CAPÍTULOS: [01] [02] [03]




Última atualização: 05/07/2017

Capítulo 1


largou a mochila no chão e se jogou de costas no sofá, se permitindo respirar pausadamente por alguns minutos, por mais que estivesse acostumada com o caminho longo até a escola era inevitável o cansaço de fazer ele correndo. Levantou a contragosto, sabendo que não estava com tempo de sobra, afinal ninguém mandara perder a hora enquanto conversava após a aula, e foi até a cozinha da casa. Sabia que o irmão não faria companhia no almoço então não se preocupou em colocar para cozinhar nada além de um macarrão instantâneo, o que ficou pronto em poucos minutos e a garota pôde deixar esfriando em um prato enquanto corria para o quarto. Tirou a camiseta e calça que estava vestindo, jogando em cima da cama, e trocou o tênis por um chinelo antes de ir para o banheiro. Se limpou em poucos minutos, cantarolando uma música qualquer enquanto se enrolava na toalha e voltava para a cozinha pronta para almoçar, deixando o prato limpo sem cerimônias.
Lavou a louça suja, escovou os dentes e enfim começou a se arrumar, uma de suas horas preferidas no dia, sendo considerado por ela seu ritual pessoal. Deu play no aparelho de som velho do quarto, fazendo uma melodia alegre ecoar pelo ambiente, e iniciou a primeira parte. Já com as peças íntimas no corpo, deslizou a meia ¾ listrada pelas pernas e colocou um short de malha claro, sobrepondo-o depois com a saia colorida de bolinhas vermelhas. Puxou a regata branca do armário e a vestiu, botando o suspensório vermelho da saia no lugar e finalizando com a gravata borboleta amarela. Passou a mão pelas roupas e pegou uma caixa de madeira antes de sentar na beirada da cama e se preparar para a segunda parte de seu ritual.
Tirou a tampa e puxou o espelho arranhado de dentro, podendo visualizar os potinhos de tintas e os dois pincéis desgastados, pegando um deles e abrindo alguns potes. Fez os primeiros traços coloridos na lateral dos olhos, se mantendo concentrada e as mãos firmes para não errar — não que precisasse de muito esforço, depois de tanto tempo os pincéis deslizavam com destreza por sua pele —, e marcando a parte superior das bochechas com coraçõezinhos e pequenas estrelas. Marcou a boca e os cantos de vermelho, deixando um sorriso sincero acompanhar o desenho, finalizando a maquiagem com glitter em algumas partes do rosto e encarando seu reflexo satisfeita. É, cada dia ficava melhor naquilo. Partiu para a última parte, agradecendo mentalmente pelos cachos e fios volumosos estarem mais comportados naquele dia, separou-o em duas partes, colocando cada uma no alto de um lado da cabeça e amarrando com fitas azuis, permitindo depois que as mechas negras caíssem por seus ombros e a franja sobre a testa.
Guardou a caixa e pegou o par de sapatos oxford preto e branco, provavelmente o objeto mais conservado e amado pela garota — tinha um carinho especial por ter sido um dos únicos presentes que ganhara em toda sua vida —, calçou-os e se avaliou por completo, acenando em aprovação pela rapidez e eficiência de sua arrumação. Puxou a bolsa de tecido do canto do quarto e partiu casa afora, respirando o ar fresco de mais uma tarde e começando a trilhar seu caminho. Considerando que era o início de mais uma semana, teria que ir para a praça principal do setor comercial, o que a dava uma caminhada de pelo menos meia hora, um dos vários malefícios de se morar no subúrbio, mas nada que não estivesse mais habituada, não poderia se dar ao luxo de gastar seu dinheiro com transportes quando conseguiria se virar com seus próprios pés.
Aproveitou o tempo para apreciar o céu azul e observar a movimentação das pessoas na rua, principalmente o último, considerando que gostava de estudar suas vidas e criar histórias hipotéticas delas. Porém não era algo que podia fazer com tanta frequência, a maioria das pessoas começavam a observar antes, alguns se deixando levar por sua aparência e soltando sorrisos e acenos — principalmente as crianças, o que a fazia sorrir mais sincera e radiante ainda.
Se deixou levar e quando percebeu já estava em seu lugar da praça, o mais movimentado e espaçoso, o que a dava certo orgulho por tê-lo conseguido mesmo levando em consideração a maneira com que fizera. Parou em um “x” imaginário, o ponto exatamente na frente do chafariz velho e com a vista para o resto da calçada e vias principais. Botou a bolsa no chão, retirando um chapéu coco preto, colocando a alguns passos à frente, quatro claves brancas e uma pequena bolinha vermelha. Deu alguns pulos para aquecer, colocou a bolinha no nariz e um sorriso no rosto, enfim começando mais um espetáculo.



