Última atualização: 10/05/2019
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Prólogo


– Eles desistiram de me esperar? – perguntou quando chegou no escritório e encontrou apenas seu melhor amigo/empresário na sala de reuniões. Tinha ficado presa no trânsito no centro da cidade e estava mais do que excessivamente atrasada. negou com um aceno. – Então desistiram da reunião?
– Estão presos no trânsito. Aparentemente aconteceu algum acidente e a cidade está parada.
– Eu sei, fiquei um tempão presa no trânsito também. – ela suspirou. – E sobre o que é? Um novo contrato?
– É.
– Vou comprar alguma coisa para comer, estou morrendo de fome. Quer?
– Não, obrigado. E não demore, eles devem chegar daqui a pouco.
– Vou na lanchonete do outro lado da rua, pode ficar tranquilo. – ela sorriu e se virou, saindo da sala.
Precisava comer, porque sabia que essa reunião não acabaria rápido e ela estava morrendo de fome. Comprou um sanduíche e uma Coca-Cola, algo que seu personal e sua nutricionista reprovariam. Flashes foram disparados em seu curto caminho até a lanchonete do outro lado da rua e no retorno ao escritório de seu empresário/melhor amigo, como sempre.

– Eles chegaram. – Gretchen, a recepcionista, avisou-a quando ela voltou ao escritório e fez uma careta.
– Espero que eles não se importem se eu comer durante a reunião. Mas, se eles se importarem, vou comer do mesmo jeito.
– Você não existe, . – a mulher disse, rindo.
– Essa reunião não vai acabar rápido, aposto que vou ficar entediada em cinco minutos. – ela resmungou e seguiu até a sala de reuniões, que ficava seguindo um pequeno corredor.
Ao abrir a sala, deparou-se com e outros dois homens, e ela conhecia um deles.
– Ah, ela chegou. – disse, dando um sorriso.
– Perdão pela demora, nós ficamos presos no trânsito.
– Ah, tudo bem. Eu cheguei agora há pouco também, essa cidade hoje está um verdadeiro inferno. Espero que vocês não se importem se eu comer enquanto conversamos, porque eu estou morrendo de fome, não tive tempo de tomar café da manhã em casa. – ela falou e tomou um lugar ao lado de , ficando de frente para os dois homens.
– Sem problemas. – o outro homem disse. – Meu nome é Hugo, esse é meu amigo .
– Eu o conheço, ele é do meu time. – ela falou sem olhar para os dois, estava preocupada em abrir sua Coca-Cola. – Enfim, para que é tudo isso?
está passando por um momento difícil, o ostracismo está batendo à porta depois daquelas lesões todas, ainda tem, também, a questão de frequentemente as perguntas se tornarem pessoais sobre relacionamento. – foi quem se pronunciou.
– E o que eu tenho a ver com isso? – perguntou depois de mastigar um pedaço do sanduíche que tinha comprado.
– Resolvemos unir o útil ao agradável e fazer um contrato de marketing.
– Continuo sem entender.
– Ele perdeu a mídia, você a tem quase toda para si, e os dois estão solteiros e já se cansaram de ouvir coisas sobre relacionamentos. – Hugo explicou e ela assimilou as informações.
– Então é um contrato de marketing para fingirmos ser um casal? – ela perguntou e os três assentiram. – Vocês só podem estar de sacanagem comigo.
, você sabe que eu nunca faria algo para te prejudicar. – disse, sério.
– Vocês não podiam ter tentado da forma convencional?
– Teríamos feito isso se não os conhecêssemos tão bem. – Hugo disse, olhando para , que tinha permanecido calado o tempo inteiro e estava cada vez mais sem graça. – Nós os apresentaríamos, vocês se cumprimentariam e acabaria aí.
– E o que você acha disso? – ela perguntou a , que não abriu a boca, só ficou mais vermelho do que já estava. – Eu sei que você fala, e nós dois sabemos que eles já decidiram e estão apenas comunicando-nos o que vai acontecer, então expresse sua opinião.
– Eu... – ele disse tão baixo que quase nem se ouviu. – Não sei se vejo problemas nisso. Queria voltar à seleção, queria voltar para o Bayern, eles não querem renovar comigo quando o empréstimo acabar. Em alguns meses eu estarei de férias e desempregado.
– E como vocês querem que a gente faça isso? – se virou para e Hugo.
Sua expressão já não era tão amigável mais.
– Primeiro vocês sigam-se em redes sociais e...
– Eu já o sigo há muito tempo. – interrompeu a fala. – E ele me segue também.
– Então comecem a trocar alguns eventuais comentários em fotos e...
– E vamos ser vistos juntos, alguém tira uma foto, posta na internet, os rumores começam a aumentar, continuamos a comentar nas fotos um do outro e um tempo depois assumimos que estamos namorando. – disse, rolando os olhos, enumerando as fases pelas quais aquele “relacionamento” passaria. – Mas espero que vocês saibam que não adianta nada “atrair a mídia” se ele não jogar mais do que os que estão na seleção. E se não parar de tomar bola nas costas e correr feito um desesperado sem rumo.
– Isso não vai dar certo. – resmungou.
– Muito pelo contrário. – Hugo deu um sorriso, observando terminar de comer seu sanduíche. – Acho que isso vai ajudar. E muito.
– A contar pela quantidade de fotógrafos na porta, já devem estar especulando que estamos juntos. – ela disse, debochada.
– Descemos no estacionamento do prédio e subimos direto. – Hugo disse e ela se virou para .
– Você tem dezoito meses para conseguir o que quer, a contar de quando assumirmos, . – ela disse, séria. – Nem um dia a mais.


Capítulo 1


Desde a tal ideia do contrato, vinte e dois dias atrás, ela e trocaram algumas mensagens, coisas básicas como avisar um ao outro da postagem de fotos ou qualquer coisa que Hugo ou mandassem. Trocavam comentários em algumas fotos, não em todas, porque queriam passar uma imagem convincente de serem apenas amigos, mas nunca tinham sido vistos juntos. Ainda.
Nenhum dos dois gostava de noitadas e baladas, então não teriam problemas em fingir que aquele relacionamento era realmente sério. Ela estaria em turnê dali uns meses, e os dois não se veriam por bastante tempo, bastaria fingir saudades em redes sociais. Ela mora permanentemente em Munique, e ele ainda mora em Gelsenkirchen, mas em breve deve se mudar de lá; não sabe para qual cidade, porque o Bayern não parecia disposto a tê-lo de volta e muito menos o Schalke parecia interessado em comprá-lo. Outras propostas estavam sendo analisadas, então era bem provável que morassem longe. Ambos não poderiam ficar viajando para eventos e nem para serem vistos juntos todo fim de semana.
No fim das contas, aquele relacionamento atrairia marketing e ambos ganhariam dinheiro sem fazer realmente algum esforço. Os termos ajustados eram simples: fingiriam ser namorados e os encontros aconteceriam na medida que seus compromissos profissionais permitissem.
não estava gostando nem um pouco, mas tinha concordado, o contrato – ainda que não fosse escrito, fosse apenas verbal – estava firmado, e ela tinha dado sua palavra de que faria parte daquilo.

– Está na hora de vocês serem vistos juntos. – falou e ignorou, fingindo mexer no celular. – Você me ouviu?
– Marque o que você quiser, não tenho outra escolha mesmo.
está na cidade, amanhã vocês vão ao cinema. Marquem o horário entre vocês. É preciso que esse namoro comece de verdade. – ele falou, sério, e ela suspirou, assentindo.
– Não é como se eu tivesse muitas opções, de qualquer forma. E sei que entrei numa coisa que não vai dar em nada, porque duvido que ele volte para a seleção e para o time por isso.
– Você ainda tem aquele crushzinho nele? – perguntou e ela rolou os olhos.
– Estamos grandinhos demais para usar esse termo, você não acha? – ela perguntou, debochada.
– Você não negou. – ele sorriu abertamente. – Então temos aqui o motivo de você não ter berrado que não participaria disso tudo.
– E você usou essa informação para unir o interesse dele por mídia e o da mídia em me arrumar um namorado.
– Talvez. – deu de ombros e sorriu, abraçando a amiga de lado. – Mas vai que essa é a chance de fazer aquela sua paixãozinha platônica se tornar real.
– Sem chances. Aquilo acabou faz tempo. E tem o fato de ele ser gay.
– Ele é? – perguntou assustado.
– É o que se especula. E eu acredito nisso mesmo.
– Ah, mas muita gente falava do Cristiano Ronaldo, e ele não é.
– Falavam apenas por ele ser bonito e gostar de se cuidar, o que não é mais do que a obrigação.
– E o que te faz achar que é gay?
– O jeito. Não com aquele estereótipo que criam, mas ele nunca teve uma namorada, não curte foto de mulher no Instagram e, sei lá, não parece ser hétero.
– Isso é estereótipo. – riu. – Não acho que ele seja gay.
– Ele é. – ela assentiu. – E vamos parar de falar, você vai embora e eu vou dormir. Aparentemente tenho um encontro amanhã.
– Jeito bem sutil de me mandar embora. – ele riu e deu um beijo na bochecha da amiga.
– Dê um beijo em Allie por mim.
– Pode deixar. – ele sorriu e se pôs de pé. – Bom encontro amanhã.
– Eu vou te demitir.
– Você não duraria um dia sem mim, meine Liebe. – ele disse e ela rolou os olhos. Era a verdade.
seguiu até o elevador e foi embora, deixando sozinha na sala de casa.
Aquela paixão platônica tinha acabado, certo? Ela queria que sim, ainda que soubesse que, lá no fundo, ainda o achava uma gracinha e podia muito bem ser a garota que era louca por ele uns anos atrás.

já tinha decorado o feed de fotos de no Instagram, entrava lá todos os dias para acompanhar a rotina da futura namorada e para conhecer o trabalho dela. Havia diversas fotos de shows, mas também de muita coisa pessoal: família, passeios, amigos, selfies... Descobriu, durante esses dias, que ela sabia tocar piano, guitarra e violão, que tinha cantado com o ídolo, John Mayer, que é louca por comida italiana, que gosta de dançar e é apaixonada por animais.
Ele tinha escutado algumas músicas e visto alguns dos vídeos dos shows, além de clipes que tinham sido gravados. A voz era realmente muito boa, ainda que não fosse o estilo musical favorito dele. , além de muito bonita, era talentosa. Os dois se falavam esporadicamente, trocaram uma ou outra informação necessária, mas ela não parecia em concordância com nada daquilo, e ele não a tirava a razão.
Ela postou uma nova selfie algumas horas antes, não mostrava muita coisa, apenas a parte superior do biquíni azul; tinha um olho fechado e fazia língua. Tinha a expressão cansada, olheiras e parecia prestes a dormir. A legenda dizia “Amanhã eu volto para o estúdio 🌞😜” e milhares de comentários falando sobre o álbum, outros falavam para que ela descansasse e aproveitasse o fim de semana, comentários chamando-a de linda e derivados.
Ele curtiu a foto e pensou se deveria ou não comentar. Repetiu os emojis que ela colocou no comentário e, mal o fez, recebeu diversas respostas e pessoas que começaram a segui-lo. Sugeriram que ele fosse aproveitar o dia com ela, afinal eram namorados, e um mencionou e perguntou os motivos de não ter ido. nem se deu ao trabalho de responder ou ler o que se seguiu, resolveu tomar um banho e ver um filme. Tinha que sair com no dia seguinte e esperava ser um bom ator, porque seria necessário.

-x-


– E aí, o que vamos assistir? – perguntou quando parou o carro na rua lateral a do cinema e os dois desceram, seguindo lado a lado até entrarem no local.
– Não faço a menor ideia. – ela deu de ombros.
– Você já viu Logan?
– Ainda não.
– Pode ser esse? Eu também não vi.
– Por mim tudo bem. Vou comprar a pipoca e você compra os ingressos. – ela disse e ele assentiu. – E 3D não, por favor. Só se for a única opção.
– Tudo bem.
– Pipoca com manteiga?
– Sim. E suco, se tiver. – ele pediu educado e ela assentiu, saindo em direção ao local em que a pipoca era vendida.
– Eu quero dois ingressos para Logan, por favor. – ele pediu ao atendente.
O rapaz tinha uma expressão entediada, mas quando viu quem estava ali, ele deu um sorriso.
! Cara, sou seu fã! Posso tirar uma foto com você? – perguntou todo animado e deu um sorriso.
– Claro. – falou e o rapaz saiu animado da cabine de vendas e se aproximou.
Tirou umas cinco fotos antes de outra pessoa, um cliente, pedir fotos. E depois o outro atendente que estava voltando do horário do intervalo.
– Precisa de ajuda com os ingr... Ah. – ele ouviu a voz de e se virou.
Ela tinha dois baldes de pipoca em um suporte. Havia também dois copos grandes com as bebidas.
– Não, . – ele deu um sorriso para a mulher e se virou para o atendente. – Posso pegar os ingressos?
– Claro. – o atendente disse, ainda sem acreditar em quem estava vendo. – Fique no Bayern, cara. Espero que eles te peguem de volta quando o empréstimo acabar.
– A intenção é essa. – ele sorriu de lado. Pagou os ingressos e os pegou. Nenhum dos dois viu uma foto ser tirada enquanto caminhavam até a entrada da sala em que o filme seria exibido, tampouco viram a outra que foi tirada antes do filme começar. – Você vai comer isso tudo?
– Você não come pipoca? – ela perguntou, assustada.
– Como, mas não isso tudo.
– Ah, então come o que aguentar e eu como o resto. Amo pipoca.
– Eu percebi. – ele disse, rindo.
– Agora cala a boca, vai começar o filme.
As duas horas e vinte minutos de filme passaram depressa, e ele percebeu que gostava mesmo de pipoca, porque comeu a pipoca que ele tinha rejeitado, além da própria.

– Eu estou com fome. – ela disse como se fosse supernormal sentir fome depois de comer aquilo tudo, e ele a olhou incrédulo.
– Você está brincando comigo?
– E por que estaria? – ela deu de ombros.
– E o que você quer comer?
– Não sei, mas não quero comida.
– Você vai comer mais porcaria? Você comeu quase dois baldes de pipoca agora mesmo.
– Primeiro: você comeu o seu quase inteiro, não se faça de inocente, e segundo: agora mesmo nada, porque eu acabei de comer bem antes da metade do filme. – ela disse emburrada e ele riu.
– Agora já sei algo sobre você: você come feito uma pessoa que ficou presa por dez dias. – ele falou, rindo. – Quer comer alguma coisa de fast food?
– Burger King! – ela comemorou. – Adoro aquelas coroas que eles dão. E acho que vamos conseguir conversar e ficar tempo suficiente para sermos fotografados juntos.
– Então tudo bem. – ele sorriu. – Tem um aqui perto, vamos caminhando mesmo.
– Por favor. – ela assentiu e os dois saíram do cinema, caminhando pela avenida movimentada que os levaria até o Burger King. – E então, o que há para saber sobre , além da parte profissional?
– Sei lá, o que você quer saber? – ele perguntou, rindo.
– Ué, , sobre você, o que faz fora dos campos? – ela perguntou, dando de ombros.
Ainda que tivesse sido uma das maiores fangirls dele, havia muito pouco sobre ele na internet.
– Eu adoro sorvete, mas não posso comer demais porque é muito gorduroso, e queimar gordura hidrogenada é bem difícil. Gosto de cantar, apesar de não saber fazer isso, porque alivia a tensão. Gosto de andar de bicicleta, de nadar e de dirigir sem ter um lugar específico para chegar. Não sou muito de sair para baladas e essas coisas, sou mais caseiro. Gosto de crianças também e de animais.
– Você tem só uma irmã?
– Sim. E ela é tão insuportável que vale por vinte.
– Você tem algum sonho a realizar?
– Ganhar a Copa estando na seleção. – ele sorriu. – Seria maravilhoso.
– E se você não fosse jogador, seria o quê? – perguntou curiosa.
– Eu não sei. Sinceramente. – ele deu um sorriso de lado, enquanto caminhavam. – Nunca parei para pensar nisso, mas acho que eu teria feito algo que pudesse trabalhar com futebol. E eu não sei mais o que falar sobre mim.
– Você é muito tímido, acho isso uma coisa rara, ainda mais no futebol. Conheço alguns jogadores, todos são muito falantes e extrovertidos, e aí tem você, quieto e introvertido.
– Eu sou mais reservado, na verdade. Mas eu gosto de me divertir, de sair, de ir a shows...
– Você tem um sorriso muito bonito. – ela elogiou e ele corou. – Ai, , não fica sem graça, foi só um elogio.
– Não é algo controlável. – ele disse, dando um sorriso sem jeito.
– Posso dizer que é estranho você não ser comprometido? Porque você é muito bonito. – ela perguntou, jogando verde.
Era a hora de descobrir a verdade.
– Eu não sei o motivo. – ele coçou a nuca, sem jeito.
– Vamos mudar de assunto, você está desconfortável. – ela disse, rindo, e ele assentiu. – E, então, tipo musical favorito?
– Rock, mas ouço algumas coisas de pop e rap.
– Rock eu acredito, mas os outros dois eu duvido muito. – ela riu. – E o que gosta de fazer quando está de folga?
– Depende. Saio com meu cachorro, fico com minha mãe, saio com alguns amigos...
– Qual sua comida favorita?
– Qualquer uma que minha mãe fizer. – ele riu. – Sou bem tranquilo para comer, mas adoro Sauerbraten mit Knödel* e Käsespätzle*. Minha mãe faz um Sauerbraten mit Knödel delicioso, um dia te levo lá para comer.
– Você já parou para pensar nisso? – Lana suspirou, enquanto caminhavam. – Vamos enfiar nossas famílias nisso tudo também. Minha mãe vai achar um máximo que eu finalmente tenho um novo namorado, meu pai e meu irmão mais velho talvez não. E sua mãe e sua irmã? Acho que Hugo e não pensaram nisso com o devido cuidado.
– Podemos apenas explicar isso a eles, não?
– Eu não sei você, mas eu não sei se quero falar com meus pais que estou namorando de mentirinha. – ela disse e ele assentiu. – E meu irmão faz picadinho de nós dois, depois mata e Hugo. Não me sinto confortável em estar nessa mentira, mas já que estamos, temos que fazer isso direito.
– Ainda somos apenas amigos, podemos planejar com calma. – ele sorriu, mas ela não sorriu de volta.
– Não, estamos sendo vistos hoje exatamente para deixarmos de ser “apenas amigos”.
– Para a mídia. – ele deu de ombros e sorriu para ela. – Seremos apenas amigos, de qualquer forma, então temos tempo de pensar em como resolveremos algumas coisas. Por enquanto, preciso saber um pouco mais sobre você.
– Ah, eu sou meio doida. – ela deu um sorriso e os dois entraram na lanchonete.
Estava quase deserta, se não fosse um casal sentado numa ponta e dois atendentes que conversavam sem prestar atenção nos novos componentes do ambiente.
– Boa noite. – os anunciou e, enquanto o rapaz a olhava admirado, a garota a olhou com desdém, desviando os olhos rapidamente para , mas sem demorar muito.
. – o rapaz sorriu. – Eu sou seu fã! Você pode, por favor, dar-me um autógrafo e tirar uma foto comigo?
– Claro. – ela sorriu, simpática. – Você tem papel?
– Tenho. – ele, desesperado, pegou um guardanapo e entregou com uma caneta.
– Como você se chama?
– Joshua. – ele falou, quase hipnotizado. Ela escreveu uma dedicatória e autografou o papel. O garoto atravessou o balcão e entregou o celular para , que prontamente tirou a foto, e o rapaz abraçou . – Seu último álbum é meu favorito! É o melhor de todos! Você é maravilhosa!
– Espere para ver o próximo. – deu um sorriso de lado e o garoto o olhou, dando um sorriso sugestivo.
– E o que vocês vão pedir? – a garota perguntou, entediada.
– Eu quero o combo doze. – disse, animada. – E pode colocar a batata grande.
– E você?
– O mesmo, mas ao invés de refrigerante, eu quero suco. – ele pediu e a garota anotou.
– Eu quero uma daquelas coroas, você tem? – pediu a Joshua, que se abaixou rapidamente para pegar.
Ela sorriu em agradecimento e foi sentar-se com num lugar mais afastado depois de pagarem e pegarem seus lanches.
– E você? O que há para saber sobre ? – ele perguntou quando se sentaram.
– Eu vivo meu sonho, porque sempre quis cantar e nunca me imaginei fazendo nada diferente disso. Adoro comer, minha comida favorita é italiana; qualquer coisa da cantina italiana é minha comida favorita. Gosto de malhar e fazer yoga, estou sempre ouvindo músicas e frequentemente escrevendo. Tenho mania de ficar cantarolando, minha fonoaudióloga já me xingou diversas vezes por isso, mas é mais forte que eu. Amo coisas família também, queria ter um cachorro, mas minha agenda e rotina não permitem, porque quero um cachorro grande e não posso levá-lo em turnês, porque não são todos os hotéis que aceitam cachorros, e mesmo os que aceitam, não aceitam cachorros grandes. Quando estou em casa, gosto de ficar com minha família, que é composta por meus pais e meu irmão mais velho. Amo rock, mas gosto muito de reggaeton, pop e R&B; amo dançar. Sei falar cinco idiomas e arroto alto para caramba.
– Muitas informações interessantes. – ele disse, rindo. – Cinco idiomas, é?
– Sim. Alemão, inglês, italiano, espanhol e francês.
– Que poliglota. – ele riu. – E em quantos países já esteve?
– Na maioria deles. Alguns dá para ficar mais do que dois dias e conhecer algumas coisas, outros não. E você?
– Só os países em que joguei, mas estar e conhecer são duas coisas diferentes.
– É. – ela disse, abrindo o sanduíche e dando uma mordida.
– Você conhece há muito tempo? – perguntou e esperou que ela terminasse de mastigar para responder.
– Crescemos juntos, porque nossos pais trabalharam juntos. Sempre estudamos juntos na escola, éramos das mesmas salas, saíamos juntos... Ele é meu melhor amigo e eu sou a melhor amiga dele. Separamo-nos quando eu consegui um contrato, aos dezesseis, para gravar um CD, e ele foi para a faculdade no ano seguinte, enquanto eu dava uma volta ao mundo. Mas sempre nos falávamos e nos víamos quando eu estava na cidade, e ele sempre acompanhou minha carreira, mas só quando saiu da faculdade se tornou meu empresário, há uns três anos.
– E vocês nunca tiveram nada?
– Credo. – ela fez uma careta. – não faz meu tipo.
– E qual o seu tipo?
– Você. – ela deu de ombros e ele ficou vermelho, fazendo se segurar para não dar uma gargalhada e chamar a atenção. – Eu não podia perder essa.
– Você joga baixo. – ele falou num murmuro.
– Mas não menti, em todo caso. Você é esteticamente meu tipo. Resta saber se na personalidade também. Não é no guarda-roupa, porque você se veste muito mal e, aliado a isso, tem esse corte de cabelo com essa barbicha, preciso te levar para fazer compras e dar um jeito nessa sua cara.
– Você está me chamando de brega e feio? – ele se fingiu de ofendido.
– De brega, sim, de feio não. Você está abandonado, na verdade. Parece que está cortando o cabelo sozinho em casa e usando uma faca de pão. E essa barbicha... Deus me livre. – ela falou, fazendo rir da expressão que ela fez.
– Então você é a senhorita perfeitinha que tem os cabelos bem cuidados e o closet mais do que perfeito? – ele debochou e ela assentiu, enquanto mordia um pedaço do sanduíche. Ele deu um sorriso e sacudiu a cabeça negativamente, voltando a comer seu sanduíche, o mesmo que ela estava fazendo. – Deixe-me tirar uma foto sua com essa coroa. Está ótimo.
– Claro que está, sou uma princesa, princesas usam coroas. – ela disse, estendendo o próprio celular para ele. – Tira nos stories.
– Claro que é uma princesa, a Fiona. – ele zoou, rindo, e tirou a foto.
Ela tinha colocado as duas mãos sob o queixo e dava um sorriso, de olhos fechados. Ele escreveu “uma verdadeira princesa da Disney” e postou.
– Se eu sou a Fiona, isso faz de você o Shrek. – ela deu um sorriso vencedor e ele deu de ombros.
– Ainda bem que você concluiu isso, porque a partir de agora posso me comportar como um ogro.
– Você não pode ser ogro tão cedo. – ela falou, séria, e ele reprimiu a vontade de rir alto. – Não vou te aturar peidando e nem arrotando feito um ogro.
– Que isso, Fiona... – ele falou, brincando, e ela lhe jogou uma batata.
– Cala a boca e vamos embora. – ela resmungou e ele riu.

Os dois saíram do restaurante e caminharam pela rua, sem conversar. estava empanzinada, no real e completo significado da palavra. podia jurar que estava prestes a explodir de tanto que tinha comido. Entraram no carro e, quando o rádio foi ligado, uma música dela estava tocando, e ela comemorou como se fosse a primeira vez que tinha uma música tocando na rádio, como se não fosse a coisa mais comum do mundo. Ela pegou o celular e gravou alguns stories toda animada, cantando, enquanto ouvia a música.

– Você ainda comemora quando suas músicas tocam nas rádios? – ele perguntou, bem-humorado.
– Claro! É sempre muito legal ver meu trabalho ser reconhecido. E não te vi cantando, então faça o favor de comprar meus cinco álbuns e aprender todas as músicas. Você não pode ser meu namorado se não souber cantar todas elas.
– Você pode me dar também.
– Claro! Autografados e com uma camisa com minha cara para ir aos shows. E uns convites para o meet. Aceita? – ela perguntou, debochada.
– Aceito. E uma faixa para colocar na cabeça também com seu nome escrito com glitter. – ele falou, rindo, e ela rolou os olhos.
– Quando você volta a Munique?
– Não faço ideia, mas deve demorar um pouco. Estamos perto do final da temporada, não posso ficar viajando tanto.
– Essa semana eu tenho um show em Düsseldorf. Já que fomos vistos hoje, vou te dar ingressos, você vai. Fico em Gelsenkirchen com você no dia seguinte e volto. Precisamos fazer isso acontecer logo.
– Por mim tudo bem. – ele deu de ombros. – Só depende do dia, porque se eu tiver jogo no dia seguinte...
– Não tem, o show é na quinta.
– Por mim tudo bem. – ele repetiu.
– E você vai mesmo me arrastar para comprar roupas?
– Primeiro preciso analisar o que fica no seu closet e o que será enviado para doação.
– Você vai doar minhas roupas? – ele perguntou, incrédulo, e deu uma risada. – Cara, você é DOIDA!
, já vi algumas das suas fotos e você tem umas roupas bem desnecessárias. Então, por favor, não tente me impedir.
– Como é o nome daquele programa que passa no Discovery Home & Health?
– Esquadrão da Moda. – ela respondeu. É, se ele conhecia isso, estava comprovado que ele é mesmo gay. – E sim, isso mesmo. Vamos doar essas peças, porque tem gente que precisa, apesar de eu considerar colocar fogo em algumas, porque são atentados ao bom gosto.
– Há coisas com valores sentimentais.
– Essas ficarão. Escondidas a sete chaves. – ela falou e ele deu uma gargalhada.
Ela sentiu o carro diminuir a velocidade e parar. Estava entregue.
– E quando você pretende fazer isso?
– Bom, não sei. – ela pareceu pensativa. – Já que vou passar um dia na sua casa, posso dar uma olhada e ver qual o tamanho do problema.
– Dê-me o setlist do seu show, aprendo a cantar todas e posso ser divulgado cantando a plenos pulmões as suas músicas sem errar nada.
– Envio quando eu o montar com a banda.
– Dê-me três, vou levar minha irmã e o otário do namorado dela. – ele respondeu, rolando os olhos.
– Anotando que você tem ciúmes da sua irmã. – ela riu, provocando.
– O cara é um babaca. Apresenta um amigo seu para ela, porque os meus não vão namorar minha irmã mais nova.
– Só depois de conhecer minha cunhada para saber o estilo dela e fazer o serviço completo.
– Ela é chata, inoportuna e insuportável.
– Se você falar isso com meu irmão, ele vai perguntar se você também é meu irmão. – ela rolou os olhos. – Irmãos mais velhos são todos insuportáveis, acabo de concluir.
– Ou as mais novas são pentelhas demais. – ele falou, rindo. – E acho que estamos sendo observados pelo fotógrafo que está esperando sua chegada em seu castelo.
– Nós vamos nos beijar? – ela perguntou entredentes e ele ponderou.
– Ele já viu que eu o vi, melhor não. Deixa para o show. – ele falou quase sem mexer a boca e deu uma gargalhada, sendo acompanhada por ele.
– Vou pedir para enviar os ingressos para vocês. – ela disse e o abraçou em despedida.
– Eu já imagino que tenham quinhentas mil fotos nossas em todas as redes sociais.
– O objetivo é esse, afinal de contas. – ela deu de ombros e deu um sorriso. – Obrigada pelo passeio e pela companhia.
– Obrigado por me mostrar que você pode comer mais do que um time de futebol inteiro.
– Cala a boca. – ela disse, rindo. – Vemo-nos quinta-feira.
– Até lá. – ele respondeu e ela abriu a porta do carro, saltando de lá, e ele arrancou quando a porta foi fechada.
– Você está bonita, . – o fotógrafo disse e ela sorriu.
– Obrigada, Phill, mas você não vai me derreter com um elogio. Achei que já tivesse conversado com sua revista sobre respeitar a privacidade dos meus vizinhos, porque para respeitarem a minha, eu desisti de pedir.
– Ouvi boatos, tive que vir conferir. – o homem sorriu. – É meu ganha pão.
– Se eu tiver saído feia nessas fotos, não publique. – ela sorriu simpática e ele sorriu de volta.
– Nunca deixei de publicar suas fotos, você sempre sai linda.
– Obrigada. E mande beijos para suas filhas.
– Elas amaram o seu show aqui. E já estão enchendo-me para levá-las a outro.
– Vou a Düsseldorf na semana que vem, leve-as.
– A mãe delas não estará na cidade semana que vem e eu preciso trabalhar. – ele fez uma careta e sorriu.
– Agora que você já veio me dar boa noite, pode ir para casa. E mande beijos para as duas.
– Boa noite, . E espero que vocês dois deem certo.
– Ele é meu amigo, não tem nada de mais nisso.
– Vocês movimentaram a noite nas redes sociais, foram até trending topics.
– Sexta-feira à noite e as pessoas estão no Twitter e no Instagram... – ela se fingiu de decepcionada e deu um sorriso. – Enfim, boa noite Phill.
– Boa noite, . – ele se despediu e ela entrou no prédio, cumprimentando o porteiro e foi até o elevador.

Pegou o celular e foi conferir as fotos em que tinha sido marcada durante aquele furor que sua saída com tinha causado. Curtiu a de Joshua depois de procurar por um Instagram que o tivesse marcado e deixou um coração no comentário da foto, porque ele realmente tinha feito uma legenda bem fofa.
Depois analisou as fotos em que aparecia ao lado de . Era excelente para o contrato, mas péssimo que não tivesse paz de sair sem ser observada e fotografada de todos os ângulos possíveis. Tinham fotos do cinema, da rua e do Burger King. E em breve teriam as fotos de Phill. queria fugir do esquecimento e só queria um dia em que pudesse sair de casa sem estar rodeada de fotógrafos ou seguranças, um dia livre em que ninguém a conhecesse e ela fosse apenas mais uma pessoa comum.
Foi direto para o quarto, trocou de roupa, escovou os dentes e voltou para sua cama. Estava sem sono, mas não queria ficar na internet, então resolveu ler. Foi até a estante e procurou por algo que pudesse ler, ainda que soubesse que aquilo não ajudaria a ter sono, mas que a atrapalharia a dormir e que ela, provavelmente, viraria a noite lendo.

estava com o celular em mãos e encarava a mensagem de Hugo, quase soltando foguetes pela repercussão da saída. Ele não fazia ideia de como tinha se enfiado naquilo e nem se valeria a pena, podia ser apenas perda de tempo e que nem desse certo, podia dar muito errado. Mas ele quis arriscar quando a ideia surgiu, ele precisava de visibilidade se quisesse voltar para a seleção. Tinha que ir para um bom time e então o Bayern o enxergaria de novo, além da seleção.
parecia ser uma boa pessoa, pelo menos ela era divertida e bonita, mas podia ser perda de tempo para ambos. Ela era atenciosa com os fãs, ele tinha percebido. Gostava de falar e parecia ter o riso fácil, mas só tinham saído uma vez e não podia tirar tantas conclusões assim.
Aquelas lesões quase o impediram de continuar vivendo seu sonho. Ele sabe que não é o melhor do mundo e que a Alemanha possui vários melhores que ele, mas também sabia que era um bom jogador e que tem espaço na seleção, e ele queria lutar por aquilo. Era triste ter que usar a mídia de outra pessoa para conseguir isso, mas tempos de desespero pedem medidas desesperadas.

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– Até que você é boa. – disse quando apareceu no estacionamento.
Visivelmente cansada, o cabelo preso num rabo de cavalo alto, mas já sem maquiagem.
– Olha como você fala com sua namorada, idiota! – a irmã de disse e o deu um tapa no braço. – Se eu fosse você, terminava com ele.
– Se eu fizer isso, ele chora por três dias no banheiro. – ela provocou e ele rolou os olhos, dando nela um abraço.
– Já assumimos. – ele sussurrou no ouvido dela. – E precisamos falar sobre isso.
– Certo. – ela sussurrou de volta e o soltou do abraço, indo em direção a irmã de e do rapaz que estava abraçado a ela. – Oi, eu sou , namorada do seu irmão.
– Eu sou . . – ela sorriu para a mulher e as duas trocaram um abraço antes de continuar as apresentações. – Esse é meu namorado, Höward.
– Muito prazer. – ela estendeu a mão em cumprimento e o rapaz fez o mesmo, a observando demoradamente.
– Ótimo show. – disse e ela sorriu agradecida.
– Obrigada. Espero que vocês tenham gostado mesmo.
é sua fã desde o começo da sua carreira. – disse e passou um dos braços pelos ombros de .
– Sério?
– Sim. De ter pôster na parede, chorar e tudo mais.
– Ai, , cala a boca. – disse sem jeito. – Mas sou mesmo. Gosto muito do seu trabalho, acho-te muito talentosa e maravilhosa. E te vendo de perto, estou perguntando-me como meu irmão conseguiu uma mulher tão linda e que tivesse coragem de namorá-lo.
– Seu irmão só precisa dar um jeito no guarda-roupa, mas eu farei isso amanhã.
– Finalmente! Eu tento fazer isso há anos e ele nunca permitiu!
– Não acredito que vocês vão se juntar contra mim! – disse num tom ofendido e deu um sorrisinho divertido.
– Melhores amigas. – sorriu, virando-se para , que rolava os olhos em reprovação ao novo complô.
– Podemos ir? Ou vamos ficar confabulando contra mim aqui?
– Você vai lá para a casa do também? – perguntou, animada.
A presença da irmã mudava algumas coisas, porque eles teriam que dividir um quarto e, bom, não queria.
– Não. – ela fez uma careta. – Tenho uma reunião pela manhã aqui em Düsseldorf, vou para o hotel e devo ir à tarde para lá.
– Ah, que pena. – disse, decepcionada. – Posso tirar uma foto com você?
– Claro. – sorriu e se soltou do abraço de .
deu o celular para o irmão tirar a foto. O namorado de ainda encarava as pernas de quase descaradamente. A foto foi tirada, e as duas se abraçaram em despedida.
– Vemo-nos amanhã. – disse e assentiu, dando um sorriso, e os dois se abraçaram.
– Ah, vocês não se veem há tempos e não vão dar nem um beijo? – perguntou e riu da cara do irmão. – Eu não vou te zoar, .
– Nos vemos amanhã. – sorriu e deu um selinho em . – E sem mais do que isso, porque tem gente tirando foto e eu prefiro não ser manchete por estar agarrando meu namorado que ainda não assumi para a mídia.
– Minha mãe vai adorar saber que o filho dela finalmente desencalhou! – provocou o irmão.
– Tem certeza que não quer ir comigo? Dirigir por quarenta e cinco minutos aguentando essa nojenta enchendo meu saco e sem apoio moral não vai ser legal. – ele reclamou e negou com um aceno.
– Não posso. – ela fez uma careta. – vai me enforcar se eu faltar a essa reunião.
– Tudo bem. – ele se fingiu de decepcionado. – Vejo-te amanhã de tarde.
– Claro. – ela sorriu e ele lhe deu outro selinho.
Antes que pudesse fazer uma feição de assustada, abraçou e cumprimentou o namorado da cunhada com um aperto de mãos. Seguiu até o ônibus que levaria a equipe para o hotel, e a encarou sem entender.
– Você não ia pra Gelsenkirchen?
– Ia. Mas a irmã dele está junto, e vai ser bem estranho se não dormíssemos no mesmo quarto. Inventei uma reunião pela manhã e só vou para lá quando não tiver ninguém. Já foi horrível ter que beijá-lo.
– Vocês se beijaram? – ele deu um sorriso sugestivo.
– Não beijo de cinema, dois selinhos.
– Então não beijaram. – ele riu e os dois embarcaram no ônibus. – E seu show foi ótimo.
– Obrigada.

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– E como foi sua reunião imaginária? – perguntou bem-humorado quando ela entrou em sua casa.
– Fantástica. Dormi até onze e meia da manhã. – ela deu um sorriso arteiro. – Não fazia isso há tempos.
– E o que vamos fazer? – ele perguntou e se jogou no sofá. Um Weimeraner marrom entrou na sala da casa e a encarou, curioso.
– Ai, meu Deus, ele é ainda mais lindo pessoalmente! – ela disse, animada, e se abaixou, num claro convite para que o animal fosse até ela.
– Não deixe meu cachorro sem vergonha. – disse num tom brincalhão e ela chamou o cachorro, que a olhou por um tempo antes de caminhar até onde ela estava ajoelhada.
– Ei, coisa linda, como você se chama? – ela fez um carinho na cabeça do cachorro.
. – ele falou e deu uma gargalhada da cara que ela fez. – Petros.
– Ei, Petros. – ela sorriu e voltou a fazer um carinho no cachorro, que a lambeu a mão em resposta. – Parece que ele gostou de mim.
– Ele gosta de todo mundo, não se sinta tão especial.
– Você perguntou o que vamos fazer... Bom, eu vim te salvar de ser essa tragédia fashion. Marquei um horário no melhor salão da cidade e nós estamos indo.
– Estamos?
– Sim. Vamos começar dando um jeito nesse cabelo mal cortado e nessa coisa que você acha que é um cavanhaque, mas não é. E depois vamos fazer compras.
– Você está falando sério?
– Claro. Eu sugiro que você coloque uma roupa que seja mais fácil de tirar, porque você vai experimentar muitas roupas hoje.
– No meu dia de folga?
– Sim, no seu dia de folga. Anda logo. – ela o apressou e ele resmungou algo que ela não entendeu, mas se colocou de pé e foi até o quarto.
Colocou uma camisa preta, uma calça jeans e calçou um tênis. Ela não podia encrencar com aquilo, poderia?
– Pronto. – ele reapareceu na sala e ela o encarou por um tempo. – Se você achar defeito numa roupa simples, eu desisto.
– Eu nem falei nada. – ela deu um sorrisinho e se pôs de pé. – Precisamos de uma foto.
– Precisamos?
– É. O Hugo me mandou uma mensagem falando disso. – ela rolou os olhos. – Um stories, só para “mostrar para o mundo” que a gente está junto hoje.
– Entendi. – ele fez cara de pensativo.
– No seu. Quero fazer uns stories no carro e espero que você tenha aprendido a cantar minhas músicas de verdade, vou te gravar cantando.
– Tudo bem. – ele resmungou e pegou o próprio celular para tirar uma selfie.
Ela o abraçou pela cintura, ele passou o braço livre pelos ombros dela e ambos sorriram para a foto. Tinha ficado muito bonita. Ele escreveu “dia de folga 💙” e postou nos stories.
– Você sabe que vamos ter que andar de mãos dadas na rua e no shopping, certo? – ela perguntou e ele assentiu. – Então vamos.
– Sim, senhora. – ele fez uma continência e os dois saíram.

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– Você pediu para fecharem a loja? – perguntou, incrédulo, e ela deu de ombros.
– Apesar de sermos os dois famosos, há uma diferença gritante na abordagem de fãs de futebol para os fãs de artistas. Nunca consigo comprar roupas se não fizer assim, infelizmente.
– Deve ser muito estranho ter uma loja apenas para você comprar o que quiser, atenção total de todo mundo. – ele fez uma careta e ela deu de ombros.
– É péssimo. Muita bajulação e puxação de saco, não gosto disso. Sou uma pessoa como qualquer outra. Mas é o único jeito de não causar tumultos e de eu conseguir olhar as coisas com calma para comprar. – ela respondeu, tirando o cinto, e prendeu o cabelo num coque, colocou os óculos de grau que usava e os dois desceram do carro, caminhando lado a lado até a loja, que ficava no segundo piso do shopping.
Conseguiram chegar à loja sem serem notados. Aparentemente, os fãs de futebol e os fãs de música pop não estavam passeando naquele dia. A bajulação de sempre com os astros e eles foram para a parte que interessava: fazer compras. E odiava ter que ficar experimentando roupas e exibindo-as.

, eu estou cansado de experimentar roupa e de desfilar pra você. Tenho a impressão de ter experimentado todas as roupas dessa loja. – ele resmungou de dentro do provador.
Ela estava sentada, esperando por ele.
– Para de falar e sai logo daí. – ela falou e ele resmungou antes de sair usando a milionésima peça de roupa. – Ficou ótimo.
– Você disse isso para tudo que me mandou vestir.
– Claro, porque eu tenho senso de moda, lindinho. – ela debochou e ele rolou os olhos. – E pensa, temos uma parte do seu closet refeito, falta pouco para alcançar o sucesso total.
– Você é chata. – ele resmungou e voltou para o provador.
Pelas suas contas, ainda tinha trinta combinações de roupa diferentes para fazer.

Saíram da loja um bom tempo depois e levavam uma porção de sacolas, colocaram no carro antes de voltarem à outra loja e repetirem o mesmo ritual de compra de roupas. Ele estava ficando sem paciência, odiava aquilo. Experimentou outro tanto de roupas e outras várias sacolas foram carregadas até o carro. Ele nunca havia comprado tantas coisas assim de uma só vez. Quer dizer, ela tinha comprado.

– Podemos ir? – ele perguntou, educado, e ela assentiu.
– Eu estou com fome.
– Vamos arriscar comer aqui?
– Sem chance. Conseguirmos fazer compras em três lojas que não estavam fechadas foi um milagre, não vamos ser mal-agradecidos com as forças divinas. – ela negou. – Podemos comer na sua casa.
– Por mim tudo bem. – ele deu de ombros, enquanto tomava seu lugar e colocava o cinto.
Ela fez o mesmo.
– Eu posso te fazer uma pergunta?
– Tenho o direito de não responder? – ele perguntou e ela assentiu positivamente. – Então pode.
– De quem foi a ideia? – ela perguntou e limpou as mãos nos shorts antes de ligar o carro e dar a partida.
– O Hugo e o já se conheciam, devem ter estudado juntos, não faço ideia. E quando surgiu essa conversa do Bayern não querer renovar comigo, comecei a ficar meio preocupado, porque depois das lesões as coisas ficaram complicadas. E Hugo disse que eu precisava atrair mídia, porque as pessoas têm memória curta e se esquecem muito fácil de jogadores, então se eu quisesse voltar para a seleção e que o Bayern me mantivesse, eu precisava atrair mídia. Envolver você foi uma ideia do Hugo, acho que tinha mencionado alguma coisa sobre como a mídia vinha sendo cruel com você sobre relacionamentos, e eles resolveram unir o útil ao agradável. – ele respondeu e ela assentiu. – Acho que você não gostou muito, né?
– O meu problema não é com você, longe disso, mas com essa ideia absurda de ter que agradar a mídia e arrumar um namorado apenas porque eles querem me ver namorando alguém, ou encontrar uma pessoa para ser “minha inspiração”. Duas das minhas músicas mais românticas foram escritas para os meus pais, mas ninguém acredita quando eu falo isso. Não vejo mal nenhum em te ajudar, ainda que eu não ache que eu vá conseguir que você volte para a seleção e que o Bayern renove com você, mas acho um absurdo que eu seja obrigada a ter um namorado ou alguém só porque sou mulher.
– Cobram-me namorada, porque sou jogador de futebol. – ele respondeu e deu um suspiro sentido. – E, infelizmente, em alguns momentos temos que ceder para conseguir viver nossos sonhos em paz.
– Conheço vários casais que são de contratos, alguns até tem química, outros são um verdadeiro desastre. E conheço um que deu certo e virou amor de verdade, mas não posso contar qual é.
– Espero que o nosso seja convincente.
– E se não der certo?
– Melhor tentar e não conseguir do que não conseguir por não ter tentado.
– Uau, frases prontas da internet. – ela brincou. – Temos bastante tempo para ver se funciona.
– Hugo está conversando com o Stuttgart. É muito provável que eu vá para lá.
– Sério? – ela perguntou e ele assentiu sem tirar os olhos da rua. – Não acho que o Stuttgart seja ruim, mas e as propostas de outros países? Eu li algo sobre um interesse do Liverpool.
– Olha, você está lendo coisas sobre mim? – ele brincou. – Mas isso não é oficial. Pelo menos não chegou nada para a gente.
– Entendi. – ela falou e pegou o celular na bolsa.
– E você vai embora hoje ainda?
– Não sei, acho que sim.
– Fica. O jogo é aqui esse fim de semana, você pode ir ao estádio ver o meu show.
– Olha, eu já te vi jogando diversas vezes, não é bem um show. – ela provocou e ele rolou os olhos, fazendo rir. – Mas é uma boa, vou avisar ao .

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– Eu não ia usar uma camisa do Schalke, sinto muito. – ela falou quando ele se aproximou, na saída do estádio, ao final do jogo.
Usava uma camisa da seleção alemã dele, literalmente dele.
– Eu sei disso. – ele riu.
– Bom jogo.
– Obrigado. – ele sorriu, agradecido.
– Vamos comer alguma coisa? Estou com muita fome.
– Estranho seria se não estivesse. – ele riu e ela rolou os olhos.
– E preciso ir pra Düsseldorf hoje ainda.
– Por quê? – ele perguntou, curioso, e os dois entraram no carro do jogador, ele no banco do motorista e ela no banco do carona.
– Porque minha vida acontece em Munique.
– Amanhã eu estou de folga, fica aí.
– Você está levando a sério demais esse namoro. – ela deu um sorriso debochado, enquanto ele dirigia para fora do estádio.
– Eu tenho dezoito meses, lembra? – ele falou num tom divertido.
– Dezoito meses para conseguir o que quer, não pr... – ela começou a dizer e ouviu seu telefone tocar. Quando o tirou da bolsa, arrependeu-se quase que imediatamente. Era o irmão. – Meine Liebe*! – ela fingiu uma animação inexistente
Meine Liebe um cacete, que história é essa que você estava na Veltins-Arena e que tá namorando o ?
– Eu estava vendo meu namorado jogar. – ela respondeu num tom óbvio e prestou um pouco mais de atenção na conversa, apesar de não saber quem era e nem ouvir quem falava do outro lado da linha.
Você está grávida? – ele perguntou, nervoso, e ela deu uma gargalhada.
– Não!
Então por que está namorando um jogador?
– Porque a gente não escolhe por quem vai se apaixonar, idiota. – ela respondeu e o irmão ficou em silêncio um amontoado de segundos antes de falar, dessa vez num tom mais calmo.
E quando você pretende trazê-lo para conhecer a família?
– Vamos comer agora e voamos para Munique. Avisa a mãe e o pai que vamos almoçar lá amanhã.
Nos vemos amanhã. – ele resmungou antes de desligar.
– Acho que podemos ir direto para sua casa. Vou ligar e pedir ao piloto para irmos a Munique ainda hoje. Chegou a hora de te apresentar para os meus pais.

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Sauerbraten mit Knödel: joelho de porco. A carne é bem macia e a pele por fora é crocante. Normalmente vem acompanhado de chucrute e batata.
Käsespätzle: macarrão caseiro beeeem fininho e servido com bastante molho de queijo e cebola frita por cima.
Meine Liebe: Meu amor


Capítulo 2


– Tem alguma coisa que eu preciso muito saber sobre eles? – perguntou, nervoso, quando saíam do apartamento de .
– Minha mãe provavelmente vai te bajular, meu pai vai lhe olhar torto e Davi vai querer atirar em você, mas ele não tem uma arma, e provavelmente eu sou mais forte que os dois, então pode ficar tranquilo, você não vai apanhar. Ambos amam o Bayern e cervejas, talvez isso ajude na conversa. E meu pai ama pescar. Eles não vão fazer nada para te deixar constrangido ou qualquer coisa do tipo, minha mãe pode ser que deixe, porque ela vai te bajular de verdade. Davi vai te olhar torto por um tempo, mas logo eles ficam normais. Eles fizeram isso quando levei meu ex-namorado em casa.
– Você já teve um namorado? – perguntou, surpreso, e assentiu.
– Nós namoramos quando eu era adolescente, bem no começo da minha carreira, e não deu certo.
– E você ainda gosta dele. – concluiu.
– Não mais. – deu de ombros, enquanto caminhavam até o carro que estava na garagem. – Eu gostei muito, foram tempos difíceis, mas já faz muito tempo que aconteceu e que eu não o vejo. Agora não faz diferença nenhuma.
– E alguma coisa aconteceu? – perguntou, tomando seu lugar no banco do carona.
– Sim, ele me traiu.
– Sinto muito.
– Por ele, só se for. – deu de ombros enquanto saía da garagem do prédio. – Na época foi horrível, chorei muito e achei que não sobreviveria, mas sobrevivi e muito bem.
Antes que pudesse falar alguma coisa, o telefone de tocou e ela atendeu pelo painel do carro.
, espero que você tenha uma explicação excelente para que sua melhor amiga não tenha sido a primeira a saber sobre seu namoro com .
– Oi, . – disse, rindo. – E fale oi para o também.
Por que você atendeu essa merda no viva voz? – a amiga perguntou, envergonhada. – Agora ele vai achar que eu sou doida!
– Eu já acho. – se pronunciou, rindo. – Finalmente é bom associar uma voz aos relatos e à imagem em algumas das fotos de .
Relatos? perguntou, curiosa, e o olhou de canto.
Contou pouca coisa sobre , ele não podia nem imaginar que a amiga é realmente doida.
– Ela me contou algumas histórias. – disse num tom divertido. – E espero que não seja um problema que eu seja o namorado dela.
Zero problemas quanto a isso, pode ficar tranquilo, . falou, educada. – O problema é que resolveu não me contar antes de deixar o mundo saber.
– Você está ocupada com os preparativos do casamento, não quis interromper.
Nem me fale nos preparativos desse casamento. falou num resmungo deprimido. – Você é uma péssima madrinha! Preciso da sua ajuda.
– Estou livre essa semana, meine Süsse* (meu docinho), e sou toda sua.
Espero mesmo.
– Acabei de chegar na casa dos meus pais, falamo-nos mais tarde.
Tudo bem. Tchau, casalzinho. desligou bem quando estacionou o carro.
A casa não parecia ser grande – e realmente não é – ainda que possua três andares. Ali, agora, moravam apenas os pais. e Davi foram criados naquela casa e passaram boa parte das vidas ali, o tamanho era ótimo para quatro pessoas, era ótimo para duas também.
Uma casa branca e as madeiras da cerca, dos telhados e das janelas eram escuras, quase pretas. A cerca era simples, reta, sem vãos e contornava a entrada da casa, deixando livre apenas a garagem. Havia grama, além de um pequeno jardim que parecia muito bem cuidado. As janelas frontais do segundo andar possuíam um suporte com flores, reparou. Era uma casa muito bonita e bem cuidada.
O caminho para a garagem e o curto espaço que a separava da entrada da casa são compostos por pequenos blocos de cimento postos lado a lado. A porta escura era um pouco mais larga que as portas convencionais, e os dois pararam sobre um tapete vermelho com um escudo do Bayern de Munique.
tocou a campainha e juntou as mãos com as dele antes que uma figura masculina abrisse a porta. Davi. Ele analisou de cima a baixo e depois de baixo a cima, parando demoradamente nas mãos juntas dos dois. Tinha uma garrafa de cerveja na mão direita, usava uma bermuda, camiseta e um boné virado para trás. E era do tamanho de .
– Você vai nos deixar entrar em casa ou vai ficar atrapalhando a passagem feito um idiota? – falou, soltando a mão de e abraçando o irmão da forma mais apertada que conseguiu.
– Entra logo. – Davi resmungou, abraçando-a de volta, dando um sorriso ao fazê-lo. – Vocês demoraram.
– É meio-dia agora, idiota. – falou, soltando-se do abraço, e virou-se para , que encarava a cena entre os dois irmãos. E parecia estranhamente familiar, porque ele e a irmã se tratavam da mesma forma quando se encontravam. – Davi, esse é . , esse é o Gremlin que meus pais acharam no lixo e pensaram que seria legal trazer para casa e ver no que daria, nós o chamamos de Davi.
– É um prazer finalmente conhecê-lo. – disse, educado, estendendo a mão, e Davi o cumprimentou.
– Agora seja educado e ofereça uma cerveja ao seu cunhado. – disse e Davi rolou os olhos. – Cadê a mãe e o pai?
– Cozinha. – Davi apontou e os três seguiram pelo corredor.
reparou que havia diversas fotos penduradas nas paredes do corredor pelo qual passavam. Fotos de e Davi juntos e separados, em atividades escolares, premiações, festas... os pais, outras pessoas. Havia um arranjo de flores também antes da entrada da cozinha. E quando entraram no cômodo, encontraram duas pessoas: os pais de .
O homem estava encostado ao batente da porta que dava para o quintal aos fundos da casa e era do tamanho de Davi, não parecia tão velho, apesar de ter alguns cabelos brancos espalhados pelos cabelos castanhos, estava de costas para a cozinha, tinha uma das mãos na cintura e observava alguma coisa no quintal.
A mulher era menor, devia ter pouco mais de um metro e sessenta, os cabelos eram loiros e estavam presos em um coque firme. Ela ria de algo que o homem tinha dito, enquanto lavava alguma coisa que não conseguiu ver o que era.
– Cheguei. – se anunciou e os pais se viraram na direção da voz dela.
era quase a cópia do pai, mas os olhos, tanto no formato quanto na cor, eram idênticos aos olhos da mãe. Ela abraçou a mulher de forma carinhosa, recebendo um beijo demorado no rosto, enquanto o pai de observava atenta e demoradamente. Ele também tinha uma cerveja em mãos.
– Finalmente! Achei que tivessem desistido de vir almoçar. – a mulher disse, dando outro beijo no rosto de e olhando-a demoradamente, segurando o rosto da mais nova entre suas mãos para analisar cada milímetro possível. Novamente, sentiu-se familiarizado, pois sua mãe fazia o mesmo todas as vezes que ele ia visitá-la. – Você está dormindo direito?
– Sim.
– Defina o dormir direito, . – a mulher a olhou séria e rolou os olhos antes de ir abraçar o pai, que a envolveu num abraço apertado que a fez soltar uma risadinha manhosa, enquanto se aconchegava ao carinho do pai. – Você vai começar a viajar pelo mundo de novo em breve, precisa dormir direito!
– Eu sei disso, Mama. E eu estou dormindo direito agora, porque finalizamos o álbum. E eu escrevi uma música para vocês. De novo. – falou, dando um sorriso para a mãe, mas sem se soltar do abraço do pai, e a mulher sorriu de volta.
– Fico esperando a minha música. – Davi reclamou em tom ciumento e o olhou de forma divertida.
– Eu já escrevi uma música para você, Davi, esqueceu? Aquela sobre o garoto idiota... – ela provocou e ele lhe mostrou o dedo do meio.
– E quem é esse rapaz bonito? – a mãe de , finalmente, virou-se para e deu um sorriso enorme ao vê-lo.
– Esse é o , mãe, meu namorado. – se soltou do abraço do pai e foi até , puxando-o pela mão até que ele se aproximasse mais da reunião familiar que acontecia ali e da qual ele tinha sido excluído. – , essa é minha mãe, Mia, e esse é meu pai, Thomas.
– É um prazer conhecê-los, senhor e senhora . – estendeu a mão para cumprimentar os dois.
A mãe de o olhava, encantada, o pai estava desconfiado, mas foi absolutamente educado.
– Pegue uma cerveja para ele, Davi. – Mia ordenou. – E não me chame de senhora, me chame de Mia. E ele é Thomas. Não somos tão velhos assim.
– Estávamos esperando vocês. – Thomas disse, sério, mas em tom educado e sem parecer rude. – Vamos colocar a mesa para almoçar.
– Qual o cardápio do dia? – Davi perguntou, curioso.
Sauerbraten mit Knödel e Käsespätzle. – Mia respondeu e deu um sorriso enorme ao ouvir aquilo.
Papa fez o Sauerbraten? – perguntou com um tom quase infantil pela descoberta do prato do dia e o homem assentiu, fazendo com que ela se virasse para antes de falar: – Prepare-se para mudar de opinião e considerar que esse é o melhor Sauerbraten mit Knödel que você vai comer na vida!
– Lavem as mãos. Seu pai e eu vamos levar para a mesa. – Mia disse, ainda olhando admirada para .
– Vão vocês lavarem as mãos. – apontou para os homens. – Vou ajudar minha mãe com isso. Só não matem o , por favor. Eu não tenho dinheiro suficiente para pagar ao Bayern se isso acontecer.
– Cala a boca. – Davi rolou os olhos e os três saíram da cozinha.
Mia agora tinha o olhar fascinado voltado para a filha.
Mama, para de me olhar assim. – resmungou.
– Bonitinho que seu namorado seja aquela sua paixãozinha adolescente.
– É, mas ele não precisa saber desse detalhe, Mama, por favor. – a mais nova resmungou, pegando a travessa com o Käsespätzle e seguindo até a mesa na sala de jantar.
Os pratos já estavam à mesa, faltava apenas levar a comida e o que seria bebido durante o almoço. As outras travessas foram levadas e os três homens se sentaram à mesa, as duas lavaram as próprias mãos antes de regressarem e sentaram-se para almoçar.
– E então, como vocês se conheceram? – Davi perguntou, curioso.
– Hugo e . – deu de ombros, enquanto se servia. – Hugo é o empresário de . Ele e são amigos da faculdade, acharam que seríamos um bom casal e nos apresentaram.
– Você deve estar bem feliz, kleine Schwester.
– Claro que eu estou feliz. Eu não namoraria alguém se não fosse para estar feliz com a pessoa, Arschloch.
– Olha os modos, mausi. – o pai a advertiu.
– Desculpa.
– Eu digo, você está feliz por estar namorando com ele, especificamente. – Davi provocou, dando um sorriso de lado.
– O que ele quis dizer com isso? – perguntou, curioso.
– Lembra que eu te falei mais cedo que quando o Davi fala a gente deve ignorar? Pois é. – respondeu, fuzilando o irmão com o olhar.
– Eu quis dizer que ela está muito feli... AI! Você me chutou? – Davi perguntou, bravo.
– Foi sem querer, kleiner Bruder. – ela disse, fingindo-se de sentida. – Desculpa.
– E há quanto tempo vocês estão namorando? – Mia foi quem quis saber.
Olhava encantada para , e ele estava mesmo ficando um pouco sem graça com toda aquela atenção.
– Acho que não tem nem um mês. – deu de ombros.
– É legal que você esteja namorando seu ídolo da adolescência, filha. – Thomas se pronunciou, fazendo Davi dar uma gargalhada exageradamente alta e soltar um resmungo.
– Ídolo da adolescência? – perguntou, sem entender o que o homem quis dizer com aquilo.
queria cavar um buraco e se enfiar lá.
– Chuta o pai também, . – Davi provocou e ela quis mandá-lo para cinco lugares diferentes, ainda que em outro idioma, mas não o fez em respeito aos pais que estavam à mesa também.
– Ela nunca te contou? – Thomas perguntou, surpreso. – Quando tinha uns dezesseis anos, ela era muito sua fã. Tinha pôsteres, camisas e tudo mais que pudesse e fosse relacionado a você e ao Bayern, mas nunca teve tempo hábil de ir conhecer os jogadores.
– Eu não sabia disso. – disse, reprimindo uma risada ao ver totalmente envergonhada.
– Quando ela começou a namorar, isso diminuiu, mas acho que não totalmente, pelo visto. – Mia falou, dando um sorriso para a filha, e Davi se segurava para não rir mais alto do que já vinha fazendo.
– Obrigada de verdade, gente. Agora ele vai encher o meu saco com isso para sempre! – resmungou, envergonhada. – E é exagero, eu não tinha pôster nenhum seu. Era uma foto que ficava colada ao lado de outras fotos dos jogadores do Bayern e da seleção.
– Com um monte de coraçõezinhos ao redor. E é mentira, porque não era só uma foto, eram várias. – Davi se pronunciou.
– Eu preferia que a mãe mostrasse fotos antigas embaraçosas. Seria menos vergonhoso do que isso. – resmungou e voltou a comer.
teve que se segurar para não rir da expressão desolada dela.
– Bom, eu não a conhecia pessoalmente, mas minha irmã é muito fã de desde o começo da carreira dela. Ainda tem pôsteres pela parede do quarto e tudo mais que é possível ter. Como nós morávamos juntos, posso dizer que eu também tinha pôsteres dela espalhados pelas minhas paredes. – falou, tentando amenizar a situação, e deu um sorriso para .
– Mas eles não eram seus. – David provocou.
– Vocês têm certeza que esse seu filho encontrado no lixo tem vinte e oito anos mesmo? – perguntou, rolando os olhos, e Davi lhe mostrou a língua.
– Mia, devo dizer, o almoço está fantástico. – mudou de assunto antes que os dois irmãos começassem uma discussão e acabassem jogando comida um no outro. – E, Thomas, excelente Sauerbraten mit Knödel. O melhor que já comi. Só não deixe minha mãe ouvir isso.
– Obrigado. – Thomas disse, dando um sorriso agradecido.
O almoço se seguiu, acompanhado de um Apfelstrudel com sorvete e creme. ajudou a mãe a lavar os pratos para colocar a conversa em dia com a mais velha, enquanto , Thomas e Davi conversavam animadamente na sala sobre pescaria, que era algo em comum entre os três. estava preocupada com tudo aquilo, não tinha a intenção de envolver a família naquilo, mas não tinha outra saída, porque eram namorados, e uma hora ou outra, os pais iam querer conhecê-lo. Ela também sabia que os pais não podiam gostar de , porque tudo não passava de uma grande mentira, e dali a dezoito meses aquilo acabaria, e ela não pretendia ficar ouvindo discursos saudosistas de seu namoro com seu ídolo da adolescência.
Os dois passaram o resto da tarde na casa dos pais de , conversando sobre várias coisas, e era quase noite quando finalmente foram embora, já que precisava voltar para Gelsenkirchen, afinal tinha de treinar no dia seguinte pela manhã. Despediram-se sem muita demora e prometeu voltar naquela semana, porque teria uma semana livre antes de gravar alguns vídeos e viajar para os Estados Unidos, onde faria três shows, além de gravar dois videoclipes, três programas de televisão e voltaria para casa, depois de um mês, para férias. Junto com as férias de .
– Minha fã, uh? – provocou, enquanto dirigia de volta ao próprio apartamento.
– Fatos exagerados. – respondeu sem olhá-lo e deu de ombros. – A camisa eu realmente tenho, quanto ao resto é mentira.
– Sei... – ele brincou. – Você vai me levar ao aeroporto?
– Vou. Você comprou a passagem? Eu não falei com o Mark e não sei se ele está lá e se o avião tem condições de voo.
– Comprei. – ele disse, assentindo positivamente.
– Então eu te levo. E vamos ficar um bom tempo sem nos ver, você sabe.
– É, você mencionou. E, sim, entendi bem que não devo postar mil fotos nossas e essas coisas, porque sempre fui muito reservado com a minha vida pessoal e assim continuarei. Alguns stories, quando você mandar, nada exagerado.
– Bom menino. – respondeu, dando um sorriso quando o olhou rapidamente antes de voltar sua atenção para a rua. – Que horas é o seu voo?
– Nove e quarenta.
– Temos tempo.
– Você viaja na outra semana ainda, certo?
– Sim.
– Preciso te levar até a minha casa, minha mãe vai querer te conhecer também, eu tenho certeza. E provavelmente a já deve ter falado muito sobre você e nosso namoro.
– Por mim tudo bem, a gente marca isso. – ela voltou a dar de ombros, colocando o carro em sua vaga habitual na garagem do prédio.
Os dois subiram em silêncio e ela seguiu o corredor até o próprio quarto, ele subiu até a parte aberta e observou a extensão da cidade que se iluminava aos poucos com o cair da noite. Sentia falta de Munique, não apenas do antigo time, mas da cidade em si. Era um lugar ótimo para morar, sua família e seus amigos estavam ali. Munique era um lugar fantástico e ele sempre amou tudo naquele lugar. Tudo.
Era péssimo estar sozinho agora, a maioria dos amigos estava em Munique, a mãe não podia ficar viajando o tempo todo, porque tem a própria vida na cidade, a mesma coisa também servia para sua irmã, com quem ele tinha acostumado a morar durante boa parte da vida. E esse é um dos inúmeros motivos de querer voltar para o Bayern, porque ali ele estaria perto das pessoas que ama, no lugar que ama e no time que ama. Não devia ter que sair de lá sem querer. Era feliz no Bayern, por que não podia continuar lá até se aposentar?
– Gostou da vista? – apareceu depois de um tempo. Usava uma calça jeans e uma camisa preta lisa. Os cabelos estavam molhados e ela os secava com uma toalha.
– É bem bonita.
– E inspiradora. – ela falou e parou ao lado dele. – Gosto de ficar aqui, me faz pensar bastante, e a maioria das músicas desse novo álbum saiu daqui.
– Posso lhe fazer uma pergunta? – ele perguntou sem olhá-la, ainda observava a cidade começar a acender-se para a noite.
– Tenho o direito de não responder? – perguntou e ele assentiu positivamente. – Então, sim.
– Você acha que foi “a escolhida” nessa história por causa dessa história de ser minha fã? – perguntou, mas ainda não a olhava.
– Eu tenho certeza absoluta que sim. Não acho que teria me deixado entrar nisso se fosse me prejudicar de alguma forma, mas tenho certeza que fui uma escolha proposital, não apenas pela mídia, mas porque eu nunca seria capaz de te prejudicar e jogar tudo isso no ventilador, caso eu me sentisse ameaçada ou sei lá o quê. Eu sairia como a vítima, vocês três sairiam como os vilões e eu acabaria com sua vida. Eu jamais faria uma coisa dessas. Nem por todo dinheiro do mundo eu seria capaz de prejudicar alguém, ainda mais se esse alguém for você.
– Obrigado. – agradeceu e se virou, olhando pela primeira vez desde que aquela conversa tinha se iniciado. – Tanto por aceitar entrar nessa história, quanto por não me cobrar nada.
– Se não der em nada, eu espero que pelo menos a amizade sobreviva.
– É, eu também. – disse, dando um sorriso fraco. – Ainda que seja bem estranho para as pessoas que ex-namorados sejam amigos.
– Ninguém precisa saber dos detalhes. – falou, dando um sorriso de lado. – E você deveria arrumar suas coisas, daqui a pouco preciso te deixar no aeroporto.
– Você vai fazer outro show aqui?
– Não. Agora só nos Estados Unidos, fico lá por um mês e volto. se casa, tiro férias, o álbum sai e eu começo a divulgação antes de viajar em definitivo para a turnê.
– Nós vamos namorar à distância, aparentemente. – ele disse num tom divertido.
– É. – ela riu. – Vamos namorar por fotos no Instagram.
– Mas você não vem para casa nenhum dia?
– Depois que os shows na Alemanha acabarem, eu não venho para cá antes do Natal. – falou e suspirou. – Mas vou mandar uns ingressos para você ir a alguns shows quando estiver desocupado. E, provavelmente, você vai comigo em algumas premiações, se estiver disponível.
– Você vai estar aqui em dezembro?
– Acho que sim, por quê?
– Jantar de fim de ano do clube. Seja lá qual for. Todos os clubes têm isso. – ele deu de ombros. – Se você estiver por aqui e quiser ir, seria legal te levar como acompanhante.
– Se eu estiver aqui, vou com o maior prazer. – ela sorriu.
– Vou arrumar minha grande bagagem que se resume a uma mochila. – ele riu.
– Vamos precisar comprar um terno bem bonito para você.
– Vamos?
– Sim. Você vai ao casamento da comigo.
– Quando você quiser. – ele disse e deu um sorriso simpático, saindo de perto de e descendo até o quarto em que tinha ficado.
Ela ainda ficou ali um tempo antes de descer as escadas e encontrar na sala.
– Você já está pronto? – ela perguntou, aproximando-se e ele assentiu. – Falta uma hora para o seu voo sair. Você já fez o check-in pelo celular?
– Fiz. – ele disse e a olhou.
Ela se sentou ao lado dele.
– É muito estranho tudo isso, você não acha?
– Só na frente das pessoas. – falou, dando de ombros. – Quando somos apenas os dois, não precisamos fingir nada. Podemos ser amigos.
– Podemos.
– Principalmente porque você tem um videogame e uma prateleira cheia de jogos. – ele brincou. – Será que dá tempo de uma partida de FIFA antes de ir?
– Duvido que vamos jogar uma só. – ela disse, rindo, e se levantou, indo até a prateleira e pegando o FIFA 2017. Ele já tinha ligado a televisão e ela se preocupou em ligar o videogame, e os dois se sentaram lado a lado. – Já está preparado para o mundo inteiro saber que você é meu pato?
– Coitada de você. – ele riu.
– Eu vou jogar com o Bayern.
– E eu com o Real Madrid.
– Você vai perder. – ela afirmou, enquanto colocava a partida para começar.
– Ninguém ganha de mim, . Eu sou invencível.
– Era. Até passar daquele elevador para cá. – ela piscou. – E eu vou te filmar nos stories e espalhar para o mundo inteiro que você é meu pato.
– Você não tem tanta sorte assim. – ele provocou enquanto jogavam e logo ficaram em completo silêncio.
Silêncio que durou até ele fazer o primeiro gol e dar um grito em comemoração, ficando de pé e erguendo os braços.
– Cristiano Ronaldo! SIIIIIIIIIU! – ele provocou.
– Eu vou virar.
– Claro que vai. – ele riu.
E ela virou.
Dois gols de Robben e ela gritou tanto que parecia que aquilo valia um título de Liga dos Campeões de verdade. Ele ria da reação exagerada e ela fez realmente um vídeo para postar no Instagram zoando o rapaz.
– Anda logo, você vai me fazer perder o voo. – ele disse, enquanto ela estava filmando.
– O que você tem a dizer sobre sua derrota? – provocou.
– Que foi sorte de principiante. – ele deu um sorriso debochado.
– Dá um tchauzinho para cá, gracinha. – ela provocou e ele rolou os olhos. – Meu pato.
– Anda logo, você vai me fazer perder o voo. – repetiu, rindo, e ela riu, publicando o vídeo.
– Vamo logo então. – ela falou e ele se pôs de pé, pegando a mochila no outro sofá e os dois desceram, enquanto ainda o provocava.
– Semana que vem tem troco. – ele resmungou e ela riu.
– Sonha. – disse quando entraram no carro.
Assim que afivelaram os cintos, ela deu partida e eles seguiram para o aeroporto, enquanto o alfinetava pela derrota no jogo e ele ria da empolgação com que ela comemorava. Ela deixou o carro no estacionamento e eles seguiram lado a lado, rindo.
– Acho que os stories não foram uma ideia muito boa. – ele resmungou quando avisou alguns fotógrafos que pareciam estar esperando pelos dois, mas ainda não os tinham visto.
Ela suspirou e passou o braço pela cintura dele e o fez abraçá-la pelos ombros.
– Aja naturalmente. – ela murmurou enquanto caminhavam.
Quando entraram no saguão, as presenças foram notadas pelos fotógrafos e os flashes começaram. O voo, felizmente, sairia em alguns minutos e ele não demoraria ali.
– Ei, casal, deem uma olhada para as fotos. – um dos fotógrafos pediu, mas eles não se viraram.
– Precisamos nos abraçar. – ela falou entredentes e estava virada de frente para ele e de costas para os paparazzi, apenas o envolveu com o outro braço e ele a abraçou, quase da forma como o pai dela havia feito mais cedo. – Nos vemos no fim de semana?
– Se você quiser ir para Gelsenkirchen me ver essa semana, pode ser antes. – ele falou, soltando-a minimamente para olhá-la nos olhos.
Um dos fotógrafos estava próximo, ouviria aquilo.
– Não posso garantir, porque preciso mesmo ajudar a com os preparativos do casamento. – ela fez uma careta e ele sorriu.
A primeira chamada do voo aconteceu e ele deu um sorriso de lado.
– Falamo-nos quando eu chegar em casa. – ele falou e ela assentiu.
– Boa viagem. – ela disse, dando em um selinho e um sorriso em seguida.
– Só isso? – ouviram um dos paparazzi falar.
A segunda chamada do voo. Ele se afastou, rumando ao portão em que seu avião sairia e ela nem mesmo se deu o trabalho de ouvir o que os paparazzi diziam, apenas deu meia volta e seguiu até seu carro. Aquelas fotos não demorariam a circular pela internet, ela sabia.

