Última atualização: 16/11/2017

Capítulo 1

- Boa tarde, meninos! - Disse .

A sala da casa dos estava um pouco barulhenta naquele dia. Gabriel, o filho mais velho, chamara seus três melhores amigos para passar a tarde jogando vídeo game e conversando, afinal, a única coisa que queriam era aproveitar o que lhe restavam das férias. Então , a filha mais nova, apareceu. A garota tinha quinze anos, apenas dois anos de diferença entre os garotos, mas não era nada que os impedissem de a tratarem como uma criança. E ela detestava isso. Ah, como detestava.
A garota deu um meio sorriso e, na tentativa de evitar alguma pergunta, foi rapidamente em direção à porta. Mas quando já estava com a mão na maçaneta, ouviu a voz do irmão em um tom autoritário. “Autoridade que ele não tinha”, ela pensou.

- Pra onde você vai?

Ela virou-se e, deixando o olhar pousar em , um dos amigos do irmão, disse:

- Vou encontrar com Lua - falou referindo-se à melhor amiga e deu um sorriso. , involuntariamente, abriu um sorriso cúmplice, que, ao que parecia, foi despercebido pelos demais. Os garotos voltaram a conversar como se nada os tivesse interrompido, mas em poucos minutos, disse que precisava ir.

O garoto saiu e, ao invés de ir para casa, pegou o caminho contrário indo até o fim da rua, onde tinha um beco pouco iluminado.

- Achei que eu ia precisar voltar pra te chamar - ele sorriu ouvindo a voz de . A iluminação fazia com que eles só conseguissem se vê de relance. Mas isso não era ruim. Tornava aquilo mais perigoso e divertido.
- Acho que eu não sou tão idiota assim - ele colocou as mãos em sua cintura enquanto ela entrelaçava os braços em seu pescoço, selando seus lábios e deixando o desejo os sucumbir. Desejo. Era só isso que sentiam. Nada de amor ou paixão. Somente o desejo. Nem poderia ser diferente. Se Gabriel sonhasse que o amigo estava com a sua pequena e doce irmãzinha, estava morto. Fora que ele tinha suas certezas de que ela era apaixonada por outro.

Tinha medo de que sua atitude acabasse com a amizade que tinha com Gabriel. Tinha medo de que aquilo tudo pudesse não acabar do jeito que gostariam. Mas era só juntar sua boca na dela, que todos os seus pensamentos desapareciam.



Capítulo 2

Quando saíra de casa o relógio marcava um pouco mais de duas da tarde, quando estava de volta, já passavam das seis. Sabia que naquele momento a mãe ainda deveria estar no trabalho e o irmão estaria no quarto ou teria saído. Com medo de que a primeira opção fosse a verdadeira, entrou com todo o cuidado na casa, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Não queria ter que responder um interrogatório de Gabriel por ter passado tanto tempo fora de casa. Às vezes parecia que ele esquecera que ela não tinha mais sete anos de idade.
Entrou no quarto e se jogou na cama. A lembrança de como aquilo tudo começara aflorou sua mente. Fazia um pouco mais de seis meses desde que tinham se beijado pela primeira vez...

A garota se olhou pela terceira vez no espelho. Procurava algum defeito em seu cabelo, seu vestido... Em tudo. Mas tudo parecia estar exatamente em seu lugar. Não era de seu feitio passar tanto tempo se arrumando, muito menos se admirando em frente ao espelho. Mas, não sabia exatamente o porquê, naquela noite, tudo precisava estar perfeito.
Era noite de Ano Novo. Tinha passado o dia inteiro ajudando a mãe com os preparativos para que fosse exatamente como tinham planejado. Infelizmente, teria que virar o ano sem a companhia de suas melhores amigas, como estava acostumada, mas os amigos de Gabriel viriam. Embora detestasse o modo como a tratavam, era melhor do que ficar na companhia das tias, tendo que responder as mesmas perguntas de sempre.
Olhou novamente o vestido azul e saiu do quarto, trombando com um só de toalha.

- Qual é o problema de vocês em se trocar dentro do banheiro? - Ela revirou os olhos. Já estava acostumada a ver os amigos do irmão sem camisa passeando pela casa, mas sua paciência para aquilo, naquele momento, era nula.
- Calma aí, esquentadinha - ele disse rindo e passou os olhos por ela. - E isso tudo é pro Rafael? Não sabia que ele iria dar o ar da graça esta noite...

bufou e passou pelo garoto, empurrando-o. Odiava quando faziam piadinhas sobre Rafael, garoto pelo qual ela era a fim desde que se entendia por gente. Nunca tinha contado para os garotos, jamais teria coragem de fazer isso. Mas foram só eles a virem ao lado de Rafael que eles sacaram tudo. Afinal, só sendo muito idiota para não notar.
Desceu as escadas até a sala de estar, que felizmente ainda estava vazia, pegou o celular que tinha deixado no sofá e mandou uma mensagem para Luana.

: "Feliz Ano Novo, Lua!"

Não demorou muito até a amiga responder.

Lua: "Feliz Ano Novo, ! Como eu queria ter ido pra sua casa esse ano... Mas como estão as coisas por aí? E os meninos?"

riu com a resposta. Sabia muito bem aonde a amiga queria chegar...

: "Você quer saber dos meninos ou só de Victor? Ele ainda ta se arrumando, mas assim que der, eu mando notícias dele."

Lua: "Hahaha. Muito engraçadinha. Mas agora eu tenho que ir, . Vou tentar te ligar de meia-noite, mas caso eu não consiga... Feliz Ano Novo!"

estava prestes a responder quando ouviu uma voz atrás dela.

- Que coisa mais fofa! - Era abaixado atrás do sofá. Ela torcia para que não, mas sabia que de onde ele estava dava pra ver toda a conversa.
- Ai, que susto, garoto! - Ela viu o garoto se levantar e pular o sofá, sentando do lado dela. - Pronto! Agora eu não tenho nem mais privacidade na minha própria casa.
- Pronto! Agora ela se irritou - ele disse imitando ela e ela bufou. - Sabia que você fica linda irritada?

Ela lhe deu uma tapa, mas com um sorriso no rosto. Sabia que ele estava brincando. Quem estava realmente lindo era ele. Aquela camisa verde realçava seus olhos e aquela calça jeans parecia feita sobmedida pra ele...

- Mas... Luana e Victor? - Ele disse depois de um tempo, confirmando o que pensara. Ele tinha visto a conversa.
- Dê um “piu” sobre isso com os meninos e eu quebro a sua cara - ela disse com uma cara que deixou com medo.
- Pode deixar. Minha boca é um túmulo - ele disse levantando os braços para mostrar que era inocente. - Mas desde quando ela gosta dele? Nunca passou pela minha cabeça...
- Faz tanto tempo que nem lembro como era antes disso. Vocês é que são tão lentos e nunca notaram.

Então a campainha tocou e foi atender. As pessoas começaram a chegar e os outros meninos terminaram de se arrumar, fazendo com que e terminassem a conversa.
Ainda eram dez e meia quando a garota deixou sua mãe e seu irmão, que até aquele momento não tinha feito nada para ajudar, recebendo os convidados sozinhos e subiu para o quarto. Estava exausta. Nunca pensara que sorrir e falar “boa noite” fosse tão cansativo. Sem contar que estava cansada de conversar com seus parentes. Já tinha suas falas decoradas. “Como você tá grande!”, “Já arrumou muitos namorados?”, “Tá indo bem na escola?”.

- Hey, maninha! – Depois de um tempo, ela ouviu a voz de Gabriel e se sentou rapidamente, vendo o irmão entrar no quarto sendo seguidos por seus três seguidores fiéis. A garota sorriu. Pareciam aquelas patricinhas que sempre estão juntas desses filmes americanos. Gabriel se jogou na cama ao lado da irmã, Victor se sentou na cadeira da escrivaninha enquanto e Bernardo se sentaram na ponta da cama.

- Olá, quarteto fantástico! A que devo a honra dessa ilustre visita?
- Victor tava querendo saber se suas amigas não vão vir - Bernardo falou rápido para que o amigo não tivesse chance de impedi-lo, mas Victor pegou uma borracha na escrivaninha e atirou contra ele.
- Não, Victor. Lua foi pra casa da tia e a família de Isa foi passar o Ano Novo na casa de Jorge - ela disse com um sorriso amarelo. Jorge era o namorado de Isadora há quase um ano e também era muito amigo de . Mas como a mãe dela e a de Isa eram muito amigas, elas costumavam passar todos os Anos Novos, juntas...
- Mas eu tenho certeza que não foi só por isso que vocês vieram aqui... - ela os olhou, curiosa.
- Estávamos no tédio lá em baixo - Gabriel disse manhoso.
- Então vocês vieram ver se a criança podia tirar vocês do tédio - ela revirou os olhos ao ver os quatro afirmando com a cabeça freneticamente.
- Viemos saber quais são seus planos para o próximo ano - disse Gabriel deitando no colo da irmã e ela respondeu fazendo cafuné nele.
- Meus planos... Acho que não tenho planos. Só quero que seja melhor que este.
- Todo mundo quer isso - Bernardo disse. - Mas em que área da sua vida você quer que melhore? - ficou pensativa. Gostava da sua vida do jeito que era, não tinha nada que...
- Ela quer é que Rafael a convide para sair - se pronunciou pela primeira vez, fazendo os garotos rirem e recebendo um travesseiro na cara.
- Então você devia beijar alguém à meia-noite. Vai que atrai sorte. - Victor disse e involuntariamente olhou para .
- Você ta se oferecendo, Victor? - Gabriel disse em tom brincalhão, mas a sua expressão não parecia concordar com a sua voz. Todos sabiam que Gabriel era o irmão mais ciumento da face da terra. Nenhum menino que demonstrava sentir alguma coisa por sobrevivia pra contar história.
- Desculpa, zinha. Você é linda, mas não faz meu tipo.
- Vou tomar isso como um elogio - ela disse fazendo os garotos rirem. Eles continuaram conversando até que o relógio anunciou que já passavam das onze e meia e a senhora Sara, mãe de Gabriel e , foi chamá-los dizendo que eles não podiam romper o ano dentro do quarto.

☆☆☆

Faltava cerca de cinco minutos para primeiro dia do ano quando foi até a cozinha para beber alguma coisa. foi logo depois e encontrou a garota apoiada na pia com uma cara pensativa. Ele parou e ficou olhando pra ela. A conhecia desde que tinha sete anos e nunca percebera o quão bonita ela era. Devia ser uns dez centímetros mais baixa que ele e tinha os cabelos castanhos tão longos que fazia com que ela se parecesse mais baixinha ainda. Então ele balançou a cabeça tentando se livrar desses pensamentos. Afinal, ela era só a irmã mais nova de seu melhor amigo. Ela era só a garota que ele implicava por ela ter catorze anos e ele dezesseis. Ela era só...

- Alô? Terra chamando - a voz de interrompeu seus devaneios.
- Oi - ele disse andando até ficar ao lado dela.
- Tava longe... - ela riu.
- Você também estava quando eu cheguei aqui. Tava pensando no quê?
- Na vida... E na conversa que tivemos lá no quarto... O que Victor disse me intrigou um pouquinho - ela olhou pro nada e voltou com a cara pensativa.
- O quê? Que você não faz o tipo dele? Não era Luana que gostava de Victor? - Ela lhe deu um leve empurrão e eles riram.
- Não é isso. É que Isa ficou com um garoto no primeiro minuto desse ano e menos de um mês depois Jorge a chamou pra sair. Então eu fiquei pensando se não podia acontecer o mesmo comigo...
- DEZ! - Eles ouviram o pessoal gritando da sala. Em segundos eles estariam em 2014.
- É. Talvez ano que vem eu tenha mais sorte... - ela deu um meio sorriso.
- NOVE! OITO! SETE! - Os gritos continuaram e de repente abriu um largo sorriso.
- É. Talvez... - ela o ouviu e se virou pra ele, estranhando aquele sorriso.
- SEIS! CINCO!
- Em que você está pensando?
- QUATRO!
- Em nada - ele continuou olhando pra ela daquele jeito.
- TRÊS!
- ! - Ela quase gritou.
- DOIS!
- Nisso - ele disse e se aproximou dela.
- UM!

E, de repente, sentiu os lábios do garoto chocando-se contra os seus. Ele a pegou de surpresa. De início, ela ficou estática, sem saber o que fazer. Não que nunca tivesse beijado um garoto antes. Mas nunca esperava que , que era como um irmão pra ela, fizesse isso. Mas não demorou muito para que ela o correspondesse. O beijo deve ter durado uns dois minutos até se afastar aos pouquinhos, dar um meio sorriso e dizer, antes de voltar pra sala.

- Feliz Ano Novo, .



Capítulo 3

sentiu uma luz forte no rosto. A ventania fraca daquela manhã balançava a cortina fina do quarto fazendo o sol entrar livremente para interromper o sono da garota. Já tinha amanhecido. Se sentou na cama e percebeu que tinha dormido no meio dos pensamentos do dia anterior. Pegou o celular para ver as horas e instantaneamente ele começou a tocar. Era Isa.
"Alô?" A garota disse com voz de sono.
"Ainda dormindo, ? Já são mais de dez horas. Tá todo mundo aqui esperando por você." Ouvindo a voz da amiga, levantou-se depressa. Nem conseguia acreditar que tinha dormido mais de dezesseis horas. E o pior, esquera totalmente que tinha marcado com os amigos no McCartney's, uma lanchonete que ficava a cerca de dois minutos de sua casa e que era o ponto de encontro dos amigos.
"Dormindo? Eu? Que ideia, Isa!" A garota disse já no banheiro tentando dar um jeito no cabelo ao mesmo tempo em que escovava os dentes.
"Sei... Estamos te esperando, não demora" E ela desligou, fazendo correr para o quarto pra trocar de roupa. Não conseguira muita coisa com o cabelo, então fizera um rabo de cavalo meio torto. Colocou um short e uma regata qualquer, pegou sua bolsa e saiu do quarto.

- Bom dia, filha - escutou a voz da mãe quando estava prestes a sair de casa. Ela virou-se e a encontrou sentada no sofá da sala lendo o jornal. Pela cara de bom humor, deduziu que a mãe deveria estar acordada há horas e o cheiro que vinha da cozinha a fez refletir se não devia esquecer os amigos e tomar café da manhã em casa. A garota sorriu e foi em direção à mãe, dando um beijo em sua testa.
- Bom dia, mãe. Adoraria ficar pra conversar, mas eu marquei com os meninos lá no McCartney's. E eu tô atrasada. - Sara revirou os olhos sorrindo. Sabia muito bem que a filha adorava chegar atrasada nos lugares, principalmente quando o compromisso era de manhã. Então, só deu um sorriso enquanto assistia a garota passar praticamente voando da porta de entrada.

Ela chegou à lanchonete ofegante. Tinha corrido mais do que seu corpo achava que conseguia, mas graça ao vento frio daquela época do ano, não tinha chegado a suar. O McCartney's continuava o mesmo de sempre desde que fora inaugurado há quase dez anos. Seu Pedro era o dono do lugar e também muito amigo dos . Sua fixação pelos Beatles o tinha feito dar aquele nome à lanchonete e a ter construído com cara dos anos sessenta, com postêres da banda em todas as paredes e com as músicas tocando nas caixas de som espalhadas pelo local.

- Atrasada. De novo. - disse Lua quando se aproximou. Todos já estavam acostumados, mas Lua sempre tinha que reclamar. Não era implicância, era simplesmente o jeito da garota. Ela tinha um gênio enorme, perdía a paciencia rapidamente. Nem parecia com a imagem doce e meiga que ela aparentava. Ela tinha o cabelo loiro encaracolado e meio descolorido na raiz, além de ser a mais alta das amigas.

Lua tinha conhecido primeiro Jorge. Ela tinha nove anos e tinha acabado de mudar de colégio. Atleta desde sempre, a garota logo entrou pro time infantil de vôlei. Como todos os treinos era à tarde, ela acabou encontrando com o garoto, que estava no time de basquete. No dia seguinte, ele a apresentou para e para Isa, que se deram bem de cara com ela.

- Foi mal. Acabei perdendo a hora - falou enquanto se sentava ao lado da amiga.
- Me conta uma novidade... - Isa, que estava na sua frente, falou em um tom irônico. Mas era só no tom mesmo, porque no rosto trazia um sorriso. Ela tinha um sorriso de dar inveja em qualquer um. Era um sorriso contagiante que combinava perfeitamente com seu rosto de boneca. Boneca da Branca de Neve, pra ser mais exato. Isadora tinha a pele tão branca que podia ser facilmente confundida com a mesa da lanchonete, que também era branca. E os cabelos negros na altura do ombro completavam a princesa. E apesar de ser a mais velha, era a mais baixinha das garotas.

Isa conhecera quando ambas tinham sete anos. As suas mães eram amigas de faculdade e marcaram um dia para se encontrar e levar as garotas para brincarem. era muito moleca e chamou Isadora de quatro-olhos, por causa do óculos da garota, que logo disse que se ela tinha quatro olhos, ela podia enxergar muito mais do que qualquer outra pessoa. Por incrível que pareça, foi justamente por causa dessa resposta que elas viraram tão amigas. Isadora a achou a garota mais engraçada do mundo e nunca tinha visto uma menina tão inteligente.
Sentado ao lado dela, estava o Jorge. Eles namoravam há... Muito tempo. O engraçado é que ele era exatamente o oposto dela. O Jorge era moreno e alto. Muito alto. Devia ser maior que Gabriel. De todos eles, Jorge foi o primeiro a ser amigo de . Eles se conheceram assim que entraram na escola. As mesas da sala do maternal eram para quatro alunos, mas como todas as outras mesas já estavam cheias, os dois sentaram sozinhos em uma. Ele adorou o desenho que ela fez e ela ficou rindo da cara dele quando ele comeu massinha. Fizeram muita arte juntos, e muitos adultos diziam que quando ficassem mais velhos, aquela amizade iria se transformar em amor. Mas quando Jorge conheceu Isa, cinco anos depois, ele ficou encantado pela garota, mas só depois de muito tempo teve coragem (e maturidade!) de chamá-la pra sair.
olhou para os lados e percebeu a ausência de uma pessoa.

