Too Rude

Última atualização: 18/08/2019

LUGAR ERRADO, HORA ERRADA


O grito estridente da minha mãe vindo do banheiro já estava passando pelos meus ouvidos há um bom tempo. Eu já me acostumei com isso. Todos os dias, quase sempre de manhã, eu acordo com os gritos dela. Solto um suspiro pesado, enquanto salto da cama e corro até Melinda. Antes de chegar até ela, vejo o idiota do seu namorado deitado com a pança para cima, no sofá da sala. Eu ouvi quando ele chegou tarde da noite, gritando pedindo comida e ligando a TV no volume máximo. Assim que cheguei no banheiro, minha mãe estava coberta de vômito. Tinha sujeira por todo lado. Pisei em alguns tocos de cigarro antes de me ajoelhar ao lado do vaso. Segurei delicadamente o cabelo dela e assim que encostei, suas mãos me empurraram para longe. Melinda nunca me deixava ajudá-la, eu já sabia, mas sempre tentava.

– Sai daqui, garota. Você tem que ir para a merda da escola. Não quero que o serviço social bata na minha porta dizendo que eu não cuido de você! Preciso desse dinheiro. Anda! – Respirei fundo três vezes antes de me levantar e sair dali.

Ela bebia demais durante todo o dia, se afundava no sofá com aquele namorado idiota, enquanto os dois incendiam a casa com a fumaça dos seus cigarros. Sempre foi assim e sempre vai ser, até que eu complete meus 18 anos e vou poder viver a minha vida bem longe desses dois.

Fui até a pia da cozinha para poder lavar minhas mãos do vômito da minha mãe e poder escovar meus dentes. A porta da geladeira estava aberta, ela estava desligada e vazia. Apertei o interruptor de luz e nada aconteceu.

– Merda! Cortaram a luz de novo! – Me exaltei, enquanto batia a porta da geladeira com força.

– Do que você está reclamando, sua bostinha? – Ruy se aproximou de mim e eu tentei me afastar. Ele estava com um cinto na sua mão. – Eu te fiz uma pergunta, me responda!

– Nada, eu não disse nada. Agora saia da minha frente, porque eu estou atrasada pra aula. – tentei recuar e sair da barreira que ele tinha feito a minha frente, mas ele era grande demais e nem sequer se moveu dali.

– Veja só como fala comigo, entendeu? – A mão de Ruy aperta forte o meu rosto, enquanto sua outra mão agarrava minha cintura de uma forma que estava me machucando.

– Solta ela, Ruy. Não vale a pena. O que acha de irmos pro quarto? Hein? Vamos? – Minha mãe apareceu na porta da cozinha, sem suas roupas.

Meus olhos estão ficando carregados de lágrimas. Droga! Eu não vou chorar.

O olhar nojento de Ruy passou sobre mim e depois percorreu o corpo de Melinda. Ele me apertou mais uma vez.

– Eu queria me divertir com essa bostinha, mas você está fedendo a vômito. Pegue a merda da sua mochila e vá pra aula. AGORA!

Depois de gritar, o idiota me jogou longe. Meu braço bateu forte na quina do balcão. Tentei não chorar, enquanto minha mãe o puxava para fora dali.

Passei o caminho todo me decidindo se eu ia pra escola, ver mais um bando de adolescentes maldosos, ou se ia pra praia. Eu sempre vou a praia quando não me sinto bem. Quando quero fugir de Ruy, de Melinda e de todos esses problemas da merda da minha vida. Perdida em meu pensamento, não pude perceber que eu estava caminhando para o lado oposto da praia e da escola. Parei por um segundo e percebi que não sabia aonde estava. Becos e mais becos no meio do nada.

– Onde é que eu fui me meter? Droga, ! – Eu realmente estava longe de casa.

Um carro passou por mim com uma velocidade inimaginável, eu até pude sentir um ventinho fazendo com que meu cabelo voasse. Logo depois, o mesmo carro fez um balão no meio da rua e voltou em direção a um beco logo a frente. Um homem desceu correndo do carro e caminhou até a entrada do beco. Assim que ele saiu, do outro lado a porta se abriu e outro homem saiu dali. Eles eram grandes demais e me assustavam. Eu escutei gritos vindos do beco. O meu corpo passou a não me obedecer e antes mesmo que eu pudesse impedir, minhas pernas me levaram até onde aqueles dois homens estavam. Eles não estavam sozinhos. Um deles estava segurando um homem velho pelo pescoço e o outro apontava uma arma no rosto do pobre velho. Eu parei quando escutei o barulho. Ele atirou. O corpo mole caiu no chão como se fosse algo leve. O homem estava sem vida ali no chão. Meu corpo paralisou.

Os dois homens se viraram e nossos rostos se encontraram. Um choque gelado percorreu todo o meu corpo me fazendo correr assustada. Tentei correr o mais rápido que pude, mas foi tudo em vão. Eles me pegaram.


MATAR OU NÃO?

