Última atualização: 29/05/2019
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Prólogo

— É impressionante! Quando a gente pensa que eles vão desistir e ir embora, chegam mais alguns — disse Gwendolyn, observando, através da janela da sala, os jornalistas, fotógrafos e operadores de câmera de vários jornais, revistas, sites e emissoras de TV, que estavam reunidos em frente à porta do pequeno prédio, no qual ficava o apartamento que dividia com três amigas no Upper West Side de Manhattan.
— Não deve ter nada importante acontecendo em Nova York, afinal. Talvez nem no resto do mundo — comentou , com ironia, sem tirar os olhos da revista em seu colo.
— Eu vou fazer vitamina pra mim. Alguém tá a fim? — ofereceu Beverly, indo para a cozinha, mas Gwen já tinha tomado café e estava sem nenhum apetite, então ambas apenas agradeceram.
— Você tem sorte de ser tão maravilhosa! — Gwen comentou, saindo enfim da janela e se jogando em um puff. — Se eu apareço numa revista sem nenhuma maquiagem, com o cabelo molhado e usando um moletom gigante, eu surto! Mas você tá uma princesa. Nem precisa se preocupar.
Olhando bem, não pode deixar de notar que a amiga tinha razão. Ela estava mesmo linda na foto tirada por algum paparazzo realmente bom no que fazia, com um equipamento igualmente qualificado, apesar da cara lavada, do casaco que praticamente a engolia e do cabelo espalhado para todos os lados pelo vento. Talvez porque sua imagem tivesse sido capturada enquanto ela contemplava uma vista sublime, da varanda de uma aconchegante casa em uma praia paradisíaca em Southampton, durante uma gostosa noite de verão. Ou mais provavelmente porque seu semblante refletia o contentamento que estava sentindo no momento registrado em meio ao seu último encontro surpresa com o homem com quem estava vivendo algo realmente intenso.
Não era, no entanto, em sua aparência que estava pensando, enquanto lia e relia a reportagem ilustrada com uma fotografia sua, que ocupava quatro páginas da revista. Era na noite mágica que estava vivendo, quando o fotógrafo conseguiu a imagem que devia ter lhe rendido um bom dinheiro. Era na conversa que tivera com o dono da lindíssima casa de praia, naquela mesma noite... Era nele. Somente nele e em tudo que tinham vivido, desde o dia em que se conheceram.
Então seu celular tocou sobre o sofá, e o nome dele apareceu no visor, como ela já imaginava que aconteceria a qualquer momento. Depois de mais uma olhada em uma das frases de destaque da matéria, fechou a revista, pegou o aparelho e foi em direção ao banheiro, a fim de ter alguma privacidade, pois Charlotte ainda dormia, alheia a tudo, no quarto que dividiam. Ela queria poder fazer com que ele se materializasse, bem ali, na frente dela, mas, por ora, teria que se contentar com a comunicação por telefone.
— Oi, — cumprimentou, fechando a porta e se encostando nela.
— Me perdoa, . Eu não queria isso, eu juro. Não assim! — ele foi logo dizendo, sem tomar fôlego. A preocupação era evidente em sua voz. — Eu não imaginei... Mas eu sei, eu devia ter imaginado. É que eu queria tanto te ver naquele dia e...
, calma. Tá tudo bem — ela tentou assegurar. — Na verdade, não falaram nada demais de mim. Quem eles não pouparam foi você! Talvez esse caso explique a atuação terrível no último jogo... Meu Deus! Eles são tão cruéis!
— Eu to acostumado, linda. E tudo isso faz parte de ter uma carreira como a minha, apesar de, de vez em quando, ser realmente uma merda fodida — riu. — Mas você não queria nada disso. E, se eu bem conheço a imprensa, já devem ter descoberto até onde você mora...
— Sim. Na última contagem feita pela Gwen, tinham uns quinze caras aqui na rua, com microfones, câmeras... uma loucura! E depois ela ainda comentou algo sobre terem chegado outros — confirmou. — Mas não é sua culpa, tá? Eu também sabia dos riscos.
— Eu vou falar com o Clive, agora mesmo. Ele vai dar um jeito de tirar esse pessoal daí, ok? — prometeu, referindo-se a seu assessor de imprensa. Ela nunca tinha ouvido a voz dele soar tão pesarosa.
— Certo — disse, aliviada, pois a presença de tanta gente na rua não era um incômodo somente para ela. No entanto, estava ansiosa para lidar mais a fundo com aquela questão. — E será que você consegue dar um jeito de se encontrar comigo também? Acho que a gente precisa conversar.
— Claro — ele concordou, apesar de temer o que poderia querer lhe dizer. A foto dela na capa de uma revista, na varanda da casa de praia dele e usando suas roupas, e o consequente começo de uma perseguição por parte da mídia, eram exatamente as piores coisas que poderiam ter acontecido àquela altura. — Eu vou mandar o Teddy te buscar. Ele é especialista em lidar com essa galera.
se despediu de e tomou uma chuveirada, antes de se vestir para aguardar a chegada de um dos seguranças dele. Escolheu uma roupa casual, mas colocou batom e rímel, por insistência das amigas, que argumentaram que ela seria fotografada ao sair, desta vez em close. A garota nunca tinha visto tanta gente falando ao mesmo tempo, tentando fazer com que suas perguntas fossem compreendidas, e falhando miseravelmente, mas Teddy era mesmo ótimo em abrir passagem no meio dos profissionais da imprensa, e logo ela estava no carro, vendo todos ficarem para trás, decepcionados.
Após declarar que a levaria até um restaurante que ela ainda não conhecia, onde a aguardava, o motorista ficou em silêncio, assim como o segurança, sentado no banco do carona. cantarolou baixinho a música que tocava no rádio, ligado a pedido dela, e observou as pessoas caminhando pela rua, uma moça e um rapaz trocando um beijo em uma esquina, uma senhora empurrando um carrinho de bebê, uma colega sua entrando no prédio da Juilliard, além de sorrindo para todo mundo de um outdoor, quando passaram pela Times Square.
Com sua mente e seu coração totalmente seguros daquilo que tinha para dizer a ele, ela relaxou no banco do automóvel, fechou os olhos e esperou.