- Vocês reclamam de mim, mas pelo que eu percebi, não fui a última a chegar.
- Eu tava no banheiro, linda. - Ela escutou uma voz atrás dela e se virou. Rafael. Era um garoto alto, mas não tanto quanto Jorge, e tinha os cabelos castanhos e a pele bronzeada. Era o sonho de consumo de qualquer garota naquela cidade. E o pior é que ele sabia disso. Foi o último a "ingressar" naquele grupinho. Mas só conseguiu por causa de , que tinha obrigado a todos os amigos a se aproximarem dele para ver se conseguia alguma coisa. Tudo não passou de uma "operação cupido" pra ajudar a ficar com o garoto, mas eles acabaram ficando realmente amigos. E, apesar de muitos pensarem o contrário, não sentia mais nada pelo garoto além disso. Não sabia o que tinha acontecido, só não conseguia sentir mais nada por ele. As meninas diziam que era porque ela nunca tinha sentido nada real por ele. Já Jorge dizia que era por causa de , porque ele era o único naquela mesa que sabia do rolo dos dois, mas sabia que ele estava errado. O que tinha com não passava de um... Não tinha nem nome pra definir. Eles só se divertiam juntos. Não tinha nenhum sentimento envolvido.

- Então... Alguém vai ficar mais velho... - Jorge disse
- Ainda falta muito tempo. - Rafael falou sabendo que o amigo referia-se a ele.
- Rafa, querido - falou. - Daqui a uma semana acabam as férias e o seu aniversário já é dia oito.
- E é pra você já ir decidindo o que vai querer fazer. - Isa disse.
- Não sei ainda... Mas eu acho que vocês deveriam estar mais preocupados com a maior festa do ano. - Rafael abraçou Lua pelos ombros e ela deu um sorriso nervoso.
- Eu sei! Cara, nem acredito que finalmente vou fazer quinze anos!
- E os preparativos para a grande festa? Já ta tudo pronto? - falou entrando na empolgação. Não era muito fã de festa de quinze anos, por isso optou por uma viagem, mas sabia que Lua sonhava com isso desde os seus dez anos.
- Mais ou menos... Toda a decoração já está decidida, mas eu ainda não tenho um príncipe. Fora que apesar de eu já ter decido as meninas e os meninos, não sei quem vai dançar com quem. Exceto vocês dois, é claro - Ela apontou pra Isa e Jorge que se entreolharam sorrindo. - Ah, não! Minha prima não vai poder ir pra festa, então eu só tenho treze meninas. Gente, isso vai ser um desastre!
- Calma, garota! - Isa disse. - Você ainda tem mais de três meses pra decidir isso. Uma menina você encontra fácil, fácil, você tem muitas amigas. E os casais vão ser decididos no ensaio, certo?
- Certo... - Lua se acalmou um pouco, mas logo voltou a falar da festa.

Algum tempo depois, eles ouviram a porta da lanchonete se abrir. O McCartney's era o ponto de encontro de muitos amigos, inclusive o do "quarteto fantástico". O primeiro a entrar foi o Gabriel, que deu um sorriso e uma aceno com a cabeça na direção da irmã. De longe, dava pra saber que ele e era irmãos. Ambos tinham os mesmos cabelos e olhos castanhos e o mesmo sorriso.
Logo após o garoto, Victor adentrou o local e ouviu um suspiro baixo de Lua. Apesar de ela sempre dizer o contrário, era notável que ela não tinha superado sua paixão de infância. O garoto era moreno e seus cabelos pretos estavam sempre arrumados em um topete. Ele vinha conversando com Bernardo, que ria do que o amigo falava. Bernardo, mesmo sendo o mais baixinho dos garotos, era alto e extremamente lindo. Tinha os cabelos loiros e um olho azul que fazia qualquer garota suspirar. Não era à toa que era o mais "pegador" entre eles.
Mas não foi nenhum desses garotos que chamou a atenção de . Foi aquele de olhos mexendo no celular que a fez dar um sorriso. Ele levantou a cabeça e seus olhos se cruzaram com os da garota, fazendo-o abrir um sorriso cúmplice. Ela rapidamente voltou a prestar atenção na conversa dos amigos para que ninguém notasse nada. Mas viu que Jorge estava segurando uma risada, indicando que ele tinha percebido. revirou os olhos. Estava cansada de dizer que não sentia nada por .

- Então, , o que você acha de eu chamar a Carol pra ser a última garota? - Luana falou referindo-se a uma garota do colégio.
- A Carol? - falou fazendo uma careta. Não ia muito com a cara da garota e não entendia como Lua conseguia ser amiga de uma pessoa tão fresquinha. Luana viu a expressão da amiga como sua resposta e voltou a vasculhar a mente a procura de uma menina.

sentiu o celular vibrar na bolsa. . Era o nome escrito na tela, indicando de quem vinha à mensagem. Ela olhou em sua direção e ele estava olhando pra ela com um sorriso no rosto. Sorriso que apareceu no rosto dela assim que ela leu a mensagem.

: "Vai fazer alguma coisa hoje?”



Capítulo 4

- Eu não acredito que a gente vai ver O Planeta dos Macacos 2! - disse enquanto tentava subir as escadas da sala do cinema segurando um balde de pipoca sem cair. perdeu as contas de quantas vezes tinha falado que preferia fazer coisas mais interessantes do que comer, mas ele vinha atrás dela segurando dois copos de refrigerante e com uma dor no ombro esquerdo, causada pelo tapa que recebera da garota.
- Mas você adorou o primeiro!
- Eu só disse que era "legalzinho"- ela disse enquanto eles se sentavam na última fileira. - Fora que continuações nunca são tão boas quanto o original.
- E é? - Ele disse se aproximando de enquanto ela concordava freneticamente rindo.

Respirações fracas, corações acelerados, um olhando para a boca do outro, a distância cada vez menor e aí...

- ? Você tá bem? - disse meio ofegante olhando confuso para a garota que estava encolhida no chão no meio das cadeiras. Ela se levantou um pouco ficando de joelhos e apontou pra porta da sala. Isadora e Jorge. - Ótimo! - O garoto disse passando uma das mãos nos cabelos e só sentiu pegar na mão dele e puxá-lo para baixo.
- Tá louco? Se eles te virem, vão querer vir até aqui. - Ela sussurrou.
- E o que você pretende? Ficar abaixada até o filme terminar? - Ele disse do mesmo jeito.
- Claro que não! Vamos esperar as luzes apagarem e a gente volta a se sentar. - Ela falou e ele concordou meio à contra gosto. Já estava acostumado a ficar em certas situações por causa da garota.



☆☆☆


- Você tem certeza que deveria estar aqui? - perguntou no meio do beijo.

O filme já havia começado e eles já estavam sentados em suas devidas cadeiras. Quer dizer, mais ou menos. No momento em que eles se sentaram, voltou de onde eles tinham parado e beijou a garota. Só que as coisas ficaram meio... Intensas. E a garota já estava praticamente no colo dele.

- Por que não deveria? - Ele se afastou um pouco e olhou pra confuso.
- ! Daqui a menos de cinco meses você vai fazer o vestibular! Não deveria estar estudando? - Ela falou preocupada lembrando que sua mãe tinha proibido Gabriel de sair à tarde naquele dia pra estudar.
- zinha, não se preocupa com isso, tá bom? - Ele deu um selinho nela. - Pode deixar que eu tô estudando direitinho e não tem nem a possibilidade de eu não passar. - Ela sorriu convencida e voltou a beijá-lo. Só que era meio mentira. Claro que ele estava estudando todos os dias, mas morria de medo de que não fosse o suficiente e ele acabasse não passando. Pra falar a verdade, ele estaria em casa estudando naquele momento se não fosse sua mãe. O garoto já havia se perguntado várias vezes se a mãe era normal, porque ela era a única que ele conhecia que deu a maior força para que ele saísse com naquela tarde. Ela sabia que o filho estava muito nervoso com o vestibular e também sabia que era a única capaz de acalmá-lo...

Não, não é brincadeira. Dona Márcia, mãe do garoto, sabia perfeitamente da história dos dois desde que eles haviam se beijado da primeira vez. contava tudo pra mãe, que achava aquilo tudo a maior besteira, mas respeitava a decisão dos dois. Mesmo sabendo que um dia ele ainda falaria pra ela o quão apaixonado ele era por .



☆☆☆


- Amor, aquela garota não é idêntica à ? - Isa disse enquanto ela e Jorge saiam da sala do cinema.

No meio do filme, o garoto havia percebido que ela e estavam no fundo do cinema, e, como um bom amigo, tinha feito de tudo para que a namorada não percebesse. Só que ele não podia esquecer que a Isa não era nenhuma idiota. Era óbvio que ela ia perceber. Afinal, quem não notou aqueles dois correndo escada a baixo para saírem da sala assim que o filme acabou?

- Claro que não, amor. A é bem mais alta que aquela garota, fora que ela deve estar em casa nesse exato momento. - Ele suspirou em sinal de alívio quando ela deu de ombros, sinalizando que não se importava.

Odiava mentir para sua namorada. Era toda vez assim. Isa desconfiava e Jorge sempre dizia que não tinha nada a ver, que era só impressão. Ele preferia não saber, mas era tão óbvio que não precisara nem lhe contar para que ele descobrisse o que estava acontecendo. Era só observar que todo mundo era capaz de ver o brilho no olhar dos dois, aqueles sorrisinhos cúmplices, aquelas saídas nada discretas...

- Tá vendo, Jorge! Era a , sim! Olha ela ali! - O garoto se virou para olhar pra onde a namorada apontava. Era mesmo a garota sentada em uma mesa da praça de alimentação. Mas o que Isa não tinha visto era que ela não estava sozinha. Será que eles podiam dar menos bandeira?

Jorge não pôde dizer nada, pois no segundo seguinte Isadora já estava indo em direção à garota. Ele só pôde segui-la, tentando a todo custo chamar a atenção de para que ela percebesse que se não tirasse o de lá rapidamente, eles iam ter que se explicar pra Isa. E Isa não era de se enganar facilmente.

☆☆☆


- Eu não acredito que a gente fez mesmo isso. - disse rindo ofegante.

Após saírem da sala do cinema, eles correram até o fundo da praça de alimentação. Tinha algumas mesas, mas só eles ocupavam aquele espaço, já que era um pouco mais distante das lanchonetes do que as demais mesas. Ninguém ficava por lá, só alguns casais que queriam privacidade ou, no caso deles, pessoas que não queriam ser encontradas.
Eles se sentaram em uma das mesas, um de frente pro outro. Ambos vermelhos por conta da corrida e da risada. Era por causa de momentos como esse que eles nunca cogitaram a possibilidade de contar para os amigos. A adrenalina que percorria seus corpos era uma das melhores sensações pelo qual já haviam passado na vida. Era como se eles tivessem o mundo inteiro em suas mãos e tivessem a certeza de que ninguém iria tomá-lo.
Mas ninguém consegue esconder um segredo por toda a vida. E conseguiu enxergar seu segredo sendo revelado. Vindo em sua direção, estava exatamente o motivo pelo qual tinham saído correndo assim que o "The End" apareceu na tela do cinema. Isa e Jorge. A garota deu um sorriso alegre quando foi percebida pela amiga enquanto o namorado fazia uma cara de alguém que pedia desculpas. Aquela adrenalina toda se transformou em desespero e não parecia diferente depois de ter se virado para ver pra onde a garota estava olhando.
Era isso. Não tinham pra onde correr.

- ! – Isa falou se sentando ao lado da garota. – Não sabia que você vinha pro shopping hoje. Por que não me avisou? Podíamos ter vindo juntas.
- Oh, Isa! – disse tentando não demonstrar o desespero. – Eu sabia que você ia vir com o Jorge e ninguém merece ficar de vela, não acha?

Isadora deu uma risadinha como se concordasse e parece que foi naquele momento que ela percebeu a presença de mais uma pessoa naquela mesa...

- ? – A cara de confusa da garota fez querer contar toda a verdade pra ela, mas infelizmente (ou felizmente, quem sabe?), foi mais rápido.
- Isa, tudo bom? Sério, eu preciso sair mais com vocês. Chamei os meninos pra vir no cinema hoje, mas eles nem quiseram. Mas como eu queria muito assistir um filme, acabei vindo sozinho mesmo. Ainda bem que esbarrei com a .

suspirou aliviada quando viu que a amiga realmente acreditou naquela história, falando que uma companhia feminina o faria bem, já que ele só andava com os meninos. Enquanto eles entravam em uma discussão sobre as amizades do garoto, Jorge, que tinha sentado ao lado de , e começaram a conversar de uma maneira que só eles podiam entender.

“Foi por pouco” – Jorge.
“Eu sei” – .
“Você devia contar pra ela. Ela é sua amiga!” – Jorge.
“Eu não posso!” –

- Sabiam que eu odeio quando vocês dois fazem isso?
- Isso o quê, Isa? – Jorge falou.
- Isso de ficar tentando conversar telepaticamente. As caras que vocês fazem me dão medo.

Eles riram e a conversa se voltou para a amizade dos dois até se levantar.

- Gente, tá ficando tarde e eu preciso ir pra casa. Os livros me chamam. Afinal, eu só consigo passar no vestibular se eu estudar, certo?

Eles assentiram e voltaram a conversar sobre um assunto qualquer. Mas depois de uns cinco minutos, não estava mais prestando atenção. Afinal, que uma simples mensagem não pode fazer a uma garota?

: “Adoro seus amigos, mas eles não tinham um pior momento pra aparecer, não? Tudo bem se eu passar na sua casa de noite?”



Capítulo 5

- Boa noite, maninho! – disse quando chegou em casa e encontrou o irmão sentado no chão da sala no meio de milhares de livros e cadernos.

Ela se sentou em cima da bagunça e pegou um dos livros. Eram tantos números e fórmulas que ela nem soube se o livro estava realmente em português. Não conseguia entender como o irmão gostava de física... Jogou o livro de volta ao lugar que estava antes e suspirou aliviada por ainda estar no primeiro ano.

- Nem pense que você vai se livrar disso. – Ele falou como se lesse os pensamentos da irmã – Daqui a dois anos é a sua vez.
- Enquanto esses dois anos não passam, eu me divirto vendo você se matando de estudar. – Eles riram.
- Ok, eu acho que mereço um descanso. – Gabriel jogou os livros de qualquer jeito na mesinha de centro e se deitou no chão da sala. riu, mas se juntou ao garoto, deitando ao lado dele. – Como foi seu dia hoje?
- Foi bem – principalmente por causa do seu melhor amigo, ela pensou. – E o seu?
- Cansativo. Estou sentado nessa sala desde que voltei do McCartney’s. Bernardo e Victor estavam aqui agora a pouco, estudando também. Só quem parece não estar nem aí pro vestibular é o . Ele simplesmente desapareceu a tarde inteira.
- Vai ver ele estava na casa dele – falou com cara de quem nem ligava, mas o seu peito lhe corroia por dentro. Não suportava o fato de que passava tanto tempo mentindo para o irmão, menos ainda quando ele começava a falar do e dos repentinos sumiços dele. Ela sabia muito bem que ele não estava sumido...
- Não estava. Ligamos pra lá e a mãe dele atendeu, dizendo que ele tinha saído. Victor acha que ele arranjou uma namorada e não quer nos contar.

A simples menção da palavra namorada fez a garota sentir um certo enjoo. Um dos motivos pelo qual ela preferia esconder isso era que não queria ser chamada de “a namorada de ”. Não entenda mal, ela gostava muito de ficar com o menino. Mas nunca tivera um namorado antes e não sabia se queria que fosse o seu primeiro. Claro que ele amadurecera muito desde que tinham ficado pela primeira vez, mas para , ele ia ser sempre um dos amigos infantis do irmão que se achavam os caras mais experientes do mundo. Ela só tentava se esquecer disso tudo quando estavam sozinhos.

- Talvez ele até esteja certo – Gabriel continuou a falar. – não fica com ninguém há séculos e você sabe que isso não é uma coisa muito normal. Mas o que eu não consigo entender é: por que ele não fala nada para a gente?

Aquela informação era nova. A garota não ficara com nenhum menino além de desde o ano novo, mas também não tinham prometido “exclusividade” um ao outro. Então, do jeito que era, tinha uma grande possibilidade de ele ter ficado com alguém durante esse tempo. Saber que ele não tinha feito isso era novidade.

- Nem me pergunte, o amigo é seu. Você que deveria saber – ela respondeu quando notou que o irmão a olhava como se realmente quisesse uma resposta.

Eles suspiraram e olharam para o teto. Ambos perdidos em pensamentos. Riram quando seus olhos passaram pela enorme mancha roxa que fora deixada lá pelos dois quando eram crianças. Nem queira saber como aquilo foi parar ali... parou pra pensar no quão próximos eram anos atrás, quando tudo era mais fácil e as suas únicas preocupações eram quantas brincadeiras conseguiam fazer no menor espaço de tempo.
O que tinha acontecido? Quando foi que tinham se afastado tanto? Ela se virou e encontrou o garoto a olhando. Pareciam está pensando na mesma coisa.

