Última atualização: 03/11/2019

Capítulo 1

Todo dia era a mesma novela para chegar ao teatro; um metrô e um ônibus; em alguns dias o segundo meio de transporte era substituído por uma caminhada de dez a quinze minutos, e hoje era um desses. As ruas estavam cheias por conta de algum evento esportivo com o qual, com certeza, não me interessava. Eu tentava passar pelas pessoas, que formavam grupos grandes de torcedores – meu Deus, eu só queria chegar para o ensaio no horário previsto, será que me atrasaria mesmo a pé? Eu fazia isso, justamente, para cortar o trânsito.

Respirei fundo algumas vezes e não me importei de empurrar as pessoas que ficavam em meu caminho. Com a impontualidade, nunca conseguiria o posto de primeira bailarina do Teatro Real.

Depois de muito esforço, e alguns fios de cabelo fora do coque, eu havia chegado em frente ao local. Sua arquitetura era clássica, pintado por um branco que já se desgastava, tinha grandes colunas e pequenas janelas. Entradas em formatos de arco nos recebiam, e eu amava aquele lugar. Por dentro, o teatro acomodava cerca de 2.000 pessoas, em uma grande fileira de cadeiras centrais e três frisas, sem contar com os camarotes.

Desde os meus dezoito anos o El Real, como é conhecido, tem sido minha casa. Então, já faziam quatro anos desde que saí da minha companhia do Brasil e vim, através de uma prova, dançar com os bailarinos espanhóis. Nunca me importei de ter amigos muito próximos na companhia, a minha única melhor amiga desde minha chegada à Madrid tem sido minha vizinha de porta, Belinda. Ela é uma fisioterapeuta, que com veemência, consegue conciliar o trabalho aos estudos da pós-graduação. Normalmente, Bel e eu ficávamos em casa, enquanto eu a ajudava nos estudos, sendo o seu – como chamamos – “cadáver vivo”, o pleonasmo fazia parte da graça. Eu fazia os movimentos e ela os analisava, dizendo os efeitos que a má execução de cada um poderia causar ao meu corpo.

Deixei, rapidamente, meus pertences no camarim. Ajeitei meus fios rebeldes e segui para o alongamento.
Lá estava toda a turma, posicionada ao lado das barras, alongando-se e aguardando a chegada da coreógrafa e diretora da companhia. Me mantive ao lado de Cameron, um rapaz também intercambista, que era o único que não me olhava torto por ali.

Meus olhos fecharam quando em um único movimento, minhas mãos encontraram o chão, alongando toda a extensão da minha coluna. Elevei minha perna ao lado do corpo, contraindo todo meu abdome para que ela se mantivesse ereta, conseguindo executar o movimento com precisão.
Depois de alguns minutos, a mulher de cabelos negros e rosto chupado apareceu no palco.

- Vamos para os recados, antes que comecemos as variações. – Dulce disse, unindo as mãos a frente de seu tronco. – Essa é a última temporada de Carmen como nossa Primeira Bailarina. – ela apontou para a garota loira de olhos verdes, que estava na barra central. – Isso significa que estaremos abrindo testes para quem quiser tentar. – ela disse, sucinta, sem mais informações. – Vamos as variações.
- Solange, Pietra e... – a diretora olhou o papel em sua mão. – . – subi meu olhar ao ouvir meu nome sendo chamado. – Amigas de Kitri. Vamos! – bateu palmas. – Cinco, seis, sete e oito.

A melodia soava calmamente e parecia combustível para minha alma. Meus movimentos seguiam os acordes, que casavam de maneira perfeita. Eu nasci para arte, a arte nasceu para mim.
Ao final do ato, o resto dos bailarinos nos aplaudiram e Dulce fez questão de corrigir algumas coisas que estavam erradas.

- Quero te ver esticando mais esse pé, Solange. – disse passando em frente a garota. – E você, esses joelhos, Pietra. Seus saltos já foram melhores. – a garota ao meu lado assentiu. – E, . – seus olhos me fitaram por alguns segundos, senti como se ela analisasse cada pedaço do meu interior. – Você é ótima, mas tem coxas muito grossas. Precisa perdê-las. – e deu sua última fala, saindo de cena e nos liberando, para a entrada do próximo grupo de variação.

Sempre soube das cobranças que o ballet exigiam; o “corpo perfeito”, pernas finas e cintura mais ainda. Mas o que ela dizia com “perder minhas coxas”, não havia como elas diminuírem mais que aquilo. Ela estava pedindo para eu mudar meu bio-tipo, e isso não era possível. Sou brasileira, tenho um corpo estritamente latino. Sou magra, mas não o quanto ela precisava que eu fosse. E talvez fosse por isso que ainda não tinha ganhado a oportunidade de ser primeira bailarina.

Não me importei muito com o comentário, o meio exigia esforços, mas eu não iria me esforçar para perder algo que não conseguiria. Por isso, apenas peguei minha mochila, ao fim do ensaio, e voltei para casa.
Admito que não estava feliz, mas ao ver Belinda com dois sacos da Starbucks em mãos, eu pude deixar um sorriso escapar.

- Hoje é sexta, e eu tenho boas notícias. – me entregou um dunnut e um cappuccino. – Minha tese foi aprovada, vamos sair para comemorar. – a garota disse e eu dei pulinhos animados.
- Meus parabéns, loirinha. – sorri. – Eu sabia que ia conseguir. – puxei a chave da porta, abrindo a mesma. – Vem, vamos nos arrumar e sair para comemorar sua vitória.

No tempo em que me ensaboava, Belinda ligava para conseguir entradas para a melhor – e mais cara – balada de Madrid, que mesmo com muito esforço e pedido da minha parte para que fossemos apenas à algum bar, ela fez questão de pagar.
Saí do banheiro, indicando que era a hora da outra garota entrar no banho.
Escolhi um vestido preto, com o busto justo e a cintura marcada, sendo finalizado em uma saia evasê que ia até metade das minhas coxas. Um salto de mesma cor estava em meus pés, o cabelo foi seco e apenas isso, sem muito glamour. Uma maquiagem básica e um liptint estavam em meu rosto e lábios. De tanto usar maquiagens pesadas nos palcos, prefiro me poupar delas no mundo real.

💃🏻💕⚽

O DJ tocava algum reggaeton que por semanas estava nas paradas, e eu via Bel dançar com algum desconhecido, enquanto eu pedia outra rodada de whisky no bar.
O barman arrastou o copo até a mim, e eu em uma fração de segundo engoli o líquido quente, fechando os olhos e balançando a cabeça, para um rápido efeito do álcool.

- Me vê um desse que ela acabou de tomar, por favor. – uma voz desconhecida disse ao meu lado, fazendo com que eu me virasse, por puro extinto de gente curiosa. Mas, eu quase caí da cadeira ao ver um deus grego bem na minha frente. Seus olhos azuis, perfeitamente azuis, me encaravam. Seus cabelos loiros estavam levemente bagunçados e um sorriso bobo brincava em seus lábios. – Ei. Tudo ok? – ele perguntou, pelo visto percebeu que perdi os sentidos quando o olhei.
- Ah, claro. Deve ser a bebida. - eu disse e ele deu uma risadinha. Meu Divino, eu deveria ter algum problema. “Deve ser a bebida”? , você já foi melhor.
- Então fiz bem em pedir a mesma, parece ser boa. - ele respondeu, e eu não sabia se ele estava zoando da minha cara ou algo parecido.

Ficamos em silêncio por um tempo, apenas nos encarando. Ele queria dizer algo, e eu também. Mas havia uma tensão esquisita, que nem eu mesma consegui distinguir. Ele sorriu fraco, e o rapaz o entregou o copo. Ele bebeu rapidamente e quando abriu a boca para falar algo, Belinda veio correndo em minha direção, balbuciando algo como: “temos que ir para casa, não estou bem.” Apenas ri, e peguei meu celular em cima do balcão do bar, me despedindo do loiro desconhecido com um sorriso simpático.

No taxi, Bel - um tanto alterada pelo álcool - contava sobre como ela esperava por isso, pelo momento no qual ela pudesse finalmente respirar e se ver livre dos estudos por um tempo. Mas, ela disse tudo em meio a xingamentos variados e complementos não educados sobre seus professores. Eu ria da forma que a garota falava.
Peguei meu celular, para checar se alguma notificação havia chegado, mas ao apertar o botão do menu, a tela se manteve preta. Ótimo! Estava sem bateria, só veria tudo pela manhã do dia seguinte.

Descendo do carro, me perdi um pouco na imagem do homem que estava no bar. Seus quase 1,85 de altura me deixavam no chinelo, mas de certa forma, traziam uma segurança. Sempre bom ter homens grandes e fortes ao seu lado, não?
E quando digo fortes, eu caracterizo aquele rapaz: o físico perfeito, não tão grande, não tão magro. Mas, eu conseguia ver seus músculos pela camisa justa que ele usava, e droga, como eu queria ter ficado mais tempo e tocado naqueles braços.

Me livrei dos pensamentos e me pus a seguir Belinda, que não estava muito bem para subir alguns lances de escada sozinha. Já que nosso prédio só tinha um elevador, e o mesmo estava em manutenção.
Abri a porta da minha casa, e coloquei minha amiga embaixo da água corrente do chuveiro, a ajudando a tomar banho. Eu havia bebido, mas não o suficiente para estar no mesmo estado que a loira.

Logo entreguei um pijama meu para que ela vestisse, coloquei o celular para carregar e fui tomar um banho.
O dia seguinte seria longo, principalmente com Belinda passando mal ao meu lado.


Capítulo 2

Acordei com um chiado, um tanto abafado. Parecia um toque de telefone, mas era diferente do meu ou do de Belinda. Levantei da cama e andei pela casa, tentando ver de onde vinha o zumbido que me acordou às 9 da manhã de um sábado pós balada.

