Última atualização: 28/08/2018
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Prólogo


Numa noite de fim de julho de 1765, quando as noites chuvosas haviam sido substituídas pelas brisas quentes do verão, As Vossas Majestades Imperiais Pedro I e Alice Hanôver eram anfitriões de um jantar e baile nos salões do Palácio de Buckingham. Segundo os 5600 convidados nobres, nenhuma festa havia sido tão grandiosa desde o casamento de suas Majestades. 52 candelabros forrados em ouro e diamantes haviam sido milimetricamente feitos para se erguerem sobre o salão de baile, iluminando as paredes vermelhas, brancas e douradas. Centenas de funcionários rodavam o salão, segurando as mais finas taças feitas de cristal, distribuindo o verdadeiro e melhor champagne do mundo. Os vestidos — de todas as cores, em exceção do vermelho —rodopiavam pelo salão ao som interrupto da grandiosa orquestra. Para a maioria dos convidados, aquilo era a imagem mais próxima que poderia se ter do céu, mas nenhum deles estava tão feliz e satisfeito quanto Alice Hanôver.
Ela havia passado cinco meses preparando a ocasião. Correndo atrás dos preparativos e fazendo questão que os 5600 convites fossem entregues à nobreza do mundo todo. Alice não havia parado durante esse tempo. Apesar do cansaço, ela não havia se desanimado nem por um segundo, escolhendo os pequenos detalhes da decoração e fazendo provas do vestido a cada 2 dias. Agora, andando pelo salão ao lado de seu marido, no mais maravilhoso vestido vermelho já feito, e exibindo a famosa coroa de diamantes e rubis das imperatrizes britânicas, Alice não conseguia se desfazer do sorriso. Ela estava tão feliz pelo seu filho.
Philip Hanôver, seu primogênito, estava há 5 dias de completar 26 anos. Alto, forte, com os olhos claros e o cabelo sedoso, como o da mãe, era — não só aos olhos dela, mas como o de toda a nobreza da Europa — o príncipe mais bonito do século. Além de sua estonteante beleza, Philip era uma grande aposta como um futuro imperador.
Pedro I, seu marido e imperador do reino britânico, havia feito um dos maiores reinados que o mundo algum dia havia conhecido. Com 14 anos, Pedro subiu no trono prematuramente, acarretando todas as responsabilidades de seu pai, que havia deixado seu império em um poço profundo de dívidas e miséria. Após 3 anos no trono, a Inglaterra se viu livre das tragédias que haviam impregnado à sua história e começou a renascer como a maior potência do século. Focado e dedicado inteiramente ao seu amado império, Pedro atingiu a idade dos 25 anos, sem estar na companhia de uma mulher. Visto como um absurdo, principalmente pela sua mãe, a imperatriz viúva, Pedro foi obrigado a desviar-se dos assuntos de Estado e dedicar-se a tarefa mais difícil de sua vida: encontrar uma esposa.
A imperatriz viúva, desesperada em achar uma noiva para o seu filho, anunciou a mais esperada notícia às mais nobres famílias do mundo: o seu filho, o imperador mais poderoso e cobiçado do mundo, estava pronto para se casar, desejando encontrar sua noiva no baile real, que seria realizado no palácio de Windsor, no começo da primavera, em 4 meses.
Esse foi o estopim para um caos nas famílias reais. Reis e rainhas haviam afastados suas filhas de pretendentes por anos, aguardando o esperado momento em que Pedro I finalmente escolhesse uma esposa. Duques, condes, barões e até mesmo as famílias com os menores títulos nobiliárquicos sonhavam com a esperança de verem suas garotas sentadas ao lado de Pedro I no trono real.
E, entre elas, estava uma jovem princesa italiana, de 21 anos, chamada Alice de Saboia. Nascida em uma família grande, com quatro irmãos e três irmãs, Alice — a sexta filha — cresceu rodeada de amor e carinho proveniente de todos os lados. Vendo seus irmãos, um por um, se casarem, ela esperava o dia em que se casaria também, obtendo a felicidade que, surpreendentemente, todos seus irmãos conseguiram no matrimônio. Quando completou 16 anos, prestes a debutar na sociedade, viu-se surpresa por uma notícia: Alice, por decisão de seus pais, não iria debutar. Ela não participaria da temporada, diferente de todas as suas irmãs, que, aos 16 anos, exibiram os vestidos mais bonitos que ela já havia visto nos bailes mais divertidos do ano. E não era apenas isso. A partir daquele momento, ela estava estritamente proibida a participar de qualquer baile ou jantar (o último, apenas na companhia de seus pais) e de receber algum tipo de instrução ou educação que não fosse pelos novos funcionários reais de sua mãe. Aquilo a atingiu como uma facada e Alice sentiu a vida perder completamente o sentido em frente aos seus olhos, conforme seus pais direcionavam as novas regras de sua vida. O motivo? A esperança de que Alice conseguisse um casamento com um homem possuinte de um título nobiliárquico mais alto que um “simples” príncipe fora da linha de sucessão que duas de suas irmãs haviam conseguido.
A única coisa que Alice era capaz de pensar era: por que eu?. A resposta para essa pergunta não era difícil. Todos os filhos dos atuais Rei e Rainha Saboia possuíam uma beleza estonteante. As garotas eram muito parecidas entre si: com cabelo , olhos claros e corpos perfeitos para a época, as quatro irmãs Saboia eram um verdadeiro presente italiano. Mas Alice era diferente. Além de ser dotada de uma beleza admirável, possuía uma inteligência rara de se ver em pessoas tão jovens. Ela era espontânea, generosa, extremamente esperta e habilidosa. Muitos diziam que quando ela andava, parecia estar sempre dançando de tanta graciosidade de seus movimentos. Uma jovem princesa dotada de beleza e inteligência era tudo o que um rei e, ambiciosamente, um imperador poderiam sonhar.
Quando o anúncio chegou às portas de um dos palácios de verão dos Saboia, cinco anos depois, a mãe de Alice precisou segurar-se em seu marido, para não desmaiar de tanta alegria. Finalmente, depois de cinco longos anos preparando a garota com uma estupenda dedicação, a maior oportunidade de toda a sua vida havia chegado em uma carruagem branca nas portas do palácio. Alice se viu a mercê de uma felicidade que nunca havia sentido antes. Os últimos cinco anos de sua vida haviam sido difíceis. Seus tutores não eram tão carinhosos como aqueles os quais estava acostumada durante sua vida toda, eles eram duros e sérios, e a encaminharam por uma rotina desumana de aulas de todos os tipos. Fizeram Alice aprender 8 línguas diferentes, valsas de todos os cantos da Europa, as histórias dos grandes impérios e os costumes da nobreza dos diversos países. Quando ela soube que, por 3 meses, ficaria longe dessa rotina puxada, nada era capaz de tirar o sorriso do seu rosto.
A partir desse dia, as coisas andaram em uma velocidade tão grande na vida de Alice que, no próximo minuto, ela já estava parada em frente à porta do salão de baile, sendo anunciada por um homem baixinho com um uniforme que esbanjava o bração dos Hanôver.
Quando ela passou pelas portas, o olhar da multidão recaiu sobre ela. Alice abriu um sorriso, tentando esconder a angustia que a sufocava no peito. Ela imaginou por que tantas pessoas estariam olhando para si. Seria a sua aparência? Não, não poderia ser. Alice usava um vestido grande e vermelho debruado, com rendas de ouro que formavam o bração dos Saboia em suas costas. O cabelo estava em um penteado preso — solto, em que os cachos grandes caiam pelas suas costas, e a tiara delicada estava presa perfeitamente no topo de sua cabeça. A própria Alice admitia que estava deslumbrante. Ela nunca havia se sentido tão bela em toda a sua vida.
Ao andar em direção ao trono, Alice sentia-se cada vez mais prestes a vomitar. Seus pais andavam formalmente em sua frente, e ela acompanhava seus passos lentos atrás, em uma distância pequena. Mesmo olhando para frente, ela ainda era capaz de sentir os milhares de olhos sobre si. O corredor, para ela, parecia infinito, e ela comparou aquilo às famosas caminhas da vergonha na Idade Média. Alice quase era capaz de ouvir a multidão gritando “vergonha!”.
O Rei e a Rainha Saboia cumprimentaram o imperador por primeiro. Ajoelhada na frente do imperador, ela fora instruída pela mãe a não levantar a cabeça ou os joelhos, antes que recebesse sua permissão. Então, ela ficou ali, encarando o piso brilhante do salão de baile, enquanto ouvia os sussurros da conversa de seus pais com o imperador.
Alice era uma garota corajosa. Ela nunca havia sentido medo, era a única dos irmãos que não sentia medo das brincadeiras nos bosques dos palácios nas madrugadas. Mas, agora, toda a sua coragem havia ido embora como se nunca tivesse existido. Ela estava com medo, apavorada. Havia esquecido completamente de quais eram as palavras que ela deveria se referir ao imperador. Ela não se lembrava nem ao menos como deveria chamá-lo! Seria “Vossa Majestade Imperial” ou “Vossa Graciosíssima Majestade Imperial Britânica”?
— Gostaria de apresentar a minha filha Alice de Saboia. — Ela ouviu seu pai dizer com orgulho, puxando-a completamente de seus pensamentos assustadores.
Alice abaixou a cabeça mais uma vez, fazendo uma reverência, e levantou os olhos, finalmente olhando para o imperador.
E ela se sentiu perdida. Completamente perdida.
Imaginou Alice, instantaneamente, se aquela seria a sensação de se apaixonar. Umas centenas de sensações se espalharam por seu corpo quando os olhos de Pedro I encaravam os seus. Seus pés fraquejaram, suas mãos começaram a suar e sua boca ficou seca. O seu coração, depois de dar uma freada brusca, começou a bater novamente e, desta vez, muito mais rápido que sequer bateu um dia. Seria possível um simples par de olhos ser capaz de trazer essas sensações ao seu corpo? Será que todas as pessoas se sentiam assim ao olhar para ele ou seria apenas Alice?
Quando sentiu uma leve pontada em sua perna, percebeu que estava parada naquela posição há tempo demais. Alice havia passado mais tempo que o aceitável, ajoelhada na frente de Pedro I, recebendo um olhar assustado, não só de seus pais, mas de todas as pessoas à sua volta.
— Vossa Graciosíssima Majestade Imperial Britânica — ela disse com a voz mais fraca que havia treinado no espelho por semanas —, é de imensa honra conhecê-lo.
Ela havia abaixado os olhos. Estava envergonhada demais para olhar para ele, depois desse vexame. Pronto, a oportunidade de sua vida havia acabado em alguns segundos, porque ela havia ficado igual uma tola perdida em seus olhos. Como a mãe dela olharia para ela depois disso? Como os seus tutores a veriam depois desse fracasso? Como seria o seu futuro sabendo que havia perdido a maior oportunidade de sua vida?
Alice engoliu em seco, reunindo coragem para olhar o imperador nos olhos novamente. Ela já havia o desrespeitado o suficiente ao encará-lo por múltiplos segundos, sem dizer uma palavra, e não olhar para ele seria uma falta de respeito tão grande que garantiria o desprezo do imperador para sempre. Ela poderia ficar o resto da noite maltratando-se por ter arruinado o seu futuro, mas, agora, sua obrigação era olhar para ele como se nada tivesse acontecido.
Quando ela levantou os olhos claros, deparou-se com uma mão forte estendida para si. O imperador, que, antes, se encontrava sentado no grandioso trono vermelho forrado de ouro, estava em pé, estendendo a mão para ela.
Alice engasgou-se de choque.
Numa fração de segundo, ela olhou para a mãe. A Rainha Saboia parecia tão chocada quanto ela, olhando a filha com os olhos arregalados. Imediatamente, sua mãe apontou com os olhos para mão de Pedro I, em um movimento imperceptível para todos, menos para Alice, que entendeu exatamente o que ela quis dizer com o movimento desesperado: ela devia segurar a mão dele.
Quando Alice colocou a palma da mão delicada sob a palma da mão forte do imperador, ela perdeu o fôlego. Todo o seu corpo tremeu e ela teve dificuldade para se levantar, levando em consideração que suas pernas pareciam ser feitas de gelatina. Ela levantou-se, olhando para ele, completamente encantada por tudo naquele homem: o cabelo negro, os lábios rosados, os olhos ...
— Vossa Alteza. — Alice mal acreditou quando ele falou com a voz grossa, mas, ao mesmo tempo, delicada. Ele estava olhando para ela; somente para ela. — Seria a maior das honras, se eu pudesse conduzi-la pela primeira dança.
E, ao aceitar o convite para a dança, a vida de Alice mudou completamente. Quatro meses depois, ela e Pedro estavam noivos e, em 4 de outubro de 1736, Alice e Pedro I se casaram em uma cerimônia esplêndida no castelo de Windsor.
O casal viveu por meses em um estado interrupto de lua de mel. Nunca foi visto no palácio de Buckingham um casal de imperadores que se amassem tanto como Alice e Pedro. Sentindo a falta constante da esposa durante as inúmeras reuniões sobre questões de Estado, Pedro trouxe Alice para dentro dos assuntos políticos no primeiro ano de casamento e, em poucos dias, Alice tornou-se tão dedicada ao Império Britânico, como seu marido, e os dois passaram a governar como um só. Devido a dedicação à política, Alice não desejou ter filhos nos primeiros anos do casamento, trazendo o desgosto de grande parte da família real, que desejava fervorosamente um herdeiro para a garantia da dinastia.
Em 28 de julho de 1739, Alice Hanôver deu à luz a um menino. Quatro anos após o casamento, no quarto imperial, um menino veio ao mundo às 3h da manhã, chorando como uma sirene. Ele foi chamado de Philip Hanôver e, para a alegria de todo o Império Britânico, a dinastia Hanôver havia acabado de receber um herdeiro.
Um ano e algumas semanas depois, em 12 de maio de 1741, Alice deu à luz a outra criança. Desta vez, a uma menina chamada Caroline Hanôver.
Em 09 de abril de 1743, Alice trouxe outro menino ao mundo: Colin Hanôver.
E, finalmente, em 18 de setembro de 1744, Alice e Pedro I conheceram a sua última filha: Hanôver.


Capítulo 1

Masquerade!
Hide your face, so the world will never find you!
(Mascarado! Esconda seu rosto, então o mundo nunca encontrará você!)


Parte 1: Meet our girl

— Nós não deveríamos ir.
— Você está maluca? É claro que nós deveríamos ir! — Margot Ruthland disse, praticamente sufocando Hanôver ao dar uma puxada extremamente forte no corpete.
— Não, Margot, nós não deveríamos ir! — mordia o lábio, encarando o enorme relógio de ponteiro, que ficava entre as janelas do seu quarto de vestir. Os ponteiros marcavam 2 horas e 45 minutos da manhã. — Nós não deveríamos nem estar acordadas!
— Nós deveríamos estar acordadas. — Margot a corrigiu, puxando novamente o corpete com força. — Só não deveríamos estar acordadas nos arrumando para ir à outra festa.
— Deus! Minha mãe irá nos matar, se ela souber disso. — respirou fundo, sentindo suas pernas fracas conforme o corpete ia se apertando cada vez mais envolta de sua cintura.
— Relaxe, Alteza. — revirou os olhos ao ouvir o tom malicioso da palavra. — Ninguém ficará sabendo disso. — Margot pareceu finalmente se sentir satisfeita com o corpete de , dando um nó forte nas pontas dos fios e deixando-o no lugar.
Margot Ruthland era uma das 5 damas de companhia de Hanôver. Ela possuía o cabelo loiro e comprido, beirando à sua cintura, olhos verdes claros e um busto muito grande, que não combinava com a cintura fina, para uma jovem de 20 anos. Também sua prima por parte de pai, Margot era uma das jovens mais abusadas da corte britânica. Com um temperamento ardente, ela estava sempre pronta a rir, beber, cantar, gritar e sair escondido para festas, como era o caso da atual situação.
deveria estar no baile de seus pais. Alice Hanôver, sua mãe e Imperatriz do Reino britânico, havia passado meses dedicando-se a essa ocasião, e sabia, mais do que ninguém, que seria uma ofensa sem tamanho as pessoas irem embora antes da última nota da orquestra.
Especialmente, se uma dessas pessoas fosse uma de suas filhas.
O tão esperado baile estava sendo dado em homenagem ao seu irmão mais velho, Philip Hanôver, que completaria 26 anos em 5 dias. Mas esse não era o real motivo do baile. O real motivo para o som de uma orquestra de 200 músicos chegar ao quarto de vestir de , no segundo andar do palácio de Buckingham, era que sua mãe estava desesperada para achar uma noiva para Philip.
Todas as terras de domínio britânico conheciam a história de amor de seus pais. Os dois, ao se olharem nos olhos, se apaixonaram perdidamente e continuaram amando um ao outro com tanta fervura até hoje, 29 anos depois. O que nem todos sabiam era que Alice acreditava que todos os seus filhos encontrariam o amor da mesma forma que ela encontrou: olhando nos olhos de um estranho(a), em um baile, e a Imperatriz defendia isso com unhas e dentes. Para a felicidade de e seus dois irmãos, sua mãe, agora, se via unicamente focada em apenas um de seus filhos: Philip, o mais velho e, consequentemente, o herdeiro do trono britânico.
Esse era o verdadeiro motivo para que todas aquelas celebrações grandiosas durassem por 10 dias. Dez dias repletos de jantares formais, bailes, óperas, espetáculos de fogos de artifícios e ceias com as famílias mais nobres do mundo todo. Na visão de Alice, Philip acharia o amor da sua vida entre as centenas de jovens princesas que viajaram por meses para apresentarem-se em frente ao casal imperial com todos os seus dotes e qualidades.
Philip Hanôver, ao nascer como o primogênito de Alice e Pedro, trouxe para si um dever sagrado para o maior Império descontinuo do mundo: quando seu pai morresse, ele assumiria o trono e a vida de milhares de pessoas. Com isso, a vida do primeiro filho sempre se destoou fortemente dos irmãos. Pedro I, seu pai, assumiu o trono muito jovem e, consequentemente, despreparado, por acreditar que seu pai viveria por muito tempo. Em alguns meses, Pedro aprendeu a ser um Imperador melhor que seu pai e, sabendo das dificuldades que sofreu para conseguir isso, o Imperador não queria o mesmo destino para o seu filho, dando a ele a mesma educação desde a primeira palavra do menino. Aos 6 anos, o garoto já participava das famosas reuniões do Parlamento e, agora, prestes a completar 26 anos, Philip tinha uma educação digna de um Imperador, caso alguma tragédia acontecesse e ele fosse obrigado a ocupar o trono.
E não havia uma pessoa no planeta que odiasse tanto a ideia de se tornar Imperador como Philip.
Bom, pelo menos, agora.
entendia o irmão. Philip era alto, robusto, possuía olhos claros como os mares do mediterrâneo e tinha um sorriso arrebatador — como suas damas de companhia diziam —, mas, principalmente, ele só tinha 26 anos. não sabia muito sobre a vida devassa dos homens nessa idade, mas tinha certeza de que as metas atuais do irmão passavam longe das quais sua mãe visava com tanto orgulho. Nada de responsabilidades, casamento ou filhos. A vida de Philip se resumia em 3 simples palavras: mulheres, bebidas e festas.
Completamente inconformado e revoltado com as celebrações que sua mãe havia planejado, Philip organizou-se pelas costas dela, resolvendo dar uma festa. Um tipo de festa que garotas como estavam proibidas de sequer ouvir falar.
— Tire-me deste vestido! — exclamou, sentindo-se sufocada com o corpete preto completamente fechado envolta de si. — Você pode ir a essa festa sozinha!
— Sozinha? — Margot saiu de trás de , contornando-a, até estar com o par de olhos verdes fixados nela, com um ar irritadiço. — Eu não vou sozinha! Não é um lugar para uma mulher ir sozinha.
— Não é um lugar para mulher alguma ir, Margot! — rebateu ela, irritada, batendo as mãos contra a enorme saia preta feita de tule.
— Seu irmão não teria nos convidado se fosse totalmente inapropriado para uma mulher ir. — Ela deu de ombros, indo até a penteadeira branca detalhada em folhas de ouro.
— Meu irmão não nos convidou — argumentou , cruzando os braços. — Você ouviu a Lady Crane comentar sobre isso com as damas de companhia da Caroline!
— E o que isso tem de errado, ? — disse Margot. — Todo mundo estará usando máscaras, ninguém vai nos reconhecer.
— Essa não é a questão, Margot. — espremeu os lábios, irritada, tentando acalmar-se. Como Margot não conseguia ver o quão errada esta situação era? Sua prima havia escutado, das damas de companhia de Caroline, que Philip havia planejado uma festa mascarada na madrugada do baile de abertura dos eventos cerimoniais de seu aniversário. Desde então, a loira estava tentando convencer todas as suas damas de companhia a fugirem sorrateiramente do baile para irem a essa festa. E ela havia conseguido, apenas com uma condição: que também fosse. — A questão é que isso vai contra todos os meus princípios de...
— Princesa — interrompeu Margot, com um suspiro —, e qual é a graça de ser uma princesa se você não pode fazer nada?
abriu a boca, mas Margot interrompeu, antes que pudesse dizer qualquer coisa:
— O meu ponto é: pare de ter medo de se divertir. Por Deus! — ela disse com uma voz estrangulada, repleta de desespero. — Você completará 21 anos neste outono e nunca foi em um evento que não fosse oficialmente real! Você, ao menos, sabe como o mundo lá fora é?
 calou-se, sentindo-se ofendida. Apesar de viver sua vida toda dentro de palácios, ela sabia como o mundo era lá fora. Ela sabia que a realidade de grande parte da população mundial chegava longe da sua e que a fome e a miséria eram presentes na vida de muitos. Mas um dos grandes feitos de seu pai foi uma diminuição muito notável da miséria no Império Britânico. Antes do nascimento de seu pai, a miséria crescia consideravelmente, devido ao grande número de pessoas sem empregos, e Carlos V, pai de Pedro, colocou a Inglaterra em dividas terríveis devido ao excesso de luxos que ele e a sua corte exigiam. Pedro I dedicou os primeiros anos de seu reinado ao crescimento do Reino Britânico como a melhor potência em todos os lados e, assim, doou terras, iniciou programas, aumentou ao triplo as opções de trabalho no mercado e, em questão de três anos, o “milagre” — que muitos chamam — trouxe a Inglaterra como o maior Império econômico e militar do mundo. A pobreza era algo real, mas muito difícil de encontrar nas terras britânicas — especialmente, em Londres, o maior polo econômico da época. Então nunca havia realmente visto com seus próprios olhos a pobreza, mas sabia que ela existia e “sabia” que ela era dolorida.
Como se lesse seus pensamentos, Margot suspirou.
— Eu não estou falando disso, . Eu estou falando que você nunca sentiu o êxtase de fazer algo errado, algo perigoso! — prosseguiu Margot, com a voz um pouco mais animada. — E, tudo bem, eu entendo completamente o motivo disso. Você não pode arriscar a sua vida por aí, mas, vamos lá, ! Você precisa viver, pelo menos, por uma vez na vida.
olhou para ela, sem saber muito bem o que dizer. Aliás, o que ela poderia dizer? Margot estava certa, as duas sabiam disso. Todo mundo a tratava como se ela fosse uma... Princesa. Uma princesa feita de porcelana. Ela sabia que não poderia culpar seus pais por isso; aliás, eles tinham um ótimo motivo, mas, pelo amor de Deus, ela tinha que ser cuidada desse jeito? era tratada como se fosse muita delicada, totalmente diferente do que a garota realmente era na sua personalidade.
ficou em silêncio por longos segundos e, então, finalmente falou:
— Só não estrague meu cabelo com essa máscara.
Margot abriu um sorriso de orelha a orelha, extremamente animada.
— Você não se arrependerá! — exclamou ela. — Será a melhor noite da sua vida.
virou os olhos, pedindo a si que ficasse calma.
— E pronto! — Margot enlaçou a máscara envolta dos olhos de , dando um tapinha nos ombros da garota, como um sinal para que ela se encaminhasse até o espelho para analisar sua aparência. — Vossa Alteza Imperial transformada em uma garota num vestido preto.
— Um vestido preto maravilhoso — acrescentou ela, com um sorriso malicioso.
Apesar de seu ressentimento, estava surpresa. A princesa normalmente não usava preto, preferia cores mais alegres como o azul — sua cor predileta —, mas o vestido era realmente maravilhoso. A saia de tule preta, muito grande, era repleta de brilhos da mesma cor, reluzindo conforme ela se movia; possuía mangas compridas feitas do mesmo tecido da saia, com o mesmo brilho, e um corpete preto liso, simples, um pouco mais ousado no decote do que normalmente usava. Um colar muito grande envolvia seu pescoço e descia em gotas pelo colo, e plumas pretas prendiam em suas costas, formando um colarinho alto somente na nuca.
O cabelo comprido estava preso num simples “rabo de cavalo” e as ondas suaves desciam até a metade das costas. Uma máscara muito simples, preta e lisa escondia a maquiagem preta em seus olhos e um batom vermelho enfeitava sua boca.
precisou segurar o impulso de perguntar em voz alta se aquela era realmente ela. Ela parecia tão diferente... Tocou a própria face, ainda desacreditada que aquele era o seu próprio reflexo.
— Você está deslumbrante, Alteza — murmurou Margot, sorrindo.
voltou os olhos para Margot, analisando as vestimentas da loira. Ao contrário da cor discreta de suas vestimentas, Margot usava um vestido vermelho berrante com mangas curtas que exibiam os longos braços. A saia não era volumosa, era lisa, acentuando as suas curvas, e o decote era grande e profundo. admirou a prima por ter coragem de usar um vestido como aquele com tanto orgulho, pois fugia violentamente do modelo que todas as mulheres estavam acostumadas a usarem no dia a dia da corte e nos tradicionais bailes e jantares. E, por mais que Margot não possuísse vergonha alguma de qualquer coisa, o que fazia a loira usar com tanta confiança aquele vestido era a máscara preta rendada que cobria mais da metade de seu rosto, tornando-a irreconhecível.
Ela estava impecável.
— Olhe para você. — disse, sorrindo. — Você está maravilhosa.
— Nós duas estamos maravilhosas. — Margot disse ao se aproximar da amiga, olhando o reflexo das duas no espelho. Ela não estava mentindo. Elas estavam lindas e tão diferentes do que costumavam aparentar no dia a dia.
deu um pulo quando ouviu as três batidas ritmadas na porta e, no mesmo segundo, lembrou-se que aquele era o sinal. Ela e suas damas de companhia haviam combinado que as três batidas significariam que tudo estava pronto para as 6 garotas irem até o palácio de Kensington, onde a festa de seu irmão estava acontecendo.
procurou os olhos de Margot no espelho, desesperada.
— Não tem como desistir agora. — Margot segurou os ombros de , olhando para ela pelo espelho. — Apenas aproveite e tenha a melhor noite da sua vida.
respirou fundo e, não fazendo a menor ideia de que aquela noite mudaria a sua vida para sempre, atravessou as portas do quarto.

Parte 2: Meet our boy

— Saia de cima da mesa, Loockwood! — Rupert Ruthland gritou, entre dois goles de uísque e gargalhadas, observando o rapaz de 19 anos dançar em cima da mesa.
*May he defend our laws, and ever give us cauuuuuse... — Carter Loockwood, um rapaz alto, com cabelo louro e olhos claros, cantava alegremente o hino do Império Britânico com duas moças ao seu lado repetindo as palavras. — With heart and voice to sing. God save the King!
God save the King! — um coro de vozes de 30 pessoas animadas repercutiu por uma das salas do pálacio de Kensington.
observava aquele espetáculo com um sorriso divertido no rosto. Ele não estava, nem de longe, bêbado como os seus parceiros, mas aquela cena havia feito com que sorrisse como não sorria há muito tempo.
, brinde conosco! — Carter levantou a grande caneca de cerveja em sua mão em direção ao homem, propondo um brinde. segurou o copo de uísque à sua frente, levantando em direção ao louro. — Ao Império Britânico!
— Ao Império Britânico! — outro coro de vozes se seguiu como no final do hino imperial.
Maldito ego nacionalista, pensou , rindo para si mesmo. Ele nunca foi capaz de entender esse sentimento tão grande por uma nação.
— Essas festas vão acabar me matando algum dia, mate. — Rupert encontrava-se ao seu lado agora. Os cachos avermelhados do homem de 22 anos estavam um pouco molhados devido à cerveja que Loockwood derramou ao fazer o brinde. franziu o nariz, engolindo as palavras, antes que pudesse dizer alguma coisa sobre o odor horrível de cerveja no cabelo dele. — O que você está achando?
abriu um sorriso de lado, respondendo sua pergunta apenas com um gesto.
O que ele estava achando? Ele estava na companhia das cortesãs mais bonitas de Londres, com as melhores bebidas, os melhores charutos e os melhores jogos de azar. Era impossível achar uma palavra ruim para descrever aquele lugar.
— Bom, nosso futuro Imperador sabe como dar uma festa.
Apesar de não ser o seu futuro Imperador, se viu forçado a concordar. As festas de Philip Hanôver eram completamente imbatíveis, ganhando fama em toda a Europa. A última vez em que ele esteve em uma festa do britânico, havia vomitado álcool para fora de seu organismo por 4 dias seguidos.
— É, ele, definitivamente, sabe. — apenas concordou, voltando os olhos para o seu copo de uísque, que havia ficado vazio após o último gole.
— Você precisa de mais álcool. — Rupert disse, ganhando a atenção de , que mal havia percebido que o ruivo se dirigia a ele. — Nenhum copo fica vazio neste lugar.
Ambos riram em sincronia, observando a sala logo depois. Havia pessoas demais para aquela sala, tornando o lugar abafado com a respiração de todos e a fumaça de alguns charutos. Todas, inclusive os dois, usavam rigorosamente as máscaras que Philip fez questão de ressaltar nos convites. Era muito difícil reconhecer qualquer pessoa ali, principalmente para , que havia passado tanto tempo longe das terras britânicas, e com máscaras... Era necessário que as pessoas dissessem seu nome e sobrenome para que ele pudesse reconhecê-las. O som da orquestra animada no salão principal de baile chegava até a sala pequena com algumas portas afastadas, mas a música ficava em segundo plano, dando lugar às vozes dos homens e os gritinhos animados das mulheres.
— E onde estão os seus mosqueteiros? — perguntou Rupert com um sorriso.
— Provavelmente, na companhia de uma mulher — respondeu ele —, como todos os outros homens. — Ele lhe lançou um sorriso ao terminar.
Ele estava certo. Naquele lugar havia, pelo menos, 5 centenas de mulheres com corpos exuberantemente atraentes. Mulheres que sabiam verdadeiramente como oferecer prazer a um homem, e não fugia da interminável lista de homens que adoravam a companhia dessas mulheres. Quando completou 16 anos, foi apresentado aos paraísos da vida — mulheres, bebidas e festas —, e, desde então, sua vida havia sido basicamente voltada ao pior tipo de libertinagem possível, buscando prazer em quase todas as partes do mundo. Normalmente, ele estaria como Philip Hanôver, que, após 1 hora de festa, subiu a um dos quartos do palácio com três mulheres em seus braços.
Mas a conversa com seu pai, ao encontrá-lo na Inglaterra, arrancou toda a animação de seu corpo, que estava acumulada desde que os convites para as celebrações do casal imperial haviam sido distribuídos.
e seu pai raramente se viam. Desde os 14 anos, o garoto passou a vida viajando pelos cantos do mundo com os seus fiéis “três mosqueteiros”, trazendo uma desgraça grande para o pai, uma vez que era o herdeiro de suas tarefas. Eles se encontravam uma vez a cada 5 ou 6 meses, quando o jovem voltava para casa para descansar de suas libertinagens e se preparar para partir novamente. Nesses encontros, era obrigado a ouvir por horas os sermões fervorosos de seu pai sobre as irresponsabilidades dele, seguido das decepções de sua mãe, que discursava com palavras ainda piores que seu pai. Mas, desta vez, quando eles se encontraram em Londres algumas horas atrás, seu pai estava animado. Estava sorrindo e tratando o filho como se os 5 anos da vida de tivessem completamente desaparecidos e ele fosse um filho perfeito. Depois de 30 minutos de conversa, em que seu pai mostrou um interesse anormal pela última viagem do filho ao Egito, entendeu o motivo para toda aquela felicidade:
Ele queria que se cassasse. E, como se aquilo não fosse louco o suficiente, seu pai queria que conquistasse o coração da filha mais nova do Imperador Pedro I, Hanôver. Ao ouvir isso, quase cuspiu toda a sua bebida nas vestimentas do pai. Ele não podia acreditar no que havia acabado de ouvir: seu pai queria que Hanôver, a filha mais vigiada do Casal Imperial Britânico, se tornasse sua esposa.
A única explicação plausível, para , era que seu pai havia perdido completamente a cabeça. Ele não era velho, havia completado 50 anos na última primavera, mas não conseguia associar aquilo com mais nada, a não ser um sinal de loucura de seu pai.
Ele explicou longamente que a princesa estava prestes a completar 25 anos, a idade perfeita para que uma dama da corte se cassasse, e que estava ficando velho demais para se casar. achou engraçado a fala de seu pai, até porque, ele havia se casado com sua mãe aos 27 anos, e o jovem não havia nem atingido a maioridade. O homem também disse que a amizade dele com o Imperador colocava como um forte candidato a conquistar a mão da jovem princesa, o que discordava muito.
Sim, ele e seu pai eram amigos de longa data, mas isso nunca faria o Imperador ver como um bom candidato para a sua filha mais protegida. era famoso por suas libertinagens. As pessoas cochichavam à seu respeito em todos os cantos do mundo, e ele não precisava se gabar dos próprios feitos, as pessoas falavam deles antes que pudesse notar. havia ganhado uma reputação notável que divergia muito nas opiniões das diversas casas reais dos continentes: alguns admiravam e amavam, outros desprezavam e odiavam. Mas algo era difícil de negar: todos eles adoravam comentar sobre o jovem rapaz. O Imperador Pedro I, sempre a par de todas as fofocas das cortes reais, devido sua mulher, sabia da reputação do garoto e falava abertamente sobre ela com o pai de .
O jovem rapaz perguntou-se como seu pai poderia ter se esquecido desse simples detalhe.
E havia outro detalhe: Hanôver era simplesmente inalcançável. nunca havia visto a moça. Quando estava na Inglaterra, fazia sua presença em festas não oficiais da corte, onde ele não era obrigado a passar por toda aquela chatice formal que tanto odiava, fugindo das famílias reais. Mas já havia ouvido sobre ela, e muito. Falavam que ela e sua irmã Caroline eram as princesas mais bonitas do século. já havia visto Caroline, e a jovem de 24 anos era realmente deslumbrante. Possuía cabelo escuro muito comprido, que acentuava as ondas do corpo escultural da moça; olhos cor de mel — uma mistura de cores dos olhos de seus pais — e uma boca sempre enfeitada de batons escuros. Caroline era madura para alguém de sua idade, e isso transparecia em sua aparência, trazendo um ar muito sedutor à garota. Quando ela passava, os suspiros dos homens eram impossíveis de segurar. E, diferente da maioria das princesas, Caroline estava presente em inúmeras dessas festas em que comparecia. A morena era uma ótima apostadora em jogos da sorte, levando o dinheiro de praticamente todos os homens que arriscavam jogar com ela. Ela era divertida e possuía um sorriso lindo quando ria. Ela e haviam passado divertidas noites juntos, sempre como amigos e ao lado dos dois irmãos da jovem, Philip e Colin. E, como diziam as boas línguas de Philip, Caroline já estava praticamente comprometida.
Já a jovem era um mistério para ele. Como o jovem nunca participava de bailes e jantares reais, os caminhos dele e da Alteza britânica nunca haviam se cruzado. Porém, ele era capaz de imaginar como ela era. Diziam coisas diferentes sobre ela, mas todas se resumiam a mesma conclusão: a mais nova Princesa britânica era divina. Segundo seus companheiros, possuía cabelo comprido, ondulado, conforme chegava às pontas, os olhos dela eram intensos como os do pai, e ela era alta, formosa, com um corpo de uma deusa grega, algo surpreendente para uma moça tão jovem. Muitos diziam que ela lembrava sua mãe, a Imperatriz Alice, muito graciosa em todos os movimentos, parecendo estar dançando sempre. Falavam ainda que ela era dotada de uma educação e inteligência brilhante, um verdadeiro tesouro para a coroa britânica.
E para os seus pais.
A irmã mais nova era sempre a mais protegida, e sabia disso em razão da própria família — ele possuía três irmãs mais novas, e a caçula sempre teve as suas travessuras restritas —, mas havia algo diferente na relação da filha mais nova e do Casal Imperial Britânico. Eles guardavam a garota praticamente em uma bolha chamada de palácio de Buckingham.
Não era que não confiasse na sua capacidade de conquistar mulheres. Se apenas dependesse disso e não da enorme repulsa a respeito de casamentos que o jovem tinha, e o fato de que era protegida demais, o jovem teria aceitado o desafio sem pestanejar. Ele adorava conquistar mulheres. era bonito e sabia disso. Possuía cabelo escuro muito sedoso e os olhos mais que já foram vistos. Tinha um físico escultural, alto e forte, e um sorriso branco enlouquecedor que fazia as garotas — literalmente — caírem aos seus pés. E não seria diferente com . Ele tinha certeza que a jovem cairia aos seus pés se ele desejasse cortejá-la.
Mas ele não desejava.
E fez o tremendo erro de dizer isso ao seu pai.
Seu pai ficou furioso como nunca havia visto em sua vida antes. Ele explodiu, dizendo que, nos últimos cinco anos, fora forçado a observar o rapaz sujar o nome da família, gastando horrores em prazeres medíocres, o que era inaceitável para pessoas como ele. E, envolvido pela fúria do momento, ele berrou, dizendo que cortaria totalmente a mesada de , deserdaria o rapaz, e ele viveria na miséria eterna, caso não conquistasse a mão de Hanôver.
quis rir, ele realmente quis. Um lado dele sabia que o pai nunca o deserdaria. era importante demais para ser jogado na lixeira. Mas seu pai estava tão furioso que aquelas palavras soaram assustadoramente verdadeiras, despertando outro lado de , que acreditou nessas palavras, deixando-o com medo. Seu pai não era conhecido por ser a pessoa mais misericordiosa da história, e o filho tinha conhecimento da sua teimosia estúpida; aliás, ninguém nunca havia tido a ousadia de contrariá-lo, fazendo-o acreditar que o seu julgamento era o único verdadeiro e necessário. Essa outra parte de não duvidava da capacidade do pai de fazer coisas loucas, sem sentido, e essa parte começou a acreditar que, talvez, seu pai o punisse severamente, caso não fizesse o que ele havia lhe mandado.
E, desde a conversa, estava tendo um conflito sangrento entre as duas partes do seu inconsciente, sabendo lá no fundo que ele cederia aos desejos do pai, mais cedo ou mais tarde.
— Eu vou pegar um ar. — depositou o copo na mesa, levantando-se da cadeira. — Você sabe onde ficam as portas para o jardim?
— No final do corredor, virando à esquerda, mate. — Rupert direcionou o caminho para com a mesma mão que segurava um canecão de cerveja, quase derrubando nos sapatos lustrados do jovem.
virou as costas para o ruivo, saindo da sala e seguindo suas instruções.

