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Última atualização: 12/08/2017

Capítulo 1 - STARK/CLINT BARTON - REALIDADE 193

ficou ainda mais tensa quando notou qual vídeo estava para ser reproduzindo, já que assumira que aquela gravação havia sido destruída anos atrás. Fazia pouco tempo que havia sido resgatada da HYDRA, e agora toda a equipe havia se reunido para analisar as informações que ela acumulara nos últimos meses, assim como as pastas que ela conseguira hackear antes de sua partida. Surpresa, assim como Clint, ela não teve tempo de reagir e pedir que a reprodução fosse interrompida, ainda mais quando notou o sorriso maldoso de Natasha.
Claro que aquilo tinha dedo dela.
A dupla no vídeo era claramente mais jovem, a diferença notável principalmente em , já que pela roupa justa de treino era fácil perceber a ausência de músculos definidos em seu corpo que nem havia saído ainda da adolescência. Seus golpes mal desenvolvidos sequer tinham a oportunidade de parecerem golpes de fato, já que eram habilmente bloqueados logo em seu início, e sua irritação com isso era clara.
Seu rosto, a única parte do corpo realmente descoberta, tinha pelo menos cinco cortes problemáticos: um em cada supercilio, um no dorso do nariz quebrado, o lábio inferior brutalmente rachado, e um no queixo. Desses cortes era que saía a maior quantidade de sangue que manchava o tatame, onde ela até já escorregara algumas vezes. Em um desses escorregões ela acabara levando outro soco potente, e, quando tentara se levantar, Clint lhe chutara o estômago, fazendo que ela caísse no tatame de barriga para cima. O arqueiro passou o antebraço na testa para limpar o suor que se acumulava, sua respiração ofegante já pelo tempo considerável que estavam ali.
- Pronta para voltar para a proteção do papai, princesa?
Clint estremeceu com a frieza e desprezo em sua própria voz, mas seus olhos não abandonaram a tela. Aquilo não acabaria bem.
- Hoje não.
se levantou com dificuldade, não conseguindo disfarçar os gemidos que passavam por sua garganta diante da movimentação de qualquer músculo. Suas habilidades ainda não eram tão bem trabalhadas naquela época, mas ela tinha ciência de todos os ferimentos críticos que tinha, o que a fazia se distrair com alguns menores que ainda assim também estava lhe causando problemas.
- Qual é, pirralha... – suspirou Clint, as mãos na cintura quando a assistiu cair de joelhos, sem conseguir suportar o próprio peso – Continue no chão e tudo isso acaba.
Uma risada baixa ecoou pela sala, e logo a imagem de se pôs de pé, os punhos incapazes de se fecharem relaxados em frente ao corpo, que pendia hora para um lado, hora para o outro.
- Você não me diz o que fazer – foi a sua resposta, chegando até a esboçar um sorriso debochado em meio a tanto sangue. Clint em um primeiro momento riu descrente, e logo partira para cima dela. O primeiro soco na altura do rosto ela até conseguira bloquear, mas o segundo na boca do estômago ela sequer vira de onde viera. Depois de mais um soco no rosto ela voltou ao chão, sem nenhum sinal de que pretendia levantar, mas Clint não colocou muita fé, usando suas pernas para travar as dela, suas mãos segurando os pulsos da garota com mais força do que precisava, mantendo seus braços acima da cabeça. Na tentativa de não se engasgar com o sangue que acumulava em sua boca, virara a cabeça para o lado, tossindo ainda mais algumas vezes depois de cuspir o máximo de líquido que conseguia. O arqueiro aproveitou da posição convidativa da garota, se inclinando mais contra ela, seu nariz passando por sua orelha antes de seus lábios pararem na região, o sorriso satisfeito claro também em sua voz sussurrada.
- Eu te digo o que fazer... E você vai desistir agora.
Clint já esperava que ela não fosse ceder, afinal, já era sua responsabilidade há um bom tempo, conhecia muito bem a peça e seus problemas para acatar certas ordens, mas não podia negar que suas ações a seguir não o surpreenderam.
Em um momento ela voltara a encará-lo, os olhos raivosos primeiro focando em seus olhos, depois descaradamente descendo para seus lábios. Antes que pudesse questionar ou no mínimo reagir, forçara seu tronco para cima mesmo com toda a força que ele usava para a manter contra o chão, Clint até chegando a recuar instintivamente por pensar se tratar de algum golpe, mas sua mente entrou em pane ao sentir os lábios dela contra os seus. Aquilo estava longe de ser um beijo calmo e delicado, e, antes de entender o que estava fazendo, Clint passou a corresponder, aos poucos o aperto que fazia nos pulsos da garota afrouxando até estarem livres, podendo assim utilizar uma mão para manter a posição que estavam, e outra puxar para mais perto. Uma parte de seu bom senso chegou a dar sinais de vida quando sentiu as mãos de sua aprendiz percorrerem seu peito protegido, uma apertando o ombro enquanto a outra seguiu para os cabelos da nuca, sem se importar se estava ou não usando unha demais.
Quase que em uma sincronia combinada – ou ela estava apenas se divertindo e vendo até onde ele iria? – no mesmo instante que Clint tentou a afastar, tirou uma das pernas de apoio do lugar, o que fez com que ele se inclinasse mais para um lado, possibilitando ela passar um braço por cima de sua cabeça, apoiando o antebraço na parte de trás de seu pescoço e o puxando para baixo. O impacto de sua testa do chão fez com que ele perdesse os sentidos por alguns instantes, só entendendo que o peso que sentia em sua lombar era a garota se sentando em suas costas um pouco mais tarde, a dor em seu braço direito sendo resultado de forçando a articulação para trás, enquanto a outra mão mantinha seu rosto contra o chão.
Ao fundo, Clint conseguia distinguir algumas exclamações surpresas, dos agentes encarregados naquele dia para que eles não se matassem durante a sessão, todos parabenizando a garota que apenas riu ainda mais satisfeita, torcendo um pouco mais o braço do arqueiro até ele dizer com todas as palavras que desistia.
Demorou um pouco mais do que planejava para conseguir se colocar de pé – os ferimentos do dia estavam fazendo questão de serem lembrados agora que a adrenalina começara a diminuir em seu sangue –, cambaleando vez ou outra no caminho para a mesa próxima à saída da sala, em busca de qualquer garrafa de água que encontrasse, assim como uma camiseta limpa. Clint a seguia, alguns bons passos mais atrás, mesmo estando em condição bem melhor do que ela. Mesmo cansada, ela podia dizer que o homem não tinha nenhum ferimento, que no máximo estava incomodado com a dor do braço recém torcido, e talvez por ter batido a cabeça até que com força contra o tatame, mas ele sobreviveria.
- Você está bravo por que eu ganhei o exercício ou por que eu te beijei? – ela acabou por perguntar entre um gole e outro de água, quando o tratamento de silêncio começou a ficar ridículo. Clint continuou não olhando em sua direção, devolvendo sua garrafinha vazia para a mesa e indo em busca da caixa de primeiros socorros, localizada em um armário próximo. apenas precisava de uma sutura aqui e ali, nada muito sério, coisa que ele poderia fazer sem nenhum problema. Claro que a garota não ficaria nem um pouco feliz com a história, já que não sabia que ele tinha habilidade com a linha e agulha, mas sempre fazia questão de pesar um pouco mais a mão quando se tratava dela, e essa vez não seria exceção.
- Por que eu ficaria bravo com você me beijando?
- Então quer dizer que você não vê um problema nisso? Interessante... – brincou ela, seu riso baixo dando lugar a um gemido discreto quando apoiou o braço esquerdo na mesa, todas as articulações a punindo pela péssima escolha – Mas de qualquer jeito, acredito que seja contra as regras, então não vai acontecer de novo.
- Sobe na mesa – ordenou Clint depois de depositar a caixa sobre a superfície, revirando os olhos cansado quando lembrou que ela não conseguiria com o ombro recém-deslocado, saindo em seu auxílio, ambas as mãos em sua cintura. Enquanto se ajeitava, ele foi preparar a linha própria para sutura, voltando já com o material pronto – Abre as pernas.
- Acha que é fácil assim, treinador? – brincou a garota, sequer tendo a chance de continuar sua provocação, já que Clint forçara seu joelho no meio dos dela, forçando suas pernas a se separarem, criando assim espaço para que ele pudesse ficar mais próximo para costurar seu supercílio – Podia me pegar pelo menos um café ruim da cafeteria primeiro...
- Você realmente tem que ser tão irritante o tempo todo? Será que não pode me dar um segundo de paz? – rosnou o arqueiro, soltando a agulha de qualquer jeito sobre a mesa, espalmando ambas as mãos na superfície bem próximas às coxas protegidas de sua aprendiz – Você quer o que? Que eu desista?
- Se não sabe jogar, não deveria ter entrado em campo...
- Tudo é um jogo para você, não é? – ele a cortou, segurando seu queixo sem delicadeza nenhuma, quase sorrindo satisfeito quando ela soltou um murmúrio em reprovação pelo gesto bruto – Essa é a vida real, princesa. Nem tudo é uma piada.
- Coisas engraçadas são.
- Você se acha toda engraçada.... – resmungou ele, seus olhos impacientes passando pela mesa em procura da agulha, mesmo sem saber se planejava tratar os ferimentos da garota ou a furar até ela virar gente – E não é.
- Ah, qual é... suspirou inclinando seu corpo para trás e deixando que seus braços mantivessem a posição, optando por ignorar a dor da articulação pedindo que parasse. Quando uma das mãos de Clint se apoiou em seu joelho, um aperto firme que tinha como intuito a censurar, mas que ela quis interpretar de outra forma, inclinando a cabeça para o lado e lhe mostrando o sorriso mais doce que tinha, ciente que o excesso de sangue em seu rosto poderia comprometer os resultados. Como a sessão tinha sido encerrada minutos atrás, quando ela ganhara a simulação, os agentes que vigiavam a dupla já tinham partido para suas outras tarefas do dia, permitindo assim que ela pudesse voltar à postura mais desafiante que sempre mantinha com seu treinador. Clint era sempre todo sério e inflexível com ela, principalmente quando estavam sozinhos, então ela precisava revidar de alguma forma. Era um jogo, no fim de tudo: ganhava quem tirasse o outro do sério primeiro – Você pode me chamar de cretina sem coração o quanto quiser, mas tem que admitir que meu senso de humor é algo único e que deve ser apreciad...
- Pare. As. Provocações – ordenou o arqueiro com a voz baixa, interrompendo a fala da garota ao escorregar sua mão para debaixo de seu joelho, puxando seu corpo para perto em um movimento ágil, que até chegara a pegar ela de surpresa, mas que disfarçou muito bem.
- Sinto muito por dizer isso, mas você meio que não é meu tipo. Nem é idade ou nada disso, só que você acabou de me dar uma surra. E não foi aquela coisa sensual de duas pessoas treinando juntas, uma luta bem de curta distância, toda aquela tensão, suor e adrenalina correndo solta... Foi você realmente descendo o cacete em mim – explicou , a expressão mais cínica que possuía apenas irritando ainda mais o agente, se esforçando para ignorar aquela aproximação que chegava a ser ridícula de tão extrema, seu olhar incerto de onde devia se focar: a mão que sem pressa saia de seu joelho e subia por sua coxa, o lábios preso entre os dentes do arqueiro, ou o olhar difícil de ler – Se tinha algum clima antes, durou um dois segundos e agora eu só estou quebrad...
soltou um som surpreso ao sentir os cabelos da nuca serem puxados com violência para trás, logo emendando uma risada descrente em sonora, erguendo a sobrancelha para o homem em um desafio silencioso. A outra mão de Clint alcançou sua cintura, subindo até o meio de suas costas, forçando com que ela melhorasse a postura que estava sentada, sem conseguir não soltar um suspiro satisfeito ao calcanhar da garota subir pela parte de trás de sua coxa, a perna travando em sua cintura e diminuindo ainda mais a distância que ele já julgava não existir.
- Eu ia falar para você calar a boca, mas algo me diz que você não é do tipo quietinha... – murmurou ele contra seu ouvido, beijando a região depois de puxar os fios em sua mão ainda mais para trás.
E foi aí que a que assistia resolveu tomar uma atitude.
- Será que alguém com autoridade pode pedir a interrupção do vídeo? – pediu a mulher, a urgência bem disfarçada em sua voz contaminada pelo riso. Desde o começo da reprodução do vídeo que parecia que ninguém piscava na sala, e, sabendo muito bem o que vinha a seguir, não dava para deixar eles verem qual era o desfecho – São dois colegas ali, isso não é antiético ou algo do tipo? Steve, me ajuda!
- Queria saber por que a HYDRA guardou esse vídeo aí – comentou Clint, enquanto Steve pigarreava para disfarçar seu constrangimento e pedia que J.A.R.V.I.S. pausasse o vídeo – Pensei que S.H.I.E.L.D. tinha dado um sumiço nele.
- Estava na área restrita, esse foi o sumiço que deram.
- Continua sendo errado – resmungou , saindo do banco que se sentava para dar a volta no bar e pegar algo para se distrair – Te odeio, Natasha.
- Eu liberei o vídeo para a agência toda – explicou ela, quando alguns olhares confusos seguiram para sua direção. Se lembrando melhor do dia, ela sorriu maldosa antes de se direcionar para seus antigos colegas da S.H.I.EL.D. – Se lembram do título?
se agachou atrás do balcão, soltando a risada mais alta e divertida que qualquer um ouvira antes.
- Para de rir, – Clint a repreendeu, o que apenas fez com que ela risse mais um pouco antes de se levantar.
- Desculpa, é engraçado – a mulher tentou se explicar, mal conseguindo acertar seu copo com a bebida que escolhera, já que seu corpo ainda se contorcia um pouco pelo riso que não conseguia controlar – Quero chorar, mas é engraçado.
- “Agente AS e Gavião Arqueiro, noite quente no ninho”.
- Eu te odeio tanto – repetiu , sem conseguir aguentar mais e acompanhando os colegas na risada.
- O que aconteceu depois? – perguntou Steve depois de um tempo – Houve um registro, e isso é realmente contra as regras.
- Eu fui suspenso, ficou sob a tutela da Natasha por alguns meses até eu voltar.
- Você disse que ele a via como filha – comentou Tony para a ruiva, que apenas desconversou com um aceno de mão.
- Isso foi depois, beeem depois.
- E faz isso tudo parecer muito errad... Natalia Romanova – começou , desistindo daquele raciocínio problemático quando algo lhe ocorreu – Você liberou todos os arquivos da S.H.I.E.L.D. no começo do ano passado.
Natasha riu baixo, mais satisfeita do que nunca.
- Demorou mais do que eu esperava para você lembrar disso.
- Me diz que não está no YouTube, por favor.
- Classificaram como pornografia.
- Natasha! Eu sou casado!