se jogou no sofá com a caixa de pizza no colo e apreciou a vista da janela panorâmica de seu apartamento enquanto comia, deixando a mente descansar naqueles segundos e esquecer todas as obrigações pendentes da aula mais cedo. Finalizou o que seria seu almoço e se encaminhou com calma até o quarto, parando para conferir as horas e seguindo para um banho. Por mais que soubesse que tinha que fazer todos os trabalhos atrasados, de alguma forma se sentia sufocado demais naquela segunda para continuar em casa, e nada melhor do que aproveitar a tarde para fotografar. Aproveitou a água gelada correndo pelo corpo por alguns minutos e se encaminhou para o closet com a toalha presa à cintura, deixando um rastro de pingos pelo chão do quarto. Vestiu uma roupa simples e calçou seu tênis preto, parando em frente ao espelho grande para se estudar, finalizando com um passar de dedos pelo cabelo que, por mais que muitos contradissessem, considerava um pentear tão adequado quanto o com o pente. Espirrou um pouco de perfume pelo pescoço e peitoral e saiu do cômodo, pegando carteira, celular e câmera no caminho e seguindo para fora do apartamento.
Chamou o elevador e sentiu o celular vibrar enquanto esperava. Sacou-o e abriu a nova mensagem, seguindo para dentro do cubículo que havia chegado. Fez uma pequena careta ao ler as palavras de Becca o intimando a encontra-la mais tarde, mas concordou na resposta, sabendo que não adiantaria negar, a amiga provavelmente apareceria em sua porta na hora pronta para o arrancar debaixo das cobertas e arremessar longe a caixa com o resto de pizza. Hesitou por alguns segundos ao escolher o andar em que desceria, mas se decidiu em fazer seu caminho a pé, apertando o botão de térreo e saindo para o hall do prédio ao chegar no lugar. Acenou para o porteiro, provavelmente o único funcionário simpático dali, e saiu para a rua calma de sua quadra, consequência de estar concentrada em um dos bairros mais caros da cidade. Não era algo que orgulhasse , mas foi a opção mais simples que conseguira achar entre todas as disponibilizadas por seus pais, e a única que se manteria em um espaço silencioso sem deixar de estar próxima ao centro.
Deixou que seus pés o conduzissem sem rumo fixo, sempre correndo seus olhos pelos pequenos detalhes do ambiente em busca de algo digno de um clique. Por mais que fotografasse eventos, sua grande paixão era a fotografia urbana, aquela que mostrava a realidade, as pessoas em seu dia-a-dia, os pequenos gestos e os diferentes cotidianos. Era ali, no coração da cidade, com pessoas esbarrando nele e andando por toda parte, com barulhos diferentes a cada segundo que se sentia completo. Bom, pelo menos uma parte, a sensação de que não estava sozinho já era suficiente para afastar alguns pensamentos inoportunos, mesmo que não conseguisse preencher o vazio que o incomodava tantas vezes. Ali ele conseguia respirar verdadeiramente sem se preocupar com os olhares críticos das pessoas que ele tanto tentava afastar, ali ele era só mais alguém com uma história qualquer vivendo mais um dia normal.
Deixou que seu olhar treinado por tantos anos encontrasse ângulos e cenas perfeitas, criando dezenas de fotografias. Algumas horas depois, após várias paradas em ruas diferentes, havia finalmente chegado na praça principal, continuou caminhando pela calçada sem deixar de prestar atenção nas coisas ao redor. Por mais que passasse poucas vezes por aquele lugar, consequência de andar tanto de carro e ser caseiro, gostava de tudo no ambiente, desde as árvores até os banquinhos de madeira que acolhiam todos que precisassem. Nada mudara desde que fora ali pela primeira vez, apenas as pessoas.
estava pronto para contornar o chafariz, principal e única construção dali, e ir embora quando a viu. Seus olhos correram para o ponto sem que percebesse e permaneceram lá pelos próximos segundos. Ele não sabia se era a grande variação de cor em um único lugar no meio de tantos tons opacos, ou a maneira com que ela arremessava as claves para o céu, mas não conseguiu desviar a atenção por um tempo considerável, e provavelmente continuaria ali por mais se não fosse pelo telefonema de Becca. Deu uma última olhada na palhaça à sua frente, sem conseguir ver seu rosto com detalhes, e seguiu seu caminho de volta para casa com um sorriso involuntário no rosto e uma sensação de que, de alguma forma, aquela moça não sairia tão cedo de sua cabeça.