-x-


– Eu quero te dar um soco! – disse, séria, e a olhou, assustada.
Tinham terminado de escolher a decoração, cores, flores, pratos e tudo mais para o casamento, depois de uma semana de trabalho intenso na organização do evento.
– O que eu fiz?
– Estava enfiada naquele estúdio trabalhando! Eu não consegui fazer nada desse casamento e você pensou em TUDO em menos de uma semana! – a mulher disse num tom exasperado e gargalhou, esticando-se no sofá.
– Você está surtando porque vai casar, eu não. Eu consigo pensar tudo e combinando com seu vestido, com os das damas, local, a paleta de cores que você escolheu... – riu. – E você pode relaxar, porque está tudo feito e combinado. Agora é apenas esperar pela despedida de solteira, o jantar de ensaio, o SPA, prova de vestidos e do terno do Ian.
– Eu fico muito agradecida que você seja minha madrinha, porque você pensou em tudo bem rápido e me ajudou demais, mas vamos falar do que interessa. Quero saber essa história toda de namoro com o seu crush da adolescência.
, nós estamos um tanto velhas para usar essa palavra. – disse, rolando os olhos. – Não há muito que ser dito e... Bom, preciso te contar uma coisa, mas você tem que prometer que nunca vai contar nada para ninguém.
– VOCÊ ESTÁ GRÁVIDA? – gritou, assustada, fazendo gargalhar e se sentar no sofá.
– Não. – ela disse, ainda rindo. – Se eu estivesse grávida, em breve o mundo inteiro ficaria sabendo.
– É, isso é.
– Mas é sério. Não vou conseguir mentir para você, e preciso que você guarde segredo eternamente.
– Ai, meu Deus... – se ajeitou no sofá e encarou .
e eu não somos um casal de verdade. É um contrato, porque ele quer voltar para o Bayern e para a seleção e precisa de mídia. E, aparentemente, eu fui a melhor opção. é amigo antigo do empresário dele e eles tiveram essa ideia.
– Como é que é? – parecia mais em choque ainda. – Então é mentira?
– É. – suspirou. – Eles acham que, por eu ter muita mídia, vou levar os holofotes para . A parte boa é que eu entro em turnê em breve, então não vamos passar muito tempo juntos, só vamos postar fotos falando que estamos sentindo falta um do outro e essas coisas. Quer dizer, eu né, porque ele não posta nada da vida dele, e se começar a fazer isso do nada, as pessoas vão desconfiar. Sou apenas um trampolim e um holofote para que ele ressurja, uma coisa bem fênix mesmo.
– Por quanto tempo?
– Um ano e meio a contar de quando assumimos, então faltam dezessete meses.
– Você sabe que dezoito meses e um ano e meio são coisas diferentes, certo?
– Sei, senhora minha advogada. – falou e soltou um suspiro, jogando a cabeça para trás, desviando os olhos de e encarando o teto. – E o problema é que essa proximidade toda não vai dar muito certo. Bom, pode dar algumas boas músicas, mas fora isso não acho que vá dar certo. Infelizmente, eu acho que não era só um crushzinho. E ele é gay, não vamos ter nada nem que eu queira muito.
– Eu vou matar o ! Onde já se viu? Isso não é coisa de se fazer! Ainda mais que ele sabe disso tudo!
– NÃO! – disse num rompante. – não pode nem sonhar que você sabe. Você vai ter que fingir que não sabe, que acha que somos o novo casal do futepop e que nos ama muito.
– Vocês acordaram alguma quantia em dinheiro? Por que esse contrato nunca chegou até mim?
– Não. E não é escrito, foram termos verbais. Não dá para correr o risco de redigir e isso cair na mídia.
– Eu sinto muito, . – abraçou a amiga. – Se eu pudesse, eu mataria o , mas não posso. E quero que você me apresente seu namorado, em todo caso. Sendo ele de verdade ou não.
– Ele é muito educado e fofo, apaixonável, eu diria, mas gay, e isso é fora do meu alcance.
– De onde você tirou que ele é gay? Ele falou?
– Não, mas nem precisa. – deu de ombros. – Está muito na cara.
– Eu não acho que seja, em todo caso, mas se você diz... – fez um carinho no cabelo da amiga. – Sabe, acho que devíamos sair para nos divertir.
– Não posso sair hoje, vou jantar com minha digníssima sogra.
– Vocês enfiaram suas famílias nisso?
– Não tem como ser diferente, . Eles não sabem. – ela suspirou. – E preciso ir, precisa de um terno para o seu casamento, e eu ainda tenho que ir para a casa da mãe dele.
– Espero que ele fique bonito.
– Claro que vai, eu estou refazendo o guarda-roupa dele, tanto que ele está bem menos largado agora.
– Isso é mesmo.
– E ainda tenho que fazer malas para viajar. – ela resmungou. – Mas volto para a última prova dos vestidos e a sua despedida.
– Ainda bem, porque você é quem vai garantir nosso acesso a qualquer lugar nessa cidade. – disse, rindo.
– Pela primeira vez na vida, minha fama vai servir de alguma coisa para você, olha que emocionante. – falou, rindo, e fez rir junto. – Falamo-nos depois.
– Depois você me conta sobre esse jantar.
– Com certeza. – se pôs de pé e as duas se despediram com um abraço.
tinha mandado uma mensagem, encontrariam-se na entrada da loja, e ela apenas dirigiu até lá, ligou para e pediu que mandasse os seguranças, porque ela sabia muito bem como as coisas ficariam. Ele estava esperando à porta, usava uma touca preta, uma blusa preta e uma blusa de frio também preta e calça jeans, claro, preta.
– Achei que você tivesse desistido. – ele deu um sorriso de lado quando a viu.
– Eu estava montando um casamento inteiro e agora vim salvar sua vida. – ela disse num tom divertido. – E vamos entrar nessa loja logo, antes que isso se torne impossível.
– Vou entrar e sair de muitos ternos hoje, né? – ele fez uma careta e ela assentiu.
– E vamos levar alguns, além de umas outras roupas. Inclusive, parabéns pela escolha de hoje, está ótimo. – ela sorriu e abriu a porta da loja, entrando e sendo seguida por ele.
– Eu estou todo de preto, .
– Pois é, preto nunca é um erro. E realça seus olhos. – ela sorriu.
– Boa tarde! – uma vendedora disse, animada, aproximando-se dos dois. – Posso ajudá-los a encontrar alguma coisa?
– Eu espero que sim. – sorriu e soltou um resmungo, derrotado.
Não teria chances de discutir roupas com ela. Nunca.

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– Vai jogar videogame, eu vou me arrumar para ir jantar com sua mãe. – disse quando entraram em seu apartamento. – Treina bastante, porque amanhã eu vou acabar com você.
– Vou te deixar pensar que sim. – ele riu.
– Prepare-se para mais stories, porque você vai tomar um banho no FIFA. – ela piscou. – E falando em banho, você não vai tomar banho?
– Não, primeiro porque eu tomei banho antes de ir te encontrar praquela sessão de tortura interminável; segundo, porque minhas coisas estão na casa da minha mãe. Se você quiser que eu saia usando alguma coisa sua, aí pode ser que eu tome um banho. – ele disse, rindo.
– Então espera aqui, vou me arrumar e já volto.
– Não é como se eu tivesse muita opção, em todo caso.
– Tem, você pode ir andando até lá. – ela sorriu, debochada.
– Eu não gosto de você. – ele falou, fingindo-se de sério, mas acabou rindo.
– O problema é todo seu, meu querido. – ela piscou e ele deu uma gargalhada.
– Isso que eu chamo de autoestima.
– Cala a boca, vamos sair atrasados por sua causa. – ela falou antes de sair da sala, mas o viu rolar os olhos.
tomou um banho demorado, estava cansada, porque e ela tinham realmente trabalhado duro para organizar todos os detalhes do casamento postergados por tanto tempo, já que a noiva estava atolada de serviço e a madrinha estava tão ocupada quanto. Por sorte, conseguiram fazer tudo que precisavam para o casamento, que seria dali a pouco mais de quarenta dias. Sorte, no caso, chama-se “ser mundialmente conhecida e as pessoas amarem te bajular por isso”.
A maior dúvida de naquele momento era o que vestir para ir jantar com a família de . Não queria causar má impressão. Vestiu uma calça jeans skinning preta, de cintura alta, e encarou as blusas do closet. Não queria ir muito desleixada, mas também não podia ir produzida, parecendo que estava prestes a ganhar um Grammy. Se fosse toda de preto, podia ser mal-interpretada, assim como se fosse muito colorida.
Colocou uma blusa cinza de mangas compridas e que batia na metade de suas coxas, um pouco mais grossa pelo frio inexplicável que fazia em Munique naquele dia, uma jaqueta jeans de lavagem clara e uma bota marrom de cano curto e com um salto pequeno de madeira. Prendeu o cabelo num rabo de cavalo, fez uma maquiagem simples e leve, colocou um colar grande, pegou uma bolsa para colocar a carteira, chaves, outra blusa de frio e o celular, e voltou para a sala.
Ele estava sentado, concentradíssimo no jogo, com a boca aberta enquanto mexia os dedos pelos botões, e nem mesmo percebeu quando ela chegou ao cômodo.
– E aí, vai ficar jogando ao invés de irmos comer? – ela perguntou e ele desviou a atenção do jogo para a mulher.
– Vamos. Minha mãe deve estar esperando-nos. – ele se pôs de pé e desligou a televisão.
– Somos apenas os três?
– Não. vai levar aquele babaca que namora com ela. – ele rolou os olhos.
– Qual é a da implicância com ele?
– Ele é um otário.
– Ciúmes, entendi. – disse, rindo, e os dois saíram do apartamento. Uns andares abaixo, o elevador parou e um dos vizinhos de , que nunca a cumprimentava, entrou e ficou encarando os dois descaradamente, só parou quando desceu na portaria e eles continuaram no elevador até a garagem. – E então, devo saber algo sobre sua mãe?
– Só que ela é ótima. – ele sorriu, afivelando o cinto. – E provavelmente vai contar para você sobre seus pôsteres que a tem.
– É muito difícil ser fã nos dias de hoje. – resmungou enquanto tirava o carro da garagem.
dirigiu, seguindo as orientações de , até que chegaram à casa. Era uma casa muito bonita, diferente da casa dos pais de , era ampla e tinha um espaço grande entre a cerca e a porta de entrada. Ela estacionou à frente da casa e os dois desceram.
A cerca branca e a grama verde fizeram-na lembrar das casas de filmes, era como se aquela casa tivesse saído diretamente de algum filme e ido para Munique. A casa é amarela, mas não um amarelo berrante, um amarelo claro e discreto, o telhado era cinza e as portas e janelas, brancas. Um jardim no canto, muito bem cuidado, e que com toda certeza dava muito trabalho para estar tão bonito naquela época do ano. Parecia a casa da Barbie.
Os dois pararam em frente à porta e ele tocou a campainha, estendendo a mão para e ela entrelaçou os dedos aos dele. A porta não demorou a ser aberta por , que deu um sorriso ao ver os dois. Cumprimentou com um abraço e um beijo no rosto e deu um abraço no irmão.
– Que cheiro gostoso. – falou quando entrou na casa.
– Eu te falei, minha mãe é a melhor. – deu um sorriso, que morreu assim que viu o cunhado aparecer no hall e dar um sorriso para ele.
– Ah, finalmente vocês chegaram. – Höward disse e olhou demoradamente para .
– Alguém ficou jogando FIFA e esqueceu que tínhamos que sair. – provocou . – Talvez agora ele aprenda a jogar e consegue me vencer.
– Você teve sorte, já falei.
– Reconheça, eu sou melhor que você. – ela voltou a provocá-lo.
– Eu ganho dele no FIFA, ele é realmente péssimo. – entrou na brincadeira e rolou os olhos.
– Você ganhou uma única vez, e porque eu deixei.
– Se isso é o que te faz colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo, tudo bem. – disse, rindo. – E vamos comer, eu estou morrendo de fome. E a mãe fez aquele risoto maravilhoso.
– Ela não tinha dito que ia fazer ravióli? – perguntou, confuso, enquanto caminhavam até a cozinha.
reparou nas fotos pelas paredes; e em uniformes de futebol e quimonos, roupas comuns, fotos de escola, além de fotos com os pais, sozinhos e juntos. Os dois pareciam ser bem amigos desde pequenos, ainda que a diferença de idade fosse razoável: seis anos. E talvez isso explicasse o ciúme de pela irmã.
– Chegamos. – disse, entrando na cozinha.
A mãe estava arrumando a mesa e já havia colocado a travessa de raviólis por lá. Ela ergueu os olhos e deu um sorriso ao ver os dois juntos. reparou como se parecia com ela, ainda que fosse muito mais parecido com o pai, os traços da mãe estavam bem presentes nele. A mulher caminhou diretamente até , já que havia visto o filho mais cedo, e a abraçou.
– É um prazer conhecê-la, finalmente. – a mulher sorriu quando soltou-se do abraço. – Meu nome é Helga.
– Muito prazer, eu sou , mas me chame de , por favor.
disse que você gosta de comida italiana, fiz ravióli especialmente para você. – a mulher sorriu.
– Não era risoto? – perguntou, confusa.
– Tapada. – a deu um tapa na testa e a irmã o beliscou.
– Parem com isso, vocês dois. – Helga disse, séria. – O que vai pensar sobre nossa família se vocês ficarem implicando um com o outro assim?
– Vou pensar que todos somos iguais. – deu um sorriso. – Meu irmão e eu somos do mesmo jeito.
– Temos que lavar as mãos antes de comer. – se pronunciou. – Vem, .
– Com licença. – ela pediu e saiu com pelo corredor até o banheiro que ficava algumas portas à frente. – Que cara é essa?
– Eu detesto esse namorado da . – ele resmungou, enquanto lavavam as mãos no banheiro do corredor. – E ele está olhando para sua bunda descaradamente. Não está nem mesmo tentando disfarçar e na frente da minha irmã. Ele é um otário.
– Relaxa. – ela sorriu, secando as mãos e ele fez o mesmo. – Vamos jantar e logo isso acaba.
– Tudo bem. – ele resmungou e os dois voltaram para a cozinha.
O jantar foi tranquilo, a mãe de fez basicamente as mesmas perguntas que os pais de , sobre como tinham se conhecido, desde quando estavam juntos e coisas típicas de pais quando os filhos levam os namorados até suas casas para serem formalmente apresentados.
e Höward também participavam da conversa, e reparou como o homem a olhava. Nojento. , como se tivesse percebido, puxou-a para mais perto e ela se encostou nele. Não era possível que não tivesse notado que o namorado estava agindo daquela forma.
Comeram um pudim de leite condensado de sobremesa, e resolveu ajudar a sogra com a louça. Mandou para a sala com o cunhado e a irmã, e as duas ficaram sozinhas na cozinha. Por um tempo, ficaram em silêncio, lavava os pratos e Helga os enxugava e guardava.
– Você gosta dele mesmo? – Helga perguntou e se virou para olhá-la.
A mulher tinha um olhar ansioso, de uma mãe excessivamente protetora e que queria resguardar o filho de todo mal.
– Gosto, sim. – sorriu de lado.
Não era mentira, em todo caso, afinal.
– Desde que o pai deles morreu, se tornou um menino muito fechado e retraído, o futebol é a única coisa que o faz relaxar e se soltar. E essas lesões todas também o tornaram tão mais fechado e o entristeceram tanto... Logo depois ele teve que se mudar, saiu do clube do coração e perdeu espaço na seleção. Não quero que meu filho sofra mais, por favor, não o magoe. – Helga disse, séria, e assentiu, dando um sorriso leve para a mulher.
– Não tenho essa pretensão. E espero que eu consiga fazê-lo feliz.
– Eu também. E fico muito feliz que, finalmente, ele tenha aberto o coração de novo. E espero que ele nunca mais o feche, vocês formam um casal bonito.
– Obrigada. – agradeceu, dando um sorriso, mas tinha o coração na mão.
Ninguém tinha medido exatamente as consequências daquele contrato. Era uma granada que feriria muita gente quando explodisse.

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meine Süsse – meu docinho
kleine Schwester – irmãzinha
Arschloch – imbecil
kleiner Bruder – irmãozinho


Capítulo 3


– Acorda, vamos desembarcar. – sentiu sacudi-la de leve e soltou um resmungo.

tinha demorado uma eternidade até conseguir dormir no avião e sabia que não poderia continuar seu sono quando chegasse ao hotel em Los Angeles, local da primeira gravação.
Naquela viagem aos Estados Unidos, ainda iria a San Francisco e Las Vegas para gravar os outros dois videoclipes. Faria três shows: um em Denver, um em Miami e um em Dallas, voltaria à Califórnia para gravar The Ellen Show e voaria para Nova York, onde gravaria programas com Jimmy Fallon e James Corden, além de um pocket show, resultado de uma promoção de uma rádio local, e voltaria para a Alemanha. Era cansativo só de pensar.
O desembarque foi tranquilo, tirou fotos com fãs que estavam por lá, além de alguns fotógrafos que costumeiramente fazem plantão em aeroportos e quem chegar é o “sortudo” de ser fotografado, mas foi bastante tranquilo. Seguiram rapidamente até o hotel, deixaram as coisas e tomaram café da manhã antes de irem para o local em que gravariam algumas partes do primeiro videoclipe, que era um dueto com um cantor americano.
Passaram o dia em gravação, parando algumas vezes para acertar detalhes de filmagem e roteiro, uma pausa rápida para o almoço e depois retornaram a todo vapor. Voltariam no dia seguinte, e em todos os demais dias daquela semana, trabalhariam pesado e tentariam terminar tudo dentro daquele prazo.

– Eu dormiria por cinco dias inteiros se eu pudesse. – resmungou enquanto subiam de elevador até o andar em que estavam hospedados.
– Mas não pode. Você tem que estar pronta para sair às oito da manhã. – disse sério e resmungou quando a porta do elevador se abriu, revelando o corredor amplo e vazio.
Não teria oito horas de sono, mas como o dia havia sido realmente produtivo, não demorariam todos os dias daquela semana para gravar todo o videoclipe e revisá-lo, então, provavelmente, conseguiria descansar durante todo o fim de semana, se não surgisse nenhum compromisso de última hora arranjado por .
O celular tinha sido esquecido o dia inteiro, não teve tempo para olhar nenhuma notificação de redes sociais. Não receberia ligações, porque o celular não funcionava ali, mas o Wi-Fi era suficiente para conseguir falar com os pais e amigos. Se é que teria tempo de fazer isso durante aqueles dias.
Despediu-se de com um abraço e caminhou preguiçosamente até seu quarto, indo direto para o chuveiro. O banho quente era uma tentativa de relaxar os músculos e tornar o ato de dormir mais fácil, mas nem mesmo teria tempo hábil para aproveitar seu sono. Ainda que com fome, ela se jogou na cama de roupão e apagou quase que imediatamente.

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– Podemos refazer? Não gostei desse take. – pediu ao diretor enquanto assistiam ao que tinha sido gravado.
– Qual o problema?
– Não enquadrou bem, o ângulo não ficou bom. E, se você prestar atenção, aqui no canto – ela apontou. – dá para ver a outra câmera. Ficou parecendo os meus primeiros vídeos que eu fazia em casa antes de ser famosa.
– É mesmo. – o homem resmungou, observando atentamente o que tinha dito. – Vamos refazer.

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– E então, como anda o namoro? – Hugo perguntou a .
Os dois passaram o dia todo jogando videogame e conversando, como os bons amigos que sempre foram, mas mal tinham tempo para sê-lo daquele jeito nos últimos tempos.
– Ótimo. – respondeu, dando de ombros, e Hugo riu. – Ela viajou tem uns quinze dias, só sei que está viva porque tem postado algumas fotos e eu curto e comento algumas, conforme manda o nosso contrato e a dica dela sobre não comentar tudo para não dar bandeira.
– Ela entende de marketing, no fim das contas. Eu espero que isso dê resultado.
– Eu também espero, porque tivemos que nos apresentar para as famílias um do outro. – falou e Hugo o encarou, surpreso. – Eu imaginei que sua cara seria essa, duvido que vocês tenham pensado nisso quando tiveram essa ideia incrivelmente louca e estúpida.
– Realmente não pensamos, até porque vocês estão bem grandinhos para ficarem se apresentando para a família e essas coisas. Mas logo acaba, vocês têm prazo de validade.
– Só espero que isso renda seleção e minha volta para o Bayern.
– Você está recuperado e jogando bem, então não tem motivos para isso não acontecer. E eu preciso ir, tenho um encontro.
– Eu desejaria sorte, mas você não é o tipo de cara que precisa disso. – falou, fazendo Hugo rir antes de trocarem um abraço e o amigo ir embora, deixando-o na companhia apenas de seu cachorro.
O celular soou em notificação e, quando a tela foi desbloqueada, encontrou uma mensagem de .

: Esse é o link da entrevista pra Ellen, falei de você
Jimmy e James saem essa semana, te mando depois
Ela vai postar no perfil do Instagram e nos marcar, só curtir e comentar um coração, já tá ótimo
Enfim, preciso passar o som pro show
Nos falamos depois

abriu o link enviado e se deitou no sofá, segurando o telefone para assistir ao vídeo: uma entrevista de quinze minutos num talkshow muito famoso dos Estados Unidos e mundialmente conhecido.
E legendada.
Mentalmente ele agradeceu à por isso.

– Hoje nós vamos receber a cantora alemã que arrasta multidões para seus shows em todos os cantos do mundo. Dona de uma voz linda e de um talento incrivelmente absurdo. , pessoal. – Ellen disse e uma música de introdução tocou, aplausos e apareceu.
Estava com um jeans preto de cintura alta, uma camisa larga de flanela xadrez grosso azul-escuro com preto, com as mangas dobradas até os cotovelos e com a parte da frente dentro da calça e um sapato de salto alto, também preto, cabelos soltos e uma maquiagem muito bonita. As duas se sentaram em poltronas separadas após se cumprimentarem com um abraço.
– Fico muito feliz que você tenha vindo ao meu programa.
– Finalmente.
deu um sorriso.
– Você está no país para shows, certo?
– Certo, mas também vim gravar algumas coisas.
– Que tipo de coisas?
– Videoclipes.
– ela sorriu. – E alguns programas de televisão.
– Videoclipes?
– Ellen perguntou, surpresa, e assentiu.
– Sim. Meus fãs podem esperar boas novidades ainda para esse ano. – ela disse, sorrindo.
– E seu novo álbum está para ser lançado, não é?
– Isso. Lançamento mundial em quinze de agosto.
– E você não escolheu nenhuma música para lançar antes?
– Nós resolvemos fazer algo diferente dessa vez, e quando eu voltar para a Alemanha, vamos começar a divulgar o lançamento.
– Eu gosto muito do seu trabalho, você sabe.
– Ellen disse, sorrindo, e sorriu junto ao ouvir aquelas palavras. – E eu te acompanho nas redes sociais, você é bem ativa.
– Eu já fui bem mais ativa e interativa.
– E você está namorando.
– Sim.
deu um sorriso ao responder. Um sorriso iluminado, quase como se estivesse mesmo apaixonada, percebeu.
– E ele é jogador de futebol? Quer dizer, aquilo que vocês chamam de ‘football’, mas que na verdade se chama ‘soccer’.
– Ele é.
concordou, dando uma risadinha. – E realmente se chama ‘football’, joga-se com os pés.
– Você está errada.
– Ellen falou e riu. – Como é o nome dele?
. .
– E como vocês se conheceram? Porque você torce para outro time, não é?
– Ele jogou no meu time por muito tempo, o Bayern, mas não nos conhecemos nessa época. Fomos apresentados por amigos em comum, criamos uma amizade e agora estamos juntos.
respondeu e deu um sorriso.
– Vocês foram vistos algumas vezes pelas ruas e você postou alguns vídeos jogando videogame com ele. – Ellen disse e nesse momento algumas fotos apareceram na tela atrás das duas.
Os stories, fotos de paparazzi e uma que tinha postado nos stories há alguns dias, tirada no apartamento dela, ele estava sorrindo e ela fazia uma careta, entortando os olhos.
– E ele não conseguiu me vencer ainda, coitado.
– E como está sendo esse mês longe?
– Muito bom por tudo que eu estou fazendo, pelos projetos e gravações que estão sendo feitas, mas é péssimo estar longe dele.
– ela franziu o nariz ao falar, fazendo uma careta que considerou fofa, e a plateia soltou um sonoro “awn” ao ouvir. – Mas nos falamos todos os dias e, nas folgas que tive, nós jogamos online e ele ainda não ganhou.
– Você acha que ele está te deixando vencer?
– Não, porque ele é competitivo demais para deixar isso acontecer.
– Então, como eu disse, eu te acompanho nas redes sociais e percebi que você já tinha mencionado seu namorado diversas vezes antes desse romance começar.
– Ellen disse num tom risonho e arregalou os olhos, ficando vermelha.
– Não! Ai, meu Deus. Ai, meu Deus! tampou o rosto com as mãos, fazendo Ellen e a plateia gargalharem com seu gesto. – O dia que apresentei ele aos meus pais, eu passei vergonha, se ele assistir isso, nunca mais vai me dar paz.
– Mas você nem sabe o que é!
– Ellen disse, rindo.
– Eu faço uma boa ideia. resmungou, envergonhada.
No mesmo momento, apareceram alguns prints de tweets dela falando sobre ele. Tweets antigos, além de fotos que ela tinha postado no Twitter com os tais pôsteres que Davi tinha falado, fotos usando as camisas dele, do Bayern e da seleção. E riu bastante ao ver as caras e bocas que fazia ao ver as fotos passando no telão.
– Eu não faço a menor ideia da maioria das coisas que estão escritas, mas a julgar pelos emojis, você já tinha uma quedinha por ele.
– Mais ou menos isso.
resmungou, envergonhada. – Tá bom, chega.
– Mas é bonitinho. – Ellen falou, segurando o riso ao ver a expressão que tinha. Ela estava absolutamente sem jeito. – Ele era seu ídolo, e vocês agora estão namorando! soltou um resmungo em concordância, fazendo Ellen e a plateia rirem mais. – E como você tinha tempo de ir a jogos?
– Essas fotos são de antes de eu ter uma carreira e ser mundialmente conhecida. Eu terminei a escola e iniciei uma turnê, mas eu sempre acompanhei meu time, ainda que por links na internet e televisão. Cresci vendo meu pai e meu irmão serem torcedores fanáticos, aprendi com eles a amar o Bayern. Eu ia bastante aos jogos, ainda vou quando estou em Munique ou em algum país em que o time esteja jogando.
– Você esteve em um jogo recente do , é assim que se pronuncia?
– Ellen perguntou e ela assentiu. – E não usou a camisa do time, mas da seleção.
– Eu torço para o Bayern, não vou vestir outra camisa. Ainda mais uma camisa do Schalke.
disse, franzindo o nariz em careta. – Somos rivais e, bom, isso não vai acontecer. Como ele já esteve na seleção, usei uma blusa que agrada gregos e troianos.
– E por que ele não está mais?
– Ele sofreu lesões muito sérias, ficou muito tempo fora dos campos, passou por cirurgias e recuperações lentas e dolorosas. Vê-lo de volta agora é maravilhoso, porque ele realmente ama o que faz e o faz com toda sua alma e dedicação. Ele vem jogando bem e aposto que logo volta a ter espaço na seleção.
– ela disse num tom sincero.
– Já falamos demais dele, vamos falar sobre você, que é a minha convidada e de quem eu quero saber várias coisas e aposto que seus fãs também. – Ellen disse num tom espontâneo e fez rir da mudança. – Você gravou uma música com Smith recentemente.
– Ele é ótimo! Foi bem legal cantar com ele. Ele tem talento escorrendo pelos poros, chega a ser irritante como ele é absurdamente talentoso e fantástico, como cantor e como pessoa. Ele é simplesmente maravilhoso! Admiro o trabalho do há bastante tempo, nunca o tinha visto e nem o conhecia pessoalmente, mas foi ótimo.
– Eu fiquei sabendo que você é muito fã de John Mayer.
– Absolutamente!
disse, animada. – Tive a oportunidade de cantar com ele no ano passado e posso dizer que foi o melhor dia da minha vida.
– Vocês cantaram juntos num show dele?
– Em uma premiação em Nova York. Nós éramos duas atrações do evento, ele simplesmente apareceu na passagem de som e sugeriu que cantássemos juntos, disse que podia ser algo meu, mas cantamos “Edge of Desire”, uma música dele, que é uma das minhas favoritas, e foi ótimo. E ele me seguiu no Instagram nesse dia, curte minhas fotos, e eu fico igual uma louca quando isso acontece.
confessou, rindo.
– Acho que só precisa ter medo de um homem. – Ellen disse, rindo, fazendo a plateia e gargalharem.
– Talvez. – ela concordou, rindo.
– Você vai cantar para a gente?
– Vou.
– E o que você vai cantar?
– Pensei em cantar uma música do álbum passado, que escrevi para os meus pais. All About You.
– ela deu um sorriso ao falar, e automaticamente abriu um sorriso.

já conhecia e gostava muito do carinho de pela música, que costumava dizer que aquela era a sua música favorita. E tinha se tornado uma das favoritas dele também. achava a letra muito bonita e a voz de era realmente muito boa e perfeita para falar aquelas palavras.
Depois de cantar, as duas fizeram uma espécie de jogo, mas não considerou que aquilo fosse tão relevante, já tinha visto o que precisava e logo encerrou o vídeo.
Por estar sozinho e sem o que fazer, resolveu que importunar um pouco era uma boa ideia. Abriu o aplicativo do Twitter e começou a retweetar coisas antigas que ela tinha postado sobre ele e comentando as fotos dela usando suas camisas, tanto no Twitter quanto no Instagram. Enquanto fazia isso, ria imaginando que ela iria matá-lo assim que tivesse oportunidade, mas se não podia vencê-la no FIFA, deixaria-a irritada.
Ele procurou pelo user dela no Twitter, pesquisando o mesmo acompanhado de "", e acabou dando boas risadas de alguns tweets de fãs e de tweets dela, porque ao mesmo tempo em que dizia que o amava, estava xingando por algum erro nos jogos, tanto do Bayern quanto da seleção. E, claro, a atividade dele no Twitter deixou boa parte dos fãs dela agitados, interagindo, retweetando e favoritando as coisas também. E logo os nomes dos dois estavam no Trending Topics mundial.
fechou o aplicativo, abriu o Instagram e postou uma foto dela em um show da turnê passada nos stories, desejando um bom show e falando que estava sentindo sua falta, deixou o celular de lado e foi tomar banho. Ligou a televisão, ia assistir alguma coisa, qualquer uma, até ter sono suficiente para dormir.

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acordou com o celular tocando, abriu os olhos com dificuldade e o visor mostrava uma ligação via Skype e que eram quase quatro da manhã. . Devia ser importante, então ele atendeu como vídeo-chamada mesmo.

– AI, MEU DEUS! Eu esqueci do fuso! Me perdoa.
– Aconteceu alguma coisa? – perguntou, preocupado, esfregando os olhos e olhando para a tela do celular.
– Não. Só queria conversar com alguém. E acho que você seria uma boa, porque poderia me explicar o que diabos você arrumou naquele Twitter hoje!
– Eu estava entediado, precisava me distrair um pouco.
– Você é um idiota, isso sim. – resmungou.
– E como foi o show?
– Ótimo. Durou uma hora, foi num espaço pequeno, uma promoção de rádio e quarenta pessoas estavam na plateia, foi muito legal.
– E quando você volta?
– Na semana que vem. Vou a Chicago gravar uma campanha e conversar com uns produtores do álbum para mudar umas coisas.
– Mas o álbum não está pronto?
– Sim, mas eu quero uma opinião sobre arranjos e algumas outras coisas. E, talvez, mudar algo antes do lançamento oficial.
– Entendi.
– Desculpa ter te acordado, eu esqueci do fuso e você tem que acordar daqui a pouco para treinar. Vai dormir, eu também vou.
– Não vou rejeitar a proposta. – falou, dando um sorriso que a fez sorrir também. – Achei bem legal sua entrevista na Ellen. Você tem uma boa relação com as câmeras.
– Benefícios das aulas de teatro. falou óbvia, mas riu.
– E gostei muito da música que você cantou, até agora é minha versão favorita.
– Obrigada. Agora vá dormir, não quero você dando desculpas de estar com sono quando perder no FIFA para mim.
– Boa noite, . – se despediu antes de encerrar a ligação e voltar a dormir.

Tinham conversado bastante no mês em que ela tinha passado longe, ainda que tivessem que usar brechas de tempo e enfrentar um fuso horário para isso. Usaram os momentos livres para jogar online, e tinha de admitir, é realmente boa jogando videogame.
Os dois conversaram sobre séries e filmes, além de músicas. E, com todas essas conversas sobre assuntos aleatórios, a única coisa que queria era que, quando tudo chegasse ao final, a amizade entre os dois permanecesse, pois ele tinha percebido que é uma boa pessoa para conviver e para se ter amizade.
Se aquele contrato faria algum efeito para seu retorno ao Bayern e à seleção alemã, ele não fazia ideia, mas o número de seus seguidores em redes sociais e comentários em suas postagens, além de notícias sobre ele, tinham aumento exponencialmente depois de terem, oficialmente, assumido o namoro.

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– Minha filha me perguntou se você consegue um autógrafo da sua namorada para ela. – Lars, o motorista do ônibus do Schalke 04, disse quando viu saindo do treino.
Já era oficial que ele não continuaria no elenco para a próxima temporada, ele estava prestes a entrar de férias e a ficar desempregado.
– Consigo. – respondeu num tom simpático. – Ela chega de viagem na semana que vem, peço para ela e te entrego antes de viajar para Munique.
– Você não vai ficar mesmo?
– O time não tem interesse em me comprar, e o Bayern também não tem interesse na minha volta.
– E para onde você vai?
– Ainda não sei. Tenho uma proposta do Chicago Fire para jogar a MLS, Liverpool e o Stuttgart também têm interesse. Hugo está cuidando disso.
– Você é bom, filho, vai dar a volta por cima.
– Espero que sim, Lars. – falou e deu um sorriso de lado. Os dois trocaram um abraço e seguiu até o próprio carro. Quando estava prestes a ligar o carro para sair, o celular chamou e ele o pegou, percebendo que era uma solicitação de chamada de vídeo feita por . – Olá.
– Você precisa aprender a falar inglês. E a escrever em inglês, porque aquele seu agradecimento tem uns erros muito horrorosos.
– Oi, , tudo bem? – brincou e ela deu uma risada.
– Tudo melhor que seu inglês. E você?
– Tudo bem também.
– O Bayern não quis mesmo renovar?
– Não. Recebi uma proposta do Chicago Fire para jogar a MLS e tem uma, agora oficial, do Liverpool e outra do Stuttgart.
– E alguma delas é boa?
– Segundo o Hugo, a do Chicago é a melhor, mas ir para lá é pedir para nunca mais voltar para a seleção. A do Liverpool é boa, mas eu não teria espaço. A do Stuttgart é boa financeiramente, eu já joguei lá na base, então é um lugar que conheço e é aqui na Alemanha mesmo, vou ficar perto da família e dos amigos.
– Que horas é o seu último jogo?
– Sábado, às três e meia, horário local.
– Espero que seja um bom jogo. Não chego a tempo. Vou chegar só no domingo à noite. Desculpa.
– Não tem problema, . Nem sei se vou jogar.
– Tomara que sim. E que faça um gol, para eles ficarem bem arrependidos de não comprarem você.
– Não acho que um gol vá fazê-los mudar de ideia, mas obrigado. – agradeceu, rindo. – E como estão as coisas?
– Boas. Fiz alguns ajustes em algumas músicas, e agora sim meu álbum está perfeito.
– Ele já estava, . O lançamento ainda é o mesmo?
– Sim. Mesma data. Você está em casa?
– Não, eu estou saindo do treino, preciso começar a arrumar minhas coisas para viajar para Munique e depois para mudar.
– Então nem vou te atrapalhar, só queria saber se era verdade mesmo que o Bayern não quis renovar. Eu estou num SPA aqui e liguei enquanto espero o horário da minha massagem.
– Que vida boa. – brincou.
– Olha, eu estou destruída! Tive um mês intenso, eu mereço.
– Merece.
– E vou passar três dias fazendo detox, não sei para quê! Vou encher a cara de comida de verdade assim que sair daqui.
– Eu te espero com um balde de frango frito e cerveja. Além de um bom FIFA.
– Eu estou pensando em te deixar ganhar uma partida, porque já tá humilhação demais. provocou.
– Sem frango frito e sem cerveja para você. – respondeu de má vontade e ela deu uma gargalhada.
– Minha vez chegou! Nos vemos em Munique para dar um jeito nessa sua cara.
– Começou...
– Se você ousar cortar esse cabelo antes de eu voltar, vou te dar uma surra. E nem é no FIFA que eu estou falando.
– Tchau, . – disse, entediado, e gargalhou do outro lado, mandando beijos, e desligou.

Ele guardou o celular e ligou o carro para sair do centro de treinamentos, rumo à sua casa. Teria a última semana ali antes do final da temporada – que o Bayern venceu sem nenhuma dificuldade e quase vinte pontos à frente do segundo colocado – antes de estar, oficialmente, de férias e desempregado.
O Schalke terminará no meio da tabela, não vai à Liga Europa, tampouco à Liga dos Campeões, terá que se contentar em disputar competições nacionais na próxima temporada. Só restava a torcer para que na próxima temporada ele esteja visível e retorne para o lugar ao qual suas lesões o tiraram.

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– Foi um bom jogo, pena que você não jogou. – ouviu uma voz feminina quando estava passando pelo túnel de acesso aos vestiários e ergueu a cabeça, dando de cara com .
Ela sorria, ainda que estivesse muito cansada e ansiando por sua própria cama para dormir por horas a fio, tinha conseguido antecipar a volta para estar ali no último jogo dele, usando uma camisa azul (não a do time), mesmo que ele tivesse ficado na reserva e nem mesmo tivesse entrado em campo.
se perguntava como ela tinha conseguido chegar até o corredor que levava aos vestiários, mas no fundo ele sabia a resposta: Ela é . E isso abre todas as portas do mundo. Inclusive as que levam aos vestiários de um time.
– Empatamos com o vice-lanterna, . – falou, fazendo uma careta, e riu.
– Acontece.
– Parabéns pelo campeonato.
– Obrigada. E eu estou esperando meu abraço, a gente não se vê há um mês e você vai ficar parado, encarando-me feito um dois de paus? – ela falou, abrindo os braços, e só então se atentou para as vozes que começavam a ecoar pelo corredor, juntamente com os passos, anunciando que os outros jogadores estavam passando por ali.
Estava há um mês sem ver a namorada e nem perto o suficiente dela ele estava. encerrou a distância entre os dois e a ergueu num abraço que a fez rir.
– Bom te ver. Senti sua falta.
– Digo o mesmo. Você vai pra Munique comigo? – perguntou quando foi colocada no chão e o abraço foi separado.
– Vou para Gelsenkirchen com o time, minhas coisas estão lá. E o Petros. Mas viajo essa semana para Munique.
– Acho que vai ser difícil de te ver, porque os preparativos finais para o casamento da vão me consumir muito tempo. Preciso ir na última prova dos vestidos, despedida de solteira, jantar de ensaio, SPA, casamento... – ela disse num tom cansado que fez rir.
– Ah, preciso lhe pedir uma coisa.
– Fala.
– A filha do Lars, o motorista do nosso ônibus, é muito sua fã. Ela quer um autógrafo seu.
– Então me dá algo que eu possa assinar. – respondeu, sorrindo. – Você sabe o nome dela?
– Não, mas pergunto ao Lars. Você espera aqui.
– Claro que espero, não vou entrar para ver vocês tomarem banho. – falou, rindo, e rolou os olhos. – Vai logo.
– Você é muito chata. – falou, entediado, e riu, enquanto o observava seguir até o vestiário.
– A patroa veio te buscar? – Donis provocou, rindo.
– Só me ver. – respondeu, dando de ombros, e foi pegar o celular na mochila. – Preciso ir para Gelsenkirchen antes de sair de férias oficialmente. E ela tem uma semana e tanto antes do casamento da melhor amiga.
– Ela não tem nenhuma amiga solteira para me apresentar?
– Acho que não, mas posso perguntar. – respondeu sem olhá-lo, digitando a mensagem para Lars e o homem respondeu na mesma hora com o nome da filha. apenas trocou de roupa e saiu do vestiário, afinal não tinha jogado e nem suado estava. continuava esperando e parecia adorar o fato de estar sozinha. – O nome dela é Andie e ela tem doze anos.
– E o que eu vou autografar? – ela se desencostou da parede e olhou , dando-lhe um sorriso.
– Minha camisa? – perguntou em dúvida e ela assentiu.
– Preciso de uma caneta, . – ela deu uma risada quando lhe entregou a camisa e parou, esperando que ela a assinasse. Os companheiros de time começavam a sair do vestiário e logo ele teria que ir embora.
– Puta merda, onde eu vou arrumar uma caneta? E nem pode ser uma caneta comum, tem que ser aquelas... – gesticulou sem saber o nome e riu.
– Tem caneta normal e papel? – perguntou e negou com um aceno. – Algum dos seus companheiros de time, provavelmente, deve ter aquelas canetas de autografar camisa. Ou alguém do staff.
– Verdade. Espera aqui. – falou e lhe deu as costas, andando rápido até onde sabia que encontraria alguém do staff do time.
Conseguiu a tal caneta permanente e voltou o mais rápido que podia, estava fazendo um vídeo no celular e percebeu que era para Andie. Ela autografou a camisa e digitou algumas coisas no celular, fazendo o celular de vibrar em seu bolso.
– Mandei um vídeo para você passar para o Lars e ele passar para a filha. – ela sorriu.
– Você vem para Gelsenkirchen comigo? – perguntou e negou com um aceno.
– Eu estou mais perto de casa, preciso descansar e regular meu sono nesse fuso de novo. E nem fui em casa, desci no aeroporto de Munique e vim.
– Tudo bem, a gente se vê essa semana. – falou e assentiu positivamente.
– Boa viagem. – ela sorriu e lhe deu um abraço, seguido de um selinho e se virou, saindo do campo de visão de .
– Vocês passam um mês longe e mal se encostaram? – ouviu Donis falar enquanto se aproximava.
– Você queria que a gente se agarrasse no meio do corredor, cara? – perguntou, rindo. – Já estamos muito velhos para isso, Donis. O único adolescente aqui é você.

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– Você está maravilhosa. – falou quando viu na entrada do local em que seria o casamento de , um clube muito bonito e refinado. Ele teve de ir sozinho, pois fazia parte do dia da noiva e não poderia acompanhá-lo.
– Obrigada, você também está bastante bonito. Essa sua estilista é ótima, mande os parabéns. – brincou. – Mas a sua gravata está torta. – aproximou-se, ajeitando a gravata, e passou uma das mãos pelos cabelos dele. – Pronto.
– E então, quando vamos começar a beber?
– Ainda não, mas em breve podemos começar. – ela piscou e sorriu.
– Fico no aguardo.
– Nós devíamos ter começado a namorar antes, porque eu vou ter que dançar com meu ex.
– Vai dançar com seu ex? Mas por quê? – perguntou, confuso.
– Ele é irmão do Ian. E é o padrinho. As damas vão dançar com os outros, e eu, infelizmente, tenho que dançar com ele.
– Vai ser rápido. Faz isso pela sua amiga. Mas vocês já ensaiaram, como foi?
– Não foi. Eu não ensaiei com ele. Paguei um coreógrafo para me ensinar.
– A coisa foi feia assim?
– Ele me traiu. Um monte de vezes. E quando terminei com ele, depois de ficar sabendo, ele foi meio filho da puta comigo.
– Como assim?
– Não sei se quero falar sobre isso. Não agora, a poucos minutos do casamento da minha melhor amiga e tendo que conviver com ele tão de perto assim.
– Quando você se sentir à vontade, estarei à disposição para ouvir. – respondeu, dando um sorriso, e sorriu de volta.
– Agora preciso me juntar ao resto do pessoal, nos vemos depois. Sente do lado esquerdo. É o lado da família da noiva. – falou e deu um beijo no rosto de antes de se virar, saindo de perto e voltando para perto de outras quatro mulheres que usavam vestidos iguais aos dela, num azul-claro bonito.
Seguindo a dica, foi se sentar ao lado esquerdo, mais ao fundo do local, afinal não conhecia ninguém ali e considerava que quanto mais perto da saída melhor e mais fácil para chegar até a festa.
O casamento foi bonito, ainda que não gostasse de casamentos, em todo caso. chorou, muita gente chorou. estava muito bonita, e o noivo, Ian, olhava-a absolutamente encantado. Como se os dois não estivessem juntos quase a vida inteira e que ele já conhecesse cada detalhe daquele rosto, maquiado ou não. O que mudava era que estava com um vestido de noiva. Só. Pelo menos era isso que passava pela cabeça de enquanto ele assistia à cerimônia.
Quando, finalmente, a cerimônia terminou, o céu começava a escurecer, as pequenas lanternas que iluminavam o caminho e serviam de guia até o local da festa estavam acesas. Flores em vasos faziam parte da decoração e o local era amplo, aberto e muito bonito. Fotos eram tiradas dos noivos com convidados, com madrinhas e padrinhos, com familiares... E então eles foram dançar.
A dança dos padrinhos e damas foi ao som de uma das músicas de . E ela ostentava uma fisionomia de quem estava aproveitando e gostando muito de fazer aquilo, mas seus olhos gritavam de descontentamento por estar tão perto de quem ela não queria. observava atentamente aquela dança, fora da pista e abraçada a Ian, preparada para se enfiar no meio da dança se fosse necessário para separar aqueles dois.
O ex-namorado de a mantinha bem perto de si enquanto dançavam e falou algo em seu ouvido, fazendo com que desse um sorriso forçado e sua resposta foi suficiente para murchar um pouco o sorriso que ele ostentava. Quando a música acabou, aplausos foram ouvidos e ela logo se soltou, saindo de perto o mais rápido que conseguiu.
A dança dos noivos começou e ela se aproximou de .

– Você sobreviveu. – brincou e ela rolou os olhos, ajeitando sua gravata.
– Felizmente para você. – riu e se virou para a pista de dança, onde e Ian dançavam ao som de Ed Sheeran.
– Eu fiquei curioso... O que ele disse que te fez dar aquele sorriso forçado?
– Ele soltou uma cantada barata e disse que podíamos fazer um remember hoje, mandei ele dar uma conferida nas notícias a meu respeito e descobrir que tenho namorado. E que ele, inclusive, está aqui comigo.
– Acho que ele é quem ainda gosta de você. – falou em tom divertido e deu de ombros, pegando duas taças na bandeja do garçom que passava por ali, entregando uma para ele.
– Ele que enfie o amor n...
– Ok, eu entendi. – falou, rindo. – E então, você vai sentar lá – apontou para a grande mesa montada num nível mais alto que as demais. – e eu aqui?
– Lá só os noivos, pais e irmãos. Infelizmente você não vai se ver livre de mim hoje mais.
– Ah, que pena! Achei que conseguiria te dar um perdido. – brincou e ela virou todo o conteúdo da taça de uma vez. – Vai com calma.
– Eu estou calma. E sou alemã, nasci bebendo cerveja.
– Muito bom. – ele falou depois de tomar um gole da bebida.
– É, mas prefiro cerveja. E hoje eu prefiro muita.
– Vai com calma, porque imagina sair em capa de jornal passando vergonha?
– Vamos sentar lá logo, quero comer antes que meu estômago abra um buraco no meu corpo. – ignorou o que disse e saiu puxando-o pela mão até a mesa em que se sentaria com as damas.
– Nossa, ele é mais bonito ainda pessoalmente. – uma delas comentou. – Com todo respeito, .
– Eu sei. – concordou, rindo, e apontou para , dando um sorriso simpático. – Meninas, esse é o . , – ela falou, dessa vez apontando para cada uma das mulheres sentadas. – essas são Annie, Dallas, Gloria e Kristen.
– Muito prazer em conhecê-las. – falou, educado, e puxou uma cadeira para se sentar, que murmurou um agradecimento, e logo ele se sentou ao seu lado.
A comida começou a ser servida pouco tempo depois, e as cinco mulheres pareciam entretidas demais em comer e comentar coisas que não entendia e nem fazia questão de entender, e às vezes até riam enquanto conversavam sobre o que quer que fosse. Ele tratava de aproveitar cada garfada que dava, porque a comida estava realmente muito boa.
– Vocês dois vão ficar sentados? – a mulher apresentada como Dallas perguntou.
– Eu comi demais, preciso esperar um pouco antes de fazer meu agradecimento e poder dançar. – resmungou num tom de voz cansado e as quatro riram.
– Nós vamos dançar, estamos aguardando vocês. – Annie disse e assentiu, vendo as quatro mulheres saírem da mesa, deixando-a a sós com .
– Suas amigas parecem ser legais.
– São amigas da e do Ian, na verdade, mas elas são legais, sim.
– Você vai falar?
– É coisa rápida, aí poderemos nos jogar nessa festa de verdade.
– Você precisa descansar, .
– Vou viajar na semana que vem. Só tenho uma apresentação a fazer e então estarei de férias por vinte e poucos dias e vou viajar.
– Então esse é o famoso namorado de ? – uma voz masculina foi ouvida e se virou, dando de cara com o ex-namorado de parado ao lado da mesa. – Eu sou . Irmão do noivo, padrinho do casamento e o ex-namorado de .
– São muitos títulos, você devia experimentar colocá-los no currículo. – falou, dando um sorriso debochado, e recebeu um olhar de desprezo. – Em todo caso, eu sou . O atual namorado da .
– É, já ouvi falar de você.
– Fico feliz que tenha, porque eu nunca ouvi falar de você, isso talvez signifique que não haja tanta relevância na sua passagem pela vida da . – deu de ombros e pareceu irritado.
– E o que você quer, ? – perguntou sem paciência.
– Vim saber do seu namorado, se posso pedir a madrinha emprestada para uma dança. E para que ela faça seu agradecimento. – ele disse, olhando para .
– Se você acha que quem tem que permitir algo relacionado a ela sou eu, você está muito errado. Sou o namorado, e não o dono. Pergunte a ela se ela quer dançar, não a mim. – falou antes de tomar um gole da cerveja que estava à sua frente.
deu um sorriso de lado e não gostou muito do comentário.
pediu para eu vir aqui te chamar. – falou sem paciência.
– Ah, eu duvido muito que ela tenha falado para você vir falar comigo. – respondeu num tom debochado. – Mas pode ficar despreocupado, daqui a pouco eu vou até ela.
– E quanto a nossa dança?
– Não gosto de dançar. Não com você. – ela deu um sorriso forçado e se virou para . – Você veio de carro, né? Porque eu vim de táxi.
– Vim sim, linda, você já está pensando em ir embora?
– Não! – falou, rindo. – E, se eu fizer isso, me mata! Você ainda está aqui? – ela se virou para , que não respondeu, apenas saiu de perto bufando. – Argh, que preguiça.
– Acho que quer mesmo falar com você. – falou e apontou na direção em que gesticulava, tentando chamar a atenção de .
– Eu já volto. – disse e se levantou.
, para passar o tempo livre, tirou o celular do bolso e se deparou com uma mensagem de Hugo.

Hugo: viaja para Porto Rico na semana que vem, faça suas malas, você também vai.


Capítulo 4


– Eu não acho que isso seja uma boa ideia. – resmungou, olhando para , enquanto seguiam para a passagem de som da apresentação que faria no The Voice Kids na final do programa.
– E por que não? – perguntou confuso, mas sem desviar os olhos da rua enquanto dirigia.
, é muito recente! Dois meses de namoro e nós vamos viajar para o outro lado do Oceano Atlântico?
– Deixa de ser mente fechada, .
– Isso não vai dar certo.
– Vocês vão viajar e só vão se encostar e essas coisas quando estiverem em público.
– O que, claramente, é a maior parte do tempo. – ela resmungou.
– E ficar na companhia dele é ruim?
– Não. Ele é muito agradável, mas não acho que isso deveria acontecer agora.
– Você tem medo de alguma coisa acontecer nessa viagem?
– Ah, só se for mesmo! – disse e deu uma gargalhada. – É mais fácil nevar no deserto do que algo acontecer entre nós dois.
– Então qual o problema? – perguntou e ela não respondeu. – E ele gostou da ideia, acho que seria legal.
– Detesto que vocês três sejam maioria e eu seja a única com bom senso nisso tudo, mas, infelizmente, sou a única mulher envolvida, não dá para ser diferente mesmo. – resmungou e riu. – Tudo bem.
– Fico feliz que você tenha concordado, senão precisaríamos de uma excelente desculpa para que ele ficasse e você viajasse sozinha por quase um mês.
– Consigo pensar em, pelo menos, dez. – falou, fazendo rolar os olhos. – Não vejo a hora de descansar, esses últimos meses foram intensos demais e ano que vem vai ser ainda pior.
– Vai mesmo.
– E você vai viajar?
– Allie e eu vamos para a Grécia.
– Ela está com saudade do Olimpo? – brincou.
– Nós estamos. – respondeu, rindo.
– Preciso levar meu namorado às compras essa semana para irmos para Porto Rico.
– Preocupe-se com isso amanhã, agora você vai passar som e fazer uma apresentação e tanto mais tarde.
– Você acha que vai ser legal lançar esse single aqui?
– Vai. – deu um sorriso, mostrando empolgação. – Assim que você apresentar, as vendas começam no iTunes. Vou postar o teaser também no seu Instagram.
– Eu não sei se é inteligente lançar isso e eu sair de férias sem promover nada.
, você vai soltar um single, não o álbum.
– Ainda assim. – falou e parou na vaga que tinha sido destinada a ele na emissora.
Assim que saíram do carro e trancou as portas, os dois seguiram caminhando pela curta distância até o estúdio em que ela passaria o som.
– Quer reconsiderar? Podemos conversar com a Ash.
– Quero. Estou com medo de flopar. Prefiro cantar alguma antiga do que correr o risco de desperdiçar uma música nova, ainda mais que gosto muito dessa.
– Vou mandar uma mensagem para ela. Você pensou em tocar qual?
– Wir Sind Hier, para a ocasião é uma boa. – respondeu e assentiu, conferindo as mensagens no telefone.
– Ash disse que a decisão é sua. Vai segurar mesmo?
– Vou. – falou, prendendo o cabelo em um rabo de cavalo, ajeitou os óculos no rosto e o olhou.
– Então pode ajustar os novos detalhes com a banda. – falou.
assentiu, caminhando até a banda, enquanto ele ainda conversava com alguém por mensagens, provavelmente ainda falava com a produtora.
– Oi, pessoal, bom dia. – cumprimentou educada, dando um sorriso ao se aproximar da banda do programa.
– Bom dia. – eles responderam, simpáticos.
– Eu mudei a música que vou cantar.
– Você vai cantar qual? – o baterista perguntou, curioso.
– Wir Sind Hier.
– E como você está pensando em fazer? Os arranjos normais? Temos as partituras e tudo que é necessário? – um dos homens, o que estava de pé encostado no piano, perguntou.
– Pensei no piano, só. Vocês têm sugestões?
– Acho que na parte que você canta “Wir werfen anker aus 'nem rohr”, ia ficar legal se rolasse isso. – o baterista disse e usou duas baquetas, batendo nos pratos e fazendo um barulho trêmulo e suave.
– Você conhece essa música? – perguntou, surpresa.
– Todo mundo conhece suas músicas. – ele respondeu simpático e sorriu sem jeito. – Quer tentar ensaiar?
– Quero, sim, gostei da sugestão. – ela assentiu.
– Seu retorno está em cima do piano. – o baixista apontou. – Vai precisar de backvocal?
– Não, eu gosto dessa sem.
sentou-se ao piano, ajustou seu retorno e deslizou os dedos sobre as teclas sem emitir nenhum som. Respirou fundo antes de começar a cantar.

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– Vem logo, , vai começar! – falou, empolgada, da sala. – Espero que ela lance alguma coisa. Pelo menos é essa a conversa do fandom.
– Seria um tiro no escuro, . Ela vai perder divulgação, soltar uma música nova antes de viajar por vinte dias é desperdiçar boa música, esse álbum novo está realmente fantástico.
– Desde quando você está tão entendido de divulgação de álbuns, hein? – implicou, empurrando o irmão com o ombro.
– Antes de viajar eu queria conversar com você, mas agora vamos apenas ver a apresentação.
– Ih, não gostei do tom. – disse séria e a abraçou pelos ombros.
– Relaxa. Vai começar. – deu um sorriso ao ver o apresentador do programa aparecer.
não sabia qual a música cantaria, mas sabia que gostaria, já que ele tinha mesmo começado a gostar de ouvir a voz dela.
– Boa noite! Hoje nós estamos aqui para as finais do The Voice Kids, já assistimos à apresentação de uma das candidatas e veremos agora uma das nossas atrações da noite. Ela é uma das cantoras pop mais influentes da atualidade, além de recordista de vendas e duas vezes nominada ao Grammy, arrasta multidões em seus shows, já lançou cinco álbuns e está prestes a lançar o sexto, ganhadora de prêmios e sempre quebra recordes de vendas, , cantando seu sucesso: Wir Sind Hier. – o homem disse e a câmera se deslocou até a mulher que estava sentada ao piano.
– Ah, eu adoro essa! – disse e deu um sorriso.
O foco da iluminação era apenas em , que estava concentrada, tocava o piano de olhos fechados e alcançava as teclas corretas sem precisar abri-los, conhecia muito bem sua própria música. A voz, suave, tornava a música ainda mais bonita.
nunca tinha perguntado quais eram as inspirações das músicas, apesar de saber de duas que ela tinha escrito para os pais, mas, de alguma forma, ele sabia que aquela música era especial, não tinha surgido do nada. Tanto pela letra, quanto pela forma que ela sempre a cantava.
Quando terminou a apresentação, foi aplaudida de pé por toda a plateia e pelos jurados do programa. abriu um sorriso que era um misto de alegria, satisfação e vergonha e se levantou do banco.
– Obrigada. agradeceu, ainda sorrindo.
– Eu fico impressionado como você consegue melhorar a cada vez que te ouço cantar ao vivo. – um dos jurados, Sasha, disse e ela sorriu.
– Obrigada. agradeceu novamente, dessa vez um pouco mais sem jeito, e se despediu da plateia, saindo do palco.
Não poderia se demorar, porque as apresentações precisavam continuar e ainda tinham outras atrações.
– Você é um namorado muito babão. – implicou ao ver que o irmão tinha postado um stories da apresentação.
– Estou apenas apoiando minha namorada, cala a boca. – resmungou e a empurrou de leve com o ombro, fazendo a irmã rir.
– Tão bonitinho ver você apaixonadinho. – ela o abraçou, cutucando sua barriga e tentou se afastar, mas não conseguiu.
– Sai aqui! Mãe! – ele chamou pela mãe, em tom mimado, e a irmã riu.
– Vocês dois já estão bem crescidinhos, resolvam-se sozinhos. – a mãe falou alto da cozinha.
– E então, o que você vai fazer nas férias?
– Vou viajar com a para passar uns dias em Porto Rico. – respondeu, dando de ombros.
– Você vai viajar? – perguntou surpresa. – Bom, é o apocalipse mesmo.
– Eu acho que você devia ir com a gente.
– Você quer me levar na sua primeira viagem com sua namorada? – gargalhou.
– E por que não?
– Eu não vou viajar para ficar de vela, . Deixa de ser idiota. – disse, ainda rindo.
– Acho que e Ian vão encontrar com a gente por lá.
– Pior ainda, outro casal!
– Você é muito chata.
– E então, o que você queria falar comigo? – desligou a televisão e mudou de assunto.
– Não quero falar sobre isso hoje.
volta para cá hoje?
– Pelo que me disse, sim. – deu de ombros. – Vou perguntar. Até porque amanhã ela quer comprar algumas coisas para viajarmos.
– Claro, porque você é uma negação. – provocou e rolou os olhos. Antes que pudesse ligar, a própria o fez.
– Alô.
– Oi.
– Você foi ótima.
– FOI ÓTIMA, CUNHA! – falou alto e riu.
– Obrigada. Agradeça a por mim.
– Você volta hoje?
– Eu estou indo para o aeroporto agora, inclusive. E essa ligação é para falar sobre isso, você me busca?
– Claro. Que horas você chega?
– Vou sair daqui quinze minutos, em uma hora eu chego.
– Vou tomar um banho e te busco.
– Nós vamos às compras amanhã, então você dorme lá em casa. falou animada e resmungou. – Não resmunga, porque é Porto Rico!
– Eu sei que é Porto Rico, os meus resmungos são para sua animação em fazer compras.
não quer viajar com a gente? Ela e o namorado?
– Não. – ele suspirou. – Mas nós falaremos disso mais tarde.
– Está tudo bem?
– Só o de sempre.
– Ah. Entendi. Então a gente se vê e se fala daqui a pouco.
– Você me dá muito trabalho, . – ele disse, rindo.
– E eu quero comer.
– E o que você quer?
– Eu queria alguma massa bem gostosa.
– Compramos na volta do aeroporto e você come quente, pode ser?
– Você é um anjo, talvez eu te deixe ganhar no FIFA.
– E talvez eu deixe você ganhar no Counter Strike.
– Retiro o que eu disse. disse, fingindo estar brava, e riu.
– Cala a boca e embarca logo. – falou, ainda rindo, e desligaram. o olhava com uma expressão encantada. – Que foi?
– Que bonitinho, você todo fofinho com sua namorada.
– Ah, , vá procurar um serviço. – disse num tom fingido de mau humor e ela deu um sorriso. – Ela perguntou se você não quer mesmo ir com a gente.
– Vou ficar por aqui, até porque tenho que trabalhar.
– Fica para a próxima. – deu de ombros, ainda que soubesse que não haveria uma próxima vez.
– Assim espero. Agora vá tomar banho e ficar cheiroso para ver minha cunhada.
– Cuida da sua vida. – resmungou e passou pela irmã, que estava sentada no sofá, dando-lhe um tapa leve na testa.
xingou um palavrão e ameaçou ir atrás do irmão para descontar. riu e correu o mais rápido que podia escada acima, enfiando-se no banheiro do quarto para tomar banho.

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Quando finalmente apareceu, fotógrafos estavam esperando, além de alguns fãs, a quem ela atendeu prontamente e com toda atenção como sempre fazia. Ela vinha com uma mochila nas costas, sua única bagagem. Usava uma camisa do Iron Maiden, uma calça jeans simples de lavagem clara, um tênis e os óculos de grau, sem maquiagem e sua feição era cansada.
Os flashes eram impiedosos e tão logo começaram, estava escoltada por dois seguranças, que a ladeavam e afastavam os fotógrafos até que ela conseguisse sair da área de desembarque e chegar a para que os dois pudessem, finalmente, ir embora dali.
deu um beijo no dorso da mão dela, antes de entrelaçarem os dedos e seguirem até o carro, ainda acompanhados pelos seguranças. Ouviram alguns “é só isso?”, mas não se deram ao trabalho de responder. Entraram no carro e alguns flashes foram disparados antes que ele conseguisse arrancar e sair do aeroporto. No carro de trás, os seguranças fizeram a mesma coisa.
, você precisa descansar. – falou, enquanto dirigia até o restaurante italiano que fica perto da casa dela. estava com a expressão cansada, olheiras e prestes a dormir a qualquer segundo.
– Preciso. – resmungou. – Cancela o macarrão e vamos para casa.
– E pode dormir bastante, sem limites de horários.
– Certo. – ela resmungou sonolenta.
– Mas não dorme ainda, subir te carregando não está nos meus planos. – brincou e voltou a resmungar, ligando o rádio.
– E então, qual é a história da ?
– Conversamos sobre isso amanhã. – respondeu sem olhá-la, enquanto dirigia.
– Você gostou da apresentação?
– Gostei. Essa música é muito bonita, é uma das minhas favoritas. – ele a olhou rapidamente e a viu sorrir agradecida. – Sua voz é maravilhosa.
– Obrigada. Eu gosto muito dessa música.
– Ela tem uma história?
– Tem, mas não vamos falar sobre isso agora, depois eu te conto. – disse e bocejou. – Acho que vou dormir metade dessa viagem.
– Você precisa descansar mesmo. – ele disse e virou a rua, entrando na rua em que mora. Sem fotógrafos, um milagre.
estacionou o carro à frente do prédio de e os dois desceram, antes do carro dos seguranças passar por eles e buzinar em despedida. Ele pegou a mochila de , colocou sobre os ombros e os dois entraram no prédio, cumprimentaram o porteiro e esperaram pelo elevador que não demorou tanto a chegar.
seguiu direto para o próprio quarto, estava cansada demais para fazer cerimônia ou tentar desenvolver uma conversa decente, a única coisa que queria era sua cama e mais nada. seguiu para o quarto em que tinha ficado da última vez e foi se preparar para dormir, escovou os dentes, trocou de roupa e se deitou. O dia seguinte prometia ser cheio quando , finalmente, acordasse.

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– Você dormiu por quinze horas e meia, . – falou, rindo, quando desembarcaram em San Juan, após reclamar de ainda estar com sono.
Ainda tinham um trajeto de trinta e sete minutos até a cidade em que ficariam, Dorado.
– Cala a boca e não enche o saco. – resmungou mal-humorada, esfregando os olhos e colocando os óculos de sol em seguida.
e Ian chegariam dali dois dias e ficariam por cinco, depois voltariam para a Alemanha e para suas vidas, enquanto e terminariam de passar as férias naquele paraíso chamado Porto Rico.
Os dois ficariam em um bangalô de casal no resort à beira da praia, com piscina na varanda, dois banheiros, televisão, frigobar... e apenas uma cama. A ideia não parecia muito boa para , mas antes que ela falasse alguma coisa, já tinha sugerido dormir no sofá, então não teriam problemas.
Os trinta e sete minutos de carro, previamente alugado no aeroporto, foram em total silêncio, já que tinha voltado a dormir. O carro foi deixado no estacionamento do resort, e após descarregarem o porta-malas, seguiram juntos para fazer o check-in na recepção. O dia estava abafado, uma chuva fina os acompanhou por todo percurso, mas não tinha aliviado em nada o calor e o ar abafado.
Após o devido registro, os dois seguiram para o bangalô, que nem se deram ao trabalho de saber como era, teriam dias suficientes para fazê-lo com calma, naquele momento queriam apenas descansar da viagem longa que fizeram. se jogou na cama e voltou a dormir, nem considerava ser humanamente possível que ela ainda estivesse com sono, já que tinha dormido as dezesseis horas da viagem.
mal tinha dormido no avião, estava cansado, e por sorte o sofá que ficava no canto do amplo quarto, era grande, ele podia dormir sem problemas de espaço, e torcia para que o sofá também fosse tão confortável quanto parecia, já que seriam vinte dias dormindo ali e não queria uma dor nas costas para atrapalhar suas férias naquele paraíso.
Antes de dormir, tomou um banho frio, ainda que estivesse chovendo, o tempo permanecia abafado e quente, vestiu uma cueca e uma bermuda, secou o cabelo mal e porcamente, ligou o ar-condicionado e se deitou no sofá, dormindo quase imediatamente.

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acordou com o barulho de seu estômago roncando alto, se não fosse isso, poderia muito bem continuar dormindo até o dia seguinte. Ou até mesmo depois disso. O relógio ao lado da cama marcava dezesseis horas e trinta e dois minutos. Sentia-se dolorida pela quantidade de horas passadas dormindo, mas ao mesmo tempo o corpo parecia implorar por outras dezenove horas quase ininterruptas de sono.
Antes que pudesse fechar os olhos novamente para atender a esse desejo, seu estômago voltou a roncar alto e se obrigou a sair da cama, que tinha considerado maravilhosa, tomar um banho e ir procurar algo para comer.
As malas estavam perto do sofá em que estava deitado, dormia um sono pesado e profundo, até roncava. pegou uma das próprias malas, tirou uma muda de roupas e foi para o banheiro e “marcou território”. Não para proibir de usar aquele banheiro, mas na intenção de mostrar que ela teria a preferência em caso de extrema necessidade, e ele que subisse as escadas e usasse o banheiro que ficava no andar de cima, onde, descobriu, ficava um cômodo do tamanho do quarto, mas vazio, uma janela de vidro enorme dava uma vista linda para o mar à frente. E lá também havia um banheiro, do tamanho do banheiro do andar inferior. Ele não sairia perdendo.
A chuva continuava, ainda preguiçosa, e o clima permanecia abafado o suficiente para que fizesse calor. vestiu uma camiseta, shorts, calçou um chinelo e penteou os cabelos, indo contra as recomendações de todos os profissionais sobre não se pentear os fios ainda molhados.

