
*
“Estressado ou mimado? recebe punição de três posições no grid para a primeira corrida da temporada, no Grande Prêmio da Austrália. Largando mais atrás, graças a uma violação de bandeira vermelha no segundo treino livre. ’’
*
“Entre punições e pódios: O novo queridinho das pistas e a fama de nervosinho’’
*
"Por trás do volante: Quem é ? –
*
“As dez apostas para a nova temporada da F1: François-...por
*
: de repórter a primeira mulher comentarista de corridas de F1”
*
“A François- tem o essencial para dar certo no novo século da F1 –
*
com nova namorada. ”
*
“Comentarista de F1 fisga piloto”
*
“Casal F1: como anda a vida do casal mais bem-sucedido do esporte. ”
*
“Noivos: Jornalista e Piloto anunciam noivado na vitória em Dubai. ”
*
“François- é a aposta do século –
*
“F1: Casamento de piloto com comentarista leva peixes grandes até Paris”
*
“Casal -: Nasce o primeiro fruto da relação Comentarista-Piloto”
*
“Dia a Dia de -: Comentarista, mãe e esposa de um dos melhores pilotos do século”
*
“Pai do ano: Como anda a vida de . ”
*
“Tragédia: Acidente inesperado acaba com o sonho. ”
*
“Fim da era : O que será da François- agora? ”
*
“Viúva de : tem tarde animada com William Reed. ”

Mas os sites de fofoca me direcionaram também para e William Reed.

“William Reed e a nova era da Fórmula Um. –
*
“William é jovem, é normal que a pressão o atrapalhe agora, mas isso não muda quem ele é nas pistas. –
*
e William: Magia da F1 toma novos corações. ”


Eu vi ali o motivo de nunca ter escutado falar sobre a tal mulher do . Não que soubesse de algo sobre a vida pessoal dele e de François, mas aquela situação, o aparecimento inesperado daquela mulher ali, era o sinal de que as coisas na escuderia não estavam indo bem. Era uma mulher linda, bem-sucedida, rica e com grande prestígio no meio esportivo. Viúva de um piloto quase invencível e agora namorada da grande aposta do século. O que mais me preocupava naquele momento era a situação do meu ganha pão. Era verdade que estávamos sem pilotos e equipe, mas para mim e para todo o resto, estava na hora de uma renovação, pilotos novos e badalados chegariam em breve. Mas ao que pareceu estávamos a ponto de falir, sem dinheiro e moral. Eu não consegui dormir aquela noite, a ideia de ver que tudo que eu havia tido tanto trabalho para construir, se esvair das minhas mãos como água me deixou preocupado.
Na manhã seguinte, tudo correu normalmente. Mas ninguém disse sequer uma palavra sobre os últimos acontecimentos. O clima estava pesado, como se todos estivessem esperando o pior.

- Agradeço que ninguém simplesmente não veio ao trabalho hoje, depois de ontem. – François disse aparecendo de surpresa ao meu lado, fazendo meu coração parar. – Devem todos estar se perguntando, desde os últimos acontecimentos, se a nossa situação está tão ruim quanto se ouve falar. – Ele disse mais para si, do que para qualquer outra pessoa que estivesse ali. No caso, Jacques e eu.
- E está? – Jacques perguntou sem nem levantar os olhos para olha-lo.
François respirou pesadamente:
- Sim, a situação é tão ruim quanto. A maioria dos engenheiros e mecânicos tiveram outras oportunidades e nos deixaram. Nossos pilotos foram para o mesmo caminho. Não vencemos nada há mais de dois anos. Nossa última chance está há cerca de seis meses de distância. Se ganharmos essa, temos direito a mais um suspiro, se perdermos, estamos acabados. – François apoiou as mãos na mesa enquanto pronunciava a última frase e respirou fundo
- Por que precisamos da ajuda daquela mulher? – Jacques perguntou, eu nunca o tinha visto falando com François, estava chocado com aquela interação.
- Aquela mulher é a única que pode nos ajudar. A François- é dela também, dela e do garoto. Ela não quer que a herança do fique para as traças. Ela tem muito dinheiro, pode ter certeza. Mas não se trata do dinheiro, se trata do valor sentimental que isso aqui tinha para o e tem para ela. Se alguém pode nos tirar do fundo do poço, é . Eu não gosto de ter que pedir ajuda a ela, mas é necessário. – Pelas palavras, era perceptível que ele considerava muita humilhação.
- De qualquer modo, não é hora de se desesperar ainda, precisamos...- François foi interrompido quando em um rompante, entrou.

Ela estava tão bonita quanto no dia anterior, hoje usava um grande casaco vermelho e jeans.

