Um agente federal em apuros

Enviado em: 10/01/2021

Capítulo Único

A chuva caía forte naquela noite atípica de primavera – era possível escutá-la e vê-la claramente daquele pátio escuro. O vento também estava forte, fazendo com que os pingos d’água respingassem por toda a área e chicoteassem os corpos seminus e amarrados em cadeiras infantis.
Quando null null decidiu tornar-se policial, não esperava ter que passar por uma situação como aquela – ser pego. Encontrava-se com os pés descalços, os cabelos negros desgrenhados e caindo sobre os olhos pequenos. O rosto esguio tinha hematomas em diversos pontos e o peito descoberto mostrava claramente as marcas roxas e a sujeira espalhadas pelo abdômen liso. Ainda assim, seu físico destroçado e sua cabeça levemente perturbada eram as menores de suas preocupações no momento. Ao seu lado, o homem que conhecera como o professor do jardim de infância de uma escola infantil em Seul e que, ao longo dos meses, tornara-se seu amigo estava em uma situação parecida com a sua. Porém, ao contrário dele – que, lembrando, era o agente federal treinado em questão –, tinha uma expressão impassível no rosto bonito.
null sabia que, na verdade, aquilo tudo era por uma raiva mesclada à fachada de homem forte que ele queria demonstrar para os bandidos, que estavam logo à frente, portando armas grandes demais para a ocasião. O agente queria poder fazer alguma coisa, de verdade. Sua cabeça não parava enquanto pensava em milhares de opções possíveis para fazer com que saíssem dali vivos. No entanto, sentia-se travado, porque havia anos que não trabalhava ao lado de alguém. Estava acostumado a ser um ‘agente solitário’, como fora apelidado pelos colegas de trabalho. null era bom no que fazia, muito, muito bom mesmo. Porém, quando estava sozinho. Por isso, fora designado para aquela missão ultrassecreta e cheia de armadilhas. Era o único agente da polícia federal capaz de enfrentar aqueles brutamontes covardes no corpo a corpo – era frio o suficiente para matá-los se fosse necessário, mesmo que possuísse um rostinho angelical e que ninguém jamais desconfiaria. Além do mais, tinha seu chefe e uma equipe de prontidão pelos arredores da escola – alguns colegas se infiltraram como zeladores, pedagogos e afins.
A missão tinha tudo para ser resolvida com êxito, até que null pôs os olhos no sorriso gengival do fofo – porém, enfezado – professor da turma 2-A da escolinha. O homem tornou-se sua ruína ao mesmo tempo que o lembrava o porquê de estar ali: infiltrado numa escola infantil e dando aulas de dança para um punhado de crianças hiperativas de até cinco anos de idade.
Ele precisava manter-se focado para conseguir salvar todas aquelas pessoas, principalmente as crianças. No entanto, null null ainda era sua maior distração.

Seis meses antes.

null soltou um suspiro fraco ao ouvir seu chefe, null null, falar sobre o terceiro caso de sequestro de crianças na cidade – mais especificamente, em uma única escola infantil no centro de Seul.
— O que faremos? — null perguntou baixinho, bagunçando os cabelos. Só conseguia pensar se fossem seus sobrinhos naquela situação, perdidos, passando necessidades e em meio a pessoas desconhecidas.
— Não temos pistas alguma — seu colega de trabalho, null null, comentou. — Sinceramente, é o primeiro caso que fico tão confuso e sem saber o que fazer. Às vezes, chego a pensar que será impossível recuperar essas crianças.
— Não diga uma coisa dessas, agente null — null pediu, sério, em tom de repreensão. — Eu tive uma ideia, e vou precisar da ajuda de vocês.
Todos os presentes na sala de reuniões da polícia federal encararam o chefe com atenção e ansiedade. Ao notar isso, null começou a explicar sua ideia. Os agentes presentes ficaram em silêncio ao ouvir cada palavra, atentos e apreensivos. Confiavam cegamente no null, mas, ainda assim, sentiam medo – afinal, eram crianças desaparecidas, e todas elas corriam risco de vida. Qualquer deslize deles naquela missão poderia trazer ainda mais complicações para o caso.
— Sendo assim, acho que nossa melhor opção é enviar o agente null para esta missão — null finalizou, encarando o homem, que permanecia em silêncio, avaliando toda a situação. — Sabemos que ele é nosso ‘agente solitário’. É esperto, é sociável e sabe fingir ser quem não é quando necessário. Caso concorde, ele será nossos olhos e nossos ouvidos naquela escola. É um caso arriscado e extremamente sigiloso, por isso escolhi cada um de vocês a dedo. Preciso que se espalhem pela cidade e fiquem à disposição do agente null. Precisamos trabalhar em equipe e ter uma comunicação perfeita. Qualquer deslize, perderemos nossas crianças.
— Eu topo — null respondeu, por fim. — Não vou permitir que mais nenhuma criança desapareça. Quando eu começo?
Em poucos dias, todos os ajustes necessários foram feitos, e null logo entrou na escolinha como o ‘novo professor de educação física’. Ele não sabia bem como trabalhar com crianças, raramente o fazia. Entretanto, não foi tão difícil quanto imaginou que seria para um primeiro dia de aula. Conseguiu interagir bem com os alunos, ensinou-os um bocado sobre esporte, coletividade e dança – achava que a arte era tão importante quanto o esporte, principalmente para crianças tão agitadas como aquelas da turminha 2-A.
Eram seis turmas de quinze crianças no total – três no período da manhã, e três no período da tarde. Foi cansativo na primeira semana, mas, no fim, valeu a pena, porque pôde observar de perto como cada criança agia, a relação que tinham com os professores e a equipe de direção da escola. Todos eram bem acolhedores, engraçados e simpáticos. Com exceção do professor null null, um homem de feições delicadas e sorriso gengival fofo, porém extremamente enfezado e ciumento em relação às crianças – ele alegava que era o professor preferido até o ‘titio null’ chegar ali, com um sorriso em formato de coração, olhos brilhantes e coreografias ‘super originais’ misturadas às de grupos idols super famosos.
— Eu não quero roubar o seu lugar — null começou com a voz mansa enquanto bebericava seu achocolatado (que fora presente de um dos alunos). — Estou aqui temporariamente, você sabe disso. Seria legal se fôssemos amigos.
— Sei que não quer e nem vai roubar o meu lugar, mas fui o único professor dessa pirralhada nos últimos cinco anos — null riu fraquinho. — O ciúme foi inevitável, mas juro que está tudo bem. Eu aceito dividir meu pequenos com você, senhor ‘titio null das coreografias super originais’.
null riu e assentiu positivamente. null era uma pessoa muito sagaz, e isso deixava o agente com uma pulga atrás da orelha. Não queria desconfiar do professor, não mesmo; mas ele era o mais próximo daquelas crianças depois dos seus respectivos pais.
— Hyung, eu conheci o professor null — null começou, revirando os olhos, mais tarde naquele mesmo dia. — Ele parece super confiável, e tentei conversar com algumas crianças durante o intervalo e todas elogiaram esse cara. Não há motivos para você desconfiar dele.
— Mas, null…
— Mas nada, amigo, pare com isso — null parou de mexer nas panelas em que cozinhava. — Está tudo bem em relação ao professor null, mas, se ainda estiver se sentindo desconfiado, peça para null dar uma olhada na vida dele. Sabe que o garoto é bom fuxicando por aí, é assim que ele está crescendo lá na agência. Sane suas dúvidas e volte a focar no que realmente interessa, que é descobrir o paradeiro da criançada e proteger as que estão sob a mira dessa quadrilha covarde.
null estava convicto do que dizia e parecia até mesmo ser capaz de pôr a própria mão no fogo para defender aquele professor. Acontece que: null estava infiltrado também, e era responsável pela área psicopedagógica da escolinha. Ele ouvia as crianças, fazia perguntas que pareciam inofensivas, mas, na verdade, eram super certeiras e cuidava das mentes inocentes daquelas crianças todas, pois era óbvio que o que estava acontecendo havia afetado ao menos 30% dos alunos.
null suspirou e decidiu acatar as palavras do amigo e companheiro de trabalho – e de moradia, já que dividiam um apartamento pequeno no centro da cidade. Mas, ainda assim, enviou uma mensagem para null, o agente recém-contratado pela agência e responsável por simplesmente fuxicar a vida das pessoas e descobrir até mesmo os detalhes mais sórdidos da vida alheia.
Como null já havia dito, a ficha de null null era 100% limpa. O cara era um gênio e tinha inúmeros projetos realizados, além de artigos publicados sobre educação infantil e maneiras eficazes de lecionar para crianças entre os 3 e 12 anos – incluindo educação inclusiva. null também era fluente em libras e era responsável por todas as crianças com deficiência da unidade escolar em que trabalhava.

