Última atualização: 27/12/2017

Capítulo 1

“Em sua vida (ficará bem)
Em sua vida tudo vai melhorar (ficará bem)”
- Ed Sheeran


“Terrível terremoto atinge norte da África deixando muitos desolados, logo em seguida uma enorme enchente foi causada devido aos danos do terremoto, milhões de pessoas estão desabrigadas e sem alimento, a agua que já estava escassa está mais difícil ainda ... Solicitamos toda ajuda voluntaria possível.”
Ser fiel a Deus, está aí uma coisa que me motiva, mas algo que me motivava mais ainda era ajudar, como eu amava fazer algo pelas pessoas. Eu sempre fui uma pessoa religiosa e sempre acreditei que tudo que se faz de bom para alguém agora, você acaba fazendo algo melhor para si mesmo, por isso que assim que recebemos essa mensagem, minha família logo se dispôs a ir para África por tempo que for necessário nossa ajuda.
- – minha mãe bateu na minha porta – você está pronta?
Sorri para minha mãe e apenas assenti com a cabeça, peguei minha bolsa em cima da escrivaninha branca e desci as escadas da pequena casa em que morávamos. Deixar o Floyd, nossa pequena cidade, não seria fácil. Eu gostava das noites de música e gostava do clima agradável que ela tinha, mas eu tinha certeza de que a decisão que tomamos em família seria melhor, sem contar a experiência maravilhosa que teríamos para contar, quem sabe toda essa história não vire um livro, pensei enquanto entrava no carro.
Meus grandes fones de ouvido me faziam sorrir ao ver as árvores passar pela janela do carro em caminho do aeroporto, bom é isso, África, me aguarde pelos próximos meses. Virei para o lado e me deparei com meu irmão, seus olhos estavam meio tristonhos, segurei sua mão e sorri.
- O que foi sweet? – usei o apelido que ele achava tosco e que eu sabia que o irritava, mas eu como uma boa irmã mais nova sabia fazer bem meu papel.
- Você sabe que esses apelidos são desnecessários – ele fez careta e eu dei de ombros – é difícil dar tchau pra isso tudo.
- Eu sei – dei de ombros – mas pensa pelo lado positivo, lá é quente e você ama o calor – ri, fazendo ele rir também. – e além disso não estamos fazendo nada obrigado, sempre foi nosso sonho, não foi?
- Sempre foi – ele deu de ombros – Vai ser bom, além disso, não vai ser pra sempre, podemos voltar sempre.
- Bobinho, nós temos que voltar um dia ou outro – ri apontando para aliança em seu dedo – vai ser apenas dois meses para você, . A não ser que desista do seu casamento.
- Não brinca com isso, – mamãe se virou para trás e eu ri.
- Não está aqui quem falou. – levantei as mãos como se tivesse me rendido a eles – foi só uma brincadeira – ri.
- Você um dia se acostuma com ela, falou de forma tranquila como sempre e eu reverei os olhos.
- Claro que sim, um dia. – olhei novamente para janela.
era meu irmão mais velho e eu tinha todo direito de sentir ciúmes dele, ele era louco pela atual noiva, , e na realidade eu não tinha nada contra ela, era só ciúmes bobo mesmo. Eu na realidade esperava um dia viver esse amor, ele parecia tão puro, nada bagunçado, tudo extremamente puro para dizer a verdade, porque na realidade foi assim que fomos ensinados a ser, foi assim que os meus pais foram e deveria ser assim comigo também.
Um namoro cuidadoso, com total supervisão, a pureza deveria ser mantida para o casamento, você deveria encontrar alguém que acreditasse no mesmo que você, não porque era uma lei, mas porque talvez seria mais fácil manter suas crenças e sua fé. Eu não pensava em encontrar alguém agora, não estava nos meus planos. Na realidade, meus planos é simplesmente manter minha vida do jeitinho que ela está agora, calma e tranquila. No dia que aparecer a pessoa certa, então este será o meu momento de construir a minha família, mas enquanto isso, sem pressa.
Meu pai estacionou o carro e alguns amigos já nos esperavam ali para nos despedirmos pela milésima vez. Bom, agora sim, a história toda começa.
- Estão preparados? – papai tirou o cinto e sorriu animado.
Assenti animada e totalmente preparada para mais uma etapa da minha nova vida. Os próximos três meses seriam intensos e eu estava preparada para eles, depois, bom, depois é apenas depois, a gente vê o que acontece até lá.

***

Kwazulu Natal, a nova província que moraríamos pelos próximos dias, onde carinhosamente apelidei a mesma apenas de Natal. Eu confesso que fiquei de boca aberta quando cheguei aqui, é um lindo lugar, pena que o fato de ter vindo para cá tenha sido triste. A destruição é quase que total, poucos lugares da cidade não foram devastados por completo, já são 70 mortes confirmada e centenas de pessoas desabrigadas, o apoio psicológico e material será totalmente necessário no momento.
Descobri alguns pequenos detalhes, apenas 13% da população fala meu idioma, ou seja, terei que aprender algumas palavrinhas em zulu e sim eu estava muito assustada, como eu vou pedir comida em zulu, ri comigo mesma e aumentei a música do meu fone, olha no que fui pensar, comida.

***

Depois de 32 horas de viagem, finalmente chegamos no pequeno apartamento de três quarto que alugamos. Ele era aconchegante e posso dizer que ele talvez seja até fofo. É, eu posso me acostumar com esse lugar onde posso chamar de meu novo lar. Era tudo tão pequeno se eu for comparar com minha outra casa, a cozinha, por exemplo, cabia apenas duas pessoas e olha lá.
Coloquei minha mala no quarto já mobiliado e me joguei na cama, eu confesso que precisava tomar um banho, mas o cansaço era bem maior, então eu só tirei as calças que me apertavam e joguei os tênis por qualquer canto do quarto e simplesmente dormi, sem sonhos, sem nada. Nem sequer me importei com o sol de meio dia que fazia lá fora.

