FFOBS - Trato Feito, por Lana Guedes


Trato Feito

Última atualização: 20/07/2018

Prólogo


– Eles desistiram de me esperar? – perguntou quando chegou no escritório e encontrou apenas seu melhor amigo/empresário na sala de reuniões. Tinha ficado presa no trânsito no centro da cidade e estava mais do que excessivamente atrasada. negou com um aceno. – Então desistiram da reunião?
– Estão presos no trânsito. Aparentemente aconteceu algum acidente e a cidade está parada.
– Eu sei, fiquei um tempão presa no trânsito também. – ela suspirou. – E sobre o que é? Um novo contrato?
– É.
– Vou comprar alguma coisa para comer, estou morrendo de fome. Quer?
– Não, obrigado. E não demore, eles devem chegar daqui a pouco.
– Vou na lanchonete do outro lado da rua, pode ficar tranquilo. – ela sorriu e se virou, saindo da sala.
Precisava comer, porque sabia que essa reunião não acabaria rápido e ela estava morrendo de fome. Comprou um sanduíche e uma Coca-Cola, algo que seu personal e sua nutricionista reprovariam. Flashes foram disparados em seu curto caminho até a lanchonete do outro lado da rua e no retorno ao escritório de seu empresário/melhor amigo, como sempre.

– Eles chegaram. – Gretchen, a recepcionista, avisou-a quando ela voltou ao escritório e fez uma careta.
– Espero que eles não se importem se eu comer durante a reunião. Mas, se eles se importarem, vou comer do mesmo jeito.
– Você não existe, . – a mulher disse, rindo.
– Essa reunião não vai acabar rápido, aposto que vou ficar entediada em cinco minutos. – ela resmungou e seguiu até a sala de reuniões, que ficava seguindo um pequeno corredor.
Ao abrir a sala, deparou-se com e outros dois homens, e ela conhecia um deles.
– Ah, ela chegou. – disse, dando um sorriso.
– Perdão pela demora, nós ficamos presos no trânsito.
– Ah, tudo bem. Eu cheguei agora há pouco também, essa cidade hoje está um verdadeiro inferno. Espero que vocês não se importem se eu comer enquanto conversamos, porque eu estou morrendo de fome, não tive tempo de tomar café da manhã em casa. – ela falou e tomou um lugar ao lado de , ficando de frente para os dois homens.
– Sem problemas. – o outro homem disse. – Meu nome é Hugo, esse é meu amigo .
– Eu o conheço, ele é do meu time. – ela falou sem olhar para os dois, estava preocupada em abrir sua Coca-Cola. – Enfim, para que é tudo isso?
está passando por um momento difícil, o ostracismo está batendo à porta depois daquelas lesões todas, ainda tem, também, a questão de frequentemente as perguntas se tornarem pessoais sobre relacionamento. – foi quem se pronunciou.
– E o que eu tenho a ver com isso? – perguntou depois de mastigar um pedaço do sanduíche que tinha comprado.
– Resolvemos unir o útil ao agradável e fazer um contrato de marketing.
– Continuo sem entender.
– Ele perdeu a mídia, você a tem quase toda para si, e os dois estão solteiros e já se cansaram de ouvir coisas sobre relacionamentos. – Hugo explicou e ela assimilou as informações.
– Então é um contrato de marketing para fingirmos ser um casal? – ela perguntou e os três assentiram. – Vocês só podem estar de sacanagem comigo.
, você sabe que eu nunca faria algo para te prejudicar. – disse, sério.
– Vocês não podiam ter tentado da forma convencional?
– Teríamos feito isso se não os conhecêssemos tão bem. – Hugo disse, olhando para , que tinha permanecido calado o tempo inteiro e estava cada vez mais sem graça. – Nós os apresentaríamos, vocês se cumprimentariam e acabaria aí.
– E o que você acha disso? – ela perguntou a , que não abriu a boca, só ficou mais vermelho do que já estava. – Eu sei que você fala, e nós dois sabemos que eles já decidiram e estão apenas comunicando-nos o que vai acontecer, então expresse sua opinião.
– Eu... – ele disse tão baixo que quase nem se ouviu. – Não sei se vejo problemas nisso. Queria voltar à seleção, queria voltar para o Bayern, eles não querem renovar comigo quando o empréstimo acabar. Em alguns meses eu estarei de férias e desempregado.
– E como vocês querem que a gente faça isso? – se virou para e Hugo.
Sua expressão já não era tão amigável mais.
– Primeiro vocês sigam-se em redes sociais e...
– Eu já o sigo há muito tempo. – interrompeu a fala. – E ele me segue também.
– Então comecem a trocar alguns eventuais comentários em fotos e...
– E vamos ser vistos juntos, alguém tira uma foto, posta na internet, os rumores começam a aumentar, continuamos a comentar nas fotos um do outro e um tempo depois assumimos que estamos namorando. – disse, rolando os olhos, enumerando as fases pelas quais aquele “relacionamento” passaria. – Mas espero que vocês saibam que não adianta nada “atrair a mídia” se ele não jogar mais do que os que estão na seleção. E se não parar de tomar bola nas costas e correr feito um desesperado sem rumo.
– Isso não vai dar certo. – resmungou.
– Muito pelo contrário. – Hugo deu um sorriso, observando terminar de comer seu sanduíche. – Acho que isso vai ajudar. E muito.
– A contar pela quantidade de fotógrafos na porta, já devem estar especulando que estamos juntos. – ela disse, debochada.
– Descemos no estacionamento do prédio e subimos direto. – Hugo disse e ela se virou para .
– Você tem dezoito meses para conseguir o que quer, a contar de quando assumirmos, . – ela disse, séria. – Nem um dia a mais.


Capítulo 1


Desde a tal ideia do contrato, vinte e dois dias atrás, ela e trocaram algumas mensagens, coisas básicas como avisar um ao outro da postagem de fotos ou qualquer coisa que Hugo ou mandassem. Trocavam comentários em algumas fotos, não em todas, porque queriam passar uma imagem convincente de serem apenas amigos, mas nunca tinham sido vistos juntos. Ainda.
Nenhum dos dois gostava de noitadas e baladas, então não teriam problemas em fingir que aquele relacionamento era realmente sério. Ela estaria em turnê dali uns meses, e os dois não se veriam por bastante tempo, bastaria fingir saudades em redes sociais. Ela mora permanentemente em Munique, e ele ainda mora em Gelsenkirchen, mas em breve deve se mudar de lá; não sabe para qual cidade, porque o Bayern não parecia disposto a tê-lo de volta e muito menos o Schalke parecia interessado em comprá-lo. Outras propostas estavam sendo analisadas, então era bem provável que morassem longe. Ambos não poderiam ficar viajando para eventos e nem para serem vistos juntos todo fim de semana.
No fim das contas, aquele relacionamento atrairia marketing e ambos ganhariam dinheiro sem fazer realmente algum esforço. Os termos ajustados eram simples: fingiriam ser namorados e os encontros aconteceriam na medida que seus compromissos profissionais permitissem.
não estava gostando nem um pouco, mas tinha concordado, o contrato – ainda que não fosse escrito, fosse apenas verbal – estava firmado, e ela tinha dado sua palavra de que faria parte daquilo.

– Está na hora de vocês serem vistos juntos. – falou e ignorou, fingindo mexer no celular. – Você me ouviu?
– Marque o que você quiser, não tenho outra escolha mesmo.
está na cidade, amanhã vocês vão ao cinema. Marquem o horário entre vocês. É preciso que esse namoro comece de verdade. – ele falou, sério, e ela suspirou, assentindo.
– Não é como se eu tivesse muitas opções, de qualquer forma. E sei que entrei numa coisa que não vai dar em nada, porque duvido que ele volte para a seleção e para o time por isso.
– Você ainda tem aquele crushzinho nele? – perguntou e ela rolou os olhos.
– Estamos grandinhos demais para usar esse termo, você não acha? – ela perguntou, debochada.
– Você não negou. – ele sorriu abertamente. – Então temos aqui o motivo de você não ter berrado que não participaria disso tudo.
– E você usou essa informação para unir o interesse dele por mídia e o da mídia em me arrumar um namorado.
– Talvez. – deu de ombros e sorriu, abraçando a amiga de lado. – Mas vai que essa é a chance de fazer aquela sua paixãozinha platônica se tornar real.
– Sem chances. Aquilo acabou faz tempo. E tem o fato de ele ser gay.
– Ele é? – perguntou assustado.
– É o que se especula. E eu acredito nisso mesmo.
– Ah, mas muita gente falava do Cristiano Ronaldo, e ele não é.
– Falavam apenas por ele ser bonito e gostar de se cuidar, o que não é mais do que a obrigação.
– E o que te faz achar que é gay?
– O jeito. Não com aquele estereótipo que criam, mas ele nunca teve uma namorada, não curte foto de mulher no Instagram e, sei lá, não parece ser hétero.
– Isso é estereótipo. – riu. – Não acho que ele seja gay.
– Ele é. – ela assentiu. – E vamos parar de falar, você vai embora e eu vou dormir. Aparentemente tenho um encontro amanhã.
– Jeito bem sutil de me mandar embora. – ele riu e deu um beijo na bochecha da amiga.
– Dê um beijo em Allie por mim.
– Pode deixar. – ele sorriu e se pôs de pé. – Bom encontro amanhã.
– Eu vou te demitir.
– Você não duraria um dia sem mim, meine Liebe. – ele disse e ela rolou os olhos. Era a verdade.
seguiu até o elevador e foi embora, deixando sozinha na sala de casa.
Aquela paixão platônica tinha acabado, certo? Ela queria que sim, ainda que soubesse que, lá no fundo, ainda o achava uma gracinha e podia muito bem ser a garota que era louca por ele uns anos atrás.

já tinha decorado o feed de fotos de no Instagram, entrava lá todos os dias para acompanhar a rotina da futura namorada e para conhecer o trabalho dela. Havia diversas fotos de shows, mas também de muita coisa pessoal: família, passeios, amigos, selfies... Descobriu, durante esses dias, que ela sabia tocar piano, guitarra e violão, que tinha cantado com o ídolo, John Mayer, que é louca por comida italiana, que gosta de dançar e é apaixonada por animais.
Ele tinha escutado algumas músicas e visto alguns dos vídeos dos shows, além de clipes que tinham sido gravados. A voz era realmente muito boa, ainda que não fosse o estilo musical favorito dele. , além de muito bonita, era talentosa. Os dois se falavam esporadicamente, trocaram uma ou outra informação necessária, mas ela não parecia em concordância com nada daquilo, e ele não a tirava a razão.
Ela postou uma nova selfie algumas horas antes, não mostrava muita coisa, apenas a parte superior do biquíni azul; tinha um olho fechado e fazia língua. Tinha a expressão cansada, olheiras e parecia prestes a dormir. A legenda dizia “Amanhã eu volto para o estúdio 🌞😜” e milhares de comentários falando sobre o álbum, outros falavam para que ela descansasse e aproveitasse o fim de semana, comentários chamando-a de linda e derivados.
Ele curtiu a foto e pensou se deveria ou não comentar. Repetiu os emojis que ela colocou no comentário e, mal o fez, recebeu diversas respostas e pessoas que começaram a segui-lo. Sugeriram que ele fosse aproveitar o dia com ela, afinal eram namorados, e um mencionou e perguntou os motivos de não ter ido. nem se deu ao trabalho de responder ou ler o que se seguiu, resolveu tomar um banho e ver um filme. Tinha que sair com no dia seguinte e esperava ser um bom ator, porque seria necessário.