– Vai sair? – ouviu a voz rouca de enquanto caminhava até a porta. Ele estava sentado no sofá, esfregava os olhos, tentando afastar o sono, e depois passou os dedos pelos cabelos.
– Eu estou com fome.
– Eu também. – ele se pôs de pé e se espreguiçou, voltando a passar a mão pelo rosto. – Vou lavar o rosto e procuraremos algo para comer.
– E vestir uma roupa, claro.
– É, isso também. – ele respondeu ainda sonolento e se arrastou até o banheiro.
sentou-se na cama, pegou o celular e conectou-se à rede Wi-Fi do lugar, avisou aos pais e a que tinha chegado há algumas horas e não avisou antes porque tinha dormido, mas que estava tudo bem e que depois ela daria mais notícias. Não abriu nenhum aplicativo ou outras conversas, sabia que era um caminho sem volta e acabaria por horas vendo fotos, mensagens, tweets e posts ao invés de ir comer.
saiu do banheiro com uma feição menos sonolenta, ainda sem camisa, e se debruçou sobre as malas, pegando uma camiseta e a vestiu, colocando chinelos e um boné virado para trás. Os dois saíram calados do bangalô, seguindo pela pequena trilha que os levaria à recepção, pediria informações sobre onde poderiam ir para comer.
– Você avisou sua mãe que já chegou? – perguntou e negou com um aceno. – Cadê seu celular?
– Ficou no quarto. – ele deu de ombros.
– ¡Hola! – a recepcionista sorriu educada ao cumprimentá-los.
O nome do hotel, “Dorado Beach, a Ritz-Carlton Reserve”, estava estampado na blusa que ela usava e na parede atrás dela.
– ¡Hola! também a cumprimentou sorrindo e continuou falando em espanhol. – Há algum restaurante aqui perto?
– Dentro do hotel ou fora?
– Dentro, hoje não estamos com tanto ânimo para passeios. – falou, usando um tom descontraído, e a mulher deu um sorriso.
– Há um restaurante aqui, o Mi Casa, de culinária local. Vocês sairão daqui da recepção pelo caminho que vieram, virarão na primeira à esquerda e seguirão reto por poucos metros. Mas o jantar só começa a ser servido às seis. – ela falou e assentiu.
– Obrigada. – agradeceu e a recepcionista sorriu.
encarava a conversa sem entender e o puxou pela mão até saíram da recepção.
– Vamos comer?
– O jantar só começa a ser servido às seis. Eu não aguento esperar mais de uma hora, eu estou morrendo de fome. Quer sair e procurar algum lugar?
– Quero. Você pegou seu celular? – perguntou e assentiu em confirmação. – Procura no Google pelos restaurantes próximos e vamos comer.
– Até que você é inteligente. Come capim é porque gosta mesmo. – implicou, tirando o celular do bolso do short e foi procurar pelos restaurantes próximos. – Tem um Applebee’s e um chamado Metropol, de culinária local.
– Então vamos para o Applebee’s, teremos muito tempo para experimentar comida local outra hora, no momento eu quero qualquer coisa para acalmar o monstro que está no meu estômago.
– Somos dois. – concordou e os dois saíram a pé do resort.
O trajeto foi feito em dez minutos e os dois descobriram que o restaurante ficava num shopping, ou seja, teriam mais opções de alimentação.
– Você já fez algum show aqui? – perguntou quando se sentaram à mesa na praça de alimentação.
– Não, minha fanbase aqui é pequena, é difícil fazer shows em lugares assim. Tenho fãs aqui, mas não a quantidade suficiente para que os empreendedores queiram que eu venha me apresentar.
– Entendi.
– E então, você vai contar a história com a ? – perguntou, enquanto comia uma das batatas fritas do prato.
– Ah, o de sempre. – suspirou e a olhou. – O namorado dela é um otário. Ele não tem um pingo de respeito por ela e nem pelo relacionamento deles, mas acha que eu falo por implicância, por ser o mais velho. Eu tenho medo que ela esteja em um relacionamento abusivo e não tenha se dado conta, porque é descarada a forma como ele te olha quando estamos no mesmo ambiente, como ele é um babaca e os comentários que faz sobre outras mulheres e sobre ela.
– Você já tentou conversar com ela? Sem usar o tom do irmão mais velho.
– Acho que sempre acabo usando, é natural da preocupação de um irmão mais velho. – suspirou. – Na verdade, não sei nem se é possível não usar esse tom. Ela é minha irmã mais nova, só quero cuidar dela e que ela tenha o melhor.
– Fala isso para ela, mas sem usar o tom de posse que todo irmão mais velho tem, ainda que sem querer. Diz como você tem percebido que ele não é o que diz ser, sobre o comportamento e o que te faz crer que é um relacionamento abusivo. Você acha que ele bate nela?
– Eu espero que não, porque eu o mato se isso acontecer. – falou, sério.
– Conversa com ela quando voltarmos. Aliás, por que ela não quis vir?
– Ela sabe que não gosto do Höward, eu a convidei, mas ela falou que não queria ser vela, ou seja, entendeu que o convite não se estendia ao namorado. Ainda bem, porque falar isso geraria uma briga que eu não estava disposto a ter.
– Você quer que eu fale com ela? Acho que de mulher para mulher a conversa fica menos... tensa.
– Não sei. – ele suspirou e voltou a comer uma das batatas. – O bom tempero é universal.
– Você já conseguiu fazer uma refeição com tanta paz e tranquilidade assim na sua vida? – perguntou, seguindo a deixa da mudança de assunto e ele a olhou. – Não que eu não goste dos meus fãs, não disse isso, mas eu sinto falta de conseguir sair sem ser perseguida por fotógrafos e essas coisas.
– Eles não vão aparecer por aqui?
– Ah, eles vão, pode ter certeza. – falou e lhe direcionou um olhar complacente. – Talvez demorem até semana que vem. Se postarmos fotos, temos que tomar cuidado para não mostrar localização.
– Eles podem pesquisar sua localização, não? Jogar seu nome no Google para saber sobre reservas de hotéis.
– Essa reserva está no nome da Glória. – disse, sorrindo. – Ela me emprestou o nome para que eu pudesse descansar de verdade e em paz. Então, se pesquisarem por mim, não vão encontrar nada. Nós saímos do prédio em outro carro, ou seja, ainda não sabem estamos na Alemanha. Quer dizer, vão começar a suspeitar quando não virem nenhum rastro meu por lá e caso eu poste fotos, mas para todos os efeitos, estou em casa.
– Inteligente. – disse, dando um sorriso, e os dois terminaram de comer enquanto trocavam poucas palavras.
Antes de irem embora, deram uma volta no shopping e tomaram sorvete antes de voltarem para o resort em paz, sem serem parados por fãs pedindo fotos e autógrafos. Aquela era a primeira vez, em quase dez anos, que conseguia andar na rua sem seguranças e totalmente em paz, sem medo das abordagens das pessoas.
Por mais ingrato que pudesse parecer, queria mais momentos como aquele, de um quase anonimato e esquecimento. Mas, quanto mais ela tentava não aparecer, mais sua vida se tornava destaque em todos os jornais e revistas do mundo.
Ao retornarem ao resort, resolveu ficar na cama ouvindo música, enquanto algumas palavras dançavam em sua mente numa possível nova composição, mas esvaíram-se ao ver na piscina da varanda.
– Essa viagem vai dar muito errado. – sussurrou para si antes de desviar os olhos de volta para o teto.


Capítulo 5


Dessa vez, foi acordada pela claridade que entrava pela porta de vidro. Os dois tinham dormido e se esquecido de fechar o blackout, e a claridade, ainda que não tão intensa, despertou-a. O relógio ao lado da cama marcava seis e vinte e dois da manhã, equivalente às onze e vinte e dois em Munique, se suas contas estivessem certas. Podia dizer, seguramente, que tinha colocado o sono atrasado totalmente em dia.
se sentou na cama e esfregou os olhos, tentando despertar um pouco mais rápido. Não adiantaria tentar dormir de novo, ela sabia, estava sem sono e começando a ter fome. Espreguiçou-se demoradamente, ouvindo alguns estalos com a movimentação, e soltou um grunhido satisfeito ao sentir suas articulações se movendo e parecendo voltar ao lugar. Abriu os olhos e vasculhou o cômodo, não havia sinal da presença de , então seus olhos foram na direção da porta de vidro, localizando-o na piscina, de costas para o quarto e parecia observar a paisagem a sua frente.
Depois de uma passada no banheiro para o ritual matutino de todos os seres humanos e vestir-se com um short jeans e uma camiseta, se sentou na beirada da piscina, colocando apenas os pés na água.
– Acordou cedo. – falou, mas não se virou para olhá-la.
– Eu já dormi muito, agora estou pronta para iniciar nossas férias. – respondeu quase animada. – Você acordou muito cedo também.
– Perdi o sono, mas não foi muito antes de você.
– Temos que lembrar de fechar as cortinas ou vamos acordar muito cedo todos os dias.
chega hoje? – perguntou e se virou para olhar .
– Só à noite. Por quê?
– Só para saber. – deu de ombros. – E então, qual a programação do dia?
– Praia, claro. Vou deixar o SPA para quando chegar, porque podemos ir apenas as duas, já que Ian e você com toda certeza ficarão juntos enchendo a cara e conversando coisas de homens chatos.
– Por mim tudo bem.
– Você dormiu bem?
– Dormi sim, perdi o sono agora há pouco. E, em todo caso, dormi cedo.
– Quem dormiu cedo fui eu. – disse, rindo.
– Você deve ter algum problema de sono, não é possível. – implicou, mas a acompanhou na risada.
– Eu estava cansada, ok? – se justificou e deu um sorriso debochado.
– Quer correr antes do café?
– De jeito nenhum! Correr? Nas férias?
– Você não disse que adora fazer exercícios? Qual o problema?
– O problema, , é que estou de férias, longe de Jay e de , não vou me prestar a esse papel nas minhas férias. Eu quero apenas sol, folga e água fresca. Nada além disso. – respondeu fazendo com que desse uma gargalhada. – Escandaloso.
– Amanhã nós vamos correr. Nós quatro.
– Se você conseguir fazer a concordar em sair para correr pela manhã nas férias-barra-lua-de-mel dela, você consegue qualquer coisa que quiser na vida. – falou e riu, estendendo a mão.
– Se ela concordar, você vai ter que correr comigo todos os dias nessa viagem. Mesmo depois dos dois irem embora.
! Sem chance! – protestou e ele maneou a cabeça.
– Trato é trato, . Se não aceitar, eu não menciono mais isso e vou correr sozinho.
– Eu não aceitei nada! – falou, cruzando os braços.
– Você disse que eu consigo o que eu quiser, então é isso que eu quero.
– Eu vou procurar um lugar em paz para fazer meu yoga, você está emanando energias da enganação.
– Deixa de ser dramática. – falou, rindo.
– Você devia vestir uma roupa, porque o café vai começar a ser servido daqui a pouco, e eu não vou ficar esperando ninguém para ir para a praia.
– E você já trocou de roupa? Porque eu pretendo ir de lá para a praia.
– Volto aqui antes. Ah, pode sair agora da água e se secar para que eu passe protetor solar em você, se você ficar torrado e me atrapalhar a aproveitar minhas férias, eu te mato.
– Você fala igual a minha mãe. – falou, rolando os olhos, e recebeu um olhar ameaçador de . – Tudo bem, tudo bem.
– Isso mesmo, a última palavra aqui é sempre sua. Você deve responder “sim, senhora” ou “não, senhora” a tudo que eu falar. – disse num tom divertido e soltou uma risada. – É sério, sai logo daí! – falou e ele se virou, caminhando até a escada de saída da piscina, pegou a toalha que estava sobre a cadeira e secou os cabelos. Estava de bermuda e mal secou o corpo até chegar ao banheiro. – Deus me ajude.
Enquanto não saía do banheiro do andar inferior, pegou um biquíni na mala, subiu para o andar superior, passou protetor solar, vestiu o biquíni sob a roupa que usava e desceu. Voltaria ao quarto apenas para pegar o que precisasse levar para a praia. saiu do banheiro um tempo depois, de camiseta e com uma bermuda seca, chinelos, os cabelos molhados e penteados despretensiosamente.
– Pode passar. – ele esticou os braços de lado e deu um sorriso quase infantil.
– Tira a camisa, porque suas costas vão precisar.
– Isso é um pretexto para me ver sem roupa. – falou num tom brincalhão.
É, realmente é ótimo te ver seminu, mas não adianta nada, já que você é gay!, pensou.
– Cala a boca e faz o que eu mandei. – respondeu, fingindo estar sem paciência, deu uma risada antes de tirar a camiseta. Ela passou o protetor em suas costas enquanto ele mesmo passava na barriga e braços, poupando-a da vergonha de tocar mais ainda naquele corpo. – Vira de frente, deixa eu passar no seu rosto.
– Já passei.
– Não passou. E vira logo. – falou e ele bufou, mas se virou. Ela passou o protetor em seu pescoço e no rosto.
– Até na orelha?
– Eu devia te deixar ficar sem protetor solar e te deixar ficar todo ardido para entender que eu tenho razão.
– Não vamos brigar ainda, meine Liebe. – provocou em tom zombeteiro, apertando-lhe a bochecha, e quis lhe dar um soco, mas acabou rindo.
– Anda logo.
– E você já passou protetor?
– Já.
– Até nas costas?
– Já.
– Sozinha? Duvido!
– Eu sou mais flexível do que você imagina. – respondeu e deu uma gargalhada exagerada. – Nossa, que quinta série você é.
– Eu não falei nada, você que está pensando besteira. – respondeu debochado e teve que se segurar para não rir mais, já que o olhava quase prestes a lhe dar um soco. – Agora anda, eu estou com fome.
– Vamos. – ela respondeu e os dois saíram do quarto, rumo ao restaurante para o café da manhã.

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– ¿Y quién me va a entregar sus emociones? ¿Quién me va a pedir que nunca la abandone? ¿Quién me tapará esta noche si hace frío? ¿Quién me va a curar el corazón partido? ¿Quién llenará de primaveras este enero y bajará la Luna para que juguemos? Dime, si tú te vas, dime cariño mío. ¿Quién me va a curar el corazón partido? cantou enquanto passava protetor solar nos próprios braços.
– Você está me xingando? – perguntou, observando , e ela deu uma risada.
– Não, palhaço. É uma música do Alejandro Sanz.
– E por que você está falando como se eu devesse saber quem é?
, você tem a obrigação moral de saber quem é Alejandro Sanz!
– Eu não faço ideia de quem seja.
– Você é um caso perdido.
– Eu não escuto essas coisas que eu não entendo.
– Ótimo, vou te fazer uma playlist. – sentenciou, deixando o protetor solar sobre a espreguiçadeira e o olhou.
– Aposto que eu vou odiar.
– Aposto que você vai amar e nunca mais vai parar de ouvir.
– Eu imagino que você não vai me deixar em paz até que eu ouça tudo.
– Imaginou corretamente. – falou e ficou de pé, antes de sorrir feito criança prestes a aprontar. – E o último que chegar na água é torcedor do Borussia!
– Volt... – começou a dizer, mas já estava correndo até o mar e a ele só restou correr, rindo.
Heja BVB, heja BVB, heja, heja, heja BVB...* zombou quando , finalmente, entrou no mar.
– Acho que Thomas e Davi ficarão bem decepcionados ao saber que você sabe cantar parte do hino de um dos maiores rivais do Bayern.
– Eles só sabem gritar isso, qualquer um aprende. – ela deu de ombros.
– Você é péssima. – riu.
– Se você ao menos cogitar a ideia de ir para lá, eu termino com você e conto para o mundo inteiro que nunca namoramos de verdade.
– Quanto rancor no coração, .
– Já me basta ter que aturar esses últimos meses no Schalke. – falou, tombando a cabeça para trás, numa tentativa de boiar.
– Eu fiquei lindo de azul.
– Eu prefiro de vermelho.
– Posso ir para o United, quem sabe.
– Você não respeita o Bayern mesmo. – falou, fingindo-se de brava.
– Eu não tenho culpa se você odeia todos os times do mundo além do Bayern.
– Eu não odeio todos. Só alguns.
– Quais você não odeia?
– Tudo bem, odeio todos. – admitiu, fazendo rir.
Ela estava boiando, tinha os olhos fechados e mesmo assim franzia o nariz pela força da claridade. observou como o rosto dela ficava ainda mais bonito daquele jeito. Linda.
Achá-la linda não era ter interesse. Claro que não. Era uma constatação natural, pensava. É só isso.

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– Eu comi demais. – declarou, escorregando o corpo, na cadeira e deu um sorriso divertido.
– Você sempre come muito.
– Hoje foi mais que o normal. – ela resmungou.
– Então vamos passar umas horas no quarto. – falou, fazendo gargalhar.
– Ainda bem que você falou em alemão, porque essa frase daria uma excelente manchete sensacionalista. – falou, ainda rindo. – Imagina, pegar o Bild e ler: “ insinua publicamente sobre sua vida sexual com . Saiba mais”.
– Você é péssima. – riu. – Mas não tem como discordar, porque antes de assumirmos a mídia ficou... insana.
– Eles ficaram curiosos depois das primeiras fotos que circularam. – riu.
– Tinha paparazzi na porta do centro de treinamento todos os dias. Eu nunca vi tantos fotógrafos assim andando atrás de mim.
– Podemos ir para o quarto? Prefiro conversar em particular, ainda que em alemão, as paredes têm ouvidos. – falou, acertando sua postura, e assentiu.
– Sim, senhora. – falou, levantando-se.
Os dois seguiram para o bangalô e não demorou a jogar-se na cama, se sentou no sofá e cruzou as mãos sobre a barriga.
– Eu adorava ver as manchetes que ficavam perguntando quando nós sairíamos de novo e quando assumiríamos o namoro.
– Eu recebi diversas directs no Instagram. – riu. – E quando tiraram aquela foto do estacionamento no seu show...
– Foi insano. – riu.
– Nós saímos em todos os veículos de comunicação da Alemanha!
– E da Europa. – gargalhou ao lembrar-se de receber diversas reportagens sobre o namoro. – Américas, Ásia, Oceania...
– Você é famosa demais.
– A queridinha do mundo todo, eu mesma. – zombou. – Acho que a melhor reação foi a do Davi.
– Até hoje acho que ele quer me bater.
– Talvez queira. – implicou, dando de ombros. – Brincadeira. Mas ele ficou muito chocado.
também. Ela riu uns vinte minutos sem parar antes de ver que eu estava falando sério, parar de rir e me encarar chocada. E implorar por ingressos, claro.
– Davi achou que eu estava grávida! – riu ao lembrar. – Disse que só isso explicaria eu estar namorando um jogador.
– Aí, sim, ele teria me matado! – riu.
– Que nada, Davi é um anjo incapaz de fazer mal a qualquer um.
– Não foi isso que eu o ouvi dizer... – deu uma risadinha pelo nariz, arrependendo-se profundamente quando viu se virar em sua direção, olhando confusa.
– Como assim?
– Bom, no dia do almoço com seus pais... ele mencionou que bateu no seu ex-namorado.
– Nossa, eu tinha esquecido disso. É, o Davi é um anjo incapaz de fazer mal a qualquer um. Exceto se esse qualquer um me fizer alguma coisa.
– Compactuo da mesma opinião. – respondeu em tom divertido. – E então, podemos ir para a praia?
– Você pode ir, eu ainda estou empanturrada e não consigo nem imaginar ficar no sol ou na água nesse estado.
– Mais meia hora então e nós vamos. Você só fez dormir e comer desde que chegamos, precisa de um pouco mais de sol.
Young and full of running. Tell me where has that taken me? Just a great figure eight or a tiny infinity? cantou, voltando a se deitar e olhar para o teto do quarto.
– Você vai ficar cantando por meia hora?
– Você vai reclamar?
– De forma alguma, eu gosto bastante. – respondeu sincero.
E a meia hora que passaram no quarto foi acompanhada da voz de .

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– Quem canta isso? – perguntou.
Estavam no mar, fundo o suficiente para que a água batesse quase em seus ombros.
, você precisa sair do seu mundinho musical e explorar novas áreas, sabia? – rolou os olhos.
– Você não respondeu minha pergunta.
– Adele!
– Eu nunca adivinharia uma coisa dessas!
– Pelo amor de Deus, essa música tocou nas rádios por semanas! E ainda toca!
– Eu não me lembro de ter ouvido isso em rádio nenhuma. – resmungou.
Should I give up or should I just keep chasing pavements? Even if it leads nowhere or would it be a waste? repetiu a parte anteriormente cantada e ele negou com um aceno. – Chasing Pavements! , você precisa muito de mim mesmo.
– Minha vez. – falou, ignorando a alfinetada e pareceu pensar por alguns segundos antes de sorrir, lembrando-se da música que queria. – Don't tell me of any wonder shitting gold, don't tell me of a hard way we have to go through. Still we pay your warmth out of the cold, do you really think we're that blind?
Don’t spit on my mind... – ela cantou no ritmo e sorriu. – Você precisa ser mais criativo se vai escolher uma banda de rock. Eu amo Helloween, e Don’t Spit on my Mind é uma das minhas músicas favoritas.
– Você é muito chata.
– Vou escolher uma fácil agora. – riu, voltando a boiar. – But I wonder where were you when I was at my worst, down on my knees, and you said you had my back. So I wonder where were you when all the roads you took came back to me, so I’m following the map that leads to you...
– Maroon 5, e a música se chama Maps.
– Acertou uma, finalmente! – zombou.
– Eu gosto de Maroon 5.
– Adam é meu amigo há anos.
– Sério?
– Sério. Ele é um amor. Ele, Behati e a Dusty... são pessoas fantásticas e eu gosto muito deles.
– Minha vez.
– Escolhe uma difícil. – pediu, voltando a fechar os olhos enquanto boiava e esperava.
Don't wanna kiss, don't wanna touch, just smoke my cigarette and hush... – ele cantou totalmente desafinado depois de pensar por um tempo.
– Eu falei para você escolher uma difícil, . Você pensou um tempão e ainda cantou uma fácil. – ela riu. – É Alejandro, da Lady GaGa.
– Eu gosto muito de cantar essa, me deixa. – resmungou.
E isso dizia muita coisa.
– Odeio que você saiba tudo de música.
– Eu não sei tudo. – riu, submergindo antes de ficar de pé e olhar para . – Você que escolhe músicas fáceis.
– Eu acho que nós deveríamos tomar banho e ir jantar, já parece prestes a escurecer. – falou e concordou.
– Vamos. e Ian devem chegar depois do jantar.

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– CHEGAMOS! – falou animada quando abriu a porta.
– Finalmente! – falou sorridente e abraçou a amiga. – Entrem.
– E como foi o dia? – perguntou entrando no bangalô, observando cada detalhe do local, e abraçou Ian.
– Ótimo, nós passamos o dia na praia e foi muito tranquilo. Aqui é muito bom para descansar e relaxar. E a viagem?
– Foi bem longa, mas bastante tranquila. – Ian respondeu e se sentou no sofá.
– Nós temos um dia de praia amanhã? – perguntou e assentiu animada. – Você já tem marquinha!
– Isso não é uma marquinha. – falou, dando de ombros. – E, sim, temos um dia de praia.
– Vocês já jantaram? – Ian perguntou.
está no banho justamente para irmos jantar.
– Então jantamos juntos, pode ser? – ele perguntou e assentiu.
– Por mim, tudo bem.
– Estamos no bangalô do lado, vamos tomar banho e nos encontramos na recepção em... quarenta minutos. – falou, conferindo o relógio do celular.
– Pode ser. – concordou e os dois saíram do quarto, poucos segundos antes de descer as escadas, secando os cabelos numa toalha e com outra enrolada em sua cintura. É, eu realmente vou precisar de ajuda celestial para conseguir viver esses vinte dias sem pular nesse homem e agarrá-lo, pensou. – e Ian chegaram. Vamos jantar juntos.
– Aqui ou fora?
– Aqui. – respondeu, dando de ombros.
Ele assentiu e foi até o guarda-roupas, em que as roupas tinham sido, finalmente, guardadas.
– Vai escolher minha roupa? – ele perguntou num tom divertido.
– Hoje vou deixar por sua conta, mas escolha bem, senão eu vou escolher todos os seus looks até o fim dessa viagem.
– E vai me fazer andar de preto a viagem inteirinha. – ele resmungou.
Pegou uma camisa de mangas curtas e botões azul escura, com riscos em azul claro, uma cueca preta, uma bermuda de sarja cinza e um tênis de couro marrom.
– O branco. – disse e ele deixou o tênis e pegou o outro. – E como você acertou a maior parte, vou te deixar se vestir sozinho mais uns dias.
– Ah, obrigado por ser tão boazinha e generosa para mim desse jeito. – debochou e foi para o banheiro se vestir.
– Que cheiro bom. – falou quando retornou.
– Esse é o meu perfume, você já sentiu antes.
– Não disse que não senti, disse que o cheiro é bom. – ela deu de ombros.
– Você é muito grossa, . – implicou, fazendo rolar os olhos. – Podemos ir?
– Temos que esperar e Ian. – respondeu.
assentiu, sentando-se no sofá, pegou o celular e distraiu-se enquanto aguardava pela chegada dos amigos dela. pegou o próprio celular, tirou uma foto dele totalmente distraído com o próprio celular e postou em seus stories com um emoji de coração.
And I'm trying to ignore you, try to go on with my day, but I still pick up the phone, yeah, and get lost in what you say. cantarolou baixo, desafinado, e sem se dar conta de que era observado.
– Shawn Mendes? – perguntou e ergueu os olhos do celular.
– Acho que sim, não tenho certeza.
– É sim. Tenho quase certeza que é “Like This”.
– Então você conhece?
– Claro! Quem não conhece o Shawn?
– Digo... conhecer pessoalmente e essas coisas.
– Conheço. E ele é ótimo. Agora, me conta uma coisa...
– Que coisa?
– Se você canta e ouve músicas em inglês, por que não sabe falar inglês? Você cantou tudo certinho hoje.
– Não sei. – deu um sorriso, franzindo o nariz numa careta.
– Ótimo, vou te dar umas aulas de inglês, você vai adorar.
– Sinto como se eu não tivesse muita escolha.
– E não tem mesmo. – riu.
– Você é mandona.
– E você fará bem se me obedecer, . – piscou. – Vamos?
– Outra coisa na qual não tenho escolha... – assentiu, ele colocou o celular no bolso e continuou com o seu em mãos.
– Você está muito bonita. – elogiou.
– Obrigada. Agora levanta essa bunda daí, eu estou com fome.
– Eu preciso saber de alguma coisa específica para esse jantar? – perguntou, ficando de pé e negou com um aceno.
– Só seja você. Ian é um amor de pessoa, uma das melhores que conheço. é... . E isso significa que ela é a pessoa mais maravilhosa do universo e que os dois vão te tratar muito bem e tentar enturmar, afinal você é novo entre nós e eles vão querer te conhecer para te tratar bem. Então, apenas seja você e vai dar tudo certo.
– Tomara. – mordeu a parte interna da bochecha antes dos dois saírem do bangalô, de mãos dadas, e caminharem até a recepção.
– Finalmente, achei que precisaria buscar vocês. – reclamou quando e chegaram à recepção.
– Você falou quarenta minutos, demoramos trinta e seis. – deu de ombros e os quatro seguiram até o restaurante do resort.
Um local lindo e aconchegante, com uma comida maravilhosa e um ambiente realmente agradável. e Ian conversavam como se fossem conhecidos de longa data, os assuntos emendavam um ao outro e não havia silêncios ou constrangimentos. Os dois tinham se dado bem, e até mesmo com ele tinha conseguido conversar sem se sentir constrangido ou envergonhado. Ian e eram pessoas absolutamente leves e tranquilas de se estar por perto, os dois puderam apenas ser eles mesmos, sem precisar de toques e beijos para provar nada. E isso, de alguma forma, deixava-os aliviados.
E, de alguma forma, conseguiu convencer e Ian a correrem pela manhã durante aqueles dias que ficariam por ali. quis matá-los quando os ouviu aceitando e quando sorriu vitorioso ao ouvir a aceitação animada do casal, mas apenas concordou em fazer parte daquele momento fitness. Não que não gostasse de se exercitar, mas não era sua pretensão fazer exercícios físicos nas férias, ficaria apenas no yoga matinal, mas aquela era uma batalha perdida.

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– Eu te odeio profundamente, . – falou de mau humor quando foi acordada, às seis da manhã, para correr.
– Odeia nada. Você vai ver como vai ter mais animação hoje.
– Toda vez que Jay fala comigo desse jeito, eu sinto vontade de dar um chute na cara dele. – resmungou mal-humorada, levantando-se da cama para se trocar.
– Melhora essa cara.
– Pense no pior palavrão que conseguir, estou te xingando com ele. – respondeu do banheiro, fazendo gargalhar.
Ao chegarem à recepção, se deparou com uma bastante animada para a atividade e aquilo a deixou confusa. E irritada. A amiga era seu elo forte no mundo pouco fitness e agora ela estava jogando no outro lado da Força. Não. Aquilo tinha que ser mentira.
Ian, pelo menos, compartilhava do mesmo ânimo (ou falta dele) e os dois ficaram para trás, observando e correndo com bastante foco e empenho pelas ruas do resort. acordando cedo por pura vontade e saindo para correr era a última coisa que imaginava ver em toda sua vida.
, me conta uma coisa... – Ian falou, enquanto os dois caminhavam, numa distância considerável dos outros dois, que corriam animadíssimos.
– Até duas.
– Como é namorar seu crush da adolescência? – implicou e lhe deu um empurrão com o ombro.
– Você pode me falar bem sobre isso, afinal casou-se com o seu. – ela devolveu a provocação no mesmo tom e foi abraçada pelos ombros, passando um dos braços pela cintura do amigo.
– Posso. – Ian sorriu. – Mas quero saber como é essa sensação para você.
– É normal. – deu de ombros ao falar, mas o coração apertado pela mentira de ter que sustentar aquele relacionamento falso para um dos melhores amigos. – A gente se dá muito bem, ele é muito carismático e me trata muito bem, gosta de mim e da minha companhia e não fica falando sobre minha carreira ou essas coisas.
– Espero que dê tudo certo dessa vez, vocês formam um casal realmente bonito.
– Não mais do que você e a .
– Mas isso é impossível, . – Ian sorriu. – E como vocês se conheceram?
– O é amigo de longa data do empresário do , os dois acharam que nós seríamos perfeitos um para o outro e resolveram nos apresentar. Quando nos conhecemos, ele mal me olhava e nem mesmo no WhatsApp ele rendia muito o papo, mas, de alguma forma, deu certo e nós começamos a namorar.
– E ele não conversava com você por quê?
– Depois que saímos da primeira vez, ele disse que me achava intimidadora.
– E ele está certo. – Ian implicou, recebendo um tapa no braço. – E agressiva.
– Antes de eu começar a realmente comentar as fotos dele, eu tentava fazer as conversas renderem, mas ele era bem evasivo... para a gente conseguir sair foi bem difícil.
– Ei, molezas, vocês vão perder o café da manhã! – interrompeu o assunto, aproximando-se dos dois. Estava suada, ofegante, mas parecia realmente feliz com aquilo.
– Ian, você conhece essa musa fitness aqui? Eu nunca a vi na vida. – implicou e rolou os olhos.
– Não faço ideia de quem seja. Falando nisso... você viu minha esposa por aí? É a mulher mais linda de todas, mas ela não é fitness.
– Andem logo. – respondeu entediada e começou a caminhar na direção do restaurante. – Vocês vão perder o café e atrasar nosso dia de praia!
– Sim, senhora, General. Já estamos indo, General. – respondeu debochada, fazendo uma continência, e viu se afastar.
Os dois caminharam, ainda abraçados, até o restaurante e foram se servir do café da manhã, que foi feito mais rápido do que pretendia que fosse, mas ela queria ir logo aproveitar o sol e o calor com sua melhor amiga, sem se sentir culpada por deixar as obrigações de lado por um tempo.

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– E então? Dividindo a cama? – perguntou, provocando, enquanto procurava por um filme no catálogo.
e Ian tinham saído para beber e conversarem para se conhecerem melhor, já que era o “novo integrante” do grupo e os dois ainda não se conheciam. e aproveitaram para ficarem juntas, reeditando o que faziam quando ainda eram adolescentes, iam uma para a casa da outra e passavam a madrugada vendo filmes, comendo porcaria e conversando.
– Ele dorme no sofá, eu na cama. – respondeu, fazendo rir.
– Isso é medo de agarrá-lo durante a noite?
– É. – respondeu sincera e olhou para a amiga. O sorriso de morreu e sua expressão se tornou preocupada. – Eu realmente estou com medo disso. E vai dar muito errado, porque vai dar climão.
– Climão por quê?
– Porque ele é gay, . Por isso. – respondeu e se jogou de costas na cama, encarando o teto. – E o clima vai ficar péssimo, o que vai ser um saco, porque ele não passa a maior parte do tempo me questionando sobre coisas da carreira, quer saber sobre a pessoa comum, e não a cantora. E conversa comigo sem me bajular, como a maioria das pessoas faz.
– Eu repito que não acho que ele seja gay.
– Ele cantou Lady GaGa numa brincadeira que fizemos.
– Pare de usar estereótipos altamente preconceituoso. Não é porque ele cantou Lady GaGa que ele é gay.
– Eu sei que isso é errado, mas nada me convence do contrário.
foi um baita filho da puta em concordar com uma coisa dessas. Ele, o empresário do Hugo e o próprio , só que o ainda mais, porque ele sabe que no passado você teve uma quedinha pelo .
– Antes fosse uma quedinha e que tivesse ficado no passado. – falou num tom frustrado.
Infelizmente nunca tinha sido apenas uma quedinha, e ainda pioraria muito. Ela podia sentir.

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Heja BVB...: é um dos gritos comuns da torcida do Borussia e até faz parte do hino. O significado é tipo “Hala Madrid”, ou seja, seria tipo “Vamos Borussia!”


Capítulo 6


– E então, o que mais há para saber sobre ? – perguntou, curioso, deitando-se na espreguiçadeira ao lado de .
– O que mais você quer saber? – ela perguntou sem se virar para olhá-lo.
– O que você quiser me contar. – deu de ombros, mas ela não viu.
– E se eu não quiser contar nada?
– Então não haverá nada mais para saber sobre você. – respondeu em tom divertido.
– Pergunte o que quiser e eu respondo o que eu quiser. – falou, ainda sem olhar para o lado, apenas aproveitando o sol.
– Qual seu dia favorito da semana? – perguntou a primeira coisa que veio à cabeça.
– Quinta-feira. E o seu?
– Acho que sábado. – ele deu de ombros. – E por que quinta-feira?
– Thor’s Day. – falou, sorrindo, e virou-se para olhá-lo. – A quinta-feira se chama “Thursday” em inglês por causa do Thor e da mitologia nórdica. Eu explicaria, mas eu não sei tudo sobre o assunto para poder dar uma palestra sobre e imagino que você tenha mais perguntas.
– Você é de Munique mesmo?
– Nascida e criada. – sorriu. – E você?
– Eu sou de Memmingen. E imagino que você já sabia, ou então era uma péssima fã. – provocou e rolou os olhos, fazendo com que ele risse.
– Você é um idiota.
– Qual é a sua cor favorita?
– Vermelho.
– Clubismo.
– Eu ia falar preto, mas imaginei que você fosse debochar.
– Você tem algum hobby?
– Quando eu tenho tempo, gosto muito de colorir. Ameniza o estresse, me ajuda a aliviar a ansiedade e também na concentração.
– Qual era sua matéria favorita na escola?
– História.
– Nossa, que surpresa. – implicou, fazendo lhe mostrar a língua.
– Então por que você perguntou? – perguntou, debochada.
– Quando você começou a ganhar dinheiro, gastava à toa?
– Só uma vez que eu gastei muito dinheiro à toa, de resto eu comprava algumas bobagens, até hoje na verdade, mas naquela vez...
– E o que você fez?
– Eu comprei um monte de coisas do Bayern e meu quarto quase parecia a própria Südkurv em dia de jogo. Minha mãe surtou quando viu tudo o que eu tinha comprado... E então passou ela mesma a cuidar do meu dinheiro e essas coisas, porque eu gastei muito dinheiro em coisas do time. Tipo muito dinheiro mesmo. Depois eu cresci e parei de ser louca e sem noção, então ela me deixa cuidar das finanças agora. – respondeu rindo.
– Você ainda tem tudo?
– Não. Quando eu comecei a fazer mais sucesso, eu fiz um bazar, vendi a maioria das coisas autografadas e doei o dinheiro para o hospital em que meu pai trabalhava.
– Seu pai é médico?
– Cardiologista. Mas agora ele não trabalha mais. – deu de ombros.
– Qual o melhor livro que você já leu até hoje? E não, não vale Harry Potter, eu sei que você gosta disso.
– Então eu posso escolher dois?
– Não, é um só. – riu.
– O Pequeno Príncipe.
– Sério? – perguntou surpreso.
– Sim. É um livro muito bonito.
– E qual era o outro?
– Todo Dia.
– Nunca ouvi falar. Sobre o que é?
– Então, o livro é narrado por um... espírito.
– É de terror? – perguntou, quase assustado.
– Não! Assim, ele é uma espécie de espírito, mas nem ele mesmo sabe se é essa a definição certa. E nem sabemos se é ele ou ela, em todo caso, tanto que o espírito que narra se chama de “A”. Enfim, “A” todo dia acorda em um corpo diferente, nunca sabe onde e nem quem será, não tem aviso e essas coisas. Dá meia noite e ele vira outra pessoa e vive a vida daquela pessoa por vinte e quatro horas. E, por isso, ele criou algumas regras: a primeira é nunca se apegar, a segunda é não interferir, mas aí ele conhece a Rhiannon, quando passa o dia sendo o namorado dela. E se apaixona. E a história se desenvolve a partir desse ponto, porque “A” passa a viver os dias em função de encontrá-la de novo e que ela goste dele...
– Parece interessante.
– E é! – falou, empolgada. – Quando voltarmos para casa, eu te empresto.
– Olha, eu não sou um cara que lê muito...
– Todo dia é dia de se aprender e começar alguma coisa, . E é um livro pequeno e rápido, você vai gostar.
– Não acho que eu tenha muita escolha.
– E não tem mesmo.
– Se você pudesse ouvir apenas uma música pelo resto da sua vida, qual seria?
– Isso está parecendo aquelas entrevistas de revista de conteúdo adolescente, sabia? – falou, rindo. – E eu acho que escolheria Don’t Stop Me Now, do Queen. É uma música que me deixa bem feliz.
– Boa escolha. – sorriu. – Você prefere frio ou calor?
– Depende. Se não forem extremos, gosto dos dois. Se forem extremos, odeio os dois. – respondeu, rindo. – Munique, por exemplo, há momentos em que eu odeio.
– Qual o lugar mais bonito em que você já esteve?
– Ilhas Maldivas. Passei as férias do ano passado lá, e aquele lugar nem parece de verdade, parece um sonho.
– Sério? Nunca fui até lá.
– É maravilhoso, eu não consigo nem descrever com palavras como eu amei viajar praquele lugar. Davi adorou, surfou horrores.
– Foram só vocês?
– Sim. Mama und Papa quiseram ficar na Alemanha, quando nós voltamos das Maldivas viajamos para Ibiza e ficamos uma semana. Foi bem legal.
– Você e seu irmão parecem se dar muito bem.
– E a gente se dá. – dessa vez o sorriso de foi aberto. – Amo Davi com todo meu coração, e nós sempre fomos muito unidos e parceiros. Acho que a pouca diferença de idade ajuda muito, isso nos fez ter afinidade e nos tornarmos muito amigos. Davi me conhece melhor que quase qualquer um.
– Só não conhece melhor que a .
– Correto. – deu um sorriso em confirmação.
– Você e a se conhecem há muito tempo?
– Desde o primário. Éramos sempre das mesmas salas e viramos inseparáveis.
– E o ?
– Na mesma época. Só que ele era meio distante em alguns momentos, principalmente quando Ian apareceu.
– Eles não se dão bem?
– Se dão sim, mas é que o é de lua. – deu de ombros. – Enfim, nós somos amigos de infância.
– Isso é legal.
– E você e ?
– A gente se dá muito bem. – sorriu ao lembrar-se da irmã. – Ela é ótima, mesmo quando enche meu saco e fica me importunando. E eu a amo demais.
– Ela parece mesmo ser uma ótima pessoa.
– Vocês deviam combinar alguma coisa depois, ela gosta muito de você. Não apenas da sua música e de você como cantora. Sei que ela gosta da sua pessoa, porque sempre elogiou muito todas as coisas que você faz e fala.
– Awn. – sorriu. – Vou mesmo. Ela parece ser ótima.
– E ela é.
– Agora senta, vou passar o protetor solar de novo.
– De novo? – soltou um muxoxo quase em tom infantil.
– Para de resmungar e senta logo. – falou, sentando-se em sua própria espreguiçadeira.
– Você é a pessoa mais chata que eu já conheci na vida. – resmungou, sentando-se e observando se inclinar em busca do protetor solar.
– Vira. – falou, simplesmente, e voltou a resmungar. – Você resmunga mais que um velho.
– Eu já falei hoje que você é a pessoa mais chata que eu já conheci na vida?
– Além de reclamar feito um velho, está começando a ficar esquecido. Você acabou de falar isso. – implicou.
Abriu o vidro de protetor solar e derramou um pouco do conteúdo na mão de , ele sabia o que tinha que fazer – e fez de má vontade – com aquilo. Ela fez o mesmo na própria mão e aplicou nas costas de , que continuava resmungando.
– Acho que te descobriram. – falou sem se virar.
Estavam em Porto Rico há nove dias e, como quase não tinham visto fãs e eram poucas as pessoas que tiraram fotos deles no resort, além de não haver fotógrafos na ilha, eles mal andaram de mãos dadas.
Passaram os dias entre corridas matinais, passeios por Dorado e uma ida à Playa Flamenco, em Culebra, em um dos dias, os dois também iam à praia do resort, conversavam muito, assistiram filmes e seriados, saíram em um dos dias para uma boate em San Juan e voltarem com o dia amanhecendo.
Não dividiram a mesma cama para nada além de jogar videogame e ver televisão, e estava se controlando o máximo que podia ao vê-lo desfilando de sunga ou bermuda e com aquele bronzeado. Ele estava tentador. fingia não reparar em cada detalhe do corpo de , que desfilava de biquíni para todos os lados e tinha aquele bronzeado maravilhoso.
– Como assim? – perguntou enquanto ainda passava protetor nas costas dele, sem erguer o olhar.
– Paparazzi. – falou, quase sem mexer a boca, e resmungou, terminando de espalhar o creme nas costas de .
– Demoraram. – suspirou.
– Considerando que você contou nos comentários de uma foto que estava aqui, também acho que eles demoraram a aparecer. – caçoou.
– Eu não tive culpa nenhuma disso. O Shawn perguntou onde eu estava e eu apenas respondi. – ela deu de ombros, fazendo rir.
– Você podia ter mandado uma mensagem privada para ele ao invés de falar nos comentários da foto, que teve mais de três milhões de curtidas, que você estava em Porto Rico.
– Porto Rico é um país grande. E eu nunca falei que estava em Dorado.
– Porto Rico não é um país grande, , aqui não tem nem dez mil quilômetros quadrados de extensão. – pontuou. – E já tinha diversos hóspedes tirando fotos nossas escondidas, eles iam publicar suas fotos e as revistas iam te achar.
– Ai, , cala a boca. – resmungou. É, ele estava certo, ela podia ter mandado mensagens, mas nem mesmo se atentou àquele fato na hora, apenas respondeu o comentário de Shawn em sua foto. Então colocaria a culpa nele, era o mais fácil a se fazer naquele momento. – E vira a aba do boné para tampar o rosto do sol uns minutos.
– Você fala igual minha mãe falava quando eu tinha quatro anos. – reclamou, virando o boné para a frente.
– E você reclama como se ainda tivesse quatro anos.
– Chata.
– Queria um lugar em que nenhum fotógrafo me importunasse e que eu pudesse curtir minhas férias em paz, sem ter que me preocupar com o que vão publicar a meu respeito. E sem ter que andar com seguranças me cercando.
– Impossível. – disse num resmungo e se sentou ao lado dele.
– Daqui a pouco recebo alguma mensagem do avisando que vai mandar uma equipe de segurança para acompanhar cada um dos meus passos até eu voltar para casa. – resmungou.
– Você acha que é necessário?
– Não sei, talvez.
– Sinto muito, . De verdade.
– Que inferno. – ela reclamou e deu uma risada baixa. – Para de rir!
– Vem, vamos mergulhar.
– Seu protetor ainda não secou o suficiente para isso, . – falou, séria, e rolou os olhos. – Nós estamos de férias, mas esse projeto de pelos faciais não vai prosperar. Hoje você se livra disso.
– Você é muito chata, . – se pôs de pé, deixou o boné sobre a espreguiçadeira e a puxou pelas mãos, erguendo-a e a abraçou, dando ótimos cliques aos dois fotógrafos que estavam em barcos perto da praia.
– Meu Deus, você é muito ator. – riu. – Deveria tentar uns testes, acho que você se sairia muito bem.
– Cala a boca e vamos para o mar.
– Pode voltar a sentar essa sua bunda nessa espreguiçadeira, debaixo desse guarda-sol e esperar os vinte minutos. – falou, séria, envolveu-o com os próprios braços e o olhou.
– Qual a diferença desse protetor para o de semana passada? Porque a gente usou e entrou na água logo em seguida.
– É o mesmo, mas nós ficamos bem vermelhos nos primeiros dias e só não ficamos ardidos e doloridos porque Deus nos concedeu essa graça, e não tenho muita certeza de que nos será novamente concedida, porque seria burrice demais e acho que as forças divinas não colaboram nesses casos.
– Você deveria ter comprado aquele que pode entrar na água logo que passa no corpo. – falou emburrado, feito uma criança.
– Esse é o meu protetor solar e eu estou te emprestando porque eu sou uma pessoa muito legal. Se você estiver achando que usar esse aqui ruim, compra um para você e para de usar o meu. – respondeu quase desaforada.
– Chata. – resmungou, derrotado, soltando o abraço, e foi se sentar na espreguiçadeira.
– Eu vou te deixar ficar ardido de queimadura de sol para você aprender a me obedecer e parar de reclamar. – falou e deu um sorrisinho, deitando-se.
deitou-se sobre espreguiçadeira que não estava sob o guarda-sol e fechou os olhos, para desfrutar melhor do sol, completamente relaxada. O que, de agora em diante, seria difícil com a presença dos paparazzi que fariam de tudo por um clique duvidoso.
E nem queria imaginar o tamanho do esporro que receberia de . Ele, com toda certeza, reclamaria que ela tinha sido absolutamente irresponsável, que ela tinha o número do celular de Shawn Mendes e deveria ter mandado o local em que estava pelo WhatsApp ao invés de responder em um comentário do Instagram, falaria que agora teriam que gastar dinheiro enviando seguranças para escoltá-los... E, não, ele não perguntaria das férias, se ela estava bem... Com tudo era sempre os negócios.
Só de pensar nisso, sentia vontade de se enterrar na areia da praia.
– Faça o favor de não tomar muito sol, vou te levar para jantar hoje. – se pronunciou após um tempo em silêncio.
– E o que isso tem a ver?
– Se você tomar muito sol e ficar cansada e dolorida, e, consequentemente, vai ficar mal-humorada e mais chata do que já é. – implicou.
– E onde vamos jantar? – perguntou, sem olhá-lo.
– Aqui mesmo. Um jantar romântico de casalzinho fofo que somos. – disse baixo e ela riu.
– Então tenho que ir muito bonita. – falou, animada, e sentou-se rápido, sorrindo. – Aproveite sua praia, eu vou para o SPA.
– Espero que você esteja muito bonita às oito. – piscou e riu, vestiu os shorts e se virou para olhá-lo.
– E eu espero que em quatro horas você passe protetor de novo. – recomendou, jogando o protetor solar e o pegou no ar, antes que acertasse sua cabeça. – E que espere vinte minutos depois de cada passada antes de ir para o sol e para a água.
– Sim, mamãe. – debochou.
– É, você é meu filhinho mesmo.
– Mas, ... nas costas eu não alcanço sozinho. – falou quase infantil.
– Isso aí é um problema seu. – falou, rindo, e lhe jogou o boné, mas sorria da forma como ela falara.
– Você é péssima.
– Ah! Você vai ter que se virar sozinho com o protetor e com a roupa, espero que saiba escolher bem. – piscou, ficando de pé, e sorriu. – Agora seja discreto ao olhar e me fala se eles ainda estão olhando para cá e tirando fotos.
– É claro que eles estão olhando e tirando muitas fotos. – respondeu, rolando os olhos. – E focando na sua bunda.
– E como eu estou pleníssima de shorts, eles não vão ter muito mais do que têm habitualmente. – deu de ombros. – Então deixa eu te dar um beijo de despedida.
– Claramente se aproveitando da situação. – provocou, dando um sorriso, e inclinou-se na direção dela.
– Nossa, com toda certeza eu estou mesmo. – disse, debochada. – Eu não devia ter dado tanta intimidade assim para você, .
– Mas deu, já era. – ele riu e deu um selinho nela.
– Acho bom se livrar dessa barba. – apontou para o queixo de , que deu uma gargalhada, assentindo positivamente.
– Sim, senhora.
– Aprendeu direitinho. – piscou e mandou um beijo no ar, dando-lhe as costas e indo para o SPA.
sorriu sozinho, vendo os fotógrafos tirarem diversas fotos do momento, antes de deixar o boné sobre a espreguiçadeira e ir para o mar.

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– Caprichou, hein? – disse ao vê-la sair do banheiro.
usava um vestido longo, de alças finas, verde-claro, com um decote em V, justo até metade da coxa e solto até os pés. Uma rasteirinha que não estava visível e uma bolsa de mão. Os cabelos soltos, uma maquiagem simples, um colar dourado que caía pelo vão dos seios, algumas pulseiras e ostentava um olhar analítico sobre e sua roupa. Ele estava com uma camisa de mangas curtas e de botões azul clara lisa, uma calça de sarja bege e um tênis branco, relógio no pulso esquerdo. Os cabelos estavam devidamente penteados e a barba feita.
– Você está ajeitadinho, parabéns.
– Aprendi com uma estilista muito boa. – ele sorriu. – Você estava muito bonita nas nossas fotos de hoje.
– Eu também achei. – sorriu de volta. – Inclusive postei uma delas nos stories.
– Eu vi. Você é péssima. – falou, rindo.
tinha postado uma das fotos que tinha sido marcada nos stories e escreveu “eu, ele e os paparazzi de férias no paraíso 🌞”.
, como previsto, tinha enviado uma mensagem tão grande que nem mesmo leu tudo, apenas disse que tinha mesmo vacilado, mas que uma hora ou outra isso ia acontecer mesmo, já que os hóspedes vinham tirando fotos dela há dias e que ela já tinha comunicado à gerência do resort sobre a presença dos paparazzi, e eles seriam retirados da faixa de praia pertencente ao resort, já que nenhum deles estava hospedado lá, e ela poderia ficar em paz, ou seja, não precisaria de uma horda de seguranças cercando o local. E ele, claro, odiou a resposta.
Ela queria ter usado uma foto que ilustrava uma matéria falando sobre como os dois eram muito fofos e carinhosos, tinha sido tirada quando falou da barba e gargalhava, com os olhos quase fechados e um sorriso enorme no rosto, mas ela não conseguiu salvar a foto e nem tinha sido marcada em nenhuma daquela no Instagram. A matéria era capa de uma revista alemã e falava sobre os sorrisos e olhares dos dois na praia, tinha fotos apenas daquele dia. Ela riu muito, mas retweetou no Twitter e ainda adicionou alguns corações.
– É preciso rir da própria desgraça, .
– Podemos ir?
– Claro. – concordou e os dois saíram do bangalô de mãos dadas.
Agora que o mundo inteiro tinha descoberto onde estavam, os dois não podiam dar brechas para comentários e tinham que se comportar como o casal fofo e apaixonado que o mundo jurava que os dois eram. De mãos dadas, saíram do quarto e seguiram pelo caminho inteiro até o restaurante do resort, já tinham jantado lá durante a estadia no local, mas naquele dia seria diferente.
tinha cuidado de reservar uma mesa para os dois na varanda do restaurante, com vista para a praia, e o som do mar seria a trilha sonora do jantar dos dois.
A mesa era a única naquele espaço, a iluminação era feita por velas que estavam em globos de vidro, além do sol que ainda não tinha se posto totalmente e dava ao céu uma coloração maravilhosa, um vaso de flores estava sobre a mesa e todo um clima de romance instalado no local.
Tudo propositalmente arquitetado, afinal precisavam passar um pouco mais de credibilidade do que vinham demonstrando.
pegou o celular e tirou uma foto de tomando vinho, distraído, e postou nos stories do Instagram: “Aproveitando uma noite linda, em um lugar lindo e com uma companhia mais linda ainda ❤️”.
– Esse é o nosso primeiro encontro em dois meses de namoro. – falou depois de tomar um gole do vinho em sua taça.
– Fomos ao cinema juntos. E ao Burger King depois disso.
– Aquilo não foi um encontro. Foi, na verdade, um evento traumatizante te ver comer feito um prisioneiro de guerra. – zombou.
– Não tenho culpa se você tem o estômago de minhoca e não conseguir comer direito.
– Comer direito é diferente de ser um morto de fome. – voltou a implicar e o xingou em espanhol, ele podia assegurar, porque não tinha entendido sequer uma palavra. – Se vai me xingar, fale em um idioma em que eu possa entender.
– Estamos em terras latinas, você tem que falar espanhol. – deu de ombros, dando um sorriso debochado.
– Na verdade, é um território livre e não incorporado aos Estados Unidos. Então não é um território latino, de verdade.
– Você está estudando geografia mesmo, hein? – perguntou, debochada, mas não teve tempo de responder, já que o garçom vinha com os pratos para servi-los naquele momento.
– E então, como vai ser agora? – perguntou quando o garçom se afastou, ainda que o homem não falasse alemão, era melhor não arriscar.
– Como vai ser agora o quê? – perguntou sem entender.
– A nossa estadia... o falou alguma coisa sobre mandar uma equipe de segurança?
– Falou, mas já cortei a ideia. Estamos em um país pequeno, como você falou hoje, e o resort é bem tranquilo, não precisaremos disso. Os paparazzi não vão ficar aqui nos importunando, não teremos tantos problemas, mas os hóspedes... bom, eles vão continuar tirando fotos a gente goste ou não. Eu aprendi a lidar com isso faz um tempo, então, apesar de odiar e me sentir completamente invadida, eu consigo levar isso numa boa, agora eu já me acostumei a ver fotos minhas de todos os jeitos circulando pela internet.
– Sinto muito.
– Vamos esquecer disso e vamos comer. Não vale a pena o desgaste mental que isso causa. Agora a gente apenas aceita, porque dói menos, e curte nossos dias de férias, tentando não pensar demais nisso e já planejando se vamos ou não até Culebra de novo ou não.
Os dois jantaram aproveitando o sabor da comida, trocaram algumas palavras durante a refeição, riram e passaram um tempo, após comerem, conversando, além de fazerem planos para o dia seguinte. Sempre tinham o que falar, não ficavam em silêncios constrangedores e desconcertantes. e se davam bem, afinal conseguiam concordar em muitas coisas e compartilhavam o grande amor por videogames e futebol, além de começarem a se entender sobre seriados e filmes.
Ficaram no restaurante até às dez, quando o local precisava fechar e os dois foram gentilmente convidados a se retirar. Não tinham visto outros fotógrafos, já que avisou ao gerente sobre a invasão da faixa de praia pertencente ao resort, que é propriedade privada, onde só podem transitar e navegar as pessoas hospedadas no local. E o valor da diária é absurdamente caro. Caro demais para revistas pagarem para seus fotógrafos cuidarem da vida de famosos.
E, também, em todo caso, as revistas não precisavam pagar para que seus fotógrafos estivessem ali, alguns dos hóspedes já vinham fotografando os dois há dias, aquilo daria muito material, então as revistas não precisariam bancar diárias absurdamente caras para conseguir o que queriam.
– Você anima dar um mergulho? – perguntou enquanto andavam pela praia, postergando o retorno ao bangalô.
– Sem chance! Eu não vou ficar pelada, mesmo que esteja um calor dos infernos, que esteja a noite e que ninguém vá ficar sabendo.
– Você pode ficar de roupa e nós podemos ficar na piscina do quarto. – deu de ombros. – Pedimos um whisky, sei lá, e tomamos enquanto conversamos mais um pouco.
– Não aguento mais ouvir sua voz, . – brincou e rolou os olhos. – Pode ser, mas sem álcool.
– Então vamos.
– Vamos mesmo prolongar as férias? – perguntou enquanto seguiam até o bangalô.
– Você é quem manda. Tem algum lugar em mente?
– Grécia. – deu um sorriso animado ao falar. – Santorini.
– Pode ser. – concordou, dando de ombros. – Eu nunca fui a Santorini.
– Você nunca viaja, . – falou, dando uma risada. – Sempre fica em Munique, eu me lembro disso desde... sempre.
– Eu viajo sim! – ele protestou.
– Memmingen não conta como viagem. – disse, rindo, e rolou os olhos.
– Já viajei para Sardenha.
– Uma vez na vida. – disse, rindo, enquanto entravam no bangalô que dividiam. – Você precisa viver.
– Eu tinha medo de deixar minha mãe e minha irmã sozinhas no começo. – confessou, sentando-se no sofá para tirar os sapatos. – Elas não queriam viajar e eu ficava em casa com elas, ainda que eu sempre ouvisse que não era necessário, que eu precisava descansar e essas coisas. Depois que meu pai morreu, eu assumi a responsabilidade de ser o homem da casa e fazer o possível para cuidar bem delas e oferecer conforto e tudo mais, porque, afinal, eu era mesmo. Sou. Ainda que não estejamos mais na mesma casa há um tempo.
– Faz sentido. – disse, remexendo nos biquínis que estavam no pequeno armário.
– Eu me acostumei. – deu de ombros, enquanto caminhava para o banheiro e fechava a porta atrás de si, e ele tirou a camisa e a calça logo em seguida e largou tudo jogado no sofá. Não esperou por ela, apenas se jogou na piscina.
– Ah, muito bonito da sua parte me esperar. – falou em tom debochado, parando à beira da piscina de braços cruzados e ele riu.
– Foi mais forte que eu. – riu. – Antes de entrar, coloca uma música para tocar.
– Seu desejo é uma ordem, senhor. – falou, novamente, debochada.
Deu meia volta e pegou o celular sobre a cama, abrindo o Spotify e procurando por sua playlist, tinha feito uma com as três músicas favoritas da vida em todos os álbuns que gostava.
deixou o celular um pouco afastado da beirada da piscina e entrou na piscina com um pouco mais de cuidado do que havia feito.
A primeira música que tocou foi “All My Life”, do Foo Fighters.
– Finalmente alguma coisa que eu conheço e gosto de ouvir. – deu um sorriso.
– Você tem que lembrar que eu entendo de música, meu querido, pode confiar em mim que sempre vai ter coisa boa. – ela sorriu. – Eu amo Foo Fighters. Tipo, muito mesmo. Eu quero muito cantar com eles um dia, mas acho que não vai rolar.
– Você os conhece?
– Eu os vi em uma das premiações do Grammy que fui, não ficamos próximos e eu não fui à after party, então não tive contato, mas já fui a dois shows deles e eles são fodas!
– Você já ganhou algum Grammy?
– Não. – falou e fez um bico. – É meio difícil quando se concorre com Adele, Beyoncé...
– Você já quis desistir de tudo?
– Diversas vezes no começo da carreira, e há dias em que eu realmente considero essa ideia. – deu um sorriso sem mostrar os dentes e mordeu a parte interna da bochecha. – Mas eu não sei fazer nada além de cantar. E é o que eu mais amo fazer na vida, eu não seria feliz fazendo outra coisa.
– E você considera fazer isso por quê?
– Não parece, mas eu sou um pouco insegura quanto à minha voz e talento. Ainda que eu saiba que sou realmente boa no que faço, não é sempre que eu sei disso. Entende?
– Entendo, mas por que você acha isso?
– As pessoas gostam de ser más a troco de nada. Eu não incomodo ninguém, não faço picuinha e nem nada do tipo, mas sempre tem várias pessoas que me mandam hate e falam que eu sou péssima, que canto mal, que faço sucesso por ser bonitinha e mais nada... e há momentos em que eu realmente acredito que é por isso mesmo.
– A multidão de fãs que você tem é a prova de que você tem talento de verdade e não é apenas um rostinho bonito, apesar de ser linda. Você é fantástica e uma das melhores cantoras que já ouvi na vida, . As pessoas são cruéis sem necessidade, eu concordo com você, mas não as leve em consideração. Só você sabe o que passou para conseguir seu lugar ao sol nessa indústria tão competitiva que é a indústria da música. E nunca esqueça que, quando uma pessoa tenta derrubar a outra, sempre é por inveja, e as pessoas só sentem inveja de quem é realmente muito bom. – falou, sincero, fazendo abrir um sorriso tímido. – é um fenômeno mundial, porque é excelente no que faz. E linda.
– Obrigada. – ela respondeu, envergonhada.
– Você já pensou em mudar da Alemanha?
queria muito que eu me mudasse pra Los Angeles há um tempo, mas eu não farei isso, posso ir por algum tempo, mas nunca permanentemente. Eu amo muito morar no meu país e minha vida inteira está lá. Se eu consegui fazer sucesso e me manter assim morando na Alemanha, continuarei assim.
– Mas lá na Alemanha é bem mais difícil você levar uma vida... normal, em Los Angeles seria mais fácil, não? Tem várias celebridades para dividir os holofotes.
– Lá existem, pelo menos, mil paparazzi por famoso, eu teria a minha cota de fotógrafos para me perseguir também. – soltou uma risada pelo nariz quando falou. – Eu tento levar uma vida normal, sabe? Agora eu conheço os limites que tenho, mas eu gosto de dirigir meu carro, mesmo que nem sempre eu possa fazer isso, gosto de sair para comprar minhas próprias coisas sem ter que pedir alguém fazer por mim, mas sempre tenho que pedir para fecharem as lojas, para não gerar tanto tumulto e para que eu não demore umas três horas a mais que uma pessoa normal demoraria. E eu sempre ganho as coisas ao invés de pagar por elas. Não que ganhar coisas seja ruim, mas sei que é por pura bajulação e esperam que eu divulgue as marcas e tudo mais.
– Quando eu jogava no Bayern, alguns fotógrafos sempre andavam atrás do Basti e da Sarah.
– Mas são abordagens diferentes. Bom, menos para Cristiano, Messi e Neymar, mas normalmente com jogadores a abordagem é bem menos invasiva do que para um cantor, ator ou modelo, até mesmo a abordagem dos fãs é diferente. Eu me sinto exposta com muito mais frequência, eu sou fotografada por qualquer coisa e em qualquer lugar. Não posso ir na padaria sem demorar duas horas a mais para chegar até lá, porque os fotógrafos não me deixam caminhar, e isso atrai atenção de todas as pessoas na rua, que, consequentemente, pedem-me fotos e autógrafos. Eu amo meus fãs e nunca deixo de atendê-los, seja qual for o momento, eles não são nem parte do problema, longe disso. O problema mesmo é a exploração midiática e a exposição desnecessária que fazem para ganhar dinheiro às minhas custas quando eu estou, sei lá, indo até a academia, por exemplo.
– Já publicaram coisas ruins sobre você?
– Ah, claro. – soltou uma risadinha. – Já cometi algumas gafes.
– Sério? – perguntou surpreso e assentiu.
– Uma delas foi depois da eliminação do Bayern contra o Real Madrid na Champions da temporada 2013/2014, naquele quatro a zero vergonhoso na Allianz Arena. Eu me envergonho de ter surtado como surtei, mas a culpa também foi dos paparazzi que não me deixaram em paz. Você deve imaginar o quão furiosa eu estava depois de ver aquele... jogo acontecendo em Munique. Acho que furiosa ainda é pouco para definir como eu fiquei. E soltei uma boa quantidade de palavrões para os fotógrafos que não me davam sossego e nem me deixavam sair da Allianz em paz para voltar para casa. Poxa vida, meu time tinha tomado um sarrafo dentro de casa, eu estava nervosa pela atuação pífia e só queria sair de lá o mais rápido possível, mas eles cercaram meu carro e começaram a gritar perguntas e falar demais, eu abri as janelas e falei tantos palavrões que senti vergonha de olhar na cara da minha mãe quando publicaram tudo o que tinha sido dito. No dia seguinte eu era capa de basicamente todas as revistas do país por causa disso. Até falaram que era por coisas como essas que lugar de mulher era longe de futebol, porque somos esquentadinhas demais.
– Eles não fizeram isso! – falou, desacreditado.
– Fizeram. E um monte de mulheres começou a se virar contra mim por causa disso, outras tantas me defenderam... Mas nada disso me surpreende, na verdade, eles sempre fazem essas coisas para conseguir o pior lado das pessoas e lucrar em cima de tragédia, tristeza, problemas e desgraças dos outros. Quando damos atenção demasiada para as fofocas, estamos contribuindo para perturbar a cabeça de quem é o objeto da fofoca, mesmo que a pessoa fale que não se importa.
– Você tem razão. Mas aconteceu alguma coisa com essas reportagens?
– Repercutiram por uma semana, mencionaram quando perdemos em Madri também, mas depois se preocuparam com outros aspectos da minha vida e das de outras pessoas e largaram meu escândalo por causa de futebol para lá.
– Já aconteceu alguma outra coisa?
– Já publicaram diversas coisas, mas acho que a minha pior lembrança é a de quando os paparazzi me deixaram basicamente ilhada dentro de um restaurante em Munique. Eu saí para jantar sozinha e não avisei ao Bob, achando que eu era apenas uma pessoa comum e podia fazer isso sem nenhum tipo de problema ou inconveniente. Cheguei ao lugar tranquilamente, fiz meu pedido, comecei a comer, tirei algumas fotos com fãs que estavam lá e me pediram, essas fotos foram postadas com a localização e cinco minutos depois o restaurante estava rodeado de fãs e fotógrafos. Tiveram que fechar o lugar, ninguém entrava ou saía, porque estavam quase ameaçando invadir, e isso seria catastrófico demais, então resolveram simplesmente proibir entrada e saída até que aquele tumulto se dissolvesse. – suspirou com a lembrança. – Liguei para o Bob e ele demorou cerca de vinte minutos para conseguir me tirar de lá, e eu ainda tive que ouvir um mega sermão, depois de pagar pelo jantar de todos os presentes e ainda deixar um dinheiro para compensar todo o transtorno.
– Que horror!
– Eu tento fazer algumas coisas ainda, sabe? Comprar roupas, comida... mas é difícil. É muito raro eu conseguir sair sem ser vista e denunciada por gritos e flashes. Eu perdi toda a minha privacidade, porque a mídia acha que, por eu ser famosa, eles têm todo o direito de expor cada centímetro do meu corpo e da minha vida. No ano passado eu tive que pagar muito caro para todas as revistas saírem de perto do meu prédio, num raio de cinco quilômetros, porque meus vizinhos fizeram um abaixo-assinado e uma reunião de condomínio para me convidar a me mudar de lá. Quando perguntei o motivo, já que eu sempre fui tranquila e nunca causei problemas, eles disseram que o motivo era que, por minha causa, eles não tinham mais privacidade ou sossego, que viviam rodeados de fotógrafos na calçada e na portaria, e isso era um inconveniente e tanto.
– E como você resolveu isso?
queria processar as revistas, mas a convenceu de que era melhor não sujar meu nome daquele jeito e acabar me tornando “a encrenqueira que odeia a mídia que a sustenta e paga suas contas” – fez aspas com os dedos para parafrasear –, e eu paguei um absurdo para que deixassem meus vizinhos em paz. Não adiantou muito, já que vez ou outra aparecem alguns paparazzi por lá. E eu estou mesmo pensando em comprar uma casa, um pouco mais distante do centro de Munique, posso ficar mais isolada e não dar tantos transtornos aos meus vizinhos. Mesmo que eu vá passar um ano longe de lá.
– Credo, . – falou, espantado.
– E você, já considerou a ideia de se mudar da Alemanha? – ela mudou o foco do assunto e deu um sorriso de lado, entendendo bem a mudança.
– Com algumas propostas que recebi enquanto estava no Bayern, sim, mas se eu aceitasse seria só pelo dinheiro, minha vida inteira também está na Alemanha e eu sempre fui muito feliz lá, mesmo com todas as lesões e coisas ruins que aconteceram.
– Eu jamais aguentaria viver tão distante dos meus pais.
– Minha mãe iria comigo, disso eu não tenho a menor dúvida. E também tenho certeza que a sua mãe iria com você.
– Claro. – riu. – Ela jamais me deixaria mudar de país sozinha.
deu um sorriso ao observá-la, parecia ainda mais bonita com a pele bronzeada, quase dourada, e sorrindo pela lembrança saudosa dos pais e da Alemanha. Ao contrário do que ele tinha pensado no começo de toda essa história, era uma pessoa realmente interessante, nada fútil e uma mulher realmente forte e de opinião.
Ele sabia tudo que os fãs e as revistas sabiam, mas também sabia que ria de piadas idiotas, que não sabia contar piadas, que era péssima para citar ditados populares, que entendia bem de vários assuntos e não apenas de música, que tinha começado uma faculdade à distância de História, mas acabou largando por não ter tempo suficiente para se dedicar aos estudos da forma como queria, que sabia cozinhar muito bem e adorava fazê-lo, que era ela quem limpava o próprio apartamento quando estava em casa e outras diversas coisas que as revistas e os fãs, provavelmente, jamais saberiam.
, que conhecia poucas coisas sobre antes, acabou conhecendo várias que não eram públicas, por sempre ter sido tão reservado com sua vida pessoal. Aprendeu sobre gostos musicais, de séries, livros e filmes, coisas que ele gostava ou não de comer, hobbies... era muito reservado com sua vida e acredita que, pela orientação sexual dele ainda ser um tabu no esporte, ele se mantém tão afastado dos holofotes.
– Ah! Eu amo essa música. – falou, dando um sorriso enorme, quando uma nova música começou.
– Que música é essa?
– XO. – ela sorriu. – Ela é da Beyoncé, mas o John fez a melhor versão possível. E é essa. Eu já cantei uma vez, mas pff... não chega nem perto dos dois.
– Essa eu nunca ouvi.
– Agora conte a novidade.
– Palhaça. – resmungou.
Your heart is glowing and I'm crashing into you. Baby, kiss me, kiss me, before they turn the lights out... cantou de olhos fechados, como se isso fosse fazê-la aproveitar melhor a música.
Adorava aquela música, a forma com que a letra, a melodia e a voz de John Mayer pareciam feitas para serem usadas juntas. Ainda que soasse excelente na voz de Beyoncé, parecia ter sido feita sob medida para John Mayer e sua voz. amava vê-lo interpretá-la de forma tão intensa e derramando verdade em todas as palavras cantadas, como se fosse algo que ele tivesse escrito, porque estava sentindo, ainda que não pudesse, de forma alguma, garantir a veracidade disso.
a olhava atentamente, como ela estava entregue à música. Ele queria beijá-la. Uma vontade imensa de fazer isso. E esperava que ela também se sentisse da mesma forma. era absolutamente interessante, fascinante e linda. Não apenas por fora, mas por dentro. Principalmente por dentro. Seu coração, seu jeito, a forma apaixonada com que ela canta basicamente o tempo inteiro, a forma carinhosa como fala dos fãs, o jeito simples e simpático da mulher que contrastam com o físico de mulher, um mulherão da porra, linda e cheia de atitude.
– É, é mesmo uma música muito boa. – falou enquanto ainda a observava absolutamente focada na música que tocava, de olhos fechados e com um sorriso pequeno brincando em seus lábios enquanto cantarolava aquela letra que ele desconhecia, mas parecia ser algo bonito, ele pesquisaria para saber.
– Mas a música mal começou. – falou num tom risonho, franzindo o nariz em uma careta, e abriu os olhos para lhe lançar um olhar divertido, mas surpreendeu-se pela pouca distância entre os dois.
– É, mas menos da metade da música e eu realmente quero te beijar. – falou sério e o encarou surpresa.
Como assim? Ele queria beijá-la? Mas... Ele não era gay?
– Cer...teza? – ela perguntou, olhando para , reparando em cada mínimo detalhe daquele rosto.
Desde o queixo ridiculamente perfeito até os profundos olhos azuis que a encaravam. A ruga que se formava entre suas sobrancelhas sempre que ele estava apreensivo estava ali e aquilo dava à sua fala a veracidade que mentalmente contestava de forma voraz.
E toda a voracidade com que sua mente a alertava sobre as consequências daquilo só aumentou quando mordeu o próprio lábio, quase sopesando se tinha mesmo dito aquilo, enquanto ainda a observava fixamente.
Ah, ela também queria beijá-lo. E como queria!
Tinha sonhado com aquilo por anos a finco na adolescência, mentiria se dissesse que não mais sonhava em beijar , principalmente agora com a convivência e com o fato de ter que, vez ou outra, tocar os lábios dele com os seus para agraciar as câmeras dos paparazzi que estavam sempre à procura dos dois, “o casal alemão do ano”. era total, absoluta e incontestavelmente beijável e ela queria muito provar daquele beijo, descobrir se seria tão bom quanto fantasiava há anos ou se não, não seria nada daquilo. Ou se seria infinitamente melhor do que ela tinha imaginado.
E seu medo era esse.
O medo era descobrir que aquele beijo seria o melhor de sua vida e que ela jamais conseguiria gostar do beijo de outra pessoa. Porque, bom, ele era gay e não ia querer beijá-la depois daquilo ali. Não mesmo. Então lhe restaria uma frustração eterna e nada mais. Na verdade, nem tinha entendido ainda de onde tinha saído aquilo de “eu realmente quero te beijar”. Aquilo nem fazia sentido.
Internamente estava em conflito, seu coração torcia para que ele confirmasse que queria beijá-la, mas sua cabeça insistia em repetir que deveria dizer que era brincadeira e que nunca faria aquilo, que fosse apenas uma brecha para ele dizer que não, eles não se beijariam, porque ele é gay.
– Absoluta. – respondeu, sério, ainda a um passo de distância, sem desfazer o contato visual.
Ele mantinha seu olhar fixo ao de , de forma intensa e profunda. De uma maneira tão sincera que estava escancarado que, sim, ele queria mesmo beijá-la e que estava apenas aguardando pela permissão ou negativa. Seu coração batia rápido contra seu peito na expectativa do sim, sua cabeça martelava que aquilo era uma péssima ideia e que daria errado de tantas formas que era impossível quantificar. Mas ele não ligava.
– Então por que você não beija? – ela perguntou.
Estava incerta se deveria mesmo ter feito aquela pergunta e se aquilo seria prudente. Sua mente berrava que não, aquilo não era prudente e que daria errado de todas as formas possíveis, berrava que não, ela não deveria ter falado aquilo, que não devia ter concordado com aquela loucura, mas já tinha dado a permissão e nem mesmo queria negá-la.
não respondeu, apenas deu o passo que os separava, envolveu o corpo de com um dos braços de forma delicada, encerrando toda a distância anterior entre os corpos e a mão livre, ele usou para lhe acariciar o rosto. apenas o observava, ainda incerta sobre a situação. Aquilo terminaria mal, ela podia sentir. Mas, mesmo sentindo, não ligava o suficiente para se afastar. Poderia pensar nisso depois, mas, no momento, ela apenas queria que aquele beijo acontecesse.
Tinha que recuar, sua mente sabia disso, não podia levar aquilo adiante! Mas seu corpo resolveu ignorar os gritos que o cérebro dava e não se moveu e nem repeliu o movimento de aproximação feito por . Não adiantava mais recuar, as coisas ficariam ruins de qualquer jeito, então que pelo menos tivessem um motivo para isso.
aproximou-se mais e podia sentir a respiração dele batendo em seu rosto. Seu perfume, ainda que menos intenso do que costumava ser quando não estava na piscina, e o hálito do bom vinho ingerido no jantar misturavam-se de forma sedutora para o olfato de , que já tinha desistido de tentar entender o que tinha motivado aquilo e de pensar nas consequências, apenas queria provar aquele beijo com o qual sonhava desde a adolescência.
voltou a fazer um carinho no rosto de , que dessa vez fechou os olhos para aproveitar a carícia. Parecia mentira que aquilo estava mesmo acontecendo. A de dezesseis anos, com certeza, estaria desmaiada nos braços firmes desse homem. a mantinha segura e ela estava rendida, não se afastaria, deixaria que ele a beijasse e que se danasse a prudência que deveriam ter, segundo sua cabeça ainda insistia em repetir, como se fosse possível vencer pelo cansaço e ela acabasse se afastando antes de alguma coisa efetiva acontecer. aproximou o rosto do dela, umedeceu os próprios lábios e, finalmente, a beijou.
Os lábios, de forma tímida, encontraram-se ainda sem muita certeza, ambos pensando no que podia ou não acontecer depois daquilo, mas logo se renderam ao momento, não adiantava mais pensar ou sopesar coisas, a razão não conseguiria explicar a emoção do momento, então tinham apenas que fazer. Ela entreabriu os lábios, dando a a permissão para que se tornasse um beijo de verdade.
Era o que os dois queriam, de qualquer forma, por que negar?
envolveu o pescoço de com os braços enquanto se beijavam e ele a pressionou contra a parede da piscina, sem alterar o ritmo do beijo que trocavam. Ambos, agora, envolvidos demais para sentirem medo do resultado, beijavam-se com calma, conhecendo o que cada um gostava e como as bocas se encaixavam de forma perfeita e sob medida.
A boca dele, reparou, diferente da dureza que aparentava, era macia e deliciosamente beijável, mordível, consumível. A boca de fazia jus à voz que dela saía, percebeu, era suave e ao mesmo tempo poderosa, era a melhor boca que ele já tinha beijado, por mais clichê que tal constatação pudesse parecer.
Quando separaram os lábios e deram fim àquele beijo, nenhum dos dois se olhou, ambos permaneceram de olhos fechados e com os rostos ainda próximos, testas coladas, outra música tocava e nenhum deles conseguia identificá-la, estavam desnorteados demais.

