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Última atualização: 20/01/2017

Capítulo Um: Entre chuvas e tempestades


“É um mistério como nos apaixonamos, por quem nos apaixonamos, e o motivo de nos apaixonarmos. Mas a gente se apaixona.”

O céu estava cinza escuro, todo aquele azul brilhante rapidamente se escondera por trás das nuvens, que rapidamente deslizavam por sobre o céu, apagando de vez o azul lindo que amanhecera naquele dia. Os passarinhos encantadoramente felizes não pareciam temer a chuva que aos poucos começava a respingar sobre o chão, mas os seres humanos abaixo, temendo ensopar seus paletós, escondiam-se o mais rapidamente, livrando suas roupas de sofrerem uma lavagem antecipada.
Ela não corria, caminhava ainda lentamente pela calçada quando sentiu as gotículas de água caindo sobre seu rosto, fazendo-a erguer a mão à frente, deixando a palma para cima para constatar que a chuva estava vindo mais rápido do que ela imaginara. As gotas grossas começaram a respingar fortemente sobre a calçada de concreto e a ensopar os cabelos louros. Risonha, ela percebeu que, se não se acorresse da chuva, ficaria encharcada, o que, àquela altura, já não faltava muito.
Parando a beirada de uma loja, ela se protegeu da chuva debaixo de um pequeno telhado, encostando-se a parede e observando a chuva que agora se tornava um temporal, enquanto as grossas gotas encharcavam o asfalto e no céu as nuvens negras predominavam deixando o som alto dos trovões ecoarem por toda cidade, ou parte dela. Debaixo do telhado, protegida da chuva ela ergueu o pulso verificando as horas no relógio, já estava quase na hora dele chegar, será que ele também tomara um banho de chuva ao entardecer?

Quando ele saiu do elevador do prédio onde estagiava, percebeu que o céu estava fechado, as nuvens densas encobriam todo o céu, que coisa, ele havia visto o dia todo completamente ensolarado e o céu espetacularmente azul pelas janelas do andar onde trabalhava e agora era como se o céu azul nem tivesse aparecido naquele dia, as nuvens zangadas e escuras pareciam dar um ar mal-humorado ao céu e ele correu até seu carro, estacionado a lateral do prédio, adentrando o mesmo antes que aquele temporal banhasse seu terno novo, o que ele finalmente conseguira comprar depois de um pequeno aumento de salário.
havia se formado há menos de um ano, e conseguira um estágio excelente ao término da faculdade de engenharia, e era nesta mesma empresa que ele tinha esperanças de crescer cada vez mais, afinal de contas, seu chefe costumava valorizar o trabalho dos que se empenhavam e ele estava tendo bons frutos em pouco tempo. Distraído ele deu partida no carro, era melhor ele ir pra casa antes que a chuva parasse o trânsito, o que era bastante comum, além do mais, quem sabe ele não conseguisse dar uma carona para ela?
Os carros transitavam com menor velocidade, o que ele já havia previsto, era sempre assim, qualquer chuva naquela cidade parava tudo completamente, e o fato de o transito estar pelo menos fluindo, mesmo que lentamente, já era um ponto positivo, não demoraria horas e horas a fio para chegar em casa.
Há duas quadras da rua onde morava ele notou algo que lhe chamou a atenção, sorriu largamente, reconheceria aqueles cabelos louros mesmo na noite mais escura, os ponteiros do velocímetro já lentos, diminuíram ainda mais enquanto procurava uma vaga para estacionar.
Estacionando o carro um pouco ao longe, sorriu, observando-a de dentro do carro sem que ela o notasse, estava com os cabelos molhados e seus olhos estavam perdidos em algum ponto que ele não conseguira distinguir.
Ao abrir a porta do carro para sair, notou o seu erro, uma enxurrada de água pluvial o banhou em segundos, fazendo-o sair apressado e apertar o botão do alarme logo após bater à porta do carro e correr até onde ela se encontrava, não sem antes se encharcar pela chuva no pequeno percurso; Parou ao lado dela risonho e se chacoalhando como um cachorro molhado, enquanto ela o observava por segundos antes de gargalhar entusiasmadamente.
— Você está parecendo um cachorrinho de rua.
— E você está parecendo um poodle que acabou de sair do banho. - Ela revirou os olhos ao comentário dele e riu. - Não pense que você vai entrar desse jeito no meu carro.
riu e o olhou desafiadoramente.
— Ah é? - E antes que ele pudesse prever, ela segurou firmemente a chave que estava em sua mão e a agarrou, pegando-o de surpresa.
— Hey! - Ele tentou inutilmente pegar a chave da mão dela, mas ela já corria em direção ao carro, risonha, como se fossem duas crianças brincando de pega-pega. Ele a agarrou por trás, pela cintura, tentando impedi-la de chegar ao carro e ela gargalhou, enquanto a chuva os encharcavam de vez. Um BIP se fez mais alto que a chuva que açoitava a calçada e ela tentou se desvencilhar dos braços dele para abrir a porta do passageiro, mas ele mais ágil segurou-lhe as mãos, impedindo-a.
— Nem pense nisso. - Ele disse meio ofegante e meio risonho ao ouvido dela e ela, rindo, deixou o corpo amolecer, vencida.
— Okay, okay, você venceu, vamos a pé então. - Ela virou-se ainda nos braços de e ele olhou-a por segundos, os cabelos loiros estavam ainda mais encharcados, colados ao rosto branco com leves sardas e os olhos azuis brilhando intensamente, e riu. Era incrível como ela o fazia esquecer completamente de tudo a sua volta, inclusive que acabara de encharcar seu terno novinho.
— Depois que você me fez encharcar meu terno novo, né. - Ela gargalhou e se desvencilhou dele, apertando o alarme novamente do carro, enquanto as pessoas protegidas da chuva olhavam-nos pensando que eram dois completos malucos, agora de mãos dadas, caminhando debaixo da chuva que caia como se Deus estivesse querendo um novo diluvio.

Fora debaixo de uma chuva como aquela que eles haviam se conhecido, quando iniciava o último ano de engenharia, era engraçado como em dias como aquele ele sempre se recordava daquele dia.
Era final de tarde, ele acabara de se mudar para o apartamento novo, estava apressado, caderno e livros da faculdade nas mãos, prestes a se atrasar para a aula, quando a chuva pegou a todos desprevenidamente.
As nuvens densas encobriram a cidade, grossas gotas de chuva desceram rapidamente traiçoeiras espatifando-se sobre o chão cimentado e sobre eles, encharcando-os aos poucos, enquanto ela corria por sobre a calçada, tentando inutilmente cobrir os cabelos com as mãos; Apressadamente distraída, ela mal percebeu quando um corpo invadiu seu campo de visão inesperadamente, fazendo-os se colidirem bruscamente um com o outro, desequilibrando-os enquanto o som de pastas, cadernos e livros se espatifando ao chão ecoavam em meio as trovoadas que se tornavam mais intensas.
— Ai meu Deus, me desculpe, me desculpe. – Apressou a garota, equilibrando-se e indo ao auxílio do garoto que tentava o mais rapidamente possível recuperar os livros e cadernos que aos poucos encharcavam-se, como os cabelos louros dela.
— Não, não, tudo bem. – Ele sorriu, ajeitando o último livro aos braços, encarando-a por segundos. As gotas de chuva banhavam seus rostos, encharcando ainda mais os cabelos louros e passando também a encharcar os cabelos bagunçadamente negros do garoto.
As enormes gotas de chuva banhavam seus rostos, mas ele não pareceu se importar com isso, enquanto seus olhos castanhos continuavam encarando aqueles olhos lindamente azuis que brilhavam de uma maneira que ele jamais havia visto na vida, como se pudesse hipnotiza-lo em segundos que pareciam eternamente longos e sublimes.
Um sorriso excepcionalmente lindo se formou nos lábios bem desenhados da garota antes de uma risada divinamente musical ecoar em seus ouvidos, fazendo-o esboçar um sorriso involuntário, contagiado por aquele riso perfeito, vindo daqueles lábios perfeitos, daquele rosto perfeito, daquela garota perfeita.
— É melhor sairmos daqui, vamos nos encharcar. – Risonha, ela segurou no braço dele com delicadeza, o puxando finalmente para a área coberta que ela visara em sua corrida pela chuva.
As gotas grossas e encharcantes pararam de cair sobre eles, espatifando-se agora sobre o chão cimentado a frente, enquanto seus olhos observavam a chuva cair torrencialmente pelo asfalto da larga rua e por sobre as arvores. Desviando os olhos da chuva, ele observou a garota ao seu lado: os cabelos louros, quase dourados, estavam caindo encharcados por sobre o rosto, colando-se a pele branca com leves sardas que brincavam, de uma maneira sensual, por sobre a pele, os olhos azuis observavam os passarinhos que felizes se divertiam em uma pequena poça d’água a beira da calçada. O nariz delicado era proporcional ao rosto pequeno e os lábios levemente grossos, mas sem exagero algum, eram perfeitamente desenhados, o que tornavam aquele sorriso que se formava aos poucos nos lábios ainda mais perfeito. A blusa preta onde apenas as palavras “The Beatles” estampava-se, estava encharcada, colada ao corpo, perceptivelmente magro e bem definido e a julgar pela calça jeans e o tênis All Star todo rabiscado, ela não devia ter mais do que seus dezessete anos. Apenas uma garota, pensou ele, desviando os olhos sem jeito quando ela finalmente o encarou, esquecendo-se momentaneamente dos passarinhos felizes.
. – ela sorriu, sem esticar a mão ou fazer menção de lhe dar um beijinho no rosto, mas para ele, aquele sorriso já valia por tudo.
. – Ele respondeu simplesmente, sorrindo em seguida, um sorriso que se misturava a um jeito encantado e encantador, observou ela, pensando que aquele sorriso, provavelmente, deveria fazer muitas garotas se derreterem.

A chuva torrencial em segundos foi se abrandando, típicas chuvas de verão, pensou ela, desanimada, vinha apenas para encharca-los e rapidamente ia embora.
Sorrindo, ela se desencostou da parede, sob a pequena área coberta à calçada e o encarou.
— Foi um prazer, . – Ela permaneceu com aquele sorriso lindo nos lábios e mais uma vez ele sorriu instintivamente. – A gente se vê.
Ela piscou, ainda com aquele sorriso nos lábios, se virou e saiu caminhando animadamente encharcada pela calçada, enquanto as demais pessoas faziam o mesmo, invadindo a calçada e fazendo-o perdê-la de vista.
Foi assim que ele a conheceu.

riu com tais pensamentos, enquanto observava a garota ao seu lado, ainda parecia a mesma, exceto que aquelas recordações já faziam quase dois anos, e nesse tempo muitas coisas haviam acontecido.
O apartamento em que moravam era situado no terceiro andar de um pequeno prédio residencial, sem elevador, sem porteiro e sem condomínio, ganhara como herança de seu avô há alguns anos, e era lá que morava desde que entrara na universidade, há sete meses, de muita zoeira e diversão, segundo ela.
Ensopado, adentrou o apartamento temendo pisar no tapete recém lavado da sala, enquanto jogava a bolsa sobre o sofá e ia tirando o casaco encharcado.
— É melhor tirar esse terninho de mil dólares antes que embolore no seu corpo, garanhão. – Disse ela aos risos, enquanto já ia se livrando do terno pensando com tristeza que não poderia usá-lo no dia seguinte.
— Só faz dois dias que estou usando, e é bom que a senhorita engraçadinha deixe ele impecável até segunda-feira, ou vai ter que me comprar outro.
Ele parecia zangado, mas sabia que ele só estava tentando parecer um pai chato e ranzinza, bravo porque a menina mimada fizera arte, era tudo fachada, é claro, por isso ela gargalhou carregando o terno ensopado para a lavanderia e dizendo alto o suficiente:
— Você que pensa, papai.
O apartamento era moderadamente bem decorado, claro que esse moderadamente era graças a e sua mania de ajeitar tudo, “vamos deixar isso mais bonitinho”, dizia ela sempre que comprava algo novo, um vaso de flor, uma planta para a sacada, um quadro que vira em promoção, uma cortina azul Royal que achara a cara de , “para combinar com seus lindos olhos... Ops, eles não são azuis, esqueci.”, mas mesmo com todo aquele humor engraçadinho, como dizia , era ela quem dava um toque a mais no apartamento. Os moveis básicos vieram como parte do apartamento antigo de seu avô, a geladeira, o fogão, o sofá restaurado, os quartos com camas e guarda-roupa embutidos, os demais ele comprara com o dinheiro de herança enquanto a parte da decoração ficara por quando se mudara para lá, até porque aquele “meu Deus que apartamento mais sem graça” já lhe advertira que teria que aguentar as decorações rosas e corações por toda parte, mas ao contrário do que imaginara, tinha um excelente bom gosto e sabia como manter um apartamento bonito e agradável com pouquíssimo dinheiro, bonito... bom, com exceção da cortina azul Royal, é claro.
Quando saiu do banho quente e revigorante de trinta minutos, sentiu um cheiro invadir suas entranhas e fazer o monstro da fome que estava dentro dela urrar desesperado. Ela conhecia bem aquele cheiro, o cheiro maravilhoso da especialidade de : Macarrão ao queijo.
— Meu Deus, você ainda me mata com esse cheiro. – Ele estava colocando os pratos sobre a mesa quando ela adentrou a sala, que era metade sala de estar com o sofá, raque e mesa de centro, e a outra metade sala de jantar com a mesa próxima ao balcão que dividia a sala da cozinha. usava uma calça de moletom baixa, deixando à mostra as entradas da cintura e uma camisa regata branca, deixando os bíceps bem definidos aparentes.
Se fosse deixar a amizade de lado e olhar para como olhava para todos os possíveis candidatos a namorado, ela certamente perderia o ar e se apaixonaria em menos de trinta segundos.
Por que? Você perguntaria. Bom, começaria definindo fisicamente como algo próximo a um Deus Grego, ou Deus do Trovão, ou qualquer ser lindo e gostoso que você queira intitular, sim, porque ele tinha um corpo de fazer qualquer mulher que se preze ficar com água na boca.
Tinha um peitoral bem definido, malhado, apesar de não ser o tipo de homem que se mata em academias, mas de vez em quando ia ao parque se exercitar, fazer barras, flexões, correr exibindo seu corpo maravilhoso e fazer mulheres morrerem pelo caminho. A barriga era aquele tipo de tanquinho que toda mulher sonha em lavar roupa, bem definida, as coxas eram grossas como de jogadores de futebol, sem contar as pintinhas sexys que ele tinha espalhadas pelo corpo e pelo peitoral, sem pelos.
Tinha os cabelos negros bagunçados de maneira charmosa, um sorriso de derreter qualquer criatura que olhasse para ele, e quando ria então, você simplesmente poderia virar uma manteiga sobre uma frigideira quente e derreter em milésimos. Os olhos castanhos eram profundos, encantadores, e quando te olhavam te davam aquela sensação de verdade e segurança, o tipo de homem que jamais mentiria para você ou te enganaria, e conhecendo como conhecia, ela sabia que isso era verdade, ele era um dos poucos homens corretos e direitos no mundo, odiava sair com várias garotas apenas por sair, para ele deveria existir uma conexão entre as duas pessoas para se envolver, era estudioso, gostava de ser o mais honesto possível com qualquer pessoa, principalmente com as mulheres que se envolvia, e acima de tudo, era fiel.
Era até difícil de acreditar que um cara como ele existia, quer dizer, lindo, sincero, fiel, heterossexual e não era uma lenda ou um sonho. Seria isso mesmo possível?
sabia que sim, mas o destino traiçoeiro fizera esse homem digno dos sonhos de toda garota, ser apenas seu melhor amigo, talvez mais do que isso, quase como irmãos.
Quase.
— É tão bom ter um homem que cozinha em casa, quer dizer, eu posso chegar cansada...
— Você não faz nada o dia inteiro, vagabunda. – Disse ele risonho, interrompendo-a.
— Tomar um banho maravilhoso e tchanãm o jantar já está pronto, quer coisa melhor do que isso? – Ele riu diante do comentário dela, enquanto se serviam e sentavam-se à mesa, a TV na sala de estar ligada em volume baixo.
— Não vá se acostumando com isso, engraçadinha, não sou seu cozinheiro, não.
— Não? – fez um biquinho manhoso e gargalhou jogando em cima da garota um fio de macarrão repleto de molho e queijo, acertando a bochecha dela que o olhou com falsa indignação.
— HEY! – Disse antes de passar o dedo pelo macarrão e o colocar na boca, degustando-o saborosamente. - Humm isso tá gostoso pra caralho.
riu, negando levemente com a cabeça como quem diz “é cada louco”.