Capítulo 2


A garota jogou o chapéu, que guardava algumas notas e moedas, na bolsa e a pendurou no ombro. Ainda respirava com um pouco de dificuldades, malabarismo somado à interação com as pessoas durante horas seguidas era algo realmente cansativo, mas nada que conseguisse tirar o sorriso do rosto de . Aliás, da Palhaça Narizinho. A partir do momento que a tinta cobria seu rosto e a bolinha vermelha estava em seu nariz, a transformação acontecia e era muito mais que física. A garota sentia que naqueles momentos não havia nada da vida de ali, apenas uma artista com história própria. Há quem dissesse que era efeito de sua dedicação, mas ela acreditava em algo maior, era seu amor pela arte que a guiava institivamente para sua personagem de modo que conseguia se tornar ela de fato.
Finalmente mais uma noite chegava e ela podia ir para casa descansar. Caminhava em passos lentos pelas ruas sem realmente prestar atenção nas coisas ao redor dessa vez, queria apenas deixar a mente relaxar por alguns minutos. Passou por mais duas quadras e parou em frente à pequena sorveteria da esquina, conseguindo ver seu irmão através da parede de vidro. Deu duas batidas com o nó dos dedos e viu Andrew acenar para ela e fazer sinal de que já estava indo. Seu irmão era apenas três anos mais velho e era responsável por cuidar dos dois e levar grande parte da renda para dentro de casa desde três anos atrás, já que os trocados que ganhava no dia a dia nem sempre eram suficientes. Andy se dividia em trabalhar de segunda a sexta na Ice Dream, sorveteria de George — um antigo amigo da família que cuidava deles sempre que podia —, e nos fins de semana nos sinais e ruas como o Pipoca, o malabarista que se apresentava sobre um monociclo.
era muito agradecida por Andy ter conseguido um emprego com George, afinal era dali que saía quase todo o sustento deles e sempre que quisesse podia ir tomar sorvete de graça lá — essa era a sua parte preferida —, mas ficava triste em saber que o irmão colocava seu amor pela arte em segundo plano para viver uma parte da vida que nunca quisera, era um sacrifício feito pelos dois e que também pesava sob seus ombros. As vezes a garota queria pegar essa responsabilidade toda para si apenas para deixar que Andrew se entregasse à arte como faziam quando criança, mas o orgulho e cuidado dele jamais permitiria que sua irmãzinha ficasse em seu lugar.
— Desculpa a demora, hoje o movimento foi tenso. — ele disse ao sair do prédio e abraçá-la de lado, depositando um beijo em seus cabelos.
— Tudo bem. — ela respondeu simples, sorrindo com o abraço e passando o braço pela cintura dele enquanto começavam a andar pela calçada.
— E como foi seu dia? — ele perguntou, encarando-a de relance.
— Muito divertido! Consegui brincar com muitas crianças e adultos que passaram pela praça e na vez que errei o malabarismo um senhor muito simpático me ajudou a pegar as claves que haviam caído no chão, e até puxou conversa comigo. — ela respondeu, deixando o sorriso preencher seu rosto com a lembrança da tarde ainda em sua mente. Escutou uma risada baixa ao seu lado e encarou Andy em questionamento.
— Parece ter sido bem melhor que o meu, Narizinho. Mas, agora, me diga como foi o seu dia, . — ele puxou a bolinha vermelha do nariz da irmã, enfatizando seu nome, vendo-a ficar tímida por um segundo e morder o lábio antes de responder. Andrew sabia muito bem a capacidade e alegria que ela tinha em poder viver uma outra pessoa, mas em certas horas ele só queria sua ali ao seu lado.
— Foi legal, consegui me divertir nas aulas e na rua, mas preciso dizer que estou cansada. Acabei perdendo a hora mais cedo e tive que fazer tudo correndo, mal sobrando tempo pra respirar. — ela deu de ombros sem ligar muito para os contratempos. — Mas isso não atrapalhou a parte boa, eu realmente fiquei contente com a tarde da Narizinho. E o seu dia, Andy?
— Mais do mesmo. — respondeu desanimado.
— Quantas vezes vou ter que dizer que não é pra ser assim? Cada dia é diferente, basta a gente enxergar o que tem de novo. — ela arqueou a sobrancelha, se virando e ficando de frente para ele, o forçando a parar. Pousou as mãos nos ombros do mais velho e o incentivou com um sorriso divertido. Desde pequena, era uma amante da vida, dessas que sabe aproveitar todas as oportunidades e momentos sem deixar se abater com os obstáculos. Ela sabia que ver as coisas dessa maneira fazia a vida valer mais a pena, e muitas vezes ela tentava convencer as pessoas ao seu redor a seguir o seu exemplo. — Vamos, faça um esforço e encare com um novo olhar.
— Certo. — Andrew se rendeu, conhecia a caçula bem o suficiente para saber que ela não desistiria enquanto não desse a resposta que ela queria. Fechou os olhos, se concentrando e repassando imagens das horas anteriores em sua mente. Deu um sorriso de lado e voltou a encará-la, havia encontrado algo. — Essa sua visão otimista de tudo sempre tem razão... Vejamos, hoje, diferente dos outros dias, eu encontrei uma pessoa muito simpática e bonita que me salvou do serviço chato durante algumas horinhas.
— Que pessoa? — ela perguntou rápido, voltando a andar e prestando atenção no chão sem querer demonstrar toda a curiosidade.
— Uma garota.
— Que garota? — ela o encarou por alguns segundos, mordendo o lábio inferior ao ver o sorriso de lado do irmão.
— Uma garota um pouco mais velha e bonita que nem você que tinha um papo legal e se dispôs a conversar sobre coisas bobas comigo enquanto tomava um milk shake. — ele tentava reprimir um riso, o olhar que o lançava deixava claro o ciúme que ela tentava esconder. — O nome dela é Isabelle. Se um dia acontecer de vocês estarem ao mesmo tempo na Ice Dream, eu as apresento.
— Hm...Tudo bem. — brincava com uma mecha do cabelo sem querer olhar a expressão de Andy, ela sabia que ele conseguia ver seu ciúme, mas não o admitiria. Por mais que fosse natural sentir isso, afinal ele era a pessoa mais importante em sua vida, se sentia incomodada com o sentimento, preferia a emoção de ver a felicidade do primogênito do que o receio de que Andrew amasse mais alguém além da caçula e seus pais.
— Mas então, você está realmente muito cansada ou nossa programação da noite ainda está de pé? — ele mudou de assunto, percebendo o desconforto da menor e sorrindo ao ver ela o encarando sapeca. Os dois subiram o degrau de entrada da casa e passaram pela porta.
— Me dê quinze minutos e estarei pronta. — deixou os olhos brilharem ao lembrar do que haviam combinado e correu para o quarto a fim de tomar um banho, deixando qualquer resquício de cansaço ir embora e escutando a gargalhada alta do irmão de longe.