***

Meus olhos ainda pesados foram obrigados a se abrirem com uma pontada que senti no meu estômago, com certeza isso era fome. Me levantei devagar e uma grande dor de cabeça tomou de conta, é realmente estava com fome ou eu dormi demais. Peguei meu celular e olhei o horário, uma da manhã, fiz uma careta, fuso horário todo bagunçado. Andei devagar até minha mala e procurei uma roupa qualquer e uma toalha, entrei no banheiro e um banho morno e relaxante com certeza cairia bem, na realidade uma banheira cairia melhor ainda, mas seria luxo de mais.
Banho tomado, roupa vestida, cabelo molhado e uma fome devastadora. A geladeira estava tão vazia quanto meu estômago e escutei ele fazer um barulho tão alto que fiquei com medo que ele acordasse o resto da casa, precisava dar um jeito nisso. Fechei a geladeira e dei de cara com meu irmão de braços cruzados, me fazendo assustar.
- Procurando alguma coisa? – ele disse rindo da minha cara.
- Idiota , isso que você é – empurrei seu braço, colocando a outra mão no peito tentando me recuperar do susto e acabei rindo também.
- Olha a boca mocinha – ele se virou andando até a sala – eu sei que são uma da manhã, mas eu estou com fome, topa procurar alguma coisa para comer?
- E como topo, se eu não topar é perigoso seu estomago gritar mais alto – ele disse e eu coloquei a mão na minha barriga fazendo careta – Vamos?
- Acho melhor você pegar o telefone, caso alguém nos ligue. – ele avisou – estou sem bateria.
- Ah – corri até o quarto e peguei o aparelho e joguei dentro da minha bolsa, junto com meu tablet, melhor prevenir. Voltei para sala e estava jogado no sofá esperando. – Vamos o bonitão.
- É eu sei que sou bonitão – ele piscou para mim e eu revirei os olhos.
- Não sei como a consegue te suportar, sério. – ri e sai pela porta e esperei ele trancar a mesma – você avisou nossos pais?
- Deixei um bilhete. – ele guardou as chaves no bolso da calça. O clima da cidade continuava quente apesar de estar ventando, eu esperava me acostumar um dia com isso, mas não era impossível. – Te incomoda o fato de você ter que ser diferente de algumas pessoas devido sua fé? – me tirou dos devaneios e eu pensei antes de responder.
- Sim e não – dei de ombros – mas eu gosto de ser diferente dessas outras pessoas. Para elas o que é importante é ter sempre mais e mostrar isso para as pessoas. Eu acho que na realidade o que você tem aqui – toquei na cabeça dele – e aqui – depois toquei no coração – é mais importante do que o resto. – sorri de lado – Te incomoda?
- Às vezes – ele deu de ombros – essa coisa de ser diferente de todos, às vezes é irritante, mas eu não ligo tanto.
- Não é como se fossemos um ET, só recebemos uma educação que visa sermos abnegados e ajudar as pessoas. Tem muita gente assim, se quer saber – dei de ombros e ele apenas concordou.
Paramos um momento esperando o sinal abrir para que pudéssemos atravessar a rua e chegar em um estabelecimento que parecia um restaurante, na realidade ele era mais para aqueles bares 24 horas, mas eu estava com tanta fome que eu nem ao menos me importei. Outra coisa que eu me esqueci de me importar ao entrar lá foi o fato de como me comunicaria com as pessoas ali.
- , você é bom em mimica? – ele me olhou confuso e eu acabei rindo – Eu não sei falar nada em zulu, apenas oi e tudo bem. – ri baixo.
- A única coisa que eu aprendi até o momento foi usar o google tradutor – ele andou até uma mesa mais no fundo e eu ri dele.
- Ou a gente torce para que o garçom faça parte dos 13% das pessoas que falam inglês, senão essa vai ser nossa saída – dei de ombros e me sentei em um daqueles bancos almofadados em vermelho que combinava com um ambiente um tanto rustico. Era até bonito, colorido, tinha um karaokê do outro lado do bar/restaurante o que me lembrava um tanto os lugares countries que costumava ir lá em Floyd.
Peguei meu cardápio e escolhi algo pela imagem já que a maioria das coisas escritas ali não estava em meu idioma. A minha sorte talvez tenha sido o garçom simpático que nos ajudou, já que arranhava um pouco do nosso idioma e isso com certeza salvou o meu dia já que eu pretendia escolher um prato chamado sosatie que me lembrava espetinho, mas explicou que é muito apimentado, então deixei essa passar e escolhi Bobotie que é tipo um bolo de carne com uvas passas, eu escolhi só pelas uvas mesmo, que eu adoro.
Olhei para que estava concentrado no celular, provavelmente falando com sua noiva, o que era totalmente desagradável, mas resolvi não incomodar, peguei o meu tablet e comecei a me atualizar de algumas novidades quaisquer. se levantou e levantei minha cabeça com a sobrancelha arqueada.
- Passou a fome? – coloquei o tablet em cima da mesa e ele revirou os olhos.
- Eu vou só atender essa ligação – ele mostrou a tela do celular com o nome da brilhando na tela e assenti.
- Tudo bem eu espero aqui – dei de ombros e voltei minha atenção para as fotos do Instagram.
Eu odiava ficar sozinha em lugares desconhecidos e com pessoas desconhecidas, principalmente quando eu não conheço ninguém. Ah, dane-se, pensei. Olhei pela janela e vi ele parecendo um idiota apaixonado. Será que quando eu me apaixonar vou ficar idiota assim? Talvez eu pague uma língua imensa e ele jogue isso na minha cara. Eu precisava parar de zoar ele por isso.
- Tudo bem se eu me sentar aqui? – um homem extremamente branco e de cabelos tirou minha atenção que antes estava para o lado de fora e eu apenas assenti. Ele estava visivelmente alterado pela bebida que provavelmente estava tomando, seus lábios e bochechas estavam rosadas e seus olhos me pareciam até inofensivos. – Meu nome é , prazer – ele sorriu.
- Prazer – retribui ao sorriso e coloquei meu tablet em cima da mesa – Meu nome é .