Dias atuais — Alguns minutos antes da tempestade.

null estava terminando de organizar as pranchetas dos alunos quando ouviu um barulho suspeito do lado de fora. Ainda tinham algumas crianças do turno da tarde por ali cujos responsáveis iriam se atrasar devido ao mau tempo repentino, que ocasionava em um trânsito caótico antes mesmo que a chuva caísse. Ele era um dos poucos professores presentes, prestando-se voluntariamente para entregar as crianças aos responsáveis. null também ainda estava por ali, mas preso na secretaria em busca de alguma pista que pudesse ajudá-los naquela missão – já estavam completando seis meses de ‘insider’ e não tinham nada relevante para entregar ao chefe. Os outros professores estavam em uma pequena reunião íntima demais, que null preferiu manter-se de fora e ficar com as crianças mesmo. Assim, poderia prestar mais atenção no que acontecia à sua volta.
— Hyung — a voz de null ecoou pela sala, fazendo com que o mais velho desse um pulo de susto. — Desculpe, não quis te assustar.
— Tudo bem. Diz aí, o que foi? — null deu de ombros, largando a papelada e finalmente desviando o olhar de onde havia escutado o som estranho.
— Eu já estou indo, não encontrei nada de relevante na secretaria — null suspirou. — Vou anexar alguns arquivos que fiz cópias para o chefe — diminuiu o tom de voz. — E também temos as gravações da sala dos professores dessa última semana. Vamos torcer para existir alguma coisa, cara. Precisamos pegar quem está fazendo isso, não aguento mais ver a angústia dos pais das crianças que estão desaparecidas.
— É, eu também não — null se aproximou do amigo, ainda mantendo o olhar preso às crianças, que riam e desenhavam juntas. — Como alguém consegue ter coragem de fazer coisas tão cruéis com seres tão inocentes e puros? Não consigo nem imaginar o que sou capaz de fazer se colocar as mãos nos responsáveis por esse caos…
— Não vamos pensar sobre isso, amigo — null tocou o ombro de null. — Te vejo em casa, então? Não fique aqui até muito tarde, tudo bem?
— Sim, nos vemos em casa. Relaxa, eu não vou fazer nada de mais. Não podemos levantar mais suspeitas.
— Certo, até mais tarde, parceiro!
— Até, null!
null suspirou e seguiu até as crianças que ainda restavam, sentando-se ao lado de uma garotinha banguela, que o adorava mais que todos os outros alunos. No entanto, antes que pudesse sorrir e começar suas típicas brincadeiras, decidiu que seria prudente recontar a quantidade de crianças e percebeu que faltava uma.
— Onde está o Jiho, meus amores? — perguntou, tentando manter a calma.
— Ele disse que ia ao banheiro, titio null — Hani, a garotinha que o adorava, respondeu. — Ele chegou a te pedir e você balançou a cabeça.
null forçou a memória para lembrar-se daquele detalhe, mas não conseguia de jeito nenhum. Então, num rompante, um desespero lhe tomou por completo. O barulho que havia escutado antes de null aparecer, sua provável liberação para o garotinho ir ao banheiro, sua distração tentando encontrar a origem do barulho e sua conversa mais longa do que o esperado com o amigo. Mas que droga (!) – havia deixado uma criança sair sem a supervisão de ninguém!
— Certo, preciso que venham comigo — null falou com as quatro crianças restantes. — Vamos procurar o Jiho. Ele não poderia demorar tanto apenas indo ao banheiro, certo?
— Oba, vamos brincar de esconde-esconde! — Hani exclamou, arrancando gritos empolgados dos outros três amiguinhos.
— Isso! Esconde-esconde. Vamos encontrar o Jiho juntos e nos esconder dos papais de vocês.
Não era uma boa ideia, definitivamente, não; mas era o único jeito de descobrir se o pequeno Jiho estava em perigo ou apenas no banheiro. Com Hani no colo e os outros três em seu encalço e segurando sua mão com força, null saiu da sala em que esperavam os responsáveis. O primeiro destino era, obviamente, o banheiro. Ao chegarem lá, null abriu a porta e botou apenas a cabeça para dentro – já que o espaço não era tão grande e tinha um enorme espelho logo à frente – e gritou o nome do garotinho algumas vezes, mas não obteve resposta.
— Ei, Minjae, o que acha de você ser o primeiro a procurar pelo Jiho? Mostre para nós como você é inteligente e valente e encontre a cabine que seu amiguinho está! — null murmurou para o garotinho mais alto que os outros, persuadindo-o para entrar no banheiro enquanto ele ficaria de ‘guarda’ na porta.
Quando Minjae entrou no banheiro, null puxou o celular com a mão livre e digitou uma mensagem repleta de erros gramaticais e extremamente apressada para null:
“o Jiho meio q sumiu e n sei o q fzer agr.”
A resposta de null foi imediata e curta:
“Puta que pariu, hyung, estou voltando!”
null não respondeu, apenas guardou o celular no bolso da calça e voltou a atenção para as crianças. Minjae já estava de volta.
— Eu não encontrei o Jiho, titio null. E agora?
E agora é que null estava completamente fodido com mais uma criança desaparecida e nenhuma pista sobre todo aquele caos.