- Mademoiselle . – François disse sem emoção.
- Monsieur François. Lamento ter interrompido. Há algo que precisamos conversar. A sós. – Ela disse com uma quase educação até desnecessária, levando em conta a situação.
- Não se preocupe. Estamos falando disso, se quer conversar sobre o que falamos ontem, pode falar aqui mesmo. – François se sentou e encarou a mulher, que parecia extremamente incomodada.
- Não acho prudente tratar deste assunto assim, com tanto descaso com a segurança das informações, François. – não cederia. François bufou e a conduziu a um pequeno escritório perto dos boxes, onde pela graça de Deus, era possível ouvir tudo que se falava.
- E então? – François questionou. –Eu achei que demoraria mais para tomar uma decisão.
- Eu pensei sobre o que falamos ontem. não gostaria que eu cruzasse os braços e deixasse a escuderia afundar. Além dos meus próprios interesses, a François- pertence ao Alex, e não quero que a principal coisa que o pai o deixou se esvaia, não dessa forma. E tem todas pessoas que dependem disso. E há alguns anos eu disse que vocês eram a aposta do século, se eu deixar que vá tudo para o buraco, eu vou ser conhecida como a pessoa dos palpites errados. E isso não será bom para mim de qualquer modo. – A mulher disse rápido e se sentou bruscamente.
- Bom. Você está certa. – François pensou alto. – Significa que vai ajudar, suponho eu. Gostaria de ouvir suas ideias. Tenho certeza que pensou em mil coisas. - A mulher ficou em silêncio alguns segundos.
- Quero ver o que vocês têm. Toda tecnologia, tudo que pode ser usado para desafundar isso aqui. Quero ver também um balanço das contas. Tenho alguns amigos que podem ajudar, já entrei em contato. Desde engenheiros até mecânicos. – Ela era boa naquilo, não dava para negar.
- , não quero ser indiscreto, mas o que te fez mudar de ideia assim tão rápido? – François perguntou desconfiado.
- Fora o fato de isso ser parte do meu filho e ter pertencido ao meu marido. Bem, quando fui colocar o Alex para dormir noite passada, encontrei um projeto do , estava guardado com nosso filho há muito tempo. Foi o último que ele fez antes de morrer. Depois, eu tentei pensar no que o faria. - François a interrompeu.
- E o que ele faria? – O homem ficou um pouco mais interessado na conversa e eu também.
- Ele teria dito, “Não sei porque você esperou tanto tempo para fazer alguma coisa. ” E teria agido, transformado vinho em água se preciso fosse para levantar a escuderia novamente e devolvê-la os tempos de glória. Ele não gostaria que eu ficasse alheia ao seu fracasso também, pois o seu fracasso aqui, também seria o dele. – François sorriu, e do lado de fora, demonstrando também ouvir a conversa, Jacques sorriu do mesmo modo, o que foi no mínimo estranho.
- Desde quando consegue se comunicar com espíritos? - François perguntou num tom mais leve.
- Eu só o conhecia bem. – sorriu também.

Capítulo 2 - Transição

Aquele tinha sido um mês atípico. Desde meu primeiro dia na François- era a primeira vez que eu conseguia ter o gostinho do que é trabalhar numa escuderia de verdade. Depois da conversa com , muita coisa havia mudado, começando pelas reformas, haviam pessoas cuidando da pista, das cabines, dos boxes, das salas de reunião, refeitório e até do gramado. Gente passando para todo lado, pessoas instalando equipamentos, entregando suprimentos, pneus e tudo que você pode imaginar ligado a carros. A equipe tinha aumentado, mas ainda nem sinal de pilotos novos ou carros. Havia um boato que François queria muito William Reed, que por sinal estava próximo de trocar de equipe, e assim nós teríamos um só carro na abertura da temporada. Mas queria três carros com três bons pilotos, mas jovens, das categorias de base. Acho que queria garantir pelo menos uma boa largada, começar debaixo, subindo aos poucos de posição.

- Eu estava com saudade desse movimento. - Jacques disse enquanto mexia com algumas bombas.
- Era assim antes, não era? – Eu perguntei, cheio de vontade de ver tudo aquilo em pleno vapor.
- Sim, era até melhor. – Jacques sorriu e eu me lembrei dos últimos acontecimentos.
- E quando estava aqui? – Perguntei incerto se ele responderia, mas ele sorriu.
- Quando estava aqui... sabe, se ele estivesse aqui, ele estaria ali. – Jack apontou com o queixo para onde alguns funcionários checavam os pneus recém-chegados. – Conferindo se eram os certos, ou aqui com a gente falando uma besteira qualquer. Mas eu tenho certeza, que se ele estivesse aqui, nada disso teria acontecido.
- Não teríamos falido. – Completei.
- Não, com certeza. – Percebi que talvez Jacques estivesse um pouco ressentido, só não entendi o porquê.
- Ele era tão bom assim? Todos falam dele como se fosse, o cara. – Fiz aspas com os dedos ao pronunciar a última palavra.
- Ele era o cara.- Jack repetiu meu gesto. - Era demais, tudo que ele podia fazer por alguém ele fazia. O cara era demais, quando se casou, todo mundo queria ser convidado, e ele convidou a equipe toda, do pessoal da limpeza até os pilotos, e ela nem ligou, achou fofo como ele se importava com os outros. Ele amava a família, o filho. Sempre trazia o moleque para cá, ensinou bastante coisa para ele, e olha que quando ele morreu o garoto só tinha sete anos.
- Boa pessoa. – Concordei.
- É, era homem, mas não queria fingir não ter sentimentos. Sabe, quando o menino nasceu, o Alex. Ele me ligou chorando para contar.

