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Última atualização: 27/05/2020

Prólogo

PHILIP


Mais um dia comum estava para começar, conforme eu podia observar pelo fecho de luz que invadia meu quarto, atingindo meus olhos e me fazendo acordar antes mesmo que algum criado o fizesse.
Se eu não estava enganado, minha agenda hoje reunia compromissos como: treino de luta, aula de políticas internacionais, aula de mandarim, almoço com o Grã-Duque de Luxemburgo, estudo de guerra e ensaio para a coroação. Os dois últimos compromissos me davam arrepios só de pensar. Pensar em guerra nunca foi algo que gostei muito, ainda mais ter que estudar as táticas de guerra, pontos fracos e fortes dos países vizinhos e das nações que são consideradas um risco pelos nossos conselheiros; preferia sempre tentar uma saída mais pacífica, sem derramamento de sangue e desperdício de vidas, o que de acordo com o meu pai era uma bobagem. Ainda não entendia por que Caroline não podia ser a rainha, ela era a filha mais velha e perfeita, a que tinha gosto por liderar e aprender sobre política internacional e guerras, ela que deveria estar tendo que passar pelos ensaios infinitos para a coroação. Mas como ela é mulher e uma mulher nunca poderia ser rainha de Mônaco, na mentalidade do meu pai e seus conselheiros, eu que era submetido à agenda da tortura, diariamente divulgada pela senhora Dots, praticamente minha assistente pessoal.
Um barulho à porta me fez levantar levemente meu corpo da cama, sentindo protestos de meus músculos, pelas poucas horas de sono.

- Pode entrar - falei preguiçosamente, desejando poder fingir que não ouvi nada e voltar a dormir.
- Bom dia, alteza. Deseja que prepare seu banho? - uma de minhas criadas, de voz gentil e sorriso simpático, perguntou, assim que a porta de meu quarto foi aberta.
- Por favor.

Pouco tempo depois, meu banho estava preparado e eu pude relaxar um pouco na banheira. Sendo logo vestido, novamente, pelos meus criados, e conduzido à mesa de café da manhã, onde uma Dots bem agitada me esperava.
- Bom dia, senhora - a cumprimentei, assim que a minha presença podia ser notada no salão - Por favor, me diga que considerou meu pedido de ontem? - olhei-a com minha melhor expressão de criança que quer algo, esperando que ela me permitisse sair escondido do castelo ao menos um pouco naquele dia.
Sei que sair escondido implica em ninguém saber, mas não havia como fazer nada sem a senhora Dots saber e era bem melhor saber que ela estava me dando cobertura a sair em sigilo e correr o risco de meus pais descobrirem.
- Sinto muito, alteza, mas hoje o castelo todo está fechado, ninguém entra ou sai, isso inclui o senhor - ela disse levemente ríspida e pude perceber que a razão de sua agitação não era boa - A família real recebeu outra ameaça do partido democrata ontem, portanto seu almoço de hoje com o Grã Duque foi cancelado e Naigel o acompanhará em todas suas atividades - ela me encarou como quem diz "por favor, não apronte nada" e eu apenas concordei com a cabeça.
Quando se é da família real, ameaças são recebidas a todo momento, o perigo é quase constante, por isso temos tantos guardas e seguranças particulares. Mas as ameaças do partido democrata são mais perigosas pois usam o clamor popular como aliado, defendendo uma Mônaco sem monarquia e com representantes eleitos pelo povo; inflamam as massas a ponto de nos deixarem extremamente preocupados com uma tentativa de derrubada da coroa impulsionada pela ajuda popular. Minha irmã Caroline é quem tem a missão de tentar contornar a situação, se mostrando uma realeza presente em eventos sociais oficiais, dialogando com os democratas e tentando conseguir seu apoio para a monarquia, mas até ela sabe que isso é algo difícil de conseguir, ainda que seu talento para debates e conquista de aliados pelo diálogo seja sem igual. Fato é que nos últimos meses, cada nova ameaça que recebemos deles, o número de guardas aumenta e a quantidade de cabelos brancos nas cabeças da senhora Dots e Naigel, meu principal segurança particular, também.
Após a rápida conversa com a senhora Dots, ela se retirou do salão para que eu pudesse tomar meu café em paz. Porém, minha fome subitamente sumiu e apenas fiquei brincando com os alimentos no meu prato, antes de ser conduzido por Naigel para a sala de treinamento.

Treinar sempre foi um alívio para a minha mente, a sensação de poder focar apenas nos meus exercícios, esquecendo de todos os problemas político-sociais do reino brevemente, sempre foi algo que adorei. Enquanto treinávamos lutas corporais, eu conseguia me recordar de todos os golpes e técnicas que estudei por anos, conseguia montar uma estratégia em minha mente e derrotar meu oponente rapidamente, quase sempre.
- O que acha de treinar comigo hoje, alteza? - ouvi Naigel dizer, enquanto envolvia meus pulsos com faixas e os equipamentos de treino e me preparava para o início do exercício.
- Achei que não fosse permitido, Naigel.
- Sempre podemos abrir exceções - ele sorriu brincalhão e eu entendi que aquilo seria uma forma dele saber se eu estava preparado para me defender em caso de uma ameaça contra a qual ele não pudesse me fazê-lo sozinho.
- Eu não vou pegar leve com você só porque é meu amigo, Naigel - brinquei, já me encaminhando para a arena de combate e me posicionando.
- Não esperava menos do senhor, alteza - Naigel riu, se desfazendo de sua arma e deixando-a junto com parte de seu uniforme em um dos cantos externos da arena e assumindo uma posição de combate como a minha.
Tentei dar o primeiro golpe, assim que percebi que Naigel esperava que eu o fizesse, porém, logo fui bloqueado por ele e recebi um golpe na costela como resposta ao meu golpe fracassado.
- O senhor está distraído, alteza, e isso afeta sua técnica de combate - Naigel falava, enquanto continuávamos na nossa troca de golpes.
- Estou pensando o que aconteceria se a monarquia fosse derrubada pelos democratas - respondi, enquanto deferia-lhe um golpe, que finalmente o acertara.
- O senhor perderia seu trono, o trono para o qual se preparou toda a vida, para o qual nasceu.
Para o qual nasceu. Sim, realmente, eu nasci para aquele trono, porque quando minha mãe, a rainha Charlene, deu à luz a uma menina, ela logo soube que precisaria dar ao reino outro herdeiro, um homem, para que a monarquia da família pudesse continuar. Então eu tive que nascer, o príncipe Philip Eduardo Rainier Grimald, ou simplesmente Philip de Mônaco.

O combate acabou com uma vitória de Naigel, graças às suas incríveis habilidade de combate. Mas pude perceber que não foi uma vitória fácil, pelo estado que ele ficou, quase tão cansado quanto eu.
- O senhor está cada vez melhor, alteza, é uma honra treinar combate com o senhor - Naigel falou, entre respirações profundas, enquanto voltava a colocar seu uniforme completo e guardava sua arma.
- Obrigada, Naigel - apenas agradeci, enquanto criados me secavam e me vestiam para poder sair da sala de treinamento e dar continuidade à minha agenda do dia.

Com Naigel e sua equipe à minha volta, saí da sala de treino, em direção à sala de aula. Estávamos quase chegando, quando um estrondo pode ser ouvido, sendo seguido por uma fumaça densa e pelas estruturas do castelo tremendo.

Uma bomba.