-x-


– E aí, o que vamos assistir? – perguntou quando parou o carro na rua lateral a do cinema e os dois desceram, seguindo lado a lado até entrarem no local.
– Não faço a menor ideia. – ela deu de ombros.
– Você já viu Logan?
– Ainda não.
– Pode ser esse? Eu também não vi.
– Por mim tudo bem. Vou comprar a pipoca e você compra os ingressos. – ela disse e ele assentiu. – E 3D não, por favor. Só se for a única opção.
– Tudo bem.
– Pipoca com manteiga?
– Sim. E suco, se tiver. – ele pediu educado e ela assentiu, saindo em direção ao local em que a pipoca era vendida.
– Eu quero dois ingressos para Logan, por favor. – ele pediu ao atendente.
O rapaz tinha uma expressão entediada, mas quando viu quem estava ali, ele deu um sorriso.
! Cara, sou seu fã! Posso tirar uma foto com você? – perguntou todo animado e deu um sorriso.
– Claro. – falou e o rapaz saiu animado da cabine de vendas e se aproximou.
Tirou umas cinco fotos antes de outra pessoa, um cliente, pedir fotos. E depois o outro atendente que estava voltando do horário do intervalo.
– Precisa de ajuda com os ingr... Ah. – ele ouviu a voz de e se virou.
Ela tinha dois baldes de pipoca em um suporte. Havia também dois copos grandes com as bebidas.
– Não, . – ele deu um sorriso para a mulher e se virou para o atendente. – Posso pegar os ingressos?
– Claro. – o atendente disse, ainda sem acreditar em quem estava vendo. – Fique no Bayern, cara. Espero que eles te peguem de volta quando o empréstimo acabar.
– A intenção é essa. – ele sorriu de lado. Pagou os ingressos e os pegou. Nenhum dos dois viu uma foto ser tirada enquanto caminhavam até a entrada da sala em que o filme seria exibido, tampouco viram a outra que foi tirada antes do filme começar. – Você vai comer isso tudo?
– Você não come pipoca? – ela perguntou, assustada.
– Como, mas não isso tudo.
– Ah, então come o que aguentar e eu como o resto. Amo pipoca.
– Eu percebi. – ele disse, rindo.
– Agora cala a boca, vai começar o filme.
As duas horas e vinte minutos de filme passaram depressa, e ele percebeu que gostava mesmo de pipoca, porque comeu a pipoca que ele tinha rejeitado, além da própria.

– Eu estou com fome. – ela disse como se fosse supernormal sentir fome depois de comer aquilo tudo, e ele a olhou incrédulo.
– Você está brincando comigo?
– E por que estaria? – ela deu de ombros.
– E o que você quer comer?
– Não sei, mas não quero comida.
– Você vai comer mais porcaria? Você comeu quase dois baldes de pipoca agora mesmo.
– Primeiro: você comeu o seu quase inteiro, não se faça de inocente, e segundo: agora mesmo nada, porque eu acabei de comer bem antes da metade do filme. – ela disse emburrada e ele riu.
– Agora já sei algo sobre você: você come feito uma pessoa que ficou presa por dez dias. – ele falou, rindo. – Quer comer alguma coisa de fast food?
– Burger King! – ela comemorou. – Adoro aquelas coroas que eles dão. E acho que vamos conseguir conversar e ficar tempo suficiente para sermos fotografados juntos.
– Então tudo bem. – ele sorriu. – Tem um aqui perto, vamos caminhando mesmo.
– Por favor. – ela assentiu e os dois saíram do cinema, caminhando pela avenida movimentada que os levaria até o Burger King. – E então, o que há para saber sobre , além da parte profissional?
– Sei lá, o que você quer saber? – ele perguntou, rindo.
– Ué, , sobre você, o que faz fora dos campos? – ela perguntou, dando de ombros.
Ainda que tivesse sido uma das maiores fangirls dele, havia muito pouco sobre ele na internet.
– Eu adoro sorvete, mas não posso comer demais porque é muito gorduroso, e queimar gordura hidrogenada é bem difícil. Gosto de cantar, apesar de não saber fazer isso, porque alivia a tensão. Gosto de andar de bicicleta, de nadar e de dirigir sem ter um lugar específico para chegar. Não sou muito de sair para baladas e essas coisas, sou mais caseiro. Gosto de crianças também e de animais.
– Você tem só uma irmã?
– Sim. E ela é tão insuportável que vale por vinte.
– Você tem algum sonho a realizar?
– Ganhar a Copa estando na seleção. – ele sorriu. – Seria maravilhoso.
– E se você não fosse jogador, seria o quê? – perguntou curiosa.
– Eu não sei. Sinceramente. – ele deu um sorriso de lado, enquanto caminhavam. – Nunca parei para pensar nisso, mas acho que eu teria feito algo que pudesse trabalhar com futebol. E eu não sei mais o que falar sobre mim.
– Você é muito tímido, acho isso uma coisa rara, ainda mais no futebol. Conheço alguns jogadores, todos são muito falantes e extrovertidos, e aí tem você, quieto e introvertido.
– Eu sou mais reservado, na verdade. Mas eu gosto de me divertir, de sair, de ir a shows...
– Você tem um sorriso muito bonito. – ela elogiou e ele corou. – Ai, , não fica sem graça, foi só um elogio.
– Não é algo controlável. – ele disse, dando um sorriso sem jeito.
– Posso dizer que é estranho você não ser comprometido? Porque você é muito bonito. – ela perguntou, jogando verde.
Era a hora de descobrir a verdade.
– Eu não sei o motivo. – ele coçou a nuca, sem jeito.
– Vamos mudar de assunto, você está desconfortável. – ela disse, rindo, e ele assentiu. – E, então, tipo musical favorito?
– Rock, mas ouço algumas coisas de pop e rap.
– Rock eu acredito, mas os outros dois eu duvido muito. – ela riu. – E o que gosta de fazer quando está de folga?
– Depende. Saio com meu cachorro, fico com minha mãe, saio com alguns amigos...
– Qual sua comida favorita?
– Qualquer uma que minha mãe fizer. – ele riu. – Sou bem tranquilo para comer, mas adoro Sauerbraten mit Knödel* e Käsespätzle*. Minha mãe faz um Sauerbraten mit Knödel delicioso, um dia te levo lá para comer.
– Você já parou para pensar nisso? – Lana suspirou, enquanto caminhavam. – Vamos enfiar nossas famílias nisso tudo também. Minha mãe vai achar um máximo que eu finalmente tenho um novo namorado, meu pai e meu irmão mais velho talvez não. E sua mãe e sua irmã? Acho que Hugo e não pensaram nisso com o devido cuidado.
– Podemos apenas explicar isso a eles, não?
– Eu não sei você, mas eu não sei se quero falar com meus pais que estou namorando de mentirinha. – ela disse e ele assentiu. – E meu irmão faz picadinho de nós dois, depois mata e Hugo. Não me sinto confortável em estar nessa mentira, mas já que estamos, temos que fazer isso direito.
– Ainda somos apenas amigos, podemos planejar com calma. – ele sorriu, mas ela não sorriu de volta.
– Não, estamos sendo vistos hoje exatamente para deixarmos de ser “apenas amigos”.
– Para a mídia. – ele deu de ombros e sorriu para ela. – Seremos apenas amigos, de qualquer forma, então temos tempo de pensar em como resolveremos algumas coisas. Por enquanto, preciso saber um pouco mais sobre você.
– Ah, eu sou meio doida. – ela deu um sorriso e os dois entraram na lanchonete.
Estava quase deserta, se não fosse um casal sentado numa ponta e dois atendentes que conversavam sem prestar atenção nos novos componentes do ambiente.
– Boa noite. – os anunciou e, enquanto o rapaz a olhava admirado, a garota a olhou com desdém, desviando os olhos rapidamente para , mas sem demorar muito.
. – o rapaz sorriu. – Eu sou seu fã! Você pode, por favor, dar-me um autógrafo e tirar uma foto comigo?
– Claro. – ela sorriu, simpática. – Você tem papel?
– Tenho. – ele, desesperado, pegou um guardanapo e entregou com uma caneta.
– Como você se chama?
– Joshua. – ele falou, quase hipnotizado. Ela escreveu uma dedicatória e autografou o papel. O garoto atravessou o balcão e entregou o celular para , que prontamente tirou a foto, e o rapaz abraçou . – Seu último álbum é meu favorito! É o melhor de todos! Você é maravilhosa!
– Espere para ver o próximo. – deu um sorriso de lado e o garoto o olhou, dando um sorriso sugestivo.
– E o que vocês vão pedir? – a garota perguntou, entediada.
– Eu quero o combo doze. – disse, animada. – E pode colocar a batata grande.
– E você?
– O mesmo, mas ao invés de refrigerante, eu quero suco. – ele pediu e a garota anotou.
– Eu quero uma daquelas coroas, você tem? – pediu a Joshua, que se abaixou rapidamente para pegar.
Ela sorriu em agradecimento e foi sentar-se com num lugar mais afastado depois de pagarem e pegarem seus lanches.
– E você? O que há para saber sobre ? – ele perguntou quando se sentaram.
– Eu vivo meu sonho, porque sempre quis cantar e nunca me imaginei fazendo nada diferente disso. Adoro comer, minha comida favorita é italiana; qualquer coisa da cantina italiana é minha comida favorita. Gosto de malhar e fazer yoga, estou sempre ouvindo músicas e frequentemente escrevendo. Tenho mania de ficar cantarolando, minha fonoaudióloga já me xingou diversas vezes por isso, mas é mais forte que eu. Amo coisas família também, queria ter um cachorro, mas minha agenda e rotina não permitem, porque quero um cachorro grande e não posso levá-lo em turnês, porque não são todos os hotéis que aceitam cachorros, e mesmo os que aceitam, não aceitam cachorros grandes. Quando estou em casa, gosto de ficar com minha família, que é composta por meus pais e meu irmão mais velho. Amo rock, mas gosto muito de reggaeton, pop e R&B; amo dançar. Sei falar cinco idiomas e arroto alto para caramba.
– Muitas informações interessantes. – ele disse, rindo. – Cinco idiomas, é?
– Sim. Alemão, inglês, italiano, espanhol e francês.
– Que poliglota. – ele riu. – E em quantos países já esteve?
– Na maioria deles. Alguns dá para ficar mais do que dois dias e conhecer algumas coisas, outros não. E você?
– Só os países em que joguei, mas estar e conhecer são duas coisas diferentes.
– É. – ela disse, abrindo o sanduíche e dando uma mordida.
– Você conhece há muito tempo? – perguntou e esperou que ela terminasse de mastigar para responder.
– Crescemos juntos, porque nossos pais trabalharam juntos. Sempre estudamos juntos na escola, éramos das mesmas salas, saíamos juntos... Ele é meu melhor amigo e eu sou a melhor amiga dele. Separamo-nos quando eu consegui um contrato, aos dezesseis, para gravar um CD, e ele foi para a faculdade no ano seguinte, enquanto eu dava uma volta ao mundo. Mas sempre nos falávamos e nos víamos quando eu estava na cidade, e ele sempre acompanhou minha carreira, mas só quando saiu da faculdade se tornou meu empresário, há uns três anos.
– E vocês nunca tiveram nada?
– Credo. – ela fez uma careta. – não faz meu tipo.
– E qual o seu tipo?
– Você. – ela deu de ombros e ele ficou vermelho, fazendo se segurar para não dar uma gargalhada e chamar a atenção. – Eu não podia perder essa.
– Você joga baixo. – ele falou num murmuro.
– Mas não menti, em todo caso. Você é esteticamente meu tipo. Resta saber se na personalidade também. Não é no guarda-roupa, porque você se veste muito mal e, aliado a isso, tem esse corte de cabelo com essa barbicha, preciso te levar para fazer compras e dar um jeito nessa sua cara.
– Você está me chamando de brega e feio? – ele se fingiu de ofendido.
– De brega, sim, de feio não. Você está abandonado, na verdade. Parece que está cortando o cabelo sozinho em casa e usando uma faca de pão. E essa barbicha... Deus me livre. – ela falou, fazendo rir da expressão que ela fez.
– Então você é a senhorita perfeitinha que tem os cabelos bem cuidados e o closet mais do que perfeito? – ele debochou e ela assentiu, enquanto mordia um pedaço do sanduíche. Ele deu um sorriso e sacudiu a cabeça negativamente, voltando a comer seu sanduíche, o mesmo que ela estava fazendo. – Deixe-me tirar uma foto sua com essa coroa. Está ótimo.
– Claro que está, sou uma princesa, princesas usam coroas. – ela disse, estendendo o próprio celular para ele. – Tira nos stories.
– Claro que é uma princesa, a Fiona. – ele zoou, rindo, e tirou a foto.
Ela tinha colocado as duas mãos sob o queixo e dava um sorriso, de olhos fechados. Ele escreveu “uma verdadeira princesa da Disney” e postou.
– Se eu sou a Fiona, isso faz de você o Shrek. – ela deu um sorriso vencedor e ele deu de ombros.
– Ainda bem que você concluiu isso, porque a partir de agora posso me comportar como um ogro.
– Você não pode ser ogro tão cedo. – ela falou, séria, e ele reprimiu a vontade de rir alto. – Não vou te aturar peidando e nem arrotando feito um ogro.
– Que isso, Fiona... – ele falou, brincando, e ela lhe jogou uma batata.
– Cala a boca e vamos embora. – ela resmungou e ele riu.

