Capítulo Único
e nunca simpatizaram muito um com o outro.
Na verdade, “nunca simpatizaram” era uma forma educada de descrever anos de implicância mútua desde que se conheceram – o que, para o azar de ambos, aconteceu muito cedo. Os pais – Marcelo e Henrique – eram velhos amigos do mundo dos negócios e, consequentemente, os dois acabaram crescendo entre os mesmos eventos corporativos disfarçados de encontros casuais. sempre achou o jeito convencido de um verdadeiro saco. O andar confiante, as respostas rápidas, o sorriso debochado e, principalmente, a forma como parecia carregar no olhar a certeza de que o mundo girava ao seu redor – e talvez girasse mesmo. Ela, por outro lado, nunca teve muita paciência para o jeito “certinho” de . Sempre seguia as regras, raramente se deixava levar por impulso, parecia medir cada palavra antes de falar… era metódico demais para alguém tão caótica quanto ela – em sua opinião, a definição exata de tédio. A última vez em que se viram havia sido anos atrás, quando ainda eram adolescentes. E, mesmo naquela época, bastava um comentário atravessado ou um olhar mais demorado que a guerra silenciosa recomeçava. Agora, anos depois, estava no início da sua jornada no mundo dos negócios, acompanhando o pai em reuniões e eventos, enquanto já era um nome em ascensão nas redes sociais, com seus covers virais e um número crescente de seguidores apaixonados. O reencontro aconteceu de forma inesperada – ou talvez nem tanto. Os haviam convidado a família para passar um tempo em sua casa de praia, com a desculpa simples de “relembrarem os velhos tempos”.
Assim que o carro estacionou na entrada da mansão à beira-mar, desceu com uma expressão cansada. Stella, sua irmã mais nova, andava com um semblante animado ao seu lado, enquanto os pais distribuíam sorrisos calorosos.
— Que bom que chegaram! — Disse Cláudia, a matriarca da família , ao abraçar Letícia .
— A casa continua linda. — Comentou a mãe de , olhando ao redor com admiração. — Onde está a ? — Perguntou, já procurando com os olhos pela filha dos anfitriões.
Cláudia soltou um suspiro levemente impaciente.
— Provavelmente trancada no quarto, fazendo algum vídeo pro canal ou ensaiando… essas coisas de “artista”. — O tom carregava uma ponta de crítica disfarçada por trás de um sorriso forçado.
Embora fingisse apoiar, não aceitava totalmente o rumo que a filha havia escolhido. Na sua opinião, a carreira de cantora era incerta, instável e, de certa forma, distante demais do que ela sonhava para a filha única. , por sua vez, revirou os olhos ao ouvir aquilo.
Claro que ela está fazendo alguma performance diante de uma câmera.
A simples ideia de ter que conviver com por mais de 24 horas já fazia sua paciência murchar. Virou o rosto na direção da escada, pronto para atravessar o corredor e deixar as formalidades para os adultos, mas ela apareceu, com os traços mais definidos e o corpo mais curvilíneo, apesar da confiança debochada permanecer – talvez até mais forte agora. Desceu os degraus com calma, os cabelos soltos caindo pelos ombros, e sorriu ao notar o olhar fixo dele. Usava um short branco curto e uma blusa leve por cima de onde se via parte do biquíni.
— , querida! — Letícia se aproximou dela, abrindo os braços. — Como você está?
— Um pouco atrasada, como sempre. — Respondeu, abraçando a mulher com leveza. — Mas ainda em tempo de ouvir as novidades, né?
— Isso que dá passar horas no quarto. — A mãe revirou os olhos, com um sorrisinho. — Agora resolveu que vai ser cantora da internet.
— “Resolvi”? Que bom que não estou esperando a aprovação de ninguém, né? — A garota arqueou a sobrancelha, o tom levemente ácido entregando a tensão sutil entre as duas. — … — disse, virando em sua direção com um sorriso enviesado, como se soubesse que estava sendo observava desde que desceu. — Quanto tempo… cresceu, hein? — Passeou o olhar lentamente por ele.
— , faz tempo mesmo. — Respondeu, tentando manter os olhos nos dela. — Você também cresceu… virou influencer, né? Parabéns pelos… vídeos.
O som da risada dela parecia provocá-lo mais do que qualquer palavra. — Achei que você fosse me ignorar, como sempre fez.
— E eu achei que você fosse me chamar de “certinho” outra vez.
— Ainda posso chamar… — piscou, passando por ele e deixando um rastro de perfume doce no ar. — Só preciso de um tempinho pra me lembrar de tudo que me irrita em você.
ficou parado por alguns segundos, observando-a se afastar. Agora ela tinha outras armas para tirá-lo do sério – que envolviam aquele corpo, o biquíni escondido por baixo da blusa e o jeito que o olhava, como se soubesse exatamente o que estava fazendo com ele. Depois de deixar as malas no quarto – convenientemente ao lado do dela – lavou o rosto com água fria, como se aquilo pudesse ajudar a esfriar os pensamentos.
— Filho, estamos indo pra piscina. — Ouviu a mãe chamá-lo do lado de fora.
Trocou de roupa com certa preguiça, vestindo uma bermuda e uma camisa leve aberta por cima da regata branca, e desceu, o som das vozes e risadas no quintal já preenchendo o ambiente. Quando empurrou a porta de vidro que dava acesso ao jardim, o tempo pareceu desacelerar. estava deitada em uma espreguiçadeira ao lado da irmã dele, usando um biquíni preto que era o equilíbrio perfeito entre simples e provocante, a pele dourada pelo sol, o cabelo preso em um coque frouxo, deixando o pescoço exposto, e óculos escuros.
— Até que enfim, . — Disse, sem mexer o rosto para encará-lo, como se tivesse sentido sua presença. — Achei que ia passar a tarde trancado no quarto, lendo alguma coisa chata.
— Estava desfazendo as malas, porque, diferente de certas pessoas, eu gosto de manter tudo organizado. — Ele respondeu, puxando uma cadeira próxima.
— Você deve ter uma vida muito empolgante, vivendo pela agenda. — tirou os óculos, finalmente o encarando.
Stella riu, tentando aliviar a tensão, mas não desfez o olhar. Se ela queria provocar, ele também sabia jogar.
— Pelo menos eu não continuo fazendo vídeos no quarto, como se ainda tivesse quinze anos.
abriu um sorriso preguiçoso, inclinando o corpo levemente na sua direção, o biquíni acentuando cada movimento.
— E ainda tendo mais visualizações que qualquer campanha de marketing da sua família. Vai entender, né?
Touché.
apertou a garrafa de água que segurava, desviando o olhar para qualquer coisa que não fosse aquele corpo estirado sob o sol. Era só o primeiro dia – precisava sobreviver à semana inteira. Não soube dizer exatamente quando adormeceu na espreguiçadeira. O calor do sol batendo direto na pele e o barulho da água misturado às risadas das famílias foram um convite para o sono e ele só percebeu que havia cochilado quando abriu os olhos e o céu já estava tingido de tons laranjas e rosados. O quintal estava praticamente vazio, as vozes haviam sumido e só restava o som suave de alguém nadando. Ergueu o tronco lentamente, piscando para ajustar a visão, e percebeu que ainda estava na piscina, deslizando pela água com leveza, enquanto o cabelo, agora solto e encharcado, grudava nas costas. Seus olhos encontraram com os dela e ele desviou, pigarreando, como se precisasse lembrar a si mesmo de respirar.
— Dorminhoco. — Provocou, nadando até a borda mais próxima de . — Acordou renovado?
— Nem percebi que o tempo passou. — Ele respondeu, ainda um pouco sonolento. — Sempre foi assim… desligado do que acontece ao redor. — Ela apoiou os braços na borda da piscina, o corpo ainda submerso e os olhos fixos nele.
a encarou por alguns segundos e se abaixou em sua direção.
— Por que você ainda tá aí? — Perguntou, tentando manter o tom neutro, e deu de ombros.
— Tava gostando do silêncio. É raro… e, sei lá, acho que precisava ficar um pouco sozinha.
— Entendi.
— E você? Ainda o mesmo certinho de sempre? — Inclinou levemente a cabeça, o analisando.
— E você? Ainda fazendo de tudo pra chamar atenção?
— Talvez… — Ela sorriu, dessa vez mais contida. — Mas, às vezes, talvez eu só queira que alguém preste atenção de verdade. — Aquela frase parecia despreocupada, mas os olhos diziam o contrário. E, antes que ele pudesse responder, mergulhou novamente, nadando até o outro lado da piscina. Quando voltou, o olhar já estava diferente, como se estivesse arrependida de se expor. — Vai entrar ou vai continuar só olhando?
Ele hesitou por um instante, mas não se afastou.
— Tá me provocando desde que cheguei aqui.
— E você tem reclamado? — nadou de costas com calma, os olhos presos nos dele, até parar no centro da piscina. — Tá me olhando como se estivesse vendo algo que não devia.
— Talvez eu esteja.
— Talvez eu queira que você veja.
A tensão se instalou entre os dois, densa como o ar antes de uma tempestade. E então, sem que pudesse reagir, foi puxado pelo braço e perdeu o equilíbrio, caindo de cabeça na água gelada. Ele emergiu com uma expressão furiosa.
— Você é insuportável, sabia?
— Foi mal, . — Ela disse com um sorriso sacana, mordendo o lábio inferior. — Não resisti.
ainda a encarava com um olhar de raiva misturado a uma irritação quase prazerosa, mas, antes que pudesse retrucar, já o desafiava novamente com uma piscadela, mergulhando rapidamente e surgindo ao seu lado com a água batendo na superfície. Ele a seguiu, sem pensar muito no que estava fazendo, e logo estavam em uma verdadeira guerra de água, gritando, se jogando na piscina, tentando afundar o outro. A cada movimento, a proximidade deles aumentava e as mãos dela o tocavam de forma casual, mas, para , era como se fosse marcado por algo mais. Quando finalmente subiu para a superfície, sentou na borda e pegou uma toalha para se secar, sentindo o olhar de o seguindo. Antes que pudesse se dar conta, estava tirando a blusa, percebendo o olhar dela fixo nos músculos de seu torso, e, por um momento, teve a impressão de vê-la mordendo o lábio inferior, como se estivesse tentando esconder o interesse.
— O que foi, ? — Perguntou com um sorriso desafiador, tentando mascarar a intensidade do momento, e ela apenas deu de ombros, como se nada tivesse acontecido, apesar de seu olhar ainda a trair.
Antes que algo mais pudesse acontecer, o barulho de uma cadeira caindo e pessoas correndo por dentro da casa quebrou a tensão, fazendo-o se levantar rapidamente, enquanto continuou na piscina, com um sorriso torto no rosto.
fechou a porta do quarto com um leve empurrão, ainda sentindo a água escorrer pelos cabelos e costas. Passou a toalha pendurada nos ombros pelo rosto com força, como se quisesse apagar a lembrança da risada dela, que ecoava em sua cabeça.
Aquela risada… maldita risada.
Deixou-se cair na cama por alguns segundos, tentando recuperar o fôlego, mas algo o fez levantar o olhar. Uma voz suave vinda da parede fina ao lado, cantarolando baixinho, quase como se estivesse sussurrando uma melodia para ninguém mais além dela mesma. Se apoiou nos cotovelos, encarando o teto, ouvindo o som da água do chuveiro misturado àquela voz, e, por um instante, esqueceu que era , da provocação na piscina, do olhar debochado, do jeito insolente. Era apenas uma voz bonita, que ele desejava ouvir de novo, e de novo…
Mas então a imagem veio, rápida e crua.
nua, as mãos ensaboando o próprio corpo, os cabelos deslizando pelas costas, a pele molhada, os lábios entreabertos enquanto a água escorrendo por cada curva… O garoto se sentou bruscamente, como se aquilo fosse o suficiente para dissipar o calor repentino que tomava conta.
— Merda… — passou as mãos pelo rosto, frustrado com a própria mente. Tentou afastar a imagem, respirar fundo, mas seu corpo já havia respondido antes da razão conseguir impedir. O gosto da provocação ainda estava na pele e aquela maldita voz era como combustível para um desejo que crescia, inevitável. E, por mais que odiasse admitir, estava ficando cada vez mais difícil lembrar o motivo de querê-la longe.
Depois de tomar uma ducha rápida, desceu para o jantar, dando de cara com todos na mesa, e seu olhar desviou diretamente para , que estava sentada com a postura impecável, rindo de algo que Stella havia dito. Usava um vestido curto de alças finas, a pele bronzeada do sol e os cabelos caindo soltos, ainda um pouco úmidos do banho. Ele engoliu seco, desviando o olhar rapidamente, mas não antes de notar o jeito que ela o olhava de volta – não de um jeito descarado, mas também não era inocente.
— Ficou bem depois da guerra na piscina? — A garota perguntou, inclinando-se levemente para o lado, como se estivesse só sendo simpática.
— Teria ficado melhor se não tivesse sido puxado de forma tão covarde. — Respondeu, cortando o pedaço de carne no prato com um pouco mais de força do que o necessário.
— Ah, que drama. Só me agradeça por te refrescar… acho que cê tava precisando. levantou os olhos dessa vez, encontrando os dela por um segundo a mais do que devia, e desviou primeiro, mas não sem antes deslizar o pé pelo chão bem de leve, até tocar o dele por baixo da mesa. O contato havia sido breve, quase imperceptível, mas o suficiente para os músculos de sua coxa contraírem imediatamente. O jantar seguiu com conversas aleatórias sobre negócios, projetos e shows, mas, para ele, havia só um foco naquela mesa: a pele dourada de , os lábios vermelhos, as provocações mascaradas, o maldito cheiro de shampoo que emanava de seus cabelos. Para ela, só existiam os olhos escuros a fitando com atenção cada vez que se inclinava demais ou deixava a alça do vestido cair sutilmente pelo ombro.
Era um jogo discreto. E estava só começando.
Já passava da meia-noite quando desceu as escadas em busca de um copo d’água antes de tentar dormir novamente. Usava apenas uma calça moletom, o torso nu e os pés descalços pisavam no chão frio. Abriu a geladeira, mas parou ao escutar passos atrás de si.
— Tá com calor, ? — A voz de ecoou na porta da cozinha e ele se virou, tentando não encarar o pijama de cetim que moldava perfeitamente o corpo dela – um short minúsculo, uma blusa fina demais, justa demais e… sem sutiã. Ela, por outro lado, não disfarçava o olhar descarado em sua direção. — O que te fez vir até a cozinha a essa hora, sem camisa? — Perguntou, ao mesmo tempo em que foi direto para a geladeira, se abaixando mais do que o necessário para pegar alguma coisa.
— Vim só pegar água. — Ele desviou o olhar, mordendo o canto da bochecha. se aproximou, agora com um prato de brigadeiro em uma mão e uma garrafa d’água na outra.
— Ah, que coincidência… — deu um gole direto da garrafa, enquanto os olhos percorriam seu abdômen. — Fica à vontade. — Estendeu a garrafa, mas apoiou as mãos no balcão atrás dela, o corpo exalando calor.
— Você sempre anda assim pela casa? — Perguntou sem desviar os olhos, a voz mais rouca do que o normal.
— Assim como?
— Você sabe como.
— Vai ter que ser mais claro… essas roupas incomodam?
— Acho que você sabe exatamente o que elas fazem.
— Eu durmo assim desde sempre. Não é minha culpa se isso… te afeta. — Seu olhar alternava entre o rosto dele e o peito nu, claramente provocando.
— Você adora brincar com fogo, né?
Ela diminuiu mais ainda o espaço, os olhos agora cravados nos dele, brilhando com desafio.
— E você tá morrendo de vontade de se queimar.
— … — ele provocou, observando-a passar a língua lentamente pelos lábios, mas, antes que pudesse terminar, passos leves cortaram o clima, fazendo-o tirar as mãos automaticamente do balcão.
— ? — Stella surgiu na porta. — Pegou o brigadeiro?
A garota recuou um passo, como se nada tivesse acontecido, e sorriu para a mais nova.
— Claro, e peguei água também. A gente vai ver um filme e lanchar ali na sala, … quer vir? — Ela o olhou com naturalidade, como se não tivesse acabado de quase o deixar louco.
— Tô cansado. Fica pra próxima. — Respondeu, a voz mais seca do que gostaria. deu um sorriso suave, como se guardasse um segredo, depois virou-se e desapareceu no corredor com Stella, deixando para trás o calor, a provocação e tentando controlar os próprios pensamentos.
Ela vai me enlouquecer.
No dia seguinte, durante o café da manhã, os mais velhos decidiram passar o dia na praia, com Cláudia aproveitando para alfinetar a filha, dizendo que “estava precisando de um pouco de sol, por viver trancada no quarto”. tentava se distrair com a conversa dos adultos, a paisagem, qualquer coisa que não fosse , que parecia ter saído diretamente de um editorial de verão, vestindo um biquíni minúsculo por baixo de uma canga transparente, o cabelo preso em um coque alto e os óculos escuros cobrindo os olhos. Tirou a camisa com naturalidade quando foi se juntar a um grupo de jovens que o chamou para jogar futevôlei na areia, revelando o abdômen definido pelo tempo na academia, a pele já bronzeada e algumas gotas de suor escorrendo pela têmpora. , sentada debaixo do guarda-sol ao lado da irmã dele, ergueu os óculos-escuros e simplesmente observou.
— Eca, você tá babando. — Murmurou Stella, rindo.
— Cala a boca. — Ela respondeu baixo, mordendo o lábio inferior, sem desviar os olhos.
Enquanto jogava, viu, pelo canto de olho, se juntar ao grupo. Duas garotas pareciam particularmente interessadas, puxando assunto, elogiando seus saques no jogo, mas ele só conseguia reparar em rindo, jogando o cabelo para trás, flertando sem dizer uma palavra. No intervalo, ela passou ao seu lado com um copo de água e comentou em tom casual:
— Cê joga bem… quando não tá distraído.
— E quem disse que eu tava distraído?
— Devia saber mentir melhor, … — sussurrou, roçando levemente os dedos em suas costas, como se tivesse tocado por acidente, e passando direto por ele.
Depois do jogo, o grupo ainda ficou espalhado pela areia em conversas soltas, risadas abafadas e algumas cantorias ao redor da fogueira.
— Vai ter uma festa mais tarde na casa de um amigo nosso. — Disse uma das garotas, olhando para . — Vocês deviam ir.
— Eu adoro festas! — Exclamou, animada, e levantou uma sobrancelha, já antecipando a resposta dela. — Vamos, gente?
— Eu… — ele começou, pronto para dizer “não”, até Stella aparecer pulando ao lado.
— Vai ser legal, vamos sim! — Olhou para o irmão, o repreendendo. — Todo mundo vai.
— Tá bom… — soltou um suspiro leve, passando a mão no rosto. — Mas é só pra ficar de olho em você.
À noite, a casa da festa estava iluminada por luzes coloridas, o som de músicas animadas preenchendo os cômodos e a varanda cheia de gente. estava com um vestido curto com um decote discreto, que fazia olhar duas vezes, mesmo contra a vontade. Ele parecia deslocado – ou talvez fosse só o desconforto de vê-la ser o centro das atenções mais uma vez. Observou de longe quando um dos garotos do grupo a levou para dançar, sentindo o corpo enrijecer ao prestar atenção na forma como ela rebolava ao som da música, fazendo questão de manter o olhar nele. Depois de um tempo, se aproximou rindo ofegante, suada e o cabelo um pouco bagunçado, segurando dois copos.
— Tá com sede? Eu tô… — lhe ofereceu um dos copos. — Relaxa, é só refri… por enquanto. — Ele apenas assentiu, pegando a bebida e dando um longo gole. — Tá mesmo aqui só pra vigiar sua irmã?
— Tô tentando… mas você não colabora.
— E desde quando eu colaboro, ? — Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, perto demais, os corpos quase se encostando. — Quer dançar? — Perguntou, de repente, e hesitou, mas ela já o puxava pela mão.
— Só uma música… — respondeu, como se estivesse dando permissão a si mesmo. E então, no meio da multidão, com os olhos trancados um no outro, começaram a dançar. Ele sentia o calor dela contra o seu corpo, a respiração misturada com a sua, o perfume suave que a envolvia – estava provocante sem nem precisar tentar. Cada movimento fazia seu coração bater mais rápido e, por mais que tentasse se controlar, sentia que estava perdendo a batalha. passou a mão pela cintura dela, puxando-a um pouco mais para perto, e viu os olhos dela brilharem, como se estivesse esperando por isso.
— Cansou de fugir de mim, ?
— Como eu vou fugir, se você faz questão de se esfregar na minha cara o tempo todo?
— Talvez porque eu goste de ver a sua cara perder a compostura por minha causa.
— Se continuar falando assim, … — apertou a cintura dela com mais força. — Vai fazer o quê?
Ele estava prestes a fazer algo que provavelmente se arrependeria – algo que estava se tornando inevitável – mas, no momento exato em que impulsionou o corpo para frente, sentiu uma pressão nos ombros.
— Gente, desculpa interromper, mas… a Stella tá passando mal.
Os dois se afastaram no mesmo segundo, como se tivessem levado um choque, e voltaram a atenção para a menina, que estava ofegante.
— Onde ela tá? — perguntou, sério.
— Lá fora. Disse que tá meio tonta, enjoada… acho que exagerou na bebida.
Ele bufou e seguiu apressado, com em seu encalço, encontrando a irmã sentada no meio-fio, pálida e encolhida, com uma garrafinha de água nas mãos.
— Você tá bem? — Se agachou, tocando o ombro da mais nova.
— Tô… só meio zonza. — Ela respondeu, evitando o olhar do irmão.
agachou ao lado da menina, segurando sua mão e dando um sorriso tranquilizador.
— Primeiro porre? Bem-vinda ao clube.
a reprovou com o olhar, mas não disse nada, e, com a ajuda dela, levantou Stella. Assim que chegaram em casa, a bronca começou:
— Isso foi ideia de vocês duas! — Disparou, com o maxilar travado. — Meu Deus, se nossos pais descobrirem, a gente tá ferrado.
— Relaxa, ela tá bem. Só tomou uns goles a mais. Isso acontece com todo mundo… — tentou apaziguar, tirando os sapatos com toda calma do mundo. — Você sempre vai ser assim, careta? Deixa a menina ter o primeiro PT dela, . Não é como se ela estivesse cometendo um crime. — Completou, encarando-o com um sorriso debochado.
bufou, ajudando a irmã a subir as escadas. Assim que saíram do quarto de Stella, a tensão voltou a crescer, agora temperada por uma mistura de preocupação e irritação.
— Eu só espero que meus pais não descubram. — Passou a mão pelos cabelos, nervoso.
— Quanto anos você tem, em? — encostou na parede do corredor com os braços cruzados e um sorriso travesso nos lábios. — Vem cá, o que você iria dizer se descobrissem? Que não viu sua irmã passando mal porque estava se esfregando comigo na pista de dança?
— Eu não estava me esfregando… — ele tentou soar firme, mas sua voz já estava rouca, com um misto de frustração e desejo.
— Não? Porque parecia bastante… envolvido.
Ficaram ali, parados no corredor, o silêncio cheio de tensão. Ele queria dizer mais alguma coisa – ela queria que ele tentasse – mas deu um passo para trás.
— Boa noite, . — Disse, seco, virando para ir em direção ao próprio quarto. — Dorme bem, .
Mas ele não dormiu bem. Nem um pouco.
O dia seguinte amanheceu claro e abafado, típico de quando o calor insistia em se acumular antes de uma tempestade. Ao descer, ouviu vozes na cozinha, se aproximou em silêncio e parou na porta, observando a cena por alguns segundos: sentada ao lado de Stella, que estava de cara amassada, óculos escuros e uma xícara de chá nas mãos.
— Bebe mais água, eu juro que funciona… — disse, enquanto empurrava uma tigela com frutas na direção da mais nova. — Vai passar logo, tá?
Ele pigarreou para anunciar sua presença e as duas viraram imediatamente.
— Bom dia, irmãozinho. — Stella cumprimentou, com a voz arrastada.
— Bom dia. Tá melhor?
— Tô viva, o que é um milagre. — Respondeu, rindo fraco.
— Eu cuidei bem dela. Não deixei nem seus pais perceberem. — forçou um “obrigado”, enquanto se servia de café, e tentou evitar qualquer contato visual, mas parecia determinada a testar seus limites. — De nada… e não se preocupa, guardo segredos melhor do que você pensa. — Completou, jogando uma uva na boca e lançando aquele sorriso que sempre o tirava do sério.
Depois do café, decidiram fazer uma trilha leve até uma cachoeira próxima. Os adultos estavam animados e até Stella, que ainda parecia meio sonolenta, tentou disfarçar a cara de ressaca com óculos escuros e um sorriso sem entusiasmo. caminhava alguns passos à frente, com um short curto e uma regata colada que parecia ter sido escolhida a dedo. Era notável o jeito como o sol atravessava as folhas das árvores e batia em seus ombros dourados, o cabelo preso de forma displicente e o andar leve. Apesar disso, parecia determinado a ignorá-la – evitava os olhares, andava à frente ou atrás do grupo, mas nunca ao seu lado – até que um comentário despertou o fogo que ele tentava controlar:
— Espero que tenha trazido protetor. Tava quase vermelho ontem. — Passou a mão distraidamente em seu ombro nu – ele usava uma bermuda e uma regata leve. — Mas qualquer coisa posso emprestar o meu… seria uma pena se você descascasse e perdesse esse bronze bonito.
Fechou os olhos por um segundo.
Respira, .
— Você realmente não consegue passar um dia sem me provocar, né?
— E você realmente não consegue relaxar um pouco, né?
— Relaxar não significa assistir minha irmã passando mal porque quis brincar de descolada com você por perto.
— Ah, claro. Porque ela não faria nada sozinha, né? Foi tudo culpa da bruxa aqui. — apenas revirou os olhos, tentando se afastar, mas insistiu. — Acha mesmo que vai conseguir evitar olhar pra mim o dia todo? — Sussurrou ao se aproximar mais dele, quando o grupo parou para descansar.
— Nem me dou o trabalho… — ele rebateu, mesmo sem encará-la. — Você não me deixa em paz.
— Bom, pelo jeito que os seus olhos percorrem o meu corpo, acho que você também não me deixa em paz.
Ele apenas seguiu andando, mais rápido dessa vez – como se fugir da trilha fosse fugir dela – mas o caminho era longo, cheio de desvios e, no calor de uma discussão boba – ela tinha pego a última barrinha de cereal que ele queria – acabaram se distanciando do grupo sem nem perceber, até que tudo ficou silencioso demais, sem risadas à frente, sem vozes atrás. Quando se deram conta, estavam sozinhos.
— Espera… onde eles estão? — parou de andar.
olhou ao redor, com uma expressão de leve confusão, encontrando apenas a vegetação densa e o som de algum riacho distante.
— Deixou a gente sair da trilha, ?
— Eu deixei? Você que veio provocando, como sempre, e agora estamos perdidos! — Culpa sua. Anda feito um cavalo quando quer me evitar. — Antes que ele respondesse, uma chuva repentina e intensa os pegou desprevenidos. — Genial. Agora vamos virar dois ratos encharcados no meio do mato.
— Calma, dramática. Eu vi uma estrutura de madeira ali atrás. Acho que era uma área de descanso. — indicou com a cabeça a direção do local.
Correram lado a lado, até encontrarem um abrigo simples de madeira, com bancos e uma cobertura velha que estalava a cada gota. Molhados, ofegantes e ainda irritados, se encararam em silêncio por longos segundos, enquanto a chuva engrossava. encostou na madeira, o peito subindo e descendo rapidamente, algumas mechas de cabelo colando na testa e a regata encharcada, realçando cada curva.
— Acha que vão sentir nossa falta? — Perguntou, notando a maneira que o olhar de passeava por seu corpo, apesar dele tentar disfarçar.
— Depois que a chuva passar, provavelmente vão notar que os dois que vivem discutindo sumiram.
— Não é como se você fosse a companhia mais agradável do mundo, sabe? — E quem disse que eu queria a sua companhia? Mas você… sempre faz isso. — Isso o quê? — Ela se aproximou meio passo, sem pressa.
— Me tirar do sério.
sorriu, mordendo o lábio inferior.
— Ainda assim, você veio correndo comigo… achei fofo.
— Não se acostuma.
— Muito tarde pra isso. — Ela passou as mãos pelos braços, tentando se aquecer um pouco, mas o vento gelado parecia se intensificar a cada segundo.
— Tá com frio? — perguntou depois de algum tempo em silêncio, percebendo seu desconforto, e ela apenas deu de ombros como resposta. Então, sem pensar muito, aproximou-se mais, quase como uma reação instintiva, e colocou a mão nas costas dela. — O calor do corpo humano ajuda a esquentar.
— O seu corpo tá bem quente, né? — o olhou de cima a baixo, o tom provocador evidente, fazendo-o revirar os olhos.
— Se não calar a boca, vou te deixar passando frio… aí você vai ver o que é bom.
— Tá achando que me intimida assim? — Ela se aproximou, o sorriso ainda mais largo. — Mas tem razão… talvez fosse melhor se a gente tirasse as roupas… só pra facilitar. Ele se aproximou mais, até estarem a poucos centímetros de distância, e desceu as mãos até a cintura dela, apertando-a contra si.
— Você quer brincar, ? — Perguntou em voz baixa, cada palavra carregando um peso que ele mal conseguia segurar. — Cuidado com o que provoca…
— Ah, … e se for exatamente isso que eu queira? Cê parece tão tentado a jogar meu jogo. — Ela sussurrou, desafiadora.
Um trovão estourou no céu, mas nenhum dos dois se mexeu. levantou a mão, devagar, roçando os dedos na lateral do rosto dela, descendo até o pescoço úmido, fazendo-a fechar os olhos por um segundo, como se sentisse cada milímetro do toque. — Isso é uma péssima ideia…
— As melhores ideias geralmente são.
Foi ela quem encurtou o último centímetro, encostando os lábios de leve, quase uma dúvida, mas que só durou um instante. Logo, o beijo se intensificou e a prensou na madeira, colando mais seus corpos. deixou escapar um suspiro e deslizou as mãos por baixo da regata dele, explorando os músculos que antes só admirava de longe. Outro som de trovão cortou o clima, mas os dois só se afastaram depois de alguns segundos, quando já estavam sem fôlego.
— Isso… não devia ter acontecido. — Ele a encarou, lutando contra o desejo de puxá-la de volta e a tensão que tomava conta.
— Tem certeza? Porque eu tô achando que isso é só o começo… — deu um sorriso divertido, os lábios ligeiramente inchados e ainda ofegante. — Relaxa, certinho. Ninguém vai saber.
— É isso que me assusta… — foi quando ouviram um assobio distante, interrompendo o momento, e olharam um para o outro, quase se reconhecendo pela primeira vez em silêncio. Então, deu um passo atrás, respirando fundo. — Vamos voltar.
apenas assentiu, com um sorriso leve no rosto, mas sem dizer mais nada. Eles se afastaram devagar, recuperando o fôlego, e saíram da área coberta sem dizer uma palavra. O som da chuva diminuía gradualmente e a temperatura começava a melhorar, enquanto eles caminhavam lado a lado em um silêncio estranho, tentando processar o que tinha acabado de acontecer. Chegaram ao ponto onde haviam se afastado do grupo, já avistando Stella ainda tentando disfarçar a ressaca e os adultos conversando ao lado, tão distraídos que nem exigiram explicações do que tinha acontecido.
— Que bom que voltaram. — Letícia comentou, sorrindo, não notando a atmosfera pesada entre os dois.
apenas sorriu de volta e se jogou em uma conversa com a mais nova, como se nada tivesse acontecido, enquanto se afastou ligeiramente, não querendo deixar transparecer o quanto seu corpo ainda lembrava de cada instante daquele beijo, de cada toque. O grupo seguiu com o passeio, os minutos se arrastando, até a chuva finalmente parar e o sol se mostrar timidamente entre as nuvens, iluminando a praia com uma luz dourada que deixava tudo ainda mais quente.
Mais tarde, estava deitado na cama, o ventilador girando preguiçoso no teto e o som abafado das ondas vindo ao longe. Tentava se distrair com qualquer coisa no celular, até que o algoritmo fez seu trabalho: tinha acabado de postar uma sequência de fotos da trilha. Na última imagem, estava sozinha, sorrindo, com o cabelo preso de qualquer jeito e a pele ainda marcada pelas gotas da chuva. A legenda dizia: Me perdi, mas sobrevivi. Obrigada pela preocupação (zero) dos envolvidos. arqueou uma sobrancelha e mandou uma mensagem privada:
: De nada.
: Não postou foto do nosso beijo?
: Sua fama de certinho não combina muito com beijos no meio da mata.
: É que você desperta esse meu lado perigoso.
: Engraçado, não vi nenhum perigo ali…
: Só senti sua mão tremendo.
: Tremendo?
: Tava te segurando pra não fazer coisa pior.
: Tipo o quê?
: Tipo te deitar naquele chão molhado e descobrir o que você aguenta antes de implorar.
Ele imaginou que talvez tivesse passado do ponto, mas, apenas a metros de distância, se sentou na cama em um salto, sentindo todo o calor voltar para seu corpo ao imaginar aquela cena. Ela estava se divertindo mais do que imaginava e, apesar do resto do corpo gritar para continuar com aquela provocação, seus dedos digitaram outra coisa:
: Boa noite, .
: Melhor você dormir…
: Tá começando a sonhar acordado.
deixou o celular no criado-mudo, os olhos fixos no teto e respirou fundo. Até tentou dormir, mas, assim que fechou os olhos, a imagem vívida de invadiu sua mente. No sonho, eles estavam na praia deserta, molhados pela chuva, os corpos colados e as roupas desaparecendo como mágica. As mãos dela percorriam seu corpo, a boca quente no pescoço, os sussurros no ouvido… acordou abruptamente com os lençóis bagunçados ao redor da cintura, tentando controlar a respiração descompassada enquanto sentia a ereção pulsar em seu shorts de modo quase palpável.
— Que merda… — levou a mão ao rosto, irritado.
Quando saiu do quarto, a casa estava silenciosa, com exceção do som abafado vindo da cozinha. Assim que entrou, viu de costas, com o cabelo preso em um coque bagunçado, mexendo em algo na bancada. Vestia uma blusa larga e um short simples, mas, mesmo assim, parecia ter o poder de tirar sua atenção.
— Bom dia… — Oi, . Dormiu bem? — Perguntou em um tom doce demais, virando para ele. — Melhor do que esperava. percebeu que se movia mais rígido do que o normal e, com um olhar rápido, notou que a tensão das mensagens trocadas parecia ainda estar ali, não conseguindo evitar um sorriso debochado.
— É, tô vendo… — se apoiou na bancada, descendo os olhos pelo corpo dele, até parar no short. — … ou será que o calor da manhã tá te deixando animado?
— Não é o que você tá pensando. — Respondeu, forçando um tom casual, mas a garota não pareceu tão convencida.
— Ah, pensei que esse… efeito… tivesse sido causado pelas mensagens de ontem. — Ela se aproximou lentamente, o sorriso alargando aos poucos, como se estivesse se divertindo cada vez mais com aquela situação. — Você não sonhou comigo, né?
Naquele momento, Stella entrou na cozinha, completamente alheia a tudo, forçando-os a se afastar. se virou novamente para a bancada e fingiu estar super interessado nos pratos da pia, enquanto ela pegava uma maçã na fruteira, murmurando apenas um “bom dia”. Assim que a irmã saiu, aproveitou a brecha e se aproximou por trás de , pensando-a contra a bancada.
— É, eu sonhei com você… — murmurou contra a orelha dela, com a voz absolutamente indecente. — E foi gostoso pra caralho.
Ela suspirou, os lábios se separando ligeiramente enquanto sentia perfeitamente o efeito que o sonho causara nele pressionado contra seu corpo. A sensação a fez morder o lábio inferior com força, tentando disfarçar a reação.
— E você vai fazer alguma coisa sobre isso?
Foi o estopim.
começou a distribuir beijos lentos e molhados, desde o pescoço, até as costas dela, enquanto as mãos passeavam pelo corpo de , apertando seus quadris e subindo pelas curvas, até alcançarem os seios por cima da camiseta fina. Ela soltou um suspiro trêmulo e mordeu ainda mais forte o lábio inferior para conter o gemido que ameaçava escapar, sentindo sua calcinha começar a encharcar.
— … — sussurrou com a voz falha, a respiração quente dele arrepiando tudo em seu caminho.
— Você me provoca tanto, … — ele murmurou, deslizando as mãos por baixo da camiseta dela. — Um dia ainda vou te fazer implorar.
virou o rosto de leve, os olhos encontrando os dele com uma mistura de provocação e entrega, mas, antes que qualquer um dos dois pudesse dizer mais alguma coisa, passos apressados soaram do corredor: Stella. Se afastaram no mesmo segundo, como se nada tivesse acontecido, tentando recuperar o fôlego e esconder a tensão evidente no ar. mal conseguiu se mover quando ela saiu da cozinha, os dedos ainda formigando pela vontade que tinha de continuar tocando-a, o cheiro dela pairando no ar, a voz provocante… tudo o deixava mais duro do que gostaria de admitir. Foi direto para o banheiro, abrindo o chuveiro no frio, e, imediatamente, cada cena voltou à tona, como se estivessem sendo projetadas bem ali, na parede do banheiro – ela mordendo o lábio quando ele a pressionou contra a pia, a bunda se encaixando perfeitamente nele, os olhos implorando por mais, mesmo sem dizer uma palavra.
— Merda… — murmurou, batendo a cabeça levemente na parede do box.
Que tipo de inferno era aquele?
Mesmo com a água gelada escorrendo por sua nuca, o calor não diminuía. Sua mão deslizou pela pele desnuda, tocando lugares que ainda estavam quentes, até parar num ponto específico, e ele fechou os olhos, imaginando que era o tocando, a sensação sendo tão realista que quase dava para ouvir o som da voz dela sussurrando em seu ouvido. Aumentou os movimentos, até finalmente explodir de prazer, o nome dela saindo em sussurros junto com alguns grunhidos abafados. Saiu do chuveiro ainda frustrado e passou as mãos no cabelo, se jogando na cama ainda nu e encarando o teto escuro.
Durante o jantar, tentava, com todas as forças, manter o foco na conversa casual com os pais, mas , sentada à sua frente, fazia questão de dificultar tudo. Ria alto, cruzava as pernas devagar demais, deixava os lábios entreabertos e os olhos presos nele de um jeito que só ele parecia perceber. Como se não bastasse, sentiu a pressão sútil do pé dela na perna, subindo pela panturrilha, até alcançar sua coxa, quase derrubando a taça de vinho com o susto. A garota levou uma garfada à boca, fingindo prestar atenção na conversa enquanto provocava por debaixo da mesa e, quando ele lhe lançou um olhar atravessado, mordeu o lábio inferior com a maior cara de anjo do mundo. , aproximou a mão discretamente e prendeu o tornozelo de com um movimento rápido, lançando um olhar cheio de malícia para ela, que quase engasgou, tentando puxar o pé de volta, mas sem sucesso.
— Você começou isso. — Sussurrou, só para ela ouvir
— E você é competitivo, pelo visto. — A garota se inclinou na cadeira, como se fosse apenas ajustar a postura, e roçou o pé discretamente na coxa dele.
— Você tá pedindo, sabia?
— Tô pedindo o quê?
— Que eu levante dessa mesa e te leve pro quarto.
O sorriso que ela deu foi lento, quase vitorioso, e seus olhos baixaram por um segundo até os lábios dele. Então, inclinou-se um pouco mais sobre a mesa, fingindo que ia pegar a taça, e sussurrou:
— Você não tem coragem.
— Quer pagar pra ver?
mal teve tempo de responder ao sentir os dedos dele vagarem preguiçosamente pela pele exposta de sua canela, soltando um suspiro disfarçado. O olhar trocado entre os dois era elétrico e silencioso. Do outro lado da mesa, a conversa dos adultos seguia seu ritmo, até que um comentário dos pais de fez a atenção de todos se voltar para o rapaz:
— A gente fica tão orgulhoso dele. Tá começando a assumir algumas responsabilidades maiores na empresa do pai. — Letícia disse, olhando para o marido, que assentiu.
— O sempre teve certeza do que queria. — O mais novo sorriu em concordância, apesar da única certeza que tinha naquele momento ser a de o que queria despertar em . — Já é um exemplo para a Stella, quando ela começar a faculdade ano que vem.
A matriarca da família assentiu, olhando com aprovação para , que ainda prendia o tornozelo dela, fingindo estar completamente alheio à tensão entre eles. — Realmente, um ótimo exemplo. Inclusive, filha? — Cláudia voltou o olhar para , que se endireitou tão rápido que quase derrubou o garfo.
— Quê?
A mãe franziu o cenho, sem entender aquela reação, mas continuou:
— Podíamos conversar depois sobre isso. Você precisa começar a pensar no seu futuro com mais seriedade.
piscou, o sorriso morrendo na mesma hora, e se ajeitou na cadeira, puxando o pé de volta devagar.
— É sério que quer falar sobre isso agora?
— E por que não agora? Estamos todos aqui, conversando sobre a vida… você podia se inspirar um pouco no , né?
— Claro, o é um exemplo. Um verdadeiro modelo de perfeição… — rebateu, a voz carregada de ironia.
— O que eu quero dizer é que já tá na hora de parar de brincar de viver de música. Cantar bem não é sinônimo de sucesso.
— Mas já é um começo, né?
— Filha, a gente só quer te ver bem. Você sabe que esse meio é instável, competitivo… temos medo de te ver frustrada. — Henrique tentou intervir, com um tom mais compreensivo.
— Uau… — ela soltou uma risada seca. — Então talvez devessem ter pensado nisso antes de me colocarem numa escola de música aos cinco anos… ou será que vocês achavam que eu faria tudo aquilo só pra cantar no chuveiro?
— A gente fez o melhor pra você! — Claudia pareceu se ofender. — Queríamos que tivesse uma boa formação!
— Ah, claro! Me deram tudo do melhor, menos o direito de escolher o que eu queria fazer com isso depois. Quando eu era mais nova, tudo o que me cobravam era ser a filha exemplar… pensei que com o tempo isso pararia, mas vocês ainda querem que eu siga o roteiro que escreveram pra mim.
— Você tá sendo ingrata, . — Disse o pai, visivelmente incomodado.
— Não, eu tô sendo honesta. Sempre tentei agradar vocês, mas chega uma hora que a gente cansa de viver tentando cumprir as expectativas dos outros… — ela respirou fundo, a voz vacilando por um segundo, mas logo voltando firme. — Vocês falam de mim como se eu fosse uma irresponsável, uma vagabunda que acorda tarde e espera que a vida caia no colo. E, sim, eu tive o privilégio de nascer com o famigerado sobrenome “”… — a voz saiu com ironia. — Mas tem ideia do quanto eu me esforço? Do quanto eu tô dando o máximo por isso? — Seu olhar passeou pela mesa, encarando os pais. — Eu tô fazendo faculdade e, pasmem, me virando com bico para pagar minhas próprias coisas, estudando música, correndo atrás de cada oportunidade… e nada disso me faz menos digna de respeito.
— … — Henrique tentou falar, mas ela continuou.
— Acham que é fácil viver com esse peso nas costas? Carregar o talento que vocês mesmos alimentaram em mim e depois ouvir que é tudo besteira, que não vai dar em nada? Eu não sou um fracasso, só não sou o que vocês queriam… e talvez isso doa mais em vocês do que em mim. — O silêncio que se seguiu foi pesado. olhou para ela com um misto de surpresa e admiração, sua irmã mordeu o lábio para conter um comentário, enquanto o resto da mesa evitava o contato visual. — Mas tudo bem… a gente finge mais um pouco. — Ela se levantou em um pulo, empurrando levemente a cadeira para trás. — Com licença. Vou para o meu quarto, como a boa artista frustrada que sou… aproveitem o jantar. — fez uma reverência, como se estivesse agradecendo aos convidados por terem ido ver o seu espetáculo, e saiu da sala sem olhar para trás, deixando o silêncio tomar conta da mesa por alguns longos e torturantes segundos.
— Ela sempre foi… intensa. — Cláudia deu um riso forçado, pousando a taça com mais força do que o necessário, como se tentasse controlar a própria culpa. Os olhos, antes firmes e críticos, agora carregavam um traço de mágoa, enquanto o marido fingia se ocupar com o guardanapo no colo.
— Talvez ela só queira ser ouvida. — A mais nova murmurou, quase num sussurro, mas alto o suficiente para todos escutarem.
— Stella… — a mãe repreendeu.
manteve os olhos fixos no prato à sua frente, mas sua mente estava a mil, tanto pela provocação escondida embaixo da mesa, quanto pela pontada incômoda de empatia que sentiu por . Sempre a imaginou sendo uma garota convencida, totalmente sem escrúpulos e que tinha tudo o que queria, mas talvez seus pais realmente não a escutassem como deveriam. E, por mais que aquilo significasse que concordava com uma das pessoas mais irritantemente soberbas da face da Terra, tinha que admitir que ela estava certa.
— Vou… pegar mais água. — Anunciou, levantando-se subitamente, mesmo com o copo ainda cheio, e indo até a cozinha, evitando o olhar sugestivo da irmã, como se dissesse “eu sabia”.
parou em frente à porta do quarto de com um prato de comida em mãos e respirou fundo antes de bater.
— Agora não, pai. — A voz abafada da garota surgiu do outro lado da porta. sorriu de lado e respondeu com a voz baixa, mas audível: — Eu não me pareço muito com o seu pai.
Depois de uma pausa, ouviu o som do trinco girando e a porta se abriu devagar, os olhos de se arregalando levemente ao vê-lo ali com aquele prato improvisado nas mãos.
— O que cê tá fazendo aqui?
— Você não comeu quase nada. Achei que… talvez quisesse. — Levantou o prato numa tentativa de justificar a visita e, apesar de não parecer convencida, ela abriu passagem mesmo assim.
entrou, observando o ambiente com um misto de nostalgia e curiosidade. Era o mesmo quarto onde eles travaram inúmeras brigas por espaço, brinquedos e atenção quando crianças, mas agora tudo parecia diferente – mais feminino, mais maduro, mais . Colocou o prato na escrivaninha e sentou ao lado dela.
— Então? O que realmente veio fazer aqui?
A encarou por um segundo antes de responder:
— Ver se você tava bem. Sua mãe sempre foi meio mandona, rígida… principalmente com você. — Sorriu de canto ao se lembrar. — Quando a gente era mais novo ela já botava medo em todo mundo.
— Botava? Ainda bota… mas ela sabe que precisa de muito mais que isso pra me derrubar. — Ela retribuiu o sorriso, apesar de haver uma ponta de cansaço no olhar. — Você parece meio tensa… ouvi dizer que uma boa massagem ajuda muito nessas horas.
— É? Então mãos à obra. — Virou-se de costas para ele, abaixando um pouco a gola do moletom, e soltou um gemido de alívio ao sentir o toque lento em seus ombros. — Você é cheio de surpresas, né? Quais outros talentos, além de ser uma fogueira ambulante e um excelente massagista, gostaria de compartilhar?
— Ah, eu não diria que tenho muitos talentos. Mas você… — fez uma pausa, percebendo quando o rosto dela se inclinou levemente em sua direção.
— Eu…?
— Bem, você realmente canta bem.
— Tá tentando me convencer a cantar pra você agora, ? — provocou, apesar da mudança discreta em seu tom de voz.
— Tô falando sério. Você tem potencial pra ser uma grande cantora.
— Então você é meu fã número um? — Ela tentou usar o ar convencido de sempre, mas sentiu o coração errar algumas batidas e o rosto esquentar involuntariamente.
— Pode parecer estranho, mas eu te escutei cantando no banheiro esses dias… — ele deu de ombros, como se não pudesse evitar. — … e foi incrível. O que eu quero dizer… é inevitável ficar preso na sua voz.
Em você.
Mas ele não falou isso.
— Inevitável… — repetiu, sentindo aquela palavra ecoar por todo o corpo, e assentiu, o olhar fixo nela.
— Você sempre teve esse jeito de conquistar as pessoas… quer dizer, nem todos. sorriu com o comentário.
— Ah, mas eu acho que tô conseguindo te conquistar de outras formas.
— Não posso negar… — concordou, descendo as mãos lentamente pelas costas dela, até a cintura.
— Tá, então, você…
— Ih, lá vem. Deixa eu adivinhar, vai dizer que eu sempre tive cara de certinho?
— Sim… — virou levemente o rosto, curvando o canto da boca em um sorriso travesso. — Mas que tem um lado obscuro.
riu com a provocação, mas havia algo diferente em seus olhos agora – mais escuro, mais faminto. Voltou a subir as mãos, massageando os ombros de com um pouco mais de firmeza, e ela fechou os olhos, não pelo relaxamento, mas pelo calor que começou a subir por sua pele.
— Deixa eu pensar… você tem cara de quem não leva desaforo pra casa.
— E não levo mesmo. — Ela deu de ombros, sem culpa alguma. — Mas você… tem essa cara de que está sempre no controle, mesmo sem estar.
As mãos dele agora desciam pela lateral das costelas dela, os dedos roçando o tecido fino do moletom como se estivesse explorando sem pressa. O toque a fez morder o lábio, mas, ao invés de recuar, ajeitou a postura, como se desse espaço para ele continuar.
— Ah é? E você tem cara de encrenca… do tipo que os pais avisam pra gente manter distância, mas que ninguém consegue.
— Que elogio bonito. Já que é pra jogar tão baixo assim… você tem cara… — ela riu baixo, mordendo o canto do lábio antes de soltar: — … de que ficaria sem ar com um beijo meu. — Virou o rosto por completo agora, o nariz quase roçando no dele. — E realmente fica.
— Fico? — Ele apertou levemente a cintura dela, os olhos incendiando, e a garota assentiu com a cabeça em resposta. — Prova então…
não respondeu – não com palavras. Apenas se aproximou mais um centímetro, deixando que o próprio silêncio falasse quando seus lábios tocaram os dele. O beijo começou como uma provocação, mas logo o riso deu lugar à urgência, quando ele deslizou as mãos por suas costas, puxando-a mais para perto, até que estivesse no colo dele, uma perna de cada lado. Pressionou o quadril contra o de , que soltou um gemido abafado contra sua boca, e puxou a camisa dele, as pontas dos dedos roçando a pele de seu abdômen, fazendo-o gemer mais uma vez. Ele se apressou em adentrar o tecido grosso do moletom, explorando cada pedaço do corpo dela, antes de inverter as posições. Quando sentiu o volume dele pressionado contra sua intimidade, mordeu o lábio com força, tentando conter um gemido. Sabia que conseguia sentir o quanto estava molhada. Até que, de repente, ele parou, encostando a testa em seu pescoço, respirando com dificuldade.
— , a gente não devia… — afastou-se um pouco e ela abriu os olhos, os dedos ainda cravados nos ombros dele. — Você tá num momento vulnerável… brigou com seus pais, tá frustrada. Não quero que pense que eu tô me aproveitando disso.
Por um segundo, seu olhar mudou, o brilho da frustração aparecendo, seguido por uma pontada de incredulidade.
— É sério isso? Eu passei os últimos dias tentando te fazer perder o controle e, quando finalmente acontece, você me diz que eu tô vulnerável?
piscou, claramente pego de surpresa com a reação.
— Eu… só achei que talvez não fosse o momento certo, sabe?
o empurrou suavemente para o lado e sentou na cama, cruzando os braços.
— “Não fosse o momento certo”... pô, . Você acabou de dar o maior amasso da minha vida e decide parar no exato segundo em que as coisas esquentam de verdade?
Ele passou a mão pelo cabelo, tentando encontrar uma resposta, mas só balbuciou:
— Foi mal…
— Foi péssimo. — Ela virou o rosto, o tom mais indignado do que bravo, apesar de achar meio fofo a forma como ele estava desconcertado. — Estragou total o clima.
O silêncio que se instalou no quarto foi quase cômico. sentado na cama, parecendo um adolescente que acabou de levar um fora e em pé, andando de um lado para o outro, tentando ignorar o fato de que ainda sentia o corpo inteiro em chamas.
— Eu só queria ser respeitoso…
— E eu só queria dar uns amassos! — Retrucou, virando para ele. — Por que os dois precisam se excluir?
— Tá… você tem um ponto.
— Tenho vários, mas agora é tarde… já tô aqui com cara de idiota e tesão acumulado. — soltou um suspiro indignado, rolando os olhos enquanto se jogava de volta na cama.
Por alguns segundos, o quarto ficou em silêncio, apenas com o som das respirações contidas e da chuva fraca lá fora, a tensão entre os dois dançando como eletricidade no ar.
— Eu posso… tentar consertar? — Ele aproximou o corpo do dela, vagando os dedos por sua coxa.
A garota hesitou, mordendo o lábio inferior, a tentação de puxá-lo para um beijo impulsivo sendo quase irresistível. Mas ela não ia ceder, não ainda.
— Hoje não, .
— Como assim “hoje não”? Pensei que você queria isso.
— E eu quero… — desviou o olhar para a boca dele por um instante, antes de voltar a encará-lo. Ela tinha planos. E eles não envolviam deixá-lo assumir o controle naquele momento. — Mas não vou facilitar pra você. — O empurrou de leve com a ponta dos dedos e bufou, apesar do sorriso nos lábios.
— Você é o próprio inferno.
— E você tá ardendo direitinho. — A garota respondeu, observando enquanto ele lançava um último olhar em sua direção antes de sair do quarto.
Assim que a porta se fechou, soltou um longo suspiro, olhando para o teto com um sorriso vitorioso nos lábios. Ainda sentia o calor daquela boca em seu pescoço, a firmeza das mãos explorando seu corpo, o desejo nos olhos dele. era diferente… e aquilo só deixava tudo ainda mais perigoso.
A manhã chegou mais rápido do que qualquer um dos dois queria. A mesa já estava posta, com o cheiro de pão fresco e café recém-passado se espalhando pelo ar, quando entrou na cozinha. apareceu alguns minutos depois, murmurando um “bom dia” rouco ao sentar na mesa, os olhos fixos nela, que parecia mais indiferente impossível, devolvendo o cumprimento sem nem olhá-lo diretamente. Passou a mão pelos cabelos, tentando afastar a lembrança, mas era impossível. Cada detalhe da noite anterior parecia ecoar com mais força naquela manhã, ainda mais quando ela estava tão perto e agindo como se nada tivesse acontecido. mantinha a postura de quem estava completamente em paz, mas ele sabia – sentia – que era tudo fingimento e que por dentro ela ainda queimava, apesar de por fora estar rindo de uma piada que Stella acabara de contar, enquanto bebericava o café. Até mesmo quando seus pés se encostaram por acidente debaixo da mesa… ela apenas afastou a perna, como se fosse nada. E aquilo só o deixava mais inquieto… mais irritado… mais louco por ela.
Depois do café da manhã, eles foram se espalhando pela casa: Stella colocou música no quintal, Marcelo e Henrique foram comentar sobre as negócios e Letícia e Cláudia estavam testando uma receita para o almoço. Os pareciam ocupados demais com seus próprios afazeres para tentarem conversar com a filha – o que, na verdade, era exatamente o que ela queria. surgiu no quintal minutos depois, usando um conjunto justo de top e short de academia, com um copo de suco na mão. já estava na piscina, junto da irmã, e percebeu quando ela desviou o olhar na sua direção, mordendo levemente a parte interna da bochecha antes de andar até a borda.
— Não vai entrar hoje? — Ele perguntou, apoiando os braços bem ao lado de onde os pés dela estavam.
— Agora de manhã eu vou ficar só no yoga, mas obrigada.
— Então vai só ficar me assistindo?
— Só se você fizer um show que chame a minha atenção. — Ela virou o rosto lentamente, encarando o copo de suco. — Eu sou uma espectadora bem exigente, .
apertou os dedos contra a borda da piscina. Era impossível decifrá-la. Mas ele percebeu que carregava outra coisa naquela manhã – algo mais denso. Os ombros estavam mais pesados, o olhar mais distante. A discussão da noite anterior parecia pairar sobre ela como uma nuvem silenciosa, mesmo que não dissesse uma palavra. Ficou observando discretamente enquanto ela terminava o copo de suco e começava a alongar o corpo.
— Você tá tenso… — pontuou Stella ao seu lado, bebendo um gole da água de coco.
— Não tô. — Respondeu, encarando a superfície da água, como se aquilo fosse mais interessante do que o cenário a poucos metros dali, e sua irmã riu.
— , você tá olhando desde que ela estendeu aquele tapetinho. Quase engasgou quando ela começou a se alongar
Ele bufou, ainda sem olhar para a mais nova.
— Para de inventar coisa. Eu só… queria ver como funciona essa yoga aí.
— Ah, claro… — sorriu, sarcástica. — Porque você sempre foi super interessado em yoga, né?
— Não enche, Stella.
— Você tá muito na dela… e o pior é que ela sabe.
Ele revirou os olhos, saindo da piscina e pegando a toalha para secar o rosto, ouvindo a risadinha irritante da irmã e o som suave da respiração de em meio às poses, que, por sua vez, não parecia se importar com nada ao redor. Em determinado momento, abriu os olhos e lançou um olhar rápido na direção de , que, mesmo tentando parecer distraído na conversa do pai e de Henrique, claramente estava olhando. Ela deu um sorriso de canto, satisfeita, e fechou os olhos de novo, voltando à posição.
— Estamos pensando em expandir a filial de São Paulo. — Marcelo disse, gesticulando. — Mas vai exigir um acompanhamento mais próximo, alguém de confiança para representar a família.
assentiu, os olhos fixos no copo de cerveja em sua mão. Sabia que, cedo ou tarde, a responsabilidade de representar a família cairia em suas costas.
— E você, ? — Henrique perguntou. — Pretende seguir no mesmo setor ou pensa em diversificar?
Ele abriu a boca para responder, mas, naquele instante, um movimento no jardim capturou sua visão periférica. , no tapete de yoga, jogava o corpo para trás em um alongamento lento, o top se movendo junto com a respiração profunda. Desviou os olhos num impulso, pigarreando, mas o atraso de um segundo foi o suficiente para Henrique erguer uma sobrancelha, notando a distração.
— Diversificar… talvez. — Respondeu rápido demais, tentando recompor a postura. — Mas só faria sentido se trouxesse retorno de verdade, não algo forçado.
— Justo. — O pai concordou. — O importante é manter o foco.
Foco. A palavra ecoou quase como uma piada cruel. Porque, não importava o quanto tentasse, seus olhos voltavam a escorregar de volta para , que agora estava deitada de bruços, apoiando os cotovelos no chão e arqueando o quadril para cima. O sol realçava a pele dela e teve que apertar os olhos, como se fosse a luz que estivesse incomodando sua visão.
— E a questão da expansão digital? — O patriarca da família perguntou, apoiando o cotovelo no braço da cadeira. — O marketing de influência tem crescido absurdamente. Já pensaram em investir mais pesado nisso?
assentiu, apesar de nem ter certeza do que estava respondendo. O pai lançou-lhe um olhar crítico, talvez por perceber a falta de firmeza, mas ele se apressou em falar:
— Sim, temos analisado esse mercado… — a voz saiu firme, mesmo que seus olhos insistissem em deslizar até , que arqueava o corpo em uma posição que parecia um convite à perdição. Engoliu seco, forçando-se a voltar para a conversa. — O alcance ainda é um desafio, mas estamos estudando algumas estratégias e aproveitando o digital para potencializar campanhas offline também.
Marcelo assentiu, sério, mas notou o leve desvio de olhar do filho.
— Isso exige consistência. Não adianta só investir em campanhas pontuais. É preciso uma visão de longo prazo.
concordou, mexendo distraidamente no copo.
— Claro, a ideia é trabalhar com engajamento e retorno.
Henrique, por sua vez, sorriu, interessado.
— Inclusive, tenho contato com uma agência que é especializada nisso. Posso te passar depois.
— Ótimo. — respondeu rápido demais, quase automático, porque naquele instante apoiava as mãos no chão e erguia o quadril em uma transição lenta, como se não tivesse a menor consciência do que estava provocando.
O jantar foi mais tranquilo do que o anterior – ninguém mencionou a briga, como se fingir que nada tinha acontecido fosse mais fácil do que encarar o elefante na sala. estava calada, mas não distante, só recolhida. fingia naturalidade, mas a forma como ela o ignorava o corroía por dentro. Quando a sobremesa chegou – a torta de frutas vermelhas, favorita da mais nova – tentou pegar uma segunda fatia, mas ela foi mais rápida.
— Essa é minha. — Disse, com um leve sorriso debochado.
— Você nem tava comendo direito até agora.
— Mas agora eu tô. — Ela pegou o prato com a última fatia e começou a comer com gosto, como se aquele momento fosse a única coisa boa do dia.
— O que deu em você, hein? — encostou o garfo no prato, a mandíbula tensa. — Nada. Só não tô afim de fazer social.
— E pra isso tem que agir feito uma criança? Tá estranha desde ontem. — O silêncio na mesa foi quase instantâneo. Todos pararam de comer, se entreolhando. Marcelo pigarreou, Cláudia fingiu não ouvir e Stella observava a interação com um sorriso discreto no canto da boca, claramente se divertindo. — Você só descansa quando consegue o que quer, né?
apenas pegou o garfo de novo e, com um sorriso vitorioso, saboreou mais um pedaço da torta, apesar de, por dentro, o gosto estar mais quente, mais denso. sentia o sangue ferver nas veias. Aquela garota… o deixava completamente fora de si. Depois do jantar, quando a casa já estava mais quieta e todos dispersos, ele subiu as escadas, parou diante da porta do quarto dela e bateu duas vezes. Ela abriu com uma expressão confusa, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, o garoto entrou com tudo, fechando e trancando a porta atrás de si.
— , o que…
— Chega. Você passou o dia todo brincando comigo, me ignorando, me provocando… fingindo que não aconteceu nada ontem.
— Porque não aconteceu. — Ela retrucou, apesar da voz já não vir tão firme quanto antes.
— Não mente pra mim. Eu senti, você também e agora tá me enlouquecendo.
engoliu seco, o corpo rígido, mas não deu um passo sequer, como se esperasse o próximo movimento – como se desejasse.
— A única coisa que eu senti foi você parando.
— Porque achei que era o certo.
— Tudo bem… — deu de ombros, mas sua expressão suavizou por um instante. — Ontem foi um dia estranho. Eu ainda tô… processando algumas coisas.
— Quer que eu vá embora? — Ele perguntou, dando um passo à frente, e hesitou alguns segundos, negando com a cabeça, devagar. — Ótimo… porque essa porta vai continuar trancada. — Continuou se aproximando, até que ela recuou sem perceber, o quadril batendo contra a beira da cama. inclinou a cabeça e um sorriso torto, carregado de provocação, apareceu em seus lábios. — Você adora me deixar fora de controle.
ergueu o queixo, tentando disfarçar o arrepio que percorreu o corpo.
— Mas eu nem fiz nada… — ironizou, com um meio sorriso que não chegava aos olhos.
— Claro que não… — ele encostou as mãos na beira da cama, prendendo-a ali.
— …
— Fala mais uma vez o meu nome desse jeito… — sussurrou, os olhos escuros cravados nos dela. — … e eu juro que não vou conseguir parar.
— Ah é? Pe…
Antes que completasse, ele a puxou pela cintura, colando suas bocas em um beijo urgente, faminto. Deslizou as mãos por dentro da camiseta dela, apertando os seios por baixo do tecido, e arqueou o corpo, um gemido contido escapando quando ele a pressionou mais contra a cama, sentindo o volume dele pulsar em vontade.
— Se continuar assim, a casa inteira vai ouvir. — Alertou, quase sem fôlego, descendo os beijos pelo pescoço dela, sugando com força suficiente para marcar.
— Tá quebrando as próprias regras, . Era você quem não ia se aproveitar de um momento vulnerável meu?
— Mas é que depois do que você fez no jantar… tá me devendo uma sobremesa. — Ele falou pausadamente, enquanto subia a boca até a mandíbula dela.
— Eu sei de uma sobremesa que você vai amar. — mordeu o lábio inferior, deixando escapar um sorriso.
— Já imagino o que seja… e quero lamber o prato todo. — Ele a deitou de costas e ficou por cima, deslizando as mãos pelas laterais do corpo dela, subindo a camiseta devagar, até deixá-la livre. — Porra… — murmurou, a voz rouca, os olhos cravados naquela visão antes de abocanhar o pescoço dela com beijos quentes, descendo até os seios. mordeu o lábio, tentando conter o gemido que escapava, e retribuiu, puxando a barra da camiseta dele, que saiu num gesto apressado, deslizando as mãos pelas costas largas, as unhas arranhando de leve, sentindo cada músculo tenso sob a pele. continuou explorando seu corpo com uma lentidão torturante, até os dedos encontrarem a borda do short, deslizando-os por dentro do tecido e esfregando a região entre suas coxas. suspirou, suas mãos agarrando os lençóis com força. Ele afastou a calcinha de lado, revelando completamente a intimidade já encharcada, e deslizou dois dedos dentro dela, que gemeu, movendo o quadril em busca de mais contato. Retirou os dedos lentamente e os levou até a boca, saboreando o gosto, enquanto mantinha contato visual. O jeito que a olhava – como se fosse a única coisa no mundo naquele momento – fez seu coração disparar.
— Quer sentir o quão gostosa você é?
Ela balbuciou um “sim” e o sorriso que ele deu foi quase doloroso de tão bonito, inclinando-se para voltar a beijá-la, compartilhando o gosto dela nos lábios. tirou as últimas barreiras entre eles e se posicionou entre as pernas de , sentindo a umidade contra sua ereção. Quando finalmente guiou-se para dentro dela, o ar escapou de seus lábios num gemido suave, que foi abafado com outro beijo. O ritmo começou lento, cuidadoso, como se ele quisesse memorizar cada reação, mas a necessidade foi crescendo rápido e os movimentos se tornaram mais intensos. A cama rangia levemente e eles riam baixo entre os beijos quando o som se tornava arriscado demais. Ela abafava os gemidos contra o ombro dele, enquanto enterrava o rosto em seu pescoço, os movimentos intensos, mas contidos pela necessidade de silêncio.
— … — gemeu baixo, apertando a mão dela contra o colchão.
Ela atingiu o clímax, seu corpo tremendo enquanto ondas de prazer a consumiam, mas continuou se movendo, prolongando o momento até também alcançar o auge, caindo sobre ela, enquanto tentava recuperar o fôlego. Ainda ofegante, puxou o lençol para cobrir parte do corpo, rindo baixinho.
— Uau… — murmurou, virando o rosto para ele com um sorrisinho atrevido. — Para alguém tão certinho, você acabou de me dar o melhor sexo da minha vida.
Ele arqueou a sobrancelha, mordendo o lábio para conter o riso.
— Ah, é? Então, para alguém tão teimosa, você aceitou bem direitinho eu ficar no comando.
— Idiota. — rolou os olhos, não conseguindo conter a risada, empurrando-o de leve, mas ele a segurou pelo punho, trazendo a boca perto de seu ouvido, a voz baixa, rouca.
— Sabe qual é o problema agora? Acho que você acabou de virar meu vício.
A garota congelou por um segundo, sentindo o coração disparar, mas disfarçou com ironia.
— Bom, vícios não são saudáveis, sabia?
— Ah, mas esse eu não vou largar nunca. — rebateu, beijando a curva do pescoço dela.
mordeu o lábio, tentando não sorrir, e então respirou fundo, como se estivesse prestes a confessar um segredo perigoso.
— Tá… mas falando sério agora… preciso te contar uma coisa.
— O quê?
— Um produtor de uma gravadora entrou em contato comigo esses dias. — Disse de uma vez, mordendo o canto da boca, nervosa. — Você é a primeira pessoa pra quem tô contando, então se eu descobrir que saiu espalhando por aí… juro que te mato.
Ele abriu um sorriso lento, genuíno, os olhos brilhando.
— Tá brincando? , isso é incrível!
— É, mas… ainda não sei se vou aceitar. É muita coisa pra pensar.
acariciou o rosto dela de leve, ainda com aquele ar debochado, mas tentando confortá-la.
— Bom, se você resolver aceitar e sair em turnê pelo Brasil… quando passar por São Paulo, pode visitar o apartamento que eu tô pensando em comprar.
— Olha só, já querendo me levar pro seu apê. Mal terminamos aqui e você já tá planejando a segunda rodada.
— Vício é vício… — ele deu de ombros, sorrindo convencido. — Não é minha culpa se você é gostosa pra caralho. Não faz ideia do que começou aqui, .
Ela soltou uma risadinha, inclinando-se para mordiscar o ombro dele antes de se afastar de propósito, deixando o ar entre os dois carregar a tensão.
— Eu sempre sei o que começo, . Só não costumo avisar quando vou embora. Ele franziu as sobrancelhas, sentando-se na cama para encarar melhor o olhar travesso dela. Havia algo perigoso naquele gesto – como se tivesse acabado de ganhar um jogo que só ela sabia as regras. fechou os olhos por um segundo, tentando ignorar o efeito que ela tinha sobre ele, mas não adiantava. Era como lutar contra algo que já estava definido e que, ao mesmo tempo, nunca seria simples.
— Você vai me enlouquecer.
não respondeu de imediato. Apenas passou a ponta dos dedos pelo braço dele preguiçosamente, até entrelaçar suas mãos. Então ergueu o olhar, carregado de provocação.
— Esse é o plano. — Respondeu, como se fosse óbvio.
sabia que ela estava falando sério. Sabia também que não adiantava tentar fugir, porque já não tinha mais volta. Ela iria provocar, rir, desaparecer e voltar quando bem entendesse. E ele, por mais que tentasse, sempre acabaria cedendo. Naquele instante, deitados lado a lado em meio ao silêncio pesado da madrugada, ambos entenderam – mesmo sem dizer nada – que aquilo não tinha sido apenas uma vez. Tinha sido o começo. E, de alguma forma, os dois estavam dispostos a pagar o preço.
