Última atualização: 06/11/2017

Prólogo

Quando fechou os olhos, sabia que poderia encontrá-la naquela noite. Não se lembrava de quando exatamente sonhara com ela pela primeira vez, mas sabia que havia sido há muito tempo. A garota em seu sonho não tinha rosto, voz ou cheiro. apenas a via sentada à beira de um píer em um lago. Sempre de costas para ele, não via seu rosto, mas seu cabelo era escuro e trançado e os dedos da mão que apoiavam o corpo ligeiramente inclinado eram finos.
No sonho, se dirigia ao encontro dela. Seus passos lentos faziam as tábuas envelhecidas do píer rangerem. A garota continuava ali, sem ação, e ele supunha que ela contemplava a paisagem da margem do rio. Ao se aproximar o bastante para tocá-la, sempre levava a mão ao ombro dela. Ele sentia seu corpo hesitar ao toque dele, e ela sempre estava prestes a virar quando despertava.
Embora fosse frustrante por não permitir que ele conhecesse o rosto da garota com quem sonhou a vida inteira, o sonho era reconfortante. As sensações que sentia ao sonhar eram a única coisa mutável no sonho. Por vezes, sentiu-se ansioso ao se aproximar da garota. Outras vezes, com medo. Recordava-se que uma vez se sentia alegre ao andar pelo píer e aliviado em uma noite diferente.
Ao deitar a cabeça no travesseiro, não tinha certeza se sonharia com ela, mas desejava que sim na eterna esperança de acordar somente depois de ver seu rosto. Além disso, sentia-se curioso a respeito do que sentiria ao sonhar da próxima vez. O sonho se tornou um passatempo com o passar dos anos, como uma série de televisão que nunca chegava ao final.
Naquela noite, às vésperas do retorno das aulas do seu último ano na Universidade de Chicago, ele foi se deitar em seu quarto na casa de seus pais em Trenton, New Jersey, onde passava a maior parte das férias de verão e de inverno. Ao adormecer, ele sonhou com a garota.
A brisa costumeira de outono o envolvia como sempre e caminhava em direção à garota do píer novamente. A paisagem também era permanente: o lago, as folhagens em sua margem, árvores altas no horizonte e um pôr do sol. A madeira do píer rangeu quando pisou sobre ela, mas ele continuou caminhando em direção à garota. Desta vez, ele se sentia ansioso, mas a ansiedade era boa.
parou a centímetros da garota e tocou seu ombro. Como já esperava, ela hesitou ao seu toque e seu pescoço estava se movendo para que ela pudesse olhar para ele. despertaria a qualquer momento agora.
Mas não despertou.
A garota se virou para ele e os olhos dela eram e atentos, emoldurados por cílios longos. Seu peito inflou quando ela suspirou aliviada e seus lábios rosados curvaram-se em um sorriso sincero para . Ele sentia como se a garota estivesse feliz em finalmente vê-lo, assim como ele estava em conhecer suas feições.
Ela abriu e fechou os olhos para ele e sua mão que apoiava seu corpo ao lado do corpo se moveu para tocar a mão de ainda em seu ombro. Quando ela o tocou, seu toque era frio e macio.
Então, despertou.


Capítulo 1

estava sentado em um dos bancos do jardim da Universidade de Chicago. Estava curvado e apoiado sobre os antebraços em suas coxas e analisava fotos em uma máquina fotográfica. As fotos ilustravam paisagens de lagos. costumava fazer trilhas com os amigos e sempre que os encontrava, principalmente aqueles que continham píeres, registrava a paisagem em sua câmera.
O costume começou quando decidiu encontrar a paisagem do seu sonho, mas depois de tantos anos procurando desanimou em sua jornada, embora continuasse fotografando. A busca se tornou um hobbie e às vezes se encontrava analisando as fotografias que tirara.
, o que você está fazendo aí?!
Na entrada do jardim, um rapaz da mesma idade de exclamou por ele. , seu melhor amigo desde o primeiro ano na faculdade, havia procurado por todo o campus antes de checar o jardim. Naquele dia, começavam as atividades da semana de recepção dos calouros e como veteranos do último ano , e outros alunos participavam ativamente do evento.
, e , outro amigo, foram responsabilizados por apresentar as atividades curriculares específicas da faculdade de Administração, curso em que estavam inseridos. E estava atrasado.
Sem resposta, foi até .
— De novo com essas fotografias? — ele perguntou. — , por favor!
— Eu sonhei com ela, script>document.write(Sut) — disse calmamente, sem tirar os olhos do visor da câmera. — Dessa vez, vi seu rosto.
— E daí? É só um sonho repetido. Isso acontece — dissertou descrente. — Agora, vamos! Temos alunos novos para recepcionar e eu preciso dos créditos para me formar, !
Sem vontade, se levantou do banco e desligou a câmera. Ao encalço de , ele atravessou o campus para chegar à área verde da Universidade onde o evento de recepção estava acontecendo. Várias barracas estavam montadas sobre o gramado extenso do campus. Os novos alunos se aproximavam delas para saber mais sobre os cursos oferecidos pela Universidade, sobre os clubes de atividades extracurriculares e também sobre as fraternidades.
Na barraca do curso de Administração, e encontraram , que já conversava com dois calouros sobre o curso. Os alunos novos não pareciam animados com o seu discurso.
— A ideia é incentivar os alunos a escolherem Administração, — brincou quando os alunos foram embora —, e não convencê-los de que é o curso mais chato do mundo.
girou os olhos.
— Não posso ser mais animador do que isso — retrucou ele. — Caso contrário, estaria mentindo.
— Minta então — devolveu . — Se mentir é o único jeito de atrair as calouras mais bonitas para o nosso curso, então minta.
— Sim, vou mentir. Vou gastar meus dotes artísticos para mentir para mulheres, já que eu sou extremamente interessado nelas.
Ao seu lado, riu. Se havia alguém que não se interessava por nada que envolvesse mulheres e o seu mundo era . Ele e seu namorado, Hunter, estavam comprometidos há anos e não se familiarizavam com o universo feminino.
— Você vai ajudar um amigo — interpôs .
— Ajudar um amigo e prejudicar desconhecidas — disse . — Dê um tempo, . Estamos no primeiro dia ainda.
não respondeu, alguns calouros se aproximaram da barraca e ele iniciou um diálogo animado com eles. apanhou alguns folhetos com informações sobre o curso de Administração e tirou algumas fotos enquanto esperava mais alunos se aproximarem.
Outros colegas de chegaram ao longo do dia para trocar de lugar com eles. e deixaram a barraca, mas ficou porque precisava acumular muitas horas formativas até o final do ano e ele havia deixado para cumpri-las todas na última hora.
Eles se misturaram à multidão de calouros e veteranos para se aproximar do palco no qual as bandas formadas por alunos da Universidade se apresentariam. A banda de jazz do curso de Música tocava Whiplash quando e alcançaram o palco.

— Então você sonhou com a garota novamente? — quis saber e se surpreendeu com a pergunta por que não havia mencionado o sonho a .
— Como sabe?
riu.
— Você se atrasou hoje e manteve os pensamentos distantes mesmo quando conversava com os calouros — respondeu ele. — Apenas o sonho repetido tira sua atenção dessa maneira.
assentiu.
— Sonhei — confirmou —, mas dessa vi o rosto dela. O sonho mudou pela primeira vez na minha vida, ! O que isso significa?
se sentia um pouco mais confortável em abordar esse assunto com , embora fosse seu melhor amigo. construíra uma grande amizade com durante todos os anos da faculdade, mas ele era insensível ao tratar de certos assuntos — e a garota do seu sonho era um desses. , por sua vez, apesar de também não formar uma opinião concreta sobre isso, era mais compreensivo.
— Eu entendo que deve ser angustiante ter um sonho assim — disse . — Você sonha com ela há muito tempo. Mas eu realmente não vejo um motivo plausível para você se apegar a isso, . Afinal, é apenas um sonho.
— Eu sei disso.
Seu tom era de frustração e dava razão aos seus amigos. Uma parte sua concordava com eles: era apenas um sonho repetido sem significado algum. Apenas um sonho. Por outro lado, em seu âmago, queria acreditar em seu sonho e na garota que o protagonizava. Ele queria acreditar que havia uma lógica por trás de tudo e que encontraria uma explicação. Queria crer que um dia conheceria a tal garota e que as peças tão isoladas daquele quebra-cabeça um dia se encaixariam para formar um quadro.
pensou em desistir de verdade há algum tempo atrás, antes de ingressar na faculdade. Naquela época, começou a tomar fortes medicamentos para dormir — remédios que sabia que o fariam dormir tão profundamente que ele não se lembraria de seu sonho, caso sonhasse. Ele deixou os medicamentos de lado quando percebeu o início de um vício e então começou a tomar medidas alternativas para impedir o sonho com a garota.
Ele passou a adormecer com fones de ouvido, ouvindo músicas que o faziam lembrar-se da infância e de momentos marcantes em sua vida com o intuito de sonhar com essas ocasiões quando adormecesse. Lia vários capítulos de livros antes de dormir para sonhar com a história e às vezes não abaixava o som da televisão para sonhar com o filme que passava.
passou a sonhar menos com a garota, mas sempre voltava a sonhar com ela vez ou outra.
A banda de jazz terminou sua apresentação e se virou quando , chamando-o para irem apanhar cachorros-quentes ao leste do palco.
Foi então que ele a viu e o tempo parou; pelo menos para ele.
A alguns metros de distância, ela conversava com alguém, gesticulando sorridente e animada. O cabelo escuro estava preso em um rabo de cavalo bagunçado e segurava alguns folhetos em sua mão. Os dedos finos tocaram o próprio rosto quando o vento soprou mais forte, afastando fios de cabelo dos olhos. Ela se virou em direção a ele, e seus olhos eram e atentos.
ouviu chamar quando o tempo voltou a correr.
? ?!
Ele não tirava os olhos dela.
— É ela, disse, meio atordoado. — A garota do meu sonho.