Enquanto percorria os famosos jardins do palácio de Kensington, percebeu que ir ao jardim havia sido a sua melhor decisão. Apesar de encontrar um casal diferente a cada arbusto, aquele era um lugar bem mais calmo que a caótica sala em que se encontrava alguns minutos atrás e, finalmente, ele era capaz de organizar seus pensamentos direito. Ele andava lentamente por um túnel de flores, chutando pequenas pedrinhas com o seu sapato.
Agora, com a sua cabeça não mais turbulenta com uma dúzia de mulheres e bebidas, ele conseguiu pensar no que realmente a conversa com o seu pai significou. Ele realmente queria que se cassasse. Ele! O seu filho! O maior libertino que os quatro cantos do mundo comentavam sobre! Como seu pai havia chegado a uma conclusão tão absurda? Estaria ele doente?
Se seu pai estivesse doente, ele deveria garantir tudo para o seu filho antes de morrer; inclusive, um casamento, e isso explicaria as coisas. Mas não, ele não estava doente. não havia visto seu pai tão bem há um bom tempo. Se o velho estivesse doente, estaria pregado em uma cama, ao invés de dançando em um baile em Londres. Então, qual seria o motivo dessa proposta de casamento repentina? Seu pai não estava louco e nem doente, qual outro motivo existia?
não era o tipo de homem que se via casado em alguns anos e raramente o jovem pensava sobre o seu futuro. O que realmente importava em sua vida era o agora. Os planos para o futuro, preferia deixar de lado. Ele sabia que, algum dia, sua vida se transformaria completamente pelo fardo que ele carregava e, por isso, odiava pensar no futuro. Odiava pensar em si mesmo como o seu pai, sem os prazeres da vida que ele tanto amava. Por isso, ele resolveu ir embora. Resolveu aproveitar sua juventude enquanto não era responsável por assuntos que não fazia ideia de como lidar. Ele resolveu ir conhecer o mundo e sentir-se na pele de alguém que não tem responsabilidade alguma com as pessoas ou com algo.
De repente, um som fraco chamou a sua atenção, desviando-o dos pensamentos que saltitavam em sua cabeça. Um som ritmado de passos esmagando as pedrinhas que chutou alguns segundos atrás. Ele levantou os olhos, observando uma silhueta no final do corredor caminhando rapidamente em sua direção. Devido à distância, ele não conseguia reconhecer quem era. Apenas sabia que era uma mulher pelo tamanho da saia que contornava o seu corpo. Ela acelerava os passos cada vez mais e, devido ao silêncio, percebeu que a mulher falava sozinha. Ele só não sabia o que ela estava falando.
As falhas das flores deixavam a luz da lua brilhante no céu adentrarem no túnel por feixes e, toda a vez que a mulher passava por um desses feixes, era capaz de ver um pouco mais dela. Porém, a única coisa que ele conseguia fielmente identificar era que ela estava vestida toda de preto em um vestido formidavelmente grande, diferente de todos os vestidos que as mulheres usavam naquela ocasião e, pelo barulho de seus passos, ela usava saltos. A mulher conseguia andar rapidamente neles em uma elegância inquestionável.
Conforme ela ia aproximando-se de , seus passos só continuavam a acelerar. Ele franziu as sobrancelhas, um pouco confuso. Ela não iria diminuir os passos? Se ela continuasse naquela velocidade, acabaria batendo violentamente em , que não teria para onde se esquivar. O corredor não era largo o suficiente para que ela passasse ao seu lado tranquilamente, sem esbarrar em seu corpo robusto. Então, percebeu que a mulher não havia levantado os olhos. Seus braços estavam envolta de sua cabeça, tentando desfazer o nó da mascará, que estava presa em seus olhos, supôs ele, e sua cabeça estava pendida para baixo, encarando os pés, que andavam rapidamente.
Se ela não diminuir a velocidade, vai acabar batendo em mim, pensou ele.
E foi exatamente isso que aconteceu alguns segundos depois. O corpo da moça bateu violentamente contra o ombro de , fazendo ambos se desequilibrarem. A máscara, que estava nas mãos da garota, voou para o chão quando ela tropeçou e, assim que recuperou o equilíbrio, ela acompanhou o movimento da peça, abaixando-se até o chão e procurando a máscara, que se fundiu com a escuridão naquele trecho do túnel.
— Eu sinto muito — disse ela com a voz abafada, enquanto suas mãos tocavam o chão coberto de poeira. — Eu estava desatenta aos meus passos, não percebi que havia alguém aqui.
— Você deveria tomar mais cuidado por onde anda. — observou a máscara preta lisa colada ao seu pé.
A moça, que tinha sua atenção voltada para o canto esquerdo de , não havia notado a peça parada ali.
— Estava escuro e a máscara cobriu metade da minha visão — disse ela, mentindo.
sabia muito bem que isso não tinha nada a ver com a escuridão ou com a máscara. A questão era que a jovem realmente não havia olhado por onde andava.
desceu o tronco, alcançando, com uma das mãos, a máscara e estendendo-a em direção à moça.
— Aqui está.
A jovem, que estava com a cabeça vidrada no chão, à procura da máscara como se a sua própria vida dependesse disso, levantou o rosto para , e ele se sentiu perdendo o fôlego.
Por dois segundos, ela olhou para ele. Durante dois segundos, a moça levantou os olhos para ele, antes de pegar a máscara e virar-se de costas para colocar sobre os olhos novamente. E esse tempo foi o suficiente para gravar todos os detalhes de seu rosto: ela possuía olhos grandes e delicados, decorados por uma fina linha preta acima das pálpebras; os cílios eram grandes e cobriram seus olhos como cortinas de seda quando ela piscou, antes de se virar; a boca era grande e cheia nas medidas certas, desenhada perfeitamente e decorada com um batom vermelho vivo, que fazia aquela boca a mais atraente que ele já havia visto em toda a vida; o nariz, como todo o rosto, parecia ter sido desenhado milimetricamente, nas proporções certas de uma estátua perfeita. Quando ela virou de costas, ele segurou o impulso de virar o corpo da jovem moça novamente.
Ele não estava pronto para parar de olhar para ela.
Agora, de costas, observou o cabelo da jovem, preso em um “rabo de cavalo” delicado, tocar a metade de suas costas. Ele parecia ser tão sedoso e macio que quase não conseguiu segurar o impulso de segurá-lo em suas mãos. Para sua sorte, ela virou novamente para ele, agora com a máscara tapando uma boa parte do seu espetacular rosto.
Ela arrumou a postura, levantando ombros em uma linha reta. Aquele gesto esbanjou um tipo de classe não intencional que nunca havia visto em toda a sua vida. Ela pareceu ter feito aquele movimento com a maior normalidade do universo.
— Eu sinto muito por ter esbarrado no senhor — ela disse com a voz muito menos ofegante que antes, totalmente controlada agora. — Eu o machuquei de alguma forma?
ficou em silêncio por alguns segundos e, depois, abriu um sorriso com o canto dos lábios, dando uma risada.
Ela realmente havia perguntado se eu havia me machucado?
A dama pareceu não muito contente com a reação de , espremendo os lábios em uma linha fina.
— Bom, como nenhum dos dois está machucado... — Ela ergueu o queixo um pouco, abrindo um daqueles sorrisos falsos que foi acostumado a ver a vida toda, mas que, surpreendentemente, havia lhe deixado maravilhosa. — Tenha uma boa noite, senhor.
Desta vez, quando ela se virou, não foi capaz de resistir ao impulso de agarrar o seu braço. Isso a assustou, e ela desceu os olhos para o antebraço, encarando a mão fechada de envolta dele, com os olhos abertos, totalmente perplexa.
— O que você está fazendo? — perguntou ela, chacoalhando-se levemente contra o braço de . — Solte-me.
O que ele estava fazendo? Nem mesmo era capaz de responder àquela pergunta. Ele sabia que estava completamente hipnotizado pela jovem moça. nunca havia visto alguém com uma beleza tão exuberante quanto ela e aquilo era óbvio nas feições dele. E ela estava ali, naquela festa. Mesmo vestida completamente diferente de todas as outras mulheres, ela ainda estava naquele lugar. A única dama não contratada para festa, até onde ele sabia, era Caroline Hanôver, e aquela não era ela.
Mas, talvez, pudesse ser uma de suas damas de companhia.
Ele sorriu por dentro. As damas das irmãs Hanôver eram conhecidas pelos atributos físicos, porém ele nunca havia ouvido que uma delas era tão bonita quanto à moça que estava em pé à sua frente, mas, ainda assim, essa era a resposta mais provável para uma jovem tão bem vestida e com tanta elegância. Isto também explicaria o porquê de a jovem estar sozinha nos jardins: damas de companhia de mulheres da mais alta realeza não se misturavam com qualquer tipo de homem.
Damas de companhia adoravam homens como , e havia adorado ela.
— Por que está com presa? Ela quase colocou nós dois no chão — disse ele, apossando-se da voz que usava para conquistar qualquer mulher. — Você não acha que deveria diminuir os passos?
— Eu acho que o senhor deveria fazer o que eu disse — respondeu ela, com o mesmo tom de voz irritadiço que havia usado antes. — Solte-me agora.
Apesar de achá-la ridiculamente atraente com aquela feição irritada — testa franzida, olhos fixos no rosto dele e os lábios carnudos, e bem desenhados, exprimidos levemente um contra o outro —, ele largou o braço da garota. Deixando de lado o comportamento libertino, era impecavelmente educado e respeitoso, principalmente quando estava na companhia de mulheres. Esse comportamento natural do garoto, combinado com o seu poder de sedução, era o segredo guardado a sete chaves do jovem para conquistar qualquer garota.
Especialmente esta, que olhava para ele como se ele fosse completamente maluco.
a observou mais uma vez e, desta vez, deu-se conta dos atributos da jovem: o corpete preto que ela usava era muito mais comportado que todos os outros corpetes que as outras mulheres na festa usavam, mas ele não era inocente. Dava uma visão maravilhosa do busto da garota, que pareceu ainda mais atraente quando o ritmo de sua respiração diminuiu, fazendo seu peito subir e descer profundamente.
— Que tipo de homem é o senhor? — ela perguntou ofendida, notando o olhar de para o busto dela.
Pela primeira vez em muitos anos, ruborizou. Deus, o que havia de errado com ele? Ele, primeiramente, havia encarado descaradamente o busto de uma jovem dama que, obviamente, se sentiria ofendida por isso e, em segundo, ele havia ruborizado!
— Eu sou um homem muito respeitoso, senhorita. — Ele tossiu um pouco, forçando a voz a não falhar. pensou seriamente em proferir um pedido de desculpas à dama, mas admitir que ele, de fato, havia encarado seu busto seria mais ofensivo ainda. Ela, porém, apenas franziu as sobrancelhas, parecendo confusa ao ouvir a palavra “senhorita”. — Eu não daria motivos para senhorita acreditar o contrário.
— As suas atitudes me fazem pensar o contrário — respondeu ela, um pouco menos nervosa, mas mantendo firme a postura firme, defensiva.
— Permita-me redimir pelos meus erros — murmurou , arrumando a postura, enquanto estendia a mão à jovem moça.
Os olhos dela se intercalaram, pelo menos, 5 vezes, entre a mão e o rosto do rapaz. Ele pôde ver a cena da dama recusando-se a estender a mão, acabando com as milhares de pontadas de animação que se reviravam, como as notas de uma orquestra, no estômago de , por aquela garota. No fim, ela acabou cedendo, lhe dando a mão. O toque da mão quente dela contra sua mão fria trouxe vários arrepios ao corpo de . A mão da jovem era delicada, macia como uma seda, e ele fora incapaz de se impedir de imaginar como seria tocar as outras partes de sua pele.
Ele, então, levou os lábios até a mão da garota, depositando um beijo delicado nas costas de sua mão.
— O que leva uma dama tão bonita a andar sozinha pelos jardins? — ele disse, retomando a voz sedutora. O sorriso em seu rosto desapareceu quando ela olhou para ele indiferente, ignorando totalmente o elogio que ele dirigiu a ela, puxando a sua mão novamente para si.
— Então uma dama não pode andar por lugar algum sozinha? — perguntou ela, erguendo as sobrancelhas perfeitamente desenhadas.
— Não é o que eu sugeri, senhorita. — respondeu, observando-a fazer outra careta discreta ao ouvir a palavra “senhorita”. Ele balançou os pés impacientemente. Por que ela estava tão ofendida por ser chamada de senhorita? Aquele era o termo que ela ouvia o tempo todo, sendo uma dama de companhia, não?
— O ambiente não me agrada lá dentro — respondeu ela, afinal. Desta vez, não pôde evitar de sorrir, especialmente depois que os olhos esplêndidos dela olharam para ele rapidamente, examinando-o. Ela tentou disfarçar, voltando os olhos para o chão, assim que os olhos dele encontram os seus, mas nunca deixaria um movimento daqueles escapar, especialmente vindo dela.
Prestes a aproximar-se dela, com um daqueles sorrisos que ninguém era capaz de resistir, passou as mãos no cabelo , despenteando-o um pouco. A jovem continuava com os olhos fixos em seus próprios sapatos, e ele estava se preparando para encará-la com aquela aparência, a aparência que nem mesmo ele resistiria se fosse uma mulher e um homem como ele a abordasse. Então, sem nem ao menos olhar para ele, ela apenas deu um suspiro, levantando a cabeça e limpando a garganta, dizendo a seguir:
— Tenha uma boa noite, senhor.
E então, ela segurou as camadas das saias nas mãos, virando-se, até estar de costas para ele, fazendo se sentir como uma flor murchando.
— Você... — chegou a gaguejar, devido ao desespero de ver a silhueta dela afastando-se dele. Ele agarrou seu braço novamente; desta vez, com menos força. — Você já está indo? — Por que essa dama estava deixando-o tão nervoso? Pelo amor de Deus, ela era apenas uma jovem! — Eu... Nós nem ao menos nos apresentamos.
A jovem parou bruscamente, puxando seu braço com força e assustando . Quando ela virou o rosto para ele, não foi possível reconhecer as feições delicadas da jovem. Seu rosto estava completamente imerso em uma poça de rigidez.
— Eu não estou interessada em saber o seu nome — retrucou ela, da forma mais rude que ele já havia ouvido uma dama dizer. — Eu não estou interessada em saber nada em relação a você, senhor.
Ele sentiu como se tivesse levado um tapa na cara, e um dos grandes. Se ela tivesse dito com todas as palavras do mundo que não havia ficado atraída por ele, não teria ficado tão claro como ficou ao dizer aquelas palavras.
Primeiramente, ficou chocado, muito chocado. Uma moça, no meio de milhares que ele já havia conhecido, não havia se sentido atraída por ele. Seria isso uma brincadeira? Algum tipo de peça pregada nele pelos seus três mosqueteiros com o objetivo de magoar o seu ego? Se fosse, eles acertaram em cheio. O ego de homem algum havia ficado tão machucado quanto o de ao ver que a jovem, que ele mais havia se sentido atraído em toda a sua vida, não havia retribuído. E isso fez com que , em seguida, ficasse furioso.
Quem aquela garota pensava que era para tratá-lo com tanto desdém? A Princesa da Inglaterra? Ele não estava irritado pelo fato de que ela havia rejeitado ele, mas, sim, pelo fato de que ela havia tratado exageradamente mal. Nenhuma garota jamais havia rejeitado e, sim, isso havia deixado ele um pouco irritado, mas ele não poderia forçar todas as mulheres do mundo a caírem aos seus pés. Ele só esperava que quando fosse rejeitado, fosse, pelo menos, com educação. Ele havia sido educado com ela, enquanto ela havia dado tantos coices nele como um cavalo.
— Ah, eu vejo. — disse, após alguns segundos. Ela já havia começado a andar novamente e, agora, outro sorriso havia aparecido no rosto dele. Ela não queria que ele a cortejasse? Tudo bem, ele não faria isso. Aliás, ela era uma dama, e sabia como tratar uma perfeitamente. Mas o seu manual não dizia nada sobre irritar uma delas, o que pareceu algo muito divertido para ele, naquele momento e, ao mesmo tempo, infantil para um jovem de 25 anos. — Tem um homem te esperando.
A jovem parou bruscamente, virando o rosto para ele, estupefata.
— Como disse? — ecoou ela, com a voz fraca.
Ótimo.
— Você mesmo disse. — andou em direção às flores que rodavam o túnel, esforçando-se para não dirigir o olhar a ela. O seu tom de voz não era mais caloroso e sensual, e, sim, desinteressado. — A senhorita disse que não gosta do ambiente interno... — fez questão de dar ênfase à palavra. — Então, o mandou vir aos jardins — ele respirou fundo, antes de continuar: — Entendo. Não é muito inovador, já vi uma dúzia de casais nesses últimos minutos... Mas, se esse é o seu modo de trabalho, quem sou eu para discordar, não?
— O senhor está... O senhor está... — a jovem começou a gaguejar, completamente petrificada. — Minha nossa! — Ela abriu a boca, certamente 5 vezes, assim que a insinuação ficou completamente clara, chocando-se ainda mais do que já estava. não pôde evitar encarar aquela cena com um sorriso. — Como você ousa? — berrou ela, aproximando-se dele, quase tropeçando nos próprios sapatos. — Você sabe quem eu sou?
A jovem parou os passos rápidos, detendo-se apenas a um braço de distância de . Apesar da máscara, ele conseguia reconhecer perfeitamente a fúria indomável nos olhos dela.
— Você sabe quem eu sou? — retrucou ele, cruzando os braços esnobemente. estava fazendo um esforço incrível para segurar a própria risada.
— Eu não ligo para quem o senhor é. — Ela nem ao menos pensou por um segundo na resposta, retrucando imediatamente. — Ofenda-me mais uma vez, e eu mesma cortarei a sua língua fora!
Antes que ela pudesse direcionar mais uma ofensa, abriu um sorriso transbordado de malícia, dizendo:
— Eu adoraria vê-la fazendo isso.
Por alguns segundos, ficou preocupado. O corpo da moça foi abruptamente para trás, como se ela tivesse levado um choque, e suas mãos subiram até os seus lábios, com os olhos encarando-o aterrorizada. Ela ficou rígida, como uma das estatuas no jardim. Talvez, eu tenha passado dos limites, pensou ele, começando a montar um pedido de desculpas em sua cabeça, quando ela emitiu um som:
— O senhor é... O senhor é... — Suas tentativas de formar uma frase eram um fracasso. Mesmo com a luz fraca da lua, conseguia ver que o rosto da jovem estava levemente ruborizado. As duas mãos estavam coladas ao lado do vestido, fechadas em punho, como se, a qualquer momento, ela pudesse levantar uma das mãos e atingi-lo no rosto. Finalmente, com um tom fraco e agudo, ela conseguiu terminar a frase: — Você é desprezível!
— Graças a Deus, a senhorita falou! — descruzou os braços, erguendo-os como se estivesse agradecendo algo. — Comecei a achar que alguém havia comido a sua língua.
Ela continuou parada, observando-o com os olhos, em estado de choque.
— Perdoe-me, senhorita. — Ela pareceu surpresa quando ele disse, suavizando a expressão, finalmente, após longos minutos. — Você deveria encontrar o homem que está te aguardando, e eu estou roubando o seu tempo. — Desta vez, ela não abriu os olhos, chocada, mas semicerrou, com fúria. Agora, sim. — Aliás, seu corpo está repleto de tensão... — Realmente estava. Mesmo sem tocá-la, conseguia perceber a enorme tensão que estava acumulada nos ombros da jovem. — E os serviços que você é capaz de oferecer, eu tenho certeza que aliviam essa tensão em minutos.
Ele disse aquelas palavras em um tom de malícia proibidamente explícito para jovens como ela e, desta vez, a jovem aproximou-se dele, com o peito inflando, devido à fúria. Ela fixou os olhos nos olhos de e, agora, ela parecia prestes a dar uma bronca nele como sua mãe havia feito tantas vezes.
Quando ela abriu a boca para falar, ao invés de ouvir a sua voz, ouviu um grito alegre masculino. Ele franziu as sobrancelhas, confuso, e quando os olhos da jovem moça se abriram completamente em grande espanto, olhando por cima do ombro dele, ele não se segurou em virar, vendo o que a jovem havia visto também.
Dois homens, cambaleando muito, entraram no túnel gritando e cantado alguma música que era impossível de ser reconhecida, devido à fala enrolada, obviamente, pelo efeito das garrafas de bebidas que estavam em suas mãos. A má iluminação dentro do túnel impedia que visse as feições dos homens, mas ele era capaz de reconhecer aquelas vozes, mesmo a quilômetros de distância.
Droga.
Ele virou para frente novamente, com as palavras na ponta da língua, para explicar à jovem dama que nada havia para ela temer, mas tudo que viu foi a escuridão do túnel até o final, sem nenhum resquício de que, algum dia, uma mulher tão bela quanto aquela havia existido.
— Droga! — praguejou ele, agora, em voz alta, chutando o chão. Os seus sapatos pretos foram completamente cobertos de poeira, mas ele não ligou.
E, praguejando inúmeras ofensas baixas, foi rapidamente em direção aos homens, rezando para qualquer divindade existente que ele fosse capaz de controlar a si para não lançar seu punho na cara daqueles patifes.
— Que diabos vocês estão fazendo aqui? — vociferou ele assim que parou em frente aos dois. A silhueta robusta de impediu que os dois continuassem os passos lentos e descontrolados, fazendo-os esbarrem contra o seu corpo, quase derrubando, pela segunda vez na noite, bebida em suas roupas.
? É você mesmo, ? — o jovem da esquerda perguntou, esticando a mão para tocar no rosto, que se esquivou rapidamente. Quando o jovem soltou uma bufada de ar, irritado, ele sorriu abertamente, com uma felicidade inexplicável. — É você, !
— Pelo amor de Deus, levante-se, André! — segurou André pelos braços assim que ele indicou que estava indo ao chão. Agora, em pé, agarrado pelo ombro em Dmitri, ambos começaram a falar ao mesmo tempo, fazendo gestos com as mãos e gritando animadamente enquanto sorriam. colocou as mãos no rosto, respirando pesadamente, enquanto tentava encontrar alguma calma em seu corpo.
— A festa lá dentro está tão boa, ! — Dmitri disse um pouco mais alto com a voz enrolada.
— Então, por que vocês não estão lá dentro? — perguntou por entre dentes.
— Por que você não está lá dentro? — rebateu André, com aquele mesmo sorriso estúpido no rosto que estava com tanta vontade de arrancar. — Tem música e bebidas, e mulheres... Ah, as mulheres! — Ele se jogou para frente, caindo nos braços de , que segurou seu corpo com uma careta. Deus! Ele estava fedendo muito. — Eu nunca vi mulheres tão bonitas no mundo, com corpos tão maravilhosos e...
— Tudo bem. — interrompeu-o, apesar do jovem ter continuado a falar sozinho. — Mulheres maravilhosas — murmurou ele, mal conseguindo conter a raiva.
— Por que você não está com uma mulher? — Dmitri voltou a falar, após beber praticamente toda a garrafa em um gole só. quase enfiou a garrafa em sua garganta, para que ele pudesse ficar quieto novamente. — Eu tenho certeza que todas as mulheres gostariam de estar com o...
— Eu estava! — rugiu , cortando a fala de Dmitri. — Até que vocês apareceram neste estado — ele murmurou a última parte mais baixo, devido o tom de voz extremamente grosseiro. — Onde está Alexei?
— Nós não o vemos desde que você nos largou para ficar com aqueles ingleses arrogantes. — Dmitri acusou-o com a voz embriagada. apenas balançou a cabeça, não fazendo ideia de onde Dmitri havia chegado a essa conclusão absurda. Ao chegarem, e seus “três mosqueteiros” — Alexei, Dmitri e André — estavam todos juntos bebendo com Ruperth Rutland, os gêmeos Loockwood e mais um bando de ingleses que não era capaz de lembrar o nome. Quando foi convidado para a sala de jogos por Ruperth, os três recusaram o convite, e não havia visto mais os rapazes até agora. — Ele, provavelmente, deve estar com uma mulher.
— Todos nós deveríamos estar com alguma mulher. — André, que, até aquele momento, continuava balbuciando sobre os atributos das mulheres inglesas, pareceu ter finalmente despertado de seu transe, levantando dos braços de . Ele precisou de algum tempo para ficar com as pernas firmes e não cair de cara no chão. — O que aconteceu com a mulher que você estava? — ele perguntou, afinal.
— Vocês a assustaram — disse , dando uma pausa para ter certeza que suas vestimentas não haviam ficado com o mesmo cheiro imundo de André —, entrando por este túnel como dois palhaços que mal conseguem ficar em pé.
Os dois jovens, agora parados um ao lado do outro, trocaram um olhar que durou apenas um segundo, mas que foi o suficiente para fazê-los cair na gargalhada.
— Ela se assustou? — André disse, entre as gargalhadas altas e exageradas dos dois. — Uma cortesã se assustou com nós dois? — Ele recuperava o fôlego, tentando parar de rir inutilmente. — Eu acho que você bebeu demais, !
— Bom, eu acho que você imaginou essa mulher! — foi a vez do Dmitri dizer, rindo mais que André. — E como ela era? Usava uma túnica, cobrindo todas as partes do corpo? — respirou fundo, dizendo a si que não bateria em dois dos seus três melhores amigos. — Uma cortesã que se veste como uma freira?
cruzou os braços, observando os dois rirem cada vez mais enquanto falavam mais e mais sobre a suposta mulher que ele, segundo os dois, havia imaginado. Ele fechou os olhos, tentando pensar em quais seriam os seus próximos passos. Ignorando todas as baboseiras que André e Dmitri haviam dito, a jovem moça esteve realmente ali. Tudo bem, não estava com ela do jeito que seus amigos pensaram — como todos os outros homens estavam com mulheres nos jardins —, mas ele esteve com ela ali e até mesmo foi capaz de sentir a pele delicada da moça em seus dedos. E o pior de tudo: ela havia ido embora, sem que ele soubesse o seu nome ou qualquer outra coisa em relação a ela.
Ele precisava encontrá-la.
Talvez, ela tenha ficado tão assustada com a ideia do jardim que resolveu voltar para dentro, pensou . Não era uma má conclusão. Com toda a conversa de sobre casais que estavam desfrutando o prazer atrás de arbustos, a jovem dama, com certeza, havia ficado aterrorizada com aquilo e, possivelmente, voltou para dentro do palácio.
— Sim, sim. — suspirou, cansado, descruzando os braços e arrumando as vestimentas. — Vocês estão certos, eu estou bêbado demais.
— Graças ao bom Deus, você percebeu, . — Dmitri disse, esticando a mão para tocar o ombro de , mas a distância deles dois era bem mais que um braço, fazendo o movimento ser em vão. — Você precisa confiar mais em nós.
Se eu quero acabar dormindo despido nos jardins do palácio de Kensington, é claro que eu irei confiar mais em vocês, respondeu ele mentalmente.
— Eu vou procurar por Alexei — concluiu , afastando-se dos dois rapazes. — Talvez, ele tenha algo para tirar esse tanto de álcool do meu organismo.
Yes! — respondeu Dmitri, começando a andar na direção oposta de , com um dos braços envolta dos ombros de André. — Depois, venham nos encontrar nos jardins!
— Não se esqueça de trazer mulheres! — completou André. — Inúmeras mulheres.
Praguejando baixo, virou completamente as costas para eles, saindo do túnel de flores. Em passos rápidos, ele contornou os jardins de Kensington, ficando surpreso com si próprio ao se lembrar do caminho, dando de cara com uma porta dupla de vidro detalhada a ouro que dava direto para o salão de baile.
Assim que ele entrou no salão de baile, deixou os olhos vagarem pelos convidados, que dançavam animadamente a música da orquestra. Em pares, os homens dançavam em pulos com as mulheres ou — até mesmo — com homens bêbados, girando pelo salão. Não seria difícil encontrá-la naquele local, a jovem dama era a única com um vestido preto extremamente glamoroso.
Para atravessar o salão, precisou se encolher no meio de centenas de pessoas, esbarrando em corpos e partes que ele não desejaria ter tocado. E, quando ele finalmente conseguiu sair do aglomerado de pessoas, uma moça bateu contra o seu braço enquanto corria na direção oposta dele.
Ele virou-se imediatamente, tendo esperanças de ver o vestido preto e a face inesquecível daquela que tanto procurava, mas, ao invés disso, se viu frente a frente a uma jovem de cabelo loiro.
— Desculpe-me, senhor. — O cabelo loiro e volumoso caia em cachos pelo decote estratosférico da moça, que exibia um busto grande. Ela usava um vestido vermelho berrante com mangas curtas, e a mascará não estava mais em seu rosto, exibindo olhos verdes claros que, quando levantaram para olhar para ele, encararam com uma malícia que só havia visto homens usarem. — Ou não — completou ela, sorrindo como um gato.
E ele sorriu para ela, esquecendo-se completamente da dama de preto.

*Que ele defenda nossas leis, e sempre nos dê causa... Com coração e voz para cantar, Deus salve o rei!


Capítulo 2

Pretty green eyes, so full of sparkle and such light

(Bonitos olhos verdes, tão cheios de brilho e de tal luz)


— Que homem desprezível! Quem ele pensa que é? — O barulho ritmado dos sapatos de , no corredor, juntava-se à sua respiração ofegante e às suas palavras ditas em voz baixa, em um tom de voz carregado exageradamente de raiva. — Como ele ousa me chamar praticamente de uma cortesã?
estava furiosa. O ritmo de seus passos esboçava a fúria que havia tomado conta de seus vasos sanguíneos. Agora, ela andava freneticamente por um dos corredores do palácio de Kensington, procurando por alguma de suas damas, ou, melhor ainda, procurando pelos apartamentos reais, onde ela poderia se trancar em um quarto e passar o resto da noite, depois daquele completo fiasco.
Na verdade, “fiasco” era apelido.
Em 20 anos de sua vida, ninguém havia a insultado de maneira alguma ou sequer feito menção de fazê-lo. Tudo bem, não era um padrão de comparação — ela nunca havia ouvido ofensas à sua pessoa, devido ao seu sangue real, e sabia que ninguém jamais ousaria insultar (pelo menos, diretamente) a filha de um imperador —, mas ela não deveria ter sido cega. deveria ter aberto os olhos para a possibilidade de que, algum dia, um homem arrogante e estúpido ousaria insultá-la com palavras ou insinuações desrespeitosas.
— Se ele soubesse quem eu sou... — disse ela, praticamente explodindo. — Ele nunca falaria comigo desse jeito!
As palavras ainda ecoavam nos ouvidos de , como se seu próprio subconsciente estivesse tirando sarro dela.
“E os serviços que você é capaz de oferecer, tenho certeza que aliviam essa tensão em minutos” — disse ela, imitando a frase do cavalheiro e ridicularizando sua voz. — Você verá os serviços que sou capaz de oferecer quando eu pedir para o imperador cortar sua cabeça. Claro que ela não estava falando em decapitar o homem de verdade, mas estava com tanta raiva que imaginar a cena daquele homem sem a cabeça lhe trouxe uma felicidade inexplicável.
praguejou, tirando os sapatos dos pés. Ela queria se livrar daquilo, de tudo aquilo: dos sapatos; brincos; pulseiras; vestido... Queria queimar a máscara, desfazer o penteado e bagunçar o cabelo. Depois de tirar tudo, entraria na banheira e tomaria um longo banho, esfregando cada parte de seu corpo para se livrar de qualquer resquício desta noite.
— Por que eu não consigo achar esses apartamentos? — perguntou a si em voz alta enquanto dobrava um corredor precariamente iluminado.
conhecia superficialmente o Kensington. Ela não era como seus irmãos que sabiam a planta do palácio na palma da mão. Como raramente visitava a propriedade no Hyde Park, não gastava sua memória, tentando decorar como as paredes e as janelas dos apartamentos reais eram. Ela sempre esteve ali com sua família e nunca havia passado pela sua cabeça que, algum dia, estaria ali sozinha, tentando achar seus cômodos para passar a noite e quase explodindo em fúria por um homem tê-la chamado de cortesã.
Depois de percorrer mais meia dúzia de corredores, entrou em um corredor mais comprido, comparado a todos os outros, e deu de cara com uma silhueta robusta parada em frente a uma janela. Não foi necessário mais de 30 segundos para identificar quem era.
— Ah, graças a Deus! — exclamou. — Philip!
— Sim? — respondeu ele com a voz rouca e baixa.
Philip estava parado no meio do corredor, com a luz fraca das velas iluminando muito pouco de seu rosto. Suas vestimentas eram completamente pretas, assim como as de , que achou peculiarmente estranho, sabendo que o irmão usava, na maioria esmagadora das vezes, as cores da bandeira britânica.
— Eu procurei por você por toda a parte. — segurou a saia do vestido em suas mãos, andando apressadamente até o irmão. Tudo bem, ela não estava particularmente procurando por Philip, mas encontrá-lo foi a coisa mais agradável que aconteceu desde que colocou os pés no Kensington. Ela estava perambulando atrás de Margot, a mente perversa por trás desse fiasco, e achou Philip, que apareceu como um anjo esperando por ela no final do corredor. estava tão aliviada que mal pôde conter o sorriso em sua face. — Deus! Estou tão aliviada!
Ela diminui a velocidade dos passos, conforme chegava perto de seu irmão, e parou alguns centímetros à sua frente, soltando a saia do vestido e alisando-a com as mãos. notou que Philip inclinou a cabeça para o lado, olhando-a de cima a baixo.
— E agora que você me achou... — ele disse com um tom de voz malicioso que nunca havia ouvido antes. — Gostaria de entrar um pouco?
Ela o olhou, confusa.
— O quê?
analisou a situação; ela estava no palácio de Kensington durante uma festa repleta de cortesãs, em um corredor mal iluminado, com uma máscara em seus olhos, dizendo que estava procurando por Philip Hanôver.
— Pelo amor de Deus, Philip... — disse, revirando os olhos quando entendeu o que aquilo se tratava. Ela levantou as mãos até o topo de sua cabeça, desfazendo o nó da máscara. — Sou eu.
? — perguntou ele, engasgando. — Bloody hell*! O que você está fazendo aqui? — ele indagou com a voz alta, como se ainda não acreditasse que sua irmã mais nova estava parada bem à sua frente.
Aquele sentimento de alívio que ela havia começado a sentir há alguns segundos foi completamente embora no momento em que percebeu que não deveria estar ali. O último lugar no mundo em que ela deveria estar era naquele maldito palácio, naquela maldita hora, na frente do seu maldito irmão.
Philip se recompôs do choque e deu dois passos para frente, deixando a luz das velas iluminarem completamente seu rosto. engoliu em seco, dando dois passos para trás. O rosto dele transformou-se completamente em questões de segundos — de um bêbado atrevido para um homem com raiva.
Com muita raiva.
— É uma longa história... — começou , tentando firmar um tom calmo em sua voz.
Ele voltou-se para o lado, tocando na maçaneta de uma porta à sua direita, e apenas disse:
— Entre.
— Acalma-se Philip, por favor. — falou bem devagar.
— Entre — ele insistiu, ignorando novamente. O tom de voz dele foi absurdamente rude, e decidiu entrar no cômodo, acreditando que, na terceira vez, o irmão não se incomodaria de usar palavras. Ele a pegaria pelos braços e a levaria para dentro contra sua vontade.
passou pela porta, observando o irmão fechar a mesma, segundos depois. Ela não reconheceu o cômodo, indicando que, provavelmente, estava na ala sul, nos apartamentos onde os hóspedes ficavam. Isso significava que os apartamentos da família real, na ala norte, estavam do outro lado do palácio.
Ótimo trabalho, .
Não havia nenhuma vela acesa lá dentro e as grandes janelas permitiam a luz da lua adentrar no cômodo, iluminando-o um pouco. Apesar da má iluminação, foi capaz de identificar o grande número de cadeiras e poltronas almofadadas, e as grandes prateleiras de livros cobrindo as paredes.
— Você não precisa ficar tão bravo. — disse, observando Philip fechar a porta.
— Branson sabe que você está aqui? — perguntou ele com a voz baixa, grossa e trêmula de raiva. — Ele deixou você sair do palácio?
— Não. — sussurrou, torcendo para que o irmão não ouvisse suas palavras.
— Você veio contra as vontades dele? — Philip fuzilou a irmã com o olhar.
— Não, Philip — disse ela lentamente —, o dispensei algumas horas atrás, dizendo que precisava dormir.
E, então, como esperava, Philip explodiu. Não havia outra palavra para descrever o que aconteceu. Sua mão direita, fechada em punho, foi de encontro à mesa de madeira no canto da sala, e o barulho estrondoso daquele impacto fez revirar os olhos.
Ele estava sendo dramático, como sempre.
Quando Philip estava com raiva, algum móvel sempre sofria terrivelmente com sua fúria. Prateleiras socadas, cadeiras chutadas, vasos quebrados, ou, até mesmo, uma mesa inteira destruída, como aconteceu em uma noite quando tinha 15 anos e Caroline saiu escondida para uma festa em Southwark*.
Como Pedro Hanôver estava normalmente muito ocupado para saber das pequenas travessuras dos filhos, Philip, o mais velho, acabou roubando essa responsabilidade do pai, agindo como se fosse responsável pela educação dos seus 3 irmãos. Quando qualquer coisa que soava inaceitável para Philip acontecia, ele começava seu ataque de fúria, quebrando móveis, voltando-se a um sermão insuportável logo depois.
Elizabeth Sophia Hanôver, isso é inaceitável! — gritou Philip, apontando o dedo para sua irmã, logo depois de socar a mesa mais duas vezes. — Você não deveria estar aqui!
— Quem foi o bastardo que deixou você sair do Buckingham? — vociferou Philip, andando de um lado ao outro no cômodo. — Eu vou enforcá-lo!
— Eu, particularmente, acho que você está exagerando. — disse, mas se calou logo que ele a fitou com uma expressão ameaçadora.
Ela adorava provocar as pessoas, principalmente, o irmão, mas não era tão imprudente a ponto de provocar Philip quando ele estava a ponto de detonar todos os móveis daquela sala de leitura.
— Como você ousa ter vindo aqui? — perguntou ele rudemente. — Você perdeu a cabeça? Você ficou burra de uma hora para outra? — espremeu os lábios em uma linha fina, irritada e segurando a própria língua. — Você veio aqui e se esqueceu completamente de quem você é! Preciso lembrar quem você é, Elizabeth?
respirou fundo. Ela odiava ser chamada pelos seus outros nomes.
— Isso deve ser um pesadelo. — Philip colocou a mão na cintura, soltando uma risada fria. — Não, não. — Ele olhou para , cínico. — Devo estar muito bêbado e tendo alucinações da minha irmã mais nova em uma festa estúpida como esta. — Caminhou até ela, observando-a com os olhos claros repletos de fúria. — Essa é a única explicação para esta situação, porque a minha irmã, Princesa do Reino Britânico, não estaria aqui como uma...
“Não diga a palavra, Philip’’, implorou mentalmente.
— Como uma cortesã.
Quando Philip disse aquilo, observando as vestimentas da irmã, o corpo de reagiu antes da sua própria mente. Ela fechou as mãos em punho, sentindo o sangue ferver da cabeça aos pés. Pela segunda vez na noite, ela havia ouvido alguém compará-la ao tipo de mulher que, alguém como ela, nunca se tornaria.
— Não estou gostando da sua atitude, Philip. — disse, segundos depois, trêmula de raiva, interrompendo a fala do irmão. Ele havia voltado a andar de um lado ao outro, falando coisas que ela não estava ouvindo.— Você está sendo grosseiro.
engoliu em seco, mas manteve a postura firme. Não deveria ter dito aquilo e percebeu isso quando Philip parou abruptamente de andar. Sabia que sua fala enfureceria ainda mais o irmão, mas era tão difícil ficar de boca fechada.
Grosseiro? — ecoou ele, virando-se para ela. Então, com uma voz furiosa e grave, acrescentou: — Você não faz ideia do que é ser grosseiro, .
Ela respirou fundo, admitindo a si que não ficaria com medo do próprio irmão.
— Você está com raiva de mim, e não tiro sua razão. — disse, erguendo o queixo. Philip era bons centímetros mais alto que ela e, de maneira alguma, ela era capaz de adquirir uma postura que o deixasse com medo (ninguém, no mundo, era capaz disso), porém foi capaz de controlar seu tom de voz, passando superioridade suficiente para chamar atenção do irmão, a ponto de que não interrompesse sua fala: — Eu não deveria estar aqui e peço que você me perdoe por isso. — Por mais irritada que estivesse, estava sendo completamente verdadeira em seu pedido de desculpa. Ela não deveria estar ali e não era burra a ponto de negar isso. — Mas isso não te dá liberdade alguma de ser estupidamente grosseiro e rude comigo. — Olhou diretamente para os olhos claros dele. — Eu sou sua irmã, uma mulher, e você deve me respeitar.
Ele apenas continuou olhando para ela, respirando pesadamente.
— Por favor, largue essa atitude grosseira! — disse ela. O barulho da respiração furiosa de Philip era o único na sala e havia deixando-a desconfortável. — Você pode ficar furioso à vontade, depois que me ajudar a voltar para casa.
Philip virou-se de costas, indo até a mesa que havia socado minutos atrás, apoiou as duas mãos nela e abaixou a cabeça.
— Por que você não pede ao seu cocheiro para te levar ao Buckingham? — Quando Philip perguntou emburrado, em um tom infantil, respirou aliviada.
Emburrado é um milhão de vezes melhor que furioso, agradeceu mentalmente.
— Porque eu não faço ideia de onde ele está. — disse cuidadosa. Ela sabia que a raiva não havia deixado o corpo do irmão completamente, por isso, precisava escolher cuidadosamente as palavras para que Philip não voltasse àquele estado maluco de fúria. — Eu estava esperando encontrar os nossos apartamentos para passar a noite, mas, aparentemente, falhei.
Quando Philip virou-se, a respiração de foi cortada. O que ela havia dito de errado agora?
— Você não vai passar a noite aqui. — Ele a encarou como se ela fosse completamente maluca. Ah, sim. É obvio que o irmão ficaria louco ao imaginar sua irmãzinha passando a noite no lugar onde uma festa como aquela estava acontecendo. — Você vai pegar minha carruagem e voltará imediatamente para casa.
— É tudo o que eu quero. — disse verdadeiramente.
Ela só queria poder voltar para casa, depois de toda aquela loucura.
Philip desencostou-se da mesa, ajeitando a coluna e adquirindo uma postura digna do herdeiro do trono britânico.
— Amanhã nós conversaremos mais sobre a besteira que você fez — disse seriamente — e pode apostar que eu terei uma conversa nada gentil com o bastardo do cocheiro que...
— Deixe o homem, Philip. — interrompeu-o gentilmente. — Ele pensou que era apenas Margot e as minhas outras damas na carruagem. Ele não tem nada a ver com isso.
Isso era verdade. Todas elas haviam saído do palácio encapuzadas, exceto Margot, que disse ao cocheiro que ela e “As damas da Sua Alteza Imperial Hanôver estavam indo até o Kensington a pedidos de Philip Hanôver”. Se o cocheiro desconfiou de algo, ele não havia dito. Afinal, quem ousaria questionar uma ordem de Philip?
Philip apenas concordou com a cabeça, desabotoando a casaca. Ele não precisou dizer nada quando estendeu o tecido preto em direção a , ordenando silenciosamente que ela vestisse para se cobrir, não por causa da brisa lá fora, mas, sim, caso eles esbarrassem com alguém durante o percurso até as portas traseiras do Kensington.
aceitou com gratidão e enrolou-se na bela casaca. Ficava perfeito em Philip, mas tão largo e grande nela que, se vestisse um saco de batatas, não ficaria muito diferente daquilo.
Eles saíram da sala de leitura e percorreram o resto do trajeto silenciosamente. Philip liderou o caminho, percorrendo corredores do Kensington que nunca havia visto antes. Ela admitiu a si que, se tentasse sair sozinha daquele lugar, acabaria vagando a noite toda, procurando pela saída e, provavelmente, não seria capaz de achar.
agradeceu mentalmente por ter encontrado o irmão.
Para o alívio de , nenhuma pessoa havia cruzado seu caminho durante o percurso. Philip não pareceu surpreso. O irmão, provavelmente, sabia qual caminho seguir, caso não quisesse que ninguém os visse, julgou.
Poucos minutos depois, os dois já estavam do lado de fora. , enrolada nas roupas do irmão, esperando-o passar instruções para o cocheiro.
— Vá imediatamente ao seu quarto quando chegar! Não deixe ninguém ver você! — Philip disse, voltando-se a ela, após uma conversa longa com o homem sentado à frente da discreta carruagem. — Quando eu encontrar Margot, explicarei a ela o que aconteceu e pedirei que vá imediatamente ao Buckingham.
— Sim, Philip. — disse, fazendo menção em retirar as vestimentas do irmão.
— Não. — Philip interrompeu o movimento da irmã, colocando a manga novamente em seu braço. — Você vai precisar de algo para te proteger do frio.
abriu um sorriso. Não estava nem um pouco frio, mas ela não disse nada, apenas concordou com a cabeça enquanto se acomodava com a casaca novamente.
— Obrigada, Philip. — disse, lhe dando um beijo no rosto.
desvencilhou-se do abraço, e Philip segurou sua mão, guiando-a até a entrada da carruagem. Ela subiu o degrau e deu um último sorriso a Philip, antes que ele pudesse fechar a porta e dar um sinal para o cocheiro ir.