Dias atuais — Pátio da escolinha.

null? — null sussurrou, mas o professor continuou olhando para frente. — Sei que está bravo, mas preciso que colabore comigo. Por favor, cara.
— ‘Por favor, cara’ — null imitou a voz esganiçada de null, revirando os olhos. — Você mente para todos nós durante meses e quer que eu colabore com você? Sabe que se não fosse por suas baboseiras nada disso estaria acontecendo, certo? Eu não consigo acreditar que um pateta como você é…
— Shhh! — null pediu, desesperado, olhando para onde os sequestradores conversavam e espiavam-no de longe. — Não diga em voz alta mais uma vez o que eu realmente sou! Eles vão me matar, e depois vão te matar! Não me importo de morrer em missão — sussurrou a palavra. — Mas você… Você é um professor e pedagogo brilhante, precisa ficar vivo! Então, evite ficar repetindo minha profissão na frente deles. Agora, preste atenção…
— Eu não vou prestar atenção em você!
null…
— Cale a boca! Nós vamos morrer de qualquer jeito!
— Não vou deixar que nada te aconteça…
— Já aconteceu! — null praticamente gritou, atraindo a atenção dos homens logo à frente. — Eu não acredito que vou morrer desse jeito e ainda do seu lado…
— Algum problema, rapazes? — o brutamontes que os arrastou até ali perguntou, em tom de zombaria.
— Não, claro que não, senhor — null o encarou nos olhos. — Eu apenas estou amarrado em uma cadeira desconfortável, seminu, machucado, vendo minhas crianças chorarem e ao lado desse indigente aqui — apontou para null. — Mas não, não há problema algum!
— Fique tranquilo, professor null, logo toda essa tortura irá terminar — uma nova voz ecoou pelo pátio barulhento, e o choro das crianças aumentou. — Eu queria apenas as crianças, mas já que entraram no meu caminho… Terei de dar um jeito em vocês também.
E, quando a pessoa se mostrou sob a luz precária do pátio àquela hora, null sentiu-se congelar dos pés à cabeça. Não acreditava no que estava vendo.

Dias atuais — Alguns minutos antes.

