Última atualização: 10/03/2018

Capítulo 1

Apesar da brincadeira de que quem conseguisse manter-se acordada por mais tempo iria receber um favor de cada uma das outras, a maioria das meninas adormeceu em uma questão de poucos minutos. Ao acomodarem-se no longo e confortável sofá da cabana em que se encontravam, foram embaladas em um sono reparador. Podem culpar a festa do dia anterior no Lago Huron ou o alto nível de açúcar no sangue de cada uma delas, mas foi fato que, após a agitação inicial, realmente por culpa da quantidade de doces que ingeriram, foram perdendo a vitalidade aos poucos e a festa do pijama passou para a fase de assistir filmes sem realmente vê-los.
Conseguindo resistir a pegar no sono e animada com a perspectiva de ficar com favores pendentes das amigas, esticou-se para alcançar seu celular na mesinha a seu lado. Só capturando uma imagem das belas adormecidas que teria um meio de prova para chantageá-las depois. No escuro, porém, a loira acabou não distinguindo a visão do copo de café que bebera mais cedo, derrubando em si o restinho que ficara no fundo do recipiente de papel.
Praguejando com a mancha escura que agora se encontrava em seu baby doll branco, levantou-se com cuidado e foi até a cozinha para tentar dar um jeito com o detergente da pia. Pegou um pano úmido e tentou esfregar a seda com cuidado, contudo, só o que conseguira fora expandir e desbotar o café derramado. Distraída como estava, assustou-se ao ouvir um estalar de galhos se quebrando. Levantando o olhar de seu pijama, arregalou seus olhos ao perceber que a janela da cozinha, que dava para a floresta que circundava as redondezas da casa no lago, estava destrancada. O coração da menina deu um pulo ainda maior quando, ao tentar fechá-la, a ventania trouxe o efeito oposto, escancarando-a com um estrondo.

Enquanto isso, na sala de estar...

, , vocês ouviram isso? — perguntou , empurrando os braços das meninas a seu lado para despertá-las.
— Deus, , deixa agente dormir, cacete — replicou , sem nem mesmo abrir os olhos.
— Eu acho que não ouvi nada, . Você deve ter sonhado com isso, não? — sentou no colchão improvisado, esfregando os olhos lentamente. — Onde está a ? Deve ser ela que foi ao banheiro ou à cozinha, sei lá...
— Não sei... — lançou lhe um olhar de dúvida. — Esperei um pouco para ver se ela voltava, mas já faz uns minutos, estou um pouco preocupada.
— Vamos dar uma olhada pela casa, então. Você vem, ? — suspirou, cedendo aos apelos de sua amiga e olhando para a ruiva que, nesse momento, já estava desacordada novamente. Revirando os olhos e trocando um olhar de divertimento com , aceitou a mão desta para levantar-se.
— Acho que esse ronco foi um não... Vamos, mana, a . não deve ter ido muito longe. — Ambas abafaram suas risadas enquanto saíam da sala para procurar a sumida.
O que começou como uma busca despreocupada, logo se metamorfoseou. No momento que cada canto da cabana fora revistado, até havia acordado para ajudar a procurar. Apesar da expressão de fachada calma do trio, havia uma ansiedade passando por cada uma delas, chegando ao ponto que se sentaram em silêncio no sofá esperando até o amanhecer, vasculhando suas mentes por alguma resposta ao sumiço de .
— Talvez não seja nada demais... Ela pode ter passado mal e decidido voltar para casa. Ouvimos um ranger de pneu quando procuramos no andar de baixo, não foi? — perguntou , torcendo seus dedos nervosamente.
— Deve ter sido algo assim mesmo... — disse , roendo suas unhas, claramente desacreditada de ser o caso, mas querendo tranquilizar a morena.
— Só pode ser mais uma pegadinha, meninas. Pelo amor de Deus, não precisa de tanta preocupação, vocês sabem que a ama esses joguinhos mentais. Todas nos lembramos da última vez que ela decidiu que fazer algo assim seria “engraçado”.
nem percebeu o olhar incrédulo de suas amigas para ela, muito ocupada trocando mensagens em seu celular. Só ao notar o silêncio que seguiu sua declaração é que esta levantou o olhar para a morena e a loira à sua frente.
— Relaxem, meninas... Só quero evitar que mais uma vez sejamos pegas em uma das pegadinhas dela. Já pensaram que se agirmos desinteressadas, ela pode decidir que não tem graça e desistir?
— Só mais uma hora, , se ela não vier, ligaremos para o pai dela, ok?
A ruiva assentiu meio à contragosto e foram preparar um café da manhã que tirasse suas mentes do problema que agora se deparavam. Comeram cada uma em seu próprio mundo. lia sua versão surrada de tanto uso do clássico “O morro dos ventos uivantes”, suspirando por Heathcliff em admiração. As outras duas conversavam sobre assuntos sem importância enquanto zapeavam pelas redes sociais.
— É o que estou dizendo, , a Elle é muito mais variada que a Vogue, não dá pra não perce...
Um som sincronizado indicando a chegada de mensagens aos celulares de não duas, mas das três meninas despertou-as de suas divagações, fazendo com que a curiosidade falasse mais alto. Suas bocas se abriram em espanto na mesma sincronia que os bips de seus telefones.
— Vocês também...?
— Como ela sabe? Não posso acreditar nisso!
— Meninas...
— Ninguém contou isso para ninguém, como isso é possí...
— Meninas... Vocês...
— Não fui só eu, né?
— MENINAS! — e pausaram seus surtos para finalmente encarar uma pálida, porém controlada. — O que receberam?
Trocaram um olhar de receio, mas, no susto, mostraram as mensagens uma para a outra.