Capítulo 2 - TONY STARK/VALERIK IVANOVA - REALIDADE 666

NEW YORK, 15 DE AGOSTO DE 2003
A casa estava silenciosa demais, e Valerik quase agradecia por isso, mesmo que normalmente aquilo não fosse um bom sinal. Queria acreditar que seus filhos estavam estudando - ou dormindo, tanto faz -, mas uma parte de sua mente temia que tudo não passasse de um truque, e que logo o teto literalmente cairia sobre sua cabeça depois de uma explosão planejada. Inconscientemente, ela passou a encarar o teto que precisava passar por mais uma pintura, quase cedendo a seus instintos e ativando seus poderes para monitorar a dupla, mesmo depois de ter prometido para si que não voltaria a fazer aquilo pelo menos por um tempo. Petr estava certo, ela não demostrava nenhuma confiança nos filhos, e, teoricamente, eles não eram mais tão crianças assim. O mais velho acabara de entrar na maioridade, e, mesmo contra sua vontade, já tinha uma lista de Universidades implorando para que ela aceitasse a admissão. Ambos já faziam qualquer coisa esperando repreensões da mãe, e ela sabia que a culpa era apenas dela, e que não cabia a mais ninguém colocar mudanças em prática.
Claro que não esperava que fosse obter resultados imediatos – não era à toa que a dupla agora estava de castigo pelo resto do mês depois de uma confusão que envolvera ambos e mais alguns membros da família –, mas nem por isso iria mudar sua abordagem, confiando que seus filhos seguiriam suas ordens e cumprir as punições como anteriormente combinado.
Valerik aceitou que aquela fora uma ideia idiota assim que notou pela janela o carro de Tony estacionar próximo a calçada, a movimentação suspeita de no andar superior começando logo em seguida.
- , onde pensa que vai? – berrou a mulher, assim que avistou a filha no topo da escada, trajando um vestido azul escuro de tecido bem leve e solto, graças às temperaturas altas do meio do verão, os pés protegidos por seus tênis surrados, que nunca conseguia convencer a garota a lavar.
esboçou um sorriso inocente assim que chegou à conclusão de que a mãe estava cumprindo com sua palavra, realmente evitando monitorar o ambiente. O problema era que as crianças da casa não estavam muito dispostas a colaborar.
- Eu não vou ficar com o pai esse final de semana? – perguntou ela confusa, terminando de descer as escadas quando a campainha da casa tocou.
- Quem disse isso?
- Ele?
- Bem, você não vai. Está de castigo – lembrou Valerik, disposta a voltar a leitura de seu livro, mas sua filha não concordava muito com essa ideia.
- Que injusto? Não foi minha culpa! – a garota voltou a se defender, chegando até a bater o pé no chão para dar mais ênfase ao seu ponto.
- Você estava envolvida, não quero saber.
Mesmo com o espaço de tempo mínimo entre uma réplica e tréplica, conseguiu sem dificuldades montar mentalmente o esquema da conversa, esperando o momento certo para pôr seu plano em ação. Foi difícil impedir que a satisfação dominasse seu rosto quando a brecha perfeita apareceu.
- Você deixou o Pete sair!
- Não deixei, não... Peter?! – Valerik estava pronta para rebater, mas o brilho divertido nos olhos da garota foram um claro aviso de que deveria checar algumas coisas primeiro – Cadê seu irmão?
- Saiu – respondeu ela simplesmente, aproveitando que a mãe saíra em busca do celular na sala para abrir a porta.
Tony foi recebido com um abraço antes mesmo de perceber que alguém finalmente aparecera, tirando a garota do chão por alguns segundos enquanto perguntava como ela estava.
- Val, você parece nervosa – constatou Tony ao ver a mulher andar de um lado para o outro com o celular na orelha, sem saber se era seguro arriscar mais um passo para dentro da casa. Valerik tinha os ombros tensos, parecia se segurar para não rir.
- Não enche, Anthony – resmungou ela logo de cara, sem se dar o trabalho de cumprimentar o homem – E pode dar meia volta, está de castigo.
- Mas é aniversário do meu pai – lembrou ele, rindo nervoso só com a possiblidade de aparecer sem - Você realmente quer que eu conte para Howard Stark que a única neta dele não vai estar na festa? Ele já desencanou do Peter, mas ela precisa ir. Eu quero chegar aos trinta.
- Você já tem trinta – comentou pensativa.
- Ei, eu estou tentando livrar sua barra aqui, quer mesmo me contrariar?
- Eu disse alguma coisa? – se apressou a garota em dizer – Não lembro de ter dito alguma coisa.
- Garota esperta. Posso levar a minha filha ou vou ter que apelar e ligar para os meus pais?
Valerik ponderou por alguns instantes, estudando o rosto da filha. Aquela história estava suspeita demais, sequer fazia questão de comparecer em festas – fosse da família ou da empresa –, mas mesmo assim ela permitiria que se desenrolasse naturalmente. e Peter estavam se iludindo se pensavam que podiam a passar para trás.
- Me fala onde seu irmão está e você pode ir.
- Casa do Gregory.
- Sumam daqui.
Pai e filha não pensaram duas vezes antes de deixarem a casa, seguindo com passos apressados até o carro.
- Você entregou o seu irmão. Vocês não fazem isso normalmente – comentou Tony assim que ambos já estava dentro do veículo – Está tudo bem?
- Foi planejado – explicou ela rindo – Ele se ofereceu para aguentar a doida sozinho dessa vez.
- Por que me contou?! – ofegou Tony desesperado – Se ela perguntar alguma coisa para mim, ela vai descobrir na hora.
- Eu já te ensinei a mentir para ela.
Aquele argumento não acalmou muito o homem. Sabia um truque ou outro para conseguir sobreviver naquela superfamília com o mínimo de sanidade mental, mas não se sentia tão confortável em utilizá-los com Valerik. Claro que em um momento ou outro ela não lhe dava alternativa, já que não parecia disposta em facilitar sua vida, porém na maior parte do tempo queria estar ao lado dela, não contra. A volta daquele pensamento enquanto dirigia para a mansão fez com que ele instintivamente checasse a filha no banco de carona, quase como se temesse que ela tivesse adquirido a habilidade de ler mentes desde a última vez que se viram. Ele conhecia Valerik há muito tempo, já fora obrigado a aceitar diferentes facetas da mulher e aprender a viver com aquela variedade. Claro que o lado da HYDRA não fora nada fácil de aceitar, mas nada do que alguns bons anos e o cumprimento das punições pelos seus crimes não ajudassem. Era uma tarefa difícil tentar classificar a imagem e o que sentia pela mãe de seus filhos – pelo breve período que passara presa, Petr fora devidamente adotado pela família, além de adotar um nome ocidental, assim como a irmã –, mas de tempos em tempos aquelas dúvidas nublavam sua mente, mesmo sem auxílio de algo alcoólico.
Horas mais tarde, Tony voltou a se sentar ao lado da filha, suspirando alto ao mesmo tempo que deixou a expressão feliz de lado e voltou para sua postura costumeira de tédio. Nenhum dos Stark gostava de festas de família, mas antes sofrer aquelas poucas horas do que semanas ouvindo reclamações da chefia. Eles já haviam cumprido todo o protocolo, cumprimentado todas as pessoas possíveis – algumas até duas vezes por não fazerem ideia de quem eram e não se lembrar se já haviam cumprimentado ou não –, parabenizaram Howard em momentos diferentes, e mesmo assim ainda não podiam ir embora, correndo o risco de serem pegos por Maria perto do estacionamento.
- Então... – começou Tony, a voz arrastada deixando claro que estava incerto sobre como puxar assunto. Antes de continuar, ele devolveu os pedaços de gelo que estavam em sua boca para o copo já sem bebida – Sua mãe ainda está saindo com aquele cara?
- Danny Boy? Não... quero dizer, pelo menos não em casa – respondeu a garota com tédio, cutucando o esmalte gasto que cobria sua unha. Apenas quando conseguira retirar o último pedaço que ela notou algo curioso – Posso saber o motivo do interesse? Você nunca me pergunta isso.
Quando Tony não respondeu de imediato, se virou para ele, seu olhar já o repreendendo. Péssima ideia, ele não podia estar falando sério. Não, errado demais.
- Anthony, não. Nem pense nisso.
- Sabe, filhos normalmente querem ver os pais juntos – argumentou Tony, o que fez a garota rir alto.
- Só que vocês são péssimos juntos. Se fossem seus filhos e dela, certeza que não iriam querer – respondeu ela logo de cara – E eu digo isso porque sei que você não quer nada sério. Não estou afim de acordar no meio da noite querendo ir no banheiro e esbarrar com meu pai fugindo do quarto da minha mãe com as roupas na mão.
- Você nunca vai me deixar esquecer essa, não é? – resmungou ele, aquela não sendo a primeira e provavelmente nem a última vez que a filha usaria aquilo contra ela.
- Não, não vou. É meu argumento definitivo para qualquer discussão contigo – disse , se divertindo ainda mais ao notar o pai cobrir o rosto um pouco mais corado que o normal. Até hoje não entendia como Tony esperava sair de uma casa com duas crianças super-humanas sem ser notado. Sua sorte era que a filha que tinha sono mais leve, não Pete. Ele com certeza faria um escândalo – Então desiste dessa ideia. Principalmente porque da última vez que vocês tiveram um caso, o resultado foi eu, e não estou afim de aturar mais pirralhos, já basta o Peter.
- Ei, não rolou nenhum bebê da última vez, ou teríamos um o que? Pirralhinho de cinco anos correndo por aqui? – lembrou Tony, apontando pelo salão para ilustrar a movimentação da criança imaginária.
- Você entendeu no que eu quis chegar...! – resmungou a garota, seu semblante voltando ao de ameaça em seguida – É uma péssima ideia, e o Vovô concorda comigo, se você continuar insistindo.
- Você que está fazendo parecer uma péssima ideia.
- Você quer o que? Que eu acredite que você quer um relacionamento sério? – debochou a garota, sua paciência aos poucos se esvaindo – Vai querer mentir logo para mim?
Tony deixou seu olhar vagar pelo salão e pelas poucas pessoas dançando antes de respirar fundo e voltar a se virar para a filha, ciente de que estava prestes a ser analisado com toda atenção possível. Ele soube que tinha feito um bom trabalho quando ouviu a filha praguejar baixo, as mãos frias dela seguindo para sua testa e bochecha.
- Merda, você não está mentindo – constatou ela, a voz em uma mescla de surpresa e desespero – Está com febre? Alucinando? Comeu algo diferente hoje?
- Devo ter alucinado quando achei que era uma boa ideia falar disso com você – ele tentara soar ofendido enquanto afastava as mãos da filha, mas seu riso lhe entregara.
- Meu Deus... – ofegou por fim. Ele estava falando sério, mais sério do que ela jamais ouvira até aquele dia. Não dava para apenas ela lidar com aquele caso antes que tomasse proporções catastróficas, precisava de reforços – Eu vou chamar o Tio Bucky.
- O que? Ficou maluca? – Tony praticamente gritou, segurando o pulso da garota antes que ela pudesse se afastar mais – Por que vai colocar o Sputnik na conversa?
- Pelo amor de Deus, não fala essa palavra em voz alta – pediu ela com urgência, voltando a ocupar a cadeira ao lado do pai – Foi assim que eu consegui me livrar dele ontem e ele ainda está um pouco puto comigo. E preciso dele aqui porque: a, se você estiver viajando, ele pode pôr um pouco de bom senso na sua cabeça; e b, porque ele foi o único louco o suficiente para tentar algo sério com a doida da minha mãe, e você deveria ter ido falar com ele logo de cara.
- Pff, eles namoraram por, o que? Duas semanas?
- Um mês e meio.
- Mentira! – ofegou Tony surpreso – Um dos três está mentindo.
- Cara, eu moro naquela casa – disse a garota, acreditando que só aquele argumento era o suficiente para dizer que ela sabia de tudo que se passava na família – Eles demoraram para contar que era sério e tal.
- Por que você não desmentiu os dois?
- Fui subornada – respondeu ela, dando de ombros. Aproveitando que seu pai continuava um pouco abestado com a revelação, se pôs de pé em um pulo, apressando os dois primeiros passos para que Tony não conseguisse a segurar pelo cinto do vestido. Seu riso alto abafou os resmungos do pai por ter falhado em segurá-la, andando assim calmamente sem ameaças em direção do herói de guerra que conversava animadamente com seus avós – Tio Bucky!
Tony continuou praguejando enquanto assistia a filha abordar Barnes, o soldado agilmente passando um braço por de trás das costas da garota quando ela pulou em seus ombros, rindo animado quando ganhou um beijo no rosto. Relutou por algum tempo se ficaria muito feio fugir da dupla. Ele não queria falar daquilo com mais ninguém, muito menos com o sargento. Ele não estava com ciúmes nem nada, mas mesmo assim não se sentia confortável com a ideia de receber conselhos dele. Era apenas negar educadamente quando ele se aproximasse, dizer que fora uma brincadeira de para constranger a todos. Algo que qualquer um acreditaria sem pensar duas vezes, levando em consideração o longo histórico da garota.
É, talvez fosse melhor sumir da festa.
O problema foi que, enquanto desviava até com agilidade dos convidados da festa, Tony quase esbarrara com a última pessoa que esperava e queria ver ali.
- Val – ofegou ele surpreso, recuando um passo depois do quase encontrão. A mulher trocara as roupas surradas de ficar em casa por um vestido simples de tom claro de azul, algo bastante leve para combinar com o clima agradável que fazia. Petr estava um pouco atrás da mulher, provavelmente emburrado por ter sido arrastado junto para a tal festa, as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans escura, revirando os olhos todas as vezes que alguém se dirigia a ele.
- Já indo embora, Tony? – perguntou Valerik, um sorriso curioso brincando em seus lábios. Conhecia a peça há muito tempo, sabia dizer que algo estava o incomodando muito, já que parecia estar fugindo.
- Pensei que não fosse vir – desconversou ele, virando rapidamente para trás para procurar sua filha e Barnes junto de seus pais, não encontrando a dupla em lugar nenhum – O que te fez mudar de ideia?
- Sua mãe me ligou, fui um pouco ameaçada – explicou ela, sua curiosidade passando para princípio de preocupação quando Tony apenas assentiu sem lhe dar muita atenção, parecendo procurar alguém no salão com vontade demais. Um ataque não era, já que, além de ser idiotice tentar invadir um dos eventos mais seguros do mundo por causa dos convidados muito bem qualificados, ela definitivamente teria notado algo. Isso apenas fazia com que a mulher chegasse à conclusão de que Tony estava realmente incomodado e fugindo de alguém, o que era um cenário no mínimo inusitado – Pete, por que não vai falar com Howard? E vê se não sai do meu campo de visão.
O rapaz bufou um “tanto faz” antes de se despedir do pai adotivo, realmente seguido em direção aos avós por ter sido flagrado pela matriarca da família, e não estava nem um pouco afim de ter que levar outra bronca por desaparecer naquele dia, talvez até pelo resto daquele mês. Depois de dar atenção ao casal ele iria descobrir o que tanto conversava com o tio.
- Você está muito tensa – comentou Tony, um pouco depois que Pete os deixou sozinhos. Valerik apenas riu pela ironia, já que julgava que o homem estava em um estado bem mais crítico que ela, mesmo que não pudesse negar a afirmativa. As últimas semanas não estavam sendo exatamente as mais amigáveis possíveis: Fury resolvera gastar toda sua energia em a monitorar na S.H.I.E.L.D., além de todo o interesse que ele continuava a demonstrar por sua filha não estava a agradando. O Diretor recebera um belo não do mais velho dos irmãos, e parecia que não planejava perder a caçula da família, e Valerik temia que a garota acabasse por aceitar a proposta eventualmente. Ela não queria nenhum dos filhos envolvidos diretamente naquele mundo, mas não podia negar que sua preocupação maior era com a filha. Pete, mesmo ainda sendo imaturo demais para praticamente qualquer coisa, ainda tinha um pouco mais de consciência que a irmã, seria bem menos arriscado para ele, enquanto era ingênua demais para praticamente qualquer coisa. O problema mesmo era que, se Fury conseguisse colocar aquela ideia em sua mente teimosa, seria um inferno para retirar. Além disso tudo, ainda tinha os problemas que aquela dupla criava apenas por respirar, era necessária a paciência de um ser supremo.
- Tenta criar dois adolescentes que só sabem dar trabalho – Valerik acabou por resumir, passando as mãos pelos cabelos que começavam a apresentar alguns fios grisalhos para tentar disfarçar o momento que se perdera em pensamentos – Eles estão em mais número que eu, é desleal.
- Por que não se muda comigo então? – com uma naturalidade que surpreendeu os dois, além do convite que Tony estava há dias pensando em como e quando verbalizar, ele ainda tomou com cuidado as mãos da mulher, deixando uma sobre seu ombro depois de se adiantar uma passo, iniciando uma dança lenta para combinar com a música no salão, mais para satisfazer as pessoas ao redor que constantemente os olhavam com curiosidade por estarem tão parados do que por pura vontade. Ele queria sair correndo, definitivamente não tinha psicológico para dançar e ainda formular frases, não dava para entender o que estava acontecendo – Empatamos em número de filhos e pais.
Valerik, por sua vez, só pode se deixar levar pelo ritmo que Tony ditava, sua mente pedindo um tempo extra para pelo menos tentar compreender o que estava acontecendo, já que duvidava que fosse realmente chegar a um veredito.
- Você quer morar com a gente? – disse ela com cuidado, alongando as pausas entre as palavras para ter certeza que seu significado estava sendo realmente claro, quase rindo aliviada quando Tony negou de imediato.
- O contrário na verdade – explicou ele, se apressando em continuar quando percebeu que aquilo poderia soar ofensivo – Nada contra a casa de vocês, mas acho que a mansão seria melhor para abrigar todo mundo.
Valerik pensou em se desvencilhar dos braços do homem e ir para a sala de segurança, checar todos os registros e fazer um levantamento de quanto álcool ele ingerira desde que chegara à festa, mesmo que seus sentidos pudessem dizer que, se não estava perfeitamente sóbrio, Tony estava em um nível de embriaguez baixo demais para ser considerado. Mas tinha que ter uma explicação lógica para aquilo, certo? Não dava para uma pessoa perder a sanidade de uma hora para a outra.
- Você quer as crianças, eu e você morando em Malibu? – ela optou por insistir nas perguntas, na esperança de que em algum momento Tony percebesse o que estava falando, mas, para seu desespero, ele apenas continuava a concordar.
- Não dá para eu mudar a mansão de lugar, Val – zombou ele, afastando a mulher momentaneamente apenas para completar o passo da dança, um giro simples – Já pensou no trabalho que daria?
- Só estou repetindo para você se tocar que é uma péssima ideia.
- Por quê?
Certo, Tony estava falando sério. E, para ser bem sincera, a última vez que Valerik vira ele levando algo tão a sério, foi alguns anos atrás, quando saiu a decisão de que eles passariam a compartilhar a guarda das crianças. Depois disso, só quando toda a confusão da HYDRA estar na sombra da S.H.I.EL.D. veio a público. Claro que em ambos casos existia seu envolvimento, mas o ponto em comum era o envolvimento de sua família. Mesmo com todos os desentendimentos que tinha com os pais e ocasionalmente com os filhos, Tony havia adquirido um sentimento muito forte de proteção em relação a todos com o passar dos anos, mesmo que vez ou outra pisasse na bola. Então sim, ele estava falando sério. E o que mais a amedrontava era que de repente parecia que ela havia sido inclusa naquela equação de variantes limitadas e exclusivas.
Tony não estava pedindo para que as crianças morassem com eles, queria os quatro juntos.
- Você passa um dia com a e terminam gritando um com o outro – Valerik não sabia ao certo de onde estava conseguindo tirar concentração para retrucar, mas agradeceu por ter verbalizado argumentos muito bons – Quase não passa mais tempo com o Pete, e eu não iria aguentar o estresse de viver sob o mesmo teto que você.
- Até onde eu saiba, você praticamente resumiu o que é sua vida agora – disse ele, não conseguindo esconder um sorriso quando notou que a mulher planejava perguntar como ele poderia saber disso – é minha informante.
- Filha da...
- É sua filha, cuidado com o que vai falar.
- Não consigo acreditar que esteja te apoiando nessa – confessou a mulher, inconscientemente tentar localizar a presença da filha no ambiente, quase esquecendo de tudo ao não conseguir chegar a um local específico, apenas se distraindo porque Tony voltou a falar, um nome específico quebrando sua concentração.
- Ah, ela não está. Ela passou a última hora me dizendo que era uma péssima ideia, até foi com o Barnes para tentar colocar um pouco de bom senso na minha cabeça.
- Eles conseguiram? – questionou ela séria. Tony riu sem graça.
- Eu fugi, você meio que me atrapalhou.
- Você sabe que eles estão cert...
- Estão mesmo? – Tony sequer deixou que ela terminasse, ciente do discurso que estava prestes a ouvir – Porque para mim parece bem certo.
- Anthony...
- Eu sinto falta de algo que eu nunca tive, você faz ideia do que é isso? – ele voltou a cortar sua fala, aquele tom quase de pena que fazia com que algo se remexesse em seu peito, mas não era raiva. Desespero? – Vá em frente e faça toda sua feitiçaria para ver se estou mentindo ou não, você vai ver que estou sendo sincero.
- Eu não... – Valerik respirou fundo. Ele estar sendo a personificação da sinceridade não estava ajudando em nada – Eu não quero saber se você está falando a verdade ou não. Não funcionamos bem juntos, Tony. Apenas tente aceitar.
- Por que tenho que aceitar? – indagou ele, agora se desencostando da mulher e cruzando os braços em frente ao peito. Estava até aquele ponto controlando muito bem sua teimosia, mas pelo jeito teria que usá-la – E não sabemos disso, porque nunca testamos essa teoria de fato.
- Por que agora? – devolveu ela, fugindo da questão principal, que, além de não dever ser discutida em público, não devia ser discutida em hipótese alguma – Catorze anos aqui, Tony, por que agora?
- Porque só agora eu percebi que sou um idiota por ter o que pode ser a mulher da minha vida na minha frente e nunca fiz nada a respeito – disse Tony de uma vez, aproveitando o silêncio surpreso da mulher para apreciar o peso do que acabara de dizer antes de continuar – E não é nada sobre já termos uma filha juntos, ou qualquer baboseira que você pode tentar usar, é só que...
- Você não está sendo nada discreta, boneca – perdeu o resto do raciocínio ao alguém se sentar ao seu lado sem nenhum cuidado, o braço de Bucky propositalmente esbarrando com seu corpo tenso. Mesmo com a vontade de socar o veterano de guerra e o ângulo muito bom que tinha para acertar uma bela de uma cotovelada em seu abdômen trabalhado bem até demais, ela optou por abstrair. Algo mais importante estava acontecendo.
- Ah, eu estou ciente disso, mas não consigo parar de encarar – contou ela, voltando a arrumar sua postura quando Bucky também se sentou de forma mais correta, respeitando seu espaço pessoal. Seus pais continuavam a discutir até que de forma civilizada e discreta, por mais bizarro que parecesse, alguns metros à frente da dupla acomodada em uma das mesas do salão – Minha mente não está acreditando nos outros sentidos, o visual tem que registrar.
- Você parece mais nervosa que seu pai.
- Talvez eu esteja. Ele estava falando sério, Bucky. Cada palavra – disse ela com firmeza, mesmo que seus olhos continuassem receoso ao se focar no seu acompanhante – Eu já vi aqueles dois saírem de relacionamentos mais rápidos do que comerciais de TV, e nunca vi eles falarem tão sério sobre algo.
- Espera, eles? – repetiu o homem, agora definitivamente intrigado pelo assunto – Sua mãe disse alguma coisa?
- Não diretamente... Mas sim, ela ainda gosta dele, de alguma forma – contou ela com cuidado, sem saber ao certo como explicar aquilo. Sua mãe era confusa demais, nem eles que conviviam com ela diariamente conseguiam entender – Só que todo o remorso pelo que ela fez meio que faz com que ela trave. Você sabe muito bem o como é.
- Ei, sua mãe e eu é um tópico completamente diferente – lembrou Bucky de imediato, ciente de que a garota poderia facilmente seguir naquele tópico caso não impusesse um limite – Vamos deixar meu nome fora do assunto.
- Eu sei, desculpe – concordou sem relutar, tentando relaxar os ombros e apoiar as costas no encosto da cadeira. Mesmo sabendo que precisava parar com isso antes que sensibilizasse ainda mais a área, ela voltou a mordiscar o lábio, sem saber ao certo como canalizar seu nervosismo – Você acha que isso vai dar certo?
- Você está realmente preocupada – constatou Bucky, um tanto divertido com a situação, para dizer o mínimo. não estava crescendo para se tornar uma pessoa fácil de se lidar, e não estava se tornando algo incomum ela se isolar um pouco dos outros. Era bom poder flagrar aqueles momentos em que ela transparecia se importar com alguém que não fosse ela.
- Eles são meus pais. Claro que às vezes eu quero explodir alguma coisa na cara deles, mas não quero nenhum dos dois machucados, ainda mais se eu puder fazer alguma coisa... – a seriedade da garota vacilou por um instante, seu sorriso travesso sendo logo comprimido antes de se virar para Bucky – O que me traz ao tópico de: e você e aquela garota da Stark que você estava saindo?
- Não vou falar disso com você – avisou o homem, seu tom definitivo sendo completamente ignorando pela garota risonha ao seu lado.
- Qual é, Barnes. Me fala como foi!
- Por que não vai dançar com o Baker? – sugeriu ele, já ameaçando se levantar. Antes mesmo que conseguisse de fato se afastar, a mão de se fechou ao redor de seu antebraço.
- Você não ouse sair do meu lado, Buchanan – disse ela baixo, mesmo sabendo que Bucky não levaria sua ameaça a sério – Aquele garoto morre de medo de você, não vai nem sonhar em chegar perto de mim com você aqui.
- Então eu escolho os assuntos?
- Te odeio tanto.
Bucky riu satisfeito, passando um braço por de trás de suas costas para a puxar contra seu peito, aproveitar beijar o topo de sua cabeça enquanto ela estapeava seu ombro. Ele até teria sugerido algum outro assunto – como sobre ela estava na faculdade e essas coisas que a garota gostava de conversar – se Pete não tivesse resolvido se juntar a eles, puxando uma cadeira para o lado livre do veterano e se jogando ali em seguida, murmurando apenas um pedido de “status” enquanto se focalizava nos pais logo a frente, e parecendo até que satisfeito quando disse que “parecia que ele está conseguindo”. Bucky, por sua vez, estranhou bastante a postura do rapaz.
- Espera um pouco, desde quando você deixou de ser o filho ciumento?
- Era só com você, relaxa – suspirou ele, sem conseguir manter a expressão neutra quando ouviu a irmã rir da inconformidade do homem entre eles – E fui eu que percebi o que estava acontecendo entre eles, só veio com o plano.
- Plano? – repetiu Bucky, sua desconfiança crescendo assim que percebeu a garota ao seu lado ficar levemente mais tensa e tentar se afastar dele com cuidado – Que plano, ?
- Forçar um pouco a barra com o Tony para ver o que ele fazia? – contou ela, sem se dar o trabalho de disfarçar seu riso nervoso. Em nenhum momento se iludira que Bucky não descobriria sobre aquilo eventualmente, só não esperava que fosse no dia seguinte e com testemunhas demais.
- Vocês manipularam a situação – constatou ele, olhando de um irmão para o outro, que agora usando suas melhores expressões de filhotinhos perdidos – Por isso o episódio ontem?
- Ajuda se dissermos que sentimos muito? – arriscou Pete, coçando a nuca para tentar disfarçar seu nervosismo – E foi ideia dela, não minha.
- Podiam ter me avisado antes! – resmungou Bucky, balançando a cabeça em descrença, desistindo de dar atenção à dupla – Ainda estou um pouco bravo com os dois, agora aumentou um pouco. Deveria colocar vocês de castigo.
- Você não consegue dizer para a mulher nem que cortou as unhas de tarde quando cortou de manhã sem ela perceber que você está mentindo.
Bucky ergueu as mãos em um movimento exasperado, causando um estalo alto quando suas palmas colidiram com suas coxas, atraindo a atenção da maior parte do salão, inclusive de Tony e Valerik.
- Ainda mais bravo!

