Última atualização: 17/02/2018

Capítulo 1

“Em sua vida (ficará bem)
Em sua vida tudo vai melhorar (ficará bem)”
- Ed Sheeran


“Terrível terremoto atinge norte da África deixando muitos desolados, logo em seguida uma enorme enchente foi causada devido aos danos do terremoto, milhões de pessoas estão desabrigadas e sem alimento, a agua que já estava escassa está mais difícil ainda ... Solicitamos toda ajuda voluntaria possível.”
Ser fiel a Deus, está aí uma coisa que me motiva, mas algo que me motivava mais ainda era ajudar, como eu amava fazer algo pelas pessoas. Eu sempre fui uma pessoa religiosa e sempre acreditei que tudo que se faz de bom para alguém agora, você acaba fazendo algo melhor para si mesmo, por isso que assim que recebemos essa mensagem, minha família logo se dispôs a ir para África por tempo que for necessário nossa ajuda.
- – minha mãe bateu na minha porta – você está pronta?
Sorri para minha mãe e apenas assenti com a cabeça, peguei minha bolsa em cima da escrivaninha branca e desci as escadas da pequena casa em que morávamos. Deixar o Floyd, nossa pequena cidade, não seria fácil. Eu gostava das noites de música e gostava do clima agradável que ela tinha, mas eu tinha certeza de que a decisão que tomamos em família seria melhor, sem contar a experiência maravilhosa que teríamos para contar, quem sabe toda essa história não vire um livro, pensei enquanto entrava no carro.
Meus grandes fones de ouvido me faziam sorrir ao ver as árvores passar pela janela do carro em caminho do aeroporto, bom é isso, África, me aguarde pelos próximos meses. Virei para o lado e me deparei com meu irmão, seus olhos estavam meio tristonhos, segurei sua mão e sorri.
- O que foi sweet? – usei o apelido que ele achava tosco e que eu sabia que o irritava, mas eu como uma boa irmã mais nova sabia fazer bem meu papel.
- Você sabe que esses apelidos são desnecessários – ele fez careta e eu dei de ombros – é difícil dar tchau pra isso tudo.
- Eu sei – dei de ombros – mas pensa pelo lado positivo, lá é quente e você ama o calor – ri, fazendo ele rir também. – e além disso não estamos fazendo nada obrigado, sempre foi nosso sonho, não foi?
- Sempre foi – ele deu de ombros – Vai ser bom, além disso, não vai ser pra sempre, podemos voltar sempre.
- Bobinho, nós temos que voltar um dia ou outro – ri apontando para aliança em seu dedo – vai ser apenas dois meses para você, . A não ser que desista do seu casamento.
- Não brinca com isso, – mamãe se virou para trás e eu ri.
- Não está aqui quem falou. – levantei as mãos como se tivesse me rendido a eles – foi só uma brincadeira – ri.
- Você um dia se acostuma com ela, falou de forma tranquila como sempre e eu reverei os olhos.
- Claro que sim, um dia. – olhei novamente para janela.
era meu irmão mais velho e eu tinha todo direito de sentir ciúmes dele, ele era louco pela atual noiva, , e na realidade eu não tinha nada contra ela, era só ciúmes bobo mesmo. Eu na realidade esperava um dia viver esse amor, ele parecia tão puro, nada bagunçado, tudo extremamente puro para dizer a verdade, porque na realidade foi assim que fomos ensinados a ser, foi assim que os meus pais foram e deveria ser assim comigo também.
Um namoro cuidadoso, com total supervisão, a pureza deveria ser mantida para o casamento, você deveria encontrar alguém que acreditasse no mesmo que você, não porque era uma lei, mas porque talvez seria mais fácil manter suas crenças e sua fé. Eu não pensava em encontrar alguém agora, não estava nos meus planos. Na realidade, meus planos é simplesmente manter minha vida do jeitinho que ela está agora, calma e tranquila. No dia que aparecer a pessoa certa, então este será o meu momento de construir a minha família, mas enquanto isso, sem pressa.
Meu pai estacionou o carro e alguns amigos já nos esperavam ali para nos despedirmos pela milésima vez. Bom, agora sim, a história toda começa.
- Estão preparados? – papai tirou o cinto e sorriu animado.
Assenti animada e totalmente preparada para mais uma etapa da minha nova vida. Os próximos três meses seriam intensos e eu estava preparada para eles, depois, bom, depois é apenas depois, a gente vê o que acontece até lá.

***

Kwazulu Natal, a nova província que moraríamos pelos próximos dias, onde carinhosamente apelidei a mesma apenas de Natal. Eu confesso que fiquei de boca aberta quando cheguei aqui, é um lindo lugar, pena que o fato de ter vindo para cá tenha sido triste. A destruição é quase que total, poucos lugares da cidade não foram devastados por completo, já são 70 mortes confirmada e centenas de pessoas desabrigadas, o apoio psicológico e material será totalmente necessário no momento.
Descobri alguns pequenos detalhes, apenas 13% da população fala meu idioma, ou seja, terei que aprender algumas palavrinhas em zulu e sim eu estava muito assustada, como eu vou pedir comida em zulu, ri comigo mesma e aumentei a música do meu fone, olha no que fui pensar, comida.

***

Depois de 32 horas de viagem, finalmente chegamos no pequeno apartamento de três quarto que alugamos. Ele era aconchegante e posso dizer que ele talvez seja até fofo. É, eu posso me acostumar com esse lugar onde posso chamar de meu novo lar. Era tudo tão pequeno se eu for comparar com minha outra casa, a cozinha, por exemplo, cabia apenas duas pessoas e olha lá.
Coloquei minha mala no quarto já mobiliado e me joguei na cama, eu confesso que precisava tomar um banho, mas o cansaço era bem maior, então eu só tirei as calças que me apertavam e joguei os tênis por qualquer canto do quarto e simplesmente dormi, sem sonhos, sem nada. Nem sequer me importei com o sol de meio dia que fazia lá fora.

***

Meus olhos ainda pesados foram obrigados a se abrirem com uma pontada que senti no meu estômago, com certeza isso era fome. Me levantei devagar e uma grande dor de cabeça tomou de conta, é realmente estava com fome ou eu dormi demais. Peguei meu celular e olhei o horário, uma da manhã, fiz uma careta, fuso horário todo bagunçado. Andei devagar até minha mala e procurei uma roupa qualquer e uma toalha, entrei no banheiro e um banho morno e relaxante com certeza cairia bem, na realidade uma banheira cairia melhor ainda, mas seria luxo de mais.
Banho tomado, roupa vestida, cabelo molhado e uma fome devastadora. A geladeira estava tão vazia quanto meu estômago e escutei ele fazer um barulho tão alto que fiquei com medo que ele acordasse o resto da casa, precisava dar um jeito nisso. Fechei a geladeira e dei de cara com meu irmão de braços cruzados, me fazendo assustar.
- Procurando alguma coisa? – ele disse rindo da minha cara.
- Idiota , isso que você é – empurrei seu braço, colocando a outra mão no peito tentando me recuperar do susto e acabei rindo também.
- Olha a boca mocinha – ele se virou andando até a sala – eu sei que são uma da manhã, mas eu estou com fome, topa procurar alguma coisa para comer?
- E como topo, se eu não topar é perigoso seu estomago gritar mais alto – ele disse e eu coloquei a mão na minha barriga fazendo careta – Vamos?
- Acho melhor você pegar o telefone, caso alguém nos ligue. – ele avisou – estou sem bateria.
- Ah – corri até o quarto e peguei o aparelho e joguei dentro da minha bolsa, junto com meu tablet, melhor prevenir. Voltei para sala e estava jogado no sofá esperando. – Vamos o bonitão.
- É eu sei que sou bonitão – ele piscou para mim e eu revirei os olhos.
- Não sei como a consegue te suportar, sério. – ri e sai pela porta e esperei ele trancar a mesma – você avisou nossos pais?
- Deixei um bilhete. – ele guardou as chaves no bolso da calça. O clima da cidade continuava quente apesar de estar ventando, eu esperava me acostumar um dia com isso, mas não era impossível. – Te incomoda o fato de você ter que ser diferente de algumas pessoas devido sua fé? – me tirou dos devaneios e eu pensei antes de responder.
- Sim e não – dei de ombros – mas eu gosto de ser diferente dessas outras pessoas. Para elas o que é importante é ter sempre mais e mostrar isso para as pessoas. Eu acho que na realidade o que você tem aqui – toquei na cabeça dele – e aqui – depois toquei no coração – é mais importante do que o resto. – sorri de lado – Te incomoda?
- Às vezes – ele deu de ombros – essa coisa de ser diferente de todos, às vezes é irritante, mas eu não ligo tanto.
- Não é como se fossemos um ET, só recebemos uma educação que visa sermos abnegados e ajudar as pessoas. Tem muita gente assim, se quer saber – dei de ombros e ele apenas concordou.
Paramos um momento esperando o sinal abrir para que pudéssemos atravessar a rua e chegar em um estabelecimento que parecia um restaurante, na realidade ele era mais para aqueles bares 24 horas, mas eu estava com tanta fome que eu nem ao menos me importei. Outra coisa que eu me esqueci de me importar ao entrar lá foi o fato de como me comunicaria com as pessoas ali.
- , você é bom em mimica? – ele me olhou confuso e eu acabei rindo – Eu não sei falar nada em zulu, apenas oi e tudo bem. – ri baixo.
- A única coisa que eu aprendi até o momento foi usar o google tradutor – ele andou até uma mesa mais no fundo e eu ri dele.
- Ou a gente torce para que o garçom faça parte dos 13% das pessoas que falam inglês, senão essa vai ser nossa saída – dei de ombros e me sentei em um daqueles bancos almofadados em vermelho que combinava com um ambiente um tanto rustico. Era até bonito, colorido, tinha um karaokê do outro lado do bar/restaurante o que me lembrava um tanto os lugares countries que costumava ir lá em Floyd.
Peguei meu cardápio e escolhi algo pela imagem já que a maioria das coisas escritas ali não estava em meu idioma. A minha sorte talvez tenha sido o garçom simpático que nos ajudou, já que arranhava um pouco do nosso idioma e isso com certeza salvou o meu dia já que eu pretendia escolher um prato chamado sosatie que me lembrava espetinho, mas explicou que é muito apimentado, então deixei essa passar e escolhi Bobotie que é tipo um bolo de carne com uvas passas, eu escolhi só pelas uvas mesmo, que eu adoro.
Olhei para que estava concentrado no celular, provavelmente falando com sua noiva, o que era totalmente desagradável, mas resolvi não incomodar, peguei o meu tablet e comecei a me atualizar de algumas novidades quaisquer. se levantou e levantei minha cabeça com a sobrancelha arqueada.
- Passou a fome? – coloquei o tablet em cima da mesa e ele revirou os olhos.
- Eu vou só atender essa ligação – ele mostrou a tela do celular com o nome da brilhando na tela e assenti.
- Tudo bem eu espero aqui – dei de ombros e voltei minha atenção para as fotos do Instagram.
Eu odiava ficar sozinha em lugares desconhecidos e com pessoas desconhecidas, principalmente quando eu não conheço ninguém. Ah, dane-se, pensei. Olhei pela janela e vi ele parecendo um idiota apaixonado. Será que quando eu me apaixonar vou ficar idiota assim? Talvez eu pague uma língua imensa e ele jogue isso na minha cara. Eu precisava parar de zoar ele por isso.
- Tudo bem se eu me sentar aqui? – um homem extremamente branco e de cabelos tirou minha atenção que antes estava para o lado de fora e eu apenas assenti. Ele estava visivelmente alterado pela bebida que provavelmente estava tomando, seus lábios e bochechas estavam rosadas e seus olhos me pareciam até inofensivos. – Meu nome é , prazer – ele sorriu.
- Prazer – retribui ao sorriso e coloquei meu tablet em cima da mesa – Meu nome é .