Capítulo 1

Não eram nem seis horas quando o alarme do celular tocou, informando a que ela não podia mais continuar na cama. A garota desligou o mais rapidamente possível o aparelho, para que Charlotte, que dormia na cama ao lado, não fosse acordada também, e então se espreguiçou, antes de enfim levantar. A companheira de quarto se mexeu, e ela temeu não ter sido veloz o suficiente, mas Charlie apenas se virou de lado, e ela respirou aliviada. Não era justo acordar alguém que ia dormir tarde quase todos os dias, porque trabalhava de manhã e à tarde, frequentava a faculdade de Educação Física no turno da noite e precisava estudar a matéria quando voltava para casa, a fim de manter notas boas e não perder sua bolsa de estudos.
Após tomar um banho e vestir a roupa que já estava separada desde a véspera, a jovem encontrou outra das amigas que dividiam o apartamento com ela, sentada à mesa, tomando o café da manhã. Beverly acordava ainda mais cedo que ela, pois a primeira das aulas de sapateado que dava em uma academia no Upper East Side, para meninas da elite nova-iorquina, começava às sete, e atrasos por parte das professoras não eram tolerados. Como de costume, ela já tinha feito omeletes e chá de frutas vermelhas para as duas.
— Bom dia — desejou, tomando um gole da bebida, e recebeu a mesma saudação de , que sentou-se em frente a ela e começou a se servir. — Mademoiselle Dubois me perguntou novamente, ontem, sobre você. Ela realmente te quer no corpo docente — comentou, dando uma ênfase levemente debochada ao termo que a dona da escola de dança insistia que usassem antes de seu sobrenome.
— Não sei por que ela cismou comigo, com tanta professora por aí — respondeu a outra, colocando um pedaço de omelete na boca.
— Porque você não é como essas tantas que tem por aí. Ela viu o trabalho que você fez com as meninas da Rhythms.
— Até que seria uma boa ganhar mais algum dinheiro. Só que o problema é o horário — comentou, pensativa. — Eu ainda tenho duas matérias na Juilliard, nesse semestre. Tenho os ensaios e as apresentações da companhia... E tenho a Rhythms. De jeito nenhum, eu vou trocar a Rhythms pela Bien Danser!
— Disso eu sei, . E eu nunca diria pra você fazer isso.
Todos sabiam que era uma bailarina fantástica porque adorava dançar e não media esforços para aprimorar o talento nato, mas que ela era uma professora de balé ainda melhor, e que seu sucesso ensinando estava totalmente ligado ao seu amor pelas crianças e adolescentes, e à sua crença na dança como algo capaz de dar uma chance na vida a quem não a teria. Ela mesma só tinha saído do Harlem depois de conseguir uma vaga no departamento juvenil da companhia American Ballet Theatre e uma bolsa em Juilliard, o que não teria sido possível sem as aulas da fundadora da Rhythms, que, no começo, ensinava a ela e a outras meninas pobres no porão de uma loja de tintas.
— Ninguém que te conhece pediria — concordou Gwendolyn, entrando na sala, ainda de baby doll e com os cabelos totalmente bagunçados. — Mas a francesa quer tanto você na Bien Danser que com certeza daria um jeito de colocar uma daquelas turmas cheias de miniaturas da Blair Waldorf em qualquer horário disponível da sua agenda — opinou, enquanto virava a cadeira ao lado da de Beverly, montando nela.
— Caiu da cama? — perguntou , rindo. Ao contrário das outras duas garotas à mesa, Gwen não acordava tão cedo. Seus compromissos normalmente eram na parte da tarde e ela adorava isso.
— Eu não consegui dormir direito. Ainda to animada demais com a apresentação de ontem — explicou.
Gwen era solista da American Ballet Theatre, onde integrava atualmente o corpo de baile, depois de pouco mais de dois anos de treinamento no departamento juvenil. As duas haviam se conhecido em ensaios da companhia e ficado amigas quase instantaneamente. então a apresentara a Beverly, que, na época, era sua colega de classe em Juilliard, e a Charlotte, sua amiga de infância e a única das três que jamais havia dançado balé na vida. Charlie havia conseguido sair do Harlem e ir morar com as outras meninas graças à aptidão que tinha para o basquete, o que a fez conseguir bolsa de atleta na Columbia University, além de estágio remunerado como professora assistente.
— E o que teve demais na apresentação de ontem? — indagou Gwen, pois tinha sido uma apresentação como qualquer outra, em sua opinião. O teatro inclusive estava menos cheio do que de costume, pelo que lhe haviam dito.
— Só duas palavrinhas pra você, amiga: . .
— O jogador? — Bev indagou, espantada.
— Esse mesmo, em carne e osso — confirmou. — E a saberia, se não saísse correndo, todas as vezes, ao invés de ficar pra receber os cumprimentos das pessoas na coxia — reclamou, e revirou os olhos.
— As pessoas querem cumprimentar vocês, que são solistas. Já entram perguntando quem dançou nessa ou naquela música. Nas únicas duas vezes em que eu deixei me convencerem a ficar, eu me senti transparente.
— Foi você mesma quem escolheu ser transparente — Gwen não deixou barato, o que fez bufar, e Bev decidir se levantar e começar a tirar a mesa, colocando as coisas sujas dentro da pia.
— Esse assunto de novo, não, Gwen — pediu. — O que importa é que ninguém vai lá pra me cumprimentar, e eu ganho muito mais vindo logo pra casa, pra garantir o máximo de horas de sono que eu puder.
— Eu ainda discordo. — Gwendolyn era teimosa e as amigas já esperavam que continuasse argumentando, por isso seguraram o riso. — Você poderia ter visto pessoalmente. Aquele deus grego! E, só pra registrar, eu o vi falando com várias pessoas do corpo de baile, tá?
— Ok. Talvez ele me cumprimentasse. Mas e daí? Eu torço pros Jets. — Respondeu, se levantando e indo até uma poltrona, onde estavam suas coisas. Enquanto colocava um cachecol em volta do pescoço e pendurava a bolsa esportiva no ombro, via a outra revirar os olhos e bufar, ao mesmo tempo, do modo mais teatral possível.
Ambas sabiam que o fato de ser torcedora do NY Jets e de ser jogador do NY Giants tinha sido mencionado apenas de brincadeira. Fosse o atleta de qualquer time, ela não se comportaria como uma tiete, e jamais lamentaria ter ido embora do teatro, logo após o espetáculo. Ela não gostava do tipo de atenção que os artistas recebiam do público, depois da performance. Não gostava de ouvir elogios exagerados e, muitas vezes, falsos, e detestava principalmente tirar fotografias com pessoas que sequer conhecia e que insistiam em parecer íntimas. Fora por esta razão que preferira permanecer no corpo de baile, mesmo tendo sido convidada para integrar o nível principal da companhia, pulando inclusive o dos solistas.
Antes de se juntar a Beverly, que a essa altura já estava no pequeno corredor que dava para a porta de saída do apartamento, deu um beijo no rosto de Gwen e fez cócegas na amiga, que tentava manter um semblante zangado, mas acabou rindo. Então as duas professoras de dança saíram juntas de casa, cada uma pegando o metrô para um destino diferente.
daria aulas para três turmas, naquela manhã e, depois das duas primeiras, houve um intervalo grande, durante o qual ela resolveu aproveitar para experimentar alguns passos para uma nova coreografia. Em breve, suas alunas precisariam começar a ensaiar para a apresentação que a Rhythms fazia anualmente para a comunidade e para convidados ilustres, sempre com a esperança de que algumas meninas recebessem convites para integrar companhias de balé ou estudar em escolas de renome.
Depois de um breve aquecimento, a garota colocou uma música instrumental, bastante conhecida na década de oitenta, por ter feito parte de um romântico filme da época, chamado Em Algum Lugar do Passado. Iniciou a dança, no começo fazendo muitas pausas e trocas, mas depois deixando o corpo ser levado pelo ritmo, envolvendo-se com os sentimentos que a melodia lhe transmitia.
Estava tão concentrada, que só percebeu a presença de duas pessoas na porta da sala de aula, quando estas já estavam lá havia alguns minutos. A mulher sorria, orgulhosa, e o rapaz estava como alguém hipnotizado, encantado com a precisão, a leveza e a graça dos movimentos dela, e com a entrega, a paixão, a emoção à flor da pele que ela deixava transparecer em meio a fouettés e grand jetés.
Muito surpresa e desconcertada, a bailarina correu até o aparelho de som e tirou a música, e então se aproximou da dona da escola de balé e do mundialmente conhecido jogador de futebol americano. Tentou agir com naturalidade, mesmo que não fosse comum receber visitas de sua antiga professora entre as aulas, e muito menos encontrar pessoas ricas, famosas, influentes, e sem qualquer ligação com a dança, na academia.
— Tá tudo bem, Mac? — indagou, dirigindo-se à velha amiga.
— Tudo ótimo, meu bem — Mackenzie Palmer respondeu, dando um beijo em seu rosto. Tinha visto crescer e a amava como se fosse uma filha, apesar de a diferença de idade entre as duas não chegar a quinze anos. — Esta é a nossa , — disse ao rapaz, que estendeu a mão e sorriu.
— Muito prazer — falou ele, e a menina foi obrigada a encará-lo e a aceitar o cumprimento. Ele era tão lindo quanto sua amiga afirmara, durante o café da manhã, mas havia algo mais do que apenas beleza nele, a julgar pelo estrago que conseguiu fazer em poucos segundos, deixando-a estranhamente tensa, com apenas duas palavras e um sorriso. sempre achara uma bobagem quando alguém falava em magnetismo pessoal, mas talvez estivesse na hora de rever seus conceitos.
— O prazer é meu — assegurou, mas não tinha tanta certeza. Na verdade, era bastante esquisito ficar cara a cara com uma celebridade, com alguém com o rosto e o nome tão conhecidos, mas que, ao mesmo tempo, era um completo estranho.
— O veio até aqui pra conhecer a academia e saber um pouco da nossa história, . Mas, infelizmente, eu não vou poder mostrar tudo a ele, pois preciso levar uma das meninas ao médico — lamentou Mackenzie. — Então eu pensei que você poderia fazer isso por mim, meu anjo.
A garota balançou a cabeça, concordando, apesar de não entender o interesse do atleta em uma escola de dança para crianças e adolescentes pobres do Harlem. Não poderia jamais se negar a fazer algo que Mackenzie lhe pedisse, mesmo que isso significasse passar um bom tempo na companhia de alguém que fazia com que ela não soubesse nem mesmo onde colocar as próprias mãos.
— A tá aqui com a gente desde o início, — voltou a falar a mulher mais velha. — Ela também é uma ótima professora e nossa melhor bailarina. Estuda na Juilliard, dança na American Ballet Theatre... Já foi até convidada pra fazer parte do time dos principais bailarinos, mas preferiu continuar no corpo de baile. Cá entre nós, eu não entendi...
Para quem tinha compromisso e não podia mostrar o local, Mac estava falando demais! Usara até a palavra “time” para se referir ao grupo de bailarinos de maior destaque da companhia, o que colocava as coisas em termos que o jogador certamente compreenderia, mas não fazia sentido algum! Além disso, se antes estava sem saber o que fazer com as mãos, agora ela ficaria feliz em ter um buraco no qual se esconder.
— Mac, você e seus elogios são sempre maravilhosos, mas eu tenho certeza que o Sr. não tá interessado em nada disso — interrompeu, enfim.
— Sr. , não. Pelo amor de Deus — pediu ele, rindo, e vê-lo tão à vontade, enquanto ela estava extremamente constrangida, a deixou um pouco irritada.
— O veio pra conhecer a academia — lembrou, dando ênfase ao primeiro nome do rapaz, já que este parecia fazer questão de deixar formalidades de lado. — E eu não tenho assim tanto tempo, antes da próxima aula, então é melhor eu mostrar logo a ele.
Mac teve que concordar, principalmente porque ela mesma estava ficando atrasada, em razão de ter se prolongado na conversa com o belo quarterback dos Giants. Despediu-se dele e de , deixando os dois em companhia apenas da inexplicável tensão que os envolvia. A bailarina ficou grata por ter muito o que falar a respeito do espaço e da história da Rhythms, não tendo assim que conversar com sobre assuntos ridículos, como o clima ou alguma notícia recente sem importância, o que sempre acaba acontecendo quando queremos preencher o silêncio e não temos nenhum assunto real sobre o qual falar.
— Eu imagino que vocês tenham planos pra fazer obras aqui, certo? — ele perguntou, interrompendo-a pela primeira vez durante a visita guiada, quando entraram em uma sala cujo estado estava particularmente ruim. O vidro de uma das janelas estava rachado, parte do espelho tinha uma mancha grande, e alguns tacos estavam soltos e outros já tinham sido removidos do piso, em um canto, no qual havia um balde, estrategicamente posicionado para evitar que as goteiras aumentassem o estrago.
— Como eu te falei antes, a gente não cobra pelas aulas. Nossas alunas são da comunidade, e o objetivo da academia é justamente dar oportunidade a quem não tem condições de pagar. A gente mal tem grana pro aluguel! Não temos como planejar melhorias.
— Entendo — ele assentiu, seguindo a garota de volta para o corredor.
— Aqui fica o banheiro que usamos — ela apontou uma porta. — E ali tem outro que pode ser usado se algum homem vem aqui. Você pode entrar lá, se quiser, mas se achou que o prédio precisa de obras... — suspirou, sabendo que era desnecessário completar o raciocínio. Ele a surpreendeu, escolhendo entrar e ver com seus próprios olhos.
— Meu Deus! Me diz que o de vocês não tá tão ruim — pediu, passando a mão pelo pescoço, com ar de preocupação genuína, o que a fez sorrir.
— Tá com uma infiltração grande numa das paredes, mas pelo menos nenhum dos sanitários tá interditado — ela deu de ombros e eles voltaram a andar, entrando em um pequeno escritório. — Aqui é a sala da Mackenzie.
voltou sua atenção para as fotografias penduradas nas paredes, que também contavam a história do lugar e das bailarinas que haviam passado por ele. estava em algumas delas, fazendo pose com colegas ou com alunas. Ele a reconheceu também em uma tirada durante um solo de balé clássico e passou alguns segundos observando detalhes da imagem.
— Qual o interesse de um cara como você pela dança, afinal? Por que ir ao Met ontem? E especialmente por que vir até o Harlem, visitar uma academia comunitária da qual ninguém nunca ouviu falar? — questionou, sentando-se na ponta da escrivaninha.
Estava inclinada a achar que ou ele tinha fetiche por bailarinas, ou queria realizar caridade para ter descontos em impostos e projetar uma boa imagem ao público, mas ficou curiosa em saber o que ele teria a dizer a respeito. Ele se virou devagar e a encarou, antes de ir andando até ela e só parar muito mais perto do que ela gostaria, deixando-a tensa outra vez.
— Ah, então você sabe que eu assisti a sua companhia ontem — ele preferiu comentar, ao invés de responder a pergunta dela. — Mas você não tava lá, quando eu fui cumprimentar o pessoal. Eu com certeza me lembraria — afirmou e ela não teve nenhuma dúvida de que ele estava flertando, o que aumentou sua aposta na hipótese do fetiche. Se este era o caso, no entanto, ele teria que tentar com outra bailarina, porque ela não estava disposta a flertar de volta, por mais tentador que fosse.
— Eu nunca fico depois das apresentações — explicou. — Só que as notícias correm.
— A minha ida ao espetáculo de ontem explica a minha vinda até aqui hoje — ele continuou, mudando de tom e assumindo uma postura próxima ao profissional. — Eu conversei com algumas pessoas sobre o meu interesse em patrocinar companhias que estejam precisando de recursos, e me falaram muito bem do trabalho que vocês fazem aqui na Rhythms.
— E da nossa imensa necessidade de recursos, certamente.
não queria ficar irritada. Eles precisavam de ajuda e não podiam se dar o luxo de ficar julgando se ela viria ou não pelos motivos certos. Porém não gostava de gente que fazia coisas pelos outros visando receber algo em troca, fosse o que fosse, e estava cada vez mais convencida de que era exatamente desse tipinho, querendo se mostrar muito altruísta para o público, diminuir os altos impostos que tinha para pagar e, de quebra, ainda levar uma ou duas bailarinas para a cama. Que outra explicação poderia haver para que um jogador de futebol americano quisesse destinar parte do seu dinheiro para o balé?
— O que eu pude confirmar, infelizmente — lamentou ele, sem notar qualquer sarcasmo na voz dela. — É claro que eu não entendo tanto das necessidades de uma escola de dança, mas dá pra ver que aqui tem que ser feita no mínimo uma obra pra acabar com as goteiras, com as infiltrações... tem que ser trocado o piso. Vocês nunca chegaram a fazer nenhum levantamento, né?
— Não.
— Não tem problema. — Ele se afastou de novo, voltando às fotos, que prenderam sua atenção por um tempo. — Eu não sei qual foi a primeira vez em que eu vi uma bailarina. Provavelmente, desde quando eu era só um bebê a minha mãe já assistia tudo que passava de balé na televisão, comigo no colo. Ao teatro, eu lembro que ela me levou quando eu tinha dez anos. Era uma montagem do Quebra Nozes. Ela sorriu muito e eu fiquei feliz demais, porque não era tão comum ver a minha mãe sorrindo, naquela época. Ela também chorou, mas não quis me dizer por que e, só muitos anos depois, eu entendi que ela tinha chorado porque não tava lá no palco, dançando... porque tinha engravidado de mim, aos dezessete, e ido viver com meu pai.
— Então sua mãe foi bailarina? — perguntou. Talvez isso explicasse o interesse dele, mas ela ainda estava cética. Se a mãe gostava tanto de balé, e era ela quem havia insistido para que ele patrocinasse aquele tipo de arte, poderia ter feito ela mesma a visita. — Foi ela também que te levou ontem ao Met?
— Ela estudou, mas nunca chegou a ser profissional como você. Os meus avós nunca aceitaram o meu pai, então, quando ela escolheu o meu pai, ela deixou tudo pra trás, incluindo a dança — lamentou. — Infelizmente, ela não pode ir ontem. Ela com certeza teria amado. Eu também queria que ela viesse hoje comigo, mas ela decidiu só voltar amanhã. Tá em Ohio, visitando o irmão.
deixou que ele olhasse mais alguns registros de momentos especiais da história da escola, mas então percebeu que faltavam apenas cinco minutos para sua última aula da manhã. Então se ofereceu para levá-lo até a porta, o que ele agradeceu, mas disse não ser necessário. Foi ele quem, na verdade, a acompanhou até a porta da sala de aula, dentro da qual algumas meninas já aguardavam. ficou constrangida de ver que suas alunas não conseguiram disfarçar a surpresa e entusiasmo causados pela presença dele, mas sorriu e acenou, muito à vontade.
— Se você continuar sendo assim simpático, elas vão querer autógrafos e depois vão passar a próxima hora tagarelando. Você vai arruinar a minha aula — fingiu repreendê-lo. No fundo, mesmo que as intenções dele ainda não fossem algo claro para ela, era muito bom ver suas pupilas recebendo atenção de alguém que para elas devia ser como um deus.
— Tudo bem. Eu vou deixar você dar sua aula em paz — riu. — Depois dessa, você para pra comer alguma coisa? Eu poderia te levar pra almoçar.
— Obrigada — ela disse, sem encará-lo. Era justamente o rumo que não queria que aquela conversa tomasse. — Daqui eu vou direto pra faculdade e tenho tempo só pra um lanche rápido.
— Eu posso, então, te convidar pra jantar mais tarde?
— Obrigada de novo, mas não dá. Eu tenho que chegar antes das sete aqui, amanhã.
— E numa outra noite? — ele fez uma nova tentativa e ela teve vontade de bufar. Deveria saber que um homem como ele não desistiria prontamente. É claro que uma parte dela ficava tentada a aceitar, mas ela se orgulhava muito de não ser do tipo que se deixa deslumbrar com facilidade.
— Eu durmo bem cedo, todos os dias. A minha rotina é pesada...
— Ok, — ele a interrompeu, rindo mais uma vez. — Eu já entendi. Você prefere não sair comigo e... Tá tudo certo.
— Foi mal. Eu não queria ser indelicada. — Ele pareceu realmente não ter se ofendido com a recusa, o que a deixou um pouco constrangida.
— E não foi. Muito pelo contrário. Você bem que tentou dar boas desculpas — assegurou, sem deixar de lado o bom humor. — E foi super legal em me mostrar a academia. Muito obrigado. Fala pra Sra. Palmer que eu entro em contato, ok?
Então piscou para ela, antes de caminhar em direção à saída da escola, e entrou na sala de aula, onde foi bombardeada por perguntas sobre o famoso jogador e sua visita. Ela não tinha muito o que responder e nem achava que as meninas deveriam perder preciosos minutos de prática com distrações, então foi logo colocando todas para fazerem os primeiros exercícios, em silêncio. O que não significava, no entanto, que ela própria conseguiria se concentrar totalmente, depois de ter conhecido – e dispensado! – um dos maiores e mais cobiçados astros da NFL.
Gwendolyn ficaria louca quando soubesse!