Capítulo 2


Uma garota de cabelos em tom castanhos quase pretos, que combinava perfeitamente com seu rosto, os óculos quadrados que ela usava dava aquele famoso toque nerd, que eu simplesmente achei adorável, seus olhos grandes e redondos a deixava fascinante, talvez eu apenas estivesse delirando por causa da quantidade de whisky 18 anos que eu ingeri nesses últimos minutos ou talvez eu acabei de achar minha “crush” do bar, sorri comigo mesmo.
O rapaz que ela estava acompanhada não parecia muito interessado nela e nem ela parecia muito interessada nele, talvez fosse um relacionamento fraco como todos que eu costumo escrever. O rapaz que antes estava sentado se retirou com o telefone na orelha, falando com alguém que ele julgava mais importante, que pequeno tolo, pensei. Ela não parece ter gostado muito da ideia de ter ficado ali, já que seu rosto estava quase grudado no vidro. Mas mesmo assim ela parecia tão doce enquanto olhava pela janela.
Me levantei, não no meu melhor estado confesso, não estava caindo, mas eu talvez podia vacilar em algumas palavras ou fazer coisas que eu pudesse me arrepender no dia seguinte. Não pensei muito, apenas dei de ombros, isso não era importante, eu a achei tão interessante e seus olhos chamavam tanta atenção, eu precisava ver qual a cor daqueles olhos que tanto me fascinava, andei até a moça e sua atenção finalmente era minha.
- Tudo bem se eu me sentar aqui? – ela assentiu e eu consegui perceber que seus olhos eram verdes, mas não tão verdes, às vezes pareciam castanho, às vezes pareciam verdes ou talvez eu estava apenas delirando, eram lindos. – Meu nome é – sorri simpático.
- Prazer – ela falou em um sotaque totalmente americano e se eu não me engano do interior – Meu nome é . O senhor está bem? – ela arqueou a sobrancelha e eu apenas assenti com a cabeça.
- Ah eu estou ótimo - apoiei meu rosto nas mãos – sabe o que é, senhorita. – levantei meus olhos e encontrei os seus - Eu estava observando a senhorita e o rapaz, - olhei pela janela observando o rapaz falando no telefone, ele parecia feliz, ria de algo e tinha um sorriso quase que bobo no rosto, ela pigarreou e eu voltei a atenção para ela voltando a falar – na realidade, eu estava sentado ali no fundo – apontei para trás dos meus ombros e ela olhou para onde eu estava - e eu simplesmente fiquei curioso a respeito da cor dos seus olhos – disse sincero e ela soltou a risada alta que me fez ter vontade de rir junto.
- Ah, se essa é sua dúvida – ela retirou os óculos – meus olhos são verdes, não muito escuros e nem muito claro, apenas verdes – ela disse simples e óbvia – às vezes no inverno eles costumam mudar de cor. Mas isso não é nada muito fantástico. – ela deu de ombros e colocou os óculos novamente.
O garçom que estava me atendendo segundos atrás chegou com o lanche dela, fazendo com que ela soltasse um suspiro baixo, pegou a talher que estava junto e simplesmente começou a comer, como se nada pudesse estragar aquele momento, acho que a pobre garota estava mesmo com fome. Sorri de lado por achar incrível o fato dela não ter uma daquelas frescuras de não comer na frente dos outros, o que a deixava ainda mais interessante.
- Obrigado por tirar minha interminável dúvida. - brinquei, senti que precisava saber mais, ela me tratava de forma tão natural, que eu nem me lembrava mais o porquê de estar bebendo, nem me lembrava que ela era uma completa estranha. Me ajeitei na cadeira e ela levantou o olhar para mim - Agora, o que você está fazendo aqui? – ela me olhou obvia, e apontou para a comida nada light – Digo, aqui na África do Sul?
- Bom, - ela bebeu do suco que tinha ali – estamos participando de um projeto, ajuda humanitária, na realidade começa essa semana. E você? – ela olhou pela janela e viu que o rapaz ainda estava no telefone, deu de ombros e jogou o cabelo para trás.
- Eu – sorri e revirei os olhos, claro que ela sabia o que eu estava fazendo aqui, ela se acomodou no encosto da cadeira e me olhava interessada – Bom, - pigarreei e a olhei – digamos que eu vim fazer quase a mesma coisa que você. As crianças que passaram por esse desastre precisam de ajuda.
- Entendi, que interessante. Então quer dizer que o cara que bebe muito whisky adora ajudar as crianças – ela falou em tom de brincadeira e eu acabei rindo.
- O meu whisky não tem nada a ver com caridade – ri e ela deu de ombros.
- Verdade, desde que seja de coração está valendo – ela empurrou o prato dela e me entregou o seu garfo – eu acho que beber de barriga vazia não faz bem.
- Outch – fiquei admirado com a atitude dela e peguei o garfo da sua – Você acha normal dividir comida com desconhecidos. – experimentei da torta que por sinal estava maravilhosa.
- Eu não costumo dividir comida – ela riu – comida é uma coisa muito preciosa pra mim. Mas eu acho que você precisa, então estou já fazendo minha caridade do dia.
- Obrigado, mas eu estou satisfeito – ela deu de ombros e chamou o garçom, pediu para que ele embrulhasse para viagem o dela e do rapaz que a acompanhava, aproveitei para pedir água para mim.
– Então, voltando ao assunto a respeito das crianças, elas são muito carentes, e precisam de ajuda. São poucas as pessoas dispostas a isso e quando ajudam elas sempre esperam ganhar algo em troca. – ela falou e eu suspirei. Bom, ela tem razão, pelo menos no meu caso, claro que estou pelas crianças, mas sempre esperamos ganhar algo, seja pelo fato de ficar mais popular ou vender mais.
- Concordo plenamente com você – o garçom trouxe o embrulho e deixou em cima da mesa e fez o mesmo com minha água, ela agradeceu o mesmo e se levantou.
-Senhor foi um prazer te conhecer – ela sorriu e logo o rapaz que a acompanhava voltou – Boa sorte com sua obra generosa. – ela estendeu a mão e eu a cumprimentei.
- Vamos ? – o rapaz apareceu e passou os braços ao redor de seus ombros – Olá – ele me cumprimentou tão sorridente quanto ela e eu apenas assenti com um pequeno sorriso no rosto, se não fosse pela convivência poderia dizer que eles são parecidos.
- Tchau – ela pegou o pequeno pacote e a bolsa e saiu pelas ruas, contando algo para o rapaz que eu confesso que fiquei curioso para saber, mas deixei para lá. Peguei meu casaco que estava na mesa mais ao fundo e paguei minha conta.
Andei até a porta e escutei um senhor me chamando. Me virei e ele estava segurando um tablet, e o objeto só podia ser dela, que esquecida. Voltei até o senhor que estava com ele em mãos.
- Ele é seu? – ele perguntou e eu apenas assenti, pegando o mesmo. Essa sim seria uma boa desculpa para que eu pudesse vê-la novamente.
- Obrigado senhor – sai do bar e entrei no táxi que estava lá fora me aguardando. – Vamos dar uma olhadinha aqui – abri a lista de contatos e digitei o nome dela, anotei o número da mesma no meu celular e mandei uma mensagem *Parece que você se esqueceu de algo importante* - guardei o meu celular no bolso do meu casaco e observei a foto de descanso de tela, ela estava sentada em cima de uma pedra com um lindo pôr do sol atrás. Junto com ela estava o rapaz e mais um casal que julgo ser seus pais. O celular vibrou e eu o peguei olhando a mensagem que havia ali *O meu Tablet ????, eu nunca teria percebido, ou melhor, teria percebido amanhã quando eu fosse usá-lo. Como faço para pegá-lo novamente? *
*Amanhã podíamos nos encontrar, o que acha? * - guardei novamente o celular e desci do carro assim que ele estacionou no hotel, acho que toda minha embriaguez se esvaiu com aqueles quinze minutos de conversa e um pedaço de bolo de carne, não que eu tivesse interesse para algo sério, ela é sexy, mais confesso que eu realmente gostei de conversar com ela. Algo nela me intriga. Ela parece ser diferente.
Entrei no elevador do grande hotel, um dos poucos que não foi atingido pelo desastre, e por falar em desastre o que ela falou, ela tem toda razão, as pessoas sempre pensam em receber algo em troca. Eu não quero ser assim, não posso ser assim. Saí do elevador e peguei meu celular, ligando para o meu empresário.
- David – disse assim que ele me atendeu – eu gostaria de pedir um favor.
- Claro , em que posso ajudar? – sua voz parecia sonolenta, olhei no relógio e marcava 3 da manhã. Claro que ele estava sonolento, revirei os olhos.
- Pode sim, eu gostaria de me certificar que todo dinheiro arrecado fosse realmente para as pessoas que necessitam de verdade. – escutei um suspiro do outro lado da linha – É sério David, eu quero me certificar disso.
- Por que isso é importante? – podia ver ele simplesmente dando de ombros e deitando novamente como se aquilo nem tivesse sentido.
- Porque é importante para as pessoas que dependem disso – falei obvio – Então, por favor, faça o que eu estou pedindo – disse simples – eu vou precisar desligar.
- Tudo bem , amanhã conversamos melhor sobre isso. – ele desligou sem me dar chance de dizer que já estava tudo decidido.
Olhei para tela do celular e tinha uma mensagem dela ali, abri sem demora *Sinto muito, mas não posso me encontrar com você, será que você poderia deixar no endereço que vou te enviar amanhã cedo? *
Confesso ter ficado um pouco desapontado, eu queria vê-la novamente em outra situação. Poder conhecer ela melhor, mas parece que realmente não terá como, suspirei e a respondi. *Claro, posso levar sim! *
Depois que ela me agradeceu e enviou o endereço resolvi finalmente tomar um banho e relaxar, afinal amanhã seria um longo e importante dia. Eu ainda era .

