FFOBS - Tudo Errado, por Ray


Tudo Errado

Última atualização: 24/06/2018

Prólogo

(2008)

Os dedos curtos alcançaram o espelho, averiguando o resultado do pó branco em seu rosto. Parecia um fantasma, porém as colegas de classe insistiam em negar que estivesse ridículo. Para elas, aquilo era necessário na incorporação do personagem da peça teatral.
Princesas são brancas.
As três levantaram-se, apanhando as mochilas e demais pertences no quarto dela, protagonista eleita pela professora, e, antes que se retirassem do aposento, a mãe da pré-adolescente abriu a porta para checar o silêncio de quatro garotinhas de 12 anos em pleno sábado à tarde.
A mulher sorriu para cada uma e olhou para a filha, que estava de costas, preparando-se para limpar a face.
— O que significa isso?
Ela virou a cabeça.
— Serei a princesa Leona.
— Que porcaria é essa no seu rosto?
— Era só pra incorporar o personagem.
— Quem inventou? Existem apenas princesas brancas? Incorporar personagem em que você tem que ser branca? Onde já se viu isso?
As colegas saíram bem antes.
— Ganhei um papel de destaque na peça da escola. Por favor, não atrapalhe!
— Um papel em que precisa se passar por garota de pele clara? Qual é o prestígio? Ser branco? Lave o rosto.
— Não.
— Eu não estou pedindo.
— Mas vale pontos!
— Vou te esbofetear, caso insista! Você tem tanto a aprender... — Observou a filha se encolher na cama. — Querida, escute. Não quis ser grossa e nem te machucar. Fere querer que você seja algo que não é? É o que estão fazendo.
— Eu não entendo.
— Entenderá quando rirem de você na peça.


Capítulo 1

O primeiro semestre do ano de 2015 teve início.
As aulas, o preenchimento das vagas remanescentes em escolas da rede pública, reavaliação da grade de ensino e contratação de novos professores também. Em Campestre, fazia calor como nunca, sob um sol de rachar, e as ruas dos colégios estavam engarrafadas.
Longe dali, num bairro próximo ao Projeto, na saída da cidade, viviam pessoas carentes, como , que acordava às 5h para conseguir arrumar o cabelo, trocar de roupa, raramente, engolir pão seco com café — quando tinha na mesa — e chegar a tempo ao ponto das vãs. Dali, era só atravessar a pista e entrar no prédio visualmente abandonado, onde estudava, nomeado “Jão Barracão”. Como não haviam recebido verbas suficientes da prefeitura para os reparos na estrutura física e material, além de contratação de professores especializados nas matérias, de todo o Ensino Médio, o único que funcionava no recinto, e nem para torná-lo integral, pois não tratava-se de colégio de referência, os alunos aproveitavam para comer às dez o que deveriam comer quando acordaram e, às onze e cinquenta, horário da saída, almoçarem, visando a falta de comida nas casas de muitos.
Uma dessas, inclusive, era a casa de .
, nós vai comer na sua casa, qualquer dia — avisou a amiga, sentada de costas para a lousa, com uma lixa de unha em mãos. — Prepare-se, porque a Meire come por nós três juntas.
Conformada, Meire sorriu.
— Mano, mãe não... Às vezes, falta, né?
encostou a cabeça na parede, apoiada numa carteira ao lado, e suspirou.
'Às vezes' era um eufemismo.
— O ano mal teve início, e tô propondo e aconselhando abertamente que vocês, meus alunos, tentem vaga em outra escola. É a primeira vez que digo isso, porque, na última reunião dos professores, recebemos a péssima e detestável notícia de que sofreremos cortes.
O burburinho de adolescentes e jovens adultos, repetentes em potencial, causou uma simulação de um dia numa feira do bairro ao escutarem Derileusa, de Geografia, confessar.
— Acalmem os ânimos, crianças! — pediu, gesticulando. — Ninguém sabia. Estou partilhando informações “confidenciais”, até determinado período, pois acredito em todos aqui. Evito exceções. De verdade, vocês têm que crescer e buscar suprir o déficit do nosso ensino. Na lista de prioridades da prefeitura, a educação pode esperar. Ensinar vocês a pensar para que? Em que? Se, nesta sala, formarmos jovens pensantes, na próxima eleição, o prefeito não será reeleito. Entendem essa linha de raciocínio?
Os alunos reclamaram, fizeram baderna, ovacionaram o prefeito, até que pararam de falar aos poucos, após planejarem uma rebelião em frente à prefeitura na sexta-feira. Obviamente, a professora tentou persuadi-los a não cometerem vandalismos, apenas reivindicarem seus direitos. Em seguida, deixou a aula seguir, lendo um texto sobre determinação para alcançar sonhos e sonhos para ter determinação, além dos deveres e obrigações do corpo docente.
Por ser primeiro dia de aula do terceiro ano, foram liberados, sem atividades e início de conteúdos.
desceu a escada do pátio, indo ao encontro das amigas, e abraçou cada uma, antes de voltar para casa.