***


não conseguia dormir.
As cortinas de seu quarto estavam completamente abertas e permitiam que a luz da lua adentrasse perfeitamente, deixando-o tão iluminado que tinha uma visão perfeita de cada móvel do cômodo azul.
Seus olhos voltaram ao grande relógio folheado a ouro, no canto do quarto, examinando as horas. havia chegado ao Buckingham há 1 hora e 25 minutos. Durante a maioria desse tempo, revirou-se initerruptamente no colchão macio de sua cama. Ela não havia conseguido ficar parada em uma única posição, bagunçando os lençóis de seda e os travesseiros de pluma. Quando não aguentou mais se movimentar, deitou-se para cima e encarou o dossel na cama por minutos que pareceram mais séculos, até que o peso das dezenas de pensamentos diferentes que pipocavam em seu cérebro ao mesmo tempo trouxeram uma sensação de sufocamento no peito, sinalizando que ela precisava de um ar fresco.
Essa sensação levou a se levantar da cama e abrir as portas, que levavam a sacada, onde ela se encontrava, agora, em pé, observando os jardins do Buckingham. A brisa noturna balançava seu cabelo e arrepiava os dedos dos pés descalços, que tocavam o chão de madeira. O som dos cristais dos lustres batendo um contra o outro, devido à brisa, fizeram desaparecer o silêncio perturbador que dominava o quarto.
respirou aliviada. Deus! Como ela estava precisando daquilo!
Quando a carruagem de Philip aproximou-se do Buckingham algum tempo atrás, ordenou que o cocheiro parasse a carruagem próximo da entrada dos funcionários. Entrar pelas portas da frente, fortemente vigiada por cerca de 40 guardas em roupas vermelhas, seria uma ideia burra que a denunciaria aos seus pais. Entrar pelas portas dos funcionários também não era uma excelente ideia, afinal, os funcionários do Buckingham nunca dormiam, especialmente, nos próximos dez dias em que o palácio estaria lotado das famílias mais nobres de toda a Europa, mas, mesmo assim, era sua melhor chance.
Seu plano era subir por uma das pequenas escadas dos funcionários, que davam acesso aos apartamentos reais, enrolada na casaca de Philip, sem que ninguém a reconhecesse. não soube dizer se foi sorte que esteve ao seu lado, mas conseguiu chegar silenciosamente aos seus aposentos, sem que ninguém a notasse.
Uma vez dentro do quarto, ela fez exatamente o que prometeu a si no Kensington: arrancou os brincos, as pulseiras e todos os outros acessórios. Demorou um pouco mais no vestido, pois Margot havia apertado demais o corpete, e ela teve dificuldade em se desfazer dele sozinha. Fora de todo aquele tule e armação, desfez o penteado e bagunçou o cabelo, que virarou um ninho rebelde. As outras duas tarefas — queimar a máscara e tomar um banho — seriam feitas quando o sol nascesse. Por agora, precisava dormir depois daquela atormentada noite.
deitou-se na cama, acomodando-se embaixo das cobertas e, então, os pensamentos começaram a aparecer; a maioria deles relacionados a ele.
Os olhos verdes, os mais intensos olhos que ela já havia visto em sua vida, não saiam de sua cabeça. Não importava se ela estivesse de olhos fechados, tentando dormir, ou abertos, encarando o dossel, ou analisando os jardins de Buckingham... Eles continuavam ali, dominando seus pensamentos.
Junto com os olhos, as palavras do cavalheiro ecoavam em sua mente, fazendo com que ela fechasse as mãos em punhos e sentisse vontade de estilhaçar os vidros da porta com um soco.
ainda estava furiosa com o que havia acontecido. Ela não era capaz de imaginar uma mulher de sua alta estirpe que não sentiria cada pequena parte do seu corpo insultada por aquela insinuação. Ela, Elizabeth Sofia Hanôver, princesa do Reino Britânico, chamada de cortesã por um homem bêbado sem classe alguma. Quais eram as possibilidades de isso acontecer?
Nenhuma das aulas rigorosas de etiquetas e de protocolos da corte que ela teve que aguentar durante toda sua vida havia ensinado como ela deveria reagir a um insulto como aquele, mas, mesmo assim, sabia que não deveria nunca fazer o que havia passado pela sua cabeça: estava pronta para dar um tapa na cara dele. Ela estava pronta para levantar a mão e arremessar contra a bochecha daquele homem. O sangue em todas as partes do seu corpo havia esquentado, e sua mão formigava como se estivesse sendo queimada por uma chapa quente.
Porém, antes que pudesse cometer a maior burrada de sua vida, dois outros cavalheiros apareceram no corredor. E, como uma garotinha de 4 anos que tem medo de escuro, assustou-se. Ela assustou-se pelas risadas altas, gritos e passos bagunçados. Ela assustou-se com dois homens tão bêbados que mal conseguiam ficar em pé.
E, então, ela segurou a saia de seu vestido e correu.
não soube dizer por quanto tempo correu, apenas parou de correr quando já estava dentro do palácio, andando por um dos corredores mal iluminados.
“O que havia acontecido?”, perguntou-se ela, mentalmente, pela milésima vez na noite. Até agora, não era capaz de responder àquela pergunta.
Cerca de 30 minutos depois que e suas damas passaram pelas portas do Kensington, elas foram abrangidas por meia dúzia de homens bêbados com segundas intenções claramente explícitas em seus sorrisos e em suas vozes. ficou tão horrorizada quando viu Margot responder àquelas insinuações que tentou afastar violentamente a loira daquele grupo de homens e, quando falhou, afastou-se imediatamente do salão, indo até os jardins.
Mal sabia ela que encontraria nos jardins algo pior que aquilo.
Apesar de seu precário conhecimento da parte interior do Kensington, os jardins do palácio eram algo que possuía um carinho peculiar. Ela adorava como as cores das flores se misturavam com a grama extremamente verde no verão e como os aromas das pétalas se juntavam à brisa. Por mais que estivesse de noite, e ela não pudesse ver todas aquelas cores, aquele era um dos seus lugares preferidos em Londres.
Porém, seu oásis de relaxamento havia, aparentemente, se transformado em uma casa de orgia a céu aberto naquela noite. Conforme andava pelos jardins era capaz de ouvir sons que fizeram seu estômago revirar de nojo; gemidos masculinos e femininos extremamente altos ecoavam pelos arbustos, e precisou andar em vários lugares, de olhos fechados, para salvar a si de se deparar com algo extremamente desconfortável que ela não seria capaz de esquecer mais tarde. Ela resolveu ir até o extenso túnel coberto de flores, que contornava os jardins, praguejando e reclamando em voz alta sobre como aquela havia sido uma péssima ideia, quando esbarrou no cavalheiro.
respirou fundo, umedecendo o dedão com a ponta da língua, como ela sempre fazia quando algum pensamento perturbava sua cabeça, quando assustou-se, sendo surpreendida com duas batidas repentinas na porta, que a despertou de seus pensamentos.
— Quem está aí? — perguntou em voz alta enquanto atravessava o quarto às pressas, pegando o robe, que se encontrava em cima de um dos divãs azuis, e passando os braços pelas mangas de qualquer jeito. Ela estranhou, conforme se aproximava das portas. Seus guardas, por ordens suas, costumavam chamá-la pelo seu nome, antes de bater na porta.
Então percebeu que as batidas não haviam vindo das portas principais de seus aposentos e, sim, da pequena e discreta porta privativa.
— Sou eu! Posso entrar?
Antes mesmo que ela pudesse responder, Margot abriu a porta silenciosamente, escorregando para o quarto grandioso e extravagante de .
— Eu acordei você? — Margot perguntou assim que fechou a porta em suas costas, fazendo uma careta inocente.
— Sim. — mentiu, pigarreando e fechando o robe na cintura. — Mas está tudo bem. Eu não estava tendo um sono profundo.
— Graças a Deus. — Margot disse, passando pela prima. Ela tirou os sapatos dos pés, antes de se jogar na cama enorme de , bagunçando os travesseiros e os cobertores. — Eu tenho tantas coisas para contar...
— Você acabou de chegar do Kensington? — perguntou inutilmente, interrompendo-a. Margot ainda usava o vestido vermelho, indicando que, com certeza, havia descido da carruagem e vindo direto aos seus aposentos pelas passagens privativas.
— Sim. — Margot respondeu, levantando o tronco e sentando-se na cama com as pernas abertas, de uma forma nada graciosa. — Quando Philip me encontrou, algum tempo atrás, e disse que eu deveria retornar imediatamente ao Buckingham, fiquei morta de preocupação. Pensei que algo havia acontecido com você.
— Eu estou bem. — respondeu, abraçando o corpo com os próprios braços. Ela precisou segurar a própria língua, que desejava contar desesperadamente o que havia acontecido. — O que você tem para contar? — Decidiu deixar Margot contar as novidades primeiro.
ainda precisava de um tempo para organizar como contaria aquilo à sua melhor amiga.
— Apenas que esta foi a melhor noite da minha vida! — Margot jogou-se na cama novamente, suspirando com um sorriso no rosto.
arqueou as sobrancelhas, surpresa.
— Venha aqui. — Margot acomodou-se na cama, batendo com a mão no espaço vazio ao seu lado e chamando por . — É uma longa história, e você precisará sentar.
Quando sentou-se na cama, apoiando suas costas na cabeceira almofadada, Margot acompanhou os movimentos da prima, sentando-se ao seu lado e enlaçando o braço no dela.
— Por onde eu começo? — Os olhos claros de Margot viajaram pelo dossel da cama, sonhadores. — Ah, eu já sei! — Ela se animou, pulando na cama. Quando parou de saltitar alegremente no colchão, voltou os olhos, repletos de malícia, a . — Eu vou começar te contando sobre o homem.
— Sobre um homem? — perguntou.
— Não, não... — Margot corrigiu , com um sorriso no rosto. — Não um homem e, sim, o homem.
Ah, não! Não isso de novo.
— Por favor, não me diga que você fez isso novamente... — disse, respirando fundo, enquanto olhava para prima, implorando com os olhos s que ela estivesse pensando erroneamente. — Margot! — Praticamente, explodiu quando viu Margot encolher os ombros e dar um sorriso travesso como resposta. — Como você pode fazer isso? — perguntou num tom exasperado. — Você tem ideia de como foi difícil limpar seu nome?
— Eu nunca pedi para você limpar meu nome. — Margot respondeu, cruzando os braços, emburrada.
arregalou os olhos, ofendida.
— O que você disse? — indagou com a voz repleta de desespero.
— Eu disse que não dou a mínima para a minha reputação “suja”, . — Margot disse, fazendo um sinal de aspas com as duas mãos de uma maneira atrevida.
calou-se, boquiaberta.
A loira olhou para , sabendo muito bem que a declaração fora uma pequena surpresa. Bem, talvez, uma grande surpresa.
sabia que Margot não dava a mínima para a sua reputação, mas ouvi-la admitir em voz alta foi um completo choque.
Margot Rutland teve sua reputação selada, um ano atrás, quando se deitou com o filho de um duque do Reino da Dinamarca aos 19 anos. Foi um escândalo tão grande que as fofocas sobre o ocorrido perambulavam pelo palácio de Buckingham até hoje. Margot sempre tivera uma reputação interessante e única dentre os nobres de Londres. Ela era muito bonita e vinha de uma família que possuía laços fortes e diretos com a família Imperial, já que sua mãe era uma das tias* de Pedro I. A personalidade ardente e o seu comportamento extremamente ousado chamava ainda mais a atenção dos olhos da nobreza britânica, que aguardava ansiosamente por todas as fofocas que existiam sobre a garota.
Quando Margot perdeu a virgindade foi como se uma bomba tivesse caído bem no coração do palácio de Buckingham. A novidade começou na ala dos criados, que viram a garota e o garoto dinamarquês se trancarem em um dos quartos, e chegou até Pedro e Alice Hanôver, que interromperam a tediosa aula de latim de para discutir sobre o assunto. Ao ouvir da boca de seus pais enfurecidos a notícia, sentiu como se pudesse desmaiar. Margot estava arruinada! Não havia nada pior que uma nobre dama ser tocada por alguém antes de seu casamento, especialmente por alguém com quem ela não se casaria. As vidas de sua querida melhor amiga e prima ficariam arruinadas para sempre, não apenas em Londres, mas em todo o Reino Britânico.
E, como previu, a vida de Margot se transformou completamente. Apesar do comportamento nada habitual para uma dama da nobreza, ela sempre fora altamente respeitada, porém, após o escândalo, isso mudou; os olhares tortos e as fofocas maldosas começaram a segui-la por todos os cantos, as alas mais conservadoras da nobreza começaram a esnobar e a ignorar Margot como se ela fosse uma das mais baixas e sujas cortesãs do Reino, e a extensa lista de pretendentes que a loira havia acumulado durante os anos se reduziu a zero em pouquíssimos dias.
As coisas continuaram assim por alguns longos meses, até que resolveu agir. A garota não era capaz de mudar, de maneira alguma, o que havia acontecido, mas podia, de certo modo, usar sua alta posição para salvar Margot.
— Isso significa que você não ligaria em ser expulsa da corte britânica? — perguntou com o sotaque britânico fortíssimo.
Quando ela se exaltava, as palavras saíam um pouco mais carregadas que o normal.
— Não exagere, Char! — murmurou ela. — Eles nunca me expulsariam daqui.
— Graças a mim! — exclamou , completamente indignada.
— E, graças a você, estou praticamente noiva de um homem tarado com 25 anos a mais que eu! — rebateu ela com uma dificuldade para falar. Por mais que Margot estivesse tentando esconder seus verdadeiros sentimentos por trás daquela “máscara” de irritação em seu rosto, o desespero ficava claro em sua voz. — Um sugador de almas que me matará em questões de dias!
Essa foi a brilhante ideia de para a salvação da reputação de Margot Rutland: um casamento arranjado.
O Duque de Bedford era um homem de 46 anos de idade que já havia despojado três nobres da corte britânica. Porém, as três mulheres haviam morrido em um curtíssimo espaço de tempo e, quando o último período de um ano de luto do duque terminou, ele resolveu voltar às atividades da corte, em busca de uma nova esposa que pudesse, finalmente, dar a ele seu tão sonhado herdeiro.
Mal sabia ele que, durante seu ano de luto, sua reputação havia ganhado manchas sombrias. Eles começaram a chamá-lo de “o sugador de almas” devido a morte de suas três esposas, que eram jovens completamente saudáveis antes de se casarem. A ala dos nobres radicalmente religiosos o via como “um ser das trevas” e desejavam sua cabeça em uma bandeira de prata.
No entanto, como a corte britânica sobrevivia de bajulamentos e falsos sorrisos, o Duque de Bedford, com seu alto poder militar e sua gorda fortuna, ainda era um dos homens mais respeitáveis do Reino Britânico e, um casamento pré-determinado com um homem que teve a reputação manchada, e, ainda assim, continuou com seu poder intocável, pareceu a solução perfeita para Margot.
— Você deveria estar me agradecendo ao invés de estar me acusando! — disse , na defensiva. — Se não fosse por mim, sua vida estaria completamente arruinada!
— Eu preferia ter a minha reputação arruinada que me casar com ele! — retrucou com a voz alta.
recuou, com os olhos arregalados, chocada com o tom brusco da prima. Ela baixou os olhos para as mãos de Margot e viu que tremiam. Quando voltou os olhos s ao rosto dela, de perfil, o cabelo loiro cobria praticamente toda a face e, rapidamente, ela colocou uma mecha atrás da orelha.
— A reputação de toda a minha vida arruinada por ter me rendido a algumas horas de prazer. — Ela riu, e sua risada soou extremamente debochada. — Que grande pecado. — Margot... — começou ela. teve que limpar a voz discretamente, antes de continuar, buscando firmar um tom compreensivo em sua voz: — Reputações já foram destruídas por muito menos. Este é o mundo em que nós vivemos.
— Bom, este mundo é uma merda. — Margot resmungou, afundando-se no colchão.
— Margot! — repreendeu a prima bem alto.
— É uma grande merda, ! — Margot lhe lançou um olhar raivoso. — E injusto. — Ela passou a mão no cabelo louro, exasperada. — Deus! Você não consegue ver quão injusto isso é?
— Enquanto homens estão dormindo com quatro, cinco mulheres em uma noite, nós estamos aqui, obrigadas a permanecermos intocadas, caladas, perfeitas como bonecas de porcelana, até que algum homem idiota se interesse pelo nosso dote e nos leve ao altar! — disse Margot, despejando as palavras em uma explosão raivosa. — E, então, ficaremos presas pelo resto de nossas vidas a alguém por quem, provavelmente, nunca sentiremos nada. Eles poderão arranjar amantes porque são homens. — Margot não havia parado nem um segundo para recuperar o fôlego, fazendo gestos exagerados com as mãos conforme sua raiva aumentava. — E nós? — perguntou ela, zombeteira. — Se nós ousarmos procurar alguém que amamos, alguém para nós dar prazer, somos taxadas como bruxas pecadoras que merecerem ser queimadas na fogueira. — Ela deixou escapar um longo suspiro triste, antes de continuar: — Estou cansada disso, . — Margot olhou para ela com os olhos exaustos. — Por que eu não posso ser igual a eles? Por que homens nojentos, que nunca fizeram nada para o mundo, entraram como salvadores para história e, mulheres que batalharam e se revoltaram contra essas barbaridades foram taxadas como bruxas? Por que não posso me deitar com todos os homens que eu quiser e beber até desmaiar? Por que não posso ser livre para viver minha própria vida do jeito que desejo?
ficou boquiaberta. Não conseguia se lembrar de nenhuma vez em que havia ouvido Margot falar qualquer coisa que se assemelhasse àquilo.
Quando soube do acordo pré-nupcial com o Duque de Bedford, Margot ficou furiosa. Não dirigiu uma palavra a ou a qualquer outra pessoa envolvida nesse processo por mais de duas semanas e demorou mais algumas para que as conversas pudessem passar de frases cordiais como “bom dia” e “boa noite”.
Porém, nunca havia visto a prima desabafar de um modo tão agressivo como aquele, o que fez seu coração praticamente se partir em pedaços.
nunca quis que Margot tivesse um casamento arranjado, muito menos com o Duque de Bedford, mas ela havia ficado sem opções. Elas eram tão poucas e todas horríveis... Como Margot poderia escolher entre permanecer em Londres, sendo esnobada por toda a corte britânica, ou ser transferida para as 13 colônias, onde começaria do zero?
havia começado a bolar planos mirabolantes em busca de livrá-la daquelas terríveis opções — inclusive, pensou em noivá-la com seu irmão Colin, por mais infeliz que aquilo fosse — quando, alguns dias depois, o Duque de Bedford apareceu em sua frente, dizendo como estava encantado com os atributos da jovem moça e desejava cortejá-la. Então teve uma epifania, e a solução veio à sua mente, junto com uma chuva de verão, que molhou todas as suas vestimentas. Antes mesmo que ela pudesse entrar no Buckingham e enxugar os cabelos, ela e o Duque já estavam discutindo sobre o acordo, sem que Margot soubesse uma vírgula sobre ele.
— Eu... Eu sei. — disse, respirando fundo, com o sentimento de culpa tomando seu corpo. — O mundo realmente não é justo.
— Você acha que eu sou uma bruxa pecadora? — perguntou Margot com um ar sincero de inocência.
— Claro que não. — exclamou, dando uma pequena risada. — Eu acho que você é uma garota com uma personalidade ardente, que adora se meter em encrencas.
De repente, Margot se virou e deu um abraço apertado em . Ela enlaçou os braços na loira, abraçando-a de volta.
— Eu já disse que amo você? — sussurrou Margot, ainda com os braços em seus ombros.
— Eu amo você também, Margot. — respondeu, sorrindo.
As duas ficaram em silêncio (algo bastante raro), então se desfez do abraço de repente e disse:
— O que você acha de me contar sobre o homem agora?
Margot suspirou.
— Você ainda quer ouvir sobre isso? — perguntou ela.
— Mas é claro! — exclamou com um sorriso largo.
Por mais que ela não se sentisse completamente confortável em ouvir sobre aquele assunto, o desabafo de Margot quebrou o seu coração e ouvi-la falar sobre as coisas que a deixavam feliz era o mínimo que poderia fazer por ela.
— Bem... — começou, após alguns segundos, com um sorriso divertido. A postura de Margot mudou completamente e, se não tivesse presenciado, nunca saberia que a prima havia explodido alguns minutos atrás. — Eu conheci um homem.
— Mesmo? — perguntou, embora achasse que fosse óbvio. — Foi algo completamente inesperado — disse ela. — Nós acabamos esbarrando um no outro. Eu estava arrastando Mary para o meio do salão, e ele estava caminhando apressadamente. — Tenho que admitir que achei particularmente estranho. — Margot refletiu pensativa. — Ele estava meio atormentado, Char... — Ela olhou para , procurando alguma resposta. — Como se ele estivesse procurando desesperadamente por algo. De qualquer jeito... — Margot disse rapidamente, não dando tempo suficiente para responder. — Quando ele olhou para mim... Deus! ... — Ela fez uma pausa em busca de ar. — Eu pensei que poderia morrer. Ele tinha os mais devastadores e deslumbrantes olhos que eu já vi em toda a minha vida. Eram como duas pedras preciosas que te chamavam como um encantador de cobras chama por uma — disse ela com ar sonhador. — Os olhos dele conseguiam ser mais bonitos que os de Philip.
arqueou as sobrancelhas, surpresa. Os olhos de Philip eram conhecidos por toda a Europa por serem uma cópia fiel dos tons azuis e do mar mediterrâneo. Quem poderia ter olhos mais bonitos que os de seu irmão?
— E, então, ele sorriu para mim. — Margot disse, sorrindo. — Um sorriso de tirar o fôlego com os dentes perfeitamente brancos.
— Uau! — exclamou realmente impressionada. — Ele parecia o homem perfeito.
— Ele era! — exclamou ela com a voz alta, encantada. — Mas espere! — Margot reprimiu sua própria animação. — Eu nem cheguei à melhor parte. Depois de uma troca intensa de olhares e sorrisos pelo salão, ele me chamou para ir a um dos quartos.
— E você disse sim? — perguntou, franzindo as sobrancelhas.
— Mas é claro. — Margot respondeu como se fosse óbvio.
— Margot! — exclamou ela. — Ele, provavelmente, achou que você era uma cortesã!
— Não — a loira respondeu, abanando a mão. — Ele soube pela minha classe que eu não era uma cortesã.
sentiu-se desconfortável, de repente. Ela estava ofendida e intrigada.
Margot era dotada de uma classe quase perfeita. A loira sabia exatamente como se movimentar e se portar como uma jovem dama nobre, mas nada chegava aos pés de , que possuía uma classe impecável como resultado de uma excruciante rotina voltada ao seu comportamento como uma princesa.
Como Margot não havia sido confundida como uma cortesã, enquanto eu, sim?
— E você disse a ele quem era? — pigarreou para limpar a garganta, que havia ficado, de repente, seca.
— Não — ela respondeu. — Apesar de eu não ligar para a minha reputação... — Virou os olhos para , zombeteira. — Consigo imaginar o escândalo estratosférico que isso causaria e resolvi poupar nós duas de uma bagunça.
“Obrigada”, agradeceu a prima mentalmente, aliviada. Aquilo era, provavelmente, a coisa mais sensata que Margot já havia feito em toda a sua vida.
— Nós subimos para um dos quartos e ele se mostrou mais incrível ainda. — Margot continuou a história com um sorriso involuntário no rosto. — Ele era tão educado, tão cortes, tão... Cheio de classe.
“Bem, foi por isso que Margot não foi confundida com uma cortesã”, analisou ela. Margot havia tido a sorte de esbarrar em um cavalheiro educado, ao contrário de , que encontrou um ogro sem classe nos jardins.
— Eu apenas posso te dizer que foram as melhores horas da minha vida, Char. — Margot disse, após alguns segundos, pensativa. — Ele era... Ele foi... — Margot vacilou. — Extraordinário. E eu nem ao menos sei o nome dele. — Margot continuou, cruzando os braços. — Ou qualquer coisa a respeito dele.
— Ele não disse nada a você? — perguntou.
— Não — respondeu. — Nós não tivemos muito tempo para conversar. — Margot sorriu maliciosa.
ruborizou.
— Como eu poderia saber qualquer coisa sobre ele? — perguntou a si, sentindo-se frustrada. — Quantos nobres cavalheiros estão em Londres para as festividades de seus pais? — Ela suspirou. — Praticamente, toda a nobreza europeia está aqui. São milhares de pessoas... Seria impossível descobrir qualquer coisa sobre ele, e isso se ele for da nobreza. — Margot acrescentou.
encarou Margot, pensativa.
— Eu não acho que Philip tem amigos plebeus, Margot — analisou.
— E eu acho que existem muitas coisas que você não sabe sobre seu irmão! — rebateu Margot com um sorriso.
espremeu os lábios, sem saber o que dizer.
Bem, ela estava certa.
— E você? — Margot virou-se para com as sobrancelhas franzidas. — Por que você voltou tão cedo? — Margot interrompeu quando ela abriu a boca para responder. — Não, não. Por que você voltou sozinha, na verdade? Philip quase me mandou para a forca por ter deixado você sozinha no Kensington.
— Porque, aparentemente, você estava em um quarto, se divertindo demais para se preocupar comigo — retrucou .
— Mas e as outras? — Margot respondeu apressadamente, tentando se livrar do sentimento de culpa. — Mary passou praticamente o tempo todo sentada no salão de baile. Você poderia ter conversado com ela!
— Margot, eu não me importo de ter voltado sozinha.
— Mas eu, sim! — exclamou ela, rápido demais. — Seus pais arrancariam minha pele se eles descobrissem isso!
— Eles não vão descobrir. — respondeu, engolindo em seco e pensando na cena de seus pais descobrindo sobre sua ida ao Kensington.
As inúmeras cenas tenebrosas que passaram pela sua cabeça fizeram chegar à conclusão de que preferia ter sua pele arrancada e vendida como um casaco na Oxford que ter seus pais descobrindo sobre sua pequena aventura.
— É, eu rezo para que não — disse Margot, igualmente assustada com a hipótese. — E você não respondeu minha pergunta. — Ela mudou de postura repentinamente. — O que aconteceu no Kensington? Por que você retornou tão cedo?
respirou fundo. Ela ainda não sabia como contar aquilo a alguém, mesmo que esse alguém fosse Margot.
— O que aconteceu no Kensington foi que eu tive a pior experiência da minha vida.
— O quê? — Margot encarou-a surpresa. — Por quê? Estava tudo tão maravilhoso.
lançou um olhar afiado para a loira.
— Para você, Margot, e, talvez, para todas as outras pessoas que não tiveram que fugir de um homem — respondeu ela, lentamente.
observou Margot arregalar os olhos em pânico e terror, adquirindo uma expressão horrível de espanto que ela nunca havia visto antes.
— Não! — disse rapidamente, antes que Margot pudesse ter um ataque. — Não desse jeito. Depois que vocês resolveram flertar com aquele bando de homens bêbados... — começou sua explicação rapidamente, observando o rosto de Margot continuar com a expressão de espanto e, agora, rigidez, ao mesmo tempo. — Eu fui aos jardins, e lá... — engoliu em seco. — Esbarrei em um homem.
Oh, não! — Margot arfou desesperada. — Ele reconheceu você?
— Não, claro que não. — disse, tentando esconder o aperto que sentiu em seus pulmões ao pensar nessa hipótese. — Na verdade, não acredito que ele seja britânico. — Ela demorou um pouco para continuar, tentando se lembrar dos detalhes, como o sotaque na voz dele. — Pelo o inglês dele, eu diria que ele veio das 13 colônias ou qualquer outra colônia britânica.
— Isso explicaria o comportamento também — completou ela.
— Que comportamento?
— Um comportamento medieval, atrasado, sem... — Ela respirou fundo, quase cuspindo a palavra: — Classe. — sentiu uma raiva conduzida pelos vasos sanguíneos penetrar seus dedos. As palmas das mãos, as orelhas... Todo seu corpo esquentou de repente, tomado por aquele sentimento. — Ele começou a flertar comigo de uma maneira completamente abusada, sem limites, e tenho certeza que um porco teria mais classe que ele — continuou ela, jorrando as palavras: — Ele insistia em me chamar de senhorita, sem me chamar de Alteza primeiro, confirmando que, claramente, não fazia a menor ideia de quem eu era.
Ela forçou a si a segurar a própria língua quando percebeu que estava indo rápido demais.
— E ele... Ele... — disse com a voz hesitante. Ela precisou respirar profundamente, antes de continuar, tentando criar coragem para dizer aquelas palavras; porém foi inútil, pois saíram em um sussurro covarde: — Ele me confundiu com uma cortesã.
Margot piscou.
— O quê?
— Ele me confundiu com uma cortesã. — repetiu com desgosto rapidamente.
Margot ficou em silêncio absoluto por alguns instantes e, então, seus olhos se arregalaram, os ombros levantaram um pouco, ela entreabriu os lábios e explodiu numa gargalhada.
recuou com as sobrancelhas franzidas, completamente estupefata. Esse não era o tipo de reação que havia esperado. Na verdade, não tinha ideia de que tipo de reação esperara, mas, com certeza, não era nada parecido com aquilo.
— Por que você está rindo? — perguntou ela, chocada.
— Porque é engraçado. — Margot disse, tentando respirar entre as gargalhadas. Ela colocou uma das mãos sobre o abdômen, puxando o fôlego. — Oh, ! Minha barriga está doendo! Não consigo respirar!
— Margot! — exclamou ela com urgência. — Pare!
— Um homem bêbado confundiu a ilustre e impecável princesa do Reino Britânico, Hanôver, com uma cortesã... — disse, ignorando completamente, ainda rindo. — Deus! Isso deveria ir aos livros de História!
— Pare de rir! — repreendeu a prima, com raiva. — Você está sendo extremamente desnecessária. Isso não é engraçado!
— Claro que é!
— Não, não é! — rebateu ela. — Eu não fui criada com uma educação excepcional para um homem bêbado me chamar de cortesã!
— E é isso que você não entende, . — Margot virou-se para , dizendo conforme as risadas diminuíam: — Ele estava bêbado! — exclamou. — Pelo amor de Deus! Como você espera que um homem bêbado diga algo sério?
— Mas eu sou a princesa do Reino Britânico, ele não pode me chamar...
— Sim, ele pode, porque não fazia a menor ideia de quem você é — interrompeu-a.
— Isso não explica nada. — respondeu ríspida.
— Bem, , você estava em uma festa em que tinham cortesãs... — explicou Margot, com um sorriso no rosto. — Então eu considero explicável o porquê de ele ter te confundido com uma.
— Ele deveria ter respeito suficiente para tratar bem uma dama. — rebateu com uma explosão de arrogância em sua voz. — Ele não pode simplesmente dizer na cara de uma mulher que ela é uma cortesã, não importa a que classe ela pertença. — Ela estava furiosa, com a respiração ofegante, mas, mesmo assim, continuou: — Isso é uma questão de respeito, Margot, e eu, independentemente de ser a princesa do reino britânico, não tolero a falta dele.
Margot levantou as sobrancelhas, visivelmente surpresa.
— E você disse isso a ele? — perguntou Margot.
— Eu estava prestes a fazer isso... — respondeu, tentando se acalmar. — Mas dois homens bêbados apareceram no local, e saí.
Margot espremeu os lábios, tentando conter o riso, e disse:
— Você fugiu.
a fuzilou com o olhar.
— Sim, Margot, eu fugi — afirmou ela, raivosa.
Margot não recuou, perante o olhar zangado de e, então, após mais uma pausa, disse pensativa:
— Posso te chamar de cinderela?
arregalou os olhos, observando Margot como se ela tivesse adquirido quatro cabeças.
— Ah, vamos lá, ! Você não precisa ficar rabugenta e irritada por causa dessa situação. — Margot balançou as mãos no ar, despreocupadamente, antes de agarrar as mãos da prima. — Olhe, se não fosse pelo sapatinho de cristal e as doze badaladas, você e a cinderela seriam praticamente a mesma pessoa.
— Você, algum dia, já leu o conto da cinderela? — perguntou, encarando a prima com a mesma expressão de espanto.
Margot largou as mãos de e ergueu os braços em sinal de rendição.
— Eu só estou tentando fazer você ficar mais calma.
“Eu não quero ficar mais calma”, respondeu mentalmente enquanto respirava fundo, afundando-se nos travesseiros. Nunca havia sentindo uma fúria como essa apossar-se de seu corpo; era uma sensação diferente, que esquentava todo seu interior, passando pelos músculos e veias do rosto, ombros, barriga, pernas e, até mesmo, dos dedinhos dos pés. acordou do seu devaneio.
— O quê?
— Como o cavalheiro porco era? — Margot perguntou curiosa.
— Ele era muito cheio de si. — respondeu, cruzando os braços. — Sem classe alguma, afinal, me chamou de cortesã.
— Eu, na verdade, estou mais interessada na fisionomia dele. — Margot disse maliciosa.
sentiu as bochechas ruborizarem ao desbloquear os pensamentos que imploravam para dominar sua mente. Durante todo esse tempo, ela havia deixado a raiva tomar conta de seu corpo para que não fosse obrigada a encarar a dolorosa verdade: ele era lindo. Provavelmente, o homem mais lindo que ela já havia visto em toda a sua vida.
A noite não havia sido um problema — acreditava que a luz da lua havia o deixado ainda mais bonito —, e ela foi capaz de observar cada traço bonito daquele rosto. Além dos magníficos olhos , que brilharam naquele túnel como duas pedras preciosas, ele possuía uma bela boca, que se mostrou dona do sorriso mais bonito que ela já havia visto e, quando ele começou a falar, foi sacudida por uma voz melodiosa e hipnótica que deixou suas pernas bambas. O homem também era alto e possuía os músculos maravilhosamente definidos marcados pelo traje.
— Eu não sei. — disse, após alguns segundos, remexendo-se desconfortavelmente. De repente, o local havia ficado um pouco quente demais. — Estava muito escuro, e eu mal pude ver suas roupas.
Margot levantou uma sobrancelha diante da resposta dela.
— Mas deve ter algo que você conseguiu ver! — insistiu ela.
olhou para ela, nervosa. Ser chamada de cortesã já havia sido ruim o suficiente. Agora, ser chamada de cortesã por um cavalheiro que havia achado incrivelmente bonito era pior ainda. Era... Humilhante.
— Não — mentiu ela. — Na verdade, não.
— Bem, bom para você. — Margot disse, movendo-se para debaixo das cobertas. — Isso quer dizer que ele também não conseguiu ver seu rosto.
suspirou, cruzando as mãos no colo, pensativa.
— Pare de remoer o que aconteceu, — disse ela, bocejando. — Quando você acordar, será um dia completamente novo e o cavalheiro porco será apenas parte do seu passado.
— Quase como um sonho. — Margot disse, antes de fechar os olhos e desejar um caloroso “boa noite” a prima.
continuou naquela posição por diversos minutos, com os acontecimentos da noite passando pela sua cabeça como raios. Quando, finalmente, decidiu se alinhar debaixo das cobertas e deitou a cabeça no travesseiro, fechando as pálpebras, os olhos tomaram conta novamente de sua mente, e ela teve certeza de que o cavalheiro não seria apenas parte de seu passado.