Enquanto eu abria meus olhos, a dor forte na minha cabeça estava ficando cada vez pior. Tentei me mexer, mas eu estava totalmente presa. Percebi que a escuridão que se tomava ali era por dois motivos: tinha um capuz na minha cabeça e eu estava dentro de um porta malas. A freiada brusca fez com que meu corpo batesse contra o carro. Nada estava acontecendo. Nenhum barulho e o carro nem sequer se movia. Parece que estávamos parados. O desespero começou a tomar conta de mim quando a porta se abriu e duas mãos fortes me tiraram dali. Só nesse exato momento fui saber o que estava acontecendo. Eu fui sequestrada. Comecei a gritar, tentei me debater, mas parece que nada adiantava. Eu estava sobre os ombros de algum homem forte. Consegui escutar sua voz grave me dizendo para ficar quieta. Talvez fosse um daqueles dois que estavam no beco. Eu estava tão confusa. Enquanto eu me debatia, o grandalhão tentava me segurar para que eu ficasse imóvel.

– Quanto mais você se mexer, mais você vai se machucar. – uma outra voz disse, parecendo estar perto de nós.

Eu ainda estava com o rosto totalmente tampado, enquanto ele me carregava. Senti que estávamos subindo uma escada.

, você viu o chefe? – o cara que me segurava perguntou.

– Não, não o vejo desde de ontem na fogueira. – uma terceira voz masculina dizia. – Já o procurou no quarto da Melanie?

– Não, acabamos de chegar. Se o ver, avise que estamos procurando por ele. – o homem que me segurava firmemente, respondeu.

– OK. O que é isso? Ela está morta ou viva? – o dono da terceira voz perguntou.

Isso. Pergunte. Ele pode ser a minha ajuda. Preciso fazer alguma coisa.

No mesmo instante, comecei a me debater novamente. A muralha que me segurava, começou a me apertar mais forte. Foi então que eu gritei.

Eu não estou amordaçada. Isso é maravilhoso, posso gritar.

– Socorro, me ajuda! Eu fui sequestrada! Socorro! – Gritei com toda a minha força.

– Cala a boca! – Eu senti um puxão do homem que estava me carregando.

– O que vocês estão fazendo? Que merda é essa? – perguntou.

– Eu prometo que não conto nada! Me soltem!!! – Eu continuei gritando.

– É só um presentinho pro chefe. – O outro cara que nos acompanhava respondeu.

"Presentinho pro chefe"? Que chefe? O que eles vão fazer comigo?

Continuei gritando, enquanto eles começaram a caminhar. As escadas nunca pareciam terminar.

– Que merda, menina! Se você não parar de abrir essa boca e berrar, eu juro que arranco todos os seus dentes de uma forma lenta e dolorosa. – A voz do homem que estava ao nosso lado dizia em alto tom.

Minhas pernas começaram a tremer. Sua voz me deixou amedrontada, eu mal conseguia me mover.

Continuamos a subir as escadas e então, de repente, ele parou de caminhar. Alguns segundos depois, escutei batidas em alguma porta. Depois de várias batidas, a porta se abriu.

– O que foi? – Uma voz feminina perguntou.

Eu queria gritar, eu queria me mover, mas eu não conseguia. Estava com medo.

– O chefe tá aí? – O homem que me carregava perguntou.

– Não. Ele foi resolver algumas coisas na cidade. Que isso que você está carregando? – Ela parecia brava.

– Não é da sua conta. – Ele respondeu e começou a caminhar novamente.

– Droga. O que vamos fazer agora? A gente mata ou não? – O outro homem disse baixinho, enquanto o outro me carregava pelo caminho.

Eu gelei. Matar ou não? Eu não posso morrer!

– NÃO! Vocês não podem me matar! – Eu gritei desesperada.

Senti minhas pernas tocarem no chão segundos antes de me jogarem em uma cadeira. Uma das minhas canelas foi amarrada e logo depois a outra. Minhas mãos foram levadas para trás e também estavam sendo amarradas. Eu comecei a chorar. O choro percorria todo o meu corpo. Soluços e mais soluços. Lágrimas e mais lágrimas.

– Mas que merda! – Um dos caras disse exaltado.

Eu senti ele se aproximando e logo depois retirou o capuz que me impedia de ver. Era mesmo os dois homens do beco. Ambos estavam a minha frente. Seus olhares perversos me encaravam de volta.

– Não me matem, por favor! – Eu supliquei.

– Vamos, Russel! Vamos aproveitar e depois a matamos.

Comecei a chorar ainda mais.

– Cala a boca! Você não está me deixando pensar. – A voz era do cara que estava me carregando. Ele era o Russel. Tentei me controlar, mas os soluços persistiam.

– Eu juro que não conto nada pra ninguém, eu nunca mais vou lembrar do rosto de vocês. Só por favor, deixe– me ir. Por favor. – Eu supliquei mais uma vez.

– Mata ela logo, então. Não aguento mais ouvir essa voz de piedade. – o outro homem disse.

– Se não calar a boca, te mato junto com a menina. – Russel disse para seu parceiro.

– Se não andar depressa, o chefe vai chegar e nós ainda nem decidimos o que vamos fazer. – o cara respondeu.

– Fox, eu juro que arranco o seu pescoço fora se não calar a sua boca agora. – Russel estava mesmo nervoso.

