Under The Spotlights

Última atualização: 05/08/2025

Prólogo

— É impressionante! Quando a gente pensa que eles vão desistir e ir embora, chegam mais alguns — disse Gwendolyn, observando, através da janela da sala, os jornalistas, fotógrafos e operadores de câmera de vários jornais, revistas, sites e emissoras de TV, que estavam reunidos em frente à porta do pequeno prédio, no qual ficava o apartamento que dividia com três amigas no Upper West Side de Manhattan.
— Não deve ter nada importante acontecendo em Nova York, afinal. Talvez nem no resto do mundo — comentou , com ironia, sem tirar os olhos da revista em seu colo.
— Eu vou fazer vitamina pra mim. Alguém tá a fim? — ofereceu Beverly, indo para a cozinha, mas Gwen já tinha tomado café e estava sem nenhum apetite, então ambas apenas agradeceram.
— Você tem sorte de ser tão maravilhosa! — Gwen comentou, saindo enfim da janela e se jogando em um puff. — Se eu apareço numa revista sem nenhuma maquiagem, com o cabelo ao vento e usando um moletom gigante, eu surto! Mas você tá uma princesa. Nem precisa se preocupar.
Olhando bem, não pode deixar de notar que a amiga tinha razão. Ela estava mesmo linda na foto tirada por algum paparazzo realmente bom no que fazia, com um equipamento igualmente qualificado, apesar da cara lavada, do casaco que praticamente a engolia e do cabelo espalhado para todos os lados. Talvez porque sua imagem tivesse sido capturada enquanto ela contemplava uma vista sublime, da varanda de uma aconchegante casa em uma praia paradisíaca em Southampton, durante uma gostosa noite de verão. Ou mais provavelmente porque seu semblante refletia o contentamento que estava sentindo no momento registrado em meio ao seu último encontro surpresa com o homem com quem estava vivendo algo realmente intenso.
Não era, no entanto, em sua aparência que estava pensando, enquanto lia e relia a reportagem ilustrada com uma fotografia sua, que ocupava quatro páginas da revista. Era na noite mágica que estava vivendo, quando o fotógrafo conseguiu a imagem que devia ter lhe rendido um bom dinheiro. Era na conversa que tivera com o dono da lindíssima casa de praia, naquela mesma noite... Era nele. Somente nele e em tudo que tinham vivido, desde o dia em que se conheceram.
Então seu celular tocou sobre o sofá, e o nome dele apareceu no visor, como ela já imaginava que aconteceria a qualquer momento. Depois de mais uma olhada em uma das frases de destaque da matéria, fechou a revista, pegou o aparelho e foi em direção ao banheiro, a fim de ter alguma privacidade, pois Charlotte ainda dormia, alheia a tudo, no quarto que dividiam. Ela queria poder fazer com que ele se materializasse, bem ali, na frente dela, mas, por ora, teria que se contentar com a comunicação por telefone.
— Oi, — cumprimentou, fechando a porta e se encostando nela.
— Me perdoa, . Eu não queria isso, eu juro. Não assim! — ele foi logo dizendo, sem tomar fôlego. A preocupação era evidente em sua voz. — Eu não imaginei... Mas eu sei, eu devia ter imaginado. É que eu queria tanto te ver naquele dia e...
, calma. Tá tudo bem — ela tentou assegurar. — Na verdade, não falaram nada demais de mim. Quem eles não pouparam foi você! Talvez esse caso explique a atuação terrível no último jogo... Meu Deus! Eles são tão cruéis!
— Eu to acostumado, linda. E tudo isso faz parte de ter uma carreira como a minha, apesar de, de vez em quando, ser realmente uma merda fodida — riu. — Mas você não queria nada disso. E, se eu bem conheço a imprensa, já devem ter descoberto até onde você mora...
— Sim. Na última contagem feita pela Gwen, tinham uns quinze caras aqui na rua, com microfones, câmeras... uma loucura! E depois ela ainda comentou algo sobre terem chegado outros — confirmou. — Mas não é sua culpa, tá? Eu também sabia dos riscos.