tirou o cartão de memória da câmera e colocou no notebook, copiando todas as fotos daquela tarde. O dia estava realmente bonito e tudo pareceu conspirar a seu favor, tanto que conseguira fazer mais fotografias do que pretendia. Colocou tudo em uma pasta e abaixou a tela do computador, deixando a cabeça pender para trás e apoiar no sofá. Seus pensamentos vagavam entre uma busca por uma desculpa convincente o suficiente para impedir Becca de o tirar de casa naquela noite e a lembrança das pessoas que vira mais cedo, principalmente a artista da praça. Lembrou de quando era criança e como amava ir aos grandes espetáculos circenses e de como os palhaços eram seus preferidos, sempre conseguindo transformar qualquer coisa boba em algo engraçado. De alguma forma, encontrar aquela garota depois de tanto tempo sem contato com esse tipo de arte fez com que sua armadura construída nos últimos anos houvesse aberto uma brecha e permitido que o Raphel criança se encantasse com ela ali.
Ele continuaria divagando por mais longos minutos se não fosse o barulho da campainha soando pelo apartamento. Bufou baixo já imaginando quem estaria detrás da porta. Andou em passos lentos até a entrada e girou a maçaneta, dando de cara com uma mulher de longos cabelos e sorridente. Becca.
— Chegou um pouco cedo, não? — ele perguntou, apoiando o braço na porta e fazendo uma careta pra ela.
— Oi pra você também, . E não, não estou adiantada, na verdade você que está atrasado como sempre. — ela rolou os olhos, passando por baixo de seu braço e adentrando o apartamento sem preocupações e se jogando no sofá. Arrumou a barra do vestido e encarou o amigo com a sobrancelha erguida ao ver que ele ainda estava no mesmo lugar. — Vai se arrumar logo! E nem adianta tentar me passar a perna porque eu só saio daqui com você pronto para curtir a noite comigo.
— Intimidade é uma droga. — ele rolou os olhos, fazendo-a gargalhar e seguindo para o quarto para se arrumar.
Rebecca era provavelmente sua única amiga, ou pelo menos a única em que confiava e que ainda mantinha contato frequente. Os dois se conheceram no início do colegial e desde então levavam a amizade pra frente, mas claro que grande parte da intimidade e companheirismo que tinham era consequência da insistência de Becca, sempre aparecendo de surpresa em seu apartamento ou o arrastando para qualquer programa que o fizesse sair de sua rotina monótona. Muitas vezes se incomodava com isso, era muito bem conformado com seu estilo caseiro e com o fato de seus passatempos serem assistir filmes e trabalhar em fotos, mas no fundo gostava do jeito da amiga e ficava agradecido por ela não desistir dele.
Becca era assim, quando gostava de alguém fazia de tudo para que ela aproveitasse tudo e curtisse sem preocupações, assim como ela levava a própria vida. Mesmo tendo a mesma idade, ela era muito mais autossuficiente e independente, desde cedo corria atrás daquilo que queria e jamais se deixava desanimar na primeira queda. Seu jeito firme em agir e pensar intimidava muita gente, mas era um dos poucos que conseguia enxergar através de sua armadura, assim como ela o enxergava. Provavelmente por isso ele se sentia tão à vontade quando estavam juntos, por mais que Becca conhecesse cada parte de sua vida, não insistia em assuntos que ele não gostava ou o forçava a enfrentar coisas que não queria. A amizade deles era leve e divertida, estavam um ao lado do outro para quando precisassem e não viam necessidade de provar isso a todo instante, era muito melhor aproveitar o tempo juntos de outros jeitos.
se arrumou o mais rápido que conseguiu e seguiu de volta para a sala, penteando os cabelos e carregando o tênis. Se jogou no sofá ao lado da amiga e começou a calça-los.
— Tá todo cheiroso, ein. — Becca disse divertida, dando uma piscadela e fazendo-o ficar com vergonha.
— Você também não fica pra trás. — ele disse, olhando para a garota e acenando positivamente com um sorriso de lado.
— É, caprichei hoje. — ela respondeu simples, dando de ombros e fazendo ele gargalhar. Ela levantou do sofá ao ver que ele havia terminado de se calçar e começou a caminhar para a entrada do apartamento. — Vamos logo, quanto mais cedo chegarmos mais tempo teremos para aproveitar.
— Você ainda não disse para onde vamos. Aliás, não disse nada, né? Só você pra querer sair em plena segunda feira. — ele respondeu, abrindo a porta para que saíssem e fechando quando pararam no corredor.
— Não precisamos de um dia certo para nos divertir. — Becca deu de ombros, entrando no elevador e apertando o botão da garagem. — E eu não disse mais porque sabia que quando você soubesse que nosso destino é a Magic Night ia inventar mil e umas desculpas para não ir.
— Becca! Eu já disse que não gosto desse lugar. — ele bufou alto, encostando o corpo na parede de metal e encarando sério a amiga. — Por que você insiste em ir pra lá?
— Ai, , não começa com seu estresse. Você sabe que eu amo os drinks de lá. — ela rolou os olhos sem paciência. — Eu que não sei por que você insiste em ir para outro lugar.
— Porque toda vez que chegamos lá você se joga com tudo nesses drinks e me esquece no primeiro minuto, aí eu sou obrigado a passar a noite inteira sozinho e esperar você chegar de algum buraco que tenha se enfiado pra poder ir embora. — ele respondeu, cruzando os braços e saindo rápido do elevador ao chegar no andar.
— Aaaah, é por isso? — ela perguntou em um tom de quem havia finalmente entendido algo, começando a rir depois, o que só fez com que a expressão no rosto do amigo se fechasse mais ainda. Apressou o passo para chegar ao seu lado e passou o braço sobre os ombros dele, em um abraço de lado. — , eu prometo que dessa vez não vou sair do seu lado, tá? Mas, por favor, tira esse bico da cara e vamos aproveitar de verdade.
Ele parou ao lado do carro e se virou para a amiga, encarando a cara pidona dela e deixando o rosto relaxar em uma risada. Era impossível ficar com raiva de Becca por muito tempo. Abriu a porta do carro e disse antes de entrar, a ouvindo dar um gritinho animado.
— Sorte sua que eu estou de bom humor hoje, entra aí antes que eu desista dessa Magic Night.



— Pegou a garrafa lá na pia? — a garota perguntou enquanto saía pela porta dos fundos da casa carregando um cobertor grosso e duas almofadas nos braços.
— Sim, senhora! — Andy ergueu a mão que segurava a garrafa térmica, seguindo a irmã pelo quintal e carregando mais duas xícaras e um livro.
A caçula seguiu caminhando e parou em frente a uma pequena construção no fim do terreno. O aposento era do tamanho de um quartinho e tinha as partes externas das paredes pintadas por traços de todos os tipos, inclusive era possível até ver algumas marcas de mãos espalhadas pelo espaço — resultado de uma tarde divertida com a família reunida, muitas latas de tintas e poucos pincéis. esperou o irmão a alcançar para tirar uma chave única do bolso da calça de flanela e coloca-la na fechadura da porta, a destrancando e passando para o lado de dentro.
Um cheiro doce preencheu seus pulmões ao entrar no local e automaticamente reconheceu o perfume de sua mãe, que de alguma forma ainda estava impregnado no ambiente mesmo depois de três anos. Seguiu em passos lentos pelo quartinho e se sentou no colchão fofo no centro do espaço, olhando cada detalhe do quarto — tanto as fotografias coladas nas paredes quanto os dois únicos móveis, uma cadeira de balanço e um banquinho que servia de apoio para o abajur — enquanto Andy se aproximava e se sentava ao seu lado. Cada vez que entrava ali, sentia um aperto no coração pela nostalgia que a atingia ao lembrar de todas as noites que passara ali com sua família. O quarto fora presente de seus pais para seus cinco anos, no início era seu cantinho de leitura e brincadeira de todos os dias, mas com o passar do tempo e com a constante insistência em sempre arrastar os pais e o irmão para o lugar acabou se tornando algo maior. Durante a semana, os quatro se reuniam ali sempre nas noites para conversar, comer pipoca, ensaiar apresentações ou até ficarem deitados espremidos no único colchão apreciando o céu estrelado pela grande claraboia do teto.
Quando seus pais resolveram voltar às origens e ir embora com o circo, a coisa que os irmãos mais sentiam falta era as reuniões que faziam no quartinho. Então, para tentar contornar a saudade e não deixar a tradição morrer completamente, os dois passavam todas as noites de segunda feira no cômodo, lendo um dia por vez do diário deixado pela mãe enquanto bebiam chocolate quente.
— Pode ir encontrando onde paramos enquanto eu sirvo as xícaras. — Andy estendeu o livro para a irmã, pegando a garrafa com a bebida.
pegou o objeto e folheou as páginas com delicadeza, parando ao encontrar o marcador. O cuidado que tinham com o diário era maior do que com qualquer outra coisa, ali estavam os anos de vida circense de seus pais, o romance deles e todo o cotidiano durante a construção de sua família. se alegrava só de passar os dedos nas palavras, era a maneira mais fácil de voltar aos seus anos mais felizes. No topo da página a data marcava a história da vez, fazendo a garota suspirar ao reconhecer o dia de seu aniversário de sete anos e sorrir ao lembrar, mesmo que superficialmente, dos acontecimentos. Pegou a xícara de chocolate quente e se deliciou com um gole longo, sentindo o calor adocicado a preencher por dentro e se surpreendendo mais uma vez com o talento do irmão de preparar tão bem a bebida.
Se acomodou com sua almofada e esperou Andy fazer o mesmo antes de se inclinar levemente sobre as páginas e iniciar mais uma leitura.
Querido Diário, hoje, mais uma vez todas as luzes dos palcos se apagam e toda a plateia se cala diante do brilho nos olhos e do grande sorriso da minha pequena. Ela, como em todos seus aniversários, está radiante. — leu as primeiras linhas, não contendo o sorriso grande em seus lábios e as lágrimas no canto dos olhos. Sentiu um beijo na bochecha e um aperto leve no ombro, se virando para encarar Andy, que a olhava divertido.
— Seja forte, ok?! Ainda temos algumas páginas pela frente e se você começar a chorar agora vamos levar a madrugada inteira nisso. — ele falou em tom brincalhão, dando uma piscadela e a vendo concordar.
— Certo. Isso em meus olhos foi só um cisco. Vamos continuar. — ela respondeu, arrancando uma gargalhada do irmão com sua tentativa de ficar séria. Respirou fundo, controlando o riso e voltou para a leitura, sem querer atrapalhar toda a programação da noite. — completa seus sete anos hoje e nos faz questão de lembrar isso a cada dez minutos, provavelmente em busca de alguma pista sobre que horas seu presente irá aparecer. É, ela é esperta o suficiente e soube na mesma hora que havíamos conseguido comprar algo maior este ano, porém o que ela não sabe é que todos do circo aparecerão hoje para a comemoração da minha palhacinha. Mal posso conter minha ansiedade e Andy não ajuda muito me perguntando a cada minuto a que horas todos chegarão. Tenho que me lembrar de jogar uma almofada na cabeça de Frederic mais tarde, bendita ideia essa de contar para seu filho, a criança mais elétrica da cidade, sobre a surpresa...