Capítulo 3 - STARK/THOR ODINSON - REALIDADE 190

Thor normalmente era um dos últimos a acordar da equipe, se juntando a eles na cozinha quando a maior parte já estava quase de saída. Naquela manhã, entretanto, ele se surpreendeu com a voz mágica de Stark dizendo que ainda estavam todos dormindo, e que provavelmente continuariam daquele jeito pelas próximas horas. Minutos mais tarde, o asgardiano notou que realmente estava cedo, que sequer o sol tinha dado as caras ainda, mas, como já estava desperto, optou por começar a adiantar suas atividades do dia que se resumiam a: comer, passar um tempo no andar da academia, fazer mais uma visita à cozinha, e quem sabe seguir e Steve pelo prédio por algum tempo.
Desde que regressara, sua curiosidade em relação à mais nova da família Stark apenas aumentara. De alguma maneira, seus poderes haviam se alterado ainda mais durante sua ausência nos últimos dois anos, e algo lhe dizia que sequer a própria mulher tinha completa noção de suas capacidades, e ele estava determinado a desvendá-las.
só não tinha percebido isso ainda.
Talvez o Universo estivesse conspirando a seu favor e tudo fizesse parte de seu plano, já que a mulher era única na cozinha quando ele chegou.
- Bom dia, milady.
- Boa noite – corrigiu ela, depois de um longo bocejo. Quando notou que Thor não parecia ter compreendido, ela emendou – Ainda não dormi.
- O que atormenta seus pensamentos? – questionou o deus, tomando o lugar vago de frente para a mulher. apenas sorriu.
- Não quero estragar seu dia logo cedo, e eu posso lidar com isso sozinha.
- , não é comum eu considerar alguém meu amigo com tanta facilidade, mas o apreço que nutro por você não é nenhuma novidade – disse ele com a voz baixa, esticando os braços sobre a mesa para capturar as mãos da mulher entre as dele – Estarei sempre aqui caso queira conversar.
Ali, quase se deu por vencida. Aquele tipo de sinceridade era muito difícil de se fingir, necessitava um nível de habilidade que nem ela talvez possuísse, e, por alguma razão, tinha certeza que o que Thor expressava era genuíno. Não tinha nada a ver com toda aquela história de ser digno e martelo, era algo de sua constituição. A preocupação que aparecia em seus olhos ainda dividia espaço com uma determinação mal controlada em descobrir o que a incomodava, o aperto leve e carinhoso em suas mãos.
Não tinha como duvidar daquilo tudo.
- Você é fofo demais para seu próprio bem... – desconversou a mulher, invertendo a situação e segurando por alguns segundos as mãos do asgardiano, a expressão mais convivente em seu rosto para encerrar o assunto ali – Juro que não é nada.
- Problemas com seus poderes? – arriscou Thor, depois que a ex-agente se colocou de pé, o prato ainda com parte de sua refeição em mãos para jogar fora. suspirou alto, se virando rapidamente para o deus antes de voltar seu caminho para colocar a louça sobre a pia.
- Você não vai deixar isso quieto, não é? – deduziu ela, se apoiando contra o tampo de granito claro. Levando em consideração a quantidade de horas que ela estava acordada, não tinha mais energia para tentar fugir do assunto.
- Na verdade, venho pensando bastante em seus poderes ultimamente – contou Thor com cuidado, incerto de como seria a reação da mulher, já que ela tinha uma tendência a não gostar daquele tópico. Foi clara a mudança em sua postura, mesmo com ela se esforçando para disfarçar. estava minimamente desconfortável com o rumo da conversa.
- Alguma razão em especial?
- Temo que você não tenha atingido seu potencial ainda – continuou o deus – Você insiste em ignorar a natureza mágica de seus poderes.
- Se você está tentando me chamar de bruxa de alguma forma mais amigável, falhou bem feio, colega – brincou , cruzando os braços para parecer mais séria, embora tivesse acompanhado o homem quando ele riu em meio a pedidos de desculpas.
- O termo feiticeira lhe soaria mais agradável? – arriscou ele, desistindo de fazer graça e voltar ao assunto sério quando a expressão de apenas se fechou mais – Por que não me dar pelo menos uma chance de testar suas habilidades? Não tenho a maestria que meu irmão ou minha mãe adquiriram, mas tenho alguns conhecimentos, posso vir a ser um bom instrutor.
Provavelmente era a falta de descanso, mas estava considerando a possibilidade. Pelos últimos dois anos, ela fora testada ao máximo para que tivesse total domínio de seus poderes, mas sentia que não chegaram nem na metade do caminho, ainda havia muita coisa para tentar compreender, e a oferta era, para dizer o mínimo, tentadora.
- Soa como uma péssima ideia – suspirou , erguendo a mão livre para pedir um tempo enquanto se esticava para buscar sua xícara que ficara sobre a mesa, terminando o último gole frio de seu café – Quando começamos?

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Acabara que fora, de fato, uma péssima ideia.
sentia a cabeça latejar mesmo com seu desespero para ignorar aquela dor, apertando a região das têmporas com as mãos numa intensidade que parecia estar prestes a machucar ainda mais. Em algum momento, ela desistiu daquela ação e finalmente abriu os olhos, se encontrando em um lugar completamente diferente do que se recordava: nada de academia vazia, nada de Thor. se encontrava agora em um pequeno banheiro, sentada contra sua porta fechada, que alguém batia freneticamente e sem piedade.
- Morris, cinco minutos para o painel começar, anda logo!
Depois de voltar a fechar os olhos para tentar controlar aquela sensação horrível de tontura, quase chegou a ralhar com o homem para dizer que estava perturbando a pessoa errada, até notar que aquele timbre de voz lhe era muito familiar.
- Gente, vocês tem certeza que a Ella está aq...?! – um Bruce Banner gritava para alguém quando ela abriu a porta, se virando para ela com um sorriso animado que logo se extinguiu, adotando uma expressão preocupada – Droga, Ellie, você não parece nada bem.
- Onde estamos?! – perguntou ela em um sussurro, a urgência clara em sua voz, principalmente quando puxou o homem para dentro do banheiro e fechou a porta em seguida – E por que você está me chamando por nomes que não fazem parte dos meus disfarces? Eu apaguei no meio de uma missão? Bruce, o que está acontecendo?
Um pouco perdido pelo número grande de perguntas que recebera em um curto espaço de tempo, o homem até chegou a abrir a boca para responder alguma aleatória, mas acabou por fazer outra pergunta.
- Você me chamou de Bruce? – soltou ele com um riso fraco, afastando a mulher e seguindo para a maçaneta, ignorando seus pedidos para que ficasse ali – Olha, Morris, não dá para a gente brincar de Vingadores agora, o painel já vai começar, e o Hemsworth também sumiu. Então você ajuda todo mundo a procurar.
continuou no mesmo lugar mesmo depois do colega ter a abandonado, seu olhar confuso perdido em um lugar aleatório a frente. Ele tinha dito “brincar de Vingadores”?
Aproveitando que o homem não parecia preocupado que ele não quisesse o seguir, seguiu em direção oposta, facilmente se livrando de sua mão quando ele agarrou seu antebraço, questionando para onde ela iria. Algumas pessoas que passavam nas proximidades olharam confusos para a dupla, sem entender o que acontecia.
- Ok, cara. Fica longe – avisou , ambas as mãos erguidas em sinal de aviso, atenta para qualquer movimento suspeito para que pudesse atacar ou se defender – Você pode parecer amigo, mas pelo jeito não é. Então fica longe.
- Lady Stark?! – outra voz conhecida a chamou ao longe, e só o uso de seu sobrenome já fez com que ela abaixasse a guarda.
- Thor? – perguntou ela apenas para garantir, já que ele continuava com as mesmas roupas de mais cedo – Meu deus, Thor! Que merda você fez?!
O deus até chegou a se preparar para fazer a sua bateria de perguntas, mas tanto se esqueceu disso ao ver uma cópia muito boa de Bruce Banner, como mais pessoas se juntarem a eles também foi uma ótima distração. Institivamente, Thor puxou a mulher para trás dele, ignorando as reclamações diante sua ação protetora, mas logo também deixou isso de lado, já que as novas pessoas também eram familiares demais.
- Caraca, o Fury com dois olhos – ofegou a mulher, se agarrando no ombro do deus – Em que tipo de realidade bizarra estamos?
- Finalmente achamos vocês! – comemorou o homem que parecia com Steve Rogers, mas não soava nada como ele. A animação do rosto dele não durou muito tempo, não pela expressão estranha que seus supostos colegas estavam fazendo, mas sim pelas roupas que eles não estavam usando minutos antes – Ellie, você não tinha vindo de vestido? Onde você arrumou figurino do filme? Vamos fazer alguma coisa tipo o Hiddleston ano passado?
- Ele lembra o Capitão, mas não parece com o Capitão – ofegou Thor, virando o rosto minimamente para a mulher, que apenas assentiu, sem desviar os olhos do homem, que franziu o cenho, buscando alguma explicação nos colegas, que estavam tão confusos quanto ele. Samuel apenas ergueu os braços e deu meia volta, dizendo que iria procurar Feige e Whedon em busca de instruções para aquela situação, enquanto Mark e Chris deviam ficar vigiando a dupla.
- Alguém deixou a Morris e Hems beber alguma coisa diferente? – arriscou Chris, o colega dando de ombros, sem realmente saber.
- Não dá para fazer o painel assim – suspirou Ruffalo – Eles estão estranhos demais.
- Eu não sei se gosto desse Bruce – comentou , já que conseguia ouvir a conversa dos dois que nem estavam se esforçando em manter entre eles.
- Não tem como você se comunicar com seu pai? – lembrou Thor, assistindo a mulher checar todos os compartimentos de suas roupas.
- Eu não estou com meu celular... – disse ela por fim, esticando o braço depois para a dupla de estranhos – Não-Steve, pode me emprestar o seu?
- Eu quero brincar também, mas vocês não estão ajudando – resmungou Chris, tirando o aparelho do bolso da calça e entregando a ela, que sequer pediu a senha antes de destravar a tela – Wow, desde quando você sabe a m...? Você está hackeando meu celular?! Gente, essa não é a Ella.
- Não acredito que você está dando corda para eles!
- Ele não está dando corda para ninguém, e esse não é o meu nome – resmungou , erguendo os olhos rapidamente para Mark, sem parar de trabalhar no aparelho – As pessoas nunca erram meu nome, vamos continuar assim.
- Oi, filha – mais alguém se juntara ao grupo, parando ao lado da dupla de heróis, ambos se virando surpresos para o homem – O que temos para hoje?
- Pai..?
- Certo, quem é essa? – perguntou Robert, se afastando um passo e apontando para a mulher – Ella nunca responde assim quando eu venho de graça.
- Eu já tive sonhos estranhos, mas esse definitivament... Thor – esqueceu do que falava, completamente estupefata pela cena que via, com uma outra pessoa familiar se aproximando na companhia de uma garota que ela nunca vira na vida – Olha a Hill sorrindo, que bizarro. Vou ter pesadelos.
- Então é verdade – riu Cobie, parando ao lado de Mark e Chris – Eles entraram nos personagens de vez,
- Hm, Thor? Eu não consigo contatar a Torre, nem o J.A.R.V.I.S.... Nem ninguém – contou com cuidado, entendo agora menos ainda do que acontecia – Até a S.H.I.E.L.D. está fora do ar, sem rastro nenhum, como se nunca tivesse existido.
- Onde diabos estamos?
- Na Comic Con – respondeu ela sem pensar duas vezes, o que atraiu o olhar estranho do resto do grupo – Que é? Não posso saber o que é a Comic Con? Também sou nerd, dá licença. No que nós supostamente trabalhamos?
- Vocês são atores – respondeu Lizzie, sem entender o motivo que a dupla a olhava com mais curiosidade, sem se lembrar se já tinham a visto alguma vez – Ella Morris e Chris Hemsworth. Estão aqui pelos filmes d’Os Vingadores.
- Partindo pelo fato de que eu não consegui contatar meu pai, estou assumindo que não passamos de uma história do cinema nessa... realidade? – arriscou , devolvendo o aparelho que não ajudara em nada para Evans, que assentiu.
- Dos quadrinhos, na verdade. Os filmes são mais recentes.
- Somos personagens de quadrinhos – repetiu a mulher, tanto achando graça naquilo como na espera que alguém dissesse que não passava de uma brincadeira de muito mal gostou.
- Eu não sei o que quadrinhos são.
- Eu vou chorar – resmungou ela diante do comentário de Thor, nem se dando o trabalho de explicar já que não faria a menor diferença – Você vai levar a gente de volta, agora!
- Temo estar sem meus poderes, milady. Consegue usar os seus?
- Estamos tão ferrados... – constatou , deixando aquele problema momentaneamente de lado ao ver Aaron se aproximando – Eita, quem é esse? Eu não conheço também. Ele é bonitinho.
- Foco, Stark.
- Eu trabalho diretamente com você todo dia, nunca atrapalhou meu foco.
- Você me acha bonitinho? – questionou Thor, um sorriso sem querer aparecendo em seu rosto.
- Tá me zoando? Você é praticamente um deus.
- Mas eu s...
- Metáforas, Thor! – choramingou , batendo o pé no chão algumas vezes – É por isso que eu não gosto de ficar flertando com você, você nunca entende de primeira.
- Hm, coração? – Chris chamou pela mulher, querendo comprovar algo – Cadê seu irmão?
- Eu sou filha única – respondeu ela, sem pensar duas vezes, ficando apenas desconfiada quando questionada pelo nome de seus pais – Tony Stark e Lauren Smith.
- E onde eles estão?
- Tony na Torre, Lauren no cemitério – contou a mulher, ainda mais confusa – Ela morreu em uma tentativa de assalto um pouco depois que eu nasci.
- Droga, ela não sabe ainda nem do que acontece no arco da Dinastia Ivanov! – o homem riu de nervoso, ainda mais quando questionou sobre o que ele estava falando – Foi mal, criança. Spoiler demais.

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BÔNUS
Ella só continuava em pé em razão dos braços de Steve que a seguravam naquela posição, caso contrário, estaria estirada no chão em razão do tanto que ria. Seu nervosismo provavelmente estava no mesmo nível de Hemsworth, já que colocar o traje de combate real de alguém que deveria ser apenas seu personagem era um pouco mais de pressão do que ela estava acostumada, mas não se comparava em nada ao que seu colega estava passando.
- Isso não é justo! – choramingava o ator entre risos nervosos – Eu não sou o cara!
- Não importa para gente, colega – repetiu Tony, já um pouco impaciente com toda aquela enrolação, enquadrando melhor a cena com a câmera em suas mãos – Quando usarmos essas imagens no futuro, definitivamente não vamos falar que era só um sósia.
- Posso fazer um comentário curioso? Na primeira vez que eu vi o Thor, ele quase chorou depois de não conseguir levantar o martelo, o Hems-Thor está chorando antes de encostar no negócio – disse Clint, balançando a cabeça em descrença quando um riso histérico se iniciou novamente – E que temos que agradecer todos os dias pelos poderes da porque tenho certeza que ela fica rindo mentalmente da nossa cara com a mesma frequência e intensidade que a -Ella.