— Eu vou falar com o Clive, agora mesmo. Ele vai dar um jeito de tirar esse pessoal daí, ok? — prometeu, referindo-se a seu assessor de imprensa. Ela nunca tinha ouvido a voz dele soar tão pesarosa.
— Certo — disse, aliviada, pois a presença de tanta gente na rua não era um incômodo somente para ela. No entanto, estava ansiosa para lidar mais a fundo com aquela questão. — E será que você consegue dar um jeito de se encontrar comigo também? Acho que a gente precisa conversar.
— Claro — ele concordou, apesar de temer o que poderia querer lhe dizer. A foto dela na capa de uma revista, na varanda da casa de praia dele e usando suas roupas, e o consequente começo de uma perseguição por parte da mídia, eram exatamente as piores coisas que poderiam ter acontecido àquela altura. — Eu vou mandar o Teddy te buscar. Ele é especialista em lidar com essa galera.
se despediu de e tomou uma chuveirada, antes de se vestir para aguardar a chegada de um dos seguranças dele. Escolheu uma roupa casual, mas colocou batom e rímel, por insistência das amigas, que argumentaram que ela seria fotografada ao sair, desta vez em close. A garota nunca tinha visto tanta gente falando ao mesmo tempo, tentando fazer com que suas perguntas fossem compreendidas, e falhando miseravelmente, mas Teddy era mesmo ótimo em abrir passagem no meio dos profissionais da imprensa, e logo ela estava no carro, vendo todos ficarem para trás, decepcionados.
Após declarar que a levaria até um restaurante que ela ainda não conhecia, onde a aguardava, o motorista ficou em silêncio, assim como o segurança, sentado no banco do carona. cantarolou baixinho a música que tocava no rádio, ligado a pedido dela, e observou as pessoas caminhando pela rua, uma moça e um rapaz trocando um beijo em uma esquina, uma senhora empurrando um carrinho de bebê, uma colega sua entrando no prédio da Juilliard, além de sorrindo para todo mundo de um outdoor, quando passaram pela Times Square.
Com sua mente e seu coração totalmente seguros daquilo que tinha para dizer a ele, ela relaxou no banco do automóvel, fechou os olhos e esperou.

Capítulo 1

Não eram nem seis horas quando o alarme do celular tocou, informando a que ela não podia mais continuar na cama. A garota desligou o mais rapidamente possível o aparelho, para que Charlotte, que dormia na cama ao lado, não fosse acordada também, e então se espreguiçou, antes de enfim levantar. A companheira de quarto se mexeu, e ela temeu não ter sido veloz o suficiente, mas Charlie apenas se virou de lado, e ela respirou aliviada. Não era justo acordar alguém que ia dormir tarde quase todos os dias, porque trabalhava de manhã e à tarde, frequentava a faculdade de Educação Física no turno da noite e precisava estudar a matéria quando voltava para casa, a fim de manter notas boas e não perder sua bolsa de estudos.
Após tomar um banho e vestir a roupa que já estava separada desde a véspera, a jovem encontrou outra das amigas que dividiam o apartamento com ela, sentada à mesa, tomando o café da manhã. Beverly acordava ainda mais cedo que ela, pois a primeira das aulas de sapateado que dava em uma academia no Upper East Side, para meninas da elite nova-iorquina, começava às sete, e atrasos por parte das professoras não eram tolerados. Como de costume, ela já tinha feito omeletes e chá de frutas vermelhas para as duas.
— Bom dia — desejou, tomando um gole da bebida, e recebeu a mesma saudação de , que sentou em frente a ela e começou a se servir. — Mademoiselle Dubois me perguntou novamente, ontem, sobre você. Ela realmente te quer no corpo docente — comentou, dando uma ênfase levemente debochada ao termo que a dona da escola de dança insistia que usassem antes de seu sobrenome.
— Não sei por que ela cismou comigo, com tanta professora por aí — respondeu a outra, colocando um pedaço de omelete na boca.