Capítulo 2


Uma garota de cabelos em tom castanhos quase pretos, que combinava perfeitamente com seu rosto, os óculos quadrados que ela usava dava aquele famoso toque nerd, que eu simplesmente achei adorável, seus olhos grandes e redondos a deixava fascinante, talvez eu apenas estivesse delirando por causa da quantidade de whisky 18 anos que eu ingeri nesses últimos minutos ou talvez eu acabei de achar minha “crush” do bar, sorri comigo mesmo.
O rapaz que ela estava acompanhada não parecia muito interessado nela e nem ela parecia muito interessada nele, talvez fosse um relacionamento fraco como todos que eu costumo escrever. O rapaz que antes estava sentado se retirou com o telefone na orelha, falando com alguém que ele julgava mais importante, que pequeno tolo, pensei. Ela não parece ter gostado muito da ideia de ter ficado ali, já que seu rosto estava quase grudado no vidro. Mas mesmo assim ela parecia tão doce enquanto olhava pela janela.
Me levantei, não no meu melhor estado confesso, não estava caindo, mas eu talvez podia vacilar em algumas palavras ou fazer coisas que eu pudesse me arrepender no dia seguinte. Não pensei muito, apenas dei de ombros, isso não era importante, eu a achei tão interessante e seus olhos chamavam tanta atenção, eu precisava ver qual a cor daqueles olhos que tanto me fascinava, andei até a moça e sua atenção finalmente era minha.
- Tudo bem se eu me sentar aqui? – ela assentiu e eu consegui perceber que seus olhos eram verdes, mas não tão verdes, às vezes pareciam castanho, às vezes pareciam verdes ou talvez eu estava apenas delirando, eram lindos. – Meu nome é – sorri simpático.
- Prazer – ela falou em um sotaque totalmente americano e se eu não me engano do interior – Meu nome é . O senhor está bem? – ela arqueou a sobrancelha e eu apenas assenti com a cabeça.
- Ah eu estou ótimo - apoiei meu rosto nas mãos – sabe o que é, senhorita. – levantei meus olhos e encontrei os seus - Eu estava observando a senhorita e o rapaz, - olhei pela janela observando o rapaz falando no telefone, ele parecia feliz, ria de algo e tinha um sorriso quase que bobo no rosto, ela pigarreou e eu voltei a atenção para ela voltando a falar – na realidade, eu estava sentado ali no fundo – apontei para trás dos meus ombros e ela olhou para onde eu estava - e eu simplesmente fiquei curioso a respeito da cor dos seus olhos – disse sincero e ela soltou a risada alta que me fez ter vontade de rir junto.
- Ah, se essa é sua dúvida – ela retirou os óculos – meus olhos são verdes, não muito escuros e nem muito claro, apenas verdes – ela disse simples e óbvia – às vezes no inverno eles costumam mudar de cor. Mas isso não é nada muito fantástico. – ela deu de ombros e colocou os óculos novamente.
O garçom que estava me atendendo segundos atrás chegou com o lanche dela, fazendo com que ela soltasse um suspiro baixo, pegou a talher que estava junto e simplesmente começou a comer, como se nada pudesse estragar aquele momento, acho que a pobre garota estava mesmo com fome. Sorri de lado por achar incrível o fato dela não ter uma daquelas frescuras de não comer na frente dos outros, o que a deixava ainda mais interessante.
- Obrigado por tirar minha interminável dúvida. - brinquei, senti que precisava saber mais, ela me tratava de forma tão natural, que eu nem me lembrava mais o porquê de estar bebendo, nem me lembrava que ela era uma completa estranha. Me ajeitei na cadeira e ela levantou o olhar para mim - Agora, o que você está fazendo aqui? – ela me olhou obvia, e apontou para a comida nada light – Digo, aqui na África do Sul?
- Bom, - ela bebeu do suco que tinha ali – estamos participando de um projeto, ajuda humanitária, na realidade começa essa semana. E você? – ela olhou pela janela e viu que o rapaz ainda estava no telefone, deu de ombros e jogou o cabelo para trás.
- Eu – sorri e revirei os olhos, claro que ela sabia o que eu estava fazendo aqui, ela se acomodou no encosto da cadeira e me olhava interessada – Bom, - pigarreei e a olhei – digamos que eu vim fazer quase a mesma coisa que você. As crianças que passaram por esse desastre precisam de ajuda.
- Entendi, que interessante. Então quer dizer que o cara que bebe muito whisky adora ajudar as crianças – ela falou em tom de brincadeira e eu acabei rindo.
- O meu whisky não tem nada a ver com caridade – ri e ela deu de ombros.
- Verdade, desde que seja de coração está valendo – ela empurrou o prato dela e me entregou o seu garfo – eu acho que beber de barriga vazia não faz bem.
- Outch – fiquei admirado com a atitude dela e peguei o garfo da sua – Você acha normal dividir comida com desconhecidos. – experimentei da torta que por sinal estava maravilhosa.
- Eu não costumo dividir comida – ela riu – comida é uma coisa muito preciosa pra mim. Mas eu acho que você precisa, então estou já fazendo minha caridade do dia.
- Obrigado, mas eu estou satisfeito – ela deu de ombros e chamou o garçom, pediu para que ele embrulhasse para viagem o dela e do rapaz que a acompanhava, aproveitei para pedir água para mim.
– Então, voltando ao assunto a respeito das crianças, elas são muito carentes, e precisam de ajuda. São poucas as pessoas dispostas a isso e quando ajudam elas sempre esperam ganhar algo em troca. – ela falou e eu suspirei. Bom, ela tem razão, pelo menos no meu caso, claro que estou pelas crianças, mas sempre esperamos ganhar algo, seja pelo fato de ficar mais popular ou vender mais.
- Concordo plenamente com você – o garçom trouxe o embrulho e deixou em cima da mesa e fez o mesmo com minha água, ela agradeceu o mesmo e se levantou.
-Senhor foi um prazer te conhecer – ela sorriu e logo o rapaz que a acompanhava voltou – Boa sorte com sua obra generosa. – ela estendeu a mão e eu a cumprimentei.
- Vamos ? – o rapaz apareceu e passou os braços ao redor de seus ombros – Olá – ele me cumprimentou tão sorridente quanto ela e eu apenas assenti com um pequeno sorriso no rosto, se não fosse pela convivência poderia dizer que eles são parecidos.
- Tchau – ela pegou o pequeno pacote e a bolsa e saiu pelas ruas, contando algo para o rapaz que eu confesso que fiquei curioso para saber, mas deixei para lá. Peguei meu casaco que estava na mesa mais ao fundo e paguei minha conta.
Andei até a porta e escutei um senhor me chamando. Me virei e ele estava segurando um tablet, e o objeto só podia ser dela, que esquecida. Voltei até o senhor que estava com ele em mãos.
- Ele é seu? – ele perguntou e eu apenas assenti, pegando o mesmo. Essa sim seria uma boa desculpa para que eu pudesse vê-la novamente.
- Obrigado senhor – sai do bar e entrei no táxi que estava lá fora me aguardando. – Vamos dar uma olhadinha aqui – abri a lista de contatos e digitei o nome dela, anotei o número da mesma no meu celular e mandei uma mensagem *Parece que você se esqueceu de algo importante* - guardei o meu celular no bolso do meu casaco e observei a foto de descanso de tela, ela estava sentada em cima de uma pedra com um lindo pôr do sol atrás. Junto com ela estava o rapaz e mais um casal que julgo ser seus pais. O celular vibrou e eu o peguei olhando a mensagem que havia ali *O meu Tablet ????, eu nunca teria percebido, ou melhor, teria percebido amanhã quando eu fosse usá-lo. Como faço para pegá-lo novamente? *
*Amanhã podíamos nos encontrar, o que acha? * - guardei novamente o celular e desci do carro assim que ele estacionou no hotel, acho que toda minha embriaguez se esvaiu com aqueles quinze minutos de conversa e um pedaço de bolo de carne, não que eu tivesse interesse para algo sério, ela é sexy, mais confesso que eu realmente gostei de conversar com ela. Algo nela me intriga. Ela parece ser diferente.
Entrei no elevador do grande hotel, um dos poucos que não foi atingido pelo desastre, e por falar em desastre o que ela falou, ela tem toda razão, as pessoas sempre pensam em receber algo em troca. Eu não quero ser assim, não posso ser assim. Saí do elevador e peguei meu celular, ligando para o meu empresário.
- David – disse assim que ele me atendeu – eu gostaria de pedir um favor.
- Claro , em que posso ajudar? – sua voz parecia sonolenta, olhei no relógio e marcava 3 da manhã. Claro que ele estava sonolento, revirei os olhos.
- Pode sim, eu gostaria de me certificar que todo dinheiro arrecado fosse realmente para as pessoas que necessitam de verdade. – escutei um suspiro do outro lado da linha – É sério David, eu quero me certificar disso.
- Por que isso é importante? – podia ver ele simplesmente dando de ombros e deitando novamente como se aquilo nem tivesse sentido.
- Porque é importante para as pessoas que dependem disso – falei obvio – Então, por favor, faça o que eu estou pedindo – disse simples – eu vou precisar desligar.
- Tudo bem , amanhã conversamos melhor sobre isso. – ele desligou sem me dar chance de dizer que já estava tudo decidido.
Olhei para tela do celular e tinha uma mensagem dela ali, abri sem demora *Sinto muito, mas não posso me encontrar com você, será que você poderia deixar no endereço que vou te enviar amanhã cedo? *
Confesso ter ficado um pouco desapontado, eu queria vê-la novamente em outra situação. Poder conhecer ela melhor, mas parece que realmente não terá como, suspirei e a respondi. *Claro, posso levar sim! *
Depois que ela me agradeceu e enviou o endereço resolvi finalmente tomar um banho e relaxar, afinal amanhã seria um longo e importante dia. Eu ainda era .

***


Claro que eu sabia quem era , eu teria que ser muito tolinha para não conhecer ele, eu fiquei simplesmente em choque quando o vi ali na minha frente. Eu não posso dizer que eu era exatamente fã e que quase dei ataque histérico, porque isso definitivamente não aconteceu e nem aconteceria, mas eu curtia as músicas dele, eu as achava incríveis para não dizer menos.
Fingir que ele era uma pessoa “normal” foi engraçado, mas quem se importa, eu provavelmente nunca mais teria uma conversa longa com ele, claro que eu tive que escutar um monte do meu irmão dizendo que se eu aparecesse na mídia eu estaria morta, o papai e a mamãe não iam gostar nada da ideia e bla bla bla, mas como eu mesma disse, quem se importa.
Tomei um banho gelado mesmo, porque o calor ali era quase insuportável e coloquei uma calça flare de um jeans claro de cintura alta e uma blusa de bolinha por dentro, prendi meu cabelo em um rabo de galo e peguei minha bolsa. Saí do meu quarto já arrumado e fui tomar café da manhã.
Meus pais já tinham tomado, por isso estava apenas eu e ali. Sua cara de sono era evidente e a minha estaria também se não fosse pela maquiagem que tampava as olheiras. Peguei uma vasilha que havia kiwi picada e andei até depositando um beijo em sua bochecha.
- Bom dia – sentei de frente para ele – Dormiu bem?
- Dormi bem pouco – disse meio emburrado. – Mas você parece ótima – ele olhou para mim e eu sorri sem mostrar os dentes.
- Quanto ao seu senso de humor ele está péssimo, a vai amar acordar do lado de um carrancudo como você – brinquei. – e eu não pareço ótima, eu sou ótima – fingi ser convencida e ele fez uma careta engraçada.
- Você é sempre animada pela manhã ou é impressão minha? – ele disse se referindo ao dia de ontem e eu entendi perfeitamente.
- Ah , para de chatice, ok? Eu sou sempre animada e por falar nisso – olhei no relógio – estamos mais que atrasados. – me levantei terminando de engolir os últimos pedacinhos de kiwi.
- Cuidado para não se engasgar, o gordinha – ele zoou e eu revirei os olhos.
- Idiota – sai do apartamento com apressado em meu encalço – Cadê nossos pais?
- Estão nos esperando lá – ele rodou as chaves no dedo – eu sou o motorista da vez.
- Socorro, como alguém autorizou você dirigir por essas ruas? – olhei para ele que fazia cara de indignação - Para onde vamos? Quais são as regras? – perguntei a respeito do serviço hoje.
- Eu fui designado para o local de construção, vamos ajudar nas construções das casas de algumas pessoas hoje, você pode escolher trabalhar na sua área de psicologia ou pode conversar com algumas pessoas sobre a Bíblia. – ele deu de ombros.
- Ou seja, dar fé para as pessoas – disse simples, porque na realidade era isso que as pessoas queriam, elas queriam fé de que talvez, de alguma forma ou outra, isso tudo acabaria, talvez um pouquinho apenas de esperança. É por isso fazemos esse trabalho, dar uma esperança verdadeira as pessoas – Eu acho que vou para ala psicológica. – entrei no carro assim que ele destravou o alarme – Eu estou vestida para isso mesmo.
- Vai ser um pouco difícil por causa do idioma, mas eu estou extremamente empolgado – eu apenas concordei e ele aumentou o volume do som, tocava uma música qualquer que tinha no pen drive.
Eu juro que estava tentando me focar no que eu deveria fazer ali, mas hora ou outra eu me lembrava da noite anterior, eu sei que não significou nada para ele e nem poderia significar nada pra mim, afinal, tenho minha vida e minha vida definitivamente não é ligada de forma alguma a dele. O que? Eu já estou pensando em vidas estarem ligadas, ri e neguei com a cabeça, meu Deus qual é o nível da minha carência. Foi uma conversa de 15 minutos, , foco.
- Pensando em ontem? – me tirou dos meus devaneios com um pouco de seriedade na voz.
-Oi? – fingi estar chocada com seu comentário – Claro que não , me poupe, estou preocupada com as pessoas, só isso. Ou você acha que eu sonho em viver um grande amor com um cara famoso - abanei o ar dramatizando – querido se você pensou, “sim ela sonha”, acredite você está totalmente certo – ele revirou os olhos.
- Claro, sempre com uma pitada de ironia. – ele me olhou e eu desviei o olhar – Você sabe que isso seria quase impossível, né?
- , foco no trabalho e no caminho – bati palmas como se tivesse tentando fazer o assunto passar – foco no trabalho. – sussurrei essa parte quase que para mim mesma.
Meu celular vibrou e ali estava uma nova mensagem, era do , bloqueei o celular novamente e aguardei, não podia permitir que visse, caso contrário ele não pensaria duas vezes antes de me explicar os perigos de me envolver com alguém que não tem os mesmos princípios do que eu. Suspirei e senti ele vibrar novamente, santa curiosidade, saia de mim.
Quinze minutos se passaram e ali estávamos, no local de risco, eram tantas casas devastadas, árvores caídas, postes em cima de carros, era devastador, aquele município estava simplesmente acabado. Aquelas pessoas deveriam estar aterrorizadas. Respirei fundo e abri a porta do carro, saindo do mesmo orando para que eu pudesse de alguma forma ajudar aquelas pessoas. Naquela altura as poucas palavras que aprendi na língua mãe daquelas pessoas começaram a aparecer na minha cabeça e eu agradeci mentalmente por isso.
Andamos até uma tenda branca que tinha ali e reconheci alguns rostos. Alice, uma garota britânica que trabalha com assistência social, veio em minha direção, sua pele tão branca começava a ficar vermelha devido ao forte sol, seus cabelos loiros presos em um coque faziam seu ar totalmente sério ficar mais suave, ela era fofa. Ela se aproximou de mim e eu a cumprimentei com um breve abraço.
- Alice, que bom ver um rosto conhecido, eu não sabia que estava apoiando este local. – ela me puxou devagar para um local mais no canto.
- Eu sei, eu precisei vir. Eu me coloquei a disposição assim que soube, as pessoas aqui estão muito abaladas, espero que você consiga ajuda-las. – ela pareceu um pouco triste.
- Você está bem? – segurei sua mão que apenas assentiu.
- Só estou sentindo um aperto, conheci uma senhora que precisa de assistência, já que com a enchente ela perdeu tudo e ainda perdeu seis membros da família, ela não tem mais como se sustentar porque trabalhava com produção de frutas, é tão triste. – ela abaixou a cabeça e eu apertei levemente sua mão.
- Lembre-se... estamos aqui para ajudar – sorri animadoramente para ela – se você não melhorar eu prometo pagar um sorvete, porque querida, isso daqui é muito quente – disse me abanando e ela sorriu – sorvete sempre resolvendo tudo. – o celular na minha bolsa vibrou novamente e dessa vez era uma ligação, peguei o celular e olhei o nome na tela e meus olhos se arregalaram, na realidade eles quase pularam quando o nome dele brilhou ali na tela – Alice, me dê licença, preciso atender – ela concordou e eu saí da tenda. – Alô – atendi desconfiada.
- Darling, estou começando a achar que não tem interesse pelos seus pertences – sua voz divertida fez com que minhas bochechas corassem sem qualquer autorização.
- Eu tenho muito interesse, agora me desculpa se eu tenho uma vida agitada e outras pessoas não – revirei os olhos e ri – você está ocupado agora?
- Se essa pessoa desocupada sou eu pense que você tem toda razão – ele riu me fazendo rir também – E para provar isso, eu não estou ocupado, na realidade pensei em levar seu tablet até você, onde está? – respirei fundo, não seria nada bom se aparecesse aqui e viesse falar comigo e pior, viesse me devolver algo.
- É que eu não posso te atender agora, eu estou para entrar na clínica para atender algumas pessoas – mordi os lábios pensando em uma desculpa plausível.
- Então Darling, a senhorita que vai ter que buscar comigo, já que você não está se esforçando para me ocupar – ele riu com o trocadilho idiota que eu sinceramente achei também e revirei os olhos.
- Eu vou ter que ver um horário na minha super agenda – disse convencida, tentando levar essa conversa para o lado mais tranquilo que existe – assim que eu sair daqui de onde estou eu mando uma mensagem para você, pode ser?
- Ah então você lê mensagens! – ele fingiu surpresa e eu ri.
- – escutei a voz de – vem até aqui.
- Eu tenho que ir – falei assim que ouvi – nos falamos depois. Tchau Tchau.
- Tchau moça – e depois disso ele desligou.
Meu coração estava disparado e confesso que minhas mãos estavam suadas. Não por causa da ligação, ou melhor, não só por causa da ligação, mas já pensou se alguém me visse falando com ele, não ia acontecer nada, mas provavelmente eu teria que explicar como isso aconteceu, de toda forma ‘isso é surreal’ – sussurrei isso para mim mesma.
- O que é surreal? – perguntou e meu sorriso se transformou em algo do tipo bem mais nervoso.
- Você – disse e ele me olhou confuso – totalmente surreal essa sua preocupação – dei de ombros e ele revirou os olhos. – O que você quer comigo?
- Vamos trabalhar tampinha – ele me abraçou de lado.
Bom era isso, meu primeiro dia de trabalho, eu podia dizer que estava nervosa para saber o que viria por ai, mas eu confesso que eu estava muito mais nervosa para saber se daria certo o que tinha planejado para mais tarde.
Eu sei que isso era arriscado e que eu fui educada a evitar sair sozinha com pessoas do sexo oposto, mas na realidade, eu não estava me importando nem um pouco, afinal eu só iria pegar algo que é meu, então não vamos exagerar, pensei comigo mesma.
Antes de entrar na minha sala eu resolvi abrir as mensagens e ler. *Bom dia, não esquece que posso mexer nas suas coisas, ahh lindas fotos, onde você estava a proposito? Havaí? * Eu não estava acreditando que esse ousado estava vendo minhas fotos, minhas bochechas pinicaram de tanta vergonha quando lembrei das fotos das minhas últimas férias, muitas delas estavam simplesmente ridículas. *Se você não buscar seu tablet comigo eu posto todas essas fotos, isso não é uma ameaça, só estou avisando ???? Xx* Revoltada resolvi gravar um áudio mesmo, já que precisa fazer isso rápido antes que a primeira paciente entrasse ali.
- Eu não estou acreditando que estava vendo as minhas fotos, isso é invasão de privacidade, eu posso te processar e pegar boa parte do seu dinheiro, senhor – ri durante a minha falsa ameaça – E para sua informação não é Havaí, eu estava no Caribe, no arquipélago de Turks e Caicos e pode deixar que eu vou dar um jeito de pegar esse tablet antes que todas minhas fotos parem no twitter e minha vida fique arruinada – gargalhei - Idiota, vou me vingar dessa invasão - vi a paciente entrar na sala – vou trabalhar agora, beijo beijo, e se cuida!


