FFOBS - Tudo Errado, por Ray


Tudo Errado

Última atualização: 07/09/2018

Prólogo

(2008)

Os dedos curtos alcançaram o espelho, averiguando o resultado do pó branco em seu rosto. Parecia um fantasma, porém as colegas de classe insistiam em negar que estivesse ridículo. Para elas, aquilo era necessário na incorporação do personagem da peça teatral.
Princesas são brancas.
As três levantaram-se, apanhando as mochilas e demais pertences no quarto dela, protagonista eleita pela professora, e, antes que se retirassem do aposento, a mãe da pré-adolescente abriu a porta para checar o silêncio de quatro garotinhas de 12 anos em pleno sábado à tarde.
A mulher sorriu para cada uma e olhou para a filha, que estava de costas, preparando-se para limpar a face.
— O que significa isso?
Ela virou a cabeça.
— Serei a princesa Leona.
— Que porcaria é essa no seu rosto?
— Era só pra incorporar o personagem.
— Quem inventou? Existem apenas princesas brancas? Incorporar personagem em que você tem que ser branca? Onde já se viu isso?
As colegas saíram bem antes.
— Ganhei um papel de destaque na peça da escola. Por favor, não atrapalhe!
— Um papel em que precisa se passar por garota de pele clara? Qual é o prestígio? Ser branco? Lave o rosto.
— Não.
— Eu não estou pedindo.
— Mas vale pontos!
— Vou te esbofetear, caso insista! Você tem tanto a aprender... — Observou a filha se encolher na cama. — Querida, escute. Não quis ser grossa e nem te machucar. Fere querer que você seja algo que não é? É o que estão fazendo.
— Eu não entendo.
— Entenderá quando rirem de você na peça.


Capítulo 1

O primeiro semestre do ano de 2015 teve início.
As aulas, o preenchimento das vagas remanescentes em escolas da rede pública, reavaliação da grade de ensino e contratação de novos professores também. Em Campestre, fazia calor como nunca, sob um sol de rachar, e as ruas dos colégios estavam engarrafadas.
Longe dali, num bairro próximo ao Projeto, na saída da cidade, viviam pessoas carentes, como , que acordava às 5h para conseguir arrumar o cabelo, trocar de roupa, raramente, engolir pão seco com café — quando tinha na mesa — e chegar a tempo ao ponto das vãs. Dali, era só atravessar a pista e entrar no prédio visualmente abandonado, onde estudava, nomeado “Jão Barracão”. Como não haviam recebido verbas suficientes da prefeitura para os reparos na estrutura física e material, além de contratação de professores especializados nas matérias, de todo o Ensino Médio, o único que funcionava no recinto, e nem para torná-lo integral, pois não tratava-se de colégio de referência, os alunos aproveitavam para comer às dez o que deveriam comer quando acordaram e, às onze e cinquenta, horário da saída, almoçarem, visando a falta de comida nas casas de muitos.
Uma dessas, inclusive, era a casa de .
, nós vai comer na sua casa, qualquer dia — avisou a amiga, sentada de costas para a lousa, com uma lixa de unha em mãos. — Prepare-se, porque a Meire come por nós três juntas!
Conformada, Meire sorriu.
— Mano, mãe não... Às vezes, falta, né?
encostou a cabeça na parede, apoiada numa carteira ao lado, e suspirou.
'Às vezes' era um eufemismo.
— O ano mal teve início, e tô propondo e aconselhando abertamente que vocês, meus alunos, tentem vaga em outra escola. É a primeira vez que digo isso, porque, na última reunião dos professores, recebemos a péssima e detestável notícia de que sofreremos cortes.
O burburinho de adolescentes e jovens adultos, repetentes em potencial, causou uma simulação de um dia numa feira do bairro ao escutarem Derileusa, de Geografia, confessar.
— Acalmem os ânimos, crianças! — pediu, gesticulando. — Ninguém sabia. Estou partilhando informações “confidenciais”, até determinado período, pois acredito em todos aqui. Evito exceções. De verdade, vocês têm que crescer e buscar suprir o déficit do nosso ensino. Na lista de prioridades da prefeitura, a educação pode esperar. Ensinar vocês a pensar para que? Em que? Se, nesta sala, formarmos jovens pensantes, na próxima eleição, o prefeito não será reeleito. Entendem essa linha de raciocínio?
Os alunos reclamaram, fizeram baderna, ovacionaram o prefeito, até que pararam de falar aos poucos, após planejarem uma rebelião em frente à prefeitura na sexta-feira. Obviamente, a professora tentou persuadi-los a não cometerem vandalismos, apenas reivindicarem seus direitos. Em seguida, deixou a aula seguir, lendo um texto sobre determinação para alcançar sonhos e sonhos para ter determinação, além dos deveres e obrigações do corpo docente.
Por ser primeiro dia de aula do terceiro ano, foram liberados, sem atividades e início de conteúdos.
desceu a escada do pátio, indo ao encontro das amigas, e abraçou cada uma, antes de voltar para casa.

***


A avó de , dona Tamy, perdeu o marido. Portadora de um vírus, aos 60 anos de idade, causou-se novamente, cinco anos depois, e perdeu o segundo marido para a cirrose. Vivendo, no total, 25 anos casada, decidiu, a partir de então, não mais se comprometer com alguém. Estava cansada de chorar a morte de ente querido. Dos três amores da sua vida. Como a mãe de , sua filha mais velha, faleceu, acabou tornando-se guardiã legal da neta e a criou para defender suas convicções, mesmo, inconscientemente, impondo alguns dos conceitos de antigamente, que já eram ultrapassados.
Vó! chamou, fechando a porta atrás de si, e colocou a bolsa de pano, costurada pela senhora, sobre o sofá de dois assentos. — Cheguei!
— Comeu na escola?
— Sim. — Ela cruzou as mãos. — Estava pensando... A senhora bem que podia me deixar ir, um dia desses, à feira, né?
— Mas tu pode, ué! Tem duas pernas, graças a Deus!
balançou a cabeça.
— Não, , é pra vender... Ficar lá, te ajudando, montar uma barraca maior... Rende mais dinheiro!
— Não, não, não! — dizia com o dedo em riste. — Você vai estudar e ser gente.
— Eu já sou gente!
— Gente com dinheiro! Rios de dinheiro... Mares, oceanos! É o que sua mãe iria querer.
— Não serei milionária.
Tocar na palavra 'mãe' sempre descavava uma ferida e causava uma dor dilacerante nela, que imaginava ter superado a perda. Sofria quando sentia sua falta, revia fotografias ou a avó falava dela, de como era. Então saber que a própria mãe tinha o desejo de vê-la se tornar bem sucedida, culta, que ia à conferências, assumia cargos altos em empresas, montava seu negócio e prosperava, lhe servia como recarga de energia para que não perdesse o foco, desistisse ou tivesse medo do presente.
Todo dia é um dia a menos do futuro, portanto, ele já começou.
— Mas será independente! — continuou, trazendo-a ao presente. — Não precisará de bolsa do governo, nem visitar o SUS. É o que queremos para você. Lembre que não estarei aqui para sempre. Morrer é a forma com encerraremos o ciclo da vida. Nossa despedida.
— Que conversa mais mórbida! Impressionante como a senhora muda de um assunto para outro! Olha, , não se preocupe, tá bem? Nada me impedirá de trilhar esse caminho aí. Sairei, hoje, para arranjar um emprego, nem que a senhora ache ruim. Falo sério!

De um bairro pobre a um da classe alta, localizada na Orla, viviam três amigos: Paulo, desistente da banda The Nacionais; César, filho da elite, branco, de olhos azuis claros; e Clarissa, irmã dele, estudante de Psicologia na UCA, parecida com o irmão, em traços e trejeitos, exceto pela cor dos olhos. Ambos viviam a dar festas em casa, no casarão e a ostentar viagens luxuosas. Paulo nasceu em Rondônia, mas foi criado numa cidade próxima à Campestre, até vir, após o resultado do vestibular, morar aqui. Acabou dividindo, através de um círculo grande de amizades, a casa com os irmãos Delman, que o abrigaram, comovidos com a falta de teto e de recursos. Por mais inesperado que fosse, eles tiverem um resquício de compaixão e ofereceram um quarto ao rapaz, que mudou-se para lá no dia seguinte, adorando a vista para o rio e a ponte. Paulo carregava ambição e sede de posse, como os Delman, e isso contribuiu para a formação de uma aliança.
Os três estudavam na Universidade de Campestre, matriculados para o novo semestre, em cursos e períodos distintos.
Dirigindo o carro esportivo dado pelo pai, César estacionou o veículo na vaga do estacionamento da faculdade, retirou o cinto e saiu, tal como os outros. Acionou o alarme e esperou a irmã, que vinha logo atrás, colocando o óculos de sol sobre o nariz.
Paulo se despediu e entrou por uma porta dianteira, enquanto eles seguiam caminho.
A parte da frente do prédio funcionava como sede de cursos de exatas, e a de trás, mais a do lado, biológicas e humanas. Cada um seguiu para corredores opostos.
No domingo, haveria a primeira Calourada15, com direito a open bar de diversas bebidas, além de um palco para atrações musicais. As senhas estavam sendo vendidas por alguns estudantes e em pontos de entrega, como, por exemplo, os quiosques.
Reorganizado pelas turmas passadas das Engenharias, o evento seria realizado no casarão, que, constantemente, era palco para as datas comemorativas da família Delman.
— Eu não preciso comprar, né? — César perguntou a uma colega de curso.
— Se não quiser ir, não.
— Você sabe quem sou eu?
— Um playboyzinho que se acha o “pica das galáxias” por... Usufruir do dinheiro do pai? — Posou a mão no queixo, pensativa. — Isso mesmo.
— Não vou dar uma resposta afiada, que você merece, porque é bonitinha demais, mas ó! — Colocou a cédula de cinquenta reais no bolso frontal da camisa da garota. — Tá aqui o seu pagamento.
Enquanto César saía da frente, Miúda, apelido carinhoso dado a Micaela, estudante de Engenharia de Pesca, quis amassar o dinheiro para que ele visse que aquilo poderia mudar momentaneamente a visão que as pessoas interesseiras mantinham ao seu respeito, vendendo uma imagem idiota, mas não comprar educação, que, para ela, vinha de berço.

Clarissa sentou-se no banco frio do corredor do prédio, ao lado da amiga, e viu dois estudantes atravessarem a porta de uma sala e descerem a escada. Um deles virou o rosto, olhando para trás com curiosidade, e ela arqueou a sobrancelha, em deboche.
Engraçado como pessoas feias querem pessoas bonitas e esperam conseguir algo, muito provavelmente, para provar que beleza não é tudo.
— Ele é gatinho! — a amiga disse, despertando-a dos questionamentos internos.
— Não faz meu tipo.
— Você é bem seletiva. Qual é o seu tipo?
Clarissa olhou para ela.
— Por que essa pergunta?
— Curiosidade.
— Definitivamente, ninguém que use aparelho, óculos e se vista como um derrotado.

Capítulo 2

A segunda semana estava sendo mais leve que a primeira. Na primeira, não deram início a fundo do conteúdo, e na segunda, um pouco menos que na anterior. Jão Barracão não era colégio para ninguém que quisesse “ser gente”, aprovado no vestibular e, principalmente, numa universidade pública! Estranho era ter e querer sair de um colégio da rede pública e almejar uma universidade dessa.
Algo errado não estava certo.
via os professores faltarem aula, enrolarem para entrarem nas salas, ministrarem aulas de situações adversas sobre suas respectivas vidas privadas, desrespeitando os próprios alunos e, depois, cobrarem conteúdo não visto. Também via, da mesma carteira, no meio da sala, professores incentivando aluno, correndo atrás de ajudar em alguma deficiência, darem a aula com amor a profissão e cobrarem exatamente o que foi visto. Alunos estudiosos e desinteressados. Todos no mesmo barco à deriva, soprados pelas pausas do descaso da prefeitura, tentando cruzar a linha de chegada, que era a aprovação no vestibular. E em alguma universidade em Campestre.
Nenhum deles tinha condições financeiras de bancar custos lá fora.
!
Ela se virou, e seu cabelo escorrido com muita dor e horas no salão deu forma aos traços marcantes da face.
— O que eu fiz?
— Nada, não. Quero falar com você, agora, por cinco minutinhos, antes que vá ao refeitório — a professora Derileusa disse. — Estive conversando com outros professores, e todos nós concordarmos que você é uma excelente aluna; dedicada, inteligente... Então concluímos que, para uma aluna de alto nível e mais interessada que muitos, o Jão não é pra você. Nunca foi. Eu sabia disso, mas não havia o que fazer, já que os melhores colégios nesta cidade são os mais caros. Os públicos de referência têm burocracias para aceitarem novos alunos. O que poderia ser feito? Bolsas de estudo são concorridas. Você está num nível acima dos demais daqui, mas é estudante da municipal, tá abaixo do nível das escolas privadas. Entende? Apesar de ser um rendimento bom, não é o suficiente e, por isso, peço que tente a transferência para o Val Campestre.
Em silêncio, assimilava as palavras proferidas.
— Não tenho como custear minha ida à cidade universitária. Gosto daqui. Fiz amigos aqui. Nem, ao menos, sabia dessa abertura de vagas remanescentes...
— Minha cunhada e colega de profissão é professora de lá e me informou a respeito.
— Mas não dá! É inviável! Quando eu teria que ir?
— Até esta manhã. Já são 10h20. Não daria tempo... — falou num tom desanimado, propositalmente. — Há uma lista com mais de cem nomes, e ela adicionou o seu.
— Professora!
— Eu não cumpriria meu papel de educadora se te educasse para se conformar com este recinto. Ele está abaixo do seu nível. Todo mundo vê! Escute mais uma coisa. Caso necessite de uma ajudinha, eu me responsabilizo em fornecer os passes da vã. Estamos de acordo?
— Preciso contar à minha avó.
— Tudo bem. Você não tem nada a perder. Espero, de todo o meu coração, não te encontrar em minha aula na próxima semana. Que fique claro que não é nada pessoal! — Caminhou até a porta, detendo-se. — Por favor, me convide para sua formatura da graduação.

Meire e Cassinha esperavam-na à mesa do refeitório mal estruturado, como, praticamente, tudo dentro do prédio. Comiam, intercalando com comentários aleatórios, até a chegada de , que sentou-se de frente para elas.
— Não vai comer?
— Estou sem fome.
— O que houve com a Derilesa?
— Não fale assim da melhor do mundo! — pediu Meire. — Estudar a longitude para o coração do meu oriental nunca mais foi a mesma coisa, depois que ela me explicou.
Meire mantinha um relacionamento virtual com um garoto do Japão desde que o conheceu num site. A partir daí, trocavam e-mails e conversavam via Skype.
— Fala, !
— A professora quer que eu me mude para o Val Campestre.
— Sério? — Meire disse.
— Como assim? Você vai abandonar nóis?
— Não tá nada confirmado ainda e, independentemente da minha transferência, mudarei de escola, mas não de endereço. Vocês sabem onde eu moro!

***


Paulo e César estavam rodeados de mulheres no estacionamento — apenas quatro, sem contar com a irmã, que vinha vagarosamente, observando-os por sobre o óculos de sol preto. Paulo nunca teve nenhuma garota aos seus pés, mas andar e se tornar parte do círculo social de César Delman transformava um loser da “época” da escola em um almofadinha na faculdade.
— O que vocês querem? — Clarissa perguntou às mulheres.
— O César prometeu carona — uma delas respondeu, inabalada, com voz manhosa.
— Em troca de que? Não! Nem me diga! — Ergueu a mão, entrando no carro.
Miúda descia a escada do prédio, dirigindo-se à saída do campus, quando escutou o carro de César cantar pneu. Virou-se para o lado, fitando a amiga, que sugeriu que fossem ao Val Campestre, antes de pegarem o ônibus.
— Existe alguém que consegue ser irrevogavelmente chato como o nosso amigo? — Ann colocou o braço sobre os ombros do rapaz de cabelo escuro, mechas bagunçadas, alargador pequeno na orelha, barba por fazer, desde que ingressou no sistema, e sobrancelhas grossas.
Os olhos verdes encararam os de Ann, que virou o rosto dele.
— Skatista não faz o meu tipo.
— Ah, não? — Ele riu fraco, bem-humorado. — Qual é o seu tipo de homem?
— A questão é exatamente esta: homens. Garotos não fazem o meu tipo.
— É como diz a letra: “Perto de uma mulher são só garotos”. — Miúda insinuou. — Desculpa, amigo!
Ele balançou a cabeça, inconformado, e segurou a face ruborizada e delicada de Ann, lhe dando um beijo demorado, e repetiu em Micaela.
— Tenho que checar os horários das reposições, agora. Verei vocês na praça da Catedral.
O rapaz seguiu em linha reta, passou pela biblioteca, subindo os degraus da escada e atravessando o corredor largo do pavilhão universitário, até a diretoria. Bateu na porta e entrou.

colocava os pratos sobre a mesa, junto com os talheres e copos, enquanto a avó terminava de cozinhar. Sentou-se à mesa retangular de mármore e posou o rosto entre as mãos escuras.
— O que foi? — Frase copiada de pela avó. — Alguém te destratou?
— O que a senhora acha de eu sair do Jão Barracão?
— Tá pensando em largar os estudos? — Olhou para ela, desconfiada. — Veja bem, , o que vai fazer!
— Não, pedir transferência para o Val Campestre. É uma das melhores escolas públicas daqui.
— A gente tentou uma, duas, três vezes matricular você naquele bendito colégio, mas não havia vaga.
— Eu me lembro. Acontece que é diferente, agora. A professora disse que tenho potencial e não deve ser desperdiçado com o ensino fraco do Jão. Estão cortando verbas. Já imaginou o colégio sem verbas? Daqui a pouco será fechado!
— Como vai fazer pra estudar no outro?
— Essa professora tem contatos e conseguiu quem pusesse meu nome na lista de interessados nas vagas remanescentes. É muito importante, pra mim, que a senhora concorde.
— Jeová da glória! Claro que concordo! Só não sei como faremos pra pagar os passes de cada dia... É dinheiro tirado de onde não tem.
— Tenho reservas, e a professora garantiu ajudar.
— Sendo assim, esperemos essa lista ser atualizada e o resultado sair.
— Nós saberemos amanhã.

Capítulo 3

Na última sexta, voluntários se reuniram para levar roupas que não serviam, brinquedos conservados, mas inutilizados pelos donos, e cestas básicas aos moradores do Projeto, doando às famílias mais carentes. Além de doações, revezavam-se nos refeitórios das escolas e nas creches para atender as crianças e os jovens estudantes. No primeiro lote do bairro, o N1, haviam apenas dois colégios ativos: um deles era o Jão Barracão.
O grupo, que se dividiu, restando cinco pessoas, entrou no prédio, contatando a diretora, e dois foram à cozinha, local de preparo dos alimentos, vestiram o avental e puseram a touca.
— Não tô com fome — disse , ansiosa. — A professora deve estar me poupando de uma frustração, mas, desta vez, não foi eu quem criou expectativa.
Meire colocou o braço entre o seu.
— A Cassinha entenderá, caso você realmente vá pra outra escola. É importante pra você, por razões óbvias, e importante pra mim, por te ver avançar.
— Obrigada pelo apoio, de verdade!
— Agora, vamos pegar bolinho.
— Tô enjoada...
— Eu como por você, sem problemas!
sorriu e, de braços dados, foram pegar a fila enorme para o lanche. Depois, prestes a chegar a vez delas, a mais nova, que estava ao lado, conversando distraidamente, escutou o cozinheiro chamar o próximo.
— Aqui. — Ele colocou bolinhos no balcão. — Para você e sua amiga.
nem se mexeu.
, mulher, a comida não vai criar asas e voar pra nossa mão, não!
— Não quero comer.
— Já disse que como por você! — Apanhou todos os bolinhos, enchendo as mãos, sob o olhar do cozinheiro. — Nem dá pra alimentar as lombrigas com isto. Elas comem ou eu como. Difícil, né?
a empurrou para fora da fila, deixando-a falar pelos cotovelos, enquanto seguiam para as mesas.
— Ele não perguntou nada.
— Não sou movida à pergunta. Qual é a probabilidade de ter bolinho amanhã? Nenhuma. Devemos aproveitar!
A professora Derileusa iria buscar frutas na cozinha para levar à sala dos professores e avistou sentada. Daí, ela a chamou com um gesto.
— Alguma notícia? — Ansiosa e com risco de sofrer danos irreversíveis, suspirou.
— Nada, até agora. Não se preocupe. Assim que eu tiver uma posição para dar, informarei. Chamei você exatamente pra te tranquilizar. Tenho certeza de que, independentemente de surgirem vagas ou não, você continua sendo excelente. Vou buscar fruta. Quer uma?
— Não, obrigada.

Na hora da saída, havia uma reca de skatistas do outro lado da grade do colégio, esperando — o que, os alunos não sabiam, até verem cinco voluntários deixando o prédio. Eles se vestiam com roupas comuns e não tinham tanto, visualmente, do esteriótipo.
Um desses, alto, de boné, beijou a menina na boca, e o outro colocou o skate no chão, deixando apenas o rastro da sua sombra.
Os garotos do Jão Barracão permaneceram no mesmo lugar, observando, como se tivessem assistido a uma apresentação radical.
O esporte une as pessoas.
Na escada, descendo, foi chamada outra vez pela professora e soube que seu nome estava em segundo na lista. No dia seguinte, seria nova aluna do Val Campestre.
— Lá, eles usam farda. O preço tá em conta. Eu arranjarei uma pra você. Parabéns! Boa sorte!
— Muito obrigada!

***


O rapaz correu para dentro do campus, atravessando a área aberta em cima do skate, e encontrou suas amigas, que estavam encostadas na parede do prédio, à espera. Deram tapinhas na tela do celular, insinuando que ele estava atrasado.
— Onde você se meteu, cara? — Ann perguntou, de braços cruzados.
— No fim do mundo, sério! Fui ao Projeto.
— Tá atrasado pra aula de reposição. Vai substituir quem, afinal?
— A professora de Literatura.
Eles se despediram e o jovem skatista, vestido com roupas mais formais, camisa de manga curta, que revelava metade dos seus bíceps, entrou na sala dos professores do Val Campestre. Cumprimentou a coordenadora, alguns professores e tomou posse do caderno de frequência das turmas dos terceiros anos e uma do segundo, por menos de uma semana, já que ministraria devido a falta do professor. No caso das turmas dos terceiros anos, seria em torno de dois meses, no máximo, até a volta da professora, que pediu licença após uma cirurgia. O último substituto saiu por motivos que ele não teve acesso, mas garantiram que a desistência fora por conta da carga horária.
Escutando atentamente as explicações da coordenadora deste pavilhão, seguiu a jovem senhora pelo corredor, até a porta da sala vazia.
A coordenadora olhou para os lados, sem entender, e o rapaz continuou na mesma posição, achando, genuinamente, que alguém fez algo extremamente louco ao ponto de ganhar a atenção de todos, principalmente, dos mais dedicados. Aguardou em silêncio uma providência.
— Fugiram? — perguntou.
— Aposto que todo mundo achou que fosse uma velha chata que nem a outra professora, pô! — disse uma aluna sentada no banco de concreto. — O plano era filar¹ aula para que fôssemos embora cedo.
A coordenadora colocou as mãos na cintura.
— Bom saber! Olha quem está vindo... — Moveu a mão, chamando atenção de todos, que foram entrando na sala de aula.
As meninas observavam o novo professor substituto com uma curiosidade demasiada.
Ele nem efetivo era, muito menos estagiário, apenas cobriria aulas que contariam como nota no semestre.
— Olá, pessoal! — falou num tom neutro, e os alunos permaneceram quietos. — Meu nome é , sou estudante de Letras e, a partir de hoje, professor substituto dos terceiros anos. Tenho convicção de que não haverão grandes problemas por aqui. Estou sendo bem otimista. — Cruzou os braços ao finalizar o discurso breve de apresentação e ouviu as risadinhas que escaparam de alunas sentadas na frente.
— Essas darão trabalho... — avisou a coordenadora.
— É do que, professor?
.
A adolescente, que já usava o celular de forma escondida, digitou o nome dele na barra de pesquisa do Facebook.
— É pra te stalkear! — um garoto avisou, recebendo o olhar mortal dela.
— Claro que é! Professor maneiro desse... Cheio de estilo... — a amiga da adolescente ditava. — Tá de parabéns! Digo, pela aula... Será bem proveitosa!
, fique à vontade para retirar alguém da sala. Quando tivermos uma conversinha, na próxima vez, ela virá soletrando a palavra “respeito” de forma sagrada.
maneou a cabeça.
Obtinha consciência com o que lidaria e que o único objetivo era dar o assunto, fazendo o aprendizado ser eficaz. Ter alunas investindo com suas piadinhas na ponta da língua, preparadas, não o pegaria de surpresa, até porque, definitivamente, agiria como um profissional formado.
— Pode dar sua aula, agora. Bom dia!
— Obrigado! — buscou o livro na bolsa transversal sobre a mesa, mais umas anotações, o caderno de frequência e pegou o pincel. — Bom, abram... Não, tô zoando. Trouxe um texto bem bacana.
Com essa gíria, muitos, rapidamente, inverteram a impressão em relação ao desconhecido, e outros, mais resistentes, prosseguiram com uma aversão tangível, mesmo que, certamente, algo houvesse mudado.
O professor estava tentando se enturmar ou realmente fazia parte da turma.
— Li este texto centenas de vezes com uma pessoa quando éramos crianças e, depois, sozinho, para entender a essência, pois, aos 10 anos, não havia como por em prática o que consegui aos 16. Para começarmos o ano reflexivos, animados e esperançosos... — Pigarreou. — “É loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou. Entregar todos os teus sonhos porque um deles não se realizou. Perder a fé em todas as orações porque em uma não foi atendido. Desistir de todos os esforços porque um deles fracassou. É loucura condenar todas as amizades porque uma te traiu, descrer de todo amor porque um deles foi infiel. É loucura jogar fora todas as chances de ser feliz porque uma tentativa não deu certo. Espero que, na tua caminhada, não cometa essas loucuras. Lembrando que sempre há uma outra chance, uma outra amizade, um outro amor, uma nova força. Para todo fim, um recomeço”. É um texto do 'O Pequeno Príncipe', do francês Antoine de Saint-Exupéryn, um daqueles raros livros infantis que penetra e nos deixa com muitos questionamentos. É atemporal. Para vocês terem uma ideia, este texto foi escrito em 1943. Hoje, estou relendo e tenho certeza de que algum de vocês já leu. O romance mostra uma profunda mudança de valores e revela ao leitor o quão equivocados podem ser os nossos julgamentos, e como eles podem nos levar a sermos solitários, resumidamente. Dito isso, lembrem-se de que é preciso terminar um ciclo para que outro comece, que pessoas se encontrem e que, ainda que pareça doloroso o início, o meio pode ser alterado, e o final é consequência da sua escolha feita lá atrás. Reflexão de cada dia. Vamos lá! Abram na página 5, por favor.
As adolescentes sorriam com essa injeção de ânimo, e um ou outro garoto zombava em voz baixa.

Ann e Miúda esperavam o amigo sob o quiosque em frente à faculdade, entediadas. apareceu depois, com uma adolescente em seu encalço, fazendo perguntas de assuntos que seriam vistos nas próximas semanas. Respondendo pacientemente e sanando dúvidas mais simples, despediu-se dela e atravessou a rua.
— Como foi o primeiro dia, prof ? — Ann questionou.
— Interessante.
— De 1 a 10, quanto você daria aos alunos do Ensino Médio?
— De modo geral, hoje, daria 9.5, porque fugiram da aula. Todo mundo estava fora da sala. Perdemos tempo. Se isso virar rotina, vira bagunça, e eu sou um cara organizado, vocês sabem.
— Amigo, tô pior que Sócrates! Não sei de nada do que tu dizendo. — Miúda opinou. — Desculpa!
— Seus alunos são minha cópia, e você me atura até hoje, então tá tudo certo.
revirou os olhos e foi abraçado por Micaela, que agarrou seu corpo, de repente.
— Tô carente.
— O não serve pra suprir suas carências.
Ele beijou a cabeça dela.
— Quem disse?
— Ué! — afastou o rosto. — Pode isso, Ann?
— Não pode, não. Amizade colorida não presta em “dupla de três”. Eu chuparia o dedo.
Micaela largou .
— Arranjo um pra você.
— Tô correndo de relacionamento.
— Então não reclama quando eu estiver pegando o .
— Agora, ele é pegável? Pensei que fosse um ser etéreo.
— Vocês estão ligadas que eu tô aqui, né? Sou, da cabeça aos pés, pegável, querida Ann. As meninas não me pegam muito porque sou altamente inflamável. Acendo rápido e incendeio todas.
Micaela e Ann trocaram olhares, caindo na gargalha.
— Vou embora, depois dessa confição desnecessária.
, afasta! — pediu Miúda. — Credo!
a abraçou e a levou ao ponto de ônibus, atrás de Ann, que andava com um headfone.

¹Filar aula significa deixar de assisti-la por não estar a fim.