- Fechem o círculo, mantenham posições, protejam o herdeiro - ouvi Naigel gritar a seus guardas, enquanto me sentia ser conduzido às pressas para algum lugar - Marcos, Paschoal, comigo, Nina e Alberto, achem a rainha e fiquem com ela. - as ordens de Naigel continuavam sendo proferidas, enquanto subíamos uma escada. Logo, Nina e Alberto se retiraram às pressas, me deixando apenas com os três guardas.
- Senhor, estamos com a rainha. O rei e as princesas estão a salvos e escondidos, estamos indo para o ponto de encontro - ouvi o rádio de Naigel anunciar a mensagem, que a julgar pelo tom de voz deveria ser de Nina.
- Entendido. - Naigel repondeu, segurando a arma com uma mão, sempre alerta, e o rádio em outra.
Eu ainda não conseguia imaginar onde poderia ser o ponto de encontro, mas confiava em Naigel com a minha vida, então apenas seguia seus comandos e direcionamentos sem questionar.
Outro estrondo pode ser ouvido e mais uma vez senti a estrutura do castelo tremer sob meus pés. Meu corpo inteiro estava arrepiado e eu podia observar pelo conto do olho a expressão de tensão nos rostos de Naigel e Paschoal. Marcos era o que parecia menos tenso, caminhando à frente e checando se nosso caminho estava seguro.
De repente, entendi por quê. Com um clique, Marcos destravou sua arma e mirou em meu peito, assim que chegamos em frente a uma porta que dava para o telhado do castelo.
- Abaixo à monarquia! - o ouvi dizer antes de disparar e apenas pude sentir ser jogado para o lado com força.
Cai no chão pouco antes da bala atingir a parede que estava atrás de mim segundos antes. Segundos depois Naigel estava me levantando às pressas, enquanto eu observava Marcos ser contido por Paschoal. Era quase impossível acreditar que eu havia acabado de sofrer um atentado!
Naigel atravessou às pressas a porta, comigo ainda sendo levemente puxado. No telhado havia um helicóptero já em condições de levantar voo e próximo a ele minha mãe, cercada por 6 guardas com pistolas nas mãos e um olhar assassino.
- Marcos era um agente infiltrado, acabou de ser contido por Paschoal, após tentar assassinar o herdeiro, está na hora de levá-lo - Naigel falava às pressas, enquanto minha mãe apenas concordava, com um pouco de pânico em sua expressão.
- Me levar? Como assim? Para onde? - minha cabeça ainda girava, sem conseguir lidar com tantos acontecimentos em tão pouco tempo, mas eu ainda conseguia processar um pouco o que estavam falando à minha volta.
- Me desculpe, filho. Deveríamos ter protegido mais você, seu pai está extremamente arrependido. Mas você precisa ir, precisa se manter seguro por nós e por você, pelo seu reinado. Confie em Naigel, ele irá protegê-lo a todo custo - minha mãe falava rápido, enquanto me abraçava e me entregava um papel pequeno e duro, uma foto de toda nossa família no último Natal.
- Não, eu vou ficar e lutar, resistir como vocês, treinei muito para isso - eu falava rápido também, enquanto me desfazia de seu abraço, para encará-la.
- Queria que esse dia nunca chegasse... - ela disse apenas, antes de ser arrastada para dentro do castelo novamente e de eu ser conduzido para dentro do helicóptero.
- É para a sua segurança e a de sua família, alteza - Naigel disse, antes de fechar a porta do helicóptero e decolarmos. - Voltaremos quando for seguro. Até lá, irei protegê-lo com minha vida.


Capítulo 1

PHILIP


Durante todo o percurso, para sabe-se onde eu estava indo, enchi Naigel de perguntas, eu precisava saber o que aconteceria com minha família, meu país e comigo. Descobri eu Naigel era de uma agência secreta, especializada em proteger a realeza, não importasse o quão perigoso fosse. Ele me garantiu que minha família ficaria segura, enquanto eu ficasse, pois apesar de meu pai ser o rei, o foco do partido democrata era eu, o futuro da monarquia, então, desde que eu ficasse em segurança, meus pais lidariam com a situação e ficariam bem, garantindo minha coroa e a segurança de todo meu reino.
Apesar de Mônaco ser uma pequena cidade-estado independente, conhecida pelos cassinos de luxo, pelo porto repleto de iates, pelo prestigiado Grande Prêmio de Fórmula 1 e por Monte Carlo, para mim ela sempre foi meu pequeno reino, o local ao qual eu deveria proteger com minha vida, meu destino. Eu me sentia responsável pelas quase 40 mil vidas que lá habitavam, além, claro, dos inúmeros turistas. Por isso, ter que sair quase como um foragido de lá, deixando meu reino e família para trás, era um sofrimento sem igual. Eu me sentia capaz de lutar e proteger a todos, fora para isso que treinei toda uma vida. Porém, entendo a preocupação de meus pais: nossa família que fundou Mônaco, que esteve em seu governo desde sempre, a família Grimaldi, responsável por governá-la e por fazer praticamente tudo, desde a criação de leis até a entrega do troféu do Grande Prêmio de Mônaco de Fórmula 1. Era extremamente necessário proteger a monarquia, proteger as futuras gerações e nossos direitos. Afinal, o que seria de nós sem a monarquia? Como manter a paz, o luxo e o turismo de Mônaco sem ela? Não consigo imaginar uma Mônaco democrática sem derramamento de sangue, prejuízos econômicos e um governo caótico.
- Chegamos, alteza – ouvi Naigel anunciar, assim que o helicóptero pousou e desligou seus motores. Suspirei profundamente, me agarrando ainda mais à foto entregue por minha mãe, saindo do helicóptero logo em seguida.
- Onde estamos exatamente, Naigel? – perguntei, assim que olhei ao redor e não consegui reconhecer nada que já havia estudado.
- Na sede de minha agência, alteza, preciso receber novas instruções. – Naigel respondeu, caminhando até uma porta que eu podia jurar não estar ali dois segundos atrás.
Percebi que ele falou algo para o nada, assim que chegamos à porta e ela logo abriu, provavelmente sendo controlada por voz. Entramos em uma espécie de elevador, onde Naigel apertou o botão C, e logo chegamos a um andar onde várias pessoas andavam com pastas ou tablets em mãos, falando umas com as outras em códigos. Frases como “princesa 137 retirada com sucesso”, “príncipe 869 a caminho, chegando em 15 horas” eram ditas a todo momento; aquele pessoal me fazia questionar se havia realmente apenas 28 monarquias existentes no mundo atual.
- Bem-vindo, agente Naigel – uma mulher o cumprimentou, assim que nos avistou. A julgar pela expressão de Naigel, deveria ser a chefe dele – Bem-vindo, alteza – ela me cumprimentou com um aperto de mão firme, como de quem sabe a posição que tem e se sente confortável em exercê-la – Relatório da missão?
- A extração teve contratempos, mas fora realizada com sucesso. O príncipe 54 está aqui para receber nova identidade e ser realocado.
Nova identidade? Realocação? Que diabos estava acontecendo ali? Eu tinha entendido que precisaria apenas me esconder. Agora teria que assumir ser outra pessoa?
- Sentimos muito pelo ocorrido, alteza. Mas, como pode ver, temos uma excelente estrutura para auxiliá-lo a lidar com isso – a chefe de Naigel disse, se voltando rapidamente para trás, com o braço estendido, mostrando todo seu pessoal e instalações – Por aqui, por favor – ela começou a andar e imaginei que Naigel e eu tínhamos que segui-la, mas ele fez sinal para que fosse, acho que a etapa seguinte eu precisaria lidar sozinho.
- O que acontece agora? O que seria essa “nova identidade”? – perguntei à chefe de Naigel assim que a alcancei.
- Agora, meu príncipe, iremos fornecê-lo roupas novas. – ela começou a me responder e no mesmo instante olhei para as minhas vestimentas. Não que minha roupa de treino fosse meu melhor look, mas eu não me sentia com a necessidade de trocá-la – Além de fornecê-lo um novo corte de cabelo, para que fique o mais irreconhecível possível, quando for realocado.
Eu apenas concordava com a cabeça, pensando em como eu não pude prever nada disso quando acordei de manhã. Queria poder voltar algumas horas e reclamar que meu único problema era o fato da senhora Dots não ter me deixado sair e explorar minha cidade.
- E quanto tempo eu precisarei seguir com todo esse plano? Fingir ser outra pessoa, ficar longe de minha família e povo? – perguntei a única coisa que me importava no momento.
- Isso é relativo, alteza. Mas até ser seguro voltar, depois que os democratas forem contidos ou presos, pelo atentado à família real, e nenhum outro risco à sua vida for encontrado. – Quase ri, mesmo sabendo que seria grosseria. Quando se é da realeza, não ter risco à vida é impossível, sempre haverá um risco, um possível ataque, uma possível guerra, nunca estamos 100% seguros. Acho que ela percebeu minha descrença em sua fala, pois logo a complementou – Voltará quando nenhum risco iminente à sua vida for encontrado, ao menos nada com que não possamos lidar.
Continuamos andando e eu observava atentamente cada um dos espaços que percorríamos. A sede era bem completa, com ambientes tanto para a realeza quando para agentes. Possuíam salas de tiro, de combate, salas com inúmeros monitores e pessoas, provavelmente de onde controlavam tudo. Durante o percurso, observei algumas pessoas que destoavam do estereótipo de agentes, provavelmente sendo pessoas da realeza, já que algumas eu conseguia reconhecer, como o herdeiro do trono da Inglaterra, o príncipe George de Cambridge.
- Chegamos – a mulher que eu acompanhara anunciou, me fazer observar melhor o cômodo à minha frente. Algumas pessoas estavam sobre uma espécie de plataforma, sendo observadas por alguns agentes, enquanto outras estavam em cadeiras, com um agente cortando seus cabelos. Seriam eles todos membros da realeza sobre ataque? – Esse é o príncipe 54, por favor cuide dele – a mulher disse a um dos agentes que estavam próximos a uma das plataformas e ele apenas concordou com a cabeça, antes dela se retirar.
- Por aqui, alteza – o rapaz sorriu e me guiou a uma das plataformas.