Os dois saíram do restaurante e caminharam pela rua, sem conversar. estava empanzinada, no real e completo significado da palavra. podia jurar que estava prestes a explodir de tanto que tinha comido. Entraram no carro e, quando o rádio foi ligado, uma música dela estava tocando, e ela comemorou como se fosse a primeira vez que tinha uma música tocando na rádio, como se não fosse a coisa mais comum do mundo. Ela pegou o celular e gravou alguns stories toda animada, cantando, enquanto ouvia a música.

– Você ainda comemora quando suas músicas tocam nas rádios? – ele perguntou, bem-humorado.
– Claro! É sempre muito legal ver meu trabalho ser reconhecido. E não te vi cantando, então faça o favor de comprar meus cinco álbuns e aprender todas as músicas. Você não pode ser meu namorado se não souber cantar todas elas.
– Você pode me dar também.
– Claro! Autografados e com uma camisa com minha cara para ir aos shows. E uns convites para o meet. Aceita? – ela perguntou, debochada.
– Aceito. E uma faixa para colocar na cabeça também com seu nome escrito com glitter. – ele falou, rindo, e ela rolou os olhos.
– Quando você volta a Munique?
– Não faço ideia, mas deve demorar um pouco. Estamos perto do final da temporada, não posso ficar viajando tanto.
– Essa semana eu tenho um show em Düsseldorf. Já que fomos vistos hoje, vou te dar ingressos, você vai. Fico em Gelsenkirchen com você no dia seguinte e volto. Precisamos fazer isso acontecer logo.
– Por mim tudo bem. – ele deu de ombros. – Só depende do dia, porque se eu tiver jogo no dia seguinte...
– Não tem, o show é na quinta.
– Por mim tudo bem. – ele repetiu.
– E você vai mesmo me arrastar para comprar roupas?
– Primeiro preciso analisar o que fica no seu closet e o que será enviado para doação.
– Você vai doar minhas roupas? – ele perguntou, incrédulo, e deu uma risada. – Cara, você é DOIDA!
, já vi algumas das suas fotos e você tem umas roupas bem desnecessárias. Então, por favor, não tente me impedir.
– Como é o nome daquele programa que passa no Discovery Home & Health?
– Esquadrão da Moda. – ela respondeu. É, se ele conhecia isso, estava comprovado que ele é mesmo gay. – E sim, isso mesmo. Vamos doar essas peças, porque tem gente que precisa, apesar de eu considerar colocar fogo em algumas, porque são atentados ao bom gosto.
– Há coisas com valores sentimentais.
– Essas ficarão. Escondidas a sete chaves. – ela falou e ele deu uma gargalhada.
Ela sentiu o carro diminuir a velocidade e parar. Estava entregue.
– E quando você pretende fazer isso?
– Bom, não sei. – ela pareceu pensativa. – Já que vou passar um dia na sua casa, posso dar uma olhada e ver qual o tamanho do problema.
– Dê-me o setlist do seu show, aprendo a cantar todas e posso ser divulgado cantando a plenos pulmões as suas músicas sem errar nada.
– Envio quando eu o montar com a banda.
– Dê-me três, vou levar minha irmã e o otário do namorado dela. – ele respondeu, rolando os olhos.
– Anotando que você tem ciúmes da sua irmã. – ela riu, provocando.
– O cara é um babaca. Apresenta um amigo seu para ela, porque os meus não vão namorar minha irmã mais nova.
– Só depois de conhecer minha cunhada para saber o estilo dela e fazer o serviço completo.
– Ela é chata, inoportuna e insuportável.
– Se você falar isso com meu irmão, ele vai perguntar se você também é meu irmão. – ela rolou os olhos. – Irmãos mais velhos são todos insuportáveis, acabo de concluir.
– Ou as mais novas são pentelhas demais. – ele falou, rindo. – E acho que estamos sendo observados pelo fotógrafo que está esperando sua chegada em seu castelo.
– Nós vamos nos beijar? – ela perguntou entredentes e ele ponderou.
– Ele já viu que eu o vi, melhor não. Deixa para o show. – ele falou quase sem mexer a boca e deu uma gargalhada, sendo acompanhada por ele.
– Vou pedir para enviar os ingressos para vocês. – ela disse e o abraçou em despedida.
– Eu já imagino que tenham quinhentas mil fotos nossas em todas as redes sociais.
– O objetivo é esse, afinal de contas. – ela deu de ombros e deu um sorriso. – Obrigada pelo passeio e pela companhia.
– Obrigado por me mostrar que você pode comer mais do que um time de futebol inteiro.
– Cala a boca. – ela disse, rindo. – Vemo-nos quinta-feira.
– Até lá. – ele respondeu e ela abriu a porta do carro, saltando de lá, e ele arrancou quando a porta foi fechada.
– Você está bonita, . – o fotógrafo disse e ela sorriu.
– Obrigada, Phill, mas você não vai me derreter com um elogio. Achei que já tivesse conversado com sua revista sobre respeitar a privacidade dos meus vizinhos, porque para respeitarem a minha, eu desisti de pedir.
– Ouvi boatos, tive que vir conferir. – o homem sorriu. – É meu ganha pão.
– Se eu tiver saído feia nessas fotos, não publique. – ela sorriu simpática e ele sorriu de volta.
– Nunca deixei de publicar suas fotos, você sempre sai linda.
– Obrigada. E mande beijos para suas filhas.
– Elas amaram o seu show aqui. E já estão enchendo-me para levá-las a outro.
– Vou a Düsseldorf na semana que vem, leve-as.
– A mãe delas não estará na cidade semana que vem e eu preciso trabalhar. – ele fez uma careta e sorriu.
– Agora que você já veio me dar boa noite, pode ir para casa. E mande beijos para as duas.
– Boa noite, . E espero que vocês dois deem certo.
– Ele é meu amigo, não tem nada de mais nisso.
– Vocês movimentaram a noite nas redes sociais, foram até trending topics.
– Sexta-feira à noite e as pessoas estão no Twitter e no Instagram... – ela se fingiu de decepcionada e deu um sorriso. – Enfim, boa noite Phill.
– Boa noite, . – ele se despediu e ela entrou no prédio, cumprimentando o porteiro e foi até o elevador.

Pegou o celular e foi conferir as fotos em que tinha sido marcada durante aquele furor que sua saída com tinha causado. Curtiu a de Joshua depois de procurar por um Instagram que o tivesse marcado e deixou um coração no comentário da foto, porque ele realmente tinha feito uma legenda bem fofa.
Depois analisou as fotos em que aparecia ao lado de . Era excelente para o contrato, mas péssimo que não tivesse paz de sair sem ser observada e fotografada de todos os ângulos possíveis. Tinham fotos do cinema, da rua e do Burger King. E em breve teriam as fotos de Phill. queria fugir do esquecimento e só queria um dia em que pudesse sair de casa sem estar rodeada de fotógrafos ou seguranças, um dia livre em que ninguém a conhecesse e ela fosse apenas mais uma pessoa comum.
Foi direto para o quarto, trocou de roupa, escovou os dentes e voltou para sua cama. Estava sem sono, mas não queria ficar na internet, então resolveu ler. Foi até a estante e procurou por algo que pudesse ler, ainda que soubesse que aquilo não ajudaria a ter sono, mas que a atrapalharia a dormir e que ela, provavelmente, viraria a noite lendo.

estava com o celular em mãos e encarava a mensagem de Hugo, quase soltando foguetes pela repercussão da saída. Ele não fazia ideia de como tinha se enfiado naquilo e nem se valeria a pena, podia ser apenas perda de tempo e que nem desse certo, podia dar muito errado. Mas ele quis arriscar quando a ideia surgiu, ele precisava de visibilidade se quisesse voltar para a seleção. Tinha que ir para um bom time e então o Bayern o enxergaria de novo, além da seleção.
parecia ser uma boa pessoa, pelo menos ela era divertida e bonita, mas podia ser perda de tempo para ambos. Ela era atenciosa com os fãs, ele tinha percebido. Gostava de falar e parecia ter o riso fácil, mas só tinham saído uma vez e não podia tirar tantas conclusões assim.
Aquelas lesões quase o impediram de continuar vivendo seu sonho. Ele sabe que não é o melhor do mundo e que a Alemanha possui vários melhores que ele, mas também sabia que era um bom jogador e que tem espaço na seleção, e ele queria lutar por aquilo. Era triste ter que usar a mídia de outra pessoa para conseguir isso, mas tempos de desespero pedem medidas desesperadas.