Capítulo 4

As senhas para a Calourada15 foram esgotadas em menos de duas semanas. O casarão, local do evento, encontrava-se evidentemente lotado com muitos estudantes revezando entre o lado de fora e a sala, possuindo acesso ao andar de cima. Ali, todo mundo se misturava. Por motivos dos mais variados, tratavam-se como se fossem conhecidos. Já que era open, só ir direto ao bar! Nesta multidão, sentado no sofá, as pernas compridas afastadas, César sorria de uma piadinha devassa contada por uma caloura que, até o presente momento da abordagem dela, ele não fazia ideia de que curso, período e em que campus estudava. Teve um lapso de consciência, perguntando, ao menos, seu nome, ainda que, secretamente, estivesse despreocupado em relação a esse detalhe. Não queria estender o diálogo para que terminasse em troca de telefone e saídas casuais no futuro. A moça era bonita, cheirosa, maior de idade e não tinha frescura. De onde vinha e o que faria não era da sua conta.
Distante do irmão, Clarissa tomou outro gole generoso da cerveja dentro da caneca trazida de casa. Tinha paranoia excessiva e cautela desmedida em relação aos objetos em que eram servidos as bebidas. Como se fosse intocável, experimentava o líquido, apoiada no parapeito da segunda sala, seu cabelo sendo movido pela mão, que o despenteava. Vestia uma legging rasgada nas coxas magras e uma blusa larga. Tudo de grife. Os olhos negros fitaram a caneca meio vazia e, depois, a cerveja foi derramada no jardim. Desta altura, despreocupada, apenas se virou e deixou a sala, descendo a escada, para retornar à sala principal, onde a festa em si acontecia, de fato.
No andar de baixo, sentado à beira da janela, assistindo aos flashes do jogo de luz da sala iluminar o jardim, observou o amigo ser molhado por algo que caiu do andar de cima, provavelmente, de um ser bêbado.
— É cerveja. — O jovem skatista cheirou a camisa, sentindo o odor.
e outros dois também sentiram devido ao vento soprado na direção deles.
— Que azar do caramba passar justamente na hora em que jogaram o resto na terra!
— Pelo menos, não foi gofo.
— E nem havia muito.
O amigo deles ergueu os braços.
— Estão de brincadeira, né? Não tem graça! Como é que eu vou pegar alguém, hoje? Porra! Gente bêbada só faz merda!
— Ah, então tá explicado a lista de merda que tu fez e pôs a culpa no álcool no organismo.
— Claro, tudo culpa da falta de razão. E, pra desencargo de consciência, não bebo pra cair. Raramente, eu dou uns goles.
— O foda é cair, porque quem tá vendo dá pra filmar e sacanear pelo resto da vida.
balançou a cabeça para os dois amigos beberrões.
Detestava aquilo.
Nem sabia o porquê da sua visita ao casarão e participação na calourada. Estes o chamaram, insistiram e, por fim, para convencê-lo e, em seguida, chantageá-lo, compraram a senha. Alegaram que, para ele, seria bem vantajoso visualmente: iluminaria os olhos com a beleza das mulheres e descontrairia, para variar. Se fosse esperto e menos antissocial, conseguiria arranjar uma para si.
— Vou lá no banheiro, limpar isso. Fiquem aí!
— Darei uma volta pelos arredores, caçar pokegatas.
levantou-se a seguir.
— Essa foi de sangrar os ouvidos.
— Qual é?! Aqui sabe inventar!
— Beleza! Vou caçar água! — Caminhou pela grama com o amigo de cabelo pintado de laranja.
Após adentraram as portas abertas do casarão, se dispersaram, andando por entre as pessoas, tentando passar, cortar caminho, pedirem licença/foi mal e atravessarem a sala, para, enfim, alcançarem seus destinos em sentidos contrários.
encontrou um casal aos amassos na cozinha, bem no canto, mas nem se importaram com sua presença.
O garoto abriu o freezer, buscando uma garrafa d'água dentro. Ao fechar, uma voz suave e levemente alterada chamou sua atenção:
— Pega outra aí!
Era um pedido curto e claro. Sem acréscimo de nada.
O semblante sereno tornou-se impaciente, à espera da realização do seu pedido simples.
abriu e fechou.
— Aqui. — Estendeu a garrafa, e a garota recebeu, sem agradecer. — De nada.
Ela virou as costas e escutou a insinuação.
— O que disse?
— Nada. — Abriu a própria garrafa, bebericando o conteúdo, os olhos nos dela, felinos.
Clarissa colocou uma mão na cintura.
— Não vou perder meu tempo com você.
Enquanto a via ir, saindo da cozinha e desaparecendo entre os outros, terminou de beber a água e andou para os aposentos laterais, a fim de encontrar o amigo.
— E aí?
O amigo suspirou.
— Minha noite não acaba porque molharam minha camisa.
— Quer dizer que pretende ficar?
— Você não tá curtindo, né? Pode ir. O movimento foi pra você vir, apenas.
observou ao redor, ponderando.
O casarão localizava-se no outro lado do rio, em Celeste, longe da orla. Para retornar a Campestre, teria que ser por ônibus ou barca, já que o carro usado para levá-los fora o do amigo mais velho.
— Eu vou lá fora, tomar ar.
sentou-se na grama da frente, num espaço reservado, onde havia pouco movimento, dobrando os joelhos e confirmando presença e participação no novo evento de skate que seria realizado mês que vem. Ergueu a cabeça, os olhos em direção ao céu limpo, e fechou-os. Neste instante, escutou vozes alteradas vindas da lateral da casa. Alguém brigava num tom alto, e o garoto desistiu de prestar atenção enquanto escutava. Parecia resultado de um casal enciumado e bêbado... O que, para esta festa, serviria como entrada. Guardou o aparelho no bolso da calça e inclinou-se para se levantar, quando o som de vidro espatifando no chão ecoou fraco, mas o suficiente para que o alcançasse e retomasse a ruga de preocupação entre as sobrancelhas.
O casal estava passando dos limites.
aproximou-se para enxergá-los e e concluir do que se tratava:
Duas mulheres discutindo.
Uma estava claramente alterada, enquanto a outra tentava frear e abafar a situação calorosa e desconfortável.
Para isso e como resultado de tanto pacifismo, recebeu um tapa na face, e a outra mulher se foi, xingando-a.
achou estranho e analisou a figura encolhida da que sofrera a agressão.
Ela arrumou o cabelo.
— Olha o Jtê ali! — O de cabelo laranja apontou.
afastou-se de vista, e a garota virou-se de lado, sem olhar para ele.
— Cansaram? Vão embora?
— Pela madrugada. Agora, é a hora de pico.
— Se formos, perderemos o melhor da festa, que são as oportunidades.
, cara, animação! — Deu um tapinha em seu ombro. — Estava indo às entocas?
— Não. — Olhou para trás involuntariamente. — Escutei algo...
— Entendi. Fica com a chave do meu carro, mas não nos deixe. — Entregou-lhe a chave do veículo. — Posso acabar sendo vítima de pegadinhas ou dormir num canto...
— Caso o carro não esteja no estacionamento, posso ter sido vencido pelo sono e dormido no volante... Na garagem da minha casa.
— Não é doido!
— Confie não, que eu não garanto nada!
— Passa essa chave pra cá, vacilão! — Pegou rapidamente, vendo-os gozarem do seu gesto. — Vou encher meu copo.
O de cabelo laranja ofereceu seu copo com água e entrou.
retornou ao mesmo ponto, sentando-se outra vez. Cheirou a borda do copo para conferir se realmente o líquido era água, mas, não convencido, derramou.
Uma garota agachou-se ao seu lado.
— Eu vi que você assistiu aquilo — disse. — Gostou da ceninha?
abriu a boca, embora nada tenha dito.
— Perdão. Eu não...
— Duas mulheres brigando deve ser excitante pra car*lho! — explicou, terminado o conteúdo da caneca. Acabou sentando-se de qualquer maneira na grama. — Você é gay?
— Não.
— Então... Bi?
— Hétero.
— Gostou do que viu?
Em condições sóbrias, apostaria que a garota não faria perguntas e sentaria para bater papo com um desconhecido.
Até porque a dita cuja não perderia tempo.
— Para ser sincero, não. Achei que fosse um casal.
— Não somos um casal — retorquiu. — Ela é minha colega de curso. Deu a louca e tentou me bater/abraçar quando me viu conversando com uma menina. Morde e assopra. Ali atrás, estávamos tentando resolver o mal entendido. Ela é hétero, não deveria estar dando em cima de mim... — Posou os lábios molhados na borda da caneca, virando-a e percebendo, enfim, que havia acabado. — Eu acho.
— Estamos falando sobre isso, mesmo? Não me interessa que sua amiga esteja a fim de você, dizendo ser hétero.
— Ok.
olhou para ela, vendo-a com os olhos irritados devido ao álcool.
— Provavelmente, não me lembrarei disso amanhã, mas o que você acha dessa festa? — perguntava meio grogue. — Tá aqui, com o copo vazio, sem bafo, sóbrio... Algo não tá certo com você.
— Sério? Porque tô me sentindo bem, apesar de nada disso ser a minha praia.
Clarissa assimilou o próprio argumento, sem conclui-lo.
— Eu vou dançar. — Levantou-se com custo, quase tropeçando nos pés, e ergueu-se para levá-la, ao menos, salva; sem tocá-la, apenas mantendo-se perto. — Não, você fica. Tá parecendo de mal com a vida.
— E você tá parecendo uma suicida social.
Ela começou a rir, de repente.
— O que foi?
— Não sabe quem sou.
— Veterana, de exatas, uns 20 anos...
— A idade você acertou — disse.
— Tá fazendo calourisse?
— Não, passei de fase. — Sorriu. — Pode me deixar sozinha, a partir daqui. Vou procurar minhas amigas... Me resolver com aquela vadia... Tchau! — Deus as costas a . Depois, se virou, pondo o braço na lateral da porta de correr, que foi movida, desequilibrando-a. — Acho que não é seguro me deixar sozinha... Eu posso acabar caindo... Como agora.
revirou os olhos.
— Tô atrás de você.

***


Meire e Cassinha ficaram até tarde sentadas na calçada da casa de , despedindo-se, como se a morena fosse mudar de cidade e não de colégio. Comemoraram a ida dos skatistas ao prédio, pois a maioria dava um “caldo” e, além disso, estavam mesmo precisando de distrações, já que o mar secou para garotos bonitos no Jão Barracão. Quando souberam onde o Val Campestre rezidia, adoraram ter consciência de que era num campus de faculdade. A probabilidade de arranjar um crush era de um milhão em um. Até no ônibus, que transportavam muitos, poderiam!
Quando veio ao mundo foi de bunda virada para a lua.
— Sorte de principiante! — contrapôs Meire, após a fala de Cassinha. — Tenho uma novidade para contar a vocês. — Assumiu um tom hesitante.
— Joga na roda.
— Então, talvez, eu me mude para a particular.
— Como é, Meiriane? Tá louca?! Vai me deixar sozinha?
A voz de Cassinha era como uma nota aguda que causava aquele tom fino nos tímpanos.
— Vocês estão zoando, não é? Resolveram prestar testes para outras escolas, e eu? Nossa amizade? Não tô acreditando que vão me abandonar, largada, aqui! Pretendem mudar de sobrenome também? Meire, esses riquinhos acabarão influenciando e aflorando sua natureza egoísta, como todo ser humano tem.
— Bem, se isso for verdade, estarei mostrando apenas o que sou. Você sabe que Meire é antônimo de egoísmo. Rico e pobre estão separados pelo dinheiro, por oportunidades... Mas não resumimos cada um pelo pelo que possuem. Resumimos pelo que são. Põe isso na sua cabecinha desparafusada! — Tocou devagar na têmpora de Cassinha, a magricela. — Não tá nada confirmado e, se tu estivesse em minha posição, eu assumiria a felicidade em ter uma amiga avançando.
concordou.
— Por que ninguém me contou que os planos mudaram? Que iriam sair? Quando as seletivas começaram?
— A desse colégio terminou na semana passada.
— Você sabe que foi a minha terceira tentativa no Val! — refrisou , pacientemente. — Mudando de escola, continuaremos as mesmas.
— Não é assim que funciona.
— Com você, seremos e Meire. Tudo bem?
Cassinha suspirou, ainda resmungando.
— Cortem aqui. — Mostrou os dedos juntos.

Na festa, Clarissa se remexia, sem sair do lugar, os braços para cima, mais semelhante a uma vovó que a uma jovem de 20 anos. não poderia reclamar, nem criticar, não apenas pela falta de intimidade, como também por ser um cara tão de humanas a ponto de ser achar com alma de velho.
Dançar era coisa de outro mundo!
Por afinidade, o skate ofereceu vantagens de poder por a culpa no esporte, desde as competições, a cobrança, para que pudesse se livrar de paradas chatas e sem graças arquitetadas por amigos da faculdade.
Ela só pensa em beijar, beijar, beijar, beijaaar... E vem comigo dançar, dançar, dançar, dançar. — A amiga de Clarissa aproximou-se, abraçando-a. — Amiga, te amo!
— Ama nada, vadia! Tô aqui, sendo bulinada por um cara que nem conheço!
— Quem?
Clarissa e ela olharam para , que estava disperso, conversando com o amigo.
— Gatinho...
— Você tem um gosto suspeito.
— Cala a boca e... — desconversou. — Por que não fica com ele? Ninguém saberá amanhã, mesmo. Vou dar uma voltinha!
O amigo de a acompanhou com o olhar.
Então, Clarissa movimentou o corpo para frente, para perto do garoto, e este analisou sua face nivelada à altura dele. Embora fosse maior, Clarissa usava salto alto. Ela encenou ter sido empurrada, o que a levou aos braços firmes de .
O garoto a segurou pelos ombros.
— Já que tu ótima, pelo visto, vou indo...
— Espera! — Deteve a mão em seu braço quando ele iria se virar. — Ela só quer saber de beijar.
— Quem?
Puxou-o para si, colocando a mão num lado do seu rosto e alcançando os lábios dele, que se mantiveram, no primeiro toque, parados e lentos.
— Eu.
Recuperando-se da iniciativa e ousadia da desconhecida, demorou a por a mão em sua nuca e se apossar da sua boca com gosto de álcool, o que, para si, não era bom. Sugou seu lábio inferior, deslizando os dentes, e os olhos entreabertos de Clarissa focaram na imagem sensual, mesmo estando bêbada e tudo ao redor parecesse girar, tal como o toque e o próprio garoto.
Ela encostou brevemente a cabeça em seu peito.
— Acho que vou gofar.

Capítulo 5

Na manhã de segunda-feira ensolarada, , vestida com calça jeans e a blusa do Val Campestre, desde que não tinha sua numeração da parte de baixo, releu o nome da Universidade de Campestre, antes de atravessar a grade e a área vazia. Este lado do prédio estava deserto, exceto pela presença do porteiro e de uma zeladora. Cumprimentou cada um e foi instruída a ir diretamente à sala da turma A, que localizava-se no outro pavilhão.
Andando em linha reta na direção ditada, passou pelos banheiros, cantinas e refeitórios, salas, corredores, murais, bancos, até dobrar no corredor e prosseguir. Dali, conseguiu enxergar colegas sentados no banco de concreto em frente à primeira sala dos terceiros anos do Ensino Médio, com blusas personalizadas, onde, a partir deste dia, estudaria.
Os três garotos ergueram o olhar de seus celulares, enquanto riam, para sua figura acanhada e ansiosa.
— Oi — um deles disse, do nada. Por simpatia ou educação, recebeu as palavras como se fossem um bálsamo. — Tá perdida?
— Eu sou novata. Acabei de ser transferida de outro colégio.
— Foi expulsa? — o outro questionou, cético.
— Não, pedi a transferência quando consegui a bolsa pra cá. Vocês são desta sala?
— Sim, tá tendo teste aí — explicou. — Como não sabíamos, pusemos nossos nomes e saímos.
— É brincadeira. — O primeiro garoto bateu na testa do amigo.
— O que eu faço? Entro?
— Senta e relaxa. Nossa turma é bem legalzinha, pra não dizer forçada e desunida. Tentamos fazer as pazes constantemente, mas rola muita treta, e nos perdemos no meio.
— Fique tranquila, , porque sabemos tratar uma novata como ela merece — galanteou.
sorriu, sentando-se do outro lado do corredor, de frente para eles.
— Como vocês se chamam?
— Os três mosqueteiros.
— Eu sou o Vitório, este é o Vitinho e o Braga Nunes.
— Marlom Braga Nunes — corrigiu. — Anote meu nome, que tu ouvirás falar muito de mim.
— Por quê?
— Marlom é skatista amador. Foi mal, cara! Skatista experiente, quase profissional. Quer participar do campeonato nacional.
— Braga Nunes tá demais! Solteiro, na pista, rindo à toa, é vaidoso, malha... — Vitinho insinuou. — À espera de um empurrão na vida amorosa!
Braga Nunes o fulminou.
— Cala a boca! — Virou-se em direção à adolescente. — Não liga, não.
— Como é o seu nome?
.
— De onde tu vens?
— Jão Barracão. É no Projeto.
— Hum... Tô me situando... — Vitinho fitou o celular. — Área rural, né?
— Sim.
Vitório parou de olhar para quando a professora veio pelo corredor, pronta para ministrar a aula.

Miúda virou no corredor da UCA, no prédio de Engenharia, e esbarrou em um corpo alto, atlético, de cabelo escuro. Era um dos clã Muniz-Delman, mas, por sorte, não o mais velho, riquinho e estudante de outro curso.
Paulo virou-se, interrompendo o diálogo com um rapaz, e Miúda parou para se desculpar:
— Foi mal, Paulo!
— Como é que você sabe meu nome?
— Você anda com o clã... O cara mais bajulado desta universidade. É incrível como ele consegue ter tantos fãs sem fazer nada!
Paulo despediu-se do colega de turma e retornou a atenção a Micaela, de mechas castanhas avermelhadas, franjinha, óculos de grau redondo sobre o nariz afilado e rosto de traços proeminentes.
— Cortou o cabelo... — Ele notou. — Costumo ter um grau de percepção minucioso — explicou o comentário. — César é objeto de adoração porque é um Delman, a família mais rica de Campestre.
— A respeito do meu cabelo, fiz uma franja. Você concorda comigo que ele serve apenas para ser servido e é fonte de futilidades. Não sofreu uma lavagem cerebral, ao menos.
— O que quero dizer é que até eu sou fã dele. — Sorriu. — Fica na sua, gracinha. Tenho certeza de que quem tá muito incomodada com a vida pessoal dele é você, então você é quem tem probleminhas.
Miúda refutaria, se não fosse pela presença inesperada de Clarissa, que aproximou-se de Paulo.
— O que tanto conversam? — questionou, sem interesse. — Paulo, meu irmão tá te chamando lá fora.
O campus da UCA em Campestre era relativamente pequeno e a distância entre os prédios era curta.
— Tá. — Ele maneou a cabeça para Micaela e se foi.
Clarissa olhou para Miúda.
— Perdeu alguma coisa em meu rosto? Minha maquiagem tá borrada? — perguntou num tom esnobe. — Hein?
— Vai arrancar meus olhos? Porque não vou parar de olhar enquanto estiver na minha frente.
Clarissa foi chamada.
— Classe C invocada.

***

A porta da sala do terceiro ano A foi aberta, e um professor com mochila, livro da matéria a ser aplicada na mão, vestido com camisa xadrez preta e azul, jeans e o cabelo com gel entrou tranquilamente, em silêncio. Para algumas alunas, que, a partir da apresentação do professor, trocaram de assento, no intuito de checar a fisionomia do novato, prestar atenção nele, inventar piadinhas literárias e receber aqueles olhares fixos no meio da explicação era um mistério. Na cabeça de cada uma, o professor virou o crush, justamente, por ser poucos anos mais velho e ter um estilo diferente.
— Bom dia, professor! — uma delas disse, entusiasmada, com seu sotaque forte do interior. — A noite foi boa?
— Acordou bem...
depositou a mochila sobre a mesa e olhou para elas.
— ...Alegre.
— Dia, crianças! — respondeu. — Eu tô, pra falar a verdade, feito zumbi. Hoje, não trouxe texto motivacional, infelizmente, mas compensarei com uma frase que está no livro na página 31. Por favor, abram!
estava retornando à sala com Vitinho e Vitório, segurando a bolsa, e parou diante da porta.
— Professor, ela é novata. Acabou de vir do Projeto! — anunciou Vitinho.
interrompeu o pincel em riste, virando-se de lado.
— Seja bem-vinda! — Maneou a cabeça para . — Onde vocês estavam? Quando eu entrar, quero todos os alunos, dispostos a assistir a aula, dentro da sala.
— Pensei que você fosse gente boa...
— Fomos com a à diretoria — rapidamente, Vitório interviu.
— São regras da escola. Não estão estabelecidas por acaso. Por favor, sentem-se! , meu nome é , substituto da professora Sandrinha, enquanto a mesma está de licença, e leciono Literatura. Continuaremos a aula na página 31. Você recebeu os livros?
— Não. — Sentou-se na carteira do canto. — Tô meio perdida.
Vitinho abriu os braços, colocando-os atrás dos corpos de Marlom e Vitório, que estavam sentados ao seu lado, relaxado.
— O Vitório vai com você.
— Eu? — questionou, cético. — A inspetora te orientará depois, . Não se preocupe.
Shhh! — uma garota sentada na frente reclamou. — Se não perceberam, estamos querendo prestar atenção!
Vitinho olhou para a lousa, e a figura de costas escrevia.
— Na bunda do ?
A garota lançou uma borracha, ato menos arriscado, em direção a ele, que a pegou no ar, debochando em seguida.
— Pirou?! Eu, hein! Tenho cara de quem toma chá de audácia desse jeito, Victor?
— Até demais! Você não nasceu com a inclinação a ser piriguete à toa! Deveria ter fugido, mas tá no sangue, né?
Vitório tapou a boca de Vitinho.
— Fica quieto!
— Para de bostejar pela boca, seu babaca!
virou-se e ergueu os braços.
— Ôpa! Calma, crianças! Querem dar uma volta?
Vitinho e a menina, de nome Andreia, trocaram olhares que poderiam assustar, menos um ao outro.
— Sai logo, Andreia.
— Vai ver se eu tô na esquina!
— A menina é braba! — alfinetou Marlom.
— Fora, os dois! — esticou o braço.
Angêla ergueu-se lentamente e caminhou para fora.
— Tô logo atrás dela, ! — falou num tom ácido. — Boa aula, amigos confinados! — Bateu continência.
— Três minutos para copiarem tudo, antes de eu apagar.

Dali a algumas horas, respondia as amigas por mensagem, enquanto, sozinha, comia o pão com ovo sentada num banco de concreto. Dispersa, não notou a presença serena e inesperada de um garoto magro e alto, com óculos de grau, acomodando-se ao seu lado, o salgado intocado na mão.
— Tudo bem no mundo virtual?
olhou para Vitório e sorriu.
— Tudo, e no seu?
— Não vou mentir que não uso as redes sociais, mas evito. Quero aproveitar as ferramentas de estudo e meu mundo real.
— Confesso que, inúmeras vezes, eu quis apenas me manter embaixo do cobertor para fugir da realidade.
— Então estamos sempre fugindo de alguma tentação.
— Sim...
Vitório mordeu a coxinha de frango.
— Sabe, você não precisa ficar sozinha aqui, se quiser. Deu para notar que nossa turma, apesar das tretas, é receptiva?
— Eu me senti acolhida.
— Que bom!
Braga Nunes aproximou-se, agitado, em seu habitual caminhado apressado.
— Notaram que o tal foi mais chato que da primeira vez? Ele demonstrou o lado bonzinho pra tentar ganhar fama e confiança da nossa turma. Certamente, recebeu alguns olhares intencionais e concluiu que não precisava mais da máscara.
— Ah, lhe dê um crédito. Ele nem formado é! Tá aprendendo a gerir uma sala de aula do Ensino Médio com cópias de alunos do 5ª ano.
— Bem, até esta manhã, eu não tinha uma opinião formada a respeito dele, mas, agora... Ah, agora, tenho. Não é das boas!
Vitório sorriu.
— Eu te disse que amo este cara, ? — Levantou-se, segurando o rosto de Braga Nunes. — Você é um mito!
Braga Nunes se desvencilhou.
— Tá me estranhando?
— Longe de mim! Não quero te induzir a nada.
riu fraco.
— Essa coisa que vocês têm é contagiosa?
— Isso é irmandade. Fica conosco, que você entra.
— Não é assim. Tem que me cativar! — contrapôs Braga Nunes. — A última do grupo entrou e fez um arrastão, esmagando corações.
— Verdade. Não foi apenas pisar, foi pisar e arrastar no asfalto. Os feridos tiveram que ser atendidos rapidamente e superaram.
abriu e fechou a boca.
— Nossa!
— Você não sabe de nada.
— Nem viu, mas verá!

Capítulo 6

Ontem, horas antes da aula

apanhou o skate e pendurou sob o braço, atravessando a área aberta e deserta da faculdade com seu casaco amarrado na cintura. Limpou os olhos com os dedos e notou um carro ser estacionado próximo dali. Dele, um veterano de Psicologia e sua suposta namorada desceram.
Virou-se para frente, deparando-se com o tamanho de Miúda, que ergueu a sobrancelha.
— Não me diga que tá de olho na caloura, !
— O namorado da moça não é surdo.
— Não vai negar?
— Que ataque repentino é esse? Não tô interessado nela. Satisfiz sua curiosidade?
— Uma parte — respondeu, desconfiada, mesmo ciente de que não tinha fama de “roubar” e ser pivô de término dos relacionamentos alheios.
Nenhuma fama, vocação para títulos infames, nem talento, embora fosse skatista reconhecido e vencedor de títulos importantes no esporte.
— Por enquanto! — acrescentou.
— Tenho que ir pra aula. Depois, eu darei uma no Ensino Médio.
— Adolescentes?!
— Não se esqueça de que você acabou de sair da escola.
— Mas eu ingressei na faculdade logo! Tenho quase 19! Respeite meu esforço!
— Eu tenho quase 20, se serve de parâmetro.
Micaela revirou os olhos.
— Idoso!
— Alma envelhecida, de qualquer jeito. Nem a idade é capaz de disfarçar isso!
— Defeito — corrigiu. — Você se cobra e se leva a sério demasiadamente, como se quisesse direcionar sua frustração a alguém.
— É por isso que treino. Já fui mais autocrítico. Evoluí nos últimos meses.
— É... Existem controvérsias. Não serei permissiva e nem má com você. Agora, dê-me um abraço, pois tenho que correr pra apresentar o seminário no auditório.
envolveu seu corpo com as mãos espalmadas sobre as costas dela.
— Atrapalho? — perguntou Ann.
— Não.
— Sinto cheiro de ciúme no vento... — Micaela cantarolou, em deboche, afastando-se de , que a manteve perto com seu braço em volta.
Ela se desvencilhou do abraço, após uma troca de ideia rápida, e seguiu na frente com Ann, enquanto ia atrás, no próprio ritmo.
A menor subiu a escada, despedindo-se, e Ann parou, virando-se para o amigo.
Sem perceberem, Clarissa andava com seu óculos de sol e, desta vez, para ocultar a ressaca nos olhos negros, expressões faciais que a entregaria facilmente. Se tão somente esse fosse o porquê, nem se importaria. Porém, além disso, o fato do resultado da maquiagem estar, aparentemente, vencida, não colaborava.
Olhou para os dois.
Por tempo indeterminado, numa análise distraída, observando muito mais que a circulação amena de estudantes, pareceu recobrar o sentido.
Reconheceu a fisionomia de um.
A mulher ao seu lado puxou o braço dela.
— Ai! — reclamou com acidez provida da própria personalidade mais a noite mal dormida.
— Vixe! Essa daí acordou com o capeta do lado!
— Cala a boca, Ann! — interviu . — Daqui ao seu prédio é pertinho, então anda sem mexer com ninguém.
— Até parece que eu te obedeço!
— É um conselho.
Ann maneou a cabeça, acenando.
Caminhou, determinada, para dentro do prédio. Subiu os degraus da escada, de dois em dois, visto que o elevador estava cheio, e ultrapassou alunos tranquilos em relação ao horário. Alcançou o piso do terceiro andar e dobrou, indo de encontro à outra pessoa.
Entrou na sala.

O campus da UCA em Campestre era relativamente pequeno e a distância entre os prédios era curta.
— Tá. — Ele maneou a cabeça para Micaela e se foi.
Clarissa olhou para Miúda.
— Perdeu alguma coisa em meu rosto? Minha maquiagem tá borrada? — perguntou num tom esnobe. — Hein?
— Vai arrancar meus olhos? Porque não vou parar de olhar enquanto estiver na minha frente.
Clarissa foi chamada.
— Classe C invocada.
Micaela revirou os olhos.

[Hoje, 09h20]
Ann: Miga.
Micaela: Q?
Ann: Cara, rolou uma treta maligna aqui.
Micaela: O q?
Ann: Tô arrasada!
Micaela: Ann, o q fizeram ctg?
Ann: A Delman fez.
Ann: Aquela fdp vai cair qdo pisar o pé no asfalto!
Ann: Se não pelo acaso, por mim!
Micaela: O q a desgraçada fez? Ela estava aqui há pouco, me chamando de classe C em tom hostil.
Ann: Tô indo pra casa
Ann: Me encontra no quiosque, agora, pfvr!

— Ela não tinha esse direito! Quem ela pensa que é?
— Ela pensa muita coisa, menos o que, de fato, é, como uma riquinha sem educação!
Ann tremia, recuperando-se dos soluços.
— Que vergonha!
— Não! Não é motivo seu de ter vergonha, mas dela! Ela é a vilã! Foi ela quem te humilhou em público por causa da porcaria de um trabalho!
— Eu quero esganá-la! Se ela sair, sou capaz de fazer arte!
— Arte não tem haver com violência.
Ann limpou os olhos.
— Antes que você ache que foi exagero, eu tô sensível.
— Não acho nada.
— O tá saindo do prédio... — Visualizou o amigo no campus, sob a tenda.
Imaginando que ele iria direto ao outro prédio, surpreenderam-se com o garoto atravessando a rua.
— Você tá legal? — questionou, preocupado, apoiando o corpo de Ann no seu. — Que babaca!
— Quem te contou?
— Micaela.
Miúda sorriu sem vontade.
— O insistiu.
— Eu preciso ir. Conversamos melhor daqui a uma hora, beleza?
— Estaremos em casa, de pernas para cima.
— Vocês têm aula, espertinhas.
— Vamos ao shopping. A Ann vai tomar sorvete, ver gente bonita e sorrir um pouco.
Ann descruzou os braços.
— Não sou uma menininha assustada. Eu lidarei com isso.
— Claro, tomando sorvete, no ar-condicionado, e comprando peças de roupas em até 12 vezes no cartão.
— Você tem um cartão? Que chique!
— Tenho cartão, só falta fundo.
beijou a cabeça de ambas, demostrando afeto, antes de retornar.
No retorno, notou e teve a estranha sensação de estar sendo analisado, e, se não fosse o suficiente, criticado.
Agoniado, olhou para o lado, deparando-se com duas moças cochichando. Virando a cabeça e, enfim, atravessando o restante do trajeto, um aluno alertou:
— Professor, uma aluna passou mal!

Capítulo 7

— Espalhou pra alguém que a Hilla fingiu desmaio? — uma adolescente corpulenta perguntou a outra, autoritária. — Olha bem pra mim! Se eu descobrir que foi você, tá lascada!
— Não fiz nada.
— Estamos de olho, vagabunda!
As duas saíram, e , afastada, observava a interação opressiva com a que permaneceu sentada. O medo nos olhos dela causava pânico e dó aos olhos de quem via.
— Tá bem, agora que elas saíram? — questionou gentilmente, acomodando-se ao seu lado. — Consegue respirar direito?
— Olha, não banca a boa moça, novata, porque irão começar a te notar, e estar sob a atenção delas pode ser mortal. São de uma gangue... Barra pesada, mesmo! Um monte de pivetes e encrenqueiras!
— Não gosto de briga, menos ainda de assistir a uma injusta, sem me meter.
— O que você faz?
— Grito por socorro.
A garota sorriu forçadamente.
— Não, o que você faz aqui.
— Não consegui apenas olhar. Me incomodou.
— Entendi. O pessoal daqui tende a fazer “vista grossa” para esses ocorridos, às vezes. Eles são indiferentes ao sofrimento alheio.
— Como você age, depois de ser coagida?
— Corro para o banheiro e choro, ou vomito, pois me sinto mal.
— Não informa a um funcionário?
— Elas vivem na coordenação. São da minha sala e capazes de induzirem os outros a me rejeitarem.
— Qual é a sua sala?
— Aquela, do terceiro ano. — Apontou.
— Acho que é o seu dia de sorte...
— Por quê? Acabo de ser ameaçada. Tá de deboche?!
deu de ombros.
— Ganhou uma amiga. E me ganhar não é fácil.
A garota ponderou.
Amostrada, você, hein!
— Pode andar comigo no recreio.

***


— Tá falando sério?
Braga Nunes e Vitório olharam para Vitinho, que ergueu o celular para ocultar sua face.
— Não sou eu quem tem que ficar maromba para se manter sobre o skate... — alfinetou. — Até porque não seria eu nem no planeta mais distante da Terra. E nem venha me dizer qual é, Vitório!
Vitório abaixou a mão.
— Depois, envio por sms.
— Nerdão! Quando reclama que é virgem, não há nem o que contestar. A explicação é óbvia: quem namora um cara que curte Los Hermanos, lê gibis, responde palavras-cruzadas, prefere suco a refrigerante, não bebe, fuma e nem sai de casa?
— O Vito sai, mas não curte, que nem você, que é doido pra aprender a surfar, mas não surfa.
— Vou surfar nas águas do rio. — Cruzou os braços cobertos por um casaco escuro. — Tá certo...
— Ah, mano, você tá sempre indo ao litoral! Isso é desculpa para o seu medo de água! Olha que nem tô fazendo pouco caso dele!
— Não é fobia. Só faltam oportunidades. Tenho que estar na água na hora certa, em que a melhor onda estiver vindo.
— Você é um amarelão! — concluiu Vitório, inabalável. — E, em relação ao meu jeito, me deixa ser eu. Também escuto Engenheiros e conheço sua falta de bom gosto pra música, mas nem por isso tô te criticando.
— O Vito é o maior e o único fã/ouvinte/que seja de Los Hermanos que você respeita! Agora, pare de ser chato e vamos entrar na sala!

Após cinco minutos da primeira aula do dia ter início, entrou, abrindo a porta com pesar e temendo que o quadro de horários estivesse errado e fosse aula do professor estagiário, que deveria ser de boas e não era.
— Entra, ! — chamou Vitinho, observando-a parada diante da porta aberta.
— Não é o UCAniano, não! — gracejou Braga Nunes, que riu fraco. — As aulas dele serão as últimas. Olha a serenidade no olhar do Vitório!
Vitório posou as mãos sobre as bochechas magras, na brincadeira, e ergueu as sobrancelhas para ela.
— Oi.
— Sente-se aí, ! — ele disse. — Bom dia!
— Dia. — Suspirou. — Eu tô toda... Nem sei como eu tô.
— Tá vestida.
Ela rolou os olhos.
— Jura?
— Noite ruim?
— Manhã ruim, eu diria... Não quero entrar em detalhes.
— Nem vou insistir. A aula é de Espanhol. Escolheu qual das línguas?
— Espanhol, e você?
— Também. Os traíras optaram pela “língua universal”, então eles ficam, e nós temos que sair. A sala é à direita.