Rodei umas três vezes perto de onde o barulho vinha, até que levantei uma almofada do chão, e vi que embaixo dela estava meu celular, que eu tinha colocado para carregar antes de dormir. Será que tinha acontecido alguma atualização e o toque mudou? Sei lá, essas tecnologias de hoje em dia me deixam confusa.

Olhei a tela, e chequei o número que me ligava. Pisquei forte algumas vezes. Ok, alguém deve ter colocado alucinógenos na minha bebida ontem. O número que ligava era o meu.
Primeiramente hesitei, mas atendi.

- Alô? – disse quase em um murmúrio, com um pouco de medo.
- Oi? - uma voz masculina disse, me trazendo arrepios estranhos no corpo.
- Quem é? - isso estava muito estranho, de fato.
- Acho que trocamos de telefone ontem no bar. - o garoto disse e soltou uma risada.

Espera um pouco aí! Eu não podia estar tendo aquela sorte. Podia?

- Sou eu, o garoto que pediu a mesma bebida que você. - meu coração parou por uns instantes. - Meu nome é Toni, a propósito.

Não só meu coração, mas eu também parei. Minha respiração pesou e eu me calei. Não poderia ser ele ao telefone. Talvez eu ainda estivesse no sonho dessa madrugada, aquele no qual ele também estava, e terminávamos a noite rindo enquanto bebíamos. Era estranho pensar que estaria falando com um cara tão bonito assim, e principalmente, pensar que estaria me enfiando em uma situação como essas. Agradeci aos céus por não ter nada demais em meu telefone, e prometi a mim mesma que assim que recuperasse o aparelho, colocaria uma senha.

- Está aí? – e mais uma vez eu tinha o deixado falando sozinho.
- Ah, sim... – balbuciei. – Estou. – ri fraco. – Acho que precisamos trocar os telefones novamente. Eu preciso do meu e você, obviamente, precisa do seu. – eu disse e ele concordou com uma onomatopeia. – E, meu nome é . Prazer.

Ele riu e eu o segui. Talvez o rapaz estivesse achando a situação estranha, assim como eu. Não era todos os dias que você trocava de telefone, no sentido literal, com um dos caras mais gatos que habitam na terra. – alô, exagerada!

- Então, . – meu nome saindo de sua boca poderia ser taxado como algo sexy. – Eu estou trabalhando hoje, aqui em Valdebebas. Conhece? – Assenti. Eu já tinha escutado Bel comentar sobre esse lugar, ela me disse que gostaria de tentar uma vaga de fisioterapia por lá, assim que ela acordasse, eu poderia pedir para ir comigo. – Ótimo, me encontre no portão principal da Ciudad Real, após o almoço e trocamos os aparelhos.
- Combinado. – disse, e esbocei um sorriso, por mais que o rapaz não fosse vê-lo. – Obrigada, Toni.
- De nada. – ele respondeu. – Até.

A ligação foi encerrada e eu permaneci sentada no chão, ao lado do celular ainda plugado na tomada. Belinda apareceu no corredor, coçando os olhos e bocejando. Eu sabia que ela estava morrendo de dores na cabeça, e provavelmente, no corpo. Ela passou pela cozinha americana, colocando a cafeteira para funcionar, preparando um café forte – essencial para um dia de ressaca. -, e logo se sentou no sofá.

- Que cara é essa de quem viu um fantasma? – minha amiga perguntou, olhando em minha direção. – Você não viu um fantasma, né? – ela deu uma risada nervosa.
- Claro que não, maluca. – me levantei do chão e me coloquei na outra ponta do sofá. – Recebi uma ligação.
- De quem? – ela dava pequenos goles em seu café.
- De um cara que conheci ontem. Aparentemente eu e ele trocamos de telefone, no sentido literal. Meu aparelho está com ele, e o dele comigo. – eu ri, e a garota também. – Ele perguntou se poderíamos nos encontrar hoje após o almoço para destrocarmos. – Bel assentiu. – Ele trabalha lá naquele lugar que você queria uma vaga, em Valdebebas. – a loira arregalou os olhos. – Disse para nos encontrarmos em frente a Ciudad Real, que ele estará lá.
- Ok, vamos com calma. Eu estava tão mal ontem que nem percebi alguém com você quando te puxei para fora da balada. – ajeitou seu corpo no móvel, se pondo mais ereta. – Qual o nome do sujeito?
- Toni. – disse e ela me olhou sugestiva. – Não sei seu sobrenome.
- , eu não te culpo. – ela riu e eu estava com um claro sinal de interrogação em minha feição. – Por não gostar de futebol.
- E o que isso tem a ver? – perguntei, sem saber o que Bel queria com aquilo.
- Amiga, ele trabalha em Valdebebas e vai te encontrar em frente a Ciudad Real, que não é nada mais, nada menos, que o Centro de Treinamento do Real Madrid. – ela disse, soando obvia, e eu ri.

Não tinha tempo para acompanhar futebol, mas obviamente sabia qual era o time da cidade onde morava, e sabia, também, que era um dos maiores do mundo. Mas, Belinda era a maior fã de futebol que eu conhecia, e ainda por cima, era bastante assídua nos jogos do Real Madrid.

- Ainda não entendi aonde quer chegar com isso, Bel. – eu ri da cara de incrédula que minha amiga fazia.
- Você me disse que o nome dele é Toni, não é? – ela perguntou, e eu assenti. Rapidamente ela pegou seu celular, que estava no braço do sofá, e com os dedos rápidos, digitou algo. – Por acaso esse é o garoto que você conheceu no bar? – ela virou o aparelho, me mostrando uma foto, e realmente era ele. O fundo vermelho da imagem contrastava com a camisa branca que o rapaz usava, seu cabelo estava perfeitamente penteado, e ele estava de lado, com suas mãos atrás do corpo, dando foco total para as tatuagens em seu braço, essas que eu não consegui ver no dia anterior por conta das mangas em sua camisa, ele não sorria.

Eu assenti, ela deu um sorriso animado. Parecendo que toda sua ressaca tinha ido embora.

- Pois, então, minha amiga. – ela disse, ainda sorrindo. – Você trocou de aparelho com Toni Kroos, campeão do mundo pela seleção alemã, e meia do Real Madrid.

Francamente, meu coração tinha que parar de me dar sustos parecendo que iria parar de bater de repente. Meu queixo caiu, eu não podia acreditar. Quais as possibilidades de uma coincidência dessas acontecer no mundo? Principalmente com um jogador de futebol extremamente famoso e lindo.

- Eu preferia quando eu ia me encontrar apenas com Toni, o gatinho da balada, e não Toni Kroos, o jogador. – sorri, nervosa. – Isso muda tudo, não?
- Isso significa que todas as minhas teorias estão corretas e você nasceu com o cu virado para lua. – ela disse. – Você não tem porquê ficar nervosa. O conheceu sem saber quem ele era, só chegar lá com esse mesmo pensamento.
- Vai comigo. – tentei fazer minha melhor cara de pedinte, mas tudo que recebi foi um aceno negativo de sua cabeça.
- Nada me tira de casa hoje. – ela disse firme. – Quero deitar e só acordar quando essa ressaca estiver bem longe de mim. – ela se levantou. – Por isso estou voltando para o quarto. Só me acorde quando voltar de Valdebebas.

💃🏻💕⚽

Eu estava no banco de trás do Uber, olhando para o caminho deserto entre a grande Madrid e o pequeno empreendimento urbano de Valdebebas, que era um ambiente extremamente acolhedor, com muitas árvores e aparência familiar. Morar ali talvez não fosse uma cogitação, mas trabalhar nas redondezas deveria ser maravilhoso.

Senti o carro parar subitamente fazendo a inércia agir sobre meu corpo, me jogando levemente para frente. Olhei calmamente para o motorista, solicitando que o mesmo esperasse, já que eu apenas iria entregar o celular e voltar para casa. O mesmo assentiu.
O grande portão prateado estava fechado, e uma cabine ao lado possuía um porteiro e um segurança; me aproximei, ajeitando minha touca sobre a cabeça, e meu sobretudo sobre o corpo, tentando me cobrir do cortante vendo madrilense. Um rapaz simpático me atendeu, de dentro da cabine.

- Bom dia, senhorita. O que deseja? – ele sorria, de forma cordial.
- Bom, eu combinei de encontrar Toni Kroos aqui para entregar um pertence que o mesmo esqueceu comigo. – eu disse e ele assentiu.
- O treino terminou a alguns minutos, aguarde que ele deve estar no banho e logo virá. – ele respondeu e eu sorri. – Aceita uma água? – neguei, maneando a cabeça.

Menos de um minuto se passou, e eu vi o rapaz vindo em direção ao grande portão. Ele usava uma jaqueta de couro, que por um momento me fez perder a noção de todos os sentidos que eu achava ter. A calça jeans escura combinava perfeitamente com o tênis baixo e a camisa branca, e lisa, que usava por baixo do agasalho.
Me contive para não esboçar um sorriso. Afinal, não passava pela minha mente que eu iria encontra-lo novamente.

- Ei, . – o rapaz, que agora eu sabia ser alemão, me cumprimentou de forma simpática, estendendo a mão. – Desculpa pela confusão, mas fico feliz que o celular esteja em boas mãos. – sorri, ainda embasbacada com a beleza do homem.
- Desculpe a mim, por favor. – eu ri, pegando o celular no bolso da calça e o entregando, e ele fez o mesmo. – Eu que peguei o telefone achando que era meu, sinto muito. – me mostrei um pouco envergonhada com a situação, e ele sorriu fraco. – Bom, Toni. Preciso ir, o Uber está me esperando. Foi ótimo revê-lo.

Me virei, pronta para ir embora, sendo interrompida pela mão grande do rapaz em meu ombro.