Capítulo 2

Era pouco mais de dez horas da manhã de sábado, quando parou seu Range Rover SV Autobiography no estacionamento do Centro de Treinamento dos Giants, em Nova Jersey, onde o preparador físico do time o encontraria, para auxiliá-lo em seu pesado treino de fortalecimento de pernas.
O técnico dera folga aos jogadores, depois de terem derrotado os Lions na quinta-feira e voltado de Detroit na sexta, mas, como atleta de excelência que era, se exercitava diariamente e, querendo estar na melhor forma possível quando a temporada regular começasse, pediu ao preparador para monitorar os exercícios daquela manhã, para torná-los ainda mais intensos.
Cumprimentou o rapaz, que já o aguardava, aproveitando para preparar alguns aparelhos de musculação e alguns equipamentos que usariam, como tornozeleiras e halteres, e foi até o vestiário, a fim de trocar de roupa e guardar a mochila. Não demorou mais do que cinco minutos para fazer isso e teria se juntado rapidamente ao profissional de educação física, se o celular não estivesse tocando, dentro da bolsa, insistentemente.
Ele, na verdade, já esperava aquele telefonema e riu quando o rosto sorridente de Hillary apareceu na tela do iPhone.
— Oi, mãe — disse, ao atender.
— Ora, mas quem é vivo sempre aparece, hum! — ela respondeu, irônica. — Ou, pensando bem, não aparece, não. Afinal, eu precisei te ligar, pra saber de você, não é mesmo? E não adianta fazer careta, porque é apenas a verdade. — Mesmo sem vê-lo, ela sempre acertava todas as reações dele, o que fez sorrir de novo.
— Me desculpa, mãe — era a única coisa que ele poderia falar, porque ela estava certa sobre ele não ter mantido contato como deveria. — Nosso voo atrasou duas horas, ontem à noite. Quando eu cheguei, tudo que eu queria era uma cama, mas ainda tive que aguentar o Vincent, tentando me convencer a fazer uma campanha nada a ver.
Vincent Barnes era empresário de , desde que ele estreara no futebol americano profissional, e o ajudara muito com as escolhas que precisara fazer, ao longo dos anos. No entanto, ele às vezes só pensava no valor de alguns contratos e ignorava outros detalhes, importantes para seu cliente, como quando aconselhara o atleta a escolher o Washington Redskins e não os Giants, mesmo sabendo que ele sempre sonhara em jogar no time de Nova York. Desta vez, queria convencer seu agenciado a fazer propaganda de um shake emagrecedor que prometia resultados que com certeza não poderia garantir.
— É claro que eu te perdoo, meu filho. Mas você ao menos se alimentou de forma decente, quando chegou? Ou também não teve tempo pra isso?
— Eu não tenho mais treze anos, mãe — retrucou, mesmo que, no fundo, gostasse de como ela estava sempre cuidando dele.
— Eu to bem ciente de que você faz trinta em menos de três meses, , mas pra uma mãe não importa se o filho tem três ou trinta. A gente sempre se preocupa.
— Você contratou uma ótima cozinheira pra mim, lembra? E eu comi uma enorme salada, com frango e batata doce, quando cheguei — informou, tranquilizando Hillary.
— Ótimo — respondeu, sorridente. — Você sabe aonde estou indo?
— Nem imagino.
— Ver as obras da Rhythms. Finalmente, eu consegui marcar com a Sra. Palmer. — O motorista reduzira a velocidade e, de dentro do carro, ela já podia ver a academia, bem como alguns dos profissionais que estavam transformando a parte externa do local.
não respondeu de imediato. Não esperava a menção à academia, que imediatamente trouxe à sua mente uma certa bailarina em que ele vinha lutando para não pensar.
Estava sendo quase impossível tirar da cabeça o rosto dela, a imagem dela dançando sozinha em uma sala de aula, alheia ao mundo, os seus movimentos suaves e perfeitamente executados, o fascínio pela dança transparecendo em cada gesto. E, justamente quando estava ficando um pouco mais fácil, quando o trabalho estava começando a consumir mais do seu tempo, quando havia gente em volta dele quase sempre, criando uma distração muito bem-vinda, a mãe resolvia tocar no único assunto que ele e a garota tinham em comum!
novamente se perguntou, como muitas vezes fizera nas últimas semanas, se ela não aceitara sair com ele porque de fato não estava interessada no cara que conhecera na academia e que jurava ter percebido uma tensão sexual fortíssima entre os dois, ou se ela não queria sair com o , o astro da NFL sempre presente na mídia americana. não parecia uma pessoa tímida, mas, a julgar pela sua recusa em ser uma das bailarinas principais da companhia em que atuava e considerando que ela sequer permanecia nos bastidores após as apresentações, ela tampouco gostava de ser o centro das atenções, o que o fazia acreditar na segunda hipótese.
Não que saber o motivo da recusa fosse fazer realmente alguma diferença, mas o cérebro humano não está acostumado a aceitar algo sem ao menos procurar as razões, então, por mais que ele se esforçasse, tal questionamento se tornara recorrente.
— E aí? Vamos começar com isso ou não? — ele ouviu o preparador físico perguntar e só nesse momento percebeu que não havia respondido à mãe e que ela falava algo mais.
— O que, mãe? — questionou, como se não tivesse compreendido, ao mesmo tempo em que fazia um sinal para o outro rapaz, indicando que iria se despedir de sua interlocutora em breve.
— Eu tenho que desligar. Já cheguei — ela repetiu. — Te ligo mais tarde.
— Certo. Eu também preciso desligar e ir treinar — concordou. — Um beijo, mãe.
— Muitos beijos, meu amor!
Enquanto finalmente encerrava a ligação e ia ao encontro de aparelhos como o leg press e a cadeira extensora, Hillary também desligou o telefone e saltou do carro, entrando na Rhythms. A recepção estava cheia de latas de tinta, tijolos, sacos de cimento e algumas peças de mobiliário envoltas em plástico grosso, mas, quando a Sra. entrou na primeira sala de aula, à esquerda do hall de entrada, ficou claro que esta já estava quase terminada, pois o piso estava brilhando de novo, as paredes extremamente brancas e o espelho coberto com uma espécie de adesivo. A segunda sala estava exatamente como a primeira e a terceira se encontrava pronta para uso, equipada inclusive com barra de exercícios e aparelhagem de som.
Hillary passava a mão pela barra de um jeito nostálgico quando ouviu alguém adentrar o cômodo. A jovem, que carregava algumas sacolas e um cabide com uma camisa social, sorriu educadamente, se aproximando.
— Eu posso ajudar a senhora com alguma coisa? — perguntou, nitidamente confusa com a visita, o que deixou claro que não se tratava da mulher que administrava o local.
— Eu vim encontrar a Sra. Palmer — explicou Hilly.
— Eu falei com ela há uns dez minutos. Ela já deve estar chegando. É melhor a gente esperar no escritório, lá no fundo, que é bem mais confortável — disse a garota, colocando as sacolas no chão para estender a mão. — Eu sou . Dou aulas aqui na academia.
— Hillary — a mulher mais velha também se apresentou, apertando a mão da mais nova e sorrindo.
imediatamente ligou o nome à pessoa e ficou um pouco desorientada por estar na presença da mãe de , mas conseguiu disfarçar muito bem. Pegando novamente as sacolas, guiou a convidada até a sala onde Mac trabalhava, tirando outros pacotes de cima de um sofá, para que Hillary pudesse aguardar comodamente sentada, e ligando o aparelho de ar condicionado novo.
— Tá tudo uma loucura porque, mesmo com a obra rolando ainda, nós já começamos a receber os uniformes e algumas das coisas que vão ser vendidas na lojinha que vamos inaugurar, lá na frente — comentou.
— Eu posso imaginar. Só a obra já seria demais! Obra é sempre uma loucura.
A reforma na academia estava acontecendo principalmente nos finais de semana, para que boa parte do lugar pudesse continuar funcionando, de segunda a sexta. não acompanhava a empreitada, o que era feito por Mackenzie ou pelo marido dela, Jeromy Palmer. No entanto, ficara responsável por lidar com o pessoal da confecção que estava fazendo colants, camisetas, saias e vários outros itens personalizados para a Rhythms, e fazia isso majoritariamente aos sábados, razão pela qual acabara indo ao centro de dança.
A jovem, entretanto, não estava preparada para fazer sala para visita alguma, muito menos para a mãe de . Não conseguia pensar em nenhum outro assunto que pudesse introduzir e ficou aliviada quando a Sra. se levantou e, assim como o filho havia feito, demonstrou interesse pelas fotos que cobriam as paredes do escritório. Sentou-se na cadeira em frente à escrivaninha e fingiu arrumar alguns papéis, enquanto observava discretamente a mulher, muito elegante com o cabelo preso em um coque banana, mas também bastante simples, vestida com uma calça jeans e uma camisa branca, e calçando um mocassim azul turquesa. Ela era bem magra e pelo menos vinte centímetros mais baixa do que o filho, mas ele herdara o nariz dela, assim como a cor e a expressividade dos olhos.
teve que disfarçar também uma certa irritação!
Já tinha se recusado a sair com muitos caras na vida, pelos mais diversos motivos, e, mesmo quando a razão não fora uma total falta de interesse, o assunto e o próprio cara tinham sido esquecidos em menos de uma semana, a vida seguira sua programação normal. Porém, no caso de , a história estava sendo totalmente diferente.
Apenas três dias depois da ida do rapaz à escola de dança, Mackenzie havia recebido a visita de um homem elegante, que usava um terno de caimento perfeito, carregava uma pasta de couro lustrosa e se apresentara como um dos advogados do Sr. . Antes do fim daquele mesmo dia, a Harlem Rhythms Dance Academy Ltda. se tornara a nova proprietária do imóvel onde funcionava a academia e uma quantidade indecente de dinheiro havia sido transferida para a conta da empresa, para que Mac pudesse contratar alguém para fazer a obra de que o lugar tanto necessitava, além de manter tudo funcionando por um bom tempo.
Quando a antiga professora de lhe contara as novidades, ela ficara extremamente entusiasmada. As duas tinham feito planos para tornar aquela doação ainda mais proveitosa, criando uma loja e transferindo o evento de final de ano para um teatro melhor, que acomodaria mais convidados, e aumentaria as chances das alunas de serem vistas e conseguirem boas oportunidades. Contudo, por não estar acostumada com atitudes desinteressadas, com gestos de bondade gratuitos, ela não conseguiu deixar de ficar com a pulga atrás da orelha.
Se ela já achava que estava interessado em posar de bom samaritano antes, sua desconfiança ficou ainda maior quando viu o tamanho da doação, mas suas suspeitas não se confirmaram, pois logo ficou sabendo que o advogado que representava o jogador sugerira a Mackenzie que não contasse a ninguém sobre a origem do dinheiro. Oficialmente, constava que o montante viera de uma fundação de apoio à arte e cultura sediada no Brooklyn.
Então imaginara que talvez ele tivesse apenas feito tipo, ao concordar tão rapidamente com sua negativa em sair com ele, e estava tentando usar a academia para impressioná-la e, assim, convencê-la. Não seria a primeira vez que isso aconteceria, afinal. É claro que nenhum cara chegara a comprar um imóvel ou a bancar uma obra de milhares de dólares, apenas na tentativa de levá-la para a cama, mas também ninguém que ela conhecera tinha uma fortuna sequer próxima da dele!
Semanas tinham se passado, contudo, e ele jamais tentara falar com ela novamente, o que enfraqueceu bastante esta segunda hipótese.
O comportamento dele a intrigava, e só isso já teria sido suficiente para manter nos pensamentos dela por bem mais que uma semana. Além disso, era impossível esquecer alguém que estampava anúncios em banners laterais dos mais diversos tipos de site, que aparecia em inúmeros comerciais de TV e que, com o início da pré-temporada da NFL, estava sendo cada vez mais citado nos programas esportivos aos quais Charlie assistia, sempre que estava em casa. Para piorar as coisas, agora ainda precisava fazer companhia à mãe dele, que estava em seu local de trabalho.
— Que bom que a senhora pode vir ver as obras. O seu filho deve estar doido pra saber se o dinheiro dele tá sendo bem gasto — comentou, tentando não transparecer qualquer sarcasmo em seu tom.
— Acho que ele vai gostar de receber notícias, sim, mas, na verdade, era eu quem estava curiosa pra conhecer a academia e ver como ela está ficando. Eu fiquei muito animada, quando soube que ele patrocinaria uma escola de dança — esclareceu Hillary. — É Giselle? — questionou, apontando uma fotografia de Mackenzie e outros bailarinos em um palco, na cena conhecida como baile das Willis, na qual espíritos de moças que morreram antes do dia do casamento, a fim de se vingar, obrigam rapazes a dançarem até a exaustão.
— É, sim. A Mac... a Sra. Palmer é a primeira à esquerda — respondeu. Era estranho se referir a Mackenzie com tal formalidade, mas ela não sabia se a Sra. conhecia o primeiro nome da administradora da academia.
— Eu e o já assistimos a algumas montagens. É um dos meus balés de repertório favoritos — comentou, demonstrando que era mesmo uma conhecedora, como o filho havia afirmado.
— Ele vai sempre com você?
— Ah, sim! Sempre que pode. Ele me acompanha desde criança. Sem contar tudo que ele já viu comigo em DVDs e velhas fitas VHS...
— Ele já namorou muitas bailarinas? — A pergunta chamou a atenção de Hillary, a ponto de ela se virar, deixando as figuras na parede de lado e encarando .
— Não. Na verdade, nenhuma.
— Talvez ele seja discreto...
— De fato, o é discreto e pode ter saído com alguma bailarina, sem que eu saiba — concordou. — Mas, se o que você está imaginando é que ele vai ao balé por causa das bailarinas, eu posso te garantir que não. Ele realmente aprecia artes em geral, pelo contato que teve, desde cedo, já que eu fui bailarina, e o pai dele, músico. Se bem que o irmão dele nunca teve interesse, mesmo sendo criado junto. Esse, sim, resolveu me acompanhar, nos últimos tempos, unicamente pelas bailarinas. Eu já o vi trocando números de telefone com várias!
— Eu peço desculpas. Eu não quis... — suspirou, pois estava se sentindo realmente mal. A Sra. e o próprio não tinham culpa se a maior parte das pessoas que ela conhecera até aquele momento sempre agiam com segundas intenções. — É que é realmente difícil imaginar que um cara como ele possa gostar de balé — completou e Hillary riu.
— Tudo bem. Você não é a primeira e com certeza não será a última pessoa a me falar isso. O gosto pelas artes em geral demanda sensibilidade e, no caso do balé, é ainda pior, a ponto de acharem que é uma coisa só pras mulheres e pros gays. É claro que isso não combina com a imagem que se faz de um homem do tamanho do , atleta, que pratica um esporte considerado extremamente violento... Duas ideias estereotipadas combinadas, que levam a maioria das pessoas a uma conclusão errada.
— A senhora tem toda razão — a bailarina respondeu, sincera, concluindo que deveria parar de buscar motivações ocultas no que o jogador fizera pela Rhythms e aceitar que ele era uma boa pessoa.
— É você ali? — Hilly indagou, indo até uma fotografia em que aparecia posando com uma turma de alunas. A garota assentiu e, grata pela mudança de assunto, começou a falar sobre o momento em que haviam tirado a foto, durante um dos eventos que a academia organizara para mostrar o que as meninas sabiam fazer.
Mackenzie chegou pouco depois, se desculpando pelo atraso, que ocorrera graças a um pequeno acidente doméstico envolvendo seus filhos de três e cinco anos. ficou aliviada em poder finalmente ir para casa, descansar um pouco e por a cabeça no lugar.
Se ela pudesse simplesmente esquecer que existia, isso teria facilitado demais as coisas. Se pudesse continuar achando que ele agia de forma calculada para conseguir algo em troca, a situação também seria bem mais confortável, pois ela jamais se interessaria por alguém desse tipo. Diante da ausência de qualquer uma dessas opções, no entanto, teria que trabalhar a mente para afastar o desejo insistente que não confessara – nem confessaria – a ninguém, mas que vinha mexendo profundamente com as suas emoções, dia após dia.


