Tiny Dancer

Última atualização: 22/09/2019

Capítulo 1

Todo dia era a mesma novela para chegar ao teatro; um metrô e um ônibus; em alguns dias o segundo meio de transporte era substituído por uma caminhada de dez a quinze minutos, e hoje era um desses. As ruas estavam cheias por conta de algum evento esportivo com o qual, com certeza, não me interessava. Eu tentava passar pelas pessoas, que formavam grupos grandes de torcedores – meu Deus, eu só queria chegar para o ensaio no horário previsto, será que me atrasaria mesmo a pé? Eu fazia isso, justamente, para cortar o trânsito.

Respirei fundo algumas vezes e não me importei de empurrar as pessoas que ficavam em meu caminho. Com a impontualidade, nunca conseguiria o posto de primeira bailarina do Teatro Real.

Depois de muito esforço, e alguns fios de cabelo fora do coque, eu havia chegado em frente ao local. Sua arquitetura era clássica, pintado por um branco que já se desgastava, tinha grandes colunas e pequenas janelas. Entradas em formatos de arco nos recebiam, e eu amava aquele lugar. Por dentro, o teatro acomodava cerca de 2.000 pessoas, em uma grande fileira de cadeiras centrais e três frisas, sem contar com os camarotes.

Desde os meus dezoito anos o El Real, como é conhecido, tem sido minha casa. Então, já faziam quatro anos desde que saí da minha companhia do Brasil e vim, através de uma prova, dançar com os bailarinos espanhóis. Nunca me importei de ter amigos muito próximos na companhia, a minha única melhor amiga desde minha chegada à Madrid tem sido minha vizinha de porta, Belinda. Ela é uma fisioterapeuta, que com veemência, consegue conciliar o trabalho aos estudos da pós-graduação. Normalmente, Bel e eu ficávamos em casa, enquanto eu a ajudava nos estudos, sendo o seu – como chamamos – “cadáver vivo”, o pleonasmo fazia parte da graça. Eu fazia os movimentos e ela os analisava, dizendo os efeitos que a má execução de cada um poderia causar ao meu corpo.

Deixei, rapidamente, meus pertences no camarim. Ajeitei meus fios rebeldes e segui para o alongamento.
Lá estava toda a turma, posicionada ao lado das barras, alongando-se e aguardando a chegada da coreógrafa e diretora da companhia. Me mantive ao lado de Cameron, um rapaz também intercambista, que era o único que não me olhava torto por ali.

Meus olhos fecharam quando em um único movimento, minhas mãos encontraram o chão, alongando toda a extensão da minha coluna. Elevei minha perna ao lado do corpo, contraindo todo meu abdome para que ela se mantivesse ereta, conseguindo executar o movimento com precisão.
Depois de alguns minutos, a mulher de cabelos negros e rosto chupado apareceu no palco.

- Vamos para os recados, antes que comecemos as variações. – Dulce disse, unindo as mãos a frente de seu tronco. – Essa é a última temporada de Carmen como nossa Primeira Bailarina. – ela apontou para a garota loira de olhos verdes, que estava na barra central. – Isso significa que estaremos abrindo testes para quem quiser tentar. – ela disse, sucinta, sem mais informações. – Vamos as variações.
- Solange, Pietra e... – a diretora olhou o papel em sua mão. – . – subi meu olhar ao ouvir meu nome sendo chamado. – Amigas de Kitri. Vamos! – bateu palmas. – Cinco, seis, sete e oito.

A melodia soava calmamente e parecia combustível para minha alma. Meus movimentos seguiam os acordes, que casavam de maneira perfeita. Eu nasci para arte, a arte nasceu para mim.
Ao final do ato, o resto dos bailarinos nos aplaudiram e Dulce fez questão de corrigir algumas coisas que estavam erradas.

- Quero te ver esticando mais esse pé, Solange. – disse passando em frente a garota. – E você, esses joelhos, Pietra. Seus saltos já foram melhores. – a garota ao meu lado assentiu. – E, . – seus olhos me fitaram por alguns segundos, senti como se ela analisasse cada pedaço do meu interior. – Você é ótima, mas tem coxas muito grossas. Precisa perdê-las. – e deu sua última fala, saindo de cena e nos liberando, para a entrada do próximo grupo de variação.

Sempre soube das cobranças que o ballet exigiam; o “corpo perfeito”, pernas finas e cintura mais ainda. Mas o que ela dizia com “perder minhas coxas”, não havia como elas diminuírem mais que aquilo. Ela estava pedindo para eu mudar meu bio-tipo, e isso não era possível. Sou brasileira, tenho um corpo estritamente latino. Sou magra, mas não o quanto ela precisava que eu fosse. E talvez fosse por isso que ainda não tinha ganhado a oportunidade de ser primeira bailarina.

Não me importei muito com o comentário, o meio exigia esforços, mas eu não iria me esforçar para perder algo que não conseguiria. Por isso, apenas peguei minha mochila, ao fim do ensaio, e voltei para casa.
Admito que não estava feliz, mas ao ver Belinda com dois sacos da Starbucks em mãos, eu pude deixar um sorriso escapar.

- Hoje é sexta, e eu tenho boas notícias. – me entregou um dunnut e um cappuccino. – Minha tese foi aprovada, vamos sair para comemorar. – a garota disse e eu dei pulinhos animados.
- Meus parabéns, loirinha. – sorri. – Eu sabia que ia conseguir. – puxei a chave da porta, abrindo a mesma. – Vem, vamos nos arrumar e sair para comemorar sua vitória.