- A gente deveria fazer alguma coisa. Juntos, sabe? Faz tanto tempo desde que...
- Eu sei – ela interrompeu o irmão.
- Cineminha aqui em casa? – Ele sugeriu se lembrando de quando chamavam todos os amigos para assistirem uma maratona de filmes na casa deles.
- Eu chamo o meu bonde e você chama o seu? – Eles riram e Gabriel fez que sim com a cabeça.
- Mas será que não dava pra eu chamar mais uma pessoa? – Ela o olhou desconfiada e quando viu seu rosto, soube de tudo. Não era porque estavam separados que ela tinha deixado de conhecer muito bem o irmão. Ele queria chamar uma garota.
- Claro que dá! Mas só se você me passar à ficha completa da minha futura cunhada. – Ele revirou os olhos e começou a falar sobre a menina.

Daniela Morais, dezessete anos. Queria cursar química, era fã de carteirinha de Star Wars ( sabia que a garota tinha conquistado o irmão exatamente no momento que tinha dito isso. Gabriel era louco por Star Wars!). Se conheceram no cursinho de redação e ela era mais baixinha que a Isa.

- Impossível! Ninguém é mais baixinho que a Isa.
- Bom, se ela não for mais, devem ser do mesmo tamanho. - Ele falou e soube naquele exato momento. Gabriel estava apaixonado por aquela garota. Dava pra ver em seu rosto, no jeito que ele falava dela... – Mas deixa de falar de mim. Como anda o Rafael?

Ela riu alto. O irmão sabia muito bem que ela não era mais a fim do Rafael, mas ainda insistia em perguntar. Ela não sabia, mas o garoto torcia para que a irmã ainda gostasse dele. Afinal ele fora o único que nunca demonstrou que queria algo a mais com ela... Era um pensamento egoísta, ele sabia. Mas só de pensar em qualquer garoto tocando em sua irmãzinha, o sangue já lhe subia a cabeça.
A garota ouviu o celular apitar e soube no exato momento quem era. Mas não era possível. Tinha marcado com de onze horas, quando sabia que seu irmão já estaria no quarto. Ainda eram... onze e vinte?!? Passara tanto tempo conversando com Gabriel que mal vira o tempo passar.
Viu que o garoto lhe olhava de maneira curiosa, como se esperasse que ela pegasse o celular para responder a mensagem. Mas ela sabia que se fizesse isso, o irmão perguntaria quem era. Não que precisasse, já que do ângulo que ele estava poderia ver com nitidez o conteúdo da mensagem. E nem adiantava tentar esconder porque faria o garoto desconfiar de que ela estava escondendo-lhe alguma coisa. E ela não precisava de mais pessoas desconfiadas.
Então, se levantou dizendo que precisava ir ao banheiro e saiu correndo levando a bolsa junto.

: “Esqueceu de mim?”

: “O que você acharia se eu te falasse que o Gabriel ainda não foi dormir?”

: “Ainda? Mas ele sempre vai dormir cedo...”
: “Eu sei, mas ele está muito bem acordado”

: “Prefere que eu volte amanhã?”
: “Preferir, eu não prefiro. Mas se é o único jeito...”

: “Kkkkk até amanhã então, princesa”

Ela revirou os olhos rindo. Já tinha mandado o garoto parar de chamá-la daquele jeito há muito tempo. Mas desde a primeira conversa que tiveram sobre “não somos namorados”, ele ficou com aquela mania.
Voltou pra sala sem conseguir segurar aquele sorriso no canto dos lábios, que não fora despercebido pelo irmão, mas ele preferira não dizer nada, afinal, sua irmã também merecia ter os segredos dela. Afinal, ele não sabia que esse segredo era seu melhor amigo...



Capítulo 6

: “Estão todos intimados a vir aqui em casa no sábado pra assistir uma maratona de filmes às 15h.”

Jorge: “Bem como nos velhos tempos, hein? Pode contar comigo ;)”
Lua: “Tô dentro. Mas... só vai ser nós cinco?”
: “Não se preocupe, Luazinha, o Victor vai estar lá também. Gabriel vai chamar o quarteto fantástico.”

Lua: “Nem vou me dar ao trabalho de responder, .”
Rafael: “Logo no sábado? Desculpa, galera, vou ter que passar essa.”
: “Por quê??”

Lua: “Por quê???”
Rafael: “Tenho um compromisso importantíssimo no dia.”
Isa: “Vai nos trocar por quem dessa vez, Rafa?”
Rafael: “Por que você acha isso, Isa?”
Isa: “Porque todo mundo sabe que você só deixa de sair com a gente quando vai sair com alguma garota.”
Rafael: “Que mentira!”
Jorge: “Rafael, você não consegue enganar a gente. Desembucha, quem é a vítima dessa vez?”
Rafael: “Ah, vocês não conhecem. Ela é do meu inglês.”
Isa: “Não disse?”
Lua: “Kkkkkkk”
: “Então, fora o Rafael, todo mundo vêm, né?”

Jorge: “Claro”
Isa: “Posso aproveitar e dormir aí, ?”
Lua: “Eu também!!”
Rafael: “Nem precisa pedir, né? Ainda não sei como vocês duas não se mudaram pra casa da de tanto que dormem lá...”
Lua: “Cala a boca, Rafael!”
Isa: “Cala a boca, Rafael!”
: “Claro que podem, meninas. Então, vejo vocês no sábado :*”


☆☆☆


- Não quero saber de bagunça nessa casa quando eu chegar, ouviram?
- Sim, mamãe.

Dona Sara não parava de dar instruções aos filhos desde que acordara. Ela iria passar o fim de semana na casa dos pais, pois sua mãe não estava muito bem e ela sabia muito bem que seu pai, por mais que dissesse o contrário, não era capaz de cuidar dela sozinho. Preferia não deixar os filhos sozinhos, mas sua mãe era cabeça dura demais para ir para a casa da filha, além de que sabia que Gabriel e não eram mais crianças e podiam muito bem ficar sozinhos em casa por dois dias.

- Mamãe, não se preocupe, está bem? – tentou confortá-la – Fome não vamos passar e você sabe muito bem que eu detesto ver a casa bagunçada. Fora que a casa da vovó nem é tão longe. Se alguma coisa acontecer, você chega aqui em vinte minutos.
- É, você tem razão... bom, eu vou indo então. Amo vocês. – Ela disse dando um beijo na testa de cada um.
- Também te amamos – eles falaram juntos e observaram a mãe entrar no carro e dar partida.

Enfim, estavam sozinhos.

- Nem comece! Você ouviu a mamãe, sem bagunça. E além do mais, o pessoal já está vindo pra cá depois do almoço. Tivemos muita sorte de ela ter deixado eles virem e não vamos apelar. – disse num tom autoritário quando viu que o irmão a olhava como uma criança que acabara de ter uma ideia para mais uma brincadeira.

Ele suspirou derrotado e entrou em casa, sendo seguido pela irmã.

☆☆☆

Exatamente às quinze horas, Jorge e Isadora chegaram e não demorou muito para que o resto dos amigos chegassem também. Inclusive a garota pela qual estava muito ansiosa para conhecer.

- Então, você é a famosa . Prazer em conhecer, eu sou a Dani.

A garota estendeu a mão e de cara, gostou dela. Ela era realmente mais baixinha que a Isa, mas tinha a pele moreninha e os cabelos pretos longos, que eram lisos, mas com alguns cachinhos nas pontas. Sua camisa preta da banda Nickelback realçava os olhos castanhos claros e ela tinha um sotaque muito fofo que parecia do interior.

- Olha, de famosa eu não tenho nada e pode me chamar só de .
- Tá, , agora me explica uma coisa – Victor, que estava sentado no chão, falou chamando a atenção da garota. – O que é isso no seu pé?

Ela olhou pra baixo e viu a fitinha que tinha amarrado na perna naquele mesmo dia de manhã.

- A minha tia foi pra Salvador um dia desses e voltou ontem cheia dessas fitinhas.
- Mas não seria mais normal amarrar no braço?
- E desde quando a é normal? – Gabriel disse recebendo um tapa no ombro da irmã.
- Chega de falar de mim, ok? A gente não ia assistir um filme?
- E qual vai ser? – três pessoas falaram ao mesmo tempo.
- Tem um monte de DVDs na estante, vocês escolhem e eu vou fazer pipoca. – Ela se levantou do sofá indo em direção à cozinha e então viu se levantar também.
- Eu te ajudo.

☆☆☆


O filme estava quase na metade, mas ninguém parecia realmente interessado em assistir.
Em um sofá estava mexendo no celular e fingindo não ligar pelo fato de que estava de vela, já que Gabriel e Daniela conversavam baixinho ao seu lado. No outro sofá estavam Jorge e Isa tentando fazer conversar com eles, mesmo com ela dizendo que eles podiam namorar em paz. E no chão sobraram Victor, Luana - que tinham começado uma conversa sobre o filme, mas que agora já falavam sobre os filmes que estavam passando no cinema e quais deles queriam assistir – e Bernardo, que estava deitado e tentava não dormir.

- Ok, já chega – Bernardo falou se sentando e fazendo todos prestarem atenção nele. – Cansei de ficar de vela.
- Do que você ta falando, Bê? – Isadora disse fazendo a mesma cara de confusa que todos na sala faziam.
- Ora, desse amontoado de casais nessa sala. Da próxima vez, me avisem que eu fico em casa.
- Que casais?
- Bom, não preciso nem falar de você e do Jorge, afinal vocês dois namoram. – Ele começou a falar contando nos dedos. - Todo mundo sabe o motivo pelo qual o Gabriel chamou a Dani. – A garota ficou totalmente vermelha, mas deu um sorrisinho como se já soubesse. – Esses dois aqui tão na maior enrrolação e eu tô quase chamando a Luana pra sair pelo Victor. – Eles arregalaram os olhos e olhou pra Lua como se dissesse “eu sabia”. – E esses dois – Bernardo apontou para e . – Estão só esperando uma oportunidade para irem se pegar lá na cozinha.

, que até aquele momento estava mexendo no celular, parou e olhou para o amigo. Depois se virou para , que estava olhando para ele pedindo socorro.

- É o que, Bernardo? – Gabriel disse fechando a cara e tentando entender o que estava acontecendo.
- Ah, vai dizer que vocês não sabiam que o tá ficando com a ?



Capítulo 7

O clima na sala estava tenso. Todo mundo tinha se levantado e estavam a todo o custo tentando entender o que estava acontecendo ali. Luana e Isadora olhavam para como se quisessem explicações. Daniela não entendia nada e Victor tentava ficar cada vez mais próximo de Gabriel, como se tivesse medo que ele se descontrolasse. Além de e , que estavam completamente desesperados.

- Como você sabe disso? – A voz de ecoou na sala. Mas ela não estava normal. Estava trêmula e rouca. Estava com medo. Ela tentava olhar para Gabriel, mas tinha medo do que iria encontrar se olhasse. Sabia muito bem que o irmão devia estar fervendo em raiva naquele momento. Mas ela também estava. Foi só ligar dois mais dois e, na sua cabeça, ela já sabia a resposta. – Você contou pra ele? Como pôde?
- Você tá louca? Sabe muito bem que eu nunca faria isso. – tentou se defender depois de levar uns tapas da garota.
- Então, o Bernardo não tá delirando e vocês dois...?
- Claro que eu não tô delirando – ele interrompeu Luana. – Mas sério que vocês nunca desconfiaram? Isso tá rolando há tanto tempo... Até o Jorge já deve ta cansado de...
- Calma. – olhou pra . – Ele sabe? Você quase me mata aqui porque achou que eu tinha contado pro Bernardo, e o seu amigo sabe?
- Você sabia e não me contou? – Isa falou séria.

Um falatório inundou a sala. Todo mundo falava alguma coisa e ninguém escutava nada. começou a falar que não tinha o direito de ter contado, enquanto ela se defendia, dizendo que o Jorge descobriu sozinho. E este ouvia Isadora dizer que ela não significava nada pra ele, já que ele não tivera a consideração de lhe dizer o que sabia. Victor falava baixinho do lado de Gabriel, parecendo ser o único que percebera que o amigo estava alterado. Luana gritava com Bernado, dizendo que ele tinha causado aquilo tudo e Daniela... Bom, esta estava calada no canto da sala vendo toda aquela confusão.

- JÁ CHEGA! – Todos se calaram e olharam para Luana que tentava a todo custo chamar a atenção geral. – Ok, já sabemos que tá todo mundo confuso, inclusive eu. Mas ficar gritando uns com os outros não vai adiantar nada. Quem tem que falar alguma coisa aqui são esses dois. – Ela apontou para e . – Como assim vocês tão namorando e não contaram pra ninguém?
- Calma lá que ninguém tá namorando aqui! – falou.
- Não? – Todos falaram ao mesmo tempo, fazendo e rolarem os olhos. Sabiam que isso ia acontecer, sabiam que a primeira coisa que iam pensar era que tinham se apaixonado.
- Claro que não. Ficar com alguém não é a mesma coisa que namorar.
- Então quer dizer que você simplesmente fica com a minha irmã quando bem entende e depois larga ela, é isso? – engoliu em seco. Ouvira a voz do melhor amigo e nem precisou olhar pro lado pra saber que ele já avançava. agradeceu a Deus quando viu que ele fora impedido.
- Pode ir parando com isso, Gabriel. – Sabe-se lá onde tirou coragem para encarar o irmão. Ela simplesmente se colocou na frente de e começou a falar diretamente pro irmão. – Agradeço a sua preocupação comigo, mas eu não sou nenhuma criança. Eu tenho o direito de ficar com quem eu quiser!
- Mas com o meu melhor amigo, ?

Ops. Ele nunca a chamava de .

- Bem... ele... ele é um garoto como qualquer outro. E afinal, a culpa também é sua. Ninguém mandou trazer amigos bonitos pra dentro de casa! – Ela viu sorrisos aparecerem nos rostos de Bernardo, Victor e , mesmo que este último tentasse esconder.
- Ah, não venha colocar a culpa em mim!
- Então também não venha colocar culpa em mim! Eu não tenho controle sobre os meus hormônios!

Ela saiu andando em direção à cozinha e ele foi atrás gritando alguma coisa que ninguém entendeu direito o que era, enquanto todos na sala ficaram em um silêncio constrangedor. Até Isa quebrá-lo.

- Já que ela tá resolvendo as coisas com o irmão dela, você resolve com a gente, querido .
- Me tira fora dessa – ele falou levantando os braços.
- Como você quer que eu te tire de onde você se enfiou sozinho? Ou melhor, com a .
- Olha, não tem nada pra falar, ok? – Ele falou se rendendo aos poucos. – A gente ficou pela primeira vez no Ano Novo e...
- Não disse que a tava estranha desde o Ano Novo? – Lua disse para Isadora lembrando uma antiga conversa das duas e a amiga afirmou com a cabeça.
- Meninas, eu não sei o que vocês querem saber e, pra falar a verdade, prefiro continuar não sabendo. Vocês falam com a depois.
- É, porque agora você vai falar comigo. – Victor falou olhando para o amigo e soube que ia levar o maior sermão. – E você também, Bernardo.
- Por que eu?
- Porque nada disso estaria acontecendo se não fosse por você.
- Mas eu não sabia que vocês não faziam a menor ideia do que tava acontecendo!
- Isso não diminui o fato de que você fez merda!
- Mas eu falei a verdade!
- Vocês vão brigar também? – Luana disse de repente e a atenção virou-se pra ela. – Porque se forem, avisem que eu vou pegar mais pipoca.

Eles não conseguiram esconder o riso e Victor aproveitou o momento para levar (ou melhor, empurrar) e Bernardo para o quarto de Gabriel. E mais uma vez o silêncio reinou na sala.

- Amor, me desculpa... – A voz grave de Jorge ecoou pela sala mesmo que ele tivesse falado bem baixinho. – Eu juro que quis te contar desde que eu soube, mas a não...
- Tudo bem, Jorge, eu já entendi – ela falou sorrindo. Tinha ficado brava, mas quando viu a cara de cachorrinho abandonado que o namorado fez, ela esqueceu-se totalmente. Então, ela se aninhou nos braços do garoto dando um selinho nele.
- Que fofinho! – Lua disse com voz de criança. – Mas parem com isso que vocês tão deixando a convidada ali – ela apontou pra Dani – mais envergonhada do que ela já está.
- Dani! Desculpa! Não só por isso, mas por toda essa confusão.
- Que nada, Isa! Essa confusão foi até boa pra animar minha tarde. Mas fala aí, isso acontece muito por aqui?

Os três riram e responderam juntos.

- Só de vez em sempre.



Capítulo 8

- É sério isso, ? Vai colocar a culpa nos seus hormônios mesmo?

Os dois irmãos estavam na cozinha ainda discutindo. Ela não cansava de dizer que tudo tinha acontecido sem o controle dela nem do e ele repetia milhares de vezes que existiam muitos caras no mundo que iam ficar felizes em ficar com ela e por isso ela não precisava escolher seu melhor amigo. Ah tá, como se o Gabriel fosse ficar super feliz quando ela chegasse em casa com algum desses muitos caras...

- Maninho, entenda uma coisa: eu e o não temos isso que você tá pensando. A gente só fica de vez em quando e pronto. Depois cada um vai pra um lado e volta viver a vida como se nada tivesse acontecido.
- Então você simplesmente deixa ele te usar?
- Do mesmo jeito que eu uso ele. É uma via de mão dupla, sabe?

Gabriel se espantou com a resposta da irmã. Cadê aquela garotinha que gostava de contos de fada e sonhava em se casar com um príncipe? Onde ela foi parar?