***


A avó de , dona Tamy, perdeu o marido. Portadora de um vírus, aos 60 anos de idade, causou-se novamente, cinco anos depois, e perdeu o segundo marido para a cirrose. Vivendo, no total, 25 anos casada, decidiu, a partir de então, não mais se comprometer com alguém. Estava cansada de chorar a morte de ente querido. Dos três amores da sua vida. Como a mãe de , sua filha mais velha, faleceu, acabou tornando-se guardiã legal da neta e a criou para defender suas convicções, mesmo, inconscientemente, impondo alguns dos conceitos de antigamente, que já eram ultrapassados.
Vó! chamou, fechando a porta atrás de si, e colocou a bolsa de pano, costurada pela senhora, sobre o sofá de dois assentos. — Cheguei!
— Comeu na escola?
— Sim. — Ela cruzou as mãos. — Estava pensando... A senhora bem que podia me deixar ir, um dia desses, à feira, né?
— Mas tu pode, ué! Tem duas pernas, graças a Deus!
balançou a cabeça.
— Não, , é pra vender... Ficar lá, te ajudando, montar uma barraca maior... Rende mais dinheiro!
— Não, não, não! — dizia com o dedo em riste. — Você vai estudar e ser gente.
— Eu já sou gente!
— Gente com dinheiro! Rios de dinheiro... Mares, oceanos! É o que sua mãe iria querer.
— Não serei milionária.
Tocar na palavra 'mãe' sempre descavava uma ferida e causava uma dor dilacerante nela, que imaginava ter superado a perda. Sofria quando sentia sua falta, revia fotografias ou a avó falava dela, de como era. Então saber que a própria mãe tinha o desejo de vê-la se tornar bem sucedida, culta, que ia à conferências, assumia cargos altos em empresas, montava seu negócio e prosperava, lhe servia como recarga de energia para que não perdesse o foco, desistisse ou tivesse medo do presente.
Todo dia é um dia a menos do futuro, portanto, ele já começou.
— Mas será independente! — continuou, trazendo-a ao presente. — Não precisará de bolsa do governo, nem visitar o SUS. É o que queremos para você. Lembre que não estarei aqui para sempre. Morrer é a forma com encerraremos o ciclo da vida. Nossa despedida.
— Que conversa mais mórbida! Impressionante como a senhora muda de um assunto para outro! Olha, , não se preocupe, tá bem? Nada me impedirá de trilhar esse caminho aí. Sairei, hoje, para arranjar um emprego, nem que a senhora ache ruim. Falo sério!

De um bairro pobre a um da classe alta, localizada na Orla, viviam três amigos: Paulo, desistente da banda The Nacionais; César, filho da elite, branco, de olhos azuis claros; e Clarissa, irmã dele, estudante de Psicologia na UCA, parecida com o irmão, em traços e trejeitos, exceto pela cor dos olhos. Ambos viviam a dar festas em casa, no casarão e a ostentar viagens luxuosas. Paulo nasceu em Rondônia, mas foi criado numa cidade próxima à Campestre, até vir, após o resultado do vestibular, morar aqui. Acabou dividindo, através de um círculo grande de amizades, a casa com os irmãos Delman, que o abrigaram, comovidos com a falta de teto e de recursos. Por mais inesperado que fosse, eles tiverem um resquício de compaixão e ofereceram um quarto ao rapaz, que mudou-se para lá no dia seguinte, adorando a vista para o rio e a ponte. Paulo carregava ambição e sede de posse, como os Delman, e isso contribuiu para a formação de uma aliança.
Os três estudavam na Universidade de Campestre, matriculados para o novo semestre, em cursos e períodos distintos.
Dirigindo o carro esportivo dado pelo pai, César estacionou o veículo na vaga do estacionamento da faculdade, retirou o cinto e saiu, tal como os outros. Acionou o alarme e esperou a irmã, que vinha logo atrás, colocando o óculos de sol sobre o nariz.
Paulo se despediu e entrou por uma porta dianteira, enquanto eles seguiam caminho.
A parte da frente do prédio funcionava como sede de cursos de exatas, e a de trás, mais a do lado, biológicas e humanas. Cada um seguiu para corredores opostos.
No domingo, haveria a primeira Calourada15, com direito a open bar de diversas bebidas, além de um palco para atrações musicais. As senhas estavam sendo vendidas por alguns estudantes e em pontos de entrega, como, por exemplo, os quiosques.
Reorganizado pelas turmas passadas das Engenharias, o evento seria realizado no casarão, que, constantemente, era palco para as datas comemorativas da família Delman.
— Eu não preciso comprar, né? — César perguntou a uma colega de curso.
— Se não quiser ir, não.
— Você sabe quem sou eu?
— Um playboyzinho que se acha o “pica das galáxias” por... Usufruir do dinheiro do pai? — Posou a mão no queixo, pensativa. — Isso mesmo.
— Não vou dar uma resposta afiada, que você merece, porque é bonitinha demais, mas ó! — Colocou a cédula de cinquenta reais no bolso frontal da camisa da garota. — Tá aqui o seu pagamento.
Enquanto César saía da frente, Miúda, apelido carinhoso dado a Micaela, estudante de Engenharia de Pesca, quis amassar o dinheiro para que ele visse que aquilo poderia mudar momentaneamente a visão que as pessoas interesseiras mantinham ao seu respeito, vendendo uma imagem idiota, mas não comprar educação, que, para ela, vinha de berço.

Clarissa sentou-se no banco frio do corredor do prédio, ao lado da amiga, e viu dois estudantes atravessarem a porta de uma sala e descerem a escada. Um deles virou o rosto, olhando para trás com curiosidade, e ela arqueou a sobrancelha, em deboche.
Engraçado como pessoas feias querem pessoas bonitas e esperam conseguir algo, muito provavelmente, para provar que beleza não é tudo.
— Ele é gatinho — a amiga disse, despertando-a dos questionamentos internos.
— Não faz meu tipo.
— Você é bem seletiva. Qual é o seu tipo?
Clarissa olhou para ela.
— Por que essa pergunta?
— Curiosidade.
— Definitivamente, ninguém que use aparelho, óculos e se vista como um derrotado.

Capítulo 2

A segunda semana estava sendo mais leve que a primeira. Na primeira, não deram início a fundo do conteúdo, e na segunda, um pouco menos que na anterior. Jão Barracão não era colégio para ninguém que quisesse "ser gente", aprovado no vestibular e, principalmente, numa universidade pública! Estranho era ter e querer sair de um colégio da rede pública e almejar uma universidade dessa.
Algo errado não estava certo.
via os professores faltarem aula, enrolarem para entrarem nas salas, ministrarem aulas de situações adversas sobre suas respectivas vidas privadas, desrespeitando os próprios alunos e, depois, cobrarem conteúdo não visto. Também via, da mesma carteira, no meio da sala, professores incentivando aluno, correndo atrás de ajudar em alguma deficiência, darem a aula com amor a profissão e cobrarem exatamente o que foi visto. Alunos estudiosos e desinteressados. Todos no mesmo barco à deriva, soprados pelas pausas do descaso da prefeitura, tentando cruzar a linha de chegada, que era a aprovação no vestibular. E em alguma universidade em Campestre.
Nenhum deles tinha condições financeiras de bancar custos lá fora.
!
Ela se virou, e seu cabelo escorrido com muita dor e horas no salão deu forma aos traços marcantes da face.
— O que eu fiz?
— Nada, não. Quero falar com você, agora, por cinco minutinhos, antes que vá ao refeitório — a professora Derileusa disse. — Estive conversando com outros professores, e todos nós concordarmos que você é uma excelente aluna; dedicada, inteligente... Então concluímos que, para uma aluna de alto nível e mais interessada que muitos, o Jão não é pra você. Nunca foi. Eu sabia disso, mas não havia o que fazer, já que os melhores colégios nesta cidade são os mais caros. Os públicos de referência têm burocracias para aceitarem novos alunos. O que poderia ser feito? Bolsas de estudo são concorridas. Você está num nível acima dos demais daqui, mas é estudante da municipal, tá abaixo do nível das escolas privadas. Entende? Apesar de ser um rendimento bom, não é o suficiente e, por isso, peço que tente a transferência para o Val Campestre.
Em silêncio, assimilava as palavras proferidas.
— Não tenho como custear minha ida à cidade universitária. Gosto daqui. Fiz amigos aqui. Nem, ao menos, sabia dessa abertura de vagas remanescentes...
— Minha cunhada e colega de profissão é professora de lá e me informou a respeito.
— Mas não dá! É inviável! Quando eu teria que ir?
— Até esta manhã. Já são 10h20. Não daria tempo... — falou num tom desanimado, propositalmente. — Há uma lista com mais de cem nomes, e ela adicionou o seu.
— Professora!
— Eu não cumpriria meu papel de educadora se te educasse para se conformar com este recinto. Ele está abaixo do seu nível. Todo mundo vê! Escute mais uma coisa. Caso necessite de uma ajudinha, eu me responsabilizo em fornecer os passes da vã. Estamos de acordo?
— Preciso contar à minha avó.
— Tudo bem. Você não tem nada a perder. Espero, de todo o meu coração, não te encontrar em minha aula na próxima semana. Que fique claro que não é nada pessoal! — Caminhou até a porta, detendo-se. — Por favor, me convide para sua formatura da graduação.

Meire e Cassinha esperavam-na à mesa do refeitório mal estruturado, como, praticamente, tudo dentro do prédio. Comiam, intercalando com comentários aleatórios, até a chegada de , que sentou-se de frente para elas.
— Não vai comer?
— Estou sem fome.
— O que houve com a Derilesa?
— Não fale assim da melhor do mundo! — pediu Meire. — Estudar a longitude para o coração do meu oriental nunca mais foi a mesma coisa, depois que ela me explicou.
Meire mantinha um relacionamento virtual com um garoto do Japão desde que o conheceu num site. A partir daí, trocavam e-mails e conversavam via Skype.
— Fala, !
— A professora quer que eu me mude para o Val Campestre.
— Sério? — Meire disse.
— Como assim? Você vai abandonar nóis?
— Não tá nada confirmado ainda e, independentemente da minha transferência, mudarei de escola, mas não de endereço. Vocês sabem onde eu moro!

***


Paulo e César estavam rodeados de mulheres no estacionamento — apenas quatro, sem contar com a irmã, que vinha vagarosamente, observando-os por sobre o óculos de sol preto. Paulo nunca teve nenhuma garota aos seus pés, mas andar e se tornar parte do círculo social de César Delman transformava um loser da "época" da escola em um almofadinha na faculdade.
— O que vocês querem? — Clarissa perguntou às mulheres.
— O César prometeu carona — uma delas respondeu, inabalada, com voz manhosa.
— Em troca de que? Não! Nem me diga! — Ergueu a mão, entrando no carro.
Miúda descia a escada do prédio, dirigindo-se à saída do campus, quando escutou o carro de César cantar pneu. Virou-se para o lado, fitando a amiga, que sugeriu que fossem ao Val Campestre, antes de pegarem o ônibus.
— Existe alguém que consegue ser irrevogavelmente chato como o nosso amigo? — Ann colocou o braço sobre os ombros do rapaz de cabelo escuro, mechas bagunçadas, alargador pequeno na orelha, barba por fazer, desde que ingressou no sistema, e sobrancelhas grossas.
Os olhos verdes encararam os de Ann, que virou o rosto dele.
— Skatista não faz o meu tipo.
— Ah, não? — Ele riu fraco, bem-humorado. — Qual é o seu tipo de homem?
— A questão é exatamente esta: homens. Garotos não fazem o meu tipo.
— É como diz a letra: "Perto de uma mulher são só garotos". — Miúda insinuou. — Desculpa, amigo!
Ele balançou a cabeça, inconformado, e segurou a face ruborizada e delicada de Ann, lhe dando um beijo demorado, e repetiu em Micaela.
— Tenho que checar os horários das reposições, agora. Verei vocês na praça da Catedral.
O rapaz seguiu em linha reta, passou pela biblioteca, subindo os degraus da escada e atravessando o corredor largo do pavilhão universitário, até a diretoria. Bateu na porta e entrou.