* * *

- , são lindas!! – disse segurando as rosas que o marido havia lhe dado.
- Eu estava pensando em você. Aí vi essas flores e pensei, não tenho como retribuir o presente. - Ele disse tocando a barriga de nove meses da mulher. - Mas posso tentar. – Ele sorriu daquele jeito que deixava ela sempre de pernas bambas.
- Você tem que parar de ser tão maravilhoso, Monsieur . – A mulher passou os braços nos ombros do marido.
- Sabia que eu amo quando você deixa seu sotaque francês aparecer?
- É mesmo? – Ela disse forçando o sotaque novamente.
- Me dá uma espécie de orgasmo, só de te ouvir. Parece que ainda é a primeira vez que eu te vejo, as mãos suando, pernas bambas. – disse.
- Eu me sinto da mesma forma. Eu te amo, . – Ela disse, deu um selinho no marido e sorriu, ainda com as testas grudadas e sem abrir os olhos.
- Je t’aime. – sussurrou, fazendo a mulher sorrir ainda mais.
- Je T’aime, ! – Eles ficaram ali por algum tempo abraçados, mesmo com a barriga impedindo que estivessem totalmente juntos.
- Ai! – e disseram juntos.
- Eu senti o chute. – disse rindo, mas parou quando percebeu os olhos arregalados da mulher.
- Eu senti um pouco mais. – Ela disse rápido.
- O que foi, eu te machuquei? – Ele disse preocupado.
- Não. – Ela disse e arregalou mais os olhos, no momento que percebeu um barulho estranho. – Acho que é a hora.

Ela disse e arregalou os olhos dessa vez. Ficaram alguns segundos sem saber o que fazer, e então disse.

- Minha bolsa. - Ela parecia sentir dor, e isso deixava angustiado.
- Tá bem! Tá bem!

Depois de pegarem tudo, acelerou o carro mais do que acelerava nas pistas. Parecia um piloto de fuga, enquanto isso, tentava não desesperar o marido, segurava a dor, o medo e os gritos para si mesma.

- Está tudo bem? – perguntou.
- Sim. – Ela respirou fundo, e disse com uma voz fraca. – Só vamos logo.

Quando chegou no hospital, foi para algum lugar que não soube e nem conseguiu prestar atenção. Depois de alguns minutos e de umas cem voltas na sala de espera e de algumas ligações, um enfermeiro o convidou a assistir o parto, sem nem pensar duas vezes disse sim.
Depois de vestido, ao entrar na sala de parto, ele encontrou uma com respiração ofegante, então ficou ao seu lado e segurou sua mão.

- Eu estou aqui. – Ele disse tentando disfarçar seu próprio medo.
- Eu sei. Eu te amo. – Ele sabia que ela estava sentindo muita dor, e então tentou amenizar.
- Sabe o que me fez apaixonar por você? - Ele disse enquanto ela fazia força, talvez escutar a voz dele a acalmasse ali também, já que ela sempre dizia que a acalmava em todas as situações. Ela olhou para ele. - Quando eu vi você, eu pensei, “Uau, quem é essa mulher? ” Sabe, você estava ali, falando de corridas, era tão linda, e nem olhou para mim. Eu fiquei estarrecido. – Ela fazia ainda mais força, e agora lágrimas escorriam de seus olhos. – E então eu pensei, “Meu Deus, nem que leve cem anos, eu vou conquistar essa mulher e ter vários filhos. ”
- Cem anos? – Ela sorriu enquanto ainda fazia força e ambos ouviram o médico dizer, “Está quase lá!”.
- O tempo que leve, porque a partir daquele momento, eu não existiria sem você, eu precisava estar perto de você para os meus pulmões funcionarem e meu coração bater. Você está desde aquele dia, comigo. E desde aquele dia, quando eu estou perto de você é como se meu sangue fosse fogo. Se eu passar a eternidade com você, não seria o suficiente. - E nesse momento ouviram o choro do bebê.

Quando o médico entregou o bebê aos pais, os dois estava tão extasiado que não conseguiram dizer nenhuma palavra. Era um bebê grande e gorduchinho, mas o mais lindo que já haviam visto.

- Quer segura-lo? – perguntou a , o homem olhou incerto, mas aceitou.

Quando segurou o filho nos braços pela primeira vez, foi como se não existisse mais nada a sua volta. Era apenas ele e o menino ali. Ele nem conseguia entender o que sentia, suas veias queimavam, sua pele formigava, ele sentia seu coração acelerado e os olhos arderem. O menino estava ali, o seu Alex, o seu filho, com a mulher da sua vida. Era tão frágil, parecia que a qualquer momento poderia quebrar. Quando ele levou a mão até a do recém-nascido, o pequeno segurou seu dedo indicador com a pequena mãozinha, e então, a corrente que passou por seus corpos poderia acender a França inteira por anos, e nesse momento, ele se sentiu pai, e não conteve as lágrimas.
Quando levaram o bebê e estava descansando no quarto. Ele precisava falar com alguém, ainda estava chorando, mas precisava contar ao mundo a felicidade que sentia.

- Jacques?! – Disse quando o amigo atendeu o telefone.
- ? Algum problema? Está chorando? - Jacques perguntou preocupado.
- Meu filho. – disse em meio a lágrimas. - Ele nasceu!
- Que notícia ótima, ! – Os dois riram juntos.
- Ele é tão lindo! Tem o nariz da , e ele segurou meu dedo. Nossa, eu nem sei explicar o quanto eu estou feliz. – chorava e ria ao mesmo tempo.
- Que bom que ele puxou a ela então. Eu estou muito feliz por você, meu amigo! – Os dois riram mais ainda.
- Obrigada por sempre estar aí. – disse.
- Eu sempre vou estar aqui para você, . Da maneira que quiser.