***

Após algumas horas, eu finalmente estava pronto para a realocação, eu acho. Havia recebido roupas novas, totalmente diferentes das que eu estava habituado, bem como sapatos e um penteado com um tpete baixo e meio ‘despojado’, que eu precisaria treinar melhor como fazer e deixá-lo no lugar. De acordo com Naigel, ele conseguira autorização o suficiente para que eu pudesse ficar com ele em sua casa, não necessitando, assim, ser transferido para abrigos em países como Groelândia e Russia ou algum país desértico.
Segundo ele, eu iria para o Brasil, para uma cidade do interior do estado de São Paulo, com cerca de 90 mil habitantes (mais que o dobro da população de Mônaco!) e temperaturas variando entre 13 °C e 31 °C. Realmente seria uma mudança e tanto, principalmente em relação ao clima. Espero que meu português não esteja enferrujado!
A chefe de Naigel havia entregue ao rapaz responsável pela minha transformação uma pasta com a minha nova identidade, que ele logo me informara, assim que terminara todo meu processo de ‘novo visual’. Eu seria , estudante de relações internacionais.

Enquanto estava com Naigel em um avião particular, indo para sua casa, eu não sabia direito o que pensar ou fazer, minha mente divagava sobre tudo, sentindo falta de minha família, desejando que tudo acabasse logo, querendo conhecer minha nova realidade logo... enfim, eu não sabia com o que lidar primeiro.
Busquei no bolso de minha jaqueta a foto de minha família e a observei mais uma vez; já havia perdido as contas de quantas vezes o fizera naquele único dia. Todos sorriam, felizes pelo fato de estarmos juntos, unidos em mais um Natal, tudo ia bem para nós e para Mônaco, então nunca imaginaríamos que as coisas iam chegar ao ponto que estão.
- Sei que sente falta deles, mas não poderá falar com eles, ok, alteza? Seria muito perigoso e poderia expor todo seu disfarce – Naigel me dava as últimas instruções de todo o processo para a vida nova e eu apenas concordava – Espero poder ajudá-lo a lidar com tudo, conte comigo e minha filha para o que precisar – ele sorriu, me fazendo pensar que deveria ser um pai incrível, ausente, mas, ainda sim, incrível.
- Você tem filha, Naigel? Como nunca me contou? – perguntei curioso pelo fato dele trabalhar para nós há tantos anos e eu nunca ter descoberto isso.
- Sim, alteza, ela se chama . É linda e extremamente gentil, adora ajudar as pessoas, especialmente as crianças. Você vai gostar dela, possuem quase a mesma idade – ele sorriu bobo, confirmando ainda mais minha teoria do paizão que deveria ser.
- E como ela lida com tudo isso? Quer dizer, com o fato de você estar sempre viajando para proteger a realeza?
- Ela sabe de tudo, então entende e sabe que meu trabalho é importante, é minha parceira. Além de que sempre foi muito independente, então não tivemos problemas com isso.
- Estou ansioso para conhecê-la – sorri, enquanto minha mente tentava imaginar como seria a filha de Naigel. A julgar pela sua descrição, seríamos bons amigos.

Acabei pegando no sono no voo, sendo acordado por Naigel assim que pousamos. Ainda teríamos algumas horas de viagem, mas essas seriam feitas de carro.
Quando finalmente chegamos à casa de Naigel, uma menina de quase a minha idade veio correndo abraçá-lo, pulando em seu pescoço.
- Oi, sou – sorri assim que senti aquele par de olhos espertos e gentis sobre mim e ela pareceu ficar pálida.


Capítulo 2



PARA MUNDO QUE EU QUERO DESCER!

Quando meu pai me contou, ainda criança, sobre seu trabalho e como ele era importante, eu acreditei, claro, era criança. Quando cresci, ainda acreditava um pouco, achava legal ter um pai agente secreto, ainda mais morando no Brasil (Ahá! Estados Unidos, vocês não são os únicos com agentes espalhados pelo mundo!), mas odiava o fato dele ter que viajar tanto.
Agora, dizer que eu esperava que um dia um dos protegidos de papai viria para casa, isso eu não esperava mesmo. Quer dizer, quem em sã consciência ia pensar que um dia iria aparecer um príncipe, lindo e seu número, diga-se de passagem, na sua porta e falar “Oi, sou ” com aquela naturalidade, com aquele português lindo de quem não era nativo? Eu que não ia!
- Oi, sou , ... mas pode chamar de – consegui responder finalmente, depois de todo meu choque – Seja, hum, bem vindo – tentei sorrir gentil e ele sorriu de volta. Ai, Deus, aquele sorriso!
- Obrigado. Naigel, poderia mostrar meus aposentos, por favor? – ele olhou para meu pai, que até então apenas nos observava.
- Claro, alteza, por aqui – meu pai começou a andar em direção ao interior de nossa casa, sendo seguido por mim e por .

Depois de mostrar a localização de todos os cômodos de nossa casa a , nós o deixamos no quarto de visitas e pude finalmente falar com meu pai a sós.
- COMO ASSIM O SENHOR TRÁS UM PRÍNCIPE PARA NOSSA CASA E NÃO AVISA? – disparei a falar, assim que meu pai parou à minha frente, assim que chegamos à cozinha.
- Eu achei que você acharia legal, conviver com a realeza – ele deu de ombros, como se fosse algo comum ter um príncipe em nosso quarto de visitas.
- Eu acho que uma mensagem de Whatsapp falando “filha, estou indo embora com um hóspede real” não iria matar ninguém – falei, arrancando uma risada de leve do meu pai. Bom saber que ele achava toda a situação engraçada.
- Tudo bem, eu devia ter avisado. Agora, pode tentar me ajudar a fazê-lo se enturmar? Ele precisará ficar por aqui até tudo no país dele se acertar – meu pai pediu gentilmente, colocando uma mão em cada um de meus ombros.
- Claro, eu ajudo, não vai ser problema – sorri gentil, recebendo um abraço de meu pai.
- Hum, perdão, mas... poderiam preparar meu banho, por favor? – apareceu no corredor, sem camisa, levemente desconcertado, com a mão direita coçando a nuca.
Ai, Deus, por que tamanha tentação?
- Desculpe, mas... Isso é algo que você precisa fazer sozinho – comecei a falar, pensando em como explicar para a realeza como ele teria que tomar banho, mas ficando tão desconcertada quanto ele logo depois.
Ouvi meu pai rir ao meu lado e lancei-lhe um olhar sério. – Vem, , vou lhe apresentar ao chuveiro – meu pai disse, ainda rindo levemente, indo em direção a e ao banheiro.

***

No dia seguinte, acordei por volta das oito da manhã; eu era voluntária no orfanato da cidade aos domingos, então precisava chegar cedo. Ouvi barulhos vindo do quarto de e resolvi ir checar se estava tudo bem. Para minha surpresa, estava acordado e parecia estar travando uma luta com o próprio cabelo em frente ao espelho.
- Bom dia! Já acordado? – falei à porta do quarto, tendo a sensação de tê-lo pego de surpresa.
- Bom dia – ele virou o corpo na minha direção, sorrindo. Será que um dia eu acostumaria com aquele sorriso lindo? – Acho que preciso me acostumar com o fuso horário.
- Provavelmente, Mônaco tem 5 horas a mais que aqui. Hum... está tudo bem por aí? – perguntei me referindo à pequena bagunça próxima ao espelho e a seu cabelo totalmente bagunçado.
- Sim! Eu só... não sei como deixar ele como estava ontem – ele disse meio sem graça.
- Como ele era antes? – perguntei enquanto fazia menção de entrar no quarto, recebendo uma confirmação com a cabeça de .
- Eu não sei o corte, porque eu tinha um criado especialmente para isso – ele falava com naturalidade e eu apenas conseguia pensar “sério mesmo?”, pensando em como aquilo era sem necessidade, mas não para um príncipe, ao que parece – Mas eu só precisava jogá-lo para o lado, para tirá-lo dos meus olhos, e ele ficava arrumado, ainda que meio bagunçado.
- Ah sim, faz sentido não saber arrumá-lo. Quer ajuda com ele? – perguntei quando estava já próxima a ele.
- Por favor – ele respondeu, suspirando derrotado segundos depois.
- Olha, você tem todo um arsenal aqui – me referi aos produtos próximos ao espelho.
- Ah, isso? Eu não sei para que servem, só conheço o shampoo e o desodorante mesmo – ele riu, sem jeito, e eu tive que rir junto.
- Eu te dou um tutorial depois. Mas é fácil deixar seu cabelo igual ontem, só passar um pouco desse creme na mão, assim – peguei um pouco de mousse e espalhei pela palma da minha mão – passar no seu cabelo – eu ia fazendo os movimentos necessários enquanto explicava – e depois, com a mão mesmo, levantar só um pouco ele aqui na frente – logo consegui deixar o cabelo dele conforme estava ontem. – Sem muito mistério – sorri, assim que terminei.
- Eu acho que entendi, vou tentar outro dia
- Sem problemas, eu te ajudo até conseguir fazer sozinho.
- Obrigada – ele sorriu – O que faz acordada tão cedo?
- Eu estava indo para o meu voluntariado no orfanato daqui. O que pretende fazer hoje?
- Hum, não sei. Eu... Posso ir com você? – ele parecia sem jeito -o que na minha mente só o deixava mais fofo ainda- e eu imaginei o quanto difícil era para ele tudo aquilo.
- Claro, vai ser bom para você conhecer a cidade, ainda que não tenha nada demais para ver.
Fui preparar meu café enquanto trocava de roupa, me encontrando na cozinha pouco tempo depois. Ele usava uma roupa grossa, típica de inverno, o que me fez rir, se querer.
- Hum... Tem algo errado? - Ele perguntou sem jeito, enquanto coçava a nuca.
- Não, é que estamos no verão e essa roupa é de inverno. Confie em mim, você vai passar bastante calor se sair de casa assim.
- Acho melhor eu me trocar, então. Não estou acostumado a tomar banho sozinho, muito menos escolher minha própria roupa, como deve ter dado para perceber.
- Relaxa, você também está vindo do inverno europeu, até se acostumar leva um tempo. Se quiser colocar uma bermuda, camiseta e tênis, acho que já vai conseguir lidar melhor com o calor – conforme eu sugeria uma combinação de roupas, pude ver seu rosto se iluminar, como se tivesse recebido uma mensagem divina. Ele era incrivelmente fofo sem parecer se esforçar para isso.
Enquanto tomava meu café, foi se trocar, logo voltando vestido com a combinação de roupas que eu havia sugerido. Eu terminava meu café, enquanto ele tomava o dele e logo estávamos ambos escovando nossos dentes, para podermos ir para o orfanato.
- Você está acostumado a andar? – perguntei enquanto íamos em direção à porta da sala.
- Andar exatamente não, mas eu me exercito bastante, então acho que consigo tentar.
- Okay, vamos a pé então, qualquer coisa chamo um Uber – falei enquanto saíamos de casa e trancava a porta.