Capítulo 4 - STARK/NATASHA ROMANOFF - REALIDADE 616

- Você tem certeza de que isso não dói?
Natasha comprimiu o sorriso maldoso, se focando apenas em garantir que a fita com a cera estava posicionada adequadamente na perna de seu colega. , mais ao fundo, tentava fingir que estava bastante ocupada com sua meia-calça, seu celular posicionado no melhor ângulo possível para registrar a cena.
- Pensei que você tinha dito que era frescura e que cera não doía – comentou a russa, as pontas dos dedos já segurando a beirada da tira, pronta para puxar, seu olhar desafiando Clint a voltar atrás – Com medo, Gavião?
- Pra mim toda essa história de cera ainda é dram... Filha de uma...! – Clint não conseguira terminar nenhuma das duas frases, instintivamente puxando sua perna agora com menos pelo para perto do corpo, mordendo os lábios com força para se controlar enquanto ria abertamente e Natasha apenas sorria satisfeita – Me dá a porcaria da gilete!
- Desistindo tão fácil?
- Não, eu vou cortar a garganta das duas que mentiram para mim!
Natasha, que já sabia que isso ia acontecer, entregou o aparelho para o arqueiro antes de deixar o quarto para também se preparar. No caminho, ainda pedira para a mais nova da equipe continuar filmando todo o processo de transformação de Clint, já que queria enviar os registros para alguém que não queria revelar. sequer considerou não obedecer a ordem. Não importava o que a ruiva planejava com aquilo, desde que tivesse uma cópia do arquivo de recordação.
Aquela missão era até que simples, apenas mais uma aquisição de informações. Nada que Natasha e não pudessem lidar, mesmo com a última ainda sendo consideravelmente nova na agência. O problema era de quem eles roubariam as informações, por isso Clint acabou por se oferecer para integrar a equipe, mesmo que seus superiores não soubessem disso.
- Eu não acredito que estou concordando com isso... Era para eu estar de folga – reclamava Clint, praguejando baixo mais uma vez quando a lâmina voltou a danificar um pouco de sua pele próxima ao tornozelo – E esse troço é tortura.
- Você que não quis continuar na cera – lembrou a garota risonha, olhando rapidamente para o arqueiro pelo espelho, suas mãos em movimentos ágeis para deixar os fios de seu cabelo agora mais claros e curtos em uma posição mais espontânea. Talvez fosse o longo período que mantivera os fios em tom natural e longos, ou a maquiagem mais exagerada que de costume ou até mesmo as roupas, mas alguém teria que estar muito louco para olhar para ela e afirmar com todas as letras que aquela se tratava de Stark.
- Eu odeio vocês. Eu realmente odeio vocês – ele continuou a resmungar, retirando os últimos pelos que seu vestido não cobriria – Vou te passar para a tutela da Romanoff e sumir nessa agência.
- Deixa de ser reclamão... Vai querer ajuda com maquiagem?
- Eu cresci em um circo, sei usar maquiagem.
- Mas não é para você ficar parecendo um palhaço, Barton.
- Você está toda engraçadinha hoje – resmungou o arqueiro, jogando sem muita delicadeza o par de saltos que a garota deveria usar aquela noite em sua direção, desviando um pouco para o lado para não ser atingida sem interromper o processo de passar máscara nos cílios, só depois buscando os calçados – Sabe que isso é trabalho, certo? Não é festa.
- Depois de quase dois anos pensei que você já tinha entendido que eu levo a sério o que faço – retrucou ela, agora com os pés já protegidos pelos sapatos, rumando para o espelho com um batom já em mãos, tendo que se abaixar um pouco para conseguir ver seu reflexo inteiro – Você me diz o que fazer, e eu executo.
- Assim como seu pai?
jogou a cabeça para trás e respirou fundo, deixando momentaneamente de lado seus preparativos. Era absolutamente inacreditável. Não importava quanta distância ela forçasse de qualquer coisa relacionada a sua família, mesmo assim ainda conseguiam fazer com que a culpa caísse sobre ela.
- Certo, não dá para me culpar por ele não ter seguido as instruções do Coulson – retrucou ela, sem conseguir não revirar os olhos. Homem de Ferro. Definitivamente Tony Stark estava se inovando nas formas de lhe dar dor de cabeça.
- Claro que dá, já que era para você ter assumido essa missão.
- Eu iria socar a cara dele em algum momento e ainda receberia uma suspensão por isso, definitivamente foi uma boa escolha – Clint até tinha mais algumas respostas prontas, mas tanto o tom definitivo da garota o pegou desprevenido como seu celular apitando na cabeceira da cama fez com que sua atenção mudasse de foco – Agora será que dá para a gente parar de falar do Tony? Temos um trabalho a fazer e a Romanoff já está esperando.

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Sendo quem era, estava mais do que acostumada a ter todas as atenções para si, e, mesmo sempre acontecendo de ter algum olhar mal-intencionado na multidão, aquilo ela nunca tinha experimentado antes: depois de uma vida de exposições, ela finalmente se sentia exposta, e sequer tinha algo a ver com as roupas curtas e coladas que usava. Ela poderia estar coberta por um lençol da cabeça aos pés, como uma fantasia infantil de fantasma, e tinha certeza de que aqueles olhares continuariam. Natasha não estava muito longe, servindo uma mesa cheia de homens de terno, sorrindo forçada toda vez que alguém tocava suas coxas. Uma vez ou outra ela direcionava seu olhar para a garota, para garantir que tudo estava correndo como planejado. já tinha participado de algumas missões de infiltração, só que em ambientes bem mais amigáveis. Até o momento, por mais estranho que parecesse, ela estava se saindo bem até demais: os olhos determinados não vacilaram nenhuma vez, mudava apenas para falsamente inocente quando algum cliente chegava com uma conversa mais baixa, o sorriso encorajador nunca deixando seus lábios. Pelo visto, Barton realmente teria que ceder a garota para ela por mais algum tempo. Se tinha um pé no lado para ser soldado, o outro também estava na espionagem.
- Eu vou entrar – anunciou Clint pelo comunicador – Me deem cobertura.
virou o rosto rápido o suficiente para ver os fios da peruca de Clint sumirem no corredor privado da boate, mentalmente ela passando a cronometrar o tempo e monitorar os arredores, já que nem em sonhos os chefões poderiam pegar o arqueiro próximo da sala central.
- Cinco minutos, nem um segundo a mais – lembrou ela, se equilibrando com graça no salto fino demais enquanto voltava para o bar com sua bandeja com copos usados. A música alta e cafona já começava a lhe dar dor de cabeça e a distrair seus pensamentos, mas ela se esforçava para se manter concentrada. Tudo precisava sair de acordo com o plano, e talvez ainda tivesse como prêmio ver Clint em cima do palco.
Quando o arqueiro se oferecera para participar daquela missão disfarçado exatamente como elas, chegara a duvidar por alguns dias de que ele realmente falava sério. Seu lado mais descrente se recusou a acreditar até os últimos minutos, esperando que Natasha mudasse de última hora todos os planos que projetaram para que Clint não tivesse um papel tão importante e exposto, mas nada disso aconteceu. E o pior: ele estava arrasando. Alguns enchimentos bastante convincentes por debaixo de seu vestido curto e justo, maquiagem muito bem utilizada para amenizar os traços mais marcantes de seu rosto e lhe dar uma aparência mais feminina, a peruca escura de qualidade tão boa que até ela poderia se enganar se não prestasse atenção e dizer que realmente se tratava do cabelo dele. Digo, dela. Clarice. Era bem difícil pensar isso e não rir.
apenas voltou a ficar completamente séria quando notou um grupo entrando na boate, pessoas que não deveriam estar ali pelos próximos dois minutos. Um cliente até chegou a aumentar o tom de voz quando ela não respondeu de imediato seus pedidos indecentes, a garota tendo que dar uma desculpa qualquer para se afastar o mais rápido possível. Aqueles homens estavam todos armados e Clint estava sozinho na sala e provavelmente ainda finalizando a aquisição de dados, ela precisava agir rápido.
A bandeja ainda com bebidas a serem entregues fora deixada em uma mesa qualquer, com resmungos dos ocupantes por não se tratar do que eles pediram anteriormente. agir sem explicações e sem pedir desculpas atraiu não só a atenção dos homens daquela mesa, como também dos pelos quais a garota passava com calma, cruzando as pernas um pouco mais do que de costume para que acentuasse o movimento ritmado de seu quadril, algo bem próximo da música enjoada que parecia tocar pela terceira vez seguida. Algumas dançarinas no palco mal projetado também acabaram curiosas sobre o que acontecia no nível inferior, deixando de lado momentaneamente a coreografia para acompanhar a movimentação estranha de uma das novatas, que, por mais estranho que parecesse, parara atrás de outra garota que começara também naquela semana.
- Barton vai ser descoberto – contou ela em um sussurro, passando os fios ruivos para o outro ombro para poder se aproximar de seu ouvido, sua outra mão passando em um movimento lento da cintura da mulher até alcançar seu baixo ventre, puxando seu corpo para que suas costas ficassem contra ela – Faça uma cena.
Natasha passou rapidamente os olhos pelo ambiente, conseguindo sem dificuldades localizar um grupo rumando para o corredor de onde Clint ainda não voltara, assim como alguns clientes assobiando animados pelo novo show que presenciavam. Eles interpretaram completamente de forma errônea o sorriso satisfeito e travesso que apareceu em seus lábios antes de jogar a cabeça para trás e apoiar a nuca no ombro de , quase copiando o gesto da garota, só que sua mão seguira para a lombar e fora deslizando sem pressa até chegar à metade de sua coxa, onde seus dedos fincaram com vontade. Pessoas costumavam dizer que era inteligente por causa de sua facilidade com números e códigos, e aquilo nunca a salvaria em uma situação como aquela. A pirralha era realmente inteligente, e esperta. Talvez Natasha estivesse voltando atrás sobre sua opinião de que ela não tinha o menor futuro na S.H.I.E.L.D.
O plano de última hora estava até que funcionando, mas elas ainda não tinham a atenção de todos, principalmente de algum dos criminosos presentes, que ainda pareciam determinados a subir para a sala principal, então decidiu ir um pouquinho mais além.
Se aquilo não roubasse a atenção de todos, ela não sabia dizer o que iria.
Em um movimento ágil que pareceu pegar Natasha de surpresa – ela desmente isso até hoje –, girou seu corpo para que ficasse de frente a ela, uma mão subindo a sua nuca e seus dedos pegando uma quantidade considerável dos fios avermelhados e os puxando para trás. Com o pescoço da mulher agora exposto – com direito a um gemido até que alto pelo movimento brusco, ponto para a russa –, se inclinou sobre ela, seu nariz passeando pela pele pálida até chegar na linha de seu maxilar, quando soltou os cabelos da ruiva para que seu rosto voltasse ao ângulo normal e pudesse capturar seus lábios. Mais do que ciente das intenções da pupila, Natasha apenas acompanhou seus movimentos, as tonalidades parecidas de batom vermelho se misturando sem pressa. No fundo, elas conseguiam ouvir os gritos animados se intensificando, assim como os assobios incentivadores, principalmente quando Natasha voltou a agarrar a coxa da garota e sua outra mão seguir para os fios curtos e claros, repetindo o movimento que fizera anteriormente e puxando sua cabeça para trás, conseguindo um gemido ainda mais alto. Os ânimos da plateia apenas se intensificaram quando a ruiva optou por fazer um trajeto reverso, seu nariz percorrendo a pele de desde a linha de seu maxilar e descendo pelo seu colo exposto. Mesmo satisfeita com os gritos, o que realmente estava monitorando era a movimentação dos chefes, seu sorriso apenas se alargando quando constatou que não apenas tinham a completa atenção deles, como Clint também já havia terminado sua parte da missão, e agora saia da boate por uma rota de emergência sem maiores problemas.
- Pacote seguro, esperando por vocês – avisou o arqueiro já do carro, apenas assentindo quando as duas disseram em sincronia que logo iriam para o ponto de encontro. Foi o tempo de se livrar da peruca e a maior parte da maquiagem para que ele ouvisse as portas do veículo se fechando, Natasha ocupando o lugar ao seu lado e no banco de trás – O que aconteceu lá dentro? Eu ouvi gritos animados um pouco antes sair. O que vocês fizeram de distração?
- Demonstrações púbicas de afeto deixam as pessoas desconfortáveis – respondeu sem pensar duas vezes, se contorcendo no banco para conseguir descer o zíper em suas costas e se livrar daquele vestido desconfortável. Clint apenas franziu o cenho.
- Não faz sentindo nessa missão.
- Exatamente por ser o oposto nessa que faz muito sentido – completou Natasha, que se livrava de seus sapatos e colocava os pés em cima do painel. Quando ela se virou minimamente para o arqueiro, ele notou que o delineado do batom da ruiva não estava mais tão perfeito como mais cedo, e, checando pelo retrovisor, nem o dela.
- Vocês se beijaram?! – gritou Clint em surpresa, chegando a atrair a atenção de algumas pessoas que passavam pela rua.
- Você participou de uma missão como drag?! – devolveu no mesmo tom, a expressão do arqueiro ficando mortalmente séria antes de dar a partida no carro.
- Isso não vai para os registros.
- Foi o que eu pensei.

Capítulo 5 - STARK/BUCKY BARNES - REALIDADE 193

já tivera que começar aquele dia tomando decisões importantes: ou se levantava naquele horário quase que ofensivo e começava a se adiantar, ou teria que lidar com um Capitão reclamando de sua irresponsabilidade com horários pelo resto da semana – já que ele percebera que comentar aquilo por um dia não dava resultados. Por um bom tempo, ela até considerou dar motivos para Steve colocar seus novos sermões em prática, sua cama agora parecendo confortável demais em vista dos poucos minutos que ficara nela. Havia voltado para seu quarto tarde demais, depois de um longo período com J.A.R.V.I.S. tentando desvendar o braço mecânico de Bucky, que começara a apresentar problemas no fim do dia. Claro que na verdade o problema fora resolvido em tempo mínimo possível, mas a dupla, como sempre, começou a conversar e perdeu a noção da hora.
As coisas funcionavam basicamente assim nas últimas semanas, desde que a dupla foi encontrada em uma cabana perdida no meio do Canadá. Eles estavam em processo de reabilitação e afastados de qualquer atividade dos Vingadores, mas ocasionalmente conseguiam ter acesso a alguma informação sobre as missões que estavam por vir, além de ajudarem quando podiam com informações, já que ambos foram parte da HYDRA por um tempo. Aquilo acarretava que eles passavam muito tempo juntos, o que não era de se estranhar, se considerassem o tempo que eles conviveram já fora do controle da agência inimiga, mas claro que isso não impedia que comentários fossem feitos. Steve era o mais alheio a tudo, afinal, seus dois melhores amigos estava bem e debaixo do mesmo teto que ele, não tinha como reclamar. Já o restante da equipe não perdia a piada com tanta facilidade.
Aquela manhã não fora exceção, com optando no fim por obedecer seus horários e se levantar, encontrando com seu pai e seu antigo treinador na cozinha realizando suas refeições, nenhum dos dois deixando passar batida sua expressão cansada e perguntando o motivo das poucas horas dormidas.
- Estou começando a ver qual é seu tipo... – comentou Clint, assim que ela explicou ficara até tarde trabalhando com o novo morador da Torre, colocando uma colher cheia de cereal na boca. , que já tinha sua tigela cheia a sua frente e se sentara a mesa junto com eles, apenas fingiu desconhecimento e revirou os olhos.
- Do que você está falando?
- Sua escolha de homens. Primeiro a gente pensou que ia rolar alguma coisa entre você e o Capitão... Me deixa terminar – repreendeu-a o arqueiro, quando ela ameaçou abrir a boca para dizer o já tão comum “nós somos apenas amigos, inferno” – E agora você passa a maior parte do dia com o Barnes. Você prefere homens mais velhos. Ênfase no mais velhos, por favor.
- Eu poderia sair em sua defesa agora, minha filha... – começou Tony, um tom falsamente sério que já deixou claro que ela seria obrigada a brigar com os dois – Mas realmente parece que você gosta de vovôs. Vale lembrar o maravilhoso vídeo seu com o Gavião que achamos semana passada.
- Qual é, Stark. A gente concordou em não falar mais sobre aquilo.
- Vocês são inacreditáveis...! Primeiro que eles são da minha faixa etária porque eles não respiraram por 90 an... – parou por um segundo para tentar fazer algumas contas de cabeça, mas parou quando percebeu que era perda de tempo – Tá, acho que o Barnes deve ser um pouco mais velho que eu, tanto faz. E segundo... Nós somos amigos, inferno! É o mesmo tipo de amizade baseada em auxílio mútuo. Do mesmo jeito que Steve e eu nos ajudamos no passado, Bucky e eu estamos agora... Então será que dá para vocês largarem do meu pé?
Tony e Clint trocaram olhares rápidos e se mantiveram em silêncio por alguns instantes, cada um dando a devida atenção a sua refeição.
- Mas sério, como você vai escolher entre os dois? – questionou Tony, rindo quando ela bateu os punhos fechados sobre a mesa, quase fazendo voar a colher que usava – É uma pergunta muito válida porque até nós dois temos que admitir q... Ou você está pensando em ficar com os dois?
- Oh meu Deus...! – ofegou a mulher, se afundando em sua cadeira e escondendo o rosto nas mãos – Eu não estou acreditando que você me manipulou para pensar isso!
- Você imaginou, não foi? – comentou Tony risonho, parando em seguida ao constatar algo – Eu sou um pai horrível.
- Isso é pior de que quando você me fez pesquisar o que era Stony...! Eu não vou conseguir olhar para eles do mesmo j... – a mulher parou no meio da frase, avistando o soldado loiro adentrar na cozinha, lhe mostrando seu melhor sorriso – Bom dia, Steve!
- São sete da manhã e você está animada... – constatou ele, estreitando os olhos em sua direção – Você não é uma pessoa matinal, o que você quer?
- Posso não ir treinar hoje?
- Não, não pode – respondeu o soldado, enchendo sua caneca de café e soprando por um bom tempo, até julgar que não queimaria a língua – Ainda mais que vamos ter companhia hoje.
- Companhia? – estranhou Tony – Vocês sempre treinam sozinhos. Não está mais conseguindo dar conta da garota sozinho, Rogers?
- Hm, Bucky quer participar hoje. Disse que eu não estou fazendo um trabalho tão bom com você e quer nos corrig...? – Steve parou sua explicação, achando suspeita demais a reação de todos – Por que vocês estão rindo? , eu quero saber?
- Não, você não quer – disse a mulher de uma vez, acabando por deixar sua refeição de lado e sair da cozinha de uma vez, puxando Steve pelo braço no processo.
- Agora fiquei curioso.
- Coração, só confia em mim.
Não que fosse esquecer aquilo com facilidade, mas o soldado aceitou o pedido da amiga, se concentrando a partir daí apenas nas atividades que realizariam. Como de costume, o andar estava fechado para eles, alguns equipamentos organizados no canto da sala que ele julgara que poderia vir a ser úteis mais tarde. A tal companhia, que deveria estar ali desde o começo, apenas apareceu horas mais tarde, com sua costumeira expressão fechada que não suavizava muito nem na presença dos dois. A novidade, que não conseguiu deixar de notar, era sua escolha de roupa: desde que chegara, e mesmo não tendo problema com temperaturas baixas que nem existiam no prédio graças aos vários aquecedores, Bucky sempre estava com várias camadas de tecido, algo que todos julgavam que era para disfarçar o braço mecânico caso alguém esbarrasse com ele acidentalmente nos corredores. Agora ele parecia ter voltado atrás naquele costume, já que seria difícil treinar com o excesso de roupa. Talvez Steve que tivesse emprestado um de seus conjuntos antigos de uniforme da S.H.I.E.L.D. para o amigo, mas que mesmo assim colocara um agasalho fino por cima, e tinha as mãos escondidas nos bolsos da calça.
- Posso saber por que está pegando leve com ela, Rogers? – foi a primeira coisa que ele disse, depois que assistiu o amigo ter que sinalizar que não conseguiria sair da chave de pernas da mulher sem que ela o soltasse.
- Eu não estou, Bucky.
- Então acho que você que está precisando de um reforço...
Steve suspirou alto enquanto tentava recuperar seu fôlego, se virando para e murmurando um “acredita nessa cara?”.
- Você está mesmo ficando meio mole, coração.
- Ah, então são os dois contra mim? – ofegou ele, falsamente ofendido.
- Estamos falando para o seu bem.
- Certo, não vou ficar aturando isso logo cedo, vou treinar com a Natasha – disse Steve por fim, erguendo os braços e rumando para a saída – Fiquem com esse andar.
e Bucky ainda tentaram fazer o loiro mudar de ideia, mas o riso que não abandonava suas vozes não ajudou muito na tarefa. O riso apenas morreu quando o ex-assassino tirou um elástico do pulso e amarrou os cabelos no topo da cabeça, jogando em seguida seu agasalho em um canto qualquer, mantendo sua postura relaxada à espera do ataque, que demorou muito mais do que ele esperava. Eles já tinham um histórico de combates, mas normalmente escolhia por esquecer aquilo. Claro que ela nunca lutara com Bucky Barnes, mas o fato de ele dividir o corpo com o Soldado Invernal não a deixava muito confortável para aquele tipo de atividade. A mulher tinha medo de perder a noção da realidade em algum momento, e deixar Bucky ainda mais incomodado do que já ficava diariamente, mas, como ele pelo menos parecia estar confortável com a ideia, ela apenas seguiu suas ordens.
A sorte deles era que Steve saiu do andar, ou ficaria bem irritado ao ver a definição do que era “pegar leve”. Não dava para chamar aquilo de simulação, no máximo talvez recreação. Bucky estava mais apontando verbalmente seus erros, com base em todos os exercícios que ele acompanhara nos últimos dias, além do material em vídeo que conseguira acesso com Tony recentemente. O soldado sabia que não era inteligente entrar em um combate real com a mulher, que seria delicado para as ambas as partes, além de que não se conheciam tão bem assim. Ele ainda era culpado de muita coisa relacionado a ela, não dava nem para entender como ainda aceitava ficar ao seu lado, por isso preferia não forçar a barra. Bucky gostava especialmente de sua companhia, definitivamente não queria a perder.
- Ei, ainda está comigo? – a voz amigável de o tirou de seus devaneios, quando fizeram uma pausa e ele observava a cidade abaixo pela janela do andar. Todo o cenário ainda estava coberto do branco da neve, e fazia tempo demais que ele não se sentia confortável com uma visão como aquela.
- Desculpe, me distraí com a cidade... – disse ele depois de pigarrear, logo notando a mulher parando ao seu lado, lhe entregando a garrafa de água pela metade que segundos atrás ela consumia – Cresci aqui, mas parece agora outro lugar.
- Quer descer e dar uma volta?
- E eu lá tenho permissão para sair do prédio? – retrucou ele, sem conseguir tirar certo despontamento da voz. Entendia muito bem a medida, mas não podia negar que não o agradava.
- Você acha que eu tenho? – devolveu ela rindo, já recuando alguns passos em direção à porta – Vamos lá.
- É uma péssima ideia, boneca – avisou o soldado, quando percebeu que ela estava realmente falando sério. Não precisava nem se concentrar para já poder ouvir todo o sermão que Steve daria se eles saíssem do prédio, e ele não conseguiu não rir com a ideia. Tivera que proteger aquele pirralho magricela durante anos, e agora tinha que se preocupar em não desobedecer suas ordens.
- Qual é, deixa de ser chato – insistiu , apanhando o agasalho do homem e jogando em sua direção – Está frio para cacete, o excesso de blusa e algumas toucas vão fazer com que a gente passe despercebido...
Bucky estava pronto para negar mais uma vez, até perceber o brilho determinado nos olhos da mulher, que caminhava de costas para a porta, com cuidado e sem pressa nenhuma, já que sabia que não seria tão fácil assim fazer com que ele cedesse aos seus desejos. Rindo agora sem graça pela atenção diferente que recebia, ele balançou a cabeça de leve.
- É melhor não.
- Você realmente quer ser o cara que dispensou Stark? – insistiu ela, um tom falso de descrença em sua voz que apenas fez com que o rosto do homem esquentasse um pouco mais – “Não” não é a resposta que as pessoas dão para mim.
- Engraçado que é a palavra que eu mais escuto o Steve dizer para você – Bucky tentou desconversar, até conseguindo uma risada em concordância da mulher.
- Porque o Rogers é um porre... Você não é, anda logo.
- E como vamos sair daqui sem sermos pegos? – Bucky se deu por vencido, quase querendo ter feito aquilo mais cedo apenas para ter presenciado antes a risada espontânea e contente da mulher.
- Coração, eu nunca entro em um lugar sem saber como sair sem ser notada, política pessoal.