* * *

- Jacques? – O cutuquei, ele estava em outro planeta.
- Sim?
- Você viajou, olhando para o nada, estava em transe, sei lá. – Ele havia me assustado um pouco.
- Eu só me lembrei de umas coisas. – Ele disse saudoso.
- Se ele estivesse aqui, com a gente, na nossa posição. Sem ser dono de nada, o que ele faria? – Eu disse encostando em uma pilastra.
- Ah, fácil. Ele estaria aqui falando da de como ela era séria e de como ele gostava de mulheres sérias. Falando que se ela não tirasse a gente da lama, ninguém tiraria. Acho que em todas as posições, em todas as vidas ele ia ficar caído por aquela mulher. Parecia feitiço. – Jacques balançou a cabeça como um claro sinal de desaprovação. - Ou estaria ali ajudando em alguma coisa, parando as vezes para limpar o suor e sorrir para gente e fazer algum comentário gay. – Jacques riu.
- Você realmente conhecia bem ele, né? – Jacques acenou ainda rindo. – Eu gostaria de tê-lo conhecido.

Antes de Jacques responder ouvimos um pigarro, não posso explicar com palavras a nossa cara de susto quando notamos bem atrás de nós, possivelmente ouvindo tudo que havíamos falado.

- Jacques. – Ela disse com o nariz em pé, mas a voz denunciava sua incerteza.
- . – Jacques disse sem animação, olhando mais para o horizonte que para ela.
- Você sabe que pode me chamar de . Como vão? – Ela disse tentando parecer simpática. E aparentemente se referindo a mim também.
- Só chamo os meus amigos por nome. Não é o caso. – Jacques disse virando as costas e caminhando para outra bomba.
- Ei, Jack. Não precisa ser assim. – Ela caminhou até ele. Surpreendente.
- Deixamos de ser amigos quando você resolveu esquentar a cama com aquele bêbado do Reed. – Ele disse cuspindo as palavras, melhor, vomitando.
- Olivier! Você sabe que não foi assim. François, a mídia e todo mundo dizer isso, tudo bem. Você não, você sabe! – Ela estava irritada e Jacques exaltado.
- Você ainda usa a desculpa de que prometeu ao ajudar o Reed? Sério, ? Quando ele disse ajudar foi com uma matéria legal, não com sexo legal. – estreitou os olhos de um jeito bem demoníaco. – se envergonharia de você, espero que ele não possa te ver de onde ele está, porque... - Antes de Jacques terminar, deu um belo soco em seu queixo, Jacques se desequilibrou e quase caiu de joelhos.

estava com o olhar carregado de “ eu não acredito que você disse isso. Você é um grande idiota’’. E eu até entendia, o que não entendia era toda aquela tensão entre os dois. Um dia, Jacques demonstrava total indiferença, no outro puro rancor.

- Você não cansa de ser um idiota? De fazer coisas estúpidas? Sério, Jacques. Você ao menos sabe mais do que os jornais dizem para me julgar desse jeito. – Jacques se mantinha estático e então se levantou e saiu, sem dizer uma palavra. A e a mim restou encarar suas costas enquanto ele sumia.
- Ele não me odiava assim da última vez que nos falamos. Um ano atrás. – Ela disse surpresa para mim e eu que nunca tinha recebido nem um bom dia daquela mulher, agora era notado duas vezes em menos de vinte e quatro horas.
- Ele anda meio inconstante. Nem eu sei explicar. – Eu disse ainda mais confuso.
- - Ela estendeu a mão em um cumprimento e sorriu.
- - Eu correspondi o gesto e sorri.
- Bom, eu estava aqui para ver o carro de vocês, mas acho que o Jacques não vai me mostrar, então será que você poderia? – Claro que eu poderia. Obviamente.

O carro que ela se referia era um dos que não costumávamos usar nas corridas, por isso ele ficava no autódromo. Ele nunca foi completamente terminado, sempre faltava alguma coisa e ninguém queria investir nele. Ficou esquecido. Com o aval de François, as vezes Jacques e eu mexíamos nele, mas nunca conseguimos mudar muita coisa.

- Seu desejo é uma ordem. - Disse sorrindo e ela riu. – O que foi?
- Essa frase. Me soa familiar. – Ela sorriu olhando para baixo enquanto caminhávamos.

* * *


- Por que você não consegue colocar as roupas que usa no lugar? - questionou irritada, com uma camisa vermelha e uma meia suja nas mãos.
- Eu ia dessa vez, eu juro. – gritou de outro cômodo, se explicando.
- Eu vou te expulsar da minha casa. – esbravejou indo até onde estava.
- Eu não pude. Regras da casa. – estava sentado no sofá, TV desligada, completamente imóvel enquanto Aladim, gato de , dormia em seu colo.
- Eu achei que você não gostasse dele. Da sensação. – disse, rindo.
- Não gosto, parece que eu estou com um grande...você sabe o que dormindo em cima de mim. - disse fazendo careta. – Mas você disse que não devo incomodar os gatos, seu desejo é uma ordem.
- Sabe, se me dissessem que eu estaria vendo essa cena, eu não teria acreditado. – gargalhou. – Mas você ainda precisa parar de espalhar suas roupas por aí. Dá próxima vez, vou jogar pela janela.
- Seu desejo é uma ordem. Mas assim que o gato acordar.
- Assim que o gato acordar. – concordou.

* * *


- Como é voltar aqui, depois de tudo? – Perguntei e me arrependi assim que as últimas palavras saíram da minha boca.
- Horrível. – Ela disse depois de um tempo relativamente grande. – Parece que a qualquer momento eu irei vê-lo. Mas eu não vou. - Ela sorriu triste. – É ainda pior porque se ele pudesse dizer alguma coisa, eu sei que brigaria comigo por deixar que todos aqui me odeiem. Mas é mais fácil. E eu não sou tão forte assim.
- Não entendo como deixar que todos te odeiem seja mais fácil.
- É ainda mais difícil superar a morte de alguém quando se convive vinte e quatro horas com uma lembrança. Claro que minha casa ainda é a casa dele. Depois de quase dois anos, se ele aparecesse veria que nada mudou de lugar. - Ela sorriu saudosa. – Mas aqui, é diferente. É mais fácil não ser bem-vinda em um lugar que não se quer frequentar.

foi simples, acessível e sincera em suas respostas para alguém que ela nunca tinha visto na vida. Talvez eu estivesse sonhando com tudo aquilo, na verdade era a única explicação possível.