Meu choro estava bem baixo agora. Eu já não tinha mais forças. Eu só não queria morrer. Comecei a orar baixinho, quem sabe Deus me ouvia e me tirava dali. Tudo bem que eu estava em falta com Ele, já tinha um bom tempo em que não conversávamos, mas eu realmente preciso da Sua ajuda agora.

Russel começou a caminhar para o meu lado. Ele era um homem de quase dois metros de altura, ombros largos, olhos hipnotizantes e um corpo forte. Ele me carregou como se eu pesasse pouco mais de dez quilos. Meu medo começou a transparecer quando meu corpo todo tremia de uma forma assustadora. Suas fortes mãos agarraram meus braços e seu olhar estava diretamente ligado ao meu.

– Você não devia estar naquela rua, muito menos naquela hora. Você é uma azarada, sabia?

Eu só sabia tremer. Ele iria me matar.

– Na verdade, você deu sorte do chefe não estar aqui agora, seria bem pior. Eu posso te garantir que sou bem mais bonzinho do que ele. – eu realmente não queria conhecer esse tal chefe.

– Por favor, eu te imploro. Não faz nada comigo! Eu juro que vou pra casa e nunca mais me lembrarei desse dia. – eu supliquei novamente.

Russel apertou um pouco mais forte os meus braços e eu gritei. Ele tinha apertado bem no lugar onde eu havia batido hoje cedo.

– Mas eu nem te machuquei! Por que está gritando? Muito dramática você. – Russel disse olhando para os meus braços.

Me encolhi tentando não chorar mais.

– Que merda é essa? Eu nem te encostei e você tá toda roxa! – ele pegava em toda a extensão do meu braço tentando ver os machucados.

Não tinha só um roxo. Tinha vários. Várias marcas do que Ruy fazia comigo.

– O que é isso? – ele perguntou.

Continuei calada.

– Responde! – sua voz mostrava a raiva.

– Eu bati no balcão da minha casa hoje de manhã. – respondi baixinho.

– Anda logo! Eu preciso ver minha gata. – Fox disse, lá de trás.

– Cala a boca! Sua "gata" sabe muito bem se virar sozinha. – Russel ralhou. – Fala logo menina, isso não foi obra de um balcão.

Eu não sabia o que dizer. Eu nem sei se queria falar.

– Fala! – Russel gritou e eu me assustei.

– Foi o namorado da minha mãe. Por que você quer saber? Você quer me matar mesmo. Se for fazer isso, faça logo. Não quero mais ficar aqui presa e eu não quero voltar pra casa. – comecei a desabar. Eu não conseguia ficar calada. Eu só queria que tudo aquilo acabasse logo.

– Merda! Que filho da puta! – Russel parecia estar nervoso com o que eu disse. Eu fiquei confusa.

– Da licença, eu vou acabar logo com essa brincadeira. – Fox passou na frente de Russel e veio para o meu lado. Ele estava tirando sua arma da calça. Meus olhos se arregalaram, meu corpo gelou e minha respiração parou. Eu iria morrer, estava certa disso. Quando de repente, Russel socou a cara de Fox e os dois começaram a brigar bem ali na minha frente.

– Que merda é essa que está acontecendo? – uma voz rouca e forte vinda de trás de nós atravessou os meus ouvidos. Eu não conseguia me virar para ver quem era, mas no mesmo instante, Russel e Fox pararam com a briga.

Eles olharam da direção do homem atrás de mim e começaram a gaguejar. Nenhuma frase com sentido saia da boca dos dois. Quem era ele?

– Anda! Quem vai começar a falar? Quero uma explicação para esse circo. – o homem continuou ali atrás de mim.

– Eu posso explicar... – Russel começou.

– Então explique. – o homem disse.

– Ela viu a gente matando o velho Tommy. O idiota do Fox não vigiou a rua antes que eu puxasse o gatilho. E a gente não...

– E por que não a mataram ali mesmo, junto com aquele pedaço de merda? – o homem atrás de mim nem sequer esperou com que Russel terminasse de falar.

– Acabem logo com isso. Hoje temos fogueira e eu não quero quero isso esteja aqui quando eu voltar. Entenderam? – ele ordenou firmemente e os dois concordaram.

Escutei os passos firmes do homem indo embora. Será que esse era o chefe? Um calafrio passou pelo meu corpo. Eu não conseguia dizer nada. Eu estava novamente paralisada.

– Não me matem. – consegui dizer.

– Pode ir, eu cuido disso. – Russel disse para Fox e antes que ele fechasse a boca, o baixinho rabugento já estava saindo dali.

Eu comecei a chorar. Nunca pensei que minha vida iria terminar assim.

– Olha, não chora. Isso só vai dificultar pra mim. Meu pai também batia em mim. – ele se abaixou perto da cadeira onde eu estava amarrada. O que ele estava fazendo? – Isso não é legal. Eu vou tentar fazer com que isso não doa.

– Não! – eu gritei com toda a minha força. – Por favor, Russel! Não me mate! Eu posso fazer qualquer coisa pra você. Posso fazer qualquer coisa! – eu estava implorando pela minha vida.

– Não sou eu que decido, não ouviu o chefe? Preciso terminar com isso. – ele respondeu se levantando.

– Ele não disse que você deveria me matar. Eu posso ser sua escrava! – gritei.