- E o que você faz no orfanato, ? Quer dizer, você lê histórias paras as crianças ou algo assim? Minha irmã mais velha, Caroline, adora poder fazer isso, especialmente no Natal - ele sorriu brevemente, logo tendo o sorriso substituído por um lugar triste.
- Sim, eu leio história para as crianças, mas apenas as mais novas. Converso com as meninas mais velhas, as vezes jogo bola com os meninos e ajudo no que precisam no dia; as vezes saio para comprar coisas, as vezes ajudo na cozinha, depende – enquanto eu falava, me olhava atentamente, como se cada palavra que eu falasse valesse muito – E a sua irmã? Ela apenas conta histórias – perguntei sem querer, me arrependendo logo depois. – Desculpe, não queria entrar no assunto, foi sem querer.
- Tudo bem – ele disse, conseguindo deixar de lado a expressão triste – De toda minha família, acho que Caroline é a que tem melhor jeito com o público, é quem realiza a entrega do Grande Prêmio de Mônaco de Fórmula 1, quem ajuda em campanhas sociais oficiais, quem realiza eventos beneficentes para angariação de fundos e quem organiza nossa festa anual de Natal para crianças; um dos maiores eventos que nosso palácio sedia. Todos do reino a adoram. – Enquanto ele falava, percebia a admiração em seu rosto, o carinho e respeito que ele tinha pela irmã mais velha era imenso – Ela seria uma rainha incrível, se não fosse pelo fato de que nunca poderá.
- E por que não?
- Em meu país, nenhuma mulher nunca pode ser eleita rainha, são extremamente conservadores, tanto meu pai, o rei, quanto seus conselheiros.
- Isso é uma bobagem – respondi sem pensar e me olhou sem entender. – Quis dizer que isso, de uma mulher não poder ser algo, é um pensamento antigo, nós mulheres podemos fazer o que quisermos.
- Sim, eu defendo isso também, inclusive tenho certeza de que ela merece o trono bem mais do que eu, ela é muito mais inteligente, uma líder nata, ganha qualquer batalha, sem nem se esforçar, seja ela em combate corporal ou oral. Você precisava conhecê-la.
- Se você tiver alguma foto dela, me mostra depois, ela parece incrível.
- Eu te mostro quando voltarmos – ele sorriu e eu sorri em resposta, percebendo que havíamos chego ao orfanato.


Durante a parte da manhã, dividi meu tempo entre ler “O Pequeno Príncipe” para as crianças e conversar com algumas das meninas mais velhas, uma delas estava grávida e eu estava preocupada com sua recusa em fazer corretamente o Pré Natal.
Vez ou outra, meu olhar buscava o de , que no começo estava meio travado, mas fora logo conquistado por Juju, uma menininha linda de 4 anos que lhe mostrou sua boneca e pediu colo. Apesar de aparentar estar meio perdido, ele se saiu bem e logo conquistou o carinho da garotinha, que tratou de apresentá-lo aos demais. Pouco tempo depois, ele estava jogando bola com os meninos, ou pelo menos tentando.
Depois de conversar com as meninas e me oferecer para acompanhar a futura mamãe ao médico, saí em direção ao quintal, onde ainda tentava jogar bola com os meninos. Assim que me viu, ele veio em minha direção, suando bastante e parecendo estar empolgado.
- Eu achei incrível como você consegue prender a atenção das crianças enquanto conta histórias – ele sorriu, respirando ofegante e logo sentando-se ao meu lado no chão.
- Obrigada – sorri sem graça. Apesar de gostar lidar com crianças, receber comentários sobre meu jeito com elas era estranho.
- Eu estou cansado, percebi que não tenho jeito para jogar bola – ele riu e eu ri junto, concordando, depois de ter assistido alguns minutos de jogo escondida e percebido sua falta de habilidade para o esporte.
- E que tipo de esporte gosta?
- Luta... É um esporte, certo?
- Eu acho que sim, afinal tem Judô nas olimpíadas. Perto de casa tem uma academia de luta, se quiser eu te levo para conhecer.
- Jura? – vi seus olhos brilharem, como uma criança feliz – Quero sim, por favor.
- , ele é seu namorado? – Juju, a menininha que tinha conquistado mais cedo, apareceu à nossa frente e perguntou, sendo sapeca como sempre.
Ri da pequena e logo respondi: - Não, Juju, ele é meu amigo.
- Ele é muito legal – ela sorriu e percebi ficar levemente corado ao meu lado.
- Obrigado – ele sorriu para a pequena.
- Você também é muito legal – brinquei com ela, começando a fazer leve cócegas em sua barriga e arrancando gargalhadas da pequena.


O dia passou rápido, com e eu nos divertindo com as crianças. Mais algumas perguntaram se éramos namorados e eu sempre negava, enquanto ficava sem graça. Quando estávamos nos despedindo, a gestora do orfanato, Margareth, veio falar conosco e agradecer. Voluntários eram difíceis de aparecer por lá, então ela ficou bem feliz quando viu o rosto novo de , o que não deixou de reforçar para nós.
Durante o caminho de volta para casa, aproveitei para mostrar a nossa faculdade, meu açaí preferido, tendo que explicá-lo o que era açaí, bem como minha lanchonete favorita. Como estávamos um pouco cansados e com calor, assim que passamos por uma sorveteria, resolvi entrar e comprar-nos duas casquinhas.
Enquanto estávamos na sorveteria, conversando, pude perceber que algumas meninas passam por nós e olhavam para , provavelmente tendo a mesma impressão que eu tive assim que eu vi, que ele era um gato. não parecia notar ou se importar com isso, o que me deixou intrigada. Será que todo o treinamento que ele teve para rei o deixou despreparado para lidar com situações comuns como essa, de paquera?
Pouco tempo depois, já estávamos de volta ao nosso caminho até minha casa, parando apenas na academia de luta, para que pudesse conferir suas opções de luta e pegar as outras informações que quisesse.
- A moça gentil da recepção me deu uma aula experimental. O que seria isso? Ela disse que posso fazer essa aula até achar uma luta que me identifique.
- Quer dizer que você pode fazer uma aula de graça, até se identificar com algum tipo de luta.
- Ah sim. Estou animado, acho que vou começar por Muay Thai.
- Acho que pode gostar. - E você, , nunca praticou algum esporte? - Eu sou uma atleta dos livros – brinquei, arrancando uma risada leve e gostosa dele – Falando sério, agora... eu acho que nunca pensei em praticar algum esporte por não achar necessário. Meu pai já me ensinou alguns golpes uma vez, então ao menos o básico da autodefesa eu sei. - O básico pode não ser suficiente as vezes. Se quiser, posso te ensinar alguns golpes – ele disse e coçou a nuca, meio sem jeito.
Deus, eu não conseguia lidar com aquele homem!