A professora de Espanhol já estava elegantemente sentada à mesa quando os alunos chegaram e se espalharam pelas carteiras. Vitório escolheu a do meio, enquanto ficou com a do canto, e colocou todos os pertences sobre a mesa. Flexionou os braços atrás da cabeça e esperou.
Buenos dias, chicos!
Aquela frase simbólica nunca seria esquecida.
— Tenho um trabalhinho para vocês, que são adoráveis e estão com cara de que querem treinar nossa conversação, tal como pesquisar uma música na língua estudada, baixar, trazer a tradução e apresentá-la do modo que quiserem aqui. Nada de outro mundo, né?
— Ô!
— É obrigado cantar? — Vitório questionou, desanimado. — Se a senhora disser não, juro que tiro 10 na sua prova!
Ninguém se opôs, cientes de que, embora aparentasse ser terrivelmente complicado, ele tirava sem nem estudar.
— Só falo com a senhora em espanhol.
— Sendo assim...
— Não tá mais aqui quem falou.
— Pois bem, não foi uma sugestão, mas nova atividade avaliativa. Caso estejam indispostos, também estarei em pontuá-los. É um trabalho de descontração. Nada muito puxado, por enquanto. Detalhe: é em grupo. Pode ser até individual para quem se sentir mais à vontade.
Vitório olhou de relance para .
Ela não fez objeção, nem manifestou interesse.
— Dupla?
— Claro!
O garoto mordeu o lábio e virou-se de lado.
, é...
— Topo.
— Mas eu nem disse o que.
— Então faz.
— Oi?
— A pergunta.
— Ah, sim, então... P*ta merda... Vamos fazer juntos?
— Pode ser.
— Bom. Então tá. — Tornou à posição anterior. — Eu e a . do que?
.

***


— Nem vem, migo, porque tô na TPM!
Ann enxoltou , que iria abraçá-la, porém se deteve e agarrou Micaela.
— Não reclame e nem dê ataque de ciúme, mais tarde! — alertou Micaela.
— Dane-se!
— Ela tá atacada.
— Eu não disse nada. — ergueu os braços. — Olha, tenho que dar aula, depois das dez e meia, então, se vocês forem liberadas mais cedo, não me esperem, até porque vou treinar. Tô precisando extravasar e focar.
— Qualquer surto que tiver, deixe-me saber. Eu vou te ver e a gente resolve juntos. Beleza?
— Não se preocupe e não fique pensando nisso, não. Vou me sentir mal.
— Eu já tô, só não demonstro. Você é meu irmão, moleque, e isso é o mínimo que devo fazer!
Ann aproximou-se e abraçou os dois.
— Vocês me induzem a explodir ovários, com tanta declaração de amor às sete horas da manhã, seus putos! Por favor, eu só quero chorar e gritar, e ficar irritada por nada, curtindo o meu mau humor e mandando a cólica ir se lascar! Obrigada pela compreensão!
segurou o rosto de Ann e olhou em seus olhos.
— Você é realmente a Ann que tô acostumado, mas tá numa versão pauleira!
— Você não viu nada, migo.
— Espero estar morto para não ver.
! — as duas gritaram e o estapearam.
— Vão com calma! Depois dessa, tô indo...
— Dramático!
— Poser!
— Amador!
— Lindo!
— Tesudo!
— E gostoso. — Ann disse, por fim, de forma impensada, enquanto ele estava longe.
É o que?
— Fingimos que não vemos porque é amigo, mas possuímos um par de olhos, e há uma bunda na nossa frente, rebolando distraidamente... Também fingimos que eu nunca disse isso.
— Você tá louca?!
— Tô drogada. Efeito dos remédios. Deixa pra lá!
Miúda ainda permaneceu checando o estado visual da amiga.

Capítulo 8

— Música espanhola?
— É.
Vitinho trocou olhares com Braga Nunes.
— Henrique Iglesias.
'Bailando'.
— Nem morto!
— Ué! Você não vai dançar, só cantar. Que malícia existe nisso? Nenhuma. Não na minha cabeça santa, pelo menos.
— É trabalho em dupla.
— Com qual gatinha?
— A .
— Você escutou, Marlom? Ele disse “com a ’’. — Riu. — Então você concorda com o Marlom que ela é bonita... Tô anotando pra jogar na sua cara no futuro!
— E, por acaso, o Vito é cego, meu? é gente boa, bonita...
— Ela não faz meu tipo, embora não venha ao caso.
— Não é por que você não se atrai por alguém, que esse não seja belo.
— Pois é!
— Viraram defensores da afro?
Desta vez, Marlom e Vitório se olharam. Um apanhou a mochila e saiu, e o outro foi atrás, balançando a cabeça.

Quando adentrou a sala, somente o estagiário estava lá, em pé e curvado sobre a mesa, acessando a internet pelo notebook.
— Professor, desculpa atrapalhar! A coordenadora avisou que, devido a falta de energia pelo resto do dia, estamos liberados.
— Que pena — foi tudo o que se limitou a responder. Ocupado, digitou rapidamente e, posteriormente, desligou o notebook, abaixando a tela e guardando-o na mochila. Retirou o cardigã xadrez e o amarrou na cintura. — Preparei uma aula bem maneira! Obrigado por avisar, é...
.
— Isso! .
— Nome bem pequeno.
— Comparado ao meu, é extenso! — Brincou.
— Por que alunos têm mania de dizer o nome completo? — Vitinho perguntou, encostando-se na porta.
— Contatos — explicou . — É de suma importância manter contato, já que são os professores que nos indicarão para futuros chefes de trabalho.
— Olha, você tem um ponto. É inteligente fazer isso. É o princípio do networking, inclusive! Por exemplo, eu sou amigo da maioria dos meus professores e com interesse, sim, profissional. Priorizo minha carreira. Mas, , você tá na escola ainda, então relaxa. Não fica ansiosa por causa do futuro, pois ele não te pertence. Sofrer pelo que não é nosso é como alimentar uma dor infundada, ciente de que nunca terá fim se não for de forma óbvia: deixando pra lá. Garanto a você que não vale a pena!
— O senhor... Quer dizer, tu, com cara de 18 anos, sempre soube que queria ser professor? — Vitinho questionou.
— Sinceramente, não. Nunca soube. A ficha caiu quando eu estava em São Paulo, participando de uma etapa do campeonato de skate. Este estilo não é modinha, nem nada — relatou, apontando para si. — E, após competir, fui com meu pai e a minha irmã a uma feira de profissões. É bem maneiro, de verdade! Lá, conheci várias, tive contato direto com profissionais das áreas e tal, e me descobri como skatista. — Sorriu. — Mentira! Foi como professor. A escolha da disciplina veio mais tarde e é outra história. Quase optei por Física, pra vocês terem uma ideia!
— Um professor de Literatura com alma de físico: sensibilidade e ciência.
— Como você se chama?
— Victor.
— É bem o que você disse, Victor!
ponderou.
— Não sei que carreira seguir.
— Nem eu.
— Desejo que vocês sejam seres humanos evoluídos. Isso refletirá em todos os âmbitos das suas vidas!
— Boa, professor!
— Quantos anos você tem?
— Descubra! — disse ao Vitinho, e riu. — Se eu revelar, perderei até o respeito! Deixa assim, quieto. Ainda sou professor de vocês, queridos!
— Engraçadão...
— Menos meio ponto pela ironia! — virou-se de lado, buscando a mochila e pendurando no ombro. Pegou a bolsa de mão e os livros.
— Qual é, professor?!
— Quer ajuda? — perguntou .
— Por favor! — disse. — Meio ponto pra você pela gentileza! Mas não leve a sério tudo o que digo, tipo o que acabei de dizer.
— Tudo bem.
— Vamos, então. Abraços, Victor, e juízo!

***


Braga Nunes estava escorado na parede do corredor do Val Campestre, esperando o pai chegar, seu óculos de sol sobre o nariz, com a mochila e o celular em que digitava uma mensagem para os contatos.
Nesta posição, não notou, mas duas estudantes olhavam para ele, o garoto de cabelo cheio e loiro escuro, e comentavam sem discrição nenhuma.
Ele abaixou um pouco o óculos, visualizando com nitidez seus rostos, mas sem discernir de quem se tratava. Subiu e retornou a atenção ao que fazia.
— Vou mandar todo mundo tomar... Banho! — declarou Ann. — Tô de saco cheio!
Miúda tentou acalmá-la.
— Fala baixo!
— Eu vou gritar pra todo mundo ouvir que quero que Jean Carlos se foda!
— Pode ter algum X9 na área, mulher! Fica de boca fechada!
Disperso, Marlom observava a interação, o rosto impassível de expressão.
— Que homem terrível!
— Entendi.
— Pior que você e o juntos quando querem aprontar!
— Não fazemos tanto merda assim...
— Porque seguro vocês dois. Caso contrário, coitada das mães, que esperam os filhos retornarem ilesos!
— Se for pra dedurar, nem quero!
— Ah, é?
— Compro coxinha pra você.
— Gosto assim!
Marlom afastou-se da parede e seguiu pelo caminho, indo à grade, após seu pai ter buzinado. Diminuiu os passos ao alcançar a grade e abriu a porta, esperando pacientemente Ann e Micaela passarem na sua frente. A caucasiana, alta e magra, que sofreu bullying na escola devido a aparência física, virou-se para trás, vendo-o entrar no carro, e soltou um "Valeu, boy!" audível o suficiente, terminando com o "Meu novo namorado do colegial".
— Pedófila, tira o olho!
— Aposto que ele é mais experiente que eu! Esses novinhos surpreendem... — gracejou. — Espero que o tamanho do pau dele seja maior do que eu penso, ou a surpresa será desagradável.
Micaela tapou as orelhas.
— Não acredito no que você acabou de falar! Me prepara antes. E não confessa esses desejos nojentos a mim. O deve entender. Eu, não.
— Aposto cinquenta centavos que o mede o tamanho.
— Ele não seria capaz.
— Ah, você não é tão inocente a ponto de crer nisso. O só tem a cara de virjão.
— Então os seus preferidos são os que possuem a aparência de recatado, mas são safados?
— Na verdade, skatista é um pedaço de mau caminho, no sentido menos depravado.
— Isso significa algo entre você e o ?
— Entre eu e o meu amigo de longa data? Esquece!
— Se você não se importa, posso ficar com ele?

***


!
— Quem... — Ela virou-se no corredor da sala dos professores. — Ah! Oi, Vitório!
— Pode me chamar de Vito, se quiser, ou se for mais fácil de se lembrar.
— Tenho uma memória muito eficiente para gravar nomes.
— Acho que tenho isso, ó, porque não esqueço o seu. — Esboçou um sorriso genuíno. — Não queria te perturbar agora, mas é que na semana que vem não haverá aula, então pensei a respeito e achei que poderíamos começar o trabalho. Você nem precisa me aturar a tarde inteira, só uma hora! Tipo, na internet. Juro que não sou chato! Eu não chamo a todo minuto, nem nada...
sorriu.
— Você não parece ser desses.
— Que bom!
— Dê-me o seu número, e eu chamo você. Caso eu te chame duas, três vezes, é porque sou agoniada.
— Entendi. Vou estar esperando com o celular na mão, que é pra não te deixar aperriada.
— Obrigada! — Quase segurou sua mão, num gesto de gratidão. — É... O número.
— 87 - 99551...
— Salvei. Vou enviar... Pronto!
O som de notificação do WhatsApp soou no bolso da calça dele.
Era um emoji.
“Hey, ho!’’ — Digitou.
— Sério, Vitório? — Ela sorriu. — “Let's go!’’.
saiu da sala e acenou na direção deles, que o observaram.
— Ele tá acenando pra gente? Mesmo?
— Acena de volta e não reclama!

— Professor, descola uma carona! — pediu Vitinho, acompanhado por alunos de outra turma. — Passaremos num restaurante no centro.
— E eu lá tenho cara de taxista?
— WOW!
— Valeu, professor!
— Na real, só se for no meu skate. Carro, que é bom, não tenho. Ostentar só depois de dez anos no emprego.
— Somos nós quem te daremos carona, profe — uma das alunas do primeiro dia disse, inclinando o busto —, e sem cobrar nenhum centavo!
sorriu, meio sem graça, discreto.
— Estudem o capítulo inteiro!
Vitinho bateu em suas costas.
— Para que a pressa?
— A prova não vai mudar e tá pronta.
— Tudo bem. Pode arrochar! Somos estudantes de colégio de aplicação... Os feras!
— É isso que eu quero ouvir da boca de todos vocês, queridos! Vamos botar pra... Ferver! — Eles caçoaram devido a fuga ao palavrão. — Entenderam, né?
— Super!
— É regra da escola.
— Resolvi com minha namorada de que não poderia passar de um palavrão por dia, então eu guardo o momento oportuno e fadástico pra liberá-lo. Três é complicado... Requer castigo que nem eu sou capaz de suportar por mais de três dias!
As meninas murcharam por dentro.
O propósito do relato era simplesmente a finalidade que atingia: desencorajá-las. Desfazer qualquer pretensão de cada uma, independentemente dos seus atributos físicos para adolescentes de 17 anos.
Outro professor até aproveitaria as circunstâncias para participar da turma, ser liberal, amigável e sair para as festas.
Só que ele era o . E, por ser estagiário, não queria confundir as posições.
Lá fora, . Ali dentro, , professor substituto.
— Tchau!
— Tchau, professor!
— UCAniano!

Ann estava petrificada. Faltava o tom e a textura, vagando o olhar para os traços do rosto pequeno e arredondado em determinadas áreas, até retornarem às íris de cor castanho-escuro.
— Você e o ? — perguntou baixinho.
— Sim, o e eu.
Ela molhou os lábios e olhou para os próprios all stars vermelhos.
— Nunca cogitei o casal. Mas seria bonito. Não vou mentir que vocês combinam. Tipo, a estatura. A não ser o jeito “quero bajular a Ann, até ela sorrir’’. Possuem a mesma rotina, amigos em comum... Não vejo por que não daria certo. De qualquer forma, é apenas minha opinião.
Micaela posou as mãos no pescoço e sorriu.
— Bom saber que você apoia, mesmo sem esclarecer!
— É que é estranho, sabe? Deixa pra lá!
— Tu tem deixado muito assunto mal resolvido, e isso vai pesando nos ombros, na cabeça... E por que não no coração? Chegará um momento em que você não conseguirá sair do lugar e seguir adiante.
Ann balançou a cabeça.
— É falta de crush!
— Não insistirei. — Puxou seu braço, levando-a consigo. — Vou beijar a boca do e, depois, decidir se o peço em namoro.

Capítulo 9

[Hoje, 00h01]
da sala: Tá vivo?
Vitório:Meio
Vitório: Tô metade acordado, e a outra, dormindo
da sala: Então resolvemos como faremos o trab amanhã
Vitório: Mas hj já é amanhã
da sala: Mais tarde
Vitório: Minha definição de 'mais tarde' é depois do almoço
da sala: Arre égua!
Vitório: Kakakakaka
Vitório: Quase caio
da sala: Tá a fim de pesquisar algo agora?
Vitório: Vc tá?
da sala: Funciono durante o dia
Vitório: Me senti menos culpado
Vitório: O melhor horário, pra mim, é esse, q é qdo tô ouvindo um rock pesadão, não tem ngm pra perturbar meu juízo, coca-cola de 2 L no canto...
da sala: Rock pesado?
Vitório: Slipknot
da sala: Hum...
Vitório: O q vc escuta? Qual é a última música do dia?
da sala: A nova da Bey
da sala: Escuto as divas do pop
Vitório: Hum...
da sala: Q?
Vitório: Nada
da sala: Qual foi sua última música?
Vitório:É... Então...
Vitório: Foi Los Hermanos.

Micaela não contou a verdade a Ann, por razões que iam além do entendimento comum. Sabia, agora, com certeza, que existia um Q na equação que resolvera: simplesmente, Ann realmente era enciumada a respeito da relação que Micaela tinha com . Não era brincadeira quando dizia: “É muita melação pra uma manhã. Dá pra parar?”, “Nem vem, , que não tô a fim!”, “Sai daqui, car*lho!”, “Se não comer, vai apanhar na bunda! Deve ser tão branca que minha mão vai te bronzear!”, “Ah, miga, pega esse aí pra você!”, “Você tá suado, cara! Que nojo!” (...) E a abraçava. E ela se sentia estranha.
a chamou de novo, e Micaela virou o rosto.
— Tudo bem?
— Está. E com você?
— Sou o novo professor galã das alunas do terceiro ano. Tipo, o crush, como vivem dizendo. É broxante, mas foi o que recebi no Facebook, ontem à noite.
— Como assim?
— Certa aluna alegou que uma amiga estava querendo o meu número do Whats pra sanar uma dúvida.
— Suspeito... — Estreitou os olhos. — Você deu?
— Olha pra mim e diz se eu daria meu número a uma aluna.
— Não sei. Perdeu a virgindade, perdeu a vergonha!
bufou.
, posso te abraçar?
— Claro... Você pedindo a mim? Achei que fosse de graça. — Abriu os braços, e ela aproximou-se, aconchegando-se nele. — Tá mesmo bem?
— Tô. — Com o rosto parcialmente oculto pela sua camisa preta, exceto o olho esquerdo e metade do nariz, visualizou Ann assistindo a cena. — Abraça direito!
atendeu ao pedido, envolvendo seus ombros e tocando sua cabeça. Posou o torso da mão na testa dela, por precaução.
— Tá fria.
— Eu tô bem, de verdade. É que acordei carente.
— Carente? Conte-me uma coisa... Por que acha que eu supriria essa carência?
— Porque é você.
— Como assim?
...
— O amigo que topa quase tudo?
— Isso! — Afastou-se, e Ann pigarreou, cruzando os braços. — Bom dia!
— Belo dia pra presenciar declarações entre amigos.
— Declarações? — questionou , sem entender. — Fumou?
— A Miúda me disse que daria um beijo em você e te pediria em namoro.
— Por isso, você tá carente?
— Não. Era brincadeira.
Ann arqueou a sobrancelha com um ar de “se vira”.
— É ciumenta.
— Disso, eu sei — contou —, e possessiva.
— Eu tô aqui.
— Sabemos.
Ann revirou os olhos.
— Vou permitir que o casalzinho se pegue. Até mais!
— Ann!
— Ann!
— Qual é o problema real dela? Eu ou você?
— Nós dois... Juntos.

***


— Professor, algum texto motivacional, hoje?
colocou a mochila sobre a mesa, junto com a pasta, e pegou um pincel.
— Primeiro, bom dia! Não trouxe. Prometo que buscarei outros! Você curte?
A adolescente assentiu, envergonhada.
— Sinal de que funciona. Centraliza a atenção em mim.
— Não é necessário muito pra direcionarmos nossa atenção a você, né, professor?! Poupemos elogios induzidos! — outra refutou, de bom humor.
abriu e fechou a boca.
— Não foi minha intenção — explicou —, sério. Bem... — Sorriu, sem graça. — Onde eu parei?
— Página 31.
— Abram na página 31, então. Nossa prova tá marcada para as próximas aulas, em duas semanas. Estejam preparados!
, vale dez?
— Sim, normal.
— Professor, isto caiu da sua mochila.— A aluna que sempre se sentava na primeira carteira mostrou um papel amarelo e dobrado.
estranhou e recebeu o papel, desdobrando-o rapidamente, para dobrar em seguida, mantendo o suspense na sala, e riu fraco.
— Fechem os olhos.
— Lê em voz alta!
— Vai!
Ele encostou-se na mesa, de costas para a lousa.
— Hum... — Desdobrou com cuidado. — Professor, você não é... Mas deve fazer... fez uma careta. — Vem ser assim na... Meu Deus! — Dobrou rápido. — Não vale a pena a leitura. Há muito conteúdo adulto.
— Somos adultos. — Vitinho contestou.
— Só você, o diferentão, rei do conselho de classe, repetente número um... — Andreia debochou.
— Não repeti, apenas entrei um ano atrasado.
— Re-pe-ten-te!
— Idiota!
— Há nome, professor?
— Não — mentiu. — Mas escreveram um número. Logo, logo, eu descubro!
— O que vai fazer com ela/ele?
— Devolver este bilhete pervertido.

Ao final da aula, os alunos começaram a sair da sala, enquanto terminava de finalizar a lista de frequência. Feito, pôs a caneta entre os dentes e sacou o celular do bolso, digitando uma mensagem para Ann.
— Espera um pouco, ! Quero falar com você!
A garota se deteve.
— Claro!
Ele aguardou os demais saírem. Escutando o silêncio no corredor e na sala, levantou-se.
— E entregar isto. — Estendeu o bilhete. — Você me supreendeu.

Capítulo 10

Ontem

— O bilhete?
— Sim, o seu bilhete — esclareceu Jake, pacientemente, visualizando as expressões de , que não demonstrou repulsa, nem vergonha. — Não te julgo. Digo, por ter escrito. Você foi bastante explícita com o que gostaria de fazer. Se eu tinha qualquer dúvida do que escreviam para professores, sanei todas.
ainda estava estupefata.
— Olha, professor Jake, não faço ideia do que está escrito aqui e não me darei ao trabalho de conferir, pois, não, ao contrário do que você acha, não me diz respeito. Definitivamente, este bilhete repugnante ao seus olhos não me pertence.
— Na verdade, tô chocado. E não é achismo, ! Leia apenas os créditos. Seu nome está aí.
Ela desdobrou com pressa.
. Souza.
— Esqueça que eu li e que a turma soube disso. Não aprendi a lidar com cartinha de amor e sedução, então deixemos quieto. Tenha um bom dia!
— Espere, professor Jake! Você não pode, simplesmente, deduzir que foi eu, ou se contentar com um sobrenome abreviado, tentando provar que seria quem escreveu esta porcaria. Além do mais, a caligrafia é horrorosa!
— É outro detalhe que fiz questão de checar para não dizer bobagem. Aparentemente, é sua letra. Um pouco mais caprichada? Talvez. Você é quem tem que responder a si. Não me diga. Não possuo nenhum interesse em partilhar dessas fantasias.
— Mas, professor Jake, você está me acusando de algo que não fiz, em absoluto. Este caso certamente chegará à diretoria. Faço questão!
Jake, que guardava os pertences, puxou o zíper da mochila e olhou para ela com seus olhos impassíveis.
— Não é para tanto. Já avisei que não me importo inteiramente com isso. É somente um fetiche enviar bilhetes para os professores, depositando esperança de que ele entenda de quem se trata e o recado dado, até que tome uma atitude e se posicione diante das circunstâncias. Passou! Vamos apenas deixar quieto e não transformar esse caso em algo maior, que fuja do nosso controle. Daqui a pouco, abrirão um inquérito para descobrir que, na realidade, sou eu quem assedio você. Entende como funciona?
— Assédio?
— Foi o que eu disse. Até semana que vem, !

Hoje

— Você não vai comer?
Três pares de olhos de cores diferentes observavam os lábios carnudos franzidos.
— Não. Querem? — ofereceu o prato com comida.
Vitinho e Braga Nunes se entreolharam.
— Pega logo, Marlom, antes que eu me arrependa.
Marlom recebeu de .
— Mas e aí? O que rolou ontem? — questionou Vitório, movendo a colher dentro do iogurte de morango. — Você ficou na sala, depois da aula...
— Perdi minha borracha.
— Quanto custa uma nova? Trinta centavos? — Vitinho zombou.
— A borracha é minha, independentemente do valor de mercado.
— Fica quieto, meu!
— Eu te dou a minha, caso não tenha encontrado a sua... — ele tornou a provocar.
— Não preciso dos seus trinta centavos.
Vitório interviu:
— Essa discussão tá me dando fome. O que você acha de buscar cereal, Vitinho? Hoje, é sua vez de pegar fila.
Vitinho conferiu o tamanho da fila do refeitório e quase desistiu de comer mais.
— Vamos, Marlom?
— Vá sozinho! Quero um pouco de leite no cereal. Peça a tia, que ela põe!
— Moleque abusado! — Vitinho lançou o casaco nele, segurando a ponta, antes de ir.
— Ele é bem chatão quando quer — explicou Vitório, sentado, ereto, de frente para , em voz comedida, e a menina concordou com a cabeça. — É intrometido, na verdade. Só nós dois pra aguentarmos, né, Marlom?
— Meu, o cara é tipo a versão de um cachorro com raiva!
— Não exagera!
— Vai defender?
— Acalmem os ânimos, rapazes! — pediu , achando graça. — Ele tinha uma namorada, certo?
Vitório encarou o bronzeado ao seu lado, desconfortável.
— Tecnicamente, sim.
— Não é necessário revelar nada.
— Foi um namoro longo, mas acabou com o tempo. Quer dizer, o tempo apenas se ocupou em poupá-los de mais feridas. Mas nem todos os envolvidos concordam comigo... — falou Braga Nunes, sem filtrar o que expor, e Vitório, de cabeça inclinada e lábios detidos sob os dentes, balançou a cabeça. — Viu? Ele é um.
— O Vitinho não suporta nem o fato de ter namorado uma vez ou quem ele namorou, embora eu ache que, se tivesse funcionado, a opinião, obviamente, seria outra. O modo como as coisas terminaram é que causa certo arrependimento, talvez. Realmente, não sei resumir.
Vitinho voltou com quatro copos.
— Eu sei que vocês estavam falando de mim.
— Que bom! Assim, não precisamos explicar nada.
Vitório sorriu.
— Valeu!
Vitinho entregou um a , que agradeceu.
— Não ganho nem um sorrisinho? Você deu ao Vitório, e ele é um bunda mole.
— Não.
— Ainda arrancarei mais que um sorriso seu, morena, e não digo de forma safada.
Vitório o golpeou.
— Abestado!
— Meu, o Victor não perde uma! Sinceramente, começarei a achar que existe interesse seu na . Deixo claro que ela não te quer nem com cinco mil buquês de rosas!
— Nunca pensei na ideia dos buquês... Há uma pessoa que vai querer, e muito, mas ela tá de reserva, caso não surja ninguém ou os primeiros contatos furem comigo.
Àquela altura, havia saído sorrateiramente.
— Você se passa, na moral!
— Ah, vai ver se eu tô na fila, Vito!

Clarissa estava sumida, e o fato do seu sumiço não ter gerado alvoroço, nem espanto, causou nela desapontamento. As pessoas não perguntavam o que houve, se estava bem, do que precisava, se eram conselhos, orações, abraços (ninguém a tocava em excesso, para não invadir seu espaço pessoal, criar intimidade, cativar), nada. O dia continuou seu percurso naturalmente, indo embora, trazendo e levando notícias. O pessoal espalhava e vivia o assunto do presente, enquanto Clarissa caminhava lentamente, como se estivesse com um grave problema na coluna, mas com seu gingado leve e sedutor.
Por onde quer que Clarissa passasse, deixava uma nota do seu perfume pelo ar, que penetrava os narizes e marcava os corredores, geralmente, vazios.
— Voltou de Boston ou de Bariloche? — sua amiga interrogou, desinteressada, apenas para seguir um script. — Sua cor continua branca, então não esteve no litoral. Você rejeitou Ibiza?
— Garota, chega! — Mudou a bolsa de posição. — Estive fazendo consultas de rotina e vários exames com a minha mãe, que está na cidade. Não sobrou muito tempo e, francamente, saco para vir. Eu queria aproveitar com ela, não sem ela. Desfiz sua dúvida?
— Todas elas! Bem-vinda de volta!
— O que eu perdi?
— Muito assunto... Mas eu te empresto meu caderno, sem problemas.
— Pensei que tivesse copiado para mim... — insinuou, formando um bico. — Gravou tudo?
— Sim, e de nada!
Clarissa revirou os olhos. — Meu real interesse é nas novidades da vida social acadêmica: festinhas; gatos da federal... Então?
— Você não muda! Não há novidade por aqui, Cla.
— Cla? — Arqueou as sobrancelhas, já levemente arqueadas.
— Apelidinho fofo.
— Por acaso, eu sou fofa?
— Claro que é... Não. Você é maravilhosa! — Pigarreou. — Vamos entrar?
— Sim, fofinha!

Assim que Jake deixou as pastas e caderneta dentro do armário usado pela professora que estava de licença, encontrou uma folha de papel, que caiu. Abriu e leu seu conteúdo, contrariado e hesitante, imaginando ser mais um recado sedutor:
OBRIGADA POR NÃO DEIXAR A MATÉRIA MORRER PARA NÓS DA PÚBLICA. VOCÊ É FADÃO!
Não haviam remetentes, nem indícios, apenas uma caligrafia em letras de forma, o que tornava-se curioso, embora qualquer aluno satisfeito com a didática pudesse ter escrito.
Os lábios se curvaram e o papel foi guardado no bolso.

Capítulo 11

(Clique aqui para abrir a música do capítulo. Sugiro que escute!)

Vitório enviou o endereço de sua casa para , mas, assim que visualizou a mensagem, ela sugeriu que fossem ensaiar no colégio, onde poderiam usar uma sala de aula.
Além da casa dele ser distante, não tinha dinheiro para o ônibus.
Vitório reservou o aparelho de som com a diretora quando chegaram e o levou à sala, carregando sua mochila.
e ele se encontraram na entrada.
De dentro da mochila, retirou um caderno, o estojo, a pasta, o pen drive e o notebook. Conectou o objeto pequeno ao aparelho de som e ligou, aumentando o volume da música. Depois, entregou uma cópia da tradução da canção espanhola a , que prestava atenção em suas ações, com o cabelo amarrado num “rabo’’, e as expressões faciais mudaram ao ler a letra.
— Henrique Iglesias?
Ele maneou a cabeça, o sorriso escapando, como se revelasse que a ideia não foi inteiramente sua.
Bailar contigo numa noche louca... — Ela riu baixo, sentando-se na cadeira. Os braços mexeram-se de acordo com a melodia. — Já no puedo mais...
Vitório gargalhou.
— O que você acha? Além de engraçado.
Caliente! — admitiu. — A intenção é mostrar como o espanhol pode ser quente?
— Não. Eu não conheço nenhum espanhol, a não ser o que ouvi falar, que é o Henrique. Na verdade, sei lá se ele é espanhol! Escuto Los Hermanos, então esse não é meu estilo de música, mas vale ponto.
— Tudo bem. Podemos cantar.
— Certo. — Posicionou-se ao lado do aparelho de som, sentando-se sobre o apoio da cadeira. — Bailando... Bailando... É bem rápido!
De repente, se ergueu, guiada pela melodia, e começou a dar passinhos para frente e para trás, como numa salsa, que terminou virando outro ritmo.
Vitório ria, encantado com sua leveza, gingado e espontaneidade desconhecida.
A música recomeçou, e ele bateu palminhas para encorajá-la a seguir os primeiros acordes.
Bailando... — Ela girou. — Bailando...
Vitório desceu da cadeira e cantou a primeira parte, analisando se divertir ao cantar a música para si.
— Acho que é para cantarmos juntos — avisou ele.
— Eu me empolguei. — Deteve os passos. — Yo te miro, se me corta la respiración. Cuanto tú me miras, se me sube el corazón (me palpita lento el corazón).
Y, en silencio, tu mirada dice mil palabras. La noche en la que te suplico que no salga el sol...
retornou a dança.
— Dá pra você dançar amanhã lá. Ganharemos dez!
— Deus me livre! — Ela parou abruptamente. — Você deveria vir aqui e mostrar como é que se dança!
— Eu? — Tossiu de propósito. — Não queira me ver aí.
— Tô pedindo.
Vitório fechou os olhos e suspirou.
— O que eu não faço pelos dez pontos, né?
— Mexe desse jeito os quadris — ela sugeriu e demonstrou o passo com sutileza. — Para frente e para trás. Segue com o movimento dos quadris e de todo o corpo. Olha para mim!
Rapidamente, Vitório, que olhava para os pés dela, tentando captar as instruções, ergueu o olhar e se viu sorrindo, assim como .
girou, aproximando-se dele com o passo, e as mãos de Vitório quase tocavam seus ombros.
— Achei que você fosse cair.
— Vito, sossega! — pediu. — Na dança, é importante não pensar em nada que não seja o movimento e olhar para frente.
— Desde quando você dança?
— Assisto muito programa de TV.
Ele esfregou as mãos na bermuda e tentou acompanhá-la devagar, atrapalhado.
desceu até o chão.
— Isso é funk?
Ela riu.
— Não.
Tu cuerpo y el mío llenando el vacío...
Subiendo y bajando — cantou e repetiu o passo.
Vitório ofereceu a mão, segurou, e ele a girou uma, duas, três vezes, reproduzindo os passos em conjunto.
parou, aproximou-se novamente e colocou uma mão dele em sua cintura, num ato impensado, a própria mão sobre seu ombro, e a outra segurou sua mão.
— Tá com medo do que?
— Não é medo... — Sentiu-se constrangido e pressionado com a aproximação mais todos os detalhes que ela trazia. — Conheci um lado seu que eu nunca imaginaria.
— Eu sou um livro fechado. É necessário me ler para descobrir todos os meus segredos.
— Que misteriosa... — falou baixinho, dançando.
Inúmeras vezes, em várias tentativas, pisou no pé dela, que também se atrapalhou e pisou nos dele.
— Acabo de descobrir algo ao seu respeito.
— Ah, é?
— Se eu quiser continuar dançando e conservar meus dedos dos pés, preciso calçar um tênis.
Vitório riu e ficou vermelho.
— Tive uma ideia. Sobe nos meus pés.
nem contestou, apenas subiu, mantendo-se na mesma altura que ele, que comprimiu os lábios.
— Sou pesada.
— Nem percebi! — gracejou.
Ela tentou descer, numa tentativa interrompida por Vitório, que a abraçou com um braço, desconfortável, e engoliu em seco, o óculos embaçado.
limpou com o dedo e sorriu, retirando-o do seu rosto.
— Acho que você enxergará melhor sem ele.
Vitório visualizava sem foco.
— Melhor com, né?
— Sim. — O garoto sorriu. — Obrigado!
— Pronto?
— Quase!
— Conte até cinco.
— Um... O que é pra fazer?
— Girar.
Ele esticou o braço, levando o dela, e escorregou a mão para dentro da sua, então deu passos para frente e para trás, tentando, inutilmente, requebrar o quadril.
— Agora, é o giro.
— Sem pressão! — suplicou.
o viu girar, agarrada nele, e puxou a gola de sua camisa quando previu uma queda.
— Desculpa!
— Não me importo com minha camisa, se você quiser tirá-la. — Vitório a soltou e afastou-se, sem graça, a face esquentando. — Perdão... Não foi minha intenção soar da forma como soou.
— Tá tudo bem. Entendi o que você quis dizer. Literalmente.
— É melhor a gente finalizar aqui.
Vitório virou-se para o aparelho de som, desligando-o, arrancando o pen drive e guardando os pertences na mochila, enquanto assimilava silenciosamente o que aconteceu nos últimos dois minutos e calçava a sapatilha.
— Vamos?! — chamou-a.
— Acho que vou estudar na biblioteca...
— Tá. Vejo você amanhã!