No tempo em que me ensaboava, Belinda ligava para conseguir entradas para a melhor – e mais cara – balada de Madrid, que mesmo com muito esforço e pedido da minha parte para que fossemos apenas à algum bar, ela fez questão de pagar.
Saí do banheiro, indicando que era a hora da outra garota entrar no banho.
Escolhi um vestido preto, com o busto justo e a cintura marcada, sendo finalizado em uma saia evasê que ia até metade das minhas coxas. Um salto de mesma cor estava em meus pés, o cabelo foi seco e apenas isso, sem muito glamour. Uma maquiagem básica e um liptint estavam em meu rosto e lábios. De tanto usar maquiagens pesadas nos palcos, prefiro me poupar delas no mundo real.

💃🏻💕⚽

O DJ tocava algum reggaeton que por semanas estava nas paradas, e eu via Bel dançar com algum desconhecido, enquanto eu pedia outra rodada de whisky no bar.
O barman arrastou o copo até a mim, e eu em uma fração de segundo engoli o líquido quente, fechando os olhos e balançando a cabeça, para um rápido efeito do álcool.

- Me vê um desse que ela acabou de tomar, por favor. – uma voz desconhecida disse ao meu lado, fazendo com que eu me virasse, por puro extinto de gente curiosa. Mas, eu quase caí da cadeira ao ver um deus grego bem na minha frente. Seus olhos azuis, perfeitamente azuis, me encaravam. Seus cabelos loiros estavam levemente bagunçados e um sorriso bobo brincava em seus lábios. – Ei. Tudo ok? – ele perguntou, pelo visto percebeu que perdi os sentidos quando o olhei.
- Ah, claro. Deve ser a bebida. - eu disse e ele deu uma risadinha. Meu Divino, eu deveria ter algum problema. “Deve ser a bebida”? , você já foi melhor.
- Então fiz bem em pedir a mesma, parece ser boa. - ele respondeu, e eu não sabia se ele estava zoando da minha cara ou algo parecido.

Ficamos em silêncio por um tempo, apenas nos encarando. Ele queria dizer algo, e eu também. Mas havia uma tensão esquisita, que nem eu mesma consegui distinguir. Ele sorriu fraco, e o rapaz o entregou o copo. Ele bebeu rapidamente e quando abriu a boca para falar algo, Belinda veio correndo em minha direção, balbuciando algo como: “temos que ir para casa, não estou bem.” Apenas ri, e peguei meu celular em cima do balcão do bar, me despedindo do loiro desconhecido com um sorriso simpático.

No taxi, Bel - um tanto alterada pelo álcool - contava sobre como ela esperava por isso, pelo momento no qual ela pudesse finalmente respirar e se ver livre dos estudos por um tempo. Mas, ela disse tudo em meio a xingamentos variados e complementos não educados sobre seus professores. Eu ria da forma que a garota falava.
Peguei meu celular, para checar se alguma notificação havia chegado, mas ao apertar o botão do menu, a tela se manteve preta. Ótimo! Estava sem bateria, só veria tudo pela manhã do dia seguinte.

Descendo do carro, me perdi um pouco na imagem do homem que estava no bar. Seus quase 1,85 de altura me deixavam no chinelo, mas de certa forma, traziam uma segurança. Sempre bom ter homens grandes e fortes ao seu lado, não?
E quando digo fortes, eu caracterizo aquele rapaz: o físico perfeito, não tão grande, não tão magro. Mas, eu conseguia ver seus músculos pela camisa justa que ele usava, e droga, como eu queria ter ficado mais tempo e tocado naqueles braços.

Me livrei dos pensamentos e me pus a seguir Belinda, que não estava muito bem para subir alguns lances de escada sozinha. Já que nosso prédio só tinha um elevador, e o mesmo estava em manutenção.
Abri a porta da minha casa, e coloquei minha amiga embaixo da água corrente do chuveiro, a ajudando a tomar banho. Eu havia bebido, mas não o suficiente para estar no mesmo estado que a loira.

Logo entreguei um pijama meu para que ela vestisse, coloquei o celular para carregar e fui tomar um banho.
O dia seguinte seria longo, principalmente com Belinda passando mal ao meu lado.


Capítulo 2

Acordei com um chiado, um tanto abafado. Parecia um toque de telefone, mas era diferente do meu ou do de Belinda. Levantei da cama e andei pela casa, tentando ver de onde vinha o zumbido que me acordou às 9 da manhã de um sábado pós balada.

Rodei umas três vezes perto de onde o barulho vinha, até que levantei uma almofada do chão, e vi que embaixo dela estava meu celular, que eu tinha colocado para carregar antes de dormir. Será que tinha acontecido alguma atualização e o toque mudou? Sei lá, essas tecnologias de hoje em dia me deixam confusa.

Olhei a tela, e chequei o número que me ligava. Pisquei forte algumas vezes. Ok, alguém deve ter colocado alucinógenos na minha bebida ontem. O número que ligava era o meu.
Primeiramente hesitei, mas atendi.

- Alô? – disse quase em um murmúrio, com um pouco de medo.
- Oi? - uma voz masculina disse, me trazendo arrepios estranhos no corpo.
- Quem é? - isso estava muito estranho, de fato.
- Acho que trocamos de telefone ontem no bar. - o garoto disse e soltou uma risada.

Espera um pouco aí! Eu não podia estar tendo aquela sorte. Podia?

- Sou eu, o garoto que pediu a mesma bebida que você. - meu coração parou por uns instantes. - Meu nome é Toni, a propósito.