— Porque você não é como essas tantas que tem por aí. Ela viu o trabalho que você fez com as meninas da Rhythms.
— Até que seria uma boa ganhar mais algum dinheiro. Só que o problema é o horário — comentou, pensativa. — Eu ainda tenho duas matérias na Juilliard, nesse semestre. Tenho os ensaios e as apresentações da companhia... E tenho a Rhythms. De jeito nenhum, eu vou trocar a Rhythms pela Bien Danser!
— Disso eu sei, . E eu nunca diria pra você fazer isso.
Todos sabiam que era uma bailarina fantástica porque adorava dançar e não media esforços para aprimorar o talento nato, mas que ela era uma professora de balé ainda melhor, e que seu sucesso ensinando estava totalmente ligado ao seu amor pelas crianças e adolescentes, e à sua crença na dança como algo capaz de dar uma chance na vida a quem não a teria. Ela mesma só tinha saído do Harlem depois de conseguir uma vaga no departamento juvenil da companhia American Ballet Theatre e uma bolsa em Juilliard, o que não teria sido possível sem as aulas da fundadora da Rhythms, que, no começo, ensinava a ela e a outras meninas pobres no porão de uma loja de tintas.
— Ninguém que te conhece pediria — concordou Gwendolyn, entrando na sala, ainda de baby doll e com os cabelos totalmente bagunçados. — Mas a chérie quer tanto você na Bien Danser que com certeza daria um jeito de colocar uma daquelas turmas cheias de miniaturas da Sharpay Evans em qualquer horário disponível da sua agenda — opinou, enquanto virava a cadeira ao lado da de Beverly, montando nela.
— Caiu da cama? — perguntou , rindo. Ao contrário das outras duas garotas à mesa, Gwen não acordava tão cedo. Seus compromissos normalmente eram na parte da tarde e ela adorava isso.
— Eu não consegui dormir direito. Ainda to animada demais com a apresentação de ontem — explicou.
Gwen era solista da American Ballet Theatre, onde integrava atualmente o corpo de baile, depois de pouco mais de dois anos de treinamento no departamento juvenil. As duas haviam se conhecido em ensaios da companhia e ficado amigas quase instantaneamente. então a apresentara a Beverly, que, na época, era sua colega de classe em Juilliard, e a Charlotte, sua amiga de infância e a única das três que jamais havia dançado balé na vida. Charlie havia conseguido sair do Harlem e ir morar com as outras meninas graças à aptidão que tinha para o basquete, o que a fez conseguir bolsa de atleta na Columbia University, além de estágio remunerado como professora assistente.
— E o que teve demais na apresentação de ontem? — indagou Gwen, pois tinha sido uma apresentação como qualquer outra, em sua opinião. O teatro inclusive estava menos cheio do que de costume, pelo que lhe haviam dito.
— Só duas palavrinhas pra você, amiga: . .
— O jogador? — Bev indagou, espantada.
— Esse mesmo, em carne e osso — confirmou. — E a saberia, se não saísse correndo, todas as vezes, ao invés de ficar pra receber os cumprimentos das pessoas na coxia — reclamou, e revirou os olhos.
— As pessoas querem cumprimentar vocês, que são solistas. Já entram perguntando quem dançou nessa ou naquela música. Nas únicas duas vezes em que eu deixei me convencerem a ficar, eu me senti transparente.
— Foi você mesma quem escolheu ser transparente — Gwen não deixou barato, o que fez bufar, e Bev decidir se levantar e começar a tirar a mesa, colocando as coisas sujas dentro da pia.
— Esse assunto de novo, não, Gwen — pediu. — O que importa é que ninguém vai lá pra me cumprimentar, e eu ganho muito mais vindo logo pra casa, pra garantir o máximo de horas de sono que eu puder.
— Eu ainda discordo. — Gwendolyn era teimosa e as amigas já esperavam que continuasse argumentando, por isso seguraram o riso. — Você poderia ter visto pessoalmente. Aquele deus grego! E, só pra registrar, eu o vi falando com várias pessoas do corpo de baile, tá?