***


No dia seguinte, Ann estava sentada na murada da faculdade com a mochila ao lado, o óculos de sol no rosto e os fones no ouvido.
Micaela a viu e foi até ela.
— Oi — disse, sentando-se ao seu lado.
— E aí?! — respondeu, sonolenta. — Já pediu o em namoro?
— Ah, é esse o motivo pelo qual você tá toda estranha! Não que você não seja...
— Obrigada pela parte que me toca!
e eu somos irmãos.
— Realmente, atração entre irmãos é pesado.
— Ele tá livre e desimpedido... Você tá solteira.... Vá atrás dele!
— Tá louca?! O é um baby!
— Você tá a fim dele, que eu sei.
— Quem disse? — Visualizou a tatuagem no pulso. — Nunca afirmei nada.
— Mas nunca nega. De qualquer forma, se estiver a fim dele, não é um problema, pra mim. Eu sei lidar com dois amigos se pegando.
— É, uns pegas não matam ninguém.
Micaela olhou para ela e riu.
— Sem compromisso?
— Com certeza!

entrou na sala de aula do terceiro ano A com todos os seus pertences e fones no ouvido, e os posou sobre a mesa, cantarolando baixinho a música.
Uma das alunas da frente sorriu para ele.
— Bom dia! — disse , virando-se e começando a escrever na lousa. — Conteúdo para a prova!
— Tá animado, hein, professor?! — Vitinho provocou, abrindo o caderno, e Andreia fez uma careta indiscreta. — Cara feia, pra mim, é fome!
— Você é muito idiota!
— E você é uma safada... — proferiu, tentado a prosseguir, embora tenha sido interrompido pelo professor. — Fica quieta!
— Você não é páreo pra mandar em mim, pateta!
— Já deu, né? — contrapôs . — Estou ministrando aula pra 5ª série?
— É o Victor, professor!
— Eu? — debochou. — Que menina mais... Você é ridícula!
— Ridiculamente safada? Saiba que seus comentários e opiniões ao meu respeito não me atingem. O que você diz é resultado da sua “dor de cotovelo’’.
— Dor uma ova!
— Sei que você chorou horrores, depois que terminei com você. Meu chute na bunda não deixou marcas? Meu pé possui boa mira!
— Que piada ruim... — desconversou, pigarreando, constrangido.
— Realmente, namorar você foi uma piada sem graça! É tipo aquelas que contamos na mesa de bar, sabe? Ó, uma bosta!
Com empatia, parou de escrever e olhou para a adolescente, que estava meio corada, com os olhos sedentos por uma vingancinha barata e desprezível.
— Não tente menosprezar o que rolou entre vocês. Eu não deveria me meter, mas, já que tá tudo sendo exposto, ao menos, tenha a decência de não expor seu ex ao ridículo. Isso não me diz respeito. Não quero saber se vocês brigaram, quem terminou, quem traiu, apenas se respeitem. Respeite a relação que vocês tiveram. A lembrança. Algo bom deve ter sido guardado, ou você não estaria tão disposta a atingi-lo assim. Não pelas razões que acha.
Ela não se moveu, mas revirou os olhos, mascando um chiclete.
— Não sobrou absolutamente nada, exceto doses infinitas de rancor e mágoa, professor! — interviu Vitinho, compadecido.
— Você consegue guardar mágoa?! Eu não perco meu tempo detendo sentimentos que me entristecem dentro de mim. Se existe a possibilidade de expulsá-los, abro o coração e a mente, e me ausento de confusões por um tempo, até estar pronto para tentar de novo.
— Você é um filho da mãe corajoso, com todo o respeito! Minha cota de vagabundas já estourou. Prefiro me ausentar para sempre! Hoje, é beijo na boca e tchau! Amar é f*da!
— Tá aí uma frase subliminar: “Amar é f*da’’. Dependendo do que seu “dicionário informal’’ quer dizer, amar é complicado, mas pode ser simples e fácil, ainda que doloroso. Amar é entrega. Coloquem esse conceito na cabeça de vocês. Não importa o que vem com isso. É se lançar! Vocês precisam experimentar amar alguém de um jeito literário e aprenderão tudo o que os livros não explicam.
— Até as partes restritas? — gracejou Andreia.
— Não é à toa que elas são proibidas para menores de 18...
— Você acha que esta sala é repleta de virgens? Tá certo.
— Tô? — franziu a testa, crente. — Tenho uma filosofia de vida menos radical. Para mim, nada é tabu. Mas isso não vem ao caso. Agora, por favor, sem discussão!

Sem pretensão, Vitório encontrou e sentiu-se receoso, até constrangido.
Estava mais envergonhado e tímido que das outras vezes.
— Oi — ela falou primeiro, sorrindo, sem revelar os dentes, e acenou.
— Oi, ! Tá tudo bem entre a gente? Você chegou bem naquele dia? Nem avisou...
— Está. Não avisei porque foi uma correria. Desculpa! A propósito, claro que tá tudo bem! O trabalho tá pronto?
— Sim, e sobre isso, é... Se não quiser, não dança! A gente entrega o trabalho escrito e colocamos a música pra tocar.
— Eu não pretendia dançar pra todo mundo ver.
— Nem eu! — respondeu rapidamente. — Você dança bem! Eu já não posso alegar o mesmo sobre mim.
— Ah, tu sendo gentil!
— Duzentos por cento honesto!
— Obrigada, Vito!
— Disponha, é... ? — Sorriu. — É um apelido que combina com você.
— Por que combinaria comigo?
— É muito óbvio!

Capítulo 12

Obviedade é uma constatação singular.
Para , tudo o que a colocava numa posição de análise e críticas nunca foi.
Deitada de bruços, ela não alcançou o raciocínio de Vitório, o inteligente, gentil e alto garoto de 17 anos que arrancava seus sorrisos de formas despropositais — em sua concepção cética.
Muito.
Óbvio.
O quê?

[Hoje, 19h38]
: Oi
Vitório:
E aí, ?!
:
Tá tudo bem com a sua cabeça?
[Dois minutos depois...]
Vitório: Hã?
Vitório enviou uma imagem.
(Era sua cabeça. O cabelo formando uma juba, bagunçado e cobrindo parte dos olhos, com o topo do crânio à mostra)
Vitório: Acho q sim
Vitório:
Eu caí e não me lembro?
Vitório:
Tô ficando preocupado com o seu silêncio,
está digitando...
Vitório:
Eu bati a cabeça?
:
Hahahahahahaha
:
Calma!
:
Não foi nada disso! Eu quis dizer em relação à sua mente...
Vitório:
Ahhhhh!
Vitório:
(emoji revirando os olhos)
Vitório: Tá tudo tranquilo
:
Não tá pesando nem um pouquinho?
Vitório:
Nadinha.
[Cinco minutos depois...]
Vitório enviou um áudio.

:
Vc disse q o motivo do meu apelido combinar cmg é óbvio...
Vitório:
Achei q seria óbvio pra vc tb
:
Nem dormi direito, depois disso! Vc é culpado da minha falta de sono!
Vitório:
Alguém pensou mto em mim na noite passada :)
:
Em como arrancar a resposta de vc, especificamente
Vitório:
Eu te acho bonita.
Vitório:
E isso é óbvio pra mim.
Vitório:
Olhe pra si!
Vitório:
Eu realmente, REALMENTE, acho sua cor, seu jeito, seu cabelo, olhos e boca, mãos, traços do rosto, tudo... Tudo bonito.

A razão da dose desenfreada de franqueza e espontaneidade era o horário. Jovens desta idade, ou mais velhos, provavelmente, compartilhariam vídeos proibidos para menores de idade e idiotices, mas Vitório Marino, não.
Vitório era menino de ouro. De diamante, rubi, esmeralda.
Valia muito!
Conseguia expor o que achava, via, sabia, sentia e ouvia. Tudo de vez, sem respirar, com um sopro de coragem da noite, madrugada, manhãzinha.
Numa conversa a dois. De dois amigos.

[Hoje, 20h30]
: Tá me zoando?
: É uma brincadeira de mal gosto?
: Não é óbvio.
Vitório: Sinceramente, vc não consegue enxergar o q vejo em vc pq talvez alguém tenha dito ao contrário. Alguém disse, e vc não estava preparada pra isso, daí absorveu. Tomou conta da sua mente. Fez vc distorcer sua imagem e se achar menos do que é. Mas não é uma vdd! É mais q uma mentira, aliás! Isso é uma piada de mal gosto, não o q digo. Olha, a partir de hj, abstrai. Se desintoxica!
: Vc é... Argh!
Vitório: Persistente?
: Dói a vdd.
Vitório: Mas a mentira ilude mais! Eu te ajudo, se vc se permitir ser ajudada e por mim.
Vitório: A escolha é sua.

***


— Galera, atenção!
Os rostos dispersos direcionaram seus olhares distraídos ao representante de sala, famoso “líder’’, que estava diante da turma, apoiado na mesa do professor ausente.
— Na semana que vem, haverá uma confraternização da nossa turma devido ao primeiro trimestre de aula do terceirão! Nossa primeiríssima despedida! Seria legal e realmente divertido se todos fossem, para interagir, se redimir, sei lá...
— Beijar umas bocas, né?! — alguém falou.
— Isso! Beijar nunca perde a graça! É tão importante quanto a presença de cada um, até porque, sem boca, não há beijo.
— Quantos reais ficariam pra cada?
— Depende de quantos confirmarem! Provavelmente, em torno de vinte reais.
— Topo! — anunciou Vitinho. — O Braga Nunes também.
— Vamos, Vito e ?! — chamou Braga Nunes.
— Não ganho mesada.
Vitório ponderou.
— Dá pra levar alguém de fora?
— Então, a intenção é realizar uma social fechada entre a turma. A nossa galera, tá ligado? Mas, caso pouca gente se interesse, abriremos para o público, algumas pessoas próximas, namorados...
— Beleza!
— Tá cogitando levar alguém, é? — perguntou Braga Nunes a Vitório, que prestava atenção à resposta do representante.
— Tô...
bateu na porta e entrou, cessando as conversas paralelas.
— Bom dia, pessoal! Pode continuar com seu aviso, cara, sem problemas!
O garoto maneou a cabeça, grato.
— Basicamente, é isso. Todas as demais informações que vocês quiserem, tô disposto a dar! Me procurem! Ah! Se for pra marcar um esqueminha, algo envolvendo beijos e uns perdidos, também. A gente não precisa perder tempo, nem ficar na vontade!
— Atirando pra todo lado, hein?!
— Um dia, eu acerto o coração de uma! — Ele sorriu e piscou para a garota. — Bom dia, !
— Dia. — apoiou-se na própria mesa e cruzou os braços, observando cada aluno, seus traços juvenis e expressões ansiosas. Definitivamente, muitos cogitavam as possibilidades de causar numa festa, sem dar merda. Os corpos estavam presentes, mas as almas escaparam, libertas. — O que é que vocês estão tramando?
— Nada, professor!
— Eu já tive essa idade — informou, sorrindo —, um dia desses. Tô sabendo como funciona. Se estivessem de frente para um espelho, notariam como tá engraçado a cara de condenado prestes a ser solto de vocês.
— É a social da gente.
— Quando?
— Daqui a duas semanas. Quer ir?
— Agora, você falou a minha língua! Meio ponto pelo convite! Só não darei um porque tive que forçar.
O garoto riu.
— Tá certo!
— Falando sério, é sábado?
— Sim.
— Talvez... Não prometo... Eu apareça por lá, como quem não quer nada.
— ...Além de socializar com os alunos.
Alunas, eu deixaria claro — disse Vitinho, com o pé sobre a carteira. — Nada contra quem curte uma piroca! — Ergueu os braços.
— Eu curto e tô de boa! — falou Andreia, lixando as unhas.
— De vários tamanhos, texturas e cores, né?
pigarreou.
— Acho que dá pra vocês descarregarem tamanha atração por provocações lá. Beijar não mata, alivia a tensão! — sugeriu o outro.
— Deus me livre!
— Quem muito desdenha...
— Ou nunca diga que dessa água não bebereis, porque vai que se afoga nela...
— Só se eu estiver muito louco!
— Vá se ferrar! — esbravejou Andreia. — Cuidado pra não secar a boca quando me ver com outro, babaca!
— Ihhh!
Vitinho esfregou o rosto, achando graça.
— Iludida!
tentou acalmá-los:
— Vamos iniciar a aula. Assim, ninguém tenta arrancar o olho do outro, nem um membro. Abram o livro na página 51!
— E os textos motivacionais, professor?
— Em breve!

***


!
A adolescente virou-se, na saída do Val Campestre, para atender quem a chamava no corredor.
— Oi, Vito!
— Você vai à festa? — perguntou logo. — Tem duas semanas pra decidir.
Ela sorriu.
— Sabe que não é uma questão de escolha, mas de situação financeira desfavorável. Não é necessário pesquisar sobre a minha vida pra perceber que priorizo outros assuntos.
— Lazer é um assunto importante. Antes que você queira me bater por ter um discurso simplista, fique sabendo que todo mundo aqui sempre necessitará de uma coisa: dinheiro. Através dele, conseguimos suprir nossas necessidades básicas, como ter lazer. Lazer é um direito nosso, . Eu sei que, às vezes, parece luxo colocá-lo dessa forma, só que não adianta apenas se conformar com o fato de não poder ir a uma festa legal da turma, em que o rei Vitório estará presente.
— Rei Vitório? — Arqueou a sobrancelha. — Você não existe!
— Claro que existo! Tô de frente pra você, tentando te convidar pra sair, mas você e eu somos lentos e não conseguimos apenas ser diretos.
— O quê?
Vitório riu e pôs as mãos sobre o rosto, inclinando o pescoço para cima.
— Tá vendo?
— Vito, eu não tô entendendo...
— Quer ir à festa?
— Não tenho grana.
, escuta. É um convite. Não é todo dia que se tem a sorte da companhia do rei. E, tecnicamente, como manda a tradição, você se torna a rainha.
— Não quero ser rainha às custas do rei.
— Você vai realmente complicar um simples convite? — provocou, risonho. — Não sei se tu percebeu, mas tô...
— Você tá tremendo, Vitório.
Vitório ficou vermelho.
— Eu aceito, mas te pagarei!
— Ah, deixa disso!
— Sério!
— Tudo bem.

Capítulo 13 - parte I

— Você chamou a morena, vai pagar a entrada dela... Em nome da amizade? Tá de sacanagem?!
Vitório revirou os olhos para Vitinho, sentados no banco do refeitório, três dias após seu convite.
— Ué! Não preciso, necessariamente, de uma segunda intenção pra fazer um convite a alguém. Somente quero que ela se divirta com a gente.
— Com a gente, nada! Com você! Admita, pelo menos, a si que você a quer!
— A seria a única da sala a não ir. E, se ela não fosse, talvez, eu não iria.
— Então tá tudo quase esclarecido aqui. — Vitinho sorriu maliciosamente. — Se ela não fosse, não haveria razão pra você ir, já que seu interesse tá nela, não na festa em si.
é uma amiga.
— Amiga super beneficiada! Você é esperto. A garota será muito grata a você pelo convite e, como recompensa, vai tirar seu BV. Os dois sairão satisfeitos!
— Não seja tosco! A minha recompensa é a companhia dela, que me faz bem. Eu não sou um cara rico, sou inteligente, então uso o que me favorece...
— Tu investindo dinheiro nela. É óbvio que é, se não muito, um pouco inteligente, já que, geralmente, mulheres se atraem pelo bolso do cara, não pelo tamanho da sua bunda. Mas é arriscado apostar tão alto numa garota que pode nem tá a fim de você ou acabar arrancando até esse seu óculos fundo de garrafa.
Marlom Braga Nunes aproximou-se com , que sentou-se ao lado de Vitório.
Vitinho piscou para o amigo e levantou-se para pegar a fila.
— A discussão estava boa? — perguntou Braga Nunes, desinteressado. — Vocês se calaram quando a gente chegou.
— Assuntos do Vitinho... — desconversou. — Estão bem?
— Estamos.

***


— Festa de adolescente?
— Do Ensino Médio?
cessou a descrença das duas amigas:
— Até ontem, nós três éramos adolescentes, comíamos na “cantina dos pobres’’, colávamos chiclete embaixo da carteira... Quer que eu relembre seus podres, Ann? E você, Miúda? Sabe aquela festa do segundo ano? Você quase morreu afogada!
— Isso é uma competição de em qual festa fizemos mais merdas? Porque, sério, as nossas são incomparáveis!
Micaela riu fraco.
— Tô rindo de nervoso.
— Não tenho nada contra socializar com eles, até porque sou apenas estagiário e tô cansado de bancar o professor sério e centrado. Na boa, sou quase um caso perdido! Só Jesus na minha causa!
— Na minha também! — disse Ann. — Por mim, já tô lá!
— Tá, eu irei!
abraçou ambas e saiu com elas.

e Vitório caminhavam lado a lado pelo corredor das salas dos terceiros anos e ele mantinha as mãos dentro dos bolsos, extremamente quieto.
Ela empurrou seu braço de leve para obter sua atenção.
— Hum?
A expressão dele não se alterou.
— O que houve, de três dias até hoje?
— Nada, eu acho — respondeu. — Não comigo.
— Você não tá fazendo nenhum comentário, nem ouvindo Los Hermanos...
— Tô. — Ergueu o fone, que estava em sua orelha, conectado no celular dentro do bolso. — Não seria eu se não estivesse.
— Verdade!
...
— Tá pensando em que?
— Quer realmente ler meus pensamentos?
— Se eu tô perguntando...
Vitório quase sorriu da sua resposta atravessada.
— Na prova do final do mês.
— Vito!
— É tão bonitinho quando você me chama assim, estando brava. Não me olha desse jeito, que sou capaz de deixar a interpretação fluir.
— “Não me olha desse jeito...’’ — imitou-o, esboçando uma careta.
Vitório caiu na risada.
, ...
— Vitório, dá pra responder com honestidade? Alguma coisa mudou, mas você tá com receio de falar.
— Você ouviu minha conversa com o Vitinho?
— Não.
— Nenhuma?
— Juro que não!
— Tu tem uma intuição muito sagaz, então.
— Por quê? Há algo que você quer me dizer, mas não pode ou não sabe como? Diz com a boca!
— Hoje, você tá atacada.
— Determinada, na verdade.
— Não existe nenhuma possibilidade de me fazer contar seja lá o que tá te deixando curiosa. Nada me fará mudar a impressão que tenho ao seu respeito. Quero que saiba disso.
— Vitório...
— Não me pressione, por favor!
— É algo que, provavelmente, me deixará triste. Não é?
— Não sei. Vamos focar na festa!
parou, abruptamente, de andar.
— Olha, mudei de ideia. Não quero mais ir à festa.
, a gente combinou.
— Você me ouviu? Não quero! Não compre a senha. Chame alguém com quem você possa conversar sobre tudo, especialmente, se for algo a respeito dela. Você me decepcionou!
E o garoto a viu se afastar.
Nem sua voz quis contribuir com a reviravolta da cena.

***


— Tá tudo bem?
Dentro do banheiro, virou a cabeça e encontrou a garota que aconselhou.
— Acho que os papéis inverteram... Um dia, você me ouviu, sem me conhecer. Hoje, quero te ouvir, se você quiser me dizer o que há dentro de você.
— É um poema?
— Gostou? — Ela aproximou-se e lavou as mãos na pia. — Arranquei um sorriso seu, e é um dos sinceros, que escapam, então valeu a pena me prestar a esse papel. Não sou boa com palavras.
De frente para o espelho, arrumou o cabelo alisado.
— Ah, é!
— Obrigada!
— Não consigo falar sobre o que me incomoda, agora, mas, se você estiver disposta a me ouvir pelo telefone, agradecerei!
— Qual é o seu número?

Capítulo 13 - parte II

Ocupado.
A linha telefônica de estava ocupada, e Vitório quis se matar — não de verdade. Menos devastador seria atrasar os ponteiros do relógio na cena em que os dois caminhavam pelo corredor, a oportunidade que teve de contar o que o incomodava.
Burro!
Agora, sofria, calado, a dor de um mal entendido.

[Hoje, 21h35]
Braga Nunes: Meu, vamos pro boliche, hj?! O Vitinho vai passar aqui daqui a 20 min. Tá a fim? A gente te dá carona!
Vito: Tô não.
Braga Nunes: Ihhh!
Braga Nunes: Vc só dispensa o boliche qdo tem prova marcada. Q eu saiba, não há nenhuma.
Vito está digitando...
Braga Nunes: Vc e o Vitinho brigaram?
Vito: Não.
Vito está digitando...
Braga Nunes: Hum...
Vito: Não dou mto ouvidos ao q ele fala
Vito: Hj, eu tô a fim de ficar em casa
Braga Nunes: Tudo bem. A gente se vê amanhã! Flw!
Vito: Vlw!

[Hoje, 21h36]
não visualizou
[21h50]
não visualizou
[22h00]
Vitório: Não sei se vc desativou o modo de visualização e tá cagando pra mim, mas quero q saiba q o problema não é com vc. Vc é uma garota q todo mundo gostaria de ter ao lado, na roda de amigos, e sou sortudo por ter esse privilégio.
Vitório está digitando...
[22h20]
Vitório: É isso.
Vitório: Se quiser conversar, tô aqui.

Ele adormeceu.

[22h30]
: Eu quero q vc me diga o q é q tá acontecendo.

A internet caiu.

***


— Ela desistiu?
— Uhum... — confirmou Vitório. — Não vai mais. Não comigo.
Braga Nunes apoiou a cabeça na mão.
— Que bosta! Ao menos, tu entre amigos, quase que literalmente, já que o Vitinho não gosta dela.
Eu gosto dela, e isso é o suficiente.
— Não é — refutou. — Se fosse, você teria escolhido a ao invés dele. Você preferiu adotar uma teoria ridícula, baseada nas experiências frustradas do Victor, que acreditar no caráter dela. Meu, tu fez papel de idiota, e isso, sim, não combina com o Vitório que eu conheço.
— O Victor vive discursos ultrapassados, e eu sou o idiota? Por que ninguém se importa com os pensamentos dele?
— Porque você tá reproduzindo os mesmos pensamentos que julga insensatos. Acha realmente que ninguém se importa? A gente apenas cansou de tentar ensiná-lo.
— Eu mudei. Não se impressione.
— Você virou um idiota. Mas um idiota sem razão. — Braga Nunes levantou-se. — Espero que a se afaste de você enquanto não tá apaixonada pelo cara que curte Los Hermanos e não consegue dizer que a garota é bonita porque, no fundo, carrega o receio, fruto do preconceito enraizado, por ela ser negra.
— Você pode me acusar de qualquer outra coisa, menos de racismo!
— Ter um amigo negro não te faz mais desconstruído. Pare de tentar se enganar e enganá-la! Você é um mestiço que age como se fosse evoluído e que tem sangue de negro correndo nas veias. Faz parte dessa miscigenação e tá tentando discriminá-la. Pagar sua entrada por pena é baixo!
— Foi um convite. É apenas uma senha. A festa é da turma! Não seria a festa da turma se uma colega não estivesse presente. Concorda comigo?
— Essa senha representa a sua posição superior diante da vulnerabilidade socioeconômica dela. Mas sabe qual é o problema? Se convencer de que ela te deve favores sexuais porque você ia fazer a gentileza de pagar seu ingresso. Qual será o próximo gesto fraternal? Pagar sua janta, como num encontro casual, porque ela não tem dinheiro?
— Não me importo que ela não tenha e que precise de ajuda. Eu me importo com o seu bem-estar! Enquanto eu puder usufruir da minha posição “superior’’, como você tachou, para lhe proporcionar um desejo, farei. Não tem nada a ver com preconceito e nem com machismo, cara! Não a discrimino quando faço isso, apenas a incluo. Você tá com raiva do Vitinho e tá descontando em mim!
— Tô com raiva da situação! — contrapôs. — Raiva de vê-la ser rejeitada pela sua cor de pele.
— Também fico puto quando escuto piadinhas descriminatórias e observo ações que camuflam o preconceito, mas o que tentei foi proporcionar um sábado animado ela.
— Você tá doido pra ter a gratidão dela ao seu dispor, não é?
— Não — revelou e suspirou. — Vocês não entendem que eu, Vitório, gosto da como amigo.
— Jura?
— Sim.
— Não haveria problema, caso eu investisse nela?
— Não... — Pigarreou e coçou a nuca. Sua expressão facial continuou contida, exceto pela linguagem corporal. — Tu a fim dela? Toda essa discussão...
— O quê? A é gente boa e merece viver decentemente. Eu a quero bem. É minha amiga e, ao contrário de você, é como a vejo e o que espero que ela seja.
— Ótimo — disse baixinho, sem pensar. — Talvez, ela te veja assim também.
— Espero que sim. Seria muito estranho se não visse.

sentou-se numa carteira e abriu o caderno, recebendo, em seguida, uma mensagem de Cassinha:

[Hoje, 09h00]
Cassinha: Ah, a gente pode fazer nossa própria festa!

Ela sorriu.

[09h01]
: Amo vc!
Cassinha: Saudade da nossa CDF!
: Awwwn! Vc é mto fofínea qdo quer!
Cassinha:
Olha, se eu fosse vc, iria pra festa, tomaria todas e daria PT!
Cassinha: Ou melhor, iria lindamente, dançaria até o chão e não pagaria micão. Sairia com classe e SEM ele, pq ngm merece macho sem noção!
:
Tu achas? Mas eu estaria me aproveitando
Cassinha:
É pra se aproveitar, e mto!
Cassinha:
Aproveite a senha, a festa e sua companhia, q é a melhor da noite!
:
Ok

Capítulo 14

Três horas depois

— Se você não paga por um produto, torna-se o produto.

Três horas antes

Vitório estava louco.
Lo.
U.
Cão!
Agindo por impulso, virou mais copos que a maioria dos presentes na festa, incluindo o professor e seus amigos. Cada garrafa aberta tornava-se vazia, após passar pela sua mão. Os olhos estavam irritados, os lábios molhados, e o corpo, suado, devido as horas na pista de dança, requebrando ao som das batidas.
Não parecia com o garoto quieto e fã de Los Hermanos.
— Um pouquinho de álcool, e o cara já se revela...
— Vamos salvá-lo?
— Deixe-o se afogar, primeiro.
Mais um gole. Outro. O “último’’.
Tudo começou meio de repente. Uma olhada à sua esquerda, e o tom da festa mudou, a vontade de estar lá se dissipou, e a música nas caixas de som ficou irritante, desafiando seu autocontrole.
O combinado era ele e chegarem juntos à festa da turma no rancho. Porém, de última hora, avisou que iria com uma amiga e que eles se encontrariam no local, já que estava com a senha. Até aí, tudo bem. Ao se avistarem e rolar um cumprimento desconfortável, o que o deixou com os sentidos apurados, ela sumiu com a amiga, e ele chupou o dedo, procurando-a com o olhar.
Obviamente, Vitório não discutiria numa festa, nem jogaria na sua cara o convite, tampouco solicitaria sua presença perto dele, em meio à roda de amigos falando besteira, se não estivesse num estado vulnerável, de perca semitotal da lucidez.
Talvez, se não fosse pelo que seu olhar viu, depois de tanto procurar, o final da festa teria sido diferente.

Um adolescente esbarrou em , num determinando momento da festa, enquanto ela tentava dançar com a amiga, mas não se desculpou, e quando outra pessoa repetiu o ato desastroso, virou-se, fulminando-a, com uma frase típica de gente com raiva.
A frase fugiu.
— Perdão! — A dele a desarmou. — Não vi que havia alguém neste canto. Todo breu tá ocupado.
concordou e olhou para a amiga.
— Tudo bem?
— Tô... — Ergueu o copo. — O sen... Você tá bem?
sorriu.
— Tô tentando me manter o mais lúcido possível pra não me arrepender amanhã. Sei que, numa festa de alunos, fotos comprometedoras são registradas e podem vazar. Ainda preciso do meu estágio e tenho uma reputação a zelar.
— Você é um cara decente e muito certinho... Faz tudo bem pensado.
— Tu também é, hein! — disse e mangou. — Eu reparei. Ninguém me contou. Na real, é fácil perceber isso. Basta olhar pra você. Sua personalidade é interessante.
A amiga dela olhou para ela, e não ousou encará-la, nem confrontá-lo.
— Interessante é um adjetivo comum para algo incomum — incitou a garota o professor, propositalmente. Um sorrisinho malicioso se estendeu no canto da boca. — O que você quis dizer exatamente?
— Ah... — Ele olhava para . — Para um bom entendedor, uma palavra basta. Meia frase já é mais que o suficiente!
— Para um entendedor bêbado, não.
tomou um gole.
— Perde a graça revelar o mistério da frase a quem não tá inteiramente aqui.
— Às vezes, é preciso mostrar, e isso é melhor que perder tempo com palavras!
— Dou aula de Literatura. Adoro explicar!
— Explique a ela como é que...
a interrompeu abruptamente:
— Depois, me explique aquela questão da aula passada.
Micaela e Ann chamaram .
— Qual questão?
— A quinta.
— Claro! Não explico agora porque tô sem o livro...
riu forçadamente, embaraçada.
— Aproveitem a festa de vocês! Vou ali, mas, qualquer coisa, tô pelos breus...
A amiga acenou, e se manteve neutra por fora.
Aproximando-se das amigas, terminou o conteúdo do copo e pôs o braço em volta dos ombros de Miúda, que apoiou-se nele, ambos aguardando a reação de Ann.
— Vocês dois são ridículos.
— O quê? Por que estamos nos abraçando? É demonstração de afeto.
— Porque querem me atingir — expôs e revirou os olhos. — Não sou imune aos sentimentos, viu? Posso parecer grossa e ser grossa, às vezes, mas isso me toca. Certas coisas até ferem!
Micaela caiu na risada, soltou-se de e a abraçou fortemente.
— Tu precisa experimentar desabafar sem estar sob efeito de álcool.
— Não tô bêbada.
— Tá em um dos estágios, né?
Ela sorriu feito uma abestalhada.
— Uhum...
colocou uma mecha do seu cabelo para trás da orelha, e Ann se arrepiou.
— Ihhh! Nem vem, que nós somos amigos! — ele disse.
— Pare de ser gentil e de tocar minha orelha, então.
— Vou falar com voz grossa. — Pigarreou. — Acha que ajuda?
— Não.
a abraçou de lado, e Miúda deu uma desculpa, deixando-os a sós.
... — Ann chamou baixo. — É sério!
— Perdão!
— Se bem que o que acontece numa festa fica na festa...
— Ann, você tá me incitando a algo que vai fugir do nosso controle.
— É apenas um lembrete — sussurrou, virada para ele, perto do seu ouvido. A voz e o hálito atingiram o interior do rapaz, que preferiu manter uma distância segura. — Vai negar a si? Morrer de vontade não é comigo.
— Eu não consigo. Não estando lúcido.
Ann sentiu-se ofendida.
— Pegou pesado!
— Olha, é por isso que nunca daria certo nem um beijo. Não quero te machucar. Machucar você seria como me machucar. Eu sofreria duas vezes!
Ann assimilava.
— Arcarei com as consequências.
sorriu nasalado.
— Tu é teimosa!
— Vem aqui logo — chamou outra vez, dando de ombros — , que não vou passar vontade! — E chupou seu lábio inferior com gosto, malícia e de uma forma que inebriou , cobrindo, enfim, seus lábios, a língua buscando e tocando a dele.
Ann beijava bem.
notou isso.
Ela tocava sua nuca, costas e o tomava para si.
a conteve, separando os lábios dos dela, ainda perto, seus hálitos misturados. Sabia que, no fundo, o mundo cairia sobre a cabeça de ambos, como aconteceu.
A sensação era esquisita. O beijo, em si, não foi. O clima, gestos, olhares e o que procedia dele, sim.
— É um selinho de língua — disse Ann, fazendo-o se sentir menos culpado por qualquer coisa que o tenha deixado fora de órbita. — Encare como se fosse, se te deixa menos paranoico.
— Ann...
— Ou me beija, ou sai da minha frente.
saiu.