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– Até que você é boa. – disse quando apareceu no estacionamento.
Visivelmente cansada, o cabelo preso num rabo de cavalo alto, mas já sem maquiagem.
– Olha como você fala com sua namorada, idiota! – a irmã de disse e o deu um tapa no braço. – Se eu fosse você, terminava com ele.
– Se eu fizer isso, ele chora por três dias no banheiro. – ela provocou e ele rolou os olhos, dando nela um abraço.
– Já assumimos. – ele sussurrou no ouvido dela. – E precisamos falar sobre isso.
– Certo. – ela sussurrou de volta e o soltou do abraço, indo em direção a irmã de e do rapaz que estava abraçado a ela. – Oi, eu sou , namorada do seu irmão.
– Eu sou . . – ela sorriu para a mulher e as duas trocaram um abraço antes de continuar as apresentações. – Esse é meu namorado, Höward.
– Muito prazer. – ela estendeu a mão em cumprimento e o rapaz fez o mesmo, a observando demoradamente.
– Ótimo show. – disse e ela sorriu agradecida.
– Obrigada. Espero que vocês tenham gostado mesmo.
é sua fã desde o começo da sua carreira. – disse e passou um dos braços pelos ombros de .
– Sério?
– Sim. De ter pôster na parede, chorar e tudo mais.
– Ai, , cala a boca. – disse sem jeito. – Mas sou mesmo. Gosto muito do seu trabalho, acho-te muito talentosa e maravilhosa. E te vendo de perto, estou perguntando-me como meu irmão conseguiu uma mulher tão linda e que tivesse coragem de namorá-lo.
– Seu irmão só precisa dar um jeito no guarda-roupa, mas eu farei isso amanhã.
– Finalmente! Eu tento fazer isso há anos e ele nunca permitiu!
– Não acredito que vocês vão se juntar contra mim! – disse num tom ofendido e deu um sorrisinho divertido.
– Melhores amigas. – sorriu, virando-se para , que rolava os olhos em reprovação ao novo complô.
– Podemos ir? Ou vamos ficar confabulando contra mim aqui?
– Você vai lá para a casa do também? – perguntou, animada.
A presença da irmã mudava algumas coisas, porque eles teriam que dividir um quarto e, bom, não queria.
– Não. – ela fez uma careta. – Tenho uma reunião pela manhã aqui em Düsseldorf, vou para o hotel e devo ir à tarde para lá.
– Ah, que pena. – disse, decepcionada. – Posso tirar uma foto com você?
– Claro. – sorriu e se soltou do abraço de .
deu o celular para o irmão tirar a foto. O namorado de ainda encarava as pernas de quase descaradamente. A foto foi tirada, e as duas se abraçaram em despedida.
– Vemo-nos amanhã. – disse e assentiu, dando um sorriso, e os dois se abraçaram.
– Ah, vocês não se veem há tempos e não vão dar nem um beijo? – perguntou e riu da cara do irmão. – Eu não vou te zoar, .
– Nos vemos amanhã. – sorriu e deu um selinho em . – E sem mais do que isso, porque tem gente tirando foto e eu prefiro não ser manchete por estar agarrando meu namorado que ainda não assumi para a mídia.
– Minha mãe vai adorar saber que o filho dela finalmente desencalhou! – provocou o irmão.
– Tem certeza que não quer ir comigo? Dirigir por quarenta e cinco minutos aguentando essa nojenta enchendo meu saco e sem apoio moral não vai ser legal. – ele reclamou e negou com um aceno.
– Não posso. – ela fez uma careta. – vai me enforcar se eu faltar a essa reunião.
– Tudo bem. – ele se fingiu de decepcionado. – Vejo-te amanhã de tarde.
– Claro. – ela sorriu e ele lhe deu outro selinho.
Antes que pudesse fazer uma feição de assustada, abraçou e cumprimentou o namorado da cunhada com um aperto de mãos. Seguiu até o ônibus que levaria a equipe para o hotel, e a encarou sem entender.
– Você não ia pra Gelsenkirchen?
– Ia. Mas a irmã dele está junto, e vai ser bem estranho se não dormíssemos no mesmo quarto. Inventei uma reunião pela manhã e só vou para lá quando não tiver ninguém. Já foi horrível ter que beijá-lo.
– Vocês se beijaram? – ele deu um sorriso sugestivo.
– Não beijo de cinema, dois selinhos.
– Então não beijaram. – ele riu e os dois embarcaram no ônibus. – E seu show foi ótimo.
– Obrigada.

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– E como foi sua reunião imaginária? – perguntou bem-humorado quando ela entrou em sua casa.
– Fantástica. Dormi até onze e meia da manhã. – ela deu um sorriso arteiro. – Não fazia isso há tempos.
– E o que vamos fazer? – ele perguntou e se jogou no sofá. Um Weimeraner marrom entrou na sala da casa e a encarou, curioso.
– Ai, meu Deus, ele é ainda mais lindo pessoalmente! – ela disse, animada, e se abaixou, num claro convite para que o animal fosse até ela.
– Não deixe meu cachorro sem vergonha. – disse num tom brincalhão e ela chamou o cachorro, que a olhou por um tempo antes de caminhar até onde ela estava ajoelhada.
– Ei, coisa linda, como você se chama? – ela fez um carinho na cabeça do cachorro.
. – ele falou e deu uma gargalhada da cara que ela fez. – Petros.
– Ei, Petros. – ela sorriu e voltou a fazer um carinho no cachorro, que a lambeu a mão em resposta. – Parece que ele gostou de mim.
– Ele gosta de todo mundo, não se sinta tão especial.
– Você perguntou o que vamos fazer... Bom, eu vim te salvar de ser essa tragédia fashion. Marquei um horário no melhor salão da cidade e nós estamos indo.
– Estamos?
– Sim. Vamos começar dando um jeito nesse cabelo mal cortado e nessa coisa que você acha que é um cavanhaque, mas não é. E depois vamos fazer compras.
– Você está falando sério?
– Claro. Eu sugiro que você coloque uma roupa que seja mais fácil de tirar, porque você vai experimentar muitas roupas hoje.
– No meu dia de folga?
– Sim, no seu dia de folga. Anda logo. – ela o apressou e ele resmungou algo que ela não entendeu, mas se colocou de pé e foi até o quarto.
Colocou uma camisa preta, uma calça jeans e calçou um tênis. Ela não podia encrencar com aquilo, poderia?
– Pronto. – ele reapareceu na sala e ela o encarou por um tempo. – Se você achar defeito numa roupa simples, eu desisto.
– Eu nem falei nada. – ela deu um sorrisinho e se pôs de pé. – Precisamos de uma foto.
– Precisamos?
– É. O Hugo me mandou uma mensagem falando disso. – ela rolou os olhos. – Um stories, só para “mostrar para o mundo” que a gente está junto hoje.
– Entendi. – ele fez cara de pensativo.
– No seu. Quero fazer uns stories no carro e espero que você tenha aprendido a cantar minhas músicas de verdade, vou te gravar cantando.
– Tudo bem. – ele resmungou e pegou o próprio celular para tirar uma selfie.
Ela o abraçou pela cintura, ele passou o braço livre pelos ombros dela e ambos sorriram para a foto. Tinha ficado muito bonita. Ele escreveu “dia de folga 💙” e postou nos stories.
– Você sabe que vamos ter que andar de mãos dadas na rua e no shopping, certo? – ela perguntou e ele assentiu. – Então vamos.
– Sim, senhora. – ele fez uma continência e os dois saíram.

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– Você pediu para fecharem a loja? – perguntou, incrédulo, e ela deu de ombros.
– Apesar de sermos os dois famosos, há uma diferença gritante na abordagem de fãs de futebol para os fãs de artistas. Nunca consigo comprar roupas se não fizer assim, infelizmente.
– Deve ser muito estranho ter uma loja apenas para você comprar o que quiser, atenção total de todo mundo. – ele fez uma careta e ela deu de ombros.
– É péssimo. Muita bajulação e puxação de saco, não gosto disso. Sou uma pessoa como qualquer outra. Mas é o único jeito de não causar tumultos e de eu conseguir olhar as coisas com calma para comprar. – ela respondeu, tirando o cinto, e prendeu o cabelo num coque, colocou os óculos de grau que usava e os dois desceram do carro, caminhando lado a lado até a loja, que ficava no segundo piso do shopping.
Conseguiram chegar à loja sem serem notados. Aparentemente, os fãs de futebol e os fãs de música pop não estavam passeando naquele dia. A bajulação de sempre com os astros e eles foram para a parte que interessava: fazer compras. E odiava ter que ficar experimentando roupas e exibindo-as.

, eu estou cansado de experimentar roupa e de desfilar pra você. Tenho a impressão de ter experimentado todas as roupas dessa loja. – ele resmungou de dentro do provador.
Ela estava sentada, esperando por ele.
– Para de falar e sai logo daí. – ela falou e ele resmungou antes de sair usando a milionésima peça de roupa. – Ficou ótimo.
– Você disse isso para tudo que me mandou vestir.
– Claro, porque eu tenho senso de moda, lindinho. – ela debochou e ele rolou os olhos. – E pensa, temos uma parte do seu closet refeito, falta pouco para alcançar o sucesso total.
– Você é chata. – ele resmungou e voltou para o provador.
Pelas suas contas, ainda tinha trinta combinações de roupa diferentes para fazer.

Saíram da loja um bom tempo depois e levavam uma porção de sacolas, colocaram no carro antes de voltarem à outra loja e repetirem o mesmo ritual de compra de roupas. Ele estava ficando sem paciência, odiava aquilo. Experimentou outro tanto de roupas e outras várias sacolas foram carregadas até o carro. Ele nunca havia comprado tantas coisas assim de uma só vez. Quer dizer, ela tinha comprado.

– Podemos ir? – ele perguntou, educado, e ela assentiu.
– Eu estou com fome.
– Vamos arriscar comer aqui?
– Sem chance. Conseguirmos fazer compras em três lojas que não estavam fechadas foi um milagre, não vamos ser mal-agradecidos com as forças divinas. – ela negou. – Podemos comer na sua casa.
– Por mim tudo bem. – ele deu de ombros, enquanto tomava seu lugar e colocava o cinto.
Ela fez o mesmo.
– Eu posso te fazer uma pergunta?
– Tenho o direito de não responder? – ele perguntou e ela assentiu positivamente. – Então pode.
– De quem foi a ideia? – ela perguntou e limpou as mãos nos shorts antes de ligar o carro e dar a partida.
– O Hugo e o já se conheciam, devem ter estudado juntos, não faço ideia. E quando surgiu essa conversa do Bayern não querer renovar comigo, comecei a ficar meio preocupado, porque depois das lesões as coisas ficaram complicadas. E Hugo disse que eu precisava atrair mídia, porque as pessoas têm memória curta e se esquecem muito fácil de jogadores, então se eu quisesse voltar para a seleção e que o Bayern me mantivesse, eu precisava atrair mídia. Envolver você foi uma ideia do Hugo, acho que tinha mencionado alguma coisa sobre como a mídia vinha sendo cruel com você sobre relacionamentos, e eles resolveram unir o útil ao agradável. – ele respondeu e ela assentiu. – Acho que você não gostou muito, né?
– O meu problema não é com você, longe disso, mas com essa ideia absurda de ter que agradar a mídia e arrumar um namorado apenas porque eles querem me ver namorando alguém, ou encontrar uma pessoa para ser “minha inspiração”. Duas das minhas músicas mais românticas foram escritas para os meus pais, mas ninguém acredita quando eu falo isso. Não vejo mal nenhum em te ajudar, ainda que eu não ache que eu vá conseguir que você volte para a seleção e que o Bayern renove com você, mas acho um absurdo que eu seja obrigada a ter um namorado ou alguém só porque sou mulher.
– Cobram-me namorada, porque sou jogador de futebol. – ele respondeu e deu um suspiro sentido. – E, infelizmente, em alguns momentos temos que ceder para conseguir viver nossos sonhos em paz.
– Conheço vários casais que são de contratos, alguns até tem química, outros são um verdadeiro desastre. E conheço um que deu certo e virou amor de verdade, mas não posso contar qual é.
– Espero que o nosso seja convincente.
– E se não der certo?
– Melhor tentar e não conseguir do que não conseguir por não ter tentado.
– Uau, frases prontas da internet. – ela brincou. – Temos bastante tempo para ver se funciona.
– Hugo está conversando com o Stuttgart. É muito provável que eu vá para lá.
– Sério? – ela perguntou e ele assentiu sem tirar os olhos da rua. – Não acho que o Stuttgart seja ruim, mas e as propostas de outros países? Eu li algo sobre um interesse do Liverpool.
– Olha, você está lendo coisas sobre mim? – ele brincou. – Mas isso não é oficial. Pelo menos não chegou nada para a gente.
– Entendi. – ela falou e pegou o celular na bolsa.
– E você vai embora hoje ainda?
– Não sei, acho que sim.
– Fica. O jogo é aqui esse fim de semana, você pode ir ao estádio ver o meu show.
– Olha, eu já te vi jogando diversas vezes, não é bem um show. – ela provocou e ele rolou os olhos, fazendo rir. – Mas é uma boa, vou avisar ao .