— Ok. Talvez ele me cumprimentasse. Mas e daí? Eu torço pros Jets. — Respondeu, se levantando e indo até uma poltrona, onde estavam suas coisas. Enquanto colocava um cachecol em volta do pescoço e pendurava a bolsa esportiva no ombro, via a outra revirar os olhos e bufar, ao mesmo tempo, do modo mais teatral possível.
Ambas sabiam que o fato de ser torcedora do NY Jets e de ser jogador do NY Giants tinha sido mencionado apenas de brincadeira. Fosse o atleta de qualquer time, ela não se comportaria como uma tiete, e jamais lamentaria ter ido embora do teatro, logo após o espetáculo. Ela não gostava do tipo de atenção que os artistas recebiam do público, depois da performance. Não gostava de ouvir elogios exagerados e, muitas vezes, falsos, e detestava principalmente tirar fotografias com pessoas que sequer conhecia e que insistiam em parecer íntimas. Fora por esta razão que preferira permanecer no corpo de baile, mesmo tendo sido convidada para integrar o nível principal da companhia, pulando inclusive o dos solistas.
Antes de se juntar a Beverly, que a essa altura já estava no pequeno corredor que dava para a porta de saída do apartamento, deu um beijo no rosto de Gwen e fez cócegas na amiga, que tentava manter um semblante zangado, mas acabou rindo. Então as duas professoras de dança saíram juntas de casa, cada uma pegando o metrô para um destino diferente.
daria aulas para três turmas, naquela manhã e, depois das duas primeiras, houve um intervalo grande, durante o qual ela resolveu aproveitar para experimentar alguns passos para uma nova coreografia. Em breve, suas alunas precisariam começar a ensaiar para a apresentação que a Rhythms fazia anualmente para a comunidade e para convidados ilustres, sempre com a esperança de que algumas meninas recebessem convites para integrar companhias de balé ou estudar em escolas de renome.
Depois de um breve aquecimento, a garota colocou uma música instrumental, bastante conhecida na década de oitenta, por ter feito parte de um romântico filme da época, chamado Em Algum Lugar do Passado. Iniciou a dança, no começo fazendo muitas pausas e trocas, mas depois deixando o corpo ser levado pelo ritmo, envolvendo-se com os sentimentos que a melodia lhe transmitia.
Estava tão concentrada, que só percebeu a presença de duas pessoas na porta da sala de aula, quando estas já estavam lá havia alguns minutos. A mulher sorria, orgulhosa, e o rapaz não tirava os olhos dela, encantado com a precisão, a leveza e a graça dos movimentos dela, e com a entrega, a paixão, a emoção à flor da pele que ela deixava transparecer em meio a fouettés e grand jetés.
Muito surpresa e desconcertada, a bailarina correu até o aparelho de som e tirou a música, e então se aproximou da dona da escola de balé e do mundialmente conhecido jogador de futebol americano. Tentou agir com naturalidade, mesmo que não fosse comum receber visitas de sua antiga professora entre as aulas, e muito menos encontrar pessoas ricas, famosas, influentes, e sem qualquer ligação com a dança, na academia.
— Tá tudo bem, Mac? — indagou, dirigindo-se à velha amiga.
— Tudo ótimo, meu bem — Mackenzie Palmer respondeu, dando um beijo em seu rosto. Tinha visto crescer e a amava como se fosse uma filha, apesar de a diferença de idade entre as duas não chegar a quinze anos. — Esta é a nossa , — disse ao rapaz, que estendeu a mão e sorriu.
— Muito prazer — falou ele, e a menina foi obrigada a encará-lo e a aceitar o cumprimento. Ele era tão lindo quanto sua amiga afirmara, durante o café da manhã, mas havia algo mais do que apenas beleza nele, a julgar pelo estrago que conseguiu fazer em poucos segundos, deixando-a estranhamente tensa, com apenas duas palavras e um sorriso. sempre achara uma bobagem quando alguém falava em magnetismo pessoal, mas talvez estivesse na hora de rever seus conceitos.