Os adolescentes estavam espalhados por todas as partes, reunidos em pequenos grupos com mais afinidade e aproveitando a festa.
Não parecia com o American Pie versão college.
Seus pais ficariam orgulhosos e despreocupados se soubessem disso.
Eram apenas adolescentes sendo adolescentes, com o detalhe de que as responsabilidades de “gente grande’’ não cabiam ali.
— QUAL BUMBUM MAIS BATE? QUAL BUMBUM MAIS PULA?
Vitinho, Braga Nunes e Vitório reproduziam a coreografia, sendo imitados por uns colegas.

Afastada dali, Micaela esperou uma garota desconhecida sair do banheiro feminino, apoiada na parede atrás de si, no corredor mal iluminado.
O barulho de motores, como num filme hollywoodiano, e as luzes de faróis na janela chamaram atenção de quem estava do lado de fora. As luzes despertaram Micaela, mas ela nem se deu ao trabalho de se mexer e perder o lugar na fila.
— INVASÃO UNIVERSITÁRIA, GALERA!
Daí, se deu conta de que aquilo não prestaria.

***


— Você podia ter pego o professor!
— Ele é estagiário.
— Queria que tivesse um cargo efetivo? Eita danada!
— Não! — contrapôs à amiga. — Não tô interessada nele e nem na sua licenciatura.
— E eu não tenho medo daquelas safadas que tentam me intimidar, né?
— Invasão dos universitários! — avisou a ela, observando a aglomeração de gente, que preencheu todo e qualquer espaço do local. — Sinto cheiro de maconha...
— Tá f*da!
— Vamos para o outro lado!

— Olha essas veteranas, meu! — aconselhou Vitinho a Braga Nunes, utilizando sua gíria. — Não sei quem espalhou a notícia e deixou esse povo entrar, mas tá massa!
— GALERA CHATA DO CARALHO!
Vitinho e Braga Nunes, assustados, se viraram para Vitório, que gritou.
O som da música abafou o impacto que essa declaração causaria.
— Leva esse cara lá pra fora!

Finalmente, Micaela conseguiu sair do banheiro, sem ter feito xixi nas calças, e seguiu para o bar. No final do trajeto, tentando não esbarrar em nenhum corpo, não intencionalmente, seu semblante mudou.
— Tu por aqui? Esqueci os seguranças.
Micaela foi servida, apanhou o copo e afastou-se, com um cara atlético, alto e malhado em seu encalço.
— César, desvia!
— Nem a pau! Tá fedendo à maconha!
— Você cheira.
— É meu suor.
Ela revirou os olhos e chegou à saída.
— Quem te convidou?
— Não queria me parecer mais metido, como tu adora me tachar, mas possuir meu sobrenome basta.
— Dinheiro é um problema, mesmo.
— É a solução deles! O que tu fazendo nesta festa júnior? Nem cara de criança tem!
— Não é da sua conta!
— Beleza! Não vim pra gastar meu tempo com você, que não foi educada em casa, mas, já que estamos aqui e não quero ter feito uma viagem perdida, proponho uma aposta.
— Não aposto nada.
— Mas nem será difícil!
— Se vale você me deixar em paz pelo resto da noite, tô ouvindo.
— É simples: quem pega mais gente aqui. Eu ou você. Os adolescentes não contam! Eles são café com leite.
— Isso é uma afronta... Eu topo!
— Quer ser livrar de mim, né? Se eu perder, ficarei uma semana sem aparecer no seu prédio. Se você perder, terá que aturar sete dias da minha presença.
— Deus me livre!
— Tá arregando?
— Você é tosco!
— E você é marrenta demais! Tá doido! É apenas uma brincadeira que vale prêmio. O máximo que pode rolar é você ir pra cama com alguém, e o mínimo, contrair naftas. Depende da sua vontade.
— Vaza!
— Valendo?
— E se você roubar?
— Terei que te beijar. Não é uma condição boa, pra mim.
— Idiota!
— Até o final da festa, ou até segunda, se você sair com alguém!

Dançando, Ann ergueu os braços, e o copo com cerveja balançava, derramando o líquido nas pessoas ao seu redor.
— Moça, cuidado aí!
— Se for pra reclamar, não desce pra pista!
Braga Nunes virou a cabeça quando sentiu a cerveja cair em suas costas.
— Foi mal!
— Tudo bem.
— Aí, ó! Aprenda com esse homão da p*rra! — Apontou para o garoto.
— Valeu!
— Derramo cerveja em tu, e tu me agradece? Vamos sair daqui com alianças?!
— Não, mas com a boca vermelha do seus beijos, pode ser!
Ann inclinou o rosto para cima e gargalhou.
— Acho que meu batom tá pedindo pra ser tirado...
— Tá gritando!
Braga Nunes partiu pra cima, dando um passo à frente e, com a mão na sua nuca, ele a beijou.

não esbarrou em , desta vez, mas a viu e aproximou-se, com as mãos dentro dos bolsos da calça e a postura mais à vontade.
— Recebi seu bilhete. — Chamou sua atenção.
— Mais um?
— Achei que o primeiro não fosse seu.
— Não é, mas você não acredita.
— Talvez — revelou. — O segundo dizia algo como “Você é fadão’’.
— Eu jamais enviaria um bilhete, sendo acusada de outro.
— Gostaria que fosse seu, pois tu é diferente. Digo, você é uma garota interessante. Não parece, mas noto todos os estudantes dentro da sala. Sou um cara observador. Quase tudo está ao alcance dos meus olhos e, inclusive, os seus, que vivem fugindo desses encontros. Eles não agem assim com seus amigos, imagino que nem com seus familiares, mas com professores, gestores, pessoas que exercem algum poder sobre você, sim. Eu não diria que é um sinal de respeito, mas de opressão. Não se oprima, não se cale, não deixe pra lá! Não se deixe de lado. Quando puxei sua orelha, na outra vez, foi porque não queria estar enganado. Ao bater meus olhos em você, vi quem você é.
— Frase bonita.
— Acabei de inventar! Combinou com o teor do contexto.
sorriu.
— Não foi eu quem escreveu os bilhetes, de qualquer forma. Armaram pra mim.
— Isso não é mais importante.

A cena que Vitório viu e transformou todo final da festa foi esta: e juntos. Os dois sozinhos, afastados, na maior “intimidade’’.
— O que o tem que eu não tenho? — perguntou-se.
— Mulheres?! — Vitinho resmungou.
.
— Ôpa! Você a quer?
— Não... Quero ir embora.
— Ah, Vito!
— Tô me segurando pra não cometer uma loucura.
— Não se meta em confusão! Não tô a fim de apanhar por causa da sua “dor de cotovelo’’, não!
— Merda! Minha cabeça tá girando...
— Bebeu demais!
é muito gostosa.
— Concordo!
— Muito... Muito fácil também.
— Vito, chega!
— Tô de quatro por ela, e ela tá cagando pra mim.
— Para!
— É, a pretinha não tá nem aí!
— Vito...
— É a verdade! É bonita, mas não tá valendo muito! Nem me deu moral, e olha que eu paguei pra ela vir! Se você não paga por um produto, torna-se o produto.
A amiga de escutou cada palavra.

sorriu para , e ela revirou os olhos.
— Quer ir embora?
— Ah... Pode ser!
— Eu te deixo em casa.
— Tá, mas preciso achar minha amiga. Ela tá sozinha.
— Vamos procurá-la.

Capítulo 15

Na segunda-feira pela manhã, os universitários enchiam os prédios da UCA, dispersos, apressados e encorajados para mais uma semana retada.
Tirando o óculos de sol do rosto, César piscou para Micaela, que fez menção de se levantar do banco, mas foi detida.
— Fugindo do acerto de contas? Aquela aposta me rendeu muitas histórias...
— Bom dia!
— O dia não começou tão bem, já que vi você, mas o seu tá realmente indo no caminho certo.
— Menos, César!
— Quantas foram?
— Você venceu.
— Hum... — Considerou. — Não pode ter sido tão fácil.
— Acabou a palhaçada!
— Faltou eu beijar uma boca, pra conseguir a vitória. — O olhar fugaz escapou para os seus lábios. — É pessoal.
— Você não vai me beijar.
— Só se você quiser — disse num tom baixo.
— Então chispa daqui, seu galinha!
— Você beijou poucas bocas a menos que eu e tá me tachando de galinha? Depois, eu sou o machista da relação.
— Não existe uma relação entre a gente.
— Não afetiva, ainda, mas houve um trato, e isso vale muito!
— Cala a boca, Delman!
— Você vai ter que aturar minha presença gostosa aqui, mesmo... Vou te dar esse desconto.
— Que cara sem noção e convencido, minha gente!
— Vaidoso e realista!
— Idiota e...
— E...?
— Arrogante, prepotente, mulherengo, safado... Olha, não vai dar certo essa convivência! Me esquece!
— Tá com medo de não resistir a tantos adjetivos?
— Tenho medo de não controlar a vontade irresistível de enfiar meu punho no seu nariz!
— Violenta, baixinha e brava... Domo fácil!
— Eu vou domar é a sua língua, seu infeliz!
— Ao contrário de você, não resisto. — Mostrou a própria língua.
— Ridículo... — Um sorriso escapou do seu rosto ruborizado.
— Alguém tem o sorriso bonito... Avisa a geral!

Ao adentrar o prédio da UCA, notando a saída de César, Ann encontrou Micaela e sentou-se ao seu lado.
Quieta, nada disse.
— Bom dia, Ann! — Miúda falou, observando-a. — Ann?!
— Eu beijei o...
— O ?
— Também.
Miúda abriu e fechou a boca, e sorriu, estupefata.
— Rolou de verdade?
— Sim — respondeu. — Tô lascada!
— Vocês são adultos e estavam a fim.
— Peguei outro cara na festa e, agora, descobri que é adolescente. Um aluno do , pra ser mais exata. Vi as fotos no Facebook.
— Beijoqueira!
— Ele foi legal, é gato, gostosinho e beija que é uma beleza! Não deu pra passar batido!
Miúda riu.
— E agora?
— Ah, a gente ficou uma vez e pronto. Tchau e bênção! O menino tem uns 17 anos. Virar babá de baby com barbinha é f*da!
— Imagina os pelos pubianos...
— Micaela!
— Ann, tu se preocupando à toa!
— É melhor fingir que nada aconteceu, né?
— Se você não quer repetir, segue o baile!

caminhava decididamente, um pé após o outro, a postura ereta, com sangue nos olhos. Atravessou o corredor das salas dos terceiros anos, chegou à porta da turma A e entrou, notando Vitinho e Vitório numas carteiras afastadas.
Respirando fundo, aproximou-se deles e jogou uma cédula de vinte reais no peito de Vitório, que ergueu o olhar, sem entender.
— Se eu pago pelo produto, não me torno ele! Você é escroto e me causa nojo! Machistas não serão tolerados!
Vitinho esfregou a testa.
, escuta... — pediu Vitório, seus olhos assustados.
— Escutar você? Eu já escutei o suficiente! Tudo o que concluí foi que você não vale nada! Paga de moço politicamente correto, mas, atrás de mim, me chama de vagabunda. Quem você pensa que é? Você não é melhor que eu, nem que ninguém! Talvez seja um dos seres mais desprezíveis que eu conheço...
— Não é assim. Espera!
— Só não te mando tomar no c* porque é capaz de você gostar!
— Eu estava bêbado... Não quis que você ouvisse!
— Cala a boca! Você só precisou estar fora de si pra poder bostejar todas as suas conclusões de merda! E não querer que eu escutasse não significa que não quis dizer! Apenas queria que eu nunca soubesse o que você acha ao meu respeito. Faça um favor a si e vire homem, e jamais dirija a palavra a mim!
— F*deu! — concluiu Vitinho, vendo-a se sentar na lateral da sala.

***


— Que festa foi aquela?
Os garotos do terceiro ano A riram, e o burburinho se formou, respondendo o questionamento de , que sorria, ouvindo todas as tretas que aconteceram.
— Quero bis!
— Eu também!
— Foi massa, mesmo! — confessou . Seu olhar pairou na figura encolhida de , que estava cabisbaixa. — Estão todos bem? ?
Ela ergueu a cabeça, olhou para ele e abaixou.
— Abram seus livros no último capítulo. O dever nos chama! Na próxima aula tem teste avaliativo. Preparem-se!

Paulo notou Miúda e, como quem não quer nada, parou perto dela, apoiando o corpo na varanda do prédio da UCA.
— Não basta um membro do clã... Agora, é outro.
— Esse papinho de “clã’’ é recalque. A conta bancária dos Delman calaria essas bocas venenosas bem depressa.
— Nem tudo é sobre dinheiro.
— Gracinha, tudo é sobre o quanto você tem e pode comprar.
— Sentimentos não se vendem.
— Verdade. São as pessoas quem os vendem. E por preços que até você duvidaria!
— Isso não faz sentido. Sentir é a reação mais íntima que possuímos. Ninguém precisa saber.
— Bom, neste mundo de poder, tudo acaba em perspectiva; inclusive, os sentimentos, que, geralmente, são mentiras contadas por pessoas com sede de posse. Eu, por exemplo, minto o tempo todo sobre não sentir nada, além de desejo.
— Tu?
— Fazemos um esforço pra não demonstrar.

deteve , que levantava-se da carteira, pronta para ir embora.
— Tá tudo bem na sua casa? Com você?
— Sim — mentiu, aquecida com seu genuíno amparo. — Quer dizer, não.
— Imaginei! Você me parece abatida e estava aérea na aula de hoje. — tentou confortá-la, com uma aproximação incisiva, colocando sua mão sobre o ombro coberto dela. Suspirando, questionou: — Nós não fizemos nada no sábado... Tô certo?
— Não se preocupe, professor — sugeriu, forçando uma reação menos robótica. — Garotos tendem a agir como garotos. Mulheres que se envolvem com eles de alguma forma são bestas.
— Tá me chamando de garoto? — Ele abriu e fechou a boca. Os braços foram cruzados. — Todo mundo me diz a mesma coisa. Engraçado...
virou-se, pondo a alça da bolsa de pano no ombro.
— O que eu quis dizer, já que você não me permitiu concluir meu pensamento, é que, talvez, a gente tenha desperdiçado tempo numa conversinha ao invés de aproveitar o melhor da festa.
— A vida já seguiu.
— Poderíamos reproduzir aquele ambiente e tentar de novo.
— Professor ...
— Apenas . Ou . Não me importo.
— Não me relaciono com garotos. Principalmente, com os que deveriam ter se tornado homens. Tenha um bom fim de dia!

Capítulo 16

— Ela me odeia.
— Eu te odiaria se fosse ela — concordou Braga Nunes, paciente.
— Isso não faz eu me sentir melhor.
— Não é pra você se sentir. É pra ela, a ! Você não tá merecendo nada!
— Tenha compaixão com o cara, seu skatista de segunda! — pediu Vitinho, sentando-se ao lado de Vitório num dos bancos de concreto. — Ele é humano e estava bêbado. É compreensivo. Agora, você tá tentando crucificá-lo.
— Fica na sua, Victor, que você tem culpa nessa história! O Vitório nem pagou pelo constrangimento da . Não sofreu nada.
— Tô de ressaca... — disse Vitório.
— Meu ovo!
— Tu saindo mais caro que amigo de barão! — Vitinho acusou.
— Deve ser porque valho mais que ele, no mínimo! — Revirou os olhos e buscou seu celular no bolso. — Liga pra , Vito. Desfaz essa burrada!
— Ele não vai me ouvir.
— A morena deve estar limpando a casa. Espera um pouco.
— Fica na sua, Victor!
— Tô até imaginando a cena do reencontro dos dois daqui a alguns dias.
— Meu, cala a boca!
— Ela vai dar um jogo de pano de prato, pois é tudo o que pode comprar. Para ficar mais elegante, com detalhes meio “combina com a cozinha da minha avó’’. E, para piorar, ainda achará bonito. Eu mereço!
— Victor, não vou repetir.
— Por que será que você tá sentindo as dores dela? Que eu saiba, tu é amigo do Vitório.
— Dos dois, agora — refutou com convicção. — Não vou discutir com você sobre isso.
— A gente cresceu junto!
— E você acha certo eu defendê-lo, mesmo ele estando errado, em nome da amizade? Que inversão de valores é essa? Eu não seria amigo de vocês se não repreendesse cada um.
Vitório esfregou o rosto.
— É algo que eu faria.
— Ah, com certeza!

Ann esbarrou em , no final do corredor do pavilhão do prédio utilizado pelo Val Campestre, e sorriu, sem graça.
— Não faz essa pose porque não tô interpretando nada bem — ele pediu encarecidamente. — Oi.
— O que houve?
— Nada com que se preocupar. Tô pensando em ir treinar mais cedo. Faz tempo que adio uns assuntos. Quer ir comigo?
— Você sabe que é a minha praia.
— Vamos?!
— Agora?
— Ué!
— Tá.

***


— Eu somente queria que as pessoas me tratassem bem.
A avó de olhou para a figura encolhida da neta, que estava sentada de costas, na cozinha.
— Não espere que te tratem bem, minha menina, mas com respeito. Exija respeito!
— Tô tão cansada!
— Venha aqui.
virou-se e, suspirando, aproximou-se devagar.
— Olhe bem fundo dos meus olhos — instruiu — e veja a emoção que sinto ao te ver. Meu olhar brilha. Sou apaixonada pelo ser humaninho que é você. Tenho orgulho da sua história. Sinta orgulho dela também!
— Sinto e sei como foi doloroso todos os pequenos passos, avanços e evoluções... Só que desconstruir outro ser humano é arrancar a tampa da caixa e convencê-lo a sair, mas, em troca, carregar as durezas das palavras e gestos vazios de sentimentos durante o processo. , isso mata!
— Abrace a sua velha.
— Tá doendo! Achei que não pudesse doer mais, mas quando é uma pessoa próxima a você, que conhece a sua luta e finge bem te apoiar, é insuportável! Não quero mais sentir nada!
— Shhh! Você não é assim!
— Acho que tô me perdendo...
— Não diga bobagens! — reclamou. — Não vou permitir que você se perca. Trate de se encontrar, agora!
tentou sorrir.
— Você é a melhor avó do mundo!

Os pés de alcançaram o topo da rampa e, de lá, seus olhos vagaram pelo local a céu aberto, analisando distraidamente todo e qualquer detalhe. Não tentou focar em nada específico, apenas sentir a brisa, que bagunçou seu cabelo e o refrescou, deixando-se levar, por um breve segundo, às lembranças da sua irmã.
Brisa.
Como o vento, que acaricia seu rosto e sopra os dias ruins.
Seu nome era esse.
Uma deusa do skate.
Assim, ele sentiria a presença dela, todos os dias, em qualquer lugar.
Até seu próprio suspiro final.
O movimento ao seu lado o despertou do estado de melancolia. Seus olhos brilhavam; desta vez, como em tantas outras, de emoção.
O vazio quase o deixou inerte.
— Tô te chamando faz tempo! — disse Ann, calma. — Tá tudo bem?
— Não, mas tem que ficar — respondeu, com a cabeça abaixada, sua mão secando e ocultando as lágrimas —, mais cedo ou mais tarde.
, tu não... Não tem que fazer isso agora.
— Você não quer realmente me dizer isso. Na sua cabeça, é a famosa frase: “Vamos, ! Pare de se lamentar! Faz tempo que a Brisa foi embora!’’. Sabe, ainda sinto calor quando ela não tá aqui. Às vezes, a Brisa não aparece e me deixa angustiado.
...
— É a verdade, Ann! — falou. — Tenho que fazer isso logo. Se não for hoje, talvez, não será amanhã, nem nunca! Você pode se afastar um pouco?
— Claro!
agachou-se, apanhou o skate e posicionou-se, seu olhar estreito.
— Faz quase duas semanas que não treino, para o meu pai, mas a verdade é que faz muito tempo que não sinto vontade. Não me parece mais uma distração. Sabe, eu não preciso disso. Não é sobre ter que, é sobre gostar de andar de skate.
— Você sabe que seu pai é um idiota e não pensa dessa forma. Não enxerga o esporte como um hobby e sinônimo de saúde, mas poder. É tudo sobre poder, pra ele. Campeonatos, taças, medalhas, nome, títulos, fama... Nada do que você busca, o prazer de poder andar de skate, como a Brisa não pode mais. Você merece tudo o que conquistou e o que vai conquistar, mas, por favor, , apenas não finja que tá tudo bem em ter seu pai maltratando sua autoestima, porque isso afeta. Ele deposita toda a confiança revertida em verba em você, com financiamentos, patrocínio, mas nunca é o bastante! Nunca é sobre você exclusivamente. Sobre o estado em que você se encontra. É sobre soma. Se você não for adequado, como esperam, então você tá fora... Até mesmo do caderno de contas do seu pai.
— Minha cabeça tá doendo.
Ann aproximou-se, envolvendo seus ombros com um braço.
— Escute mais uma coisa: pra mim, você é adequado, independentemente de qualquer coisa! Tudo o que você tem não me importa. O que importa é quem é você. Amigo, seja fiel a si.
tapou o rosto, e Ann encostou sua testa no ombro dele, tocando sua mão com os dedos.
— A Brisa voltou.
— Tô sentindo.
— É um sinal?
— Provavelmente.
beijou a cabeça de Ann.
— Eu imaginava ser um cara sortudo, até perder minha irmã, mas não tanto. Deus tirou a Brisa de mim e me deu você e a Micaela. Duas no lugar de uma. Ele é bom?
— Acredito que sim. Duas no lugar de uma me parece muito generoso. Mas ninguém substitui alguém. Todos nós somos únicos. Só há um , uma Ann e uma Micaela como nós três neste mundo. Só existiu uma Brisa como a nossa deusa do skate. Então Deus deve saber o que tira e o que traz. Ele te deu uma irmã, , e a quis de volta, pois era hora de ela ir.
— Eu deveria me sentir grato pela vida dela?
— Todos os dias.
— Não sabia que você era espiritualizada.
— Nem eu, pra falar a verdade — confessou. — A inspiração brotou dentro de mim.
— É a Brisa...
— Que suaviza...
— E me faz rir.
— Sim — concordou Ann, sorrindo. — É a Brisa de Deus.
— Minha irmã, agora, é só dEle, de qualquer forma.
— Virou anjo?
— Não sei. Se existe um céu, que ela esteja no paraíso!

***

— Nem vem!
César revirou os olhos, o sorrisinho desenhado nos lábios.
— Trato é um negócio. Eu sou um homem de palavra.
— Não estou interessada em fechar com você.
— Ah, mas, antes, você esteve e fechamos.
— Você é masoquista, no mínimo! — supôs. — Não gosto de você, e você não gosta de mim.
— Eu também seria sadomasoquista, no caso.
— O que você quer? Isso é ridículo!
— É divertido, na verdade. Tu muito estressada! Que tal um sorvete de morango no RU?
— Odeio morango.
— Qualquer sabor, então.
— Odeio sorvete.
César revirou os olhos.
— Tenho que pegar o ônibus. Tchau!
— Calma aí! — Deteve-a. — Tá cedo!
— Cedo pra quem tem carro. — Soltou-se dele. — Vá procurar seus fãs!
— Tá com inveja da minha popularidade?
— Fama de galinha, arrogante e mesquinho não me causa nada, exceto repugnância. Inveja seria um adjetivo, pra você.
César conteve um palavrão.
— Eu até ofereceria carona, mas, já que sou tão desprezível, vou retirar minha presença.
Micaela o viu ir.
— Já vai tarde!

teve que retornar ao Val Campestre, nesta tarde, para estudar na biblioteca. Aproveitaria o dia em que era aberto para os docentes do colégio.
Abriu a porta e se infiltrou, retirando a bolsa do ombro e puxando o zíper de vez.
!
Ela virou-se.
— Oi, Marlom!
— Oi — respondeu e pigarreou. — Tudo bom?
— Por que não estaria? — De lado, separava os materiais de estudo sobre a mesa, sentindo os olhos dele em si. — Alguma fofoca?
— Não... Na verdade... Eu só queria saber se você tá bem. Me preocupo com o seu bem-estar e nem me pergunte o porquê. Gostei de você logo de cara. Acho que nosso “santo’’ bateu.
— Falta dizer que você é o amor da minha vida.
Braga Nunes riu baixinho.
— Olha, sou mais legal que o Vito e não te faria sofrer.
ficou vermelha e sua face esquentou.
— Relaxe — ele pediu.
— Tô tranquila.
— Em nome dos meus amigos, peço desculpa por qualquer coisa. Rolou uma situação desnecessária e... Enfim. Isso me incomodou. Eu me considero maduro o suficiente, e nem preciso ser homem pra entender isso, pra conhecer limites, e eles ultrapassaram todos! O Vito, principalmente.
concordou com a cabeça.
— Não quero que você fique com raiva de mim.
— Não tô com raiva.
— Tá bom. — Colocou a mochila nas costas, ajeitou o relógio de pulso e acenou. — Até amanhã!

[Cinco minutos depois...]
87 98855----: Me esqueci de dizer bons estudos
87 98855----: Bons estudos, ! :)

leu, travou a tela, destravou e leu mais uma vez.
Avaliou.
Então se desmanchou num sorriso.

[Hoje]
: Obg, Braga Nunes!

Capítulo 17

Vitório teve coragem de ir até , no dia seguinte, mas não conseguiu criar uma oportunidade. Não era dia de reconciliação. e Braga Nunes passavam mais tempo juntos, sentando-se lado a lado durante as aulas, lanchando no refeitório e, provavelmente, elaborando piadinhas internas entre si.
Vitinho e Vitório foram escanteados.
também foi atrás de , sutilmente, para saber do seu estado.
— Juro que tô bem, obrigada! — agradeceu ela, com Braga Nunes por perto.
— Vou acreditar. Caso precise de um dia pra descansar, não se preocupe com as faltas!
— Isso vale pra mim? — perguntou Braga Nunes, e deu um tapinha em sua testa. — Falo sério!
— Só pra !
— Obrigada, professor, mas não é necessário. Não dá pra fugir dos problemas!
— Quero convidar vocês dois pra um evento esportivo. Você gosta de skate, né, Marlom?
— Sou skatista.
— Ótimo! Tá a fim de competir num campeonato?

***


— Você é um babaca!
Marlom Braga Nunes foi empurrado pelo peito por Vitinho, que estava bravo.
— O que eu fiz?
— Empatou a aproximação do Vito com a .
— Ah, é isso? Você me chama de babaca por causa disso? É, realmente, um imbecil!
— Você não tentou me ajudar. Para ser franco, tentou atrapalhar! — Vitório acusou.
— E se eu disser que tô a fim dela? E aí? Ganha quem não faz papel de otário!
— Você é um filho da puta, mesmo! — disse Vitinho, com raiva.
— Então tu gostando da menina?
— Talvez — respondeu, irritando-se. — Se ela me quiser...
— Filho da... — Vitinho tentou avançar para cima do menor, porém Vitório o deteve. — Some da minha frente, seu amador!
— Vocês dois são ridículos, na boa! Acham mesmo que eu tô a fim dela? Meu, me poupem! Mas, já que é assim, beleza! Sumo da sua frente, da vida de vocês e, desse jeito, ganho espaço com a , que, inclusive, tá cagando pra essa sua cara de bom moço, mas que, ao beber, é a pior raça, Vitório! Enquanto a você, Victor, é só mais um idiota na fila!
Vitório o viu se afastar, e Vitinho se policiou, a ponto de quase puxá-lo pela gola da farda e fazê-lo retirar cada palavra ultrajante, em sua concepção.
— Ele tá diferente.
— É vacilão!
— Perdemos um soldado?
— Vida que segue!

e conversavam na sala quando Braga Nunes apareceu estressado. Em seguida, mais alguns estudantes e, entre eles, Vitinho e Vitório.
Vitório olhou para ela, mas ela desviou o olhar.
— Professor, posso usar um minuto da sua aula? — o garoto pediu, de repente, em meio a todo o alvoroço.
Ao cessar dos diálogos paralelos, lhe respondeu:
— À vontade!
— Magoei uma pessoa daqui numa festa... — começou, encarando-o. — Eu estava bêbado e falei besteiras. Deixei escapar um monte de merda! Me arrependo do que fiz. Foi um erro que cometi e prometo não repeti-lo! Peço perdão a você, . Sinto muito!
A garota sentiu seu sangue esfriar e a respiração falhar. Braga Nunes olhava para o amigo, assim como cada aluno.
— Não pretendo adquirir fama com esse ato, só quero deixar claro que, sim, reconheço o meu erro.
— Você foi escroto e estúpido! — ela acusou.
— Tem toda razão! — concordou Vitório.
— Devo demorar dias pra te perdoar?
— Você é quem sabe! — Seu olhar fugiu para encontrar o dela, que estava ferido e na defensiva. — Nunca quis te magoar. Lamento profundamente por tudo isso! Pode prosseguir com a aula, professor!
virou-se, e Braga Nunes pôs sua cabeça no próprio ombro, na tentativa de confortá-la.
— O que você achou disso?
— Não sei, . Devo admitir que foi um ato nobre.

Na saída, Vitório esperou estar sozinha, porém, em nenhum momento, ela esteve, então foi embora.
Seu coração voltou a bater.
Estava vivo.

Capítulo 18

— Aqui?
, e Marlom Braga Nunes subiram no topo da rampa e a garota questionou, impressionada. Ao redor, skatistas iam para cima e para baixo, sincronizados, e alguns andavam pelo chão, espalhados.
— É — disse , sorrindo. Seu olhar no dela. — Gostou?
— Parece ser legal.
— Quer tentar?
franziu a testa.
— Deixo você andar no meu skate.
— Isso é tipo um convite pra sair, ! — avisou Braga Nunes, bem-humorado. — Não aceite se não estiver disposta a pagar por isso... Com quedas ao vivo!
— Faz parte! — refutou . — Você aprende com os tombos. O que me diz, ?
— Quero!