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O elevador parou no meio do caminho, no que logo identificou como o andar onde a equipe normalmente fazia suas reuniões, e o riso animado da dupla que comentava o passeio simplesmente morreu, sem saber o que estava acontecendo. A mulher ainda teve tempo de questionar J.A.R.V.I.S. sobre o que estava acontecendo antes de um Steve Rogers com roupas civis entrar em seu campo de visão quando as portas se abriram. Dava para contar nos dedos quantas vezes ela vira o soldado realmente irritado, e aquela claramente estava entrando na contagem.
- Talvez nós não tenhamos pensado na hora da volta – comentou ela, saindo primeiro do elevador e sempre se mantendo pelo menos um passo à frente de Bucky, já que aquela discussão era para dois, não três.
- Você é inacreditável – começou ele, tendo que respirar fundo pelo menos duas vezes depois que soltou um “por que, obrigada” – Nem começa.
- Estou encrencada, Capitão? – era uma manobra arriscada piorar ainda mais o humor do homem, mas ele estava praticamente pedindo – Pelo visto realmente estou.
- Quero falar com você, a sós.
- Qual é, Steve, eu... – Bucky até tentou intervir, mas nenhum dos dois lhe deu muita atenção, o que fez com que ele se irritasse um pouco mais. Steve e eram duas crianças, e agora estava tratando ele próprio como uma. Não era agradável.
- Melhor você subir, Buck – disse, depois de se virar para ele. Querendo complementar sua voz mais macia e a expressão mais leve, ela esticou a mão para brincar com o cachecol agora mais solto ao redor do pescoço do homem – Falo com você daqui a pouco.
Bucky não concordou nem saiu do lugar, mas em seguida Steve sinalizou para que a mulher o seguisse, logo ambos sumindo dentro de uma das salas do andar. Agora sem muitas opções, ele optou por voltar para seu quarto, pedindo que J.A.R.V.I.S. avisasse assim que eles terminassem.
Dentro da sala, Steve até pediu que ela se sentasse, o que já iniciou uma discussão menor antes da principal, já que fazia parecer que ela algum tipo de criança e ele o adulto responsável.
- Você acha que eu sou idiota, não é? – bufou ela, um pouco mais irritada do que antes, depois de Steve começar expor como ela havia sido irresponsável – A gente sabe se virar.
- Pelo amor de Deus, apenas pensa no risco desnecessário que vocês passaram, no risco a que expuseram dezenas de pessoas!
- Você acha que somos ameaças? – pensou em deixar a questão no ar até que o soldado resolvesse responder, mas algo em seus olhos já respondia – Se você está falando sério, o que parece estar, então estou oficialmente chateada com você.
- As palavras de gatilho podem não funciona plenamente com você, mas ainda te fazem hesitar, só que com o Bucky nem isso. – Eles não eram ameaça, Steve era o primeiro em sair em defesa da dupla, não importava o cenário, só que o fato da mulher não estar vendo a situação como um todo estava o assustando. Normalmente, o papel de pôr um pouco de bom senso era dela, não dele – Porra, , a HYDRA te vigiou por meses e te sequestrou quando teve a chance de te pegar sozinha, por que acha que vai ser diferente agora? Eu não posso te perder de novo, não dá. Nem você, nem o Bucky. Não faz isso comigo, por favor.
Deu para perceber no exato momento que compreendeu o ponto que ele queria chegar, e que talvez tal possibilidade sequer tivesse passado pela sua mente. Steve sabia que suas intenções eram as melhores e que ela odiava ficar confinada, mas não iria descuidar logo agora. podia ficar emburrada com ele pelo resto do mês, se ela estivesse em segurança, já era mais do que o suficiente. Ciente de que não fazia sentido continuar com os sermões quando ela já compreendera, Steve a dispensou de uma vez, não estranhando nem um pouco quando pediu para J.A.R.V.I.S. lhe informar dos passos dela, sendo comunicado em seguida de que ela rumava para um quarto que não era seu.
Bucky sabia muito bem quem era antes mesmo da batida na porta, quase rindo de pena pela expressão culpada que a mulher usava, e ele sabia que era a mais verdadeira possível. Até agora o soldado não compreendia como alguém podia achar difícil de ler. Chegava parecer errado alguém ser tão transparente.
Por isso ele já a cortou antes mesmo de conseguir abrir a boca.
- Eu sei o que você vai dizer. Por favor, não peça desculpas – disse ele sério, e até chegou a pensar que talvez ele tivesse bravo ou algo do tipo, até identificar um vestígio de sorriso em seus lábios, o que a intrigou – Sei que pisamos feio na bola hoje, mas… Eu até que me diverti. Você não faz ideia de quanto tempo fazia que não andava nas ruas e…
- Você escapou faz quase um ano, andou em várias ruas – lembrou a mulher sem pensar duas vezes, a falta de lógica na fala dele chegando a incomodar.
- Fugindo e me escondendo. Hoje foi um… passeio – explicou Bucky, alternando o peso de seu corpo de uma perna para a outra, parecendo agora um tanto desconfortável – Eu não tinha exatamente um amigo para me acompanhar nisso.
- Você me considera uma amiga?
- Não deveria?
A dupla ficou se encarando por um tempo considerável, de repente achando dificuldade para compreender o outro, mesmo que o sentimento base fosse muito parecido. conseguia entender como os Vingadores facilmente conseguiram retornar à rotina anterior ao sequestro, já que eles esperavam algo, uma versão sua que valesse a pena manter por perto. Só que Bucky não tinha aquilo: só conhecia a assassina. Barnes, por sua vez, passava por algo parecido, já que conseguia entender o desejo de Steve de se fazer presente o máximo possível, na esperança de resgatar seu amigo há tanto tempo perdido. Enquanto isso, ele e não se conheceram anteriormente, se encontravam sempre nos piores momentos possíveis, e isso parecia ter criado uma ligação forte entre eles, e sabe-se o que aquilo significava.
- Steve está me vigiando por sabe-se lá quanto tempo, melhor eu arrumar alguma coisa para fazer – disse depois de um tempo, quando começou a ficar desconfortável com o olhar constante do homem em seu rosto, sem indícios que pretendia parar.
- Está de castigo? – perguntou Bucky, e ela respirou fundo para grunhir.
- Ridículo, não é?! E o pior que se eu tentar recorrer, vou me afundar ainda mais – resmungava ela, seu humor piorando quando percebeu que Bucky ria de sua expressão emburrada – Steve achou a vaga de mãe em branco e decidiu ocupar, e meu pai achou ótimo. Sério, Stony é real nesse prédio. Só não sei a parte do sexo, mas suspeito. Te deixei desconfortável de novo?

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não ligava muito para seguir horários, e sempre se considerava uma pessoa noturna, então estava mais do que acostumada a dormir tarde. Só que hoje parecia que era mais um dia para virar a noite acordada do que realmente dormindo, e o número de distrações estava bastante restrito.
- Ei, J? – chamou ela, depois de muito rolar de um lado para o outro – Tem alguém acordado?
- Como seu pai está parcialmente adormecido, acredito que apenas o Sgtº Barnes esteja acordado, senhorita – informou o sistema, emendando quando não recebeu mais ordens – Deseja que o chame?
- Não, não precisa. Acho que vou até lá – disse ela, esticando o braço para pegar o roupão que ficava ao lado da cama assim que tirou suas pernas da proteção das cobertas, a temperatura mais baixa não lhe agradando em nada – Mas não precisa avisar. Posso acabar mudando de ideia.
não sabia ao certo o motivo pelo qual estava seguindo para o quarto do homem. Suspeitava que iria mesmo se todos os outros moradores do prédio estivessem acordados, e só ele dormindo. Não era Clint e seus anos de convívio e experiência ao seu lado, nem Steve e todo seu empenho para que nada a atingisse. Ou seu pai e seu desejo de fazer as coisas direito dessa vez. Ela não fazia ideia, mas sentia que era o certo, mesmo tendo se questionado o que diabos tinha na cabeça assim que Bucky abriu a porta, se vendo sem a menor ideia do que dizer.
O sargento, por outro lado, parecia bastante consciente de quem o esperava do outro lado da porta antes mesmo de abrir. Seu olhar não vacilara, a expressão amigável sendo estável o tempo todo, mesmo quando cruzou os braços e se apoiou no batente do portal.
- Pesadelos?
- Não, eu… Eu não sei, é só… – parou, um riso sem jeito lhe escapando para distrair o seu recém nervosismo. Era algo que acontecia com frequência, se não tomasse cuidado. O olhar de Bucky era sempre atento, parecia compreender as coisas tão quanto ela, às vezes até mais. Se não tomasse cuidado, ela sempre se encontrava em situações como ela: aqueles olhos azuis se cerrando minimamente, um brilho travesso e ao mesmo tempo compreensível de quem sabe exatamente o que se tenta esconder. Tanto era inútil mentir como também não queria – Só se puder acontecer enquanto acordada.
- São os piores – concordou o homem sem pensar duas vezes, recuando um passo para abrir mais espaço para ela – Entra.
Bucky quase chegou a sorrir ao notar como ela se encolhera um pouco, abraçando o tecido que a aquecia contra o corpo ao passar ao seu lado. Não era incomum as posturas de do começo e do fim do dia serem muito contrastantes, mesmo sem motivo aparente, mas hoje o soldado sabia que havia um em especial, e precisava abordá-lo com muito cuidado, ou piorar ainda mais a situação poderia ser um cenário muito real.
- O que assombra sua mente? - perguntou Bucky ainda de costas, procurando uma camiseta qualquer que tivesse esquecido de guardar para vestir, não demorando a encontrar uma na cadeira em frente à sua mesa. Por causa das sessões de reparação do braço, já estava mais do que acostumada a vê-lo sem a peça, mas não parecia apropriado agora já que estavam sozinhos no quarto. Ao se virar para ela, encontrou a mulher sentada no pequeno sofá próximo à janela.
- Algumas coisas que o Steve disse mais cedo – disse ela, sem muitos rodeios, mesmo que seus dedos brincassem com a costura de suas mangas para canalizar sua ansiedade.
- Vocês parecem ser bem próximos.
- Nós somos – concordou , um sorriso discreto aparecendo nos cantos de seus lábios, assistindo a mudança de postura de Bucky para algo mais solto enquanto se sentava na beirada da cama.
- Sabe, ele não costumava saber ficar perto de mulheres bonitas... – foi sua escolha de comentário, já rindo de antecipação ao notar sua postura se espalhar na mulher.
- Bem, levando em consideração o tempo que ele passa comigo e com a Nat, podemos assumir que ele aprendeu – devolveu a ex-agente, erguendo uma sobrancelha em questionamento quando Bucky ficou minimamente mais sério, parecendo um pouco desconfortável.
- Então vocês…?
- Eu e Steve? – arriscou ela, risonha – Eu e Nat? Ou os três? Você precisa ser mais específico, amor.
- Steve.
- Nós passamos… Quer dizer, eu passei por um período meio complicado um tempo atrás – corrigiu, respirando bem fundo antes de continuar, soltando o ar sem pressa nenhuma. Pouquíssimas vezes precisara explicar aquela situação, e, mesmo que fosse a mais pura verdade e estivesse bem com aquilo, não facilitava a tarefa de proferir aquelas palavras – Eu precisava de ajuda, e ele meio que foi forçado a ficar perto, mas ele podia ter tirado o corpo se quisesse. Eu nunca fiz nada para merecer, mas ele estava lá quando eu precisava. Tudo que eu fiz foi causar mais problemas para ele, e mesmo assim em nenhum momento ele recuou. E quando ele precisou de mim, eu fiz tudo o que eu pude, ainda faço. Então, sim, somos próximos, mas não assim. Ele é quase como… Bem, meu irmão mais velho.
Bucky tinha uma noção sobre como aquele discurso poderia terminar, mas ele próprio se viu um pouco sem reação, o peso daquelas palavras o pegando de surpresa, sem conseguir reagir como deveria. Parte daquela culpa era dele, e aquilo pesava em seu peito, mesmo que não se arrependesse de sua escolha. Da dupla de irmãos, era a ponta mais frágil, a que tinha mais a perder, e ela já estava fora da HYDRA. Deixar que ela voltasse para aquele buraco para sozinha tentar fazer com que seu irmão percebesse toda a manipulação que sofrera era quase suicídio, não podia e não foi uma opção. Bucky optara por aquele caminho com a ciência de que a mulher nunca mais olharia na sua cara, isso se não o jurasse de morte ou algo do tipo. E ali estava ela, demonstrando uma confiança que talvez ele nem merecesse.
- Você sabe que Petr não está inalcançável. Só precisa ser paciente – disse ele por fim, depois de um longo momento em silêncio, cada um ocupado com seus próprios pensamentos – É trabalho dos Vingadores, não nosso. Não estamos nem no banco dessa vez.
não respondeu de imediato, questionando se o soldado escolhera aquelas palavras realmente querendo dizer aquilo. Sua adição ao TIME fora tardia, claro, mas lhe soava bastante estranho considerar os Vingadores sem integrá-los. Ou talvez ela ainda fizesse parte do grupo, quase como que uma presença póstuma, já que chegava a ser ridículo considerar que ela de agora e a de meses atrás eram a mesma pessoa. Ela agora não era e dificilmente seria parte da equipe de heróis, e até parecia uma ofensa considerar a possibilidade.
- Isso é um saco – confessou ela, sem saber ao certo sobre o que se referia. Sua tentativa de sorriso para transmitir que estava tudo bem não fora bem-sucedida, Bucky logo se levantando e sentando ao seu lado, seu braço real passando por trás das costas da mulher e a colocando contra seu corpo. Naquele simples gesto, o soldado sentiu como ela relaxara instantaneamente, apoiando sua cabeça contra o ombro dele. Ela estava cansada, e não precisava ser um expert para notar aquilo. Steve já tinha lhe adiantando o quadro severo de insônia que ambos os Stark tinham, mesmo que não concordasse muito com aquilo, especialmente em relação à mais nova da família.
- Quer dormir aqui? – ofereceu ele, se afastando minimamente para acompanhar as reações da mulher – Não quero te deixar sozinha, e não vou reclamar da companhia. De alguma forma, durmo o mais próximo possível de em paz com você por perto.
nem ponderou a sugestão por muito tempo, logo concordando. Seu único estranhamento foi ao notar que Bucky, ao se levantar para que ambos deitassem, não estava arrumando os travesseiros extras no lado vazio da cama, mas sim no tapete ao lado dela.
- Essa cama é ridiculamente grande, dá muito bem para nós dois – disse ela, depois de se jogar no colchão e tentar puxar de volta o travesseiro que o homem ainda não tinha jogado no chão. Bucky queria ter negado, mas sabia que era inútil e que a mulher não mudaria de ideia, que apenas perderia sua paciência à toa.
Mesmo um pouco contrariado, Bucky organizou os travesseiros de volta no lado da cama que ele costumava ocupar, deixando se ajeitando no lado dela enquanto ia em direção a seu guarda-roupa atrás de uma coberta extra e alguma camiseta de manga comprida, para evitar que o metal de seu braço esquerdo tocasse nela em algum momento da noite.
Quando se deitou, não conseguiu deixar de notar como ele tomara cuidado de deixar um grande espaço entre eles, ficando bem na beirada da cama, assim como seus músculos não relaxaram nem um pouco ao afundar no colchão. Sem se controlar, ela se apoiou nos cotovelos, se virando para ele.
- Algo errado?
- Não, só que faz tempo que não durmo com alg... – começou ele, parando quando notou o sorriso divertido que a mulher levava – Fica quieta.
- Eu não disse uma palavra!
- Mas sei que pensou – resmungou ele de volta, atendendo os pedidos de para que ele ao menos ficasse mais para o meio da cama, que ela “não morderia se ele não pedisse”. Depois de mais alguns minutos, Bucky se viu bem mais confortável na situação que se encontrava, de alguma forma terminara deitada sobre seu ombro, o braço real a mantendo perto de seu corpo. Algo em sua mente queria que o braço de metal também cumprisse sua função naquela cena, mas ele se forçou a mantê-lo estável, o mais longe que podia de . Aquele braço não significava nada bom, não trazia boas lembranças, assim como sua origem também era conturbada. Era aquele eterno contraste entre eles que sempre o atormentava, uma lembrança que nunca ia embora de como ele não era digno de sua companhia, muito menos seu afeto. Mesmo com sua origem sendo na HYDRA, nada daquilo fazia parte da constituição de . Eles tentaram corrompê-la e falharam. Já ele, que inicialmente não tinha nenhuma relação com a agência, fora transformado em um deles, e isso não tinha como apagar. Dois lados da mesma moeda, duas pessoas tão semelhantes e ao mesmo tempo tão diferentes.
- Bucky? – sussurrou depois de um tempo, notando a inquietação do homem – Você sabe que não vai me machucar, não é? Me abraça com os dois braços, por favor.
Eles nunca haviam tocado naquele assunto, mas não era difícil imaginar o tipo de questionamento que deviam atormentá-lo por ter algo estranho sendo parte dele. A parte de toda porcaria mental que a HYDRA fazia era fácil de disfarçar e fingir que não existia, algo complicado quando se pensava no braço de metal. Quanta destruição não causara, quantas mortes e sofrimento. O maior desafio de Bucky era lidar com toda aquela culpa, seu próprio julgamento antes de qualquer outra pessoa, e seu próprio braço era algo que não permitia que ele esquecesse de tudo aquilo.
Foi com bastante cautela que Bucky atendeu o pedido da mulher, quase que se esperasse que em algum momento ela fosse voltar atrás, recuar com a repugnância que ele merecia. Só que isso nunca aconteceu, pelo contrário. Quando seus dedos se acomodaram sobre a cintura da mulher, se aconchegou mais contra ele, seu próprio braço descansando sobre o dele, a ponta quente de seus dedos passeando pela superfície em um carinho leve, que fez com que ele sorrisse sem querer.
Ele conhecia aquele sentimento? Parecia um tanto familiar, mesmo que há muito esquecido.
Bucky não fazia ideia de qual nome ele levava, só sabia que aquela fora uma noite cheia de sonhos que não se lembrara pela manhã, mas ele nem se importou. O que realmente ficara em sua mente foi a imagem de quem acordara ao seu lado.