– Ele disse sim! Acabe logo com isso, significa: mata logo essa menina. – ele tirou a arma da cintura. – Agora vamos parar com a conversa e vamos acabar com isso. Vai ser bem rápido, você mal vai sentir.

Fechei meus olhos. Nada podia ser feito. Comecei a pedir a Deus por ajuda novamente.

– Você ainda não acabou com isso? – a voz do chefe incendiou os meus ouvidos. Ele tinha voltado.

Eu permaneci de olhos fechados. Não queria ver o rosto dele, do homem que provavelmente iria me matar.

– Eu já estava fazendo isso, chefe. – Russel respondeu e eu escutei os passos do homem caminhando em nossa direção. Meus olhos permaneciam fechados.

– Deixa que eu faço isso! É melhor você parar de agir como uma menininha e começar a... – a voz do chefe estava logo na minha frente agora, mas ele havia parado de falar assim que chegou ali.

Continuei apertando meus olhos, eu não queria vê– lo.

Um silêncio constrangedor tomou conta do lugar. Ninguém falava nada. Ninguém fazia nada.

Escutei alguns passos caminhando em direção a porta atrás mim.

– Leve– a para o quarto 307. Peça para que Melanie leve alguma comida. Deixa que depois da fogueira eu resolvo esse problema. Preciso resolver alguns assuntos sobre o carregamento das armas que chegarão amanhã.

– Sim, senhor! – Russel disse.

A porta bateu atrás de nós.

Meus olhos ainda permaneciam fechados.

Senti Russel desamarrando minhas pernas e mãos. Ele estava me levando dali. O que estava acontecendo?


QUARTO 307

Quando senti Russel me jogar em algo macio, que parecia ser uma cama, ele logo tirou a venda que tapava os meus olhos. Percebi o pequeno cubículo onde eu estava. Analisei precisamente cada cantinho daquele quarto. A cama com os lençóis em perfeito estado, dois travesseiros atrás de mim, o abajur amarelo em cima da pequena mesinha que estava ao lado da cama, a TV enorme na parede da frente, a mini geladeira vermelha com alguns imãs colados nela e a porta fechada atrás de mim, talvez levasse a um banheiro, mas o que mais me manteve a atenção foi o cheiro, o cheiro de algodão doce. Não sei por qual motivo o quarto cheirava a isso, talvez fosse por algum produto de limpeza ou algo do tipo.

– Você tá procurando por alguma coisa que te ajude a fugir daqui? Nem tente. – Russel disse curto e grosso.

Continuei sem dizer nada, na minha precisa busca por pistas que me indicassem onde eu poderia estar.

– Desiste. Impossível você fugir. O chefe já colocou três caras pra vigiar a sua porta, um deles sou eu. Vai me ver muito por aqui. Quer dizer, não muito. Ele nos proibiu de entrar aqui. Só me deixou agora pra poder te trazer pra sua mais nova morada.

– Nova morada? – Perguntei surpresa.

– Exatamente. Bem-vinda a sua nova casa. – Ele disse com uma carranca assustadora.

O que ele estava tentando dizer? O tal chefe não iria me matar? Eu iria viver?

– O que é isso? – Perguntei.

– Um hotel. Quer dizer, nossa casa. – Ele respondeu rapidamente.

– Não o lugar! Perguntei o que é isso tudo. Vocês não vão me matar? – comecei a me levantar, fazia um tempo que não me locomovia desde que esses brutamontes me sequestraram.

– Pergunta pra mim? Isso é problema do chefe, você agora é propriedade exclusiva dele. – Russel deu uma risada curta e começou a caminhar para a porta do fundo. – Terá tudo o que precisar, comida e roupa lavada. Essa porta é do seu banheiro. Tem tv a cabo se quiser assistir algum filme, os controles estão debaixo do travesseiro. – Ele dizia, enquanto andava pelo micro espaço entre nós.

Era isso? Eu fui sequestrada para ter uma vida de rainha? Eu não estou entendendo.

– Por que ele não quer me deixar ir? Ou apenas me matar? Por favor, não me prendam aqui! Eu imploro. – me ajoelhei aos pés de Russel e comecei a chorar.

– Que merda, você é chorona demais. Cala a boca e se recomponha. Eu não tenho paciência pra isso. – Ele puxou meus braços bruscamente e me jogou na beirada da cama. Onde estava o Russel que havia dito que ia "fazer com que não doesse" de antes?

Continuei meu choro baixo e ele caminhou para a porta por onde entramos.

– Vai me deixar aqui? – Perguntei com medo.

– Sim. Já te disse, é sua casa agora e é melhor ir se acostumando.

Antes que eu dissesse qualquer coisa, ele simplesmente saiu e me deixou ali abandonada. Não tinha nada comigo. Nem comida, nem roupas. As minhas rasgaram e sujaram completamente. Meus olhos começaram a arder e o choro de verdade que eu tanto prendia veio a tona. Me libertei das lágrimas. Deitei na cama e me enrolei ao meu corpo. Eu estava sozinha e não sabia o que fazer.

Depois de muito tempo chorando desesperada, acabei adormecendo.