Logo chegamos em casa, sendo recepcionados por meu pai e duas caixas de pizza. Apostei com que ficaria pronta para dormir antes que ele e logo estávamos os dois correndo em direção a um dos banheiros, nenhum dos dois querendo perder um pedaço de pizza para o outro.


Capítulo 3

REI ALBERT II


Algumas horas haviam transcorrido após o ataque ao meu castelo e à vida de Philip. Meus conselheiros estavam todos reunidos na sala do trono, minha esposa e filhas sob máxima proteção em um dos cômodos do castelo e meu amado filho, meu sucessor, estava em algum lugar do mundo, sendo protegido por Naigel e sua agência.
Sussurros podiam ser percebidos por qualquer um, nobre ou criado, afinal as fofocas rolavam soltas pelas paredes do castelo e todos estavam assustados e preocupados demais para conseguirem manter sua boca fechada e opiniões para si mesmos. Meu único objetivo por hora era entender como um ataque assim pudera ser planejado e executado sem meu conhecimento, além de desejar mais que tudo encontrar os responsáveis por tal ato e puni-los apropriadamente.
- Quero respostas e as quero agora – disparei a falar para meus conselheiros, assim que a porta da sala do trono fora aberta e pude adentrar ao cômodo.
- Majestade... – um de meus conselheiros, Lorde Bocwel, começou a falar, sem parecer que realmente iria me falar algo útil.
- Poupe-me de suas palavras, Bocwel, ao menos que sejam algo que me leve à captura desses irresponsáveis – respondi secamente. Eu era um homem objetivo, ainda mais em tais circunstâncias.
- Eles foram financiados, meu senhor, receberam dinheiro e as bombas pelo porto. Agora, quem os financiou pode ser um problema descobrir, somos a única nação monárquica da França. – Lorde Barac tomou a palavra e dela fez bom uso, felizmente.
- Que temos inimigos eu já sei, Lorde Barac. Quero saber como esses infelizes tiveram a audácia de tentar algo assim contra a coroa.
- Precisamos encarar a realidade, meu rei, o povo não aguenta mais viver com uma coroa para servir, não enquanto cidades, estados e nações à nossa volta são governadas pela democracia.
- Pouco me importa o que o povo quer! Eles nunca estão completamente satisfeitos. Mônaco prospera, o turismo nos fornece dinheiro, nossa nação possui respeito internacional... Se a deixássemos na mão do povo, teriam-na destruído há anos. Quantas democracias vocês conhecem que realmente funcionam, não servindo apenas de apoio para governo autoritários, corruptos e genocidas? – Houve um silêncio na sala, como eu esperava que ocorresse – Se esses baderneiros querem se apoiar nas massas, quem o façam. Mas também serão traídos pelas massas. Quero informações que levem à captura desses irresponsáveis, quero que espalhem por toda Mônaco o seguinte decreto “Qualquer informação que leve à captura dos membros do partido democrata, será recompensada com dinheiro e títulos” – falei firme, recebendo olhares assustados de meus conselheiros e apoiadores. Parte deles temia que tais recompensas saíssem de seus bolsos, outra parte provavelmente temia pelo caos que se espalharia pelo reino.
Deixei-os na sala do trono, sob cochichos e olhares temerosos. Apesar de serem meu conselho, membros de minha confiança, alguns momentos de meu reinado não consegui acatar suas opiniões, como agora, eles não eram como eu, não pensavam como eu e não amavam Mônaco como eu. Minha família lutou muito para erguer Mônaco e fazê-la prosperar, não seria eu, muito menos eles, que iria estragar todos esses anos de história.

***

- Como foi com o conselho, meu amor? – Charlene, minha amada esposa, perguntou, assim que cheguei ao salão para jantar. Caroline e Stephanie conversavam do outro lado da mesa, enquanto saboreavam a refeição.
- Cansativo, como sempre, eles são um bando de lordes que só pensam em si mesmos e em seus títulos – reclamei, me sentando ao lado dela à mesa, logo após passar a mão em minha nuca.
- Eles não veem as coisas como você, como nós – Charlene me deu um sorriso, logo voltando a comer.
- Papa, alguma notícia de Philip? Já estou sentindo falta dele – Stephanie, minha filha mais nova, perguntou, escondendo o sorriso triste em seu rosto.
- Ainda não entendo por que ele não pode ficar conosco, a quantidade de guardas foi reforçada, a de seguranças também, qualquer serviçal com menos de 2 gerações a serviço da monarquia foi dispensado e nós estamos com a agenda do mês cancelada, tudo para nossa proteção. Não seria mais sensato deixar Philip conosco ao invés de manda-lo para Dieu sabe onde? – Caroline começou a falar, querendo usar de seu poder discursivo para comigo.
- Primeiro, controle essas gírias, senhorita. – falei bravo e ela apenas abaixou a cabeça, em sinal de respeito – Seu irmão é meu sucessor, deve ser protegido a todo custo. Depois que Marcos tentou assassiná-lo, sua mãe e eu percebemos que era melhor ele se esconder, tendo Naigel como protetor. A segurança de todos vocês é minha prioridade, mas seu irmão...
- É sua prioridade maior – Caroline completou, antes de se retirar da mesa e do salão, com alguns guardas em seu encalço.
Espero em Dieu que um dia ela entenda, meu dever como monarca é colocar a nação acima de tudo, logo, a segurança de Philip deve ser meu foco principal, ainda que eu ame todos os meus filhos igualmente.


Capítulo 4



- Eu estou falando sério, , ele é demais para mim – respondi ao comentário da minha melhor amiga, algo sobre eu ter sorte por estar em casa e ter que parar de reclamar, enquanto andávamos pelos corredores da faculdade.
- Aquele ser lindo, que acabamos de deixar na sala de RI, é demais para qualquer uma, – ela comentou e eu tive que concordar.
era minha melhor amiga desde sempre, ela sabia tudo sobre mim, me conhecia melhor do que mim mesma e as vezes bancava até a minha mãe. Era para ela que eu corria para contar tudo, assim que acontecia, logo, ela sabia sobre . Mas somente o necessário, que ele era de outro país e iria ficar um tempo em casa, em uma espécie de intercâmbio.
- Mas, olha, se você não quiser continuar ajudando ele, eu posso assumir isso por você. Considere como um presente, um alívio para o seu fardo. Afinal, eu não teria problema nenhum em ajudá-lo com todas as necessidades nele, não importando quais fossem. – ela comentou, com um sorriso travesso nos lábios e recebeu uma careta de minha parte.
- Burra você não é, né? – comentei irônica e ela pareceu nem ligar.
- É uma questão de saber aproveitar as oportunidades que a vida fornece. Ou você acha que algum outro dia na sua vida irá ter uma oportunidade como essa? – Maria falou e arqueou a sobrancelha, o que me fez ter que bufar e concordar com ela.
- ! – me cumprimentou de longe, assim que me viu, se desvencilhando das pessoas ao redor -que estavam cercando-o ao final do corredor, provavelmente querendo saber tudo sobre o novo aluno estrangeiro- e vindo em minha direção, com um sorriso largo no rosto. – Essa aula agora é de Direito Internacional, junto com a turma de direito. Nem acredito que terei essa matéria com você, já estava pensando em mudar de curso só para poder ter você na mesma sala que eu – ele disse feliz, assim que me alcançou. Ao meu lado ouvi suspirar e desejei fortemente poder matá-la.
- , vem, vamos nos atrasar – ouvi uma voz feminina meio afetada falar atrás dele, provavelmente vindo do grupo de pessoas que ainda o esperava, depois dele tê-los largado para vim até Marisa e eu.
... ... Quem ela achava que era para botar apelido nele?
- Vão sem mim, eu vou depois com a - ele respondeu, olhando rapidamente para trás, e logo voltou a olhar para mim.
Eu adorava o som do meu apelido quando ele falava...
ao meu lado parecia rir, mas nem nem eu notamos.
- então, é? – brinquei com ele, enquanto voltávamos a andar, nós três, em direção à sala de Direito Internacional.
- Nossa, você falando parece bem menos insuportável – ele comentou simplesmente e por um momento senti o ar faltar em meus pulmões. estava preferindo a mim em troca de uma das garotas da sala dele? Toda a faculdade falava que as garotas de Relações Internacionais eram as mais gatas... Meu choque, ao que percebi, não fora o único, já que até parou de digitar no celular e ficou olhando para o aparelho com cara de tacho.
- Fora ela, conheceu alguém mais? – tentei mudar de assunto com a primeira coisa que veio à minha mente.
- Eu estava falando com algumas pessoas – ele respondeu e eu me senti uma lerda. Se ele estava falando com outras pessoas quando apareceu no fim do corredor, é claro que tinha conhecido outras pessoas – Inclusive, um rapaz chamado Nick me convidou para uma festa sábado. A gente devia ir.
- A gente?
- Sim, , a gente, você e eu, até se quiser.
- Eu passo - foi a única coisa que falou, voltando a conversar, provavelmente, com seu namorado no celular e me largando na mão. Eu teria uma séria conversa com a minha melhor amiga depois.
- Ok. O que acha, ? Eu quero ter uma experiência brasileira universitária completa e você precisa me ajudar. – Ele começou a pedir e eu só conseguia pensar que para a experiência brasileira universitária dele ser completa seriam necessárias muito mais coisas que uma simples festa, mas eu considerava tais coisas fora de cogitação para a realeza; pelo menos para a realeza que, como ele, possuía uma família conservadora e um disfarce e imagem a zelar.
- Não sei, , não parece certo – respondi, pensando que meu pai provavelmente não autorizaria, o que eu agradeceria muito, pois poderia comprometer todo o disfarce de .
- E por que não, ? – questionou, parecendo querer incentivar a ideia de . Céus, como eu queria esganá-la!
- Meu pai nunca deixaria. A família de é conservadora demais para sequer pensar que ele teria ido a uma festa universitária, e meu pai precisa corresponder a tal comportamento – tentei argumentar, enquanto olhava intensamente para , para ver se ele entendia a mensagem.
- Pois seu pai já deixou! – ele respondeu simplesmente, erguendo o celular por satélite que meu pai lhe dera, juntamente com um pouco de dinheiro, caso precisasse. Ótimo, lá se vai meu argumento!
- Okay, nós vamos. Mas se você me largar por alguma dessas meninas, vai ter que convencer a a te ajudar na adaptação, porque eu irei sumir para a China. – Tentei ameaçá-lo, mas apenas consegui arrancar risos dele e de .
- Você não gosta de comida Chinesa, sem ser yakissoba, e nem do estilo de governo deles, nunca iria para lá, não para ficar mais que alguns dias – respondeu e ergueu uma das sobrancelhas.
- Que seja! – respondi, entrando na sala e me sentando em uma das carteiras do fundo, sendo seguida pelos dois, que se sentaram cada um de um dos meus lados.