Capítulo 2

— Eu preciso falar com ela — decretou e seus olhos não desviavam da garota.
ofegou.
, como assim? — indagou ele. — Pare. Olha só, a garota do seu sonho é uma garota qualquer. Provavelmente alguma garota que você viu andando pela rua quando era criança e seu subconsciente guardou o rosto dela. Essa garota que você está vendo deve ser apenas muito parecida. É uma coincidência!
não deu ouvidos a ele.
— O sonho é recente — ele replicou. — Eu me lembraria do rosto dela mesmo depois de cem anos, . É ela!
, não seja obtuso! — insistiu . — Volte à realidade, por favor!
Mas já não estava ouvindo as palavras de . Ele se adiantou em direção à garota, que tinha certeza ser a mesma do sonho, sem hesitar. Ela ainda conversava gesticulando e só então percebeu que se tratava de um rapaz a pessoa com quem ela dialogava. se aproximou mais e o rapaz olhou para ele. Este era muito parecido com a garota e poderiam ser irmãos, talvez.
Como no sonho, levou a mão ao ombro da garota para chamar sua atenção. Quando estava prestes a tocá-la, parou.
O que ele diria a ela?
Apresentar-se-ia?
Fingiria ser um calouro e pediria alguma informação?
Diria ser um veterano e perguntaria se ela precisava de ajuda?
O que faria?
não sabia. E quando a garota se virou para ele ao perceber os olhares do rapaz que acompanhava, estava estático em seu lugar. A mão que estava prestes a tocar o ombro dela ainda erguida na sua direção.
A garota o encarou, curiosa.
— Olá — ela disse, esperando que ele reagisse.
abriu a boca para falar, mas as palavras não saíam. Era muito estranho estar perto da garota com quem sonhou a vida toda. Todas as sensações que sentiu durante os sonhos por toda a sua vida se misturavam dentro dele e não sabia o que fazer exatamente.
— Oi — ele retribuiu, mas foi tudo o que conseguiu falar.
A garota e o rapaz o encararam, esperando. sentiu suas bochechas queimarem, ele estava agindo como um idiota. Por que ela causava nele aquela reação?
— Você está bem? — ela perguntou.
— Sim — respondeu rápido e soou estúpido. — É... Eu...
— Você...?
— Eu...
O rapaz ao lado da garota riu e se sentiu mal com isso.
— Eu conheço você — ele disse por fim.
A garota franziu as sobrancelhas para ele.
— Eu não me lembro de você — ela replicou.
— Sim, eu sei — treplicou. — Eu também não. Quer dizer, eu conheço você. Mas não pessoalmente assim, como estamos agora. Sabe? É que...
— Não estou entendendo o que você quer dizer.
— Não, não, eu sei — apressou-se em explicar. — É que eu conheço você de um sonho.
Ela segurou uma risada.
— Isso é uma cantada? — ela quis saber. — Porque se for, é uma muito ruim.
— Não! — estava nervoso — Não, eu falo sério. É... Eu sonhei com você. Aliás, com uma garota e eu nunca via o rosto dela até alguns dias atrás. Aí o sonho mudou, ela se virou para mim no sonho e eu pude ver o seu rosto. E o rosto dela era o seu. Era você no sonho e...
Ele parou de falar. A garota o encarava com estranheza e o rapaz ao seu lado parecia descontente. O nervosismo somado ao misto de sensações que comprimiam o seu estômago o fizeram perder o bom senso. Como foi capaz de vomitar a história do sonho para ela assim, tão grotescamente?
Ela deveria estar pensando que era louco. Um psicopata talvez.
— O que você quer? — questionou o rapaz e ele soou agressivo.
— interrompeu a garota —, eu cuido disso.
suspirou, tentando se acalmar.
— Você parece confuso — retomou ela, dirigindo-se a . — O que exatamente você quer comigo?
Ele ensaiou uma resposta, mas desistiu. soou patético e assustador. Sua precipitação custou o entendimento da garota. Ele precisava arruma a bagunça que tinha feito ou pelo menos tentar.

Recuar seria a atitude mais sensata.
— Nada — respondeu ele, desanimado. — Ou melhor, desculpe-me. Eu realmente não deveria ter vindo até aqui, não deveria ter importunado você. Desculpe-me.
A garota assentiu.

— Acho que vou sair daqui agora — disse ela. — Vamos, .

A garota e o rapaz que ela chamou de se viraram para seguir em direção a outro lugar e não se moveu. Além do misto de sensações, sentia ódio de si mesmo e de sua ansiosidade naquele momento.
Mas antes de a garota sumir em meio à multidão, tentou mais uma vez:
— Posso saber seu nome?! — ele perguntou em um tom alto o bastante para ela ouvir.
A garota já estava a alguns metros de distância dele, mas se virou e o encarou por uma última vez naquela tarde e disse em resposta, também alto o bastante para ele poder ouvir:
— É !
Então desapareceu atrás de um grupo de calouros.
suspirou, as coisas poderiam ter acontecido de uma maneira melhor. No entanto, sorriu. Pelo menos descobrira o nome da garota do seu sonho.
.


Capítulo 3

caminhava novamente pelo píer que rangia sob seus pés e ele se sentia calmo e tranquilo, como uma tarde de outono. A garota sentada à beira do píer estava de costas para ele, mas o garoto conhecia seu rosto. Ele a alcançou, tocou seu ombro e ela olhou para ele. olhou para ele. Seus olhos atentos encaravam os seus e um sorriso divertido se formava em seus lábios quando despertou.
Ele estava no dormitório da faculdade novamente. roncava na cama ao lado da sua e dormia sobre um livro de capa dura. acertou uma das almofadas que ficavam sobre sua cama no rosto de para que ele parasse de roncar e funcionou.
Há duas semanas, conhecera pessoalmente a garota do seu sonho e soube seu nome. E estragou tudo. Ele não encontrou com nos outros dias da semana de recepção aos calouros e passou boa parte da sua primeira semana de aula na biblioteca, estudando. Desejava saber quais matérias ela cursava, assim poderia falsear um encontro espontâneo pelos corredores da Universidade. No entanto, depois do seu diálogo patético com no dia em que a conheceu, até enxergava de forma positiva o desencontro deles.
Mas isso mudou naquela tarde, quando após a última aula do dia, ele se encaminhou novamente à biblioteca de Ciências Socias Aplicadas, embora estivesse cansado e se sentindo fraco. Adentrou a biblioteca e se encaminhou para as estações de estudo ao fundo. Abriu o notebook e retomou o relatório de Gestão Internacional de Negócios que precisava entregar na semana seguinte.
Uma hora tinha passado e estava revisando seu relatório uma última vez quando passou por ele no corredor das estações de estudo. Ele a avistou pela sua visão periférica, mas ela não o reconheceu. Duas estações a sua direita, se acomodou.
Mais cinco minutos se passaram enquanto decidia se falaria com ela ou não. Ele decidiu por ir, ignorando seu mal-estar.
Ao lado de , pigarreou.
— Olá — foi seu cumprimento quando olhou para ele.
A expressão no rosto dela era ininteligível. A cabeça de doía, mas ele ignorou isso também.
— Oi — ela devolveu, e o garoto não sabia dizer se era uma saudação amigável ou não.
puxou os fios de cabelo caídos sobre sua testa para trás, desconfortável. Ele precisava amenizar a péssima primeira impressão que ele tinha causado. Para isso, precisava se desculpar primeiramente.
— Não quero incomodar você — ele começou —, mas eu preciso me desculpar pelo meu comportamento no primeiro dia da recepção. Eu fui invasivo e estúpido. Então, desculpe-me.
Os olhos atentos de o estudavam. Ela abriu e fechou os olhos antes de dar uma resposta a ele.
— Tudo bem — ela disse e voltou suas atenções ao livro que havia trazido consigo.
esperou. não se dirigiu a ele outra vez.
— Só isso?
— O quê?
— Que você tem a dizer? Eu fui um completo idiota e peço desculpas e você diz que "tudo bem"?
franziu as sobrancelhas para ele.
— É — confirmou ela. — Só isso.
— Não entendi — admitiu ele.
— O que você quer que eu diga? Que não está tudo bem e que eu não quero você perto de mim porque você me assustou um pouco aquele dia?
recuou. Seu mal estar piorou, mas ele não sabia dizer se eram as palavras de ou pelo seu organismo.
— Não.
— Então — insistiu ela —, está tudo bem. Eu desculpo você.
— Tudo bem, então.
— Okay.
— Okay — ele deu a última palavra. se afastou, mas voltou três segundos mais tarde. — É sério?
, que tinha retornado ao seu livro, voltou sua atenção a ele novamente e não estava contente.
— Agora, o quê?
— Você não está curiosa sobre o meu sonho? Ou em saber o meu nome?
não se moveu.
— Na verdade, não — respondeu ela. — Meu intuito não é ser grosseira, mas não. Não estou curiosa.
Um misto de inquietação, ansiedade, indignação e admiração fez o coração de bater mais forte.
— Tudo bem, então — foi o que ele conseguiu dizer.
— Tudo bem.
ensaiou sua saída, mas retornou pela segunda vez. Sua cabeça doía mais forte agora, mas ele não se importou.
— Olha, eu não quero ser inconveniente — retomou ele, e dessa vez o encarou impaciente —, e não encare isso como um afronta, mas meu nome é . Eu só quero que você saiba isso.
— Okay, .
— Agora eu vou embora.
— Assim eu espero — disse ela, mas não se sentiu ofendido.
Desta vez, ele realmente foi. Apanhou seu notebook na estação de estudo que ocupava e saiu da biblioteca. E ao sair, ele riu alto, embora não entendesse exatamente o porquê de sua risada. Depois, dirigiu-se a enfermaria para se medicar contra o mal-estar que sentia.
O mal-estar devia-se provavelmente às duas noites mal dormidas e sua má alimentação. estava no último ano da faculdade e havia muitos prazos a serem cumpridos, mesmo logo de início. Logo estaria bem. Isso não era importante. O que realmente interessava era que agora ele sabia mais coisas sobre :
Ela sabia o seu nome e não se importava com as atitudes dele no primeiro dia de recepção aos calouros. Não era curiosa, pelo menos não a respeito de acontecimentos triviais do seu cotidiano, como a abordagem de — talvez ele pudesse interpretar assim já que ela não se importou com aquela situação. E ele podia acrescentar à lista que perdia a paciência fácil quando importunada, mas não tinha certeza quanto a isso também.
De mais uma coisa ela tinha certeza: era intrigante, assim como no sonho, mas de uma maneira diferente. Ela o intrigava de uma maneira mais viva e desafiadora.
E de mais uma: ele queria conhecê-la ainda mais.