colocava os pratos sobre a mesa, junto com os talheres e copos, enquanto a avó terminava de cozinhar. Sentou-se à mesa retangular de mármore e posou o rosto entre as mãos escuras.
— O que foi? — Frase copiada de pela avó. — Alguém te destratou?
— O que a senhora acha de eu sair do Jão Barracão?
— Tá pensando em largar os estudos? — Olhou para ela, desconfiada. — Veja bem, , o que vai fazer!
— Não, pedir transferência para o Val Campestre. É uma das melhores escolas públicas daqui.
— A gente tentou uma, duas, três vezes matricular você naquele bendito colégio, mas não havia vaga.
— Eu me lembro. Acontece que é diferente, agora. A professora disse que tenho potencial e não deve ser desperdiçado com o ensino fraco do Jão. Estão cortando verbas. Já imaginou o colégio sem verbas? Daqui a pouco será fechado!
— Como vai fazer pra estudar no outro?
— Essa professora tem contatos e conseguiu quem pusesse meu nome na lista de interessados nas vagas remanescentes. É muito importante, pra mim, que a senhora concorde.
— Jeová da glória! Claro que concordo! Só não sei como faremos pra pagar os passes de cada dia... É dinheiro tirado de onde não tem.
— Tenho reservas, e a professora garantiu ajudar.
— Sendo assim, esperemos essa lista ser atualizada e o resultado sair.
— Nós saberemos amanhã.

Capítulo 3

Na última sexta, voluntários se reuniram para levar roupas que não serviam, brinquedos conservados, mas inutilizados pelos donos, e cestas básicas aos moradores do Projeto, doando às famílias mais carentes. Além de doações, revezavam-se nos refeitórios das escolas e nas creches para atender as crianças e os jovens estudantes. No primeiro lote do bairro, o N1, haviam apenas dois colégios ativos: um deles era o Jão Barracão.
O grupo, que se dividiu, restando cinco pessoas, entrou no prédio, contatando a diretora, e dois foram à cozinha, local de preparo dos alimentos, vestiram o avental e puseram a touca.
— Não tô com fome — disse , ansiosa. — A professora deve estar me poupando de uma frustração, mas, desta vez, não foi eu quem criou expectativa.
Meire colocou o braço entre o seu.
— A Cassinha entenderá, caso você realmente vá pra outra escola. É importante pra você, por razões óbvias, e importante pra mim, por te ver avançar.
— Obrigada pelo apoio, de verdade!
— Agora, vamos pegar bolinho.
— Tô enjoada...
— Eu como por você, sem problemas!
sorriu e, de braços dados, foram pegar a fila enorme para o lanche. Depois, prestes a chegar a vez delas, a mais nova, que estava ao lado, conversando distraidamente, escutou o cozinheiro chamar o próximo.
— Aqui. — Ele colocou bolinhos no balcão. — Para você e sua amiga.
nem se mexeu.
, mulher, a comida não vai criar asas e voar pra nossa mão, não!
— Não quero comer.
— Já disse que como por você! — Apanhou todos os bolinhos, enchendo as mãos, sob o olhar do cozinheiro. — Nem dá pra alimentar as lombrigas com isto. Elas comem ou eu como. Difícil, né?
a empurrou para fora da fila, deixando-a falar pelos cotovelos, enquanto seguiam para as mesas.
— Ele não perguntou nada.
— Não sou movida à pergunta. Qual é a probabilidade de ter bolinho amanhã? Nenhuma. Devemos aproveitar!
A professora Derileusa iria buscar frutas na cozinha para levar à sala dos professores e avistou sentada. Daí, ela a chamou com um gesto.
— Alguma notícia? — Ansiosa e com risco de sofrer danos irreversíveis, suspirou.
— Nada, até agora. Não se preocupe. Assim que eu tiver uma posição para dar, informarei. Chamei você exatamente pra te tranquilizar. Tenho certeza de que, independentemente de surgirem vagas ou não, você continua sendo excelente. Vou buscar fruta. Quer uma?
— Não, obrigada.

Na hora da saída, havia uma reca de skatistas do outro lado da grade do colégio, esperando — o que, os alunos não sabiam, até verem cinco voluntários deixando o prédio. Eles se vestiam com roupas comuns e não tinham tanto, visualmente, do esteriótipo.
Um desses, alto, de boné, beijou a menina na boca, e o outro colocou o skate no chão, deixando apenas o rastro da sua sombra.
Os garotos do Jão Barracão permaneceram no mesmo lugar, observando, como se tivessem assistido a uma apresentação radical.
O esporte une as pessoas.
Na escada, descendo, foi chamada outra vez pela professora e soube que seu nome estava em segundo na lista. No dia seguinte, seria nova aluna do Val Campestre.
— Lá, eles usam farda. O preço tá em conta. Eu arranjarei uma pra você. Parabéns! Boa sorte!
— Muito obrigada!