Meu corpo se despertou rapidamente quando a porta se abriu em um arranco. Levantei assustada me ajeitando na cama. Esfreguei meus olhos já inchados me forçando a ver quem era. Uma mulher. Alta, cabelos castanhos extremamente longos e uma roupa perigosa. Ela ficou me encarando por longos segundos.

– Então é você. – Ela disse.

Eu conheci a voz de longe. Era a mulher com que os meus sequestradores tinham se comunicado antes de me amarrarem em uma cadeira.

– Quem é você? – Perguntei assustada.

– Não te interessa. – Ela respondeu, enquanto trancava a porta e caminhava na minha direção.

Me encolhi. Como se isso fosse me fazer ficar o mais distante dela possível. Iludida.

– Eu não mordo. Quer dizer, nao agora. Só vim trazer algumas roupas pra você e comida. Ou você não quer comer? – Ela jogou uma muda de roupas em cima de mim e permaneceu com um prato na mão.

– Não quero. – respondi de forma ríspida.

Se eu não comesse, o problema seria deles e iriam acabar tendo que fazer alguma coisa. Eu já estava bolando mil e um planos na minha mente para sair daqui.

– Tá bom! – A mulher simplesmente se virou e saiu do quarto.

Ela não ia nem insistir um pouquinho? Droga. Ela levou o prato. Minha barriga estava doendo de fome, mas eu não iria comer. Preciso botar meu plano em prática.

Quem era ela?

Peguei as roupas que ela havia jogado em mim e me assustei. Um vestido preto de veludo que mal taparia a minha barriga. Ela estava pensando que eu iria vestir isso? Esse projeto de camisa? Coitada! Eu precisava de um bom banho. Mesmo que eu planejasse sair daqui até amanhã cedo, eu precisava de um banho. Caminhei até o banheiro e abri a porta pesada. Tinha uma banheira lá dentro. O quarto era minúsculo, mas o banheiro conseguia ser maior que lá. Liguei a água morna e esperei que enchesse. Enquanto a água descia eu só conseguia me desesperar cada vez mais. Eu não fazia ideia do que esse chefe iria fazer comigo. Por que ele estava trazendo comida e roupas pra mim? Pelo que eu saiba dos sequestros, a vítima nunca é bem tratada. O que ele queria de mim?

Deixei o tempo naquele banho me levar e fiquei longos minutos ali, talvez até horas. Eu não fazia idéia de quantas horas seria. Esse dia aqui parecia já ter passado uma longa semana. Eu estava enrolada em uma das toalhas que estava na prateleira do banheiro, sentada na ponta da cama, tentando ligar a TV para ver se conseguia achar algum horário para que eu me situasse. Depois de Russel ter me deixado ali e da mulher misteriosa, ninguém mais apareceu e nenhum dos dois voltaram.

Resolvi vestir uma calça e uma blusa um pouco menos extravagante do que aquele vestido. Me deitei na cama macia e no travesseiro milagrosamente maravilhoso. Meus olhos estavam tão pesados. Eu queria chorar mais, chorar e gritar, mas eu precisava ser forte e pensar em alguma saída. Meus olhos foram fechando vagarosamente e em meio aos roncos do meu estômago e soluços comprimidos, acabei pegando no sono.


A FOGUEIRA


Senti três puxões no meu pé. Eu estava sonhando ou realmente tinha alguém puxando o meu pé? Não queria abrir meus olhos. Ainda de olhos fechados, fiquei tentando passar tudo na minha cabeça. Eu fui sequestrada ou foi tudo um sonho? Comecei a desejar que quando eu abrisse os olhos, tudo o que eu veria seria o velho móvel do meu quarto. Isso tudo tinha que ser um pesadelo. Outro puxão no meu pé, só que dessa vez mais forte. Pressionei meus olhos para que eles não se abrissem, mas não adiantou, eles abriram. Meu velho móvel não estava lá, eu encarava o rosto de Russel e ele me encarava de volta.

– Que sono pesado! – Ele disse, enquanto puxava minhas pernas para fora da cama. – Vamos! Você precisa acordar.

Forcei o meu corpo a levantar daquela cama confortável e fiquei em pé parada bem em frente a ele. Realmente isso não era um pesadelo.

– Eu já estou acordada. Quando seu chefe vai vir me soltar? Eu quero ir pra casa. – Disse de braços cruzados.

Russel apenas riu, enquanto encarava o meu corpo.

– Acho melhor vestir outra roupa, não demore. Vou ficar te esperando do lado de fora. – Ele falou e se virou em direção a porta.

– Trocar de roupa pra que? O seu chefe vai me levar pra casa? – Perguntei animada.

– Apenas vista o vestido que a Melanie te trouxe. – A porta se fechou assim que ele saiu do quarto. Eu escutei o barulho da chave girando duas vezes.

Uma estranha felicidade invadiu o meu peito com a pequena esperança de que talvez eu estaria indo embora daqui. Me apressei em vestir o vestido ridiculamente curto e apertado da mulher extravagante e dei um jeito nos fios rebeldes do meu cabelo. Calcei o sapato preto de salto que ela também havia deixado pra mim, ficou um pouco apertado, mas eu consegui espremer meus dedos. Como eu odeio esses saltos. Eu me arrumei tão depressa que até estranhei. Russel ainda nao havia aparecido novamente, então eu decidi esperar. Meu coração batia tão forte e rápido com a ideia de que eu voltaria pra casa. Eu estava tão feliz!