Capítulo 4

Em uma tarde livre de setembro, estava esparramado sobre sua cama enquanto e jogavam vídeo game. Em tempos comuns, participaria do jogo, mas durante aqueles dias seus pensamentos além da faculdade pertenciam somente a . Além disso, sua cabeça doía e ele ainda se sentia fraco. Precisava repousar.
— Estou falando sério — dizia , sem tirar os olhos da tela da pequena televisão sobre a escrivaninha —, você não foi a nenhuma festa da faculdade esse ano, . Você está vidrado nessa garota.
— Não estou — devolveu ele, sem se mover na cama.
— Eu sou obrigado a concordar com , — interpôs . — Você deveria se distrair mais.
— Eu só estou curioso — defendeu-se ele. — Vocês também estariam. Sonhei com minha vida inteira, agora ela apareceu para mim na vida real. Como vocês reagiriam?
— Você não sonhou com ela a vida toda — replicou , seus olhos tão atentos ao vídeo game quanto os de . — Você sonhou com uma garota de costas. E então antes das aulas começarem, ela ganhou um rosto. E foi um sonho. Você pode ter se confundido.
não respondeu. Manter um diálogo com seus amigos sobre era praticamente impossível. E ele não insistiria, principalmente porque não estava se sentindo bem. Seus pensamentos sobre não estavam atrapalhando seus estudos e sua vida social. não era de muito amigos e não era o maior apreciador das festas das fraternidades e nem de seus membros – comparecia em uma ou outra para acompanhar somente, mas geralmente ia embora cedo. Ele deixou de acompanhar , que tinha outras companhias além da dele. Essa foi a única mudança em sua vida depois de conhecer pessoalmente.
Pensar em e no sonho que ela protagonizava não era um problema em sua vida.
— Você falou com ela alguma vez além daquele dia da recepção? — perguntou , minutos mais tarde.
— Sim — respondeu ele. — Um dia, na biblioteca.
E, então, narrou o acontecimento. Ao final, e riam.
— Muito engraçado, idiotas — resmungou .
havia rido depois de conversar com naquele dia, mas era diferente. Ele riu de todo um contexto que de certa forma era cômico. Seus amigos estavam apenas rindo dele.
— Não temos como negar que a garota tem estilo — disse .
— O nome dela é — corrigiu . — Chame-a pelo nome. Ela não é uma garota qualquer.
e se entreolharam.
— Está apaixonado, ? — caçoou ainda. — Não me diga que se apaixonou pela garota... Ah, desculpe-me. Por .
esperou, processando aquilo. Estaria ele apaixonado por realmente? Por todo aquele tempo pensava se tratar apenas de uma curiosidade muito grande acerca de um sonho repetido e da garota inserida nele, que então apareceu em sua vida.
— Responda, ! — exclamou .

— Eu... Não sei — confessou. Sua cabeça doeu mais fortemente ao pensar sobre aquilo.
— Isso significa "estou sim, mas não quero admitir" no dicionário dos trouxas — adicionou . — Você não para de pensar nela! É claro que está apaixonado!
— De novo, concordo com — frisou . — E você me fez concordar com ele duas vezes em uma tarde, . Espero que sua paixão de adolescente valha muito a pena por isso!
e eram muito amigos, mas costumavam discutir por motivos e pontos de vista muitos discrepantes e se alfinetar por diversão vez ou outra, quando estavam todos juntos.
, ainda na cama, acomodou-se melhor com o travesseiro, de uma forma que sua cabeça não doesse tanto. A possibilidade de estar apaixonado por uma garota que mal conhecia o assustava um pouco, mas ele tentou não se ater a essa possibilidade. Ele a via em seu sonho há muitos anos, mas não a conhecia. Seu sentimento seria fruto de uma ilusão e já enfrentara muitas ilusões amorosas em sua vida, não queria mais uma.
Mas era . E mesmo não a conhecendo tão bem sabia de alguma forma irracional que seria diferente e que valeria a pena pelo menos. Porque era , a garota que o encarava, divertida, em seu sonho. E no momento em que ela o encarava, ele se sentia confortável como jamais se sentiu com uma garota.
O questionamento que ficava era como e quando se sentiria, na vida real, como no sonho.


Capítulo 5

Sob efeito de analgésicos para amenizar sua dor de cabeça, assistiu a todas as aulas da semana e no sábado a noite o convenceu de acompanhá-lo em uma festa de uma fraternidade. A fraternidade em questão era menor e menos popular que as outras e consequentemente a festa estaria mais vazia. Por essa razão, não se importou em acompanhá-lo.
Antes de sair, ele apanhou uma cartela de analgésicos para levar consigo. Não estava sentindo dores naquele momento, mas era uma precaução.
— Dor de cabeça outra vez? — quis saber , quando guardou a pequena cartela metálica no bolso na frente da calça.
— Agora não, tomei um analgésico há pouco — respondeu ele.
— Você deveria ir ao médico... — aconselhou. — Você nunca foi de ter dores assim. deu uma resposta qualquer e eles seguiram para a casa da fraternidade cujo nome ele não lembrava, onde a festa aconteceria. Ao se aproximar da casa, a música alta e o barulho da festa encheram as orelhas de e ele pensou em desistir e voltar ao seu dormitório. No entanto, avistou bebendo com alguns amigos no jardim da casa e decidiu ficar.
— Para onde você está olhando tanto? — indagou . Depois de estacionar o carro, ele e caminharam até a casa e não tirava os olhos de — Ah! Aquela é a garota?
? Sim, é ela.
— Muito bonita.
cerrou os olhos para ele.
— Ei, foi só um elogio! — defendeu-se o amigo. — Não vou dar em cima dela, se é isso que você está passando.
— Ótimo.
— E por que você se importa? Lembro-me bem de você dizendo que não estava interessado nela desse jeito.
— Eu disse que não estava apaixonado — corrigiu .
— Sei — disse , desconfiado. — E qual o seu interesse nela?
não respondeu. Ele já tinha pensado sobre isso, mas não chegou a uma conclusão satisfatória. Era evidente que chamava sua atenção, despertava curiosidade e muitos de seus pensamentos pertenciam a ela. Mas isso era paixão? É claro que não. Paixão envolveria muitas outras coisas.
— Eu sou curioso a respeito dela — ele respondeu, embora a resposta fosse insuficiente até para o próprio. — Por enquanto, acho que é só.
e adentraram o jardim da fraternidade e cumprimentou algumas pessoas que apenas conhecia de vista. Seus olhos pertenciam a , mas ele mirava outras coisas e outras pessoas ao redor dela para não ser indiscreto. Havia um barril de cerveja no jardim e eles foram até lá pegar um pouco. Dentro da casa, a música era muito alta e não quis entrar.
— Se eu sumir saiba que estarei lá dentro — avisou , entornando o copo cheio de cerveja em seguida. — As garotas já estão começando a ficar bêbadas.
— Você sabe que se aproveitar de mulheres bêbadas é uma coisa muito errada, não sabe? — replicou , severo. — Se você fizer alguma coisa, eu arrebento você!
riu.
— Relaxa, — treplicou ele, enchendo o copo de cerveja mais uma vez. — Eu só as observo dançando loucamente em cima dos móveis, é divertido. Além do mais, não me parece legal transar com uma garota bêbada, ela não vai saber o que fazer.
— Você é um idiota, sabia disso?
— Eu sei — deu os ombros. — Muitas garotas já me disseram isso. Mas fazer o quê? Ainda tenho minha clientela.
Uma garota loira sobre saltos muito altos passou por eles e se virou para observá-la de costas.
— Acho que encontrei alguém mais interessante que você, — ele disse, mas antes de ir atrás da garota loira, acrescentou: — E sério, fale com e tente não parecer estúpido. Você ao menos deve tentar conhecê-la.
foi atrás da garota loira e ficou a sós com seu copo de cerveja. Ele contemplou a metros de distância dele, conversando com os amigos e rindo de alguma piada que ele perdeu. Ele falaria com ela hoje e tentaria não parecer como um pré-adolescente bobo.
Entornou seu copo de cerveja e bebeu até a metade.
E isso era tudo o que ele se lembrava daquela noite.