- Eu sei o que você deve tá pensando. Mas eu não to planejando pegar geral não, tá bom? Até porque se eu tivesse, você não teria nada com isso. Só acho que enquanto meu príncipe encantando não aparece, eu posso me divertir com um sapo. – Ela riu, mas logo fechou a cara quando viu que o irmão não tinha achado a menor graça. – Olha, maninho, eu sei que deve ser difícil entender... Às vezes parece que nem eu entendo, sabe? Mas é que...
- Ok, ok. A vida é sua e eu não vou me meter nas suas decisões. Agora, só toma cuidado com o , tá certo? Ele é meu amigo, mas eu conheço muito bem ele...

Ela abriu um largo sorriso e abraçou o irmão. Achara que ia ser muito mais difícil.

- É por isso que você é o melhor irmão do mundo! E não precisa se preocupar, eu também conheço ele.

☆☆☆


- A , cara? Cê ficou doido?

estava sentado na cama de Gabriel ao lado de Bernardo enquanto ouvia um sermão vindo de Victor, que andava de um lado pro outro pelo quarto.

- Ela e as amigas dela sempre foram terreno proibido, ok? A gente achava elas bonitas, mas não chegávamos perto. Justamente porque o nosso melhor amigo nos mataria caso a gente fizesse isso.
- Falou o cara que tava cheio de conversinha pro lado da Luana hoje. – Ele tentou se defender e percebeu que tocou num ponto fraco do amigo. Mas Victor logo se recompôs e voltou a falar.
- É diferente, tá bom? Eu realmente acho a Luana uma garota linda e divertida, mas nunca tentaria nada com ela. Enquanto você ficou com a que devia estar a quilômetros de distância da gente. O que você pensou que o Gabriel fosse fazer quando descobrisse que você ta pegando a irmãzinha querida dele?
- Primeiro que eu não pensei que ele fosse descobrir. Ele não fazia a menor ideia até que esse babaca aqui – ele deu um leve empurrão em Bernardo – resolveu abrir a boca. Segundo, sei de tudo isso que você falou, ok? Não era a minha intenção ficar com a . Eu só queria fazer algo legal que acabou dando nisso.
- E você nem ao menos tentou parar?

O garoto se calou. A verdade é que ele nunca tinha tentado acabar com aquilo tudo, nunca passou pela sua cabeça de que ele precisava parar. Parecia tão certo que não pensara que um dia iriam ter que parar. E não era como se ele quisesse namorar com ela. Adorava as coisas daquele jeito. Era pra ser exatamente daquele jeito...
- Vocês dois, fora. Eu quero falar com ele.

O garoto estava tão absorto em seus pensamentos que nem tinha percebido que Gabriel acabara de entrar no quarto e expulsara Victor e Bernardo de lá. Ele engoliu em seco. Sabia que tinha se ferrado.

☆☆☆


Depois que o irmão saíra da cozinha, permaneceu lá. Uma parte dizia que tinha feito a coisa certa ao convencer Gabriel, mas outra a fazia se perguntar se valera mesmo à pena... Tudo bem que ela gostava muito de ficar com o , mas será que realmente precisava desafiar o irmão por uma ficada? Ela sabia que mesmo depois de ele ter dito que aceitava, ele ainda ficaria com um pé atrás e iria vigiar constantemente os passos dela e do garoto. A pergunta que rondava sua cabeça era: estar com iria compensar tudo isso? Ou será que só agira desse jeito porque queria provar ao irmão que ele não podia controlá-la?

- Podemos conversar? – Isa e Lua apareceram na porta da cozinha.

Ela só fez que sim com a cabeça e esperou pelo bombardeamento de perguntas enquanto as meninas entravam. Mas elas não falaram nada. Elas só se sentaram e ficaram olhando para a garota como se não soubessem por onde começar. Percebendo que elas não iam começar a falar nem tão cedo, puxou uma cadeira ao lado delas e começou a contar todos os detalhes do Ano Novo.

- E você não fazia a menor ideia que ele ia te beijar? – Lua perguntou depois de ouvir a história.
- Claro que não. Eu só achei que ele tava ficando maluco.
- Tá, mas e depois? – Isa falou. – Não vai me dizer que vocês não conversaram sobre isso depois.

sorriu se lembrando dos momentos após o beijo. Ela voltara pra sala, completamente constrangida, e foi desejar um feliz ano novo para os convidados, só por educação, afinal, seu único desejo era correr para o quarto e enfiar a cabeça no travesseiro. Que foi o que ela fez assim que falou com todo mundo. Não sabia exatamente o porquê, mas o sorriso não saia do seu rosto.
Alguns minutos depois, os meninos voltaram a aparecer e foi naquele tempo que eles estiveram lá que ela percebeu que alguma coisa tinha começado. Foi naquele momento que vieram os primeiros olhares, as primeiras trocas de sorrisos, o primeiro desejo de ficarem sozinhos...
Eles passaram horas conversando e quando saíram, já estavam muito cansados. A garota trocou de roupa e foi se deitar. Se virou para todos os lugares possíveis da cama, mas nada a fez dormir. Até que ouviu alguém bater na porta. Ela se sentou rapidamente e um de pijama apareceu. Ele pediu desculpa, mas precisava muito fazer uma coisa. Então, sem nem ao menos esperar ela dizer alguma coisa, a beijou com desespero, como se aquilo fosse a última coisa que iria fazer na vida.
Ela podia ficar daquele jeito pra sempre, mas sabia que não era tão simples. O que aconteceria depois que ele saisse do quarto? Iriam simplesmente fingir que nada aconteceu e seguir suas vidas? Então, ela aos poucos foi parando o beijo e ficou séria, falando que eles precisavam conversar. Foi uma conversa bem constrangedora, pra falar a verdade. Ela nunca tinha imaginado que um dia diria ao garoto que gostara de ficar com ele...
Eles não se estenderam muito e voltaram ao que estavam fazendo. E nem o sol que começou a aparecer pela janela da garota parecia impedí-los.



Capítulo 9

- E depois de tudo isso, você continua a afirmar que vocês não se gostam?

Entre risos e piadinhas, falou tudo o que acontecera naquela noite e as meninas ficavam cada vez mais convencidas de que eles tinham se apaixonado. Afinal, aquela era uma das histórias mais românticas que já tinham ouvido.

- Continuo mesmo, dona Isadora. Não sou a fim do e tenho certeza que o sentimento é recíproco.
- Mas, , não faz nenhum sentido vocês terem ficado esse tempo todo e simplesmente continuarem indiferentes um com o outro.

A garota ficou surpresa. Tudo bem que desde então começara a achar mais bonito, mais inteligente... Mas nada tinha a ver com o fato de que estava apaixonada por ele. Em meses, eles tinham se aproximado mais do que tinham feito em anos. É claro que iriam perceber certas coisas um no outro. E foi exatamente isso que ela disse para as amigas.

- Tá bom, . Você finge que nos engana e a gente finge que acredita. – Lua sussurou, mas em um tom que pudesse ser ouvida fazendo, ela e Isa cairem na gargalhada enquanto revirava os olhos.
- Mas então... Vocês me perdoam por eu não ter dito nada? Eu queria mesmo, odiava mentir pra vocês. Mas se por acaso isso chegasse nos ouvidos do Gabriel... – a garota murmurou com uma cara de cachorro abandonado.
- A gente entende, . – Isa respondeu
- Preferíamos que você tivesse nos contado. – Lua completou. – Mas a gente entende.
- Só promete que da próxima vez vai nos contar tudo?
- Prometo

☆☆☆


Enquanto na cozinha o clima estava descontraído, no quarto de Gabriel o clima não podia estar pior. Ele olhava diretamente para com uma cara de poucos amigos sem falar absolutamente nada, e este parecia achar muito interessante uma mancha cinza no chão preto do local.
tentava vasculhar a mente em busca da lembrança de alguma briga que tivera com o amigo para tentar saber como escapar da surra que muito provavelmente levaria, mas ou sua cabeça não queria ajudar ou nunca brigara com ele. Sempre foram amigos inseparáveis. Passavam por cima de qualquer motivo para discussão. Agora o garoto tinha posto tudo a perder por causa de uma garota.
“Não é qualquer garota”, ele pensou. “É a , a irmã dele, é óbvio que se enfureceria”. Ele só queria ter chegado a essas conclusões antes.
Olhou para o relógio no criado-mudo e percebeu que se passaram mais de quinze minutos que Gabriel entrara no quarto e não dissera nada desde então. Aquele silêncio era o que lhe dava mais medo. Por que não podia simplesmente gritar com ele ou até bater nele? Seria muito mais simples e acabaria muito mais rápido.
Para sua surpresa, Gabriel sentou ao seu lado e abriu um sorriso.

- Tudo bem, cara, eu não vou te matar.

Uma onda de alívio inundou o garoto e ele quase abraçou o amigo de tanta felicidade.

- Cara, me desculpa. Mesmo, ok? Eu juro que se pudesse voltar no tempo, jamais encostaria um dedo na .
- Tudo bem, eu sei que a é gata, ok? Já viu o irmão que ela tem? – Eles riram – Mas é sério. Talvez eu demore um pouquinho pra me acostumar, mas... As vidas são suas e eu não tenho nada que me meter. Só preferia que vocês tivessem me contado, sabe?
- Foi mal por isso também. Você sabe que eu te conto tudo, mas fiquei com medo de acabar indo parar no hospital...

A intenção era ser uma piada, mas a cara que Gabriel fez deu a entender que seria exatamente isso que iria acontecer. Então, por medo de o amigo mudar de ideia, ele se afastou um pouco, fazendo Gabriel rir. Foi naquele momento que se deu conta de uma coisa que o amigo tinha dito...

- Gabriel... Você disse que demoraria pra se acostumar, então quer dizer...
- Se você quiser continuar fazendo o que estava fazendo com a minha irmã, tudo bem. – abriu um sorriso. – Mas eu tô de olho, ouviu? Qualquer passo fora da linha e aí sim – ele apontou o dedo para o garoto como se quisesse que ele se lembrasse disso para o resto de sua vida – eu te mato.

☆☆☆


- Então... eu acho que já vou indo. – Daniela falou pegando sua bolsa e se levantando.

Com exceção de e Gabriel, todos tinham voltado pra sala e conversavam como se nada tivesse acontecido. Dani já parecia menos constrangida e até aquele momento ela conversava animadamente com Isa desde que ambas descobriram que tinham uma paixão enorme por livros. mexia no celular um pouco aflita pensando no que poderia estar acontecendo no quarto do irmão. A ideia de ir até lá passou diversas vezes pela sua cabeça até se convencer de que era orgulhoso o suficiente para preferir resolver seus problemas com Gabriel sozinho.
Bernardo se sentara ao lado de Jorge e eles entraram num papo sobre basquete enquanto Lua, que estava sentada ao lado deles, mas estava totalmente alheia a conversa, ficava cada vez mais vermelha quando seu olhar se encontrava com o de Victor, que estava do outro lado da sala. Ambos ainda com o que Bernardo dissera na cabeça.

- Mas já? – se levantou também. – A gente nem terminou o filme...
- E vocês têm a intenção de voltar a assistir? – E vendo a expessão nos rostos dos outros, ela mesma respondeu. – Também pensei que não... Mas eu ia ter que voltar pra casa nesse horário mesmo que ainda tivéssemos assistindo. Minha mãe tá sozinha em casa agora e ela vai ficar louca se eu voltar pra casa depois que escurecer. Só queria mesmo conhecer o pessoal de quem o Gabriel fala tanto...

Eles se entreolharam sorrindo. Se Gabriel passava tanto tempo falando deles com a garota que ele estava a fim, era porque eles eram realmente importantes. Dani abraçou cada um deles, se demorando um pouco mais em .

- Adorei finalmente te conhecer, . Pede desculpas ao seu irmão por mim e fala que eu realmente precisava ir, por favor?
- Também gostei muito de conhecer você, Dani. Eu que queria te pedir desculpas... Você deve ter ficado com uma péssima impressão minha...
- Claro que não! Afinal você tem direito de ficar com quem você quiser...
- Então você vai sair com uma péssima impressão do Gabriel! Olha, ele é meio ciumento mesmo, mas eu juro que ele é o garoto mais fofo e incrível da face da terra.

Daniela só riu e falou para ela não se preocupar. Ela tinha acabado de fechar a porta da casa quando os meninos voltaram à sala. Toda a atenção virou-se para eles. Primeiro todos suspiraram aliviados quando não encontraram nenhuma mancha roxa no corpo de , depois avisaram a Gabriel que Dani já tinha ido.

- Como assim ela já foi? – E sem esperar nenhuma resposta saiu correndo porta à fora atrás da garota. Com toda a rapidez, ele acabou esbarrando nela que ainda estava na calçada da casa.
A curiosidade atiçou os amigos e no segundo seguinte eles já estavam se expremendo na janela da sala que dava pra rua para tentar ver e ouvir alguma coisa.

- Me desculpa, tá? Por isso tudo que aconteceu... - ouviram bem baixinho a voz de Gabriel.
- Você não tem que se desculpar por nada.
- Claro que tenho. Você deve ta achando que eu sou um idiota por ficar tão bravo com uma besteira dessas...
- Na verdade, eu to achando que você é um irmão maravilhoso e que só se preocupa demais com a sua irmãzinha...
- É sério? – Ele disse e vendo ela balançar a cabeça em sinal de afirmação, continuou - Tem certeza que não quer que eu chame um táxi pra você voltar pra casa?
- Mas eu moro a menos de dez minutos daqui, Gabriel!
- Então eu te levo até lá.
- Não precisa, ta? Eu posso ir sozinha... E se você quiser, eu prometo te ligar assim que eu chegar em casa pra você saber que eu to viva.
- Promete mesmo?
- Prometo... Até mais, Gabriel!

Ele não respondeu porque no segundo seguinte ela se aproximou e deu um leve selinho em seus lábios. Ela deu um sorriso e se virou, caminhando em direção à sua casa. Ele fez o mesmo e a primeira coisa que ouviu ao entrar foi a voz de :

- E é por isso que a minha vida amorosa tá muito mais interessante que a sua.



Capítulo 10

A segunda-feira amanheceu chuvosa. O frio e o vento do dia só aumentavam o desejo de passar a manhã inteira na cama. Mas infelizmente algum ser desprezível inventou a escola e exatamente naquele dia as férias diziam adeus e as aulas começavam de novo.
O despetador de tocou sete vezes antes de ela tomar coragem e levantar da cama. Foi até o banheiro como uma sonâmbula e abriu o chuveiro para tomar banho com a água extremamente gelada. Ela sabia que só assim para realmente acordar, mas também sabia que acabaria resfriada no fim do dia. “Ótimo’, ela pensou, “assim posso convencer a mamãe para não ir à escola amanhã”.
Depois do banho foi até seu guarda-roupa para procurar seu uniforme, que não passava de uma camisa branca com o símbolo do colégio e uma calça jeans, mas parecia que o mesmo resolvera tomar um chá de sumiço exatamente naquele dia. Fez a maior bagunça no armário inteiro a procura da roupa para depois se lembrar que tinha o deixado na escrivaninha no dia anterior. Vestiu o uniforme, calçou o tênis, deu um jeito no cabelo, escovou os dentes, pegou sua mochila e tirou seu celular do carregador. Foi ver a hora e, para sua enorme surpresa, descobriu que estava atrasada.
Desceu as escadas quase caindo e encontrou sua mãe e seu irmão tomando café da manhã na cozinha.

- Você tem noção de que precisamos pegar o ônibus daqui há cinco minutos se quizermos estar na escola no primeiro horário?
- Bom dia pra você também, Gabriel! – Ela disse dando um tapa na cabeça do irmão e um beijo na cabeça da mãe. – Bom dia, mãezinha. E sim, maninho, tenho total consciência disso.
- Garotos, são seis horas da manhã! Nem eu estou com bom humor agora, mas vocês realmente precisam brigar? – Dona Sara falou fazendo os garotos rirem. – E pode comer direito, . Eu vou levar vocês hoje, então não precisam ter pressa.

A garota que já estava comendo, ou melhor, engolindo a comida, deu um enorme sorriso de gratidão e depois fez uma bola com o guardanapo pra jogar no irmão, que fizera uma cara de quem sabia de tudo e só quis assustá-la dizendo que estava atrasada. Este revidou com a mesma bolinha, que foi interceptada por dona Sara com uma cara de pouco amigos.


☆☆☆


: “Vocês dois vão faltar hoje? Pela primeira vez cheguei no colégio antes de vocês. ”

- Engraçado. Antes era eu que recebia mensagens do . – Gabriel falou depois de ver a mensagem que a irmã recebera quando eles estavam na frente da casa esperando a mãe tirar o carro da garagem.
- Tá com ciúmes do , maninho? – disse enquanto digitava a resposta para o garoto.

: “Não se acostume com isso. Já estamos chegando. ”

- O problema não é comigo, maninha. É com vocês dois.
- Como assim?
- Eu conheço o amigo que tenho. Ele não é de ficar mandando mensagem desse jeito pra garota que ele só ta ficando.
- E o que você ta insinuando? – Nesse momento a mãe deles apareceu com o carro e já esperava na rua os filhos entrarem.
- Eu só acho – ele abriu a porta da frente – que essa história de amizade colorida não vai dar certo.

Ela entrou no banco traseiro do carro e se limitou apenas a revirar os olhos. Não podiam simplesmente começar a discutir aquilo na frente da mãe, que, por mais que tivesse também uma relação boa com os filhos, ainda não tinha conhecimento sobre o que ocorrera no sábado e muito menos sobre e . Pelo menos era o que a garota esperava, já que não fazia a menor ideia de que Bernardo sabia de alguma coisa, então agora ela não duvidava de mais nada.


☆☆☆


- Bom dia – os irmãos falaram quando chegaram perto da mesa em que os amigos estavam.