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– Eu não ia usar uma camisa do Schalke, sinto muito. – ela falou quando ele se aproximou, na saída do estádio, ao final do jogo.
Usava uma camisa da seleção alemã dele, literalmente dele.
– Eu sei disso. – ele riu.
– Bom jogo.
– Obrigado. – ele sorriu, agradecido.
– Vamos comer alguma coisa? Estou com muita fome.
– Estranho seria se não estivesse. – ele riu e ela rolou os olhos.
– E preciso ir pra Düsseldorf hoje ainda.
– Por quê? – ele perguntou, curioso, e os dois entraram no carro do jogador, ele no banco do motorista e ela no banco do carona.
– Porque minha vida acontece em Munique.
– Amanhã eu estou de folga, fica aí.
– Você está levando a sério demais esse namoro. – ela deu um sorriso debochado, enquanto ele dirigia para fora do estádio.
– Eu tenho dezoito meses, lembra? – ele falou num tom divertido.
– Dezoito meses para conseguir o que quer, não pr... – ela começou a dizer e ouviu seu telefone tocar. Quando o tirou da bolsa, arrependeu-se quase que imediatamente. Era o irmão. – Meine Liebe*! – ela fingiu uma animação inexistente
Meine Liebe um cacete, que história é essa que você estava na Veltins-Arena e que tá namorando o ?
– Eu estava vendo meu namorado jogar. – ela respondeu num tom óbvio e prestou um pouco mais de atenção na conversa, apesar de não saber quem era e nem ouvir quem falava do outro lado da linha.
Você está grávida? – ele perguntou, nervoso, e ela deu uma gargalhada.
– Não!
Então por que está namorando um jogador?
– Porque a gente não escolhe por quem vai se apaixonar, idiota. – ela respondeu e o irmão ficou em silêncio um amontoado de segundos antes de falar, dessa vez num tom mais calmo.
E quando você pretende trazê-lo para conhecer a família?
– Vamos comer agora e voamos para Munique. Avisa a mãe e o pai que vamos almoçar lá amanhã.
Nos vemos amanhã. – ele resmungou antes de desligar.
– Acho que podemos ir direto para sua casa. Vou ligar e pedir ao piloto para irmos a Munique ainda hoje. Chegou a hora de te apresentar para os meus pais.

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Sauerbraten mit Knödel: joelho de porco. A carne é bem macia e a pele por fora é crocante. Normalmente vem acompanhado de chucrute e batata.
Käsespätzle: macarrão caseiro beeeem fininho e servido com bastante molho de queijo e cebola frita por cima.
Meine Liebe: Meu amor