se espremia pela multidão, sendo puxado pela mão de Becca e tentando chegar até o bar do outro lado da pista de dança. Já sentia o arrependimento de ter cedido tão fácil ao pedido da amiga só de sentir sua mente pulsar ao som alto do ambiente e cada parte do seu corpo ser empurrada a cada passo que dava. Ele se sentia até surpreendido em ver que, diferente do que pensava, várias outras pessoas eram despreocupadas como a amiga e não viam problema em festejar no início da semana. Respirou fundo ao chegar ao balcão, agradecendo mentalmente por estar mais vazio e conseguir se mexer sem acertar alguém acidentalmente.
— Brian! — Becca se apoiou no balcão e chamou o barman, e amigo dela, com um sorriso no rosto. Viu o moreno se virar e sorrir de volta, se aproximando dela enquanto servia uma bebida na taça.
— Rebecca, meu amor! Achei que não ia mais voltar aqui, faz tempo que não te vejo. — ele entregou a bebida para o homem ao seu lado e parou em sua frente, começando a preparar outro drink, sem deixar de prestar atenção na mulher.
— Estava meio ocupada. O importante é que estou aqui e que quero o meu de sempre bem caprichado! — ela respondeu animada, se virando para por um momento. — Você vai beber o que?
— Pode ser o que for mais fraco, não posso exagerar hoje, tenho aula amanhã cedo. — ele falou alto próximo ao ouvido da amiga para conseguir ser ouvido, recebendo um rolar de olhos de volta.
Ouviu-a pedir mais uma bebida de nome diferente à Brian e esperou ela se despedir com as duas taças na mão para pegar o seu e a puxar para o canto mais calmo do pub, onde haviam alguns sofás. Escolheu um dos que não estavam ocupados e se sentou, sendo seguido pela amiga.
— Nós não vamos passar a noite aqui parados, né? — ela perguntou em um tom quase retórico, erguendo uma das sobrancelha em uma expressão de desafio.
— Eu sempre fico aqui, qual o problema? — deixou uma risada escapar ao ouvir a amiga bufar ao seu lado.
— Eu prometi que não sairia do seu lado, mas não falamos nada sobre onde ficaríamos. — ela deu de ombros, bebendo um gole do drink. — Assim que acabarmos a bebida, vamos para a pista de dança.
— Vou começar a economizar nos goles então, com sorte essa taça dura a noite inteira. — ele rolou os olhos, sentindo um tapa em seu braço.
— Nem começa, . Se fosse pra você ficar assim eu nem tinha te arrastado comigo. Bebe logo isso aí e vamos curtir a noite pra valer. — a loira pegou a taça do amigo, colocando em sua mão e empurrando sem muita delicadeza em direção ao seu rosto. Não tinha muita paciência para o temperamento de , mas sabia que conseguia ser chata o suficiente quando queria para que ele cansasse de relutar e a seguisse.
Ele apenas ignorou as reclamações da amiga e se perdeu analisando o ambiente ao redor, deixando a mente sonhar com sua cama confortável e sua pilha de filmes ainda não assistidos, porém voltou à realidade ao escutar a voz de Becca aumentar, mesmo não conseguindo prestar atenção ao que ela dizia. Só se concentrou de fato ao sentir seu corpo ser puxado e ver que estava sendo guiado para a pista de dança. Até tentou reclamar e voltar mais alguns passos, mas o olhar raivoso da amiga foi o suficiente para que desistisse — provavelmente esse era o preço por a ter ignorado nos minutos anteriores —, o que colocou um sorriso grande nos lábios da loira no mesmo instante. respirou fundo e deixou seu corpo se mexer devagar, totalmente dessincronizado com a música, se esforçando em não sair do pub e tentar fazer valer a pena por alguns minutos ter saído de casa.