— Eai, como está o estágio? Consegue arrumar um biquinho pra mim lá? – Ela os servira de Coca-cola e agora saboreava o macarrão calmamente enquanto o observava, distraída.
— Excelente. Ontem tivemos uma reunião e parece que o chefe vai me dar outro aumento, na verdade, provavelmente eu passe de estagiário para efetivo.
— Jura, ?! Meu Deus, isso merece... sabe o que?? – Ela ergueu as sobrancelhas abrindo um sorriso enorme, com os lábios vermelhos de molho, o que o fez rir antes de responder.
— Nada de comemoração ainda, é melhor esperar o chefe realmente cumprir com a palavra, certo?
— Eu seeeei. Mas ainda assim acho que podíamos fazer uma pré-comemoração amanhã à noite. Que tal? - Ele a observou por segundos, com aquela cara de desconfiado e gargalhou, erguendo as mãos como quem se rende. – Eu não fiz nada de errado, eu juro.
— Então pretende fazer. Eu te conheço, . – A loira gargalhou e ergueu as sobrancelhas em desafio.
— Desde quando? – gargalhou alto.
— Desde que você me atropelou debaixo de chuva só pra me chamar a atenção.
— É claro, quando eu te vi com aqueles óculos de nerd, cheio de espinhas na cara...
— Hey, eu não tinha espinhas. – Advertiu ele, mas ela o ignorou completamente.
— Não consegui resistir, tudo que eu conseguia pensar era “meu deus, eu preciso esbarrar nele e ficar encharcada debaixo da chuva, quem sabe ele não vira o Peter Parker de cabeça pra baixo e me beija?”
gargalhou e o seguiu, jogando vários fios de espaguete na direção do garoto, que ágil conseguiu se desviar da mira nada boa dela.
— Okay, uma pré comemoração só porque estou realmente precisando sair e beber um pouco... – Começou ele, o que a fez emendar empolgada.
— E dançar, e beijar. Você está precisando de uma mulher mesmo , anda muito mal-humorado ultimamente. Quanto tempo faz que você não dá uns pegas? Um mês?
Ele gargalhou, Deus, como ela era exagerada.
— Não é da sua conta, Srta. Enxerida. Mas estou mesmo precisando me distrair um pouco, e você sabe que eu não gosto de ficar com essas garotas de baladas, meu lance é mais do que casual, sempre tento ser.
— Okay então, se você não casar até os 30, eu caso com você, tá? – Ela piscou e ele riu, negando levemente com a cabeça.
— Eu me caso antes dos trinta, você que provavelmente vai ficar encalhada e morando na mesma casa comigo, me infernizando o resto da minha vida.
gargalhou.
— Com certeza absoluta, te infernizarei até você morrer.
— O que, com você me infernizando, não vai demorar muito.
— Hahaha. – Ela fez uma careta e ele riu, terminando seu jantar e levando o prato vazio até a pia.
— Eu cozinhei, agora você limpa e lava a louça. – revirou os olhos fazendo uma careta e riu, deitando no sofá e aumentando o volume do jornal, ainda sem prestar muita atenção ao noticiário.
recolheu as louças da mesa e lavou-as rapidamente enquanto , bem espaçoso no sofá, assistia sua série americana favorita. já havia visto aquele episódio umas trinta vezes, já que insistia em assistir caso estivesse passando na TV, mesmo que já o tivesse assistido mil vezes antes, por isso quando ela terminou de ajeitar a cozinha, seguiu direto para seu quarto.
Do quarto ela podia ouvir a risada de , enquanto ela se encaminhava até a janela onde podia ver, pelo vidro embaçado pelas gotículas da chuva que voltara a cair, que a rua já estava vazia e silenciosa; Os cãezinhos de rua já haviam encontrado um lugar protegido da chuva para dormirem, as pessoas já estavam em suas casas e apartamentos, deitadas em seus sofás, assistindo novelas, jantando, descansando, alguns talvez lendo, ou fazendo trabalhos para a faculdade, como ela mesma deveria estar fazendo, mas aquela noite de quinta-feira chuvosa, preguiçosa, lhe dizia o contrário, lhe dizia para colocar aquele pijaminha de domingo e se esparramar em sua grande, larga e confortável cama, debaixo do seu macio e confortável edredom e ler um bom livro antes de dormir.
Por isso, seguindo seus instintos que provavelmente estavam muitíssimos certos, colocou sua calça de moletom de dormir, aquela também conhecida por ser usada em domingos preguiçosos, daqueles que não se arruma nem o cabelo e passa-se o dia inteiro com a mesma roupa, colocou sua camisa de dormir, e apressou-se a deitar debaixo de seu maravilhoso edredom, saboreando aquele momento enquanto se espreguiçava na cama.
Fechou os olhos e ficou deitada, pensativa, enquanto a voz e a risada de continuavam sendo o único som presente misturado ao som da chuva que aumentara drasticamente. As vezes ela pensava nos dois, em como suas vidas se encontraram e como aquela amizade se intensificara de tal modo. Muitas pessoas diziam que não existia amizade entre homem e mulher, e desconfiavam da tal amizade que os dois mencionavam, desconfiavam de tanta intimidade sem que jamais houvesse qualquer tipo de segundas ou terceiras intenções, na verdade nunca houvera nem a primeira intenção, ou talvez, tivesse existido em algum momento onde tanto ela quanto ele sequer perceberam e deixaram passar. O fato era que o que os dois tinham, ninguém podia acreditar que era possível, mas eles tinham, e aquela conexão, aquela amizade, aquele precisar sem tornar uma prisão, era o que os mantinham juntos, unidos, perto um do outro, ela precisava dele para cuidar dela, e sabia que sem ela por perto, ele ficaria mais perdido do que um cego num tiroteio.
Diante de tal pensamento, sorriu carinhosamente, e se espreguiçou, esticando a mão para pegar o livro em sua mesa de cabeceira, para em seguida ajeitar o travesseiro em suas costas e se deixar envolver pelo romance maravilhoso que vinha lendo naqueles dias. A chuva continuava a cair do lado de fora, se intensificando cada vez mais, distraída em seu livro, só percebeu que a chuva se transformara em tempestade quando um clarão invadiu seu quarto, pela janela, e o estrondo pareceu estremecer todo o prédio. A escuridão tomou conta de seu quarto e sentiu-se prender a respiração, tinha um certo pavor de tempestades, principalmente morando em apartamento, ela tinha a impressão de que o vento ia levar o prédio junto, mesmo que aquilo fosse a coisa mais idiota de se temer.
Colocando o livro de lado, apalpou a cama a procura de seu celular enquanto a voz de invadia todo o silencio do apartamento.
?
— Oi. Tô aqui. – Ela respondeu em voz alta o suficiente para ele ouvir, enquanto via uma luz fraca vinda do lado de fora do quarto. Sua mão se fechou envolta do celular e ela desbloqueou a tela, ligando a lanterna e notando então que encontrava-se parado a porta, também com o celular nas mãos.
— Acho que a TV queimou. – Ele fez uma careta e riu, suspirando, derrotada. As tempestades além de darem medo faziam aquilo, levavam com elas todos os eletrônicos e eletrodomésticos da casa.
— Agora acho que você perde a sua “insônia”, e consegue dormir mais cedo. – Disse ela, fazendo aspas com as mãos ao dizer a palavra insônia. insistia que sofria o mal da insônia e por isso não conseguia dormir, então costumava ficar até tarde acordado, assistindo séries na televisão ou em seu notebook fazendo sabe-se lá Deus o que, vendo filmes pornôs, provavelmente. sentiu vontade de rir diante de tal pensamento, mas apenas sacudiu de leve a cabeça enquanto via fazendo uma careta ao seu comentário.
— Acho que vou tentar dormir mesmo, amanhã é sexta-feira, e as sextas sempre são uma loucura no trabalho. – sorriu fracamente enquanto ele permanecia na porta olhando-a, como se temesse sair dali e deixa-la sozinha enquanto a tempestade caia furiosamente sobre a cidade.
— Tudo bem, acho que também vou dormir, amanhã tenho que acordar cedo pra...
— Arrumar a casa? – Ele a interrompeu e ela fez uma careta, mostrando a língua em seguida, o que arrancou dele uma risada, inesperada.
— Idiota. – Ele gargalhou mais uma vez. – Tenho um trabalho da faculdade pra fazer e um seminário para preparar. E para o seu governo, nas sextas-feiras eu não arrumo casa.
— Então significa que se eu arrumar uma gata pra trazer aqui em casa fim de semana, vou trazer ela nessa sujeira toda?

gargalhou quando um travesseiro voou em sua direção, mas caindo no meio do caminho antes mesmo de chegar até ele.
— O único lugar sujo e bagunçado desse apartamento é seu quarto, se é que devemos chamar aquilo de quarto né.
Ele riu, enquanto um raio clareava todo o quarto, tornando desnecessário as luzes das lanternas dos celulares por alguns segundos. Ele notou que ela encolheu sobre a cama diante do clarão, mas nada disse, apenas mostrou o dedo do meio para ela, o que a fez esquecer-se do clarão e mais uma vez chama-lo de idiota, enquanto ele ria.
— Boa noite, sua chata. – Ele riu enquanto ouvia a voz meio brava e meio risonha dela.
— Boa noite, seu chato. – Ele iluminou o caminho até seu quarto, que na verdade não era longe do dela, ao lado do quarto dela ficava o banheiro, e do outro lado do banheiro o quarto de , apesar de cada um ter seu próprio quarto, infelizmente aquele apartamento não os presenteara com uma suíte. Mas até mesmo nisso os dois conseguiam se entender, sempre se lembrando, ou tentando, de levantar a tampa do vaso e depois abaixá-la, e sempre se lembrando de não esquecer a calcinha no banheiro.
Pela luz do celular notou, quando adentrou seu quarto, que realmente estava uma bagunça, não que ele fosse o rei da desorganização, mas nos últimos dias, realmente ficara com um pouco de preguiça e deixara algumas roupas, livros e CD’s fora do lugar, por isso quando ele olhou para seu quarto, pensou que realmente precisava dar uma ajeitada ali amanhã, antes do trabalho, apenas para se precaver caso rolasse de levar alguma garota para o apartamento/seu quarto no fim de semana.
Retirou as roupas que estavam desde a manhã jogadas sobre sua cama, jogou-as sobre o sofá e então ajeitou o edredom, tirou a camisa e se deitou, deixando o celular sobre o peitoral, iluminando o teto do quarto, e assim permaneceu por longos minutos, pensativo.
Um novo clarão invadiu o quarto enquanto um novo estrondo parecia chacoalhar todo o prédio, fazendo se encolher na cama, onde agora ela estava deitada encarando as paredes parte escurecidas, parte clareadas pela luz do celular que permanecia acesso enquanto a bateria do aparelho lhe permitisse. Estremeceu e se encolheu um pouco mais, agora em posição fetal, quando uma nova trovoada ribombou do lado de fora.
Droga, pensou ela enquanto um novo clarão enchia o quarto, como ela odiava aquelas tempestades, principalmente quando resolviam mostrar o quão poderosas poderiam ser, deixando todo mundo no breu da noite. Engraçado como a energia só acabava a noite, pensou ela, desanimada. Pelo jeito não conseguiria dormir enquanto aquela tempestade não acabasse.
Um novo clarão invadiu o quarto iluminando toda a bagunça que deixara durante a semana espalhada por todos os cantos, pensando bem, tinha razão, o quarto estava mais bagunçado do que ele supunha estar, como ele conseguira deixar tudo tão desorganizado assim em uma semana? O estrondo de um trovão ribombou do lado de fora tão fortemente que dava a impressão de chacoalhar o apartamento, imaginou encolhida na cama, tremendo de medo debaixo do edredom, e riu fracamente, nunca vira alguém ter tanto medo de uma tempestade como ela, bastava o céu clarear um pouquinho com alguns raios e um trovão cantarolar por um segundo, que ela já corria para a cama e ficava encolhida lá até que acabasse, e ai se ela não estivesse em casa, se estivesse na rua quase entrava em pânico. se lembrava claramente de uma vez em que estavam no supermercado e uma tempestade começou o seu espetáculo, sentira tanto medo que sentou encolhida ao fundo do grande mercado, abraçando os joelhos e teimando que só sairia dali quando não ouvisse nem uma trovoada sequer, com isso eles permaneceram no supermercado por quase três horas.
Remexeu-se na cama, vendo a luz do celular tremeluzir no teto, apalpou a cama embaixo de suas costas encontrando uma meia suja e riu, jogando-a longe no quarto, definitivamente, ele precisaria arrumar aquilo tudo antes do fim de semana.
O som da chuva se tornava cada vez mais forte, o vento uivava dando a impressão de que levava tudo do lado de fora do prédio, enquanto a janela tremia fracamente a cada trovoada, fazendo estremecer junto embaixo de seu edredom, não queria ter que admitir a que uma chuvinha boba daquela a fazia tremer de medo, mas era certeza que mais cinco minutos naquele ritmo, a tempestade venceria, com certeza, e a levaria correndo para a cama de , com ou sem bagunça. Deitada de lado na cama, encolhida de tal maneira que quase podia abraçar os próprios joelhos, fechou os olhos e tentou relaxar, tentou imaginar que era apenas uma noite como qualquer outra, calma, que apenas uma chuvinha gostosa de se ouvir caia do lado de fora e que com aquele som ela dormiria rapidamente, em questão de segundos. Respirou profundamente, se apegando a sua imaginação e por segundos ela quase acreditou que tudo aquilo fosse verdade. Quase.
Abriu os olhos quando um trovão ribombou alto e viu pela luz do celular, que clareava parcialmente o quarto, uma sombra se destacando mais ao longe. Revirou-se na cama de modo que pudesse enxergar a porta e viu-o através da luz de seu celular.

— Com medo da chuva? – A voz dele soou baixa e carinhosa e sorriu fracamente, mesmo que ele não pudesse ver.
— Quase correndo pra sua cama, mesmo que tenha que dormir no meio da bagunça. – A risada de ecoou pelo quarto, fazendo ver aquele sorriso mesmo que mal pudesse vê-lo no escuro.

caminhou em direção a cama de e sentou-se na beirada da cama, enquanto via a loira mais pálida que o normal pela luz branca do celular; Deixou os chinelos na lateral da cama e se enroscou junto a ela debaixo do edredom, enquanto sentia o cheiro de baunilha e rosas impregna-lo. O corpo dela estava quente quando ela se enroscou a ele, envolvendo sua cintura e apoiando a cabeça sobre seu peitoral nu, permitindo que ele sentisse o perfume de seus cabelos misturado ao seu doce cheiro de rosas, o que o fez suspirar e fechar os olhos por segundos.
A cama dela era mais macia que a dele, e tinha um cheiro maravilhoso de amaciante como se ela lavasse os lençóis e o edredom todos os dias, sem contar que o quarto dela exalava limpeza e organização, por isso, dormir ali era sempre bem melhor do que em seu quarto. Com os olhos fechados, acariciou os cabelos dela e sorriu.
— Você tem razão, meu quarto está uma bagunça. – Ele sentiu o corpo dela estremecer junto ao seu enquanto ela ria e sorriu mais largamente.
— Desse jeito nenhuma menina vai querer dormir com você, lá. – Ele riu e negou com a cabeça levemente.