Capítulo 2


– Tem alguma coisa que eu preciso muito saber sobre eles? – perguntou, nervoso, quando saíam do apartamento de .
– Minha mãe provavelmente vai te bajular, meu pai vai lhe olhar torto e Davi vai querer atirar em você, mas ele não tem uma arma, e provavelmente eu sou mais forte que os dois, então pode ficar tranquilo, você não vai apanhar. Ambos amam o Bayern e cervejas, talvez isso ajude na conversa. E meu pai ama pescar. Eles não vão fazer nada para te deixar constrangido ou qualquer coisa do tipo, minha mãe pode ser que deixe, porque ela vai te bajular de verdade. Davi vai te olhar torto por um tempo, mas logo eles ficam normais. Eles fizeram isso quando levei meu ex-namorado em casa.
– Você já teve um namorado? – perguntou, surpreso, e assentiu.
– Nós namoramos quando eu era adolescente, bem no começo da minha carreira, e não deu certo.
– E você ainda gosta dele. – concluiu.
– Não mais. – deu de ombros, enquanto caminhavam até o carro que estava na garagem. – Eu gostei muito, foram tempos difíceis, mas já faz muito tempo que aconteceu e que eu não o vejo. Agora não faz diferença nenhuma.
– E alguma coisa aconteceu? – perguntou, tomando seu lugar no banco do carona.
– Sim, ele me traiu.
– Sinto muito.
– Por ele, só se for. – deu de ombros enquanto saía da garagem do prédio. – Na época foi horrível, chorei muito e achei que não sobreviveria, mas sobrevivi e muito bem.
Antes que pudesse falar alguma coisa, o telefone de tocou e ela atendeu pelo painel do carro.
, espero que você tenha uma explicação excelente para que sua melhor amiga não tenha sido a primeira a saber sobre seu namoro com .
– Oi, . – disse, rindo. – E fale oi para o também.
Por que você atendeu essa merda no viva voz? – a amiga perguntou, envergonhada. – Agora ele vai achar que eu sou doida!
– Eu já acho. – se pronunciou, rindo. – Finalmente é bom associar uma voz aos relatos e à imagem em algumas das fotos de .
Relatos? perguntou, curiosa, e o olhou de canto.
Contou pouca coisa sobre , ele não podia nem imaginar que a amiga é realmente doida.
– Ela me contou algumas histórias. – disse num tom divertido. – E espero que não seja um problema que eu seja o namorado dela.
Zero problemas quanto a isso, pode ficar tranquilo, . falou, educada. – O problema é que resolveu não me contar antes de deixar o mundo saber.
– Você está ocupada com os preparativos do casamento, não quis interromper.
Nem me fale nos preparativos desse casamento. falou num resmungo deprimido. – Você é uma péssima madrinha! Preciso da sua ajuda.
– Estou livre essa semana, meine Süsse* (meu docinho), e sou toda sua.
Espero mesmo.
– Acabei de chegar na casa dos meus pais, falamo-nos mais tarde.
Tudo bem. Tchau, casalzinho. desligou bem quando estacionou o carro.
A casa não parecia ser grande – e realmente não é – ainda que possua três andares. Ali, agora, moravam apenas os pais. e Davi foram criados naquela casa e passaram boa parte das vidas ali, o tamanho era ótimo para quatro pessoas, era ótimo para duas também.
Uma casa branca e as madeiras da cerca, dos telhados e das janelas eram escuras, quase pretas. A cerca era simples, reta, sem vãos e contornava a entrada da casa, deixando livre apenas a garagem. Havia grama, além de um pequeno jardim que parecia muito bem cuidado. As janelas frontais do segundo andar possuíam um suporte com flores, reparou. Era uma casa muito bonita e bem cuidada.
O caminho para a garagem e o curto espaço que a separava da entrada da casa são compostos por pequenos blocos de cimento postos lado a lado. A porta escura era um pouco mais larga que as portas convencionais, e os dois pararam sobre um tapete vermelho com um escudo do Bayern de Munique.
tocou a campainha e juntou as mãos com as dele antes que uma figura masculina abrisse a porta. Davi. Ele analisou de cima a baixo e depois de baixo a cima, parando demoradamente nas mãos juntas dos dois. Tinha uma garrafa de cerveja na mão direita, usava uma bermuda, camiseta e um boné virado para trás. E era do tamanho de .
– Você vai nos deixar entrar em casa ou vai ficar atrapalhando a passagem feito um idiota? – falou, soltando a mão de e abraçando o irmão da forma mais apertada que conseguiu.
– Entra logo. – Davi resmungou, abraçando-a de volta, dando um sorriso ao fazê-lo. – Vocês demoraram.
– É meio-dia agora, idiota. – falou, soltando-se do abraço, e virou-se para , que encarava a cena entre os dois irmãos. E parecia estranhamente familiar, porque ele e a irmã se tratavam da mesma forma quando se encontravam. – Davi, esse é . , esse é o Gremlin que meus pais acharam no lixo e pensaram que seria legal trazer para casa e ver no que daria, nós o chamamos de Davi.
– É um prazer finalmente conhecê-lo. – disse, educado, estendendo a mão, e Davi o cumprimentou.
– Agora seja educado e ofereça uma cerveja ao seu cunhado. – disse e Davi rolou os olhos. – Cadê a mãe e o pai?
– Cozinha. – Davi apontou e os três seguiram pelo corredor.
reparou que havia diversas fotos penduradas nas paredes do corredor pelo qual passavam. Fotos de e Davi juntos e separados, em atividades escolares, premiações, festas... os pais, outras pessoas. Havia um arranjo de flores também antes da entrada da cozinha. E quando entraram no cômodo, encontraram duas pessoas: os pais de .
O homem estava encostado ao batente da porta que dava para o quintal aos fundos da casa e era do tamanho de Davi, não parecia tão velho, apesar de ter alguns cabelos brancos espalhados pelos cabelos castanhos, estava de costas para a cozinha, tinha uma das mãos na cintura e observava alguma coisa no quintal.
A mulher era menor, devia ter pouco mais de um metro e sessenta, os cabelos eram loiros e estavam presos em um coque firme. Ela ria de algo que o homem tinha dito, enquanto lavava alguma coisa que não conseguiu ver o que era.
– Cheguei. – se anunciou e os pais se viraram na direção da voz dela.
era quase a cópia do pai, mas os olhos, tanto no formato quanto na cor, eram idênticos aos olhos da mãe. Ela abraçou a mulher de forma carinhosa, recebendo um beijo demorado no rosto, enquanto o pai de observava atenta e demoradamente. Ele também tinha uma cerveja em mãos.
– Finalmente! Achei que tivessem desistido de vir almoçar. – a mulher disse, dando outro beijo no rosto de e olhando-a demoradamente, segurando o rosto da mais nova entre suas mãos para analisar cada milímetro possível. Novamente, sentiu-se familiarizado, pois sua mãe fazia o mesmo todas as vezes que ele ia visitá-la. – Você está dormindo direito?
– Sim.
– Defina o dormir direito, . – a mulher a olhou séria e rolou os olhos antes de ir abraçar o pai, que a envolveu num abraço apertado que a fez soltar uma risadinha manhosa, enquanto se aconchegava ao carinho do pai. – Você vai começar a viajar pelo mundo de novo em breve, precisa dormir direito!
– Eu sei disso, Mama. E eu estou dormindo direito agora, porque finalizamos o álbum. E eu escrevi uma música para vocês. De novo. – falou, dando um sorriso para a mãe, mas sem se soltar do abraço do pai, e a mulher sorriu de volta.
– Fico esperando a minha música. – Davi reclamou em tom ciumento e o olhou de forma divertida.
– Eu já escrevi uma música para você, Davi, esqueceu? Aquela sobre o garoto idiota... – ela provocou e ele lhe mostrou o dedo do meio.
– E quem é esse rapaz bonito? – a mãe de , finalmente, virou-se para e deu um sorriso enorme ao vê-lo.
– Esse é o , mãe, meu namorado. – se soltou do abraço do pai e foi até , puxando-o pela mão até que ele se aproximasse mais da reunião familiar que acontecia ali e da qual ele tinha sido excluído. – , essa é minha mãe, Mia, e esse é meu pai, Thomas.
– É um prazer conhecê-los, senhor e senhora . – estendeu a mão para cumprimentar os dois.
A mãe de o olhava, encantada, o pai estava desconfiado, mas foi absolutamente educado.
– Pegue uma cerveja para ele, Davi. – Mia ordenou. – E não me chame de senhora, me chame de Mia. E ele é Thomas. Não somos tão velhos assim.
– Estávamos esperando vocês. – Thomas disse, sério, mas em tom educado e sem parecer rude. – Vamos colocar a mesa para almoçar.
– Qual o cardápio do dia? – Davi perguntou, curioso.
Sauerbraten mit Knödel e Käsespätzle. – Mia respondeu e deu um sorriso enorme ao ouvir aquilo.
Papa fez o Sauerbraten? – perguntou com um tom quase infantil pela descoberta do prato do dia e o homem assentiu, fazendo com que ela se virasse para antes de falar: – Prepare-se para mudar de opinião e considerar que esse é o melhor Sauerbraten mit Knödel que você vai comer na vida!
– Lavem as mãos. Seu pai e eu vamos levar para a mesa. – Mia disse, ainda olhando admirada para .
– Vão vocês lavarem as mãos. – apontou para os homens. – Vou ajudar minha mãe com isso. Só não matem o , por favor. Eu não tenho dinheiro suficiente para pagar ao Bayern se isso acontecer.
– Cala a boca. – Davi rolou os olhos e os três saíram da cozinha.
Mia agora tinha o olhar fascinado voltado para a filha.
Mama, para de me olhar assim. – resmungou.
– Bonitinho que seu namorado seja aquela sua paixãozinha adolescente.
– É, mas ele não precisa saber desse detalhe, Mama, por favor. – a mais nova resmungou, pegando a travessa com o Käsespätzle e seguindo até a mesa na sala de jantar.
Os pratos já estavam à mesa, faltava apenas levar a comida e o que seria bebido durante o almoço. As outras travessas foram levadas e os três homens se sentaram à mesa, as duas lavaram as próprias mãos antes de regressarem e sentaram-se para almoçar.
– E então, como vocês se conheceram? – Davi perguntou, curioso.
– Hugo e . – deu de ombros, enquanto se servia. – Hugo é o empresário de . Ele e são amigos da faculdade, acharam que seríamos um bom casal e nos apresentaram.
– Você deve estar bem feliz, kleine Schwester.
– Claro que eu estou feliz. Eu não namoraria alguém se não fosse para estar feliz com a pessoa, Arschloch.
– Olha os modos, mausi. – o pai a advertiu.
– Desculpa.
– Eu digo, você está feliz por estar namorando com ele, especificamente. – Davi provocou, dando um sorriso de lado.
– O que ele quis dizer com isso? – perguntou, curioso.
– Lembra que eu te falei mais cedo que quando o Davi fala a gente deve ignorar? Pois é. – respondeu, fuzilando o irmão com o olhar.
– Eu quis dizer que ela está muito feli... AI! Você me chutou? – Davi perguntou, bravo.
– Foi sem querer, kleiner Bruder. – ela disse, fingindo-se de sentida. – Desculpa.
– E há quanto tempo vocês estão namorando? – Mia foi quem quis saber.
Olhava encantada para , e ele estava mesmo ficando um pouco sem graça com toda aquela atenção.
– Acho que não tem nem um mês. – deu de ombros.
– É legal que você esteja namorando seu ídolo da adolescência, filha. – Thomas se pronunciou, fazendo Davi dar uma gargalhada exageradamente alta e soltar um resmungo.
– Ídolo da adolescência? – perguntou, sem entender o que o homem quis dizer com aquilo.
queria cavar um buraco e se enfiar lá.
– Chuta o pai também, . – Davi provocou e ela quis mandá-lo para cinco lugares diferentes, ainda que em outro idioma, mas não o fez em respeito aos pais que estavam à mesa também.
– Ela nunca te contou? – Thomas perguntou, surpreso. – Quando tinha uns dezesseis anos, ela era muito sua fã. Tinha pôsteres, camisas e tudo mais que pudesse e fosse relacionado a você e ao Bayern, mas nunca teve tempo hábil de ir conhecer os jogadores.
– Eu não sabia disso. – disse, reprimindo uma risada ao ver totalmente envergonhada.
– Quando ela começou a namorar, isso diminuiu, mas acho que não totalmente, pelo visto. – Mia falou, dando um sorriso para a filha, e Davi se segurava para não rir mais alto do que já vinha fazendo.
– Obrigada de verdade, gente. Agora ele vai encher o meu saco com isso para sempre! – resmungou, envergonhada. – E é exagero, eu não tinha pôster nenhum seu. Era uma foto que ficava colada ao lado de outras fotos dos jogadores do Bayern e da seleção.
– Com um monte de coraçõezinhos ao redor. E é mentira, porque não era só uma foto, eram várias. – Davi se pronunciou.
– Eu preferia que a mãe mostrasse fotos antigas embaraçosas. Seria menos vergonhoso do que isso. – resmungou e voltou a comer.
teve que se segurar para não rir da expressão desolada dela.
– Bom, eu não a conhecia pessoalmente, mas minha irmã é muito fã de desde o começo da carreira dela. Ainda tem pôsteres pela parede do quarto e tudo mais que é possível ter. Como nós morávamos juntos, posso dizer que eu também tinha pôsteres dela espalhados pelas minhas paredes. – falou, tentando amenizar a situação, e deu um sorriso para .
– Mas eles não eram seus. – David provocou.
– Vocês têm certeza que esse seu filho encontrado no lixo tem vinte e oito anos mesmo? – perguntou, rolando os olhos, e Davi lhe mostrou a língua.
– Mia, devo dizer, o almoço está fantástico. – mudou de assunto antes que os dois irmãos começassem uma discussão e acabassem jogando comida um no outro. – E, Thomas, excelente Sauerbraten mit Knödel. O melhor que já comi. Só não deixe minha mãe ouvir isso.
– Obrigado. – Thomas disse, dando um sorriso agradecido.
O almoço se seguiu, acompanhado de um Apfelstrudel com sorvete e creme. ajudou a mãe a lavar os pratos para colocar a conversa em dia com a mais velha, enquanto , Thomas e Davi conversavam animadamente na sala sobre pescaria, que era algo em comum entre os três. estava preocupada com tudo aquilo, não tinha a intenção de envolver a família naquilo, mas não tinha outra saída, porque eram namorados, e uma hora ou outra, os pais iam querer conhecê-lo. Ela também sabia que os pais não podiam gostar de , porque tudo não passava de uma grande mentira, e dali a dezoito meses aquilo acabaria, e ela não pretendia ficar ouvindo discursos saudosistas de seu namoro com seu ídolo da adolescência.
Os dois passaram o resto da tarde na casa dos pais de , conversando sobre várias coisas, e era quase noite quando finalmente foram embora, já que precisava voltar para Gelsenkirchen, afinal tinha de treinar no dia seguinte pela manhã. Despediram-se sem muita demora e prometeu voltar naquela semana, porque teria uma semana livre antes de gravar alguns vídeos e viajar para os Estados Unidos, onde faria três shows, além de gravar dois videoclipes, três programas de televisão e voltaria para casa, depois de um mês, para férias. Junto com as férias de .
– Minha fã, uh? – provocou, enquanto dirigia de volta ao próprio apartamento.
– Fatos exagerados. – respondeu sem olhá-lo e deu de ombros. – A camisa eu realmente tenho, quanto ao resto é mentira.
– Sei... – ele brincou. – Você vai me levar ao aeroporto?
– Vou. Você comprou a passagem? Eu não falei com o Mark e não sei se ele está lá e se o avião tem condições de voo.
– Comprei. – ele disse, assentindo positivamente.
– Então eu te levo. E vamos ficar um bom tempo sem nos ver, você sabe.
– É, você mencionou. E, sim, entendi bem que não devo postar mil fotos nossas e essas coisas, porque sempre fui muito reservado com a minha vida pessoal e assim continuarei. Alguns stories, quando você mandar, nada exagerado.
– Bom menino. – respondeu, dando um sorriso quando o olhou rapidamente antes de voltar sua atenção para a rua. – Que horas é o seu voo?
– Nove e quarenta.
– Temos tempo.
– Você viaja na outra semana ainda, certo?
– Sim.
– Preciso te levar até a minha casa, minha mãe vai querer te conhecer também, eu tenho certeza. E provavelmente a já deve ter falado muito sobre você e nosso namoro.
– Por mim tudo bem, a gente marca isso. – ela voltou a dar de ombros, colocando o carro em sua vaga habitual na garagem do prédio.
Os dois subiram em silêncio e ela seguiu o corredor até o próprio quarto, ele subiu até a parte aberta e observou a extensão da cidade que se iluminava aos poucos com o cair da noite. Sentia falta de Munique, não apenas do antigo time, mas da cidade em si. Era um lugar ótimo para morar, sua família e seus amigos estavam ali. Munique era um lugar fantástico e ele sempre amou tudo naquele lugar. Tudo.
Era péssimo estar sozinho agora, a maioria dos amigos estava em Munique, a mãe não podia ficar viajando o tempo todo, porque tem a própria vida na cidade, a mesma coisa também servia para sua irmã, com quem ele tinha acostumado a morar durante boa parte da vida. E esse é um dos inúmeros motivos de querer voltar para o Bayern, porque ali ele estaria perto das pessoas que ama, no lugar que ama e no time que ama. Não devia ter que sair de lá sem querer. Era feliz no Bayern, por que não podia continuar lá até se aposentar?
– Gostou da vista? – apareceu depois de um tempo. Usava uma calça jeans e uma camisa preta lisa. Os cabelos estavam molhados e ela os secava com uma toalha.
– É bem bonita.
– E inspiradora. – ela falou e parou ao lado dele. – Gosto de ficar aqui, me faz pensar bastante, e a maioria das músicas desse novo álbum saiu daqui.
– Posso lhe fazer uma pergunta? – ele perguntou sem olhá-la, ainda observava a cidade começar a acender-se para a noite.
– Tenho o direito de não responder? – perguntou e ele assentiu positivamente. – Então, sim.
– Você acha que foi “a escolhida” nessa história por causa dessa história de ser minha fã? – perguntou, mas ainda não a olhava.
– Eu tenho certeza absoluta que sim. Não acho que teria me deixado entrar nisso se fosse me prejudicar de alguma forma, mas tenho certeza que fui uma escolha proposital, não apenas pela mídia, mas porque eu nunca seria capaz de te prejudicar e jogar tudo isso no ventilador, caso eu me sentisse ameaçada ou sei lá o quê. Eu sairia como a vítima, vocês três sairiam como os vilões e eu acabaria com sua vida. Eu jamais faria uma coisa dessas. Nem por todo dinheiro do mundo eu seria capaz de prejudicar alguém, ainda mais se esse alguém for você.
– Obrigado. – agradeceu e se virou, olhando pela primeira vez desde que aquela conversa tinha se iniciado. – Tanto por aceitar entrar nessa história, quanto por não me cobrar nada.
– Se não der em nada, eu espero que pelo menos a amizade sobreviva.
– É, eu também. – disse, dando um sorriso fraco. – Ainda que seja bem estranho para as pessoas que ex-namorados sejam amigos.
– Ninguém precisa saber dos detalhes. – falou, dando um sorriso de lado. – E você deveria arrumar suas coisas, daqui a pouco preciso te deixar no aeroporto.
– Você vai fazer outro show aqui?
– Não. Agora só nos Estados Unidos, fico lá por um mês e volto. se casa, tiro férias, o álbum sai e eu começo a divulgação antes de viajar em definitivo para a turnê.
– Nós vamos namorar à distância, aparentemente. – ele disse num tom divertido.
– É. – ela riu. – Vamos namorar por fotos no Instagram.
– Mas você não vem para casa nenhum dia?
– Depois que os shows na Alemanha acabarem, eu não venho para cá antes do Natal. – falou e suspirou. – Mas vou mandar uns ingressos para você ir a alguns shows quando estiver desocupado. E, provavelmente, você vai comigo em algumas premiações, se estiver disponível.
– Você vai estar aqui em dezembro?
– Acho que sim, por quê?
– Jantar de fim de ano do clube. Seja lá qual for. Todos os clubes têm isso. – ele deu de ombros. – Se você estiver por aqui e quiser ir, seria legal te levar como acompanhante.
– Se eu estiver aqui, vou com o maior prazer. – ela sorriu.
– Vou arrumar minha grande bagagem que se resume a uma mochila. – ele riu.
– Vamos precisar comprar um terno bem bonito para você.
– Vamos?
– Sim. Você vai ao casamento da comigo.
– Quando você quiser. – ele disse e deu um sorriso simpático, saindo de perto de e descendo até o quarto em que tinha ficado.
Ela ainda ficou ali um tempo antes de descer as escadas e encontrar na sala.
– Você já está pronto? – ela perguntou, aproximando-se e ele assentiu. – Falta uma hora para o seu voo sair. Você já fez o check-in pelo celular?
– Fiz. – ele disse e a olhou.
Ela se sentou ao lado dele.
– É muito estranho tudo isso, você não acha?
– Só na frente das pessoas. – falou, dando de ombros. – Quando somos apenas os dois, não precisamos fingir nada. Podemos ser amigos.
– Podemos.
– Principalmente porque você tem um videogame e uma prateleira cheia de jogos. – ele brincou. – Será que dá tempo de uma partida de FIFA antes de ir?
– Duvido que vamos jogar uma só. – ela disse, rindo, e se levantou, indo até a prateleira e pegando o FIFA 2017. Ele já tinha ligado a televisão e ela se preocupou em ligar o videogame, e os dois se sentaram lado a lado. – Já está preparado para o mundo inteiro saber que você é meu pato?
– Coitada de você. – ele riu.
– Eu vou jogar com o Bayern.
– E eu com o Real Madrid.
– Você vai perder. – ela afirmou, enquanto colocava a partida para começar.
– Ninguém ganha de mim, . Eu sou invencível.
– Era. Até passar daquele elevador para cá. – ela piscou. – E eu vou te filmar nos stories e espalhar para o mundo inteiro que você é meu pato.
– Você não tem tanta sorte assim. – ele provocou enquanto jogavam e logo ficaram em completo silêncio.
Silêncio que durou até ele fazer o primeiro gol e dar um grito em comemoração, ficando de pé e erguendo os braços.
– Cristiano Ronaldo! SIIIIIIIIIU! – ele provocou.
– Eu vou virar.
– Claro que vai. – ele riu.
E ela virou.
Dois gols de Robben e ela gritou tanto que parecia que aquilo valia um título de Liga dos Campeões de verdade. Ele ria da reação exagerada e ela fez realmente um vídeo para postar no Instagram zoando o rapaz.
– Anda logo, você vai me fazer perder o voo. – ele disse, enquanto ela estava filmando.
– O que você tem a dizer sobre sua derrota? – provocou.
– Que foi sorte de principiante. – ele deu um sorriso debochado.
– Dá um tchauzinho para cá, gracinha. – ela provocou e ele rolou os olhos. – Meu pato.
– Anda logo, você vai me fazer perder o voo. – repetiu, rindo, e ela riu, publicando o vídeo.
– Vamo logo então. – ela falou e ele se pôs de pé, pegando a mochila no outro sofá e os dois desceram, enquanto ainda o provocava.
– Semana que vem tem troco. – ele resmungou e ela riu.
– Sonha. – disse quando entraram no carro.
Assim que afivelaram os cintos, ela deu partida e eles seguiram para o aeroporto, enquanto o alfinetava pela derrota no jogo e ele ria da empolgação com que ela comemorava. Ela deixou o carro no estacionamento e eles seguiram lado a lado, rindo.
– Acho que os stories não foram uma ideia muito boa. – ele resmungou quando avisou alguns fotógrafos que pareciam estar esperando pelos dois, mas ainda não os tinham visto.
Ela suspirou e passou o braço pela cintura dele e o fez abraçá-la pelos ombros.
– Aja naturalmente. – ela murmurou enquanto caminhavam.
Quando entraram no saguão, as presenças foram notadas pelos fotógrafos e os flashes começaram. O voo, felizmente, sairia em alguns minutos e ele não demoraria ali.
– Ei, casal, deem uma olhada para as fotos. – um dos fotógrafos pediu, mas eles não se viraram.
– Precisamos nos abraçar. – ela falou entredentes e estava virada de frente para ele e de costas para os paparazzi, apenas o envolveu com o outro braço e ele a abraçou, quase da forma como o pai dela havia feito mais cedo. – Nos vemos no fim de semana?
– Se você quiser ir para Gelsenkirchen me ver essa semana, pode ser antes. – ele falou, soltando-a minimamente para olhá-la nos olhos.
Um dos fotógrafos estava próximo, ouviria aquilo.
– Não posso garantir, porque preciso mesmo ajudar a com os preparativos do casamento. – ela fez uma careta e ele sorriu.
A primeira chamada do voo aconteceu e ele deu um sorriso de lado.
– Falamo-nos quando eu chegar em casa. – ele falou e ela assentiu.
– Boa viagem. – ela disse, dando em um selinho e um sorriso em seguida.
– Só isso? – ouviram um dos paparazzi falar.
A segunda chamada do voo. Ele se afastou, rumando ao portão em que seu avião sairia e ela nem mesmo se deu o trabalho de ouvir o que os paparazzi diziam, apenas deu meia volta e seguiu até seu carro. Aquelas fotos não demorariam a circular pela internet, ela sabia.