******


Com um sorriso elegante, pediu licença e se retirou, em direção ao outro lado do salão, onde as janelas permaneciam abertas e permitiriam que uma brisa balançasse os fios compridos de seu cabelo.
Pelo menos, foi isso que ela imaginou.
Quando parou em frente às janelas, fechou os olhos e praguejou mentalmente. A brisa que ela tanto sonhava quando estava conversando com um grupo de mulheres no outro lado do salão, observando as janelas, era inexistente. A temperatura daquele dia havia sido a mais alta nas últimas semanas e, ali, dentro de um salão iluminado com milhares de velas, com mais de 5.600 pessoas dançando animadamente ao som da orquestra, sentia como se estive praticamente sendo sufocada.
Ela respirou fundo e temeu que as costuras de seu corpete pudessem se desfazer por conta daquele movimento. Ele estava esmagando suas costelas e tornando a tarefa de respirar ridiculamente difícil. As inúmeras camadas de tecidos que envolviam seu corpo em um magnifico vestido azul também não ajudavam; os meios das pernas e o busto de suavam mais do que era aceitável. Imaginou, por um breve segundo, se atravessasse as portas do salão discretamente e fosse em direção ao lago a alguns metros do palácio, decidindo tomar um banho por incontáveis horas, seus pais mandariam a Guarda Imperial atrás dela.
As bochechas de doíam. Ela estava fazendo um tremendo esforço para ignorar a dormência em sua face, devido aos milhares de sorrisos que apareciam em seu rosto em cada situação que o protocolo exigia sua simpatia. Mary, uma de suas damas de companhia, havia, há alguns minutos, arranjado um lenço úmido para que pudesse refrescar suas bochechas e relaxar os músculos; até mesmo sugeriu que parasse de sorrir pelo resto da noite, mas ela não podia. tinha o tipo de rosto que, se ela não está sorrindo, todos dizem que está chateada, e a coroa nunca pode estar chateada.
Ela puxou o ar profundamente mais uma vez, aproveitando o curto espaço de tempo que tinha até que alguém aparecesse, roubando-a do momento mais calmo que havia tido desde que levantara da cama.
— Boa noite, Alteza.
fechou os olhos, praguejando, quando ouviu uma voz masculina em suas costas. Abriu os olhos e ajeitou a postura, antes de se virar e encontrar Rupert Ruthland sorrindo com o canto dos lábios.
— Rupert. — disse, sentindo uma pontada de dor em suas bochechas quando abriu um sorriso.
Estendeu a mão direita coberta pela luva, logo depois que ele fez uma pequena reverência, no entanto, ele segurou suas duas mãos e beijou cada uma formalmente.
— Você está magnifica esta noite... — Ele ajeitou a postura e suas palavras foram acompanhadas com um sorriso galanteador: — Como sempre.
— Obrigada, primo. — respondeu, aproximando-se para beijar as duas faces dele. — É sempre um enorme prazer te ver no Buckingham.
— É sempre um prazer estar aqui, senhorita — respondeu ele. — Eu gostaria de estar aqui todos os dias.
— Eu aposto que Cambridge não é tão ruim. — abriu um sorriso malicioso.
— Você está certa. — Rupert retrucou com uma leve risada. — De fato, não é nem um pouco ruim.
— Se me permitir, senhorita... — observou Rupert arrumar a postura, fazendo um sinal com a cabeça para que duas silhuetas altas se aproximassem. — Gostaria de te apresentar a dois incríveis cavalheiros.
olhou para um dos cavalheiros assim que ele se aproximou. O homem era muito alto e tinha o cabelo loiro formalmente arrumado para trás. Os olhos claros e os lábios sorriram para , conforme ele se dobrava em uma reverência.
Quando passou os olhos para o segundo cavalheiro, sentiu todo seu corpo entrar em colapso.
O homem que havia a humilhado nos jardins do palácio de Kensington estava ali, bem ali, parado à sua frente, usando um majestoso traje preto detalhado em ouro, sorrindo, não só com os lábios, mas também com os olhos , para ela.
Institivamente, pensou ter cometido algum engano.
Não é ele. Não pode ser ele.
O homem da noite passada estava em uma festa nojenta, cheia de bêbados e cortesãs, e ele fedia a cerveja, tabaco e brandy. O homem à sua frente estava em um baile imperial, com uma postura impecável e vestido como um príncipe dono de uma riquíssima fortuna. Não era possível que fosse ele. Ela se recusava a acreditar naquela imensa besteira.
Mas, então, os olhos... Aqueles olhos. Os olhos que haviam atormentado a noite toda, desistindo de deixá-la em paz por míseros segundos, estavam olhando para ela, e eles eram mais reais que qualquer outra coisa à sua volta.
Por um breve instante, o mundo havia desaparecido e a única coisa que ela podia ver era um par de olhos . estava tão perplexa que se esquecera do lugar em que estava e de que Rupert estava falando com ela enquanto apresentava os dois cavalheiros. Quando ela conseguiu retornar sua atenção, havia perdido o nome do primeiro cavalheiro e viu Rupert estufar o peito e lançar um sorriso debochado para o lado:
— E Sua Alteza Imperial...
Não.
— O grão-duque Romanov, da Rússia.
— Vossa Alteza... — mal percebeu que ele havia se aproximado. — É uma grande honra.
Você só pode estar brincando!
Quando ele fez uma reverência, abaixando a cabeça, colocou a mão no peito, tentando respirar desesperadamente e sentindo como se seus pulmões tivessem sido brutalmente esmagados por um martelo.
Respire, ! Pelo amor de Deus, respire!
— O prazer é meu, Vossa Alteza! — ela respondeu quando ele retornou a postura, sentindo-se um pouco tonta devido a falta de ar; sua voz saiu tremida, completamente afetada pelo seu estado perturbado. Ela tentou sorrir — um pequeno sorriso já seria o bastante —, mas todo seu corpo havia entrado em choque, impedindo suas bochechas de se moverem, e o que saiu foi mais parecido com uma expressão de desespero que com um sorriso. — É um prazer tê-lo no Buckingham... — disse, incapaz de ficar em silêncio, ouvindo sua respiração entrecortada. — Embora eu não tenha sido noticiada da sua presença.
— Não estava em meus planos, senhorita. — Seus lábios continuaram com o sorriso, e ele fez um movimento, assentindo com a cabeça. — Meus próprios pais desconhecem minha presença.
— Bem, seja muito bem-vindo ao Buckingham. — disse, tentando soar o mais calma possível, o que foi difícil, pois seu cérebro estava gritando “você está ferrada!” em 6 línguas diferentes. — Espero que você aproveite o baile.
— Obrigado, senhorita! — respondeu ele, sorrindo.
O sorriso dele, percebeu com desespero, era avassalador. Tão lindo que fez as pernas de tremerem. De repente, o corpete se tornou apertado demais, e ela sentiu-se fraca.
Margot... Sim, tudo de que precisava era de Margot.
— Por favor, fiquem à vontade! — ela falou, abrindo um sorriso. — Agora, se me derem licença, cavalheiros, estou vendo alguém com quem preciso falar. — virou-se para ir embora, caminhando, em seguida, aos tropeções, pelo salão, procurando a prima.
“Tudo que você precisa fazer, , é achar uma cabeleira loira decorada com uma enorme flor rosa”, pensou ela mentalmente. Aquilo não devia exigia muito esforço, certo? Era apenas necessário rodar os olhos pelo enorme salão, com inúmeras mulheres de cabelos loiros dançando e conversando com inúmeros cavalheiros.
Ah, Deus, ela nunca acharia Margot. Pelo menos, não naquele estado.
cambaleou um pouco. O corpete, que já era apertado, tornou-se mais ainda, e a falta de oxigênio estava comprometendo sua forma de andar e seu raciocínio. Estava um pouco tonta e o esforço necessário para respirar parecia algo estratosférico. Algo tão mundano como inspirar e expirar parecia ser a tarefa mais difícil que já havia enfrentado em sua vida.
deu mais alguns passos pelo salão. Ela havia sido interrompida diversas vezes por convidados que apareciam para cumprimentá-la, reverenciando e exigindo sorrisos de seu rosto dormente e, agora, pálido. cumprimentava a todos, mas a tontura impedia que ela reconhecesse os rostos. Então, com toda a calma e educação que existia em seu corpo, apenas sorria de volta e pedia licença.
Alguns minutos depois, avistou, finalmente, o grande enfeite de cabelo rosa, acompanhando a cor do vestido, em uma cabeleira loira. Ela foi a passos curtos até a prima e a segurou pelos cotovelos de uma forma nada delicada, puxando-a para perto de uma parede.
— Margot, nós precisamos conversar! — sussurrou apressadamente, ansiosa demais para sequer conseguir respirar. Toda vez que inspirava, sentia o corpete se apertando cada vez mais forte em volta de si. Ainda segurava o cotovelo da prima, usando-o como apoio. Sem algo para se segurar, temia desmaiar no canto do salão.
Bloody hell — praguejou ela. — Agora, ? — Margot tinha seus olhos voltados para uma figura masculina parada no local onde antes estava. — Eu estava no meio de uma conversa com o Conde de Shrewsbury, e ele, aparentemente, estava adorando.
— Por que você estava flertando com outro homem? — perguntou, olhando de relance para o homem de 27 anos parado no local onde Margot se encontrava alguns segundos atrás. — Pelo amor de Deus, Margot, você está quase noiva!
Margot olhou para ela com um sorriso divertido no rosto.
— O que o duque não vê, ele não sente.
a encarou estupefata.
— Para a sua informação, Margot, o duque está no baile! — rebateu ela, rígida. — E, se ele te ver em uma posição como essa, acabará com seu pré-noivado!
— E então será o dia mais feliz da minha vida. — Margot disse arrogantemente, estufando o peito e cruzando os braços.
— Margot, você... — fechou as mãos em punho, repreendendo a si. Ela não iria explodir na frente de quase toda a nobreza europeia. — Esquece. — Respirou fundo e, então, lembrou-se do porquê realmente estava ali. — Eu não vim conversar com você a respeito disso.
— E você veio conversar sobre o que? — Margot perguntou, observando com os olhos claros.
— Você... — hesitou. — Você se lembra do homem que eu encontrei ontem à noite? Nós jardins do Kensington?
— O homem que confundiu você com uma cortesã? — Margot perguntou debochadamente, fechando os lábios como uma forma de segurar a risada.
— Sim, Margot. — respondeu, fuzilando-a com os olhos. — Obrigada por me lembrar desse fato.
— O que tem ele?
mordeu o lábio inferior, com medo. Passaram-se alguns segundos, antes que ela fechasse os olhos e tivesse coragem o suficiente para dizer:
— Ele é Romanov.
Margot recuou, abrindo a boca, chocada.
O quê? — exclamou alto a jovem completamente perplexa. — O grão-duque?!
— Shhhh! — repreendeu , irritada, segurando com força o braço de Margot. Uma meia dúzia de casais viraram as cabeças para observar a conversa. — Fale mais baixo.
Margot arregalou os olhos , pedindo desculpa silenciosamente.
— Como sabe disso? — sussurrou ela, aproximando-se de .
— Seu irmão nós apresentou há cerca de 10 minutos — respondeu ela, referindo-se a Rupert Ruthland, o irmão mais velho de Margot.
Margot franziu as sobrancelhas, fitando-a.
— Você tem certeza de que é ele?
— Sim — respondeu , impaciente. — Eu não me enganaria a respeito disso.
— E onde ele está? — Margot perguntou, levantando os olhos para observar as pessoas no salão. — Eu ouvi dizer que ele é lindo!
— Margot! — precisou segurar a própria mão para não dar um tapa no braço da prima. Ela não poderia estar falando sério! — Eu acabo de te contar que o herdeiro do trono russo praticamente me chamou de cortesã, e você quer saber se ele é bonito?
Margot olhou para ela, espantada, como se ela tivesse adquirido duas cabeças.
— É claro! — exclamou um pouco alto demais. — Se ele for tão bonito quanto dizem, você pode até levar como um elogio!
Um elogio? — ecoou , horrorizada. — Você está louca?!
— Um homem bonito como ele prestou atenção em você — explicou ela. — Isso, com certeza, é um elogio.
Ele se retraiu, espantada, depois abriu e fechou a boca, antes de dizer, irritada:
— Não!
— Sim! — Margot a contrariou, praticamente batendo o pé no chão como uma criança. — Pare de ser tão sem graça, .
— Eu não estou sendo sem graça, estou sendo racional. — rebateu. — Algo que, claramente, você não é.
Ela olhou para a .
— De qualquer jeito... — Quando Margot respondeu, agradeceu mentalmente por a prima permitir que ela tivesse a última palavra. — Onde ele está?
não precisou rodar seus olhos pelo salão por muito tempo. Encontrou a silhueta do homem rapidamente, e aquela sensação de pânico, que estava em seu corpo alguns minutos atrás, voltou em um piscar de olhos.
— Atrás de mim... — disse um pouco ofegante devido ao esforço para respirar. — Conversando com uma mulher vestida de amarelo.
Romanov estava de costas para elas, conversando com uma mulher anos mais velha que ele e que usava um vestido amarelo gritante.
Margot, instantaneamente, fez menção ao virar, mas a segurou pelo braço, antes que pudesse.
— Troque de lugar comigo — disse em voz baixa.
Gentilmente, Margot colocou-se no lugar de , e ela passou a ficar de frente para o cavalheiro.
— Você conseguiu ver? — perguntou , incapaz de segurar o tom de curiosidade na voz.
— Eu não consigo ver o rosto dele, ! — reclamou ela, impaciente. — Ele está de costas. Bloody hell.
estava prestes a tranquilizar Margot, pedindo para ela ser um pouco mais paciente, porque Romanov, alguma hora, viraria seu rosto em direção a elas, quando ouviu Margot perguntar com a voz fraca:
, você tem certeza de que é ele?
virou-se, antes de pensar nas consequências de seus atos; o tom de voz de Margot a assustou, e ela, automaticamente, pensou que algo de errado havia acontecido. Graças a Deus, Romanov não estava virado completamente para elas. Ele estava parado de lado, dando uma incrível visão de seu perfil.
— Sim, é ele. — disse, assentindo com a cabeça. — Por quê?
— Você está me dizendo que aquele homem, conversando com aquela mulher de amarelo, é Romanov, o grão-duque da Rússia?
— Foi exatamente o que eu disse. — disse e, segundos depois, deixou de olhar para ele para olhar para Margot. — Por quê? Há algo de errado?
Margot não respondeu, mas estava muito pálida, branca como algodão. Os olhos claros estavam arregalados e sombrios, quase como se ela tivesse visto um fantasma.
— Margot?! — chamou por ela, preocupada. — O que há de errado?
Margot não respondeu.
— Margot?! — insitiu , cutucando seu braço.
— Eu só... — Margot, segundos depois, ainda estava com os olhos vidrados em Romanov. Era como se não estivesse ali e Margot estivesse falando aquilo a si: — Não acredito que é ele.
— Por quê? — franziu as sobrancelhas, mais confusa do que já esteve em toda a sua vida.
estava prestes a beliscar o cotovelo de Margot mais uma vez, que continuava a encarar como alguém encara uma estátua ou observa uma pintura, quando, inocentemente, voltou os olhos novamente para Romanov e viu a dama vestida de amarelo afastar-se dele, indo em direção a um grupo de mulheres. observou atentamente os movimentos do grão-duque — ele aceitou uma taça de champagne e bebeu a metade em apenas um gole, depois usou os olhos para explorar o salão atentamente.
estava tão ocupada, acompanhando minuciosamente os movimentos dele, que se deixou levar, ignorando o que aconteceria em poucos segundos, caso ele continuasse explorando o salão daquela maneira. Sendo assim, quando o grão-duque pousou seus olhos em , ela foi pega de surpresa, quase se engasgando.
Romanov levantou discretamente as sobrancelhas, levemente surpreso, então arrumou a postura e, em passos lentos, começou a ir à sua direção.
arfou, em pânico. Ela rodou os olhos desesperadamente pelo salão e, a alguns metros à sua direita, avistou sua salvação em um grupo de homens, indo rudemente até lá em passos rápidos, sem olhar para Romanov.
— Boa noite, senhores! — exclamou, aproximando-se do grupo, que interrompeu a conversa assim que ela se aproximou.
— Boa noite, Alteza! — todos eles disseram ao mesmo tempo.
— Colin, posso ter alguns minutos de sua companhia? — perguntou, voltando-se para o irmão, que estava parado no centro do grupo.
— Com licença, senhores. — Colin disse, acenando com a cabeça em um gesto de despedida e oferecendo o braço formalmente para logo depois.
segurou o braço dele e, praticamente, o arrastou para o aglomerado de pessoas no meio do salão. A orquestra estava prestes a começar uma nova música e, quando pararam de caminhar entre a multidão, prepararam-se para dançar.
— O que você fez? — Colin perguntou no momento em que começaram os passos de danças, com as sobrancelhas levemente franzidas.
— Perdão?
— Você precisa de mim para disfarçar alguma coisa.
— Você acha que eu fiz algo?! — indagou, limpando a voz e tentando disfarçar o tom agudo que ela adquiria toda vez que estava tentando se livrar de uma situação constrangedora, ou, na maioria das vezes, quando estava mentindo.
— Sim. — Ele assentiu levemente, encarando-a.
— Eu não posso querer dançar com o meu irmão por livre e espontânea vontade? — Desta vez, ela tentou disfarçar com uma risada. — Oh, Colin, estou me sentindo extremamente ofendida.
— Você é uma péssima mentirosa. — Ele acompanhou a risada, encarando-a com um sorriso irritante.
— Eu não estou mentindo! — rebateu ela. — Eu simplesmente preciso de uma dança.
— Você nunca dança comigo em bailes — ele argumentou com aquele sorriso estúpido ainda plantado no rosto.
— Que absurdo! — exclamou ela, irritada. Quando Colin desfez o sorriso, observando-a com as sobrancelhas arqueadas, ela se deu conta de que aquilo não era exatamente um absurdo. arrumou a postura, olhando para ele e sentindo-se irritada. — Se eu, hipoteticamente, não danço com você... — frisou a palavra. Ela não admitiria que ele estava certo, pois odiava estar errada. — É porque você passa a noite toda dançando com outras damas.
— É isso que eu devo fazer — ele respondeu, apertando gentilmente a mão dela. — Devo conhecer damas para que, um dia, eu possa me casar.
sentiu-se imediatamente desconfortável.
— Não consigo ver nenhuma dama neste salão adequada para tal tarefa — comentou ela, rabugenta.
— Você está com ciúme de mim, ? — zombou ele, abrindo um sorriso extremamente insolente.
fuzilou o irmão com os olhos.
É claro que ela estava com ciúme dele. Colin era seu irmão, seu melhor amigo e, praticamente, sua outra metade. Ele era a pessoa mais irritante e insolente que ela já havia conhecido em toda a sua vida, mas, mesmo assim, era seu irmão, e ela o amava muito.
E, por isso, odiava a ideia de, algum dia, vê-lo casado, ainda mais com uma daquelas ridículas damas da nobreza britânica.
Alice Hanôver, com sua sagrada missão de ver todos os seus quatro filhos casados no futuro, limitava rigidamente o número de valsas que os irmãos podiam dançar entre si — mais de duas músicas no mesmo baile era um motivo para uma bronca de 30 minutos. A dança, na visão da mãe, era uma forma de arranjar pretendentes. Além da oportunidade de conhecer uma dama ou um cavalheiro, era possível fixar ou riscar o nome de alguém da lista de pretendentes pelo jeito como dançava. Afinal, os príncipes britânicos nunca poderiam se casar com alguém que não soubesse dançar.
aceitava passar suas noites dançando em bailes com diversos cavalheiros, porém detestava que seus irmãos fizessem isso. não era capaz de imaginar mulheres boas o suficiente para se casarem com eles e, toda vez que ela via alguma dama sorrindo e flertando com, por exemplo, Philip, só conseguia imaginar quão profundamente a moça poderia estar interessada na enorme herança e na posição que seu irmão ganharia no futuro.
E Colin... Ele era um cavalheiro tão único, uma joia rara, e ela ficava tão irritada quando se deparava com a imagem de seu irmão se casando no futuro com uma mulher que não mereceria nem um fio de seu cabelo sedoso, e ficava com mais raiva ainda quando pensava que essa mulher levaria seu melhor amigo embora.
deteve-se nas palavras e apenas disse:
— Cale a boca, antes que eu pise nos seus pés com tanta força que você não será capaz de sair andando deste salão.
— Você é estranha, — respondeu ele, alguns segundos depois —, mas agradeço profundamente seu amor e sua preocupação como irmã.
Desde crianças, e Colin eram inseparáveis e, por conta da proximidade, brigavam frequentemente e se provocavam como gato e rato. No final do dia, acabavam trocando as ofensas por inocentes e carinhosas alfinetadas, como qualquer outro bom par de irmãos, que se ama, fazia.
Por isso, quando pegou seu irmão olhando para a silhueta feminina espalhafatosa do outro lado do salão, não pôde deixar de provocá-lo:
— Pelo menos, não sou eu quem fico seguindo Lucinda Talbot igual um cachorrinho implorando por atenção.
— Você não deveria ter dito isso! — devolveu Colin, lançando-lhe um olhar bastante irritado.
— E eu estou errada? — ergueu as sobrancelhas, desafiando-o a discordar, mas ele não o fez.
Ele sabia que estava certa.
Lucinda Talbot era filha do Conde Talbot, um homem riquíssimo, membro da câmara dos lordes e um dos maiores servidores da coroa britânica. O Conde possuía uma reputação esplêndida de um homem que daria a vida por sua nação e pelo rei, e sua filha de 19 anos era capaz de acabar com a reputação do pai em questão de segundos. Ela era uma garota muito bonita, com longos e voluptuosos cachos loiros, olhos claros, uma pele perfeita e um sorriso brilhante, e tinha um corpo que exibia como uma joia rara — seios grandes e quadris largos —, o ideal de beleza do século XVIII. Porém, em contraste com a aparência, a jovem era dotada de um comportamento extremamente vulgar e, na opinião de , era uma bruxa egoísta, arrogante e mal-educada, cuja maior alegria era atormentar e menosprezar os outros. Lucinda era também a jovem mais interesseira que a corte britânica já havia conhecido.
e o resto da corte britânica detestavam-na. O único motivo pelo qual a garota era convidada para esses eventos era por grande respeito aos seus pais. Mesmo no salão de baile do palácio de Buckingham, parada de frente para os imperadores, a garota comportava-se como se fosse a própria imperatriz. Recusava-se a cumprimentar qualquer pessoa que possuísse uma posição menor que a dela e debochava de quase toda a corte bem na cara deles. A garota possuía um comportamento tão infernal que os empregados do palacete dos Talbot preferiam morar nas ruas a servi-la. Uma vez, ela jogou uma xicara de chá no rosto de uma de suas empregadas, deixando a pobre garota cega.
Lucinda, porém, não era burra. A garota era dotada de uma mente maléfica e utilizava sua beleza e seu horroroso charme para humilhar os jovens que a cortejavam. Ela era uma das jovens mais disputadas da temporada e fazia os pobres coitados correrem atrás dela feito cachorros de rua. Além de fazer isso porque a proporcionava prazer (não só maléfica, Lucinda também era uma sádica doente), Lucinda acreditava que isso a tornaria irresistível para todos os seres humanos do planeta, abrindo portas para a realização do seu grande objetivo de vida: fisgar Philip Hanôver. acreditava que, se Deus fosse tão misericordioso quanto diziam, ele nunca deixaria Lucinda atingir esse objetivo.
— Deus! Ela é desprezível! — mordeu a língua, antes de murmurar: — Não consigo entender o que vocês vêm nela.
— Nós vemos a beleza nela — disse ele, laçando a ela um olhar divertido. — Bom, na verdade, no corpo dela.
revirou os olhos, sentindo-se completamente enojada.
— E você se casaria com uma mulher apenas por causa de um corpo? — indagou .
Colin Hanôver atirou a cabeça para trás e gargalhou. estava prestes a chutá-lo nas canelas quando, como se pudesse ler seus pensamentos, Colin a rodopiou, impossibilitando que ela o machucasse.
— Por Deus, . — Colin suspirou, recuperando o fôlego. — Eu nunca me casaria com Lucinda.
— Então por que você insiste em fazer um papel de tolo atrás dela? — sussurrou , um pouco agressiva.
A risada alta de Colin havia chamado a atenção das pessoas que dançavam à sua volta e, agora, prestavam atenção na conversa dos irmãos.
Se havia algo que despreza no mundo mais que Lucinda Talbot era o papel de bobo que Colin fazia por aquela imprestável. Ela, com aquele cérebro minúsculo e a mente perversa, retribuía 2% da atenção de Colin. Lucinda devolvia os sorrisos maliciosos, os comentários levemente inapropriados e as trocas de olhares intensas, e, então, virava-se de costas e fingia que Colin não existia mais, fazendo a mesma coisa com o próximo cavalheiro à sua espera. O sangue subia quente pelo corpo de toda vez que ela via a garota menosprezar seu irmão, e ela precisava se segurar na coisa fixa mais próxima de si para não ir em direção à garota e lançar uma de suas mãos em seu rosto.
Colin simplesmente olhou para ela com ar malicioso e disse:
— Esses motivos ficam trancados em quatro paredes, irmãzinha.
— Você é nojento. — revirou os olhos, murmurando com desgosto.
— Eu sou apenas como todos os outros homens. — Colin disse com um sorriso descarado no rosto.
— Você não é como todos os outros homens, Colin! — retrucou ela, um pouco emburrada.
— Você está me elogiando, querida irmã? — Ele olhou para ela, com as sobrancelhas arqueadas, surpreso.
— Aproveite. — disse, lançando sorriso irônico. — Não vai acontecer novamente.
Em vez de continuar os passos da valsa, Colin abraçou a irmã pela cintura, girando-a no ar e fazendo-a trocar a feição irritada por uma baixa gargalhada.
— Solte-me! — disse ela, entre as risadas. — Mamãe vai nos matar!
— Ela não está olhando, . — Colin disse, rindo. — Ao contrário de todo mundo.
Quando Colin colocou no chão novamente e continuou os passos da valsa, sentiu o sorriso morrer em seu rosto ao correr os olhos pelo salão. O problema não era que todos os casais dançando valsa estavam olhando para eles, não. Esse não era o problema. O problema era que ele estava olhando para ela; diretamente para ela.
Ah, droga!
— Tudo bem. Agora, eu realmente preciso da sua ajuda! — sussurrou com desespero, agarrando a mão de Colin com força e fazendo-o soltar um gemido baixo de dor. — Não importa o que aconteça... — Ela olhou de relance por cima do ombro de Colin, observando o cavalheiro vir em passos elegantes em sua direção. — Não pare de dançar comigo!
— E se a música acabar? — perguntou ele, inocentemente.
exprimiu a boca, evitando o impulso de gritar a resposta:
— Você entendeu o que eu disse — disse ela, respirando fundo e olhando para Colin. — Não permita que nenhum outro cavalheiro dance comigo.
Colin disse alguma coisa; algo parecido com um “por quê?” ou “o que isso significa?”, mas simplesmente ignorou. Ela estava ocupada demais, tentando desviar os olhos da silhueta de Romanov, que se aproximava cada vez mais.
Quando o grão-duque se encontrava há alguns passos de distância, conseguiu desviar os olhos, voltando-os para o chão e encarando os sapatos lustrados do irmão. Agora, seus pensamentos estavam voltados para uma reza mental, que implorava que, se Romanov não tivesse mudado de direção, ele, pelo menos, passasse reto por ela.
Por favor, passe reto. Por favor, passe reto. Por favor, passe...
— Colin Hanôver?
Reto.
Romanov! — Colin abandonou a mão e a cintura de , e virou-se para dar um abraço fervoroso em Romanov, que retribuiu o gesto alegremente. encarou aquela cena, estupefata. — Olha quem os mares trouxeram à Inglaterra! — Colin quebrou o abraço, abrindo um enorme sorriso. — Quanto tempo, mate! Faz o que? Dois anos? Londres sentiu sua falta!
— E eu senti falta dela. — abriu um grande sorriso, e sentiu seus pulmões serem esmagados pela falta de ar.
O sorriso dele era exageradamente perfeito, combinando com todas as outras partes de seu corpo.
— É bom estar aqui... — continuou ele, arrumando a postura e colocando os braços para trás em um movimento impecável. — Londres é a melhor cidade para se estar neste século.
— Em todos os séculos, tenho que corrigi-lo. — Colin disse, dando uma leve risada.
Romanov o acompanhou, soltando uma risada um pouco menos formal que esperava. não riu e muito menos disse algo. Tirando o fato de que ela não deveria se intrometer na conversa das outras pessoas, também não fazia ideia de como participar de uma conversa tão informal como esta com Romanov.
— Creio que não te vi ontem no Kensington — disse Colin, franzindo as sobrancelhas, pensativo. — Tenho certeza de que Philip não deixou seu convite de fora.
tentou se manter calma perto do irmão quando ouviu as palavras “ontem” e “Kensington” na mesma frase, mas falhou miseravelmente, inspirando mais alto do que deveria devido a falta de ar.
— Não, seu irmão realmente não esqueceu. — Quando disse, sem ele ou nem Colin voltarem seus olhos a ela, agradeceu mentalmente por nenhum deles tê-la ouvido praticamente se sufocar com a própria respiração. Mas, então, para sua tremenda desgraçada, deu uma pausa longa e, antes de voltar às suas palavras, virou seus olhos para , encarando-a intensamente. — Eu estava lá, mas, aparentemente, nossos caminhos não se cruzaram ontem à noite.
Colin olhou para irmã, parecendo notar, infelizmente, a existência dela.
— Perdão. Eu havia esquecido completamente. — Ele balançou a cabeça como se tivesse cometido um terrível erro. Oh, Colin! Você não faz a mínima ideia do quão terrível isso realmente é!. — , esta é minha irmã mais nova, a Hanôver.
inclinou-se em uma pequena e rápida reverência.
— Senhorita, é um prazer vê-la novamente.
Colin franziu a testa, intercalando o olhar entre os dois.
— Vocês já se conhecem? — perguntou Colin.
— Rupert nos apresentou há alguns minutos. — apressou-se ao dizer. — É um prazer também vê-lo novamente, senhor.
Para o desespero de , seu corpo começou a indicar o nervosismo que estava correndo pelas suas veias: lábio inferior quase sendo esmagado pelos seus dentes; respiração alterada; mãos entrelaçadas em um aperto forte, deixando-as brancas... Isso chamou a atenção de Colin, que voltou os olhos a , após observá-la. Então ele olhou novamente para por alguns segundos, com aqueles olhos que possuíam um tom muito intenso de azul e que sabiam ler a garota como se ela fosse transparente. foi quase capaz de ver todas as peças do quebra-cabeça devidamente montadas na cabeça do irmão quando os olhos dele se arregalaram.
Ela não sabia o que o irmão havia pensado. sabia que, em apenas um sorriso, não seria possível para Colin descobrir como ela havia realmente conhecido , mas ele havia entendido a coisa mais importante: que a última coisa no mundo que queria, naquele momento, era passar um tempo sozinha com Romanov.
Em seguida, ele suavizou os olhos e um malicioso sorriso surgiu em sua boca, discreto, tão discreto que nem mesmo Romanov foi capaz de perceber. Mas a intenção por trás dele havia ficado tão clara que não precisou de palavras para entender.
“Colin, por favor, não ouse”, disse mentalmente, torcendo para que o irmão entendesse as palavras por trás dos olhos dela, que o encaravam com desespero.
Então Colin olhou para , e ela teve a desagradável sensação de que sabia o que ele pretendia fazer. Ele virou o corpo em direção a , ignorando completamente o pedido de desespero nos olhos de sua irmã, e disse, estufando o peito, com um sorriso simpático:
— Você gostaria de dançar essa valsa com minha irmã? — Quando ouviu as palavras do irmão, foi tomada por uma raiva que nunca havia sentido antes. — Garanto a você que ela é uma incrível dançarina! — ele disse, segurando a irmã pela cintura. — A melhor em todo o Reino Britânico.
mal ouvia as palavras do irmão. A única coisa em que ela conseguiria pensar quando desse um chute nas canelas dele era o quão alto seu grito seria.
— Você leu meus pensamentos, Colin. — Romanov respondeu, abrindo um sorriso satisfeito. — Eu estava esperando pacientemente pela honra de dançar com suas irmãs.
Colin acenou a mão livre despreocupadamente.
— Esqueça Caroline, você pode dançar com a noite toda — ele disse, voltando os olhos para a irmã, antes de continuar: — Ela terá o prazer, não é, querida irmã?
— Claro, Alteza. — De alguma forma, conseguiu dizer aquelas palavras. Todo o seu corpo tremia de raiva e, se tivesse um pouco menos de autocontrole, com certeza, suas mãos teriam apertado o pescoço do irmão. — Será um prazer.
O olhar de irritação de diante daquela cena não impediu que ele continuasse. Colin retirou o braço da cintura da irmã, segurando delicadamente a mão dela e oferecendo a Romanov em seguida.
— Bom, desejo uma boa dança e uma boa noite! — disse ele com um sorriso satisfeito.
A única coisa que foi capaz de fazer foi olhar para Colin com raiva, projetando silenciosamente e discretamente com os lábios as três palavras que exemplificavam perfeitamente o que estava sentindo pelo irmão neste momento: “Eu te odeio”.
O sorriso de Colin aumentou em seu rosto, projetando uma resposta para ela em seguida:
“Eu te amo” .
Quando a mão de , coberta pela luva, encontrou-se com a mão de , um arrepio estranho percorreu por todo seu corpo. Romanov também usava luvas e, mesmo assim, foi capaz de sentir aquilo: uma reviravolta em seu corpo como se ela tivesse sido acertada por um raio.
decidiu aproximar-se um pouco mais do centro do salão, fazendo prender a respiração.
A orquestra preparava-se para a próxima música, afinando os instrumentos e, cada vez mais, pessoas se amontoavam em volta deles, em uma distância relativamente grande, para que todos pudessem olhar para eles durante a valsa enquanto dançavam também.
mantinha seus olhos em qualquer outro lugar longe da figura de . Ela sabia que, durante a valsa, seria impossível não olhar para ele, então estava aproveitando esses segundos restantes para olhar tudo à sua volta e tentar trazer um pouco de paz à sua mente perturbada.
“É só uma dança, . Você consegue fazer isso!”, disse a si, sentindo os segundos de espera parecerem minutos, horas, dias. “Você faz isso todos os dias: 1-2-3; 1-2-3; 1-2-3. Está no seu sangue dançar uma valsa perfeitamente, e não é um homem que vai mudar isso”.
Romanov segurou apropriadamente a mão de , erguendo-a até a altura dos ombros. Com a mão livre, tocou-a na lombar e, assim que ela colocou a mão em seu ombro, puxou-a para mais perto, fazendo um suspiro escapar de seus lábios.
No instante em que levantou os olhos e seu olhar se cruzou com os olhos dele, seu peito foi sufocado pela falta de ar. a encarava longamente com os olhos brilhantes, como se nada existisse, além dela e, antes que ela pudesse perceber, seus pés já rodopiavam ao som da valsa pelo salão.
Nas primeiras notas da valsa, os olhos de não desviaram nem por um segundo dos de . O mundo todo parou de existir, e tudo que ela conseguia enxergar eram duas pedras preciosas . Eles eram... Magníficos.
Ela estava completamente hipnotizada pelos olhos mais belos que já havia visto em toda a sua vida. Brilhavam como se tivessem vida própria, e ela jurava que, se todas as velas do salão fossem apagadas, os olhos dele seriam capazes de iluminar dez vezes mais que elas.
Havia algo extraordinário a respeito dos olhos de Romanov que ela não era capaz de explicar; era como se, ao olhar para eles, ela tivesse sido transportada para um mundo onde nada mais existia, nem mesmo o chão (como se tivesse sido levado aos céus e dançasse sobre as estrelas), e a única coisa que conseguia sentir era uma peculiar e completamente estranha sensação no meio de sua barriga. Como milhares de borboletas voando de um modo desgovernado, batendo nas paredes de seu estômago.
Neste meio tempo, ambos rodopiaram em uma sincronia perfeita pelo salão de baile, sem esbarrar em outro casal. Ela nunca havia se sentido tão conectada a alguém em uma dança antes, nem mesmo nos sonhos em que dançava com cavalheiros de contos de fadas. Era uma sensação surreal, e ela sentiu seus corpos se encaixarem como uma chave e uma fechadura.
Uma combinação perfeita.
— Devo me lembrar de parabenizar a Sua Majestade Imperial, depois desta dança. — , de repente, disse. percebeu que sua voz era grave, suave, sedosa... Uma voz doce, do tipo que arrepia os pelos de uma garota. — O baile está magnifico.
olhou para ele, procurando algo para dizer, mas se viu sem palavras e sem condições de fazer qualquer coisa, além de observá-lo com o corpo todo arrepiado.
— Traria a si felicidade saber que eles são famosos no mundo todo? — perguntou ele, cortês.
— Sim. — gaguejou, sentindo todo seu rosto corar. — Sim! — repetiu ela rapidamente, tentando corrigir a besteira de gaguejar feito uma tola. — Ela ficaria incrivelmente feliz, senhor.
— Por favor, senhorita, me chame de — ele disse, sorrindo. — Acredito ser inútil toda essa formalidade entre nós dois, já que pertencemos a mesma camada social.
assentiu (ou, pelo menos, tentou), sorrindo, apesar de Romanov não estar particularmente certo. Ele e pertenciam, de fato, a mesma camada social, mas, por ser herdeiro, tinha uma posição maior que a dela, o que implicava no tratamento formal. Ela só não disse isso porque, bem, seria estranho.
A mão de apertou-se ainda mais em sua lombar, assim que eles rodopiaram e, desta vez, conseguiu segurar o impulso de suspirar em voz alta, mas não conseguiu impedir seus pulmões de ficarem com uma pequena falta de ar. Ela estava fascinada pelo jeito como Romanov se movimentava.
Ela sentiu vontade de fechar seus olhos e deixar que a música e o grão-duque a guiassem completamente pelo salão.
Uma das coisas que mais amava neste mundo era dançar. Ela poderia passar horas e horas dançando em um baile sem reclamar de cansaço ou de dores nos pés. Normalmente, dançava com cavalheiros excepcionais, que sabiam dançar elegantemente todas as músicas da época, mas até mesmo os melhores dançarinos do Reino Britânico a conduziam com certo cuidado desnecessário. Eles estavam tão preocupados em não cometerem erros, que acabavam ficando com os pés “duros”, impedindo que pudesse entregar seu coração nas danças. Já Romanov era... Ele era diferente. Segurava em seus braços, rodopiando pelo salão com uma confiança invejável. O grão-duque sabia o que estava fazendo e esbanjava aquilo como uma coroa de ouro. não ficaria surpresa se alguém aparecesse e desse a ele uma medalha de “dançarino do século”.
— Você está se divertindo? — perguntou ele, roubando de seus próprios pensamentos.
— Sim — respondeu ela suavemente, recusando-se a dar maiores detalhes sobre como estava tendo um dos melhores momentos de sua vida. — E você? Está se divertindo?
Ele abriu um sorriso, mostrando os dentes claros.
— Mais do que imaginei, senhorita. — respondeu. — Não sou acostumado a fazer presenças em eventos da corte.
— E qual é a razão disso? — tentou não parecer curiosa.
Bem, ela falhou.
— Passo a maioria dos meus dias em navios, viajando pelo mundo... — ele respondeu, parecendo não notar o tom curioso na voz de . Ela suspirou agradecida. — Não tenho muito tempo para as formalidades da corte.
— Isso quer dizer que o senhor não comparece a evento algum? — perguntou.
— Apenas aqueles que me dão certo prazer... — respondeu . — E é , senhorita — concluiu ele, com um sorriso de lado.
— E não seria incorreto para um herdeiro ignorar as formalidades da corte? — ignorou a última parte, continuando com as perguntas: — Especialmente, do trono russo?
— Pelo contrário — respondeu ele. — Acredito que é sempre bom estar a par da real situação da maioria populacional de nossos impérios.
— Então você comparece a eventos em tavernas populares? — indagou , rindo um pouco.
— Eu compareço a eventos em todos os lugares. — respondeu, sorrindo.
— Menos os da corte — completou ela, soando mais provocativa do que deveria.
— Menos os da corte, senhorita — ecoou ele em um tom divertido.
tentou ficar em silêncio, mas não conseguiu por muito tempo. Ela estava fazendo o que a maioria das garotas da Europa gostariam de fazer: interrogando Romanov.
— Mas o que te traz ao Buckingham? — perguntou ela suavemente. — Para uma pessoa que odeia os bailes da nobreza, é contraditório escolher o maior deles em décadas para comparecer.
— Eu acabei de passar algumas semanas no Egito, senhorita — ele respondeu. Romanov tinha um inglês perfeito, não havia um resquício do sotaque russo em sua voz que pudesse entregar sua nacionalidade. — Em vez de voltar à Rússia, decidi vir à Inglaterra, comemorar o aniversário de seu irmão. Philip e eu somos amigos de longa data.
— Mesmo? — arqueou as sobrancelhas, surpresa. — Perdoe-me minha sinceridade, senh... — Ele a encarou, corrigindo-a silenciosamente. — Romanov — corrigiu ela, com um sorriso. — Mas eu, até hoje, não fazia ideia da sua amizade de longa data com os meus irmãos.
— Eu não a culpo por isso. — Ele a rodopiou.
— E por qual motivo você diz isso? — ela perguntou um pouco ofegante devido ao passo de dança.
olhou para ele, suspirando.
No começo, os olhos eram o que mais haviam chamado sua atenção. Os surpreendentes e surreais olhos eram obras de artes vivas que atraiam qualquer ser vivo e haviam atraído a ponto de ficar tão obcecada que ela mal havia notado que o resto do rosto dele era ainda mais bonito.
Ele era extremamente bonito. Cada pequena parte de seu rosto, desde o maxilar esculpido, os lábios cheios, o nariz aristocrático e os dentes brilhantes, até o cabelo volumoso e sedoso com as mechas perfeitamente arrumadas.
Ocorreu-lhe pensar que todas as estatuas, pinturas e histórias que glorificavam a beleza dos deuses por séculos estavam erradas. O homem mais bonito da face da Terra estava no palácio de Buckingham, em 1752, e se chamava Romanov.
— Perdão? — perguntou quando despertou de seus pensamentos. havia dito algo, mas ela foi incapaz de ouvir devido à sua própria consciência, que gritava: “Deus grego! Deus grego!”.
— Eu estava dizendo, senhorita — ele disse, encarando-a com um sorriso arrebatador —, que eu e seus irmãos participamos de eventos que a senhorita gostaria de passar longe.
— Mesmo? — franziu as sobrancelhas.
— Eu imagino que sim — respondeu o grão-duque, aumentando o sorriso, antes de continuar: — Eu não conseguiria imaginar a senhorita em um evento como o que ocorreu no Kensington ontem à noite.
Quando processou aquelas palavras, foi capaz de ouvir um click em sua própria consciência, como se uma cortina tivesse sido aberta em frente dos seus olhos e ela pudesse ver o mundo como ele era novamente.
Um turbilhão de imagens invadiu sua mente, imagens da noite anterior, que correram em seu cérebro tão rápido como um relâmpago. De repente, cada parte de seu corpo foi consumida por um sentimento que havia se tornado seu melhor amigo na noite anterior: raiva.
Como você pode ser tão burra, ?
Estúpida, ignorante, boba... Burra. Era isso que havia sido. A raiva começou a consumi-la por completo. Uma raiva de si. Ela odiou cada pedaço de si quando percebeu que se sentiu estupidamente e cegamente atraída por um homem que havia a humilhado menos de 24 horas atrás. Como ela pôde ter dançado com ele? Como ela pôde ter gostado de dançar com ele?
Devia ter algo de errado com ela. Devia ter algo de errado com o mundo todo. No mundo que vivia, um homem bêbado que chamava a princesa britânica de cortesã não era herdeiro de um império. Ele também não era ridiculamente bonito e, especialmente, não era capaz de fazer praticamente perder suas faculdades mentais.
Nenhum homem foi capaz de fazer agir daquela forma (com raiva) e, muito menos, foi capaz de atrai-la tanto a ponto de todos os pelos de seu corpo ficarem arrepiados e suas pernas tornaram-se de gelatina.
Por quê? Por que o único homem que se sentiu atraída em todos os seus 20 anos foi o mesmo responsável pela pior noite de sua vida?
Era uma punição. Sim, era isto: uma forma de punição por ela ter ido ao maldito Kensington ontem à noite. O lugar dela não era lá, todos sabiam disso — Deus sabia disso! Haviam regras a ser seguidas, e cumpriu todas elas rigorosamente a vida toda, ouvindo que desafiá-las e descumpri-las acarretavam em consequências... Bem, aquilo não poderia estar mais certo.
Porém, tudo aquilo não era suficiente. Era necessário uma cereja no topo do bolo: o fato de que Romanov era russo.
tentou ficar calma, algo que beirava ao impossível, mas tentou.
— Está tudo bem, senhorita? — Romanov perguntou, estudando o rosto dela com os olhos. — A senhorita pareceu chocada por alguns segundos — ele disse quando ela não respondeu. Então ele fechou os olhos, arrependido. — Perdoe-me. Eu te assustei, falando sobre o evento no Kensington.
— Por que me assustaria? — respondeu com a voz não mais graciosa como antes. — Eu conheço muito bem o estilo de vida do meu próprio irmão.
Ele olhou para , surpreso.
— Então você tem conhecimento sobre os eventos dele, senhorita.
— É lógico — respondeu ela distraidamente. Ela estava concentrada, tentando deixar seus olhos longe do rosto de Romanov, e focou o olhar nas penas coloridas presas no cabelo da duquesa de Malborough, que dançava a poucos metros dela. Deus! Ela parecia um avestruz! — Não há segredos entre eu e meus irmãos. E, também, não há segredos de que eu abomino esses eventos — completou, decidindo aderir uma nova tática que veio em mente assim que seus olhos se afastaram daquele homem.
Romanov a ofendeu? Tudo bem. Mas isso dava completa liberdade dela ofendê-lo também.
— Mesmo, senhorita? — ele perguntou curioso.
Ela deu uma risada transbordada de arrogância, antes de dizer:
— Um evento cheio de homens nobres, mais parecidos com garotos, que buscam minutos ínfimos de prazer na companhia de álcool e de cortesãs — ela disse, sorrindo —, não é apenas patético e infantil, mas também decadente. O que faz homens com riquíssimas fortunas se submeterem a tamanha piada?
forçou a si a encarar com um sorriso insolente quando terminou de dizer aquelas palavras, mas o sorriso morreu em seu rosto quando percebeu que ele a encarava com um sorriso zombeteiro.
— A senhorita parece saber muito sobre esses eventos... — ele disse, e respirou profundamente, tentando controlar a raiva.
— Não é difícil imaginar. — tentou não soar rude, mas foi impossível. — Sem contar que a corte inteira comenta sobre esses eventos quando acontecem.
— E eles falam sobre esses detalhes tão explicitamente? — perguntou ele com um sorriso.
— O que você está sugerindo, Romanov? — Ela virou os olhos para ele, sentindo seu corpo gelar. Por que ele estava agindo daquela maneira e fazendo aquelas perguntas? Era como se ele tivesse a reconhecido do incidente ontem à noite... Mas, não, era impossível. Nem seu próprio irmão havia a reconhecido.
— Eu não estou sugerindo nada, senhorita — respondeu ele, cortês. — Eu tenho certeza de que alguém como você nunca participaria de um evento tão... — olhou para ele com a expectativa do que falaria quase esmagando seu peito. — Sujo.
— De fato! — ela disse. Pare de inventar coisas estúpidas para atormentar sua própria mente, . Ele estava bêbado, uma máscara estava cobrindo seu rosto e estava escuro. Ele nunca se lembraria de você. — Eu sou a Princesa do Reino Britânico. — Ela ajeitou a postura, dizendo mais a si que a ele: — Não há lugar para mim lá.
— Mas há para o príncipe e herdeiro do trono britânico? — ele perguntou, levantando as sobrancelhas.
ficou pensativa por um momento.
— É diferente. Philip é... — Ela hesitou. — Philip é um homem.
Romanov franziu as sobrancelhas, claramente confuso, e se viu surpresa com o modo que a confusão ficou claramente explicita em suas feições.
— E...?
— As coisas são diferentes quando você é um homem. — respondeu como se fosse óbvio. Então, ainda vendo a confusão em seu rosto, arqueou as sobrancelhas e deu um sorriso sincero. — Você não conhece o século em que vivemos, senhor?
— Creio que as coisas acontecem de um modo diferente na Inglaterra — ele respondeu, após ficar alguns segundos em silêncio, pensativo. — No meu país, nós não dividimos as coisas por sexo e, sim, por prazer.
viu os lábios dele se curvarem em um sorriso, um sorriso malicioso desconcertante, e teria suspirado se a fala dele não tivesse a deixado tão indignada.
— Bem, no meu país, especialmente na minha família, a honra da nossa dinastia vem antes dos nossos prazeres pessoais. — disse, sem querer deixar explícito, no tom de voz, sua opinião sobre a Família Imperial Russa, porém foi incapaz de agir de outra maneira.
— Você soa como uma monarquista. — disse, ignorando o fato de havia acabado de ofender diretamente sua família.
— Eu sou uma monarquista. — respondeu rapidamente (foi quase um latido) e, então, encarou o grão-duque como se ele fosse maluco. — Você não?
— Admito que nunca vi uma princesa como você ligada a política.
soube exatamente o que ele quis dizer: uma princesa não-herdeira.
— Eu sou ligada ao meu império. — respondeu. — Pouco me importa se o assunto é política. Tenho o meu dever, e isso implica em manter minha dinastia e a reputação dela intacta.
— É admirável, senhorita. — disse simplesmente, surpreendendo , que esperava por uma frase zombeteira.
As últimas notas da valsa ecoaram pelo salão e e interromperam os passos exatamente no mesmo segundo. O vestido dela, porém, não acompanhou seu movimento, fazendo com que a saia volumosa dançasse em volta de seu corpo, esbarrando nas pernas de Romanov.
O fim da valsa havia deixando-os parados no meio do salão, encarando-se. teve uma estranha sensação passando por seu corpo ao perceber que a mão de ainda a tocava nas costas, e a outra ainda segurava sua mão. Essa sensação aumentou ainda mais quando percebeu que os olhos a encaravam com uma intensidade esmagadora.
Com os olhos vidrados nela, Romanov retirou sua mão das costas de em um movimento lento e, sem explicação alguma, a sensação de fascínio por aquele homem começou a voltar lentamente ao seu corpo.
Os olhos... Deve ser algo em relação aos olhos.
engoliu em seco, lembrando-se de que precisava voltar a fazer seu corpo e sua mente funcionarem.
Ela afastou-se de Romanov, preparando-se para abaixar a cabeça levemente em uma reverência assim que ele soltasse sua mão, porém, ele não soltou. Em vez disso, abaixou seu corpo, depositando um beijo em sua mão.
não se mexeu, apenas ficou parada, enquanto ele tocava os lábios nas costas de sua mão. Sentiu a pele arrepiar quando fez isso, e o ar ao redor deles ficou pesado.
— Permita-me dizer, senhorita... — disse assim que levantou o tronco e abandonou a mão dela gentilmente. Apesar de sentir um alívio, sentiu-se levemente vazia. — Você está magnifica esta noite.
— Obrigada, senhor! — comentou, tentando sorrir, mas não conseguiu.
Estava um pouco sufocada por conta da sensação que percorria seu corpo.
— Pude perceber, esta noite, que você e Caroline destoam-se nas cores dos vestidos. — disse, chamando a atenção de , que arqueou as sobrancelhas ao ouvir aquela frase. — Seria muito difícil confundi-las em um baile.
— Ela gosta de cores escuras. — observou-o estranhamente. Aquela sensação de formigamento e dormência começou, de repente, a ir embora de seu corpo, como um balão de ar que é esvaziado lentamente. — Eu prefiro cores claras. — Passou as mãos pela enorme saia do vestido, ajeitando-a apropriadamente. — Azul é minha preferida.
— Você fica linda de azul, Alteza — ele disse, concordando com a cabeça e abrindo um sorriso —, mas tenho certeza de que fica linda em cores escuras também. — estava prestes a cortar rudemente as palavras de Romanov, para que pudesse ir ao outro lado do salão, quando ele completou sua frase com um sorriso arrebatador, fazendo todo o ar sair brutalmente de seus pulmões: — Principalmente, no preto.

*¹Bloody Hell: gíria inglesa usada para expressar ênfase ao que está sendo dito; demonstrar raiva, insatisfação ou surpresa ou frustração com algo.
*² Margot é filha da tia de Pedro Hanôver (pai de ), casada com o Duque de Rutland, e isso faz com que ela seja prima de segundo grau de .


Capítulo 3 - Parte I

Everybody talks, everybody talks, too much.
(Todos falam, todos falam, demais.)


— Mais forte. — disse, sentindo sua cintura ser bruscamente puxada para trás. — Mais forte! — repetiu ela, tomando fôlego. — Um pouco mais forte.
E, então, um suspiro alto saiu de seus lábios quando as fitas de seu espartilho foram puxadas com uma força quase capaz de quebrar suas costelas. Ela respirou curtamente, com os movimentos restringidos pela peça.
Perfeito.
observou sua silhueta no espelho, conforme o resto de suas vestimentas eram passadas por cima de sua cabeça, entrando em seu corpo e moldando a aparência perfeita de uma princesa britânica.
Enquanto os dois pares de mãos abotoavam o vestido em suas costas, aproveitou para acostumar sua respiração ao ritmo restringido que o espartilho causava. Afinal, ela nunca havia usado algo tão apertado como aquilo.
Normalmente, nunca chegaria perto de uma peça como aquela. Odiava qualquer coisa que limitasse seus movimentos e sempre se recusava a usar algo que esmagasse tanto suas costelas e seus pulmões. Abriu a boca para pedir que as criadas afrouxassem as fitas do espartilho, porém um pensamento lhe ocorreu, e ela mordeu os lábios, forçando-se a ficar calada.
“Hoje não é um dia normal, . Nenhum, dos próximos 8 dias, serão.”
Os próximos dias seriam marcados pela exibição das mais belas e formosas silhuetas de toda a Europa. Uma fervorosa competição de vestidos, sapatos, cabelos elaborados, joias e todos os tipos de artefatos possíveis para uma dama solteira havia se iniciado, em busca da atenção do príncipe mais disputado da década. Jovens princesas haviam gastado fortunas, em busca da perfeição física.
E estava entre essas princesas.
Claro, seus objetivos passavam longe de ganhar a atenção do próprio irmão. O motivo por trás daquele corpete desumanamente dolorido era que todo o poder e a magnitude da monarquia britânica deveriam resplandecer em sua aparência para que a força e a glória da Família Imperial ficassem explícitas toda vez que alguém olhasse para os Hanôver.
Mesmo que fosse apenas para as vestimentas do café da manhã.
baixou os olhos para os seus braços, observando uma de suas criadas arrumar a manga esvoaçante. Ela usava um vestido azul claro, com laços pequenos enfeitando a saia e um grande no corpete. Em seu pescoço, um colar pesado de ouro e topázio azul fazia par com seus brincos de gotas gordas.
Ela inclinou-se em direção ao grande porta-joias à sua frente, inspecionando os anéis com os olhos por alguns segundos, até que as portas duplas do quarto foram abertas e uma silhueta feminina passou por elas.
— Mary! — exclamou, sorrindo. — Bom dia!
— Bom dia, Alteza! — a jovem deteve-se alguns metros de , fazendo uma pequena reverência.
Mary FitzWalter contrastava radicalmente com todas as outras damas de companhia de Hanôver. Enquanto as outras possuíam corpos com quadris largos e seios grandes — quase como estátuas gregas —, Mary tinha um corpo pequeno e miúdo como o de uma boneca. Ela era baixinha, possuía a pele muito branca, cabelo loiro como o sol e as bochechas rosadas.
— A coluna da Lady Serpentine acabou de sair — disse ela, erguendo o The London Gazette.
— Mesmo? — disse, arregalando os olhos, surpresa. — Deus! Eu não notei que já era segunda-feira.
— Eu aposto que a coluna toda é sobre o baile dos meus pais... — continuou ela, sorrindo, assim que voltou os olhos novamente ao porta-joias. — Os Devonshire serão obrigados a abrir mão da atenção nesses próximos dias — comentou, lembrando-se dos escândalos que apareciam a cada semana sobre a conturbada família do duque. — Londres ficará feliz, sem precisar saber dos detalhes íntimos daquele grupo de selvagens sem classe.
— Você gostaria de ler? — Mary perguntou, após rir do comentário de .
— Na verdade, você poderia ler para mim? — perguntou, após colocar um anel de ouro no dedo e fazer uma careta, percebendo que ele era simples demais para a ocasião. — Eu não terminei de me vestir.
— Sim, senhorita.
“Prepare-se, Londres! Acabamos de entrar na era de ouro desta década. Dois dias atrás, esta cidade foi surpreendida por um desfile de belas carruagens. Reis e Imperadores de toda a Europa foram ovacionados enquanto acenavam para a multidão reunida na Alameda; princesas chocaram o público com suas belezas e simpatias, e, acreditem, até mesmo cocheiros foram aplaudidos. Os grandiosos portões da residência Imperial, no coração de Londres, abriram as portas para receber os mais de 5.000 nobres que receberam um convite, 5 meses atrás, para celebrar a maioridade do futuro Imperador Britânico, Sua Alteza Imperial, Philip Hanôver.
E, se o convite Imperial, com o brasão pintado com ouro, está em suas mãos, considere-se sortudo, pois você foi convidado para participar dos 10 dias mais requintados que a história deste Império já conheceu.
Para você, que será afortunado de conviver com a família Imperial nesses próximos dias, é melhor que tenha se preparado devidamente. Os dois primeiros eventos mostraram que as joias nunca são demais.
Esta é a era de ouro da qual essa autora se refere. Se você pensou no reinado da querida Elizabeth Tudor, coloque os pés no chão. Não há referências a batalhas grandiosas ou dramaturgos, como William Shakespeare proclamando em um teatro. Há apenas joias e mais joias.
Esta autora também não se refere a apenas joias materiais (diamantes, rubis, safiras, lindas pedras preciosas das mais diversas cores), ela se refere, especialmente, a enorme leva de pretendentes que passeiam pelos jardins do Buckingham neste exato momento.
Jovens princesas que parecem ter saído direto das páginas de um conto de fadas foram preparadas para fisgar o coração do herdeiro. Damas que pareciam patinhos feios foram transformadas em cisnes assim que os convites chegaram às portas de suas residências. Apesar de usarem grandiosos vestidos, esta autora aconselharia a se cobrirem, também, com uma armadura, afinal, isso é uma guerra e grande parte dessas jovens damas possuem garras mais afiadas que as espadas de cavalheiros medievais, e elas não vão recuar quando o título de futura Imperatriz do Reino Britânico é o prêmio.
Esta autora não teve tempo suficiente para coletar informações sobre cada candidata que Sua Majestade Imperial Britânica escolheu para ser sua futura cunhada, portanto, a avaliação das jovens damas será feita nas próximas colunas, em que, com certeza, vocês se sentirão praticamente dentro do palácio de Buckingham.
Agora, é justo voltar esta coluna ao que realmente importa, o pacote mais bonito de joias dessas comemorações: os príncipes britânicos.
Ah, como esta autora adora a Família Imperial! Afinal, quem não adora? Um grande casal apaixonado que deu à luz a dois príncipes e duas princesas que enchem o coração de cada britânico com orgulho. É perfeito.
Como vocês, leitores, sabem, esta coluna raramente traz os príncipes britânicos como foco principal. É quase impossível acessar a vida privada da Coroa quando se mora fora dos grandes portões, mas a abertura deles levou vários informantes desta autora ao coração da monarquia, e eles serão capazes de reunir todas as informações que vocês sonharam em conhecer.
Aliás, esta autora já tem várias, então segurem-se em seus assentos, porque elas são chocantes.
No sábado, um baile de inauguração aconteceu no palácio de Buckingham, e Sua Alteza, Philip Hanôver, o homenageado desses deliciosos eventos, permaneceu nada mais que duas horas. O que aconteceu para que o herdeiro terminasse uma das noites mais importantes de sua vida tão cedo? Não tirem suas próprias conclusões, acreditando que o herdeiro estava doente ou cansado e se dirigiu para os seus aposentos, em busca de descanso. Na verdade, o príncipe britânico não viu seus aposentos, até ás 8h00 da manhã do dia seguinte. O herdeiro festejou a noite toda, mas em outro palácio, um palácio na ponta do Hyde Park.
Isso mesmo, caros leitores! O libertino mais amado de Londres organizou um evento no palácio de Kensington, como um sinal de rebeldia a decisão da Sua Majestade Imperial Alice Hanôver.
Os informantes desta autora descobriram que Sua Alteza, Philip Hanôver, ficou furioso com a ideia de se casar com 26 anos e resolveu se revoltar contra a Imperatriz, organizando evento cheio dos maiores delitos masculinos. O Palácio de Kensington foi tomado pelos jovens senhores mais ricos da Europa, que festejaram ao lado de moças não tão honradas assim.
De acordo com as fontes, Suas Altezas Caroline e Colin Hanôver comparecem também ao evento. A princesa britânica foi vista apostando em jogos da sorte, enquanto seu irmão mais novo acabava com o estoque de brandy do palácio. Já o anfitrião desapareceu, após alguns minutos de festa, na companhia de nada mais e nada menos que três mulheres.
Esta autora não sabe quais foram as reações das Suas Majestades Imperiais ao saberem de tal evento, mas aposta que o casal não ficou nenhum pouco feliz com o ato exuberante de libertinagem do herdeiro.
Já o baile na noite anterior ditou como os outros 8 dias devem ser: cheios de glamour e riqueza, com comidas e bebidas da melhor qualidade, e orquestras que tocam a última nota quando o sol começar a aparecer.
A orquestra, composta por nada menos que 200 músicos, conseguiu fazer com que todos os casais e até mesmo as solteironas, que já estão há três temporadas no mercado, dançassem até os pés doerem. A música foi tão contagiante que a Condessa de Westmorland e seus mais de 110 quilos rodaram pelo salão nos braços de 5 cavalheiros diferentes. Quem imaginou que isso aconteceria algum dia?
Falando em músicas e danças animadas, esta autora tem uma grande notícia. Embora

— Embora...? — perguntou quando Mary interrompeu suas palavras.
a observou pelo espelho, e ela encarava o papel com os lábios exprimidos e as sobrancelhas franzida.
— Mary, por que você parou de ler? — perguntou.
— Eu acho melhor a senhorita deixar a leitura para depois — sugeriu com a hesitação, perpassando os olhos claros quando encarou .
— Por quê? — se virou para encará-la não mais pelo espelho.
Ela aproximou-se um pouco e, com os olhos confusos, encarou o papel nas mãos pálidas da sua dama de companhia. Instantaneamente, soube o porquê.
— Ela está falando sobre mim.
Quando Mary não admitiu e, principalmente, não negou, sentiu o espartilho se apertar, ainda mais, em volta de seu corpo. Ela se irritou, principalmente, com as mãos das três mulheres tocando seu cabelo comprido e levantou a mão em um gesto bruto.
— Por favor, parem! — disse ela, rígida.
As três mulheres se afastaram imediatamente, esperando o próximo comando de .
— Dê-me isso. — voltou os olhos para Mary, estendendo a mão.
— Senhorita, eu não acho que...
— Dê-me, Mary! — interrompeu a garota, ríspida, puxando rudemente o papel para si quando Mary estendeu o braço. — “Embora as festividades tenham sido feitas em homenagem ao herdeiro britânico, a caçula da família foi o centro da noite passada. E qual o motivo? Duas valsas dançadas com ninguém mais e ninguém menos que o grão-duque, Romanov, da Rússia.
O libertino mais comentado entre a realeza europeia está em Londres! Ontem, o grão-duque surpreendeu a todos com sua presença no baile imperial. Aparentemente, em vez de retornar à Rússia, após uma longa viagem ao Egito, Sua Alteza resolveu voltar as velas de seu navio a Londres e comemorar o aniversário de seu amigo de longa data. A última vez em que esteve na cidade, Londres foi premiada com a visita do russo a um clube onde as Altezas Reais (Philip, Caroline e Colin) se encontraram para passar a noite toda festejando. A cidade, na época, havia ficado excitada com a possibilidade de ver os famosos olhos iguais pedras preciosas, mas foi decepcionada com a ida do grão-duque um dia depois de sua chegada. Mas, animem-se, londrinos! Desta vez, esta autora tem certeza de que Romanov veio para ficar.
Para aqueles que viram Sua Alteza, Hanôver, dançar com o futuro Imperador Russo, Romanov, não há dúvidas: um novo casal real está prestes a se formar.
Trajada em um esplêndido vestido azul, a lindíssima princesa britânica aceitou o convite para dançar com o grão-duque, que rodopiou com ela em seus braços por todo o salão. Testemunhas disseram que eles dançaram como se não existisse mais ninguém naquele salão e pareceram se encaixar perfeitamente, como uma chave e uma fechadura. Ah, esta autora está completamente apaixonada com os detalhes que recebeu sobre essa cena.
Quando a valsa acabou, o grão-duque depositou um beijo na mão da princesa, que ficou tão encantada com o homem a ponto de deixá-lo rodopiar seu corpo, por mais uma música, no salão. Os informantes desta autora dizem até que ela recusou uma valsa com o primeiro ministro para poder bailar mais uma vez com seu companheiro.
Será que a filha mais nova do casal Imperial vai ser a primeira a deixar os queridos territórios britânicos para se juntar ao galanteador herdeiro russo do outro lado do continente?
Esta autora anseia por essa resposta mais que qualquer um de vocês, já imaginando os lindos sinos da Abadia de Westminster anunciarem um noivado real.”