Micaela se esquivou, mas César esbarrou nela de propósito, interrompendo sua passagem.
O tamanho dele a impediu de causar algum efeito, caso o empurrasse.
— Sai da minha frente!
— Nosso trato é...
— Tô desfazendo esse trato. É injusto ter que aturar sua presença contra a minha vontade, sendo que, aparentemente, você suporta a minha. Estou me sentindo lesada nesse acordo.
— Suporto, não gosto. É totalmente diferente! Tu não é insuportável. Quando não faz cara de brava, empina o nariz ou me ofende, até parece ser educada!
Blá, blá, blá...
— Foi uma aposta. Você perdeu. Faltam apenas quatro dias pra semana acabar. Ninguém morre de tédio!
Micaela suspirou profundamente.
— Sai da minha frente!
— Eu sairei, mas tu tem que me garantir que não vai faltar nos quatro dias!
— Você é realmente convencido! Acha que eu faltaria esse monte de aula por causa de você? De homem? Me respeita!
— Ótimo!
— Ainda diz “ótimo’’.
— Vejo você amanhã!
Micaela revirou os olhos e o empurrou, retirando-se em seguida.

Concentrado, Braga Nunes sentou-se em um dos bancos vagos do local, colocando suas joelheiras.
Alguém aproximou-se, partindo o cabelo para o lado.
— Oi — a desconhecida o cumprimentou. — O tá chamando.
Braga Nunes ergueu a cabeça e encontrou um par de olhos negros, rosto afilado, cabelo castanho médio com uma franja bem curta e um piercing no septo.
— Eu te conheço?! — questionou Ann. — Acho que é de algum lugar...
— Você é amiga do professor .
— Professor... — Ann repetiu, achando graça. — É, e eu somos amigos. De onde é que você me conhece?
— A gente ficou.
— Sério? — Ann tentou, inutilmente, se manter estável, mas sua face esquentou, o rubor tingindo-a. Era desconfortável. Recordou-se do beijo no menor na festa do Ensino Médio. — Ah, foi.
— Lembrou?
— Da festa.
— Entendi. — Braga Nunes levantou-se. — Acho que você estava bêbada.
— É bem provável!
— Não se lembra de como voltou pra casa?
— O me levou.
— Menos mal. Toma juízo, moça!
— Claro! — concordou Ann, sem se mover, enquanto ele se afastava. — Seu nome é...?
— Marlom.
— O meu é Annie, mas pronunciam Ann, que virou apelido e tal. É... Prazer!
— Prazer! — Braga Nunes curvou o corpo, deu três beijinhos nas bochechas dela, sem realmente tocar os lábios, cumprimentando-a.
— Você compete ou é um hobby?
Marlom já seguia quando foi questionado.
— Os dois.
— Nunca te vi aqui.
— Eu nunca vim aqui. Treinava com uns amigos no meu bairro. Este lugar é daora!
— Mas essas gírias...
— Não vou pagar de homem culto. Sou apenas um reles adolescente que anda de skate, odeia cobranças e vai se formar no final do ano, mas não quer ir pra faculdade.
— Sua vida resumida pra uma estranha. Você é sempre aberto a isso? Não curso Psicologia, que fique claro!
— É que você estava aí, tentando puxar assunto... Esperou eu me virar pra lançar uma questão... Você sabia que eu ouviria.
Ann abriu e fechou a boca.
— Quis chamar sua atenção, mas foi por curiosidade, apenas. Lamento te desapontar! Tu tem uma autoestima invejável.
— Invejo sua falta de memória também. Gostaria de apagar coisas da minha mente com facilidade.
Ann sorriu de um jeito debochado.
— Ah, é sobre a festa.
— Qual delas?
Ela fechou os olhos e esfregou a testa.
— Você tá pagando de adolescente esperto pra cima de mim, só que não vai funcionar.
— Annie, não — disse. — Eu? Nunca faria isso. Quem sabe, se tomássemos uma, entraríamos em sintonia...
Ann entortou a boca.
— Tu é menor de idade, garoto!
— Quem disse?
— Vai falsificar um RG? Os lugares que eu costumo frequentar não são lugares pra babys!
Marlom realmente se interessou e cruzou os braços.
— Quantos anos você tem, rainha adulta?
— 20.
— Oh! Você se acha velha demais pra sair comigo?
— Eu te acho novo demais pra experimentar o meu lado bom da vida.
— Não, se eu disser que a escolha é minha.
— Não vou te levar comigo.
— Não pedir pra ir com você. Passe o endereço, e eu chegarei lá... — Inclinou-se. — Primeiro que você.

Vitório estava cabisbaixo, riscando o caderno, sem prestar atenção. Vitinho o viu, sentou-se ao seu lado no chão do corredor e o cutucou.
— Não me diga que tu assim por causa da morena.
— Então não me pergunte.
— Deve ser horrível essa sensação...
— Qual?
— Não ser correspondido.
Vitório olho para ele, e uma ruga de ceticismo apareceu entre as sobrancelhas.
— Eu não...
— Você não tá aqui, pelos cantos, desanimado à toa. É por mulher, doença, notas baixas ou crise financeira, geralmente, que ficamos assim.
— Eu tirei 8.8 na última prova.
— Estuda pra próxima — debochou.
— Você passou por isso com a Andreia?
— Ela alegava gostar de mim, e eu estava gostando dela de verdade. Acho que nunca gostei tanto de uma garota. Eu não me permitia o apego, sabe? Então ela quebrou minhas pernas ao terminar tudo com uma galha. Foi f*da!
— Você seguiu em frente rápido. Me ensine!
Vitinho balançou a cabeça e riu fraco.
— Tive que me forçar a erguer uma muralha ao meu redor. Deveria ser forte o suficiente pra não ceder com suas tentativas. Você sabe que fui fiel a ela durante todo o nosso namoro. Se tô com alguém, eu me entrego. É difícil estabelecer um relacionamento, então, se eu quis, havia dedicação. Eu poderia estar solteiro e beijar todas as garotas, mas só queria beijar uma... Essa valia pelas outras.
Vitório permaneceu em silêncio.
— Não tô a fim de fazer papel de trouxa novamente. Ela não merece nada meu. Foram dois anos, Vito!
— Eu sei.
— Não, você nem imagina o que é jogar todos esses anos no lixo! O que é deixar de admirar alguém e ser confrontado com a verdade cruel. Mas eu não deveria estar falando de mim, nem sobre a minha ex.
— Tá tudo bem.
— Não tá. Você sente falta da morena, e eu tô começando a me irritar com essa garota.
— Pior que o culpado sou eu, que agi como um idiota. Ela não tolera idiotices. Perdi meu presente de formatura, a paz neste ano infernal e uma das mulheres mais poderosas que eu conheço. Ela só não sabe disso.
Vitinho suspirou.
Uma estudante passou por eles e voltou.
— Olá, garotos! Sou Ana, aluna do segundo ano, e cá estou para convidá-los para competirem no nosso I Festival de Música. Arrecadaremos o dinheiro mais os alimentos não perecíveis, em prol das famílias carentes. Cada sala pode formar uma banda. — Estendeu panfletos a cada um, e eles recolheram para ler.
— Somos do terceiro ano. — Vitório lamentou.
— Ah, ninguém precisa saber! — disse Vitinho.
Vitório o empurrou.
— Agradecemos, mas não podemos participar.
— Vitório!
— Não.
— É a sua chance de...
Vitório tapou sua boca e sorriu para Ana, que riu.
— Obrigado, Ana! Vamos para a sala!

estava na pista, sobre o skate, seguindo um percurso aleatório, com capacete, joelheira e cotoveleiras, enquanto morria de rir da sua performance atrapalhada e um tanto bonitinha.
— Professor!
— Quem? — Ele procurou nos dois lados. — Quase me matou de susto!
— Engraçadão!
— Aqui, sou apenas o . , skatetista no ranking interestadual. Não precisa fazer cerimônias comigo, até porque sou um reles estagiário.
— Você põe muitos professores efetivos na carteira.
— Costumo dizer que nunca deixarei de ser aluno — comentou. Seus braços se moveram agilmente ao segurá-la quando ela iria cair.
Desceu do skate.
— Desculpa! — disse , embaraçada.
— Relaxa! Continue indo. Você tá ótima aí!
— Ah, tá.
— Sério!
— Eu acredito.
tocou uma mecha do seu cabelo e jogou na face dela, que o estapeou.

Capítulo 19

— Eu, você e o Braga Nunes.
— Não.
— Você é muito cagão!
Vitório deu de ombros.
— O Marlom nem fala com a gente direito!
— Ele toca bateria, e isso é o que importa.
— Acha que ele aceitaria?
— Talvez. A proposta teria que ser irrecusável.
— Se você conseguir convencê-lo...
— Fechado!

vinha pelo corredor, conversando e rindo, na companhia de Braga Nunes, que pusera as mãos nos bolsos e olhava para o chão.
— O vai te ensinar a andar de skate? — perguntou a ela.
— Foi o que ele me propôs.
— A troco de que?
— Nada.
— Olha, , devo alertar que é realmente muito difícil um cara fazer algo para uma mulher bonita sem querer nada. Ele pode até não esperar que você retribua a gentileza, se for decente, mas vai querer. Vai te seduzir. Talvez vai cobrar.
— Não tenho dinheiro, de qualquer forma.
Braga Nunes arqueou a sobrancelha, indagando silenciosamente seu ceticismo.
— Eu entendi.
— Fique de olho nele.
Ela falaria mais alguma coisa, se não fosse interrompida por Vitinho, que chamou Braga Nunes.
Vitório estava atrás dele.
— Posso trocar uma ideia com você, meu? — perguntou, determinado. — É importante!
— Pra quem?
— Hum... Você.
— Vou te esperar lá dentro! — disse , afastando-se, em direção à sala.
Vitório tentou segui-la, mas a mão de Vitinho o deteve.
Os três precisavam conversar. E precisava ser agora.
— O que vocês querem? Não me venha com esse papo de que é sobre mim, Victor, porque não sou uma das suas pessoas favoritas, no momento. Se fosse algo para o meu benefício, você não estaria aqui.
— Talvez, tu tenha razão. Tu não sendo um dos meus melhores amigos, agora, mas foi, um dia, e tenho respeito pela nossa amizade. Não precisa acreditar em mim. Na verdade, se quiser, não acredite em nenhuma palavra. O que tenho a dizer não é sobre isso, de todo jeito. É sobre o festival de música.
Braga Nunes assimilava cada palavra com atenção, balanceando.
— Prossiga.
— O Vitório deu a ideia de...
Vitório socou seu ombro sem força.
— Chamei o Vito pra participar, mas uma banda precisa de um baterista, e nós sabemos que você toca muito.
— E...?
— Não é óbvio? — Esboçou uma careta, mas Braga Nunes deu de ombros, fingindo não entender a finalidade desta conversa. — Precisamos de você na nossa banda.
— Uma banda?
— Uma banda amadora, mas, ainda assim, uma banda. Temos vocalista, guitarrista, baterista... É só por um dia! Vale uma bolsa num cursinho pré-vestibular. Você e o Vito não vão precisar disso, mas eu...
Os lábios de Braga Nunes se curvaram.
— Já me convidaram.
— Sério?
— A turma do segundo ano, a do Joca, formou três bandas. Uma delas é a dele. Ele me chamou.
— Cara, nós somos seus amigos desde a 5ª série!
Vitório puxou Vitinho e virou-se para Braga Nunes.
— Você não pode desperdiçar o seu talento com dois amadores, eu sei, só que acho que você não tá convencido de que é uma boa ideia tocar com eles. Se eu estiver certo, a nossa banda ainda precisa de um baterista.
— Tudo bem. Não dei uma resposta a ele. Vou pensar no caso de cada um. Era só isso?
— Sim.
Braga Nunes começou a se afastar.
— Ah! É... — disse, e ele parou de andar. — Eu... Jesus! Acredito em você.
— Hã?
— Acredito em você. Eu sei que, sabendo dos meus sentimentos em relação a qualquer coisa, você nunca me trairia. É o que se espera de um amigo.
— Agora, você acredita em mim? Pensei que nunca duvidasse da nossa amizade. Vejo que ela perdeu o valor, pelo menos, pra vocês... A não ser que eu ofereça meu talento musical. Aí, eu volto a ter valor, mas por um dia.
— Marlom, não é assim. Parece até que sempre usamos você.
— É verdade. Não foi sempre. Mas foi bastante! O suficiente pra eu perceber e cair fora. Acham que me afastei por acaso? Vocês me trocaram! Trocaram uma amizade, que é desde a 5ª série, por uma paixãozinha do colégio! Ah, e ainda vêm atrás de mim para pedir favor! É muita cara de pau!
— Você escolheu isso.
Vocês dois não me deram outra alternativa! Ficar e ver meus melhores amigos sendo dois babacas foi pesado. Tudo bem. Amigo serve pra aguentar uma carga aqui e outra ali, né? Se eu fosse embora antes, me chamariam de falso. Então, depois, descubro que um deles arriou os quatro pneus e o estepe por uma garota. Só que não era apenas uma garota, porque seu amigo lembrou que é negra. E ser negra dificulta tudo. Parece até que o sentimento e a vontade de ficar junto some, já que a cor de pele é importante. Fiquem sabendo que todas as cores representam uma história! A história dos negros se resume a sobrevivência. Você não faz ideia do que seja isso! Enquanto você vivia, uma negra era escravizada! Você gozava da liberdade, e ela era trancafiada mais uma vez no quarto do barão. Para sair de lá, só depois de dar pra ele. Nunca estava livre! Mas a sociedade não quer saber de história nenhuma, pois é mais importante preservar o lado branco, “puro’’, que tocar nessa ferida. E ela sangra até hoje. Sabe por quê? Porque brasileiro quer ser estrangeiro dentro do próprio país. Você estudou Geografia, então deve ter consciência da globalização. Também estudou História e sabe uma ou outra coisa sobre colonização. Europeus vindo e estabelecendo o eurocentrismo. Tudo gira em torno dele. Beleza europeia. Branco. Nem precisa ser belo, ou ter cabelo liso, pois se pressupõe que terá, mas ter a cor clara. Ser claro é o que traz valor. Quanto mais características de fora você tiver ao nascer, mais prestigiado será. Mais bonito. E isso virou padrão. Não dá pra impor uma beleza europeia na América. Burros! — Àquela altura, Braga Nunes, exaltado, já gesticulava e dava alguns passos, como se não fosse dito apenas a eles. — Não dá pra dizer “Ei! Se seu nariz afilasse um pouquinho, você seria mais bonita!’’. Por que é necessário afilar algo que é meu, que me forma e que tá no meu rosto desde que vim ao mundo? Quem foi que disse que eu preciso ser igual ao outro pra ser mais bonito? Por que é que eu tenho que ser mais bonito? Por que buscar a ilusão da perfeição? Por que é que não sou bonito com meu nariz achatado? O melhor é perguntar o porquê você acha que um nariz afilado é mais bonito, se onde você vive, a maioria das pessoas têm essa característica. Porque você ouviu alguém dizer. Porque esse alguém diz todos os dias e por todos os meios. Porque esse discurso é reproduzido, e ninguém questiona! São todos uns hipócritas passivos! Virou padrão. A maioria esmagadora quer ser parte desse padrão. Pressupõe-se ser aceito. Eu não os julgo tanto por imaginar que seja difícil defender seus ideais quando todo mundo te pressiona. Não é questionar você, mas fazer você se achar feio e desprezível por nem sequer tentar passar por uma plástica, emagrecer, pintar o cabelo... Não pegar tanto sol pra não correr o risco de ficar mais preto. — Ele respirou fundo. — Em meio a esse cenário, se descobre que milhões de pessoas que tentam, mas não alcançam o ideal de beleza, estão depressivas. Querem se matar. Para que viver num lugar em que você não pode ser como é? Buscar algo que foge o tempo todo das suas mãos, que não é seu, cansa. “Ah, mas ninguém tá de obrigando a fazer isso!’’. Quando você critica destrutivamente o corpo, cabelo, pele, voz, qualquer parte de alguém, você diz a ele que ele não é bom o suficiente, bonito o suficiente e deve mudar, pois, assim, TALVEZ, conseguirá ser aquilo que você espera que ele seja/se torne. Olha, ele só quer que você cale a boca e espera que o deixe em paz! Não seja esse tipo de pessoa. Economize tempo ao invés de destruir a autoestima de alguém. Às vezes, é tudo o que ele tem: ser aceito por si mesmo. Você não imagina o quão maçante é convencer sua mente de que o que está em frente ao espelho é suficiente pra ser belo. É você. E ninguém, NINGUÉM é igual a você!
— Certo... Já entendemos! — disse Vitinho. — Você defendeu seu ponto. Chega desse papo cabeça aí! Vamos voltar a falar da banda?!
— Victor, por que você chama a de morena?
— É bonitinho...
— É bonitinho pra quem? Você? Perguntou a ela se ela gosta?
— Não... Mas, se incomodasse, ela me diria. Para de problematizar coisas pequenas.
— E por que precisa inventar um nome bonito pra se referir a cor dela? Preto não é bonito?
— Talvez ela não goste. Não se sinta bem.
— É mais provável que você não goste e nem se sinta bem.
Vitório estava calado.
— Ah, cara, me poupe!
— Você acredita que ela vai se ofender com a própria cor. Poupe-me, você!
Alguns estudantes prestavam atenção na discussão.
A diretora observava-os, atenta.
— Passou da hora de entrarem na sala, rapazes!
— Vamos! — chamou Vitório, retirando-se, sem expressar nenhuma reação.
Estava comovido.
— Você não, Marlom. Venha comigo até a minha sala.
— O que eu fiz?
— Por enquanto, pergunte-se o que você fará. Garanto que impactará mais que seus amigos e alguns curiosos. Há muita gente necessitando ouvir seu discurso.
— Diretora, eu não...
— Fique calmo.
Braga Nunes suspirou e a seguiu.

***


Eu sou o defensor dos pretos oprimidos! — declarou Vitinho, zoando a postura de Braga Nunes, para alguns alunos na sala de aula.
balançou a cabeça. Dentro dela havia a opção de deletar seres sem solução como Victor.
— Você ainda tá triste?
Ela desviou o olhar do grupo baderneiro para a figura de cabelo cheio e casaco xadrez na cintura.
— Não — disse a , que sorriu. — Obrigada por perguntar, professor!
— Fico em paz, agora. Esperava encontrar o Marlom com você.
— Ele nem assistiu aula...
— Estranho. Vou ter uma conversa com esse rapaz! Não dá pra dar ousadia demais! — Brincou. — Hoje, eu treinarei lá na praça... Tá a fim de ir?
— Alguém prometeu me ensinar a andar de skate...
— Se você aparecer, eu ensinarei com a melhor dedicação do mundo! Existem poucas coisas nesta vida que eu goste mais que andar de skate. No momento, só consigo me lembrar de uma.
assentiu.
— Já que o senhor insiste...
— Senhor tá no céu!
— O senhorito.
riu.
— Nossa piadinha interna. — Estendeu a mão aberta.
apertou, e ele acariciou sua pele com o polegar, involuntariamente.
— A professora tá na porta.
— Ôpa! — largou sua mão e afastou-se, colocando a própria mão na nuca. — me distraiu.

***


A praça estava cheia. De gente, de árvores, bancos, flores... Skates. Muitos, de diferentes cores e formas. Skatistas também.
Alguns muito talentosos e mais ainda bonitos. Que adição incrível!
não se lembrava de ver tantos rostos em Campestre. Mas também não se lembrava de frequentar esses locais. Por isso, não imaginava que poderia ser demais estar envolvida com esse meio e aprender um novo esporte.
Espairecer.
Devagar, caminhou ao lado de , que cumprimentava um ou outro skatista com abraços, apertos de mãos e toques pré-determinados.
Como o que havia entre eles, determinado pela manhã: uma piadinha interna. Ninguém mais sabia ou saberia daquilo.
De onde é que poderia ter surgido o “senhorito’’?
— No que você tá pensando? — perguntou , após prosseguir pelo caminho.
— Aqui é um lugar muito legal.
— Ah, é? O pessoal é mais legal ainda. Dê uma chance a eles. Você pode se surpreender com a definição de legal.
Um garoto mais novo aproximou-se sobre o seu skate.
Faaala, rei!
— E aí, Dos Anjos?! Pronto para o campeonato?
— Nasci pronto e sem chorar!
— Muito bem!
— Quem é? — Virou a cabeça para , que sorria discretamente. — Oi.
— Oi.
. Nome bonito, né?
— Não mais que a dona dele.
ficou sem graça.
— Inclusive, pazer em te conhecer, ! — Meneou a cabeça e ergueu a mão enluvada. — Espero que não se importe.
apertou brevemente a sua mão.
Ele analisava suas vestes, que consistiam numa calça jeans, camisa e sapatenis.
Não era patricinha.
O “rei’’ não se envolvia com gente da classe média alta que tinha frescura. E ele poderia facilmente contar nos dedos quantos foram reprovados nos testes de convivência ao longo dos anos. Porém, , que parecia atrair problemas em forma humana, tentava persuadi-lo a acreditar que nem todos são insuportáveis. Muitos, sim.
— Acho que é cedo pra dizer, mas... — Olhou para . — Gostei dela.
encontrou o olhar de .
— Isso é como ganhar milhões de reais, mas sem mudar de vida — explicou.
O garoto sorriu para e se foi.
— O que isso significa? Passei em algum teste?
— Basicamente, sim. O teste de convivência do Joe.
— Ele falou comigo, tocou minha mão, sorriu, se apresentou, me elogiou, tudo isso em torno de um minuto, e me aprovou?
— Exatamente.
— Mas tem alguma coisa errada.
riu e a puxou pela mão.
— Não há nada de errado com você.
— Não há, mesmo — confirmou, obstante —, mas com esse teste de convivência louco, sim.
Enquanto andavam pela praça, ria, esperando-a descansar a voz.
— Por que você tá tão preocupada com isso? O Joe não tinha mais nada pra fazer, a não ser estipular padrões de comportamento aceitáveis e toleráveis.
— Não estou tão preocupada, mas um pouco cismada... Enfim.
— Enfim — disse, achando graça. — Vamos conhecer outros caras legais e menos paranoicos que o Joe, tá bom?
— Tá.

— A classe C tá invadindo o campus!
A amiga de Clarissa observava o aglomerado de pessoas vendendo garrafa de água aos universitários.
— É faculdade pública.
— Bem que meu pai disse pra eu me matricular na privada pra não correr o risco de me misturar.
— Amiga, se, numa faculdade privada, mandassem se levantar dentro da sala de aula todos os que são ricos, um ou dois alunos ficariam em pé.
Clarissa suspirou, incomodada.
— É horrível conviver com essa gente, sabe? São os vira-latas da sociedade!
— Você tá me ofendendo!
— Não me referia especificamente a você.
— Eu não sou rica, Cla — disse. — Acho que você não consegue admitir a si que tem uma amiga da classe média baixa, a classe C, e que gosta muito dela a ponto de não se afastar.
— Um lado da sua família pode ser pobre, mas o outro é rico. Isso é o que importa. Você não é pobre. Só não é mais rica que eu.
— Você tá certa.
— Eu sei. Não me chame de Cla novamente.
— Por quê? Tô sendo carinhosa.
— Você deu em cima de mim na calourada. Algumas pessoas viram e devem estar comentando a respeito. Se você me chama de Cla pra todo mundo ouvir, começarão a especular sobre a minha sexualidade. Não quero que duvidem de que sou hétero.
— Você é! — Cecília confirmou e deu de ombros. — Pelo menos, finge bem. Não tremeu na base quando dei em cima de você. Se eu te beijasse, seria capaz de você me dar um tapa e não abertura. Lido com pessoas que se dizem héteros até o primeiro copo de cachaça. Depois, ninguém quer saber dos rótulos! C* de bêbado não tem dono.
— Espero que você não esteja insinuando que se descobriu lésbica, porque eu deveria saber antes.
— Se, um dia, eu sair do armário, você saberá!

Capítulo 20

Faltava um mês para o festival de música.
Vitório e Vitinho ficaram na mão, após confirmarem que Braga Nunes optou pela outra banda. Uma banda rival. Pesquisando as músicas, Vitório tinha certeza de que seria uma dos Los Hermanos. Poderia até ser qualquer uma! Bastava ser dessa banda. Porém, buscava uma em especial, que falasse por ele, para que, dessa forma, ele pudesse desabafar, extravasar, aliviar o estresse/tensão do último ano, das provas, dos vestibulares, desses últimos dias... Principalmente, dos últimos dias! Sua mãe daria graças se soubesse como a mente de Vitório se encontrava e como ele conseguia direcionar todas as oscilações de humor aos estudos. Não que os problemas se resolvessem sozinhos, mas o mais inteligente era ser um problemático aprovado numa faculdade. O resto se resolveria! Se não houvesse solução, pelo menos, poderia se distrair em novos lugares, com novas pessoas, num novo ano, antes de novos problemas surgirem.
Eventualmente, lembrava-se da tarde caliente ao som da música espanhola. Depois daquele dia, a Espanha entrou na sua lista de lugares no mundo para conhecer. Recordava-se do olhar concentrado de , suas mãos e toque, seu cheiro e voz, seu gingado... Que gingado! Aqueles quadris largos indo de lá para cá, enquanto o garoto observava distraidamente, como se tivessem outro dia para mais uma dança.
o distraía!
O engraçado era que prestava demasiada atenção nela, e ela o distraía, simplesmente, com sua presença poderosa.
tinha poder!
Poder dentro de si para sobreviver, e viver, e escolher, e se defender! Poder de dar razão às lutas sociais! Poder que se descobriu ter quando a única coisa que poderia ser feita e que restava fazer era ser forte. Detinha o poder da força, só não sabia disso! Não como as pessoas viam.
Ao chegar àquele nível, essas pessoas a nomeiam de empoderada.
Foi pensando nela, mais uma vez, que Vitório soube que música tocaria.
— Vitinho? — falou pelo celular. A aba aberta no link da música. — Corra pra cá! Vamos ensaiar!

***


— Você não tá na banda deles?
andava pela pista de skate na praça, ao lado de Braga Nunes, que, uma hora ou outra, tocava sua mão, impedindo-a de cair do skate.
Ele estava a pé.
— Por quê?
— Prefiro não comentar.
— Tá bom.
Braga Nunes segurou seu pulso.
— Cuidado, !
— Você tá pior que o !
— Cadê ele?
posou um pé no chão, empurrando o skate.
— O Joe é quem sabe.
— Alguém me chamou?! — O garoto se materializou em cima do seu skate. — Vocês falam alto, eu sou mesmo doido, ou escuto bem?
— Um pouco dos três! — disse , rindo. Braga Nunes concordou. — Onde o se meteu?
— O rei foi buscar a plebe.
— Quem é?
— Annie e Micaela, as melhores amigas dele. A Annie é parceira e tem um humor especial. Já a Micaela...
— Você não gosta dela?
— Ela reprovou três vezes no meu teste. O que você acha? — Deu uma volta ao redor dos dois. — Na quarta vez, o faltou se ajoelhar pra que eu a aprovasse de uma vez, evitando possíveis danos. Mas o dano foi feito. Ela não gosta de mim, e eu gosto menos ainda dela.
— É riquinha e mimada?
Ele entortou a cabeça.
— Não tenho problemas com dinheiro, mas com a falta dele. Se ela fosse apenas rica, tudo bem. Mas é um pouco mimada. Aliás, as duas quando estão perto do rei dão uma de princesa! Nem de skate sabem andar!
Ann falava alto, enquanto ela, e Micaela se aproximavam dos outros três.
— Joe, meu amor! — disse Ann, abraçando Joe, que se derreteu por dentro. — Tá tudo bem?
— Tranquilo!
“Humor especial”.
Compreendido!
Micaela aguardava sua vez de cumprimentá-lo. aproveitou para abraçar e ficar o máximo de tempo possível assim.
— Então... — balbuciou Ann, afastando-se de Joe. — Não vai apresentá-la a nós, ?
sorriu para .
— Esta é , a minha aluna.
— Pegando as ninfas, né, safado?!
— Ann! — Micaela a repreendeu, de olho em , que estava sentindo-se ofendida.
— Aqui fora, somos amigos.
— Que nem eu e você? — provocou.
— Ann... Pare!
— Ok. — Revirou os olhos. — Oi.
— Olá!
A situação ficou desconfortável.
— Ann, bora andar de skate?! — chamou Joe, colocando o braço sobre seu ombro.
Ann deu de ombros, olhando para , e trocava olhares com Braga Nunes.
— Vamos continuar o treino, ! — ele disse. — Venha!
a viu ir e sentiu o toque da mão de Miúda. — Talvez — respondeu, pensativo. — Não parei pra pensar nisso.
— Vou resolver aquela cena com a Ann. Tá passando dos limites!
— Obrigado!

Vitinho releu a letra da canção pela quarta vez consecutiva.
— Os Los Hermanos afirmaram que essa é a música que eles menos gostam.
— E daí? Não é uma homenagem pra eles.
— Vito... Você tem certeza de que quer fazer isso?
— Tenho. — Girou na cadeira de rodinhas do seu quarto. — Virou uma questão de honra. Minha reputação tá manchada devido aquela festa. De moço de família, eu me tornei o babaca machista e filho da puta.
— Entendi.
— Sem falar que é minha chance de reverter a situação.
— Certo! Vamos passar a música.

Três dias depois...

— Amanhã, o inferno fechará as portas!
A testa de César se enrugou, e ele olhou para Micaela, sentados no corredor do prédio da Engenharia.
— O capeta tá solto?
— Tô sentada ao lado dele.
— Credo! — Esfregou os braços fortes, seus bíceps realçados pela camisa rosa. — O que vai rolar amanhã? É festa?
— Você, finalmente, vai sumir da minha vida!
Ahhh!, há como dobrar o prazo. É uma questão a ser discutida!
— Não há o que discutir, garoto! Você vai fingir que eu não existo, e eu vou passar reto por você, como sempre.
Com a cabeça apoiada na parede atrás de si, César sorria.
— Me engana que eu gosto, Miudinha!
— Miudinha?
— Uhum.
— Era só o que me faltava!
César riu.
— Então, quais são os seus planos para o fim de semana?
— Estudar.
— Acumulou matéria?
— Não me chamo César Delman.
— Ainda bem! Você seria bajulada até pelos seus defeitos!
— Imagino que sim. Quando se tem dinheiro, as pessoas costumam fazer “vista grossa” dos seus atos errados, que passam a ser tolerados. Mas duvido que você se incomode!
— Tentei. — Deu de ombros. — Por viver fazendo uma merda aqui e outra ali, desisti.
O silêncio se instaurou no corredor.
— Tô cansada... Vou pra casa! — Ela começou a se erguer e suspendeu o óculos.
— Quer carona? Não é todo dia que eu me disponho a levar alguém!
— Não.
— Sem justificativa?
— Não preciso dar uma.
— Prefere ir de ônibus, com aquela gente medonha e suada, sendo jogada de lá pra cá como um saco de batata?! Tem que ter coragem!
— Tchau, César!
— Fiquei sabendo que vai chover!
— Tá sol!
— Vai ser de repente!
Micaela rolou os olhos.
— Deixe-me perto do shopping.
— Posso te deixar na porta da sua casa.
— Não quero que você saiba onde é a minha casa.
— Tudo bem. Eu não saberei. — Ergueu os braços, na defensiva, com a mochila pendurada nos ombros. — Deixarei você no shopping e sequinha!

Capítulo 21

Lembranças:
substantivo feminino
1.
ação ou efeito de lembrar(-se).
2.
faculdade da memória.
"O beijo que dei no boy"
3.
aquilo que ocorre ao espírito como resultado de experiências já vividas; reminiscência.
"O beijo que dei no boy"
4.
aquilo que subsiste como testemunho de um fato passado.
"Cecília e um monte de cachaceiro na pista de dança da festa no casarão".