— O prazer é meu — assegurou, mas não tinha tanta certeza. Na verdade, era bastante esquisito ficar cara a cara com uma celebridade, com alguém com o rosto e o nome tão conhecidos, mas que, ao mesmo tempo, para ela era um completo estranho.
— O veio até aqui pra conhecer a academia e saber um pouco da nossa história, . Mas, infelizmente, eu não vou poder mostrar tudo a ele, pois preciso levar uma das meninas ao médico — lamentou Mackenzie. — Então eu pensei que você poderia fazer isso por mim, meu anjo.
A garota balançou a cabeça, concordando, apesar de não entender o interesse do atleta em uma escola de dança para crianças e adolescentes pobres do Harlem. Não poderia jamais se negar a fazer algo que Mackenzie lhe pedisse, mesmo que isso significasse passar um bom tempo na companhia de alguém que fazia com que ela não soubesse nem mesmo onde colocar as próprias mãos.
— A tá aqui com a gente desde o início, — voltou a falar a mulher mais velha. — Ela também é uma ótima professora e nossa melhor bailarina. Estuda na Juilliard, dança na American Ballet Theatre... Já foi até convidada pra fazer parte do time dos principais bailarinos, mas preferiu continuar no corpo de baile. Cá entre nós, eu não entendi...
Para quem tinha compromisso e não podia mostrar o local, Mac estava falando demais! Usara até a palavra “time” para se referir ao grupo de bailarinos de maior destaque da companhia, o que colocava as coisas em termos que o jogador certamente compreenderia, mas não fazia sentido algum! Além disso, se antes estava sem saber o que fazer com as mãos, agora ela ficaria feliz em ter um buraco no qual se esconder.
— Mac, você e seus elogios são sempre maravilhosos, mas eu tenho certeza que o Sr. não tá interessado em nada disso — interrompeu, enfim.
— Sr. , não. Pelo amor de Deus — pediu ele, rindo, e vê-lo tão à vontade, enquanto ela estava extremamente constrangida, a deixou um pouco irritada.
— O veio pra conhecer a academia — lembrou, dando ênfase ao primeiro nome do rapaz, já que este parecia fazer questão de deixar formalidades de lado. — E eu não tenho assim tanto tempo, antes da próxima aula, então é melhor eu mostrar logo a ele.
Mac teve que concordar, principalmente porque ela mesma estava ficando atrasada, em razão de ter se prolongado na conversa com o belo quarterback dos Giants. Despediu-se dele e de , deixando os dois em companhia apenas da inexplicável tensão que os envolvia. A bailarina ficou grata por ter muito o que falar a respeito do espaço e da história da Rhythms, não tendo assim que conversar com sobre assuntos ridículos, como o clima ou alguma notícia recente sem importância, o que sempre acaba acontecendo quando queremos preencher o silêncio e não temos nenhum assunto real sobre o qual falar.
— Eu imagino que vocês tenham planos pra fazer obras aqui, certo? — ele perguntou, interrompendo-a pela primeira vez durante a visita guiada, quando entraram em uma sala cujo estado estava particularmente ruim. O vidro de uma das janelas estava rachado, parte do espelho tinha uma mancha grande, e alguns tacos estavam soltos e outros já tinham sido removidos do piso, em um canto, no qual havia um balde, estrategicamente posicionado para evitar que as goteiras aumentassem o estrago.
— Como eu te falei antes, a gente não cobra pelas aulas. Nossas alunas são da comunidade, e o objetivo da academia é justamente dar oportunidade a quem não tem condições de pagar. A gente mal tem grana pro aluguel! Não temos como planejar melhorias.
— Entendo — ele assentiu, seguindo a garota de volta para o corredor.
— Aqui fica o banheiro que usamos — ela apontou uma porta. — E ali tem outro que pode ser usado se algum homem vem aqui. Você pode entrar lá, se quiser, mas se achou que o prédio precisa de obras... — suspirou, sabendo que era desnecessário completar o raciocínio. Ele a surpreendeu, escolhendo entrar e ver com seus próprios olhos.