Capítulo 6

estava à margem do lago novamente, e o encarava com seus olhos castanhos atentos depois que ele tocou seu ombro. A mão dela estava sobre a dele e parecia preocupada. se sentia fraco e meio tonto, e o que o mantinha em pé era . Ela piscou e parecia prestes a falar alguma coisa quando ele despertou.
A cabeça de não doía e seu corpo parecia anestesiado. Ele abriu os olhos lentamente e agradeceu pela luz do ambiente no qual se encontrava não ser forte. Em um primeiro momento, pensou estar em seu dormitório, mas ao observar ao seu redor, percebeu estar em uma enfermaria de um hospital.
Olhos o encaravam e o estudavam, mas não eram os de . estava sentado ao pé da cama hospitalar onde estava deitado. Sua expressão não era contente, mas ele não parecia desesperado.
? — chamou — O que eu estou fazendo aqui?
se levantou da cama e se aproximou dele.
— Você passou muito mal ontem à noite — ele relatou. — Eu não sei exatamente o que aconteceu, eu não estava com você. Trouxemos você aqui com suspeita de coma alcoólico, disse que você desmaiou depois de vomitar e...
Nada o que havia dito foi processado por além do nome dela.
? torceu os lábios.
— Sim, ela está aqui. Passamos a noite aqui com você. Ela saiu há pouco para comer alguma coisa.
— Eu não me lembro de falar com ela ontem à noite — confessou — Lembro-me de você saindo atrás daquela loira e então... Mais nada.
franziu a testa para ele.
— Bom, o médico deve explicar isso para nós — ele devolveu. — Mas muita coisa além disso aconteceu, eu tenho certeza.
suspirou e tentou relaxar. Ele tentava se manter calmo e com pensamentos distantes de todas as piores possibilidades que poderiam tê-lo trazido àquela situação. O mal-estar constante das primeiras semanas de aula não estavam ligados ao seu desmaio repentino, não é? Devia haver alguma haver alguma droga na cerveja da festa e seu organismo reagiu de maneira diferente a ela, só isso.
Quinze minutos se passaram até o médico chegar para conversar com . Enquanto isso, ele se distraiu ouvindo os demais pacientes e enfermeiras nos leitos ao lado do seu, mas ele não os via. Duas cortinas grossas separavam o seu leito dos outros na enfermaria, garantindo a privacidade de todos os paciente.
— Olá, — cumprimentou o médico. Ele era alto, o cabelo castanho tinha alguns fios grisalhos e seu avental era tão branco e alinhado que se perguntou se ele evitava se mover para conservá-lo daquela maneira. — Sou James Wilbur, estou cuidando do seu caso. Como está se sentindo?
— Fraco — respondeu o menino. — O que aconteceu comigo?
— Já conversamos sobre isso, um momento.
James Wilbur estudava sua ficha presa a uma prancheta. Ele anotou alguma coisa rapidamente e pendurou a prancheta novamente ao pé da cama. O médico se aproximou de e examinou seus olhos, boca e escutou seus batimentos cardíacos com o auxílio do estetoscópio.
— Bom, você parece bem — retomou o médico. — Tenho algumas notícias para dar a você, , e elas não são muito agradáveis. Você já tem mais de vinte e um anos, então posso seguir o protocolo. Mas se preferir, posso esperar a presença de um familiar aqui para isso, ou esperar até que sua namorada volte.
Namorada? Antes que pudesse perguntar de quem o médico estava falando, aproximou-se.
— A namorada dele saiu — disse ansioso. — Eu sou amigo dele, melhor amigo. Serve?
James Wilbur esperou responder. Atrás dele, fez uma careta para que ele ficasse quieto e entendeu ser a respeito da "namorada".
— Meus pais não moram aqui — disse em resposta — A presença de é suficiente.
James Wilbur suspirou.
— Pois bem, então — ele começou. — Ontem você deu entrada na emergência com suspeita de coma alcoólico, mas sua namorada disse que você não bebeu o bastante para isso. aqui me disse contou que você anda se sentindo mal há algumas semanas e então suspeitei de algo. Fizemos um hemograma, um exame de sangue simples, que ficou pronto há pouco.
suspirou. A notícia realmente não deveria ser boa, caso contrário o médico diria logo e sem a presença de ninguém. Seu coração estava acelerado.
— O exame indicou uma quantidade anormal de linfócitos, células sanguíneas — continuou o médico.
Excesso de linfócitos. preferia Matemática a Biologia, mas sempre foi um bom aluno em Biologia também. Ele se lembrava das aulas de sistema sanguíneo — seu professor, na escola secundária, dissertou sobre linfócitos, células de defesa do sangue.
A quantidade exacerbada de linfóticos no sangue caracterizava uma doença.
Um câncer. Leucemia.
— Isso indica leucemia — o médico confirmou os pensamentos de .
Ao seu lado, engasgou. não se moveu, não reagiu, apenas esperou. O que ele esperava, não sabia dizer.
— Apesar de a leucemia ser uma doença maligna, , você é jovem e detectamos o quadro no estágio inicial. Suas chances de cura são muito altas, mas algumas coisas vão mudar por enquanto.
James Wilbur explicou, então, o tratamento e a rotina que deveria seguir a partir daquele momento. Sua dieta alimentar mudaria, a exposição ao sol em horários de risco deveria diminuir e ele passaria por algumas sessões de radioterapia. Por fim, ele disse novamente que as chances de eram altas e por isso descartou quimioterapia e transplante de medula óssea por ora. Com o decorrer no tratamento, o médico poderia lhe dar mais informações.
Quando James Wilbur foi embora, chegou. Pela sua expressão, não deveria aparentar estar muito bem.
— O que o médico disse? — perguntou para e . — Leucemia — respondeu sem emoção.
se aproximou dele e se apoiou na beira do leito. Sua expressão era diferente de , ela não o encarava com compaixão por ele estar doente de um câncer grave, ela o encarava como se ele já estivesse curado.
— Seguindo o tratamento de maneira correta, você vai se curar — disse ela. — Não se preocupe. A radioterapia deve fazer efeito logo e você estará curado antes do que imagina.
a encarou. não estava ali quando James Wilbur dissertou sobre o tratamento.
— Como você sabe disso?
— Eu faço Medicina — respondeu ela. — Estou no primeiro ano, mas meu padrasto é médico também e eu li muitos dos livros que ele tinha no escritório antes de vir para cá.
assentiu. Houve um momento de silêncio até que tomou a palavra:
— E dissemos à enfermeira que é sua namorada — disse ele em tom divertido. — Caso contrário, ela não deixaria passar a noite aqui com você.
franziu as sobrancelhas para ela.
— Por que você ficou aqui?
esboçou um sorriso.
— Embora você seja estranho e meio estúpido, você desmaiou na minha frente durante a festa — contou ela, descontraída. — E até então estava tudo bem e nós estávamos conversando como pessoas normais. Eu fiquei preocupada com você.
Ele sentiu suas bochechas esquentarem e torceu para que não estivessem ruborizadas também. sentiu um conforto caloroso no peito ao ouvir a resposta de e ele sorriu. Ela se preocupou com ele.
— E tem mais uma coisa — acrescentou ela.
— O quê?
— Eu queria que você me contasse sobre aquele sonho.


Capítulo 7

relatou seu sonho a , mais de uma vez. Ele contou a ela sobre as mudanças de humor em cada sonho e as sensações inconstantes começaram a fazer sentido para quando falava sobre sua vida.
— Uma vez, quando eu tinha uns catorze anos, eu me senti muito amedrontado quando sonhei — contou .
Ele e estavam no dormitório dela. , acomodado o mais confortavelmente possível na cama dela, esperava o enjoo, efeito colateral da radioterapia, passar. estava sentada em sua cadeira na escrivaninha e seus pés para cima apoiados na cama.
— Temos quatro anos de diferença, então eu tinha dez anos nessa época — analisou . — Aos dez, eu tinha pesadelos constantes. Foi quando minha avó faleceu. Foi a primeira morte que eu enfrentei e não entendia muito bem o que tinha acontecido.
— Será que tem alguma relação?
— Eu realmente não sei — respondeu descrente. — Minha mãe e meu padastro me criaram na descrença e no ceticismo, então eu não sou muito chegada a sonhos premonitórios, vidência, astrologia, magia e essas coisas.
— Mas você gosta de Harry Potter — brincou ele, apontando para pequenas ilustrações que formavam um grande quadro sobre a cama de .
Ela riu.
— É ficção — ela justificou. — É diferente. Mas não sei. Eu não me vejo como uma cética ferrenha, só acredito que tudo tem uma explicação lógica, mas somos limitados a entender. Não é porque não sabemos explicar um fênomeno que devemos encontrar uma maneira sobrenatural e mística para isso.
— É uma forma sensata de pensar.
sorriu.
— Mas faz um pouco de sentido — retomou ela o assunto do sonho. — Naquela época, eu fiquei com muito medo. Minha avó faleceu enquanto dormia e eu tinha medo que isso acontecesse comigo também. Então tinha muito medo.
— Ano passado sentia ansiedade. Muita.
— Ano de SATs. Confere.
Após ter acompanhado no hospital e fingido ser sua namorada, se aproximara dele. Encontravam-se frequentemente e às vezes estudavam juntos na biblioteca. A rotina do garoto se tornou mais monótona do que costumava ser; ele passou a evitar ficar muito tempo exposto ao sol, sua alimentação estava regrada e muito limitada – fazia sete refeições livres orgânicas e muito saudáveis ao dia e tomava muito líquido –, estava dormindo menos do que de costume e as tonturas e os enjoos, efeitos colaterais da radioterapia, deixavam sua rotina ainda menos animada.
As sessões de radioterapia eram praticamente diárias acontecendo cinco vezes na semana. retornava ao hospital durante a semana inteira, exceto às quartas e aos domingos. , e o acompanhavam. também.
revelara aos pais sobre sua doença no dia seguinte ao que soube. Após muita conversa e argumentação, ele conseguiu convencê-los a permanecer em Springfield, onde residiam, indo à Chicago apenas para visitá-lo nos finais de semana. O acordo se manteria caso não piorasse.
— Talvez tenha uma ligação com as suas emoções — disse .
— Quem sabe? — E então eu estaria ligado a você mais profundamente se isso realmente fizer sentido.
o encarou suavemente e o canto de seus lábios se curvaram em um sorriso fraco. manteve seu olhar sobre ela, mas ele não expressava muita emoção. Ele estava concentrado em tentar ignorar a tontura, mantendo o olhar fixo em um ponto. Mas sua tentativa não obteve sucesso. Ele precisou se segurar na cama para não cair, ou assim pareceu a ele.
— Está tonto? — a menina quis saber.
assentiu com um resmungo.
— Se você se deitar, piora — disse ela e então se levantou da cadeira. — Espere, sente-se o mais ereto possível.
acomodou o seu travesseiro nas costas dele e ajeitou sua cabeça sobre uma almofada. Com a cabeça levemente inclinada para trás, a tontura passaria mais rápido. fechou os olhos e esperou.
— Essa é a pior parte, não é? — retornou , agora sentada à beira da cama, ao lado do menino.
— Acho que sim — respondeu ele, ainda de olhos fechados. — Eu pensava que o mal estar ia passar com o tratamento, mas ele só piorou.
suspirou.
— Sete semanas de tratamento, já se foram duas. Daqui a pouco passa e você estará bem melhor.
— Eu espero — murmurou ele.
Eles ficaram em silêncio por um momento e foi buscar uma garrafa d'água para ele. Quando retornou, ele estava exatamente do mesmo jeito. Ela entregou a garrafa d'água e voltou a se sentar na beira da cama.
— Quero saber uma coisa — disse ele após tomar um gole d'água. o observou, esperando. — Até o dia da festa, até a parte em que eu me lembro, você não gostava muito de mim. Quase me enxotou da biblioteca aquele dia. O que eu te disse pra fazer você mudar de ideia?
riu.
— Eu não te enxotei da biblioteca, só fui pragmática com você.
— Ah, com certeza! — zombou ele. — Pragmática. Uma forma bonita e rebuscada para definir frieza e grosseria.
— Você é fresco e não aguenta palavras mais duras — retrucou ela, ainda rindo —, mas naquela noite você não disse nada em especial. Pediu desculpas mais uma vez pelo lance do primeiro dia da recepção e depois começou a me perguntar coisas normais, se eu estava gostando da universidade e tudo mais. E eu respondi. E então estávamos conversando.
sorriu.
— Demora anos para eu ser agradável realmente com uma garota e quando acontece eu não me lembro. Que tipo de azarado sou eu?
— Um dos piores — respondeu em tom divertido. — Mas não acredito que tenha sido uma única vez.
— Isso foi um pouco exagerado, sim. Houve outras ocasiões, mas não muitas.
— Humm, você é do tipo seletivo, então? — brincou ela.
Ele riu alto.
— Não necessariamente — respondeu ele. — Mas no geral, interesso-me pelas garotas que estão bem longe do meu alcance.
— Você está se subestimando — ela replicou, agora sem o tom de brincadeira. — Isso realmente não existe. Pessoas são pessoas.
— Acho que sim, não sei. Na verdade, eu não penso muito nisso. E também não sou muito empenhado em sair por aí conhecendo pessoas novas. Gosto de ficar na minha.
— Sei como se sente.
— Você está sempre cercada de amigos — treplicou — Não sabe não.
balançou a cabeça.
— Às vezes — ela admitiu —, mas também tenho meus tempos de isolamento. Você vai reparar isso em algum momento. E não vai ser por causa de tensão pré-menstrual, já aviso.
— Então quer dizer que isso vai continuar? — ele quis saber — Nós dois.
esboçou um sorriso.
— Não vejo razão para o contrário.
sorriu para ela e bebeu mais um pouco d'água. A tontura estava passando e ele se sentia melhor. Em parte pela amenização do mal estar, em parte pela fala de . A única certeza que ele tinha sobre suas intenções com ela era se tornar seu amigo. E ele tinha conseguido.
Por enquanto, estava tudo bem.


Capítulo 8

As sessões de radioterapia eram extremamente desagradáveis, mas a primeira meia hora depois que a sessão acabava conseguia ser pior. Quando os quinze minutos da sessão chegavam ao fim, se sentia muito tonto e enjoado. Desta maneira, sempre precisava que alguém o acompanhasse para dirigir no caminho de volta.
Seus amigos , e Hunter não se importavam em acompanhá-lo, mas preferia quando o fazia companhia. Os garotos eram atenciosos e preocupados com ele, mas não sabiam lidar tão bem com a situação quanto .
era bruto e sempre tentava fazê-lo rir para espantar o mal estar, como se as piadas sem graça dele fossem agir como um remédio. O diálogo entre eles acabava com frases desconexas em meio a piadas velhas e acabava por desejar somente silêncio.
e Hunter sempre o acompanhavam juntos e agiam como pais de primeira viagem. Observavam como se ele fosse um bebê recém-nascido e pudesse parar de respirar a qualquer momento. Eles hesitavam em tocar em por medo de machucá-lo de alguma forma e o único diálogo que se tinha era formado por perguntas de "está tudo bem?" de e resmungos de .
, ao contrário, sabia lidar muito bem com a situação. Ela esperava o menino sair da sala na qual era realizada a sessão e o ajudava a sentar na sala de espera ou em um leito na enfermaria ao lado, caso o mal estar estivesse muito grande. Ela sabia quando falar e quando permanecer em silêncio. E, principalmente, não se importava caso vomitasse.
— Viemos cedo hoje, não é? — disse em uma sexta feira à tarde.
, muito pálido e fraco, murmurou que sim. Ele tinha acabado de colocar o café da manhã e o almoço para fora dentro de uma lixeira que ele conseguiu alcançar antes de vomitar no chão.
— Quer ir ao banheiro enxaguar a boca? Posso pegar água para você se quiser.
Ele assentiu e meio cambaleante foi até o banheiro da enfermaria. o acompanhou até a porta, atenta aos seus movimentos. Ela estaria pronta para apanhá-lo se ele caísse.
Quinze minutos depois de permanecer deitado no leito, estava melhor. A menina estava sentada ao pé da cama esperando, enquanto lia um pequeno folheto sobre câncer de pulmão que pegou na recepção.
— Vou me sentir bem se você falar comigo agora — disse .
olhou para ele e esboçou um sorriso. Ela foi até ele, ao lado do leito e guardou o folheto no bolso de trás da calça jeans.
— Você quer falar sobre o quê? — perguntou.
Ela o encarava, mas não havia nenhum sentimento ruim transparecendo em seu olhar. se mantinha positivo, confiando em suas boas chances de cura, mas ao estar doente de uma doença maligna, pensamentos ruins assombravam qualquer pessoa – e com ele não era diferente. Quando esse tipo de pensamento se aproximava, ele tentava espantá-los, mas quando estava na presença de , era como se as possibilidades ruins não existissem.
— Não sei — respondeu ele pensativo. — Humm... Por que você decidiu fazer medicina?
— Não houve um momento, eu acho, em que eu realmente me decidi. Foi acontecendo. Eu sempre me interessei por essa área, sempre gostei de séries e documentários relacionados. Biologia era a minha matéria favorita e com um parente médico as coisas vão se encaixando, eu acho. Não me imagino fazendo outra coisa.
— Mesmo tendo que viver em um hospital?
sorriu.
— Eu gosto de hospitais.
— Como você pode gostar de hospitais? — questionou rindo. — Só há pessoas doentes aqui, muitas em estado grave. Pessoas morrem aqui!
— É uma questão de ponto de vista — replicou ela. — Eu vejo o hospital como um lugar de cura. E pessoas morrem aqui, sim, mas também nascem aqui.
assentiu.
— É uma boa maneira de ver as coisas — disse ele.
— Tudo tem um lado bom — adicionou ela —, é só se esforçar para enxergá-lo.
Eles ficaram em silêncio por um momento. apoiou as mãos na beira da cama e alisou o lençol, distraindo-se. A mão de estava próxima das dela e ele girou seu punho, deixando sua palma para cima. Ela entendeu o gesto e pousou sua mão sobre a dele, entrelaçando seus dedos em seguida. O toque dela era macio e frio, exatamente como no sonho. Por alguns segundos, não olhou para , mas quando o fez, ele sorria.
— O quê? — desconversou ela.
Em outra ocasião, pensaria duas, três, quatro ou até cinco vezes antes de perguntar o que iria perguntar, mas estava convivendo com ele no seu pior estado e não deixava que nada atrapalha-se a amizade deles. sempre quis algo mais com a garota do sonho, mas a garota do sonho era irreal. era real e tinha se tornado sua melhor amiga em pouco tempo. Mas amizade não era o suficiente.
— Vamos ao cinema hoje à noite? Jantamos em algum lugar saudável e fresco e pegamos a sessão das oito horas, o que acha?
sorriu de canto.
— Tipo um encontro? — ela quis saber.
— É — respondeu ele, mas confiante do que jamais fora. — Tipo um encontro.
— Tem um problema, só. Acho que devemos jantar na faculdade mesmo. Não creio que exista um restaurante tão saudável que sirva o tipo de comida que você pode comer em algum lugar por aqui.
sorriu. Ela aceitou.
— Jantamos na faculdade então.
— Combinado.


Capítulo 9

— Aonde você vai assim, tão arrumado? — quis saber , quando entrou no dormitório.
estava arrumando o colarinho da camisa jeans que vestia defronte ao espelho pregado à porta do seu armário. O tom de azul da camisa disfarçava um pouco sua palidez, mas ele não tinha como esconder as olheiras arroxeadas que se formaram embaixo de seus olhos.
— Vou ao cinema.
— Com quem? — disparou e então se jogou em sua cama.
bufou.
— Com ? — perguntou o amigo ba ausência de uma resposta. — Finalmente a chamou para sair?
— Sim — ele respondeu, agora ajeitando o cabelo. nunca se importou realmente com a saúde do seu cabelo e nunca cuidou muito bem dele, mas a mudança era evidente. Seu cabelo costumava ter uma cor viva e brilhar um pouco, agora estava opaco e seco. — Acho que foi na hora certa.
folheava uma revista em quadrinhos.
— Passou da hora, não é? — replicou ele e então levantou os olhos para o amigo. — Mais um pouco e eu ia convidá-la para sair por você.
olhou para ele.
— O que você quer dizer com isso?
, por favor — pediu e então voltou-se para a revista em quadrinhos. — passa muito tempo com você. Ela cuida de você. É claro que ela gosta de você e de verdade. Só você que não percebeu isso.
não respondeu. Somente esperava que o amigo estivesse certo.
— Bom, preciso ir — disse , então, apanhando a carteira e a chave do dormitório de cima de sua escrivaninha. — Deseje-me sorte.
— Boa sorte.
E a porta se fechou atrás de .

(...)

tomou o elevador para descer até o térreo do complexo estudantil. Seu dormitório ficava no segundo andar e ele costumava usar as escadas, mas agora, com o cansaço e a fraqueza constantes que sentia, evitava qualquer tipo de esforço físico.
Ele pretendia ir até o complexo no qual o dormitório de ficava, mas ao atravessar a porta de entrada do seu complexo, deparou-se com encostada no seu carro. Ela mexia no celular quando percebeu que ele chegara.
— Estava ligando para você agora — ela disse sorrindo.
— Você realmente não precisava vir me buscar — replicou ele.
girou os olhos.
— Claro que precisava. Você não deve se esforçar muito e caminhar até o meu prédio é um esforço bastante grande — devolveu ela.
a envolveu em um abraço e seu perfume encheu suas narinas. Ultimamente, ficava enjoado com perfumes e cheiros novos, mas isso não aconteceu. Ela cheirava a shampoo e a maçã verde.
— Vai ser meio ridículo sairmos assim, combinando? — perguntou quando a abraço se desfez.
Ela usava um vestido jeans e o cinto fino que marcava sua cintura tinha o mesmo tom de marrom que a calça de , além de que sua camisa era jeans também. Ele riu por causa disso.
— Vai — ele respondeu —, mas eu não estou em posição de me importar com o que desconhecidos vão pensar de mim. Além do mais, você está linda e ninguém vai reparar em mim ao seu lado.
As bochechas da garota ficaram ligeiramente ruborizadas, mas ela não deixou de sorrir.
— Obrigada — ela agradeceu. — Vamos? O refeitório vai fechar em vinte minutos.
e seguiram de carro até o refeitório que ficava próximo aos complexos estudantis. Eles jantaram sem pressa e então foram ao cinema de rua que não ficava muito longe do campus da universidade. A sessão começava às oito horas e enquanto esperavam, sentaram-se no banco da praça em frente ao cinema.
Ele esticou o braço sobre o encosto do banco, mas a verdadeira intenção era envolver os ombros de . Ela cruzou as pernas e guardou o celular na pequena bolsa que trouxera.
— Como está se sentindo agora? Sem tontura ou enjoo? — perguntou ela.
— Nada — respondeu ele aliviado. — Apenas o cansaço de sempre.
franziu o cenho para ele.
— Podemos mudar de programa se quiser — disse ela preocupada. — Eu realmente não me importo de ir assistir um filme pelo notebook com você em seu dormitório.
— Não precisa — tranquilizou . — Eu não parei com a faculdade por causa dessa situação e não quero me limitar por causa disso. Caso eu me sinta mal, aviso você. Prometo.
Ela sorriu.
— É bom que você pense assim. Que a leucemia não é um agente limitante para a sua vida. Fico feliz de ouvir você dizendo isso.
— Tudo tem um lado bom, não é mesmo? — parafraseou , sorrindo de volta.
— Sim — ela respondeu, embora não tivesse sido uma pergunta.
— Mas, de qualquer forma — ele retomou —, assistir ao filme no meu dormitório não é uma má ideia.
— Não é — concordou . — Alias, é uma ótima ideia para um segundo encontro.
Eles estavam muito próximos. , involuntariamente, inclinou e abaixou a cabeça em direção a e ela o observava de perto, acompanhando cada traço do rosto dele com os olhos. Suas respirações já se misturavam quando perguntou:
— Haverá um segundo, então?
— É claro que sim — respondeu ela.
A garota esboçou um sorriso e no instante seguinte os lábios dela tocaram os dele. Por um momento, se preocupou com o ressecamento de seus lábios, mas não foi por muito tempo. tocou seu rosto com seus dedos finos e macios. Ele fez o mesmo, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela e aos poucos o beijo se intensificou.
O beijo se partiu quando eles precisavam respirar.
— É melhor que um sonho — disse — Bem melhor.
riu.
— O quê? — ele quis saber, ligeiramente preocupado em ter soado piegas demais.
— Nada — respondeu ela. — Não estou rindo de você. É que eu me lembrei de uma passagem de um livro e seria meio estranho se eu citasse agora sem parecer extremamente nerd.
— Harry Potter? — o menino arriscou um palpite.
assentiu.
— "Não vale a pena viver sonhando e se esquecer de viver"? — sugeriu ele.
— Como sabe?
— Eu posso não ser o maior fã, mas conheço a história — respondeu ele. — E é uma passagem famosa, convenhamos.
Ela sorriu para ele.
— Bonito, inteligente, bom de beijo e ainda sabe citar Harry Potter? Definitivamente haverá um segundo encontro — afirmou .
E dizendo isso, selou seus lábios aos dele novamente.


Capítulo 10

Uma semana mais tarde, e estavam mais próximos do que jamais estiveram. Encontravam-se todos os dias, mas não passavam tanto tempo juntos quanto gostariam pelos compromissos que cada um tinha com a faculdade.
Em uma quarta-feira de manhã, antes de as aulas começarem, estava sentava com as costas apoiadas no tronco de uma árvore, e estava deitado ao seu lado, com a cabeça em seu colo. Ela entrelaçava seus dedos aos fios de cabelo dele, puxando os para trás com cuidado.
evitava o sol do hórario de risco — das dez às quatro da tarde —, mas o sol da manhã fazia bem para ele. Ele não podia se abster totalmente da claridade do dia. Deficiência de vitamina D era o que ele menos precisava desenvolver naquele momento.
— Conte-me um sonho — pediu .
o encarou confusa.
— Não um sonho como o meu com você — explicou ele. — Um sonho como um desejo.
— Entendi — disse ela. — Humm... Quando eu era criança sonhava em ser uma lutadora de karatê. Não para competir nas Olimpíadas, mas para combater o mal.
Eles riram com o sonho de infância de .
— Não sei de onde surgiu isso — retomou ela —, mas acredito que tenha sido depois que eu assisti Karatê Kid pela primeira vez.
— Provável.
— E você?
— O meu é clichê — repondeu . — Eu queria ser um Jedi. E realmente lutar contra o mal e trazer equilíbrio à Força.
— Ambicioso — brincou ela.
— Bastante! — ele riu.
— Qual foi o melhor dia da sua vida? — quis saber , entrando no jogo das perguntas.
pensou.
— Isso é difícil — respondeu ele. — Acho que foi quando recebi minha carta de admissão daqui. Foi minha primeira grande conquista individual. E eu queria muito entrar aqui. Hoje, eu não vejo como um feito extraordinário e talvez eu pudesse ter me esforçado mais para conseguir uma bolsa em uma Universidade maior e mais renomada. Mas quando recebi minha carta de admissão, eu fiquei muito feliz mesmo.
— Essa sensação é muito boa mesmo — concordou .
— E o seu melhor dia, qual foi?
torceu os lábios, também pensativa.
— Foi no terceiro ano da escola secundária — contou ela. — Eu tinha levado um fora muito, muito doloroso do garoto com que eu estava saindo e minhas amigas mais chegadas e eu nos encontramos na casa de uma delas — riu ao relembrar-se do episódio. — Compramos um monte de besteiras pra comer e quatro garrafas de vinho. Fiquei bêbada pela primeira vez aquela noite, depois de rasgar todas as fotos, bilhetes e qualquer coisa que me fazia lembrar do garoto.
não cuidou disso para você? — perguntou , rindo.
, o irmão mais velho de , era bastante protetor em relação à irmã. o encontrara pouquíssimas vezes depois do episódio do primeiro dia de recepção dos calouros, mas quando se encontravam, nunca estava de bom humor.
— Não — repondeu . — Ele nem soube que esse garoto existiu.
— Entendi.
Permaneceram em silêncio por um momento enquanto acariciava o rosto de com as costas dos dedos. À luz do sol, parecia saudável. Ela se inclinou para dar um beijo nele e afundou seus dedos no cabelo dela, deslizando pelos fios quando ela se endireitou encostada na árvore depois.
— Meus pais virão me visitar no final de semana — contou ele, brincando com uma mecha de cabelo dela que permaneceu presa entre seus dedos. — Você acha que é muito cedo para conhecê-los?
pensou por um momento.
— Como amiga, não — respondeu ela, ainda pensativa. — Como mais do que isso, talvez seja um pouco cedo. Ou não. Na verdade, eu estou um pouco confusa em relação a isso.
— Ao ser mais que mais uma amiga para mim? — ele quis saber.
assentiu.
— Sobre meus sentimentos por você — ela foi mais precisa.
Um arrepio percorreu o corpo de ao processar as palavras de . O que ela queria dizer com isso?
Ele esperou.
— Talvez. Talvez — ela repetiu enfaticamente — eu esteja gostando mais de você do que eu devia gostar, já que estamos juntos a poucos dias. E alguns desses sentimentos me assustam. Um pouco.
relaxou, embora agora o arrepio tivesse sido substituído por uma curiosidade extrema.
— Eu sonhei com você antes de te conhecer — ele começou, calmo. — Tenho certeza que qualquer coisa que você sentir por mim não te fará mais estranha que eu.
Ela riu.
— Não é isso — explicou ela. — É que... Eu nunca me apaixonei, .
— Você acabou de me contar que levou um fora e que foi doloroso — replicou ele desconfiado.
— Sim, mas... — retomou e estava desajeitada com suas palavras. — É que... Aquilo foi mais uma paixonite de adolescente do que uma paixão de verdade. Perto do que eu estou sentindo por você agora, aquilo é tão insignificante quanto um grão de arroz.
Ele não conteu seu sorriso.
— É bom ouvir isso — disse ele.
— Por isso, eu estou um pouco perdida. Mas se você quer saber se eu quero conhecer os seus pais, eu quero. Só não sei se é a hora certa porque eu estou confusa quanto a tudo.
se levantou e se aproximou dela, encarando-a de frente. parecia meio angustiada e isso lhe incomodava. O envolvimento deles era para ser algo bom e não algo para trazer a ela qualquer tipo de sentimento ruim.
— ele tomou a palavra. — Você realmente não deve se preocupar com isso. Eu não quero que você se preocupe assim. Estamos juntos há poucos dias, vamos com calma. Você pode conhecer meus pais somente como uma amiga e isso não vai ser problema nenhum.
Ela suspirou.
— Eu sei. Tudo bem — ela disse. — Eu gosto muito de você, de verdade. Muito mesmo. Só estou me acostumando com a ideia de estar apaixonada por alguém, eu acho.
— Não se preocupe com a denominação disso tudo — disse ele, tocando suas mãos. segurou as mãos dele e se aproximou para que ele a envolvesse em um abraço. — A gente vai resolvendo essa questão aos poucos.
— Não vai ficar cheateado?
— É claro que não — respondeu ele com um sorriso. — Estamos juntos e é isso o que importa.
pressionou seus lábios contra a têmpora de e ela se virou para beijar sua boca. Mantiveram-se ali, sob a árvore, entre beijos e carinhos até o horário das primeiras aulas do dia. Quando se separaram, manteve um sorriso confiante nos lábios. A denominação realmente não importava, o importante era que sentia algo por ele.


Capítulo 11

convenceu seus pais a permanecerem em Springfield e não se mudarem para Chicago para cuidar dele por dois motivos. O primeiro era o mais óbvio: as chances de cura e da eficiência da radioterapia eram bastante altas e ele estava bem. Não precisaria de ninguém cuidando dele, seguiria sua vida normalmente convivendo com o efeito colateral do tratamento. O segundo motivo era por medo da reação dos seus pais.
Seu pai e sua mãe sempre foram exagerados quanto à realidade. Tombos e machucados corriqueiros da sua infância se tornavam caso de emergência para eles. Sempre fizeram parecer que as coisas eram piores do que realmente eram, e não queria esse tipo de pensamento martelando em sua cabeça. Não naquele momento, não em meio de um tratamento para leucemia.
Quando a mãe de , Margareth, encontrou com ele na rodoviária de Chicago, começou a chorar. sabia que sua aparência era doentia; ele estava mais magro, mais pálido e aparentemente muito mais cansado do que nunca. Essa era a segunda vez que eles o visitavam depois da notícia, e piorou em aparência entre uma visita e outra.
Seu pai, Geofrey, também se emocionou. E tudo o que menos precisava era isso. Ele gostava da companhia de por muitos motivos, mas por ela olhar para ele como um sobrevivente já era o suficiente para ele querê-la por perto o tempo todo. A emoção dos pais o fazia se sentir mais enfermo e mais fraco, como se estivesse à beira de um abismo, prestes a cair.
Ele sabia que seus pais o amavam e que queriam seu bem e sua recuperação, mas a reação deles era sempre a pior. Por sorte, aceitou acompanhá-lo até a rodoviária para buscá-los e ela o trazia de volta à realidade sempre que ele olhava para ela.
Depois de se desfazerem dos abraços, Margareth e Geofrey notaram a presença de .
— Mãe, pai — disse. — Está é , minha amiga. Ela estuda comigo na universidade, entrou esse ano.
Cumprimentaram-se e Margareth a abraçou sem cerimônia. sorriu para quando abraçou sua mãe e ele aquele olhar era tão intímo quanto um beijo.
tem me acompanhado às sessões de radioterapia — adicionou ele.
Geofrey e Margareth a encararam, esperando um comentário.
— Acredito que está indo bem — apressou-se ela a dizer, e lançou-lhe um olhar significativo. — Alias, ele está indo muito bem — ela corrigiu. — As chances de cura no caso de são altíssimas. Daqui a poucas semanas ele estará bem como se nunca estivesse estado doente.
— Ah, eu fico muito contente de ouvir isso! — disse Margareth, ainda emocionada. — Ficamos tão preocupados com ! Por mim, eu teria vindo para cá no dia seguinte que ele nos deu a notícia, mas como sempre...
— Não é necessário, mãe — repetiu .
— Eu sei, . Eu sei — Margareth disparou. — Mas é uma situação complicada. Coloque-se no meu lugar, eu...
— Eu tenho certeza que se colocou no seu lugar, senhora...
— Margareth, querida — interrompeu ela. — Chame-me de Margareth.
— Ah, sim... É, ele se colocou no seu lugar. Exatamente por isso ele preferiu que vocês ficassem em Springfield.
— É verdade — acrescentou . — Vocês têm o seu trabalho, tem sua casa, tem toda uma vida lá. Eu estou bem. Não faz sentido vocês se deslocarem até aqui para cuidar de mim se eu estou bem.
— Nós entendemos, meu filho — concluiu Geofrey. — Mas é uma ocasião delicada. Pretendemos vir mais vezes.
— E vocês serão bem vindos — disse . — No entanto, é desnecessário toda essa emoção. Eu estou bem, eu juro.

(...)

Ao entardecer, , e seguiram ao hotel onde os pais de estavam hospedados para jantar. Margareth e Geofrey sempre gostaram muito de , apesar de não entender a empatia deles com o seu amigo. era muito simpático e agradável com eles, mas seus pais costumavam detestar os amigos da escola de e ele pensava que isso se manteria com os novos amigos da universidade.
Ao encontrá-lo, tanto Margareth quanto Geofrey o abraçaram e fizeram muitas perguntas sobre sua vida. respondeu a todas com entusiasmo e, ao se sentar ao lado de a mesa, disse: — Acalme-se, garota. Os pais de não desconfiaram de nada. — Eu estou calma — retrucou , mentindo. — Ah, é? — questionou ele. — Então por que você não relaxa seus pulsos? Vai acabar cravando as unhas na própria carne se não relaxá-las. Desde quando reencontraram com os pais de , estava meio nervosa. Nunca conhecera os pais de nenhum dos seus... Que denominação usaria para ?
— Estamos indo bem — disse a ela, calmo. — Meus pais não desconfiaram de nada, está certo. , embora sob controle, estava nervoso também. Ele havia apresentado uma namorada aos seus pais há alguns anos, durante sua adolescência e não foi muito agradável a conversa que eles tiveram com ela. Depois disso, nunca mais se envolveu tão seriamente com qualquer garota a ponto de apresentá-la aos pais e era a primeira desde então. No entanto, ela estava ali como uma amiga e isso facilitava as coisas.
Ele somente não queria entregar a verdadeira relação que ele tinha com aos pais com qualquer gesto de afeto um pouco mais íntimo. Ele deveria se policiar quanto a isso. E era difícil.
O jantar correu normalmente e depois da sobremesa se ausentou do restaurante do hotel por um momento para atender uma ligação.
— Então, — disse seu pai. — Quanto tempo vai demorar para você apresentar como sua namorada?
Seu pai o encarava com uma expressão divertida no rosto enquanto esperava a resposta. Ao seu lado, gargalhou e Margareth se manteve atenta. estava sem palavras. Tinha certeza que ele e tinham sido muito discretos quanto a qualquer coisa que envolvesse uma relação mais séria que uma amizade.
— Vocês podem se conter o quanto quiserem — acrescentou Geofrey em meio ao silêncio do filho —, mas não há como manipular o jeito que você olha para ela, meu filho.
— A intenção não era esconder nada — explicou ansioso. — Mas estamos juntos há poucos dias e as coisas não estão realmente resolvidas entre nós ainda...
— Eles se amam, mas acham que é cedo demais para admitir isso — interrompeu , para o divertimento de Geofrey e Margareth. — É isso.
! — exclamou , severo.
— O quê? Estou sendo sincero. semicerrou os olhos para ele. Sua vontade era de aceitar um soco bem no meio do seu nariz. No entanto, fraco do jeito que estava, o soco machucaria mais a si próprio do que a .
— chamou Margareth. — Acalme-se. Está tudo bem.
Ele suspirou.
— Vejo que você gosta muito dela — sua mãe continuou — e percebi que ela gosta muito de você também. Para nós, é isso que importa.
Pelo espelho que decorava a parede defronte a no restaurante, ele viu retornando a mesa.
— Tudo bem, mas sejam discretos, sim? — pediu ele. — Ela está voltando. Quando se sentou a mesa, ainda estava tenso e ainda estava rindo. Ele inventou um história qualquer para justificar sua risada, mas desconfiou. Ao término do jantar, , e voltaram para o campus da faculdade, mas não disse nada a ela sobre o acontecimento.


Capítulo 12

As semanas de tratamento passaram e no último dia de radioterapia fez também um novo hemograma. No dia seguinte, o secretário de James Wilbur, médico que acompanhava o caso de , ligou para ele marcando um horário para o recebimento do resultado. O médico queria conversar com ele.
— O que você acha que vai acontecer? — perguntou a quando contou a ela sobre a ligação. — Isso significa más notícias?
Eles estavam almoçando no refeitório do campus. cortou o bife em seu prato antes de responder. Ela estava pensativa.
— Não necessariamente — respondeu ela então. — É comum que os médicos conversem com os pacientes depois de um tratamento como esse. Não se preocupe, vai dar tudo certo.
— Você vem comigo? — Sempre — ela disse e sorriu. se concentrou em seu almoço. De início, ele não se importou em mudar sua dieta e se restringir a comida saudável, mas depois de certo tempo se alimentando assim começou a sentir falta do sabor da comida bem temperada, além dos alimentos industrializados que costumava consumir. Com sorte, amanhã estaria liberado para voltar a sua rotina normal.
Nos últimos dias, tanto ele quanto estiveram ocupados com semana de provas, o que limitou muito o tempo que passaram juntos. No dia seguinte, embora fosse sexta-feira, tanto quanto tinham aula apenas no período da tarde. Então, ele teve uma ideia.
— Lembra-se da nossa ideia de segundo encontro? — perguntou ele.
o encarou, sorridente.
— O que tem ela?
— Nós nunca chegamos a concretizá-lo — disse .
— O que você tem em mente?
— Eu não quero ficar sozinho essa noite — respondeu ele e embora fosse um pensamento meio triste, havia um sorriso travesso em seus lábios. — Posso expulsar do quarto e podemos assistir alguns filmes hoje.
assentiu.
— Combinado — afirmou ela. — Jantamos antes e vamos depois ao seu dormitório.

(...)

Custou meia hora, dez dólares e uma confissão desconfortável de se fazer para que aceitasse deixar o dormitório para que recebesse a sós naquela noite depois do jantar. No entanto, conseguiu convencê-lo e foi jogar vídeo game no quarto de e Hunter quando anoiteceu.
Antes de sair para jantar, limpou e arrumou o quarto até se cansar — o que não demorou muito tempo. Mas seus lençóis estavam limpos e não havia camadas de poeira sobre suas estantes, então, para ele, estava tudo bem.
Quando ele retornou com , ela entrou no dormitório e se sentou sobre a sua cama. Retirou o casaco grosso que a protegia do frio revelando uma camiseta fina de mangas compridas. tirou os sapatos e foi ajeitar o notebook na escrivaninha de forma que pudessem assistir ao filme enquanto estivessem deitados na cama.
— O que você quer assitir? — ele quis saber.
— Para a ocasião, uma cómedia seria uma boa pedida — respondeu ela enquanto tirava suas botas. — Já assistiu ao "Os Estágiários"?
— Ainda não.
— É bem divertido e tem referência a Harry Potter e a X-Men — contou ela, rindo.
— Se tem referência nerd, eu aceito.
abriu o servidor e colocou o filme para carregar. Ele foi até e ofereceu suas duas mãos a ela, puxando-a para um abraço logo em seguida. Ele a beijou e o beijo foi lento e intímo, embora não muito intenso. Os dias sem aproveitar realmente a companhia um do outro era o suficiente para dar saudade, apesar de não terem deixado de se ver um único dia.
Tudo se encaixava entre e . Eles nunca brigavam, mas discutiam calmamente se havia discordância entre eles, o que era raro. Não era necessário muito diálogo porque eles se entendiam perfeitamente com poucas palavras e muitos olhares. O apoio de era fundamental para manter são. E a presença de era requisito para manter um sorriso alegre em seus lábios.
finalizou o beijo com um selinho demorado e então o puxou para a cama. Ela se aninhou em seus braços quando o filme começou e não mudaram de posição até o filme acabar. Além do notebook, a única fonte de luz do quarto vinha de uma lâmpada fraca no abajur do outro lado do cômodo, no criado-mudo de .
Quando o filme acabou, o notebook apagou.
— Eu estou com medo — disse , acariciando o rosto de que estava encostado em seu peito.
— Do escuro? — ela brincou.
— De amanhã — ele respondeu e não continuou.
— Eu sei — ela falou ao olhar para ele e se ajeitou ao seu lado de modo que seus rostos ficassem um ao lado do outro. olhava para ela quase sem piscar à luz fraca do quarto. — Eu também estou, não há como não ficar. Mas vai dar tudo certo.
— Eu temi o tempo todo, mas você me deu forças para continuar bem e positivo — devolveu , e sorriu. Ela levou a mão ao seu rosto e acariciou sua bochecha. — Acho que é por isso que sonhei com você a minha vida toda e te encontrei. Você é o meu porto seguro.
— Não fiz nada que seus amigos não fizeram também.
— É diferente, . Você sabe. é um palhaço e tem medo que eu me quebre, sendo que eu tenho leucemia e não a síndrome dos ossos de vidro. E todos estão com medo, mas você não olha para mim como um doente. Mas como um sobrevivente.
esboçou um sorriso.
— Mas é o que você é — afirmou ela.
— Parece que você é a unica que pensa assim.
— Cada pessoa age de uma maneira diferente ao encarar problemas mais sérios — tentou explicar enquanto acariciava o cabelo de . Ele se aproximou mais de e encostou sua testa na dela/ — Eu consigo encarar de uma maneira positiva, mas eu sou uma futura médica. Se eu não encarar assim, não estaria fazendo Medicina.
— E você será excelente.
roçou seu nariz no de e beijou sua bochecha. Suas mãos estavam no rosto e na nuca dela. Ela entrelaçou suas pernas às dele e o puxou para um beijo calmo. — Obrigada — ela agradeceu. — Eu pretendo ser.
— Eu sei que vai — devolveu ele. — Eu vou estar bem para assistir a tudo isso.
— Vai — afirmou . — Eu sei que vai.
selou seus lábios aos dela e encarou os olhos castanhos e atentos de . Há algum tempo ele queria dizer a ela uma coisa e aquele momento parecia a ocasião perfeita. — Eu amo você, — ele declarou.
Ela suspirou e o beijou antes de responder:
— Eu também te amo.
E então a beijou novamente, mas dessa vez seu beijo era intenso e urgente. retribuiu da mesma forma e havia algo a mais naquele beijo: desejo. Houve desejo em todos os outros, mas daquela vez foi diferente. Um misto de sensações e sentimentos tornavam o momento único e muito intímo. Até o gosto se tornou diferente.
O beijo se rompeu quando eles precisaram respirar, mas tanto ele quanto ela queriam mais. se afastou o suficiente para puxar sua blusa para cima e retirá-la e fez o mesmo com o moletom que vestia. Por um instante, ele se encolheu. nunca foi corpulento e musculoso, mas emagrecera muito por conta do tratamento. Os ossos de suas clavículas estavam mais saltados que de costume e seu abdome muito liso. tocou seu peito e o puxou para próximo dela depois de se desvencilhar de seu sutiã.
— Não se preocupe — sussurrou ela próximo a sua orelha —, você é lindo de qualquer jeito para mim.
respondeu com outro beijo, tão intenso e cheio de desejo quanto aquele anterior. Quando o beijo se rompeu, ele beijou o queixo de e acompanhou a linha do seu maxilar até a sua orelha. Ele beijou o pescoço dela e sugou a pele da região lentamente, enquanto suspirava contra a orelha dele. Ela o envolveu em seus braços e suas mãos acariciaram toda a extenção de seus costas magras.
Quando beijou seu ombro, passou os dedos pelos passadores da calça dele e pararam sobre o botão e o zíper. Ele despiu a calça e a jogou ao lado da cama. ao mesmo tempo se despia da sua e ele a ajudou a terminar de retirá-la.
o puxou para mais um beijo e ergueu seu corpo de forma que ficasse sobre o corpo de .


Capítulo 13

Na manhã seguinte, quando acordou, o quarto estava mais claro pela pouca luz do sol que conseguia atravessar as cortinas grossas na janela. dormia de bruços ao lado dele e vestia o moletom que ele havia usado na noite anterior. No meio da noite, se levantou para vestir um pijama quente porque fazia frio e deveria ter feito o mesmo, embora suas pernas estivessem nuas sob os lençóis e o cobertor.
Ele se moveu na cama o mais suavemente possível para não acordá-la, mas foi em vão.
se virou para ele e esfregou os olhos. Seus olhos castanhos e atentos estavam pequenos e seu cabelo despenteado. Ela passou as mãos pelos fios a fim de ajeitá-los.


— Bom dia — ela disse.
— Bom dia — retribuiu e em seguida beijou a ponta do seu nariz.
— Bom dia!


A terceira voz vinha da cama do outro lado do dormitório e assustou e .

! — Exclamou em um misto de raiva e susto. — O que você está fazendo aqui?!
— Ah, relaxa, cara! — Devolveu , espreguiçando-se. — Voltei para cá às quatro e alguma coisa da manhã. Vocês já estavam dormindo.
— O combinado era você liberar o quarto até a tarde! — Eu sei. Mas entre aguentar você e ou Jim e Hunter, eu prefiro aguentar vocês dois — explicou ele. — Mas relaxem. Como eu disse, vocês estavam dormindo. E agora eu vou voltar a fazer isso. Boa noite.


se virou na cama e jogou o cobertor sobre a cabeça. Em sua cama, bufou.
— Eu realmente não me importo — disse .
Ele girou os olhos.
— Eu me importo — replicou , irritado.
sorriu para ele e sua irritação se desfez. O sorriso dela associado aos olhos inchados por ter acabado de acordar e o fato de ela estar trajando a sua roupa traziam lembranças boas da noite anterior. Ele a puxou para um abraço confortável e selou seus lábios em um beijo curto.


(...)

A sala de James Wilbur, o médico de , ficava ao final de um corredor muito claro no setor de Oncologia do hospital. não avisou a mais ninguém além de sobre a tal conversa que o médico queria ter com ele, nem mesmo aos seus pais, que teriam surtado no mesmo instante se soubessem.
Naquele dia estava nervoso. O aquecedor na sala de espera estava ligado e ele estava coberto com roupas grossas, ainda assim sentia frio. Estava nervoso e inquieto. , ao seu lado, tentava acalmá-lo, acariando as costas de sua mão com o polegar.


— Você quer comer alguma coisa enquanto espera? — Ela quis saber. — Eu posso descer até a cantina e comprar algum salgado que não seja gorduroso.
— Não conseguiria engolir nada, — respondeu ele. — Obrigado. E eu não quero ficar sem você.


sorriu e deu um beijo em sua bochecha.

— Acalme-se. Vai dar tudo certo.

Dez ou quinze minutos se passaram até que James Wilbur apareceu na sala de espera. Ele cumprimentou e e então se dirigiu a sua sala novamente. Eles o seguiram. No escritório do médico, e se sentaram nas cadeiras defronte à escrivaninha. James Wilbur apanhou alguns papéis em sua gaveta antes de começar a falar e os reconheceu como resultados dos seus exames.


— Vocês devem estar muito ansiosos para saber o resultado da radioterapia, então vou direto ao assunto — começou o médico.
— Por favor — pediu .

Ele ainda estava de mãos dadas com e apertava a mão dela cada vez mais forte.
— O tratamento da radioterapia deu parcialmente certo — continuou James Wilbur e o coração de disparou. — A contagem de linfócitos no seu sangue diminuiu bastante, mas não a ponto de declararmos você como curado.


engoliu seco.

— É arriscado parar com o tratamento porque as células cancerígenas não foram totalmente extintas, então, nesses casos, nós propomos o tratamento com a quimioterapia — ele explicou. — A quimioterapia é um tratamento mais pesado que a radioterapia e pode ser feito de diversas formas. Eu, como médico, não costumo aplicar a quimioterapia por medicamento. Mas é uma opção.
— Qual seria a outra? — perguntou , sua voz tremia um pouco.
— As sessões, como as de radioterapia, ou ainda a internação.

Internação.

Um arrepio percorreu seu corpo quando a imagem de seu corpo fraco deitado sob um leito de hospital veio a sua mente. Ele sabia o que a quimioterapia significava: mais fraqueza, mais cansaço, seu cabelo cairia... E as sessões de quimioterapia o obrigariam a ir e voltar ao hospital quase todos os dias.
— E qual o senhor acha que é a melhor opção para o caso de ? — quis saber .
James Wilbur analisou os exames novamente antes de responder.

— Eu costumo internar meus pacientes — respondeu ele, pacientemente. — Leucemia é um tipo de câncer perigoso com chance alta de metástase. Perdi poucos pacientes ao longo da minha carreira, nenhum com a sua idade, . A internação me da mais controle sobre o tratamento e o ambiente hospitalar é melhor para uma pessoa em quimioterapia.
— Então eu vou ser internado?
— Eu trabalho com a internação e com as sessões e dou a opção para o paciente se sentir mais confortável.

Outro arrepio percorreu seu corpo. não gostava de tomar decisões assim. Ele preferia mil vezes que o médico tivesse lhe indicado a melhor opção e ter passado a ordem de internação ou de as sessões sem seu consentimento. Seria mais fácil.
— Depende de você.


Continua...



Nota da autora: Oláá meninas! Mais uma vez, estou aqui cumprindo minha promessa de não abandoná-las!
Enviei essa att o mais rápido que eu pude (gostaria de ter enviado no ato da última att, mas a faculdade não deixou HSUAH)
Essa nota vai em especial para a Naju que deixou um comentário lindo, lindo na última atualização! Já agradeci no comentário, mas é sempre é bom relembrar de como esse recadinhos nos deixam felizes e motivadas a continuar!
Por isso, muito obrigada Naju! Essa atualização é especialmente para você! :))'
Sem mais delongas, espero que tenham gostado do capítulo 13! Sintam-se a vontade para elogiar ou criticar, beleza?
Até o próximo!

Pat S.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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