Duas batidas na porta me fizeram levantar depressa. Mal me levantei e Russel já abriu a porta.

– Já está p... – Ele parou de falar assim que me viu. Droga! É o vestido! Essa coisa curta.

Comecei a me esconder atrás dos meus braços e me encolhi.

– Onde vamos? – Perguntei envergonhada.

– Vamos até a fogueira. O chefe está te esperando pra jantar. – Ele disse caminhando até a porta.

– Jantar? Ele me trancou aqui e agora quer jantar comigo? – Disse brava. – Eu pensei que ele ia me deixar ir embora.

Escutei a risada de Russel.

– Ande logo antes que eu te arraste pelas escadas abaixo.

– Eu não vou! – Fiquei parada.

– O que você disse? – Russel perguntou mal-humorado.

– Eu disse que eu não vou jantar com o seu chefe. Pode dizer a ele que estou esperando ele me levar pra casa. – Fiz a melhor cara de brava que eu conseguia fazer. Eu realmente estava brava.

Escutei a risada sarcástica de Russel.

– Garota, estou perdendo a paciência com você e tenho certeza que o Chefe também está. Já faz um bom tempo que ele pediu pra vir te buscar.

– Ah, é? Por que ele mesmo não veio? – Perguntei inquieta.

– Como você está mal educada agora, não é? – Russel disse se aproximando de mim. – Ele não tem tempo pra coisas insignificantes.

Ora! Bufei.

– Insignificante? Então por que diabos ele está me mantendo presa aqui o dia todo? Eu só quero ir pra casa! – gritei, enquanto segurava o choro. Eu não vou chorar de novo.

– Olha. – Ele segurou firme no meu braço machucado – Eu não vou aguentar mais essas suas birrinhas. Você vai arrastada, já que deseja assim.

Russel segurou o meu corpo como se eu pesasse três quilos e me jogou sobre as suas costas com uma facilidade fora do normal. Comecei a debater e a gritar, mas ele segurou firme as minhas pernas. Com apenas meus braços golpeando as suas costas, continuei na minha luta inútil. O cara pesa uma tonelada.

– Pare de gritar. – Ele gritou.

Continuamos descendo as inúmeras escadas, enquanto eu continuava dando socos na parede que me carregava. Assim que paramos de descer, Russel caminhou por um longo tempo em cima de uma grama. Eu não conseguia ver para onde ele estava indo, mas eu estava escutando uma música bem alta e algumas pessoas conversando.

– Me põe no chão, seu crocodilo! – Eu gritei, enquanto continuava com os soquinhos. Minhas mãos estavam doendo.

Como se ele me ouvisse pela primeira vez, senti meus pés pisando no chão. Suas mãos firmes agarram meus braços e ele me olhou bem nos olhos.

– Nem pense em fugir. Tem cachorros e homens por toda parte. Isso não seria nem um pouco inteligente. Além do mais, o Chefe te mataria.

Olhei para os lados e a quantidade de pessoas ao meu redor era exorbitante. Uma fogueira enorme estava bem no centro do campo. A música alta que entrava nos meus ouvidos fazia cada parte do meu corpo vibrar.

– Você entendeu? – Russel gritou em meio a música.

– O que você disse? – Perguntei tentando me soltar do aperto dele.

– Vou te levar no Chefe, mas não vou te carregar. Ok? Você vai ter que ir andando. E não tente fugir, você já sabe.

Concordei com um balanço de cabeça. Talvez esse Chefe me deixaria ir pra casa.

Caminhamos, com Russel segurando firmemente um dos meus braços, pela multidão e todos olhavam pra mim como se eu fosse uma peça rara em uma exposição de arte. Todos eles pareciam iguais. Os homens, altos, roupas idênticas, todos eles possuíam a mesma jaqueta de couro com algum símbolo nas costas, as mulheres usavam quase o mesmo vestido que eu. Tentei respirar o mais forte que conseguia. Eu não gostava de atenção. Eu não queria que todos me olhassem. Estava difícil demais tentar respirar. Quanto mais eu tentava puxar o ar, mais doía.

– Russel, eu não consigo respirar. – Disse com a voz abafada.

– Mas que merda, menina. O que tá acontecendo? Você tá morrendo? – Ele parecia assustado, enquanto me carregava no colo.

– Asma, eu tenho asma. – Consegui falar.

Tudo foi virando um borrão. Não, eu não podia apagar agora. Meu pulmão queimava e o ar parecia cada vez mais expremido e caloroso. Eu não conseguia respirar.

– Dá pra você respirar? – Russel gritava, enquanto corria comigo pro centro da fogueira. – Ela tem asma! A merda da princesa tem asma.