Na verdade, “nunca simpatizaram” era uma forma educada de descrever anos de implicância mútua desde que se conheceram – o que, para o azar de ambos, aconteceu muito cedo. Os pais – Marcelo e Henrique – eram velhos amigos do mundo dos negócios e, consequentemente, os dois acabaram crescendo entre os mesmos eventos corporativos disfarçados de encontros casuais. sempre achou o jeito convencido de um verdadeiro saco. O andar confiante, as respostas rápidas, o sorriso debochado e, principalmente, a forma como parecia carregar no olhar a certeza de que o mundo girava ao seu redor – e talvez girasse mesmo. Ela, por outro lado, nunca teve muita paciência para o jeito “certinho” de . Sempre seguia as regras, raramente se deixava levar por impulso, parecia medir cada palavra antes de falar… era metódico demais para alguém tão caótica quanto ela – em sua opinião, a definição exata de tédio. A última vez em que se viram havia sido anos atrás, quando ainda eram adolescentes. E, mesmo naquela época, bastava um comentário atravessado ou um olhar mais demorado que a guerra silenciosa recomeçava. Agora, anos depois, estava no início da sua jornada no mundo dos negócios, acompanhando o pai em reuniões e eventos, enquanto já era um nome em ascensão nas redes sociais, com seus covers virais e um número crescente de seguidores apaixonados. O reencontro aconteceu de forma inesperada – ou talvez nem tanto. Os haviam convidado a família para passar um tempo em sua casa de praia, com a desculpa simples de “relembrarem os velhos tempos”.
Assim que o carro estacionou na entrada da mansão à beira-mar, desceu com uma expressão cansada. Stella, sua irmã mais nova, andava com um semblante animado ao seu lado, enquanto os pais distribuíam sorrisos calorosos.
— Que bom que chegaram! — Disse Cláudia, a matriarca da família , ao abraçar Letícia .
— A casa continua linda. — Comentou a mãe de , olhando ao redor com admiração. — Onde está a ? — Perguntou, já procurando com os olhos pela filha dos anfitriões.
Cláudia soltou um suspiro levemente impaciente.
— Provavelmente trancada no quarto, fazendo algum vídeo pro canal ou ensaiando… essas coisas de “artista”. — O tom carregava uma ponta de crítica disfarçada por trás de um sorriso forçado.
Embora fingisse apoiar, não aceitava totalmente o rumo que a filha havia escolhido. Na sua opinião, a carreira de cantora era incerta, instável e, de certa forma, distante demais do que ela sonhava para a filha única. , por sua vez, revirou os olhos ao ouvir aquilo.
Claro que ela está fazendo alguma performance diante de uma câmera.
A simples ideia de ter que conviver com por mais de 24 horas já fazia sua paciência murchar. Virou o rosto na direção da escada, pronto para atravessar o corredor e deixar as formalidades para os adultos, mas ela apareceu, com os traços mais definidos e o corpo mais curvilíneo, apesar da confiança debochada permanecer – talvez até mais forte agora. Desceu os degraus com calma, os cabelos soltos caindo pelos ombros, e sorriu ao notar o olhar fixo dele. Usava um short branco curto e uma blusa leve por cima de onde se via parte do biquíni.
— , querida! — Letícia se aproximou dela, abrindo os braços. — Como você está?
— Um pouco atrasada, como sempre. — Respondeu, abraçando a mulher com leveza. — Mas ainda em tempo de ouvir as novidades, né?
— Isso que dá passar horas no quarto. — A mãe revirou os olhos, com um sorrisinho. — Agora resolveu que vai ser cantora da internet.
— “Resolvi”? Que bom que não estou esperando a aprovação de ninguém, né? — A garota arqueou a sobrancelha, o tom levemente ácido entregando a tensão sutil entre as duas. — … — disse, virando em sua direção com um sorriso enviesado, como se soubesse que estava sendo observava desde que desceu. — Quanto tempo… cresceu, hein? — Passeou o olhar lentamente por ele.
— , faz tempo mesmo. — Respondeu, tentando manter os olhos nos dela. — Você também cresceu… virou influencer, né? Parabéns pelos… vídeos.
O som da risada dela parecia provocá-lo mais do que qualquer palavra. — Achei que você fosse me ignorar, como sempre fez.
— E eu achei que você fosse me chamar de “certinho” outra vez.
— Ainda posso chamar… — piscou, passando por ele e deixando um rastro de perfume doce no ar. — Só preciso de um tempinho pra me lembrar de tudo que me irrita em você.
ficou parado por alguns segundos, observando-a se afastar. Agora ela tinha outras armas para tirá-lo do sério – que envolviam aquele corpo, o biquíni escondido por baixo da blusa e o jeito que o olhava, como se soubesse exatamente o que estava fazendo com ele. Depois de deixar as malas no quarto – convenientemente ao lado do dela – lavou o rosto com água fria, como se aquilo pudesse ajudar a esfriar os pensamentos.
— Filho, estamos indo pra piscina. — Ouviu a mãe chamá-lo do lado de fora.
Trocou de roupa com certa preguiça, vestindo uma bermuda e uma camisa leve aberta por cima da regata branca, e desceu, o som das vozes e risadas no quintal já preenchendo o ambiente. Quando empurrou a porta de vidro que dava acesso ao jardim, o tempo pareceu desacelerar. estava deitada em uma espreguiçadeira ao lado da irmã dele, usando um biquíni preto que era o equilíbrio perfeito entre simples e provocante, a pele dourada pelo sol, o cabelo preso em um coque frouxo, deixando o pescoço exposto, e óculos escuros.
— Até que enfim, . — Disse, sem mexer o rosto para encará-lo, como se tivesse sentido sua presença. — Achei que ia passar a tarde trancado no quarto, lendo alguma coisa chata.
— Estava desfazendo as malas, porque, diferente de certas pessoas, eu gosto de manter tudo organizado. — Ele respondeu, puxando uma cadeira próxima.
— Você deve ter uma vida muito empolgante, vivendo pela agenda. — tirou os óculos, finalmente o encarando.
Stella riu, tentando aliviar a tensão, mas não desfez o olhar. Se ela queria provocar, ele também sabia jogar.
— Pelo menos eu não continuo fazendo vídeos no quarto, como se ainda tivesse quinze anos.
abriu um sorriso preguiçoso, inclinando o corpo levemente na sua direção, o biquíni acentuando cada movimento.
— E ainda tendo mais visualizações que qualquer campanha de marketing da sua família. Vai entender, né?
Touché.
apertou a garrafa de água que segurava, desviando o olhar para qualquer coisa que não fosse aquele corpo estirado sob o sol. Era só o primeiro dia – precisava sobreviver à semana inteira. Não soube dizer exatamente quando adormeceu na espreguiçadeira. O calor do sol batendo direto na pele e o barulho da água misturado às risadas das famílias foram um convite para o sono e ele só percebeu que havia cochilado quando abriu os olhos e o céu já estava tingido de tons laranjas e rosados. O quintal estava praticamente vazio, as vozes haviam sumido e só restava o som suave de alguém nadando. Ergueu o tronco lentamente, piscando para ajustar a visão, e percebeu que ainda estava na piscina, deslizando pela água com leveza, enquanto o cabelo, agora solto e encharcado, grudava nas costas. Seus olhos encontraram com os dela e ele desviou, pigarreando, como se precisasse lembrar a si mesmo de respirar.
— Dorminhoco. — Provocou, nadando até a borda mais próxima de . — Acordou renovado?
— Nem percebi que o tempo passou. — Ele respondeu, ainda um pouco sonolento. — Sempre foi assim… desligado do que acontece ao redor. — Ela apoiou os braços na borda da piscina, o corpo ainda submerso e os olhos fixos nele.
a encarou por alguns segundos e se abaixou em sua direção.
— Por que você ainda tá aí? — Perguntou, tentando manter o tom neutro, e deu de ombros.
— Tava gostando do silêncio. É raro… e, sei lá, acho que precisava ficar um pouco sozinha.
— Entendi.
— E você? Ainda o mesmo certinho de sempre? — Inclinou levemente a cabeça, o analisando.
— E você? Ainda fazendo de tudo pra chamar atenção?
— Talvez… — Ela sorriu, dessa vez mais contida. — Mas, às vezes, talvez eu só queira que alguém preste atenção de verdade. — Aquela frase parecia despreocupada, mas os olhos diziam o contrário. E, antes que ele pudesse responder, mergulhou novamente, nadando até o outro lado da piscina. Quando voltou, o olhar já estava diferente, como se estivesse arrependida de se expor. — Vai entrar ou vai continuar só olhando?
Ele hesitou por um instante, mas não se afastou.
— Tá me provocando desde que cheguei aqui.
— E você tem reclamado? — nadou de costas com calma, os olhos presos nos dele, até parar no centro da piscina. — Tá me olhando como se estivesse vendo algo que não devia.
— Talvez eu esteja.
— Talvez eu queira que você veja.
A tensão se instalou entre os dois, densa como o ar antes de uma tempestade. E então, sem que pudesse reagir, foi puxado pelo braço e perdeu o equilíbrio, caindo de cabeça na água gelada. Ele emergiu com uma expressão furiosa.
— Você é insuportável, sabia?
— Foi mal, . — Ela disse com um sorriso sacana, mordendo o lábio inferior. — Não resisti.
ainda a encarava com um olhar de raiva misturado a uma irritação quase prazerosa, mas, antes que pudesse retrucar, já o desafiava novamente com uma piscadela, mergulhando rapidamente e surgindo ao seu lado com a água batendo na superfície. Ele a seguiu, sem pensar muito no que estava fazendo, e logo estavam em uma verdadeira guerra de água, gritando, se jogando na piscina, tentando afundar o outro. A cada movimento, a proximidade deles aumentava e as mãos dela o tocavam de forma casual, mas, para , era como se fosse marcado por algo mais. Quando finalmente subiu para a superfície, sentou na borda e pegou uma toalha para se secar, sentindo o olhar de o seguindo. Antes que pudesse se dar conta, estava tirando a blusa, percebendo o olhar dela fixo nos músculos de seu torso, e, por um momento, teve a impressão de vê-la mordendo o lábio inferior, como se estivesse tentando esconder o interesse.
— O que foi, ? — Perguntou com um sorriso desafiador, tentando mascarar a intensidade do momento, e ela apenas deu de ombros, como se nada tivesse acontecido, apesar de seu olhar ainda a trair.
Antes que algo mais pudesse acontecer, o barulho de uma cadeira caindo e pessoas correndo por dentro da casa quebrou a tensão, fazendo-o se levantar rapidamente, enquanto continuou na piscina, com um sorriso torto no rosto.
fechou a porta do quarto com um leve empurrão, ainda sentindo a água escorrer pelos cabelos e costas. Passou a toalha pendurada nos ombros pelo rosto com força, como se quisesse apagar a lembrança da risada dela, que ecoava em sua cabeça.
Aquela risada… maldita risada.
Deixou-se cair na cama por alguns segundos, tentando recuperar o fôlego, mas algo o fez levantar o olhar. Uma voz suave vinda da parede fina ao lado, cantarolando baixinho, quase como se estivesse sussurrando uma melodia para ninguém mais além dela mesma. Se apoiou nos cotovelos, encarando o teto, ouvindo o som da água do chuveiro misturado àquela voz, e, por um instante, esqueceu que era , da provocação na piscina, do olhar debochado, do jeito insolente. Era apenas uma voz bonita, que ele desejava ouvir de novo, e de novo…
Mas então a imagem veio, rápida e crua.
nua, as mãos ensaboando o próprio corpo, os cabelos deslizando pelas costas, a pele molhada, os lábios entreabertos enquanto a água escorrendo por cada curva… O garoto se sentou bruscamente, como se aquilo fosse o suficiente para dissipar o calor repentino que tomava conta.
— Merda… — passou as mãos pelo rosto, frustrado com a própria mente. Tentou afastar a imagem, respirar fundo, mas seu corpo já havia respondido antes da razão conseguir impedir. O gosto da provocação ainda estava na pele e aquela maldita voz era como combustível para um desejo que crescia, inevitável. E, por mais que odiasse admitir, estava ficando cada vez mais difícil lembrar o motivo de querê-la longe.
Depois de tomar uma ducha rápida, desceu para o jantar, dando de cara com todos na mesa, e seu olhar desviou diretamente para , que estava sentada com a postura impecável, rindo de algo que Stella havia dito. Usava um vestido curto de alças finas, a pele bronzeada do sol e os cabelos caindo soltos, ainda um pouco úmidos do banho. Ele engoliu seco, desviando o olhar rapidamente, mas não antes de notar o jeito que ela o olhava de volta – não de um jeito descarado, mas também não era inocente.
— Ficou bem depois da guerra na piscina? — A garota perguntou, inclinando-se levemente para o lado, como se estivesse só sendo simpática.
— Teria ficado melhor se não tivesse sido puxado de forma tão covarde. — Respondeu, cortando o pedaço de carne no prato com um pouco mais de força do que o necessário.
— Ah, que drama. Só me agradeça por te refrescar… acho que cê tava precisando. levantou os olhos dessa vez, encontrando os dela por um segundo a mais do que devia, e desviou primeiro, mas não sem antes deslizar o pé pelo chão bem de leve, até tocar o dele por baixo da mesa. O contato havia sido breve, quase imperceptível, mas o suficiente para os músculos de sua coxa contraírem imediatamente. O jantar seguiu com conversas aleatórias sobre negócios, projetos e shows, mas, para ele, havia só um foco naquela mesa: a pele dourada de , os lábios vermelhos, as provocações mascaradas, o maldito cheiro de shampoo que emanava de seus cabelos. Para ela, só existiam os olhos escuros a fitando com atenção cada vez que se inclinava demais ou deixava a alça do vestido cair sutilmente pelo ombro.
Era um jogo discreto. E estava só começando.
Já passava da meia-noite quando desceu as escadas em busca de um copo d’água antes de tentar dormir novamente. Usava apenas uma calça moletom, o torso nu e os pés descalços pisavam no chão frio. Abriu a geladeira, mas parou ao escutar passos atrás de si.
— Tá com calor, ? — A voz de ecoou na porta da cozinha e ele se virou, tentando não encarar o pijama de cetim que moldava perfeitamente o corpo dela – um short minúsculo, uma blusa fina demais, justa demais e… sem sutiã. Ela, por outro lado, não disfarçava o olhar descarado em sua direção. — O que te fez vir até a cozinha a essa hora, sem camisa? — Perguntou, ao mesmo tempo em que foi direto para a geladeira, se abaixando mais do que o necessário para pegar alguma coisa.
— Vim só pegar água. — Ele desviou o olhar, mordendo o canto da bochecha. se aproximou, agora com um prato de brigadeiro em uma mão e uma garrafa d’água na outra.
— Ah, que coincidência… — deu um gole direto da garrafa, enquanto os olhos percorriam seu abdômen. — Fica à vontade. — Estendeu a garrafa, mas apoiou as mãos no balcão atrás dela, o corpo exalando calor.
— Você sempre anda assim pela casa? — Perguntou sem desviar os olhos, a voz mais rouca do que o normal.
— Assim como?
— Você sabe como.
— Vai ter que ser mais claro… essas roupas incomodam?
— Acho que você sabe exatamente o que elas fazem.
— Eu durmo assim desde sempre. Não é minha culpa se isso… te afeta. — Seu olhar alternava entre o rosto dele e o peito nu, claramente provocando.
— Você adora brincar com fogo, né?
Ela diminuiu mais ainda o espaço, os olhos agora cravados nos dele, brilhando com desafio.
— E você tá morrendo de vontade de se queimar.
— … — ele provocou, observando-a passar a língua lentamente pelos lábios, mas, antes que pudesse terminar, passos leves cortaram o clima, fazendo-o tirar as mãos automaticamente do balcão.
— ? — Stella surgiu na porta. — Pegou o brigadeiro?
A garota recuou um passo, como se nada tivesse acontecido, e sorriu para a mais nova.
— Claro, e peguei água também. A gente vai ver um filme e lanchar ali na sala, … quer vir? — Ela o olhou com naturalidade, como se não tivesse acabado de quase o deixar louco.
— Tô cansado. Fica pra próxima. — Respondeu, a voz mais seca do que gostaria. deu um sorriso suave, como se guardasse um segredo, depois virou-se e desapareceu no corredor com Stella, deixando para trás o calor, a provocação e tentando controlar os próprios pensamentos.
Ela vai me enlouquecer.
No dia seguinte, durante o café da manhã, os mais velhos decidiram passar o dia na praia, com Cláudia aproveitando para alfinetar a filha, dizendo que “estava precisando de um pouco de sol, por viver trancada no quarto”. tentava se distrair com a conversa dos adultos, a paisagem, qualquer coisa que não fosse , que parecia ter saído diretamente de um editorial de verão, vestindo um biquíni minúsculo por baixo de uma canga transparente, o cabelo preso em um coque alto e os óculos escuros cobrindo os olhos. Tirou a camisa com naturalidade quando foi se juntar a um grupo de jovens que o chamou para jogar futevôlei na areia, revelando o abdômen definido pelo tempo na academia, a pele já bronzeada e algumas gotas de suor escorrendo pela têmpora. , sentada debaixo do guarda-sol ao lado da irmã dele, ergueu os óculos-escuros e simplesmente observou.
— Eca, você tá babando. — Murmurou Stella, rindo.
— Cala a boca. — Ela respondeu baixo, mordendo o lábio inferior, sem desviar os olhos.
Enquanto jogava, viu, pelo canto de olho, se juntar ao grupo. Duas garotas pareciam particularmente interessadas, puxando assunto, elogiando seus saques no jogo, mas ele só conseguia reparar em rindo, jogando o cabelo para trás, flertando sem dizer uma palavra. No intervalo, ela passou ao seu lado com um copo de água e comentou em tom casual:
— Cê joga bem… quando não tá distraído.
— E quem disse que eu tava distraído?
— Devia saber mentir melhor, … — sussurrou, roçando levemente os dedos em suas costas, como se tivesse tocado por acidente, e passando direto por ele.
Depois do jogo, o grupo ainda ficou espalhado pela areia em conversas soltas, risadas abafadas e algumas cantorias ao redor da fogueira.
— Vai ter uma festa mais tarde na casa de um amigo nosso. — Disse uma das garotas, olhando para . — Vocês deviam ir.
— Eu adoro festas! — Exclamou, animada, e levantou uma sobrancelha, já antecipando a resposta dela. — Vamos, gente?
— Eu… — ele começou, pronto para dizer “não”, até Stella aparecer pulando ao lado.
— Vai ser legal, vamos sim! — Olhou para o irmão, o repreendendo. — Todo mundo vai.
— Tá bom… — soltou um suspiro leve, passando a mão no rosto. — Mas é só pra ficar de olho em você.
À noite, a casa da festa estava iluminada por luzes coloridas, o som de músicas animadas preenchendo os cômodos e a varanda cheia de gente. estava com um vestido curto com um decote discreto, que fazia olhar duas vezes, mesmo contra a vontade. Ele parecia deslocado – ou talvez fosse só o desconforto de vê-la ser o centro das atenções mais uma vez. Observou de longe quando um dos garotos do grupo a levou para dançar, sentindo o corpo enrijecer ao prestar atenção na forma como ela rebolava ao som da música, fazendo questão de manter o olhar nele. Depois de um tempo, se aproximou rindo ofegante, suada e o cabelo um pouco bagunçado, segurando dois copos.
— Tá com sede? Eu tô… — lhe ofereceu um dos copos. — Relaxa, é só refri… por enquanto. — Ele apenas assentiu, pegando a bebida e dando um longo gole. — Tá mesmo aqui só pra vigiar sua irmã?
— Tô tentando… mas você não colabora.
— E desde quando eu colaboro, ? — Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, perto demais, os corpos quase se encostando. — Quer dançar? — Perguntou, de repente, e hesitou, mas ela já o puxava pela mão.
— Só uma música… — respondeu, como se estivesse dando permissão a si mesmo. E então, no meio da multidão, com os olhos trancados um no outro, começaram a dançar. Ele sentia o calor dela contra o seu corpo, a respiração misturada com a sua, o perfume suave que a envolvia – estava provocante sem nem precisar tentar. Cada movimento fazia seu coração bater mais rápido e, por mais que tentasse se controlar, sentia que estava perdendo a batalha. passou a mão pela cintura dela, puxando-a um pouco mais para perto, e viu os olhos dela brilharem, como se estivesse esperando por isso.
— Cansou de fugir de mim, ?
— Como eu vou fugir, se você faz questão de se esfregar na minha cara o tempo todo?
— Talvez porque eu goste de ver a sua cara perder a compostura por minha causa.
— Se continuar falando assim, … — apertou a cintura dela com mais força. — Vai fazer o quê?
Ele estava prestes a fazer algo que provavelmente se arrependeria – algo que estava se tornando inevitável – mas, no momento exato em que impulsionou o corpo para frente, sentiu uma pressão nos ombros.
— Gente, desculpa interromper, mas… a Stella tá passando mal.
Os dois se afastaram no mesmo segundo, como se tivessem levado um choque, e voltaram a atenção para a menina, que estava ofegante.
— Onde ela tá? — perguntou, sério.
— Lá fora. Disse que tá meio tonta, enjoada… acho que exagerou na bebida.
Ele bufou e seguiu apressado, com em seu encalço, encontrando a irmã sentada no meio-fio, pálida e encolhida, com uma garrafinha de água nas mãos.
— Você tá bem? — Se agachou, tocando o ombro da mais nova.
— Tô… só meio zonza. — Ela respondeu, evitando o olhar do irmão.
agachou ao lado da menina, segurando sua mão e dando um sorriso tranquilizador.
— Primeiro porre? Bem-vinda ao clube.
a reprovou com o olhar, mas não disse nada, e, com a ajuda dela, levantou Stella. Assim que chegaram em casa, a bronca começou:
— Isso foi ideia de vocês duas! — Disparou, com o maxilar travado. — Meu Deus, se nossos pais descobrirem, a gente tá ferrado.
— Relaxa, ela tá bem. Só tomou uns goles a mais. Isso acontece com todo mundo… — tentou apaziguar, tirando os sapatos com toda calma do mundo. — Você sempre vai ser assim, careta? Deixa a menina ter o primeiro PT dela, . Não é como se ela estivesse cometendo um crime. — Completou, encarando-o com um sorriso debochado.
bufou, ajudando a irmã a subir as escadas. Assim que saíram do quarto de Stella, a tensão voltou a crescer, agora temperada por uma mistura de preocupação e irritação.
— Eu só espero que meus pais não descubram. — Passou a mão pelos cabelos, nervoso.
— Quanto anos você tem, em? — encostou na parede do corredor com os braços cruzados e um sorriso travesso nos lábios. — Vem cá, o que você iria dizer se descobrissem? Que não viu sua irmã passando mal porque estava se esfregando comigo na pista de dança?
— Eu não estava me esfregando… — ele tentou soar firme, mas sua voz já estava rouca, com um misto de frustração e desejo.
— Não? Porque parecia bastante… envolvido.
Ficaram ali, parados no corredor, o silêncio cheio de tensão. Ele queria dizer mais alguma coisa – ela queria que ele tentasse – mas deu um passo para trás.
— Boa noite, . — Disse, seco, virando para ir em direção ao próprio quarto. — Dorme bem, .
Mas ele não dormiu bem. Nem um pouco.
O dia seguinte amanheceu claro e abafado, típico de quando o calor insistia em se acumular antes de uma tempestade. Ao descer, ouviu vozes na cozinha, se aproximou em silêncio e parou na porta, observando a cena por alguns segundos: sentada ao lado de Stella, que estava de cara amassada, óculos escuros e uma xícara de chá nas mãos.
— Bebe mais água, eu juro que funciona… — disse, enquanto empurrava uma tigela com frutas na direção da mais nova. — Vai passar logo, tá?
Ele pigarreou para anunciar sua presença e as duas viraram imediatamente.
— Bom dia, irmãozinho. — Stella cumprimentou, com a voz arrastada.
— Bom dia. Tá melhor?
— Tô viva, o que é um milagre. — Respondeu, rindo fraco.
— Eu cuidei bem dela. Não deixei nem seus pais perceberem. — forçou um “obrigado”, enquanto se servia de café, e tentou evitar qualquer contato visual, mas parecia determinada a testar seus limites. — De nada… e não se preocupa, guardo segredos melhor do que você pensa. — Completou, jogando uma uva na boca e lançando aquele sorriso que sempre o tirava do sério.
Depois do café, decidiram fazer uma trilha leve até uma cachoeira próxima. Os adultos estavam animados e até Stella, que ainda parecia meio sonolenta, tentou disfarçar a cara de ressaca com óculos escuros e um sorriso sem entusiasmo. caminhava alguns passos à frente, com um short curto e uma regata colada que parecia ter sido escolhida a dedo. Era notável o jeito como o sol atravessava as folhas das árvores e batia em seus ombros dourados, o cabelo preso de forma displicente e o andar leve. Apesar disso, parecia determinado a ignorá-la – evitava os olhares, andava à frente ou atrás do grupo, mas nunca ao seu lado – até que um comentário despertou o fogo que ele tentava controlar:
— Espero que tenha trazido protetor. Tava quase vermelho ontem. — Passou a mão distraidamente em seu ombro nu – ele usava uma bermuda e uma regata leve. — Mas qualquer coisa posso emprestar o meu… seria uma pena se você descascasse e perdesse esse bronze bonito.
Fechou os olhos por um segundo.
Respira, .
— Você realmente não consegue passar um dia sem me provocar, né?
— E você realmente não consegue relaxar um pouco, né?
— Relaxar não significa assistir minha irmã passando mal porque quis brincar de descolada com você por perto.
— Ah, claro. Porque ela não faria nada sozinha, né? Foi tudo culpa da bruxa aqui. — apenas revirou os olhos, tentando se afastar, mas insistiu. — Acha mesmo que vai conseguir evitar olhar pra mim o dia todo? — Sussurrou ao se aproximar mais dele, quando o grupo parou para descansar.
— Nem me dou o trabalho… — ele rebateu, mesmo sem encará-la. — Você não me deixa em paz.
— Bom, pelo jeito que os seus olhos percorrem o meu corpo, acho que você também não me deixa em paz.
Ele apenas seguiu andando, mais rápido dessa vez – como se fugir da trilha fosse fugir dela – mas o caminho era longo, cheio de desvios e, no calor de uma discussão boba – ela tinha pego a última barrinha de cereal que ele queria – acabaram se distanciando do grupo sem nem perceber, até que tudo ficou silencioso demais, sem risadas à frente, sem vozes atrás. Quando se deram conta, estavam sozinhos.
— Espera… onde eles estão? — parou de andar.
olhou ao redor, com uma expressão de leve confusão, encontrando apenas a vegetação densa e o som de algum riacho distante.
— Deixou a gente sair da trilha, ?
— Eu deixei? Você que veio provocando, como sempre, e agora estamos perdidos! — Culpa sua. Anda feito um cavalo quando quer me evitar. — Antes que ele respondesse, uma chuva repentina e intensa os pegou desprevenidos. — Genial. Agora vamos virar dois ratos encharcados no meio do mato.
— Calma, dramática. Eu vi uma estrutura de madeira ali atrás. Acho que era uma área de descanso. — indicou com a cabeça a direção do local.
Correram lado a lado, até encontrarem um abrigo simples de madeira, com bancos e uma cobertura velha que estalava a cada gota. Molhados, ofegantes e ainda irritados, se encararam em silêncio por longos segundos, enquanto a chuva engrossava. encostou na madeira, o peito subindo e descendo rapidamente, algumas mechas de cabelo colando na testa e a regata encharcada, realçando cada curva.
— Acha que vão sentir nossa falta? — Perguntou, notando a maneira que o olhar de passeava por seu corpo, apesar dele tentar disfarçar.
— Depois que a chuva passar, provavelmente vão notar que os dois que vivem discutindo sumiram.
— Não é como se você fosse a companhia mais agradável do mundo, sabe? — E quem disse que eu queria a sua companhia? Mas você… sempre faz isso. — Isso o quê? — Ela se aproximou meio passo, sem pressa.
— Me tirar do sério.
sorriu, mordendo o lábio inferior.
— Ainda assim, você veio correndo comigo… achei fofo.
— Não se acostuma.
— Muito tarde pra isso. — Ela passou as mãos pelos braços, tentando se aquecer um pouco, mas o vento gelado parecia se intensificar a cada segundo.
— Tá com frio? — perguntou depois de algum tempo em silêncio, percebendo seu desconforto, e ela apenas deu de ombros como resposta. Então, sem pensar muito, aproximou-se mais, quase como uma reação instintiva, e colocou a mão nas costas dela. — O calor do corpo humano ajuda a esquentar.
— O seu corpo tá bem quente, né? — o olhou de cima a baixo, o tom provocador evidente, fazendo-o revirar os olhos.
— Se não calar a boca, vou te deixar passando frio… aí você vai ver o que é bom.
— Tá achando que me intimida assim? — Ela se aproximou, o sorriso ainda mais largo. — Mas tem razão… talvez fosse melhor se a gente tirasse as roupas… só pra facilitar. Ele se aproximou mais, até estarem a poucos centímetros de distância, e desceu as mãos até a cintura dela, apertando-a contra si.
— Você quer brincar, ? — Perguntou em voz baixa, cada palavra carregando um peso que ele mal conseguia segurar. — Cuidado com o que provoca…
— Ah, … e se for exatamente isso que eu queira? Cê parece tão tentado a jogar meu jogo. — Ela sussurrou, desafiadora.
Um trovão estourou no céu, mas nenhum dos dois se mexeu. levantou a mão, devagar, roçando os dedos na lateral do rosto dela, descendo até o pescoço úmido, fazendo-a fechar os olhos por um segundo, como se sentisse cada milímetro do toque. — Isso é uma péssima ideia…
— As melhores ideias geralmente são.
Foi ela quem encurtou o último centímetro, encostando os lábios de leve, quase uma dúvida, mas que só durou um instante. Logo, o beijo se intensificou e a prensou na madeira, colando mais seus corpos. deixou escapar um suspiro e deslizou as mãos por baixo da regata dele, explorando os músculos que antes só admirava de longe. Outro som de trovão cortou o clima, mas os dois só se afastaram depois de alguns segundos, quando já estavam sem fôlego.
— Isso… não devia ter acontecido. — Ele a encarou, lutando contra o desejo de puxá-la de volta e a tensão que tomava conta.
— Tem certeza? Porque eu tô achando que isso é só o começo… — deu um sorriso divertido, os lábios ligeiramente inchados e ainda ofegante. — Relaxa, certinho. Ninguém vai saber.
— É isso que me assusta… — foi quando ouviram um assobio distante, interrompendo o momento, e olharam um para o outro, quase se reconhecendo pela primeira vez em silêncio. Então, deu um passo atrás, respirando fundo. — Vamos voltar.
apenas assentiu, com um sorriso leve no rosto, mas sem dizer mais nada. Eles se afastaram devagar, recuperando o fôlego, e saíram da área coberta sem dizer uma palavra. O som da chuva diminuía gradualmente e a temperatura começava a melhorar, enquanto eles caminhavam lado a lado em um silêncio estranho, tentando processar o que tinha acabado de acontecer. Chegaram ao ponto onde haviam se afastado do grupo, já avistando Stella ainda tentando disfarçar a ressaca e os adultos conversando ao lado, tão distraídos que nem exigiram explicações do que tinha acontecido.
— Que bom que voltaram. — Letícia comentou, sorrindo, não notando a atmosfera pesada entre os dois.
apenas sorriu de volta e se jogou em uma conversa com a mais nova, como se nada tivesse acontecido, enquanto se afastou ligeiramente, não querendo deixar transparecer o quanto seu corpo ainda lembrava de cada instante daquele beijo, de cada toque. O grupo seguiu com o passeio, os minutos se arrastando, até a chuva finalmente parar e o sol se mostrar timidamente entre as nuvens, iluminando a praia com uma luz dourada que deixava tudo ainda mais quente.
Mais tarde, estava deitado na cama, o ventilador girando preguiçoso no teto e o som abafado das ondas vindo ao longe. Tentava se distrair com qualquer coisa no celular, até que o algoritmo fez seu trabalho: tinha acabado de postar uma sequência de fotos da trilha. Na última imagem, estava sozinha, sorrindo, com o cabelo preso de qualquer jeito e a pele ainda marcada pelas gotas da chuva. A legenda dizia: Me perdi, mas sobrevivi. Obrigada pela preocupação (zero) dos envolvidos. arqueou uma sobrancelha e mandou uma mensagem privada:
: De nada.
: Não postou foto do nosso beijo?
: Sua fama de certinho não combina muito com beijos no meio da mata.
: É que você desperta esse meu lado perigoso.
: Engraçado, não vi nenhum perigo ali…
: Só senti sua mão tremendo.
: Tremendo?
: Tava te segurando pra não fazer coisa pior.
: Tipo o quê?
: Tipo te deitar naquele chão molhado e descobrir o que você aguenta antes de implorar.
Ele imaginou que talvez tivesse passado do ponto, mas, apenas a metros de distância, se sentou na cama em um salto, sentindo todo o calor voltar para seu corpo ao imaginar aquela cena. Ela estava se divertindo mais do que imaginava e, apesar do resto do corpo gritar para continuar com aquela provocação, seus dedos digitaram outra coisa:
: Boa noite, .
: Melhor você dormir…
: Tá começando a sonhar acordado.
deixou o celular no criado-mudo, os olhos fixos no teto e respirou fundo. Até tentou dormir, mas, assim que fechou os olhos, a imagem vívida de invadiu sua mente. No sonho, eles estavam na praia deserta, molhados pela chuva, os corpos colados e as roupas desaparecendo como mágica. As mãos dela percorriam seu corpo, a boca quente no pescoço, os sussurros no ouvido… acordou abruptamente com os lençóis bagunçados ao redor da cintura, tentando controlar a respiração descompassada enquanto sentia a ereção pulsar em seu shorts de modo quase palpável.
— Que merda… — levou a mão ao rosto, irritado.
Quando saiu do quarto, a casa estava silenciosa, com exceção do som abafado vindo da cozinha. Assim que entrou, viu de costas, com o cabelo preso em um coque bagunçado, mexendo em algo na bancada. Vestia uma blusa larga e um short simples, mas, mesmo assim, parecia ter o poder de tirar sua atenção.
— Bom dia… — Oi, . Dormiu bem? — Perguntou em um tom doce demais, virando para ele. — Melhor do que esperava. percebeu que se movia mais rígido do que o normal e, com um olhar rápido, notou que a tensão das mensagens trocadas parecia ainda estar ali, não conseguindo evitar um sorriso debochado.
— É, tô vendo… — se apoiou na bancada, descendo os olhos pelo corpo dele, até parar no short. — … ou será que o calor da manhã tá te deixando animado?
— Não é o que você tá pensando. — Respondeu, forçando um tom casual, mas a garota não pareceu tão convencida.
— Ah, pensei que esse… efeito… tivesse sido causado pelas mensagens de ontem. — Ela se aproximou lentamente, o sorriso alargando aos poucos, como se estivesse se divertindo cada vez mais com aquela situação. — Você não sonhou comigo, né?
Naquele momento, Stella entrou na cozinha, completamente alheia a tudo, forçando-os a se afastar. se virou novamente para a bancada e fingiu estar super interessado nos pratos da pia, enquanto ela pegava uma maçã na fruteira, murmurando apenas um “bom dia”. Assim que a irmã saiu, aproveitou a brecha e se aproximou por trás de , pensando-a contra a bancada.
— É, eu sonhei com você… — murmurou contra a orelha dela, com a voz absolutamente indecente. — E foi gostoso pra caralho.
Ela suspirou, os lábios se separando ligeiramente enquanto sentia perfeitamente o efeito que o sonho causara nele pressionado contra seu corpo. A sensação a fez morder o lábio inferior com força, tentando disfarçar a reação.
— E você vai fazer alguma coisa sobre isso?
Foi o estopim.
começou a distribuir beijos lentos e molhados, desde o pescoço, até as costas dela, enquanto as mãos passeavam pelo corpo de , apertando seus quadris e subindo pelas curvas, até alcançarem os seios por cima da camiseta fina. Ela soltou um suspiro trêmulo e mordeu ainda mais forte o lábio inferior para conter o gemido que ameaçava escapar, sentindo sua calcinha começar a encharcar.
— … — sussurrou com a voz falha, a respiração quente dele arrepiando tudo em seu caminho.
— Você me provoca tanto, … — ele murmurou, deslizando as mãos por baixo da camiseta dela. — Um dia ainda vou te fazer implorar.
virou o rosto de leve, os olhos encontrando os dele com uma mistura de provocação e entrega, mas, antes que qualquer um dos dois pudesse dizer mais alguma coisa, passos apressados soaram do corredor: Stella. Se afastaram no mesmo segundo, como se nada tivesse acontecido, tentando recuperar o fôlego e esconder a tensão evidente no ar. mal conseguiu se mover quando ela saiu da cozinha, os dedos ainda formigando pela vontade que tinha de continuar tocando-a, o cheiro dela pairando no ar, a voz provocante… tudo o deixava mais duro do que gostaria de admitir. Foi direto para o banheiro, abrindo o chuveiro no frio, e, imediatamente, cada cena voltou à tona, como se estivessem sendo projetadas bem ali, na parede do banheiro – ela mordendo o lábio quando ele a pressionou contra a pia, a bunda se encaixando perfeitamente nele, os olhos implorando por mais, mesmo sem dizer uma palavra.
— Merda… — murmurou, batendo a cabeça levemente na parede do box.
Que tipo de inferno era aquele?
Mesmo com a água gelada escorrendo por sua nuca, o calor não diminuía. Sua mão deslizou pela pele desnuda, tocando lugares que ainda estavam quentes, até parar num ponto específico, e ele fechou os olhos, imaginando que era o tocando, a sensação sendo tão realista que quase dava para ouvir o som da voz dela sussurrando em seu ouvido. Aumentou os movimentos, até finalmente explodir de prazer, o nome dela saindo em sussurros junto com alguns grunhidos abafados. Saiu do chuveiro ainda frustrado e passou as mãos no cabelo, se jogando na cama ainda nu e encarando o teto escuro.
Durante o jantar, tentava, com todas as forças, manter o foco na conversa casual com os pais, mas , sentada à sua frente, fazia questão de dificultar tudo. Ria alto, cruzava as pernas devagar demais, deixava os lábios entreabertos e os olhos presos nele de um jeito que só ele parecia perceber. Como se não bastasse, sentiu a pressão sútil do pé dela na perna, subindo pela panturrilha, até alcançar sua coxa, quase derrubando a taça de vinho com o susto. A garota levou uma garfada à boca, fingindo prestar atenção na conversa enquanto provocava por debaixo da mesa e, quando ele lhe lançou um olhar atravessado, mordeu o lábio inferior com a maior cara de anjo do mundo. , aproximou a mão discretamente e prendeu o tornozelo de com um movimento rápido, lançando um olhar cheio de malícia para ela, que quase engasgou, tentando puxar o pé de volta, mas sem sucesso.
— Você começou isso. — Sussurrou, só para ela ouvir
— E você é competitivo, pelo visto. — A garota se inclinou na cadeira, como se fosse apenas ajustar a postura, e roçou o pé discretamente na coxa dele.
— Você tá pedindo, sabia?
— Tô pedindo o quê?
— Que eu levante dessa mesa e te leve pro quarto.
O sorriso que ela deu foi lento, quase vitorioso, e seus olhos baixaram por um segundo até os lábios dele. Então, inclinou-se um pouco mais sobre a mesa, fingindo que ia pegar a taça, e sussurrou:
— Você não tem coragem.
— Quer pagar pra ver?
mal teve tempo de responder ao sentir os dedos dele vagarem preguiçosamente pela pele exposta de sua canela, soltando um suspiro disfarçado. O olhar trocado entre os dois era elétrico e silencioso. Do outro lado da mesa, a conversa dos adultos seguia seu ritmo, até que um comentário dos pais de fez a atenção de todos se voltar para o rapaz:
— A gente fica tão orgulhoso dele. Tá começando a assumir algumas responsabilidades maiores na empresa do pai. — Letícia disse, olhando para o marido, que assentiu.
— O sempre teve certeza do que queria. — O mais novo sorriu em concordância, apesar da única certeza que tinha naquele momento ser a de o que queria despertar em . — Já é um exemplo para a Stella, quando ela começar a faculdade ano que vem.
A matriarca da família assentiu, olhando com aprovação para , que ainda prendia o tornozelo dela, fingindo estar completamente alheio à tensão entre eles. — Realmente, um ótimo exemplo. Inclusive, filha? — Cláudia voltou o olhar para , que se endireitou tão rápido que quase derrubou o garfo.
— Quê?
A mãe franziu o cenho, sem entender aquela reação, mas continuou:
— Podíamos conversar depois sobre isso. Você precisa começar a pensar no seu futuro com mais seriedade.
piscou, o sorriso morrendo na mesma hora, e se ajeitou na cadeira, puxando o pé de volta devagar.
— É sério que quer falar sobre isso agora?
— E por que não agora? Estamos todos aqui, conversando sobre a vida… você podia se inspirar um pouco no , né?
— Claro, o é um exemplo. Um verdadeiro modelo de perfeição… — rebateu, a voz carregada de ironia.
— O que eu quero dizer é que já tá na hora de parar de brincar de viver de música. Cantar bem não é sinônimo de sucesso.
— Mas já é um começo, né?
— Filha, a gente só quer te ver bem. Você sabe que esse meio é instável, competitivo… temos medo de te ver frustrada. — Henrique tentou intervir, com um tom mais compreensivo.
— Uau… — ela soltou uma risada seca. — Então talvez devessem ter pensado nisso antes de me colocarem numa escola de música aos cinco anos… ou será que vocês achavam que eu faria tudo aquilo só pra cantar no chuveiro?
— A gente fez o melhor pra você! — Claudia pareceu se ofender. — Queríamos que tivesse uma boa formação!
— Ah, claro! Me deram tudo do melhor, menos o direito de escolher o que eu queria fazer com isso depois. Quando eu era mais nova, tudo o que me cobravam era ser a filha exemplar… pensei que com o tempo isso pararia, mas vocês ainda querem que eu siga o roteiro que escreveram pra mim.
— Você tá sendo ingrata, . — Disse o pai, visivelmente incomodado.
— Não, eu tô sendo honesta. Sempre tentei agradar vocês, mas chega uma hora que a gente cansa de viver tentando cumprir as expectativas dos outros… — ela respirou fundo, a voz vacilando por um segundo, mas logo voltando firme. — Vocês falam de mim como se eu fosse uma irresponsável, uma vagabunda que acorda tarde e espera que a vida caia no colo. E, sim, eu tive o privilégio de nascer com o famigerado sobrenome “”… — a voz saiu com ironia. — Mas tem ideia do quanto eu me esforço? Do quanto eu tô dando o máximo por isso? — Seu olhar passeou pela mesa, encarando os pais. — Eu tô fazendo faculdade e, pasmem, me virando com bico para pagar minhas próprias coisas, estudando música, correndo atrás de cada oportunidade… e nada disso me faz menos digna de respeito.
— … — Henrique tentou falar, mas ela continuou.
— Acham que é fácil viver com esse peso nas costas? Carregar o talento que vocês mesmos alimentaram em mim e depois ouvir que é tudo besteira, que não vai dar em nada? Eu não sou um fracasso, só não sou o que vocês queriam… e talvez isso doa mais em vocês do que em mim. — O silêncio que se seguiu foi pesado. olhou para ela com um misto de surpresa e admiração, sua irmã mordeu o lábio para conter um comentário, enquanto o resto da mesa evitava o contato visual. — Mas tudo bem… a gente finge mais um pouco. — Ela se levantou em um pulo, empurrando levemente a cadeira para trás. — Com licença. Vou para o meu quarto, como a boa artista frustrada que sou… aproveitem o jantar. — fez uma reverência, como se estivesse agradecendo aos convidados por terem ido ver o seu espetáculo, e saiu da sala sem olhar para trás, deixando o silêncio tomar conta da mesa por alguns longos e torturantes segundos.
— Ela sempre foi… intensa. — Cláudia deu um riso forçado, pousando a taça com mais força do que o necessário, como se tentasse controlar a própria culpa. Os olhos, antes firmes e críticos, agora carregavam um traço de mágoa, enquanto o marido fingia se ocupar com o guardanapo no colo.
— Talvez ela só queira ser ouvida. — A mais nova murmurou, quase num sussurro, mas alto o suficiente para todos escutarem.
— Stella… — a mãe repreendeu.
manteve os olhos fixos no prato à sua frente, mas sua mente estava a mil, tanto pela provocação escondida embaixo da mesa, quanto pela pontada incômoda de empatia que sentiu por . Sempre a imaginou sendo uma garota convencida, totalmente sem escrúpulos e que tinha tudo o que queria, mas talvez seus pais realmente não a escutassem como deveriam. E, por mais que aquilo significasse que concordava com uma das pessoas mais irritantemente soberbas da face da Terra, tinha que admitir que ela estava certa.
— Vou… pegar mais água. — Anunciou, levantando-se subitamente, mesmo com o copo ainda cheio, e indo até a cozinha, evitando o olhar sugestivo da irmã, como se dissesse “eu sabia”.
parou em frente à porta do quarto de com um prato de comida em mãos e respirou fundo antes de bater.
— Agora não, pai. — A voz abafada da garota surgiu do outro lado da porta. sorriu de lado e respondeu com a voz baixa, mas audível: — Eu não me pareço muito com o seu pai.
Depois de uma pausa, ouviu o som do trinco girando e a porta se abriu devagar, os olhos de se arregalando levemente ao vê-lo ali com aquele prato improvisado nas mãos.
— O que cê tá fazendo aqui?
— Você não comeu quase nada. Achei que… talvez quisesse. — Levantou o prato numa tentativa de justificar a visita e, apesar de não parecer convencida, ela abriu passagem mesmo assim.
entrou, observando o ambiente com um misto de nostalgia e curiosidade. Era o mesmo quarto onde eles travaram inúmeras brigas por espaço, brinquedos e atenção quando crianças, mas agora tudo parecia diferente – mais feminino, mais maduro, mais . Colocou o prato na escrivaninha e sentou ao lado dela.
— Então? O que realmente veio fazer aqui?
A encarou por um segundo antes de responder:
— Ver se você tava bem. Sua mãe sempre foi meio mandona, rígida… principalmente com você. — Sorriu de canto ao se lembrar. — Quando a gente era mais novo ela já botava medo em todo mundo.
— Botava? Ainda bota… mas ela sabe que precisa de muito mais que isso pra me derrubar. — Ela retribuiu o sorriso, apesar de haver uma ponta de cansaço no olhar. — Você parece meio tensa… ouvi dizer que uma boa massagem ajuda muito nessas horas.
— É? Então mãos à obra. — Virou-se de costas para ele, abaixando um pouco a gola do moletom, e soltou um gemido de alívio ao sentir o toque lento em seus ombros. — Você é cheio de surpresas, né? Quais outros talentos, além de ser uma fogueira ambulante e um excelente massagista, gostaria de compartilhar?
— Ah, eu não diria que tenho muitos talentos. Mas você… — fez uma pausa, percebendo quando o rosto dela se inclinou levemente em sua direção.
— Eu…?
— Bem, você realmente canta bem.
— Tá tentando me convencer a cantar pra você agora, ? — provocou, apesar da mudança discreta em seu tom de voz.
— Tô falando sério. Você tem potencial pra ser uma grande cantora.
— Então você é meu fã número um? — Ela tentou usar o ar convencido de sempre, mas sentiu o coração errar algumas batidas e o rosto esquentar involuntariamente.
— Pode parecer estranho, mas eu te escutei cantando no banheiro esses dias… — ele deu de ombros, como se não pudesse evitar. — … e foi incrível. O que eu quero dizer… é inevitável ficar preso na sua voz.
Em você.
Mas ele não falou isso.
— Inevitável… — repetiu, sentindo aquela palavra ecoar por todo o corpo, e assentiu, o olhar fixo nela.
— Você sempre teve esse jeito de conquistar as pessoas… quer dizer, nem todos. sorriu com o comentário.
— Ah, mas eu acho que tô conseguindo te conquistar de outras formas.
— Não posso negar… — concordou, descendo as mãos lentamente pelas costas dela, até a cintura.
— Tá, então, você…
— Ih, lá vem. Deixa eu adivinhar, vai dizer que eu sempre tive cara de certinho?
— Sim… — virou levemente o rosto, curvando o canto da boca em um sorriso travesso. — Mas que tem um lado obscuro.
riu com a provocação, mas havia algo diferente em seus olhos agora – mais escuro, mais faminto. Voltou a subir as mãos, massageando os ombros de com um pouco mais de firmeza, e ela fechou os olhos, não pelo relaxamento, mas pelo calor que começou a subir por sua pele.
— Deixa eu pensar… você tem cara de quem não leva desaforo pra casa.
— E não levo mesmo. — Ela deu de ombros, sem culpa alguma. — Mas você… tem essa cara de que está sempre no controle, mesmo sem estar.
As mãos dele agora desciam pela lateral das costelas dela, os dedos roçando o tecido fino do moletom como se estivesse explorando sem pressa. O toque a fez morder o lábio, mas, ao invés de recuar, ajeitou a postura, como se desse espaço para ele continuar.
— Ah é? E você tem cara de encrenca… do tipo que os pais avisam pra gente manter distância, mas que ninguém consegue.
— Que elogio bonito. Já que é pra jogar tão baixo assim… você tem cara… — ela riu baixo, mordendo o canto do lábio antes de soltar: — … de que ficaria sem ar com um beijo meu. — Virou o rosto por completo agora, o nariz quase roçando no dele. — E realmente fica.
— Fico? — Ele apertou levemente a cintura dela, os olhos incendiando, e a garota assentiu com a cabeça em resposta. — Prova então…
não respondeu – não com palavras. Apenas se aproximou mais um centímetro, deixando que o próprio silêncio falasse quando seus lábios tocaram os dele. O beijo começou como uma provocação, mas logo o riso deu lugar à urgência, quando ele deslizou as mãos por suas costas, puxando-a mais para perto, até que estivesse no colo dele, uma perna de cada lado. Pressionou o quadril contra o de , que soltou um gemido abafado contra sua boca, e puxou a camisa dele, as pontas dos dedos roçando a pele de seu abdômen, fazendo-o gemer mais uma vez. Ele se apressou em adentrar o tecido grosso do moletom, explorando cada pedaço do corpo dela, antes de inverter as posições. Quando sentiu o volume dele pressionado contra sua intimidade, mordeu o lábio com força, tentando conter um gemido. Sabia que conseguia sentir o quanto estava molhada. Até que, de repente, ele parou, encostando a testa em seu pescoço, respirando com dificuldade.
— , a gente não devia… — afastou-se um pouco e ela abriu os olhos, os dedos ainda cravados nos ombros dele. — Você tá num momento vulnerável… brigou com seus pais, tá frustrada. Não quero que pense que eu tô me aproveitando disso.
Por um segundo, seu olhar mudou, o brilho da frustração aparecendo, seguido por uma pontada de incredulidade.
— É sério isso? Eu passei os últimos dias tentando te fazer perder o controle e, quando finalmente acontece, você me diz que eu tô vulnerável?
piscou, claramente pego de surpresa com a reação.
— Eu… só achei que talvez não fosse o momento certo, sabe?
o empurrou suavemente para o lado e sentou na cama, cruzando os braços.
— “Não fosse o momento certo”... pô, . Você acabou de dar o maior amasso da minha vida e decide parar no exato segundo em que as coisas esquentam de verdade?
Ele passou a mão pelo cabelo, tentando encontrar uma resposta, mas só balbuciou:
— Foi mal…
— Foi péssimo. — Ela virou o rosto, o tom mais indignado do que bravo, apesar de achar meio fofo a forma como ele estava desconcertado. — Estragou total o clima.
O silêncio que se instalou no quarto foi quase cômico. sentado na cama, parecendo um adolescente que acabou de levar um fora e em pé, andando de um lado para o outro, tentando ignorar o fato de que ainda sentia o corpo inteiro em chamas.
— Eu só queria ser respeitoso…
— E eu só queria dar uns amassos! — Retrucou, virando para ele. — Por que os dois precisam se excluir?
— Tá… você tem um ponto.
— Tenho vários, mas agora é tarde… já tô aqui com cara de idiota e tesão acumulado. — soltou um suspiro indignado, rolando os olhos enquanto se jogava de volta na cama.
Por alguns segundos, o quarto ficou em silêncio, apenas com o som das respirações contidas e da chuva fraca lá fora, a tensão entre os dois dançando como eletricidade no ar.
— Eu posso… tentar consertar? — Ele aproximou o corpo do dela, vagando os dedos por sua coxa.
A garota hesitou, mordendo o lábio inferior, a tentação de puxá-lo para um beijo impulsivo sendo quase irresistível. Mas ela não ia ceder, não ainda.
— Hoje não, .
— Como assim “hoje não”? Pensei que você queria isso.
— E eu quero… — desviou o olhar para a boca dele por um instante, antes de voltar a encará-lo. Ela tinha planos. E eles não envolviam deixá-lo assumir o controle naquele momento. — Mas não vou facilitar pra você. — O empurrou de leve com a ponta dos dedos e bufou, apesar do sorriso nos lábios.
— Você é o próprio inferno.
— E você tá ardendo direitinho. — A garota respondeu, observando enquanto ele lançava um último olhar em sua direção antes de sair do quarto.
Assim que a porta se fechou, soltou um longo suspiro, olhando para o teto com um sorriso vitorioso nos lábios. Ainda sentia o calor daquela boca em seu pescoço, a firmeza das mãos explorando seu corpo, o desejo nos olhos dele. era diferente… e aquilo só deixava tudo ainda mais perigoso.
A manhã chegou mais rápido do que qualquer um dos dois queria. A mesa já estava posta, com o cheiro de pão fresco e café recém-passado se espalhando pelo ar, quando entrou na cozinha. apareceu alguns minutos depois, murmurando um “bom dia” rouco ao sentar na mesa, os olhos fixos nela, que parecia mais indiferente impossível, devolvendo o cumprimento sem nem olhá-lo diretamente. Passou a mão pelos cabelos, tentando afastar a lembrança, mas era impossível. Cada detalhe da noite anterior parecia ecoar com mais força naquela manhã, ainda mais quando ela estava tão perto e agindo como se nada tivesse acontecido. mantinha a postura de quem estava completamente em paz, mas ele sabia – sentia – que era tudo fingimento e que por dentro ela ainda queimava, apesar de por fora estar rindo de uma piada que Stella acabara de contar, enquanto bebericava o café. Até mesmo quando seus pés se encostaram por acidente debaixo da mesa… ela apenas afastou a perna, como se fosse nada. E aquilo só o deixava mais inquieto… mais irritado… mais louco por ela.
Depois do café da manhã, eles foram se espalhando pela casa: Stella colocou música no quintal, Marcelo e Henrique foram comentar sobre as negócios e Letícia e Cláudia estavam testando uma receita para o almoço. Os pareciam ocupados demais com seus próprios afazeres para tentarem conversar com a filha – o que, na verdade, era exatamente o que ela queria. surgiu no quintal minutos depois, usando um conjunto justo de top e short de academia, com um copo de suco na mão. já estava na piscina, junto da irmã, e percebeu quando ela desviou o olhar na sua direção, mordendo levemente a parte interna da bochecha antes de andar até a borda.
— Não vai entrar hoje? — Ele perguntou, apoiando os braços bem ao lado de onde os pés dela estavam.
— Agora de manhã eu vou ficar só no yoga, mas obrigada.
— Então vai só ficar me assistindo?
— Só se você fizer um show que chame a minha atenção. — Ela virou o rosto lentamente, encarando o copo de suco. — Eu sou uma espectadora bem exigente, .
apertou os dedos contra a borda da piscina. Era impossível decifrá-la. Mas ele percebeu que carregava outra coisa naquela manhã – algo mais denso. Os ombros estavam mais pesados, o olhar mais distante. A discussão da noite anterior parecia pairar sobre ela como uma nuvem silenciosa, mesmo que não dissesse uma palavra. Ficou observando discretamente enquanto ela terminava o copo de suco e começava a alongar o corpo.
— Você tá tenso… — pontuou Stella ao seu lado, bebendo um gole da água de coco.
— Não tô. — Respondeu, encarando a superfície da água, como se aquilo fosse mais interessante do que o cenário a poucos metros dali, e sua irmã riu.
— , você tá olhando desde que ela estendeu aquele tapetinho. Quase engasgou quando ela começou a se alongar
Ele bufou, ainda sem olhar para a mais nova.
— Para de inventar coisa. Eu só… queria ver como funciona essa yoga aí.
— Ah, claro… — sorriu, sarcástica. — Porque você sempre foi super interessado em yoga, né?
— Não enche, Stella.
— Você tá muito na dela… e o pior é que ela sabe.
Ele revirou os olhos, saindo da piscina e pegando a toalha para secar o rosto, ouvindo a risadinha irritante da irmã e o som suave da respiração de em meio às poses, que, por sua vez, não parecia se importar com nada ao redor. Em determinado momento, abriu os olhos e lançou um olhar rápido na direção de , que, mesmo tentando parecer distraído na conversa do pai e de Henrique, claramente estava olhando. Ela deu um sorriso de canto, satisfeita, e fechou os olhos de novo, voltando à posição.
— Estamos pensando em expandir a filial de São Paulo. — Marcelo disse, gesticulando. — Mas vai exigir um acompanhamento mais próximo, alguém de confiança para representar a família.
assentiu, os olhos fixos no copo de cerveja em sua mão. Sabia que, cedo ou tarde, a responsabilidade de representar a família cairia em suas costas.
— E você, ? — Henrique perguntou. — Pretende seguir no mesmo setor ou pensa em diversificar?
Ele abriu a boca para responder, mas, naquele instante, um movimento no jardim capturou sua visão periférica. , no tapete de yoga, jogava o corpo para trás em um alongamento lento, o top se movendo junto com a respiração profunda. Desviou os olhos num impulso, pigarreando, mas o atraso de um segundo foi o suficiente para Henrique erguer uma sobrancelha, notando a distração.
— Diversificar… talvez. — Respondeu rápido demais, tentando recompor a postura. — Mas só faria sentido se trouxesse retorno de verdade, não algo forçado.
— Justo. — O pai concordou. — O importante é manter o foco.
Foco. A palavra ecoou quase como uma piada cruel. Porque, não importava o quanto tentasse, seus olhos voltavam a escorregar de volta para , que agora estava deitada de bruços, apoiando os cotovelos no chão e arqueando o quadril para cima. O sol realçava a pele dela e teve que apertar os olhos, como se fosse a luz que estivesse incomodando sua visão.
— E a questão da expansão digital? — O patriarca da família perguntou, apoiando o cotovelo no braço da cadeira. — O marketing de influência tem crescido absurdamente. Já pensaram em investir mais pesado nisso?
assentiu, apesar de nem ter certeza do que estava respondendo. O pai lançou-lhe um olhar crítico, talvez por perceber a falta de firmeza, mas ele se apressou em falar:
— Sim, temos analisado esse mercado… — a voz saiu firme, mesmo que seus olhos insistissem em deslizar até , que arqueava o corpo em uma posição que parecia um convite à perdição. Engoliu seco, forçando-se a voltar para a conversa. — O alcance ainda é um desafio, mas estamos estudando algumas estratégias e aproveitando o digital para potencializar campanhas offline também.
Marcelo assentiu, sério, mas notou o leve desvio de olhar do filho.
— Isso exige consistência. Não adianta só investir em campanhas pontuais. É preciso uma visão de longo prazo.
concordou, mexendo distraidamente no copo.
— Claro, a ideia é trabalhar com engajamento e retorno.
Henrique, por sua vez, sorriu, interessado.
— Inclusive, tenho contato com uma agência que é especializada nisso. Posso te passar depois.
— Ótimo. — respondeu rápido demais, quase automático, porque naquele instante apoiava as mãos no chão e erguia o quadril em uma transição lenta, como se não tivesse a menor consciência do que estava provocando.
O jantar foi mais tranquilo do que o anterior – ninguém mencionou a briga, como se fingir que nada tinha acontecido fosse mais fácil do que encarar o elefante na sala. estava calada, mas não distante, só recolhida. fingia naturalidade, mas a forma como ela o ignorava o corroía por dentro. Quando a sobremesa chegou – a torta de frutas vermelhas, favorita da mais nova – tentou pegar uma segunda fatia, mas ela foi mais rápida.
— Essa é minha. — Disse, com um leve sorriso debochado.
— Você nem tava comendo direito até agora.
— Mas agora eu tô. — Ela pegou o prato com a última fatia e começou a comer com gosto, como se aquele momento fosse a única coisa boa do dia.
— O que deu em você, hein? — encostou o garfo no prato, a mandíbula tensa. — Nada. Só não tô afim de fazer social.
— E pra isso tem que agir feito uma criança? Tá estranha desde ontem. — O silêncio na mesa foi quase instantâneo. Todos pararam de comer, se entreolhando. Marcelo pigarreou, Cláudia fingiu não ouvir e Stella observava a interação com um sorriso discreto no canto da boca, claramente se divertindo. — Você só descansa quando consegue o que quer, né?
apenas pegou o garfo de novo e, com um sorriso vitorioso, saboreou mais um pedaço da torta, apesar de, por dentro, o gosto estar mais quente, mais denso. sentia o sangue ferver nas veias. Aquela garota… o deixava completamente fora de si. Depois do jantar, quando a casa já estava mais quieta e todos dispersos, ele subiu as escadas, parou diante da porta do quarto dela e bateu duas vezes. Ela abriu com uma expressão confusa, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, o garoto entrou com tudo, fechando e trancando a porta atrás de si.
— , o que…
— Chega. Você passou o dia todo brincando comigo, me ignorando, me provocando… fingindo que não aconteceu nada ontem.
— Porque não aconteceu. — Ela retrucou, apesar da voz já não vir tão firme quanto antes.
— Não mente pra mim. Eu senti, você também e agora tá me enlouquecendo.
engoliu seco, o corpo rígido, mas não deu um passo sequer, como se esperasse o próximo movimento – como se desejasse.
— A única coisa que eu senti foi você parando.
— Porque achei que era o certo.
— Tudo bem… — deu de ombros, mas sua expressão suavizou por um instante. — Ontem foi um dia estranho. Eu ainda tô… processando algumas coisas.
— Quer que eu vá embora? — Ele perguntou, dando um passo à frente, e hesitou alguns segundos, negando com a cabeça, devagar. — Ótimo… porque essa porta vai continuar trancada. — Continuou se aproximando, até que ela recuou sem perceber, o quadril batendo contra a beira da cama. inclinou a cabeça e um sorriso torto, carregado de provocação, apareceu em seus lábios. — Você adora me deixar fora de controle.
ergueu o queixo, tentando disfarçar o arrepio que percorreu o corpo.
— Mas eu nem fiz nada… — ironizou, com um meio sorriso que não chegava aos olhos.
— Claro que não… — ele encostou as mãos na beira da cama, prendendo-a ali.
— …
— Fala mais uma vez o meu nome desse jeito… — sussurrou, os olhos escuros cravados nos dela. — … e eu juro que não vou conseguir parar.
— Ah é? Pe…
Antes que completasse, ele a puxou pela cintura, colando suas bocas em um beijo urgente, faminto. Deslizou as mãos por dentro da camiseta dela, apertando os seios por baixo do tecido, e arqueou o corpo, um gemido contido escapando quando ele a pressionou mais contra a cama, sentindo o volume dele pulsar em vontade.
— Se continuar assim, a casa inteira vai ouvir. — Alertou, quase sem fôlego, descendo os beijos pelo pescoço dela, sugando com força suficiente para marcar.
— Tá quebrando as próprias regras, . Era você quem não ia se aproveitar de um momento vulnerável meu?
— Mas é que depois do que você fez no jantar… tá me devendo uma sobremesa. — Ele falou pausadamente, enquanto subia a boca até a mandíbula dela.
— Eu sei de uma sobremesa que você vai amar. — mordeu o lábio inferior, deixando escapar um sorriso.
— Já imagino o que seja… e quero lamber o prato todo. — Ele a deitou de costas e ficou por cima, deslizando as mãos pelas laterais do corpo dela, subindo a camiseta devagar, até deixá-la livre. — Porra… — murmurou, a voz rouca, os olhos cravados naquela visão antes de abocanhar o pescoço dela com beijos quentes, descendo até os seios. mordeu o lábio, tentando conter o gemido que escapava, e retribuiu, puxando a barra da camiseta dele, que saiu num gesto apressado, deslizando as mãos pelas costas largas, as unhas arranhando de leve, sentindo cada músculo tenso sob a pele. continuou explorando seu corpo com uma lentidão torturante, até os dedos encontrarem a borda do short, deslizando-os por dentro do tecido e esfregando a região entre suas coxas. suspirou, suas mãos agarrando os lençóis com força. Ele afastou a calcinha de lado, revelando completamente a intimidade já encharcada, e deslizou dois dedos dentro dela, que gemeu, movendo o quadril em busca de mais contato. Retirou os dedos lentamente e os levou até a boca, saboreando o gosto, enquanto mantinha contato visual. O jeito que a olhava – como se fosse a única coisa no mundo naquele momento – fez seu coração disparar.
— Quer sentir o quão gostosa você é?
Ela balbuciou um “sim” e o sorriso que ele deu foi quase doloroso de tão bonito, inclinando-se para voltar a beijá-la, compartilhando o gosto dela nos lábios. tirou as últimas barreiras entre eles e se posicionou entre as pernas de , sentindo a umidade contra sua ereção. Quando finalmente guiou-se para dentro dela, o ar escapou de seus lábios num gemido suave, que foi abafado com outro beijo. O ritmo começou lento, cuidadoso, como se ele quisesse memorizar cada reação, mas a necessidade foi crescendo rápido e os movimentos se tornaram mais intensos. A cama rangia levemente e eles riam baixo entre os beijos quando o som se tornava arriscado demais. Ela abafava os gemidos contra o ombro dele, enquanto enterrava o rosto em seu pescoço, os movimentos intensos, mas contidos pela necessidade de silêncio.
— … — gemeu baixo, apertando a mão dela contra o colchão.
Ela atingiu o clímax, seu corpo tremendo enquanto ondas de prazer a consumiam, mas continuou se movendo, prolongando o momento até também alcançar o auge, caindo sobre ela, enquanto tentava recuperar o fôlego. Ainda ofegante, puxou o lençol para cobrir parte do corpo, rindo baixinho.
— Uau… — murmurou, virando o rosto para ele com um sorrisinho atrevido. — Para alguém tão certinho, você acabou de me dar o melhor sexo da minha vida.
Ele arqueou a sobrancelha, mordendo o lábio para conter o riso.
— Ah, é? Então, para alguém tão teimosa, você aceitou bem direitinho eu ficar no comando.
— Idiota. — rolou os olhos, não conseguindo conter a risada, empurrando-o de leve, mas ele a segurou pelo punho, trazendo a boca perto de seu ouvido, a voz baixa, rouca.
— Sabe qual é o problema agora? Acho que você acabou de virar meu vício.
A garota congelou por um segundo, sentindo o coração disparar, mas disfarçou com ironia.
— Bom, vícios não são saudáveis, sabia?
— Ah, mas esse eu não vou largar nunca. — rebateu, beijando a curva do pescoço dela.
mordeu o lábio, tentando não sorrir, e então respirou fundo, como se estivesse prestes a confessar um segredo perigoso.
— Tá… mas falando sério agora… preciso te contar uma coisa.
— O quê?
— Um produtor de uma gravadora entrou em contato comigo esses dias. — Disse de uma vez, mordendo o canto da boca, nervosa. — Você é a primeira pessoa pra quem tô contando, então se eu descobrir que saiu espalhando por aí… juro que te mato.
Ele abriu um sorriso lento, genuíno, os olhos brilhando.
— Tá brincando? , isso é incrível!
— É, mas… ainda não sei se vou aceitar. É muita coisa pra pensar.
acariciou o rosto dela de leve, ainda com aquele ar debochado, mas tentando confortá-la.
— Bom, se você resolver aceitar e sair em turnê pelo Brasil… quando passar por São Paulo, pode visitar o apartamento que eu tô pensando em comprar.
— Olha só, já querendo me levar pro seu apê. Mal terminamos aqui e você já tá planejando a segunda rodada.
— Vício é vício… — ele deu de ombros, sorrindo convencido. — Não é minha culpa se você é gostosa pra caralho. Não faz ideia do que começou aqui, .
Ela soltou uma risadinha, inclinando-se para mordiscar o ombro dele antes de se afastar de propósito, deixando o ar entre os dois carregar a tensão.
— Eu sempre sei o que começo, . Só não costumo avisar quando vou embora. Ele franziu as sobrancelhas, sentando-se na cama para encarar melhor o olhar travesso dela. Havia algo perigoso naquele gesto – como se tivesse acabado de ganhar um jogo que só ela sabia as regras. fechou os olhos por um segundo, tentando ignorar o efeito que ela tinha sobre ele, mas não adiantava. Era como lutar contra algo que já estava definido e que, ao mesmo tempo, nunca seria simples.
— Você vai me enlouquecer.
não respondeu de imediato. Apenas passou a ponta dos dedos pelo braço dele preguiçosamente, até entrelaçar suas mãos. Então ergueu o olhar, carregado de provocação.
— Esse é o plano. — Respondeu, como se fosse óbvio.
sabia que ela estava falando sério. Sabia também que não adiantava tentar fugir, porque já não tinha mais volta. Ela iria provocar, rir, desaparecer e voltar quando bem entendesse. E ele, por mais que tentasse, sempre acabaria cedendo. Naquele instante, deitados lado a lado em meio ao silêncio pesado da madrugada, ambos entenderam – mesmo sem dizer nada – que aquilo não tinha sido apenas uma vez. Tinha sido o começo. E, de alguma forma, os dois estavam dispostos a pagar o preço.
Fim
Nota da autora:
S/N
Nota da scripter: AMEEEEI.
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Nota da scripter: AMEEEEI.