Capítulo 3


atravessava os portões da escola sem prestar atenção às coisas ao seu redor, o sono ainda estava impregnado em todo o seu corpo e só chegara até ali graças a seu modo automático. Os primeiros minutos depois que acordava era provavelmente os únicos em que não se mantinha animada. Passou pelo corredor cheio de alunos e foi direto para o pátio detrás do prédio, avistando de longe uma garota descansando a cabeça no ombro de um garoto, sentados em sua mesa de sempre. Se aproximou em passos lentos e se sentou no banco à frente dos dois.
— Bom dia, amigos. — cumprimentou com um sorriso pequeno, jogando a mochila na mesa e apoiando os braços em cima.
— Só você pra ver “bom” em um dia em que temos que estar de pé antes das oito da manhã. — Callie respondeu sem humor, mantendo os olhos fechados. Ela não era de se alegrar durante a manhã, mas não havia problema, a animação no resto do dia compensava. Cah era sua amiga desde que começara a estudar naquela escola, foi a única a se aproximar da garotinha nova de roupas simples e coloridas — sem contar o nariz de palhaço sempre presente na mochila. Tinha um apreço muito grande por ela e poderia defende-la de qualquer ser humano ruim que aparecesse.
— Oi, . Como vai? — Nich perguntou simpático. Ele era mais tranquilo do que Cah, dizia que era consequência de todo o estresse que botava para fora em casa. Nem todos os pais aceitavam bem a homossexualidade. Nicholas foi o último a completar o trio, apenas três anos atrás, mas sua naturalidade e lealdade o tornava uma espécie de amigo de infância. Era sempre uma boa opção para buscar consolo e bolo de chocolate.
— Bem e com muito sono, fui dormir tarde com Andy ontem. — respondeu enquanto apoiava a cabeça nas mãos.
— Mais uma noite de nostalgia? — ele sempre se referia assim à sua programação de segunda-feira.
— Sim, com direito a algumas lágrimas até. E você, como está?
— Me recompondo da noite de ontem. — ele ergueu uma das mãos, mostrando os nós dos dedos roxos e com alguns cortes.
— Oh céus, Nich! Briga de novo? — se afobou, levantando o rosto de uma vez e pulando para o lado do amigo. — Não me diga que é o mesmo motivo?!
— Não é como se eu tivesse escolhido por isso... Meu pai já não é dos mais fáceis, quando chega bêbado em casa a coisa toda só piora. — ele deu de ombros passando desinteresse, mas mantendo toda a chateação no olhar.
— Nessas horas tenho vontade de colocar em prática todos os golpes que aprendi pra tirar à força esse preconceito da cabeça dele. — bufou, franzindo as sobrancelhas. Poderia se manter positiva em todas as horas, mas se havia algo que conseguia expor seu lado bravo era quando faziam mal àqueles que amava, não havia quem a chamasse de nesses momentos.
— Sei que não adianta pedir mais uma vez, mas não se preocupe tanto com isso, certo? Essas coisas não se resolvem, então apenas me faça distrair e alegrar como você faz tão bem. — ele a puxou para um abraço de lado, sorrindo fraco. Era até irônico que ela quem estivesse recebendo conselhos naquele momento.
— Você é maravilhoso, sabia?
— É, costumam me falar muito. — ele respondeu convencido, arrancando uma gargalhada da amiga.
— É impressão minha ou o Nich fica cada dia menos humilde? — Cah se intrometeu na conversa, mantendo um sorriso brincalhão no rosto.
— Opa, parece que a bela adormecida já está pronta para conversar e agir socialmente. — ele alfinetou de volta, dando um leve empurrão em seu braço com o ombro.
— Sei que vocês amam ficar se provocando, mas acho que precisamos ir pra sala. — se levantou, puxando a mochila e apontando para as saídas de som de onde ecoava o sinal.
— E que comece a tortura. — Cah resmungou, rolando os olhos e seguindo os amigos pelo corredor.
— Pelo menos não veremos o Sr. Benvic hoje. — ela respondeu, dando de ombros.
— Senhoras e senhores, e seu otimismo. — Nicholas brincou, fingindo a apresentar para uma plateia imaginária, arrancando risos das duas e fazendo a mencionada corar tímida.



tentava manter os olhos abertos desde a primeira aula, sabia que o professor falava algo importante, mas a dor de cabeça e o sono acumulado graças à noite anterior o estavam consumindo. Becca fizera o favor de não querer ir embora antes do pub estar mais vazio e ainda o dera um trabalho considerável em ser colocada na cama em segurança e sem vômito nos cabelos. Teve a impressão de conseguir descansar os olhos por apenas cinco minutos antes do despertador berrar ao seu lado.
Mas, de nada adiantaria ter levantado cedo se não conseguisse prestar atenção nas próximas horas, então foi rapidamente ao banheiro e jogou água gelada no rosto, valia de tudo para acordar. Voltou para a sala a tempo de encontrar o Sr. Becker explicando sobre seu temido trabalho. O homem vinha colocando pressão nos alunos sobre isso desde o início do semestre e podia sentir sua dor de cabeça aumentar a cada vez que entendia um pouco mais do que teria que fazer.
— Como futuros comunicadores é necessário que vocês aprendam a se relacionar como tal com as pessoas, é na prática que irão aprender de fato o que passo aqui durante as aulas. — Becker explicava, sentado na beirada de sua mesa. Parecia incrivelmente novo para um profissional com um currículo tão grande quanto o seu e deixava sua juventude visível em todas suas ideias mirabolantes. — Para esse trabalho principal eu quero que vocês, individualmente, escolham um assunto de cunho social e preparem um conteúdo jornalístico bem elaborado, usando o aprendizado das aulas durante toda a produção. Prestem bastante atenção no tema, não quero matérias sobre coisas banais, quero inovação e algo que nos faça refletir de verdade. Para isso vocês precisarão fazer o que eu disse de início, sair da zona de conforto e praticar. Conversem com pessoas, conheçam novas histórias e quando chegar em sua decisão partam para a parte trabalhosa. Optem por aquilo que tiverem mais facilidade e deem o seu melhor, seja em uma matéria, documentário ou uma entrevista por escrito. Me surpreendam. Vocês têm um mês para me entregar pronto.
Seus dedos se moviam rápido, batucando a caneta no canto do caderno e transparecendo seu nervosismo. Escutava alguns cochichos dos colegas, variando entre reclamações e ideias para seus trabalhos, o que o deixava mais perdido. Sabia que um mês seria pouco para preparar tudo, então quanto antes conseguisse escolher seu tema melhor seria, mas provavelmente levaria boas horas para se decidir. Além do mais, dificilmente seguiria os conselhos do professor em buscar novos contatos, mal conseguia manter os poucos que tinha, apenas pensar na hipótese de encarar uma pose sociável o deixava desanimado.
Sr. Becker seguia com a explicação de assuntos que os ajudaria durante a produção, mas não conseguia se concentrar, sua mente martelava furtivamente atrás de qualquer ideia. De início havia se decidido em fazer um vídeo, não largaria sua paixão por lidar com imagens para redigir um texto e assim teria mais espaço para as ideias fluírem. Mas era apenas uma das tantas decisões que precisaria tomar nos próximos dias, e pensar nisso só o fazia querer desistir cada vez mais.