Capítulo 3

adentrou o apartamento que dividia com as amigas por volta das seis horas da tarde e encontrou os móveis todos aglomerados em um canto, e Gwendolyn fazendo alongamento no meio da sala.
Depois de ir até a cozinha e beber um copo de água, deu um jeito de chegar ao sofá, onde se sentou e começou a abrir os envelopes que pegara no escaninho do edifício. A maior parte das contas das quatro garotas chegava por email, mas a proprietária do imóvel insistia em enviar o boleto para suas inquilinas pagarem o aluguel na forma tradicional e, junto com ele, havia ainda a fatura do cartão de crédito que elas usavam apenas para fazer as compras da casa, bem como uma carta de sua avó, que também não era adepta da tecnologia.
Gwen a cumprimentou, mas continuou concentrada em seus movimentos, e ela aproveitou para ler rapidamente a carta da Sra. , certificando-se de que estava tudo bem. Pouco depois que a loira enrolou o tapetinho de EVA que usava nos exercícios e começou a recolocar as coisas em seus devidos lugares, ela terminou sua leitura e levantou para ajudar.
— A fatura do aluguel chegou — informou à amiga.
— Ah, beleza! Deixa aí na mesa que, depois do banho, eu pago. — A locadora podia gostar do modo antigo de cobrança, mas ela não abria mão da facilidade de resolver sua vida financeira usando o aplicativo do banco em que tinha conta.
— As meninas já te deram a parte delas?
— Já sim.
— Obrigadão por adiantar a minha, viu? Assim que der, eu te pago — disse, um pouco sem jeito.
O salário que recebia da American Ballet Theatre era sua única fonte de renda no momento, visto que estava dando aulas apenas na Rhythms, onde fazia questão de ser voluntária, no intuito de retribuir o que haviam feito por ela. É claro que, como bailarina de uma grande companhia, não ganhava tão mal, mas, além de dividir com as amigas o aluguel e as demais contas do apartamento, ela precisava arcar com suas despesas pessoais e ainda ajudava a família.
Quando, dois meses antes, o avô paterno tivera que ser internado às pressas, devido a um AVC, a garota precisara pagar não só a conta do hospital, como os custos da viagem que fizera com os pais para Iowa, a fim de visitar o patriarca dos . Em razão disso, não somente suas reservas tinham acabado, como ela havia contraído algumas dívidas.
Gwen, além de ter um salário maior, por ser solista, era filha de um advogado de Direito Concorrencial e de uma médica cirurgiã plástica, e não precisava ajudar os pais, por isso podia gastar o dinheiro todo consigo mesma. A loira poderia inclusive alugar um apartamento como aquele, sem precisar dividir com ninguém, mas não era do tipo que gostava de ficar sozinha. Ela gastava bastante com lazer, e principalmente com roupas e acessórios, que lotavam seus armários e acabavam parando também nos das amigas, mas ainda sobrava algum dinheiro, no final de cada mês.
— Não precisa se preocupar e nem agradecer — disse a , pois a grana não lhe faria falta e ela estava realmente feliz em poder ajudar. — Eu não fiz nada demais.
— Ah, fez sim! Você simplesmente me salvou de fazer um empréstimo bancário. Eu não sei nem como agradecer!
— Pois eu sei como você pode me agradecer. — Gwen aproveitou a deixa.
— É? — perguntou a outra, franzindo a testa, desconfiada, enquanto ocupava uma poltrona que enfim retornara a seu local de origem. — Como?
— Saindo comigo hoje — respondeu, soltando o cabelo e já indo em direção ao banheiro.
— Não dá, amiga. Hoje é quinta! Amanhã, eu dou aula super cedo — declinou. — Eu sei que você quer aproveitar que a gente tá fora da temporada de espetáculos, mas não dá mesmo. A gente sai amanhã ou no sábado. Pode ser?
— Não, senhora. Não pode ser — retorquiu, surpreendendo . — Vai rolar uma reuniãozinha, hoje, na casa de um amigo. Não é a mesma coisa que a gente ir prum barzinho qualquer, amanhã ou sábado.
— A Bev e a Charlie não acordam tão cedo quanto eu, às sextas...
— Eu já falei com elas. A Bev vai sair com o crush e a Charlie não perde o raio do Kickoff Game por nada no mundo. — Gwen não estava exagerando. Realmente seria necessário um caso de vida ou morte para tirar a menina de casa no dia do primeiro jogo da temporada da NFL, sobre o qual ela vinha falando desde o começo da semana.
— Futebol maldito! — murmurou. Parecia que tudo no mundo agora girava em torno de futebol americano, como se houvesse uma conspiração para que ela se lembrasse de o tempo todo. É claro que era uma percepção equivocada, assim como a que temos, por exemplo, quando estamos em uma dieta restritiva e parece que as pessoas começaram, de repente, a comer mais besteiras perto de nós. Na verdade, elas sempre devoraram delícias cheias de excessos, e nós apenas começamos a dar mais atenção a esse fato, mas, mesmo assim, a sensação é irritante.
— Você disse alguma coisa? — a amiga quis saber.
— Não. Só pensei alto — respondeu, levantando-se abruptamente. — Eu vou com você. A que horas a gente sai daqui?
Gwendolyn comemorou com uma reboladinha engraçada, antes de dizer que elas podiam pedir um uber, quando fosse mais ou menos umas nove horas da noite. Enquanto a loira se dirigia para o chuveiro, foi para o quarto, se jogou na cama, fechou os olhos e suspirou, resignada.
Além dela, das outras meninas com quem dividia apartamento e de alguns bailarinos, Gwen só tinha amigos cheios da grana que conhecera quando estudava na Dalton School. já tinha ido a algumas dessas festinhas e não tinham sido programas muito agradáveis, em sua humilde opinião. Pior do que isso, no entanto, seria ficar em casa ouvindo Charlie interagir com a televisão, comentando cada snap, tackle, fumble...
Ao começar a se arrumar, por volta das oito e quinze, já podia ouvir a transmissão televisiva, direto do Lincoln Financial Field para todo o território americano e também alguns outros lugares ao redor do mundo. E, quando ela e Gwen deixaram o apartamento, o confronto entre os Philadelphia Eagles e os Atlanta Falcons estava em curso, e Charlie gritava, xingando jogadores de ambos os times, o que reforçou sua decisão de sair.
Logo que o motorista parou o carro em frente ao prédio no qual estava acontecendo a tal reuniãozinha, soube que não se enganara a respeito do amigo de Gwendoly. Ele morava em uma das ruas mais chiques do Upper East Side, o que era sinal claro de sua classe social. Na verdade, a garota logo concluiu que a família do rapaz era provavelmente ainda mais rica que a de qualquer outro conhecido de Gwen ao qual já tinha sido apresentada, pois vivia na cobertura duplex do luxuoso edifício.
O glamour do lugar, no entanto, estava longe de garantir o sucesso do evento, pelo menos na opinião dela. O anfitrião, Aidan, e os convidados – todos com vinte e pouco, ou até vinte e muitos, anos – agiam de forma absurdamente imatura, fazendo brincadeiras bobas uns com os outros, contando piadas sexistas e homofóbicas ou rindo delas, falando sobre assuntos fúteis e declarando coisas que deixavam totalmente óbvio que ainda viviam com os pais, e principalmente às custas destes. não conseguia participar das conversas e nem achar graça nelas, e não entendia como Gwen era capaz de se enturmar com aquelas pessoas, sendo tão diferente delas.
Apenas quando a amiga trocou a taça que acabara de esvaziar por uma cheia e quase gemeu de prazer ao tomar um gole de champagne, ela se deu conta de que provavelmente Gwen estava ali porque gostava – e sentia falta – da sofisticação. Afinal, apesar de os presentes se comportarem como universitários em festas de fraternidade, na qual os comes e bebes costumam se resumir a batata chip e amendoim, servidos nas próprias embalagens, e cerveja quente em copos plásticos, ali havia garçons servindo Dom Pérignon gelado em taças de cristal e aperitivos feitos de lagosta, caviar, trufa branca, ostra e outras iguarias cujo nome sequer conseguiu reconhecer.
Ela não dava o mesmo valor que a amiga àquelas coisas, contudo não podia criticá-la, pois as duas tinham crescido em ambientes totalmente diferentes e, por isso, tinham noções de prazer e diversão também bastante diferentes. Sua vontade de ir embora era grande e só aumentava, com o passar do tempo, mas decidiu que valia a pena se sacrificar um pouco e deixar a loira desfrutar da rara oportunidade de estar em um evento requintado.
Algum tempo depois, aproveitando que sua acompanhante estava recebendo uma atenção especial do anfitrião, conseguiu pelo menos sair do burburinho e ir para a varanda. Fazia um pouco de frio do lado de fora, mas, para ficar sozinha por um tempo, estava disposta a enfrentar a baixa temperatura. A vista também valia muito à pena! Com os braços apoiados no parapeito, ela observou, por vários minutos, os prédios gigantescos, suas zilhões de luzes multicoloridas e um grande pedaço do Central Park, e ficou imaginando que tudo deveria ser ainda mais bonito durante o dia. Este, sim, era um luxo ao qual poderia facilmente se acostumar!
— Eu to em Manhattan. — Uma voz masculina a assustou, e ela se virou automaticamente, levando um susto ainda maior ao identificar o dono da voz, que entrara na varanda falando ao celular. — Minha mãe tá viajando e pediu pra eu vir dar uma olhada no Aidan, e me certificar de que ele e os amiguinhos não vão destruir a casa to-... paralizou, ao finalmente notar que a garota parada próximo à sacada era . Ele sorriu para a bailarina e não ouviu nada do que o amigo com quem conversava falou em seguida. De qualquer modo, não acreditava que nada que ele tivesse para dizer poderia ser tão interessante ou importante, naquele momento.
— Eu vou ter que desligar, Nic... Não, não. Tá tudo bem. Dessa vez, meu irmãozinho até que tá se comportando — comentou, sincero. Considerando o estrago que o caçula tinha feito em uma das festas que dera, no antigo apartamento da família, durante outra viagem dos pais, era mesmo um alívio que ele apenas estivesse ostentando. — Eu só preciso mesmo desligar. A gente se fala amanhã, cara. Abração.
O jogador guardou o telefone no bolso de trás da calça jeans, sem tirar os olhos da bailarina, e ela o encarou de volta, o que o encorajou a dar alguns passos e se aproximar mais.
! — quebrou o gelo, dizendo seu nome de um modo que demonstrou claramente que ela estava tão surpresa com a presença dele quanto ele ficara com a dela.
... — respondeu ele, mas não conseguiu dar a mesma ênfase. — Eu não sei seu sobrenome. Isso não é justo — completou, brincalhão, e a fez sorrir.
— É — esclareceu. — E eu não acredito que o Aidan é seu irmão!
— Sou eu quem não acredita que você conhece o Aidan — retrucou, torcendo o nariz.
— Eu não conheço. Quer dizer... não conhecia até algumas horas atrás. Eu vim com uma amiga que, aliás, também não imagino de onde possa conhecer o seu irmão — comentou, xingando mentalmente Gwen pelo que provavelmente tinha sido uma arapuca.
— Ela é da companhia também? — questionou e recebeu um aceno positivo em resposta. — Então tá explicado. Meu irmãozinho desenvolveu um súbito interesse por balé e tem ido assistir, com a minha mãe.
— Bem que ela falou — deixou escapar.
— Então você andou conversando com a dona Hillary...
— Ela tem ido bastante lá na academia. — Depois da primeira visita, na qual as duas haviam se conhecido, a Sra. tinha realmente aparecido mais algumas vezes, durante os dois finais de semana seguintes, nos quais a reforma fora finalizada.
— Eu sei. Ela me mostrou um monte de fotos recentes de lá. Parece que o resultado ficou bom, né? Eu queria muito ir ver pessoalmente, mas começou a pré-temporada, os treinos ficaram mais intensos, eu tive que viajar... E, de qualquer forma, é melhor assim. Se eu fosse lá de novo, alguém poderia acabar desconfiando que eu patrocinei a obra.