abaixou o papel, trêmula, e, de alguma forma, conseguiu se manter impassível. Respirou fundo e, rígida, disse:
— Deixem-nos.
As criadas se movimentaram rapidamente para fora da sala e, quando a porta foi fechada, o grito mais raivoso que Mary já ouviu em toda a sua vida explodiu através das cordas vocais de :
— Isto é um absurdo! — gritou, levantando o jornal em direção à Mary. — Isto é a coisa mais absurda que eu já li em toda a minha vida! Ela denegriu completamente a imagem dos meus irmãos! E... Deus! Olha o que ela disse a respeito de mim!
— Acalme-se, senhorita! — respondeu Mary.
— Me acalmar?! — ecoou , com os olhos arregalados. — Como eu vou me acalmar, Mary? — acrescentou, aumentando o tom de voz. — Você leu o que ela escreveu?!
— Sim, senhorita — admitiu, visivelmente chocada diante da explosão nada educada de —, mas...
— Então você entende o motivo da minha raiva! — rebateu , ignorando o resto da frase.
— Mas você deve ver essa situação pelo lado bom, senhorita! — insistiu Mary. — Ela disse que a senhorita estava linda ontem à noite...
— Eu não ligo se ela disse que eu estava linda. Eu não ligo se ela me comparar com Afrodite! — a interrompeu, em fúria. — Ela acabou de dizer a Londres que eu dancei com Romanov!
— E ela... Ela disse que eu e Romanov... — passou as mãos pelo cabelo, exasperada. — Deus! Eu não consigo dizer a palavra!
— Bem, eu não acredito que seja tão ruim. — Mary disse, arrependendo-se de suas palavras, quase instantaneamente, quando olhou para ela com os olhos arregalados, como se ela fosse completamente maluca.
— Não é tão ruim?! — Por algum motivo, não era capaz de abaixar o tom de voz. — Todos irão ler isto, Mary!
— Ele é um grão-duque, senhorita. — Mary disse, tentando acompanhar os passos de pelo cômodo. — Todos sabem que você não poderia recusar uma dança com ele.
não ouviu. Ela estava muito ocupada, correndo os olhos pelo jornal novamente.
“Ela recusou uma valsa com o primeiro ministro para poder bailar mais uma vez com o seu companheiro.” Isto é uma mentira! — exclamou. — Eu dancei com o primeiro-ministro! Você viu, certo, Mary?
— Eu acredito que todos viram, senhorita — respondeu ela.
— Como ela ousa dizer que eu e Romanov estamos, vamos...
— Ela quer agradar ao público, senhorita. — Mary disse assim que percebeu que não era capaz de terminar a frase. — É por isso que ela escreve essas... Bobagens.
sentiu o ar faltar em seus pulmões quando algo lhe ocorreu. Ela empalideceu, sentindo o pânico tomar conta de seu corpo.
— Minha mãe.
Mary, minha mãe! — ela repetiu, desabando no sofá, com as mãos no rosto. — Ela vai ficar tão furiosa comigo... Eu nem consigo imaginar o que ela vai dizer!
— Senhorita... — Mary aproximou-se, sentando-se ao seu lado. — Ela, provavelmente, viu a dança ontem à noite. Eu não acredito que será uma surpresa.
olhou para o jornal.
— E sobre a parte que ”...Dançaram como se não existisse mais ninguém naquele salão e pareceram se encaixar perfeitamente, como uma chave e uma fechadura” ? — Seus dedos apertaram com tanta força as folhas de papel que os nódulos de sua mão se tornaram brancos. — Você não acha que isso será uma surpresa?
Os olhos correram pela folha, procurando por outro absurdo.
— Ou “O grão-duque depositou um beijo na mão da princesa britânica, que ficou tão encantada com o homem a ponto de deixá-lo rodopiar seu corpo, por mais uma música, no salão”?
Lendo novamente os trechos, o nervosismo tomou conta de e o ar faltou em seus pulmões. Ela tentou inspirar fundo, mas desistiu, soltando um gemido quando sentiu o peito doer.
— Deus! Eu não... — colocou as mãos sobre o peito, tentando se concentrar em inspirar e expirar, porém a dor dificultou esse processo, tornando sua respiração curta como um suspiro. — Eu não consigo respirar.
Mary a encarou com uma expressão apavorada.
— Se-senhorita? — gaguejou ela.
— Eu não consigo respirar, Mary! — suspirou , com a respiração entrecortada. Ela olhou para o lado e viu que Mary havia ficado paralisada, e exclamou: — Ajude-me!
Mary pareceu despertar de seu estado de paralisia, arregalando os olhos.
— Devo chamar o médico? — perguntou rapidamente, começando a se levantar.
— É claro que não! — falou , agarrando o braço dela e puxando-a para baixo. — É apenas meu espartilho. Está muito apertado. — Ela se virou de costas, permitindo que Mary tivesse acesso às fitas, e disse: — Rápido, por favor!
Mary levantou as mãos e começou a trabalhar com rapidez, desfazendo o trançado, que estava praticamente sufocando . Quando Mary alcançou a metade de suas costas, sentiu as rajadas de ar entrarem em seu corpo de uma forma rápida e violenta. Ela se engasgou com a mudança brusca em seus pulmões e levantou as mãos, pedindo que Mary parasse.
respirou profundamente algumas vezes, soltando um longo suspiro cada vez que expirava. Suas costelas gritavam de dor, assim como o seu abdômen, porém não havia importância. Ela estava, finalmente, respirando novamente.
Depois de algum tempo naquele ritmo, conseguiu retomar o controle da própria respiração. Ela apoiou as costas ao sofá e olhou para o chão, observando, junto ao seu pé, a primeira página do The London Gazette.
Ela não pensou duas vezes, pegou o jornal do chão e, com os dedos, começou a despedaçá-lo em grotescos pedaços.
— Eu odeio esta coluna! — Os pedaços de papel estavam na saia do vestido, nos sapados de cetim, no tapete de pele... Eles caiam rapidamente, como uma chuva, conforme rasgava decididamente cada canto daquela coluna. — E odeio essa estúpida, estúpida Lady Serpetine!
não parou, até que o jornal se transformasse em nada mais que dezenas de pedaços espalhados por todos os cantos.
— Senhorita, você está bem?
se obrigou a respirar fundo.
— Não, Mary — respondeu ela, segurando o vestido frouxo junto ao peito. — Eu não estou bem.
— Minha mãe deve estar lendo essa coluna neste exato momento. — comentou. — A qualquer segundo, ela vai me chamar para me punir pelo resto da minha eternidade.
Antes que Mary pudesse responder, três batidas na porta ecoaram pelo quarto. , instintivamente, pressionou com mais força o vestido contra o busto, como se o tecido azul pudesse escorregar com aquelas batidas.
Ela olhou para Mary, em desespero.
— Atenda para mim! — ordenou enquanto tentava, desesperadamente, se arrumar no vestido.
Mary partiu, apressada, em direção à porta; tocou a maçaneta e abriu uma pequena fresta da porta para que, quem tivesse batido, pudesse ver apenas o seu rosto.
— Senhorita — uma voz masculina cumprimentou Mary. Ela acenou com a cabeça, indicando que ele prosseguisse. — A presença de Sua Alteza é requisitada no primeiro andar.
— Requisitada por quem? — perguntou ela.
— Por Sua Majestade, a Imperatriz, senhorita.
Quando ouviu aquela frase, uma sensação horrível de pânico tomou conta de seu corpo.
Seus pulmões pareceram estar comprimidos, a visão fraquejou e o estômago chacoalhou como nunca antes, fazendo com que quase vomitasse em cima de seus sapatos azuis. Ela, porém, foi rápida e engoliu com força quando o jantar de ontem à noite subiu pela garganta.
— Ela descerá em alguns minutos. — mal conseguiu ouvir a resposta de Mary, preocupada demais com seu próprio corpo, que estava prestes a ter um ataque. — Obrigada.
Mary fechou a porta, e se levantou trêmula, tomada por uma onda de pânico, que a dominou tão rapidamente, que ela teve que se agarrar ao braço do sofá, em busca de apoio.
— Por favor... — pediu , fechando os olhos para não olhar para o espelho. Não desejava ver a provável terrível situação de sua face; pálida, completamente tomada pelo pavor. — Chame as minhas criadas novamente.
Porém, antes que Mary pudesse ir, chamou seu nome.
— Sim, senhorita?
precisou respirar fundo para, finalmente, com a voz fraca, dizer:
— É melhor você arranjar outra princesa para ser dama porque minha mãe vai acabar comigo.

****


mal conseguia respirar, enquanto andava de um lado ao outro, na frente das portas duplas que a separavam da ira de sua mãe.
Ela havia saído do quarto de vestir, alguns minutos atrás, e, quando chegou ao corredor, e os guardas tocaram as maçanetas, gritou, impedindo-os de abrirem as portas. Eles olharam para ela, assustados, e largaram as peças de cristais como se elas fossem feitas de fogo. pediu perdão, frustrada com si pela sua própria reação, e começou a andar feito uma boba, como um rato preso em uma gaiola. Não sabia quanto tempo havia passado, mas era o suficiente para que atraísse olhares incrivelmente discretos, porém curiosos, dos inúmeros guardas no corredor.
Ela segurava as mãos com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Estava tão nervosa que seu estômago revirava de uma maneira violenta e sua respiração não estava nada normal.
não estava preparada para aquilo. Aliás, como ela poderia estar? Nunca imaginou, em toda a sua vida, que leria seu nome estampado em uma coluna de fofoca, fazendo insinuações sobre um noivado com o grão-duque russo. Era algo... Inimaginável. Era impossível, especialmente, para Alice Hanôver, que, nem em seus piores pesadelos, poderia imaginar algo como aquilo.
levou as mãos à nuca, sentindo a pele coçar terrivelmente. Estava tão nervosa que sua pele estava ardendo como se estivesse com uma crise de urticária.
Quando começou a sentir sua pele machucada devido à força que suas unhas aplicaram naquela área, segurou as próprias mãos, impedindo de continuar a se coçar. Ela também interrompeu os passos e olhou para as portas. Se ela, ao menos, tivesse ideia do que estava a esperando do outro lado...
Passaram-se vários segundos para reunir coragem e perguntar a um dos guardas:
— Como ela está?
O homem arregalou os olhos, claramente chocado com a atitude de , porém, rapidamente, retornou à postura como se nada tivesse acontecido.
— Vossa Alteza? — perguntou ele, alguns instantes depois, hesitante.
— Minha mãe — respondeu ela. — Como ela está hoje?
Ele demorou a responder, e , impaciente, machucou os lábios, mordendo-os com força.
— Sua Majestade, a Imperatriz, está radiante, como sempre — respondeu ele, com os olhos fixos em uma das janelas do corredor.
bufou, revirando os olhos.
— Sim, ela é sempre radiante. — tentou esconder o sarcasmo na voz, porém falhou. — Mas ela estava... — Ela fez uma pausa, impedindo que as palavras saíssem rápido demais. O guarda não ficaria muito contente se ouvisse perguntar se a Imperatriz parecia um monstro em fúria. — Estressada quando chamou por mim?
— Eu creio que não, Vossa Alteza.
colocou as mãos na cintura, praguejando. Que ideia mais idiota! É claro que os guardas de seus pais não responderiam com sinceridade uma pergunta como aquela... Onde ela estava com a cabeça?
Ela respirou fundo e voltou a encarar a porta. , você precisa fazer isso! Quanto mais rápido você fizer, mais rápido vai terminar!, pensou ela, limpando a garganta, enquanto endireitava os ombros, parecendo que estava se preparando para uma batalha.
Não, não uma batalha e, sim, um banho de sangue.
fechou os olhos, tentando fazer com que sua própria consciência calasse a boca. Era apenas sua mãe, não havia o que temer. Alice apenas daria uma bronca nela e se esqueceria de toda essa situação em menos de dois dias, tudo ficaria bem, e daria boas risadas daquela situação daqui alguns dias.
abriu os olhos e riu de si quando percebeu que estava sendo ridícula. Estava transformando a situação em um monstro de 7 cabeças quando era apenas um... Ratinho. Esse pensamento foi o suficiente para que tomasse coragem e fizesse um sinal com a cabeça, indicando para os guardas abrirem as portas. Observou as enormes janelas da sala amarela tomarem conta de seu campo de visão e deu um último suspiro, antes de entrar, ouvindo sua própria consciência dizer: Não pode ser tão ruim, não é?

— O que você estava pensando?! — Alice gritou, arremessando o jornal no chão.
cambaleou para trás, assustada com aquele grito raivoso. Alice Hanôver era uma mulher linda, tinha cabelo cheio, olhos claros e um sorriso exuberante; também era dotada de uma classe impecável que não era capaz de ser medida em palavras. Porém, naquele momento, a Imperatriz do Reino Britânico parecia um monstro. Todo o seu rosto havia adquirido uma coloração vermelha e os olhos estavam estreitos, banhados em uma fúria tão grande que pareciam estar pretos. Uma veia pulsava freneticamente em seu pescoço, deixando horrorizada. Ela não ficaria surpresa se um par de asas ou de chifres crescessem em sua mãe naquele momento.
— Mamãe, eu...
— Como você pôde? — rugiu. — Ele é um russo!
— Mamãe, por favor, se você...
— Você tem ideia de como isso é humilhante? — Alice a interrompeu com uma fúria insana. — Isto é mais que humilhante! — Com os sapatos , ela amaçou o jornal. — Isto é uma desgraça para a sua reputação e para a reputação dos Hanôver!
se encolheu, com medo. Nunca a vira assim. Nunca vira ninguém assim, tão tomado pela fúria, pela raiva... Alice Hanôver, uma das mulheres mais poderosas do mundo, estava descontrolada.
Ela começou a andar de um lado ao outro, com os passos tão pesados, que quase podia sentir o chão tremendo aos seus pés. Praguejava palavras em italiano que tinha quase certeza de que eram palavras que garotas como ela não deveriam saber falar. Algumas coisas, ela era capaz de identificar, como cazzo, figlio di puttana, palavras que aprendeu, ouvindo algumas brigas de seus avós. Porém, aquele extenso vocabulário de palavras feias que sua mãe estava despejando com fúria estava longe do que seu professor de italiano havia passado 7 anos ensinando a .
Observando aquela cena, não precisou nem admitir que estava terrivelmente errada. As coisas podiam ser ruins, podiam ser muito ruins.
Mamma mia, questo è un disastro... — Entre os palavrões, foi capaz de ouvir. — Mio Dio! Quello che ho fatto per meritare?* — Questo è uno scherno, un'umiliazione... Una tragedia di proporzioni enorme!*
— Mamãe, se você puder me ouvir por alguns segundos, eu juro que há uma explicação para tudo isso e... — tentou dizer algo, mas foi friamente interrompida.
Silenzio, ! — vociferou Alice. Agora, em inglês, ela completou: — Não existe uma explicação para esse absurdo!
se retraiu, abrindo e fechando a boca algumas vezes, sem saber o que fazer. Deveria tentar argumentar contra sua mãe? Se ela fizesse isso... Deus! Alice explodiria como fogos de artifícios no meio da sala. A fúria dela aumentaria e a situação ficaria pior ainda. Mas, por outro lado, se ficasse quieta, Alice tomaria aquelas tolices do jornal como fatos e acreditaria fielmente que aquelas insinuações entre ela e Romanov eram verdadeiras. Ela parou, pensou por um instante, então disse:
— Perdoe-me, mamãe! — desculpou-se ela. Talvez fosse sua imaginação, mas teve a impressão de que Alice ficou mais calma ao ouvir aquelas palavras. Ela limpou a voz, seguindo em frente: — Mal consigo imaginar a frustração que você enfrentou ao ler essa coluna e peço perdão por te fazer passar por isso. — Alice a encarou com uma surpresa escancarada em sua testa. Bem, até estava surpresa com si por estar pedindo desculpas. Isso não fazia parte de seus planos originais, mas sabia que a mãe só a escutaria se pedisse desculpa. — Porém — continuou, depois de passar alguns segundos tomando coragem —, como uma Hanôver de corpo e alma, não admito que mentiras sejam ditas em meu nome e, mamãe — emendou rápido o suficiente para que Alice não a interrompesse —, essa coluna espalhou blasfêmias em relação a mim, e não vou tolerar isso.
Blasfêmias?! — ecoou ela, cética. — Você está negando, na cara de sua própria mãe, o que essa mulher escreveu?
engoliu em seco, nervosa.
— Em partes, mamãe — retrucou baixinho. — Há coisas, nessa coluna, que não são verdades.
Alice pegou o jornal no chão — uma bola cinza rasgada e amassada — e estendeu para .
— Você pode ter o imenso prazer de mostrar a mim, ? — Alice disse de uma forma tão cínica que assustou até os dedos dos pés de .
Ela pegou o papel das mãos de sua mãe e tentou ignorar o olhar mortal que acompanhavam os seus movimentos enquanto tentava desamassar o jornal.
— Por exemplo... — tentou ignorar o fato de que suas mãos tremiam quando correu os olhos pelo jornal. — Esta parte em que ela diz que eu recusei uma dança com o primeiro-ministro é uma mentira tão grande que nem consigo...
parou de ler quando ouviu sua mãe rir.
Rir.
— Essa é a grande mentira?! — Alice indagou entre as risadas. — Essa é a coisa mais irrelevante nesse papel.
— Perdão? — indagou , confusa.
Ela interrompeu as risadas imediatamente e lançou um olhar mais que furioso para .
— Eu não ligo se você recusou uma valsa com o primeiro-ministro! — rugiu Alice. — Eu ligo... — A cada palavra, Alice aumentava o tom de voz, até que as últimas saíram como uma explosão de sua garganta, fazendo fechar os olhos: — Para o fato de que um jornal está correndo por Londres, fazendo insinuações sobre um noivado entre a minha filha e um russo filho de Gregório Romanov!
— Insinuações que não são verdades, mamãe! — exclamou .
— Não é o que toda a cidade pensa, ! — respondeu Alice. — Eles pensam que você e Romanov vão noivar e... — Ela levou dramaticamente uma mão ao peito, como se aquele pensamento trouxesse uma dor fora do normal ao seu corpo. — Por Deus! Eu prefiro ver você casada com um plebeu que com um russo!
sufocou o gritou, horrorizada.
— Mamãe! — exclamou ela.
Foram necessários alguns segundos, até que tivesse a capacidade de formar uma frase outra vez.
— Eu não vou me casar com um plebeu! — respondeu ela, chocada, estupefata... Não havia uma palavra para definir o quão horrorizada estava. — Muito menos com um russo!
— E você pode dizer isso a todas as pessoas em Londres?
a encarou completamente sem reação.
Ela sabia que sua mãe odiava os russos, mas percebeu, naquele momento, que não sabia, realmente, o quão grande aquele sentimento era.
Dezesseis anos atrás, quando tinha 5 anos, sentada no sofá desta sala, ouviu Alice Hanôver desprezar a existência dos russos pela primeira vez.
Eram meados de outubro, e o Palácio de Buckingham estava prestes a sediar as comemorações do aniversário de casamento de seus pais. Naquela época, ainda usava fitas no cabelo e vestidos pomposos que a deixavam como uma bola. Alice revisava a gigantesca lista de convidados, segurando em seu colo e designando cada casal real para uma parte do palácio. Quando os nomes de Gregório e Tatiana Romanov surgiram na lista, Alice revirou os olhos e disse com desprezo:
“Nós deveríamos arrumar um zoológico para eles dormirem.”
As damas de companhia de Alice riram, e só conseguiu compreender o porquê alguns anos mais tarde.
Conforme crescia, as coisas pioraram. Já que ela e seus irmãos não eram considerados mais crianças, Alice passou a falar abertamente sobre seu ódio. As ofensas ficaram cada vez mais pesadas e o desprezo ultrapassava os limites de tudo que já havia visto antes.
Para Alice, o Império Russo era um formigueiro de uma aristocracia suja e solta, onde os casos de amor ostensivos, os mexericos maliciosos e a falta de classe a espantavam. Os russos eram conhecidos, mundialmente, por suas promiscuidades, pela falta de racionalidade e a violência cega em busca do poder. Eles eram também, para grande parte do Ocidente, um povo precário de seriedade, grosseiros, presos na Idade Média em todos os sentidos.
Alice, obcecada pelos protocolos e etiquetas reais exigidos na corte, se espantou de uma forma traumática quando se deparou com os costumes russos no dia de seu casamento, e não foram necessárias mais de duas horas para que o estrago fosse feito. Alice criou uma inquebrável camada de desgosto em frente a esse povo, 25 anos atrás, e ela ficava cada vez mais espessa.
Porém, o que deixava toda essa situação pior para ela era que seu marido, Pedro Hanôver, e Gregório Romanov eram melhores amigos de infância.
Alice não era capaz de entender como um homem tão maravilhoso como seu marido era capaz de ser tão próximo de um porco.
Gregório Romanov era tudo o que a Imperatriz julgava ser um absurdo. O Imperador Russo possuía uma energia e um temperamento ardente. Ele era vaidoso; um homem de contradições extremas e, às vezes, violentas; ignorava a rotina e comportava-se conforme seus impulsos. Ele possuía uma risada alta e escandalosa, e bebia bebidas alcoólicas como se fossem água. Como se não fosse o suficiente, Gregório possuía uma amante oficial em sua corte, o que fazia Alice Hanôver vê-lo como se ele fosse o anticristo em pessoa.
— Mamãe... — disse, tentando acalmar seu corpo. Ela havia ficado extremamente ofendida pelas palavras da mãe, alguns instantes atrás. — Perdoe-me, mas eu acredito que a senhora está exagerando.
Exagerando?! — ecoou Alice.
Ela lançou um olhar tão violento a , que, por um resquício de segundo, imaginou se sua mãe teria a coragem de dar um tapa em sua cara.
— Foi apenas uma dança, mamãe. — Mesmo com medo, se manteve firme. — Duas danças — corrigiu quando viu sua mãe abrir a boca para acrescenta —, mas não significam nada. — Ela suspirou. — Você sabe, mais que ninguém, que eu nunca me casaria com um russo.
— Mas eles não sabem, ! — Alice retrucou, indo até . Ela segurou o impulso de gritar quando as mãos de sua mãe seguraram seus ombros com força. Os olhos dela se encontraram com os de Alice de uma forma tão intensa que el não poderia desviar o olhar, nem mesmo se quisesse. — Você não consegue perceber o que estou fazendo? — ela perguntou, chacoalhando-a pelos ombros. — Eu estou tentando salvar a sua reputação, minha filha!
, observando os olhos azuis, pela primeira vez naquela conversa, percebeu um sentimento em sua mãe, além da fúria: preocupação.
Em poucos segundos foi capaz de compreender tudo que sua mãe sentia. Ela só estava com raiva porque estava preocupada. Alice estava preocupada com o fato de que sua filha mais nova, a intocável princesa guardada a 7 chaves dentro do palácio de Buckingham, criada com uma educação impecável, fosse tocada por algo, ou por alguém, que ela havia tentando afastar a vida inteira. Algo que mancharia mais que a reputação, mas todo o esforço e tempo dedicado para que fosse... Perfeita.
Alice temia pelo futuro de , e ela percebeu que não podia culpar uma mãe por se preocupar com o futuro de sua filha.
— Isso não manchará a minha reputação, mamãe. — disse. — Não há com o que se preocupar.
— Há muito com o que se preocupar — disse ela, baixinho. — Você é muito nova para entender... Quando tiver filhos, talvez entenda.
se encolheu, sentindo aquela frase acertar seu corpo como um soco no estômago. Alice percebeu o desconforto dela e enlaçou os braços com força em volta do corpo de , desesperada por ter sido tão descuidada.
Amore mio*, perdoe-me! — ela se desculpou, praticamente esmagando com a força do abraço. — Não sei onde eu estava com a cabeça!
— Está tudo bem, mamãe. — respondeu com um sorriso. Ela havia passado tempo demais se acostumando com o seu futuro para não sentir seu coração se despedaçar toda vez que ouvia algo como aquilo, porém, às vezes, não era capaz de sentir um desconforto ao encarar a dura realidade. — Está tudo bem.
Quando ela suspirou aquelas palavras, não soube exatamente a quem estava dizendo: à sua mãe ou a si.

****


respirou fundo quando saiu pelas portas, sentindo como se toda a sua energia tivesse sido completamente sugada por aquele cômodo. Ela se apoiou, com uma das mãos, na parede do corredor, enquanto a outra ia em direção à testa.
Ela não sabia como se sentir, após toda aquela confusão.
Em apenas 30 minutos, havia visto sua mãe explodir em fúria como um monstro, mimá-la com um amor maternal sufocante e, novamente, voltar ao estado de fúria. Pelo menos, nessa última vez, ela não havia sido o alvo e, sim, Philip, por planejar uma festa cheia de cortesãs no palácio de Kensington.
Deus! Ele estava tão ferrado!
Dando uma risada, ela se desencostou da parede, alisando a saia do vestido e preparando-se para ir até os jardins. Porém, cessou seus movimentos quando avistou uma silhueta a poucos metros dela. Quando se deu conta de quem era, seu corpo foi instantaneamente tomado por uma raiva descontrolada, e ela sentiu como se estivesse prestes a explodir.
— Você! — rugiu , cambaleando em direção ao irmão, tomada pela fúria. — Eu te mataria se pudesse!
Colin estava encostado na parede, com os braços cruzados e um sorriso travesso plantado nos lábios.
— Eu?! — ele indagou, com um ar inocente e zombeteiro. — O que eu fiz para merecer tanto rancor, minha querida irmã?
— Não se faça de inocente, seu dissimulado! — acusou ela, fuzilando Colin, que arqueou a sobrancelha de modo arrogante quando ela se aproximou mais dele, com o olhar. — Você sabe muito bem o que fez.
— Eu não fiz nada, irmãzinha — respondeu ele, sorrindo. — Porém, não posso falar o mesmo da Lady Sepertine...
estreitou os olhos, cerrando os punhos.
— Você leu — concluiu ela, em um tom mais baixo.
Colin mordeu os lábios, tentando conter a risada, mas falhou. A risada abafada se transformou em uma gargalhada, quase instantaneamente. ficou tão furiosa com a reação dele que desferiu um tapa, nenhum pouco fraco, no braço dele.
— Como você ousa brincar com isso?! — indagou ela, estupefata. — Você tem ideia de como mamãe está furiosa?
— Nós... — Colin apontou com a cabeça para a extensão do corredor enquanto tentava recuperar o fôlego. — Conseguimos ouvir perfeitamente os gritos dela.
olhou para a direção em que Colin havia apontado, observando os guardas parados como estátuas pelo local, fazendo a vigia das portas.
“Eu prefiro ver você casada com um plebeu que com um russo!” — Colin disse, suavizando a voz para fazer uma imitação ridícula da mãe.
revirou os olhos para ele, sentindo todo seu corpo explodir em raiva. Ela levantou o braço e desferiu outro tapa no braço dele, mas, desta vez, dez vezes mais forte.
! — Colin exclamou de dor, desencostando-se da parede, enquanto esfregava o braço. — Isso doeu!

Ela ignorou, falando por entre os dentes: — Eu juro, por tudo que é mais sagrado neste mundo, que, se eu pudesse arrancar seu pescoço, sem perder o meu também, eu faria isso aqui e agora!
Colin a encarou, estupefato.
— Quando você se tornou tão violenta?
— Quando você... — apontou um dedo furioso para ele. — Começou um boato completamente falso sobre um noivado meu com Romanov!
— Espere um segundo, . — Colin disse, franzindo as sobrancelhas, com um olhar confuso. — Eu nunca comecei boato algum!
— Sim, você começou! — retrucou. — Você ofereceu a minha mão para dançar com Romanov, e eu não tive a escolha de recusar.
Ele olhou para ela, abrindo um sorriso insolente.
— E por que você não teve a escolha de recusar?
— Não me faça bater em você novamente, Colin! — ameaçou , estreitando os olhos. — Você, nem ao menos, perguntou se eu gostaria de dançar! Você, simplesmente, me jogou para ele como se eu fosse uma marionete! — exclamou ela, aumentando o tom de voz.
— Tudo bem. — Colin suspirou, levantando as mãos e se rendendo. — Eu assumo completa responsabilidade em relação a isso.
— Obrigada. — afastou-se um pouco, arrumando a postura.
Ela passou as mãos pelo vestido, ajeitando a saia e respirando fundo, mas foi interrompida pela fala de Colin:
— Mas não foi por isso que mamãe estava tão furiosa com você — disse ele. — Ela, provavelmente, perdeu a cabeça porque você dançou duas valsas com ele. Agora, me diga, querida irmã, eu sou culpado pela segunda valsa? — Colin inclinou a cabeça, fitando-a com um olhar curioso.
demorou mais para responder do que deveria. Colin abriu um sorriso arrogante e, quando ela percebeu isso, decidiu abrir a boca.
— Bem, indiretamente, sim.
Ele estreitou as sobrancelhas.
— Se você não tivesse oferecido minha mão... — olhou para ele, com o queixo erguido, entorpecida demais pelo seu próprio orgulho para agir de outra maneira. — Eu nunca teria dançado com ele, então não teria dançado duas valsas.
Colin a encarou com seriedade, pela primeira vez naquela conversa.
— Você é mais inteligente que isso, — ele disse, cruzando os braços, com a seriedade transbordando pelos olhos claros.
— Tudo bem. — bufou, cruzando os braços. — Metade da culpa é sua e metade é minha. Satisfeito?
Colin sorriu, exibindo os dentes claros.
— Muito! — disse ele, bastante orgulhoso.
Ela bufou novamente, e Colin ofereceu um braço a ela. Ela se apoiou em seu braço e eles começaram a caminhar pelo corredor, em direção à grande escadaria.
— Aliás, ... — Colin quebrou o silêncio que havia se estabelecido entre eles. olhou para ele, curiosa. — Eu estou, particularmente, interessado no motivo para você dançar duas valsas com Romanov e, ainda por cima, recusar o primei...
— Se você quer manter seus tornozelos intactos, não termine essa frase. — o interrompeu, irritada. Respirou fundo, controlando-se para soar educada com o irmão. — Eu estou cheia disso por hoje.
— Mas eu sou seu irmão e seu melhor amigo! — argumentou ele, segurando-a pela mão quando eles começaram a descer os degraus da grande escadaria.
estava usando um vestido longo, particularmente difícil de subir e descer uma escada sem tropeçar na barra dele.
— Isso não significa que você precisa saber tudo da minha vida — rebateu ela, levantando delicadamente a saia azul — ou se intrometer nela. Na realidade, você nunca deveria se intrometer na minha vida. — completou, falando a si com a voz baixa quando eles pisaram no último degrau da escada. — Aliás, acho que nós deveríamos fazer um acordo — disse ela, parando de andar, com uma ideia correndo pela cabeça. Ele parou de andar também. — O que você acha de nunca mais se intrometer na minha vida?
— Como é? — Colin olhou para ela, rindo. No primeiro momento, ele achou que ela estava brincando, de tão absurdo que aquilo soou. Mas, quando olhou para o rosto dela, completamente sério, percebeu que ela não estava brincando e ficou perplexo. — Eu não posso fazer isso! — Colin apertou a mão dela, como se ela estivesse completamente maluca. — Você não ouviu o que eu acabei de dizer? Eu sou seu irmão e seu melhor amigo.
puxou a mão com força, desvencilhando-se dele.
— Mas não é por causa disso que você precisa me colocar em situações como a de ontem! — retrucou, irritando-se novamente. — Você não pode ficar me empurrando para qualquer pessoa, Colin, especialmente para Romanov!
Colin sorriu para ela.
— Eu não estava te empurrando para Romanov, — respondeu ele. — Eu estava apenas apresentando você a um querido amigo meu.
segurou a saia do vestido com as mãos e se aproximou dele.
— Eu não sei quais foram suas intenções por trás daquela atitude maléfica, mas não foi só isso, Colin — disse ela, fazendo um tremendo esforço para não ficar furiosa novamente. — Eu conheço você e conheço muito bem o que tem dentro dessa cabeça. — Ela passou uma das mãos pelo cabeço dele, bagunçando um pouco.
Ele fez uma careta, passando as mãos pelo cabelo e tentando arrumá-los novamente.
Alguns segundos depois, e algumas tentativas frustradas de arrumar o cabelo, Colin se encontrava dez vezes mais despenteado. arqueou as sobrancelhas, surpresa com o esforço inútil do irmão para arrumar alguns fios de cabelo.
Quando percebeu que ela estava observando, Colin parou de movimentar as mãos e olhou para ela com os olhos claros suplicantes por ajuda. bufou, levando as mãos até o cabelo dele e arrumando os fios da maneira correta.
— Eu não sei se deveria agradecer você por isso. — Colin disse, fazendo uma careta quando as mãos de puxaram seus fios um pouco forte demais. — Você causou isso.
— Você deveria agradecer — respondeu ela, afastando-se dele quando os fios estavam novamente arrumados para trás. — Eu estava perto de chutar suas canelas.
Ele abriu um sorriso, um daqueles lindos sorrisos que fazem qualquer pessoa sorrir também.
Inclusive, . — Você sabe que eu só tive boas intenções nas minhas atitudes, irmãzinha — disse ele, oferecendo o braço mais uma vez.
aceitou o braço, olhando para ele com as sobrancelhas arqueadas.
— Tudo bem, — admitiu ele, encaminhando até as portas que davam acesso ao jardim. — Você ganhou. — abriu um sorriso. Um baita de um sorriso! — Não vou mais empurrar você para qualquer pessoa. — Ela olhou para ele, esperando pelas palavras mágicas. Ele frisou as palavras quando completou: — Especialmente, para Romanov.
— Obrigada! — ela respondeu, fazendo um carinho em seu braço quando eles atravessaram as portas duplas.
Uma brisa quente roçou a pele dos irmãos assim que eles pisaram no lado de fora. O tempo estava horrivelmente abafado, até mesmo para a estação que mais detestava entre as quatro: o verão.
Para ela, o verão era um verdadeiro inferno.
Coberta o dia todo por vestidos absurdamente pesados, seu corpo entrava quase em combustão durante a estação que possuía temperaturas altas demais para um bom e verdadeiro londrino. passava o dia todo se abalando com leques e sentindo o suor escorrer por suas pernas, nuca e busto — sem contar a fraqueza e a tontura que dominavam o seu corpo devido ao calor abafado dentro e, até mesmo, fora do palácio. Era tão difícil ser uma perfeita dama, com todas essas situações, que contava alegremente os dias para que essa estação horrível chegasse ao fim.
Mas, aparentemente, todas as outras pessoas pareciam pensar diferente dela. A multidão que perambulava pelo jardim parecia muito animada, esbanjando seus decorados e glamorosos leques e chapéus, com as bebidas geladas em suas mãos, sorria de orelha a orelha, com um humor surpreendentemente agradável.
observou aquela cena com estranhamento e com certo desgosto. Ela respirou fundo e disfarçou com um sorriso todos os seus pensamentos raivosos sobre o verão quando sua chegada foi notada e uma enxurrada de comprimentos interrompeu seus pensamentos. Depois de 40 minutos sendo bombardeada com centenas de “Bom dia, Vossa Alteza!”, não havia cumprimentado nem a metade dos convidados. Com Colin ao seu lado, ela e o irmão fizeram perfeitamente tudo que o protocolo real exigia, mesmo com o calor do sol praticamente queimando suas cabeças. Com um chapéu, ainda sentia o calor esquentando terrivelmente o couro cabeludo.
Quando o calor atingiu de uma forma tão forte a ponto de sua visão fraquejar, ela pediu que Colin a levasse para debaixo de uma árvore para poder se recuperar. Na verdade, desejava ir até as enormes tendas armadas a alguns metros da multidão que sediariam o café da manhã, o primeiro grande evento real do dia. Porém, ela não podia ir até lá, pelo menos, não até que seus pais chegassem.
Ah, meu Deus! suspirou, apoiando-se com uma das mãos ao grosso tronco de uma das árvores que cercavam a face norte dos jardins do palácio. Ela retirou, com um movimento brusco, o chapéu de sua cabeça, que estava quente devido ao sol. — Eu odeio o verão.
— Eu amo o verão. — Colin segurou o chapéu dela, abrindo um sorriso.
— Você ama porque não precisa usar isto. — reclamou, batendo na saia do vestido. Ela puxou os fios de cabelo para frente, abanando a nuca com a outra mão. — É uma estação tão desagradável. — Jogou o cabelo para trás, segurando-o no topo da cabeça e abanando, agora, a parte da frente de seu corpo.
— Você está desagradável assim. — Ele apontou para ela, com um tom zombeteiro.
Ela apenas levantou os olhos, fitando-o com uma expressão raivosa.
ficou, por mais alguns minutos, se deliciando com a temperatura agradável que aquele espaço tomado pela sombra possuía. Como ela e Colin estavam afastados da multidão, de um modo que as pessoas não podiam vê-los, ela aproveitou para fazer o que nunca faria em público: levantou um pouco a saída do vestido, prendeu o cabelo em um desajeitado coque, pegou para si o lenço que Colin trazia e secou todo o suor aparente de seu corpo. Colin havia se encostado ao tronco, afastado dela, dando a um pouco de privacidade. Apesar de não conseguir vê-lo, ouvia seu assobio baixinho. Esperando se recompor para voltar multidão, Colin estava aproveitando aquela sombra tanto quanto ela.
?
— Sim, Colin? — respondeu, ouvindo o irmão chamar pelo seu nome.
— Você se lembra do nosso acordo?
— Sim. — respondeu, franzindo as sobrancelhas. — Nós conversamos sobre ele, aproximadamente, uma hora atrás.
— O que você acha de começarmos amanhã?
— O quê? — perguntou. Ela não havia conseguindo ouvir direito as palavras dele. — Eu não consegui ouvir você.
Ele disse algo, mas com a voz muito baixa.
— Colin, você pode falar mais alto?
Mais alguns múrmuros que foi incapaz de ouvir.
— Colin!
Então ela não ouviu mais nenhum murmuro.
— Colin?! — ela chamou o nome dele, após os segundos de silêncio. — Colin, você está ai? — pressionou, sendo novamente surpreendida pelo silêncio. Ela parou, imediatamente, de secar o busto com o lenço, dando a volta no tronco para descobrir qual era o motivo do silêncio de seu irmão. — O que você está...
não foi capaz de terminar a frase, pois foi surpreendida por alguém que, definitivamente, não era seu irmão.
— Bom dia, Vossa Alteza.
Romanov desencostou-se do tronco e olhou para ela, abrindo um sorriso tão devastador que, se não estivesse a ponto de quase desmaiar de susto, ela desmaiaria de emoção.
— Vossa Alteza! — exclamou, engasgando-se, surpresa.
— Eu sinto muito se eu te surpreendi, senhorita — desculpou-se ele. — Não foi minha intenção.
, nem ao menos, conseguiu se amaldiçoar mentalmente por ter agido como uma tola ao deixar tão claro a surpresa em sua reação. Ela abandonou, imediatamente, o lenço que usava para se secar, deixando o pedaço branco macio cair no chão e colocou a mão sobre o peito, tentando controlar a respiração, que havia se alterado devido ao susto.
— Onde está meu irmão? — perguntou ela, ofegante.
— Seu irmão pediu para eu entregar isto a senhorita — disse ele, estendendo algo a . Até aquele momento, ela não tinha percebido que ele segurava algo em suas mãos, e aquele algo era o seu chapéu. — Ele disse que precisava fazer algo urgentemente.
arregalou os olhos, lembrando-se de algo.
Meu cabelo!
Ela levou as mãos até o topo da cabeça, sentindo seu cabelo enrolado, formando algo muito parecido com um ninho de pássaros mal feito e desorganizado. sentiu a garganta se fechar quando sentiu o pânico correr por suas veias. Deus! Aquilo era tão constrangedor!
O rosto de ficou completamente vermelho.
— Eu... Eu... — gaguejou ela, petrificada.
Não fique parada como uma tola, ! Faça algo, pelo amor de Deus!
agiu rapidamente, segurando o chapéu nas mãos de . Porém, ficou parada quando os dedos de roçaram acidentalmente nos seus, e sua respiração também parou.
O toque foi incrivelmente suave, mas atingiu seu corpo de uma forma poderosa que ela sentiu o calor até nos dedos dos pés.
— Obrigada, senhor. — Ela se afastou com o chapéu em suas mãos. Engoliu em seco, tentando expulsar aquele calor que havia dominado todo o seu corpo. — Se o senhor me der licença... — deixou o resto da frase no ar, esperando que entendesse o pedido dela quando ela levantou o chapéu.
— Por favor, senhorita — respondeu, indicando com a mão a face do tronco em que ela estava escondida minutos atrás —, fique à vontade.
Ela se virou de costas para ele, caminhando até o local e tentando permanecer calma. Quando teve certeza de que não estava olhando, se encostou ao tronco, permitindo-se amaldiçoar aquele dia mentalmente.
Deus! Isso não pode estar acontecendo!
colocou a mão sobre a barriga enquanto tentava puxar o máximo de ar para seus pulmões. Ela fechou os olhos, com uma dor excruciante nas costelas e o coração quase saindo pela boca.
Apesar de apavorada, não demorou muito tempo naquela posição. Sabia que, se demorasse demais, Romanov saberia que algo estava errado e iria até ela, e o que ela menos precisava, naquele momento, era que o grão-duque a visse naquele estado mais uma vez.
rapidamente soltou o cabelo, penteando-o com a mão o máximo que conseguia. O penteado que suas criadas haviam feito se desmanchou quando ela fez o coque e, agora, ela estava completamente descabelada. Pelo menos, o chapéu azul era grande e conseguiria disfarçar um pouco da bagunça de seus fios .
Infelizmente, ao contrário do que pensou, esse tempo não adiantou nada para acalmar seus nervos ou as batidas frenéticas de seu coração.
Respire, !, disse a si. Respire fundo e vá até lá com o queixo erguido, como uma verdadeira dama.
Ela fez o que sua consciência disse: respirou fundo mais uma vez, encorajando a si. Depois de alguns segundos, conseguiu, de alguma maneira, reunir coragem para ir até ele.
— Perdoe-me por este inconveniente, senhor. — disse. — Eu estava me recuperando, após passar muito tempo no sol. Verões me causam um terrível mal estar.
Quando terminou de falar, quis bater em sua própria face. Por que ela estava se desculpando e se explicando para ele? se afastou da multidão para não ser vista, e se alguém estava errado naquela situação era ele, que se intrometeu onde não era convidado.
Malditos bons modos de princesa!, praguejou ela mentalmente.
— Você é quem deve me perdoar, senhorita — respondeu ele. — Eu invadi sua privacidade. Perdoe-me, por favor.
o encarou, adotando uma postura régia. Não soube muito bem o que dizer, então apenas aceitou o pedido de desculpa com um aceno de cabeça.
Quando um silêncio embaraçoso se instalou entre os dois, os pensamentos de foram subitamente tomados pelos gritos de Alice Hanôver. A lembrança da bronca que havia levado, algumas horas atrás, se formou tão vividamente em sua mente que ela precisou olhar em volta para verificar que não estava passando por aquele pesadelo novamente. Quando viu que sua mãe não estava realmente ali — estava cercada apenas de árvores e algumas dúzias de arbustos —, sentiu o alívio tomar conta de seu corpo. Um alívio que se transformou em uma onda de pânico e desconforto rapidamente quando ela se virou para frente e encarou Romanov, o culpado por aquele pesadelo que ela passou com a mãe.
respirou fundo, sentindo uma necessidade urgente de se retirar dali. Tinha que sair dali, ou acabaria despejando todos os sentimentos que começaram a crescer em seu peito — raiva, magoa, desespero — em Romanov e, por Deus, ela não podia fazer aquilo.
— Agora, se me der licença, senhor... — disse, desviando os olhos da silhueta de Romanov. — Creio que minha presença é requisitada nas tendas.
segurou a saia do vestido em suas mãos para fazer uma pequena reverência ao grão-duque, antes de se retirar. Ela tremeu um pouco nos pés quando os joelhos se abaixaram devido à ansiedade quase dolorida que dominava seu corpo para escapar daquela situação.
se virou para ir embora, mas foi interrompida por dedos que agarraram de uma forma suave, porém firme, o seu pulso. O toque penetrou em seu corpo de uma forma tão poderosa que até os seus dedos dos pés foram capazes de sentir o calor que irradiou da mão de Romanov.
Ela se virou e foi imediatamente tomada por uma súbita sensação de familiaridade ao observar a mão dele em volta de seu pulso. Por alguns segundos, o céu escureceu e os amplos jardins do Buckingham se transformaram em um comprido corredor florido. O tecido azul de seu vestido tornou-se preto brilhante e os olhos verdades de Romanov foram envolvidos por uma máscara preta.
Sua mente entrou em caos. A lembrança se tornou tão real que ela não soube mais dizer se estava nos jardins do Buckingham ou do Kensington. Ela ficou paralisada e, conforme analisava o homem à sua frente, a memória possuía cada vez mais o seu corpo e mais perdida ela ficava.
A sensação se tornou esmagadora, tão forte, que sentiu seu coração ir ao chão. O toque dos dedos dele em seu pulso descoberto tirou o ar de seus pulmões, assim como duas noites atrás, quando sentiu, pela primeira vez, um homem, que não era um de seus irmãos, tocar em sua pele sem as luvas. A sensação foi como tomar um gole de vinho; desceu pelo corpo, esquentando intensamente cada músculo.
Era uma sensação única, que nunca havia sentindo antes em toda a sua vida. Os dedos dele eram suaves, porém penetravam em seu corpo com tanta intensidade que ela teve certeza que alcançavam a sua alma.
Porém, a lembrança logo se dissolveu tão rápido quanto se formou, e , ao se deparar com a realidade, assustou-se, afastando-se bruscamente. Ela puxou o braço para si com força, apavorada, como se o mesmo toque que havia a deixado embriagada segundos atrás estivesse queimando sua pele agora.
Ela levou a mão até o pulso, tocando exatamente no lugar em que Romanov havia colocado seus dedos, e percorreu aquela região com força, como se pudesse apagar qualquer vestígio do toque dele.
Qualquer vestígio da noite no Kensington.
— Desculpe-me, senhorita. — ergueu os olhos e observou se afastar três passos dela, desconfortável. Ele endireitou a postura. — Mas não posso te deixar ir sozinha até lá.
piscou repetidamente, aturdida.
— Como disse? — perguntou ela.
— Eu vou acompanhar a senhorita até as tendas — respondeu ele, autoritário.
o encarou por um momento, sentindo-se inexplicavelmente ofendida.
— E por quê? — indagou ela. — Eu sou perfeitamente capaz de ir até lá sozinha!
— Eu tenho certeza disso, senhorita — respondeu ele, esboçando um pequeno sorriso que fez arquear as sobrancelhas, indignada —, porém, como um verdadeiro cavalheiro, não posso te deixar fazer isso.
resistiu ao impulso de questioná-lo sobre ser um “verdadeiro cavalheiro”. Ela tinha certeza que um homem exemplar nunca chamaria a Princesa do Reino Britânico de cortesã.
— Não há necessidade, senhor — respondeu ela, tentando manter a voz desprovida de irritação. — O Buckingham é a minha casa e os guardas estão muito bem acostumados com as minhas caminhadas sozinha pela propriedade.
O sorriso dele se transformou, adquirindo um ar levemente divertido.
— Seus guardas podem estar... — Ele fez uma pausa, lhe lançando um olhar insolente, e completou: — Mas tenho certeza que os convidados de Vossas Majestades não estão.
espremeu os lábios, sentindo a fúria subir à cabeça.
— Eu tenho certeza que os convidados de meus pais falarão muito mais, caso eu volte com o senhor.
— Você tem razão, senhorita — concordou ele, acenando com a cabeça. — Não me esquecerei de repreender Colin por essa atitude extremamente imprudente.
se limitou a fitá-lo.
— Repreender Colin?
, de repente, adquiriu a expressão séria.
— Foi uma atitude irresponsável de seu irmão te deixar aqui, sozinha, para ser acompanhada por um cavalheiro diferente até as tendas — respondeu ele.
se afastou um pouco dele, pensando em suas palavras.
Até aquele exato instante, não se dera conta de quão irresponsável a atitude de Colin havia sido. Deixá-la sozinha nos jardins, à mercê de ser acompanhada por outro homem até as tendas... O que ele estava pensando? Colin se importava tão pouco com a reputação de sua própria irmã a ponto de fazer isso?
Aquele miserável..., pensou, cerrando os punhos.
Ela estava prestes a explodir em raiva, porém algo lhe correu pela mente, perturbando-a ainda mais, e ela se viu forçada a acalmar seu próprio corpo para contemplar melhor aquele pensamento.
Por que diabos Romanov havia dito aquilo?
Sim, seria um assunto e tanto para as bocas dos nobres se aparecesse, uma hora e alguns minutos depois, acompanhada por qualquer homem que não fosse Colin. Ela não era capaz de imaginar a magnitude das fofocas que surgiriam, porém isso não chegava aos pés do que aconteceria, caso aparecesse, depois de todo esse tempo, com Romanov.
Por Deus! A maior coluna de fofoca de toda Inglaterra havia acabado de incitar um rumor sobre um possível noivado entre os dois! Como ele pode insistir que ela fosse com ele até lá? Se eles aparecessem juntos, os rumores ficaram cada vez mais fortes e... Minha nossa! sabia como eram os rumores em Londres.
Ela empalideceu.
Como? Perguntou-se ela, em pânico. Como ele não era capaz de perceber o quanto isso seria ruim? Ela tinha certeza que um homem com a reputação de Romanov não desejava ter um rumor sobre um casamento pendurado em suas costas, e ela... Deus! Ela muito menos! Especialmente, um rumor com ele!
Ela olhou para ele. não parecia ser burro e muito menos ingênuo a ponto de não perceber as consequências, e também acreditava que ele não era um cafajeste tão grande capaz de fazer isso de propósito...
Ela baixou os olhos e mordeu o lábio, sentindo a cabeça ficar dolorida ao tentar buscar uma resposta. Provavelmente, teria ficado assim por um bom tempo, frustrada com si e vasculhando todas as partes de sua mente em busca de uma explicação. Porém, um pensamento, de repente, se formou em sua cabeça, e os olhos dela se arregalaram, e sua boca se abriu, surpresa.
Ah, Deus!, arfou, estupefata. E se ele...
Ela prendeu a respiração, sentindo o coração dar uma freada no peito, como se, num lampejo, entendesse tudo com clareza.
— O senhor... — Com a voz trêmula, falou: — O senhor, por acaso, leu o jornal esta manhã?
ergueu uma sobrancelha, claramente confuso com a súbita mudança de assunto. se inclinou para frente, com o coração esmagado pela expectativa dolorosa da resposta dele.
— Creio que jornais não são particularmente meu interesse, senhorita — disse ele.
Quando ele respondeu, o alívio tomou conta do corpo de tão rapidamente que foi quase doloroso, e ela se sentiu prestes a desmaiar com aquela sensação. O ar invadiu seus pulmões e, junto com ele, uma sensação maravilhosa e eufórica tomou conta de si.
Ela sentiu vontade de cair de joelhos e agradecer aos céus por aquele milagre, porém se conteve e apenas levou os dedos até a palma da mão, beliscando aquela região e mal podendo acreditar que aquilo era real. Estava prestes a gargalhar, pular, gritar... A felicidade transbordava dela.
Ele não leu!, arfou, sentindo o peito quase explodir de alegria. Meu Deus! Ele não leu!
— Por quê? — perguntou ele, visivelmente surpreso com a reação de . — Há alguma notícia importante?
— Não! — a resposta de veio rápida, surpreendendo os dois. Ela, então, se deteve, pigarreando. Juntou as mãos na cintura, concluindo que deveria agir com normalidade, caso contrário, poderia desconfiar de algo e ir atrás do jornal. — Não, senhor — disse ela. — Não há nada de importante no jornal, hoje.
olhou para ela com desconfiança.
— Então por que perguntou se eu havia lido, senhorita? — perguntou ele, abrindo um sorriso.
praguejou mentalmente.
Deus! O que ela estava fazendo?
Não conseguia acreditar que havia sido tão descuidada ao fazer uma pergunta como aquela, sem pensar nas consequências... É claro que Romanov estranharia a pergunta!
— Porque... — A voz de vacilou.
O que ela deveria falar? Não fazia ideia do que estava escrito no jornal esta manhã — havia rasgado em pedaços, antes que pudesse ler qualquer outra notícia —, apenas sabia sobre a coluna da Lady Serpentine e, por Deus, ela preferia levar uma flecha no coração ao dizer a Romanov sobre ela. , claramente, deveria mentir, mas ela era tão ruim em contar mentiras... Seu corpo todo começava a suar e a tremer, sua fala se enrolava e seu rosto ficava terrivelmente vermelho.
— Porque... — repetiu ela, sentindo as palmas das mãos ficarem úmidas devido ao suor. O desespero estava começando a correr por suas veias, e levantou os olhos para os céus, pedindo a intercessão de alguma divindade para sair daquela situação horrorosa que ela mesma havia se colocado.
Qualquer coisa, implorou ela, mentalmente.Um aglomerado de pássaros, um vento, uma chuva...
Uma chuva.
Antes mesmo que pudesse pensar, uma desculpa se formou em sua mente e saiu atravessada pelos lábios rapidamente:
— Porque eles comentaram sobre uma possível chuva tomar conta de Londres hoje.
Romanov ergueu os olhos para o céu, observando o sol brilhante e o intenso tom de azul, pensando, provavelmente, a mesma coisa que pensou assim que as palavras terminaram de sair de seus lábios: era mais possível caírem vacas do céu que uma gota de chuva.
engoliu em seco quando ele abaixou o olhar e olhou para ela. O rosto dele deixou claro que ele não havia acreditado, nem por um segundo, nas palavras dela. Bem, ela não poderia culpá-lo. Aliás, quem acreditaria? Estava claro que não fazia a menor ideia do que estava falando...
a encarou por mais alguns segundos e, lentamente, aproximou-se dela. Quando ele chegou mais perto, percebeu que, em seus lábios, um pequeno sorriso havia se plantado, e os seus olhos haviam adquirido um brilho intenso à luz do dia. Ele parou a poucos centímetros dela e, então, em um gesto deslumbrante, estendeu a mão forte em sua direção.
— Então deveríamos nós apressar, senhorita — disse ele, com o sorriso nos lábios. — Vamos?