-x-


– Eu quero te dar um soco! – disse, séria, e a olhou, assustada.
Tinham terminado de escolher a decoração, cores, flores, pratos e tudo mais para o casamento, depois de uma semana de trabalho intenso na organização do evento.
– O que eu fiz?
– Estava enfiada naquele estúdio trabalhando! Eu não consegui fazer nada desse casamento e você pensou em TUDO em menos de uma semana! – a mulher disse num tom exasperado e gargalhou, esticando-se no sofá.
– Você está surtando porque vai casar, eu não. Eu consigo pensar tudo e combinando com seu vestido, com os das damas, local, a paleta de cores que você escolheu... – riu. – E você pode relaxar, porque está tudo feito e combinado. Agora é apenas esperar pela despedida de solteira, o jantar de ensaio, o SPA, prova de vestidos e do terno do Ian.
– Eu fico muito agradecida que você seja minha madrinha, porque você pensou em tudo bem rápido e me ajudou demais, mas vamos falar do que interessa. Quero saber essa história toda de namoro com o seu crush da adolescência.
, nós estamos um tanto velhas para usar essa palavra. – disse, rolando os olhos. – Não há muito que ser dito e... Bom, preciso te contar uma coisa, mas você tem que prometer que nunca vai contar nada para ninguém.
– VOCÊ ESTÁ GRÁVIDA? – gritou, assustada, fazendo gargalhar e se sentar no sofá.
– Não. – ela disse, ainda rindo. – Se eu estivesse grávida, em breve o mundo inteiro ficaria sabendo.
– É, isso é.
– Mas é sério. Não vou conseguir mentir para você, e preciso que você guarde segredo eternamente.
– Ai, meu Deus... – se ajeitou no sofá e encarou .
e eu não somos um casal de verdade. É um contrato, porque ele quer voltar para o Bayern e para a seleção e precisa de mídia. E, aparentemente, eu fui a melhor opção. é amigo antigo do empresário dele e eles tiveram essa ideia.
– Como é que é? – parecia mais em choque ainda. – Então é mentira?
– É. – suspirou. – Eles acham que, por eu ter muita mídia, vou levar os holofotes para . A parte boa é que eu entro em turnê em breve, então não vamos passar muito tempo juntos, só vamos postar fotos falando que estamos sentindo falta um do outro e essas coisas. Quer dizer, eu né, porque ele não posta nada da vida dele, e se começar a fazer isso do nada, as pessoas vão desconfiar. Sou apenas um trampolim e um holofote para que ele ressurja, uma coisa bem fênix mesmo.
– Por quanto tempo?
– Um ano e meio a contar de quando assumimos, então faltam dezessete meses.
– Você sabe que dezoito meses e um ano e meio são coisas diferentes, certo?
– Sei, senhora minha advogada. – falou e soltou um suspiro, jogando a cabeça para trás, desviando os olhos de e encarando o teto. – E o problema é que essa proximidade toda não vai dar muito certo. Bom, pode dar algumas boas músicas, mas fora isso não acho que vá dar certo. Infelizmente, eu acho que não era só um crushzinho. E ele é gay, não vamos ter nada nem que eu queira muito.
– Eu vou matar o ! Onde já se viu? Isso não é coisa de se fazer! Ainda mais que ele sabe disso tudo!
– NÃO! – disse num rompante. – não pode nem sonhar que você sabe. Você vai ter que fingir que não sabe, que acha que somos o novo casal do futepop e que nos ama muito.
– Vocês acordaram alguma quantia em dinheiro? Por que esse contrato nunca chegou até mim?
– Não. E não é escrito, foram termos verbais. Não dá para correr o risco de redigir e isso cair na mídia.
– Eu sinto muito, . – abraçou a amiga. – Se eu pudesse, eu mataria o , mas não posso. E quero que você me apresente seu namorado, em todo caso. Sendo ele de verdade ou não.
– Ele é muito educado e fofo, apaixonável, eu diria, mas gay, e isso é fora do meu alcance.
– De onde você tirou que ele é gay? Ele falou?
– Não, mas nem precisa. – deu de ombros. – Está muito na cara.
– Eu não acho que seja, em todo caso, mas se você diz... – fez um carinho no cabelo da amiga. – Sabe, acho que devíamos sair para nos divertir.
– Não posso sair hoje, vou jantar com minha digníssima sogra.
– Vocês enfiaram suas famílias nisso?
– Não tem como ser diferente, . Eles não sabem. – ela suspirou. – E preciso ir, precisa de um terno para o seu casamento, e eu ainda tenho que ir para a casa da mãe dele.
– Espero que ele fique bonito.
– Claro que vai, eu estou refazendo o guarda-roupa dele, tanto que ele está bem menos largado agora.
– Isso é mesmo.
– E ainda tenho que fazer malas para viajar. – ela resmungou. – Mas volto para a última prova dos vestidos e a sua despedida.
– Ainda bem, porque você é quem vai garantir nosso acesso a qualquer lugar nessa cidade. – disse, rindo.
– Pela primeira vez na vida, minha fama vai servir de alguma coisa para você, olha que emocionante. – falou, rindo, e fez rir junto. – Falamo-nos depois.
– Depois você me conta sobre esse jantar.
– Com certeza. – se pôs de pé e as duas se despediram com um abraço.
tinha mandado uma mensagem, encontrariam-se na entrada da loja, e ela apenas dirigiu até lá, ligou para e pediu que mandasse os seguranças, porque ela sabia muito bem como as coisas ficariam. Ele estava esperando à porta, usava uma touca preta, uma blusa preta e uma blusa de frio também preta e calça jeans, claro, preta.
– Achei que você tivesse desistido. – ele deu um sorriso de lado quando a viu.
– Eu estava montando um casamento inteiro e agora vim salvar sua vida. – ela disse num tom divertido. – E vamos entrar nessa loja logo, antes que isso se torne impossível.
– Vou entrar e sair de muitos ternos hoje, né? – ele fez uma careta e ela assentiu.
– E vamos levar alguns, além de umas outras roupas. Inclusive, parabéns pela escolha de hoje, está ótimo. – ela sorriu e abriu a porta da loja, entrando e sendo seguida por ele.
– Eu estou todo de preto, .
– Pois é, preto nunca é um erro. E realça seus olhos. – ela sorriu.
– Boa tarde! – uma vendedora disse, animada, aproximando-se dos dois. – Posso ajudá-los a encontrar alguma coisa?
– Eu espero que sim. – sorriu e soltou um resmungo, derrotado.
Não teria chances de discutir roupas com ela. Nunca.