- Alex tinha direito de crescer aqui. Era o que teria feito se estivesse vivo. - A voz de Jacques saiu das profundezas do abismo e fez com que e eu nos virássemos para vê-lo.
- Você está certo. Mas o que eu posso fazer? Ele não está vivo. Sabe quanto tempo demorei para criar coragem e vir aqui para aquela conversa com François? Depois do convite dele, dois meses. – Certo, ela realmente não tinha superado a morte do marido.
- Você continua insuportavelmente dramática. – Jacques disse seco.
- Continuo. Estou ainda pior. – Ela disse séria.
- Vamos logo ver essa droga de carro, François disse que só vou poder ir embora depois que te mostrar. – Jacques disse pouco amistoso, e nós o seguimos.

Depois de descobrir o carro, tirou o casaco e começou a analisar de perto. Eu não entendia como aquela mulher que eu vi, havia se tornado essa. Claro que ela ainda estava impecavelmente linda, mas agora parecia além de mulher normal, uma mecânica.

- Vamos ter que fazer muita coisa, mas o motor está bem feito. Esse sistema de combustível deu muito trabalho para ser pensado, não vamos desperdiçar. Se der tudo certo, para a próxima corrida, esse aqui deve servir. Mas com essa equipe e com você, Jacques, nós vamos conseguir. Você conhece esse carro tanto quanto ele.

Eu estava embasbacado, olhava melhor o interior do carro. Tínhamos mais dois carros, que eram dirigidos pelos pilotos, mas esse nunca foi dirigido por ninguém, ainda não estava pronto, ninguém corria com ele há anos. começou a tirar coisas estranhas do interior o carro. Embalagens de balas, chocolates, uma meia e até um brinco. Jacques e eu olhávamos a cena totalmente confusos. Até Jacques notar algo, que eu, obviamente não percebi.

- . – Ele disse com um sorriso leve de surpresa.
- Ele sempre espalha embalagens de doces por aí. – disse sorrindo.

* * *


- Lewis, eu vi o jogo do seu time ontem. Achei que você nem apareceria por aqui hoje. – disse rindo.
- Você não tem nada melhor para fazer, não? Tipo terminar esse carro?
- E aí, meninas! Como está, menina loira? – Jack disse se referindo a , que o respondeu com o dedo do meio.
- Oi. Quero fazer uns testes no carro. – disse sério. – Te chamaria se tivesse um banco de trás para testarmos, mas não tem. – Jacques riu e dessa vez ele respondeu com o dedo do meio.
- Não sabia que homens casados ainda sabiam para que é usado o banco de trás. – Lewis disse rindo.
- Quando o assunto virou meu casamento? – fingiu estar afetado.
- Ele é uma mocinha. – Jacques zombou novamente, enquanto entrava no carro, já vestido.
- Quando se casa, a gente não precisa do banco de trás. Tem muito mais espaço em casa. – disse arrumando os últimos detalhes antes de arrancar.
- Como está Paris? – Jacques perguntou se referindo a , enquanto comia um chocolate. – Você vai acabar morrendo de diabetes.
- Eu não vou deixar vocês tão cedo, Olivier. E ela está bem, quando eu chegar em casa vai estar me esperando com um vestido bem bonito. Vamos sair para jantar. – disse se encostando no banco.
- Você está caidinho por ela mesmo, não está? - Jacques perguntou.
- Dá para perceber? – Ele riu maroto. – Ela é perfeita, a mulher da minha vida. Nosso aniversário está chegando, então eu chamei ela para ir num concerto da sinfônica, mas ela não quis. Ia ter um jogo de futebol no dia, e ela queria ver. Então nós compramos entradas para o jogo.
- Ela me surpreende. – Jacques disse observando o amigo sorrir.
- Ela é demais. Até hoje, quando ela chega perto de mim, parece que vou vomitar de nervoso.
- Vocês se merecem. – Jacques sorriu.
- É, e eu não vejo a hora de termos mais filhos. Quero uma menina. Já estou pensando no nome. – disse animado, comendo outro doce.
- E você já contou isso a ela?
- Sim. Não a parte do nome. Ela é muito ansiosa. Eu pensei em algo do tipo, Genevieve, ou Sarah, ela gosta de Emily, mas eu não acho que ela vá gostar quando descobrir que minha ex-namorada se chamava Emily. – gargalhou. – Mas a Lou pode colocar o nome que ela quiser, no final eu sempre faço o que ela quer. – fez uma careta engraçada e colocou o capacete, arrancando e saindo do boxe com velocidade.