— Claro que vai, pelo menos uma eu sei que vai. – Ela ergueu o rosto devagar, de modo que pudesse enxergar o rosto dele e o olhou desconfiada.
— Ah é? E quem é a louca? – riu diante do olhar desconfiado e respondeu, tranquilamente, mesmo sabendo que sua resposta faria ou ela rir ou fazer uma careta que o faria rir.
— Você! Basta cair uma tempestade e você vai correndo pra lá, mesmo que eu deixe o quarto um mês sem arrumar. – Ele riu e ela fez uma careta, causando mais risos nele.
— Engraçadinho. – Ela voltou a deitar a cabeça sobre o peitoral de e suspirou, sentindo-se muito mais segura do que estava há alguns segundos. Era incrível como apenas sua presença já lhe fazia se sentir melhor, mais segura, mais calma, como se nada no mundo pudesse atingi-la ou lhe acontecer, ela praticamente se esquecera que do lado de fora de seu apartamento uma tempestade castigava a cidade, com trovoadas ribombando pelo céu, o vento castigando as arvores e estremecendo sua janela.
Abraçou mais o corpo de , fazendo com o que seu próprio corpo colasse mais ao dele, sentindo todo o calor que emanava da pele dele, sempre tão quente, sempre tão cheiroso, sempre tão macio.
Com o rosto encostado em seu peitoral, ela suspirou e fechou os olhos, sentindo o perfume dele impregnando-a e permitindo que se esquecesse de tudo por apenas alguns segundos, talvez naqueles breves segundos pudesse imaginar que ali em sua cama não estava seu melhor amigo, mas sim o amor de sua vida.
Sentiu afagar seus cabelos e então beijar-lhe carinhosamente a testa, e assim, mesmo com toda aquela tempestade avassaladora lá fora, com os raios iluminando seu quarto de cinco em cinco segundos, a trovoada ecoando tão alto que chegava a chacoalhar o prédio, suspirou e adormeceu, como se estivesse dormindo na noite mais calma de verão.


Capítulo Dois: Tarde de outubro




“E quem poderá prever um romance imprevisível? ”

Ainda era muito cedo, ela sabia disso porque mesmo pela claridade que invadia seu quarto pelas frestas da janela, ela ainda se encontrava encolhida debaixo do edredom, enquanto a neblina fria do amanhecer surrupiava para dentro do quarto.
Esticou-se preguiçosamente na cama antes de virar-se de lado e constatar que o outro lado já se encontrava vazio, sinal de que ele já acordara e se levantara há um tempinho. Espreguiçou-se mais uma vez e ergueu o corpo devagar, se sentando na cama, ainda se sentindo sonolenta e com uma vontade imensa de deitar e continuar dormindo.
Bocejando, ela finalmente se levantou e seguiu, até o banheiro para sua higiene matinal, escovou os dentes, penteou os cabelos, e ainda com sua roupa de dormir seguiu até a cozinha onde o cheiro do café já se espalhava por todo o apartamento, aquele cheiro maravilhoso do café dele que fez seu estomago reclamar de fome. Era incrível como aquele cheiro impregnava todos os cantos da casa, era como se ele fosse feito com pó mágico, lhe dava uma sensação de “lar, doce lar”.
Sorriu quando se aproximou da cozinha e o viu, todo engravatado, terminando de organizar a cozinha depois de terminar de coar o café. Estava lindo, como sempre.
— Humm, esse cheiro me faz acordar com aquela sensação de estar dentro de um filme de romance. – Ele riu e se virou para observá-la, estava com os cabelos soltos, escorridos ao lado do rosto, apenas com uma camiseta de dormir que ia até os joelhos, linda e sexy, se aquilo fosse realmente um filme de romance.
— Bom, se isso fosse um filme de romance, a Scarlett Johanson estaria na minha frente agora.
— Há há há. – Ela fez uma careta enquanto ele, risonho, se aproximou e beijou carinhosamente o rosto dela enquanto falava baixinho. — Bom dia, dorminhoca! – sorriu, e revirou os olhos, se sentando à mesa e cruzando uma das pernas na cadeira, de modo que a camisa ficava levemente erguida nas pernas.
— Você acordou cedo, o que aconteceu? Eu te empurrei da cama sem perceber? – Ele gargalhou enquanto ela se servia do café quente que ele acabara de fazer e tomava um pequeno gole, saboreando-o, preguiçosamente.
— O despertador me empurrou da cama, foi isso que aconteceu.
— Meu Deus, eu nem ouvi seu despertador. – Ele sorriu, carinhosamente, antes de responder.
— Eu deixei baixinho, mas como estava debaixo do meu travesseiro, apenas eu ouvi. – Ela sorriu, carinhosamente, de volta. Tomou mais um gole do café enquanto o observava, encostado no balcão, a xicara de café em uma das mãos, pensativo, enquanto tomava de gole em gole seu café. Hoje estava sem o terno, que ainda se encontrava na lavanderia, estava apenas com uma camisa social azul escura, de mangas cumpridas, a gravata preta, bem feita no pescoço e a calça social preta; os cabelos estavam arrumados pra cima, com a ajuda do inseparável gel para os cabelos, a barba, por fazer, dava um charme todo especial, o que aliás, ela adorava quando ele deixava daquele jeito, lhe dando um ar de mais maturidade, de galã de novela. Ela sorriu, sem que ele percebesse, e voltou os olhos para seu café, que praticamente já acabara enquanto ela tomava e o observava.
— Então, hoje vai rolar happy hour de novo? O pessoal da sua empresa parece que gosta mais de beber do que de trabalhar. – Ele riu e assentiu, voltando a atenção para ela.
— Isso é um fato comprovado, eles adoram beber. – Ele riu, antes de continuar. – Bom, não sei, mas se for rolar, você podia ir pra lá com a gente. O que acha?
— Bom, não sei. – Ela riu baixo. – Vou pensar no seu caso.
Ele sorriu enquanto ia até a cozinha colocar a xicara, vazia, sobre a pia, e voltou para pegar a mochila, que sempre levava para o trabalho, sobre o sofá.
— Pensa com carinho então, eu pago as bebidas.
— Ah, mas sendo assim, pensarei com todo o carinho do meu coração.
Ele riu, enquanto a observava se levantar e se encaminhar até ele, parando a sua frente e erguendo o corpo na ponta dos pés para ficar da sua altura, o que nem assim ela obtinha muito êxito.
— Você sempre deixa a gravata torta. – Ele sorriu, carinhosamente.
— É só pra você arrumar.
— O que seria de você sem mim, heim? – Ele deu uma risada, baixa, enquanto ela terminava de ajeitar a gravata em seu pescoço.
— Um cara com uma gravata torta. – Ela fez uma careta, em meio ao riso, e ele sorriu, pegando uma mecha de cabelo solto e colocando atrás da orelha dela, de maneira carinhosa.
— Cuidado com a chuva. – Ela disse.
— Cuidado com os relâmpagos. – Ela fez uma careta, enquanto ele ajeitava a mochila e seguia até a porta do apartamento. – Eu te mando um whats sobre o happy hour, Okay?
— Okay. Bom trabalho. – Ele piscou, charmosamente, e saiu, deixando-a ali, olhando para a porta, o sorriso nos lábios, pensativa.
Era engraçado pensar em como tinham ido morar juntos, quer dizer, ela tinha dezenove anos e ele vinte e quatro, ele era formado em engenharia e arquitetura, e ela estava no segundo semestre de publicidade e marketing, não tinham amigos em comum, nunca estudaram juntos, não tinham nenhum familiar em comum, muito menos conheciam os familiares uns dos outros, exceto suas mães, até porque sua mãe jamais teria deixado ela morar com um rapaz, sozinha, num apartamento, bom, não qualquer rapaz, mas o ... Que mãe não iria gostar do , se ele era o genro que toda mãe sonhara ter?
Genro, ria ao pensar nessa palavra, sua mãe insistia que e namoravam e só tinham medo de assumir, sempre que ligava para a filha dizia “E como está o meu genro?”, no que sempre respondia que eles não eram namorados, e nunca iriam ser. Nessa última parte, todo mundo duvidava, assim como na primeira, pra ser mais honesta.
, saiu de seus pensamentos e resolveu tomar um banho antes de colocar toda sua atenção naquele bendito seminário da faculdade, cujo ela precisava terminar urgentemente.
Fora numa sexta-feira como aquela que encontrara pela segunda vez, era difícil de esquecer porque fora uma coincidência bem grande, era quase como se o destino realmente quisesse que eles se esbarrassem novamente, mesmo que desta vez eles não tenham, literalmente, se esbarrado.
Ela estava no último ano do colegial, todo mundo naquela fase indecisa de, qual faculdade fazer, que caminho seguir na vida, faço administração ou recursos humanos, engenharia ou medicina, publicidade ou jornalismo, nunca uma opção, sempre duas, três, milhares, invadindo suas mentes e deixando todos os alunos confusos. Por isso, aquele dia era o chamado “um dia no campus”, onde uma universidade abria suas portas para alunos de escolas particulares ou estaduais para conhecerem os cursos e a faculdade.
A universidade era enorme, e já era quase onze horas da manhã quando ela olhou pela milionésima vez para o celular, será que a faculdade era tão grande assim que não acabava nunca aquele passeio?
e a turma da sua escola passavam por um corredor de onde, pela janela, ela podia ver uma espécie de jardim do lado de fora, haviam várias arvores e banquinhos e no meio uma área arredondada, coberta por um telhado de vidro e diversos banquinhos de madeira, sem encosto, a volta dele; ao ver aquele espaço ela sorriu, encantada, finalmente uma parte na faculdade que realmente lhe agradara, não aqueles laboratórios, salas imensas e um refeitório tão enorme que dava até medo de se perder no meio de tantos alunos.
Encantada com aquele espaço, surrupiou pela porta adiante e caminhou, como se fosse uma aluna da faculdade, tranquilamente pelo caminho arborizado e tranquilo da faculdade. Era até possível ouvir os pássaros cantando, sentir o gostoso cheiro do verde das arvores, o vento batendo suavemente em seu rosto, aquele lugar era o paraíso escondido.
Alguns alunos iam e vinham e tentava não olhar muito pra todo lado para que não percebessem que ela fazia parte dos alunos que visitavam a faculdade e a mandassem de volta com a turma, por isso ela passou pelos alunos decidida, como se estivesse pensando sobre a matéria da prova ou coisa assim.
Quando chegou ao centro do jardim, ela ficou completamente encantada, tentando não chamar a atenção, ela sentou num dos bancos, o mais distante de alguns alunos que se encontravam por ali, e ficou disfarçadamente olhando os detalhes. O vidro parecia ser muito bem reforçado, flores e folhas se enroscavam nas partes de ferro que seguravam o teto e nas pilastras que davam suporte ao mesmo. Pelo vidro ela podia ver o céu azul lá em cima, os pássaros voando felizes, as nuvens formando desenhos, quase dava para esquecer que ali era uma faculdade, imagine só, sentar ali todo dia para estudar as matérias? Que paz!
Sorriu consigo mesma e voltou os olhos para a frente quando ouviu passos, os alunos que estavam por ali voltavam para dentro da faculdade e apenas um continuava por ali, mas não parecia sequer notar a presença dela.
Estava deitado no banco, olhando para o céu através do vidro, tinha um fone de ouvido, daqueles grandes, nas orelhas por onde ele provavelmente ouvia música, pois balançava a cabeça levemente; vestia uma camisa do Elvis e embaixo do banco, uma mochila jazia jogada. Esse com certeza não estava ali para estudar.
Mas, sem saber porque, alguma coisa nele lhe chamara a atenção, era como se ela já o tivesse visto antes. Sem ser notada, ela sentou no banco, do outro lado do círculo, quase na mesma reta do garoto, e ficou observando-o, os cabelos eram arrepiados, o rosto liso, não tinha barba até onde ela podia ver, parecia muito bonito, observou-o, observou-o, até que teve um insight.
“MEU DEUS, EU CONHEÇO ELE!” Pensou, num pulo, abrindo um sorriso e se encaminhando até o menino. Ele sequer notou a movimentação, parecia muito entretido na música e talvez perdido em pensamentos, que mal notou também quando um rosto surgiu bem acima de seu rosto, olhando-o, sorridente. Levou um susto tão grande que ergueu-se de súbito e quase batendo o próprio rosto no rosto da menina, que deu um grito assustado e um pulo pra trás, caindo na gargalhada em seguida.
— Meu Deus, você me assustou! – Ela disse, entre risos e ele a olhou, franzindo a testa, o coração batendo acelerado no peito.
— Caralho, menina, que susto você me deu. – Ela riu mais ainda, e ajeitou a mochila, caída por cima de um ombro. Ele ficou sentado no banco, uma perna de cada lado, o corpo meio torto para enxerga-la direito.
— Então é assim que se estudam nessa faculdade? – Ela sorriu e piscou para ele, e então ele arregalou os olhos, como quem reconhece a outra pessoa.
— Hey, eu conheço você! É a garota da chuva. – Ela riu e fez uma careta.
— Garota da chuva, parece tipo, a garota do tempo. – Ela riu, e completou. – !
— Isso. .
— Muito bom, , sinal que pelo menos memória você tem, né? – Ele riu e se ajeitou no banco, virando o corpo e voltando a sentar como estava, uma perna de cada lado do banco, dessa vez deixando um espaço para ela, o qual ele indicou com a mão.
— Senta aí. – Ele sorriu, educado e ela sentou-se, totalmente à vontade. Ela não parecia ser o tipo de menina que ficava sem jeito ou sem graça perto de um garoto, percebeu ele. – Não sabia que você estudava aqui, quer dizer, você não tem cara de universitária...
— Tá querendo dizer o que? Que eu tenho cara de criança? – Ela pareceu ofendida, mas só por segundos, antes de fazer uma careta e rir, quando ele, apressadamente, começou a se defender.
— Não, não, não foi isso que eu quis dizer, é que você parece nova, quer dizer... – Ela gargalhou ainda mais diante do jeito embaraçado dele, e ele fechou a cara, erguendo a sobrancelha e a encarando. – Se não se importou com a pergunta, porque a cara feia?
— Porque é muito engraçado ver homens tentando se explicar. – Dessa vez, foi ele que fez uma careta.
— Ah, ela é engraçadinha! – Ela riu e fez pose de quem se acha, o que causou risos nele. – Então, você estuda aqui? – Ele ergueu a sobrancelha, já com as mãos erguidas, como quem já se rende antes mesmo dela brigar com ele, o que ela achou engraçado.
— Ah, ele é bobinho! – Ela bateu as mãos nas dele, fazendo-o abaixá-las, enquanto ria. – Não, eu não estudo aqui. É o tal do ‘um dia no campus’.
— Ahhhh, tá. Que os alunos das escolas vêm visitar a universidade. Verdade, esqueci que tinha isso aí, hoje.
— Pois é. – Ela sorriu e olhou a frente, observando o lugar agora mais à vontade, já que não estava sozinha, então ninguém ia desconfiar dela ser uma aluna perdida.
— E você se perdeu dos alunos? – Ele a observava, no que ela notou, curiosamente. Estava agora encostado numa pilastra atrás dele, as pernas abertas, uma de cada lado do banco, o fone caído sobre os ombros, o celular sobre a perna esquerda, bem relaxado, a vontade, enquanto a observava com um sorrisinho no rosto. Deus, como ele era lindo!
— Não né, eu vi esse lugar e quis vir aqui conferir de perto, tava muito chato lá vendo laboratórios, biblioteca e salas de aula. – Ele riu e concordou com a cabeça.
— É, é um porre esses tours, eles fazem isso só pros alunos se apaixonarem pelo campus e vir estudar aqui.
— Com você foi assim? – Ela o encarou e ficou observando-o por alguns segundos. Ele era realmente lindo, tinha uma barba rala crescendo no queixo que dava a impressão dele estar na dúvida se tirava ou se deixava crescer, parecia ter uns vinte e poucos anos, talvez vinte ou vinte e um, era bem fortinho pelo que podia reparar pela camisa, apertada, mas não era o tipo musculozão, daqueles que ficava até feio, sabe? Não, ele era o tipo físico perfeito de homem forte, mas nas proporções exatas, forte o suficiente para ter força e te pegar no colo, além de te fazer babar caso tirasse a camisa, o que ele poderia fazer naquele momento que ela nem ligaria.
— Não, eu já sabia o curso que queria fazer e que aqui era uma boa faculdade, então vim direto pra cá; pulei o dia do campus. – Ele deu uma risadinha e ela observou o sorriso dele. Era um sorriso lindo. Caramba, ele todo era lindo!
— E você faz o que, afinal de contas? Achei que estudavam aqui, não que ficavam ouvindo música e olhando o céu pelo teto de vidro. – Ele gargalhou, a cada segundo gostava cada vez mais dessa menina, não era só bonita e fã do Beatles, mas tinha personalidade, era engraçada e falava o que pensava, isso era raridade no mundo, principalmente entre as meninas que ele conhecia que só pensavam em sapatos, maquiagem e como conquistar um homem, o que, aliás, elas nem sabiam fazer.
— Se estuda aqui, sim, e muito, pro seu governo, mas estou com uma aula vaga e ainda tenho tempo antes do meu estágio. – Ela o olhou com uma carinha de quem pensa se acredita e ele riu fracamente, antes de continuar. – Faço engenharia e arquitetura. E você vai fazer o que? Administração?
Ele perguntara isso apenas para ver aquela caretinha que ela fazia, na certa, e que era uma graça, até porque, mesmo sem saber a resposta, ele duvidava que ela fosse fazer administração, tinha cara de meninas decididas que pareciam querer muito mais do que ficar atrás de uma mesa o resto da vida.
— Ecaaaa... nãooo. – Ela fez uma careta e uma cara de nojo que o fez rir. – Bom, estou em dúvida entre publicidade e marketing ou jornalismo.
— Você é curiosa, deveria fazer jornalismo... e é bem desenvolta, acho que se daria bem na profissão.
— Obrigado. – Ela sorriu, não sem jeito, ou sem graça, mas como alguém que aceita os elogios, sinal de que ela era segura de si e não insegura como a maioria das meninas na idade dela, ou na idade que ele pensava que ela tinha.
— Quantos anos você tem? – Perguntou ele assim que pensou na idade dela. – Não me leve a mal. – Apressou-se, o que a fez rir.
— Eu heim, não sou essas velhas que tem medo de falar a idade. – Ela riu e ele respirou aliviado. Então conversar com ela não era como pisar em ovos, ele podia falar o que queria e como queria, que tudo ela levava na boa, na brincadeira, como era raro meninas assim! – Tenho dezessete, e... você? Uns trinta e cinco, aposto!
fez uma cara de susto que a fez cair na gargalhada.
— Ah, é palhacinha! – Ele falou brincando e ela riu mais ainda.
— É que você tem uma cara de velho, sabe! – Ela disse, ainda gargalhando e ele fez cara de poucos amigos, antes de se “irritar” e mostrar o dedo do meio para ela, o que causou mais risos ainda nela, e nele, que não conseguiu se segurar diante do humor da garota.
— Idiota! – Ela disse e ele gargalhou.
— Você é engraçada! – Ela deu um sorriso enorme e ele negou com a cabeça, levemente, ainda risonho. – Eu tenho vinte e dois, e estou no último ano, antes que me pergunte.
— Uau, ele lê mentes ainda por cima. Fiquei com medo agora. – Ele riu e ela riu junto, olhando a volta, agora um pouco assustada. — Ta tudo bem?
— Ai não, é a minha professora, me esconde. – Ela o segurou pelos ombros, puxando-o mais para a frente dela, de modo que a professora que passava no corredor onde ela estivera antes, não a visse, e assim ele a ficou olhando, com as sobrancelhas erguidas.
— É uma fugitiva então, né? – Ele disse baixinho e ela riu, abaixando a cabeça no ombro dele e erguendo em seguida, percebendo então que o rosto dos dois estavam muito próximos agora. Ela sorriu e tentou não pensar nisso.
— É, eu não queria te falar nada, mas... na verdade eu estudo num manicômio e eles estão me procurando agora. – Ela respondeu baixinho e ele riu, sem desviar os olhos dos dela.
Ela podia sentir a respiração de em sua própria pele, o cheiro do perfume dele que era sensacional, quase lhe embriagava e o sorriso dele, que se formava naqueles lábios, era a coisa mais estonteante agora que ela olhava-o de perto.
— Que droga, bem que eu percebi que você era meio doida. E agora? Será que vão me levar junto? – Ela reprimiu o riso diante da cara dele de sério, como se aquilo fosse realmente verdade.
— Vish, eu acho que sim. Desculpa... se ferrou! – Ela disse aquilo tão natural e tão séria que ele não se aguentou e gargalhou alto, fazendo ela dar um tapa no braço dele, em protesto enquanto ele chamava a atenção com sua risada escandalosa.
— Ai Droga, melhor eu ir, você e sua risada escandalosa, com certeza, me denunciou. – Ele continuou rindo enquanto ela batia novamente no braço dele.
— Descuuulpa, mas é que você é muito hilária. – Ela fez uma caretinha, mas dessa vez, sorrindo.
— Obrigado. – Ele concordou com a cabeça e ela se levantou.
— A gente se vê, engraçadinha. – Ele piscou e ela sorriu, docemente.
— A gente se vê, Elvis.