– Isso não devia ter acontecido... – sussurrou em tom culpado, ainda com o rosto próximo ao de , tão próximo que não fazia sentido que suas bocas não estivessem juntas.
– Shh... – sussurrou antes de encurtar a distância milimétrica entre suas bocas para que se beijassem de novo.
Ele não retesou, não tentou afastá-la, apenas voltou a aproveitar aquele beijo do qual tinha gostado tanto. Os dedos de brincavam com os cabelos molhados de , que tinha as mãos em sua cintura e a mantinha perto de si. podia sentir que viraria seu inferno particular, mas não sabia se importava-se o suficiente para tentar lutar contra aquela sensação que tinha um quê de realidade escancarado.
Quando, novamente, os dois se separaram, tiveram coragem de se encarar por um tempo. Não falaram, os dois apenas se olharam durante poucos segundos, mas, dado o contexto, pareceram os mais longos minutos. ainda a abraçava pela cintura, ainda mantinha os braços ao redor do pescoço dele.
– Isso aconteceu? – perguntou e negou com um aceno.
– Mal somos donos das nossas vidas, é melhor mantermos isso só entre nós.
– E isso vai se repetir? – perguntou, olhando-a nos olhos.
não sabia o que responder, dizer não seria mentir, mas dizer sim traria consequências que ela não tinha certeza se estava pronta para enfrentar, afinal, mesmo tendo gostado (e muito!) de beijá-lo, sabia que aquilo seria uma caminhada penosa em um terreno perigoso e traiçoeiro.
As coisas podiam muito bem dar errado e era esse o desenho do futuro.
– Eu não sei. – respondeu, por fim, tirando os braços do pescoço de , afastando-o de leve. – Isso pode não terminar bem.
– É. – ele suspirou, se afastando. – Desculpa.
– Você não precisa pedir desculpas, foi muito bom e teve consentimento, então não tem problema. – falou, virando-se em busca do celular, fingindo procurar uma nova música, mas queria mesmo era desviar os olhos dos dele, porque sabia que seria entregue pelos próprios olhos. Ela queria que aquilo se repetisse muitas e muitas vezes, tinha sido realmente muito bom, mais até do que ela achava que seria, mas também tinha medo do que uma possível repetição daquele ato poderia se tornar. – Se acontecer, tudo bem.
– Não vai mudar em nada a forma como a gente se comporta, vai?
– Eu realmente espero que não. – se virou e voltou a olhar para , dando um sorriso de lado, que foi correspondido.
– Eu vou dormir, tivemos um dia longo, estou cansado. Você vem?
– Ainda estou sem sono e morrendo de calor, vou ficar aqui mais um tempo.
– Então, boa noite, . Até amanhã. – se despediu.
– Boa noite e até amanhã, . – respondeu, educada.
deu um sorriso, saindo da piscina, e virou-se para o lado do oceano, debruçando-se sobre a borda da piscina, fechando os olhos e sentindo o ar quente com aroma de mar e também para começar a pensar naquilo.
Lembrou-se do dia na casa da mãe de , quando a conheceu. Lembrou-se do pedido de Helga para que não magoasse seu filho, pois toda a situação de sua vida já era triste e desoladora o suficiente para que um coração se partisse e piorasse mais ainda as coisas.
E depois daquele beijo a única certeza que tinha era que a granada explodiria em suas mãos. Ela podia sentir que alguém sairia de coração partido.
E talvez fossem os dois.


Capítulo 7


[N/A: Este capítulo tem como trilha sonora a música Clumsy, da Fergie, sugerida pela Gabi nos comentários num tópico no grupo do ffobs lá no Facebook, para um desafio de capítulos temáticos. Não precisa colocar para tocar, mas se quiser, pode 😂.]

’s POV


Eu acordei antes de , quer dizer, eu passei a noite acordada e levantei da cama antes que ele parasse de roncar e que seu celular despertasse para nossa corrida matinal.
E por que eu passei a noite acordada?
COMO eu conseguiria dormir depois do que aconteceu ontem? Depois de beijá-lo!
Quer dizer, depois que ele me beijou!
Certo, sem surto adolescente, . Aja como uma mulher adulta e forte como você é!
Segui para o banheiro silenciosamente, é melhor evitá-lo até entender bem o que aconteceu. Não que haja muito a ser entendido: estávamos alegrinhos pelo vinho, tivemos um momento, o beijo aconteceu e só. Tudo culpa do álcool. Apenas isso. Até porque, bem... eu não faço o tipo dele.
Foi um deslize que não pode e nem vai se repetir, somos apenas partes de um contrato. Se ignorarmos o acontecimento, ele passa a não existir, certo? É algo que sempre fala: se não está nos autos, não existe. O que isso significa? Eu não faço a menor ideia, o que interessa é que nós vamos ignorar esse ocorrido, não repetiremos e seguiremos esse contrato pelos meses restantes.
Depois de lavar o rosto, a boca, fazer xixi e escovar os dentes, vesti a calça para o yoga, um top, calcei os tênis, peguei o celular, os fones e sai da forma mais silenciosa que consegui, rumando ao local em que eu tinha feito yoga por quase todos os dias desde que chegamos: uma espécie de varanda, no local chamado “Santuário Botânico”, próximo ao SPA. Um local calmo, tranquilo e vazio, onde eu podia fazer yoga relaxada e sem preocupações.
Inferno.
Quarenta minutos depois de chegar ali, eu estava de saída para correr. Coloquei os fones e deixei que a música alta soasse, sentindo meu cérebro agradecer e me odiar ao mesmo tempo, já que agora se ocuparia em reconhecer as músicas, em não deixar meus tímpanos explodirem, nos movimentos das pernas e braços para a locomoção, na cadência da respiração, em dar o toque para as glândulas liberarem suor e outras tantas atividades que meu corpo tinha que realizar para correr, e não teria tempo de pensar em tudo aquilo de antes.
Meu estômago roncou alto depois de um tempo correndo e eu resolvi atendê-lo, afinal, se eu continuar correndo, provavelmente vou encontrar com , é melhor ir comer e ir para o SPA sozinha.
Mas, claro, a vida não funciona como eu planejo. Nunca.
Quando me virei para ir a caminho do restaurante para tomar café, eu esbarrei em alguém.
Não em um alguém qualquer.
Esbarrei no alguém chamado .
E eu cai.
Ele não teve tempo de me segurar e impedir que eu tomasse um tombo, eu me choquei com seu corpo e cai de bunda. Porque apenas esbarrar nele não era o suficiente, eu precisava cair de bunda e ter a humilhação completa.
! Você está bem? – perguntou, preocupado, ajudando-me a levantar.
Eu quis responder um “claro que não, eu estou humilhada e envergonhada, não tem nada bem comigo!”, mas aqueles olhos... aqueles olhos não me deram a chance de ser sincera e mal educada.
– Sim. Foi só um tombo. – respondi, ficando de pé. – Obrigada.
– Eu fiquei preocupado, acordei e não te vi.
Mas é claro que aconteceu! Eu fiquei morrendo de vergonha por ontem e fugi feito uma personagem de filme clichê, mas você me encontrou da forma mais humilhante possível.
– Acordei muito cedo, aproveitei para fazer yoga em paz e com muita calma antes de correr. – respondi, dando de ombros.
– Devia ter me chamado, eu teria te acompanhado. – foi a vez dele dar de ombros. – Você já está indo embora?
– Você estava roncando. Se eu te acordasse, você me daria um soco. E, sim, eu estou indo tomar café.
– Até onde eu sei, meu nome não é para dar socos nas pessoas quando sou acordado. – ele debochou.
– Devolva a intimidade que eu te dei, .
– Há quanto tempo você está correndo?
– Quase uma hora. – respondi, depois de olhar o relógio em seu braço.
– Eu estou fora do quarto há pouco tempo, mas tem um cara que está andando atrás de você parece que há um tempo e é melhor não arriscar que ele, sei lá, te sequestre.
Passar mais tempo com você depois de ontem é exatamente tudo que eu preciso nesse momento, . Obrigada. É tudo que eu pedi aos céus e ainda bem que fui atendida.
– Então vamos, eu estou morrendo de fome. – respondi, fazendo dar um sorriso cheio de deboche.
– Você sempre está morrendo de fome.
– Cala a boca. – respondi de má vontade, fazendo com que ele risse e entrelaçasse os dedos aos meus.
Dei uma risada baixa ao ouvir “Talk Dirty”, do Jason Derulo, começar a tocar em meus fones, porque, bom... conhecendo Jason, é absurdamente engraçado ouvi-lo cantar coisas desse tipo. Ele é um doce, além de ser um pouco tímido e muito respeitador. Jason não é do tipo de cara que realmente faz as coisas que canta em algumas músicas.
Não que eu saiba de verdade, nunca tivemos esse tipo de relação. Infelizmente. Ele me trata quase como uma irmã mais nova e eu o trato com o mesmo respeito e carinho que tenho por Davi. Mas, se ele resolver que quer alguma coisa, eu me encontro muito a fim.
– Do que você está rindo?
– Da música que está tocando. – dei de ombros. – “Talk Dirty”, do Jason Derulo.
– Ah, ele é muito bom. – falou, dando um sorriso.
É, se o Jason o quiser, parece que outra pessoa também está muito a fim...
– Ele é um doce de pessoa, então ouvir isso me faz rir, ele não é assim.
– Não?
– A imagem que passam dele, e que ele mesmo passa, é a de ser um safado desapegado, mas não é mesmo! Jason é um amorzinho.
– Eu jurava que ele era, ele tem cara de ser exatamente desse jeito. – falou, fazendo uma careta que foi uma das coisas mais fofas que já vi na vida.
– Nah, ele é um fofo. – respondi e voltamos a ficar em silêncio.
O café da manhã foi tão silencioso quanto boa parte da nossa caminhada, o caminho até o bangalô foi silencioso, sem contar as músicas nos fones, que eu nem prestava mais atenção, todo aquele contato corporal com estava me deixando um tanto quanto desnorteada. A troca de roupa foi silenciosa, passei o protetor solar em suas costas em silêncio. E em silêncio seguimos para a praia.
Some people want it all, but I don't want nothing at all if it ain't you baby, if I ain't got you baby... – cantei quando deixei as coisas sobre a espreguiçadeira antes de decidir sobre entrar no mar ou não, e olhou de lado. – Desculpa.
– Pelo quê? – perguntou, confuso.
– Por cantar demais.
– Eu gosto de te ouvir cantar. – ele sorriu e pareceu verdadeiro.
Ele sorriu com aquele sorriso lindo que costumava dar quando estava no Bayern ganhando títulos ou comemorando alguma vitória com os companheiros ou com o Berni. Ou apenas com Bastian, quando saíam, enquanto faziam alguma gracinha para as câmeras ou se divertiam juntos. E foi inevitável não sorrir de volta, afinal ele tinha sido sincero, e aquele sorriso não podia ser ignorado.
Parando para pensar, pertencia àquele lugar. Ele pertencia ao Bayern, de alguma forma, eram como se fossem feitos um para o outro. Ele pertence. Foram anos difíceis, mas ele fica tão bem com a camisa do Bayern... o vermelho destaca bastante a cor dos olhos. Eu sei, o azul do Schalke os fazem ficar mais evidentes pela cor semelhante, mas ele fica melhor com a camisa do Bayern.
– Você está bem? – colocou a mão em meu braço e eu me assustei, deixando a bolsa cair.
– Eu estou bem. Desculpa, só estava pensando. Você falou alguma coisa?
– Certeza que você está bem? – perguntou, dando uma risadinha.
– É a segunda vez que você ri de mim hoje. – reclamei, fazendo sorrir debochado.
– É a segunda vez que você me dá motivos para isso hoje. Enfim, mergulho?
– Você é um idiota. – resmunguei. – Pode ser.
voltou a sorrir. Inferno.
– Vai ficar aí parada me olhando ou vamos pro mar?
– Eu vou pegar um sol primeiro. – respondi e ele me olhou sem entender.
Alguns segundos antes eu tinha dito que queria ir, agora tinha mudado de ideia? Não fazia sentido.
Para ele, claro, porque para mim fazia e muito!
Eu preciso evitá-lo e não ficar compartilhando mergulhos e momentos, ainda que fotos estejam sendo tiradas por hóspedes e paparazzi em todos os cantos desse lugar. Ele encostou em mim e eu comecei a sentir meu estômago quase voando pela quantidade de borboletas que estão nele??? Isso é um sacrilégio!
Tudo bem, não um sacrilégio, mas é tão absurdo quanto um.
me deu as costas e eu deitei em uma das espreguiçadeiras que estava sob o forte sol porto-riquenho, fechei os olhos e me concentrei apenas nos raios solares que torrariam minha pele e me fariam parecer menos pálida e valeriam cada centavo que gastei nessa viagem. E são muitos centavos. Muitos mesmo.
Sem pensar em , em seus sorrisos, em seus belos olhos ou naquele maravilhoso corpo bronzeado que ele vem desfilando, passeando de bermuda e sunga como se estivesse tudo bem fazer isso.
Ok. Estamos na praia, mas não importa. Ele não pode fazer isso.
Permaneci de olhos fechados por um bom tempo, absorvendo bastante vitamina D e tentando focar no barulho do mar e dos pássaros, alheia às conversas que podiam acontecer por perto ou qualquer outra coisa, sentindo o sol queimando minha pele e o suor começando a aparecer, claro.
Mas, claro, não por muito tempo.
Cause I'm fast enough to get in trouble, but not fast enough to get away. I'm old enough to know I'll end up dying and not young enough to forget again. It's all a fickle game, life's a fickle game we play...
– Eu gosto dessa música. – ouvi a voz de e acabei me sobressaltando, fazendo com que ele gargalhasse. – Hoje você está bem distraída.
– Ou você é quem tem aparecido em momentos inoportunos. – resmunguei e ele ficou sem graça. – Eu estou brincando.
– Não pareceu brincadeira, você está distante e estranha.
– Eu acordei muito cedo. – menti, dando de ombros. Aquilo pareceu convencê-lo e eu me tranquilizei. – E então, você gosta de Fickle Game?
– Sim. Eu gosto de Amber Run.
– Sério? – perguntei surpresa.
– Muito. Eles são muito bons.
– Eu sou muito fã, gosto demais de ouvir.
– Você os conhece?
– Pessoalmente não. Eu os descobri sem querer há um tempo e acabei viciada.
– Entendi. – ele assentiu. – E então, mergulho?
– Não me soa interessante.
– Ah, deixa de ser chata, vamos lá. Faz dias que a gente não mergulha.
– Mentira, nós fizemos isso ontem. Ou anteontem, uma coisa assim.
– Ontem não. Vamos lá, deixa de ser chata!
, você é insuportável.
– Sou e você gosta de mim mesmo assim. – ele deu uma risadinha, em tom de provocação.
– Você bem queria, mas eu acho que vou para o quarto. Eu estou morrendo de calor.
– Água serve para amenizar isso, sabia?
– Sim, eu sei, mas eu quero ficar um pouco no ar condicionado.
– Ajudando a destruir a camada de ozônio, claro.
– Eu vou te ignorar, juntar minhas coisas e voltar para o quarto.
– Então a gente se encontra no almoço. – ele respondeu e eu assenti. Fiquei de pé e comecei a juntar as coisas enquanto ele corria de volta para o mar.
O caminho para o bangalô, quase duas horas depois de termos ido para a praia, foi rápido e a primeira coisa que fiz quando entramos foi tomar um banho, eu estava suada e começando a me sentir fedorenta.
Porto Rico é um lugar quente e abafado proporcionalmente à beleza.
Saí do banho esfregando os cabelos numa toalha e me deitei na cama, encarando o teto e relembrando de ontem, do beijo. Dos beijos. E de como tinha sido bom. Mas teremos vários dias de clima estranho, isso vai ser bem legal. Imagina ter que ficar medindo gestos e palavras? Ótimo. Maravilhoso. Álcool é a pior coisa que pode acontecer na vida de qualquer pessoa, sinceramente. Nunca mais eu vou beber.
A Oktoberfest não conta.

-x-


– Se você gosta tanto de cachorros, por que não tem um? – perguntou quando já estávamos à mesa.
– Eu já falei sobre isso com você. – franzi o nariz. – Naquele dia do Burger King.
– Ah, verdade. – ele pareceu se lembrar. – Eu tinha esquecido.
– Quando eu era pequena, meu pai adotou um cachorro de rua. Minha mãe quase teve um troço! Davi e eu éramos uma dupla um pouco... agitada e um cachorro só tornaria tudo mais agitado. Mama sempre teve muito apreço pelas plantas dela e achava que o bicho ia estragar tudo, sendo que deveria temer mais pelo troglodita do filho. Dos filhos. Enfim, ele se chamava Vogelfrei.
– Sério? – perguntou, dando uma risada.
Mama deu esse nome ao coitado e ele adorou. Logo que ela o chamou assim, num ataque de nervos quando o viu na cozinha de casa, cercado por Davi e por mim, no dia que Papa nos tinha dado, ele deu um latido animado e saiu todo serelepe na direção dela. No começo, minha mãe era bem resistente, mas acabou se apegando muito e Davi costuma dizer que ela gostava mais do cachorro que de nós. Quando eu comecei a fazer shows, ele ficou muito doente, tipo o Marley do filme, sabe? – perguntei e confirmou com um aceno. – E optamos pela eutanásia, ele não podia mais sofrer.
– Sinto muito. – murmurou, sincero.
– Eu lembro que chorei muito, muito mesmo, eu não estava perto quando isso aconteceu e nem tive chance de me despedir. E esse é um dos motivos que me leva a pensar muito sobre ter um cachorro, ou qualquer bicho, porque sei que fatalmente ele vai morrer e eu posso não estar perto para me despedir. E vai ser horrível. De novo. Vamos mudar de assunto, eu não quero chorar.
– Você falou que gosta de quinta-feira, porque é o dia do Thor... Então, ele é seu herói favorito?
– Ele não é apenas um herói, ele é um deus, vamos deixar isso claro. – pontuei e ele me olhou, dando um sorrisinho. – E, não, ele não é meu favorito. É um dos, mas gosto muito do Homem Aranha e da Capitã Marvel.
– Disserte.
– Peter Parker tem uma história de vida muito ferrada. Ele podia ser um baita babaca como o Batman é em alguns momentos, mas ele escolhe ir por outro caminho e é um cara bacana. A Capitã Marvel é simplesmente a heroína mais forte de todo Universo Marvel.
– E da DC, você não gosta de nada?
– É muito previsível se eu falar Mulher Maravilha e Estelar? – perguntei e ele assentiu. – Então vou falar do mesmo jeito.
– E você prefere a Marvel ou a DC?
– Gosto das duas do mesmo jeito. – dei de ombros. – E você, quais seus super-heróis favoritos?
– Flash e Superman.
– E da Marvel?
– Sem Marvel. – ele respondeu, categórico, e nós voltamos a ficar em silêncio.
Ele parecia prestes a falar sobre ontem, quase como se estivesse pensando em como abordar o assunto e eu apenas consigo pedir a todos os deuses que isso não aconteça, porque: a) não há o que ser dito, b) ele vai acabar descobrindo que o que eu tinha por ele nunca foi apenas um crush adolescente pelo ídolo, c) vai deixar o clima absolutamente pesado, e d) vamos ficar tão sem graças que não vamos conseguir nos olhar provavelmente pelo resto da vida.
Terminamos de almoçar em silêncio e sem demora, estava quase insuportável permanecer juntos sem que falássemos sobre o ocorrido. Ou pior: que repetíssemos! Deus me livre!
Mas quem me dera...
Assim que saímos do restaurante, coçou a nuca e parecia incomodado, mas não sabia como externar as palavras. E mesmo sabendo que eu provavelmente me arrependeria de perguntar o que ele queria falar, eu estava ficando curiosa.
– O que foi? – perguntei e ele ficou vermelho.
Não.
Ele ficou roxo feito uma beterraba.
Tão roxo que ele parecia prestes a explodir. Nem o Joffrey agonizando enquanto morria ficou tão roxo. E isso deixou os olhos dele ainda mais azuis. E lindos.
Pelo amor de Deus, !
– Eu não sei se posso perguntar isso. – voltou a coçar a nuca, agora de cabeça baixa.
– Faça e eu respondo se quiser. – respondi em tom de obviedade.
– Você namorou com o um bom tempo, certo?
– Certo. É essa a pergunta?
– Não. – ele deu uma risadinha sem graça. – E faz tempo que terminaram, certo?
– Certo de novo. E suponho que não seja essa a pergunta também.
– E não é. – ele tomou ar, ainda prestes a explodir de vergonha. – Bom, você ficou solteira tanto tempo por quê? Você é linda e interessante, e... sei lá, é estranho que você tenha ficado muito tempo solteira.
– Eu não fiquei. – dei de ombros e ele me olhou curioso. – Eu fiquei um tempo solteira, mas namorei outras duas pessoas antes de você. O último terminou pouco tempo antes de você e eu começarmos nossa história.
– Entendi.
– Eu prefiro relacionamentos sérios a ficadas ocasionais, caso seja essa a real dúvida.
– Eles eram famosos?
– Um não. O outro mais ou menos.
– Entendi.
– Mais alguma pergunta? – perguntei e ele negou com um aceno. – Então agora eu vou para o SPA, você está livre de mim até mais tarde.
– Graças a Deus. – ele respondeu, dando um sorriso enorme e zombeteiro.
Aquele sorriso que fazia seus olhos ficarem feito fendas.
E prestando atenção nisso, não me atentei a alguma coisa no caminho que me fez tropeçar. Eu estava preparada para ir de encontro ao chão, mas dessa vez ele me segurou pelo cotovelo, impedindo a queda.
Impedindo a queda, mas despertando aquela maldita sensação no estômago.
Tomara que seja gastrite e não paixão.
– Você tem certeza que consegue chegar até lá sem cair? – zombou. – Ou que consegue voltar de lá sem acabar, sei lá, sofrendo algum acidente?
Tentando recuperar um pouco minha dignidade, soltei-me de sua mão firme e o olhei quase com desdém.
No me toque los cojones.
– Quê? – perguntou confuso, mas tinha aquele sorrisinho vencedor brincando em seus lábios.
E que lábios.
– Você está em terras latinas, tem que falar espanhol. – respondi mal-humorada e ele gargalhou.
Se ele repetir aquele discurso de “território livre não incorporado aos Estados Unidos blábláblá”, ele vai tomar um tapa.
– Apelou, perdeu.
– Eu vou jogar meu chinelo na sua cara!
– E vai cair quando tentar arremessar. – zombou e eu quis, realmente, jogar o chinelo nele.
– Você é um idiota.
– E você gosta de mim mesmo assim. – ele provocou e eu não respondi, apenas lhe dei as costas e continuei meu caminho até o SPA.
Eu não podia contestar, em todo caso.
É meio que inevitável.

Alma Gomez: Você está em Porto Rico e nem se dignou a me contar!
Darei uma festa daqui três dias na minha casa, em San Juan.
Sua presença é OBRIGATÓRIA!

Festa de Ama Gomez.
Aquilo daria muito certo ou muito errado.
Nunca há um meio termo quando a situação envolve Alma e uma festa.

-
Vogelfrei: é uma expressão em alemão que significa “livre como um pássaro”, mas comumente ela é usada para uma pessoa “fora da lei”.


Capítulo 8


– Eu marquei um mergulho com golfinhos para duas da tarde, mas agora é a hora em que você se levanta e nós vamos correr. – falou, cutucando e ela soltou um resmungo quase dolorido.
– Eu não participo de atividades que envolvam exploração animal. E, de qualquer forma, não estou me sentindo bem. – resmungou, virando-se em sua direção, e a olhou. Tinha olheiras e parecia cansada, além de estar bastante pálida.
– O que você está sentindo? – perguntou, preocupado.
– Minha cabeça está doendo muito, eu vou passar o dia na cama, não dormi nada essa noite. – respondeu num resmungo.
– Quer ir ao médico? – perguntou preocupado e negou com um aceno.
– Eu tenho remédio para dor de cabeça no armário do banheiro, vou tomar e dormir um pouco. Se eu melhorar, eu te encontro na praia mais tarde.
– Eu não vou sair e te deixar sozinha. E se você precisar de alguma coisa?
– Não vou, . Pode aproveitar seu dia sem problemas. Não quero atrapalhar suas férias. – disse e deu um sorriso fraco.
– Então toma o remédio, vou ficar aqui até você dormir.
– Não precisa. – ela repetiu.
não deu ouvidos e foi até o banheiro, pegou o remédio que ela tinha mencionado, além de uma água no frigobar, e voltou até a cama, onde estava sentada.
podia jurar que era culpa do calor que fazia ali, não estava acostumada àquele tempo tão abafado e quente todos os dias, seu corpo não estava acostumado àquilo e provavelmente nunca se acostumaria. Nenhum dos dois conversou. sentou-se ao lado dela e se deitou, fechando os olhos na esperança de encontrar um jeito de melhorar aquela dor de cabeça infernal e a sensação péssima em seu corpo.
Dois dias se passaram desde o episódio da piscina, não haviam se beijado e nem falado sobre, ainda que tivessem jurado que aquilo não mudaria em nada o que tinham, em alguns momentos a tensão foi palpável, ainda que tentassem disfarçar. Jogaram videogame, foram à praia, riram e conversaram, ainda que o clima estivesse um pouco diferente.
não demorou a dormir e permaneceu ali, não achava uma boa ideia deixá-la sozinha, e se ela precisasse de algo? Ele tomou a liberdade de deitar ao seu lado, guardando a devida distância e ligou a televisão, procuraria um filme ou qualquer coisa que estivesse passando e fosse interessante.

-x-


Quando abriu os olhos, deparou-se com deitado ao seu lado. A televisão estava ligada na ESPN e passava algum programa que ela não fazia ideia do que era. Sua dor de cabeça tinha diminuído e ela se sentia um pouco melhor, mas não o suficiente para passar o dia na praia. Queria ficar deitada e a visão de um adormecido ao seu lado era absolutamente tentadora. Se pudesse, passaria o dia observando-o dormir.
abriu os olhos ao sentir a movimentação na cama e sorriu de lado. Num primeiro momento, devolveu o sorriso, mas logo percebeu que estavam na mesma cama e assustou-se um pouco, isso não tinha acontecido em nenhum daqueles dias. Ainda que dividissem a cama para jogar videogame e ver televisão, não era a mesma coisa de dormirem na mesma cama por sabe-se lá quanto tempo!
Mas, percebeu, não parecia brava ou incomodada. Ele fez menção de falar, mas foi interrompido pelo indicador dela sobre seus lábios.
Os dois se olharam por milésimos antes de se aproximar e beijá-lo. Ambos sabiam que aquilo voltaria a acontecer em algum momento, ainda que negassem veementemente se alguém perguntasse, não estavam incomodados, porque queriam que aquilo acontecesse. E isso, de alguma forma, para eles, não era certo.
– Desculpa. – ela pediu quando separaram o beijo. Ele deu um sorriso de lado e se sentou na cama, sendo acompanhado por ela.
– Não tem problemas. – respondeu. – E você está se sentindo melhor?
– Sim, mas não quero sair. Você ficou aqui o tempo todo?
– Eu fiquei com medo de você passar mal, precisar de algo e estar sozinha, então resolvi ficar, mas acabei dormindo também. E não tem muito tempo, de qualquer forma.
– Ah, obrigada. – sorriu agradecida, recebendo um carinho no braço.
– Você está quente.
– Estou?
– Está. Parece que está com febre. – falou preocupado, colocando a mão na testa de . – Você trouxe antitérmico?
– Não.
– Então eu vou comprar. Você tem alergia a algum remédio? – perguntou e ela negou com um aceno. – Vou tentar conseguir na recepção, se não achar, vou sair e comprar.
– Relaxa, eu vou ficar bem.
– Febre nunca é um bom sinal, .
– É só um mal-estar, talvez uma gripe se anunciando. – deu de ombros.
– Vou trazer alguns remédios. Fica quietinha, por favor. – falou e se pôs de pé, vestindo uma camisa e saindo.
demorou quarenta e cinco minutos para voltar, precisou sair do hotel para comprar os remédios e o fato de não falar espanhol e nem inglês tornou a situação um tanto mais difícil. E engraçada, ele tinha que admitir. Depois de a recepcionista lhe falar que não tinha remédios – quando ela finalmente entendeu o que ele quis dizer –, saiu do resort em busca de uma farmácia. E não demorou a encontrar, mas seus problemas se tornaram piores lá.
Ele tentou falar em inglês, que era tão ruim quanto deveria ser seu espanhol, e só depois de um bom tempo – e de uma das clientes do local traduzir o que tinha sido pedido – é que ele conseguiu se fazer entender e voltar com os remédios para a dor de cabeça, febre e outro para uma eventual gripe.
continuava deitada enquanto passava os canais da televisão e aguardava o retorno de , quase preocupada pela demora, mas esperaria mais um pouco antes de ficar desesperada de verdade e dar um jeito de procurar por ele.
Quando entrou no quarto, com a pequena sacola de remédios em mãos, lhe ofereceu um sorriso sem mostrar os dentes e se aproximou da cama, voltando a colocar a mão na testa dela e constatando que ainda estava quente.
– Eu trouxe um remédio para a gripe, outro para dor de cabeça, mais forte que o seu, e um antitérmico. Toma o antitérmico primeiro, precisamos dar um jeito nessa febre. – falou preocupado e assentiu. – Vou pegar água.
– E como você conseguiu comprar isso?
– Foi difícil, depois de um bom tempo gesticulando e tentando falar em inglês o que eu queria, uma cliente apareceu, decifrou o que eu estava tentando dizer, traduziu para um inglês legítimo e aqui estou eu. – falou em tom divertido enquanto procurava uma garrafa d’água no frigobar, fazendo rir.
– Eu queria ter visto isso.
– Se você estivesse lá, eu não teria passado essa vergonha. – falou, rindo.
pegou o celular e abriu o Instagram. Era uma boa hora para fazer uma live? Provavelmente não, mas ela faria do mesmo jeito, não fazia nada assim há tempos e sentia falta de interagir com os fãs, ainda que fosse bem rápido. levantou-se da frente do frigobar, enquanto ela o filmava e assistia às visualizações subirem rapidamente.
– O que você está fazendo? – chamou numa voz dengosa e se virou, olhando para o celular que ela tinha em mãos e rolou os olhos.
– Eu estou cuidando de você, encrenca. – disse num tom bem-humorado e a olhou. – Já que você resolveu ficar doente durante nossas férias. Stories?
– Live. – respondeu e virou a câmera para si, voltando a observar a rapidez com que as visualizações subiam e os milhares de comentários dos fãs antes de continuar falando em inglês. – Oi, gente. Essa será uma live rapidinha, vim apenas dar um oi e um sinal de vida. Eu ando sumida, as férias estão maravilhosas, esse lugar é um paraíso e eu tenho aproveitado muito, mesmo que agora eu não tenha mais tanta paz, há paparazzi e pessoas tirando fotos o tempo todo, mas eu fiquei doente. Bom, não é doente, só estou indisposta, acho que pelo clima abafado e pelo calor, mas, de resto, eu estou aproveitando muito e descansando, assim que eu voltar, começo a trabalhar e espero que vocês gostem do que vem por aí. Sei que vocês têm dado muiiiita repercussão a Dominos, e eu agradeço! O single sai um pouco depois do meu retorno à Alemanha e o álbum também. Fiz de todo coração e espero que vocês gostem. Ah, e Porto Rico é absolutamente paradisíaco! Venham visitar esse lugar maravilhoso, que não é lindo apenas em aparência, mas em cultura também. Estamos realmente encantados por tudo e eu queria poder passar mais dias aqui.
– Toma seu remédio. – pediu num sussurro e assentiu, pegando o comprimido que ele tinha em mãos e a água e tomou.
– Senta aqui, meine Liebe. – pediu e o segurou pela mão, para que se sentasse ao seu lado. , sem jeito e completamente sem graça, obedeceu e sentou-se ao lado de , que se aconchegou ao seu lado, dando um sorriso visivelmente envergonhado. – Manda um beijo para a gente despedir do pessoal.
– Beijo, gente. – ele disse, envergonhado, e deu um sorriso de lado. – Você precisa descansar um pouquinho, .
– Beijooooosss! Faço outra live depois pra conversarmos bastante! Tento fazer antes do lançamento. Eu amo vocês! – falou, mandando beijos para a câmera e encerrou a transmissão, deixando o celular de lado. fez menção de sair e ela o segurou. – Fica.
– Claro. – ele deu um sorriso de lado e ligou a televisão.
– Odeio febre. – disse num tom baixo e ele colocou a mão em sua testa de novo. Ainda quente.
– Sem cobertores, precisamos baixar sua temperatura. – falou, sério, e ela se aninhou ao seu corpo. – E, se você não melhorar, vou te levar ao hospital.
– Tudo bem. – falou baixo e ele lhe fez um carinho no cabelo.
– Agora dorme um pouco. – falou e ela resmungou em concordância, enquanto sentia seu corpo se entregar ao sono que a febre e o remédio tinham lhe dado.