A escola ficava um pouco distante do bairro deles, mas como vieram com a mãe, chegaram com menos de vinte minutos. Os alunos dividiam o lugar em duas partes: o enorme prédio branco de três andares em que ficavam as salas dos alunos, a diretoria, a sala dos professores e alguns laboratórios; e as partes da frente e de trás do prédio. A parte traseira era enorme e nela ficavam duas quadras e um campinho. Já a parte frontal era o pátio, onde ficavam várias mesas e uma cantina e era onde os alunos tanto do ensino médio quanto do fundamental II passavam grande parte do tempo. Até porque era lá que o sinal do Wi-Fi funcionava melhor.

- Bom dia – Luana, Isadora, Jorge, Rafael, , Bernardo e Victor falaram juntos.
- Posso saber desde quando vocês – ela apontou para o irmão e seus amigos enquanto se sentava entre Luana e – andam com a gente?
- Desde que o resolveu vir até aqui e perguntar por você – Jorge disse tentando controlar uma risada.
- Ei! Isso não é verdade!
- Só porque você trouxe seus fiéis escudeiros não quer dizer que seja mentira – o garoto revirou os olhos e deitou sua cabeça no ombro dele dizendo:
- É que o me ama demais, sabe? – Ele revirou os olhos de novo, mas aproveitou a posição da garota para dar um selinho nela.
- Ei! O que foi que eu perdi? – Rafael disse ao perceber que só ele ficou surpreso com a atitude do garoto e no exato momento em que ele terminou de falar, o sinal tocou indicando que a aula ia começar.
- Tá vendo, Rafa, quem mandou nos trocar pelas meninas do seu inglês? Acaba perdendo as novidades. – Isa se levantou com os demais rindo.
- Gente, – Lua falou apontando discretamente para algumas mesas próximas – acho que não foi só o Rafa que percebeu isso, não.

Eles se viraram para a direção em que Lua apontara e viram grupinhos de amigos olhando pra eles e cochichando uns com os outros. É, aquele seria um longo dia.



Capítulo 11

A escola dos garotos não tinham muitos alunos, já que só tinham turmas do 6º ano do fundamental até o 3º ano do ensino médio, o que significava que todo mundo conhecia todo mundo. Então não foi nenhuma surpresa para eles saberem que, no final do dia, todos já sabiam do selinho que dera em pela manhã. Claro que cada um tinha tirado suas próprias conclusões do ocorrido. Alguns falavam que eles começaram a namorar nas férias, outros diziam que eles já namoravam há muito tempo e eles chegaram até a ouvir que o grupo inteiro se revezava pra pegar um diferente em cada semana entre eles mesmos.

- Eu ainda morro de rir nessa escola, viu? – Lua comentou enquanto eles estavam conversando sobre os boatos que inventaram sobre e .

Todos estavam na mesma mesa que tinham começado o dia, com exceção de Gabriel e Bernardo, que já tinham ido para o curso de matemática que faziam juntos, e de Isadora e Rafael, que como moravam perto um do outro, foram embora com a mãe de Isa.

- E pensar que eu nunca mais fui motivo de fofoca desde que o Rafa entrou na escola. – lamentou se lembrando de todas as vezes em que ouvira algumas meninas falando que ela era totalmente apaixonada pelo garoto e que ele não dava a menor bola pra ela.
- Bom... eu acho que nunca fui motivo de fofoca antes... Essa foi a primeira vez. – colocou a mão no queixo como se tivesse tentando se lembrar de algo. Lua e se entreolharam e caíram na gargalhada. – O que é tão engraçado?
- Você só pode tá de brincadeira que acha que essa foi a primeira vez, né? – Lua disse.
- , o seu nome e o do “quarteto fantástico” inteiro vivem nas bocas das meninas desse colégio pelo simples fato de existirem.

O garoto fez uma careta de surpresa e até Victor, que mexia no celular alheio a conversa, largou o aparelho e começou a prestar atenção nas garotas. Elas riram de novo e começaram a fazer uma imitação afetada das meninas do colégio.

- “Amiga, você viu como o Gabriel tá gato hoje?”
- “Claro que vi, mas você não acha que o Victor é tããão mais bonito que ele?”
- “Eu acho que o Bernardo supera todos eles.”
- “Mas o é uma gracinha também, não é?”

Elas iriam continuar, mas Lua falou com uma voz tão aguda que elas acabaram rindo fazendo os garotos rirem com elas. Victor disse que eles não tinham culpa de herdar tanta beleza e repentinamente Lua se calou. Ninguém pareceu notar, com exceção de . E depois era ela quem não falava a verdade sobre seus sentimentos...

- Mas e então – falou quando a risada parou. – Bora pro McCartney’s?
- Esqueceu que eu e a Lua temos treino hoje à tarde? – A garota esquecera completamente que as férias dos treinos de Jorge e Luana tinham acabado junto com as férias escolares.
- E nós dois – Victor apontou pra ele e para . – Precisamos estudar. Além de o vestibular estar chegando, já temos tarefa de história e biologia pra fazer.

fez uma careta, mas concordou balançando a cabeça afirmativamente. Odiava ser do último ano. Não só os professores, mas o mundo inteiro começa a cobrar mais de você no último ano, como se você precisasse amadurecer tudo o que não amadureceu durante toda a sua vida. E passar por isso com o vestibular na cabeça, não é nada fácil. Às vezes ele só queria que voltasse aos seus treze anos e que o tempo simplesmente parasse...

- Então eu acho que vou indo pra casa mesmo. Até amanhã. – A garota se levantou jogando a bolsa de qualquer jeito no ombro, ouviu os amigos responderem um “até amanhã” baixinho e foi caminhando em direção à parada de ônibus que ficava na esquina da escola, não sem antes se abaixar para dar um selinho em .


☆☆☆


Rafael: “Hey, .”

: “E aí, Rafa? O que foi?”

Rafael: “Eu só queria entender essa parada entre você e o . Porque até ontem, eu achava que ele era só o amigo do teu irmão pra tu....”
: “Eu senti uma pontinha de ciúmes, Rafael?”

Rafael: “Claro que não, né, ? Eu só não quero ser o único a não saber das histórias.”
: “Tá bom então... Mas nem se preocupe, não tem nada demais rolando entre nós dois”

Rafael: “Como não?”
: “A gente só fica de vez em quando. Não estou apaixonada por ele, nem ele por mim, se é isso que você está pensando”

Rafael: “Ah bom... Poxa, zinha, achei que você fosse esperar por mim pra sempre kkkkkk”
: “Kkkkkkk desculpa, Rafinha, mas eu deixei de esperar por você faz muito tempo.”

Rafael: “Uma pena, porque eu sempre imaginei o que teria acontecido se a gente tivesse ficado juntos”
: “Sério isso?”

Rafael: “Sim”
: “Eu te digo o que teria acontecido: Você sairia correndo pra contar pra primeira pessoa que passasse na sua frente, eu te acharia um babaca e nós nunca seríamos tão amigos como somos hoje.”

Rafael: “É né... Acho que foi melhor desse jeito mesmo ”
: “Foi mesmo kkkkk”

Rafael:, eu vou indo nessa porque eu preciso revisar a matéria de física”
: “Você? Indo estudar agora que as aulas acabaram de voltar e mal tem assunto novo?”

Rafael: “Eu disse que ia ser mais responsável esse semestre, não disse?”
: “Ta bom, vai lá então. Beijos.”

Rafael: “:*”


☆☆☆


: “Acabei de ter a conversa mais estranha da minha vida.”

Lua: “O que houve?”
Isa: “Primeiramente, você não devia tá no treino, Luana?”
Lua: “E eu estou, mas estamos dando uma pausa. Então desembucha logo, .”
: “Foi o Rafa dizendo que tava imaginando o que teria acontecido se a gente tivesse ficado.”

Isa: “Como assim?”
Lua: “Foi do nada isso?”
: “Bom, primeiro ele me perguntou sobre eu e , e depois me veio com essa.”

Isa: “Hm... Acho que alguém ficou com ciúmes...”
Lua: “kkkkk também to achando isso”
: “Claro que não, meninas. É do Rafa que estamos falando, esqueceram?”

Isa: “Eu acho que como ele sempre teve aquela certeza de que você gostava dele, nunca precisou fazer nada...”
Lua: “É, mas agora que apareceu uma concorrência...”
: “Vocês só podem estar loucas! O Rafa não ta a fim de mim e mesmo que estivesse, o não seria nenhuma concorrência.”

Isa: “Um garoto que pode ficar com você na hora que quiser é, claramente, uma concorrência.”
Lua: “Exatamente. Cuidado, viu, ? Ter dois garotos atrás de você pode dar problema. Enfim, preciso voltar pro treino. Beijinhos.”
: “Hahaha, que engraçada. Eu tenho certeza que nenhum deles estão atrás de mim.”

Isa: “Se você ta tão certa disso, quem somos nós pra discordar, né? Mas eu tenho que ir também, , preciso tomar conta do meu irmãozinho.”
: “Ok, então, acho que vou aproveitar que o Gabriel tá estudando e entrar na onda dele também. Beijos.”

Isa: “Beeeeeijo ”


Capítulo 12

- Já sei o que vou fazer no meu aniversário. – Rafael disse.

A terça-feira havia amanhecido nublada e todos os seus amigos, incluindo o “quarteto fantástico”, já estavam reunidos na mesma mesa que estiveram no dia anterior na escola. De um lado se sentavam Jorge, Isa, Bernardo e Victor, enquanto ele se juntou à Lua, , e Gabriel.

- Finalmente! Achamos que ia passar o dia e você não ia ter decidido. – Lua disse fazendo o restante da mesa rir.
- Conta aí os seus planos. – Jorge falou.
- Então, tava pensando em fazer uma festinha lá no salão de festas do prédio na sexta de noite. Nada demais, só algumas pessoas, comida e um som ligado. Afinal, é daqui a três dias.
- Boa, Rafa. Agora a gente faz parte dessas “algumas pessoas”, certo? – Bernardo perguntou apontando pra si próprio e pros três amigos.
- Claro. Vou ver ainda quem mais eu vou chamar, mas vocês podem convidar quem quiserem, só não pode ser muita gente.
- Cria um grupo que fica mais fácil pra chamar a galera.
- Boa ideia, Isa, vou fazer isso quando eu chegar em casa.

O sinal tocou e eles se levantaram, indo em direção ao prédio. Mas sentiu alguém a puxando pelo braço.

- Qual a sua primeira aula? – Ouviu a voz de .
- Hm... Acho que é educação física... Por quê? – Ela falou sorrindo, já percebendo a intenção do garoto.
- Porque eu – ele se aproximou, dando um beijo na bochecha dela – tenho aula – deu um beijo na outra bochecha – de matemática, mas não tô nem um pouquinho a fim de ir... – ele então lhe deu um selinho.

respirou fundo ainda sorrindo. A garota poderia até reclamar, dizendo que eles não podiam faltar aula, principalmente ele que estava no último ano. Mas ela também sabia muito bem que o garoto não precisava nem estudar para ser ótimo em matemática e que o professor de educação física nem notaria a sua ausência. Além de que ela jamais seria capaz de dizer não àquele sorriso. Ela então olhou para os lados para conferir se não tinha ninguém os observando, antes de segurar sua mão e irem correndo para os fundos do colégio.


☆☆☆


Depois do horário das suas aulas, e voltaram para o pátio e, como de costume, para a mesma mesa de mais cedo. Não demorou muito para o sinal tocar, indicando o ínicio do intervalo e o restante dos amigos se juntarem a eles. Alguns ainda se perguntavam como tinham sido tão ingênuos por nunca desconfiarem dos dois. Luana mesmo já tinha perdido a conta de quantas vezes a garota havia matado especificamente aquela aula de terça de manhã e sempre caira na história de que era muito mais produtivo ficar estudando outra matéria.
Gabriel ainda era incapaz de imaginar como aquilo tudo começara. Era incapaz de imaginar sua irmã com seu melhor amigo. “Eles disseram que não era nada sério, que poderia acabar a qualquer momento”, pensou. Mas mesmo sem saber como, ele agora conseguia perceber que aquele rolo fizera uma enorme diferença para os dois. Eles pareciam mais... Vivos. Porém, ele os conhecia muito bem. Eram teimosos, jamais admitiriam que tinham esse sentimento um pelo outro. Ambos achavam que eram muito novos para se prender de tal maneira em outra pessoa.

- Não vimos a senhorita na aula, dona – Jorge disse quando chegou, acompanhado da Isa, por último na mesa.
- Entranho, Jorge, também não vi vocês... – os amigos riram.
- Bom, eles matam aula juntos e não se gostam... Essa história tá um pouco mal contada, vocês não acham, não? – Victor falou com um sorriso malicioso nos lábios.

e rolaram os olhos enquanto o resto dos amigos os olhava com a mesma cara que Victor fizera. Era estranho fazer tudo aquilo com eles sabendo. Parecia mais sério. Afinal, os amigos não entendiam o que os dois sentiam de verdade, então era normal pensarem errado e colocar a maior pressão em cada comentário. Como se eles fossem obrigados a acabar se apaixonando, a acabar namorando. Não era assim. Pelo menos eles não queriam que fosse assim. Passaram o intervalo inteiro tentando explicar até que bufou.

- Já cansei de discutir com vocês sobre isso – no momento em que a garota terminou de falar, o sinal tocou novamente – Eu vou para a minha aula, que é o melhor que eu faço.

Ela se levantou e saiu, enquanto todos olhavam para esperando uma resposta melhor. Este, porém, só deu de ombros como quem concordava com a garota e a seguiu.

- Esse vai ser um longo semestre... – Luana disse.



Capítulo 13

A sexta-feira chegou e com ela o aniversário de Rafael. Como já esperado, o garoto não apareceu na escola. Era o dia dele, ué, é óbvio que ele merecia dormir até tarde. Só acordou quando sua mãe o deu um beijo na cabeça, parabenizando-o e dizendo que seus amigos estavam na sala.

- PARABÉNS, BELO ADORMECIDO! – ele ouviu de Isa, , Luana e Jorge, que estavam de uniforme, indicando que tinham vindo direto da escola.
- Obrigado, pessoal – disse abraçando cada um deles.
- Viemos entregar logo os seus presentes, porque vai que você resolve nos trocar de novo pelas meninas do seu inglês durante a festa, né? Então é melhor ver eles antes.
- Você sabe muito bem que eu não troco vocês por ninguém, ... Mas eu abro os presentes depois. O que vamos fazer agora?
- O aniversário é seu, querido, dê uma ideia. – Luana falou.
- Como eu tô com muita preguiça de sair de casa e de trocar de roupa – ele apontou pro seu pijama – a gente podia assistir um filme por aqui mesmo e depois descer pra levar as coisas para o salão.
- Ótima ideia.


☆☆☆


- Okay, qual dos dois?

Luana saiu do banheiro enrolada em uma toalha com o cabelo preso em um coque segurando dois croppeds. Ela estava no quarto de junto às outras duas meninas que já estavam prontas só esperando a amiga se arrumar. Elas tinham ido pra lá direto da casa de Rafael depois de terem ajudado o garoto a organizar as coisas no salão de festas. Disseram que não demorariam muito para voltar, mas graças à loirinha, estavam naquele quarto fazia mais de duas horas e sabiam que até Gabriel já tinha saído de casa, cansado de esperar.

- Qualquer um, Lua, eu só quero sair – choramingou.
- Dizer “qualquer um” não vai me fazer decidir mais rápido, .
- O azul combina com seus olhos – falou Isa olhando pra com cara de “não piora a situação”.

Elas viram a amiga voltar para o banheiro com um sorriso nos lábios e suspiraram aliviadas.


☆☆☆


- Algum sinal das meninas?

A festa havia começado há algum tempo e já estava animada. Tinha algumas pessoas dançando, outras conversando e pelas contas de Jorge só faltavam a namorada e as amigas chegarem. O garoto conversava com e Victor em uma das mesas quando perguntou por elas. Ninguém respondeu, só balançaram a cabeça indicando que não.

- Olha lá quem já se arranjou – apontou para um dos cantos do salão onde estava Bernardo conversando com uma garota do segundo ano.
- Mas já? – Jorge perguntou.
- Sorte a dele – Victor bufou. – Do jeito que as coisas vão, é bem capaz que eu fique de vela a noite inteira.
- Que mentira, Victor, daqui a pouco tu se arranja também.
- Fácil falar quando se já tem companhia, .
- Falando em companhia – Jorge interrompeu. – Elas chegaram.

se virou para a porta e viu cumprimentando Rafael com um abraço. Notou que ele disse alguma coisa no ouvido dela, provavelmente porque a música estava muito alta. A garota se ruborizou um pouco, mas deu um sorriso. murchou. Sabia que ela era apaixonada por Rafael, mas fazia tempo que não via os dois juntos assim.

- Oi, meninos.

Ele saiu dos seus devaneios quando ouviu a voz de Luana e Isadora enquanto elas se juntavam à mesa. Era besteira. Eles nem estavam juntos para ele ter esses pensamentos sobre a garota.

- Por que demoraram tanto? – Victor perguntou.
- É que eu acho que a Lua ta tentando impressionar algum garoto, sabe, Victor? Porque o tempo que ela levou para se...

Sua frase foi interrompida por uma tapa que recebeu de Luana que tinha um olhar fuzilante no rosto. O menino riu e disse que se essa fosse mesmo a intenção da menina, ela com certeza iria conseguir impressionar não só o tal garoto como qualquer outro que estivesse ali presente. Lua agradeceu e logo abaixou o rosto para que ninguém notasse o quão vermelho ela se encontrava.

- Cadê a ? Ela não veio com vocês? – Jorge questionou sentindo falta da amiga.
- Ela veio, mas ficou no meio do caminho com o Rafael – Isa então apontou na direção dos dois que ainda estavam conversando. Viu que Jorge fez uma cara estranha e perguntou: – Algum problema?
- Nada não, depois eu te falo – ele deu uma rápida olhada para que ainda prestava atenção nas duas pessoas que conversavam animadamente no canto da festa.