Capítulo 3


O dia passou rápido, mas minha cabeça só queria pensar em todos aqueles problemas que as pessoas estavam passando, respirei fundo e tentei deixar simplesmente pra lá e que aquilo não me afetasse. Sabe, às vezes eu reclamava à toa de algumas coisas pelas quais estava passando. Acho que o que mais me marcou foi uma criança, talvez eu nunca a esqueça.

*Flashback*
- Hei – me sentei de frente uma menininha que desenhava algo numa mesa improvisada – Você fala meu idioma?
- Mais ou menos – ela me olhou e seu rostinho havia um curativo na testa, voltei minha atenção para o desenho dela.
- Meu nome é e o seu? – falei em seu idioma e ri de mim mesma por estar tão nervosa, dei de ombros, mas sabia que ela tinha entendido
- Alika – ela largou o desenho e me olhou pela primeira vez, ela tinha lindos olhos, a pele negra e os cabelos cacheados, eles estavam presos, estavam lindos, seu sorriso branco era doce o que me fez sorri também.
- Lindo nome Alika. O que você está desenhando? – ela me encarou soltando um suspiro baixo e me entregou o pedaço de papel desenhado e quase todo colorido, o peguei da sua mãozinha.
No papel estava desenhado uma casa ao fundo, e duas pessoas plantando algumas flores. Mais à frente estava dois rapazes que eu deduzi por causa do grande chapéu que eles estavam cultivando alguma coisa no chão. Tinha uma casa de madeira e alguns animais, ri baixo ao ver a forma infantil que ela desenhou, era lindo, reparei mais em cima havia um céu com traços escuros, mas havia um sol também e diferente de algumas crianças ela o fez chorando, e isso me intrigou.
(Coloque para tocar: https://www.youtube.com/watch?v=LDS2ll9XEFA)
Coloquei o desenho em cima da mesa e a olhei, ela brincava distraída com os lápis de cores como se eles fossem bonecas, eu não entendia muito o que ela falava mais era só uma diversão que ela encontrou.
- Alika – a chamei e ela me olhou - Por que o sol está chorando? – peguei o desenho e a entreguei, ela segurou novamente o desenho o encarou, pareceu que era a primeira vez que ela estava fazendo aquilo, seus olhinhos marejaram e algumas lágrimas escorreram pelo seu rosto, de forma instintiva a puxei devagar pela mão e a coloque em meu colo – Não chore querida! – a abracei e ela deitou sua cabeça em meu ombro.
Ela era tão pequena e frágil. Era difícil ver adultos sofrer e era difícil escutar isso. Mas eu sentia muito pelas crianças, meu coração se apertava e eu sentia que não podia fazer o suficiente por elas. Isso me machucava.
Suas lágrimas foram cessando e a única coisa audível ali era o som da música que eu cantava baixinho, era uma música que minha mãe cantava para mim quando precisava de um pouco de paz. Meu corpo se balançava para trás e para frente tão devagar que eu pensei que ela pudesse até mesmo dormir.
- Minha mãe adorava – ela disse baixo assim que eu parei de cantar – ela adorava o sol, titia. E então ele ficou triste, ele chorou e destruiu tudo.
- Você acha que o sol ficou triste por isso abandonou vocês? – olhei para ela.
- Ele me tirou tudo – ela fungou baixinho se segurando para não chorar novamente.
Me segurei para não chorar, respirei fundo. Ela não tinha raiva ou ódio, ela só estava procurando uma justificativa e na sua cabecinha ingênua e pura, o sol apenas chorou. O sol chorou porque estava magoado, e talvez fosse a forma mais pura para se justificar tudo isso sem maiores machucados.
- Ok, olha pra mim – pedi e ela atendeu meu pedido, passei a mão pelo seu rostinho limpando qualquer sinal de lágrima – Você pode me fazer um favor – falei devagar ainda em sua língua e ela assentiu – Faça o desenho do seu dia mais feliz aqui.
- Um desenho? – ela repetiu e eu assenti – Eu posso fazer o desenho do dia em que vocês chegaram – ela disse animada.
- Isso, faça isso e depois nós duas vamos combinar de fazer algo bem legal – sorri pra ela.
- Vamos fazer algo legal? – ela me olhou com os olhinhos brilhando e eu sorri, essa ideia parecia fazê-la esquecer dos momentos ruins
- Isso mesmo – sorri pra ela – e você pode me fazer outro favor? – ela assentiu – Você pode me levar, por favor, o desenho ali? – apontei para a minha sala improvisada – Eu vou estar lá, ok?
- Ok – ela desceu do meu colo e pegou uma folha nova e deixou a antiga para trás, respirei fundo e beijei seus cabelos.
Fiquei ali por um tempo a olhando de longe e eu confesso que me senti em paz após vê-la tranquila, mas isso não muda o fato de tudo aqui fazer com que ela estivesse sofrendo. Suspirei baixo e me virei indo para minha sala.
*Flashback*