***


Claro que eu sabia quem era , eu teria que ser muito tolinha para não conhecer ele, eu fiquei simplesmente em choque quando o vi ali na minha frente. Eu não posso dizer que eu era exatamente fã e que quase dei ataque histérico, porque isso definitivamente não aconteceu e nem aconteceria, mas eu curtia as músicas dele, eu as achava incríveis para não dizer menos.
Fingir que ele era uma pessoa “normal” foi engraçado, mas quem se importa, eu provavelmente nunca mais teria uma conversa longa com ele, claro que eu tive que escutar um monte do meu irmão dizendo que se eu aparecesse na mídia eu estaria morta, o papai e a mamãe não iam gostar nada da ideia e bla bla bla, mas como eu mesma disse, quem se importa.
Tomei um banho gelado mesmo, porque o calor ali era quase insuportável e coloquei uma calça flare de um jeans claro de cintura alta e uma blusa de bolinha por dentro, prendi meu cabelo em um rabo de galo e peguei minha bolsa. Saí do meu quarto já arrumado e fui tomar café da manhã.
Meus pais já tinham tomado, por isso estava apenas eu e ali. Sua cara de sono era evidente e a minha estaria também se não fosse pela maquiagem que tampava as olheiras. Peguei uma vasilha que havia kiwi picada e andei até depositando um beijo em sua bochecha.
- Bom dia – sentei de frente para ele – Dormiu bem?
- Dormi bem pouco – disse meio emburrado. – Mas você parece ótima – ele olhou para mim e eu sorri sem mostrar os dentes.
- Quanto ao seu senso de humor ele está péssimo, a vai amar acordar do lado de um carrancudo como você – brinquei. – e eu não pareço ótima, eu sou ótima – fingi ser convencida e ele fez uma careta engraçada.
- Você é sempre animada pela manhã ou é impressão minha? – ele disse se referindo ao dia de ontem e eu entendi perfeitamente.
- Ah , para de chatice, ok? Eu sou sempre animada e por falar nisso – olhei no relógio – estamos mais que atrasados. – me levantei terminando de engolir os últimos pedacinhos de kiwi.
- Cuidado para não se engasgar, o gordinha – ele zoou e eu revirei os olhos.
- Idiota – sai do apartamento com apressado em meu encalço – Cadê nossos pais?
- Estão nos esperando lá – ele rodou as chaves no dedo – eu sou o motorista da vez.
- Socorro, como alguém autorizou você dirigir por essas ruas? – olhei para ele que fazia cara de indignação - Para onde vamos? Quais são as regras? – perguntei a respeito do serviço hoje.
- Eu fui designado para o local de construção, vamos ajudar nas construções das casas de algumas pessoas hoje, você pode escolher trabalhar na sua área de psicologia ou pode conversar com algumas pessoas sobre a Bíblia. – ele deu de ombros.
- Ou seja, dar fé para as pessoas – disse simples, porque na realidade era isso que as pessoas queriam, elas queriam fé de que talvez, de alguma forma ou outra, isso tudo acabaria, talvez um pouquinho apenas de esperança. É por isso fazemos esse trabalho, dar uma esperança verdadeira as pessoas – Eu acho que vou para ala psicológica. – entrei no carro assim que ele destravou o alarme – Eu estou vestida para isso mesmo.
- Vai ser um pouco difícil por causa do idioma, mas eu estou extremamente empolgado – eu apenas concordei e ele aumentou o volume do som, tocava uma música qualquer que tinha no pen drive.
Eu juro que estava tentando me focar no que eu deveria fazer ali, mas hora ou outra eu me lembrava da noite anterior, eu sei que não significou nada para ele e nem poderia significar nada pra mim, afinal, tenho minha vida e minha vida definitivamente não é ligada de forma alguma a dele. O que? Eu já estou pensando em vidas estarem ligadas, ri e neguei com a cabeça, meu Deus qual é o nível da minha carência. Foi uma conversa de 15 minutos, , foco.
- Pensando em ontem? – me tirou dos meus devaneios com um pouco de seriedade na voz.
-Oi? – fingi estar chocada com seu comentário – Claro que não , me poupe, estou preocupada com as pessoas, só isso. Ou você acha que eu sonho em viver um grande amor com um cara famoso - abanei o ar dramatizando – querido se você pensou, “sim ela sonha”, acredite você está totalmente certo – ele revirou os olhos.
- Claro, sempre com uma pitada de ironia. – ele me olhou e eu desviei o olhar – Você sabe que isso seria quase impossível, né?
- , foco no trabalho e no caminho – bati palmas como se tivesse tentando fazer o assunto passar – foco no trabalho. – sussurrei essa parte quase que para mim mesma.
Meu celular vibrou e ali estava uma nova mensagem, era do , bloqueei o celular novamente e aguardei, não podia permitir que visse, caso contrário ele não pensaria duas vezes antes de me explicar os perigos de me envolver com alguém que não tem os mesmos princípios do que eu. Suspirei e senti ele vibrar novamente, santa curiosidade, saia de mim.
Quinze minutos se passaram e ali estávamos, no local de risco, eram tantas casas devastadas, árvores caídas, postes em cima de carros, era devastador, aquele município estava simplesmente acabado. Aquelas pessoas deveriam estar aterrorizadas. Respirei fundo e abri a porta do carro, saindo do mesmo orando para que eu pudesse de alguma forma ajudar aquelas pessoas. Naquela altura as poucas palavras que aprendi na língua mãe daquelas pessoas começaram a aparecer na minha cabeça e eu agradeci mentalmente por isso.
Andamos até uma tenda branca que tinha ali e reconheci alguns rostos. Alice, uma garota britânica que trabalha com assistência social, veio em minha direção, sua pele tão branca começava a ficar vermelha devido ao forte sol, seus cabelos loiros presos em um coque faziam seu ar totalmente sério ficar mais suave, ela era fofa. Ela se aproximou de mim e eu a cumprimentei com um breve abraço.
- Alice, que bom ver um rosto conhecido, eu não sabia que estava apoiando este local. – ela me puxou devagar para um local mais no canto.
- Eu sei, eu precisei vir. Eu me coloquei a disposição assim que soube, as pessoas aqui estão muito abaladas, espero que você consiga ajuda-las. – ela pareceu um pouco triste.
- Você está bem? – segurei sua mão que apenas assentiu.
- Só estou sentindo um aperto, conheci uma senhora que precisa de assistência, já que com a enchente ela perdeu tudo e ainda perdeu seis membros da família, ela não tem mais como se sustentar porque trabalhava com produção de frutas, é tão triste. – ela abaixou a cabeça e eu apertei levemente sua mão.
- Lembre-se... estamos aqui para ajudar – sorri animadoramente para ela – se você não melhorar eu prometo pagar um sorvete, porque querida, isso daqui é muito quente – disse me abanando e ela sorriu – sorvete sempre resolvendo tudo. – o celular na minha bolsa vibrou novamente e dessa vez era uma ligação, peguei o celular e olhei o nome na tela e meus olhos se arregalaram, na realidade eles quase pularam quando o nome dele brilhou ali na tela – Alice, me dê licença, preciso atender – ela concordou e eu saí da tenda. – Alô – atendi desconfiada.
- Darling, estou começando a achar que não tem interesse pelos seus pertences – sua voz divertida fez com que minhas bochechas corassem sem qualquer autorização.
- Eu tenho muito interesse, agora me desculpa se eu tenho uma vida agitada e outras pessoas não – revirei os olhos e ri – você está ocupado agora?
- Se essa pessoa desocupada sou eu pense que você tem toda razão – ele riu me fazendo rir também – E para provar isso, eu não estou ocupado, na realidade pensei em levar seu tablet até você, onde está? – respirei fundo, não seria nada bom se aparecesse aqui e viesse falar comigo e pior, viesse me devolver algo.
- É que eu não posso te atender agora, eu estou para entrar na clínica para atender algumas pessoas – mordi os lábios pensando em uma desculpa plausível.
- Então Darling, a senhorita que vai ter que buscar comigo, já que você não está se esforçando para me ocupar – ele riu com o trocadilho idiota que eu sinceramente achei também e revirei os olhos.
- Eu vou ter que ver um horário na minha super agenda – disse convencida, tentando levar essa conversa para o lado mais tranquilo que existe – assim que eu sair daqui de onde estou eu mando uma mensagem para você, pode ser?
- Ah então você lê mensagens! – ele fingiu surpresa e eu ri.
- – escutei a voz de – vem até aqui.
- Eu tenho que ir – falei assim que ouvi – nos falamos depois. Tchau Tchau.
- Tchau moça – e depois disso ele desligou.
Meu coração estava disparado e confesso que minhas mãos estavam suadas. Não por causa da ligação, ou melhor, não só por causa da ligação, mas já pensou se alguém me visse falando com ele, não ia acontecer nada, mas provavelmente eu teria que explicar como isso aconteceu, de toda forma ‘isso é surreal’ – sussurrei isso para mim mesma.
- O que é surreal? – perguntou e meu sorriso se transformou em algo do tipo bem mais nervoso.
- Você – disse e ele me olhou confuso – totalmente surreal essa sua preocupação – dei de ombros e ele revirou os olhos. – O que você quer comigo?
- Vamos trabalhar tampinha – ele me abraçou de lado.
Bom era isso, meu primeiro dia de trabalho, eu podia dizer que estava nervosa para saber o que viria por ai, mas eu confesso que eu estava muito mais nervosa para saber se daria certo o que tinha planejado para mais tarde.
Eu sei que isso era arriscado e que eu fui educada a evitar sair sozinha com pessoas do sexo oposto, mas na realidade, eu não estava me importando nem um pouco, afinal eu só iria pegar algo que é meu, então não vamos exagerar, pensei comigo mesma.
Antes de entrar na minha sala eu resolvi abrir as mensagens e ler. *Bom dia, não esquece que posso mexer nas suas coisas, ahh lindas fotos, onde você estava a proposito? Havaí? * Eu não estava acreditando que esse ousado estava vendo minhas fotos, minhas bochechas pinicaram de tanta vergonha quando lembrei das fotos das minhas últimas férias, muitas delas estavam simplesmente ridículas. *Se você não buscar seu tablet comigo eu posto todas essas fotos, isso não é uma ameaça, só estou avisando ???? Xx* Revoltada resolvi gravar um áudio mesmo, já que precisa fazer isso rápido antes que a primeira paciente entrasse ali.
- Eu não estou acreditando que estava vendo as minhas fotos, isso é invasão de privacidade, eu posso te processar e pegar boa parte do seu dinheiro, senhor – ri durante a minha falsa ameaça – E para sua informação não é Havaí, eu estava no Caribe, no arquipélago de Turks e Caicos e pode deixar que eu vou dar um jeito de pegar esse tablet antes que todas minhas fotos parem no twitter e minha vida fique arruinada – gargalhei - Idiota, vou me vingar dessa invasão - vi a paciente entrar na sala – vou trabalhar agora, beijo beijo, e se cuida!