Àquela altura, null encontrava-se em pânico. Não tinha sinal de null e tampouco dos responsáveis daquelas crianças – e ele não sabia se isso era bom ou ruim, já que não se imaginava dando a notícia aos responsáveis de Jiho que o menininho estava desaparecido. No fim das contas, teve uma das ideias mais estúpidas de sua vida, mas era o que poderia fazer até que null chegasse.
— Olha só, pessoal — null chamou a atenção das crianças, colocando-as enfileiradas à sua frente. — Eu vou deixar vocês dentro do armário de limpeza e vou procurar o Jiho. Não contarei para ele onde vocês estão, apenas quero preservá-los de tooodo — esticou a sílaba — cansaço que será correr por toda a escola até encontrá-lo. Titio null já é bem grandinho e pode fazer esse esforço por vocês, o que acham?
— Mas por que não podemos nos esconder em lugares diferentes, titio? — Minhae, irmã gêmea de Minjae e que até aquele momento estava em total silêncio, questionou.
— Porque o titio acha mais seguro assim.
— Mas por quê? Só estamos nos escondendo do Jiho. Não tem graça ele nos encontrar de uma só vez — a menininha insistiu. Era a que sempre lhe dava mais trabalho em relação a tudo.
— Ele não precisa saber que todos vocês estarão ali dentro.
— Mas se ele abrir a porta, verá todos nós!
— Minhae, meu anjinho, você pode fazer só isso que o titio null está pedindo? — null pediu mais uma vez. — Por favor? Juro que lhe trago um bolo amanhã!
A garotinha suspirou, contrariada, e segurou a mão do irmão, puxando-o para perto de si.
— Tudo bem, titio, a gente fica aqui juntinhos.
— Ótimo, vocês são incríveis! — null sorriu e beijou a testa de cada um.
Com pressa, andou até o armário onde os produtos de limpeza ficavam – que, na verdade, era um cômodo apertado – e abriu a porta com cuidado. Quando adentrou o espaço com as crianças para avaliar a situação e se era seguro deixá-los ali, um grito de criança ecoou por todo o corredor, assustando-o.
— Não saiam daqui — pediu seriamente.
As crianças tinham os olhos arregalados e se abraçavam com força. null não queria deixá-las sozinhas, mas não tinha outra opção, já que null provavelmente estava preso no trânsito. Outro grito ecoou, e isso finalmente fez com que null reagisse.
— Não saiam daqui — repetiu. — Não importa o que ouçam, não saiam. Ok? Esperem por mim aqui e não façam barulho.
As crianças apenas assentiram, desesperadas, e se esconderam melhor entre as vassouras, sentando um ao lado do outro para que ficassem ainda mais agarradinhos. Os quatro tinham lágrimas nos olhos e as mãozinhas trêmulas, o que deixou null de coração partido.
— Volte para nós, titio null — o outro garotinho, que, até aquele momento, apenas seguia suas ordens, Jooheon, murmurou.
— Eu voltarei, prometo!
Após uma última olhada para as crianças e um suspiro pesaroso, null se ergueu e abriu a porta com cautela. Assim que deu o primeiro passo para o lado de fora e fechou a porta atrás de si, a figura de um null null agitado e sem cor surgiu diante de seus olhos.
— Onde diabos você estava? Cadê o restante das crianças? Por que Jiho está aos berros? — null bombardeou totalmente em pânico, e null suspirou aliviado.
— Shhh, entre aqui — respondeu baixinho, puxando o professor para dentro do cômodo pequeno.
— Titio, você voltou! — Hani exclamou, e null finalmente desviou sua atenção do estranho ‘titio null’. — Titio Gi!
— O que está acontecendo aqui? — null perguntou num tom de voz baixo, porém extremamente confuso e irritado. — E onde diabos está Jiho?
— Preciso que você respire fundo, mantenha a calma e fique aqui com as crianças enquanto vou procurar Jiho — null tentou soar calmo, mas o suor já começava a acumular em sua testa bonita e escorrer pelas têmporas. — Acho que Jiho está sendo sequestrado — sussurrou a última frase, para não alarmar as crianças.
— E quem você é para me dar esse tipo de ordem? Como assim você acha que meu pequeno Jiho está sendo sequestrado?
null, veja bem, eu não sou um simples professor temporário — null explicou rápido. — Sou null null, um agente federal, e fui designado para cuidar pessoalmente desta missão e evitar que outras crianças sejam sequestradas. Então, por favor, apenas faça o que eu peço enquanto cuido disso, beleza?
— Você é um agente federal? Tipo, da polícia federal? Você é um policial?! — null o bombardeou outra vez, fazendo-o revirar os olhos.
Desta vez, null não se deu ao trabalho de responder o professor. Precisava correr se quisesse pegar Jiho nas dependências da escola e prender o sequestrador. Por isso, puxou a pistola que ficava presa em sua cintura, por baixo da camisa social, e a engatilhou ali mesmo, na frente de todos.
— Preciso ir, cuide das crianças e não saia daqui. Não importa o que ouça, não saia daqui e proteja as crianças — null disse seriamente, assumindo a pose de agente federal.
— Você trouxe uma arma para a minha escola?! — null praticamente gritou, e null arregalou os olhos com seu tom de voz, levando a mão livre para sua boca e calando-o enquanto as crianças se encolhiam, cada vez mais assustadas.
— Cale a maldita boca antes que nos descubram aqui — null pediu entredentes. — Apenas faça o que estou dizendo. Sou um policial treinado e sei como agir. Apenas obedeça.
Aquilo foi o estopim para null null. Ninguém o mandava calar a boca, tampouco obedecer a alguma ordem – a não ser que esta viesse de sua mãe.
— Eu não vou obedecer você só porque está me dizendo que é um policial federal!
— Você não se incomodou em me obedecer quando eu estava em sua cama!
null!
null!
— Meu Deus, eu te deixei entrar na minha casa, ficar perto das minhas crianças, e você é a porra de um agente federal infiltrado! Eu achei que você fosse o sequestrador! Mentiroso do caralho!
— Cale a boca, você vai estragar nosso esconderijo e está assustando as crianças! — null recobrou a consciência, tentando não se deixar levar pelas emoções. — Preciso ir atrás do Jiho.
— Você é mesmo a porra de um policial! — null gritou a plenos pulmões, histérico e assustado. Sentia-se enganado, embora protegido e mais tranquilo agora ao perceber que null era mesmo um homem bom.
— Ora, ora, então temos um policial aqui? — uma voz desconhecida ecoou atrás deles ao mesmo tempo que os gritos das crianças ecoaram em uníssono.
A porta do armário estava escancarada e eles sequer haviam notado, porque estavam ocupados demais discutindo.
Ótimo, isso renderia mais uma advertência para null – se ele saísse vivo daquela maldita missão.

Um mês antes.