Não só meu coração, mas eu também parei. Minha respiração pesou e eu me calei. Não poderia ser ele ao telefone. Talvez eu ainda estivesse no sonho dessa madrugada, aquele no qual ele também estava, e terminávamos a noite rindo enquanto bebíamos. Era estranho pensar que estaria falando com um cara tão bonito assim, e principalmente, pensar que estaria me enfiando em uma situação como essas. Agradeci aos céus por não ter nada demais em meu telefone, e prometi a mim mesma que assim que recuperasse o aparelho, colocaria uma senha.

- Está aí? – e mais uma vez eu tinha o deixado falando sozinho.
- Ah, sim... – balbuciei. – Estou. – ri fraco. – Acho que precisamos trocar os telefones novamente. Eu preciso do meu e você, obviamente, precisa do seu. – eu disse e ele concordou com uma onomatopeia. – E, meu nome é . Prazer.

Ele riu e eu o segui. Talvez o rapaz estivesse achando a situação estranha, assim como eu. Não era todos os dias que você trocava de telefone, no sentido literal, com um dos caras mais gatos que habitam na terra. – alô, exagerada!

- Então, . – meu nome saindo de sua boca poderia ser taxado como algo sexy. – Eu estou trabalhando hoje, aqui em Valdebebas. Conhece? – Assenti. Eu já tinha escutado Bel comentar sobre esse lugar, ela me disse que gostaria de tentar uma vaga de fisioterapia por lá, assim que ela acordasse, eu poderia pedir para ir comigo. – Ótimo, me encontre no portão principal da Ciudad Real, após o almoço e trocamos os aparelhos.
- Combinado. – disse, e esbocei um sorriso, por mais que o rapaz não fosse vê-lo. – Obrigada, Toni.
- De nada. – ele respondeu. – Até.

A ligação foi encerrada e eu permaneci sentada no chão, ao lado do celular ainda plugado na tomada. Belinda apareceu no corredor, coçando os olhos e bocejando. Eu sabia que ela estava morrendo de dores na cabeça, e provavelmente, no corpo. Ela passou pela cozinha americana, colocando a cafeteira para funcionar, preparando um café forte – essencial para um dia de ressaca. -, e logo se sentou no sofá.

- Que cara é essa de quem viu um fantasma? – minha amiga perguntou, olhando em minha direção. – Você não viu um fantasma, né? – ela deu uma risada nervosa.
- Claro que não, maluca. – me levantei do chão e me coloquei na outra ponta do sofá. – Recebi uma ligação.
- De quem? – ela dava pequenos goles em seu café.
- De um cara que conheci ontem. Aparentemente eu e ele trocamos de telefone, no sentido literal. Meu aparelho está com ele, e o dele comigo. – eu ri, e a garota também. – Ele perguntou se poderíamos nos encontrar hoje após o almoço para destrocarmos. – Bel assentiu. – Ele trabalha lá naquele lugar que você queria uma vaga, em Valdebebas. – a loira arregalou os olhos. – Disse para nos encontrarmos em frente a Ciudad Real, que ele estará lá.
- Ok, vamos com calma. Eu estava tão mal ontem que nem percebi alguém com você quando te puxei para fora da balada. – ajeitou seu corpo no móvel, se pondo mais ereta. – Qual o nome do sujeito?
- Toni. – disse e ela me olhou sugestiva. – Não sei seu sobrenome.
- , eu não te culpo. – ela riu e eu estava com um claro sinal de interrogação em minha feição. – Por não gostar de futebol.
- E o que isso tem a ver? – perguntei, sem saber o que Bel queria com aquilo.
- Amiga, ele trabalha em Valdebebas e vai te encontrar em frente a Ciudad Real, que não é nada mais, nada menos, que o Centro de Treinamento do Real Madrid. – ela disse, soando obvia, e eu ri.

Não tinha tempo para acompanhar futebol, mas obviamente sabia qual era o time da cidade onde morava, e sabia, também, que era um dos maiores do mundo. Mas, Belinda era a maior fã de futebol que eu conhecia, e ainda por cima, era bastante assídua nos jogos do Real Madrid.

- Ainda não entendi aonde quer chegar com isso, Bel. – eu ri da cara de incrédula que minha amiga fazia.
- Você me disse que o nome dele é Toni, não é? – ela perguntou, e eu assenti. Rapidamente ela pegou seu celular, que estava no braço do sofá, e com os dedos rápidos, digitou algo. – Por acaso esse é o garoto que você conheceu no bar? – ela virou o aparelho, me mostrando uma foto, e realmente era ele. O fundo vermelho da imagem contrastava com a camisa branca que o rapaz usava, seu cabelo estava perfeitamente penteado, e ele estava de lado, com suas mãos atrás do corpo, dando foco total para as tatuagens em seu braço, essas que eu não consegui ver no dia anterior por conta das mangas em sua camisa, ele não sorria.

Eu assenti, ela deu um sorriso animado. Parecendo que toda sua ressaca tinha ido embora.

- Pois, então, minha amiga. – ela disse, ainda sorrindo. – Você trocou de aparelho com Toni Kroos, campeão do mundo pela seleção alemã, e meia do Real Madrid.

Francamente, meu coração tinha que parar de me dar sustos parecendo que iria parar de bater de repente. Meu queixo caiu, eu não podia acreditar. Quais as possibilidades de uma coincidência dessas acontecer no mundo? Principalmente com um jogador de futebol extremamente famoso e lindo.