A aula acabou rápido, me fazendo refletir sobre o quanto as melhores aulas acabavam rápido em relação às demais. havia saído assim que a professora anunciou o final da aula, para que pudesse passar mais tempo de intervalo com seu namorado, me deixando na sala com .
- Ei, , apresenta pra gente seu amigo – uma menina morena, de cabelos cacheados e pele meio escura, falou do outro lado da sala, atraindo a atenção de algumas outras pessoas.
- Ele não parece ser daqui – uma das amigas dela comentou, fazendo com que as outras meninas do grupo concordassem.
- Sou , , e sou... – começou a falar, mas acabou se enrolando um pouco.
- Canadense, ele é canadense – completei rapidamente - Está numa espécie de intercâmbio. – falei, terminando de juntar o resto do meu material às pressas
- Ui, gato e gringo, gostei – uma das meninas do grupo da morena comentou e pude perceber ficar sem jeito, passando a mão na nuca logo em seguida.
- Vocês vão na festa sábado? Deveriam ir...
- Vamos sim – respondeu animado e eu fiz uma nota mental de precisar falar com ele sobre flertes, paqueras e variações.
Arrastei para fora da sala, sob protestos baixo das meninas, e fomos em direção à cantina. Minha barriga estava protestando há tempos e tudo que eu queria era uma coxinha e uma Coca.

- Hum... O que é isso? – perguntou, apontando para um dos salgados, assim que chegamos à cantina.
- Esse é um enrolado de presunto e queijo. – Respondi, imaginando como deveria ser a comida em seu país. Talvez eu perguntasse a mais tarde.
- Hum... Presunto? – ele parecia confuso e eu apenas concordei com a cabeça, sem saber ao certo como explicar a ele o que seria um presunto - E isso?
- É uma coxinha, a melhor invenção do homem – sorri abertamente, já sentido o sabor da coxinha em minha boca. Dei o dinheiro à atendente e fiz meu pedido – Eu te deixo experimentar, é muito bom.
Assim que peguei meu salgado e minha Coca, pedi alguns sachês de ketchup e me dirigi a uma das mesas, com ao meu lado.
- Eu poderia deixar você provar sem nada, mas você precisa descobrir a melhor maneira de se comer uma coxinha, e é assim – coloquei uma boa quantidade de ketchup na coxinha e lhe entreguei, para que ele experimentasse. Ele primeiro me olhou e depois olhou para o salgado em suas mãos, talvez com medo da experiência que estava por vir, mas logo deu uma mordida, que me fez rir alto do estado que ele ficou. Devido à quantidade generosa de ketchup que eu havia colocado na coxinha, assim que mordeu, parte de sua boca ficou inteira lambuzada de molho – arriscava até a dizer que havia molho em seu nariz.
Ele não pareceu perceber, já que logo perguntou – Eu, hum, fiz algo errado? – perguntou se jeito, me estendendo de volta o salgado.
Como uma foto vale mais do que mil palavras, tratei de tirar uma foto do estado dele, associado a cara de perdido: - Não, apenas... olhe – mostrei a ele a foto que havia acabado de tirar e ele riu junto comigo, logo pegando alguns guardanapos da mesa para poder se limpar.
- Apesar do meu completo despreparo para comer tal iguaria, a madame tem razão, é realmente uma deliciosa invenção – ele comentou todo formal, assim que terminou de se limpar.
- Deus! Agora eu me senti na França imperial – brinquei e ele riu, sendo acompanhado por mim.
- Me desculpe, as vezes é mais forte que eu – ele sorriu e eu até esqueci porque ele estava se desculpando; aquele sorriso deveria ser considerado a nona maravilha do mundo.
- Mas que bom que gostou da coxinha, é algo que eu amo demais na culinária brasileira. Empata somente com brigadeiro.
- Bre o quê? – tentou repetir o nome do doce, parecendo confuso.
- Ai meu Deus! Você não sabe o que é brigadeiro? Não pode ser – eu comentava incrédula. Como alguém pode não conhecer o melhor doce do mundo? – Vamos embora agora, eu preciso fazer brigadeiro para você! – peguei todo meu material às pressas, assim que terminei de comer meu lanche, e saí puxando pela multidão de alunos, em direção ao estacionamento.
Ele queria uma experiência brasileira completa, certo? Então tínhamos muito trabalho a fazer!


Capítulo 5

PHILIP


Minha vida no Brasil não está sendo um mar de rosas, mas graças a Naigel e , estou tendo uma ótima adaptação. está firme na tentativa de me ajudar a aprender da cultura e culinária local, o que é bem fofo.
Ela e Naigel me fizeram experimentar coisas: um caldo preto com feijão e carne, que eles disseram ser Feijanada, eu acho. Tinha também o doce de , com chocolate, Brejedero, e o caldo roxo doce, que ela come com muitas coisas, esse eu lembro que chama Açaí; ela disse que em alguns lugares do Brasil esse caldo roxo não é doce, que as pessoas comem com peixe, e eu achei bem estranho.
Cheguei a conversar com eles que me sentia na obrigação de fazer alguma comida de meu país para eles, ainda que eu não fosse o melhor cozinheiro, mas disse que queria primeiro me levar para comer lanche, hamburguer. Ela achou um absurdo que eu só tenha comido um McDonald ou Buguer King na vida, e poucas vezes ainda e isso resultou em uma conversa bem engraçada sobre como a realeza de Mônaco era ao mesmo tempo privilegiada e desprivilegiada.
Naigel não ficava muito em casa, ao que parece ele ainda tinha outras realezas para proteger, por isso a maior parte do tempo eu passava com , o que me permitia notar muito sobre ela, sobre como ela se dedica ao sonho de se tornar Juíza e sobre como ela possui um coração imenso, estando sempre envolvida em causas e atividades sociais, tanto presencialmente quanto à distância. Eu esperava que todo esse tempo com ela pudesse me ajudar a me tornar uma pessoa melhor, porque ela era realmente... incrível.

Finalmente consegui arrumar o meu cabelo sozinho, depois de alguns dias treinando e falhando miseravelmente, sempre precisando recorrer ao auxílio de . Me senti tão orgulhoso de mim mesmo que resolvi ir mostrar para , então saí do meu quarto e fui em direção ao quarto dela.
Era sábado a tarde, então aproveitávamos para relaxar, depois de uma longa semana de estudos, e nos preparar para a festa de mais tarde. Ao chegar na porta do quarto de , parei ao batente, aproveitando que a mesma estava aberta. estava sentada em sua cama, enquanto lia Romeu e Julieta, meu favorito, entre os vário livros que li.
- Qu'y a-t-il donc dans un nom? Ce que nous appelons la rose, même sous un autre nom, aurait le même parfum. - citei em meu idioma natal, chamando sua atenção para mim. - O que há, pois, num nome? Aquilo a que chamamos rosa, mesmo com outro nome, teria igual perfume. – traduzi, depois de concluir que ela não entendera, devido ao olhar confuso que recebi, assim que ela virou o rosto em minha direção.
- Olha só, esbanjando seu francês – ela brincou – Algo mais sobre você que eu deva saber, além de que já leu Romeu e Julieta?
- Sim, deve saber que é meu livro preferido e que além de Francês e do Português enferrujado, eu falo Espanhol, Latim, Inglês e um pouco de Mandarim – sorri brincalhão e ela fez uma expressão de surpresa – O resto você descobre com o tempo.
- Uau, um poliglota... e eu me sentindo por falar Inglês e Espanhol – ela brincou e ambos demos risada.
- É parte das responsabilidades do ofício de ser o herdeiro – cometei e uma pontada de saudade de minha família surgiu em meu peito – O que é aquilo? – perguntei me referindo aos inúmeros papéis de paisagens e monumentos pendurados na parede próxima à cama dela. Minha curiosidade era tanta que nem percebi quando entrei no quarto e me dirigi à parede.
- São fotos, de lugares que quero conhecer um dia – comentou, aparecendo ao meu lado e eu dei um leve pulo para a direção oposta a ela, fazendo-a estranhar a situação – O que foi?
- Não é, ham, educado entrar no quarto da pessoa sem ser convidado, ainda mais de uma dama. Devo me retirar – expliquei, me virando em direção à porta e começando a dar o primeiro passo.
- Espera, tudo bem, você pode ficar – falou, me segurando levemente pelo braço e me fazendo parar, instantaneamente, e virar meu corpo em sua direção – Para as pessoas normais, como meu, se uma porta está aberta, é porque as demais pessoas podem entrar, se não teria um aviso na porta escrito “não perturbe” – ela piscou um dos olhos para mim e senti minhas bochechas esquentarem, por ser tão burro em costumes não reais.
- Ham... sobre as fotos... – tentei voltar ao assunto, para disfarçar meu embaraço, passando levemente minha mão sobre a nuca – achei a ideia incrível! Mas precisa me prometer que não ficará apenas na sua parede, que você realizar se sonho de conhecer esses lugares um dia. Me promete? O mundo é belo demais para ser admirado apenas pela parede do quarto e você precisa fazer isso por mim, já que eu não posso me dar ao luxo de ficar viajando, sem que seja para algum compromisso real.
- Eu prometo – ela sorriu e por algum motivo sorri junto. Eu adorava aquele sorriso em seu rosto, um sorriso meigo e sincero.
- Preparada para a festa? – provoquei e apenas correu em direção à cama e se jogou sobre ela.
- Precisamos ir mesmo? - choramingou, com o rosto enfiado no travesseiro e eu ri nasalado, pensando o quanto ela se parecia com Stephanie quando a mesma não queria participar de algum compromisso real chato. Estava prestes a responder, quando o celular dela tocou, assustando levemente a ambos.
- Eu vou... - fiz menção de sair do quarto, mas acenou como quem pedia que eu esperasse, já com o telefone à orelha.
- Como assim? Onde elas estão? - eu ouvia falar com a pessoa do telefone, sem entender muita coisa, mas imaginava que não era algo muito bom, a julgar por sua expressão pálida e meio trêmula. - Estou indo - ela respondeu firme, pouco antes de encerrar a ligação. Quem quer que fosse, não teve nem direito a resposta. - A bolsa de Samantha parece que estourou e a senhora Margareth correu com ela para o hospital municipal, uma das meninas do abrigo achou por bem me ligar para avisar - narrava o assunto da ligação às pressas, enquanto já corria pelo quarto prendendo o cabelo e pegando sua bolsa. - Sinto muito, , mas não vou poder ir à festa. - ela falou, após parar alguns segundos à minha frente e logo começar a querer correr de novo.
- - fiz menção de segurar seu braço, assim que ela começou a querer correr em direção à porta do quarto. Mas assim que a toquei, ela parou instantaneamente e me olhou. - Nós não vamos à festa. Cadê a chave do carro? - falei começando a andar rápido junto com ela, em direção à porta do quarto e depois à porta da sala.
- E você lá tem carteira? - ela me olhou pelo canto dos olhos, assim que chegamos à saída da casa.
- Tenho - respondi simplesmente e ela se virou para me encarar - Eu precisei tirar para poder sair do castelo as vezes. Anda, me dá a chave, você não vai dirigir nesse estado - tentei ser um pouco autoritário, como era preciso as vezes no castelo, estendendo a mão a ela, esperando pela chave.
- Eu tenho medo de como isso vai acabar - ela disse antes de abrir a porta da sala e me entregar a chave do carro, logo depois de sair da casa e trancá-la.
colocou o endereço do hospital no Wase e logo eu estava dirigindo o mais rápido possível para lá; claro que, respeitando a sinalização, afinal eu não queria que ela tomasse alguma multa e nem chamar a atenção de algum policial ou agente de trânsito.
- Achei que príncipes não dirigissem - ouvi comentar. Era a primeira vez que ela falava algo desde que saímos de casa. Eu sabia que ela estava abalada pela situação, devido ao seu carinho quase que maternal pelas meninas do orfanato, por isso não forçara uma conversa.
- Outros eu não sei, mas eu dirijo... precisei aprender para poder sair do castelo às vezes e ver como meu povo e cidade estavam.
- Quer dizer que você é o tipo rebelde de príncipe? - brincou e eu ri de leve.
- Quem me dera, hein. Até essas escapadas tem alguém que sabe - brinquei de volta - Brincadeiras à parte, essa foi uma das condições da senhora Dots, minha governanta, ela deveria saber e autorizar todas as minhas escapadas.
- Não parece uma condição ruim.
- Também pensei assim... se me permite saber... por que essa preocupação com a Samantha? Quer dizer, ela já tem a senhora Margareth, não?
- Eu sei que a Samantha tem a dona Margareth, mas a dona Margareth ainda tem todas as outras crianças e adolescentes, entende? Eu me solidarizo pelo fardo dela e por Samantha, que no fundo nada mais é do que uma jovem meio perdida e sem sorte, que vai precisar de ainda mais amor e apoio.
- Mas esse apoio não deveria vir, em parte, também do governo?
- É complicado... pra mim o trabalho de governar um país tão grande poderia ser melhor exercido, alguns problemas sociais deveriam ser melhor tratados, como os feminicídios, a escassez de água em algumas regiões e as gravidezes na adolescência, mas nem tudo é perfeito, não é?
- Eu não entendo porque defender tanto algo que pra mim parece tão falho. Não entendo porque tão poucos reinos existem no mundo, se pra mim uma monarquia é tão melhor que uma democracia. - falei sincero, me lembrando da luta intensa do partido democrata em meu país para que a monarquia fosse dissolvida.
- Porque é direito do povo. É direito deles escolherem quem querem na liderança do país, não simplesmente trabalharem para sustentar uma linha de sucessão vitalícia e hereditária. Mas você provavelmente nunca vai entender, você foi criado para achar que está certo viver como vive. - ela disse e deu um sorriso de lado e eu entendi que aquilo não era exatamente um puxão de orelha, estava mais para um fato que ela já aceitara.

Poucos minutos depois, finalmente chegamos ao hospital. Mal estacionei o carro na vaga e já estava saltando para fora do veículo e quase correndo para dentro do local.
Quando a encontrei, ela estava com um grupo de jovens, que imaginei serem do abrigo, esperando na recepção.
- A dona Margareth está com Samantha na sala de parto. As meninas tiveram que esperar aqui por serem menores de idade e por só aceitarem um acompanhante. - veio me explicar, assim que me viu.
- - uma das meninas, uma loira de olhos castanhos e cabelo liso, chamou e nós fomos até elas. - Será que ela vai sobreviver? E o bebê também?
- É claro que vai - falou, saindo do meu lado e indo até a menina, para abraçá-la pelos ombros, de lado. - A Samantha é forte.
- Ela não sabia que estava grávida até começar a passar mal e a dona Margareth insistir para ela fazer o teste, foi uma surpresa para todas. - outra menina, de cabelo cacheado e pele morena clara, comentou.
- Sabem com quanto tempo ela estava? Ela não tinha muita barriga. - perguntou, ainda abraçando a menina.
- Acho que uns seis meses. O teste só funciona para grávidas acima de duas semanas, neh? - uma das meninas perguntou e concordou com a cabeça - Então devia ser isso, uns cinco ou seis meses.
- Se for isso mesmo, a chance dela e do bebê ficarem bem é alta, acima de 90%. - comentei, fazendo com que todas as meninas me olhassem, inclusive , que me deu um sorriso, como que em agradecimento. - Se dermos sorte, ela ficará bem e o bebê será saudável.