Arremessava as claves para cima sem desviar o olhar por um segundo e mantinha-se concentrada em continuar o malabarismo por mais um minuto. As pessoas passavam ao seu redor como borrões, apenas alguns se mantendo parados por um tempo e se deixando levar por sua apresentação. Seus braços já reclamavam de dor e as pernas estavam cansadas, porém não permitia que isso se transparecesse em sua expressão, o sorriso e os olhos brilhando ganhavam destaque maior. Lançou mais alto a última clave e a pegou com destreza no ar antes de se curvar em agradecimento, ainda que só pudesse ouvir uma única palma. Ergueu a cabeça, observando com atenção ao seu redor e vendo que o som vinha da única pessoa parada próxima de si. Os olhos pequenos espremidos pela bochecha por conta do sorriso denunciavam a alegria da garota por estar ali. sentiu o coração palpitar ao reconhecer a dona dos dreads embrenhados em um coque e da jardineira jeans surrada. Mesmo a uma distância considerável poderia identificar Emily e seus pés sempre descalços.
Jogou as claves em cima da bolsa no chão e apertou os braços ao redor do corpo magro da amiga quando a mesma se jogou em cima dela. Conseguia ouvir e sentir a risada de Mily contra seu pescoço, a fazendo acompanhar em uma gargalhada.
— Nem posso acreditar que você apareceu. — afastou o corpo da menor com delicadeza, encarando cada parte sua como se conferisse que nada estava fora do lugar. Sentia a saudade acumulada saindo em formato de lágrimas, que ficaram presas no canto dos olhos, e a fala cada vez mais rápida. — Como você está? O que aconteceu nesse tempo? Alguém te fez algum mal? Me responde logo, Mily!
, assim não consigo nem respirar. — Emily indicou com a cabeça as mãos da amiga que a sacudiam de leve e rapidamente. Soltou uma risada fraca antes de acabar com a angústia da palhaça. — Eu estou bem, muitas coisas aconteceram e posso responder todas as suas perguntas, mas pensei da gente conversar com calma...
— Claro! Desculpe, não consegui me controlar. — tirou a franja dos olhos e respirou fundo, indicando o banco próximo a si antes de responder. — Só mais uma hora e vou embora, espera sentada ali e você vai comigo pra casa.
— Tudo bem. — a amiga respondeu, sentindo o olhar da outra acompanhar cada passo seu. Virou de relance e falou alto. — Não se preocupe, não vou fugir.
confirmou em um aceno e tentou se concentrar nas brincadeiras que fazia com as pessoas que passavam por ali. Mas, entre palhaçadas e sorrisos deixava seu olhar seguir até o banquinho apenas para confirmar que Emily continuava sentada no mesmo lugar. E a cada vez falhava em desviar os olhos para outro ponto antes que a amiga percebesse e começasse a rir. Não era culpa sua se ficava preocupada a este ponto, nada seria assim se a amiga não tivesse agido de maneira irresponsável meses atrás. Sentia o coração apertar só de lembrar do momento em que Emily arrumou a mala improvisada e deixou e Andy relutantes para trás.
Desde o momento em que se conheceram na rua, os três criaram um laço muito forte, como se a garota fosse a segunda irmã dos dois. Porém, por muitas semanas ficaram sem saber como era a vida de Mily além da cantora de rua que viam todos os dias, até um final de semana comum onde a garota apareceu tremendamente machucada na porta dos dois pedindo por ajuda. Só ali souberam que amiga passava a noite em uma casinha abandonada e o resto do dia vagando e trabalhando pela cidade. Estava até tudo bem para ela, pelo menos até um grupo de homens a expulsarem à força da casa e tomarem conta do espaço, restando a ela apenas seu violão velho e as roupas que vestia.
Na época, e Andrew nem hesitaram em abrigá-la em casa e cuidar da menor como se fosse da família. Não foi por falta de insistência dos dois que Emily não passou mais que um mês com eles, ela dizia que não nasceu para ficar em um lugar só e que não poderia abusar da boa vontade dos amigos por mais tempo. Então, não pestanejou em um dia juntar suas coisas e seguir o seu caminho. A semana seguinte foi difícil para os irmãos, não recebiam notícias nenhuma da amiga e não conseguiam a encontrar nas ruas. Só semanas depois receberam uma carta entregue por um senhor, que amenizou um pouco a preocupação, eram notícias de Mily de que estava bem e que havia encontrado um canto temporário e mais confortável do que o antigo.
Desde então não tivera mais notícias da amiga, apenas o reencontro de minutos atrás e meses depois de sua partida. Então, não se envergonharia de estar sendo meio paranoica e continuaria checando a amiga de minutos em minutos. Havia até se tranquilizado mais quando o céu começou a escurecer e ela guardou suas coisas na bolsa. Estava pronta para chamar a amiga e correr para casa e a encher de perguntas quando viu um garoto sentado ao lado de Emily. Os dois pareciam conversar, ainda que ele tivesse uma expressão assustada no rosto e Mily o encarasse séria. Se aproximou em passos largos do banco e pousou a mão no ombro da amiga antes de a chamar.
— Podemos ir, acabei por hoje. — falou baixo, sentindo o olhar do garoto em si e tentando não o encarar diretamente.
— Tudo bem. — Mily concordou, levantando do banco e lançando um olhar sério ao garoto antes de puxar a amiga pelo braço e começar a andar, restando a apenas dar de ombros e se deixar ser levada.