— Meu Deus! Me diz que o de vocês não tá tão ruim — pediu, passando a mão pelo pescoço, com ar de preocupação genuína, o que a fez sorrir.
— Tá com uma infiltração grande numa das paredes, mas pelo menos nenhum dos sanitários tá interditado — ela deu de ombros e eles voltaram a andar, entrando em um pequeno escritório. — Aqui é a sala da Mackenzie.
voltou sua atenção para as fotografias penduradas nas paredes, que também contavam a história do lugar e das bailarinas que haviam passado por ele. estava em algumas delas, fazendo pose com colegas ou com alunas. Ele a reconheceu também em uma tirada durante um solo de balé clássico e passou alguns segundos observando detalhes da imagem.
— Qual o interesse de um cara como você pela dança, afinal? Por que ir ao Met ontem? E especialmente por que vir até o Harlem, visitar uma academia comunitária da qual ninguém nunca ouviu falar? — questionou, sentando-se na ponta da escrivaninha.
Estava inclinada a achar que ou ele tinha fetiche por bailarinas, ou queria realizar caridade para ter descontos em impostos e projetar uma boa imagem ao público, mas ficou curiosa em saber o que ele teria a dizer a respeito. Ele se virou devagar e a encarou, antes de ir andando até ela e só parar muito mais perto do que ela gostaria, deixando-a tensa outra vez.
— Ah, então você sabe que eu assisti a sua companhia ontem — ele preferiu comentar, ao invés de responder a pergunta dela. — Mas você não tava lá, quando eu fui cumprimentar o pessoal. Eu com certeza me lembraria — afirmou e ela não teve nenhuma dúvida de que ele estava flertando, o que aumentou sua aposta na hipótese do fetiche. Se este era o caso, no entanto, ele teria que tentar com outra bailarina, porque ela não estava disposta a flertar de volta, por mais tentador que fosse.
— Eu nunca fico depois das apresentações — explicou. — Só que as notícias correm.
— A minha ida ao espetáculo de ontem explica a minha vinda até aqui hoje — ele continuou, mudando de tom e assumindo uma postura próxima ao profissional. — Eu conversei com algumas pessoas sobre o meu interesse em patrocinar companhias que estejam precisando de recursos, e me falaram muito bem do trabalho que vocês fazem aqui na Rhythms.
— E da nossa imensa necessidade de recursos, certamente.
não queria ficar irritada. Eles precisavam de ajuda e não podiam se dar o luxo de ficar julgando se ela viria ou não pelos motivos certos. Porém não gostava de gente que fazia coisas pelos outros visando receber algo em troca, fosse o que fosse, e estava cada vez mais convencida de que era exatamente desse tipinho, querendo se mostrar muito altruísta para o público, diminuir os altos impostos que tinha para pagar e, de quebra, ainda levar uma ou duas bailarinas para a cama. Que outra explicação poderia haver para que um jogador de futebol americano quisesse destinar parte do seu dinheiro para o balé?
— O que eu pude confirmar, infelizmente — lamentou ele, sem notar qualquer sarcasmo na voz dela. — É claro que eu não entendo tanto das necessidades de uma escola de dança, mas dá pra ver que aqui tem que ser feita no mínimo uma obra pra acabar com as goteiras, com as infiltrações... tem que ser trocado o piso. Vocês nunca chegaram a fazer nenhum levantamento, né?
— Não.
— Não tem problema. — Ele se afastou de novo, voltando às fotos, que prenderam sua atenção por um tempo. — Eu não sei qual foi a primeira vez em que eu vi uma bailarina. Provavelmente, desde quando eu era só um bebê a minha mãe já assistia tudo que passava de balé na televisão, comigo no colo. Ao teatro, eu lembro que ela me levou quando eu tinha dez anos. Era uma montagem do Quebra Nozes. Ela sorriu muito e eu fiquei feliz demais, porque não era tão comum ver a minha mãe sorrindo, naquela época. Ela também chorou, mas não quis me dizer por que e, só muitos anos depois, eu entendi que ela tinha chorado porque não tava lá no palco, dançando... porque tinha engravidado de mim, aos dezessete, e ido viver com meu pai.