Depois que as meninas foram para a casa de , Jorge e Rafa subiram para tomar um banho.

- Preciso te perguntar uma coisa – Rafael falou enquanto saia do banheiro. – E, por favor, não ria.
- Manda.
- É muito estranho eu querer ficar com depois de tudo? – Ele disse rápido como se estivesse com medo da reação do amigo, que começou a gargalhar no segundo seguinte. – Eu tô falando sério! Quer saber, esquece, é besteira.
- Não, calma aí – Jorge respirou fundo controlando a risada antes de continuar. – Não é estranho, é só...
- Só o quê?
- Pensa assim, todo mundo sabe que era bem a fim de você. Mas você nunca quis nada com ela porque nunca quis algo sério e não queria iludir a menina, certo?
- Certo.
- Talvez agora que ela esteja nesse rolo com , você percebeu que ela pode se envolver com alguém sem ser algo sério e não se machucar.
- Faz sentido. Mas sei lá, é estranho pensar em desse jeito.
- Quando você a conheceu, quis ficar com ela, não foi? – Rafael concordou com a cabeça. – Então pode ser que o seu desejo reprimido tenha voltado à tona.
- É... Mas tem dois poréns.
- Quais?
- O primeiro é . Seria muita sacanagem tentar alguma coisa sabendo dos dois?
- Olha, eles dizem que não se gostam desse jeito e já me falou uma vez que podia ficar com quem quisesse.
- Esse é o segundo porém. Será que ela iria querer ficar comigo depois de tudo?


☆☆☆


- Boa noite, galera.

chegou e se sentou na última cadeira que sobrava na mesa. Olhou em volta e viu Gabriel e Dani sentados em um sofá e Bernardo beijando alguma menina do colégio. Até aquele momento tivera uma noite bem esquisita. Ver Rafael dando em cima dela era a última coisa que esperava. Parecia pretensão da garota, mas ela conhecia muito bem as táticas do garoto. Primeiro ele dava um abraço e falava no ouvido o quanto a menina estava bonita; depois puxava um assunto que só ela entendesse para conseguir tirá-la de perto das amigas; e pra finalizar, dizia que precisava procurar alguém para fazê-la ter que procurá-lo depois e dava aquele sorriso irresistível para ela querer procurá-lo depois.
Mas para ser bem sincera, ela não sabia se queria. Passou tanto tempo esperando que ele desse aquele sorriso pra ela que acabou perdendo a graça. Nos seus antigos sonhos de menina apaixonada, aqueles sorrisos eram muito mais bonitos e ela sentia que ele queria ficar com ela para o resto da vida. Na real era só mais um sorriso qualquer e ele só parecia querer “demarcar território”. O que ela achava mais do que ridículo, vale ressaltar.
Fora que a ideia que ela tivera daquela noite era totalmente diferente. Em geral envolviam o garoto que estava sentado à três cadeiras de distância, mas que, para a sua surpresa, não tinha ao menos olhado pra ela uma única vez. Será que tinha acontecido alguma coisa?

- Olha, eu não sei vocês, mas eu não vim pra uma festa pra ficar sentada – Lua logo se levantou e olhou pro restante da mesa como se dissesse “eu quero ir, mas não quero ir sozinha”.
- Tudo bem, você ta certa. – Victor também se levantou. – Bora aproveitar a festa, loirinha.

A garota abriu um sorriso e eles seguiram para a pista de dança, que só podia ser chamada assim porque era o local em que não tinha mesas, uma grande quantidade de pessoas estava acumulada e onde fora colocado um pequeno jogo de luzes que a mãe de Rafael achou pela casa. Praticamente todo o ensino médio da escola dos meninos se encontrava naquele salão e a animação dos convidados compensava o fato de a festa ter sido organizada de última hora.
Não demorou muito para que Isa convencesse o namorado à seguir os passos de Luana e Victor, deixando e sozinhos na mesa. A menina sabia que tinha algo de errado, já que o garoto ainda não havia sequer dado uma olhada nela. O único problema é que ela não conseguia nem imaginar o que poderia ter sido, por isso se viu perguntando enquanto pulava para a cadeira ao lado dele.

- Tá tudo bem?

, que até aquele momento encarava os dedos da mão como se tivesse algo muito interessante além do anel preto que ele sempre usava no dedo médio, se virou para e a encarou por alguns segundos antes de dar um suspiro e responder que estava “tudo em ordem”.

- Tem certeza? – Ela perguntou sem levar a menor fé na resposta do garoto, que apenas assentiu com a cabeça. – Então bora dançar comigo.
- , me responde uma coisa – ele chegou mais perto olhando bem fundo nos olhos dela. – Você, alguma vez na sua vida inteira, já me viu dançando? – Eles riram e ela realmente não conseguiu lembrar-se de nenhum momento daqueles. Anotou em pensamento que precisava presenciar tal cena um dia.
- Então – ela aproveitou a proximidade para falar mais baixinho – a gente podia ir procurar um lugar mais vazia que eu tenho uma ótima maneira de fazer você acabar dançando.

O garoto deu um suspiro e se afastou dizendo que era melhor deixarem pra outra hora e voltando a encarar os dedos. arregalou os olhos. Definitivamente algo muito errado tinha acontecido, porque nunca vira amuado daquele jeito. Nos sete meses que estavam ficando, ele nunca a havia dispensado assim. Pensou que talvez fosse algum assunto pessoal e resolveu não se meter. Se ele quisesse falar alguma coisa já teria falado.

- Se precisar de qualquer coisa, me procura, tá? – Ela deu um sorriso de lado, um beijo em sua cabeça e se levantou.



Capítulo 14

escutou um barulho de vozes sussurando e de uma porta batendo, e só então percebeu que acabara de acordar. Ainda de olhos fechados, sentiu uma pontada no meio da testa, que a fez levar a mão à cabeça. Foi aos poucos abrindo os olhos, sentindo a dor se itensificar cada vez mais com a claridade e então notou que aquelas paredes rosa bebê e aquele espelho que ocupava metade de uma delas não pertenciam ao seu quarto. Talvez a dor de cabeça estivesse a afetando mais do que deveria, pois somente quando viu aqueles cabelos loiros inconfundíveis em um porta-retrato foi quando percebeu que estava no quarto da Lua.
Sentou-se na cama em que estava deitada e viu dois colchões estendidos no chão. Deduziu então que Isa também deveria ter dormido lá, só não conseguia se lembrar de como e quando haviam decidido isso, pois até onde lembrava, iria para a prórpia casa depois da festa de Rafael. Memórias da noite anterior começaram à aflorar sua mente e ela tentava a todo custo lembrar de como tinha parado ali.

Depois que levantou da mesa, se dirigiu à pista de dança, onde as meninas estavam. Passaram um tempo dançando juntas até ficarem cansadas e resolveram voltar a se sentar. já não estava mais na mesa e tentava procurá-lo discretamente pelo canto do olho enquanto fingia prestar atenção no papo de Isadora e Luana.

- Oie – escutou a voz de Rafael e viu o garoto sentar na cadeira ao seu lado. – Procurando alguém?
- Não, ninguém – ela deu um leve sorriso se virando pra ele.
- Ótimo, tava mesmo querendo conversar contigo. – Enquanto ele falava, olhou para o lado e viu que as meninas haviam saído da mesa e estavam conversando com Jorge num canto próximo. Voltou a olhar para o garoto e percebeu que ele falava um pouco mais baixo do que o normal, enquanto segurava uma latinha estranhamente fechada na mão.
- Manda – ela respondeu ainda um pouco intrigada.
- Você sabe que eu sempre joguei limpo contigo, não sabe? – Ela assentiu com a cabeça. – Sabe que eu nunca quis te machucar e que meu lance é de uma noite só, né?
- Rafa, eu sei de tudo isso e sei também pefeitamente aonde você quer chegar. Mas eu tenho outros planos pra essa noite.
- Tipo aquele plano ali? - Ele apontou pra o outro lado do salão onde estavam e uma garota do terceiro ano.

Eles conversavam animadamente e sentiu um aperto no peito, era como se dentro dela tivesse algo que quase não cabia de tão grande que era. "Então era por isso que ele tava estranho", ela pensou. Balançou a cabeça como se jogasse aquele pensamento de lado e se virou novamente para Rafael.

- Nada a ver, só quero me divertir. - Ela então apontou para a latinha azul que ele segurava. - Tem outra dessa lá dentro?
- Têm várias, mas essa daqui eu trouxe pra você mesmo - ele disse sorrindo enquanto a colocava em cima da mesa. - Sei que é a sua favorita, zinha. Me procura se mudar de ideia.

Ele se despediu com uma piscadinha no olho direito e, novamente, com um daqueles sorrisos no rosto. pegou a latinha e a abriu. Passou algum tempo a encarando e pensando se realmente iria fazer aquilo para se divertir ou se algum outro motivo a estava influenciando. Até que seus olhos se viraram novamente para o outro lado do salão e ela viu a tal garota se aproximando e falando alguma coisa no ouvido de , que apenas sorriu em resposta.
Quando viu, aquela latinha recém-aberta já estava na metade.


☆☆☆


- Olha só quem finalmente acordou - a voz de Isadora inundou o ambiente e fez voltar de seus devaneios.
- Bom dia, bela adormecida - Luana disse se jogando na cama ao lado da garota.
- Bom dia pra quem? - sentiu outra pontada na testa graças ao barulho das meninas e novamente levou a mão à testa. - Vocês podem me explicar como eu vim parar aqui?

As duas meninas se sentaram na cama e se entreolharam como se nenhuma delas soubesse o que dizer. Naquele momento elas ouviram um bipe vindo de um celular. logo notou que era o seu pelo barulho diferente e se levantou para pegar sua bolsa na escrivaninha. A primeira coisa que percebeu foi que já passavam das três da tarde e a outra foi o conteúdo da mensagem.

- Eu fiz alguma merda, não foi? - Ela falou se sentando de novo e mostrando o celular para as amigas.

: “Oi, , você tá melhor? Fiquei muito preocupado contigo ontem à noite... Falando nisso, eu acho que a gente precisa conversar sobre o que aconteceu... Acho que eu tive uma parcela muito grande de culpa aí. Falei mais do que deveria e deu no que deu. Mas enfim, me encontra no McCartney's mais tarde?”

- Não foi exatamente...
- Fez sim - Lua interrompeu Isadora, que lhe lançou um olhar de repreensão. - Que foi? Ela fez mesmo e a gente já conversou sobre isso. Ela tem, sim, direito de ficar com quem quiser, mas não daquele jeito. Tadinho do , né? O coitado ainda ficou todo preocupado quando ela vomitou.
- Eu o quê? - Era muita informação ao mesmo tempo e aos poucos as lembranças do que tinha acontecido foram aparecendo.

Aquela tinha tudo para ser uma festa que daria o que falar na escola na segunda-feira. A música estava alta, as pessoas se divertindo e parecia não ter hora pra acabar. achava tudo muito engraçado. Sentara-se com algumas meninas de sua sala e todas elas já pareciam ter virado alguns copos de tão alegrinhas que estavam. nem tinha bebido tanto, mas como não tinha costume de beber mais do que um copo, seu corpo era fraco pra isso e não aguentava as duas latas inteiras que a garota tinha ingerido.

- Ei, é verdade que você ta namorando do terceiro? – Uma das meninas perguntou.
- Não, não – ela respondeu meio embolada e meio risonha. – A gente só ficou algumas vezes.
- Ah, vocês são fofinhos juntos – outra menina falou. – Falando nele, olha só quem vem ali.

olhou na direção em que a amiga apontou e viu o garoto se aproximando. Logo, seu sorriso murchou. Não queria falar com ele naquele momento. Percebeu que as meninas se levantaram e foram para a pista de dança, provavelmente pensando que ia rolar alguma coisa.

- Oi – disse baixinho se sentando ao lado da garota. Estava meio receoso de estar ali, pois sabia que fora horrível com ela e nunca a vira bebendo daquele jeito.
- Oi – ela deu um sorriso forçado e cruzou os braços, como se dissesse: “estou fechada pra você”.
- Eu queria pedir desculpa por...
- Tudo bem – ela falou ríspida.
- Oh, , eu to falando sério. Vai, olha pra mim, eu vou até dançar com você se você quiser.

Ela ficou olhando pra frente, se controlando para não acabar dando um sorriso. Uma parte dela queria olhar pra ele e ficar tudo bem de novo, mas a outra parte lembrou da cena de mais cedo. E a lembrança daquela menina chegando perto dele fez seu sangue subir. Então, ela só se levantou falando um “eu tenho que ir no banheiro” e deixando o garoto frustado.
Ao invés de ir ao banheiro, ela entrou na cozinha onde tinha um casal se beijando. A garota se desculpou e já estava saindo, mas eles falaram que não tinha problema e saíram. Se vendo sozinha, apoiou os cotovelos na mesa e o rosto nas mãos, soltando um grito abafado.

- Dia difícil? – A voz de Jorge ecoou no lugar e olhou pra cima vendo o garoto se aproximar, mas logo voltou para a posição anterior.
- Não quero falar.
- Ta certo então, eu só vim pegar um refri – ele disse estendendo as mãos pra cima em sinal de inocência e ela levantou a cabeça de novo. – Mas qualquer coisa, você sabe, né? É só gritar.

O garoto abriu a geladeira e tirou duas latas de refrigerante, saindo da cozinha logo em seguida. A garota ficou encarando a geladeira por alguns segundos.


☆☆☆


Ela tinha bebido mais. Não se orgulhava disso, mas estava tão alegre dançando no meio do salão que nem conseguia pensar direito no que tinha feito. Era bom que não pensava em outras coisas também.
Avistara Rafael alguns minutos atrás. De vez em quando dava uma conferida para checar se ele ainda continuava enconstado na parede conversando com alguns amigos. Uma vez ele até percebera que ela estava olhando e deu um sorriso meio preocupado. A garota bebera muito mais do que estava acostumada e se culpava por isso. Mas sabia que se fosse até lá tentar ajudar, só receberia uma bronca dela mesma. Então resolveu ficar apenas de olho, caso acontecesse alguma coisa. Mas algumas pessoas não pensavam igual ao garoto.
sentiu alguém a pegando pela mão e a levando pra fora do salão. Sem entender nada, soltou a mão, o que fez se virar para ela.

- O que você pensa que ta fazendo?
- Te levando pra casa – ele tentou segurar a mão dela, mas ela se afastou.
- É o quê? Ta achando que é quem, garoto? Meu pai? Olha que nem ele tem esse direito sobre mim.
- Eu to achando que eu sou seu amigo e to te ajudando – ele percebeu o quanto ela estava irritada e deu um passo em direção à ela com cuidado e com medo da reação que ela poderia ter.
- Ah, me poupe. Vai ajudar outra garota, vai. Tem tantas nessa festa querendo a sua ajuda.
- Isso é ciúmes, ?
- Ciúmes? De você? De onde eu teria ciúmes, ? Você não é meu namorado!
- Ainda bem que você sabe disso. Porque você não tem motivo nenhum pra ficar dando esse showzinho.

Ela parou e olhou diretamente pra ele. Não acreditava que aquelas palavras tinham realmente saído da boca dele. A sua ira aumentou ainda mais e ela já não respondia pelos seus próprios atos.

- Então pode deixar que eu nunca mais faço isso, é só você me deixar em paz – ela quase cuspiu as palavras nele e saiu correndo adentrando o salão.
- Calma, , eu não quis dizer... – ele correu atrás dela, mas parou no mesmo instante quando viu a garota puxar Rafael pelo braço e entrando no banheiro.



Capítulo 15

- Toma, vai ajudar a melhorar sua dor de cabeça. – Luana entregou um comprimido e um copo d’água para a garota.

Se sentia horrível por tudo o que tinha acontecido na noite anterior. Ainda não havia respondido e nem sabia o que responder. O garoto se sentia culpado por uma coisa que ela fizera. Tudo bem que ele não precisava ter dito aquelas coisas, mas ela sabia que ele só dissera graças ao modo que ela tinha agido. Tudo isso causado por uma crise de ciúmes. É, ela agora entendia porque tinha bebido tanto, mas sabia também que não seria capaz de confessar pra ninguém. Seria igual a assumir que estavam todos certos e ela errada.

- Então você não ficou com Rafa? – Isa perguntou depois que ela explicou direito tudo o que acontecera.
- Não – disse enquanto engolia o remédio. – A intenção na hora era essa, mas quando a gente entrou no banheiro, ele disse que não ia ficar comigo daquele jeito porque sabia que eu ia me arrepender no minuto seguinte.
- Quem diria. – Lua falou.
- Ei, ele é nosso amigo. – Isa deu um tapa fraquinho nela.
- Por isso mesmo, eu conheço ele muito bem. Ele não mede esforços pra ficar com uma garota quando quer.
- Mas por que vocês ficaram tanto tempo trancados lá, ? – Isa voltou a olhar a garota.
- Ele disse que tinha ouvido o que falou e que ele merecia uma liçãozinha. Então a gente ficou lá por alguns minutos pra ele achar que tinha rolado alguma coisa.
- Mais um ponto pro Rafa – Lua disse. – Mas o fato de ter sua parcela de culpa, isso não tira a da senhorita também. Vocês brigaram feio ontem e precisam conversar.

olhou pro celular que estava na escrivaninha do quarto. Sabia que a amiga tinha razão. Essa parte ela realmente não conseguira lembrar, mas as meninas falaram que depois que ela saiu do banheiro, foi para a entrada do prédio para esperar um táxi que Rafa chamara pra ir pra casa. As duas e foram atrás dela, e a viram vomitando. O garoto tentou ficar pra ajudar, mas as amigas sabiam que nunca as perdoaria se tivessem deixado ele ver a situação em que ela estava. Então Isa levou de volta para o salão enquanto Lua ligava para a mãe de para avisar que a filha dormiria na sua casa, dando a desculpa de que estava com medo de pegar um táxi sozinha.