Quando saiu de casa queria apenas distrair a mente, antes que ficasse louco de tanto pensar no trabalho, passara cerca de três horas seguidas sentado em frente a uma folha em branco, tentando ter alguma ideia — não deu certo. Então, não estava nos seus planos reencontrar a palhaça do dia anterior e parar para observar ela um pouco mais de longe. E, definitivamente, não estava nos seus planos ser pego de surpresa por uma garota brava ao seu lado.
— Quem é você e porque não parou de encarar ela desde a hora que sentou aqui? — a garota perguntou de supetão, se virando e o encarando séria. Sua sobrancelha franzida e os olhos focados tiravam a inocência de sua expressão e ajudavam a deixar mais assustado.
— Que? — foi a única coisa que saiu de sua boca, o que apenas intensificou seu papel de desentendido/garotinho assustado e fez com que ela o encarasse com os olhos semicerrados.
— Eu percebi que você não desviou o olhar da minha amiga um segundo sequer desde que chegou aqui. Você conhece ela? Porque se não conhece e está tramando alguma coisa acho melhor dar o fora, eu não tenho medo de bater em você. — ela gesticulava rápido e se aproximava cada vez mais, deixando-o sem saída.
— Olha, não sei se você tem algum problema ou não, mas eu apenas estava assistindo a apresentação dela. — conseguiu responder antes de ver de relance que a palhaça já guardava suas coisas.
— Bom mesmo, estou de olho em você. — ela se limitou a responder, parando segundos antes de ser chamada pela amiga.
Só então conseguiu ver o rosto da artista. Os olhos castanhos eram destacados pela tinta colorida e a boca grande estava pintada de vermelha. Talvez pelos inúmeros corações espalhados pela bochecha ou pelo nariz de espuma vermelho, mas a garota tinha um ar tão encantador que prendeu o olhar de sem que ele ao menos notasse. Ainda sentiu o peso de um olhar ao seu lado, provavelmente da mais brava, mas ignorou e deixou o seu acompanhar a palhaça se distanciando com seus cabelos volumosos, o deixando para trás com uma sensação estranha.
Ele levantou depois de alguns minutos tentando filtrar todas aquelas informações e seguiu para o caminho de casa. Não sabia se foi por causa da mente estar tão ocupada ou se realmente havia caminhado rápido, mas quando se deu conta já estava entrando em seu apartamento. O ideal seria encontrar tudo no lugar em que havia deixado antes de sair, mas os sapatos na entrada e as luzes acesas fugiam do esperado.
Não se sentiu surpreso ao encontrar o homem mais velho sentado em uma postura reta no sofá, segurando um jornal na altura dos olhos. Os cabelos loiros e os traços do rosto denunciavam a ligação paterna do homem com , provavelmente as únicas coisas que os mantinham próximos.
— É sempre bom contar com você pra invadir minha casa quando não estou. — não se preocupou em ser educado, não era a primeira vez que reclamava das vezes em que o homem passava por cima de sua privacidade.
— Vejo que está de bom humor hoje. — Eric deixou o jornal de lado e deu espaço no sofá para que o filho sentasse ao seu lado. — Espero que entenda que essa é a única maneira que encontrei de conseguir conversar com você sem que arranje desculpas antes.
— O que você quer? — perguntou sem cerimônias, não negaria o que o pai havia acusado, mas não estenderia aquela conversa por mais que o necessário. Era sempre assim. Os dois se encontravam, diziam o que queriam e iam embora.
— Estou aqui pela sua mãe, então já deve imaginar qual o assunto. — o homem respondeu, passando a mão nos cabelos grisalhos e soltando um suspiro ao perceber que o filho bufava baixo.
— Vou facilitar as coisas então. Não, eu não vou aceitar o emprego da empresa de vocês independente do acordo que vocês queiram me ofertar. Já disse várias vezes e repito que, pelo menos o meu emprego eu quero ser responsável por conseguir. Sem contar que eu saí de casa justamente por não aguentar a farsa de vocês por perto, não vou voltar para a mesma bagunça. — despejou tudo de uma vez, sem delicadeza ou raiva em sua voz, apenas botou pra fora aquilo que queria que os pais entendessem há tanto tempo.
— Não seja tão radical, . Você sabe que eu e sua mãe conseguimos conviver bem com o nosso acordo e se estamos insistindo nisso é porque queremos apenas o melhor pra você. — Eric deixava a tristeza transparecer em sua voz, sua esperança de se aproximar do filho novamente parecia cada vez mais longe. Era um esforço que vinha fazendo desde o divórcio com sua ex-mulher, mãe de Raphel, e que desgastava a relação dos dois mais em toda tentativa.
— Estou apenas sendo sincero e você sabe disso. Agora, se não tem um assunto diferente pode ir. — respondeu, se levantando do sofá e indo em direção à porta do apartamento.
— Você nunca facilita. — o pai bufou baixo frustrado, se encaminhando para a saída e parando no vão da porta e encarando o filho por alguns minutos. Suspirou cansado e deixou as palavras no ar antes de sumir no corredor. — Não se deixe cegar por traumas que você mesmo criou, . Nós te amamos muito e estaremos sempre esperando de braços abertos o nosso menino de volta.
bateu a porta com força e se jogou no sofá com os pensamentos a mil. Era sempre assim quando ele aparecia. Era sempre assim quando ela também aparecia. E por mais que se sentisse arrependido pela forma que agia minutos depois, a ferida e o orgulho eram maiores. Arremessou uma almofada na parede, tentando botar para fora o turbilhão de pensamentos que passavam por sua cabeça, mas de nada adiantou. Precisaria mudar de foco e pensar em outra coisa.
Passou o olhar pelo ambiente e parou na folha em cima da mesa mais à frente. Respirou fundo e deixou que uma ideia que passara mais cedo em sua mente fosse colocada no papel. Poderia ser arriscado, mas algo dizia que valeria a pena, nem que fosse para ver aquele rosto de perto mais uma vez.

Continua...



Nota da autora: Olá, pessoas! Finalmente mais uma att e agora com outros personagens novos, além de um quase primeiro encontro oficial dos nossos pps. O que acharam dos amigos da pp? E essa treta de família do pp? Aproveitem os comentários para deixar as opiniões, dúvidas, choros e xingamentos. Agora com as férias os capítulos entrarão com mais frequência (eu espero hehe) e prometo que não demorará muito para esses dois se conhecerem de fato haha. Qualquer coisa a mais me grita no twitter (@_justsah) que tô sempre por lá. Beijos de luz e até a próxima att!




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