- Eu preferia quando eu ia me encontrar apenas com Toni, o gatinho da balada, e não Toni Kroos, o jogador. – sorri, nervosa. – Isso muda tudo, não?
- Isso significa que todas as minhas teorias estão corretas e você nasceu com o cu virado para lua. – ela disse. – Você não tem porquê ficar nervosa. O conheceu sem saber quem ele era, só chegar lá com esse mesmo pensamento.
- Vai comigo. – tentei fazer minha melhor cara de pedinte, mas tudo que recebi foi um aceno negativo de sua cabeça.
- Nada me tira de casa hoje. – ela disse firme. – Quero deitar e só acordar quando essa ressaca estiver bem longe de mim. – ela se levantou. – Por isso estou voltando para o quarto. Só me acorde quando voltar de Valdebebas.

💃🏻💕⚽

Eu estava no banco de trás do Uber, olhando para o caminho deserto entre a grande Madrid e o pequeno empreendimento urbano de Valdebebas, que era um ambiente extremamente acolhedor, com muitas árvores e aparência familiar. Morar ali talvez não fosse uma cogitação, mas trabalhar nas redondezas deveria ser maravilhoso.

Senti o carro parar subitamente fazendo a inércia agir sobre meu corpo, me jogando levemente para frente. Olhei calmamente para o motorista, solicitando que o mesmo esperasse, já que eu apenas iria entregar o celular e voltar para casa. O mesmo assentiu.
O grande portão prateado estava fechado, e uma cabine ao lado possuía um porteiro e um segurança; me aproximei, ajeitando minha touca sobre a cabeça, e meu sobretudo sobre o corpo, tentando me cobrir do cortante vendo madrilense. Um rapaz simpático me atendeu, de dentro da cabine.

- Bom dia, senhorita. O que deseja? – ele sorria, de forma cordial.
- Bom, eu combinei de encontrar Toni Kroos aqui para entregar um pertence que o mesmo esqueceu comigo. – eu disse e ele assentiu.
- O treino terminou a alguns minutos, aguarde que ele deve estar no banho e logo virá. – ele respondeu e eu sorri. – Aceita uma água? – neguei, maneando a cabeça.

Menos de um minuto se passou, e eu vi o rapaz vindo em direção ao grande portão. Ele usava uma jaqueta de couro, que por um momento me fez perder a noção de todos os sentidos que eu achava ter. A calça jeans escura combinava perfeitamente com o tênis baixo e a camisa branca, e lisa, que usava por baixo do agasalho.
Me contive para não esboçar um sorriso. Afinal, não passava pela minha mente que eu iria encontra-lo novamente.

- Ei, . – o rapaz, que agora eu sabia ser alemão, me cumprimentou de forma simpática, estendendo a mão. – Desculpa pela confusão, mas fico feliz que o celular esteja em boas mãos. – sorri, ainda embasbacada com a beleza do homem.
- Desculpe a mim, por favor. – eu ri, pegando o celular no bolso da calça e o entregando, e ele fez o mesmo. – Eu que peguei o telefone achando que era meu, sinto muito. – me mostrei um pouco envergonhada com a situação, e ele sorriu fraco. – Bom, Toni. Preciso ir, o Uber está me esperando. Foi ótimo revê-lo.

Me virei, pronta para ir embora, sendo interrompida pela mão grande do rapaz em meu ombro.

- Vamos tomar um café. – ele disse, e eu sorri. – Libere o motorista e me acompanhe em um café. – ele pediu de maneira solicita, e eu pude ter certeza que corei. – Por favor. – um sorriso se formou em seus lábios e eu assenti.
- Um segundo, então.

Corri até o carro e falei ao motorista, que me aguardava pacientemente, para finalizar a corrida e que poderia ir embora, pois dali eu partiria para outro compromisso.
Assim que ele fez, o automóvel preto virou a esquina, me fazendo perceber que eu realmente iria sair com Toni Kroos para um café.

💃🏻💕⚽

O líquido preto descia quente pela minha garganta, me fazendo lembrar que essa era a primeira coisa que eu ingeria desde o whisky da outra noite. Não que eu estivesse evitando comer, eu apenas não tinha sentido fome até então. Por isso, não almocei. Aproveitando para ir direto à Valdebebas, que era onde – ainda – estávamos. Kroos disse que conhecia uma cafeteria ótima nas redondezas, e me trouxe até ela. Assim como a pequena cidade, a conveniência era aconchegante. Não havia ninguém além de nós dois e alguns funcionários do local.

No caminho não havíamos conversado muito, ainda existia uma tensão, e eu sabia que essa se dava – exclusivamente – por minha timidez. Mas, ele já sabia o básico sobre mim; vinte e dois anos, bailarina e brasileira.

O sorriso do garoto era encantador, e ele todo, por si, também era. Dava para saber que ele era uma daquelas almas caridosas, sempre preocupado com as pessoas a sua volta. Totalmente abnegativo, e suas palavras deixavam isso claro a todo momento.
Por alguns minutos, me via perdida em suas grandes esferas azuis, as quais eu jurava que a cada vez que eu olhava, pareciam mais profundas que os três oceanos que cobrem nosso globo.

- Então, está em Madrid a quanto tempo, ? – ele tomava um gole do cappuccino.
- Desde os 18. – disse e assinalei com a mão, avisando que iria terminar minha fala logo após engolir o expresso. – Como esse ano faço 23, isso quer dizer que estou na Espanha a cinco anos. – dei um sorriso. Eu gostava de estar ali, fazendo o que eu amo. E sabia que ele podia sentir o mesmo que eu, pois também estava longe de casa, e tudo que fazia na Espanha, com certeza, era o que sempre sonhara.
- É bastante tempo. E você veio bem nova, né? – ele disse e eu assenti. – Como conseguiu conciliar tudo?
- Tive uma grande ajuda de Belinda, minha amiga e vizinha. – sorri, lembrando da garota, que deixei em casa no meio de uma ressaca. – A conheci logo que me mudei, e por ser mais velha que eu, ela sempre soube me aconselhar. Sem ela, acho que não aguentaria nem o primeiro ano em Madrid.