- Eu respondo ele depois, mas eu primeiro quero saber qual o tamanho do problema. Onde Gabriel tava na hora desse rolo todo?
- Pra sua sorte, ele já tinha ido embora da festa com a Dani – Lua respondeu. – Ele até pediu pra te avisar isso, mas eu esqueci completamente.
- Óbvio que esqueceu, tava ocupada demais fazendo outras coisas... – Isa falou com um sorriso malicioso no rosto que fez Luana corar.
- Ei, o que foi que eu perdir? – perguntou.
- Não rolou nada, ok? Ele não quis... – a garota abaixou a cabeça para não mostrar o quão vermelha estava, mas viu fazer uma cara de “ele quem??” – Foi o Victor, ta bom? Feliz agora?

A amiga deu um gritinho de felicidade, mas logo voltou a fazer perguntas.

- Mas como assim “não rolou nada”?
- Tipo, depois que eu me cansei de ser vela do casal vinte na festa – Isa deu língua pra garota que só continuou a história. – Eu fui na cozinha beber alguma coisa e ele tava lá também. Aí a gente ficou conversando um tempinho, rolou um clima, um selinho... E pronto, foi isso, ele se afastou depois.
- Por quê??
- E eu sei lá, , ele só não quis me beijar e pronto.
- E você nem ao menos perguntou o motivo?
- Não, ela não perguntou o motivo – Isa falou como se tivesse dando uma bronca em Lua. – Ele tentou se explicar e ela só disse “tudo bem” e vazou da cozinha.
- Eu não queria saber, tá bem? Não queria ficar lá escutando as razões pela qual eu não sou boa o suficiente pra ele ou como ele só me vê como amiga ou sei lá mais o que. Eu prefiro não saber e fingir que nada aconteceu. – Luana respondeu e deitou com a cara no travesseiro

Isadora e se entreolharam preocupadas, mas sabiam que não tinham muito o que fazer. Aquele rolo era antigo e não podiam simplesmente enfiar na cabeça de Victor que a amiga era incrível e que ela era tudo o que ele poderia querer, apesar de a vontade ser muito grande.



Capítulo 16

Já passavam de nove da noite quando chegou em casa e encontrou sua mãe de pijama na sala assistindo televisão. Passou para dar um beijo nela e foi para o quarto tomar um banho. Ficou uns quarenta minutos debaixo do chuveiro pensando que ainda não tinha respondido . Não sabia o que responder. Estava com vergonha pelo que fizera na noite passada. Não sabia como iria encarar os amigos de novo, em especial Rafael e .
Quando saiu do banheiro, colocou um pijama, se jogou na cama e ouviu alguém bater na porta. Depois de dizer que a pessoa podia entrar, Gabriel abriu a porta e se deitou ao lado dela. Ele não disse nada, mas pela cara de preocupação, ele já sabia o que acontecera.

- esteve aqui – ele falou depois de alguns minutos quebrando o silêncio assustador em que o quarto se encontrava.
- O que ele queria? – ela sussurrou.
- Queria conversar contigo, mas você passou o dia inteiro fora... Ele também me contou o que aconteceu depois que eu fui embora ontem.

olhou para o garoto com medo de ver em seu rosto um olhar de decepção ou de irritação, mas tudo o que viu foi um sorriso no canto da boca. Ele estava... se divertindo com aquela história toda?

- Você ta rindo? – ela se sentou e foi então que ele começou a rir mesmo. – Do que você ta rindo?
- De toda essa situação – ele falou depois de controlar o riso e se sentar na cama. – Eu sabia que isso ia acontecer.
- Do que diabos você ta falando, Gabriel ?
- De vocês se apaixonando, – ela ia retrucar, mas ele continuou a falar – Ou você vai me dizer que aquilo tudo não foi ciúmes? Vai me dizer que não saiu arrastando Rafael pra dentro do banheiro porque estava com raiva de ?

abriu a boca algumas vezes para falar alguma coisa, mas nada vinha a sua cabeça. Queria dizer que era mentira, queria dizer que ele não podia estar mais enganado. Mas não podia. Simplesmente porque era a mais pura verdade e ela já não era mais capaz de controlar aquela situação. Então ela só voltou a se jogar na cama bufando, gerando mais uma onda de risos do irmão.

- Eu tenho esse grave problema.
- Que problema? – o garoto perguntou sem entender.
- O de me apaixonar pelos garotos errados e que nunca vão dar certo.
- Como assim “nunca vai dar certo”?
- Gabriel, você já parou pra pensar de quem estamos falando? De , o garoto que não se apaixona, que só topou entrar nessa história comigo porque não ia precisar se envolver e que...
- E que morreu de ciúmes ao te ver com o Rafa.

Novamente, ela ficou sem saber o que dizer. Uma parte dela não acreditava, mas a outra dizia que fazia todo o sentido do mundo. Talvez ele só tivesse agido estranho logo no início da festa porque ela tinha passado um tempo conversando com Rafael. A briga do dia anterior foi causada por ciúmes, mas talvez tivesse sido de ambas as partes. A garota então expulsou o irmão do quarto e pegou o celular, que ainda estava na bolsa.

: “Oi, . Tô melhor sim, só precisava de um tempo pra digerir melhor algumas coisas... Hoje já ta meio tarde, mas... Amanhã de manhã no McCartney’s?”

: “Combinado. Até amanhã então :*”

☆☆☆

Não tinham combinado hora, então não sabia quando tinha que chegar. Estava tão nervosa que estava de pé antes mesmo das sete da manhã. Ficou um tempo se revirando na cama sem saber o que fazer até que resolveu acabar logo com aquele sofrimento e ir para a lanchonete. Agradeceu mentalmente por não ter ninguém acordado àquela hora, assim escapava de perguntas como “o que te fez acordar tão cedo?”. Deixou um bilhete na geladeira para a mãe não ficar preocupada quando se acordasse e notasse a falta da filha na casa e chegou ao McCartney’s exatamente às oito horas. Duvidava muito que chegaria naquele horário, mas acordara com o pensamento de que ele poderia estar tão nervoso quanto ela.
Pediu alguma coisa pra comer, pois não tinha comido nada em casa e também para fazer alguma coisa enquanto esperava. Ainda não sabia ao certo de como seria essa conversa, só sabia que realmente gostava do garoto e que queria tentar algo mais sério do que aquela amizade colorida toda. Tentava reformular um discurso inteiro na sua cabeça, mas toda frase parecia ridícula. Aquela situação parecia ridícula. E tudo o que falara sobre apenas se divertir e não se apaixonar? Por sete meses se alguém lhe dizia que isso ia acabar acontecendo, ela só rolava os olhos e respondia que não tinha nem possibilidade dela realmente acabar gostando de .
O pior de tudo foi ela ter acreditado nas próprias palavras quando estava mais do que claro havia tempos que ela era louca por ele. Não conseguia mais ver sua vida sem o garoto e só a ideia de ele se sentir da mesma forma já a fazia dar um daqueles sorrisos involuntários que a enrubescia quando percebia que tinha feito de novo.
Tinha acabado de comer quando ouvira a porta do estabelecimento se abrindo e seus olhos se encontraram com um par de olhos fazendo seu estômago revirar pelo que deveria ser a décima vez só naquele dia. Ele andou até a mesa e se sentou de frente para a garota dando um meio sorriso. Ele estava nervoso. Não parava de retirar e colocar de volta aquele anel preto e não conseguia focar seu olhar em um ponto só. Voltou então a olhar para a garota.

- Oi – ele disse dando um sorriso de verdade que a fez perder o fôlego por alguns instantes.
- Oi – ela respondeu.
- Eu... – eles falaram juntos – Eu queria... – eles riram e perceberam que ambos estavam nervosos – Você primeiro...
- Ok, ok, eu vou primeiro – o garoto tomou a frente e ela apenas assentiu com a cabeça. – Primeiro de tudo, eu queria pedir desculpas. Eu fui horrível com você à noite inteira e jamais devia ter dito o que disse. Eu tava nervoso... Não que isso justifique, eu sei que foi errado e acabou naquela discussão e... Eu não quero ficar brigado contigo...
- Nem eu – ela interrompeu. – Também fiz besteira. Passei dos limites àquela noite e descontei tudo em você, me desculpa... E só pra você ficar sabendo... Eu não fiquei com Rafa, ele passou o tempo todo no banheiro tentando me acalmar, não aconteceu nada.

assentiu com a cabeça olhando para os dedos. Um silêncio reinou entre os dois. Ambos tinham mais coisa para falar, mas nenhum sabia como começar direito.

- Tem outra coisa também... Que eu preciso falar e que também acho que você pensou na mesma coisa, mas não sei como dizer sem soar entranho. – Ele disse pensando em todos os discursos que treinava desde que chegara em casa depois da festa, no qual ele não considerava que nenhum servia e tentou conter um sorriso já sabendo o que ele falaria. – Eu acho que... O que a gente fez esse tempo todo... Essa coisa de amizade colorida... – o garoto, que já não olhava diretamente para ela, fechou os olhos e disse rapidamente: – Eu acho que já deu a hora de acabar.



Capítulo 17

Gabriel já estava ficando preocupado. A irmã havia chegado e passara um bom tempo em pé na frente da porta com os olhos arregalados e boca aberta como quem tinha acabado de presenciar uma cena muito inesperada. Foi só quando tentou falar com ela que ela percebera que ainda estava na sala, balançou a cabeça e foi para o quarto sem nem responder ao irmão.
Ele achou que talvez não fosse nada de mais, mas logo em seguida começou a escutar um som muito alto vindo do quarto da garota. Foi tomar um banho escutando as músicas de e saiu quase que em depressão. Aquilo não era normal. Sempre que ela colocava o som daquele jeito, era para escutar músicas animadas geralmente quando queria arrumar alguma coisa.
Pensou que fossem só as primeiras de alguma playlist e saiu para dar uma volta com Dani. Estava gostando mesmo da garota e sabia que era recíproco, então estavam passando muito tempo juntos. Achava que era cedo demais pra pensar em namoro, mas as coisas pareciam se encaminhar para isso.
Quando voltou para casa, por volta das cinco da tarde, ainda se escutava as músicas de , na mesma altura e no mesmo estilo. Dona Sara disse que não sabia mais o que fazer, pois a filha não tinha almoçado e ela já tinha batido na porta diversas vezes, mas só escutou a garota dizer que não estava com fome. Alguma coisa tinha acontecido, e ele já podia imaginar o que era. Pegou o celular e ligou para o terceiro número da sua discagem rápida.
“E aí, cara?” ouviu a voz de do outro lado da linha.
, você ta ocupado?” Gabriel falou meio tenso.
“To não, pode falar. Tá tudo bem?”
“Mais ou menos... Só me responde uma coisa. Tu viu a hoje?”
“Eu me encontrei com ela de manhã, mas foi cedo, depois não a vi mais. Aconteceu alguma coisa?”

“Eu que pergunto. Vocês conversaram sobre o que aconteceu na festa?”

“Cara, nem me lembra desse papo. Apesar de saber que ela concorda, eu sei que vamos passar por um clima meio pesado por esses dias.”

“Ahn? Como assim, cara? Ela concorda com o quê?”

“Com a gente não ficar mais”
, Gabriel então entendeu o que tinha acontecido, a irmã fora conversar com o garoto pensando que iam ficar realmente juntos e acabou levando um fora. “Olha, foi melhor assim mesmo. A gente sabia que não ia durar pra sempre e desde que vocês descobriram, isso começou a ficar estranho.”
“Ah sim... Valeu aí, , já descobri o que eu queria.”

“Eu não entendi nada. Ta tudo bem com a ?”

“Ta sim, relaxa. Vou indo nessa. Até amanhã.”
“Até!”

Gabriel passou a mão nos cabelos frustrado. estava trancada naquele quarto por sua causa. Se ele não tivesse lhe dito que sentia o mesmo, ela não iria ficar com expectativas e aceitaria mais fácil esse “término” dos dois. Mas o que mais lhe incomodava era o fato de que eles tinham mesmo terminado. Todo mundo era capaz de ver o quanto eles se gostavam. Até ela mesma havia admitido. “Ah claro, ele não ia admitir”, pensou. era muito teimoso, era muito mais fácil pra ele andar pra trás do que finalmente tentar ter algo mais sério.
Ele foi até o quarto de e bateu na porta.

- Eu não tô com fome, mãe! – Ele escutou do lado de fora.
- Não é a mamãe, sou eu – o garoto disse encostando a cabeça na porta. Não ouvindo resposta, ele bateu novamente. – Vai, , eu só quero conversar.

Alguns segundos depois, a garota abriu a porta, fazendo o som ficar ainda mais alto. Não deu nem tempo para conseguir olhá-la, pois ela rapidamente se virou e se deitou na cama de cara no travesseiro. Gabriel abaixou o volume do som e sentou-se na beirada da cama.

- Tá tudo bem?

A garota, ainda deitada, se apoiou no cotovelo esquerdo e olhou diretamente para o irmão. Ela ainda estava com a roupa que saíra de manhã, que agora estava toda amassada. O cabelo parecia que não havia sequer visto um pente há dias e sua cara fechada dava medo a qualquer um que passasse.

- Eu realmente não entendo qual é a das pessoas que fazem essa pergunta mesmo vendo que a resposta claramente é não. Parece que eu to bem, Gabriel?

Ele sabia que ela ficava assim. Toda vez que algo de errado acontecia e a fazia ficar mal, ela se fechava. Ficava na defensiva e dando patadas em todos que ousassem perguntar o que a tinha deixado assim. Ele só não sabia o que fazer pra ajudar. Nada do que falasse iria adiantar, podia até piorar a situação. Então resolveu deixá-la sozinha, mas antes se ajoelhou de frente para ela e disse:

- Olha, eu sei o que você tá sentindo, ok? Parece que o mundo vai acabar e que você nunca mais vai encontrar alguém igual a ele. E é verdade, não vai encontrar mesmo não. Vai encontrar alguém muito melhor e que vai fazer com que tudo isso que você tá sentindo pareça uma piada. Eu queria muito te dizer que essa pessoa vai aparecer logo e que tu vai de cara, superar ele, mas se você sente metade do que eu acho que você sente, vai demorar. Vai doer. Mas o mundo não acaba, ele continua quase que conspirando pra que a gente sofra e não tem muita coisa que a gente possa fazer contra isso. A gente só pode levantar a cabeça e continuar vivendo. Porque se trancar em um quarto ouvindo músicas que fazem você se lembrar do que aconteceu, não vai ajudar a melhorar.



Capítulo 18

Quando o dia de segunda-feira amanheceu ensolarado, achou que ele só podia estar tirando uma muito grande com a cara dela. A única vontade que ela tinha era de continuar deitada na cama para o resto da vida. O mundo para ela parecia sem cor, daí justamente no dia que ela esperava que nunca chegasse, aparece um enorme sol e um céu azul que faria qualquer um acordar de bom humor. Mas aquilo só fez com que a garota se sentisse pior ainda. Enquanto todas as outras pessoas deviam estar felizes com aquele lindo dia, ela só queria que ele acabasse.
Pegou o ônibus com o irmão, o qual ainda não tinha dirigido sequer uma palavra, na hora certa e seguiram para o colégio em um silêncio que ele julgava constrangedor. Ao chegarem, notaram uma pequena mudança. Na mesa em que eles costumavam se reunir, se encontravam apenas Isa, Jorge e Luana. Enquanto do outro lado do campo, em outra mesa, estavam Victor e Bernardo. Os irmãos, surpresos, se entreolharam, deram um meio sorriso como quem dizia “era de se esperar” e foram cada um para um lado.

- Resolveram segregar o “quarteto fantástico”? – falou enquanto se sentava junto aos amigos.
- A culpa não é nossa se ele resolveu ir para outra mesa – Lua bufou e ela nem precisou citar nomes para todos saberem que estava falando de Victor.

Percebendo o desconforto da amiga, Jorge logo puxou um papo sobre o vôlei da garota e o clima voltou a ficar leve. Ainda tinham um tempinho antes do sinal tocar, então pegou o celular e abriu o Twitter. Pelo horário, ela estranhou a quantidade de tweets e resolveu ler com mais atenção.

@carolinda02: to sentindo uma movimentação estranha pelo colégio hoje...
@biazinha_s: acho que já to sacando o que aconteceu e to adoraaando a novidade kkkk
@lorenaaaaa3: o squad mais gato do colégio ta sentando sozinho de novo, meninas, já podemos comemorar?
@ray_menezes: acho que certas @s fizeram merda na última sexta e deixou o boyzinho livre, leve e solto

Sabendo já do que se tratava o rebuliço, bufou e bloqueou a tela do celular já sem a menor paciência para ouvir fofoca. Se esquecera completamente que fazia o maior sucesso e que já era certo que algumas meninas iam adorar saber que eles não estavam mais “juntos”.
Tentou focar seus pensamentos em outra coisa, mas assim que virou seu rosto para a entrada da escola, o viu. Já escutara diversas vezes que o que é inalcançável se torna, involuntariamente, muito mais bonito aos olhos de quem o deseja, mas sempre acreditara que era a maior falácia. Até aquele momento. A beleza do garoto nunca fora algo de se questionar, – e todo o público feminino do colégio, talvez até da cidade inteira, concordava com ela – mas não poderia dizer que era algo que lhe chamava a atenção. Porém, tendo aquela visão um tanto privilegiada do garoto caminhando, a luz do sol refletindo em seus olhos e o vento bagunçando seus cabelos, foi incapaz de controlar um suspiro.
Os amigos notaram, mas preferiram não comentar nada. Já era um problema ele ter ido para o outro lado do campo, a garota não precisava de ninguém falando sobre isso.