Capítulo 3


O dia passou rápido, mas minha cabeça só queria pensar em todos aqueles problemas que as pessoas estavam passando, respirei fundo e tentei deixar simplesmente pra lá e que aquilo não me afetasse. Sabe, às vezes eu reclamava à toa de algumas coisas pelas quais estava passando. Acho que o que mais me marcou foi uma criança, talvez eu nunca a esqueça.

*Flashback*
- Hei – me sentei de frente uma menininha que desenhava algo numa mesa improvisada – Você fala meu idioma?
- Mais ou menos – ela me olhou e seu rostinho havia um curativo na testa, voltei minha atenção para o desenho dela.
- Meu nome é e o seu? – falei em seu idioma e ri de mim mesma por estar tão nervosa, dei de ombros, mas sabia que ela tinha entendido
- Alika – ela largou o desenho e me olhou pela primeira vez, ela tinha lindos olhos, a pele negra e os cabelos cacheados, eles estavam presos, estavam lindos, seu sorriso branco era doce o que me fez sorri também.
- Lindo nome Alika. O que você está desenhando? – ela me encarou soltando um suspiro baixo e me entregou o pedaço de papel desenhado e quase todo colorido, o peguei da sua mãozinha.
No papel estava desenhado uma casa ao fundo, e duas pessoas plantando algumas flores. Mais à frente estava dois rapazes que eu deduzi por causa do grande chapéu que eles estavam cultivando alguma coisa no chão. Tinha uma casa de madeira e alguns animais, ri baixo ao ver a forma infantil que ela desenhou, era lindo, reparei mais em cima havia um céu com traços escuros, mas havia um sol também e diferente de algumas crianças ela o fez chorando, e isso me intrigou.
(Coloque para tocar: https://www.youtube.com/watch?v=LDS2ll9XEFA)
Coloquei o desenho em cima da mesa e a olhei, ela brincava distraída com os lápis de cores como se eles fossem bonecas, eu não entendia muito o que ela falava mais era só uma diversão que ela encontrou.
- Alika – a chamei e ela me olhou - Por que o sol está chorando? – peguei o desenho e a entreguei, ela segurou novamente o desenho o encarou, pareceu que era a primeira vez que ela estava fazendo aquilo, seus olhinhos marejaram e algumas lágrimas escorreram pelo seu rosto, de forma instintiva a puxei devagar pela mão e a coloque em meu colo – Não chore querida! – a abracei e ela deitou sua cabeça em meu ombro.
Ela era tão pequena e frágil. Era difícil ver adultos sofrer e era difícil escutar isso. Mas eu sentia muito pelas crianças, meu coração se apertava e eu sentia que não podia fazer o suficiente por elas. Isso me machucava.
Suas lágrimas foram cessando e a única coisa audível ali era o som da música que eu cantava baixinho, era uma música que minha mãe cantava para mim quando precisava de um pouco de paz. Meu corpo se balançava para trás e para frente tão devagar que eu pensei que ela pudesse até mesmo dormir.
- Minha mãe adorava – ela disse baixo assim que eu parei de cantar – ela adorava o sol, titia. E então ele ficou triste, ele chorou e destruiu tudo.
- Você acha que o sol ficou triste por isso abandonou vocês? – olhei para ela.
- Ele me tirou tudo – ela fungou baixinho se segurando para não chorar novamente.
Me segurei para não chorar, respirei fundo. Ela não tinha raiva ou ódio, ela só estava procurando uma justificativa e na sua cabecinha ingênua e pura, o sol apenas chorou. O sol chorou porque estava magoado, e talvez fosse a forma mais pura para se justificar tudo isso sem maiores machucados.
- Ok, olha pra mim – pedi e ela atendeu meu pedido, passei a mão pelo seu rostinho limpando qualquer sinal de lágrima – Você pode me fazer um favor – falei devagar ainda em sua língua e ela assentiu – Faça o desenho do seu dia mais feliz aqui.
- Um desenho? – ela repetiu e eu assenti – Eu posso fazer o desenho do dia em que vocês chegaram – ela disse animada.
- Isso, faça isso e depois nós duas vamos combinar de fazer algo bem legal – sorri pra ela.
- Vamos fazer algo legal? – ela me olhou com os olhinhos brilhando e eu sorri, essa ideia parecia fazê-la esquecer dos momentos ruins
- Isso mesmo – sorri pra ela – e você pode me fazer outro favor? – ela assentiu – Você pode me levar, por favor, o desenho ali? – apontei para a minha sala improvisada – Eu vou estar lá, ok?
- Ok – ela desceu do meu colo e pegou uma folha nova e deixou a antiga para trás, respirei fundo e beijei seus cabelos.
Fiquei ali por um tempo a olhando de longe e eu confesso que me senti em paz após vê-la tranquila, mas isso não muda o fato de tudo aqui fazer com que ela estivesse sofrendo. Suspirei baixo e me virei indo para minha sala.
*Flashback*