null riu alto da piada que null o contara. Estavam na sala dos professores da escolinha tomando café enquanto as crianças estavam em uma palestra ministrada por null null, um policial alto e engraçado – também chefe de null, o que ninguém ali dentro sabia –, sobre a importância de seguir as leis e as vantagens de entrar para a polícia sul-coreana.
— Sabe, null, você é um cara legal — null murmurou, deixando um sorriso tomar sua boca. — No começo, eu me sentia muito intimidado por você. Não sei, sua postura me fez pensar que você era o diretor geral daqui.
— É, eu sei que posso ser um pouco chato e intimidador quando quero… — null desviou o olhar ao sentir as bochechas corarem, coçando a nuca em seguida. — Me desculpe, eu só estava meio enciumado e com medo… Você sabe como as coisas estão caóticas aqui. Crianças têm desaparecido, e isso é extremamente assustador. Dedico minha vida a essa escola há cerca de cinco anos e só agora estou vendo um professor temporário entrar aqui. Foi inevitável.
— Eu entendo, está tudo bem — null sorriu outra vez. — Mas, hum… Hoje é sexta… O que acha de tomar um chope comigo e meus amigos?
null piscou os olhos, um tanto desnorteado, e tomou todo seu café de uma só vez. Não era segredo para si mesmo que tinha uma enorme queda pelo mais novo – e isso desde a primeira vez que o viu, mesmo que estivesse desconfiado de sua presença. null era um homem bonito, atraente, com um porte físico que deixava null a ponto de perder as estribeiras, mas não tinha a menor coragem de interagir e chamá-lo para sair, mesmo que fosse uma coisa de amigos. Sabia que quando bebia ficava um pouco mais solto e deixava que o álcool agisse por ele, deixando-o sem filtro algum quando se tratava de alguém que ele estava a fim.
— Não vai ser muito inconveniente eu aparecer no meio de uma reunião íntima entre amigos? — null perguntou baixinho, jogando o copinho de plástico no lixo.
— Claro que não! Eu já avisei a eles que pretendia te chamar — null deu de ombros, um tanto tímido. — Seria muito… legal… se você fosse, sabe?
— Ah, sendo assim, acho que tudo bem…? Você pretende ir logo depois das aulas ou...?
— Acho que é melhor a gente passar em casa antes, tomar um banho e tal — null o encarou de forma enigmática. — E aí eu posso te buscar de carro. Ou a gente se encontra direto no bar. Às nove.
— Não acho uma boa ideia você dirigir, sendo que vai beber — null piscou um dos olhos. — Eu encontro vocês direto, é só você me passar o endereço do bar.
— É, eu sei que não é nada prudente, mas um dos meus amigos não bebe, e ele sempre fica responsável por dirigir na volta. Tudo bem, te mando o endereço por mensagem.
— Certo, me empresta seu celular para eu salvar meu número aí.
E foi naquele momento que ambos perderam a noção de tudo ao redor. Naquela noite, quando se encontraram no bar, o encantamento foi mútuo e instantâneo. null não achava aquilo tudo muito ético, mas conseguia perceber que a tensão entre os dois era palpável, e bastou uma pergunta simples e direta vinda de null para confirmar o que já desconfiavam: null era assumidamente bissexual, só não saía explanando por aí. E isso foi um grande alívio, porque, naquela mesa, só tinham pessoas da comunidade LGBT+ – null também era bissexual, e null e null haviam se tornado um casal oficialmente há poucas semanas.
O resto foi automático. Beberam mais do que podiam contar, mas ainda não estavam embriagados a ponto de perderem a consciência. Então, bastou uma música agitada começar a tocar no bar e a pista de dança ser aberta para que null e null seguissem até lá. null queria muito dançar, estava explícito em seu olhar, mas null não era muito chegado em dança e já havia falado, e ele não queria deixar seu ‘paquera’ sozinho na mesa ou em uma situação desconfortável no meio da pista de dança. Então, ficou ali na mesa, comendo os petiscos que haviam pedido e bebericando seu chope recém-chegado.
— Você sabe que não precisamos disso — null murmurou, virando seu copo quase todo em um gole só. null o fitou, confuso, sem saber do que o mais velho estava falando. — Ficar nessa enrolação, null — o professor riu. — Agora eu consigo entender os seus olhares para mim, e posso lhe dizer com certeza que te olho da mesma maneira. Você é um homem muito atraente e 100% o meu tipo.
null sentiu as bochechas corarem, mas, ainda assim, sorriu o mais galanteador que conseguiu, logo bebendo seu chope chopp o mais rápido que conseguiu, vale ressaltar.
— Bom saber que sou 100% o seu tipo, null, porque você é 100% meu tipo também — respondeu, por fim, largando o copo vazio sobre a mesa.
A troca de olhares entre os dois era intensa, mas ambos eram reservados demais para simplesmente se beijarem na frente de todos do bar – além do mais, certamente não seriam muito bem vistos e arranjariam uma confusão e tanto, dado o preconceito absurdo do país.
— Sinceramente, não sei se vou conseguir esperar chegar na sua casa ou na minha — null disse devagar, dando de ombros.
— O banheiro é logo ali — null murmurou sem cortar o contato visual, apontando em direção ao banheiro masculino.
Levantaram juntos e em total sincronia. Ao longe, null e null viram os amigos indo em direção ao banheiro e soltaram risadinhas – mesmo que null ainda não concordasse totalmente com aquilo, temia pelo emprego do amigo e pela reação de null quando descobrisse tudo.
null, no mínimo, arrancaria a cabeça de null antes de dá-lo uma advertência ou suspensão caso o disfarce fosse comprometido e a missão, prejudicada.
— Não esquenta a cabeça, não, null — null sussurrou em seu ouvido. — Quem nunca se envolveu com alguém enquanto infiltrado?
null apenas concordou a contragosto com o namorado e deixou-se levar pela música novamente.
null e null, assim como o casal na pista de dança, deixaram-se levar pelo desejo que nutriam um pelo outro. Quando se deram conta, as bocas já estavam coladas e as mãos corriam ambos os corpos sem pudor algum. A música alta do lado de fora abafava os gemidos que deixavam escapar por conta da excitação – que crescia mais a cada segundo, conforme o álcool tomava suas mentes e o tesão tomava seus corpos.
O que não contavam, no entanto, era que a porta da cabine em que estavam fosse escancarada por algum homem embriagado. null, ao virar-se para trás, assustado e a fim de expulsar quem quer que fosse, arrependeu-se no mesmo segundo de ter dado a ideia daquele ‘banheirão’.
— Uau, hyung, você realmente tem um ótimo gosto para homens — o rapaz que abrira a porta comentou e, no segundo seguinte, sem se importar com o casal que havia atrapalhado, caiu de joelhos em frente à privada e deixou que tudo o que havia ingerido no dia saísse por sua boca.
— Ah, mas que merda, null! — null exclamou ao olhar para o amigo ajoelhado ao seu lado.
Até quando não combinavam nada, o mais novo dava um jeito de atrapalhar os planos de null. Era a porra de uma coincidência ridícula – e null continuava confuso. Não sabia quem era aquele moleque vomitando ao seu lado e tampouco como null o conhecia. Tudo o que ele sabia era que sua ereção doía como o inferno e ele precisava aliviar aquilo (de preferência, com null null e sua boquinha maravilhosa).

Dias atuais — Pátio da escolinha.