Era naquela mesma universidade que ela estava agora, fazia seu primeiro ano de publicidade e marketing, no fim, acabara escolhendo publicidade porque ela gostava de criar coisas, e se achava bastante criativa, mesmo que falasse pra caramba, como dizia .
Tinha combinado com suas amigas para terminarem o trabalho para o seminário, e depois de quase duas horas, finalmente, elas tinham terminado aquela coisa chata; já estava ficando com dor de cabeça de tanto pensar.
Se despediu das amigas e pegou o metrô, assim iria mais rápido para casa. O dia estava quente e ensolarado, por isso ela não via a hora de chegar em casa e tomar um banho bem demorado e refrescante, lavaria os cabelos, colocaria seu pijama e pediria uma pizza, assim quando chegasse, a pizza já estaria lá, eles comeriam e aproveitariam a noite, comendo e rindo um do outro, enquanto assistiam filme ou coisa do tipo. Isso se não rolasse o happy hour, é claro, ela não trocaria bebidas por pizza naquela sexta, nem morta.
O metrô estava vazio àquele horário, por isso ela colocou os fones de ouvido e sentou-se no fundo do vagão, sentada a janela, vendo mais paredes escuras do que paisagem, mas não se importou, estava entretida em pensamentos enquanto viajava em suas músicas favoritas.
Menos de dez minutos depois ela descia na estação do seu bairro, e caminhava quatro quarteirões até virar a esquina e chegar em seu prédio. Pegou as correspondências, e subiu os quatro andares pela escada, já que ali não havia elevador.
“Lar, doce lar”, pensou assim que entrou no apartamento e jogou a mochila sobre o sofá, jogando as correspondências sobre a mesa e indo direto para a geladeira, tomar um delicioso copo de Coca-Cola bem gelada; tudo que ela mais precisava naquele momento.
Agora era a hora de relaxar, colocar o som na maior altura e tomar banho com a porta aberta, por quase meia hora, ahh como era bom morar sozinha, quer dizer, sozinha até as seis da tarde, ainda assim, mesmo quando estava em casa, era maravilhoso, porque ele não era seus pais e ela podia ainda fazer o que quisesse, quer dizer, quase tudo que quisesse, até porque ele era bem protetor também, não chato como seus pais, mas bastante protetor.
Sorriu ao pensar no amigo e ligou o som da sala, colocando um pen-drive com suas músicas favoritas e aumentando o volume, seguindo para seu quarto enquanto ia tirando a roupa colada de suor do corpo durante o trajeto. Jogou o celular sobre a cama, tirou a calça jeans e seguiu direto para o banheiro, onde tomou um banho longo e refrescante de aproximadamente trinta minutos.
O barulho da guitarra e o baixo, misturado aos vocais maravilhosos de uma de suas bandas favoritas ecoava por todo o apartamento quando ela saiu do banheiro, apenas de toalha, os cabelos louros molhados e escorrendo pelo rosto e pelos ombros, fazendo gotas, agora geladas, escorrerem por sua pele, lhe causando uma refrescancia gostosa. A primavera parecia ter chego logo com cara de verão, o sol brilhava lá fora ainda quando ela observou o dia pela janela, antes de fechá-la, e ligou o ventilador para afastar o calor que começava a emanar de seu corpo quente.
Tirou a toalha do corpo a jogou sobre a cama, antes de seguir até o guarda roupa, onde apanhou uma calcinha preta e a colocou, ficando seminua pelo quarto, saboreando em todo o seu corpo aquele vento refrescante que vinha do ventilador que girava sob o teto, o barulho abafado pelo som dos Beatles que cantarolavam animadamente na sala. Se olhou no enorme espelho que tinha pendurado em uma das paredes do quarto e ficou se admirando, pensando que roupa colocava e o que faria depois, talvez pedir uma pizza? Será que o ia querer mesmo sair como ela tinha sugerido pela manhã? Ou será que ele iria sair com os amigos do trabalho e comemorar sozinho?
Achou melhor não pensar nisso naquele momento, por isso, deu as costas para o espelho e voltou para o guarda roupa, precisava encontrar seu secador de cabelos, sua chapinha e escolher uma roupa para colocar, melhor ficar arrumada, afinal, se o resolvesse sair com os amigos dele, ela ligaria para as meninas da faculdade e sairia também, sexta-feira era sexta-feira, certo?
Se embrenhou no guarda roupa e segundos depois encontrou o secador de cabelos e a chapinha, os quais jogou sobre a cama e voltou em direção ao guarda roupa para dar uma olhada em suas roupas enquanto pensava qual colocar. Estava quente, a noite com certeza iria ser bonita, talvez um vestido preto, rodadinho, leve e ao mesmo tempo sedutor, seria a escolha perfeita. Sorriu a si mesma quando puxou o vestido ideal do guarda-roupa e virou-se para joga-lo sobre a cama, totalmente distraída, tão distraída que, por segundos, ela mal percebeu que tinha alguém parado a porta de seu quarto, a observando.
— AHH! MEU DEUS! – levou um susto tão grande que deixou o vestido, ainda no cabide, cair de sua mão, e virou-se rapidamente, tentando cobrir os seios com as duas mãos. – ! QUE SUSTO!
— Desculpa... eu não queria... eu não vi... nada. – Ele riu, sem graça, e virou-se, agora com as duas mãos sobre os seios, tapando-os e o encarando, com as sobrancelhas erguidas.
— Você tava me olhando há quanto tempo? – Ele riu, sem graça, observando como ela estava com os braços cruzados sobre os peitos, as duas mãos apertando os seios que pareciam maiores do que ele sequer imaginara alguma vez na vida, e com isso, deixando à mostra a parte de cima dos mesmos que ficavam mais volumosos conforme ela mais os apertava com as mãos.
— Eu não... Hey, eu não vi nada, quando eu parei na porta você me viu, gritou e virou tapando os peitos. – Ele riu, adentrando o quarto, agora totalmente à vontade, como se ela já tivesse colocado uma roupa e não tivesse mais porque ele ficar se escondendo.
Claro que ele tinha visto um pouco mais do que estava contando, mas ela não precisava saber disso, afinal de contas, ele era homem, não era bobo e não era cego.
Ainda risonho, sentou-se na poltrona que ela tinha, ao lado do espelho e cruzou as pernas, observando-a.
— Você devia bater na porta, sei la, avisar que ta em casa pra eu não ficar andando pelada por ai. – Ele ainda mantinha a mesma cara risonha e continuava olhando para ela, como se achasse engraçado a maneira como ela ficava apertando os peitos para ele não ver, se esquecendo que ele conseguia ver todo o resto do corpo dela que, por sinal, era muito bonito.
— Eu até tentei, mas os Beatles não deixaram. – Ele deu uma piscadinha e ela fez uma careta. – então, algum motivo especial para você estar se produzindo toda ai?
— Não. E o que você ta fazendo aqui essa hora e não tá trabalhando? – Ela decidiu que, se ele poderia ficar ali, a vontade, como se nada tivesse acontecendo, ela também poderia agir normalmente como se ele não estivesse ali a olhando, por isso se virou de costas para ele, tirou as mãos dos seios, se abaixou e pegou o vestido, ciente de que ele provavelmente não desviara os olhos, sequer, e olhara para sua bunda, e enfiou-o pelo pescoço, deixando ele cair por seu corpo, cobrindo-o todo.
Ainda estava quente e não era exatamente aquilo que ela preverá, vestir roupa com o corpo suando não era algo muito gostoso de se fazer, mas ela não podia também se dar ao luxo de continuar andando pelada pelo quarto com ele ali, isso já era demais, por mais intimidade que eles tivessem, ver um ao outro nu era um nível de intimidade que eles nunca haviam chego até então, e naquele momento não era hora de mudar isso.
— Hoje é sexta-feira, eu saio mais cedo, esqueceu? – Ele continuava sentado, tranquilamente, agora com o celular nas mãos. Será que ele havia tirado uma foto dela sem roupa? Deus, não, que isso, não faria isso. Que ideia, já estava pirando, já, pensou desesperada.
— Ah é verdade, eu tinha me esquecido. – Agora com o vestido meio colado ao corpo por causa do calor, ela virou-se normalmente e caminhou até a cama, pegando o secador e seguindo até a frente do espelho, onde ligou o secador na tomada, enquanto , agora mais próximo a ela, colocava o celular sobre o colo e ficava observando-a.
— A galera da minha empresa foi pra um happy hour, e como você disse ontem que queria fazer alguma coisa, resolvi passar aqui e ver se você queria ir comigo. – Ela sabia que ele poderia muito bem “esquecer” o que dissera naquela manhã e ir direto para o happy hour com os amigos e apenas ligar depois para ela, para avisar, mas ali estava ele, , seu melhor amigo, doce, gentil, atencioso, pensando nela e a convidando para ir no Happy Hour de seus amigos, os quais ela nem conhecia, com ele. Sorriu, carinhosamente, agora até se esquecendo que ele praticamente a vira nua.
— Jura? – Ele acenou com a cabeça e ela abriu um sorriso enorme, que ele achou lindo. – Eu tenho quanto tempo pra me arrumar? Ele riu; típico, se ele não lhe desse um tempo exato para se arrumar, ela demoraria a noite inteira.
— Eu vou só tomar um banho e me trocar porque está muito calor e estou morrendo com essa camisa, então você tem, aproximadamente, trinta minutos.
Ela assentiu, o rosto todo iluminado e ligou o secador, começando a secar o cabelo enquanto ele se levantava e ia até ela, parando atrás da garota e a olhando pelo espelho, enquanto ela sorria, erguendo as sobrancelhas, sem entender o que ele fazia ali.
Olhando para o corpo dela através reflexo do espelho, ele sorriu sapecamente, e antes de sair do quarto, mal ouvindo os xingos dela abafados pelas vozes de Paul, John, George e Ringo, ele aproximou os lábios do ouvido dela e disse, com a voz baixa e maliciosa.
— Belo corpo, .


Capítulo Três: Tem dias que a noite é foda


“Nós éramos sem começo, sem meio, sem fim, sem solução, sem motivo.”