- Vamos tomar um café. – ele disse, e eu sorri. – Libere o motorista e me acompanhe em um café. – ele pediu de maneira solicita, e eu pude ter certeza que corei. – Por favor. – um sorriso se formou em seus lábios e eu assenti.
- Um segundo, então.

Corri até o carro e falei ao motorista, que me aguardava pacientemente, para finalizar a corrida e que poderia ir embora, pois dali eu partiria para outro compromisso.
Assim que ele fez, o automóvel preto virou a esquina, me fazendo perceber que eu realmente iria sair com Toni Kroos para um café.

💃🏻💕⚽

O líquido preto descia quente pela minha garganta, me fazendo lembrar que essa era a primeira coisa que eu ingeria desde o whisky da outra noite. Não que eu estivesse evitando comer, eu apenas não tinha sentido fome até então. Por isso, não almocei. Aproveitando para ir direto à Valdebebas, que era onde – ainda – estávamos. Kroos disse que conhecia uma cafeteria ótima nas redondezas, e me trouxe até ela. Assim como a pequena cidade, a conveniência era aconchegante. Não havia ninguém além de nós dois e alguns funcionários do local.

No caminho não havíamos conversado muito, ainda existia uma tensão, e eu sabia que essa se dava – exclusivamente – por minha timidez. Mas, ele já sabia o básico sobre mim; vinte e dois anos, bailarina e brasileira.

O sorriso do garoto era encantador, e ele todo, por si, também era. Dava para saber que ele era uma daquelas almas caridosas, sempre preocupado com as pessoas a sua volta. Totalmente abnegativo, e suas palavras deixavam isso claro a todo momento.
Por alguns minutos, me via perdida em suas grandes esferas azuis, as quais eu jurava que a cada vez que eu olhava, pareciam mais profundas que os três oceanos que cobrem nosso globo.

- Então, está em Madrid a quanto tempo, ? – ele tomava um gole do cappuccino.
- Desde os 18. – disse e assinalei com a mão, avisando que iria terminar minha fala logo após engolir o expresso. – Como esse ano faço 23, isso quer dizer que estou na Espanha a cinco anos. – dei um sorriso. Eu gostava de estar ali, fazendo o que eu amo. E sabia que ele podia sentir o mesmo que eu, pois também estava longe de casa, e tudo que fazia na Espanha, com certeza, era o que sempre sonhara.
- É bastante tempo. E você veio bem nova, né? – ele disse e eu assenti. – Como conseguiu conciliar tudo?
- Tive uma grande ajuda de Belinda, minha amiga e vizinha. – sorri, lembrando da garota, que deixei em casa no meio de uma ressaca. – A conheci logo que me mudei, e por ser mais velha que eu, ela sempre soube me aconselhar. Sem ela, acho que não aguentaria nem o primeiro ano em Madrid.

Ele sorriu, e eu senti meu corpo aquecer com aquele ato. Tudo que eu mais queria era saber o que ele estava pensando.

- Toni. – eu disse, claramente interrompendo seus devaneios. – Preciso ir. Deixei Bel em casa, de ressaca. – eu ri e ele me acompanhou.
- Ok. – ele disse, ainda rindo da situação. – Foi ótimo conversar um pouco mais com você, . Espero que possamos fazer isso novamente.
Ele queria me ver de novo? Minha espinha arrepiou e eu sorri, involuntariamente.
- Seria ótimo. – puxei meu celular, chamando um taxi para me levar de volta para casa.
- De certa forma, você já tem meu número. – ele piscou, divertido, e eu sorri concordando. – E eu tenho o seu. – ele movimentou o celular. – Vou te mandar uma mensagem, ... – ele tombou sua cabeça para o lado.
- . – fiz a única coisa que conseguia fazer desde que o vi pela primeira vez; sorri. – .
- Kroos. – ele retribuiu o sorriso. – Toni Kroos. – chacoalhamos nossas mãos em um cumprimento. – Mas pode me chamar de seu mais novo amigo de Madrid.

Sorri, tentando não transparecer a minha desanimação ao ouvir que ele queria ser apenas meu amigo.

Tudo bem que as coisas não aconteciam tão rápido assim. Mas, em nenhum momento durante nossa conversa, ele tentou um flerte ou um assunto com segundas intenções.
Era isso que ele queria; ser meu amigo. E não, eu não havia ficado desolada, apenas desanimada. Era óbvio que eu; uma menina latino-americana, sem dinheiro no banco – um abraço aos fãs de Belchior, não seria o suficiente para Toni Kroos; o jogador mundialmente famoso.
Para mim, tinha ficado bem claro. Então, maneei minha cabeça, concordando com sua última fala. Ao menos meu ciclo de confiança aumentaria de um para dois.

Ser amiga de Toni Kroos? É, posso conviver com isso.

Capítulo 3

Parecia que um trator tinha passado por mim durante o sono, mas lá estava eu; caminhando mais um dia em direção ao El Real.
Meu colo suava e minhas mãos tremiam. Me sentia um pouco fraca, mas nada fora do normal. Comi uma barra de cereal que estava jogada na mochila e foi o suficiente para o meu café da manhã. Desde que me encontrei com Toni no sábado, tinha feito poucas refeições.
Belinda sempre insistiu para que eu comesse como uma rainha. Ela era expert em me alimentar, fazia questão de sair da sua casa para cozinhar minha janta, meu almoço, e quando tinha tempo, me trazia coisas do Starbucks para o café da manhã.
Passei a mão pelo rosto, secando o suor da minha testa e, ao mesmo tempo, pude sentir meu celular vibrando no bolso da bermuda.
“Toni K.” era o nome que brilhava na tela. Ok, ele não havia nem mandado mensagem desde que devolvemos nossos telefones. Por que ele estava me ligando?

- Ei, . - ele disse, um tanto animado, sem ao menos deixar com que eu começasse o diálogo.
- Oi. - eu ri. - A que devo a honra de sua ligação, meu mais novo amigo de Madrid? - eu tinha que superar meu crush.
- O seu mais novo MELHOR amigo de Madrid vai te levar para almoçar. - ele disse, enfatizando o adjetivo usado para se descrever. - E eu não aceito um “não” como resposta.
- Contanto que aceite almoçar com alguém de coque, collant, meia calça e shorts. - eu disse, torcendo o lábio. Ainda não era a hora de Toni me ver no meu pior estado: após os ensaios.
- É exatamente com esse alguém que quero almoçar. - ele disse, e pelo tempo que demorou para concluir sua fala, presumi que deu um sorriso. - Te pego no teatro ao meio dia. - me questionei como ele me buscaria. - Aliás, em qual teatro você dança mesmo? - ele riu e eu não consegui deixar de acompanha-lo.
- Teatro Real, Kroos. - eu disse, me recuperando da risada. - Ao meio dia.
- Até. - ele disse, e eu apenas sorri, mesmo que ele não pudesse ver. Desligamos a ligação nesse momento.

O ensaio foi longo e cansativo, mais que todos os outros que aconteceram durante a semana. Cameron me ajudava a passar uma pomada para dores musculares na panturrilha, enquanto todos os outros bailarinos iam embora. Assim que ele terminou, me puxou para cima, me pondo de pé e me deu um abraço tímido. Eu sentia que o garoto a um tempo tentava se aproximar para uma amizade, então decidi não ser uma grandessíssima filha da puta, e dar uma chance.

- Obrigada por me ajudar, Cameron. – eu sorri, de maneira cordial. – Até amanhã eu creio que esteja melhor.
- Esperamos que sim. – ele disse. Sua voz era um tanto fina, e o seu sotaque australiano a deixava um pouco esganiçada. – Não podemos perder uma de nossas melhores bailarinas por causa de uma dor na panturrilha.

Meus olhos brilharam e eu não soube o que responder depois do elogio. Cameron Burke não era apenas um intercambista, ele era o bailarino principal da companhia, dançava ao lado de Carmen em todas as apresentações. Além de ser altamente premiado e renomado em seu país natal.
E ele, simplesmente, estava me elogiando.

- Ora, . – ele riu. – Você é uma das melhores bailarinas que já vi. – cruzou os braços e me encarou. – Acha que você é a única que vem para o teatro nos dias de folga? – levantou uma das sobrancelhas, me fazendo corar. – Eu já te vi dançando sozinha nesse palco, senhorita . Você tem uma técnica formidável, e uma paixão que é transmitida através de cada movimento que seu corpo faz. – um sorriso saiu, repentinamente, de ambos. – Você conversa com a dança. Você não faz para os outros, e sim para você. Por isso, acho que deveria tentar ser nossa Primeira Bailarina nessa temporada. – disse, sucinto. Eu queria tanto aquilo, meu sonho sempre fora estar a frente de uma grande companhia, mas eu não sabia se deveria tentar, principalmente após os comentários de Dulce sobre meu corpo. – Espero vê-la no teste, daqui alguns meses. – segurou minha mão e logo depositou um beijo calmo sobre ela. – Boa semana de folga. – ele disse, se referindo aos dias que ficaríamos em casa para compensar o fato de que não tivemos férias nas últimas temporadas. – Mas acho que nos veremos por aqui mesmo assim. – piscou, divertido, e logo saiu pela porta do camarim, me deixando sozinha no grande teatro.

Encarei meu reflexo no espelho, e sorri ao ver minhas bochechas levemente coradas devido ao esforço. Afastei-me um pouco, ainda mantendo o olhar fixo a mim e movimentei os braços, fazendo um port de bras, e logo me reverenciando em agradecimento ao público imaginário.
Um sorriso bobo brincava em meus lábios, e por um momento, realmente cogitei em participar dos testes.

💃🏻💕⚽

Toni dirigia pelas ruas de Madrid no seu carro, que para mim era algo inalcançável. Nunca, em um milhão de anos, eu; , imaginaria estar no banco do passageiro de um Audi.
Enquanto os olhos do rapaz se mantinham na estrada, minhas mãos batucavam minhas coxas conforme uma música tocava na rádio. Podia sentir que meu pensamento estava distante, mais precisamente, uns meses a frente, no dia da audição. Com os olhos fechados, ouvia os elogios de Cameron, e ao fundo, as críticas de Dulce. Respirei fundo, me desvencilhando desses pensamentos.

- Está tudo bem, ? – o loiro ao meu lado parou o carro em uma vaga qualquer, num local no qual eu não reconhecia. – Se estiver estranhando o fato de eu ter te chamado para almoçar, sendo que só nos vimos duas vezes, eu peço... – ele dizia de maneira rápida, se embaralhando nas palavras.
- Toni. – o interrompi, ainda rindo. – Calma. São coisas da companhia, ok? – eu disse e ele maneou a cabeça, ficando visivelmente mais confortável. – Eu não estou achando estranho, não mesmo. Estou adorando o fato de que tenho outro amigo em Madrid além de Belinda. – ri, sincera.
- Você tinha muitos amigos no Brasil? – perguntou e pude sentir que ele não queria soar invasivo com suas palavras.
- Ainda tenho. – concordei. – Só que a distancia nos proíbe de fazer muitas coisas. Sempre quando podemos, fazemos contato por FaceTime ou algo do tipo. – ele sorriu pra mim.
- Bom, deve ser estranho ter apenas só dois amigos em Madrid, então. – torceu o lábio, o que me fez derreter por uns instantes com sua feição extremamente fofa.
- Ah, eu não ligo. – dei de ombros. Não mentia, eu adorava Belinda, estava amando ter a companhia de Toni e agora Cameron também se aproximava. Não tinha de que reclamar.
- Então, espero que também não ligue para alguns paparazzi que possam querer umas fotos nossas. – ele riu.
- Sábado, quando aceitei ser sua amiga, já sabia que isso estava incluído no pacote. – o acompanhei na risada. – Agora vamos almoçar, estou faminta.
- Achei que nunca ia pedir. – ele riu, desligando o carro e logo descendo do mesmo, assim como eu.

Estávamos em um restaurante comum, não era nada sofisticado ou muito caro. Agradeci mentalmente, porque mesmo depois do banho que tomei no teatro, ainda não estava com roupas normais demais para ir em algo chique. Pegamos uma mesa longe da janela, e sentamos um em frente ao outro. Toni estava com o cardápio em mãos e fez questão de escolher o que nós iríamos comer. Deixei claro minhas alergias, fazendo ele pedir uma clássica Paella, acompanhada de frango.
Percebi que durante nossas conversas, algumas pessoas nos encaravam. Tudo bem, elas não olhavam para mim, o foco era todo voltado ao alemão que estava comigo. Afinal, não é todo dia que você está almoçando e um dos ídolos do maior time da cidade está ao seu lado.

Um garotinho, de no máximo oito anos, tinha acabado de entrar no recinto, junto de seus pais. Ele vestia uma camisa branca do Real Madrid, mas ele ainda não tinha prestado atenção na presença de Toni ali. Quando a criança virou de costas, seguindo em direção a mesa na qual se sentaria com os pais, pude ver o número 8 gravado na camisa, com o nome “Kroos” logo em cima do mesmo. Dei um sorriso, e fiz minha mão direita encontrar a mão esquerda de Toni, que estava vidrado em algo no celular, mas ao sentir meu toque levantou apenas seus olhos em minha direção. Pude sentir um calor passar por meu corpo, saindo inicialmente do encontro de nossa pele e indo até minha nuca, a arrepiando de maneira fraca. Expulsei qualquer tipo de pensamento impróprio e apenas apontei com a cabeça para o menino que, no momento, já estava sentado do outro lado do restaurante e de costas para nós dois.
Ele abriu um sorriso, o maior que já vi.

- Quando estivermos saindo, passamos lá. – ele disse, e só então percebi que nossas mãos ainda estavam, de certa forma, unidas. Eu não queria tira-las dali, e pelo visto, ele também. Mas, fomos obrigados a encerrar o contato quando o garçom nos trouxe o prato pedido.

Depois que terminamos o almoço, meu estômago fazia festa por estar sendo alimentado após tantas refeições mal feitas. Toni, depois de muita divergência de ideias, essas vindas de mim, pagou a conta.
Meu celular vibrou no bolso, e uma mensagem de Belinda me fez lembrar que eu não havia a avisado sobre meu almoço fora.

The BELst:
, onde você está?

Eu:
Me desculpe por não ter avisado, Bel. Estou almoçando com Toni, daqui a pouco estou em casa.

The BELst:
Você esquece que comunicação é primordial, né? Simplesmente esqueceu de me falar que estava com Toni FUCKING Kroos.
Essa eu deixo passar!
Não chegue tarde, amanhã iremos sair. Beijos. :*


Não consegui conter a risada ao ler o que Bel escreveu.

- Qual a graça? – Toni perguntou. – Compartilha comigo! Quero rir também.
- Cheguei a comentar que a minha amiga é uma grande torcedora do Real Madrid? – ele negou, mexendo com a cabeça. – Pois, então.

O mostrei a mensagem, fazendo-o cair na mesma gargalhada que eu.

- Então quer dizer que ela não vai se incomodar se eu te deixar em casa? – ele sorriu, cordial.
- Não precisa, Toni. – disse, com o tom de voz um pouco mais baixo.
- Claro que precisa! – ele piscou em minha direção e o garçom o entregou o cartão que fora utilizado para o pagamento. – Vamos. – nos levantamos. – Mas, antes...

O rapaz sorriu para mim, e começou a caminhar em direção à mesa onde estavam o garoto, torcedor do Real, e seus pais. Os adultos logo o viram, mas o mesmo levou o dedo indicador aos lábios, solicitando um silêncio por parte deles e encostou as mãos sobre os ombros do garoto.

- Bela camisa a sua, rapaz. – ele disse, e o garoto assustou-se com a fala repentina próxima ao seu ouvido, que o fez virar para trás e dar de cara com o alemão.
- Oh meu Deus. – o garoto colocou as mãos sobre a boca. – Como? Mamãe, Papai? – ele virou para os adultos que apenas manearam em negação.
- Estávamos almoçando e minha amiga aqui que te viu e me mostrou. – ele apontou para mim, que estava um pouco distante, para não atrapalhar o momento. O menino me olhou, com pequenas lagrimas escorrendo por sua bochecha e sussurrou um “obrigado”, que eu respondi com um sorriso e um simples “não há de quê”.

Kroos logo sugeriu que uma foto fosse tirada. Então, peguei o celular da mãe do menino e capturei o momento de todos, e logo um apenas de Toni e o menino, que logo descobrimos se chamar Bento.

- Ei, por que vocês não me passam um endereço de e-mail para eu poder enviar ingressos para o próximo jogo da temporada? – a cada segundo que se passava, eu me surpreendia mais com Toni.

Os pais de Bento anotaram o endereço de e-mail num papel e entregaram para o jogador. Nos despedimos e partimos para o carro.

Em frente ao prédio, Toni decidiu que desceria e conheceria Belinda. Posso dizer que ele jogou sujo ao dizer que os meus dois únicos amigos de Madrid deveriam se conhecer.
Ele parou o carro na vaga que era reservada para mim, caso eu tivesse um, e fomos caminhando até a entrada do bloco onde eu morava.
Subimos de escada até o quarto andar, já que o elevador ainda não tinha sido consertado e como de praxe ao chegar, abri minha porta e dei três batidas na porta da minha amiga, um código criado por nós para avisar que estávamos em casa e vivas.
Em menos de dez segundos uma Belinda de cabelos presos em um rabo de cavalo alto, vestido de alça vermelho e sandálias de dedo, apareceu na porta. Ela ia falar algo, provavelmente iria me xingar, mas ao correr seus olhos e perceber que Toni estava ao meu lado, pude ver minha amiga ficando estática. Seus lábios se moldaram num perfeito “O” e a única coisa que consegui fazer foi rir.

- Belinda Hernandez, esse é meu amigo... – não consegui terminar de falar, porque a garota logo esticou sua mão.
- Toni Kroos, eu sei. – ela estava com um olhar maravilhado. – Prazer.
Ele também ria da reação de minha amiga.
- Bom, Belinda. – ele disse. – Creio que teremos que nos unir, porque está com poucos amigos aqui em Madrid. Esses poucos se resumem a nós dois, apenas. – riu e Bel o acompanhou.
- Então, vamos entrar para tomar um café e conversar. – a espanhola ofereceu, e eu não pude recusar ou fingir uma desculpa, já que mais uma vez, fui cortada antes mesmo de começar a falar. – Na minha ou na sua? – olhou para mim, sugestiva.
- Tanto faz. – eu dei de ombros.
- Você tem uma máquina Nespresso, então será na sua. – ela saiu de sua casa, fechando a porta e, em segundos, já estavam todos na sala do meu apartamento.

Toni e Belinda conversavam sobre o desempenho do Real Madrid na temporada, enquanto eu fazia uns sanduíches e falava ao telefone com meu irmão.

- Mas, me diz, Bruno. – eu dizia, em português, para que nenhum dos dois pudesse ouvir sobre o assunto tratado, que era delicado para mim. Bel sabia, mas Toni tinha entrado em minha vida a alguns dias, não era algo que eu pretendia contar agora. – Como ela está?
- Queria te dizer que ela melhorou, princesinha. Queria muito. – meus lábios se contraíram e eu fazia toda força possível para não derramar uma lágrima num momento tão inoportuno como aquele. – Mas, ela ainda está no hospital, e o quadro dela é o mesmo. – pude ouvir meu irmão soltar um suspiro. - Ela quer te ver, .
- Eu também quero vê-la, Bru. – não me contive e deixei uma lágrima cair sobre a bochecha. – Você sabe que estou juntando meu dinheiro, e ser do corpo de baile não me dá muito retorno. Mas, ainda essa semana vou procurar um emprego de meio período e viajar o mais rápido possível para visitar vocês. – respirei fundo. – Acabamos de perder o papai, ainda não estou pronta para a ida da mamãe.
- Você sabe que é um tipo agressivo de câncer, não é? – Bruno era médico, e o orgulho de toda família. Desde que mamãe descobriu o Hepatocarcinoma, um tipo de câncer no fígado, ele têm se disposto a ficar com ela todos os dias, até mesmo se afastando do hospital onde trabalhava para a acompanhar nos tratamentos.

Quando o diagnóstico surgiu, a primeira coisa que eu quis fazer foi pegar minhas malas e voltar para o Brasil, sem pensar duas vezes. Mas, lembro-me perfeitamente das palavras de minha mãe em uma de suas ligações;
, eu não quero que volte para o Brasil porquê estou doente. Fique na Espanha e faça o que sabe fazer, siga seu sonho. Lembre-se que sou sua maior fã. E nunca desista daquilo que te faz sorrir, por mais inalcançável que seja. Eu te amo.”

- Sim, eu sei. – eu disse, fungando.
- Eu já ofereci ajuda financeira com sua passagem, mas você não quer aceitar. – eu sabia que Bruno, mais do que todos, queria que eu estivesse lá. Eu era tudo que ele tinha, e vice-versa.
- Eu posso fazer isso sozinha. – meu defeito era o orgulho, isso é fato. – Em alguns meses estarei aí. Mande um beijo para ela, e diga que conversaremos por Skype na parte da manhã de amanhã. – ele concordou com um murmúrio. – Eu te amo, maninho.
- Eu te amo. – disse e encerrou a ligação.

Não consegui me conter das lágrimas, abracei o telefone e desabei de tanto chorar. Tentava manter discrição, mas a meus soluços me entregaram. Um pigarro na entrada da cozinha pode ser ouvido.

- Não está tudo bem, né? – virei meus olhos, encontrando o mar azul de Toni, me transmitindo tranquilidade.

Não pensei nos meus atos, ou na consequência deles, apenas corri até o garoto e o envolvi num abraço. A aproximação foi diferente do toque de mais cedo, ao ter meu corpo tão próximo do dele, senti um tipo de segurança que ninguém, até então, havia conseguido me transmitir. Ele acariciava minhas costas e afagava meus cabelos, enquanto me dizia que tudo ia ficar bem, por mais que não soubesse o motivo das minhas lágrimas.
Nos afastamos do abraço e a diferença de altura me fez olhar um pouco para cima, só para encontrar seus olhos me encarando com curiosidade e preocupação. Seu dedo rapidamente encontrou a única lágrima que restava em minha bochecha, e fez questão de tirá-la dali.

- Deveriam proibir pessoas com o sorriso tão lindo de ficarem chorando por aí. – ele disse, e eu não consegui conter um sorriso de se formar, o que também arrancou um dele. – Viu só? É disso que eu estava falando. – ele apontou para meus lábios e por alguns segundos os fitou.

Ficamos parados por um tempo naquela posição, nos perdendo em sentimentos que não sabíamos quais eram, até sermos interrompidos por Belinda, que entrou na cozinha como um furacão.

- Eu vou ao banheiro por dois minutos e você chora, ? – ela disse. – Você me ama tanto assim? – me abraçou, e eu pude sentir o conforto. Eu sabia que ela conhecia o motivo da tristeza repentina, por mais que eu não tenha comentado. Belinda sempre sabe de tudo. – Ela vai ficar bem. – sussurrou, me fazendo intensificar o abraço.
- Obrigada, gente. – olhei para os dois a minha frente. – Agora vamos comer, por favor. – arranquei uma risada de ambos.
- Essa é a que eu conheço. – Bel disse, indo em direção a sala, logo sendo seguida por Kroos.

Eu estava cercada de duas pessoas que queriam meu bem, e isso era o suficiente para que eu não lembrasse da condição de minha mãe todos os dias. Belinda era minha família enquanto estivesse em Madrid, e agora, Toni também fazia parte dela.

Capítulo 4

Pela primeira vez em alguns meses eu consegui acordar ao meio dia. Minha vontade era continuar na cama, embaixo dos meus lençóis e só levantar para fazer coisas extremamente necessárias. Mas, morando ao lado de Belinda, nada disso era possível. Porque, em todos os meus dias de folga, ela aparecia com algo para fazermos. Dessa vez, ela e Toni se uniram e inventaram de me arrastarem para um jogo do Real Madrid.

Grupo: El Trio

Toni K:

Meninas, amanhã tem Real Madrid no Bernabeu e vocês estão convocadas a irem.

Eu:
Não sei se vai dar pra mim, Toni. ☹

The BELst:
Para de inventar desculpas, . Tenho certeza que Toni iria em sua apresentação se você pedisse.
Nós vamos, Toni. 😊

Eu:
Pra que inimigos quando se tem a Belinda?

Toni K:
Aí sim! Haha
Estejam na entrada D por volta de 1h30p.m, os ingressos estarão lá.
Beijos.


Os dois eram brilhantes na arte da chantagem, principalmente Bel. Coloquei o travesseiro na cara, pra abafar meu grunhido de descontentamento com o fato de precisar sair de casa e depois de alguns segundos, finalmente levantei. Durante o banho, a água quente caia sobre minha pele e o vapor embaçava os vidros.
Normalmente eu escreveria um recado por ali, como fazia na infância. Mas, preferi não fazer. Para não me atrasar, decidi por não lavar o cabelo, já que o mesmo tinha sido limpo no dia anterior. Ouvi o barulho da porta principal, o que indicava que Belinda havia chegado.
Desliguei o chuveiro e me enrolei na toalha, eu passaria por minha amiga de qualquer forma. Afinal, para voltar para o quarto, eu precisaria passar pela sala. Sequei meus pés no tapete preto de pelos e segui meu caminho até o guarda roupas.

- Ei, antes de entrar aí. – Belinda levantou do sofá, e me jogou um pano branco, que logo percebi ser uma camisa do time que iriamos assistir. – É uma das minhas favoritas, mas acho que ficará bem em você. – ela sorriu, e quando eu virei a peça de roupas, vi o nome de Kroos gravado nela, assim como seu número. Sorri e a abracei, em forma de agradecimento.

O relógio indicava 12h30, e como morávamos próximo ao estádio, decidimos que o melhor seria irmos a pé.
O meus olhos eram incomodados pelos poucos raios solares que davam o ar da graça naquela tarde, o que fez com que eu me arrependesse de não levar óculos escuros, diferente de Bel, que vestia os dela. Nossa camisa era idêntica, a única coisa que as diferenciava eram os números; eu usava a de Toni e Bel, a de um jogador cujo número era 50 e o sobrenome Hazard. Eu já tinha escutado o nome desse rapaz durante a copa, acho que ele era de alguma seleção que desclassificou a nossa. Eu usava uma calça preta e Bel uma jeans, ambas usávamos tênis brancos.

O caminho para o estádio foi agitado, muitos torcedores também caminhavam ao nosso lado, com bandeiras, tambores e canções devidamente ensaiadas. Eu não conseguia esconder o sorriso, eu estava amando aquilo. As pessoas simplesmente esqueciam seus problemas para divertirem-se com o esporte que amavam, assim como eu fazia com a dança. Era um amor puro, e esse tipo de sentimento é cativante. Quando percebi, já estava os acompanhando nos gritos de guerra, e Belinda sorria animada ao meu lado, enquanto fazia o mesmo.
Chegamos ao Santiago Bernabeu em poucos minutos. A loira ao meu lado conhecia o estádio como a palma de sua mão, então logo nos levou para a entrada onde Toni disse que os ingressos estariam. Ao chegarmos na cabine de venda de ingressos, um homem nos olhou curioso.

- Desejam comprar? – ele tinha um sorriso no rosto, mas era um daqueles automáticos, que surgiam porque era necessário.
- Não, Toni Kroos deixou dois ingressos pra gente. – Belinda foi quem falou.
O homem pegou um papel, com vários nomes escritos.
- Vocês são?
- Belinda Hernandez e . – assim que minha amiga disse, o rapaz checou a lista e riscou dois nomes, que presumi serem os nossos.
- Aqui estão os ingressos. – nos entregou dois bilhetes pelo pequeno vão existente no vidro da cabine. – Divirtam-se.

Sorrimos para o rapaz, passando para a revista. Sempre achei desconfortável ser revistada, mesmo que por uma mulher; não era confortável ter alguém tocando meu corpo no meio de outras pessoas. Fomos liberadas da humilhação pública e entramos no estádio. O local era majestoso, a torcida se espalhava pelas cadeiras da arquibancada, uma grande aglomeração de incentivadores merengues, que era como Belinda disse ser chamada a torcida do Real, ficava perto do gol. Esses, eu presumi serem da organizada. Meus olhos estavam vidrados em tudo que eu via.

- Só não chore, . – Bel cutucou minha cintura, usando seu cotovelo. – Vem. Me parece que Toni separou um lugar especial. – segurou minha mão e me puxou pelas escadas a baixo.

Passamos ao lado de vários torcedores do time rival, que se misturavam aos merengues sem qualquer sinal de inimizade. O local onde ficaríamos era bem próximo do campo, perto de onde os jogadores do banco de reservas se instalavam. Ali era mais reservado e um pouco mais calmo. Olhei para o lado e Belinda já conversava com alguém, que eu não sabia quem era. Mas, não me importei muito, afinal minha amiga era a pessoa mais sem vergonha de todas que eu conhecia.
Sentei-me em uma das cadeiras que ali estavam, me acomodando. Logo depois de terminar sua conversa com o rapaz, Belinda tratou de ficar ao meu lado. Preparando-se para o início do jogo.

A última vez que fui a um jogo foi há sete anos, aproximadamente, e apenas porquê Bruno me incentivou a ir. Mas, não era nada parecido com aquilo. A torcida merengue era tão apaixonada e calorosa, eles gritavam, cantavam e aplaudiam, mesmo se não fosse um gol. Me encantei verdadeiramente por tudo que presenciei, talvez eu até pensasse em voltar para outro jogo.
Bel não conseguiu ficar sentada em nenhum momento, a cada lance ela se levantava da cadeira e levava as mãos a cabeça. A paixão de minha amiga por futebol era clara, e por mais que ela tentasse esconder, eu sabia que ela estava adorando o fato de estar se tornando amiga de seu ídolo. A garota apontava para os jogadores e ia me falando seus nomes, esses que eu já havia escutado diversas vezes. Mas, poder associar um nome a um rosto era maravilhoso.

E por falar em maravilhoso, Belinda nunca havia me dito que o Real Madrid é o time com mais jogadores bonitos por metro quadrado. Isso incluía Kroos, obviamente, já que sua beleza era notável e eu tinha uma clara quedinha por ele, da qual Bel desconfiava, mas não tinha certeza. Afinal, eu sempre me fazia de sonsa quando citávamos seu nome.
O jogo foi finalizado com a vitória do time da casa, o que levou a torcida a loucura. Minha amiga me abraçou tão forte que conseguiu me tirar do chão. Parecia que haviam ganhado alguma taça, mas era apenas mais um jogo da liga. Comemorei com ela, porque se estamos na chuva, claramente devemos nos molhar.

- Vou te trazer para todos os jogos a partir de hoje, . – ela disse. – Você vai ser meu amuleto da sorte. – eu ri da maneira alegre que a menina falava. - Virou passeio. 4x0. Essa LaLiga já é nossa. – ela fazia uma dancinha engraçada, que me faz rir fraco.
- Vamos esperar a grande maioria sair para irmos? – perguntei, vendo uma massa de pessoas se formar nas escadas. – Parece que haverá um congestionamento por ali.

Bel maneou em concordância e se sentou para esperar, ficou usando o celular até que a vi dar um sorriso largo e não soube o motivo, até ver que meu celular vibrou e Kroos havia enviado uma mensagem para nosso grupo.

Toni K.: Espero que não tenham ido embora, pois sairemos para comemorar. Já mostrei aos seguranças quem são vocês e solicitei a liberação para me esperarem aqui perto do vestiário. Ele está indo aí. Até! 😊

Não pude evitar que um sorriso também se formasse.
Olhei para a escada bem ao lado da entrada de nosso setor e um homem alto e calvo estava nos observando atentamente.

- Senhorita Belinda e Senhorita ? – ele perguntou e ambas dissemos um “sim” em uníssono. – O amigo de vocês pediu para que eu as acompanhasse até as dependências do estádio.

Trocamos um breve olhar e concordamos com o homem, o seguindo para o local onde Toni disse que nos esperaria. Era bem iluminado e todo em cores claras, fomos colocadas em um banco, quinhentas mil vezes mais confortável do qual estávamos anteriormente.

- Talvez ele demore alguns minutos, pois todos foram para o banho, mas podem aguardar aqui. – o homem disse mais uma vez, sendo simpático o suficiente para arrancar um sorriso de agradecimento vindo de mim e de minha amiga.

Ele se retirou do recinto nos deixando sozinhas, eu podia vez na maneira que Belinda agia, que ela estava nervosa. Suas pernas balançavam freneticamente e suas mãos encostavam umas nas outras com a intenção de secar o suor que nelas se acumulava, em todos esses anos de amizade com Bel, eu podia perceber nos mínimos detalhes quando estava nervosa. E esse era um dos momentos no qual ela estava.

- Está tudo bem? – olhei para minha amiga, que encarava os pés.
- Você tem noção de que daqui a pouco meus ídolos vão passar por aqui? – ela me encarou e eu respondi com um murmúrio. – Então, ... Não está nada bem!
- Calma, garota. – eu disse, em meio a risadas. – Aposto que são tão legais quanto o Kroos. Ela respirou fundo, contando até três de maneira baixa. Coisa que ela também fazia para espantar o nervosismo.
- O meu crush supremo passará por aqui. – dessa vez estava um pouco mais calma. – Ele não pode me ver dessa maneira, né?

Neguei com a cabeça, enquanto prendia um riso que queria muito sair e ela deu de ombros. Vozes masculinas começaram a surgir, vindas do final do corredor, e automaticamente viramos nossos olhos para esse ponto. Alguns dos jogadores que haviam disputado a partida saiam do vestiário, uns estavam com fones de ouvido, outros conversavam com seus amigos e um deles usava o celular para uma chamada de vídeo.
Uma parte deles estranhou a presença de duas mulheres, até então desconhecidas, no local. Mas todos eram sempre muito simpáticos e nos cumprimentavam com acenos de cabeça ou pequenos sorrisos. E a cada vez que isso acontecia, eu sabia que era um surto diferente no interior de Belinda. Logo no final do grupo, Toni e outros dois rapazes vinham conversando animadamente. Ele nos olhou e os chamou para o acompanharem.

- Que bom que estão aqui, meninas. – olhou para mim, e logo depois para Belinda, abrindo um sorriso extremamente branco, que foi retribuído por minha amiga, me fazendo sentir um pequeno incomodo ao ver a cena. Será que estava acontecendo algo entre eles que eu não sabia? E mesmo se estivesse, eu não teria nenhum direito de reclamar, afinal Belinda não sabia do que eu sentia, ou achava estar sentindo, e Toni foi bem claro ao dizer que era meu melhor amigo. Tirei esse tipo de pensamento da mente e sorri, esse saindo um pouco mais desanimado que o dos dois.
- Essas são Belinda e . – ele apontou para nós duas, respectivamente, e nos levantamos. – Esses são Lucas e Marco.
- Muito prazer rapazes. – Bel estendeu a mão, cumprimentando os garotos, e eu, ainda meio reclusa, dei um sorriso e um pequeno aceno.
- A mulher de Sergio está preparando um jantar, em comemoração à nossa estreia. – o garoto, que foi apresentado como Lucas, disse. – Sei que Toni provavelmente planejou outra coisa para fazer com vocês, mas estamos a caminho de lá agora, se quiserem ir.

Belinda e Kroos me olharam e eu dei de ombros, deixando a decisão nas mãos deles. Eu não queria ser a chata que recusaria um jantar fora, e principalmente, que estragaria a realização de sonho da melhor amiga.

- Não estarão todos lá. – o garoto continuou. – Apenas a gente, Marcelo e Éden.

Os olhos de Bel brilharam ao ouvir o último nome. Seria esse o crush que ela me falou? Talvez com eles se conhecendo, ele se apaixonaria por Belinda e ela desistiria de Kroos, isso se ela estivesse realmente tendo algo com ele pelas minhas costas. Mas até o momento, isso era apenas uma invenção da minha cabeça.

- Alguma de vocês se importaria em ir com o Vázquez e o Asensio? – Toni perguntou, me deixando a parte do sobrenome dos rapazes. – Meu banco traseiro está cheio de mochilas e malas, porque trouxe umas coisas de Valdebebas para deixar em casa. – ele me encarou com um semblante questionador, e eu sabia que era Belinda que ele queria que o acompanhasse no carro.
- Eu vou com os garotos, sem problemas. – eu disse, tentando expressar um pouco de animação.
- Ok. – ele sorriu. – Vamos, então.

Caminhamos os cinco até o estacionamento e Lucas Vázquez indicou qual era seu carro, para que eu entrasse junto de Marco Asensio. Sentei no banco traseiro, mesmo que Marco insistisse para que eu fosse na frente com o motorista. Preferi não atrapalhar os amigos.
Vi Belinda e Toni entrando em seu carro e partindo na frente, logo sendo seguidos pelo nosso, que deu partida assim que Lucas se pôs na frente do volante. O caminho inteiro só conseguia pensar nas possibilidades que rondavam minha mente: talvez a amizade deles esteja mais estreita por conta dos interesses em comum, talvez estejam se conhecendo melhor para que eu não me sinta tão só em relação as amizades, ou talvez estivessem tendo algum tipo de relacionamento afetivo entre eles, e apenas esperando o tempo certo para me contar.
A última opção era a que mais me perseguia, de uma forma que chegava a assustar. Meu silencio era assustador, mesmo com a música alta tocando no carro. Eu usava o celular como desculpa para o silencio, enquanto rolava o feed do Instagram. Olhei para os garotos a minha frente, que conversavam sobre algo, até que senti o carro parar e vi uma casa toda em muros brancos a minha frente.

- Chegamos, . – Lucas disse e eu sorri, logo saindo do carro. Marco estava mais a frente junto de Kroos e Belinda, que conversavam animadamente. Senti Vázquez se aproximar.
- Ei, não fique nervosa, são todos pessoas muito legais, posso garantir. – ele sorriu e eu pude perceber o quão contagiante era seu sorriso.
- Não ficarei, prometo. – sorri, retribuindo a simpatia.
- Vai ter que prometer certo se quiser me convencer, senhorita. – ele levantou o dedo mindinho em minha direção.
- Quer que eu faça uma Pink Promise com você? – eu soltei uma risada fraca, admirando o senso de humor do rapaz, e ele acenou com a cabeça. – Ok, então, senhor Lucas. – uni o meu dedo mindinho ao dele. – Eu prometo que não ficarei nervosa e que conversarei com todos sem medo.
- Agora eu vi verdade na promessa. – ele riu e eu o acompanhei. A espontaneidade do jogador me deixou mais relaxada com a ideia de entrar e encontrar pessoas desconhecidas, fazendo um pouco da minha timidez sair de cena. – Vamos entrar.