Russel parecia desesperado. Tudo que eu conseguia ver quando ele me deitou no gramado gelado era os borrões de rostos ao meu redor. Estava tudo muito abstrato. As vozes, as imagens, tudo. De repente, senti uma mão gelada tocando o meu rosto. Um rosto nada conhecido se aproximou do meu e começou a me olhar. Estava tudo muito borrado, mas eu sabia que ele estava me analisando no fundo da alma. Escutei quando ele disse "Isso vai te ajudar", logo depois algo atingiu a minha boca. Era uma bombinha! Estava melhorando. O ar que antes me queimava, agora começou a preencher cada espaço do meu corpo. As imagens começaram a ficar claras e as vozes estavam cada vez mais audíveis. Os grandes olhos que me encaravam, faziam conjunto com uma boca cheia de dentes brancos que sorria pra mim. Eu me agarrei em sua mão. Ele também parecia não querer me soltar.

– Eu também tenho asma. – Ele sussurrou em meu ouvido.

– Pronto! Agora sai daí! Cadê o Chefe? – Escutei a voz de Russel quando ele empurrou o dono do sorriso mais bonito que eu já tinha visto, pra longe de mim.

– Ele teve que resolver um problema lá em cima. – O rapaz respondeu ainda me olhando.

– Problema? Melanie? – Russel perguntou.

– Exatamente. Ele disse que você estava demorando demais com a menina, você sabe como ele é. Não aguenta esperar. – O garoto não tirava os olhos de mim. Ele parecia ser um pouco mais velho que eu e tinha longos cabelos pretos.

Tentei me levantar, mas eu estava um pouco tonta, então preferi ficar deitada ali na grama.

– Mas que merda! E agora? O que eu faço com isso? – Russel não estava mesmo feliz tendo que ficar comigo.

– Quer que eu a leve pro quarto? – O garoto perguntou.

– Não! Eu quero ir embora! – Consegui soltar um murmúrio. Todos voltaram a olhar para mim novamente e começaram a comentar. As conversas foram ficando cada vez mais altas.

– Acabou a fogueira! Vão todos para os seus quartos! – Russel gritou para a multidão.

– Mas nem começou! – Um cara gritou.

– Vão pra porcaria dos seus quartos, agora! – Eu estava ficando com medo dele.

No mesmo momento, a multidão começou a obedecê-lo. Todos começaram a sumir em questão de segundos e ficamos só nós três ali. Eu, Russel e o garoto.

– Me levem pra casa. – Disse, enquanto tentava me sentar.

– Ele vai mesmo ficar com ela aqui? – O garoto se virou para Russel e perguntou.

– Eu sei lá o que o Chefe quer? Ninguém entende ele. Eu só recebo ordens. Vou levar ela pro quarto de novo.

– Quer que eu a leve?

Os dois conversavam como se eu não estivesse ali. Olhei para os lados tentando ver algum portão ou algo que me levasse até a saída. Nada. O campo era enorme e pra todo lado em que eu olhava tinha um cara armado com um cachorro monstruoso do lado. Como eu vou sair daqui?

– Leva logo ela daqui. – Russel ordenou e o garoto veio em minha direção.

– Está tudo bem se eu te levar no colo?

– Finalmente uma pessoa com bons modos por aqui. – Eu disse, com um pequeno esforço.

O garoto sorriu pra mim.

Russel deu a volta e saiu dali.

Senti os braços do menino me segurando e me levando para as escadas novamente. Ele era forte. Como se isso fosse novidade.

– Obrigada. – Eu disse sem olhá– lo.

– Pelo que?

– Por me salvar, oras.

– É o meu trabalho te manter viva. – Ele respondeu um pouco ríspido. Eu não estava entendo.

– Pra que? Pro seu Chefe? Eu não entendo. Por que ele não me mata de uma vez?

– Isso você vai ter que perguntar pra ele. – O garoto continuou subindo as escadas sem ao menos olhar pra mim.

– Claro, se eu pudesse vê– lo. Porque até agora eu nem sequer vi o rosto dele. – Disse brava.

O garoto riu.

– Você está rindo de mim? – Perguntei.

– Sim.

– Me solta! – gritei – Me solta!

Comecei a gritar desesperadamente.

– Cala a boca! Cala a boca! – Ele começou a tentar tampar a minha boca e eu comecei a me debater.

Nós caímos no chão e ele caiu em cima de mim. Comecei a chutá– lo, enquanto ele tentava me segurar.

– Cala a boca! O Chefe está bem aqui do lado. Cala a boca.

Agora que eu comecei a gritar mesmo.

– Cadê ele? Cadê o seu chefe? Por que ele não me mata? – Eu gritava cada vez mais alto.

– Cala a boca. – O garoto continuava implorando.

Eu nem sequer percebi que a porta do lado se abriu e duas pessoas saíram de lá.

– Que porra é essa?

A voz do homem que eu tinha ouvido quando me prenderam na cadeira e quase me mataram explodia em meus ouvidos. Era ele. Era o Chefe.


"NÃO OLHA PARA MIM"

– O que está acontecendo aqui? – A voz firme do homem a minha frente disse mais uma vez.

Eu precisava ver o rosto dele. Levantei a cabeça o mais rápido que pude. Ele estava sem camisa. O cabelo bagunçado me chamou a atenção. Ele parecia ser tão novo. A calça jeans desabotoada, os pés descalços, tudo isso não me demonstrava superioridade. Os olhos escuros que me encaravam, viviam dentro de uma escuridão silenciosa. Será que esse homem bem a minha frente é o Chefe desses brutamontes que me sequestraram? Assim que meus olhos encontraram os dele, seu rosto virou na direção do cara que estava me segurando. Eu não desviei meu olhar um segundo sequer.