-x-


– Vai jogar videogame, eu vou me arrumar para ir jantar com sua mãe. – disse quando entraram em seu apartamento. – Treina bastante, porque amanhã eu vou acabar com você.
– Vou te deixar pensar que sim. – ele riu.
– Prepare-se para mais stories, porque você vai tomar um banho no FIFA. – ela piscou. – E falando em banho, você não vai tomar banho?
– Não, primeiro porque eu tomei banho antes de ir te encontrar praquela sessão de tortura interminável; segundo, porque minhas coisas estão na casa da minha mãe. Se você quiser que eu saia usando alguma coisa sua, aí pode ser que eu tome um banho. – ele disse, rindo.
– Então espera aqui, vou me arrumar e já volto.
– Não é como se eu tivesse muita opção, em todo caso.
– Tem, você pode ir andando até lá. – ela sorriu, debochada.
– Eu não gosto de você. – ele falou, fingindo-se de sério, mas acabou rindo.
– O problema é todo seu, meu querido. – ela piscou e ele deu uma gargalhada.
– Isso que eu chamo de autoestima.
– Cala a boca, vamos sair atrasados por sua causa. – ela falou antes de sair da sala, mas o viu rolar os olhos.
tomou um banho demorado, estava cansada, porque e ela tinham realmente trabalhado duro para organizar todos os detalhes do casamento postergados por tanto tempo, já que a noiva estava atolada de serviço e a madrinha estava tão ocupada quanto. Por sorte, conseguiram fazer tudo que precisavam para o casamento, que seria dali a pouco mais de quarenta dias. Sorte, no caso, chama-se “ser mundialmente conhecida e as pessoas amarem te bajular por isso”.
A maior dúvida de naquele momento era o que vestir para ir jantar com a família de . Não queria causar má impressão. Vestiu uma calça jeans skinning preta, de cintura alta, e encarou as blusas do closet. Não queria ir muito desleixada, mas também não podia ir produzida, parecendo que estava prestes a ganhar um Grammy. Se fosse toda de preto, podia ser mal-interpretada, assim como se fosse muito colorida.
Colocou uma blusa cinza de mangas compridas e que batia na metade de suas coxas, um pouco mais grossa pelo frio inexplicável que fazia em Munique naquele dia, uma jaqueta jeans de lavagem clara e uma bota marrom de cano curto e com um salto pequeno de madeira. Prendeu o cabelo num rabo de cavalo, fez uma maquiagem simples e leve, colocou um colar grande, pegou uma bolsa para colocar a carteira, chaves, outra blusa de frio e o celular, e voltou para a sala.
Ele estava sentado, concentradíssimo no jogo, com a boca aberta enquanto mexia os dedos pelos botões, e nem mesmo percebeu quando ela chegou ao cômodo.
– E aí, vai ficar jogando ao invés de irmos comer? – ela perguntou e ele desviou a atenção do jogo para a mulher.
– Vamos. Minha mãe deve estar esperando-nos. – ele se pôs de pé e desligou a televisão.
– Somos apenas os três?
– Não. vai levar aquele babaca que namora com ela. – ele rolou os olhos.
– Qual é a da implicância com ele?
– Ele é um otário.
– Ciúmes, entendi. – disse, rindo, e os dois saíram do apartamento. Uns andares abaixo, o elevador parou e um dos vizinhos de , que nunca a cumprimentava, entrou e ficou encarando os dois descaradamente, só parou quando desceu na portaria e eles continuaram no elevador até a garagem. – E então, devo saber algo sobre sua mãe?
– Só que ela é ótima. – ele sorriu, afivelando o cinto. – E provavelmente vai contar para você sobre seus pôsteres que a tem.
– É muito difícil ser fã nos dias de hoje. – resmungou enquanto tirava o carro da garagem.
dirigiu, seguindo as orientações de , até que chegaram à casa. Era uma casa muito bonita, diferente da casa dos pais de , era ampla e tinha um espaço grande entre a cerca e a porta de entrada. Ela estacionou à frente da casa e os dois desceram.
A cerca branca e a grama verde fizeram-na lembrar das casas de filmes, era como se aquela casa tivesse saído diretamente de algum filme e ido para Munique. A casa é amarela, mas não um amarelo berrante, um amarelo claro e discreto, o telhado era cinza e as portas e janelas, brancas. Um jardim no canto, muito bem cuidado, e que com toda certeza dava muito trabalho para estar tão bonito naquela época do ano. Parecia a casa da Barbie.
Os dois pararam em frente à porta e ele tocou a campainha, estendendo a mão para e ela entrelaçou os dedos aos dele. A porta não demorou a ser aberta por , que deu um sorriso ao ver os dois. Cumprimentou com um abraço e um beijo no rosto e deu um abraço no irmão.
– Que cheiro gostoso. – falou quando entrou na casa.
– Eu te falei, minha mãe é a melhor. – deu um sorriso, que morreu assim que viu o cunhado aparecer no hall e dar um sorriso para ele.
– Ah, finalmente vocês chegaram. – Höward disse e olhou demoradamente para .
– Alguém ficou jogando FIFA e esqueceu que tínhamos que sair. – provocou . – Talvez agora ele aprenda a jogar e consegue me vencer.
– Você teve sorte, já falei.
– Reconheça, eu sou melhor que você. – ela voltou a provocá-lo.
– Eu ganho dele no FIFA, ele é realmente péssimo. – entrou na brincadeira e rolou os olhos.
– Você ganhou uma única vez, e porque eu deixei.
– Se isso é o que te faz colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo, tudo bem. – disse, rindo. – E vamos comer, eu estou morrendo de fome. E a mãe fez aquele risoto maravilhoso.
– Ela não tinha dito que ia fazer ravióli? – perguntou, confuso, enquanto caminhavam até a cozinha.
reparou nas fotos pelas paredes; e em uniformes de futebol e quimonos, roupas comuns, fotos de escola, além de fotos com os pais, sozinhos e juntos. Os dois pareciam ser bem amigos desde pequenos, ainda que a diferença de idade fosse razoável: seis anos. E talvez isso explicasse o ciúme de pela irmã.
– Chegamos. – disse, entrando na cozinha.
A mãe estava arrumando a mesa e já havia colocado a travessa de raviólis por lá. Ela ergueu os olhos e deu um sorriso ao ver os dois juntos. reparou como se parecia com ela, ainda que fosse muito mais parecido com o pai, os traços da mãe estavam bem presentes nele. A mulher caminhou diretamente até , já que havia visto o filho mais cedo, e a abraçou.
– É um prazer conhecê-la, finalmente. – a mulher sorriu quando soltou-se do abraço. – Meu nome é Helga.
– Muito prazer, eu sou , mas me chame de , por favor.
disse que você gosta de comida italiana, fiz ravióli especialmente para você. – a mulher sorriu.
– Não era risoto? – perguntou, confusa.
– Tapada. – a deu um tapa na testa e a irmã o beliscou.
– Parem com isso, vocês dois. – Helga disse, séria. – O que vai pensar sobre nossa família se vocês ficarem implicando um com o outro assim?
– Vou pensar que todos somos iguais. – deu um sorriso. – Meu irmão e eu somos do mesmo jeito.
– Temos que lavar as mãos antes de comer. – se pronunciou. – Vem, .
– Com licença. – ela pediu e saiu com pelo corredor até o banheiro que ficava algumas portas à frente. – Que cara é essa?
– Eu detesto esse namorado da . – ele resmungou, enquanto lavavam as mãos no banheiro do corredor. – E ele está olhando para sua bunda descaradamente. Não está nem mesmo tentando disfarçar e na frente da minha irmã. Ele é um otário.
– Relaxa. – ela sorriu, secando as mãos e ele fez o mesmo. – Vamos jantar e logo isso acaba.
– Tudo bem. – ele resmungou e os dois voltaram para a cozinha.
O jantar foi tranquilo, a mãe de fez basicamente as mesmas perguntas que os pais de , sobre como tinham se conhecido, desde quando estavam juntos e coisas típicas de pais quando os filhos levam os namorados até suas casas para serem formalmente apresentados.
e Höward também participavam da conversa, e reparou como o homem a olhava. Nojento. , como se tivesse percebido, puxou-a para mais perto e ela se encostou nele. Não era possível que não tivesse notado que o namorado estava agindo daquela forma.
Comeram um pudim de leite condensado de sobremesa, e resolveu ajudar a sogra com a louça. Mandou para a sala com o cunhado e a irmã, e as duas ficaram sozinhas na cozinha. Por um tempo, ficaram em silêncio, lavava os pratos e Helga os enxugava e guardava.
– Você gosta dele mesmo? – Helga perguntou e se virou para olhá-la.
A mulher tinha um olhar ansioso, de uma mãe excessivamente protetora e que queria resguardar o filho de todo mal.
– Gosto, sim. – sorriu de lado.
Não era mentira, em todo caso, afinal.
– Desde que o pai deles morreu, se tornou um menino muito fechado e retraído, o futebol é a única coisa que o faz relaxar e se soltar. E essas lesões todas também o tornaram tão mais fechado e o entristeceram tanto... Logo depois ele teve que se mudar, saiu do clube do coração e perdeu espaço na seleção. Não quero que meu filho sofra mais, por favor, não o magoe. – Helga disse, séria, e assentiu, dando um sorriso leve para a mulher.
– Não tenho essa pretensão. E espero que eu consiga fazê-lo feliz.
– Eu também. E fico muito feliz que, finalmente, ele tenha aberto o coração de novo. E espero que ele nunca mais o feche, vocês formam um casal bonito.
– Obrigada. – agradeceu, dando um sorriso, mas tinha o coração na mão.
Ninguém tinha medido exatamente as consequências daquele contrato. Era uma granada que feriria muita gente quando explodisse.

-

meine Süsse – meu docinho
kleine Schwester – irmãzinha
Arschloch – imbecil
kleiner Bruder – irmãozinho


Continua...



Nota da autora: : Eu demorei a mandar a atualização, eu sei, peço perdão pela demora, mas eu quis arrumar algumas coisas nesse capítulo antes de enviá-lo para a Ana. Eu não sei muito o que dizer, porque esse final me deixou de coração partido, peço perdão por isso também hahahahaha enfim, me contem o que vocês acharam desse capítulo ENORME (prometo que os próximos serão menores!) e do que esperam do desenrolar desse casal <3

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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