***


O rapaz correu para dentro do campus, atravessando a área aberta em cima do skate, e encontrou suas amigas, que estavam encostadas na parede do prédio, à espera. Deram tapinhas na tela do celular, insinuando que ele estava atrasado.
— Onde você se meteu, cara? — Ann perguntou, de braços cruzados.
— No fim do mundo, sério! Fui ao Projeto.
— Tá atrasado pra aula de reposição. Vai substituir quem, afinal?
— A professora de Literatura.
Eles se despediram e o jovem skatista, vestido com roupas mais formais, camisa de manga curta, que revelava metade dos seus bíceps, entrou na sala dos professores do Val Campestre. Cumprimentou a coordenadora, alguns professores e tomou posse do caderno de frequência das turmas dos terceiros anos e uma do segundo, por menos de uma semana, já que ministraria devido a falta do professor. No caso das turmas dos terceiros anos, seria em torno de dois meses, no máximo, até a volta da professora, que pediu licença após uma cirurgia. O último substituto saiu por motivos que ele não teve acesso, mas garantiram que a desistência fora por conta da carga horária.
Escutando atentamente as explicações da coordenadora deste pavilhão, seguiu a jovem senhora pelo corredor, até a porta da sala vazia.
A coordenadora olhou para os lados, sem entender, e o rapaz continuou na mesma posição, achando, genuinamente, que alguém fez algo extremamente louco ao ponto de ganhar a atenção de todos, principalmente, dos mais dedicados. Aguardou em silêncio uma providência.
— Fugiram? — perguntou.
— Aposto que todo mundo achou que fosse uma velha chata que nem a outra professora, pô! — disse uma aluna sentada no banco de concreto. — O plano era filar¹ aula para que fôssemos embora cedo.
A coordenadora colocou as mãos na cintura.
— Bom saber! Olha quem está vindo... — Moveu a mão, chamando atenção de todos, que foram entrando na sala de aula.
As meninas observavam o novo professor substituto com uma curiosidade demasiada.
Ele nem efetivo era, muito menos estagiário, apenas cobriria aulas que contariam como nota no semestre.
— Olá, pessoal! — falou num tom neutro, e os alunos permaneceram quietos. — Meu nome é , sou estudante de Letras e, a partir de hoje, professor substituto dos terceiros anos. Tenho convicção de que não haverão grandes problemas por aqui. Estou sendo bem otimista. — Cruzou os braços ao finalizar o discurso breve de apresentação e ouviu as risadinhas que escaparam de alunas sentadas na frente.
— Essas darão trabalho... — avisou a coordenadora.
— É do que, professor?
.
A adolescente, que já usava o celular de forma escondida, digitou o nome dele na barra de pesquisa do Facebook.
— É pra te stalkear! — um garoto avisou, recebendo o olhar mortal dela.
— Claro que é! Professor maneiro desse... Cheio de estilo... — a amiga da adolescente ditava. — Tá de parabéns! Digo, pela aula... Será bem proveitosa!
, fique à vontade para retirar alguém da sala. Quando tivermos uma conversinha, na próxima vez, ela virá soletrando a palavra “respeito” de forma sagrada.
maneou a cabeça.
Obtinha consciência com o que lidaria e que o único objetivo era dar o assunto, fazendo o aprendizado ser eficaz. Ter alunas investindo com suas piadinhas na ponta da língua, preparadas, não o pegaria de surpresa, até porque, definitivamente, agiria como um profissional formado.
— Pode dar sua aula, agora. Bom dia!
— Obrigado! — buscou o livro na bolsa transversal sobre a mesa, mais umas anotações, o caderno de frequência e pegou o pincel. — Bom, abram... Não, tô zoando. Trouxe um texto bem bacana.
Com essa gíria, muitos, rapidamente, inverteram a impressão em relação ao desconhecido, e outros, mais resistentes, prosseguiram com uma aversão tangível, mesmo que, certamente, algo houvesse mudado.
O professor estava tentando se enturmar ou realmente fazia parte da turma.
— Li este texto centenas de vezes com uma pessoa quando éramos crianças e, depois, sozinho, para entender a essência, pois, aos 10 anos, não havia como por em prática o que consegui aos 16. Para começarmos o ano reflexivos, animados e esperançosos... — Pigarreou. — “É loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou. Entregar todos os teus sonhos porque um deles não se realizou. Perder a fé em todas as orações porque em uma não foi atendido. Desistir de todos os esforços porque um deles fracassou. É loucura condenar todas as amizades porque uma te traiu, descrer de todo amor porque um deles foi infiel. É loucura jogar fora todas as chances de ser feliz porque uma tentativa não deu certo. Espero que, na tua caminhada, não cometa essas loucuras. Lembrando que sempre há uma outra chance, uma outra amizade, um outro amor, uma nova força. Para todo fim, um recomeço”. É um texto do 'O Pequeno Príncipe', do francês Antoine de Saint-Exupéryn, um daqueles raros livros infantis que penetra e nos deixa com muitos questionamentos. É atemporal. Para vocês terem uma ideia, este texto foi escrito em 1943. Hoje, estou relendo e tenho certeza de que algum de vocês já leu. O romance mostra uma profunda mudança de valores e revela ao leitor o quão equivocados podem ser os nossos julgamentos, e como eles podem nos levar a sermos solitários, resumidamente. Dito isso, lembrem-se de que é preciso terminar um ciclo para que outro comece, que pessoas se encontrem e que, ainda que pareça doloroso o início, o meio pode ser alterado, e o final é consequência da sua escolha feita lá atrás. Reflexão de cada dia. Vamos lá! Abram na página 5, por favor.
As adolescentes sorriam com essa injeção de ânimo, e um ou outro garoto zombava em voz baixa.