Clarissa bebeu, ficou fora de si, deu PT, gofou, entrou no freezer (...) beijou uma boca desconhecida. De todos os detalhes daquela noite, o beijo era o mais importante, pois não se lembrava de quem beijou.
Até hoje! Duas semanas e meia após o ocorrido!
Lembrou-se também de que foi bom, sem mão boba, mas os olhos do cara a intrigaram. Seu rosto de garoto, cabelo cheio e despenteado, a franja tocando as pálpebras, não conseguiu discernir, nem desconfiar.
O que durou tempo demais, até fazê-la esquecer e um banner ser posto perto do mural de notícias da UCA.
Discorriam sobre as escolas pós-modernas. Algo sobre Literatura. E, se não obstante, a fotografia do rapaz estava lá para todo mundo ver!
— Esse é o cara com quem você ficou e tá atrás como uma cadela no cio? — perguntou Cecília, parte para sanar a curiosidade, e a outra, para ofender.
— Você me chamou de cadela no cio?
— Chamei? Não possuo uma memória tão boa quanto a sua.
Clarissa estreitou os olhos.
— Aparentemente, é ele.
— Ainda tô assimilando o fato de que você conseguiu descobrir quem é.
— Descobrir é mais fácil que se lembrar. Você pode stalkear qualquer pessoa em qualquer rede social! Basta que ela tenha uma. Depois, é questão de pesquisar!
— Tá virando uma profissional, Cla! — disse, de propósito.
— Cecília, não me teste.
Cecília sorria.
— Então, o que eu faço, agora?
— Nada.
— Mas...
— Você quer um flashback?
— Não.
— Tem a sua resposta.
Clarissa não estava convencida.
— Verdade.

tocou a mão de , e se empertigou. Os dois estavam sozinhos no meio de um corredor do colégio.
Ele ainda segurava a sua mão quando ela se virou para ele e olhou para a junção das palmas.
— Ah... — começou a dizer.
— Por que você tá segurando a minha mão?
— Desculpe — pediu e soltou sua mão.
— Acho que você tem que dar aula agora.
Ele mordeu o lábio.
— Vai passar em Português?
— Hã?
— É claro que vai! — confirmou, pensativo, e esfregou um lado do rosto. — Você é dedicada!
— Nunca fiquei de recuperação, professor!
— Então não vai precisar de aulas particulares... Um reforço!
sorriu discretamente. Agora, entendia.
— Não vou.
— Hum... Não diga a ninguém que eu quase ofereci aulas de reforço a você. É por uma questão de controle!
— Nem passou pela minha cabeça!
— Você é uma boa aluna, !
— Obrigada!
— E eu não seria um bom estagiário se não te chamasse pra tomar um café ou energético pra gente discutir aquele assunto que você estava com dúvida...
— Que assunto?
— Ou falar da vida.
Ah!, a festa.
— O que acha?
— Pode ser!

***


Vitinho cessou o som do violão, e Vitório sentou-se no puff dentro do quarto.
— Acho que, por hoje, é o suficiente! — disse, respirando fundo.
— Tá preparado pra sexta?
— Não...
— Eu sei que você tá fazendo tudo isso por uma garota.
— Ela não tem nada a ver com as minhas decisões.
— Tem, e você sabe mais que eu! Até a música...
— Tá na hora de você ir!
Vitinho meneou a cabeça e se ergueu.
— Amanhã, a gente continua!

A vida gostava de tirar onda de gente que achava que podia passar por cima dos outros. De formar amizades e, mais ainda, de desfazê-las, seja por falta de tempo, negligência, distância, novas prioridades... Mas uma coisa que fazia muito bem era marcar encontros — encontros de vida. É quando você se vira e diz: “Que mundo pequeno!”, porque nunca imaginaria reencontrar fulano na fila do pão, por exemplo.
Foi o que ocorreu com Clarissa ao final da aula: ela reencontrou o garoto da festa e sentiu-se estranha.
— É um skatista — disse Cecília, observando com as amigas.
— Ele é bonitinho.
— Sério? Achei que não fizesse seu tipo.
— Eu também.

Capítulo 22

Ann quis ter fechado os olhos. Se tivesse escutado o conselho da mãe e esperado a chuva passar, talvez, não estivesse molhada e triste, agora. Triste por causa da cena que presenciou: e na pista de skate.
Os dois e um beijo.
Arriscaria ter visto uma língua passeando por ali. Sentiu-se mais triste ainda! Preferiu fechar os olhos, respirar fundo e voltar para casa. De repente, sentiu-se patética!
e Ann eram amigos sem benefícios, exceto por um beijo roubado numa festa. Uma atração física, em que ela era atraída pelo físico do seu melhor amigo. Algo puramente carnal.
Toda essa tristeza tinha uma causa: TPM. Sua menstruação deveria descer em um ou dois dias.
Estava carente, solitária e sensível.
— Achei que o propósito deste encontro fosse sanar minha dúvida à base de café — comentou , enquanto sentia se afastar e mantinha os olhos bem fechados.
arrastou as mechas de cabelo do seu rosto.
— Esse era o elemento surpresa...
mostrou um sorriso pequeno.
— Da próxima vez, me avise.
— Vai se preparar?
— Isso é abuso.
abriu e fechou a boca.
— Você é feminista.
Realista — refutou. — Você não perguntou se eu queria.
— Desculpe! Não vai se repetir!
considerou.
— Ainda tô com sede. Cadê o meu café?
— Não tem café, mas tem sorvete... Qual é o seu sabor favorito?
— Passas!
subiu no skate e foi atrás do carrinho de picolé do outro lado.
assistia, no aguardo, enquanto sentava-se no chão e colocava a mochila no meio das pernas.
— Um de passas pra marrentinha — ele disse, saltando do skate e sentando-se ao seu lado, numa distância segura. Ofereceu o sorvete na casquinha. — Espero que não tenha derretido tanto.
lambeu a lateral do creme, e observou o ato.
— É pecado desperdiçar sorvete! — avisou, limpando sua bochecha com o dedo, e sugou-o em seguida.
— Usar guardanapo também? — provocou.
piscou.
— Depende.
— E a minha dúvida?
— Pode perguntar! Se eu souber, responderei com o maior prazer!
— Quanto eu te devo?
— O sorvete tá pago. Relaxa!
— Se você não paga pelo produto, torna-se ele.
O rapaz arregalou os olhos.
— Quem te disse isso?
— Homens.
— Ah, homens? Não me lembro de ter dito algo assim.
— Vocês são quase iguais! A diferença é o endereço.
... Com quantos caras você se relacionou? Porque esse discurso é chulo, e me parece que você conheceu apenas garotos. Garotos estão em fase de desenvolvimento.
— Nenhum.
Nenhum?! — Ele riu. — Podemos mudar de assunto? Com todo o respeito, você não tem do que reclamar!
— Meu pai abandonou a minha mãe e eu, meu tio é misógino, meu avô xingava as suas filhas de putas porque só pensavam em namorar, um idiota me tacha de produto porque eu não quis dar pra ele... Acho que tenho, .
— Esses garotos de muita idade me envergonham. Sinto muito por você ter tido que conviver com cada um deles em algum momento da sua vida e por todos os outros que se agregaram, mas não generalize.
amarrou o cabelo.
— Me fale sobre você. O que você gosta, o que come, o que escuta...
— Sério? Eu posso incorporar um geminiano aqui.
— Você é de gêmeos... Qual o ascendente?
— Na verdade, a Ann vivia me falando sobre horóscopo, mas, sinceramente, não faz sentido. Deixa o cosmo quietinho!
sorria.
— Gosto de açaí, Literatura, cardigãs xadrez, pizza, rock nacional, viajar, tênis, brincos, minha barba, pulseiras, esta corrente... — revelou e mostrou a corrente dourada que guardava por dentro da camisa. — É um skate, que, inclusive, eu me amarro, mas tem uma garotinha grudada nele, que é a minha irmã. Ela usava este colar e me deu. Desde que a Brisa morreu, eu não tiro. É como se eu ficasse nu.
— Você consegue falar sobre a morte dela?
— Não... Mas eu me esforço todos os dias, ou vou acabar morrendo também.

Clarissa conversava com César no estacionamento da UCA, enquanto estudantes transitavam pelas ruas. Um deles era Micaela, que vinha com Ann, cansadas.
César desviou os olhos da irmã para a figura exausta de Micaela, que não se atreveu a observá-lo.
Ele a achou ousada e difícil.
Psiu!
Clarissa fez uma careta para o irmão, indagando silenciosamente o que ele queria com aquelas duas. — Vá à merda, Delman!
Por incrível que pareça, César riu. Clarissa abriu e fechou a boca. Ann arqueou a sobrancelha para ele.
— Acho que você tá sentindo falta do Miudi...
— Você é um infeliz arrogante!
— Tô te tratando super bem, e você tá cagando pra mim. Qual é o seu conceito de arrogância?
— Deixa a minha amiga em paz, cara! Não me faça ir aí e te dar uma lição!
César cruzou os braços imponentes.
— Sua amiga é marrenta, mas até que é bonitinha.
Micaela caminhou até ele, determinada, e ergueu o dedo em riste, em direção ao seu peito, sem, de fato, tocá-lo.
A cena era hilária! César tinha quase 1,90 m de altura, e ela, uns 1,65 m.
— Esse dedo seu só faz cócegas.
— O que você quer?
— Foi você quem veio até mim. O que você quer?
— Quero que você me esqueça. Não somos amigos. Não seremos, algum dia e, definitivamente, não nos suportamos!
— Fale por si.
Micaela arregalou os olhos.
— Eu quis que você viesse até aqui e parasse de bancar a CDF intocável por estar na frente da galera e de me tratar como se eu não valesse nem um segundo do seu tempo.
— Se quer saber, você não...
— Tá bem.
— Não vamos virar amigos!
— Não quero ser seu amigo — ele revelou, dando de ombros. — O que eu quero é sua educação. Você consegue!
Micaela lhe deu as costas, voltou para perto de Ann e foram embora, deixando os irmãos Delman indignados.

ria de alguma história dos campeonatos que participou, e ele encenava com pesar dramático.
Os dois estavam sentados na pista de skate, sob o céu nublado, e não paravam de conversar:
— Você tinha ciúme da sua irmã!
— Não exatamente. Eu não gostava dela com o Joe.
— Por quê?
— O Joe seria a marionete do meu pai. Se meu pai soubesse que eles namoravam, usaria o Joe para os campeonatos, exclusivamente para fins lucrativos, e o Joe, bem, acharia daora, já que competir é o seu objetivo. Ele não admite pra gente, mas acho que amou a minha irmã do jeito dele. Joe tinha 18 anos. Um garoto que ama uma garota, aos 18, não é apenas capaz, mas comete qualquer loucura! Não duvido que ele sacrificaria sua carreira em ascensão em prol dela. Tudo girava em torno dos dois. No início, foi engraçado.
— Mas eles namoraram?
— Não oficialmente. A Brisa não desobedecia o meu pai, e o Joe não queria brigar. Estava deslumbrado com a ideia de se promover, mas o namoro o satisfazia demais! Ele teve que escolher. Os dois saíam juntos, mas convidavam a gente, pra despistar. Eu desconfiei. Logo no começo, o Joe sempre perguntava onde a minha irmã estava, se viria pra cá... Ele não conseguia se conter! Mas, se eu respondesse todas as perguntas, sua boca virava um túmulo pra não deixar óbvio. Eu me lembro de que eles passaram umas vinte e quatro horas afastados, e isso preocupou geral! No dia seguinte, os dois estavam se beijando embaixo daquela árvore. — Apontou para a grande mangueira. — Acho que fizeram as pazes, porque não conseguiriam passar muito tempo longe.
suspirou, feliz.
— Que história boa!
— Até aí, é! — afirmou. — O Joe virou meu irmão, e eu o escuto muito, mas ele prefere se manter distante da minha família, por razões óbvias.
— Pobre Joe...
— A Brisa o fez o garoto mais feliz nesta vida. Agora, uma mulher o fará o homem mais feliz do mundo!
— Essa mulher seria a Annie?
— Não, não. O Joe não sente por ela nem metade do que sentiu pela minha irmã. A Ann é apenas uma provocação. Entre esses dois rola um joguinho.
— E você, , já amou uma garota?
— Não tive essa sorte.
— Você chama de sorte?
— Camões disse que o amor é um fogo que arde sem se ver. É como se estivéssemos vivos. Sem amor, nada seríamos!
deixou o peso do seu corpo cair para trás. Enquanto isso, buscou o celular e colocou uma música para tocar. Deitou-se ao seu lado e ofereceu um fone.

***


acabou adormecendo, e escutou um trovão. Virou a cabeça e notou suas expressões faciais serenas. Puxou o fone, ergueu o corpo e guardou o celular na mochila, para, em seguida, despertá-la:
— Acho que vai chover, ! — avisou. — É melhor a gente ir.
coçou o nariz e abriu os olhos.
— Que horas são?
— Cinco e meia.
— Minha avó vai me matar! — Ainda não raciocinava direito, sonolenta, e suas palavras vinham carregadas de susto. — E agora?
riu baixinho.
— Eu levo sua mochila, você se levanta e a gente vai.
— Tenho que ir ao ponto de ônibus.
— Voltaremos à cidade universitária. Lá, você pega um!
Ela tentou se erguer, mas se desequilibrou, e a sustentou com o braço. Depois, começaram a caminhar.
Dali a quarenta minutos, chegavam à cidade universitária, detendo-se no ponto de ônibus, onde algumas alunas fardadas do Val Campestre estavam.
O ônibus para o bairro de deu a volta na rotatória.
colocou um braço ao seu redor e a puxou para perto, num abraço de lado. Porém, tornou-se meio de frente, pois virou-se.
— Acho que você merece um abraço por ter aturado minha chatice à tarde inteira — ele disse em voz baixa, olhando para sua face risonha, que estava inclinada para baixo. — Ei!
posou uma mão no rosto e encontrou seus olhos encarando-a.
— Oi.
— Não quero que sinta vergonha comigo.
— Tá.
— Posso te dar um beijo de despedida?
O motorista parou o ônibus no ponto.
— Na bochecha?
— Onde você quiser.
Ela ofereceu a bochecha direita, e riu, aproximando seu rosto do dela. O próprio sorriso tocou a pele negra e os lábios a beijaram sem pressa. Uma das mãos envolveu sua nuca, e ele lhe deu outro beijo.
As pessoas entravam no ônibus.
— Tem certeza de que quer só aqui? — sussurrou.
— Professor...
— Adoro quando você me chama assim! — provocou, achando graça. — Estamos fora do colégio. Aqui, eu sou o que você quiser!
balançou a cabeça, afastando-se, e os dedos dele entrelaçaram os seus, firmes e seguros.
— Amigos?
— Aceito.
— Mentiroso! — Deu um tapinha em seu ombro, sentindo que ele a puxava.
— Dê-me um beijo aqui — pediu, apontando para os lábios —, e eu aceitarei ser só um amigo.
o beijou, repentinamente. aprofundou o beijo.
Todo mundo que estava lá assistiu.

Capítulo 23

Vitório entregou a prova de Português ao professor substituto, carregando a mochila, e saiu da sala. Estava cabisbaixo, mas não pela avaliação. Nunca por ela. Se fosse um pouquinho otimista, garantiria 8.5, no mínimo! A realidade lhe daria 10, sem margem para dúvidas.
O dia do festival estava chegando, e ele e Vitinho intensificaram o ritmo de ensaios. A letra da música dançava no céu da boca. O garoto andava distraidamente pelos corredores, acessando a internet, e se deteve atrás da grade de entrada, com headfone, pois sua mãe estava a caminho.

entregou a prova, recebeu um sorriso de , sob o olhar de reprovação de algumas garotas na sala de aula, e saiu apressadamente, em direção à saída do colégio. Avistou Vitório, que estava sentado no banco, mexendo no celular, e passou por ele. Enquanto retirava-se do prédio, desviando de uns alunos e seguindo pela calçada, sentiu um empurrão.
Alguém a jogou contra o muro com força.
Os alunos cessaram qualquer atividade para observar o ataque de uma adolescente contra a outra, até que três se aproximaram e uma delas agarrou o cabelo liso de , puxando-o, e caiu para trás, tentando detê-la, aos gritos.
Uma baderna se formou. Havia testemunhas, plateia, histerismo, vaias, e tudo aquilo era um incentivo.
Hilla agachou-se de frente para e amassou suas bochechas, notando sua boca formar um bico.
— Neguinha, você passou dos limites! Tá pagando de boa moça, mas é uma otária que pegou o homem errado!
Outra garota abriu uma garrafa e jogou água no rosto de .
— Aquele branco não te quer, sua preta imunda!
— Filha da puta!
— Olha esse cabelo! — Uma delas pegou um punhado. — Molha! Vai virar bombril! Cabelo ruim é assim, mesmo! É dia e noite na chapinha!
— NEGA DO CABELO DURO, QUE NÃO GOSTA DE PENTEAR!
— Uma preta nojenta dessas querendo ter um caso com o professor branco... Mas é cada uma! Acorda, vadia! Com você, ele vai querer só uma noite perdida na senzala! É a patricinha branca que ele vai apresentar à família!
— NEGA DO CABELO DURO, QUE NÃO GOSTA DE PENTEAR!
As lágrimas de raiva, indignação, dor e opressão enchiam os olhos e escorriam pela pele de , que aturava cada atitude e ouvia calada cada palavra.
Levava o desaforo como se merecesse.
— Olha o que tem na bolsa dela!
Duas adolescentes abriram e arrancaram todos os pertences que havia dentro, jogando-os no chão.
Os gritos ficaram tão altos que o porteiro saiu na rua, e recrutaram a diretora, que veio acompanhada da maioria dos professores. Mesmo assim, as adolescentes desceram o cassete em , chutando suas pernas, puxando o seu cabelo e socando seu peito.
Vitório correu, ao notar todo o alvoroço, e aproximou-se dela, que estava no chão, gemendo de dor.
Ninguém fez nada para evitar aquela cena. Realidade que choca e sufoca o sofrimento alheio, que tornou-se indiferente para quem vê e cruza os braços.
POR FAVOR, NÃO SEJA OMISSO!
Chame a polícia, grite por socorro, enfrente, faça alguma coisa!
As vítimas de violência agradecem!
Com lágrimas nos olhos, assustado, Vitório agachou-se ao seu lado e a viu de olhos fechados.
... — chamou. — , por favor... Ei! ! abriu os olhos, uma mão sobre o peito e a outra sobre o estômago.
— Não a toque, Vitório. A ambulância está a caminho, e a polícia também.

***


No pronto-socorro da rede pública, os mais próximos aguardavam ansiosamente notícias do estado de saúde de ; entre eles, Braga Nunes, , alguns professores do seu antigo colégio, sua avó e amigas, e Vitório, que preferiu se manter afastado, agitado demais para chorar e/ou fazer algo.
— Quem é o responsável pela adolescente ? — um cirurgião perguntou.
Todos os presentes no corredor paralisaram.
— Eu, senhô! — disse a avó de , aflita. — Cadê a minha ? Quero ver a minha neta!
— A senhora vai vê-la daqui a pouco. Acalme-se! O quadro de saúde dela é estável. Deve ficar em observação por 48 horas.
O coração de Vitório voltou a bater, e o de pulsou perigosamente.

De dois em dois, os visitantes deixavam o leito, até que restaram Braga Nunes, e Vitório, e os três ultrapassaram as cortinas.
aproximou-se cautelosamente da maca, notando adormecida e respirando com aparelhos.
— Injetaram alguns remédios pra dor — contou Braga Nunes, atento —, por isso, ela tá desacordada. — Ele olhou de soslaio para Vitório, que estava perto da porta, à espera de algum acréscimo, mas o garoto continuava agitado e alheio a situação.
encostou os lábios na testa de .
— Se eu estivesse lá, teria impedido a briga.
— A polícia informou que aquelas garotas são de uma gangue. O objetivo delas era agredir até o estado da inconsciência. Não premeditavam sua morte, embora pudesse ser consequência de muitas pancadas.
— A troco de que?
— Foi uma retaliação. Não se conformaram com o envolvimento de vocês.
Vitório pareceu despertar.
— Vocês estão namorando? — perguntou em voz baixa.
desviou o olhar para ele, e Braga Nunes acompanhou.
— Pretendo pedi-la em namoro assim que ela receber alta.
— Tu tem menos de quarenta e oito horas pra comprar um buquê — disse Braga Nunes, na tentativa de romper o “clima” estranho.
Para Vitório, era estranho estar nesta situação, dividindo um leito com dois caras que podiam ser envolver com por terem todas as possibilidades, enquanto ele corria atrás de se fazer presente, ainda que fosse rejeitado em todas as tentativas.
Frustrado e agitado, esfregou o rosto, descansou as mãos na nuca e deixou o leito.
— Vou te dar uns minutos a sós com ela — disse Braga Nunes a e se retirou. Andou atrás de Vitório, que assumiu um ritmo ágil. — Vito!
O garoto à frente deteve os passos.
— Ei, meu! — Aproximou-se devagar do amigo e jogou os braços ao seu redor. A sensação foi de alívio na descarga elétrica, para Vitório, que colocou os braços atrás de suas costas. Sussurrava um “Mas que merda!”. — Shhh!
— ...Eu estava dentro do prédio! Poderia ter escutado os gritos antes! Prestado atenção! Se eu tivesse saído, nada disso teria acontecido!
Braga Nunes o segurou porque sabia que ele precisa daquilo, de um amigo, e Braga Nunes sabia ser amigo.
— Você tem razão, Marlom. — Mudou bruscamente de assunto, quase confundindo o outro. — Entendo a sua raiva, mas acho que ela durou tempo demais.
— Logo eu, hein?!
Vitório soltou-se dele.
— Não confio naquele cara. Por favor, não deixe a sozinha com ele!
— Tudo bem.
— É sério! Nem que você tenha que mijar nas calças pra não ter que ir ao banheiro!
Braga Nunes fez uma careta de ofensa.
— Todo mundo já vai embora, Vito. Fique calmo!
— Tô com vontade de socar tudo o que eu ver pela frente!
Braga Nunes lhe deu outro abraço; desta vez, mais breve.
— Vá pela calçada e, por favor, não chute nenhum balde de lixo!

Capítulo 24

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A perna engessada de foi erguida, enquanto a adolescente se aconchegava no assento giratório e entregava as muletas a amiga.
Olhando para o espelho, especificamente para si, sua imagem refletida representava, mais do que nunca, resiliência*.
Dentro do salão de beleza, suspirou resignadamente, enquanto seu cabelo era desamarrado e desembaraçado pela cabeleireira.
— Você já ouviu falar em BC?
negou.
— É o reconhecido Big Chop. Muitas cacheadas que estão passando pela transição capilar têm dúvidas a respeito dele. Nada mais é que um grande corte, traduzindo, que consiste em tirar todas as mechas lisas, resultado do excesso de química. Para que o cabelo volte ao natural, é necessário passar por esse processo lento, mas gratificante. Durante esse período, eu te garanto três mudanças: primeiro, o seu olhar sobre o seu cabelo; segundo, seu autoconhecimento expandido; e o mais importante é que você aprenderá a se amar. É uma fase de rompimento na vida de uma mulher.
escutava com atenção, cheia de perguntas. Observava-a pentear seu cabelo escorrido e sentia-se determinada.
— Veja bem, você pode cortar só uns dedinhos, hoje, e nunca passar pelo BC. Obviamente, o processo de restauração capilar demorará mais. Você pode não querer ter de volta os seus cachinhos, ou o seu crespo, e isso não te faz menos empoderada. Pelo contrário! Você é empoderada o suficiente pra dizer não a todas as manas que querem impor que você se aceite. A real é que você deve manter o cabelo que faz você se sentir bonita, não todas as outras! O cabelo é seu! Se não fosse seu, você não seria tão você, a única assim em meio a mais de sete bilhões de pessoas e muitas outras Lorenas no mundo. Quero te fazer uma pergunta.
— Pode fazer.
— Você se acha bonita?
não soube responder de imediato. Não tinha uma beleza padrão, nem comum, e muito do que achava sobre si era resultado do que achavam sobre ela. Estava enrolada numa grande teia de pouca autoestima. Sentiu vergonha da questão, pois, se respondesse que sim, alguém ouviria e a acharia metida e iludida. Se a resposta fosse não, sentiriam pena e profeririam palavras de consolo.
Era uma situação delicadamente desagradável.
— Acho que você não entendeu a pergunta. Você, não eu, sua amiga ou qualquer cliente daqui, se acha bonita?
— Acho que sim.
— Que delícia de se ouvir! Isso é capaz de me excitar a ponto de não errar no corte! — Sorria. — Se você gosta do que vê no espelho, e nem precisa ser todos os detalhes, é o início da autoaceitação e a resolução para todos os seus problemas na área estética.
— Obrigada!
— Mas eu nem te elogiei!
riu.
— Tô me sentindo bem.
— Essa sensação é gostosa, né? Dá vontade de ir até o crush, jogar o cabelo e aguardá-lo pedir pra sair com você, porque é nisso que nós acreditamos quando estamos confiantes. O amor próprio gera segurança.
— Quero ser poderosa que nem você.
— Você é! O seu cabelo só vai representar a sua identidade. É pra combinar, bobinha!
trocou olhares com a cabeleireira pelo espelho.
— Sabe, eu estava saindo com um cara branco... Ele conseguiu mexer comigo e a gente se dava bem... Me disseram coisas horríveis, e eu não me sinto mais como se estivesse fazendo a coisa certa.
— E o que de errado vocês estão fazendo?
— Não sei.
— Porque não existe nada errado em namorar. Ponto. Não entrarei no mérito da cor, já que você me disse que não se importa com isso e, cá entre nós, nem eu. É problema de gente que não gosta de gente! Se gostasse, não faria segregação por causa de cor de pele.
— Quando eu me lembro das palavras que usaram, percebo que conseguiram me atingir, pois não tenho mais coragem de assumir um relacionamento com ele. Eu me sinto ridícula e vejo que meu lugar não é ao lado dele. Não é onde eu pertenço.
— Como é? Nada disso! Seu lugar é onde você diz que é! A sua confiança ruiu porque não havia uma base sólida. Você a construiu com base no convencimento. Convenceu-se de que estava pronta pra sair com um cara branco e assumir um relacionamento inter-racial, mas a verdade é que você ainda estava se preparando, buscando aceitação... No primeiro obstáculo, você sofreu um baque e foi vencida pelo medo. Agora, é hora de restaurar e recomeçar. Você não pode deixar um cara escapar por causa de comentários maldosos e sem noção!
— Obrigada, de novo!
A cabeleira a abraçou por trás.
— É meu dever empoderar uma irmã!

***


A primeira mecha de cabelo caiu no chão. Depois dessa, vieram mais três, e a tesoura não parava.
não queria que parasse.
Estava se livrando. Via um lado longo, e o outro, curto. Os primeiros sinais do seu crespo evidentes. Havia lavado as madeixas, retirando a chapinha, e a raiz apontava a falta de retoque da química — a progressiva.
A música da Beyoncé ressoava pelas caixas de som no alto das paredes do salão.
Mais uma mecha. Outra. E mais essa.
O longo tornou-se curto. Acima dos ombros. Apareceram as primeiras ondinhas, que formavam cachinhos teimosos para ter forma, mas antes. Hoje, aprenderia a cuidar, tratar e a respeitar seu próprio tipo de cabelo, que pendia lá para o 4B — baseado numa tabela americana que serve para conhecer sua textura capilar.
Escondeu os olhos e abaixou a cabeça, liberando os soluços de um choro que representava toda uma história de superação.
O fim de um ciclo e o início de outro.
As vezes em que recebeu apelidos pejorativos dos colegas de classe, os dentes dos pentes quebrados, a raiva dos próprios fios, a vontade de ser igual a quem tinha cabelo liso, a busca incessante e dolorosa por ele, todos os gastos, as horas intermináveis, sentada numa cadeira dessas, esperando seu cabelo ser esticado na chapa quente outra vez e mais uma. Era mais prático de ajeitar! Não precisaria acordar mais cedo para tentar colocá-lo em ordem. Preocupava-se com o volume. O que as pessoas diziam dele. Porém, apesar dos contras, e arranjou muitos, não era , a única com esses genes, dentre milhares de Lorenas espalhadas ao redor do mundo.
O mundo era grande, mas não o bastante para ela. Para as Lorenas. Para as crespas, cacheadas, onduladas e lisas. Para as mulheres!
Enquanto uma delas (de nós) pudesse ter voz, seríamos representadas!
— Vamos secar, agora, e usar o difusor.
Tentando se recompor, concordou.
Seu cabelo molhado batia no queixo, e ela desejou ansiosamente conferir o resultado. Aguardando-o, recebeu uma mensagem de Jake:

[Hoje]
Jake: Onde vc tá, mô?
: No salão.
Jake: O que tá aprontando aí?
: Ainda não vi o resultado... Mas tô me sentindo leve.
Jake: É tudo o q eu precisava saber!

O som do secador cessou, e o olhar de se ergueu em câmera lenta.
Ela chorou mais.
, tu linda! — sua amiga Cassinha disse.
O santo black power de destacou seus traços faciais.
— Tô me sentindo poderosa. — Tocava as mechas.
— Arrasou!
— Atingimos a meta! — A cabeleireira ergueu a mão e tocou a de , que levantou-se para abraçá-la.
— Gratidão!

*Resiliência é a capacidade de voltar ao seu estado natural, principalmente após alguma situação crítica e fora do comum.

Capítulo 25

(Clique aqui para abrir a música do capítulo. Sugiro que escute!)