A água morna já caia em meus cabelos por quase uma hora. Resolvi terminar o banho demorado que eu prometi que tomaria e depois apenas me joguei na cama, porque na realidade era apenas isso que eu queria, desligar.
Ignorei meus cabelos molhados e fui para de baixo do cobertor assim mesmo. Relaxei e me aconcheguei no cobertor fofo e macio. Meu celular começou a tocar exatamente no momento que a única coisa que eu queria era dormir. Injustiça. Me levantei igual uma tartaruga ambulante e andei até a mesinha que havia ali, olhei o nome salvo e sorri, claro que seria ele, revirei os olhos, voltei para cama e atendi.
- Oi ser humano que atrapalhou o meu precioso sono – escutei a risada dele do outro lado.
- Maneira gentil de me atender – ri dele e virei para o lado abraçando o travesseiro – Quem mandou ser preguiçosa, e ai, onde te encontro? – ele foi direto ao ponto e eu me sentei na cama batendo a mão na testa, havia me esquecido desse encontro.
- Ah eu não me lembrava – me levantei devagar da cama e andei até o guarda roupa – Pode ser em um lugar discreto e com poucas pessoas. Eu não conheço nada aqui.
- Eu estou começando a ficar preocupado com sua memória – ele disse com uma falsa preocupação e eu revirei os olhos - tenho uma ótima ideia, te mando a localização. Pode ser?
- Claro, te vejo lá! – desliguei e joguei o celular em cima da cama, roupas sempre um problema, peguei o primeiro vestido fresco que eu tinha ali, porque ninguém merecia calor, maquiagem para quem está com tanta preguiça é quase sacanagem, um batom está ótimo, peguei meus óculos e minha bolsa, colocando tudo que eu precisava lá dentro.
Sai do quarto e não encontrei ninguém ali, acho que todos estavam bem cansados, mas com certeza deveriam estar felizes, assim como eu estou, só chocada, acho que essa é a palavra certa para descrever tudo, mas como eu bem sei e disse para Alice mais cedo, não posso me deixar abalar, estamos aqui para ajudar.
Andei até o quarto dos meus pais e dei duas batidinhas na porta, escutando um ‘entra’ da minha mãe logo em seguida, só coloquei a cabeça para dentro do quarto, dando de cara com ela passando creme nas pernas e eu ri.
- Caramba mãe já pensou se fosse o , ele ia ver a senhora nessa situação sexy – pisquei para ela, a fazendo rir e me mandar entrar no quarto.
- Até parece que seu irmão ia me achar sexy – ela riu – Para onde você vai? – ela me olhou.
- Eu estou com a cabeça quente, foi muita informação para um cérebro só absorver – mordi os lábios sabendo que estava contando meias verdades, afinal ela não precisava saber que por acaso no meio do caminho me esbarraria com um cara que canta e é um compositor famoso – Eu esqueci meu tablet no lugar que fui lanchar com ontem e eu queria ir buscar, é aqui perto mesmo. Tudo bem se eu for de carro? – ela apenas assentiu.
- Acho que seu pai não vai ver problema, só não chegue tarde, amanhã temos um longo dia. – sorri animada e dei um beijo na bochecha dela.
- Obrigada mãe – peguei a chave do carro em cima da penteadeira e sai do quarto deles.
Coloquei no GPS a localização que o ser humaninho me enviou e segui para o lugar que estava sendo guiada por aquela voz irritante. Meu coração estava disparado, não porque eu iria ver ele, mas porque era a primeira vez que eu estava indo me encontrar com alguém sozinha, pode parecer que tenho 12 anos, mas fazer o que se isso não é tão normal no meu mundo.
Andar por aquele lugar me fez pensar em como aquela cidade tinha tudo para ser mais do que linda. Muitas pessoas estão passando por situação crítica, como fome e falta de saneamento, não que a África não sofra por causa disso, por anos inclusive. Mas quando uma enchente invade sua casa, plantação, trabalho, é um susto, ninguém espera por isso. Sem contar o terremoto de 8,1 que piorou toda situação.
Como foi mesmo que uma outra paciente disse? “Isso só pode ser castigo de Deus, ou algo assim. O que meus filhos fizeram para morrer dessa forma, doutora.” É difícil ter esperança, mas não significa que era impossível.
Desci do carro assim que o GPS anunciou que eu já havia chegado ao meu destino, a brisa do mar fazia meus cabelos vir todo para frente do meu rosto, que cena ridícula, ri de mim mesma, nos filmes as garotas sempre ficam bonitas com esse vento no rosto e pelo visto não era assim comigo. Coloquei minha bolsa de lado nos ombros e andei rumo a orla que tinha ali. Procurei um banco ali perto e me sentei. Respirei fundo, aquele cheirinho de areia, peixe e sal que me faziam querer ficar ali mais um tempinho me acalmava de tal forma que chegava a ser contagiante. As pessoas têm nojo dessa mistura de cheiros, mas eu amava muito tudo isso.
Olhei ao meu redor e havia algumas crianças andando de skate e bicicleta ali perto em uma pista construída, havia também algumas pessoas andando pela praia, mas não muitas. Ora ou outra passava alguém na minha frente e eu apenas cumprimentava com a cabeça, qual foi a parte de lugar discreto que ele não entendeu, revirei os olhos.
Esse lado da cidade não era o lado mais simples. A África do Sul não era diferente de alguns países de terceiro mundo, tinha uma imensa divisão de classes e isso era extremamente claro por aqui.
Um carro preto estacionou de frente para o lugar que eu havia me sentado, estava tão simples e confortável quando desceu do carro e eu confesso que dei graças a Deus, porque se ele estivesse todo arrumado ficaria com vergonha. Me levantei quando ele se aproximou com um sorriso danado no rosto balançando meu tablet.
- Meu tablet – falei empolgada e estiquei a mão para pegar o mesmo e ele não permitiu, levantando o tablet para o alto, onde eu não alcançava, cruzei os braços e fiz cara de frustrada, ele rio – Ei isso é meu – aleguei o obvio.
- Não vai nem me dar oi e talvez dizer um: “obrigada você é o melhor”? – ele arqueou a sobrancelha e eu revirei os olhos, soltando uma risada baixa em seguida.
- Você tem um bom senso de humor, já devem ter falado isso antes né? – dei de ombros – mas obrigada por ser mais cuidadoso que eu – olhei para ele com um sorriso divertido que insistia brotar em meu rosto – e oi pessoa que me atrapalha a dormir – estendi a mão para que ele me cumprimentasse, onde fui surpreendida por um abraço apertado. Seu perfume era tão bom que eu nem me importaria em ficar ali mais um segundo, mas logo o abraço acabou.
- Oi pessoa preguiçosa – ele riu e fez um gesto para que eu prosseguisse a falar elogios sobre ele, me fazendo revirar os olhos.
- Faltou aquela parte importante para seu ego – cruzei os braços – está bem, por agora você é o melhor. Agora senhor ‘eu vou postar suas fotos no twitter’ – fiz uma imitação da sua voz que soava ridícula – me devolva meu tablet. – estendi a mão esperando ele me devolver.
- Nunca mais faça isso de novo – ele gargalhou – isso foi horrível, minha voz não soa desse jeito – ele colocou o tablet na minha mão e eu o guardei na bolsa – Tá a fim de andar por ai? – concordei com a cabeça e ele colocou meu braço entre o seu, fazendo ficarmos mais próximos.
- Claro, desde que eu não vá aparecer na mídia ao seu lado – falei séria e ele me olhou um tanto surpreso. – Qual foi a parte do lugar discreto – o encarei e reparei que ele já fazia isso segurando o sorriso – O que foi?
- Ah então quer dizer que a moça não gosta de estar exposta? – uma sobrancelha dele ergueu como se ele tivesse duvidando disso – não se preocupe, aqui nesse país é tranquilo.
- Eu não posso estar exposta, mas se você diz, eu vou confiar então – aquela orla era mesmo tranquila, e a companhia combinava com ela, não é que eu me importaria de ser vista com ele, os outros se importariam, mas ele não precisa saber sobre isso, não agora. – Mas me diz, você achou mesmo que eu não te reconheceria ontem?
- Achei – ele deu ombros – você agiu tão normalmente que eu achei que você nem sabia quem eu era, mas pelo visto eu estou enganado.
- Eu não sei quem é você – olhei para ele e ele devolveu o olhar sem entender o que eu quis dizer – eu sei que você é e canta até mais ou menos, mas só isso. – ri da cara de ofendido que ele fez.
- Eu canto mais ou menos? – ele apontou para si mesmo – fala sério, Darling, não vale mentir para mim, eu estou na sua playlist – ele disse convencido e ri dele.
- Ok, tem umas duas músicas lá, não se ache por isso.
- Você mente muito mal, – ele riu – mas não se preocupe que eu adicionei todos os álbuns – ele disse eu o olhei indignada.
- Estou aqui procurando a liberdade que te dei – sorri baixo e ele deu de ombros – Britânicos não costumam ser assim viu. Invasivos.
- Eu já andei por tantos lugares que perdi certos hábitos.
- Agora fala sério, aquela desculpa que você usou ontem para ir falar comigo foi horrível. – fiz uma careta – Já escutei desculpas melhores. – falei convencida
- Ah então quer dizer que você escuta muitas pessoas com alto teor alcoólico que te admiram?
- Não deveria beber tanto – disse sincera – faz mal para o cérebro – olhei para ele um tanto séria e ele apenas deu de ombros como se aquilo não tivesse importância.
- Você não me respondeu – ele parou em frente um daqueles bancos e se sentou e eu fiz o mesmo logo em seguida.
- Não, eu falei brincando, mas os meus olhos não são as coisas mais diferentes do mundo, seus olhos são bem parecidos.
- Me dá um desconto, eu queria puxar assunto e eu realmente achei eles bonitos – disse sincero e sorri.
- Ok, eu vou te dar um desconto dessa vez – falei em tom de brincadeira – obrigada, os seus são também.
- Você nunca ficou bêbada? – ele mudou de assunto e me lançou um olhar duvidoso.
- Não, nunca e não ria, - disse assim que ele negou com a cabeça e começou a rir - eu só acho desnecessário perder o sentido de tudo. – dei de ombros e ele andou até um dos bancos, se sentando e eu fiz o mesmo.
- Ok, não vou te julgar, se não me julgar – assenti e ele riu – E você vai ficar por aqui muito tempo?
- Eu planejei ficar uns dois meses, mas quem sabe eu não estenda – sorri – meu serviço aqui hoje foi meio estressante, quando você ligou eu estava preparada para tentar dormir. – fiz careta – que por acaso você atrapalhou. – fingi indignação.
- Você não vai me perdoar nunca por isso né? – ri e neguei com a cabeça - Estressante? O que você fez hoje? – ele me olhou com uma certa curiosidade e eu respirei fundo.
- Sabe, eu sou psicóloga – ele pareceu admirado quando eu disse isso e se virou para me olhar enquanto eu contava – e aqui na África estou de forma voluntaria, acho que até comentei sobre isso contigo – olhei para ele que concordou com a cabeça – enfim, hoje eu falei com uma moça, ela deve ter minha idade, e ela estava me contando sobre a vida dela e as perdas. Ela viu o pai morrer, e até agora não encontraram o irmão que pode estar soterrado. Eu queria poder ajudar mais, talvez ir atrás dele junto com ela. – olhei para ele novamente que prestava atenção no que eu falava – eu sei que não deveria ficar triste e que deveria ser imparcial, mas nem sempre é tão fácil. Ela estava emocionalmente exausta, precisei acalmá-la e me acalmar para que eu não agisse de forma emotiva.
- Eu sei que não é fácil... – ele segurou minha mão e começou a brincar com meus dedos sem me olhar e por impulso tirei minha mão, fazendo com ele me olhasse e continuasse a falar – Mas o que você está fazendo é lindo, ajudar essas pessoas é maravilhoso. Eu queria ter mais tempo para ajudar as pessoas também. – mau ele sabe que já ajuda, pensei. – Só que eu não posso sair por ai simplesmente e ficar horas conversando com alguém, porque meu trabalho não me permite isso. Eu me sinto mal às vezes, será que a psicóloga tem algo para me falar? – seu sorriso simples esboçado em seu rosto me fez querer sorrir também, ele parecia ninguém mais ou ninguém menos que , uma pessoa completamente normal, porque na realidade era isso que ele era. Normal!
- Seu trabalho é complicado. – ele me olhou obvio e eu revirei os olhos, como se dissesse “eu não terminei” – ele é realmente complicado no sentido de estar perto das pessoas, mas eu acredito que você ajuda muito as pessoas por meio das suas músicas, ela fala coisas que animam as pessoas e, além disso, esses shows beneficentes alimenta muitos que não tem nada. – dei de ombros – Então fique feliz. – sorri e ele concordou com a cabeça.
- Depois que falei com você eu liguei para o David, o meu empresário, e exigi que todo dinheiro que fosse arrecado fosse para o devido lugar, eu vou me certificar que isso realmente aconteça.
- Olha ai, você não pode dizer que não ajuda as pessoas. É diferente, você pode não achar o suficiente, mas para essas pessoas aqui, é mais que o suficiente.
- Me senti melhor agora, obrigada Dra. – ele deu um beijo na minha mão de forma gentil e eu o olhei surpresa.
- Por nada – sorri sem graça e senti minhas bochechas formigarem, pigarreei – Agora você sabe o que seria maravilhoso? – me levantei do banco e parei de frente para ele, e observei algumas pessoas aparecendo, fiquei um pouco preocupada.
- Não o que? – ele se apoiou nos dois braços, jogando o corpo um pouco para trás – Quais seus planos?
- Seria maravilhoso – cruzei os braços devido a brisa fria que tocava meus braços descobertos – se você me levasse para comer algo, você costuma deixar suas amigas com fome quando sai com elas? – falei indignada.
- Coitadinha meu Deus, minha única amiga está com fome. O que quer ir comer? - ele se levantou e se pôs do meu lado.
- Você conhece algum lugar aqui que venda comida americana, tipo um bom e velho hambúrguer? – falei sugestiva e o mesmo concordou com a cabeça - E depois um milk-shake, cairia bem também. – olhei para ele com cara de criança.
-Está toda encolhida ai e quer sorvete. – ele negou com a cabeça e depois rio, ele olhou para os meus olhos - Você costuma fazer essa cara para conseguir as coisas do seu namorado? – voltamos andando para onde os carros estavam, eu arregalei os olhos surpresa depois da sua pergunta. Namorado?
-Mas o que? – gargalhei me tocando que ele falava de – O ? Meu irmão? – ele abriu e fechou a boca, caindo na risada também – Tolinho, você achou que ele era meu namorado. Eu achava que eu e éramos parecidos. – olhei intrigada para ele.
- Vocês são – ele deu de ombros – mas quando as pessoas convivem muito tempo elas se parecem – ele disse como se fosse algo obvio e eu neguei com a cabeça.
- Nãão – gargalhei e ele riu junto – eu me nego a escutar isso, .
- Então eu me nego a te levar para tomar sorvete. – ele cruzou os braços e meu sorriso se transformou em cara de piedade – Está bem, está bem, vamos logo, que coisinha sentimental. Nem sei como foi aprovada para cuidar do psicológico das pessoas – ele riu e eu fiz careta.
- Nem eu, se quer saber – sorri.
Voltamos para o carro rindo de alguma piada idiota ou de alguma história engraçada que ele contou a respeito de algum show que ele fez ao redor do mundo. Eu apenas acho que ele poderia ser um bom amigo para mim. Era tão divertido estar perto dele, eu o conhecia há um dia, mas parecia que já tinha uma eternidade. Piegas talvez, mas na realidade eu não estava lá ligando muito para isso.
Resolvemos que iríamos no mesmo carro e depois ele me deixaria aqui para que eu pudesse voltar para casa. Seu carro era super lindo, combinava com ele. Não que eu o ache lindo, quer dizer, ele é. Caramba eu me complico até em pensamento, revirei os olhos e ri baixo.
- O que foi? – ele me olhou tão de perto que meus olhos quase se hipnotizaram. – Quer ajuda com seu cinto? – um sorriso vacilou dos meus lábios.
- Não – travei o cinto de segurança – eu estava apenas pensando alto. Me conta mais histórias sobre os shows – sentei meio que virada para ele.
- Ah teve uma vez – ele soltou uma risada como se todas as imagens tivessem voltado à tona – que eu estava prestes a entrar no palco e eu resolvi ir ao banheiro antes, e como estava em cima da hora eu fui correndo e antes de entrar no banheiro tinha água derramada pelo chão inteiro, e ele ficou escorregadio – ele começou a gargalhar.
- Não me diga que você caiu – ri junto com ele – deve ter sido épico.
- E o pior você não sabe, eu tive que cantar as três primeiras músicas completamente encharcado, num frio agradável de 15°C. – ele tentou segurar a risada, mas definitivamente não funcionou.
- Aposto que pegou um grande resfriado depois dessa – olhei para ele e cruzei os braços, vez ou outra ele olhava para mim enquanto contava alguma história – depois daqui você vai para onde?
- Nova Zelândia, depois Londres e ai eu vou tirar férias por alguns meses – ele disse sério.
- Eu li que você iria dar uma pausa, é sério então? – sua expressão tentou ficar suave, mas uma pequena linha de expressão se formou na sua testa. Essa era uma parte do meu trabalho, analisar as emoções das pessoas e estava bem claro que algo o incomodava a respeito desse assunto.
- Depois você diz que não lê sobre mim, eu vou dar uma pausa pequena, preciso de descanso.
- Eu nunca disse isso – falei em minha defesa – eu só disse que fingi que você era uma pessoa normal – ri baixo – mas a respeito da pausa, eu acho que todo mundo tem direito de ter seu merecido descanso.
- Queria que todos pensassem assim – ele suspirou e eu o olhei sem entender. – Alguns fãs, não levaram muito bem a notícia a respeito da pausa. Eu sei que eles amam meu trabalho, mas continuar um trabalho que não faço por inspiração ou amor não faz sentido algum.
- Se for sincero o que elas sentem pelo seu trabalho e por você, elas vão entender, claro que elas vão ficar chateadas no começo porque querem sempre te ter por perto, mas elas superam e vai ficar tudo bem. – pisquei pra ele – agora você sabe o que sempre melhora meu humor depois de um assunto tenso? – perguntei e ele apenas negou com a cabeça – filme do Shrek e com certeza um pote de sorvete de baunilha – sorri.
- Seu filme preferido? – concordei com a cabeça.
- Eu sempre fico em dúvida, então eu escolho o clássico – desci do carro assim que ele estacionou, esperei ele chegar até mim – você parece ter ficado triste.
- É que eu pensei em uma coisa que me deixou assim – ele fez careta e eu o olhei incentivando que ele prosseguisse – é que amanhã eu farei meu último show aqui e depois eu vou embora e ai como vou ver você?
- Jura? Não sabia que eu era tão amável assim. Já está com saudade, sweet? – disse convencida – Deixa só as minhas amigas ficarem sabendo que me ama – dramatizei o fazendo rir.
- Elas vão ficar: “OMG VOCÊ CONQUISTOU O CORAÇÃO DAQUELE CARA CHARMOSO?” – ele fingiu um chilique no meio da rua me fazendo gargalhar.
- Pelo amor de Deus – coloquei a mão na barriga tentando parar de rir – Isso foi a coisa mais ridícula que vi na vida – respirei fundo – Ai ai ... Pior que elas fariam exatamente assim. Ah e para sua informação – entrei na sorveteria com ao meu lado – você não é charmoso – fiz cara de convencida.
- Ah querida, você não fale nada, porque se eu jogar todo meu charme para cima de você, eu seria irresistível – fiz careta e ele riu.
- Você se acha a última coca cola gelada da África – revirei os olhos e senti seus braços passarem pelos meus ombros.
- Dá licença querido que eu sou difícil – falei em tom de brincadeira.
- A gente não pode nem tentar ser simpático mais – encostei minha cabeça em seu ombro e sorri – Um de baunilha e um de chocolate, por favor - ele fez os pedidos e ficamos ali aguardando já que não demoraria muito.
Meu celular começou a tocar, eu havia me esquecido completamente que havia prometido não demorar, olhei o nome salvo e era o da minha mãe, resolvi atender logo antes que ela começasse a arrancar o pouco cabelo que ela tinha.
- Oi mãe – me olhava com cara de quem perguntava se estava tudo bem e eu apenas assenti.
- Você disse que não iria demorar, está tudo bem? – ela foi direto ao ponto e eu suspirei.
-Sim mãe, está tudo tranquilo, eu só me enrolei aqui lendo algumas coisas no meu tablet, perdi a hora. Estou só comprando algo para comer e já vou para casa – mordi os lábios sentindo vontade de rir da cara que fazia na minha frente.
- Tudo bem querida, não demore, eu fiquei preocupada. – ela se despediu e eu apenas desliguei.
- Então já pode mentir para sua mãe? – revirei os olhos e fiz sinal de silêncio, ele me entregou o meu sorvete.
- Vamos voltar. Se eu não estiver em casa daqui uma hora ela vem atrás de mim. – ri e ele arregalou os olhos e pagou o moço – Eu estou falando sério.
- Mas por quê? – ele abriu a porta do estabelecimento para que saíssemos de lá – Ela não confia em você?
- Não é isso – dei de ombros – minha criação só é diferente – entrei no carro e logo em seguida ele fez o mesmo.
- Diferente como? – ele deu partida no carro.
- Diferente do tipo que se eu te contar agora você vai rir de mim – revirei os olhos e coloquei um tanto de sorvete na boca.
- Vai doer sua cabeça – ele parou em frente a porta do carro e abriu pra mim – Prometo não rir.
- Se você rir eu nunca mais te conto nada. – entrei no carro e ele concordou com a cabeça, fechou a porta do carro e deu a volta entrando no mesmo. – Eu nunca namorei e nem fiquei com ninguém na vida, eu sei, parece que sou uma criança – olhei para ele que tinha uma expressão de surpresa.
- Sério? Mas por quê? – ele deu partida no carro e eu apenas dei de ombros.
- Porque meus pais ensinaram que deveria ser assim – olhei para ele, que também olhou para mim quando parou no sinal vermelho – eu até me sinto protegida dessa forma, sabia. Além disso, nós acreditamos que devemos namorar apenas quando estivermos prontos para o casamento e levamos a castidade muito a sério. – ele continuou a dirigir e voltou a prestar atenção no caminho, quando terminei de falar ele se engasgou com o sorvete o que me fez rir alto e dar tapinhas em suas costas – o que foi é sério? – falei naturalmente – Ahhh, eu também nunca morei sozinha, eu e minha família fazemos tudo junto, porque isso fortalece a união da família. E olha que isso é o básico. – dei de ombros simples e ele me olhou admirado.
- Caramba então quer dizer que você... – ele parou no meio da frase como se tivesse com medo de dizer algo, o que me fez achar engraçado.
- Nunca teve uma vida amorosa? – dei de ombros – Eu prefiro assim se quer saber, pode ter certeza que eu sofri bem menos na vida que algumas pessoas.
- Eu acho bonito se quer saber – ele disse simples e eu olhei um tanto espantada – eu acho que a pessoa tem que ter muita personalidade para aceitar ser diferente.
- Eu devo dizer obrigada? – ri.
- E deve dizer que você teve o melhor primeiro encontro da sua vida também. – ele disse e eu ri.
- Isso definitivamente não foi um encontro – coloquei mais um tanto de sorvete na boca. – Mas eu agradeço pelo sorvete e pelo meu tablet.
- Então você está me devendo um encontro, porque esse é o pagamento pelo tablet. – ele disse simples e eu sorri. – Que tal amanhã? Você pode ir ao show e depois podemos sair para comer.
- Quem sabe quando você entrar de férias e vier aqui de novo eu não saio com você – disse achando a coisa mais impossível de se acontecer.
- Está negando ir ao meu show e negando comida – ele colocou a mão na minha testa – você não está com febre, o que aconteceu?
- Sei lá, não gosto muita das musiquinhas desse tal de – arqueei a sobrancelha e ele revirou os olhos.
- Para de ser fresca – ele rio e estacionou na vaga ao lado do meu carro – tentar ir amanhã. Eu vou te esperar. – ele não me deu muitas opções.
- Mas e se não der para ir?
- Tudo bem então, se você não for... Mas se eu te encontrar novamente vai ter que me pagar um encontro – eu concordei com a cabeça.
- Fechado, eu pago. – ri – Desde que eu não saia na mídia.
- Relaxa, você é o meu segredo – ele piscou e eu revirei os olhos.
- Eu preciso ir. Sério, muito obrigada por hoje – me aproximei para dar um beijo em seu rosto – eu te vejo em breve!
- Vejo você em breve também – ele sorriu e destravou o carro – boa noite, Darling!
- Boa noite – sai do carro e fechei a porta, acenei do lado de fora e ele apenas assentiu dando ré e indo embora.
Entrei no meu carro e sorri, como eu era tolinha. Eu estava sorrindo que nem uma débil mental, revirei os olhos. Foco , ele só é um cara que vai te esquecer em dois dias. Dei partida no carro e corri para casa, antes que minha mãe desse um surto e colocasse a polícia atrás de mim.