Ann e Miúda esperavam o amigo sob o quiosque em frente à faculdade, entediadas. apareceu depois, com uma adolescente em seu encalço, fazendo perguntas de assuntos que seriam vistos nas próximas semanas. Respondendo pacientemente e sanando dúvidas mais simples, despediu-se dela e atravessou a rua.
— Como foi o primeiro dia, prof ? — Ann questionou.
— Interessante.
— Hum... De 1 a 10, quanto você daria aos alunos do ensino médio?
— De modo geral, hoje, daria 9.5, porque fugiram da aula. Todo mundo estava fora da sala. Perdemos tempo. Se isso virar rotina, vira bagunça, e eu sou um cara organizado, vocês sabem.
— Amigo, tô pior que Sócrates! Não sei de nada do que tu dizendo. — Miúda opinou. — Desculpa!
— Seus alunos são minha cópia, e você me atura até hoje, então tá tudo certo.
revirou os olhos e foi abraçado por Micaela, que agarrou seu corpo, de repente.
— Tô carente.
— O não serve pra suprir suas carências.
Ele beijou a cabeça dela.
— Quem disse?
— Ué! — afastou o rosto. — Pode isso, Ann?
— Não pode, não. Amizade colorida não presta em “dupla de três”. Eu chuparia o dedo.
Micaela largou .
— Arranjo um pra você.
— Tô correndo de relacionamento.
— Então não reclama quando eu estiver pegando o .
— Agora, ele é pegável? Pensei que fosse um ser etéreo.
— Vocês estão ligadas que eu tô aqui, né? Sou, da cabeça aos pés, pegável, querida Ann. As meninas não me pegam muito porque sou altamente inflamável. Acendo rápido e incendeio todas.
Micaela e Ann trocaram olhares, caindo na gargalha.
— Vou embora, depois dessa confição desnecessária.
, afasta! — pediu Miúda. — Credo!
a abraçou e a levou ao ponto de ônibus, atrás de Ann, que andava com um headfone.

¹Filar aula significa deixar de assisti-la por não estar a fim.