Capítulo 6 - TONY STARK/BUCKY BARNES - REALIDADE 911

(Essa realidade pode conter detalhes de Homem-Aranha: De Volta Ao Lar)


JULHO DE 2015
Steve parou do lado de fora do quarto, assistindo pela janela a mulher entretida com seu notebook no colo trabalhando em algum projeto novo, enquanto Bucky continuava imóvel em sua maca. já estava mais do que ciente da presença do homem no corredor, mas escolheu por deixar que ele decidisse quando entraria. Havia sido uma semana complicada, o desfecho daquela missão imprevisível havia abalado todos, sem exceções. O Soldado Invernal aparecer como reforço definitivamente não estava nos planos de ninguém e ainda absorviam a informação.
- Ele não acordou ainda? – perguntou Steve, assim que juntou coragem para abrir a porta, mas não a atravessou. apenas respondeu que não, seu olhos e dedos não parando de trabalhar – E você está de guarda por...?
- Ele apagou no meio de uma zona, ter um rosto conhecido quando acordar pode deixar a situação menos problemática – contou ela – Isso e meu pai boca aberta que pode piorar a situação se eu não estiver por perto.
- Acha que Tony diria alguma coisa? – estranhou o soldado, finalmente ganhando o olhar divertido da mulher.
- Você está vivendo sob o mesmo teto que Tony Stark por mais de um ano, acha mesmo que ele perderia a chance de deixar pessoas desconfortáveis? Você sabe que eu sou o alvo favorito, logo depois de você.
- É, mas nessa envolve ele diretamente, certo? – lembrou Steve, entrando de vez no quarto e tomando o lugar vago ao lado de . Já conhecia a mulher bem o suficiente para conseguir identificar quando ela estava apreensiva mesmo quando tentava disfarçar, e aquele era um desses momentos. Provavelmente estava tentando se convencer mentalmente que nada daquilo poderia sair de seu controle, que não era nada demais, mas ela deveria estar amedrontada.
- Acha que eu vou trocar ele pelo Barnes? – resmungou ela, um pouco mais ofendida do que esperava com aquela acusação – Eu posso ser 50% Barnes, mas Tony continua sendo meu pai. Diferente do que a mídia fala, ingratidão não é meu estilo.
- Como acha que ele vai reagir a isso?
- Reagir a que? – uma nova voz entrou na conversa, fazendo com que a dupla erguesse os olhos para a maca, encontrando Bucky se esforçando para se sentar.
- Boa tarde, Bela Adormecida – brincou a mulher, sua voz assumindo um tom de animação falso demais que não conseguira mascarar seu nervosismo – Eu já adiantei trabalho do mês inteiro enquanto você dormia.
- Bucky.
- Steve.
- Querem conversar sozinhos? – sugeriu assim que notou o clima mais delicado, abaixando a tela do notebook – Posso voltar mais tarde.
- Acho que primeiro eu tinha que conversar com você, não é? – lembrou Bucky, se remexendo desconfortável no colchão enquanto esperava se aproximar, sua hesitação espelhadas nos olhos da mulher – Então você é minha filha?
- Isso...?
- Petr também?
- Você vai ter muito trabalho com ele, sério – brincou ela, tentando aliviar o clima tenso, mas sem muito sucesso. Seu irmão chegara a se recusar a continuar na Torre nos últimos dias, sob o pretexto de que precisava pensar – Ele elevou “problemas com o pai” para um novo nível.
- Stark sabe?
- Que eu não sou dele? – devolveu , estranhando a pergunta – Sempre soube. Testes de DNA não são exatamente recentes...
- Eu quis dizer se ele sabe que... – Bucky tentou reformular a pergunta, mas não conseguiu ir muito longe, já que logo o interrompeu, esclarecendo a situação.
- Sabe, Valerik fez uma visitinha um tempo atrás, esclareceu alguns pontos...
- Valer... Que?
- Você ainda não tinha recuperado a memória, não é? – constatou , que se surpreendera com a reação explosiva do homem. A mulher tinha ciência que a mente dele havia sido manipulada por sua mãe, mas acreditava que ele já deveria ter recuperado por hora todos os estragos que haviam sido feitos em sua mente – Sinto muito.
- Ela está viva? – perguntou Bucky, agora sim sem saber o que pensar, muito menos sentir. Aquela maldita imagem dificilmente ficava mais que um dia sem atormentar seus pensamentos, aquela imagem vívida da mulher tentando escapar de seu aperto, as suas mãos desesperadas tentando afrouxar os dedos metálicos fechados ao redor de seu pescoço. Bucky sabia dos poderes de Dominik, os vira em prática diversas vezes, mas até aquele momento nunca lhe passara pela cabeça que poderia ter sido um de seus alvos.
- Ela morreu um pouco depois – contou – Foi meio que cronometrado. Estamos falando da Valerik, afinal de contas.
- Então todo mundo sabe que...
- Sim, todo mundo sabe.
- Steve sabe.
- Mesmo que eu não soubesse antes, meio que estou ouvindo daqui – brincou o soldado, sem entender porque estava se referindo a ele em terceira pessoa, como se não pudesse participar daquela conversa. Steve ficou ainda mais confuso quando o antigo amigo se virou para ele, parecendo ainda mais sério do que instantes atrás, quase que mal-humorado.
- Eu só estava tentando me convencer que você sabe que está se engraçando com a minha filha.
O efeito foi instantâneo: escondeu o rosto nas mãos, enquanto as bochechas de Steve adquiriam um tom forte de rosa, que foi se espalhando pelo resto da pele.
- Okay, eu tenho que fazer parte dessa conversa mesmo? – resmungou , sua voz saindo abafada – Não me sinto confortável, e isso não é comum.
- Eu só queria ver a cara dele, vou me comportar – disse Bucky, depois de se desculpar – Mesmo sendo estranho. Muito estranho.
- Capt. Rogers, o Sr. Stark está solicitando sua presença no laboratório – anunciou a voz de Sexta-Feira, e Steve quase comemorou por não só mudar de assunto momentaneamente como também por poder deixar o quarto sem que ficasse ainda mais constrangedor, até perceber qual fora a mensagem que lhe fora entregue.
- Não pode ser coisa boa – suspirou ele, se adiantando para para um beijo rápido na testa, aproveitando a proximidade para dizer algo mais baixo, mesmo ciente de que Bucky ouviria de qualquer forma – Essa família só piora, no que eu me enfiei?
- Você está nessa zona desde o começo, nem vem querer me culpar – recrutou a mulher sem pensar duas vezes, sorrindo maldosa em seguida, para desespero da dupla de heróis de guerra – Eu que cheguei por último, tio Steve.
- Nunca mais diga isso, ! – ambos os homens a repreenderam e ela pediu desculpas, mesmo rindo de leve.

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Steve esperava que Tony estivesse se distraindo com algum projeto novo, ou ao menos fingindo estar ocupado, mas ele encontrou o engenheiro no meio do laboratório, em uma cadeira giratória bem no meio do ambiente, batendo o pé impacientemente no chão.
- Então ele acordou – comentou Tony, assim que percebeu que não estava mais sozinho, sua companhia se aproximando com passos lentos.
- está lá embaixo com ele.
- Tudo calmo?
- Ele já sabia de algumas coisas, outras está contando...
Tony se virou então para o soldado, conseguindo sem dificuldades perceber como sua postura estava muito mais leve do que de costume. Eles apenas voltaram a conviver diretamente depois da queda de S.H.I.E.L.D., e desde então muita coisa preocupava o Capitão. Agora parecia que as coisas caminhavam para um desfecho.
- Como você está? – questionou o bilionário, finalmente se levantando. Uma mesa próxima estava coberta por diversos papéis com que ele trabalhava desde a noite anterior, e esse foi o destino de Tony, tentando organizar os documentos de alguma forma que fizesse sentindo e o ajudasse futuramente.
- Aliviado que ele está em casa agora – confessou Steve, puxando uma cadeira próxima e se sentando ao lado da mesa em que Tony trabalhava. Sem controlar sua curiosidade, o soldado tentou ver se conseguia tirar um tema que daria um sentido para toda aquela papelada que o engenheiro juntara, e foi muito mais fácil do que imaginara. Boa parte daquilo tudo dizia respeito ao processo que precisaram fazer para mudar o status de Steve de morto durante a guerra para vivo. O restante eram alguns documentos que Tony conseguira reunir sobre Barnes junto com Natasha, algumas coisas que seu pai guardara e outras que estavam no centro de dados da S.H.I.EL.D., e uma pequena parcela eram documentos de , resultado de exames e certidões. Todo aquele empenho fez com que algo travasse na garganta de Steve, que teve que pigarrear para tentar fingir que estava tudo bem – Se alguém quiser chegar nele vai ter que passar por nós primeiro. Bom tirar essa preocupação do peito.
- Acho que você se preocupa mais com o sogro do que com a namorada. Isso pode ser um empecilho na relação – avisou Tony em tom brincalhão, seu sorriso se alargando quando ouviu o soldado grunhir, logo escondendo o rosto nos joelhos.
- Não começa, por favor.
- Sabe que eu quero ver? – disse o engenheiro, separando uma pilha de documentos que julgava mais importante no canto da mesa, se virando para Steve para assistir sua reação como se devia. Se Sexta-Feira não tivesse gravando aquilo tudo, ele teria que tirar ela da tomada como castigo.
- Não quero saber, Tony – garantiu Steve, mas não foi levado em consideração.
- Você folgar com o Barnes como estava folgando comigo.
- Eu não estava folgando com você – retrucou o soldado sem pensar duas vezes, Tony demorando um pouco mais para responder enquanto analisava a resposta que recebera.
- Você está com medo dele? – brincou Tony, sabendo que chegara no tópico certo pela forma indignada que Steve respondera.
- Não estou! – insistiu o soldado, se alterando mais enquanto via o engenheiro rir divertido – É questão de respeito.
- Então comigo não rola respeito? – Tony mudara a postura completamente, mas o brilho satisfeito não abandonara seus olhos. Claro que em um primeiro momento não aprovara a escolha de namorado da filha, mas não conseguia pensar em outra pessoa que conseguiria atazanar com tanta facilidade como Steve Rogers, por isso ele deixara de implicar com a decisão da . Ela estava feliz e ele podia se divertir, todo mundo ganhava.
- Eu demorei meses para folgar com você, praticamente um ano.
- Então você admite que estava folgando comigo! – Tony se fingiu ofendido, sua risada alta servindo de som de fundo para Steve que se levantara para deixar o cômodo.
- Por que eu ainda falo com você?
- Porque se não formos BFFs acaba com a nossa raça? – arriscou o bilionário – Eu ficaria com medo dela, não do desmemoriado.
- Eu não estou com medo de ninguém!
- Diga isso na cara da minha filha e eu acredito – disse Tony, e Steve parou no meio do caminho, ponderando a possibilidade.
- Isso sim deixaria ela brava.
- Só comprovando meu ponto, colega.
Steve balançou a cabeça em descrença, mesmo que rindo de leve. Ele não tinha mais compromissos naquele dia, e, como não queria voltar ao quarto de Bucky no andar hospitalar sem ser convidado, provavelmente ficaria o resto do dia em seu quarto, ou auxiliando em algo a respeito da mudança para o norte do estado. O soldado realmente teria feito tudo isso se não tivesse notado a forma estranha que o riso de Tony cessara, a tosse desconfortável que quebrara brevemente o silêncio absoluto que mais parecia uma forma de tentar disfarçar algo.
- Ei, Tony? Você está legal? – questionou Steve, girando os calcanhares para averiguar a situação, sua garganta voltando a se fechar quando notou o exame que estava nas mãos do engenheiro.
- Quando Valerik deixou aquele projeto de gente em casa, eu quase dei uma festa quando isso aqui disse que ela não era minha – contou Tony, colocando aquela folha junto na pilha que separava – Só que ela é agora, não é um pedaço de papel que vai me dizer o contrário. Ou o responsável pela morte dos meus pais.
- Tony…
- Ei, estou trabalhando nisso. Não me torra – avisou o homem logo de cara, sem paciência para ter que ouvir outro discurso de desculpas do soldado, e ele sabia que Steve deveria estar se coçando para começar – Ainda não perdoei completamente vocês por não terem me contado isso logo de cara.
- Você sabe que sentim...
- Eu sei, ok? – ele cortou o soldado mais uma vez, sinalizando para ele ir embora de uma vez – Eu só preciso ser um ser humano melhor para levar tudo isso numa boa, e sei que consigo. Se não conseguir, vai me obrigar a ser, ou pelo menos fingir. Relaxa.
- Você é um homem bom, Tony – comentou Steve, tentando se distrair de seu constrangimento mudando o peso de seu corpo de um pé para o outro.
- Nossa, desistiu de conquistar o sogro 2 e voltou para o 1? – brincou Tony – Eu não vou te beijar, sai daqui.