Capítulo 4


Meu trabalho hoje foi um pouco diferente, eu fui designada para zona de risco, tinha muitas casas destruídas, e o serviço era ajudar a limpar a área para que futuramente ajudássemos com a construção de algumas casas e dois abrigos.
Eu não fiquei na área de limpeza, fiquei na cozinha ajudando com o alimento para os voluntários e por alguns momentos fiquei indo servir água e soro para quem estava trabalhando naquele sol escaldante. Em um dos momentos que fui servir água, encontrei um porta-retratos. Ele estava quebrado no meio, a foto estava suja, mas dava para perceber que se tratava de um casal de idosos, por um instante orei para que eles estivessem a salvo, os dois. Suspirei baixo e neguei com a cabeça.
- Não é fácil não é mesmo? – escutei a voz que eu tanto conhecia e que eu não escutava tinha quase uma eternidade. Meu melhor amigo de todos os tempos estava ali.
- . – soltei o quadro devagar no chão e me virei o abraçando, esquecendo completamente de onde estava – Caramba... que saudade!
- Percebe-se, estava com saudades também – ele sorriu me soltando do abraço apertado – O que estava vendo ai?
- Ah é só mais um quadro, - eu me abaixei para pegar o quadro novamente e o entreguei - eu queria saber se estavam todos bem.
- contra todos os problemas do mundo – ele pegou da minha mão e observou a foto do casal e eu dei de ombros como se dissesse ‘fazer o que né?’ - Como não me contou que estava vindo? Eu estou aqui já faz duas semanas.
- Ah eu meio que perdi muitos contatos. Sinto muito – coloquei o cabelo para trás dos ombros e olhei para o que eu carregava – Ah, você aceita água ou soro? – ri.
- Ah, eu aceito... o calor daqui às vezes pode me matar. – Ele riu e pegou a água que eu estava oferecendo.
- E você está mesmo parecendo um pimentão – ri dele.
- E você está supernormal, né – ele brincou me fazendo revirar os olhos.
- Talvez eu tenha esquecido do protetor ontem – fiz careta quando lembrei do sol escaldante e da minha demência por não lembrar de me proteger – Mas e você, vai ficar aqui até quando? – perguntei curiosa.
- Até semana que vem... Eu estou fazendo faculdade, eu só aproveitei uma pequena folga que tive e estou indo embora. - Ele colocou o copo no saco de copos sujo que eu levava.
- Ah, você vai ficar pouco tempo, mas aposto que você adorou aqui, né?
- E como – seu suspiro baixinho mostrava claramente sua vontade de ficar - Você sabe que eu adoro ajudar – ele me olhou e eu apenas assenti – amanhã à noite eu vou conhecer a cidade com mais dois amigos. Não quer ir com a gente?
- Claro, eu adoraria... – me lembrei de Alika e essa seria uma oportunidade perfeita para leva-la em algum lugar – Sabe de uma coisa, eu prometi para uma garotinha de 5 anos que levaria ela para se divertir, o que acha de apresentarmos a cidade a ela também?
- Claro, seria ótimo – ele olhou para trás onde alguns amigos dele estavam – eu preciso voltar ao trabalho, eu te mando uma mensagem.
- Ok, eu vou esperar – acenei pra ele e ele apenas sorriu, voltando ao serviço.
ainda era meu melhor amigo mesmo estando tão distante e eu confesso que tenho minha parcela de culpa nisso tudo. Eu me afastei desde que ele foi embora, mas isso não significava que eu o esqueci.
Observei-o de longe e senti falta da época em que estudávamos juntos e da época que éramos vizinhos. Ele estava mais adulto e eu também, mas ele estava totalmente diferente, principalmente fisicamente.
- – escutei algumas das meninas da cozinha me gritar e apenas neguei com a cabeça, voltando a prestar atenção no que eu fazia antes.


O despertador me levantou cedo, mesmo meu cérebro não aceitando muito bem isso. David, meu doce empresário e amigo, decidiu ontem que eu deveria visitar algumas ONGs e falar com algumas crianças sobre tudo o que aconteceu, ele disse que faria bem para minha imagem.
Eu resolvi não discutir com ele sobre não fazer as coisas para melhorar a imagem, mas fazer porque era realmente importante, ele não me escutaria. Sei que não tenho sido uma pessoa muito fácil nos últimos dias, mas sinceramente eu decidi mudar e eu vou mudar.
- , você está pronto? – ele entrou no meu quarto de hotel sem avisos.
- Não, ainda estou nu – disse de forma irônica e ele revirou os olhos.
- Péssimo humor – ele disse fazendo sinais para que eu andasse logo e apenas o segui, fechando a porta atrás de mim.
- Para qual ONG vamos? – Entrei com ele no elevador e mais 4 pessoas que iriam gravar todo o percurso.
- É um orfanato para garotas. Essa ONG precisa de ajuda para se manter, inclusive eles têm um lindo coral. – David finalmente largou o celular para me olhar.
- Sério? – disse surpreso – Eu quero muito as ouvir cantar.
A ida até o local foi tranquila, passei o caminho todo calado, não era uma pessoa muito matutina. Em alguns momentos escutei algumas orientações de David, como ‘evite falar da sua vida pessoal ou perguntar coisas que vão constranger as crianças’. Às vezes me pergunto se David acha que sou idiota.
Olhei pela janela quando o carro parou e observei que estávamos passando por uma área de risco, tinha várias pessoas trabalhando ali, reconstruindo casas e ajudando as pessoas. Me lembrei dela. Provavelmente ficaria orgulhosa se soubesse que eu também estou ajudando, mesmo ela já achando que eu ajudo, pra mim ainda não é o suficiente.
Paramos em frente uma casa, ela não parecia totalmente destruída, na realidade ela parecia nova e muito bonita. Talvez esse tenha sido um dos lugares que permaneceu intacto ou que já foi reformado ou refeito. Desci do carro um tanto curioso para conhecer as crianças ali. Ignorei as câmeras que me filmavam e bati na porta.
Olhei para baixo assim que a porta se abriu, uma pequena garotinha estava ali com um sorriso tímido no rosto e olhos brilhantes, seu vestido rosa claro não era novo, mas estava em bom estado. Ela disse algo que não entendi e o interprete me disse que ela havia me dito seja bem-vindo.
- Obrigado garotinha – abaixei em sua frente e sorri alegre pra ela – Adorei seu vestido.
- Obrigada – ela disse assim que Andrew traduziu, logo uma senhora com aparência simpática apareceu atrás dela com um sorriso de orelha a orelha e me endireitei ficando na altura dela.
- Alika, obrigada por receber nossas visitas – ela disse no idioma nativo – é um prazer recebe-los aqui – ela estendeu a mão.
- O prazer é todo nosso – a cumprimentei – eu fiquei sabendo que aqui é um lugar que abriga várias garotinhas.
- Sim, é verdade – ela fechou a porta atrás de nós – Elas estão tomando café da manhã, você quer conhecê-las?
- Claro, eu ia adorar – disse empolgado e a segui até o refeitório.
Era tudo muito simples e muito limpo. Eu me sentia à vontade ali, me sentia confortável. Eu fiquei sabendo que essa era uma das instituições que era ajudada pela Comic Relief e eu fiquei muito feliz de saber disso, já que eu estava me empenhando muito para que todo dinheiro que eu conseguisse arrecadar fosse destinado para isso.
Quando entrei no refeitório com a senhora Margor, que fiquei sabendo o nome durante o caminho, todo o silêncio do refeitório foi preenchido por burburinhos, sorri de lado recebendo toda atenção delas.
- Bom dia, minhas queridas! – ela disse em alto e bom som para que todas ouvissem – Hoje temos um convidado especial, vamos dar bom dia a ele.
- Vamos! – elas falaram juntas e eu sorri – Bom dia e seja bem-vindo – elas falaram juntas em harmonia, como se tivessem treinado durante toda semana.
- Bom dia! – arrisquei no idioma delas e arrancamos algumas risadas. – Eu espero que tenha ido bem – brinquei fazendo careta esperando que Andrew traduzisse, mas parecia que ele fazia um bom trabalho.
- Sim, o senhor fez – Margor sorrio animada – Vem, deixa eu mostrar para vocês o refeitório.
Seguimos ela por todo refeitório, cozinha e área de lazer das crianças, era um belo local, mas tudo aquilo tinha custos e altos. Não era barato manter uma casa com 24 lindas menininhas. David pediu para que eu gravasse um vídeo ali dentro pedindo donativos ou ajuda financeira para algumas pessoas. Não pensei duas vezes e assim fiz!


Aquele carro preto, eu conhecia aquele carro. Olhei de longe para ter certeza e ali estava ele, o observei olhando a casa recém-construída e logo várias pessoas com câmeras desceram do carro e o acompanharam, virei as costas e continuei meu serviço. Foco .
- Você viu quem está ai? – brotou do chão me dando um susto.
- Caramba , me deixa em paz – disse irritada e fui para dentro da cozinha ignorando totalmente , passei pelo refeitório vazio e reparei uma única pessoa. E ali estava sentado comendo algo – Ei bonitão – brinquei e me sentei na sua frente.
- Ei Fiona – levantou o olhar pra mim e rio baixo – você tem que parar com essas brincadeiras, tem pessoas que não entendem. – ele disse sério e eu revirei os olhos.
- Sabe, ultimamente as pessoas tem me dito muito isso – disse com um certo cansaço – Quando eu fui fazer faculdade me disseram que eu deveria pensar no que iriam pensar, quando eu resolvi viajar sozinha também, tudo que eu vou fazer eu tenho que pensar no que vão pensar sobre mim... Isso é tão...
- Cansativo? – ele me olhou com a sobrancelha arqueada.
- É – disse simples dando de ombros – Você se sente assim?
- Não, eu não ligo para o que pensam e não ligo de pensar nas pessoas antes de tomar decisões.
- Estou invejando você – ri sem muito humor.
- Misericórdia, pra trás de mim – ele riu – você viu quem está próximo a área de risco, no orfanato?
- Ah eu vi... É aquele cantorzinho né – fiz pouco caso dando de ombros.
- – ele corrigiu – você sabe que ele não é um cantorzinho, o cara pode ajudar muito as pessoas aqui.
- É, ele pode... – me levantei preguiçosa – e nós também. Vem, vamos trabalhar – estendi a mão para ele, que segurou se levantando em seguida.


Depois de um tour por todo o lugar, finalmente chegamos ao lugar que eu mais queria chegar, no auditório. Era amplo, mas não tão grande, era o suficiente. Olhei para o pequeno palco e todas as garotas estavam sentadas ali. Fui até onde elas estavam, me sentando ali no chão mesmo.
- Todas vocês cantam? – olhei para elas que pareciam tímidas por causa da câmera.
- Não – finalmente uma mocinha que parecia ser a mais velha delas disse – Tem meninas que gostam de desenhar ou pintar.
- Sério? – disse interessado – Quem aqui gosta de desenhar e pintar? Levanta a mão – fui o primeiro a levantar a mão e ri quando vi que muitas delas também levantaram – Olha que coisa legal, até você Alika? – olhei para garotinha que tinha aberto a porta para mim.
- Eu adoro desenhar para minha tia – ela disse de forma doce e eu sorri.
- Ah, eu quero um desenho seu também, você pode fazer isso pra mim?
- Posso – ela esboçou um sorriso tímido e me virei para outras meninas.
- Qual de vocês vai cantar uma música bem linda para mim hoje? – olhei para elas e vi algumas levantado a mão – Cadê meu violão? – perguntei para David que olhou ao redor o procurando e logo voltando com ele em mãos.
- Aqui! – ele me entregou e eu agradeci.
- Tem uma música maravilhosa que eu acho que vocês talvez conheçam – comecei a dedilhar Imagine do John Lennon enquanto falava e algumas delas concordaram com a cabeça ao reconhecer a música.
Elas se sentaram em uma roda no chão junto comigo, eu olhei para elas recomeçando os primeiros acordes da música e me surpreendi quando a grande parte delas começou a cantar juntas em perfeita harmonia. Um sorriso brotou no meu rosto e eu não consegui esconder minha surpresa. Era simplesmente lindo escutar aquele sotaque em uma música tão emocionante.
Elas colocaram tanto sentimento e desejo de viver da forma em que a música descrita que eu desejei paz para aquelas crianças. Desejei que elas encontrassem um lar, carinho e amor. Cantei com elas em um tom mais baixo para que eu não as atrapalhasse.
Olhei para o lado e lá estava a mocinha que abriu a porta pra mim, Alika. Ela não estava cantando, mas estava mexendo a cabeça pra lá e pra cá abraçada em uma boneca de pano. Voltei minha atenção para as outras garotas terminando de cantar a última frase da música e batendo palmas para elas logo em seguida junto com todos os outros presentes da sala.
Coloquei o violão para trás e as chamei para um grande abraço, recebendo um grande e desajeitado abraço em grupo. Sim, eu realmente me senti ótimo por tudo isso, senti que eu estava fazendo a coisa certa por elas e por todos dali.
Elas eram incríveis!