* * *


- E a meia e o brinco? - Eu perguntei, aparentemente mais surpreso que os dois em encontrar lixo de uma pessoa que morreu há dois anos dentro de um carro.
- Eu me lembro quando ele chegou em casa sem uma meia. Ele nem sabia onde havia perdido. E o brinco, é meu. Eu perdi o par e pedi para que ele guardasse esse para mim, enquanto eu procurava. Ele o perdeu também. – Ela e Jacques gargalharam juntos.
- Ele sempre foi uma formiga atrapalhada. Lembra quando ele trouxe o Alex para cá e aí você veio e buscou o garoto e o se esqueceu. Ele ficou como louco procurando ele aqui. Duas horas depois ele tomou coragem para te ligar e contar o que aconteceu e aí você disse que ele estava com você. – Eles riram ainda mais alto.
- Ele não esquecia do Alex por mal. Na verdade, ele nunca o esqueceu de verdade. Eu sim, duas vezes. – ria alto escorada no carro.

Eu nunca havia me dado ao trabalho de pesquisar ou nunca havia dado atenção a assuntos que envolviam . Mas ali, ouvindo e Jacques falando dele, eu comecei a desejar que ele não tivesse morrido. parecia alguém tão especial e bom, que mesmo sabendo que ele já estava morto há quase dois anos, tudo que eu queria era ser seu amigo.

- Ele nunca terminou esse carro. Sempre dizia que era um trabalho dele e que seria seu legado. Não deixava ninguém ficar por perto quando estava trabalhando nele. – Jack disse tocando delicadamente o aerofólio do carro. – Estava quebrando a cabeça com o sistema de amortecedores. Lembra de como as vezes ele parava, estático, do nada e começava a ter ideias? – Jack disse saudoso.
- Quando estávamos saindo, no início de tudo, eu estava perguntando sobre a família dele, e ele ficou assim, no meio da rua. Eu fiquei desesperada porque achei que ele estava se sentindo mal. E então, ele se virou para mim, depois de uns dez minutos, sorriu e disse pneus ultra macios. E continuou a conversa como se nada tivesse acontecido. – riu alto acompanhada por Jacques. – Depois eu me acostumei com isso.
- ... - Jack disse sorrindo. – Ele deve estar feliz por você ter aceitado, por estar aqui. – Nesse momento eu estava como uma criança, olhando de para Jacques, e de Jacques para .
- Ele não queria que eu me afastasse daqui. Você estava certo quando disse que Alex devia ter crescido aqui. – A mulher suspirou. – Mas as coisas são mais difíceis do que parecem. Depois daquele dia, eu não consegui entrar em casa por um mês. E mesmo assim, mesmo hoje, as vezes eu chego em casa e acho que ele vai estar lá. Dormindo no sofá, ou cozinhando. É mais fácil lidar com isso de longe. Mais covarde também. Eu só finjo que ele está viajando e que logo deve voltar. – Jacques não respondeu. Poucas pessoas conseguiam dizer algo perante aquele tipo de desabafo e eu estava bem longe de participar desse seleto grupo, assim como Jacques, aparentemente.
continuou:
- Semana passada, eu cheguei mais tarde do trabalho. Fui direto para cozinha, e tinha um post-it novo na geladeira. Estava escrito, acho que nunca dei tanta atenção a algo tão simples. – riu. - Estava escrito: Liv vem aqui amanhã, por favor, não deixe ela mexer no meu projeto. Tem pizza na geladeira. Por favor, não coma tudo. Eu li, sorri e continuei a vida. Por quinze minutos, eu esqueci que ele morreu, parecia que eu iria entrar no meu quarto e encontrar ele lá, deitado, dormindo. Parecia que tudo estava no lugar. E então eu fui até o quarto do Alex, o cobri melhor e fui para o meu. Só quando acendi as luzes que me dei conta de que nada havia mudado. Eu voltei à geladeira, encarei o bilhete. – Jacques a olhava com pena, minha expressão não devia ser diferente. – A letra do Alex e do são praticamente as mesmas. E normalmente reclamava quando a nossa sobrinha, Liv nos visitava. Principalmente porque eu sempre deixei que ela fizesse tudo lá em casa. Mas dessa vez não era o preocupado com um projeto de algum carro. Era o Alex preocupado com um projeto de escola. Mas por um momento, pareceu tão real. Mas tão real. – terminou encarando o chão.

Capítulo 3 - O que os novos ventos trazem

* * *


Era domingo de manhã, Grande Prêmio de Mônaco. sabia exatamente o que fazer, mas não sabia como fazer.

- É só colocar o microfone na cara deles. Eles vão falar. – René, seu companheiro de externas e cinegrafista aconselhou. - O que as pessoas mais querem aqui é aparecer.
- Eu não posso fazer isso. Não sou uma grosseirona. – Disse se sentando de qualquer jeito numa cadeira. – O que François diria? Eu tenho que me comportar, é o meu primeiro dia e o nome dele está em jogo.
- , entenda. Ele apenas fez uns telefonemas. Você está aqui por mérito. E ele não está te vigiando. – René disse, enquanto organizava o equipamento distraído.
- Meu pai me ensinou uma coisa. – Explicou, se levantando e ficando frente ao amigo. – Mais importante que nunca esquecer quem lhe fez mal, é nunca esquecer quem lhe fez bem. E eu sou recém-formada, sabe o que as outras garotas da minha turma estão fazendo?
- Estagiando na Vogue? – René zombou.
- Isso, tripudia. – respondeu ranzinza.

Já que nada ajudava a melhorar o nervosismo, resolveu observar os arredores. As maravilhas de cobrir os bastidores de um esporte tão rico e importante, eram os shows à parte fora das pistas. Mas ela já conhecia, sendo filha de um dos mecânicos da François-, havia perambulado muito por ali, não nas corridas, claro. Mas era um espaço familiar.
Tudo fluía normalmente, até que algo a tirou completamente da orbita. Um homem, ele tinha alguma coisa. Um brilho diferente. Usava um macacão azul e cinza de piloto e tinha um capacete nas mãos, ele sorria e acenava para alguém. Parecia um sorriso tão verdadeiro, contagiou tudo ao redor, como se nunca mais ninguém ali pudesse se sentir triste de novo. o acompanhou paralisada, girando em seu próprio eixo, como um planeta desengonçado e perdido.