null rosnou ao observar as feições do responsável pelos desaparecimentos das crianças. O homem era conhecido por todos da escola, principalmente por null, já que, além de ser seu melhor amigo de infância, era também o diretor do local. O angelical e promissor null null, que ficava sentado na sala da direção durante o dia inteiro e com um sorriso no rosto, mostrando as covinhas adoráveis e que o pintavam de bom moço para os pais e professores.
null? — null perguntou retoricamente, chocado demais para falar algo além. — Você… Você fez isso tudo? Você teve coragem de botar nossas crianças em risco durante o ano inteiro? Qual a porra do seu problema?! Você foi eleito a diretor justamente por ser o melhor entre nós lidando com os responsáveis e administrando as finanças da escola! Você sempre foi incrível e batalhou pelo bem de cada um de nós, deu educação para essas crianças, tranquilizou os pais… O que você se tornou?!
— Meu Deus, quanto drama! — null revirou os olhos. — Eu estava precisando de dinheiro, e a melhor opção foi começar a me meter com crianças. Sei que isso vai partir seu coração, amigo, mas eu precisava fazer alguma coisa. Sempre tive tendência às coisas erradas, você sabe.
— E ainda tem a cara de pau de falar desse jeito… — null murmurou.
— Não é como se eu fosse o único a ter segredinhos aqui, null — o falso diretor rebateu. — Você estava o tempo todo ao meu lado e, ainda assim, não percebeu nada. Que tipo de agente é você?
— Eu sempre desconfiei de você — null cuspiu. — Não sei se reparou, mas null, o psicólogo, estava enfurnado em sua sala o tempo inteiro. Adivinhe para quem ele trabalha.
— Hum, faz sentido — deu de ombros. — É uma pena que vocês nunca encontraram nada e agora você está sozinho, sob meus cuidados, e ao lado do null, que é um péssimo lutador, ou seja: solto ou amarrado como está, seria um grande inútil, que mais te atrapalharia do que ajudaria. Não tem escapatória, vocês morrerão aqui, e eu, de brinde, ainda levarei o restante das crianças. Vocês sabem quanto cada criança dessas vale no mercado internacional?
— Você… Você vende nossas crianças? — null perguntou com a voz trêmula, sentindo os olhos marejarem. O choro alto das crianças do outro lado do pátio, igualmente presas, lhe partia o coração. Queria poder salvar seus nenês, queria ao menos que null tivesse a chance de se defender. Havia-o visto em ação alguns minutos antes e ele era bom; muito bom, mesmo que tivesse acabado derrotado, assim como ele. null era um homem bravo e valente. Teria conseguido salvá-los se não tivesse dado continuidade à discussão que null abriu em meio ao caos.
A culpa foi inevitável naquele momento. null se sentia um inútil e um babaca sem tamanho. Se não tivesse atrapalhado os planos do policial… Se não tivesse agido por impulso por sentir-se enganado… Àquela altura, não teriam sido torturados fisicamente, não teriam acabado o dia com diversos hematomas, não estariam passando frio e com as roupas rasgadas naquele pátio, onde costumavam ter momentos felizes com as crianças. Era mesmo um idiota…
— Não é hora para se martirizar, null — null murmurou. — Eu lhe disse que precisava de dinheiro. Não vou me desculpar pela minha frieza, confesso que sou um vilão e tanto. Se quer saber… Nem mesmo sinto remorso, não sinto nada; sou assim. Você que sempre foi emocional demais. Mal de pisciano, não é?
— Como… Como você conseguiu fazer tudo isso por debaixo dos panos e ainda parecer inocente? — null arriscou perguntar, sem frear as lágrimas grossas e ardidas.

Oito meses antes.

null estava fodido. Completamente fodido. Sabia que se envolver com aquelas pessoas lhe traria problemas, mas não imaginou que seria tanto. Quando ouviu o homem à sua frente dizer com todas as letras que precisava que ele lhe enviasse uma certa quantidade de crianças, ficou paralisado – qualquer outra pessoa em seu lugar daria a própria vida após o choque, mas ele era diferente; era frio, calculista e não sentia nada por ninguém. Teria que se virar, de toda forma, já que não teria ajuda de ninguém e o dinheiro que devia àquele traficante era mais do que seu belíssimo salário de diretor de escola infantil poderia pagar.
Então, decidiu ceder. Havia algumas crianças específicas naquela escola – as pobres que possuíam bolsas – que poderiam facilmente… desaparecer. Em sua cabeça perturbada, ele estaria lhes fazendo um favor oferecendo um lar alternativo e com “condições melhores”.
Acompanhando sua lista mental, decidiu que pegaria uma por mês, e seria o suficiente. Quando sequestrou a primeira, foi extremamente tranquilo. Olhou para a garotinha de cabelinhos curtos, sorriu e disse que era para ela esperar a mãe em sua sala. Quando a garotinha o obedeceu, ele colocou o pano molhado com a substância que a faria dormir e, pronto, a criança estava desmaiada em seus braços, longe do alcance das câmeras e de qualquer suspeita.
Nos fundos da escola, na quadra que estava sendo construída, os capangas que ficavam em seu encalço aguardavam-no. Ele levou a garotinha até lá, entregou-a para os brutamontes e voltou para dentro como se nada tivesse acontecido. Nos dois meses seguintes, foi feito o mesmo processo, e aí que tudo começou a complicar. A polícia se envolveu, não conseguiram encontrar nenhuma das crianças desaparecidas; pelo contrário, encontraram vários outros casos não resolvidos de sequestro – que, mais tarde, null soube terem sido culpa do mesmo traficante que o ameaçava.
Ao descobrir tudo, null preferiu embarcar naquela loucura em vez de pular fora e entregar-se de uma vez por todas. O dinheiro era bom, alto e em dólar – às vezes, até mesmo em euros. Conseguia manter sua casa de luxo, suas vontades e vícios, e a imagem de bom moço continuava, já que, vez ou outra, cedia entrevistas para jornais locais e fingia ajudar a polícia, sempre sustentando suas mentiras de forma profissional e sem furos.
— Você não acha que está na hora de parar? — null perguntou para o traficante certa vez.
— Não se para quando se está ganhando, null, você sabe bem disso — o homem soprou a fumaça do cigarro fedorento que fumava. — Quando vejo os ‘malotes’ de dinheiro entrando por aquela porta — apontou para a entrada da sala —, sinto que sou invencível. É a mesma sensação que você sente quando está jogando pôker e ganhando todas as rodadas. Lá, você se torna o dono da mesa. Aqui, eu me torno o dono do país, do continente como um todo. Ninguém nunca irá conseguir chegar aos meus pés, tampouco me pegar. Sou um vencedor, assim como você.
— É, faz sentido — deu de ombros. — Bom, preciso ir. Amanhã irei buscar a última encomenda.
— Você sabe que não será a última, null.
null sorriu de canto, sem demonstrar o mínimo de arrependimento.
— 30% do valor desta vez? — perguntou como quem não queria nada.
— 30% desta vez, null. Você tem a minha palavra.
A palavra de um traficante de crianças não deveria valer nada, mas, para null, naquele momento, valeu toda sua vida. Ele queria aquele dinheiro, e faria o que fosse necessário para tê-lo. Além de viciado em jogos e drogas, era viciado em dinheiro e adrenalina também.

Dias atuais — Pátio da escolinha.