Eu sei que não deveria. Eu não podia fazer isso, não podia correr o risco de me ver e me expor sem querer. Mas eu sinceramente não liguei, não liguei à mínima quando deixei tudo ali em cima da mesa e sorrateiramente andei até a casa das meninas ali ao lado de onde estava.
Quando eu entrei estava tudo silencioso e quieto. Andei pelos corredores vazios até chegar na cozinha do orfanato e encontrei apenas Emefa, a senhora que perdeu tudo, mas achou que ajudando as pessoas cobriria as feridas de suas perdas.
- Emefa – disse em seu idioma que sorriu com meu esforço – prometo sair daqui falando bem. – disse devagar travando um pouco na palavra ‘falando’.
- Eu sei que vai, criança – ela sorriu – você está procurando a Margor? – ela se sentou em uma das cadeiras do refeitório.
- Estou... Eu precisava falar com ela sobre Alika.
- Ah – ela me olhou preocupada – ela está bem? O que ela aprontou?
- Nada – sorri dela por já pensar que aquela garotinha tinha feito algo – eu só queria autorização para levá-la para sair um pouco.
- Ah claro, ela está ocupada com as visitas, mas ela ama te receber – ela riu baixo e eu apenas neguei com a cabeça rindo – elas estão no auditório.
- Ah, eu sei o caminho – disse errando a palavra e ela me corrigiu rindo um pouco. – eu ainda vou conseguir, Emefa. – ri.
- Eu tenho certeza que vai – ela piscou pra mim e eu saí rumo ao auditório.
A porta estava entreaberta e eu a empurrei devagar bem a tempo de ouvir uma das minhas músicas favoritas sendo cantada por elas. Era lindo. Eu sabia que elas cantavam em coral, eu já até mesmo tinha visto elas treinando algumas vezes. Mas aquilo ali era tão real e puro.
Encostei na parede branca e fiquei ali em silêncio apenas esperando eles terminarem e assim que terminaram todos aplaudiram, inclusive eu. Todas elas, até mesmo minha pequena, Alika correu para um grande abraço. Sorri boba para tudo aquilo e sorri orgulhosa por ver dando seu máximo por aquelas mocinhas.
Me desencostei da parede e andei até eles devagar e me senti envergonhada ao ver todas aquelas câmeras e logo me arrependi. Aparecer em público, não, eu definitivamente não queria aquilo. O que eu estava pensando? Que deveria simplesmente ir lá e dizer oi para todo mundo? Às vezes eu tenho medo do meu lado emocional.
Desisti no meio do caminho e virei às costas, fazendo de volta silenciosamente o caminho de antes, até escutar Alika gritando por mim. Mordi meus lábios indecisa e virei para frente dando de cara com todos me olhando.
- Titia, titia – ela chegou até mim e eu me abaixei em sua frente – eu terminei meu desenho.
- Jura? E você está com ele ai? – tentei ignorar todos ao meu redor um pouco mais longe e a vi assentir – Ok, eu quero vê-lo. – sorri pra ela.
- Eu vou busca-lo quando nossa visita se for – ela disse empolgada – Titia você o conhece? – ela disse baixinho pra mim como se fosse um segredo – Ele é bonito!
- Você achou? – disse baixinho para ela – E ele é legal? – ri baixo.
- Bom... Eu acho que elas gostaram de mim – e ali estava ele, carne, ossos e olhos . – respirei fundo e levantei o olhar e encontrei o seu.
- É, elas gostaram sim! – sorri sem graça e me levantei, ficando da sua altura e segurei a mão de Alika – Prazer, ! – Estendi a outra mão para ele.
- – ele me cumprimentou rindo ao entender o que eu estava fazendo – Prazer em te conhecer, Dra. .
- Vocês se conhecem? – Margor parou ao lado dele e eu apenas neguei a cabeça.
- Não... – ri baixo e olhei para Alika lembrando do que eu ia fazer ali – Eu preciso falar com você sobre Alika e precisava ser agora, já que vou embora um pouco mais cedo.
- Ah claro. – Margor olhou para pedindo licença que apenas concordou chamando Alika para brincar com ele e as outras garotas. – O que aconteceu? – ela disse séria.
- Não foi nada demais, eu conversei com ela hoje e foi uma conversa até interessante, ela se expressou bem...
- Eu ando meio preocupada com ela. Alika anda triste pelos cantos e ontem não quis jantar. – olhou ela de longe junto com as outras crianças.
- É, não é um momento fácil pra ela, por isso eu queria autorização para levá-la para sair um pouco amanhã comigo. Minha responsabilidade. – a olhei.
- Claro , você é a psicóloga daqui. Sabe o que é melhor! – ela disse simples.
- Muito obrigada – sorri pra ela. – Eu a pego às 18 horas e a trago de volta o mais cedo possível.
- Claro, pode deixar que eu vou organizar as coisas – ela me abraçou brevemente e sorriu.
- Obrigada. Eu vou voltar para o serviço então. – disse e ela apenas assentiu.
Sai dali rápido para evitar todas as aparições públicas que eu estava evitando. Aproveitei que todos estavam entretidos com as brincadeiras feitas ali e sai de fininho. Respirei fundo assim que sai do auditório e neguei com a cabeça rindo de mim mesma.
Como eu era boba!
Voltei para o refeitório onde estava ajudando por hoje e voltei para meu serviço agradecendo mentalmente por ter me substituído por alguns minutos. Ela não me perguntou onde eu tinha ido e não me disse nada além de ‘, precisam de você na área de risco, pode deixar que cuido disso aqui.’
Corri para onde todos trabalhavam e ali estava , junto com outros voluntários, socorrendo alguém dos escombros. Não dava para saber se a pessoas estava viva, ela estava apenas suja. Muito suja. Orei para que ela estivesse bem, mas logo tive certeza que não estava nada bem, quando vi uma mulher com seus trinta e poucos anos gritando desesperadamente algo que eu não entendia. a segurava enquanto ela chorava já abaixada no chão.
- Ei... – me abaixei ao seu lado – me escuta ok? – disse em seu ouvido abraçando ela junto com - O que você acabou de ver foi difícil, eu sei que foi difícil, mas você precisa se acalmar e aguardar os resultados médicos, talvez não seja o que estamos pensando. – Minha voz era tão baixa e calma que isso poderia acalma-la também – Eu, você e o , vamos nos levantar e iremos para um lugar mais calmo, assim que você se sentir preparada, ok? – suas lágrimas e soluços ainda continuavam.
- Estamos aqui, querida! – ele disse ainda a abraçando e o olhei concordando com a cabeça e agradecendo ele com o olhar. – Vamos nos levantar. – ele a soltou devagar e eu fiz o mesmo, ajudando ela a se levantar.
- Eu o perdi, Dra. ! – ela afirmou voltando a chorar e andar, ela estava tão perdida e confusa com tudo que teve que literalmente carrega-la.
- Você não o perdeu – disse baixo, enquanto ela chorava mais. Abri a porta do meu consultório e ele a colocou sentada em uma das cadeiras.
- Hey... olha pra mim – fiquei de frente para ela e segurei seu rosto devagar – você nunca vai o perder. Você precisa confiar em mim! – disse simples e ela apenas concordou com a cabeça limpando o rosto, tentando em vão fazer as lágrimas pararem.
Estendi minha mão para ela e a coloquei deitada no sofá que tinha ali. Fui rapidamente até o banheiro e limpei minhas mãos sujas de barro e arrumei meu cabelo que estava totalmente bagunçado. Voltei para a sala novamente e ela ainda estava deitada chorando baixo e de olhos fechados.
Me coloquei no lugar dela e pensei no quanto difícil era encontrar o próprio marido e não poder fazer nada, não ter força, jeito. O máximo era gritar por ajuda e torcer para que ele estivesse vivo. Escutei tudo com atenção e carinho, não falei nada, apenas a escutei e respeitei seu momento de ficar triste, seu momento de luto.
Me sentei ao seu lado, no chão mesmo, e peguei sua mão, começando a massageá-la em pontos específicos que eu sabia que acalmaria, puxei seu braço devagar e estendi a massagem até seus pulsos, alcançando um ponto exato que acalmaria sua ansiedade e estresse, fazendo seu choro ir cessando lentamente.
- Você nasceu aqui? – disse baixinho e ela apenas concordou – Que legal! Eu acho esse lugar incrível.
- Esse lugar é um destruidor de vidas! – ela disse com raiva e desprezo e eu continuei a massagem.
- É, o que aconteceu foi difícil – disse simples e respirei fundo – Qual o seu nome?
- Siara – ela disse baixo.
- Siara... Sabe o que ajuda quando coisas terríveis acontecem? – ela apenas negou com a cabeça – Nós temos que nos esforçar em encontrar o lado positivo e se agarrar a isso.
- Eu não sei viver sem minha família, eu não posso viver sozinha. – ela fungou baixinho e seus olhos marejaram e eu apertei sua mão dando um beijinho.
- Você não está sozinha, querida – sorri pra ela – você tem todas essas pessoas aqui com você. Eu sei que eu nunca vou substituir seu marido, ou qualquer outra pessoa da sua família, mas esse vai ser seu exercício diário, procure o lado positivo, se apegue a ele.
- Eu não sei se consigo... – ela limpou o rosto.
- Você não tem que fazer isso hoje, ok? – soltei sua mão devagar – Você precisa descansar. – me levantei – Eu vou chamar o nosso médico e ele vai te medicar para que você descanse bem, não se levante, pode ficar bem tranquila. – passei a mão por seus cabelos e ela apenas assentiu. – Qualquer coisa estou na sala ao lado.
Ela fechou os olhos e ficou ali, abraçada na almofada que tinha no sofá. Eu liguei o ar-condicionado e sai devagar da sala, indo até ao médico informando o que havia ocorrido. Como eu não tinha licença para medicar ninguém, pedi que ele fizesse algo, que prontamente se colocou à disposição e eu agradeci.
Esse dia não tinha sido fácil, mas a boa notícia para mim e para todos que passavam por tudo isso é que todo dia ruim também chega ao fim.

***

Minha cabeça esteve tão ocupada com tudo isso que nem teve mais tempo de pensar em , pelo menos até eu chegar em casa e me obrigar a deixar o serviço no serviço. Por um lado eu até agradeci por isso.
Eu confesso que estou muito curiosa para saber como é um show dele, na realidade eu estou curiosa para saber como é um show. A questão é como eu vou fazer isso. Suspirei baixo e resolvi levantar do sofá de três lugares que tinha na sala do nosso pequeno apartamento. Andei até meu quarto e me olhei no espelho, será que eu deveria ir?
Meu coração dizia ‘Claro , você merece descansar!’. Mas eu tinha aquele lado sensato que dizia ‘Você não deveria se arriscar!’
Dei de ombros decidida a fazer o que eu realmente queria. Peguei meu celular no criado mudo ao lado da cama e resolvi mandar uma mensagem para o serzinho enjoado que tinha enchido minha caixa de mensagens insistindo para que eu fosse. “Eu vou no seu show!”
De forma direta e simples, agora não adianta se arrepender. Peguei minhas roupas no guarda-roupa e corri para o banheiro, tomei um banho rápido e logo corri para me arrumar, já que estava atrasada. As roupas eram simples, nada muito extravagante, não fazia meu jeito. Calça jeans preta mais justa e uma regata leve da mesma cor da calça, calcei um sapato fechado com um salto meio alto e para maquiagem sem exageros, delineador e batom vermelho já estava mais que o suficiente. Peguei meus óculos e minha bolsa.
Não avisaria meus pais, eles não deixariam que eu fosse nem agora e nem nunca. A probabilidade deles me fazerem ficar e escutar a noite toda era quase de 100%, o que era bizarro para uma pessoa de 22 anos. Entrei no táxi que já tinha chamado enquanto prendia meu cabelo em uma trança. Peguei meu celular que tocava desesperadamente e o nome do cantor britânico aparecia ali.
- Menina qual o problema em ler mensagens? - ele disse em tom de brincadeira e eu gargalhei.
- Eu estava me arrumando, eu não sei fazer tudo ao mesmo tempo – justifiquei e passei o endereço para o motorista que logo seguiu o caminho que eu solicitei.
- Mas mulheres não fazem tudo ao mesmo tempo?
- Eu sou diferente. – ri baixo e ele fez um som como se batesse na testa.
- Me esqueci desse pequeno detalhe... Então, você pode pedir para que ele te leve para área dos bastidores – ele informou e eu logo falei para o taxista, que apenas concordou – Lucca vai estar lá para te receber.
- Ótimo, obrigada por não me fazer passar pela aquela multidão de gente. – ri baixo.
- Se quiser, temos essa opção – ele disse rindo – Eu te vejo agorinha!
- Ok – sorri e desliguei.
Peguei o celular e enviei uma mensagem para meu irmão avisando que eu chegaria tarde em casa, eu estava ocupada estudando alguns casos que havia me deixado preocupada. Ele me perguntou onde estava e eu disse que estava na clínica que organizaram para mim e que eu não queria ser incomodada e que voltaria de táxi.
Suspirei baixo, eu nunca havia mentindo para minha família. Aonde isso ia parar? Minha mente não parava de pensar nisso e isso me deixava louca, eu sabia que mentiras só geravam mais mentiras e que, além disso, ela tem perna curta. Suspirei baixo e dei de ombros, o que está feito, já está feito, não adianta voltar atrás.
Joguei o celular dentro da bolsa e comecei a reparar pela janela, quanto mais nos aproximávamos do local do show mais pessoas se acumulavam pelas ruas. Estava uma loucura, um mar de pessoas. Eu fiquei sabendo que seria um show onde se apresentariam pessoas da região e outros famosos. O que tornava tudo mais louco, já que vinha gente de todos os lugares para que tivesse a chance de ver o ídolo. Ainda mais quando isso não ia gerar gastos nenhum, a não ser o fato de se locomover até lá.
Logo o rapaz estacionou aonde eu pedi e reparei a quantidade de pessoas correndo para um lado e para outro para que fizesse tudo aquilo dar certo. Era incrível o tamanho do local e a quantidade de ônibus de cantores diversos estacionados ali, o que tornou tudo incrível. E o ainda diz que não ajuda as pessoas.
- Quanto eu te devo? – perguntei no idioma dele com certa dificuldade e ele sorriu me corrigindo na palavra errada e eu agradeci – Eu sou nova aqui, estou tentando, mas é difícil.
- A senhorita vai conseguir – ele disse perfeitamente no meu idioma e agradeci por isso – Posso te ajudar da próxima vez.
- Ah já sei quem vai ser o taxista que vai me ajudar – ri baixo.
- São 15 Rand, senhorita – abri a bolsa e tirei o dinheiro o entregando a mais. – A senhorita me deu a mais.
- Sim, é um agradecimento pela ajuda com o idioma – disse simpática e ele retribuiu com um sorriso. – Obrigada viu – desci do carro e fechei a porta.
- Olá – um rapaz alto, forte e dos cabelos negros se aproximou assim que eu desci – ?
- Sim, sou eu – deduzi que seria Lucca e eu estava certa, Lucca era o segurança pessoal do .
Segui ele por todos os corredores que resolvi apelidar de labirinto, porque se ele me deixasse ali sozinha eu não voltaria para casa tão cedo. Passamos por algumas pessoas que eu conhecia apenas por fotos e meu lado fangirl reprimido ganhou vida, minha vontade era de sair abraçando cada um deles, mas me controlei.
Paramos em frente o camarim do e ele me entregou umas das credenciais, colocando no meu pescoço e me instruindo a não perdê-la. Respirei fundo e arrumei a jaqueta de couro que tinha colocado enquanto andava pelos corredores. Bati na porta duas vezes e escutei um entra. Abri a porta e coloquei só a cabeça para o lado de dentro, ele já estava devidamente pronto e seu sorriso me contagiou, me fazendo sorrir junto.
- Hey – disse empolgada – será que posso entrar?
- Mas é claro, babe, entra! – ele largou o violão e veio até mim assim que entrei – Que bom que você veio – ele disse enquanto me abraçava.
- Eu quase não vim, mas seria muito injusto da minha parte recusar um pedido desses depois de 34 ligações.
- 34 ligações? Eu jurava que tinha 244. Mas fala sério, eu faço uma nova amiga aí o que ela faz? Não me apoia, isso seria mesmo injusto. – ele fez cara de piedade e eu apenas neguei com a cabeça.
- Drama de famosinho – ri baixo e ele me deu o dedo do meio me fazendo abrir a boca e logo ele gargalhou – Mal educado. – me afastei dele e ele me puxou pela cintura.
- Vem cá – ele fez com que caíssemos no sofá logo atrás de nós – eu só estou zoando.
- Que horas você vai entrar? – ele me soltou devagar e alcançou a garrafinha de água, tomando um pouco.
- Sou o próximo, estava tentando relaxar.
- E deu certo? – deitei a cabeça em seu ombro e senti seu cheiro, eu adorava aquele cheiro bom de shampoo misturado com perfume, se eu pudesse até guardava num potinho.
- Está começando a dar certo, pequena. – ele riu baixo e o encarei, rindo também.
- Vai dar certo, sempre dá certo. Só se certifique de ir ao banheiro para que não corra risco de cantar todo molhado – o lembrei e ele gargalhou.
- Agora mudando de assunto, você está muito linda – ele me encarou e eu dei de ombros sentindo minhas bochechas corarem.
- Eu nunca sei o que dizer... Obrigada, eu acho – ri baixo.
- Ou você pode dizer ‘ah me arrumei assim para ver meu cantor favorito’ – ele disse simples e eu revirei os olhos rindo.
- Eu me arrumei assim para ver os meus crushes... Como você não me disse que ia ter tanta gente assim. JUSTIN TIMBERLAKE ESTÁ AQUI – senti a empolgação me tomar de conta, fazendo com que eu batesse palmas, ele gargalhou da minha empolgação e empurrei-o de leve – Ei, não ri... Você não tem noção como eu adoro ele. Quase pulei nele ali no corredor, mas me contive – fiz bico.