— E por que você faz tanta questão que ninguém saiba?
— Eu não faço questão. Só que eu quero ajudar vocês, e não atrapalhar. Vocês não precisam desse tipo de publicidade! Se isso se espalha, a Sra. Palmer vai passar semanas tendo que lidar com gente da imprensa, querendo fotografar a academia, fazer entrevistas... Isso sem contar a possibilidade de gente insistindo em se matricular, na esperança de que eu apareça por lá. As pessoas podem ser bem malucas!
— É. Vendo por esse ângulo... — Ela teve que concordar, e ele deu um sorriso conformado.
— Por que você tá aqui fora, sozinha? Não tá gostando da festa?
— Pra ser bem sincera, nem um pouco. Por mim, eu já tinha até ido embora, mas a Gwen parece estar curtindo bastante, principalmente o champagne. — Ela já não tinha tanta certeza sobre os motivos que levaram a amiga àquele programa, mas quanto à bebida não havia dúvidas: tinha tomado pelo menos cinco taças, antes de decidir ir para a varanda.
— Eu também não curto essas festinhas do meu irmão. Ele só tem quatro anos a menos que eu, mas, quando os amigos e ele se juntam, não parecem nem ter atingido a maioridade.
— Ele dá sempre essas festinhas?
— Sempre que os meus pais viajam e eu não to por aqui também.
Tudo estava programado para que ficasse em Nova Jersey pelo menos até a semana seguinte. Ele só fora a Manhattan porque Aidan decidira usar o serviço de buffet que a mãe costumava contratar, e a chef ligara para a própria Hillary para confirmar o cardápio, entregando os ousados planos do rapaz. Sem jeito, a Sra. fingira estar ciente de tudo e mantivera a contratação da empresa, mas ligara para o filho mais velho, preocupada.
O jogador não pudera se negar a ir até o Upper East Side e ver se as coisas estavam correndo bem, afinal, poucos meses antes, o irmão tinha sido preso por desacato à autoridade, depois de algum vizinho ter chamado a polícia, graças ao barulho que ele e os amigos estavam fazendo no antigo apartamento da família. Então dirigira até lá, irritado por ter que bancar babá de gente grande, e acabara tendo a grata surpresa de encontrar . Pela primeira vez, teria algo de bom a dizer sobre um daqueles (sempre desastrosos) eventos!
— Então essa é a casa dos seus pais — ela concluiu.
— Da família toda. Oficialmente, não é só o Aidan que ainda mora com os nossos pais — disse, rindo. — Só que eu tenho um apartamento em East Rutherford, perto do estádio. Eu tenho passado a maior parte do tempo lá, principalmente nessa época do ano, em que tem treino quase todo dia, tem os jogos... E é ótimo ficar lá! Eu sou muito ligado à minha família, mas, no meu tempo livre, na maioria das vezes, tudo que eu quero é sentar pra ler um livro, ver um filme, dormir no sofá e, se eu to aqui, minha mãe tem sempre uma novidade, meu pai puxa papo sobre trabalho...
— Eu sei bem como é — ela assegurou. — Além da amiga que veio comigo, eu moro com mais duas, e é quase impossível haver um momento de silêncio num apartamento com quatro mulheres. A maior parte dos filmes, graças a Deus, elas veem junto comigo, mas, pra conseguir ler, eu preciso me trancar no quarto.
— Deve ser uma loucura mesmo — comentou, enquanto observava a garota se encolher e passar as mãos pelos braços. — Cara, você tá morrendo de frio, né?
— Um pouco, mas você não precisa... — ela tentou protestar, mas já estava tirando a própria jaqueta.
— Eu não vou deixar você aí, batendo o queixo! — Ele a ajudou a vestir a peça de roupa e, por fim, parou bem na frente dela, para ajeitar o colarinho. — Ficou enorme, mas pelo menos agora você tá aquecida.
— E você vai ficar com frio — ela praticamente sussurrou, pois sentia dificuldade até para raciocinar.
estava perigosamente perto e ela só conseguira focar em sua boca, enquanto ele falava. Quando levantou o olhar e seus olhos encontraram os do quarterback, um sorriso malicioso surgiu nos lábios dele, que se aproximou ainda mais.
— Eu sou mesmo um cara de sorte — disse, passando lentamente as costas dos dedos pela maçã do rosto dela. — Eu pensei que não fosse mais te ver.
— Você sabia onde me encontrar — comentou, com indiferença, apesar de não conseguir que seu corpo reagisse do mesmo modo. Estava arfando e era impossível que ele não percebesse.
— Sabia, sim — confirmou, com os olhos grudados nos dela, enquanto a mão continuava delicadamente explorando sua pele, agora deslizando pela lateral do pescoço. — Mas tinha ficado bem claro que você não queria sair comigo, e eu respeito quando uma mulher me diz não. Agora, por exemplo, se você disser que não quer — continuou, falando extremamente devagar e só aumentando com isso a urgência que ela sentia — eu não vou beijar você.
Ela fechou os olhos e inclinou levemente a cabeça para trás, quando a mão dele segurou sua nuca. Os lábios dele estavam nos dela, logo em seguida, e eram quentes e macios. O calor que vinha deles se espalhou pelo seu corpo rapidamente, em contraste com o ritmo que imprimia ao beijo, que era lento, como se ele tivesse todo o tempo do mundo para experimentá-la.
O primeiro beijo levou a outro e mais outro, todos de algum modo suaves e intensos ao mesmo tempo. Por um breve momento, se deixou guiar para um lugar onde conviviam desejo e paz, na mesma medida, e não havia impedimentos mundanos.
Beijos como aqueles, no entanto, tinham tudo para fazer com que ela quisesse mais, e ela não estava disposta a se permitir querer mais com alguém como .
— Eu... eu acho melhor eu ir embora — Disse, nervosa, tirando a jaqueta para devolver a ele.
— Embora... — repetiu, atônito, quando ela lhe entregou o casaco e se afastou para pegar a bolsa, que deixara em uma mesa próxima. — Depois disso que acabou de acontecer aqui, você simplesmente acha melhor ir embora?
— Olha, ... — Ela se aproximou dele novamente e respirou fundo, tentando se acalmar, para conseguir colocar em palavras o que imaginava ser uma boa razão para não continuar ali com ele. Não era do tipo que dava explicações sobre suas decisões, mas, naquele momento, pareceu-lhe que o rapaz realmente merecia uma. — Você mexe comigo. Muito! Eu não vou mentir pra você, até porque... não adiantaria, né? Só que nós dois somos muito diferentes. Somos de mundos totalmente diferentes, entende?
— Não. Na verdade, eu não entendo. Nem um pouco! No que você acha que a gente é assim tão diferente, sem ter nem dado uma chance real pra gente se conhecer?
— Pelo amor de Deus! Olha só em volta! A sua família mora em uma cobertura de milhões de dólares, e você ainda tem um outro apartamento, pra poder ficar mais perto do trabalho. Os meus pais moram de aluguel no Harlem, num quitinete que deve ser do tamanho do seu quarto, e eu divido as contas do meu apartamento, que cabe fácil na sua sala de visitas, com mais três pessoas! Esse mês, eu tive que pedir dinheiro emprestado pra uma das meninas, porque nem tinha como pagar tudo, enquanto você deu grana pra minha chefe praticamente construir uma academia nova!
— Por enquanto, eu só vi diferenças entre as nossas contas bancárias — ele disse, cruzando os braços. — Além do mais, eu nem sempre tive grana, ok? Se você quer saber, eu morei em Candem até ir pra faculdade, e os meus pais e o Aidan moraram lá até eu começar a jogar profissionalmente. O meu pai foi funcionário de uma lavanderia, praticamente a vida inteira! Eu só tenho dinheiro hoje porque dei sorte de ser bom em uma coisa que é valorizada pra caramba.
— Não é só o dinheiro.
— É o que mais, então? Porque o que eu vejo são duas pessoas apaixonadas pelo que fazem, e muito boas no que fazem. Duas pessoas que gostam de ler, de filmes... que não curtem festas barulhentas.
— Todo mundo te conhece, e você lida super bem com isso. Eu detesto tanto ser o centro das atenções que recusei uma promoção maravilhosa dentro da companhia! Eu não sei lidar com bajulação, com pessoas interessadas demais na minha vida... A gente não podia ser mais diferente — lamentou.
estava sendo completamente honesta. Só a ideia de poder ser vista com ele ali e de virar assunto de fofocas, em razão disso, já a incomodava. Felizmente, havia cortinas grossas nas portas que davam para a varanda, as quais tinham permanecido fechadas, porque Aidan não se interessara em estender a festa para o lado de fora. Isto lhes garantira privacidade em seu breve momento de intimidade.
, por sua vez, ainda se sentia frustrado, pois os beijos o haviam deixado cheio de expectativas, mas não pode continuar irritado com a garota, quando o que ela tinha acabado de declarar não fora, na verdade, nenhuma surpresa.
— Eu também acho tudo isso um saco, algumas vezes — ele revelou, rindo. — Mas eu queria jogar futebol, queria fazer parte de um time grande, queria viver do futebol, tirar minha família do lugar horrível onde a gente morava... e a fama veio junto com tudo isso. É tipo um pacote, entende? Eu não teria como ter tudo isso, se eu não aprendesse a lidar com os fotógrafos em tudo quanto é lugar, com gente pedindo autógrafo nos piores momentos, com as críticas pesadas e as pessoas querendo saber detalhes da minha vida, e todo o resto. Então, eu aceitei. Porque eu simplesmente não poderia mais viver sem o futebol. Ele faz parte de mim!
— Eu entendo — ela assentiu. — E agradeço a Deus por poder fazer o que eu amo, sem precisar lidar com nada parecido.
— Então... não adianta eu dizer que quero muito te ver de novo, né? — Ele percebeu uma certa hesitação da parte dela. — Você poderia ir assistir ao nosso jogo, no domingo à noite. A gente vai jogar em casa, e você pode levar a sua amiga, se você preferir. Nós vamos servir várias garrafas de champagne no nosso camarote — tentou, com o senso de humor que quase nunca deixava de lado.
— Você sabe que eu acordo muito cedo, todos os dias, e...
— Não. O que eu sei é que você tentou dar essa desculpa pra não jantar comigo — corrigiu. — E, mesmo que seja verdade, eu não acredito que você não possa abrir uma exceção, de vez em quando, como fez hoje, por exemplo. Mas, por outro lado, você também não precisa decidir agora. Eu vou fazer o seguinte: eu vou deixar os ingressos com o seu nome no SAP Gate, aquele portão mais próximo da estação de trem, sabe? Você disse que mora com três amigas, certo? Então eu vou deixar quatro ingressos lá e talvez, fazendo um programa com as amigas, você se sinta mais confortável. Se você for, eu te encontro no camarote, após o jogo, e a gente conversa mais, se conhece melhor... e, se você decidir não ir, eu vou entender que você prefere fingir que esses beijos nunca aconteceram e prometo fazer o mesmo.
estava oferecendo tempo para que ela pensasse, e sentiu que precisava mesmo de algum tempo. Ainda que tivesse suas convicções, o beijo a deixara abalada. Por mais que não quisesse em sua vida o astro , que não se deslumbrasse com o dinheiro e a fama dele, o homem que ela estava começando a conhecer mexia com sua libido, agitava sua mente e a deixava realmente intrigada.
Então ela apenas agradeceu o convite, deu um beijo no rosto dele e adentrou a sala do apartamento, caminhando até Gwendolyn. Ele também voltou para a parte de dentro do duplex e a observou falar algo com a amiga, enquanto experimentava um crocante de camarão com pesto de rúcula. Mesmo nitidamente desapontada, a outra garota a acompanhou, sem se despedir de Aidan, que – ele então reparou – não estava mais em qualquer lugar à vista.
Sem nenhuma vontade de tentar descobrir onde o caçula estava, seguiu para seu próprio quarto, no andar de cima, onde passou a noite pensando em e pedindo ao Universo que conspirasse a seu favor. Apesar de ser apenas o jogo de estreia de seu time na temporada regular, a partida contra os Carolina Panthers acabara de se tornar decisiva.