— Eu queria estar solto agora só para quebrar essa sua cara — null murmurou, indignado, sentindo os olhos arderem em lágrimas após escutar tamanha crueldade.
— É mesmo, agente null? — null sorriu. — Solte-o, Zelda.
— Não sei se é uma boa ideia, cara… — o tal Zelda murmurou.
— Apenas faça o que estou mandando. Ele não tem como nos vencer. Na pior das hipóteses, você atira nele.
O brutamontes deu de ombros e agachou na frente de null, usando uma faca afiada para cortar a corda que prendia suas pernas, logo fazendo o mesmo com os pulsos.
null soltou um suspiro aliviado e ergueu-se da cadeira infantil de uma vez só, sentindo as costas doerem e estalarem alto. Só então percebeu que estava o tempo todo em uma cadeira três vezes menor que ele e que poderia simplesmente ter se jogado para o lado em um momento de distração dos capangas de null e tê-la quebrado ao meio.
No fim das contas, não se prendeu muito ao que poderia ou não ter feito, apenas focou em null e seguiu em sua direção, enxergando vermelho, tamanho era seu ódio. Estava cego, mas, no fundo, sabia que aquilo também era uma forma de ganhar tempo. Àquela altura, null provavelmente já estava nos arredores da escola com reforços e os responsáveis das crianças. Ele precisava distrair null ao máximo que conseguisse, já que null havia se calado por completo e sequer olhava para algo além das crianças, que choravam do outro lado, perto do segundo capanga.
Quando null desferiu o primeiro soco no rostinho perfeito e falso de null, a satisfação foi imediata. Entretanto, quando recebeu um de volta, não foi tão agradável assim. De qualquer forma, manteve-se firme e usou toda a força bruta que lhe restava, mesmo que o corpo doesse por inteiro, mesmo que os hematomas inchassem mais a cada soco de null que o acertava. Ele não podia se render e se permitir cair, jamais o faria nas mãos de alguém como null null.
Após alguns segundos, tudo em volta pareceu ficar em câmera lenta. null foi capaz de ouvir os sons de carros freando do lado de fora mesmo com o som da chuva, assim como ouviu a voz melodiosa e estrondosa de null ecoar pelo pátio inteiro. Ao mesmo tempo, sons de tiros se misturaram aos gritos ao redor, e null sentiu-se gelar, mas não poderia parar, porque sabia que null fugiria com o rabo entre as pernas – ele poderia ser um homem frio e calculista, mas jamais se renderia ao ponto de ser levado facilmente para a cadeia.
A voz de null continuava a ecoar, sempre dizendo para tomarem cuidado com os tiros, que as crianças estavam em meio ao fogo cruzado, além de null ainda estar amarrado. Foi um grande caos, um pandemônio, e, por um segundo, null achou que não conseguiria se livrar daquilo tudo, que null escaparia de suas mãos e iria embora, que ele desmaiaria de dor e fraqueza, que não conseguiria fazer justiça e recuperar as crianças que estavam largadas por aí. Com isso em mente, seus olhos encheram de lágrimas outra vez, e ele decidiu usar isso como sua fonte de força e foco, doando-se por inteiro naquele caso.
Com um impulso, rolou para cima de null novamente e segurou seu pescoço com as duas mãos firmemente, a fim de desestabilizá-lo por alguns segundos, o suficiente para seus amigos se aproximarem. Contudo, null era um homem alto e forte, com porte atlético e músculos marcados, o que o tornava ainda mais difícil de derrubar e apagar. No momento em que null pensou que perderia as forças, null enfraqueceu e não se debatia mais tanto quanto antes, e seus lábios estavam começando a tomar um tom arroxeado. Foi nessa hora que null sentiu-se ser puxado para trás e caiu sentado no chão, ofegante e confuso, tentando voltar para cima do bandido outra vez, mas null já o dominava e algemava, enquanto null sentia-se ser abraçado por alguém por trás.
— Shh, acabou, está tudo bem, as crianças estão salvas — a voz melodiosa e baixinha de null invadiu seus ouvidos, fazendo-o soltar um suspiro aliviado ao mesmo tempo que rendia-se às lágrimas.
Entre os braços do professor null null, a quem enganou durante meses e acabou por se apaixonar, o agente null null permitiu-se tremer e chorar de medo, susto e raiva. Os soluços eram altos e seu corpo tremia dos pés à cabeça, dando-lhe uma imagem precária e aterrorizante, o que era totalmente diferente do homem alegre e simpático que sempre parecera. null carregava medos e responsabilidades demais, isso era óbvio. Entretanto, naquela situação, jogado no chão, completamente machucado e descalço, era um homem comum como todos os outros, sem vestir sua máscara da felicidade e da imparcialidade, era apenas o null null, o cara apaixonado por dança e crianças, o ‘agente solitário’ em sua forma nua e crua. Como um ser humano; tomado por uma tristeza e alívio indescritíveis.
Mas ele não estava sozinho, não mais; tinha com quem compartilhar todas as inseguranças, medos e dúvidas acerca daquele caso – e não era null, seu companheiro fiel de vida e o agente mais próximo que teve de um parceiro. null mostrava-se como era entre os braços de null null, o pedagogo mais incrível que a Coreia do Sul teve o prazer de conhecer. O homem com quem compartilhou meses incríveis naquela escolinha infantil, além dos beijos doces e do sexo sensacional de poucas semanas atrás, o homem por quem se apaixonou cegamente quando, na verdade, deveria protegê-lo e manter-se distante o suficiente para não se envolver de maneira alguma, nem mesmo amizade – era antiético e irresponsável colocá-lo diante do tamanho perigo que era aquela missão.
— Desculpe — null sussurrou, virando-se para null devagar. — Eu não queria mentir para você, mas foi necessário.
— Está tudo bem, eu entendo agora — null sorriu de levinho, sentindo a bochecha doer devido às pancadas que levara. — Além do mais, também vacilei com você e devo desculpas. Eu jamais deveria ter tido a reação que tive dentro daquele armário. Você poderia ter nos salvado de maneira muito mais simples se não fosse por isso. Acabei permitindo que todos nós nos tornássemos alvos por conta de um capricho…
— Está tudo bem, eu também entendo o seu lado — null sorriu ainda de maneira triste. — Eu… Eu preciso ver se conseguiram localizar as outras crianças agora.