A água morna já caia em meus cabelos por quase uma hora. Resolvi terminar o banho demorado que eu prometi que tomaria e depois apenas me joguei na cama, porque na realidade era apenas isso que eu queria, desligar.
Ignorei meus cabelos molhados e fui para de baixo do cobertor assim mesmo. Relaxei e me aconcheguei no cobertor fofo e macio. Meu celular começou a tocar exatamente no momento que a única coisa que eu queria era dormir. Injustiça. Me levantei igual uma tartaruga ambulante e andei até a mesinha que havia ali, olhei o nome salvo e sorri, claro que seria ele, revirei os olhos, voltei para cama e atendi.
- Oi ser humano que atrapalhou o meu precioso sono – escutei a risada dele do outro lado.
- Maneira gentil de me atender – ri dele e virei para o lado abraçando o travesseiro – Quem mandou ser preguiçosa, e ai, onde te encontro? – ele foi direto ao ponto e eu me sentei na cama batendo a mão na testa, havia me esquecido desse encontro.
- Ah eu não me lembrava – me levantei devagar da cama e andei até o guarda roupa – Pode ser em um lugar discreto e com poucas pessoas. Eu não conheço nada aqui.
- Eu estou começando a ficar preocupado com sua memória – ele disse com uma falsa preocupação e eu revirei os olhos - tenho uma ótima ideia, te mando a localização. Pode ser?
- Claro, te vejo lá! – desliguei e joguei o celular em cima da cama, roupas sempre um problema, peguei o primeiro vestido fresco que eu tinha ali, porque ninguém merecia calor, maquiagem para quem está com tanta preguiça é quase sacanagem, um batom está ótimo, peguei meus óculos e minha bolsa, colocando tudo que eu precisava lá dentro.
Sai do quarto e não encontrei ninguém ali, acho que todos estavam bem cansados, mas com certeza deveriam estar felizes, assim como eu estou, só chocada, acho que essa é a palavra certa para descrever tudo, mas como eu bem sei e disse para Alice mais cedo, não posso me deixar abalar, estamos aqui para ajudar.
Andei até o quarto dos meus pais e dei duas batidinhas na porta, escutando um ‘entra’ da minha mãe logo em seguida, só coloquei a cabeça para dentro do quarto, dando de cara com ela passando creme nas pernas e eu ri.
- Caramba mãe já pensou se fosse o , ele ia ver a senhora nessa situação sexy – pisquei para ela, a fazendo rir e me mandar entrar no quarto.
- Até parece que seu irmão ia me achar sexy – ela riu – Para onde você vai? – ela me olhou.
- Eu estou com a cabeça quente, foi muita informação para um cérebro só absorver – mordi os lábios sabendo que estava contando meias verdades, afinal ela não precisava saber que por acaso no meio do caminho me esbarraria com um cara que canta e é um compositor famoso – Eu esqueci meu tablet no lugar que fui lanchar com ontem e eu queria ir buscar, é aqui perto mesmo. Tudo bem se eu for de carro? – ela apenas assentiu.
- Acho que seu pai não vai ver problema, só não chegue tarde, amanhã temos um longo dia. – sorri animada e dei um beijo na bochecha dela.
- Obrigada mãe – peguei a chave do carro em cima da penteadeira e sai do quarto deles.
Coloquei no GPS a localização que o ser humaninho me enviou e segui para o lugar que estava sendo guiada por aquela voz irritante. Meu coração estava disparado, não porque eu iria ver ele, mas porque era a primeira vez que eu estava indo me encontrar com alguém sozinha, pode parecer que tenho 12 anos, mas fazer o que se isso não é tão normal no meu mundo.
Andar por aquele lugar me fez pensar em como aquela cidade tinha tudo para ser mais do que linda. Muitas pessoas estão passando por situação crítica, como fome e falta de saneamento, não que a África não sofra por causa disso, por anos inclusive. Mas quando uma enchente invade sua casa, plantação, trabalho, é um susto, ninguém espera por isso. Sem contar o terremoto de 8,1 que piorou toda situação.
Como foi mesmo que uma outra paciente disse? “Isso só pode ser castigo de Deus, ou algo assim. O que meus filhos fizeram para morrer dessa forma, doutora.” É difícil ter esperança, mas não significa que era impossível.
Desci do carro assim que o GPS anunciou que eu já havia chegado ao meu destino, a brisa do mar fazia meus cabelos vir todo para frente do meu rosto, que cena ridícula, ri de mim mesma, nos filmes as garotas sempre ficam bonitas com esse vento no rosto e pelo visto não era assim comigo. Coloquei minha bolsa de lado nos ombros e andei rumo a orla que tinha ali. Procurei um banco ali perto e me sentei. Respirei fundo, aquele cheirinho de areia, peixe e sal que me faziam querer ficar ali mais um tempinho me acalmava de tal forma que chegava a ser contagiante. As pessoas têm nojo dessa mistura de cheiros, mas eu amava muito tudo isso.
Olhei ao meu redor e havia algumas crianças andando de skate e bicicleta ali perto em uma pista construída, havia também algumas pessoas andando pela praia, mas não muitas. Ora ou outra passava alguém na minha frente e eu apenas cumprimentava com a cabeça, qual foi a parte de lugar discreto que ele não entendeu, revirei os olhos.
Esse lado da cidade não era o lado mais simples. A África do Sul não era diferente de alguns países de terceiro mundo, tinha uma imensa divisão de classes e isso era extremamente claro por aqui.
Um carro preto estacionou de frente para o lugar que eu havia me sentado, estava tão simples e confortável quando desceu do carro e eu confesso que dei graças a Deus, porque se ele estivesse todo arrumado ficaria com vergonha. Me levantei quando ele se aproximou com um sorriso danado no rosto balançando meu tablet.
- Meu tablet – falei empolgada e estiquei a mão para pegar o mesmo e ele não permitiu, levantando o tablet para o alto, onde eu não alcançava, cruzei os braços e fiz cara de frustrada, ele rio – Ei isso é meu – aleguei o obvio.
- Não vai nem me dar oi e talvez dizer um: “obrigada você é o melhor”? – ele arqueou a sobrancelha e eu revirei os olhos, soltando uma risada baixa em seguida.
- Você tem um bom senso de humor, já devem ter falado isso antes né? – dei de ombros – mas obrigada por ser mais cuidadoso que eu – olhei para ele com um sorriso divertido que insistia brotar em meu rosto – e oi pessoa que me atrapalha a dormir – estendi a mão para que ele me cumprimentasse, onde fui surpreendida por um abraço apertado. Seu perfume era tão bom que eu nem me importaria em ficar ali mais um segundo, mas logo o abraço acabou.
- Oi pessoa preguiçosa – ele riu e fez um gesto para que eu prosseguisse a falar elogios sobre ele, me fazendo revirar os olhos.
- Faltou aquela parte importante para seu ego – cruzei os braços – está bem, por agora você é o melhor. Agora senhor ‘eu vou postar suas fotos no twitter’ – fiz uma imitação da sua voz que soava ridícula – me devolva meu tablet. – estendi a mão esperando ele me devolver.
- Nunca mais faça isso de novo – ele gargalhou – isso foi horrível, minha voz não soa desse jeito – ele colocou o tablet na minha mão e eu o guardei na bolsa – Tá a fim de andar por ai? – concordei com a cabeça e ele colocou meu braço entre o seu, fazendo ficarmos mais próximos.
- Claro, desde que eu não vá aparecer na mídia ao seu lado – falei séria e ele me olhou um tanto surpreso. – Qual foi a parte do lugar discreto – o encarei e reparei que ele já fazia isso segurando o sorriso – O que foi?
- Ah então quer dizer que a moça não gosta de estar exposta? – uma sobrancelha dele ergueu como se ele tivesse duvidando disso – não se preocupe, aqui nesse país é tranquilo.
- Eu não posso estar exposta, mas se você diz, eu vou confiar então – aquela orla era mesmo tranquila, e a companhia combinava com ela, não é que eu me importaria de ser vista com ele, os outros se importariam, mas ele não precisa saber sobre isso, não agora. – Mas me diz, você achou mesmo que eu não te reconheceria ontem?
- Achei – ele deu ombros – você agiu tão normalmente que eu achei que você nem sabia quem eu era, mas pelo visto eu estou enganado.
- Eu não sei quem é você – olhei para ele e ele devolveu o olhar sem entender o que eu quis dizer – eu sei que você é e canta até mais ou menos, mas só isso. – ri da cara de ofendido que ele fez.