Capítulo 4

Charlotte estava sentada em frente à escrivaninha, revisando a matéria que vira naquela semana na pós-graduação, tomava uma xícara de chocolate quente, ao mesmo tempo em que tentava prestar atenção ao livro pousado em seu colo, e Gwendolyn, no outro quarto, tentava colocar um pouco de ordem no armário, separando algumas peças de roupa para doação. Beverly então chegou do almoço de domingo na casa dos pais, que haviam se mudado recentemente de Detroit para Nova York, a fim de ficar perto da filha mais velha, e, com um prato na mão, cheio de cookies que ela mesma preparara, entrou no quarto de Charlie e , seguida por sua própria roommate.
— Qual é esse, amiga? — Gwen perguntou a , enquanto se acomodava na cama de Charlie.
Since I fell for you — ela respondeu, mostrando a capa do romance erótico da série Os Sullivans. Assim como ela, a loira gostava bastante dos livros escritos por Bella Andre e deu um sorrisinho cheio de malícia. — Quando eu terminar, te empresto.
— Eu não sei como vocês conseguem ler isso — comentou Bev, sentando-se perto de Gwen, depois de ter levado alguns biscoitos para Charlie.
— Falou aquela que só lê livros de astrologia e receitas veganas — Gwen retrucou, fazendo careta.
— Primeiro: astrologia é maravilhoso! Você devia dar uma chance, ao invés de menosprezar, sem nem conhecer direito. Segundo: as receitas são vegetarianas. Os veganos não consomem nada de origem animal, e eu como ovos e laticínios — explicou, em tom professoral, fazendo a outra piorar sua expressão de fingido tédio. — Por último, eu não leio só isso, não. Eu também leio ficção, de vez em quando, tá?
— Tipo o que? Morro dos Ventos Uivantes?
— Você é impossível, Gwen! — Charlotte declarou, rindo, sem conseguir continuar dando atenção aos estudos.
— Essas histórias que você e a curtem são muito previsíveis — continuou Beverly. — Mas o pior nem é isso: é que elas são simplesmente mentirosas!
— Parece que alguém se desiludiu com o crush. — No fundo, Gwen ficou preocupada, mas ela não abriria mão tão facilmente de implicar com a amiga.
— Nem me fala desse embuste! — Bev bufou. — Um cara bonito, inteligente, culto... Um curador de arte, porra! Eu achei que a gente ia ter altas conversas interessantes, e ele não parou um só minuto de falar de si mesmo! E, pra piorar, depois que a gente transou, ele levantou da cama e ficou um tempão se olhando em um espelho enorme que ele tem no quarto. Foi a gota d’água! Eu fingi que tava com dor de cabeça e acabei com o programa, porque já tinha durado até demais.
— Ai, amiga. Desculpa — Gwen a abraçou de lado, sentindo-se culpada. — Eu não imaginava que fosse tão ruim!
— Tudo bem — Bev respondeu, inclinando a cabeça e encostando no ombro da outra. — Eu não leio mais esses livros de amorzinho justamente porque eu já tive a minha cota de contos de fadas, na infância, e de romances água com açúcar, na adolescência. A ideia de achar um príncipe encantado fica grudada feito carrapato no subconsciente da gente! Basta ver um cara sexy, bem sucedido, vestindo um terno com caimento impecável, que a gente já se sente igual a uma personagem de comédia romântica, já pensa que o cara vai ter zero defeitos, e que, além disso, ele ainda vai cair aos nossos pés e nos tratar como verdadeiras rainhas.
— Bom, pelo menos é melhor do que 50 Tons de Cinza e uns outros livros parecidos, em que os caras são uns escrotos, mas tudo neles é desculpável, por algum motivo — Charlotte opinou, saindo da escrivaninha para se juntar a na cama. — É melhor criar muita expectativa e ter várias decepções, mas continuar procurando alguma coisa próxima do ideal, do que aceitar certas merdas!
— Ah, eu acho 50 Tons super excitante! — Gwendolyn discordou. — Vai dizer que você não ia gostar de ser algemada por um CEO gostosão como o Grey? — Implicou, cutucando a barriga de Charlie.
— Não é disso que eu to falando. A gente já conversou sobre isso, quando viu o filme, e você sabe — retrucou a outra. — A relação deles não é saudável, o cara persegue, pressiona a garota pra aceitar coisas que ela não tá preparada... Mas, no fim, tudo bem, porque (coitadinho!) ele tem um monte de traumas, né? E tudo que ele faz é só porque ele se apaixonou perdidamente!
apenas ouviu a conversa, sem dizer nada, e ficou grata por nenhuma das amigas ter pedido seu parecer. Ela concordava com Charlie, em relação ao comportamento do protagonista e às desculpas dadas pela autora, mas também compartilhava da excitação de Gwen. O livro de E. L. James tinha sido o primeiro com erotismo que ela lera na vida, quando tinha apenas dezoito anos e pouquíssima experiência sexual, e as cenas de sexo haviam mexido demais com ela.
Desde então, ela já tinha lido dezenas de romances com momentos sensuais intensos, apaixonados, de tirar o fôlego, mas lembrar da relação nada convencional entre Anastasia e Christian, na intimidade, ainda era algo que fazia seu desejo despertar.
— Então nossa nova missão de vida é arrumar um cara que nos amarre na cama, mas nos deixe bem soltinhas na vida — brincou a espevitada solista, e suas três amigas apenas riram.
— Como foram as coisas, lá na casa dos seus pais? Tudo bem? — perguntou a Beverly, aproveitando para mudar de assunto.
— Eles tão super bem. Minha mãe simplesmente ama Nova York, e meu pai sente um pouco de falta de Detroit, mas tá adorando ter uma casa com jardim! Ele cuidou do jardim dos outros a vida toda e nunca teve oportunidade de ter o dele — comentou, satisfeita. — Eu só to um pouco preocupada com o Warren. Ele não é de reclamar, tá sempre brincando com tudo, mas minha mãe comentou que o colégio novo dele não investe muito no time de futebol americano e, se o time não tiver destaque, os olheiros das faculdades podem nem vê-lo jogar. Ele é um ótimo wide receiver e tava contando com uma bolsa! Se ele não conseguir, vai só acabar o ensino médio mesmo e parar de estudar — lamentou.
— Isso não vai acontecer, Bev — Charlie tentou animá-la. — Sempre tem um ou outro olheiro que vai às escolas, e não só aos torneios. Além disso, esse colégio provavelmente nunca teve um wide receiver tão bom, e a presença do Warren lá vai dar um ânimo pra eles.
— Eu concordo plenamente. Pelo que você conta, o seu irmão nasceu pra jogar. Não pode não dar certo! — Gwen decretou. — E, por falar em futebol, alguém viu aquela minha calça jeans bem clarinha com listrinhas vermelhas na lateral? Eu já revirei o meu armário...
— Acho que tá no meu, mas eu não entendi a relação — falou, confusa.
— Ela vai combinar perfeitamente com a blusa dos Giants que eu comprei pra usar hoje à noite. — Sua resposta fez fechar os olhos e respirar fundo.
— Vocês vão mesmo me fazer ir a esse jogo?
— Claro que sim! — Charlie retrucou, enfática. — Eu to juntando todo o dinheiro que eu posso, pra comprar ingressos pra o máximo de jogos possível, e você acha que eu vou deixar você dispensar quatro ingressos num camarote que deve ter uma visibilidade sensacional do campo?
— Isso sem contar que qualquer pessoa com um mínimo de bom senso não deixaria uma amiga recusar um convite do ! — observou Gwendolyn, que havia se levantado e mexia no guarda-roupas, em busca da peça perdida.
— Você fica quieta! — demandou , irritada. — Nem era pra eu estar falando com você e, se eu to falando, pelo menos tenho direito de não discutir esse assunto com você, depois que você armou pra mim!
— Que drama, hein, amiga? Eu já disse, umas mil vezes, que não armei nada, tá?
— Não. Você apenas esqueceu de comentar com a gente que tinha conhecido o irmão do . Nada demais — ironizou.
— Eu já expliquei! — Gwen revirou os olhos. — Quando ele pediu meu telefone e quando a gente saiu, eu não fazia ideia de que ele era irmão de ninguém. A gente continuou se falando de vez em quando, mas ele nunca comentou nada. Eu só fui saber quando ele criou o grupo no whatsapp, com todo mundo que ele convidou pra festa, e algumas meninas perguntaram pra ele se o ia.
— E ele falou que não sabia. — Dessa vez foi quem adotou uma expressão facial própria de alguém que já estava exausta de falar sobre certo assunto. — Isso você também já disse, mas ficou bem claro que a droga de reunião era nada mais, nada menos, que no apartamento do !
— Tá bom, vai? Eu tinha uma esperançazinha de que ele aparecesse, sim — confessou. — Mas dizer que eu armei pra você e que devia parar de falar comigo é um pouco demais, você não acha? Eu só pensei em como seria absurdo perder essa chance, e eu não acho que tava errada, sabe? Vocês se beijaram! Mais de uma vez! Você mesma contou.
— E foi péssimo! — Diante desta afirmação, Beverly e Charlotte, que, até então, estavam quietas, apenas observando a discussão, não contiveram uma gargalhada.
— Agora você forçou muito a barra, amiga — a antiga colega de Julliard comentou.
— Ok. Foi ótimo — assumiu , frustrada. — Mas é péssimo que tenha sido tão bom! E você, Bev, deveria ser a primeira a concordar que, mesmo tendo sido bom, isso não é motivo pra eu querer que aconteça de novo. Você acabou de dizer que a gente não tem que se deixar levar, quando conhece caras bonitos, gostosos e cheios de autoconfiança.
— O que eu disse foi que a gente não deve achar que existem príncipes encantados, como os das histórias, e relacionamentos sem problemas, ou com problemas que se resolvem como num passe de mágica — corrigiu Bev. — Nem todo mundo é igual ao embuste com quem eu saí na quinta! Aquela praga deve ter Vênus em Leão. Na verdade, ele deve ter o mapa astral inteiro em Leão! Mas existem caras normais legais e, se a gente não estiver procurando o impossível, a gente pode achar um deles.
— E esse cara normal, por acaso, vai ser justamente uma celebridade com um salário de milhões? — respondeu, totalmente cética. — Vocês sabem como são esses caras! Cada hora, uma garota diferente...
— Eu nunca vejo nada sobre ele com garotas, nos sites de fofoca — Charlie discordou.
— Porque ele deve ser discreto. Só isso — afirmou e Gwen suspirou, tendo chegado ao limite em relação ao que considerava pura teimosia da amiga.
— Se você não quiser ficar com ele, não fica — disse, então, a loira. — Você não precisa convencer nenhuma de nós das suas razões! Apenas não fica, e pronto! Assim como é um direito meu achar que vai ser a maior besteira que você vai fazer na vida, é direito seu não ficar. No fim, a gente vai sempre te apoiar, em qualquer decisão.
— Só vamos ao jogo, por favor — pediu Charlie, fazendo carinha de cachorro abandonado, e todas as outras riram.
— A gente vai — declarou , dando um sorriso para a amiga, que em troca deu um beijo barulhento em sua bochecha.
Ainda faltava bastante tempo para o jogo começar, quando elas chegaram ao estádio, indo direto para o camarote, até então vazio. O lugar era requintado, como era de se esperar, e tinha mesmo uma vista privilegiada do campo, como previra Charlotte. sempre se sentia como um peixe fora d’água em lugares luxuosos e também não era propriamente uma fã de esportes, mas decidiu que tentaria disfarçar ao máximo seu desconforto, assim como a ansiedade que crescia dentro dela quando se lembrava de que reencontraria .
No vestiário dos Giants, o rapaz e seus companheiros de time já se preparavam para a partida. Ele colocava as meias e, ao seu lado, o linebacker Peter Chambers ajeitava a joelheira, falando sobre sua Ducati Panigale 1299 recém-adquirida, quando foram interrompidos por um garoto que estagiava na equipe técnica.
— Com licença, Sr. — disse o rapaz, constrangido, não por se dirigir a ele, mas por interromper Pete, que nunca fazia questão de ser simpático com quem considerasse subalterno.
— E aí, Zip? — respondeu, usando o apelido amigável, com um sorriso no rosto. — Tudo bem?
— Tudo certo. — O jovem sorriu também, relaxando. — O chefe da segurança pediu pra eu avisar que as suas convidadas chegaram.