- Mas, meninas, quem está cuidando do abrigo? - perguntou alguns minutos depois, quando todos já estavam um pouco mais calmos.
- Eu acho que o Leo, foi tudo muito rápido: Samantha estava com algumas dores, então ficou no quarto. Quando ela gritou, fomos ver o que tinha acontecido e a dona Margareth veio logo em seguida... quando vi, a dona Margareth já tinha chamado uma ambulância, que já tinha chego, e estavam colocando Samantha no carro. Nós só pensamos que tínhamos que vir também, na hora, então saímos correndo pra cá, assim que a ambulância veio.
- Eu preciso ir pra lá - falou preocupada e eu fiquei tentando me lembrar de quem era o Leo. Havia conhecido muitos jovens no dia que estivera no abrigo, eram muitos jovens e nomes para lembrar.
- Mas a gente precisa de você aqui, com a gente - uma das meninas falou triste, se agarrando à blusa de .
- Eu sei, meninas... - ela respondeu triste, afagando a cabeça da menina grudada à sua blusa.
Ver aquela cena era estranha, pois as meninas tinham pouca diferença de idade em comparação com a de , não deveriam ser tão dependentes. Acho que a forma com o que foram criadas e o carinho que tinham por , faziam com o que algumas parecessem crianças em alguns momentos.
- Meninas, isso aqui pode demorar horas, vocês não podem ficar aqui - falou suavemente e as meninas a olharam tristes.
- , é a Samantha, a gente quer ficar e ver se ela vai ficar bem.
- Eu sei, mas é complicado. O abrigo está sem ninguém, vocês estão aqui, a dona Margareth está lá... - falava preocupada e as meninas apenas a encaravam. - Eu prometo que se voltarem pro abrigo, eu ligo a qualquer notícia, respondo todas a mensagens no Whats que me mandarem e tento convencer a dona Margareth a fazer uma noite da pizza, quando tudo voltar ao normal.
- Promete mesmo?
- Prometo! - falou sorrindo, olhando docemente para as meninas - Mas só se me prometerem que vão voltar para o abrigo, cuidar de todo mundo lá e não me arranjarem encrenca. Eu não posso ficar aqui com a cabeça preocupada com lá.
- Sabia que hoje é dia de festa universitária? A gente ia sair escondido da dona Margareth - uma das meninas confessou e a encarou séria.
- O que eu já falei sobre isso? Vocês são menores de idade, podem se meter em problemas, e precisam dar exemplo para os demais. - parecia uma mãe as repreendendo.
- Mas é festa, . Não é porque você não gosta de ir, que a gente também não - uma das meninas comentou, tirando sarro de e ela fez uma careta.
- Está na hora das baladeiras irem - falou, fazendo um sinal com as mãos como se as tocasse dali e as meninas foram.

- Elas gostam de você e te respeitam. - comentei, assim que se sentou ao meu lado.
- Sim, sim. No começo foi um relacionamento complicado, mas agora, depois de quase um ano que as conheço, acho que nos damos bem. - ela comentou, sorrindo orgulhosa.
- Em Mônaco, nós temos uma ajuda monetária para mães solteiras, independentemente da idade. Foi uma ideia da minha irmã Caroline - comentei e uma dorzinha se instalou novamente no meu peito, ao lembrar da minha nação e irmã.
Acho que percebeu, pois logo brincou: - Preparado para passar algumas boas horas sentado aqui?
- Com você? Sem nem reclamar.


Capítulo 6

REI ALBERT II - 3 meses depois do ataque ao castelo


- Não acredito que finalmente vamos poder colocar um ponto final nisso – Minha amada esposa falava, ao meu lado, enquanto nos dirigíamos à sala do trono, onde boas notícias nos aguardavam.
Devido à nossa pequena pressa, nós passávamos rapidamente pelos corredores do castelo, enquanto alguns criados e seguranças paravam para prestar seu respeito e alguns cômodos ficavam para trás.
Aqueles corredores de paredes beges, levemente amareladas devido ao tempo, eram repletos de quadro de pinturas de minha família, tanto a atual, quanto meus antecessores. Do meu lado esquerdo, algumas das poucas obras, pinturas e esculturas, que sobraram após sermos roubados durante a Revolução Francesa, se juntam às pinturas minha e de minha família, minha esposa e filhos. Enquanto que, do meu lado direito, pinturas de meus antecessores formam com uma espécie de linha do tempo, terminando com uma pintura minha, imponente, sentado ao trono, poucos metros antes de chegarmos à sala do trono. Ao lado de meu quadro há um espaço vazio, aguardando pelo retrato do futuro monarca, o futuro rei, Philip de Mônaco.
Paro diante do espaço vazio, encarando-o alguns minutos. Diante de tantas medidas que tive que tomar e da minha corrida agenda, quase não me permiti tempo suficiente para sentir falta dele. Meu filho. Ainda me lembro do dia em que nasceu, da alegria que tomou conta de mim, pelo simples fato de tê-lo tido em meus braços. Naquele momento, apesar de saber que estava segurando o herdeiro do reino, nada mais importava, apenas aqueles olhinhos puros que me encaravam e o as sensações que eu tinha, apenas segurando-o; fato que já havia acontecido no nascimento de Caroline e se repetira no nascimento de Stephanie.
- Ainda me lembro do baile em comemoração ao nascimento dele, foi uma das festas mais agitadas que esse castelo já sediou – comentei baixo, relembrando daquele tempo bom, onde a alegria reinava neste castelo e inúmeras pessoas eram encontradas em seus corredores, não somente os turistas visitantes da ala Oeste; os quais agora nem mais são permitidos, devido ao protocolo de segurança que tivemos que ativar.
- Sim, querido. Achei que nossos lustres não resistiram no teto e nunca vi tantos pratos, mesas, cadeiras e bandejas espalhados pelo salão - minha amada Charlene disse, rindo levemente, como não fazia há dias.
- Bons tempos, querida – sorri para ela rapidamente, virando meu corpo em direção à sala do trono. Meus guardas logo abriram a porta da sala que, depois que a sala oficial se tornou aberta à visitação do público, era agora a sala do trono da ala Leste, ala de utilização exclusiva à família real, seus serviçais e conselheiros.
- Majestades – meus conselheiros nos cumprimentaram, liderados por Lorde Barac, enquanto se colocavam de pé, em sinal de respeito.
- Senhores – respondi, assim que minha rainha e eu nos acomodamos em nossos tronos e eles se sentaram novamente, para início da reunião – Hoje é um dia de enorme alegria para nosso reino: os responsáveis pelo ataque ao castelo foram capturados, graças aos vossos esforços, lordes e conselheiros. Após os prisioneiros e demais membros do partido democrata terem assinado um acordo de cooperação e de aceitação da monarquia, eles foram liberados e a monarquia se comprometeu a reunir-se periodicamente com representantes do partido, a fim de ouvir suas ideias e propostas. A paz reina novamente em Mônaco! – anunciei e pude ouvir os múrmuros de alguns lordes.
- Proponho um brinde – Lorde Bocwel colocou-se de pé, erguendo um cálice, tomando para sai a fala e atenção de todos – Às majestades e a Mônaco!
- A Mônaco! – todos os lordes responderam, de pé, com cálices erguidos.

Ao final do brinde, me retirei da sala rapidamente, com minha rainha ao meu lado.
- Estou aliviada que nenhum deles criticou diretamente nossa solução diplomática. Imaginei que teriam alguns que irão questionar porque não optamos pela execução – Charlene comentou, quando já estávamos a sós no corredor que ligava a sala do trono ao jardim interno do palácio.
- Imagino que pensaram que se nós, as autoridades que tiveram suas vidas ameaçadas, preferimos agir de tal modo, ainda mais sendo os soberanos, eles não possuíam autoridade para nos questionar. – enquanto falava, Charlene apenas concordava com a cabeça - Devemos avisar Philip que seu retorno já é seguro e deve ser imediato.
- Vou pedir a Naigel que providencie o retorno de Philip assim que possível e a Dots que providencie uma apresentação da Orquestra Filarmónica de Monte Carlo em nosso jardim público, para recepção do herdeiro, bem como autorize a reabertura da ala Oeste para visitação.
- Não, deixe a apresentação para celebrar a coroação, que eles se apresentem após o discurso de Philip na Galeria de Hércules, como recepção para o baile da coroação. Peça a ela que retomem os preparativos para a coroação, ela deve ser realizada o quanto antes. – Charlene concordou com a cabeça, me dirigindo um sorriso delicado, antes de me deixar a sós, assim que chegamos à entrada do jardim. Ela tomou o corredor que ia para a ala Norte, ala dos escritórios administrativos, e eu o corredor para meus aposentos e escritório particular, para me preparar para os demais compromissos de minha agenda.


Continua...



Nota da autora: E agora? Com Philip tendo que voltar, como fica nosso casal?
Qualquer coisa, só me chamar em uma das redes sociais, clicando no ícone abaixo ;)



Outras Fanfics:
5841 [Originais, Finalizada]
A Xmas Tale [Originais, Finalizada]

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