Fomos andando até a porta, e no caminho ele perguntava algumas coisas sobre mim e dizia algumas sobre ele.
Assim que uma linda mulher de cabelos escuros e olhos azuis feito água cristalina abriu a porta para que entrássemos, Lucas a cumprimentou e eu fiz o mesmo, ela se apresentou como Pilar, mulher de Sergio Ramos, que Bel uma vez me disse ser o capitão do time.
Quando entramos na casa, nos deparamos com três sofás cheios de pessoas conversando.

- Achei que iam ficar mais três meses lá fora. – um rapaz de cabelos castanhos se levantou e abraçou Lucas, logo se virando em minha direção. – Sou Sergio, muito prazer. – ele sorriu, simpático como todos os outros. – Você deve ser a , não? – concordei com a cabeça, sorrindo. – Ouvimos muito sobre você nesses minutos que estava com Vázquez lá fora, eu diria que já somos todos amigos. – eu dei uma risada fraca. – Esses são Marcelo e Éden. – ele apontou para o rapaz de cabelo black e logo para outro com olhos claros e cabelos castanhos.

Percebi rapidamente que o primeiro era brasileiro, pois pude jurar que já havia o visto com a camisa da seleção canarinha.

- Muito prazer, gente. – eu sorri e acenei para os dois, que se levantaram para me cumprimentar com beijos e abraços.
Logo me sentei ao lado de Belinda, que estava sozinha em um dos sofás.
- Por que demorou tanto? – me olhou curiosa e com um sorriso malicioso nos lábios. – O que estavam fazendo?
- Uma Pink Promise. – eu disse e pude ver a cara de interrogação da minha amiga, olhei para o outro lado da sala e Vázquez piscou para mim, e levantou a mão direita em um “joinha”. Ao seu lado, Toni encarava curioso a interação entre nós dois.

Olhei para Kroos e troquei sorrisos com ele.
Estava genuinamente feliz por estar aumentando meu ciclo de amizade, mesmo depois de cinco anos no país.

Capítulo 5

O tempo em Madrid era ameno, e finalmente eu havia conseguido dormir um pouco mais que nos outros dias. Hoje não tinha ensaio, jogo, ou qualquer outra coisa que me fizesse sair de casa.

Ainda na minha cama, peguei o celular sobre a escrivaninha para checar se tudo estava nos conformes. Havia uma mensagem de Belinda, perguntando se eu queria ir ao Aquário hoje; duas de Bruno me dizendo que o quadro de mamãe melhorou e ela está estável, essas que me fizeram sorrir. Uma de Vázquez, que era a selfie que havíamos tirado no dia anterior; nessa estavam ele, Marcelo e Éden, - que eu havia descoberto que: sim, era o tal do Hazard que eliminou o Brasil na copa - ao meu redor. Sorriamos animados, enquanto o brasileiro tirava a foto, o belga sorria com apenas sua cabeça aparecendo sobre meu ombro, e Lucas me abraçava pela cintura enquanto eu fazia um sinal com dois dedos levantados. Junto a foto, ele enviou um aviso de que havia a postado em seu Instagram. Logo mais eu checaria.
A última mensagem não lida era de Toni, senti um pequeno nervosismo antes de checar o conteúdo, até que abri.

Toni K.:
Hey. O que acha de irmos ao Aquário hoje? Dei a ideia para Belinda e ela adorou.
Vamos, por favor.


Vi que o seu status estava como online, então decidi o responder.

Eu:
Não sei quanto a isso, Toni. Acho que ficarei em casa hoje, mas podem ir sem mim.
Beijos. .

Toni K.:
Ok, bailarina. Passo para te ver mais tarde!
Bom dia de descanso.
Beijos.


Bloqueei o celular e decidi que tomaria um banho e logo voltaria para cama, com a única intenção de ver televisão até o fim do dia.
No banheiro, eu encarava meu reflexo no espelho. Minhas coxas pareciam mais grossas e minha barriga mais flácida. Meus braços estavam maiores e meu rosto um pouco mais redondo.

Apertei o excesso de gordura na minha barriga, efeitos de muitos dias comendo em grande quantidade. Puxei a balança que estava embaixo da pia e subi na mesma, dois quilos a mais. Dulce estava certa, eu estava maior e eu precisava resolver isso o mais rápido possível para conseguir aquela vaga de primeira bailarina. Talvez meu corpo não sentiria tanto se eu começasse a diminuir a comida a partir de hoje, não?
Tomei um banho, coloquei shorts, uma blusa um pouco mais larga e voltei a me deitar na cama. Ouvi a porta da minha sala abrir, e a voz de Belinda soar.

- Estou no quarto. – gritei para que minha amiga ouvisse.

Logo pude ver a loira entrando no cômodo, usando um short jeans curto, com um cropped vermelho e um kimono por cima, além de seus fiéis all stars. Seu corpo era perfeitamente delineado pela roupa que vestia, a blusa curta deixava sua barriga, perfeitamente negativa, a mostra, e por um reflexo, me cobri um pouco mais.
Senti vergonha do meu corpo naquele momento. Será que era por isso que Toni sorria daquela forma para ela e não para mim?

- Kroos me disse que você não vai conosco. Está tudo bem? – ela sentou na ponta da cama e me olhou com carinho e preocupação.
- Está tudo bem, Bel. Vá se divertir. – eu disse, forçando meu melhor sorriso. – Me mandem fotos dos peixinhos. – eu disse e ela riu fraco.
- Pode deixar. – ela se levantou. – Não será a mesma coisa sem você. Mas já que me garante que tudo está bem, vou sem preocupações.

Eu sorri, numa forma de dizer a ela que poderia ir tranquila e a garota me surpreendeu ao me abraçar. Envolvi meus braços em seu corpo, retribuindo a ação e pude sentir todo o amor que ela sentia por mim, e sabia que era genuíno. Belinda me amava como uma irmã e eu sentia o mesmo. Percebi que tudo o que ela precisava era ser feliz em tudo. Então, naquele momento, eu decidi que tudo aquilo que estava começando a alimentar por Toni seria jogado por terra. Porque se era com ele que Belinda ficaria feliz, isso me deixaria feliz.

- Nos vemos mais tarde. – minha amiga disse, com um sorriso enorme no rosto.

💃🏻💕⚽

Já havia perdido as contas de quantos episódios de Friends eu tinha assistido. Meu estomago roncava, me lembrando que eu não me alimentava desde o dia anterior. Mas, eu decidi o ignorar, já que eu estaria diminuindo as refeições para emagrecer até o teste.
Meu celular vibrava loucamente e eu estava certa de que o ignoraria, mas quem me ligava não se cansou.

- Foi um erro ter te dado meu número, sinto que você vai me irritar todos os dias. – eu disse, ao atender a ligação.
- Só me bloquear e nunca mais receberá uma ligação minha. – eu pude ouvir uma risada vinda do garoto. – Mas como eu sei que você não faria isso, estou te oferecendo minha companhia nesse dia monótono. Me acompanhe numa bebida?
- Eu adoraria dizer sim, Lucas. – torci o lábio, tentando inventar a melhor desculpa que conseguisse. – Mas, minha cama me parece muito mais atrativa que a mesa de um bar.
- Não seja por isso, me passe seu endereço e eu levo as cervejas. – não sabia o motivo da minha resistência, ele só queria me fazer companhia e eu estava sendo uma completa babaca tentando pensar em desculpas que, claramente, não funcionariam.
- Como percebi que não me livrarei de você tão cedo, vou te enviar a localização por mensagem. – eu ri e ele me acompanhou. – E, Vázquez, não me apareça com cerveja ruim. Ou será expulso daqui.

Ele concordou e logo em seguida encerrou a ligação, aproveitei para encaminhar minha localização e colocar uma roupa mais apresentável: short jeans e uma regata branca.
Dobrei os lençóis da minha cama e desliguei a TV do quarto, passando o conteúdo assistido para a da sala. Coloquei porta-copos sobre a mesa de centro e liguei o ar-condicionado central para deixar o ambiente mais fresco.

Poucos minutos depois, enquanto procurava copos decentes para nosso uso, ouvi o estridente som do interfone. O porteiro indicou que Lucas havia chegado, eu pedi para que o liberasse e o avisasse do elevador quebrado e assim o fez.
Foi o tempo de eu achar os copos e coloca-los em cima da mesa, para que o garoto batesse na porta. Corri até a mesma, a abrindo e dando de cara com Vázquez em uma camisa de botões preta, uma bermuda da mesma cor, e um tênis baixo. Me permiti apreciar a vista por um tempo. Eu não era cega o suficiente para dizer que Lucas Vázquez era feio, até porque era claro que ele não era.
Ele abriu um enorme sorriso e me abraçou meio sem jeito, pela quantidade de sacolas que tinha em mãos. Pedi para que ele entrasse e então fechei a porta atrás dele.

- Sinta-se em casa. – anunciei e ele me lançou um olhar cheio de intenções. – Mas não tão em casa assim. – ele riu alto e eu o acompanhei. – Pode colocar as cervejas na geladeira, mas já deixe duas aqui fora para bebermos.

Ele foi até a cozinha, e pude ouvi-lo dispondo as garrafas no freezer, me fazendo chegar à conclusão de que algumas cervejas esquentaram no caminho. Fui até meu quarto para pegar o celular e vi uma mensagem de Belinda, nesta ela avisava que já estava a caminho de casa junto com Toni, e que eles traziam pizza.
Pude ouvir minha barriga implorando por apenas uma fatia, e eu sabia que precisaria comer ou seria cercada de perguntas vindas dos meus amigos.