— Belo corpo, . Era possível ver o rosto de susto e incredulidade, misturado com “eu vou te matar”, tudo ao mesmo tempo no rosto de quando disse essas palavras, mas ele não ficara tempo o suficiente para ouvir com nitidez os xingos dela, até mesmo porque as vozes dos Beatles abafaram tudo enquanto ele caminhava em direção ao próprio quarto, ainda risonho, o que a deixara com muito mais raiva ainda.
Adentrou seu quarto que ainda continuava uma bagunça, e continuaria assim pelo resto do fim de semana pelo jeito, e puxou a gravata do pescoço enquanto se largava no sofá, puxando de debaixo de si uma camiseta e um par de meia que jogara ali na noite passada. Se recostou no sofá, e cruzou uma das pernas sobre o joelho para tirar o sapato social enquanto seus pensamentos voavam, dispersos. Era estranho a maneira como estava se sentindo, e como se sentira quando parou à porta do quarto de e a viu ali, à vontade, seminua, o corpo delicado, magro e ao mesmo tempo cheio de curvas; como em dois anos morando juntos, ele nunca a olhara daquele jeito? Como nunca observara como ela tinha um corpo de fazer qualquer marmanjo babar e enlouquecer? É claro que ele sabia que tinha muitos marmanjos naquele prédio que ficavam babando nela quando ela insistia em levar o lixo lá em baixo usando aquelas calças de ginastica que marcavam o corpo dela e chamava a atenção de qualquer um, e claro que ele não gostava nenhum pouco disso, mas sempre pensara que esse sentimento fosse apenas um instinto protetor, afinal de contas, ela não fora sempre como uma irmã para ele? Mas você jamais olharia daquele jeito pra sua irmã.
Sacudiu a cabeça diante de tais pensamentos e se levantou, depois de retirar os sapatos e as meias e seguiu até seu guarda roupa, enquanto abria os botões da camisa, para tirá-la em seguida. Jogou-a sobre a cama e parou em frente ao guarda-roupa, pensando em colocar uma calça jeans e uma camiseta, num estilo bem ele mesmo, nada de camisa social por cima da calça, hoje ele iria à vontade, não para impressionar garotas, ele queria apenas beber, conversar, rir com os amigos e esquecer a imagem de seminua que insistia em aparecer na sua mente a todo instante, mas será que conseguiria esquecer tendo ela ao seu lado a noite inteira?
Seguiu para o banheiro e antes de entrar, parou à porta do quarto dela, vendo-a toda distraída enquanto fazia chapinha nos cabelos, riu consigo mesmo e seguiu para seu banho, melhor esfriar o corpo e a cabeça, e esquecer tudo aquilo.
Quase cinquenta minutos depois eles chegavam a um bar na Vila Olímpia, um barzinho badalado que já estava lotado, com uma música alta ecoando dos altos falantes, deixando todos super a vontade. Ele estacionou o carro próximo ao bar e desceu do carro, indo até o outro lado e abrindo a porta para ela, como um bom cavalheiro que ele era, o que ela adorava, alias.
Ela estava linda, usava um vestido vermelho e branco, que apesar de parecer um pouco solto no corpo, também mostrava que ela tinha um corpo curvilíneo, os cabelos estavam lisos e soltos, o rosto bem maquiado a deixava mais madura e os lábios estavam vermelhos, o que a deixava linda. Ela tinha pulseiras e colares combinando com a bolsinha de alcinha caída no ombro, e o sapato de salto a deixava na mesma altura que ele e lhe dava um ar de ‘mulherão’, o que fez todos os amigos de olharem para ela quando eles se aproximaram das mesas que tinham sido juntadas para caber todo mundo.
— Ô até que enfim heim, achei que tivesse morrido no caminho. – Disse um dos amigos de , aos risos, causando mais risos nos outros. As mesas estavam cheias, quatro homens e três mulheres, todos sentados em volta das mesas, conversavam, riam e bebiam descontraídos. puxou uma cadeira para e sentou-se em outra ao lado, enquanto alguns amigos seus se erguiam sobre a mesa para tocar a mão de em um cumprimento. O garçom se aproximou e ele pediu duas cervejas para ele e , que sorria, animada, para todo mundo.
— Mas pelo menos voltou muito bem acompanhado. – Disse outro amigo de e sorriu, com aquele jeito dela, todo solto, nunca tímida ou envergonhada, naquele momento desejou que fosse tímida, assim ela não daria bola, nem atenção para seus amigos. Se surpreendeu consigo mesmo e sorriu ao amigo, tentando afastar tais pensamentos.
— Pow, , você nunca falou que tinha uma namorada tão linda. – Algumas meninas riram e alguns outros caras concordaram, rindo do descaramento do amigo que dissera aquilo, e riu, a vontade, pronta para responder que não eram namorados, o que adiantou-se rapidamente, não queria nenhum marmanjo dando em cima dela, não naquela noite.
— Melhor tirar os olhos então, Cabral, ela não é pro seu bico. – Todo mundo gargalhou, enquanto , risonho, começou a apresentar as pessoas na mesa pra . – Esse é o Carlos, mas como ele me chama de , eu chamo ele de Cabral. Essa é a .
Cabral sorriu e sorriu de volta, enquanto tentava entender o que estava acontecendo; por que não negara que eles eram namorados?
Além do Cabral, tinha o Frank, que fora o que dissera que o voltou muito bem acompanhado, era um rapaz muito simpático, loiro, baixo e miudinho, mas parecia ser o palhaço depois do Cabral; Rafael, um rapaz alto, cabelos pretos, espetados para cima iguais do , tinha os olhos verdes e uma barba rala com um cavanhaque, ele era, sem sombra de dúvidas, o mais bonito de todos os amigos do ; ainda usava a roupa do trabalho, o terno estava pendurado no encosto da cadeira e ele usava uma blusa social de mangas curtas, rosa clara, que era um pouco apertada, mostrando que ele era forte, o que também dava para notar pelos músculos nos braços; e o último amigo de era o Caio, um jovem bonito também, cabelos pretos, enrolados, olhos castanhos, um pouco mais baixo que e também bastante simpático. E as meninas eram duas morenas e uma ruiva, ou um ruivo falso, e essa se chamava Carol, magrinha, meio tímida, mas simpática. As outras duas morenas, uma se chamava Patrícia, bem extrovertida ou parecia já um pouco bêbada porque ria bastante de tudo e a outra se chamava Jéssica, era muito bonita, se vestia muito bem, era educada e foi bastante simpática também com ; apesar da Carol não ser tão bonita, as outras duas eram muito bonitas, simpáticas e se vestiam muito bem, e aquilo fez pensar se já saíra com alguma delas, se já, ele nunca mencionara para ela antes.
A noite foi fluindo e as conversas também, todo mundo era simpático e divertido, os homens mais do que as meninas, mas se dera bastante bem com Patrícia, talvez fosse pelo jeito bêbada dela que dizia muita coisa engraçada e já ficava chamando de amiga, como se elas se conhecessem a vida toda.
— Amiga, você precisa trabalhar lá na empresa com a gente, você ia se divertir muuuito.
— Eu pensei que vocês trabalhavam lá, mas parece que me enganei. – respondeu aos risos e olhou para , que deu de ombros, rindo enquanto Cabral respondia.
— Trabalhar? Isso é pros fracos, a gente faz é muita zoeira mesmo. – Todo mundo gargalhou.
— Bom, tem vezes que somos obrigados a trabalhar, mas ainda assim, o pessoal zoa muito. – Disse Caio.
— Isso quando não resolve todo mundo fazer o cafezinho da tarde, e o que deveria ser cinco minutos, vira quinze.
— Meia hora, você quer dizer né, Rafa? – Todo mundo riu de Jéssica, enquanto concordavam com a cabeça, apenas observava os amigos e ria junto com eles, porque sabia que nem era mentira tudo aquilo, aquele pessoal quando se juntava, só saia bobeira e trabalhar que era bom...
— Okay, vocês me convenceram, quando é que eu começo? – Todo mundo riu, e piscou para , virando um gole de sua bebida, agora ela bebia uma caipirinha, na verdade, a segunda caipirinha.
— Amanhã, se quiser, estamos mesmo precisando de uma auxiliar lá.– Frank parecia menos bêbado que todo o resto, não que todo mundo, de fato, estivessem bêbados, mas estavam já bem alegrinhos, animados, sabe como é, depois de várias bebidas, uma hora ela começa a fazer efeito.
— E o que essa auxiliar tem que fazer exatamente?
— Você, benzinho? Nada, só conversar, rir e iluminar o ambiente com esse rostinho lindo! – gargalhou e todo mundo riu, enquanto dava uma boa olhada para Cabral.
— Eu disse pra você tirar os olhos, Cabral. – disse risonho, e todo mundo gargalhou junto.
— Ela não é sua namorada mesmo, é? É muito bonita e legal pra você, . – riu e virou um gole de sua caipirinha, olhando para , agora ela queria ver, o que ele iria dizer?
— Mas o é linndoo! – Disse Patricia, toda animada. – Ah, olha só pra eles, acho que formam um lindo casal!
riu e viu que também estava rindo, ele olhou para ela e deu de ombros, sem dizer nada. Aquilo era bem estranho, será que ele queria deixar claro que não era para ela se envolver com nenhum amigo seu, e por isso estava dizendo que eram namorados? Qual é, se ele podia sair e ficar com as garotas, por que ela não podia ficar com algum cara? Só porque eram amigos dele?
— Na verdade, não somos namorados. – Ela disse, dando de ombros e vendo erguer uma das sobrancelhas enquanto a olhava, sem dizer nada.
— Nãooooo? Jura? – Patricia pareceu ser a única decepcionada com isso, percebeu e para não precisar dizer nada, ele tomou um gole de sua bebida, vendo que Rafael e Caio não tiravam os olhos de . Ele não devia ter levado ela naquele Happy Hour, quer dizer, ele não tinha pensado no quanto era bonita e iria chamar a atenção de seus amigos, não que ele estivesse com ciúmes ou coisa assim, era só que, ele conhecia aqueles caras, eram galinhas demais para , ela merecia muito mais.
deu um sorrisinho, sem jeito e tomou o resto de sua caipirinha, pedindo agora uma taça de vinho ao garçom que passava para receber mais pedidos.
— Melhor não misturar muito as bebidas. – lhe disse baixinho, ao ouvido, e ela sorriu de volta. ... Protetor, como sempre.
— Eu estou bem, relaxa. – Ela sorriu, docemente.
— Ahhh, mas olha só pra vocês dois, parecem tão íntimos, se não são namorados, eu acho que estão quase. Vocês estão ficando há quanto tempo? – sorriu à Patricia e olhou para , ai Deus, aquela conversa estava ficando esquisita.
— Nãoooo. Nós somos amigos, só amigos. – Ótimo, agora que os amigos de iriam dar em cima dela, de vez. Pensou, ele, desanimado.
— Mas moramos juntos há dois anos. – Disse , numa tentativa de mostrar para seus amigos que, mesmo que não namorasse , ela não era para eles.
— Hãn? Agora eu fiquei confusa. – Todo mundo riu do jeito de Patrícia, e deu de ombros.
— Relaxa amiga, é uma longa história. – tomou um gole de sua bebida, antes de se levantar e dizer que iria ao toalete, no que Patricia também se levantou dizendo que iria acompanha-la e saiu cambaleante atrás de .
observou caminhando pelo bar e o modo como vários homens olhavam-na quando ela passava, quando voltou os olhos para a mesa, percebeu que Rafael e Caio seguiram os quadris de , como ele fizera.
Mas que droga, por que estava sentindo-se daquele jeito, afinal de contas? Será que era por tê-la visto seminua à tarde? Será que estava sentindo ciúmes? Não, não, com certeza era só porque seus amigos eram galinhas demais, ele conhecia aqueles caras, na verdade, ele era homem e sabia como homem era, ele tinha que proteger a desses idiotas, era isso, só isso, não tinha nada além disso.
— Ela é uma garota e tanto, . – Cabral falou baixo, apenas para , que sorriu e assentiu com a cabeça, voltando a atenção as conversas da mesa.
— Vocês viram o jogo de quarta? – Perguntou Frank e os homens começaram a falar de futebol, o que agradou muito , assim não precisava ficar pensando bobeiras.
voltou um tempo depois com Patricia, e elas se juntaram a conversa. A noite estava muito agradável, o movimento do bar só aumentava conforme as horas iam passando, a música agitada fez várias pessoas, já bêbadas, se levantarem e irem para o meio do bar, onde tinha um espaço sem mesas, e começarem a dançar fazendo uma “pista de dança”, causando mais bagunça e animação ao ambiente.
já tomara três caipirinhas, duas taças de vinho, duas cervejas, três saquês e agora estava tomando Whisky com red bull junto com , seus olhos já estavam bem mais brilhantes do que o normal e seu sorriso, sempre solto, agora estava escancarado. Ria de tudo e com todo mundo, fosse lá qual fosse a piada e percebeu que, se não ficasse de olho nela, alguém a levaria fácil, fácil para qualquer lugar.
— Você tinha que ver como ele era, parecia um nerd, com óculos e cheio de espinhas. – Ela ria e ele fez uma careta, estava contando como eles haviam se conhecido, e ela sempre insistia em dizer que ele tinha espinhas e parecia nerd, o que nem era bem assim.
— O , nerd? – Todo mundo riu da pergunta de Rafael e riu junto, negando com cabeça.
— Eu não, até parece, ela que gosta de exagerar só pra não dizer que me achou lindo. – Todo mundo riu e gargalhou junto.
— Brincadeira, ele era lindo mesmo, tinha uma barbinha igual do Salsicha. – Todo mundo riu e ele fez uma careta, olhando para ela e erguendo as sobrancelhas, no que ela gargalhou ainda mais e passou os braços envolta do pescoço dele, dando um beijo em seu rosto. – Brincadeirinha, você era lindo com aquela barbinha de “olha, mamãe, estou crescendo!”
ergueu as sobrancelhas, olhando-a, tentando fazer cara de sério, mas não conseguiu e riu junto.
— Eu vou te mostrar o que estava crescendo naquela época. – Todo mundo gargalhou, enquanto uns falavam “ôoopa”, e Cabral soltou um “Ae moleque”, no que gargalhou, dizendo:
— Uiiii, ta ficando atrevido esse . – Ele riu e sacudiu a cabeça, virando um gole de Whisky com Red Bull, era melhor ele parar de beber, estava começando a ficar bêbado e como já estava pra lá de bêbada, era ele quem ia ter dirigir na hora de irem embora.
Aquela noite estava maravilhosa e se sentia livre, leve e solta. Fazia muito tempo que não se sentia assim, e estar assim era ótimo, se sentia mais confiante e linda do que nunca. Podia ver que os amigos de não paravam de olhá-la e podia perceber os olhos de , como um leão defendendo a sua comida, e sentiu vontade de gargalhar com esse pensamento, não era e estava longe de ser qualquer coisa de , muito menos sua comida. Diante de tal pensamento perverso, ela gargalhou e deu um gritinho quando Patricia, há essa altura já muito mais bêbada do que era possível, gritou, toda animada.
— AHHH ADORO ESSA MUSICA! – deu um pulo da cadeira quando Patricia se levantou e saiu correndo para a “pista de dança”, puxando pelas mãos. Realmente, ela também adorava aquela música, por isso deixou-se levar pelo ritmo sedutor da música, tentando sensualizar junto com Patricia, enquanto riam e dançavam, tudo ao mesmo tempo.
riu quando viu dançando na pista de dança e riu mais ainda quando viu ela correr até ele e puxá-lo pelas mãos.
— Veeeeem, , dança comigo. – Ele gargalhou, jamais poderia dançar aquela música com ela, era dançante demais, mas mesmo assim deixou-se levar enquanto todo mundo da mesa também seguia para lá, dançando, rindo e se divertindo.
percebeu que Caio agora beijava Carol sem se preocupar com nada mais, e sorriu consigo mesmo, happy hours sempre davam nisso; Voltou sua atenção a que agora dançava animada na sua frente, o vestido balançando conforme ela dançava, rebolando levemente no ritmo da música que tinha um som animado e uma melodia sensual.
Ele viu que ela se virou de costas para ele, dançando e rebolando e ele ficou meio segundo hipnotizado olhando para o corpo de , os quadris mexendo, o vestido balançando e erguendo-se um pouco, deixando à mostra um pouco mais das coxas, grossas. Meu Deus, que corpo! Aquilo o estava deixando louco, se ela continuasse daquele jeito mais cinco minutos ele não responderia por seus atos.
Passou as mãos em volta da cintura dela, mas apenas ficou com as mãos ali, sem segurá-la, só sentindo o corpo dela se movendo entre suas mãos e viu ela virar o rosto para ele e sorrir, com cumplicidade, como se ela gostasse daquilo, o que a fez dançar e rebolar ainda mais. Se ela estava tentando provoca-lo, parabéns, porque ela estava conseguindo isso com êxito.
Se aproximou um pouco mais dela e passou a ponta do nariz nos cabelos sedosos e cheirosos, Deus, o que ele estava fazendo? Sentiu o corpo dela deslizar em suas mãos enquanto ela se virava e envolvia as mãos entorno de seu pescoço, ainda dançando e rebolando, fazendo-o descer os olhos para o decote do vestido dela que ele notara, agora, que era maior do que deveria. Agora que ela estava mais próxima, a visão daquele decote era bastante privilegiada e ele lembrou-se imediatamente dela com as mãos sobre os seios tentando tampá-los, o que o fez ficar ainda mais com vontade de vê-la nua.
Subiu os olhos e a viu sorrindo, enquanto cantava de um jeito todo sedutor, mas que porra de música, ela tinha mesmo que tocar bem naquele momento?
Ela aproximou os lábios do rosto dele, tocando-os suavemente, enquanto deslizava-os por sobre a pele dele até o ouvido, onde, num sussurro, ela começou a cantar, provocante.

“Shh... don’t tell you mother.
Não conte à sua mãe”


Ele sentiu o corpo todo se arrepiar, enquanto ela se afastava para olhá-lo e continuar cantando com uma voz sedutora, como a própria cantora na música.

“Got my mind on your body,
Estou com minha mente no seu corpo
and you body on my mind...
e seu corpo em minha mente.”