Capítulo 4

As senhas para a Calourada15 foram esgotadas em menos de duas semanas. O casarão, local do evento, encontrava-se evidentemente lotado com muitos estudantes revezando entre o lado de fora e a sala, possuindo acesso ao andar de cima. Ali, todo mundo se misturava. Por motivos dos mais variados, tratavam-se como se fossem conhecidos. Já que era open, só ir direto ao bar! Nesta multidão, sentado no sofá, as pernas compridas afastadas, César sorria de uma piadinha devassa contada por uma caloura que, até o presente momento da abordagem dela, ele não fazia ideia de que curso, período e em que campus estudava. Teve um lapso de consciência, perguntando, ao menos, seu nome, ainda que, secretamente, estivesse despreocupado em relação a esse detalhe. Não queria estender o diálogo para que terminasse em troca de telefone e saídas casuais no futuro. A moça era bonita, cheirosa, maior de idade e não tinha frescura. De onde vinha e o que faria não era da sua conta.
Distante do irmão, Clarissa tomou outro gole generoso da cerveja dentro da caneca trazida de casa. Tinha paranoia excessiva e cautela desmedida em relação aos objetos em que eram servidos as bebidas. Como se fosse intocável, experimentava o líquido, apoiada no parapeito da segunda sala, seu cabelo sendo movido pela mão, que o despenteava. Vestia uma legging rasgada nas coxas magras e uma blusa larga. Tudo de grife. Os olhos negros fitaram a caneca meio vazia e, depois, a cerveja foi derramada no jardim. Desta altura, despreocupada, apenas se virou e deixou a sala, descendo a escada, para retornar à sala principal, onde a festa em si acontecia, de fato.
No andar de baixo, sentado à beira da janela, assistindo aos flashes do jogo de luz da sala iluminar o jardim, observou o amigo ser molhado por algo que caiu do andar de cima, provavelmente, de um ser bêbado.
— É cerveja. — O jovem skatista cheirou a camisa, sentindo o odor.
e outros dois também sentiram devido ao vento soprado na direção deles.
— Que azar do caramba passar justamente na hora em que jogaram o resto na terra!
— Pelo menos, não foi gofo.
— E nem havia muito.
O amigo deles ergueu os braços.
— Estão de brincadeira, né? Não tem graça! Como é que eu vou pegar alguém, hoje? Porra! Gente bêbada só faz merda!
— Ah, então tá explicado a lista de merda que tu fez e pôs a culpa no álcool no organismo.
— Claro, tudo culpa da falta de razão. E, pra desencargo de consciência, não bebo pra cair. Raramente, eu dou uns goles.
— O foda é cair, porque quem tá vendo dá pra filmar e sacanear pelo resto da vida.
balançou a cabeça para os dois amigos beberrões.
Detestava aquilo.
Nem sabia o porquê da sua visita ao casarão e participação na calourada. Estes o chamaram, insistiram e, por fim, para convencê-lo e, em seguida, chantageá-lo, compraram a senha. Alegaram que, para ele, seria bem vantajoso visualmente: iluminaria os olhos com a beleza das mulheres e descontrairia, para variar. Se fosse esperto e menos antissocial, conseguiria arranjar uma para si.
— Vou lá no banheiro, limpar isso. Fiquem aí!
— Darei uma volta pelos arredores, caçar pokegatas.
levantou-se a seguir.
— Essa foi de sangrar os ouvidos.
— Qual é?! Aqui sabe inventar. Faço cantadas na hora!
— Beleza! Vou caçar água! — Caminhou pela grama com o amigo de cabelo pintado de laranja.
Após adentraram as portas abertas do casarão, se dispersaram, andando por entre as pessoas, tentando passar, cortar caminho, pedirem licença/foi mal e atravessarem a sala, para, enfim, alcançarem seus destinos em sentidos contrários.
encontrou um casal aos amassos na cozinha, bem no canto, mas nem se importaram com sua presença.
O garoto abriu o freezer, buscando uma garrafa d'água dentro. Ao fechar, uma voz suave e levemente alterada chamou sua atenção:
— Pega outra aí!
Era um pedido curto e claro. Sem acréscimo de nada.
O semblante sereno tornou-se impaciente, à espera da realização do seu pedido simples.
abriu e fechou.
— Aqui. — Estendeu a garrafa, e a garota recebeu, sem agradecer. — De nada.
Ela virou as costas e escutou a insinuação.
— O que disse?
— Nada. — Abriu a própria garrafa, bebericando o conteúdo, os olhos nos dela, felinos.
Clarissa colocou uma mão na cintura.
— Não vou perder meu tempo com você.
Enquanto a via ir, saindo da cozinha e desaparecendo entre os outros, terminou de beber a água e andou para os aposentos laterais, a fim de encontrar o amigo.
— E aí?
O amigo suspirou.
— Minha noite não acaba porque molharam minha camisa.
— Quer dizer que pretende ficar?
— Você não tá curtindo, né? Pode ir. O movimento foi pra você vir, apenas.
observou ao redor, ponderando.
O casarão localizava-se no outro lado do rio, em Celeste, longe da orla. Para retornar a Campestre, teria que ser por ônibus ou barca, já que o carro usado para levá-los fora o do amigo mais velho.
— Eu vou lá fora, tomar ar.
sentou-se na grama da frente, num espaço reservado, onde havia pouco movimento, dobrando os joelhos e confirmando presença e participação no novo evento de skate que seria realizado mês que vem. Ergueu a cabeça, os olhos em direção ao céu limpo, e fechou-os. Neste instante, escutou vozes alteradas vindas da lateral da casa. Alguém brigava num tom alto, e o garoto desistiu de prestar atenção enquanto escutava. Parecia resultado de um casal enciumado e bêbado... O que, para esta festa, serviria como entrada. Guardou o aparelho no bolso da calça e inclinou-se para se levantar, quando o som de vidro espatifando no chão ecoou fraco, mas o suficiente para que o alcançasse e retomasse a ruga de preocupação entre as sobrancelhas.
O casal estava passando dos limites.
aproximou-se para enxergá-los e e concluir do que se tratava:
Duas mulheres discutindo.
Uma estava claramente alterada, enquanto a outra tentava frear e abafar a situação calorosa e desconfortável.
Para isso e como resultado de tanto pacifismo, recebeu um tapa na face, e a outra mulher se foi, xingando-a.
achou estranho e analisou a figura encolhida da que sofrera a agressão.
Ela arrumou o cabelo.
— Olha o Jtê ali! — O de cabelo laranja apontou.
afastou-se de vista, e a garota virou-se de lado, sem olhar para ele.
— Cansaram? Vão embora?
— Pela madrugada. Agora, é a hora de pico.
— Se formos, perderemos o melhor da festa, que são as oportunidades.
, cara, animação! — Deu um tapinha em seu ombro. — Estava indo às entocas?
— Não. — Olhou para trás involuntariamente. — Escutei algo...
— Entendi. Fica com a chave do meu carro, mas não nos deixe. — Entregou-lhe a chave do veículo. — Posso acabar sendo vítima de pegadinhas ou dormir num canto...
— Caso o carro não esteja no estacionamento, posso ter sido vencido pelo sono e dormido no volante... Na garagem da minha casa.
— Não é doido!
— Confie não, que eu não garanto nada.
— Passa essa chave pra cá, vacilão! — Pegou rapidamente, vendo-os gozarem do seu gesto. — Vou encher meu copo.
O de cabelo laranja ofereceu seu copo com água e entrou.
retornou ao mesmo ponto, sentando-se outra vez. Cheirou a borda do copo para conferir se realmente o líquido era água, mas, não convencido, derramou.
Uma garota agachou-se ao seu lado.
— Eu vi que você assistiu aquilo — disse. — Gostou da ceninha?
abriu a boca, embora nada tenha dito.
— Perdão, não...
— Duas mulheres assim, brigando, deve ser excitante pra car*lho! — explicou, terminado o conteúdo da caneca. Acabou sentando-se de qualquer maneira na grama. — Você é gay?
— Não.
— Então... Bi?
— Hétero.
— Gostou do que viu?
Em condições sóbrias, apostaria que a garota não faria perguntas e sentaria para bater papo com um desconhecido.
Até porque a dita cuja não perderia tempo.
— Para ser sincero, não. Achei que fosse um casal.
— Não somos um casal — retorquiu. — Ela é minha colega de curso. Deu a louca e tentou me bater/abraçar quando me viu conversando com uma menina. Morde e assopra. Ali atrás, estávamos tentando resolver o mal entendido. Ela é hétero, não deveria estar dando em cima de mim... — Posou os lábios molhados na borda da caneca, virando-a e percebendo, enfim, que havia acabado. — Eu acho.
— Estamos falando sobre isso, mesmo? Não me interessa que sua amiga esteja a fim de você, dizendo ser hétero.
— Ok.
olhou para ela, vendo-a com os olhos irritados devido ao álcool.
— Provavelmente, não me lembrarei disso amanhã, mas o que você acha dessa festa? — perguntava meio grogue. — Tá aqui, com o copo vazio, sem bafo, sóbrio... Algo não tá certo com você.
— Sério? Porque tô me sentindo bem, apesar de nada disso ser a minha praia.
Clarissa assimilou o próprio argumento, sem conclui-lo.
— Eu vou dançar. — Levantou-se com custo, quase tropeçando nos pés, e ergueu-se para levá-la, ao menos, salva; sem tocá-la, apenas mantendo-se perto. — Não, você fica. Tá parecendo de mal com a vida.
— E você tá parecendo uma suicida social.
Ela começou a rir, de repente.
— O que foi?
— Não sabe quem sou.
— Veterana, de exatas, uns 20 anos...
— A idade você acertou — disse.
— Tá fazendo calourisse?
— Não, passei de fase. — Sorriu. — Pode me deixar sozinha, a partir daqui. Vou procurar minhas amigas... Me resolver com aquela vadia... Tchau! — Deus as costas a . Depois, se virou, pondo o braço na lateral da porta de correr, que foi movida, desequilibrando-a. — Acho que não é seguro me deixar sozinha... Eu posso acabar caindo... Como agora.
revirou os olhos.
— Tô atrás de você.