*Meu Deus, isso é um desastre... O que eu fiz para merecer? Isto é uma zombaria, uma humilhação... Uma tragédia de proporções enormes!


Capítulo 3 - Parte II


“Our games of make believe are at an end”
(Nossos jogos de faz de conta estão no fim)

Alguns minutos depois, se encontrava à beira de um ataque de nervos. Sua mão direita estava agarrada ao tecido azul, puxando os fios do rico bordado que decorava a saia do vestido. Tentou afastá-la, porém precisava fazer algo com ela ou poderia explodir com o nervosismo. Sua respiração estava irregular e superficial, e a cada vinte segundos, ela umedecia os lábios, inquieta.
Com um esforço tremendo, mantinha uma postura elegante. Ignorava toda a rigidez e a tensão que dominava seus músculos, portando-se como uma perfeita dama inglesa. A última coisa que precisava era que Romanov percebesse o quão aterrorizada estava.
Seus olhos azuis passearam pelos jardins do Buckingham. foi capaz de notar cada árvore, flor e arbusto plantado na extensão da propriedade que praticamente se perdia no horizonte. Era uma visão única, de tirar fôlego, que esperava que pudesse acalmar um pouco seus nervos. Porém, ao notar que ainda faltavam alguns bons metros para chegar às tendas, ficou ainda mais nervosa.
Ela levantou os olhos, observando o azul intenso do céu e o sol brilhante. Apesar de terrivelmente quente, aquela era uma das manhãs mais belas que havia presenciado esse ano – não havia sequer uma nuvem no céu.
Estava tudo tão belo e calmo que o Buckingham e toda sua extensão pareciam uma encantadora pintura. desejou que as suas emoções pudessem estar assim também, em vez de estarem dando cambalhotas como os acrobatas de um circo.
Após Romanov oferecer a mão, não foi capaz de inventar uma desculpa para recusar. Ficou um bom tempo quieta – praticamente gaguejando – até que, finalmente, sua consciência entendeu que não havia nenhuma escapatória. Já havia feito um tremendo papel de ridícula na frente dele ao dizer que poderia chover hoje em Londres – apenas alguém com um problema na visão acreditaria naquilo – e ele fora educado ao fingir que havia acreditado naquela desculpa. A única escolha que sobrou a foi aceitar a mão dele e ir até as malditas tendas em sua companhia.
Não sabia há quanto tempo estavam caminhando – provavelmente há poucos minutos, mas, para , já parecia uma eternidade – mas, desde então, não havia olhado sequer uma vez para o grão-duque. Pensou que poderia ignorar a presença dele caso não o olhasse, mas ela estava tão enganada...
conseguia senti-lo como nunca sentiu alguém antes. Sua mão estava apoiada na curva de seu braço, e mesmo através do tecido da camisa e da casaca, ela era capaz de sentir a força dele. Toda vez que eles davam um passo silenciosamente pelo gramado, os músculos dele saltitavam contra a mão de , e ela precisava segurar a respiração para não arfar surpresa.
já havia reparado que o grão-duque, apesar de magro, era forte. As vestimentas dele, especialmente essa manhã, marcavam a grandiosidade de seus músculos. Nos poucos segundos que havia observado, antes de começarem a caminhar, tinha chegado à conclusão de que ele era forte exatamente na medida certa, e tocar em um daqueles músculos apenas havia confirmado isso.
Porém, Romanov não era apenas forte, ele também era incrivelmente cheiroso.
Apesar de nobres, os costumes higiênicos das mulheres e dos homens da alta corte não eram para lá de exemplares... Um dos motivos que detestava esses encontros grandiosos entre os nobres europeus era por causa disso: a terrível e desagradável obrigação de passar horas em eventos com pessoas que pareciam alérgicos a banhos e quaisquer outras medidas de higiene. Em vez de tomar banhos, a maioria esmagadora da corte europeia se entupia de perfumes caros que, apesar de serem gostosos, misturavam-se com o mal cheiro da falta de banho e... Minha nossa, o cheiro era tão desagradável que, muitas vezes, chegava a embrulhar o estômago.
, nessas horas, dava graças aos costumes que as antigas rainhas implantaram à força na corte britânica. Era um verdadeiro paraíso viver em um local onde a maioria das pessoas sabiam como cuidar dos próprios corpos.
E, ao sentir o aroma que invadiu as suas narinas quando ele se aproximou, sentiu-se um pouquinho mais perto do paraíso. Ele tinha um cheiro único, que tinha certeza que não provinha, totalmente, de um frasco elegante de perfume. Com certeza ele havia se perfumado, mas não era isso que a chamava atenção. Era um cheiro delicioso, hipnotizante, tão próprio e tão bom que ela tinha certeza que nenhum perfume no mundo possuía um cheiro tão maravilhoso quanto aquele. Ela não sabia como descrever, apenas sabia que nunca havia sentido algo como aquilo nem em seus próprios sonhos.
mordeu os lábios, tentando reprimir si mesma pelos pensamentos inapropriados que estava tendo. Pelo amor de Deus, ela havia passado minutos divagando sobre o cheiro de Romanov! Ela estava maluca?
Abaixou os olhos para o gramado, observando a grande saia do vestido acompanhar o movimento de seus pés. Começou a vasculhar o cérebro em busca de pensamentos aleatórios que pudessem afastá-la da realidade, porém foi atraída novamente para ela quando Romanov, de repente, declarou:
“Perde-se a vida quando a pretendemos resgatar à custa de demasiadas preocupações”.
imediatamente ergueu a vista para olhá-lo.
“Vivi muito tempo, e o caminho da minha vida perde-se nas folhas amarelas e secas”, – completou ela, com as palavras saindo de seus lábios sem que precisasse pensar.
Ele abriu um sorriso.
– O s-senhor conhece Shakespeare? – perguntou ela, piscando os olhos aturdida.
olhou para ele como se ele fosse algum animal exótico em uma jaula. Completamente chocada, estupefata... Sem palavras.
– Não sou capaz de imaginar alguém que não conheça. – respondeu ele, olhando para ela com os lindos olhos brilhando como ela nunca havia visto antes.
sentiu um misto de curiosidade e choque tomar conta de seu corpo. Romanov conhecia Shakeaspere? Perguntou-se ela, indignada. Como aquilo podia ser real?
– Mas... como? – indagou , dessa vez em voz alta. – Você é Russo.
ficou imediatamente ruborizada ao perceber o que falara. ”Ótimo trabalho”, ela se repreendeu mentalmente, ”você acabou de entregar em uma bandeja de prata a sua opinião ofensiva sobre achar os russos um bando de sem cérebros e sem cultura”.
– Quero dizer... – pigarreou ela, tentando consertar a besteira que havia falado. – Não imaginei que em um país tão... – impuro.Distante – completou ela, mentindo após alguns segundos, quando conseguiu ignorar sua mente –, as pessoas teriam conhecimento de um escritor britânico.
– Shakespeare é como o vento: ele está nos quatro cantos do mundo. – quando ele respondeu, assentiu. É lógico que ela sabia que países distantes conheciam Shakespeare. O que ela não sabia era se um país tão devasso quanto a Rússia merecia conhecer ele.
– Mas, sim, senhorita, nós conhecemos Shakespeare na Rússia. – continuou ele, alguns segundos depois. – Porém, os mestres russos não o ensinam com grande profundidade, e imagino que seja assim em todos os outros países. – ela o observou, curiosa. – Estamos sempre focados na nossa própria cultura...
– Então, como sabe um de seus sonetos de cor? – perguntou ela, mal deixando ele terminar a própria frase. – As peças Shakespearianas são de conhecimento popular, já seus sonetos... Apenas os grandes admiradores de Shakespeare são capazes recitá-los com tanta facilidade.
sorriu.
– Eu não morei a minha vida toda em apenas um país, senhorita. – respondeu. – Desde dos meus 16 anos, tenho viajado pelo mundo e, consequentemente, tive um maior contato com outras culturas, com outros autores...
E, com as palavras saindo de seus lábios antes mesmo que pudesse pensar, disse:
– Essa, com certeza, foi a decisão mais sensata que o senhor tomou em toda sua vida.
Quando percebeu que havia dito aquilo em voz alta, arregalou os olhos, completamente horrorizada.
– Oh, meu Deus. – arfou ela, sentindo o rosto ficar vermelho. – Por favor, desculpe-me. Eu não deveria ter dito isso.
Ele olhou para ela, dando uma pequena risada.
– Não há o que se preocupar, senhorita. – disse ele, com um sorriso grande nos lábios. – Você está certa.
arqueou as sobrancelhas, um tanto quanto surpresa pela reação de Romanov.
– Eu sei o que a senhorita está pensando. – disse ele. – Como um futuro Imperador pode ter tão pouco amor pelo próprio país?
corou intensamente, envergonhada.
– C-claro que não, senhor. – gaguejou ela. Por Deus, será que esse pensamento havia transparecido tão claramente em suas feições? – Eu não estava pensando nada em relação a isso, senhor. – ela endireitou a postura, tentando contornar a situação da melhor forma possível. – Não cabe a mim me intrometer nos assuntos da Rússia.
a fitou e esboçou um pequeno sorriso, virando os olhos para longe dela, e um silêncio se instalou entre os dois.
Um silêncio que se tornou tão desconfortável que sentiu o corpo todo estremecer e ela sentiu uma necessidade absurda de falar qualquer coisa para interromper aquele momento.
– Então – disse, discretamente limpando a garganta –, imagino que o senhor goste de poesia.
– Mais do que posso colocar em palavras. – respondeu ele.
– É mesmo? – questionou ela, incrédula.
Ele se limitou a encará-la, claramente surpreso com a sua reação.
– Você parece surpresa.
abriu a boca, sentindo as faces ruborizarem.
– Claro que não, senhor. – respondeu ela, envergonhada por deixar a surpresa transparecer em sua voz. No entanto, recuperou-se rapidamente, continuando. – É visível que alguém como o senhor seja um ávido leitor. Eu apenas... – Ela fez uma pausa, engolindo em seco, procurando algo para dizer. Não poderia dizer que estava surpresa ao saber que ele, de fato, apreciava algo relacionado à leitura. – Não converso muito com cavalheiros sobre leitura.
– Agora eu estou surpreso. – retrucou ele, com um sorriso. – Os cavalheiros britânicos não gostam de leitura?
– É claro que gostam. – respondeu ela, com uma risada sarcástica.
olhou para ela com uma expressão bastante confusa, e obrigou-se a direcionar seu olhar para o chão, fugindo do dever de explicar a sua fala. Não poderia dizer a Romanov que raramente conversava com cavalheiros sobre qualquer assunto.
Deixou seus olhos se perderem nos sapatos azuis. Não sabia o que estava pensando, mas estava rezando em todas as línguas que conhecia para que ele deixasse essa história de lado.
E, como se estivesse lendo a sua mente, perguntou, mudando completamente o rumo da conversa:
– E você, senhorita? Quais são os seus gostos para leitura?
suspirou aliviada, segurando o impulso de dizer “Amém” em voz alta.
– Todos que existam. – respondeu. – Poesias, sonetos, peças, romances, tragédias...
– Romanas ou gregas? – interrompeu sua fala, perguntando.
Ela ergueu os olhos para o rosto dele.
– Ambas...
– Deve haver uma favorita. – insistiu ele, dando um sorriso provocante.
sorriu, mal conseguindo acreditar que estava divertindo-se com a provocação dele.
– Gregas. – respondeu ela.
Sua resposta arrancou uma pequena risada dos lábios dele, e riu também. Céus, a alegria dele era contagiante.
– Mas, é melhor que minha mãe não saiba disso. – completou ela, tentando conter o sorriso. – Ela me faria ler a Divina Comédia* repetidamente pelo resto da minha vida.
– Não seria um castigo tão ruim. – comentou . – É, afinal, uma obra extraordinária.
– De fato, senhor. – concordou. – Mas, li essa tragédia cerca de oito vezes, e acredito que já tenha sido o suficiente para uma vida inteira.
ergueu uma sobrancelha.
– Minha mãe realmente ama Dante. – explicou. – Assim como todo italiano.
– Assim como todos os britânicos amam Shakespeare. – disse ele, divertido.
– Assim como todos os seres humanos amam Shakespeare. – corrigiu ela, com um sorriso.
ouviu a risada dele atravessar seus ouvidos, aquecendo todas as partes do seu corpo. Ele tinha uma risada rouca, deliciosa de ouvir.
Um silencio confortável se instalou entre os dois, enquanto continuavam os passos pelo jardim.
– Devo dizer, senhorita – disse ele, cortando o silêncio –, Londres é mais encantadora do que me lembro.
– Esteve aqui há muito tempo? – perguntou, porém já sabia a resposta: há dois anos, na primavera de 1763 quando todos os seus irmãos saíram para uma noitada na Oxford, enquanto ela ficou em seu quarto na companhia de Shakespeare até que caísse no sono.
– Dois anos. – ele respondeu e segurou o impulso de concordar. – Porém, toda vez que estou aqui, sinto como se fosse a primeira vez... É uma cidade mágica.
– Realmente é. – respondeu, deixando os olhos vagarem pelos jardins.
– Porém, é a minha primeira vez visitando a cidade durante o verão.
– Não é a melhor estação para visitar Londres.
– Mesmo?
– Londres é encantadora em todas as épocas do ano, senhor. – disse ela. – Mas, garanto que não há nada como admirar o Hyde Park e o St. James Park completamente cobertos pela neve no inverno. – ela suspirou, com um leve sorriso nos lábios. – Toda a extensão do Tâmisa fica congelada, e as famosas patinações no gelo em volta da Torre*...
– Patinações em volta da Torre? – perguntou, interrompendo ela.
– A fortaleza localizada no norte do Rio Tâmisa. – levantou a mão livre, apontando com os dedos a direção. – Imagino que o senhor não tenha visitado certa parte de Londres. – continuou ela, referindo-se a East London. – Não é um lugar muito agradável corriqueiramente. Mas, no inverno, com temperaturas tão baixas que são capazes de congelar ossos, a criminalidade diminui rigorosamente em toda a cidade, especialmente em tal região, e, com o seu cenário medieval espetacular, torna-se o lugar mais famoso e popular para patinadas em toda a cidade.
– A senhorita realiza tais patinadas? – perguntou ele, curioso.
riu.
– Céus, não. – respondeu ela entre as risadas. – A corte nunca deixaria a família real andar por tais locais, mesmo nas estações mais calmas... – ela retomou o tom sério, explicando em seguida. – Quando estamos em Londres durante o inverno, passamos a maioria do tempo em Hampton Court*, no sudoeste da capital. – ela olhou para ele. – O palácio também fica às margens do Tâmisa e lá, sim, a aristocracia britânica costuma patinar durante essa temporada.
– Mas, há tempos não passo meus invernos em Hampton Court. – continuou ela. – Windsor é o local preferido da minha família para tal estação.
– Ouvi boatos de que o castelo está aberto para visitação.
– Ah, sim. – concordou, explicando. – Meu avô, Carlos V, detestava Windsor e deixou o castelo à mercê do esquecimento por diversos anos durante o seu reinado. A situação da propriedade estava terrível quando meu pai subiu ao trono: centenas de anos caindo aos pedaços em cômodos malcuidados e sujos. – lembrou-se dos relatos de seu pai: ratos andando por todos os lados, cortinas infestadas de insetos e pragas, janelas quebradas... – Como sempre admirou muito o castelo, fez uma reforma tão monumental que chamou a curiosidade do povo. Em 1740, a Royal Household* decidiu abrir as portas para a aristocracia visitar o local, cobrando cerca de 20 libras* por pessoa.
– Windsor vem se tornando uma atração turística tão grande que George Bickham* está se dedicando a um mapa comercial do castelo. – disse, segurando-se para não bufar irritada.
Achava aquela ideia completamente ridícula. Era tão estranho ter pessoas pagando uma pequena fortuna para conhecer uma das moradias de sua família que a embrulhava o estomago só de pensar. Agradecia a Deus que, pelo menos, os visitantes passavam longe dos apartamentos reais.
– Eu posso imaginar a curiosidade dos visitantes, senhorita. – respondeu ele, oferecendo-a um sorriso. – Já estive em Windsor, e é um castelo espetacular.
– Mesmo? – perguntou , com os olhos iluminando-se de surpresa. Aquilo, com certeza, era inesperado.
– Há alguns meses. – respondeu. – Encontrei Philip para uma caçada, enquanto fazia meu caminho até Gales. – ergueu as sobrancelhas, surpresa. Achava que a última visita de Romanov à Inglaterra havia sido há 2 anos.... Pelo jeito, Lady Serpentine anda tendo informantes completamente desatualizados, pensou ela. – Passei duas noites extremamente satisfatórias no castelo. – ele sorriu. – Foi uma visita esplendida.
– Fico contente em saber de tal fato, senhor. – disse ela com delicadeza, impedindo a própria boca de fazer mais perguntas.
Não queria parecer uma tola curiosa e, muito menos, ser mais invasiva do que a sua educação permitia. Apesar de desejar desesperadamente saber o que o grão-duque havia achado do St George’s Hall ou da sala da Ordem das Jarreteiras, forçou-se a ignorar a curiosidade, dizendo apenas:
– O castelo é um verdadeiro tesouro para toda a minha família.
– Sou inclinado a preferir moradias fora das grandes capitais. – comentou, enquanto passavam por um canteiro de flores.
O aroma invadiu as narinas de , misturando-se ao perfume de Romanov, criando um tão odor divino que fez fechar os olhos, inspirando fundo, embriagada.
ficou tão hipnotizada que mal percebeu que ele ainda estava falando.
– Na Rússia, temos inúmeros palácios. – continuou ele. abriu os olhos rapidamente, forçando-se a si mesma a ignorar o quanto aquele odor era bom. Ela balançou a cabeça, tentando focar no que estava falando, por mais difícil que fosse. – A moradia oficial de minha família está na capital, em São Petersburgo, mas, se pudesse, mudaria toda corte imediatamente para Peterhof, nosso complexo de verão.
olhou para o gramado, engolindo em seco. ”Oh, Deus, ele realmente irá começar a falar sobre a Rússia?”, pensou.
– Foi construído pelo meu tio-avô, Pedro l, entre 1714 e 1725. – continuou com olhos vidrados no chão, ouvindo ele dizer. – Após algumas viagens para a Europa, ele se tornou completamente obcecado pelas monarquias europeias e criou um projeto faraônico para construir uma versão melhorada do Versalhes.
levantou os olhos, segurando o impulso de rir.
– Perdoe-me por dizer, senhor – disse ela, quase soltando gargalhadas em sua própria mente. Russos construindo algo mais monumental que o Versalhes? Deus, isso era tragicamente cômico! –, mas, Versalhes é...
– Monumental? – completou sua frase com exatamente o que ela estava prestes a dizer. detestava os franceses (duvidava que alguém no Reino Britânico não compartilhasse desse seu sentimento), porém, admitia sem nenhuma vergonha que o Versalhes era uma verdadeira joia dentro da monarquia europeia. – De fato, senhorita. – concordou. – Por isso mesmo Pedro não poupou esforços ou gastos para a construção do complexo. – após alguns segundos em silêncio, ele continuou. – Estive em Versalhes ano passado e, com os meus próprios olhos, pude tirar a prova se meu tio-avô havia conseguido o resultado esperado.
– E o que o senhor concluiu? – perguntou , surpresa pela expectativa que cresceu em seu coração para ouvir a resposta do grão-duque.
Ela não deveria se sentir assim, pois é claro que já sabia a resposta: o louco que havia iniciado esse “faraônico projeto” havia falhado miseravelmente, pois nada era capaz de superar Versalhes.
Porém, para a sua surpresa, ele respondeu:
– Que ele construiu algo capaz de fazer Versalhes parecer um cortiço. – se engasgou de surpresa e ele deu uma risada.
– Sei que é difícil de acreditar, senhorita. – disse ele, observando a expressão surpresa de com um sorriso no rosto. Ela corou violentamente. – Eu mesmo levei algumas horas para conseguir admitir...
– A extensão do Peterhof vai muito além dos portões de Versalhes. – continuou . endireitou a postura, olhando para ele como se a vermelhidão em sua face nunca tivesse aparecido. – Construído na beira do Rio Neva, onde todos os caminhos do jardim encontram-se com aquela intensa água azul, o complexo parece infinito.
– O tamanho dos jardins é... – ele deu uma risada baixa e rouca. sentiu os lábios se curvarem em um sorriso. Deus, como aquele homem ficava lindo rindo. – Céus, não sei se existem palavras em inglês que consigam determinar o tamanho deles. Em cada ramificação há uma surpresa: fontes enormes, estátuas que contam histórias lendárias da mitologia russa...
– E há, claro, o grande palácio. – observava ele, completamente fascinada pela sua feição: os lábios dele reproduziam um leve sorriso, seu corpo todo estava relaxado (com exceção do braço, que continuava a apoiar fortemente a mão de ) e os olhos... Ah, os lindos olhos dele se encontravam no horizonte, perdidos como se estivessem longe do Buckingham, passeando pelos nos jardins do Peterhof. – Gigantesco, formidável, espetacular... Ele encontra-se em cima de escadarias monumentais e atrás de fontes banhadas a ouro que funcionam pelo impulso de gravidade.
deixou seus olhos vagarem pelo rosto dele por mais alguns instantes, explorando aquela aparência que parecia ter saído diretamente de uma pintura de Michelangelo. Apreciou os dentes brancos brilhantes que apareciam timidamente pela fenda do sorriso que estava em seus lábios rosados, carnudos e visivelmente macios; depois, subiu as íris azuis pelo maxilar divinamente esculpido e observou as bochechas com a barba impecavelmente feita, iluminadas pelo sol dourado da manhã.
Ela sentiu o ar faltar em seus pulmões. Aquele homem era absurdamente lindo – tão lindo que deveria ser um pecado ele ficar próximo de qualquer dama que gostaria de manter a sua própria mente sã. Pelo amor de Deus, como era possível alguém com aquela aparência andar tão tranquilamente pelas cortes europeias sem ser aclamado como um deus grego?
havia escutado inúmeros boatos sobre a beleza do grão-duque por vários anos – a aparência esbelta de Romanov era um dos assuntos preferidos entre as jovens damas da corte –, porém, nunca deu importância para essas fofocas. Afinal, quantas vezes já havia ouvido boatos distorcidos sobre a aparência de alguém?
Há alguns anos, meses antes de fazer uma visita a Inglaterra, o segundo filho do rei da Espanha havia sido descrito como o príncipe mais belo de todos os séculos. As damas britânicas haviam ficado enlouquecidas com a possibilidade de ver alguém com tanto dinheiro, tão belo e tão jovem andar pelas ruas de Londres. Foram meses de planos feitos por jovens sonhadoras nos corredores do Buckingham que foram completamente arruinados quando o garoto chegou à corte britânica, semanas depois. O tal “príncipe mais bonito de todos os tempos”, era, na verdade, baixinho, gorducho e tinha mais pelos no corpo do que um gato. Foi uma decepção tão grande que tinha certeza que as damas britânicas não haviam superado o acontecimento até hoje.
Os boatos de Romanov também não eram totalmente verdadeiros. Não importassem quantas adjetivos fossem usados para descrever a beleza do grão-duque, nada chegaria perto da verdade: ele era, simplesmente, o homem mais absurdamente maravilhoso que já havia visto em toda a sua vida.
– O Peterhof é a coisa mais bela que já vi em toda a minha vida. – disse, e nem isso foi capaz de fazer acordar de sua hipnose causada pela beleza dele.
E, então, como se a intensidade que os olhos azuis de admiravam o grão-duque estivesse queimando a pele dele, virou os olhos para ela, e sentiu como se tivesse levado um soco no coração.
A única coisa que foi capaz de fazer foi permanecer ali, imóvel, deixando o grão-duque encará-la com aquela intensidade louca de perder completamente o fôlego. Os olhos emoldurados por cílios exuberantes observaram de uma forma que nunca havia sido observada antes.... Ele ficou um bom tempo com aquelas íris enlouquecedoras e brilhantes olhando no fundo de seus olhos – como se fosse capaz de retirar cada camada de e observar a sua alma. Depois, ele deixou os olhos escorregarem por todo seu rosto: sobrancelhas, testa, nariz, bochechas.... Foram segundos tortuosos enquanto o grão-duque passava aquelas órbitas ardentes, lentamente absorvendo todos os pequenos detalhes de .
Quando os olhos de pararam em sua boca, uma sensação poderosa de formigamento cresceu em seu peito, e pode jurar que todo o seu corpo começou a arder com aquele olhar.
Por Deus, um olhar, um mísero olhar foi capaz de deixar o corpo de completamente quente por debaixo de todos aqueles tecidos do vestido. Ela sentiu uma necessidade urgente de se desfazer de tudo aquilo: das saias, das anáguas, do corpete.... De tudo! A cada segundo que os olhos de continuavam vidrados em seus lábios, sentia seu corpo esquentar dolorosamente.
Porém, um dolorosamente incrivelmente bom.
O que estava acontecendo com ela? Por que estava sentindo seu corpo arder daquela maneira? Por que uma sensação tão intensa esmagava seu coração e mandava um fervor enlouquecedor para todas as partes de seu corpo?
A atmosfera em sua volta de tornou densa, deliciosamente intensa, e sentiu como se tivesse esquecido de tudo em sua volta. Não sabia mais onde estava, havia até mesmo esquecido das suas próprias palavras, mas, pelo amor de Deus, quem precisava de palavras quando estava sendo encarada por um olhar como aquele?
teve a certeza de que poderia ficar o resto da sua vida olhando para ele, envolta por aquele clima que apertava seu coração e seus pulmões no peito. Nada mais no mundo importava: a única coisa que desejava era que ficasse com seus olhos presos nela pelo resto da eternidade e, então, ela ficaria presa em seu próprio paraíso.
Seus olhares se encontraram novamente e sentiu um suspiro ficar preso em sua garganta. No mesmo instante, abriu levemente a boca e, com a voz sedutoramente baixa, disse:
– Na verdade, é a segunda.
Quando conseguiu absorver as palavras de Romanov, arregalou os olhos, enquanto as faces esquentaram com tamanha intensidade que a fez ter certeza que estava tão vermelha quanto um tomate. Ela soltou o braço de Romanov imediatamente, como se ele estivesse em chamas.
já havia ouvido cavalheiros elogiarem sua aparência inúmeras vezes – era algo rotineiro para a filha solteira de um Imperador – e sempre foi capaz de agradecê-los com um sorriso sereno e gentil nos lábios, tendo controle total da situação. Mas, quando ouviu Romanov, com a sua voz enlouquecedora, dizer aquelas palavras... Deus do céu, se desestabilizou de um jeito que foi capaz de sentir o mundo aos seus pés se transformar em gelatina.
cambaleou para trás, abaixou os olhos e buscou desesperadamente um modo de retomar o controle daquela situação – mais especificamente de suas emoções.
– Parece muito belo, senhor, de fato. – disse, pigarreando para disfarçar o tom ridiculamente fraco de sua voz. Agora com as mãos livres, (e, principalmente, longes de Romanov), sentiu as palmas das mãos molhadas por conta do suor. Sutilmente, passou as mãos pelo tecido da saia, como se estivesse arrumando o vestido.
Apesar de não estar olhando para , foi capaz de sentir seus olhos observando cada um de seus movimentos. Ela apenas respirou fundo, tentando permanecer calma e continuou:
– Sinto-me constrangida por nunca ter ouvido falar.
– Eu poderia lhe mostrar.
A fala dele chamou atenção de , que ergueu o olhar boquiaberta, com os olhos horrivelmente arregalados.
– O que disse? – perguntou ela, aturdida. Não...Ele não poderia estar convidando ela para ir à Rússia!
observou os olhos dele e percebeu que estavam cheios de humor, assim como seus lábios, que se abriram em um leve sorriso travesso.
– Sempre levo pinturas do Peterhof em minhas viagens, gosto de observar o local em que nasci... – explicou ele, aumentando o sorriso conforme as palavras saiam de sua boca. – Seria uma honra mostrá-las à senhorita.
”Pinturas, claro”, pensou passando os olhos pelo jardim à procura de um buraco no qual poderia se enfiar e morrer, aquilo não era nenhum pouco constrangedor.
– É claro. – respondeu ela. – Eu adoraria.
manteve os olhos no jardim, calada e constrangida demais para olhar para ele. Com isso, foi capaz de notar que, agora, as tendas se encontravam apenas a alguns passos de distância.
Sentiu seu estômago embrulhar. Estava um tanto quanto desconfortável com a presença de Romanov – ainda mais depois de todos os constrangimentos que havia passado – mas, por Deus, preferia mil vezes passar vergonha na frente dele do que ficar, por horas, presa naquele caos social.
Ela fechou os olhos, respirando fundo, acalmando a sua mente e preparando-se fisicamente e psicologicamente, como sempre fazia antes de entrar em eventos como aquele, porém, foi interrompida por uma voz maravilhosa masculina que tomou conta de seus ouvidos:
– Vossa Alteza.
– Branson! – Exclamou , ouvindo uma voz que a era tão familiar que seria capaz de reconhecer se estivesse a quilômetros de distância, com uma venda sobre os olhos. Quando se virou para ele, um grande sorriso dominou seus lábios e uma corrente de felicidade se espalhou por todo seu corpo. – Procurei por você pelo jardim todo!
Assim que chegou com Colin nos jardins, horas antes, começou a procurar por Branson, com os olhos azuis desesperados, como se sua própria vida dependesse daquilo. Toda vez que abria um sorriso para alguma dama e/ou cavalheiro, cumprimentando aquele número infinito de convidados, deixava os olhos explorarem a extensão do palácio. Ainda não havia visto Branson aquela manhã, e isso fazia sentir como se tudo estivesse completamente errado.
Ele abriu um sorriso, curvando o corpo em uma reverência.
– Perdoe-me, senhorita. – disse, recobrando a postura. – Suas Majestades Imperiais requisitaram a minha presença por grande parte da manhã e cheguei nos jardins há poucos minutos. – continuou ele. – Mas dou-lhe a minha palavra que mantive meus olhos na senhorita desde que coloquei meus pés no gramado.
percebeu que, antes mesmo de terminar a frase, os olhos de Branson desviaram de seu rosto, analisando algo ao seu lado esquerdo. Ela acompanhou o movimento e viu-se surpresa quando percebeu que havia ficado tão feliz em finalmente ver Branson aquela manhã que foi capaz de esquecer da presença de Romanov.
– Ah, perdoe-me! – exclamou ela, balançando a cabeça.
Juntou as mãos na frente do corpo, na altura do abdômen, e disse:
– Branson, apresento-lhe Sua Alteza Imperial, o grão-duque da Rússia, Romanov.
– Senhor – ela disse, voltando-se para –, esse é Branson Walsh. – ela observou ele se curvar em uma reverencia impecável e esperou ele recobrar a postura para acrescentar. – Meu guarda real.
Branson estendeu a mão, coberta por uma luva tão branca que chegava a arder os olhos.
– É uma honra, senhor.
observou franzir as sobrancelhas por um milésimo de segundo. Ele, porém, recuperou-se rápido e estendeu a mão, apertando a mão de Branson com força.
– A honra é minha.
percebeu os olhos claros do guarda cravados nos do grão-duque, conforme o aperto de mão se estendia por mais tempo do que o aceitável. , porém, claramente desconfortável com a situação, soltou a mão de Branson, desfazendo do aperto silencioso. Antes que pudesse entender o que aquilo significada, Branson chamou sua atenção, oferecendo o braço musculoso a ela.
– Senhorita – disse –, poderíamos conversar por alguns minutos?
– Claro! – exclamou , segurando o impulso de bater palmas. Tudo que ela mais precisava era sair de perto de Romanov. Ela, educadamente, juntou as mãos ao lado do corpo, contendo o alivio que cresceu no peito, e, com uma pequena reverencia, abaixou-se, falando em seguida. – Agradeço pela companhia, senhor. Foi uma honra. – ela abriu um sorriso. – Espero que aproveite o café da manhã.
Ele respondeu, porém já havia aceitado o braço de Branson, começando a andar em direção a multidão.
– Foi adorável, senhorita.

POV:

observou, com os olhos completamente vidrados em Hanôver, a dupla se afastar da multidão, acompanhando todos os passos e movimentos daquela silhueta esguia e impecável – era praticamente impossível olhar para qualquer outra coisa naquele lugar que não fosse ela. Enquanto caminhavam, passou seus dedos belos e compridos pelo braço musculoso do guarda, protegido pela casaca imperial vermelha, e estacionou a mão delicada na dobra de seu cotovelo. Sua outra mão segurou com ternura a mão do rapaz coberta por uma luva branca e, então, ela abriu um sorriso enorme, lindo e intensamente devastador.
jurou que aquele sorriso foi capaz de iluminar o jardim mais do que o sol. Seu coração vacilou com alegria no peito diante aquela cena magnifica, porém a sensação foi embora mais rapidamente do que se formou e, no lugar dela, uma terrível e dolorosa pontada de inveja acertou seu coração.
Céus, como ele desejava que ela tivesse sorrido para ele daquele jeito.
– Então – despertou de seus pensamentos, ouvindo uma voz masculina ao seu lado –, já foi apresentado à muralha?
olhou para o homem, confuso.
– O quê?
– O guarda da princesa. – Alexei levantou os dedos e os olhos de acompanharam o movimento. Ele apontou para a silhueta ao lado de . – Descobri que o chamam de “A Muralha”. – Alexei analisou lentamente o guarda. – Ou “O Espartano”.
– Mal consigo imaginar o porquê. – comentou, dedicando toda a sua atenção à figura do guarda.
A fisionomia de Branson Walsh era, de fato, impressionante. O homem parecia ter saído diretamente de uma novela de cavalaria, com sua estatura alta e os braços, tronco e pernas extremamente fortes, exprimidos pelo traje imperial vermelho e branco. Em seu peito, uma fileira e meia de medalhas impecavelmente polidas eram exibidas com magnitude. O cabelo ruivo-escuro estava arrumado formalmente para trás, preso com uma fita preta junto a nuca.
– Ele é um pouco assustador. – Alexei disse, porém não concordou.
Assustador não era a palavra certa, porém impressionante e intimidador eram. As damas em sua volta, claramente encantadas, abanavam-se com leques e davam pequenas risadas cada vez que olhavam para o rapaz, e os homens ficavam fascinados pelo número de medalhas ou intimidados pelos músculos grandes.
– Imagino que essa tenha sido a intenção quando o casal imperial escolheu ele para vigiar a princesa. – continuou ele. – Ninguém ousaria chegar perto da jovem com um armário como ele acompanhando-a por todos os lugares.
Dessa vez, foi obrigado a concordar. Nenhum homem sábio chegaria perto de Hanôver sabendo que um homem como aquele, com músculos tão grandes quanto os de Hércules, era seu guarda.
, porém, não se considerava um homem sábio a esse ponto.
– O que sabe sobre ele? – perguntou , cruzando os braços.
Alexei deu de ombros.
– Não muito. – respondeu. – Peguei apenas os resquícios das fofocas.... Soube que ele foi primeiro-tenente antes de se tornar guarda da princesa e teve o cargo de capitão oferecido, porém recusou.
arqueou as sobrancelhas, surpreso.
– Quantos anos ele tem?
– 27. – Alexei respondeu e quase se engasgou. Um primeiro-tenente, com todas aquelas quantidades de medalhas, com apenas 27 anos? – Ou talvez 28. – Alexei franziu as sobrancelhas castanhas. – Não me recordo exatamente.
– De qualquer jeito – Alexei afastou os olhos escuros da silhueta de Branson e se voltou para , segurando seu braço –, não vim falar a respeito da estátua de Hércules. – Alexei abriu um sorriso. – Vim informá-lo que a sua encomenda acabou de chegar.
piscou, surpreso.
– Mesmo? – perguntou e, em seguida, soltou um assovio impressionado. – Eles são rápidos aqui na Inglaterra.... Eu fiz o pedido ontem à noite.
Alexei sorriu malicioso.
– Eu acredito que eles fizeram um esforço a mais quando eu frisei que o pedido era para o grão-duque da Rússia.
abriu a boca para repreender o amigo. Detestava quando seu nome e/ou seu título nobiliárquico era usado para o trazer vantagens, porém rapidamente entendeu que, nessa situação, esse uso havia sido necessário. Mal conseguia pensar no que faria caso a encomenda se atrasasse.
Ele apenas abriu um sorriso e bateu nas costas do amigo de leve.
– Obrigado, Alexei.
– Ao seu dispor. – respondeu ele. Após alguns segundos de silêncio, perguntou a , ansioso. – Agora você fará a imensa honra de me contar o que é esse presente misterioso?
olhou para ele com os olhos carregados de divertimento.
– Não. – respondeu. – Não farei.
Alexei cruzou os braços, nervoso.
– Não gosto quando você guarda segredos de mim, ! – exclamou. – Normalmente, as coisas acabam dando errado.
tirou os olhos de Alexei e voltou a admirar Hanôver. Um sorriso se abriu em seus lábios instantaneamente e, malicioso, ele disse:
– Nada vai dar errado, Alexei, confie em mim.