☆☆☆

Se a segunda-feira tinha sido difícil, a terça tinha tudo para ser impossível. Não conseguia nem contar a quantidade de faltas que tinha no primeiro horário e sabia que se lembraria durante a aula inteira os motivos dessas faltas. Sem contar que o número de comentários sobre aumentava gradativamente a cada minuto pelos corredores.
Quando o sinal tocou, ela foi com as meninas trocar de roupa no banheiro e fingiu não notar a cara de surpresa que o professor fez quando a viu entrar na quadra. De cabeça completamente cheia, passou a aula interia tentando diferir todos os seus sentimentos na bola e não nos colegas de classe, mas depois que cometeu a terceira falta, o professor a mandou beber um pouco de água para se acalmar.
O bebedouro ficava ao lado da saída da quadra que dava direto para o prédio do colégio e quando chegou perto, notou algumas meninas, provavelmente fugindo da aula, conversando.

- Mas agora ele ta solteiro, né, Bia? – ela escutou enquanto se inclinava para conseguir beber a água – Na verdade, eu escutei que ele sempre esteve solteiro, só tinha um rolo mal resolvido com aquela menina do primeiro ano.
- E como você sabe que esse rolo acabou? – a tal Bia falou e estreitou os ouvidos, já imaginando do que a conversa se tratava.
- me disse, ué. Mandei mensagem pra ele depois da festa, assim, como quem não quer nada e ontem passamos o dia inteiro conversando.

A voz das meninas foi aos poucos diminuindo até não ser mais capaz de ouvi-las de onde estava. Deduziu que elas deviam ter voltado pra sala ou arranjado outro lugar. Não tinha visto quem era a garota, mas pela voz concluiu ser a mesma que conversara com na festa de sexta. Por um momento odiou cada centímetro do corpo dela por ter sequer chegado perto do garoto, mas depois parou pra pensar. Que culpa ela tinha de ter confiança o suficiente pra ir atrás do que queria? realmente estava solteiro e naquele momento não havia nada que poderia fazer para mudar isso.
Então ela percebeu que a culpa era inteiramente dela mesma. Por ter começado aquilo tudo, por ter se deixado apaixonar pelo garoto. Não era pra ter acontecido. Ele era pra ter sido sempre o “melhor amigo de seu irmão” e apenas isso. Agora já era tarde demais.

☆☆☆

- , tá tudo bem? Faz mais de quinze minutos que vo... – Rafael não pôde terminar a frase. Viu a amiga sentada e encostada no bebedouro olhando para cima. Seria uma cena até fofa se ela não estivesse olhando apenas para o teto com uma cara não muito boa.

Ele caminhou até ela e se sentou ao seu lado. encostou a cabeça no seu ombro e soltou um suspiro pesado.

- Não era pra ser assim – sua voz saia meio rouca por estar falando baixinho, mas o garoto conseguia escutar perfeitamente – Quando era com você, as coisas eram tão mais fáceis. Eu não me sentia desse jeito.
- Oh, zinha, você sabe que eu seria capaz de tudo pra não te ver assim, não sabe? É só me dizer o que eu tenho que fazer. Quer que eu dê uma surra nele? – ela deu um riso baixo e virou seu rosto para o dele – Olha só, já deu um sorriso. Gostou da ideia, foi? – eles riram enquanto Rafa passava seus braços ao redor da garota e dava-lhe um beijo em sua testa.
- ‘Brigada – a garota sussurrou.
- Pelo quê?
- Pela festa, por ta aqui agora... por tudo – seus olhos se encontraram com os dele e ela sorriu sincera. De todos os amigos, Rafa era o que era menos próxima. Saber que ele estava ali por ela também era um grande alívio.
- Não foi nada. Tenho certeza que você faria o mesmo por mim.

☆☆☆

Os dias foram passando e, felizmente, aquela dor insuportável que sentia foi aos poucos desaparecendo. Começara a frequentar uma academia e todo o esforço físico que não estava acostumada a fazer ocupara sua mente. Também tinha bastante coisa da escola e estava bastante impressionada consigo mesma por não estar deixando acumular nada. Tudo parecia tranquilo e ela agradecia a Deus por serem raros os momentos em que esbarrava com . Afinal, era impossível não encontrá-lo, aquele colégio era pequeno demais para se esconder de alguém.
O clima entre eles havia melhorado. Não tinham ficado sozinhos nenhuma vez desde o dia no McCartney’s, mas sempre que estavam entre os amigos, eram simpáticos um com o outro como se nada tivesse acontecido. Sobre a garota da festa, não fazia ideia do que se passava. Talvez eles ainda conversassem, talvez algo mais do que isso ou talvez não tivesse dado em nada. Mas ela, sinceramente, preferia não saber.

- Eu vou subir pra me arrumar, ok? Depois tu me conta o final do filme – Gabriel disse enquanto se levantava do sofá.

Ele e a irmã estavam aproveitando o sábado chuvoso para assistir televisão. Porém, eram quase sete da noite e o garoto tinha marcado de sair com os amigos. Sua mãe também saíra mais cedo para resolver algumas broncas do trabalho, então tinha a casa inteiramente só para ela. Pensou em chamar as meninas para dormirem lá, mas sabia que Isa estava na casa de Jorge e Lua tinha que provar alguma coisa para sua festa. Então, aquela noite seria apenas ela, um pote de Nutella e Netflix.
Ouviu a campainha tocar e odiou mentalmente quem quer que fosse que a faria se levantar. Sua posição estava confortável demais para sair dela. Tocaram novamente e ela gritou que já estava indo, sem a menor coragem.

- Quem me incomoda? – a garota disse rindo enquanto abria a porta, mas seu sorriso logo murchou ao ver de quem se tratava.
- Oi, – ele disse um pouco sem graça, passando a mão pelos cabelos. Sua visão percorreu todo o corpo do garoto e voltaram a encarar seus olhos que pareciam com muito mais brilho naquela noite. Suas pernas começaram a tremer quando percebeu um leve sorriso no canto da boca dele, mas antes que terminasse estabanada no chão, resolveu falar alguma coisa.
- Oi, . Entra aí, meu irmão ainda ta se arrumando. – ela se afastou um pouco da porta para ele passar enquanto o garoto balançava levemente a cabeça sem saber o que fazer.

voltou a se sentar na ponta do sofá enquanto ele se acomodava do outro lado. Despausou o filme e ambos olhavam compenetradamente para a tela da televisão sem nem prestar atenção e prendiam a respiração temendo que qualquer barulho pudesse tornar aquele clima mais estranho. Como se já não estivesse estranho o suficiente.
A garota pensou em dizer alguma coisa para quebrar aquele clima, mas só conseguiu abrir e fechar a boca várias vezes se sentindo uma idiota. Quando ouviram o som da campainha, os dois suspiraram aliviados. Diferente da última vez, se levantou quase correndo em direção à porta rezando para ser Victor ou Bernardo para lhe livrar daquela situação constrangedora, mas quando viu quem era desejou nunca ter se levantado.



Capítulo 19

- Tem certeza que não vai dar problema eu estar aqui a essa hora? – perguntava enquanto entrava no quarto da garota pela janela.


Já passavam das onze da noite, Dona Sara e Gabriel já deveriam estar no décimo sonho. O casal não havia se visto naquele dia, pois o garoto tivera de ficar em casa estudando. Mas quando terminou seus afazeres, puxou logo o celular e mandou uma mensagem para a menina. Não dava pra dormir sem antes lhe dar um beijo de boa noite. Após a resposta dela, certificou-se que a mãe estava dormindo (nunca que ela iria permitir que o filho fosse andando sozinho pelas ruas já praticamente desertas do bairro) e saiu de casa.

- É só você não fazer muito barulho que eles não vão nem notar – ela sussurou se aproximando dele.

A luz do quarto estava apagada e eles só conseguiam se ver pela iluminação que vinha da rua. segurou a nuca de com uma das mãos enquanto a outra foi em sua cintura, a trazendo para mais perto. Deu um beijo em seu ombro descoberto e ela sorriu enquanto levava seu braços ao pescoço do garoto. Não demorou muito para que suas bocas já estivessem grudadas.
Eles foram caminhando lentamente em direção à cama, sem partir o beijo, mas antes de chegarem, tropeçou nos próprios pés e acabou batendo na escrivaninha. O barulho da batida teria sido até discreto se ela não houvesse tentado segurar em alguma coisa para não cair e acidentalmente derrubado uma caixa cheia de papéis no chão.
Se separaram, meio frustados e com um certo medo de terem acordado alguém. Ficaram alguns segundo paralizados esperando para ver se ouviam alguma movimentação fora do quarto e, percebendo que provavelmente ainda estavam dormindo, a garota acendeu a luz para ver o tamanho da bagunça que tinham feito.

- De onde surgiu essa caixa? – o garoto perguntou enquanto se sentava no chão para recolher os papéis, que percebera depois serem fotografias.
- Achei hoje de manhã no quarto da minha mãe enquanto a gente limpava por lá. Ela mandou eu dar um fim, mas acabei deixando aqui e depois esqueci. – ela sentou-se ao lado dele, o ajudando.
- Da próxima vez, escute a dona Sara, ela sabe o que diz – ele disse como se estivesse dando um sermão nela e a garota riu, sabendo que estava brincando.
- Peraí, eu conheço essas pessoas – pegou uma foto – Eram amigos de faculdade da minha mãe – mostrou ao garoto e começou a prestar atenção nas fotos para ver se reconhecia mais gente. Estranhou o fato da mãe querer que ela jogasse aquela caixa fora. Tinha tantas lembranças e dona Sara sempre dizia que foto não se jogava fora porque um dia as pessoas iriam querer vê-las.
- Quem é esse cara? Ele aparece na maioria – entregou-lhe uma em que estava sua mãe abraçada com um garoto.

Então entendeu o porquê d’aquela caixa ter que acabar no lixo. O reconheceu muito rápido. Mais rápido do que gostaria, na verdade. Sempre dissera a si mesma de que se encontrasse aquele homem no meio da rua, seria incapaz de dizer quem ele era. Mas ela sabia muito bem.

- É o meu pai – ela disse com uma voz meio falha e deu um sorriso de lado.
- Foi mal, , eu não fazia id...
- Tudo bem, não tinha como você saber. – ela jogou todos os papéis dentro da caixa e a empurrou para debaixo da cama.
- Quer conversar sobre isso? – ele estava com um certo receio de entrar naquele assunto. Conhecia Gabriel desde os doze anos e nunca ouvira o amigo falar do pai, então não fazia ideia do que havia acontecido com ele.
- Não tem muito o que falar, sabe? Eu não lembro muito dele, só tenho algumas memórias soltas, como alguns aniversários, dias dos pais e... – ele balançou a cabeça como se dissesse para ela não ter medo de falar, então ela só deu um longo suspiro e continuou – E o dia em que ele saiu de casa.
- Oh, ... – ele passou o braço ao redor dela e lhe deu um beijo na testa – Eu não sabia disso.
- Eu imaginei que Gabriel nunca tivesse lhe dito. Eu só tinha seis anos na época, não entendi direito o motivo daquela gritaria toda em casa e nem porque minha mãe chorava tanto. Mas meu irmão entendia. E acho que afetou muito mais nele do que em mim. Porque minha mãe teve que trabalhar dobrado e apesar da gente sempre ficar na casa dos meus avós, quem mais tomava conta de mim era ele. Acho que ele perdeu grande parte da infância porque teve que amadurecer muito rápido pra ajudar minha mãe. E acho também que é por isso que ele tem esse ciúme todo pro meu lado.
- Eu... não sei nem o que dizer.
- Você não precisa dizer nada – ela deu um leve sorriso enquanto fazia um carinho na bochecha do garoto com o polegar. Devagarzinho, eles foram encostando as testas e fechando os olhos, deixando um novo beijo se iniciar.


☆☆☆


Fazia alguns minutos desde que saíra da sala para atender a porta e não entendia porque ela estava demorando tanto a retornar. Meio receoso, foi caminhando até a entrada da casa para checar se estava tudo bem. Então viu a garota estagnada sem se mexer na frente de um homem que parecia nervoso. Sentiu que o reconhecia, mas não sabia exatamente de onde. Se aproximou mais para saber do que aquela visita se tratava.

- Tá tudo bem por aqui? – o garoto perguntou se colocando ao lado de . Ela estava tremendo e sua expressão mostrava que estava aterrorizada.
- Está tudo ótimo – o homem respondeu quando viu que a garota não ia falar nada – Eu só preciso falar com Sara e ver meus filhos.

arregalou os olhos, finalmente entendendo o que estava acontecendo à sua frente. O pai deles tinha aparecido. E pela cara de , a tinha pego completamente de surpresa.
- Desculpe, senhor – o garoto tomou as rédeas da situação, tendo em vista que a garota ao seu lado mal podia se mexer e só conseguia abrir e fechar a boca tentando dizer alguma coisa, mas não saía nenhum som - Mas a dona Sara não se encontra no momento e eu sinto muito em lhe dizer que os filhos dela talvez não queiram conversar com o se...
- E quem você pensa que é pra dizer essas coisas, rapaz? – o homem se alterou um pouco – Já não basta estar sozinho na minha casa com a minha filha e você ainda acha que tem alguma autoridade por aqui.
- E o senhor realmente acha que tem alguma moral pra estar aqui? – finalmente falou alguma coisa – Realmente acha que depois de todos esses anos tem o direito de aparecer aqui e reivindicar qualquer coisa? Eu não sou sua filha. Esta não é a sua casa. E se você se importasse com isso, não tinha feito o que fez. Eu o aconselho que desapareça daqui e não volte nunca mais, senão eu chamo a polícia e aí sim você vai ficar bem longe.

Então ela bateu a porta e voltou a ficar pedrificada. Só conseguiu engolir em seco antes das lágrimas começarem a escorrer pelo seu rosto. não soube o que fazer. Desde que a conhecera, jamais tinha visto a garota chorar. Aquilo era demais para ele. Então a única coisa que pôde fazer foi tomá-la em seus braços enquanto fazia uma cafuné em seus cabelos, rezando para que ela se acalmasse.

- O que aconteceu por aqui? – Gabriel disse se aproximando. Ele estava no banheiro, então provavelmente não tinha escutado nada. Quando viu sua irmã em prantos, a separou do amigo – ? , por que você ta chorando??

Mas ela não respondeu. Não fora capaz de reproduzir nenhuma palavra, pois sempre que tentava, novas lágrimas começavam a cair e ela era incapaz de detê-las. Antes que algum dos garotos falasse alguma coisa, correu em direção ao seu quarto, envergonhada por estar naquela situação. Não gostava de chorar na frente de ninguém, se sentia fraca e odiava aquele olhar de pena. Tinha visto aquele olhar várias vezes depois que seu pai desaparecera e jurara a si mesma que ninguém jamais teria razão para olhá-la daquela forma novamente.
Se jogou na cama depois de ter trancado a porta, com milhares de perguntas rondando a sua cabeça. O que diabos o tinha feito aparecer assim do nada? O que ele queria? Será que sua mãe sabia disso? E se não, qual seria a reação dela quando descobrisse? Não tinha resposta pra nenhuma delas e nem sabia se queria ter. Dispensava qualquer novidade sobre aquele cara.

☆☆☆


Algumas vozes vindas de fora do quarto a acordaram. Sentia a cabeça e as pálpebras doerem, mas fez o esforço de se levantar para ir ao banheiro. Seu rosto vermelho e inchado a lembrava dos motivos para estar daquele jeito. Balançou a cabeça para se livrar daqueles pensamentos e molhou o rosto na tentativa de melhorar sua aparência.
Ao voltar para o quarto, pôde ouvir novamente as vozes e reconheceu a de sua mãe. A essa altura, ela já deveria saber o que tinha acontecido. Se sentiu, então, culpada. Aquilo devia estar mexendo muito mais com dona Sara do que com si mesma e estava lá, fazendo todo aquele drama e provavelmente deixando a mãe mais preocupada.
Devagarzinho, foi em direção à porta, a abrido e encontrando dona Sara e Gabriel discutindo se deveriam ou não bater na porta.

- Ô, meu amor, como você tá? – a mãe perguntou já a puxando para um abraço.
- Eu estou do mesmo jeito que estava antes. Ótima. Afinal de contas, aquele homem não faz nenhuma diferença na minha vida – deu um beijo em sua bochecha – E a senhora?
- Estou ótima também. Só aquele homem que deve ter ficado louco...
- Algum motivo pra ele ter aparecido? – Gabriel perguntou.
- Nada que vocês devam se preocupar. Eu vou cuidar para que isso não volte a acontecer – ela falou e sorriu daquele jeito que dizia que ela não queria se aprofundar no assunto, fazendo com que os filhos assentissem – Agora, o que vocês estão fazendo aqui? Vão arranjar uma festa, pelo amor de Deus! Filho meu não fica em casa em pleno sábado à noite.

Eles riram e falou que não tinha planos.

- Bom, os meninos ainda devem tá no McCartney´s, então to indo pra lá – Gabriel se virou pra irmã e continuou – Quer vir junto?

ficou um pouco receosa ao pensar na presença de , mas acabou por acreditar que era melhor sair para arejar a cabeça diante dos acontecimentos recentes.

- Quero! Só me dá dez minutos pra eu tomar um banho.

Ele assentiu enquanto a garota corria para o quarto e a mãe sorria vendo os filhos animados.





Continua...



Nota da autora: Sem nota.





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Amor de Junho

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