Ótimo, se ela queria terminar de provocá-lo, aquela era com certeza a hora certa, e bêbada ou não, ela não apenas sabia disso, como sabia como fazer isso.
Ele a viu se aproximar ainda mais dele e sentiu suas próprias mãos agora apertando a cintura dela com mais força do que imaginava; os lábios dela estavam agora muito mais próximos dos dele quando ela passou a língua suavemente sobre eles, antes de continuar cantando a música.

“Got a taste for the cherry,
Quero provar deste fruto,
I just need to take a bite.
eu só preciso dar uma mordida.”

sentiu-se puxando o corpo dela contra o dele, fazendo-os ficarem com os corpos colados, enquanto perdia totalmente o controle, já não conseguia pensar em nada, onde estava, com quem estava, se ela era sua melhor amiga e muito menos se ele iria se arrepender disso depois, tudo que ele conseguia pensar era no corpo dela seminu e agora ali, dançando sensualmente para ele, sua boca cantando de modo sedutor e agora muito próximo dos lábios dele, tudo que ele pensava era que queria muito beijá-la, ali, naquele momento, nem um segundo a mais. Passou uma das mãos pelo rosto dela e seguiu até os cabelos, os segurando pela nuca, antes de fechar os olhos e puxá-la mais para ele, aproximando os lábios deles cada vez mais.
Não importava mais nada no mundo, apenas que ele estava prestes a beijá-la.

— MEU DEUSSS... Eu disse que vocês eram um casal. – Alguma coisa muito errada tinha acontecido ali, e notou isso quando ouviu a gargalhada de e se vi abrindo os olhos para ver que Patricia agora abraçava os dois, toda empolgada por ter destruído o momento que, no íntimo de , ele desejava mais do que tudo. – Eu sabiiiaaaa! Vocês são lindos juntos, eu disse amiga, eu disse que vocês dois TEM que ficar juntos!!
riu alto e sentiu o corpo dela se afastando do seu e deixou que ela se afastasse, não tinha mais porque ele ficar ali, não depois daquilo. Resmungou um “já volto”, que provavelmente nem notou, e seguiu em direção ao banheiro.
Era melhor lavar o rosto, afastar aquelas sensações, aquela bebedeira que quase o fizera cometer um erro que se arrependeria muito no outro dia.
Que droga, por que ele se deixara levar tão fácil? Ele não podia fazer aquilo, não com , quer dizer, eles eram melhores amigos, moravam juntos há dois anos e nunca nada como aquilo acontecera, e aquela nem era a primeira vez que eles ficavam bêbados juntos, então por que aquilo estava acontecendo agora? Por que aquele desejo e aquele pensamento maluco que não saia de sua mente? Aquela imagem dela seminua que ele passara a noite inteira tentando apagar da mente, mas que continuava ali, provocando-o e fazendo-o quase cometer uma idiotice.
— Que isso, , controle-se, ta ficando maluco?
disse a si mesmo, em frente ao espelho no banheiro masculino, e encheu as mãos embaixo d´agua para lavar o rosto. Precisava afastar o efeito da bebida, precisava ficar são, se já perdera o controle, ele não podia se dar ao luxo de também perder, ou os dois acabariam acordando no outro dia, nus e com mais do que uma ressaca.
Voltou ao bar e viu dançando toda animada enquanto Rafael a cercava. Ótimo, pensou , agora ia ver outro tentar o que ele não conseguiu minutos atrás. Se aproximou para deixar claro que ele ainda estava ali e ela ainda não estava soltinha, livre, leve e solta, por mais que estivesse mais leve e solta do que deveria. Deu um aceno de cabeça pra Rafael que acenou de volta, enquanto ficava ali, sem dançar, apenas envolta de que sorriu toda animada quando o viu, o puxando, pela mão, para mais perto dela.
— Eu adoreiiii esse bar, vamos voltar aqui mais vezes? – Ela disse, empolgada e risonha e sorriu, acenando com a cabeça.
Nunca mais ele a levaria ali, não com seus amigos carniceiros juntos.
Antes que pudesse responder, viu se desequilibrar e a segurou pela cintura, mantendo-a próxima a ele, enquanto ela gargalhava e ele sorria, negando levemente com a cabeça.
— Acho que está na hora de irmos embora, madame.
— Aaaaaah, nãooo! – ele riu com a expressão de desapontamento dela, parecia uma criança num corpo de mulher... e que corpo!
— Ahh, sim. – Ela riu e se segurou no braço dele enquanto se viravam e voltavam para a mesa. sentou-se e pegou um copo de caipirinha, que ela deixara ali e que àquela altura já estava quente, e virou um grande gole.
— Nós vamos embora. – disse a Cabral e Jéssica que tinham voltado para a mesa, antes de virar o resto do seu Whisky com Red Bull.
— Pow, cara, já? – assentiu e apontou com a cabeça.
— Parece que alguém bebeu além da conta hoje.
— Quem?? Eu? Eu não, eu tô ótima! – riu e disse para si mesmo: “Com certeza, está”.
— Falou, cara. – Cabral e Jéssica acenaram, e , ajudando a se levantar, se dirigiu até o caixa onde pagaram suas bebidas e depois seguiram para o carro.
O caminho de volta demorou um pouco mais do que o de ida, como tinha bebido um pouco, o que nem deveria ter feito, dirigiu mais devagar e cauteloso do que de costume, mas como já era mais de uma da manhã, as ruas estavam vazias e não tinha tanto perigo.
Quando estacionou no prédio, saiu cambaleando do carro, a bolsinha segura em uma das mãos, enquanto a outra ela se apoiava no carro para não cair. saiu do carro e deu a volta para ajudar a caminhar até as escadas, onde ela subiu cambaleante, segurando firmemente no corrimão enquanto a ajudava a subir.
Droga, não devia ter deixado ela beber tanto assim.
— Essa escada é em caracol? Porque parece que eu estou rodando. – revirou os olhos e pegou no colo, terminando de subir os três andares com ela em seus braços.
Quando chegou em seu apartamento, sentia-se arfante, era magrinha, mas depois de três lances de escadas com ela em seus braços, ela parecia pesar cem quilos.
Desajeitadamente enfiou uma das mãos no bolso para pegar a chave do apartamento e o abriu, entrando cambaleando com em seu colo, e fechando a porta com um chute, enquanto seguia com a loira direto para o quarto dela.
— Uhul, lar, doce lar. Eu adoro esse apartamento! – Ele a colocou sobre a cama e ela tombou para trás, rindo em seguida. Ele abaixou-se e segurou um dos pés dela, abrindo o fecho da sandália, enquanto ela se erguia e ficava sentada na cama, o olhando.
— A senhorita bebeu mais do que devia, heim? – Ela riu e ficou o olhando. Ele terminara de abrir o fecho da sandália e a tirava do pé de .
— Por que você não tem uma namorada, ? – Ele ergueu os olhos para olhá-la, ela não estava mais risonha ou achando tudo engraçado, o olhava, séria.
— Você sabe... – ele disse, soltando o pé dela, agora sem a sandália, para segurar o outro pé e abrir o fecho. – Ainda não encontrei a garota certa.
Ela ficou olhando para ele enquanto ele terminava de tirar sua sandália, para colocá-la, em seguida, em baixo da cama e se levantar, deixando-a sentada na cama agora com os pés descalços.
— Talvez ela esteja bem debaixo do seu nariz e você que não viu ainda. – Ela disse, naturalmente, deixando parado, a olhando. O que ela estava querendo dizer com isso? Não teve tempo de pensar pois ela se levantava e se virava, de costas para ele, segurando os cabelos no alto e olhando-o por cima dos ombros.
— Abre pra mim?
ficou ali, parado, olhando-a pelo que pareceu uma eternidade, então segurou o zíper do vestido dela e começar a desce-lo devagar. Conforme o zíper ia descendo, o tecido ia se abrindo, deixando à mostra o corpo dela seminu. Que droga, o que ele estava fazendo?
Puxou o zíper até o final e ficou ali, parado, olhando para as costas dela, hipnotizado, olhando a pele branca e macia dela, que lhe fazia sentir ímpetos de tocá-la.
Percebeu que ela puxou o vestido pelos ombros, fazendo-o deslizar pelo corpo e cair ao chão, o que fez o coração de acelerar no peito. Engoliu em seco e viu ela se virar para olhá-lo; estava agora seminua na sua frente, com uma calcinha preta e um sutiã tomara que caia, também preto. respirou fundo e desceu os olhos pelo corpo dela, engolindo em seco. Deus, como ela era maravilhosa! Como era gostosa e como ele queria agarrar ela ali, agora!
Desviou os olhos e deu alguns passos para trás, tentando afastar aqueles pensamentos da cabeça.
— Quer alguma coisa pra beber? Uma aspirina, talvez, você com certeza vai precisar amanhã. – Ele desviou os olhos do corpo dela e se virou, caminhando até a porta do quarto.
— Quero uma tequila! – Ela disse, risonha, e ele virou o rosto para vê-la cair sobre a cama, o que a fez rir mais ainda.
— Com certeza. – disse mais para si mesmo do que para ela enquanto seguia até a cozinha.
Talvez tudo que eles precisassem era mesmo deitar e dormir, no outro dia ela nem se lembraria de nada do que quase acontecera, e ele esqueceria tudo que sentira, quando estivesse em sã consciência tudo aquilo passaria, era só coisas da sua cabeça misturadas com bebida e o resultado era aquilo: uma quase loucura e pensamentos mais loucos ainda.
Abriu a geladeira e pegou a garrafa de Coca-Cola, servindo um copo e pegando uma aspirina na caixinha de remédios no armário, era melhor ela tomar uma aspirina hoje ou amanhã acordaria acabada.
Voltou para o quarto e quando se aproximou da cama, parou, surpreso.
Ela estava deitada na cama, apenas de calcinha e sutiã, por cima do edredom, dormindo.
Riu consigo mesmo e ficou ali, olhando-a. Bêbados! Como conseguiam dormir tão rápido?
Engoliu o comprimido de aspirina e virou um grande gole de Coca, e ficou ali, olhando-a por mais alguns minutos, pensativo.
Ela era linda, até mesmo dormindo. O que acontecera nesses dois anos que ele nunca notara isso? Ou ela havia ficado mais linda e mais gostosa nos últimos tempos? Ele não conseguia se lembrar porque sequer se lembrava de algum dia ter olhado para ela de outra maneira senão como amigos, quase como irmãos, e agora ali estava ele, olhando para ela como nunca olhara antes, como um homem olharia para uma mulher. Definitivamente, estava pirando.
Colocou o copo de Coca sobre a mesinha de cabeceira e se aproximou da cama. Delicadamente, segurou a cabeça dela e ergueu-a devagar, para passar um dos braços por baixo de modo que ele pudesse pega-la no colo, olhou para o rosto dela com medo de tê-la acordado, mas percebeu que ela sequer se mexeu, o sono de bêbados costumava ser bem profundo.
Ergueu-a no colo e desajeitadamente puxou o edredom para baixo com uma das mãos, para em seguida coloca-la de volta na cama, dessa vez sobre os lençóis, e então ficou ali, parado, olhando para ela e perdido em pensamentos.
Ele dormiria e amanhã nem se lembraria, essa era a solução de tudo.
Puxou o edredom para cima e a cobriu, sorrindo consigo mesmo ao olhar para o rosto angelical que dormia tranquilamente; aproximou seu rosto do dela e beijou, suavemente, a testa de , antes de dizer num sussurro:
— Boa noite, bela adormecida.
Se afastou da cama decidido, no outro dia ela não se lembraria de nada e ele... Ele só precisaria esquecer.
Se conseguisse.


Capítulo Quatro: Ouça seu coração


“Ah, o amor... que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê”

acordou com o barulho de buzinas, abriu os olhos sonolenta e sentiu a cabeça latejar enquanto alguém buzinava insistentemente na rua como se quisesse, de propósito, acordá-la. Praguejou, baixinho, e se remexeu na cama, se espreguiçando, vendo a claridade entrando pelo vidro da janela do quarto. Que droga, esquecera de fechar a janela e agora a claridade terminava de acordá-la.
Virou-se de lado abraçando o travesseiro, tentando voltar a dormir, mas a dor de cabeça acordara junto com ela, por isso ela virou-se para o outro lado tateando a mesa de cabeceira em busca do seu celular, percebendo que ele não se encontrava ali. Ué, mas onde ela deixara o celular?
Ergueu-se de uma vez, sentindo a cabeça latejar e tombou para trás novamente tentando se lembrar onde deixara o celular na noite passada.
Noite passada... Bar, happy hour, , os amigos dele... Claro! Por que não se lembrara disso antes? Tinha saído com a noite passada então provavelmente seu celular ainda estava na bolsinha que levara com ela.
Suspirou aliviada e ficou deitada, lembrando da noite passada.
Tinha uma vaga lembrança de ter bebido muito, os amigos de , um deles bem bonitão, Patricia, a amiga bêbada, falando sem parar, a música alta, ela dançando e Sirius... Sentiu o coração disparando e o estômago afundando, tinha uma vaga lembrança deles dançando juntos, muito, muito próximos... Deus, será que tinha sido um sonho ou ela tinha mesmo quase beijado o ?
Devia ter sido um sonho, só um sonho bem maluco, afinal de contas, imagina só, ela e o juntos? Impossível... ou não?
Okay, estava pirando já, com certeza era aquela dor de cabeça que estava fundindo seu cérebro.
Levantou-se e seguiu até o banheiro, dez minutos depois caminhava em direção a cozinha sentindo os olhos doendo com a claridade e a cabeça ainda latejando. estava na sala, largado no sofá assistindo um jogo de futebol europeu e ergueu os olhos quando entrou se arrastando pela sala em direção a cozinha.
— Deixe-me adivinhar: Ressaca e dor de cabeça. – Ele riu e ela fez uma careta, abrindo a geladeira e puxando a garrafa de Coca-Cola.
— Minha cabeça parece que vai explodir e meus olhos ardem como se eu fosse uma vampira com medo da luz do sol. – riu alto, a voz de estava arrastada e ela tinha uma feição horrível. – Você ri, né? A culpa disso é sua!
— Minha? Eu não enfiei um monte de bebida na sua boca a força, você bebeu porque quis. – Ele voltou a atenção ao jogo enquanto ela virava um grande gole de Coca-Cola. – Tem aspirina na caixinha de remédios.
— Ótimo, preciso de uma cartela inteira. – Ele riu, sem desviar os olhos da TV. Ela tomou dois comprimidos de uma vez e seguiu até a sala, pegando os óculos de sol de que se encontrava na mesinha de centro e colocando no rosto antes de se largar no sofá de dois lugares.
— Hey, esses óculos são meus, donzela. – Ela mostrou a língua para ele, que nem notara.
— Agora são meus! Meus olhos de vampira não podem com essa claridade hoje. – Ele riu, negando com a cabeça.
— Então, sem chance de sair de casa hoje? – Ela deitou-se no sofá, esticando as penas sobre o braço direito do sofá, antes de responder em meio a um bocejo.
— Sair de casa? Só depois que escurecer ou eu viro cinzas, esqueceu? – riu, pegando uma almofada e jogando em cima dela.
— Ah, é verdade, esqueci que o Conde Drácula te transformou ontem à noite e você acordou uma morta-viva que não vai poder aproveitar o Ibirapuera comigo.
fez uma careta, mostrando a língua novamente, pegando a almofada e jogando em cima dele, sem conseguir acertá-lo.
— Se alguém tivesse mordido meu pescoço ontem à noite acho que eu me lembraria, né? – riu, mas não disse nada, será que ela se lembraria mesmo? Será que ela se lembrava da noite passada? – Não tem nenhum furo no meu pescoço.
— Isso é um bom sinal. – Ele disse, simplesmente, tentando não entrar mais a fundo no assunto “noite passada”. Ele não tinha certeza de quanto ela se lembrava, e também não tinha certeza se ele mesmo queria lembrar, de novo, da noite passada, portanto, era melhor não tocarem no assunto e deixar como estava, sem saber se ela se recordava e tentando esquecer qualquer coisa que pudesse atrapalhar a amizade deles.
— Você disse Ibirapuera? – Ela perguntou depois de um tempo em que os dois ficaram assistindo ao jogo entre Barcelona e Real Madrid.
riu, ele sabia que ela adorava o parque Ibirapuera e que dizer “não” a um passeio no parque era algo quase impossível de acontecer.
— É, mas... Como você virou vampira e não pode com a luz do sol, talvez eu encontre alguma pessoa viva que queira ir comigo. Estava pensando em fazer um piquenique e ficar lendo embaixo de uma árvore entre um morango e outro, uma uva e outra.
— Poxa, assim não vale. – Ele riu e praguejou em seguida quando o time do Barcelona perdeu um gol. – Você sabe que eu adoro o Ibirapuera.
se espreguiçou quando anunciaram o final do jogo e se levantou, pegando a carteira em cima da mesinha de centro e se aproximando dela, para puxar os óculos de sol do rosto de , que imediatamente levou as duas mãos ao rosto tentando afastar a claridade que vinha do lado de fora do apartamento através da porta aberta da sacada.
— Vou ao mercado comprar algumas coisas pra levarmos, você tem quarenta minutos para ficar pronta, ou eu chamo alguma menina bem viva aqui do prédio pra ir comigo. – fez uma careta, mostrando a língua para , que riu, caminhando em direção a porta.
— Nem morta eu deixo você chamar essas vacas pra sair. – gargalhou, sabia que isso a faria levantar rapidamente, ela odiava profundamente as meninas que moravam no prédio e que insistiam em ficar dando em cima de ; fazer o que se ele era lindo e solteiro? Riu de seus pensamentos antes de responder, bem-humorado, agora parado à porta do apartamento.
— Morta você já está, vampira! – Ela mostrou a língua para ele, que riu, saindo e fechando a porta atrás de si.
ficou deitada no sofá mais alguns minutos, pensativa.
O que será que de fato acontecera na noite passada? Será que fora só um sonho, ou eles tinham mesmo quase se beijado? Seria isso possível? Quer dizer, eles se conheciam há mais de dois anos, moravam junto, eram melhores amigos e nunca nada como aquilo tinha acontecido, ou sequer, quase acontecido, nem mesmo quando se conheceram, então como agora algo como aquilo aconteceria? Não, com certeza devia ter sido um sonho, ela devia ter bebido muito, e gostou tanto da noite, do bar, que até sonhou com aquilo, mas o sonho safadinho lhe pregara uma peça colocando uma cena romântica onde nem em sonho deveria acontecer. Com certeza era isso, afinal de contas, estava perfeitamente normal com ela, mais um sinal de que aquelas vagas lembranças em sua mente não passavam de um sonho muito louco.
Levantou-se e decidiu tomar um banho para acordar de vez, era sábado, o dia estava lindo, por mais que seus olhos não estivessem totalmente prontos para aquela luz solar toda lá de fora, mas sábado era sábado e nada melhor do que aproveitá-lo fazendo piquenique no melhor parque da cidade.