— Na verdade, você precisa de um médico. Acabou de ter uma crise nervosa e está todo machucado — null contrapôs. — null e seus outros amigos já estão tomando as rédeas do caso, e tenho certeza de que irão encontrá-las.
— Mesmo assim, null, o caso é meu e…
null não conseguiu finalizar sua fala, pois a boca de null logo tomou a sua em um selar casto e repleto de carinho e agradecimento. Estavam vivos – todos eles, incluindo as crianças, e era o que importava.
— Eu me apaixonei por você, agente null — null confessou baixinho, contra os lábios do policial, que permanecia de olhos fechados. — Não quero arriscar perdê-lo outra vez, então, por favor, apenas relaxe um pouco. Sei que é difícil! Mas seus amigos estão de cabeça nisso, você precisa descansar e se tratar.
— Céus, eu te amo… — null sussurrou, ainda sem abrir os olhos. — Eu te amo, null, muito!
null riu baixinho e balançou a cabeça negativamente.
— Eu também te amo, null. E acho que estamos indo rápido demais, mas não me importo. Eu te amo.
E, antes que null pudesse responder, null desequilibrou e caiu para o lado, sentindo dois corpos pequenos sobre o seu – igualmente pequeno. Não demorou muito para null cair logo ao seu lado, com três crianças sobre seus hematomas e arrancando-lhe gemidos de dor. Ainda assim, nenhum dos dois se incomodou com o ataque – apenas acolheram os pequenos que tanto amavam e que tanto haviam sofrido com toda aquela situação. Embora tivessem os rostinhos vermelhos e marcas de lágrimas nas bochechas gordinhas, as cinco crianças pareciam felizes por vê-los ali e por estarem nos braços dos professores favoritos.
— Titios, obrigada por nos salvar! — Minhae exclamou, empolgada, enquanto os outros amiguinhos (e o irmão) se aninhavam nos colos dos professores. — Nossos pais já chegaram aqui e agora nós vamos para casa tomar uma sopa bem gostosa!
— Aproveitem para tirarem umas férias e descansarem, vocês merecem depois de tudo o que passaram — null comentou enquanto se sentava com Jooheon e Hani em seu colo. — Vocês foram muuuuito fortes — esticou a sílaba, como sempre fazia com as crianças. — Os maiores heróis do mundo! Superaram o titio null, vocês deveriam ser agentes federais no meu lugar!
— Ah, titio, mas eu quero muuuuuito — Jooheon imitou o mais velho, prolongando a sílaba. — ser um policial, só para ser como você e o titio null! Meus heróis!
E a simples fala do garotinho foi o suficiente para null se debulhar em lágrimas novamente, sem ao menos se importar se seu chefe se aproximava com os pais das cinco crianças presentes. Continuou abraçado a elas enquanto chorava feito um bebê, e seu choro simplesmente triplicou quando null lhe disse as palavrinhas mágicas:
— Nós encontramos as outras crianças. As três daqui, todas dos casos antigos, e a outra equipe já está levando todas para fazerem exames e tomarem os devidos cuidados. A missão está cumprida, agente null, graças às suas investigações e determinação para com este caso. Estamos todos muito orgulhosos de você e sua equipe, meus parabéns!
null sequer conseguiu agradecer coerentemente, apenas ficou de pé, ainda com as crianças em seu encalço, e fez uma reverência perfeita de 90º para seu superior e os familiares dos alunos.
— Muito obrigado, senhor — sussurrou enquanto secava as lágrimas.
— Pais, me desculpem por todo o transtorno, fico feliz que todos nós estejamos bem. Prometo que faremos o possível para deixar seus filhos sempre seguros — null começou um tanto sem jeito, por ainda encontrar-se em um estado tão deplorável. — Em breve, buscaremos por um novo diretor, e prometo que iremos avaliar toda sua vida, nos mínimos detalhes.
— Não há pelo que se desculpar, null-ssi — o pai de Jooheon começou. — Foi uma fatalidade. Não vou negar que fiquei preocupado e quase tive um surto, mas consigo entender que é algo que foge do controle da escola. Não tínhamos como saber que o diretor era o responsável por todo o caos, porém, fico grato em saber que irá avaliar bem o próximo candidato à direção da escola.
— Inclusive, temos uma sugestão — a mãe de Hani disse de maneira firme, observando a filha, que ainda estava agarrada ao professor e tinha os olhinhos arregalados. — Eu também trabalho na área da justiça, então pretendo entrar junto à equipe de null na luta contra esses marginais. E acredito que não há ninguém melhor que o senhor, null-ssi, para o cargo de diretor desta escola.
— Eu? Não, claro que não! Sou apenas um professor.
— Um professor muito dedicado e com um currículo incrível — a mulher rebateu. — E, como se não bastasse, ainda arriscou sua própria vida pelas nossas crianças. O mínimo de segurança que merecemos é alguém como o senhor neste cargo. Pense com carinho. Sequer precisará parar de lecionar, já que é o único que cuida das crianças com deficiência. Nós podemos conversar sobre isso com a equipe docente daqui a algumas semanas, não precisa dar uma resposta de imediato. Apenas pense a respeito, e voltaremos a conversar quando se recuperar.
Após dizer isso, a mulher sorriu e pegou a filha no colo. E, quando null se deu conta, suas crianças já estavam longe, adentrando os carros dos responsáveis sãs e salvas, felizes e sorridentes. Óbvio que nada seria aquele mar de rosas e todos passariam por avaliações médicas para saberem como estavam física e psicologicamente, mas, ainda assim, as crianças estavam bem. E eles também.
— Nós formamos uma dupla e tanto, null — null murmurou, olhando ao redor.
— Pois é — null respondeu, sorrindo e entrelaçando seus dedos aos do policial. — Quem diria, não é? Agora serei seu parceiro oficial em todas as missões.
— É, vai ser legal e eu não serei mais o ‘agente solitário’ da delegacia.
— É, nem vai ser o agente solteiro, também.
— Isso é um pedido de namoro em meio ao caos?
— E se for, vai dizer que sim?
— Aí você vai ter que fazer o pedido oficialmente para saber.
— Agente null null, você aceita ser meu eterno parceiro de aventuras e meu namorado?
— Sim, professor null null, eu aceito.
E, mesmo que ainda chovesse forte naquela noite atípica de primavera, lembrando-os constantemente de tudo o que viveram nas últimas horas, permitiram que as bocas se encontrassem de maneira carinhosa e harmoniosa.
É, formavam uma dupla e tanto.


Fim



Nota da autora: Sem nota.





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