- Parece que alguém está com fome, não? – Lucas estava encostado na porta do quarto. Demorei um pouco para virar e encara-lo, a vergonha por ele ter ouvido meu estomago roncar me consumia.
- Não é nada. – dei de ombros, passando por ele e indo em direção a sala. Sentando-me no sofá e bebendo um gole da cerveja que ele tinha colocado em meu copo.
- Está a quanto tempo sem comer, ? – seu olhar era o mesmo de Belinda mais cedo, carregado de carinho e preocupação. Mas no dele, eu pude sentir a preocupação com mais clareza. Torci o lábio e fiz uma cara de dúvida que não convenceria a ninguém. Eu sabia o que ele queria dizer. – Não se faça de desentendida, . – ele sentou ao meu lado. – Eu sou atleta, assim como você. Se esqueceu?
- Eu não sei o que está querendo dizer com isso. – ajeitei minha postura no sofá e coloquei o copo sobre a mesa.
- Você é uma péssima mentirosa. – ele riu. – Eu quero dizer que eu sei como é ter pessoas no seu pé pedindo para que fique em forma, entre outras coisas. E bom, eu creio que no balé seja muito mais cobrado que no futebol. – recolhi meus ombros, eu havia ficado frágil com aquele comentário. – Você é linda, . Tem um corpo maravilhoso, que faz qualquer um sentir atração. Tira isso da cabeça e come algo, você não vai emagrecer se parar de comer.
- Eu só não estava com fome antes. – menti e ele sabia que eu estava mentindo, mas aquelas palavras estavam sendo, de certa forma, direcionadas a mim e não a ele. – Mas, Toni e Bel estão trazendo pizza.
- Me promete que vai comer? – ele me mostrou o dedo mindinho e eu sorri.
- Prometo. – uni nossos dedos, selando mais uma pink promise com Lucas. Essas seriam nossos maiores segredos, eu sabia.

Um filme sobre ataque alienígena era o que passava na TV quando a porta foi aberta, dando espaço para que Belinda entrasse, seguida de Toni, que segurava uma caixa de pizza. Ambos ficaram surpresos com a presença de Lucas, ele estava sentado em um sofá e eu em outro, nenhum dos dois prestava muita atenção na obra audiovisual que era transmitida, pois estávamos imersos no mundo virtual. Levantei meu olhar, e logo encontrei os olhos de Toni sobre mim, me encarando com curiosidade e duvida. Será que ele achava que eu e Vázquez estávamos tendo algo?

- Boa noite, queridos. – Bel cumprimentou Lucas com um beijo estalado na bochecha e me deu um abraço.
- Que bom chegaram, tem bastante cerveja ainda. – o espanhol disse, arrancando risadas de Belinda.

Toni falou rapidamente com o amigo, colocou a pizza sobre a mesa e me lançou um sorriso que me fez derreter. Eu não poderia me desfazer dos possíveis sentimentos se ele continuasse sendo lindo daquela forma.
Minha amiga, que tinha ido até a cozinha, voltou com mais dois copos em uma mão e uma garrafa em outra.

- O que vocês acham de comermos e fazermos alguma daquelas brincadeiras de adolescentes? – ela se sentou ao lado de Lucas, que rapidamente concordou com a garota.
- Tipo “verdade ou consequência?” – perguntei, com um misto de nervosismo e curiosidade.
- Isso! – Bel disse com uma animação invejável.

💃🏻💕⚽

O motivo de eu ter dado aquela ideia eu não sabia, mas nós quatro estamos sentados em roda no chão da sala, uma garrafa vazia de cerveja estava no centro do círculo. Ao meu lado, Toni, a minha frente Belinda e Lucas. A loira estava bastante animada com o fato de estar brincando de algo que não fazia desde o ensino médio. Levou a mão até a garrafa e com um só movimento a girou. De início, eram feitas perguntas simples e sem muitas intenções. Mas, depois de mais alguns copos de cerveja, as coisas foram ficando mais intimistas, chegando no assunto onde todos queriam chegar: sexo e afins.
Não me lembro em qual rodada estávamos, mas dessa vez Lucas girou a garrafa, que caiu com a tampa virada para mim e o fundo para Bel.

- Eu quero verdade. – a fisioterapeuta disse, batendo palmas.
Não tinha o que perguntar, eu sabia de tudo relacionado a Belinda, éramos confidentes. Havia uma coisa que eu ainda não sabia e que provavelmente me arrependeria depois, mas, qualquer coisa era só colocar a culpa na bebida, não é? Afinal, já estávamos todos um pouco alterados.

- Você e o Toni já ficaram? – perguntei, tentando não transparecer a real intenção na pergunta. Ela me olhou e apenas riu.
- Você está louca, ? – ela ainda ria, e Toni a acompanhava. – Você pode nunca ter dado atenção as coisas que eu falava sobre futebol, mas acho que sabe que eu venderia um rim só pra poder transar com o Hazard. – disse, cessando a risada. – Então, isso é um não. – apontou para mim. – E para vocês, - virou para os garotos. – me apresentem melhor ao Eden, creio que ele não irá se arrepender. – passou a mão pelo seu próprio corpo, contornando a silhueta.

A roda foi tomada por risadas e meu peito por um alívio.
Lucas rodou a garrafa mais uma vez, e dessa vez caiu com a tampa virada para Belinda e o fundo para Kroos.

- Consequência. – ele disse, com um semblante confiante.
- Alguém não tem medo do perigo, não é mesmo? – Vázquez caçoou o amigo, que apenas levantou o dedo médio em resposta.
- Vamos lá. – Bel fez uma cara sapeca e colocou a mão no queixo. – Que tal juntar o útil ao agradável, hein? – ela sorriu, e eu não tinha ideia do que se passava na mente da garota naquele momento. – Toni, eu te desafio a beijar a .

Engoli seco ao ouvir aquelas palavras saírem da boca de Belinda, olhei para Kroos, que estava tão assustado quanto eu. Ninguém esperava que Bel fosse lançar aquilo como consequência. Eu não movia um músculo e Toni também não. Eu queria beijá-lo, isso era óbvio, mas eu não sabia se ele desejava o mesmo, mas pela sua reação, creio que não era o que queria.

- Não é como se fosse um sacrifício. – Vázquez disse, batendo em uma das coxas. – Você vai recusar beijar uma das garotas mais gostosas que já conhecemos e depois vai se arrepender. – ele se virou para mim. – Apenas a verdade, . – voltou seu olhar para Kroos. – Larga de ser frouxo e beije a garota.

Toni, que estava ao meu lado, virou o corpo, ficando frente a frente comigo. Se aproximou um pouco mais, fazendo com que nossos joelhos se tocassem. Seus olhos me encaravam de uma forma que nunca fizeram antes, era um olhar convidativo. Sua mão direita colocou uma mecha do meu cabelo atrás de minha orelha, e logo repousou sobre meu pescoço. Eu podia sentir tudo passando em uma pequena fração de segundo.
Dessa vez não era a fome que revirava meu estomago, e sim o nervosismo.
Senti seus dedos acariciarem minha nuca, e ele se aproximou de meu rosto e depositou um beijo em minha bochecha. Senti o quente de sua respiração se aproximar de minha orelha, me fazendo arrepiar por completo.

- Não era dessa forma que eu queria que acontecesse, mas vai ser. – ele sussurrou e eu fiquei sem reação. Ele pensava em me beijar em outra oportunidade?

Meus pensamentos foram cortados quando os lábios macios de Toni encontraram os meus, me colocando num transe impossível de se comparar a qualquer outra coisa. O toque inesperado tinha um quê de curiosidade e novidade.
Sua mão livre encontrou minha cintura, fazendo com que toda mínima distância que ainda existia entre nossos corpos fosse desfeita.
Cedi espaço para sua língua passear por minha boca e pude sentir meu corpo desfalecer aos poucos, o beijo tinha o encaixe o tempo perfeito. Sem pressa, ele separou nossos lábios, finalizando o beijo com alguns selinhos e um sorriso inigualável.
Ficamos nos encarando por um tempo, até que pude ouvir um pigarro vindo de algum de nossos amigos.

- Acho que essa é minha deixa. – Lucas se levantou rapidamente, mas logo levou a mão a testa. – Esqueci que não posso dirigir. – olhou para a loira ao seu lado. – Posso dormir na sua casa hoje, Bel? - A garota riu e maneou em concordância.
- Por que não dorme aqui, Lucas? – perguntei, sem perceber que os braços de Toni ainda estavam ao redor de minha cintura.
- Depois de toda essa tensão sexual entre vocês, eu prefiro dormir na Bel e fofocar sobre o Eden. – ele disse e minha amiga bateu palmas, animada com a ideia. – Vejo vocês amanhã.

Belinda e Lucas despediram-se jogando beijos e saíram da casa, me deixando sozinha com Toni.
Nos encaramos mais uma vez, mas dessa estávamos sozinhos, sem outros quatro olhos observando tudo que fazíamos.
Me puxou para perto selando nossos lábios em um beijo longo.

- Por mais que eu queira muito resolver essa “tensão sexual”. – eu disse, fazendo as aspas com os dedos. – Eu preciso muito descansar, a quantidade de álcool ingerida acabou com minha cabeça. Ela está latejando, no momento.
- Então vamos dormir.

Depois de mostrar o caminho do banheiro a Kroos, ele tomou um banho enquanto eu arrumava a sala, jogando todas as garrafas fora. O homem passou por mim apenas em bermudas e com os cabelos levemente úmidos. Seria difícil manter a sanidade com aquele homem dormindo na mesma cama que eu.
Fiz o mesmo que Toni e tomei um banho. Ao chegar no quarto, o rapaz já dormia, mas assim que me deitei, ele se aproximou, me abraçando por trás e depositando um beijo em minha cabeça.

- Boa noite, pequena bailarina.



Continua...



Nota da autora: Espero que vocês estejam gostando da história até agora. Deixo claro aqui que essa fic terá gatilhos que serão previamente avisados.
Vejo vocês no próximo capítulo. <3


Outras Fanfics:
Offside
The Last Song I'll Write For You

Nota da Scripter:

Essa fanfic é de total responsabilidade da autora, apenas faço o script. Qualquer erro, somente no e-mail.


comments powered by Disqus