Duas horas depois eles estavam deitados sobre um lençol azul escuro que escolhera e ao lado havia uma toalha de mesa xadrez onde continha um monte de coisas gostosas para comer e uma caixa térmica com várias bebidas geladinhas.
Eles estavam debaixo de uma árvore cuja sombra sobre eles tornavam aquele piquenique ainda mais gostoso; estava sentado e encostado à árvore, lendo um livro e estava deitada atravessada no lençol com a cabeça em seu colo, olhando para o céu azul onde as nuvens brincavam de formar desenhos.
Era uma tarde gostosa, o dia estava quente, mas o vento vinha sempre ora ou outra refrescá-los, várias pessoas aproveitavam o parque Ibirapuera, algumas corriam pelo parque, outras mais ao longe jogavam bola ou vôlei, ou até mesmo faziam piquenique, deitados sob uma árvore aproveitando aquele dia gostoso.
— Você já chegou naquela parte que...
— Cala a boca. – Ela gargalhou e ele riu junto. – Você nem leu o livro, só assistiu a série, que eu sei.
— Dizem que a série e o livro são iguais. – Ela levantou-se para pegar um potinho onde deixara um cacho de uvas roxas, suas preferidas.
— Você precisa ler o livro, é muito sensacional! – Ela deitou novamente com a cabeça no colo dele e colocou uma uva na boca, pegando outra e erguendo a mão para colocar na boca de , que a pegou com os dentes, saboreando a uva em seguida.
— Quando você terminar de ler você me conta as diferenças do livro pra série. – Ele deu uma risadinha, negando levemente com a cabeça.
— Nem pensar, você vai ter que ler pra descobrir. – Ela fez uma careta, pegando mais uma uva e colocando na boca dele.
— Mas no livro as cenas de sexo é igual da série? Porque as cenas da série, Jesus amado, até sozinha as vezes eu fico com vergonha. – Ela gargalhou e ele riu, revirando os olhos.
— Você fica é se masturbando vendo aquela série. – Ele gargalhou sabendo que ela acharia ruim com ele, o que foi dito e feito.
— Hey, eu não sou você não, tá? Seu tarado! – Ela deu um tapa forte na perna dele, mas ele nem ligou, continuava rindo. – E para de rir! Você que fica lendo essas putarias aí e depois vai assistir filme pornô no seu notebook, que eu sei!
Ele gargalhou ainda mais, batendo o livro, grosso, na cabeça dela.
— Eu não preciso assistir filme pornô; se eu quiser sexo é só eu ir numa balada que consigo.
— Há-há-ha, falou o garanhão. – Ele riu, mais uma vez, enquanto ela fazia uma careta.
— Fazer o que se eu sou bonitão, ué?! Consigo sexo fácil. – Ela fez uma careta novamente e dessa vez revirou os olhos.
— É só fazer assim... – Ela ergueu a mão, estalando os dedos. – né? – Ele bateu o livro, mais uma vez, na cabeça dela, que deu outro tapa na perna dele.
— Cala a boca.
— E aquelas meninas do seu trabalho? – Ela colocou mais uma uva na boca e de propósito, dessa vez, não levou outra uva aos lábios de .
— O que tem elas? – Ele indagou, com o livro suspenso, esperando ela lhe dar uma uva, enquanto ela ria e erguia a sobrancelha, olhando-o, com cara de malvada. – Cadê minha uva?
— Oxi! Eu não sou sua escrava que te dá uvinha na boca, não, seu folgado! – Ele bateu o livro, mais uma vez na cabeça dela, e segurou o pulso dela firmemente, fazendo ela levar à boca dele a uva que ela segurava na mão. – Hey!
Ele riu, agora com a boca cheia e ela deu um tapa de leve no rosto dele, que fez uma cara feia, enquanto ainda mastigava a uva.
— Então... Você nunca ficou com elas? Aquela Jéssica é muito bonita. – Ele negou com a cabeça levemente, voltando a erguer o livro para continuar lendo. Isso se é que ele conseguia mesmo ler e conversar com ela, ao mesmo tempo.
— Não é da sua conta. – Ele disse simplesmente, no que ela deu um grito de exclamação que quase o matou de susto.
— Sabia!!!! – O livro grosso que segurava soltou-se de sua mão e caiu sobre o rosto de , que praguejou, alto. – HEY! SEU IDIOTA!
gargalhou, pegando o livro que ela jogara para o lado.
— Foi mal, você me assustou, sua louca!
— Idiota! – Ela estava com cara de brava e riu mais ainda diante das feições dela. – Você não ia me contar, não?
Ela pegou uma uva e jogou no rosto dele, zangada, e ele riu mais ainda.
— Olha o desperdício. – Ela mostrou a língua e ele riu, levando a mão livre até o potinho de uvas e roubando uma uva dela. – Eu não tenho que te contar sobre todas a meninas que eu fico.
— Claro que tem! Eu sou sua melhor amiga, se você não contar pra mim, vai contar pra quem? – Ele revirou os olhos.
— Para os meus amigOs? Homens? Machos? Igual eu? Que vai entender se eu contar um detalhe sórdido? – Ela revirou os olhos e fez uma careta, suspirando.
— Homens.
Ele bateu o livro, levemente, na testa dele, e ela deu-lhe outro tapa na perna, dessa vez com um pouco mais de força.
— Tudo bem, vou te contar. – Ele riu, baixo, sabendo que se ele começasse a contar alguns detalhes mais picantes, ela já ficaria brava. Mas fora ela mesma que pedira! – Eu já fiquei com a Jéssica, mas faz tempo. Ano passado, se não me engano.
— Hmm... – Ela disse, enquanto continuava comendo uva e agora olhando um casal de namorados que brincavam de um correr atrás do outro no parque, antes do menino agarrar a menina e começar a beijar ela, apaixonadamente.
fingiu não notar que ela observava aquela cena, e continuou:
— Ela é legal sabe, bem gostosa e tudo mais, mas... ela é meio paradona na cama, eu gosto de mulher selvagem, que dá aquelas puxadas, umas arranhadas, e que rebola...
— Táaa, táa, já entendi. – Ele riu, alto. Sabia que ela faria aquilo.
— Eu disse que certas coisas só posso falar com homem.
— Você não precisa me contar os detalhes sujos, só me contar, ué. – Ele negou com a cabeça, e voltou a ler seu livro.
— Então me conta, quem foi o último cara que você ficou? Eu acho que ontem à noite você estava bem afim do Rafa. – Ele não queria falar sobre a noite passada, muito menos falar do amigo Rafael, não que ele realmente achasse que ela estava dando bola para o amigo, mas que o amigo estava bem afim dela, isso ele não tinha dúvidas, mas já que ela entrara no assunto, era a única maneira dele saber se ela se lembrava de alguma coisa da noite passada, tipo, eles quase se beijando ou ela seminua na sua frente antes de cair na cama e dormir. Coisas que ainda povoavam sua mente, por mais que tentasse esquecer.
— Eu? Você acha? Ahh não sei, não consigo me lembrar nem como eu fui parar na minha cama quase pelada. – Ela riu alto e ele sentiu o coração disparar no peito. Então ela não se lembrava? Droga! Ou melhor, que sorte!
— Foi o Rafa que te colocou pra dormir, mas antes tirou toda sua roupa... – Ele deu uma risadinha e ela bateu na perna dele, novamente; estava começando a ficar ardido o local onde ela ficava dando tapas atrás de tapas, mas ele não disse nada. O que eram alguns tapas enquanto sua mente imaginava mil coisas com ela desde o dia anterior? Ele merecia mais do que uns tapas por isso.
— Idiota. – Ela voltou os olhos para o casal apaixonado, que agora estavam deitados debaixo de uma árvore, abraçadinhos, se beijando. – Eu não estava afim dele, isso eu tenho certeza.
— E o que mais você tem certeza? – Ele perguntou, como quem não quer nada, e ela ficou em silêncio por um tempo, ele não sabia se ela estava tentando se lembrar de alguma coisa ou tentando esquecer.
— Da voz da Patricia esgoelando no meu ouvido a noite inteira. – Ela riu, e ele riu junto. – Lembro que eu bebi bastante, eu acho, tinha muita música e muita gente dançando. Mas não consigo lembrar detalhadamente de quase nada, só de quando chegamos e eu comecei a beber.
não disse nada, tentou voltar a ler, mas seus pensamentos não deixavam ele prestar atenção a uma só palavra. Será que ela não se lembrava mesmo ou não queria lhe dizer que se lembrava por medo? Ou por arrependimento? Droga, como ele daria tudo para saber se ela se lembrava!
Suspirou, e forçou-se a parar de pensar e prestar atenção ao livro.
ergueu-se e virou para olhá-lo, com as sobrancelhas franzidas, como se estivesse vendo algo de errado nele; ergueu os olhos do livro e olhou-a, interrogativo.
— Tá tudo bem? – Ela perguntou, simplesmente, e ele sentiu o coração gelar dentro do peito.
— Tá. – Ele franziu a testa de volta, como se não entendesse a pergunta dela, e ela chacoalhou a cabeça, desviando os olhos e olhando ao redor.
— Eu tive um sonho muito louco essa noite. Muito louco mesmo! – Ela riu consigo mesma, e ele ficou olhando-a, confuso.
— Sonhou o que? – Ele fingiu não estar interessado para valer e voltou os olhos para o livro, enquanto ela agora olhava diretamente para o casal apaixonado que se beijava deitados debaixo da árvore. Ficou assim, observando, quieta, por um tempo.
— Nada... Não foi nada, não. – Ela riu, fracamente, mais para si mesma e voltou os olhos para ele, sorrindo, sem jeito, e então soube, ela se lembrava, só não sabia se fora real ou um sonho.
Sentiu uma pontada de alguma coisa no coração, não sabia se era tristeza ou alivio, já não conseguia entender os próprios sentimentos. Estava ficando maluco.
Talvez fosse melhor assim, talvez fosse melhor ela achar que fora um sonho, que nada tivera acontecido, de fato, afinal de contas, eles eram melhores amigos, moravam juntos, nunca tiveram nada, não tinha como alguma coisa acontecer agora, e se acontecesse, talvez só estragaria aquela amizade que eles construíram nesses dois anos, toda a intimidade que tinham, a confiança, a amizade, iria para o buraco, e ele não queria isso, não podia perder a amizade dela e tudo que tinha com ela por uma coisa louca que acontecera com os dois bêbados, quer dizer, com mais ela bêbada do que ele.
Era melhor assim. Era melhor ele pensar também que fora apenas um sonho, porque era mesmo isso, um sonho, e nunca mais se realizaria.

A tarde passou gostosa e tranquila, e quando o sol começara a dar o seu adeus, eles decidiram ir embora.
Depois de terem comido bastante frutas e coisas gostosas no piquenique, decidiram que não era preciso nem fazerem almoço, por isso quando chegaram ao apartamento, guardaram tudo que sobrara e se jogaram no sofá, preguiçosos.
sentou-se no sofá grande, pegando o controle, ligando a TV e colocando no canal do Sportv para ver os jogos de sábado, enquanto deitava no sofá colocando a cabeça sobre o colo dele, para assistir ao jogo com ele.
— O Santos está perdendo, que maravilha! – Ela riu, baixo, ao comentário dele.
— Eu gosto de Santos. – Ela disse, se encolhendo no sofá, sentindo a preguiça e o sono tomando conta do seu corpo. Ele sorriu e passou a mão pelos cabelos dela, sem desviar os olhos da TV.
— Eu gosto da cidade, não do time. – fechou os olhos e ficou apenas sentindo a mão de acariciando seus cabelos e ouvindo o locutor esportivo narrando o jogo, o que ela conseguia entender perfeitamente mesmo sem assistir.
— A gente podia ir pra Santos qualquer dia desses. – Ela disse, agora sentindo o sono tomando conta dela de vez.
— Vou pensar num fim de semana para fazermos isso. – Ele disse, prestando atenção ao jogo, notando alguns minutos depois que ela não respondera e parecia mais quieta do que o normal, abaixou, então, os olhos para ver que ela, na verdade, adormecera em seu colo. Sorriu e continuou acariciando os cabelos dela, notando agora a delicadeza de suas pálpebras fechadas, seu semblante tranquilo, dormindo como um bebê, Deus, como ela era linda!
Deslizou os dedos pelo rosto dela e o acariciou suavemente, se ele estragasse tudo, se perdesse a amizade dela, o carinho que tinham um pelo outro, como ele viveria? Como viveria sem ela? Sem os xingos e as broncas dela? Sem o jeito doce, delicado, de cuidar dele, de suas coisas, de sua vida? Não podia perdê-la, não podia cometer o erro de fazer qualquer coisa que colocasse aquela amizade em risco, que pudesse afastá-la dele, não podia. precisava urgentemente tirar aquele sentimento que começava a grudar em sua pele, em seu coração, retirar aquilo à força enquanto ainda era tempo, antes que fosse tarde demais, e ele acabasse destruindo a coisa mais linda e importante que tinha na vida: Sua vida com ela!
Precisava, urgentemente, tomar uma decisão e uma atitude, e afastar, de uma vez por todas, aquele maldito sentimento que vinha perturbando-o tanto nas ultimas vinte e quatro horas.
Precisava. Precisava urgentemente.
E ele sabia como fazer isso.