O dia do festival de música chegou.
Evento que reunia os estudantes de todos os anos mais as bandas de garagem, duplas e aspirantes à cantores inscritos, com composições originais ou paródias.
Valia sete pontos e era soma da média.
As férias chegariam na próxima semana.
No pátio, de frente para o palco com instrumentos do primeiro grupo, eles esperavam de pé, sentados, comendo, eufóricos e sorrindo.
A música é uma forma de expressão.
Os ouvintes a expressavam também.
Os terceiros anos nem deveriam participar, por causa da correria dos vestibulares, porém a maioria insistiu tanto que haviam duas bandas inscritas.
Arrumando-se, uma garotinha de 11 anos apanhou seu violão rosa e dedilhou as cordas, acompanhado o amigo e integrante da banda deles. Estava ansiosa demais e com um pouco de medo de falhar, embora sua mãe dissesse que o festival era uma diversão.
— Não quero apenas me divertir, mainha — contrapôs seriamente —, mas vencer! Trabalhamos duro todos os dias! O Matheo concorda.
Matheo piscou, abriu e fechou a boca.
— Então, senhora, sua filha, talvez, tenha razão, apesar de eu concordar com a senhora também.
A mulher sorriu.
— Você é gentil, Matheo! Guilhermina, apenas divirta-se, filha! Se vencer, parabéns! Se não, tudo bem. Parabéns por tentar!
A menina considerou, mas terminou revirando os olhos e deixando que a mãe a abraçasse.
Estava analisando mentalmente seus concorrentes.
Distante deles, Braga Nunes refazia o nó da gravata, de cabeça baixa, e Vitinho, sentado numa caixa de som, prestava atenção ao redor e, principalmente, nas calças jeans justas das próximas candidatas, sendo uma delas a Andreia.
Andreia olhou para ele, de repente, ciente de seus olhares fugazes, e fez uma careta de deboche.
— Tu bem, meu? — perguntou Braga Nunes a Vitório, e este, de braços cruzados, vestido com o figurino decidido pelo trio, maneou a cabeça.
— Tô.
Há mais ou menos três dias, Braga Nunes ingressou na banda deles, ainda que tocasse para outra, em nome da amizade de tantos anos e como prova de que haviam superado as diferenças.
Vitinho mordeu o lábio e virou-se para os dois.
— O Vito tá concentrado. Para de tentar agitar o garoto!
— Ele vai cantar, não apresentar uma obra de arte. É necessário se mexer!
— Cala a boca!
Vitório coçou os olhos.
— Nós somos os terceiros.
Dali, conseguiram assistir a apresentação de um grupo, que tocou bem, na medida do possível, e finalizou a apresentação sob palmas e um coro de “1ª A, você vai ter que me aturar!”, a turma rival.
Nada novo na escola.
— A tá aqui.
Rapidamente, Vitório olhou para o lado e avistou com seu turbante colorido, bem baiana.
Ela usava maquiagem e estava diferente.
Parecia a que ele nunca conheceu e ansiava por essa chance.
Pigarreou, virando a cabeça e coçando a nuca.
O local ficou quente, e seu cérebro derreteu.
Agora, não somente não podia, como deveria fazer uma apresentação digna.
— Ela mexe com você, né?
— Quem?
— Não aja como um tolo, porque tá explícito em seus olhos e nas suas mãos suadas.
— Tô emocionado com este dia e nervoso com a apresentação — explicou. — é minha amiga.
— E sua musa inspiradora. Eu te conheço! A pergunta que fiz é retórica. Você é inteligente o suficiente, pra saber disso.
Vitório não se deu ao trabalho de contestar, pois, em seguida, chamaram o trio.
Os três se entreolharam e largaram qualquer tarefa que estivessem realizando, aproximando-se do palco ao som de gritinhos e palmas.
— O próximo grupo é formado por alunos do terceiro ano A e, em homenagem aos trios sem criatividade, não puseram nome. — A coordenadora apresentou os três, bem-humorada. — A paródia é de uma música dos Los Hermanos. Com vocês, Vitório Marino, Marlom Braga Nunes e Victor Vontura!
Vitório alcançou o microfone, segurando-o com uma mão, os dedos contornando-o firmemente, enquanto a outra tocava o tripé. Seus olhos vagaram pela multidão, encontrando olhares que refletiam sobre o que a mente estava cheia e buscando o que tinha a doce capacidade de paralisá-lo e ocasionar reações dentro de si.
A voz permaneceu detida no fundo da garganta. O suor frio escorreu pela testa e têmporas.
Braga Nunes observou Vitinho, concordando com algo.
— Oi, pessoal! — Vitório conseguiu externar sua voz rouca devido aos minutos em silêncio. — Sou um garoto tímido, como perceberam, e tô aqui porque... — Encontrou analisando sua postura tensa. — Vale sete pontos, né? Acho que ajudará meus colegas.
Alunos do terceiro ano assobiaram.
— Não apenas por isso. É complicado! Quero dizer, às vezes, a gente demora a notar e a tomar uma decisão, por sermos idiotas, medrosos e individualistas, em relação a alguma coisa, alguém, ou, especialmente, a uma causa. A defender uma minoria que clama por socorro. A combater o preconceito. A parar de vez de olhar pra si, enquanto o seu próximo, um sujeito que senta ao seu lado no ônibus, por exemplo, sofre. O sofrimento alheio tornou-se indiferente para a maioria presente esta manhã. Quantas vezes vocês se preocuparam com uma pessoa, sem ser você, seu amigo ou da sua família? Quantas vezes fechamos os olhos para a realidade f*dida do outro, enquanto a nossa tá tranquila? QUANTAS? Somos jovens, na faixa dos 18 anos, e o que de diferente estamos causando ao mundo, exceto massagear nosso ego, tentando ser o melhor aluno, aprovado em mil universidades públicas, com notas altíssimas, mas se esquecendo de ser o melhor exemplo de ser humano? Nós somos o futuro! Esta geração é a que comandará o país, daqui a alguns anos! Que legado deixaremos? A mesmice? Sem empatia, não daremos a largada!
Vitinho bateu palmas, que foram cobertas pelo silêncio constrangedor.
Não pelo que Vitório fez, mas pelo que seu discurso resultou na consciência de cada um deles.
— Apoio toda e qualquer causa que elimine o preconceito da sociedade do século vinte e um... Porque não merecemos pensamentos ultrapassados nela. — Ele virou-se para os colegas. — Acho que tô pronto, agora.
Marlom assentiu, e Vitinho também.
— Quem te vê passar assim por mim...
A expressão facial de realçou, de uma testa franzida para lábios esticados.
...Não sabe o que é sofrer ter que ver você, assim, sempre tão linda. Contemplar o sol do teu olhar, perder você no ar, na certeza de um amor... Me achar um nada, pois, sem ter teu carinho, eu me sinto sozinho. Eu me afogo em solidãooo!
“Oh, Anna Júliaaaa...”, foi o refrão usado pelos outros, embora, pelo trio, tenha sido original.
Confusos, os alunos pararam para escutar:
— Oh, Lorenaaaa! Oh, Lorenaaaa!
“Quem é ?”
“É namorada do vocal?”
“O Vito tem namorada?”
“É a menina que ele gosta?”
“Não houve final feliz entre a Anna Júlia e o cantor dos Los Hermanos”
“Reconheço que finais felizes não são feitos de um casal junto, mas de pessoas felizes, mesmo que solteiras”
“Ah, linda, não viaja!”
“QUEM É ?”
“É do terceiro ano A!”
Enquanto os burburinhos de meninas isoladas continuou, a amiga de olhou para ela.
— Você é a da paródia deles!
— Apenas mais uma .
— Não, você é a inspiração para aqueles três garotos que estão tocando!
— Darei uma volta... — disse, sem detalhes, apressando-se. — Verei você amanhã!
Vitório a seguiu com a visão, recebendo uma resposta que o desmotivou e quase o fez parar de cantar.
E correr atrás dela, não dela.

***


escapou sorrateiramente, esbarrando em , que sorriu, e seu semblante se iluminou ao vê-lo.
O rapaz a envolveu, e a garota o abraçou, fechando os olhos.
beijou seu pescoço.
— Algum problema?
— Não... — respondeu, de olhos abertos, e suspirou. — Eu resolvo.
— Então há um.
— É besteira! Não vai tirar minha paz. Se não tira minha paz, resolverei depois!
tocou seu rosto e analisou seus traços.
— Você me parece como uma fugitiva... Está tentando deixar pra lá, mas não consegue.
— Dói.
— Deixe-me fazer um curativo.
— A dor é psicológica, . Dói aqui. — Tocou o peito, e enfiou as mãos nos bolsos da calça. — Tô sentindo falta de ar.
— Vamos beber água. — Ele segurou sua mão, guiando-a para o bebedouro.
Atrás do casal, os passos do garoto foram detidos, vendo que seguiam caminho e, cansado de hesitar, Vitório correu até eles.
— Será que a gente pode conversar?
ergueu a cabeça, olhando para Vitório, e entrelaçou os dedos nos do namorado, automaticamente.
— Diga.
— Olha, minha intenção não era te deixar confusa, mas, se há dúvida, a mínima chance de você estar cogitando, sabe, largar tudo, ou apenas... Enfim. Não dá pra ser tão direto. É porque existe a possibilidade de você não gostar dele tanto assim. Até amanhã, se você aparecer, !
Observando-o se afastar, beijou a mão do namorado.
— O que ele disse tem a ver com a gente?
— Não o escute. É um louco! — Virou-se de lado. — Vem comigo?
— A qualquer lugar!

Capítulo 26

“De ontem! O @vitomarino deu um show! Foco nos integrantes @mbn e o @vitinhoo, q formaram o trio mais legal q vc respeita! *insira corações aqui* Valeuuu!”
Post um com foto:
“Foi lindo!!! <3 #festivaldemúsica #paródiasdoamor #triodoterceiroanoA”
Post dois:
“Eu só queria uma homenagem fofínea dessas pra mim!!! @vitomarino, a gente te ama! Olha pro terceiro ano B! #sempreconceito”
Post um com vídeo:
"OH, AAAA!" (emoji de letra musical) #festivaldemúsica #ValCampestre #paródiasdoamor
Post três:
“Nunca acreditei na ilusão de ter você pra mim
Me atormenta a previsão do nosso destino
Eu passando o dia a te esperar
Você sem me notar
Quando tudo tiver fim, você vai estar com um cara
Um alguém sem carinho
Será sempre um espinho
Dentro do meu coração”

(emoji de letra musical) (emoji do coração vermelho) #declaraçõesinesperadas #paródiasdoamor #eushippo
Marlom Braga Nunes desativou as notificações do Facebook e do Instagram, redes sociais em que recebia mais recados, após a apresentação no dia anterior. Leu alguns, descendo a barra de rolagem do feed de notícias, e prestou atenção nos memes.
Havia um da face de colada no corpo de uma mulher que pisava na cabeça de Vitório.
Uma montagem que zoava o fora levado pelo garoto.
— Acho que o Vito não saberá lidar com isso. A galera tá dando muita ênfase ao lance da paródia! Aquilo foi realmente uma declaração? Eu imaginava que seria um pedido de desculpas por qualquer coisa, não um “Tô a fim de você”.
— Eu desconfiava. O Vito guarda segredos bem, mas não sabe mentir.
— Olha ele ali!
Vitório caminhava devagar com sua mochila no ombro e coçava a orelha, as mechas úmidas do cabelo atingindo seus dedos.
— Já vi todo o alvoroço por causa da paródia! Os memes estão engraçados.
— Famosinho! — debochou Vitinho.
— Não quero fama, apenas que a aceite conversar comigo.
— É capaz de ela nem vir!
— Eu sei.
saiu no meio da nossa apresentação, e sabemos que isso foi mais que uma resposta sutil, apesar de tudo ter sido inesperado, então possa ser que ela enfrente, hoje. Você merece ter essa conversa esclarecedora.
— Acho que estraguei o romance dela, e o cara ainda é meu professor!
— O estagiário vai vazar logo. Relaxa!
Mais tranquilo, Vitório seguiu para a sala, notando os dois em seu encalço, e entrou.
Sentada comportadamente, folheava um livro, parcialmente concentrada em seu conteúdo.
O coração de Vitório acelerou, e o emaranhado de pensamentos se dispersou, focando no detalhe de que ela veio.
Embora não tenha desviado a atenção para quem estava na porta.
— Ela é mais madura que eu! — comentou Vitinho.
Braga Nunes sentou-se, esperando que os amigos fizessem o mesmo.
Vitório balançou a cabeça e acomodou-se na carteira.
— Ela não olha pra gente — ressaltou Braga Nunes, observando-a. — Sempre a defendi dos ataques do Vitinho!
— O problema não é você.
Vitório revirou os olhos.

***


No intervalo, vendo os colegas saírem e, entre eles, , Vitório a deteve, posicionando-se de frente para ela, e a garota conteve uma reação, permanecendo com a expressões neutras para que não fosse entregue suas emoções.
— Podemos conversar agora?
— O que mais você tem a declarar?
— Então você entendeu a apresentação...
— Agradeço pelas suas palavras de incentivo e de conforto, inclusive!
— Não quis usar seu nome para algo degradante. Espero que a paródia não tenha te incomodado.
— O que você quer, afinal? — alterou o tom, de sereno para bravo. — Gritar para todo mundo ouvir, até o meu namorado, que descobriu que tá apaixonado por mim? Irônico ter essa descoberta logo após os ataques racistas que sofri! Isso é piedade? Não lido bem com brancos que apedrejam e fazem curativos em seguida!
— Tu me acusando de usar sua realidade para promover meus sentimentos?
— Exatamente!
— Acorda, ! Não cantei para mim, mas para você! O alvo não eram os sete pontos, nem o que rolou naquele dia, mas você! Eu quis te atingir! Quis que as palavras chegassem ao seu coração e penetrassem! Na verdade, o que eu realmente quis era que você soubesse. Agora, você sabe, e eu me contento com esse avanço.
— Já que provou sua coragem, tudo mudou. Não somos mais amigos, Vitório.
Vitório deu um passo para trás.
— Tá falando sério?
— Sim — blefou. — Você não quer apenas a minha amizade e espera que eu largue meu namorado pra te dar uma chance. Quase leio mentes.
— Então também sabe o que quero desde que a gente dançou junto.
— Ainda não cheguei a esse nível... — desconversou.
— Não se foge de um sentimento bonito dedicado a nós. A gente o recebe e agradece. Você pode estar com qualquer pessoa, mas o que sinto continuará aqui.
aproximou-se da porta e hesitou.
— Por que não me contou antes?
— Eu não achava que você olharia pra mim do jeito que olho pra você desde que a gente se conheceu.
— Nunca considerou isso?
— Eu teria uma chance?
— Talvez. — Refletiu a respeito. — Se bem que, hoje, eu sei quem você é... E não me atraiu.
— Desculpa te desapontar!
— Não esperava a declaração na frente de todo o colégio, mas que você me chamasse e apenas dissesse... — Conteve-se para não sorrir. — “Vamo fechá?”
Vitório não achou graça.
— Tô bem e quero que você fique também. — Estendeu a mão, e hesitou em tocá-la, segurá-la, sentir seu calor. — Por favor.
Ela segurou seus dedos.
— Não precisamos deixar a amizade morrer por causa disso. Eu te respeito, . Se você não quer nada comigo, continuo querendo tudo com você, mas não insistirei.
beijou sua bochecha e se foi.
Vitório ficou vermelho e com os olhos cheios de lágrimas.
Resolveu provocá-la para que ganhasse todas as respostas, qualquer sinal.
O sinal mais claro era que não depositava fé neles dois.

***


— Onde você esteve?
Vitório sentou-se com Vitinho e Braga Nunes à mesa do refeitório.
— Na sala.
— Esse tempo todo?
— É, conversei com a ...
— Pela sua cara desanimada, ela desenhou o fora que te deu ontem.
— Quase! — disse. — Tá feliz com o .
— Você, não.
— Tô anestesiado. Depois do primeiro fora, todo sim que vier é lucro!
Braga Nunes analisou-o.
— Você tá mangando do ocorrido... Sinal de que tá doido!
— Doido pela morena! — constatou Vitinho. — Arriou!
— Prometi que a deixaria em paz. Ela não me quer e tá namorando.
— Segue com a sua vida.
— Sim, sim... — garantiu com tanta convicção que parecia pleno. — Festinha, hoje?
— Quer ir a uma festa?
— Tomou chá de , ficou elétrico!
— Quero desesperadamente esquecê-la. Esse chá não pode ter efeito eterno sobre mim.
— De acordo! Hoje, não haverá festa, mas dá pra organizar uma. Falarei com uns contatos. Será sua despedida de apaixonado. Amanhã, você nem se lembrará de quem é, quem dirá dela!
— Ótimo!

Capítulo 27

[Sábado, 00h50]
87 95563----: É o número da ?
[02h00]
87 95563---- enviou um áudio
87 95563---- enviou um áudio

Chamada recebida de 87 95563----.
virou-se na cama, buscando o celular embaixo do travesseiro, e abriu a janela da conversa. O número de Vitório apareceu novamente na tela, numa chamada.
A garota recusou uma, duas, cinco vezes! Vencida pelo cansaço e pela curiosidade, atendeu a sexta ligação consecutiva, no primeiro toque, p*ta da vida e ciente de que, provavelmente, fosse uma má ideia:
?! EU SEI QUE VOCÊ NÃO QUER ME OUVIR, MAS EU PRECISAVA OUVIR SUA VOZ!”, devido ao excesso de barulho no fundo, ele confessou rapidamente em voz alta, entregando suas emoções. “Na verdade, eu preciso de você”.
esperava um “Oi” e “Te acordei, né?”, não mais uma declaração, ainda mais nesta circunstância.
“Você tá me ouvindo? Espero que o meu 3G não acabe”, disse e riu baixinho. “P*ta que pariu!”
A garota se mexeu na cama.
“Não vai falar comigo?”
Silêncio na linha.
“Acho que, de todas as pessoas no mundo, você é a mais orgulhosa. Eu já pedi desculpa! Por favor, me escuta! Imagino que a minha palavra não tenha mais valor pra você, mas você precisa saber que eu gosto de você. Muito! ... Acho que nunca gostei de ninguém assim.” Vitório se encostou na parede atrás de si e ergueu a cabeça para o teto, segurando um copo com uma mão, e na outra, o celular. “Você não desligou na minha cara... Deve ser um bom sinal!”
Ela encerrou a chamada. Temia lhe dar falsas esperanças.
Vitório não retornou a ligação.

Mais tarde, andava de mãos dadas com , que se movia sobre o skate, carregando a mochila dos dois. Aproximavam-se da pista de treinamento e o garoto a guiou para um banco de madeira no outro lado. Colocou as mochilas em cima dele, retirou o cardigã, mantendo-se com sua camisa de manga comprida preta, e amarrou-o na cintura. Em seguida, passou os braços ao redor de , puxando-a para si.
o abraçou pela cintura, sentindo beijos na têmpora, na bochecha, na testa e no nariz, no cantinho dos lábios, até que, enfim, o mais velho pousou a boca sobre a sua, bem no meio, e ela sugou o lábio inferior dele, mordiscando-o.
sorriu, de olhos fechados. Seus braços se fecharam mais em volta do corpo dela.
— Faz de novo — pediu baixinho.
o mordeu de maneira sedutora. As próprias mãos o largaram para arrumar o black.
— Linda... — Ele a beijou carinhosamente. — Gostosa... — sussurrava. — Inteligente... A única aluna a tirar dez na minha prova... Maravilhosa...
Ela segurou seu rosto e o beijou com vontade. a virou e a posicionou à sua frente.
No sábado, neste horário, não havia ninguém na praça, porque estava frio. A temperatura caía bruscamente, e os cidadãos se recolhiam mais cedo. Os programas mudavam.
acariciou o braço de , e ele mordiscou sua orelha, curvado sobre o corpo dela.
— Queria que estivéssemos na minha casa, sem ninguém. Eu, você e a minha cama.
A adolescente tocou sua nuca, enquanto beijos eram distribuídos pelo seu pescoço.
— Professor...
— Não me provoque, ou eu não responderei pelos meus atos.
Eles deram passos à frente, alguns para o lado, aos beijos, toques cada vez mais íntimos e quentes. Separaram-se para apanhar as mochilas e os skates e correram para a rampa. a levou pela mão até o centro e os dois largaram seus pertences no chão, sentando-se.
O rapaz a agarrou pela nuca, beijando-a com todo ardor e liberdade, enquanto ficava de joelho. Ela se moveu e o empurrou, e ele deitou-se.
A adolescente montou em seu quadril, as pernas em cada lado do corpo dele, as curvas dos glúteos delineadas.
arrastava as mãos pelas suas costas, atê vê-la tirar o moletom, restando a regata, que foi lançada longe. O sutiã preto sustentava seus seios, e estes cabiam nas mãos dele.
O mais velho tocou sua cintura nua, e se arrepiou.
— Você quer parar? — quis saber.
— Não.
O corpo dela se inclinou sobre o dele, e os hormônios controlavam a situação.

***


— Tô indo ao parque municipal... Tá a fim de ir?
Vitório virou-se na cama, encarando o teto, com o celular no ouvido.
— Agora?
— Saio em 5, 4, 3... — Ele escutou sons de passos descendo a escada do outro lado da linha. Braga Nunes despediu-se mãe, e ela o alertou sobre o horário. — Decidiu?
— Tô de ressaca.
— Teve festa ontem?
— Sim... E foi do car*lho! — disse, sorrindo. — O Vitinho me chamou. Ele é amigo dos caras que organizam os rolês.
Braga Nunes hesitou.
— Parabéns pela coragem, Vito, porque noção não tem.
— O que eu fiz de errado?
— Você tá xingando!
— É por força de expressão!
— O máximo que você diria é “p*rra”, não “é do car*lho”! — imitou a voz dele. — Tá andando tanto com o Vitinho fora da escola que tá se tornando discípulo dele.
Vitório riu.
Ele não levava a sério. Bem, não demonstrava, pelo menos.
Sabia que estava reagindo conforme Vitinho reagiria, inconscientemente.
— Fica tranquilo, Braga! Não sou o Vitinho.
— Se você fosse, eu não seria seu amigo. Dois Victor na minha vida é castigo pesado! Tchau!
Vitório, então, aproveitou que estava no aplicativo do Whats e clicou na janela da conversa com — escutou de novo os áudios ignorados. Nenhuma visualização.
Suspirou profundamente, sentindo dor.
No estômago, na cabeça e no ego.
Talvez, Braga Nunes estivesse certo sobre ele estar se tornando alguém como Vitinho. Alguém que ia às festas, bebia até esvaziar o freezer, vomitava no carro, dava PT e ficava com as garotas. Beijava uma boca atrás de outra, todas aleatórias. Trocava contato com as respectivas donas, mas não o mantinha.
Assim, Vitório divagou sobre as próprias atitudes.
Não foi uma mudança radical.
Quase!
Quase deu PT, quase esvaziou o freezer, quase vomitou no carro. Ia a mais festas que as que realmente rolavam e beijava muitas bocas, ou, talvez, fossem apenas duas e se reversavam.
Tanto faz! Não se lembrava.
Só se lembrava de pousar na casa de Vitinho, ou na sua, destrancar a porta e se jogar no sofá.
Desde que levou um fora de , buscava superar. Não superar a garota, mas o sentimento rejeitado que foi dedicado a ela.
Era ele que feria seu ego.
E ainda doía.

***


Quando Braga Nunes chegou ao parque, avistou e abraçados no chão, de maneira que agarrava a sua nuca, as bocas ocupadas naquela junção de línguas, as pernas sobre as suas, de cada lado, enquanto se mantinha no meio das pernas abertas de , que a abraçava pela cintura.
Vestidos, os dois se tocavam com pudor, sob risinhos e intimidade.
Haviam se conhecido.
Em praça pública.
Com nenhum pudor.
Sem plateia.
Em voz baixa, meio lento, meio rápido, mas gostoso.
Amor gostoso.
Amor ou apenas desejo?
Excitados, se expressaram através de gemidos, ofegos e suspiros. Nenhuma declaração de amor. Todas de desejo.
Expressões corporais do coito.
De um fato tinham certeza: fizeram sexo. O que desencadeou, a partir daí, não era problema de terceiros, apenas deles.
— Tá calor!
interrompeu o beijo, afastando os lábios um pouquinho de , que parecia embriagado com tanta pele, cheiro e sabor de . O beijo dela era uma delícia! Lambeu os lábios, sem dar atenção a Marlom, e arrastou o nariz na bochecha da garota.
— Que fase, professor! Pegando em público a própria aluna!
levantou-se, e deitou-se, esfregando o rosto. Não conseguia raciocinar.
— Vou te dar zero — resmungou, erguendo-se. Apanhou a mochila da mão de e entrelaçou os dedos nos dela, firmes.
não olhava para Marlom, e Marlom não tirava os olhos de , averiguando cada movimento. O seu comportamento admitiria se havia algo de errado entre eles. Queria saber se estava feliz com o estagiário. Feliz de verdade! Felicidade que todo mundo vê defeito — a inveja é um sentimento egoísta —, porque incomoda, e sem dúvidas. Duvidar da própria felicidade é como duvidar de si. Se você não sabe se está feliz, se o que está fazendo te traz felicidade, ou com quem você está te deixa feliz, então ninguém sabe. E não ter certeza sobre isso já é motivo o suficiente para se questionar.
Enquanto os via ir, caminhando devagar, Marlom concluiu que Vitório estava mudando, e havia mudado.
Não pareciam mudanças bem-vindas.

Capítulo 28

— Eu não quero saber!
Marlom Braga Nunes cruzou os braços diante do amigo Vitório, que se recusava, feito uma criança medrosa, saber dos últimos acontecimentos na vida de .
— Não gosto de fofoca.
— Tá.
— Obrigado!
— Vito, me responde uma pergunta e seja sincero. Você tá correndo atrás dela?
— Não... Eu parei.
— Sério?
— Faz pouco tempo, mas criei vergonha na cara.
— Achei que pessoas tímidas não sofressem com isso. Acabo de notar que não é problema de todas essas pessoas, mas dos tímidos que estão apaixonados. De duas, uma: ou perdem a dignidade e continuam sozinhos, ou perdem a dignidade e, com muita pressão, arriscam. De qualquer forma, vocês perdem a dignidade, e o pior é que ninguém se importa em perdê-la. Olhe pra você! Tá fazendo tudo isso por causa do que sente por ela. E é desnecessário fingir que não. Você pode até me enganar, mas não pode enganar a si. Não dá pra mentir pra gente, Vito. A mentira mais escrota é quando a repetimos tanto na nossa consciência que nos convencemos de que é verdade.
— Nunca menti pra ninguém.
— Vai admitir que gosta dela, então? Que arriou?
— É o mesmo que dizer que me lasquei. Prefiro ficar na minha. E pare de insistir com essa história boba! Eu só quero seguir em frente! Ficar com umas meninas... Talvez eu engate um namoro com uma delas, após o colégio... Tem uma que tá no meu pé, cheia de amor pra dar, e eu tô aqui, ouvindo lição de moral de um cara mais novo que eu. É brincadeira um negócio desse?
Braga Nunes sentiu a mão dele na sua cabeça, num ato de afeto.
— Vamos estudar!

***


se reuniu com os colegas de classe que assistiam as aulas da língua espanhola. Em outra sala, os 20 alunos se espalharam pelas carteiras, prestando atenção na explicação da professora:
— Hoje, eu vou pedir que separem a classe em grupos pequenos de três a quatro alunos. Temos outra avaliação. Desta vez, não envolve dança. Quero apenas que estudem alguns textos para a próxima aula!
A maioria concordou. Quem não concordou não se pronunciou. Chamaram Vitório e para o mesmo grupo.
— Vocês dois vão ficar responsáveis por traduzir este texto.
Vitório pegou a folha, conferiu, tirou foto e entregou a , esticando-se para alcançá-la.
Ela não agradeceu.
— Por mim, sem problema! Vou traduzir logo!
— Não é pra fazer tudo sozinho! — refutou , atenta ao diálogo de Vitório, que surpreendeu-se ao ouvir sua voz, após muitas semanas sem se falarem. — Entendeu?
— Se você falar comigo fora daqui, a gente pode decidir a divisão. Caso contrário, fica difícil.
— Você fica com as últimas estrofes. Divisão feita!
Vitório olhava para ela, descarado.
“Tudo isso porque eu bebi e falei merda? Porque escrevi uma paródia pra você? Porque sou idiota? Um nerd idiota e louco por você!”
Ah, se tivesse o poder de ler mentes...
Se Vitório fosse mais corajoso...
Se não houvesse acontecido a retaliação da gangue e o festival não tivesse sido realizado logo...
Se a professora Sandrinha não estivesse de licença, e Tamashiro não desse aula à sua turma...
Se Vitório pudesse congelar seu coração ou arrancá-lo, sem sofrer as consequências (mais devastadoras que paixão e “dor de cotovelo”)...
De nada valia os ses! Não havia como reiniciar a vida. E ela não para porque você não aprendeu a viver. A vida até te ensina, mas enquanto você apanha. Geralmente, não com uma palmada e, sim, com uma surra!
— Você não consegue nem olhar pra mim — comentou Vitório, depois de serem dispensados.
, que andava mais à frente, virou-se.
— Olho para o que me chama atenção.
— Posso olhar pra você o tempo todo? Porque, todo dia, você desperta o interesse do meu olhar. Seria um desperdício tentar desviá-lo diante do seu.
hesitou.
— Pare com essas frases prontas. É ridículo!
— Não vou parar. E quer saber? Cansei de você me condenar por um caso isolado! Você sabe que eu nunca te ofenderia. Todas aquelas palavras escaparam porque eu estava com raiva e havia bebido. Você não é um produto, pagando ou deixando ser pago a sua entrada. Você é uma garota empoderada, inteligente e gigante! Eu digo isso porque vejo a sua luta. É o espelho de tantas pessoas, você! Há garotos aceitando o próprio cabelo, assumindo a identidade deles, por causa do que você se tornou! E não foi uma garota assustada, digna de pena, mas alguém que abraça a dor do outro, não apenas o corpo, com tanto cuidado, e a dor se torna sua. Você ri com os que riem. Chora com os que choram. Mas, , você não perdoa os que erram.
— Você não foi homem pra me respeitar e não é vítima de condenação feita por mim, porque é você quem se autocondena.
— Mas eu sou um garoto. — Abriu os braços, na tentativa de demonstrar todo o seu raciocínio, gesticulando. — , eu sei que meu posicionamento político, por exemplo, provavelmente, vai ser outro daqui a uns cincos anos. Menos! Quando eu sair da escola e ingressar na faculdade. Eu vou mudar. Meus pensamentos vão mudar. Nós estamos num processo de mudança infinita. Todos os dias, há uma enxurrada de novas definições sociais, e você espera que eu não só acompanhe, mas me adapte de um dia pra outro? Não dá! Não se desconstrói um ser humano apontando o dedo na cara dele. Você senta ao lado e conversa. Explica! Questiona! Não condena, como se tu tivesse nascido pronta, porque não foi assim. Houve um processo pessoal.
Ela estava em silêncio, e Vitório abaixou lentamente os braços, perto o suficiente para impedi-la de correr, mas cansado o bastante para deixá-la ir, se quisesse.
Ninguém saía de um embate de palavras vazio.
— Não sei se consigo te...
Ele mordeu o lábio.
— Sempre foi uma razão pessoal, não foi? Você não sente mais raiva do que eu disse, mas de ter sido eu a dizer.
se empertigou, incomodada.
— Eu não esperava isso de você.
— Confesso que também não esperava agir assim, mas não me condeno. Nos primeiros dias, sim, porque você não falava comigo, e eu percebi a dimensão do que o meu comportamento te causou, mas, depois... Depois, eu tentei me redimir, e você não quis me ouvir, então deixou de ser problema meu.
Ela suspirou.
— Tenho que ir embora.
— Quer carona?
— Não... O , ele...
— Entendi. — Vitório disse. — O seu namorado.
— Nós não estamos namorando. Não oficialmente, pelo menos. Mas isso não importa pra gente.
Ele concordou com um aceno.
— Vai ficar aqui, esperando?
— Lá na frente.
— Então vem.

***


Depois de deixar em casa a pé, foi à praça, subiu a rampa e sentou-se.
O campeonato estadual estava a caminho.
Ele e outros amigos haviam se inscrito, todos patrocinados por Marcos P. Tamashiro, pai de .
não havia treinado como deveria, como o pai queria e, agora, inevitavelmente, sentia-se culpado.
— Salve o rei!
Ele sorriu para Joe, que sentou-se ao seu lado em cima da rampa.
— E aí? Preparado?
— Não...
! Seu pai, ele...
— Eu sei — disse, roendo o dedo mindinho, enquanto se corroía por dentro. — Ele investiu em mim.
— Ele investiu muito em você! Mais do que em qualquer competidor! Você é a estrela dele, o garoto prodígio... Todas as apostas foram feitas em você.
mordeu o lábio com força e tapou o rosto, esfregando a cabeça em seguida.
— Ele sempre me irrita quando faz isso.
— Te irrita? Eu queria ter um pai que me irritasse ao acreditar no meu talento. Ele nem precisava ter dinheiro!
— Você namorou a minha irmã, entrou pra família e não consegue entender como as coisas funcionam para o meu pai?
— Ele pega pesado, mas é para o seu futuro, — constatou, sorrindo. — Você é filho do presidente do comitê interestadual. Estranho seria se ele não levasse esse esporte a sério. A sua carreira. Você!
— Ele não me leva a sério. Na verdade, ele só se importa com números. Quantos títulos eu ganho, quanto ele perde, quando é o próximo campeonato, quanto eu vou ganhar... Números! Eu não sou um número. Eu sou uma pessoa! Tenho sonhos, projetos, objetivos... Mas quando o meu pai ouve alguém falar sobre isso, ele ri.
Joe suspirou.
— É difícil, eu sei, mas...
o interrompeu:
— Você não tem um pai como o meu. Não sabe o que é isso.
— Se a Brisa estivesse aqui, ela...
— Você não pode dizer o que ela acharia, porque a minha irmã não está aqui.
— Tudo bem. Mas eu posso dizer o que o Joe acha. Eu acho que tu é covarde. — Notou olhar para si, descrente, seu olhar estreito. — Tu sempre diz a alguém o que seu pai faz, o quão f*da é, mas nunca diz a ele. Não o chama pra ter uma conversa de homem pra homem. Deixa eu te dizer uma coisa óbvia: você não é mais adolescente, irmão! É um homem. E homens resolvem os seus problemas diretamente. A gente não envia recado.
riu fraco, sem motivação.
— Para ele rir da minha cara...
— E você acha que pode controlar a reação das pessoas? Você é o rei dessa p*rra, mas não é um deus.
— Joe, não é tão simples quanto 2+2. Você é deslumbrado com o esporte e, por isso, defende o meu pai. Talvez, a Brisa esteja metida nisso. Você era apaixonado por ela, não? Eu não te culpo. Mas não tente me convencer de que é para o meu bem tudo o que ele faz.
— Não quero te convencer a nada. Você faz o que quiser da sua vida. Só que, se realmente quer se libertar disso, quebre o cadeado. — Ele levantou-se com o skate sob o braço. — A propósito, eu não era apenas apaixonado pela sua irmã. Se fosse, eu teria superado a morte dela, em algum momento. Eu a amo. É completamente diferente.



Continua...



Nota da autora: (07/09/2018) Não sei se vocês estão percebendo, mas eu tô soltando capítulo atrás de capítulo pra história chegar à reta final. Amo ver a obra completa!
É isto.
Ah! Enquanto as próximas não vêm, leiam esta short e se distraíam!

Beijos,
Ray.



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