Eu quase nem acreditei quando li a mensagem dela. Ela não tinha me retornado, não tinha respondido minhas mensagens, e não tinha dito nada a respeito do nosso encontro mais cedo, eu confesso de que já tinha até desistido. Mas parece que ela havia mudado de ideia, e eu não ia reclamar.
Como eu já sabia que ela odiava estar exposta e tudo ficou bem claro mais cedo, resolvi organizar tudo para que isso não acontecesse. Tinha apenas dois dias que a conhecia, mas é como se nosso santo tivesse batido. Eu não sei explicar, mas eu gosto da amizade dela, gosto de conversar ou só ouvir. E isso é muito esquisito. Um esquisito bom, sequer saber.
Resolvi pegar meu violão, um pedaço de papel e começar a escrever algo que estava na minha cabeça desde hoje cedo. A melodia que eu fazia no violão era algo que fazia me sentir animado, exatamente como ela me fazia sentir. Gravei um pouco da melodia pelo celular e escutei duas batidinhas na porta.
Era ela. E como estava linda. Estava estilosa, não que ela não fosse, mas estava diferente e era assim que ela adorava. Assim que ela entrou não me contive e fui abraçá-la. Eu adorava abraçá-la. É como se ela me dissesse que vai ficar tudo bem, sem dizer nada e isso que me faz sentir estranho. Como é possível?
- Agora mudando de assunto... Você está muito linda – minha boca foi mais rápida que os comandos de não fale nada. Suas bochechas ficaram tão coradas que senti vontade apertá-las.
- Eu nunca sei o que dizer... Obrigada, eu acho.
- Ou você pode dizer ‘ah me arrumei assim para ver meu cantor favorito’ – disse sem tirar os olhos dela e negou com a cabeça rindo.
- Eu me arrumei assim para ver os meus crushes... Como você não me disse que ia ter tanta gente assim. – ela me empurrou de leve - JUSTIN TIMBERLAKE ESTÁ AQUI – ela disse empolgada e eu gargalhei do lado fangirl dela – Hey não ri... – tentei segurar o riso, mas era quase inevitável - Você não tem noção como eu adoro ele. Quase pulei nele ali no corredor, mas me contive – ela fez bico.
- Será que eu devo glorificar ao Pai? – disse entre risos.
- Deus ia era ficar orgulhoso de mim – ela deu de ombros como se aquilo fosse mesmo acontecer.
- Ou ia te jogar uma saraiva por manchar minha reputação – disse de forma dramática e ela riu.
- Primeiro, Deus não faria isso – ela se afastou de mim deitando a cabeça no encosto do sofá facilitando eu olhar para o seu rosto – Segundo, ninguém sabe que eu te conheço – ela deu de ombros – e terceiro, se Deus me jogasse uma saraiva você ia ficar ai chorando porque eu não existo mais – disse de forma convencida e eu ri alto, era engraçado conhecer esse lado dela.
- As pessoas sabem sim – mostrei as credenciais para ela que estava escrito ‘ Backstage’ e ela fez cara de que entendeu. – E eu não ia chorar por você, sua metida, eu acho que criei um monstro.
- Então você pode me apresentar a ele, não pode? – ela me olhou com aquele olhar pidão e eu neguei com a cabeça.
- Não me olhe com essa cara – me levantei rindo e ela me seguiu. – Por favor, nunca te pedi nada.
- Eu realmente criei um monstro. – olhei para ela que continuava me olhando com uma cara de gato do Shrek – Você precisa parar de assistir Shrek.
- Por favor, .
- Tudo bem, só para com essa sua carinha aí – suspirei derrotado e ela deu pulinhos de alegria de forma infantil e pulou me dando um abraço e abracei sua cintura – Ok, mas me promete que não vai desmaiar ou vomitar.
- Prometo – ela estendeu o mindinho e a encarei confuso – Pink Promise – ela disse obvio.
- Você tem quantos anos mesmo? – perguntei de forma irônica e ela revirou os olhos e eu mostrei meu dedinho derrotado a fazendo rir.
- E para sua informação eu tenho 22 anos. – ela deu de ombros.
- Agora você quer me contar sobre mais cedo? – ela me encarou confusa – No orfanato.
- Ah sim, acho que você descobriu meu esconderijo.
- Você trabalha no orfanato? – perguntei curioso – Conheci uma garotinha adorável, o nome dela é Alika.
- Eu trabalho naquela área ali. Tem a área de risco, que foi onde ocorreram os incidentes, a aldeia ali próxima onde ocorrem as construções, tem o hospital de apoio ao paciente e familiares e o orfanato. Eu me divido durante a semana. - ela disse e eu com certeza devo ter demonstrado admiração já que ela sorriu sem graça.
- Isso é incrível, será que um dia eu poderia ajudar em algo?
- Claro, desde que as câmeras fiquem do lado de fora. – ela deu de ombros.
- Qual seu problema com elas? – fingi indignação.
- Qual seu problema em ficar sem elas? – ela riu.
- Nenhum, na realidade seria quase que uma benção – brinquei.
- Você anda bem religioso ultimamente hein! – ela brincou.
- Acho que suas orações estão funcionando. – ela gargalhou alto quando eu disse isso, me fazendo rir também junto com ela – Acho que seu celular está tocando. – avisei quando escutei o som diferente no camarim. Ela se levantou e andou até sua bolsa pegando seu celular e lendo alguma mensagem ficando séria em seguida.
- Está tudo bem? – ela respondeu alguém por mensagem e logo olhou para mim.
- Sim, está tudo bem. Não se preocupe, era só meu pai. – ela deu de ombros indo guardar o celular.
Escutei alguém bater na porta e eu gritei um entra. Logo Evie, minha maquiadora favorita colocou a cara para dentro avisando que íamos entrar em cinco minutos. Respirei fundo e olhei para que estava no canto conversando com alguém. Sentei na cadeira em frente ao espelho e deixei Evie passar a maquiagem que fosse necessária.
- Você já vai entrar? – se aproximou e eu assenti com a cabeça, ela olhou para a mulher que passava essas coisas que não sei o que são no meu rosto – Oi, eu sou . – ela disse tímida.
- Eu sei quem você é – ela disse simpática – não parou de falar de você esses dias.
- Hey Evie, nada de contar as coisas para ela – repreendi e ela revirou os olhos – ela vai se achar depois.
- Não vou me achar, mas depois quero saber sobre isso. – Ela sorriu e eu sorri também.
- Ela não vai te contar nada – dei de ombros e ela bateu com um dos pinceis no meu nariz e eu reclamei fazendo as duas rirem.
- Shiu! Que eu vou me vingar de você por ter me feito ficar esperando aquele dia – olhei para ela negando com a cabeça.
- O que você aprontou? – olhou curiosa.
- Te conto depois que o show acabar – me levantei e abracei ela forte – Me deseje sorte.
- Boa sorte, serzinho – ela retribuiu o abraço e eu logo a soltei e parei na frente de Evie que me entregou o meu violão.
- Vai lá e arrasa, garoto – peguei o violão da mão dela e estendi a mão para que ela fizesse um high five como de costume antes dos shows.
Agora era a hora. Eu sempre ficava nervoso antes dos shows, mas era o que eu amava fazer, eu amava ver todos cantando minhas músicas e se sentir tocado por elas. Fiz uma oração rápida antes de entrar no palco e entrei correndo no mesmo, começando a tocar os primeiros acordes no violão da música que iria abrir meu show.


Era tudo tão bonito. As músicas, as pessoas cantando junto com ele e a empolgação dele fazendo tudo aquilo dar certo, era ainda mais lindo. Estava tudo impecável. Eu e Evie estávamos encostadas na parede, aonde conseguíamos enxergar perfeitamente o palco. Ele estava tão à vontade ali, que eu tive certeza que ele nasceu para isso. Parecia que ali era a casa dele, e eu fiquei muito orgulhosa por ele fazer isso tão bem.
Depois que a sexta musica acabou, ele agradeceu a todos e pediu que as pessoas ao redor do mundo continuassem apoiando essa obra tão generosa de salvar vidas e pediu um minuto de silêncio por todas as vítimas dos desastres naturais que atingiu aquela região. Sorri ao escutar isso e fiz uma nota mental para jogar na cara dele que ele ajudava sim as pessoas.
Ele saiu correndo do palco debaixo de aplausos. Suas bochechas estavam tão vermelhas que era até fofo. Seus cabelos estavam bagunçados e o sorriso estava de orelha a orelha. Ele abraçou Evie e ela reclamou por ele estar todo suado, o que me fez rir. Ela parecia tipo a mãezona dele. Me aproximei devagar e ele se virou pra mim.
- Hey cantor mais ou menos – provoquei e ele me puxou para um abraço.
- Eu sei que você adorou – empurrei ele devagar pelo mesmo motivo que Evie reclamou.
- É, eu adorei – sorri para ele e andamos juntos de volta para seu camarim – Como está se sentindo?
- Uau – ele olhou para chão e negou com a cabeça voltando o seu olhar para mim – foi surreal, você viu!
- É, eu vi – mostrei o braço para ele – eu me arrepiei umas cinco vezes, confesso. – ele riu e abriu a porta para que entrássemos novamente no seu camarim. – Foi lindo.
- Eu estou feliz por ter feito isso – ele se sentou no sofá e pegou uma toalha de rosto – eu estou feliz por ter vindo.
- É isso que fazem os amigos – pisquei para ele que negou com a cabeça rindo – agora vai tomar banho que eu estou com fome!
- Essa é a que eu conheço – ele me encarou rindo e eu revirei os olhos – Esfomeada – ele se levantou e jogou uma almofada em mim devagar, me fazendo alcançar a mesma ainda no ar e colocar atrás da cabeça.
- me chamando de esfomeada, isso é mesmo um insulto – ele saiu rindo para o banheiro que tinha ali e eu peguei o celular e fui ler minhas mensagens.
Doze ligações do meu pai, 5 mensagens da minha mãe e do meu irmão, eu não vou nem ler. Eu estou ferrada! Resolvi ligar logo para o meu pai e sei lá, ver que desculpa eu ia dar. O telefone não chamou nem três vezes e ele atendeu.
- Pai, está tudo bem! – já fui falando logo de uma vez.
- você sabe que eu odeio quando não atende a porcaria do telefone – ele disse irritado me fazendo suspirar baixo.
- E você sabe que eu não posso atender o telefone quando estou atendendo pacientes – disse simples, não era uma mentira, eu não podia mesmo.
- E onde você está atendendo? – ele disse com uma pitada grande de dúvida - Porque seu irmão foi na clínica e você não está lá – ele disse o obvio e me arrumei no sofá, ficando sentada. Senti meu coração parar por dois segundos.
- Estão me seguindo? – disse indignada – Eu nunca te dei motivo para isso, pai.
- Desculpa, mas fiquei preocupado. – ele disse baixo.
- Eu só sai para respirar um ar, pai. Estou bem. Agora relaxa, ok?
- Tudo bem, quando estiver voltando me avise e não desligue esse celular – ele pediu e eu assenti como se ele pudesse me ver e logo desliguei.
Essa história de mentir nunca era uma boa ideia, como eu disse, era só uma bola de neve que ia aumentando sem parar. Suspirei baixo e ignorei todas as outras mensagens que tinham no meu celular, joguei o objeto dentro da bolsa e olhei para já vestido e arrumado.
- Agora sim eu aceitaria um abraço – brinquei e ele veio até mim rindo.
- Agora eu também não dou – disse de forma mimada e me levantei pegando minha bolsa.
- Vou me lembrar disso... – avisei de forma vingativa – Evie... O que o disse mesmo sobre mim? – falei alto o suficiente, mas ela não me escutaria já que não estava ali, ele negou com a cabeça.
- Você é mesmo uma chantagista viu – ele me deu um abraço apertado e eu ri – eu sei que adora me ter por perto.
- Você é um babaca mesmo – disse entre risos e ele passou os braços pelo meu ombro andando comigo até a porta – Para onde vamos?
- Surpresa – ele avisou e eu o encarei – Nem adianta ficar insistindo que eu não vou contar. E também nem adianta fazer aquela sua carinha.
- Isso é uma grande sacanagem – fiz bico e ele passou os braços pelos meus ombros e eu o olhei – Não me toque, estou brava. – brinquei e ele me abraçou de lado ignorando o que eu havia dito.