- Ah não. Você também não. - René disse, mas não conseguia olhar para outra coisa além daquele anjo. – Para de secar o , sua safada.
- O quê? – perguntou confusa.
- Para! – René zangou-se.
- Eu não...estava... – desviou o olhar para René e de volta para o homem, até ele sumir na confusão dos boxes.
- A última repórter saiu por isso, sabia? – Questionou o cinegrafista.
- O que? Eu não fiz nada. – Defendeu-se . – Nem sei quem é ele. Quem é ele?
- Você é mesmo uma péssima repórter. – René balançou a cabeça, incrédulo. -Aquele era Problema . Ele é filho do diretor da François-, riquíssimo. O empresário dele é o tio, Fabien François, o ex-piloto.
- Eu li alguma coisa sobre. Estão questionando se ele tem talento mesmo ou se é só o dinheiro e a influência da família que fazem ele correr e ganhar. Mas nunca tinha o visto. Ele parece simpático. – Concluiu .
- Ele tem que ser, todo mundo aqui acha que ele tem privilégios. Na última corrida, interromperam bem na hora que ele ia ser ultrapassado, e aí ele ganhou. Bem duvidoso. – René explicou. – Mas tem gente que acha que isso é um esporte caro demais e competitivo demais para deixarem o filho de alguém ganhar. E a François- não é a mais rica daqui. Sabemos.
- Ele não corre pela François, eu sei. Conheço os pilotos deles. – Concluiu, .
- Não, ele começou uns quatro anos atrás na Formula Um, na François-. Mas aí, saiu. Dizem que foi porque não aceitou o salário, queria mais. Outros que ele não queria se vincular ao pai, para que ninguém pensasse isso dele não ter talento. Mas na verdade ninguém sabe. Ele corre pela McLaren agora.
- Ah, talvez no fundo, ele seja só alguém querendo provar seu valor para o mundo. – Suspirou.
- Não se compare. São coisas diferentes. Ele é como qualquer um outro piloto, jovem, cego pela fama, dinheiro, mulheres, drogas. – René disse.
- Que horror, René. – não acreditava, ele parecia tão resplandecente, devia ser uma ótima pessoa.
- Oi. Estou procurando o . – Uma mulher que surgiu com o vento disse, os assustando.
- Essa área é só para quem tem credenciais, moça. – René respondeu.
- Eu estou com ele. Posso ir onde quiser. Onde ele está? – Ela insistiu.
René e se entreolharam incertos.
- Acho que ele foi por ali. – indicou o caminho que tempos antes, tinha tomado.
- Obrigada. – A mulher disse e então voltou seu olhar para o equipamento. – Vocês são jornalistas? Querem tirar uma foto minha? Eu permito. Andem logo. – e René estavam estáticos observando a cena em terceira pessoa. - Andem. Podem colocar, exclusivo. Uma foto da namorada de . – A mulher disse esnobe e sorriu.

René, de forma robótica, levantou uma das câmeras e fotografou a mulher, que saiu sorrindo em direção aos boxes. Talvez René estivesse certo...

- Olha, não é aquela atriz? A ruiva, do filme do DiCaprio? – questionou.
- Nossa. Sim, Sarah. A Sarah. Eu estou tendo uma visão. – riu do parceiro. – Ela está vindo para cá. O que eu faço?
- Sei lá, ela não está vindo te pedir um autografo. Tire fotos, filme. Vou tentar perguntar alguma coisa. – ajeitou um pouco o cabelo e se preparou para abordar a atriz.
- Sarah, como vai? – a recebeu sorrindo.
- Muito bem, obrigada. Desculpe, mas você saberia onde é o boxe da McLaren? Do ? – Perguntou.
- Acho que é o último. Se importa de responder algumas perguntas sobre hoje? – tentou ser o mais cordial que podia, mas sentia que falhava terrivelmente.
- Claro. – Sarah ajeitou os cabelos, e olhou para a câmera.
- Bom. – engasgou. – Você gosta de Fórmula Um?
- Sim, eu adoro os carros. Acho muito legal. Mas as vezes é meio cansativo, são tantas voltas, não é? – Sarah riu e tinha uma tela branca no lugar de ideias.
- E qual é o seu palpite para hoje?
- Estou torcendo para o , ele corre muito bem. Não perde uma. Acho que ele tem tudo para ganhar, meu coração é dele. – sorriu, agradeceu.
- Eu acho que não permitem mais a entrada de visitantes nos boxes agora, a corrida já vai começar. É só para família. – avisou.
- Tudo bem, eu sou a namorada. – Sarah disse e sorriu. - Se quiser, pode dar o furo. – Dizendo isso, a atriz seguiu seu caminho.
- Eu sou uma fraude. Não consegui fazer duas perguntas que prestassem. – Lamentou .
- Não foi tão ruim. Não mais que o homem que marcou encontro com duas mulheres diferentes ao mesmo tempo e no mesmo lugar. – Zombou René.