— Ah! Ok. Obrigado, cara — agradeceu, se controlando para não sorrir ainda mais. A menção às meninas por certo já fora suficiente para despertar curiosidade em seus colegas.
Convidadas, é? — Pete estritou os olhos, malicioso, confirmando sua teoria.
— São só umas amigas do meu irmão — falou, calçando as chuteiras.
— Gatas?
— Eu sei lá. Nem conheço. Só deixei uns convites pra elas, na portaria — mentiu, torcendo para que o outro engolisse. Não queria chamar a atenção de alguém como Pete para seu interesse em . Felizmente, o outside linebacker pareceu acreditar, pois se levantou, ao ver o técnico entrar no vestiário, e foi até ele, iniciando uma conversa.
— São mesmo amigas do Aidan? — Nicholas Ferguson perguntou baixinho, depois de ocupar a cadeira deixada por Pete, e apenas sorriu. Nic era um de seus melhores amigos e o único com quem já havia comentado sobre . — Você não me falou que tinha convidado a bailarina pro jogo!
— Ela podia não vir — respondeu, levantando para se juntar ao grupo que começava a se reunir em volta do treinador e de seus assistentes.
— Tá no nosso camarote? — indagou e o amigo assentiu.
— Com umas amigas. Se quiser conhecer, eu vou pra lá, depois do jogo.
Nic também só teve tempo de balançar a cabeça, concordando, antes que Pat Shurmur começasse a dar instruções.sobre o jogo, dizer palavras de incentivo e, por fim, mandar seus atletas irem para o campo e se aquecerem.
Antes de ir para o aquecimento, pegou o celular para dar uma última olhada nas mensagens e viu os desejos de um ótimo confronto com os Panthers, deixados tanto pela mãe, quanto pelo pai. Normalmente ambos faziam questão de não viajar no início de setembro, para acompanhar os primeiros jogos do filho na temporada regular, mas haviam sido obrigados a ir para Ohio, pela quinta vez em menos de três meses, pois o irmão de Hillary estava hospitalizado e seu quadro piorara bastante, durante a última semana.
Apesar da preocupação com o tio e da expectativa de rever , ele teve uma ótima atuação na vitória do time de Nova York, que fez trinta e um pontos, contra dezoito do representante da Carolina do Norte. Recebeu congratulações e elogios de alguns jogadores e de outros profissionais que trabalhavam para o time, e agradeceu a cada um, com a educação e a simpatia de sempre, mas, assim que pôde, correu para se livrar do uniforme e tomar um banho, ansioso para saber uma opinião em especial.
— Gostou do jogo? — perguntou, sentando-se ao lado de , com uma garrafinha de budweiser na mão, depois de ser apresentado às outras meninas, de apresentar Nic às quatro, e de cumprimentar a irmã do punter Damion Crawford, e a mulher e os sogros do running back Izack Bennett, também presentes no camarote.
— A energia no estádio é contagiante! E a torcida de vocês ficou enlouquecida! — disse, realmente maravilhada. — Eu gostei, claro.
— Na verdade, eu queria saber se te impressionei — declarou, tomando um gole de cerveja, e ela sorriu.
— Eu não entendo muito do jogo, pra falar a verdade. Mas eu diria que você joga bem sempre, não?
— Não. Ninguém joga bem sempre.
— Quase sempre? — provocou. — Você mesmo me disse que é bom no que faz, lembra?
— Lembro — confirmou, olhando para os lábios dela, e bebeu uma porção ainda maior de bebida, disfarçando a vontade de se aproximar e tocar nela. Sabia que ela não gostaria que as pessoas que estavam em volta percebessem que rolava alguma coisa entre eles. — Mas se, mesmo sendo bom, eu não vou te impressionar com isso, então eu vou precisar pensar em alguma outra coisa, né?
Os dois se encararam por alguns segundos e ambos ficaram gratos quando o sogro do running back, alheio à tensão crescente entre eles, interrompeu a conversa, perguntando algo ao genro e aos demais jogadores sobre um momento específico da partida. A indagação do homem mais velho deu início a uma discussão acalorada, que envolveu a maior parte dos presentes, quase todos fãs do esporte e do Giants.
— Você gosta mesmo de futebol americano, hein? — Nic falou, dirigindo-se a Charlie, que tinha acabado de fazer uma análise e tanto da temporada anterior da NFL. — Acho que nunca vi uma garota que gostasse tanto. Quer dizer, fora algumas jogadoras do New York Sharks que eu conheço.
— Eu cheguei a jogar, por um tempo, mas na minha escola não tinha time feminino, e é claro que os garotos não me queriam no time com eles, né? Aí eu acabei indo pro basquete, e tendo que me contentar em assistir.
— Você ainda joga basquete? — perguntou.
— Eu joguei na graduação. No Lions, da Columbia. Agora, eu to só dando aula no ensino médio, mas meu objetivo é ser treinadora. Minha pós é com foco nisso.
— Eu tenho vontade de fazer uma pós — declarou Izack. — A nossa carreira é muito curta.
— Pós, cara? — Nic fez uma careta de horror. — Eu quase nem concluí a graduação! Penava pra manter notas decentes e não perder a bolsa. Eu só sirvo mesmo pra jogar... e curtir a vida, claro.
Nisso você é pós-graduado — observou, sorridente, e então ele e Nic começaram a contar histórias da época da faculdade, quando ambos integravam os Ohio State Buckeyes, que fizeram todo mundo rir a ponto de sentir a barriga doer.
Durante as horas seguintes, a conversa seguiu animada. Os outros jogadores também falaram sobre o futebol americano universitário e seus bastidores. Charlie contou algumas aventuras suas com colegas da Columbia e Gwen confessou que tinha aprontado muito, no ensino médio, durante o qual havia sido lider de torcida e namorada do capitão do time de hóquei.
sempre fora muito dedicada ao balé, mas até ela e Beverly revelaram ter ido às aulas da Juilliard de ressaca e com os pés doendo, algumas vezes, depois de terem contrariado tudo o que seria recomendável, e passado a noite dançando hip hop e tomando shots de tequila.
Beverly pareceu querer comentar mais alguma coisa, mas, ao invés de formar palavras, sua boca se abriu em um bocejo, que ela escondeu educadamente com a mão.
— A conversa tá maravilhosa, mas eu acho melhor a gente ir. Já tá tarde, e a gente tá um pouquinho longe de casa — foi Charlie quem falou, sabendo que Bev e não gostariam de fazer o papel de estraga-prazeres, e que Gwen estava disposta a beber todo o champagne que não pudera tomar enquanto assistiam ao segundo tempo de jogo, durante o qual não era permitido consumir bebida alcoólica no estádio.
— O meu motorista vai levar vocês — o quarterback então avisou.
— Não, . Não precisa... — rebateu, totalmente sem jeito com a oferta.
— É claro que precisa — discordou, não deixando espaço para recusas. — Não faz sentido algum vocês irem, a essa hora da noite, de trem ou de ônibus, se ele pode deixar vocês em casa, em segurança. Eu não vou precisar dele, porque vou com o Nic, e ele já tá aguardando, lá na entrada dos camarotes. Eu levo vocês até lá.
As meninas se despediram das outras pessoas, que ainda pareciam dispostas a curtir um pouco mais a noite de domingo, incluindo o left tackle, que flertava com a irmã do punter. Na companhia de , dirigiram-se para a saída, em frente à qual encontraram um elegantérrimo Rolls Royce Phantom, com um condutor simpático ao volante, a quem, a pedido do jogador, Gwen informou o endereço de destino.
Com tudo acertado, enfim, as quatro cumprimentaram o rapaz, agradecendo por tudo, e começaram a entrar no automóvel, mas ele surpreendeu , segurando-a pela mão e fazendo com que parasse.
, espera. — O contato físico e a notável ansiedade em seu tom de voz fizeram o pulso dela acelerar rapidamente. — Coloca o seu número aqui — ele então pediu, entregando-lhe o iPhone.
Ela olhou da mão que segurava o aparelho para o rosto dele, e de volta para a mão, antes de aceitar, hesitante, o objeto, no qual digitou a combinação de algarismos.
— Pronto — disse, dando um sorriso discreto e devolvendo o celular ao dono, que a encarava. Seu olhar intenso a fez tremer por dentro.
— Eu penso nos nossos beijos, o tempo todo, sabia? Graças a Deus, você veio ao jogo, e eu não vou precisar me esforçar pra esquecer!
— As minhas amigas insistiram muito pra gente vir...
— E você veio só por elas? Você não pensou, nem um pouco, naqueles beijos? — Pelo tom de voz, o atleta deixou claro que estava cético quanto a isso, e ela não podia tirar a razão dele, considerando a tensão sexual que existia entre os dois.
— Eu pensei, sim. Pensei muito mais do que eu gostaria — confirmou. — Mas eu ainda não tenho certeza se foi uma boa decisão vir aqui hoje e, se não fosse por elas no meu pé, eu provavelmente teria conseguido ser puramente racional, e não teria vindo. Assim, você seguiria o seu caminho, e eu, o meu...
— O que significa que eu devo uma pras suas amigas. Porque o que importa pra mim é que você veio e não me vetou definitivamente. E que eu agora tenho seu número, e vou te ligar — comentou, bem humorado, mostrando o telefone, como se fosse um lembrete, antes de enfim guardá-lo no bolso.
— E eu vou ficar esperando — admitiu ela, fazendo com que ele abrisse um sorriso imenso e lindo. — Mas agora é melhor eu ir.
fez um sinal sutil, mostrando o carro, no qual o motorista e as amigas a aguardavam, muito consciente de que elas estavam prestando atenção a tudo e pediriam a descrição completa da conversa, assim que pudessem. assentiu, mas se aproximou ainda mais, segurando o rosto dela entre as mãos e se despedindo com um beijo. Um só beijo, e um muito mais rápido do que ambos gostariam que ele fosse, com um agridoce gostinho de quero mais.
Durante todo o trajeto para casa, permaneceu calada, enquanto as meninas conversavam sobre o jogo e outras banalidades. Porém, logo que subiram os degraus da entrada do edifício em que moravam, o assunto sobre o qual tiveram o cuidado de não falar na frente do funcionário de veio à tona.
— Ele é um fofo, amiga! — Charlotte opinou, encantada. — Todo simpático, deixando a gente super à vontade... Nem parece um milionário famoso.
— E tá muito a fim de você — completou Gwendolyn.
— Qual será o signo dele, hein? — Beverly pensou alto, enquanto abria a porta.
— O signo dos exibicionistas, com certeza! — decretou. — Como ele me beija daquele jeito, na frente de vocês e do motorista? E, ainda por cima, em pleno estacionamento, correndo o risco de alguém ver! De alguém tirar uma foto!
— Eu nunca vou entender esse pavor todo de aparecer, em uma bailarina — disse sua colega de companhia.
— Ninguém entende! Mas é o meu jeito, cara. Eu gosto de ficar na minha... de privacidade. Eu não vou negar que eu também to a fim dele, mas como eu posso sair com alguém, sabendo que vai ficar todo mundo prestando atenção na gente?
— Foi você mesma quem falou, mais cedo, que, se ele não aparece toda hora com mulher na mídia, é porque ele é discreto — lembrou Charlie. — Ele vai dar um jeito.
se arrumou para dormir pensando nas conversas com e principalmente no beijo. Nunca tinha vivido um conflito tão grande, em seus pouco mais de vinte e cinco anos de existência, entre um desejo intenso e o modo como ela gostava de levar a vida. Sabia que, àquela altura, já não conseguiria mais recuar, mas também que precisava ter cuidado para não mergulhar de cabeça, ou acabaria machucada.
Antes de pegar no sono, percebeu que havia recebido algumas mensagens.
Oi, bailarina — leu, ao clicar ao lado da imagem de um cachorro destruindo um rolo de papel higiênico com a boca.
Esse é o meu celular particular
Agora você também tem meu número
Não precisa morrer de saudade, pode me ligar — ele terminou com um emoji de carinha piscando o olho, com a língua para fora, antes de assinar com as iniciais de seu nome.
sorriu, deixando o bom humor dele e a leveza com a qual encara as coisas penetrarem em seu coração.
Decidiu que não abandonaria totalmente a cautela, mas que, se ele realmene mantivesse contato e a convidasse para sair, mais uma vez, se permitiria um pouco de diversão e prazer. Com certeza, devia haver algum jeito de se esconderem do mundo, por algumas horas.