— Então sua mãe foi bailarina? — perguntou. Talvez isso explicasse o interesse dele, mas ela ainda estava cética. Se a mãe gostava tanto de balé, e era ela quem havia insistido para que ele patrocinasse aquele tipo de arte, poderia ter feito ela mesma a visita. — Foi ela também que te levou ontem ao Met?
— Ela estudou, mas nunca chegou a ser profissional como você. Os meus avós nunca aceitaram o meu pai, então, quando ela escolheu o meu pai, ela deixou tudo pra trás, incluindo a dança — lamentou. — Infelizmente, ela não pode ir ontem. Ela com certeza teria amado. Eu também queria que ela viesse hoje comigo, mas ela decidiu só voltar amanhã. Tá em Ohio, visitando o irmão.
deixou que ele olhasse mais alguns registros de momentos especiais da história da escola, mas então percebeu que faltavam apenas cinco minutos para sua última aula da manhã. Então se ofereceu para levá-lo até a porta, o que ele agradeceu, mas disse não ser necessário. Foi ele quem, na verdade, a acompanhou até a porta da sala de aula, dentro da qual algumas meninas já aguardavam. ficou constrangida de ver que suas alunas não conseguiram disfarçar a surpresa e entusiasmo causados pela presença dele, mas sorriu e acenou, muito à vontade.
— Se você continuar sendo assim simpático, elas vão querer autógrafos e depois vão passar a próxima hora tagarelando. Você vai arruinar a minha aula — fingiu repreendê-lo. No fundo, mesmo que as intenções dele ainda não fossem algo claro para ela, era muito bom ver suas pupilas recebendo atenção de alguém que para elas devia ser como um deus.
— Tudo bem. Eu vou deixar você dar sua aula em paz — riu. — Depois dessa, você para pra comer alguma coisa? Eu poderia te levar pra almoçar.
— Obrigada — ela disse, sem encará-lo. Era justamente o rumo que não queria que aquela conversa tomasse. — Daqui eu vou direto pra faculdade e tenho tempo só pra um lanche rápido.
— Eu posso, então, te convidar pra jantar mais tarde?
— Obrigada de novo, mas não dá. Eu tenho que chegar antes das sete aqui, amanhã.
— E numa outra noite? — ele fez uma nova tentativa e ela teve vontade de bufar. Deveria saber que um homem como ele não desistiria prontamente. É claro que uma parte dela ficava tentada a aceitar, mas ela se orgulhava muito de não ser do tipo que se deixa deslumbrar com facilidade.
— Eu durmo bem cedo, todos os dias. A minha rotina é pesada...
— Ok, — ele a interrompeu, rindo mais uma vez. — Eu já entendi. Você prefere não sair comigo e... Tá tudo certo.
— Foi mal. Eu não queria ser indelicada. — Ele pareceu realmente não ter se ofendido com a recusa, o que a deixou um pouco constrangida.
— E não foi. Muito pelo contrário. Você bem que tentou dar boas desculpas — assegurou, sem deixar de lado o bom humor. — E foi super legal em me mostrar a academia. Muito obrigado. Fala pra Sra. Palmer que eu entro em contato, ok?
Então piscou para ela, antes de caminhar em direção à saída da escola, e entrou na sala de aula, onde foi bombardeada por perguntas sobre o famoso jogador e sua visita. Ela não tinha muito o que responder e nem achava que as meninas deveriam perder preciosos minutos de prática com distrações, então foi logo colocando todas para fazerem os primeiros exercícios, em silêncio. O que não significava, no entanto, que ela própria conseguiria se concentrar totalmente, depois de ter conhecido – e dispensado! – um dos maiores e mais cobiçados astros da NFL.
Gwendolyn ficaria louca quando soubesse!


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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