Ele sorriu, e eu senti meu corpo aquecer com aquele ato. Tudo que eu mais queria era saber o que ele estava pensando.

- Toni. – eu disse, claramente interrompendo seus devaneios. – Preciso ir. Deixei Bel em casa, de ressaca. – eu ri e ele me acompanhou.
- Ok. – ele disse, ainda rindo da situação. – Foi ótimo conversar um pouco mais com você, . Espero que possamos fazer isso novamente.
Ele queria me ver de novo? Minha espinha arrepiou e eu sorri, involuntariamente.
- Seria ótimo. – puxei meu celular, chamando um taxi para me levar de volta para casa.
- De certa forma, você já tem meu número. – ele piscou, divertido, e eu sorri concordando. – E eu tenho o seu. – ele movimentou o celular. – Vou te mandar uma mensagem, ... – ele tombou sua cabeça para o lado.
- . – fiz a única coisa que conseguia fazer desde que o vi pela primeira vez; sorri. – .
- Kroos. – ele retribuiu o sorriso. – Toni Kroos. – chacoalhamos nossas mãos em um cumprimento. – Mas pode me chamar de seu mais novo amigo de Madrid.

Sorri, tentando não transparecer a minha desanimação ao ouvir que ele queria ser apenas meu amigo.

Tudo bem que as coisas não aconteciam tão rápido assim. Mas, em nenhum momento durante nossa conversa, ele tentou um flerte ou um assunto com segundas intenções.
Era isso que ele queria; ser meu amigo. E não, eu não havia ficado desolada, apenas desanimada. Era óbvio que eu; uma menina latino-americana, sem dinheiro no banco – um abraço aos fãs de Belchior, não seria o suficiente para Toni Kroos; o jogador mundialmente famoso.
Para mim, tinha ficado bem claro. Então, maneei minha cabeça, concordando com sua última fala. Ao menos meu ciclo de confiança aumentaria de um para dois.

Ser amiga de Toni Kroos? É, posso conviver com isso.

Capítulo 3

Parecia que um trator tinha passado por mim durante o sono, mas lá estava eu; caminhando mais um dia em direção ao El Real.
Meu colo suava e minhas mãos tremiam. Me sentia um pouco fraca, mas nada fora do normal. Comi uma barra de cereal que estava jogada na mochila e foi o suficiente para o meu café da manhã. Desde que me encontrei com Toni no sábado, tinha feito poucas refeições.
Belinda sempre insistiu para que eu comesse como uma rainha. Ela era expert em me alimentar, fazia questão de sair da sua casa para cozinhar minha janta, meu almoço, e quando tinha tempo, me trazia coisas do Starbucks para o café da manhã.
Passei a mão pelo rosto, secando o suor da minha testa e, ao mesmo tempo, pude sentir meu celular vibrando no bolso da bermuda.
“Toni K.” era o nome que brilhava na tela. Ok, ele não havia nem mandado mensagem desde que devolvemos nossos telefones. Por que ele estava me ligando?

- Ei, . - ele disse, um tanto animado, sem ao menos deixar com que eu começasse o diálogo.
- Oi. - eu ri. - A que devo a honra de sua ligação, meu mais novo amigo de Madrid? - eu tinha que superar meu crush.
- O seu mais novo MELHOR amigo de Madrid vai te levar para almoçar. - ele disse, enfatizando o adjetivo usado para se descrever. - E eu não aceito um “não” como resposta.
- Contanto que aceite almoçar com alguém de coque, collant, meia calça e shorts. - eu disse, torcendo o lábio. Ainda não era a hora de Toni me ver no meu pior estado: após os ensaios.
- É exatamente com esse alguém que quero almoçar. - ele disse, e pelo tempo que demorou para concluir sua fala, presumi que deu um sorriso. - Te pego no teatro ao meio dia. - me questionei como ele me buscaria. - Aliás, em qual teatro você dança mesmo? - ele riu e eu não consegui deixar de acompanha-lo.
- Teatro Real, Kroos. - eu disse, me recuperando da risada. - Ao meio dia.
- Até. - ele disse, e eu apenas sorri, mesmo que ele não pudesse ver. Desligamos a ligação nesse momento.

O ensaio foi longo e cansativo, mais que todos os outros que aconteceram durante a semana. Cameron me ajudava a passar uma pomada para dores musculares na panturrilha, enquanto todos os outros bailarinos iam embora. Assim que ele terminou, me puxou para cima, me pondo de pé e me deu um abraço tímido. Eu sentia que o garoto a um tempo tentava se aproximar para uma amizade, então decidi não ser uma grandessíssima filha da puta, e dar uma chance.

- Obrigada por me ajudar, Cameron. – eu sorri, de maneira cordial. – Até amanhã eu creio que esteja melhor.
- Esperamos que sim. – ele disse. Sua voz era um tanto fina, e o seu sotaque australiano a deixava um pouco esganiçada. – Não podemos perder uma de nossas melhores bailarinas por causa de uma dor na panturrilha.

Meus olhos brilharam e eu não soube o que responder depois do elogio. Cameron Burke não era apenas um intercambista, ele era o bailarino principal da companhia, dançava ao lado de Carmen em todas as apresentações. Além de ser altamente premiado e renomado em seu país natal.
E ele, simplesmente, estava me elogiando.

- Ora, . – ele riu. – Você é uma das melhores bailarinas que já vi. – cruzou os braços e me encarou. – Acha que você é a única que vem para o teatro nos dias de folga? – levantou uma das sobrancelhas, me fazendo corar. – Eu já te vi dançando sozinha nesse palco, senhorita . Você tem uma técnica formidável, e uma paixão que é transmitida através de cada movimento que seu corpo faz. – um sorriso saiu, repentinamente, de ambos. – Você conversa com a dança. Você não faz para os outros, e sim para você. Por isso, acho que deveria tentar ser nossa Primeira Bailarina nessa temporada. – disse, sucinto. Eu queria tanto aquilo, meu sonho sempre fora estar a frente de uma grande companhia, mas eu não sabia se deveria tentar, principalmente após os comentários de Dulce sobre meu corpo. – Espero vê-la no teste, daqui alguns meses. – segurou minha mão e logo depositou um beijo calmo sobre ela. – Boa semana de folga. – ele disse, se referindo aos dias que ficaríamos em casa para compensar o fato de que não tivemos férias nas últimas temporadas. – Mas acho que nos veremos por aqui mesmo assim. – piscou, divertido, e logo saiu pela porta do camarim, me deixando sozinha no grande teatro.

Encarei meu reflexo no espelho, e sorri ao ver minhas bochechas levemente coradas devido ao esforço. Afastei-me um pouco, ainda mantendo o olhar fixo a mim e movimentei os braços, fazendo um port de bras, e logo me reverenciando em agradecimento ao público imaginário.
Um sorriso bobo brincava em meus lábios, e por um momento, realmente cogitei em participar dos testes.

💃🏻💕⚽

Toni dirigia pelas ruas de Madrid no seu carro, que para mim era algo inalcançável. Nunca, em um milhão de anos, eu; , imaginaria estar no banco do passageiro de um Audi.
Enquanto os olhos do rapaz se mantinham na estrada, minhas mãos batucavam minhas coxas conforme uma música tocava na rádio. Podia sentir que meu pensamento estava distante, mais precisamente, uns meses a frente, no dia da audição. Com os olhos fechados, ouvia os elogios de Cameron, e ao fundo, as críticas de Dulce. Respirei fundo, me desvencilhando desses pensamentos.

- Está tudo bem, ? – o loiro ao meu lado parou o carro em uma vaga qualquer, num local no qual eu não reconhecia. – Se estiver estranhando o fato de eu ter te chamado para almoçar, sendo que só nos vimos duas vezes, eu peço... – ele dizia de maneira rápida, se embaralhando nas palavras.
- Toni. – o interrompi, ainda rindo. – Calma. São coisas da companhia, ok? – eu disse e ele maneou a cabeça, ficando visivelmente mais confortável. – Eu não estou achando estranho, não mesmo. Estou adorando o fato de que tenho outro amigo em Madrid além de Belinda. – ri, sincera.
- Você tinha muitos amigos no Brasil? – perguntou e pude sentir que ele não queria soar invasivo com suas palavras.
- Ainda tenho. – concordei. – Só que a distancia nos proíbe de fazer muitas coisas. Sempre quando podemos, fazemos contato por FaceTime ou algo do tipo. – ele sorriu pra mim.
- Bom, deve ser estranho ter apenas só dois amigos em Madrid, então. – torceu o lábio, o que me fez derreter por uns instantes com sua feição extremamente fofa.
- Ah, eu não ligo. – dei de ombros. Não mentia, eu adorava Belinda, estava amando ter a companhia de Toni e agora Cameron também se aproximava. Não tinha de que reclamar.
- Então, espero que também não ligue para alguns paparazzi que possam querer umas fotos nossas. – ele riu.
- Sábado, quando aceitei ser sua amiga, já sabia que isso estava incluído no pacote. – o acompanhei na risada. – Agora vamos almoçar, estou faminta.
- Achei que nunca ia pedir. – ele riu, desligando o carro e logo descendo do mesmo, assim como eu.

Estávamos em um restaurante comum, não era nada sofisticado ou muito caro. Agradeci mentalmente, porque mesmo depois do banho que tomei no teatro, ainda não estava com roupas normais demais para ir em algo chique. Pegamos uma mesa longe da janela, e sentamos um em frente ao outro. Toni estava com o cardápio em mãos e fez questão de escolher o que nós iríamos comer. Deixei claro minhas alergias, fazendo ele pedir uma clássica Paella, acompanhada de frango.
Percebi que durante nossas conversas, algumas pessoas nos encaravam. Tudo bem, elas não olhavam para mim, o foco era todo voltado ao alemão que estava comigo. Afinal, não é todo dia que você está almoçando e um dos ídolos do maior time da cidade está ao seu lado.

Um garotinho, de no máximo oito anos, tinha acabado de entrar no recinto, junto de seus pais. Ele vestia uma camisa branca do Real Madrid, mas ele ainda não tinha prestado atenção na presença de Toni ali. Quando a criança virou de costas, seguindo em direção a mesa na qual se sentaria com os pais, pude ver o número 8 gravado na camisa, com o nome “Kroos” logo em cima do mesmo. Dei um sorriso, e fiz minha mão direita encontrar a mão esquerda de Toni, que estava vidrado em algo no celular, mas ao sentir meu toque levantou apenas seus olhos em minha direção. Pude sentir um calor passar por meu corpo, saindo inicialmente do encontro de nossa pele e indo até minha nuca, a arrepiando de maneira fraca. Expulsei qualquer tipo de pensamento impróprio e apenas apontei com a cabeça para o menino que, no momento, já estava sentado do outro lado do restaurante e de costas para nós dois.
Ele abriu um sorriso, o maior que já vi.

- Quando estivermos saindo, passamos lá. – ele disse, e só então percebi que nossas mãos ainda estavam, de certa forma, unidas. Eu não queria tira-las dali, e pelo visto, ele também. Mas, fomos obrigados a encerrar o contato quando o garçom nos trouxe o prato pedido.

Depois que terminamos o almoço, meu estômago fazia festa por estar sendo alimentado após tantas refeições mal feitas. Toni, depois de muita divergência de ideias, essas vindas de mim, pagou a conta.
Meu celular vibrou no bolso, e uma mensagem de Belinda me fez lembrar que eu não havia a avisado sobre meu almoço fora.

The BELst:
, onde você está?

Eu:
Me desculpe por não ter avisado, Bel. Estou almoçando com Toni, daqui a pouco estou em casa.

The BELst:
Você esquece que comunicação é primordial, né? Simplesmente esqueceu de me falar que estava com Toni FUCKING Kroos.
Essa eu deixo passar!
Não chegue tarde, amanhã iremos sair. Beijos. :*


Não consegui conter a risada ao ler o que Bel escreveu.

- Qual a graça? – Toni perguntou. – Compartilha comigo! Quero rir também.
- Cheguei a comentar que a minha amiga é uma grande torcedora do Real Madrid? – ele negou, mexendo com a cabeça. – Pois, então.

O mostrei a mensagem, fazendo-o cair na mesma gargalhada que eu.

- Então quer dizer que ela não vai se incomodar se eu te deixar em casa? – ele sorriu, cordial.
- Não precisa, Toni. – disse, com o tom de voz um pouco mais baixo.
- Claro que precisa! – ele piscou em minha direção e o garçom o entregou o cartão que fora utilizado para o pagamento. – Vamos. – nos levantamos. – Mas, antes...

O rapaz sorriu para mim, e começou a caminhar em direção à mesa onde estavam o garoto, torcedor do Real, e seus pais. Os adultos logo o viram, mas o mesmo levou o dedo indicador aos lábios, solicitando um silêncio por parte deles e encostou as mãos sobre os ombros do garoto.

- Bela camisa a sua, rapaz. – ele disse, e o garoto assustou-se com a fala repentina próxima ao seu ouvido, que o fez virar para trás e dar de cara com o alemão.
- Oh meu Deus. – o garoto colocou as mãos sobre a boca. – Como? Mamãe, Papai? – ele virou para os adultos que apenas manearam em negação.
- Estávamos almoçando e minha amiga aqui que te viu e me mostrou. – ele apontou para mim, que estava um pouco distante, para não atrapalhar o momento. O menino me olhou, com pequenas lagrimas escorrendo por sua bochecha e sussurrou um “obrigado”, que eu respondi com um sorriso e um simples “não há de quê”.

Kroos logo sugeriu que uma foto fosse tirada. Então, peguei o celular da mãe do menino e capturei o momento de todos, e logo um apenas de Toni e o menino, que logo descobrimos se chamar Bento.

- Ei, por que vocês não me passam um endereço de e-mail para eu poder enviar ingressos para o próximo jogo da temporada? – a cada segundo que se passava, eu me surpreendia mais com Toni.

Os pais de Bento anotaram o endereço de e-mail num papel e entregaram para o jogador. Nos despedimos e partimos para o carro.

Em frente ao prédio, Toni decidiu que desceria e conheceria Belinda. Posso dizer que ele jogou sujo ao dizer que os meus dois únicos amigos de Madrid deveriam se conhecer.
Ele parou o carro na vaga que era reservada para mim, caso eu tivesse um, e fomos caminhando até a entrada do bloco onde eu morava.
Subimos de escada até o quarto andar, já que o elevador ainda não tinha sido consertado e como de praxe ao chegar, abri minha porta e dei três batidas na porta da minha amiga, um código criado por nós para avisar que estávamos em casa e vivas.
Em menos de dez segundos uma Belinda de cabelos presos em um rabo de cavalo alto, vestido de alça vermelho e sandálias de dedo, apareceu na porta. Ela ia falar algo, provavelmente iria me xingar, mas ao correr seus olhos e perceber que Toni estava ao meu lado, pude ver minha amiga ficando estática. Seus lábios se moldaram num perfeito “O” e a única coisa que consegui fazer foi rir.

- Belinda Hernandez, esse é meu amigo... – não consegui terminar de falar, porque a garota logo esticou sua mão.
- Toni Kroos, eu sei. – ela estava com um olhar maravilhado. – Prazer.
Ele também ria da reação de minha amiga.
- Bom, Belinda. – ele disse. – Creio que teremos que nos unir, porque está com poucos amigos aqui em Madrid. Esses poucos se resumem a nós dois, apenas. – riu e Bel o acompanhou.
- Então, vamos entrar para tomar um café e conversar. – a espanhola ofereceu, e eu não pude recusar ou fingir uma desculpa, já que mais uma vez, fui cortada antes mesmo de começar a falar. – Na minha ou na sua? – olhou para mim, sugestiva.
- Tanto faz. – eu dei de ombros.
- Você tem uma máquina Nespresso, então será na sua. – ela saiu de sua casa, fechando a porta e, em segundos, já estavam todos na sala do meu apartamento.