Ela acordou duas horas depois, ainda estava deitada no sofá e a TV estava ligada, mas as luzes estavam apagadas. Sua cabeça repousava sobre uma almofada, e ela sentia-se soando, mesmo que a porta da sacada estivesse aberta, permitindo que o vento entrasse e refrescasse um pouco o ambiente.
Se espreguiçou e sentou-se no sofá, olhando a volta. O apartamento estava às escuras, sendo iluminado apenas pela luz da TV e a luz da rua que entrava pela porta da sacada. Pela fresta da porta fechada do quarto de , ela podia ver a luz acessa, sinal de que ele estava no quarto; em que momento será que ele havia se levantado e deixado ela dormindo no sofá? Ela nem sequer notara, pegara no sono pesado tão rápido que parecia que nem dormira durante a noite toda.
Seguiu em direção ao seu quarto, acendendo a luz e decidindo tomar um banho bem relaxante, depois colocaria um shortinho e uma blusinha, e falaria para pedir uma pizza, eles podiam sentar na sacada, ligar o som e ficar ouvindo uma música, comendo pizza, conversando, rindo e se distraindo. Era uma boa opção para um sábado à noite, afinal de contas, ela não estava afim de sair novamente e beber mais ainda, aquela ressaca que ainda nem passara, já era suficiente para um fim de semana inteiro.
Tomou um banho de meia hora, lavou os cabelos que pareciam estar grudando por causa do suor, e relaxou debaixo do chuveiro morno, saindo do banho se sentindo bem melhor, como se a água tivesse revigorado suas energias.
Se secou, trocou de roupa colocando um short jeans, curto e uma regata branca e decidiu deixar os cabelos secarem ao vento, estava calor mesmo e a sensação deles molhados em suas costas lhe dava uma gostosa refrescância.
Pegou o celular, que agora estava na mesinha de cabeceira e colocou uma música para tocar, percebendo que já eram quase nove horas da noite. A luz da sala estava acessa, sinal de que já saíra da toca, por isso se encaminhou até a sala toda animada, e se eles chamassem uns amigos que tinham em comum? Na verdade, alguns amigos de , que conhecera antes de ir morar com ele, e que eram bastante divertidos. Era uma boa ideia.
, tava pensando, o que você acha de.... – A voz animada de morreu no ar quando ela parou à sala, vendo na cozinha, com o celular nas mãos, teclando rapidamente sem prestar muita atenção no que ela dissera.
Estava lindo! Usava uma calça jeans preta e uma camisa social branca, de mangas longas, mas que estavam dobradas até os cotovelos, dando um ar de descontração e ao mesmo tempo chique, os cabelos estavam, como sempre, para cima com a ajuda do gel; usava suas inseparáveis pulseiras em um dos pulsos, no outro o relógio que ela lhe dera de aniversário e no pescoço, sobre a camisa social, sua corrente de cruz, de prata. Estava lindo e perfeito.... Para um encontro.
— Desculpa, o que você disse, ? – Ele bloqueou a tela do celular e o colocou no bolso da calça, erguendo os olhos para olhá-la.
— Han... nada. – Ela disse, desconcertada. – Vai sair?
Ele deu a volta no balcão, pegando a carteira sobre a mesa e enfiando no bolso de trás da calça.
— É, os caras me chamaram pra sair, daí vou dar um rolê com eles. Quer ir com a gente? – engoliu em seco, sentindo o peito apertando e uma sensação de vazio tomando conta de tudo por dentro. Era óbvio que ele não queria que ela fosse com ele porque, se ele quisesse, teria dito isso antes mesmo dele se arrumar.
Ela sorriu, como se estivesse tudo bem.
— Ah, não, tudo bem... As meninas da faculdade me chamaram pra ir numa festa, também, então... Pode ir. Divirta-se!
Ela sorriu, tentando parecer normal enquanto caminhava até a cozinha, abrindo a geladeira e pegando a garrafa de Coca-Cola.
Ele virou-se para olhá-la, preocupado.
— Promete que não vai beber como ontem? – Ela colocou a garrafa sobre a pia e o olhou, sorrindo, gentilmente.
— Eu não vou beber hoje, prometo! – Ele sorriu, respirando aliviado e assentiu em seguida, pegando o celular, que começava a tocar, porém não atendeu e colocou de volta no bolso; pegou a chave do carro sobre a mesa e caminhou até ela, parando ao seu lado e lhe dando um beijo no rosto, de um jeito carinhoso.
— Juízo. Não volte tarde, Okay? Talvez eu demore. – Ela sorriu de volta e assentiu com a cabeça.
— Juízo o senhor também viu. – Ele sorriu e se encaminhou até a sala, pronto para sair. – Se for fazer sexo, use camisinha. – Ela brincou e ele riu, revirando os olhos.
— E você, não faça sexo, ouviu? – Ela gargalhou.
— Hahaha! Tchau, pai. – Ele riu alto e saiu, deixando ali, com o copo de Coca-Cola em uma das mãos, e o coração na outra.
O que estava acontecendo? Primeiro, por que ela estava se sentindo daquele jeito? Segundo, por que ele estava saindo sem nem dar a chance de ela ir junto? Bom, ele só fazia isso quando ia sair com alguma garota, mas quando ele ia sair com alguma garota ele a avisava, dessa vez ele disse que ia sair com os amigos, será mesmo que ele ia sair com os amigos?
Sentiu-se murchando, e se jogou sobre o sofá. Obvio que ela mentira sobre a festa das amigas da faculdade, nem sequer falara com elas naquele fim de semana direito, muito menos falara alguma coisa sobre sair, até porque, ela pensou que ia passar o sábado com , e agora, ali estava ela, sozinha naquele apartamento em pleno sábado à noite.
Pegou o celular e olhou as mensagens do Whastupp pensando se realmente deveria ver com alguma amiga de fazer alguma coisa, mas sentiu-se desanimada para sair, por fim, decidiu ficar em casa mesmo, pegou o copo de coca que deixara na mesinha de centro e se encaminhou até a sacada, sentando em uma das cadeiras que ficavam lá e olhando para a noite estrelada e gostosa.
Seria perfeito se ele estivesse ali com ela naquele momento. Pena que não estava.

estacionou o carro em frente ao prédio, conforme dizia a mensagem no Whatsupp e pegou o celular mandando uma mensagem de volta, antes de ficar um tempinho ali, esperando.
Havia mentido para e no fundo se sentia errado por isso, mas não tinha outra alternativa, era aquilo ou acabar cometendo uma loucura que colocaria tudo a perder, e ele não poderia correr esse risco.
Menos de cinco minutos depois uma garota se aproximava do carro, ele agora estava do lado de fora, recostado contra seu carro e sorriu quando a menina se aproximou. Ele já conhecia ela, mas nunca haviam saído antes, era uma amiga de Jéssica, que estivera com eles num bar a três semanas atrás.
Eles se cumprimentaram com beijinhos no rosto, e ele abriu a porta do carro para ela, dando a volta e entrando no carro, em seguida.
Ela era bonita, tinha os cabelos pretos, lisos, até os ombros, era magra e estava usando um vestido preto, até o meio das coxas e bem colado ao corpo, o que ele já sabia o que significava.
Chegaram num barzinho na Vila Madalena, pediram suas bebidas e ficaram lá, conversando, rindo, se distraindo. Ela era divertida, legal e bonita, bastante atraente e ele não parava de olhar para as pernas dela; sabia no que aquela noite resultaria e era aquilo mesmo que ele queria, dormir com uma garota e esquecer qualquer coisa que lhe lembrasse de e o quase beijo que eles tinham dado na noite passada.
— Meu Deus, eu não acredito! Então, você é irmã do Luizinho? – Ele gargalhou e ela riu, assentindo com a cabeça. – Que mundo pequeno.
— Ele sempre me falou de um amigo chamado , mas ele tinha tantos amigos... – Ela riu, e ele virou um gole de sua bebida.
— Caramba, fiz cinco anos de faculdade com aquele lezado e nunca conheci a irmã linda dele. – Ela sorriu, sem jeito, desviando os olhos de , mas olhando-o em seguida.
— Pois é, talvez tenhamos nos encontrado por aí, mas nunca reparamos um no outro. – Ela riu, e virou um gole de sua caipirinha e ele deu uma boa olhada para o decote do vestido dela, antes de responder.
— Eu teria notado se encontrasse com você em qualquer lugar. – Ela sorriu, abaixando os olhos e passando a língua pelos lábios, delicadamente.
— Você também não é de se jogar fora. – Ela brincou e ele riu, erguendo as sobrancelhas.
— Ah, é? Ufa, pensei que tinha me achado feio. – Ela gargalhou, obvio que ela não tinha achado ele feio, ele sabia que era bonitão, tinha charme e sabia conquistar qualquer mulher.
Pensou em e em como ela riria se ele dissesse aqueles pensamentos em voz alta para ela, faria uma careta e o chamaria de convencido, mas não estava ali agora, não era quem ele iria beijar aquela noite, nem sentir o corpo quente sob o seu, não era que iria ter ele todo para si, era outra garota, e por mais que no fundo, ele desejasse muito que fosse , não podia ser, nunca poderia ser.
Por isso, ele puxou a cadeira de modo a ficar mais próximo da garota, e passou a mão devagar por sobre a perna dela, fazendo-a olhá-lo e sorrir, com aquele jeitinho de quem gostava, antes de responder:
— É, bom.. Até que dá pro gasto. – Ele riu, levemente, e se aproximou um pouco mais dela, com jeitinho.
— Acho que dou um pouco mais do que pro gasto. – Ela sorriu, mordendo o lábio inferior de maneira que o atiçou ainda mais.
— Bom, isso eu ainda não sei. – Ele piscou, e disse com a voz um pouco mais baixa, apenas para ela ouvir.
— Ainda... – Então, passou a mão pelo rosto da garota, puxando-a, delicadamente, mais para si, roçou seu nariz ao dela, deixando seus lábios tocarem suavemente os lábios dela, e então, num súbito, ele a beijou, ardentemente.

Ela já assistira aquele filme umas quinhentas mil vezes, mas ainda assim, adorava assisti-lo, era um dos seus filmes de romance preferidos, por isso, ela correu para cozinha e fez uma pipoca no micro-ondas quando o pegou o início do filme em um dos canais fechados. Agora ela estava jogada no sofá, tomando Coca-Cola, comendo pipoca e assistindo aquele filme lindo que sempre a fazia chorar no final.
Será que algum dia viveria um amor como aquele? Será que existia mesmo um amor como aquele? Será que existia mesmo o amor? Claro que existia, como dos filmes e livros ela não acreditava muito, mas ela acreditava no amor, e sonhava viver um amor de verdade, daqueles que um dia contaria para seus netos e todos diriam “Ownnn, vó, que história linda, isso que é amor!”.
Riu de si mesma diante de tais pensamentos e voltou a atenção para o filme. parecia um pouco com aquele personagem, Noam; era romântico, um cara correto e o namorado que qualquer garota sonhara ter, a menina que ele escolhesse seria uma menina de muita sorte, ela sabia disso, e no fundo, tinha até ciúmes e inveja dessa garota.
Voltou a atenção para o filme, mas sem conseguir afastar aquela sensação e aqueles pensamentos: Com quem será que estava naquela noite?

O filme acabou e ficou ali, olhando para a TV sentindo aquele aperto no peito e as lagrimas descendo por seu rosto, como era lindo aquele filme!
Riu de si mesma e se levantou, secando as lagrimas do rosto e foi até a cozinha, se espreguiçando pelo caminho. Olhou no celular e viu que já eram quase uma da manhã, e nem sinal de . A noite devia estar muito boa mesmo.
Jogou a garrafa vazia de Coca-Cola no lixo e abriu a geladeira, pensando no que fazer. Típico dela, abrir a geladeira para pensar.
Talvez fosse melhor ir para a cama, deitar e ficar lendo até pegar no sono, se bem que ela dormira tanto aquele dia que não sentia um pingo de sono ainda, talvez fosse melhor voltar para o sofá e caçar outro filme legal para assistir, se chegasse e a visse ali, poderia dizer que chegou da festa e estava sem sono. Será que ele acreditaria naquela mentira sendo que ela nem trocara a roupa que colocara antes dele sair?
Jogou-se no sofá e pegou o controle da TV, mudando de canal em canal em busca de algo interessante para assistir, quando ouviu um barulho de passos na escada. estava chegando.
Um barulho ecoou nas escadas, como se alguém tivesse quase caído e ouviu uma risada feminina acompanhada de outra masculina.
Sentiu-se congelar.
Levantou-se num pulo, pegando a bacia de pipoca e o copo ainda com coca e correu em direção ao seu quarto, colocando tudo sobre a mesinha de cabeceira, ouvindo agora vozes ecoando do lado de fora do apartamento sem conseguir distinguir o que estavam falando.
Ouviu um barulho de chaves e deu outro pulo: Seu celular!
Correu na ponta dos pés de volta para a sala, pegou o celular sobre o sofá, desligou a televisão e pegou seus chinelos no tapete, correndo em direção ao seu quarto e fechando a porta, sem fazer barulho, bem no momento em que a porta da sala se abria.
colocou os chinelos sobre sua cama, junto com o celular e voltou até a porta, encostando o ouvido nela para ouvir a voz de ecoando pelo apartamento.
— Não repara na bagunça. – Óbvio que estava acompanhado. Quem seria ela? Jéssica? Patricia? Carol? Ou outra garota? — Você mora sozinho? – Ela ouviu a voz e não reconheceu, era outra garota, se fosse qualquer uma das três, ela reconheceria a voz no mesmo minuto.
— Ah, não, moro com... minha irmã... Minha irmã caçula. – Irmã caçula? Mas que porra era essa? Desde quando ela era irmã caçula dele?
Sentia o coração batendo acelerado no peito e um aperto que quase a fazia perder o ar. Por que ele não lhe dissera que iria sair com uma mulher? Por que estava dizendo que ela era irmã dele? Por que, diabos, ele estava levando aquela garota ali? Será que era porque dissera que não estaria em casa e iria numa festa?
Ouviu barulho de sapato de salto contra o piso, a tal mulherzinha estava andando no apartamento.
— Quer beber alguma coisa? – Ela ouviu perguntar e ouviu uma risadinha.
— Acho que já bebi bastante. Quero outra coisa agora! – Ela ouviu outra risadinha, antes da voz um pouco mais safada de ecoar na sala.
— Ah, é? – fez uma careta e ouviu barulho de pano, em seguida um barulho alto no sofá. Mas que porra! Não me diga que eles vão fazer sexo no MEU sofá. Pensou, , desesperada.
— Estamos mesmo sozinhos? – Ela ouviu a mulher perguntar, antes de responder.
— Ahan. Minha irmã foi numa festa das amigas da faculdade, e pelo que conheço, ela não volta tão cedo. – ouviu um resmungo de aprovação da mulher, antes de um silêncio predominar o ambiente.
Sentiu seu coração batendo descompassado no peito e um aperto forte tomar conta de tudo por dentro.
estava na sala, naquele momento, beijando outra mulher.
Sem entender porque sentiu um nó se formando na garganta e os olhos ardendo. Ofegante, ela virou-se encostando as costas na porta, a visão embaçada pelas lagrimas que encharcavam seus olhos e então deslizou pela porta, caindo sentada no chão.
As lagrimas rolaram por seu rosto, caindo por seu colo e ela levou as duas mãos ao rosto, reprimindo o soluço, enquanto sentia seu peito doendo como se alguém estivesse enfiando uma adaga em seu coração.
Droga, por que estava sentindo aquilo? Por que estava sentindo como se seu coração estivesse sendo arrancado fora? Por que doía tanto saber que, naquele momento, era outra que ele beijava?
Droga, droga, droga! Pensou , desesperada, enquanto as lágrimas caiam fartas por seu rosto.
Será que aquele sonho tinha sido real? Será que ela tinha mesmo quase beijado e por isso agora se sentia assim? E se fora apenas um sonho, por que ela se sentia daquele jeito agora?
Sentiu mais lágrimas descendo quentes por seu rosto, seu coração doía dentro do peito como se alguém estivesse tentando arrancá-lo com as próprias mãos, mal conseguia respirar de tanto que doía.
Deus, por que dói tanto? Pensou, abaixando o rosto sobre os joelhos e soluçando baixinho enquanto ouvia o barulho dos beijos de em outra mulher.
Por que doía tanto saber que ele beijava outra naquele momento? Que era com outra que ele iria passar a noite? Que era outra que ia sentir o calor do corpo dele, que era outra que ia encostar a cabeça sobre seu peito e dormir ali, como ela costumava fazer?
Por que doía tanto? Por quê?
Será que...
Meu Deus, será que eu me apaixonei pelo ?


Continua...



Nota da Autora 20/01/2017: - Sem nota.

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