-x-


... acorda. – chamou e resmungou, virando para o outro lado, tentando livrar-se dele e voltar a dormir. – Você precisa comer.
– Não quero comer. – ela disse, afundando o rosto nos travesseiros, e a cutucou de leve.
– Acorda e vem comer, . – insistiu e resmungou, sentando-se na cama com os olhos fechados e emburrada. – E pode desfazer esse bico, você tem que comer.
– Você é chato. – reclamou em tom infantil, coçou os olhos e os abriu devagar.
tinha levado apenas frutas, pois não sabia o que ela conseguiria comer naquele momento.
– Sente-se melhor? – perguntou, comia um pedaço de manga e ela assentiu. Mediu a temperatura com sua própria mão e percebeu que ela não estava mais quente. – Você está sentindo dor de garganta ou qualquer coisa do tipo?
– Só a cabeça doendo bem pouquinho.
– Febre e dor de cabeça são coisas perigosas, vamos ao médico.
– Se eu não acordar totalmente bem, amanhã a gente vai.
– Ter febre é sempre perigoso, sabia?
– Sabia. – ela deu de ombros. – Não vai comer?
– Eu almocei no restaurante agora há pouco.
– Você não precisava ter perdido seu dia inteiro comigo, sabia?
– Sabia. – ele repetiu a fala dela e deu um sorriso. – Mas não seria um bom amigo se te deixasse doente sozinha.
– Acho que quero ir para a piscina.
– Sem chances.
– Por favor. – fez uma cara pedinte e rolou os olhos.
– Você está passando mal, tem que ficar quieta.
– Você não vai me deixar dormir de novo. – rebateu.
– Não mesmo, porque você não vai dormir à noite e amanhã vai passar o dia no quarto e vai se tornar um ciclo vicioso.
– Então vamos para a piscina. Sem praia, só piscina.
– Você é teimosa demais, . – disse, maneando a cabeça negativamente, e ela deu um sorriso.
Terminou de comer a manga que tinha no prato à sua frente, escovou os dentes e trocou a roupa por um biquíni. Quando saiu do banheiro, encontrou-o sentado, apenas de bermuda, com os pés dentro dá agua.
– Hoje você me esperou... – disse e se sentou ao lado dele.
– Claro, para poder fazer isso. – respondeu num tom arteiro e a empurrou.
nem teve tempo de gritar de susto, apenas prendeu a respiração e caiu na água que contrastava bastante com a sensação térmica de seu corpo, ouvindo a gargalhada de quando emergiu.
– Idiota. – ela falou, tirando o excesso de água do rosto, e o puxou pela perna, fazendo-o entrar na água também.
emergiu um tempo depois, rindo, enquanto ainda tentava ostentar uma feição brava.
– Qual seu sabor de sorvete favorito?
– Sério? – perguntou, rindo. – Limão.
– Limão?
– É. Adoro doces não tão doces e que tenham um gostinho azedo.
– Gosto de limão, mas o meu favorito é chocolate.
– Eu recebi uma mensagem de uma amiga que tem uma casa aqui em Porto Rico e está passando férias. – mudou de assunto, dando um sorriso arteiro.
– Eu vou gostar da continuação dessa fala? – perguntou, desconfiado, e riu, assentindo positivamente. – Continue.
– Ela vai dar uma festa depois de amanhã, em San Juan, e nos convidou. Quer dizer, ela nos intimou. E também disse que podemos dormir lá se bebermos demais. Ela é ótima e...
– Festa? Eu não sei...
– A única coisa que fizemos foi ficar nesse resort, vamos sair e nos divertir!
– Nós saímos para dançar e nos divertir. E fomos a San Juan conhecer um pouco da cidade. Duas vezes. E também fomos até Culebra. – pontuou.
– Por favoooor. – pediu, juntando as mãos e fazendo a expressão mais pedinte que conseguiu.
– Só se você melhorar totalmente.
– Amanhã preciso ir ao shopping comprar uma roupa! Uma para mim e uma para você. Já estou até me sentindo melhor só de pensar nisso.
– Ah, pelo amor de Deus! – resmungou e gargalhou.
– Eu estou brincando! – ela disse, rindo. – Tenho roupa para isso. E você também.
– Você trouxe mil malas, provavelmente tem roupa até para esquiar! – disse num tom quase ultrajado, fazendo gargalhar.
– Quando se viaja para um lugar desses, nunca se sabe o que vai acontecer. É preciso estar preparado. – ela deu um sorriso e piscou para ele. – Principalmente quando se tem a chance de ir a uma festa de Alma Gomez.
– Eu não tenho certeza se gostei dessa última parte.
– Ah, pode ficar tranquilo, provavelmente você vai gostar. E muito. – deu um sorriso provocativo, apenas para fazê-lo estreitar os olhos em suspeita.
A verdade é que nem ela sabia se gostava muito daquela última parte. As festas de Alma realmente eram boas, lendárias, mas as coisas eram sempre muito intensas. Para o bem e para o mal. E, na atual situação, não sabia qual das duas opções era a melhor.


Capítulo 9


passou o dia no SPA, foi à praia, aproveitou seu dia com muito mar e sol, e os dois se encontraram perto do final da tarde. Ter dois banheiros era a parte favorita de , poderia se arrumar sem problemas e sem interrupção. E sem atrasar . A festa estava marcada para oito da noite, o combinado era sair do resort às oito e meia, não queriam chegar cedo e sabia que a festa mal teria começado quando chegassem lá pouco depois das nove.
estava sentado, com a boca entreaberta, mal piscando, concentradíssimo em disparar muitos tiros no jogo, não começaria a se arrumar até que faltasse perto de trinta minutos para o horário combinado. E assim o fez. Quando viu que faltavam menos de meia hora para saírem, ele desligou tudo, subiu e foi se arrumar. Acabou ficando pronto antes mesmo de fazer menção de parar de cantar no banheiro e sair já pronta.
Só depois de alguns minutos, de volta ao jogo, é que ele sentiu o perfume de invadir o quarto quando ela, finalmente, saiu do banheiro, e se virou para encarar a mulher estonteante que estava ali.
usava um conjunto de cropped e saia brancos, que faziam seu bronzeado se destacar ainda mais. O cropped, de alças finas, com as costas em renda e um decote que deixava a vista do colo de bastante agradável. A saia de cintura alta branca, com uma fenda na lateral da coxa direita que ia até bem perto do cós. Os cabelos foram ondulados e presos num rabo de cavalo alto, deixando algumas mexas soltas para dar um ar despojado.
Como assessórios, usava brincos, pulseiras, anéis, uma tornozeleira fininha, um conjunto de colares em que o maior parava propositalmente no vão dos seios de . Nos pés, uma sandália de salto bem alto. A maquiagem bonita tinha os olhos bem delineados, mas com uma sombra clara e o batom vinho deixando os lábios dela absolutamente mais atrativos, percebeu.
Tudo nela estava atrativo.
Ela estava poderosa, perigosa.
E o bronzeado parecia tornar tudo mais intenso: a beleza, a atratividade, a periculosidade.
sentiu-se um trapo para sair com aquela mulher maravilhosa que ele observava absurdamente encantado. Estava com uma calça jeans clara, um tênis branquíssimo que nunca tinha sido usado, uma camisa azul escura de botões e que estava com as mangas dobradas até o cotovelo, os cabelos penteados, mas não ajeitados demais, a barba feita e seu único adereço era o relógio que sempre estava em seu pulso.
– Não sei se tenho palavras para dizer o quanto você está bonita. – falou olhando-a dos pés à cabeça.
– Eu sei. Inclusive, tira uma foto minha! – sorriu segura de si e muito satisfeita com o resultado de sua arrumação.
pegou o celular e a seguiu até o local em que ela queria tirar a tal foto e fez pose. Ele demorou alguns segundos para parar de olhá-la e outros tantos para tirar a foto. Ela estava maravilhosa. Mais do que o habitual. E aquilo podia ser um problema.
– Pronto.
– Podemos?
– Claro. – ele respondeu e entregou o celular à , que não demorou a postar a foto nos stories e no Instagram. – Vamos mesmo passar a noite fora e deixar tudo aqui?
– O resort é seguro.
– Então vamos.
pegou as duas mochilas e estendeu a mão livre para . As unhas estavam grandes e perfeitamente esmaltadas em um tom bem vivo de vermelho. E aquilo mexeu um tanto com a imaginação dele.
– Para a gente sair, você tem que parar de ficar me olhando com essa cara de bobo e começar a andar. – falou, rindo.
– Não estou te olhando com cara de bobo, eu estou pensando se não estamos esquecendo nada. – mentiu.
– Você não sabe mentir, , e eu estou maravilhosa, claro que você vai ficar me olhando feito bobo. – implicou e não respondeu, apenas rolou os olhos e os dois saíram do bangalô, trancando a porta e seguiram até o estacionamento.
deixou as mochilas no banco traseiro e depois tomou seu lugar no banco do motorista. estava ocupada conectando o celular ao rádio do carro, colocando suas músicas para tocar. Ele não conhecia nenhuma das músicas que tocaram, tampouco as entendia, então aquilo com certeza era espanhol.
Ela cantava perfeitamente, em algumas chegava a improvisar uma coreografia, mesmo presa ao cinto de segurança, enquanto ele dirigia concentrado e tentando ignorar como tudo nela estava atrativo. seguiu batucando o volante no ritmo das músicas que não conhecia e prestando atenção ao caminho e às orientações que o GPS dava de quando em quando sobre o caminho a ser seguido.
Eles chegaram ao destino quase quarenta minutos depois de saírem do resort, em Dorado. A enorme casa estava cheia, reparou pela quantidade de carros parados na rua, uma música alta tocava e luzes coloridas escapavam das grandes janelas de vidro. As mochilas foram resgatadas do banco traseiro e os dois rumaram à entrada da casa, sendo recebidos por uma loira muito bonita que estava com um vestido verde tão apertado que não fazia ideia de como ela conseguia respirar.
– Achei que você não viria! – a loira berrou em espanhol e tomou num abraço apertado que foi correspondido na mesma intensidade.
– Ficar bonita assim demora. – gritou de volta. – Onde podemos deixar essas coisas para começar a curtir a festa?
– Só depois de me apresentar devidamente seu acompanhante. – a loira analisou de cima a baixo, e, se seu olhar tivesse esse poder, ele estaria pelado.
– Alma, esse é , meu namorado. – falou em alemão e , pela primeira vez, entendeu o que tinha sido dito desde que chegaram. – , essa é Alma Gomez, você com toda certeza a conhece.
– Claro! – ele mentiu sorridente.
Não fazia ideia de quem era aquela mulher e nem por que deveria conhecê-la. E já começava a se acostumar com isso. sempre falava de coisas e pessoas que ele nunca ouvira falar na vida. A tal Alma o abraçou da mesma forma que fez com .
– Cuide muito bem de mi pequena, se você a fizer sofrer, eu vou pessoalmente lhe cortar los aguacates. – Alma disse num tom ameaçador e fingiu entender, já que tudo fora dito em espanhol, então assentiu e sorriu antes da mulher se virar para e voltar a falar em espanhol. – Isso vocês podem colocar na última porta do corredor lá em cima. E tranquem a porta, ou vão encontrar pessoas transando na cama em que dormirão.
– Certo. – disse, rindo, e puxou para dentro do mar de pessoas que dançavam.
Eles subiram as escadas juntos e deixaram as mochilas, trancaram a porta e ele ficou com a chave no bolso da calça. A casa estava simplesmente lotada, como costumavam ser as festas de Alma Gomez, havia um bar servindo bebidas e vários garçons circulando com copos pela festa. tratou de pegar dois copos, de algo que ela não fazia ideia do que era, e empurrou um para .
– Saúde. – ela piscou, batendo de leve seu copo no dele em um brinde e tomou um gole grande. – Isso é água.
– Eu percebi. – disse, rindo, e terminou de tomar a água em seu copo. – O que você quer beber?
– Algo forte.
– Você? Você quer beber algo forte? – perguntou, surpreso.
– Sim. Se eu entrei na chuva, vou me molhar sem medo.
– Então eu já volto. – ele falou, enfiando-se no meio da multidão e indo até o bar.
! – ela ouviu uma voz feminina berrar e se virou, encontrando Alma e um grupo de amigas. – Não vai beber?
foi buscar. – ela disse, sorrindo.
– E onde você arrumou esse homem maravilhoso?
– Amigos em comum. – disse, dando de ombros.
não demorou a voltar com dois copos de vodca, uma das mais fortes que ele já tinha tomado em toda sua vida, e os dois começaram a beber, enquanto berrava um diálogo com Alma, que era passado de espanhol para alemão e de alemão para o espanhol, mas a mulher logo os deixou sozinhos para falar com outros convidados. cantarolava algumas músicas, mas não era ouvida, apenas percebia pelos movimentos dos encantadores lábios coloridos em vinho.
– Sí, sabes que ya llevo um rato mirándote. Tengo. Que. Bailar. Contigo. Hoy. Oooh Yeah! cantou junto com a voz de Luis Fonsi e deu uma risada ao vê-la cantando de forma caricata. Ela ficava bêbada muito rápido. – Vi que tu mirada ya estaba llamándome... Muéstrame. El. Caminho. Que. Yo. Voy...
– Você é doida. – falou alto e tomou um gole da bebida que tinha em mãos, antes de se aproximar e usar o braço livre para envolver o pescoço de .
– ... solo con pensarlo se acelera el pulso. Oh, yeah. Ya, ya me está gustando más de lo normal, todos mis sentidos van pidiendo más, esto hay que tomarlo sin ningún apuro... cantou, dando um sorriso o incentivando a cantar, pelo menos, a palavra mais fácil e mais conhecida e falada no mundo naquele momento.
– Des-pa-cito... – ele falou e voltou a falar em seu ouvido, mas dessa vez para cantar.
– Quiero respirar tu cuello despacito, deja que te diga cosas al oído para que te acuerdes si no estás conmigo... cantou bem no ouvido de , dando um beijo em seu pescoço antes de continuar. – Des-pa-cito, quiero desnudarte a besos despacito, firmar las paredes de tu labirinto y hacer de tu cuerpo todo un manuscrito...
Antes que ele pudesse dizer ou fazer algo, foi fisgada por um grupo de mulheres que não fazia ideia de quem eram, mas pareciam se conhecer há tempos, já que dançavam animadas enquanto riam e conversavam. Quase uma cena de filme clichê adolescente.
E ele fora abandonado daquela forma, depois de uma provocação e tanto.

-x-


– O que um homem tão lindo como você faz sozinho e parado no meio de uma festa?
ouviu a voz feminina e, apesar de não ter entendido absolutamente nada do que ela tinha dito, ele sabia muito bem que era um flerte. A linguagem do flerte é universal e entendível em qualquer idioma, ainda que a pessoa não seja fluente.
– Eu não falo espanhol. – respondeu num inglês porco. – E nem inglês. Só alemão.
– Mas não precisamos falar. – a mulher respondeu em inglês, bem devagar, quando se aproximou dele, dando um sorriso malicioso.
Aquilo ele tinha entendido muito bem.
– Eu prefiro beijar minha namorada. – ele respondeu, dando um sorriso sem mostrar os dentes. – .
– Ah. – a mulher respondeu desgostosa, saindo de perto e ele logo foi deixado sozinho para observar sua namorada, de costas, conversando com uma mulher que ele não fazia ideia de quem era.

-x-


– Seu namorado é muito bonito. – ouviu de uma das mulheres do grupo em que estava.
– Ele é. – ela sorriu sincera. – E eu deveria estar lá com ele, coitado, está totalmente deslocado.
– Deixe que ele se enturme.
– Ele não fala espanhol e nem inglês. – soltou uma risada sofrida.
– Então você deveria, pelo menos, dançar uma música com ele.
dançando? Isso não acontece. não dança.
– Então vamos nós dançar e beber. Estou entediada de só falar.

-x-


estava sentindo os efeitos do álcool, estava mais solta, mais sorridente e a voz estava mais arrastada enquanto conversava ou cantava as músicas que conhecia. Sabia que teria uma ressaca terrível, mas, como tinha dito antes, se estava na chuva, molharia-se sem medo. Lidaria depois com as consequências. Ela observava de longe, ele parecia entediado enquanto bebia o que quer que fosse que tinha em seu copo e corria os olhos pela festa e fingia entender as músicas, mas também pudera, estava sozinho há horas!
estava bêbado, não tinha o que fazer além de beber, havia dispensado outras duas mulheres que se aproximaram e em alguns momentos, ele direcionava o olhar até o local em que dançava com as amigas, quase pedindo que ela fosse tirá-lo daquele tédio, mas não tinha certeza de que ela estava vendo que ele a olhava descaradamente.
Porque, sim, ele estava mesmo prestando atenção em . Em tudo nela. Em cada movimento. Em cada detalhe. Como estava bonita e absurdamente provocativa, dançando e como aquela roupa fazia todo o conjunto ficar melhor ainda de ser observado.
O batom vinho estava quase implorando para que fosse até lá e o tirasse. Ou melhor, sua boca parecia estar louca para isto.
– Preciso cuidar do meu namorado. – falou com a voz embolada ao ouvido de Alma e caminhou até onde estava encostado. Ele deu um sorriso de lado ao vê-la caminhar vagarosamente e medindo os passos. Aquele sapato não ajudava na caminhada de uma bêbada. – Oi.
– Oi. – ele respondeu, ainda sorrindo. – Lembrou de mim?
– Infelizmente você não é assim tão fácil de esquecer, . – respondeu com uma sinceridade que não usaria se estivesse sóbria. – Vem, vou te dar uma aula de dança.
– Eu sei dançar, . – respondeu, mas aceitou a mão estendida dela.
– Eu percebi mesmo naquele dia. – falou debochada.
– Naquele dia eu não dancei, . – respondeu, passando a língua pelos próprios lábios para umedecê-los e teve que se controlar para não avançar sobre eles.
Não podia.
Uma pequena parte de seu cérebro, ainda não entorpecida pelo álcool, estava lhe informando sobre os problemas que aquilo acarretaria, já bastava que tinham se beijado em duas ocasiões, não podiam piorar ainda mais as coisas, mas ela não sabia se devia ou não considerar uma opinião sóbria naquele momento.
– Então me mostra que sabe mesmo. – provocou. – Apagame la luz y tocame otro poquito de ti hay algo que aloca bebe...
cantou o pedaço da música que tocava e aproximou-se do corpo dele, colocando sua mão direita na nuca de e o olhando fixamente. A música acabou e ela sorriu ao ouvir a que se iniciava, conhecia e gostava muito. deslizou as mãos pelas costas de até alcançar a base, pousando sua mão ali e encaixou sua perna esquerda entre as pernas dela. A mão direita, ele usou para segurar a mão esquerda dela, que estava em seu peito.
– Só me acompanha. – sussurrou em seu ouvido e sentiu um arrepio perigoso descer por sua espinha. Aquilo não ia terminar bem.
– Esa boquita me mata, tu movimiento me atrapa... cantou no ouvido de , que não fazia ideia do que significava, mas ela não precisaria repetir, o que ela quisesse dele, ela teria. Os movimentos de eram perfeitos, dançava como um profissional, conduzia bem a dança e tinha o domínio total da situação. A mantinha firme, mas livre para rebolar e dançar. Soltou suas mãos, levando a mão direita para a nuca de e ela sorriu sacana enquanto dançava e usava a mão livre para segurá-lo pela cintura. – Baby, yo quiero contigo lo que no hacen los amigos... – ela voltou a cantar no ouvido de , que a puxou para mais perto enquanto a olhava nos olhos intensamente.
O sorriso sacana brincou nos lábios de vendo como ele tinha ficado perturbado com aquela frase, não que ele tivesse mesmo entendido, mas a entonação tinha sido crucial e, como ele bem sabia, a linguagem do flerte é universal, seja você fluente ou não no idioma. Os movimentos seguiram bem feitos e conforme a música pedia, enquanto fazia questão de manter o maior contato corporal que conseguia e sem desfazer o visual.
– Minha boca está implorando para tirar esse batom da sua. – falou em seu ouvido e agradeceu mentalmente, não aguentaria sustentar os olhares de por muito mais tempo.
– E por que sua boca ainda não fez isso? – perguntou também no ouvido dele e lhe mordiscou de leve o lóbulo, recebendo o resmungo de um palavrão em alemão. – Terras latinas, tienes que hablar en español, cariño. Mas vai – ela voltou a olhá-lo nos olhos e sorriu provocativa –, fala o motivo de você ainda não ter tirado meu batom.
– Porque não é só o batom que eu quero tirar de você, . – respondeu, sério, e pela forma como a olhava, sabia que era verdade.
E aquela partezinha sóbria de seu cérebro voltou a alertar sobre os riscos reais de tudo aquilo: ele estava muito bêbado e não devia realmente querer arrancar a roupa de uma mulher e realmente transar com ela, já que ele é gay. Ou bi. Ela não sabia. resolveu ignorar essa pequena parte de seu cérebro que insistia em não ficar bêbada e agir por impulsos, como o resto de seu corpo.
– E o que mais você quer tirar, meine Süsse? – ela perguntou, fingindo-se de desentendida e passou os dedos pelos cabelos de , que resmungou algo que ela não entendeu.
– Não faz isso comigo. – disse, reunindo forças para conseguir formular a frase.
– Então faz você alguma coisa comigo.
respondeu séria, com uma sobriedade que não parecia ter há horas, e não perdeu tempo pensando em uma resposta, apenas juntou seus lábios em um beijo que, diferente dos anteriores, tinha segundas intenções. Segundas, terceiras, quartas, quintas... Ela, agora, tinha os dois braços ao redor do pescoço dele e ele a tinha envolta por seus dois braços.
sugou o lábio inferior de com voracidade, aproveitando para tomar um fôlego antes de voltar a beijá-la, sentindo os dedos de se enfiarem em seus cabelos, puxando de leve os fios aparados antes das férias e que quase precisavam de um novo corte.
Os lábios foram novamente separados, enquanto beijava todo o contorno da mandíbula de , descendo para o pescoço da mulher, que soltou um suspiro pesado, sentindo os lábios dele depositando beijos em sua pele.
– Acho que nós devemos subir. Agora. – ela falou ofegante.
, inebriado e desnorteado, assentiu e os dois caminharam de mãos dadas até o andar superior da casa.
A porta mal se fechou às costas de e a trouxe para mais perto de si, voltando a beijá-la da mesma forma como minutos antes: intensamente, transbordando desejo e luxúria. Os dedos dela voltaram a se enfiar nos cabelos dele e ele a pressionava contra a porta, com os corpos completamente colados.
arranhou de leve a nuca de , que soltou um arfar enquanto se beijavam. Ao fundo, a música continuava no andar debaixo, mas eles estavam alheios a qualquer coisa que não fosse o contato físico apressado e totalmente descoordenado. Ele a conduziu até a cama e a deitou, deitando seu corpo sobre o dela, sem interromper o beijo.
As mãos estavam inquietas, tanto as dele quanto as dela, tocavam todos os lugares alcançáveis enquanto ainda se beijavam desejosos. mordeu o lábio dela e o puxou, arrancando um suspiro pesado da mulher.
, a gente não precisa fazer isso... – resmungou enquanto os lábios dele, agora, lhe beijavam o pescoço e sua pele se arrepiava ao sentir aquele toque deliciosamente perigoso. Sabia que aquilo não daria em nada, terminaria a noite frustrada e apenas restaria um clima pesado entre eles.
– Você não quer? – ele perguntou sem olhá-la, com o rosto escondido no pescoço da mulher, ainda entorpecido pelo perfume que ela usava.
– Quero, mas você não precisa fazer isso para me agradar.
– Eu não estou entendendo. – voltou a beijá-la no pescoço e deixou um gemido baixo escapar de seus lábios antes de voltar a falar.
– Eu... eu não quero que você se sinta obrigado a transar comigo só porque eu quero muito, muito, muito mesmo, transar com você. – reuniu forças para falar enquanto escorregava as mãos por todo seu corpo.
– Eu não me sinto obrigado, eu estou com muita vontade mesmo.
– Você está com vontade de transar comigo? Comigo? Mulher?
– E por que eu não estaria com vontade de transar com você mulher? perguntou confuso, erguendo o olhar até encontrar os olhos dela.
– Porque você é gay.
– Eu sou o quê? – perguntou, surpreso.
– Gay.
– Eu não sou gay!
– Não?
– Não!
– Você tem certeza?
falou e pegou a mão dela, escorregando até o volume de suas calças, que estava clamando por liberdade há alguns bons minutos –, se eu fosse gay, você não teria esse efeito sobre mim. Poder ter certeza.
– Eu jurava que você é gay!
, por favor, nós podemos deixar isso para outra hora e nos concentrar no que ambos queremos muito fazer? – pediu quase desesperado e ela, em resposta, voltou a beijá-lo.

’s POV

Eu acordei primeiro.
dormia profundamente aninhada aos meus braços e a única coisa que posso dizer a respeito é que isso é absurdamente tentador. Mantê-la aqui, perto de mim, com tanto contato entre as peles, as lembranças de ontem, de tudo que aconteceu, a vontade maluca de que se repita...
Não!
Ainda de olhos fechados, os apertei com mais força, pois além da ressaca, as lembranças da noite anterior tornam tudo ainda pior. Minha consciência acordou e está revoltada. Não. Revoltada é pouco para o que a minha própria voz berra em minha cabeça nesse momento. Eu devia ter parado quando ela falou que eu não precisava fazer nada para agradá-la e depois quando cogitou que eu era gay.
Merda.
Devagar, afastei o corpo de do meu e vasculhei a mochila em busca da bermuda que eu tinha trazido, para vestir e correr. Correr para me livrar de todo aquele álcool, ainda que só de pensar na ideia, eu sinta meu corpo protestar e implorar para que eu desista e volte para a cama, para o descanso e a ter o corpo de em meus braços pelo resto do dia.
Vesti a bermuda, calcei o tênis da noite anterior, peguei os fones na mochila e sai do quarto bem devagar para não acordar . Os sapatos não são propícios para caminhadas, tampouco para corridas, mas se eu ficar nesse quarto, vamos repetir o que aconteceu ontem à noite. E isso é um risco. Um risco que eu não estou disposto a correr.
Não posso ir longe, não conheço o lugar, então vou apenas me concentrar no barulho dos fones em meus ouvidos em uma altura muito maior do que a recomendada, do que minha mãe aprovaria e do que minha ressaca se sente apta a suportar, mas que me faz correr.
Eu não posso, de forma alguma, me deixar levar.
É um contrato, apenas um contrato e nada mais que isso. Não podemos ter nada além de uma relação contratual, pelo bem do meu futuro profissional e pela amizade criada. Já tive minha cota de problemas românticos nessa vida e não pretendo repeti-los. Isso não pode e nem vai acontecer.
É errado.
É, profunda e absolutamente errado.
é apenas um holofote. Um holofote que beija muito bem, que transa muito bem, que é engraçada, focada, intensa, bonita e agradável, mas é apenas um holofote. Um trampolim. Uma escada para me levar de voltar às graças da seleção e do Bayern. Palavras do Hugo. não é nada além disso. E ela não me vê como nada além de um encargo.
Inferno.
Por que eu não posso ser feito aqueles caras que pegam diversas mulheres e não se apegam a nenhuma delas? Ou um desses que sabem manter as coisas casuais sem envolvimento e sentimentos? Merda. Não, eu não vou me apegar. Foi apenas sexo bêbado e nada além disso. A culpa é do álcool. Pronto.
E de onde diabos ela tirou aquela conversa sobre eu ser gay? Alguém já tinha cogitado isso? Minha vida ser reservada me faz, automaticamente, gay? Ou as não aparições de namoradas? Ou eu ser um cara que toma banho com regularidade e procura não sair fedorento e nem mal arrumado – ainda que ela insista em dizer que eu me vestia muito mal – para qualquer lugar? Não que o problema seja ela achar que eu sou gay, longe disso, o que me deixou surpreso foi a forma como ela falou.
Corri por mais de uma hora, sob protestos do meu corpo que estava agonizando enquanto se exercitava debaixo do forte sol e pelo esforço físico, mas além de precisar tirar todo o álcool do corpo, eu precisava pensar e me afastar do corpo nu e convidativo de , com quem dividi a cama a noite inteira.
A casa permanecia silenciosa quando retornei, algumas pessoas continuavam dormindo pela sala, que estava cheia de copos e fedia a bebida e suor, todas as portas do corredor estavam fechadas e eu caminhei, pedindo a qualquer entidade divina – e eu não sou lá o tipo de cara que pode ser chamado de religioso – para que ela ainda estivesse dormindo.
E ainda precisamos ir embora juntos!
Quase quarenta minutos num carro com aquela mulher. O clima vai ficar péssimo e pesado, eu posso sentir isso. Inferno. Se já ficou ruim quando apenas nos beijamos, imagina agora depois de uma noite fantástica com muito sexo? A vida tem uma forma muito peculiar de lidar comigo... E eu espero que me evite, não fale comigo e torne fácil a minha missão de evitá-la até esquecermos esse episódio, ou seja, para sempre.
Aparentemente ela ainda está dormindo, então melhor evitar todo e qualquer barulho e pé ante pé eu cheguei ao banheiro de forma silenciosa. Tomei um banho frio, vesti a camisa e a cueca limpas que trouxe e vesti a calça da noite anterior para que eu possa voltar para o resort, e quando sai do banheiro, encontrei acordada.
Minhas orações não adiantaram.
Eu sei, ela não poderia dormir para sempre, mas ninguém se importaria se ela dormisse por mais algumas horas. Eu não me importava nem um pouco se isso acontecesse, eu poderia pensar em alguma forma de evitá-la enquanto isso, ainda que eu tenha certeza absoluta de que nem tendo todo tempo do mundo eu aprenderia a lidar com o ocorrido da noite anterior.
– Eu poderia dormir até amanhã. – falou com a voz rouca de sono. Sexy.
– Sem novidades. Mas já é tarde.
– E aonde você foi? Acordei e você não estava, dormi de novo.
– Fui correr. – respondi.
– Deveria ter me chamado, eu perdi a aposta. – ela falou tentando soar bem-humorada, mas me pareceu tensa. – Não que eu tenha trazido roupa para isso, mas...
– Você me mataria se eu te chamasse para correr de ressaca E, em todo caso, nós teremos outros dias para correr juntos. – dei de ombros.
Quando peguei o celular dentro do bolso da mochila jogada no chão do quarto, encontrei uma mensagem de Hugo avisando que eu tinha que voltar o mais rápido possível, tínhamos que analisar as propostas recebidas. Minhas férias estavam encerradas sem que eu quisesse, mas eu via aquilo como uma resposta às minhas orações, porque eu estaria longe por alguns dias e isso ajudaria muito a processar todo o ocorrido e lidar com a situação de forma madura.
– Claro. – respondi sem me virar. – E, infelizmente, não vamos estender nossas férias. As minhas, na verdade, foram encurtadas.
– Por quê?
– Hugo pediu que eu volte o mais rápido possível, temos um acerto a fazer.
– O Bayern resolveu te chamar de volta? – perguntou, esperançosa, e eu neguei com um aceno, evitando olhá-la.
– Não, vou analisar algumas propostas que recebi. Hugo pediu para que eu volte e analisaremos juntos o que fazer.
– O Bayern vai te querer de volta. Eles vão perceber que seu lugar é e sempre foi lá.
– Espero que sim, mas preciso ir embora amanhã.
– Eu não vou ficar aqui sozinha. – resmungou. – Imagina que saco! Oito dias sozinha!
– Você tem que descansar, , vai começar uma maratona quando voltar para Alemanha, e quanto mais descanso tiver, melhor. Fica e aproveita.
– Você quer voltar para o resort agora?
– Por favor.
– Vou vestir algo para ir embora. Eu diria que poderíamos comer pelo caminho, mas eu prefiro não comer nada e apenas tentar não morrer de tanto sentir dor de cabeça e vontade de vomitar.
– Tudo bem. – respondi e ela se pôs de pé, enrolada no lençol (ainda bem!) e pegou a mochila, indo para o banheiro se trocar.
E tomara que ela fique mais tempo de férias mesmo. Que dobre o tempo de viagem e essas coisas. Eu preciso focar no objeto desse contrato e não na outra parte envolvida. Chega de vida amorosa para mim. A última decepção já foi suficiente.


Continua...



Nota da autora: Espero que vocês estejam vivas. Sério. Eu falei que essa viagem ia render e rendeu.
Eu pensei num spin-off +18 dos dois pra essa viagem? Pensei. Vou fazer? Não sei. Posso pensar, amadurecer a ideia enquanto tento visualizar esses dois não sendo meus dois filhinhos lindos de cinco anos de idade.
Enfim, eu não fiquei maluca e mandei um milhão de capítulos. Sério. Eu mandei os três agora, porque essa viagem precisa acabar (ainda que tenha acabado só a parte do casal) e a história tem que andar. A próxima att será dupla e ai sim a viagem acaba (e agora entrei pro time VIP então nem vai demorar tanto, tô me sentindo a própria Rihanna falando isso. Adoro). Digo apenas uma coisa: preparem-se rs.
Relembrando que quando o ficstape do álbum “Yours Truly”, da Ariana Grande, sair, a música 06. Piano é um spin-off de Trato Feito.
Entra lá no grupo do Facebook e vamos trocar uma ideia, lá rola umas infos e uns spoilers. Segue no Instagram da também, que rola uns spoilers por lá às vezes.
Era isso tudo, aguardo os surtos/comentários sobre o capítulo e o que mais vocês acham que vai acontecer!
Beijos!

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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