- Eu canto mais ou menos? – ele apontou para si mesmo – fala sério, Darling, não vale mentir para mim, eu estou na sua playlist – ele disse convencido e ri dele.
- Ok, tem umas duas músicas lá, não se ache por isso.
- Você mente muito mal, – ele riu – mas não se preocupe que eu adicionei todos os álbuns – ele disse eu o olhei indignada.
- Estou aqui procurando a liberdade que te dei – sorri baixo e ele deu de ombros – Britânicos não costumam ser assim viu. Invasivos.
- Eu já andei por tantos lugares que perdi certos hábitos.
- Agora fala sério, aquela desculpa que você usou ontem para ir falar comigo foi horrível. – fiz uma careta – Já escutei desculpas melhores. – falei convencida
- Ah então quer dizer que você escuta muitas pessoas com alto teor alcoólico que te admiram?
- Não deveria beber tanto – disse sincera – faz mal para o cérebro – olhei para ele um tanto séria e ele apenas deu de ombros como se aquilo não tivesse importância.
- Você não me respondeu – ele parou em frente um daqueles bancos e se sentou e eu fiz o mesmo logo em seguida.
- Não, eu falei brincando, mas os meus olhos não são as coisas mais diferentes do mundo, seus olhos são bem parecidos.
- Me dá um desconto, eu queria puxar assunto e eu realmente achei eles bonitos – disse sincero e sorri.
- Ok, eu vou te dar um desconto dessa vez – falei em tom de brincadeira – obrigada, os seus são também.
- Você nunca ficou bêbada? – ele mudou de assunto e me lançou um olhar duvidoso.
- Não, nunca e não ria, - disse assim que ele negou com a cabeça e começou a rir - eu só acho desnecessário perder o sentido de tudo. – dei de ombros e ele andou até um dos bancos, se sentando e eu fiz o mesmo.
- Ok, não vou te julgar, se não me julgar – assenti e ele riu – E você vai ficar por aqui muito tempo?
- Eu planejei ficar uns dois meses, mas quem sabe eu não estenda – sorri – meu serviço aqui hoje foi meio estressante, quando você ligou eu estava preparada para tentar dormir. – fiz careta – que por acaso você atrapalhou. – fingi indignação.
- Você não vai me perdoar nunca por isso né? – ri e neguei com a cabeça - Estressante? O que você fez hoje? – ele me olhou com uma certa curiosidade e eu respirei fundo.
- Sabe, eu sou psicóloga – ele pareceu admirado quando eu disse isso e se virou para me olhar enquanto eu contava – e aqui na África estou de forma voluntaria, acho que até comentei sobre isso contigo – olhei para ele que concordou com a cabeça – enfim, hoje eu falei com uma moça, ela deve ter minha idade, e ela estava me contando sobre a vida dela e as perdas. Ela viu o pai morrer, e até agora não encontraram o irmão que pode estar soterrado. Eu queria poder ajudar mais, talvez ir atrás dele junto com ela. – olhei para ele novamente que prestava atenção no que eu falava – eu sei que não deveria ficar triste e que deveria ser imparcial, mas nem sempre é tão fácil. Ela estava emocionalmente exausta, precisei acalmá-la e me acalmar para que eu não agisse de forma emotiva.
- Eu sei que não é fácil... – ele segurou minha mão e começou a brincar com meus dedos sem me olhar e por impulso tirei minha mão, fazendo com ele me olhasse e continuasse a falar – Mas o que você está fazendo é lindo, ajudar essas pessoas é maravilhoso. Eu queria ter mais tempo para ajudar as pessoas também. – mau ele sabe que já ajuda, pensei. – Só que eu não posso sair por ai simplesmente e ficar horas conversando com alguém, porque meu trabalho não me permite isso. Eu me sinto mal às vezes, será que a psicóloga tem algo para me falar? – seu sorriso simples esboçado em seu rosto me fez querer sorrir também, ele parecia ninguém mais ou ninguém menos que , uma pessoa completamente normal, porque na realidade era isso que ele era. Normal!
- Seu trabalho é complicado. – ele me olhou obvio e eu revirei os olhos, como se dissesse “eu não terminei” – ele é realmente complicado no sentido de estar perto das pessoas, mas eu acredito que você ajuda muito as pessoas por meio das suas músicas, ela fala coisas que animam as pessoas e, além disso, esses shows beneficentes alimenta muitos que não tem nada. – dei de ombros – Então fique feliz. – sorri e ele concordou com a cabeça.
- Depois que falei com você eu liguei para o David, o meu empresário, e exigi que todo dinheiro que fosse arrecado fosse para o devido lugar, eu vou me certificar que isso realmente aconteça.
- Olha ai, você não pode dizer que não ajuda as pessoas. É diferente, você pode não achar o suficiente, mas para essas pessoas aqui, é mais que o suficiente.
- Me senti melhor agora, obrigada Dra. – ele deu um beijo na minha mão de forma gentil e eu o olhei surpresa.
- Por nada – sorri sem graça e senti minhas bochechas formigarem, pigarreei – Agora você sabe o que seria maravilhoso? – me levantei do banco e parei de frente para ele, e observei algumas pessoas aparecendo, fiquei um pouco preocupada.
- Não o que? – ele se apoiou nos dois braços, jogando o corpo um pouco para trás – Quais seus planos?
- Seria maravilhoso – cruzei os braços devido a brisa fria que tocava meus braços descobertos – se você me levasse para comer algo, você costuma deixar suas amigas com fome quando sai com elas? – falei indignada.
- Coitadinha meu Deus, minha única amiga está com fome. O que quer ir comer? - ele se levantou e se pôs do meu lado.
- Você conhece algum lugar aqui que venda comida americana, tipo um bom e velho hambúrguer? – falei sugestiva e o mesmo concordou com a cabeça - E depois um milk-shake, cairia bem também. – olhei para ele com cara de criança.
-Está toda encolhida ai e quer sorvete. – ele negou com a cabeça e depois rio, ele olhou para os meus olhos - Você costuma fazer essa cara para conseguir as coisas do seu namorado? – voltamos andando para onde os carros estavam, eu arregalei os olhos surpresa depois da sua pergunta. Namorado?
-Mas o que? – gargalhei me tocando que ele falava de – O ? Meu irmão? – ele abriu e fechou a boca, caindo na risada também – Tolinho, você achou que ele era meu namorado. Eu achava que eu e éramos parecidos. – olhei intrigada para ele.
- Vocês são – ele deu de ombros – mas quando as pessoas convivem muito tempo elas se parecem – ele disse como se fosse algo obvio e eu neguei com a cabeça.
- Nãão – gargalhei e ele riu junto – eu me nego a escutar isso, .
- Então eu me nego a te levar para tomar sorvete. – ele cruzou os braços e meu sorriso se transformou em cara de piedade – Está bem, está bem, vamos logo, que coisinha sentimental. Nem sei como foi aprovada para cuidar do psicológico das pessoas – ele riu e eu fiz careta.
- Nem eu, se quer saber – sorri.
Voltamos para o carro rindo de alguma piada idiota ou de alguma história engraçada que ele contou a respeito de algum show que ele fez ao redor do mundo. Eu apenas acho que ele poderia ser um bom amigo para mim. Era tão divertido estar perto dele, eu o conhecia há um dia, mas parecia que já tinha uma eternidade. Piegas talvez, mas na realidade eu não estava lá ligando muito para isso.
Resolvemos que iríamos no mesmo carro e depois ele me deixaria aqui para que eu pudesse voltar para casa. Seu carro era super lindo, combinava com ele. Não que eu o ache lindo, quer dizer, ele é. Caramba eu me complico até em pensamento, revirei os olhos e ri baixo.
- O que foi? – ele me olhou tão de perto que meus olhos quase se hipnotizaram. – Quer ajuda com seu cinto? – um sorriso vacilou dos meus lábios.
- Não – travei o cinto de segurança – eu estava apenas pensando alto. Me conta mais histórias sobre os shows – sentei meio que virada para ele.
- Ah teve uma vez – ele soltou uma risada como se todas as imagens tivessem voltado à tona – que eu estava prestes a entrar no palco e eu resolvi ir ao banheiro antes, e como estava em cima da hora eu fui correndo e antes de entrar no banheiro tinha água derramada pelo chão inteiro, e ele ficou escorregadio – ele começou a gargalhar.
- Não me diga que você caiu – ri junto com ele – deve ter sido épico.
- E o pior você não sabe, eu tive que cantar as três primeiras músicas completamente encharcado, num frio agradável de 15°C. – ele tentou segurar a risada, mas definitivamente não funcionou.