Toni e Belinda conversavam sobre o desempenho do Real Madrid na temporada, enquanto eu fazia uns sanduíches e falava ao telefone com meu irmão.

- Mas, me diz, Bruno. – eu dizia, em português, para que nenhum dos dois pudesse ouvir sobre o assunto tratado, que era delicado para mim. Bel sabia, mas Toni tinha entrado em minha vida a alguns dias, não era algo que eu pretendia contar agora. – Como ela está?
- Queria te dizer que ela melhorou, princesinha. Queria muito. – meus lábios se contraíram e eu fazia toda força possível para não derramar uma lágrima num momento tão inoportuno como aquele. – Mas, ela ainda está no hospital, e o quadro dela é o mesmo. – pude ouvir meu irmão soltar um suspiro. - Ela quer te ver, .
- Eu também quero vê-la, Bru. – não me contive e deixei uma lágrima cair sobre a bochecha. – Você sabe que estou juntando meu dinheiro, e ser do corpo de baile não me dá muito retorno. Mas, ainda essa semana vou procurar um emprego de meio período e viajar o mais rápido possível para visitar vocês. – respirei fundo. – Acabamos de perder o papai, ainda não estou pronta para a ida da mamãe.
- Você sabe que é um tipo agressivo de câncer, não é? – Bruno era médico, e o orgulho de toda família. Desde que mamãe descobriu o Hepatocarcinoma, um tipo de câncer no fígado, ele têm se disposto a ficar com ela todos os dias, até mesmo se afastando do hospital onde trabalhava para a acompanhar nos tratamentos.

Quando o diagnóstico surgiu, a primeira coisa que eu quis fazer foi pegar minhas malas e voltar para o Brasil, sem pensar duas vezes. Mas, lembro-me perfeitamente das palavras de minha mãe em uma de suas ligações;
, eu não quero que volte para o Brasil porquê estou doente. Fique na Espanha e faça o que sabe fazer, siga seu sonho. Lembre-se que sou sua maior fã. E nunca desista daquilo que te faz sorrir, por mais inalcançável que seja. Eu te amo.”

- Sim, eu sei. – eu disse, fungando.
- Eu já ofereci ajuda financeira com sua passagem, mas você não quer aceitar. – eu sabia que Bruno, mais do que todos, queria que eu estivesse lá. Eu era tudo que ele tinha, e vice-versa.
- Eu posso fazer isso sozinha. – meu defeito era o orgulho, isso é fato. – Em alguns meses estarei aí. Mande um beijo para ela, e diga que conversaremos por Skype na parte da manhã de amanhã. – ele concordou com um murmúrio. – Eu te amo, maninho.
- Eu te amo. – disse e encerrou a ligação.

Não consegui me conter das lágrimas, abracei o telefone e desabei de tanto chorar. Tentava manter discrição, mas a meus soluços me entregaram. Um pigarro na entrada da cozinha pode ser ouvido.

- Não está tudo bem, né? – virei meus olhos, encontrando o mar azul de Toni, me transmitindo tranquilidade.

Não pensei nos meus atos, ou na consequência deles, apenas corri até o garoto e o envolvi num abraço. A aproximação foi diferente do toque de mais cedo, ao ter meu corpo tão próximo do dele, senti um tipo de segurança que ninguém, até então, havia conseguido me transmitir. Ele acariciava minhas costas e afagava meus cabelos, enquanto me dizia que tudo ia ficar bem, por mais que não soubesse o motivo das minhas lágrimas.
Nos afastamos do abraço e a diferença de altura me fez olhar um pouco para cima, só para encontrar seus olhos me encarando com curiosidade e preocupação. Seu dedo rapidamente encontrou a única lágrima que restava em minha bochecha, e fez questão de tirá-la dali.

- Deveriam proibir pessoas com o sorriso tão lindo de ficarem chorando por aí. – ele disse, e eu não consegui conter um sorriso de se formar, o que também arrancou um dele. – Viu só? É disso que eu estava falando. – ele apontou para meus lábios e por alguns segundos os fitou.

Ficamos parados por um tempo naquela posição, nos perdendo em sentimentos que não sabíamos quais eram, até sermos interrompidos por Belinda, que entrou na cozinha como um furacão.

- Eu vou ao banheiro por dois minutos e você chora, ? – ela disse. – Você me ama tanto assim? – me abraçou, e eu pude sentir o conforto. Eu sabia que ela conhecia o motivo da tristeza repentina, por mais que eu não tenha comentado. Belinda sempre sabe de tudo. – Ela vai ficar bem. – sussurrou, me fazendo intensificar o abraço.
- Obrigada, gente. – olhei para os dois a minha frente. – Agora vamos comer, por favor. – arranquei uma risada de ambos.
- Essa é a que eu conheço. – Bel disse, indo em direção a sala, logo sendo seguida por Kroos.

Eu estava cercada de duas pessoas que queriam meu bem, e isso era o suficiente para que eu não lembrasse da condição de minha mãe todos os dias. Belinda era minha família enquanto estivesse em Madrid, e agora, Toni também fazia parte dela.



Continua...



Nota da autora: De 1 a 10, quais são as chances de sofrermos durante essa fic? E por que 11?
Espero que vocês estejam gostando da história até agora. Deixo claro aqui que essa fic terá gatilhos que serão previamente avisados.
Vejo vocês no próximo capítulo. <3


Outras Fanfics:
Offside
The Last Song I'll Write For You

Nota da Scripter:

Essa fanfic é de total responsabilidade da autora, apenas faço o script. Qualquer erro, somente no e-mail.


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