* * *


As mudanças na François- estavam realmente profundas. Depois de anos trabalhando na escuderia, eu estava saindo do autódromo. Aparentemente tudo que fiz na minha vida, desde que decidi trilhar esse caminho, estava me levando até ali. Mas não era como eu esperava. O de anos atrás achou que seria piloto, teria fama e sucesso fazendo uma coisa incrível e que amava, correr. Mas quando a realidade bate à porta, não adianta fugir pela janela.
O complexo de fábricas da François- ficava a uma hora de Mônaco. Era do tamanho do meu antigo bairro, tinha suas próprias ruas, era gigantesco. Estava ali com Jacques, porque queria mostrar o carro três aos engenheiros, e ninguém iria trabalhar no autódromo. estava com um vestido cinza, e um casaco pesado, amarelo. Linda como sempre. Eu estava com a minha melhor roupa, o que não significava muito. Um tricô cinza e calça jeans. Eu me sentia um adolescente do interior num tour pela cidade grande.

- Que bom que chegaram. Eles estavam apenas nos esperando, o carro já chegou. – sorriu animada, eu a cumprimentei, Jacques só acenou com a cabeça.
- Isso não é o que ele queria. não queria que engenheiros terminassem o carro dele, não esse. - Jacques bufou.

Achei que não responderia, achei que nem tivesse escutado. Ela passou sorridente pelo saguão, sorrindo e acenando para algumas pessoas. Mas quando entrou no elevador, a fera mostrou suas garras.

- Sim, Olivier. Eu adoraria que pudesse terminar o carro. Mas a não ser que você saiba como ressuscitar alguém, ou como se comunicar com os mortos. Me deixe resolver. – Ela disse calma e pausadamente, encarando Jacques. – Se outras pessoas não intervirem, não vamos usar esse carro. Por isso você está aqui. Para garantir que o que fez e pensou seja respeitado. Que droga, toda vez é isso.

O silêncio no elevador se tornou sepulcral. E então, as portas se abriram e vestiu o sorriso grande de novo. Fantástico. Ela parecia outra pessoa na fábrica, alguém conhecida, simpática, sociável. nos deixou em uma sala, sentados diante a uma grande e bem limpa janela. Eu estava tão perdido na experiência de conhecer a fábrica que demorei perceber que alguém falava alguma coisa perto de mim.

- Hein?
- Você não ouviu nada do que eu disse, não é? – Jacques perguntou, chateado.
- Não, foi mal. – Me virei para encara-lo. - Você viu ela? Parecia outra pessoa.
- Ah, está mostrando as garras, companheiro. – Jacques riu. - Ela frequentava muito aqui, na verdade. Depois que eles se casaram, ela virou meio que a representante do no conselho, tem uma cadeira até hoje. Ela só não ia no autódromo depois que ele morreu, aqui ela sempre veio. Dá para ela usar as roupas chiques. – Jacques completou, com ironia.
- Eu nunca estive num lugar tão grande e tão incrível antes. – Contei, um pouco inseguro, e Jack riu.
- Você ainda não conhecia? Já eu, odeio esse lugar. – Antes que eu pudesse perguntar o motivo, entrou na sala, e nos levou para outra. Com computadores, painéis e pessoas.
- Eu não acredito que resolveram reciclar você, Olivier. – Um homem baixo e de cabelos ruivos disse, chamando nossa atenção.
- Lewis, o motivo pelo qual eu nunca mais posso pisar em Liechtenstein. – Jacques disse sério, e depois abraçou o homem e beijou sua cabeça em vários lugares.
- Quando Paris me disse que você viria eu não acreditei. O que pode ter tirado você do seu covil? – Lewis brincou.
- A vossa digníssima irmã. – Jacques disse e riu alto, por incrível que pareça, acompanhado de Lewis.
- É porque disseram que estavam dando energéticos. – completou. Eu fiquei confuso. Pela expressão, parecia que tinham xingado a mãe de Jacques. Lewis gargalhou.
- Ele não sabe, não é? – Lewis se referiu a mim, e começou a rir alto. Jacques tinha uma péssima expressão. – Jacques acompanhava nos eventos, e sempre voltava com volumes estranhos na roupa. Ninguém nunca teve coragem de perguntar o que era. Então um dia, resolveu acabar com o mistério. Jacques achava que os energéticos que tinham na geladeira do patrocinador eram para levar para casa. – Lewis riu. – Ele levou energéticos para casa por uns seis meses.
- Depois disso, todo ano no aniversário dele, é tradição darmos energético. – disse rindo, e eu a acompanhei. – Agora tem alguém que serve as bebidas, também.
- Eu devia denunciar vocês por abuso psicológico. – Jacques disse irritado, e encarou . – Você está falando igual a ele. – riu e abaixou a cabeça.
- Eu sempre digo isso a ela. – Lewis bateu duas palmas. – Vamos lá, esse carro não vai se fazer sozinho.



Continua...



Nota da autora: Espero que tenham gostado da história assim como eu gosto dela. Mal posso esperar para contar tudo o que vai acontecer com essa galera. Todos detalhes sobre a Fórmula Um são frutos de muita pesquisa, espero que te remeta ao backstage desse esporte tão apaixonante.
Obrigada, Larissa, por nunca desistir de me motivar.




Outras Fanfics:
Ele

Nota da Scripter:Seria simplesmente meu sonho uma fic de Formula 1 no FFOBS sim!!! Queria muito que Tony estivesse vivo, mas curiosa para ver como vai ser a carreira do Michael e por que Jacques é tão amargurado com a vida.
Essa fanfic é de total responsabilidade da autora, apenas faço o script. Qualquer erro, somente no e-mail.


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