* * *


POV:

afastou-se das tendas com o resquício de suas risadas voando junto com a brisa que balançou seus cabelos. Colocou a mão sobre o peito, puxando o fôlego após ficar tempo demais rindo com o grupo de nobres. Sir Jorge Calton era capaz de fazer todos em sua volta explodirem em gargalhadas ao contar histórias dos anos que passou visitando terras distantes em nome da coroa britânica.
– Devo admitir que nunca me diverti tanto em um evento da corte. – ouviu a voz de ao seu lado. Olhou para ele e percebeu um enorme e divertido sorriso em seus lábios. – Nunca conheci alguém tão engraçado em toda a minha vida.
– Sir Jorge é a alegria da corte britânica. – respondeu ela, incapaz de conter o sorriso. – O senhor deveria ouvir suas histórias sobre as viagens para o Oriente, garanto que irá ficar sem ar por alguns minutos.
Ele deu uma risada.
– Certificarei-me que ele me conte tais histórias antes mesmo de me dirigir um cumprimento. – disse .
respondeu com uma risadinha, e, então, um silêncio se instalou entre eles.
procurou algo para falar, buscando quebrar o silêncio, mas não sabia sobre o que poderia falar após ter esgotado todos os seus assuntos com o grão-duque essa manhã.
Não sabia como isso havia acontecido, mas ela e Romanov haviam sentado frente a frente na gigantesca mesa durante o café da manhã.
Após sua conversa com Branson, deixou o rapaz guiá-la até a mesa e, quando viu o grão-duque sentando bem à frente de seu lugar, sentiu toda a espinha gelar e automaticamente olhou para mãe, sentada dezenas de lugares a distância dela. Alice Hanôver jamais permitiria que algo como aquilo acontecesse: a Imperatriz Britânica organizava rigorosamente o mapa dos assentos de todos eventos do Buckingham, e não era possível que ela tivesse aprovado algo como aquilo. Sua mãe jamais permitiria que sentasse tão perto do grão-duque russo, mas Alice não pareceu se preocupar muito quanto a isso enquanto se encontrava rindo com a nobreza Europeia a sua volta.
A tensão em seu corpo, porém, durou poucos minutos. rapidamente dirigiu a palavra para , iniciando uma conversa e...
Por Deus, como eles conversaram.
Conversaram o evento inteiro, sobre todos os assuntos possíveis. havia ficado tão presa na conversa que mal prestou atenção em quem estava sentada ao seu lado.
e caminharam alguns passos antes que chegassem até as portas que davam acesso ao corredor que levava a grande escadaria do Buckingham. virou-se para ele, ajeitando o vestido com as mãos e abriu a boca para se despedir dele, porém ele foi mais rápido e disse:
– Senhorita – observou –, gostaria que soubesse que me sinto extremamente honrado por tê-la como companhia no café da manhã.
abriu um sorriso.
– A honra foi toda minha, senhor. – respondeu, estendendo a mão. – Espero vê-lo no evento mascarado na ópera essa noite.
Ele segurou a mão dela e respondeu, sorrindo também:
– Eu não perderia por nada no mundo.
curvou-se, depositando um beijo sobre a mão de .
Fora um beijo breve e suave – tão breve que, em um piscar de olhos, já havia se levantado. Ele se virou de costas e, em passos lentos, começou a caminhar até a aglomeração nas tendas. , por outro lado, permaneceu parada por longos segundos na mesma posição, tentando absorver o que havia acontecido.
Deus do céu, que homem fascinante era aquele?
Ele a beijara a mão, com os olhos – aqueles magníficos, estupendos e brilhantes olhos – cheios de uma malícia sedutora que, sem sombra de dúvidas, fora uma das coisas mais maravilhosas que já havia visto em toda a sua vida. O mundo estremeceu, as pernas ficaram bambas em cima dos sapatos de saltos e ela sentiu perdeu o fôlego como nunca antes.

* * *


Quando chegou ao topo da escadaria, aproximando-se da entrada dos apartamentos reais, retirou o chapéu da cabeça, permitindo que os seus cabelos caíssem como uma cascata pelas suas costas. Agora, completamente longe do olhar do público, não precisava mais de toda aquela formalidade e poderia, até mesmo, tirar os sapatos, se quisesse.
Porém, ao invés de retirar os sapatos, resolveu se desfazer das joias que pesavam em seu corpo. sentiu como se quilos de um material pesado fossem retirados de suas orelhas e de seu pescoço quando colocou as peças brilhantes dentro do chapéu, alongando o pescoço. Soltou um suspiro quando um estralo alto acompanhou o alongamento e, finalmente, respirou aliviada, sentindo-se muito melhor assim.
Sentia-se mais leve, mais humana, mais ela.
adentrou nos apartamentos reais, caminhando pelo longíssimo corredor que esbanjava as cores vermelha, dourada e branca. Olhando pelas janelas ao seu lado direito, observou que ainda havia uma grande movimentação nos jardins. Dezenas de pessoas conversavam animadamente, e era capaz de ouvir os ruídos das conversas, das risadas.... Isso fez com que, por alguns minutos, ela se sentisse terrivelmente sozinha naquele corredor imenso.
Não estava literalmente sozinha, é claro: os guardas faziam as vigias das portas e dos corredores, como faziam o dia todo nos apartamentos reais. Porém, eles também não eram exatamente um tipo de companhia para . Impecavelmente disciplinados, ficavam sempre parados e calados como estatuas, apenas direcionando a palavra para quando e se ela permitisse.
suspirou.
Não havia nada de errado com o silêncio. Pelo contrário, o apreciava enormemente (havia sido seu companheiro por tantos anos, afinal de contas), porém parecia incrivelmente difícil ficar sozinha, banhada pelo silêncio, após ficar na presença de alguém como Romanov.
Inexplicavelmente, havia algo especial nele. não sabia o que era, mas chegou à conclusão de que ele se comparava ao sol. Aquela sensação que tinha ao acordar, quando suas criadas abriam as cortinas do quarto e sentia a luz do sol banhar seu corpo, aquecendo confortavelmente cada membro, foi exatamente o que ela sentiu todas as vezes que esteve na presença de Romanov.
era interessante assim como a forma que o sol brilha era interessante para . O grão-duque adorava o grande amor da vida de : Shakespeare. Sabia seus sonetos de cor, assim como suas peças. Havia lido livros que havia lido inúmeras vezes; apreciava o trabalho de Vivaldi, Corelli e Bach; além do russo, falava latim, grego, alemão, mandarim, francês, italiano e inglês perfeitamente; sabia sobre a matemática dos egípcios, a mitologia dos chineses, gregos e romanos, sobre a religião dos maias e dos indianos e os costumes dos índios das treze colônias. Nunca havia tido uma conversa tão interessante como aquela com ninguém na corte (conversas intelectuais se restringiam aos seus professores e, esporadicamente, aos seus pais e irmãos). Havia sido uma experiência tão incrível que não tinha palavras para descrever o que tinha sentido.
Ao passar por um enorme espelho banhado a folhas de ouro, percebeu em seu próprio reflexo que um sorriso enorme e juvenil estava em seus lábios. Além disso, estava também corada, com os olhos azuis brilhando como duas estrelas.
desviou os olhos do espelho abruptamente, repreendendo a si mesma por sorrir daquela forma ao pensar em Romanov. ”Quanta bobagem!”, pensou ela, adquirindo uma postura séria. Como poderia estar pensando em um grão-duque russo naquela maneira?
Se estivesse sorrindo pensando em sua aparência, não haveria problema algum, aliás Romanov era extremamente bonito. Ele era tão atraente como um deus, e não sentia vergonha alguma de admitir isso. Negar esse fato seria como negar que um humano precisa de ar para viver. Um homem provido de uma beleza e uma masculinidade como a dele desencadeava, no mínimo, sorrisos juvenis e bobos nos rostos de todas as moças, e não era nenhuma vergonha ser uma dessas moças.
O problema é que nunca fora de interagir muito com homens. Seus irmãos e Branson haviam sido os únicos homens com quem realmente possuía uma amizade em todos os seus 20 anos de vida. Lógico, como uma moça sociável e com uma alta posição na nobreza europeia, conversa com os cavalheiros da corte o tempo todo. Aceitava gentilmente seus cortejos; valsava durante horas com os mais diversos rapazes; fazia refeições aos seus lados; juntava-se a cavalgadas e passeadas. Porém, era apenas isso. Suas interações com cavalheiros ficavam sempre restringidas ao que o protocolo a exigia, e não possuía o desejo de estendê-las em ocasião alguma. Como, para ela, “casamento” era uma palavra completamente fora de seu vocabulário, nunca teve a necessidade de criar laços com um cavalheiro que não fosse extremamente necessário em sua vida.
E também, consequentemente, nunca se pegou pensando nos atributos de um cavalheiro. Pensar em um homem como estava pensando em Romanov era algo completamente novo e aterrorizante para .
Havia, também, o fato de que Romanov era um russo. passou a vida toda acreditando e ouvindo de sua mãe que os russos, especialmente a Família Imperial, os lendários Romanovs, eram praticamente não civilizados. Um povo que nunca deveria se interessar em conhecer, e ela, de fato, havia passado 20 anos sentindo um enorme desinteresse e uma repulsa por qualquer coisa que fosse russa. Porém, nessa tarde, seu mundo havia virado de cabeça para baixo ao se sentir atraída e interessada como nunca pelas conversas do grão-duque.
Adicionando-se, também, à lista de coisas que faziam ser errado pensar em Romanov daquela maneira estava o fato de que ele havia a chamado de cortesã duas noites atrás.
Como já havia pensado inúmeras vezes, tinha certeza que nenhum homem respeitoso ousaria chamar a princesa do Reino Britânico de cortesã – especialmente ele, um grão-duque, futuro Imperador do Império Russo.
Porém, ao pensar um pouco mais de clareza, como poderia julgá-lo e crucificá-lo, levando em conta de que ele não sabia que aquela dama misteriosa era a princesa do Reino Britânico? Além disso, e ele estavam em uma festa desprezível no Kensington, onde quase todas as mulheres eram cortesãs ou acompanhantes de luxo.
Pensando agora, parecia completamente errado odiá-lo por esse fato.
mordeu com força o lábio inferior, sentindo a confusão em sua cabeça deixá-la tonta. Havia visto tantas coisas diferentes nesse homem em apenas dois dias que não sabia o que pensar ou como agir.
Toda essa confusão ficou ainda maior na cabeça de quando ela pensou no que havia acontecido noite passada no baile, com a probabilidade de ter descoberto que ela era a dama no Kensington.
havia mencionado um vestido preto, a cor marcante que ela estava usando quando se esbarram naquele inconveniente encontro! Não poderia ser uma coincidência, certo? Ele não diria tal coisa senão a tivesse reconhecido e descoberto que era a garota no Kensington.
Mas, como? Ela estava irreconhecível! Nos dias anteriores ao evento, tinha feito questão de acompanhar de perto a confecção da máscara para ter certeza que esconderia seu rosto a ponto de deixá-la irreconhecível. Ela estava usando tons que nunca havia usado na vida – o vestido preto e os lábios vermelhos – não era possível que alguém pudesse reconhecê-la como a princesa.
Porém, quando ele mencionou a cor preta, não foi capaz de raciocinar e ficou petrificada. Não soube como respirar ou falar. Precisou de alguns segundos para que a sua resposta saísse um sussurro ridículo, envolvendo as palavras “o que disse?”
Ele respondeu, dizendo que, pela sua semelhança com Caroline (o que considerava mínima, pois haviam pouquíssimas coisas parecidas entre as duas), foi capaz de imaginá-la naquelas vestimentas. Naquela noite, Caroline usava um vestido extravagante roxo, uma cor que chegava longe de ser preto.
Porém, seu pai sempre disse que homens dificilmente conseguiam distinguir cores. Talvez tenha achado que sua irmã usava preto, por isso comentou...
Logo depois, o primeiro ministro apareceu, convidando ela para valsar. Porém, ela não poderia deixar as coisas daquele jeito e aceitou o pedido do primeiro ministro, apenas postergando a sua valsa para a próxima.
Sim, havia dançado outra valsa com , mas não havia sido nada comparada à primeira. Estava incrivelmente nervosa e inquieta com a situação, e, a cada nota de música, tentava extrair informações de . Perguntou, o máximo de podia, por que havia dito aquilo, e ele continuava com a mesma resposta, dizendo que ficaria bela em todas as cores. Em vez de ficar feliz com a resposta, acabou ficando frustrada, calando-se pelo resto da valsa e não aproveitando aqueles momentos nem um pouco.
Quando a valsa acabou, dirigiu-se mais do que rapidamente até o primeiro ministro, desesperada em tentar tirar aquela situação de sua cabeça. Porém, conforme o senhor falava ininterruptamente sobre como o seu neto era um grande homem e tentava empurrar o jovem de 22 anos para , ela só conseguia ficar mais e mais pensativa sobre a situação, frustrada com Romanov pelo resto da noite.
O baile durou por mais algumas longas horas e ela decidiu se retirar antes que terminasse. Todos aqueles pensamentos haviam a deixado esgotada, e uma dor forte de cabeça havia dominado completamente. Pediu a Mary e Clarissa que a acompanhassem até seu quarto, e, alguns minutos depois, já estava em sua cama, embalada pelo sono profundo.
Estava tão exausta que dormiu a noite toda, sem os pensamentos a perturbando. Acordou com um bom humor fora do comum, esquecendo completamente do que havia acontecido, até que foi lembrada do terrível baile pela completamente inconveniente Lady Serpetine.
Antes mesmo que alcançasse a entrada de seus aposentos, os guardas abriram as portas duplas, permitindo que obtivesse a visão da sala de visitas azul que esbanjava uma quantidade absurda de enfeites de ouro. Naquele começo de tarde, os raios de sol fortes adentravam o cômodo todo pelas janelas largas e compridas, trazendo um brilho quase celestial para o lustre e todas as peças de cristal que decoravam o quarto. Para combinar com toda a áurea surreal de sua sala de visitas, inúmeros vasos com gordos e estupendos arranjos de flores, de todos os tipos de cores e espécies, estavam espalhados pelo local. Desde o começo dos eventos comemorativos de seu irmão, havia recebido inúmeras flores de diversos cavalheiros da corte Europeia. Um claro sinal de cortejo que ela, assim como sua irmã, receberia até o final dessas comemorações. Apesar de achar estupidamente inútil a tentativa desses cavalheiros em chamar a sua atenção, possuía uma paixão anormal por flores e sentia uma pontada de alegria cutucar seu coração toda vez que observava suas criadas entrarem com um vaso pelas portas de seus aposentos.
Com um cenário de tirar o fôlego como aquele, , com certeza, passaria todo seu tempo até o horário de se arrumar para evento na ópera essa noite sentada em um dos sofás, deliciando a energia daquele lugar. Porém, os pensamentos que invadiram durante todo o percurso até seus aposentos, exigiam que ela colocasse a cabeça em seu travesseiro e tentasse dormir para que aquelas ideias fossem embora.
Dificilmente dormia durante o dia. Ela era proibida, pelas regras da corte, de tirar um cochilo, nem que fosse por apenas alguns minutos durante o horário da tarde. Na corte britânica, as noites eram reservadas para dormir, assim como as tardes eram reservadas para se portar como uma perfeita dama inglesa. As exceções eram poucas: apenas quando ficava doente possuía permissão para fechar os olhos durante a tarde. Porém, do modo como era cuidada, raramente ficava doente.
Em poucos minutos, elaborou uma mentira perfeita para que pudesse ir contra as regras de sua própria casa: diria as suas damas de companhia que o calor havia feito um mal terrível para o seu corpo; que se sentia tonta e leve como uma folha caindo de uma árvore e que, se não fechasse os olhos por alguns minutos, tinha medo que pudesse desmaiar de cansaço e fraqueza no baile essa noite.
Ela sorriu consigo mesma. Era a mentira perfeita. Ninguém, nem mesmo a sua mãe, poderia se opor ao pedido de . Para evitar que a princesa britânica desmaiasse em qualquer lugar que fosse, a corte do Buckingham moveria até montanhas, se fosse necessário.
Passou pelas portas determinada a ir diretamente até seu quarto, porém ao adentrar na sala de visitas, a atípica agitação de suas damas de companhia em volta de uma das mesas no centro do cômodo a fez frear os pés.
Ela franziu as sobrancelhas, mas, logo depois, abriu um sorriso, achando cômico a forma como as quatro moças com quem dividia a vida estavam dando pulinhos e rindo animadas.
– O que é isto? – perguntou ela, aproximando-se com um sorriso. – Não me digam que está ocorrendo uma reunião e eu não fui convidada... – as quatro mulheres viraram para ela. – Eu ficaria extremamente ofendida.
– Vossa Alteza! – Clarissa, Anne e Harriet disseram em uníssono, enquanto Margot apenas encarou a prima com um sorriso. – Algo incrível aconteceu! – Harriet, uma moça incrivelmente bela com cabelos de um tom de vermelho muito intenso e olhos brilhantes verdes, disse.
– Mesmo? – perguntou, divertida. – E o que aconteceu?
As três se afastaram rapidamente da mesa, dizendo em uma explosão de alegria:
– Você recebeu um presente, senhorita!
– Um presente? – perguntou ela, franzindo as sobrancelhas. – A última vez que chequei era aniversario de Philip, não meu. – aproximou-se mais da mesa. – Quem mandou?
– Nós não sabemos. – Anne, com seus cabelos negros presos formalmente, observou o objeto em cima da mesa com a curiosidade saltando das orbitas de seus olhos escuros.
– Dois guardas trouxeram minutos antes da senhorita chegar. – foi a vez de Clarissa falar. A dama de companhia que completava o grupo possuía a cor dos cabelos muito parecidos com Anne, porém duas mechas brancas, únicas e inconfundíveis desciam pela parte da frente dos cabelos grossos da garota de Bath. – Apenas disseram que era para a senhorita, nada mais que isso.
finalmente tocou o objeto com as mãos. Uma caixa preta, grande e decorada ricamente com arabescos dourados encontrava-se em cima da mesa. Ela brilhava intensamente com os raios de sol inundando o quarto, e passou os dedos lentamente por toda a extensão.
– Não há ideia do que seja? – perguntou ela, um tanto quanto encantada pela elegância daquela caixa.
– Não, senhorita. – Herriet disse, direcionando um olhar feroz para Margot. – Margot queria abrir a caixa, porém não permitimos que ela fizesse isso, pois o presente é seu. – ela frisou a palavra, dizendo em um tom congelante.
A loira revirou os olhos.
– Eu sei que todas vocês queriam fazer isso. – Margot disse, cruzando os braços. – Estão morrendo de curiosidade tanto quanto eu.
ignorou a discussão, comentando:
– É uma bela caixa.
Anne deu um passo para frente, observando os dedos de explorarem o objeto.
– Aposto que o presente deve ser mais belo ainda. – disse ela.
tinha os olhos fixos na caixa, encantada. Algo em seu corpo recusava seus olhos azuis a tirarem a atenção daquele objeto.
– Imagino o que seja. – disse, segurando o objeto com as duas mãos. A superfície gelada da caixa inundou todo o seu corpo, levando a sensação até os dedos de seus pés. – Parece tão leve... Como se não tivesse nada dentro.
Minutos se passaram enquanto observava a caixa, obrigando seus olhos a explorarem cada detalhe daquela superfície. Era acostumada com caixas de veludo, pesadas, densas e exageradamente decoradas – caixas de presentes que valiam tanto quanto uma joia rica em diamantes. tinha certeza que aquela caixa que estava em suas mãos valia uma boa quantia de dinheiro, porém, diferente das outras, possuía uma elegância minimalista que nunca havia visto antes.
, porém, foi sugada de seu devaneio quando ouviu Margot soltar um suspiro impaciente.
– Céus, apenas abra logo a caixa, ! – Margot exclamou. – Vou explodir em milhares de pedaço com tanto suspense!
levantou os olhos para a prima, abrindo um sorriso.
– Tudo bem. – suspirou , voltando os olhos para baixo e arrastando os dedos pela superfície da caixa até tocar o fecho de ouro. – Eu abrirei imediatamente, Margot.
Os ouvidos de capturaram todas as suas damas (e inclusive ela) prenderem o fôlego, enquanto, lentamente, abria a caixa. Ela respirou fundo antes de levantar a tampa.
Anne, Harriet, Clarissa e Margot se inclinaram em direção à mesa, completamente tomadas pela curiosidade, observando a caixa aberta, enquanto ficou completamente petrificada ao observar o interior da caixa, descobrindo, finalmente, o presente posicionado no meio de um veludo vermelho vivo.
– É uma...
– Máscara! – Anne completou a frase de Clarissa, colocando as mãos no peito, enquanto suspirava encantada. – Por Deus, é coberta inteiramente por joias!
Posicionada em cima de uma almofada de veludo, uma máscara preta, repleta de serendibite*, brilhava de uma forma celestial. As pedras preciosas se encaixavam de uma forma extremamente delicada, como se a máscara tivesse sido confeccionada pelo joalheiro mais cuidadoso e atencioso de toda a Europa. Grandes fitas de cetim, que estavam presas a laterais da máscara, completavam uma volta em todo perímetro da caixa e duas grandes peças circulares das joias negras enfeitavam as suas pontas.
Era simplesmente magnífica.
Clarissa, Harriet e Anne ficaram completamente hipnotizadas pelo objeto, espremendo-se umas nas outras, tentando conseguir a melhor visão possível da máscara. Margot observou o objeto completamente espantada, sentindo o corpo todo gelar. Imediatamente, virou os olhos azuis, arregalados em pânico, para e viu ela se virar de costas, afastando-se alguns passos da mesa.
levou as mãos até o peito, sentindo o ritmo de seu coração diminuir violentamente. As batidas aceleradas haviam se tornado dolorosamente lentas em questão de segundos, e, com os batimentos tão lentos e fracos, pode jurar que seu coração estava prestes a parar.
Deus do Céu... Aquilo não estava acontecendo.
Incapaz de esconder a palidez que havia tomado conta de toda a sua face, obrigou a si mesma a virar de costas, afastando-se de suas damas de companhia para disfarçar aquele pânico descarado. Com os olhares delas presos na máscara, tinha certeza que as garotas não haviam percebido que ela havia virado brutalmente de costas para aquela cena. Aproveitou, então, mais alguns segundos da falta de atenção de suas damas para respirar fundo, sentindo os pulmões doerem como se estivessem sendo insuportavelmente esmagados por um martelo.
Em seu peito, as mãos começaram a tremer como galhos de árvores sendo chacoalhados pelo vento. Ela, imediatamente, abaixou as mãos, segurando-as uma na outra, tentando impedir que aquela tremedeira horrível continuasse.
”Acalme-se, , pensou ela. ”Pelo amor de Deus, acalme-se!”
Mas, como poderia se acalmar?!, contra-argumentou. Era uma máscara, e, por Deus, uma máscara preta!
fechou os olhos, sentido o corpo todo sofrer com o pânico que se alastrou por suas veias. Havia sentido tanto medo que aquele momento chegasse.... Sentia o corpo todo tremer ao pensar na possibilidade daquela terrível e humilhante noite no Kensington ser ressuscitada em sua vida.
E, como se fosse o seu pior pesadelo, lá estava ela bem à sua frente, na forma de uma máscara ridiculamente bonita que brilhava como o sol.
arfou, sentindo uma terrível e incontrolável vontade de se afundar no chão de seu próprio quarto e gritar o máximo que as suas cordas vocais aguentassem. Necessitava tirar aquela sensação de pânico imediatamente de seu corpo – precisava mandar aqueles sentimentos para o mais longe possível – ou poderia entrar em choque.
E, por Deus, ela não podia fazer isso.
engoliu o bolo horrivelmente grande que se formou em sua garganta, obrigando a si mesma a permanecer calma.
– Há um bilhete aqui!
virou-se imediatamente e percebeu que todos os olhares recaíram sob o corpo esguio Clarissa, que segurava um pequeno papel em suas mãos.
– O que diz? – perguntou Margot apressadamente, com a ansiedade visível.
Clarissa levantou os olhos claros para .
– Senhorita? – disse ela, perdido permissão para ler o conteúdo daquele papel com uma simples e única palavra.
– Por favor, Clarissa. – disse, cruzando os braços na altura do peito, tentando esconder a tremedeira que ainda dominava suas mãos.
Os segundos que se passaram entre Clarissa abaixar os olhos para o papel e abrir a boca para ler as palavras foram como uma dolorosa eternidade para . Seus dedos apertaram os próprios braços e seus dentes esmagaram o lábio inferior. Ela segurou o ar com força e só foi capaz de soltá-lo quando ouviu a garota dizer:
– Uma gentileza de Sua Alteza Imperial, o grão-duque, Romanov.
E, com aquelas simples palavras, sentiu o mundo todo sair do eixo.

*1 Divina Comédia é um poema épico da literatura italiana escrito por Dante Alighieri no século XIV
*2 Palácio e Fortaleza Real de Sua Majestade da Torre de Londres é um castelo histórico localizado em Londres. Ele foi fundado por volta do final do ano de 1066 e já serviu como depósito de armas, tesouraria, menagerie, sede da Real Casa da Moeda, escritório dos registros públicos, a casa das Joias da Coroa Britânica e prisão. – Wikipedia.
*3 Hampton Court é um antigo Palácio Real situado no Sudoeste de Londres.
*4 Royal Household é uma organização que dá suporte ao monarca em suas atividades oficiais.
*5 20 libras em 1752 seria ao equivalente a, aproximadamente, 3,780 dolares, ou seja, 12,852 reais.
*6 George Bickham (1684-1758) era um mestre e gravador de escrita em inglês. Ele é mais conhecido por seu trabalho de gravura em The Universal Penman, uma coleção de exemplares de escrita que ajudaram a popularizar o script English Round Hand no século XVIII. – Wikipedia

Capítulo 3 - Parte III


“Our games of make believe are at an end”
(Nossos jogos de faz de conta estão no fim)


ultrapassou as portas de seus aposentos sendo capaz de jurar que tudo em sua volta havia se tornado vermelho. Um vermelho espesso, denso e vibrante como o sangue que borbulhava e circulava ferozmente pela sua cabeça, esquentando sua visão.
Ouviu Margot gritar pelo seu nome conforme avançava pelo corredor, porém, ao invés de parar, apressou os passos, espumando de raiva.
Raiva... Havia possuído tanto o seu corpo que tinha certeza que havia se tornado a própria personificação dela.
Quando viu a reação de ao ouvir as palavras de Clarissa, Margot praticamente expulsou todas as damas do cômodo com a desculpa de que elas deveriam aprontar imediatamente o banho de para o evento esta noite. Elas, relutantes, saíram, ao contrário de Margot, que ficou, tentando impedir que cometesse uma das maiores burradas de sua vida.
Porém, foi incapaz de escutar a prima – na verdade, foi incapaz de escutar qualquer coisa. Estava focada em uma coisa, em uma única coisa: no maior cafajeste que já havia tido o desprazer de conhecer em toda a sua vida.
Romanov
O nome dele passou por seus ouvidos como se fosse a mais terrível das maldições.
Como? Como foi capaz de ser tão tola ao acreditar que Romanov poderia ser um homem decente? Havia até mesmo considerado perdoá-lo por tudo que havia feito a ela desde que chegou à Inglaterra... Deixou ser iludida pelo “chame” barato desse príncipe vergonhoso!
As conversas interessantes, os olhares significativos, os sorrisos deslumbrantes... Argh! Praguejou , fechando os olhos com força e segurando o impulso de bater em sua própria face.
Romanov havia feito ela de tonta!
Esqueceu-se, por algumas horas, que um homem com a reputação como a dele – famoso pelas libertinagens escandalosas por toda a Europa – era alguém que deveria demonstrar o mínimo de simpatia. Esqueceu-se das palavras de sua mãe, que lhe disse a vida toda, que nunca deveria ficar próxima de um russo, não importa o que acontecesse.
Mas, em vez de agir com a razão, deixou os seus sentimentos bobos de jovem tomarem conta dela completamente. Chocada pela beleza inexplicável e as conversas interessante do grão-duque, agiu como uma daquelas damas ridículas da corte, que debutavam com 16 anos e saiam entregando seu coração para qualquer homem bonito no salão.
chegou ao topo da escadaria, começando o seu caminho até o térreo com uma velocidade perigosa. Deveria estar sendo mais cuidadosa, porém seu lado racional havia a abandonado e ela caminhava o percurso do Buckingham completamente cega pela raiva.
Por Deus, fora tão boba que havia o comparado o grão-duque ao Sol!
parou seus passos imediatamente, sentindo a respiração ficar presa no peito quando percebeu que não havia pensado na coisa mais óbvia ao fazer uma associação como aquela, ao comparar Romanov com o Sol.
O que aconteceu com Ícaro quando ele chegou perto demais do sol? Perguntou-se ela, respirando fundo.
Ele morreu

* * *


segurou as inúmeras camadas da saia de seu vestido em suas mãos, desejando poder rasgá-las para conseguir andar mais rápido.
O vento cortante balançou os cabelos compridos de , jogando-os em sua própria face, tampando parte do seu campo de visão. Ela chacoalhou a cabeça, tentando se livrar daqueles fios perdidos.
O dia havia se transformado completamente em questão de minutos: o intenso e brilhante azul havia dado lugar a nuvens pesadas e intensamente cinzas, que cobriam todo o céu, ameaçando a despejar litros de água a qualquer instante. Raios e trovões chicoteavam Londres de tempo em tempo, sinalizando que uma daquelas efêmeras tempestades de verão estava prestes a começar.
As folhas das árvores do jardim, que estavam sendo arrancadas devido o vento, dançavam energeticamente no chão, formando praticamente um tapete onde pisada violentamente, esmagando cada uma delas.
logo sentiu as primeiras gotículas de chuvas atingirem o topo de sua cabeça e, então, segurou com força o vestido em suas mãos, apressando-se para chegar antes que a tempestade se desmoronasse em sua volta.
Alguns segundos depois, através da chuva que estava começando a cair cada vez mais rápido, finalmente encontrou a grande árvore que havia buscado consolo algumas horas atrás. E, junto com ela, viu a silhueta do homem que ela desejava ter a cabeça em uma bandeja de prata.
Romanov! – o grito agressivo de Hanôver ecoou pelos jardins, acompanhado de um trovão que chacoalhou a terra em seus pés.
Não demorou muito para que pequenas gotas se transformassem em violentas torrentes de água, caindo céu abaixo e atingindo seu corpo.
não soube dizer se foi o trovão ou a sua voz que chamou a atenção suficiente de Romanov para ele se virar quase imediatamente. Quando viu o corpo completamente ensopado de aproximando-se em passos largos, ele arqueou as sobrancelhas, estupefato.
– Vossa Alteza? – disse ele em um tom mais alto do que o usual, tentando superar o som violento da tempestade. – O que a senhorita está fazendo aqui fora? Deveria estar dentro do palácio, protegida da tempestade!
aproximou-se dele, entrando embaixo da enorme copa da árvore que protegia Romanov das violentas gotas. Não mais embaixo da chuva, percebeu o peso do tecido completamente encharcado machucar as mãos e soltou a saia, que começou a varrer o chão coberto de folhas conforme ela ia para mais perto do grão-duque russo.
– O que é isso? – perto o suficiente, vociferou, levantando a mão direita na altura dos olhos dele.
olhou para o , ignorando completamente o objeto preto em sua mão. Com os olhos intensamente , ele observou por segundos cada parte de seu rosto encharcado. Isso a irritou profundamente e ela aproximou o objeto do rosto dele.
– Responda-me! – exigiu ela, levantando o tom de voz.
– É uma máscara, senhorita. – respondeu ele, observando-a. – Imaginei que, com o evento mascarado na ópera, você precisaria de uma.
– E o que o fez pensar que eu algum dia precisaria de algo vindo do senhor? – rebateu ela.
Os olhos azuis de se cruzaram com os dele e a intensidade de seu olhar a fez recuar um passo para trás, abaixando a máscara.
– Eu tentei fazer uma gentileza, senhorita. – respondeu ele. – Perdoe-me se a ofendi.
– Não deveria ter desperdiçado o seu tempo. – disse com a voz tão fria quanto o vento. – Como eu disse – ela levantou o objeto mais uma vez, estendendo para ele. A máscara incrustada de serendibite brilhava intensamente em sua mão com as pedras molhadas pelas gotas de chuva.–, eu não uso a cor preta.
Ele olhou para a máscara.
– É um presente, senhorita. – ele disse e fez uma pausa, voltando os olhos para ela. – É sua.
– Eu não quero. – respondeu , rigidamente.
Os minutos seguintes foram como uma eternidade para . Os dois ficaram completamente estáticos, envoltos por uma atmosfera intensa criada pelo olhar avassalador de Romanov.
avançou, levando a máscara para mais perto do grão-duque. Ele, porém, não fez questão alguma de reagir: permaneceu do mesmo modo, ignorando completamente a máscara parada em frente ao seu rosto, com os olhos vidrados em . Ela cerrou os lábios, insistindo, com a mão, mais uma vez em sua direção. E, novamente, não obteve resposta. A irritação subiu pelo seu corpo e , tremendo de raiva, fez o que deveria ter feito desde que havia chegado aos jardins: largou a máscara, deixando o objeto preto escorregar pelos seus dedos, atingindo o chão lamacento aos seus pés.
Os olhos de ficaram imediatamente rígidos, como se não pudesse acreditar no que havia acabado de fazer, e ele respirou profundamente, parecendo estar terrivelmente ofendido.
segurou o impulso de abrir um sorriso e arrumou a postura, segurando a saia nas mãos, virando-se de costas, pronta para ir embora. Sua missão ali havia terminado: a máscara estava no domínio de Romanov novamente e agora, ela voltaria para o palácio e...
– Deveria ter lhe dado uma máscara como a que usou no Kensington.
sentiu a voz dele atingi-la em cheio, cortando seus pensamentos e ultrapassando as barreiras de seu vestido e de suas costelas, dominando seu coração e fazendo-o parar no peito.
– O que disse? – ela se virou lentamente, sentindo o coração pesar dolorosamente com a sensação do pânico.
– Você ouviu o que eu disse, senhorita. – respondeu ele com uma postura assustadoramente séria. – Eu disse que deveria ter lhe dado uma máscara exatamente como a que usou no Kensington duas noites atrás.
sentiu a garganta apertar e balançou a cabeça negativamente. Não, isso não pode estar acontecendo.
– O senhor está louco. – disse com a voz fraca, com a necessidade ardente de falar qualquer coisa que a tirasse daquela situação surreal e horrível. – Eu nunca o encontrei no Kensington.
Um silêncio pesado caiu entre eles, e encarou ele, sentindo seu estômago se revirar de nervosismo. Será que agora ele a deixaria em paz? Será que encerraria aquela discussão maluca e pouparia de passar pelo pior momento de sua vida?
Após alguns segundos de silêncio, olhar de mudou completamente e observou divertimento em seus olhos, como se ele acabasse de ter feito uma incrível descoberta.
Ele deu um passo a frente e, lentamente, disse:
– Não disse uma palavra sobre a senhorita ter me encontrado no Kensington.
arfou, horrorizada.
Por Deus, , o que você fez?!
Ela simplesmente havia acabado de entregar em uma bandeja de prata o que havia se esforçado tanto para esconder, para fugir... Meu Deus, como pode ter sido tão estúpida a ponto de não controlar a própria língua? Se não estivesse tão tomada pelo medo e pela raiva poderia ter raciocinado uma resposta melhor e percebido que, em momento algum, havia afirmado que eles haviam se encontrado no Kensington. Quem foi responsável por isso foi ela e apenas ela.
sentiu a falta de ar comprometer o seu raciocínio. Inspirou profundamente, tentando fazer com que suas ideias se tornassem claras novamente, em vez de borrões que passavam violentamente de um lado para o outro em seu cérebro. Olhou para o lado, observando a chuva pesada atingir violentamente o chão. As gotas de água atingiam o chão com tanta força que fechou os olhos, imaginando a dor daquelas torrentes fortes que atingiriam seu corpo caso ela saísse da copa da árvore.
Ela precisava sair daquele local. Estava sufocando com o peso dos olhos de Romanov sobre ela; estava engasgando sabendo que a verdade estava solta bem a sua frente. Não podia ficar mais nenhum segundo ali ou entraria em colapso. A alternativa era sair correndo, no meio daquela chuva violenta, até encontrar o palácio onde estaria completamente salva de Romanov e de toda aquela situação. Sabia que, se fizesse isso, ficaria de cama por vários dias, com uma febre forte assolando o seu corpo, mas preferia isso a ficar mais alguns minutos na companhia daquele homem.
Em um movimento rápido, ela segurou as pesadas sais do vestido e virou-se de costas, indo em direção a chuva, quando, de repente, Romanov a segurou pelo pulso, trazendo-a de volta.
A força do movimento foi tão forte que todo o corpo de foi ao encontro dele. A saia molhada rodopiou em volta de seus pés e ela tropeçou nos próprios sapatos cheios de lama, batendo contra o peitoral dele com força. O pânico assolou o coração de quando encarou a possibilidade de cair ao chão, mas foi surpreendida com as mãos fortes de que a seguraram pela cintura, impedindo que ela caísse. Ele levantou o corpo de até que seus olhos estivessem na sua altura dos seus olhos e a proximidade deles era tão grande que foi capaz de sentir a respiração dele em seu próprio rosto.
Olhando para ela com uma intensidade avassaladora, disse:
– Você não vai fugir de mim dessa vez.
o encarou, horrorizada com a proximidade dos dois. A respiração quente dele tocando todo seu rosto e o calor de suas mãos, que atravessava o tecido do vestido, tocando a sua pele impecável bem na cintura, aqueceram de forma violenta e intensa, e ela se assustou com a sensação, chacoalhando-se desesperadamente em seus braços
– Como você ousa? – disse ela, debatendo-se. – Solte-me!
Ele apertou as mãos, segurando ela mais firme em seus braços.
– Soltarei a senhorita se me prometer que irá me ouvir. – respondeu.
Apesar de segurar com força, o toque de estava longe de trazer dor para o seu corpo. Pelo contrário: sentia uma sensação inexplicavelmente boa. O calor e o contorno dos músculos grandiosos de em sua volta, fizeram um calor ardente brotar em lugares completamente aleatórios de seu corpo. Essa sensação desconhecida deixou apavorada e ela se debateu ainda mais.
– Eu não tenho nada a ouvir. – respondeu ela, remexendo-se contra o corpo dele, tentando de todos os modos possíveis se afastar e parar de sentir aquele calor que subia por todos os seus membros. – O senhor é um louco! Solte-me!
– Por favor, senhorita – suspirou ele, dizendo como uma suplica –, eu apenas quero conversar.
parou de se debater, encarando-o com o peito subindo violentamente após todo aquele esforço para se soltar de seus braços. Ele queria conversar? perguntou a si mesma com a voz debochada. Sobre o que ele possivelmente gostaria de conversar? Sobre como toda aquela situação era completamente embaraçosa, humilhante e desprezível?
Ela espremeu os lábios, sentindo a raiva dominá-la por completo.
Aquele homem era impossível, desprezível! Se não fosse uma dama, jurou por Deus que seria capaz de cuspir em sua face. Estava com tanta raiva por estar passando por uma situação tão ridícula quanto essa... Como ele fora capaz de colocar ela em tal situação? Deseja humilhar ela? Deixá-la com vergonha?
Ela respirou fundo, dizendo a si mesma que não permitiria que alguém como ele a fizesse passar por um papel tão ridículo.
levantou o queixo, sabendo exatamente o que fazer.
O senhor deseja apenas conversar? disse, encarando ele com uma raiva ardente que ela jurava que, a qualquer momento, poderia se transformar em algo material e atacar o homem a sua frente. – E sobre o que o senhor gostaria de conversar? – perguntou ela, com a raiva esbanjando exageradamente em cada palavra. – Sobre como me chamou de prostituta duas noites atrás?
encarou ela, estupefato. Dessa vez, ele estava horrorizado.
O grão-duque a soltou imediatamente, cambaleando alguns passos para trás. respirou profundamente, sentindo a raiva consumi-la por completo agora que o calor das mãos dele não desviava sua atenção de toda aquela situação horrível.
– Vossa Alteza...
O grão-duque disse, com a voz surpreendentemente fraca, como se tivesse acabado de ver um fantasma. Aquelas palavras irritaram profundamente e ela deu alguns passos para frente, interrompendo ele com a voz raivosa:
– Ah, agora é “Vossa Alteza”!
segurou a saia do vestido em suas mãos e continuou os passos para frente, observando ele cambalear para trás, visivelmente surpreso com o estado de fúria que se encontrava. Ele bateu as costas contra o grosso tronco da árvore e ela interrompeu os passos, apontando o dedo fervorosamente para ele.
– Como você ousa? – disse ela, com o tom de voz tão alto que quase superava o barulho da chuva. – Eu pensei que um grão-duque teria um pouco mais de educação, mas eu deveria imaginar que alguém que vem daquela escória de país não teria nenhum um pingo disso.
– Vossa Alteza, por favor...
– Não me interrompa! – gritou ela, batendo as mãos na saia. – Eu poderia...
– Cortesã. – disse rapidamente, interrompendo as palavras dela.
interrompeu a fala. Sem dúvida ela não havia escutado direito.
– O que disse? – perguntou.
Passaram-se alguns segundos até que ele respondesse, visivelmente receoso:
– Eu chamei a senhorita de cortesã, não de prostituta.
Uma raiva irracional alastrou-se pelo corpo de e ela foi obrigada a se afastar do corpo de Romanov pelo seu próprio bem. Ela não sabia se possuía força suficiente para manter seus punhos fechados longe da cara dele.
– Como ousa vir ao meu país, ao meu palácio, e me chamar de cortesã duas – balançou a cabeça, percebendo que ele havia acabado de direcionar aquela maldita palavra para ela mais uma vez e se corrigiu –, não, três vezes?!
– Eu aguentei muito desses seus joguinhos, Romanov. As frases sugestivas no baile, essa máscara patética... – ela apontou fervorosamente para a máscara jogada a alguns passos dela, completamente suja de barro. – Tudo isso! – ela balançou os braços exasperada. – Eu cansei.
observou se aproximar. Em passos lentos, com as mãos na frente do próprio corpo, o grão-duque vinha em sua direção com cuidado como se qualquer movimento bruto pudesse assustá-la, ou pior ainda, fazer a garota atacá-lo.
– Senhorita, por favor, nunca foi minha intenção ofendê-la...
Respirando ofegante por conta da irritação, perguntou:
– Então quais foram suas intenções quando dirigiu palavras tão absurdas a mim?
olhou para ele, esperando ouvir uma resposta que pudesse trazer um pouco de sentindo para aquela situação horrorosa, porém a única coisa que obteve do grão-duque foi o silêncio.
Um silêncio que tomou, imediatamente, como um insulto.
Ela cerrou os lábios e respirou profundamente.
– Senhor Romanov – após segundos de silêncio, praticamente cuspiu o nome dele –, eu o aconselho a pegar essa máscara – ela apontou o dedo para o chão –, e voltar para aquele seu país imundo, porque estou te expulsando.
ergueu as sobrancelhas.
– Está expulsando-me dos jardins? – perguntou ele, confuso.
– Dos jardins... do Buckingham... de Londres... da Inglaterra! – Com a voz cheia de raiva, exclamou. – De qualquer território do meu Império!
arregalou os olhos, fitando como se ela tivesse enlouquecido.
Bem, talvez ela tivesse.
– Você não pode me expulsar. – disse ele, estupefato. – Eu sou o grão-duque.
Ela deu um passo em sua direção e suas palavras vieram rápidas e furiosas:
– Eu não ligo se você é um grão-duque. – disse. – Eu não ligo se você é o futuro Imperador de alguma coisa! – ela levantou o dedo indicador, batendo em seu próprio peito. – Esse é meu palácio, meu país, minha casa e quem faz as regras sou eu!
– Senhorita... – Ele se interrompeu, respirando fundo, frustrado. – Isso tudo é terrível engano, se puder me deixar explicar por alguns segundos...
– Eu não tenho nada a ouvir! – exclamou, exasperada. Por Deus, quantas vezes mais teria que repetir aquilo? – Pegue as suas coisas e...
Com um tom arfante e desesperado, a interrompeu:
– Estou aqui para cortejá-la!
abriu a boca, pronta para questionar o que havia falado, porém antes que pudesse emitir algum som, se apressou e continuou:
– Devo me corrigir. – disse ele. – Obviamente, não estou em Londres para isso, estou aqui para as festividades de seu irmão... – respirou fundo, passando as mãos pelos cabelos, claramente nervoso.
Seus olhos abandonaram a silhueta de e focaram na tempestade violenta que desabava ao redor deles. O ambiente se tornou pesado, perturbador... O barulho das gotas geladas e pesadas que atingiam o chão sem piedade era a única coisa que era capaz de ouvir além de seu coração, que martelava loucamente no peito, desconfortável com a situação. Alguns segundos se passaram e se sentiu incapaz de ficar naquela atmosfera por mais tempo. Estava prestes a abrir a boca quando ele levantou os olhos para ela e retomou as palavras:
– Vossa Alteza – engoliu em seco, aflita. Imaginou que, se Romanov dissesse alguma coisa, quebrando aquele silêncio terrível, as batidas desesperadas de seu coração diminuiriam, porém quando voltou a ouvir a sua voz, sentiu o coração bater com tanta força que ficou com medo dele escapar de seu próprio peito –, se me é permitido dizer – notou um traço de nervosismo em sua voz –, desde que cheguei ao Buckingham, o mundo todo se tornou inútil, pois a senhorita dominou meus pensamentos completamente.
ficou rígida, completamente horrorizada com as palavras dele. Antes mesmo que ela pudesse se recompor de tal choque, continuou:
– Há anos escuto rumores sobre a senhorita... – disse. – Seus irmãos a trazem para as conversas todas as vezes que estamos juntos e, depois de tanto tempo, se tornou inevitável imaginar o momento em que a encontraria. – ele respirou fundo, olhando intensamente para ela. Seus olhos eram sinceros.... Tão absurdamente sinceros que ficou ainda mais rígida ao notar aquilo. – Agora que eu a conheci, sinto como se o mundo que eu conhecia não existisse mais...
interrompeu as palavras, com o resto da frase morrendo em seus lábios.
– Andei fugindo a minha vida toda de eventos como esses – disse, após alguns segundos, esticando os braços em direção ao palácio –, de cortejos, damas da corte, e, especialmente, de uma opção de casamento, mas a senhorita... – ele abriu um sorriso. – Por Deus, você é perfeita e eu não poderia imaginar uma honra maior do que me...
As palavras dele – uma em especial – foram capazes de puxar , abruptamente, de seu estado de horror. Ela abriu a boca, com os olhos arregalados, deixando tal palavra escapar de seus lábios em um tom de repulsa, como se ela fosse contagiosa:
Casamento?
interrompeu o discurso imediatamente, com as sobrancelhas franzidas e o olhar repleto de confusão.
ficou alguns segundos completamente estática, como se tivesse acabado de acordar de um sonho estranho, macabro, impossível... Deixou a palavra ecoar por seu cérebro repetidamente por alguns segundos, até que ela se tornou tão dolorosamente insuportável que ela abriu a boca, deixando as palavras saírem de seus lábios impulsivamente:
– Pelo amor de Deus – ela colocou uma das mãos sobre a testa, olhando para o chão por uma fração de minuto –, o senhor é louco... – depois, voltou os olhos azuis para ele e completou. – Não apenas louco, mas incrivelmente estúpido...
cambaleou violentamente para trás, ofendido.
– O que disse? – perguntou.
, porém, não deu importância.
– O que o fez pensar que, algum dia, eu iria deixar o senhor me cortejar? – perguntou ela, com o tom de voz agudo e alto, repleto de ultraje. – Chegar perto o suficiente de mim para tal ato e... casamento?! – exclamou ela novamente e, dessa vez, uma risada debochada saiu de seus lábios quando percebeu o quão absurdo aquilo realmente era.
A risada curta dominou seu peito e ela foi incapaz de controlá-la, transformando-a em uma gargalhada. logo se viu puxando o fôlego em busca de ar.
– O senhor é a última pessoa no mundo que eu me casaria. – disse ela, com o resquício da risada em sua voz.
levou as mãos ao peito, recuperando o ar que a gargalhada havia a roubado. Ofegou algumas vezes, com um sorriso nos lábios, de uma forma bastante deselegante para uma dama britânica, e balançou a cabeça, crente de que aquela havia sido a situação mais cômica e irrealista que já havia presenciado em toda a sua vida.
Ela desceu as mãos para o abdômen, prestes a continuar suas palavras debochadas e cortantes como um caco de vidro, com o objetivo de deixar explícito o quanto o grão-duque estava completamente enlouquecido. Porém, ao levantar os olhos para ele...
Ela não disse, nem mesmo se mexeu. Limitou-se a ficar ali, encarando ele em silêncio absoluto, sentindo a respiração ficar presa no peito.
A mágoa profunda e o choque intenso incrustrados nos olhos do grão-duque se mostraram tão claros quanto o relâmpago que rasgou os céus.
Por Deus, o que tinha acabado de fazer?
Observando aquela cena horrível – aquele par de olhos que pareciam dois poços profundos de aborrecimento –, pensou nas palavras que havia dito segundos atrás e sentiu como se uma faca a atravessasse o coração.
Havia, não apenas rejeitado o grão-duque, mas, principalmente, humilhado ele da forma mais grosseira que alguém poderia imaginar.
Pelo amor de Deus, como pode ter sido tão rude? Tão sem classe? Tão... mal educada?
Estava furiosa com o homem a sua frente (tão furiosa que sentia como se pudesse explodir em raiva), e não havia motivos para que se envergonhasse daquilo (aliás, estava mais do que certa em se sentir ofendida e desrespeitada por Romanov), mas os seus sentimentos não eram uma desculpa para que ela agisse como uma porca sem modos e sem limites. Não era uma desculpa para que ela agisse tão grotescamente a ponto de sentir vergonha de si mesma.
Ela não era assim. Elizabeth Sofia Hanôver, princesa do Reino Britânico, da Escócia e das colônias espalhadas por todo o globo terrestre, que formavam o maior império descontinuo do mundo, não era assim. Ela era contida, educada, respeitosa.... Um modelo perfeito de uma dama da nobreza europeia.
O olhar daquele homem, o modo como seu corpo estava paralisado bem a sua frente... sentiu um bolo criar-se em sua garganta e ela foi forçada a desviar os olhos dele, sendo incapaz de encarar aquela cena por mais alguns segundos.
Não tinha forças o suficiente para encarar as consequências de ter sido estupidamente impulsiva, de ter deixado seus sentimentos furiosos, pela primeira vez, falarem mais alto do que a razão.... Não era capaz de olhar para o seu próprio erro, para o desastre que aquela situação tinha se tornado, pois havia esquecido que não era uma pessoa comum, havia esquecido que não poderia ter sentimentos e reações tão mundanas... Ela era uma princesa, pelo amor de Deus, e tinha um dever divino de honrar e glorificar a sua dinastia que vinha acima de qualquer emoção.
Passou a vida toda esforçando-se para cumprir esse dever, sendo impecável e perfeita... E, agora, havia perdido a compostura por causa de um homem.
Um homem russo.
engoliu em seco, mandando aquele bolo para de seu estômago – para o lugar onde não deveria ter saído – e deu alguns passos para trás.
– Senhor, Romanov. – após alguns momentos em silêncio, disse, olhando para o chão, ainda incapaz de olhar para os olhos dele. Durante seus segundos em silêncio, decidiu o que fazer: precisava concluir aquele assunto. Precisava acabar com Romanov, tirá-lo de sua vida rápido e de uma vez só, como se tira o curativo de uma ferida. Apagaria aquele episódio de sua história, de sua memória, como se nunca tivesse acontecido, como se nunca tivesse conhecido o grão-duque. E, então, ela voltaria a honrar a si mesma e, principalmente, o papel pelo qual era responsável. – Acredito que eu tenha deixado meu ponto bastante claro.
Quando ele respondeu, mal foi capaz de ouvir suas palavras, pois saíram tão baixas que o barulho das gotas de chuva praticamente as engoliu.
– Sim. – respondeu . – Perfeitamente claro, Vossa Alteza.
– Se é do desejo da senhorita – continuou ele, aumentando o tom de voz. O modo como as suas palavras saíram frias e magoadas chamou a atenção e ela levantou, finalmente, os olhos para a ele.. –, eu partirei imediatamente.
concordou com a cabeça e apenas disse, com um sussurro:
– Perfeito.
Ela respirou fundo, concluindo que nada a mais deveria ser dito. A única coisa que deveria fazer era sair imediatamente daquele lugar. Não se importava mais com a chuva e muito menos em ficar doente. Apenas precisava voltar para dentro do palácio e esquecer Romanov para sempre.
, então, abaixou-se em uma reverência e disse:
– Faça uma boa viagem, senhor.
Ele se abaixou igualmente em uma reverência, porém, não esperou que o grão-duque recobrasse a postura para sair. Deu as costas para ele e começou a caminhar em passos decididos para o palácio de Buckingham, sem olhar, uma vez sequer, para trás.