***


Meire e Cassinha ficaram até tarde sentadas na calçada da casa de , despedindo-se, como se a morena fosse mudar de cidade e não de colégio. Comemoraram a ida dos skatistas ao prédio, pois a maioria dava um “caldo” e, além disso, estavam mesmo precisando de distrações, já que o mar secou para garotos bonitos no Jão Barracão. Quando souberam onde o Val Campestre rezidia, adoraram ter consciência de que era num campus de faculdade. A probabilidade de arranjar um crush era de um milhão em um. Até no ônibus, que transportavam muitos, poderiam!
Quando veio ao mundo foi de bunda virada para a lua.
— Sorte de principiante! — contrapôs Meire, após a fala de Cassinha. — Tenho uma novidade para contar a vocês. — Assumiu um tom hesitante.
— Joga na roda.
— Hum... Talvez, eu me mude para a particular.
— Como é, Meiriane? Tá louca?! Vai me deixar sozinha?
A voz de Cassinha era como uma nota aguda que causava aquele tom fino nos tímpanos.
— Vocês estão zoando, não é? Resolveram prestar testes para outras escolas, e eu? Nossa amizade? Não tô acreditando que vão me abandonar, largada, aqui! Pretendem mudar de sobrenome também? Meire, esses riquinhos acabarão influenciando e aflorando sua natureza egoísta, como todo ser humano tem.
— Bem, se isso for verdade, estarei mostrando apenas o que sou. Você sabe que Meire é antônimo de egoísmo. Rico e pobre estão separados pelo dinheiro, por oportunidades... Mas não resumimos cada um pelo pelo que possuem. Resumimos pelo que são. Põe isso na sua cabecinha desparafusada! — Tocou devagar na têmpora de Cassinha, a magricela. — Não tá nada confirmado e, se tu estivesse em minha posição, eu assumiria a felicidade em ter uma amiga avançando.
concordou.
— Por que ninguém me contou que os planos mudaram? Que iriam sair? Quando as seletivas começaram?
— A desse colégio terminou na semana passada.
— Você sabe que foi a minha terceira tentativa no Val! — refrisou , pacientemente. — Mudando de escola, continuaremos as mesmas.
— Não é assim que funciona.
— Com você, seremos e Meire. Tudo bem?
Cassinha suspirou, ainda resmungando.
— Cortem aqui. — Mostrou os dedos juntos.

Na festa, Clarissa se remexia, sem sair do lugar, os braços para cima, mais semelhante a uma vovó que a uma jovem de 20 anos. não poderia reclamar, nem criticar, não apenas pela falta de intimidade, como também por ser um cara tão de humanas a ponto de ser achar com alma de velho.
Dançar era coisa de outro mundo!
Por afinidade, o skate ofereceu vantagens de poder por a culpa no esporte, desde as competições, a cobrança, para que pudesse se livrar de paradas chatas e sem graças arquitetadas por amigos da faculdade.
Ela só pensa em beijar, beijar, beijar, beijaaar... E vem comigo dançar, dançar, dançar, dançar. — A amiga de Clarissa aproximou-se, abraçando-a. — Amiga, te amo!
— Ama nada, vadia! Tô aqui, sendo bulinada por um cara que nem conheço!
— Quem?
Clarissa e ela olharam para , que estava disperso, conversando com o amigo.
— Gatinho...
— Você tem um gosto suspeito.
— Cala a boca e... — desconversou. — Por que não fica com ele? Ninguém saberá amanhã, mesmo. Vou dar uma voltinha!
O amigo de a acompanhou com o olhar.
Então, Clarissa movimentou o corpo para frente, para perto do garoto, e este analisou sua face nivelada à altura dele. Embora fosse maior, Clarissa usava salto alto. Ela encenou ter sido empurrada, o que a levou aos braços firmes de .
O garoto a segurou pelos ombros.
— Já que tu ótima, pelo visto, vou indo...
— Espera! — Deteve a mão em seu braço quando ele iria se virar. — Ela só quer saber de beijar.
— Quem?
Puxou-o para si, colocando a mão num lado do seu rosto e alcançando os lábios dele, que se mantiveram, no primeiro toque, parados e lentos.
— Eu.
Recuperando-se da iniciativa e ousadia da desconhecida, demorou a por a mão em sua nuca e se apossar da sua boca com gosto de álcool, o que, para si, não era bom. Sugou seu lábio inferior, deslizando os dentes, e os olhos entreabertos de Clarissa focaram na imagem sensual, mesmo estando bêbada e tudo ao redor parecesse girar, tal como o toque e o próprio garoto.
Ela encostou brevemente a cabeça em seu peito.
— Acho que vou gofar.



Continua...



Nota da autora: (24/06/2018) Vamos lá?! Voltei!



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