Um anjo na terra é o que dizem. O que fariam se soubessem que é uma assassina? —
Não se preocupe, , suas fotos estarão seguras comigo se não me desobedecer. Oops! Talvez não... esqueci que você ama ser uma menina levada. —
, , o que o treinador diria se soubesse de onde vêm todas as suas habilidades?! —


?! É o que estou pensando? Não acredito que ela faria isso conosco.
— É a , ! O que você estava esperando? Típico de ela fazer algo assim. Só não sei como... — rebateu , passando as mãos por seus fios rubros em um sinal de frustração.
— Como ela descobriu? Não é óbvio? Quer dizer... Ela sempre soube dos segredos de todos da Rosewood High. Imagina descobrir coisas do passado de quem ela escolhe ser amiga — cortou com um tom fatalista.
— O que quer que seja isso, não é amizade, mas uma doença — afirmou, surpreendendo suas amigas com seu tom decepcionado. Afinal, a morena era a que sempre mantinha fé nas pessoas, mesmo quando essas não o mereciam.
— O que ela quis dizer com assassina? — perguntou com um olhar incisivo para sua amiga, que começava a ficar com os olhos azuis cristalinos brilhando com lágrimas não derramadas.
— Não perguntei sobre vocês, então não me venham querer saber sobre mim — retrucou a morena engolindo em seco.
— Vamos embora daqui. Cansei desses joguinhos ridículos da . — Suspirou , com a voz cortante.
Concordando com a ruiva, todas partiram o mais apressadamente possível da cabana no carro da mãe de . Assim que entraram no veículo, as outras duas meninas puseram seus fones se refugiando das perguntas que sabiam que estariam por vir.
— Como foi, filha? Onde está a ? — questionou Rose, olhando em volta antes de centrar seu olhar novamente sobre a menor.
— Foi ótimo, mãe. A ... Ela... Deve ter ido embora mais cedo. Sabe como ela é independente.
— Sua amiga deixou vocês na cabana do tio dela sozinhas?
— Sim, mãe. Vamos logo embora, tenho várias matérias para adiantar antes do começo das aulas.
— Tudo bem, querida, como quiser... – disse sua mãe, balançando a cabeça em confusão com o mau humor atípico de sua filha, geralmente tão positiva.
A menina pôs seus próprios fones, dando play aleatório no Spotify e arrepiando-se com a canção que começara a tocar. A paisagem de Huron foi sumindo pela janela à velha estrada que dava acesso à Rosewood. Chegar a um terreno conhecido deu uma sensação tão grande de segurança às garotas que todas inspiraram longamente assim que ultrapassaram a placa que delimitava o entorno da cidade. Uma sensação de proteção que as pobres meninas não tardariam por perceber ser falsa. Os demônios e esqueletos do passado de cada uma não continuariam enterrados por muito tempo. Era só uma questão de quando.

“I can't seem to face up to the facts. I'm tense and nervous and I. Can't relax. I can't sleep 'cause my bed's on fire. Don't touch me I'm a real live wire. Psycho killer. Qu'est-ce que c'est. Fa, fa, fa, fa, fa, fa, fa, fa, fa, far better. Run, run, run, run, run, run, run, away”

Enquanto isso, não muito longe dali...

O sino da loja de ferragens indicou a entrada de um homem no estabelecimento. Após pegar os produtos que precisava, ele encaminhou-se ao atendente entediado, que ouvia um jogo de futebol em seu pequeno rádio.
— Quatro braçadeiras, uma moldura e uma corda, mais alguma coisa senhor?
O homem simplesmente acenou em negativa e saiu da loja assoviando a melodia de Psycho Killer, erguendo seu capuz preto na cabeça enquanto se dirigia à van parada no estacionamento vazio. Abriu o porta-malas, ignorou os grunhidos que vinham de lá, jogou as bolsas de compras e começou a dirigir, sorrindo satisfeito consigo mesmo ao passar pela placa da cidade que há tanto tempo não visitava: Bem-Vindo à Rosewood.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus