Última atualização: 31/05/2019
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Capítulo 1

usou um pedaço grande de papel toalha para limpar as costas da última cliente do dia, e parou por alguns segundos para admirar sua própria obra prima. A tatuagem multicolorida, com flores e pássaros que pareciam romper a pele da garota, libertando-se dela, tinha demorado cinco sessões para ficar pronta, mas o resultado e o valor que havia recebido pelo trabalho tornavam bem gasto cada segundo daquelas horas. Talvez até valesse a pena tirar uma fotografia, mas estava tão cansada que só pensou nisso depois de se despedir da menina, quando juntava suas coisas para ir embora.
O dia tinha sido bem cheio, com cada cliente chegando quando ela ainda estava terminando de fazer arte no corpo do anterior, sem que tivesse tido tempo sequer para almoçar. Não podia, no entanto, reclamar, e muito menos dispensar ninguém, quando tinha tantas contas para pagar no começo de cada mês e o que vinha recebendo dava praticamente apenas para honrar os compromissos e fazer pequenas compras de mercado. O certo era ser grata por cada novo trabalho que aparecia, mesmo que o preço fosse dormir menos e se alimentar, muitas vezes, mal.
— Eu tranquei a minha sala. Você acha que alguém vai precisar de alguma coisa que tá lá? — perguntou, já na pequena recepção, à menina de cabelo rosa choque com argola na lateral do nariz que estava atrás do balcão. Havia duas pessoas sentadas em um pequeno sofá e alguém de pé, encostado na parede, mas ela desejou boa noite sem prestar atenção em ninguém.
— Acho que não — respondeu Freyja, que, além de recepcionista, era namorada de Marko, um dos donos do estúdio de tatuadores em que trabalhava. Não tinha realmente pensado muito a respeito do questionamento, pois estava organizando alguns papéis, dos quais não tirou os olhos, um segundo sequer.
— Então, eu vou nessa — falou, ajeitando a alça da bolsa pesada sobre um dos ombros, e despertando a outra menina de sua distração momentânea.
— Foi mal, , mas não dá pra você ir ainda, não — informou, enfim encarando a amiga e recebendo desta um olhar incrédulo. — Você não tem mais clientes, mas tem um cara ali que tá esperando há uma meia hora pra falar com você. Ele disse que só quer marcar hora depois que bater um papo com você sobre a tatoo.
— E esse papo precisava ser a essa hora, no final do expediente? — indagou, contrariada.
— Você passou o dia todo ocupada, cara.
— E ele sabia disso, por acaso? — Ela revirou os olhos. — Não! Se tá aqui há meia hora, chegou bem na nossa hora de fechar.
— É... chegou — concordou a outra, com aquela cara de quem lamenta muito.
— Você percebeu, então? — ironizou. — E, mesmo assim, disse que eu ia atender! O que eu fiz pra merecer você, hein, Freyja Everwood? — questionou, fingindo seriedade, mas acabou sorrindo quando a amiga riu. Freyja sabia que, mesmo exausta, e louca por banho, comida e cama, não conseguia ficar realmente irritada com nada ou ninguém por muito tempo.
— Eu pensei em falar pra ele voltar amanhã — comentou —, mas eu achei que talvez ele pudesse ficar puto e acabar não voltando, e... bom, a gente não tá podendo perder grana, né? Além disso, ele disse que é amigo do Peter Chambers e que foi ele que recomentou você.
— Beleza. Você fez bem em falar pra ele esperar mesmo. Eu não posso vacilar com o Peter, não. Quem é o cara?
— Aquele ali, com um capacete e uma jaqueta de couro no colo — mostrou Freyja, e não estranhou que se tratasse de um motoqueiro, visto que Pete era colecionador de motos e já tinha mencionado que fazia parte de um grupo com outros caras que amavam motos, como ele. Não viu muito bem o rosto do rapaz, porque ele estava de cabeça baixa, examinando com muito interesse um catálogo com fotos de tatuagens.
— Ok, eu vou lá — avisou, já deixando o balcão e indo em direção a ele, mas ainda escutando a última informação que a amiga tinha para lhe oferecer.
— O nome dele é . .
— Oi. Eu sou a . Você é o , certo? — A garota disse, se aproximando, e ofereceu a mão em cumprimento, quando ele levantou os olhos do catálogo e a olhou.
— Oi. Prazer — ele respondeu, dando bastante ênfase à palavra, enquanto apertava com firmeza a mão dela, depois de olhá-la de cima a baixo, fazendo com que se sentisse como um frango na vitrine da padaria, sendo observado por um cachorro babão. Teve vontade de revirar os olhos, mas ele era um possível cliente, além de amigo de Peter, então resistiu.
— A Frey me disse que você não quis marcar hora sem falar comigo — continuou, sentando-se ao lado dele.
— Eu tava um pouco ansioso, por ser a minha primeira tatuagem, e queria falar sobre o desenho, o preço, o tempo que vai levar pra ficar pronta... essas coisas das quais eu não tenho a menor ideia! — explicou. —E que bom, porque teria sido um desperdício vir até aqui e não te conhecer. O Pete elogiou muito o que você faz, mas não me disse que você era assim tão gata! — Ele deu um sorriso cheio de malícia e ela apenas agradeceu, sem devolver o sorriso, mas também já não sentindo mais vontade de bufar. A verdade era que, por mais que ela não fosse do tipo que se envolve com cafajestes, o jeito atirado e a carinha de safado deixavam ainda mais atraente o belíssimo espécime masculino a sua frente. .
— Me fala sobre... — ela começou a pergunta, mas foi interrompida pelo próprio estômago, que deu um ronco de repente. — Ai, que vergonha! — Enterrou o rosto nas mãos, rindo, e ele também riu.
— Tudo bem, . Acontece. — Não era nada demais e nem algo que ela pudesse ter controlado, afinal.
— Eu só tomei café da manhã hoje — comentou, suspirando, exausta.
— Eu também não como há muitas horas! A gente podia comer em algum lugar e conversar, enquanto isso, se você quiser. Ou então eu volto outra hora — ofereceu.
— Eu tava pensando em comer na lanchonete aqui em frente mesmo, antes de ir pra casa. Só que ela é meio simples — sugeriu, hesitante, sem saber que tipo de lugar ele costumava frequentar, mas ele topou imediatamente.
Sentaram-se em uma mesa de canto e foram atendidos por uma garçonete que já conhecia e que, provavelmente só por isso, passou todo o tempo tentando disfarçar que estava babando por .
Pediram hambúrgueres enormes, com queijo, bacon, alface, tomate, ovo, presunto e molho de maionese, acompanhados de muitas fritas, e só divergiram quanto à bebida, pois quis um milk shake de chocolate e deu preferência a uma coca-cola, com direito a refil. Mostraram estar mesmo famintos, ao ficarem vários minutos sem dizer nada, depois que a comida chegou.
— Então... me fala sobre a tatuagem que você tá querendo — pediu, quando enfim terminou de devorar o sanduíche, molhando uma batatinha no catchup.
—Eu quero nas costas. Grande! E eu pensei numa moto. Quem sabe com chamas... e uma garota montada nela. Eu vi uma assim, uma vez, e era bem legal.
— Ok. Eu, com certeza, posso trabalhar com esse conceito — afirmou. — Mais algum detalhe? Alguma coisa sobre a garota? — inquiriu, imaginando que ele talvez pudesse ter uma namorada que quisesse ver reproduzida em sua própria pele. Seria uma pena, mas era bem possível, pois muitos homens comprometidos, infelizmente, gostam de jogar charme para outras mulheres quando estão sozinhos com elas.
—Assim... que nem você, talvez? — Ele se insinuou e entortou os lábios, fazendo surgir uma covinha linda em seu rosto, que quase a distraiu.
— Tem certeza? É uma coisa que vai ficar pra sempre na sua pele. Não sei se é muito sensato você falar isso só pra dar em cima de mim — Ele a encarou com um sorrisinho de lado e cara de criança sapeca pega no flagra.
— Eu acho mesmo que uma mulher como você sobre uma moto vai dar uma tatoo linda — assegurou.
—Tudo bem, então. Eu vou fazer dois ou três desenhos, pra você escolher um no dia, ou a gente adaptar na hora. E eu acredito que você vai precisar vir umas três ou quatro vezes.
— Certo. Só tem um problema. Eu só não tenho como chegar mais cedo do que eu cheguei hoje, por causa do meu trabalho — falou, já em tom de desculpas. —Dá pra você ir embora mais tarde por minha causa de novo? Mais três ou quatro vezes?
— Bom, não sendo às quintas-feiras, tudo bem! É só você marcar no meu último horário e, se atrasar um pouco, eu espero.
— E quanto vai ser? — O preço era um assunto desagradável, mas necessário.
— Como você falou que quer grande, deve ser em torno de uns quinhentos.
— Q-quinhentos dólares? — Ele quase engasgou com o refrigerante que estava tomando e falou alto demais, chamando a atenção do casal na mesa ao lado. — Quinhentos? Sério?
—Olha, você até pode achar alguma coisa mais barata por aí, mas esse é o valor que a gente cobra, e que todos os outros profissionais sérios que eu conheço cobram — percebeu que ficou um pouco chateada com o espanto.
— Ei! Me desculpa, se pareceu que eu tava diminuindo o seu trabalho. Eu tenho certeza de que ele vale cada centavo! Eu vi algumas fotos e o Peter já tinha me garantido que você é a melhor — disse, sério. — É que eu não tinha mesmo a menor ideia de quanto ia custar e achei que dava pra fazer com os duzentos e oitenta que eu consegui guardar. Quem sabe se a gente diminuir o tamanho, então?
— Você só pode gastar duzentos e oitenta? — Ela se mostrou surpresa.
— É. Infelizmente, só. — balançou a cabeça positivamente. — Por que? Eu tenho cara de rico, por acaso? — riu.
— Na verdade, tem um pouco, sim! Mas não foi por isso a minha surpresa. É que tinha aquela moto lindona, com jeito de mega cara, na porta da loja, e você com esse capacete na mão... — Normalmente os amigos a quem Peter Chambers indicava o trabalho dela tinham bastante dinheiro, como o próprio Pete, que era jogador profissional de futebol americano.


— A moto é, sim, minha, e uma moto dessas é realmente bem cara, se for comprada zero. Só que não foi o caso — informou. — Eu sou mecânico de motos e comprei essa aí quase totalmente destruída, de um cliente meu que tinha sofrido um acidente com ela, e não queria mais pilotar. Fiquei quase um ano, mexendo nela, pra deixar assim... lindona.— ele usou o adjetivo que ela escolhera, sorrindo. — E aí, depois, foram mais alguns meses juntando pra fazer a tatoo.
— Entendi — ela assentiu, séria, tomando um pouco do milk shake. — Mas tatuagem é pra sempre, . Não é melhor, então, você juntar, por mais um tempo, e fazer do jeitinho que você queria?
— É...— concordou, desanimado. — Acho que você tem razão — Foi a vez dele de enfiar algumas batatas com catchup na boca, e ela brincou com o canudo em seu copo, enquanto passavam um tempo em silêncio, visto que o assunto que os levara até ali parecia ter acabado.
— Que saber, ? Eu vou fazer pra você, e você vai me pagando o resto, como der, em vez de ficar juntando e esperando — resolveu, ao ver que ele tinha ficado genuinamente decepcionado. — Você não é qualquer um, afinal. É amigo do Peter.
— Você vai mesmo fazer isso? Sério? — Ele abriu um sorriso enorme, como se tivesse acabado de ganhar um presente muito desejado, e ela ficou ainda mais convicta. — Eu nem sei como te agradecer. Eu to louco pra fazer uma tatuagem, desde que... eu terminei a moto.— Na verdade, não era exatamente isso, mas ele não tinha por hábito falar da morte do pai, que nunca teria aceitado um filho marcado, como dizia, cheio de preconceito.
— Tudo bem. Não é como se eu fosse fazer de graça, afinal de contas. Eu só vou esperar um pouco — ela falou, como se não estivesse fazendo nada demais, e os dois trocaram sorrisos, antes de ficar de novo mudos, por mais um tempo, terminando as fritas.
—Você e o Peter... Vocês tão saindo? — perguntou ele, de repente.
— Eu e o Peter? Não! De jeito nenhum! Ele é só meu cliente, e a gente tem alguns amigos em comum. — Ela quase engasgou. Na verdade, nem gostar de Chambers ela gostava. Ele era egocêntrico, se achava melhor do que os outros, por causa da fama e do dinheiro, tratava com desprezo quem não era rico como ele e todas as mulheres como objetos. Ela só atendia o jogador e as pessoas a quem este indicava seu trabalho pois ele chegara até ela por meio de um de seus melhores amigos, Nic, e porque, acima de tudo, era muito profissional.
— Mas uma gata como você não tá disponível, tá? — Indagou, sem esconder seu interesse.
— Não, porque quem fica disponível é arquivo pra download, banheiro público, horário no dentista... — Respondeu, antipática, porque não conseguia deixar de associar a expressão usada por ele com extremo machismo.
— Ok, ok. Desculpa! — ele pediu, arregalando os olhos e erguendo as mãos ao alto. —Eu não queria ofender! Será que a gente pode começar de novo? — Ela balançou a cabeça, dando um sorriso de leve, achando que talvez tivesse exagerado na reação.
— Você tá namorando ou saindo com alguém?
— Namorando eu não to, mas eu saio quase sempre com o Billie Joe.— falou, em tom sério, e ele franziu o cenho, sem saber se ela era maluca ou estava tentando se divertir às custas dele. Ela deu uma gargalhada sonora, tão contagiante que ele sorriu junto, antes mesmo de saber do que ela tanto ria. — O nome do meu cachorro é Billie Joe, e eu saio com ele pra caminhar, às vezes. Não é todo dia, porque ele é muito educado e sabe usar o jornal, e nem sempre eu tenho tempo.
— Mulheres com senso de humor me deixam muito a fim, sabia? — ele segredou, debruçando-se um pouco sobre a mesa. — E você ainda é fã de Green Day! — complementou, passando as mãos pelo rosto, dramaticamente.
— Sabe do que eu to muito a fim agora? — ela indagou, depois de tomar o pouco que restava de sua bebida, divertindo-se com a expectativa no olhar dele. — Da minha cama — deu logo a resposta, massageando o próprio pescoço. — E nem adianta fazer nenhuma gracinha, porque é pra dormir. Eu tenho certeza que a gente teria muito pra conversar sobre rock, mas eu acordei super cedo hoje e to mortinha!
— Eu também acordei cedo pra caramba. Não tinha nem clareado ainda! E amanhã não vai ser diferente — comentou, fazendo sinal para que a garçonete trouxesse a conta. Até tentou pagar tudo, mas fez questão de dividir, não só porque aquele não tinha sido um encontro romântico, como também porque ela preferia dessa maneira, mesmo quando saía com alguém. Claro que ela gostava de alguns gestos de cavalheirismo, mas no geral preferia condições de igualdade entre homens e mulheres. No mais, não via qualquer razão para deixar alguém que batalhava para ganhar dinheiro, tanto quanto ela, pagar o que ela tinha consumido.
— Posso te dar uma carona na minha moto lindona? — ofereceu, quando já estavam do lado de fora da lanchonete.
— É tentador, mas não precisa, . Eu volto todo dia de metrô ou de ônibus — deu de ombros.
— É o mínimo que eu posso fazer, depois que você ficou até mais tarde por minha causa — argumentou. — E quer saber? Tentador mesmo é ter você na minha garupa, agarrada na minha cintura — provocou.
— Tá bom. Tá bom, eu vou aceitar — rendeu-se, rindo. — Essa parte me convenceu, hum? — Brincou, mas não sustentou nenhum clima de flerte, atravessando logo a rua, em direção ao veículo.
colocou o capacete na cabeça de e os dois subiram na moto. Ela explicou a ele onde exatamente morava, e ele disse que não era muito longe de sua casa, o que teria tornado um desperdício ainda maior se ela tivesse desprezado a carona oferecida. Não conversaram mais, durante a viagem, porque era praticamente impossível falarem um com o outro com os barulhos do motor e do vento envolvendo-os. Também não trocaram mais do que duas ou três frases, quando chegaram ao destino, ambos estando realmente cansados e com sono.
passou os próximos dias fazendo desenhos de mulheres parecidas com ela sobre vários tipos de moto, em busca da tatuagem perfeita, e passou-os ansiando por escolher um deles, para que a garota pudesse torná-lo imagem eterna em sua pele.
A vontade de se verem de novo, e logo, para os dois parecia mero detalhe.

Continua...


Nota da autora: E aí? O que estão achando? Me contem, por favor! É muito importante para mim!! Entrem também no meu grupo do face (abaixo), para conversarmos. Quem sabe não rolam alguns spoilers?






Essa fanfic é de total responsabilidade da autora. Eu não a escrevo e não a corrijo, apenas faço o script. Qualquer erro nessa fanfic, somente no e-mail.

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