- Aposto que pegou um grande resfriado depois dessa – olhei para ele e cruzei os braços, vez ou outra ele olhava para mim enquanto contava alguma história – depois daqui você vai para onde?
- Nova Zelândia, depois Londres e ai eu vou tirar férias por alguns meses – ele disse sério.
- Eu li que você iria dar uma pausa, é sério então? – sua expressão tentou ficar suave, mas uma pequena linha de expressão se formou na sua testa. Essa era uma parte do meu trabalho, analisar as emoções das pessoas e estava bem claro que algo o incomodava a respeito desse assunto.
- Depois você diz que não lê sobre mim, eu vou dar uma pausa pequena, preciso de descanso.
- Eu nunca disse isso – falei em minha defesa – eu só disse que fingi que você era uma pessoa normal – ri baixo – mas a respeito da pausa, eu acho que todo mundo tem direito de ter seu merecido descanso.
- Queria que todos pensassem assim – ele suspirou e eu o olhei sem entender. – Alguns fãs, não levaram muito bem a notícia a respeito da pausa. Eu sei que eles amam meu trabalho, mas continuar um trabalho que não faço por inspiração ou amor não faz sentido algum.
- Se for sincero o que elas sentem pelo seu trabalho e por você, elas vão entender, claro que elas vão ficar chateadas no começo porque querem sempre te ter por perto, mas elas superam e vai ficar tudo bem. – pisquei pra ele – agora você sabe o que sempre melhora meu humor depois de um assunto tenso? – perguntei e ele apenas negou com a cabeça – filme do Shrek e com certeza um pote de sorvete de baunilha – sorri.
- Seu filme preferido? – concordei com a cabeça.
- Eu sempre fico em dúvida, então eu escolho o clássico – desci do carro assim que ele estacionou, esperei ele chegar até mim – você parece ter ficado triste.
- É que eu pensei em uma coisa que me deixou assim – ele fez careta e eu o olhei incentivando que ele prosseguisse – é que amanhã eu farei meu último show aqui e depois eu vou embora e ai como vou ver você?
- Jura? Não sabia que eu era tão amável assim. Já está com saudade, sweet? – disse convencida – Deixa só as minhas amigas ficarem sabendo que me ama – dramatizei o fazendo rir.
- Elas vão ficar: “OMG VOCÊ CONQUISTOU O CORAÇÃO DAQUELE CARA CHARMOSO?” – ele fingiu um chilique no meio da rua me fazendo gargalhar.
- Pelo amor de Deus – coloquei a mão na barriga tentando parar de rir – Isso foi a coisa mais ridícula que vi na vida – respirei fundo – Ai ai ... Pior que elas fariam exatamente assim. Ah e para sua informação – entrei na sorveteria com ao meu lado – você não é charmoso – fiz cara de convencida.
- Ah querida, você não fale nada, porque se eu jogar todo meu charme para cima de você, eu seria irresistível – fiz careta e ele riu.
- Você se acha a última coca cola gelada da África – revirei os olhos e senti seus braços passarem pelos meus ombros.
- Dá licença querido que eu sou difícil – falei em tom de brincadeira.
- A gente não pode nem tentar ser simpático mais – encostei minha cabeça em seu ombro e sorri – Um de baunilha e um de chocolate, por favor - ele fez os pedidos e ficamos ali aguardando já que não demoraria muito.
Meu celular começou a tocar, eu havia me esquecido completamente que havia prometido não demorar, olhei o nome salvo e era o da minha mãe, resolvi atender logo antes que ela começasse a arrancar o pouco cabelo que ela tinha.
- Oi mãe – me olhava com cara de quem perguntava se estava tudo bem e eu apenas assenti.
- Você disse que não iria demorar, está tudo bem? – ela foi direto ao ponto e eu suspirei.
-Sim mãe, está tudo tranquilo, eu só me enrolei aqui lendo algumas coisas no meu tablet, perdi a hora. Estou só comprando algo para comer e já vou para casa – mordi os lábios sentindo vontade de rir da cara que fazia na minha frente.
- Tudo bem querida, não demore, eu fiquei preocupada. – ela se despediu e eu apenas desliguei.
- Então já pode mentir para sua mãe? – revirei os olhos e fiz sinal de silêncio, ele me entregou o meu sorvete.
- Vamos voltar. Se eu não estiver em casa daqui uma hora ela vem atrás de mim. – ri e ele arregalou os olhos e pagou o moço – Eu estou falando sério.
- Mas por quê? – ele abriu a porta do estabelecimento para que saíssemos de lá – Ela não confia em você?
- Não é isso – dei de ombros – minha criação só é diferente – entrei no carro e logo em seguida ele fez o mesmo.
- Diferente como? – ele deu partida no carro.
- Diferente do tipo que se eu te contar agora você vai rir de mim – revirei os olhos e coloquei um tanto de sorvete na boca.
- Vai doer sua cabeça – ele parou em frente a porta do carro e abriu pra mim – Prometo não rir.
- Se você rir eu nunca mais te conto nada. – entrei no carro e ele concordou com a cabeça, fechou a porta do carro e deu a volta entrando no mesmo. – Eu nunca namorei e nem fiquei com ninguém na vida, eu sei, parece que sou uma criança – olhei para ele que tinha uma expressão de surpresa.
- Sério? Mas por quê? – ele deu partida no carro e eu apenas dei de ombros.
- Porque meus pais ensinaram que deveria ser assim – olhei para ele, que também olhou para mim quando parou no sinal vermelho – eu até me sinto protegida dessa forma, sabia. Além disso, nós acreditamos que devemos namorar apenas quando estivermos prontos para o casamento e levamos a castidade muito a sério. – ele continuou a dirigir e voltou a prestar atenção no caminho, quando terminei de falar ele se engasgou com o sorvete o que me fez rir alto e dar tapinhas em suas costas – o que foi é sério? – falei naturalmente – Ahhh, eu também nunca morei sozinha, eu e minha família fazemos tudo junto, porque isso fortalece a união da família. E olha que isso é o básico. – dei de ombros simples e ele me olhou admirado.
- Caramba então quer dizer que você... – ele parou no meio da frase como se tivesse com medo de dizer algo, o que me fez achar engraçado.
- Nunca teve uma vida amorosa? – dei de ombros – Eu prefiro assim se quer saber, pode ter certeza que eu sofri bem menos na vida que algumas pessoas.
- Eu acho bonito se quer saber – ele disse simples e eu olhei um tanto espantada – eu acho que a pessoa tem que ter muita personalidade para aceitar ser diferente.
- Eu devo dizer obrigada? – ri.
- E deve dizer que você teve o melhor primeiro encontro da sua vida também. – ele disse e eu ri.
- Isso definitivamente não foi um encontro – coloquei mais um tanto de sorvete na boca. – Mas eu agradeço pelo sorvete e pelo meu tablet.
- Então você está me devendo um encontro, porque esse é o pagamento pelo tablet. – ele disse simples e eu sorri. – Que tal amanhã? Você pode ir ao show e depois podemos sair para comer.
- Quem sabe quando você entrar de férias e vier aqui de novo eu não saio com você – disse achando a coisa mais impossível de se acontecer.
- Está negando ir ao meu show e negando comida – ele colocou a mão na minha testa – você não está com febre, o que aconteceu?
- Sei lá, não gosto muita das musiquinhas desse tal de – arqueei a sobrancelha e ele revirou os olhos.
- Para de ser fresca – ele rio e estacionou na vaga ao lado do meu carro – tentar ir amanhã. Eu vou te esperar. – ele não me deu muitas opções.
- Mas e se não der para ir?
- Tudo bem então, se você não for... Mas se eu te encontrar novamente vai ter que me pagar um encontro – eu concordei com a cabeça.
- Fechado, eu pago. – ri – Desde que eu não saia na mídia.
- Relaxa, você é o meu segredo – ele piscou e eu revirei os olhos.
- Eu preciso ir. Sério, muito obrigada por hoje – me aproximei para dar um beijo em seu rosto – eu te vejo em breve!
- Vejo você em breve também – ele sorriu e destravou o carro – boa noite, Darling!
- Boa noite – sai do carro e fechei a porta, acenei do lado de fora e ele apenas assentiu dando ré e indo embora.
Entrei no meu carro e sorri, como eu era tolinha. Eu estava sorrindo que nem uma débil mental, revirei os olhos. Foco , ele só é um cara que vai te esquecer em dois dias. Dei partida no carro e corri para casa, antes que minha mãe desse um surto e colocasse a polícia atrás de mim.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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