- Eu não consigo acreditar que você não gosta de comer sushi – olhei para ela indignado e ela soltou uma gargalhada provavelmente da minha cara de indignação.
- Eu não acredito que você come peixe cru. – disse como se fosse a coisa mais nojenta de todo planeta.
- Eu não vou nem discutir isso com você – disse rindo e abri a porta do carro para ela assim que chegamos a um restaurante na cidade vizinha.
Fiquei observando sua reação, ela olhava maravilhada para o lugar. Era simples e lindo. Era no meio de um jardim cheio de mesas a luz de velas. Havia luzes decorando todo o lugar, a decoração me fazia lembrar o natal, mas deixava tudo mais romântico. O que era importante, já que ela nunca teve um encontro e eu queria que ela não esquecesse esse. Não sei exatamente porque eu estou fazendo isso, mas eu sinto que isso é importante.
- O que achou? – parei em frente a um garçom que logo nos levou até a nossa mesa.
- Esse lugar é perfeito – seu sorriso ia de orelha a orelha e eu acabei de me lembrar o porquê de trazê-la aqui.
- É – puxei a cadeira para ela se sentar e logo me sentei de frente para ela – Você está começando a ter o melhor encontro da sua vida – ri convencido e ela revirou os olhos e acabou por sorrir.
- Você sabe que não vale encontro com amigos né? – ela disse como se fosse óbvio.
- Você sabe que pessoas que não comem sushi não podem ficar falando as coisas como se fossem obvias né?
- Você acabou de inventar essa regra – ela disse e depois riu, eu apenas dei de ombros rindo com ela. – Agora me diz o que você pretende fazer nas suas férias.
- Jogar o celular fora – comecei alistar nos dedos – escrever um livro, escrever música sobre esse lugar e – a olhei – dormir.
- Jogar o celular fora? Alguém já te disse que você não é muito normal?
- Podemos conversar por cartas. – brinquei.
- Cartas... Eu não tenho tempo nem para responder mensagem, imagine escrever carta.
- Vamos dar um jeito nisso – pisquei para ela e ela riu.
- Não pisca para mim, sou difícil, querido – ela arqueou a sobrancelha e eu ri. Ela conseguia ser fofa até nessas horas, revirei os olhos.
- Me conte mais sobre você – ela entortou a cabeça e ajeitou os óculos jogando o cabelo para trás em seguida, era impressão minha ou tudo era muito adorável, poderia escrever uma música apenas com isso sobre ela.
- O que quer saber? – ela disse assim que conclui nossos pedidos e o garçom se afastou.
- Não sei, me fala sobre sua família, por que escolheu psicologia. – dei de ombros.
- Eu e minha família somos bem unidos, nós gostamos de fazer coisas juntos... Eu nunca menti para eles... Quer dizer – ela respirou fundo como se tivesse feito a pior coisa do mundo e eu a olhei curioso – até hoje, porque eles não sabem que estou aqui.
- Não sabem? Mas por quê?
- Ah, eles não iam gostar muito dessa ideia, então para evitar fadiga preferir não contar – ela deu de ombros.
- Eu sempre faço isso com David, ele já até se acostumou.
- É, mas você é um cara danadinho, e suas mentiras não devem durar muito – peguei o copo de vinho que o garçom serviu e tomei um pouco.
- É, a mídia é uma merda – revirei os olhos e ela riu baixo – entendo porque você não quer se expor e eu acho isso uma coisa inteligente, se quer saber.
- É uma atitude que salva minha pele – ela também tomou do vinho e eu a olhei incentivando ela a continuar – meus pais achariam uma loucura eu sair com um cantor famoso, isso seria a coisa mais... – ela parou procurando as palavras certas e respirou fundo – seria a coisa mais louca que poderia acontecer.
- Seus pais eles são pessoas reservadas?
- Talvez um pouco mais que isso, mas essa palavra serve. Mas e você e sua família como são?
- Eu e meu pai somos melhores amigos, eu adoro a barba dele – ela negou com a cabeça e riu – Sério, eu sonho em ter uma barba igual a dele, mas eu acho que seria impossível, não vou ter tanta barba daquele jeito.
- É tipo Papai Noel? – ela fez uma cara engraçada provavelmente tentando imaginar.
- É basicamente... E minha mãe ela é doce, eu e ela nos parecemos muito, segundo meu pai – peguei o celular e coloquei em uma das últimas fotos que tiramos juntos – Olha, esse da direita é meu pai – mostrei a foto para ela.
- Uau, ele realmente tem uma barba legal – ela deu zoom na foto – sua mãe é essa daqui? – arrastou a imagem parando na foto da minha mãe, meu coração apertou, sentia falta de casa. Era bom estar na estrada, mas minha casa sempre vai ser meu lugar favorito.
- Sim, ela adora cozinhar para todo mundo no Natal, ela é adorável.
- Vocês têm jeito de serem pessoas que se dão bem, é uma família muito bonita. – ela parou por um tempo olhando a foto e me devolveu o celular – ... Qual seu maior sonho?
- Meu maior sonho profissional ou pessoal?
- Pode ser os dois – ela deu de ombros.
- Participar de um filme e sei lá, construir uma casa na colina e ter uma família grande – olhei para ela que ria baixo – Que foi? É só meu sonho.
- Não estou julgando, só é um belo sonho.
- E o seu – tomei do meu vinho e agradeci ao garçom quando ele trouxe as entradas – qual seu maior sonho?
- Adotar uma criança – ela disse rápido e sem dar voltas – nossa, seria incrível dar uma vida melhor para uma delas. É algo que com certeza quero fazer.
- Você já faz tão bem para essas crianças. Esse sonho seu é lindo. – disse simples e ela abriu um sorriso lindo.
- Você acha? – ela perguntou meio desacreditada.
- Claro, eu acho que se você pode e quer fazer o melhor a alguém, então essa é a coisa certa a fazer.
- Você fez psicologia, ou fui eu? – ela brincou me fazendo rir.
- Talvez eu tenha feito uma graduação escondido – dei de ombros e ela fez que sim com a cabeça como se tivesse entendido tudo.
Eu ficava admirado com cada parte das suas histórias. E existia algo que me fascinava, talvez sua sinceridade ou seu jeito de ser. Ela não se importava com o que pensavam dela, ela não queria atenção, ela só queria que as pessoas gostassem do jeito que ela era.
Mas escutando suas histórias e vendo seu jeito o que me admirava acima de tudo, era sua fé. Sua fé era quase que inabalável. Ela tinha fé nas pessoas, na mudança, no mundo. Coisa que eu já tinha perdido há muito tempo. E talvez seja por isso que eu a admiro tanto em tão pouco tempo.
A religião e Deus era algo importante pra ela, apesar da minha criação ser tão diferente, eu vi o quão importante era o que eles faziam, e o quanto eu a respeitava por ser assim. Eu nunca liguei para religião, sempre pensei que Deus está no nosso coração, quando eu disse isso pra ela, foi como se tivesse tudo bem, não fui julgado ou criticado.
- Então senhora sabe tudo – brinquei depois dela me explicar porque muitas pessoas perdem a fé e resolvem fazer algumas loucuras que podem levar a um desastre, ri da careta que ela fez – me conte então por que sinto que te conheço há anos, sendo que te conheço há uns cinco dias?
- Eu tenho uma melhor amiga que diz uma coisa bem legal e eu meio que levo isso pra mim... Ela diz que Deus não une pessoas, Ele une propósitos. E propósitos quando se encontram, não importa, se faz dez dias, uma hora ou cinco anos. É pra vida toda. Então talvez seja isso. – Ela deu de ombros com sorriso de orelha a orelha.
- Você é o proposito mais lindo e inteligente que eu conheci.
- E você é um bobo – ela desviou o olhar do meu assim que seu telefone tocou, ela retirou o objeto da bolsa e suspirou baixo quando viu o nome na tela.
- Por isso eu vou jogar o telefone fora – brinquei e ela assentiu.
- É eu devia fazer isso também – ela disse antes de atender ao telefone.


O jantar tinha sido ótimo e a companhia melhor ainda. Pena que o meu pai tinha que ter me ligado, suspirei baixo assim que atendi e escutei por quase vinte minutos intermináveis. Ele disse que era um absurdo eu estar fora até uma hora dessas, fazendo sabe lá o que. Acho que às vezes eles esqueciam que eu tinha mais de 18 anos, bem mais.
Pedi para que me levasse para casa e me desculpei pelo o ocorrido. Ele não falou e nem perguntou nada sobre a conversa e eu até agradeci por isso. Não era muito de expor esse tipo de coisa, talvez ele achasse exagerado e uma forma antiga de se viver e eu não gostava que me julgassem, na realidade ninguém gosta.
Pedi para que ele me deixasse na praia, pegaria o táxi dali. Obvio que ele não aceitou e disse que isso ia contra todos os princípios dele. Ri alto quando ele disse isso.
- Que princípios? – questionei.
- Pode não parecer, Darling, mais minha mãe me ensinou a ser um bom britânico. – ele desviou a atenção da estrada por um segundo para me olhar e logo voltou a olha para frente – me diz seu endereço.
- tenta ferrar com a vida da amiga dele – falei exageradamente como se fosse manchete de um jornal e ele revirou os olhos.
- arruma amiga dramática e ferra com a vida dele – sua imitação ridícula de mim me fez rir e revirei os olhos – Ou me passa o endereço ou eu te levo para meu hotel.
- Rua Bluff, Número 456 – disse rápido e ele gargalhou me fazendo dar um soco de leve em seu braço.
- Sabia que seria fácil. – ele virou em uma rua após mudar o endereço no GPS do carro – Você é mesmo diferente, sabia.
- Eu sei que sou diferente e é por isso que você me ama, e olha que te conquistei em menos de dois dias. – dei de ombros e ele desviou o olhar da estrada por um segundo.
- Seria mal educado se eu deixasse você ir andando?
- Extremamente, senhor britânico – disse simples e ele riu.
- Posso te fazer uma pergunta? – ele disse depois de um pequeno silêncio e eu apenas assenti – Você já falou palavrão? – ele me olhou curioso e eu gargalhei.
- Qual é, – disse devagar ainda rindo – você ficou esse tempo todo calado pensando nisso?
- Sim, porque cara, você fala tudo tão certinho e tal... Eu fiquei pesando nisso.
- Eu já xinguei, mas eu evito... Porque eu gosto de...
- Ser diferente, já sei... – ele revirou os olhos e eu dei um beijo na bochecha dele.
- Você é até inteligente para um cantorzinho barato. – brinquei, mas logo meu senso de humor acabou quando ele estacionou na porta da minha casa, tirei meu cinto e ele fez o mesmo - Não precisa descer – avisei e ele me encarou confuso – Eu só ia abrir a porta – avisou e eu neguei com a cabeça. – Não precisa, não seria uma boa ideia se meus vizinhos te vissem aqui.
- Tem vergonha de mim, – disse em tom provocativo, eu assenti e ri da cara que ele fez.
- É sério, é como eu disse, pessoas públicas demais não combinam muito com pessoas como eu. Eu sou discreta, não gosto que as pessoas me questionem e nem gosto de ficar dando muitas explicações. Então é melhor assim. – disse baixo e ele apenas assentiu – Mas obrigada, foi o melhor primeiro encontro que já tive.
- É pequeno propósito, eu espero que não seja o último – ele se aproximou e beijou minha bochecha – por favor, me mande e-mail. Carta. Ou sinal de fumaça se estiver precisando algo.
- Eu espero muito que você veja meu sinal de fumaça lá de Bali – brinquei.
- Vou dar um jeito nisso – ele me puxou para um abraço apertado, literalmente dentro daquele carro – Prometo que vou. – ele disse no meu ouvido fazendo meu coração acelerar.
- Um fato sobre mim – me afastei devagar e ele me olhou curioso – despedidas não são coisas que sei lidar muito bem, por isso eu acho melhor não fazermos isso.
- Um fato sobre mim... – ele colocou uma mecha do meu cabelo para trás e se aproximou, se aproximou demais, fazendo com minhas mãos suassem frio e meu coração perder todo o compasso. Seu polegar passou pela minha bochecha fazendo um carinho confortável ali, fechei meus olhos de forma involuntária e quando abri me deparei com os seus olhos quase que cintilantes.
- ... É melhor eu ir – tentei me afastar, mas algo me prendia ali.
- Um fato sobre mim – ele repetiu com um sorrisinho de lado no rosto – eu sempre gosto de guardar lembranças boas dos lugares que passo, e você é a lembrança boa que eu quero guardar.
Seu rosto estava tão perto do meu que pude ver como a cor dos seus olhos era mais linda de perto, seu cheiro era tão bom que eu podia até culpá-lo por não me fazer agir naquele momento. Resolvi deixar de pensar e fazer o que eu queria fazer.
Seus lábios roçaram o canto da minha boca e meus olhos fecharam devagar assim que eles tocaram os meus. Não teve nada demais ali, apenas seus lábios tocados no meu e um coração mais acelerado que um trem em alta velocidade. Ele se afastou devagar e eu abri meus olhos dando de cara com seu sorriso. Senti minhas bochechas formigarem e ele me puxou para um abraço apertado.
- Eu não ligo que não goste de despedidas, mas eu vou sentir sua falta.
- Vai ficar tudo bem – me soltei do seu abraço e suspirei baixo – Bom, eu te vejo por ai – abri a porta – Boa viagem, . – me despedi e ele apenas sorriu.
Desci do carro e corri para dentro do prédio, empurrando a porta com certa dificuldade. Essa tinha sido a coisa mais louca que aconteceu na minha vida e eu não podia contar par ninguém. NINGUÉM. A droga! Eu estava mesmo muito ferrada.
Eu não queria pensar nos meus pais, mas era bom meu cérebro já ir preparando uma boa desculpa para eu dar, porque eu sabia que meus pais estariam ali me esperando. Destranquei a porta do apartamento e entrei devagar. Eu estava enganada. Não tinha ninguém ali na sala. Andei devagar para que eu não acordasse ninguém. Definitivamente não estava nos meus planos.
Mas parece que quando se faz alguma coisa que é ‘errada’ nada fica ao seu favor, certo? Certíssimo. Quando pisei na cozinha para pegar água ali estava meu pai, fazendo exatamente o que eu pretendia fazer.
- Você chegou tarde – ele olhou o relógio e depois olhou para mim – Onde você estava?
- Eu sai – disse a verdade, bem, a metade da verdade.
- Você saiu? – ele arqueou a sobrancelha – já está valendo respostas vazias agora?
- Eu sai para jantar, para pensar, respirar, relaxar... – respirei fundo e olhei – isso não é errado ok? Eu só precisava de um tempo para mim.
- Você só precisa atender o seu telefone... Não estamos no nosso país, coisas ruins podem acontecer, .
- Eu sei pai... Me desculpa. Eu não queria que ficasse preocupado.
- Tudo bem, agora vem aqui – ele abriu os braços e eu me aconcheguei ali - eu não queria ter gritado com você, só fiquei preocupado, ok?
- Ok pai, está tudo bem, eu amo você. Eu só preciso dormir um pouco. – Me soltei do abraço e sorri, mau ele sabia que eu não iria dormir tão cedo.
- Tudo bem... Dorme bem filha. – ele se despediu e eu peguei a água que queria e corri para o meu quarto.
Aquilo era mais do que surreal, aquilo era algo que eu nunca imaginei na minha vida, nos meus dias mais loucos. Me joguei na cama com um sorriso que eu não conseguia nem conter. Eu estava ficando louca só podia ser... Mas não importava, na realidade nada pra mim importava naquele dia.
Peguei meu celular e chequei as horas, já se passavam da uma da manhã. Meu pai tinha razão em estar bravo, mas aquilo também não importava mais. Abri as minhas ultimas conversas com e li as mensagens que ele havia mandando, ele era sempre exagerado, revirei os olhos e resolvi responder: “você mandou mesmo mais de 30 mensagens!!??????” .
Enviei e corri para o banheiro para tomar um banho rápido e tirar toda aquela maquiagem que com o calor da África já nem deveria existir por inteiro. Fiz o que eu disse que faria e coloquei um pijama confortável, peguei o celular antes me jogar na cama e ele estava vibrando, atendi assim que vi o nome do serzinho brilhando na tela.
- Sério, você não vai conseguir jogar esse celular fora. – atendi já afirmando o que parecia óbvio e ele riu.
- Eu liguei só para dizer que você precisa parar de colocar emoction em tudo.
- Fala sério – revirei os olhos – eu já disse que não te suporto hoje?
- Não e mesmo se dissesse eu não iria acreditar – ele disse convencido e eu ri.
- Eu preciso desligar, amanhã eu levanto cedo.
- Eu sei, eu só liguei para dizer boa noite.
- Você já tinha me dito há cinco minutos – ri de lado.
- Não estraga minha desculpa, garota – ele disse baixo me fazendo rir.
- Ok, desculpa, babe. Boa noite então e bom voo.
- Obrigado, fica bem, ok?
- Eu sempre fico – dei de ombros como se ele pudesse me ver – você também fica bem, evite os cigarros e as coisas vão dar certo.
- Ok, eu vou tentar – ele sorriu – Beijo. Tchau – ele disse rápido e desligou e eu fiz o mesmo.
Para um dia difícil, ele tinha terminado bem, até bem demais. Fechei meus olhos, mas não consegui fechar o sorriso e não liguei nenhum pouco para isso.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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