Capítulo 5

costumava viajar bastante, especialmente durante as temporadas regulares da NFL, nas quais metade dos jogos aconteciam em outros estados, o que significava uma média de duas viagens por mês. O que ele não esperava era fazer as malas ainda no começo da semana, para pegar um avião no meio da tarde de segunda-feira, depois de um telefonema da mãe, pedindo que ele fosse a Ohio.
Hillary havia explicado que o irmão, Howard Driscoll, que sofria de doença pulmonar obstrutiva crônica, tinha melhorado bastante, ao longo do final de semana, depois de uma crise bastante séria, e recebera alta na parte da manhã. Dissera ao filho que, caso ele tivesse compromissos com o time, poderia deixar para visitar o tio em uma outra ocasião, mas que, se pudesse ir encontrá-la, seria maravilhoso, pois ela estava tentando reunir o maior números de membros da família possível, para um jantar de confraternização.
Howard pedira para anteciparem o encontro que normalmente acontecia no feriado de Ação de Graças, em razão de seu estado de saúde instável, e , que considerava o tio um segundo pai, só não teria atendido a um convite como aquele se tivesse que jogar, o que só aconteceria no domingo seguinte.
, então, comprara passagens, para ele e para Aidan, no primeiro voo com lugares disponíveis rumo à cidade de Columbus. O irmão dele não gostava da cidade e nem de encontrar os parentes, mas não ousava desagradar a mãe, que tinha total controle de sua conta bancária e de seus cartões de crédito. Para alívio do jogador, ele sequer se dera o luxo de reclamar, tendo preferido fingir que dormia, durante todo o tempo de viagem.
Os dois chegaram bem na hora da reunião familiar, que contou ainda com os pais de , com o próprio Howard Driscoll e a esposa, com a filha mais velha de Howard, fruto de seu primeiro casamento, e também com o outro irmão de Hillary e o filho dele.
— Esse ano vai ser dos Jets. Você não acha, ? — perguntou Harlan, provocando o sobrinho quarterback, logo depois de lhe dar um caloroso abraço.
Ele adorava e torcia muito por ele, mas era torcedor dos Jets, desde que ele e a irmã tinham se mudado juntos para Nova York, quando jovens. Logo que conhecera o então cunhado, Reggie, que era apaixonado pelo Giants, eles tinham começado a implicar um com o outro, em razão da rivalidade dos times pelos quais torciam.
Quando se tornara torcedor do Big Blue, como o pai, entrara na briga, e o fato de ele agora ser um jogador do time não fazia com que o tio tivesse intenção de deixá-lo em paz. Muito pelo contrário!
— Eles tão com um defensive end novo, que eles escolheram no draft, e andam dizendo por aí que ele deve ser o destaque da temporada — endossou o filho dele, Elroy.
— Ah, para! O tal do Solomon Murray? — fingiu discordar, apesar de ter acompanhado o draft e saber que o rapaz era mesmo uma grande promessa. — Se a equipe técnica não trabalhar muito bem os pontos fracos dele, o cara vai é prejudicar os Jets.
— Ele é só um pirralho! — A prima de , , também tinha acompanhado a seleção do rapaz e as notícias sobre ele. Sabia que Solomon tinha vinte e um anos, a mesma idade de Elroy e Aidan, e usou a oportunidade para cutucar os dois.
— Os Giants chegaram muito perto no ano passado. Esse ano, é deles, com certeza — previu Howard, que fora torcedor do Cleveland Browns, um dos times do estado de Ohio, durante a maior parte de sua vida, mas passara a torcer sempre para a equipe em que o sobrinho estivesse jogando, desde que este se tornara profissional.
Os anfitriões e os convidados fizeram uma refeição deliciosa, preparada por Harlan, e depois passaram a noite toda – e boa parte da madrugada – conversando, rindo, fazendo provocações brincalhonas uns com os outros. Até Aidan deixou o celular de lado, durante parte do tempo, quando puxou papo com ele sobre surf, assunto a respeito do qual vinha aprendendo muito, recentemente, com um de seus chefes.
Os tios e primos de , por parte da mãe, eram assim: brincalhões, cheios de senso de humor, amorosos e acolhedores. Não fora a toa que o rapaz, depois de conseguir bolsas de estudo em três faculdades, optara pela Ohio State University e se mudara para a casa do tio, o único membro da família Driscoll que continuara morando na cidade em que Hillary e os irmãos haviam nascido e crescido.
Vivendo com o tio e também com , que, na época, ainda morava em Ohio com o pai, tinha se tornado ainda mais próximo de ambos. A prima, sendo apenas um ano mais nova, fazia os mesmos programas que ele e ficou íntima inclusive de Josh e Nic, que o quarterback conhecera na faculdade e eram seus melhores amigos até hoje.
já tinha saído de Ohio havia muitos anos. Tinha passado um bom tempo na Flórida, onde jogara no Tampa Bay Buccaneers, e depois voltara para a cidade onde nascera, para atuar no Giants. No entanto, a casa de dois andares, em um bairro quase totalmente residencial da cidade de Columbus, ainda era um lar para ele, e foi por isso que decidiu que queria ficar lá durante um tempo maior do que inicialmente previsto.
Não foi difícil convencer o técnico a liberá-lo do treino que aconteceria no meio da semana, em Nova Jersey, pois este achou que seria desgastante para o atleta fazer tantas viagens. Ficou combinado que ele iria diretamente para Indianápolis, devendo se juntar à equipe na sexta-feira, para uma reunião, na qual, entre outras coisas, assistiriam a alguns vídeos, a fim de estudar o adversário.
Harlan e Elroy foram embora na terça-feira, pois tinham compromissos com o trabalho e a faculdade, respectivamente. Hillary, Reggie e Aidan se despediram no dia seguinte, logo após o almoço, pois os haviam confirmado presença em um baile beneficente que aconteceria na quarta à noite.
e fizeram bom uso dos dias de folga, ela aproveitando principalmente para dormir, e ele passeando com o cachorro, correndo no parque, interagindo com vizinhos que o conheciam desde que era menino. Na quinta, contudo, começaram a fazer suas malas e se preparar para ir embora, sem poder adiar mais os seus compromissos profisionais.
Bem no meio da temporada, o jogador não podia, de forma alguma, sair de seu plano alimentar, mas, depois de comer legumes e frango grelhados que ele mesmo preparara, concordou em acompanhar no que ela chamou de um passeio de despedida até a lanchonete que ambos fequentavam, quando eram mais jovens, e que ela simplesmente amava.
— Incrível como eu posso comer em qualquer lugar, incluindo aqueles restaurantes caros aonde vocês me levam, de vez em quando, mas a minha comida favorita da vida continua sendo esse sanduíche gorduroso, feito pelo Sr. Moneda — comentou a prima, quase gemendo de prazer, ao sentir o cheiro que vinha do prato, quando o garçom o colocou na sua frente.
— Pois é, mas sabe o que é mais chato do que você ter que vir visitar o seu pai pra poder comer o seu prato favorito, e ainda mais incrível do que você ser tão doida assim por um simples cheeseburguer? É eu ter que voar pra outro estado, pra poder finalmente ver a minha melhor amiga, que mora na mesma cidade em que eu passo a maior do meu tempo! — reclamou , tomando um gole de seu café e tentando fingir que não estava com vontade de comer o mesmo que a prima. Os hamburgueres daquela lanchonete desconhecida de Ohio estavam de fato entre os melhores que ele já tinha experimentado, ainda que não estivesse disposto a dar razão a ela, naquele momento.
— Você tá no meio da temporada — ela respondeu, dando de ombros, depois de terminar de mastigar o que tinha na boca, e então mordeu o sanduíche novamente.
— Já tem uns dois meses que a gente não se vê, . Se não tiver mais! E a gente nunca deixou de se encontrar por causa de nenhuma temporada — discordou, resolvendo aproveitar a oportunidade que não tivera até aquele momento, pois não havia ficado sozinho com a garota, para conversar sério com ela. — Você ficou chateada comigo, por causa do lance da grana? Tá me evitando, pra eu não insistir? — indagou.
era tatuadora profissional e trabalhava em um estúdio em Nova Jersey, junto com mais quatro tatuadores. No último encontro dos dois, tinha percebido que estava exausta, pois vinha encarando uma rotina de trabalho intensa, e que, apesar disso, não estava conseguindo sequer juntar algum dinheiro, pois o dono do lugar ficava com a maior parte do valor pago pelos clientes.
O jogador havia, então, oferecido à prima o dinheiro necessário para que ela abrisse seu próprio estúdio, mas ela se recusara a aceitar qualquer ajuda financeira. Deixara claro que conquistar as coisas com seu próprio esforço era algo importante para ela, e respeitara sua decisão, mas depois, com o “sumiço” repentino da garota, imaginara que talvez, no seu anseio de ajudar, tivesse transparecido que deixaria o assunto de lado apenas momentaneamente.
— Não, . É claro que não! Eu já te falei, pelo telefone, que tá tudo bem — ela garantiu. — Eu não quero seu dinheiro e realmente prefiro que você não insista, mas não to chateada por você ter oferecido. Eu nunca ficaria, porque eu sei que você quer o meu bem, e que pra você realmente não tem nada de errado em bancar a família toda.
não somente sustentava os pais – parte que ela achava justa –, como também carregava nas costas o peso de um irmão que, aos vinte e dois anos, ainda não sabia o que queria fazer da vida e, enquanto não descobria, se dava o luxo de gastar muito dinheiro com futilidades. Três anos antes, o quarterback dera um restaurante de presente para o tio Harlan, que trabalhara durante toda a vida como ajudante de cozinha e sempre sonhara com uma chance de ser chef. Desde o ano anterior, vinha pagando o tratamento de saúde do pai dela e quitara o financiamento feito para a compra da casa onde este morava com a segunda esposa, para que o casal não tivesse qualquer preocupação.
sabia que ele podia fazer tudo isso, sem deixar de construir um patrimônio sólido. Sabia que ajudar os Driscoll e os deixava o primo feliz, e que não era somente a família que ele ajudava, mas instituições de ensino, projetos artísticos e esportivos, e até amigos que haviam crescido com ele em Candem. Ela apenas achava que já tinha recebido toda a ajuda de que precisava, quando se mudara para a cidade e fora morar com os pais dele, e quando ele pagara suas primeiras aulas com um renomado tatuador de Nova York. Agora, ela sentia que precisava crescer em razão de seu próprio talento e de todo o esforço que fosse necessário.
— Então o que houve, cara? — perguntou ele, franzindo a testa, visto que suas suspeitas não haviam se confirmado. — Eu sei que você anda super cansada e já não tava saindo tanto. Mas você nunca deixou de pelo menos ir lá pra casa, com o Nic e o Josh, pra ajudar a acabar com o estoque de comida da Sra. Reed, e eles já foram lá, umas três ou quatro vezes, e você não apareceu. Isso sem contar as duas quartas de pôquer na casa dos Bennett. A Prue ficou bem chateada! Foi o Nic quem mais ganhou, nas duas noites, e, segundo ela, se você estivesse lá, teria tirado as calças dele.
Prue e Nic eram muito amigos, mas ambos eram excessivamente competitivos, e ela saía do sério quando ele se gabava de sua suposta superioridade nos jogos de cartas. Todos os outros frequentadores das rodadas de pôquer, que aconteciam quase semanalmente, a não ser durante a temporada da NFL, levavam o jogo na brincadeira e se divertiam observando o comportamento dos dois.
— Eu falei com a Prue por whats. Ela realmente reclamou bastante disso — disse , rindo. — E eu to mesmo precisando ir ao seu apartamento, comer uma comidinha saudável — acrescentou, apesar de não estar se sentindo realmente culpada, como sabia que deveria, pelo sanduíche em suas mãos, e pelos outros muitos lanches calóricos e pouco nutritivos que vinha consumindo.
A Sra. Reed havia sido contratada por Hillary, para preparar as refeições de , segundo as especificações da equipe de nutrição do Giants, e era perfeita nesta tarefa. No entanto, enchia a geladeira do apartamento de Nova Jersey, todas as segundas e quintas-feiras, com muito mais do que o jogador seria capaz de consumir sozinho, e seus amigos tinham adquirido o hábito de fazer pelo menos uma refeição por semana com ele, o que era também um ótimo pretexto para eles se reunirem, colocarem a conversa em dia, assistirem a filmes, séries ou eventos esportivos juntos, e jogarem videogame.
— Assim que você voltar de Indianápolis, eu vou — prometeu, depois de engolir mais um pedaço de cheeseburguer. Então olhou para , percebendo, apenas pelo modo como ele a encarava, que o primo ainda esperava alguma explicação para sua nada típica ausência e não desistiria facilmente de recebê-la. Na verdade, ela não esperava outra coisa, porque ele a conhecia bem demais e, àquela altura, já sabia que havia algo acontecendo. — Eu dei essa sumida porque to saindo com um cara. Satisfeito? — ela fingiu irritação, mas acabou rindo.
— Não! Nem um pouco! — respondeu ele, cruzando os braços. — Quando você pretendia me contar?
— Ai, que drama, ! — respondeu, revirando os olhos. — Em primeiro lugar, não é nada de mais, nada sério. A gente tá só saindo e se curtindo. Em segundo, eu queria te contar pessoalmente, e não por telefone ou mensagem.
— Se não é nada de mais, por que contar pessoalmente? — indagou, em tom desafiador, e ela não consegiu controlar o impulso e bufou.
— Tá bom, vai? Na verdade, logo de cara eu não falei nada porque ele é conhecido do Pete.
— Do Pete? Peter Chambers? — Franziu a testa, incrédulo. É claro que ele sabia que ela estava se referindo ao companheiro de time dele, pois era o único Pete que ambos conheciam, mas era inevitável fazer a pergunta, mesmo sendo retórica. Chambers não era o tipo de cara que ele gostaria de ver perto de sua prima. Se dependesse dele, ela sequer teria conhecido o rapaz, mas este acabara sendo levado por Nic ao estúdio em que a garota trabalhava, pagara uma ótima grana na tatuagem tribal que cobria seu braço esquerdo e se tornara um cliente assíduo que ela não podia se dar o luxo de desprezar.
— Viu por que eu não te contei? Você ia me aconselhar a ficar longe do cara...
— É óbvio que eu ia! Eu vejo as coisas que o Pete fala. Eu sei o jeito escroto com que ele trata as garotas.
— Mas ele não é o Pete! Na real, depois eu descobri que nem amigo do Pete ele é. A oficina onde ele trabalha cuida das motos do Pete e, por acaso, eles acabaram conversando sobre tatuagens, e o Pete me indicou pra ele. Só isso — esclareceu. — Aliás, eu nem sei como eu achei, em algum momento, que eles pudessem ser amigos. O fodástico Peter Chambers jamais seria amigo de um mecânico!
— Não sei nem como conversou com ele — concordou. — Vai comer sobremesa? — O sanduíche dela tinha acabado e ela fizera sinal para um garçon.
— Não! Tá doido? — respondeu, fazendo careta. — Quero só uma água com gás.
— Duas, por favor — ele informou ao rapaz, que já se aproximara, com seu bloquinho de pedidos na mão, fez uma anotação rápida e saiu. — Agora que talvez eu não vá mais te aconselhar a sair correndo, me conta desse cara.
— Não tem nada mais pra contar, na verdade. Eu já disse que ele é mecânico de motos, que o Pete me indicou pra ele... A gente tem bastante coisa em comum e tem tipo muita química, mas, quando eu disse que não era nada demais, eu não tava mentindo. A gente tá só se curtindo. Sem compromisso, sem cobranças...
— Do jeitinho que você gosta.
— Exatamente. Do jeitinho que eu gosto — sorriu. — E como vão as Angels?
deu uma gargalhada, sabendo que a menção às modelos da marca de lingerie e produtos de beleza Victoria's Secret era uma provocação. Era a maneira que a melhor amiga encontrara de lembrar a ele que ela não era a única que não tinha um relacionamento de verdade havia muito tempo.
— Você fala como se eu só saísse com modelos. E pior: como se eu saísse com elas pra evitar me envolver. Isso não faz sentido nenhum, porque eu só saí com duas modelos e também porque elas eram ótimas pessoas, com quem eu poderia ter me envolvido, numa boa. Só não aconteceu...
— Que cara de pau! Duas só? — Ele balançou a cabeça, confirmando. — No mínimo três! Katrina, Lori, Izzy...
— A Izzy é irmã do Izack e foi comigo àquela festa, pra eu não ir sozinho. A imprensa amou publicar aquelas fotos da gente tomando café da manhã na varanda, no dia seguinte, mas a senhorita sabe muito bem que eu e ela nem ficamos!
— Então nenhuma previsão de um novo casamentão no estilo Saskia Schubert e Ludovic Giraud? — questionou, se referindo a um dos casais mais famosos e, principalmente, mais ricos do mundo, formado pela top alemã que era a modelo mais bem paga do planeta havia alguns anos e pelo jogador de basquete de ascendência francesa do Atlanta Hawks. A festa comemorativa do enlace dos dois tinha sido um evento enorme, cheio de celebridades e noticiado mundialmente.
— Você não é fácil, . — Ele se serviu da água que o garçom havia trazido, dando um sorrisinho de lado antes de falar. — Eu também conheci alguém.
— Ah, é? E quando você pretendia me contar? — perguntou, repetindo as palavras dele, de um jeito debochado.
— Quando a gente se encontrasse, porque, no meu caso, eu queria mesmo conversar pessoalmente, já que eu não acho que seja tipo nada de mais.
— Você tá apaixonado? — apoiou os cotovelos na mesa, se inclinando para mais perto de , para sussurrar de forma cúmplice.
— Calma — ele riu. — É muito cedo pra falar isso. Eu só estive com ela três vezes, na vida, e a gente não teve nem mesmo um encontro pra valer.
Peraí! que eu to confusa agora. Vocês não tão nem saindo, e você queria conversar comigo sobre ela pessoalmente? — questionou, cética.
— Era justamente por isso que eu queria conversar pessoalmente. A mexe demais comigo, pra alguém que eu conheço tão pouco! Ninguém mexe comigo assim há muito tempo, e a gente só trocou alguns beijos.
— Ah! Então vocês não saíram oficialmente, mas rolaram uns beijos? Me conta isso direito, né? — pediu, curiosa.
então pediu mais um café ao garçom, antes de contar à prima detalhes sobre como havia conhecido , na academia que estava patrocinando, tendo ficado interessado de imediato nela, e também sobre a recusa da garota ao seu convite para almoçar ou jantar com ele. Narrou o encontro inesperado dos dois em seu próprio apartamento de Manhattan, durante uma das festinhas de Aidan, quando haviam se beijado, e a ida da bailarina, acompanhada pelas amigas, ao jogo no MetLife Stadium.
— E agora eu não paro de pensar nela... nos beijos — comentou, por fim. — Sabe aquele beijo que te dá o maior tesão, mas, ao mesmo tempo, você não sente nenhuma pressa e quer só ficar ali, curtindo ao máximo o momento? Foi exatamente assim.
— Você tá apaixonado — ela sentenciou. — Pra se apaixonar, a gente não precisa conhecer bem, não. Você viu como foi comigo, quando eu conheci o Paul...
— Que comparação animadora, hein? — ele torceu o nariz.
— Eu não quis dizer que ela vai ser uma decepção, como ele, quando vocês se conhecerem melhor. E para de show, porque você entendeu muito bem! — reclamou. — Na verdade, eu to achando ótimo que você esteja finalmente a fim de alguém que parece não quer pegar carona na sua fama, nem se esbaldar com a sua grana. No futuro, pode ser um problema ela não querer ser vista com você, mas por ora...
— Por ora, eu não to pensando em nada disso! Eu só quero ver a de novo.
De repente, o tempo já não parecia estar passando rápido o suficiente. Tinha gostado demais de sua estada em Ohio, com o tio e a prima, e de poder ser simplesmente o rapaz que ajuda a vizinha com as compras, que leva o cachorro à rua e que toma café na lanchonete, sem dar nenhum autógrafo ou tirar fotografias com desconhecidos. Porém não via a hora de voltar a Nova York, onde era uma celebridade e nem sempre tinha paz, mas poderia, finalmente, convidar, mais uma vez, a bailarina para sair.
Naquela noite, enquanto o tio e a esposa assistiam a um reality show culinário e fazia alguns desenhos, ele se distraindo usando as redes sociais e conversando pelo whatsapp com a mãe e alguns amigos.
Riu da zoação de Nic, que postara uma foto de Josh jogando vídeo game, no apartamento dele em Nova Jersey. Os dois rapazes tinham ido ao loft com a desculpa de alimentar o cachorro – sendo que bastaria Nic, que tinha um apartamento no mesmo condomínio –, mas o objetivo real de Joshua era passar de fase em um jogo de corrida que achava bem sem graça, mas no qual ele era viciado.
Na conversa com Hillary, se emocionou com tudo o que ela contou sobre o evento beneficente ao qual os tinham ido, em prol de crianças com necessidades especiais. Ela havia também tirado algumas fotos com algumas das crianças e enviou para ele, contando que todas haviam pedido que a mãe do astro da NFL lhes conseguisse autógrafos do filho famoso.
Sua mente, no entanto, não estava distraída o suficiente, e ele continuava pensando em . E, como não era do tipo que faz jogos e disfarça interesse, mandou uma mensagem, perguntando sobre o dia dela. Já haviam se falado, logo que ele decidira voltar a NY apenas na semana seguinte, pois avisara sobre a viagem, temendo que ela pensasse que ele havia desistido de vê-la novamente. Contudo, ele queria se manter “presente”, de alguma forma.
Infelizmente, não houve uma conversa longa, pois ela estava jantando com amigos, tendo servido apenas para ele ficar com ainda mais vontade de voltar para casa logo.
massageou as têmporas, quando pensou no fato de que, entre Ohio e Nova York, ainda haveria Indianápolis, não só porque isso significava mais alguns dias fora, mas porque, apesar de ele ter evitado pensar nisso durante toda a semana, o jogo contra os Indianapolis Colts era sempre um desafio pessoal muito maior que qualquer outro jogo.
Tudo graças a um certo defensive end.

Continua...


Nota da autora: E aí? O que estão achando? Me contem, por favor! É muito importante para mim!! Entrem também no meu grupo do face (abaixo) e no Grupo do WhatsApp, para conversarmos. Quem sabe não rolam alguns spoilers... E eu fiz também um instagram com imagens que contam um pouco mais sobre os personagens e as pequenas coisas que inspiram esta autora que vos fala (rs). Ele funciona como se fosse uma coletânea das postagens que os personagens fariam nas suas próprias contas do ig. Se acharem legal esse tipo de coisa, sigam lá, ok?




Nota da scripter: Eu tô muuuito apaixonada pela amizade dessas meninas, gente, na boa! É tão sincera, tão verdadeira, e eu tô tipo… in love por todas elas! <3 E essa conversa toda sobre livros, romance e tal, é muito real e extremamente necessária, Mari, achei incrível você ter inserido ela na fim! Ótimo, sério! Sobre o Finn, eu não tenho o que falar… Eu já tô completamente apaixonada por ele! Quero maaaais! Já ansiosa pelo próximo capítulo!


Essa fanfic é de total responsabilidade da autora. Eu não a escrevo e não a corrijo, apenas faço o script. Qualquer erro nessa fanfic, somente no e-mail.

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