Capítulo 4

passou pelas portas de seus aposentos soltando um comprido gemido frustrado.
Estava molhado, ensopado. Suas vestimentas haviam sido completamente arruinadas pela tempestade que explodia do lado de fora do Buckingham; seu cabelo , diariamente impecável e sedoso, escorria pelo rosto como os pelos de um cão que havia acabado de tomar um banho.
Céus, sua aparência, com certeza, estava patética.
arrancou a casaca do corpo, arremessando a peça para o outro lado da sala. Ele cruzou o cômodo em passos largos, em direção ao aparador de mogno que apresentava uma coleção de bebidas. Segurou um decantador de cristal e despejou o líquido em um dos copos, levando a bebida até os lábios. O brandy passou queimando pela sua garganta, e ele soltou um suspiro rouco e satisfeito quando sentiu cada parte do seu corpo esquentar.
Era exatamente disso que precisava: de álcool.
Ele acabou com o conteúdo do copo em um único gole e rapidamente despejou um pouco mais da bebida, desejando que aquele líquido não apenas aquecesse seu corpo gelado, mas que também, e principalmente, entregasse suas memórias para o esquecimento.
realmente precisava de uma amnésia – mesmo que fosse temporária e causada por uma garrafa –, pois havia acabado de passar pela pior e mais humilhante experiência de toda a sua vida.
Ele levou o copo até os lábios novamente, porém foi interrompido antes que pudesse engolir a bebida.
– Sua manhã foi tão ruim para estar se embebedando tão cedo, mate?
engasgou.
Colin? – perguntou ele, com a voz falha devido à tosse que tomou conta de seu peito. Quando foi capaz de recuperar o tom, virou-se de costas e franziu as sobrancelhas em uma expressão de horror. – Que diabos está fazendo em meus aposentos?
Colin Hanôver encontrava-se sentando em uma cadeira no outro canto da sala, com as pernas preguiçosamente dobradas e os braços descansando atrás da cabeça.
– Bem, tecnicamente – disse ele, com um sorriso –, esses não são seus aposentos, afinal você está hospedado em minha casa.
– Você entendeu o que eu quis dizer. – rebateu .
– E você não respondeu a minha pergunta. – retrucou Colin.
virou-se de costas para o amigo e despejou uma generosa quantia de brandy em outro copo. Ele atravessou o cômodo e ofereceu a Colin, que aceitou com um sorriso.
Os dois permaneceram em silêncio por um momento, enquanto tomavam um gole da bebida. afastou o copo dos lábios e, então, disse:
– Estou aproveitando minhas últimas doses no Buckingham. – ele levantou o copo em direção ao amigo.
– Está indo embora? – perguntou ele.
assentiu.
– Já fiquei tempo demais na Corte. – ele deu ombros. – Decidi começar minha viagem para o Novo Mundo antes.
– Interessante... – Colin fitou o brandy com uma expressão enigmática, enquanto girava o copo em suas mãos. – Pensei que estava partindo porque a minha irmã o expulsou do palácio.
observou Colin – que tomou lentamente outro gole de brandy, com um sorriso discreto formando-se no canto dos lábios – com os olhos arregalados e sem piscar, completamente horrorizado. O copo permaneceu nas mãos de , evitando que se espatifasse em centenas de pedaços no tapete refinado, apenas por um milagre, pois o choque que seu corpo levou, ao ouvir aquela terrível frase, foi quase capaz de derrubá-lo no chão.
Colin terminou o copo de brandy com sorriso ainda nos lábios e, fazendo um estralo com a língua, levantou da cadeira. Ele passou as mãos pela casaca, arrumando as vestimentas, e cruzou a sala, com passos lentos, em direção ao aparador.
– Então... – acompanhou com os olhos, ainda completamente petrificado, os passos dele pelo cômodo. Colin se serviu de uma dose surpreendentemente grande de brandy e deu um longo gole, antes de continuar: – Cortesã? Belo jeito de cortejar uma princesa.
Com aquela palavra ecoando dolorosamente pela sua mente, finalmente acordou de seu estado de choque. Ele, então, fechou os olhos e praguejou com violência.
Por Deus, como as coisas haviam chegado àquele ponto? Aquele terrível, escuro e baixo ponto que Romanov, o futuro Imperador da Rússia, nunca pensou que algum dia chegaria?
– Colin, eu... – se interrompeu. – Jesus, não é como parece... – ele passou uma mão pelos cabelos, frustrado. – Nunca foi minha intenção ofendê-la.
Colin levou o copo até os lábios e levantou as sobrancelhas, indicando com o gesto que se explicasse.
respirou fundo e tocou as têmporas com os dedos. Sem dúvida alguma preferia ter a cabeça esmagada por uma bala de um canhão ao explicar toda aquela história para Colin Hanôver. Ele caminhou até uma poltrona ao lado do aparador e se sentou, apoiando os cotovelos nos joelhos.
– Eu a encontrei no Kensington durante a festa de Philip. – disse ele, tomando um gole da bebida. deixou a respiração sair pesada pelos lábios outra vez, antes de continuar: – Sua irmã estava andando apavorada pelos jardins e acabou esbarrando em mim....
A lembrança vívida da noite no Kensington tomou conta de e... Céus, que lembrança!
A recordação daquele par de olhos azuis de tirar o fôlego olhando-o através da máscara preta era arrebatadora. Nas últimas duas noites, havia sido deslumbrado por aquela cena incontáveis vezes durante o seu sono, tendo o prazer de contemplar cada pedaço do rosto dela – daquele rosto perfeito e magnífico que parecia ter saído da pintura mais absurdamente bonita de todos os tempos.
– Eu sabia que ela não era uma cortesã. – continuou encarando o vazio, enquanto seus pensamentos viajavam para a noite no Kensington. – É claro que eu não sabia que ela era uma princesa e, muito menos, sua irmã.... Nós nos encontramos em um corredor de flores, e eu pensei... – Minha nossa, você é a coisa mais linda e deslumbrante que eu já havia vi em toda a minha vida, levou o copo aos lábios, resistindo ao impulso de dizer aquilo em voz alta. Ele pigarreou, encontrando outras palavras: – Eu pensei que ela era uma das damas de companhia de Caroline.
– Era visível que ela não estava muito confortável com o lugar, e eu, em vez de ajudá-la ou deixá-la em paz, fui um tremendo idiota. – disse, fechando os olhos. – Eu estava irritado com alguns assuntos familiares, havia bebido... E ela me tratou exatamente da forma que um idiota merece. – continuou, com um sorriso arrependido nos lábios, enquanto um suspiro escapava de seus lábios. – Eu a chamei de cortesã apenas para irritá-la, e, Colin, só Deus sabe o quanto eu desejo poder voltar no tempo para desfazer essa estupidez.
– E você disse isso a ela?
entrelaçou os dedos ao redor do copo.
– Eu tentei, mas ela não quis me escutar.
Ela nem ao menos quis olhar para mim, pensou, lembrando-se da terrível frase que saiu dos lábios da princesa britânica...
“O senhor é a última pessoa no mundo com quem eu me casaria.”
Aquela frase doeu em como ele nunca pensou que doeria.
Até dois dias atrás, acreditava fielmente que casamento simplesmente não era seu destino.
Desde sempre, a ideia de se juntar a alguém aos olhos de Deus nunca foi atrativa para Romanov... Aliás, como poderia ser, quando os seus próprios pais possuíam o casamento mais fracassado que ele já havia visto em toda a sua vida?
O atual casal Imperial Russo havia atado os laços matrimoniais 23 anos atrás, na Catedral de Nossa Senhora de Kazan, por motivos que poderiam ser reduzidos a uma única palavra: Miloslávski.
Os Miloslávski eram uma antiga família de boiardos que possuíam uma das maiores redes de influências e de riquezas dentro do Império Russo. Tatiana, uma das herdeiras da família, foi apresentada a Gregório como a melhor opção para o casamento: ela era absurdamente rica, jovem, bonita e, principalmente, russa.
Logo após a cerimônia, o casal se dedicou fervorosamente a missão de produzir herdeiros, gerando cinco filhos que garantiram a linhagem dos Romanov, e, antes mesmo que a última filha completasse um ano de vida, Gregório e Tatiana se desvencilharam das amarras do casamento o máximo que o acordo permitia: a czarina encontrou seu conforto em assunto de Estados e o czar encontrou nas curvas dos corpos exímios de diversas amantes.
Por mais que o casamento de seus pais fosse atipicamente desalmado, sabia que o matrimônio dos grandes monarcas europeus não fugia muito disso.
Os casamentos da nobreza eram motivados unicamente por interesses – questões sentimentais não possuíam espaço e eram consideradas completamente inúteis –, e tinha conhecimento que, como futuro Imperador da Rússia, teria um casamento completamente insosso. Desde pequeno, ouviu que deveria se casar com uma mulher relevante, que possuísse uma altíssima posição na sociedade e um dote maior ainda; que fosse saudável; pudesse produzir um número grande de herdeiros e que fosse bonita, para passar seus traços atraentes para todos os filhos. Sua futura esposa deveria, também, apoiar o seu governo, ser um exemplo para os súditos russos e uma mãe presente na vida dos filhos.
Ele aprendeu que não precisava amar sua futura esposa, apenas aturá-la o suficiente para aguentar uma vida inteira ao seu lado.
Crescendo com esses discursos, não era exatamente uma surpresa que adquirisse uma aversão tão grande ao matrimonio.
Quando pensava em viver uma vida assim... Cristo, sentia o estômago todo se revirar. Como poderia trocar votos na frente de Deus, na Catedral de Nossa Senhora de Kazan, com uma pessoa que não significava absolutamente nada? Era, praticamente, assinar uma sentença eterna de desgraças!
Pensar em seu casamento se tornou a pior tortura que poderia imaginar...
Até Hanôver aparecer.
pigarreou, abandonando seus devaneios e voltando à trágica realidade.
– Minha atitude foi inexplicável, e eu me arrependo amargamente desse erro. – disse ele. – Eu não consegui pedir perdão para ela mas – ele levantou os olhos –, eu posso pedir a você. – respirou fundo. – Perdoe-me, Colin.
Colin encarou por um momento e, então, sua risada ecoou pelo cômodo.
– Pelo amor de Deus, . – disse ele, dando um longo gole no brandy e sentando-se novamente. – Só falta você se ajoelhar aos meus pés.
o encarou, confuso.
– Eu não estou bravo! – exclamou Colin. – Irritado? – Ele passou os dedos pelo queixo, num gesto pensativo. – Talvez um pouco... Surpreso? – seus lábios abriram um sorriso malicioso. – Com certeza. – então, continuou: – Mas, estou, principalmente, divertindo-me com a situação.
ergueu uma das sobrancelhas. Colin estava se divertindo? O que poderia ser divertido naquela situação desastrosa?!
– Minha irmã, por outro lado...
– Eu pensei que ela iria me bater. – disse , sentindo a espinha tremer ao lembrar do rosto encharcado e furioso de Hanôver.
A raiva não era um sentimento que assustada com facilidade. Depois de anos sendo o depósito da fúria de seus pais, havia se acostumado com reações violentas e sabia lidar facilmente com situações como essas. Porém, ao observar a raiva latente que tomou conta da face de Hanôver... Cristo, aquilo definitivamente foi capaz de assustá-lo – ele nunca havia visto uma dama daquela maneira! – e, por alguns minutos, não foi capaz de fazer nada a não ser imaginar aquela mão comprida batendo contra a face de seu rosto.
Por favor! – Colin exclamou, com um sorriso. – não desperdiçaria a educação dela batendo em você... Mas, sim, ela está furiosa.
deu um longo gole no brandy.
– Ela não precisa ficar. – disse. – Partirei hoje mesmo.
– Sabe, Romanov. – disse Colin, inclinando-se na lateral da cadeira. – Eu nunca pensei que você fosse um covarde... – suspirou. – Mas, aparentemente, meus pensamentos estavam equivocados.
o encarou, franzindo as sobrancelhas e duvidando da própria audição. Não era possível que tivesse escutado aquelas palavras saírem da boca de Colin Hanôver...
– Como disse? – indagou.
– Colocando o rabinho entre as pernas, escondendo-se atrás de seus navios... – respondeu ele, soltando uma risada sarcástica. – Mais uma viagem, fugindo de assuntos que você não tem coragem de enfrentar.
fitou Colin, incrédulo, sentindo uma onda fervente de raiva agitar todo o seu corpo. Não era possível que aquele moleque britânico estivesse chamando o grão-duque da Rússia de covarde...
– Você está tentando ficar com um olho roxo, Hanôver? – indagou ele, olhando para Colin com uma expressão tão ameaçadora que teria feito a maioria dos homens cair de joelhos e implorar por perdão.
Mas, aparentemente, Colin não era como a maioria dos homens. O britânico, simplesmente, tomou um gole do brandy, ignorando a fala de .
– Eu tenho minhas teorias. – disse ele, girando lentamente o copo entre os dedos. – Ou você é verdadeiramente um cafajeste covarde que chama a princesa da Inglaterra de cortesã por diversão... – cerrou os punhos, pensando em qual seria a pena de morte na Inglaterra por matar com as suas próprias mãos um dos príncipes britânicos. – Ou você está assustado e com medo pelo fato de que, pela primeira vez, você ficou absurdamente encantado por uma moça.
se engasgou com o ar, tossindo de uma forma tão rude que beirava a indecência.
O quê?! – indagou, após alguns segundos, quando conseguiu controlar o ataque de tosse.
Colin levantou as sobrancelhas, assustado com a reação do grão-duque. Não imaginava que chamá-lo de cafajeste e covarde ofenderia tanto – nas noites libertinas de bebedeiras que passavam juntos, chamavam-se de coisas tão piores –, eram amigos, e brincadeiras desse tipo eram mais comuns do que as pessoas poderiam imaginar. Porém, preocupado, Colin limpou a garganta, prestes a perguntar se havia “pegado pesado demais” dessa vez, quando Romanov, abismado, exclamou:
– Eu não estou encantado por ela!
Colin fez um esforço para conter a risada. Não deveria, de maneira alguma, dar risada, porém a situação era tão engraçada... Quase patética.
Ele lançou um olhar de pena ao amigo.
Com certeza. – disse, zombeteiro.
deu dois passos em sua direção, com uma expressão defensiva.
– Eu não...
– Pare com isso. – disse Colin, interrompendo qualquer negação que ele estivesse prestes a dizer. – Eu vi o jeito que você olha para ela.
parou abruptamente.
E, como se não tivesse impactado o grão-duque o suficiente, Colin completou:
– E nós dois sabemos que esse olhar nunca existiu antes, nem mesmo quando você estava caindo de amores pela senhorita você-sabe-quem.
Colin levantou as sobrancelhas, desafiando-o silenciosamente a negar a sua afirmação.
abriu a boca, pronto para iniciar o seu discurso. Estava na ponta da língua, pronto para ir ao inferno e voltar tentando provar o quão errado o amigo estava. Porém, a forma como Colin olhou para ele, como aqueles olhos claros, como se fosse capaz de enxergar bem no fundo de sua alma e descobrir tudo o que havia pensado nesses últimos dois dias...
O grão-duque resistiu às palavras, lançando um olhar para o copo em suas mãos. Era tão fácil deixar os problemas serem esquecidos pelo álcool...
Porém, com um suspiro exausto, resistiu à tentação de tomar outra dose de brandy, largando o copo no aparador de mogno. Enfiou as mãos nos bolsos da calça – um gesto mundano e até mesmo inapropriado para um grão-duque – e caminhou até uma das janelas no canto do cômodo, pousando os olhos nos extensos jardins do Buckingham.
A chuva desabava com uma força surpreendente do lado de fora, e o vento intenso direcionava os pingos contra os vidros da janela, produzindo o som característico de uma tempestade que tomou completamente conta do cômodo. admirava aquele barulho – considerava-o tranquilizante, relaxante – e colocou a esperança de que os pingos de chuva pudessem mandar embora a enxurrada de pensamentos que torturava até os cantos mais escondidos de sua mente.
Porém, a árvore que abrigou alguns minutos atrás, perfeitamente visível da janela, impedia que ele pudesse pensar em qualquer coisa que não fosse Hanôver.
sentiu o corpo tremer.
Pelo amor de Deus, só poderia estar louco... Ela era irmã de seu melhor amigo!
Por mais libertinos que fossem, todos os homens conheciam algumas regras de conduta (praticamente leis) que garantiam uma convivência harmoniosa entre cavalheiros. Quando adolescente, decorou as condições para ser respeitado dentro da sociedade masculina e sabia perfeitamente que um cavalheiro nunca deveria: dormir com a mulher do outro; seduzir a mãe viúva de seu colega; cortejar a dama de outro cavalheiro... e nunca, em hipótese alguma, deveria cobiçar a irmã de seu amigo.
Nunca havia quebrado uma dessas regras antes. Apesar das inúmeras tentações que apareceram em seu caminho, sempre foi capaz de resistir bravamente a cada uma delas. Alguns anos atrás, passou pelo infalível teste de permanecer firme diante uma das mulheres mais encantadoras que teve o prazer de conhecer na face da terra, Caroline Hanôver, e com o sucesso obtido da experiência, teve a certeza de que era capaz resistir a qualquer outra mulher – fosse ela mãe, esposa ou irmã de qualquer um de seus amigos.
Por isso, sentiu-se horrorizado – como se tivesse levado um tiro e alguém tivesse lhe arrancado o coração peito – quando descobriu que a personificação da perfeição que havia encontrado nos jardins de Kensington era a irmã de Philip Hanôver.
imediatamente sentiu a culpa de um homem que cometeu um crime de lesa-majestade.
Para aliviar a culpa, prometeu a si mesmo que ficaria longe dela. Decidiu que forçaria seu cérebro a esquecer dos acontecimentos no Kensington e seguiria a vida como se nunca tivesse encontrado a irmã mais nova de Philip, porém quando passou pelas portas do salão de baile do Buckingham na noite seguinte e viu a silhueta dela... Cristo, foi incapaz de resistir à visão daquela mulher.
Estava tão bonita.... Desfilando pelo salão do Buckingham, com os cabelos iluminados pelas luzes douradas das velas, e trajada em um vestido azul que reluzia como se fosse a própria lua, parecia um anjo. Todos os olhos estavam nela – era humanamente impossível desviar o olhar, a mulher praticamente brilhava, pelo amor de Deus –, porém ninguém no cômodo a observava como fazia: como se tivesse acabado de descobrir a entrada para o paraíso.
imediatamente sentiu uma necessidade intensa, quase dolorosa, de estar perto dela e, em um instante, já estava próximo de Rupert Rutland, que caminhava em direção ao canto do salão para cumprimentá-la.
E, então, todo aquele desastre aconteceu.... Apenas porque foi incapaz de se segurar ao seu impecável autocontrole e seguir uma simples promessa.
Não havia palavras para descrever como aquilo era errado, indecentemente errado, e, Jesus Cristo, inaceitável! Aquela mulher era Hanôver, irmã de Philip e Colin Hanôver, e ela era, simplesmente, inalcançável para a maioria dos homens do planeta, especialmente para . Mas, ainda assim...
Ainda assim foi louco o suficiente para imaginar (e desejar) tê-la em seus braços.
Aconteceu depois do baile, quando deitou em sua cama, completamente extasiado pela experiência de dançar com Hanôver. Demorou para pegar no sono – afinal, era praticamente impossível dormir com a sensação do corpo dela ainda percorrendo a ponta de seus dedos. Passou algum tempo rolando de um lado para o outro e, quando finalmente conseguiu dormir, imagens da princesa britânica o atormentaram a noite toda.
Em seu sonho, a segurava em seus braços. As vestimentas haviam sido abandonadas aos pés da cama, sem nenhum pedaço de tecido entre eles, permitindo que se juntassem em um abraço erótico. As mãos dele acariciam a sua pele e sua boca explorava o pescoço macio e adorável, enquanto ela inclinava a cabeça, dando maior acesso à região. Os longos cabelos acomodavam-se nas curvas impecáveis de seu corpo e experimentou a sensação de correr os dedos por aqueles fios de seda extremamente sedutores. agarrava-se a ele com uma paixão fervorosa, marcando-o com as suas unhas nos ombros, costas, braços... E, ainda, sussurrava o nome de , com a respiração entrecortada, afetada pela intensidade do momento.
A sensação foi tão poderosa que deixou à beira da loucura quando acordou às 4 horas da manhã. Ele levantou em um salto da cama, tropeçando nos cobertores, com as pernas tremendo e o suor frio escorrendo pelo corpo. Andou de um lado para o outro, atônito, procurando alguma forma de acalmar o corpo e tirar aquele sonho da mente.
Precisava esquecer que havia sonhado com ela daquela maneira.
Tentou fazer tudo que estava em seu alcance para cumprir o objetivo: correu por duas horas pela extensão dos jardins do palácio, cavalgou como um louco pelo st. James Park e mergulhou no lago gelado do parque.
Mas, nada: o sonho permaneceu intacto em sua mente.
descansou a testa no vidro gelado da janela. Sentiu o coração martelar no peito e cada batida parecia dizer “traidor, traidor, traidor”.
Ele deveria ser jogado nas profundezas das masmorras da Torre de Londres por pensar nela naquela maneira.
Maldição. – depois de longos minutos em silêncio, respirou fundo e deixou as palavras saírem de sua boca como um suspiro. – Ela é sua irmã.
Colin observou o grão-duque, parecendo sentir a sua luta interna. Ele descansou as mãos nas pernas e suspirou.
– Acalme-se, . – disse ele. – Você não cometeu um crime.
o fuzilou com o olhar.
– Tudo bem. – admitiu Colin. – Talvez você tenha quebrado algumas regras...
– Jesus Cristo, Colin... – interrompeu , exasperado. Algumas regras? Ele havia quebrado a mais importante delas! – Isso não deveria acontecer. Eu não deveria... – e, sentindo o coração apertar, a confissão saiu pelos seus lábios: – Vê-la dessa maneira.
– Infelizmente, as coisas nunca acontecem da maneira que queremos, mate. – respondeu ele, dando ombros, enquanto tomava um gole do brandy.
o observou, horrorizado. Como era possível que ele estivesse tão calmo?
Não sabia ao certo como Colin deveria reagir – nunca imaginou que passaria por um momento como aquele com algum dos Hanôver – mas tinha certeza que não era nada parecido com aquilo. Colin parecia... tranquilo. Enquanto estava desesperado, com a sensação de que o mundo havia virado de cabeça para baixo, aquele moleque britânico estava simplesmente bebendo brandy?!
Pelo amor de Deus, aquilo não parecia certo.
– Você deveria estar amassando a minha cara. – disse ele, como se fosse óbvio.
Colin deu um sorriso.
– Eu nunca fui esse tipo de irmão.
– Bem. – franziu as sobrancelhas, perdido. – Você deveria estar fazendo algo.
– Eu estou. – um sorriso divertido tomou conta dos lábios de Colin. – Estou impedindo que você vá embora e estrague as suas chances com a minha irmã.
– Chances? – Os olhos de se estreitaram. – Você está louco?
– Provavelmente chegarei a essa mesma conclusão no final do dia. – respondeu ele. – Mas, nesse momento, parece ser a coisa mais sensata a fazer.
Sensata? – ecoou , boquiaberto.
– Sim. – Colin deu ombros. – Muito mais sensata do que a sua decisão de ir embora.
O quê? – perguntou ele, exageradamente confuso.
Que diabos estava acontecendo naquele quarto?
se sentia mal. Estava enjoado, com o estômago revirando como se estivesse no meio de uma tempestade em alto-mar, e sentia as paredes do cômodo girarem em sua volta. Seria efeito da bebida? Não, não poderia ser – jamais enjoava por conta do álcool. Talvez fosse a confusão... Já havia ouvido relatos de homens que perdiam completamente a sanidade devido uma situação perturbadora.
Provavelmente isso estava acontecendo com Colin e a intensidade daquela loucura começava a afetar . Aquela situação estava sendo tão assombrosa que havia ameaçando a sanidade do britânico. Era doloroso aceitar que talvez ele estivesse ficando louco, mas era mais fácil do que acreditar que aquela situação estivesse, de fato, acontecendo.
deixou-se cair numa cadeira em frente ao amigo, atordoado. Precisava se sentar...
Qual o nível de insanidade um homem deveria atingir para afirmar que Romanov possuía uma chance com Hanôver? Perguntou-se, observando o britânico. Ele, visualmente, parecia bem – não que soubesse a fisionomia de um homem que estivesse louco –, mas Colin parecia perfeitamente normal, com os traços marcantes dos Hanôver, exibindo uma plenitude formidável.
No entanto, ele não estava normal. Estava completamente maluco.
– Colin – pigarreou –, eu não faço ideia do que está acontecendo. – retomou as palavras após alguns instantes, cuidadoso. – Você provavelmente está bêbado ou louco ou quem sabe os dois, mas eu acho que tudo isso é....
– Pelo amor de Deus, Romanov. – interrompeu Colin, frustrado, largando o copo de brandy na mesa ao lado e revirando os olhos. – Será que você poderia calar essa boca e me ouvir por alguns minutos?
arqueou as sobrancelhas, surpreso, calando-se imediatamente. Não lembrava de ter visto Colin levantar o tom de voz para alguém. O britânico era, provavelmente, o homem mais espirituoso, calmo e sensato de toda Europa. Nesses longos anos de amizade, nunca viu ele zangado – Colin tinha a habilidade de transformar qualquer situação, pior que ela fosse, em diversão –, portanto era um verdadeiro choque vê-lo reagir daquela forma, alimentando ainda mais o sentimento de que havia algo tremendamente errado com o amigo.
– Eu não estou bêbado e, muito menos, louco. – afirmou ele, observando com uma seriedade surpreendente. – Não há nada de errado comigo. Eu estou completamente ciente de que a situação é, aparentemente, terrível, afinal você é....
Embora Colin tivesse pedido que ficasse calado para ouvir o que tinha a dizer, foi incapaz de seguir o seu pedido, interrompendo as suas palavras:
– O melhor amigo do Philip.
– Sim, e...
– Eu sou Romanov.
– Bem, isso também...
– E eu tenho uma das piores reputações em toda Europa. – interrompeu , pela terceira vez.
– Que eu, como seu amigo, sei que metade dela é mentira. – afirmou Colin, com um sorriso, como se aquela fosse a salvação da alma do grão-duque.
– O que significa que a outra metade é verdadeira. – lembrou , cruzando os braços.
Colin respirou fundo, deixando escapar um suspiro cansado.
– Eu estou tentando esquecer essa parte para poder ajudá-lo. – disse, entrelaçando os dedos. – Você poderia contribuir, por favor?
ficou em silêncio.
– Como eu estava dizendo – Colin começou, após lançar um olhar agradecido para o grão-duque –, sim, existem muitos fatores que contribuem para essa situação parecer desastrosa. Mas, não é uma situação perdida, e eu estou aqui para impedir que você possa transformar ela em algo assim.
Colin deu um meio sorriso antes de acrescentar:
– Você sabe que tem uma tendência a estragar as coisas com decisões precipitadas.
deveria ter ficado ofendido com a fala do amigo, mas a situação era tão alucinante que se limitou a dizer:
– Eu ainda acho que você está louco.
– Eu conheço a minha irmã e eu conheço você. – disse Colin. – E eu nunca estaria sentado aqui, tentando convencê-lo de não ir embora, se eu não achasse que isso pode significar alguma coisa.
– E isso seria?
Colin fixou os olhos claros no grão-duque.
– A felicidade de vocês dois. – respondeu ele.
deu uma risada incrédula.
– Isso é um absurdo. – disse ele, entre as risadas. – Ela me odeia.
– Odiar é uma palavra muito forte. – interveio Colin. – Ela fortemente desgosta de você.
estreitou a sobrancelhas. Como Colin era capaz de afirmar aquilo de uma forma que parecesse uma coisa boa?
– Vamos esquecer toda essa história de você tê-la chamado de cortesã. – Colin começou a explicar. – Mal-entendidos acontecem o tempo todo... – ele deu ombros e desejou que ele pudesse acreditar na simplicidade daquela situação. – Nós somos amigos há um bom tempo, , e, tirando essas fofocas que mancham a sua reputação, eu sei quem você é. – ele apontou um dedo para o grão-duque. – E você, por mais que goste de se esconder atrás dela, sabe também que é o homem mais respeitável e honrado que eu já conheci.
– Eu, na verdade, acredito que você o único homem bom o suficiente para se aproximar dela. – admitiu ele, soltando um suspiro. – Muito melhor do que os babacas que a enxergam como algum tipo de prêmio.
pensou nas palavras de Colin.
Ele, de fato, tinha uma reputação terrível de um libertino amoral, um sedutor degenerado, um homem terrivelmente devasso que levava a vida comandado pelos desejos carnais. Um exímio galanteador, capaz de encantar qualquer mulher na face da terra e um participante feroz de algazarras e das famosíssimas festas europeias.
Ah, como desejava que as coisas fossem assim... Seria tão mais fácil levar a vida se ele fosse, de fato, um cafajeste.
A verdade era que as poucas pessoas que o conheciam de verdade sabiam que não chegava a ser metade do que a sua reputação dizia. Era um libertino? Sim, um de primeira linha. Mas a maior parte da mirabolante e escandalosamente chocante reputação do grão-duque era claramente inventada por fofocas que corriam livremente pelas Cortes.
Tudo começou quando deixou a Rússia nove anos atrás. As especulações sobre os motivos que levaram o futuro Imperador da Rússia abandonar a sua pátria deixaram a Europa de cabeça para baixo, e, em questão de dias, inúmeros e completamente ridículos boatos estamparam as colunas de fofocas e as rodas sociais mais famosas das Cortes europeias. A maioria dos homens teria enlouquecido com aquele caos, mas conseguiu perceber uma vantagem capaz de salvar a sua vida: quanto mais mirabolantes as fofocas eram, mais fácil era para esconder das pessoas – e até de si mesmo – o verdadeiro motivo de ter abandonado o seu Império.
Ter a reputação de um libertino devasso e terrível era algo que os seus súditos conseguiam lidar, mas a verdade – a terrível verdade que mancharia não apenas a imagem dele, mas de toda a família imperial russa – poderia esmagar o Império e mandar os Romanov para a parte mais esquecida do inferno.
Então, para que a verdade ficasse eternamente enterrada nos confins de sua mente, distraia as Cortes europeias com aquilo que elas queriam: fofocas escandalosas e pecaminosas, raramente negando ou confirmando qualquer uma delas.
Mas, havia, de fato, uma parte da reputação de que não era mentira. Seria irreal pressupor que o grão-duque se mantivesse neutro diante esse cenário de libertinagem... Ele era, afinal, jovem, saudável e bonito, pronto para aproveitar o melhor que a Europa tinha a oferecer. Ao longo dos anos, se tornou um homem sedutor com uma coleção invejável de conquistas amorosas – eram tantas que ninguém se atreveria a contar – e teve o prazer de passar pelas mãos de mulheres extraordinárias...
suspirou, passando as mãos pelos cabelos.
Nunca se arrependeu de suas conquistas. era honrado, um homem de princípios invejáveis, que respeitava cada mulher que passava em sua vida. Tinha um código de honra e jamais havia se deitado com uma mulher casada ou prometida para alguém – relacionava-se com mulher decididas, que sabiam o que queriam e eram livres para tomarem suas próprias decisões sem acordarem com o sentimento de arrependimento no dia seguinte. Entregava-se completamente a cada uma delas nos minutos que passava em seus braços e nunca, em momento algum, aquilo pareceu de alguma forma errado.
Mas agora, ouvindo Colin dizer que era o “homem mais respeitável e honrado” que ele já havia conhecido, tudo aquilo parecia indecentemente errado.
– Além disso – Colin disse, chamando a sua atenção –, eu sei que, por mais que você fuja dele, você se preocupa com o seu futuro como imperador.
franziu as sobrancelhas.
Futuro? – ecoou ele. – Você quer dizer deixar a sua irmã se casar com...
– Vamos com calma, garanhão. – interrompeu Colin, com uma risada curta saindo pelos lábios. – Não estou entregando a minha irmã em uma bandeja de prata e, muito menos, imaginando ela entrando em uma igreja para se casar com você. – ele abriu um sorriso de lado. – Por mais que eu acredite que ninguém no mundo ficaria tão linda como ela com uma coroa de Imperatriz, nós precisamos dar passos pequenos.
– Passos muito pequenos. – repetiu ele, enfaticamente.
olhou para baixo, na direção do tapete luxuoso que se estendia pelo cômodo, enquanto todos os pensamentos anteriores abandonavam a sua mente, desejando poder se enfiar embaixo dele. Não era capaz de olhar para Colin enquanto a sua mente começava a vislumbrar a imagem de Hanôver sentada ao seu lado no trono, com a coroa imensa das imperatrizes russas, enquanto um vestido vermelho descia pelo seu corpo e...
Colin abriu um sorriso malicioso
– Mas, pelo jeito, você já está imaginando, não está?
levantou os olhos, observando Colin, e chegou à conclusão de que deveria levar um murro na cara. Se levasse uma surra e desmaiasse, esqueceria de vez essa situação absurda. Estava fantasiando como Hanôver ficaria linda como sua imperatriz enquanto o irmão dela sentado bem a sua frente... Por Deus.
– Você precisa parar. – exclamou ele, levantando-se da cadeira, andando pelo quarto de um lado para o outro enquanto tentava expulsar aquela imagem de sua cabeça. – Ela é sua irmã e... – ele sentiu o estômago borbulhar quando outro pensamento tomou conta da cabeça. Aquela situação estava ficando cada vez pior... – Você já imaginou o que Philip pensaria disso?! – indagou, percebendo que estava tão preocupado com seus princípios de amizade que não considerou a reação que seu melhor amigo teria quando descobrisse aquilo. – Philip... Philip me mataria, Colin!
– Philip apenas se preocupa com a felicidade dela. – Colin respondeu e notou que o fato do britânico não ter negado a sua frase era que ambos sabiam que Philip obviamente arrancaria a cabeça de com as próprias mãos se soubesse o que se passava pela sua cabeça. – Se você fizer ela feliz, ele não terá problemas para aceitar. Será complicado, mas como eu disse: passos pequenos.
soltou uma risada incrédulo. “Passos pequenos?”
– Eu precisaria de um milagre.
Colin se levantou da cadeira, com um sorriso radiante nos lábios, como se no segundo anterior não tivesse deixado perfeitamente claro que Philip mataria o grão-duque se descobrisse aquela situação.
– Por sorte você tem um bem aqui. – respondeu ele, abrindo os braços e apontando para si mesmo. – Eu vou te ajudar! Eu sou seu milagre.
não soube dizer se deveria chorar ou rir... Provavelmente os dois, pensou, tocando as têmporas com os dedos.
– Colin, eu disse que você precisa...
Colin jogou as mãos no ar de frustração, exclamando:
– Tudo bem! – ergueu os olhos, imediatamente, imaginando se o britânico finalmente colocaria um fim naquela situação absurda. – Eu vou usar minha última carta, e, se isso não funcionar, eu saio por essa porta e deixo você ir embora com os seus malditos navios, combinado?
respirou fundo, passando as mãos pelo rosto todo, frustrado. Não estava aguentando mais aquela situação, estava ficando louco.... Conseguia até mesmo sentir a sanidade escorrendo pelos seus dedos.
– Romanov? – Colin perguntou, levantando as sobrancelhas, quando não recebeu uma resposta de , que estava ocupado demais tentando encontrar uma forma de permanecer são.
– Vá em frente, Hanôver. – respondeu, após alguns instantes, com um manejo de cabeça.
Colin se aproximou de , tomando fôlego:
– Por um minuto, apenas um minuto, não pense nela como minha irmã ou como irmã do Philip. Esqueça que você chamou ela de cortesã, esqueça que ela te expulsou desse maldito palácio, esqueça até mesmo que ela é a princesa da Inglaterra! – ele encarou , seriamente. – Esqueça tudo isso e me responda: Você se apaixonaria por ela?
encarou o amigo com um ar debochado. Colin poderia ter dito qualquer coisa (que dragões existiam e até mesmo que porcos voavam!) e nunca chegaria aos pés do quão patético e irreal aquilo havia sido. Ele sabia, melhor do que qualquer um, o quanto desprezava o amor. Era um sentimento que o grão-duque odiava e zombava com tanta veemência que a resposta para aquela perguntaria era tão óbvia quanto a cor do céu: não, é claro que ele não se apaixonaria. Romanov não queria amor. Não queria aquele sentimento horrível, desagradável e doloroso. Amor era um sentimento barato para poetas e pintores, e ele ficaria perfeitamente bem, longe daquele sentimento pelo resto de sua vida.
Por alguns segundos, pensou que Colin queria mesmo que ele fosse embora da Inglaterra. Não conseguia imaginar um jeito melhor de fazê-lo ir embora do que levantar a hipótese de Romanov se apaixonar por alguém. Ele poderia ter cada fibra de seu corpo consumido pelo desejo – como era o caso no momento –, mas, amor? Por favor, era patético...
No entanto, naquele momento, algo aconteceu.
Talvez tenha sido o modo como Colin fez a pergunta, como se acreditasse verdadeiramente no amor, ou talvez tenha sido fato de que estava realmente ficando louco... Mas aconteceu, assim que o sentimento de deboche abandonou o grão-duque e tudo veio de uma só vez.
Foi como se todo aquele desprezo; aquela repulsa, estivesse revidando com a força de mil socos em seu estômago, como se o próprio destino estivesse castigando Romanov por ter zombado do amor por tanto tempo. Por mais que tentasse repudiar aquela sensação, era forte demais e parecia se espalhar por todo cômodo, deixando ele preso e sufocado ao pensamento de se apaixonar por Hanôver.
E aquele pensamento foi extraordinário.
Não poderia existir algo mais maravilhoso. Uma vívida imagem dela, como a luz do dia e real como o próprio sol, formou-se em sua mente e foi quase como olhar para o paraíso. perdeu a capacidade de pensar quando se deparou a miragem dela e com o sentimento poderoso e intenso de ser capaz de se apaixonar. Lutou contra a mente, tentando encontrar palavras que pudessem resumir o que sentiu, mas foi impossível. sabia que era um daqueles raros momentos que, dominado por algo tão forte, tornava-se incapaz de exemplificar a sensação em palavras. Ele podia apenas sentir.
Mas sentir era o suficiente... Oh, céus, era mais do que o suficiente.
Só Deus sabe o quanto quis se entregar para aquele sentimento. Ele desejou poder se colocar de joelhos e entregar o seu coração para aquela imagem, para aquele cenário, para aquele futuro.
Colin observou como se fosse completamente capaz visualizar o pensamento glorioso dominou grão-duque. Com um sorriso vitorioso, ele disse:
– Foi isso que eu pensei. – levantou os olhos e sentiu o coração parar de bater no peito quando ouviu o britânico dizer: – Então, você está pronto para conquistar o coração da minha irmã?


Continua...



Nota da autora: Oi, princesas!!! Como vocês estão? Aqui estou eu pedindo, outra vez, desculpas pela demora da att! Comecei a faculdade agora e ta tudo uma loucura aaaaaaa tive alguns problemas com o capitulo e tive que dividi-lo mais uma vez, MAS ELE TA AQUI!!! Espero que vocês gostem dessa atualização! O que vocês acharam dessa aliança formada? Será que o nosso grão-duque vai conseguir o coração da princesa com a ajuda do Colin? Acho que ninguém consegue resistir a esses dois. AS COISAS VÃO FICAR INTERESSANTES, LINDONAS!!! Hahahaha QUERO PALPITES!
Quero agradecer por todo apoio e todo carinho que recebo de vocês! Não tenho nem palavras para agradecer por ter as leitoras mais lindas desse mundinho!!! Um beijão, lindonas! Vejo vocês na próxima att <333
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