– Vamos, . Diga! O que está acontecendo aqui? Por que ela está fora do quarto? – Ele dizia firme, enquanto não se importava em fechar o zíper da calça e se concentrava em desviar o olhar de mim.

– Por que não mata logo essa menina? – A voz de Melanie soou em meus ouvidos como uma pancada.

Eu nem tinha percebido que ela estava ali ao lado dele ainda. Por que ela me odiava tanto? Eu só vi ela uma vez no quarto e ela já quer me ver morta?

– Cale a boca. – O homem disse. – Me responda, . Eu te fiz uma pergunta.

– Ela estava na fogueira, chefe. Russel disse que você mandou que ela fosse lá jantar com você. – , o que parecia ser o nome dele, respondeu um pouco apavorado.

O homem gargalhou.

– Jantar comigo? Eu dei ordens claras que não queria ela fora do quarto. Será que vocês são surdos? Incompetentes!

Nesse momento, ele se abaixou e me agarrou pelos dois braços. Sua força era anormal. Eu nem conseguia sentir os apertos nos braços, enquanto o meu olhar procurava uma brecha sequer do dele, mas ele não me olhava.

– Vá procurar Russel, preciso falar com ele. Daqui meia hora no meu quarto. – Ele disse com uma voz forte, assim que me puxou para fora dali.

– Mas como assim? Você vai me deixar aqui? O que vai fazer com essa criança? Ainda não acabamos o que estávamos fazendo! – Melanie gritava, enquanto se esperneava nos vendo partir.

Ele me puxou pelo longo corredor até chegar em uma porta amarela. Eu não me preocupei em olhar para os lados, não me preocupei com nada, eu só conseguia olhá-lo. Precisava vê-lo.

– O que vai fazer comigo? – Consegui dizer.

Não obtive nenhuma resposta.

Ele me segurou com uma das mãos e abriu a porta de uma só vez com a outra.

– Não vai me dizer? – Perguntei novamente.

Nada.

Ele simplesmente me atirou na cama, no mesmo quarto em que eu estava presa antes, se afastou e ficou postado na porta fechada. Eu permaneci o encarando, mas ele nem sequer me olhava.

– Você não fala? – gritei nervosa.

– Eu não te deixei sair. – Ele disse, olhando para o chão.

– Você não manda em mim. – O que estava acontecendo comigo?

Escutei sua risada sarcástica, mas seu olhar ainda permanecia no assoalho.

– Garota, garota. Você não sabe com quem está lidando.

– Eu não tenho medo de você e pelo que sei, você queria jantar comigo. – ralhei.

Ele deu passos largos na minha direção e se apoiou na cama bem a minha frente. Minha respiração começou a ficar pesada com a sua aproximação. O que ele ia fazer? Meu coração estava saltando pela boca.

– Para de me olhar. – Ele disse, bravo.

Eu não movi meus olhos.

– Abaixa essa cabeça e não me olha.

Eu permaneci imóvel.

Sua respiração também começou a ficar pesada e eu podia ouvir seus suspiros. Eu continuei olhando para o seu rosto procurando um pequeno pedaço dos seus olhos.

– Não olhe para mim! – Ele segurou meus braços firmemente e me encarou nos olhos.

Ele estava ali. Eu podia sentir. Seus olhos escuros me olhavam com uma intensidade diferente. O que tinha neles que me deixava tão hipnotizada? Tentei controlar minha respiração e meus batimentos cardíacos, mas nada adiantou. Eu fiquei paralisada e ele também.

– Não me olha assim. – Ele disse, só que dessa vez sua voz soou um tanto mais calma. Não parecia ser o mesmo cara.

– Eu não tenho medo de você, eu só quero ir embora pra casa.

– Você não vai voltar pra casa, . – Ele disse uma última vez e seus olhos partiram juntamente com seus braços que agora não me seguravam mais.

– Como você sabe meu nome? – Perguntei assustada.

– Vá tomar um banho, está precisando. Eu te espero aqui. Não demore, preciso resolver muitos problemas ainda esta noite. – Ele saiu de perto de mim e sentou– se na beirada da cômoda da TV. Por que ele iria me esperar aqui?

Eu não me movi.

– Está surda?

– Por que você disse que eu estou precisando de um banho? Eu já tomei um. – Perguntei.

– Suas pernas. – Ele apenas apontou para elas e se virou pegando o controle da televisão, enquanto a ligava.

Assim que olhei para as minhas pernas, vi a pequena listra de sangue escorrendo por elas. Meu Deus, que vergonha! Que vergonha! Saí correndo em direção ao banheiro.

– Não acredito que fiquei menstruada e nem sequer senti! – Disse pra mim mesmo. Talvez um pouco alto demais. Isso devia estar há um bom tempo aqui. Pensar isso só me deixou mais neurótica.

Liguei o chuveiro correndo e tomei um banho demorado. Não queria ter que lidar com o homem que me esperava lá fora. Não queria.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.





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