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NOVEMBRO DE 2015
- O que era tão importante que você precisava falar comigo logo, porém me dispensou três vezes? – resmungou Tony, assim que chegou a sala de convivência do complexo, só percebendo que ele e Steve não estavam sozinhos quando se jogou em um dos sofás – O que o Stalingrado tá fazendo aqui? Pensei que íamos fazer alguma coisa só nós dois, Rogers.
- Eu preciso falar com ambos – explicou Steve, antes que Bucky tivesse a chance de abrir a boca e reclamar da lista de apelidos que apenas decaiam a cada dia. Tony não tinha muito o que fazer, não gostava de repetir e suas referências estavam perto de acabar – Por vários motivos, principalmente porque eu não sei o que fazer.
O lado mais inocente de Steve esperou que naquele momento a dupla fosse enchê-lo de perguntas, mas, para seu desespero, ambos ficaram obedientemente quietos, talvez sentindo todo o nervosismo que ele exalava. Não fora assim que planejara aquela conversa – na verdade, mas pensara no que falaria, tinha a ilusão de que um dos dois magicamente entenderia quais eram seus planos e fosse lhe dar um caminho –, e sabia que seria pior se tentasse desconversar e adiar aquilo por mais uma vez, que nenhum dos dois largaria de seu pé. Pensando bem sobre aquilo, chegava a ser ridículo: ele lutou diversas batalhas, ganhou guerras, e estava amedrontado de conversar com seus colegas de equipe e amigos, que coincidentemente eram os pais de sua namorada.
Não fazia o menor sentido estar com medo.
Só que fazia.
- Eu quero casar com a filha de vocês – contou Steve de uma vez, a forma que apertava as próprias mãos chegando perto o suficiente para machucar, mas ele não estava nem prestando atenção. Seus olhos só sabiam passar de Tony para Bucky sem descanso, em buscar de alguma reação positiva, de preferência.
- Eu seguro e você bate? – sugeriu Tony para o homem no outro sofá, assim que conseguiu se lembrar como se pronunciava palavras e as ordenava de forma a produzir sentindo. Ele estava brincando, é claro, mas a forma absolutamente tensa de Steve exigia que ele fizesse graça.
- Por que não bater os dois ao mesmo tempo? – devolveu Bucky, entendendo sem dificuldades o objetivo de seu co-pai – Eu começo e você chama a armadura?
- Qual é, gente... – choramingou Steve, se fundando no estofado – Eu estou falando sério aqui!
- Eu não acho que ele seja digno da nossa filha.
- Cuidado com as palavras, Thor sempre ficou de olho atrás de uma brecha – avisou Tony, sem entender como estava conseguindo se manter sério naquele cenário – Se ele ouvir isso, vai vir esfregar na nossa cara que é o único digno.
- Qualquer um consegue levantar um martelo, mas ser digno de casar com a minha filha é outra história – continuou Bucky, parando de rir pela forma nervosa que Steve se levantou, já rumando para deixar a sala – Qual é, punk, a gente está brincando. Volta aqui...
- Eu deveria ter falado com a direto, sabia que era uma péssima ideia.
- Realmente deveria – concordou Tony, assistindo o soldado voltar a se jogar no sofá – Ela vai ficar uma fera se souber que você pediu permissão para a gente.
- Ele não pediu, ele apenas comunicou – corrigiu o ex-assassino, voltando a sua falsa postura de “pai controlador que come namorados folgados de café-da-manhã” – Por que você não pediu? Está pensando que o negócio é bagunçado assim?
- Não estou mais entendendo nada dessa conversa – comentou Tony confuso – Se não veio pedir permissão, chamou a gente para que?
- Eu não sei como fazer, ok? – confessou Steve de uma vez, seu rosto aos poucos se esquentando – Vocês não são só os pais dela, são meus amigos. E-eu queria ajuda.
Tony foi o primeiro a reagir, produzindo um som estranho que quase fez Steve rir.
- Eu preciso beber alguma coisa – disse o engenheiro depois de pigarrear, rumando para a cozinha ao lado para que ninguém notasse seus olhos marejados – Sexta-Feira, chama o Happy aqui, por favor.
Bucky voltou a vida logo em seguida, se mudando para o sofá vizinho para abraçar o amigo e comemorar a decisão importante que estava tomando. Ele não fazia ideia se conseguiria dizer alguma coisa sem começar a chorar como um bebê, e por isso quase agradeceu quando mais alguém chegou no ambiente, os três praguejando baixo ao notarem que era .
Tony se abaixou atrás da pia, Bucky se jogou para o lado e afundou o rosto em algumas almofadas, enquanto Steve apenas pode se curvar sobre as costas do sofá, apenas a parte inferior de seu corpo sendo visível para a mulher.
- Ei gente, a galera está querendo subir para ver algum filme, vocês top...? – começara o convite, desistindo quando notou a cena estranha que presenciava – O que está acontecendo aqui?
- Oi, .
- Ok, já é suspeito quando vocês estão sozinhos, falarem juntos só aumenta isso – acusou ela, cruzando os braços em espera de explicações, que ficaram momentaneamente de lado quando Happy entrou correndo na sala, parecendo perto de ter um ataque cardíaco.
- Tony! Você realmente vai fazer iss...? - ofegou o homem, franzindo o cenho depois de checar todo mundo que estava presente – Ué, cadê a Pepper?
- Lá em cima com o resto da galera, e fazer o que?
- Bico calado, Happy – avisou o engenheiro antes que Happy pudesse responder sua pergunta, passando rapidamente ao lado dele para pegar o anel que trazia e correndo para passar a joia para Steve. O soldado arregalou os olhos assim que entendeu o que acontecia, recebendo apenas umas batidinhas do ombro de Tony – Vai na fé.
- Agora?!
- Quem morreu ou quem vocês vão matar? – retomou seu interrogatório, aproveitando que o elo mais fraco dos três vinha em sua direção – Steve?
- Eu amo você.
- Não foge da pergunta.
- Eu não estou – o soldado riu de leve – Esse é o ponto.
Talvez ela tivesse que mudar a abordagem.
- Pai, o que o Steve está escondendo?
- Acho melhor você deixar ele terminar de contar, coração – respondeu Tony, se juntando agora com Bucky e Happy no mesmo sofá, os três homens com as mãos nas bocas.
- Eu não estou acreditando que vocês três estão de segredo logo comigo! – resmungou a mulher, começando a ficar genuinamente preocupada. Não era recorrente não conseguir arrancar informações de nenhum dos três, ela começava a suspeitar que algo ruim tinha ou iria acontecer. – Qual é, Rogers. Me fala o que está acontecendo?
Steve sorriu com a escolha dela de não o chamar pelo primeiro nome. Era algo comum e inocente, mas naquele momento em especial lhe pareceu um som diferente em dizendo o nome.
- Vou sentir falta de você me chamando pelo sobrenome...
- Por que eu iria parar de te chamar pelo sobrenome? – estranhou ela.
- Porque não faria o menor sentido se ele for o mesmo que o seu – riu o soldado, apoiando um joelho no chão e mostrando a joia que Tony lhe entregara instantes antes – Stark, casa comigo?

Capítulo 7 - TONY STARK/CLINT BARTON/BRUCE BANNER - REALIDADE 616

Paciência é uma virtude.
até chegava a se considerar uma pessoa bastante paciente, ou que pelo menos tentava por aquilo em prática. A frequência com que ela gritava com as pessoas diminuía consideravelmente com o passar do tempo, exercitava bastante o quesito ouvir e tentar entender o que as pessoas queriam lhe dizer. Ela se tornava um ser humano melhor a cada dia.
Mas tinha um trio que fazia ela jogar toda essa evolução pela janela.
- Ela precisa ficar mais um tempo de repouso – repetiu Bruce, pelo que parecia ser a milionésima vez em menos de uma hora. Ninguém do andar hospitalar reclamava de quando tinham alguém para atender, afinal, era o trabalho deles, mas ninguém negaria se questionados sobre a única pessoa daquele que preferiam não ver passando pela triagem.
Era unânime dizer Stark.
- Mas não precisa ser na ala hospitalar – Clint seguiu insistindo, se levantando da poltrona que se jogara quando chegaram para dar mais sensação de que aquela era a decisão final – Ela volta para o quarto dela.
- Ela precisa de supervisão, alguém que possa ficar a monitorando.
- Esse não é a função do Capitão? – debochou Tony, mesmo que concordasse em partes com Bruce e sua vontade de deixar sua filha mais um tempo de molho.
- Ei!
jogou a cabeça para trás assim que Steve também entrou na discussão, sem conseguir mais se manter indiferente.
- Gente, pelo amor de Deus, eu só zoei o ombro – resmungou ela, erguendo minimamente o braço que descansava em uma tipoia – Daqui a pouco vão querer me colocar numa cadeira de rodas... Podem me colocar numa cadeira de rodas? Adoro fazer corrida.
- Você também não ajuda, não é? – comentou Steve, aproveitado que estava sentado ao seu lado na maca para a puxar para mais perto, deixando que ela se apoiasse contra seu corpo.
- Eles não estão nem me ouvindo, quer ver? – a mulher riu de leve antes de ficar mortalmente séria, se virando para o trio que continuava a discutir – Gente, eu estou grávida. Do Baker – eles sequer se viraram – Viu?
- Não gostei da brincadeira – disse o soldado em seguida, as sobrancelhas unidas enquanto fuzilava a mulher com os olhos. Por dois segundos havia esquecido como se respirava, apenas para depois ficar levemente irritado.
- Quer se deitar um pouco? – ofereceu, indo um pouco mais para o lado para criar espaço para o homem – Podemos chamar o médico de volta, se quiser.
- Por que de todas as pessoas você tinha que falar logo do Baker? – reclamou ele, seu tom de voz e a forma como gesticulava deixando claro que desaprovara a escolha – Eu estou bem do seu lado.
- Porque seria a coisa mais lógica, certo? Eu e você, não o Baker – corrigiu ela rápido, agora ela desconfortável com o rumo da conversa. Cedo demais. Tipo umas três vidas cedo demais – Eu estava tentando atrair a atenção deles, e nem nós discutindo gravidez pelo último minuto conseguiu isso.
Ela estava certa, Steve tinha que admitir. Os três continuavam a discutir como se eles não estivessem ali, como se o tópico da conversa não fosse uma pessoa que estava a menos de dois metros deles.
- Esse é o pior episódio de Três É Demais da história – bufou , voltando a se apoiar contra o travesseiro na maca flexionada. Steve não tinha certeza se entendera a referência, mas deixou passar – Sério, tem algum formulário online tipo “complete aqui e tenha licença para agir como pai de Stark”? Porque não é possível.
- Também não é assim...
- Lógico que é! – insistiu ela, ainda emburrada – Se juntar o Barnes aqui aí que acaba minha vida.
- Você não é o pai dela! – Tony lembrava, apontando do arqueiro para a mulher – Eu sei o que é melhor para a minha filha.
- E eu fui o treinador dela por anos, sei melhor do que ninguém como agir nessas situações.
- E eu sou um doutor, acho que devia ser levado em consideração aqui.
- Você não é esse tipo de doutor – todos, com exceção do próprio Bruce, disseram em sincronia, fazendo com que o cientista revirasse os olhos.
- Mas sou eu que faço o acompanhamento médico da , sei como o organismo dela funciona melhor do que vocês.
Um silêncio estranho se seguiu depois dessa constatação, sendo um argumento que não havia sido utilizado até aquele dia, e pior que fazia bastante sentido.
- Temos um vencedor, então? – arriscou , ciente de que não era a manobra mais inteligente que poderia fazer.
- Você está concordando com o Banner?! – seu pai praticamente berrara, logo sendo repreendido pela equipe médica que passava pelo corredor.
- Depois de tudo que eu passei por você nesses anos te treinando?!
- Eu sou seu pai, !
- O que você fez? – ofegou Steve, escondendo as mãos no rosto – Você tinha que apoiar o Barton, não o Banner. B errado, ...
- Espera, você quer que eu continue aqui, não é? – perguntou ela a Bruce, que assentiu confuso – Não temos um vencedor coisa nenhuma! Clint, me tira daqui.
- Ah, agora você quer concordar comigo?
- Eu concordo com quem quer me tirar daqui!
- Agora quero que fique aqui também, para pensar na ingratidão que está fazendo.
- Quer saber? Perdi a paciência! – grunhiu a mulher, e todos os homens pararam, receosos – Quero a Romanoff aqui agora! Podem agir como pais o quanto quiserem, mas quero ver contrariarem a mãe.
- Ela vai te colocar de castigo só por ter chamado ela de mãe – comentou Steve baixo, quase rindo quando deu de ombros.
- Sendo no nosso quarto, por mim está ótimo – garantiu ela, apenas para ficar um pouco mais pensativa em seguida – Mentira, chama a Pepper também, só por garantia.

Capítulo 8 - FAMÍLIA STARK/PETER PARKER - REALIDADE 911

(agora tem mesmo detalhes de Homem-Aranha: De volta ao lar)


JULHO DE 2017
até chegou a estranhar quando Sexta-Feira avisou que seu pai pedia sua presença no laboratório, já que fazia bastante tempo que não trabalhavam diretamente – pelo menos em pessoa. Com a mudança definitiva de tudo para o complexo e a venda da Torre, Tony estava bastante ocupado, e chegava a ser difícil eles se verem de fato. Eram poucas vezes que ele aparecia para se juntar à equipe agora que morava na mansão, mas, na maior parte das vezes, também estava ocupada ou até mesmo fora em missão. A agenda de ambos dificilmente batia, e, por mais bizarro que aquela ideia lhe parecesse, estava com saudades do pai.
Talvez fosse por isso que, pela primeira vez em muito tempo, ela realmente estava animada para trabalhar em algo, seja lá o que fosse.
Animação essa que facilmente se transformou em confusão ao entrar no laboratório que Sexta-Feira indicara.
- Mas que p...? – ela quase gritou, sem conseguir ver logo de cara uma lógica para o estado daquele lugar. Vários materiais estavam esparrados pelo chão, mesas tombadas, e um material branco que ela apenas identificou como teia quando localizou uma pessoa ao fundo com o uniforme em azul e vermelho. Sua tarefa de identificar a pessoa foi facilitada por ela não estar com a máscara, embora isso não tenha a deixado menos confusa – Isso é um traje para aquele Pirralho-Aranha? Petr, o que você está fazendo nisso?
- Sabe, ... – a voz de Tony ecoou pelo ambiente, a mulher demorando para localizá-lo atrás de uma mesa ao longe, onde parecia estar seguro de Petr e o lançador teia – Eu tive bastante ideias para o traje do Parker, só que uma luz na minha mente se acendeu e ficou com receio de ter exagerado em algumas coisas, então achei melhor testar para garantir que é seguro para crianças.
- Alerta de spoiler: não é – riu Petr, usando um fio de teia para ficar pendurado de cabeça para baixo – Não sei onde ele estava com a cabeça quando colocou um comando chamado “morte súbita”.
- O nome pareceu adequado – o engenheiro tentou se defender, sem paciência para ter aquela conversa pela terceira vez no dia.
- O comando não era adequado, Tony.
- Ah, tanto faz. , quer ajudar? – pediu o mais velho dos presentes, dispensando o filho adotado com um gesto de mão – Preciso que faça algumas alterações na inteligência artificial do traje, colocar algumas travas para o garoto não se matar sem querer... Colocar um par de rodinhas em tudo, só por precaução. Pode fazer isso por mim?
abriu seu sorriso mais falso e profissional.
- Na verdade, Steve tirou folga hoje e me deixou responsável pelo treino da equipe – mentiu a mulher, tendo o tato de ainda fazer uma careta decepcionada para convencer o pai – Estou bem ocupada.
- Oh. Tudo bem então – Tony se apressou em dizer, a decepção até que bem disfarçada em sua voz – Faço isso quando voltar, sem problemas
- Eu posso tentar – se ofereceu Petr, rindo sozinho pela forma que seu corpo pendurado girava com facilidade. Ele ficara tempo demais de ponta cabeça, talvez estivesse começando a lhe fazer mal – Visão pode também ajudar. Ou eu posso assistir o Vis fazer tudo sozinho.
- Não precisa, eu ou a termina isso depois, quando tiver um tempo – Tony encerrou o assunto, mas agradeceu ao homem pela disposição antes de pegar seu celular sobre uma das mesas mais ao longe e se direcionar para uma das saídas – Vejo vocês mais tarde.
- Onde você vai? – questionou – Pensei que a mudança já tivesse terminado.
- Aparentemente, Peter vacilou e May descobriu o que era o “estágio na Stark”, precisa de reforços para amenizar a situação.
A mulher apenas produziu um som de compreensão, e voltou a ficar em silêncio, apenas murmurando uma despedida rápida quando Tony deixou a dupla de irmãos sozinhos no laboratório, Petr aos poucos tomando coragem para limpar a bagunça que fizera.
- Você está legal? – perguntou ele depois de um tempo, notando que a irmã continuava na mesma posição, o finco em sua testa adiantando que ela estava longe – Não lembro de ter treino marcado para hoje, preciso me livrar do traje ou posso continuar tentando descobrir as formas inusitadas que Tony pensou para esse garoto se matar?
- Dispensado só hoje, não se acostuma – avisou ela, e Petr não ousou discordar. Não demorou muito mais para que a mulher também deixasse a sala, com a desculpa de que tinha ainda muita coisa para fazer, agradecendo quando o irmão pediu que lhe avisasse caso precisasse de auxílio em alguma tarefa. Apenas quando constatou que ela estava bem longe que ele decidiu tirar aquela história a limpo.
- Ei, Sexta-Feira? Agenda do dia da equipe, por favor.
- Dia livre, senhor – responder a inteligência artificial – Capt. Rogers decretou dia de folga em vista dos resultados obtidos nos últimos treinos.
- Então minha irmã estava mentindo?
- Estava, senhor.
- Consegue bolar alguma suposição sobre o caso? – Petr estava se esforçando, mas não conseguia encontrar a motivação da mulher para tal comportamento, ainda mais quando as coisas estavam tão calmas e harmoniosas em todos os setores possível.
- A parece apresentar uma relutância sempre que o Sr. Parker é citado.
Petr riu estupidamente alto, a possibilidade lhe parecendo tão idiota que só podia ser verdade.
- Ah, isso vai ser divertido...

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Steve tomou fôlego mais uma vez antes de voltar a ficar submerso, determinado a quebrar seu próprio recorde pessoal nos 1 km livre, mas acabou diminuindo a velocidade quando notou se aproximar com passos lentos, se direcionando também para a piscina.
- Ei, o que você está fazendo aqui? – perguntou o soldado, assim que alcançou a outra borda, esperando se aproximar mais para não terem que conversar gritando – Pensei que Tony tinha te chamado para trabalhar em alguma coisa.
- Nada importante – desconversou a mulher enquanto se sentava um pouco mais afastada, trabalhando nos cadarços de seu tênis para poder lhe fazer companhia na atividade – Só ajeitar alguma coisa no tal novo traje do pirralho.
- Parker? Outro traje? – Steve apenas riu quando ela concordou. Aparentemente, Tony estava dividindo seu tempo livre não apenas para fazer sabe-se lá qual número de Mark ele tinha alcançado também os mais variados uniformes para o jovem herói. Depois de tantos anos de convivência, era naquele momento que se esperava alguma brincadeira maldosa da parte da mulher, e a forma como seu rosto estava sério enquanto se livrava de sua camiseta e calça não era um bom sinal – ? O que foi?
- Nada.
- Rogers... – começou o homem, a puxando pelas pernas para que entrasse na piscina com ele, seu sorriso deixando claro que pretendia provocá-la – Você está com ciúmes do garoto?
- Perdão? – tentou desconversar, mas seu tom de voz lhe entregava – Entrou água no seu ouvido?
- Por que você não gosta do menino? Ele é um bom garoto.
A ex-espiã respirou fundo, ficando submersa por alguns segundos antes de responder, um tanto impaciente.
- Não tenho nada contra ele, só que ele é uma criança e Tony quer dar outro traje para ele?
- Qual é, Peter é bastante responsável.
- Mas continua uma criança. E se ele abre a boca para se mostrar e algo dá errado? E se alguém se machucar? – retrucou ela – Ele não deveria ter esse tipo de poder em mãos, e pelo visto meu pai só não pensa desse jeito como ainda quer aumentar isso tudo.
- Você está com ciúmes.
- Não estou – disse ela mais firme, suas mãos parando sobre os ombros largos do soldado – Para com isso ou vou te afogar.
- , vem cá... – Steve amoleceu mais a voz, seus braços se fechando com agilidade ao redor da mulher, que se encolheu ao sentir lábios frios contra o ponto exato de seu pescoço que fazia com que ela arrepiasse – Você está tendo que dividir a atenção do Tony com um monte de gente, e sei que você não gosta disso nem um pouco. Petr já é adulto e não faz tanta diferença, Visão até ainda é uma criança, só que o detalhe androide muda as coisas. E pelo visto o Parker é um treino para se acostumar com um irmão mais novo.
- Eu n... O que você quer dizer com treino? – a mulher se afastou de imediato, seus olhos arregalados nada satisfeitos ao ver Steve se enrolar para se explicar – Sexta-Feira, quero falar com a Pepper agora!
- Ei, calma. Cenário hipotético, juro! – disse ele, depois de rir um pouco com a reação da esposa. Quase trinta anos e continuava sendo a filha mimada de sempre – Dê uma chance ao garoto, Tony vai gostar disso. Ele não teve a chance de ser um adulto responsável com você, é importante para ele, principalmente se você embarcar nessa junto.
- Embarcações me deixam enjoada – resmungou ela, voltando a se apoiar nos ombros do marido para um beijo rápido antes de nadar em direção às escadas. Era melhor voltar para casa e se ocupar com qualquer outro assunto que não envolvesse Peter Parker.

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Desde o casamento no ano anterior que e Steve não moravam mais exclusivamente no complexo. O quarto que dividiam ainda pertencia a ela, mas, depois de todos concordarem que o casal merecia o mínimo de normalidade que a profissão que levavam podia proporcionar, uma casa mais afastada dos prédios dos Vingadores foi construída, mas mesmo assim ainda era muito maior o tempo que eles passavam na construção que a equipe dividia.
Jantar era um dos momentos que normalmente eles passam em conjunto, e raramente os Rogers convidavam a equipe para qualquer coisa na casa que dividiam, lição muito bem aprendida depois de horas arrumando a bagunça que fizeram um pouco depois da mudança estar completa. Steve tinha passado a tarde aproveitando das opções de distração do complexo, por isso a mulher tivera que fazer todo o percurso de casa até a cozinha da equipe sozinha, não chegando de imediato em seu destino por ter sido parada próxima ao cômodo por uma mulher alta de longos cabelos escuros, que abriu um largo sorriso ao reconhecê-la.
- Você é a ! – disse a mulher animada, estendendo a mão que a heroína logo aceitou – Sou May, a t...
- Tia do pirralho, eu sei – completou ela, devolvendo o sorriso a May com bem menos entusiasmo – O que está fazendo aqui?
- Seu pai conseguiu me convencer em deixar ele uma temporada aqui, já que ele é... Ainda não me acostumei com essa história – a voz de May se tornou um pouco mais profunda, seus olhos levemente arregalados lhe dando uma imagem um tanto psicótica, ainda mais com o riso nervoso que soltava – Toda vez que pensou nisso dá vontade de torcer o pescoço dele.
- Entendo o sentimento, pode apostar...
Acabou que o jantar fora um pouco alterado de última hora, em razão das visitas que estavam recebendo. A maior parte da equipe estava na sala de convivência, Tony mais afastado do grupo com Peter Parker ao seu lado, um sorriso no rosto que só sabia transmitir desespero e desconforto.
- Vingadores, esse é nossa nova adição à equipe – anunciou o membro fundador, assim que as duas últimas pessoas que esperava chegaram à sala – Com algumas restrições que ainda vão ser discutidas, May, sem estresse – a mulher assentiu mesmo desconfiada, e Tony apontou para o trio que inconscientemente sempre paravam um do lado do outro – Parker, aqueles três são os membros sêniores responsáveis pelo treino de todos: Romanoff, e R1 e R2. Eles vão cuidar da sua adaptação.
Peter chegou a sorrir mais aliviado ao cumprimentar Steve mesmo à distância, o Capitão parecendo muito mais amigável e acolhedor do que as mulheres que o cercavam. Sua vontade era correr em direção ao homem e pedir um abraço para o proteger da forma estranha que o olhava.
- Alguma de vocês quer pegar ele primeiro ou posso fazer as honras? – brincou Steve, com o quadril empurrando de leve cada uma das mulheres ao seu lado.
- Vocês vão primeiro – foi o que respondeu, já dando as costas ao grupo, pronta para refazer o caminho de volta para casa – Se ele não conseguirem quebrar o garoto, eu termino.
- não quis dizer realmente quebrar, May, todos amigáveis aqui – Tony se apressou em dizer ao notar a expressão assustada da guardiã do novo vingador, algo que ele logo deixou de lado ao perceber que sua filha realmente estava partindo, sua voz tomando uma leve urgência por ainda ter algumas coisas que pretendia tratar com ela – , está ocupada agora?! Realmente queria sua ajuda para terminar o traj...
- Na verdade, Tony, ela está me ajudando a fazer o planejamento de treinos – Steve não estava nada contente em ter que mentir, mas achou necessário sair em suporte à esposa. Claro que ele seria o primeiro a não deixar a mulher em paz até aquela situação ser resolvida, mas também não podia atirá-la na fogueira, obrigá-la a ter uma conversa para qual ainda não estava preparada – Já era muito trabalho para fazer, e agora temos que adicionar o Parker. Precisa mesmo dela? Porque fica difícil para mim fazer sem ajuda.
- Não, sem problemas. Eu dou um jeito – garantiu Tony, a falsa firmeza em sua voz não convencendo nem a ele mesmo – Petr e Vis podem ajudar também.
- Eu posso ajudar...? – Peter tentou se oferecer, apenas para ser cortado antes de terminar.
- Melhor não, não quero você entendendo como o sistema funciona logo de cara – o garoto queria, mas achou melhor não contrariar seu tutor quando tinha acabado de chegar, ainda mais com sua tia presente. Tony também não estava lhe dando tanta atenção, mais preocupado em estudar a postura do líder da equipe, que já começava a se despedir de todos para voltar para casa – Steve, podemos conversar mais tarde?

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A rotina da equipe nos dias seguintes seguiu sem muitas alterações, mesmo com a presença difícil de ignorar de Parker. O pior era que o garoto praticamente se mantinha calado quando a herdeira Stark estava nas proximidades, mas ele tinha um espírito inquieto, e, como já estava de marcação com ele, até a forma barulhenta que ele respirava incomodava sua audição apurada. Steve se mantinha o mais neutro que sua posição permitia. Até atendera o pedido de sua mulher de não envolver seu pai naquilo, mas cometera o erro bobo de não especificar que nenhum de seus pais era o que ela queria dizer, o que acabara resultando em Bucky hora sim hora não tocando naquele assunto, e aquilo definitivamente não melhorava seu humor. Sua teimosia era nata: se depois de pegar birra alguém tentava lhe convencer do contrário, aí que piorava.
Por isso agora se controlava para não socar Bucky bem nos dentes bem alinhados, já que agora atrapalhava seu café-da-tarde com aquele assunto que ela não suportava mais.
E o assunto chegou um pouco depois, para piorar ainda mais o seu humor.
- Hm, Sr.ª Rogers? – disse Peter com receio, sem saber se devia entrar na cozinha de vez ou se a dupla preferia que ele ficasse por ali mesmo. Céus, eles eram intimidadores – Sexta-Feira disse q...
bufou alto, revirando os olhos enquanto se levantava para encher mais uma vez sua caneca com café quente.
- Se você vai morar aqui, é melhor esquecer esse “senhora” antes que me irrite mais.
- ? Stark? Rogers? – o garoto passou a arriscar, a careta apreensiva tomando seu rosto quando lhe ocorreu um branco – Esqueci seus outros nomes, desculpa.
- Ele não considerou o Barnes, estou ofendido.
- Que?
- está bom, o que você quer? – perguntou a mulher de uma vez. Se Bucky começasse a contar toda a história da família, ela iria pedir moradia para quem quer que tivesse comprado a Torre dos Vingadores. Peter não deixou de notar a hostilidade na voz da sua superiora, erguendo o traje mal dobrado em suas mãos para ilustrar o motivo de estar ali.
- O traje está dando um bug e o Sr. Stark não está aqui, e ele disse que você era a única que sabia mexer nesse sistema.
- Pete e Visão também sabem, peça ajuda a eles.
- O sistema operacional que compõe o traje do Sr. Parker é o mesmo que você projetou para uma das armaduras do chefe, Av¬ – Sexta-Feira foi mais rápida que o garoto, além de ter passado a informação com muito mais clareza – Nem o chefe sabe mexer nele completamente. É mais aconselhável que a manutenção seja feita por você.
- Звучит как ловушка – me parece armadilha, comentou para Bucky, em um idioma que Peter acreditou ser russo, mesmo sem nenhum conhecimento básico sobre a língua.
- Só porque você quer, amor – retrucou o soldado rindo, beijando o rosto da filha depois de se levantar e seguir para a saída da cozinha – Vou procurar outra coisa para fazer, já que pelo visto você vai estar bem ocupada. Garoto-aranha.
- Sr. Barnes.
O sargento parou ao lado da figura magrela do garoto em comparação ao seu corpo robusto, tentando que reunir muita força de vontade para não rir pela forma que Peter parecia amedrontado apenas pela proximidade entre eles.
- “Bucky” está ok.
- B-beleza então... – Peter tentou soar mais descolado, e percebeu que falhara tanto pelo olhar curioso que o soldado lhe lançara como pela forma decepcionada que o olhava – Ele é sempre tão assustador?
- Ele normalmente não usa a cara de Soldado Invernal com muita frequência, mais quando alguém esquece que eu também sou filha dele – respondeu ela, rumando também para fora da cozinha com sua caneca cheia em mãos – Me segue.
- Você o que?!
se deu o trabalho de explicar a história em seus mínimos detalhes, se limitou a dizer que seu pai biológico era na verdade o antigo Soldado Invernal, que ela fora criada pelos Stark por medida de segurança. Claro que Peter até queria tentar conseguir mais informações da mulher, mas até agora não sentia muita aprovação a seu respeito vindo dela, diferente do restante da equipe. Até mesmo a Viúva-Negra não estava sendo tão indiferente a ele, o garoto até presenciara a ex-espiã russa rir abertamente quando Sam Wilson fez alguma piada inapropriada sobre aranhas, o que para o jovem herói já era uma conquista imensa. Só que de ele não sentia nem um pingo de aceitação em relação a ele ali, pelo contrário.
- Hm... ? – arriscou ele depois de um tempo, quando já estavam acomodados em um dos laboratórios que Peter não tinha permissão de entrar sem companhia e autorização, provavelmente por ser uma das salas reservadas à mulher. A heroína por sua vez trabalhava em seu traje com o auxílio de Sexta-Feira, um plug conectando o sistema ao seu computador para conseguir encontrar a alteração malsucedida que seu pai fizera que estava impedindo o bom funcionamento do traje – Você não... n-não gosta de mim, não é?
Pega de surpresa pela pergunta – mesmo que não tivesse deixado transparecer –, ergueu os olhos de seu trabalho para o garoto que sentara a uma distância absurda de onde ela estava, em uma cadeira perto da entrada do laboratório. Mesmo se ignorasse aquilo, o herói mascarado parecia menor sentado da forma que estava, os ombros encolhidos e as mãos embaixo das coxas. Se não analisasse direito a situação, dava até para dizer que ele estava com medo.
- Não é algo contra você como pessoa – o motivo de estar sendo sincera com o garoto não sabia, mas também não quis focar nisso, voltando a se concentrar em seu trabalho depois como se nada tivesse acontecido.
- Estou aliviado...? – devolveu Peter, algo diferente em sua voz que deixou a mulher intrigada. Aquilo era sarcasmo? Ele realmente queria entrar naquele jogo logo com ela?
Quando voltou a olhar para o garoto, ele parecia alguns anos mais velho. A determinação em seu rosto começando a tomar o lugar de toda aquela hesitação. Tudo bem, vamos ver até onde ele vai. deixou a pinça de metal que usava ao lado de seu notebook, suas mãos descansando sobre suas pernas na posição mais correta que seu corpo conseguia produzir.
- Você é só uma criança – disse ela, com uma calma e clareza que não deixava espaço para dúvidas de sua opinião – Não deveria estar aqui.
- Você não acha que sou capaz.
- Você por acaso tem problema de audição? – ela riu sarcástica, quase que satisfeita pela forma que os olhos de Peter se estreitaram. Vá em frente, mostre suas garras. era muito boa com tesoura, e aquilo era tudo que ela queria fazer – Não duvido de suas capacidades, mas você é jovem demais para estar envolvido nisso tudo.
- Você também começou bem jovem – lembrou o garoto, o ar convencido em seu rosto se igualando ao de sua superiora – Quase tão jovem quanto eu.
- Eu comecei a ser treinada com quase dezoito, e era totalmente diferente. Eu não saia por aí impedindo crimes no meio da rua, passei por treinamento pesado, tinha supervisão – contou ela, quase que ofendida pela comparação malfeita. Sua vontade era quase ligar para Clint e dizer que um heroizinho que mal saíra das fraldas estava comparando o treinamento a qual ele dedicara tanto tempo e esforços com ficar se balançando entre os prédios da cidade – Levou muito tempo para eu ser colocada em ação de verdade, anos. Você não tem preparo nem idade para isso.
- Você está duvidando do que eu sou capaz.
- Meu Deus, como você é teimoso! – Peter se assustou pela repentina mudança na postura da mulher, que se tornou mais explosiva – Por quê? Por que você quer tanto fazer parte disso?
- Pelo mesmo motivo que você, eu acho – respondeu ele, visivelmente confuso. Não tinha conseguindo acompanhar o pensamento da mulher, o motivo de ter mudado de abordagem e de tópico. O que era aquilo? Um teste? – Salvar as pessoas, mantê-las seguras.
- E você sabe que nem sempre funciona assim, certo? – continuou ela, abandonando seu posto em frente à sua mesa e se adiantando para o garoto com passos lentos e pesados – Duas semanas atrás nós tivemos uma missão de resgate. Meu perímetro era o com mais vítimas. Eu não salvei nem metade delas, e eu sabia desde o começo que isso ia acontecer, tive que escolher quem iria viver ou não. Você sabe o que é isso? O peso dessa responsabilidade? Não é algo que deve ser imposto a ninguém, muito menos a uma criança.
assistiu o jovem herói engolir em seco e não conseguir sustentar o intenso contato visual por muito tipo. Aquele assunto era pesado, e ela sabia muito bem disso, mas não dava para ficar sentada e deixar um garoto entrar naquilo sem saber o que lhe esperava. A mídia, embora as vezes não ficassem muito do lado deles, gostava bastante de fantasiar o que eles faziam, exaltando suas boas ações. Só que ninguém via como eles ficavam depois de uma batalha, as intermináveis sessões de terapia das quais eles nunca eram dispensados, já que os traumas não cessavam. Aquele lado mais sombrio não estampava as capas de revistas, nem apareciam em primeiras páginas de jornais. O transtorno de ansiedade do Homem de Ferro, o estresse pós-traumático do Capitão América... A lista ia longe, mas ninguém tocava naqueles assuntos publicamente, ninguém se importava. Agora como ela podia ficar sentada e assistir um garoto que ainda cheirava a leite passar por aquilo tudo às cegas?
- Conseguir salvar alguém é melhor do que não salvar ninguém – disse Peter por fim, depois de um longo período em silêncio, mas sem ainda erguer seus olhos para mulher, sendo difícil até encarar seus pés quando precisava tocar naquele assunto – Se você pode fazer algo e não faz, a responsabilidade também é sua.
- É bonito de se dizer, confesso, mas você consegue viver com isso, Parker? – respondeu aquela colocação com tanta naturalidade que Peter suspeitou que ela já tivera aquela discussão antes, e, de certa forma, ele não estava errado. Aquele discurso lhe era familiar, e ela chegou a suspeitar se Steve andara conversando com ele sobre isso – Já passou por isso? Eu já, é um saco. Você é só uma criança, ninguém tem o direito de te cobrar alguma coisa. É uma responsabilidade grande demais para carregar, Peter.
- Mas eu vou, fazendo parte dos Vingadores ou não.
- Como você é teimoso! – ela voltou a grunhir, as mãos passando nervosamente pelo rosto ao perceber que parecia que não tinha nada que podia fazer o garoto mudar de ideia.
- Me lembra você, – comentou Tony, aproveitando a brecha para se fazer ser ouvido. Ambos estavam tão entretidos na discussão que não notaram ele parado ao lado da porta – Embora os problemas de comportamento sejam de outra ordem. Você foi uma adolescente bem mais rebelde.
- Não achei graça.
- Sei que não – o homem sorriu, sinalizando com a cabeça para fora – Peter, Steve está te procurando. Ele não gosta de atrasos, fica esperto.
- Ai droga, tinha esquecido – ofegou ele, quase caindo da cadeira enquanto se levantava agitado – , e-eu posso deixar o traje aqui?
- Ainda não terminei e não vou deixar você mexer nisso, já disse.
Peter assentiu e disse que voltaria mais tarde, isso se sobrevivesse ao treino que o Capitão havia preparado para o dia. Tony assistiu a filha balançar a cabeça em descrença antes de voltar para a mesa onde trabalhava, sem se preocupar em perguntar se tinha mais alguma razão para ele estar ali.
- Pensei que você tinha dito que estava ocupada, mas aceitou ajudar o garoto – comentou ele depois de um tempo assistindo a mulher trabalhar, quase que ignorando sua presença – Você não parece ocupada.
- Fiquei com medo dele chorar se dissesse não.
- Por que você está me evitando, ? – soltou ele de repente, a forma surpresa que a filha erguera a cabeça desnorteada não lhe parecendo nada convincente, nem ela devolver um “que?” confuso – Você. Está me evitando, faz dias.
- Não estou, não!
- Toda vez que eu te chamo para fazer alguma coisa, você me dispensa – quis bater a cabeça na mesa ao ouvir o pai dizer aquilo, se sentindo ainda mais idiota do que depois da conversa com Steve e com Bucky. Ela era uma adulta, uma doutora respeitada, uma heroína de peso, e estava agindo como uma criança. Se limites realmente existiam, ela deveria ter passado de alguns muitos – Até com Steve conversei, e ele disse que era melhor eu fazer essa pergunta diretamente contigo, o que confirma minhas suspeitas.
- Eu estava dispensando ajudar a trazer esse garoto ainda mais para essa zona, não você – confessou ela, sequer tentando impedir o leve calor que tomara seu rosto. De acordo com a sua última análise da situação, ela não parecia ter direito a trapaças para manter a imagem diferente. Se ia passar vergonha, que fosse o pacote completo – Você ouviu minha opinião sobre isso. Steve acha que eu estou só com ciúmes, mas e...
- Ciúmes do Parker? – Tony a interrompeu, sem saber como a conversa chegara naquele ponto – Por quê?
- Talvez eu esteja com um pouco, vai – a mulher deu o braço a torcer, erroneamente interpretando o olhar confuso de Tony como inconformado – É ridículo, eu sei, mas eu não tivesse toda essa atenção que ele está recebendo. Eu que sou sua filha, e não tive nem metade do suporte e tudo mais.
- Droga, ... – resmungou Tony, apressando seus passos para parar ao lado da filha o mais rápido possível, a envolvendo em seus braços em seguida – Eu realmente queria poder compensar por isso.
- Eu sei que queria, e não tem problema – sussurrou ela, sorrindo com o beijo que ganhara na testa – Eu que estou sendo idiota.
- Parte da minha atenção sempre foi dedicada a você, eu só era bem pior para demonstrar isso. E acho que continuo. Você não faz ideia de quantas ligações por dia esse garoto fez para o Happy nos últimos meses, sem contar as mensagens – o riso na voz de Tony foi sumindo aos poucos, uma constatação antiga lhe voltando à mente – Acho que acabei me fazendo ausente com ele também. Bem longe da figura paterna excelente, não é?
- Você não precisa ser um pai excepcional e sabe disso – lembrou , ambas as mãos passeando pelos cabelos do homem que a cada dia ganhava mais alguns fios prateados – Posso gritar com você um pouco, mas ainda te amo.
Tony sorriu comovido, tomando as mãos da filha.
- Nunca vou entender como você saiu tão incrível mesmo eu fazendo tanta besteira – confessou ele – Queria dizer que queria que seus filhos puxassem mais o Steve do que a gente, mas imagina uma criança tão teimosa e topetuda como ele? Vai ser um inferno de qualquer jeito.
- Okayyyy, pensei que tínhamos entrado em um acordo sobre não falar sobre isso – a mulher tentou cortar o assunto, principalmente quando Tony emendou que “Peter era um bom treino para lidar com adolescentes teimosos” e que ela deveria aproveitar – Me ajuda com o traje do pirralho.
- Eventualmente a gente vai ter que falar sobre isso, – o engenheiro insistiu, parando atrás da mulher que voltara a estudar os dados que apareciam em sua tela, apertando seus ombros com delicadeza – Eu não estou ficando mais jovens e meus netos vão ser super-soldados, não tenho energia para isso nem hoje, imagina se demorar mais.
- Eu vou te mandar para a fazenda com o Barton, pelo menos lá você tem apoio – planejara usar aqui como ameaça, mas notou logo de cara que o pai gostara da ideia – Acho que o babaca já deve ter tricotado sapatinhos para um exército todo.
- Bem, se fomos levar em consideração o super-esperma, n...
instantaneamente ergueu o braço, apontando para a porta, mortalmente séria.
- Sai do meu laboratório. Agora.

Continua...



Nota da autora: QUE MONTANHA RUSSA DE EMOÇÕES, QQ EU FIZ

Nota da beta: "Vem ser minha beta, Bruna, vai ser legal" ela disse... E OLHA AI ME OBRIGANDO A AGUENTAR ESSE PIRRALHO AI... Só te perdoo porque SENHORA ROGERS AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

Página da Autora: (Clique aqui para mais informações e saber as demais fanfics da autora.)

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